You are on page 1of 106

Suely Rolnik

ESFERAS DA
-
INSURREICAO
NOTAS PARA UMA VIDA
NAO CAFETINADA

prefácio de Paul B. Preciado

1:
1 l

-= 1 l

,~ 1 la ·¡
ESFERAS DA INSURREICAO
NOTAS PARA UMA VIDA NÁO CAFETINADA
Suely Rolnik

© Suely Rolnik, 2018


© n-1 edi~oes, 2018
ISBN 978-85-66943-59-7

Embora adote a maioria dos usos editoriais do ambito


brasileiro, a n-1 edi~oes nao segue necessariamente as
conven.;;oes das institui~oes normativas, pois considera
a edi.;;ao um trabalho de cria.;;ao que deve interagir
com a pluralidade de linguagens e a especificidade
de cada obra publicada.

COORDENA<;:AO EDITORIAL Peter Pál Pelbart


e Ricardo Muniz Fernandes
DIRE<;:A.o DE ARTE Ricardo Muniz Fernandes
ASSISTENTE EDITORIAL lnes Mendon~a
PROJETO GRÁFICO Érico Peretta
PREPARA<;:AO E REVISAO Pedro Taam
IMAGENS Capítulo O inconsciente colonial-capitalístico
Rodrigo Araújo- coletivo BijaRi
IMAGENS/ CAPA Grafismos a partir de pintura corporal Guaraní

A reprodu.;;ao parcial deste livro sem fins lucrativos,


para uso privado ou coletivo, em qualquer meio impresso
ou eletrónico, está autorizada, desde que citada a fome.
Se for necessária a reprodu.;;ao na íntegra, solicita-se
entrar em con tato com os editores.

r• edi~ao 1 Junho, 2018

n-1 edicoes.org
A Tício, pelo teko pora que criamos no
dia a dia de nossas dan¡;;as singulares.

A Rolf, pela silenciosa confian¡;;a


que atravessa o tempo.

Axs amigxs.
l

11 La izquierda bajo la piel


U m prólogo para Suely Rolnik
Por Paul. B. Preciado

23 Prelúdio: Palavras que afloram


de um nó na garganta

29 O inconsciente colonial-capitalístico

99 Insurgencias macro e micropolítica:


dessemelhan~as e entrela~amentos

14 7 A nova modalidade de golpe:


um seriado em tres temporadas

195 Finale: Dez sugestoes para


urna contínua descoloniza~ao
do inconsciente
La izquierda bajo la piel
Um prólogo para Suely Rolnik
paul B. Preciado

Estes ensaios de Suely Rolnik nos chegam em meio a névoa


tóxica que nossos modos coletivos de vida produzem sobre
0
planeta. Vivemos um momento contrarrevolucionário.
Estamos imersos em urna reforma heteropatriarcal, colonial
e neonacionalista que visa desfazer as conquistas de longos
processos de emancipac;:ao operária, sexual e anticolonial dos
últimos séculas. Como já anunciava Félix Guattari em 1978,
respirar se tornou tao difícil como conspirar. Se detrás do
brilho da prata de Potosí se ocultava o trabalho exterminador
da mina colonial no século XVI, detrás do brilho das telas se
ocultam hojeas formas mais extremas de dominac;:ao neoco-
lonial, tecnológica e subjetiva. A obscura era do pixel poderia
ser inclusive a última, se nao conseguirmos inventar novas
formas de equilíbrio entre os mundos do carbono e do silício,
novas modalidades de diálogo entre as entidades subjetivas,
maquínicas, organicas, imateriais e minerais do planeta.
Estes textos sao como um oráculo que nos fala de nosso
próprio futuro mutilado. Vem nos recordar que o que esta-
mos vivendo nao é um processo natural, mas urna fase a mais
de urna guerra que nao cessou: a mesma guerra que levou a
capitalizac;:ao das áreas de preservac;:ao de terras indígenas,
ao confmamento e ao extermínio de todos os carpos cujos
modos de conhecimento ou afecc;:ao desafiavam a ordem
disciplinar, a destruic;:ao dos saberes populares em benefí-
cio da capitalizac;:ao científica, a cac;:a as bruxas, a captura de
carpos humanos para serem convertidos em máquinas vivas
da plantac;:ao colonial; a mesma guerra na quallutaram os

11
revolucionários do Haiti, as cicladas da Fran<;a, os proletários análise do "golpe neoliberal" no Brasil, Rolnik chama a aten-
da Comuna, aquela guerra que fez surgir a praia sob os para- ao para a apari<;ao de urna nova e insuspeitada alian<;a entre
lelepípedos das ruas de Paris em 1968, a guerra dos soroposi- ~ neoliberalismo financeiro e as for<;as reativas conservadoras.
tivos, das profissionais do sexo e das trans no final do século Enquanto, durante os anos 8o, se pensava que a extensao do
XX, a guerra do eXIlio e da migra<;ao ... neoliberalismo traria a globaliza<;ao da democracia, a disso-
Suely Rolnik reuniu aqui tres textos elaborados durante os lu<;ao dos estados-na<;ao e a generaliza<;ao do multicultura-
últimos anos que poderiam funcionar como um guia de resis- lismo como modelo de integra<;ao social, a atual deriva do
tencia micropolítica em tempos de contrarrevolu<;ao. Tive neoliberalismo, analisada por Rolnik, deixa antever um hori-
a sorte de escutar e ler muitas versoes destes textos, como zonte muito mais histriónico. A inesperada alian<;a das for<;as
quem assiste a germina<;ao de um ser vivo. O pensamento neoliberais e conservadoras tem a ver com o fato de ambas
de Suely, como sua própria prática analítica, tem a qualidade compartilharem urna mesma moral e um mesmo modelo de
de estar sempre em movimento. O que os leitores tem agora identifica<;ao subjetiva: o inconsciente colonial-capitalístico.
em suas maos é urna foto da tarefa crítica de Suely tirada Daí que os alvos da nova "persegui<;ao neoliberal as bruxas"
em um momento preciso. Trata-se de um trabalho aberto, sejam os coletivos feministas, homossexuais, transexuais,
de um arquivo em versao beta, em constante modifica<;ao. indígenas ou negros, que encarnam no imaginário conserva-
O livro, extremamente rico e cuja leitura levará a múltiplas dor a possibilidade de urna autentica transforma<;ao micro-
interven<;5es críticas e clínicas, poderia ser lido tanto como política. Se desenha aqui a paisagem que Guattari e Deleuze
um diagnóstico micropolítico da atual muta<;ao neoconser- haviam conjecturado como urna terrível e insólita encarna<;ao
vadora e nacionalista do regime financeiro neoliberal quanto do "fascismo democrático". Essa é a condi<;ao na qual nos
como urna hipótese acerca da derrota da esquerda, no con- encontramos e na qual ternos que imaginar coletivamente
texto nao só latino-americano, mas também global. Mas esse novas formas de resistir.
réquiem por urna esquerda macropolítica é acompanhado em Suely Rolnik descreve os processos de opressao colonial e
Suely pelo desenho de urna nova esquerda radical: Esferas da capitalística como processos de captura da for<;a vital, urna
Insurreiqao é urna cartografiadas práticas micropolíticas de captura que reduz a subjetividade a sua experiencia como
desestabiliza<;ao das formas dominantes de subjetiva<;ao, um sujeito, neutralizando a complexidade dos efeitos das for<;as
diagrama da esquerda por vir. do mundo no carpo em benefício da cria<;ao de um individuo
A análise da condi<;ao neoliberal que Suely Rolnik leva a com urna identidade. Esse processo de subjetiva<;ao funciona
cabo em dais dos tres textos reunidos nesta antologia aparece por repeti<;ao e pelo cerceamento das possibilidades de cria-
como o complemento micropolítico necessário as análises <;ao, impedindo a emergencia de "mundos virtuais". O sujeito
macropolíticas que vem senda feitas, a partir de distintas colonial moderno é um zumbi que utiliza a maior parte de
perspectivas, por Giorgio Agamben, Naomi Klein, Antonio sua energia pulsional para produzir sua identidade norma-
Negri, Michel Feher ou Franco Bifo Berardi. Partindo da tiva: angústia, violencia, dissocia<;ao, opacidade, repeti<;ao ...

12 ESFERAS DA INSURREIGAO LA IZQUIERDA BAJO LA PIEL 13


nao sao mais do que o pre~o que a subjetividade colonial- ais recentemente, com as práticas de reinven~ao da sobe-
e, m
-capitalística paga para poder manter sua hegemonia. Por rania indígena e anticolonial. Todos esses processos introdu-
isso, para Rolnik, todo processo revolucionário nao é nada zem uma transforma~ao radical das linguagens da esquerda.
mais do que a introdu~ao de um hiato, de urna diferen~a A revolu~ao nao se reduz a urna apropria~ao dos meios de
no processo de subjetiva~ao, de "um corte em outro lugar" rodu~ao, mas inclui e baseia-se em urna reapropria~ao dos
da fita de Moebius, para utilizar a expressao de Lygia Clark pmeios de repro d - - reapropna~ao,
u~ao · - portanto,do"sa b er-
mobilizada em sua proposta artística Caminhando. Diante da -do-corpo", da sexualidade, dos afetos, da linguagem, da ima-
máquina de encontrar solu~oes pret-a-porter para se refazer gina~ao e do desejo. A autentica fábrica é o inconsciente e,
um contorno subjetivo ou discursivo por meio do consumo portanto, a batalha mais intensa e crucial é micropolítica.
da "marca Lacan", ou do que Suely chama jocosamente de A partir de sua passagem pela clínica de La Borde e de sua
"desodorante D&G (Deleuze e Guattari)", a esquizoanálise colabora~ao com Félix Guattari, Suely Rolnik inicia um dos
se propoe como um tipo de revolu~ao molecular lentíssima, experimentos esquizoanalíticos mais produtivos das últi-
quase imperceptível, que, no entanto, modifica radicalmente mas décadas, ao levar as perguntas pela economia política
a existencia de todo o percebido. do inconsciente, que Jean Oury, Franc;ois Tosquelles, Frantz
Rolnik entende a condi~ao colonial-capitalística como urna Fanon e Félix Guattari haviam elaborado nos anos imediata-
patologia histórica do inconsciente que funciona por meio mente posteriores a Segunda Guerra Mundial, ao contexto
de urna micropolítica reativa contra a qual se desencadeia do desdobramento do neoliberalismo e também das práticas
urna multiplicidade de micropolíticas ativas num processo de descoloniza~ao, no final do século XX e em princípios do
constante de transforma~ao planetária. O trabalho de Suely século XXI, na América do Sul. Exilada política e linguística na
Rolnik inspira-se diretamente no conjunto de micropolíticas Fran~a durante urna década, sua prática de resistencia toma
ativas que surgiram nos anos 6o - 70, tanto no Brasil quanto a forma de um retorno pós-traumático ao Brasil. Voltar ao
na Europa: primeiro nos processos contraculturais de luta Brasil, como fez em sua viagem iniciática com Guattari, assim
antiditatorial no Brasil, dos quais ela participou em sua juven- que chega ao País, implica em tirar a prática esquizoanalítica
tude e que a levaram a prisao. Depois, em sua passagem por do contexto institucional e clínico do velho continente colo-
Paris, Rolnik entrou em contato com a multiplicidade de nial europeu para lan~á-la ao magma da vida em seu processo
movimentos críticos e ativistas, desdobramentos das revoltas de recoloniza~ao e descoloniza~ao na América do Sul. Rolnik
de Maio de 68, e mais especialmente com a prática clínico- desterritorializa a própria prática esquizoanalítica levando-a
-política de Félix Guattari, com os processos de experimen- em duas dire~oes aparentemente contraditórias, mas que na
ta~ao institucional na prisao e no hospital, assim como com realidade estao subterraneamente conectadas.
o movimento de alternativas apsiquiatria. Mais tarde, depois De um lado, o retorno de Suely Rolnik ao Brasil permite
de seu retorno ao Brasil, Rolnik elabora sua prática crítica em conectar o discurso psicanalítico com as linguagens e as prá-
diálogo com o movimento internacional de resistencia na arte ticas contemporaneas da descoloniza~ao. A psicologia, afirma

14 ESFERAS DA INSURREI<;:AO LA IZQUIERDA BAJO LA PIEL 15


Rolnik, pertence ao dispositivo colonial-capitalístico: nasceu desenvolvimento do que ela chama de "saber-do-corpo",
0
historicamente como urna narrativa e urna técnica que legi- e ber de nossa condi<;ao de vivente. Diferentemente das
timava e naturalizava os modos dominantes de subjetiva<;ao.
o saceitas de felicidades instantaneas e do fieel goo d, a cond"1<;ao
A -
A psicologia do eu é nada mais e nada menos que a ciencia ~ee ossibilidade de resistencia micropolítica é "sustentar o
do inconsciente colonial-capitalístíco, e suas práticas, apa- maEestar" que gera nos processos de subjetiva<;ao ~ intro~u-
rentemente terapeuticas, nao sao senao sofisticados dispo- - de uma diferen<;a, urna ruptura, urna mudan<;a. E prec1so
~a 0 . - . . ,
sitivos micropolíticos reativos. No Brasil, fica evidente que reivindicar o mal-estar que ta1s rupturas supoem: res1st1r a
é a própria tradi<;ao psicológica, surgida no centro dos impé- tendencia dominante da subjetividade colonial-capitalística
rios coloniais e patriarcais europeus, que, estando atraves- ue, reduzida ao sujeito, interpreta o mal-estar como amea<;a
q ' . .
sada desde suas origens por estruturas de opressao colonial de desagrega<;ao e o transforma em angustia, em smtoma que
e sexual, necessita de um duplo processo de descoloniza<;ao e deve ser diagnosticado de acordo com um manual de doen<;as
de despatriarcaliza<;ao. Para Rolnik, essa dimensao normativa mentais, tratado com medicamento e, finalmente, soterrado
da psicologia afeta inclusive a própria psicanálise que, apesar em favor da reprodu<;ao da norma. Para Suely, essa conversao
de ter surgido como urna contraciencia que, diferentemente do mal-estar em angústia e sua consequente patologiza<;ao
da psicologia, reconecta a subjetividade com os efeitos das reitera e naturaliza a redu<;ao da complexidade dos processos
for<;as do mundo no corpo e a leva a reapropria<;ao da lin- de subjetiva<;ao ao "sujeito", cancelando ainda mais violenta-
guagem desde esses afetos, opera, com raras e belas exce- mente as possibilidades de "cria<;ao transfiguradora". A revo-
<;5es, como urna prática micropolítica reativa. Urna prática lu<;ao esquizoanalítica que anuncia Rolnik é a gestao coletiva
que, como nos mostram Deleuze e Guattari, contribui com a e criativa do mal-estar para permitir a gemina<;ao de outros
expropria<;ao da produtividade do inconsciente para subme- mundos. Estes textos nao buscam atenuar a dor de se supor-
te-lo ao teatro dos fantasmas edípicos. Por isso, para Rolnik, tar a exclusao, o exllio, a extermina<;ao, a censura ou o castigo
descolonizar a psicanálise passa pela ativa<;ao da for<;a micro- social, ou nos devolver a fé numa esquerda ready made, mas,
política que a habitava em sua funda<;ao, pela mobiliza<;ao de sim, pretendem nos fazer entender a natureza micropolítica
sua potencia clandestina. do mal-estar que nos habita: nos ajudar a entrar no mal-estar
A prática de Suely Rolnik se destaca diante das psicologias e permanecer ali juntos, para poder imaginar estratégias cole-
do sujeito e da identidade. Trata-se aqui da constru<;ao de tivas de fuga e de transfigura<;ao.
um relato autocrítico, reflexivo, capaz de tornar visíveis as A segunda aprendizagem que Suely Rolnik leva de sua pas-
rela<;oes de poder colonial e sexual que permitiram o estabe- sagem por La Borde e de seu retorno para o Brasil é a afirma-
lecimento da psicanálise como "ciencia do inconsciente" e <;ao da cena da cria<;ao artística como um lugar de trabalho
prática clínica. Frente a elas, Suely aposta numa prática ana- micropolítico e clínico. Nao se trata aqui, em absoluto, de
lítica que funcione como urna política de subjetiva<;ao dissi- "arte terapia", mas, ao contrário, do que poderíamos denomi-
dente, permitindo a reapropria<;ao da potencia vital de cria<;ao nar de "terapia arte", de entender que a prática clínica deve

LA IZQUIERDA BAJO LA PIEL


17
16 ESFERAS DA INSURREic;:ÁO
ser feíta como urna prática artística, ou seja, de forma sem- ois Foucault tentará apontar com os termos "micro-
que dep . . , .
pre experimental, apelando a transforma<;¡ao da sensibilidade . d poder" e ma1s tarde, '~wpoder '. Nesse sentldo, a
física o ' ,.
e da representa<;¡ao, inventando em cada caso os protocolos - de micropolítica representa urna cntlca do modo como
no~ao . .
necessários que permitem renomear, sentir e perceber o uerda tradicional (pouco 1mporta que sep em suas ver-
a esq . . ) ·d
mundo. Sua colabora<;¡ao com artistas (especialmente com a - mavvi sta leninista, trotskista ou soc1a11sta cons1 erava
soes '~ '
artista brasileira Lygia Clark e com os artistas colombianos difica<;¡ao das políticas de produ<;¡ao como o momento
do Mapa Teatro) e com aqueles que produzem pensamento aprioritário
mo · d eiXan
da transforma<;¡ao social, · d~ as pol'I~1cas
· de
e a<;¡ao micropolíticos no interior do sistema de arte ou no reprodu<;¡ao da vida em se~~do plano. Da1 o r~mpm~ento
ambito da lutados indígenas na América Latina (como obra- entre os movimentos femmistas, homossexua1s, anucolo-
sileiro Ailton Krenak e o paraguaio Ticio Escobar) constituí niais e a esquerda tradicional. Para a esquerda, as questoes
nao só instancias de reinven<;¡ao da psicanálise, mas também feministas, da homossexualidade, da transexualidade, do uso
do que entendemos por arte, teatro e política. Dissolve-se de drogas, e também das rela<;¡oes racializadas de poder, ou
aqui a oposi<;¡ao clássica entre teoría e prática, poética e polí- dos conflitos pela soberanía indígena, sao questoes secundá-
tica, representac;;ao e ac;;ao. Esse movimento nao deve ser lido rias com respeito averdadeira, honrosa e virilluta de classes.
como um gesto de expansao dos territórios clínicos, mas suely Rolnik inverte essa relac;;ao e afirma que nao há pos-
como o próprio lugar ande a transforma<;¡ao micropolítica do sibilidade de urna transforma<;¡ao das estruturas de govemo
inconsciente acontece. sem a modifica<;¡ao dos dispositivos micropolíticos de pro-
Todo processo de transforma<;¡ao política que nao con- du~ao de subjetividade. Ela radicaliza ainda mais a no<;¡ao de
temple a descoloniza<;¡ao do inconsciente está, adverte-nos micropolítica, submetendo-a primeiro a um aprofundamento
Suely, condenado a repeti<;¡ao (inclusive quando há desloca- epistemico que surge ao colocar esses ambitos em contato
mento) das formas de opressao. Suely continua aquí a tarefa com as for<;¡as do inconsciente. Daí que família, sexualidade
de Guattari de cartografar urna multidao de revolu<;¡5es mole- e carpo nao sejam simplesmente institui<;¡5es ou realidades
culares que se produzem no nível da economía do desejo. Um anatómicas, mas autenticas tramas libidinais feítas de afetos
dos pontos forres destes ensaios é que nao devemos esperar e perceptos que escapam ao ambito da consciencia individual.
a chegada messianica "da revolu<;¡ao", mas implicar-nos cons- Do mesmo modo que a crítica descolonial macropolítica
tantemente numa multiplicidade heterogenea de processos fala do extrativismo de recursos naturais, Rolnik alerta-nos
micropolíticos revolucionários. "Micropolítica" é o nome que para o extrativismo colonial e neoliberal dos recursos do
Guattari deu, nos anos 6o, aqueles ambitos que, por serem inconsciente e da subjetividade- a pulsao vital, a linguagem,
considerados relativos a ''vida privada" no modo de subjeti- o desejo, a imagina<;¡ao, o afeto ... Inspirada pelas políticas do
va<;¡ao dominante, ficaram excluídos da a<;¡ao reflexiva e mili- trabalho sexual, Suely denomina "cafetinagem" esse dispo-
tante nas políticas da esquerda tradicional: a sexualidade, a sitivo de extra<;¡ao da pulsao vital que opera no capitalismo
família, os afetos, o cuidado, o carpo, o íntimo. Tuda isso colonial capturando o que ela, seguindo Freud, chama de

18 ESFERAS DA INSURREIGAO LA IZQUIERDA BAJO LA PIEL 19


"pulsao de vida" e o que eu denominei, em outros textos , ·ma larva que cresce no esterco: a ondulac;ao e a
rna be1¡ssl . .
seguindo Espinosa, "potentiagaudendi". Enquanto a esquerda' u . d veludada de seu pensamento, seu nso contag¡oso,
uaVIda e a
se mantém atenta aos processos de expropriac;ao da forc;a de s d ergonha e de medo lhe permite entrar nas cama-
a falta e v A •

trabalho e da acurnulac;ao de capital, ela segue ignorando os · bscuras do fascismo contemporaneo, nos gu1ar nos
das mrus o
processos de captura da "potentia gaudendi". No entamo, 0 ue mais nos aterrorizam e tirar dali algo com o que
lugares q . 1 1 "k ,
capitalismo mundial integrado, havendo já devastado quase ·r um horizonte de vida colenva. Sue y Ro m e urna
construl e . ·
por completo as forc;as materiais do planeta, dirige-se agora . ·sta selvagem urna freudiana trans1em1msta, urna
espmos1 ', . . . .
a expropriac;ao total de nossas forc;as inconscientes. É por arqueo
' loga do imaoinano, urna md1gemsta queer que busca
o- . . ' .
isso que os processos históricos de emancipac;ao da esquerda futuro (e nao no passado) a ongem de nossa histona, urna
só podem sobreviver agora se, também e junto com sua luta no. ta cuJ·a matéria é a pulsao. Urna cultivadora dos bichos-
artlS d d" · d
macropolítica, aceitarem o desafio do trabalho micropolítico. -da-seda da "izquierda bajo la piel". Nao se po e pe 1r ma1s e
Em segundo lugar, Suely submete a noc;ao de micropolítica urna escritora: devir-larva, cartografar a lama coma mesma
a um processo de descolonizac;ao que sacode e altera as posi- precisa.o com que outro cartografaria urna mina de ouro. Por
c;oes tradicionais de natureza e cultura, de sujeito e objeto, de · le ·rores adentrem com essa larva no magma da besta e
lSSO, 1 '
masculinidade e feminilidade, de homem e animal, de dentro busquem os gérmens da vida que, ainda que desc?nhec;am, os
e de fora. Poderíamos dizer que ela aponta assim aexistencia rodeiam, e que, com urna torc;ao do olhar, podenam ser seus
de outra esquerda e, cruzando as coordenadas, nos orienta _ poderia ser sua própria vida.
em direc;ao a urna política do subsolo, subterranea, urna polí-
tica sob a pele, sob aterra, urna esquerda clorofílica ou tele- Arles, Maio de 2018

pática, ali onde a planta e o pensamento se conectam através


da imagem ou da poc;ao. * Traduzido para o portugues por Josy Panao
A prática de Suely Rolnik consiste em lanc;ar o diva na prac;a
pública, em levá-lo ao atelie do artista, em colocá-lo no meio
da selva, em mete-lo na cabana do xama. Trata-se de um tri-
plo processo de desindividuac;ao (nao de desingularizac;ao),
de politizac;ao e de devir-público do diva. É assim que o diva
freudiano-lacaniano se desfaz e muda, entrando num processo
infinito de transfigurac;ao: diva-cartaz, diva-cama, diva-museu,
diva-, diva-poc;ao, diva-parlamento, diva-ritual, diva-texto ...
Poderia lhes falar de minha experiencia de leitura durante
horas, mas devo calar para deixá-los ler. Esta é a última coisa
e o mais necessário que quero lhes dizer: este livro é como

20 ESFERAS DA INSURREIC::AO LA IZQUIERDA BAJO LA PIEL


21
pa}avras que afloram de um nó na garganta

o conceito é o contorno, a configura~iio, a constela~iio de


um acontecimento por vir que o corta e o recorta a sua
maneira. A grandeza de uma filosofia avalia-se pela natu-
reza dos acontecimentos aos quais seus conceitos nos con-
vocam. Eles siio centros de vibra~oes, cada um em si mesmo
e uns em rela~iio aos outros. É por isso que tuda ressoa, em
vez de encadear-se ou de corresponder uns aos outros.
Deleuze & Guattari'

Esta coletanea reúne meus tres ensaios mais recentes. O pri-


meiro foi escrito em 2012, momento em que surgem insis-
tentes sinais do que está por vir: a eclosao de toda espécie de
for<;as, das mais ativas as mais reativas, que convulsionarao o
mundo e nós mesmos. Insinuando-se desde a tomada planetá-
ria de poder pelo capitalismo fi.nanceirizado e neoliberal, tais
for<;as e seus confrontas intensifi.cam-se vertiginosamente no
período que entao se anuncia. No Brasil, 2012 é o ano da con-
dena<;ao de réus do assim chamada "Mensalao" pelo Supremo
Tribunal Federal, em que fi.ca mais evidente que o que esta-
mos assistindo, já há algum tempo, é a primeira temporada
de um seriado intitulado "O Golpe". O ano de 2012 é tam-
bém quando já se anuncia o acontecimento das intempestivas
manifesta<;5es de massa de 2013 por todo o País.
Os demais ensaios foram escritos entre 2016 e início de
2018, já em pleno calor da ascensao globalitária de for<;as

1 Esta epígrafe compoe-se de tres trechos extraídos e livremente acoplados do


livro de Gil! es Deleuze e Félix Guattari, O Que é a Filosofia?, trad. Bento Prado
Jr. e Alberto Alonso Muñoz, Sao Paulo: Editora 34, 1992, p. 222.

23
reativas, mas também da potencializa~ao e prolifera~ao de fundac;ao, estruturalmente inseparável do princípio
um novo tipo de ativismo, o qual entrela~a em suas ac;oes desde s~a m que orienta a política de desejo que nela pre-
d cafennage
as esferas macro e micropolítica. No Brasil, é o momento a . todos seus domínios. Liderada pelos afrodescen-
domwa em bém nesse combate busca-se 1·1vrar o deseJO · de sua
em que assistimos atónitos os novos capítulos da primeira
dentes, tam . . d · · -
. - a esse nefasto destino. O novo tipo e msurre1c;ao,
temporada do seriado e, em seguida, sua segunda temporada submissao . ,. .e
inteira. As imagens das operac;oes do golpe intercalam-se spositivos macro e m1cropohucos, man11esta-se
com seus di
entao com as do fortalecimento e da expansao nao só dos ecial vigor entre as gera~oes mais jovens, sobretudo
oome~ . ,
movimentos sociais macropolíticos preexistentes, mas tam- ·cerias dos centros urbanos. Um exemplo d1sso e o
nas perll' , .
bém desse novo tipo de ativismo. . nto de ocuparao das escolas publicas pelos secunda-
moVIme > A •

Além de nao submeter-se a institucionaliza~ao, o novo tipo . final de 2015 o qual engloba todos es ses amb1tos. Os
nstas n0 ' _
de ativismo nao restringe o foco de sua luta a urna amplia- efeitoS desse movimento em nossos corpos sao certamente
c;ao de igualdade de direitos - insurgencia macropolítica -, dos disparadores da escrita do segundo ensaio.
pois a expande micropoliticamente para a afirma~ao de um ~eríodos de convulsao sao sempre os mais difíceis de viver,
outro direito que engloba todos os demais: o direito de existir mas é neles também que a vida grita mais alto e desperta
ou, mais precisamente, o direito a vida em sua essencia de aqueles que ainda nao sucumbiram integralmente a co~di~ao
potencia criadora. Seu alvo é a reapropriac;ao da for~a vital, de zumbis - urna condic;ao a que estamos todos destmados
frente a sua expropria~ao pelo regime colonial-capitalístico pela cafetinagem da pulsa~ vital. Val~ assin~la~ q~e em sua
que a cafetina para dela alimentar-se, levando o desejo a urna dobra financeirizada, o reg¡me colomal-cap1tahsuco exerce
entrega cega a seus desígnios - este é nada mais nada menos essa sua seduc;ao perversa sobre o desejo cada vez mais vio-
que o princípio micropolítico do regime que hoje domina lenta e refinadamente, levando-o a se entregar ainda mais
o planeta. A reapropria~ao do direito a vida é diretamente gozosamente ao abuso. Nesse grau de expropria~ao da vida,
encarnada em suas a~oes: é no dia a dia da dramaturgia social um sinal de alarme dispara nas subjetividades: a pulsao se
que essas ac;oes acontecem, buscando transfigurar seus per- p6e entao em movimento e o desejo é convocado a agir. E
sonagens e a dinamica de rela~ao entre eles. quando se logra manter em maos as rédeas da pulsao, tende a
Nesse contexto, chama especialmente a atenc;ao o combate irromper-se um trabalho coletivo de pensamento-cria~ao que,
por livrar o desejo da submissao as tóxicas categorías domi- materializado em a~oes, busca fazer com que a vida persevere
nantes nos ambitos da sexualidade e dos supostos generos, e ganhe um novo equilíbrio. Por isso momentos como este de
as quais geram as condic;oes para a expropria~ao da pulsao agora sao sempre também os mais vigorosos e inesquecíveis.
vital e sua cafetinagem em todos os demais ambitos da vida Cada um destes ensaios foi publicado e apresentado em
humana. Um combate que, como mesmo grau de intensidade várias línguas e distintos contextos ao longo do tempo e rees-
e inteligencia coletiva, se dá igualmente no ambito das cate- crito a cada vez em fun~ao dos mesmos e das urgencias que
gorías da racialidade - cancer que corrói a sociedade brasileira neles se impunham ao trabalho do pensamento; ideias iam

PALAVRAS QUE AFLORAM DE UM NÓ NA GARGANTA 25


24 ESFERAS DA INSURREIGAO
surgindo também de sua reelaborac;ao em outros ensaios cuja ara designar "alma" significam ambos "palavra-
que a"usam P , , .
escrita era impulsionada pelos nós na garganta que foram se Eles sabem igualmente que ha um tempo propno para
apresentando durante esses anos; tais ideias iam senda inse- alm · · ar-ao e que para que esta vingue, o ninho tem que
ua germlil , '
ridas nos ensaios anteriores eas versoes de cada um deles aqui s 'd do Estar a altura desse tempo e desse cuidado para
ser cUl a · , d
apresentadas sao as mais recentes). Pela mesma razao, de o ais precisamente possiVel o que sufoca e pro uz
d1zer o m , o

um a outro ensaio, palavras, frases e até parágrafos inteiros , garganta e sobretudo, o que esta aflorando d1ante
um no na ' o • - ,

se repetem, mas em novas direc;oes, conectados com outras o ara que a vida recobre um eqmlíbno - nao sera esse
dlSSO p o d' ¡> N- '
experiencias - das mais auspiciosas as mais tenebrosas -, balho do pensamento propnamente 1to. ao estara
o tra A , ? N- ,
te nisso sua potencia m1cropo1mea. ao sera 1sso o
o • o o

ampliando assim seu sentido. Nessas repetic;oes, que optei exatamen ,


propositadamente por manter, há ligeiras modificac;oes, as que define e garante sua ética? E, mais ampla_mente, nao sera
vezes quase imperceptíveis. Elas respondem a necessidade nisso afinal que consiste o trabalho de urna VIda?
de refinar a escuta as nuances dos gérmens de mundos fecun- Que 0 leitor- ou melhor, "x leitxr" -, encontre nas palavras
dados pelos efeitos de tais urgencias em nossos carpos, bem destes ensaios algumas ressonancias dos afetos das forc;as do
como a de buscar palavras cada vez mais afinadas para com- presente em seu próprio carpo. E que tais ressonancias lhe
pletar sua germinac;ao, dando nascimento a um lugar de cor- sirvarn de companhia para desatar os nós que estes afetos lhe
po-e-fala que os injete na corrente sanguínea da vida social, roduzem em sua garganta, deixando germinar palavras que
contribuindo a sua maneira para o trabalho coletivo que visa ~gam nuances, aqui nao alcanc;adas, dos emb~?es d~ futu:o
sua transfigurac;ao. que se anunciam para além do sufoco. Urna pranca cuJa razao
Os guaranis chamam a garganta de ahy'o, mas também de de seré precisamente criar cenários que nos tragam de volta o
ñe'e raity, que significa literalmente "ninho das palavras-alma".' bem-viver, evitando que esses nós se transformem em nódu-
É porque eles sabem que embrioes de palavras emergem los patológicos e suas metástases se espalhem como a peste
da fecundac;ao do ar do tempo em nossos carpos em sua pelo carpo-alma de nós mesmos e de toda a trama social. Este
condic;ao de viventes e que, nesse caso, e só nele, as palavras é o sentido da publicac;ao deste livro.
tem alma, a alma dos mundos atuais ou em gérmen que nos
habitam nesta nossa condic;ao. Que as palavras tenham alma Suely Rolnik, abril de 2018
e a alma encontre suas palavras é tao fundamental para eles
que consideram que a doenc;a, seja ela organica ou mental,
vem quando estas se separam - tanto que o termo ñe'e, que
eles usam para designar "palavra", "linguagem" e o termo anga,

2 Agrade~o a Ticio Escobar pela cuidadosa, lenta e suave inicia~ao a língua


guarani.

PALAVRAS QUE AFLORAM DE UM NÓ NA GARGANTA 27


26 ESFERAS DA INSURREI<(AO
Dirigimo-nos aos inconscientes que protestam. Procura-
mos aliados. Precisamos de aliados. E temas a impressao
de que esses aliados já existem, de que nao esperaram
por nós, de que há muita gente que está farta, que pensa,
sente e trabalha em direqoes análogas: nada a ver com
moda, mas com um "ar do tempo" mais profundo, no
qual se Jazem investigaqoes convergentes em domínios
muito diversos.
Gilles Deleuze e Félix Guattari, 19721

U a atmosfera sinistra envolve o planeta. Saturado de partí:..


c:~s tóxicas do regime colonial-capitalístico, o ar ambiente
nos sufoca.
com sucessivas transmutac;oes, tal regime vem persis-
tindo e se sofisticando desde o final do século XV, quando se
dá ua fundac;ao. Sua versao contemporanea - financeirizada,
5
neoliberal e globalitária - comec;a a se formar já na virada
do século XIX ao XX e intensifica-se após a primeira guerra
mundial, quando se internacionalizam os capitais; mas é a
partir de meados dos anos 1970 que atinge seu pleno poder,
afirmando-se contundentemente - e nao por acaso - após
os rnovimentos micropolíticos que sacudiram o planeta nos
anos 1960 e 1970. É já nesse período- meados dos anos 1970
_ que se dao os primeiros passos de um trabalho de decifrac;ao
dos rumos atuais do regime em sua complexa natureza, os
princípios que a regem e os fatores que criam as condic;oes
para sua consolidac;ao.

1Gilles Deleuze e Félix Guattari, "Sur Capitalisme et Schizophrénie", entre-


vista a Catherine Backes-Clément, publicada na revista L'Arc, n. 49, marc;o
de 1972, París, PP·47-SS· Publicada no Brasil com o título "Entrevista sobre
o AJ1ti-Édipo (coro Félix Guattari)". Ver: Gilles Deleuze, Conversaqi5es, Sao
Paulo: Editora 34, 1992, P·34·

29
3
Porém, como costuma acontecer em momentos de ltar a reapa r ecer após a crise de 2008. A nova série de
sic;ao radical, é sobretudo a partir de meados dos anos "0 . que se encontra ainda hoje em curso, emerge
oVlrnentos, .
- quando se fazem sentir mais claramente seus efeitos rn .J:~ tes pontos do planeta, principalmente a partlr do
uiteren . .
tos na vida cotidiana - que essa decifrac;ao se expande e ern . d os 2010 que antecedem a escnta deste ensa10.
. 'clO osan '
densifica, dando lugar a um debate coletivo que vem se ¡[11 , texto desses movimentos e do debate a eles asso-
E no con .
dobrando desde entao. Tal debate é impulsionado pela . se insere o presente ensaio. Seu ponto de partida
c1ado que - .
ri<~ncia dos movimentos sociais que emergem ao longo , das quest5es em pauta nessa construc;ao colenva: o
e urna . e . 1 , . .
década anterior em reac;ao atomada de poder mundial do de relac;ao entre capital e 1orc;a Vlta propno ao reg¡me
rno .
versao- inteiramente d'Istmto
. d e seu mo d o e1or-
atual regime. Como raios, esses movimentos vem · ern sua atual
nos céus do capitalismo globalitário, a cada vez que se formam di ta. opera-se nesta nova versao urna ampliac;ao da fonte de
nuvens tóxicas pela densificac;ao da atmosfera em alguma fo~c;a vital de que se alimenta o capitalismo, para além de sua
de suas regi5es, quando sua perversao ultrapassa o limite
do tolerável. A intensidade de irrupc;ao de tais movimentos utro exemplo é o movimento LGBTQI que, no Brasil, se organiza
- equiparável a da violencia do regime que os desencadeara - déca da. O , d
al dos anos 1970 e se expande cada vez mais desde a decada e 1980.
no f¡ n , ·1 ·e
tende entao a provocar urna desestabilizac;ao temporária de Nesta mesma chave, datam do irncio dos anos 1990 no Bras1 as manllesta-
r;oes que foram chamadas de "Caras-Pintadas" (1992), compostas sobretu~o
sua tiranica onipotencia. E com a mesma velocidade com que
de jovens que, reunidos a favor do impeachm_~t de.Collor, atuavam tambem
surgem, desaparecem, para logo ressurgir, de outro modo e na esfera micropolítica, aspecto que ressurg¡ra ma1s contundentemente nas
em outros lugares, mobilizados por novos acontecimentos manifestar;oes em massa de 2013- Um exemplo internacional deste seg¡mdo
que nos instalam no intolerável- o que os leva evidentemente tipo de movimento sao as manifesta~oes do May Day ~ue se espalham pel.o
mundo em 2001. O terceiro tipo de movimentos caractenza-se por atuar ma1s
a produzir outras cartografias, outros sentidos, distintos dos especificamente na esfera macro?olítica: no Brasil, da:am do início d~s anos
que os antecedem. Essa série de movimentos estende-se até g
19 0 0
movimento das Diretas Ja (1983-1984) e o surg¡mento do Part1do dos
o início dos anos 2ooo/ quando entao se interrompe, para Trabalhadores que, no momento de sua funda~ao, funcionou como um cata-
lizador de movimentos macro e micropolíticos, para logo em seguida reduzir-
-se aesfera macro; mais ainda, no final dos anos 1980, surgem os movimentos
sociais como o MST, assim como aqueles que se organizaram ou se fortalece-
2 Podemos classificar em tres tipos os movimentos que eclodiram em várias ram em tomo da Assembleia Nacional Constituinte (1987), como é o caso do
partes do mundo ao longo da década de 1980 até o início dos anos 2000. O notório avan~o do movimento indígena. Um efeito significativo destes movi-
primeiro caracteriza-se por atuar mais especificamente na esfera micropolí-
mentos é a elei~ao de govemantes de esquerda apresidencia de alg¡ms países
tica: um exemplo é o movimento Punk- que teve início nos Estados Unidos
do continente sul-americano que acontecem no início dos anos 2000, após
em meados dos anos 1970 e, no Brasil, no final daquela década e ao longo
um período de reconstitui~ao da democracia com o fim dos govemos ditato-
dos anos 1980 - que se contrapunha ao otimismo pacifista e romantico do
riais nestes contextos.
movimento hippie. No Brasil, no mesmo período, ganham for~a movimen-
tos que se enquadram no segundo tipo, que caracteriza-se por atuar simul- 3 Entre os movimentos que eclodem pelo mundo no início dos anos 2010, e
tanea e indissociavelmente nas esferas micro e macropolíticas. Entre eles: os que aliam macro e micropolítica em sua atua~ao, citemos: a Primavera árabe
movimentos feminista e negro que, embora tenham nascido já no final do (2010), Occupy (2011), Movimiento 15-M e Indignados (2011) e os movimen-
século XIX, com altos e baixos desde entao, ganham um novo alento naquela tos de 2013 no Brasil.

O INCONSCIENTE COLON IAL-CAPITALÍSTICO


31
30 ESFERAS DA INSURREI<;:AO
expressao como fon;a de trabalho, operando urna etiva de novas formas de existencia, suas fun-
·dual ecol .
fose radical da própria no~ao de trabalho, a qual se di
in V1 , d. os e suas representa~oes que o cap1tal explora,
- seus co Ig al
nha de urna paulatina dilui~ao da forma Estado democrático ~oes, d seu motor. Disto decorre que a fonte da qu o
endo e1a A •

e de direito, da qual dependiam as leis trabalhistas, próprias faz · sua forra nao é mais apenas econom1ca, mas
·me extral '3" . .
do regime em sua versao anterior.4 regi . , seca e indissociavelmente cultural e subJetiva
bém mtnn
rarn _0 dizer ontológica -, o que lhe confere um poder
- Para na · amplo mais sutl·1 e mms 1 1c1·1 de comb at er.
· d"f'
erverso mrus ' - .
O abuso da vida P . desse quadro fica evidente que nao basta ag1r na
o1ante cropolítica, '
onde atuam tradicionalmente as esquer-
esfera roa . l. . . 1 .
Se a base da economia capitalista é a explora~ao da for~a de rudo as institucionais - 1sto exp 1cana me uslVe sua
b
das, so re . . . 1 .
trabalho e da coopera~ao intrínseca a produ~ao para delas A •
irnpotencla 1;
cace aos rumos atua1s do reg1me coloma -caplta-
extrair mais-valia, tal opera~ao - que podemos chamar de . s gundo a visao introduzida por autores que pensaram
lísoco. e
"cafetinagem" para lhe dar um nome que diga mais precisa- rao entre capital e trabalho colocando seu foco na
a nova re la '3"
· r-a 0 pelo capital da potencia de cna~ao- especial-
A • • _ •

mente a frequencia de vibra~ao de seus efeitos em nossos apropna'3" .


corpos - foi mudando de figura com as transfigura~oe s do Toni Negri e Michael Hardt,5 que des1gnaram a nova
mente .. , . A •

regime ao longo dos cinco séculas que nos separam de sua dobra do regime por "capitalismo cognmvo - a re~1stencm
origem. Em sua nova versao, é da própria vida que o capital hoje passaria por um esfor~o de reapropria~ao coleuva dessa
se apropria; mais precisamente, de sua potencia de cria~ao potencia para com ela construir o que tais autores chama~ de
e transforma~ao em seu nascedouro- ou seja, sua essencia "o comum".6 Dialogando com os autores, podemos defimr o
germinativa -, bem como da coopera~ao da qual tal potencia omum como o campo imanente da pulsao vital de um corpo
depende para que se efetue em sua singularidade. A for~a vital ~ocial quando a toma em suas maos, de modo a direcioná-
de cria~ao e coopera~ao é assim canalizada pelo regime para -la a cria~ao de modos de existencia para aquilo que pede
que construa um mundo segundo seus desígnios. Em outras passagem. Ainda segundo Hardt e Negri, dessa constru~ao
palavras, em sua nova versao é a própria pulsao de cria~ao do comum resultam mudan~as nas formas da realidade. Seu
argumento é que se no capitalismo industrial as for~as da
4 A este respeito ver a obra de Toni Negri e Michael Hardt, especialmente a for~a de trabalho e sua coopera~ao - no caso, orgamzadas
trilogia composta por Império, Rio de Janeiro: Record, 2001; Multidao: Guerra
e democracia na era do Império, Rio de Janeiro: Record, 2014; e Bem estar comum,
Rio de Janeiro: Record, 2017. As ideias específicas destes autores comas quais 5 Ver nota anterior.
aqui dialogo sao desdobramentos da obra conjunta de Gilles Deleuze e Félix 6 A no~ao de "comum" ve m sen do elaborada por vários autores ~e dif~rentes
Guattari no que diz respeito a rela~ao entre capital e trabalho. Ver sobretudo: perspectivas. A problematiza~ao desta no~ao na p:esente coletanea s1n:a-se
Gilles Deleuze e Félix Guattari, O Anti-Édipo, Rio de Janeiro: Editora 34, 2010; num diálogo coma perspectiva adotada por Negr~ e Hardt,.a~egando a su~
e Mil Platos, Rio de Janeiro: Editora 34, 1996-1997, publicados originalmente ideia de constru~ao do comum urna dimensao estetica e, pnnC!palmente, ch-
em 1972 e 1980, respectivamente. nica, necessárias para sua viabiliza~ao.

33
32 ESFE RAS DA INSURREI<;:AO O INCONSCIENTE COLON IAL-CAPITALÍSTICO
como prodw;;ao em cadeia - eram pré-definidas pelo . níveis. Nessa transterritorialidade criam-se condic;oes
no modo de expropriac;ao dessa forc;a próprio a nova versao indiscer - d
. t oráveis para a mobi.l.Izac;ao a potencia d e cnac;ao
A • . - d as
do regime suas formas nao sao pré-determinadas, pois é da rnai~ av t"vistas bem como da potencia micropolítica nas
ráncas a I ' A •

própria potencia de sua construc;ao que se constitui o capital P ' ricas artísticas que, apesar de terem em tal potencia sua
fixo. Isto abriria urna possibilidade de autonomia na praA . encontram-se hoje dela destituídas em favor de sua
essencia, . , .
c;ao do destino da forc;a vital; no entanto, tal forc;a é desviada e . gem pelo capital que tem nesse domm10 urna fonte
ca 1enna . _
a favor da produc;ao de cenários para a acumulac;ao de . "lemada para sua expropnac;ao.
pnVl b - . d . ., ,
Ainda segundo os autores, partindo do princípio de que uma inquietac;ao move a escnta este ensa10: se Ja e um
a potencia vital pertence a quem trabalha, é precisamente so importante reconhecer que nao basta resistir macro-
pas . , . · ·
a experiencia de sua relativa autonomia que gera condi<;oes liticamente ao atual reg:tme e que e preciso ag¡r Igua1mente
favoráveis para sua reapropriac;ao. Retomando a conversa com poara reapropriar-se da etorc;a de cnac;ao
· - e cooperac;ao-
- ·
ou seJa,
eles, podemos acrescentar que é da reapropriac;ao desej p nh Al 0
1 -
aroar micropoliticamente -, reco ece-, o racwna mente nao
individual e cooperativa, do destino ético da pulsao vital? arante ac;oes eficazes nessa direc;ao. E que a reapropriac;ao
em síntese, de sua reapropriac;ao ontológica- que pode resul- ~o impulso de criac;ao depende de ela incidir sobre as ac;oes
tar um desvio coletivo de seu abuso pelo regime na dire<;ao do desejo, de modo a imprimir-lhe sua direc;ao e seu modo de
de urna ética da existencia. No entanto, como os autores nos relac;ao como outro; no entanto, tais ac;oes tendem a chocar-
apontam, sua reaproriac;ao pela sociedade é virtual enquanto -se com a barreira da política de produc;ao da subjetividade
nao encontra suas formas de atualizac;ao, o que depende de e do desejo inerente ao regime vigente. Como em qualquer
urna vontade coletiva de agir visando a construc;ao do comum, outro regime, é o modo de subjetivac;ao que nele se produz
o qual nao está dado a priori. 0 que lhe confere sua consistencia existencial, sem a qual
É exatamente nessa direc;ao que vem atuando parte dos ele nao se sustentada; um nao vai sem o outro. No caso da
citados movimentos coletivos que irrompem em meados nova dobra do regime colonial-capitalístico, a cafetinagem
dos anos 1990 e voltam a irromper em diferentes momen- da pulsao vital nos impede de reconhece-la como nossa, o
tos desde entao - no ativismo propriamente dito e, nao por que faz com que a sua reapropriac;ao nao seja tao óbvia como
acaso, também na arte, sendo suas fronteiras cada vez mais gostaria nossa va razao.
Levando isso em considerac;ao, é evidente que nao se
logra retomar as rédeas dessa potencia por um simples
7 A ideia de "destino ético da pulsao", inspirada em Jacques Lacan, tal como aqui
proposta vem do trabalho do psicanalista e teórico brasileiro Joao Perci Schiavon. decreto da vontade, por mais imperiosa que esta seja, e
Ver especialmente sua tese de doutorado, Pragmatismo Pulsional, defendida em tampouco por meio da consciencia, por mais lúcida e bem-
2007 no Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Departamento de
-intencionada. E logra-se muito menos dela reapropriar-se
Psicologia Clínica da Pontificia Universidade Católica de Sao Paulo e seu artigo
homónimo publicado na revista Cadernos de Subjetividade, Revista do Núcleo de coletivamente como um só corpo supostamente natural,
Estudos e Pesquisas da Subjetividade, pp. 124-131, Sao Paulo, 2010 . que estaria dado a priori e, ainda por cima, com sinergia

34 ESFERAS DA INSURREI<;AO O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO 35


absoluta entre todos os elementos que o compoem - como , designá-lo por "inconsciente colonial-cafetinístico",
rarnbern -es acima evoca d as. E, provave1mente a, resisten-
. A
pretendem os arautos messianicos de um paraíso r,,,.. , n~­
las razo
É preciso resistir no próprio campo da política de produ~ao pe reaime de inconsciente que se referem Deleuze e
· a esse o-
da subjetividade e do desejo dominante no regime em sua cta . quando clamam por um protesto dos inconscientes,
cuattan,
versa.o contemporanea- isto é, dominante em nós mesmos ., _ quando apenas se esbo~ava o trabalho de ela-
a ern 1972 . d . d . d 68 e,
-,o que nao cai do céu, nem se encontra pronto em alguma J - coletiva da arroJa a expenenc1a e ma10 e 19
A •

bora~a 0 d d . .
terra prometida. Ao contrário, esse é um território que tem . ulraneamente, a tomada e po er pe1o novo reg1me mam-
que ser incansavelmente conquistado e construído em cada sliD ·
us primetros · · to daVIa
sma1s, · nebul osos.
festava Se ,
existencia humana que compoe urna sociedade, o que intrin. A inten~ao que move o presente texto e perscrutar a moda-
secamente incluí seu universo relacional. De tais conex5es 'dade atual do inconsciente colonial-cafetinístico introdu-
originam-se comunidades temporárias que pretendem agir 11.d elo capitalismo financeirizado e neoliberal - a qual se
zt a p , .
nessa dire~ao construindo o comum. Entretanto, tais comu. define, insisto, pelo sequestro dessa for~a no propno nasce-
nidades jamais ocupam o corpo da sociedade como um todo, douro de seu impulso germinador de mundos. Mas como dri-
pois ele se faz e se refaz no inexorável embate entre dife. blar esse regime de inconsciente em nós mesmos e em nosso
rentes tipos de for~as. enromo? Em outras palavras, em que consistiría o tal protesto
dos inconscientes?
Responder a esta pergunta exige um trabalho de investi-
Mas com o liberar a vida de sua cafetinagem? gac;ao que só pode ser feito no campo da própria experien-
cia subjetiva. Há que se buscar vias de acesso apotencia da
Insurgir-se nesse terreno implica que se diagnostique o modo criac;ao em nós mesmos: a nascente do movimento pulsio-
de subjetiva~ao vigente e o regime de inconsciente que lhe é nal que move as a~oes do desejo em seus distintos destinos.
próprio, e que se investigue como e por onde se viabiliza um um trabalho de experimenta~ao sobre si que demanda urna
deslocamento qualitativo do princípio que o rege. Sem isso, a atenc;ao constante. Em seu exercício, a formulac;ao de ideias
tao propalada reapropriac;ao coletiva da for~a criadora como é inseparável de um processo de subjetiva~ao em que essa
profilaxia para a patología do presente nao sairá do laborató- reapropriac;ao se torna possível por breves e fugazes momen-
rio das ideias, correndo o risco de permanecer confinada no tos e cuja consistencia, frequencia e dura~ao aos poucos se
plano imaginário e suas belas ilusoes alentadoras. ampliam, amedida que o trabalho avan~a.
Proponho designar por "inconsciente colonial-capitalístico" Assim sendo, o trabalho necessário para responder a esta
a política de inconsciente dominante nesse regime, a qual pergunta nos exige que, junto como deslocamento da polí-
atravessa toda sua história, variando apenas suas modalida- tica de produ~ao da subjetividade e do desejo dominante na
des junto com suas transmuta~oes e suas formas de abuso da nova versao da cultura moderna ocidental colonial-capita-
for~a vital de cria~ao e coopera~ao. Nesse sentido, podemos lística, desloquemos igualmente a política de produc;ao do

36 ESFERAS DA INSURREI<;:AO O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO 37


pensamento própria a essa cultura, ativando sua medula diroes para a formac;ao de um corpo coletivo comum
as .con tencia
)' - agm
de invenc;ao, . d o em d"Irec;oes
- smgu
. 1ares e
e sua habilidade para desarmar as configurac;oes do
~a~ .
Sem isso, nossa intenc;ao morre na praia. Da perspectiva . , ·s possa vir a ter forc;a suficiente para conter o poder
vanavei ,
ses deslocamentos, pensar e insurgir-se tornam-se urna só e das forc;as que prevalecem em outras constelac;?es - aquel~s
mesma prática; urna nao avanc;a sem a outra. Corrobora com mpoem de carpos que tentam cafetmar a pulsao
que se Co
essa indissociabilidade o fato de que, embora tal prática só . alheia ou que se entregam a sua cafetinagem. Com essas
VIta1 . h
possa realizar-se, por princípio, no ambito de cada exi . mas abrem-se camm os para d esVIar
. ta1potencia d e seu
A •

smerb. '
cía, ela nao se dá isoladamente. Primeiro porque seu próprio destino destruidor.
motor nao comec;a nem termina no indivíduo, já que sua É esta precisamente a perspectiva que rege o pensamento
gem sao os efeitos das forc;as do mundo que habitam cada na elaborac;ao deste ensaio - ela é, portanto e por princípio,
um dos carpos que o compoem e seu produto sao formas nao só cransdisciplinar, mas indissociável de urna pragmática
de expressao dessas forc;as - processos de singularizac;ao em clínico-política. Sendo este necessariamente o trabalho de
cada urn deles, os quais se dao num terreno comum a todos muitos e de cada um e que nunca se esgota, as ideias que
e o transfiguram. Nada a ver com autorreflexividade, inte- serao aquí compartilhadas sao apenas algumas ferramentas
rioridade ou assuntos privados. A segunda razao, inseparável conceituais entre as que estao sendo hoje inventadas em
da primeira, é que tal prática alimenta-se de ressonancias de múltiplas direc;oes para encarar a pergunta acima colocada:
outros esforc;os na mesma direc;ao e da forc;a coletiva que elas "Como liberar a vida de sua cafetinagem?". Tal processo de
promovem - nao só por seu poder de polinizac;ao, mas tam- invenc;ao decorre da inteligencia coletiva que vem se ati-
bém e sobretudo pela sinergia que produzem. vando em velocidade exponencial, mobilizada pela urgencia
Ressonancias desse tipo nao sao apenas encontráveis em de enfrentar o alto grau de perversao do regime em sua nova
urn campo determinado do saber que teria o suposto mono- versao. As ferramentas aquí sugeridas nos auxiliarao a exami-
pólio da expertise no assunto - como por exemplo os estu- nar tanto a política de produc;ao da subjetividade, do desejo,
dos culturais, pós-coloniais ou queer, que seriam os mais do pensamento e da relac;ao com o outro que nos leva a urna
óbvios. Podemos encontrá-las em vários campos da prática entrega cega aapropriac;ao da forc;a de criac;ao, quanto aquela
teórica e, mais do que isso, elas podem surgir da produc;ao de em que se viabiliza sua reapropriac;ao. Teremos assim um cri-
pensamento em qualquer esfera da vida coletiva - da assim tério para estabelecer a distinc;ao entre essas micropolíticas e
chamada "alta cultura" a canc;ao popular, passando pelas o tipo de formac;oes do inconsciente que resulta de cada urna
experimentac;oes que se fazem, entre outras esferas, nas da delas no campo social.
sexualidade, da relac;ao como outro, da agricultura ou naquilo Para evidenciar o que basicamente as diferenciada, evoca-
que os povos indígenas tem insistido em nos dizer desde reí Lygia Clark. Se recorro a esta artista brasileira é porque
que ousaram tomar a palavra publicamente em alto e bom ela inventou urna profusao de "proposic;oes", como ela pró-
som. Tais ressonancias e as sinergias que produzem criam pria chamava essas práticas, as quais favorecem naqueles que

O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO 39
38 ESFERAS DA INSURRE I<;AO
se disp5em a experimentá-las o acesso asua própria . . lou o antes é o depois. Inaugurava-se com esse
de cria~ao e a eventual ativa~ao do trabalho para dela - ela mutu vo rumo de sua conhecida série Bichos, voltado
propriar-se, inviabilizando seu abuso o máximo possível. estudo urn noadlo da fita de Moebms:
· urna supe rfí Cle· topo1o-
'
aexp1or ~
outras palavras, tais obras lhes proporcionam urna nr"'---- para al extremo de urn dos lados continua no avesso
oica na qu 0 . . , . e a supe rf'1c1e,
. um1ace.
·e
dade de lan~ar-se num processo que os leve a driblar 0 1:1· ue os torna mdiscermve1s
doourro, o q
do inconsciente colonial-capitalístico em suas próprias
jetividades; ou, no mínimo, de legitimar e fortalecer esse
cesso, caso o mesmo já esteja em andamento. Privil ·
apenas Caminhando, a primeira dessas proposi~5es da
e da qual surgiram todas as demais. A obra nos fornecerá a
base para aquilo que pretendo aquí explorar.

Caminhando com Lygia Clark pela superfície topológica

Caminhando data de 1963. Sua cria~ao é urna resposta sin-


gular a um dos desafios que impulsionaram o movimento
das práticas artísticas nos anos 1960 até 1970: ativar a
potencia clínico-política da arte, sua potencia micropolítica,
entao debilitada por sua neutraliza~ao no sistema da arte.
O impulso que deu origem a esse movimento resultou de Em seu estudo para essa obra, a artista investigava sucessi-
um longo processo desencadeado pelas vanguardas do início vos cortes longitudinais na superficie de urna fita de Moebius,
do século XX, cujas inven~5es foram se capilarizando pela feíta de papel. Amedida que a investiga~ao avan~a, Clark vai
trama social, interrompendo-se apenas durante a Primeira se dando conta de urna experiencia ímpar que acorre no ins-
e Segunda Guerras Mundiais. Finda a Segunda Guerra, tal tante mesmo do ato de cortar. Aos poucos a artista decifra
capilariza~ao retomou seu curso ainda mais radical e den- 0
que essa experiencia lhe revela: a obra propriamente dita
samente até gerar o amplo movimento social que sacudiu o se plasma nessa a~ao e na experiencia que promove, e nao
planeta nos anos 1960 até meados dos anos 1970, marcado no objeto que dela resultaría. Tal experiencia consiste na
pela reapropria~ao da pulsao criadora em práticas coletivas abertura de urna outra maneira de ver e de sentir o tempo e
na vida cotidiana, muito além do campo restrito da arte. o espa~o: segundo ela, um tempo sem antes nem depois; urn
A origem dessa proposi~ao de Clark foi um estudo da espa~o sem frente e verso, dentro e fora, em cima e embaixo,
artista para urna obra que posteriormente - e nao por acaso esquerda e direita. E mais, urn devir da forma da tira de papel,

41
40 ESFERAS DA INSURREI<;:AO O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO
que acontece a cada volta do recorte em sua superfície,
a experiencia de um tempo imanente ao ato de cortar.
outra maneira de ver e de sentir lhe dá, portanto, acesso
experiencia de um espac;:o que nao precede o ato, mas
decorre e que, sendo assim, tampouco pode ser -·· ~·u v ·-..•alllll
do tempo. Em síntese: vivido dessa perspectiva, o
surgiria dos devires das formas que vao sendo criadas
superfície topológica da tira, produtos das ac;:oes de

Fa~a seu próprio Caminhando

A revelac;:ao deixa Lygia Clark perplexa e a leva a


essa experiencia numa proposic;:ao artística, para a qual ela
escolhe o nome Caminhando. Ela consiste em oferecer ao
público tiras de papel, tesouras e cola, junto com instruc;:oes
de uso breves e simples, com urna só ressalva: a cada vez
que se reencontre um ponto que se escolhera anteriormente
para perfurar a superficie, este deve ser evitado para
seguir recortando.

Aqueles que se dispusessem a viver essa ob,ra teri~m qu.e


apropriar dos objetos que Clark colocava a sua d1spos1c;:ao.
:e
Com eles, montariam sua própria fita de Moebius, faze ndo
urna tor~ao na tira de papel e colando a superficie de urna das
extremidades ao avesso da outra. Deveriam entao escolher um
ponto qualquer de sua superfície para, a partir dele, iniciar o
corte no sentido longitudinal e seguir cortando até que esta

O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO
43
42 ESFERAS DA IN SU RREI<;:AO
se esgotasse, nao havendo mais espa~o para novas
~oes. Nesse momento, independentemente de ter sido ou
respeitado a ressalva da artista, a tira voltava a ter duas
readquirindo frente e verso, dentro e fora, em cima e ~"''u"'"
esquerda e direita - deixava de ser urna superficie
Certamente, nao é a toa que a artista decidiu fazer
ressalva; ao contrário, de levá-la em considera~ao
a própria possibilidade de haver obra. É que o ato de
nao é neutro: seus efeitos variam segundo o tipo de
que cada um escolhe efetuar em seu "caminhando".
Se seguirmos a ressalva da artista e escolhermos um
ponto a partir do qual prosseguir cortando - a cada volta
dermos na superfície e nos depararmos com um ponto
perfurado -, urna diferen~a se produzirá em sua forma e
espa~o que se cria a partir dela. A forma irá se
numa varia~ao contínua, que somente se esgota quando já nao
resta superficie alguma para recortar. A obra se efetua na
ti~ao do ato criador de diferen~a e nele se encerra. Em suma, a
obra propriamente dita é o acontecimento dessa experiencia.

44
ESFERAS DA INSURREI<;AO
O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO 45
ao obstante, se nao seguirmos as instru~oes da artista
. sistirmos em voltar a recortar a partir de um ponto já
-e m
erfurado -, o resultado é a reprodu~ao infinita de sua forma
~. ·a1 Esta nao cessará de permanecer identica a si mesma
¡n!Cl · '
a cada vez que repetirmos a escolha de nossa a~ao, até que
nao haja mais lugar onde recortar. Nes se tipo de corte o atoé
e téril, nao produz obra: o acontecimento da cria~ao de urna
diferen~a na qual a obra como tal se plasmaria.

46 ESFERAS DA INSURREit;AO O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO 47


Mas 0 que rudo isso teria a ver com reapropriar-se da poten-
cia de criac;ao? Mais amplamente, o que tudo isso teria a ver
com deslocar-se da política de produc;ao de subjetividade sob
domínio do inconsciente colonial-cafetinístico, na qual viabi-
liza-se a expropriac;ao dessa potencia? A resposta a essas per-
guntas depende de examinarmos a experiencia na qual esta
proposic;ao se realiza como obra-acontecimento e, sobretudo,
a escolha da ac;ao que a torna possível e o que a distingue das
escolhas que a impossibilitam.
Com essa intenc;ao, o convido, leitor, a urn exercício de
fabulac;ao: projete urna fita de Moebius sobre a superficie do
mundo e o imagine como urna superfície topológica feíta de
todo tipo de corpos (humanos e nao humanos), em cone-
xoes variadas e variáveis- o que nos permitiría qualificá-la
de ''topológico-relacional". Imagine também que urna de suas
faces corresponda as formas do mundo, tal como moldado
em sua atualidade; enquanto que a outra corresponda as for-
c;as que nele se plasmam em sua condic;ao de vivo e também
aquelas que o agitam, desestabilizando sua forma vigente.
Imagine ainda que, como na fita de Moebius, tais faces sejam

O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO 49
48 ESFERAS DA INSURREIQAO
indissociáveis, constituindo urna só e mesma superficie
face. De fato, nao há forma que nao seja urna r""" ..., ..:_'
do fluxo vital e, recíprocamente, nao há fon;;a que nao
moldada em alguma forma, produzindo a sustentac;;ao vital
mesma, como também suas transfi.gurac;;oes e inclusive
dissolw;;ao, num processo contínuo de diferenciac;;ao.
isto em mente, examinemos primeiro como
respectivamente, formas e forc;;as, o tipo de experiencias
tais capacidades promovem, bem como a dinfunica da
que se estabelece entre ambas.

Formas e for~as: urna rela~ao paradoxal

Assim como formas e forc;;as sao distintas, nao sao as mesmas


as capacidades por meio das quais registram-se os sinais de
cada urna delas. Do exercício de tais capacidades resultam
duas das múltiplas dimensoes da experiencia complexa que
designamos por "subjetividade". E assim como formas e for-
c;;as embora distintas sao inextrincáveis, constituindo urna
só e mesma face da superfície topológico-relacional de um
mundo, tais capacidades operam simultanea e inseparavel-
mente na trama relacional que se tece entre os corpos que
a constituem a cada momento - que tenhamos ou nao cons-
ciencia das mesmas e independentemente do grau em que Os sinais das formas de um mundo sao captados pela via da
mantenhamos ativa cada urna delas para guiar nossas esco- percepc;;ao (a experiencia sensível) e do sentimento (a expe-
lhas e as ac;;oes que delas decorrem. riencia da emoc;;ao psicológica). De tais capacidades se com-
poe a experiencia mais imediata que fazemos de um mundo,
na qual o apreendemos em sua concretude e seus atuais
contornos - aquilo que chamamos de realidade. Sao modos
de existencia, articulados segundo códigos socioculturais,
que confi.guram distintos personagens, seus lugares e sua

50 O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO 51
ESFERAS DA INSURREI<;:AO
distribui~ao no campo social, o que é inseparável da -·u""'" . s agora a via de apreensao de um mundo que
E:xaJilillemo . .
~ao do acesso aos bens materiais e imateriais, suas · . ptar os sina1s das for~as que agitam seu carpo
00
s perrrute ca
e suas representa~oes. Tais cartografias e seus códigos ceitos em nos so próprio carpo - aquí, ambos e m
rovocamet'
tam esse modo de apreensao de um mundo: quando e P ndi ao de viventes. Tais efeitos decorrem dos encon-
~
ua co fazemos . .
escutamos, farejamos ou tocamos algo, nossa percep~ao _ com gente, c01sas, pa1sagens, 1"de1as,
.
ob ras
eros que ,. . . 1
nossos sentimentos já vem associados aos códigos e e situa~oes palmeas ou outras etc.-, seJa presencia-
de art ' . d . e - . -
senta~oes de que dispomos, os quais projetamos sobre eJ· a pelas tecnologias e mtorma~ao e comuruca~ao
rnente, S .
algo, o que nos permite atribuir-lhe um sentido. . distancia ou por quaisquer outros me10s. Resultam desses
Proponho qualificar tal capacidade de "pessoal-s a contras mudan~as no diagrama de vetares de for~as e das
-sentimental-cognitiva". Por meio dela se produz a ;;la~oes entre eles, produzindo novas e distintos efeitos.
ciada subjetividade enquanto "sujeito", intrínseca a nossa Introduzem-se outras maneiras de ver e de sentir, que pode-
condi~ao sociocultural e moldada por seu imaginário. sua rnos associar aexperiencia que Lygia Clark teve ao recortar
fun~ao é a de possibilitar que nos situemos na vida social: sua fita de Moebius e que a levou a criar Caminhando. A essas
de cifrar suas formas, seus códigos e suas dinamicas por meio outras maneiras, Gilles Deleuze e Félix Guattari deram o
da percep~ao, da cogni~ao e da informa~ao, estabelecer rela- .
nome, respectivamente, de ce percept"
o e ccct"
a1e o .
~5es com os outros por meio da comunica~ao e senti-las o percepto é distinto de percep~ao, pois consiste numa
segundo nossa dinamica psicológica. Em resumo, decifrar os atmosfera que excede as situa~oes vividas e suas represen-
sinais das formas nos permite existir socialmente. ta~oes. Quanto ao afeto, este nao deve ser confundido com
Esse modo de apreensao do mundo nos é familiar por prin- afei~ao, carinho, ternura, que correspondem a um dos senti-
cípio, porque é marcado pelos hábitos culturais que nos con- dos dessa palavra nas línguas latinas. É que nao se trata aqui
duzem no cotidiano. No entamo, nas sociedades ocidentais e de urna emo~ao psicológica, mas sim de urna "emo~ao vital",
ocidentalizadas, sobo poder do regime colonial-capitalístico, a qual pode ser contemplada nessas línguas pelo sentido do
a fun~ao que tal capacidade desempenha ganha um poder verbo afetar - tocar, perturbar, abalar, atingir; sentido que, no
desmesurado. É que na política de subjetiva~ao dominante entanto, nao é usado nas mesmas em sua forma substanti-
nesses contextos tendemos a nos restringir a experiencia vada. Perceptos e afetos nao tem imagem, nem palavra, nem
enquanto sujeitos e a desconhecer que se esta é sem dúvida gesto que lhes correspondam - enfim, nada que os expresse
indispensável - por viabilizar a gestao do cotidiano, a sociabi- -e, no entanto, sao reais, pois dizem respeito ao vivo em nós
lidade e a comunica~ao -, ela nao é a única a conduzir nossa mesmos e fora de nós. Eles compoem urna experiencia de
existencia; várias outras vias de apreensao de um mundo ope- aprecia~ao do entorno mais sutil, que funciona sob um modo
ram simultaneamente. Tal redu~ao é precisamente um dos extracognitivo, o qual poderíamos chamar de intui~ao; mas
aspectos medulares do modo de subjetiva~ao sob domínio do como esta palavra pode gerar equívocos, prefiro chamá-lo
inconsciente colonial-capitalístico. de "saber-do-carpo" ou "saber-do-vivo", ou ainda "saber

52 ESFERAS DA INSURREI((ÁO O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO 53


eco-etológico". Um saber intensivo, distinto dos ·unto do planeta. É que a redu~ao ao sujeito na polí-
mentas sensível e racional próprios do sujeito, bem como ho,ie
J
o conJ b' tivadio que ne1as preva1ece 1mp. l.1ca em estarmos
· de su Je >
seus fantasmas - espécie de filtros gerados em sua ----~..... ~ uca . d de nossa condi~ao de viventes, o que nos separa
d'1 socia os
psicológica reduzida ao sujeito e cujas imagens proj e perceptos e nos destituí do saber-do-vivo. Com
d0 S afetOS
sobre suas experiencias, o mantendo separado das ...__...,.,, 1él!il ao do acesso aos efeitos das for~as do mundo em
a obstru~ o embora os mun dos Vlrtums . . que e1es engendram
Tal capacidade, que proponho qualificar de osso co rp ,
-extrassensorial-extrapsicológica-extrassentimental-e)rrrc:tC'n... n _,rbem somos impedidos de apreende-los, o que toma
nos pe~"...... , . , d
nitiva", produz urna das demais experiencias do mundo ulsa~ao ainda mms estranha. Esse e um segun o aspecto
compoem a subjetividade: sua experiencia enquanto ua:ncial do modo de subjetiva~ao sob domínio do incons-
-sujeito", imanente a nossa condi~ao de carpo vivo- a e. s colonial-capitalístico, inseparável do primeiro.
c1ente
chamei de "carpo-vibrátil" e, mais recentemente, de
-pulsional". Nessa esfera da experiencia subjetiva, somos
tituídos pelos efeitos das for~as e suas rela~oes que agitcun 0
paradoxo disparador do desejo
o fiuxo vital de um mundo e que atravessam ·
todos os carpos que o compoem, fazendo deles um só As experiencias de cada urna das faces da superfície topológi-
em varia~ao contínua, quer se tenha ou nao consciencia co-relacional do mundo funcionam segundo lógicas, escalas
A fun~ao dessa capacidade é, portanto, a de nos possibilitar e velocidades inteiramente díspares. Senda elas simultaneas
existir nesse plano, imanente a todos os viventes, entre os e indissociáveis e, ao mesmo tempo, irredutíveis urna aoutra,
quais se estabelecem rela~oes variáveis, campando a biosfera a dinamica da rela~ao que se estabelece entre ambas nao é de
em processo contínuo de transmuta~ao. O meio de rela~ao urna oposi~ao, mas sim de um paradoxo. Tal dinamica nunca
com o outro nesse plano é distinto da comunica~ao, desemboca em síntese alguma (nem sequer dialética), tam-
rística do sujeito: podemos por ora chamá-lo de "re.,.,,Juc1u- pouco na domina~ao ou na anula~ao de urna pela outra (como
cia" ou "reverbera~ao", na falta de urna palavra que o designe prometem certas teorías do desenvolvimento cognitivo e psi-
mais precisamente. Aqui nao há distin~ao entre sujeito cog- cológico, que mais sao ideologias que sustentam o império do
noscente e objeto exterior: o outro, humano ou nao humano, sujeito, próprio da cultura moderna ocidental colonial-capi-
nao se reduz a urna mera representa~ao de algo que lhe é exte- talística). Em suma, tal rela~ao nao desemboca em qualquer
rior, como o é na experiencia do sujeito; o mundo vive efe- tipo de harmonía ou estabilidade permanentes; ao contrário,
tivamente em nosso carpo e nele produz gérmens de outros por ser paradoxal ela é por princípio incontomável, produ-
mundos em estado virtual. zindo urna tensao constante, que varia apenas em grau.
A pulsa~ao desses mundos larvares em nosso carpo nos Senda assim, os mundos virtuais engendrados na expe-
lan~a num estado de estranhamento. Este se intensifica nas riencia das for~as produzem urna fric~ao com a experiencia
sociedades ocidentais e ocidentalizadas, as quais abrangem das formas moldadas segundo as cartografias socioculturais

54 ESFERAS DA INSURREit;AO O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO 55


vigentes. A razao é simples: o fato de tais cartografias
a materializa<;ao de arranjos de for<;as anteriores - --·~·<~•u•
do atual, pois resultam de outros carpos e outras
entre eles - impede a expressao dos mundos virtuais
dos pelo novo arranjo de for<;as no presente. A
se ve lan<;ada na experiencia de um estado conr-.nn-....-
i mente estranho e familiar, o que desestabiliza seu ry,,,,.~·-
e as imagens que ela tem de si mesma e do mundo,
1

cando-lhe um mal-estar. Gera-se com isso urna tensao


de urn lado, o movimento que pressiona a subjetividade
1

i dire<;ao da conserva<;ao das formas em que a vida se


1 tra materializada e, de outro, o movimento que a pres
na dire<;ao da conserva<;ao da vida em sua potencia de
mina~ao, a qual só se completa quando tais embrioes tomam
consistencia em outras formas da subjetividade e do--- -~ ..........
colocando em risco suas formas vigentes. Tensionada entre
esses dais movimentos, a subjetividade converte-se num
grande ponto de interroga<;ao, para o qual terá que .-ru·nn_
trar urna resposta.
Podemos chamar esse ponto de interroga<;ao tensionante
de "inconsciente pulsional". 8 Ele é o motor dos processos de
subjetiva<;ao: a pulsa<;ao do novo problema dispara urn sinal
de alarme que convoca o desejo a agir, de modo a recobrar
urn equilíbrio vital, existencial e emocional. O desejo é entao
impelido a fazer cortes na superfície topológico-relacional
do mundo que devolva a subjetividade um contorno, urna É exatamente no momento em que o desejo é convocado a
dire<;ao e seu sentido. agir que se definirao suas políticas e aquilo que as distingue,
as quais correspondem a diferentes regimes do inconsciente
pulsional. Para descreve-las, sugiro que voltemos ao Cami-
nhando que nos propoe Lygia Clark, lembrando agora dos dais
8 A no~ao de "inconsciente pulsional", que adotamos aqui, inspira-se no tipos de corte na superfície da fita de Moebius que essa pro-
modo como esta vem sendo trabalhada pelo psicanalista e teórico brasileiro
Joao Perci Schiavon. Ver nota anterior. posi<;ao nos permitiu acompanhar.

O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO 57
56 ESFERAS DA INSURREic;:AO
te essas posic;oes diametralmente apostas
Fabulando dois polos opostos de políticas do de seJo
· ·¿enternen
f:Vl fi ' ftccionais: elas jamais · d ommam · tata- 1
s de gura .
Aqui o convido, leitor, a retomar seu exercício de
ao caso - do dese)· 0 nem eXIste m em estado puro.
orientac;ao ' , . - .
mente a árias micropohticas ou posi~oes mais ou
~ao. Primeiro projete na superfície topológico-relacio al ·¡ rnos entre v " . .
mundo a a~ao de recortar. Em seguida, considerandn
O c1 a , . de uma ética. da existencia que, e m ma10r
roXlrnas .
. ' o menos P variam em cada momento de nossas VIdas
o deseJO e o que age em nós, imagine aqueles dais tipos enor grau,
corte como correspondendo a duas políticas das aro ou 111 d eu transcurso. Do mesmo mo d o, e' eqmvo- ·
· f , )' es e ao Jongo es arpo coletivo - formado pelo embate entre
deseJO rente a interroga~ao que o colocou em ensar o e
cad0 P de forra do impulso vital do qual decorre
- já sabendo, pelo que vimos em Caminhando, que a ·f ntes vetares )' .
de ande e como cortar a superfície nao é neutra. di ere - da realidade - como homog€meo e mmto
onstruc;ao .
entao que as duas políticas do desejo em questao ",..,, ____. ae , el seJ·a na posic;ao de deixar que essa forc;a seJa
menos estav ' , . -
os extremos apostas no vasto e complexo espectro de · d seJ· a naque la que resiste a sua apropnac;ao e
ropna a, . . .
aP mundos com outro reg¡me do mconsCiente
políticas que orientam suas a~oes no atual regime, de cujo inventa outros ' ., .
. formaroes. Se valer-se desse artifiCIO pode
emb~te re_sultam _os destinos da realidade - da posi~ao do a onentar suas ; .. , . . .
, d é apenas porque nos permitlra d1stmguir com
deseJO mms subm1ssa ao regime de inconsciente colonial nos ser u I ' . . . 1' .
. 't'dez as características essenciais das micropo Itl-
pitalístico, n~ q~al ~e da~ia um~ entrega total a expropria~ao mals m 1 , . .
da for~a de cna~ao, a mms desVIante, na qual se daria sua total oder potencial de escapar do domm10 do mcons-
cas com p , .
reapropria~ao.
. olonial-cafetinístico daquelas que, ao contrano, nos
c1ente e . .
submeter a ele e reproduzi-lo ao mfimto. Isso
Jevarn a n Os _
ermitirá igualmente explorar o tipo de formac;oes do
nos P · 1' ·
. ·ente que resulta de cada urna dessas m1cropo 1t1cas
10 consc1
no campo social.

Micropolítica ativa e sua bússola ética

Pec;o que se lembre primeiro do tipo de ac;ao do de~ejo que


evita fazer cortes em pontos anteriormente escolhidos, tal
como em Caminhando quando se leva a sério a ressalva de
Lygia Clark. Imagine agora esse tipo de corte sendo feíto na
superfície topológico-relacional de um mundo, na qual ope-
ram-se as a~oes do desejo.

59
58 ESFERAS DA INSURREI<;:iiO O INCONSCIENTE COLON IAL-CAPITALÍSTICO
Pois bem, essa política do desejo é própria de uma com 0 trabalho, com o Estado ou com qualquer
o ourro, . 1
tividade que habita o paradoxo entre suas duas \CA,,,..,,.,,._ coiTl ento do entorno. Sep qual for esse a go, o que
o elem . - · · d
simultaneas, como sujeito e fora-do-sujeito. Urna outr é ue ele carregue cons1go a pu1sa<_;ao m:ens1va ~s
dade que consegue sustentar-se na tensao entre as conta q d de ver e de sentir - que se produz1ram na te1a
s rno os .
que delas emanam, as quais desencadeiam os dois novo ~ tre os corpos e que habitam cada um deles sm-
la~oes en
tos paradoxais que constituem o inconsciente pulsionai de re _ de modo a torná-los sensíveis, promovendo
}anuente ,
que logra igualmente manter-se alerta aos efeitos dos · gu . a superfície do mundo.
diagramas de for<_;as, gerados na experiencia intensiva desVJOS:em caminhando, imagine que nesse tipo de cortes a
novos encontros e tolera as turbulencias que tais Co~ ·c ·al da superfície topológico-relacional do mundo
forma 101 1
provocam em sua experiencia como sujeito - precis-.•.,._ 111.11 , ultiplicando e se diferenciando, num processo con-
va. se rn - e recompos1<_;ao.
. - Nessa m1cropo
. 1' .
as turbulencias que a lan<_;am no estado e d composi~ao mea,
0 nuo e . -
Ou seja, trata-se aquí de urna subjetividade que está apta oes do desejo consistem portanto em atos de cna<;ao
as a~ ·nscrevem nos terntonos · ' · ex1stenc1a1S
· · · estab e1eCl·dos
sustentar-se no limite da língua que a estrutura e da que se 1
tar;ao que esse estado lhe provoca, suportando a tensao que ectivas cartografias, rompendo a cena pacata do
e suas resp
a desestabiliza e o tempo necessário para a germina<_;ao instituído.
um mundo, sua língua e seus sentidos. É que ela sabe (
cognitivamente) sem saber (cognitivamente) que cortar a
superfície nos mesmos pontos nao lhe devolvería o equi-
líbrio, pois a manteria confinada na forma que perdeu seu
sentido, cuja falencia é responsável por sua desestabiliza~ao.
O que orientará o desejo em seus cortes, nesse caso, é
a busca de urna resposta ao ponto de interroga<_;ao que se
colocou para a subjetividade ao se ver destituída de seus
parametros habituais. Em suas a<_;oes, ele se conectará com
pontos inabituais da superfície para fazer seu corte, bus-
cando vias de passagem para a germina<_;ao e o nascimento
do referido embriao de mundo que habita silenciosamente o
corpo. A atualiza<_;ao desse mundo em estado virtual que seu
gérmen anuncia se efetuará por meio da inven<_;ao de algo -
urna ideia, urna imagem, um gesto, urna obra de arte, entre
outros; mas também um novo modo de existencia, de sexua-
lidade, de alimenta<_;ao, urna nova maneira de relacionar-se

O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALISTICO
61
60 ESFERAS DA INSURREI<;AO
63
62 ESFERAS DA INSURREI<;:AO O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO
. or essa micropolítica, o desejo cumpre sua fun-
Remdo
0~
p . _ d d
d agente ativo da cna~ao e mun os, propno e
, · d
'oca e
~o e . .Vl.dad e que busca colocar-se a altura do que lhe
subJeO .
UJTla E se ampliamos o honzonte de nosso olhar para
ntece.
aco superficie do mundo tal como ela se configura na
ab~gderda constataremos que estamos diante da micropolí-
cuall a e, .
3. a de uroa vida, individual ou coletiva, que logr~ reapro~nar-

oc otencia e, com ela, driblar o poder do mconsc1ente


-se de sua p . 'd
'al-capitalístico que a expropna. Em suma, urna Vl a que
coloDl · ntar-se por urna enea , . pul s10na.
. 1 v·d
1 a nob re, pro1'1-
¡0gra one .
fera vida, vida singular, urna VIda.

Nesse caso de figura, o motor do desejo em suas a~oe s pen-. Micropolítica reativa e sua bússola moral
santes é a vontade de conserva~ao da própria vida em sua
essencia - vontade radicalmente distinta daquela que quer que imagine agora, leitor, o tipo de a~ao na superficie
Pe~ 0 d . . .
conservar a cartografia em curso. Lograr conservar a vida topológico-relacional do mundo de um eseJO que ms1ste em
depende de negociar com as formas vigentes na superficie escolher pontos já conhecidos para fazer seus cortes - como
do mundo, de modo a encontrar os pontos onde o desejo em caminhando quando nao se leva em conta a ressalva de
poderá perfurá-la para neles inscrever os cortes da for~a ins- Lygia Clark. Esse tipo de corte correspondería ao outro caso
tituinte. Urna bússola ética o guia: sua agulha aponta para de figura ficcional, situado no extremo oposto do amplo leque
as demandas da vida em sua insistencia em persistir, man- de micropolíticas possíveis: a da posi~ao mais submissa ao
tendo-se fecunda, a cada vez que se ve impedida de fluir na inconsciente colonial-cafetinístico. Como é essa justamente a
cartografia do presente. Tal bússola orienta as a~oes do desejo micropolítica que viabiliza a expropria~ao da for~a de cria~ao,
no sentido da cria~ao de urna diferen~a: urna resposta que esmiucemos mais detidamente sua dinamica.
seja capaz de produzir efetivamente um novo equilíbrio para Diferentemente do modo de subjetiva<;ao que acabamos
a pulsao vital, o que depende de seu poder de atualizá-la em de vislumbrar, essa política do desejo é própria de urna sub-
novas formas. Esta é a natureza do que se pode chamar de um jetividade reduzida a sua experiencia como sujeito, na qual
"acontecimento", o qual é produzido por este tipo de política come~a e termina seu horizonte. Por estar bloqueada em sua
do desejo: um devir da subjetividade e, indissociavelmente, experiencia fora-do-sujeito, ela se torna surda aos efeitos das
do tecido relacional no qual gerou-se sua turbulencia e seu for~as que agitam um mundo em sua condi~ao de vivente,
ímpeto de agir. ignorando aquilo que o saber-do-corpo lhe indica. O gérmen

64 O INCONSCIENTE COLONIAL·CAPITALÍSTICO
65
ESFERAS DA INSURREI<;:ÁO
de mundo que a habita é por ela vivido como um carpo a onsidera ser seu suposto si mesmo, ela se
. do que C
ponto estranho e impossível de absorver que se torna di nnta d·tando que "es se mundo", o seu, pode durar
e acre 1
rizador, razao pela qual deverá ser calado a qualquer cust proreg empre Tomada pelo medo que provoca esse
0 ual para s · ,. .
o mais rapidamente possível. tal e q . . ário de desfalecimento, ela e mvad1da por fan-
·go unag¡n . -
Esse tipo de subjetividade vive ó universo pefl ssombram. Estes nascem de sua mterpreta<;ao
as que a a
como um objeto que lhe é exterior e o decifra apenas da ta ~ da do mal-estar da desestabiliza<;ao que essa expe-
,qu1voca , 1 · ·d
pectiva de sua experiencia como sujeito. A imagem de si e . doxallhe provoca, o qua1 e por e a V1V1 o como
··ncia para
resulta dessa reduc;ao é a de um indivíduo - um todo .·..... ,...... ne. . , Assim interpretado, tal mal-estar converte-se em
•·co1sa rUlffi · . .
vel, como o próprio termo indica. É a imagem de urna ""·'~-· . angústia do suJeito.
unidade cristalizada separada das demais supostas unidades
que constituiriam um mundo, o qual é indiss
concebido aquí como urna suposta totalidade, organizada
segundo urna reparti<;ao estável de elementos fixos, cada um
em seu suposto lugar, igualmente fixo.
É evidente o teor alucinatório dessa imagem de urna
serva<;ao eterna do status quo de si e do mundo, pois se tal
conserva<;ao de fato ocorresse, isto implicarla no e
mento dos fiuxos vitais que animam a existencia de ambos, 0
que no limite significaría sua m o rte. O que, no entanto, leva a
subjetividade a cren<;a nessa miragem é o medo de que a
solu<;ao do mundo estabelecido carregue consigo sua própria
dissolu<;ao. É que, senda o sujeito estruturado na cartografia
cultural que lhe dá sua forma e nela se espelha como se fosse
o único mundo possível, da perspectiva desse tipo de sub-
jetividade reduzida ao sujeito e que com ele se confunde, o
desmoronamento de "um mundo" é interpretado como sinal
do fim "do mundo", bem como de seu "suposto si mesmo".
Se a tensao entre estranho e familiar lhe traz esse perigo ima-
ginário é porque, assim limitada ao sujeito, a subjetividade
desconhece o processo que leva a constante transmut a<;ao
de si e do mundo, por nao ter como nele sustentar-se. Impos-
sibilitada de imaginar um outro mundo e de se reimaginar

67
66 ESFERAS DA INSU RREI~AO O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO
Diferentemente da micropolítica correspondente ao polo
oposto que descrevemos anteriormente, trata-se aqui de
urna subjetividade que nao consegue sustentar-se na tensao
do paradoxo entre suas experiencias como sujeito e fora-do-
- ujeito, tampouco entre os movimentos paradoxais que sua
fric~ao desencadeia, dos quais se constitui o inconsciente pul-
sional. O que orientará os cortes do desejo, nesse caso, será,
pois, o evitamento do ponto de interroga~ao pulsional que a
vibra~ao do gérmen de mundo coloca para a subjetividade. O
desejo é convocado a recobrar um equilíbrio apressadamente
e o faz orientado por urna bússola moral, cuja agulha aponta
para a cartografia na qual a vida se encontra materializada
na superficie topológico-relacional do mundo em sua forma
atual. A agulha moral conduz o desejo na dire~ao do rastrea-
mento de modos de existir e representa~oes - ambos resul-
tantes de cortes anteriores - para encontrar um ponto ande
apoiar seu corte, de maneira que a subjetividade possa rapi-
damente refazer para si um contorno reconhecível e livrar-se
temporariamente de sua angústia.

69
O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO
68
O mundo converte-se, assim, num vasto e variado radio fantasmática de sua causa e a angústia que
cado, onde a subjetividade tem a seu dispor urna _·_ -··•.uu• a 1·nterpre , ao patolog1zar
· a expenenCla d a d esestab 1"l"1-
· A •

p rovoca . .
de imagens para identificar-se e com as quais e lbe _ uso que a subjetividade deles fará, seJ am qua1s
9 0
urna relac;ao de consumo que lhe permitirá recobrar za~ao. .sa nesse caso a neutralizac;ao de sua angústia. ·O
. fu
VIO gaz de um quimérico equilibrio. A escolha do
o &orern,
1' ua tensao ser químicamente contro1ada nao
Vl - 1mp· 11ca ·
. d"
de onde fazer o corte nesse opulento mercado
fatO de S oque a subjetividade se colocara, ma1s 1spomve1,
rn abso1ut , . .
repertório de cada subjetividade e da interpretac;ao que e utar 0 que seu saber eco-etolog1co lhe assmala -
ara ese , .
da razao de seu desconforto. P. "bilidade para a qual, aliás, o uso de certos qmm1cos
disponi , , . .
Sendo o desconforto interpretado como "coisa · eventualmente contribuir. E que os qmm1cos aqm
podena .
evidentemente alguém tem que ser o culpado . ..~ ........,.1u;it , . · rrados neutralizam nao só sua angústia, mas 1gual-
aunts s afetos que a provocaram e tampouco VIa · b"l"
1 1zam a
sujeito, a subjetividade só dispoe de duas opc;oes para ~re O .
nar de quem é a culpa por seu estado instável, sendo ambas osirao de seu contorno anterior. Como os med1ca-
reoorn P , . .
opc;oes fruto de construc;oes fantasmáticas: o próprio S n -a0 lhe t razem a resposta esperada, na ms1stente
mento
ou um outro qualquer escolhido para desempenhar o papel - de poder refazer-se um equilíbrio mantendo-se no
i1usao . ., .
vilao. Em outras palavras, ou a subjetividade introjeta a mesmo lugar a todo custo, outros pontos a1nda, Ja conhec1-
de sua desestabilizac;ao como urna suposta deficiencia de everao ser escolhidos pelo desejo para a eles canee-
dos, d
mesma, o que impregna sua angústia de sentimentos de tar-se e neles fazer seus cortes.
rioridade e vergonha; ou ela a projeta numa suposta LUQLlU(IIUI Para atribuir um sentido ao sem sentido do estado em
que lhe estaría sendo enderec;ada de fora, o que impregna que a subj etividade se encontra, o desejo ~ará suas c?ne-
angústia de sensac;oes paranoides, ódio e ressentimento. xoes e cortes em pontos de produtos discurslVOS oferec1dos
por traficantes de receitas de urna paz redento_ra. A ?ferta é
abundante: terapias de treinamento de autoesuma, hvros de
Quando a autodeprecia~ao e a vergonha interrompem autoajuda ou de anúncio de um suposto new age, ideologías
germina~ao de um mundo
um exemplo acerca da patologiza~ao da experiencia da desestabiliz~~ao
9
No primeiro caso, o da introjec;ao, na intenc;ao de aplacar por parte da psiquiatría que chega a ser caricatura!, para nao d1zer paten~o,
é o diagnóstico de "bipolar" com o qua! alguns psiquiatras class1ficam aquilo
sentimento de autodepreciac;ao e vergonha, o desejo que eles consideram ser a suposta "doen~a dos artistas". Desta perspectiva,
lherá o ponto da superfície topológica-relacional do ,.. ~u""'"~ interpreta-se como "depressivo" o estado de suspensao em que se encontra
mais obviamente adequado a esse fim. Sao os produtos a subjetividade do artista quando está em pleno processo de cria~ao, desen-
cadeado por um gérmen de mundo que a habita, mas que ai nda nao encon-
tarja preta da indústria farmacológica, cujo mercado trou a expressao adequada para t raze-lo para o sensível; e de "eufórico" ou
menta-se precisamente desse desalento e também o "maníaco", o estado de gozo vital que se experimenta quando tal gérmen
menta, contribuindo para sua perpetuac;ao, já que encontra sua expressao.

O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO
71
70
de toda espécie, igrejas evangélicas'0 do tipo twluacm(!Ut:aJi• . . ·dade a complexos discursos intelectuais dos quais,
que proliferam a tal ponto que podem ser encontradas subJeOVl fará igualmente um uso alucinatório, os reduzindo
esse caso, . . ,
qualquer esquina do planeta. Poderá também consumir n letos de urna retórica seca e vaz1a, destltmda da carne
gioes orientais que, em princípio, teriam o poder po 1:en.r-~ a esque rpo vivo. Em suma, um tipo de relac;:ao com tais dis-
~~oo A •
de levar a subjetividade a experiencias de (re)conquista e neutraliza sua potencia de afetar e a ressonanc1a
cursos qu .
saber-do-vivo e seu desenvolvimento ao longo da ---.~~....""" e
. -&etos poderiam encontrar no le1tor, favorecen do sua
rrus
já que atribuem esse saber aos humanos e nao a um ....... ,~,. qu , ·a reapropriac;:ao ou ampliac;:ao do saber-do-VIvo.
al' .

deus e trabalham seu desenvolvimento do nascimento Propnverdade, tanto faz qual sera, o ponto d'1scurs1vo .
e1eg¡'do
morte em rituais individuais e coletivos. Isto faz delas Na corte - da assim chamada ' 'b aiXa. eultura, as, ma1s . so:fi s-
urna :filoso:fia ou urna ética da existencia do que urna ~~s piruetas :filosóficas. É que da perspectiva dessa política
propriamente dita, no sentido em que os ocidentais oca
de desejo, diferentes visoes de mundo passam a eqmva . 1
er-se,
a concebe-la e praticá-la. No entamo, quando essas ~·"""'"''....... .á que a relac;:ao que a subjetividade estabelece com qualquer
sao praticadas por subjetividades reduzidas ao sujeito, "!una delas é mesma: seu consumo para recobra~ tempora-
a
tendem a converter-se em religioes. O saber-do-vivo é . ente urna voz por meio de seu mero eco. Sep qual for
nam . hA
projetado esotericamente em supostas entidades ~;n,nP•nn·­ visao adotada, ela é usada como um discurso-e11c e que
3
e os rituais- cuja func;:ao seria levá-los a se apropriarem de serve de guia para urna subjetividade que, dissociada de sua
saber - convertem-se em berc;:ários para ninar brancos condic;:ao de vivente, nao tem como encontrar palavras para o
parados e carentes que adquirem com isso urna ue lhe acontece. Em seu lugar, ela consome palavras alheias
de seres "evoluídos" e "espiritualizados", o que os acalma ~nvoltas numa aura de verdade, que lhe permite idealizá-las
um breve momento, permitindo-lhes manter-se no rn.,,.,...,, ... e através de sua mimetizac;:ao, livrar-se da autodepreciac;:ao.
lugar. Sejam quais forem as receitas para adquirir a tal cnr•nm""' i isto que a torna presa fácil de qualquer imagem ou discurso
paz, elas provocam alucinac;:oes fantasmáticas que se e a faz acatá-las como palavras de ordem.
poem a avaliac;:ao da realidade, acompanhadas de Mas só os químicos e as plataformas discursivas nao
obsessivos que permitem ao sujeito canalizar a energia garantem a composic;:ao de um contorno que devolva a sub-
sua angústia em ac;:oes que lhe devolvam a ilusao de '"""nT"'"''" jetividade um equilíbrio. É que para livrar-se da vergonha e
Nes se mesmo registro, o desejo também poderá conectar a do medo de exclusao que sua autodepreciac;:ao lhe provoca,
a subjetividade terá que mimetizar também estilos de vida
10 O movimento evangélico nao se reduz a estas vertentes fundamentalistas; que lhe devolvam, como as palavras, a sensac;:ao de pertenci-
há vertentes, inclusive, que vem desenvolvendo um trabalho comunitário na mento, condic;:ao para sentir-se existindo. Para isso, o desejo
linha da Teología da Libertac;ao proposta pela Igreja Católica e que substituí a conectará a produtos que o mercado oferece para todos os
em parte o trabalho por ela realizado mais ampla e intensamente nos anos
1960 e 1970. Daí frisar que se trata, neste caso, de Igrejas evangélicas "do gastos e segmentos sociais, sedutoramente veiculados pelos
tipo fundamentalista". meios de comunicac;:ao de massa. Tais produtos consistem

7?. O INCONSCIENTE COLON IAL-CAPITALÍSTICO 73


durante a campanha midiática que preparou
em narrativas que transmitem imagens de mund os, orrerarn ·f - de
apresentadas
. em
. cenários idílicos protagonizado s por
que oc 0 puao recente golpe de estado. Mam esta<;;oes .
0
terren. "lhares de pessoas, muitas delas vesndas coma
sonagens 1deahzados. Deslumbrada, a subjetividad hment
ruareun1arn pIIll' clamando fervorosamente pelo zmpeac ·
mimetizá-los por meio do consumo de mercadoria: d ·rado alS,
b8I1 el . Dilma Rousseff- alguns, muitos, chegando ao
das a tais cenários fornecedores de performances resldenta . ..
ter (no caso da publicidade essa dinamica é mais da P d edir a volta da ditadura m1htar.
-~mulo e P · forero os pontos escolh1dos
.,;~· · para o corte em
Co~o os remédios de tarja preta, as igrejas, as ideologias, ·am qua1s , .
5ej de interpreta<;;ao fantasmanca da causa do mal-
est1m~lado:es de autoestima e os complexos discursos bos os casos . - . -
aiil do pela desestabiliza<;;ao - introJe<;;ao ou proJe<;;ao
lectums, tms mercadorias sao usadas como perfum
. e es ....,.ar provoca ,. . ~
-e;"• _ do desejo regidas por urna micropohnca reanva tem
d1s1an;ar o odor infecto de urna vida estagnada.
-, as a~oes . d"minuirao da potencia da cond.1<;;ao - d e Vlvente,
· pro-
r~~al ~
po . d uma espécie de anemia vital, mas nem por 1sso menos .
duzln o oderosa em seus efeitos. Como naqueles cortes d a
Quando o ódio e o ressentimento interrompem a resente e P ·us em Caminhando quando se 1gnora ·
P a ressa1va d e
germina~ao de um mundo fitade Moe 1 b . .
. Cl k da política de dese] O reanva resulta a eterna repro-
Lygia u , _
_ das formas do mundo em sua atual configura<;;ao.
No segundo caso, em que a causa do mal-estaré du~ao ,. · ·d ma
t~da pela subjetividade como sendo a maldade que lhe
Sob impacto de urna micropohnca rean~a regi a. por u
0
, 1 moral a sub]. etividade dissocia-se mnda ma1s do que
na sendo supostamente direcionada de fora, o desejo .::u::1::c::Jra busso a ' se ampliamos o honzonte
. de nosso olhar para
como ponto para seu corte algo que lhe sirva de bode """'J•a•.u }he acon tece E
· '
era superfície topológico-relacional do mundo tal como
rio. Um corpo que a subjetividade esvazia de sua · ...
--·~-~., abrang
configurada na atualidade, consta~aremos ~ue_o que se e 1 :ta
d bT
par~ transformá-lo em tela branca sobre a qual projetará
razao de seu mal-estar que entao se converte em ódio e
é precisamente a potencia coleuva de cnac;ao e cooperac;ao,
sentimento. E esse outro demonizado pode ser urna pessoa, condic;ao para a construc;ao do comum, a qual emana do ?~der
de insurgir-se e, ao mesmo tempo, o fortalece. Ao. co~trar~o, o
~m povo, u~a cor de pele, urna classe social, um tipo de
que será gerado é a conservac;ao do status quo: a~s1m e a IIll~ro­
hdade, urna 1deologia, um partido, um chefe de estado etc. sao
política de uma existencia, individual ~u colenva, que de1xa
as xenofobias, as islamofobias, as homofobias, as transfobias e
sua potencia vital criadora ser expropnada, e entrega-se por
outras tantas fobias, assim como os racismos, os machismos
livre e espontfmea vontade, chegando até a faze-lo co~ fervor.
os chauvi~ismos, os nacionalismos e outros ismos. Isto pode'
Em síntese, comparando as políticas ativa e reanva das
levar a a<;;o~s extremamente agressivas, cujo poder de contágio
ac;oes do desejo, na primeira um novo equilíbrio se faz efe-
tende a cnar as condi<;;oes para o surgimento de urna massa
tivamente, por meio de um ato de criac;ao que transmuta a
fascista. Nao nos faltam exemplos disto na atualidade: para
realidade com sua forc;a instituinte; enquanto que na segunda,
ficar apenas no caso do Brasil, basta citar um dos fenómenos

75
74 O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO
ESFERAS DA INSURREI<;i\0
o equilíbrio se refaz fictícia e fugazmente por um ato QU8Ildo 0 abuso perverso se refina
na verdade, interrompe o destino da "potencia de
própria da vida para reduzi-la a"criatividade". Senda a xto do capitalismo globalitário financeirizado, como
Noconte
tividade apenas urna das capacidades indispensáveis . transmuta-se, refina-se e se intensifica o abuso per-
vu:nos,da for~a de trabalho (no sentl·d o ampo 1 d e to d o t1po
·
trabalho de cria~ao, quando esta dissocia-se do Uo.4•Jc.-...
-carpo torna-se estéril e nao faz senao recompor o· ........ ~-- ·· verso~ em que se materializa o movimento da for~a vital)
de a~ao ue constituí a essencm d a tra d"1~ao
A • - coloma. l-caplta-
.
O desejo deixa, aqui, de agir em sintonía com o que a vida
- abuso q d . .d . , .
demanda, desviando-se assim de sua fun~ao ética. . Já estamos distantes o reg¡me 1 entltano que estru-
Usoca. . . ,
É nisso que reside o veneno da micropolítica .· ....o.4. ."'' va a subjetividade no ford1smo e lhe atnbma a forma de
cultura moderna ocidental colonial-capitalística. Seus wrafor~a de trabalho (aqui no sentido literal) e de coopera-
tóxicos sao a separa~ao da subjetividade de sua for~a ;;. produz-se em sua nova dobra urna subjetividade fiexível
nal de germina~ao: estanca-se com isso a potencia aeseiana estora de sua própria potencia pulsional, o que, como men-
de cria~ao de mundos nos quais se dissolveriam os eteme:nt(l ~ionado no início, parecería favorecer sua liberdade de lhe
da cartografía do presente em que a vida se encontra o.4"~1Alilll iJnprimir um destino de expa~sao vital_- ~o entanto.' pelo fato
Assim dissociada, a subjetividade está pronta para deixar da subjetividade estar reduz1da ao SUJeito, o deseJO tende a
esta potencia seja cafetinada pelo capital e é o próprio desviar tal potencia de seu destino ético, na esperan~a de lhe
que orientará suas a~oes nessa dire~ao, fazendo com garantir sua suposta estabilidade e sua sensa~a~ de pertenci-
pulsao passe a gozar nesse lugar. mento. Com isso, o que se gera nesse processo sao formas de
Regido por esse tipo de micropolítica, o desejo passa a existencia das quais se extrai livremente capital economico,
cionar como agente reativo que interrompe o processo de político e cultural. É, portanto, por meio das a~oes do próprio
~ao de mundos. Como os gérmens de mundo que ua1uu¡u desejo que a subjetividade alimentará a acumula~ao de capi-
os carpos engendram-se no encontro entre eles, tr""""<'"lfl tal e seu poder, oferecendo-se gozosamente ao "sacrifício" -
o campo que os atravessa a todos e faz deles um só como a profissional do sexo que, enquanto nao cai a ficha, se
a interrup~ao de sua germina~ao na vida de um indivíduo oferece ao cafetao na esperan~a de que este lhe garanta nao
também, indissociavelmente, um ponto de necrose da vida só a sobrevivencia, mas o próprio direito a existir.
seu entorno. Em outras palavras, cada vida que nao se Por si só, isto já seria o suficiente para fomentar a produ~ao
aaltura do que lhe acontece prejudica a vida de toda sua de um desejo reativo. Mas há outros fatores que contribuem
relacional: o veneno que se produz propaga-se como para que esse seja o destino predominante da for~a pulsional,
peste por seus fiuxos e os intoxica, estancando seu .,..,.,,_.,.,.,an agora supostamente autogerida. Com os avan~os das tecno-
contínuo de diferencia~ao. Estes sao os efeitos de urna logías de informa~ao e comunica~ao, que no atual regime sao
sujeitada ao poder perverso do inconsciente colonial -.a 1J~ . .. . _ cada vez mais velozes, o mal-estar do paradoxo impulsio-
tico. Urna vida genérica, vida mínima, vida estéril, mísera nador dos processos de subjetiva~ao faz-se mais frequente

76 O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO 77
e mais intenso. A subjetividade fiexível é u•~-c:::s:~an .. , . a mídia constrói narrativas que, veiculadas em tom
dictano, A

bombardeada por imagens de mundo e narrativas _ 0 Ju , . amplificam e agravam a imagem da crise econo-
.J-manco,
agrava com sua prolifera<;ao robótica que as w~·- e do perigo de que ela seria portadora. Isso alimenta a
infinito-, as quais tornam seus já efemeros contamos JlllCa desesperada das subjetividades por uma saída, a qual
buscaerá oferecida pela mesma narrattva, · na fi gura fi cticia
, . de
mais rapidamente caducos. Diante disso, por estar
ao sujeito, aumenta sua vulnerabilidade a submeter-se a lhes s nagem bode expiatório sobre quem cairia a culpa
urn perso .
postas pret-a-porter as quais, como já assinalado, esses ·tuarao de crise, também ficticiamente armada. Asstm
pela s1 a constru<;ao
., . . .
da narrativa se baseta em mforma<;oes
_
mos meios lhe oferecem em abundancia. Essa dinamica
com. 0 ue sao, no entanto, se1ecwna . d as e ed'Itad as, tamb em,
o solo que sustenta aspectos essenciais do novo regime. reats q d . , . fi .
vantagem para a economía é óbvia: as ,m ercadorias mpenharao o papel de bo e expiatono guras ou parti-
dese d ·
tram na fragilidade - e em sua interpreta<;ao dos que se quer eliminar da c~na polí~ic~, em :omo os_ quais
pelo sujeito que nela projeta o perigo de exclusao, seja foca-se precisamente a sele<;ao e a edi<;ao de mforma<;oes ..
autodeprecia<;ao ou por persecutoriedade paranoide - a Veiculadas día após día, várias vezes repetidas e com dife-
para seu consumo garantido, podendo assim m~--··l-'••\,;i1r,. rentes timbres de dramaticidade, tais narrativas oferecem
ao infinito. Mas a opera<;ao de incremento da fragilidade uma pletora de sinais que confirmam a cena temida portadora
para por aí: ela é também usada na estratégia de poder do perigo de desagrega<;ao eminente, fabulada por uma sub-
duzida pela nova versao do regime, na qual aliam-se jetividade reduzida ao sujeito. Sucumbida ao medo, ao ponto
dimentos micropolíticos aos tradicionais "'v'''-'·e·.::......~;uu em que este ultrapassa o limite do metabolizável e toma-se
macropolíticos, numa tríplice alian<;a composta pelos traumático, ela está pronta para agarrar-se ao conto do bode
res Judiciário, Legislativo e midiático. expiatório para nele projetar a causa de seu mal-estar, co~o
sua única saída, ou pelo menos a mais imediatamente dis-
ponível. É, portanto, com alívio que tais narrativas sao rece-
Quando o poder se vale do desejo como sua principal birlas e adoradas como verdade por cada um - que, juntos,
somam muitos. É que elas justificam o mal-estar e permitem
Se, desde o capitalismo industrial, a mídia vem '-V .......uuu1u expulsá-lo de si o projetando sobre um outro, além de que
um importante equipamento do poder, sob a nova versao seu efeito de contágio gera urna sensa<;ao de pertencimento
regime ela ganha um protagonismo sem precedentes, em subjetividades que, por nao terem acesso ao corpo-vivo
tudo gra<;as aos avan<;os tecnológicos que permitem do mundo ao qual pertencem por princípio - acesso a partir
comunica<;ao generalizada em tempo real. Um ex,emtpl4:>~ do qual poderiam participar da constru<;ao do comum -,sen-
o que vem se fazendo em vários países da América do tem-se isoladas e temem ser humilhadas e excluídas do con-
na última década. Com base na edi<;ao de informa<;oes vívio social. As manifesta<;oes públicas massivas desse tipo de
donadas numa alian<;a entre investiga<;oes policiais e subjetividade constituem o ritual coletivo que lhes oferece a

O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO 79
78
sensa~ao de pertencer a urna comunidade homogenea nte conservadores, remanescentes de um capi-
..-remame . .
forma um todo supostamente estável, a qual substitui a e;~'~· , -finaceirizado e, na mmona dos casos, de urna
~~·smo
1 al'dadepre , . .
tru~ao múltipla e variável do comum e as protege da "P" ainda mais arcaica, pre-repubhcana, colomal e
-ent
- 1
ta Tais personagens patet1cos, . -
sao usa d os como
imaginária que essa constru~ao lhes traz. ravocra ·
É com base nesse trauma induzido que se constroe ese . ra fazer 0 trabalho sujo de expulsao de cena dos
. - para o po der sem limites do capitalismo IIl
cond1~oes 1araJlJaS pa
líticos progressistas, preparando.~ terreno par~ a tomada
tário, que passa pela tomada do poder de Estado, em po
de po er
d pelo capitalismo financemzado, mundial por sua
. _ _ .
~5es em que este todavia nao se encontra inteiramente , · natureza, já que no mapa de sua c1rcula~ao nao exis-
suas maos. Isto se faz por meio de algumas opera~5es que
propna teiras naciOnais. . · No caso do Bras1·1,. e' f ac1
' ·1 encon-
tern f ron .
revezam e se juntam em diferentes doses. A primeira sao traf esse tipo de figura nos poderes Legislativo, Execuuvo e
elei~oes mascaradas de expressao da vontade popular_ . ·an
' ·
0'
que estao neles instalados desde sempre, apenas
JUdICl .
vontade que é, na verdade, mero fruto de manipula~ao . ndo seu discurso e proced1mentos. Para ficar apenas
atual¡za . .
lista através dos procedimentos acima referidos. A ern dais exemplos mais óbvios, citemos em p~n.ne1ro lugar
sao as opera~oes fraudulentas no momento da vota~ao deputados ruralistas, danos do agronegoc10 que des-
os, i os ecossistemas e expulsa comum'd a d es m . d1genas
' de
terceira o impeachment dos governantes no poder,
tro · ·- d
necessário. Este é realizado pelo parlamento, disfar~ado seus territórios ancestrais, recuperados na Constltm~ao ~
recupera.;;ao da democracia por urna fic.;;ao jurídica que 88 _ quando nao as dizimam literalmente em um genoci-
~0 impune que sequer é veiculado pela imprensa local. Em
1
assegura a legitimidade e seu amplo apoio popular -
legitimidade que, nesse caso, é manobrada pela segundo lugar, grande parte dos deputados e~angélicos com
midiática massiva de tal fic.;;ao. Se golpes de Estado PTPn•<>n .... seu moralismo hipócrita e um ferrenho mach1smo heteronor-
pela for.;;a das armas militares interessavam ao '"'"Jt>•Lau;:.u111, mativo, patriarcal e familista, que se justifica e se legitima
industrial, estes já nao interessam ao capitalismo ~.
u .......... pela suposta vontade de Deus. Mais amplamente estao os
rizado. Estados totalitários sao urna pedra no sapato corruptos, que proliferam indistintamente por todos os par-
a livre circula.;;ao de capitais, além do fato de este tipo de tidos e que viabilizam negócios de Estado espúrios em troca
Estado promover o princípio identitário, quando o de propina das empresas, por meio de superfaturamento e
regime necessita de subjetividades flexíveis. outras falcatruas. O exemplo mais óbvio é o das empreiteiras
Em vez da for.;;a das armas militares, as armas de que se responsáveis pela constru.;;ao de equipamentos públicos que,
utiliza o capitalismo globalitário sao de duas ordens: a for~ embora sejam empresas locais, sao de capital transnacional,
pulsional e seu porta-voz, o desejo, sua arma micropolítica, com exce.;;ao de algumas como a Odebrecht.
articulada a urna alian.;;a com as for.;;as políticas locais mais O trabalho sujo consiste antes de mais nada na prepara-
reativas, sua arma macropolítica. Estas últimas encarnam- ~ao e realiza.;;ao do golpe propriamente dito. Urna vez consu-
-se em personagens ignorantes, grosseiros, abrutalhados e mado o golpe, a segunda tarefa consiste em decisoes tomadas

81
80 ESFERAS DA INSURREic;AO O INCONSCIENTE COLONIAL- CAPITALÍSTICO
rapidamente pelo poder executivo ejou legislativo, od s progressistas os quais continuam na berlinda
artiO ' _
dp t 1 destruirao. Resolve-se com essa opera~ao dms
o

vezes votadas na calada da noite, quando todos dorrne e


, sua toa ,.
em períodos de férias e feriados - especialmente os de m, ate as de um só golpe. O primeiro consiste no expurgo
roblern
os ersonagens patéticos da cena po1'mea, .
por me10. d
e
e Ano Novo, quando a sociedade está distraída com P
dos tal denad3.o
p que lhes retira o do1re1to
o d e exercer fu n~oes
-
pras compulsivas de presentes e celebra~oes em famíli sua con ,. d ,
A o d o

ansm e encenar urna 1magem de felicidade e harmoni


a, , o Isto tema vantagem suplementar de ara opera-
p~ublicas. a máscara de neutralidade, já que aparentemente a
ritmo alucinado de tais decisoes é difícil de acompanhar, a. rao urn , od , d
quando a sociedade (ou, pelo menos, parte dela) se dá ,. é imparcial pois visa nao so os part1 os a esquer a
rnesrna .
de urna dessas decisoes, já ocorreu urna outra o os os demais partidos e, com 1sso, leva a crer que a
mas ro d o o

violenta que, mais urna vez, passou despercebida. rao é seu suposto foco, que nada tena a ver com posi-
corruP,- . o olh , fi -
preciso dizer que tais decisoes consistem basicamente Oll 'ticas Gera-se assim ma1s veross1m1 an~a a c~ao
~oes p ·
desmantelar as leis trabalhistas e de previdencia social da legitirnidade constitucional que encobre o golpe de Esta~o
desresponsabilizar o Estado nos setores da educa~ao, recérn-realizado - o qual aliás continua em curso por me1o
moradia e condi~oes urbanísticas - o que atinge '""'"-•:uut:nll:ll dessa operac;ao. O terreno fica livre poaraoa toma~a ~e poder
as camadas mais desfavorecidas -, assim como privatizar por administradores for~ados no c~p1tahsmo d,e úlnmaogera-
número máximo possível de bens públicos, sobretudo - que azeitarao os tnlhos do Pa1s para o trafico mars efi-
~ao, o. o

les cobi~ados pelo capital privado por sua alta dente dos :fluxos do capital financemzado, abolmdo qualquer
No entanto, urna vez feito o trabalho sujo, come~a barreira a sua livre circula~ao. O segundo problema que se
segundo capítulo, no qual os personagens que o pv~·,..,t-.. resolve é a amplia~ao da cena económica para a disputa dos
passam a ser também eles ejetados, por meio dos me negócios locais, os quais se estenderr: a ?utrosopaíses - prin-
procedimentos jurídico-midiáticos que haviam expulsado cipalmente na América Latina e na Afnca, CUJOS mercados
cena os políticos progressistaso A estratégia consiste em foram conquistados em sua maioria pelos governos do PT.
tiplicar, dia após dia, os decretos de prisao de tais E tuda isso recebido de bra~os abertos por grande parte da
ao mesmo tempo em que se prende os donas e altos-e~xe~rn~ sociedade brasileira, a essas alturas inteiramente identificada
tivos das principais megaempresas, com eles ' " "·""'''-'U1u.tlC1Uv'Bo , com a narrativa midiática. O último capítulo dessa narrativa
A partir das dela~oes "premiadas" de uns contra os consistirá certamente em apresentar o capital financeirizado
passa-se a privilegiar as informa~oes referentes acorrup~;ao no papel de salvador da pátria que, se tiver o pleno comando
desses políticos, os quais sao filiados precisamente aos parti- do País, lhe devolverá a dignidade pública e reestabelecerá
dos que fizeram o papel de laranjas na derrubada dos arn•·-- · sua economia da grave crise deliberadamente orquestrada
nos progressistas. Estes tornam-se os novas protagonistas nos capítulos anteriores.
do papel de bode-expiatório na narrativa midiática. Isso, no Na América Latina, tais procedimentos sao usados para
entanto, nao quer dizer que se deixa de focar os políticos desmantelar os governos progressistas que tinham se

83
82 ESFERAS DA INSURREit;AO O INCONSCIENTE COLON IAL-CAPITALÍSTICO
didato(s) mais progressista(s), de modo que
instalado nas últimas décadas em alguns dos países .a;anuta o(s) can d'datos neoliberais e ultraconservado-
tinente, após a dissolw;ao das respectivas ditaduras UI"'r ~ ntre can 1 · 1 1d
-"- se de e úl . os um indesejado efe1to co atera e
d estes nm ·· d
reS, a qual Se deU a0 long0 dOS anOS 1980. É ll0 ¿¿•''"''lllCD'n
ascensao da esquerda ao poder que come~a a ser coJOCf~bi~
p•-
°
res _ sen mento pe1o pro, prio capitalismo financemza do
seriado da nova modalidade de golpe. O primeiro ....U'u, ......
seu eiilPoder~ s neles se apoia na prepara~ao da toma a
~tt~e coii1° VImo ' d Peru 13 em que 0 candidato progres-
da consuma~ao da nova estratégia de poder foi a ""'".. '~­ '1- ' É 0 caso o '
de poder. u de 1onge para o neolibera1, o qua1 ~enceu. com
de Fernando Lugo da presidencia do Paraguai em
sista perde d diferenra em re1a~ao a candidata
comprovada a eficácia do novo conceito de golpe, a nr,.......... rg em pequena e ,
1Jilla rna
do seriado no Brasil, que havia come~ado a ser ~'-'J"'-~; 011 ervadora.
ultraCO ns
em 2002 com a elei~ao de Lula, intensifica-se e toma-se
veloz dia após dia, culminando com o impeachment da
roduz traumas e deles se alimenta
sidenta Dilma Rousseff em 2016. Nas mencionadas como o abuso P
manifesta~oes de massa a favor de sua destitui~ao, o
. . .dad e fiexíve1 produzida por es se re gime é, por-
"A culpa é da Dilma", que pouco a pouco tomou coma
A subjetlVl . , .o mantida constantemente em estado de
ticamente das ruas e pra~as por todo o País, surgiu tanto e por pnnclpl '
mente do consumo da fic~ao que a mídia havia rnnc::1rt>nfAol leitoral ara substituir Ollanta Humala ao fina~
tendo a presidenta, o Partido dos Trabalhadores e seus 13 ourante a campa~:i~encia d:Peru em meados de 2~16: ~~~ figura fm
dros- principalmente seu líder, Lula da Silva- no papel de seu mandato n.a ? . d s oderes midiático, JUdiCiano e _P~~a­
destruída pela tnpl~c~ all:~:tic~m~nte sua aprova~ao de 57,3% no lillClO
cipal de bodes expiatórios. 12 Isso tem acontecido em mentar, que logrou alXar d s elei~oes A disputa ficou entao entre
países latino-americanos quando ainda resta a seus PHVf'lTill'llllll de seu mandato para 1_6% ndo ano a hoie do~inam a cena mundial: o han-
es dos dms po eres que J di . P dro
tes progressistas algum tempo de mandato. representant . t eoliberal de centro- re1ta, e
. t'mentos
1 e econorrus a n . filh a
queiro de mves ndidata de extrema- re1 ,
di ·ta Keiko Fujimon -
. .
Já em outras situa~oes, quando seus mandatos estao ki
Pablo Kuczyns , e a ca .. . ditador particularmente simstro que
ximos do término, a estratégia midiá do ex-presidente Alberto Fu)lmon, um h . está cumprindo sua conde-
g ovemou o país entre 1990 e 2000, e_ ques doe~ceorruprao sequestro e assas-
tar se inscreve na prepara~ao das elei~oes, eliminando da d · - por seus cnme .,. '
na~ao a 25 anos e pnsao . l e .d dea. que foi levada contra Humala
mpanha de ¡gua leroCl a d d
sinato. U ma ca - das for as conservadoras, · an °
foi dirigida a representante da ascensao H . ~ Kuczynski já nao é presi-
u A estratégia midiática-judiciária-parlamentar que preparou o "golpe" no . al um quase empate. OJe,
vitória a seu nv , mas n dal'd d de golpe o engoliu, tendo
Paraguai teve início em 2008 e se consumou em 2012. A t ' aia da nova mo 1 a e
dente do Peru. . e~t:a e,. ( 2018) e substituído pelo vice-presidente
12 A narrativa ficcionallogra enfeiti~ar as massas porque ecoa em sua subje- sido deposto no mlClO deste ano . do Congresso inclusive da
tividade nao só por estar fragilizada pela ameac;a da crise propagada por tal Martín Vizcarra e omeJO,
· que canta.. com. apmo. cl·pal foco de 'acusa~ao que
·d d K iko FuJimon. 0 pnn
fic~ao. A base para o sucesso do feitic;o é também o fato de sua pulsao vital For~a Popular, partl o e e r - com a Odebrecht que, nao por
estar sob cafetinagem e de sua estrutura ser fortemente marcada pela tradi- levou a seu impeachment foram suas Ignha~oes el de bode-expiatório da
~ao colonial-escravagista, da qua! faz parte um sólido preconceito de classe, acaso no mesmo momento desempe ava o pap .
inclusive entre os que se encontram na base da piramide social. hora ~a segunda temporada do seriado do golpe no BrasiL

85
84 O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO
ESFERAS DA INSURREI<;ÁO
fragilidade beirando o trauma e chegando, muitas e da amea~a imaginária gerada na subjetividade por
ultrapassar esse limiar, so~obrando no naufrágio. Isto se nutr a~ao da condi~ao de vivente e, ao mesmo tempo,
. d A • •

por mew os tres procedimentos ac1ma referidos: sua


se soa sepafr tasma dessa amea~a, mantendo a subjetividade
.
nu~ow reduriio. A situa~ao que estamos viVendo .
e urna
~ao ao sujeito, o constante colapso de suas formas d ·va nessa ., _ . .
A • . e ~o dora desse perigo real e nao ha garantla alguma de que
tenc1a e de seus respectivos sentidos, colapso ~"''-VIJew
pelo suprimento imediato de narrativas fictícias que lhe íllcuba ser evitado. o uso da micropolítica pelo capitalismo
inculcadas diariamente pela mídia. Há ainda, no
elepossa · · ado transnacional para obter poder macropo1'1t1co,
.
financemz .
um quarto procedimento do capitalismo financeirizado o uso de políticos disponíveis para o trabalho SUJO
d 0 a
soma. emento do conservadorismo, tem grandes chances
contribuí para essa fragiliza~ao da subjetividade, ..,,.._.,~-·~­ e ao mcr - . . . •
nas camadas mais desfavorecidas: a precariza~ao da ir uma crise de propor~oes mcontrolave1s. E pre-
depro duz
de trabalho legalizada pela anula~ao das leis tra~~....,..,,. . ente 0 que já está acontecendo e que torna a atmosfera
CISaiil 'd A . d E
por parte dos Estados neoliberais, anula~ao que se irfespirável. A elei~ao de Trump para a pres.1 ~ncm os sta-
no argumento de que assim cada trabalhador terá dos Unidos e de candidatos de extrema-d1re1ta na Europa,
mia para negociar. Tal ilusao sustenta-se na destrui~ao . amo 0 Brexit e o vislumbre de desmantelamento
ass1m e . . .
imaginário progressista acima referida e, ao mesmo da Uniao Europeia sao apenas seus smtomas mms gntan-
a sustenta e a refor~a. Ora, tal precariza~ao sornada a ambém no plano local nao faltam exemplos, mas eles
tes. T
suposta autonomía deixa as subjetividades mais '",..,,,~~-"" - tantos que elencá-los tomaría um espa~o infinito e nos
0
zadas e impossibilitadas de agir. É quando elas ~astariam de nosso foco - além de que, citá-los aquí seria
mais vulneráveis ao abuso, prontas para entregar sua desnecessário e redundante, já que estao amplamente pre-
pulsional acafetinagem, na ilusao de que esta lhes trará sentes nos noticiários cotidianos e urna vasta bibliografia os
volta um contorno e um lugar. E, mais amplamente, é descreve e analisa.
também que a potencia coletiva de cria~ao e cnf"'n.,.,..,,.x; o que importa aqui é reconhecer que nessa balan~a instá-
é canalizada para sustentar e alimentar o status quo - vel entre neoliberalismo e conservadorismo extremo, tempo-
por meio da apropria~ao da for~a de trabalho, do rariamente associados, o peso pode pender para o segundo
desenfreado, do apoio massivo a golpes de estado ou e com pleno apoio das massas que, como torcidas organiza-
rais, ou de outras estratégias micropolíticas do regime das, regridem ao princípio identitário em sua máxima rigi-
nao evocadas. Em suma, é assim que a potencia do dez, tanto no plano individual e de grupos - como classe,
é desviada de seu destino ético, ativo e criador, para etnia, genero, ra~a etc. - quanto no plano nacional. Essa
apropriada pelo capital e converter-se em potencia amea~a paira hoje sobre o planeta, o que para o capital
de submissao. transnacional implica na amea~a de fechamento das portas
É nisto que reside a perversao do regime colonial-c~tpi1tali:J.J a seu livre fl.uxo. Em síntese, o tiro do capitalismo financei-
tico em sua nova versao e, também, seu real perigo. O regime rizado parece estar saindo pela culatra. Isto nao nos traz

O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO
87
86
vantagem alguma, pois tanto o regime \...u.Lul.uaJ-1 ara além dessa tarefa, é preciso também tomar para si
pdas, p d o o _

em sua nova versao quanto a volta de um ... uu¡:,•;:;r onsabilida e como ser VIvo e 1utar pe1a reapropnar;ao
a respotencias d e cnar;ao
o - e cooperar;ao- e pe1a constru<;:ao
- do
nacionalista, arcaico e fatal - efeito inevitável do
regime e que o coloca em crise por sua própria lógica _ daS ~m que dela depende. Em outras palavras, nao basta um
corn d ,
igualmente nefastos, embora de diferentes maneiras. Nao bate pelo po er macropo11t1co e contra aque 1es que o
o

corn b
d tern, há que se levar igualmente um com ate pe1a poten-
A

trata aqui de escolher qual deles é menos pior, pois


ambos intrinsecamente ligados, o mais grave é .: afirmativa de uma micropolítica ativa, a ser investida em
essa sua explosiva combina<;:ao. Cl da uma de nossas a<;:oes cotidianas - inclusive naquelas
É exatamente a essa situar;ao que se refere o termo ':e implicam nossa relar;ao com o Estado, que estejamos
tro", evocado no início deste ensaio para qualificar a ~entro ou fora dele. Nao será exatamente esse o combate
fera que nos envolve na atualidade. A mescla de que está sendo levado pelo novo tipo de ativismo que vem
tempos da história do capitalismo, todos eles em sua proliferando pelo planeta?
mais perversa, complexifica ainda mais as dinamicas do Torna-se, pois, indispensável pensar e agir na direr;ao de
e, consequentemente, também sua decifra<;:ao e a ... v ..n•- urna micropolítica ativa de modo a enfrentar essa situa-
de estratégias para combate-las. Se isto é alarmante, há ~ao igualmente no plano da subjetividade, do desejo e do
se reconhecer que, exatamente por essa razao, nos pensamento - plano no qual se sustenta existencialmente
expandir e complexificar a própria no<;:ao de 0
capitalismo financeirizado transnacional em suas facetas
mais amplamente, de política. Isto gera um certo alento, tanto neoliberal quanto conservadora, seu adversário mons-
contracorrente da tendencia a sucumbir ao medo e as truoso que ele próprio gerou. Conquistar essa possibilidade
tuais rea<;:oes que provoca: seja a paralisia melancólica, depende da quebra do feiti<;:o do poder tsunamico da micro-
urna pressa de agir para dele livrar-se, agarrando-se a política reativa do capitalismo globalitário, que se alastra por
concepr;oes de resistencia que nao fazem mais sentido -o todas as esferas da vida humana, destruindo seus modos de
talvez seja o caso do próprio conceito de resistencia, malTead vida e, sobretudo, sua potencia essencial de cria<;:ao e trans-
por urna lógica da nega<;:ao, da oposir;ao, da nao aceita<;:ao, mutar;aoo Isto implica na desidentifica<;:ao com os modos de
nao inclui a positividade de urna ar;ao transformadora. vida que o regime constrói no lugar daqueles que devastou,
Face a esse novo cenário, fica evidente que nao afim de que possamos desertá-los - nao para voltar as for-
tomar para si a responsabilidade como cidadao e lutalf mas do passado, mas para inventar outras, em fun<;:ao dos
urna distribui<;:ao mais justa dos bens materiais e uu.,n...l.I.CU gérmens de futuros incubados no presente. Só assim é que
bem como dos direitos civis e, para além deles, do a ideia de reapropriar-se da forr;a coletiva de cria<;:ao e coo-
direito de existir. Isto é o mínimo que se deva almejalf, perar;ao, meio indeclinável para combater o atual estado de
quando nao se assume sequer essa responsabilidade é coisas, tem chances de sair do papel e dos sonhos utópicos
que a dissociar;ao chegou a um grau de patologia para tomar-se realidade.

88 O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALfSTICO 89
Quando pensar e resistir tornam-se urna só e mesma b"etividades que o encontram, ou mais precisamente,
das su J - d f' .
a "polinizac;:ao";14 a "transfigurac;:ao" a super 1c1e topo-
Eu dizia no início deste texto que nao é por decreto da ~: ·ca-relacional de um mundo em sua forma vigent·e·pela
tade ou pela boa intenc;;ao da consciencia que se logra agir gi - desse corpo estranho e m seu contorno fam1har; a
¡rrup~a 0 .
direc;;ao dessa reapropriac;;ao. Agora talvez fique mais claro ''transvalora~ao" dos valores que nel~ predommam. .
que eu sugería que esse é um trabalho que deve ser feíto á da perspectiva de seu polo reat1vo, pensar cons1ste em
cada um, em sua própria subjetividade- e sua trama J ¡:
r-se" aos atetos, '
as turbu lA • que ocaswnam
enc1as • e
"ensurdece . ..
nal da qual ela é indissociável -, de modo a deslocar-se da , s demandas da vida que estas necessanamente mob1hzam;
missao ao poder do inconsciente colonial-capitalístico. "a efletir", como um espelho, urna suposta verdade que estaría
fique igualmente mais claro por que eu afirmava que, r ulta na escuridao da ignorancia e que "explicaría" a dester-
seca a essa tarefa, está a necessidade de deslocar-se no ~
·wrializac;:ao - delírio de um sentido que a mascara e supoe
-
do pensamento - nao em seu conteúdo, mas no próprio n controle; "revelar" essa suposta ver d ad e, ""1
seu ·
1 umman d o-a"
cípio que rege sua produc;;ao, do qual resultam j com 0 farol da razao - nesse caso, restrita a fórmulas retóri-
seus conteúdos e seus modos de avaliac;:ao do presente. cas vazias por emanarem da dissociac;:ao da experiencia real.
siderando que a cada modo de produc;:ao da subjetividade Em suma, pensar aqui significa racionalizar o desconforto,
do desejo corresponde um modo de produc;:ao do denegando o que estranha ao transformá-lo em familiar. O
vale a pena retomarmos aqui aqueles dois polos fictícios efeito do pensamento exercido dessa perspectiva tende a ser
ampla gama de ffiicropolíticas, da ffiaÍS ativa a ffiais YP<If";.,... 0 "contágio despotencializador" das subjetividades que o
para examinarmos brevemente em que se diferenciariam encontram, o que contribuí para a "interrupc;;ao do processo
princípios que regem a produc;:ao do pensamento em de polinizac;;ao", promovendo um "aborto da germinac;:ao de
urna delas e seus efeitos nos destinos da vida social. futuros". O que resulta disso é a "reproduc;:ao" da cartografia
Da perspectiva ética do exercício do pensamento, a qual vigente e seus valores.
rege as ac;;oes do desejo no polo ativo, pensar consiste em Qualifico de "antropo-falo-ego-logocentrica" essa política
"escutar" os efeitos que as forc;:as da atmosfera ambiente reativa de produc;:ao do pensamento, regida pelo inconsciente
produzem no corpo, as turbulencias que nele provocam e a
pulsac;;ao de mundos larvares que, gerados nessa fecunda~io,
14 O termo "poliniza<;ao" me foi sugerido por Rolf Abderhalden, artista, fun-
anunciam-se ao saber-do-vivo; "implicar-se" no movimento
dador do Mapa Teatro junto a Heide Abderhalden e do Mestrado de Artes
de desterritorializac;:ao que tais gérmens de mundo dispa- Vivas na Universidade Nacional da Colombia. Ele aponta que o termo "contá-
ram; e, guiados por essa escuta e essa implicac;:ao, gio" tem sua origem na Medicina e é deste campo que foi extraído pela Socio-
urna expressao para aquilo que pede passagem, de modo que logia. Tendo em vista que o termo contágio diz respeito a"contamina<;ao" de
doen<;as, reservarei ambos para qualificar os fenomenos de prolifera<;ao de
ganhe um corpo concreto. Os efeitos do pensamento exercido políticas de desejo reativas, mantendo a no<;ao de "poliniza<;ao" apenas para
dessa perspectiva tendem a ser: o "contágio potencializador" os fenomenos de prolifera<;ao de políticas de desejo ativas.

90 ESFERAS DA INSURREI<;:AO O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO 91


colonial-capitalístico. Diante de seu poder, que se ~ desses mundos estivesse, no caso, restrita a
alizac;ao . ~
cada vez mais, nao basta problematizar os conceitos a atu de arte - c0 ssem elas pinturas, esculturas, mstalac;oes
1'
política produziu e continua produzindo; há que obras _ quando estas logravam encarnar a pulsac;ao de
tizar o próprio princípio que a rege. Tal desafio implica ou outrasd ' or vir tinham o poder de potenc1a · 1d e po1·m1za- ·
. mun osp ,
reativarmos o saber-do-vivo no exercício do t-''"'·..~•:ouJ:t:n:n ws mbientes nos quais circulavam.
...ao dos a ~ d .
modo a liberá-lo de seu encarceramento nesse seco '~"" to _e nao por acaso - , soba nova versao o reg1me
Noentan ·
trismo e seus falsos problemas - consequencia de seu . 1 afetinístico a arte tornou-se um campo espec1a1-
olonla -e ' . . ~ d
cio dos fluxos vitais e dos verdadeiros problemas que e bil'ado como fonte privilegiada de apropnac;ao a
mente co , . . .
movimentos lhe colocam. É preciso estar aespreita · dora pelo cap1tahsmo com o fim de mstrumenta-
forc;a cna 1 ~
que o saber-do-vivo nos indica, do que depende a • Abre-se assim urna nova fronteira para a acumu ac;ao
1
lizá- a. 1
a astúcia necessárias para resistir ao poder da equipe · 1 por meio do uso que se faz da arte para avagem
de cap1ta , . , . d.
fantasmas nascidos da submissao ao inconsciente ""'''~-··· dinheiro, já que permite urna das ma1s rap1das e extraor 1-
-capitalístico, que ainda hoje comanda as d~
nwu
. multiplicad)es do capital investido com base em pura
> , .
orienta as jogadas do desejo. Daí o sentido de afirmar ('ao Mas a coisa nao para por m: tal mstrumenta-
especula, · ,. . .
dessa perspectiva, pensar e insurgir-se passam a ser uma · ao também tem objetiVOS micropohtlCOS. 0 pnme1r0
hzac; d , . , .
e mesma coisa. tralizar a forc;a transfiguradora as prancas art1st1cas,
é neu d. · d
re duzm · do-as ao mero exercício da criatividade, . 1ssocm . a
de sua func;ao ética de dar corpo ao que a Vlda anuncm. O
Mas o que, afinal, teria a arte a ver com tudo isso?
segundo obietivo
J
micropolítico consiste em valer-se da• arte •
mo passaporte para ser admitido nos saloes internac10nms
co ' .
Se as práticas artísticas teriam sem dúvida muito a nos das elites do capitalismo financeirizado. E que o figunno com
nar para enfrentarmos a exigencia de resistir no ambito que se vestem tais elites incluí ser colecionador, ter na ponta
produc;ao do pensamento e suas ac;oes - substituindo a da língua dois ou tres nomes de artistas e curadores entre as
pectiva antropo-falo-ego-logocentrica por urna oeJrso,ectiWI estrelas midiáticas da hora - que, nao por acaso, sao sempre
ético-estético-clínico-política -, é também inegável que os que se encontram na crista da onda do mercado da arte
o atual regime essa potencia própria da arte se ,.,+....,,"...... _ e, por fim, fazer turismo nos espac;os institucionais a el.a
ceu. N as sociedades ocidentais e ocidentalizadas, onde consagrados, sobretudo em seu circuito mundial. Consu~ur
origem a instituic;ao da arte há pouco mais de dois arte contemporanea, ou pelo menos exibir-se em seus saloes,
esta constituía até recentemente o único campo de distingue essas elites das elites tradicionais do capitalismo,
dad e humana onde a potencia de criac;ao estava autorizada a anteriores asua financeirizac;ao, evitando assim o risco de
exercer-se, tornando sensíveis os mundos virtuais que serem consideradas bregas, o que facilita seus negócios. Isto
tavam os carpos fecundados pelo ar do tempo. E ainda que é especialmente patético no caso das elites sul-americanas

92 O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO
93
que, ao vestir es se figurino, revelam seus ridículos ~~·"v•s-_..,,,11 anfletos, veículos macropolíticos de conscientiza~ao,
de colonizados para encobrir sua baixa autoestima. P
em úncia · - 1·d eo1'og¡ca.
e transmissao · Trata-se aqm,· d·c
llerente-
den de urna potencia m1cropo l'1t1ca
A • • . que vem se afi rman d o
essas novas elites intemacionais dominam o mercado da rnente ,
por seu poder de compra de obras e, mais grave do que campos da arte em ciclos sucessivos desde os anos 1960,
nos . "d , . . .
elas tem em suas maos o poder da maioria dos também e cada vez mms assum1 a por prat1cas soc1a1s
sendo
museus por meio da participa~ao em seus conselhos, os ativistas fora desse campo.
tas tendem a adequar-se as suas demandas para terem e No campo específico da arte, tal movimento abrange nao
lugar garantido em seus sal6es. É assim que, também ó as práticas artísticas, mas todos as demais atividades que
campo, a potencia de cria~ao vai senda desviada de seu :le envolve: curadoria, gestao de museus, crítica, história etc.
tino ético e levada para a dire~ao de produzir mercadorias 0
que tem em comum as práticas curatoriais cujo pensa-
ativos financeiros. mento insere-se nessa perspectiva é a vontade de promover o
Por serem tais fenomenos hoje plenamente mencionado deslocamento do paradigma cultural dominante.
descreve-los aquí exaustivamente seria perda de tempo. Quando se logra trazer para a experiencia de urna proposta
a pena, no entanto, assinalar que exatamente pelo fato curatorial - seja ela realizada em museus ou fora deles - a
que tem se tomado cada vez mais difícil praticar o pulsa~ao dos gérmens de mundo que batem a porta das for-
mento de urna perspectiva ético-estético-clínico-política mas cristalizadas, estes sao potencialmente portadores de
também nas a~6es no campo da arte, muitos artistas tem efeitos de poliniza~ao. E mesmo que tal pulsa~ao se refira a
se dedicado a práticas que fazem da problematiza~ao desse movimentos artísticos do passado, a possibilidade de haver
estado de coisas a matéria prima de sua obra. Como exposto tais efeitos extrapola seu tempo e, inclusive, o espa~o restrito
no início, tais práticas tendem a transbordar as fronteiras da arte. É que se as referidas formas ficaram no passado, a
campo da arte para habitar urna transterritorialidade pulsao que levou a germina~ao dos mundos em potencial
se encontram e desencontram com práticas ativistas de que as habitam pode ser reativada a qualquer momento. Isso
toda espécie - feminist as, ecológicas, antirracistas, llll.lll!!t! .. faz com que os gérmens de futuro, que ficaram soterrados
nas, assim como os movimentos dos LGBTQI, os que pela interrup~ao desse processo, possam ser ativados no pre-
pelo direito a moradia e contra a gentrifica~ao, entre sente, engendrando outros cenários, diferentes daqueles do
Nesses encontros e desencontros entre práticas ....... ~ .. u""" passado. E, se nada garante que os efeitos de que sao porta-
produzem-se devires singulares de cada urna delas na dores aconte~am de fato, é porque no ambito das resisten-
~ao da constru~ao de um comum. cias micropolíticas nada pode ser previsto e muito menos
E aquí nos coloco urna pergunta, caro leitor: nao residiria garantido. Seja qual for o ambito de atividade humana em
precisamente no acontecimento desses devires a potencia que se de a insurrei~ao nessa esfera, sempre se confrontarao
política da arte? Isto é muito distinto de urna certa ideia de diferentes graus de for~as ativas e reativas na defini~ao das
"arte política" ou "arte engajada" que converte suas práticas formas do presente.

94 O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO 95
A crenc;a no paraíso é urna droga an finale, expectativa própria de urna subjetividade
de1J1Il~ ·
"da ao sujeito, sua Ignorancia dosaber- do-VIvo
A • · e seus
redUZl entes delírios. Estar aaltura das demandas vitais leva
Nesse sentido, há que se desfazer da cren<;a no delírio consequtro tipo de gozo, p· , deslocado das demandas egmcas.
· ·
controle permanente e definitivo das engrenagens sociais aurnou
levaria a urna suposta plena realiza<;ao do potencial gozovital. ·
Tal cren<;a é herdeira das no<;oes de "salva<;ao" das ~abe aqui nos colocar urna última pergunta, caro leitor: nao
monoteístas ocidentais e de sua ideia de "paraíso"; a recisamente no enfrentamento desse desafio que mora
será P·do e sabor de urna VI.da que ms1ste
. . em perseverar.'
diferen<;a é a promessa de que o paraíso pode e deve osen 1
t 0

encontrado nessa vida e nao apenas após a morte. Tal


é fruto de urna política de subjetiva<;ao anrrr•,..,.r• ~·.-:;.•.v-o;::un.
gocentrica, reduzida ao sujeito e orientada pelo ···~vu;~~~t:a
colonial-capitalístico. Há nela urna denega<;ao do
entre o plano das for<;as e sua complexa e paradoxal
com o plano das formas, no qual sempre germinam
modos de existencia, num processo de cria<;ao sem fim.
Na esfera do combate micropolítico, a imagem do
é a de um mundo onde a vida encontrarla enfim sua
paz eterna. N a esfera do combate macro, a imagem do
tem duas versees: a do paraíso da igualdade de urna
dade socialista ou o da "livre" competi<;ao do mercado
ral. Ambas as imagens, concebidas após a primeira rP,rnJ,,., .
industrial, denegam a esfera micropolítica. No caso da
gem própria das esquerdas - sobretudo as tradicionais e
ainda as institucionais -tal denega<;ao é em parte
por sua mencionada impotencia diante dos impasses
do regime colonial-capitalístico e suas perversas nn.~r<ll ....í'U
na esfera micropolítica.
Abandonar a ideia de paraíso, assim como a de ap•OClillJMI
a outra face da mesma moeda, é um dos desafios do .._v•.uu.1111
micropolítico ao regime colonial-capitalístico, a favor de
vida nao cafetinada. Por defini<;ao, tal protesto dos
dentes é um combate que jamais chega a esse suposto

O INCONSCIENTE COLONIAL-CAPITALÍSTICO
97
96
o esgotamento dos recursos naturais provavelmente está
muito menos avanrado do que o esgotamento dos recursos
subjetivos, dos recursos vitais que atinge nossos contem-
poraneos. Se nos satisfazemos tanto em detalhar a devas-
tariio do ambiente, é também para cobrir a assustadora
ruína das subjetividades. Cada maré negra, cada planície
estéril, cada extinriio de espécies é uma imagem das almas
em Jarrapos, um reflexo de nossa ausencia de mundo, de
nossa impotencia íntima para habitá-lo.
Comite Invisível'

É a relariio da subjetividade com sua exterioridade - seja


ela social, animal, vegetal, cósmica - que se encontra com-
prometida numa espécie de movimento geral de implosao
e infantilizariio regressiva. A alteridade tende a perder
toda a aspereza.
Félix Guattari 2

o planeta encontra-se hoje sob o impacto de forc;as voraz-


mente destrutivas- e nós com ele. Um mal-estar alastra-se
por toda parte: sao várias as sensac;oes que nos lanc;am nesse
estado. Urna perplexidade diante da tomada de poder mun-
dial pelo regime capitalista em sua nova dobra- financeiri-
zada e neoliberal -, que leva seu projeto colonial as últimas
consequencias, sua realizac;ao globalitária. Junto coma per-
plexidade diante desse fenómeno, somos tomados por um
pavor diante de um outro, simultaneo, que contribuí para o

1 Comite Invisível, Aos Nossos Amigos: crise e insurreiqiio, trad. Edi<;5es Antipá-
ticas, Sao Paulo: n-1 edi<;5es, 2016, pp. 37-38.
Félix Guattari, As tres Ecologías, trad. Maria Cristina F. Bittencourt, Campi-
2.
nas: Papirus, 2012 (21aed), p.8.

99
ar tóxico da paisagem ambiente: a ascensao de for~as am 0 regime na realizac;ao desses objetivos. E se
vado ras, com tal nível de violencia e barbárie que nos e estorv . . b
qu oconse rvadores ace1tam A • ,
a mcum enc1a e porque nesses
para ficarmos apenas nos exemplos mais recente
1930 que antecederam a Segunda Guerra Mundial
s, os _.,.ne.(lVOS es pecíficos seus interesses coincidem com os dos
OS
. e, u-JJe. ·s que permite sua alianc;a temporária.
normente, os anos de regimes ditatoriais que foram ....nbberai ' 0 d , . d
""- ubietividade dos neoconserva ores e arrmga a-
solvendo ao longo dos anos 1980 (os regimes Ato~es J •
ssista e racista, o que os leva a cumpnr seu papel
América do Sul e o governo totalitário da Uniao ente e1a . , . . d
en~re outros). É como se tais for9as jamais tivessem
111
ssa cena sem qualquer barre1ra etlca e numa veloc1da e
nerttginOS
. . a· Quando nem bem nos damos canta de urna de
r:c.Id~ de fa~o, mas apenas feíto um recuo estratégico ve
rano a espre1ta de condi9oes favoráveis para sua volta suas tacadas ' urna outra já está em vias de acontecer, geral-,
decidida pelo Congresso na calada da noite. O exerci-
retomando seu looping que parece nunca ter fim. 111ente , .
cío dessa tarefa lhes proporciona um gozo narcisico perverso,
atal ponto inescrupuloso, que chega a ser obsceno. Com seu
balho sujo gozosamente realizado, prepara-se o ter_reno
Neoliberalismo e (neo) conservadorismo
tra ampliar ao máximo o livre fluxo de capital transnac10nal,
para
já instalado no Pa1s , h a' vanas
, . deca
' das.
Aprimeira vista, a simultaneidade entre esses dais rer1ontJ.em
nos parece paradoxal: sao síntomas de for9as reativas
~ente distintos, assim como sao distintos seus tempos
0 mal-estar ultrapassa um limiar de tolerabilidade: o trauma
neos. o alto grau de complexidade, flexibilidade e uv••O>I.J.UJII
perversa, próprio do modo de existencia neoliberal e Mas 0 mal-estar nao para por aí: soma-se aperplexidade e ao
estratégias de poder, está a anos luz do arcaísmo un;éi.UIHJ
pavor urna profunda frustra9ao c~m .a atu.al,dissolu9ao em
da rigidez das for9as abrutalhadas desse ll<:;IJl..L•u:slcr cascata de vários governos de tendencia ma1s a esquerda pelo
- cujo prefixo "neo" só faz sentido porque articula-se mundo, especialmente na América Latina- fruto da ascensao
condi9oes sócio-político-economicas distintas das das forc;as reativas do conservadorismo e do neoliberalismo,
Porém, passado o choque inicial, vai se tornando P\11111'"'"' temporariamente unidas. Tal frustra9ao mobiliza a memória
que o capitalismo financeirizado precisa dessas su"',.,,.,._;.¡ traumática da decepc;ao como destino funesto das revoluc;oes
des rudes no poder, para fazer o trabalho sujo ·m~>resctndllvl do século XX, que se agrava com a constata9ao da impotencia
para a instala9ao de um Estado neoliberal: destruir todas das esquerdas face a esse novo cenário.
conquistas democráticas e republicanas, dissolver seu Com a soma dessas sensa9oes - perplexidade, pavor, frus-
ginário e erradicar da cena seus protagonistas. Entre trac;ao e decepc;ao- o mal-estar ultrapassa um limar de tole-
sao escolhidos prioritariamente OS protagonistas a eSClUC:~rcH rabilidade. Um estado de alerta instala-se na subjetividade,
em todos seus matizes, embora a eje¡;ao inclua todos aalllellell como quando a escassez de recursos essenciais avida passa

100
INSURGENCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA 101
de um limiar que a coloca em risco. Somos entao danc;a de estratégia o que nos surpreende nesses novos
por urna urgencia que convoca o desejo a agir. As [JlUvimentos insurrecionais? Nao será precisamente isso o que
do desejo a essas situa<;:5es traumáticas oscilam entre [Jl~es nos fascina, apesar da dificuldade de decifrá-lo e nomeá-
extremos: um polo reativo, patológico, no qual nos ne . , . d .
? E nao será justamente a ex1stenc1a es ses moVlmentos o
tencializamos, e um polo ativo no qual se preserva ~l:e tem nos impedido de sucumbir aparalisia melancólica e
potencia vital, tendendo inclusive a intensificar-se. ~talista em que nos lan<;:a a sombría paisagem que hoje nos
segunda resposta ao trauma, amplia-se o alcance de odeia? Nesses territórios e m vias de forma<;:ao, que vem sendo
mirada, o que nos permite ser mais capazes de ac1es~;a1'l
efeitos da violencia em nossos corpos, de sermos mais
cisos em sua decifra<;:ao e expressao e, com isso, mais
:m
r da vez mais povoados, há urna complexifica<;:ao do alvo de
bate, o qual passa a incluir um deslocamento das políticas
de subjetiva<;:ao dominantes. O horizonte que se alcan<;:a com
a inventar maneiras de combate-los. É nessa experiencia essa nova modalidade de combate expande a abrangencia de
despontam insurgencias na cena social, n.a.-+-...... - - nossa visao, nos permitindo vislumbrar mais nítidamente a
novas estratégias em fun<;:ao dos problemas singulares esfera micropolítica. Mas como se opera, nessa esfera, a vio-
as defiagraram. lencia do regime colonial-capitalístico? 4
Assim sao as insurgencias que vem irrompendo por
parte e que tem introduzido estratégias nas quais 0
direitajesquerda deixa de ser um operador suficiente elei~oes, em 2018. Vale frisar que tais conquistas na esfera macropolítica ain-
da estao muito longe de urna ampla consolida<;ao de seus direitos.
delinear as for<;:as em jogo e acertar os alvos do combate.
movimentos de insubordina<;:ao que tem surgido so 4 "Capitalístico" é urna no<;ao proposta por Félix Guattari. O psicanalista
franci!s parte da ideia de Karl Marx de que o capital sobrecodifica os valores
nas gera<;:5es mais jovens (em especial nas periferias dos de troca, submetendo assim o conjunto do processo produtivo a seus desíg-
tros urbanos e, mais especialmente, entre negros, ..........,.u,1 nios. Guattari estende essa ideia aos modos de subjetiva<;ao que, sobo regime
capitalista, sao igualmente sobrecodificados. Isto tem por efeito calar a sin-
LGBTQI), assim como nos povos indígenas e nas coJnwllll gularidade dos idiomas próprios a cada vida. Mais grave ainda é seu efeito
des quilombolas. 3 Ora, nao será exatamente a presen~a de interrup<;ao dos devires - processos de singulariza<;ao que se desencade-
ariam nos encontros entre os corpos e seus idiomas próprios -, assim como
de bloqueio da transmuta<;ao da realidade e da transvalora<;ao dos valores
3 Embora tais movimentos tenham comerado no Brasil bem antes há que tais processos tenderiam a produzir. Como na economía, com essa ope-
te peno' d o um nítido avan<;o nao só quantitativo,
" '
mas também QWilitlld ra~ao, as subjetividades tendero a submeter-se aos propósitos do regime os
eles passam a atuar igualmente na esfera micropolítica; fenómeno que investindo com seu próprio desejo, reproduzindo o status qua em suas esco-
re também na cena internacional. Mas o fato de suas agendas nao lhas e a~oes . O sufixo "ístico" acrescentado pelo autor a "capitalista" refere-
limitarem a resistencia macropolítica marcada pela reivindica<;ao -se a essa sobrecodifica<;ao, urna das opera<;6es micropolíticas medulares
ria nao quer dizer que sua Juta nao continue nessa esfera, na qua!, desse regime, a qua! incide sobre todos os domínios da existencia humana.
tem conseguido alguns logros significativos como a promulga<;ao de Esta constitui urna das ideias mais inovadoras e fecundas do pensamento de
protegem seus direitos e a amplia<;ao da presen<;a na política de Guattari, tendo sido retomada em sua posterior parceria com Gilles Deleuze
e membros das comunidades LGBTQI, negra e indigena. Um ext~ffiJ)IO desde O Anti-Édipo, seu primeiro livro em coautoria, como um dos principais
candidatura de Sonia Guajajara avice-presidencia do Brasil para as eixos de sua obra conjunta.

102 INSURGENCIAS MACRO E M ICROPOLÍTICA 103


O abuso da for~a vital do isto em considerac;ao, se quisermos tornar mais
Levan . . .
. foco dessa especifiCldade, antes de ma1s nada ternos
O que caracteriza micropoliticamente o regime ""''~-.:-• Preclso onhecer que todas as formas de VIda . sao- portad oras
e reco
pitalístico é a cafetinagem da vida enquanto for~a de qu cidade expressiva e criadora, nao podendo portanto
de capa eneizadas sob o conce1to . genenco
, . de "'mstmto . ".
transmuta~ao e varia~ao - sua essencia e também r~m Og .
5~ . t que distinguiría a forc;a vital na espéc1e humana
~ao para sua persistencia, na qual reside seu fim maior: Dltü lS o, 0 ' .
seja, seu destino ético. Esse estupro profanador da vi~ é é que a ll
·nguagem de que ela dispoe para expressar-se e ma1s
. . _
medula do regime na esfera micropolítica, a ponto de complexa o que ampha seu poder de vanac;ao das
elaborada e . da mas também,
' dependendo do contexto, pode
mos designá-lo por "colonial-cafetinístico". É a for~a vital de Vl
formas ' . -
todos os elementos de que se comp5e a biosfera que é res t rino-ir
b~
essa vanac;ao. b - .
ele expropriada e corrompida: plantas, animais, humanos A esse respeito, em seus estudos so re a pu1sao, o pslcana-
Sao também cafetinados os outros tres planos que Tn..- - .- lista aponta que a ampliac;ao de .tal capacidade de variac;ao em
o ecossistema planetário, dos quais depende a composi~o cretizar5es pode levar 1gualmente ao que ele chamou
suas eOn -s
manuten~ao da vida: a crosta terrestre, o ar, as águas. de "pulsao de morte". 6 Nao caberia aquí adentrar os meandros
A for~a vital de cada espécie viva tem características da complexidade des se conceito e de suas infinitas. interpreta-
cíficas. Freud atribuiu-lhe o nome de "pulsao" nos ..........,LUu• ~ es· há urna vasta bibliografia que encarrega-se d1sto. O que
~o, . d "rt"
para qualificar sua particularidade em nossa espécie e interessa aqui é apenas problemanzar o uso o termo mo e
tingui-la do "instinto"; este é um dos conceitos centrais ara qualificar esse destino da pulsao. Se, diferentemente de
teoría psicanalítica. O que para ele seria próprio do humano ~reud, partirmos da ideia de que a pulsao é sempre "de vida"
é a linguagem, assim como sua capacidade de cria~ao, o que (ou "vontade de potencia", como a ?esigna ~ietzs~he), diría-
amplia o poder de varia~ao das formas de vida. No entanto, mos que seu destino varia do mais anvo ao ma1s reanvo (ou do
ao reservar genericamente o termo "instinto" a for~a vital mais "nobre" ao mais "escravo", ainda segundo adesignac;oes
nos animais e considerar que a linguagem e o exercício da propostas por Nietzsche). Nesse caso, o que o psicanalista
potencia de cria~ao que ela viabiliza se restringirla ao humano,
revela-se no pensamento freudiano a permanencia de um viés mostravam que todas as espécies, desde as mais rudimentares, sao portad.oras
de atividade expressiva, a qual excede as fun¡;;oes instrumental e adaptativa ~,
antropocentrico e naturalizador.s inclusive, as potencializa. Desde entao, vários estudos nos most.ram que, se ha
uma especificidade da espécie humana nesse campo, ela.cons1ste ap~nas no
fato de a capacidade expressiva ser mais complexa. Ver Bnan Massum1, O Que
5 Se a distin<;ao que Freud estabelece entre o instinto nos animais e na espécie
os Animais nos ensinam sobre a Política, Sao Paulo: n-1 edi<;é'íes, 2017.
humana é, sem dúvida, um avan<;o, ainda assim o autor se mantém na tradi~
antropocentrica ao pensar o instinto como um mero automatismo, esquema 6 o conceito de "pulsao de morte", introduzido por Freud, vem senda objeto
estereotipado de a<;é'íes pré-moldadas. Ou seja, Freud ainda naturaliza o de um vasto debate que atravessa toda a história da Psicanálise; vale lembrar
instinto, reservando a linguagem e a capacidade de cria<;ao exclusivamente a que várias abordage ns do conceito de pulsao já estavam presentes na própria
espécie humana. No entanto,já na época de seus escritos, estudos da Etologia obra freudiana.

105
104 ESFERAS DA INSURREic;;Ao INSURGENCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA
chamou de "pulsao de morte" corresponderia ao grau , . a de subjetivac;ao é a que nos interessa aqui decifrar, é
A . dommante,
r- . arnente essa a ten d enCla
nabtJC • a qua11eva a urna
de reatividade de pulsao de vida, seu grau de potencia
baixo - vale enfatizar, no entamo, que mesmo es se seu prec!S dio dos processos de criac;ao de novas formas de vida
¡nteffllP1' , , . .
de nossa especie ta1vez a umca que ouse mterrompe-1os
A

ainda é vida, vontade de potencia . .E se essa perspectiva


leitura faz diferenc;a é porque as formas de sociedade e faZ onto desviando a pulsa.o do que seria seu destino ético
a esse.dap humana.
' O efeito de tal d esv10
. e, a d espotenc1a
. l"1zac;ao
-
tam de um embate entre forc;as de vida ativas e reativ
diferentes graus, do qual depende a política dominan~ na ':d o que chega hoje adestruic;ao das próprias fontes de
~~~ .
subjetivac;ao em cada contexto histórico, podendo e · vital da biosfera - fontes que, nos humanos, mcluem
energ¡a _
o destino reativo da pulsao, o que tem graves sequelas cursos subjetivos para sua preservac;ao.
os re . l' . d . 1
perseverac;ao da vida.? No regime colonial-capitalístico, Se a tradic;ao marxista, originada no cap1ta 1smo m ustna ,
trouxe a consciencia de que a expropriac;ao da forc;a vital
~ ana em sua manifestac;ao como forc;a de trabalho e' a C tonte
7 Se Freud logrou decifrar a dinamica metapsicológica, faltou-lhe ,,;cl .. ~-L..J. hUID d . l'
(pelo menos explícitamente) que as políticas dessa dinamica sao de acumulac;ao de capital, a nova versa.o o cap1ta 1smo nos
áveis d<;: ~ co~texto_ histórico e, mais do que isso, sao elas que !he dao leva a reconhecer que tal expropriac;ao nao se reduz a esse
conststencm extstenctal, que corresponde a determinados modos de domínio. É que em sua nova dobra, radicaliza-se e torna-se
seus síntomas. Tal visao vem sendo desenvolvida desde entao ao ¡0
históri~ da Psicanálise e da Filosofia, de diferentes perspectivas, ngo mais evidente o objeto da expropriac;ao que permite a acumu-
que onenta a obra de Félix Guattari e Gilles Deleuze urna das mais lac;ao de capital: é do movimento p~lsional em seu nasce~ou~o
samente radicais. Estes autores contribuem para que vislumbremos qu
h a' m u danc;;a posstvel
' e
que 0 regime se alimenta. Ou seJa,_ el~ s~ nutre do propr:o
de urna forma de realidade e seus respectivos
sem que se opere m mudanc;;as do modo de subjetivac;;ao dominante. se
impulso de criac;ao de formas de ex1stencm e de cooperac;ao
a ob:a de Freud retrospectivamente a partir dessa perspectiva, po,dernol nas quais as demandas da vida concretizam-se, transfigurando
constderar que, para além do fato inegável de que o fundador da pst.cartálillé' os cenários do presente e transvalorando seus valores. Des-
introduziu urn desvio na Medicina e na Psicología entao nascente como
cía, há em sua obra urna linha de fuga que, embora jamais neJa se
viada pelo regime desse seu destino ético, a pulsao é por ele
é seu ponto de virada mais radical - urna espécie de potencia cland€:StiJIII canalizada para que construa mundos segundo seus desígnios:
portadora de um desvio também na Filosofia e, mais amplamente, na a acumulac;ao de capital económico, político, cultural e nar-
e na política de desejo dominantes na tradic;;ao moderna ocidental
císico. O estupro da forc;a vital produz um trauma que leva
-capitalística. Do ponto de vista dessa linha de fuga, o psicanalista favnrP'l'M
a rec o~exao com o ~ab er próprio de nossa condic;;ao de viventes, cujo acesso
e a pranca eXlstenctal guiada por esse saber haviam sido interrompidos no
modo de subjetivac;;ao que predomina nessa tradic;;ao. E mais, ele o fez n1o edípicos, próprios da política de subjetivac;;ao dominante no regime colonial-
só no plano teórico, mas também pragmático, indissociáveis em sua obra, ao -capitalístico, que Freud equivocadamente estabeleceu como universal. Cabe
introduzir um ritual - a prática psicanalítica - em que tal reconexao se dá a nós descolonizar a psicanálise, ativando sua potencia clandestina e expan-
por meio de um longo processo que poderíamos qualificar de "iniciátic~. dindo a linha de fuga presente em sua fundac;;ao nao só no ambito restrito
No entanto, a tendencia que prevalece na história da psicanálise, como nos das práticas psicoterapeuticas e mais restrito ainda dos consultórios, mas em
apontam Deleuze e Guattari, é, ao contrário, contribuir para a expropria~ todo o campo social. Isso implica em assurnir a prática psicanalítica como
da produtividade do inconsciente ao submete-la ao teatro dos fantasmas um dispositivo essencial da insurreic;;ao micropolítica.

107
106 INSURGENCIA$ MACRO E MIC ROPOLÍTICA
a subjetividade a ensurdecer-se as demandas da pulsao do cafetao na cena perversa; sem seu personagem, tal cena
deixa o desejo vulnerável a sua corrupc;ao: é quando ele · ~o tem como sustentar-se.

de agir guiado pelo impulso de preservar a vida e tende paurna dinámica perversa similar a do par prostituta-cafetao
. . , rienta 0 regime de inconsciente dos personagens da cena
s~ve, a ag1r contra ela. Resultam dessa política de desejo
0
nos nos quais a vida se ve cada vez mais deteriorada: é italista. Para marcar sua especificidade, proponho desig-
~u~ faz com que a destruic;ao da vida no planeta atinja
cap .
á-lo por "inconsciente co1oma. 1 . 1' . ns
-cap1ta .
1st1co , ou se qm-
hm1ares que ameac;am sua própria continuidade. Perrnos ser mais precisos, podemos também designá-lo por
É esta, precisamente, a violencia do regime
S
"inconsciente co1oma
. 1-Ca1etm1st1co
e . ' . "
.
talístico na esfera micropolítica: urna crueldade própria
sua política de desejo perversa, sutil e refinada, invisível
olhos de nossa consciencia. É urna violencia semelhante a Estranho-familiar: o incontornável paradoxo da
cafetao que, para instrumentalizar a forc;a de trabalho de experiencia subjetiva
presa - no caso, a forc;a erótica de sua sexualidade _
por meio da seduc;ao. Sob feitic;o, a profissional do sexo' 0 principal trac;o desse regime de inconsciente é a reduc;ao
a nao perceber a crueldade do cafetao; ela tende, ao da subjetividade a sua experiencia como sujeito. Mas em que
rio, a idealizá-lo, o que a leva a entregar-se ao abuso por consiste essa experiencia?
próprio desejo. E ela só se livrará dessa triste submissao Intrínseca a condic;ao cultural própria do humano e mol-
conseguir quebrar o feitic;o da idealizac;ao do opressor. A dada por seu imaginário, a func;ao do sujeito é nos capacitar
bra des se feitic;o perverso depende de sua descoberta de
8 Propus a no<;ao de "inconsciente colonial-capitalístico" há urna década para
por trás da máscara onipotente de poder sobre si ffi(~SDlC designar o regime de inconsciente próprio ao sistema no poder no Ocidente
sobre o mundo com a qual o cafetao se traveste -máscara há cinco séculas (hoje no poder no conjunto do planeta) . Recentemente
ela interpreta como a garantía de sua protec;ao e "pcnn·..,....J me dei conta de que tal no<;ao tem seus antecedentes em dois autores, cuja
obra constituí um dos principais campos onde encontro reverbera<;ao para
-,o que há de fato é urna miséria humana das mais .,,,,,.,,._
o que busco elaborar. O primeiro é Frantz Fanon, que já falava em "incons-
o outro para ele é um mero objeto para seu gozo ciente colonial" nos anos 1950 - confesso, nao sem urna certa vergonha, só
de acumulac;ao de poder, prestígio e capital. Tal gozo ter !ido há pouco tempo a indispensável obra deste autor, embora ele fizesse
parte de meu imaginário desde os anos 1970, como um dos personagens
proporcionado por seu poder de dominar o outro e centrais da revolu<;ao psiquiátrica e psicanalítica que teve lugar naqueles
mentalizá-lo a seu bel prazer. Em suma, o feitic;o se anos. O segundo autor é Guattari, que falava em "inconsciente capitalístico"
quando ela se dá canta de que o outro - inclusive e desde o início dos anos 1980. A no<;ao aparece inclusive em Micropolítica:
Cartografias do desejo (Petrópolis: Editora Vozes, 1996), livro que escreve-
tuda ela mesma - nao tem a mais mínima existencia
mos em coautoria- o que obviamente eu sabia, já que me dediquei a escrita
para o cafetao. Quando isto se desvela, dissolve-se deste livro durante quase quatro anos, de 1982 a 1986, data de sua primeira
temente a dinamica inconsciente que mantinha a on::>fil:;si<>II publica<;ao; mas aqui também tenho que confessar, nesse caso sem o menor
do sexo prisioneira de seu próprio personagem, ~~n ............ -
pudor, que o havia esquecido.

INSURGENCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA 109


108
contínua, quer se tenha ou nao consciencia disto.
para decifrarmos as formas atuais da s . ..~ r<~.v
..... .. designar es ses efeitos por "afetos". Trata-se de uma
-
mos, os lugares e fun ~oes, sua distrib ociedade
· - ern , ·a extrapessoa1 (pois aquí nao há contorno pessoa1,
relacionais, seus respectivos e0, d' m~ao e suas .-nerieDCl
pr- .
rnos os efeitos cambiantes das fon~as da b10sfera
. -e
decif - Igos e
. .r:~ao se faz pela prática da co . - quedemais
so planos d e que e, f etto. o ecosSlstema
. d o p1aneta -,
mtehgencia e pela ra zao,
- a partir. do gm~ao, cJoS ais coropoem e recompoem nossos corpos) , extrassen-
capacidades de percep~ao . que nos indicarn
Estas últimas sao mare de sentimento (emo~ao
OS ~~(pois se dá via afeto, distinto da percepo;ao, própria do
~oes socioculturais que aestruturam
as pelos repertórios de
o . .
"""sível) e extrassentimental (pois se dá via "emoo;iio vital",
sen - pSlCO· 1'og>ca
· que eh amamos d e " senu- ·
. tinta da emoo;ao
Associamos aquilo que percebemos e SUJeito . e sua :nto"). o modo de decifrao;ao próprio do poder de avaliao;ao
se~ta~oes e as projetamos sobre ele :entimos a cenas dos afetos é extracognitivo, o que costumamos chamar de
fica-lo e reconheceA-1 o, d e modo a d 'fi que· 1 nos permite "intui<;iio''. No entanto, o uso desta palavra se presta a mal-
Nessa esfera da experiencia b' . e m- o e produzir
su ~etlva-
um sensorial, ~-"'L"'''"
-<tltendidos por sua desqualificao;ao em nossa cultura que, ao
re<~uzir a subjetividade ao sujeito, despreza tudo aquilo que
e racional- ' o outro e' VIVl
. 'do como
do sujeito; e a rela~ao carpo externo,
ca~ao, baseada no comcpo;rt~lhoutro
·
se dá pela via da
I amento de u
olio é da ordem da cognio;iio que lhe é própria e nos imp5e a
begemonia de uro logocentrismo. Por essa raziio, proponho
gem, o que permite a reci'p roca reco · - ma ' mesma
do sujeito que se constituem o , ~I~ao. E na '-AIIJer,~
substituí-la por "saber-do-corpo" ou "saber-do-vivo", um
urna organiza~ao no es ( s habitas, os quais ·-···J........
Diferentemente da corounica~ao, o meio de rela~ao com o
"saber eco-etológico".
. ) pa~o concreto) e no t
g¡co_ em nossa cotidianidad e e nos prop ·empo outro nessa esfera é a resson&ncia intensiva, na qual nao há
sa~ao de familiaridad e. Essa e, a esfera orciOnam urna distin~ao entre sujeito cognoscente e objeto exterior, como
umana· habitá-la , . macropolítica da
h ' e essenc1al para . A é caso na experiencia do sujeito. Na experiencia subjetiva
O problema do . d . a eXIstencia em
reg¡me e mcon .
é a redu~ao da subieti "d d , sciente colonial-capi
0
fora-do-sujeito, o outro vive efetivamente em nosso corpo,
J VI a e a sua exp · A · por meio dos afetos: efeitos de sua preseno;a em nós. Tais
efeitos se dao no ambito da condi~ao de viventes que ambos
o que exclui sua expe . A . . enencia como
e Aa nossa condi~ao
. nencia Imanent ,
VIventes, o fora-do-su'eito A
sao altamente nefast J . s ~onsequencias de tal rectuc:iin coropartilham, e que faz deles um só corpo. Ao se introduzi-
as para a VIda M rem em nosso carpo, as for~as do mundo compoem-se coro as
outra esfera da experie . b' : as em que consiste
ncia su ~etlva? for~as que o animam e, nesse encontro, o fecundam. Geram-
~m nossa condi~ao de viventes so . , -se assim embrioes de outros mundos em estado virtual, os
quais nos produzem uma sensa~ao de estranhamento. Esta
efeitos das forras d fl . mos constitUidos pelos
e a~oes diversas e
, • 3' 0 uxo VI tal e su as r 1 - ·
mutaveis que aoitam e
mun o. Tais for~as
. b. as 10rmas de um d é a esfera micropolítica da existencia humana; habitá-la é
essencial para nos situarmos em rela~ao a vida e fazermos
atmgem singularmente t d
humanos e nao hu o os os carpos que o compoem -
manos-, fazendo deles um so' corpo, em
111
INSURGÉNCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA
11 o ESFERAS DA INSURREIC(ÁO
escolhas que a protejam e a potencializem. Estar a
vida depende de um processo de cria~ao que tern provoca do Pe·la tensao entre estranhode [ami-
O ..,al-estar d . movimentos desencadea os por
poralidade própria, distinta do tempo cronológico da "' ntre os OlS . .d d

par~~::~~s a~ontece
beill como e , o ue coloca a subjetlVl a e em
macropolítica em que o ritmo é previamente
JiBf, experiencia nos dias de boje. Isso
Desse processo resultam devires de si e do mundo -u•«~;!C!r!

temente da dinamica própria a esfera macropolítica,, na


essado
esta de alerta, d talue 0 ma1-estar e' um disparador de alarme
.
ulta do fato e q . pararecobrar um equilíbrio .Vlta1,
as formas vigentes se repetem por princípio. res d ·0 a ag¡r
ue convoca o . es;~cial
- equilíbrio abalado pelos sina~s ~e
mundo :'aseen:~~:~ vigentes. Imp5e-se ao de~ejo urna
qrnocional e eXIst . ltaneos e indissociáveis dos smms
:m
e dissolu~ao dos
O mal-estar do paradoxo convoca o desejo a agir d t e esses dais movimentos. E precisa-
negocia~ao- onstante en r d · das
O familiar e o estranho, sensa~oes totalmente distintas que
e e definem as políticas do eseJO -
onto que s . 1' ·
rnente nesse
. , pmms . reat1vas.
. O que diferencia as mlcropo
. ltlcas
vem respectivamente das experiencias subjetivas do
rnais anvas as ocmrao
. - entre os dois referidos moVlmentos _ , que
(o pessoal) e do fora-do-sujeito (o extrapessoal), d
simultanea e indissociavelmente, mas segundo r,,.,,...,.......,.l."~\li"-~~~ . .1 ·ara em suas a~oes.
,e o tipo e neg ' , - Essa escolha nao e neutra,
.
díspares, assim como sao díspares suas lógicas e UlllaiJtUc~
o desejo1 pnVI eg¡ d" t 1"ntos destinos da pulsao que imphcam
Pois de a resultam 1s · 1 rta
e - d o meo
aroes . nsciente no campo socla ' po , -
Nao há entre elas qualquer possibilidade de síntese COilCUil distintas lorm .., d firmarao da vida. Esta e a
dora ou de tradu~ao; sua rela~ao é marcada por um n::n~n •.._ · u menor teor e a .., . .
doras de mmo; .o e a ual todo e qualquer reglme socw-
por princípio, incontornável. É que os embrioes de futuros base micropolmca sobr ql d ¡·re sua consistencia existen-
param o movimento pulsional de sua germina~ao, o quai o-cultura a qu .
político-econ~mlc,
A •

d b te entre políticas do deseJO que se


a vida a plasmar-se em outras formas de mundo. Estas nao ·a1 s do ass1m, e o em a l' .
desenham por oposi~ao as formas vigentes, mas pela anJrm¡¡ca.~.~
CI • en o campo d e b atalha na esfera micropo ltlca.
constituí
de devires cujos efeitos colocam em risco a continuidade das
mesmas. Desestabilizada pela experiencia paradoxal do estra-
nho-familiar, a subjetividade se ve entao tensionada entre dais . te colonial-capitalístico
0 inconscten
movimentos. De um lado, o movimento acima descrito que a
pressiona em dire~ao a conserva~ao da vida em sua potencia . . .
Nas subj etlVldades sob
domínio do inconsciente colonial~ca-
- eriencia como sujelto,
de germina~ao, para corporificar-se em novas modos de exis- , . d ·das que sao a sua exp
pitahstlco, re uz¡ ,. t " a· tende a impar-se em
tencia. De outro, um movimento que a pressiona em dire9ao a prevalece urna micro
· pohtlca rea 1v ·
. t de conserva~ao das for-
conserva~ao dos modos vigentes, nos quais a vida se encontra maior ou menor esca
la o moVlmen o
• A em que a V1.da se encontra corporificada no

temporariamente materializada e a subjetividade está habi- mas de eXIstencia d. - de viven te e deseo-
, d. · da de sua con 1~ao
tuada a reconhecer-se em sua experiencia como sujeito. d muta~ao próprio adinamlca
A •

presente. E que, lSSOCla '


nhecendo o processo contmuo e

112
ESFERAS DA INSURREic;;AO
INSURGENCIA$ MACRO E MICROPOLÍTICA 113
vital (dinamica pulsional no humano) bos os tipos de a~ao desejante reativa frente a expe-
Pressao
- d .- '
os embnoes de mundo e
, a subi SIP a:o estranho-familiar- a redu<;ao da cria~ao a criativi-
omo amea~a de
J
de si me os rnovirnentos conservadores-, o gozo do sujeito vem
sma e de seu campo existencial . ,
aquele em que o sujeito hab"t ,Jaque "este . esao de garantir sua estabilidade e seu pertencimento,
1 . "d I a e no qual se
e-a VlVl o como "o mundo" , umco
, . e absoluto uu . . - e vergo nha socm
bo para o rne do de esugmanza<;ao "1 que
~oes, parab recobrar
. um equilíbrio , o deseJo . . tp.ceestabiliza<;ao de seu mundo lhe provoca, por interpretá-
mas esta e1ecidas, as quais busca conservar adeSillo perigo de colapso. O que resulta desses tipos de a<;ao
E -~aco·ante é urn destino funesto da pulsao: a interrup<;ao do
. quanto
. .d maior a desestabilizarao m .
~ , ais
a
JetiVl ade acastela-se no instituído e 0 d~·c~u•.cou[erneJI1t-..d :;:~sso de gerrnina<;ao da vid~ coletiva. E :e é na existencia
de t d e1 ende co
n es, po endo chegar a altos níveis de violA . m tetiva que esse processo se mterrompe e porque mesrno
sua permanencia- inclusive a e1"Imma~ao. - encm corre para co e tal gerrnina<;ao seja apenas brecada na existencia de um
quer outro que nao seja seu es elho e e . . r:ta ~divíduo ou grupo, el a gera necessariamente um ponto de
porÉefeito abalar a fé na absolut:umversa
. l~Ja existencia
Idade de ~ecrose na vida do carpo social e na de seu ambiente. Este é
di a e~a s_epara~ao da subjetividade em rela~aos~u ui1l exernplo da política dominante de subjetiva<;ao na qual
~ o e Vlvente que prepara o terreno para que se produz a mencionada tendencia que, ao que tudo indica, é
entregue
. (gozo samente) a, cafetinagem da 1 - o exclusiva a espécie humana: agir contra a vida.
moVlmentos ele é o executor A e t
modo d d - ·
p~ sao, de
n rega mamfesta-se
o abuso profanador da pulsao é difícil de captar, já que ele
se dá nurna esfera que escapa a consciencia e cuja experien-
mod ~re ~~a~ d~ potencia pulsional de "cria~ao" de
cia é anestesiada no modo de subjetiva<;ao hegemónico, sob
me os e existencia
, · em resposta as d eman d as da
ro exerciclü de sua capacidade "criativa" a feiti<;o da sedu<;ao perversa que captura as subjetividades.
0
na compo · - d , ser Porém, suas inúmeras manifesta<;5es no campo social sao ple-
tal. No lu;~a~a ;r7:r~~ ~~nários para a acumula~ao de namente acessíveis aqueles que.toleram manter-se atentos
. ~ novo, o que se produz
e compulsivamente) sao "novidad es , , as qums . m aos processos de degrada<;ao da vida, presentes em cada um
as oportunidades para os investimentos de capital e dos síntomas de sua viola<;ao. Os rnais óbvios sao as rela<;5es
vontade de consumo. Ou se.Ja, a potencia
ausada A . VItal
. passa a como meio ambiente geradoras de desastres ecológicos. Ou
para a reprodu~ao do instituído· apenas m d ainda as rela<;5es de poder classistas, machistas, homofóbicas,
pe~_as de lugar ou se_ fazem varia~oes ~obre m~s:~~s~
as transfóbicas, racistas, xenofóbicas, chauvinistas, nacionalistas,
rr:awr ou menor cnatividade. Em situa~oes d . colonialistas etc. Se nesses dois tipos de exemplo da manifes-
VlO da pu~sao e a entrega do desejo a seu abus: ~~se, o ta<;ao do abuso da pulsao o sujeito confina o outro num lugar
cam, m mamfestando-se em movime nt os de massa que \..li:l.lllili• imaginário de objeto a seu servi<;o - corno nas rela<;5es de
pela
~nuten~ao do status qua, como é o caso d poder no modo-cafetinagem -, no conjunto de fenómenos
ascensao do co nservad onsmo . na atualidade. a evocados no segundo exernplo tal abuso é sustentado por urn

115
114 INSURGENCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA

4
, 'á no início dos anos 198o, quando este
imaginário que proj eta sobre esse outro, reduzido a ...,dial integrado , J r seus sinais 9 ou Milton Santos cha-
urna suposta natureza inferior ou mesmo 111,w ava a mostra '
..,enas come~. r globalitário".
proje~ao pode chegar a sua total invisibiliza~ao e u•t::Xl!llNI ~¡,lo de "caplta lS~~ conseguimos vislumbrar a razao da
e até levar a seu extermínio, que, em casos extremos, IP'" cenan o . . . ·s
....tesse nov0 d sobretudo as tradlclonals e, mal
com o desaparecimento de seu carpo (é o que o ....,c.1:s11Iln; 1" • d esquer as - ·1
,..,p<>tencla as . . face aos desafios do presente: aqm o
mou de " solu~ao final", referindo-se a sua política de .... · 'tuclOnalS- '
aiflda, as msn de "resistencia" nessa tradi~ao reduz-se a
com o outro quando esta atingiu sua mais extrema e
que charnou-sel' . a o que limita o horizonte de alcance de
acropo 1t1c , , .
radicalidade, com o uso de camaras de gás e fomos
esfera rn rt nto o exito de suas estrategias .
tórios; solu~ao posteriormente adotada, entre outros, suaVls . ~ao e, po a ,
regimes ditatoriais nos anos 1960 a 1980 na América
com procedimentos distintos - como jogar os carpos no faz coro que as esquerdas boje estejam tao
-, e que gerou a categoría de "desaparecidos"). A{inal, o que
Os exemplos de manifesta~oes do abuso profanador perdidas?
vida acima mencionados nao sao portanto epifenomenos . d somos fon;ados a reconhecer que, se a
regime, mas síntomas de sua própria medula na esfera da Antes de mms na . a,. der do Estado contribuí para a
tica dominante de desejo e de subjetiva~ao. Diante disto, da a dlrelta no po
atual ~u~a
o o

rdas tal impotencia nao se exphca ape-


evidente que nao basta subverter a ordem dos lugares irnpotencla d:~l;~¿~ede f;rc;as externas adversas ..Sua ca~sa
dos a cada um dos personagens em jogo na cena das nas como re , rio interior. Nlsto reside
de poder (insurrei~ao macro política), é preciso abandonar t mbém em seu prop
encontra-se ~ d'ficuldade, que inclusive compromete seu
próprios personagens e suas políticas de desejo e talvez sua malOr 1
· forc;as externas.
A forma de mundo em
micropolítica) , inviabilizando assim a continuidade da combate contra tals uerdas tradicionais é a mesma e~ que
pria cena - como acorre quando se dá a quebra do feiti~o que se movem as esqtodos os d emal. s no reoime colomal-ca-
b"
poder do cafetao na subjetividade de sua presa. Com lógicas e tendero a move.r-s,e ·me ue as esquerdas tem sua
temporalidades díspares e paradoxais, da insurgencia contra a pitalístico- pols e nesse regl qlongo do tempo. Como é
violencia em ambas as esferas depende, incontomavelmente,
a dissolu~ao do regime por toda parte e em cada urna das ati-
~~=~::::e:::~~~:~:~~~~~:~ elas atu1llll, o resultado de
vidades humanas. Esta é a condi~ao sine qua non para que se . , t la Révolution Moléculaire",
viabilize urna transmuta~ao efetiva do presente, já que, em sua Félix Guattari, "Le Capitalisme Mondral In!e~oedeo grupo CINEL, em 1980.
9 f ·d em semmar1 _
nova versao, o regime logrou colonizar o conjunto do planeta, relatório de palestra ?ro en ~'O Ca italismo Mundial Integrado e a Revol~qao
incidindo macro e micropoliticamente em todas as suas entra- Publicado em portugues co:no l t. Pulsaqoes políticas do desejo (coletanea
Molecular" no livro Revoluqao.Mo ecu ar. d 'd por Suely Rolnik) , Sao Paulo:
nhas, ao ponto de que hoje nenhuma atividade humana lhe de textos de Guattari organ¡zada e tra uzl a
escapa. Daí Guattari chamar o novo regime de "Capitalismo Editora Brasiliense: Sao Paulo, 1981.

117
INSURGENCIA$ MACRO E MICROPOLÍTICA
116 ESFERAS DA INSURREI<;:AO
·maoinário por ser este limi-
. idos em seu 1 b' ' . .
suas ar;;oes permanece confinado na própria forma de aos opnm , . - es de mundo e de msurrel-
d classe e as VISO
que sua (nossa) luta tem como alvo. A perspectiva que o 3S relac;oes eca italismo industrial. E quando s~ trata
o combate das esquerdas tradicionais, em suas várias ..;cr\nadas no p - teAm como serem enca1Xados
..ao O• •o· ·edad e que nao
tes, tende assim a perpetuar a lógica do próprio r setores da s~cl or exemplo; indígenas, quilombol~s , tr.a-
elas (nós) visam(os) ultrapassar. Tendo isso em de tal categona ~~ d precarizados, imigrantes üegais,
eJil rcelnza os e . , -
de se surpreender que suas ar;;oes nao logrero -~•. . u.... .._Athadores te erdas tradicionms buscam e pro
.,.... ) que as esqu . d d
res~ltem sempre em sua triste e frustrante reprodu~ao. &..cr\ados ' o - " oficial da democracia, e mo o
re1Ub' t<' clusao no mapa d
E incontestável que, no interior desse regime onde Jllover sua m der aos direitos dos operários.w Se ace era
que possa~ a~e
as esquerdas, sua posi<;ao é a mais justa, pois, de ·al no entanto a reduc;ao a essa meta e,
'VlS e essencl ' . A . . gular
maneiras e em diferentes medidas e escalas de exito .~: ..eitos ct . d negarao da expenencla sm
ua> parnr e urna ' 1,
casso, ela visa a urna distribuir;;ao de lugares menos SObretudo, ateS SOClalS . . de seu direito de existir - a qua e
e · , ·
trica - nos ambitos social, económico e político -, bem de tais agen 'd las esquer as
d por urna caricatura identttana - ,
A
um Estado que sustente essa ampliar;;ao da igu.aldade. E é substitUl a pe d tadio submissa ao modo hegemo-
que, com distintas magnitudes e durar;;oes, tal objetivo nde a levá-los a urna a ap '
te . . ao
várias vezes alcanr;;ado. Se essa luta é, sem dúvida, nico de subjenvac; . "' 1 s-ao" como sua principal meta
. promover me u . . .
vel e tem um inegável valor, o problema é que limitar-se Lirnttar-se a - , 1 as esquerdas tradicwnats,
_ , · _ nao so reve a que f:
deixa de fora a esfera micropolítica: esfera das forma~oes - senao a umca rtografia dominante como re e-
d a tomar a ca
inconsciente no campo social que definem os modos de de fato , ten em . que elas a consideram como
·S do que lSSO,
tencia e as quais correspondem urna certa política do:miJtla.ttU réncia, mas, mal . ersal segundo a qual todas
A · bsoluta e umv ' d
de subjetivar;;ao e sua respectiva política de desejo "a" referencia, a E' do ponto de vista a
. · moldar-se. que , .
brando que tais micropolíticas constituem a base exicStt~ncial as demms dever~am da qual nesse aspecto, as propnas
de tOdO e qualquer regime ~vL.lVLJVHClCID-é~COnO• ffilCO-CU cartografia domma~~ - - as d{ferenc;as de qualquer modo
E mesmo quando as esquerdas, principalmente as esquerdas compartl a~ ' - avaliadas como índices
de existencia em relac;ao ao seu sao
cionais, abordam os modos de existencia, tendero a faze-lo
uma conversa
apenas desde urna perspectiva macropolítica: tais modos sao . - duardo Viveiros de Castro n .
lOVer a esse respeito a Clta<;ao de E,d uma reportagem de Rafael Can ello
classificados em entidades identitárias, nas quais sao con- com Marcia Ferreira da Silva, incl~l au :cada na Revista Piauí ero dezemb ro
finados e com as quais tendero a confundir-se as próprias ("O antropólogo contra o Estado , p tero uma incapacidade congenita para
subjetividades que os praticam, passando a resistir apenas de 2013): "O PT, a esquerda ero geral, boro operário que vai se transformar
ensar todo tipo de gente que .ndaod se¡a o me para entender as popula<;oes que
nesse ambito. Isto é particularmente grave quando se trata P . U . capaCl a e enor . o
em consum1dor. roa m . . 0 Quem nao entrou no 1ogo -
de camadas sociais desfavorecidas, ao lado das quais se dá · 0 do cap1ta11sm · .
se recusaram a entrar no JOg '1 b 1 - gente que quer Vlver em paz,
es o qm oro o a '
prioritariamente a luta das esquerdas. Estas tendero a classi- índio, o seringueiro, o campo~ ' d "
que quer ficar na dela, eles nao en ten em .
ficá-las na categoría "operário": lugar identitário fetichizado,

119
INSURGENCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA
118 ESFERAS DA INSURREI9AO
de atraso nas etapas de
, . um suposto determi .
propr~o ao "progresso civilizatório", ao qual ills~o que . do esse domínio, as esquerdas neutralizam seus efeitos
o coll]unto da humanidad N
. .
.
e. eutrahza-se a .
estana .,can smuta<;ao das políticas de subjetivac;ao hegemónicas e
Cia smgular dessas subjetividades e d SSim a ele ~anc;as das formas de existencia individuais e coletivas
15 Jildeles resultam. Em suma, o que é ignorado e neutrali-
quer alteridade. Mais grave . d ,
, .
a.c esso a Imprescindível experiencia d: .
enega-se toda e
am a e que com .

Cional tecida entre distintos modos de exi~::lt~r a trama


Isso, ::0 é a potencia do combate micropolítico de que tais movi-
ntos sao portadores. Ainda que algumas das correntes de
lile uerda reconhec;am e va1' . • 'desses moVI-
onzem a eXIstencia .
de sustentar os possíveis efeitos transfor ncia e, UVLJr,.,...,
decorreriam tornando cad
'
madores que
uca a cartografia d .
~tos, elas tendero a reduzi-los a questao da desigualdade,
outras palavras o que s . ommante JilJlletendo o foco de sua insurreic;ao a luta interna as rela-
.d , ' e mterrompe com . .
ZI a a macropolítica é a possibilidade d f, essa. VIsao ~s de poder, seguindo seu modelo de luta de classes. Isso
seu destino ético: a inven - d a or~a VItal Jllanifesta-se igualmente no mundo academico, ande urna
de mudan . ~ao e respostas as
~a, _advmdas precisamente dos efeitos"d"'~..:t:ssJ.d,.,~. parcela dos intelectuais das distintas esquerdas mantém seu
(h umana e nao humana) nos co a trabalhO de pensamento submetido a perspectiva dominante
social. É a partir de tais e . rpos que compoem o nesse campo: reduzir a investigac;ao a esfera macropolítica .
.d e!eltos que emerge d
VI a coletiva, próprios da insub di - .m os evires Isso faz com que urna parte significativa da produc;ao uni-
E quando tais devires a or na~ao micropolítica. versitária tenda a reduzir-se a um conjunto de elucubrac;oes
• . contecem e novas d
tenc1a emergem na vid . mo os de estéreis. É o caso da tendencia em certas análises academicas
1
das com a mesma le ta co etiva, eles sao lidos pelas ,..,;:r,, __ de esquerda sobre o atual estado de coisas que ficam girando
· n e, o que faz com
Igualmente a confiná-1 . . que estas tendatn obsessivamente em torno da questao da crise da democracia,
por exemplo de como os em entidades Identitárias. É o caso, tendo como foco o Estado e a pergunta de como reformá-lo
' as esquerdas tradic ' ·
movimentos que hoie alarg wnais reagem aos para melhor representar o pavo.
; am o terreno de e ·
na sexualidade os quais ab 1 xpenmenta~ao A limitac;ao do horizonte das esquerdas a esfera macropo-
com as de het:ro e h a am ~s no~oes de genero, assim lítica vem do fato de que, ao permanecer sob o domínio dos
. omossexuahdade q ·
t1cas hegemónicas ue onentam as prá- modos de existencia hegemónicos, sua subjetividade tende
nesse campo - nora
modelizam a f<orra ero' t' . , es que confinam e a reduzir-se a experiencia como sujeito, assim como tende
, 1ca CUJa 'bTd
transfigura~ao seria indi ' , possi 1 1 ade de varia~ao e a reduzir ao sujeito a subjetividade de seus outros; daí sua
social. O confinament dspensav~l para a saúde individual e impossibilidade de alcance da esfera micropolítica. Em última
0 a sexuahdade n d
heteronormativo e na . 0
mo e1o patriarcal análise, a razao da impotencia das esquerdas face aos novas
s categonas de gen
universais é a base do fi eros supostamente desafios é a política de subjetivac;ao que nelas tende a preva-
con namento da f, .
os demais domínios de atividade h or~a :ntal em todos lecer: urna política guiada pelo inconsciente colonial-capita-
cessos de singulariza~a um~na. Ao Ignorar os pro- lístico. É precisamente isto o que impede que o foco de seu
o em curso nas msurgencias que vem
combate abranja esse terreno.

120
ESFERAS DA INSURREit;ÁO INSURGENCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA 121
Já é um grande passo reconhecermos esse fato, ao invés Elll que diferem, afinal, as insurrei~oes macro e
permanecermos paralisados, lamentando u'""a.11~u,uc:am~ micropolítica?
a impotencia das esquerdas perante a nova dobra do
lismo ou nossas frustrac;oes com os govemos sob seu Examinemos entao, ponto por ponto, as insurreic;oes em
nio no passado ou no presente. Porém, nao basta coJnst:a~i.J cada uma dessas esferas. Sendo na micropolítica que, nesse
cabe a nós darmos um passo adiante: explorar momento, a vida nos impoe urna exigencia maior de deci-
e teoricamente a esfera micropolítica, pois sem a frac;áo de seus mecanismos e de refinamento dos modos de
priac;ao da vida nao há possibilidade de urna ac;áo frente a eles, nosso maior desafio está em desenvolver
efetiva da situac;ao a que chegamos hoje e tampouco a ferramentas apropriadas ao trabalho implicado na descoloni-
valorac;ao de seus valores. Impoe-se igualmente a zac;áo do inconsciente - matriz da resistencia micropolítica.
explorarmos as diferenc;as entre, de um lado, esse n,.,,......... por essa razao, essa esfera da insurreic;ao receberá urna aten-
pulsional dos inconscientes (insurreic;ao c;ao mais demorada na maior parte dos set~ pontos escolhidos
cujo objetivo é liberar a vida de sua expropriac;ao e, de para a análise a que nos propomos a segu1r.
o protesto programático das consciencias, cujo obj
ampliar a igualdade de direitos (insurreic;ao
ca) ' 2 • E, mais do que isso, é imprescindível explorar 1) Foco
e pragmaticamente a inextrincável conexao entre """'ua.~to•
modo a ajustar o foco de nossas estratégias de Macropolítica (um foco visível e audível que situa-se no
em ambas as esferas. O que segue sao algumas an4:>tae01 ambito do sujeito ):
nessa direc;ao. Como vimos, o foco da insurreic;ao macropolítica é a desi-
gualdade na distribuic;ao de direitos na cartografia das formas
de sociedade estabelecidas pelo regime colonial-capitalístico.
Em outras palavras, seu alvo é a assimetria própria as rela-
c;oes de poder que se manifestam nao só entre classes sociais,
mas também nas relac;oes de rac;a, genero, sexualidade, reli-
giao, etnicidade, colonialidade. Tomá-las como objeto de luta
u A ideia de acrescentar a qualifica<;ao de "pulsional" ao "protesto
conscientes", sugerido por Deleuze e Guattari, tem sua origem na engloba o Estado e suas leis que sustentam tais assimetrias.
"inconsciente pulsional" e seus desdobramentos, tal como oro,oo!ltOS
psicanalista e teórico brasileiro Joao Perci Schiavon. Ver referencias Micropolítica (um foco invisível e inaudível que situa-se na
gráficas deste autor na nota 10 do primeiro ensaio publicado aqui:
consciente colonial-capitalístico". tensáo entre o sujeito e o fora-do-sujeito ):
12 A ideia de
um "protesto dos inconscientes" foi proposta por Gil!es Também como já vimos, o foco da insurreic;ao micropolí-
Félix Guattari em 1972, como humor que é peculiar a estes autores. Ver tica é o abuso perverso da forc;a vital de todos os elementos

122 INSURGENCIAS MACRO E M ICROPOLÍTICA 123


da biosfera (composto pela vida do co .
. nJunto de
que h a bItam o planeta inclus¡'ve h seres ibilidade de voltar a fluir, agora protegido de tais efeitos
d ' os umano~ b nDSS 'd a 'arvores que fl orescem antes d .
?u
~s tras tres planos do ecossistema planet, : e:rn r-
0en
osos·'3ou am
'
a pnma-
~aveis para a composic;ao e manutenc;ao da viano, .¡e rebelando-se contra o risco de esterilidade que pode
.¡era, r do acum , ui o de po1·-mc;ao. '4
e a medula micropolítica do reaime colon· 1 da. Tal deco rre
hege · d .
A • b' Ia Já no elemento humano, como a resposta ao abuso
1 . moma essa dmamica micropolítica constitu.
nde da política de desejo dominante em cada contexto,
d
.,
og~~ altamente agressiva com graves sequelas - I u:rna
estmo dah 'd d
umam a e, mas para o do planeta ca
nao só
depe .
sta varia segundo as diferentes culturas. Na cultura do
Ja que afeta os quatro planos de seu ecossistem mo u:rn ;egime colonial-capitalístico em suas várias dobras, como
a. vimos, a reduc;ao da subjetividade a sua experiencia como
sujeito, inseparável do abuso da pulsao, gera um trauma
2) Agentes em potencial diante do qual tende a prevalecer a resposta reativa - base
da política hegemónica de subjetivac;ao nesse regime. Como
~acropolítica (apenas os humanos) já referido, interpretamos o estado de fragilidade em que
o os hu~anos sao agentes em potencial da . tal abuso nos coloca como sinal de nossa falencia (egoica,
macropohtica, principalmente aqueles que ocu a existencial e social), o que nos apavora, e face a esse perigo
subalternas na trama social E b . F m POl!icl~ imaginário tende a prevalecer a resposta reativa. O desejo
t' . . m ora a consciencia d
I<;a social decorrente da as simetría de d. . . a entao agarra-se ao status qua, agindo assim contra a perseve-
a vontad.e ~e combate-la, surja igualmen~:e:~t;ea~:Im ra<;ao da vida, ao invés de operar a seu favor. As forma<;5es
pam posic;oes soberanas nas relac;oes de poder. que do inconsciente no campo social que disso decorrem sao res-
ponsáveis pelo surgimento das hordas de zumbis que tem
Micropolítica (humanos e nao humanos) povoado o planeta cada vez mais assustadoramente.
Os agentes em potencial da insur A • •
Mas quando o desejo logra responder ativamente ao
todos os elementos da bi. e ge~cia micropolítica sio trauma do abuso, ele se potencializa e busca agir tendo em
. OS!era que se msurge f: , .
c1a contra a vida N , m ace a VIolen- mira a descoloniza<;ao do inconsciente, procurando desviar
nos e nao huma~ osod~~:::to~sha en~r: o~ elementos huma- a pulsao vital do destino no qual sua cafetinagem a mantém
essa violencia, pois diferem ~s d~:adi~ami~as de resposta a
Os nao humanos captam a ane . m~cas e sua forc;a vital. 13 Isto de fato aconteceu no Rio Doce, na aldeia Krenak, situada asua margem
abuso e diant d' . mia VItal resultante de seu esquerda, no município de Resplendor. Algum tempo depois dessa parte do
' e Isso, cnam transfi -
tem retomar seu pulso. Por exem lgurac;o~s que lhe permi- rio ter ficado aparentemente morta, pelo impacto devastador de seu abuso
excesso de lixo colonial cafet' , ?o, um no que seca pelo
pela Vale, descobriu-se que havia voltado a fluir, caudaloso, sob a terra. Ver
Ailton Krenak, "Em busca de urna terra sem tantos males", in O lugar ondea
insurge deslocand - llliStico e que, diante disso, se terra descansa, Rio de Janeiro: Núcleo de Cultura Indígena, 2000.
o-se para o subterraneo, ande encontra a
14 Tal fenómeno tem acontecido, nos últimos anos, na cidade de Sao Paulo.

124
ESFERAS DA INSURREI<;:ÁO
INSURGENCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA 125
confinada. A subjetividade ganha entao a possibilidade ue tenderiam entao a distinguir-se os efeitos micropo-
habitar simultaneamente o sujeito e o fora-do-sujeito, E~c~s do abuso da pulsao nas subjetividades que, na esfera
busca de retomar em suas maos o poder de decidir 0 lfo apolítica ocupam respectivamente o lugar de subalter-
IIlacr '
tino da pulsao, reassumindo assim sua responsabilidade e de soberanos?
perante a vida - é nesse processo que nos tornamos aP'•"'n•·a~
nosvo lado dos suba1ternos, sof.rer opressao, - exp1ora~ao - e
da insurgencia micropolítica. Partindo do princípio de clusao (as quais situam-se enquanto tal na esfera macro-
descoloniza~ao do inconsciente implica nece~~sari --··-..••n"' ex lítica) produz no sujeito a experiencia de que sua existen-
terreno de nossas rela~oes, das mais íntimas as mais ~ nao tem valor, o que lhe gera um intolerável sentimento
Cla f , . f
tes, os efeitos de qualquer gesto nessa dire~ao sao de humilha~ao. Isto tem um e eito traumauco na es era
Como na micropolítica estamos todos sob o domínio (Ilicropolítica: a tendencia a machucar mais ai~da sua pul-
regime de inconsciente colonial-cafetinístico, ser agente ao vital já debilitada pelo medo do colapso de s1 provocado
insurgencia nessa esfera independe de nosso lugar na s lo abuso. Os traumas de classe, de ra~a e de etnia estao
tografia social, económica e cultural e da posi~ao que ~tre os mais graves e difíceis de superar, porque nao param
pamos nas rela~oes de poder- seja ela de soberanía ou de se reproduzir do come~o ao fim da existencia do indiví-
subalternidade, em seus diferentes graus -, por mais duo, de sua família e de sua comunidade. Mais do que isso,
nho que isso possa nos parecer do ponto de vista mclC!'Itlll tais traumas tem início antes mesmo do nascimento, já que
político e, mais estranho ainda, quando nosso sao herdados dos ancestrais e inscritos no DNA desde as
reduz-se a essa esfera. experiencias longínquas da coloniza~ao e da escravidao, do
Mas, por outro lado, é evidente que, como tudo que exHio for~ado que estas implicaram, do extermínio daque-
vivido no plano das formas e seus códigos é indissol:::ia•~reL les que nao se adaptaram a essa forma extrema de poder ou
mente vivido no plano das for~as que as animam e também dos que morreram de banzo por nao tolerá-la. O mais grave
desordenam, as distintas posi~oes nas rela~oes de poder é que esses traumas herdados nao param de se reatualizar,
esfera macropolítica (rela~oes de classe, ra~a, etnia, ¡:;,....u.._,,.,. continuando a reproduzir-se até hoje. O duplo trauma - o
etc.) tem seus efeitos na esfera micropolítica. Porém, medo do colapso gerado pelo abuso e o terror da humilha-
há qualquer simetría ou paralelismo entre os agentes ~ao gerado pela desqualifica~ao do lugar que lhe é atribuído
ciais da insurgencia em cada urna dessas esferas. Se na na sociedade - coloca a vida num tal grau de amea~a a sua
macropolítica estes se distribuem em urna cartografia integridade que as respostas do desejo, das mais ativas a mais
nizada em pares binários, sendo o polo subalterno o ...5 ,.u.."!ll , reativas, tendero nesse caso a intensificar-se. A resposta rea-
por excelencia da insurrei~ao, a lógica de sua distribui~ao tiva é urna estratégia de defesa psíquica que se origina de um
diagrama de for~as próprio da esfera micropolítica é outra enrijecimento dos obstáculos da subjetividade para acessar
pode surgir de qualquer lugar na trama social, já que est:amt~ seu saber-do-vivo, no intuito de proteger-se do efeito tóxico
todos sob o domínio do inconsciente colonial do trauma. Isto tende a impedir o desejo de agir na dire~ao

126 INSURGENCIA$ MACRO E MICROPOLÍTICA 127


de livrar-se da coloniza~ao do inconsciente 0 de soberanía nas rela~oes de poder (o oposto do
. _ . d , que
1evar a urna sub m1ssao am a maior tanto ao abuso se f rto do lugar que o subalterno e, levado a ocupar) .
u1ugar

sao quanto aopressao (a parcela das classes u~:::sra:vn.... desean o rn que sua subjetiVIdade
. . . . e
se apegue ma1s terre a-
nh
O
que apoia fervorosamente figuras como o deputad l stofazc , c rrnas estabelecidas, por medo de perder seus pn-
.
. 1 o ente as t'0 .
Ja1r Bo sonaro ou que reivindica a volta da ditadura ~ é .os rnateriais, que ela tende·a confundir com um suposto
sao exemplos el?~uentes desse tipo de reatividade). 1
\'il_ ~ , ·0 vital de seu modo de existencia. Tal equívoco sus-
prtVl egi o irnaginano , . .
da soc1edade co1oma
. 1 . 1' .
-cap1ta 1st1ca
mesma amea~a a mtegridade pode, ao contrário, ge tenta-se n
resposta ativa: impulsionar os subalternos a rar onsidera esse modo de existencia como o ideal e ao
que e d f , , . d
como saber-do-vivo por urna questao de vida ou mon todos deveríamos aspirar, quando e ato e propno e
1
quaa vida estéril e que, portanto, nao corresponde a pnVI . "1 '
os leva a buscar rasgar o véu das narrativas e. e-
construídas a partir de seu duplo-trauma que malSC~U'aJ1W ; de espécie alguma; ao contrário, é pateticamente miserá-
causa de seu mal-estar, deturpando sua visao da Nisto 0 soberano diferencia-se do subalterno que, nessa
ve.1 , . ,
movidos pelo impulso de retomar as rédeas da pulsao esfera rnacropolítica, nao tem nada a perder; ao contrano, s_o
em suas maos. Quando isto acontece, eles tendem a ar Mas o mesmo fato de que o grau de alerta sep
tema ganh · , . .
um alto grau de lucidez e ganham mais for~a nao só menor em sua subjetividade pode, ao contrano, amphar as
resistir ffiÍCropoliticamente tanto ao abUSO C0ffi0 a h,..-!OtL - ndiroes psíquicas para que ela nao sucumba ao trauma e
co ., 1" .
~aO, mas também para sua luta macropolítica contra a desejo ganhe um impulso para enfrentá-lo micropo ltlca-
0
sao, a explora~ao e a exclusao. mente, reconectando-se com o saber eco-etológico em busca
Enquanto que, do lado do soberano, pelo fato de que de livrar a pulsao de seu abuso. Nesse caso, suas condi~oes
medo do colapso oriundo do trauma do abuso da pulsao materiais podem inclusive favorecer a mudan~a, ao invés de
venha acompanhado pela experiencia traumática da brecá-la. O desejo tende entao a agir na dire~ao de práticas
lha~ao de classe efou de ra~a, o som do alarme é menos criadoras. N as classes favorecidas, a quais pertencem tais
dente em sua subjetividade e, consequentemente, é menot subjetividades, tais práticas tendero a manifestar-se priorita-
o grau de alerta de amea~a avida que o alarme anuncia. riamente na arte. Mas hoje elas tem se manifestado cada vez
resposta do desejo, nesse caso, oscila igualmente na gama de mais também nas transfigura~oes dos modos de existencia e
micropolíticas entre os dois extremos de destinos possíveis nos movimentos ativistas que se insurgem nos vários domí-
de sua pulsao. Sua resposta reativa origina-se na diminui~ nios das rela~oes nos ambitos de genero, sexualidade, ra~a,
do impulso do desejo a insurgir-se, o que pode levar avitó- etnia etc. - embora, pelas razoes acima apontadas, quando
ria de urna micropolítica de submissao de sua pulsao vital tais transfigura<;oes e movimentos se dao nas periferias dos
avontade oriunda de sua experiencia como sujeito, mesmo centros urbanos elas tendam a ganhar especial ousadia.
que esse seja (macro)políticamente correto. Tal tendencia No campo específico das práticas artísticas, é nesse con-
reativa intensifica-se pelo conforto material e narcísico de texto que a questao das rela<;oes entre arte e política voltou

129
128 INSURGENCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA
recentemente a baila com renovada urgencia e ) que move seus agentes
diante da grave situa~ao mundial. Mas agora, o foco 3 0
a estar menos nas obras e seu desafio de ~acropolítica
sistema da arte em seu próprio interior, como o era nos ue moveos agentes da insurrei~ao macropolítica é a von-
oq - . . . , .
1960, e mais nas seguintes perguntas: como resistir a de de "denunciar" em palavras e a~oes as lllJUStl~~s propnas
nagem da potencia de cria~ao na arte, sua potencia tadistribuic;ao de direitos nas formas de mundo VIgentes. O
política? E, para além do ambito institucional da arte , a uerem com tais denúncias é "conscientizar" a sociedade
que q d . e - 1" -
estratégias artísticas podem intervir na vida social, através da transmissao e mtormac;oes e ex~ 1ca~.oes, ~ara
rando espa~os para processos de experimenta~ao, sua "mobilizar" (sobretudo os subalternos) por mew da 1dennfica-
lifera~ao, seus devires? E, mais radicalmente ainda, ~ao a agir nessa direc;ao. Em suma, o que os move é a vontade
contribuir para liberar a potencia de cria~ao de seu de "empoderar" os subalternos, assim como os movimentos
mento na arte? macropolíticos e sua organizac;ao, engrossando o caldo de sua
É evidente que no ambito das subjetividades nao há forc;a para que consigam instaurar urna distribuic;ao de direi-
raliza\6es possíveis; as figuras acima desenhadas de rea~o tos mais igualitária.
abuso, sejam elas as dos subalternos ou dos soberanos,
turam-se em diferentes graus compondo políticas de Micropolítica
que variam ao longo da existencia. Em suma, as au1runic:i o que move os agentes da insurrei~ao micropolítica é ~
na esfera micropolítica sao mais complexas e paradoxais vontade de persevera~ao da vida que, nos humanos, mam-
que as das posi~oes que cada um ocupa festa-se como impulso de "anunciar" mundos por vir, num
na sociedade. Nada garante que os subalternos sejam processo de cria~ao e experimenta~ao que busca expressá-
eles, por princípio, agentes em potencial da · -los. Performatizado em palavras e a~oes concretas portado-
micropolítica, já que sua subjetividade pode estar sobo ras da pulsac;ao desses gérmens de futuro, tal anúncio tende a
tic;o do inconsciente próprio ao regime dominante, "mobilizar outros inconscientes" por meio de "ressonancias",
que o combatam macropoliticamente. E vice-versa: o agregando novos aliados as insubordina~oes nessa esfera. Os
rano pode tomar-se eventualmente seu agente, quando novos aliados, por sua vez, tenderao a lan~ar-se em outros
bra-se em sua.subj etividade o feiti~o dos valores ,....,.., , ....,i" processos de experimenta~ao, nos quais se performatizarao
desse tipo de inconsciente que regem a dinamica de outros devires do mundo, imprevisíveis e distintos dos que
identifica~oes , mesmo que do ponto de vista macro nao os mobilizaram.
além do politicamente correto.

INSURGENCIA$ MACRO E MICRO POLÍTICA


131
130
. eira é que expressar em palavras e ac;oes vivas os mun-
4) Inten~ao
pfl[Il ue se anunciam (o que é próprio da micropolítica) é
doS
. into de explicar a desestab'l'
q - que estes provocam; a
I Izac;ao
~acropolítica eempoderamento do sujeito) diSt nrnentac;ao ativa requer "implicac;ao" nessa emergencia
A mtenc;ao de insurgir-se macropoliticamente é 0
mento" do sujeito: libertar-se da opressao política d
aP:o urna "explicac;ao" que nos proteja, nos aliviando iluso-
e.na ente. Essa é a condic;ao
· - para que o moVImento
·
- A • a, pu1s10na
· 1
rac;ao economica e da exclusao social; sair do narncomplete em seu destmo . euco,
, . pro d ' d t '
e da invisibilizac;ao, para ocupar afi.rmativame~n...t.e~.....cUneJI'III uzm o um acon eci-
de fala" dignamente ouvida e um "lugar de exist~ia" seento. A segunda é que "potencializar a vida" é distinto de
~
namente reconhecida. Como a insurreic;ao nessa esfera emP oderar o sujeito", urna intenc;ao _ _aesfera
. própria . macro-
olítica da insurreic;ao. Ambas as mtenc;oes sao Importantes
promover urna redistribuic;ao mais igualitária das POlHcil.tll
p complementares. O problema é quando se visa apenas o
nas relac;oes de poder, sua intenc;ao de empoderar 0
e poderamento - desconsiderando a potencializac;ao vital
tem como meta, em última instancia, levar ainstaura~ao ern . .
ue depende da implicac;ao que o saber-do-VIvo anuncia-,
um Estado mais democrático.
~oís isso nos faz permanecer cativos da lógica do próprio sis-
Micropolítica (potencializac;ao da vida) tema que buscamos combater.
Diferenciar ambas intenc;oes é especialmente indispensável
A intenc;ao de insurgir-se micropoliticamente é a "pl)tenci:aliir.
para os carpos considerados de menor valor no imaginário
za.c;ao" da vida: reapropriar-se da forc;a vital em sua potencll
social - como o corpo do pobre, do trabalhador precarizado,
cnadora. No.s hum~nos, a reapropriac;ao da pulsao, depende
do refugiado, do negro, do indígena, da mulher, do homosse-
de reapro~nar-s~ Igualmente da linguagem (verbal, visual,
xual, do transexual, do transgenero etc. Quando a insurgencia
gestual, eXl~tencial etc.), o que implica em habitar a lingua.
desses carpos abarca um desejo de potencia, além da necessi-
gem nos dms planos que a compoem: a expressao do sujeito
dade de empoderamento, é mais provável que o movimento
e a do fora-do-sujeito que lhe dá movimento e a transforma.
pulsional encontre sua expressao singular e dele resultem
Isso depende de lanc;ar-se num processo de experimenta-
transmutac;oes efetivas da realidade individual e coletiva,
~~o rr:ovido,pela tensao do paradoxo entre ambos- o que
inclusive em sua esfera macropolítica.
e .md~spensavel para que a pulsao possa guiar o desejo em
direc;ao a conexoes que lhe permitam criar algo no qual ela
encontre sua expressao. Nesse processo de experimenta~o
- em que se criam palavras, imagens, gestos, modos de exis- 5) Critérios de avalia~ao das situa~oes
tencia, de sexualidade etc. -, os mundos ainda em estado
larvar que se anunciam ao saber-do-vivo tornam-se sensíveis. Macropolítica (critério moral)
O critério macropolítico para avaliar as situac;oes é exclusi-
Em última instancia, há duas diferenc;as fundamentais
vamente racional, guiado pelo juízo moral próprio ao sujeito:
entre as intenc;oes dos combates micro e macropolítico. A

133
INSURGENCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA
132 ESFERAS DA INSURREI<;:AO
o que orienta as escolhas e a~oes nessa esfera é
. olítica (por afirma~ao)
sola moral". Sua agulha aponta para sistemas de v~:rna ..1crop . A • e .
mdd 'A.. ores P" fi madio" que se opera a msurgene1a na es1era micro-
o os e eXIstencia VIgentes: aqueles com os qu · "' ''pOr a r > A •

. . 'd d . . ais cada r.. J¡nca.


, . . tr ata-se de um "combate pela"
. vida em sua essencia
_
JetiVI a e se Identifica em sua experiencia como su· ·
. .1.
qums se utiiza para situar-se no campo social.
~eitoe pornunan . ·va· Um combate que consiste em buscar nao ceder
ge da pulsao, o que depende de um longo trabalho de
ao abuso . e . -
uavess1a · do trauma que tal abuso provoca- CUJOS e1eitos sao .
Micropolítica (critério pulsional e sua ética)
tencializa~ao da for~a vital que decorre de sua VIO-
O critério para avaliar as situa~oes na esfera a despo . b' .
~ prepara o terreno para sua cafetmagem. O o Jetivo
"pulsional": o que orienta nossas escolhas e a~oes ness la~ao e . l' . ,
é. urna "bússola ética". Sua agulha aponta para aquil: desse mo do de operarao , próprio do combate micropo Itico e
consiga neutralizar esses efeitos do trauma do abuso o
VIda pede como condi~ao para perseverar a cada vez que se d · -
d b'l ' d
A que áximo que se puder a cada momento e face a ca a Situa~ao.
ve e I Ita a por sua asfixia nos modos de existencia Vlc,.........
m · tir ao abuso é a condic;ao para desarticular o poder do
e seus valores que, quando isto ocorre, perdem seu Resis , · b'
.moo nsciente colonial-capitalístico em nossa propna su _Je-
Em suma, o critério micropolítico para decifrar as "'r'"'"~"'­
tividade, 0 qual nos faz permanecer enredados nas rela~oes
é guiado pelo p~~er. de avalia~ao próprio aos afetos, 0 que
acessa na expenencia fora-do-sujeito. de poder, seja na posi~ao de subalterno (mesmo quando nos
insurgimos macropoliticamente contra ela) ou de soberano
( smo que seJ·amos os mais macropoliticamente correros).
me ' · d'
6) Modos de opera~ao Tomemos como exemplo o combate das mulheres. E m Is-
pensável e inadiável que a mulher se insurja contra a desi-
~acropolítica (por nega~ao) aldade nas relac;oes de genero. No entamo, se ela busca
E "por nega~ao" que se opera a insurrei~ao na esfera ~ crc>­
~r de seu lugar subalterno insurgindo-se apenas nessa esfera,
política: trata-se de estratégias de "combate contra"
111 1 macropolítica, nada garante que sua subjetividade recupere
sua plena existencia, pois isso depende de que ela se reapro-
opressores e as leis que sustentam seu poder em todas suas
prie da pulsao, cujo destino lhe foi seq~estrad~ por essas
manifesta~oes na vida individual e coletiva. Esta é a con-
mesmas rela~oes de poder. Se ela nao se msurge Igualmente
di~ao para subvener a distribui~ao de posi~oes no interior nessa esfera, micropolítica, é provável que ela continue se
das rela~oes marcadas pela opressao e a explora~ao. Se
0 mantendo dependen te do olhar do homem para se sentir exis-
combate aqui opera pela via da oposi~ao é porque sao, de
tindo e, com isso, ela nao só permanec;a cativa da cilada da
fato, opostos os interesses dos dois polos em luta nas rela-
dominac;ao masculina e do abuso machista, mas o alimente
~oes de poder, sendo, ponanto, "dialética" a dinamica da
luta entre eles. com seu próprio desejo. Em outras palavras, ao nao incor-
porar a esfera micropolítica ao combate, este tende a ficar
prisioneiro de urna lógica de oposic;ao ao homem. A luta da

134
ESFERAS DA INSURREI~AO INSURGENCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA 135
mulher torna-se entao urna disputa de poder que toma rapessoal para deixar-se guiar pelos efeitos da cena em
0
sonagem masculino da cena machista como única eoext , b , . .
para sua identifica~ao e, com isso, mantem-se a,,,..,_..,,.,~--­ seucorp o . A partir daí' tambem ele uscara recnar a s1 mesmo
. tado pelos afetos de sua intera~ao com o(s) novo(s)
onen
desse personagem e a própria cena - precisamente q
. 0 ue onagem(ns) da mulher que com ele contracena(m), tor-
mulher VIsava em seu combate macropolítico. persd se como ela um agente· da insurgencia micropolítica.
A cena do machismo, como a de toda e qualquer rela~ao nan o- ' '
E, nesse caso, o(s) novo(s) personagem(~s) da mulher, por
poder, é desempenhada por dois personagens: o opressor tenderá(ao) a se transmutar a part1r dos afetos dessa
oprimido, ambos implicados em sua dinamica e por ela suave Z ' . .
nova dinamica de interarao e ass1m por d1ante. Nessa •dan~a,
ponsáveis. Para desarticular tais rela~oes, o oprimido tem "3' , •
e suroir um novo roteiro, no qual a polmca de deseJO que
desertar seu papel no roteiro do abuso - seja este o de pod o- " d 1 - ., -
· nta os personagens e a dinamica e sua re a~ao Ja nao
do opressor ou, na melhor das hipóteses, o de seu mero one . e · , ·
sitor -,transfigurando-se em outro (s) personagem(ns) estep· m submetidas ao inconsciente. coloma . 1-ca1etm1st1co,
. ,
leva ndo a forma~ao de um outro reg¡me de mconsc1ente e a
simplesmente abandonando a cena. Quando isso __ ,,.. . .1
L,CL:JIOI.
consequente instaura~ao de novas cenas na pmsagem soc1a ,
o personagem do opressor, seu parceiro de cena, fica 1cu¡mao. ·á distantes do machismo. Mas é óbvio que o cancelamento
sozinho e a cena nao tem mais como continuar existindo. Nio ~ teatro machista e a impossibilidade do personagem mas-
será precisamente essa opera~ao insurrecional
c~lino de seguir atuando no papel de opressor pode levá-lo,
o que vem sendo introduzido pelos movimentos atuais
igualmente, a urna resposta reativa, violenta, movida por sua
mencionados, sobretudo nas rela~oes de poder nos ambitot exasperada vontade de conservar a cena e seu perso~agem
de ra~a, sexo e género?
na mesma a qualquer pre~o, por medo de colapsar. E esta,
Mas o que acontece com o personagem no qual se encorl.. infelizmente, a tendencia que vem nao só prevalecendo, mas,
tra confinado o opressor quando acorre essa transfigura~ inclusive, expandindo-se exponencialmente nos últimos tem-
do personagem do oprimido na cena das rela~oes de poder? pos. Urna de suas manifesta~oes mais óbvias é justamente o
Retomemos o exemplo do teatro machista. Diante da angústia
espantoso aumento do número de feminicídios, amedida que
que a desestabiliza~ao da cena provoca no homem, na qual
avan~a a insurgencia feminista, principaln;ente nas regioes
até entao ele tinha seu lugar garantido e podía repetir seu das ex-colonias, como a América Latina e a Africa - fenómeno
sonagem ad infinitum, sao várias suas possíveis respostas. Se a que participa do conjunto de situa<;¡5es deflagradoras do tsu-
política do desejo que conduzir sua resposta for ativa- o que nami do conservadorismo cada vez mais tacanho e cruel que
vem acontecendo cada vez mais, embora ainda minoritaria- tem devastado o planeta.
mente-, tal experiencia pode impulsioná-lo a fazer o mesmo Em suma, há urna diferen~a fundamental entre os comba-
movimento que levou o personagem da mulher a transmutar- tes macro e micropolítico em suas respectivas abordagens das
-se: superar sua desconexao com o extrapessoal, assim como
rela~oes de poder: se a opera~ao de resistencia macropolítica
sua impossibilidade de sustentar-se na tensao entre o pessoal visa redistribuir os lugares no interior das rela~oes de poder,

136
INSURGENCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA 137
. 1 capitalístico o exercício da forc;a de criac;ao encon-
a operac;ao de insubordinac;ao própria da esfera ¡0nla- ' , .
co nfinado numa atividade especifica que se convenclO-
visa, diferentemente, desmanchar tais relac;oes, u 1 ~;so.lVPft.i aa-seharnar
co de "Arte", cuja institucionalizac;ao data de pouco
seus personagens, seus respectivos papéis e a própria nou. e e dois séculas. Send o ass1m, · e, merente
· ao mo d o d e
Combater a cafetinagem da pulsao, medula do •u•.ul .lSCllf'tiM JllalS qu , . .
- micropolítico buscar libertar es se exerc1CIO o ma1s
colonial-capitalístico, implica construir para si um opera<;a 0 .
se puder desse seu confinamento, o suficiente para que
carpo, abandonando a carapac;a de um carpo estruturad0
que e reative nas demais práticas da vida social. E que se
dinamica do abuso - como os gafanhotos abandonam ele s , . , . , . · b
· e inclusive nas propnas praucas art1st1cas pms, so o
exoesqueleto para que um outro carpo, ainda reanv ' ' . passou a ser quase
·talismo financeirizado, tal exercíc10
possa germinar e tomar o seu lugar. E se esse combate se capl , d
. ossível também nesse campo. E que nessa nova dobra o
por afirmac;ao e nao por oposic;ao, como é o caso na
i.Jll~rne a arte tornou-se urna fonte privilegiada para a cafe-
macropolítica, é porque a dinamica da tensao entre 0 pe:sSllllll
r~~ge~ da potencia vital de criac;ao: hoje, até mesmo nesse
e o extrapessoal nao é dialética, mas paradoxal, e entrentii.-111 Oll d . , .
o manter essa forra direcionada a seu estmo enco
implica ac;oes afirmativas de um devir-outro dos perso~na;~re~.& carnP ' > . .
tornou-se um desafio frente ao poder do abuso colomal-capl-
na cena das relac;oes de poder.
talístico em todos nós, inclusive nos artistas. Tal abu~o con-
Nessa operac;ao micropolítica de combate as rrc~nteira ·:
siste nao só em neutralizar a potencia de criac;ao reduzmdo-a
entre política, clínica e arte tornam-se indiscerníveis. s
dimensao clínica reside no fato de que o que se visa é livrarU4
acriatividade, mas também em usá-la como signo de penen-
. . d
mconsc1ente e sua patologia colonial-capitalística. Trata-se
o cimento as elites transnacionais a ser ostensivamente exi-
bido. Ser colecionador, conhecer urna meia dúzia de nomes
dAe u:na busca por "curar'~ a ~da o mais possível de sua impo-
de artistas e curadores que estejam na crista da onda do mer-
tencia, sequela de seu cat1ve1ro na trama relacional do abuso
cado, frequentar vernissages e feiras de arte e fazer turismo
que aliena a subjetividade das demandas vitais e mantém 0
nas grandes exposic;oes internacionais pelo mundo passou
desejo refém do regime dominante em sua essencia cafe-
a constituir um elemento essencial do glamour projetado
tín~. ~ s~ tal operac;ao,de cura é indissociável da opera~io
sobre a estéril existencia de tais elites, glamour que lhes dá
art1st1ca e porque ela so se completa com a criac;ao de novos
urn plus de seduc;ao e aumenta o poder de seu self-brand no
modos de existencia que performatizem as demandas vitais,
mercado. Além dessas vantagens micropolíticas que a arte
realizando assim a germinac;ao dos embrioes de mundo que
lhes traz e de seus efeitos em seu poder macropolítico, esta
pulsam nos carpos. Em última análise, cada gesto de insur-
tornou-se mais do que nunca um terreno privilegiado para a
reic;ao micropolítica é, nele mesmo, um movimento de res-
surreic;ao da vida. especulac;ao e a lavagem de dinheiro.
Se qualificamos de "operac;ao artística" a criac;ao de novos
modos de existencia que dao carpo para as demandas vitais
é porque na cultura moderna ocidental, própria do regime

139
INSURGENCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA
138 ESFERAS DA INSURREIQÁO
7) Modos de coopera~ao
, la construc;ao do comum que se coopera na insurgencia
Epe . ''vi A •

Macropolítica (via recognic;ao identitária para ·cropol I'ti·ca ' cuJ·os agentes se aproXImam a ressonancia

mo,vimentos organizados ej ou partidos políticos)


IJll
. tensiva. m 6 que se dá entre frequéncias de afetos emoc;oes e
~ . ) Trata-se de tecer múltiplas redes de conexoes entre
E pela construc;ao de "movimentos organizados e' "VItaiS . . - d" .
t"d ,ou · ·dades e grupos que estejam vivendo situac;oes Istm-
I os po1'Iticos
. " que se coopera na insurreic;ao bjetiVI . . .
su com experiencias e lmguagens smgulares, CUJO elemento
taS
cujos agentes se agrupam "via recognic;ao identitária".
' ·- sao embrioes de mundo que habitam os carpos que
-se de urna construc;ao programática, que se faz a de uma 0 A • • •

articipam, impondo-lhes a urgencia de que seJam cna-


um ~lana de ac;oes previamente definido, visando a Uin de1as p . . . .
formas nas qums tms mundos possam matena1Izar-se coro-
relatiVO a Urna mesma reivindicac;ao (O que na esfera m~tcn:ltl das d · - ,, ' 1
lítica consiste numa demanda concreta) e em func;ao de pletando assim seu processo e germmac;ao. 1sto so e possive .
campo relacional e desde que nele prevalec;am deseJOS
mesma posic;ao (subalterna) num determinado se~mc:~ntc,..l numbuscam guiar-se por urna busso ' 1a etlca, e com que
' . o que 1az
vida social. Nessa posic;ao, que pertence aesfera da ··n•"C!<>n.. ~, .. que . . · 1
experiencia subjetiva (o sujeito) , desenha-se um suposto ores ultado de suas ac;oes seJa necessanamente smgu , . ar. .
criam-se com isso territórios relacionais temporanos, vana-
tor~o id~ntitário que dá a liga para a necessária agrupa~o
dos e variáveis. Nesses territórios se produzem sinergias coleti-
mew da Identificac;ao. Vários desses segmentos podem
s rovedoras de um acolhimento recíproco que favorece os
num SÓ movimento (em torno de reivindicac;oes que Imlt>UC*i va , p . d. .
A •

processos de experimen:ac;ao de mo_d ?s de eXIstencia I~tmt~s


por exemplo, género, rac;a e classe), assim como
dos hegemónicos, valonzando e leg¡timando sua ousadia. Tms
de diferentes segmentos podem juntar-se em torno de
eriéncias coletivas tomam mais possível o trabalho de tra-
causa que diz respeito a todos. Este é um modo de f'n.n ....,._ ...... exp d .
vessia do t rauma resultante da operac;ao perversa o reg¡me
que gera forc;a de pressao para viabilizar urna reversao
colonial-capitalístico que confina as subjetividades nas formas
e
nas relac;oes de poder no plano institucional o que inclui
Estado e suas leis, mas nao se reduz a ele) . O tempo
combate em cada campo visado é cronológico, 16 "Ressonancia" é distinto de "empatia", outra palavra por demais de~g~:ta­
quando seu objetivo é alcanc;ado; no entanto, o da em nossa cultura, que reduziu seu uso ao compartilhamento de oprmo~s,
ideologias, sistemas de valor e sentimentos (emo¡;;oes psic.ológicas) ou, m~r s
segue organizado para fazer face a novas alvos de luta.
precisamente, ''bons sentimentos" - ou seja, um compartrlhamento res t:rt~
aesfera do sujeito. Ainda no ambito da redu¡;;ao do uso do termo empan a a
Micropolítica (via ressonancia entre frequéncias de afetos esfera macropolítica e aos bons sentimentos, é sua atual ins:r¡;;ao ~o ~éxico
para a construc;ao do "comum") 1S de atitudes políticamente carretas, as quais denegam as tensoes pr?pnas da
rela¡;;ao com a alteridade e nao implicam urna exigencia de a¡;;ao efetrva : tarr:-
pouco de transforma¡;;ao de si a partir dos efeitos reais do outro (emo¡;;oes vr-
15 V~r, a re~peito da no¡;;ao de comum aqui proposta, a nota 9 do primeiro
tais). Em suma, o termo empatia vem senda usado em atitudes que de ne?~m
ensa10 publicado aqui: "O inconsciente colonial-capitalístico". a esfera micropolítica, daí sua inadequa¡;;ao para designar aquilo que vrabrlrza
a coopera¡;;ao nessa esfera.

140
INSURGENCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA 141
e valores dominantes marcadas pela ex .
mento pulsional. Como tal superarao im PI. ropna~ao do sonancia" é distinto de faze-lo por "identifica<;ao". Ambos
fim 0 · J'
. ~ Importante aqui é que ela atinja em cad
P Ica um "rt~Ios sao importantes; o problema é quando a subjetividade
lImiar que perm1·t a os confina no contorno 1"d ent1tano,
. , . re d uzm
. d o-se a e1e. Ta1
a que a for~a vital criado .
menos suficientemente, de sua cafetin ra se ,hbere, sedur;ao tende a interromper os processos de subjetiva<;ao
para que se logre compor um coipo in~e~. Esta e a ~ pulsionados pela tensao entre o pessoal e o extrapessoal,
resista acafetinagem da vid . IVI ual e coletivo :corrente dos efeitos das for<;as do outro na esfera micro-
. - aeseJacapazdearep r política quando estes extrapolam os contornos identitários e
composir;ao que reside o significado d - e Ir- é
do comu " 1 a expressao amea~am dissolve-los. lnterrompidos tais processos, nao há
. m ' ta como aqui proposta.
. ~~ tms reapropria~oes coletivas da ulsa ossibilidade de urna transforma<;ao efetiva da realidade, já
sibihdade de constituir;ao de ca p o depende a :ue nao haverá metamorfoses das políticas de subjetiva<;ao
gencia de um "acontecimento" n:pos ~avorecedores da e dos novos modos de existencia que com elas se criariam.
- Isto e a emergA ·
trans fi gura~ao efetiva na t . ' encia de
~ao dos embrioes de mun:~~a:eo;Ial. Esta resulta da gellDi•
os levaram a unir-se produ . d ess~aram entre os corpoa Descolonizar o inconsciente: matriz da insurrei~ao
d e outros modos de ' exist Azm. oumnmhopara o ui:t:scuneM.ili nU.cropolítica
E - encia e suas respectivas
-m su,m~, sa,o totalmente distintos os modocs;udto,!l'a1:¡..,
rar;ao propnos as insurreir;oes . e Em vista do novo estado de coisas, torna-se inadiável aliar-
também ambos sao . d" z_na~ro e micropolíticas. Aquf mas o protesto programático das consciencias ao protesto
' m Ispensaveis e com 1
acontecimentos sao o result d d p ementares. Oa pulsional dos inconscientes. Como aqui se tem insistido rei-
pr~pri_os da insurgencia micr~p~lít~~ap~~~essos de cria~io teradamente, a desarticula<;ao entre ambas as esferas de com-
ar;oes msurrecionais macropolít" ' I ~rentemente das bate, macro e micropolítica, só contribui para a reprodu~ao
fim pré-definido Se o d d Icas, as qums partem de wn infinita do status qua. Mais grave ainda é quando se estabe-
. mo o e cooper - d
gera urna for a de _ ar;ao estas últimas lece entre seus agentes urna confl.itiva polaridade, na qual há
~ao de d. . r; . ~ressao para viabilizar urna "distribui urna demonizar;ao recíproca em torno do que seria a su posta
Ireitos mms JUsta" na cart fi -
de coopera~ao micropoli't· ogra a em curso, o modo "verdadeira atitude revolucionária". Um tipo de rela<;ao que,
Ico gera urna for d "
morfose transindividual"l7 . r;a e meta- infelizmente, esteve bastante presente nos levantes dos anos
quais se plasma o direito a~~acr~ ~ova_s car:ografias, nas 1960 e 1970, causando muitos mal-entendidos, muita des-
· em d1sso, JUntar-se por potencializa<;ao e muita dor. É que ''verdade" e "revolu<;ao"
sao conceitos criados no ambito da política de produ<;ao de
17 Ver, a respeito da ideia de "for d -
Massumi, O Que os Animais ¡;;~ e transforma¡;;ao transindividual" Brian urna subjetividade antropo-falo-ego-logocentrica, própria
2.017- nos ensznam sobre a Política, Sao Paulo: n-1 eili¡;;i'Ses, da cultura moderna ocidental colonial-cafetinística. Nosso
desafio está, portanto, em superar em nós mesmos a nefasta

142
ESFERAS DA INSURREI<;:ÁO INSURGENCIAS MACRO E MICRO POLÍTICA 143
. ma partícula do regime dominante em nós e
dicotomia entre micro e macropolítica, buscando ... rr.......,.t ~ é rna1s u -
dife~ao , di. sso1ve e isto tem poder de propagac;ao.
em todos os campos relacionais de nossa cotidianidade eora de nos que se ' .
.d dá um salto e nos proporciOna
0 rnentos que a VI a
1'
nossos movimentos insurrecionais coletivos.
t neste~ ~ividua1 e coletivo de sua afirmac;ao transfi~rad~ra.
Para lograr enfrentar este desafio é preciso antes de
0 gozo 1ll . to de urna vida nao cafetmada e o
nada refinar nosso diagnóstico do regime de ..· ..... ,,..~,,.-11!11 . este acontec1men . , .
pesepr 1 . do reaime colonial-capitahsnco que
hegemónico e seus efeitos tóxicos na existencia ,d para a pato og¡a o-
ann ot:da genérica e nos faz desejar o gozo do p~~er- u~
coletiva, desde urna perspectiva ética. Isto depende da torna a . b' t'vidade reduzida ao suJeito, cup
sociabilidade de um trabalho teórico transdisciplinar e rópno de urna su Je 1
gozo ~ 1 miseráve1 narcisismo devastador.
pragmática clínico-estético-política. O objetivo é criar eira nos eva a um
cegu
mentos pragmático-conceituais adequados para a aesc<>lOI
zac;ao do inconsciente, alvo da insurreic;ao
se tal tarefa impoe-se hoje COffi máxima urgencia, é nnPn••~
combate nessa esfera ainda está engatinhando. Este cornec:o
a insinuar-se mais amplamente há pouco mais de meio
-desde os anos 1950, após a Segunda Guerra Mundial. A
rienda macabra desse triste episódio da história nos
a intuic;ao de que nao basta insurgir-se
pois a reatividade micropolítica pode chegar a alns~nmta.
graus de violencia contra a vida: genocídios de baciada
requintes de perversao inimagináveis. Ainda assim, é só
décadas depois, nos anos 1960 e 70 coma gerac;ao nascida
pós-guerra, que eclodiu um movimento micropolítico
minando-se intempestivamente por toda a trama social
várias regioes do planeta. A experiencia de insurreic;ao nesta
esfera é, portanto, muito mais recente do que a que se dá na
esfera macropolítica que ternos vivido há um século e meio
-desde a Comuna de París em 1871-, e para a qual contamos
com um acúmulo bem maior de experiencias.
A descolonizac;ao do inconsciente envolve um trabalho
sutil e complexo de cada um e de muitos que só se ínter-
rompe com a morte; ela nunca está dada de urna vez por todas.
Mas a cada vez que se consegue dar um passo adiante nesta

145
INSURGENCIAS MACRO E MICROPOLÍTICA
144 ESFERAS DA INSURREI<;:Ao
urna paisagem sinistra instaurou-se no planeta com a tomada
de poder mundial pelo regime capitalista em sua nova dobra
_ financeirizada e neoliberal -, que leva seu projeto colonial
as últimas consequencias, sua realizac;ao globalitária. Junto
corn este fenómeno, um outro, simultaneo, também contribui
para 0 ar tóxico da presente paisagem: a ascensao ao poder
de forc;as conservadoras por toda parte, com tal nível de vio-
lencia e barbárie que nos lembra, para ficarmos apenas no
século XX, os anos 1930 que antecederam a Segunda Guerra
Mundial e, posteriormente, os anos de regimes ditatoriais, os
e
quais foram se dissolvendo ao longo dos anos 1980 como os
regimes militares da América do Sul ou o governo totalitário
da Uniao Soviética, entre outros). Como se tais forc;as jamais
tivessem desaparecido de fato, mas apenas feito um recuo
estratégico temporário a espreita de condic;oes favoráveis
para sua volta triunfal.

Neoliberais e Neoconservadores unidos? Como assim?

Aprimeira vista, a simultaneidade entre es ses dois fenómenos


nos parece paradoxal: sao síntomas de forc;as reativas radi-
calmente distintos, assim como sao distintos seus tempos
históricos. Além das diferenc;as mais óbvias que consistem
no transnacionalismo de urnas e no nacionalismo das outras,
o alto grau de complexidade, flexibilidade, sofisticac;ao e refi-
namento perverso, próprio do modo de existencia neolibe-
ral e suas estratégias de poder, está a anos luz do arcaísmo
tacanho e da rigidez das forc;as abrutalhadas desse neocon-
servadorismo - cujo prefixo "neo" só faz sentido porque
articula-se com condic;oes históricas distintas das anteriores.
Se o convívio entre esses dois regimes de poder turva nossa

147
compreensao, passada a perplexidade inicial, vai se rerern de volta em suas maos o poder que sempre haviam
evidente que o capitalismo financeirizado precisa des
~odr que alimenta sua autoimagem de machos valentoes
tl o, 0
. . 'd d sas s exibem como se trouxessem na lapela arcaicos e
JetlVl a es rudes temporariamente no poder. Sao como que ele
capangas que se incumbirao do trabalho sujo · nprescin1dft1 'dículos brasoes. Mal sabem eles que com seu trabalho sujo
0 ra-se 0 terreno para que avance e se fortale<;a no Brasil
para a_instala<;ao de um Estado neoliberal: destruir todas prepa · . .
e ernonia dos circuitos globahzados do cap1tal e das finan-
conqmstas democráticas e republicanas, clissolver seu a hs gassirn como das agendas e pautas neol'b · atuantes no
1 erms,
nário e erradicar da cena seus protagonistas - entre os
~a ,~ desde os anos 1980, os quais os eliminarao de cena tao
prioritariamente, as esquerdas em todos os seus matizes pm , , . d'
Urna coincidencia de interesses de · se tornem desnecessários. E nesse cenano que se a o
1og 0
neoliberais em rela<;ao a esse objetivo específico permit novo tipo de golpe, criado pela atua1versao - d o cap1ta
· 1'1smo:
r
a 1an<;a temporária. A torpe subjetividade desses (
e Uill seriado que se desenrola em tres temporadas.
Embora o roteiro do seriado que será aquí apresentado se
vadores é explicita e fervorosamente classista e racista,
nao dizer escravista e de mentalidade colonial, o que os baseie em sua versao brasileira, este é muito semelhante as
a querer cumprir esse papel sem qualquer barreira ética suas versoes na maioria dos países da América Latina. Tal
numa velocidade vertiginosa. Quando nem bem nos roteiro come<;a a ser pensado um pouco depois do fim das
canta de urna de suas tacadas, urna outra já está em vias ditaduras nesses países, quando come<;am a eleger-se can-
acontecer, geralmente decidida pelo congresso na calada didatos de esquerda para a presidencia de seus respectivos
noite. Além disso, colabora para seu interesse nessa tarefa governos apoiados na ascensao dos movimentos socia~s
fato de ser muito bem remunerada pelo poder executivo. oriundos das lutas pela redemocratiza<;ao. O seriado estrem
lhes oferece em traca avultosas somas de dinheiro para em 2012, primeiro no Paraguai. 1 O roteiro traz igualmente
zar projetos absurdos em seus estados de origem e, com elementos para abordá-lo em suas demais versoes no resto do
ampliar seu apoio local; além dos milhoes de reais em planeta, como na Espanha, na Polonia, na Hungría, naÁustria
pina que as empresas que executam tais projetos - em geral
a partir de licita<;oes fraudadas - oferecem para suas cantas
1
o golpe no Paraguai se consumou com o impeachment do president~
privadas, propina que na verdade vem de superfaturamento Fernando Lugo, eleito em zoo8 pela Alian<;a Patriótica para a Mudan<;a, elet-
~ao que encerrou um período de domínio de 61 anos pelo partido Colorado
portanto, das cantas públicas. Instaura-se um campo de de tendencia conservadora e nacionalista, fundado em 1887 e controlado por
cia<;ao entre Congresso e Executivo, no qual os Alfredo Stroessner durante seus govemos ditatoriais (1954-1989) . Após o
em posi<;ao vantajosa, podem chantagear a vontade, exigindo impeachment de Lugo, o partido Colorado ganhou duas elei<;5es consecuti¡~s
em 2013 e 2018 ( quando foi eleito Mario Abdo Benítez, filho do secretan o
mais e mais dinheiro para cumprir sua fun<;ao de capangas. O particular de Stroessner) , ambas na base de escandalosas fraudes. Apesar das
exercício dessa missao lhes proporciona um gozo narcísico inúmeras provas das falcatruas para obter a maioria dos votos e do reconhe-
perverso, a tal ponto inescrupuloso que chega a ser obsceno. cimento internacional da ilegitimidade de ambos os presidentes eleitos, nao
A esse gozo acrescenta-se a patética exposi<;ao de sua vaidade se logrou anular as elei<;5es.

149
A NOVA MODALIDADE DE GOLPE
148
e na Rússia. Com variac;oes de nuances para adaptar-se Na sequencia, em junho de 2013, assistimos as massivas
diferentes contextos, a estratégia do novo tipo de golpe anifestac;oes convulsionando o País. O que leva multidoes
Estado tende a ser a mesma. · ~ ruas nao é exatamente a indignac;ao macropolítica frente ao
aue já se mostra como golpe, mas sobretudo urna intem~es­
~ ·nsubordinarao
nva 1 -s
a sua estratégia micropolítica de mampu-
. . _ . .
Roteiro do seriado ao das subjetividades; e, talvez, urna mdignac;ao amda mms
1
:~e frente as contradic;oes dos governos petistas por suas
A primeira temporada do seriado do golpe no Brasil com ~ianc;as espúrias, a supremacía do poder empresarial sobre o
' . . d ~ der público e o interesse dos cidadaos, aos gastos nababes-
em 200~, com a b omb as;I~a Imagen; o Jornal Nacional da po . , d
Globo divulgando a noticia de denuncias de um esquellla cos com os preparativos da Copa do Mundo e das Ohmpia as,
de pagamento de mensalidades a deputados da base aliada claramente superfaturados e marcados pela corrupc;ao, con-
2
do governo de Luiz Inácio da Silva (Lula), que estaria sendo trastando coma precariedade dos servic;os públicos.
orquestrada em traca de apoio a projetos de interesse do Nesse momento, o roteiro do seriado comec;a a acelerar-se,
Poder Executivo; esquema que mais tarde receberá 0 nome 0
que é visivelmente impulsionado por essa eclosao. É o que
de "MensaHio". A edic;ao intercala as imagens dos ancoras se constata quando apenas cinco meses depois assistimos ao
da Globo comas de milhares de famílias brasileiras diante mandato de prisao de vinte dos condenados pelo Mensalao,
da TV assistindo a notícia estarrecidas. No capítulo seguinte, decretada por Barbosa, já entao presidente do SFT, senda a
vemos a instalac;ao pelo Congresso da Comissao Parlamentar prisao de dez deles (entre os quais Dirceu e Genoíno) em 15
Mista de Inquérito (CPMI) em 2005, cujo objetivo é avaliar de novembro de 2013, data de comemorac;ao da Proclamac;ao
as denúncias que incluem membros do PT e de outros Parti- da República. O roteiro do seriado edulcora micropolitica-
dos da base aliada do governo Lula. A primeira temporada do mente a imagem do mandato de prisao como emblema maior
seriado segue com o envio das acusac;oes contra 38 denun- dos festejos dessa data, nos fazendo crer que estamos assis-
ciados ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 2006, com tindo a recuperac;ao dos ideais republicanos, supostamente
relatoría do Ministro Joaquim Barbosa. Em capítulo posterior, destruídos pelos governos do PT. A operac;ao é parcialmente
o foco é colocado de um lado em Barbosa dando início em bem-sucedida, pois gera urna fervorosa adesao patriótica ao
2007 a um processo criminal contra os acusados e, de outro, golpe em parte da sociedade. N o capítulo que assistiremos a
em duas figuras escolhidos pelas mídias oficiais entre as 38 seguir repete-se o mesmo estratagema: em 2014 tem início a
na mira da justic;a: José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil da operac;ao Lava Jato, composta de mais de mil investigac;oes
Presidencia da República, e José Genoíno, entao presidente
do Partido dos Trabalhadores (PT). E as imagens continuam
2 A respeito de junho de 2013, entre os vários textos que o analisam, ver espe-
a ser intercaladas com os milhares de brasileiros diante de cialmente o ensaio de Francisco Bosco, "O mes que nao terminou" publicado
suas TVs, cada vez mais raivosos. na coluna Ilustríssima da Folha de Sao Paulo em 03/06/2018.

151
150 ESFERAS DA INSURREI<;AO A NOVA MODALIDADE DE GOLPE
pela Polícia Federal do Brasil, autorizadas pelo lUiz
. Ju d"!Clan
e .slatlvo, . , .0 e Policial e ' de, outro,
. o poder
.
Sérgio Moro, visando apurar um esquema de la\r::ao- deres L gJ. _ m1.d.1a' t¡'cas responsave1s pela velcu-
pO orporac;oes
dinheiro que movimentou bilhoes de reais em u . . ' " ·- das grandes .e d o go1pe e do capital financeirizado trans-
enado .
operac;ao leva centenas de investigados aprisao, 2.3 das
(donas ou dirigentes de empreiteiras com negócios
Ia~ao. dos
al hegem o' nico no País desde os anos 1980 · JUnto
3
com
nac¡on, : locais em vários setores da economm. .
Petrobrás) foram novamente decretadas no diada Se us socws '
·á nesse 1mc1 . , ·a do seriado ' que em seu rotelro
c;ao da República. Diante disso, o que os brasileiros Fica claro, J . . ntram-se plenamente integrados
manipuláveis já sentem é que o que se comemora de , . e o dlrelto enea 'd
P
a ohnca1' , nao e, novo no Brasl'1) . Os J·uízes envolVl os na
día da Proclamac;ao da República por dais anos l:UJlsecutlll (o que, a ¡as, . lam despudoradamente as regras
é o retorno triunfal do estilo República das Bananas que, operac;ao do ~olpe. mampu_ até as mudam em velocidade
. .onms eXIstentes o u ,.
breve intervalo com os governos do PT e os sonhos
consntuc1 , .
" e necessano - em av f or dos interesses pohtlcos
. d mar-
ricos de urna Nova República, retoma seu pasto na
"a jato 's . teresses econom1·cos . Os protagomstas essas
A

onda que sempre foi seu desde sua fundac;ao. O estilo cados por m Just1c;a . nao - so, compartilham plenamente_ esses
- s na
blica das Bananas parece retro, pois evoca a tradic;ao co ullll operac;oe mas tem em sua de"'esa
A um papel central. Sao con-
110 1' ,
e escravista, mas o que aí se revela é que a presenc;a VlSce.lll interesses, d m prava concreta (como sera o
, · ao acusa os se
dessa tradic;ao na subjetividade das classes médias e denadosLa pns
d la na segunda tempora da do seriado) ' enguanto .
brasileiras na verdade nunca deixou de existir. Ela vn11foQt• caso e u .dos com penas bem mms
agora a se exibir despudoradamente, disfarc;ada na n:H"I"lltnw sao considerados in~::::~ ;~:v::1escandalosas. Nao há pos-
do seriado com a máscara de retorno ademocracia. Mais uma leves acusados comd as sentenras segundo as regras
fac;anha micropolítica da estratégia do golpe. 'l'd de alguma e prever ~ . .
sib1. 1 a. d mocratlca , . propnas, . de um Estado de d1re1to;
Nessa primeira parte do seriado, um dos pontos altos é o da JUSt1c;a e de~tificar
. os interesses políticos que as
protagonismo do STF. É a primeira vez na história do País que apenas consegue-se 1 . ber ao certo quais serao
nduzem, e mesmo asslm sem sa
o STF condena políticos, desde sua criac;ao no final do século co ' 1as.
, · paraJ·ust1'fi ca-
XIX. Isso faz com que aqueles que assistimos ao seriado nos suas estrateg¡as . ando a maioria no Con-
lembremos que, estranhamente, com diferentes procedimen- Sustentados por essa ahanc;adeo~c~~cuitos globalizados do
tos, o esquema do assim chamada mensalao vinha sendo ado- gres so Nacional, os capangas lsa do governo
capital e das financ;as dao o golpe que expu
tado por todos os governos que antecederam os do PT e que
estes jamais foram processados e muito menos punidos. E al
nos damos coma de que embora a corrupc;ao deva de fato ser . Ra uel Rolnik sobre a financeiriza¡¡:ao do setor
3 A esse respeito ver o que dJz q 90 come¡¡:am a acorrer grandes
combatida, já aparecem nesse início de seu roteiro os sinais imobiliário: "( ...) A partir do final d~s a~~i~~~cial com fus5es, aquisi¡¡:oes e
mudan¡¡:as no setor de incorpora¡¡:ao r t mpdnies nas empresas." Raquel
do uso político desse processo como parte da operac;ao do . fu ds asset managemen ca fi
entrada de equzty
Rolnik Guerra n e A colonzzaqao
dos Lugares: . - da terra e da moradia na era das nanqas,
golpe. Tal uso baseia-se numa alianc;a entre, de um lado, os
Sao Pa~lo: Boitempo Editorial, 2015, p.290.

152
ESFERAS DA INSURREI<;:Ao
A NOVA MODALIDAD E DE GOLPE 153
seus líderes mais aesquerda. Usa-se micropoliticamente nj·unto de trabalhos sujos a serem realizados pelos capan-
demonizá-los nao só denúncias de corrup<;ao nao ca ' bl · d ' bl"
gas. 0 primeiro sera o oque10 e gastos pu tcos: a Proposta
vada (é o caso de Lula), mas também sua suposta ,.,,,~-·­ de Emenda aConstitui<;ao (PEC) - chamada popularmente
lidade pela crise económica do País, que na verdade é de "PEC do fim do mundo", para dar-lhe um nome que indi-
um síntoma local da crise mundial (é o caso de Dilma). Mas ue seu alto teor de destrutividade -, promulgada em dezem-
seriado do golpe nao se encerra com a condena<;ao de q de 2016, conge1a os gastos pu' bl"1cos por vmte
bro . anos sob 0
líderes do PT e do processo micropolítico de destrui~ao argumento da crise económica. Tal bloqueio incide nos sub-
imaginário democrático que culmina naquele momento sídios para o desenvolvimento e nas verbas destinadas aos
episódio do impeachment de Dilma (agosto de 2106). rogramas sociais, sobretudo aeduca<;ao e a saúde. Além de
vez concluído esse primeiro trabalho sujo e já ~esmontar leis promulgadas durante os governos petistas que
destruído es se imaginário, tem início sua segunda ~- ... ..,...... ~~~.~.. ampliaram o acesso aeduca<;ao e asaúde de qualidade para a
Embora outros elementos venham a ter o papel de réus maioria da popula<;ao, o golpe desmontará igualmente a uni-
langa do seriado do golpe, o personagem demonizado versidade pública, por meio de cortes de verbas de educa<;ao
tinuará paralelamente a ser protagonizado pelos líderes de: e pesquisa. O segundo trabalho sujo consistirá na indecente
tendencia aesquerda- principalmente os do Partido dos reforma laboral que, no Brasil, nao se limitará aprecariza<;ao
balhadores, tendo sempre em Lula seu foco privilegiado. SWl! do trabalho, mas chegará ao cúmulo de legalizar condi<;5es
demoniza<;ao, foco privilegiado da estratégia micropolítica do aviltantes até entao consideradas pela Constitui<;ao como
golpe, atravessará todos os episódios até o final da segunda definidoras do trabalho escravo e passíveis de puni<;ao. Que
temporada do seriado, quando provavelmente se consumati se diga de passagem: a decisao de legalizá-lo confirma que
a farsa da condena<;ao de Lula e sua consequente exclusao do tais condi<5oes persistem até hoje e nao só nas zonas rurais;
processo eleitoral para presidencia da República. basta mencionar o tratamento dado aos imigrantes ilegais
na indústria da moda. A reforma laboral incidirá inclusive na
educa<5ao ao atingir as universidades privadas (vale lembrar
Segunda Temporada que imediatamente após a promulga<5ao da mudan<;a de tais
leis, várias dessas universidades demitiram em massa seus
N a segunda temporada do seriado do golpe, o foco será o professores, os substituindo por outros com salários mise-
indispensável desmonte da Constitui<5ao. Para prepará-lo ráveis e sem direitos trabalhistas). O terceiro trabalho sujo
micropoliticamente, o roteiro se concentrará em tornar bem consistirá nas indecentes reformas do seguro social e da
mais aterrorizador o fantasma da crise económica, assim previdencia, e o quarto, na privatiza<5ao dos bens e empresas
como intensificar a desqualifica<5ao do imaginário or<J21'·ef.·~ estatais mais rentáveis, ou que serao tornadas rentáveis por
sista, já parcialmente vitoriosa na primeira temporada. meio de arranjos espúrios, de modo a ampliar a lista das pri-
desmonte da Constitui<;ao se dará por meio de um novo vatizáveis top. Em muitos casos, prepara-se a adesao pública

154 A NOVA MODALIDADE DE GOLPE 155


a essas privatiza<;5es fazendo colapsar tais empresas modo a criar condi<;5es ideais para a multiplica<;ao do capital
enquanto o script ficcional do seriado atribuí a causa da . stido e o mais velozmente possível.
wve _ ,
a má gestao por ineficiencia e corrup<;ao de seus py,.,,.,,,...,_ Enquanto se desenrolam essas n?~a: ope_:a<;oes, ~s. pro-
e, portanto, dos governantes que lhes atribuíram essa . capangas do capitalismo globahtano serao os prox1mos
pnos .
<;ao. E quando os tais capatazes nao conseguirem a _
1
s das denúncias de corru~ao, preparando-se ass1m o
•••u~ur'lllii
~o o para sua eJ· erao tao logo sua tarefa este]·a conclID'd a.
do Congresso para votar alguma ementa ou lei "'-'-C:iSal'itll terre n '3' •
a tal desmonte, condi<;ao para que o poder executivo Na última temporada do seriado do golpe, o novo reg¡me
efetivá-lo, entrarao rapidamente em cena as agencias . ará esses conservadores no lixo da história, sem o menor
detem as maiores bases mundiais de indicadores UU<Ul\;t:q~
J::nstrangimento. Esta é urna primeira diferen<;a em rela<;ao
as quais lideram a avalia<;ao do mercado global de ~;a¡JtUlia..l aos golpes de Estado que se utilizavam do exército: embora
e, portanto, a classifica<;ao de risco para os investimen~ estes tenham sido igualmente executados pelos conserva-
(como Standard & Poor's e Moody's Corporation). SuaoPe- dores (no caso, militares) e sob o comando dos poderes
ra<;ao consiste em rebaixar as notas da economía brasileira hegemónicos do capitalismo em sua dobra anterior (~oder,
ou amea<;ar faze-lo, o que oferece poderosa munil;ao Para na época, principalmente em maos dos Estados Umd~s~,
que as mudan<;as de políticas públicas que ainda sofre111. naquele contexto o regime precisava de um Estado totalita-
alguma resistencia no próprio Congresso sejam enfim vot¡.. rio e, para isso, tinha que manter os conservadores no poder
das, sob amea<;a de falencia do País (é o que está em curso no após o golpe e por um longo período.
Brasil em rela<;ao aprevidencia e que já ocorreu na Europa, Paralelamente, ainda nessa segunda temporada, enquanto
com Portugal, Grécia, Irlanda e Espanha, que receberam 0 se introduz na narrativa oficial as denúncias de corrup<;ao
eloquente acrónimo: "PIGS") . E o Estado irá tendo assiiQ. contra os políticos capangas, o mesmo se faz com parte do
destruído os primeiros elementos de "res publica" ou de empresariado nacional, incluindo os altos executivos das
democracia social que, com acertos e erros, come<;avam a grandes empresas. Poupa-se nessa opera<;ao os bancos q~e,
ser introduzidos pelos governos progressistas pós-ditadu- neste mesmo momento, tem inclusive perdoada parcela sig-
ras. Es tes tinham em sua pauta a forma<;ao de um Estado de nificativa de suas dívidas com o governo. Visa-se sobretudo
direito o qual, no Brasil assim como na maioria dos países as grandes empreiteiras que, organizadas em cartéis, mono-
do continente sul-americano, nunca chegou de fato a existir. polizam grande parte da constru<;ao de obras públicas, nao só
Esta é a razao pela qual sao os protagonistas desses govemos no Brasil, mas também em países aliados dos recém depostos
os alvos da nova modalidade de golpe, cujo intuito é chegar governos progressistas, sobretudo nos continentes latino-a-
ao final do seriado com a plena instala<;ao de um Estado neo- mericano e africano, que constituem mercados promissores.
liberal no País, estritamente focado naquilo que interessa ao Mas por que transformar esses personagens em viloes, se a
capitalismo transnacional e seus parceiros das elites locais: tomada das empresas pelo setor financeiro, especialmente
facilitar ao máximo a circula<;ao de seus investimentos de as construtoras, já se encontra plenamente instalada nos

157
156 ESFERAS DA INSURREIQÁO A NOVA MODALIDAD E DE GOLPE
primeiros a~os da década de 2000 após o governo de eu controle, mas sobretudo nas empresas estatais assim que
nando Hennque Cardoso (1995 a 2002), coma S direito as privatizac;oes estiver instituído.
0
companhias de investimentos que lhes trazem a inje~ com essa dupla ejec;ao - de políticos e empresários - e já
0
capital financeiro transnacional?4.E ainda mais >u~,U~JJI(lj~ ndo se instaurado no País urna grave crise institucional e
que isso implicou o aumento de poder e controle de suas t~on6mica, acentuada pela paralisia das obras públicas resul-
sidiárias de crédito, que submetiam as estratégias das eante das prisoes das figuras chaves do empresariado nacional
trutoraS a lógica de SeU brac;o financeiro?S t ue ainda tinham a maioria de suas ac;oes, o terreno estará
O seriado nos mostra que a alianc;a com tais ~mtn.......... _, ~talmente pronto para o controle total dos investimen-
apenas interessa ao capitalismo globalitário enquanto tos sem entraves pelo capital transnacional. Nessa segunda
de sua cumplicidade nao só para a destruic;ao do temporada do seriado, entre os dispositivos do golpe sao
rio de esquerda - e da defesa das leis democráticas que articularmente importantes as cenas do ringue entre dis-
sustenta-, mas também para respaldar e reforc;ar a ideia ~ntas máfias de políticos sórdidos, assim como entre eles e
que estamos diante de um eminente apocalipse t:l:IUfiiODIIb as máfias do elegante empresariado. "Premiados" por suas
Com esse apoio, criam-se condic;oes favoráveis para as dela~oes , eles se destroem mutuamente diante da sociedade
vatizac;oes e o extermínio de tais leis, principalmente as que, noite após noite, assiste perplexa ao espetáculo grotesco
concernem o trabalho. O objetivo de apressar-se a mrrO<llUIII da derrocada de ambos nas telas da TV onde prossegue o
empresários brasileiros e altos executivos como novas seriado. A esse espetáculo se tem acesso igualmente pelas
nagens viloes do seriado é preparar o terreno para ...... _,. __ redes sociais que se pode consultar a qualquer hora, assim
poder do capitalismo transnacional no comando do mc~raiCI como pelos jornais, que parte das classes médias e altas leem
nao só nas empresas privadas em que ele já está próximo ao despertar. Com essa ampla e ininterrupta divulgac;ao do
seriado, a atenc;ao de toda a sociedade passa a concentrar-se
nas espantosas imagens e mensagens, escritas ou faladas, de
4 Um exemplo disso é a GP Investments que em 2006 tornou-se a
companhia de prívate equity listada em bolsa da América Latina. "~)•nl1~'"" ...
negociac;oes de falcatruas económicas e políticas, clandesti-
1993 por Jorge Lemann e seus sócios no Banco Garantia (banco de namente captadas em telefonemas, e-mails e gravac;oes, bem
mentas vendido em 1998 ao Credit Suisse), a GP mobilizou investidorea como em documentos entregues pelos delatores ou encon-
todo o mundo para gerenciar o capital efou controlar cinquenta cornpamq
latino-americanas, principalmente brasileiras, dos setores Im<Dbilíarío
trados pela polícia nas devassas de seus escritórios e re si-
fraestrutura e de varejo, e também de logística e telecomunica~oes. dencias. É um verdadeiro show de psicopatía que chega a ser
te, o fundo tem sede nos Estados Unidos, nas Bermudas, na Suí~a e divertido pois nos lembra os mais hilários filmes B e seus
Paulo". Raquel Rolnik, Guerra dos Lugares: A coloniza~ao da terra e da
na era das finan~as, Sao Paulo: Boitempo Editorial, 2015, p.291.
canastroes. A triste diferenc;a é que, nesse caso, a narrativa
5 Inclusive "e m muitos casos, os CE Os dos fundos também as~mrrliram ¡lOSii~
ficcional se baseia em dados da realidade. Se estes, por si só,
de comando na empresa, integrando seus conselhos de administra~ provocariam urna total indignac;ao, ao serem devidamente
gos gerenciais". Raquel Rolnik, mesma obra, p.292. editados no roteiro do seriado, cuja func;ao é preparar o

158 A NOVA MODALIDADE DE GOLPE 159


terreno para o golpe, eles tem o poder de gerar graves efeitos de propaganda realizadas pelo capitalismo industrial (igual-
micropolíticos nas subjetividades: a propagac;ao da insegu_ mente arquitetadas e financiadas por urna alianc;a entre
ranc;a e do medo de colapso. ernpresários e políticos) eram toscas, acessadas pelo rádio e
pela televisao (cujo uso aumentou depois da Segunda Guerra
Mundial), assim como nos cinemas antes dos filmes. Já as
Há realmente algo de novo no uso de narrativas novas tecnologías de comunicac;ao permitiram um aprimora-
ficcionais pelo poder? rnento significativo desse dispositivo do poder: a sofisticac;ao
das linguagens e das técnicas de manipulac;ao e publicidade
É verdade que nao constituí novidade o uso pelo capitalismo (produzindo urna profunda mudanc;a da televisao ), a multi-
da manipulac;ao pelo discurso, seja ele verbal ou imagético, por plica~ao das mídias e o alcance mundial da disseminac;ao das
meio da construc;ao de narrativas que demonizam o inirnigo rnensagens em tempo real. 6 Se divulgar falsas informa~oes
da hora, como estratégia micropolítica de poder para viabi- tampouco é novidade e faz parte da composic;ao das narra-
lizar e justificar seus projetos macropolíticos. Tal estratégia tivas ficcionais impostas as subjetividades, no capitalismo
foi amplamente usada por esse regime desde sua funda~ao; financeirizado tal dispositivo se aprimora exponencialmente
basta citar a catequese, urna versao de narrativa ficcional, no no século XXI. Viabilizadas pelo desenvolvimento tecnoló-
modo palavras-de-Deus, único e universal, veiculada pela gico de robos que passam a agir na Internet, as chamadas fake-
Igreja Católica, a Globo da época, e expressa pelos jesuítas, -news nao só viralizam, mas simulam sua legitimidade com
seus ancoras. A estratégia aprimorou-se especialmente com infinitos likes instantaneamente produzidos por tais robos,
o advento dos meios de informac;ao e comunicac;ao de massa, o que as faz parecer massivamente aceitas, intensificando e
no final do século XIX, que acompanhou a segunda revolu~ao propagando sua ilusória credibilidade.
industrial. Nesse contexto, além de ter sido um dispositivo Tampouco sao os mesmos nos dais contextos os focos pri-
central das operac;oes de produc;ao de subjetividade no século vilegiados para produzir temor e inseguranc;a e mobilizar a
XX, foi amplamente usada pelo poder nos regimes totalitá- fúria conservadora. Nos anos 1950 e 6o do capitalismo indus-
rios, assim como na preparac;ao dos golpes de Estado dos anos trial, o foco era o fantasma do comunismo propagado pela
1960 e 70. Porém o modo como atualiza-se esse dispositivo de Guerra Fria: urna ameac;a que encontrava respaldo na recente
poder nao é identico: aqui reside urna segunda diferem;a entre divulgac;ao dos horrores totalitários do stalinismo, a qual tra-
as duas versoes do regime, a industrial e a financeirizada. zia de volta a memória das massas os traumas provocados
O avanc;o exponencial das tecnologías de informac;ao e pelo nazismo e o fascismo, cujos efeitos ainda infectavam as
comunicac;ao a distancia, a partir do final dos anos 1970, nao subjetividades. Projetava-se es se fantasma nos governos com
só tornou seu uso micro e macropolítico mais sutil e pode-
roso, mas foi em parte responsável pela conquista do poder 6 Hojeo Brasil é um dos países com maior número de usuários das redes
globalitário pelo capitalismo em sua nova dobra. As narrativas digitais. Sao dezenas de milh5es.

160 ESFERAS DA INSURREIQAo A NOVA MODALIDADE DE GOLPE 161


tendencias democratizantes (foi o caso de Jango, no Brasil), igualmente a imagem de que sua origem de classe garantiría
proje~ao cujos efeitos nas massas preparou o terreno para os sua cumplicidade com as causas sociais. A ideia de que sao
golpes de Estado nos anos 1960 e 70. Entretanto, nos anos todos "farinha do mesmo saco" faz com que a decep~ao se
1990, as experiencias de governos com tendencia a esquerda acrescente ainseguran~a e ao medo, gerando urna espécie de
após o fim das ditaduras mobilizaram ampla identifica~ao apatía por exaustao.
nas camadas mais desfavorecidas da sociedade - sua grande Mas o uso pelo regime colonial-capitalístico de estratégias
maioria - , nao sendo mais possível associá-los ao comunismo rnicropolíticas para sustentar suas estratégias macropolíti-
como um fantasma amea~ador, e menos ainda a sua versao cas nao se reduz a propaganda. Este é apenas um dos dispo-
totalitária, ao que se acrescenta o fim da URSS e a queda do sitivos de seu modus operandi micropolítico, o qual é muito
muro de Berlim7• É essa identifica~ao que a dobra financei- rnais amplo e complexo e, com desdobramentos e varia~oes,
rizada do capitalismo necessitará entao destruir. Para lográ- é por ele praticado desde sua funda~ao no século XV. E tem
-lo, elege-se a corrup~ao como foco para a demoniza~ao das rnais: este é um dos elementos fundamentais de sua moda-
esquerdas na narrativa a ser construída e midiatizada. Se a lidade de poder.
acusa~ao de corrup~ao e seu uso populista já foram e con-
tinuam sendo amplamente usados pelo poder para eliminar
seus inimigos, usá-la contra líderes de esquerda tem um adi- Princípio micropolítico do poder colonial-capitalístico:
cional de eficácia: a destrui~ao de sua imagem de honestidade o abuso da vida
e de urna sincera cumplicidade com a agenda social, urna das
principais virtudes que lhes sao atribuídas no imaginário dos A estratégia micropolítica do poder colonial-capitalístico con-
que com eles se identificam e que os diferenciava dos demais siste em investir na produ~ao de urna cena política de subjeti-
políticos, que no País sao tradicionalmente associados acor- va~ao, medula do regime nessa esfera. Tal política tem como
rup~ao. N a narrativa, o uso populista da ca~a aos corruptos elemento fundamental o abuso da vida enquanto for~a de cria-
voltada contra as esquerdas inverte os sinais, atribuindo aos ~ao e transmuta~ao, for~a na qual reside seu destino ético e
ca~adores a imagem de arau tos da justi~a e da democracia. No a condi~ao para sua continuidade. Isso inclui a potencia vital
caso específico de Lula, associá-lo a corrup~ao visa destruir em todas suas manifesta~oes e nao só nos humanos - sendo
que nos humanos o abuso nao se restringe a sua manifesta-
~ao como for~a de trabalho, como se pensava no marxismo. O
7 Em alguns países da América Latina, ainda funciona usar o fantasma do
comunismo para enfeiti~ar as massas. É o que se observou nas recentes elei- intuito do abuso é destituir a subjetividade de seu poder de
c¡:oes presidenciais no Paraguai e na Colombia, embora neste país o fantasma conduzir sua potencia vital e da liberdade de escolha de seus
nao tenha conseguido fazer eleger no primeiro turno Ivan Duque, candidato destinos. Isso se faz por meio da obstru~ao do acesso a tal
apadrinhado por Álvaro Uribe (ex-presidente de 2002 a 2010 de extrema-
-direita). Na Bolívia é também ainda com esse fantasma que se tenta desqua- potencia e do indispensável conhecimento de suas dinami-
lificar Evo Morales. cas que se deveria desenvolver ao longo da vida para melhor

162 ESFERAS DA INSURREI<;:AO A NOVA MODALIDADE DE GOLPE 163


protege-la na dire~ao de seu destino ético. É a destitui i rígida identitária própria de regimes autoritários que cortvi-
desse seu poder que torna a subjetividade dócil e subrnissa ~ °
modos de existencia necessários ao regime e a sua explora~
0 n}la ao capitalismo industrial. O regime capitalista anterior
recisava de carpos dóceis que se mantivessem sedentários,
No entanto, na nova dobra do regime, a interven~ao nessa. ~ada um fixo em seu lugar, disciplinarmente organizados
esfera se refina e se intensifica. O abuso da for~a vital vai mais (como os operários na fábrica). Diferentemente disso, o capi-
fundo: seu intuito nao é mais simplesmente o de tomá-la dóeil talismo financeirizado necessita de subjetividades flexíveis
e submissa, como o era no capitalismo em suas primeira e e "criativas" que se amoldem, tanto na produ~ao quanto no
segunda revolu~oes industriais. Ao contrário, o intuito agora consumo, aos novos cenários que o mercado nao para de
é estimular essa potencia e acelerar e intensificar sua produti- introduzir. Em outras palavras, em sua nova dobra o regime
vidade, mas desviando-a de seu destino ético, para extrair de necessita produzir subjetividades que tenham suficiente
sua natureza de for~a de "cria~ao" de novos modos de existen- maleabilidade para circular por vários lugares e fun~oes,
cia em resposta as demandas da vida apenas sua "capacidade acompanhando a velocidade dos deslocamentos contínuos
criativa", para que, dissociada da vida, seja investida na com- e infinitesimais de capital e informa~ao.
posi~ao de novos cenários para a acumula<;ao de capital (eco- Esta é mais urna das razoes pelas quais nao interessa anova
nómico, politico, cultural e narcísico). No lugar da cria~ao do versao do capitalismo o uso da for~a militar em seus golpes
novo, o que se produz (criativamente e cada vez mais veloz- de Estado; é coma for~a do desejo, e portanto micropoliti-
mente) sao "navidades", as quais multiplicam as oportunida- camente, que os realiza. Isto se faz por meio da corrup~ao
des para os investimentos de capital e excitam a vontade de do desejo, enquanto seus capatazes fazem o servi<;o bruto na
consumo. Embora tal vontade venha sendo mobilizada desde esfera macropolítica. É por essa mesma razao que é também
a dobra anterior do regime, ela encontra agora a seu dispar micropoliticamente que nao interessa ao capitalismo finan-
urna contínua explosao de novos produtos, cujas imagens- ceirizado manter conservadores no poder após os golpes de
que lhe chegam como bombas por todos os lados, lan<;adas Estado, e muito menos regimes ditatoriais e nacionalistas.
pelos meios de comunica<;ao e informa<;ao - a alimentam sem
cessar, transformando-a numa verdadeira voracidade compul-
siva. Ou seja, a potencia vital passa a ser usada para a reprodu- O surto conservador
<;ao do status qua; apenas muda-se, criativamente, suas pe~as
de lugar, fazendo varia~oes sobre o mesmo. Voltemos ao seriado do golpe. Mais para o final da segunda
Se o novo tipo de golpe de Estado nao faz uso da for<;a temporada, a manipula~ao das subjetividades acima des-
militar, nao é apenas porque governos rígidos, totalitários critas se acrescentará mais um dispositivo micropolítico
ou nacionalistas nao lhe convem. Além dessas razoes macro- de poder que incidirá mais direta e veementemente nessa
políticas, há razoes micropolíticas que funcionam segundo a esfera e em seu uso instrumental na esfera macropolí-
mesma perspectiva: tampouco lhe convém a subjetividade tica. Para o cumprimento de tal tarefa, serao mais do que

164 ESFERAS DA INSURREI<;AO A NOVA MODALIDAD E DE GOLPE 165


perfeitos os grosseiros capangas do neoliberalismo co as práticas de mulheres_que foram p.ejorativame.n:e chamadas
mentalidade infame e sua ansia de massacrar todos m de ''bruxas", qualificac;ao que autonzava sua pnsao, tortura e
que nao sao seu espelho. É quando irrompe mais rnorte. (Isto, aliás, continuou acontecendo ~pós a Inquisic;ao
- sa 0
~ mais de um milhao de mulheres assassmadas como bru-
mente o surto conservador. 9
Apela-se mais fanaticamente ainda ~ moral igrejista x:as desde entao -,e continua sereproduzindo ainda hoje.)
lista e identitária que, embora presente desde o iní~io Tal dispositivo de manipulac;ao das subjetividades preparará
roteiro do seriado, beira agora o delírio. Toma-se como a1ve terreno para efetuar mudanc;as nas leis vigentes nesses cam-
o A •
Fiquemos em tres exemplos, todos ocorndos no mesmo
a cultura em seu sentido amplo: das práticas artísticas po S.
o • 1\ o ' eríodo (de meados ao final do segundo semestre de 2017).
cac10nms, terapeuucas e religiosas (nao cristas) aos ...,. .ulw·, ... p o primeiro e' a arte: certas praucas
' · ' ·
art1st1cas- as que tr a-
de existencia que nao se encaixam nas categorías machis-
tas, heteronormativas, homofóbicas, transfóbicas, racistas, zem atona questoes de genero, de sexualidade e de religiao
classistas e xenofóbicas - os quais se estabeleceu chamar d _ passam a ser desqualificadas, perseguidas e crim~nalizada:.
" . . ,_ e Nessa operac;ao mata-se dais coelhos numa caJadada so:
mmonas , nao no sentido quantitativo, já que des se ponto de
vista eles constituem a esmagadora maioria, mas no sentido demoniza-se as práticas ligadas a essas questoes que nao se
enquadram em suas formas dominantes e, com isso, demo-
de sua classificac;ao como qualitativamente menores do ponto
de vista do modo de existencia hegemónico. 8 Com ampla niza-se igualmente a dignidade ética da arte em seu exercício
divulgac;ao pela mídia, certos tipos de práticas passam a ser ativo da pulsao criadora, neutralizando assim sua potencia
associadas ao demonio, como eram nos séculas da Inquisi~ao micropolítica. Tal potencia consiste em tornar sensíveis as
demandas da vida ao ver-se sufocada nas formas vigentes
8 Félix Guattari propoe entender "minoria" no sentido de singular, em con- de existencia individual e coletiva, quando estas perderam
tra_ro~to ao que pode ser qualificado de "maioria" no sentido de homogeneo seu sentido pelos efeitos que os encontros com a alteridade
propno aos modos de existencia hegemónicos, sob a micropolítica domi~ mutante do entorno produziram nos carpos. Materializadas
nan:e do regime capitalista. (ver Micropolítica: Cartograjias do desejo, já citado
aqw). Deleuze retoma esta: "A maioria nao designa urna quantidade maior, em obras, essas demandas vitais teriam o poder de polini-
mas atende, antes de tudo, o padrao em relac;:ao ao qua! as outras quantidades zac;ao dos públicos que a elas tem acesso, o que tendería a
sejam elas quais forem, serao consideradas menores. Por exemplo: as mulhe~ mobilizar a forc;a coletiva de transfigurac;ao das formas da
res e as :rianc;:as,.os, negros e os indígenas etc. serao minoritários em rela~o
ao padrao constltwdo pelo Homem-branco-cristao-macho-adulto-morador
realidade e de transvalorac;ao de seus valores. Atacar a arte é
das cidades-americano ou europeu contemporaneo (Ulisses). Mas, nesse
P?~to , tudo se inverte. Pois, se a maioria remete a um modelo de poder- his-
9 A este respeito, basta lembrar que é a figura da bruxa que se associou
tonco, estrutural ou os dois ao mesmo tempo -, é preciso também dizer que
Judith Butler para atacá-la em sua recente visita ao Brasil. A filósofa ajudou
todo m~ndo é minoritário, potencialmente minoritário, na medida em que
a organizar o simpósio Os jins da democracia, realizado em novembro de 2017.
se ~es_Yla do. modelo. ( ...) Minoria designa a potencia de um devir, enquanto
Chegou-se a queimar publicamente um boneco que a reproduzia em frente
mawna des1gna o poder ou a impotencia de um estado, de urna situac;:ao."
ao SESC Pompeia, urna das instituic;:oes culturais mais respeitadas do País,
Esse texto de Deleuze foi publicado no Brasil como parte do livro Sobre o
teatro: um manifesto de menos (Sao Paulo: Ed. 34, 2010, pp.59 e 63-64). onde se realizava o simpósio.

167
A NOVA MODALIDAD E DE GOLPE
166 ESFERAS DA INSURREI<;AO
atacar ~ possib~idade de irrup~ao social de tal for~a,
· 0 divulgam ampla e abertamente, exibindo-se ostensi-
tando amda mms sua reapropria~ao pelas subjetividad- ·''-UJI..I4 quaiS ·
O ~ nte nas redes de comunica~ao e informa~ao. 10
Do lado
se~n d o exerr:pl~ ~ao os movimentos que perfonnatizatn varne
dos indígenas, o alvo sao suas terras, que desd~ sempre lhes
muta~~es das SUbjetlVldades, especialmente nos ambitos da
enceram e as quais estao indissociável e VJsceralmente
sexualidad e e das rela~oes de genero ( movimentos feministas,
· uladas suas tradi~oes culturais (ale' m d o f ato o'bVlO
pert · de
LGBTQI etc.). A opera~ao nesse caso consiste em rnobilizar vmc d _ ,. ,
promoverem seu sustento, cujo modo de pro u~ao e msepara-
a volta aos valores da heterossexualidade monogamica da
família n~clear pa~riarcal como forma absoluta de la~o socia}
vel de tais tradi~oes). Se a tomada de suas terras nunca parou
de existir desde o início da coloniza~ao, a opera~ao atual con-
e de erotismo (se e que faz sentido manter esta palavra nes
. . , . te siste na aboli~ao das leis que haviam demarcado terras a eles
cas~) . O o b~et1vo e mterromper a propaga~ao do processo
pulswnal de cria~ao de novos modos de existir nesses terre-
destinadas, seja das que lhes pertencem desde sempre, ou
daquelas para onde foram levados após as demarca~oes -le~s
nos. U m processo que se desencadearia pela urgencia da vida
cuja promulga~ao pela Constitui~a~ Cidada, de. 1988, haVJa
de r~cuperar sua potencia em tais terrenos, em cujas formas
dommantes encontra-se debilitada. sido fruto de urna árdua luta das decadas amenores. Agora
é com o apoio da lei que os empresários rurais expulsam os
O terceiro exemplo diz respeito aos afrodescendentes e aos
indígenas de suas terras. Na maioria dos casos, como sempre,
indígenas - nome que se estabeleceu para designar os pavos
mata-se primeiro seus líderes, preparando assim o momento
originários - que, em diferentes propor~oes em fun~ao dos
da expulsao da comunidade inteira, momento em que, se
circuitos do tráfico de escravos africanos, formam a maioria
necessário, apela-se para o genocídio.
nas sociedades das ex-colonias. É fato que, nessas socieda-
Se no terceiro exemplo, o das tradi~oes culturais africa-
des, o comportamento dominante em rela~ao a essas camadas
nas e indígenas, o objetivo dessas opera~oes que compoem o
sempre consistiu na humilha~ao e estigmatiza~ao de sua pró-
golpeé mais obviamente macropolítico (a expropri.a~ao dos
p.ria existencia - o que inclui suas tradi~oes culturais e, prin-
terreiros de Candomblé e das terras indígenas, ass1m como
Cipalmente, a perspectiva que as conduz, segundo a qual tais
0 ataque aos movimentos negros e indígenas que vinham ~e
tradi~oes atualizam-se em novas formas de existencia para
fortalecendo ), 11 basta colocá-lo lado a lado com os outros dms
recuperar um equilíbrio cada vez que se desestabilizam em
fun~ao do surgimento novas ecologias sociais, animais, vege- 10 Sao assassinados no Brasil23jovens negros por minuto, segundo relatório
tais e cósmicas. Mas agora sua abjeta desqualifica~ao exibe-se do Mapa da Violencia, da Faculdade Latino-Americana de Ciencias_ Sociais
publicamente com orgulho, sem o menor pudor. No Brasil, (FLACSO), veiculado em campanha da ONU que visa mostrar a rela'<ao entre
isso se manifesta do lado dos afrodescendentes na destrui~ao
violencia e racismo no País.
o movimento negro já vinha tendo conquistas fundamentais desde o go-
em série de terreiros de Candomblé: a associa~ao ao demonio
11
verno FHC que, em seu primeiro ano de gestao, criou um grupo de tr~ban:o
dessa prática religiosa de origem afro legitima os agentes de interministerial com o objetivo de sugerir a'<oes e políticas de valonza'<ao
seu massacre, geralmente fundamentalistas evangélicos, os da popula'<ao negra que redundou na cria'<ao da ~ecretaria de Políticas de
Promo'<ao da Igualdade Racial (Seppir). Tais conqmstas se aprofundaram nos

168
ESFERAS DA INSURREJ<;i\0
A NOVA MODALIDAD E DE GOLPE 169
exemplos de opera~oes, simultaneamente em e
ursa . os no universo de opera<;oes micropolíticas do roteiro
nos darmos canta de que há igualmente nesse di ' s1ruarm · d 1·
um objetivo mais sutil, micropolítico, indispensávei 1 e· dessa perspectiva o fato de que tal proJeto e e1
dogo P · .' · d'
ido descartado nao 1mpede seu Impacto como Ispo-
prepara~ao da mudan~a de leis nos campos da educ ten as
h · · d - d b
· a' posse de terras e da preserva~ao a~o' . · 0 micropolítico de poder que mc1de na pro u<;ao e su -
sau' d e, d o d'Ireito 1'ltlcas
·
.SltiV ·
· ·dade. As insubordina<;oes m1cropo no campo da
No cam~o da saúde é neste mesmo momento que JetiVl , . e .
alidade e das formas de rela<;ao erot1co-a1et1va passaram
dos federms desenterram um projeto de lei que visa seXU
. egrar a figura do bode expiatório para as sub'~etlVI· 'd ad es
a homossexualidade entre as doen~as e que, assim a mt . · 1' · 1
devem ser tra.tadas. Co~ o hi~ári~ l~ma da "cura gay" 50b domínio do inconsciente colomal-cap1ta IStico para ne e
. tarem seu mal-estar Com isso as homofobias, as trans-
tende-se legalizar terapias (psicologicas ou religiosa ) ~~e . .
fu - , S fobias e os machismos, que sempre exist~ra~ ~a soc1edade
n~ao e transformar a orienta~ao sexual de todos a
. , . que brasi·1e1·ra, passaram a manifestar-se com VIolencia redobrada,
CUJas pr~tlcas escapem das categorías dominantes de gen 1
e sexuahdade. Lembrando que, já na década de 19 Oero explícita e despudoradamente. . _
. 90,a rga.. No campo da educa<;ao, durante as d1scussoes no congresso
mza~ao Mundial da Saúde (OMS) descartou qualquer
. . . pro- em torno da nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC)
Jeto que assoc1asse a on enta~ao sexual adoenra e que
B '1 , , no demoniza-se nos currículos escolares qualquer abordagem
.ras: , o Conselho Federal de Psicología proibiu essa asso-
de temas ligados apolítica (o famoso lema: "Escala ~em par-
Cla~a.o em 1999,,e o Conselho Federal de Medicina, há mais
tido"), aidentidade de genero, aorienta<;ao sexual e as cultu-
de trmta anos. E no mínimo surpreendente, para nao dizer
ras africanas e indígenas. Aprovada em dezembro de 2017, na
estarrecedor, que a questao tenha voltado abaila no Brasil
nova BNCC foram eliminados trechos que afirmavam a neces-
em p~eno ano de 2017, provocando urna acalorada polemica.
sidade de um ensino sem preconceitos. Mais específicamente,
Mas e menos surpreendente o retorno desse fantasma se
0 foram excluídos mais de dez trechos que mencionavam as
questoes de genero e sexualidade e. eliminad.os, da bibliografia
g~vernos Lula, por exemplo com a aprova~ao da Lei das cotas, em (a qual textos que abordassem a mitologia dos onxas, com o argu-
na~ abrange so mente negros, mas também pardos, membros de comunidades
2 012
mento de que seu conteúdo seria demoníaco. Tais cortes do
qmlomboias, indígenas, estudantes de baixa renda e outros) . No período re-
currículo escolar tem seu lastro nas opera<;oes micropolíticas
c~nte em que se dao ataques mais ferozes ao movimento negro ( ), este
2017
vmha se expandindo e se fortalecendo, passando a atuar mais contundente- mencionadas nos dais exemplos anteriores (LGBTQI, afro-
mente na esfera micro~olítica:. urna incessante interven~ao nas reia~oes racia- descendentes e indígenas) e participam da constru<;ao da
]¡z~das que tem por efelto explicitar a presen~a arraigada do racismo nos mais mesma narrativa do seriado que agora tem nessas camadas
van ado.s se~ores da sociedade brasileira. Se a escravidao foi responsávei pela
na~raiJza~ao. do racismo, ~ste fenómeno permanece tal e qua! até os dias de da sociedade um novo personagem para seu núcleo de viloes.
hoJe: Para mawres esclarec1mem os sobre o histórico do movimento negro no A mesma dimensao micropolítica das opera<;oes do poder
Brasll e o de outras ass1m chamadas "minorias", ver nota 8 do primeiro ensaio:
"O inconsciente colonial-capitalístico". nesse campo está presente nos cortes de verbas de educa<;ao e
pesquisa nas universidades públicas, acima mencionados. Se

170
ESFERAS DA INSURRE/t;AO
A NOVA MODAL/DADE DE GOLPE 171
·sta a narrativa de tais campanhas tem por efeito levar
é fato que, historicamente, o acesso as universidades pulI , · . ,
cas no Br~sil sempre foi privilégio das classes mais abastadas
P0 camada da sociedade a acreditar que o acesso a educa-
essa . . e · ·
~ teria sido ampliado. O mesmo discurso popu1Ista 101 uti-
- o que so come~ou a mudar nos governos petistas -, 0 d 0
~a do pelo govemo federal para legitimar sua Base Nacional
monte da própria universidade elitista denota que 0 gol es.. hza . u1ad a
curricular em farta campanha publ'ICitana,
. , . ve1c
educa~ao- nao
- mci
· 'd e apenas na es1era
e macropolítica n pella cornum · .
. . ' b . , 1' . , , a qual , · s vezes ao dia durante meses, por todos os mews de
seu obJetivo o VIO e e Immar o recem-conquistado ace ~~ ' . .
da grande maioria a educa~ao. Seu objetivo micropolític~so rnunica~ao. Na Globo, especialmente, tal campanha fm SlS-
enfraquecer o acesso a informa~ao e a forma~ao intelectu! ~~rnaticamente veiculada nos horários de pico de audiencia,
na sociedade brasileira como um todo, o que tem por efi · orno 0 da novela das nove horas.
.. A • d e1to e No campo do direito aterra, que incluí as leis ambientais
debI1Itar a potencia o pensamento, essencial para decifrar
as asfixias da vida em suas formas presentes e combate-1 e as que concemem aos indígenas, no mesmo ano de 2017,
criando novas cenários. Fazem igualmente parte da dinÍ:~ 0
presidente Temer promulgou um. decreto extinguindo a
sao micropolítica do golpe na educa~ao os efeitos da non Reserva Nacional do Cobre e Assoe1ados (Renca). Trata-se
lei trabalhista nas universidades privadas. Se é óbvia a me: de urna área localizada entre o Pará e o Amapá que abrange
macropolítica da demissao em massa dos professores assim , milh5es de hectares, criada no final da ditadura militar
42
que a lei foi promulgada - aumentar exponencialmente 0 ara evitar que os minérios fossem explorados por empresas
p 'd d . d'
lucro das empresas de educa~ao , pagando menos aos profes- estrangeiras. Nessa reserva vivem algumas comum a es m l-
sores com contratos precarizados que substituíram os demiti- enas, além do fato de que o Renca se localiza no "Escudo das
dos e baixando o valor pago pelos alunos de modo a expandir ~uianas", área que envolve parte da Amazonia do Brasil, da
sua clientela -, sua meta é também micropolítica. Durante Venezuela e das Guianas. Nesse escudo se encontra a maior
os govemos petistas, com a melhora de qualidade de vida extensao de áreas protegidas do mundo, com menos de 1% de
das camadas sociais mais desfavorecidas, estas passaram a desmatamento, além de aí viverem espécies que nao existem
frequentar universidades privadas - o que está certamente em outros lugares do mundo. Do ponto de vista macropolí-
entre os fatores que levaram a impressionante expansao e tico, tal decreto, que visava contemplar os interesses daban-
aprimoramento de suas a~5es de combate micro e macropo- cada ruralista e abrir novas oportunidades de investimento
lítico. O objetivo micropolítico da demissao em massa dos para 0 capital internacional, foi um fracasso. Temer foi levado
professores nao foi apenas o de baixar ainda mais a qualidade a recuar de seu decreto pela pressao de sua enorme repercus-
de educa~ao que lhes era oferecida por essas universidades, a sao negativa nacional e internacionalmente (nao só por parte
coisa é mais perversa: algumas dessas universidades usaram dos ambientalistas); tentou ainda editar um novo decreto
a diminui~ao do custo do estudo como foco de suas cam- com texto similar, mas este foi questionado pela Justi~a e
panhas publicitárias, amplamente veiculadas quase conco- enfim suspenso. Apesar do fracasso da opera~ao na esfera
mitantemente a tal demissao. De cunho incontestavelmente macropolítica, fica nítido aquí que a opera~ao micropolítica

173
172 ESFERAS DA INSURREI<;ÁO A NOVA MODALIDADE DE GOLPE
da desqualificar;ao das culturas indígenas que viviam nessas corrupr;ao para que as subjetividades pudessem projetar seu
regioes visava, entre outros objetivos, contribuir para seu rnal-estar no Estado, assim como pelo empresariado, sobre
sucesso. Mais amplamente, em tal decreto fica nítido o Para- 0 qual podiam projetar seu ódio de classe. Agora, a estigma-
digma micropolítico do regime colonial-capitalístico: o abuso tizar;ao de modos de existencia destoantes permite que se
da vida - nao só da vida humana, nem da vida de urna regiao proj ete o mal-estar em segmenros da sociedade que destoam
mas do ecossistema do planeta como um todo. , do modo de subjetivar;ao dominante e que já nao podem ser
simplesmente encaixados nas categorías de classe.
É a própria alteridade que passa entao a ser demonizada, o
O conservadorisrno é irnprescindível para o poder que leva a reforr;ar mais gravemente ajá existente blindagem
globalitário do capitalismo neoliberal das subjetividades em relar;ao a sua experiencia vital. É que
sendo esta composta pelos efeitos do outro no carpo, tais efei-
Agora, podemos esmiu~ar mais precisamente a opera~ao tos, agora demonizados, tornam-se perigosíssimos no imagi-
micropolítica da nova modalidade de golpe própria do capi- nário e devem ser denegados a qualquer custo, para que nao se
talismo financeirizado globalitário e a razao pela qual para corra o risco de absorve-los. Isso temo poder de desmobilizar
realizá-la lhe é necessário insuflar o conservadorismo como ainda mais a potencia de transfigurar;ao da realidade coletiva,
um dispositivo essencial de poder. Na primeira temporada do da qual a experiencia de habitar a trama relacional tecida entre
seriado do golpe a fragilidade das subjetividades, decorrente distintos modos de existencia seria portadora, se as rédeas do
da já antiga desapropriar;ao de sua forr;a de criar;ao pelo abuso, destino da pulsao estivessem em nossas maos. As condir;oes
é agur;ada pela inseguran~a que lhes provoca a demoniza~ao estao dadas para que o desejo se entregue mais plena e gozo-
das esquerdas no governo e o fantasma da crise. Na segunda samente ao abuso colonial-capitalístico da pulsao vital.
temporada a inseguranr;a se intensifica com a demoniza~ao Em suma, nos episódios finais da segunda temporada do
das classes política e empresarial como um todo e o tom mais seriado do golpe, enquanto intensifica-se a operar;ao macro-
veementemente apocalíptico em torno da crise económica, a política de desmonte da Constituir;ao e da economía nacional,
qual se acrescenta a crise institucional que vem desagregando intensifica-se igualmente a operar;ao micropolítica de produ-
o Estado a olhos vistos. Isso faz com que as subjetividades ~ao de subjetividades entregues acafetinagem do desejo. Com
tendam a agarrar-se a qualquer promessa de estabilidade e essa dupla operar;ao indissociável, prepara-se a sociedade
seguranr;a e passem, por isso, a projetar seu mal-estar nas para a provável terceira e última temporada: o comando total
figuras de bode expiatório que desempenham os papéis de do poder político e económico pelo capitalismo globalitário,
vilao no roteiro do golpe, das quais os mocinhos irao salvá- que embora já estivesse instalado no País há várias décadas,
-las. Porém, nos episódios finais da segunda temporada, um contava ainda com alguns obstáculos inconvenientes. Asocie-
passo a mais é dado na estratégia micropolítica. Até entao o dade estará enfim pronta para recebe-lo de bra~os abertos
papel de vilao era desempenhado pelos políticos acusados de como o salvador "civilizado" que tirará o País de sua crise

174 ESFERAS DA INSURREIQÁO A NOVA MODALIDADE DE GOLPE 175

).
institucional e subjetiva, saneará a economía de sua falenci 0 seriado se iniciou, esülo entre os principais obstáculos
e reestabelecerá a dignidade da vida pública, devolvendo a rnacropolíticos ao capitalismo financeirizado globalitário.
,
Pars , . d'd ao
seu prestrgw per 1 o e a serenidade a seus cidadaos p· para eliminá-los usa-se a mesma opera~ao micropolítica que
· un
do seriado. Golpe concluído. apela para a figura do inimigo; contudo, embora a opera~ao
tenha a mesma lógica, nesse caso invertem-se astutamente
os papéis. Aquí os obstáculos ao regime que representariam
A máscara da legalidade democrática 0 Estado de direito e a democracia serao usados pelos autores
do golpe como bandeira de sua cruzada pela moraliza~ao do
Para chegar a este programado gran finale do seriado, e' p re- país, e passam a desempenhar o papel de mocinhos, enquanto
ciso eliminar todo e qualquer tipo de estorvo que interrom 0 papel de inimigo caberá a seus detratores, verdadeiros ou
. . . . pa
ou d rmmua a velocrdade da crrcula~ao de capitais, de infor- ficcionais. No final da segunda temporada esse personagem
ma~ao e de subjetividades por vários lugares e fun~oes. Os terá sido desempenhado por quase todos os protagonistas
obstáculos podem ser encontrados em qualquer rota do do poder político e económico no Brasil. É entao que o capi-
capital e sao de ordens variadas e variáveis - pessoas, grupos talismo transnacional se apresenta como o único mocinho
etnias, institui~oes, servi~os, postos de trabalho, fronteiras' do planeta capaz de recuperar a legalidade democrática, caso
países, leis, imaginários, hábitos, modos de existencia, tipos' lhe seja atribuído plenos poderes na gesta.o do País. É este o
de sexualidade, práticas artísticas etc. Sendo assim, seus personagem com o qual o regime se transveste no seriado do
estorvos nao se encaixam em figuras fixas organizadas em golpe, ocultando assim o fato de ser ele o verdadeiro agente
pares binários por oposi~ao, o que torna obsoleta a figura do do golpe que visa precisamente eliminar o caráter democrá-
"inimigo", tal como ela se configura na tradi~ao ocidental. A tico, próprio ao Estado de direito.
cria~ao de urna nova figura do inimigo é parte das estratégias A composi~ao da máscara de legalidade democrática é sutil
da nova modalidade de poder do regime colonial-captalístico: e astuta. A segunda temporada do seriado do golpe come~a
em seu jogo midiático perverso, o regime cria urna figura de a ser veiculada pela mídia imediatamente após o final da pri-
inimigo variável e variada, vestindo seus obstáculos da hora meira. Os roteiros sao identicos, só mudam os personagens
coma máscara do vilao do seriado, para torná-los alvo da von- que desempenham o papel de viloes acusados de corrup~ao.
tade de destrui~ao pelas massas. Isso dura um breve período, Se, na primeira temporada, parte da sociedade brasileira ainda
o tempo necessário para tirá-los da frente; e, rapidamente, conseguía ver que se tratava de um golpe cujo objetivo era
novos obstáculos ocuparao o lugar de vilao. E o núcleo dos aniquilar a imagem dos políticos progressistas para tirá-los
viloes no roteiro do seriado vai se avolumando e variando do poder, com a substitui~ao dos protagonistas do papel de
diante do olhar voyeur de seus espectadores. vilao na segunda temporada, vence na maioria a ideia de que
O Estado de direito e o regime democrático, que nos paí- a expulsao dos governantes progressistas havia sido urna a~ao
ses da América Latina estavam apenas engatinhando quando imparcial e digna, visando a necessária moraliza~ao da vida

176
ESFERAS DA INSURREI<;:AO A NOVA MODALIDAD E DE GOLPE 177
pública (o tal uso populista da cac;a a corrupc;ao, que deSVia Em síntese
atenc;ao da sociedade da carnificina antidemocrática que e~
em jogo ). Tal ideia consegue inclusive contaminar aquel
A es o novo tipo de golpe, próprio do capitalismo neoliberal glo-
que tem menos acesso aos direitos, parcela majoritária da balitário, consiste num complexo conjunto de operac;oes
populac;ao que havia sido favorecida pelos governos progres- micro e macropolíticas, no q:ual pretende-se matar muito
sistas e os sentia como seus aliados.'2 Nesse final da segunda mais coelhos numa cajadada só - todos os coelhos que atra-
temporada do seriado, quando todos os políticos se tOlllaJn vessam as vias macropolíticas, concretas ou virtuais, visíveis
viloes, o inimigo pass a a ser a própria política como um todo e ou invisíveis, por ande circula o capital transnacional a cada
portanto, o próprio Estado. Essa operac;ao teria, em princípio, momento. Sao eles: os políticos de esquerda e o imaginário
urna tripla vantagem. A primeira é desacreditar o Estado ern' progressista a eles associado (pelas dificuldades que impoem
sua atual estrutura, para que seja mais facilmente reestrutu- ao desmantelamento da Constituic;ao, as privatizac;oes e a
rado segundo a agenda neoliberal. total entrega do País ao capital fmanceirizado transnacio-
A segunda vantagem é a despolitizac;ao da sociedade para nal e seus acionistas locais), os políticos de alma pré-re-
que esta deixe de depositar a garantia da defesa de seus direi- publicana e escravocrata (por seu arcaísmo nacionalista e
tos civis em sua participac;a nas instituic;oes democráticas, identitário, sua ignorancia e incompetencia, e seu péssimo
urna vez que estas passara a ser vistas como intrinseca- hábito de precisar de um Estado inchado para mamar em
mente ligadas a corrupc;ao, n s quais todos, indiscriminada- suas tetas), parte do empresariado industrial local de men-
mente, sao ladroes, "farinha d mesmo saco", urna fari talidade desenvolvimentista (nao só por ser urna pedra no
~=--~
putrefata. O mais grave é que a des itizac;ao na esf< sapato dos conglomerados financeiros transnacionais, mas
Estado de direito leva de roldao a pulsao s · 1 ma luta também por priorizar investimentos na produc;ao, desper-
autónoma em relac;ao ao Estado, seja ela macro ou icropolí- dic;ando assim oportunidades de especulac;ao) e, por fim, o
tica. A terceira vantagem é tornar as subjetividades inda mais próprio Estado em sua versao democrática efou nacionalista
frágeis, o que facilita cafetiná-las. . - tuda isso acompanhado micropoliticamente da neutraliza-
c;ao da potencia coletiva de ac;ao pensante criadora que se
mobilizaria diante desse quadro intolerável.
Em síntese, a nova modalidade de golpe de Estado é, na
12 É notória a melhoria da qualidade de vida das camadas ais desfavoreci-
das durante os governos petistas de Lula e Dilma. Tais cam das somam Sl verdade, nao só um golpe contra o Estado de direito e a demo-
milhoes de pessoas, 30% da popula\faO do País que vive na li a de pobreza cracia e, portanto, contra a sociedade (em suas possíveis
com renda familiar equivalente a R$ 387,07 por dia. Nos gove os Lula, entre ac;oes na esfera macropolítica), mas, mais radicalmente ainda,
2o01 e 2008, o número de pobres no Brasil caiu de 30% par 15% da popula-
\¡1io (de 57 milhoes para menos de 30 milhoes de pessoas). E tre 2001 e 2015,
é um golpe contra a própria vida- nao só a vida humana, indi-
os mais pobres tiveram um aumento de panicipa\faO na re da nacional de vidual e coletiva, mas a vida do planeta como um todo (esfera
n % para 12%.
micropolítica). E o capitalismo transnacional sai vitorioso e

178 ES F5RAS DA INSURREI<;:AO A NOVA MODALIDAD E DE GOLPE 179


de maos aparentemente limpas. Esta é, provavelmente, a apo.. A primeira resposta, fruto de urna estratégia de desejo rea-
teótica cena prevista para o final do seriado do golpe. tiva, tende a gerar urna identifica<;ao das subjetividades com os
conservadores, o que as leva a apoiá-los com euforia e fervor.
com o prolongamento da permanencia dos conservadores nos
O trauma e seus destinos governos na segunda temporada e seu crescente apoio pelas
rnassas, apoio insuflado pelas estratégias do golpe, estes acabam
Entretanto, dais possíveis efeitos do seriado nao estavcun senda eleitos aos cargos legislativos, conseguindo assim estabe-
previstos em seu roteiro. Ambos come<;am a manifestar-se lecerem-se efetivamente no poder. Mais grave ainda é quando
no final da segunda temporada, em consequencia da quebra se elegem ao cargo de presidente da República, o que vem acon-
do feiti<;o que as acusa<;oes contra Lula haviam gerado na tecendo em vários países. O exemplo mais significativo é o da
primeira temporada e, sobretudo, do grau traumático a que vitória do brutamontes Trump para a presidencia dos Estados
chegou o desamparo em que se veem lan<;adas as subjetivi- Unidos, buffio psicopata e nacionalista ao extremo. É bom
dades. Sao distintas as estratégias do desejo que se mobi- lembrar que o nacionalismo foi um dos elementos do discurso
lizam diante do trauma. Piquemos apenas nos dais polos populista dos capangas do capitalismo financeiro, usado pelo
extremos do amplo leque de varia<;ao de tais estratégias regime para a constru<;ao da figura do "inimigo comum" que
- lembrando nao 'só que tais polos sao ficcionais, mas que deve ser eliminado de cena, o que justifica e legitima o golpe
se oscila entre várias posi<;oes ao longo da existencia, além (as políticas europeias antimigratórias e o virulento antieu-
de que os processos de elabora<;ao tem o poder de deslocar ropeísmo, fenómenos que vem se manifestando atualmente,
posi<;oes iniciais. Num dos extremos, apelamos para estraté- entram nesta mesma chave) . Mas os capangas conservadores
gias defensivas que nos levam a agarrar-nos de unhas e den- nacionalistas deveriam ser descartados assim que o golpe esti-
tes ao status qua: urna resposta patológica, própria de quando vesse consumado: sua instala<;ao no poder é o primeiro efeito
sucumbimos ao trauma, e cujo efeito é nos despotencializar. colateral do seriado que nao estava previsto no roteiro (haja
No outro extremo, amplia-se o alcance de nossa mirada, o vista a popularidade de que vem gozando a candidatura de Bol-
que nos permite sermos mais capazes de acessar os efeitos sonara as elei<;oes para a presidencia da República no Brasil).
subjetivos da violencia em nossos carpos, de sermos mais Já a segunda resposta, fruto de urna estratégia de desejo
precisos em sua decifra<;ao e expressao e mais aptos a inven- ativa, que nao sucumbe ao trauma e logra enfrentá-lo, gera
tar maneiras de combate-la. Mobiliza-se entao a for<;a cria- a ascensao de urna nova modalidade de resistencia, que se
dora de modo que a pulsao vital cumpra seu destino ético: cria coletivamente face a nova modalidade de poder. Este é
transformar o status qua, dissolvendo aquilo que nele produz o segundo efeito colateral do seriado do golpe que tampouco
violencia. Esta é urna resposta saudável que nos protege de estava previsto no roteiro. Por ser portador de oxigenio para
sucumbir ao trauma, o que nao só preserva nossa potencia, o ar mortífero que respiramos no presente, finalizemos com
mas tende inclusive a intensificá-la. alguns comentários acerca desse segundo fenómeno.

180 ESFERAS DA INSU RR EI<;:ÁO A NOVA MODALIDAD E DE GOLPE 181


A nova modalidade de resistencia os citados movimentos das mulheres (numa nova dobra do
feminismo), dos LGBTQI (numa nova dobra das lutas no
Passados os primeiros capítulos da segunda temporada campo da homossexualidade, transexualidade etc., na qual
qual se conseguira instaurar a ilusao de que nao se trato~~: estas se juntam em torno de alguns objetivos e refinam suas
golpe, seus capítulos seguintes - ande se ve a destruir;ao d estratégias, buscando nao mais reduzir-se a reivindica~ao
conquistas democráticas, a penalizar;ao da criar;ao cultural as identitária, própria da luta na esfera macropolítica) e, tam-
persegui~ao aos modos de existir qualificados de minoritári~a bém, dos afrodescendentes (numa nova dobra de suas lutas
e a desqualifica~ao da política como um todo - nao tera
8
contra o racismo). A esses movimentos somam-se as lutas
~o d o oo
mesmo ex1to. Ca a vez mms gente, em mais setores sociais por moradia e o combate dos indígenas, cada vez mais amplo,
regioes do País, passa a se dar coma do sério risco que 0 pod e preciso e articulado (também, em ambos, urna forte atua~ao
globalitário do capitalismo traz nao só para a continuidade:: na esfera micropolítica agrega-se a sua tradicional atua~ao
vida da espécie humana, mas do ecos sistema do planeta como na macropolítica). Nesse novo campo de batalha, cada um
um todo. O sinal de alerta faz com que tenda a cair o véu de desses movimentos ganha novas for~as.
sua ilusao, tecido pelo abuso. Instaura-se nas subjetividades A irrup~ao dessas novas estratégias de combate nos ajuda
um estado de urgencia que as faz batalhar para abrir o acesso. a ver que o horizonte do modo tradicional de resistencia das
aexperiencia subjetiva de nossa condi~ao de viventes e reto- esquerdas, sobretudo das institucionais, tende a reduzir-se a
mar em suas maos as rédeas da pulsao. Isso leva o desejo a esfera macropolítica e que essa redu~ao seria urna das cau-
deslocar-se de sua entrega ao abuso e a agir no sentido de sas de sua desorienta~ao e impotencia frente ao atual estado
transfigurar o presente, impedindo que a carnificina prossiga. de coisas. Tal entendimento tem o poder nao só de nos tirar
O fato de que, em sua nova dobra, fique mais escancarado da paralisia melancólica fatalista a qual nos faria sucumbir a
que o capitalismo incide na esfera micropolítica dá origem sombría paisagem que nos rodeia, bem como de nosso res-
a urna nova modalidade de resistencia: surge a consciencia sentimento com as esquerdas, mas também de nos permitir
de que a resistencia tem que incidir igualmente nessa esfera. urna reaproxima~ao das mesmas. Isso pode ter por efeito um
Isto aparece nos novas tipos de movimento social que vem aprimoramento dos instrumentos de combate em ambas as
desestabilizando aqui e acolá o poder mundial do capita- esferas, micro e macropolítica.
lismo financeirizado na determina~ao dos modos de exis- Sabemos que o seriado do capitalismo financeirizado
tencia que lhe sao necessários. A propaga~ao desse tipo de come~a bem antes das tres temporadas focadas em seus
resistencia, que se intensificou após o tsunami dos ditos gol- golpes de Estado e, certamente, será bem langa sua terceira
pes de Estado provocados pelo novo regime por toda parte, temporada - ou, quem sabe, nao tao langa assim se a ela se
tem surgido principalmente entre as gera~oes mais jovens seguirem outras tantas temporadas - até que se chegue ao
e, mais contundentemente, nas periferias dos grandes cen- capítulo final previsto no roteiro. Mas também aí o roteiro se
tros urbanos. Nesses contextos, destacam-se especialmente engana em sua prepotencia, pois nunca haverá um capítulo

182 ESFERAS DA INSU RREI<;:AO A NOVA MODALIDADE DE GOLPE 183


final eternizado, já que o único que é de fato eterno é a vida nos desafia no presente. Depois é depois: novas formas de
e o combate entre for~as das mais ativas a mais reativas, em existencia se instalarao, com novas tensoes entre diferentes
distintos graus e escalas, que a caracteriza em sua essencia. qualidades e intensidades de for~as ativas e reativas e seus
Os efeitos do golpe serao delineados coletivamente nos emba- confrontas, os quais convocarao novas estratégias de insur-
tes entre esses diferentes tipos de for~as. For~as reativas que, rei~ao , num combate sem fim .pela vida.
em distintos graus e escalas e com distintos tipos de expres-
sao, promovem o abuso da vida em sua potencia pulsionai
de cria~ao - seja atuando no personagem do vilao que abusa Post scriptum 1
ou no da vítima que se deixa abusar. E for~as ativas que, em
diferentes graus e escalas e com diferentes tipos de expres- Em 24 de janeiro de 2018, poucos días após a finalizaqao da escrita
sao, promovem sua afirma~ao transfiguradora, dissolvendo deste texto e antes de sua publicaqao, em um novo capítulo da
tais personagens e, com eles, a cena em que atuam. Ninguém segunda temporada do seriado - um capítulo previsto desde seu
é permanentemente ativo ou reativo, tais posi~oes oscilam início -, Lula foi condenado aprisao por doze anos e um mes,
e se mesclam ao longo da existencia individual e coletiva. o quando en tao terá 84 anos e, portanto, dificil mente voltará avida
que importa do lado das for~as ativas é o trabalho incansável pública. Embora seus advogados ainda contem com alguns recur-
que consiste em combater as for~as reativas em nós mesmos sos junto ao STF e ao STJ, podemos prever que obviamente serao
e em nosso entorno, cujo sucesso jamais estará garantido e recusados e, além disso, usados para legitimar ainda mais sua
tampouco será definitivo. imediata prisao. Com isso, já podemos dizer que o golpe de Estado
Impossível prever o desfecho (sempre provisório) desse "propriamente dito" foi bem-sucedido. "Propriamente dito" porque
embate em que estamos envolvidos e que prosseguirá na apesar do Estado democrático ser um de seus alvos privilegiados,
terceira e talvez última temporada do seriado. Mas há um ele nao é o único. Nao é por acaso que o título deste ensaio traz o
alento no ar que nos vem da experiencia que estamos tendo termo "golpe" e nao "golpe de Estado": como em qualquer golpe
de insubordina~ao da pulsao as sequelas de seu abuso colo- de Estado, o alvo deste que agora assistimos nao é apenas o Estado,
nial-capitalístico. Apesar dessa experiencia ser relativamente mas a sociedade como um todo e, mais amplamente, a própria vida.
recente, ela nos permite imaginar outros cenários e agirmos Terá sido a eliminaqao de Lula o último episódio da segunda
em sua dire~ao. Isso nos faz acreditar que é possível despoluir temporada? Nesse caso, a partir de agora assistiríamos a sua ter-
o ar ambiente de sua poeira tóxica, pelo menos o suficiente ceira temporada: será seu roteiro próximo ao que foi aquí anun-
para que a vida volte a fluir. O tratamento de tal polui~io ciado? Haverá outras temporadas mais? Jogos de adivinhaqao nao
é micropolítico: um trabalho coletivo de descoloniza~ao do sao bem-vindos nesse tipo de contexto. Além de nao podermos pre-
inconsciente, cujo foco sao as políticas de produ~ao de sub- ver exatamente seu roteiro, efeitos nao previstos podem surpreender
jetividade que orientam o desejo e as consequentes forma- seus autores e a nós trazer alento, como já vem acontecendo. Apesar
~oes do inconsciente no campo social. Esta é a tarefa que do seriado ser ininterruptamente campeao de audiencia e o golpe

184 ESFERAS DA INSURREIQÁO A NOVA MODALIDAD E DE GOLPE 185


propriamente dito ter sido vitorioso, o tiro pode sair pela cul assinatura pelo Presidente Temer do decreto de intervenqao fede-
I sso fi. e~ m~zs. , . atra.
uma ve:_ notorw na reaqao da maioria da sociedad.e ral na área de Seguranqa Pública no Estado, em fevereiro de 2018,
b~aszl~zra a co~de~aqao de .Lu~a. Se sua vitória foi celebrada pelas um més após a condenaqao de Lula. Nessa operaqao se revela que
elztes zn.ternacw~azs do capztalzsmo financeirizado, assim corno por a militarizaqao da sociedade (o que é distinto de Estado militar)
sua~ e~ztes loc.azs, do lado de suas camadas espoliadas (a grande é parte das estratégias da nova modalidade do poder capitalista,
mawrza), asszm como das camadas politizadas das classes rnéd' sustentada pela injeqao nas subjetividades de altas doses de medo
no Brasil e no exterior, a reaqao foi aposta. Por ser clararn zas, diante da suposta inseguranqa, micropoliticamente arquitetada no
.. fr d
zn;usta e uta e uma cruel armaqao, a condenaqao indignou tais
ente
roteiro do seriado, desde seus primeiros capítulos.
camadas egerou um efeito bumerangue: reativou-se poderosamente No segundo ponto alto, menos de um més após vermos o Río
a forqa da presenqa de Lula em seu imaginário -no qual ele 'á ocupado pelos militares, assistimos ao assassinato de Marielle
vinha resgatando seu lugar de lideranqa digna, mesmo entre aq) Franco, vereadora do Río de Janeiro pelo PSOL, e do motorista
l es que tem crztzcas a seu governo. Basta lembrar que se o seriado ue-
A ' '

do Anderson Gomes, que a acompanhava. Negra, lésbica, de 38 anos


golpe, no início de sua primeira temporada, havia conseguido fazer e nascida na favela, a vereadora era uma contumaz defensora das
com que os 8o% de aprovaqao de seu governo baixassem para 12% !utas feministas, antirraciais e LGBTQI, assim como das !utas
de intenqí5es de voto, na segunda temporada seu número já passara contra os abusos cometidos por policiais em serviqo e execuqí5es
a ser suficiente para que ele vencesse as eleiqí5es para a presidencia extrajudiciais, senda uma importante lideranqa no ativismo nesses
da República em 2018, provavelmente já no primeiro turno. campos. Vemos neste capítulo que o assassinato teve uma enorme
repercussao no Brasil e no exterior. 14 O que nao aparece no seriado
Post scriptum 2
14 Da repercussao local do assassinato de Marielle Franco, vale a pena citar as
manifesta~5es em massa que, logo após o crime, ocuparam as ruas de várias
Após a publicaqao deste ensaio em abril de 2018, 3 assistimos a
1
cidades do País, e também as manifesta~5s na web. A esse respeito, de acor-
novas capítulos da segunda temporada do seriado do golpe que nao do com levantamento feito pela FGV-DAPP no Twitter, imediatamente após
poderiam deixar de constar em sua republicaqao como part(J deste o ocorrido, houve mais de 567 mil tuítes com men~5es ao nome da política,
sendo apenas 7% os que festejavam sua morte aproveitando para atacar a es-
livro. Mas serao privilegiados aqui apenas trés de seus pontos altos, querda e a defesa dos direitos humanos; 88% eram mensagens de luto e de
já que podemos rever o seriado inteiro quando quisermos, bastando admira~ao pela trajetória de Marielle e por suas pautas como ativista e como
para isso buscar seus episódios na Internet. No primeiro, assistimos vereadora. O pico ocorreu cerca de duas horas depois do homicídio, por volta
atónitos aocupaqao do Río de Janeiro pela Polícia Militar, coma de 23h5o, com 594 tuítes por minuto. Da repercussao internacional, além da
imediata divulga~ao nas mídias oficiais, muitas das quais condenando o esta-
do atual de violencia política, racial e machista no Brasil, e da manifesta~ao
dos governos de vários países, vale a pena citar o fato de que um mes após o
13 O ensaio foi publicado em abril de 2018, nas revistas eletr6nicas Outras assassinato e o mesmo nao tendo ainda sido esclarecido, a Anistia Interna-
Palavras (Brasil) e Lobo suelto (Argentina) e, em maio do mesmo ano, em urna cional divulgou urna nota cobrando a resolu~ao dos crimes cometidos pelas
primeira versao, mais amiga, pelo jornal El País - Brasil. autoridades brasileiras, pedindo prioridade ao caso Marielle.

186
ESFERAS DA INS URREI<;:ÁO A NOVA MODALIDADE DE GOLPE 187
é que desde o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, mais de que fosse encaminhado a Curitiba, ande ficaria preso na Supe-
cem outras lideranqas populares haviam sido assassinadas, entre rintendencia da Polícia Federal. Nesse momento, manifestantes
as quais líderes camponeses, quilombolas e indígenas. comeqam a cercar o portao de saída do sindicato, derrubando as
Last, but not least, no capítulo de 3 de maio de 2018, assistimos grades furiosamente para impedir a saída do carro do ex-presi-
o juiz Sérgio Moro decretando a prisao de Lula. O ex-presidente dente. Lula acaba tendo que ir a pé até o carro da PF. A cena
dirige-se entao asede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em seguinte do seriado, agora em estilo Big Brother, é a de fogos de
Sao Bernardo, e lá permanece por dais días antes de entregar-se. artificio riscando os céus do aeroporto Afonso Pena, em Curitiba,
Desta vez o seriado adota um estilo Big Brother e milhi5es de brasi- para receber o ex-presidente antes de ser levad?.para.sua prisao; os
leiros - alguns se regozijando e outros, bem mais numerosos, atoni- fogos celebram a vitória de Moro, o novo heroz da czdade. Em sua
tos e tristes - passam a assistir em tempo real asaga que acontece chegada asede da PF, a militancia que o espera já há várias horas
durante esses dais días e o que se segue até Lula chegar aprisiio, _ em número infinitamente maior do que o dos manifestantes a
num total de so horas non-stop. Rapidamente, o edificio do sindi- favor de sua prisao - é massacrada por bombas de ~ás disparad~
cato é ocupado por inúmeros intelectuais, padres de várias Igrejas, pela polícia que chegam a ferir algumas pessoas. Aznda neste ca~z­
políticos de todos os partidos de esquerda, sindicalistas e outros, e tulo, com Lula já preso, vemos centenas de pessoas acampando dza
uma multidao de manifestantes na área externa - todos trazendo após dia nas cercanías do edificio de sua prisao desde o momento
sua solidariedade ao ex-presidente. No día 7, Lula decide entre- de sua chegada, trazendo seu apoio massivo ao ex-presidente e
gar-se aPolícia Federal. O dia comeqa com uma missa celebrada manifestando sua absoluta recusa da suposta legalidade de sua
no próprio sindicato em homenagem a Marisa Letícia, esposa do prisao. Um último episódio deste capítulo digno de nota: tres sema-
ex-presidente, que completaria entao 68 anos e cuja morte no ano nas após a prisao, é madrugada e vemos o acampamento, ande
anterior se deu em virtude do trauma que sofreu desde o início do seus apoiadores seguem em sua vigflia, ser alvo de um atentado a
seriado ao qual acabou por sucumbir. Enquanto isso, a defesa de tiros, no qual duas pessoas sao feridas, uma delas gravemente. A
Lula apresenta um pedido de liminar junto ao STJ e ao STF para cena é mostrada en passant no seriado, apenas porque a mídia
anular a ordem de prisao, usando o argumento de que segundo a oficial nao poderia deixar de divulgá-la. Mas o seriado muda de
regra do Supremo (nao por acaso de 2016) que permitía a prisiio assunto rapidamente. As massivas manifestaqoes a favor de Lula
provisória após condenaqao em segunda instfmcia, esta só pode- que vemos neste capítulo final da segunda temporada do seriado
ria ser aplicada se todos os recursos estivessem esgotados, o que nos fazem pensar que sao muitos os brasileiros que reconhecem
nao era o caso (há mais quatro recursos possíveis); obviamente o plenamente a importancia dos processos de emancipaqao desenca-
pedido foi recusado. Em seguida Lula faz um discurso memorável deados pelos governos do PT e a lideranqa de Lula, mesmo aqueles
de quase uma hora, ovacionado pela multidao que ali se reúne. O que reconhecem igualmente seus equívocos e consideram ser fun-
día termina com Lula saindo do prédio do sindicato e senda car- damental criticá-los para poder avanqar. Para ficar apenas em
regado pela multidao para pegar seu carro e dirigir-se ao da PF, alguns deles, mais óbvios, mencionemos os que decorrem do fato
que o esperava para levá-lo asua sede para fazer exames antes de que sua candidatura se apoiou numa coalizao com políticos de

188 ESFERAS DA INSURREI<;AO 189


A NOVA MODALIDADE DE GOLPE
partidos conservadores, parcelas do empresariado e outros setores
da sociedade brasileira, cujos interesses sao apostas ao que poderla
vir a ser o programa de governo do PT. Tais compromissos fi.ze-
ram com que a tendencia de suas a~oes fosse de acomodafiio de
interesses, muito distantes da ruptura com os hábitos perversos do
Estado Brasileiro que a adesao popular ao seu governo teria pos-
sibilitado. Uma outra crítica merece destaque: a absoluta falta de
visao micropolítica do PT que, entre outras consequencias, levou a
uma insensibilidade aos modos de existencia nao hegemonicos e a
um fraco apoio as !utas das minorías, que deixou muito a desejar.
Neste apoteótico capítulo do seriado, duas imagens significativas
circulavam pelas redes no dia da prisiio de Lula, cujo contraste
evidenciava as for~as em combate no País. Ao lado da imagem do
ex-presidente senda carregado nos braqos de centenas de pessoas
que o acompanhavam no Sindicato, viralizou velozmente uma
outra imagem: a festan~a que Osear Maroni, que poderíamos
chamar eufemisticamente de "empresário da noite", proporcionou
em seu Bahamas Hotel Club para celebrar a prisao de Lula, na
qua! oferecia cerveja gratuitamente e profissionais do sexo a granel
para quem quisesse juntar-se a macabra celebra~ao.

A NOVA MODALIDADE DE GOLPE 191


190 ESFERAS DA INSURREI<;AO
algum de seus episódios. A ideia de fim, seja ele um gran fmale ou
Aimediata viralizaqao de vídeos da festanqa de Maroni tr
- vzsua
. l a' noqao- de "caf'etinagem" qu ouxe anúncio do apocalipse, é herdeira da ideia nefasta de paraíso e
Umacl ara expressao e compa- 0
, • ':1' de seu corolário, o inferno. Sao estes os dispositivos mais antigos
rece no titulo deste lzvro. Venho utilizando este termo desde 2oo21s
• • A •
em nossa civilizaqao para a instrumentalizaqao da pulsao e a con-
par~ deszgnar a dznamzca de relaqao entre capital e forqa vit l
refJ:"':e colonial-~api:alísti~o- ou seja,:sua medula na esfera
polztzca. Nessa dzreqao, a zmagem mazs significativa é adeMa~ .
:i::: sequente manipulaqao das subjetividades. Tais figuras encobrem
a pulsao com um duplo véu de equívocos costur~dos um ao. ~utr~.
vestido de presidiário bulinando uma das profissionais do s ondez
o primeiro véu-equívoco é o de que um dia a v:da se estabzlzza~a
~ definitivamente (seja - e nao por acaso - apos a mo:te ~u se;a
sua "..empresa " perante . o olhar voyeur de centenas de homens que ainda nesta existencia, com os substitutos do par parazso-znferno
~a~zczpavam ,da (alza gozosamente. Na cena, displays gigantes do
propostos na modernidade da cultura ocide~tal). E:se p~meiro
;uzz federal Sergzo Moro e da Ministra Cármen Lúcia, presidente véu encobre as inevitáveis turbulencias da vzda face a quazs atua-
do STF, decoram a parede da sinistra performance de Maron~ ria (em nós) sua vontade de perseveraqao. O segundo véu-equívoco
s~gundo ele, para render-lhes homenagem. A imagem revela expli-
é que só terao o privilégio desse suposto destino da vida aq~eles que
cztamente a articulaqao que deu lugar ao golpe de Estado entre de entregarem as rédeas da pulsao a Deus (ou seus substztutos na
um lado, operaqoes micropolíticas de cafetinagem da pulsao vi;al modernidade), os quais para merece-lo terao que submeter-.se aos
de mobilizaqao da tradiqao colonial escravista fortemente impre e_
códigos morais da Igreja (ou de seus substitutos na modernzdade~.
nada na cultura brasileira e, de outro, operaqoes macropolític ;g
. d' ~ E todo e qualquer comportamento que escape ao ,modelo ~egemo­
para. zrr;pe. zr a reeleiqao de Lula - e, mais amplamente, aniquilar nico, fruto da potencia vital transfiguradora, sera demonzz.ad~.
a exzstencza de qualquer tipo de resistencia ao poder globalitário Nao há mais tempo a perder com nossa nefasta submzssao a
do capitalismo financeirizado. E mais: revela-se o papel central
tais ideias, próprias da reduqao do pensamento aesfera .macr~po­
do Poder Judiciário em ambas as operaqoes e na clara articulaqiio
lítica. Impoe-se a nós a exigencia de nos livrarmos o mazs posszvel
entre elas para viabilizar o golpe. desse reducionismo na conduqao de nossas estratégias de combate,
Aqui sim parece encerrar-se a segunda temporada do seriado· expandindo-as de modo a abrangerem a esfera micropolítica. Esta
~sis:iremos certamente a novas temporadas, cujo conteúdo t é a condiqao para ativarmos a imaginaqao criadora a fi~ de_ que
difíczl de !~ever, pois seu roteiro vai senda escrito amedida que oriente 0 desejo, o quanto possível a cada momento, na dzreqao de
as estrategzas da nova modalidade do golpe vao senda pensad~
aqoes efetivamente transfiguradoras a favor da vida; uma tarefa
em funqao de seus efeitos. Mas como sugere o texto em sua frase
final, a história humana (como a do cosmos) nunca se encerra em que jamais terá fim.

15lntroduzi a no~ao de "cafetinagem" em um ensaio de 2002 e a fui afinando


em todos ~s ensaios ~ue escrevi posteriormente e em todas as faJas públicas
que profen desde entao. O termo aparece pela primeira vez no ensaio "A vida
na Berlinda" (publicado no Brasil na revista on-line Trópico: Idéias de Norte a
Sul, da UOL).

193
A NOVA MODALIDADE DE GOLPE
192 ESFERAS DA INSURREI{{AO
DEZ SUGESTÓES PARA UMA CONTiNUA
DESCOLONIZACAO DO INCONSCIENTE'

Para encerrar, deixo aqui dez sugestoes para os inconscientes


que protestam no anseio por descolonizar-se de seu regime
antropo-falo-ego-logocentrico.

1. Desanestesiar nossa vulnerabilidade as for~as em seus


diagramas variáveis, potencia da subjetividade em sua expe-
riencia fora-do-sujeito;

2. Ativar o saber eco-etológico e expandi-lo ao longo de


nossa existencia: a experiencia do mundo em sua condi<;ao
de vivente, cujas for~as produzem efeitos em nosso carpo, o
qual pertence a essa mesma condi~ao e a compartilha com
todos os elementos que compoem o carpo vivo da biosfera;

3. Desobstruir cada vez mais a· acesso atensa experiencia


do estranho-familiar;

4. Nao denegar a fragilidade resultante da desterritoriali-


za~ao desestabilizadora que o estado estranho-familiar pro-
move inevitavelmente;

5. Nao interpretar a fragilidade desse estado instável e


seu desconforto como "coisa ruim", nem projetar sobre
este mal-estar leituras fantasmáticas (ejacula~oes precoces
do ego, provocadas por seu medo de desamparo e falencia
e suas consequencias imaginárias: o repúdio, a rejei~ao, a

1Tais sugestoes foram retiradas das versoes originais dos dois primeiros
ensaios aqui publicados, que se encerravam com elas.

195
exclusao social, a humilha~ao, a loucura). Tais proje~oes sao 9. Nao negociar o inegociável: tuda aquilo que obstaculiza
portadoras de falsas explica~oes para a causa do mal-estar a afirma~ao da vida, em sua essencia de potencia de criac;ao.
o qual é .sempre associado a um suposto erro e, portanto , a, ' Aprender a distinguí -lo do negociável: tu do aquilo que se
eul pa, sep nossa ou de um outro, seja ele quem for; poderia aceitar e reajustar porque nao debilita a forc;a vital
instituinte mas, ao contrário, gera as condic;oes objetivas
6. Nao ceder avontade de conserva(,{ao das formas de para que se produza um acontecimento, cumprindo-se assim
existencia e a pressao que esta exerce contra a vontade de seu destino ético;
potencia da vida em seu impulso de produ~ao de diferen~a.
Ao contrário, buscar sustentar-se no fio tenue desse estado 1 O. Praticar o pensamento em sua plena fun(,{ao: indisso-
instável até que a imagina~ao criadora construa um lugar de ciavelmente ética, estética, política, crítica e clínica. Isto é,
corpo-e-fala que, por ser portador da pulsa~ao do estranho- reimaginar o mundo em cada gesto, palavra, rela~ao com o
-familiar, seja capaz de atualizar o mundo virtual que essa outro (humano e nao humano), modo de existir - toda vez
experiencia anuncia, permitindo assim que as formas agoni- que a vida assim o exigir.
zantes acabem de morrer;

7. Nao atropelar o tempo próprio da imagina(,{ao criadora,


para evitar o risco de interromper a germina~ao de um mundo.
Tal interrup~ao torna a imagina~ao vulnerável a deixar-se
expropriar pelo regime colonial-cafetinístico que a desvia de
seu destino ético. É nesse desvio que ela é capturada e tende
a submeter-se ao imaginário que tal regime nos impoe sedu-
toramente, o que a torna totalmente estéril. É que no lugar do
exercício da cria~ao do novo (exigido pela vida), a imagina~ao
pass a a reduzir-se ao exercício de sua capacidade criativa (dis-
sociada da vida) para produzir navidades, as quais multiplicam
as oportunidades para os investimentos de capital e excitam a
vontade de consumo numa velocidade exponencial;

8. Nao abrir mao do desejo em sua ética de afirma(,{ao da


vida, o que implica mante-la o mais possível fecunda a cada
momento, fluindo em seu processo ilimitado de diferencia~ao
de formas e valores;

FINALE 197
196 ESFERAS DA INSURREit;AO
É evidente que as sugestoes que acabam de ser evocadas nao
pretendem ser um receituário para se atingir urna suposta "cura"
dos efeitos patológicos de nossa cultura, numa espécie de mes-
sianismo clínico-artístico-micropolítico, que viria substituir 0
tao combalido messianismo macropolítico contido na utopia
revolucionária- ambos herdeiros da ideia de paraíso onde a vida
encontraría en:fim a suposta estabilidade eterna.
Esse trabalho de bricolagem de si, do qual depende a desco-
loniza<;ao na esfera micropolítica, jamais alcan<;a sua plena e
definitiva realiza<;ao. Ao longo de nossa existencia, face a novas
tens5es resultantes de novos diagramas de for<;a, oscilamos entre
posi<;5es variadas e variáveis num amplo leque de micropolíticas,
das mais ativas as mais reativas. Estamos sempre diante do desa-
fio de combater a tendencia reativa em nós mesmos e em nossas
rela<;5es (tendencia dominante em nossa cultura): o desafio de
nao nos submetermos ao poder dos fantasmas que nos trazem de
volta para nosso personagem habitual na cena colonial-capitalís-
tica. E se precisamos sair desse personagem é porque ao desern-
penhá-lo participamos das rela<;5es de abuso por nosso próprio
desejo, seja qual for nossa posi<;ao nas rnesrnas. A descolon:iza<;ao
do inconsciente implica urn constante esfor<;o para desmanchar-
mos esse personagem, nos reapropriarmos da pulsao e, por ela
guiados, criarmos novos personagens que estejarn a altura da
vida, encarnando sua potencia de varia<;ao transfiguradora.
O enfrentamento desse desafio requer um trabalho infinito
de cada um e de muitos, pois corno urna praga, esse regime de
inconsciente nao para de alastrar-se por todo o planeta, conta-
minando as subjetividades e conduzindo o desejo a desviar a
pulsao vital de seu destino ético.
É nesse horizonte que se situarn as ideias aqui compartilhadas.
Que sejarn descartadas aquelas ern que as palavras que as dizern,
distraídas, separaram-se imprudentemente de sua alma.

199
PUBLICACÓES DOS ENSAIOS AQUI REUNIDOS "O abuso da vida. Matriz do inconsciente colonial-capitalísticoj
The abuse oflife. The colonial-capitalistic unconscious matrix".
In: Revista Jacarandá, no. o6, edic;:ao especial Brazilian Art
O inconsciente colonial-capitalístico. Under Attack!, abril, 2018. pp. n8 -141. Edic;:ao bilingue.

Escrito inicialmente para "Epistemologies of the South Rein-


venting Social Emancipation", urna conversa de Boaventura O mesmo ensaio, voltado para práticas curatoriais
de Sousa Santos com Shiv Visvanathan, Suely Rolnik e Sarat
Maharaj. In: Topology Spaces of Transformation, semi- "The body-knowing compass in curatorial practices". In: Thea-
nário mensal organizado por Jean Matthee na Tate Modern, ter Magazine, Volume 47, Number 1. Tom Sellar (Edit). Yale
International Modern and Contemporary Art. Londres: 28 School ofDrama, Yale Repertory Theatre. Durham: Duke Uni-
de abril de 2012. versity Press, 2017. www.theatermagazine.org. ISSN: 0161-0775.

"Del agua estancada se espera veneno j From the standing "O saber-do-corpo nas práticas curatoriais. Driblando o
water, expect poison". In: CANDIANI, Tania e ORTEGA, inconsciente colonial-capitalístico". In: MOTTA, Gabriela
Luiz Felipe ( org.), Possessing Nature. Catálogo do pavilhao e ALBUQUERQUE, Fernanda (org). Curadoria em artes
do México, com curadoria de Karla Jasso, na 56" Bienal de visuais. Um panorama hist?rico e prospectivo. Porto Ale-
Veneza. Cidade do México: INBA, 2015. ISBN: 9786076053423. gre: Santander Cultural, 2017, pp. 47-76. ISBN: 9788565954167.
(edi~ao bilíngue)

"Pensar desde el saber-del-cuerpo. Una micropolít ica para Insurgencias macro e micropolítica. Dessemelhan~as e
resistir al inconsciente colonial-capitalístico". In: RENDÓN, entrela~amentos
Jorge Gómez (org). Repensar el arte. Reflexiones sobre arte,
política e investigación. Guayaquil: UArtes, 2017. pp. 85 -97. "Esferas da insurreic;:ao. Para além da cafetinagem do vivo".
ISBN 978-9942-977-06-9 In: TIBLE, Jean; TELLES, Vera; SANTIAGO, Homero (org.).
Negri no Trópico 23026'14". Sao Paulo: n-1, Autonomía literá-
"Beyond the colonial-capitalistic unconscious. Micropoliti- ria e Editora da cidade, 2017 PP. 101-122. ISBN: 9788566943436.
cal suggestions to tackle the dreadful globallandscape". In:
DISERENS, Corinne (org.). Gestures and Archives ofthe "Spharen des Aufstands. Vorschlage zur Bekampfung der
Present, Genealogies ofthe Future. Taipei: Taipei Fine Arts Zuhalterei über das Leben /"The rape of the vital force: the
Museum (TFAM) e Taipei Biennial, 2017. colonial-capitalistic unconscious matrix". In: Springerin
magazine, a quarterly art and theory journal, issue on Global

202 ESFERAS DA INSURREI<;:AO 203


Limits. Viena,# 31/10/2017. Disponível em: http://www.sprin- LIVROS DA AUTORA
gerin.atjen/ www.e-flux.com. Edi~ao eletronica: https:f/www.
springerin.at/enf. Cartografia Sentimental. Transforma~oes contemporaneas do
desejo. Sao Paulo: Esta~ao Liberdade, 1989. e3• edi~ao esgotada).
"The spheres of insurrection. Suggestions for combating the Reedi~ao com prefácio novo: Porto Alegre: Sulina, 2006; 1" reim-
pimping of life". In: E-flux Joumal, n.86, Nov 2017. New York. pressao, 2016. ISBN: 978-85-205-0424-6; 978-85-7025-852-6
Disponível em: www.e-flux.com
Arquivo para urna obra-acontecimento. Projeto de ativa-
~ao da memória corporal de urna trajetória artística e seu
A nova modalidade de golpe. Um seriado em tres contexto. Sao Paulo: Cinemateca Brasileira e SESC-SP, 2011.
temporadas
Archive pour une reuvre-événement. Projet d'activation
"O seriado do golpe em tres temporadas". In: Outras Palavras. de la mémoire du corps d'une trajectoire artistique et son
Disponível e m: https:/ joutraspalavras.netjbrasil/666381/. contexte. Paris: Carta Blanca Éditions, 2011. Difusaofdestri-
Acesso em: 04/02/2018. bui~ao: Les Presse du réel ISBN: 978-2-9536129-0-5. eDVD)

"Tres temporadas del golpe". In: Lobo Suelto. Disponível em: Archivmanie 1Archive Mania. dOCUMENTA e13). In: Serie
http://lobosuelto.com/?p-19363. Acesso em : 23/04/2018. 100 Notizen- 100 Gedanken 1100 Notes- 100 Thoughts
No. 022. Berlim: HatjCantz VerlagjDocumenta e13), 2011
"O novo tipo de golpe de estado: um seriado em tres tem- eedi~ao bilingue). ISBN 978-3-7757-2871-3. Versao eletronica
poradas". In: El País Brasil, Atualidades, 13/os/2018; série eE-Book): www.documenta.de; www.hatjecantz.de/docu-
Diálogos Brasil-Europa, urna iniciativa da EUNIC- European menta13. ISBN 978-3-7757-3051-8.
Union National Institutes for Culture, sede Sao Paulo. Dispo-
nível em : https:/lbrasil.elpais.comfbrasil/2018/05/12/actuali Anthropophagie Zombie ecom inser~ao do Manifeste Anthro-
dad/1526080535 988288.html/. Acesso em: 13/os/2018. pophage). Paris: Black Jack éditions, 2012. Difusaojdestribui-
~ao: Les Presse du réel. ISBN 978-29-18063-22-3.

A hora da Micropolítica. Sao Paulo: n-1 edi~oes, 5° volume


de Pandemia, série de cordéis, 2016. ISBN 978-85-66943-27-6.
Posteriormente inserido na caixa Pandemia contendo dez
cordéis da série. Sao Paulo: n-1 edi~oes, 2016. ISBN 978-85-
66943-35-1.

204 205
ESFERAS DA INSURREic;:i\.o
Em colabora~ao com Félix Guattari

Micropolítica. Cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes,


la ed. 1986. ISBN: 85-326-1039-0. 7a ed. revista e ampliada,
2005. ISBN:# 978-85-326-1039-3. Urna edi<;ao revista e com
novo prefácio será publicada pela Editora n-1 em 2018 (prelo).
Publicado na Espanha (Traficantes de Sueños, 2006), Argen-
tina (Tinta Limon, 2006), Estados Unidos (Semiotext(e)/MIT,
2006), Fran<;a (Seuil, 2007) e Coreia do Sul (B-Books, 2010).

206 ESFERAS DA INSURREI9AO


Este livro é como urna belíssima larva que cresce no esterco:
a ondula~ao e a suavidade aveludada do pensamento de Suely
Rolnik, seu riso contagioso, a falta de vergonha e de medo
lhe permite entrar nas camadas mais obscuras do fascismo
contemporaneo, nos guiar nos lugares que mais nos aterrorizam e
tirar dali algo com o que construir um horizonte de vida coletiva.
Rolnik é urna artista cuja matéria é a pulsao, urna cultivadora dos
bichos-da-seda da "izquierda bajo la piel". Nao se pode pedir mais
de urna escritora: devir-larva, cartografar a lama com a mesma
precisao com que outro cartografaria urna mina de ouro. Por isso,
leitores, adentrem com essa larva no magma da besta e busquem
os gérmens da vida que, ainda que desconhe~am, os rodeiam, e
que, com urna tor~ao do olhar, poderiam ser seus - poderia ser
sua própria vida. [Paul B. Preciado]

~~
.. +

i ~
+-- +

-+-

+
~
t
~

-+--
+
¡ ' - +

~
~

..
+
·• +

.. -+- + ~ ~

~ +- +- +- -+- +- ~

+- + + .. +-

re +-

+-

....
~

+
~

..
<

~--+

+--
+

~
~

+
+