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EDUCAÇÃO

no OGE 2017
ORÇAMENTO GERAL DO ESTADO
Mensagens chave Resumo dos resultados da análise
» Se aumentar os investimentos no sector da Educa- do OGE para a Educação em 2016
ção, Angola pode melhorar ainda mais os resultados
alcançados após a consolidação da paz no país, em Principais resultados da análise do OGE para a Educa-
2002, aspecto fundamental para o desenvolvimento ção, analisados em profundidade no Folheto de 2016:
de Angola, dado que mais de metade da população
é menor de 19 anos. 1. Angola investe no sector da Educação pouco mais
de um terço (6.6%) daquilo que ficou previsto nos
• Apesar de o orçamento para o sector da Educação
Compromissos de Dakar de 2000, onde se compro-
ter crescido, de 2016 para 2017, cerca de 10%
mete a atribuir 20% da despesa total para o sector
em termos nominais, tendo em conta a inflação, o
de Educação.
orçamento acabou por baixar 5% em termos reais.

• A percentagem da despesa total da atribuição 2. O sector da Educação não está a ser preservado dos
orçamental para a Educação tem vindo a carac- cortes feitos em consequência da crise económica.
terizar-se por uma tendência decrescente, re-
presentando actualmente cerca de 6% a 7% da 3. Existem algumas inconsistências entre as priorida-
despesa total. des políticas no Plano Nacional de Desenvolvimento
2013-2017 (PND) e a alocação financeira no OGE.
» As atribuições de Angola para a Educação devem
ser aumentadas para os 20% estipulados nos
4. Angola não está a investir recursos adequados no
seus compromissos internacionais (Compromisso
Ensino da Primeira Infância, base crucial de toda a
de Dakar, 2000), para que o país atinja o 4º Objec-
Educação da criança.
tivo de Desenvolvimento Sustentável, o da “Edu-
cação de Qualidade”. Actualmente, com menos de
5. A actual crise económica que o país enfrenta está
7% da despesa total para o sector, Angola encontra-
a provocar grandes atrasos na disponibilização dos
-se muito abaixo de outros países da região da África
fundos previstos no OGE.
Austral. A título de comparação, por exemplo, em
2017 o Zimbabwe alocou 24.5% do seu Orçamento
A continuação da crise implica que sejam feitas refor-
geral do Estado (OGE) à Educação, a Namíbia 19.4%
mas mais profundas para financiar de maneira ade-
e o Malawi 17%.
quada a Educação: assegurar a gratuitidade do ensino
» A Lei de Bases da Educação considera o subsiste- básico e garantir que as crianças e jovens angolanos te-
ma da Educação Pré-escolar obrigatório e a “base nham acesso a Educação de qualidade; cumprir com os
da Educação”, mas nos últimos anos registaram-se compromissos nacionais e internacionais assinados por
cortes drásticos na Educação Pré-Escolar pública. Angola, sobretudo a nova Agenda 2030 dos Objectivos
Com um corte em 2017 de mais 67% do orça- de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em concreto o
mento, uma percentagem muito significativa ODS 4 - Educação de Qualidade. Isto requer um esforço
das crianças em Angola não terão acesso à edu- na estabilização do quadro macro-fiscal (em particular
cação da primeira infância, período fundamental no desacelerar da taxa de inflação, na protecção do sec-
no desenvolvimento do seu cérebro e na forma- tor de Educação de mais cortes fiscais, no aumento da
ção do adulto.1 eficiência, da transparência e da prestação de contas e
na responsabilização do sector relativamente às despe-
» Existem assimetrias grandes na distribuição do
sas e aos resultados dos investimentos na Educação;
Orçamento Geral de Estado por província e por
requer também uma discussão abrangente das priori-
habitante. As alocações em termos geográficos
dades políticas e orçamentais de médio prazo do país).
das despesas com a Educação não são equitativas,
como ilustrado na análise da alocação do orçamento
©UNICEF Angola/2015/Carvalho

»
para a Merenda Escolar, com grandes disparidades
entre os valores disponíveis em diferentes provín-
cias (por exemplo, Kz 835 milhões em Moxico vs
aproximadamente Kz 749 milhões em Luanda).

» Para confrontar os diferentes desafios, as atribui-


ções orçamentais devem ter em consideração a
inflação e a crescente demanda da população es-
tudantil, resultante do elevado crescimento demo-
gráfico que se assiste no país.

2
A organização do sistema de Prioridades e realidades do sector
Educação em Angola da Educação em Angola em 2017

A Constituição da República de Angola define como ta- As prioridades do Governo no sector da Educação não
refa fundamental do Estado promover o acesso univer- mudaram significativamente em 2017, o último ano de
sal ao ensino obrigatório gratuito. A nova Lei de Base da implementação do PND 2013-2017. As políticas educa-
Educação e Ensino (Lei 17/16), conforme no Artigo 9º, tivas que continuam a ser formuladas em termos mui-
diz que todos os indivíduos têm iguais direitos no aces- to gerais no Relatório de Fundamentação do OGE de
so, na frequência e no sucesso escolar nos diversos 2017, derivado do PND, são:
níveis de ensino, e o Artigo 11º confirma a gratuitidade
do Sistema de Educação e Ensino através da isenção » “Promover o Desenvolvimento Humano e Educa-
de qualquer pagamento pela inscrição, assistência às cional. Assegurar uma Educação e Aprendizagem
aulas, material escolar e apoio escolar até à 9ª classe, ao longo da vida para todos e para cada um dos an-
incluindo a Merenda Escolar para todos os indivíduos golanos.
que frequentam o ensino primário nas Instituições Pú-
blicas de Ensino. » Continuar a implementar a Estratégia Nacional de
Desenvolvimento de Recursos Humanos, abrangen-
O artigo 21º da Lei 17/16 confirma a importância fun- do e integrando todos os níveis de formação e de qua-
damental e obrigatória do sistema de Educação pré-es- lificação, desde a alfabetização, educação e formação
colar, através de Centros Infantis, para crianças dos 3 inicial, até à formação avançada, dando resposta às
meses até os 5 anos de idade. necessidades de desenvolvimento do País e melho-
rando substancialmente a qualidade da educação e
Depois seguem-se três ciclos de um período total de formação.”
12 anos. O Ensino Primário, da 1ª à 6ª classe, e o Ensi-
no Secundário, com um primeiro ciclo da 7ª à 9ª classe, Em termos mais específicos, e dentro das limitações
e um segundo ciclo da 10ª até à 12ª classe. A Educação financeiras, o relatório enfatiza os seguintes programas
Técnica e Profissional é realizada em centros de forma- como prioritários:
ção públicos e privados para todas as idades, e o nível
intermédio é realizado após a 9ª classe. Posteriormen- » Programa de Alfabetização
te, existem as vertentes universitárias para o Ensino
Superior, que não fazem parte do foco desta análise. » Programa de Expansão do Ensino Pré-Escolar
Além destes, aponta vários subsistemas de Educação
definidos por lei, incluindo o da Educação de Adultos, o » Programa de Desenvolvimento do Ensino Primário
qual inclui a Alfabetização. e Secundário

As instituições sectoriais operam em três níveis terri- » Programa de Melhoria do Sistema de Formação
toriais: central, provincial e municipal. Ao nível central Técnico-Profissional
existem vários ministérios com responsabilidades es-
pecíficas para o sector. O principal responsável pela » Elaboração e Implementação da Estratégia Nacional
implementação das políticas e planos educativos do de Formação de Quadros.
governo é o Ministério da Educação (MED), incluindo a
Alfabetização e a Educação de Adultos. No relatório de fundamentação parecem existir algu-
mas inconsistências quando, por exemplo, o parágrafo
Ao nível local, existem Secretariados e Direcções pro- 162 defende que as dotações orçamentais para a Edu-
vinciais de Educação (agora Gabinetes, de acordo com cação são suficientes para assegurar a implementação
a recente reorganização da Administração Local2), que do PND 2013-2017. Nas notas finais do relatório, no
são unidades orçamentais, mas ao nível municipal, em- parágrafo 182, fala-se da redução da capacidade de fi-
bora existam secções de Educação (agora departamen- nanciamento da prestação dos serviços de Educação,
tos municipais), elas não têm um orçamento próprio e Saúde e Assistência Social, assim como da suspensão
dependem da Administração Municipal. Estas autorida- da execução de projectos de investimento em curso
des locais têm um papel chave na execução do ensino como algumas das consequências da redução perma-
primário e secundário. Isto abrange a distribuição de nente das receitas petrolíferas.
bens e serviços (como, por exemplo, a Merenda Esco-
lar) e alguns investimentos em infra-estruturas físicas Conforme já constatado, com 7% do OGE alocado para
(como a restauração e construção de raiz de escolas). a Educação, Angola continua longe de atingir o Com-

VI SÃO GERAL DA PROPOSTA DO OGE 2 0 1 7 3


promisso de Dakar de 2000. Para além do Compromis- O maior declínio no valor do orçamento foi, porém, de
so de Dakar, Angola aderiu à Nova Agenda do Desen- 2015 para 2016, período em que o orçamento foi redu-
volvimento Sustentável 2030. O ODS número 4 fala da zido em 6% em termos nominais e em 32% em termos
“Educação de Qualidade”, e junto das suas correspon- reais. Isto representa um desafio claro e grande para o
dentes metas aspira “garantir uma educação inclusiva, sector educativo, sobretudo no que diz respeito ao for-
equitativa e de qualidade, e promover oportunidades necimento ou melhoria da qualidade do serviço. Parte
de aprendizagem ao longo da vida para todos”. Sendo desta redução foi suportada pelos professores, que vi-
assim, Angola tem que ajustar os seus programas para, ram os seus salários a aumentar mas sem ter em conta
até ao ano 2030, por exemplo, garantir que todas as a inflação.3 Este desafio para o sector não está suficien-
meninas e rapazes terminem os ciclos de Ensino Pri- temente articulado na análise orçamental do Executivo
mário e Secundário que devem ser gratuitos, equita- e os Deputados da Quinta Comissão não parecem ter
tivos e de qualidade, e produzir resultados escolares escrutinado o suficiente este aspecto antes de subme-
pertinentes e eficazes (meta 4.1.). terem o OGE 2017 para aprovação na especialidade.

Esta situação representa uma grande preocupação, Dois terços do orçamento para Educação, ou seja, cerca
uma vez que Angola continua com enormes desafios de 67% do mesmo, são executados pelas províncias,
no que diz respeito ao acesso e à qualidade da Edu- representando um grau de desconcentração significati-
cação. Segundo o Relatório sobre os Objetivos de vo no sector. Os documentos orçamentais não contêm
Desenvolvimento do Milénio de 2015, elaborado pelo informação sobre a subclassificação económica dentro
Ministério do Planeamento e Desenvolvimento do Ter- do sector de Educação, mas segundo o Relatório de
ritório, no âmbito do Ensino Primário, Angola alcançou Análise das Despesas para a Saúde e Educação do Ban-
nos últimos 15 anos uma grande expansão, mas há co Mundial (2017), a massa salarial representa o maior
fortes discrepâncias a nível provincial. Embora a Taxa tipo de despesa, a qual, durante 2010 e 2015, flutuou
de Escolarização tenha aumentado, a de conclusão do entre os 53,8% (2014) e os 75,3% (2015). As despesas
Ensino Primário ainda é relativamente baixa. Os dados com bens e serviços oscilaram entre os 10,8% (2015) e
indicam que cerca de um terço dos alunos do ensino os 24,4% (2013); e as de capital entre os 3,3% (2015) e
primário não consegue concluí-lo. A Taxa Bruta de Es- os 13% (2014) da despesa total realizada.4 Os dados do
colarização no ensino secundário não chega a 50%. Banco Mundial sobre despesas com pessoal abrangem
Para além disso, embora se registem aumentos na taxa todos os funcionários públicos no sector da Educação e
de Alfabetização, ela ainda está longe do estipulado pe- não apenas os professores. Mesmo com os dados dis-
los ODM, encontrando-se, segundo o Censo 2014, nos ponibilizados através do relatório referido, não é possí-
34%, onde junto aos jovens se encontra nos 27% e nas vel analisar a evolução da despesa com os professores.
zonas rurais perto dos 60%.
O gráfico 2 mostra que, depois de 2015, a dotação or-
Tendências de atribuição de çamental para a Educação, em percentagem da des-
verbas ao sector da Educação pesa total e numa análise temporal, diminuiu signifi-
cativamente para um nível inferior ao do período 2010
De 2016 a 2017, a dotação orçamental para o sector da – 2013. O gráfico inclui dados da despesa realizada e
Educação aumentou 10% em termos nominais, mas é interessante observar que em quase todos os anos
em termos reais, usando 2014 como ano de base, bai- esta foi mais elevada do que a alocação orçamental. O
xou 5%. ano de 2015 é particularmente interessante, uma vez
que a despesa excedeu o valor orçamentado em 3,6
GRÁFICO 1 Despesas Nominais vs reais pontos percentuais. Isto reflecte que não foi possível
limitar a despesa até o nível desejado à crise que, neste
600
caso, foi provavelmente causada pelo peso significativo
500
dos salários, a representarem em 2015 cerca de três
KZ MI MILHÕES

400
quartos de todas as despesas em Educação (um tipo
300
de despesa mais difícil de cortar rapidamente). Se as
200 despesas totais estimadas para 2016 e 2017 estiverem
100 certas, espera-se então um nível de despesa realiza-
0 da mais próximo dos valores orçamentados de 6.6 e
2014 2015 2016 2017
6.8% da despesa pública total. Uma grande deficiência
Despesa Educação Nominal do sector é a instabilidade nos valores atribuídos e as
Despesa Educação Real (preços de 2014) grandes flutuações de ano para ano, que afectam gra-
vemente a continuidade e eficácia do sector.
Fonte: OGE 2017, adaptado à inflação oficial

4
GRÁFICO 2 Percentagem orçamentada vs realizada Com 3%, o Ensino Técnico-profissional recebeu uma
no sector da Educação (2010 - 2017) fatia igual ao oferecido aos serviços subsidiários. Por
14 6.000 último, o Ensino Pré-escolar, já com uma dotação muito

12,5
reduzida em 2016 e nos anos anteriores, foi sujeito a
12 5.000 um corte dramático de 67%, reduzindo o orçamento
Percentagem da despesa pública total

9,8
para esta subfunção a 0.1% da despesa no sector de
8,9

8,9
10

9,4
8,2

8,8
4.000 Educação. Estes cortes, e o pouco investimento no En-

KZ MIL MILHÕES
8,5

8,4
8,3

8 sino Pré-Escolar, dificultam que o país atinja uma das

6,9

6,8
6,6
3.000

6,2
metas principais do ODS 4, a de, em 2030, todas as
6
crianças terem acesso ao Ensino de Primeira Infância e
2.000
4 a um ensino Pré-escolar de qualidade.
2 1.000
Repartição do orçamento por programa
0 0 Observando os programas educativos tidos como prio-
2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 ritários no OGE de 2017, nota-se que, a viver um con-
texto económico complexo, ainda existem inconsistên-
Despesa com a Educação orçamentada
cias entre as prioridades descritas e as alocações feitas
Despesa com a Educação realizada
para os mesmos.
Despesa total orçamentada (Kz nominais, excl dívida)

Fonte: OGE 2010-2017; Relatórios da Conta Geral do Estado 2010-2014 O Executivo destinou aproximadamente 12.5% do to-
tal do OGE para a Educação a estes 14 programas7. O
A principal conclusão da análise da despesa total maior programa, que absorve quase metade destes
para o sector de Educação é que a mesma está valores (5.5% das despesas atribuídas à Educação), é
sujeita a uma redução significativa, mesmo com- o Programa de Desenvolvimento do Ensino Primário e
parando com os níveis baixos de despesas para o Secundário. Este, destacado como um dos quatro pro-
sector nos anos 2010 a 2013.5 Sendo que os valores gramas prioritários, entre o OGE revisto de 2016 e o
despendidos estão em termos nominais e que a infla- OGE de 2017, viu o seu orçamento crescer 13% em
ção acumulada atingiu os 42% em 2016, a redução em termos nominais.
termos reais torna-se radical.6
O segundo maior programa prioritário é o de Melhoria
Atribuição por subfunção do Sistema de Formação Técnico-Profissional, que so-
no sector da Educação freu uma redução de quase 50% entre o OGE 2016 re-
Em termos das subfunções do sector, o Ensino Primário visto e o OGE 2017. Isto reduziu a quota-parte do OGE
continua a receber mais de metade (57%) do orçamen- para educação a 1%, o que representa uma contradição
to para a Educação. Entre 2016 e 2017, a sua dotação directa ao articulado na parte narrativa do OGE.
aumentou em 6%. O Ensino Secundário encontra-se
em segundo lugar com 21% da alocação, aumentando O terceiro maior programa prioritário é o de Alfabetiza-
substancialmente entre 2016 e 2017 com um incremen- ção, que tem uma dotação muito reduzida, de 0.5% do
to de 16% dos fundos alocados. Em terceiro lugar, o En- OGE para a Educação, mas que não sofreu diminuição
sino Superior recebe 16% dos valores alocados para a nenhuma, mantendo-se assim estável a sua alocação
Educação no OGE de 2017, representando um aumento entre o OGE de 2016 revisto e o OGE de 2017.
significativo de 22% acima do valor recebido em 2016.
A maior inconsistência encontra-se no quarto programa
GRÁFICO 3 Alocação para as subfunções do sector da Educação dado como prioritário. Segundo a lista de programas finan-
2017 (percentagem do total para o sector)
ciados através do OGE de 2017, o Programa de Expansão
3% 0%
do Ensino Pré-Escolar deixou de receber atribuições finan-
16% Ensino Pré-Escolar
ceiras. Caracterizando-se por uma dotação sempre muito
Ensino Primário reduzida, de 0.03% do OGE para o sector. Uma das men-
3% Ensino Secundário sagens-chave da análise do OGE de 2016 foi a de que
Angola não estava a investir os recursos adequados
57% Ensino Técnico-Profissional
no Ensino da Primeira Infância. Outra área orçamental
Ensino Superior
21% que ilustra a falta de prioridade no Ensino Pré-escolar
Serviços Subsidiários apresenta-se pelos 0.001% do OGE destinados à ad-
à Educação
ministração e gestão de centros infantis em 5 das 18
Fonte: OGE 2017 províncias. Como demonstrado na análise das aloca-

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ções para as subfunções e programas, o fracasso na gratuita e de qualidade em todo o território8. Segundo
priorização deste subsector agravou-se substancial- o Inquérito de Indicadores Múltiplos de Saúde 2015-
mente no OGE de 2017. A expansão do ensino pré-esco- 2016, em relação ao nível de escolaridade há uma
lar não se faz sem investimentos adequados. disparidade entre os géneros, com os homens a pre-
dominarem nos níveis de escolaridade mais eleva-
Dentro dos outros 10 programas na área de Educação en- dos e as mulheres nos níveis mais baixos. Também
contram-se dois que recebem grandes fatias do orçamen- há diferenças em relação ao âmbito rural e urbano.
to programático. Ambos são ligados ao Ensino Superior Nas áreas urbanas, cerca de 51% das mulheres e 66%
(Programa de Melhoria da Qualidade do Ensino Superior dos homens atingiram o nível secundário, contra apenas
(2.2%) e Programa de Reabilitação e Dotação de Infra-es- 10% das mulheres e 28% dos homens nas áreas rurais.
truturas para o Ensino Superior (1.8%)). Sem dúvida que
uma melhor qualidade no Ensino Básico resultaria numa A análise do OGE de 2016 demonstrou grandes dispa-
maior eficiência do investimento no Ensino Superior. ridades na atribuição orçamental por pessoa nas várias
províncias. Por exemplo, a província do Cunene teve
Não existem muitos dados sobre os resultados dos uma atribuição 21% inferior à média de todas as pro-
diferentes programas. O reforço da gestão destes víncias em 2016; outro exemplo vem da província de
programas de forma transparente é uma das áreas na Benguela, onde a atribuição por pessoa de Kz 16.209
qual Angola pode começar a aumentar a eficiência das representa quase o dobro da atribuição por pessoa da
despesas públicas na área da Educação. O aumento da província limítrofe do Cuanza Sul, no valor de Kz 8.750.
transparência, da prestação de contas e da responsabi-
lização também reduziria a corrupção no sector. Este ano, o foco da análise é um dos programas gover-
namentais que, com uma gestão eficiente, poderia ser
Distribuição geográfica dos muito benéfico para as crianças vulneráveis: a Merenda
recursos no sector da Educação Escolar. Em 2017, a dotação orçamental para este pro-
Uma das maiores preocupações relacionadas com o grama foi de Kz 7,8 mil milhões, representando 0,11%
sector da Educação em Angola são as fortes desigual- do OGE. Este nível mantém-se estável desde pelo me-
dades no acesso e qualidade do ensino em várias di- nos, 2015.
mensões, nomeadamente no que diz respeito aos ní-
veis de rendimento e à geografia, como documentado Infelizmente, mesmo com uma análise básica, o gráfico
na análise do OGE de 2016. 5 ilustra claramente que o programa não está a ser bem
gerido. A lógica da repartição dos valores alocados às
GRÁFICO 4 A Evolução dos Quatro Programas Prioritários diferentes províncias não é clara9. Em primeiro lugar,
no OGE 2017 (Kz Nominais) não se explica o porquê de as províncias de Malanje,
90
Lunda Norte e Moxico receberem dotações de quase
80 o dobro da média de 433 milhões KZ por província, o
70 que contribui para explicar as enormes diferenças entre
60 os valores alocados por criança dos 5 aos 14 anos nas
diferentes províncias.10 Na mesma faixa etária, dez das
Kz Mil Milhões

50
18 províncias têm dotações de Kz 1.083 por criança,
40
um valor acima da média.
30

20 As críticas ao programa são ampliadas no PER do Banco


10
Mundial, onde consta que: “…as refeições fornecidas
são de valor nutricional questionável e menos de 8% da
0
2014 2015 2016 (REV) 2017 população-alvo (418.733 de 5.247.128 alunos dos 6 aos
Programa de Desenv. do Ensino Primário e Secundário 9 anos) beneficiaram do programa em 2011. Além dis-
Prog. de Melhoria do Sistema de Form. Técnico Profissional so, o programa não está disponível para os estudantes
Programa de Alfabetização de todos os municípios de uma dada província, além de
Programa de Expansão do Ensino Pré-escolar
que os critérios de escolha dos municípios beneficiá-
Fonte: OGE 2010-2017; Relatórios da Conta Geral do Estado 2010-2014
rios também não são claros”. Apesar deste parágrafo
Desta forma, é urgente que o Executivo se comprometa se referir aos resultados do programa em 2011, as críti-
com a nação para o alcance das metas estipuladas inter- cas são ainda válidas para 2017.
na e externamente, assegurando que todas as crianças,
com especial ênfase para as meninas e para as crian- Em conclusão, o sector de educação continua a
ças vulneráveis, tenham acesso à Educação obrigatória, apresentar problemas idênticos aos identificados

6
GRÁFICO 5 Valor orçamentado para Merenda Escolar total
por província e por criança de 5-14 anos
900 4.500
800 4.000
700 3.500

Kz milhões (nominais)
©UNICEF/ANGA2016-63/Simancas

Kz por habitante
600 3.000
500 2.500
400 2.000
300 1.500
200 1.000
100 500
0 0

Luanda
Cabinda
Zaire
Uige
Bengo
Cuanza Norte
Malanje
Lunda Norte
Lunda Sul
Moxico
Cuanza Sul
Benguela
Huambo
Bie
Namibe
Huila
Cunene
Kuando Kubango
na análise do OGE de 2016, pelo que urge identificar
as razões das assimetrias geográficas para definir
melhores métodos de atribuição de recursos sec- Valor Orçamentado 2017 Média por criança de 5-17 anos
toriais entre as províncias, mais equitativos e mais Despesa por criança de 5-14 anos
alinhados com as necessidades de cada província. Fonte: OGE 2017
Seja relativamente à despesa geral da Educação, ao En-
sino Primário ou, como demonstrado nesta análise, à NOTAS DE RODAPÉ
distribuição da Merenda Escolar. 1 “Os três primeiros anos da vida de uma criança são particularmente críticos, pois é
um período onde o cérebro se desenvolve e aprende mais rápido. O desenvolvimento
de vínculos seguros com seus cuidadores ajuda as crianças a desenvolverem a
resiliência face às adversidades. Programas e intervenções de desenvolvimento
para a primeira infância, incluindo a amamentação, jogos e prácticas de incentivo
Investimentos em outros para o desenvolvimento das crianças na primeira infância, apoio à saúde e à
nutrição, protegem as crianças contra o stress, aumentam a aprendizagem em casa
sectores necessários para o e estabelecem as bases para a aprendizagem na escola”. (Black, M.M. et al. (2016,
funcionamento da Educação October 16). Early childhood development coming of age: science through the life
course. Retrieved from http://dx.doi.org/10.1016/ S0140-6736(16)31390-3).
O Censo de 2014 demostra que 48% da população com
2 Segundo o Decreto Presidencial n.º 208/17, de 22 de Setembro de 2017.
18 anos ou mais nunca completou a 6ª classe ou nunca 3 Os relatórios do OGE não detalham as remunerações dos funcionários públicos
frequentou a escola, apenas 20% completou o ensino por sector ou tipo mas segundo a RFI, os salários foram aumentados, em 2014, em
primário e 13,2% concluiu o segundo ciclo. Na faixa 8%, e entre 5% e 15% em 2017. (http://pt.rfi.fr/angola/20170420-angola-inflacao-
40-aumentos-salariais-entre-5e-15). O jornal online Rede Angola, confirma que
etária dos 5 aos 18 anos, 22% das crianças e jovens o Conselho de Ministros aprovou um “aumento gradual” dos salários na função
encontram-se fora do sistema de ensino, com uma dis- pública até 15%, para os salários mais baixos (http://www.redeangola.info/
funcionarios-publicos-vao-ser-aumentados-ate-junho/).
paridade grande entre homens e mulheres no grupo dos
4 Um constrangimento importante nesta análise é a morosidade na preparação e
15 aos 18 anos. publicação das Contas Gerais do Estado, demostrando a execução do OGE em
termos de despesas realizadas. Os dados usados nesta análise vêm da Avaliação
da Despesa Pública em Saúde e em Educação em Angola (PER) do Banco Mundial,
A falta do registo do nascimento de 75% das crian- publicado no dia 15 de Maio de 2017, página 63.
ças dos 0 aos 4 anos, e 50% das crianças dos 5 aos 5 Esta é uma situação ainda mais relevante se considerarmos um crescimento médio
14 anos, é certamente um dos factores que limita o natural da população de aproximadamente 3% anual (segundo a projecção da
população para o período de 2014-2050, realizada pelo INE), o que implica uma
acesso ao ensino secundário, dado que é necessário demanda crescente dos serviços de educação, enquanto os recursos dedicados à
para a obtenção da certidão de conclusão do ensino provisão dos serviços são reduzidos.
6 Não está claro se a inflação afectou ainda os níveis salariais no sector. Parte da
primário (6.ª classe) e para se matricular na sétima inflação é absorvida pelos empregados do sector, que verão o poder de compra dos
classe. Contudo, existe um processo de coordenação seus salários a reduzir-se quase para a metade.
entre o Ministério de Justiça e o de Educação para 7 Os 14 programas mencionados são os seguintes: 1) Programa de Desenvolvimento
do Ensino Primário e Secundário; 2) Programa de Reforma Educativa; 3) Programa
dar resposta a este problema. A disparidade no que diz de Desenvolvimento do Sistema de Ensino Especial; 4) Programa de Melhoria do
respeito ao género durante a adolescência provavelmen- Sistema de Formação Técnico Profissional; 5) Programa de Melhoria da Qualidade
te tem uma base na falta de instalações de saneamento do Ensino Superior; 6) Programa de Alfabetização; 7) Programa de Reforço da
Capacidade Institucional do Sistema de Emprego e Formação Profissional; 8)
nas escolas secundárias e na gravidez precoce. Programa de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico; 9) Programa de
Reabilitação e Dotação de Infra-estruturas do Ensino Superior; 10) Programa
de Implementação do Sistema Nacional de Ciência Tecnologia e Inovação; 11)
O Inquérito de Indicadores Múltiplos de Saúde de 2015- Programa de Expansão do Ensino Pré-Escolar; 12) Programa de Intensificação da
2016 demonstra que apenas 38% das raparigas frequen- Alfabetização de Adultos; 13) Programa de Desenvolvimento e Estrut. da Formação
de Professores e de Especialistas em Educação; 14) Programa de Melhoria do
tam o ensino secundário, comparando com 55% dos rapa- Sistema de Formação Técnica e Profissional e do Emprego.
zes. Também demonstra que 7% das meninas de 15 anos 8 Segundo os artigos 11 e 12 da nova Lei de Bases da Educação, a educação é
e 51% das jovens de 19 anos já têm um filho nado-vivo. gratuita e obrigatória até à 9.ª classe.
9 O critério estabelecido para a merenda escolar é de Kz 40 milhões por município.
Ela é destinada apenas às escolas do ensino primário. Nesta base, cada província
Para melhorar os resultados da Educação para as meni- receberia o montante de acordo com o número de municípios que tem e não pelo
nas o Executivo deve prever um aumento nas alocações número de crianças a frequentarem o ensino primário. Já ao nível do município
não existem critérios para definição do montante por criança e não estão claros os
financeiras no saneamento nas escolas secundárias e critérios de priorização das mesmas.
em acções de prevenção da gravidez precoce. 10 A análise, feita com base nos dados do Censo de 2014, fala do número de crianças dos
5 aos 14 anos por província como uma aproximação de crianças em idade escolar.

VI SÃO GERAL DA PROPOSTA DO OGE 2 0 1 7 7


A Educação é um dos sectores estratégicos
para o desenvolvimento socioeconómico de
um país. Os fundos atribuídos à Educação
representam um investimento directo na re-
dução da pobreza e no crescimento susten-
tável, o que explica que em muitos países o
sector tem um peso substancial, entre 20 e
30% do OGE.

Em Angola, onde a atribuição ao sector per-


manece ainda limitada a 6.8% do OGE, é ur-
gente apostar mais na Educação e no futuro
do país através de investimentos maiores e
com enfoque na educação de qualidade e no
acesso equitativo ao ensino.

©UNICEF/ANGA2015-0027/Simancas