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3.

O “outro de si mesmo” como negação autorrelacional

Porque o algo é um determinado, e o determinado está relacionado com seu oposto, o


oposto não se confronta com ele de modo indiferente, mas é posto em existência
(lógica) pelo próprio algo. O termo contraposto não é mero nada, mas um não ser
determinado, específico, o qual está relacionado especificamente com a determinidade
que nega. A contradição surge pelo fato de que a outro, o contraposto, o excluído, está
contido no interior da determinação do algo. Esse estar-contido não é, para Hegel,
somente negativo, mas também positivo, porque ele não destrói a determinação, mas a
constitui. O que a contradição destrói é a pretensão de que o algo e o outro seriam
determinações indiferentes. A contradição é uma figura lógica que se origina da
estrutura dinâmica da dupla negação. A contradição hegeliana não é uma metáfora para
dizer a oposição tradicional de contrariedade, em que os contrários pressupõem um
gênero que os subsuma. Para Hegel, trata-se de pensar a contraditoriedade da passagem
de uma determinação para sua contraposta, sem gênero subjacente.

Essa passagem implementa uma forma específica de devir: a alteração (Veränderung).


Um algo determinado se transmuda para um outro. Contudo, esse outro está de novo em
uma relação com o algo determinado do qual se partiu, porque também esse outro é algo
determinado. O outro é o que é pelo fato de ele excluir o algo do qual o processo de
alteração começou. Portanto, o outro também é em si contraditório, pois ele deve ser o
outro do algo determinado; porém, ele está também, de novo, positivamente relacionado
com o algo determinado. Com isso, esse outro do primeiro algo é, ao mesmo tempo, o
outro de si mesmo. O outro, rumo ao qual o algo determinado se desenvolve, é o ser
outro do outro, porque está relacionado com o algo determinado através de um não-ser.
O outro, o negativo do algo, torna-se outro de si mesmo, negativo autorrelativo, quando
ambas as determinações (algo e outro) realizam a contradição de que cada uma está em
relação imanente com sua determinação contraposta: ao excluir de si o outro, algo
exclui de si mesmo sua autossubsistência, porque perde a determinidade que o
identifica. Vice-versa, o outro, ao excluir o algo, exclui a si mesmo, porque só pode
excluir o algo enquanto é, ele mesmo, algo determinado. Não só o algo determinado, do
qual se iniciou a alteração, prova-se contraditório, mas também o outro, na medida em
que se torna outro do outro