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A CRÍTICA DEFICIENTE - ALGUNS POSICIONAMENTOS CRIP-

FEMINISTAS

Marco Antonio Gavério1


Everton Luiz de Oliveira2

Resumo: Ao admitirmos uma possível vertente dos disability studies chamada de


feminist disability studies, almejamos evidenciar como as questões sociológicas
iniciadoras de uma visão teórica social da deficiência emergiu em um ambiente de forte
crítica epistemológica feminista. Assim, se durante os anos 1980 o movimento teórico
sobre deficiência nas humanidades pode emergir como um projeto masculino e físico [e
essa já é uma deflagração criticamente feminista dos disability studies], durante a
mesma década muitas feministas deficientes já militavam e problematizavam suas
experiências à guisa do pensamento feminista [relativo ao cuidado, a dor, a
dependência, ao corpo]. Essa postura nos permite compreender a teoria feminista nos
disability studies não como uma crítica posterior a determinados modelos canônicos da
área, mas como parte fundante desses estudos. Ao explorar tais noções críticas sobre
deficiência, nos deparamos também com noções igualmente críticas sobre sexualidade,
raça, gênero, trabalho e nacionalidade, as quais tem fomentado e dado perspectivas
menos essencializantes aos estudos sobre\da deficiência. Um exemplo de tal perspectiva
pode ser observada nas recentes teorizações crip, com significativa proeminência
acadêmica nos últimos anos. A ‘teoria crip’, almeja, dentre outras coisas, uma posição
analítica crítica com relação à materialidade fixa do corpo deficiente (disabled body)
como independente do processo em que tal materialidade é necessária para a produção
de corpos capazes\hábeis\eficientes (able-bodies) como se fossem naturais.

1
Sociólogo e Antropólogo pela UFSCar e mestrando do PPG-Sociologia\UFSCar
2
Mestre e Doutorando em Educação Especial pela UFSCar. Professor do Centro Universitário Unifafibe -
Bebedouro/SP
INTRODUÇÃO
A primeira autora feminista nos disability studies com a qual tive (Marco) contato
foi Jenny Morris e suas contribuições em Pride Against Prejudice (1991) refletiam todo
o movimento crítico deficiente por direitos, pós anos 60 e, ainda, adicionava a dimensão
do cuidado, das dores crônicas e de corporalidades que não exatamente se consertam
(reabilitam).
Ao nos aprofundarmos nas no jogo de disputas da área (considerando os disability
studies como um termo amplo e difuso que tenta homogeneizar uma maneira específica
de compreender a deficiência), é possível reparar que no discurso “mais oficial” do
surgimento de tal área, a epistemologia feminista (RAGO, 1998) estava presente como
periférica ou como uma crítica posterior aos primeiros entendimentos dos daqueles
considerados prógonos (todos homens) dos estudos sobre deficiência (DINIZ, 2003;
2007). Diante do exposto, esse paper se dispõe a complicar uma história homogênea
que trata da emergência dos disability studies, focalizando, ao menos brevemente, parte
do debate feminista sobre deficiência no diálogo com as teorias sociais da deficiência
que se intensificaram de maneira crítica e contundente a partir dos anos 1980.
A primeira recomendação ao ler este trabalho é que os disability studies não
possuem uma origem específica independente do contexto histórico e social e político
que possibilitaram forjar as primeiras indagações e proposições que hoje são
reconhecidas dessa vertente teórica. Para isso mencionar-se-á que o [moderno]
movimento político em prol dos direitos dos deficientes se cristalizou na efervescência
[d] “os anos 60” no bojo dos “novos movimentos sociais”. (ADELMAN, 2009).
A segunda recomendação, que se liga à primeira e será mais especificamente o
foco deste texto, trata da necessidade de admitirmos o movimento teórico-político
feminista como interferência fundamental, assim como a sociologia (ou as ciências
sociais) é creditada, na elaboração das premissas envolvendo o contexto da deficiência e
que, posteriormente, foram levadas a cabo pelas\os teóricas\os deficientes\dos disability
studies. Diante de tal tarefa, discutiremos, a partir de algumas obras que trouxeram à
tona a intersecção feminista sobre gênero e deficiência, evidenciando discussões
‘sociológicas’ sobre deficiência [mesmo que situando-se no ponto de estudos sobre
mulheres deficientes].
Em face dessas duas recomendações-temáticas, que serão construídas no
momento de nossas reflexões, oferecemos um convite para trazermos à tona algumas
discussões atualmente mais à moda nos debates propostos pelos disability studies: tanto
o que se considera como critical disability studies como um de seus exemplos, a teoria
crip.

Os estudos sobre deficiência feministas e seus desdobramentos


Na introdução de Feminist, Queer, Crip (2013), Futuros imaginados (Imagined
Futures), Alisson Kafer expõe que sua intenção é lidar com a deficiência “como
[categoria] política e assim contestada e contestável”, partindo da investigação sobre a
“criação de tais categorias [como deficiência e sem-deficiência] e os momentos em que
elas não conseguem se sustentar” e completa que entende “os próprios significados de
‘deficiência’ (disability), ‘lesão' (impairment), e 'deficientes' (disableds) como terreno
contestado” (p. 9-10).
Dessa forma, para a referida autora, é possível pensar a deficiência como uma
montagem (assemblage) que – assim como as “categorias de raça, sexo e gênero - são
consideradas como eventos, ações e encontros entre os corpos, em vez de simples
entidades e atributos dos sujeitos” (PUAR. Apud KAFER. p. 9-10). Essa é a base para
seu “modelo político\relacional da deficiência” que a vê como “espaço de perguntas em
vez de definições firmes: [a deficiência] Pode abranger todos os tipos de lesões -
cognitiva, psiquiátrica, sensorial e físicas?” (p. 9-10).
Feminista, Queer e Crip como Kafer indica, em um primeiro momento, que
pode parecer certa alusão a uma ‘evolução’ teórico-política que tem feito parte de
investigações mais recentes no âmbito dos disability studies. Contudo, a autora busca o
entendimento que tais nomeações podem não ser ‘evoluções’ no sentido determinsta,
mas uma série de posições e movimentações teórico-políticas que passam a fazer parte,
a se tornar mais visibilizadas, conforme determinados sujeitos buscam se posicionar de
específicas maneiras (como mulheres, gays\lesbicas, deficientes) e, consequentemente,
acabam por criar os próprios espaços pra que esses posicionamentos façam sentido
(feminismos, estudos gays\lesbicos – queer, disability studies\theory, crip theory).
Mesmo não sendo novidade as\aos mais afeitos e familiarizadas\os com os
estudos sobre deficiência dos ‘modelos políticos’ ou ‘modelos relacionais’ de sua
compreensão3, as posições analíticas mais construcionistas da deficiência carregam já
grandes referências sociológicas na construção de seus enquadramentos. Contudo, nem

3
Lembrando que em grande parte os disability studies orbitam suas teorias em torno de dois grandes’
modelos ‘construcionistas da deficiência. O modelo social, emergente no contexto britânico, e o modelo
minoritário\de direitos, contextualizado no solo norte-americano. Para discussões pertinentes sobre essas
questões ver MEEKOSHA, 2004; DINIZ, 2007; MELLO, 2009; HARLOS, 2012.
só do desenho investigativo relacional disciplinar das ciências sociais são feitos os
disability studies.
Lennard J. Davis (2006) e Debora Diniz (2007) argumentam em consonância
que a partir dos anos 1990 tais estudos terão sua expansão crítica nas humanidades,
criando alguns distanciamentos teórico-analíticos com algumas vertentes mais
sociológicas da área4, alocando a deficiência cada vez mais como uma categoria de
análise cultural - na esteira dos entendimentos da época com relação as problemáticas
envolvendo outras categorias como classe, raça, gênero e sexualidade. Junto a esse
contexto, nesta breve exposição, resolvemos abordar a ligação entre gênero e
deficiência a partir do que mencionamos serem os estudos feministas sobre deficiência
(Feminist disability studies). Nossa suposição é que a teoria e as movimentações
feministas são fundamentais para pensar a emergência dos próprios disability studies,
assim como foi o método sociológico nos anos 1970 e 1980.
Foi no palco da crítica feminista aos paradigmas sociais, culturais e científicos
daquele período, que a corrente teórica dos disability studies pode construir também
seus debates, na medida em que
Amparados nas construções analíticas dos estudos de gênero -
em que se identificava a força das estruturas sociais para a
opressão das mulheres, retirando da natureza as justificativas
morais sobre a desigualdade de gênero -, o modelo social da
deficiência fez o mesmo ao separar lesão de deficiência. Lesão,
para o modelo social da deficiência, é o equivalente, nos estudos
de gênero, a sexo. E assim como o papel de gênero que cabe a
cada sexo é resultado da socialização, a significação da lesão
como deficiência é um processo estritamente social. (DINIZ,
2003, p. 2).

Autoras como Jenny Morris, Susan Wendell, Mairian Corker, Simi Linton e
Carol Thomas são amplamente conhecidas nos disability studies, principalmente por
suas posições críticas e feministas com relação às considerações construcionistas sobre
deficiência. Nesse sentido, arrisco dizer que a colocação de Garland-Thomson (2005, p.
1575) de que “um corpo de escritos [...] elabora a deficiência como uma construção
social, muitas vezes usando o gênero como uma pedra de toque para montar tal

4
Em o que é deficiência? (2007) a Antropóloga Débora Diniz faz algumas considerações a respeito da
sociologia da medicina, como um dos saberes informativos disability studies, modelo social britânico e
sua crítica feminista. Segundo Diniz (2007, p. 61), “Diferentemente dos teóricos do modelo social, muitas
feministas não hesitaram em pôr lado a lado a experiência das doenças crônicas e das lesões,
considerando-as igualmente como deficiências, como propunham os precursores da sociologia médica
nos estados unidos.”
argumento” se refere não só às obras deficientes-feministas que ela mesma cita
constantemente em suas análises, mas também às obras que aquelas autoras citadas por
Garland-Thomson engajam-se criticamente: a saber, as teorias alavancadas por modelos
sociais de compreensão da deficiência, como, por exemplo, o modelo social britânico
que distingue lesão de deficiência, de maneira muito semelhante às distinções entre sexo
e gênero. A respeito deste difundido modelo, as feministas teóricas da deficiência
argumentam que sua fundação considera como premissas da deficiência determinadas
posições de sujeitos, que eram brancas, masculinas e físicas (DINIZ, 2007; MELLO,
2009; MELLO, NUERNBERG, 2012).
Nesse contexto, a crítica feminista estava no fato de que as teorias pautadas no
disability studies que se supunham naquele momento inovadoras, democráticas ou
promotoras da igualdade, estavam sendo delineadas por um tipo específico de deficiente
e revelavam pautas que, invariavelmente, representavam seus próprios desejos e
anseios, tratando-se de deficientes que eram “na sua maioria homens institucionalizados
por lesões físicas, inconformados com a situação de opressão em que viviam, que
iniciaram a estruturação do campo [...] reproduziam a situação privilegiada desse grupo”
(DINIZ, 2003, p.2)
No texto supracitado de 2005, Rosemarie Garland-Thomson propõe um ensaio
de revisão bibliográfica sobre as obras feministas nos disability studies. Para a autora,
ao investigarem

[...] significados culturais atribuídos aos corpos que as sociedades


consideram deficientes, os feminist disability studies fazem vasta
obra crítica cultural. Primeiro, entendem a deficiência como um
sistema de exclusões que estigmatiza as diferenças humanas. Em
segundo lugar, revelam as comunidades e as identidades que os
corpos que consideramos deficientes têm produzido. Em terceiro
lugar, mostram atitudes e práticas discriminatórias dirigidas a esses
corpos. Em quarto lugar, expõem a deficiência como uma categoria
social de análise. Em quinto lugar, enquadram a deficiência como um
efeito das relações de poder. Feminist disability studies mostram que a
deficiência- similar à raça e gênero - é um sistema de
representação que marca corpos como subordinados, ao invés de
uma propriedade essencial dos corpos que, supostamente, têm algo de
errado (GARLAND-THOMSON, 2005, p. 1557 -8). [Nossos grifos]

Essa colocação da pesquisadora da deficiência nos possibilita compreender


melhor o que seriam os feminist disability studies e como tem sido entendida a união
entre duas categorias de análise sociais e históricas: a mais consistente categoria de
gênero e a emergente categoria da deficiência. Em artigo de 1991 o teórico dos
disability studies e sociólogo da medicina Irving Kenneth Zola, ao fazer uma crítica a
sociologia médica da época que havia se esquecido da ‘experiência vivida’ e daquilo
que se conhece como ‘deficiência’ e ‘doença’, passou a considerar esses termos
socialmente construídos e ressaltou cita que sua própria experiência como deficiente
dependeu do que chama de ‘mudança da auto-percepção’.
Ademais, atestou que esses termos advinham das questões expostas pelos
movimento de mulheres, pelos direitos civis e pelo movimento de vida independente a
partir dos anos 1960. Em resumo, para Irving Zola, foi uma parcela do movimento
feminista que possibilitou uma visão crítica das relações como generificadas e
corporificadas de específicas maneiras e protagonizadas em um contexto que
desconsidera suas experiências corporais vividas. Essa crítica mais feminista, ao se
encontrar com a crítica do movimento de vida independente, torna possível uma outra
percepção sociológica sobre o corpo e suas diferenças a partir da experiência
daquelas\es consideradas\os ‘deficientes’ e\ou ‘doentes’.
Ainda, com perante o texto referido acima Garland-Thomson, na subseção
Repensando o Construtivismo (Rethinkings Constructivism), a autora diz externa que
“Quase todo o trabalho que eu considero dos feminist disability studies continua o
projeto que “Women with Disabilities” que Fine e Asch iniciou” (GARLAND-
THOMSON, 2005, p. 1576). A autora faz menção direta à obra Women with
Disabilities: Essays in Psychology, Culture, and Politics (1988) de Michelle Fine and
Adrienne Asch. Segundo Garland-Thomson é uma “coleção fundamental de ensaios
críticos que abordam especificamente mulheres deficientes [...]. Este volume ‘descobre’
mulheres deficientes, contextualizando os fatos de suas vidas dentro da teoria
construtivista social. A Introdução "Beyond Pedestals" (1988) de Fine [e Asch],
continua a ser uma das análises definitivas de como os sistemas de gênero e deficiência
convergem.
Essa menção que Rosemarie Garland-Thomson faz é importante para o nosso
interesse de provocar as(os) teóricas(os) da deficiência, principalmente, na possibilidade
do “espectro feminista” rondar a emergência dos disability studies e, assim, ser também
uma influência fundante para esses estudos. Essa provocação fora sorrateiramente
elaborada pela própria Garland-Thomson, uma vez que os feminist disability studies
“[...] encaram a deficiência como uma construção social, mas chama a força crítica
primária do perspectivismo [...] muitas vezes usando o gênero como uma pedra de
toque para montar tal argumento. Esta linha de investigação foca coletivamente
sobre o contexto social que constrói indivíduos deficientes - em particular, mulheres
deficientes” (1575) (ênfase nossa).
Munido com essas informações mais gerais e bibliográficas, ainda colocando
em foco a questão dos feminist disability studies, fomos um pouco mais longe e
acessamos o número especial (14, 3) de 2002 do NWSA Journal chamado Feminist
disability studies5. Esta edição especial foi editada por Kim Q. Hall e encontramos
obras de autoras importantes, hoje, para o desenvolvimento da crítica feminista
deficiente como Rosemarie Garland-Thomson, Ellen Samuels, Abby Wilkerson.
O texto de Kim Q. Hall nessa edição vai como uma diretriz para os artigos que
compõe o número e faz importantes pontuações sobre como feminismo e uma análise
crítica deficiente se colidem através da disciplinarização de determinados corpos. Diz
a autora
Informado pelo conceito de "normalização disciplinar" (1979)
de Michel Foucault, os feminist disability studies interrogam a
complexa teia de técnicas institucionalizadas de normalização
que sustentam o patriarcado, a supremacia branca, poder de
classe, "capacidade corporal compulsória” (compulsory
ablebodiedness), e heterossexualidade compulsória (McRuer
2002). Esta miríade, técnicas de normalização que se reforçam
mutuamente, assujeitam corpos que se desviam de uma norma
branca, masculina, com privilégios de classe, corporalmente
capaz e heterossexual (HALL, 2002, p.VII).

Para completar sua proposta retoma a obra Extraordinary Bodies (1997) de


Garland-Thomson para centralizar a importância da corporalidade na junção em que
esses estudos (os feministas e os sobre\da deficiência) se encontram: “Como Thomson
deixa claro, o quadro dos feminist disability studies oferecem um modo de compreender
a dinâmica do olhar fixo (gaze) e o olhar espantado (stare) que aprimoram tanto o
feminismo e os disability studies. Feminist disability studies oferecem um quadro
teórico para expandir a compreensão das ligações históricas e ideológicas entre
corporificações (embodiments) marginalizadas” (HALL. p. VIII) [nosso grifo].

Conclusão
No texto Breaking the boundaries of the broken body (1996) Margrit Shildrick
e Janet Price, ao analisarem algumas teorias pós-modernas que poderiam informar mais
criticamente os disability studies, argumentam “que o corpo como eficiente (abled)\

5
E pode ser acessado nesse link: http://muse.jhu.edu/journals/nwsa_journal/toc/nwsa14.3.html
deficiente (disabled) tem historicidade e é construído, não de- uma vez-por-todas, nem
por processos intencionais, mas através da constante repetição de um conjunto de
normas. É através de tal prática repetitiva que o corpo tido como eficiente\\deficiente é
tanto materializado quanto naturalizado” (SHILDRICK e PRICE, 1996, p. 94). Dez
anos depois, Robert Mcruer (2006) ecoaria, mesmo que indiretamente, as indicações de
Shildrick e Price, ao problematizar o corpo sem deficiência (able body) em sua suposta
naturalidade e normalidade. Como exemplo de sua postura queer-crip Mcruer cita Judith
Butler substituindo termos como gênero e sexualidade por capacidade corporal e
deficiência (nos colchetes)
[a capacidade corporal (Able-bodiedness)] oferece posições ...
normativas que são intrinsecamente impossíveis de encarnar, e a
persistente falha de se identificar plenamente e sem incoerência
com estas posições revela [a capacidade corporal] propriamente
não só como uma lei obrigatória, mas como uma comédia
inevitável. Na verdade, gostaria de oferecer esta visão sobre
[identidade do corpo capaz (able-bodied identity)] tanto como
um sistema obrigatório e uma comédia intrínseca, uma paródia
constante de si mesma, como uma perspectiva [deficiente]
alternativa (BUTLER Apud MCRUER, 2006, p.10).

Robert Mcruer indica um movimento critico análogo entre teoria queer,


ativismo deficiente e disability studies: o foco e a análise da normalidade (normalcy).
Por um lado, a proposta queer é pensar que a normalidade, nesse caso a
heterossexualidade, se torna compulsória ao ser colocada como uma aparente escolha
individual em que o contraponto em não ‘escolhe-la’ é ser ‘anormal, desviante’,
homossexual. Por outro, a normalidade focalizada no debate crítico sobre deficiência
refere-se à naturalidade e neutralidade com que o corpo ‘não-deficiente’ (able body) é
posicionado. Em resumo, ambos movimentos teórico-políticos estão preocupados em
articular críticas às supostas naturalidades da normalidade que acabam a configurando
como compulsória, como uma não escolha.
A teoria crip, como um contraponto crítico às cristalizações (binárias)
identitárias no seio dos próprios movimentos e teorias deficientes, pode nos fornecer
saídas críticas, unidas com posicionamentos feministas que levem em consideração uma
posição ‘aleijada’, com relação à quem pode ou não legitimamente produzir
conhecimento sobre deficiência. Ou como diria Rosemarie Garland-Thomson, a respeito
dos feminist disability studies, que eles nos auxiliem a “reimaginar a deficiência”
(GARLAND-THOMSON, 2005, p. 1557).
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