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UNIVERSIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAÚ

O GOLPE DE 2016 E O FUTURO DA DEMOCRACIA NO BRASIL

Sessão: O golpe de 2016 e a grande mídia brasileira

20 de setembro de 2018.

Paulo Passos de Oliveira


Universidade Federal de Goiás
paulopassosdeoliveira@gmail.com

O golpe de 2016 e a mídia: a gente se liga em você


Introdução
Este texto, batizado como “O golpe de 2016 e a mídia: a gente se liga
em você” foi realizado com o fim de integrar a disciplina “O golpe de 2016 e o
futuro da democracia no Brasil”, ministrada no segundo semestre de 2018 no
Centro de Ciências Humanas – CCH – da Universidade Estadual Vale do Acaraú
– UVA – em Sobral, no Ceará. Antes de começar minhas digressões sobre a
relação estabelecida entre os meios de comunicação de massa brasileiros e o
golpe de 2016, eu gostaria de agradecer ao amigo e professor Tito Barros Leal
pelo convite para participar da disciplina. Gostaria, também, de parabenizar
todos os docentes envolvidos no curso nas figuras de Marcos Paulo e Rodrigo
Mello. Deixo aqui registrado um cumprimento especial à doutora Gisella
Meneguelli, com quem reparto a sessão da aula no dia 20 de setembro, chamada
“O golpe de 2016 e a grande mídia brasileira”.
Sem dúvidas, este momento implica uma reflexão acerca do processo
que ocorre ao nosso redor. Este trabalho é mais intricado do que parece na
medida em que somos agentes e pacientes da história que se desenha. Ainda
não temos a distância histórica necessária para olhar este momento que não
dentro do olho do furacão. E é exatamente por isso que este desafio se faz
interessante. Estamos escrevendo, agora, parte do material que será lido
amanhã. O golpe de 2016 ainda não acabou. Ele se constrói a cada dia a partir
de medidas arbitrárias de ordens políticas, perpetradas por um governo que
colaborou com a retirada de Dilma Rousseff de sua função. Tais medidas
seguem na contramão do projeto de País que vinha se desenhando nos 14 anos
antes do golpe. Por isso, é importante afirmar que o golpe não foi apenas contra
Dilma, ou contra um partido, mas contra um modelo de governo que procurava
prospectar a inclusão social, e minimizar a divisão de classes que impera no
Brasil desde as mais priscas eras. O golpe foi contra a democracia.
É necessário que eu faça, também, uma ressalva. Refletir sobre
aspectos midiáticos e a situação política de um país exige um esforço de
compreensão holístico que transcende meramente uma análise sobre os meios
e as informações que por ele circulam. Proponho, antes, uma apreciação que
toma como ponto de partida a inserção dos grandes meios de comunicação –
que aqui também serão referidos como mídias – no imaginário do discurso sobre
a liberdade de expressão, e o mito construtor da idoneidade dos meios.
Para desconstruir o discurso sobre a idoneidade dos meios de
comunicação, oferecerei exemplos claros de que as mídias são, elas mesmas,
impérios empresariais concentrados nas mãos de poucas famílias, bem como
abordarei a relação íntima entre estes meios e os políticos brasileiros.
Em um segundo momento da aula, discutirei o papel dos meios de
comunicação para a sedimentação e legitimação do impeachment da presidenta
Dilma Rousseff.
E aproveitando o ensejo, aviso que minha opção por chamar nossa ex-
mandatária de “presidenta” aparentemente atenta contra as regras da língua
portuguesa, mas entendo que a palavra colocada no feminino, como proposto
por Dilma, é um neologismo criado como forma de reforçar a afirmação de
gênero, por tudo o que representa a ascensão da primeira mulher ao mais alto
cargo eletivo de um país, sobretudo, se considerarmos a tradição patriarcal
historicamente constituída em nosso País, e, mais ainda, à posição subjugada
em que o sexo feminino é relegado em nossa sociedade. Assim, procedo
politicamente.
Retornando ao tema da aula, o primeiro ponto crucial para pensarmos
sobre os meios de comunicação e sua relação com o golpe de 2016 parte da
noção pétrea presente em nossa carta magna. Na Constituição Federal
Brasileira (GOVERNO FEDERAL, 1988) promulgada em 1988 lê-se no primeiro
artigo:
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio
de representantes eleitos ou diretamente. [...]
Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...]
IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de
comunicação, independentemente de censura ou licença;

Liberdade de expressão é o direito de manifestar livremente opiniões,


ideias e pensamentos. É um conceito basilar nas democracias modernas nas
quais a censura não tem respaldo moral.
A liberdade de expressão, sobretudo na política e em questões públicas,
é o suporte vital de qualquer democracia. Os governos democráticos não
controlam o conteúdo da maior parte dos discursos escritos ou verbais. Assim,
geralmente as democracias têm muitas vozes exprimindo ideias e opiniões
diferentes e até contrárias.
No artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (“UNICEF
Brasil - Biblioteca - Declaração Universal dos Direitos Humanos”, [S.d.]), de
1948, diz-se: liberdade de expressão é “liberdade de, sem interferência, ter
opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer
meios e independentemente de fronteiras”.
Para haver democracia é necessário que haja liberdade de expressão.
Segundo juristas e sociólogos, apenas a liberdade de expressão permitirá o
debate cidadão que garante os direitos sociais assegurados.
Para haver democracia é necessário que haja também uma população
bem informada a respeito do que acontece em sua sociedade. Desta forma, o
sujeito transforma-se em indivíduo, e deste, em cidadão. O exercício da ampla
liberdade de expressão permite ao cidadão criticar o governo e esferas públicas
em todas as instâncias, conduzindo o país na direção do que Robert Dahl (2005)
define como Poliarquia.
A liberdade de expressão garante a manutenção do Estado plural, que
irá avaliar, inclusive, os abusos relativos à comunicação pejorativa,
preconceituosa e inapropriada.
Em contraposição à liberdade de expressão, presente nas democracias
– ou Poliarquias, como propõe Dahl – tem-se a censura, mecanismo de regimes
totalitários – cuja figura representativa de governo é a ditadura.
A censura é a forma encontrada pelos regimes totalitários – de esquerda
ou direita – para calar os que questionam ou se colocam contra as concepções
políticas vigentes. A censura, portanto, regula um forte aparelho de fiscalização
do Estado no sentido de controlar ou impedir a circulação de informações que
não interessem do ponto de vista político.
Tal censura foi imposta com a quartelada de 1964. O Ato Institucional Nº
5 – ou simplesmente AI5 – oficializou a censura no Brasil. O AI5, decreto que
substitui a Constituição de janeiro de 1967, deu ao regime comandado pelos
militares poderes absolutos. Apenas em 1º de janeiro de 1979 o AI5 foi abolido.
Entretanto, a censura no Brasil continuou. Até meados da década de 80 do
século passado, vivíamos sob o controle da censura. A comunicação, de uma
forma geral, na imprensa e nas artes, bem como toda liberdade de expressão
individual, estava sob constante vigilância de censores. Filmes, peças de teatro,
músicas, a imprensa, e qualquer discurso proferido por pessoas públicas
deveriam ser submetidos primeiro à aprovação da censura nacional.
Desde o final da década de 80 do século passado – para ser mais exato,
03 de agosto de 1988, quando foi sancionada nossa Constituição – a liberdade
de expressão é vigente no Brasil. Segundo esta premissa, devemos ter uma
mídia livre, que fiscalize, apoie e denuncie qualquer ação contra o Estado de
Direito.
Agora, posso levantar algumas questões. Será que realmente a
imprensa brasileira, vinculada aos meios de comunicação de massa, cumpre a
função de ser um bastião da democracia? Qual o papel do jornalista diante das
polêmicas impostas pelas ações na política? Estas duas questões abrem a
primeira parte de nossa aula. A partir delas, é possível definir o contexto atual
dos grandes meios de comunicação de massa no País. Na segunda parte de
nossa aula, procurarei focar na relação da mídia brasileira com o golpe de 2016,
destacando, em especial, o papel do Grupo Globo de Comunicação no processo.
Comecemos a primeira parte da aula com a análise da última questão aqui
colocada: qual o papel do jornalista diante das polêmicas impostas pelas ações
na política?

Parte I
1 O jornalista, a mídia e o caso brasileiro
Na faculdade de Jornalismo aprendemos que (COTTA, 2005):
◼ O repórter nunca fica plenamente satisfeito com as informações que
possui. Por isso, durante a apuração, procura, na medida do possível,
ouvir mais de uma versão sobre o fato.
◼ Caso não seja um editorialista, colunista ou articulista de um veículo de
comunicação, não cabe ao repórter julgar ou ser parcial em seu texto. Não
é objetivo do repórter conduzir seu público nesta ou naquela direção. O
seu público é quem deve decidir, a partir das informações fornecidas, o
julgamento dos fatos.
◼ Pensar em jornalismo não diz respeito apenas ao domínio da língua
portuguesa, das técnicas de redação e estilo, e da experiência pessoal.
Pensar em jornalismo significa, antes de tudo, refletir sobre o papel
exercido por este profissional para a sociedade.
◼ O repórter é aquele que pensa mais na narrativa para os outros do que
em suas opiniões pessoais. E conseguir este olhar do outro é essencial
para fazer jornalismo. É o que na antropologia se chama alteridade.
◼ Este novo olhar permite o desenvolvimento da criticidade do profissional
que escreve e do seu leitor, ouvinte, telespectador ou internauta. Por isso,
este profissional da comunicação social deve entender sua atuação
mergulhada na realidade, dentro de determinado contexto cultural e
econômico do País.
◼ Em suas reportagens um jornalista nunca deve misturar informação
com opinião. Esta atitude compromete a busca pela verdade e coloca em
questão a idoneidade do profissional e do veículo em questão. Trata-se,
sobretudo, de uma postura que foge à ética profissional.
◼ Mesmo com compromissos financeiros e políticos dos veículos de
comunicação, o repórter não pode perder de vista a função social que sua
profissão exige.

É este último ponto que limita a ação do profissional, já que não costuma
ser respeitado pelos veículos de comunicação. O jornalista existe em um
contexto maior do que sua atuação em busca dos fatos. Isso porque, a busca
pela “verdade” – muitas vezes equivocadamente ensinada nos bancos escolares
das faculdades de Jornalismo – revela a imposição de apenas uma das
verdades: a verdade dos interesses editoriais das mídias.
Tentarei, agora, responder à segunda questão colocada anteriormente:
Será que realmente a imprensa brasileira, vinculada aos meios de comunicação
de massa, cumpre o papel de ser um bastião da democracia? Este é um mito
perpetrado socialmente e que se estabeleceu como axioma em nossa
sociedade.
Ouvimos dizer que a mídia é o 4º poder – compreendendo que os outros
três formam o pilar democrático composto pelo Executivo, o Legislativo e o
Judiciário. Ela é o poder que media as informações e busca as supostas
“verdades”, encaminhadas em forma de notícias à população. Para que a mídia
seja o 4º poder, é necessário, portanto, que nós acreditemos que ela é idônea,
imparcial e justa, portanto, alheia ao jogo político e econômico que se desenha
em âmbito nacional. A credibilidade dos meios de comunicação parte, então, da
crença de que os jornalistas agem segundo princípios, e que os veículos para os
quais trabalham têm como meta tornar a sociedade mais justa.
Este discurso, aparentemente ingênuo para muitos de nós, ainda é
extremamente eficaz para a maioria da população. Grande parte dos brasileiros
tem a opinião moldada pelos meios de comunicação de massa. Portanto, parcela
significativa é informada sobre o jogo político através das mídias.
Pesquisa divulgada no fim de junho de 2017 pelo Reuters Institute e pela
Universidade de Oxford revelou que o Brasil é o segundo país do mundo com
maior confiança nas mídias online. Segundo o estudo, 60% da população
acredita nos meios de comunicação. Ainda de acordo com a pesquisa, o nosso
País só perde para a Finlândia, país em que 62% da população confiam nos
meios. Nossa crença no jornalismo digital é superior àquela das populações de
países como Holanda, Alemanha, Dinamarca e Noruega (“Brasil é segundo país
com a maior confiança na mídia, diz estudo”, [S.d.]).
Levantamento da Kantar Ibope, divulgado no fim de novembro de 2017,
mostrou que o telespectador brasileiro dedica 6 horas e 17 minutos diários a TV
– uma hora e 6 minutos a mais que em 2007. Dados do Target Group Index
revelam que 53% das pessoas afirmam confiar na TV para se informar
(“Consumo de TV cresce e 53% dizem confiar no telejornalismo”, [S.d.]).
Cabe destacar que a TV ainda é o grande meio para acesso a
informações em porte nacional. Tanta credibilidade atribui enorme poder político
e econômico aos meios de comunicação.
A TV é um dos canais de informação para 11,8 milhões de analfabetos,
ou seja, 7,2% da população brasileira acima de 15 anos. Mais da metade da
população brasileira – 51% acima dos 25 anos – tem apenas o Ensino
Fundamental completo (“Brasil ainda tem 11,8 milhões de analfabetos, segundo
IBGE”, 2017). Assim, quase 60% da população com baixa ou quase nenhuma
escolaridade encontra nos meios de comunicação a fonte de suas informações.
O impacto social das notícias sobre esta realidade é altamente perigoso. A
informação errada, ou manipulada, pode redundar na formação de opinião
dirigida segundo interesses os mais diversos.
Imaginem, agora, este poder concentrado nas mãos de poucos.
Pesquisa das ONGs Repórteres Sem Fronteiras – situada na França – e
Intervozes – do Brasil –, financiada pelo governo alemão, revela que cinco
famílias controlam metade dos 50 veículos de comunicação com maior audiência
em todo o País. A pesquisa faz parte de um Monitoramento de Propriedade da
Mídia – em inglês, Media Ownership Monitor, ou simplesmente MOM – realizado
anteriormente em outros 10 países em desenvolvimento. A pesquisa gera um
ranking de Risco à Pluralidade da Mídia, elaborado pelos Repórteres Sem
Fronteiras. Nesta lista, o Brasil ocupa a 11ª posição, ou seja, o último lugar
(ANTONIO, [S.d.]).
No levantamento de 50 veículos com maior audiência, ficou constatado
que 26 deles pertencem a cinco famílias. O maior de todos é o grupo Globo, da
família Marinho, que possui nove dos 50 maiores veículos. A forte influência da
Globo parte da TV aberta, passando pelo canal por assinatura GloboNews, a
rádio CBN, a Rádio Globo, os jornais O Globo, Extra, Valor Econômico, e a
Revista Época, por exemplo. O grupo Globo, sozinho, possui audiência maior
que a soma do 2º ao 5º lugar na pesquisa. Para os autores da pesquisa, esse
domínio caracteriza um oligopólio. O conglomerado Globo – que é composto,
ainda, por gravadora, editora, portal de Internet, plataforma de vídeo, dentre
outros – revela um perigo à democracia, e não a reforça (ANTONIO, [S.d.]).
Quem denuncia o risco não sou eu, mas a Constituição Federal, que no artigo
220 (GOVERNO FEDERAL, 1988), afirma: "os meios de comunicação social não
podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou
oligopólio". Entretanto, este artigo, assim como outros que dizem respeito à
comunicação social, nunca foram regulamentados pelo Congresso. O fato é que
o oligopólio só é caracterizado pela lei no caso das TVs, mas a lei permite a
propriedade cruzada dos meios de comunicação em múltiplos segmentos.
O Grupo Globo é apenas um exemplo. Para ser mais claro, é o maior
exemplo. No entanto, há outros conglomerados, como o Grupo Record –
propriedade da família Macedo, que controla uma TV aberta e outra fechada,
mídia impressa, portal na Internet, rádio, dentre outros.
Diante do que foi exposto até agora, é possível apontar uma contradição
basal. Por um lado, a liberdade de expressão é fundamental para o exercício da
democracia plena, e os meios de comunicação de massa são os porta-vozes
deste preceito. Por outro lado, no caso brasileiro, há clara concentração de
empresas de comunicação nas mãos de poucas famílias, que mantêm o
oligopólio nacional da informação. Diante de todos os canais de comunicação,
existe o brasileiro, afeito à crença na idoneidade e credibilidade das informações
que recebe dos meios de comunicação. Portanto, decisões importantes sobre o
que deve ser divulgado, como deve ser divulgado, quando deve ser
divulgado, e em que canais deve ser divulgado cabem a poucos, que sabem
perfeitamente que o público, de antemão, tende a acreditar no que for veiculado.
No entanto, para além de famílias que mandam nos meios de
comunicação do País, há outro dado importante a ser mencionado: aliados
diretamente a estas famílias, estão políticos do executivo e legislativo. A relação
entre políticos e a gestão dos veículos de comunicação não é recente.
Reportagem publicada na Folha de São Paulo, em 2001 (“Folha de S.Paulo -
Comunicação: Políticos controlam 24% das TVs do país - 06/08/2001”, [S.d.]),
revelava que 24% das TVs brasileiras eram geridas por políticos. Para vocês
terem uma ideia, no início do século XXI, o jornal revelava que 60 emissoras
eram ligadas a políticos. Na época, a Globo tinha 21 afiliadas nas mãos de
mandatários, contra 17 do SBT e nove da Band. Constam da lista nomes como
o ex-presidente José Sarney, os senadores Fernando Collor, Jader Barbalho,
Romero Jucá – aquele mesmo... que disse que era necessário “um grande
acordo nacional com o Supremo, com tudo...” – e Tasso Jereissati, dentre outros.
Dez anos depois, o Ministério das Comunicações revelava que 56 deputados e
senadores eram sócios ou tinham parentes no comando de emissoras de rádio
e TV (“Confira a lista de parlamentares donos de rádio e TV”, 2011). Na atual
legislatura, 32 deputados federais e oito senadores são sócios diretos de
emissoras.
O que diz a Constituição Federal sobre o tema? Segundo o Artigo 54
(GOVERNO FEDERAL, 1988), desde a posse, os parlamentares não podem “ser
proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor
decorrente de contrato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer
função remunerada”. Em 2017 a briga foi parar no Supremo Tribunal Federal –
STF. A ministra Rosa Weber foi relatora da Arguição de Descumprimento de
Preceito Fundamental nº 246 (ADPF 246) –, que tramita em conjunto com a
ADPF 379 –, que questiona a posse de veículos de comunicação por políticos
em atividade. Curiosamente, a Associação de Emissoras de Rádio e Televisão
– Abert – pediu para ser ouvida no julgamento, e solicitou que o ministro Gilmar
Mendes autorizasse.
A história segue sem conclusão. Tribunais estaduais, como de Santa
Catarina e de São Paulo, têm impedido que políticos mantenham rádios em TVs
durante o mandato. No entanto, a Advocacia Geral da União (AGU) tenta reverter
os avanços e manter as concessões aos políticos.

2 O protagonismo da Rede Globo


A interferência das mídias nos aspectos políticos de nossa sociedade é
antiga. Neste sentido, a Rede Globo de Televisão assume profundo
protagonismo. Por isso, vale dedicar algum espaço de nosso texto a exemplos
históricos de sua participação na divulgação das notícias sobre a política
nacional. A Globo não é uma emissora de televisão qualquer. Atualmente, a
Globo é a segunda maior emissora de TV do mundo, ficando atrás apenas da
ABC, dos Estados Unidos. É a maior líder de audiência da América Latina e seu
faturamento chega a ser mais que o dobro de suas concorrentes diretas. Trata-
se da maior emissora com produção de conteúdo em língua portuguesa (“Globo
supera CBS e se torna a segunda maior emissora do mundo; Record é a 28 a”,
[S.d.]).
A Globo apoiou a ditadura militar e evitou, em seus telejornais,
mencionar as manifestações a favor do movimento conhecido como “Diretas Já”,
no início dos anos 80 do século passado. A própria Globo, em editorial lido pelo
âncora William Bonner no Jornal Nacional em 2013, reconheceu o apoio ao
regime militar, e afirmou que sua atitude foi um “erro”. Em 1989, a Globo voltou
aos holofotes devido à edição tendenciosa do debate dos então candidatos à
presidência Luis Inácio Lula da Silva, do PT, e Fernando Collor de Mello, da sigla
PRN, criada por ele. Vale relembrar: no dia seguinte ao debate, o Jornal Hoje
apresentou uma reportagem sobre o evento destacando os pontos positivos das
falas dos dois candidatos. De maneira justa, dividiu o tempo de fala da mesma
forma entre os dois. No entanto, uma ordem superior da emissora determinou
nova edição da matéria para o Jornal Nacional. Alexandre Garcia foi para o
estúdio e montou uma matéria que destacava os melhores momentos de Collor
e os piores de Lula. Nesta reportagem, Collor teve mais tempo de fala que seu
adversário petista. Naquele momento, Lula e Collor estavam empatados
tecnicamente nas pesquisas de opinião. Ao final da votação, Collor foi eleito. Em
2009, Collor pessoalmente reconheceu que foi favorecido pela emissora.
O mesmo Collor foi vítima dos meios de comunicação. a crise
econômica, o confisco da poupança e a cobertura investigativa sobre a morte de
seu aliado PC Farias culminaram com seu impeachment, em 1992.
Os repórteres Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna fizeram importantes
revelações sobre as eleições presidenciais de 2006, que envolveram José Serra,
do PSDB, e novamente Lula. Segundo eles, havia ordens expressas na Globo
para barrar reportagens investigativas envolvendo denúncias contra Serra e o
PSDB, e para destacar os fatos negativos envolvendo Lula e o PT. As
reportagens sobre economia foram quase esquecidas no momento em que o
Brasil estava em franco crescimento. Vale lembrar que naquela época Lula
concorria à reeleição.
No ano de 1993, o Channel Four, grande cadeia de TV da Inglaterra,
exibiu o documentário chamado Beyond Citizen Kane, dirigido por Simon Hartog.
O filme conta a obscura histórica da Globo. Batizado no Brasil como Muito Além
do Cidadão Kane, o filme encontra-se proibido desde 1994 devido à ação
impetrada por Roberto Marinho, na época diretor geral das empresas Globo. O
título do documentário remete ao filme Cidadão Kane, clássico dirigido no início
dos anos 40 do século XX por Orson Welles. O filme de Welles trata da vida de
Charles Foster Kane, personagem fictício inspirado por sua vez em Randolph
Hearst, magnata das comunicações dos Estados Unidos da América. Segundo
o documentário do Channel Four, a Globo usa de todos os artifícios para
influenciar a opinião pública brasileira, tal qual faz Kane no filme de ficção.
Embora ainda esteja proibido, o documentário Muito Além do Cidadão Kane
(CRISTIANO GRIMALDI, [S.d.]) pode ser encontrado no YouTube.
Estes são apenas alguns exemplos históricos envolvendo um dos
maiores grupos midiáticos do mundo na política nacional. Mais à frente irei me
referir especificamente às coberturas jornalísticas sobre as manifestações de
2013 e sobre o caso do impeachment da presidenta Dilma Roussefff.
Como vocês percebem, vamos compreendendo a relação estabelecida
entre a política institucionalizada e os meios de comunicação de massa – em
destaque a Rede Globo – aqui no Brasil. Agora, é necessário destacar outro
aspecto que diz respeito diretamente às mídias nacionais. Se pensarmos a
respeito das TVs, em especial, é possível dizer que elas constituem empresas
inseridas no mercado. Portanto, obedecem, também, à lógica do capital. Neste
sentido, a Globo merece novo destaque. Em 2002, no final do mandato de
Fernando Henrique Cardoso como presidente, o Governo Federal ofereceu
ajuda de 280 milhões de reais através de financiamento do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, em um negócio perfeito para a
emissora. Anos depois, foi feita uma associação entre o “favor” que a Globo fez
em tirar de cena uma jornalista de sua emissora, amante do presidente, que teve
um filho com ele, e o vultuoso empréstimo. Enfim, foi especulado a respeito de
uma “troca de favores” bem cara... nada disso, no entanto, foi amplamente
discutido (NOGUEIRA, 2016).
Enfim, a força dos impérios de comunicação se sustenta na crença de
que são o 4º poder constituído, bastiões do regime democrático, e qualquer
interpelação a respeito do que veiculam soa como censura... tem-se, assim,
caracterizadas as bases de um forte controle por parte das mídias sobre a
população de um território que soma quase as dimensões da Europa, possui
mais de duas centenas de milhões de habitantes, e é a sétima economia no
planeta.
Feita a análise de conjuntura da grande mídia nacional, agora, é possível
passar para a segunda parte de nossa aula.
Parte II
1 A mídia e o golpe: a ação da Globo no Impeachment da presidenta Dilma
A grande mídia nacional, em especial a Rede Globo, sempre esteve
associada aos interesses das elites econômicas do País. Sendo uma grande
corporação, a Globo é uma empresa de uma família que faz parte da elite
financeira do Brasil. Desde o começo da chegada do PT ao poder, as elites
financeiras, associadas às mídias, tentaram criar situações para a retirada do
Partido dos Trabalhadores do cenário político. Um dos exemplos mais claros foi
a cobertura em torno do que foi denominado pelos meios de comunicação de
“Mensalão do PT”, em 2005. No entanto, as ações para criminalizar o partido a
partir do excesso de reportagens sobre a corrupção petista, malogrou. Isso
porque ficou claro, para a maior parte da população – justamente aquela que é
historicamente marginalizada – que a pauta de governo a favorecia. Ainda que
advogando contra Lula e seu partido, a mídia e as elites não conseguiram
derrubar o governo.
A mídia nacional descobria empiricamente que a estratégia do
denuncialismo contra o PT e Lula, por si só, não daria certo. As políticas sociais,
bem como os recursos destinados à educação, saúde e moradia beneficiavam
as camadas desfavorecidas, e, sendo maioria, continuaram apoiando Lula e seu
governo. Foi quando a Globo, bem como as outras empresas de comunicação,
acharam um forte aliado; uma força que jazia em silêncio, ruminando e
praguejando contra o governo petista na clausura de sua casa: a classe média.
A classe média é aquela que, embora viva a insegurança das crises
sociais e financeiras, identifica-se com as elites na medida em que almeja
alcança-las. Detentora de capital cultural, apega-se ao conhecimento como
forma possível de ascensão social. A classe média não se coloca contra os
privilégios da elite; ao contrário. Luta na esperança de conseguir assegurar, para
si ou para seus descendentes, o degrau mais alto na pirâmide social, e usufruir
das prerrogativas das elites.
Enquanto as classes mais altas mantêm-se a uma distância segura dos
estratos mais baixos da população, a classe média se sente ameaçada pela
abertura de vagas nas universidades para os mais desfavorecidos. Estes
poderão concorrer com seus filhos em um bom concurso público, ou a uma bela
oportunidade de emprego em uma empresa privada. A classe média sentiu-se
incomodada ao ver pessoas de classes inferiores dividindo espaço nos mesmos
aeroportos, e comprando carros e motos. A classe média revela profundo
desprezo por aqueles que não se vestem, ou não fazem uso do léxico, da mesma
forma que ela.
O golpe midiatizado é, portanto, porta-voz de classes específicas e bem
delineadas contra o Brasil que despontava, uma parcela do País que sempre foi
desprezada. Mas, para o golpe acontecer, precisava que a classe média
participasse ativamente. Neste sentido, o movimento popular contra o aumento
das passagens de ônibus foi decisivo. A imprensa – destaco sempre o papel da
Globo no processo – agora não apenas midiatizou os fatos... ela os construiu.
Jessé Souza (2016) nos explica bem o processo de transformação
midiática das manifestações regionais contra o aumento das passagens de
ônibus, no ano de 2013, em eventos nacionais contra o Governo Federal. Este
dado é importante para que eu possa narrar o caminho adotado pela mídia para
a arquitetura de uma narrativa que foi apropriada pela classe média, que nunca
engoliu o PT no poder. Mas esta narrativa também serviu para conquistar
adeptos da tese de que as manifestações eram uma luta “contra a corrupção”.
Tentarei proceder minha explicação de maneira resumida.
Em junho de 2013, o Movimento pelo Passe Livre, ou simplesmente MPL
– não confundam com MBL, ou Movimento Brasil Livre, que é aquele de extrema
direita, e que surgiu pouco depois deste período – tomou as ruas de grandes
cidades brasileiras exigindo a revisão dos preços das passagens de ônibus.
Popular, apoiado por movimentos sociais, o movimento começou sendo
hostilizado pela grande mídia, sobretudo em função dos confrontos entre
manifestantes e a polícia militar, que normalmente terminavam em “quebra-
quebra”. Os participantes das manifestações eram sistematicamente chamados
de vândalos pela imprensa. A primeira menção ao MPL no Jornal Nacional foi
em 10 de junho de 2013 (SOUZA, 2016).
Os jovens que participavam do Movimento começavam a sentir na pele
a crise financeira internacional que, enfim, batia à porta do País. Ao longo de
alguns dias de cobertura jornalística, a Globo começou a associar as
manifestações contra o aumento das passagens de ônibus à luta contra a
Proposta de Emenda Constitucional nº 37/2011, ou simplesmente, PEC 37. Esta
PEC garantia que apenas as polícias civis e a Polícia Federal, em todo o País,
poderiam investigar criminalmente. A medida contrariava o Ministério Público,
que almejava poder de polícia. Investigação e acusação contrariam preceitos
básicos do direito quando promovidos pelo mesmo órgão, portanto, algo
perigoso para o regime democrático. Isso porque se quem acusa, pode também
investigar, há conflito claro de interesses. Além disso, tal atitude pode levar
facilmente à manipulação de um processo. A luta contra a PEC, por parte do
Grupo Globo, garantiu importante aliança com o judiciário e o Ministério Público.
Este acordo entre a Globo e judiciário se revelou um casamento duradouro.
Assim, aos poucos, as reportagens televisivas da Globo começavam a
se apropriar de manifestações de caráter regional e de interesse pragmático e
transformá-las em eventos nacionais, com bandeiras de luta diferentes. A luta
contra a aprovação da PEC 37 se transformou em uma luta “a favor da
democracia e contra a corrupção”. As manifestações das ruas começaram a ser
definidas como “Festas da Democracia”.
A Globo começou a cobrir as manifestações com atenção e cuidado: aos
poucos, a emissora passou a afirmar que as ações de violência eram obra de
um punhado de vândalos, infiltrados por partidos políticos. A classe média, então
coadjuvante no debate político, viu nas manifestações a oportunidade de ir às
ruas. Com o apoio da mídia, começou a se manifestar contra a corrupção, que
não saía da ordem do dia dos telejornais.
A corrupção, por sua vez, que sempre foi um problema sistêmico das
relações nefastas entre políticos e o alto empresariado, da forma com que era
apresentada nos telejornais, parecia gerida exclusivamente pelo governo petista.
A classe média agora se apoderava das ruas, vestida de camisas da seleção
brasileira de futebol. Pendurada na parede do prédio da Federação das
Indústrias do Estado de São Paulo – conhecida pela sigla Fiesp – destacava-se
uma enorme bandeira brasileira.
A classe média, que nunca pôde destilar seu ódio contra as minorias em
público, não tinha como acusar o PT por promover a diminuição real da miséria
e da pobreza, nem permitir o acesso de excluídos aos bancos escolares e
universitários. Isso seria algo considerado moralmente errado. Mas agora, a
classe média podia apelar contra o governo levantando a bandeira da luta
anticorrupção petista.
Com a redução do preço das passagens de ônibus em quase todo o
Brasil, a classe média permanecia nas ruas. Os partidos políticos foram
execrados. Como sabemos, a verdadeira militância existe nos partidos de
esquerda. Portanto, era extremamente conveniente, para os meios de
comunicação, afirmar que a luta das ruas era “apartidária” e “popular”.
Posteriormente, com a divulgação cotidiana da Operação Lava Jato, a
associação entre a classe média, o aparato jurídico e a divulgação midiática
estava finalizada. A construção da imagem de Sérgio Moro como herói da luta
contra a corrupção garantiu a judicialização do golpe, e a personalização da ética
e do bem, contra os petistas Dilma e Lula, por sua vez, personificados como os
chefes da quadrilha petista, portanto, o mau.
A compreensão da apropriação midiática das manifestações de 2013 é
fundamental para entendermos o golpe. Uma das líderes do Movimento Passe
Livre disse ao jornal O Globo, do Rio de Janeiro, que a luta contra a PEC 37 e o
combate à corrupção nunca haviam sido bandeira do Movimento, o que
comprova efetivamente a manipulação midiática das manifestações. Surfando
na onda anticorrupção das manifestações, a PEC 37, que antes era dada pelos
analistas como aprovada, foi fragorosamente derrotada no Congresso por 430
votos contra, e nove a favor (SOUZA, 2016).
O Jornal Nacional pouca atenção deu à resposta do Governo Federal às
ruas. Em 24 de junho o governo Dilma propôs, para combater a corrupção, a
constituição de cinco pactos: projeto Federal para garantir a melhoria do
transporte público, reforma política, a corrupção passaria a ser crime hediondo,
aumento da contratação de médicos estrangeiros no Brasil, e destinação de toda
a verba do Pré-Sal para a educação.
Ao invés da mídia focar nas propostas contra a corrupção de Dilma, os
meios noticiaram a aposta em uma reforma política paralisada no Congresso,
bem como no plebiscito que era organizado a favor da reforma.
Diante de tanta mídia negativa, a popularidade do governo Dilma
começou a despencar, como ficou demonstrado pelos institutos de pesquisas.
A Globo também encontrou na Polícia Federal forte aliada. A Operação
Lava Jato, que iniciou em 2009, teve a primeira fase deflagrada em 2014. A
investigação revelou importante esquema de corrupção em várias empresas
estatais. No entanto, se eu mirar minuciosamente a Operação, aos poucos, é
possível perceber os contornos políticos que ela vai tomando: a abordagem
seletiva e partidarizada colaborou para vilanizar ainda mais o governo petista.
Braço policial do golpe, a Lava Jato obteve nos telejornais da Globo o mesmo
destaque que o juiz de primeira instância de Curitiba, Sergio Moro, ao qual eu
me referi anteriormente. Enfim, a Globo reverbera o processo de judicialização
da política como uma luta democrática contra a corrupção, e não como um golpe
legalista e velado contra a democracia.
Mas, ainda assim, a guerra política não foi ganha imediatamente pela
direita e seus aliados. As elites econômicas começavam a acreditar na vitória
após a campanha eleitoral de 2014. Entretanto, a ineficiência do discurso de
Aécio Neves, candidato do PSDB no segundo turno do pleito, somada ainda à
eficácia do trabalho dos governos petistas junto às classes populares, deram a
Dilma a reeleição, agora com uma pequena vantagem de votos.
A eleição revelou ainda mais a diferença na marca das classes sociais.
A governante petista saiu vitoriosa claramente entre as classes populares, e nos
estados mais pobres da Federação. O mapa da eleição revelou que Dilma logrou
êxito em todos os estados da região Nordeste, e em quase todo o Norte. Perdeu
no Sul e no Centro-Oeste. No entanto, Dilma venceu em dois importantes
colégios eleitorais do Sudeste: Rio de Janeiro e Minas Gerais. Perdeu em São
Paulo e no Espírito Santo.
A derrota apertada não foi aceita pelas elites e pelas classes médias dos
estados mais ricos. O discurso de ódio contra o governo petista, contra pobres,
nordestinos e nortistas se acirrou nas redes sociais, em um País que revelava
sua face mais perversa da divisão de classes. A animosidade não se voltou
contra eleitores fluminenses e mineiros. Para os grupos endinheirados, havia a
desconfiança de que, após Dilma, Lula voltaria a ser candidato e provavelmente
chegaria ao poder, em um ciclo que poderia deixar o Brasil sob o comando do
PT por cerca de um quarto de século. E isso é inadmissível para as elites do
capital, que sobrevivem na rapinagem imediata do Estado nacional.
O que vivemos depois disso foi a conflagração real do golpe. A mídia
estava focada no enfraquecimento do PT a partir do discurso denuncialista,
manifestado na luta anticorrupção, mas o objetivo era colocar no poder, por vias
eleitorais, um candidato neoliberal. No entanto, a nova vitória de Dilma Rousseff
impôs atitudes mais drásticas, que culminaram no golpe jurídico-parlamentar-
midiático que conhecemos.
Após as eleições, os telejornais da Globo passaram quase que
exclusivamente a exibir e noticiar o braço policial do golpe: a Operação Lava Jato
e seu aspecto político. Sem investigar as causas sistêmicas, os telejornais
explicam que o governo petista foi responsável pela maior corrupção da história.
Ao invés de investigar os contextos e as causas da corrupção, os telejornais
revelam apenas os agentes do processo. É o que Jessé Souza (2016) denomina
“fulanização da corrupção”. Ao atribuir à corrupção um caráter individual, você
não analisa as causas verdadeiras do processo. Assim, fica a sensação de que,
ao trocar os agentes, a corrupção acaba. E nós sabemos – eu e vocês – que
este não foi o real objetivo da retirada do PT do poder. Sabemos que a corrupção
está presente em todos os estratos da sociedade.
Sabemos – eu e vocês – que, além do aparato jurídico, entrou em cena
o legislativo. Os atuais componentes do Congresso Nacional – que estão entre
mais corruptos da história – movidos por interesses que dizem respeito
exclusivamente ao poder e ao dinheiro, liderados por Eduardo Cunha, desferem
o golpe de misericórdia. Depois de passar o ano de 2015 inteiro travando o
trabalho da Câmara com as chamadas “pautas-bomba”, Cunha, com sentimento
de profundo revanchismo após ser abandonado pelo Governo petista diante das
acusações de corrupção que recaíam sobre ele, coloca em votação, em abril de
2016, o impeachment de Dilma. Assim, em “nome da família, da ética e dos
valores morais”, a presidenta é retirada de cena, em um espetáculo grotesco.
A narrativa midiática foi o tema para a expressão de ódio e oposição ao
PT pelas classes média e alta. No entanto, a mesma mídia não fez alarde sobre
a compra de todo o congresso para que Temer não fosse julgado pelo congresso
dois anos depois, o que também é uma forma de corrupção. Da mesma maneira,
não deu destaque à corrupção de outros partidos, como PP (35 parlamentares
acusados) e MDB (32 acusados) – na época do impeachment de Dilma ainda
era PMDB. O PSDB vinha em quarto lugar na lista (26 parlamentares), pouco
abaixo do PT (32, mesmo número de parlamentares que o MDB). Portanto, de
acordo com os casos apurados, o PT é o único partido à esquerda que tem
parlamentares acusados de corrupção (“PP, PMDB, PT e PSDB são os partidos
com mais parlamentares sob suspeita”, 2017). A classe média voltou para sua
casa, eventualmente batendo panelas em suas “varandas gourmet”, e
reclamando do governo no conforto de sua sala de TV.
A luta contra a corrupção revelou sua face mais cínica: Dilma foi retirada
da presidência em um processo forjado, numa votação de impeachment que
entrou para a história como um espetáculo grotesco, liderado por um congresso
que tem um terço dos parlamentares respondendo a processo no STF, grande
parte por corrupção (“Um em cada três parlamentares no Congresso responde
a processo no STF”, [S.d.]).
A acusação de Dilma ter praticado crime de responsabilidade fiscal foi
uma farsa construída para tira-la do poder. A mídia e a Operação Lava Jato a
investigaram e não conseguiram acusa-la de corrupção. A solução foi culpa-la
por uma ilegalidade econômica, que sempre foi praticada por todos os
presidentes que atuaram antes dela (“A trágica farsa do Impeachment”, [S.d.]).
O mesmo governo que condenou Dilma por supostas pedaladas fiscais,
dois dias depois do impeachment, sancionou e publicou no Diário Oficial da
União a Lei 13.332/2016 que flexibiliza a abertura de créditos suplementares sem
autorização do Congresso, ou seja, permite as pedaladas fiscais (“Dois dias após
impeachment, governo Temer sanciona lei que autoriza pedaladas fiscais”,
2016). Curiosamente, a grande mídia nacional não fez alarde sobre o tema,
muito menos denunciou a farsa...
O processo movido contra Dilma já tinha veredicto antes mesmo de
concluído, no entanto, a cobertura jornalística da TV brasileira revelava apenas
o que seriam as incongruências da defesa. Não vou me ater ao tema do processo
em si, já que este está sendo discutido com vocês em outras sessões desta
disciplina. Mas, diante da inteira parcialidade da mídia nacional, gostaria de
sugerir que assistam o documentário de longa-metragem O Processo. Dirigido
por Maria Augusta Ramos, o filme foi aclamado no Festival de Berlim de 2018, e
premiado em terceiro lugar com o voto popular (“O Processo”, 2018). O filme
revela os bastidores do processo que retirou Dilma da presidência à luz da
defesa da presidenta. O Processo já foi exibido em circuito comercial e tem tido
grande repercussão no exterior.
2 Artifícios midiáticos que favoreceram o golpe
Até aqui, apresentei pra vocês os aspectos que permitem uma
compreensão da criação do mito da idoneidade da mídia brasileira. Esta crença
é fundamental para entender o importante papel sobre a participação dos meios
de comunicação na política nacional. Em um segundo momento, mostrei como
convergiam os interesses das elites financeiras, as mídias, e o papel da classe
média brasileira no golpe. Dei especial atenção às manifestações como marco
histórico, ou seja, um recorte fundamental para o desenho do golpe jurídico-
político-midiático que viria em 2016. Agora, gostaria de destacar aspectos que
dizem respeito às técnicas de jornalismo, perpetrados pelo Jornal Nacional, que
permearam o processo histórico, e que foram fundamentais para a deflagração
do golpe.
Estes artifícios são discretos, porém, fundamentais para a construção da
narrativa que retira o PT do poder. Como toda a narrativa, possui introdução,
lugar, período, protagonistas e antagonistas, e desfecho. Mas esta narrativa,
para ser eficaz, tem que dispor de um discurso moral.
Ela é complexa, porque a técnica deve ser sutil o suficiente para encobrir
os reais interesses em jogo, apresentando justificativas artificiais. Em segundo
lugar, a narrativa se constrói como uma obra aberta, ou seja, como em um jogo,
onde é necessário haver um tabuleiro e jogadas para que a mídia possa preparar
o próximo passo.
O primeiro ponto a ser destacado é o “senso de oportunidade”. Desde
2005 a mídia concentrava suas forças na tentativa de criminalizar o PT.
Empiricamente, a mídia encontrou nas manifestações de 2013 o campo ideal
para levar a classe média às ruas, e para criar o discurso da luta contra a
corrupção, contra a PEC 37. Aqui foi o marco temporal de início da narrativa do
golpe em função de sua eficácia: ano de 2013 até o golpe. Podemos estender o
período até agora, já que as elites precisam se garantir no poder na eleição que
ocorrerá no fim deste ano. Definimos, também, o lugar em que começa a
narrativa que irá levar ao golpe – as capitais brasileiras; em especial, São Paulo.
Este fato nos leva ao segundo ponto: o apoio ao judiciário. A constituição desta
aliança se estendeu, posteriormente, às ações do braço policial: a Operação
Lava Jato. A judicialização do processo político foi apresentada sob o aspecto
da “moralização” do País.
A arquitetura midiática desta moralização judicial levou à construção do
herói nacional, representado pelo juiz Sérgio Moro. Como seu antagonista, o ex-
presidente Lula, apresentado por um dos representantes da tropa de choque da
Lava Jato, o procurador da República Deltan Dallangnol, como o chefe da
quadrilha de usurpadores do Brasil. É interessante lembrar o que escrevi
anteriormente: a criação da figura do mocinho, interpretado por Moro, e de
bandido, vivido por Lula, revela o que Jessé Souza chama “fulanização da
corrupção” (SOUZA, 2016). A personificação de aspectos sociais simplifica
aspectos complexos da intrincada relação de poder nacional, como eu narrei
antes. E o mais importante: a transformação midiática de Lula em vilão visa
destruir sua imagem pública, já que ele ainda é um dos maiores líderes da
política nacional.
Desta forma, a Globo adota uma postura iminentemente política. É
necessário destacar que toda ação deste grupo midiático é,
compreensivelmente, fisiológica. A empresa Globo não está a favor,
necessariamente, de um partido específico, mas da satisfação de interesses
particulares, que possam ser atendidos por quem estiver no poder.
O Partido dos Trabalhadores, do qual Lula é presidente de honra, não
reflete o projeto econômico e político das Organizações Globo. Sendo assim,
deixa de ser apenas um partido político, e passa ser qualificado pela mídia como
uma entidade criminosa. Como o partido representa parte dos movimentos
sociais, estes também passam a ser, simbólica e midiaticamente, criminalizados.
Desta maneira, a esquerda inteira é tratada como uma quadrilha, que tinha como
intenção se apossar do Brasil. Esta passa a ser a face mais crua da divisão de
classes encoberta pelo jogo de mostra e esconde do Jornal Nacional. Este é o
aspecto moral da narrativa televisiva.
Segundo a grande mídia, o PT e a esquerda são a quadrilha que teria
sido responsável pela crise econômica que o País enfrenta. Neste sentido,
ressalto algo que compreendo como fundamental sobre o “economês” midiático:
o fetiche sobre a técnica. Este fetiche é caraterizado pela exacerbação de um
discurso restrito a poucos, os economistas experts, que estudaram para estar
ali, em frente à câmera, opinando. Homens brancos, engravatados, sudestinos,
utilizam conceitos desconhecidos para a maior parte da população. Seu ar de
autoridade a respeito de números e prospecção de futuro tornam-se quase
irrefutáveis. Por trás do discurso, há sempre a ideia de uma ética redentora da
economia liberal, manifestada na estética do linguajar correto, ternos e
escritórios com computadores. Mas percebam que nunca entra, nas estatísticas
dos economistas, o fator homem. Suas matrizes discursivas são tão abstratas
que escondem, de fato, crenças ideológicas tão fáticas quanto qualquer dogma
religioso. Verifiquem que a Globo seleciona, sempre, opinadores da economia
neoliberal, que trabalha em corretoras de valores, bancos ou são professores de
especialização da FGV ou do IBMEC, instituições voltadas para o mercado.
Estes economistas construíram no imaginário social a ideia de que a crise seria
fruto da corrupção e do investimento em programas sociais, como o Bolsa
Família. E o judiciário é o poder redentor.
Peço licença para proceder um comentário sobre o judiciário brasileiro.
Até hoje, não assisti nenhuma reportagem no Jornal Nacional fazendo menção
ao fato de que o judiciário brasileiro é o mais caro do mundo. Este poder gasta,
sozinho, 1,3% do Produto Interno Bruto – PIB. Para se ter uma ideia, o caríssimo
Congresso nacional custa 20,6 bilhões de reais ao ano; o judiciário, 61 bilhões.
O número é quatro vezes maior que o da Alemanha, por exemplo, que investe
0,32% do PIB no judiciário, oito vezes maior que o do Chile, que gasta 0,22% do
seu PIB, e 10 vezes mais que “los hermanos” argentinos, que colocam 0,13% do
PIB no judiciário. Gastamos no judiciário um valor equivalente ao que investimos
em Educação – 95 bilhões de reais – ou em Saúde – 97 bilhões. O resultado? O
30º judiciário mais lento do mundo entre 133 países (“6 fatos que mostram por
que o Judiciário brasileiro é o mais caro e ineficiente do mundo”, 2017).
O homem que vai redimir o Brasil, senhor Sérgio Mouro, recebe auxílio-
moradia no valor de R$ 4.378,00, e no entanto, possui apartamento próprio em
Curitiba, onde mora e trabalha (“Moro tem imóvel em Curitiba, mas recebe
auxílio-moradia”, 2018). O juiz que arbitra os casos da Lava Jato no Rio de
Janeiro, Marcelo Bretas, e sua esposa, a também juíza Simone de Fátima
Bretas, recebem duplamente o benefício. Detalhe: possuem quatro imóveis na
Zona Sul, área mais nobre do Rio de Janeiro, sendo que apenas um deles custa
seis milhões de reais (“Casal Bretas, que possui milhões em imóveis, garantiu
auxílio-moradia duplo com ‘falha judiciária’ | Revista Fórum”, [S.d.]). Em
entrevistas, alegam que o que recebem é legal, e complementa seus salários
defasados... tanto que o casal Bretas entrou na justiça para garantir o tal “direito”.
Sim, a Globo afirma que os agentes deste poder altamente privilegiado
estão moralizando nossa política. E a classe média, se incomoda com o custo
do judiciário? Não. Afinal, seu filho está matriculado em algum curso preparatório
para concurso público para juiz ou promotor de justiça. O problema, para ela,
está no Bolsa Família, que vai quebrar o Brasil. Bom... tenho que descordar. O
judiciário brasileiro custa pelo menos o dobro do valor do Bolsa Família, que
recebe 30 bilhões de reais ao ano. Aliás, o Bolsa Família custa ao ano o que o
Governo Federal gasta com servidores e pensionistas por mês (“1 mês de salário
dos servidores banca 1 ano de Bolsa Família”, [S.d.]). As informações que
desnudam o judiciário brasileiro nunca serão vistas no Jornal Nacional, pois elas
ferem a narrativa de redenção construída em torno da moralidade deste poder.
Bem, já sabemos os personagens e a base da estrutura da narrativa
política perpetrada pela Globo. Agora, cabe perguntar: como se dá tecnicamente
a implantação desta narrativa?
Alguns aspectos são fáceis de observar. Irei resumir os sete tópicos
principais que organizam tecnicamente a apresentação do conteúdo da narrativa
que resultou no golpe de 2016 que retirou Dilma da presidência.
1. Seleção cuidadosa da pauta e da abordagem. Isso significa
dizer que a Globo escolha criteriosamente o que irá noticiar, e
como irá noticiar. Manifestações contra o PT merecem mais
tempo de veiculação e atenção do que as numerosas
manifestações em prol da Dilma e do Lula que, quando exibidas,
as imagens são registradas no início dos eventos, quando há
poucos participantes, para dar a impressão de baixa adesão à
defesa dos petistas.
2. Criação de fatos. O exemplo mais claro foi a vinculação da PEC
37 às manifestações contra o aumento das passagens de ônibus,
e a consequente transformação do evento em uma luta contra a
corrupção petista.
3. Redundância das notícias. A Globo transformou as matérias de
“política” em matérias de “polícia”. Os tais criminosos eram
sempre apresentados como “do PT”. A ênfase no partido e sua
associação ao possível crime cometido foi mais frequente do que
com denúncias sobre crimes de corrupção cometidos por políticos
de outros partidos, que sofreram tantas ou mais acusações que o
PT, como, por exemplo, parlamentares do PP e do PMDB.
Quando você repete o nome do partido e o associa a um ato
criminoso, você tende a criar no seu telespectador um pré-
julgamento contra a entidade. Além disso, a Globo faz,
semanalmente, menção à condenação do Lula, para lembrar à
população do suposto crime cometido pelo ex-presidente.
4. Furos de reportagem a partir de vazamentos seletivos. O juiz
Sérgio Moro permitiu o vazamento de gravações telefônicas entre
a presidenta Dilma e o ex-presidente Lula, o que não foi apenas
imoral – já que o diálogo entre eles não era objeto de investigação
– mas ilegal. Ainda hoje, assistimos no Jornal Nacional delatores
acusando o PT em gravações de áudio ou vídeo, ainda que
nenhuma prova seja apresentada. Uma das vítimas foi a
senadora Gleise Hoffmann, do PT do Paraná, que sofreu diversas
acusações, e até hoje não há nenhuma prova contra ela.
5. Construção dos ideários dos “heróis” e dos “vilões”. Eu já
disse anteriormente da construção da imagem de herói em torno
do juiz Sérgio Moro, em oposição a Dilma e Lula. Mas há outros
coadjuvantes neste grupo, como os heróis Deltan Dallangnol e
Marcelo Bretas, e da vilã Gleise Hoffmann.
6. Concessão de voz apenas a um lado da história. Outro artifício
importante é enfatizar apenas uma versão do fato da mesma
notícia, sem direito ao contraditório. Isso quer dizer que todos os
comentaristas assumem o papel de acusadores da esquerda, o
que quebra uma das regras básicas do jornalismo: dar o mesmo
espaço para todos os lados da versão sobre o fato. O mesmo
acontece com relação às reportagens sobre economia, quando
existe a defesa premente do ideário neoliberal. Após o golpe a
Globo fez crer que a reforma trabalhista era necessária para a
“modernização” da legislação. Reparem que em nenhum
momento nenhuma categoria de trabalhadores foi ouvida, apenas
o empresariado. No caso da reforma do Ensino Médio, a Globo
não conseguiu nenhum pedagogo que apoiasse o projeto que
excluía todas as disciplinas que possibilitavam o desenvolvimento
da reflexão crítica do currículo, como História, Filosofia,
Sociologia, Geografia e Artes. Nesse caso específico, deu voz a
Viviane Senna, do Instituto Ayrton Senna, instituição apoiada pela
Globo.
7. Perseguição a alguém do lado “da situação”. A estratégia de
expor a uma condenação midiática exclusivamente os
parlamentares petistas resultaria em críticas claras aos meios de
comunicação. Por isso, as elites escolheram alguns
parlamentares do bloco centro-direita para serem sacrificados. O
primeiro foi Eduardo Cunha, do PMDB, que se tornou muito
poderoso no Congresso, representando um risco para as elites.
Cunha é o homem que controlava o “centrão” fisiológico, e seu
acúmulo de poder se tornou um perigo para a direita. Da mesma
maneira, foi necessário “sacrificar” a imagem de Aécio Neves, do
PSDB. Reparem que o tucano Neves arrumou inimizades fortes
dentro de seu próprio partido, como Tasso Jereissati. Além disso,
sua situação ficou insustentável a partir de provas sérias de
corrupção que o incriminavam. Ao perseguir alguns integrantes
da direita, a Globo passa ao espectador desavisado o atestado
de “idoneidade”, ou seja, de uma emissora que denuncia todos os
lados. Reparem que a emissora cobre amplamente a investigação
sobre a morte da vereadora carioca Marielle Franco, do PSol. Isso
porque este partido ainda é considerado “pequeno”, portanto,
“inofensivo”, e Marielle era apenas vereadora, portanto, atuava
em caráter local. A atenção à morte da vereadora reforça a ideia
de que a emissora é idônea.

Conclusão
Diante do que foi exposto, é possível tirar algumas conclusões sobre a
relação estabelecida entre a mídia brasileira e o golpe de 2016. O primeiro ponto
que eu gostaria de destacar é que a forte capilaridade apresentada pelos meios
de comunicação de massa junto à população brasileira acontece devido à
construção do mito da idoneidade. O mito possui uma base pragmática, pois
revela uma eficácia real sobre o mundo em que vivemos. O mito é menos uma
revelação de uma verdade posta e mais um elemento que organiza moralmente
uma sociedade. A noção de que a mídia denuncia as injustiças e informa a
população de maneira imparcial é um tipo de percepção construído ao longo de
décadas, e arquiteta a forma como vemos a sociedade.
A mídia constrói um tipo específico de narrativa sobre a história
cotidiana, e aponta os rumos que devem ser tomados. Ela cria perspectivas
sobre o mundo, a sociedade e a história, portanto, reforça outros mitos nacionais,
como, por exemplo, o que afirma que o Estado nacional é inflado e arcaico diante
de uma filosofia de mercado moderna e necessária. A mídia explica a forma
como a sociedade funciona para milhões de brasileiros, que, na maioria das
vezes, não têm acesso a outras formas de informação.
A sociedade não opina sobre orientações de ordem técnica, pois a maior
parte da população não possui expertise para tratar de assuntos como economia,
por exemplo. E, diante de informações claras narradas por um – ou uma –
repórter bem-vestido, que usa corretamente o léxico, e mostra imagens e
depoimentos de experts, o cidadão comum tende a acreditar que o que está
sendo mostrado, sob efeito de ordenação, é verdade.
Mas não posso, contudo, culpar grande parte da sociedade pelas suas
crenças. Isso, porque, conhecer os meandros das operações da sociedade é
algo tão difícil que há muitas disciplinas e teorias tentando conhece-los, como
nos comprovam a História, a Sociologia, a Antropologia, a Geografia Humana, e
aqui, em especial, a Comunicação Social. A população, na verdade, é vítima de
sua ignorância sobre os abusos que são cometidos cotidianamente contra ela
entre o fim da “novela das sete” e o começo da “novela das nove”. Afinal, o povo
– essa abstração de onde viemos e que lutamos tanto para compreender –
recebe as narrativas que explicam com clareza o mundo em que vivemos.
Este mito da idoneidade midiática foi cuidadosamente projetado com fins
específicos de exercício de poder. Por trás dele, pequeno grupo de famílias, em
conluio com a classe política, manipula a população de acordo com interesses
imediatos para aumento do faturamento dos grupos midiáticos e da perpetuação
dos mesmos atores no protagonismo do cenário político. Cabe à mídia o discurso
de legitimação de toda jogada de seus aliados. Portanto, a mídia ocupa um
importante papel no jogo político, ideológico e financeiro.
Se os políticos precisam da mídia para que seu jogo possa ser legitimado
e apoiado pela população brasileira, por outro lado, os meios de comunicação
necessitam de um aparato jurídico e político para que o jogo midiático continue
centralizado nas mãos de poucos, sem sofrer nenhum tipo de regulação,
compondo oligopólios de comunicação. Desta forma, mídia e poder concentrado
de políticos se autossustentam e se misturam: a mídia não apenas dá suporte a
determinados setores que sempre mandaram na sociedade brasileira; a mídia,
de certa forma, compõem os setores que sempre mandaram na sociedade
brasileira.
Desta feita, os ataques a Dilma, ao PT e a Lula não foram orquestrados
exclusivamente pela mídia, mas por uma parte da sociedade insatisfeita com um
projeto histórico de inclusão e de combate a uma política redistributiva. A mídia,
com seu arsenal de enfoques seletivos, difundiu o discurso moralizante de
combate à corrupção criminalizando Dilma, PT e Lula. O discurso foi abraçado
pelas classes média e alta, que reproduziam nas mídias sociais – Facebook,
WhatsApp e afins – a insatisfação diante das notícias que davam conta da
suposta corrupção petista. Segundo a mídia, o PT, Dilma e Lula tornaram-se
inventores da corrupção, chefes de uma quadrilha que assaltou os cofres
públicos de todo o País.
Agora, cabe uma ressalva: os ataques midiáticos contra a esquerda e
movimentos populares sempre existiram. Eles agora revelaram sua face mais
cínica em função do sentimento de urgência que os setores que controlam o
poder econômico sentiram de mudar os agentes do poder. E não tenham dúvida
de que irão continuar. Há eleições presidenciais no fim do ano, e a Globo já
exibiu, no dia 10 de agosto, durante o Jornal Nacional, reportagem em que a ex-
marqueteira do PT, Mônica Moura, em delação premiada, fazia denúncias contra
o ex-ministro da Educação petista Fernando Haddad. Chamo atenção para o fato
de que Haddad, até hoje, diante de tantas acusações generalizadas de
corrupção, mantinha a imagem incólume. É curioso que uma denúncia surja no
momento em que começa a corrida à presidência.
Por isso, é necessário que a luta pela democratização dos meios de
comunicação se intensifique. Esta não é uma guerra nova. Há cerca de 30 anos
grupos que lutavam contra à ditadura militar já levantavam esta bandeira. Eles
defendiam, entre outras coisas, a educação dos jovens para a mídia, ideia
fundamental para que tenhamos uma leitura crítica dos meios de comunicação
de massa. Outra alternativa é o fortalecimento das mídias comunitárias, como
rádios e TVs desenvolvidas em comunidades carentes pelos próprios
moradores. O governo Lula foi apoiador destas ideias. Para se ter uma ideia,
ocorreram cerca de 70 conferências no período lulista com o objetivo de
popularizar as comunicações. Infelizmente, a falta de consenso entre os atores
envolvidos não permitiu que as políticas fossem desenvolvidas. Atualmente, as
grandes mídias, cuja maior parte das concessões é oriunda da época do regime
militar, barram no Congresso Nacional todas as pautas que questionam os
oligopólios nas comunicações (“Democratização dos meios de comunicação”,
2013).
Por fim, apesar do grave cenário nacional no qual vivemos há alguns
anos, devo destacar que não há motivo para pessimismo. As classes populares
seguem fiéis a um projeto de governo que transformou suas vidas, e que encheu
o País de visibilidade e, para além, de esperança. No momento em que escrevo
este texto, sei que, mesmo atrás das grades, Lula é um líder lembrado pela
população. Dilma tem reais chances de se eleger senadora por Minas Gerais. E,
teimoso, reafirmo minha certeza na crença de que a esperança vai vencer o
medo.

Paulo Passos de Oliveira


Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual da Universidade Federal
de Goiás (PPGACV/UFG). Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGCOM/UFRJ). Tecnólogo em Cinema e bacharel
em Comunicação Social/Jornalismo. Professor Universitário.

Referências
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