You are on page 1of 9

45 ANOS ACOMPANHANDO O EDUCADOR

www.fundacaoamae.com.br ANO 45 . Nº 385


MARÇO . 2012

AMAE educando - 385 . Março . 2012


1
Capa de Renata Pimenta
Foto: arquivo Konvyt
MARÇO . 2012 . Nº 385

Carta ao leitor
Nosso jeito de ser – A revista AMAE Educando é uma publicação da Fundação AMAE para Educação
e Cultura. Escrita por professores para professores, com uma abordagem ligada à realidade vivida
em sala de aula, seu diferencial é conter artigos práticos ou teóricos, usando uma linguagem clara e
objetiva. Dirige-se, principalmente, a educadores de Educação Infantil e Ensino Fundamental. Suas oito
edições anuais (quatro em cada semestre) são comercializadas por assinaturas.

Expediente
PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO AMAE: Lêda Botelho revista@fundacaoamae.com.br
Martins Casasanta Diretora e jornalista responsável: Cristina Elizabeth
CONSELHO CURADOR: de Vasconcelos Ministerio - Reg. prof. MG 06124/
Ajax Gonçalves Ribeiro (Presidente), Ana Lúcia SJP - cristina@fundacaoamae.com.br
Amaral (Secretária), Audineta Alves de Carvalho Editoras: Célia Sanches, Vera Lúcia Pyramo Costa
de Castro, Fernanda Fernandes Sobreira Corrêa, Pimenta
José Leão Marinho Falcão Filho, Margarida Magda Estagiária: Bárbara Diniz
Machado Michel, Maria Auxiliadora Campos Araújo Ilustração: Mirella Spineli (31) 3482-0081/9184-
Machado, Raymundo Nonato Fernandes, Rosa Emília 8954
de Araujo Mendes Projeto gráfico: Renata Pimenta (31) 3267- Consulte o site da
CONSELHO DIRETOR: 6762/8489-3851
Diretora-Presidente: Lêda Botelho Martins Impressão: Gráfica Del Rey (31) 3369-9400
Fundação AMAE
Casasanta Conselho Editorial: Albertina Salazar, Célia Sanches, (www.fundacaoamae.com.br)
Diretora-Vice-Presidente: Maria Antonieta Bianchi Cristina Ministerio, Gilda P. Lodi, Gleisa C. Antunes,
Diretora Administrativo-Financeira: Helena Lopes Mª das Graças D. Andrade e Valderez A. Valle. e acesse o índice remissivo
Diretora de Relações Institucionais: Rui Cesar Suplentes: Ângela Franco e Marise Nancy de Alencar.
Rezende Souza Atendimento ao assinante: por assunto e por autores, da
Diretora de Publicações e Eventos: Albertina Rejane Pereira Lopes revista AMAE Educando, 2011.
Salazar Av. Bernardo Monteiro, 861 - Santa Efigênia -
CONSELHO FISCAL: Belo Horizonte - MG - Brasil- CEP 30150 - 281
Francisco Liberato Póvoa Filho, Maria Odília -Telefax (31) 3224-5400 / 3224-6158 - rejane@
Figueiredo De Simoni, Elza Marie Petrucelli Carayon fundacaoamae.com.br
Suplentes do Conselho Fiscal:
Arlete Duarte Silva, Hortência Gatti Queiroga, Janice Av. Bernardo Monteiro, 861 -
Lúce Martins Fortini Santa Efigênia - Belo Horizonte
EQUIPE EXECUTIVA: CEP 30150-281 - MG - Brasil -
Célia Sanches, Cristina Elizabeth de Vasconcelos Telefax: (31) 3224-5400 / 3224-6158
Ministerio, Flávia Duarte Carvalho, Gilda Pazzini Lodi, www.fundacaoamae.com.br
Maria da Anunciação Duarte Carvalho, Vera Lúcia
Pyramo Costa Pimenta

AMAE educando - 385 . Março . 2012


3
Índice
Editorial
por Cristina Ministerio

Os dias passam e lá vamos nós seguindo nosso destino na es-


teira que o tempo deixa. Cumprimos os rituais de fim de ano – nos des-

fixo
pedimos de 2011 e saudamos 2012 – abrimos os braços para os novos
alunos e nos perguntamos o que de melhor temos para lhes oferecer.
Na redação da revista AMAE Educando, a mesma pergunta foi feita e as
primeiras respostas surgiram a partir de um projeto gráfico mais moder-

3
no, mais colorido, mais agradável. Já na primeira página, o recado claro
de que esta é uma revista para você, professor, escrita por você que tem @MAE ON LINE
A Fundação AMAE e a revista AMAE
tantas experiências a compartilhar – riqueza que só aumenta, quando
Educando na web
distribuída. Na terceira capa, um novo projeto pretende que os leitores
interajam com nosso Conselho Editorial. A cada edição, o “Ser Escola
D+” revelará o que cada um dos nossos conselheiros pensa que não

6
pode faltar à escola para que ela seja uma superescola. Você, professor,
está convidado a dar sua opinião. Você é autoridade no assunto.
BOLETIM DE NOTAS
Notas sobre educação e cultura
Na seleção das matérias a serem publicadas, nossa escolha
recaiu nas que trouxessem novidade, oportunizassem reflexão e favo-
recessem a prática. Na capa, uma proposta que ainda é relativamente
inédita no Brasil: a resolução de conflitos nas escolas, feita entre os pró-
prios alunos (p. 8). Treinando diversas habilidades, adotando procedi-
mentos específicos, eles demonstram que são capazes de resolver suas
diferenças e de levar a paz para a escola. Vamos espalhar essa ideia? À
página 40, um texto nos faz refletir sobre de quem é o papel de educar
ENCARTE
as crianças. A resposta parece fácil, mas a questão do que seja dar ou Conte um conto
não dar limites às crianças ainda não é tão simples assim. Para ajudar, a Aventuras de uma família
autora discorre com competência sobre “educar, um bem necessário”.
E na hora de “pôr a mão na massa”, são muitas as opções: os jogos que
ensinam matemática (p.27), o conto infantil que ajuda na preservação
da natureza (p. 34) e a leitura de jornais que levam à redação de classi-
ficados poéticos (p. 17).
Uma entrevista (p. 13) com o prefeito de Belo Horizonte, Marcio
46 PONTO FINAL
Crenças de uma professora

Lacerda, que gentilmente recebeu a nossa equipe, co-anfitrionado pela


secretária municipal de Educação, Macaé Maria Evaristo, nos permite
crer que a educação na capital mineira vai se beneficiar da mania de
perfeição que o prefeito tem. Ele não se satisfaz
só com o que está apenas bem. “Te-
mos de melhorar mais”, diz ele, em
busca de resultados mais significa-
tivos. A visão colorida dos pequenos
alunos da Umei Pituchinha, localizada
na Regional Noroeste, nos enche de
esperança. Se já está bem, vai ficar
melhor ainda. Nesta edição, nos lem-
bramos do Dia da Escola (p. 39). As
poesias da professora Pauline Moysés
podem ditar o ritmo das comemorações
deste importante evento, afinal, Ser Es-
cola D+ também é festejar, com alegria,
a instituição que nos acolhe dia após dia,
ano após ano, para que, nela, se cumpra o
nosso destino. dvíncula/P
BH
Divino A

4 AMAE educando - 385 . Março . 2012


Nesta edição 8
13
ESPECIAL
A mediação escolar como opção para a conservação da paz nas escolas brasileiras

ENTREVISTA
O prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, fala sobre a educação no município

Nina A
lexand
17 RELATO DE EXPERIÊNCIA

rina
Atividades que usam o jornal como objeto de estudo e
prática

20 LÍNGUA PORTUGUESA
Ler e escrever, tarefas fundamentais na
vida estudantil

27 MATEMÁTICA

Priscila
Os jogos como suportes essenciais
no processo de aprendizagem da

Hemery
matemática

32 ATUALIDADES
Um problema antigo com um
nome moderno - o bullying
na escola e suas graves
consequências

34 TEMAS TRANSVERSAIS/MEIO AMBIENTE


A clássica história “Os três porquinhos”, os
ensinamentos sobre o meio ambiente e a Arquivo pe

importância de sua preservação


ssoal

39 COMEMORAÇÕES
Poesias para se comemorar o Dia da Escola

40
PSICOLOGIA
Os limites necessários ao crescimento das crianças, fazendo dos pais e professores
elementos indispensáveis à sua aplicação

43 REPORTAGEM
A prioridade dada à saúde bucal desde o berçário, em escola de Lagoa Santa (MG)

AMAE educando - 385 . Março . 2011


5
Especial
Mediação escolar:
uma solução para
os conflitos?
Estratégia de pacificação social chega aos ambientes escolares
brasileiros e prepara os alunos para a resolução de conflitos na
fase adulta.
Ronan Ramos Júnior é advogado pela Faculdade de Direito Milton Campos, mediador de
conflitos pelo Institut Universitaire Kurt Bösh e Harvard Law School (Belo Horizonte-MG).

Um dia, a garota Rachel che- tos, os pais concederam à filha a opor- de Conflitos nas Escolas (RCE) Gail
gou em casa e presenciou uma discus- tunidade de ajudá-los. Rachel utilizou Sadalla, que escutou o caso em um
são acalorada entre os pais. Foi até o as habilidades aprendidas no colégio colégio na Califórnia, nos Estados
quarto, pegou o colete laranja com a e, ao final, os pais chegaram a um Unidos. Sadalla é pioneira no ensino
inscrição “Mediadora de conflitos”, acordo de modo pacífico. de RCE, expert em mediação entre
vestiu-o, voltou à sala e disse: Sou A história acima foi relatada pares, com mais de 25 anos de expe-
mediadora, posso ajudar? Boquiaber- pela especialista em Resolução riência, tendo atuado nos Estados

Fotos: arquivo Konvyt

8 AMAE educando - 385 . Março . 2012


problema, focar em interesse não em
Para saber mais posição, inventar opções para ganho
mútuo e utilizar critérios objetivos.
O projeto “Educação para a paz” é desenvolvido pela organização A filosofia do projeto “Edu-
social Parceiros Brasil - Centro de Processos Colaborativos, integrante da cação para a paz” baseia-se na pre-
rede global Partners for Democratic Change International - em parceria missa de que o conflito é um processo
com a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e patrocínios normal e natural e “na ideia de que
da Petrobras e Instituto HSBC. Ressalta-se que algumas escolas atendidas os alunos são pessoas responsáveis e
pelo projeto fazem parte do “Programa escolas do amanhã”, um conjunto capazes de resolver suas diferenças
de ações da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, apoia- entre si mesmos”. Aproveita-se este
do pela Unesco, envolvendo as áreas de saúde, assistência social, arte e projeto carioca, com a devida auto-
cultura, desporto, além da educação, e que, entre outros objetivos, visa a rização, para “colar a teoria na práti-
diminuição da evasão escolar e a melhoria nos índices de aprendizagem de ca”. Ao leitor interessado em iniciar
151 escolas do Ensino Fundamental, em áreas conflagradas. a aprendizagem teórica em mediação
de conflitos, vale citar um dos livros
Unidos, Europa, Ásia e África. Há de pacífica em sala de aula e em toda a básicos mais usados nos cursos de
promissor no relato o fato não mani- escola; a mediação voltada para con- mediação ao redor do mundo: Getting
festado de que ele se repete em vários flitos entre adultos e crianças e ado- to yes, de Roger Fisher e William Ury,
cantos do mundo - onde são ministra- lescentes; a inclusão da disciplina com edição em português, pela edito-
das aulas de RCE, - mudando apenas “Resolução pacífica de disputas”; e a ra Imago, com o título Como chegar
o nome da criança. Corrobora esta mediação entre os próprios alunos, re- ao sim: a negociação de acordos sem
afirmação a pesquisa feita por David alizada por eles. É sobre este modelo concessões. Este livro é uma referên-
Johnson e Roger Johnson entre 1988 de mediação - entre pares (aluno dis- cia no estabelecimento dos princípios
e 2000, intitulada Teaching students cutindo com aluno e outro aluno me- da mediação.
to be peacemakers: results of twelve diando), que o presente artigo dirige Existem inúmeras formas de
years of research. seu foco. apresentar os princípios de um projeto
Esta realidade começa a ser de resolução de conflitos nas escolas,
esboçada no Brasil. Desde o segundo Projeto de resolução de con- assim como existem diversas manei-
semestre de 2011, há em andamento flitos nas escolas ras de ensinar qualquer outra discipli-
um projeto na cidade do Rio de Janei- • Princípios na. Os pedagogos sabem a diferença
ro denominado “Educação para a paz” Os princípios que balizam que a criatividade faz na assimilação
com o objetivo de desenvolver habi- iniciativas de mediação escolar são dos conteúdos.
lidades comunicacionais em crianças, similares aos da mediação de confli- • Habilidades
jovens e adultos. Alunos são treinados tos usada por adultos. Pode-se definir Pergunta-se: como exigir um
em mediação para atuarem como pa- mediação como a maneira de resolver comportamento exemplar de uma
cificadores em conflitos entre os pró- um problema em que as pessoas en- criança e/ou adolescente e, inclusive,
prios colegas. E, então, levam a práti- volvidas se encontram para trabalhar adulto em conflito com alguém, se a
ca vida afora, assim como a Rachel. juntas, auxiliadas por um outro ele- essa pessoa não foi dada a oportuni-
mento, chamado mediador. A me- dade de aprender a se comportar pa-
Em se tratando de mediação diação entre adultos contempla uma cificamente? Para muitos alunos, tudo
nas escolas, existe uma dezena de ca- série de princípios advindos da nego- que aprenderam na vida foi lutar. Ten-
minhos distintos, como a abordagem ciação, tais como: separar a pessoa do do uma disputa com o colega, eles vão

“ A existência de um projeto sobre resolução de conflitos



faz sentido em qualquer escola.

AMAE educando - 385 . Março . 2012


9
brigar. Daí a importância de ensinar cimento da tensão, que é o primeiro
outro caminho. Ao mostrar outra via, estágio do conflito. Uma breve dinâ-
pode-se responsabilizá-los. É por isso mica pode ser suficiente para diagnos- Guia de mediação com
que a existência de um projeto sobre ticar a pequena extensão do vocabulá- os princípios usados nas
resolução de conflitos faz sentido rio emocional. Ampliar este espectro escolas fluminenses
em qualquer escola. Dificilmente, as é uma atividade importante.
crianças aprenderam uma maneira es- Sugestão: pode-se escrever 1- Falar com os alunos-
truturada de lidar com conflitos. em tirinhas de papel uma série de sen- mediadores é uma escolha dos
As habilidades a serem trei- timentos e, por meio de mímica, pedir estudantes.
nadas podem ser divididas em seis que, a cada tirinha sorteada, um aluno 2- Os alunos-mediadores
classes. (Baseado na “Foundation abi- tente mostrar aos colegas a qual senti- apenas ajudam os colegas em
lities for conflict resolution” do tex- mento ele está se referindo. conflito; eles não são disciplina-
to “Younths, education, and dispute 4ª - Habilidades para o pensa- dores, tanto que, se houver briga
resolution”, de autoria de Donna K. mento criativo - serve para capacitar física, os alunos-mediadores não
Crawford e Richard J. Youths Bodi- os alunos a serem inovadores nas to- se envolvem.
ne, no livro The handbook of dispute madas de decisão. A contemplação do 3- O aluno-mediador não
resolution.) problema de diversos pontos de vista resolve problemas de outros es-
1ª - Habilidades comunica- e a conhecida brainstorming (chuva tudantes. Sua função é conduzir
cionais - possibilita que a escuta e a de ideias) refletem o estímulo a esta o processo de diálogo e permitir
fala sejam efetivas. Exercícios de es- capacidade. que os outros alunos conversem
cuta ativa e mensagem em primeira 5ª - Habilidades para o pen- entre si sobre seus desentendi-
pessoa exemplificam essas habilida- samento crítico - aborda o comporta- mentos, até chegarem a uma so-
des. Escuta ativa: prestar atenção real- mento que analisa, constrói hipóteses, lução aceita por eles mesmos.
mente naquilo que a outra pessoa diz; antecipa, arquiteta estratégias, com- 4- O processo é de res-
não interromper a fala do outro; fazer para e avalia. A utilização de critérios ponsabilidade dos alunos-media-
perguntas e repetir aquilo que escutou objetivos (ao escolher opções para dores. O desentendimento é dos
com as próprias palavras são elemen- solucionar o conflito) e o planejamen- alunos em conflito. Aquilo que
tos da escuta ativa. to de comportamento futuro ilustram os alunos em conflito decidirem
Exemplos de mensagens na esta habilidade. fazer ou não fazer para resolver
1ª pessoa: 6ª - Habilidades orientadas suas diferenças é uma escolha
vEu sinto (especificando o para valores - como não violência, deles e não uma decisão dos alu-
sentimento). compaixão, empatia, etc. Pode-se dar nos-mediadores.
vQuando você (identificando ênfase ou não a este aspecto. Salienta- 5- Os alunos-mediadores
o comportamento específico). se que, ao analisar o ciclo do conflito, sempre trabalham em dupla.
vPor que (relatando o efeito busca-se mudar o comportamento de 6- Alunos-mediadores são
que este comportamento tem em sua resposta ao conflito e não a crença, crianças normais e também têm
vida). pois é o que se faz do conflito que de- conflitos. Espera-se que eles tam-
vE eu gostaria (falando sobre termina se ele se torna negativo (re- bém utilizem o procedimento.
sua necessidade). forçando as crenças) ou positivo. 7- O aluno-mediador deve
2ª - Habilidades de percepção aceitar participar de todos os en-
- um conflito diz respeito ao modo • Procedimento contros e treinamentos necessá-
como o indivíduo percebe a realidade O processo de mediação es- rios.
mais do que à realidade objetiva. Daí colar, embora seja simplificado para 8- O aluno-mediador con-
a importância do exercício de colocar- crianças e adolescentes, é bem similar corda em compensar a atividade
se no lugar do outro. Inúmeras dinâ- à mediação que se dá fora das escolas, escolar/aula que perder em fun-
micas servem a este propósito. por exemplo, entre empresas, com co- ção do programa de mediação
3ª - Habilidades emocionais munidades, em família, no ambiente entre pares.
- expressar emoção previne o cres- de trabalho, etc. Seguem três estágios:

10 AMAE educando - 385 . Março . 2012


abertura, obtenção de informação e compreensão entre os envolvidos, que Observações sobre a imple-
conclusão da mediação/acordo. (Mo- falam cada um na sua vez. mentação de um programa
delo adaptado pelo projeto “Educação Exemplos de perguntas: “Por de mediação escolar
pela paz” e apresentado aqui com a que isso é importante para você?” Resolução de conflitos é uma
devida licença. Todo o processo leva, “Como você se sentiu nessa situa- área do saber que apenas há pouco foi
em média, de trinta a quarenta minu- ção?” “Quais eram suas expectativas, sistematizada e formatada como uma
tos.) intenções, etc?” Ao fim desta etapa ciência, por mais experiência informal
Na abertura, os alunos-media- (obtenção de informação), os alunos- que a humanidade tenha colecionado
dores apresentam-se e discorrem so- mediadores já obtiveram informação ao longo dos dois milhões e quinhen-
bre o procedimento. Explicam tratar- sobre o que os alunos envolvidos têm tos mil anos de existência da espécie.
se de uma conversa confidencial, em em comum e quais são os interesses, Por esse motivo, ainda são pontuais os
que cada aluno fala por vez, devendo as preocupações e as necessidades de centros de estudo, pesquisa e excelên-
dirigir a palavra aos mediadores (ca- cada um que precisam ser resolvidas. cia na área. De todo modo, o campo
racterística exclusiva da mediação Com a comunicação restabe- profissional vem se multiplicando em
escolar); não podem brigar e devem lecida entre os alunos envolvidos (ou velocidade impressionante e é possí-
tratar-se com respeito (sem apelido ou sendo mais efetiva do que vinha acon- vel coletar e acessar materiais consis-
ofensas). Os alunos-mediadores tam- tecendo), os alunos-mediadores con- tentes e perceber práticas exemplares
bém abordam, no início do processo, duzem o processo para a etapa final. em diversos países do mundo. A me-
a necessidade de relatarem ao adulto Por meio de perguntas, eles levam o diação escolar surpreende quem visita
responsável pelo programa, confiden- diálogo a um acordo real, equilibra- as escolas públicas de Buenos Aires,
cialmente, qualquer tipo de ameaça e do entre as partes, específico e que quem conversa com crianças e ado-
abuso. Ao final da etapa, perguntam satisfaça as necessidades de todos os lescentes americanos e, no Rio de Ja-
aos alunos envolvidos no conflito se envolvidos. Após a confirmação do neiro, surge, com destaque, iniciativa
concordam em usar a mediação. acordo, os mediadores ainda pergun- pioneira no país. Nota-se um grande
Os alunos-mediadores fazem tam se houvesse novamente a situa- intercâmbio de experiências entre os
perguntas e reenquadram aquilo que ção x como resolveriam? Registram o profissionais da área e não se sugere,
escutaram, de modo a estabelecer a acordo e agradecem. de modo algum, a implementação de

AMAE educando - 385 . Março . 2012


11
um complexo programa sem a devida do professor porque, por vezes, a me- geralmente são reservados e passam a
orientação profissional. diação acontece no horário das aulas. assumir também a função de sala de
A complexidade desse tipo Vale ressaltar que um dos principais mediação. O estudante, ao violar nor-
de iniciativa começa pela sua ampli- objetivos de programas de resolução mas, não se exime das consequências
tude. Para que seja efetiva, toda a co- de conflitos nas escolas é justamente disciplinares por participar da media-
munidade escolar deve ser envolvida, solucionar o conflito dos alunos para ção.
pois sabe-se que a criança aprende, que eles voltem para a sala de aula
principalmente, vendo o que os adul- sem tumulto (os alunos se entendem Conclusão
tos fazem. E por isso não adianta o e se conectam melhor entre si do que Depois de passar pelos prin-
professor falar de um jeito e agir de com adultos, pois compartilham iden- cípios norteadores, habilidades treina-
forma diferente. O apoio da direção é tidades, sentindo-se bem para venti- das com os alunos, verificar como se
decisivo, fundamental, imprescindí- lar seus sentimentos, pensamentos e dá o procedimento de mediação entre
vel. É o primeiro ato. Os profissionais comportamentos sem o julgamento de estudantes e de pincelar aspectos da
de serviços gerais, de apoio, bibliote- um adulto). Os adultos não participam implementação de um programa, não
ca, etc. também têm que conhecer e se do processo, apenas supervisionam é difícil entender o motivo pelo qual
envolver no programa. e ficam necessariamente por perto. Rachel, a garota do início do texto,
O requisito para um aluno Uma vez por semana/mês, encontram conseguiu resultado satisfatório na
se tornar mediador varia de progra- os alunos-mediadores para supervi- pacificação até fora da sala de aula.
ma para programa. A nota pode ser são. A biblioteca e outros espaços
um requisito, assim como a seleção
de líderes que representem todos os
grupos de alunos (um líder negativo
pode ser contemplado; sua adesão,
por vezes, facilita o apoio entre outros
colegas e, às vezes, é fundamental
para a melhoria de seu próprio com-
portamento). Fundamentalmente, os
alunos escolhem aqueles em quem
confiariam e gostariam de conversar
se tivessem um problema. Consolida-
se uma lista com o nome dos alunos
mais votados. Os professores e a di-
retoria analisam-na e mantêm o poder
de veto. Faz-se uma entrevista com
os escolhidos explicando as funções
de um aluno-mediador voluntário.
Envia-se correspondência aos pais e,
então, acontece o treinamento especí-
fico de mediação, de doze a vinte ho-
ras, com o grupo selecionado.
O mecanismo para iniciar
uma mediação na escola varia, po-
dendo haver formulários a serem pre-
enchidos. Um aluno o encaminha ao
adulto responsável pelo programa que
providencia o mediador, com base em
uma escala de atendimento. Antes,
porém, deve-se checar a concordância

12 AMAE educando - 385 . Março . 2012