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PERFIL IVAN MOURA FÉ

HOMENAGEM Administrar bem a cousa pública é tarefa difícil. As
Hoje, é dia de festa, para o Conselho Regional pressões internas e externas, paralelas, são tantas que
de Medicina do Estado do Ceará: inauguramos o aquela tarefa só será alcançada, com muito suporte
auditório conselheiro Ivan de Araújo Moura Fé, moral, sentimental e político, por parte do administrador.
que estará à disposição dos médicos para eventos Há, no Brasil, o conceito, abraçado por muitos, de

SAUDE E CIDADANIA
de que necessitarem. Por que este nome? Foi que a cousa pública é res nullius e por isso deva ser
consensual entre todos os conselheiros, senão menosprezada, não merecendo um tratamento honesto e
aplaudido. Jovem dinâmico, ex-presidente e fiel às regras ditadas para a boa administração.
iniciador da atual sede cujo término ficou sob a
Não se pretende, com tais conceitos, generalizar o
responsabilidade do professor Dalgimar Beserra. Administrar bem a cousa pública insucesso, contra os interesses da coletividade, de todas
Dr. Ivan galgou com mérito, reconhecido por
as administrações da cousa pública. Há exceções.
todos que lidam com a ética, devido à sua conduta é tarefa difícil. As pressões
sóbria, cavalheiresca. Essas qualidades o alçaram E, por falar em exceções, veja-se o gerenciamento da
à mais alta postulação hipocrática: presidente internas e externas, paralelas, são autarquia administrativa dos médicos nos últimos anos.
do Conselho Federal de Medicina. Em sua gestão Quase tudo, ali, mudou: há uma transparência total dos atos
no CFM predominaram o respeito à sociedade e
tantas que aquela tarefa só será praticados pelo Conselho Federal de Medicina, na gestão do
a valorização da excelência da prática médica; alcançada, com muito suporte Dr. Ivan Moura Fé, à prova do mais exigente auditor.
uma revolução na atuação do Conselho Federal
A lisura da mesma é fruto da filosofia impregnada pelo
de Medicina. Conselho esse reconhecido em moral, sentimental e político, por Dr. Ivan Moura Fé, respaldada na moral, na honestidade,
todos os rincões, do Oiapoque ao Chuí, quando
altruisticamente, durante cinco anos renunciou à parte do administrador. na consciência política de destemido patriota.
convivência familiar, aos lazeres e à sua clientela, Substituindo a rotina imposta pelos administradores
e como paladino da ética tornou-se um Ivanhoé, indicados, para o Conselho, pelo eixo São Paulo – Rio,
nos moldes modernos. Dr. Ivan, a classe médica surgiu o Comando de um nordestino, filho do Piauí e
cearense tem muito a lhe agradecer, não pelas ofertado pelo Ceará para que se implantasse uma boa
páginas sociais, pela propaganda encomendada, administração. Assim, aconteceu.
mas pelo trabalho impagável, pela missão que a
Hoje, graças ao espírito empreendedor do Dr. Ivan Moura
poucos é confiada, pela honestidade cotidiana
Fé, com a ajuda dos seus pares, o Conselho Federal de
dentro do humilde papel em que todo humanista
Medicina é um órgão auscultado em todas as questões
se sente bem.
relacionadas com a política de saúde do País. A figura
do seu Presidente é sempre requisitada quando se trata
Discurso proferido pelo presidente do CREMEC de defesa do interesse da coletividade, por sua retidão
conselheiro Lino Antonio Cavalcanti Holanda, por moral, cultura e elevado grau de politização, a par de
ocasião da inauguração do auditório comprovado sentimento de brasilidade.
Conselheiro Ivan de Araújo Moura Fé Por tudo que tem feito em prol da categoria médica e do povo,
18 de outubro de 1996. o Dr. Ivan Moura Fé se tornou credor da administração geral.

Evandro Carneiro Martins - Advogado
Publicado originalmente no jornal Conselho em set/1995
Editoriais e discursos escritos pelo conselheiro Ivan de Araújo Moura Fé
outubro de 1983 / dezembro de 2014

Organização: Dalgimar Beserra de Menezes/Fred Miranda

Edições CREMEC-2014
Arte da Capa
Wiron Teixeira / Fred Miranda

Diagramação
Júlio Amadeu / Fred Miranda/ Dalgimar Menezes

Ficha Catalográfica
Bibliotecária Regina Lúcia Freitas Holanda - CRB-3/808

M939s Moura Fé, Ivan de Araújo

Saúde e Cidadania/Ivan de Araújo Moura Fé. - Fortaleza: CREMEC,
2015.
254p.
ISBN: 978-85-420-0698-8
1. Política de saúde - Brasil 2. Ética Médica - Brasil 3. Medicina – Brasil
I. Menezes, Dalgimar Beserra, org. II. Fred Miranda, org. III Conselho
Regional de Medicina do Estado do Ceará. IV. Título. V. Autor
CDD: 174.2
Dedicatória

Aos meus pacientes, com os quais, todos os dias,
aprendo alguma coisa.
Aos membros do Conselho Regional de Medicina do Estado do
Ceará e do Conselho Federal de Medicina, pela busca contínua de
uma prática médica digna, ética, solidária.
Sumário
Dedicatória .................................................................................................... 05
Apresentação ................................................................................................. 11
Editorial ......................................................................................................... 17
A Crise do Hospital das Clínicas ................................................................ 21
O Papel dos Conselhos de Medicina .......................................................... 23
Conselho Federal de Medicina ................................................................... 25
Título de Cidadão de Fortaleza .................................................................. 31
Dia do Médico .............................................................................................. 37
O Conselho e a Educação Médica Continuada ........................................ 43
Concurso Público ......................................................................................... 45
O Ato Médico ................................................................................................ 49
Balanço de 2004 ............................................................................................ 53
Curso de Medicina de Família e Comunidade ......................................... 57
Serviço de Verificação de Óbitos ................................................................ 59
A Consulta Médica ....................................................................................... 61
Os Médicos e a Indústria Farmacêutica .................................................... 63
Mensagem ...................................................................................................... 65
III Congresso Científico e Ético do CREMEC ......................................... 69
O Concurso do Programa Saúde da Família ............................................ 73
A Letra dos Médicos .................................................................................... 75
A Fiscalização do Exercício da Medicina .................................................. 77
A Terminalidade da Vida ............................................................................ 79
Erro Médico .................................................................................................. 81
Mortalidade Materna ................................................................................... 85
A Saúde em Perspectiva ............................................................................... 87
Saúde X Violência ......................................................................................... 89
Repercutindo o ENEM ................................................................................ 91
PCCS .............................................................................................................. 93
Lutas Médicas ................................................................................................ 95
IV Congresso Científico e Ético do CREMEC ......................................... 97
E La Nave Va ............................................................................................... 101
D. João VI e a Cidade de Quixadá ............................................................ 105
Código de Ética em Debate ....................................................................... 107
Eleições ........................................................................................................ 111
As Eleições e a Futura Gestão do CRM ................................................... 115
Discurso de Posse ....................................................................................... 117
Revisão do Código de Ética Médica ......................................................... 123
Conflitos Éticos ........................................................................................... 125
Eleição do Conselho Federal de Medicina .............................................. 127
O SUS e as Policlínicas ............................................................................... 129
Título de Cidadão Cearense ...................................................................... 131
CREMEC: 50 Anos ..................................................................................... 135
Cinquentenário do Conselho Regional de Medicina ............................ 139
O Novo Código de Ética Médica .............................................................. 145
Comenda Sindical Médica ........................................................................ 149
Regulamentação da Profissão Médica ..................................................... 153
Solidariedade ............................................................................................... 155
Carreira de Médico de Estado .................................................................. 157
Medicamentos Fracionados ...................................................................... 159
Valorização do Médico e dos Pacientes ................................................... 161
Diretivas Antecipadas de Vontade ........................................................... 163
Antibióticos ................................................................................................. 165
Ser Médico ................................................................................................... 167
Bioética: Recorte, Dúvidas e Inquietações .............................................. 169
Auditoria Médica ........................................................................................ 171
O Monte Sinai e o SUS ............................................................................... 175
As (Más) Condições do Trabalho Médico .............................................. 177
Revalidação do Diploma de Médico ........................................................ 181
Premiações .................................................................................................. 183
Discurso de Posse na Academia Cearense de Medicina ....................... 185
Filas, Macas E... ........................................................................................... 195
Medida Provisória 568/2012 ..................................................................... 197
Eleições Municipais .................................................................................... 199
Dignidade no Final da Vida ...................................................................... 201
Faltam Médicos no Brasil ? ....................................................................... 205
Órteses, Próteses e Materiais Especiais Implantáveis ............................ 209
Eleições, Médicos Estrangeiros e Revalida .............................................. 211
Serviço Civil Obrigatório .......................................................................... 215
Presidência do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará . 217
Programa Mais Médicos ............................................................................ 225
Prontuário Médico ..................................................................................... 229
Lutas para 2014 ........................................................................................... 231
Conselho Federal de Medicina - Eleições ............................................... 235
Autonomia: Controvérsias ........................................................................ 239
Ética e Genética .......................................................................................... 241
Debates Eleitorais ....................................................................................... 243
As Bases do Raciocínio Médico - Apresentação .................................... 247
Prontuário Eletrônico ................................................................................ 251
SAÚDE E CIDADANIA
APRESENTAÇÃO
Dalgimar B. de Menezes

Ler este Saúde e Cidadania significa, com certeza, pervagar e
permear a história da medicina deste último meio século, em nosso
estado e no Brasil. Não só do Ceará, reitero, porquanto o Dr. Ivan de
Araújo Moura Fé não só tem participado das atividades do Conselho
Regional de Medicina do Ceará (CREMEC), nos últimos mais de
35 anos, bem assim, presidiu a entidade máxima da fiscalização da
prática médica, e da ética, ou seja, foi presidente do Conselho Federal
de Medicina, no período de 1989 a 1994. Vamos estender as suas lutas
e compromissos para o período de cerca de 50 anos, tendo em mente
que adentrou a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do
Ceará e seus problemas, já em 1967, plena ditadura militar. Enfim,
não há exagero na referência ao meio século.
Na verdade, entrou Ivan de Araújo Moura Fé no CREMEC, como
suplente de conselheiro da chapa Renovação Médica, encimada por
Luís Paiva Freitas [falecido em 2014] nos idos de mil novecentos
e setenta e oito. Era a abertura política. Era da abertura política. O
conselho se reunia às noites de segunda-feira, na então tranquila
rua Barão do Rio Branco, Edifício Lobrás, 11º Andar. Nós éramos
catecúmenos e nefelibatas, o que sabíamos de conselho? Muito
pouco. Mas íamos a pouco e pouco tomando gosto pelas atividades
conselhais, com o auxílio da lei, representada pelo nosso assessor
jurídico, nosso mestre, Dr. Evandro Carneiro Martins, autor póstumo
de uma das orelhas deste livro, desaparecido em 2001.
Não devemos nos esquecer: começamos mesmo nos registran-
do no CREMEC para poder exercer a profissão, nas dependências
do antigo Centro Médico Cearense, hoje centenário, pois de 1913,
com outra designação, da Rua Pedro Primeiro, 997, tanto Ivan de

11
Araújo Moura Fé quanto eu, para registar aqui o mapa das nossas
andanças na velha Fortaleza. Não ficamos muito na Barão do Rio
Branco, pois em 1983, Dr. Ivan Moura Fé, agora eleito presidente,
resolve adquirir a casa da Rua Carlos Gomes, esquina de Floriano
Peixoto, 2021, e aí instala a entidade. Ainda há uma só Faculdade
de Medicina no Ceará, mas o atendimento dos médicos estava a
exigir espaços mais amplos. Não custa a exigir mais espaço, e como
estamos confundindo deliberadamente a história do Dr. Ivan Moura
Fé com a do CREMEC, é aí que entra a Reforma do Espaço, com
reestruturação desse espaço, o nascimento ou renascimento do espaço
de hoje, o prédio atual, que foi principalmente obra do conselheiro
Orlando Monteiro, vice-presidente, no então dos princípios dos anos
noventa; no que Ivan Moura Fé não é mais presidente. É presidente,
sim, porém do Conselho Federal de Medicina (CFM), em Brasilia,
eleito por seus pares, onde vai inaugurar outro prédio, a sede atual
da entidade. Parecia ser seu destino mexer com as estruturas e ar-
quiteturas. Mais: novo prédio do Conselho está sendo construído,
na Avenida Antônio Sales, com a ajuda do CFM, agora que temos
7 (sete) Faculdades de Medicina a um raio de 600km de Fortaleza,
talvez mais faculdades, e temos inscritos mais de 16.000 médicos.
Eis a faceta vitruviana, construtiva, de Ivan Moura Fé, em que se
encastoam os propósitos de funcionalidade e solidez do construto,
de que fala Vitrúvio1. Quem vier depois vai usufruir dos feitos, se-
jam bem-vindos; temos mais ou menos consciência de que estamos
fechando um ciclo, completando uma era. Deixando, além de vasto
acervo, fantasmas; o Canterville2 do prédio da Floriano Peixoto,
chama-se Nelson.
Enquanto caminhamos por esse labirinto de ruas, fatos e fastos, o
livro vai sendo construído, uma vez que a matéria de que consta, são
escritos reunidos ao longo de todo o período, postos preto no branco,
como que em cima da hora, à medida que se desenrolam os eventos

12
da prática da medicina e da política médica do Ceará e do Brasil.
Os eventos são os mais significativos, é como se a gente estivesse
criando um país, pois deitamos os nossos olhos na VIII Conferência
Nacional de Sáude, na criação do texto que vai entrar na constitui-
ção como base do SUS, “saúde direito de todos e dever de estado”,
à Primeira Conferência Nacional de Ética Médica, Hotel Glória,
Rio de Janeiro, que dá origem ao Código de Ética de 1987/88, e não
menos importante, ao texto de saúde para a constituinte do Ceará.
Os trabalhos do Dr. Ivan Moura Fé vão dando conta disso tudo.
Mais na frente, em 2009, a Revisão do Código de Ética Médica,
Clube Sírio, São Paulo.
De passagem, os textos que estão em Saúde e Cidadania vão
sendo deitados no Jornal Conselho, pois desta feita, tem o CREMEC
um veículo de divulgação dessas matérias. Fundamos o Jornal Con-
selho, há mais de 30 anos, com a ajuda inestimável do Professor José
Jackson Coelho Sampaio. Então, o Jornal, em que originalmente está
a maioria dos escritos, é também labor do conselheiro Ivan Moura
Fé, com a contribuição do Dr. Paulo Marcelo Martins Rodrigues,
de Fernando Monte e deste pouco modesto apresentador de livro.
Ex-libris. A marca que fica, o brasão do proprietário dos textos.
Ele já vinha sendo feito há anos, portanto, ao sabor dos acontecimen-
tos, e do espírito do tempo (Zeitgeist); pois, nesse ínterim, sobrevêm
as lutas pela residência médica; não esqueçamos que Ivan Moura
Fé foi presidente da Comissão Estadual de Residência Médica, a
luta pelo SUS, já mencionada, a formação das Comissões de Ética
dos Hospitais, e estamos retornando ao anos noventa, com Ivan na
presidência do Federal, e nós aqui instituindo a primeira seccional
do CREMEC, no Cariri. Depois, vêm as seccionais de Sobral e de
Iguatu. A partir do segundo lustro da década de 90, os eventos vão
contar com o esforço de quem o Dr. José Mauro Mendes Gifoni
apelida de fomentador faustiano, Lino Antonio Cavalcanti Holanda.

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Nosso método nesta apresentação não pode, não deve se pejar de
qualquer tipo de paranoia, nem mesmo a paraneia crítica de Salvador
Dali. Nós queremos ser apenas uma fração do que se faz no Brasil,
em matéria de ética, de abordagem ética, de abordagem bioética, um
microcosmo, no cenário maior das atividades conselhais do Brasil,
mas contribuindo sempre uma pouca, ou um pouco, para não ser
pedante, mesmo sendo. O livro em todos os seus textos, querendo
ou não, vai demonstrar isso. Os escritos vão examinar com objetivi-
dade, concisão, clareza, todos os nossos grandes temas: De trás para
diante, como contraponto musical tipo caranguejo3, .... Prontuário
Eletrônico, Ética e Genética, Autonomia, Programa Mais Médicos,
Serviço Civil Obrigatório, Revalida, Dignidade no Final da Vida,
Condições de Trabalho Médico, Auditoria, Bioética, Valorização do
Médico e dos Pacientes, Antibióticos, Medicamentos Fracionados,
Carreira de Médico de Estado, O SUS e as Policlínicas, Programa
Saúde de Família, Concurso Público... As Novas Faculdades de
Medicina ... de maneiras que, em retrospectiva, chega-se ao primei-
ro texto, que está no número 0 do Jornal Conselho, de 1983, que é
explicativo das funções do Conselho, que nunca está ao gosto de
alguma gente, órgão federal da fiscalização da prática médica e da
promoção “do perfeito desempenho ético e moral da Medicina e o
prestígio e o bom conceito da profissão e dos que a exerçam”. Indo
em ordem cronológica, e não lançando mão só de imagem musical,
mas pictórica também, cada artigo vai se constituir em Quadros de
Uma Exposição4, diante de cada um o expectador/leitor medita, e
arremata, ao final: aqui se defende a boa prática, aqui se defende o
concurso público, aqui se defende o SUS, aqui se defende a resi-
dência médica, aqui se defende a democracia, aqui... com o estilo
de traços limpos, claros, sem cor política partidária, às vezes em
chiaroscuro, como o que é parte de escrito outro de Ivan Moura Fé,
que não se encontra nesta coletânea: “o trabalho .... tem que se dar

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de forma eficaz, porém discreta, evitando os holofotes e os gestos
teatrais tão ao gosto de alguns”; às vezes com sorrisos enigmáticos
e senso de humor.
Os artigos, os editoriais do Jornal Conselho, dão conta de todos
esses fatos, e a gente sabe, vai constatando mesmo, que a arte é, de
fato, longa; e a vida, breve.
Nisso vem literatura do eu, iniciada, como todos sabem, por
Agostinho de Hipona, dito santo, com as Confissões. É um capítu-
lo quase vazio, na escritura de Ivan, pois ao receber homenagens,
honrarias, medalhas, diplomas, títulos, ele tende a quase descartar o
ego, como o demonstram alguns de seus discursos relativos a esses
eventos: honrarias e títulos e comendas de Cidadão de Fortaleza,
como Cidadão Cearense, como Presidente do Conselho Federal,
como presidente do Conselho Regional, como membro da Academia
Cearense de Medicina... É bom notar, que a escrita limpa, sempre
limpa, quase nunca, mesmo nessas circunstâncias, fala de si, quase
a remeter o espectador, o leitor a Blaise Pascal, que assevera, assen-
ta que Le moi est Haïssable, o ego é odiento, mas que possa/pode
lembrar vagamente Marco Aurélio das Meditações e Montaigne no
seu dizer que eu [Montaigne, nos Ensaios] sou motivo, a inspiração,
dos meus escritos, pois para se dizer o que se fez, o certo é falar do
feito, do que foi feito, e não ficar sob o holofote do eu fiz isso, eu fiz
aquilo, eu sou o bom, adivinhem quem sou. Olhaí eu!
O mais esquisito, isso eu já disse a ele pessoalmente, é que ele
se diz religioso ou tem hábito afim, mas na vida real e nos escritos,
não se consignam as palavras parasitas e os clichês, tipo assim:
louvado seja deus, morreu em odor de santidade, graças a deus fiz
isso, fiz aquilo, agradeço ao pai, está com o pai, tranVferiu-se para
a eternidade, etc, dos que se dizem religiosos. A escrita do Ivan é
plenamente laica, não usa esses clichês nem como figura de retórica.
Calham bem ao Ivan duas observações de Guimaraes Rosa5: “Eu

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quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”; quase tudo
Sócrates/Platão - com quid de depressão Stoa (estoico), do pessi-
mismo da inteligência versus o otimismo da vontade, de Gramsci.
Outra: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e
esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela
quer da gente é coragem”.
Mais apropriadamente aqui, socorre-nos Machado de Assis6:
“Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro,
um governo, ou uma revolução; alguns dizem que assim é que a
natureza compôs as suas espécies.”
“Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um
livro...”

Alguma bibliografia:
1 - Marcus Vitruvius Pollio - De Architectura, Apud Rita de Cássia Pereira
Saramago. Dissertaçao. Ensino de estruturas nas escolas de arquitetura do Brasil.
Escola de Engenharia de São Carlos, Departamento de Arquitetura e Urbanismo.
USP. São Carlos, 2011: página 42.
Na verdade, Vitrúvio refere-se a utilitas, venustas et firmitas, ou seja, utilidade
(funcionalidade), beleza e solidez.
2 - Alusão ao Fantasma de Canterville, conto quase-gótico de Oscar Wilde;
tenho quase certeza que o li há sessenta anos, adaptado a quadrinhos, mas não cuido
que tenha sido em Ediçoes Maravilhosas da Editora EBAL. Minha ediçãozinha,
a levou o vento, em 1979.
3 - Uma pequena nota. Para quem não é vidrado em música, o cânone caran-
guejo está, por exemplo, na Oferenda Musical (Musikalische Opfer) de J. S. Bach
4 - Alusão à peça de Modesto Mussorgski Quadros de uma Exposição.
5 - Rosa JG: Grande Sertão: Veredas, 29ª Edição, Editora Nova Fronteira,
1988 (páginas: 8, 278).
6 - Machado de Assis JM: Primas de Sapucaia! in Histórias sem Data. Obra
Completa, Vol. II, Editora Nova Aguilar S.A., 1985: 417-423.

16
EDITORIAL

Com a publicação deste Boletim, pretende o Conselho Regional
de Medicina do Estado do Ceará preencher uma lacuna importante,
no sentido de manter-se em frequente comunicação com os médicos,
informando-os sobre as principais medidas adotadas por este órgão,
divulgando as resoluções e normas orientadoras da conduta ética,
veiculando reflexões e um posicionamento diante dos mais candentes
problemas relacionados com o exercício da profissão médica.
E neste instante parece-nos oportuno desenvolver algumas reflexões
sobre as atribuições e funções dos Conselhos de Medicina. Os CRMs,
durante muito tempo, adotaram uma postura extremamente discreta,
“trabalhando em silêncio”, como se diz. Falava-se que, pela própria
natureza da sua ação intrínseca, ou seja, pelo fato de terem que se pro-
nunciar como juízes sobre os atos e os fatos atinentes à ética médica,
os conselheiros deveriam sempre evitar posicionar-se em relação às
questões polêmicas, resguardando-se na observação calma e aprofun-
dada, amadurecendo uma avaliação isenta, que lhes permitisse, quando
necessário, exercer de forma segura e inquestionável a função de julgar.
Por outro lado, por ser um órgão integrante de uma autarquia
federal, não competia a um Conselho de Medicina, segundo a visão
de muitos, formular críticas a possíveis distorções existentes nos planos
governamentais de saúde.
Possivelmente em consequência da própria evolução histórica, tal
enfoque está sendo gradualmente modificado. Com efeito, de profis-
sionais liberais que eram há três décadas, os médicos tornaram-se, hoje
em dia, em sua esmagadora maioria, assalariados. Nesta nova situação,
tendo muitas vezes que atender a um número excessivo de pacientes,
e nem sempre dispondo de medicamentos, aparelhagem e ambiente
adequados para um bom trabalho, os médicos frequentemente defron-
tam-se com problemas de natureza ética a que não podem dar uma
17
solução satisfatória por sua ação puramente individual. A esta tem que
se somar uma clara definição da responsabilidade ética das instituições
médicas e do próprio Estado. Neste contexto é esclarecedor o que diz
o artigo 74 do Código de Ética Médica: “O trabalho coletivo ou em
equipe não diminui a responsabilidade de cada profissional pelos seus atos
e funções, como o estabelece o presente código, sendo os princípios deonto-
lógicos que se aplicam ao indivíduo os mesmos que regem as organizações
de assistência médica”.
E aqui podemos caracterizar melhor o que nos parece deva ser o
trabalho dos Conselhos. No seu papel de fiscalização do exercício pro-
fissional cabe ao Conselho cobrar dos médicos a observância rigorosa
dos princípios éticos, em qualquer circunstância, ao mesmo tempo
em que deve exigir dos hospitais, das clínicas, enfim das instituições
prestadoras de serviços médicos, incluindo-se aqui a assistência médica
governamental, que proporcionem as condições indispensáveis para que
o trabalho médico possa se desenvolver de forma condigna.
Lembremos, a propósito, que a Lei 3.268, de 30/09/57, que dispõe
sobre os Conselhos de Medicina, é clara quando diz na alínea h do seu
artigo 15 que é atribuição dos Conselhos de Medicina: “Promover, por
todos os meios ao seu alcance, o perfeito desempenho ético, técnico e moral da
Medicina e o prestígio e o bom conceito da profissão e dos que a exerçam”.
Trata-se de uma atribuição notavelmente abrangente que, segundo nosso
entendimento, não só permite como obriga os CRMs a lutar por melhores
condições de trabalho médico, remuneração justa, ensino médico de bom
nível e melhoria do padrão da assistência médica prestada à comunidade.
Neste sentido, torna-se necessário que os CRMs participem na elaboração
dos planos estatais para a área de saúde, acompanhem sua implantação e
alertem as autoridades para as inadequações que possam existir nos mesmos.
E, quando constatadas evidentes aberrações nestes planos, obrigam-se os
Conselhos a formular as críticas pertinentes, não cabendo de nenhuma
forma que isto seja visto como uma heresia.

18
Naturalmente compreende-se que a forma pela qual os Conselhos
devem lutar em defesa dos legítimos interesses da classe médica e da
saúde da comunidade difere da que é adotada por outras entidades de
classe, como os Sindicatos e as Associações Médicas. Entretanto, tal
diferença nem de longe deverá impedir-nos de reivindicar as mudanças
que a nossa consciência exige e a lei autoriza.
É tempo, portanto, de os CRMs saírem de sua tradicional timidez
para uma postura mais participativa e atuante, atendendo assim às
melhores aspirações da classe médica e cumprindo a missão que lhes
está historicamente reservada.

Ivan Moura Fé
Publicado originalmente no jornal Conselho em out/nov/dez/1983

19
A CRISE DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS

Há anos vinham-se agravando as dificuldades econômicas do
Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal do Ceará, sendo
que nos últimos meses a situação tinha chegado a um ponto muito
delicado, com o HC devendo cerca de 260 milhões de cruzeiros.
Segundo o depoimento de médicos e estudantes daquele hospital, as
vultosas dívidas estavam dificultando a aquisição de medicamentos
e equipamentos essenciais ao bom andamento dos serviços naquele
nosocômio.
Por ser um hospital escola, o HC, além do fundamental papel
desempenhado na assistência médica a pacientes portadores de
patologias mais graves, contribui decisivamente na formação e
treinamento em serviço dos estudantes de Medicina e médicos
residentes. Estas importantíssimas funções estavam ameaçadas de
serem desativadas ou de passarem a se desenvolver com um padrão de
qualidade inferior ao que é aceitável e eticamente permitido.
O Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará não
poderia ficar alheio a tão grave situação, tendo, portanto, oficiado ao
Magnífico Reitor da U.F.C., expondo os pontos básicos do problema
e solicitando que fossem adotadas as providências que salvassem o HC
da inadimplência. Ofício de igual teor foi encaminhado ao Ministério
de Educação e Cultura. Outrossim, foi convocada a Direção do HC
para fazer um relato ao CREMEC sobre as reais dificuldades desse
nosocômio e sobre as medidas em curso para sua solução.
A mobilização dos médicos e estudantes do HC e as gestões
do CREMEC sensibilizaram as autoridades do setor, resultando na
obtenção de pelo menos boa parcela dos recursos necessários e no
atendimento de outras reivindicações médicas, como a estruturação do

21
Corpo Clínico daquele hospital, a contratação de médicos plantonistas
para o Setor de Pediatria e a eleição, pelo voto direto, das Chefias das
diversas Clínicas.

Publicado originalmente no Jornal Conselho em out/nov/dez/1983

22
O PAPEL DOS CONSELHOS DE MEDICINA

Qual a finalidade dos Conselhos de Medicina? Que ações devem
desempenhar estas entidades onde todos os médicos têm que se inscre-
ver? A fiscalização da prática médica e a promoção do exercício ético
da Medicina são atribuições conhecidas e previstas na lei que dispõe
sobre os Conselhos. Qual é, todavia, a amplitude em que se devem
desenvolver estas ações fundamentais? Qual a compreensão atual acerca
das linhas diretivas que devem guiar o labor dos Conselhos? A própria
história da realidade da saúde em nosso país, a situação sanitária atual
e as vicissitudes da prática da Medicina apontam os caminhos a serem
trilhados. Por outro lado a consciência cada vez mais aguda do direito
dos cidadãos ao atendimento de certas necessidades básicas tem pautado
as lutas e as discussões que, nos últimos anos, trouxeram um novo vigor
aos movimentos sociais no Brasil.
A própria conceituação de cidadania inclui hoje, de forma inafas-
tável, a satisfação de requisitos essenciais como, entre outros, liberdade,
moradia, emprego, condições dignas de trabalho, educação e saúde.
Acresce que é difícil, atualmente, aceitar-se que algum desses tópicos
possa ser preenchido isoladamente. A compreensão de que os direitos
sociais compõem um todo indissociável parece-nos um avanço que
poderá nortear de forma mais satisfatória a condução de algumas das
mais significativas causas humanas. E é indiscutível que o tema saúde
se insere neste modo de pensar. Hoje é inquestionável que dificilmente
haverá saúde sem saneamento, sem alimentação, sem condições dignas
de vida, sem justiça social. Que conclusões poderemos tirar deste ra-
ciocínio, que auxiliem nossa tentativa de estabelecer as atribuições dos
CRMs? Afigura-se-nos claro que os Conselhos não podem se restringir
ao trabalho administrativo-burocrático, à instauração de processos éti-
co-profissionais, nem mesmo ao trato das questões de estrito interesse
da corporação médica. Estas ações são sumamente importantes. No
entanto, devem coexistir com iniciativas de cunho mais amplo. Deve-se,
sim, lutar por melhores condições de trabalho para os médicos, por
23
salários condignos, por oportunidade de aprimoramento profissional
e educação médica continuada.
A implantação das Comissões de Ética Médica nos hospitais e
postos de saúde, a promoção de Jornadas de Ética Médica, a frequente
discussão dos dispositivos do Código de Ética Médica indubitavelmente
contribuem para avivar a reflexão acerca da vertente moral da Medicina.
Tendo em vista, contudo, que a Medicina e a Saúde fazem parte de
um todo bem mais amplo, é indispensável a adoção de outras medidas
por parte dos CRMs. Referimo-nos à luta no sentido de participar da
própria formulação das políticas de saúde, bem como da fiscalização
e do controle das ações de saúde. Buscando atingir este objetivo, o
CRM do Ceará, juntamente com o Sindicato dos Médicos e o Centro
Médico Cearense, encaminharam proposta à Assembleia Constituinte
do Estado do Ceará, visando assegurar que o texto da Carta Estadual
contenha dispositivos que garantam que a Saúde receberá do poder
público um tratamento prioritário. A par da consagração do princípio
de que “saúde é direito de todos e dever do Estado”, houve a preocupação
de deixar explícitos na Constituição os mecanismos de custeio do setor
saúde, de modo que não haja o risco de que os recursos para o finan-
ciamento da saúde sofram reduções ligadas a eventuais oscilações da
política local. Igualmente tentou-se contribuir para a democratização da
saúde, tanto no que se refere à garantia do direito universal e igualitário
às ações e serviços de saúde, quanto no que diz respeito à criação dos
Conselhos Estadual e Municipais de Saúde, com caráter deliberativo,
com o intuito de possibilitar a participação da sociedade civil na gestão
dos seus interesses no que concerne à saúde.
Entendemos que ao tentar ampliar a abrangência de sua atuação,
acompanhando de forma participativa as lutas de interesse de toda a
sociedade, não estão os Conselhos de Medicina extrapolando o seu
papel. Estão, sim, exercendo seu mister de forma conscienciosa e digna.

Ivan Moura Fé
Publicado originalmente no jornal Conselho em jan/fev/mar/1989

24
*CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA

Assumo hoje a Presidência do Conselho Federal de Medicina.
Se é grande honra ser elevado a tão nobre posição, avulta ainda mais
a responsabilidade por ter de dar continuidade ao trabalho que, com
tanta competência, dedicação e sensibilidade social, foi desenvolvido
pela equipe liderada por Gabriel Wolf Oselka e Francisco Álvaro Barbosa
Costa. Com efeito, é indiscutível que o CFM, cujo mandato agora se
encerra, implantou uma radical transformação na forma de atuação da
entidade, retirando-a dos estreitos limites da ação cartorial para tor-
ná-la um organismo vivo e dinâmico, inserido nos movimentos mais
progressistas da sociedade brasileira, buscando o diálogo e o debate em
todas as regiões deste país, incentivando uma prática médica engajada,
comprometida com a saúde do nosso povo. Nesta perspectiva, o CFM
participou ativamente das discussões junto à Assembleia Nacional
Constituinte, colaborando de maneira decisiva para que o tema saúde
figurasse na Constituição Federal de uma forma condizente com a sua
importância, inscrevendo-se na Carta Magna em letras inapagáveis, o
lema “A Saúde é Direito de Todos e Dever do Estado”. Outro exemplo
desta atitude de buscar ampliar a participação e o debate ocorreu na
memorável campanha pela aprovação do novo Código de Ética Médica,
quando médicos de todo o Brasil e setores organizados da sociedade
foram chamados a opinar e contribuir na redação do corpo de normas
morais para os médicos.
Ao mesmo tempo, diligenciou o CFM no sentido de aprofundar
a reflexão acerca de temas éticos da maior relevância, tais como plane-
jamento familiar, controle de natalidade, abortamento, esterilização e
os direitos dos pacientes, entre outros. Igualmente, discutiu questões
candentes tais como o direito de greve, ética e direitos humanos, a
situação do ensino médico no Brasil, salários e honorários médicos.
Tudo isto sem perder de vista sua atribuição de apreciar e decidir acer-
25
ca das questões atinentes à ética médica, desenvolvendo um trabalho
pedagógico, informativo e de esclarecimento sobre a maneira correta
de bem se conduzirem os médicos, mas ao mesmo tempo julgando e
punindo as violações à ética profissional.
Neste instante, quando tem início um novo mandato, compete
à equipe recém-empossada dar prosseguimento a este notável traba-
lho, com a consciência da magnitude das dificuldades que virão, mas
motivada pelo fato de estar assumindo a direção do CFM respaldada
pela vontade e a confiança da imensa maioria dos médicos brasileiros,
que de forma clara e inequívoca votaram nas eleições para Delegado
Eleitor escolhendo os candidatos do “Movimento Saúde e Dignidade
Profissional”. A vitória alcançada retrata, de modo indiscutível, o
posicionamento dos médicos deste país a favor de uma proposta que
prevê a luta pela reconquista da dignidade da Profissão Médica e pela
reafirmação do compromisso do médico com a saúde da população
brasileira, ao mesmo tempo em que estimula a ativa participação da
categoria médica e de suas entidades representativas nos embates que
a sociedade brasileira tem que travar para tornar-se soberana de seu
próprio destino. Signatários e defensores desta linha de ação, é a partir
da firme convicção de que o CFM deve conciliar o trato das questões
éticas com a inserção da entidade nos grandes movimentos sociais, nos
anseios e nas lutas do povo brasileiro, que iniciamos nossa jornada.
Assinale-se que começamos nossa gestão em um momento
histórico particularmente singular. Estamos às vésperas de uma eleição
presidencial, quando o povo brasileiro, privado há quase 30 anos do
direito de escolher seu dirigente maior, vislumbra a possibilidade de
influir na construção de um Brasil novo, diferente, onde haja espaço
para a justiça social, para o exercício pleno da cidadania. Como médi-
cos, mas primeiramente como seres políticos, adotando a concepção
aristotélica de política como uma atividade cujo objetivo é a busca do
bem comum, entendemos ter o dever de participar do grande debate

26
nacional, procurando contribuir para que o país avance no sentido de
assegurar aos seus cidadãos o atendimento de direitos básicos tais como
saúde, educação, moradia e emprego. No entanto, a par da luta mais
geral em prol de uma sociedade justa e democrática, há questões mais
específicas que têm de ser enfrentadas com aplicação e competência.
Recordemos que se encontra em tramitação no Congresso Nacional
Projeto de Lei sobre o Sistema Único de Saúde, instrumento que regu-
lamentará e traçará as diretrizes referentes à saúde no Brasil. O que os
médicos brasileiros e o CFM têm a dizer sobre isto?
Como segmento organizado da sociedade compete a nós,
coerentes com o compromisso social e humanista da Medicina, lutar
pela implantação de um sistema de saúde que assegure o atendimento
universal e igualitário a todos os cidadãos; pela efetiva participação
popular na formulação, acompanhamento e fiscalização das políticas
e ações de saúde; pela alocação de recursos suficientes para o setor, de
tal forma que se supere a atual situação de sucateamento da estrutura
pública ambulatorial e hospitalar. Por sinal, há estudos bem funda-
mentados demonstrando que o Brasil terá que, no mínimo, duplicar,
a curto prazo, os recursos destinados à saúde, se quiser efetivamente
implantar uma política de melhoria do setor. Aliás, a maior ou menor
valorização da saúde serve de indicador do nível de vida de um povo,
e pode-se aferir qual o tipo de opção que um país faz pelo volume de
investimentos que destina a setores sociais como saúde e educação.
Estando todos nós empenhados no fortalecimento da estrutura
pública dos serviços de saúde, por entendermos ser este o caminho
para viabilizar saúde para todos, naturalmente devemos lutar para que
esta seja uma das prioridades governamentais em termos de aplicação
de recursos. É preciso ficar claro, no entanto, que ser a favor da saúde
pública não significa ser contra o exercício liberal da Medicina. Não
significa querer estatizar a saúde. Achamos que há espaço para a prá-
tica privada da profissão, dentro dos mesmos critérios de seriedade e

27
dignidade que devem seguir todos os que exercem a Medicina. O que
não podemos aceitar é que só uns poucos tenham acesso aos serviços
médicos de melhor qualidade, enquanto os serviços médicos acessíveis
à população mais carente encontram-se desprovidos das condições
mínimas para um funcionamento adequado, faltam equipamentos e
medicamentos e é insuficiente o número de profissionais de saúde. O
que não podemos aceitar é a existência de uma Medicina para os ricos e
outra, Medicina para os pobres. O que condenamos é a intermediação
lucrativa do trabalho médico, a mercantilização da Medicina, a transfor-
mação da doença em mercadoria e da profissão médica em mera forma
de comércio. Contra isto se insurgem veementemente todos aqueles
que compõem o “Movimento Saúde e Dignidade Profissional”.
Com a mesma ênfase, no entanto, cerramos fileiras ao lado dos
que militam a favor de remuneração condigna e melhores condições
de trabalho para os médicos. É inaceitável que o trabalho médico,
que é considerado uma atividade essencial, seja remunerado a preços
irrisórios, como às vezes ocorre. Esta é uma entre tantas frentes de luta
em que devem se empenhar, de forma unitária, as entidades médicas,
somando esforços os Sindicatos, as Associações Médicas e os Conselhos
de Medicina.
Outra questão importante, na qual devemos nos deter, é a da for-
mação médica. Tal como a saúde, a educação atravessa no Brasil enormes
dificuldades, o que naturalmente também ocorre no ensino superior,
e consequentemente no ensino médico. Entendemos ser fundamental
uma efetiva atuação do CFM no sentido de que recursos suficientes
sejam destinados ao ensino médico. Ao mesmo tempo, deve-se cobrar
o estabelecimento de rigorosos critérios quanto à abertura de novos
cursos de Medicina, tendo como referencial básico os interesses e as reais
necessidades do país. Por outro lado impõe-se a criação de mecanismos
que permitam e estimulem a reciclagem e a educação continuada dos
médicos.

28
Por fim, embora com o convencimento já assinalado de que
o CFM, como órgão máximo da ética médica brasileira, necessita
partir de uma concepção onde a ética é vista como algo abrangente e
diretamente relacionado com as vertentes econômica, social e política
da realidade da prática médica, entendemos que cabe a esta entidade
estimular a reflexão acerca das questões éticas polêmicas, algumas das
quais surgidas devido ao próprio desenvolvimento tecnológico, tais
como as que dizem respeito ao prolongamento artificial da vida, aos
transplantes e à engenharia genética. Naturalmente esta reflexão pode
se alargar e ter como objeto a própria razão de ser da profissão médica e
a sua fundamentação central. Achamos que a Medicina, como a ciência
em geral, está alicerçada em uma concepção filosófica, e seu exercício se
dará de acordo com uma visão do mundo, com uma determinada forma
de valoração moral. Historicamente foi a Medicina conceituada como
uma profissão a serviço do ser humano, contra a dor e o sofrimento,
identificada com os valores da solidariedade e do mais puro humanis-
mo. É difícil se imaginar uma profissão mais bonita e de mais nobre
destinação do que a Medicina. Os difíceis e tortuosos tempos em que
vivemos é que fazem com que, por momentos, alguns companheiros
sejam tomados pelo desalento e pela descrença. Achamos que cabe a
nós, como médicos e como cidadãos, lutarmos para que o exercício da
profissão médica continue se dando dentro dos valores que a prática
médica consagrou, demonstrando claramente que a Medicina pode e
tem que ser exercida com dignidade e compromisso com a saúde, com
a sociedade e com o país.
Encerro minhas palavras repetindo o que disse no início: cabe
a este Conselho uma enorme tarefa. Há muito trabalho pela frente.
Acredito, no entanto, que a vida é feita de desafios e de lutas e que é nas
dificuldades que as pessoas e as instituições crescem. O maior exemplo
disto foi dado pelo CFM que nos cabe substituir. Portanto, é tendo
como norte o ideário do “Movimento Saúde e Dignidade Profissional”

29
que direcionaremos nosso esforço. E que tenhamos competência para,
juntamente com os médicos deste país, e no meio de tantos desencon-
tros, lutar buscando contribuir, como cidadãos para proporcionar o
encontro do governo com o povo, do homem com a cidadania; como
médicos, visando alcançar o encontro da Medicina com seu compro-
misso social, do médico com a dignidade do seu trabalho.

Brasília – DF, 12 de outubro de 1989

Publicado originalmente no jornal Conselho em jan/fev/mar/1990

*Discurso de posse do Dr. Ivan de Araújo Moura Fé na presidência do
Conselho Federal de Medicina, em 12/10/89, em Brasília – DF

30
TÍTULO DE CIDADÃO DE FORTALEZA*

Senhoras e Senhores
Minha primeira manifestação é de agradecimento pela honraria
que me é concedida na data de hoje. A distinção de ser recebido como
cidadão de Fortaleza me enche de um justificado orgulho. Mais ainda,
por ser o autor do Projeto de concessão do Título de Cidadão de
Fortaleza um vereador com as qualidades morais e o compromisso social
do Dr. José Maria Pontes, verdadeiro representante do povo, exemplo
de que é possível o exercício da política resgatando o sentido primordial
de Política como a atividade cujo objetivo é o bem comum. E mais
necessário se torna que tenhamos políticos dessa estirpe nos difíceis
tempos que atravessamos hoje. Infelizmente, vivemos uma situação de
extrema penúria, desigualdade e injustiça social, em que milhões de
brasileiros estão privados dos mais elementares direitos de cidadania.
Alguns têm tudo, porém a maioria quase nada tem. O desemprego, a
fome, as doenças, a falta de moradia, as dificuldades de acesso a uma
educação de boa qualidade fazem o pesadelo de milhares de homens e
mulheres em todo este país.
No entanto, a história já mostrou diversas vezes que as maiores crises
podem dar início a períodos extremamente fecundos. Estamos em um
momento de múltiplas possibilidades para o nosso país. Aproxima-se
a hora em que os brasileiros decidirão quem irá dirigir os destinos da
nação. Se os que sempre fizeram da atividade política um caminho
para consolidar os privilégios de grupos, de elites, deixando à margem
numerosos segmentos da população; ou se, pelo contrario, repudiando
as práticas de exclusão, o povo brasileiro dará uma demonstração
memorável de que chegou a vez e a hora de assumir seu próprio
destino, e de que é possível construir um país melhor, mais solidário,

31
mais fraterno, onde homens, mulheres, velhos e crianças não precisem
mendigar os direitos básicos da cidadania.
Nesta perspectiva, muito há que ser feito na área da saúde. É
imperativo que seja consolidado o Sistema Único de Saúde, de caráter
público, com atendimento universal, igualitário, integral e resolutivo.
Em nenhum momento podemos aceitar medidas destinadas a implantar
uma medicina pobre para pobres. Somente com maciços investimentos
no setor saúde reverteremos o perverso modelo que faz com que milhares
de pessoas morram de doenças que podem ser prevenidas ou tratadas.
A ocorrência de patologias que, há muito, deveriam estar erradicadas,
ao lado da superlotação dos serviços públicos de saúde, com dezenas de
pacientes graves sendo atendidos em macas nos corredores dos hospitais,
configura um quadro que penaliza os pacientes, angustia os profissionais
de saúde e envergonha a nação.
No que tange à saúde mental, impõe-se a ampliação dos serviços
ambulatoriais e centros de atenção psicossocial, possibilitando que os
pacientes sejam atendidos em locais próximos às suas residências, assim
mantendo os vínculos com seu meio familiar e social, e que os pacientes
internados em razão de crises agudas do seu quadro psiquiátrico tenham
continuidade do seu tratamento após a alta hospitalar. Em toda e
qualquer circunstância, há que serem respeitados os direitos de cidadania
das pessoas acometidas de transtornos mentais.
Dignas autoridades; Senhoras e Senhores.
Em minhas reflexões, às vezes me indago: Qual o sentido da vida? O
que estamos fazendo neste planeta? E a única resposta que encontrei até
agora foi a seguinte: a existência de um ser humano se justifica na medida
em que ele se dispuser a fazer alguma coisa em benefício dos outros.
Penso que este é o verdadeiro distintivo do cidadão, ou seja, aquele
que faz parte de uma comunidade, de um conjunto humano, de uma

32
cidade. E considero que esta disposição de servir tem caracterizado de
forma indelével os médicos ao longo da história desta profissão. Assim,
por ter a convicção de que a essência da Medicina é o humanismo, a
solidariedade, o compromisso com a vida, defendo uma prática médica
pautada nos princípios firmados por ocasião da aprovação do Código de
Ética Médica, em histórica Conferência Nacional da qual participaram
alguns dos que estão aqui presentes, como Lino Antonio Cavalcanti
Holanda, Dalgimar Beserra de Menezes, Orlando Bezerra Monteiro,
José Roosevelt Norões Luna e Rita de Cássia Mota Moura Fé. Tais
princípios servem de introdução à norma ética básica de nossa profissão
e enfatizam um conceito mais abrangente de saúde e o compromisso
do médico com a sociedade, ao afirmar:
** “Todo ser humano, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça,
cor, sexo, religião, ideologia, idade, opinião política ou de outra natureza,
origem nacional ou condição sócio-econômica, nascimento ou qualquer outra
condição, tem direito a um padrão de vida que lhe assegure saúde e cuidados
médicos. Entende-se por saúde não a ausência de doença, mas a resultante
das adequadas condições de alimentação, habitação, saneamento, educação,
renda, meio ambiente, trabalho, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da
terra e acesso a serviços de saúde. E deste conceito amplo implica a garantia
pelo Estado dos direitos sociais fundamentais de cidadania. A Medicina,
enquanto profissão, tem por fim a promoção, preservação e recuperação da
saúde, e seu exercício é uma atividade eminentemente humanitária e social.
É missão do médico zelar pela saúde das pessoas e da coletividade, aliviar
e atenuar o sofrimento de seus pacientes, mantendo o máximo de respeito
pela vida humana, não usando os seus conhecimentos contrariamente aos
princípios humanitários.”
É este o ideário que tenho procurado seguir ao longo dos meus 30
anos de prática da Medicina.

33
Nesta caminhada, foram fundamentais a amizade, o apoio, os
ensinamentos de numerosos companheiros com os quais tive a honra
de conviver, procurando, todos os dias, com eles aprender alguma coisa
para a profissão e para a vida.
A palavra mais afetuosa, porém, reservo para minha mulher, Rita,
e meus filhos, Ivan, Daniel e Mariana, razão e sentido da minha vida,
fonte de inspiração, estímulo para a jornada. Sem eles eu não teria como
chegar até aqui. Quero também fazer uma referência muito comovida a
meu pai, Nelson de Moura Fé, exemplo para toda a minha vida de um
homem que nunca se omitiu diante dos problemas e nunca permitiu
que outros decidissem por ele. Dele e de minha mãe, Hilda Araújo de
Moura, recebi, ainda, o gosto pelo trabalho, a correção nas atitudes, a
valorização da amizade.
Para concluir, quero mais uma vez expressar meu contentamento
por estar sendo, agora formalmente, acolhido por esta cidade. Moro em
Fortaleza desde o ano de 1966. Nesta cidade fiz o Curso de Medicina,
me casei, vi nascerem meus filhos Aqui desempenho minha profissão,
cuido dos meus doentes. De forma que fico muito feliz em juntar ao
meu registro de nascimento na cidade de Simplício Mendes, no Estado
do Piauí, o título de cidadão de Fortaleza.
Por fim, quero agradecer a todos os que compareceram a esta
solenidade para dividir comigo e com os meus familiares este momento
de alegria.

34
Muito obrigado.
*Discurso proferido pelo Dr. Ivan de Araújo Moura Fé no dia 12/09/02,
na Câmara Municipal de Fortaleza, por ocasião da outorga do Título de
Cidadão de Fortaleza
** Citado pelo Dr. Francisco Álvaro Barbosa Costa, Presidente do
Conselho Federal de Medicina, na apresentação do Código de Ética
Médica aprovado pela Resolução CFM 1.246/88.

35
DIA DO MÉDICO*

Na oportunidade em que estamos reunidos para comemorar o
Dia do Médico, queremos reafirmar que a Medicina é uma profissão a
serviço da saúde do ser humano e da coletividade. Neste sentido, deve
ser exercida sem qualquer discriminação, buscando garantir o atendi-
mento a todos os pacientes, independentemente de condição social ou
econômica, raça, sexo, religião ou partido político.
A marca mais característica da Medicina através de milênios tem
sido a vocação humanista, a solidariedade com os que sofrem, a disposi-
ção de sempre lutar para trazer alívio aos que padecem. A dedicação dos
médicos, o estudo constante, o esforço para descobrir novas formas de
tratamento que possam beneficiar a saúde dos pacientes, têm resultado
em extraordinárias conquistas científicas. As realizações da Medicina
ao longo da história, curando doenças, aliviando a dor e o sofrimento,
fazendo a prevenção das enfermidades e imunizando contra diversas
afecções, foram e são motivo de justo orgulho para os médicos e para
toda a humanidade.
Neste sentido, alguns médicos se destacaram por saber perscrutar
de forma mais acurada os fatos biológicos, considerando, ao mesmo
tempo, as influências dos fatores psicológicos e sociais na gênese e na
evolução das doenças. Outros granjearam a admiração das comunidades
e particularmente dos pacientes pela habilidade no atender e estabelecer
uma boa relação médico-paciente, transmitindo, de imediato, tranquili-
dade e confiança para aqueles que se veem acometidos de enfermidades
e se encontram, muitas vezes, extremamente ansiosos e inseguros. O
Estado do Ceará, Senhoras e Senhores, tem muitos desses médicos, que
dignificam a profissão e contribuem para que o nome da Medicina se
inscreva, de forma perene, no panteão da imortalidade.
Agora mesmo, para citar um grande médico que partiu precoce-
mente, tivemos a perda do Dr. Eduardo Régis Monte Jucá, e pudemos
37
constatar que seu desaparecimento foi lamentado por segmentos os mais
diversos da sociedade cearense.
Entre os que continuam exercendo a profissão, o Conselho Regional
de Medicina do Estado do Ceará se sente orgulhoso de poder home-
nagear aqueles que se distinguiram como exemplos para os seus pares,
pela conduta ética e a excelência técnico-científica. Assim é que nesse
18 de outubro, data maior dos médicos brasileiros, será concedida a
Medalha de Honra ao Mérito Profissional a três médicos, os doutores:
Carlos Augusto Alencar
Francisco de Paiva Freitas
Glaura Férrer Dias Martins
Igualmente, será entregue o Diploma de Mérito Ético-Científico
aos médicos:
Antonio Mota Pontes
José Sarto Chaves Saraiva
Juraci Vieira de Magalhães
Leiria de Andrade Júnior
Luiz Carlos Ribeiro Saraiva
Pio Francisco Barros Pereira
Roque Muratori
Terezinha de Jesus Rodrigues Sales Santos
Faremos também a aposição do retrato do ex-presidente do
CREMEC, Dr. Lino Antonio Cavalcanti Holanda, médico e ser
humano admirável, cujas raras qualidades fizeram com que conquistasse
a admiração de todos os que o conhecem, particularmente os pacientes
que têm a boa sorte de serem atendidos por este que é um médico
na verdadeira acepção da palavra. Como presidente do Conselho, o
Dr. Lino imprimiu à instituição um dinamismo difícil de ser
igualado, bastando citar os Congressos ético-científicos, que
se constituíram numa iniciativa pioneira no Brasil, sendo hoje
adotados por diversos outros Conselhos Regionais.

38
O Presidente Lino Antonio Cavalcanti Holanda e os ilustres
homenageados são profissionais que servem de exemplo e estímulo
para os mais jovens, ao mesmo tempo em que nos ajudam a manter a
motivação e o alento, mesmo nos momentos mais árduos da atividade
médica. E são muitas as dificuldades para o exercício da Medicina nos
tempos atuais.
A sobrecarga de trabalho nos serviços de urgência e emergência, a
angústia da falta de leitos nas Unidades de Terapia Intensiva, o desem-
penho do mister médico em serviços nos quais, por falta de vagas, temos
que conviver com “o doente do corredor” e até com “o leito-chão”, são
algumas das fontes de angústia para muitos profissionais da Medicina.
Diante de tudo isto, e com a convicção de que “saúde é direito de
todos e dever do Estado”, queremos aqui reafirmar nossa firme posição
em favor do fortalecimento do Sistema Único de Saúde, dentro dos
princípios do acesso universal e igualitário às ações e aos serviços de saú-
de, com gestão transparente e participativa e controle social através dos
Conselhos de Saúde. Nesta perspectiva, o Programa Saúde da Família
há que ser consolidado, pela ampliação do número de profissionais de
saúde, assim como pela garantia de que os serviços serão bem equipa-
dos e disporão de medicamentos para as necessidades da população.
Não podemos aceitar a condenável atitude de alguns gestores, os quais,
após os períodos eleitorais, fazem verdadeiros desmontes nas equipes
de saúde, demitindo sem explicações e sem motivo os profissionais de
saúde e, com isto, agravando ainda mais o sofrimento da população.
Tais condutas, se ocorrerem – e, infelizmente, já estão ocorrendo –,
serão energicamente denunciadas pelo Conselho Regional de Medicina.
Somos, ademais, pela realização de Concurso Público para mé-
dicos e demais profissionais da saúde. É necessário que se faça, com
urgência, a correção de um modelo que, ao longo dos últimos anos, se
voltou para a terceirização dos serviços de saúde, gerando distorções
que estão comprometendo seriamente o funcionamento desses servi-

39
ços. Há, como é sobejamente conhecido, carência de profissionais em
muitos dos serviços de saúde em nosso meio. E ninguém ignora que
um hospital ou posto de saúde público bem estruturado é, geralmente,
a única possibilidade de que milhares e milhares de pessoas dispõem
para o atendimento aos agravos à saúde.
Defendemos, igualmente, a melhoria das condições de trabalho e
remuneração digna para os médicos. Não há como justificar os salários
irrisórios que por vezes são pagos aos profissionais que têm a nobre in-
cumbência de cuidar de um dos maiores bens do ser humano, que é a
saúde. Quanto à remuneração profissional, a CBHPM, a Classificação
Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos, foi, ao longo dos
últimos meses, o referencial das lutas médicas no que se refere aos Planos
de Saúde, Cooperativas Médicas e Seguro Saúde, devendo ser apoiada
por todos os médicos, os quais, como diz o Código de Ética Médica,
têm direito a boas condições de trabalho e a uma remuneração justa.
Um tema que também nos preocupa é a qualidade do ensino mé-
dico. Vemos as iniciativas voltadas para a abertura de novos Cursos de
Medicina e temos, neste momento, que pontuar ser indispensável para
o funcionamento de um curso médico que o mesmo esteja estruturado
de modo a garantir que aos profissionais ali formados será oferecida
toda a condição de se prepararem bem, de modo a adquirirem a ne-
cessária competência para lidar com a saúde e a doença em todas as
suas dimensões.
Aproveitamos a oportunidade para esclarecer um tema que está,
surpreendentemente, suscitando incompreensões e polêmicas. Referi-
mo-nos ao projeto de lei do Ato Médico. Dito projeto apenas propõe,
de forma muito clara, o que é do conhecimento da humanidade pelo
menos desde Hipócrates, há 2.400 anos, ou seja, que “diagnosticar
e tratar doenças são atos médicos”. Qualquer cidadão, do menos es-
clarecido ao mais culto, sabe que quem adoece procura um médico.
No entanto, semelhantes conceitos estão provocando animosidade

40
entre profissionais das diversas áreas da saúde, o que é extremamente
lamentável. O Conselho Regional de Medicina defende um relaciona-
mento respeitoso entre os diversos profissionais, levando-se em conta,
naturalmente, a especificidade do trabalho de cada um deles. Por fim,
queremos dizer que os médicos cearenses honrarão o Juramento que
fizeram ao abraçar a profissão médica, continuando a empenhar o me-
lhor de sua capacidade no atendimento aos pacientes e contribuindo
para melhorar os índices de saúde do Estado. Ao mesmo tempo, como
cidadãos, saberão também estes médicos lutar de maneira vigorosa pela
afirmação da cidadania do povo cearense.

Muito obrigado.

*Discurso proferido pelo Presidente do CREMEC, Dr. Ivan de Araújo
Moura Fé, no dia do médico, 18/10/2003

Publicado originalmente no jornal Conselho em set/out/2003

41
O CONSELHO E A EDUCAÇÃO MÉDICA
CONTINUADA

O médico deve aprimorar continuamente seus conhecimentos e
usar o melhor do progresso científico em benefício do paciente. É o
que diz o artigo 5° do Código de Etica Médica. E é a mensagem que
o Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará tem procurado
transmitir aos médicos cearenses. Existem 2 linhas básicas de atuação
do CREMEC: fiscalizar a profissão médica e promover o perfeito de-
sempenho ético, técnico e moral da Medicina. Tais ações se somam para
assegurar o exercicio da Medicina por médicos bem preparados técnica
e cientificamente e com uma sólida base ética e humanista. Com qual
objetivo? O de tornar realidade uma prática médica comprometida
com a saúde do ser humano e da coletividade. O que está sendo feito
neste sentido? E que outras iniciativas devem ser implementadas para
que seja alcançada esta meta?
O Conselho Regional de Medicina tem realizado, em Fortaleza
e nas cidades do interior do Estado, vários Fóruns de Ética Médica.
colocando em discussão temas da maior relevância para o trabalho
dos médicos, tais como atestados médicos, segredo médico, relação
médico-paciente, responsabilidade profissional, direitos dos médicos,
remuneração profissional, corpo clínico, comissões de ética, o Programa
Saúde da Família e interface profissional. Estes assuntos foram debati-
dos, por exemplo, no XLVI Fórum de Ética do Interior, na cidade de
Itapipoca, nos dias 7 e 8 de novembro deste ano. A realização de mais
de 40 fóruns de ética no interior do Estado e de dezenas de outros em
Fortaleza é, sem dúvida, uma importante forma de fazer educação mé-
dica continuada. Temos recebido, no entanto, frequentes cobranças no
sentido de o Conselho contribuir de maneira mais efetiva para a prepa-
ração estritamente científica dos médicos, ampliando as oportunidades
de obtenção de uma melhor qualificação profissional de colegas que,
43
muitas vezes, têm dificuldade de comparecer aos grandes congressos
das várias especialidades médicas.
Ante a justeza do pleito dos médicos, e com a convicção de que,
para o médico agir eticamente, é necessário que tenha um sólido pre-
paro científico, o CREMEC resolveu elaborar um Programa de Edu-
cação Médica Continuada, centrado nas áreas básicas, com o intuito
de possibilitar que os médicos, com uma formação generalista mais
sólida, possam trabalhar com um maior grau de resolutividade e com
a tranquilidade de estarem fazendo o melhor pelos seus pacientes. O
Programa está em fase de discussão e análise e deverá ser iniciado no
ano de 2004.

Publicado originalmente no jornal Conselho em nov/dez/2003

44
CONCURSO PUBLICO

Por diversas vezes, nos últimos anos, o Conselho Regional de Medi-
cina do Estado do Ceará levou às autoridades de saúde, particularmente
ao Secretário de Saúde do Estado do Ceará, alguns temas para análise e
discussão, destacando-se os seguintes: I) O Programa Saúde da Família,
com suas virtudes e distorções. 2) A necessidade de implantação de
Serviços de Verificação de Óbitos nas grandes cidades do Estado, em
especial na cidade de Fortaleza. 3) O Concurso Público. É este último
tema que pretendemos abordar em mais detalhes, no momento.
É sabido que nos últimos tempos, tem havido um extenso processo
de terceirização dos serviços de saúde no Ceará. Os males desta opção
são sobejamente conhecidos: precarização das relações de trabalho,
possibilidades de manipulação política na contratação de pessoas ou
empresas, falta de continuidade na prestação dos serviços, entre outros.
Essas já seriam razões suficientes para defendermos o concurso como
a forma correta, adequada de admissão ao serviço público. Assim, a
Diretoria do CREMEC propôs, vezes seguidas, a última já no presente
ano, a realização de um amplo concurso para a saúde, que tivesse por
objetivo preencher todas as carências do setor em nosso Estado. Indo
mais além, apresentamos a ideia de um concurso para o Programa Saú-
de da Família, que teria a vantagem adicional de contribuir para fixar
os médicos às cidades para as quais fossem contratados, evitando-se a
rotatividade observada nos diversos municípios visitados pelo Conselho
e que é tão prejudicial ao estabelecimento de um sólido vínculo dos
profissionais de saúde com as coletividades assistidas.
Parece que, finalmente, tais concursos serão realizados. Figuras de
proa do governo estadual, inclusive o Secretário de Saúde, Dr. Jurandi
Frutuoso, anunciaram que o Edital do Concurso Público para o Es-
tado deverá ser publicado brevemente. O que prenuncia a feitura do
concurso talvez ainda em 2004. Falamos em "talvez" porque receamos
45
que ocorra com este o que vem ocorrendo com o concurso do IML, o
qual, planejado para ocorrer em cinco etapas, agora que ultrapassou a
segunda, apesar de ter-se iniciado há mais de um ano. Preocupa-nos,
ademais, o regramento a ser estabelecido no Edital; esperamos que as
regras do concurso estejam dentro do que é previsto em lei, de forma
que não se dê margem a contestações judiciais. Por fim, é preciso uma
especial atenção das autoridades do setor quando forem fixar os salários
a serem pagos aos médicos. Não é concebível que continuemos tendo
concursos que oferecem salários de R$ 500,00 ou R$ 600,00 (quinhen-
tos ou seiscentos reais), como vimos há pouco tempo (O concurso para
o Hospital São José, do Estado, e o Concurso recentemente realizado
pela Prefeitura de Fortaleza). Considerando que a sociedade brasileira
luta pelo aumento do salário mínimo, não demora muito e poderemos
ter médicos concursados, tendo tido antes a obrigação de comprovar
títulos de Residência Médica, e com remuneração próxima ao salário
mínimo do país. Esperamos, sinceramente, que este não seja o objetivo
dos nossos governantes.
No que tange ao Concurso para o Programa Saúde da Família, as
informações que nos chegam dão conta de que o Estado organizaria o
concurso para as cidades que aderissem à ideia. O contrato dos médicos
continuaria a ser feito com as Prefeituras. Achamos que este pode ser
um avanço no sentido de tentar estabilizar os médicos, evitando-se a
famosa "passeata das malas", a que costuma aludir o Professor Dal-
gimar Beserra de Menezes. De fato, já constatamos situações em que,
em periodo eleitoral - e estamos às vésperas das eleições municipais -,
equipes inteiras do PSF foram "desmontadas", sendo seus integrantes
demitidos pelo fato de não terem concordado em participar ativamente
da campanha política em prol dos candidatos do poder local. O que foi
mais uma triste façanha de mandatários politicos que ainda consideram
a Medicina um mero instrumento a ser manipulado com a finalidade
de obter vantagens politico-eleitorais. Entretanto, o referido episódio

46
também foi a oportunidade para que vários médicos demonstrassem,
de forma inequivoca, que não estavam dispostos a renegar seus com-
promissos éticos. De qualquer modo, consideramos que o concurso
poderia, por este ângulo, fazer com que a vulnerabilidade dos médicos
aos humores provincianos dos politiqueiros fosse minimizada.
Queremos deixar claro, no entanto, que não temos ilusões de que o
concurso seja a panacéia, a solução para todos os males. Achamos que,
mesmo com o concurso, continuará sendo grande a rotatividade dos
médicos do PSF, principalmente porque vários deles, na realidade, estão
decididos a cursar Residência Médica. Estamos, porém, convencidos de
que o concurso, por garantir os direitos trabalhistas, é, sim, um fator de
estabilização e um estímulo aos médicos, muitos dos quais ficarão nas
cidades para as quais foram aprovados. Impõe-se, contudo, a adoção
de outras iniciativas, entre as quais a que se volta decididamente para
a Educação Médica Continuada, em que sejam criados mecanismos
permanentes de reciclagem dos médicos do PSF.
Deste modo, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará
acompanhará atentamente todas as etapas de preparação e execução
do Concurso do Estado para médicos e do Concurso para o PSF, por
entender que, mesmo com limitações, são passos importantes para a
ampliação da assistência à saúde do povo cearense e para a melhoria
das condições de trabalho dos médicos.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mar/abr/2004

47
O ATO MÉDICO

Tramita no Congresso Nacional um Projeto de Lei para regulamen-
tar o Ato Médico, ou melhor, para regulamentar a profissão médica.
Trata-se de uma proposta simples e sucinta que, no essencial, diz o
seguinte:
1. Diagnosticar e tratar doenças são atos exclusivos dos médicos
(ressalvado o campo de atuação dos odontólogos).
2. Os serviços médicos devem ser chefiados por médicos.
Não obstante a singeleza e a obviedade de sua formulação, o projeto
de lei do ato médico despertou, entre os membros de outras profissões
da área da saúde, uma reação sem precedentes, marcada pela animosi-
dade e pela realização de atos de protesto que incluíram passeatas, até
mesmo aqui em Fortaleza. Listas são enviadas pelo correio eletrônico,
ou passam de mão em mão visando colher milhares de assinaturas
contra o projeto. E, o que é pior, a oposição a uma ideia acaba por se
transformar em um verdadeiro movimento contra os médicos.
Parece que a aprovação do projeto trará como consequência uma
hecatombe, o final dos tempos, o Armagedon. A luta contra o ato
médico tornou-se uma bandeira nacional de pessoas mal informadas e
outras mal-intencionadas que dizem, em alto e bom som, que após a
aprovação da nova lei os outros profissionais (enfermeiros, psicólogos,
odontólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, terapeutas ocupacionais,
etc.) só poderão exercer seu trabalho se os pacientes forem a eles en-
caminhados pelos médicos. Afirmam, ainda, que os médicos querem
ser chefes de tudo e se apoderar do campo profissional dos outros
integrantes da área da saúde.
É preciso que as coisas sejam postas nos seus devidos lugares. O
projeto de lei do ato médico não contém qualquer dispositivo que
restrinja o campo de trabalho dos outros profissionais de saúde. Diz
apenas o que é do conhecimento de toda a humanidade há pelo menos
49
2.400 anos, ou seja, que diagnosticar enfermidades e fazer o respectivo
tratamento dos doentes são atividades realizadas pelo médico. Postula,
ainda, que quem deve chefiar, por exemplo, um serviço de clínica médi-
ca, ou de cirurgia, ou de cardiologia é um médico. Em que parte dessas
afirmações podemos encontrar algo que seja prejudicial, desrespeitoso
ou ofensivo aos componentes das outras profissões?
As demais profissões da saúde têm suas leis especificas, definindo,
inclusive, os atos privativos de cada uma delas. Por que só a Medicina
não teria direito a uma lei regulamentando sua atividade? A quem in-
teressa manter uma sítuação em que pacientes, independentemente da
gravidade de suas manifestações clínicas, são encaminhados a qualquer
profissional de saúde, indistintamente? Afinal, a formação acadêmica
e técnico-científica é igual para todos os profissionais de saúde? Existe
uma única profissão, um só profissional de saúde? Ou, o que é evidente,
vários profissionais, com diversa competência e distinta forma de atuar?
Temos o maior respeito pelos outros profissionais de saúde e reco-
nhecemos a importáncia do trabalho em equipe, tendo sempre como
objetivo maior proporcionar a melhor atenção à saúde dos pacientes.
Contudo, é imprescindível que respeitemos o principio da especificidade
das profissões, de forma que nenhum profíssional esteja realizando o
que é da competência do outro.
Ademais, consideramos inaceitável que se queira fazer atendimen-
to à saúde da população sem a participação do médico. Vemos como
absurdo que haja Casa de Parto sem médico; ou a existência de equipe
do PSF sem médico; ou, ainda no Programa Saúde da Família - esta
importantíssima estratégia de ampliação da atenção à saúde, de con-
solidação do Sistema Único de Saúde, mas cujas distorções devem ser
corrigidas -, que as crianças sejam destinadas ao atendimento por parte
de profissionais não médicos, sob a justificativa de que se trata de “casos
mais simples”. Estas, sim, são situações que contrariam o bom senso
e violam o preceito constitucional de que saúde (de boa qualidade) é

50
direito de todos. Não aceitamos que seja estabelecida uma Medicina
pobre para pobres.
Por tudo isto, concluímos: devemos ser favoráveis à Regulamen-
tação da Profissão Médica; devemos dizer Sim ao Ato Médico.

Publicado originalmente no jornal Conselho em nov/dez/2004

51
BALANÇO DE 2004

Terminado o ano de 2004, devemos fazer um balanço do que
foi realizado e planejar as atividades de 2005. As principais linhas de
trabalho do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará, no
ano que passou, abrangeram as seguintes atividades: 1) Fiscalização da
atividade médica. 2) Realização de Fóruns de Ética Médica. 3) Apuração
das denúncias de possível infração à ética médica. 4) Luta pela melhoria
dos Honorários Médicos. 5) Defesa da regulamentação da profissão
médica, pela aprovação da Lei do Médico. 6) Defesa do Sistema Único
de Saúde e do fortalecimento do Programa Saúde da Família. 7) Luta
por Concurso Público na área da saúde.
O trabalho de fiscalização incluiu visitas a 52 municípios do Es-
tado do Ceará, onde foram examinadas as condições de trabalho dos
médicos do PSF e dos hospitais e postos de saúde existentes. Ademais,
diversos serviços de saúde também foram vistoriados em Fortaleza. Em
todos os casos, o relatório de fiscalização, apontando as deficiências
encontradas e as correções a serem postas em prática, foi encaminhado
ao Secretário de Saúde do Município, ao Secretário de Saúde do Estado
e à Promotoria de Defesa da Saúde Pública.
No que diz respeito às discussões de temas de Ética Médica, foram
organizados Fóruns de Ética Médica em 13 municípios do interior
do Estado, além de diversos encontros de mesmo teor efetivados nos
hospitais de Fortaleza. Nesses conclaves, os assuntos mais discutidos
foram Relação com Pacientes e Familiares, Responsabilidade Profissio-
nal, Prontuário Médico, Plantão Médico, Transferência Inter-hospitalar,
Segredo Médico, Atestados Médicos, Perícia Médica, Corpo Clínico,
Diretor Clínico, Diretor Técnico e Comissões de Ética Médica.
Convém destacar a promoção, pelo Conselho, de dois grandes
Congressos Científicos e Éticos, respectivamente nas cidades de Juazeiro
do Norte e Sobral, com grande participação de médicos, estudantes e
53
professores dos cursos de medicina. Por sinal, na ocasião do Congresso
de Juazeiro, foi inaugurada, naquela briosa cidade, a nova sede da Sec-
cional do CREMEC no Cariri.
No tocante às denúncias recebidas pelo Conselho, 216 Sindicâncias
foram concluídas em 2004, resultando na instauração de cinquenta e
um (51) Processos Ético-Profissionais. Em todos os casos, o médico
denunciado teve a oportunidade de se defender, relatando sua visão dos
fatos ocorridos e apontando as testemunhas que a pudessem corroborar,
o que, naturalmente, também foi prerrogativa da parte denunciante.
Quanto aos Honorários Médicos, houve avanços significativos,
com a adoção da CBHPM (Classificação Brasileira Hierarquizada de
Procedimentos Médicos) pelo grupo UNIDAS e pela UNIMED de
Fortaleza, entre outros. É evidente, porém, que esta é uma luta per-
manente, em que teremos muito a evoluir para que os médicos sejam
remunerados de forma justa.
Por seu turno, participamos de reuniões e debates de esclarecimento
sobre a iniciativa de regulamentação da profissão médica, mostrando
que em nada a medida é prejudicial às outras profissões da área da
saúde. Com todas elas os médicos querem trabalhar em harmonia, em
benefício dos pacientes, mas é necessário que seja definido, de maneira
clara, qual a área de atuação de cada profissional.
Por fim, o CREMEC, em conjunto com as outras entidades mé-
dicas, tem envidado esforços no sentido de que ocorram dois grandes
concursos públicos na área da saúde, um no Programa Saúde da Família,
envolvendo a maioria dos municípios do Estado, e outro no Estado do
Ceará, como um todo, para reverter o equivocado processo de tercei-
rização da saúde, ocorrido no Ceará nos últimos anos. É fundamental
que os profissionais de saúde sejam contratados nos termos exigidos
pela Constituição Federal.
Em 2005, deverão ser intensificadas as ações do Conselho, am-
pliando o trabalho efetuado no ano precedente, e já anunciando um

54
novo esforço em prol da Educação Médica Continuada: o CREMEC
patrocinará um Curso de Especialização em Medicina de Família e
Comunidade, com duração de um (1) ano e atividades a serem desen-
volvidas em quatro (4) núcleos: Grande Fortaleza, Cariri, Crateús e
Sobral. As aulas terão início no mês de março deste ano.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jan/fev/2005

55
CURSO DE MEDICINA DE FAMÍLIA E
COMUNIDADE

É com muita alegria que o Conselho Regional de Medicina
do Estado do Ceará inicia, hoje, o Curso de Medicina de Família
e Comunidade. Alegria, porque estamos convencidos de que haverá,
com este curso, um real aprimoramento técnico, científico e ético dos
médicos inscritos, resultando numa melhoria da qualidade do atendi-
mento prestado à saúde dos pacientes.
É sabido de todos que o conhecimento médico evolui de forma
constante. Descobertas novas surgem a cada dia, as medidas preventivas
das enfermidades se tornam mais eficazes, aprimoram-se os métodos
de diagnóstico e tratamento das doenças. Para acompanhar todo este
progresso, os médicos têm o dever ético de estudar sempre e sempre.
Foi isto o que fizeram os médicos ilustres de todos os tempos, os quais,
com dedicação, busca constante do saber e zelo pela saúde dos pacientes,
honraram, ao longo dos séculos, a profissão médica, fazendo com que
esta atividade humana, a Medicina, se tornasse merecedora da gratidão
dos povos. É isto também o que teremos que fazer nós, lembrando que
o próprio Código de Ética Médica diz ser dever do médico aprimorar
continuamente seus conhecimentos e usar o melhor do progresso cien-
tífico em benefício do paciente.
Estas são as razões pelas quais a Diretoria do Conselho Regional de
Medicina resolveu investir em prol da qualificação dos médicos. Assim,
além de realizar a fiscalização da prática médica e a avaliação e julgamen-
to das denúncias de possível infração à ética da profissão, entendeu o
Conselho ser de sua obrigação prestar este serviço aos médicos cearenses,
elaborando um curso cuja programação dá ênfase à preparação do
médico nas áreas básicas de clínica médica, ginecologia e obste-
trícia, cirurgia geral, pediatria e saúde mental. Ademais, conceitos
de epidemiologia e de saúde pública foram incluídos, buscando
57
fortalecer no médico a motivação para fazer também um trabalho
de educação em saúde. Como não poderia deixar de ser, temas de
ética médica também serão debatidos, objetivando sedimentar os
princípios humanistas de respeito ao paciente e de conceituação da
medicina como uma profissão a serviço da saúde do ser humano e
da coletividade, devendo ser exercida sem qualquer discriminação.
O Curso de Medicina de Saúde e Comunidade terá a duração
de um (1) ano, carga horária de 384 horas e ocorrerá em 4 áreas do
Estado, Crateús, Juazeiro do Norte, Sobral e a Grande Fortaleza,
oferecendo um total de 180 vagas. Está orçado em R$ 300.000,00
(trezentos mil reais) e será integralmente financiado pelo Conselho
Regional de Medicina do Estado do Ceará, com o apoio do Conse-
lho Federal de Medicina. Será totalmente gratuito para os médicos.
No que se refere às atividades didáticas, o Conselho terá a
indispensável parceria da Universidade Federal do Ceará, através
da Faculdade de Medicina, e da Escola de Saúde Pública.
Por fim, queremos dizer a todos os presentes que o Conselho
de Medicina do Ceará tem a convicção de que o Curso de Medicina
de Saúde e Comunidade será um importante marco na Medicina
Cearense e significará um inegável benefício para os pacientes alen-
carinos.

Um abraço fraterno
Ivan de Araújo Moura Fé

*Mensagem do Presidente do CREMEC, Dr. Ivan de Araújo Moura
Fé, na abertura do curso de Medicina de Família e Comunidade, Fortaleza,
18 de março de 2005

Publicado originalmente no jornal Conselho em mar/abr/2005

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SERVIÇO DE VERIFICAÇÃO DE ÓBITOS

Há mais de vinte anos que o Conselho Regional de Medicina do
Estado do Ceará luta pela implantação de Serviços de Verificação de
Óbitos no Estado, particularmente na cidade de Fortaleza. Por ocasião
da aprovação da Constituição do Estado do Ceará, foi inserido no
texto constitucional, por iniciativa do CREMEC e das outras entidades
médicas, dispositivo específico sobre a matéria, como se segue:
Capítulo VI – Da Saúde
Artigo 248 – Compete ao sistema único estadual de saúde, além
de outras atribuições:
XIV – estruturar e controlar os serviços de verificação de óbitos;
Já naquela época, procurávamos sensibilizar as autoridades para a
importância da criação do SVO como instituição capaz de desempe-
nhar um papel fundamental na identificação das causas de morte na-
tural, podendo, assim, subsidiar os gestores de saúde com informações
epidemiológicas relevantes para o planejamento das ações sanitárias.
Ademais, o SVO também contribuiria para fazer desaparecer o triste
espetáculo das interações entre médicos e funerárias no fornecimento
de declarações de óbito, prática antiética que leva ao falseamento das
estatísticas de mortalidade.
Ao longo dos anos, o Conselho sempre colocou estas questões em
discussão. Certa feita, ao cobrarmos mais uma vez providências no
tocante ao assunto, um Secretário de Saúde chegou a nos afirmar que
estava mais preocupado com os vivos... Agora, porém, temos finalmen-
te, em Fortaleza, o Serviço de Verificação de Óbitos, o qual recebeu
o nome do Dr. Rocha Furtado, médico e ex-secretário de saúde do
Estado do Ceará; a sala de necrópsias foi designada com o nome do
Dr. Helio Abreu, primeiro “verificador de óbito” do Estado e criador
do “gabinete médico-legal”, estrutura precursora do Instituto Médico
Legal. Destaque para o Governador do Estado, Dr. Lúcio Alcântara,
59
e para o Secretário de Saúde, Dr. Jurandi Frutuoso, sob cuja égide se
deu a implantação de tão importante serviço. Ressaltamos também o
esforço do Conselheiro Dalgimar Beserra de Menezes, o qual emprestou
seu tempo e sua experiência assessorando o planejamento e a criação do
SVO, tendo, inclusive, visitado outras instituições semelhantes (Serviços
de Verificação de Óbitos de Natal – RN, São Paulo – SP e Ribeirão Preto
– SP). Numa justa homenagem, o Laboratório de Anatomia Patológica
do SVO recebeu o nome do Professor Dalgimar Beserra de Menezes.
Agora, ocupa-nos uma outra questão: como serão admitidos os
que vão trabalhar no SVO de Fortaleza? Através de Cooperativas? É
preciso que evitemos a via tortuosa da terceirização na admissão dos
trabalhadores do setor saúde. O SVO é, por vocação e essência, um
serviço público, de forma que seus servidores deverão ser contratados
por meio de concurso público.
Por fim, queremos insistir que se torna imperativa a criação de Ser-
viços de Verificação de Óbitos em outras cidades do Estado, particular-
mente aquelas de maior porte. Seria de bom tom que o multianunciado
concurso para a área da saúde do Estado do Ceará incluísse vagas para
esses serviços e fosse realizado antes do final do ano em curso.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mai/jun/2005

60
A CONSULTA MÉDICA

O que um paciente espera no momento em que procura os cuida-
dos do médico? Certamente, espera ser atendido por um profissional
competente, atualizado, bem qualificado cientificamente, capaz de
utilizar todos os meios disponíveis de diagnóstico e tratamento em be-
nefício dos pacientes que estão sob seus cuidados. Mas conta, também,
com alguém que demonstre zelo, dedicação, interesse pela saúde do
enfermo, ouvindo suas queixas com atenção e transmitindo segurança
e a convicção de que tudo será feito para que o doente melhore e, se
possível, fique curado.
Um relacionamento terapêutico satisfatório pressupõe que o mé-
dico explique ao paciente, em linguagem compreensível, o significado
dos sintomas, os riscos e objetivos do tratamento, sabendo avaliar o
momento e a maneira de fornecer as informações mais graves. E que se
disponha a compartilhar com o doente as decisões sobre o tratamento,
respeitando a autonomia do paciente até mesmo para recusar as medidas
propostas pelo esculápio.
Estes são alguns dos princípios a serem seguidos por todos os mé-
dicos e que, segundo tudo indica, foram observados por muitos dos
nossos colegas de antanho. Com efeito, poderíamos indagar: o que
distinguiu os médicos ao longo de mais de dois milênios de atividade,
fazendo com que esta profissão granjeasse o respeito e a gratidão da
humanidade? Como profissionais que nem de longe dispunham dos
recursos diagnósticos e terapêuticos atuais conseguiram, em seu tempo
e circunstância, fazer o melhor por seus pacientes? Parece indiscutível
que a atitude de plena dedicação ao doente, a realização integral do
lema “que a saúde do paciente seja a minha maior preocupação”
foi a marca consagradora da Medicina como a profissão humanista e
solidária por excelência. Assim agindo, os médicos que nos antece-
deram acumularam um patrimônio ético que nos foi legado como a
61
mais extraordinária herança que alguém poderia receber. Preservar este
patrimônio é um dever dos que atualmente exercem a profissão médica.
Por sua vez, é pertinente considerar que, ao longo dos séculos, os
médicos foram aprimorando os meios de identificar as manifestações
das enfermidades, ao mesmo tempo em que laboravam no sentido de
obter e utilizar as melhores medidas a favor da saúde dos pacientes.
Neste aprendizado e acúmulo de experiência, foram os médicos reco-
nhecendo a enorme importância da consulta, que inicia uma relação
médico-paciente, com implicações que superam em muito os aspectos
puramente científicos.
No período de 4 a 6 de agosto de 2005, foi realizado na sede do
Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará o I Seminário
sobre Consulta Médica. Com aulas de excelente nível científico, o
encontro possibilitou a abordagem de temas altamente importantes
para a prática médica cotidiana. Abriu espaço, também, para a reflexão
sobre a conduta do médico no atendimento do paciente visto como
um ser biopsicossocial.
O Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará deverá
intensificar, nos próximos meses, ações voltadas para a Educação Mé-
dica Continuada, entendida esta em sentido amplo, compreendendo
a formação técnico-científica e o aprimoramento ético dos médicos
cearenses. Para bem realizar este projeto, o CREMEC está aberto às
sugestões dos colegas sobre quais os temas mais importantes, cujo es-
tudo possa contribuir para suprir carências em nossa prática médica.
Pretendemos, ademais, promover em 2005 o II Curso de Medicina de
Família e Comunidade.
Colega! Contamos com sua participação e colaboração.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jul/ago/2005

62
OS MÉDICOS E A INDÚSTRIA
FARMACÊUTICA

Vez por outra, ouve-se entre os médicos um comentário acerca de
certos fatos da relação com os representantes da indústria farmacêuti-
ca. Ao mesmo tempo em que estes muitas vezes se mostram dispostos
a prover ajuda financeira para a realização de seminários, simpósios
e congressos das associações médicas, também costumam oferecer
brindes e formular convites para jantares, seguidos ou não de palestra
sobre algum tema científico. Não é rara a oferta de passagem para o
comparecimento a algum congresso médico, nacional ou mesmo inter-
nacional. Tais ocorrências terminam por despertar certo incômodo, ou
mesmo dúvidas de ordem ética. Seria correto, por exemplo, um médico,
patrocinado por um laboratório, comparecer a um congresso da sua
especialidade, tendo aí participação em alguma atividade científica em
que aponte as vantagens da utilização de um medicamento do labo-
ratório que o patrocina? Usufruir determinadas “gentilezas” poderia,
imperceptivelmente, ir levando o profissional a privilegiar os produtos
do “laboratório amigo”? Ou, ao contrário, estaria esse peculiar tipo de
relação imune a distorções?
Preocupado com o tema, o American College of Phisicians formu-
lou, em 1990, algumas diretrizes para o relacionamento dos médicos
com a indústria. Entre estas, firmou que, ao receber brindes da indús-
tria, o médico deveria interrogar-se sobre a seguinte questão, para ter
clareza se a prática é eticamente aceitável: “Eu aceitaria este brinde se o
fato fosse do conhecimento dos meus pacientes, meus colegas de profissão ou
o público em geral?”
Entre nós, o Código de Ética Médica diz, em seu artigo 98, ser
vedado ao médico exercer a profissão com interação ou dependência
de farmácia, laboratório farmacêutico, ótica ou qualquer organização
destinada à fabricação, manipulação ou comercialização de produtos
de prescrição médica de qualquer natureza.
63
Como se o assunto não fosse suficientemente complexo, fomos
surpreendidos por reportagem publicada na imprensa local (Diário do
Nordeste de 6 de setembro de 2005 – página 9), dando detalhes sobre
a maneira como a indústria farmacêutica tem conhecimento de quais
são os médicos que prescrevem os seus produtos e quais os que não o
fazem. Referida matéria informava que vários laboratórios farmacêuticos
têm contrato com uma empresa de coleta de dados junto às farmácias,
e por esta via ficam sabendo não apenas o quanto determinado pro-
duto está sendo vendido, mas quais são os médicos que o prescrevem.
O procedimento, se confirmado, parece configurar uma invasão de
privacidade, o que demonstra quanto caminho temos que palmilhar
para alcançarmos a verdadeira cidadania.
Parece-nos claro que uma parceria sadia entre os médicos e a indústria
farmacêutica é perfeitamente possível, tendo por objetivo o progresso do
conhecimento técnico-científico e o benefício da saúde dos pacientes.
Contudo, para que isto se dê, é imprescindível que temas como os agora
abordados, embora gerem constrangimento, sejam amplamente debati-
dos, para que tenhamos condição de construir uma aliança produtiva,
responsável, ética, e não uma relação perigosa.

Publicado originalmente no jornal Conselho em set/out/2005

64
MENSAGEM*

Saudações
Tenho a satisfação de cumprimentar os participantes da XIV
Jornada Médica de Aracati, lamentando não estar presente aos debates,
pelo fato de ter que presidir o III Congresso Científico e Ético do
Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará, no período de 3
a 5 de novembro de 2005, em Fortaleza.
Gostaria de ressaltar alguns pontos básicos da Ética Médica,
discutidos aí, em Aracati, na semana passada, quando da realização do
LXXI Fórum de Ética Médica do Interior. O primeiro deles se refere
à atitude do médico diante do seu paciente, quando devem prevalecer
o zelo, a dedicação, o interesse em tudo fazer em benefício da saúde
do doente. Este esforço para conhecer e compreender a enfermidade,
esta disposição à solidariedade, este desejo de aliviar o sofrimento são
marcas indeléveis da Medicina ao longo de toda a sua história, já sendo
pontos cardeais dos ensinamentos hipocráticos há mais de 2.400
anos. Estas características tão peculiares à atividade do médico talvez
expliquem o extraordinário grau de confiança que os povos de todas as
nações depositaram nos esculápios. Como ilustração, lembramos que
recentemente o IBOPE realizou uma pesquisa, na qual 81% dos
entrevistados declararam que confiam nos médicos, colocando a
profissão médica como a instituição de maior credibilidade junto
à população brasileira.
Partindo dessas premissas básicas que definem o humanismo da
profissão médica, teremos amplas condições para exercer a Medicina
de forma digna, sentindo-nos gratos pelo trabalho que abraçamos, que
nos permite prover o sustento da nossa família numa atividade em que,
na essência, estamos continuamente tendo a oportunidade de fazer o
bem às outras pessoas.

65
Assim, haveremos que exercitar constantemente esses valores,
aplicando os princípios que nos foram legados pelos Pais da Medicina
e engrandecendo cada vez mais nossa profissão. Ao mesmo tempo,
teremos que envidar esforços para melhorar nossas condições de
trabalho, conseguir uma remuneração justa e viabilizar a contratação
de pessoal qualificado tecnicamente e em número suficiente para evitar
a sobrecarga excessiva de atendimentos, prejudicial aos pacientes e aos
médicos. De tal forma que se caracteriza a necessidade do engajamento
dos médicos também na luta por uma política de saúde voltada para os
reais e legítimos interesses da população, dentro da concepção de que
saúde é um direito de todos os cidadãos.
No que diz respeito especificamente ao Programa “Saúde mais
perto de Você”, é nosso entendimento que se trata de uma iniciativa
promissora, que tem o objetivo imediato de aumentar a resolutividade
dos hospitais-polo do interior do Estado do Ceará, garantindo a
presença, nesses serviços, de especialistas em clínica médica, ginecologia/
obstetrícia, traumato/ortopedia, pediatria/neonatologia e cirurgia geral.
Significa, portanto, segundo anunciam os gestores estaduais da saúde,
oferecer “atendimento à população mais próximo da sua residência, o
mais rápido possível e com a melhor qualidade, evitando, ao máximo,
as transferências desnecessárias para a capital”. No entanto, algumas
distorções surgiram e merecem reparos. Várias vezes constatamos
que faltam alguns profissionais previstos pelo Programa, seja pela
não contratação dos mesmos em número suficiente, seja por haver
atraso de pagamento dos médicos, o que gera insatisfação e leva
alguns deles a se desfiliarem do Programa. O resultado previsível é
o comprometimento da eficácia do serviço, em prejuízo da saúde da
população. A responsabilidade dos gestores estaduais e municipais de
saúde deve, portanto, ser cobrada.
Quanto à saúde da mulher, causam grande preocupação os
inaceitáveis números concernentes à mortalidade materna em nosso

66
Estado. É imperativo que sejam adotadas medidas no sentido de
identificar as principais causas da mortalidade materna em nosso meio,
fundamentando a adoção de providências dirigidas ao atendimento
integral à saúde da mulher e da criança, tudo dentro dos parâmetros
recomendados pelos médicos especialistas do setor.
Por fim, na certeza de que todos esses temas serão intensamente
debatidos no conclave, formulamos votos de que a XIV Jornada Médica
de Aracati se revista de pleno êxito, contribuindo para o aprimoramento
técnico e científico dos médicos da região e suscitando reflexões que
aprofundem o compromisso moral e social dos que exercem a Medicina.
Minhas cordiais saudações a todos os participantes da Jornada.

*Mensagem do Dr. Ivan de Araújo Moura Fé, presidente do Conselho
Regional de Medicina do Estado do Ceará, aos participantes da XIV Jornada
Médica de Aracati

67
III CONGRESSO CIENTÍFICO E ÉTICO DO
CREMEC*

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará inicia, no dia
de hoje, o III Congresso Científico e Ético do CREMEC, conclave que
se associa ao III Congresso das Câmaras Técnicas e Comissões de Ética
do CREMEC e à I Jornada de Medicina de Família e Comunidade.
O evento se destina a oferecer aos médicos e estudantes de Medicina os
conhecimentos mais atuais nas grandes áreas básicas da atividade médica,
discutindo questões da maior relevância em Pediatria, Ginecologia e Obste-
trícia, Cirurgia Geral e Clínica Médica, além de pôr em destaque os temas
cada vez mais relevantes da Medicina de Família e Comunidade. Por sua vez,
questões fundamentais da Ética Médica e da Bioética serão abordadas por
professores e mestres de renome da Medicina do Ceará e de outros Estados
da Federação. Temas como maus-tratos na infância, mortalidade materna,
doenças cérebro-vasculares e transtornos do humor darão oportunidade
a que os congressistas se debrucem sobre alguns dos mais preocupantes
problemas de saúde em nosso meio. A precarização do trabalho médico, a
remuneração profissional, as causas mais frequentes de denúncias contra
médicos, os médicos e os Planos de Saúde também estarão em discussão.
Além das reflexões sobre os dilemas éticos relacionados com o princípio e
o fim da vida, incluindo a reprodução assistida, a clonagem terapêutica e
a utilização de células-tronco, o abortamento, o transplante de órgãos e os
cuidados paliativos.
A rica programação do Congresso é parte do Programa de Educação
Médica Continuada do Conselho Regional de Medicina, que hoje
abrange Fortaleza e as cidades do interior do Estado, com a realização de
congressos científicos e fóruns de ética médica, tendo ocorrido, na semana
passada, na cidade de Aracati, o LXXI Fórum de Ética Médica do Interior.
É a reafirmação do compromisso do Conselho com a qualificação ética e
científica dos médicos cearenses. Por outro lado, ressalta a preocupação do
69
CREMEC com o atendimento médico à população carente, levando-nos
a destacar, em todos os nossos eventos, a dimensão social da Medicina,
como uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade,
devendo ser exercida com zelo, solidariedade, buscando utilizar todos os
meios para promover a saúde, aliviar a dor e, quando possível, curar as
enfermidades.
O estímulo do Conselho ao aprimoramento ético e científico dos
médicos cearenses é uma das principais linhas de trabalho da instituição,
ao lado da fiscalização do exercício da medicina, da luta por boas condições
de trabalho e remuneração digna. Afirmamos aqui, mais uma vez, a posição
do CREMEC a favor do fortalecimento do Sistema Único de Saúde e pelo
Concurso Público em todos os níveis, como a forma correta, legal e ética
de acesso ao serviço público. Neste sentido, ao mesmo tempo em que nos
regozijamos com o recente anúncio de Concurso para o Programa Saúde
da Família em 118 Municípios do Estado do Ceará, voltamos a cobrar
a realização do Concurso do Estado para a Saúde, na busca de corrigir a
distorção ora observada com a terceirização do setor.
Com tantas frentes de luta e de trabalho, é para nós motivo de gran-
de satisfação conceder, neste momento, distinções a alguns médicos que
se revelaram, ao longo de sua vida profissional, como exemplos para os
seus pares no desempenho ético da atividade médica. Assim, o Plenário
do CREMEC escolheu, por unanimidade, três médicos para receberem a
Medalha de Honra ao Mérito Profissional. São eles os Doutores:
Geraldo Wilson da Silveira Gonçalves
Evandro Salgado Studart da Fonseca
Pedro Sátiro
Por sua vez, será entregue o Diploma de Mérito Ético-Profissional
aos médicos que completaram 50 (cinquenta) anos de exercício da
profissão médica sem jamais terem sofrido sanção ético-profissional de
qualquer natureza. Os agraciados são:

70
Djacir Gurgel de Figueirêdo
Edna de Castro Picanço
Edvaldo Cordeiro Costa
Elígio Figueirêdo Abath
Francisco Braga Montenegro Filho
Francisco Mansuêto de Sousa
Joacillo Miranda Ponte
José Péricles Maia Chaves
José Ulisses Peixoto Neto
Maria Nogueira Machado Arcanjo
Roberto Caminha Juaçaba
Sebastião Barros de Almeida.
Os ilustres médicos homenageados honram a Medicina Cearense
e marcam, com o seu exemplo, a trilha a ser seguida pelos novos escu-
lápios, para que a profissão médica continue a ser merecedora da con-
fiança e da gratidão de quantos sofrem agravos à saúde. Neste sentido,
foi muito alentadora a pesquisa recentemente realizada pelo IBOPE, na
qual 81% dos entrevistados declararam que confiam na classe médica,
colocando a profissão médica como a instituição de maior credibilidade
junto à população brasileira.
Faremos, ainda, nesta solenidade, a premiação dos vencedores do
Concurso de Monografias Professor Dalgimar Beserra de Menezes,
certame instituído para estimular, entre os médicos e estudantes de
Medicina, a produção de trabalhos de ética e bioética.
Por fim, nesta sessão solene de abertura do Congresso, temos que fazer
alguns agradecimentos: ao Conselho Federal de Medicina, na pessoa do
seu Presidente, Dr. Edson de Oliveira Andrade, que sempre se mostrou
sensível às iniciativas do CREMEC; aos representantes dos Conselhos
Regionais de Medicina, que compareceram ao III Congresso munidos de
vasto saber nos campos técnico, ético e jurídico; aos Professores convidados
para as conferências e mesas-redondas do conclave, vários dos quais vieram

71
de outros Estados, pela presteza com que acolheram o convite do Conselho
e se dispuseram a trazer seu conhecimento e sua experiência para dar maior
brilhantismo ao Congresso; aos Conselheiros do CREMEC, que colabora-
ram nas etapas preparatórias do encontro e agora se mostram presentes em
sua execução; de um modo todo especial, ao Dr. Helvécio Neves Feitosa,
Presidente da Comissão Científica do conclave, e ao Dr. Lino Antonio
Cavalcanti Holanda, da Comissão Executiva, os quais coordenaram as
reuniões de elaboração da programação científica e de implementação das
medidas administrativas do evento, não poupando esforços para o êxito
do mesmo, tendo, nesse mister, a companhia operosa do Dr. Vladimir
Távora Fontoura Cruz. Agradecemos, ainda, a contribuição fundamental
dos membros das Câmaras Técnicas do CREMEC, particularmente os
de Clínica Médica, Pediatria, Cirurgia Geral, Ginecologia e Obstetrícia
e Medicina de Família e Comunidade, que são responsáveis pela maior
parte das sugestões de temas científicos e de professores convidados. E o
empenho imprescindível dos funcionários do CREMEC, representados
aqui na pessoa da Sra. Fátima Maria Sampaio de Barros.
Nossas boas vindas a todos os participantes do Congresso.
Muito obrigado

*Obs.: Discurso proferido por ocasião da abertura do III Congresso
Científico e Ético do CREMEC, em 03/11/2005.

Publicado originalmente no jornal Conselho em nov/dez/2005

72
O CONCURSO DO PROGRAMA
SAÚDE DA FAMÍLIA

Causou pasmo e indignação o ocorrido no Concurso do Programa
Saúde da Família. Resultado de uma luta das entidades médicas (Conse-
lho Regional de Medicina do Estado do Ceará, Sindicato dos Médicos
e Associação Médica Cearense), o concurso sempre foi proposto pelo
CREMEC como a forma legal e ética de admissão dos médicos ao servi-
ço público. Ademais, é entendimento do Conselho que a regularização
da situação dos médicos, com observância dos direitos trabalhistas, pode
contribuir para fixar os esculápios aos municípios para os quais foram
aprovados, aprofundando o vínculo com as comunidades atendidas,
com melhoria da qualidade da atenção à saúde dos pacientes.
O fato é que, após muitas idas e vindas, foi marcado o concurso para
o dia 18 de dezembro de 2005, tendo sido oferecidas 1.585 vagas para
médicos. Surpreendentemente, na data aprazada, quando os candida-
tos começaram a ler os itens da prova, perceberam que várias questões
estavam fora do programa do concurso, algumas tinham mais de uma
resposta certa, enquanto outras não apresentavam qualquer alternativa
correta. O número excessivo de falhas levou as autoridades ao anúncio
da anulação da prova, sendo marcada nova data para o certame, agora no
dia 5 de fevereiro de 2006. É evidente que o transtorno representado pelo
acontecimento trouxe frustração e revolta para todos os participantes
do concurso. Afinal, além do tempo despendido na etapa preparatória,
houve despesas e deslocamentos de vários candidatos, dos quais mais de
duas centenas vivem em outros estados do país; acrescente-se a isto que
mais de seiscentos inscritos vieram de cidades do interior do estado do
Ceará prestar concurso em Fortaleza, sendo que muitos deles tiveram
que trocar plantões, e alguns manifestaram receio com a situação dos
pacientes de suas cidades, os quais poderiam ter prejudicada sua saúde
com a ausência, ainda que temporária, de tantos profissionais.
73
Acontece que o pior ainda estava por vir. Em 5 de fevereiro de
2006, os médicos se dirigiram para os locais da prova. Logo nos pri-
meiros minutos após o início do exame, ao compulsarem os tópicos
da prova, a reação dos médicos foi de perplexidade, quando não de
revolta. Deparavam-se eles com questões sobre a Lei e o Código de Ética
de Enfermagem... Com os primeiros protestos, logo generalizados, a
coordenação do concurso determinou que a prova seria anulada, uma
vez que, por equívoco, fora distribuído aos médicos o mesmo texto
aplicado aos enfermeiros. A empresa encarregada do exame não teria
feito imprimir a prova dos médicos. Que fazer? A Secretaria de Saúde
do Estado divulgou ao distinto público que em 12 de fevereiro de 2006
aconteceria nova prova, a terceira. Não sabemos quantos colegas acaba-
ram por desistir dessa corrida de obstáculos em que se transformou o
concurso do PSF. O fato é que tanta trapalhada faz lembrar o saudoso
Stanislaw Ponte Preta e o Festival de Besteira que assola o país.
Voltamos a insistir na importância da realização de concursos pú-
blicos para o fortalecimento dos serviços de saúde, com a ampliação dos
recursos humanos, aumentando o acesso da população a uma atenção
de qualidade à sua saúde. Mas temos o direito de exigir um pouco mais
de competência na organização desses concursos.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jan/fev/2006

74
A LETRA DOS MÉDICOS

Caligrafia, como todos sabem, significa bela escrita. Em priscas
eras, copistas fizeram fama pela rapidez dos seus registros e a perfeição
com que desenharam, nos mais variados estilos, as letras e as palavras.
Nos tempos modernos, com os teclados digitais, os textos são impressos
com os tipos arial, times new roman, bookman old style e outros. No
entanto, mesmo com a introdução do prontuário eletrônico, a grande
maioria dos médicos ainda redige à mão suas prescrições. É aí que nos
deparamos com o célebre problema da letra do médico, ou melhor,
com a frequentemente ilegível escrita dos esculápios. Todos conhecem
exemplos de receitas que depois se tornaram indecifráveis até para os
médicos que as redigiram. No Conselho de Medicina do Ceará, já
tivemos uma sessão de julgamento em que um médico, chamado a ler
o que escrevera no prontuário do paciente, passou maus bocados para
conseguir entender e ler a própria letra... Em outro processo, recente-
mente julgado no Conselho, tivemos uma situação em que o paciente
preencheu o atestado médico, após o que o médico assistente o assinou.
Justificando tal atitude, o paciente explicou que procurou garantir a
legibilidade do atestado, ante a notória má letra dos médicos. Casos
assim nos fazem lembrar de Champollion e seu trabalho para elucidar
os hieróglifos...
Fica uma interrogação: por que os médicos escrevem de maneira
a propiciar tão dificil leitura? Será por pressa? Excesso de trabalho? É a
letra uma característica pessoal imutável? Ou estariam certas prescrições
tentando ocultar, mas revelando, possíveis inseguranças do prescritor,
dúvidas quanto ao conteúdo da receita, quanto à correção do que está
sendo prescrito? Ou têm algo a ver com as origens misteriosas e meio má-
gicas da arte de curar? O assunto poderia render uma tese acadêmica ...
A matéria que estamos abordando já foi discutida quando estava
sendo elaborado o atual Código de Ética Médica, dando origem ao artigo
75
39, que veda ao médico receitar ou atestar de forma secreta ou ilegível.
O problema está posto e requer solução. Dificilmente teremos a volta
dos velhos cadernos de caligrafia. Será que precisaremos digitar todos os
documentos médicos, inclusive as receitas e os atestados? O fato é que
não podemos continuar a correr o risco de uma receita ser erroneamente
interpretada, dando margem à troca dos medicamentos prescritos, com
possíveis danos para os pacientes. Já tivemos conhecimento de caso de
troca de clorpropamida por clorpromazina... Além de procurar fazer
suas prescrições de forma legível, é de todo recomendado que o médico,
antes de concluir o atendimento, peça ao paciente para ler a receita,
oportunidade em que podem ser detectados erros de compreensão que
darão ao médico a chance de formular explicações adicionais importan-
tes para que o paciente leve a bom termo o tratamento.
A Medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e
da coletividade. Em benefício da saúde do paciente, tem o médico o
dever de envidar todos os seus esforços, com zelo, interesse, dedicação e
competência. Tão elevada missão tem que ser preservada, não podendo
ser comprometida pelo desaparecimento da "caligrafia".

Publicado originalmente no jornal Conselho em mar/abr/2006

76
A FISCALIZAÇÃO DO EXERCÍCIO
DA MEDICINA

Fiscalizar a prática médica é uma das principais atribuições do Con-
selho Regional de Medicina do Estado do Ceará. De fato, a lei 3.268, que
dispõe sobre os Conselhos de Medicina, diz, em seu artigo 15, que cabe
aos Conselhos de Medicina “fiscalizar o exercício da profissão de médico”.
É o que tem feito o CREMEC, ao vistoriar 52 municípios em 2005 e
outros tantos no ano anterior. Neste trabalho, o Conselho tem identifica-
do, desde casos de exercício ilegal da Medicina, até serviços que não têm
direção médica, ou que funcionam de forma extremamente precária, com
os médicos desempenhando seu trabalho em condições inaceitáveis, com
risco para eles próprios e para os pacientes. Já tivemos a oportunidade, em
ida a cidade do interior do Estado, de visitar um serviço de saúde que se
intitulava “PSF 24 horas”. No dito serviço, encontramos um colega mé-
dico, o qual se esfalfava para atender de 80 a 100 pacientes em um turno
de 12 horas de plantão... O referido colega relatou que, em certa feita,
medicou um paciente, o qual, após passar por várias farmácias, retornou
dizendo que não encontrara a medicação prescrita. Para surpresa do colega,
constava, em receita por ele assinada, a seguinte prescrição: “Amigdalite
500, de 8 em 8 horas”... É este o resultado de semelhante sobrecarga de
trabalho, o que, por sinal, não se restringe ao interior do Estado, sendo
constatado em vários hospitais de Fortaleza. Por essas e outras é que alguns
colegas acabam delegando a profissionais não-médicos a realização de atos
médicos. Ressalte-se que todos os relatórios da comissão de fiscalização são
encaminhados para a Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde Pública
e para o secretário de saúde da cidade visitada.
Além de terem que mourejar em seu trabalho, não são incomuns os
casos em que os médicos recorrem ao CREMEC para se queixar da falta
de pagamento dos seus salários ou honorários. Tal situação se torna mais
aguda após as eleições municipais, principalmente se há mudança do grupo
político dominante, ocasião em que o novo prefeito eleito resiste a honrar
77
os compromissos financeiros da gestão anterior. O Conselho de Medicina
tem levado essas denúncias à Promotoria do Trabalho, numa parceria que
tem resultado no bom encaminhamento de vários desses pleitos.
Um dos problemas mais frequentemente encontrados na fiscalização
do CREMEC é a falta de preenchimento dos formulários de referência e
contra-referência, os quais são fundamentais para a continuidade do trata-
mento dos pacientes. O Conselho já fez várias comunicações aos secretários
de saúde e aos diretores médicos dos serviços de referência, no sentido de
que os médicos sejam alertados para a obrigatoriedade do preenchimento
dos documentos citados. Por sinal, o Código de Ética Médica prescreve,
em seu artigo 71, que é vedado ao médico deixar de fornecer laudo médico
ao paciente, quando do encaminhamento ou transferência para fins de
continuidade do tratamento, ou na alta, se solicitado.
No que diz respeito ao Programa Saúde da Família, identificamos
diversos municípios que colocam sob a responsabilidade de cada médico
um número excessivo de famílias, dificultando o desenvolvimento de
uma atenção básica de saúde de boa qualidade, que envolve, além do
diagnóstico e tratamento das enfermidades, um trabalho de educação
em saúde, no sentido de desenvolver hábitos saudáveis e de prevenir a
ocorrência das doenças.
Por outro lado, temos orientado os secretários de saúde para que
confiram a documentação profissional dos médicos contratados e assim
evitem ter em sua equipe falsos médicos ou médicos em situação irregular
ou até mesmo suspensos do exercício da profissão.
O fato é que a intensificação da fiscalização por parte do Conselho
tem ajudado a diagnosticar e corrigir distorções da atividade médica,
contribuindo ainda para melhorar as condições de trabalho dos médicos,
na busca de assegurar a dignidade da profissão médica.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mai/jun/2006

78
A TERMINALIDADE DA VIDA

Como deve agir um médico ante um paciente com o diagnóstico
de morte encefálica, quando a família do paciente não aceita a realidade
da morte e insiste que o médico deve manter todos os procedimentos
técnicos, tais como hidratação, nutrição enteral, antibioticoterapia,
fisioterapia, uso de drogas vasopressoras e solicitação de exames com-
plementares? Ainda mais quando os familiares do paciente ameaçam
processar o médico caso este suspenda as medidas supracitadas?
Esta é uma das questões que o Conselho Federal de Medici-
na (CFM) pretende regulamentar de forma mais clara, de modo
que os médicos tenham uma norma orientadora da conduta a
adotar. O CFM já promulgou, em 1997, a Resolução CFM
nº 1.480, em que são estabelecidos critérios para o diagnóstico de
morte encefálica, considerada esta como equivalente à morte clínica.
No entanto, ainda hoje muitos médicos ficam em dúvida, indagando se
podem ou não desligar os aparelhos de prolongamento artificial da vida,
uma vez constatada a parada total e irreversível das funções encefálicas
do paciente. A linha adotada nos pareceres do CFM sobre a matéria
tem sido no sentido de que cabe, sim, ao médico explicar à família a
real situação clínica do paciente, a impossibilidade de reverter um qua-
dro de morte encefálica, após o que deve suspender os procedimentos
médicos. Mas também é dito que o médico deve ter a sensibilidade de
não agir de forma a se tornar um fator adicional de sofrimento para a
família que acabou de perder um ente querido.
Outros dilemas éticos surgiram nas últimas décadas, associados
ao desenvolvimento científico e tecnológico. É fato que atualmente a
Medicina tem recursos para manter artificialmente a vida de pessoas
em estado clínico extremamente grave. No entanto, em determina-
das circunstâncias, fica claro que o paciente, embora vivo, não tem
possibilidade de recuperação. É o caso, por exemplo, do paciente em
79
estado vegetativo persistente. Caracterizada tal situação, qual seria o
papel do médico? Poderia ele, médico, interromper ou deixar de adotar
procedimentos de manutenção artificial da vida, embora dando con-
tinuidade aos cuidados paliativos? Haverá situações em que o médico
está ética e legalmente amparado para anotar em prontuário que, em
caso de parada cardíaca, não devem ser feitas tentativas de reanimação
do paciente? Estas são algumas das angustiantes perguntas que pesam
sobre os ombros dos médicos que lidam com os pacientes mais graves.
Lembrando, ademais, que o artigo 66 do Código de Ética Médica veda
ao médico utilizar, em qualquer caso, meios destinados a abreviar a vida
do paciente, ainda que a pedido deste.
Na discussão desses temas, o CFM enviou aos Conselhos Regionais
de Medicina, solicitando sugestões, uma minuta de Resolução em que há
a proposta de que seja permitido ao médico limitar ou suspender procedi-
mentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente, em fase terminal,
de enfermidade grave e incurável, respeitada a vontade da pessoa ou de seu
representante legal. Entretanto, o doente deve continuar a receber todos
os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento,
assegurada a assistência integral, o conforto físico, psíquico, social e espi-
ritual. A matéria está sendo debatida nacionalmente e põe em destaque
o direito de viver e de morrer com dignidade. Ao mesmo tempo em que
nos lembra que cabe ao médico tratar os doentes, buscando a cura ou a
melhora, mas também ministrar cuidados, mesmo quando a recuperação
não é mais possível.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jul/ago/2006

80
ERRO MÉDICO

É antiga a discussão sobre erro médico. O Código de Hamurábi já
estabelecia normas sobre o assunto, dizendo que “se um médico trata
alguém de uma grave ferida com a lanceta de bronze e o mata, ou lhe
abre uma incisão com a lanceta de bronze e o olho fica perdido, se lhe
deverão cortar as mãos”. Entretanto, se o médico trata o escravo de um
liberto de uma ferida grave e o mata, deverá dar escravo por escravo...
Regras que criavam uma distinção entre pessoas, hoje absolutamente
inaceitável. Em suas Vidas Paralelas, Plutarco relata que Alexandre
mandou crucificar Glauco, o médico de Heféstion, pois a morte deste
teria ocorrido por negligência do médico, o qual estava numa sessão
de teatro quando o paciente piorou e morreu. Houve erro médico ou
excesso de um governante atrabiliário e todo-poderoso? Os romanos,
com a Lei Aquília, previam punições para os médicos que causassem
danos aos pacientes, o que também ficou expresso no Código de Na-
poleão (1804).
Por muito tempo, deu-se a seguinte discussão: deveriam os médicos
ser responsabilizados pelo insucesso no tratamento dos seus pacientes?
Ou haveria que predominar a visão de que os médicos, “ao agirem de
boa fé”, estariam isentos de qualquer recriminação, mesmo que não
obtivessem êxito no tratamento? Hodiernamente, os conceitos seguintes
são amplamente aceitos. A Medicina é uma profissão de meios e não
de fins. O que significa que o médico tem o dever de utilizar todos os
recursos de diagnóstico e tratamento a seu alcance em favor do pacien-
te. No entanto, não pode o médico garantir resultados, nem estes lhe
podem ser exigidos, sendo exigíveis, sim, a atitude prudente, o zelo, a
dedicação ao paciente, a competência profissional, a busca contínua do
aprimoramento técnico e científico. Por sua vez, comete falta ética o
médico que pratica atos profissionais danosos ao paciente, que possam

81
ser caracterizados como imperícia, imprudência ou negligência. E são
estas as mais frequentes razões para as denúncias formuladas contra
médicos no Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará. Em
número significativo delas (93 citações nos processos ético-profissionais
instaurados no CREMEC no período de 2003 a 2005), a queixa do
paciente se centra na afirmação de que o médico não fez pelo doente
tudo o que poderia e deveria ter feito. É, por exemplo, acusado de
negligência o médico que, sem motivo de força maior, falta ou chega
atrasado ao plantão; ou o que retarda, injustificadamente, o encami-
nhamento para a cirurgia de um paciente clínico que está entrando
em abdome agudo. Já o médico que realiza anestesias simultâneas, ou
que, sozinho, fora da situação de urgência, anestesia e opera o pacien-
te, ou o que não se cerca das cautelas já consagradas no atendimento
do enfermo, estão sujeitos à acusação de imprudência. E, embora não
queiram alguns doutrinadores, é perfeitamente admissível a acusação
de imperícia no caso de um médico que causa prejuízo à saúde de um
paciente por agir contrariamente aos conhecimentos mais comezinhos
da profissão. Muitas vezes teremos condutas que contêm, simultanea-
mente, elementos de imprudência e de negligência. É evidente, ainda,
que o médico tem o direito de alegar seus motivos, os porquês do seu
procedimento, conseguindo, muitas vezes, provar que agiu acertada-
mente. É o que constatamos no levantamento das denúncias apreciadas
no CREMEC, pois, em aproximadamente 80% das sindicâncias ins-
tauradas, o Conselho concluiu pelo arquivamento, por não identificar
indícios de infração ao Código de Ética Médica.

Têm sido apontadas como causas de erro médico, entre outras, a
relação médico-paciente insatisfatória, a formação técnico-científica
deficiente do médico e as más condições de trabalho do profissional da
Medicina. Deste modo, é necessário aprimorar a qualidade das escolas

82
médicas, investir na educação médica continuada, pautar a relação
médico-paciente pelo humanismo, dedicação e zelo do médico e buscar
melhorar as condições da atividade profissional do esculápio.

Publicado originalmente no jornal Conselho em set/out/2006

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MORTALIDADE MATERNA

Por que o Estado do Ceará não consegue reduzir os índices de
mortalidade materna? Por qual razão morrem no Ceará tantas mulheres
de causas evitáveis, em número várias vezes maior que nos países do
primeiro mundo? Quais os motivos dessa situação em tudo por tudo
inaceitável? Há indicações de que as falhas ocorrem no pré-natal e na
assistência ao parto e ao puerpério. Tais dados, que são repetidamente
apontados pelos especialistas em Ginecologia e Obstetrícia e têm sido
publicamente reconhecidos pelos gestores públicos de saúde trazem
para cada um de nós uma preocupação e uma grande responsabilidade.
E nos obrigam à tomada de atitude. Que medidas devem ser adotadas
para garantir uma maternidade saudável?
Em tese de mestrado sobre o perfil da mortalidade materna no
Ceará, apresentada em março de 2006, o Dr. Arnaldo Afonso Alves de
Carvalho, membro da Câmara Técnica de Ginecologia e Obstetrícia do
CREMEC, expõe dados mostrando que, no período de 2000 a 2003, a
razão da mortalidade materna (RMM) no Ceará foi, em média, de 80,6
por 100.000 nascidos vivos. Lembrando, ademais, que o sub-registro
faz com que seja necessária a utilização de um fator de correção de 2,2.
Convém assinalar que, nos países mais desenvolvidos, a RMM chega
a ficar abaixo de 10. As principais causas de óbito materno em nosso
meio, segundo o estudo supracitado, são a eclâmpsia, as infecções e
as hemorragias, ou seja, com amplo predomínio das chamadas causas
obstétricas diretas, em sua maioria evitáveis. Um outro dado revelador
foi a constatação da deficiente assistência de pré-natal, com 67,6%
das pacientes tendo comparecido a menos de 6 (seis) consultas, que
constituem o mínimo estabelecido pela Organização Mundial de Saúde
para se ter uma adequada assistência pré-natal.
O próprio Ministério da Saúde reconhece que a redução da morta-
lidade materna e neonatal no Brasil é ainda um desafio para os serviços

85
de saúde e a sociedade como um todo, sendo o elevado número de óbitos
uma violação dos direitos humanos das mulheres e das crianças e um
grave problema de saúde pública. O Conselho Regional de Medicina
do Estado do Ceará, imbuído de sua responsabilidade ética e social, se
sente no dever de contribuir para dar visibilidade a esta magna questão,
no intuito de incentivar os médicos a se mobilizarem para o esforço
de redução da mortalidade materna. Deste modo, cumprindo suas
atribuições de fiscalizar a prática médica e promover o perfeito desem-
penho ético e científico da Medicina, e consciente, ademais, de que a
Medicina é uma profissão a serviço do ser humano e da coletividade,
inicia o CREMEC, neste momento, uma campanha pela maternidade
segura e pela redução dos índices de mortalidade materna. Contando
com a participação de instituições tais como a Sociedade Cearense de
Ginecologia e Obstetrícia, as Secretarias estadual e municipais de saúde,
os Comitês de Prevenção da Mortalidade Materna e a Promotoria de
Justiça de Defesa da Saúde Pública, pretende o CREMEC catalisar um
amplo processo de identificação e correção das causas evitáveis de óbitos
maternos. Dentro desta linha de trabalho, propomos a implantação
de cursos na área de atendimento integral à saúde da mulher, os quais
devem fazer parte indispensável da formação dos médicos do Programa
Saúde da Família. Ampla campanha de divulgação deve ser feita junto
à população, ressaltando a importância do pré-natal. Por sua vez, deve
ser aprimorado o sistema de referência e contrarreferência, assim como
se impõe que os serviços de atenção terciária estejam bem equipados
e com pessoal qualificado, viabilizando o atendimento rápido das pa-
cientes em quadro clínico mais grave. Afinal, não podemos aceitar que,
em pleno século XXI, “mulheres continuem a morrer de parto”.

Publicado originalmente no jornal Conselho em nov/dez/2006

86
A SAÚDE EM PERSPECTIVA

Causaram muita preocupação as primeiras medidas adotadas
pelo novo governo estadual em relação à saúde. O corte nos recursos
do Programa Saúde Mais Perto de Você, da ordem de 40% para os
hospitais públicos e 50% para os privados e filantrópicos, significa, na
visão de muitos, praticamente inviabilizar o funcionamento dos referi-
dos hospitais, ou pelo menos reduzir drasticamente sua capacidade de
resolução dos problemas de saúde. Como é sabido, o aludido programa
destina recursos para a contratação de médicos especialistas em vários
hospitais do interior do Estado, o que resulta no atendimento de muitos
pacientes que, em caso contrário, virão para Fortaleza. E não há dúvida
que é muito mais benéfico para os doentes terem suas necessidades de
saúde solucionadas na localidade onde vivem. Por outro lado, ocorreram
numerosas dispensas de pessoas que trabalhavam como terceirizadas em
diversas instituições de saúde do Estado. É fato notório que o Governo
do Estado, durante muitos anos, praticou largamente a terceirização
dos serviços de saúde, em detrimento da admissão de pessoal de acordo
com as normas legais, ou seja, através do concurso público. O Conselho
Regional de Medicina do Estado do Ceará sempre defendeu o concurso
público como a forma correta, legal e ética de contratação de servidores
públicos. Durante muitos anos a reivindicação por concurso para a
área da saúde foi ponto de pauta do CREMEC junto aos Secretários
Estaduais e Municipais de Saúde. Por fim, foi realizado um grande
concurso para o Programa Saúde da Família, abrangendo cerca de 118
municípios. Posteriormente, ocorreu a primeira fase do concurso para
os hospitais e outros serviços da rede do Estado, com a oferta de cerca
de 1.100 vagas para médicos, número este considerado como capaz de
suprir apenas parte da carência de profissionais médicos na rede esta-
dual. No entanto, o segundo concurso não se concluiu. E não há, até
o momento, um pronunciamento oficial sobre quando isto vai ocorrer.

87
A matéria que estamos enfocando constituiu parte da agenda da
audiência que os médicos Ivan Moura Fé, Lino Antonio Cavalcanti e
Dalgimar Menezes, diretores do CREMEC, tiveram, em 06/02/07,
com o representante do Governo do Estado, Deputado Ivo Gomes.
Ademais, foram tratados os seguintes temas: o Plano de Cargos, Carrei-
ras e Salários para a saúde, a difícil situação do Instituto Médico Legal
e do Serviço de Verificação de Óbitos de Fortaleza e a designação dos
novos Diretores dos Hospitais do Estado. Quanto ao Plano de Cargos,
foi levada a reivindicação de que o processo de discussão seja reaberto,
possibilitando a inclusão de médicos em todas as fases de análise da
questão. Por fim, manifestaram os dirigentes do CREMEC preocupa-
ção com a demora na designação dos novos Diretores dos hospitais do
Estado e com a instabilidade administrativa que isto gera. Expressaram,
ademais, o entendimento de que as direções devem ser ocupadas por
médicos comprometidos com o serviço público e não com qualquer
interesse menor de cunho político-partidário.
O ilustre representante do governo estadual afirmou que consi-
derava todos os itens discutidos como relevantes e asseverou que não
haverá retrocesso na área da saúde. E, realmente, retrocesso é algo que
não se pode de forma alguma aceitar, até porque bastam as dificuldades
com que já lidamos diariamente para atender bem nossos pacientes
e exercer com dignidade a profissão médica. Naturalmente, cabe às
entidades médicas, entre as quais o Conselho Regional de Medicina,
a luta permanente e vigilante para que a população cearense usufrua o
direito à saúde. E para que os médicos disponham de todos os meios
que a moderna ciência oferece no que toca à prevenção e ao tratamento
das enfermidades.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jan/fev/2007

88
SAÚDE X VIOLÊNCIA

A morte de dois estudantes de Medicina, os irmãos Marcelo e
Leonardo, recentemente assassinados por um capitão da Polícia Mili-
tar, na cidade de Iguatu, causou espanto e consternação na população
cearense e, particularmente, no meio médico. A brutalidade do crime e
o caráter fútil dos motivos apontados para o homicídio demonstraram,
mais uma vez, a situação de extrema insegurança em que vivemos atu-
almente, com a banalização da violência e a ocorrência cada vez mais
frequente de atentados à saúde e à vida. A tal ponto chegamos, que um
dos responsáveis pela segurança pública mata pessoas que se dedicam
a salvar vidas.
O Conselho Regional de Medicina do Ceará, o Sindicato dos Médi-
cos e a Associação Médica Cearense publicaram nota oficial expressando
pesar e indignação diante do acontecido, manifestando solidariedade à
família enlutada e exigindo providências das autoridades competentes,
com a devida punição por tão hediondo crime.
Na realidade, é mais do que chegada a hora da adoção de amplas
medidas visando coibir a violência, que já se tornou um problema social
e de saúde pública em todo o mundo, e mais ainda no Brasil. Os assaltos,
os sequestros, as balas perdidas, as mortes por pistolagem fazem parte
quase rotineira do noticiário e acabam, infelizmente, por se incorporar
ao nosso cotidiano. Mas destroem existências, deixam sequelas, geram
medo, mudam a vida das pessoas. A estes males somam-se os acidentes
automobilísticos, as eloquentes estatísticas de mortes ou lesões graves
por acidentes com motos, de que dão testemunho os registros de aten-
dimentos realizados, por exemplo, no Instituto Dr. José Frota. Esta
vertente do problema levou vários dos nossos colegas, entre os quais o
Dr. Lineu Jucá, a apresentarem a ideia de uma campanha do Conse-
lho de Medicina com as Secretarias Municipais e Estadual de Saúde,

89
a Secretaria de Segurança e o Departamento Estadual de Trânsito, no
sentido de abordar os vários aspectos do problema e apontar soluções.
É matéria que deve merecer cuidadosa atenção.
Outro ângulo do nosso tema diz respeito a uma forma específica
de violência que é sofrida por médicos no exercício da sua atividade
profissional. Já por diversas vezes o Conselho Regional de Medicina
foi procurado por médicos, os quais relataram que sofreram ameaças
ou mesmo agressões físicas em seu trabalho. Algumas circunstâncias
parecem contribuir para fazer eclodir a animosidade e a irritação de
pacientes e familiares contra médicos. É o caso do trabalho em servi-
ços de urgência e emergência ou qualquer outra situação em que haja
um número excessivo de pacientes aguardando atendimento médico.
O que sinaliza claramente que medidas de racionalização do trabalho
médico, com a garantia de boas condições para o desempenho pro-
fissional, se impõem de forma imprescindível e urgente. Ao lado da
criação de mecanismos de acolhimento dos pacientes, com orientação
preliminar e classificação de risco, é preciso que haja a contratação de
pessoal técnico qualificado e em número suficiente, para que se garanta
a dignidade do trabalho médico e se possibilite satisfatória atenção à
saúde da comunidade cearense.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mar/abr/2007

90
REPERCUTINDO O ENEM

No período de 4 a 6 de junho de 2007, foi realizado na cidade
de Brasília o XI Encontro Nacional das Entidades Médicas (ENEM),
com a participação de delegados dos Conselhos Regionais de Medicina,
Sindicatos Médicos e Associações Médicas. A pauta do certame incluiu
temas da maior relevância. Na abertura do evento, o Presidente da Câ-
mara Federal, o médico e deputado federal Arlindo Chinaglia, garantiu
publicamente que colocará em votação, ainda em 2007, a Emenda
Constitucional 29, que dispõe sobre o financiamento do setor saúde,
prevendo o mínimo de recursos que União, Estados e Municípios se
obrigam a aplicar no setor. A Emenda 29 é considerada instrumento
importantíssimo para amenizar a situação de crônica carência de recursos
para as ações e os serviços de saúde.
Outro assunto muito discutido foi a necessidade de regulamentação
da abertura de novas escolas médicas. Pelos dados apresentados, o Brasil
(com 167 Faculdades de Medicina) já tem mais cursos médicos do que
a China (150) e os Estados Unidos (125), países com população bem
maior que a nossa. Ademais, há em tramitação 78 pedidos de abertura
de novas escolas de Medicina. A posição do Conselho Regional de
Medicina do Estado do Ceará, exposta reiteradamente, é contrária à
criação indiscriminada de novas Faculdades de Medicina; ao mesmo
tempo, luta o Conselho pela melhoria dos cursos médicos já existentes.
O tema que talvez tenha despertado maior interesse foi o que
abordou a proposta de criação da carreira de Estado para o médico. É
pensamento unânime que se tornou inaceitável que os médicos con-
tinuem reféns dos humores de prefeitos e governadores, os quais, em
geral, pagam salários irrisórios aos médicos, não elaboram planos de
cargos para a categoria médica e, muitas vezes, ignoram solenemente as
exigências legais de realização de concursos para a admissão ao serviço
público. Em suma, agem em completo desapreço à profissão médica, em
91
contraste com a indiscutível importância social e humana do trabalho
desenvolvido pelos esculápios. As entidades médicas, entre as quais o
CREMEC, vão contribuir para a elaboração de projeto que firme a
carreira médica no âmbito do Estado, à semelhança do que ocorre no
Judiciário e no Ministério Público.
Convém ainda destacar as preocupações manifestadas pelos partici-
pantes do ENEM no que respeita às propostas governamentais envolven-
do Organizações Sociais, Organizações da Sociedade Civil de Interesse
Público e Fundações Estatais de Direito Privado. Estas últimas foram
alvo de projeto elaborado pelo Ministério do Planejamento, Orçamento
e Gestão, com o intuito de criar uma nova forma de administração dos
serviços públicos, já que, nas palavras do próprio Ministro da Saúde,
Dr. José Gomes Temporão, a gestão dos hospitais públicos, através da
administração direta, tem-se demonstrado inviável. Por meio deste novo
equipamento jurídico-institucional, seriam alcançadas maior agilidade
e eficiência dos serviços públicos de saúde. Há, no entanto, alguns
aspectos que merecem cuidadoso exame. O principal deles talvez seja
o fato de que, na Fundação Estatal de Direito Privado, os servidores,
embora admitidos através de concurso público, não terão estabilidade.
Os médicos devem ficar atentos a todas essas questões, mantendo-
se articulados com o Conselho Regional de Medicina, o Sindicato dos
Médicos e a Associação Médica Cearense, além de debaterem os temas
de interesse da categoria nas várias sociedades médicas das especialidades.
Só com mobilização poderemos fazer com que prevaleçam os legítimos
interesses dos médicos e os projetos em prol da saúde da coletividade.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mai/jun/2007

92
PCCS

Nas últimas semanas, ocorreram protestos, paralisações e greves
na área da saúde, em diversos Estados do Nordeste. A característica
comum a estes movimentos é a queixa em relação às más condições
de trabalho e à péssima remuneração dos médicos. De fato, o que se
observou, ao longo do tempo, foi uma piora acentuada das condições
de trabalho dos médicos, com número excessivo de pacientes para cada
profissional e insuficiência de recursos, equipamentos e medicamentos
para o atendimento digno às reais necessidades da saúde da popula-
ção. Quanto às condições da prática médica nos hospitais de urgência
e emergência, a situação é, muitas vezes, tão dramática, que lembra
verdadeiros campos de guerra. No mesmo diapasão, houve progressiva
deterioração dos salários e honorários dos médicos, particularmente
no serviço público. De tal forma que, aparentemente, os governantes
passaram a achar que o normal é o atual padrão de remuneração dos
médicos. E que são anormais as reivindicações por melhoria salarial.
Tal evolução foi produzindo, entre os médicos, crescente insatisfação,
daí surgindo indignação e revolta.
Em Pernambuco, os médicos do Estado entraram em greve e, após
intensa luta, conquistaram um piso salarial de R$ 1.900,00 (um mil e
novecentos reais). Em Alagoas, a intransigência do Governo estadual fez
com que a greve se estendesse por 88 dias, com grande sofrimento para
pacientes e médicos. Na Paraíba, pugnam os cirurgiões cardiovasculares
por reajuste dos valores pagos pelas cirurgias, algumas das quais, segundo
se noticia, são remuneradas por R$ 70,00 (setenta reais)!
É neste cenário que os médicos da Prefeitura de Fortaleza lutam
pela aprovação do Plano de Cargos, Carreiras e Salários. E pleiteiam
um PCCS exclusivo para a categoria médica, com regras bem defini-
das de progressão por tempo de serviço e promoção por capacitação,
e com dispositivos que assegurem tranquilidade na aposentadoria dos
93
profissionais da Medicina que dedicam toda uma vida ao atendimento
dos pacientes – a grande maioria da nossa população – que dependem
exclusivamente dos serviços públicos de saúde. Neste contexto, o forta-
lecimento do piso salarial, atualmente abaixo de dois salários mínimos,
é uma bandeira da maior importância para os médicos. A reivindicação
do nosso movimento é pelo piso salarial fixado pela FENAM (Federação
Nacional dos Médicos), ou seja, R$ 3.481,76 por 20 horas semanais
de trabalho, sendo aceitável a concessão imediata de metade do piso
(R$ 1.740,88), e a outra metade ao longo dos próximos quatro anos.
Por outro lado, não mais aceitamos trabalhar em condições indignas
para médicos e pacientes. Queremos dispor do tempo e dos recursos
necessários para atender com zelo, dedicação e competência cada um
dos pacientes sob nossos cuidados. Esta é uma exigência ética.
A negociação com a Prefeitura de Fortaleza acerca de todas estas
questões vem sendo conduzida pelo Sindicato dos Médicos, juntamente
com o Conselho Regional de Medicina do Ceará e a Associação Mé-
dica Cearense, com a participação decisiva dos médicos da Prefeitura
(IJF, Frotinhas, hospitais e postos de saúde, SAMU, IPM e Programa
Saúde da Família). Estão sendo realizadas assembleias semanalmente,
com engajamento crescente dos médicos, fortalecendo o justo pleito
reivindicatório. Não vamos deixar que a inabilidade dos interlocutores
da prefeitura acirre perigosamente os ânimos. A clara compreensão dos
direitos e da importância social da Medicina e a mobilização dos mé-
dicos são nossas armas mais importantes. Com firmeza, determinação
e sensatez, conseguiremos a vitória.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jul/ago/2007

94
LUTAS MÉDICAS

Após quatro meses de muita luta, os médicos da Prefeitura de
Fortaleza, sob a coordenação do Sindicato dos Médicos do Ceará, Con-
selho Regional de Medicina e Associação Médica Cearense, chegaram
a um acordo com a administração municipal. Pela proposta aprovada,
o Vencimento Básico (VB) dos médicos, que era de pouco mais de
setecentos reais, passa a R$ 1.700,00 (um mil e setecentos reais), além
de estar previsto mecanismo de aumento percentual na incidência das
gratificações sobre o VB, nos anos de 2008 a 2010. O acordo coroou
um processo de muito esforço, incontáveis reuniões e assembleias e
até mesmo momentos de irritação e debates acalorados. Terá, porém,
que ser complementado por dispositivos que devem constar do PCCS
(Plano de Cargos, Carreiras e Salários), assegurando os legítimos
direitos dos médicos em sua progressão funcional ao longo do tempo.
Ademais, não se pode aceitar que certos direitos básicos previstos em
lei (citamos o caso específico da insalubridade) fiquem por meses e me-
ses sem ser implantados, como vem ocorrendo com vários dos nossos
colegas. Este é um dos pontos fundamentais do nosso diálogo com a
Prefeitura de Fortaleza e, particularmente, com o Secretário de Saúde,
Dr. Luiz Odorico. Nos termos do documento encaminhado ao Sindi-
cato dos Médicos pela Secretaria de Administração de Fortaleza, será
feito, depois da discussão do PCCS, “um calendário para pagamento
das gratificações da saúde em geral”.
Estando nesta etapa de todo o processo, cabem algumas reflexões
e análises, voltadas para a avaliação do movimento. Primeiro, temos de
reconhecer que há muitos anos os médicos cearenses não faziam uma
mobilização de tamanha envergadura. E foi, certamente, a amplitude
da mobilização que nos levou às conquistas já referidas. Entendemos,
ainda, que não podemos desperdiçar o que aprendemos em termos
de amadurecimento político e compreensão da complexa e dinâmica
95
relação dos gestores com os médicos. Pelo contrário, o processo deve
continuar, visando, no momento seguinte, a construção do PCCS para
os médicos do Estado do Ceará. Apontando, ao mesmo tempo, no
sentido da estruturação de uma carreira de Estado para os médicos.
Voltando, agora, ao PCCS da Prefeitura de Fortaleza, não podemos
negar que houve, ao longo da nossa empreitada, alguns senões que merecem
particular atenção. O primeiro deles diz respeito aos médicos do Programa
Saúde da Família, os quais reivindicam, com razão, ganho real em seus
vencimentos e regulamentação de suas gratificações, de modo que estas
sejam estabelecidas consistentemente, dando a segurança aos profissionais
médicos de que não ficarão à mercê dos humores das autoridades atuais ou
futuras. Em compromisso assumido publicamente pelo gestor municipal,
foi afirmado que todos estes temas serão discutidos, com a participação dos
médicos do PSF, a partir de abril de 2008. De outro lado, há os médicos
que têm isonomia, os quais se veem ameaçados de perda do complemento
que conquistaram por via judicial. Por diversas vezes, tanto nas assembleias
médicas como nas reuniões com os gestores, tivemos a oportunidade de
argumentar que a entrada no Plano de Cargos deveria dar-se por adesão,
não de forma impositiva. E, ainda, que as pendências judiciais deveriam ser
resolvidas no fórum adequado, ou seja, no âmbito da Justiça. Mantemos
este entendimento e somos contrários a qualquer ruptura ou divisão entre
os colegas.
Achamos que a força do movimento médico reside precisamente
na sua unidade, ao lado, é claro, da justeza das reivindicações. Seguindo
estes princípios, temos chances de conquistar condições dignas de tra-
balho e remuneração justa. Podendo, assim, ter tranquilidade para dar
o melhor do nosso conhecimento em benefício da saúde dos pacientes.

Publicado originalmente no jornal Conselho em set/out/2007

96
IV CONGRESSO CIENTÍFICO
E ÉTICO DO CREMEC*

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará inicia, no
dia de hoje, o IV Congresso Científico e Ético do CREMEC, conclave
que se associa ao IV Congresso das Câmaras Técnicas e Comissões
de Ética da instituição. Como nos anos anteriores, o evento consta de
ampla programação, abrangendo as grandes áreas básicas da atividade
médica, como Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia, Cirurgia Geral e
Clínica Médica. Simultaneamente, questões fundamentais da Ética
Médica e da Bioética serão abordadas por vultos ilustres da Medicina
do Ceará e de outros Estados da Federação. Temas como iatrogenia,
terminalidade da vida, ortotanásia, aborto, anencefalia, células-tronco,
responsabilidade médica, estarão ao lado do estudo e discussão das
enfermidades mais importantes em nosso meio.
Dá, o Conselho de Medicina, prosseguimento ao seu Programa
de Educação Médica Continuada, que inclui atividades em Fortaleza
e nas cidades do interior do Estado, com a realização de congressos
científicos e fóruns de ética médica, buscando levar a todos os médicos
cearenses a preocupação com o exercício de uma medicina ética,
competente e socialmente comprometida com as necessidades de saúde
da população. O que se traduz pelo engajamento decidido do CREMEC
na defesa do Sistema Único de Saúde. E na exigência de concurso
público em todos os níveis. E nos leva, de imediato, à cobrança para
que sejam chamados os médicos aprovados no concurso para o Estado
do Ceará, ocorrido há um ano.
Mas esta é também a oportunidade para juntarmos forças em
prol da estruturação de uma carreira de Estado para o médico, que
expresse o reconhecimento da importância dos profissionais da Medicina
para a saúde da coletividade. Ao mesmo tempo, nos juntamos aos que
lutam pela implementação da emenda constitucional nº 29, no sentido
97
de que haja os necessários avanços no financiamento do setor saúde.
Queremos, também, neste momento, destacar a recente luta
que os médicos da Prefeitura de Fortaleza desenvolveram pelo Plano
de Cargos, Carreiras e Salários, que teve momentos de grande tensão
nos últimos quatro meses. A deterioração da remuneração profissional
e a falta de garantia mínima no que se refere aos direitos trabalhistas
culminaram por levar os médicos a uma situação de indignação e revolta.
Em decorrência disto, em vários momentos foi aventada a possibilidade
de decretação de greve, inclusive nos serviços de emergência. Porém,
no dia de ontem, os médicos deram uma grande demonstração de
maturidade. Assim, na véspera do “Dia do Médico”, os esculápios
disseram não à greve e reafirmaram o compromisso histórico da
Medicina com a saúde dos pacientes. A próxima etapa desta importante
luta será a construção do Plano de Cargos, Carreiras e Salários para
os médicos do Estado do Ceará. Projeto em que certamente terão
participação decisiva o Presidente do Sindicato dos Médicos, Dr. José
Tarcísio da Fonseca Dias, a Presidente da Associação Médica Cearense,
Dra. Marjorie Mota e o médico e vereador Dr. José Maria Pontes, aos
quais rendo homenagem neste momento.
E há outras homenagens que, com muita alegria, o Conselho
Regional de Medicina do Estado do Ceará presta, na data de hoje.
O Plenário do CREMEC escolheu, por unanimidade, três médicos
para receberem a MEDALHA DE HONRA AO MÉRITO
PROFISSIONAL. São eles os Doutores:
João Martins de Sousa Torres
José Aluizio da Silva Soares
Maria Auxiliadora de Souza
Por sua vez, será entregue o DIPLOMA DE MÉRITO ÉTI-
CO-PROFISSIONAL aos médicos que completaram 50 (cinquenta)
anos de exercício da profissão médica sem jamais terem sofrido sanção
ético-profissional de qualquer natureza. Os agraciados são:

98
Abner Cavalcante Brasil
Antero Coelho Neto
Antonio Carlos dos Santos Oliveira
Edmar Teixeira Vieira
Ernani Holanda Barreira
Francisco de Paiva Freitas
João Paiva Freitas
Jonathas Nunes de Barros
José Ernani Maciel de Lima
José Iran dos Santos
José Maria Primo de Carvalho
Viliberto Cavalcante Porto
Os médicos homenageados, ilustres praticantes da arte
hipocrática, se tornaram exemplos para todos os médicos cearenses,
merecendo o respeito e a admiração de todos os que veem a saúde
como um dos maiores bens do ser humano.
Por ser de justiça, queremos fazer alguns agradecimentos
nesta sessão solene de abertura do Congresso; ao Conselho Federal
de Medicina, na pessoa do seu Presidente, Dr. Edson de Oliveira
Andrade; aos representantes dos Conselhos Regionais de Medicina;
aos Professores convidados para as conferências e mesas-redondas do
conclave, vários dos quais vieram de outros Estados; aos Conselheiros
e membros das Câmaras Técnicas do CREMEC, particularmente os de
Clínica Médica, Pediatria, Cirurgia Geral e Ginecologia e Obstetrícia.
Estes profissionais, mestres da Medicina e da Ética Médica, enriquecem
nosso congresso e merecem toda a nossa gratidão. Cabe, ainda,
uma referência especial ao Dr. José Eduilton Girão, Presidente da
Comissão Científica do conclave, e ao Dr. Lino Antonio Cavalcanti
Holanda, da Comissão Executiva, pela enorme dedicação em todas as
etapas do congresso. Por fim, destacamos o trabalho operoso do Dr.
Vladimir Távora Fontoura Cruz, com a sua equipe, e dos funcionários

99
do CREMEC, representados aqui na pessoa da Sra. Fátima Maria
Sampaio de Barros.
Nossas boas vindas a todos os participantes do Congresso.
E parabéns pelo Dia do Médico.

Muito obrigado.

*Discurso de abertura do IV Congresso Científico e Ético do Conselho
Regional de Medicina do Estado do Ceará, no dia 18/10/07

100
E LA NAVE VA

O ano de 2007 foi prolífico em realizações, avanços e impasses.
O Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará trabalhou
intensamente na fiscalização do exercício da Medicina, na apuração
das denúncias de possíveis infrações às normas éticas da profissão, na
organização de cursos, fóruns, congressos e seminários voltados para o
aprimoramento científico e ético dos médicos, e na luta por melhores
condições de trabalho e de remuneração para os profissionais da Me-
dicina.
O CREMEC deu prosseguimento ao Programa de Educação Mé-
dica, com a realização do IV Congresso Científico e Ético do CREMEC,
junto com o IV Congresso das Câmaras Técnicas e Comissões de Ética,
em Fortaleza, e do II Curso de Medicina de Família e Comunidade,
nas cidades de Fortaleza e Juazeiro do Norte. Também foram realizados
Cursos de Emergências Médicas Traumáticas e Não Traumáticas nas
cidades de Tauá e Jaguaribe.
Fóruns de Ética Médica ocorreram nas cidades de Tauá, Limoeiro do
Norte, Camocim, Aracati, Jaguaribe, Horizonte, Maracanaú e Quixadá,
abordando o Programa Saúde da Família, Responsabilidade Profissional,
Relação Médico-Paciente, Perícia Médica, Segredo Médico, Atestados
Médicos, Comissões de Ética e Corpo Clínico dos hospitais. Os Fóruns
de Ética dos Hospitais de Fortaleza foram organizados pelo Conselheiro
José Roosevelt Norões Luna, tendo sido realizados no Hospital Monte
Klinikum, Hospital das Clínicas Walter Cantidio, Hospital da Polícia
Militar e Hospital São Carlos, com a discussão de temas como Plantão
Médico, Prontuário Médico, Auditoria, Publicidade, Relação Médico-
Paciente, Relação entre Médicos, Atestados Médicos, Segredo Médico
e Responsabilidade Profissional.

101
A atividade de fiscalização da Medicina, comandada pelos Conse-
lheiros José Málbio Oliveira Rolim, Maria Neodan Tavares Rodrigues
e Lino Antonio Cavalcanti Holanda, foi intensificada, tendo sido visi-
tados cerca de 60 municípios do interior do Estado e vários hospitais
e postos de saúde em Fortaleza. Na vistoria dos hospitais e do PSF dos
municípios, feita sempre em articulação com a Promotoria de Justiça
de Defesa da Saúde Pública, foram detectados e corrigidos alguns pro-
blemas, tais como a falta de prontuários médicos em alguns serviços,
a carência de equipamentos indispensáveis ao trabalho médico, ou a
ocorrência de prescrições por profissionais não médicos; houve, ainda,
a identificação de casos de exercício ilegal da Medicina. Em alguns
hospitais, foi constatado que não havia Diretor Técnico; ou este cargo,
privativo de médicos, era exercido por profissional não médico. Todas
essas irregularidades foram corrigidas ou denunciadas às autoridades
competentes. No caso específico do PSF, advertências foram feitas em
alguns municípios, no sentido da adequação do número de famílias a
serem atendidas por cada médico, evitando-se, assim, que o excesso de
trabalho comprometa o bom atendimento à saúde da população.
Algumas reivindicações setoriais tiveram encaminhamento satis-
fatório. Foi o que aconteceu com os Cirurgiões Cardiovasculares, que
chegaram a um acordo com as Secretarias de Saúde de Fortaleza e do
Estado do Ceará, com a adoção da CBHPM, com redutor de 22%,
para o pagamento dos procedimentos da especialidade. Nas reuniões
que levaram à solução da pendência, teve participação ativa o membro
da Câmara Técnica do CREMEC, Dr. João Martins de Souza Torres.
Da mesma forma, o Conselho contribuiu para resolver parcialmente o
impasse com os Anestesiologistas da região do Cariri, os quais voltaram
a atender os pacientes. Gestões também foram realizadas para melhorar
o setor de Cirurgia do HGF, no que se refere aos cirurgiões ligados à
Cooperativa de Cirurgiões Gerais, resultando no aumento do número
de cirurgiões de cada equipe de plantão, aumento da remuneração do

102
plantão e melhoria do funcionamento da sala de recuperação pós-anes-
tésica. Indiscutivelmente, porém, o movimento mais aguerrido foi o
dos médicos da Prefeitura de Fortaleza, que culminou em conquista
salarial para muitos colegas, mas deixou insatisfação nos médicos do IJF.
Possivelmente, será elaborado um Plano de Cargos, Carreiras e Salários
específico para os esculápios dessa instituição.
Certamente, o labor continuará em 2008, ano em que pretendemos
iniciar a construção da nova sede do Conselho de Medicina, dotando o
órgão de instalações mais adequadas para o atendimento à comunidade
e aos quase oito mil médicos em atividade em nosso Estado.
Os integrantes do Conselho de Medicina desejam que todos os
médicos do Estado do Ceará tenham um Ano Novo pleno de realiza-
ções, paz e alegria.

Publicado originalmente no jornal Conselho em nov/dez/2007

103
D. JOÃO VI E A CIDADE DE QUIXADÁ

Nos últimos meses, diversos livros e reportagens foram publica-
dos relembrando a chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil, fato
ocorrido em 1808, há 200 anos, portanto. E há motivos para que o
singular acontecimento seja posto em destaque. Com efeito, há quem
considere que a História do Brasil só começou, verdadeiramente, com
D. João VI, cuja figura passa, atualmente, por uma espécie de revisão
histórica. Mas, o que o dito personagem tem a ver com a Medicina
brasileira? Certamente não é a circunstância de terem as ilustres damas
da comitiva real sido acometidas de vergonhosa e incômoda praga de
piolhos, obrigando-as à adoção de práticas higiênicas vexatórias, aí se
incluindo jogar fora as perucas e raspar os cabelos da cabeça... Não é,
decerto, a parte burlesca da odisseia da Família Real que nos interessa.
Queremos assinalar, isto sim, que o Príncipe D. João VI, logo após
chegar ao Brasil, desembarcando na Bahia, determinou a “abertura dos
portos às nações amigas”, mas também ordenou a abertura da primeira
Faculdade de Medicina do Brasil, a ser instalada na cidade de Salvador.
Convém lembrar que, apesar de o Brasil Colônia já contar, en-
tão, com 300 anos de existência – período caracterizado, é verdade, por
uma exploração predatória no mais alto grau – as condições de saúde da
população eram reconhecidamente precárias. Mesmo nas cidades mais
importantes, dificilmente se poderia encontrar um profissional formado
em Medicina. Na prática, ficava a cargo dos barbeiros boa parte dos
procedimentos hoje tidos como atos médicos. A iniciativa de D. João
VI foi, por conseguinte, altamente benéfica, iniciando um processo de
criação de cursos médicos e de formação de esculápios em nossa pró-
pria terra. Embora, é claro, ainda necessitássemos esperar muito para
termos médicos nas diversas regiões do país. O que é relatado por Lira
Neto (O Poder e a Peste - A vida de Rodolfo Teófilo, Edições Fundação
Demócrito Rocha, 1999), o qual afirma que no Estado do Ceará, nos
105
anos de 1852 e 1853, quando eclodiu uma epidemia de febre ama-
rela – enfermidade que volta a nos ameaçar atualmente -, só havia
três médicos, o Dr. Marcos José, pai do grande Rodolfo Teófilo, o
Dr. José Lourenço e o Dr. Marcos Carreira.
É fato notório, porém, que nas últimas décadas o Brasil passou
a viver um extraordinário e rápido crescimento do número de cursos
médicos. Já ultrapassamos, de muito, uma centena de Faculdades de
Medicina no país, sete das quais no Estado do Ceará (recordemos que,
há 10 anos, tínhamos apenas a combativa e resistente Faculdade de
Medicina da UFC, fundada em 1948). E há, tramitando no Ministério
da Educação, dezenas de requerimentos de criação de novos cursos de
Medicina. Parece que, em futuro próximo, não mais sofreremos a falta
de médicos. Outros serão os problemas de saúde...
Mas, voltando a 1808, é com justa razão que o Estado da Bahia, com
a participação ativa do CRM daquela jurisdição, está comemorando,
com pompa e circunstância, o ato de abertura da primeira Faculdade
de Medicina do Brasil. Enquanto isto, a cidade de Quixadá, aqui nas
valorosas plagas alencarinas, apresenta o projeto psicopedagógico da
Faculdade de Medicina que está prevista para a região dos monólitos.
Resta-nos o direito e o dever de cobrar boa qualidade dos cursos médicos
antigos e novos, corpo docente qualificado e com adequadas condições
para o desempenho do seu mister, hospital universitário em condições
de proporcionar boa assistência à saúde da população e preparação
adequada aos futuros médicos. E que não deixem morrer a venerável
Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jan/fev/2008

106
CÓDIGO DE ÉTICA EM DEBATE

Em 1988, foi aprovada a Constituição da República Federativa
do Brasil, chamada “Constituição Cidadã”. Já em seu primeiro artigo, a
carta magna consagra a cidadania e a dignidade da pessoa humana como
fundamentos da República e, por extensão, da ordem jurídica brasileira.
O Código de Ética Médica, também aprovado em 1988, resultou de
uma ampla discussão, para a qual foram convidados os médicos de todo
o país, os Conselhos de Medicina, os Sindicatos Médicos e as Associações
Médicas, além de outras entidades da sociedade civil organizada. O fruto
deste trabalho coletivo foi um código de ética identificado com a defesa
dos direitos humanos, contemplando os princípios tradicionais da ética
médica, a exemplo do compromisso básico do médico com a vida e a
saúde do ser humano, devendo sempre agir em benefício dos pacientes
e da saúde da coletividade. Porém, outros temas menos ressaltados em
normas éticas anteriores também foram incluídos. Surgiu, por exemplo,
um capítulo sobre a pesquisa médica, incorporando os conceitos ema-
nados das declarações internacionais, como o Código de Nuremberg e a
Declaração de Helsinki, e afirmando a prioridade da saúde e da vida do
indivíduo em relação aos interesses da Ciência e da sociedade. Tal formu-
lação, fundamental em significado e simbolismo, se tornou imperativa
a partir do conhecimento de pesquisas realizadas sem o menor respeito
aos direitos das pessoas envolvidas, particularmente com as denúncias
acerca de experimentos feitos por médicos nazistas. Ademais, um capítulo
do Código foi dedicado aos Direitos Humanos, e aqui, como em várias
outras passagens da norma, ficou expresso que, em regra, todo e qualquer
procedimento médico só pode ser efetuado após o consentimento livre
e esclarecido do paciente. Uma outra novidade foi o capítulo sobre os
Direitos dos Médicos, entre os quais figura a prerrogativa do médico de
se insurgir contra as condições de trabalho que sejam indignas para a
prática da Medicina ou prejudiciais aos pacientes.
107
Nos anos seguintes, foi ficando patente a necessidade de ela-
boração de normas éticas complementares ao Código. Como exemplo,
tivemos a Resolução do Conselho Federal de Medicina sobre morte
encefálica, definida como equivalente à morte clínica. E também a
Resolução sobre Reprodução Assistida (Res. CFM 1.358/92), que
aborda temas delicados e complexos, como a vedação do descarte dos
pré-embriões, a criopreservação de gametas ou pré-embriões e a doação
temporária do útero (barriga de aluguel).
Novas vertentes da prática médica foram surgindo, com a for-
mação de complexas organizações prestadoras de serviços médicos, a
expansão dos Planos de Saúde, das Cooperativas Médicas e das empresas
de seguro saúde, colocando novos desafios e indagações sobre a forma
ética de exercer “a arte de curar”. Por sua vez, o progresso tecnológico
e científico trouxe para o cotidiano médico realidades antes perten-
centes ao domínio da ficção, suscitando inusitadas questões éticas e
jurídicas. Uma ilustração disto é o debate que vem ocorrendo no Brasil
– e também em vários outros países – sobre a clonagem e a utilização
de células-tronco em pesquisas, matéria que ocupa, neste instante, os
ministros do Supremo Tribunal Federal. Com efeito, o surgimento da
ovelha Dolly, demonstrando que era possível clonar um mamífero, de-
sencadeou todo um processo que está longe de se esgotar, abrangendo
desde a possibilidade de clonagem de um ser humano até a utilização da
tecnologia de transferência nuclear para a produção de células-tronco,
descortinando todo um universo de enormes benefícios para os doentes.
E aqui, mais uma vez, o princípio da dignidade humana volta à pauta,
como o valor primacial a ser levado em conta na abordagem de todas
essas questões. Não podemos concordar que a pesquisa científica se faça
ao arrepio do respeito à vida, à liberdade e à dignidade do ser humano.
No entanto, com igual ênfase, consideramos inaceitável que posturas
facciosas travem o progresso da ciência, como tantas vezes já ocorreu
na história da humanidade.

108
Concluímos esta reflexão solicitando que os médicos cearenses
contribuam para o encaminhamento da seguinte questão: o Código
de Ética Médica deve sofrer acréscimos, modificações? Ou deve ser
substituído por um novo Código? Que novas vertentes éticas devem ser
necessariamente incorporadas à carta magna dos médicos brasileiros?
O Conselho de Medicina do Ceará fica aguardando as manifestações
dos colegas.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mar/abr/2008

109
ELEIÇÕES

No próximo mês de outubro, teremos eleições para prefeitos e
vereadores em mais de cinco mil municípios brasileiros. O evento
cívico é uma oportunidade para que os cidadãos exerçam a prerroga-
tiva fundamental de escolher os representantes municipais que ficarão
ã frente das ações administrativas e legislativas nas diversas urbes do
país. É, portanto, necessário que os eleitores analisem quais candidatos
assumem verdadeiro compromisso com a melhoria da qualidade de
vida dos munícipes e o aprimoramento do sistema democrático. Quais
dentre eles têm histórico de engajamento nas lutas pela saúde pública
e por educação ao alcance de todos.
Ao mesmo tempo, teremos no ano de 2008, precisamente no mês
de agosto, as eleições para os Conselhos de Medicina de todo o país (no
Ceará, o pleito ocorrerá no dia 7 de agosto de 2008). Como é ampla-
mente conhecido, os Conselhos de Medicina têm, por determinação
legal, atribuições voltadas para a fiscalização do exercício da Medicina, a
promoção do perfeito desempenho ético, técnico e científico da prática
médica e a apuração das possíveis infrações às normas éticas da profis-
são médica, particularmente as contidas no Código de Ética Médica.
Código que, por sinal, passa por ampla discussão, no momento em que
completa vinte anos de vigência, possibilitando, talvez, a incorporação
das novas realidades trazidas pelo progresso científico - a exemplo da
clonagem, com a utilização de células-tronco, e da Medicina Preditiva - e
pelas mudanças relacionadas com a terceirização dos serviços médicos
e o crescimento gigantesco do complexo médico-industrial. Além de
trabalharem ativamente em torno dos temas referidos, os Conselhos de
Medicina também se juntam aos Sindicatos Médicos e às Associações
Médicas na luta por melhores condições de trabalho e remuneração
digna para os médicos. Foi o que fez o Conselho de Medicina do Estado
do Ceará, no tormentoso processo que resultou na conquista do Plano
111
de Cargos, Carreiras e Salários dos médicos da Prefeitura de Fortaleza,
no ano de 2007. E é o que continua realizando em 2008, agora visando
conseguir o PCCS dos médicos do Estado, aí embutida uma significativa
melhoria dos parâmetros de remuneração. Realmente, somos sabedores
de que muitos dos mais de setecentos médicos que estão sendo chamados
para integrar os quadros de especialistas da Secretaria de Saúde do Estado
do Ceará, aprovados que foram em concurso público realizado ainda
em 2006, dificilmente permanecerão no serviço público, se os salários
pagos pelo Governo do Estado continuarem nos patamares atuais. Foi
isto que as entidades médicas cearenses transmitiram ao Governador
do Estado, em audiência realizada no mês de maio próximo passado,
ocasião em que o Presidente do CREMEC expressou preocupação com
a deterioração dos serviços públicos de saúde, diante do desalento dos
médicos com as más condições de trabalho e a remuneração extrema-
mente baixa, tendo ainda alertado Sua Excelência de que, pelas razões
apontadas, muitos médicos aprovados no concurso pensam em não
assumir o emprego.
Sendo assim, é fundamental que os médicos do Estado, os antigos
e os novos, participem do esforço reivindicatório que vem sendo con-
duzido pelo SIMEC, junto com a AMC e o CREMEC. É essencial
que os médicos compareçam às Assembleias da categoria, reforçando a
luta pelo reconhecimento da dignidade da profissão médica, por con-
dições de trabalho que possibilitem um melhor atendimento à saúde
da população e por uma remuneração compatível com a importância
social e científica da Medicina.
Mas, redirecionando o foco de nossa análise para as eleições do
Conselho de Medicina, enfatizamos que, com este leque de atividades,
e sendo constantemente solicitado a agir em relação aos vários pro-
blemas da Medicina e da saúde como um todo, o CRM necessita ter
em seus quadros médicos que se disponham a contribuir, não só com
seu trabalho no atendimento aos pacientes, mas também dedicando

112
parte do seu tempo à tarefa de transmitir aos colegas a mensagem de
que a Medicina deve continuar sendo exercida com zelo, dedicação,
solidariedade e espírito humanista. É com base nesta concepção que
pretendemos chegar às eleições do Conselho Regional de Medicina do
Estado do Ceará, em 7 de agosto de 2008.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mai/jun/2008

113
AS ELEIÇÕES E A FUTURA
GESTÃO DO CRM

No dia 7 de agosto passado, ocorreu a eleição para o Conselho
Regional de Medicina do Estado do Ceará. Apesar da lamentável falha
do não recebimento, pelos médicos, da correspondência enviada pe-
los membros da única chapa concorrente ao pleito, o que aconteceu,
esclareça-se, por descumprimento de obrigação contratual por parte
da firma encarregada da entrega da missiva – em decorrência, estamos
preparando ação na justiça contra os agentes (ir)responsáveis pela in-
desculpável negligência –, houve amplo comparecimento dos médicos
ao evento cívico, o que deu margem a várias cenas de confraternização
dos médicos com amigos e colegas de turma. Um deles chegou a sugerir
que as eleições do Conselho fossem realizadas anualmente, pois assim
poderia rever com mais frequência os companheiros de profissão. Ao
final, foram computados 4.829 votos, dos quais 4.094 foram dados à
chapa “Ética e Cidadania”, perfazendo 84,7% dos médicos votantes.
Muitos outros médicos deram entrada em justificativa para a ausência
às eleições, por motivos relevantes (doença, plantão, viagem, compa-
recimento a congressos, etc.).
É bom que se diga, ademais, que a Comissão Eleitoral, presidida
pelo digno e competente colega Dr. João Adolfo de Carvalho Nogueira,
que teve a companhia dos médicos Delano Gurgel Silveira e Edilson
Lucas de Morais, como Secretários, agiu com dedicação e diligência,
providenciando todos os atos administrativos da eleição e se assegurando
de que os editais sobre as eleições fossem publicados com a devida ante-
cedência no Diário Oficial do Estado e em jornal de grande circulação
em nossa terra. Fez ainda chegar aos médicos comunicação sobre a data,
os locais e horário da eleição.
Os quarenta (40) médicos eleitos, entre os quais se incluem doze
(12) novos Conselheiros, agradecem a todos os médicos cearenses pela
manifestação de apoio e assumem o compromisso de aplicação e zelo
no trabalho de fiscalização da profissão médica, promoção do perfeito
115
desempenho ético e científico da Medicina e luta pela melhoria da
assistência prestada à saúde da população cearense. Haverá também
um grande esforço da futura gestão para a construção da nova sede do
CREMEC. Congressos, cursos, seminários e fóruns científicos e de
ética médica serão empreendidos, dando continuidade ao Programa
de Educação Continuada do Conselho Regional de Medicina do Es-
tado do Ceará, uma iniciativa fundamental para o aprimoramento dos
médicos cearenses, além de relevante ação preventiva de faltas técnicas
e éticas. Os grandes temas de bioética estarão, igualmente, na pauta
da próxima gestão. Entre eles, a recente discussão sobre a Declaração
de Helsinki, o documento da Associação Médica Mundial sobre ética
em pesquisa. Aqui, destacamos três tópicos: a pesquisa em crianças, o
uso de placebo em pesquisa de novos fármacos e a garantia de que os
sujeitos das pesquisas terão assegurado o respectivo tratamento após o
término da investigação.
Prosseguirá, outrossim, o esforço em prol de melhores condições
de trabalho e de uma remuneração decente para todos os médicos do
Estado do Ceará.
Em conclusão, e falando em nome de todos os conselheiros esco-
lhidos para o próximo mandato do CRM, queremos expressar nosso
reconhecimento e nossa alegria pela deferência de que fomos alvo da
parte dos médicos de todo o Estado. Ao mesmo tempo, convidamos
os colegas a se manterem próximos do Conselho de Medicina, ofere-
cendo suas sugestões e críticas, exercitando a construção coletiva de
uma proposta digna, ética e com sólida base científica para a prática
da Medicina no Estado do Ceará.
Sintam-se todos convidados para a posse do novo Corpo de Con-
selheiros do CREMEC, a ocorrer no início de outubro de 2008.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jul/ago/2008

116
DISCURSO DE POSSE*

Senhoras e Senhores

Estamos iniciando um novo mandato no Conselho Regional de
Medicina do Estado do Ceará. E também concluindo o mandato ante-
rior. O que nos leva a fazer um balanço das atividades desenvolvidas nos
últimos cinco anos, sopesando erros e acertos, para melhor fundamentar
o planejamento do novo período à frente da entidade.
Contabilizando o trabalho realizado, tivemos um intenso esforço
de fiscalização da profissão médica, alcançando a totalidade dos muni-
cípios cearenses. O que nos permitiu identificar carências nos hospitais
e no Programa Saúde da Família de algumas cidades, que repercutiam
nas condições de trabalho dos médicos, dificultando a prestação de
um adequado atendimento à saúde da população. Todos os problemas
constatados foram alvo de cobrança junto às autoridades de saúde dos
respectivos municípios, além de comunicação à Secretaria Estadual de
Saúde e à Promotoria de Defesa da Saúde Pública, órgãos com os quais
o Conselho Regional de Medicina mantém parceria, somando esforços
para a solução dos problemas de saúde do Estado do Ceará. Ademais,
foram verificados alguns casos de exercício ilegal da Medicina, o que
levou o Conselho a cobrar um maior cuidado por parte dos gestores
de saúde quando da contratação de novos médicos.
Ressalte-se o trabalho pedagógico e de prevenção das faltas éticas,
desenvolvido sob a forma de seminários, fóruns e congressos científicos
e éticos. O Conselho promoveu 47 fóruns de ética médica no interior
do Estado e cerca de 20 fóruns na cidade de Fortaleza, sempre com
a discussão de temas como relação médico-paciente, responsabilidade
profissional, atestados médicos, perícia médica, direitos dos médicos e
outros assuntos considerados relevantes para a situação específica vivida
por cada hospital ou serviço visitado. Com frequência, são utilizadas
117
situações que foram objeto de investigação ou estudo pelo Conselho,
para ilustrar dilemas com os quais os médicos podem se deparar no
exercício de sua atividade profissional.
O Programa de Educação Médica Continuada, levado a efeito
pelo Conselho de Medicina, incluiu, ademais, diversos cursos, em
atendimento às solicitações dos médicos. Assim, foi realizado o Curso
de Medicina de Família e Comunidade, com um ano de duração e
abrangendo, em sua primeira edição, turmas nas cidades de Fortaleza,
Juazeiro do Norte, Sobral e Crateús. Um ano depois, o curso teve uma
segunda edição, nas cidades de Fortaleza e Juazeiro do Norte. Por seu
turno, ocorreram cursos de Perícia Médica e de Urgência e Emergência.
Sem esquecer o Congresso Científico e Ético do CREMEC, realiza-
do por duas vezes na cidade de Fortaleza, e por três vezes em Sobral
e Juazeiro do Norte. Ressalte-se que todas estas atividades científicas
e éticas promovidas pelo CREMEC foram efetivadas com inscrições
gratuitas para os médicos, dentro da concepção de que correspondiam
a uma contrapartida da entidade para com os seus médicos inscritos.
O trabalho de apuração de possíveis infrações às normas éticas
da profissão médica também mereceu uma especial atenção. Todas as
denúncias chegadas ao Conselho foram analisadas, resultando na ins-
tauração dos procedimentos administrativos pertinentes. Traduzindo
isto em números, no mandato que ora se encerra foram recebidas 821
denúncias e julgadas 821 sindicâncias e 144 processos ético-profis-
sionais.
Uma atuação laboriosa e coroada de êxito teve o Conselho de Medi-
cina, ao lado do Sindicato dos Médicos do Ceará e da Associação Médica
Cearense, na luta pelo Plano de Cargos, Carreiras e Salários, tanto
para os médicos da Prefeitura de Fortaleza, em processo vitorioso levado
a efeito em 2007, como para os do Estado do Ceará, cujas negociações
se encontram em etapa bastante avançada. De fato, ao longo do tempo
vinha ocorrendo uma verdadeira deterioração na remuneração médica,

118
levando os esculápios ao desalento e à desesperança. Muitos médicos
já falavam em abandonar o serviço público, e numerosos profissionais
aprovados no último concurso para médicos do Estado relutavam em
assumir as novas funções tendo em vista os salários irrisórios. De forma
alvissareira, porém, estamos vivendo um momento que parece traduzir
um processo de revitalização do emprego e da remuneração médica.
E nada mais pertinente que a participação do Conselho de Medicina
nesta empreitada, tendo em vista a formulação do Código de Ética
Médica, onde se lê que “a fim de que possa exercer a Medicina com
honra e dignidade, o médico deve ter boas condições de trabalho e ser
remunerado de forma justa”.
É tendo por parâmetro este conjunto de realizações do último
mandato que os novos conselheiros assumem agora uma nova etapa de
trabalho e de lutas, com a responsabilidade do empenho e da dedicação
no sentido de que seja ampliado e enriquecido o que foi construído
nos períodos anteriores. Muito há que ser feito, não só nas linhas de
trabalho anteriormente apontadas, ou seja, na fiscalização, na ação
judicante e na educação médica continuada, como na contribuição da
entidade para as conquistas sociais e da cidadania, entre as quais ocupa
um lugar de destaque a luta pela efetivação do direito universal à saúde.
O fortalecimento do Sistema Único de Saúde, voltado para o atendi-
mento universal, equânime e resolutivo à saúde de todos os cidadãos do
país, é e continuará sendo bandeira histórica do Conselho Regional de
Medicina do Estado do Ceará. A chapa eleita, com o sugestivo nome
“Ética e Cidadania”, tem o compromisso de contribuir para a afirmação
dos princípios de humanismo, solidariedade, zelo e dedicação à saúde
do ser humano que caracterizam a profissão médica.
Torna-se patente, outrossim, que uma especial atenção deve ser
dedicada aos 7 cursos de Medicina atualmente existentes em nosso
Estado, sempre com a preocupação de que os futuros médicos recebam
uma formação técnico-científica condizente com as atuais necessidades

119
de saúde da população alencarina; do mesmo modo, que os temas éti-
co-morais tenham um lugar de destaque na grade curricular das nossas
Faculdades de Medicina. E nesta matéria, o Conselho de Medicina tem
condições de dar importante contribuição. Por sinal, com o aumento
mais rápido do número de médicos no Estado do Ceará, vai ficando
evidente a necessidade de o CRM ter uma nova sede, mais ampla e bem
equipada, que melhor atenda às necessidades de todos os que buscam
a entidade. A construção da nova sede do CREMEC é uma das metas
da gestão que ora se inicia.
Uma importante discussão que se dá atualmente se refere a novos
temas de ética e bioética, surgidos com o avanço científico e tecnoló-
gico. Destaco 2 deles, a reprodução assistida e a clonagem, ambos
tornando reais possibilidades antes insuspeitadas, porém trazendo
dilemas éticos relevantes. Ao mesmo tempo em que podem contribuir
para ultrapassar problemas de infertilidade e resultar no tratamento
eficaz para enfermidades até agora incuráveis, colocam em pauta o
direito das próximas gerações, o que abrange o direito do nascituro a
conhecer a própria origem e a ter um futuro aberto. Questões outras,
como a preocupação com a preservação do meio ambiente e com a
biodiversidade, em respeito não só às populações atuais, mas também
às dos séculos vindouros, frequentam as inquietações dos bioeticistas e
devem merecer a nossa atenção.
Enfim, há um vasto campo de matérias para reflexão e elaboração,
sem perder de vista a marca humanista da Medicina através de toda a
sua história. E neste momento, em que se fala em pluralismo demo-
crático, vem à baila a questão do pluralismo moral em um mundo tão
diversificado ao ponto em que um pensador como Engelhardt disse que
somos “estranhos morais”. É um desafio, portanto, identificar pontos
de encontro que possibilitem aos estranhos morais uma convivência
salutar e construtiva. Numa aplicação prática do conceito, precisamos
trabalhar a relação médico-paciente de forma que nela o doente não se
sinta “como um estranho em terra estranha”.
Para concluir, quero agradecer a todos os médicos que apoiaram
120
a eleição da chapa “Ética e Cidadania” e a todos os que vêm participar
da nossa alegria nesta solenidade de posse. Ao mesmo tempo, quero
conclamar os eleitos, entre os quais se incluem 12 novos Conselheiros,
ao trabalho dedicado e contínuo em prol do aprimoramento científico
e ético dos médicos cearenses e da melhoria da atenção à saúde da
população do nosso Estado. É para nós muito claro que, para termos
bom êxito, precisaremos continuar contando com o apoio do Sindicato
dos Médicos do Estado do Ceará, da Associação Médica Cearense e
suas filiadas, das Associações de Especialidades e da Academia Cearense
de Medicina. E desde já agradecemos a dedicação e o empenho dos
membros das Câmaras Técnicas e das Seccionais, dos Representantes
municipais do Conselho e dos funcionários do CREMEC.
Por fim, de um modo todo especial, o meu agradecimento à minha
família: minha mulher, Rita, e meus filhos, Mariana, Daniel e Ivan,
pelo apoio e a solidariedade em toda a minha caminhada.

Muito obrigado.

*Discurso de Posse do Dr. Ivan de Araújo Moura Fé na Presidência do Con-
selho Regional de Medicina do Estado do Ceará, no dia O3/10/08

Publicado originalmente no jornal Conselho em set/out/2008

121
REVISÃO DO CÓDIGO DE
ÉTICA MÉDICA

Em 1987, o Brasil vivia um momento particular de sua trajetória.
Recém-saído de um período de vinte e um anos de ditadura militar, o
país e seus cidadãos ainda traziam as marcas das violações dos direitos
humanos e do cerceamento do exercício da cidadania. Havia um na-
tural anseio de liberdade e um desejo de reconquista dos valores caros
à dignidade humana. Tal clima se refletia no debate político, com os
partidos se organizando, líderes cassados retornando do exílio, as po-
pulações das grandes metrópoles se preparando para, finalmente, poder
influir na escolha dos seus governantes. A longa noite democrática tinha
chegado ao fim, e as pessoas sentiam um grande desejo de participar
das decisões acerca do presente e do futuro; enfim, queriam reassumir
a direção do seu próprio destino.
Foi nesse cenário que os médicos brasileiros discutiram as novas
regras éticas da profissão. E os debates estiveram à altura da fase his-
tórica que o país vivia. O Código de Ética foi aprovado em novembro
de 1987, na I Conferência Nacional de Ética Médica, e homologado
pelo Conselho Federal de Medicina em janeiro de 1988, mantendo a
concepção humanista que tradicionalmente distinguiu a Medicina ao
longo de toda a sua história. Assim, o compromisso dos médicos com
a vida humana, a valorização da autonomia dos pacientes, o conceito
de que a pesquisa tem que ser realizada tendo como premissa que o
ser humano está acima dos interesses da ciência e da sociedade foram
expressos de forma clara no novo Código. Saliente-se que as circunstân-
cias políticas vividas pelo Brasil influíram fortemente para fixar aquela
que talvez seja a característica mais marcante do Código de Ética: o
compromisso com a defesa dos direitos humanos. O tema mereceu um
capítulo inteiro, no qual há artigos específicos sobre tortura (artigos
49 e 50) e greve de fome (art. 51). Além da enfática afirmação de que
123
o médico jamais utilizará seus conhecimentos para gerar sofrimento
físico ou moral, para o extermínio do ser humano ou para permitir e
acobertar tentativa contra sua dignidade e integridade (art. 6º).
Hoje, estamos novamente discutindo os aspectos éticos da profissão,
com vistas a fazer uma revisão no Código de Ética Médica. Os avanços
do conhecimento e da tecnologia na área médica e as mudanças na prá-
tica profissional, com o surgimento de Planos de Saúde, cooperativas
médicas e empresas de seguro-saúde, fizeram com que novos desafios
e dilemas surgissem na vida e no trabalho dos esculápios. As pesquisas
sobre genoma humano, clonagem (terapêutica e reprodutiva), repro-
dução assistida, morte encefálica e prolongamento artificial da vida
acenam com possíveis benefícios para a humanidade, mas despertam
profundas preocupações. O Professor Dalgimar Menezes, um estudioso
da matéria, tem chamado a atenção para estes e vários outros pontos
que devem ser levados em consideração na análise para uma eventual
reformulação do Código de Ética Médica, lembrando, por exemplo,
que a bioética - um assunto de importância crescente - ainda era pouco
discutida em 1988. E se reportando à implantação do Sistema Único
de Saúde e ao surgimento de novas escolas de medicina, com todos
os seus problemas e consequências. Enfim, são vários os ângulos de
abordagem do tema ora discutido. Por isso, é necessário que haja am-
pla participação de médicos e segmentos da sociedade na feitura das
alterações do nosso código.
Todos os médicos cearenses estão convidados para o trabalho de
análise e aprimoramento do código de ética. A participação pode ocorrer
pela apresentação de propostas de alteração, inclusão ou supressão de
artigos ou capítulos do código, o que pode ser feito acessando o endereço
eletrônico http://www.portalmedico.org.br/modificacaocem/index.asp

Publicado originalmente no jornal Conselho em nov/dez/2008

124
CONFLITOS ÉTICOS

A Itália foi palco, há poucas semanas, de dois acontecimentos que
põem em discussão temas éticos da maior relevância. O caso da jovem
Eluana Englaro, em coma desde que sofreu um acidente de carro, em
1992, suscitou acirrada polêmica. Os pais da paciente recorreram ao
Judiciário italiano, com o intuito de conseguirem autorização para a
suspensão da alimentação e hidratação da paciente. Após vários recur-
sos, finalmente houve a decisão do Tribunal de Cassação, instância
máxima do Judiciário italiano, acolhendo o que fora requerido pelos
pais de Eluana. Em 9 de fevereiro último, poucos dias após a retirada
da hidratação e da alimentação da enferma, ocorreu o óbito. O fato
causou reações que incluíram desde a discussão sobre o direito de morrer,
sob o fundamento de que viver é um direito e não uma obrigação, até
a acusação de homicídio, dirigida aos pais da paciente e aos médicos
que a atenderam em seus momentos finais. E trouxe à baila, entre nós,
a Resolução nº 1.805/2006, do Conselho Federal de Medicina, que
trata da ortotanásia. Tal diploma legal, que, aliás, está suspenso por
decisão liminar, dispõe que “é permitido ao médico limitar ou suspender
procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente em fase
terminal, de enfermidade grave e incurável, respeitada a vontade da pessoa
ou de seu representante legal.” Prevê, ademais, que “o doente continuará
a receber todos os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam
ao sofrimento, assegurada a assistência integral, o conforto físico, psíquico,
social e espiritual, inclusive assegurando-lhe o direito da alta hospitalar.”
O que levanta sérias dúvidas é se a hidratação e a alimentação de
uma doente, mesmo nas condições especiais relatadas, ou seja, um
quadro de coma há vários anos, podem ser definidas como medidas
extraordinárias ou se, pelo contrário, são procedimentos ordinários e,
portanto, de utilização imperiosa. O que faria uma importante diferen-
ça entre ortotanásia e eutanásia, a última considerada ilegal no Brasil.

125
A outra situação, igualmente conflituosa, diz respeito aos imigran-
tes. Segundo foi amplamente noticiado, o senado italiano aprovou
um projeto de lei autorizando médicos a denunciarem imigrantes que
estiverem em situação ilegal. Na hipótese de tal dispositivo ser seguido,
o imigrante que vá em busca de atendimento médico poderá sair do
consultório diretamente para a cadeia. Assim, o doente terá acrescido à
angústia relacionada com os agravos à saúde o medo de que o médico
o entregue às autoridades policiais. Organizações representativas dos
médicos protestaram com veemência, incitando os médicos a descon-
siderarem a proposta senatorial e afirmando que os profissionais da
Medicina são médicos e não espiões. Além da clara afronta ao princípio
milenar do segredo médico, um dos aspectos cardeais da ética profis-
sional, a estapafúrdia proposta, caso seja posta em prática, poderá levar
o imigrante doente a fugir do atendimento médico regular e procurar,
talvez, assistência clandestina para as suas necessidades de saúde.
Nos fóruns de ética médica realizados pelo CREMEC nos hospitais
de Fortaleza e no interior do Estado, por vezes surgem dúvidas que
guardam alguma analogia com a questão dos imigrantes italianos. Assim,
é feita a pergunta: como devo agir se estou de plantão no hospital e
atendo um paciente ferido que é conhecido como um perigoso assal-
tante? E no caso de uma paciente que provocou aborto? Devo chamar
a polícia? A orientação dada tem sido no sentido de que o papel do
médico é atender bem o paciente, com zelo, dedicação e interesse em
aliviar a dor, o sofrimento, não lhe cabendo tarefas relacionadas com a
eventual detenção de criminosos.
Concluindo, convém lembrar o que deve, realmente, balizar a
conduta médica, conforme expressa a Declaração de Genebra, aprovada
pela Associação Médica Mundial, em 1948: “a saúde do meu paciente
será minha primeira consideração”.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jan/fev/2009

126
ELEIÇÃO DO CONSELHO
FEDERAL DE MEDICINA

No início de julho de 2009, ocorrerão eleições, em todo o Brasil,
para a escolha dos conselheiros efetivos e suplentes (um efetivo e um
suplente para cada Estado da Federação e para o Distrito Federal) que
passarão a compor o órgão máximo da ética médica no país, o Conselho
Federal de Medicina (CFM). O período de inscrição de chapas vai
de 13 de maio/2009 a 1º de junho/2009. A proximidade do pleito
torna oportuna a reflexão sobre o papel do CFM, sua importância como
órgão supervisor da ética profissional em toda a República, julgador e
disciplinador da classe médica, cabendo-lhe ainda zelar e trabalhar pelo
perfeito desempenho ético da medicina e pelo prestígio e bom conceito
da profissão e dos que a exercem legalmente, tarefas que desempenha
em conjunto com os Conselhos Regionais de Medicina.
Certamente, existem alguns temas que se destacam como priori-
dades dentro do vasto espectro de ação dos Conselhos de Medicina.
O Ensino Médico é uma preocupação permanente, uma vez que o
valor essencial da saúde de cada cidadão e a complexidade da formação
médica exigem que seja dada especial atenção à preparação dos futuros
esculápios. Por isso, a abertura indiscriminada de Faculdades de Medi-
cina faz com que aumentem grandemente nossas inquietações e receios
quanto à qualidade do preparo técnico-científico dos novos médicos.
Apreensão que se intensifica com a constatação de que Faculdades de
Medicina tradicionais, com grande reputação, se encontram em meio
a enormes dificuldades, com recursos escassos e professores que denun-
ciam, reiterada porém infrutiferamente, o que aparenta ser um processo
de desmonte do ensino médico de boa qualidade. É imprescindível que
esta questão ocupe as atenções dos futuros membros do CFM.
Em outra perspectiva, temos diante de nós um complexo e diver-
sificado sistema de saúde, crescendo em abrangência, mas ainda longe
de propiciar atendimento adequado à população. Iniciativas como a
127
implantação do Programa Saúde da Família (PSF), indiscutivelmente
uma estratégia que criou para milhões de pessoas pelo menos uma pos-
sibilidade de acesso aos cuidados e serviços de saúde, devem ser objeto
de cuidadosa avaliação, no sentido de maximizar seus pontos positivos
e de corrigir as distorções. A falta de médicos em várias equipes do PSF,
inclusive na cidade de Fortaleza, precisa ser alvo de urgentes medidas,
entre as quais a realização de um novo concurso público.
Por seu turno, são cada vez mais frequentes as situações que en-
volvem conflitos éticos, demandando análise e tomada de decisão por
parte dos médicos. O caso acontecido recentemente em Pernambuco,
quando os médicos atenderam uma garota de 9 anos, com gravidez
gemelar, provocou apaixonadas discussões, envolvendo aspectos legais,
éticos e religiosos relacionados com a prática do aborto. Este foi mais
um exemplo de uma situação em que a abordagem ética sai do plano
teórico para a vida cotidiana, com todos os seus conflitos e desafios.
Enfim, no setor saúde há muita matéria para estudo e muitos
problemas carecendo de soluções. E, seguramente, os médicos e suas
entidades representativas têm condição de dar uma contribuição fun-
damental neste processo.
Lembramos que a eleição para o Conselho Federal de Medicina
é universal, ou seja, abrange todos os médicos; além do que, o voto é
obrigatório. Entendemos, porém, que o comparecimento de cada um
de nós para bem escolher nossos representantes no CFM deverá ocorrer
não por imposição legal, mas pela compreensão de que a participação
coletiva é a melhor forma de viabilizar escolhas acertadas e respostas para
os impasses e as dificuldades que permeiam o exercício da Medicina.
A eleição é também uma grande festa de encontro e confraternização
entre colegas de profissão. Esperamos contar com a presença de todos
os médicos e médicas cearenses.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mar/abr/2009

128
O SUS E AS POLICLÍNICAS

Há pouco mais de 20 anos, ocorreram fatos de grande relevância em
nosso país. Foi aprovada a Constituição Federal, consagrando a saúde
como um direito de todos os cidadãos brasileiros. Estavam traçadas as
linhas centrais do Sistema Único de Saúde, o SUS, o qual resultou de
um pujante movimento ético e político que tinha por meta univer-
salizar o acesso à saúde, corrigindo uma marcante iniquidade social
caracterizada pela circunstância de que milhões de pessoas não tinham
qualquer possibilidade de socorro ou alívio para as suas enfermidades.
Os anos seguintes mostraram o extraordinário alcance da proposta do
SUS, com a melhoria dos indicadores de saúde em nosso país, como,
por exemplo, a redução da mortalidade infantil e o aumento da vida
média da população. Neste processo, teve papel importante o Progra-
ma Saúde da Família (PSF), estratégia determinante para a ampliação
e consolidação do SUS. É claro, porém, que algumas distorções foram
sendo identificadas, ficando evidente que ainda havia muito a fazer para
a concretização de um sistema de saúde condizente com as legítimas
aspirações do povo brasileiro.
No Ceará, houve inegáveis avanços nos cuidados de saúde, desta-
cando-se o crescimento da atenção primária, sendo inquestionável que
a Medicina de Família e Comunidade se tornou, em poucos anos, uma
das áreas mais ativas e promissoras da atividade médica em nosso Estado.
De igual modo, “a Medicina de ponta”, com os transplantes, as próteses e
outros procedimentos médicos tecnologicamente sofisticados, alcançou
grande projeção em terra alencarina. Há um bom tempo, contudo, que
são apontadas as inegáveis carências do nosso atendimento médico no
que diz respeito à atenção secundária, que permanece como o calcanhar
de Aquiles de todo este edifício médico-sanitário. As intermináveis e
angustiantes filas de pacientes à espera de um exame decisivo para o
diagnóstico da doença, ou aguardando uma cirurgia cujo adiamento
pode ser fatal, são ocorrências que aumentam o sofrimento dos pacientes
129
e inquietam os médicos, configurando uma situação que não pode ser
aceita. Uma das tentativas para minorar o problema se deu no governo
passado, quando foi criado o Programa “Saúde mais perto de Você”,
que possibilitou a ida de cirurgiões, anestesiologistas e traumatologis-
tas, entre outros profissionais, a várias cidades do interior do Estado,
resultando na redução das transferências de pacientes para Fortaleza,
conforme levantamento feito pelo então Superintendente do Instituto
Dr. José Frota (IJF), Dr. Francisco Wandemberg.
Agora, o Secretário de Saúde, Dr. João Ananias, em recente pronun-
ciamento no Conselho Regional de Medicina, expôs o plano do governo
atual, que prevê a construção de 2 grandes hospitais – em Juazeiro do
Norte e Sobral – e 22 policlínicas, uma em cada microrregião de saúde
do Estado do Ceará. O projeto é alvissareiro, pois aponta no sentido de
tornar bem mais resolutivo o atendimento secundário à saúde. Sinaliza,
ademais, que serão criados 1.249 novos postos de trabalho para médi-
cos de 29 especialidades. Poderá tornar-se, por conseguinte, uma das
mais importantes medidas já adotadas em prol da saúde dos cearenses.
Suscita, no entanto, algumas preocupações, no que diz respeito à qua-
lificação dos médicos que irão trabalhar nesses serviços. De onde virão
tantos especialistas para o desempenho de tão magna tarefa? Torna-se
imperioso que o Estado invista fortemente na formação médica, o que
pressupõe, entre outras medidas, uma substantiva ampliação das vagas
dos Programas de Residência Médica, indiscutivelmente o melhor
caminho para a qualificação de médicos especialistas.
Ao lado das outras entidades médicas (SIMEC, AMC e Sociedades
de Especialidades), o Conselho de Medicina acompanhará atentamente
o processo de criação das Policlínicas, sempre com o intuito de colaborar
para a melhoria da atenção à saúde dos cearenses, sem perder de vista
a defesa da dignidade do trabalho médico.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mai/jun/2009

130
TÍTULO DE CIDADÃO CEARENSE*

Senhoras e Senhores
Em primeiro lugar, quero expressar meu agradecimento pela
honraria que me é concedida na data de hoje. O agradecimento se
dirige a esta augusta casa e ao Deputado Lula Morais, autor do projeto
de concessão do Título de Cidadão Cearense. Parlamentar atuante, o
Deputado Lula Morais tem toda uma história de engajamento nas causas
sociais, na luta pela afirmação dos direitos da cidadania. O que adquire
particular importância nos dias de hoje, quando há uma clara tendência
para desqualificar a atividade política, reduzindo-a em sua relevância
ou fazendo pesadas e maldosas insinuações sobre a integridade dos seus
participantes. O que não é nada bom para a democracia e interessa,
isto sim, aos que desejam a manutenção do status quo, da situação de
exclusão, que é a marca vergonhosa da sociedade em que vivemos. Daí,
que ganha em magnitude o papel dos que, aqui nesta Casa ou em outros
setores da sociedade, empregam sua energia e seu saber propondo e
procurando concretizar iniciativas que contribuam para combater as
mazelas sociais e amenizar a injusta e inaceitável desigualdade vigente
em nosso meio.
E é aos que acreditam numa sociedade melhor e lutam para que
os avanços sociais verificados nos últimos anos se intensifiquem e
aprofundem que nos filiamos. Como Martin Luther King, eu também
tenho um sonho: ver todas as pessoas do meu país tendo acesso imediato
e resolutivo aos cuidados de saúde. Ver o nosso país dar passos largos
no sentido de superar a condição de ser uma sociedade excludente e
evoluir para o respeito à dignidade das pessoas.
Neste sentido, no que se refere ao setor saúde, é imperativo que
seja consolidado o Sistema Único de Saúde, única alternativa a que
podem recorrer milhões de brasileiros para a vacinação, para os exames
de prevenção de enfermidades, para o tratamento das doenças. O SUS,
131
portanto, tem que estar bem estruturado, abrangente, com pessoal
bem preparado e motivado para propiciar atendimento digno aos que
demandam seus serviços. Não há como aceitarmos a demora de meses,
e até anos, de pacientes aguardando a realização de um exame por vezes
decisivo para o diagnóstico da afecção de que estão acometidos. Ou
realizando verdadeira via crucis em busca de uma vaga em UTI. Ou,
ainda, sendo humilhados e desrespeitados em sua intimidade, por terem
que permanecer dias e dias em macas nos corredores dos hospitais, já
que, mais uma vez, não há vagas nas enfermarias. Estas são algumas das
situações que angustiam os médicos e os pacientes e se constituem em
verdadeiras denúncias de desrespeito aos direitos humanos.
No campo da saúde mental, também há algo a ser dito. Durante toda
a minha vida profissional – e já são quase 37 anos de atividade – exerci a
psiquiatria. A experiência de trabalhar em hospitais psiquiátricos, vendo,
portanto, os pacientes mais graves, e, simultaneamente, atendendo em
ambulatórios públicos, tendo contato quase diário com o sofrimento das
pessoas mais humildes e carentes, me sensibilizou, desde muito cedo,
para a questão dos direitos dos pacientes acometidos de enfermidades
mentais. Levando-me a refletir sobre o papel do médico e das instituições
de saúde. Entendo a psiquiatria como uma prática que só se justifica
se tiver um intuito libertador. Como tive a oportunidade de escrever
certa vez, impõe-se que a Psiquiatria se desvincule de qualquer ação
repressiva ou de limitação da liberdade dos pacientes, e contribua para
a recuperação emocional dos enfermos, de modo que estes possam
exercer sua autonomia e trilhar o caminho do crescimento e da realização
pessoal.
É indispensável que sejam ampliados os recursos para a estruturação
de serviços de saúde mental – os CAPS (Centros de Reabilitação
Psicossocial) e as Residências Terapêuticas, entre eles – de forma que
os doentes mentais possam ser tratados mantendo-se o mais próximo
possível do seu meio familiar e social. Mas também há que se garantir aos

132
doentes mais graves, que necessitam de internamento, um tratamento
digno, humano, competente, fundamentado nos preceitos éticos e no
melhor conhecimento científico. De forma que nenhuma instituição
médica possa ser outra vez comparada a um “cemitério de vivos”, como
se referiu Lima Barreto ao hospital onde esteve internado.
As algemas da segregação e as cadeias da discriminação de que o
grande pacifista de Atlanta queria libertar os negros são análogas às que
oprimem os pacientes com transtornos mentais ou outras enfermidades
estigmatizantes, como a hanseníase ou a SIDA. É um dever ético
darmos nossa colaboração para a humanização não só do tratamento
dos doentes, mas também construindo uma mudança de atitude da
coletividade em relação a eles.
Diante deste quadro, como não nos preocuparmos com a formação
médica, com a festiva e indiscriminada abertura de cursos de medicina,
muitas vezes sem qualquer condição para que ali se qualifiquem
adequadamente os futuros médicos? Abrir escolas médicas tornou-se
um negócio, a busca de lucros. O sentido social, que deve ser uma das
vigas mestras de qualquer proposta de um novo curso, acaba ficando
esquecido. Talvez estejamos próximos do momento em que a conta por
esses desacertos seja cobrada, e se imponha uma profunda reformulação
no sistema educacional brasileiro.
Por seu turno, com as dificuldades crescentes para o exercício
da profissão, com os médicos vivendo conflitos e angústias junto aos
pacientes e sem condições de encaminhar as mudanças estruturais
necessárias à organização dos serviços, é bom que comecemos a prestar
atenção à saúde dos próprios médicos, iniciativa que já se esboça em
alguns outros Estados, com a elaboração de propostas de atuação neste
sentido.
Ilustres Deputados, Dignas Autoridades, Senhoras e Senhores.
Vejo a Medicina como uma profissão a serviço da saúde do ser
humano e da coletividade, como está expresso, de forma tão eloquente,
no Código de Ética Médica. A atitude humana, solidária e zelosa dos
médicos para com os doentes, ao longo de milênios, fez com que a

133
Medicina granjeasse a gratidão da humanidade. Temos, portanto, que
preservar a melhor tradição hipocrática. Contudo, sentimo-nos no
dever de alçar a nossa voz para além do cenário de consultórios, postos
de saúde ou hospitais, cobrando medidas que caminhem no sentido de
um atendimento mais digno aos pacientes e de uma vida social mais
justa e mais fraterna.
Quero concluir referindo-me, de forma particularmente
carinhosa, à minha mulher, Rita, e aos meus fi lhos, Mariana,
Daniel e Ivan, fontes de minha alegria e da minha vontade de
viver. E aos meus pais, Nelson de Moura Fé e Hilda Araújo de
Moura, profundas influências na minha formação pessoal e moral,
presenças permanentes em minhas lembranças e no meu afeto.
Entre todas as pessoas que muito contribuíram para meu trabalho
profissional, destaco o Dr. Nílson de Moura Fé, sob a orientação do
qual dei os primeiros passos na Psiquiatria. Meus agradecimentos
aos conselheiros e funcionários do Conselho Regional de Medicina
do Estado do Ceará, com os quais tenho compartilhado, ao longo
de anos, aspirações, projetos, dificuldades e alegrias.
Para concluir, quero dizer que este dia, em que sou recebido como
Cidadão Cearense, ficará gravado em letras especiais na minha memória
afetiva. Por fim, agradeço a todos os que compareceram a esta solenidade
para viver comigo e com os meus familiares este momento de alegria.
Muito obrigado.

Título de Cidadão Cearense aprovado pela Lei 14.352, de 19 de
maio de 2009, de autoria do Deputado Lula Morais, publicada no
Diário Oficial do Estado de 25 de maio de 2009.

*Discurso proferido pelo Dr. Ivan de Araújo Moura Fé no dia 02/10/09,
na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, por ocasião da recepção do
Título de Cidadão Cearense

Arquivo original de 02/10/09

134
CREMEC: 50 ANOS

Foi na sede do Centro Médico Cearense, no dia 9 de setembro de
1959, que ocorreu a sessão histórica de instalação do Conselho Regional
de Medicina do Estado do Ceará. O Dr. Joaquim Eduardo de Alencar,
então Presidente do Centro Médico Cearense, comandou a reunião que
escolheu a primeira diretoria do Conselho de Medicina, a qual ficou
assim constituída: Presidente: Dr. José Carlos Ribeiro; Vice-presidente:
Dr. Licinio Nunes de Miranda; 1º Secretário: Dr. Washington Carneiro
Baratta Monteiro; 2º Secretário: Dr. Roberto Cabral Ferreira; 1º
Tesoureiro: Dr. Pedro de Morais Borges; 2º Tesoureiro: Dr. João Luiz
de Oliveira Pombo.
É preciso lembrar que a Lei 3.268, de 30 de setembro de 1957,
que dispõe sobre os Conselhos de Medicina, foi sancionada por um
médico, o Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Anteriormente,
já existiam as associações médicas e os sindicatos médicos. Os Conselhos
de Medicina, criados sob a forma de autarquia, nasciam com forte
vinculação com o aparelho estatal, tendo por finalidade fiscalizar a
atividade médica, apurar as possíveis infrações à ética da profissão e
promover por todos os meios ao seu alcance o perfeito desempenho
ético, técnico e científico da Medicina.
Os primeiros tempos de existência do Conselho foram de organização
e de sensibilização dos médicos, alguns dos quais resistiam ao chamamento
para inscrição na nova instituição. Ao final do ano de 1959, estava inscrito
no Conselho apenas o seu Presidente, Dr. José Carlos Ribeiro, CRM
nº 1. Desde então, muitas mudanças ocorreram na realidade do país e
da prática médica. Quando o CREMEC foi fundado, existia no Ceará
apenas uma Faculdade de Medicina; hoje, dispomos de 7 cursos médicos,
4 dos quais da área pública e 3 de caráter privado. No momento, estamos
próximos dos 12.000 médicos inscritos no CREMEC, 8.400 dos quais
encontram-se em pleno exercício da profissão.

135
Por outro lado, houve profundas modificações no cenário da
atividade médica. De prática eminentemente liberal, em consultórios,
ou com visitas dos médicos às residências dos doentes, passou o trabalho
médico a ser feito em grandes organizações, quer estatais, quer sob a
forma de planos de saúde, cooperativas médicas e seguro-saúde. O
que trouxe aspectos novos que merecem atenção e análise. Um deles
diz respeito à autonomia do médico. De fato, vemos atualmente uma
interferência cada vez maior na relação médico-paciente, limitando o
direito do médico de, em diálogo com o seu paciente, decidir quais os
meios diagnósticos e terapêuticos que devem ser adotados em benefício
da saúde do doente. Ademais, observa-se que os médicos muitas
vezes são submetidos a um regime de trabalho extenuante, tendo que
atender um número de doentes bem superior ao que seria razoável.
O que traz, inevitavelmente, maiores riscos de erro profissional, além
de poder causar danos à própria saúde dos esculápios. Tal situação,
verificada principalmente nos serviços públicos de saúde, faz com que
seja indispensável a adoção de medidas para a melhoria do Sistema
Único de Saúde, com providências quanto à organização dos serviços
e à ampliação dos recursos humanos, o que passa, necessariamente,
por modificações no financiamento do setor saúde. Neste sentido, o
CREMEC, juntamente com o Sindicato dos Médicos e a Associação
Médica Cearense, sempre se empenhou para que houvesse concurso
público, com a admissão de novos médicos, e que a remuneração médica
fosse compatível com a importância social e científica da Medicina.
No que se refere à regulamentação ética da profissão médica, os
Conselhos de Medicina adotaram primeiramente o Código de Ética
Médica que fora aprovado pela Associação Médica Brasileira, em
1953. Posteriormente, seguiram-se os códigos de ética de 1965, 1984
e 1988, o último ainda em vigor, embora em processo de revisão, com
a possibilidade de que seja editado um novo código ainda no ano em
curso. Em todos estes diplomas éticos da profissão médica, destaca-se

136
a afirmação dos valores humanistas e de respeito à dignidade humana
que devem ser a base de toda a vida profissional dos esculápios.
O que se pode afirmar é que o Conselho de Medicina do Estado
do Ceará, ao completar meio século de funcionamento, tem toda
uma história de trabalho e realizações, porém muitos desafios pela
frente, suscitando de cada um de nós dedicação, zelo com a saúde
dos pacientes e com a boa prática da Medicina, compromisso com a
dignidade humana.

Publicado originalmente no Jornal Conselho em jul/ago/2009

137
CINQUENTENÁRIO DO CONSELHO
REGIONAL DE MEDICINA*

Hoje é um dia especial para o Conselho Regional de Medicina
do Estado do Ceará. Há exatos cinquenta anos, no dia 9 de setembro
de 1959, ocorria a sessão de instalação do CREMEC, na sede do
Centro Médico Cearense, na cidade de Fortaleza. Sob a presidência
do saudoso Professor Joaquim Eduardo de Alencar, dirigente maior
do Centro Médico Cearense, desenvolveram-se os trabalhos para a
escolha da primeira Diretoria do Conselho de Medicina, a qual ficou
assim constituída: Presidente: Dr. José Carlos Ribeiro; Vice-presidente:
Dr. Licinio Nunes de Miranda; 1º Secretário: Dr. Washington Carneiro
Baratta Monteiro; 2º Secretário: Dr. Roberto Cabral Ferreira; 1º
Tesoureiro: Dr. Pedro de Morais Borges; 2º Tesoureiro: Dr. João Luiz
de Oliveira Pombo.
Desde então, muito foi feito pelo CREMEC, em termos de
fiscalização da profissão médica, apuração das possíveis infrações à ética
médica, defesa do ensino médico de qualidade, luta por trabalho digno
e remuneração justa para os médicos e em prol de uma boa assistência
à saúde da população e atividades de educação médica continuada.
Sendo assim, nada melhor do que marcar esta data festiva de forma
a demonstrar o esforço do Conselho pela promoção do perfeito
desempenho ético, técnico e científico da Medicina. Esforço este que
fez com que a entidade realizasse 102 (cento e dois) Fóruns de Ética
Médica no Interior do Estado, além de Fóruns de Ética em Fortaleza,
Congressos Científicos e Éticos em Fortaleza e nas Seccionais do Cariri
e da Zona Norte, Cursos de Medicina de Família e Comunidade, de
Urgência e Emergência, de Perícia Médica e de Saúde do Idoso, entre
outros. Deste modo, a comemoração do cinquentenário também é o
início do V Congresso Científico e Ético do CREMEC, conclave
que se associa ao V Congresso das Câmaras Técnicas e Comissões de
139
Ética da instituição e à IV Jornada Cearense de Medicina de Família
e Comunidade. O evento consta de ampla programação, abrangendo as
grandes áreas básicas da atividade médica, como Pediatria, Ginecologia
e Obstetrícia, Medicina de Família e Comunidade, Cirurgia Geral e
Clínica Médica. Simultaneamente, questões fundamentais da Ética
Médica e da Bioética serão abordadas por vultos ilustres da Medicina
do Ceará e do Brasil. Temas como perspectivas da bioética, aspectos
éticos no final da vida, conflitos éticos na AIDS, a humanização e os
doentes crônicos serão objeto de estudo e discussão. Numa das sessões,
será realizado um julgamento simulado de um caso de abortamento de
anencéfalo. No último dia do congresso, teremos debates sobre políticas
de saúde, condições de trabalho e de remuneração dos médicos e O
Sistema Único de Saúde.
Por sinal, a defesa do SUS tem sido uma das mais caras bandeiras
do Conselho de Medicina do Ceará, pela compreensão de que somente
um substancial fortalecimento dos serviços públicos de saúde poderá
conduzir à concretização do lema constitucional de que “saúde é
direito de todos”. Defendemos, portanto, mais uma vez, a aprovação
da emenda constitucional nº 29, para que um maior aporte de recursos
possibilite a ampliação das ações em benefício da saúde da população.
Assim como postulamos que haja concursos públicos para a admissão
de mais profissionais para o setor, no sentido de que seja superada a
dificuldade de acesso da população aos serviços de saúde.
No âmbito da fiscalização da prática médica, a ação do Conselho
alcançou todos os municípios cearenses, o que permitiu, em muitos
casos, a identificação e correção de carências e distorções nos hospitais,
postos de saúde e no Programa Saúde da Família, assim como a cobrança
de medidas que assegurassem a dignidade do trabalho médico e um
bom atendimento à saúde da comunidade.
Uma das linhas de trabalho do Conselho de Medicina tem sido a
defesa de boas condições de trabalho e de remuneração dos médicos.

140
Nesta vertente, destacam-se as lutas que, nos últimos dois anos,
resultaram na conquista do Plano de Cargos, Carreiras e Salários
(PCCS) para os médicos da Prefeitura de Fortaleza, para os médicos
do Estado do Ceará e para os médicos do Instituto Médico Legal
(IML), este último, em significativa coincidência, tendo sido aprovado
pela Assembleia Legislativa na manhã de hoje. Em todas estas vitórias,
tiveram participação ativa o Conselho de Medicina, o Sindicato dos
Médicos do Estado do Ceará e a Associação Médica Cearense, devendo
ser assinalado o trabalho incansável realizado por uma de nossas
homenageadas, a Dra. Teresinha Braga Monte.
E é justamente às homenagens que agora nos referimos. O Plenário
do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará escolheu, por
unanimidade, três médicos, os quais, por terem pautado o exercício de
sua profissão por ilibada conduta ética, irão agora receber a Medalha
de Honra ao Mérito Profissional. São eles:
Geraldo De Sousa Tomé
Renan Magalhães Montenegro
Teresinha Braga Monte
Por sua vez, será entregue o Diploma de Mérito Ético-Profissional
aos médicos que completaram 50 (cinquenta) anos de exercício da
profissão médica sem jamais terem sofrido sanção ético-profissional de
qualquer natureza. Os agraciados são:
Airton Fontenele Sampaio Xavier
Arlindo de Almeida Simões
Francisco de Assis Barroso
Hiran dos Santos Monteiro
José de Aguiar Ramos
Orlando Jorge Cavalcante
Raimundo Adjafre de Souza Roriz
Severino de Medeiros Filho
Wilcar Cavalcante Gondim

141
Todos os homenageados escreveram páginas de dedicação à
atividade médica e ao cuidado dos pacientes, honrando os ideais mais
elevados da nossa profissão. Tornaram-se, portanto, merecedores de
nossa admiração e gratidão.
Fazemos questão, nesta solenidade, de registrar alguns
agradecimentos; ao Conselho Federal de Medicina, na pessoa do
seu Presidente, Dr. Edson de Oliveira Andrade, pelo apoio que
sempre deu às iniciativas do CREMEC; aos representantes dos
Conselhos Regionais de Medicina; aos Professores convidados para as
conferências e mesas-redondas do conclave, vários dos quais vieram de
outros Estados; aos conselheiros e membros das Câmaras Técnicas do
CREMEC, particularmente os de Clínica Médica, Pediatria, Cirurgia
Geral, Ginecologia e Obstetrícia e Medicina de Família e Comunidade.
Estes profissionais, expoentes da Medicina e da Ética Médica, dão
brilho e elevado conteúdo ao nosso congresso. Uma referência toda
especial cabe à Dra. Valeria Goes Ferreira Pinheiro, Presidente da
Comissão Científica do conclave, e ao Dr. Lino Antonio Cavalcanti
Holanda, da Comissão Executiva, que se desdobraram em trabalho e
dedicação em todas as etapas do congresso. É necessário ainda citar a
operosidade do Dr. Vladimir Távora Fontoura Cruz, com a sua equipe,
e dos funcionários do CREMEC, representados aqui na pessoa da Sra.
Fátima Maria Sampaio de Barros.
É, portanto, com muita alegria, que iniciamos a presente
solenidade, que comemora cinquenta anos de serviços prestados
pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará à saúde da
população cearense.
Nossas boas vindas a todos os participantes desta solenidade e deste
Congresso.

Muito obrigado

142
*Discurso de abertura da Solenidade de Comemoração do
Cinquentenário do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará
e do V Congresso Científico e Ético do CREMEC, no dia 09/09/09, em
Fortaleza, Ceará

143
O NOVO CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

No dia 24 de setembro de 2009, foi publicado no Diário Oficial
da União o novo Código de Ética Médica. O documento mantém,
em sua quase totalidade, a linha conceitual contida no código de ética
anterior. Assim, lemos entre os princípios fundamentais que a Medicina
é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade e
será exercida sem discriminação de nenhuma natureza; que o alvo de
toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da
qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade
profissional; que o médico guardará absoluto respeito pela vida humana
e jamais utilizará seus conhecimentos para causar sofrimento físico ou
moral, para o extermínio do ser humano ou para permitir e acobertar
tentativa contra sua dignidade e integridade. Formulações que refletem
as linhas mestras do caráter solidário e humanista da Medicina ao longo
da história.
Ademais, o novo código reafirma a posição dos médicos brasileiros
contra a pena de morte, a tortura e os procedimentos degradantes, de-
sumanos ou cruéis. Valoriza a autonomia do paciente e firma o dever do
médico de obter o consentimento deste para a realização de qualquer ato
médico, com exceção das situações de risco iminente de morte. Postula
que o médico exercerá sua profissão com autonomia, não sendo obrigado
a prestar serviços que contrariem os ditames de sua consciência, além
de que não poderá renunciar à sua liberdade profissional, nem permitir
quaisquer restrições ou imposições que possam prejudicar a eficiência
e a correção de seu trabalho. O médico tem o direito de se recusar a
exercer a profissão em instituição pública ou privada onde as condições
de trabalho não sejam dignas ou possam prejudicar a própria saúde ou
a do paciente, bem como a dos demais profissionais, devendo, nesse
caso, comunicar imediatamente sua decisão à Comissão de Ética e ao
Conselho Regional de Medicina.
145
Sendo assim, o que traz de novo o código de ética médica recen-
temente publicado? Afora algumas modificações menores, podemos
assinalar os seguintes pontos:
1) O princípio XXII pontua que, nas situações clínicas irreversíveis e
terminais, o médico evitará a realização de procedimentos diagnósticos
e terapêuticos desnecessários e propiciará aos pacientes sob sua atenção
todos os cuidados paliativos apropriados. Evitará, assim, empreender
ações inúteis ou obstinadas, mas levará sempre em consideração a
vontade expressa do paciente ou, na sua impossibilidade, a de seu
representante legal, nos termos do artigo 41 do novo código. Nessas
circunstâncias, o médico tem o dever de continuar dando assistência ao
paciente, no sentido de mitigar a dor, a dispneia, a angústia ou outros
sintomas presentes, de forma a confortar o enfermo em seus últimos
momentos. Lembrando, ademais, que um dos grandes temores dos
pacientes é o de ser abandonado, de ter que enfrentar, além da doença,
a solidão e o desamparo. 2) O artigo 15 aborda a questão da procriação
medicamente assistida e explicita que esta técnica não pode ser utilizada
para criar embriões geneticamente modificados, nem para criar embriões
para investigação ou para finalidades de escolha de sexo, eugenia ou para
originar híbridos ou quimeras. 3) O artigo 16 veda ao médico intervir
sobre o genoma humano com vista à sua modificação, exceto na terapia
gênica, excluindo-se qualquer ação em células germinativas que resulte
na modificação genética da descendência. 4) É dada uma ênfase toda
especial ao prontuário médico, o qual deve ser legível e conter os dados
clínicos necessários para a boa condução do caso, sendo preenchido,
em cada avaliação, em ordem cronológica com data, hora, assinatura
e número de registro do médico no CRM, conforme se lê no artigo
87. Por sua vez, continua assegurado o direito de acesso do paciente
ao prontuário, do qual pode solicitar cópia, e que lhe sejam dadas ex-
plicações necessárias à sua compreensão, como preceitua o artigo 88.

146
O novo Código de Ética Médica é composto de 25 princípios
fundamentais do exercício da Medicina, 10 normas diceológicas
(os Direitos dos Médicos), 118 normas deontológicas (as vedações,
proibições cujo desrespeito dará margem à instauração de processo
ético-profissional contra o médico acusado) e entra em vigor cento
e oitenta dias após a data de sua publicação, ou seja, no final de
março de 2010. Seu texto completo está disponível no endereço
eletrônico do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará,
www.cremec.com.br.

Publicado originalmente no jornal Conselho em set/out/2009

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COMENDA SINDICAL MÉDICA*

Senhoras e Senhores
Antes de tudo, quero agradecer aos membros do Sindicato dos
Médicos do Estado do Ceará pela distinção que me é concedida no dia
de hoje. Receber a Comenda Sindical Médica, passando assim a fazer
parte da galeria onde se encontram expoentes da Medicina cearense, é
algo que muito me dignifica e honra.
Quando ocorre um acontecimento de tal relevância, somos natu-
ralmente induzidos a uma reflexão sobre o papel que vimos desempe-
nhando no drama à nossa volta, tentando identificar o que merece ser
destacado e o que cabe corrigir. O que nos leva a um rápido mergulho
no passado.
Tendo o ideal de ser médico, e não existindo, ainda, Faculdade
de Medicina no Estado do Piauí, vim para Fortaleza em 1966, para
fazer o 3º ano científico no Colégio Castelo. Em 1967, ingressei no
curso médico. Meu interesse pela Psiquiatria surgiu ainda na primeira
metade do curso de graduação, sem dúvida a partir da convivência
com o Dr. Nilson de Moura Fé, meu tio e ilustre psiquiatra desta
terra. A formatura em 1972, os primeiros pacientes sob meus cui-
dados profissionais, o casamento em 1975, a obtenção, através de
concurso, do Título de Especialista em Psiquiatria em 1975, a eleição
como membro do Conselho Regional de Medicina em 1978 e de
Presidente do CREMEC em 1983, o nascimento dos meus filhos
passam pela memória em ritmo caleidoscópico. Ao mesmo tempo,
esses marcantes eventos davam ensejo a que, vez por outra, fosse feita
uma avaliação. Ocasião em que se fortalecia a convicção de que, tendo
eu estudado em escola pública, portanto custeada pelo conjunto da
população, contraíra uma dívida social e o dever moral de empenhar
todos os meus esforços para de algum modo retribuir o que recebera.
O que poderia dar-se através de um trabalho médico dedicado e zelo-
so e do exercício da solidariedade em relação aos menos aquinhoados
pela fortuna. E a fixação, de forma indelével, da compreensão de que
149
a medicina só encontra justificativa moral se estiver a serviço da saúde
do ser humano e da coletividade.
Prosseguindo nesse fluxo de consciência, recordo que há um bom
tempo, ao refletir sobre meu trabalho como médico, concluí que o perío-
do de dez anos, em que atuei como preceptor do Programa de Residência
Médica de Psiquiatria do Hospital de Saúde Mental de Messejana, e
a atividade como membro do Conselho Federal de Medicina estavam
entre as experiências mais marcantes e enriquecedoras de minha vida
profissional. Já participara de campanhas pela melhoria da qualidade do
ensino médico e pelo fortalecimento da Residência Médica. Lutara em
defesa da saúde pública, pelo reconhecimento dos direitos dos pacientes
com doença mental, contra a discriminação e os preconceitos de que
são vítimas esses enfermos. Atuara por longo tempo no Conselho Re-
gional e no Federal de Medicina, na discussão e elaboração das normas
éticas, tendo sido, inclusive, membro da Comissão de Sistematização
do Código de Ética Médica que ainda se encontra em vigor no Brasil.
Parece, no entanto, que algo estava faltando: precisava eu ter uma vi-
vência eminentemente “sindical”. E foi o que se deu nos últimos anos,
nos movimentos reivindicatórios dos médicos por melhores condições
de trabalho e de remuneração.
Há uma passagem no Eclesiastes que diz: “Tudo quanto te vier à mão
para fazer, faze-o conforme as tuas forças”. Procurei aplicar tal máxima
ao longo de minha atividade como dirigente de entidades médicas.
Se minhas forças pareciam, em vários momentos, frágeis diante da
grandeza dos obstáculos, a convicção da justeza da causa e a soma de
esforços com os parceiros de luta fizeram com que a vitória coroasse
empreitadas que por vezes foram longas e penosas. Foi o que aconte-
ceu, por exemplo, na mobilização pela conquista do Plano de Cargos,
Carreiras e Salários para os médicos do município de Fortaleza, em
2007. Naquela oportunidade, tamanha era a insatisfação dos médicos
do município, e de tal magnitude foram os conflitos surgidos nas as-
sembleias da categoria médica, que o Conselho Regional de Medicina,
o Sindicato dos Médicos e a Associação Médica Cearense tiveram que

150
demonstrar extraordinária capacidade de equilíbrio entre a necessidade
de manter a luta de forma permanente e tenaz e a obrigação de evitar
que o movimento radicalizasse em paralisações prejudiciais aos pacientes.
Ou seja, ao pugnar em defesa das legítimas reivindicações dos médicos,
não podíamos perder de vista o dever ético e a responsabilidade social
de continuar proporcionando a melhor atenção à saúde dos doentes.
Ao final, após numerosas assembleias médicas e incontáveis reuniões,
com a participação inclusive da Sra. Prefeita Luiziane Lins, estávamos
em condição de comemorar, com centenas de outros médicos, uma
conquista realmente significativa, embora ainda aquém do que enten-
demos ser justo para a categoria médica.
Em 2008, foi a vez da mobilização dos médicos do Estado com
vistas à implantação de um PCCS minimamente satisfatório. Tínha-
mos, então, um quadro preocupante: dezenas de médicos aprovados no
Concurso para o Estado não mostravam o menor interesse em assumir
o emprego. Outros, tinham tomado posse, mas afirmavam nas assem-
bleias médicas que esperariam, por alguns meses, que ocorresse uma
mudança substancial nos padrões remuneratórios; em caso contrário,
pediriam demissão, pois tinham boas propostas para atuação na área
privada. Percebia-se um profundo desalento dos médicos em relação ao
serviço público. Na oportunidade, o Sindicato dos Médicos, o Conselho
de Medicina e a Associação Médica, em mais uma demonstração de
unidade e compromisso de luta, levaram ao Governador do Estado,
Dr. Cid Gomes, a pauta reivindicatória dos médicos, ocasião em que lhe
foi informado que havia possibilidades concretas de que dezenas e talvez
centenas de médicos se demitissem. O que era um fato extremamente
preocupante para os que, como nós, defendemos o fortalecimento dos
serviços públicos de saúde. Sua Excelência demonstrou sensibilidade e
participou dos entendimentos que resultaram no estabelecimento do
PCCS nos termos aprovados em assembleia dos médicos. Por fim, em
2009, outra vitória iria acontecer, agora beneficiando os médicos do
Instituto Médico Legal, em mais uma negociação das entidades médicas
com o Governador do Estado.

151
Hoje, novos desafios estão aí postos. Vemos centenas de pacien-
tes sem conseguir com a necessária presteza acesso aos serviços de saúde.
Presenciamos a multiplicação desenfreada dos cursos de Medicina,
sem qualquer consideração quanto à necessidade social de tais cursos
e pondo em plano secundário a qualidade do ensino oferecido aos fu-
turos médicos. Ficamos angustiados com a injustiça social e a situação
de iniquidade em que vivem milhões de brasileiros. Mas o ânimo não
arrefece, e a luta continua.
Em minha caminhada, tive a honra de dirigir a Sociedade Cearense
de Psiquiatria, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará
e o órgão máximo da Medicina brasileira, o Conselho Federal de Me-
dicina. E se algo do que realizei nessa trajetória foi considerado pelos
meus pares como digno de encômios, procurarei fazê-lo ainda melhor
de ora em diante.
Concluo minhas palavras, agradecendo mais uma vez ao Sindicato
dos Médicos do Estado do Ceará, na pessoa do seu Presidente, D. José
Maria Pontes, e aos amigos e familiares que dividem comigo a alegria
deste momento. Quero, por fim, reconhecer que, sem a presença ca-
rinhosa de minha mulher, Rita de Cássia Mota Moura Fé, e de meus
filhos, Mariana, Daniel e Ivan, ser-me-ia impossível alcançar as reali-
zações aqui mencionadas.
Um abraço a todos e muito obrigado.

*Discurso proferido pelo Dr. Ivan de Araújo Moura Fé no dia 04/12/09,
por ocasião da recepção da Comenda Sindical Médica conferida pelo Sin-
dicato dos Médicos do Estado do Ceará

Arquivo original - 04 de dezembro de 2009

152
REGULAMENTAÇÃO DA
PROFISSÃO MÉDICA

Os últimos meses de 2009 deram margem a acontecimentos da
maior importância para os médicos brasileiros. Em setembro, tivemos
a aprovação do novo Código de Ética Médica (o qual entrará em vigor
em abril de 2010). Menos de um mês depois, em 21 de outubro de
2009, foi a vez de se ferirem debates acalorados na Câmara Federal, de
que resultou a aprovação do Projeto de Lei 7.703/06, que dispõe sobre
o exercício da Medicina (projeto anteriormente designado por lei do ato
médico e que despertou intensas polêmicas envolvendo membros de
outras profissões da área da saúde). É verdade que o projeto de lei, que
já tramita há sete anos, ainda precisa ser aprovado pelo Senado Federal
e sancionado pelo Presidente da República. No entanto, é indiscutível
que os médicos têm vivido momentos históricos no corrente ano.
A aprovação da carta magna da ética médica reafirma em todos
nós a consciência de que a prática humana, zelosa e competente da
arte hipocrática é um dever de cada esculápio. Com o reconhecimento
do respeito à dignidade humana como princípio fundamental que
deve pautar todos os atos dos profissionais da Medicina. E a clareza
de que a responsabilidade ética e social do médico deve abranger a
preocupação com outros aspectos que extrapolam o âmbito da clínica,
incluindo ações voltadas para a adequação do trabalho ao ser humano
e para evitar a deterioração do ecossistema, além de esforços em prol
da saúde pública e da educação sanitária. Sem olvidar que, sempre que
participar de pesquisas envolvendo seres humanos ou qualquer animal,
o médico respeitará as normas éticas nacionais, bem como protegerá a
vulnerabilidade dos sujeitos da pesquisa.
Cabe agora, porém, fazer algumas considerações sobre o texto que
visa regulamentar o exercício da Medicina. O cerne da proposição é
a concepção de que o diagnóstico e o tratamento das enfermidades
153
são privativos dos médicos; ou, para usar a linguagem do projeto, “a
formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica”;
e, ainda, “a indicação e execução da intervenção cirúrgica e prescrição dos
cuidados médicos pré e pós-operatórios”. Além, é claro, de vários outros
tópicos distinguindo o que é exclusivo dos médicos e o que pode ser
compartilhado com outros profissionais.
O item que gerou momentos de maior tensão nos debates na
Câmara Federal, na sessão que culminou na aprovação do projeto,
afirma ser atividade privativa dos médicos “a emissão dos diagnósticos
anatomopatológicos e citopatológicos”; ressalte-se que há no corpo do texto
outro tópico que excetua do rol das práticas exclusivas dos médicos “a
realização dos exames citopatológicos e seus respectivos laudos”. O que, em
nossa observação, respeita o que já se verifica na divisão de trabalho
entre os diversos profissionais de saúde. No entanto, não foi este o
entendimento dos opositores da matéria, os quais peroravam que
os médicos pretendiam colocar sob sua tutela os outros profissionais.
Excessos à parte, o fato é que, após mais de sete horas de permanên-
cia de dezenas de médicos na Câmara alta, dali saímos com a sensação
de que um importante passo tinha sido dado para estabelecer o que
cabe a cada um, mantendo-se o reconhecimento de que todos têm um
papel relevante em prol da saúde da população. Em nenhum momento
queremos causar prejuízo às outras profissões da área da saúde, pelas
quais temos o maior respeito. Entretanto, há que se compreender que
as atribuições e a esfera de competência dos diversos segmentos pro-
fissionais guardam diferenças e especificidades. E é isto que deve ser
posto, de forma clara, no texto da lei.

Publicado originalmente no jornal Conselho em nov/dez/2009

154
SOLIDARIEDADE

Há momentos em que um povo é atingido por uma catástrofe
de amplas proporções. Então, o sofrimento usual, cotidiano, perde
importância diante da imensidão da nova tragédia. E as carências se
multiplicam, os problemas se agigantam, o drama supera a capacidade
doméstica de encontrar soluções. Foi o que aconteceu recentemente
com o povo do Haiti. Surpreendido por um terremoto de grande
potencial destrutivo, que já causou, segundo declarações oficiais, mais
de duzentas mil mortes, além de deixar mais de trezentos mil feridos,
aquela pobre nação vive dias de extrema dor e grande penúria. É em
situações semelhantes, que se põe à prova o sentimento de solidariedade
humana. E, de fato, iniciativas do mundo inteiro se dirigem no sentido
de ajudar as vítimas do desastre.
Entre nós, no dia 18 de janeiro de 2010, foi formado na Secretaria
de Saúde do Estado do Ceará o Comitê Cearense de Solidariedade ao
Povo do Haiti, com a participação do Conselho Regional de Medicina
do Estado do Ceará, do Sindicato dos Médicos e de outras entidades
médicas. Além da campanha, em articulação com a Cruz Vermelha,
no intuito de obter doações de água, alimentos e roupas, para envio
ao país atingido, o Comitê fez um chamamento por voluntários, par-
ticularmente da área da saúde, o que levou à inscrição de centenas de
profissionais, inclusive médicos, todos dispostos a se deslocarem até
o Haiti para o atendimento às vítimas. Um desses voluntários, o Dr.
Frederico Arnaud, membro da Câmara Técnica de Medicina de Ur-
gência do CREMEC, já se encontra naquele país, prestando assistência
médica. Tais atitudes expressam o sentimento de solidariedade, que é
marca inata da Medicina e engrandece o povo cearense.
É claro que continuamos tendo nossos próprios problemas, os
quais são imensos e sem solução à vista. Persistem as filas dos doentes
necessitando de atendimento médico, os quais sofrem em condições
inaceitáveis nas macas dos sobrecarregados serviços de urgência. Isto,
porém, não nos impede de contribuir para amenizar as dores de outros
155
povos. Ao mesmo tempo em que prossegue o trabalho para ampliar a
capacidade de atendimento à saúde da população alencarina. No âmbito
do Governo do Estado, a construção de 2 grandes hospitais, um no
Cariri e outro em Sobral, e de 22 Policlínicas constitui um projeto de
grande envergadura na área da saúde, podendo garantir o atendimento
especializado dos pacientes em locais mais próximos de onde moram,
reduzindo as transferências desses doentes para Fortaleza. O CREMEC
tem participado ativamente das discussões acerca destas iniciativas,
opinando, criticando e oferecendo sugestões. No que respeita à dispo-
nibilização de especialistas para as Policlínicas, por exemplo, constata-se
que há carência desses profissionais em várias especialidades, tornando-se
indispensável um projeto para sanar tal deficiência. Pois é fundamental
que os novos serviços tenham grande capacidade resolutiva. Nos debates
destas momentosas questões, nossa ênfase sempre foi no sentido de
valorizar a Residência Médica como o caminho mais consistente para a
preparação de médicos especialistas. E, nesta seara, há um fato novo. O
Governo Federal se dispôs a oferecer mil novas bolsas para a Residência
Médica no Brasil, privilegiando as regiões norte e nordeste do país. A
Secretaria de Saúde do Estado do Ceará se prontificou a absorver um
número significativo dessas bolsas. E aí surgiu o outro lado da questão:
alguns serviços se manifestaram dizendo que não têm estrutura para
incorporar e treinar adequadamente os novos residentes. A preocupação
é relevante. Estamos de pleno acordo que os Programas de Residência
Médica têm que estar estruturados de modo a oferecer todas as condições
para um treinamento pós-graduado de excelência. No entanto, não é
interessante que bolsas de residência sejam perdidas. Assim, impõe-se
um esforço adicional para a solução do impasse.
Investindo no aprimoramento técnico e científico e cultivando a
atitude ética e solidária dos médicos cearenses, estaremos preparados
para bem atender os doentes de nossa comunidade e, quando for o caso,
os enfermos de outros países.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jan/fev/2010

156
CARREIRA DE MÉDICO DE ESTADO

No dia 16 de dezembro de 2009, deu entrada na Câmara Federal
uma Proposta de Emenda Constitucional, a PEC 454/2009 (texto aces-
sível no sítio http://www.camara.gov.br/sileg/integras/727136.pdf ), que
estabelece diretrizes para a organização da carreira de médico de Estado.
Alguns aspectos da proposta devem ser assinalados:
1. No serviço público federal, estadual e municipal a medicina passa
a ser privativa dos membros da carreira única de medico de Estado,
organizada e mantida pela União.
2. O ingresso na carreira de médico de Estado dar-se-á através de
concurso público de provas e títulos, com a participação do respectivo
órgão de fiscalização profissional (o Conselho de Medicina).
3. O médico de Estado exercerá seu cargo em regime de dedicação
exclusiva e não poderá exercer outro cargo ou função pública, salvo no
magistério, na forma da Constituição Federal.
4. Para a ascensão funcional do médico, por merecimento, serão
levados em conta critérios de aperfeiçoamento profissional do médico,
conforme normas estabelecidas pela Associação Médica Brasileira e pelo
Conselho Federal de Medicina.
5. O médico federal admitido por concurso antes da promulgação
da emenda tem o direito de migrar para a carreira de médico de Estado.
6. Serão fixados, por lei, critérios objetivos de lotação e remoção dos
médicos de Estado, segundo a necessidade do serviço e considerando,
para a elaboração dos requisitos de remoção, a pontuação por lotação
em localidades remotas ou de difícil ou perigoso acesso.
7. O médico de Estado não poderá receber honorários, tarifas ou
taxas, auxílio ou contribuições de pessoas naturais ou jurídicas, públicas
ou privadas, nem participar do produto da sua arrecadação, ressalvadas
as exceções previstas em lei.
8. A remuneração inicial da carreira de médico de Estado será fixada,
157
por lei específica, em R$ 15.187,00 (quinze mil e cento e oitenta e sete
reais) e será reajustada anualmente.
A matéria é instigante e suscita reflexões e indagações: a criação de
uma carreira de Estado, com as características apontadas, é do interesse
dos médicos brasileiros? Poderá contribuir para garantir a presença de
médicos em todas as localidades do país? Trará benefícios para a assis-
tência à saúde da população? Será importante para melhorar o SUS?
Estes são pontos centrais que devem ocupar nossa atenção. Há muita
estrada pela frente antes que uma emenda constitucional como esta
seja votada pelo Congresso Nacional. Estamos convencidos, porém,
que devem ser buscados mecanismos e caminhos que permitam uma
evolução mais rápida no sentido de garantir acesso universal da popu-
lação a uma saúde de boa qualidade. É evidente que as medidas neste
sentido passam por uma melhor organização e gestão do sistema de
saúde e por aporte mais substancial de recursos para o setor. O que nos
remete, ainda uma vez, à Emenda 29, cuja regulamentação foi tantas
vezes agendada para votação no Congresso Nacional, mas que parece
enfrentar poderosas resistências à sua aprovação.
É hora de intensificarmos a mobilização de todos os que defendem
a saúde como um direito fundamental da cidadania. Urge que nos ar-
ticulemos em defesa da saúde pública e que busquemos sensibilizar os
parlamentares, particularmente os deputados federais e senadores cea-
renses, no intuito de que estes contribuam para que seja regulamentada
a Emenda Constitucional nº 29, possibilitando, assim, recursos para
dar mais abrangência ao SUS, ampliar o Programa Saúde da Família e
estruturar outros serviços que amenizem a superlotação dos hospitais
públicos. E que nossos parlamentares também analisem, discutam e
votem a criação da carreira de médico de Estado, viabilizando a presença
de médicos em todos os municípios do Brasil.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mar/abr/2010

158
MEDICAMENTOS FRACIONADOS

No dia 17 de junho de 2010, foi realizada na sede do Conselho
Regional de Medicina do Estado do Ceará uma conferência sobre o tema
“Medicamentos Fracionados: como prescrever”, ministrada pela Dra.
Cristina Marinho, da ANVISA. A iniciativa, para cuja concretização
houve a importante colaboração da Defensoria Pública Geral do Estado
do Ceará, teve por objetivo desencadear um processo de sensibilização
dos prescritores, particularmente os médicos, para a importância e as
vantagens do fracionamento dos medicamentos, medida que traria
benefícios para os usuários dos produtos farmacêuticos e ganhos para a
saúde pública. Estiveram presentes à discussão médicos, farmacêuticos
e odontólogos.
Do ponto de vista prático, o processo de fracionamento é proposto
assim: os medicamentos já serão produzidos pela indústria sob a forma
fracionável, ou seja, em embalagens especiais que permitam a venda
dos produtos de modo individualizado, mantendo-se a integridade das
formas farmacêuticas. Por sua vez, as farmácias disporão de um local
para fracionamento identificado e visível ao público. O médico, então,
faz uma prescrição que permita a dispensação na forma fracionada,
contendo a indicação da quantidade exata de unidades posológicas.
Deste modo, teremos, por exemplo, um paciente indo ao médico e
recebendo uma receita com a prescrição:
Tomar 2 comprimidos duas vezes ao dia por sete dias.
Neste caso, serão entregues ao paciente 28 comprimidos, em emba-
lagem própria e com a respectiva bula. O fracionamento do medicamen-
to deverá ser feito sob supervisão e responsabilidade do farmacêutico.
Alguns dos pontos positivos ressaltados na adoção da venda fracio-
nada de medicamentos foram os seguintes:
1) Torna-se possível a individualização da terapia medicamentosa,
o que constitui um direito do consumidor e usuário de medicamentos.

159
2) Ocorre redução das despesas com medicamentos e, portanto,
ampliação das possibilidades de acesso ao tratamento.
3) Evita-se a ocorrência de sobra de medicamentos, uma vez que
só é prescrita a quantidade a ser utilizada para a boa condução do res-
pectivo quadro clínico. Sabe-se que o uso acidental ou inadequado de
medicamentos está entre as principais causas de intoxicações, o que se
busca evitar ou pelo menos reduzir com o fracionamento.
Ressalte-se que os medicamentos sujeitos a controle especial (Por-
taria 344/98, da ANVISA) não podem ser fracionados.
Um aspecto importante que foi discutido diz respeito às alegações
que podem ser levantadas pela indústria no sentido de que a nova mo-
dalidade de produção dos remédios traria aumento de custos, o qual
teria inevitavelmente que ser repassado aos usuários. O entendimento
da ANVISA é o de que não serão aceitas majorações dos preços dos
medicamentos com base no fracionamento.
Há vários fatores que influem de forma importante para que haja
ou não uma boa condição de saúde da população. Certamente, os me-
dicamentos estão entre eles. Assim, ao mesmo tempo em que lutamos
para que os serviços de saúde sejam bem organizados, com pessoal com-
petente e comprometido com a saúde dos pacientes, com remuneração
digna e boas condições de trabalho, temos a clareza de que o direito
à utilização das ações de saúde passa pelo acesso e o uso racional de
medicamentos, com segurança e qualidade dos produtos prescritos, o
que está dentro dos propósitos da Política Nacional de Medicamentos.
Adotando-se, aqui, o conceito da Organização Mundial de Saúde de que
há uso racional quando pacientes recebem medicamentos apropriados
para suas condições clínicas, em doses adequadas às suas necessidades
individuais, pelo período adequado e ao menor custo para si e para a
comunidade. Consideramos, portanto, bem-vinda a proposta de fra-
cionamento dos medicamentos.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mai/jun/2010

160
VALORIZAÇÃO DO MÉDICO
E DOS PACIENTES

Tem sido frequente a veiculação pela imprensa de notícias sobre
as dificuldades encontradas pelos pacientes para a obtenção de atendi-
mento satisfatório para seus problemas de saúde. Embora o direito à
saúde esteja insculpido na Constituição Federal como uma conquista da
cidadania, são inúmeros os obstáculos com os quais se deparam os que
precisam de atendimento médico. Continuam as longas e demoradas
filas para a realização de cirurgias ou de exames complementares mais
complexos. Em algumas especialidades médicas, o acesso aos cuidados
de saúde é extremamente difícil, conforme tem sido observado pelo
Conselho de Medicina do Ceará nas fiscalizações que vem efetuando
em todo o Estado. Tudo isto ocorre, não obstante o reconhecido esfor-
ço de alguns gestores públicos para a ampliação dos serviços de saúde,
tornando-os mais resolutivos. Afinal, nos últimos anos substanciais
recursos têm sido aplicados no setor saúde. Houve a realização de
concursos públicos; hospitais e policlínicas estão sendo construídos;
deu-se o aumento de vagas para os Programas de Residência Médi-
ca. No entanto, embora constatando que avanços consideráveis vêm
ocorrendo, não há como escapar da percepção de que estamos longe de
alcançar um nível de atenção à saúde condizente com o que merece a
população. O Programa Saúde da Família continua com várias equipes
desfalcadas de médicos. Os serviços de emergência apresentam, com
incômoda assiduidade, o espetáculo dos corredores prenhes de macas
com enfermos em condições inóspitas.
É claro que a situação referida oprime os pacientes e angustia os
médicos, os quais acabam, em alguns momentos, sendo apontados
como culpados pelas mazelas do setor saúde. Nestas circunstâncias, o
profissional médico, que está na linha de frente da luta pela saúde, é
alvo de uma dupla injustiça, já que muitas vezes labora em péssimas
161
condições, é sobrecarregado por uma jornada excessiva de trabalho e
ainda lhe é atribuída uma responsabilidade que não é sua. No entanto,
temos que compreender que um doente em estado grave, que procura
um serviço de emergência, não vai aceitar placidamente não ser aten-
dido, ou ter o socorro retardado, porque o médico está ocupado no
cuidado de muitos outros enfermos, ou porque o serviço não dispõe
de profissionais de saúde em número suficiente. Como também não
vai nem deve se conformar em ser privado de recursos tecnológicos e
medicamentosos que sabe estarem disponíveis em nosso meio. E é de
todo conveniente que se insurja contra o adiamento de uma cirurgia
que só será salvadora se realizada em prazo curto. O salto de cidada-
nia talvez ocorra quando os médicos e os pacientes, conhecendo em
mais profundidade as causas das deficiências do setor saúde, somarem
forças na luta por maiores recursos para o financiamento da saúde e se
sentirem motivados para o exercício da fiscalização dos serviços que são
estruturados com o dinheiro público e, portanto, se destinam ao bom
atendimento da coletividade. A aliança dos pacientes com os médicos,
tão necessária e importante para a boa condução do tratamento das
enfermidades, se revelará decisiva para a consecução de conquistas
sociais da maior relevância, entre as quais se inclui uma saúde de boa
qualidade.
Temos o dever de continuar ressaltando a responsabilidade ética
e social da Medicina. Prosseguiremos conclamando os médicos a se
empenharem de forma contínua, buscando o alívio da dor e do sofri-
mento dos pacientes. De igual modo, entendemos ser justo o pleito
dos médicos por reconhecimento, respeito e condições dignas de
trabalho, para que possam, com o máximo de zelo e o melhor de sua
capacidade profissional, utilizar o que de mais avançado a tecnologia e o
conhecimento científico oferecem em benefício da saúde dos pacientes.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jul/ago/2010

162
DIRETIVAS ANTECIPADAS DE VONTADE

Em recente passagem pelo Brasil, o renomado bioeticista espanhol,
Diego Gracia, proferiu conferência sobre as manifestações prévias de
vontade dos pacientes acerca, particularmente, do que desejam e auto-
rizam que seja feito com eles se vierem a se encontrar em situação que
lhes dificulte ou impeça a expressão do próprio arbítrio. Exemplificando,
alguns pacientes querem deixar estabelecido que, no caso de terem uma
parada cardíaca, não gostariam de receber atendimento sob a forma de
tentativas de reanimação; ou que, se forem submetidos a cirurgia, não
aceitam transfusão de sangue. O tema tem frequentado alguns debates
em nosso meio, nomeadamente quando são analisados os conflitos
éticos relacionados com o tratamento dos pacientes em fase terminal de
doença grave e incurável. O que o ilustre conferencista trouxe a mais na
reflexão sobre a matéria foi a observação de que, ao longo da história da
Medicina, desde os tempos de Hipócrates, os médicos foram treinados
para a identificação dos sinais clínicos que caracterizam as diferentes
enfermidades, porém não desenvolveram igual atenção no que se refere
aos valores dos pacientes. Em outras palavras, os esculápios sempre se
mostraram empenhados na aquisição, da forma mais completa possível,
do conhecimento das manifestações objetivas das afecções, entendendo
ser este o caminho para a feitura precisa do diagnóstico e a prescrição
da terapêutica. As manifestações subjetivas, caso se verificassem, deve-
riam ser decodificadas e identificadas em termos de correspondentes
objetivos, isto é, sob a forma de sinais clínicos. Ocorre, no entanto,
que nas últimas décadas esta concepção foi perdendo força diante da
nova atitude dos doentes, os quais querem cada vez mais ter voz ativa
nas decisões sobre as medidas propedêuticas ou terapêuticas propostas
pelos médicos. Pleiteiam, ademais, que seu modo de ver a saúde, a do-
ença e o tratamento seja devidamente considerado. De tal modo que
as expectativas dos pacientes no caso, digamos, de uma doença grave,
163
ou na iminência de morte, se incorporaram definitivamente à discussão
dessas matérias.
E possivelmente tenhamos que ir mais além. Já não é incomum
encontrarmos um enfermo que se arroga o direito de definir o que para
ele é saúde e o que é doença. Invertendo, dessa maneira, toda uma con-
cepção milenar segundo a qual era a Medicina que fazia tal definição. E
enfatizando que consideram essa prerrogativa um direito fundamental.
E é em tais situações que se nota, primeiramente, certo descon-
forto e perplexidade dos médicos ante a demanda dos doentes por um
diálogo mais aprofundado a respeito de aspectos vistos até então pelos
profissionais da Medicina como sendo de caráter exclusivamente téc-
nico, científico; portanto, da esfera de competência dos doutores. Em
segundo lugar, fica mais ou menos patente o despreparo dos médicos
para incorporarem à sua prática clínica a avaliação dos valores dos pa-
cientes. Até mesmo porque não receberam o necessário adestramento
quanto a esta nova e surpreendente face do exercício profissional. Os
médicos foram formados para conhecer os fatos clínicos. Necessitam
agora dar a devida importância aos valores e crenças, desejos e emoções
dos doentes, aspectos fundamentais para que sejam tomadas decisões
clínicas apropriadas. Neste contexto, entram as diretivas antecipadas de
vontade, também chamadas de testamento vital. Que podem incluir a
designação de um representante do enfermo, investido da prerrogativa
de falar por ele, fazendo prevalecer o que expresse da forma mais fiel
possível a tábua de valores do paciente. Naturalmente, sem que haja
agressões ao ordenamento jurídico nem à arte médica.

Publicado originalmente no jornal Conselho em set/out/2010

164
ANTIBIÓTICOS

É fato amplamente conhecido que os medicamentos são vendidos
de forma indiscriminada no Brasil, podendo ser adquiridos em cantinas,
bodegas e até em farmácias... Frequentemente, os médicos têm conhe-
cimento de casos em que o doente toma determinado antibiótico por
três, dois, ou até um único dia, em posologia livremente estabelecida
ao sabor de palpites e opiniões de leigos, com grande probabilidade
de estar utilizando a medicação errada, em dose incorreta e por tempo
inadequado. Naturalmente, é fácil vislumbrar as consequências pre-
judiciais que tal situação pode acarretar, aí incluída a possibilidade de
aumento da resistência bacteriana. Por estas e outras razões, é bem-vinda
a medida recentemente adotada pela ANVISA (Agência Nacional de
Vigilância Sanitária), pondo em vigor a Resolução nº 44, que “dispõe
sobre o controle de medicamentos à base de substâncias classificadas como
antimicrobianos, de uso sob prescrição médica, isoladas ou em associação
e dá outras providências” (acessível no sítio http://www.cremec.com.
br/). Por sinal, há rumores de que medidas assemelhadas estão sendo
estudadas em relação aos anti-inflamatórios.
Destaquemos alguns dos pontos mais importantes da norma re-
ferida:
1. A dispensação de medicamentos à base de antimicrobianos de
venda sob prescrição somente poderá ser efetuada mediante receita de
controle especial, sendo a 1ª via retida no estabelecimento farmacêu-
tico; a 2ª via será devolvida ao paciente, atestada, como comprovante
do atendimento.
Obs.: não significa necessariamente o modelo de receituário usado
para prescrever psicotrópicos; pode ser usado o receituário comum, em
2 (duas) vias, desde que contenha os dados listados abaixo.

165
2. As prescrições somente poderão ser dispensadas quando apre-
sentadas de forma legível e sem rasuras, por profissionais devidamente
habilitados e contendo as seguintes informações:
I - nome do medicamento ou da substância prescrita, dosagem ou
concentração, forma farmacêutica, quantidade (em algarismos arábicos
e por extenso) e posologia;
II - identificação do emitente: nome do profissional com sua inscri-
ção no Conselho Regional ou nome da instituição, endereço completo,
telefone, assinatura e marcação gráfica (carimbo);
III - identificação do usuário: nome completo;
IV - data da emissão.
Obs.: por ocasião da compra do medicamento, será feita a identi-
ficação do comprador.
3. As receitas de antimicrobianos terão validade de 10 (dez) dias a
contar da data de sua emissão.
4. A supracitada Resolução tem um anexo com a lista dos 93 anti-
microbianos registrados na ANVISA, e a observação que “não se aplica
aos antimicrobianos de uso exclusivo hospitalar”.
Entendemos que a determinação da ANVISA, embora possa
inicialmente trazer algum transtorno para médicos e pacientes, tem o
intuito de proteger a saúde da população, racionalizando a utilização
dos antibióticos, além de fortalecer a prescrição médica. Cabe, porém,
uma observação: é mais que pertinente a preocupação de todos os cida-
dãos com a preservação ecológica do planeta. Assim, considerando que
vivemos um momento de efervescência da tecnologia da informação, um
mundo virtual em expansão, com emprego crescente da “computação
em nuvem”, é razoável supor que possam ser adotadas outras formas
de controle da utilização de medicamentos que não aumentem, mas
sim reduzam o consumo de papel. É esta a ponderação que levaremos
à consideração da ANVISA.

Publicado originalmente no jornal Conselho em nov/dez/2010
166
SER MÉDICO

Em recente reunião de término de uma turma do Programa de
Residência de Clínica Médica do Hospital Geral Dr. César Cals, foram
ouvidos dos novos especialistas pronunciamentos reveladores. Assim,
uma médica falou do entusiasmo com que foi adquirindo cada vez mais
conhecimentos de medicina, em sua atividade cotidiana no hospital, nas
visitas aos pacientes de enfermaria, na luta incessante para viabilizar a
realização de um exame decisivo para o esclarecimento diagnóstico do
quadro clinico do enfermo que acompanhava, podendo, então, esta-
belecer a melhor conduta terapêutica. Empregou por diversas vezes a
palavra “paixão”, para expressar o sentimento que a motivava no cuidado
dos doentes e dizia: “eu sinto, no meu trabalho, paixão pelo que faço, o
desejo de aprender cada vez mais, a motivação de correr aos livros em busca
de esclarecer as dúvidas, de saber mais”. Um residente discorreu sobre
a inquietude que o acometia quando ia para casa e não via a hora de
consultar os livros e acessar a internet para tentar obter esclarecimentos
sobre as incertezas clínicas que o incomodavam. Todos os concludentes
faziam rasgados elogios à dedicação dos preceptores e supervisores dos
programas de residência médica, considerando tal fator de fundamental
importância para o crescimento científico de cada um deles. Tantos e
tão eloquentes depoimentos daqueles médicos e médicas resgatavam o
que parece ser um dos sentidos originais da expressão “ter entusiasmo”,
ou seja, conter em si algo de divino. Suscitando, por sua vez, uma re-
flexão sobre a atitude que se espera do verdadeiro médico. Pois, se é,
sem dúvida, com seriedade, dedicação e zelo que a Medicina deve ser
exercida, a alegria, a paixão e o entusiasmo também são bem-vindos.
E é salutar o anseio do médico por crescer em conhecimentos, não por
orgulho intelectual, não pela vaidade de ostentar saber ante os pares e
se colocar em posição de inatingível superioridade perante os enfermos,
mas pelo propósito de empenhar esforços para ter condição de utilizar o

167
que de melhor pode oferecer a ciência médica para o alívio das doenças.
A valorização do conhecimento e a ênfase na atitude ética diante
dos pacientes são princípios basilares da atividade médica que devem
ser incentivados durante todo o período de formação dos futuros escu-
lápios, desde a fase dos bancos escolares, prolongando-se nas atividades
teóricas e práticas da Residência Médica e, assim, consolidando um
modo de agir para todo o período de exercício da profissão médica. É
estabelecendo tais parâmetros de conduta profissional que o médico vai
evitar as acusações por imperícia, imprudência ou negligência, fazendo
com que não ocorram situações como as que têm dado margem às de-
núncias que chegam ao Conselho de Medicina. Denúncias que falam
que o médico foi descuidado, desatento, não examinou bem o paciente,
deixou de solicitar exames fundamentais para a elucidação diagnóstica.
Ou que o doutor foi grosseiro, desrespeitoso com pacientes ou familiares
destes. Ou, ainda, que não levou em consideração os valores do doente,
suas crenças e razões de consciência; ou seja, que deixou de tratar como
devidamente relevante a autonomia do paciente, isto é, o direito do
enfermo de participar ativamente das decisões sobre o tratamento que
vai receber, após devidamente esclarecido sobre as alternativas existentes
e os benefícios e os riscos de cada uma delas.
Avulta, portanto, o papel das instituições formadoras dos médicos,
entre as quais estão as Faculdades de Medicina e os serviços que mantêm
Programas de Residência Médica, que se obrigam a diligenciar para que
a preparação científica e ética dos médicos seja planejada de forma a
possibilitar que a ciência e a ética se aliem em prol do exercício digno
e humanista da Medicina.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jan/fev/2011

168
BIOÉTICA: RECORTES, DÚVIDAS E
INQUIETAÇÕES

Recentemente, foi noticiado pelos meios de comunicação um fato,
ocorrido em Curitiba, que dá o que pensar. Um casal, em busca de ter
filhos, recorreu à inseminação artificial. Como resultado, nasceram três
crianças. Ao vir à maternidade, o pai dos bebês mostrou-se insatisfeito
e se dispôs a levar para casa apenas duas filhas, o que estaria mais de
acordo com o planejamento familiar por ele estabelecido. Quanto à
terceira criança, o doutor que a criasse... O caso foi parar no Conselho
Tutelar. As técnicas de reprodução assistida, normatizadas pelo Conselho
Federal de Medicina (CFM) através da Resolução 1.957/2010, “têm
o papel de auxiliar na resolução dos problemas de reprodução humana,
facilitando o processo de procriação quando outras terapêuticas tenham se
revelado ineficazes ou consideradas inapropriadas”. Sua utilização deve ser
precedida do consentimento informado dos interessados, após a devida
explicação sobre os aspectos técnicos, biológicos, éticos, econômicos e
jurídicos do procedimento. Em caso de gravidez múltipla, não pode ser
feita a redução embrionária. Leitores da matéria jornalística supracita-
da comentaram o tema dizendo que não viam muita diferença entre
a atitude do pai, que queria “descartar” a terceira criança, e o descarte
de pré-embriões.
Em sessão clínica ocorrida há poucos dias, o debate centrou-se
nas circunstâncias que cercaram o tratamento de uma mulher jovem,
internada em hospital público de Fortaleza com um grave quadro de
leucemia. Acrescente-se que a enferma era Testemunha de Jeová e, em
decorrência, não aceitava receber transfusão de sangue. Com a paciente
piorando muito e passando a correr risco de vida, o médico assistente
se viu mais uma vez ante um impasse: respeitar a vontade da doente,
ou utilizar medidas que poderiam ser salvadoras (com destaque para a
transfusão de sangue), fazendo prevalecer o arbítrio do médico sobre a
autonomia da pessoa hospitalizada? Socorrer a paciente, e assim poder

169
sofrer a acusação de desrespeitar o direito à crença da enferma, ou não
agir e ser passível de acusação por omissão de socorro? Estas situações,
que ocorrem com certa frequência, suscitam dúvidas que estão longe
de uma solução pacífica. Entretanto, existe norma promulgada pelo
Conselho Federal de Medicina, a Resolução CFM nº 1.021/1980,
que disciplina, em síntese: 1) Se não houver iminente perigo de vida,
a vontade do paciente ou de seu responsável deve ser acatada; 2) Caso se
verifique iminente perigo de vida, o médico deve realizar a transfusão,
independentemente de consentimento.
Noutro importante hospital da capital alencarina, um paciente
jovem, não doador de órgãos, teve diagnóstico clínico de morte ence-
fálica. Em circunstâncias assemelhadas, uma pergunta que surge é se os
equipamentos que vinham mantendo artificialmente a vida do paciente
podem ser de pronto desligados. Não havendo naquele nosocômio a
possibilidade imediata de utilização de exames complementares que
confirmassem a morte, houve certa hesitação dos médicos sobre o que
fazer. Foi aí que os familiares pressionaram a equipe de saúde, no sentido
de que fossem desligados os aparelhos. Atitude diametralmente oposta
se deu em outro caso, acontecido há alguns anos (e estamos sempre
falando de vivências em hospitais de referência de Fortaleza), em que o
médico assistente de um paciente em morte encefálica se viu obrigado
a prescrever para o de cujus drogas vasoativas e antibióticos.
As matérias citadas acima são ilustrativas de que se multiplicam
os contextos em que talvez o maior desafio seja o de exercitar a capa-
cidade de convivência entre opiniões, crenças e cosmovisões bastante
diferentes. O mundo é cada vez mais diversificado e plural. Conceitos
há muito sedimentados são postos em xeque. Neste cenário, a bioética
tem importante contribuição a dar, ampliando os horizontes da reflexão
e estimulando a revisão desapaixonada de teorias e práticas no campo
da saúde e da vida.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mar/abr/2011

170
AUDITORIA MÉDICA

Têm sido frequentes as reclamações de médicos, pacientes e hos-
pitais contra auditores de planos de saúde e cooperativas médicas. As
queixas mais comuns se referem a supostas interferências dos auditores
na autonomia dos médicos assistentes dos pacientes, quer vetando,
quer modificando procedimentos médicos. Ademais, em alguns casos
ocorreriam exigências consideradas descabidas, como solicitações de
exames complementares a que teriam de se submeter os pacientes para
que os auditores dessem a autorização para o ato médico indicado.
Na Bahia, planos de saúde fizeram a proposta de ter sistematicamente
um auditor presente durante os procedimentos cirúrgicos. Em debate
acontecido recentemente no Conselho Regional de Medicina do Ceará,
noticiou-se determinada situação na qual a auditoria impôs a realização
de RX para que fosse aferido se de fato tinha sido colocada uma prótese
no enfermo. Em outras circunstâncias, ficavam o doente e o médico
frustrados não apenas por não conseguirem concretizar a conduta clínica
proposta, mas também pelo insucesso na tentativa de identificar quem
realmente estava desautorizando o exame ou a cirurgia considerada
necessária para o paciente. Era como se, nestes casos, a auditoria fosse
invisível, agindo na sombra.
A auditoria médica, como a conhecemos, ganhou relevância nas
últimas três décadas. Inicialmente, tínhamos as solicitações no sentido
de que os serviços médicos enviassem para a auditoria do INAMPS os
prontuários dos pacientes, para a respectiva análise. O que deu margem
a manifestação do Conselho Federal de Medicina (CFM) estabelecen-
do que os auditores, caso tivessem necessidade de consultar dados do
prontuário de pacientes, deveriam fazê-lo no próprio hospital ou clínica
onde ocorria o atendimento médico, de onde os prontuários não po-
deriam ser retirados. Afirmava o CFM, no entanto, ser perfeitamente
aceitável que as organizações contratantes de serviços médicos fizessem
171
uso, respeitando os princípios éticos da prática médica, de mecanismos
de averiguação da realização dos referidos serviços e que estivessem
atentas à qualidade da assistência médica ofertada. Por este lado, não se
identificavam quaisquer problemas de ordem ética. No entanto, com o
passar dos anos, quando ocorreu, entre outras coisas, a grande expansão
da medicina suplementar e a surpreendente pujança das operadoras de
planos privados de assistência à saúde, os conflitos foram ganhando
forma e se tornando mais complexos. As acusações de que os planos de
saúde queriam reduzir custos a qualquer preço, mesmo em detrimento
da saúde dos enfermos, passaram a ser confrontadas com alegações de
que muitas vezes se verificavam procedimentos médicos desnecessários
e onerosos, afetando a saúde dos pacientes e o equilíbrio financeiro das
empresas do setor. Fazia-se necessária uma regra ética clara, no sentido
de garantir o exercício autônomo da medicina em benefício da saúde
dos pacientes.
Tal normatização encontra-se bem delineada no Código de Ética
Médica, particularmente em seu artigo 97, que diz ser vedado ao audi-
tor autorizar, vetar, bem como modificar procedimentos propedêuticos
ou terapêuticos instituídos. Há uma ressalva quanto à possibilidade de
modificação da conduta médica em situações de urgência, emergência
ou iminente perigo de morte do paciente, circunstância que deve ser
comunicada, por escrito, ao médico assistente.
Diante disto, alguém poderia perguntar: se é assim, o que o audi-
tor pode fazer? É certo que não compete ao auditor fazer anotações no
prontuário do paciente, nem formular críticas à conduta do médico
assistente para os enfermos ou familiares deste, mas reservará suas ob-
servações para o relatório de auditoria. Não é aceitável que o auditor
adote uma atitude policialesca, ou queira repreender o médico assistente.
Pode, no entanto, solicitar deste esclarecimentos sobre o exame ou o
tratamento em curso, uma vez que tais informações sejam relevantes
para as conclusões da auditoria. É-lhe permitido, ainda, consultar o

172
prontuário do paciente e até mesmo examinar o doente; neste último
caso, há necessidade de autorização do enfermo, e o médico assistente
deve ser antecipadamente cientificado, sendo-lhe facultado estar pre-
sente durante o exame. Se o auditor constatar indícios de ilícito ético
no atendimento ao paciente, obriga-se a fazer a devida comunicação ao
Conselho Regional de Medicina, conforme normatizado na Resolução
CFM nº 1.614/2001.
Objetivando contribuir para uma melhor compreensão de todas
estas questões, a Câmara Técnica de Auditoria do Conselho Regional de
Medicina do Ceará vai realizar um curso que brevemente será oferecido
a todos os médicos interessados no assunto e que buscará pelo menos
reduzir os conflitos anteriormente citados entre auditores, médicos
assistentes e pacientes.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mai/jun/2011

173
O MONTE SINAI E O SUS

Há quem diga que na célebre audiência que concedeu a Moisés, no
Monte Sinai, Javé entregou-lhe as Tábuas da Lei, contendo um único
Mandamento; no máximo seriam dois... Era o que o Todo Poderoso
considerava suficiente para manter o povo escolhido nos caminhos da fé,
da retidão e da justiça. Imbuído da séria responsabilidade de transmitir
e fazer cumprir pelos hebreus os ditames do Altíssimo, descia Moisés do
monte, quando, ainda à distância, percebeu a esbórnia a que estavam
entregues seus comandados. Libações etílicas, orgias, excessos sexuais,
agressões e atos de idolatria eram algumas das amenidades que ocupa-
vam aquelas ovelhas. Estarrecido, parou Moisés e pensou: “Um único
Mandamento!? Para essa turminha aí? Não vai funcionar...” Decidiu,
então, ampliar a Lei Magna dos Hebreus, tornando-a um dispositivo
normativo-penal, e acrescentando a proibição de matar, de roubar, de
desejar a mulher do próximo, e assim por diante, até completar os Dez
Mandamentos que chegaram aos nossos dias.
Entre nós, Capistrano de Abreu (Maranguape, 1853 – Rio de Ja-
neiro, 1927) pretendeu trilhar caminho diverso. Propôs que todos os
artigos da Constituição do Brasil fossem substituídos por um só, que
adotaria a seguinte redação: “Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha
na cara. Revogam-se as disposições em contrário.” No entanto, mais uma
vez, a formulação foi considerada incompleta. Entenderam os legisla-
dores que o mundo real, imperfeito, exigia um maior detalhamento
dos princípios, preceitos e vedações. O resultado foi uma Constituição
extensa, cujo conhecimento mais profundo fica para especialistas. Em
sua essência, no entanto, a carta magna, na versão aprovada em 1988,
foi elaborada com a clara intenção de propiciar avanços no sentido da
consolidação da cidadania. Reconheceram os constituintes que a enorme
dívida social precisava, pelo menos em parte, ser resgatada. Direitos
sociais secularmente menosprezados tinham que ser afirmados. Entre
estes, estava o direito à saúde.
175
Por que tais e tão momentosos acontecimentos são agora lembra-
dos? Para ajudar a reflexão sobre as mais recentes ocorrências no mundo
político. Parece que a maior extensão e a minudência dos textos legais
não têm trazido tranquilidade ao erário. Encontramo-nos outra vez
em meio a relatos de uso indevido do dinheiro público, em que somos
surpreendidos por acusações envolvendo obras, estradas, transportes e
banheiros de existência duvidosa. É neste contexto que outra vez é posta
em discussão a regulamentação da Emenda 29, que disciplina o quanto
União, Estados e Municípios devem gastar com a saúde dos brasileiros.
Desde a sua criação, o Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta
graves dificuldades de financiamento. Existem, é claro, outras questões a
considerar, como a necessidade de que sejam aprimorados os processos
de gestão e a política de recursos humanos do SUS. No entanto, não pa-
rece haver dúvidas de que o gargalo maior reside na carência de recursos
para ampliar as ações e os serviços de saúde à disposição da população.
E para que seja contratado pessoal qualificado e em número suficiente,
possibilitando o atendimento universal, igualitário e resolutivo a todos
os cidadãos do país, como rezam as regras constitucionais e legais que
disciplinam a matéria.
Para que o orçamento da saúde seja condizente com as neces-
sidades da população, impõe-se a adoção de medidas mais eficazes na
fiscalização do emprego do dinheiro público. Entretanto, também é
imprescindível definir de forma clara quais são verdadeiramente as ações
de saúde, de modo a evitar que os recursos do setor sejam desviados
para outras finalidades. O olhar atento da sociedade não permitirá a
utilização de artifícios para desconstruir a Emenda 29, tornando-a
anódina, inócua. Mas vai garantir, isto sim, que a saúde seja tratada
como a sociedade brasileira exige, e a legislação pátria prescreve.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jul/ago/2011

176
AS (MÁS) CONDIÇÕES DO
TRABALHO MÉDICO

O movimento reivindicatório dos médicos da Prefeitura de For-
taleza, em andamento desde o mês de maio de 2011, tem algumas
características que merecem uma análise mais acurada. Desta vez, a
questão central a balizar a mobilização não é o pleito salarial, mas sim
as condições de trabalho. Isto não significa que não haja empenho em
levar a Prefeitura a honrar os débitos que tem com os médicos, dos quais
só as gratificações atrasadas, ou seja, devidas e não pagas, superam a
importância dos R$ 11.000.000,00 (onze milhões de reais). Nem que
a categoria médica tenha desistido de alcançar parâmetros remunerató-
rios dignos, cuja referência é o Piso Nacional da FENAM. Há, porém,
uma grande preocupação com as condições extremamente precárias
nas quais é exercida a Medicina em alguns serviços da rede municipal,
particularmente nas emergências. Médicos relatam que, com grande
frequência, ocorrem situações em que, por exemplo, só há um cirurgião
de plantão, enquanto vários pacientes necessitam de cirurgia, e outros
mais chegam ao serviço solicitando atendimento. Noutras vezes, há
cirurgiões, mas faltam anestesiologistas. Ou, ainda, é visto um único
clínico tendo que prestar atendimento a cerca de 80 a 100 pacientes
em um turno de 12 horas de trabalho. O que gera grande ansiedade
nos esculápios, pois surgem dilemas quanto a quem atender primeiro
e o que fazer com os que ficam à espera, além da percepção de que tal
cenário é propício à ocorrência de atitudes hostis e até mesmo agressões
em relação aos profissionais de saúde. Ademais, o retardo no atendi-
mento a alguns pacientes pode resultar em prejuízos graves para a saúde
dos mesmos. Portanto, trata-se de um conjunto de circunstâncias que
abrangem aspectos científicos, éticos e legais, não sendo aceitável que
semelhante estado de coisas persista. Daí a justeza do movimento que
expõe a insatisfação e não aceitação dos médicos com a forma pela qual
vêm sendo tratados pacientes e profissionais da Medicina.
177
Para tentar reverter semelhante quadro, impõe-se a contratação
imediata, pelo poder público, de mais médicos e outros profissionais de
saúde, além da adoção de providências consistentes no sentido de que
os serviços de saúde estejam devidamente aparelhados com os equipa-
mentos e insumos indispensáveis ao atendimento rápido e resolutivo
às carências de saúde dos munícipes. Ademais, a regulação médica e a
transferência inter-hospitalar de pacientes estão a exigir uma atenção
especial, de forma que haja uma melhor integração dos vários serviços
da rede, permitindo uma mais razoável distribuição das ações em prol
da saúde da população.
Numa outra vertente do trabalho médico, constata-se que se acen-
tuou a inquietação dos médicos que prestam serviços aos Planos de
Saúde, o que se expressou em paralisações do atendimento aos pacientes
nos dias 7 de abril e 21 de setembro de 2011, com significativa parti-
cipação dos profissionais da Medicina, os quais reivindicam melhoria
na remuneração e boas condições de trabalho. É fato notório que os
vultosos lucros percebidos pelos planos de saúde estão bem acima do
que essas organizações se dispõem a repassar para a remuneração dos
médicos, embora sejam estes os profissionais que efetivamente aten-
dem os doentes em suas várias enfermidades. Esses fatos reafirmam a
compreensão de que os convênios são uma forma atrasada de prestação
de serviços médicos, uma vez que se caracterizam pela não concessão
sequer dos mais elementares e consagrados direitos dos trabalhadores,
efetivados há décadas mesmo nas condições mais inóspitas do capitalis-
mo. Em tal modalidade de trabalho, conquistas como férias, 13º mês,
manutenção da remuneração durante o período em que o trabalhador
está doente, fundo de garantia por tempo de serviço e outras que tais
estão distantes do horizonte das chamadas operadoras dos planos de
saúde. É importante não omitir, ainda, o constante mal-estar na relação
médico-paciente em decorrência das limitações quanto à realização de
exames complementares e às dificuldades para que o enfermo consiga

178
ser hospitalizado. Deste modo, conclui-se que também na área da saúde
complementar há muito que ser mudado para que os médicos possam
exercer o melhor do seu saber em benefício dos pacientes.
O Conselho Regional de Medicina do Ceará continuará atento e
participativo na luta para que os médicos tenham condições de traba-
lhar de forma ética, competente e humanista, dentro dos princípios
consagrados na tradição milenar da Medicina.

Publicado originalmente no jornal Conselho em set/out/2011

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REVALIDAÇÃO DO DIPLOMA DE MÉDICO

Nos dias 1 e 2 de dezembro de 2011, realizou-se em Brasília o II
Fórum Nacional de Ensino Médico. Na oportunidade, foram postas
em discussão algumas das questões mais candentes relacionadas com
o ensino da medicina, com particular destaque para as vicissitudes da
revalidação do diploma de médicos formados no exterior. Certas in-
formações causaram preocupação. Noticiou-se (de fato, o informe foi
dado publicamente pelo Dr. Aníbal Cruz Senzano, Secretário Geral
do Colégio Médico Departamental de Cochabamba) que há 25.000
brasileiros estudantes de medicina na Bolívia, em sua quase totalidade
em faculdades privadas. E que os antecedentes mostram que quase to-
dos esses estudantes, uma vez concluído o curso, voltam para seu país
de origem. Não foi posta em dúvida a prerrogativa de alguém decidir
estudar medicina em faculdade de outro país. Ficaram no ar, entretanto,
grandes interrogações sobre a qualidade da formação ministrada por
algumas das faculdades privadas de medicina da Bolívia. Se considerar-
mos, ademais, que muitos brasileiros estão atualmente fazendo curso
médico em Cuba, na Argentina e em outros países, afigura-se mais do
que necessária a criação de mecanismos bem elaborados de avaliação
curricular e da formação científica, técnica e ética dos graduados em
medicina, de forma a assegurar que apenas médicos bem formados serão
autorizados a exercer a profissão em nosso país.
Não é de hoje que se discute a qualidade da formação dos mé-
dicos do Brasil. É senso comum que todo cidadão tem o direito de ser
atendido por um médico competente, ético e comprometido com a saúde
da população. O que torna imprescindível que o curso de medicina seja
comprovadamente capaz de propiciar aos alunos a aquisição de conhe-
cimentos teóricos e práticos da ciência médica e de bem aferir a conduta
ético-moral dos seus formandos. Adotando, ademais, processos eficazes
que mensurem a progressiva evolução dos alunos, ao longo de todo o
181
curso, e implementando medidas voltadas para a correção de eventuais
lacunas em áreas do conhecimento de algum graduando, ou de desvios
de conduta do futuro esculápio.
É claro que estamos falando de um processo trabalhoso, árduo,
que deve estar sujeito a frequentes reavaliações. E se é assim, que dizer
da atenção a ser dispensada aos médicos formados no exterior? Que
providências devem ser tomadas e que exigências devem ser cumpridas
antes que eles sejam autorizados à prática da medicina em nosso meio?
As entidades médicas têm abordado exaustivamente toda essa proble-
mática com as universidades e com o governo.
Na esteira da reflexão sobre essas matérias, os Ministérios da Edu-
cação e da Saúde, através da Portaria Interministerial n° 278, de 17 de
março de 2011, instituíram o Exame Nacional de Revalidação de
Diplomas Médicos expedidos por universidades estrangeiras, que ficou
conhecido como REVALIDA. O exame, constando de questões teóricas
e situações práticas, parece trazer um importante aprimoramento se
comparado aos formatos anteriormente adotados pelas universidades
brasileiras para a revalidação dos diplomas, e foi aplicado recentemente,
tendo sido aprovados 65 médicos dos 536 que se submeteram à prova
escrita (com 110 questões objetivas do tipo múltipla escolha e cinco
questões discursivas). Os médicos cujos diplomas podem agora ser
revalidados passaram também por uma prova de habilidades clínicas.
Convém esclarecer que o REVALIDA ainda não é obrigatório,
não está disciplinado em lei. Transcorreu por meio de adesão de várias
universidades, entre estas a Universidade Federal do Ceará. Mas talvez
se consolide como o modo mais indicado para garantir e dar segurança
ao país de que, independentemente da escola médica que cursaram,
os autorizados a laborar na ciência hipocrática estão efetivamente em
condições de fazê-lo.

Publicado originalmente no jornal Conselho em nov/dez/2011

182
PREMIAÇÕES

Nos primeiros dias do ano em curso, dezenas de médicos com atu-
ação no Estado do Ceará receberam correspondência com a informação
de que eles iriam receber o 13° Prêmio Brasil, categoria medicina, pas-
sando a integrar a lista dos profissionais altamente qualificados como
“Os Mais Admirados e Prestigiados do País”. Cautelosos, muitos desses
médicos se dirigiram ao Conselho Regional de Medicina, em busca de
esclarecimento. Queriam saber a pertinência de receberem tal prêmio,
qual a representatividade da entidade promotora do evento e se não
havia alguma impropriedade ética na participação de médico em seme-
lhante premiação. Alguns até se sentiram lisonjeados com a distinção.
Afinal, não é de estranhar que quem trabalhou, por anos e anos, com
zelo, dedicação e competência, dando o melhor de si em benefício da
saúde dos doentes, entenda que faz jus ao respectivo reconhecimento.
Outros chegaram a comentar que não sabiam o que tinham feito além
do comum a muitos outros médicos, ou seja, buscar sempre atender bem
os pacientes. O que, é certo, lhes assegurava a gratidão e o respeito de
numerosos enfermos e respectivas famílias. Não obstante isto, porém,
lhes parecia inusual o teor da missiva recebida, originária, ademais, de
uma fonte que não conheciam. Assim, não atinavam com as verdadei-
ras razões de serem considerados merecedores de galardão do porte do
que lhes fora anunciado, ainda mais partindo de instituição sediada a
muitos quilômetros de distância dos verdes e bravios mares alencarinos.
Tomando conhecimento de que fato semelhante ocorrera em mui-
tos outros Estados da Federação, este Conselho diligenciou junto ao
Conselho Federal de Medicina no sentido de obter segura orientação.
Em resposta, aquela autarquia encaminhou ao CREMEC a Circular
CFM n° 30/2012 – PRESI, na qual é informado que “o CFM se posi-
ciona contrariamente a esse tipo de premiação, uma vez que ela viola a
Resolução CFM n° 1.974/2011, que estabelece os critérios norteadores
183
da propaganda em Medicina. A citada Resolução diz em seu artigo 12
que “O médico não deve permitir que seu nome seja incluído em concursos
ou similares, cuja finalidade seja escolher “o médico do ano”, “destaque”,
“melhor médico” ou outras denominações que visam ao objetivo promocional
ou de propaganda, individual ou coletivo”.
Para os Conselhos de Medicina, portanto, persiste a compreensão
de que o trabalho médico tem seu ápice e maior realização no contexto
da relação médico-paciente, cenário em que são vivenciadas as maiores
satisfações profissionais, e se constrói e se reafirma o prestígio e o bom
conceito da Medicina, hoje e sempre. É neste âmbito que ocorre a mais
autêntica premiação, concretizada nas palavras de agradecimento dos
pacientes e dos seus familiares.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jan/fev/2012

184
DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA
CEARENSE DE MEDICINA*

Senhoras e Senhores
Em primeiro lugar, quero expressar meu agradecimento pela
honraria que me é concedida na data de hoje, fruto da generosidade
dos integrantes da Academia Cearense de Medicina.
Tenho a responsabilidade de assumir a cadeira nº 63, cujo patrono
é o ilustre médico Vinicius Antonius Holanda de Barros Leal. Nascido
em Baturité, em 16 de outubro de 1922, o Dr. Vinicius Barros Leal
formou-se em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco,
em 1948. Teve um período de atividade política, sendo vereador de
Fortaleza, de 1951 a 1954. Especializou-se em Pediatria, no Hospital
das Clínicas da Universidade de São Paulo, em 1959, e obteve o
Título de Especialista em Pediatria pela Associação Médica Brasileira.
Inscreveu-se no Conselho Regional de Medicina do Ceará, com o CRM
nº 63. Casou-se com Dona Idilva de Castro Alves, com quem teve sete
filhos. Presidiu o Centro Médico Cearense, no período 1963-1964.
Desenvolveu atividade docente, sendo Professor de Clínica Pediátrica
da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, e foi
um dos fundadores da Sociedade Cearense de Pediatria, da qual foi
Presidente, no período 1970-1971. Publicou vários livros, dentre os
quais destacamos “A colonização portuguesa no Ceará – O povoamento”
e “História da Medicina no Ceará”. Este último merece um registro
adicional: em 1978, o Governador do Estado do Ceará, o médico
Waldemar Alcântara, assinou um Decreto instituindo prêmio para a
melhor monografia que versasse sobre o tema “História da Medicina no
Ceará”, com o intuito de comemorar o 30º aniversário de fundação da
Faculdade de Medicina do Estado. Inscrevendo-se no dito certame, com
o pseudônimo Galeno de Monte-Mor, o Dr. Vinicius Barros Leal obteve
o 1º lugar. A monografia vencedora deu origem ao livro referido. O
185
autor trabalhou, ainda, como médico da Legião Brasileira de Assistência
e foi Diretor do Asilo de Menores Juvenal de Carvalho. Foi membro do
Instituto do Ceará, da Academia Cearense de Medicina e da Academia
Cearense de Letras. O ilustre médico, após uma vida laboriosa e plena
de realizações, faleceu em 13 de abril de 2010.
No momento em que vou ocupar a cadeira de tão insigne mestre
da Medicina e da cultura cearense, permito-me algumas lembranças e
reflexões. Em minha formação médica, dei os primeiros passos sob a
competente orientação dos Doutores Nilson de Moura Fé e Orgmar
Marques Monteiro Filho. Ainda no curso médico, era incentivado a
ler Freud, para começar a entender a psicodinâmica das emoções e dos
comportamentos, a valorizar todas as manifestações sintomáticas dos
doentes e apreender o significado da afirmação de Terêncio:
“Nada do que é humano me é estranho.”
Foi também a época de estudar “O Eu dividido”, notável obra
de Ronald Laing, para tentar compreender o profundo processo de
cisão do pensamento, da afetividade, da personalidade do paciente
esquizofrênico. Sem dispensar a leitura dos grandes escritores, os
quais muitas vezes vislumbram com notável agudeza os aspectos mais
recônditos da imaginação e do sentir humano. Assim é que encontramos
no Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, o Coro das Ninfas indagando:
“Que remédio deste aos humanos contra o desespero?”
Ao que Prometeu responde:
“Dei-lhes uma esperança infinita no futuro.”
Em contrapartida, Nietzsche entende que, somente aceitando a
finitude, o homem vai superar o desespero. Já nos Comentários sobre
a Primeira Década de Tito Lívio, de Maquiavel, lemos que “todos os
homens são maus, estando dispostos a agir com perversidade sempre que
haja ocasião”. E em Shakespeare, Hamlet afirma que, se formos tratar as
pessoas como merecem, ninguém escapará do chicote. Em tom jocoso,
Erasmo de Roterdam celebra a insensatez como a marca registrada do

186
Homo sapiens. Outros autores exemplificam situações em que alguém
sente certo prazer com o sofrimento alheio. Enfim, mostram algumas
das faces ocultas que ilustram de que barro os humanos somos feitos,
sem faltar o relato de demonstrações de solidariedade, desprendimento,
generosidade, heroísmo. A compreensão de que essas são características
humanas universais talvez ajude o médico a ter um olhar mais tranquilo
para as numerosas facetas da personalidade e do comportamento das
pessoas, facilitando-lhe o viver e o clinicar.
Tais incursões pelas várias formas de pensar a vida e descrever a
aventura humana são uma importante fase preparatória para a prática
clínica, que é, na psiquiatria, um exercício de relacionamento humano,
de auscultar e buscar detectar a dor psíquica, o mal-estar, a angústia, a
tristeza, os dramas familiares. Destacando-se aí o grande significado do
encontro terapêutico, em que uma das metas mais relevantes é conseguir
evitar que, segundo a expressão de Tristam Engelhardt, o paciente se
sinta “como um estranho em uma terra estranha”.
Convém ter em mente, ademais, que durante uma consulta, o
médico examina o paciente e, ao mesmo tempo, o paciente examina o
médico. A impressão que o doente tem do médico é fundamental para
que haja um bom vínculo terapêutico e o tratamento tenha chance de
chegar a um bom resultado. Podemos mesmo afirmar que, em muitos
casos, quando a primeira consulta é bem-sucedida o paciente já começa
a melhorar. Atenção especial deve ser dada ao relato do paciente, às
manifestações clínicas e também às emoções do enfermo. Saber ouvir
é um dos requisitos essenciais para a atividade médica. Recordemos o
aforismo de Sir William Osler:
“Médico, escute o paciente. Ele está dizendo o diagnóstico para você.”
Ao mesmo tempo, jamais poderemos olvidar o alerta de Hipócrates,
ao afirmar que a experiência é enganosa e o julgamento difícil, sendo
a vida breve para tão longa arte.
Já o médico e notável escritor, Guimarães Rosa, diz:

187
“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras
maiores perguntas.”
E é esta atitude aberta a observar, ouvir, perscrutar, aprender,
indagar, rever conceitos, comparar experiências, eventualmente ensinar,
que poderá ser útil a quem pretende tornar-se um verdadeiro médico.
Aprender com os mestres da Medicina, com os pacientes, com os artistas,
com os grandes escritores.
A relação médico-paciente, chave do sucesso profissional, envolve
muitas vezes situações extremamente delicadas e complexas. A literatura
pode vir em nosso auxílio na ilustração do tema. Tomemos por exemplo
a obra “A Morte de Ivan Ilitch”. Nesta famosa novela de Tólstoi, é relatada
a evolução e o agravamento do quadro clínico de um enfermo. Após
um acidente doméstico, em que se machucou um pouco, Ivan Ilitch
começou a sentir mal-estar, uma sensação de peso, com prenúncio de
dor, e um contínuo mau humor, o que acabou decidindo-o a procurar
o médico. Chama a atenção a forma como se deu a consulta. A certa
altura do exame, já o atendimento marchando para o fim, o paciente
quis se esclarecer acerca do seu caso, saber qual a seriedade de suas
manifestações clínicas, entender o que realmente estava acontecendo,
por que seu corpo reagia de forma tão pouco usual. Após algumas
palavras, quase como se pedisse desculpas pela impertinência, fez ele a
famosa pergunta:
“Doutor, a minha doença é grave?”
A atitude severa do médico ante a curiosidade do enfermo causou
neste tal impressão que ele, um juiz de instrução, portanto habituado
aos tribunais, se imaginou como se fosse o réu numa sala de julgamento
em que o magistrado estivesse prestes a dizer:
“Acusado, limite-se a responder às perguntas formuladas, pois, em
caso contrário, serei obrigado a ordenar que o ponham para fora da sala”.
O quadro, fruto da imaginação criadora de um grande escritor,
abre linhas de reflexão sobre a relação médico-paciente, o direito do

188
paciente de saber a afecção que o acomete, a evolução esperada, qual
o tratamento indicado, as razões dos exames solicitados e o que pode
acontecer se o paciente não fizer o tratamento. Temas estes caros à esfera
da ética médica. O direito do paciente à informação é hoje considerado
inquestionável. E traz consigo o dever do médico de informar, em
linguagem compreensível, todos os aspectos relacionados à doença e ao
respectivo tratamento. Esta é a regra. O Código de Ética Médica prevê,
no entanto, a exceção, para o caso em que o médico tem boas e sólidas
razões para concluir que a informação pode ser danosa ao paciente. Cabe
lembrar outra possibilidade: a do paciente não querer saber, ou seja, de
ele exprimir de forma inequívoca que não deseja receber determinadas
explicações. Afinal, estamos falando do direito ao conhecimento e não
da obrigação de saber.
Acrescente-se que o paciente, devidamente informado e esclarecido,
tem a prerrogativa de decidir se aceita ou não o auxílio médico. Tem o
médico o dever de utilizar todos os meios a seu alcance em benefício
da saúde do paciente, mas compete a este deliberar se quer ou não
ser tratado. Faz exceção a esta regra geral a situação de urgência ou
emergência, ou o risco iminente de morte, quando o socorro médico
pode eventualmente ser prestado independentemente do consentimento
do enfermo.
A experiência de Ivan Ilitch traz à memória o relato de uma paciente,
a qual estava em tratamento fazia algum tempo e ainda não apresentava
sinais de recuperação. Ao dizer ao médico assistente que continuava
sentindo-se mal, percebeu um claro ar de censura e desagrado no
esculápio, como se o Doutor considerasse que a paciente, pelo fato de
não estar melhorando, lhe estava faltando com o respeito...
É instrutivo lembrar as observações feitas por Balint em seu
instigante livro, “O médico, seu paciente e a doença”, em que o autor
postula que o medicamento mais frequentemente utilizado na clínica é
o próprio médico. No entanto, assim como os medicamentos, o médico

189
também pode produzir reações desfavoráveis. O médico tem indicações,
posologia, e também tem efeitos colaterais e contra-indicações. E é
muito pouco estudado quanto a todos estes aspectos.
Danilo Perestrello, médico brasileiro que desenvolveu o conceito
de Medicina da Pessoa, entende que o grande desafio da Medicina
é conseguir que o médico não seja ele próprio iatrogênico. Que não
aconteça com ele o que se dá com determinados medicamentos, os
quais, se administrados de forma incorreta, podem transformar-se em
venenos. Quanto ao diagnóstico da enfermidade, Perestrello afirma que
a maioria dos doentes quer e precisa sabê-lo. Ainda que os pacientes
pouco entendam da linguagem técnica da Medicina, sentem-se mais
calmos com as informações do médico, como se tal conhecimento
significasse que o inimigo já foi localizado e, portanto, pode ser
combatido adequadamente. É claro que esta passagem nos lembra mais
uma vez a enorme importância de o médico se expressar de maneira a
ser entendido pelos pacientes.
Uma vez ultrapassada esta etapa que envolve o primeiro atendimento
e a adoção das medidas terapêuticas iniciais, há que lidar com atenção,
zelo e sensibilidade com as várias manifestações do paciente, o que
nem sempre é fácil. Se o médico consegue inspirar confiança e deixa
o paciente à vontade, este vai expressar queixas, temores, fantasias,
aspirações, visão de mundo.
Uma paciente com depressão dizia:
“Doutor, eu tenho raiva de quem ri”.
Dificilmente a enferma encontraria uma forma mais eloquente
para expressar o sofrimento, a dor, o ressentimento, o desencanto com
o mundo e a vida. Ao mesmo tempo, tais palavras fazem recordar os
belos versos de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito:

“Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor.”

190
Outra paciente deprimida, ao ser aconselhada a se conformar com
os seus problemas, pois podia facilmente encontrar pessoas em condição
muito pior que a dela, foi amarga e verdadeira:
“Eu sei. Não tenho a menor dúvida de que há pessoas em situação
mais desgraçada que a minha. Porém, isto não me traz o menor consolo.”
Será que esta pessoa não poderia ser auxiliada a ver as coisas de outra
forma? Em magnífico poema, Camões, cantando as dores d’amor, faz
um apelo e uma sugestão:
“Ouçam a longa história de meus males e curem sua dor com minha
dor, que grandes mágoas podem curar mágoas”.
Outras manifestações extremamente reveladoras poderão vir à tona.
Uma paciente que já fora internada em hospital psiquiátrico fez certa
vez o seguinte comentário:
“Doutor, depois que uma pessoa passa por um hospital psiquiátrico e é
classificada como doida, não pode nem rir um pouco mais alto, que aparece
logo alguém para dizer: “O que é isto? Você já está piorando? Parece que
vai ter uma crise? Está precisando voltar para o hospital.”
A observação expõe um dos aspectos mais marcantes das vivências
daqueles que são acometidos por transtornos mentais. Os doentes
mentais se encontram talvez na condição do mais profundo desamparo
em que pode se achar um ser humano, uma vez que se veem acometidos
justamente na esfera da razão, ou seja, na capacidade de compreender
e discernir a realidade, e assim poder lidar de forma mais adequada
com os desafios da vida. Como se isto fosse pouco, o adoecer psíquico
costuma ser acompanhado por toda sorte de discriminação, preconceito,
estigmatização. Não será raridade que os pacientes psiquiátricos sejam
olhados como verdadeiros párias pelos que se consideram sadios. E um
dos preconceitos mais comuns é o de julgar que esses enfermos não têm
qualquer possibilidade de recuperação. A prática clínica, no entanto,
demonstra o contrário. Muitos doentes obtêm melhora considerável e
se reintegram às suas atividades profissionais e sociais. Outro equívoco

191
em relação aos doentes mentais consiste em afirmar que eles em nenhum
momento têm o direito de opinar sobre o tratamento a que se submetem;
que não têm, portanto, o direito de consentir. A capacidade de consentir
pode, sim, estar comprometida nos quadros psiquiátricos mais graves.
Porém, na maioria das situações clínicas, o doente mental está em plena
condição de tomar, de forma livre e consciente, as decisões acerca do
seu tratamento.
O tema do consentimento livre e esclarecido nos remete às
questões éticas relacionadas à pesquisa médica. Muitos trabalhos já
foram publicados sobre ética em pesquisa, mostrando alguns casos de
graves violações dos direitos humanos. Costumeiramente, são citados
os crimes dos médicos nazistas nos campos de concentração, durante
a 2ª Guerra Mundial. Houve, porém, um estudo que se desenvolveu
em sua maior parte em período de paz e que merece ser divulgado e
jamais esquecido. Durante quatro décadas, de 1932 a 1972, o Serviço
de Saúde Pública dos Estados Unidos, juntamente com o Tuskegee
Institute, levou a cabo no Alabama uma investigação, na qual foram
incluídos 399 homens afro-americanos, que sofriam de sífilis e nunca
tinham recebido tratamento para a doença, e outro grupo de 200
indivíduos não afetados pela enfermidade. O projeto tinha por objetivo
estudar a história natural da sífilis, ou seja, observar qual seria a evolução
da sífilis sem tratamento. Assim, os médicos apenas registravam os
sintomas da doença, solicitavam alguns exames, mas não informavam
aos enfermos qual a real natureza do problema clínico, nem quais os
verdadeiros motivos para a realização dos exames. Em vez disto, diziam
que os sujeitos da pesquisa sofriam de “sangue ruim”. Em suma, os
doentes não sabiam que sofriam de sífilis. Era-lhes assegurado, em caso
de óbito, o custeio das despesas com o enterro. Durante a 2ª Guerra
Mundial, houve o cuidado dos investigadores de diligenciar juntos às
autoridades, no sentido de que os participantes da pesquisa não fossem
mobilizados, pois nesse caso algum deles poderia receber tratamento

192
para sífilis nas Forças Armadas. Mesmo com o advento da penicilina,
nenhum dos pacientes do estudo foi tratado. Somente em 1972, o fato
foi amplamente divulgado e denunciado.
O caso Tuskegee mostra os caminhos tortuosos pelos quais pode
se desenvolver a pesquisa médica, quando realizada sem algum tipo de
controle social. A ânsia faustiana pelo saber envolve riscos terríveis. O
conhecimento, tão importante para a humanidade, não deve ser buscado
por meio de um pacto com o diabo.
E falando em participação social, é alentador que nos últimos anos
a sociedade brasileira venha dando mais atenção a algumas matérias
do campo da bioética. Um exemplo de anos recentes foi a interessante
polêmica em torno da votação, pelo Supremo Tribunal Federal, do item
da lei de biossegurança que trata da utilização de células-tronco, que
acabou despertando o interesse de diversos segmentos sociais, motivando
acirradas discussões. Por sinal, recentemente, foi noticiado que nasceria
no Brasil uma criança destinada a fornecer células-tronco para uma irmã
com grave doença hematológica. O fato suscita polêmicas no âmbito
da ética e da bioética. Reconhecendo, embora, como legítimo o desejo
dos pais da enferma de buscar um meio que permita recuperar a saúde
da filha doente, não podemos fugir de algumas reflexões. A criança
doadora, uma vez alcançada a idade do entendimento, como reagirá ao
tomar conhecimento de qual foi a principal motivação para sua vinda
ao mundo? No centro do debate, coloca-se o princípio kantiano de
que o ser humano deve ser tratado como um fim em si mesmo e não
unicamente como um meio. É claro que os pais da futura doadora jamais
vão admitir que a nova filha seja para eles tão somente um meio para
salvar a vida da filha enferma. Uma coisa, no entanto, é indubitável. É
imperioso que a utilização dos extraordinários avanços da ciência e da
tecnologia se dê dentro de princípios éticos, de forma a garantir que
o saber esteja sempre a serviço da saúde, da dignidade e da liberdade
dos seres humanos.

193
Senhoras e Senhores, já é tempo de concluir este fluxo de
consciência. Antes, porém, dirijo um olhar muito especial aos meus
familiares, minha mulher Rita, meus filhos Mariana, Daniel e Ivan,
meu genro Fabrício e minhas noras Anaih e Joamara, nos quais sempre
encontro afeto, solidariedade e inspiração. E reservo um carinho todo
particular para minha neta Alice e meus netos Vinícius e João Gabriel,
cujo desabrochar para a existência me fez entender melhor uma
passagem de Guimarães Rosa, em Grande Sertão, Veredas, onde lemos:
“Um menino nasceu: o mundo tornou a começar!”
Renovo o preito de reconhecimento aos que aprovaram meu
ingresso na Academia Cearense de Medicina. E agradeço a todos os
que compareceram a este momento tão grato para mim.

Muito obrigado
Ivan de Araújo Moura Fé

*Discurso do Dr. Ivan de Araújo Moura Fé no dia 09/03/2012, na
Solenidade de Posse como Membro Titular da Academia Cearense de
Medicina.

194
FILAS, MACAS E...

Heródoto descreve (História – Livro I – Clio – CXCVII) o
curioso expediente que os Babilônios utilizavam para lidar com a falta
de médicos no país. Quem adoecia era levado para a praça pública,
onde dialogava com as pessoas que passavam pelo local, as quais ti-
nham o dever de indagar do doente qual era o seu mal. Aqueles que já
haviam contraído igual enfermidade, ou que conheciam alguém com
o mesmo problema, auxiliavam o doente com exortações e conselhos,
“prescrevendo” medidas idênticas às que haviam adotado, ou tinham
visto outros enfermos empregarem em circunstância semelhante. Com
isto, buscavam aumentar a chance do doente de alcançar a cura.
Convém recordar que o Pai da História viveu no século V
antes da era cristã. Muitos médicos surgiram desde então, inúmeras
faculdades de medicina foram abertas, mais de uma centena das quais
no Brasil, sete delas no Ceará. Assim, parece razoável supor que não
será exatamente a falta de médicos a dificuldade principal a enfrentar
para garantir atendimento integral e resolutivo à saúde das pessoas. É
verdade que, há poucos anos, em fiscalização realizada pelo Conselho
Regional de Medicina do Ceará, foi identificada uma pequena cidade
do interior do Estado, em que havia um único médico, já com setenta
anos de idade. Mas, certamente tratava-se de uma exceção. Dados atuais
mostram que 9.784 médicos estão inscritos no CREMEC, na condição
de ativos. Destes, 7.438 informaram que residem em Fortaleza. O que
sinaliza a primeira distorção, em termos da distribuição dos médicos
pelos 184 municípios cearenses. E, ao mesmo tempo, aumenta a surpresa
ante a notória carência de esculápios para o atendimento de centenas
e centenas de enfermos que procuram os serviços médicos da capital,
particularmente as emergências médicas. O fato concreto é que a visita
aos hospitais que atendem urgências e emergências leva à constatação
de cenários em que são vistos inúmeros doentes em macas, nos corre-
195
dores, sem a mínima privacidade, longe da condição satisfatória para
um cuidado ético à saúde daqueles cidadãos.
Na notável obra Enfermaria nº 6, Tchékhov, médico e escritor
russo, visualiza um hospital de pequena cidade do interior, em que
um médico, o Dr. Andriéi Efímitch, é tomado pelo desalento, e por
fim chega ao desespero, ao ter que atender trinta, depois quarenta pa-
cientes por dia, ano após ano, e ainda perceber que, não obstante seu
esforço, a mortalidade não diminuía (talvez até aumentasse, dadas as
condições insalubres em que eram atendidos os enfermos), e os doentes
não paravam de chegar... Registre-se que o relato é de 1892. Se não
fosse citado o autor, possivelmente alguém iria deduzir que a matéria
se referia aos dias de hoje, numa metrópole como, digamos, Fortaleza,
com o agravante de que o número de pacientes entre nós é bem maior.
E, de fato, os doentes não param de chegar, e têm, sim, o direi-
to de recorrer aos serviços de saúde em busca de remédio para os seus
males. O que não está certo é o modo como o sistema de saúde está
estruturado, deficiente na atenção primária, congestionado na atenção
secundária, angustiando pacientes e seus familiares e superlotando os
hospitais e postos de saúde. Muito tem ainda que ser feito para que os
serviços de saúde se tornem mais organizados e eficientes. No entanto,
parece indiscutível que, sem um acréscimo importante de recursos para
o setor, os profissionais de saúde continuarão a mourejar numa situação
que todos consideram inaceitável, mas que tende a se tornar perene e
só fará com que aumentem as filas, as macas e os “piscinões”. Em vez
disto, o CREMEC defende peremptoriamente o fortalecimento do
SUS, o atendimento digno à saúde da população e melhores condições
de trabalho para os médicos.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mar/abr/2012

196
MEDIDA PROVISÓRIA 568/2012

Recentemente, o meio médico brasileiro foi surpreendido pela
publicação, no Diário Oficial da União, da Medida Provisória 568. De
acordo com o referido documento, particularmente nos artigos 42 a 47,
os médicos do serviço público federal terão sérios prejuízos em sua re-
muneração, além de reduções quanto à insalubridade e à periculosidade.
A primeira reação dos que tomaram conhecimento do assunto foi
de incredulidade. Como seria possível uma atitude tão estapafúrdia?
Qual seria a lógica de uma iniciativa governamental que, na prática,
condenava médicos funcionários públicos federais – aí incluídos os
da ativa e os aposentados – a ficarem cerca de 10 anos sem qualquer
reajuste em sua remuneração? Certamente tratava-se de um equívoco,
de um engano que logo seria percebido e corrigido. Com o passar dos
dias, porém, e as novas informações a respeito do tema, foi verificado
que, por incrível que pudesse parecer, a proposta tinha sido gestada no
Ministério do Planejamento, após estudos acerca da carga horária dos
funcionários federais, muitos dos quais cumprindo 40 horas semanais
de trabalho. Se os médicos só cumpriam 20 horas, que se dispusessem a
fazê-lo por mais 20, mantendo os mesmos proventos; ou, então, teriam
congelados seus vencimentos – talvez aqui, alguns dos ideólogos da
matéria lamentassem o fato de que a Constituição Federal não permite
a pura e simples redução dos ganhos – até que ficassem nos patamares
imaginados pelos “inteligentes” burocratas do Planalto. Os quais, de
passagem, queriam fazer tabula rasa do fato notório e inconteste segundo
o qual o contrato de vinte horas semanais de trabalho para os médicos
existe legalmente no Brasil há várias décadas.
Sem qualquer catastrofismo, porém mantendo os olhos na realidade,
entendemos que, se a Medida Provisória for mantida com a redação
original, trará evidentes prejuízos para o SUS, este sistema de saúde tão
importante para o povo brasileiro e, ao mesmo tempo, tão menosprezado
por alguns gestores. De fato, onde encontrar estímulo para prosseguir
197
trabalhando em condições já precárias e, para piorar, sofrendo uma
evidente agressão aos direitos dos médicos? O que querem os senhores
do Ministério do Planejamento?
De imediato, no entanto, ficou evidente que os médicos não
se curvariam, não aceitariam sem luta tal desrespeito. Mobilizações
da categoria passaram a ocorrer em todo o país, multiplicando-se as
propostas de paralisações e greves, além dos pronunciamentos de par-
lamentares que percebiam a desrazão da medida. Em todos os Estados
do Brasil, ganharam volume os movimentos de sensibilização de setores
da opinião pública, no sentido de que restasse amplamente demons-
trado o grau de insensatez do ato que estava atingindo os médicos do
serviço público federal. No Ceará, foi realizada audiência pública na
Assembleia Legislativa do Estado, no dia 12 de junho de 2012, com
a participação do Conselho Regional de Medicina, do Sindicato dos
Médicos do Ceará e da Associação Médica Cearense. Muitos médicos
compareceram ao evento e externaram inconformismo e revolta com a
medida. Os deputados e vereadores presentes ao evento mostraram-se
unanimemente solidários aos médicos e se comprometeram a envidar
esforços no sentido da reversão dos itens da MP 568 que são danosos aos
profissionais da Medicina. Como o Congresso Nacional será o palco em
que se dará a apreciação e votação da Medida Provisória, foi deliberado
que mensagens devem ser enviadas pelos médicos aos parlamentares do
Estado, particularmente aos que integram a comissão designada para a
formulação de parecer sobre o tema.
Os médicos exigem ser tratados com mais respeito e não aceitam
agressões à dignidade do seu trabalho, nem medidas que atinjam o SUS,
prejudicando os pacientes. A mobilização da categoria médica deverá
continuar, para a preservação dos direitos dos esculápios e a defesa do
Sistema Único de Saúde.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mai/jun/2012

198
ELEIÇÕES

Aproximam-se as eleições municipais, que serão realizadas em
outubro de 2012, para a escolha de prefeitos e vereadores em cidades
de todo o país. Em meio ao entusiasmo e à agitação que costumam
caracterizar os pleitos democráticos, os órgãos de comunicação noti-
ciam sondagens de opinião pública mostrando estar a saúde entre as
primeiras preocupações dos munícipes. E motivos há de sobra para
isto. Persistem as dificuldades para que os pacientes sejam atendidos
nos angustiantes momentos de dor e doença. A superlotação dos pos-
tos, hospitais e serviços médicos de emergência é uma dura realidade
que frequenta as páginas dos jornais e o noticiário de rádio e TV. E,
mais que isto, intensifica o sofrimento dos enfermos. As filas para a
realização de exames e cirurgias têm merecido denominações pesadas.
“Fila da morte” foi a terminologia empregada por uma paciente cuja
mãe falecera à espera da marcação de um procedimento cirúrgico. A
cobertura do Programa Saúde da Família é claramente insuficiente.
Em suma, conseguir consulta com um médico especialista, um exame
mais sofisticado, ou uma cirurgia passou a ser um imenso desafio, uma
verdadeira corrida de obstáculos. É fácil compreender que tal cenário
leva ao desenvolvimento de um forte sentimento de revolta e indignação
por parte de pacientes e seus familiares. Com o risco adicional de tal
irritação se voltar contra os profissionais de saúde, ou seja, justamente
as pessoas que estão empenhadas em minorar as angústias dos enfermos.
E, lamentavelmente, já ocorreram várias agressões contra médicos.
Paralelamente, é patente o aumento da violência em nosso país, o
que fica bem evidente no cotidiano das grandes cidades. O Instituto
Médico Legal de Fortaleza é testemunha e registro do grande número
de homicídios à bala em nossa capital e na região metropolitana, não
sendo incomuns os plantões do IML iniciarem com mais de três de-
zenas de corpos à espera de necrópsia. Por seu turno, os acidentes de
trânsito, em escalada crescente nos últimos anos, são responsáveis por
199
numerosas hospitalizações nos serviços de emergência, traduzindo-se em
internações prolongadas, graus variados de incapacitação dos pacientes
e, muitas vezes, mortes.
Enquanto isto, a eleição de Fortaleza conta com 10 candidatos a
Prefeito, e a população acompanha as discussões entre os postulantes.
Um dos primeiros debates entre os concorrentes, os quais se esmeraram
em críticas, sugestões, propostas e promessas, deu margem a que um
eleitor desavisado fizesse a seguinte observação: “pelo que ouvi, qualquer
um deles que seja eleito fará com que a situação de nossa capital me-
lhore muito...”. No entanto, os céticos, pois também os há, se mostram
reticentes, quando não tomados pelo desalento. Vislumbram pouca
perspectiva de melhora do setor saúde. No entanto, talvez seja este um
momento privilegiado para ampliar a discussão em torno dessas ques-
tões, convocando para o debate os que se apresentam como candidatos,
ou seja, aqueles que disputam a honra de bem servir à coletividade.
É mais do que claro que a rede de serviços de saúde de Fortaleza,
construída em sua maior parte há muitos anos, quando a população
do município era bem menor, precisa ser profundamente ampliada,
o que certamente torna necessária a contratação, através de concurso
público, de mais médicos e demais trabalhadores da saúde, para que
sejam aumentadas as possibilidades de assistência integral e resolutiva
aos enfermos. O PSF tem que marcar a presença dos seus profissionais
nas diversas áreas da capital alencarina. A gestão dos serviços de saúde
necessita dar saltos de qualidade e eficiência. É imperativo que sejam
aumentados os recursos para o setor saúde. Tudo no sentido de ajudar
a população a reduzir os seus reveses em relação ao serviço público,
particularmente no que respeita aos cuidados com a saúde. Estes são
temas que exigem compromissos insofismáveis por parte dos que de-
sejam ocupar a liderança da municipalidade.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jul/ago/2012

200
DIGNIDADE NO FINAL DA VIDA

No exercício da arte hipocrática, o médico frequentemente tem
que lidar com o fim da vida. Não apenas com a morte, mas com as
etapas que a precedem e que podem trazer enorme angústia, além de
conflitos e dúvidas sobre como deve agir o descendente de Asclépio.
Qual é a maneira ética, respeitosa, humana de dizer, por exemplo, que
o filho da pessoa que busca orientação e cuidados profissionais não
mais tem chance de sobrevivência? Ou que devem ser suspensas certas
medidas terapêuticas, que determinados aparelhos serão desligados? Esta
é a situação que pode surgir nos casos de pacientes em fase terminal
de enfermidade grave e incurável, quando o médico, o paciente e seus
familiares se deparam com os limites do saber e da própria vida humana.
Qual o papel do médico quando já não há medida que salve a vida do
paciente? Encerra-se aí o trabalho do esculápio? Decididamente, não.
Nessa hora, crescem em importância os cuidados paliativos, a presteza
em minorar a dor, a dispneia, a angústia do paciente. Cabendo também
especial atenção aos familiares do enfermo. Outro aspecto a considerar
diz respeito à posição adotada pelo paciente ante o difícil momento
que está vivendo. Quais são suas demandas, o que ele deseja que seja
feito, ou seja evitado, e também se o paciente quer deixar estabelecida
previamente sua deliberação para o caso de ficar sem condição de falar.
Ou, ainda, se pretende designar um representante para se pronunciar
por ele em tal circunstância. Está em análise o tema das vontades ante-
cipadas do doente, às vezes chamadas de testamento vital.
Em agosto de 2012, o Conselho Federal de Medicina decidiu es-
tabelecer um guia a ser seguido pelos médicos brasileiros acerca dessa
questão, ao promulgar a Resolução CFM n° 1.995/2012. A norma
citada define diretivas antecipadas de vontade como “o conjunto de
desejos, prévia e expressamente manifestados pelo paciente, sobre cuidados
e tratamentos que quer, ou não, receber no momento em que estiver inca-
201
pacitado de expressar, livre e autonomamente, sua vontade”. A Resolução
deixa claro que a vontade do paciente prevalece sobre a dos seus fa-
miliares; que a manifestação prévia do paciente deve ser registrada no
respectivo prontuário; e que, naturalmente, o médico deixará de levar
em consideração as diretivas antecipadas de vontade do paciente ou do
seu representante que estejam em desacordo com os preceitos do Código
de Ética Médica (CEM). Aqui, é conveniente salientar que o médico
está eticamente impedido de adotar procedimentos para abreviar a vida
do enfermo, mesmo que este o solicite, devendo, ao mesmo tempo,
evitar a implementação de medidas inúteis e obstinadas, consoante
o que prescreve o artigo 41 do CEM. É necessário lembrar, ademais,
que o paciente pode a qualquer tempo modificar os termos do que
antecipou ao médico.
A valorização da autonomia do paciente que vive seus últimos
momentos é coerente com a evolução ocorrida em anos recentes nos
princípios de ética e bioética. A beneficência, que continua a caracterizar
o ato médico, adquire nova conotação ao conviver com a postura de
protagonista que o paciente se sente no direito de adotar de forma cada
vez mais enfática na relação com seu médico assistente. Hodiernamente,
os pacientes querem ter voz ativa na condução das diversas medidas
voltadas para a preservação ou recuperação de sua saúde. Os enfermos
reivindicam ser bem informados sobre o diagnóstico, o prognóstico e
o tratamento de sua afecção. O Código de Ética Médica em vigor no
Brasil valorizou esta linha de concepção, ao normatizar que o médico
tem a prerrogativa de indicar o procedimento adequado ao paciente
(Direitos do Médico, Princípio II), mas deve respeitar as escolhas do
paciente quanto aos procedimentos diagnósticos e terapêuticos, desde
que adequadas ao caso e cientificamente reconhecidas (Princípio Fun-
damental XXI); e que o médico não deve realizar tratamento sem o
consentimento do paciente, exceto quando há risco iminente de morte
(artigos 22 e 31).

202
A dignidade da pessoa humana, inscrita na Constituição Federal
como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, encontra
plena guarida nas normas éticas que disciplinam a atenção médica aos
doentes desde o nascimento até os instantes finais da existência.

Publicado originalmente no jornal Conselho em nov/dez/2012

203
FALTAM MÉDICOS NO BRASIL?

Rumores dão conta de que o governo brasileiro planeja trazer do
exterior, em regime de urgência, médicos para resolver o grave problema
da carência desses profissionais em áreas atualmente desassistidas. Em
outros momentos, e com o mesmo sentido, é anunciada a abertura de
novas Faculdades de Medicina, já que o Brasil estaria com um número
insuficiente de médicos, o que resultaria em grandes angústias para
as pessoas que precisam recorrer aos serviços de saúde. Em torno do
assunto, surgem notícias e pronunciamentos referindo uma suposta re-
sistência dos profissionais da Medicina a exercer seu trabalho em cidades
distantes, mais pobres, e nos subúrbios dos grandes centros urbanos.
Que numerosos pacientes encontram grandes dificuldades para
conseguir um atendimento digno e resolutivo – seja a demanda por
uma consulta, um exame complementar ou uma cirurgia – é uma
realidade que o Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará
tem denunciado seguidamente. Que há localidades com vários médicos
e outras com muito poucos é também uma constatação inelutável. E
mais, são quase diárias as notícias de hospitais superlotados, com os
doentes sendo atendidos em ambientes precaríssimos, e os médicos
tendo que trabalhar em péssimas condições. Dizer, porém, que há falta
de médicos no país, ou que, ao contrário, há excesso de esculápios, é
pura especulação ou exercício de retórica. E acusar os médicos de falta
de sensibilidade social é cometer tremenda injustiça e negar toda uma
história de solidariedade e comprometimento com a saúde da população,
demonstrada diariamente pelos discípulos de Hipócrates.
A dificuldade de acesso dos pacientes aos cuidados médicos é
muito complexa e não pode ser tratada de forma simplista. Estudo de
fôlego e consistência, intitulado “Demografia Médica no Brasil – Volume
2 – Cenários e indicadores de distribuição”, foi realizado pelo Conselho
Federal de Medicina, em parceria com o Conselho Regional de Medicina
205
de São Paulo, com o intuito de fazer um levantamento completo da
população médica em atividade no Brasil, locais e vínculos de traba-
lho, migração médica, especialidades exercidas. Um dos tópicos mais
significativos do estudo diz respeito aos fatores de fixação dos médicos.
A análise dos dados referentes à movimentação dos médicos ao longo
dos anos mostra que o significativo aumento do número de cursos
médicos nas últimas décadas não reduziu as desigualdades existentes,
ou seja, as grandes cidades aumentaram continuamente a quantidade
de médicos, e os locais mais distantes permaneceram com carência
desses profissionais. Temos presentemente 198 cursos de medicina no
Brasil. Projeções indicam que terminaremos o ano de 2013 dispondo
de 400.000 médicos no país, isto é, dois médicos por mil habitantes.
No Ceará, já se encontram em atividade 10.000 médicos. No entanto,
persistem as diferenças de acesso ao médico entre as várias regiões do
país, e entre a capital e o interior de cada Estado. Por que isto acontece?
É possível redistribuir os médicos de forma mais racional e equânime
entre os mais diversos rincões da pátria? Esta é a questão.
É fato que o incremento acelerado da população médica – de 1970
a 2010, a população brasileira cresceu 101,84%, enquanto o número
de médicos aumentou 557,72% (dados: CFM/IBGE, 2013) – nem de
longe amenizou o problema. Evidenciou, sim, ser improvável que uma
maior oferta de médicos, por si só, vá solucionar a questão da ausên-
cia desses profissionais nas regiões desassistidas. Não é com decisões
imediatistas e jogadas pirotécnicas que as autoridades governamentais
vão alcançar os avanços que possibilitem uma atenção digna à saúde
da população. É preciso enfrentar, com decisão e vontade de acertar,
os vários entraves que fazem com que médicos e outros profissionais
de saúde não queiram trabalhar em todas as localidades. Algo mais
inteligente deve ser formulado, além de meros cálculos quantitativos.
Políticas indutoras da fixação de médicos têm que ser bem estudadas e
implantadas com determinação e conhecimento da matéria. A proposta

206
de emenda constitucional criando a Carreira de Estado para os médi-
cos, com tempo integral e admissão por concurso público, parece uma
ideia promissora. Ademais, há dados sugestivos de que os centros que
dispõem de programas de Residência Médica ou outras modalidades de
aprimoramento profissional, bem como oferecem melhores condições
de vida para a família dos médicos, têm maior chance de fixar estes
profissionais. De igual forma, serviços bem equipados, com estrutura e
condições que permitam ao médico exercer a profissão com eficiência,
além de remuneração digna, são fatores que certamente desempenham
um papel cardeal, podendo contribuir para assegurar uma adequada
presença médica em todos os municípios do país, de forma a garantir
o acesso aos cuidados com prevenção, manutenção e recuperação da
saúde de todos os habitantes deste grande país.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jan/fev/2013

207
ÓRTESES, PRÓTESES E MATERIAIS
ESPECIAIS IMPLANTÁVEIS

São notórios os benefícios que a utilização adequada de órteses, pró-
teses e materiais especiais implantáveis traz para a saúde dos enfermos.
E tais vantagens tendem a ser cada vez mais patentes com os avanços da
tecnologia aplicada à medicina. O emprego crescente desses recursos,
porém, dá margem a situações em que a ética da profissão médica assume
o centro do debate. Temas como autonomia profissional, racionaliza-
ção dos recursos médicos diagnósticos e terapêuticos, os custos com a
saúde, as relações dos médicos com a indústria e a mercantilização da
medicina são postos em discussão.
Trava-se um embate em que, de um lado, médicos se sentem
pressionados no sentido de que pautem sua ação por uma ótica que
supervalorize a redução dos custos, mesmo que em alguns casos isto
signifique riscos importantes para a saúde dos doentes. Por seu turno,
operadoras de planos de saúde e alguns gestores públicos insinuam
que certos médicos recebem vantagens econômicas indevidas para que
privilegiem determinados fornecedores de órteses, próteses e materiais
especiais implantáveis. Ou seja, que têm ligações perigosas com empresas
que comercializam produtos médicos.
Tentando por ordem numa matéria sabidamente espinhosa,
o Conselho Federal de Medicina promulgou, em 2010, a Resolução
1.956. Consta do referido instrumento normativo que cabe ao médico
assistente determinar as características (tipo, matéria-prima, dimensões)
das órteses, próteses e dos materiais implantáveis, bem como definir o
instrumental necessário e adequado à execução do procedimento (artigo
1º). Ao mesmo tempo, dispõe a citada Resolução que o médico assistente
requisitante deve justificar clinicamente a sua indicação, observadas as
práticas cientificamente reconhecidas e as legislações vigentes no país
(artigo 2º), sendo-lhe vedado exigir fornecedor ou marca comercial

209
exclusivos (artigo 3º). É bom considerar, por outro lado, que o material
fornecido para o procedimento pode eventualmente ser de qualidade
ruim ou duvidosa, o que torna imperativa a ação médica para contornar
o problema. Neste sentido, a Resolução CFM 1.956/2010 prevê que,
quando o médico assistente requisitante julgar inadequado ou deficiente
o material implantável, bem como o instrumental disponibilizado, pode
recusá-los e oferecer à operadora ou instituição pública pelo menos três
marcas de produtos de fabricantes diferentes, quando disponíveis, regu-
larizados junto à ANVISA e que atendam às características previamente
especificadas (artigo 5º). Se persistir a divergência entre as partes, está
prevista a arbitragem, através da escolha, de comum acordo, de um
médico especialista na área, para a decisão (artigo 6º).
O Código de Ética Médica veda ao médico exercer a profissão com
interação ou dependência quanto a qualquer organização destinada à
fabricação, manipulação, promoção ou comercialização de produtos
de prescrição médica (artigo 68). Proíbe ainda, de forma taxativa, que
o médico obtenha vantagens pela comercialização de órteses, próteses
ou implantes de qualquer natureza, cuja compra decorra de influência
direta em virtude de sua atividade profissional (artigo 69). É oportuno
lembrar, ainda, o disposto no Código de Ética Médica, no capítulo dos
Princípios Fundamentais, em que está prescrito que o médico exercerá
sua profissão com autonomia, não podendo renunciar à sua liberdade
profissional nem permitir quaisquer restrições ou imposições que pre-
judiquem a eficiência e a correção de seu trabalho (itens VII e VIII).
No entanto, a leitura histórico-sistemática da carta ética dos médicos
torna indubitável que a autonomia profissional se destina a alcançar o
melhor para a saúde do paciente. É uma autonomia a favor da saúde
dos pacientes. Se exercida de outra forma, perde a sustentação ética.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mar/abr/2013

210
ELEIÇÕES, MÉDICOS ESTRANGEIROS E
REVALIDA

Em todo o Brasil, ocorrerão eleições para os Conselhos de Medicina,
em agosto próximo. No Ceará, as eleições se darão no dia 05/08/2013,
para os médicos que votam em Fortaleza. No caso das demais cidades do
Estado, a votação será por correspondência. O evento eleitoral acontece
ao mesmo tempo em que se verificam discussões acirradas acerca da
situação da saúde no Brasil e no Ceará. Entre nós, nos últimos meses,
os médicos do Estado e os do Município de Fortaleza têm comparecido
a assembleias, em movimentos reivindicatórios por melhores condições
de trabalho e de remuneração. Volta a crescer entre os médicos um sen-
timento de desencanto com o exercício da profissão no serviço público.
Acrescente-se que só tem piorado a situação dos hospitais e serviços
de emergência. Persiste o triste cenário de dezenas de pacientes graves em
macas, nos corredores das instituições hospitalares, configurando-se uma
situação desumana, indigna, degradante. O quadro seria, talvez, menos
desolador se diferisse do que se verifica em outros Estados da federação.
Infelizmente, contudo, o inaceitável espetáculo é uma constante nas
diversas regiões do país, segundo é noticiado pelos órgãos de comuni-
cação das entidades médicas e pela imprensa em geral. Levantamento
feito recentemente pelo Conselho de Medicina de São Paulo, em 71
Serviços de Emergência do Estado, mostrou que em mais da metade
daquelas instituições as equipes médicas estavam incompletas, e havia
doentes em macas nos corredores. E trouxe uma conclusão preocupante:
os médicos estão migrando do serviço público para a área privada, por
não mais suportarem a tensão, a insegurança e a falta de condições de
atendimento aos enfermos.
No entanto, em pronunciamento em que joga para a plateia,
o governo brasileiro anuncia que faltam médicos no Brasil e tira da
cartola a mais nova panaceia: a vinda de médicos estrangeiros – que
211
seriam em número de seis mil – iria garantir a indispensável presença
de esculápios nas localidades e condições mais inóspitas. Isto porque os
médicos brasileiros estariam se recusando a trabalhar nos pequenos e
mais distantes lugarejos, bem como nas periferias dos grandes centros.
Pelo “desprendimento” de aceitar atender em tais locais, os médicos
formados no exterior estariam dispensados de maiores formalidades.
Não precisariam, por exemplo, realizar a revalidação dos diplomas, em-
bora tal exigência faça parte da lei brasileira, como, aliás, da legislação
de muitos outros países, nos quais o médico formado no exterior tem
que ultrapassar longo e difícil processo de aferição de sua qualificação
e competência médica. Afinal, convém lembrar, os médicos irão tratar
da saúde, um dos mais preciosos bens do ser humano. Optam, porém,
algumas autoridades pelo discurso fácil de atribuir as mazelas do sistema
público de saúde à carência de médicos no Brasil. Omitem, entretanto,
a inércia governamental ante a reconhecida insuficiência de recursos
para a saúde pública, constatada no fato de ser o Brasil um dos países
que menos gastam com o setor saúde, mesmo comparando-o com
as nações de igual nível de desenvolvimento. Esquivam-se, ainda, do
enfrentamento das precaríssimas condições em que funcionam muitos
serviços de saúde, com profissionais médicos sendo ameaçados e alguns
sofrendo agressões físicas.
Há outro fato relevante: após vários anos de discussões entre o go-
verno federal e as entidades médicas, foi instituído em março de 2011,
por Portaria Interministerial dos Ministérios da Educação e da Saúde,
o REVALIDA, Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos
expedidos por universidades estrangeiras, com o objetivo de “verificar
a aquisição de conhecimentos, habilidades e competências requeridas para
o exercício profissional adequado aos princípios e necessidades do Sistema
Único de Saúde (SUS), em nível equivalente ao exigido dos médicos forma-
dos no Brasil.” O aludido exame, constando de uma prova teórica e uma
prova de habilidades clínicas, tem o sentido de unificar a sistemática

212
de revalidação de diplomas médicos, com critérios bem estabelecidos
do ponto de vista técnico e conceitual e calendário previamente di-
vulgado. Causa pasmo que, a serem verdadeiros os rumores, na vinda
“emergencial” de médicos estrangeiros, estes não seriam submetidos
ao REVALIDA.
A tudo isto respondemos reiterando nossa disposição de trabalhar
pelo atendimento digno à população, ao tempo em que reafirmamos
algumas de nossas propostas e bandeiras de luta: 1) Respeito à dignidade
de todos os pacientes, inclusive os atendidos nos serviços de emergência.
2) Fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). 3) Carreira
de Estado para médicos. 4) Melhoria das condições de trabalho e
remuneração dos médicos. 5) Revalidação dos diplomas de médicos
formados no exterior, através do REVALIDA.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mai/jun/2013

213
SERVIÇO CIVIL OBRIGATÓRIO

Não é recente o desejo do governo federal de instituir alguma
forma de serviço civil obrigatório na área médica. Rumores surgiram
acerca do tema, e balões de ensaio foram lançados ao longo de gestões
governamentais sucessivas, independentemente da coloração ideológica
ou filiação partidária dos mandatários da nação. No entanto, ninguém
esperava que o atual governo federal fosse agir de maneira tão trucu-
lenta e desrespeitosa como o fez ao promulgar a Medida Provisória
621/2013, que institui o Programa Mais Médicos. Com uma canetada
só, foi atropelada a autonomia universitária e a independência dos Con-
selhos de Medicina. Sem qualquer diálogo prévio, e ao mesmo tempo
em que era afirmado que faltam médicos no Brasil, foi determinado
que o curso médico passasse a ter a duração de oito anos. Assinale-se
que, nos últimos dois anos do curso, o estudante terá “permissão para
o exercício profissional da medicina”, porém sem receber o diploma de
médico. E desenvolverá atividades exclusivamente na atenção básica à
saúde no âmbito do SUS.
Na mesma ação de ataque da MP 621, ficou clara a intenção de
subjugar os Conselhos de Medicina, quando estes órgãos foram instados
a inscrever os médicos formados no exterior, mesmo sem a revalidação
de diploma, que é exigida pela lei de diretrizes e bases da educação
nacional (Lei 9.394/1996).
É verdade que, na percepção da população, faltam médicos no Bra-
sil, o que se torna explícito quando os doentes procuram atendimento,
quer nos serviços públicos de emergência, cronicamente superlotados,
quer na peregrinação por uma consulta especializada, um exame com-
plementar mais sofisticado, ou um procedimento cirúrgico. Os gestores
públicos, por seu turno, têm boa dose de razão quando solicitam mais
médicos para os seus municípios. O equívoco está em tratar uma questão
tão complexa de forma simplória. Será que, nos dias de hoje, alguém
ainda acredita que a simples presença de um médico vai resolver os

215
problemas de saúde da população? É mais do que hora de serem postas
em prática medidas consistentes e duradouras que assegurem saúde
para todos. E isto passa pela criação da carreira de estado para médicos
e pela solução do grave problema de subfinanciamento do setor saúde.
É sumamente importante que seja aprovado pelo Congresso Nacional
o Projeto de Lei de iniciativa popular que propõe a destinação de 10%
das receitas correntes brutas da União para a Saúde Pública.
Há outros pontos a considerar na crise atual. O discurso do gover-
no de que a participação compulsória dos estudantes de medicina no
SUS é imprescindível para a humanização dos futuros médicos parece
estranho, ou mesmo falacioso. Que outra profissão cultiva mais o hu-
manismo que a medicina? Foi justamente a atitude solidária, humana
e competente dos médicos para com os doentes que fez com que os
esculápios conquistassem o respeito e a gratidão da população, o que,
entre nós, se expressou por diversas pesquisas de opinião já realizadas,
nas quais a medicina apareceu em primeiro lugar no conceito dos cida-
dãos. Ademais, durante todo o curso médico o estudante tem contato
frequente com pacientes dos serviços públicos.
O Conselho de Medicina do Ceará luta pela entrada de mais
médicos no serviço público, porém postula que eles sejam admitidos
através de concurso público, como, aliás, se impõe pelas leis do país.
Deste modo, os médicos assumirão suas responsabilidades, mas tam-
bém irão usufruir os respectivos direitos trabalhistas. E não ficarão à
mercê de uma “bolsa-médico”, um arremedo de contrato que agudiza
ainda mais a precariedade das relações de trabalho entre os médicos e os
empregadores. Quanto aos médicos formados no exterior, todos serão
bem-vindos, desde que revalidem o diploma de médico e demonstrem
proficiência na língua portuguesa.
O CREMEC apoia as ações voltadas para um melhor atendimento
à saúde da população, tendo como parâmetros a legalidade, a justiça
social e a dignidade do ser humano.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jul/ago/2013
216
PRESIDÊNCIA DO CONSELHO REGIONAL
DE MEDICINA DO ESTADO DO CEARÁ*

Senhoras e Senhores
Estamos aqui, perante os médicos e a sociedade, para tomar
posse como Conselheiros do Conselho Regional de Medicina do Es-
tado do Ceará. É o momento de reafirmar as concepções cardeais do
Código de Ética Médica de que a Medicina é uma profissão a serviço
da saúde do ser humano e da coletividade e será exercida sem qualquer
discriminação, devendo o médico, no atendimento dos pacientes, agir
com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional. Com
o intuito de concretizar estes princípios basilares da carta magna da
profissão e bem cumprir seu papel ético, científico, social e político, o
CREMEC tem que assumir compromissos de ação em várias vertentes:
seja contribuindo na formulação de políticas de saúde voltadas para o
atendimento digno à população, seja lutando pelo aprimoramento cien-
tífico e ético dos médicos, seja exercendo com diligência a fiscalização
do trabalho médico, seja, ainda, apurando as denúncias de possíveis
infrações às normas que regulam a profissão médica e adotando as
medidas disciplinares pertinentes. Ressalte-se a importância de que o
médico tenha boas condições de trabalho e remuneração justa, de forma
que possa exercer a Medicina com honra e dignidade.
A chapa “Ética e Cidadania”, ao se dirigir aos médicos cearen-
ses, pleiteando apoio na eleição do Corpo de Conselheiros do CRM,
comprometeu-se a defender a ética e a dignidade do trabalho médico,
lutando pelas seguintes bandeiras:
- Defesa do SUS
- Concursos públicos para Médicos
Há que ser fortalecido o Sistema Único de Saúde, com caráter
universal, equânime, resolutivo, capaz de atender bem todos os pacien-
tes. Não é justo que as pessoas peregrinem por dias e meses em busca
217
de atendimento às suas necessidades de saúde, que fiquem amontoadas
em filas, macas ou “piscinões”. Isto quando conseguem chegar a alguma
fila ou maca. A dificuldade de acesso à saúde é uma realidade constatada
diariamente e foi tema de destaque nas mobilizações populares ocor-
ridas no Brasil nos últimos meses. No entanto, a urgente mudança de
uma situação que é moralmente indefensável não se dará com medidas
pirotécnicas ou manobras publicitárias por parte de autoridades gover-
namentais. Exige, isto sim, aprimoramento na gestão e uma substancial
melhoria do financiamento do SUS, possibilitando construir e equipar
mais serviços de saúde e contratar pessoal em número adequado para
melhor atender à coletividade. Repetiremos sempre: a admissão ao
serviço público deve ocorrer através de concursos públicos em todos
os níveis, federal, estadual e municipal.
Outros temas da plataforma do novo corpo de conselheiros foram:
- Defesa do Ensino Médico de Qualidade
- Posicionamento contra a abertura indiscriminada de novas
escolas médicas
- Contribuição para a formação ética do estudante de Medicina
É imprescindível que haja maior rigor nos critérios de abertura
de novos cursos médicos e na avaliação de funcionamento dos cursos
existentes. É também vital que sejam aperfeiçoados os mecanismos de
avaliação do progresso do aprendizado dos estudantes de medicina,
ao longo de todo o curso, possibilitando, assim, medidas corretivas
que assegurem uma boa formação aos futuros médicos, o que significa
aquisição de conhecimento técnico-científico, habilidades psicomo-
toras específicas e atitudes ético-morais consentâneas com o exercício
humanista da Medicina.

Vários Conselheiros são professores de algum dos 7 cursos de medicina
existentes no Ceará e poderão contribuir para estreitar as relações do Con-
selho de Medicina com os estudantes, fazendo com que estes, desde cedo,

218
se sensibilizem para os aspectos éticos da profissão médica. Uma articulação
mais efetiva do Conselho com os professores e estudantes de medicina será
uma das tarefas prioritárias da atual gestão do CRM.
- Defesa da Residência Médica
A universalização da Residência Médica é uma meta a ser almejada.
Naturalmente, a ampliação das vagas de RM deve dar-se em serviços
devidamente preparados em termos de equipamentos e recursos hu-
manos, com especial ênfase no corpo de preceptores e supervisores,
objetivando sempre a boa qualidade da formação dos médicos residentes.
Não esqueçamos que a RM dá novo dinamismo e vitalidade aos servi-
ços e não pode, de nenhuma forma, ser encarada como mão-de-obra
barata. Considerando que os médicos residentes trabalham 60 horas
por semana, nada mais justo do que a luta para que tenham melhor
remuneração, pelo menos nos valores pagos pelo governo federal aos
integrantes do Programa Mais Médicos, ou seja, R$ 10.000,00 (dez
mil reais) por mês.
- Expansão da educação Médica continuada
- Realização dos Fóruns de Ética Médica na capital e no interior
do Estado
- Realização do Congresso Científico e Ético do CREMEC
O Código de Ética Médica dispõe, em seus Princípios Fundamentais,
que compete ao médico aprimorar continuamente seus conhecimentos e
usar o melhor do progresso científico em benefício do paciente. Visando
contribuir para a atualização científica dos médicos, o CREMEC tem re-
alizado diversos cursos, seminários e fóruns, alguns com duração de vários
meses. Temas como Medicina de Família e Comunidade, Perícia Médica,
Urgência e Emergência, Saúde Mental, Saúde do Idoso e Pediatria foram
abordados em cursos de longa duração, sob a coordenação de renomados
professores e contando com a participação ativa e interessada de vários
médicos. Esta tem sido uma das mais promissoras iniciativas do CREMEC,
que deve ser continuada e ampliada.

219
De igual modo, os Fóruns de Ética Médica em Fortaleza e nas
cidades do interior do Estado, assim como o Congresso Científico
e Ético do CREMEC, são atividades que possibilitam a divulgação
de conhecimentos, a troca de experiências e, de forma expressiva, a
exemplificação de situações conflituosas da vida profissional que po-
dem servir de balizamento para orientar a boa conduta dos esculápios,
ajudando-os a evitar as frequentes armadilhas que surgem no dia-a-dia
da prática clínica.
- Manutenção do REVALIDA
Que continue a prevalecer o que dispõe a Lei 9.394/1996, que
estabelece as Diretrizes e Bases da educação nacional, com a exigência
de que os graduados por universidades estrangeiras tenham que revali-
dar seus diplomas por universidade pública brasileira. Trata-se de uma
medida de precaução, com o sentido de proteger a sociedade, garan-
tindo a qualificação dos que se dispõem a trabalhar no Brasil. É bom
lembrar que os médicos brasileiros que vão trabalhar em outros países
também se submetem a árduos processos de avaliação antes de terem
autorização para a prática profissional. O que sempre foi considerado
natural e necessário, dentro da responsabilidade que cada país tem de
preservar a qualidade do atendimento à saúde dos seus habitantes. É o
que, em nosso entendimento, o Brasil também deve continuar seguindo.
- Luta por boas condições de trabalho e remuneração digna
- Implantação da Carreira de Estado para Médicos
Um dos grandes problemas vividos pelos médicos tem sido traba-
lhar muitas vezes em péssimas condições, com risco de comprometer a
qualidade do atendimento prestado aos enfermos. Ademais, frequen-
temente a remuneração é insatisfatória, há atrasos nos pagamentos, os
vínculos trabalhistas são precários. Na luta das entidades médicas para
avançar nestas questões, o piso da FENAM é a bandeira em termos de
parâmetros de remuneração. E a carreira de estado para médicos, a exem-
plo do que já ocorre com outras profissões, se afigura como o caminho

220
para de fato assegurar a presença de médicos em todas as localidades
do país. Aliás, já tramita no Congresso Nacional proposta de emenda
constitucional criando a carreira de médico de estado.
Algo, porém, ainda precisa ser dito sobre a polêmica maior que
vivemos recentemente, envolvendo duas matérias. Há mais de uma dé-
cada, os médicos lutavam pela aprovação de uma lei que regulamentasse
a profissão. Por fim, o texto do que seria a Lei 12.842 foi aprovado nas
duas casas do Congresso nacional. Mas vieram os vetos presidenciais,
atingindo de forma danosa a essência da proposta da categoria médica,
principalmente ao ser eliminado o item que considerava como ativida-
des privativas dos médicos a formulação do diagnóstico nosológico e
a respectiva prescrição terapêutica. Dando margem a que, de repente,
qualquer um se sentisse no direito de desempenhar o papel milenar-
mente destinado aos médicos. Quase que ao mesmo tempo, o governo
federal promulgou a Medida Provisória 621, que instituiu o Programa
Mais Médicos (PMM). Seguiu-se um festival de incompreensões. A
solicitação dos Conselhos de Medicina de que o registro dos médicos
formados no exterior fosse antecedido da respectiva revalidação dos
diplomas, como sempre ocorreu e continuará sendo exigido dos não
participantes do PMM, foi alvo de acusações de obstrução e falta de
patriotismo. A Advocacia Geral da União afirmou publicamente que já
preparava processos por improbidade contra os dirigentes dos Conselhos
de Medicina. De repente, ter o devido zelo no sentido de garantir que
a autorização para o exercício da medicina no Brasil seja precedida de
exame acurado da qualificação dos requerentes, da verificação de que
realmente são médicos, e bem formados, de repente, repito, tal zelo foi
transformado quase em crime. Ao mesmo tempo, a poderosa máquina
publicitária federal conseguiu incutir na população a visão de que os
médicos brasileiros são elitistas, corporativistas, xenófobos, que por
orgulho e comodidade não querem ir para as periferias das grandes
cidades nem para os distantes rincões da pátria; nem permitem que

221
médicos estrangeiros o façam. É claro que, em tal campanha de ma-
nipulação, em nenhum momento se falou das péssimas condições de
trabalho em tais locais, ou das constantes ocorrências de violências de
toda ordem verificadas nas ditas periferias, demandando providências
do poder público – providências que quase nunca vêm – para garantir
tranquilidade às populações e condições de trabalho aos que querem
exercer seu mister profissional. E se, por acaso, algum promotor alegasse
que os chamados intercambistas estavam sendo contratados pelo gover-
no ao arrepio da legislação trabalhista brasileira, em claro desrespeito
a direitos consagrados em nossa pátria, a impressão que se tinha é que
isto estava sendo dito para surdos.
Senhoras e senhores, tudo que falei sobre estes infaustos aconteci-
mentos é do conhecimento público. O governo aprovou a MP 621, da
forma que quis. Não importa. Continuaremos lutando para que todas
as localidades do Estado e do país tenham médicos preparados para bem
atender a população. Reiteramos, porém, a convicção de que a criação
da carreira de estado para médicos é o caminho para a interiorização
da medicina de forma consistente e duradoura. Afirmamos que nada
temos contra estrangeiros ou contra médicos formados no exterior.
Nossa pátria sempre acolheu bem os que vêm de outros países.
Em mensagem final a todos os companheiros de profissão, penso
que é hora de os médicos se dedicarem como nunca àquilo que sabem
fazer melhor: atender bem os pacientes, com dedicação, zelo, solida-
riedade, compromisso.
Encerrando minhas palavras, quero agradecer aos médicos que
apoiaram a eleição da chapa “Ética e Cidadania” e a todos os que estão
prestigiando esta solenidade de posse. Destaco que a equipe eleita conta
com 18 novos Conselheiros, de diversas especialidades médicas, o que
significa o influxo de novas ideias em prol do trabalho do Conselho
de Medicina do Ceará pela dignidade da profissão médica e pelo bom
atendimento à saúde dos pacientes.

222
O CREMEC continuará somando esforços com o Sindicato dos
Médicos do Estado do Ceará, a Associação Médica Cearense e a Aca-
demia Cearense de Medicina, na construção de uma medicina pautada
pela busca da excelência científica, do perfeito desempenho ético e pelo
engajamento social. Assim como dará continuidade à parceria com a
Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde Pública, no esforço comum
pela garantia de saúde para todos. E desde já agradecemos a dedicação
e o empenho dos membros das Câmaras Técnicas e das Seccionais,
dos Representantes municipais do Conselho e dos funcionários do
CREMEC.
Por fim, de um modo todo especial, o agradecimento aos meus
familiares, pelo apoio e solidariedade nesta caminhada.

Muito obrigado.

Publicado originalmente no jornal Conselho em set/out/2013

*Discurso de posse do Dr. Ivan de Araújo Moura Fé na presidência
do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará, no dia 17/10/13,
em Fortaleza – Ceará.

223
PROGRAMA MAIS MÉDICOS

Poucas vezes os médicos brasileiros se sentiram tão atingidos como
nos últimos três meses, com os vetos da Presidência da República a
diversos artigos da lei 12.842, “que dispõe sobre o exercício da Medi-
cina”, e a promulgação da Medida Provisória 621, que instituiu o
Programa Mais Médicos. A não aprovação do artigo que assegurava
exclusivamente aos esculápios o direito de firmar o diagnóstico das do-
enças e estabelecer o respectivo tratamento não só causou nos médicos
perplexidade e indignação como gerou diversos subprodutos: alguns
interessados, apressadamente, concluíram que qualquer profissional de
saúde poderia montar consultório e oferecer atendimento à saúde das
pessoas enfermas. Houve quem se adiantasse propondo que a prescrição
de medicamentos estava dentro das competências de outras profissões.
Naturalmente, poderíamos argumentar que a lei brasileira em nenhum
momento delegou tais atribuições a profissionais não médicos. Pelo
contrário. A citada lei 12.842 diz que o médico desenvolverá suas
ações profissionais no campo da atenção à saúde para a prevenção,
o diagnóstico e o tratamento das doenças. O texto legal não alargou
o campo de atuação de nenhuma outra profissão.
De fato, desde que o mundo é mundo, quando alguém se sente
doente logo pensa em ir a um médico. E tudo indica que as coisas
continuarão assim. É claro que os médicos reconhecem a importância
do trabalho dos outros profissionais de saúde, da ação conjugada de
pessoas detentoras de diferentes saberes. O que se quer, no entanto, é
que não fiquem dúvidas quanto ao que é específico de cada profissão,
o que de forma alguma impede que todos trabalhem em prol de uma
melhor saúde para a coletividade.
No que diz respeito à MP 621, com a justificativa de que faltam
médicos em vários municípios brasileiros, o governo federal desencadeou
a maior campanha publicitária contra médicos brasileiros, apontados
225
como xenófobos e elitistas, tudo para justificar a importação de médicos
estrangeiros sem a obediência aos trâmites que a legislação brasileira
estabeleceu há décadas. Com efeito, a Lei 3.268, “que dispõe sobre os
Conselhos de Medicina”, foi aprovada em 1957, sendo sancionada por um
médico, o Presidente Juscelino Kubitschek, recebendo também, entre
outras, a assinatura de um cearense, Parsifal Barroso, na época Ministro
do Trabalho, Indústria e Comércio. Desde então, todos os médicos têm
que se registrar no CRM, como condição sine qua non para o exercício
da Medicina em nosso país. Esta regra de ouro foi duramente atingida
pelas disposições da MP 621. De início, pela determinação de que os
médicos formados no exterior estavam dispensados da revalidação do
diploma, o que afrontava não só a lei dos conselhos, mas também a
lei de diretrizes e bases da educação nacional. Depois, como represália
à legítima reação dos Conselhos de Medicina, os quais continuaram
exigindo documentos que comprovassem a qualificação médica dos
chamados intercambistas, além da necessária demonstração de fluên-
cia no idioma de Camões e Machado de Assis. Neste item, aconteceu
um fato risível: um médico formado no exterior firmou documento
asseverando que falava bem a língua portuguesa. O curioso é que tal
documento foi escrito em espanhol... Em outros casos, pairaram dúvidas
sobre a originalidade e a autenticidade das cópias de diplomas médicos
apresentadas aos Conselhos, o que suscitou cobranças de providências
corretivas. Estranhamente, o zelo demonstrado pelos Conselhos de
Medicina foi traduzido pelo governo como obstrução e falta de patrio-
tismo. Ameaças foram feitas aos dirigentes dos Conselhos de Medicina,
os quais poderiam ser processados por improbidade. E, por fim, veio
a decisão do Olimpo planaltino de que os médicos intercambistas não
mais se registrariam no CRM e sim no Ministério da Saúde. E assim,
no acirrado debate desenvolvido no Congresso Nacional sobre a maté-
ria, o governo fez questão de se impor pela força e aprovou o que quis.
Teve, porém, que fazer algumas concessões. A carreira de estado para

226
médicos, proposta que as entidades médicas vêm defendendo há tempo,
deverá ser implementada nos próximos três anos. O financiamento da
saúde dificilmente poderá sair da pauta do Congresso, tantas foram as
demonstrações de que, no atual estado de coisas, nem Padilha, nem
cubanos, nem marcianos trarão avanços significativos para o setor saúde.
Pelo menos enquanto alguma Medida Provisória não extinguir os
Conselhos de Medicina, o CREMEC continuará desempenhando seu
papel de promover o desempenho técnico, científico e ético da medi-
cina. O que lhe é assegurado pela citada lei 3.268, mutilada, porém
ainda em vigor...

Publicado originalmente no jornal Conselho em set/out/2013

227
PRONTUÁRIO MÉDICO

O prontuário é um documento fundamental no trabalho médico,
destinando-se ao registro preciso e detalhado da história clínica do
paciente, além de evolução, tratamento, exames realizados e todas as
intercorrências. Para cada paciente atendido, o médico deve elaborar
um prontuário, o qual tem que ser completo e compreensível, contendo
a sequência das diversas etapas do atendimento. Eis o que diz sobre a
matéria o Código de Ética Médica (CEM):
Artigo 87. É vedado ao médico – Deixar de elaborar prontuário
legível para cada paciente.
§ 1º O prontuário deve conter os dados clínicos necessários para a
boa condução do caso, sendo preenchido, em cada avaliação, em ordem
cronológica com data, hora, assinatura e número de registro do médico no
Conselho Regional de Medicina.
§ 2º O prontuário estará sob a guarda do médico ou da instituição
que assiste o paciente.
A obediência a tais regras é importante para o bom acompanha-
mento clínico, inclusive quando outros médicos participam do trata-
mento ou têm que fazer alguma intervenção de urgência em benefício
da saúde do paciente, circunstância que patenteia a necessidade de o
prontuário ser legível. Ademais, a anotação cuidadosa do histórico e
do tratamento da pessoa enferma poderá ser extremamente útil para
demonstrar o zelo do médico na adoção tempestiva das condutas clíni-
cas que a condição do paciente requer, especialmente quando ocorrem
denúncias contra o esculápio. No Conselho Regional de Medicina do
Ceará, já houve situação em que o prontuário foi decisivo na defesa
do médico acusado, possibilitando que este, de maneira tranquila, evi-
denciasse que tinha agido, em todas as fases do tratamento do doente,
dentro do que preceitua a boa prática clínica. No entanto, o contrário
também já aconteceu. Numa pendência entre médico e paciente junto
ao órgão de defesa do consumidor, que incluía solicitação de indeni-
229
zação, o CREMEC, convidado a acompanhar o caso, constatou que,
naquela circunstância específica, o prontuário era tão pobre em dados,
tão mal preenchido, que passou a ser uma peça de acusação contra o
médico, deixando-o em situação extremamente vulnerável e forçando-o
aceitar um acordo em que se obrigou a ceder às exigências financeiras
da paciente que o acionava.
Há, no que tange ao prontuário, outros dispositivos éticos de gran-
de relevância. Como repositório de dados do paciente, o prontuário é
alcançado pelas normas referentes ao segredo médico. E as informações
sobre o tratamento do enfermo são de propriedade deste, cabendo ao
médico a sua guarda. Deste modo, o paciente tem direito de acesso ao
prontuário (artigo 88 do CEM), assim como pode solicitar ao médico
“explicações necessárias à sua compreensão, salvo quando ocasionarem
riscos ao próprio paciente ou a terceiros”. Com a ressalva citada, se o
paciente requerer cópia do seu prontuário, o médico ou a instituição
responsável pela guarda deste documento médico tem o dever de
fornecê-la. No pólo oposto, anote-se que os dados do prontuário não
devem ficar ao alcance de pessoas outras, a não ser com a autorização
escrita do doente. A restrição alcança inclusive os familiares do paciente,
ainda que sejam médicos, os quais só têm a prerrogativa de manusear
o prontuário após autorização do enfermo. Já os médicos auditores de
planos de saúde podem examinar o prontuário nas dependências da
instituição em que ocorre a assistência médica. É conveniente, ainda,
esclarecer qual a conduta ética a ser adotada quando chega ao médico ou
ao hospital requisição judicial de prontuário. Neste caso, o prontuário
não deve ser encaminhado, mas sim disponibilizado ao perito médico
nomeado pelo juiz (§ 1º do artigo 89 do CEM). Tudo isto visa preservar
a intimidade, a privacidade e a honra das pessoas, conforme previsto
na Constituição Federal do Brasil, artigo 5º, inciso X.

Publicado originalmente no jornal Conselho em nov/dez/2013

230
LUTAS PARA 2014

Em andamento o ano de 2014. Grandes acontecimentos estão
agendados, como a Copa do Mundo de Futebol e as eleições para De-
putados Estaduais e Federais, Senadores, Governadores e Presidente
da República. Outros eventos certamente ocorrerão, tenham ou não
analogia com a grande mobilização de rua acontecida em meados de
junho do ano passado ou com os “rolezinhos” verificados mais recen-
temente. Como sempre, algumas intercorrências não previstas darão o
devido colorido ao horizonte dos próximos meses, queiram ou não os
mais conservadores ou os ansiosos. A capacidade humana de antevisão
dos fatos tem limites e é constantemente desafiada pelos imprevistos.
Resta, assim, planejar as ações, a partir das necessidades evidentes e de
uma averiguação o mais possível acurada da realidade atual, sopesando
possibilidades, desafios e dificuldades, o que não significa abdicar dos
sonhos e das utopias. É isto que o Conselho Regional de Medicina do
Estado do Ceará (CREMEC) se dispõe a fazer, até mesmo por estar
distante uma situação minimamente aceitável no que diz respeito à
qualidade da atenção ministrada à saúde da população e às condições
de trabalho e de remuneração dos médicos cearenses.
Recentemente, em 29 de janeiro de 2014, foi realizada uma As-
sembleia dos médicos alencarinos no auditório do CREMEC. Sob a
coordenação do Sindicato dos Médicos do Estado do Ceará (SIMEC),
foi deflagrada a Campanha Salarial 2014, movimento que alcança os
demais Estados do país e que tem por bandeira principal a luta pela
aplicação do teto da Federação Nacional dos Médicos (FENAM), o
que significa pagar aos médicos, por 20 horas semanais de trabalho, a
importância mensal de R$ 10.991,00. Tal proposta já foi apresentada ao
Secretário Estadual de Saúde e ao Prefeito de Fortaleza. Outra matéria
importante é a luta por concurso público para médicos. Uma vez que
os gestores públicos afirmam a carência de médicos, o que resultou na
231
contratação de milhares de profissionais estrangeiros, os intercambistas,
parece mais lógico abrir concurso para suprir a carência de esculápios
no serviço público. Este foi, convém lembrar, um compromisso assu-
mido pelo atual Prefeito de Fortaleza, em 18 de outubro de 2012, Dia
do Médico, conforme ficou documentado no Jornal Conselho nº 95,
de setembro/outubro de 2012, acessível no endereço eletrônico http://
www.cremec.com.br/jornal/jornais.htm.
A formação médica é outra linha prioritária de trabalho do Con-
selho de Medicina. Neste aspecto, o CRM organiza cursos científicos
para os médicos, estando em início o Curso de Psiquiatria Básica
para Médicos Clínicos, com 182 horas de aulas e duração de 7 meses,
contribuindo para que seja cumprido o que preceitua o Código de
Ética Médica, no item V dos Princípios Fundamentais, segundo o qual
“compete ao médico aprimorar continuamente seus conhecimentos e usar
o melhor do progresso científico em benefício do paciente”. Igualmente,
promove o CREMEC congressos científicos e éticos e, numa vertente
mais concentrada nas normas éticas da profissão, realiza Fóruns de Ética
Médica em hospitais de Fortaleza e nas cidades do interior do Estado.
Por sinal, no dia 30/01/14, ocorreu na cidade de Beberibe o CXVII
Fórum de Ética Médica do Interior, tendo sido ali discutidos temas como
Relação com Pacientes e Familiares, Atestados Médicos e Atestado de
Óbito, Responsabilidade Profissional e Direitos dos Médicos, além de
Programa Saúde da Família, Transferência de Pacientes e A Situação
da Saúde no Município.
Por fim, porém certamente de grande relevância, as ações de fis-
calização do Conselho de Medicina estão sendo intensificadas, sendo
vistoriados os serviços de saúde de pelo menos dois municípios cearenses
por semana, além da verificação das condições da assistência médica no
Programa Saúde da Família e nos Postos de Saúde e hospitais de Forta-
leza. Cada fiscalização resulta em relatório encaminhado às autoridades
de saúde e à Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde Pública, além da

232
cobrança no sentido de que sejam corrigidas as distorções encontradas.
É pela dedicação continuada às atividades referidas que o CRM
do Ceará continuará honrando o compromisso de lutar com denodo
pela melhoria da saúde da população cearense e pela dignidade e o bom
conceito da Medicina e dos que a exercem.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jan/fev/2014

233
CONSELHO FEDERAL DE
MEDICINA - ELEIÇÕES

O Conselho Federal de Medicina, órgão máximo de normatização
da ética da profissão médica, realizará em agosto próximo eleições para
renovação do seu corpo de conselheiros, em processo eleitoral que
abrangerá todos os Estados do país e o Distrito Federal. As regras da
eleição foram divulgadas ainda em 2013, constando da Resolução CFM
nº 2.024/2013, publicada no Diário Oficial da União de 28/08/13.
Com a proximidade do pleito, e visando estimular o interesse e a par-
ticipação dos médicos na escolha dos representantes cearenses para a
futura equipe do CFM, estão listadas abaixo algumas das informações
principais sobre a matéria:
1. Período de inscrição de chapas: de 26/05/14 a 24/06/14.
2. Data da eleição: 25 de agosto de 2014.
3. Os médicos de Fortaleza votarão por comparecimento pes-
soal. Os do interior votarão por correspondência.
4. O mandato dos conselheiros eleitos irá de 01/10/14 a
30/09/19.
Cabe, neste instante, avaliar a importância do Conselho Federal de
Medicina para a saúde brasileira e para o exercício da medicina e buscar
o meio de fazer boas indicações dos representantes alencarinos no CFM.
Em vários momentos da vida nacional, o CFM liderou os Conse-
lhos Regionais de Medicina em lutas de reconhecida importância em
prol da saúde da população brasileira. Para exemplificar, pode ser feita
referência a um período decisivo da história do Brasil – os idos de 1987-
1988 – ocasião em que o CFM participou, de forma destacada, ao lado
de outros segmentos da população civil organizada, da elaboração do
texto que se tornou a Seção “Da Saúde”, da Constituição Federal de
1988, consagrando de forma memorável o princípio de que “A Saúde é
direito de todos e dever do Estado”, garantido através da implantação
235
de um sistema público de saúde, com caráter universal, resolutivo e
igualitário, capaz de bem atender a todos os brasileiros. Tal bandeira,
de inegável valor ético e social, tornou-se motivo de orgulho para todos
os brasileiros, habitantes de um país com enormes dificuldades sociais
e econômicas, porém dotados de ousadia e sentido humanitário de
defender o melhor para todos.
Em anos mais recentes, o Conselho Federal de Medicina prosseguiu
no esforço pela melhoria do ensino médico, com o intuito de contribuir
para formar médicos bem preparados do ponto de vista ético, técnico
e científico. É verdade que tal pugna não conseguiu barrar a abertura
desenfreada de novas escolas médicas, várias das quais não possuidoras
das condições minimamente exigíveis para a gestação de esculápios
exemplares. O que, entretanto, não invalida a tenacidade com que os
Conselhos de Medicina defendem a criação de mecanismos permanen-
tes de avaliação da qualidade dos cursos de medicina, que permitam
a manutenção, com louvor, das boas escolas médicas, mas também
possibilitem a aplicação de sanções àquelas desprovidas dos requisitos
indispensáveis para a boa formação médica, as quais poderiam vir a
sofrer punições, desde a redução das vagas ofertadas até a suspensão
do funcionamento do curso comprovadamente precário. É claro que
este trabalho do CFM tem sido levado a cabo em articulação com os
Conselhos Regionais de Medicina. Em todas essas linhas da ação capi-
taneada pelo Conselho Federal de Medicina, aí incluída a fiscalização
constante de hospitais, postos de saúde, policlínicas e todas as demais
organizações em que se verifica a prática médica, o Conselho Regional
de Medicina do Estado do Ceará teve atuação destacada.

Enfatize-se, por fim, que os representantes do Ceará no Con-
selho Federal de Medicina, entre os quais foram Conselheiros Efetivos
os médicos Lino Antonio Cavalcanti Holanda, Francisco das Chagas
Dias Monteiro, Rafael Dias Marques Nogueira e José Albertino Souza,

236
desempenharam com dignidade e competência as elevadas tarefas ine-
rentes aos cargos que ocuparam. É o que também se espera de quem
for eleito em 25 de agosto de 2014.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mar/abr/2014

237
AUTONOMIA: CONTROVÉRSIAS

Há algumas semanas, foi veiculada pela imprensa uma notícia
que mais uma vez suscitou polêmica acerca dos limites da autonomia
de pacientes e médicos. Uma mulher da cidade de Torres – RS, na
42ª semana de gravidez e antecedentes de duas cesáreas, insistia em
ser submetida a um parto por via normal e acompanhamento de uma
doula. Estava, no entanto, internada em hospital, e a obstetra que a
assistia, convencida de que havia riscos para a mãe e a criança se não
fosse feito o procedimento cirúrgico, e após se revelarem infrutíferas as
tentativas de persuasão da gestante, acionou o Ministério Público, indo
a pendência à apreciação do Judiciário. Uma juíza determinou que fosse
realizado o parto cesariano, sendo acionada a polícia para reconduzir
a paciente ao hospital, do qual ela se ausentara após assinar termo de
responsabilidade. Todos estes fatos provocaram fortes protestos da
parturiente e ameaças de ação judicial contra a obstetra e o hospital em
que, ao final, pelo menos do ponto de vista clínico, chegou a bom termo
aquela acidentada gestação... O tema foi objeto de artigo na Folha de
São Paulo de 04/04/14, em que o jornalista Hélio Schwartsman definiu
a ocorrência como um fracasso da medicina e da justiça brasileiras e
classificou a atitude médica como “empáfia hipocrática”. Certamente,
foi pelo menos inusitado o que ocorreu. E talvez dê margem a uma
reflexão, de preferência isenta de passionalismo, acerca da liberdade, do
direito ao próprio corpo e do papel do Estado na proteção das pessoas.
Sem omitir que o risco apontado alcançava não só a reclamante, mas
também a criança prestes a nascer.
Desperta, por sua vez, acalorados debates a situação em que o mé-
dico atende pacientes Testemunhas de Jeová e se evidencia a necessidade
de transfusão de sangue. Dizem esses pacientes que, para eles, receber
sangue significa sofrer agressão em suas mais profundas convicções re-
ligiosas. Chegam a comparar a transfusão de sangue a um estupro e são
peremptórios na afirmação de que preferem morrer a violentar a própria
239
fé. Por diversas vezes, o Conselho Regional de Medicina se pronunciou
sobre a matéria, lembrando que cabe ao médico respeitar a vontade e
as convicções religiosas dos enfermos – registre-se que a liberdade de
consciência e de crença está prevista constitucionalmente, incluindo-se
entre os direitos e garantias fundamentais –, mas que deve agir, adotando
o procedimento cientificamente indicado para o paciente, nos casos em
que há risco iminente de morte, mesmo que isto contrarie o doente. A
complicação aumenta, no entanto, quando se trata de paciente menor
de idade, cujos pais, respondendo pelo filho, proíbem o uso de sangue.
Surge aqui uma perspectiva nova, ou seja, a circunstância em que os
genitores de um enfermo tomam uma deliberação que pode contribuir
para a morte do doente. Como ficam as análises sobre a liberdade de agir,
a autonomia de médico e de paciente, o direito de decidir por outras
pessoas, o dever do médico de utilizar todos os meios a seu alcance em
benefício da saúde do paciente? O recurso ao Conselho Tutelar pode
tornar-se necessário, nos termos previstos no Estatuto da Criança e do
Adolescente.
A Medicina surgiu e se desenvolveu tendo por meta e razão de ser
alcançar o melhor para a saúde dos doentes. Com este intuito, muitas
vezes os médicos se conduzem de forma que pode parecer oposta aos
valores e direitos dos pacientes. É então que surgem os conflitos entre
os princípios da beneficência e da autonomia. Primeiro que tudo, agir
em prol da saúde e não causar dano. Esta é uma das leituras do famoso
postulado hipocrático. Equilibrar o respeito ao direito do paciente de
decidir acerca do que aceita ou não no tratamento de sua saúde e o dever
intrínseco do médico de envidar todos os esforços para salvar a vida
do enfermo sob seus cuidados é muitas vezes um grande desafio para
os esculápios, em que devem ser sopesados e levados em consideração
o valor fundamental da dignidade humana e os princípios cardeais da
prática médica.

Publicado originalmente no jornal Conselho em mai/jun/2014

240
ÉTICA E GENÉTICA

Há alguns meses, a atriz Angelina Jolie anunciou que se submetera
a uma mastectomia bilateral após descobrir que tinha uma mutação no
gene BRCA1, condição que implica em previsível aumento do risco
de desenvolvimento de câncer de mama, até mesmo pelo fato de que
a famosa estrela apresentava um histórico familiar com relato de que,
além de sua mãe, a tia e a avó maternas teriam morrido com câncer de
mama. No caso, a partir da anamnese e de um diagnóstico genético, uma
intervenção médica ocorreu com o objetivo de prevenir futura doença.
Um dos grandes anseios humanos sempre foi conseguir visualizar o
futuro, tentando antecipar e, se possível, evitar acontecimentos funes-
tos, enfermidades, pragas e outros males. Os resultados precários de tal
tentativa sempre estiveram entre as causas geradoras de grande carga de
ansiedade em homens e mulheres. Pelo menos até agora, não há como
garantir saúde, vida longa, paz e prosperidade. Caminhos diversos foram
e continuam sendo trilhados pelos humanos com o intuito de alcançar
alguma serenidade e segurança. Na história da humanidade, conviveram
frequentemente os rituais místicos em busca da proteção divina, com
esforços pela aquisição de conhecimento. Na perspectiva científica,
descobrir meios de assegurar saúde e longevidade foi tarefa a que se
dedicaram muitos dos homens de ciência. Mas também ocupou ficcio-
nistas e escritores de talento. Assim é que, em Admirável Mundo Novo,
Aldous Huxley imagina uma sociedade futura em que, em laboratórios,
a geração de pessoas se daria por meio de um processo em que medidas
seriam previamente adotadas para excluir futuras doenças. Algo como
uma vacinação antes do nascimento. Atento, porém, às possibilidades
de erro, uma peculiaridade inafastável da condição humana, o autor
registra que a distração de um funcionário do laboratório, enganando-se
na administração da substância que evitaria a doença do sono, acabou
resultando no surgimento e morte, tempos depois, de um paciente com
tripanossomíase, o primeiro caso em cinquenta anos...
241
O fato é que o diagnóstico genético vem despertando crescente
interesse como ferramenta apta a identificar possibilidades mórbidas
futuras, propiciando a análise da conveniência ou não da adoção de
determinadas medidas terapêuticas, sejam cirúrgicas ou de outra ordem.
Pode, no entanto, suscitar outras consequências. É possível que o diag-
nóstico genético se preste à discriminação por parte de empregadores
ou de planos de saúde. Imaginemos que o empregador exija, dentro
dos requisitos para admissão ao emprego, que o candidato se submeta
a um rastreamento para genes relacionados com câncer. A informação
genética sobre o indivíduo passaria a fazer parte do curriculum vitae?
Tornaria mais caro o plano de saúde? Poderia ser utilizada pela operadora
de planos de saúde como argumento para rejeitar ou excluir usuários?
O Código de Ética Médica diz, em seu Princípio Fundamental
I, que a Medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser huma-
no e da coletividade e será exercida sem discriminação de nenhuma
natureza. Por sua vez, a UNESCO proclama, através da Declaração
Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos Humanos, que
“a todo indivíduo é devido respeito à sua dignidade e aos seus direitos,
independentemente de suas características genéticas” (artigo 2); e que
“nenhum indivíduo deve ser submetido a discriminação com base em
suas características genéticas, que vise violar ou que tenha como efeito
a violação de direitos humanos, de liberdades fundamentais e da dig-
nidade humana” (artigo 6).
Assim, é necessário que a sociedade esteja preparada para usufruir
os reais benefícios que a genética vem conquistando para a saúde, sem
aceitar, contudo, que o conhecimento adquirido seja utilizado para
discriminar pessoas e agredir direitos.

Publicado originalmente no jornal Conselho em jul/ago/2014

242
DEBATES ELEITORAIS

As eleições de outubro de 2014, para escolha, entre outros, do
Presidente da República e do Governador do Estado do Ceará, pos-
sibilitaram a realização de debates de que participaram o Conselho
Regional de Medicina do Ceará, o Sindicato dos Médicos do Estado
do Ceará e a Associação Médica Cearense. Os objetivos das entidades
médicas cearenses com a iniciativa incluíam a apresentação aos candi-
datos ao cargo máximo do executivo estadual de algumas das propostas
mais caras ao movimento médico alencarino, a exemplo da realização
de concurso público para médicos e da adoção de medidas concretas
que garantissem o acesso da população aos serviços públicos de saúde,
acabando com as intermináveis filas para consultas, cirurgias e exames
complementares, vistas pelas lideranças médicas locais como um acinte
aos enfermos e um desrespeito à cidadania. Em uma das discussões,
foi defendida a ideia de que o hospital público a ser construído em
Fortaleza deveria sê-lo no campus da Universidade Estadual do Ceará,
tornando-se hospital-escola dos cursos da área da saúde da UECE, com
indiscutíveis vantagens para a formação técnica e científica dos alunos
daquela instituição. Naturalmente, também foram abordadas as con-
dições de trabalho dos médicos nos hospitais públicos, a sobrecarga do
atendimento, a carência de recursos humanos e equipamentos, fatores
determinantes da sobredita precariedade de acesso dos enfermos aos
cuidados de saúde que a medicina moderna recomenda e a solidariedade
humana postula.
Sendo uma matéria bem atual, também foi indagado aos candidatos
qual era seu entendimento acerca da carreira de Estado para médicos. A
ideia, que é uma das bandeiras de luta do movimento médico brasileiro,
tem analogia com o que se verifica na magistratura, de tal modo que
com sua implantação teríamos o médico concursado, com estabilidade
e possibilidade de ascensão, remuneração digna e garantia de boas con-
243
dições de trabalho, o que seria o verdadeiro caminho para concretizar
a presença de médicos em todas as cidades do país. Por sinal, chamou
a atenção durante o processo eleitoral a frequência com que diversos
candidatos ao legislativo defenderam como coisa pacífica essa tese dos
esculápios, tendo-a como uma formulação bem mais elaborada e consis-
tente do que o atual Programa Mais Médicos que, como se sabe, padece
de defeitos de monta, como o fato de médicos estrangeiros não terem
seus diplomas devidamente aferidos e revalidados pelas universidades
públicas brasileiras, o que, aliás, era até então obrigatório, segundo a Lei
de Diretrizes e Bases da Educação (Lei Federal 9.394/96, artigo 48, § 2º).
Nos encontros acima citados, foi lembrada recente fiscalização
realizada pelo Conselho Regional de Medicina do Ceará na estrutura
e no instrumental organizado para o que se chamou “Saúde na Copa”,
por ocasião da recente – e traumática – competição futebolística. Como
poucas semanas antes tinham sido mais uma vez verificadas pelo CRM
as vexatórias condições de vários serviços de saúde de nosso meio, e
tendo em vista as excelentes instalações e os equipamentos de última
geração postos à disposição dos participantes do evento esportivo, houve
a surpresa do contraste e ficou a conclusão de que, querendo, é possível
fazer algo bem melhor, desde que haja a necessária confluência de es-
forços e interesses em benefício da coletividade e não apenas de alguns.
É sabido de todos que o período eleitoral é propício a surtos de
generosidade e de civismo, quando não de outras coisas mais... Multi-
plicam-se as promessas e os planos ditos inovadores para a solução das
crônicas mazelas sociais. Há sinalizações de que ocorrerão melhorias
na situação sanitária do Estado em futuro próximo. De repente, parece
que os “verdes mares bravios” podem tornar-se mais belos. Entusias-
mos sazonais à parte, no entanto, os profissionais da Medicina devem
continuar engajados na construção de uma sociedade mais humana,
na qual os doentes recebam uma atenção à altura das suas necessidades
e dignidade. Nesta tarefa coletiva, importante papel está reservado

244
aos médicos. Não só exercendo a profissão com zelo e dedicação, mas
também cobrando dos governantes medidas que amenizem as graves
carências do setor saúde. Este é um dever da cidadania.

Publicado originalmente no jornal Conselho em set/out/2014

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AS BASES DO RACIOCÍNIO MÉDICO

APRESENTAÇÃO

Ainda bem que esta obra, “As bases do raciocínio médico”, escrita
há 30 anos pelo Dr. Fernando Monte, não ficou inédita, como chegou
a pensar o autor ante as dificuldades de publicação. Embora, como ele
diz, o só ato de escrevê-la tenha sido prazeroso, seria lamentável se as
reflexões desenvolvidas pelo ilustre médico não viessem a lume. Foi bem
melhor dar prosseguimento à “ilusão de poder colaborar com a sociedade,
ao colocar um pequeno grão no majestoso edifício do conhecimento humano”.
Nos capítulos iniciais do livro, vamos encontrar a inevitável e perti-
nente citação dos gregos, de Hipócrates e seus estudos sobre a natureza
do homem e a sistematização da doença como um fenômeno natural,
e oportunas referências a Platão, que escreveu sobre quase tudo, a tal
ponto que já foi dito que toda a filosofia posterior se resume a notas
de rodapé a Platão.
Saltando alguns séculos e, portanto, diversos capítulos, chegamos
a Claude Bernard e sua formulação de que a doença deveria ser enten-
dida a partir da saúde. O que, numa dessas ginásticas da memória, me
fez lembrar episódio ocorrido quando eu era estudante de medicina, e
um conhecido meu se queixou de dor de ouvido. Foi ao médico e, ao
retornar da consulta, mostrava-se decepcionado. Ao ser indagado sobre
as razões do seu desapontamento, revelou:
“Eu disse que estava com dor no ouvido direito, e o médico examinou
primeiro meu ouvido esquerdo. Concluí que ele precisava ver como era o
ouvido bom para só assim ter condição de asseverar que o outro ouvido
estava enfermo”.

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Hoje, penso que o Doutor que atendeu meu amigo talvez estivesse
redescobrindo Claude Bernard. Ou não. Poderia apenas estar dando
sequência às várias etapas do exame do paciente, da forma que aprendera
na faculdade de medicina.
Manifesta o autor a preocupação de que “em nossa sociedade a saúde
tornou-se um bem de consumo”, algo que pode ser vendido ou comprado.
Ademais, “o mercado consumidor é ampliado com a transformação de um
incômodo em uma doença”. De maneira que a classificação das doenças
se ampliou ao ponto em que a CID virou um cartapácio que lembra
os antigos catálogos telefônicos. São tantas as doenças indexadas, tão
numerosos os transtornos, que dificilmente encontraremos alguém
que não seja enquadrado em pelo menos duas ou três das categorias
definidas como mórbidas. Daí a necessidade de estudar a saúde como
normalidade e o conceito de doença. Por seu turno, pode ser útil re-
cordar o que já foi expresso, com variada mescla de seriedade e gracejo,
por alguns expoentes da Medicina:

“Médico não entende de saúde. Médico entende de doença”.

A constatação de que a indústria capitalista empurra o médico
para o combate à doença e a utilização nem sempre bem indicada dos
últimos recursos tecnológicos suscita a conveniência de lembrar as crí-
ticas e diatribes de pensadores e comediógrafos contra a Medicina ao
longo do tempo. Algum personagem (seria de Molière?) já teria afirmado
que não era dotado de saúde suficiente para aguentar simultaneamente
a doença e o tratamento, achando-se capaz de sofrer apenas a enfermi-
dade...

Por sua vez, já houve quem fizesse o alerta:

“Cuidado! Você pode estar normal!”

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Não se trata de ignorar e negar a ciência e a tecnologia. Refere-se o
autor à utilização racional dos avanços do conhecimento e da técnica, em
benefício da saúde do ser humano. Por sua vez, ao abordar as condutas
terapêuticas, e considerando quantas delas foram adotadas e depois
consideradas impróprias ou até danosas, faz uma chamada à prudência,
lembrando o lema hipocrático de “antes de tudo não prejudicar”.
Não poderia faltar em tão qualificada obra a abordagem da questão
da equidade no atendimento aos enfermos, um problema antigo – já
referido por Platão em “As Leis”, em que temos a figura do médico
dos senhores e a do médico de escravos –, cuja solução poderá dar-se
menos pela via dos códigos, juramentos e leis que através da superação
das desigualdades sociais.
E é adequadamente valorizada a autonomia do paciente, matéria
que ganha relevância nos dias atuais e envolve conflitos éticos e decisões
difíceis. E em que o médico vai precisar cultivar mais o diálogo com o
enfermo, ouvindo as razões deste e evoluindo para aceitar que “a melhor
solução para o paciente não é necessariamente a solução técnica”. Reafir-
mando, ademais a concepção do indivíduo como um fim em si mesmo e
não apenas como um meio, famosa formulação kantiana. Acrescente-se
que o respeito à autonomia inclui a solicitação do consentimento livre e
esclarecido do doente. E mais uma vez temos que expressar admiração
ao anotar que Platão já falava do tema, na obra supracitada, relatando
um diálogo no qual é dito que o médico nascido livre nada prescrevia
antes de conquistar a autorização do paciente, claro que se referindo,
no caso, às enfermidades de pessoas livres. Se o doente era um escravo,
a conduta era outra...
Há muito mais a ser visto no livro. Um capítulo, “Erro médico
socialmente aceito”, é particularmente instigante ao abordar as possibi-
lidades de erro mesmo quando o ato médico é executado “com as mais
honestas intenções de acertar”.

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Concluindo esta sinopse, diria eu que o Dr. Fernando Monte é um
daqueles pensadores incômodos, no sentido de que não permite que
seu leitor ou ouvinte prossiga placidamente a caminhada, sem dúvidas
ou inquietações. Pelo contrário, levanta com frequência questões, põe
em cheque conceitos estabelecidos, enfim, incita à reflexão. O resul-
tado é enriquecedor, com ampliação dos horizontes conceituais e um
aprofundamento da compreensão deste universo da saúde e da doença,
em que transitam os médicos e os pacientes.

Fortaleza, 13 de novembro de 2014

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PRONTUÁRIO ELETRÔNICO

“Doutor, o senhor ainda é do tempo da fichinha?” Este foi o comen-
tário, feito com ar de espanto e desagrado por um paciente que estava
sendo atendido pela primeira vez por um médico, ao observar que o
esculápio fazia as anotações da história clínica no tradicional formato
de registro em papel. O doente parecia não entender como é que, com
toda a tecnologia da informação atualmente existente, ainda houvesse
alguém que se pusesse a utilizar recursos, a seu ver, da era das cavernas...
Buscando ampliar o conhecimento do assunto, o Conselho Regional
de Medicina do Estado do Ceará (CREMEC) organizou nos dias 28 e
29 de novembro de 2014, para os médicos em atividade no Estado, um
Curso de Atualização em Prontuário Eletrônico, que foi ministrado
pelo Dr. Claudio Giulliano, membro da Câmara Técnica de Informática
em Saúde do Conselho Federal de Medicina.
Já faz alguns anos que o CREMEC debate o tema prontuário ele-
trônico (PEP). Desde o início das discussões, as preocupações principais
com o PEP abrangiam: 1) A manutenção dos dados, ou seja, garantir
que não ocorrerá a perda das informações; afinal, não queremos que os
prontuários tenham existência efêmera. 2) A não adulteração dos dados,
quer dizer, não permitir que haja alterações de evoluções, prescrições,
resultados de exames, etc. 3) A manutenção do sigilo, isto é, que os re-
gistros dos pacientes não sejam acessados senão por pessoas autorizadas.
Em outra vertente, a questão do arquivamento dos prontuários tem
preocupado sobremaneira os responsáveis pelos documentos médicos,
mormente no caso dos grandes hospitais ou clínicas de maior porte,
que com o passar do tempo identificam a necessidade de alocação de
um espaço cada vez mais amplo para o armazenamento dos prontuá-
rios dos pacientes. Em alguns casos, ocorre a terceirização da guarda e
conservação dos prontuários, que inclusive vem ocorrendo em locais

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diversos daqueles em que se dão os atendimentos médicos, às vezes a
quilômetros de distância. O que torna impositiva a adoção de meca-
nismos que permitam a consulta rápida ao prontuário do paciente que
está outra vez sendo atendido, consulta esta que pode ser decisiva para
a compreensão da evolução clínica do enfermo, colaborando para que
seja estabelecida a melhor conduta terapêutica.
Hoje, os especialistas na matéria asseveram que já há tecnologia
capaz de tranquilizar o médico e o paciente quanto aos tópicos supra-
citados. Para isto, porém, é necessário que sejam obedecidos alguns
requisitos. A necessidade de sistematização do assunto levou o Con-
selho Federal de Medicina (CFM), em associação com a Sociedade
Brasileira de Informática em Saúde (SBIS), à elaboração de normas
que regulamentassem o tema. Atualmente, está em vigor a Resolução
CFM 1.821/2007, que “Aprova as normas técnicas concernentes à di-
gitalização e uso dos sistemas informatizados para a guarda e manuseio
dos documentos dos prontuários dos pacientes, autorizando a eliminação
do papel e a troca de informação identificada em saúde”, cuja consulta é
indispensável para quem tenciona migrar dos registros em papel para
os eletrônicos. Não há que olvidar, no processo de implementação
das regras da citada Resolução, a relevância da Comissão de Revisão
de Prontuários da instituição prestadora de serviços médicos. E que é
permanente a guarda dos prontuários arquivados eletronicamente em
meio óptico, microfilmado ou digitalizado. Foi, ainda, estabelecido o
prazo mínimo de 20 (vinte) anos, a partir do último registro, para a
preservação dos prontuários dos pacientes em suporte de papel, que não
foram arquivados eletronicamente pelos meios acima listados.
Para que seja adotado o PEP, o médico precisa ter certificado digital
e utilizar um software certificado pela SBIS. Algumas vantagens da nova
ferramenta parecem evidentes: a localização de informações dentro de
um prontuário volumoso é uma dificuldade quando se utiliza o pron-
tuário em papel. Com o formato eletrônico, o dado pode ser encontrado

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rapidamente. Por sua vez, a organização dos dados permite a emissão
de relatórios, o que poderá ser útil para levantamento estatístico e epi-
demiológico. Acrescente-se que o PEP pode ser acoplado a um banco
de dados com informações sobre medicamentos, o que possibilita, in-
clusive, que sejam acionados alertas acerca, por exemplo, de interações
medicamentosas e possíveis efeitos adversos dos remédios prescritos. Em
tese, portanto, o prontuário eletrônico pode contribuir para melhorar a
assistência aos pacientes, encontrando aí uma sólida justificativa ética.
Ademais, levaria a uma redução significativa no consumo de papel, tendo
também, por conseguinte, uma função ecológica relevante. Estando,
assim, entre os instrumentos que os humanos se obrigam a adotar para
a preservação do planeta, em respeito às gerações futuras.

Publicado originalmente no jornal Conselho em nov/dez/2014

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Edições CREMEC-2014
Edições CREMEC-2014
3464.2222
PERFIL IVAN MOURA FÉ
HOMENAGEM Administrar bem a cousa pública é tarefa difícil. As
Hoje, é dia de festa, para o Conselho Regional pressões internas e externas, paralelas, são tantas que
de Medicina do Estado do Ceará: inauguramos o aquela tarefa só será alcançada, com muito suporte
auditório conselheiro Ivan de Araújo Moura Fé, moral, sentimental e político, por parte do administrador.
que estará à disposição dos médicos para eventos Há, no Brasil, o conceito, abraçado por muitos, de

SAUDE E CIDADANIA
de que necessitarem. Por que este nome? Foi que a cousa pública é res nullius e por isso deva ser
consensual entre todos os conselheiros, senão menosprezada, não merecendo um tratamento honesto e
aplaudido. Jovem dinâmico, ex-presidente e fiel às regras ditadas para a boa administração.
iniciador da atual sede cujo término ficou sob a
Não se pretende, com tais conceitos, generalizar o
responsabilidade do professor Dalgimar Beserra. Administrar bem a cousa pública insucesso, contra os interesses da coletividade, de todas
Dr. Ivan galgou com mérito, reconhecido por
as administrações da cousa pública. Há exceções.
todos que lidam com a ética, devido à sua conduta é tarefa difícil. As pressões
sóbria, cavalheiresca. Essas qualidades o alçaram E, por falar em exceções, veja-se o gerenciamento da
à mais alta postulação hipocrática: presidente internas e externas, paralelas, são autarquia administrativa dos médicos nos últimos anos.
do Conselho Federal de Medicina. Em sua gestão Quase tudo, ali, mudou: há uma transparência total dos atos
no CFM predominaram o respeito à sociedade e
tantas que aquela tarefa só será praticados pelo Conselho Federal de Medicina, na gestão do
a valorização da excelência da prática médica; alcançada, com muito suporte Dr. Ivan Moura Fé, à prova do mais exigente auditor.
uma revolução na atuação do Conselho Federal
A lisura da mesma é fruto da filosofia impregnada pelo
de Medicina. Conselho esse reconhecido em moral, sentimental e político, por Dr. Ivan Moura Fé, respaldada na moral, na honestidade,
todos os rincões, do Oiapoque ao Chuí, quando
altruisticamente, durante cinco anos renunciou à parte do administrador. na consciência política de destemido patriota.
convivência familiar, aos lazeres e à sua clientela, Substituindo a rotina imposta pelos administradores
e como paladino da ética tornou-se um Ivanhoé, indicados, para o Conselho, pelo eixo São Paulo – Rio,
nos moldes modernos. Dr. Ivan, a classe médica surgiu o Comando de um nordestino, filho do Piauí e
cearense tem muito a lhe agradecer, não pelas ofertado pelo Ceará para que se implantasse uma boa
páginas sociais, pela propaganda encomendada, administração. Assim, aconteceu.
mas pelo trabalho impagável, pela missão que a
Hoje, graças ao espírito empreendedor do Dr. Ivan Moura
poucos é confiada, pela honestidade cotidiana
Fé, com a ajuda dos seus pares, o Conselho Federal de
dentro do humilde papel em que todo humanista
Medicina é um órgão auscultado em todas as questões
se sente bem.
relacionadas com a política de saúde do País. A figura
do seu Presidente é sempre requisitada quando se trata
Discurso proferido pelo presidente do CREMEC de defesa do interesse da coletividade, por sua retidão
conselheiro Lino Antonio Cavalcanti Holanda, por moral, cultura e elevado grau de politização, a par de
ocasião da inauguração do auditório comprovado sentimento de brasilidade.
Conselheiro Ivan de Araújo Moura Fé Por tudo que tem feito em prol da categoria médica e do povo,
18 de outubro de 1996. o Dr. Ivan Moura Fé se tornou credor da administração geral.

Evandro Carneiro Martins - Advogado
Publicado originalmente no jornal Conselho em set/1995