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cadernos de teatro

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PROJETO ESPECIAL - GROTOWSKI
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. ::i OINGLÊS MAQUINISTA - MARTINS PENA

ORETÁBULO DAS MARAVILHAS - CERVANTES

DOS JORNAIS

MOVIMENTO TEATRAL
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GROTOWSKI: SUA SAíDA
DO TEATRO

Um cartaz feito à mão está pendurado no camarim


do Teatro Laboratório de Groto\Vski em Wroclaw: "A
quem desejar". Cito o texto: "Se quiser nos encontrar
num estágio parateatral, fique na platéia após Apocalypsis,
escreva em poucas palavras oque pretende eoque espera
do estágio e entregue seu bilhete ao próprio Ryszard
. i Cieslak. Groícwsli". Ao alto, a indicação sublinhada:
"Não são necessárias ambições artísticas".
Ao ler isso, pode-se fazer algumas perguntas. Por
CADERNOS DE TEATRO N. 67 exemplo, porque após Apocalypsis, porque "ao próprio",
outubro-novembro.dez~mbro-1975 porque o aviso se dirige a pessoas sem ambição teatral?
Para aqueles que seguem as publicações sobre aevolução
do Instituto do Ator - Teatro Laboratório, não será
difícil responder.
Publicação dJO TABLADO patrocinada pelo
OLaboratório de Grotowski deixou de existir como
Serviço Nacional de Teatro (MEC) teatro. Não se deve esperar mais novas estréias. Depois de
·1 Apocalypsis mm Figllris, JG, se quer permanecer fiel a
Redação e Pesquisa d'O TABLADO seus princípios (que excluem ensaios, reprodução, imita-
ção até de suas próprias realizações, mas que no início
Diretor-respollsável - JoÃo SÉRGIO MARINHO NUNES de qualquer empreendimento novo, obrigam a alargar o
. - MARIA CLARA MACHADO campo de experiência, acolocar novas questões eabuscar
Diretor-execuuvo respostas ainda desconhecidas), não pode realizar algo
Redator-chefe - VIRGÍNIA VALLI que se situaria nos limites do espetáculo teatral no
Diretortesoureil'o - EDDY REZENDE NUNES sentido amplo da palavra. Um passo além da experiência
Secretário - SÍLVIA Fucs contida em Apocalypsis já éuma saída definitiva do teatro
para algo que não tem nome mas que se tornará sem
dúvida um gênero de arte com acondição de se situar na
Redação: OTABLADQ esfera artística. Tal passo foi dado. Olimite do teatro
Av. Lineu de Paula Machado) 795 - ZC 20 como se entendia até aqui foi transposto; além dessa frcn-
Rio de Janeiro - Brasil. teira as noções corriqueiras de "espetáculo", "papel" ou
"espectador" não têm mais cabimento. Há ao contrário
um lugar para aquele que, com os membros do grupo de
. nes CADERNOS DE TEATRO
Os lerias publicados • _ Groto\Vski, toma parte ativa nas experiências parateatrais
. só p~derão ser.represelllados mediallle autoTlZaç~o de um gênero especial. Afinalidade da qual Grolowskl
d SBAT (Sociedade Brasileira de Aulores T~atrals), tenta se aproximar no período de atividade do Labora-
a Almirallte Barroso, 97 - Rio de lallelTo.
Av. tório em Wroclaw, eque parece ser ofundamento de sua
filosofia, éencontrar osegundo pólo da vida edo teatro,
isto é) olugar eotempo em que ohomem cessa de repre-
sentar, pode "se desarmar" diante de outros homens, tirar I' O Laboratório Teatr oIógi co criado
,lmáscara, onde possa simplesmente ser. Mas ser na ação, para consultas com pesquisadores ecríticos colabora com
na freqüentação de outros homens, . os centros de teatrolo~a. CONVERSA COM
As questões concretas que Groto\Vski coloca nas
buscas aluais podem ser assim formuladas: "Como se ter-
O Laboratóri o de Encontros de Tra-
baIho tem estágios de muitos,dias com treino de atores,
RYSZARD CIESLAK
nar você próprio rejeitando amáscara eojogo quotidiano? ação, inleração, formas de expressão individual e em
Como sair da rotina quotidiana? Como sair da rotina grupo - seu ponto de partida, cuja finalidade consiste
profissional? Aespontaneidade é possível entre a tenta- na.busca ,no homem afim de deseobrir sua própria "ten-
(do Instituto Laborató~io de Jerzy Grotowski)
ção da rotina eado caos? Quais são as possibilidades de taUva" cnadora.
ação do homem colocado face a face diante de outro O Laboratóri o de Métodos de Hap-
homem? Que há de cradcr no homem diante da presença penings, destinado principalmente apessoas envolvidas
viva dos outros, em seu convívio recíproco? O entendi- profissionalmente em interpretação, concentra-se nos
mento humano respeitando as diferenças entre os homens aspectos não-técnicos do trabalho de atol', organiza hap-
é possível além das diferenças nacionais, de raças, de penings baseados em esboços de ação e improvisação. Há um tenno que erpl' • f'
culturas, tradições, da educação elíng.uas? Em' que con- I
Segundo as necessidades da pesquisa, isso pode levar a 11 essência da ativid~de{~{eLtaob {,eb~~nte quanto possível
dições é realizável a plenitude interhumana? Além da um esboço de "espetáculo" e, após, auma confrontação tto" ' o aOlatorlO? A palav "
{O aInda tem uma just.ificação lo'g' ' ta tea-
distinção entre oque olha e oque age, ohomem eseu CO~l um grupo m~i,s numeroso de pessoas do enerior, e {ca no contexto?
produto, otomador eocriador, existe uma forma de arte ate com uma plateIa aberta. Ryszard Cieslak' Não gost d
além daquelas que conhecemos até agora?" O Laboratório de Cooperação com geralmente aplicados' à nossa a~vi: ;enhum dos termos
~u?do tem que ser eti uetado? _a e. Porque .tudo no
O programa de pesquisa foi apresentado na fonaa a Psi C? t er! p!a faz. experiências de trabalho. de sano. Acho que nenhu~a d . ~ao acho que seja neces-
de simples questões sem dar adefinição dos termos, sem grupo a~hcado aPSI.cote!apIa,.coopera com centros'p~ICO- vida ena arte devia se d ~~ ~~lsas que têm realidade na
definir noções nem sempre tomadas em sua acepção cor- terapeuti:~s profISSIOnaIS ~s.slm c.o~no com espeCialistas artificial e sem vida Há e 1111 a, sob pena de se tomar
q~e se dingem ao Iaboratono sohcIlando essa colabora- a
rente. Em todo caso, parece evidente que o campo de apresentam sloaans 'mas dPes~doas que dão definições e
exploração criadora tem se anlpliado de modo aabranger çao. . o', UVl o que aq il h'
essenCIal em sua atividade se d " u o que a de
diversas formas de contáto, de comunicação ede expres- O Es túdio lnt ernacionaI realiza um Jogia. Pessoalmente _ , ene conter nessa tennino-
são do homem. programa sistemático de sessões em grupo para os esta- .. ' nao smto necessid d d '
de defImção isso até me conf d" a e esse genero
~ários estrangeiros e também cursos teóricos. sultado que' quando t un ma por antecipar ore-
Oprograma parateatral do Instituto Grotowski visa
uma . ' um acon be ece' deve envo1ver um fISCO .
justamente abuscar uma resposta às questões acima nen- Finalmente, oProjet oEspeciaI consiste em
clenadas e aoutras, ebuscá-la pela prática, Ele compre- está~os-experiências parateatrais de muitos dias, em que
I
I
II1cógnita
, a a rtura para ibilid . '
vistas. Para que entã 'd POSSI II ades lmpre-
ende as secções seguintes, após uma série de experiências os membros do grupo e as pessoas de fora agem num I fiehnente aquilo' que a~~z~:~:?arE que}erm? expressa mais
mesmo plano e em que, na ação viva, orgânica do ho- J. ter num só temo ou em b; ,ale~, d~sso, como con-
na Polônia eno estrangeiro.
mem, tende-se àrealização das potencialidades criadoras anos de pesqu~as à e~e d~fImçao esses quinze
O Laboratório de Terapia Profis- do ser humano, além da barreira do jogo teatral e da ,"teatro" é s vezes tao dIferentes? A palavra
sionaI funciona na medida em que a ele se dirigem vida. afonte de ~~:~asgrunopmoenclatura oficial de onde tiramos
pessoas necessitadas de ajuda, dá consultas de urgência , mas em nosso caso é h'" ,
É este operfil resumido esimplificado das ativida-
co anos, desprovida de . 'f' d . , ' aJa CIl1-
e "instruções especiais" aos atores profissionais que mento em ue A s~gmlca o, ISto e, desde omo-
tenham inibições,orgânicas na prática da profissão. des do Instituto-Laboratório de Groto\Vski em 1975. Esse co ponto qd pocalYPslS cum Figuris se tomou oúni-
prcgrana não se dirige aum grupo social ou profissio- e nosso programa 'bl'
O Laboratório de Teoria e de Aná- nal defmido; é um programa aberto em quase todos os teatro, espectador: esp t' I pu ICO. Palavras como
tas para nós com~ pare acu ?t' ator estão agora tão mcr-
Iise de Grupo organiza ciclos especiais de encon- seus pontos, Qualquer um pode solicitar a participação . , a mUI os morrem um '
tro em estágios de muitos dias, os únicos em que abase nos está~os e nas experiências acima mencionadas. Na- mUItas palavras da vida de t d' . a apos outra
o os os dIas.
de comunicação ede contato éexclusivamente apalavra, turalmente, onúmero de lugares não éilimitado. É iads-
Falando de modo geral, são como "meditações em voz pensável, também, ter certas disposições pessoais (não
Sei que vocês chamam a l '
alta", reflexões em grupo sobre os problemas ao limite confundir com qualificações), e a escolha recíproca se cipallfes, earazões de sque :sdque vem ve-los de parti·
da arte eda vida, tendo em conta aexperiência pessoal faz através de conversações preliminares dos candidatos ua vm a- um encontro.
dos participantes, . com os animadores dos diferentes "laboratórios". Re: Não se trata disso '
delimitar doj~ Pomt\M ,1. _~_~,pr?pr~~ente, Precisamos
estreito, ainda que mais "popular", a sab~r.Apocalypsis Como
llillllenlereagiria se alguem na p/atéia se juntasse repenti-
ao Apocalypsis? -:'1'"
tável - e apenas a água que corre aí se renova inces-
cum Figuris, e a área maior de nossa atlVlda~e e pes- santemente. Ê uma espécie de esboço aberto permanen- Observam-se cada vez mais repetidamente trmlsplanta-
qnsa isto é o que fazemos atualmente, depeis e. fo~a AC: Nós oacolheríamos, de certo. Creio que mui. temente para novas experiências e uma experiência de- ções das idéias criadoras de Groto1Vski na prática artís-
de ;I;)ocalyp~is. Em outras palavras, é preciso distlOgl~r tos têm vontade de fazê-lo, mas omedo de se compro- pois do teatro. tica de muitos outros teatros, principalmente no estl'llll-
o que, de certa f~nna~ ainda é. "teatro':, uma produça~ meterem aos olhos de outros ou simplesmente uma es- geirto. Pode-se indagar se Groto1V8ki, cOllsiderado um
daquilo que não e mais nada disso. POlque ~, que faze pécie de timidez ou medo é que os impede de faze-l~. A
inovador, não se tomou um clássico? Isto significaria que
mos atualmente não conduz a nenhuma estret~ mesmo Já aconteceu. Esta possibilidade está" de re:)to, na p~o- Pode nos explicar em que cOllsistem os programas rea- suas idéias são "fáceis"?,
estando aberto à participação de pessoas que na? fazem pria natureza da peça eéconfirmada amedida que e\ 0- lizados pelo Teatro Laboratório sob o nome de Projeto
RC - Talvez Groto\Vski tenha se tornado um clás-
parte do grupo. Apocalypsis, afastando-se cons~deravel- lui. Apocalypsis é apenas um título, ~ma c?rrente d~ Especial?
sico para os outros, mas não para ele ou para nós. Aqui-
mente daquilo que se considera teatro no sent.ldo "cor- associações; o resto se abre, sobre o lmpr,evlsto, aíraí, lo de que se servem os outros é do Groto\Vski de antes,
rente do termo, continua sendo d~ certa man.el.r: lea- chama oimprevisto _ em nos efora de nos, RC - O Projeto Especial constitui um dos ele-
tro" pois sua representação impltca numa dlvlsao en- . • mentos desse vasto programa de aventuras parateatrais de ontem - o que é natural. Nossa vida criadora con-
siste sobretudo na rejeição do peso morto de nosso pas-
tre aqueles que ~gem.e a~ueles que chegam 'p~ra ve-los. Que lIludanças intervieram, anível de 11l:~rpretafao, em .~ .
A

de que já lhes falei, de todo um leque de experiências,


sado. Que outros otransplantem. Sempre foi assim. Em
E aqueles que vem nao sao cer,tame~te ~artlctpante: no Apocalypsis cum Figtl/7s desde asua estrelGem lulho de de encontros-estágios. Falando de modo geral, oProjeto
toda parte, em qnalquer atividade oque énotório enovo
sentido ativo da palavra. Tambem na~ sao, ~ara .nos, ,o 1968? u: Especial é um gênero de encontro que dura muitos dias
" úblico" - são pessoas que nos estao bem mas pro- ., . age sempre àmaneira de ímã ese torna um modelo que
presenç~
e no qual as pessoas de fora e um pequeno grupo de se tenta copiar. Mas isto siguifica que as idéias centrais
xfmas, que não nos são indiferentes, em das AC: Apocalypsis ctl/n Frgul'ls surgIU .como obra colegas de nossa Equipe trabalham juntos de maneira sejam fáceis? Eafinal que quer dizer "idéia fácil"? Pes-
uais reagimos intensamente, com todo nosso orgamsmo, eminentemente teatral, conservando separaçao completa aíiva, pesquisam e evocam aquilo que é humano, na
~om cada nervo. Nós reagimos antes calorosa~~nte, e entre espectador e ator. Os espectadores (sempre em relação em estado puro indivíduo-indivíduo, eu-você,
soalmente não vejo nenhum inconveniente em que nossas
experiências sejam uma fonte de inspiração para outros;
• presas da angústia e do medo. QualIficamos número de quarenta) sentavam-se em bancos ao long~
~~oencont;o "depoi~
criando uma vaga de açõcs inlprovisadas para além da- mas com a condição de se recorrer a elas apenas para
àquilo que fazemos do teatro": aven- das paredes, e eram os observadores, as .testemunhas : quilo que éteatro edaquilo que érotina. Indaga-se como poder se reencontrar, para abrir seu próprio caminho.
turas exploratórias extremamente var;a~as, que, ~uram distância, de certo modo, de um aconteclm~ntod q~e ~ . rejeitar ojogo, acomédia quotidiana ou omedo e, con-
't dias com pessoas de fora espécie de estaglOs de desenrolava no centro, entre.os atores. Depcís e gud comitantemente, como parar de "anua-se" contra os
mur. os'iênch" encontros-estágios para-íeaíras.:
' . Por exem- .
tempo, retiramos os bancos, e aumentou o.número e É Groto1Vski quem determina todas as iniciativas do Tea-
e?eIa uil~' que na América batizaram (para poder ~ar espectadores (até ce~to e cin~uenta), ago:a se~Jlados no.
outros. Até aqui a composição desse tipo de encontros- tro Laboratório?
chão, em redor de nos - mas pert~ de nos. Finalmente,
-estágios, seja na Polônia ou noestrangeiro, tem sido
po, qme 1S nossas experiências) de Projeto Especial. restrita (vinte a trinta participantes no máximo); mas RC: Absolutamente. Aqui tudo se efetua em fun-
um ~o les ue ~omam parte são de íato participantes, retiramos opreto das paredes, que fIcaram Jll~~S e acaba-
Aq~\ ~o I s~la negr.~ ta~to espero que num futuro relativamente próximo, multi- ção de um princípio: o respeito da individualidade, da
aqu: ativ;mente sentido literal do termo. Eaqui mos tendo que abrir mão dessa Ja um plicando com circunspecção nossas atividades, chegare- autonomia, da responsabilidade, da iniciativa pessoal. No
paI icpam : ']' • com o teatral jogos de cena ou lendária. Mas todas as mudanças iotrcduzi as por aSSIm
não há amenor ~gaçao • ~pra uma entrada
mos a ampliar o número de participantes. Oque há de domínio da criação, aditadura é ineficaz pois que opro-
dizer "do exterior" _ como a supressão dos bancos, cesso criador é uma troca. Groto\Vski é para nós um
" 'rer" Você SImplesmente nao co 'd d pas tenor mais difícil aqui, éque não se pode prometer nada ante-
me I . • rtici antes é neste caso, recusa de usar aroupa ecena eouso e.ro~ • cipadamente, nãose pode reservar um "lugar", como num excelente camarada, ao mesmo tempo que uma autori-
para entrar. A d seleçao
leção dos pa Pb asea daa nas necessi-
recíproca mais" etc. - não foi o que houve de mais. , Importante o '"'. dade eexcepcional criador daquilo em que trabalhamos.
~ espetáculo. Não. se pode faze-lo, pois isto perderia todo
rÓ»

uma especte .e se "I também an- . na evolução de Apocalypsis. Elas nos penmtiram verm _ Ecada um àsua maneira.
dades, aspiraçoes e deseJ.os a?a.ogo.s 'd'.íduai ' -nos uns aos outros com novos olhos, renovaram ~ossas osentido, morreria como experiência criadora, como es-
tes de mais nada, nas dlSposlçoes III IVI UaIS, reações enossas associaç~s. de idé!as. Mas. não fOI ape- I
I
tá~o. Cada um pode apresentar sua candidatura, dizer
oque espera daí, oque anseia. Mas logo em seguida uma A a/ividade de vocês é inimitável?
nas isso. Creio que o prindpal foi e continua se~do a f
Acredita que, em Apocalypsis, a platé~~? se componha busca da superação erejeição do que há de som~no em l quantidade de fatores diversos intervem a saber se com- RC: Deveria sê-lo. Não deveria ser de modo algum
sempre de espectadores "cem por cento . Apocalypsis _ para procurar a luz, a percepçao tam- I partilhamos as mesmas necessidades easpirações, se esta-
mos no mesmo "comprimento de onda" e assim por
uma receita. Ela pode ser um desafio.
RC: Não posso responder de maneira exata. Nem
bém osentimento da presença direta, próxima de to.das
essa~ pessoas ànossa volta, o que permite a concr~tiza' I~ diante. Quando digo "nosso" não digo apenas meu, mas
sempre, Como se sabe, há em toda a.parte e sempre ção do que mais conta 0 que não se pode traduzir em !' de qualquer um, de todos os participantes, assim como os
cada vez mais pessoas autentican~ente interesadas, ~m palavras), a saber o que se passa sino ce,r~mente. entre 0_ de nosso grupo e aqueles que vieram de fora. Aescolha
unhado (às vezes um pouco ma;s) de pessoas o~aslO- d d d oainda um deve ser algo recíproca, mas isso não esgota oproblema.
p. d indl'ferentes e de snobs. E natural. Mas seI qu.e indivíduo-ainda-um-espe.cta or e o ;n IVI u - -]'_
Há também aquestão das disposições individuais. Nenhu-
nas e t
ag:ande maioria daqueles que estão presentes compa; 1-
lham conosco o essencial,. o que ?asce de um con~ato
quia da antiga dicotomia espectador-ator se n:ol~e
-pouco-ator. Todavia, ainda que desejando que essa re 1
um outro relacionamento humano. Em conseq?encta~ e
e: ma competência (nem ambição) artística éaqui necessária.
Mas as disposições do indivíduo, suas possibilidades, isto
'tuo aI'nda que nós estejamos agmdo eque eles, dlga- ' I it d III no -llllU- lThe Tlleatre in Palamllls. 7/8/1975J
mu Apocalypsis, o canel'as ecomo o el o eu é outra questão; elas existem objetivamente _ é "sim" Vide cr n. 66
4 mos, se, calem. ou "não", Como em qualquer dómíniohumano.
AEXPRESSÃO CORPORAL casamento, as comemorações, em gerai, guardam tl'llÇOS
de antigos rituais. As pompas fúnebres copiam' outras
se~ caráter de expre~são de tendências normalmente repri-
midas. OCarnaval e uma festa em que a Expressão Cor.
NA ARTE ENA VIDA - 2 cedmônias que são comuns a todos os povos, em todos
os tempos. parai tende ase manifeslar livremente e a liberar oindi-
víduo do seu st~tlls, do seu papel. A própria fantasia,
Inconscientemente acompanhamos em nossos atas fom;a de renun~lUr .aos emblemas de sna posição social,
de todos os dias atradição que nos foi transmitida através vestll1do um traje diverso do habitual, facilita essa libe-
~os t~mpos, de forma tal que dificilmente poderíamos ds- ração. Fantasias de cigana, odalisca pirala havaiana ou
tll~gulr aqueles gestos que são realmente espontâneos e smp . I ' ,
esmente um biquini, denotam o caráter de fantasia
NELLY LAPORT
cnadores daqueles que são mera repetição de um ritual de liberatória da personalidade comUlll do folião.
nossa ancestralidade.
Ojogo, ocsporte, é ouIra forma de Expressão Cor-
Aliás, o simbolismo da linguagen) primitiva, tanto poral de caráter lúdico. Como diz fluizinga em seu Homo
verbal quanto corporal, composta de símbolos arcáicos ~lIdellSJ aprimeira característica do jogo é ofato de ser
AExpressão Corporal, desde os primórdios da vida em forma de fantasias éconsiderado, pela psicanálise, um hvre, de ser ele próprio liberdade. Asegunda característica
do homem em sociedade, vem servindo avários objetivos aspecto biologicamente hereditário da natureza humana éque ojogo não évida corrente nem vida real. Trata-se de
diferentes, conforme ela seja utilizada para as seguintes um legado da horda primitiva e do homem' tribal. É est~ u~~ evasão da vida real para uma esfera temporária de
finalidades: linguagem ancestral simbólica que permite ao analista atIvldade com orientação prépria
antrop310go ou estudioso do folclore, a tradução e inter~
1) Comunicação - Isto é, como forma de demons- presção dos sonhos e outros supostos fenômenos do 5) Arte como Expressão Simbólica - A dança
trar estados anímicos, tais como: Raiva - Medo mconSClente.
como expressão artística maior, oteatro eoutras
- Tristeza - Alegria - Amor, etc. Mais recentemente certas correntes da psicanálise e representações eaescultura.
da psiqui:t~a têm criado certos tipos de técnica em que
Quando uma pessoa fecha acara para alguém, vira ocorpo ~ .tao usado quanto amente para cura dos esta- A dança, uma das formas supremas da Expressão
orosto, dá as costas, eis aí algumas expressões inequívo- dos neurotIcos. Trata-se das técnicas de gmpo, denomina- Corporal, parece ter sido aprimeira das artes. Tudo leva
cas de que esse alguém não ébem vindo. Pelo contrário, da.s sensitivity training e group encOllllter, que incluem a crer isto. Não apenas pelas evidências recolhidas pelos
quando oolhar se ilumina, vem um sorriso espontâneo aos pSlcodrama, maratonas e outras técnicas. antropólogos eestudiosos dos costumes entre os chama-
lábios eamão se estende para asaudação, fica claro que dos "ptimítivos contemporãneos", isto é, os povos selva-
o aparecimento dessa pessoa nos é agradável. É claro 3) Distinção Social - Incluimos aquí as íormas de ge?s ~i~da sobreviventes modemamente, como pela pró-
que, na vida social, muitas vezes é necessário agir de Express~o Corporal que denotam aposição social, pna loglca dos fatos. É que a dança e;dge como instru-
forma simulada abdndo-se em sorrisos ao inimigo efin- a autondade, a especificidade da atuação do ~ento de ,sua ~rte apenas opróprio corpo humano, maté-
gindo Irieza ao bem amado. Mas estamos nos referindo indivíduo dentro do grupo. n.a .a~o!davel as expressões requeridas para os gestos pro-
às expressões autênticas e não à imitação para fins de plclatonos dos cultos. Tanto quanto se saiba, as artes nas-
prática social. 4) Arte como diversão - A Expressão Corporal ceram em função de ritos propiciatódos, ligados à magia
exi~da psn atividades como a dança, os espor- pela boa caça, pela boa colheita.
2) Cerimonial - Rito - Expressão destinada a tes, o relaclOnanlento para o gasto das ener~as Posteriormente, a dança, como as outras formas de
conseguir benefícios para si mesmo ou para a supérfluas no lazer. arte ,ligadas inicialmente aos cultos mágicos e religiosos
comunidade, através da ma~a, de rituais. desprend~u-se desse contexto, tomou-se independente d~
Afesta éuma manifestação da necessidade de aliviar um conteudo sensual imediato efoi além da diversão mun-
Todos sabemos oque significa a Expressão Corporal tensões provenientes do esforço cotidiano no trabalho danAa ou do passatempo social para tomar-se uma arte
para finalidades mágicas. Os rituais de saudação ao Ano uma forma de modificar o comportamento rígido que s~ autonoma.-
Novo que se desenrolam nas praias eque são, anualmen- tem que observar no dia a dia, um encontro de pessoas C b
te, documentados em fotos, filmes evideo-tapes, são eren- com afinalidade de se divertirem isto é atuarem de uma .._omo .em di.z Paul Valéry: "A dança é, na minha
pIos típicos. Em outro plano, temos o ritual cristão do maneira diferente daquela qu; as ;xigênc' diá . opnnao, mUlto mns do que um exercício, uma diversão,
padre no mistédo da missa e dos fiéis na adoração dos impõem. ' las Janas u:n: ornamento, um passatempo social; ela é uma coisa
seus santos. sena e, sob certos aspectos, até uma coisa sagrada. Toda
~n~e essas ~estas ~estaca-~e .0 Carnaval~ certamente época que ~n~endeu o'corpo humano ou, ao menos, sentiu
Alguns atas de nossa vida cotidiana, aliás, não pas- ~ mais livre man.lfestaçao do ludico. Sua ongem parece algo do mlsterio de sua estrutura de seus recursos de
5
sam de dtuais herdados de cerimênias má~cas ancestrais.
Por exemplo, os banquetes, os aniversários, as festas de
li~~r-se acertos ntos ~g~ícolas de fases imemoriais.dahis-/ s.uas limitações',das combinações de energia ede sen~ibi­
tona do homem. ReSIstIU, transformou-se e persiste em I hdade que contem, cultivou evenerou'a Dança".
e a análise psicológica dos contrastes sociais como em
Dado que por intermédio dos movimentos da dança Não que aqui também não haja, até r.erlo momento, um ""'Y"
Miss Julie, de Strindberg. Três correntes de um imenso
cria-se apossibilidade de expressão de tensões emocionais, acúmulo de tensões, embora que de outra categoda. Mas
repertório, ainda não esgotado em sua temática até hoje.
já é larga a utilização da dançil como uma forma de a comédia acumula tensões com a finalidade de disten-
psicoterapia, baseada nos seguintes princípios: dê-las pelo riso. E o riso, segundo os fisiólogos, é uma Mas ~e oque caracteriza a tragédia é a tensão, cuja
Os movimentos corporais são 11m meio fundamental I dcscarga, um desprendimento de energia nervosa posta d~scarga final representa a purgação das emoções, atra-
ves da catarse; e na comédia a finalidade é a distensüo
de natoexpressão e um mcio básico, primário, de conm- ' bruscamente em liberdade,
através do riso; odrama foge aessas características. '
nicação, Muitas pessoas estão mail: aptas àcxprcssão dos Operigo da Expressão Corpomlna comédia éoda
conflitos emocionais através de movimento do que alra- facilidade, da esteriotipia, da imitação fácil das caracíerís- É que no drama, o problema apresentado mesmo
vés da verbalização. Adança oferece oportunidade para ticas do tipo. Alguns stcres populares conseguem enorme ~ue o.desfecho s.eja violento ou trágico e o p~o desça
aexpressão de emoções de uma fOl11JU sublimada esocial- êxito junto a platéias menos exigentes, justamente pela slll1bohzando o fmal, na verdade não teve uma solução
mente aceitável e pode servir como meio de relaxar exploração exagerada dos aspeetos exteriores da comici- ~ drama con~nua eoespectador tem que carregá-lo con:
tensões. dade. Em vez de comporem tipos eles apenas se preocupam sIgo,de volta ~ casa. Aproblemática do drama éoimpas-
Em resumo, a dança representa aexpressão do ser cm alcançar acarica/llra. Eacabam se transformando, eles se, e a questao levantada e não respondida, é o desafio
com os recursos do próprio corpo. Quem aspira a uma mesmos, em simples caricaturas. Seja qual for opapel que f
\
ao espectador para que ele colabore como ser humano
Expressão Corporal criativa não pode deixar 'de amar a ~ret~ndam desempenhar eles não fazem mais do que repe-
como parte de uma sociedade, na modificação de certo;
dança, sua suprema realização. til' fiques e ademanes que se tornaram marcas re~stradas .', aspectos da realidade.
No que diz respeito à Expressão Corporal no teatro, de suas pcrsonalidades artísticas. A tensão dramática não é solucionada pela catarse
gostaríamos ainda de fazer algumas observações que con- Aprópria distensão da comédia exige uma serielade nem pela distensão jovial do riso, Asolução para atensão
dramática é a catarse social.
sideramos de interesse no que se relaciona aos gêneros euma disciplina que éadigJúdade da alie,
teatrais. Odrama - Odrama éaforma mais recente entre os Para a obtenção da Expressão Corporal correspon-
A tragédia - A tragédia clássica, segundo Aristó- gêneros teatrais. Embora tenha se desenvolvido a partir dente ao drama moderno éque foram criados os métodos
de Stanislavski, de Meyerhold, de Brecht, de Groto\Vski.
feles, tem por objetivo "suscitando a compaixão e oter- dos autos sacramentais edramas litúrgicos medievais, ele
ror, obter a purgação dessas emoções". adquiriu caráter próprio apartir do romantismo e alcan-
Assim, por princípio, a tragédia é um acumulo de çou seu desenvolvimento, na forma que perdura até hoje,
tensões que somente obtem sua descarga, seu afrouxamen- com o realismo e o naturalismo, tendo como expressão
to, no final trágico de seu entrecho, com amorte de seu máxima dessa nova dramaturgia onome de Henrik Ibsen.
protagonista ou de seus protagonistas. E, dessa forma, Para expressar esse novo estilo, esse novo gênero, era
suscitada acompaixão eoterror, apurgação dessas emo- indispensável oaparecimento de uma nova técnica teatral,
çõcs se dá pelo que se chamava de catarse, termo que o que realmente aconteceu, quase que simultaneamente,
passou do teatro para a psicanálise. na França com oTeatro Livre, fundado por Antoine ena
Como atragédia clássica estava presa ainda às suas Rússia com o Teatro de Arte de Moscou, fnndado por
raizes religiosas, assim como opúblico aque se destinava Stanislavski.
também acreditava em seus fundamentos místicos, tais Aexpressão requerida para levar àcena as peças de
peculiaridades ajudanl atomar extremamente difícil encon- Ibsen ou de Tchekov deveria opor-se radicalmente às
trar a emp,ostação adequa~a àrepresentação de.ssas pe~as I técl.licas de representação e~ uso ~~ então..N!o .se tratava
para plate~as modernas, Nao somente no que dIZ respeito I mas de r~presen!ar no sentido herOlco em vl~encla, com as
aExpressao Corporal dos ateres como na forma adequada grandes tiradas aboca da cena, com os efellos de VOZ, o
de expressão das palavras, Por esla razão, algumas das declamatório, agesticulação excessiva, afalta de natura-
principais tragédias clássicas têm sido adaptadas para lidade.
representações atuais, Por vezes atualizando até mesmo a' . Para interpretar Chekov,cuja peça, A Gaivota, foi
ação, como no caso de Antigona, adaptada por Anouill montada por Stanislavski, era mister viver opapel. É que
~ara .trajes ,~10del110s, atualizand~-se .também, sua signi- odrama moderno abandonara os príncipes, os barões eos
ficaçao politica de luta contra atirama. seres de exceção e passara a retratar a vida de outras
Acomédia - Se atragédia se caracteriza pela tensão, camadas da população; desde a problemática social com
que se acumula para um final que suscita compaixão e I Os tecelões de Gerard Hsuplmam, à intimidade dos
8 terror, acomédia poderia ser caracterizada pela distensão. lares dos estratos da alta e média burguesia, com Ibsen,
.~ oINGLÊS MAQUINISTA

coméclia em 1. ato

de lVf..AH.TINS PENA

Luís CARLOS MARTINS PENNA (1815-1848) "não deve


ser avaliado apenas pela sua obra dramática, mas igual-
mente pelas influências que nos legou. E essas influên-
.. PERSONAGENS: pretos, penteado de bandó euma
rosa natural nos cabelos.
cias na verdade estabelecem a tradição inicial e a mais CLEMÊNCIA JÚLIA: vestido branco de mangas
autêntica em nosso teatro. Escrevendo numa época em MARIQUINIIA, sua filha compridas e afogado, avental ver-
que ainda se tinha ovezo de imitar os clássicos, abando- JÚLIA, irmã de Mariquinha (10 de e os cabelos caidos em cachos
nau os velhos modelos e os temas gastos, para se voltar anos) pelas costas.
para arealidade brasileira. Seu gênio dramático foi emi· NEGREIRO: calças brancas sem pre-
FELÍCIO, sobrinho de Clemên-
ncntcmente brasileiro. Escreveu, na realidade, alguns silhas, um pouco curtas, colete
cia
dramas e tragédias de assunto espanhol e português, preto, casaca azul com botões ama-
mas o que dele ficou e ficará em nossa literatur~ e o GAINER, inglês relas lisos, chapéu de castor bran-
que constitui a parte mais importante de sua obra são NEGREIRO, negociante de negros co, guarda-sol encarnado, cabelos
as comédias como ONoviço, Os Irmãos das Almas, O novos arrepiados esuiças pelas faces até
Judas em Sâbado áe Aleluia, O Juiz de Paz na Roça EUFRÁSIA junto dos olhos. ~

etc. Essas comédias estão cheias de preciosas anotações. CEcíLIA, sua filha FELÍcIO: calças de casimira, cor de
Mostram-nos, admiravelmeníe, o que era o Brasil da JUCA, irmão de Cecília flor de alecrim, colete branco, so-
Regência e dos primeiros anos do Segundo Reinado. A brecasaca, botinas envernizados,
precária administração da justiça, a ausência de políci~ JoÃo DO AMARAL, marido de
Eufrásia chapéu preto, luvas brancas, gra-
o recrutamento sul generls, até mesmo as traficâncias e "',
iii vata de seda de cor, alfinete de
fatos ecoisas de antanho, revelam em Martins Pena um ALBERTO, marido de Clemência
peito, cabelos compridos e suiças
agudo espírito crítico, sempre pronto a apontar mazelas Moços e MOÇAS inteiras.
e adocumentar coisas carecedoras de emenda. Não exa·
GAINER: calças de casimira de cor,
gerou Silvio Romero quando, na sua IIistória da Litera- A cena passa no Rio de Janeiro, 110
tura Brasileira, declarou que, se todos os documentos e casaca, colete, gravata pretas, cha-
mIO de 1842
fontes histórias nos faltassem, seria possível reconsti- péu branco de copa baixa e abas
tuir a vida da sociedade brasileira tão somente através largas, luvas brancas, cabelos leu-
Os personagens se vestem da seguin- ros esuiças até omeio das faces.
das comédias de Martins Pena, porque essas comédias te maneira:
constituem "documentos sociológicos" da maior impor-
tância. Podemos dizer que Martins Pena fundou, no CLEMÊNCIA: vestido de chita rosa,
Brasil uma escola - a da comédia de costumes - que lenço de seda preto, sapatospre· Oteatro representa uma sala. No
não desapareceu nem deve desaparecer do nosso teatro", tos e penteado de tranças. fundo, porta de entrada; à esquerda,
(Raimundo Magalhães Junior, ln Teatro de Martins Pena .... Iv1ARIQUINIIA: vestido branco de es- duas janelas de sacadas, e à direita,
10 - I, ed. lNL - 1956) cócia de mangas justas, sapatos duas portas que dão para ointerior.
Todas as portas e janelas terão cor- quantidade tal de linhas, colchetes, vende-os a Júlia. Os demais conti-
I
"1( NEGREIRO - Engana-se, fica na MARIQUINHA - Casar-me com preciso... Mas não; eles se entre-
tinas de cassa branca. À direita, en- cadarços e retroses, que fazia horror.nllam a conversar,) conta de pobre, que é menos que ele? Oh, não, morrerei antes! destruirão; o meu plano não pode
tre as duas portas, um sofá, cadeiras, FELÍCIO, - largando o jornal s» FELÍcIO - Sr. Negreiro, a quem pouca coisa. Eno entanto vão os ne- FELÍCIO - No entanto, é um ca- falhar,
uma mesa redonda com um candeeiro bre amesa cam impaciência - Irra, pertence o brigue Veloz Espadarte grinhos para um depósito, a fim de samento vantajoso. Ele é imensa- MARlQUINHA - Veja o que faz.
francês aceso, duas -jarras com flo- já aborrece! aprisionado ontem junto quase da serem ao depois distribuidos por mente rico ... Atropelando as leis, é Eu lhe amo, não me envergonho de
res naturais, alguns bonecos de por- CLEMÊNCIA - Oque é? Fortaleza de Santa Cruz pelo cruzei- aqueles de quem mais se depende, ou verdade; mas que importa? QuandQ o dizer; porém, se for preciso para
celana; à esquerda, entre as janelas, ro inglês, por ter a seu bordo Ire- que têm maiores empenhos. Calemo- fores sua mulher. ..
FELÍcm - Todas as vezes que nossa união que você faça alguma
mesas pequenas com castiçais de sentos africanos? -ncs, porém, que isto vai longe.
pego neste jornal, a primeira coisa MARlQUINIIA - Eévocê quem me ação que... (Hesita)
mangas de vidro e jarras com flores. FELÍcIO - Tem razão. (Passeia
que vejo é: "Chapas medicinais e NEGREIRO - Aum pobre diabo diz isso? Quem me faz essa injustiça? FELícIO - Compreendo o que
Cadeiras pelos vazios das paredes. pela sala)
UngUento Durand". Que embirra- que está quase maluco... Mas é Assim são os homens, sempre ingra- queres dizer... Tranquiliza-te.
Todos estes móveis devem ser ricos. NEGREIRO; para Clemência - Da-
ção! bem feito, para não ser tolo. Quem tos! JÚLIA, entrando - Mana, mamã
é que neste tempo mauda entrar pe- qui aalguns anos mais falarás de ou-
NEGREIRO, rindo-se - Oh, oh, tro modo. FELÍCIO - Meu amor, perdoa. O chama.
oh! la barra um navio com semelhante temor de perder-te faz-me injusto.
CENA I carregação? Só um pedaço de asno. CLEMÊNCIA - Deize-o falar. A MARIQUINIIA - Já vou. Tuas pa-
CLEMÊNCIA - Tens razão, eu propoósito, já lhe mostrei o meu Bem sabes quanto eu te adoro; mas lavras animaram-me.
Há por aí além uma costa tão longa tu és rica, eeu um pobre empregado
mesmo já fiz este reparo. meia-esta, que recebi ontem da Casa JÚLIA - Ande, mana.
CLEMÊNCIA, NEGREIRO, MARIQUI- e algumas autoridades tão condes- público; e tua mãe jamais consentirá
NEGREIRO - As pílulas vegetais não cendentes! da Correção? MARIQUINHA - Que impertinên-
NHA, FELÍcIO. Ao levantar o pano em nosso casamento, pois supõe Ia-
ver-se-á CLEMÊNCIA e MARIQUINHA . ficam atrás, oh, oh, oh! NEGREIRO - Pois recebeu um? cia! (Para Felício àparte) Logo ccn-
FELÍCIO - Condescendentes por- zer-te feliz dando-te um marido rico.
SENTADAS NO sofá; em uma cadeira CLEMÊNCIA - Por mim, se não que se esquecem de seu dever! CLEMÊNCIA - Recebi, sim. Em- versaremos...
fossem os folhetins, não lia o Ior- penhei-me com minha comadre, mi- MARIQUINHA - Meu Deus!
junto destas NEGREIRO, e recostado NEGREIRO - Dever? Perdoe que FELÍCIO - Sim, e não te aflijas
nal. Oúltimo era bem bonito, o se- nha comadre empenhou-se com amu- FELÍCIO - Tão bela e tão sensÍ-
sobre a mesa FELÍClO, que lê o Jor- lhe diga: ainda está muito moço. ,. mais, que tudo se arranjará.
nhor não leu? Iher do desembargador, a mulher do vel como és, seres a esposa de um
nal do Comércio e levanta às vezes Ora, suponha que chega um naldo
as olhos, como observando a NE- NEGREIROS --'- Eu? Nada. Não gas- desembargador pediu ao marido, es- homem para quem o dinheiro é tu-
carregado de africanos e deriva em Saem Mariquinha e Júlia.
GREIRO. to o meu tempo com essas ninha- te pediu aum deputado, o deputado do! Ah, não, ele terá ainda que lutar
uma dessas praias, e que o capitão ao ministro e fui servida. comigo! Se supõe que a fortuna que
rias, que são só boas para as moças vai dar disso parte ao jujz do lugar. NEGREIRO - Oh, oh, chama-se tem adquirido com ocontrabando de
CLEMÊNCIA - Muito custa viver- VOZ NA RUA - Manuê quentinho! O que há-de este fazer, se for ho- isto transação! Oh, oh! africanos, há-de tudo vencer, engana- CENA 3
-se no Rio de Janeiro! É tudo tão mem cordato e de juizo? Responder CLEMÊNCIA - Seja lá o que for, -sel Ainteligência e o ardil às vêzes
caro! (Entra Júlia pela direita, correndo) de modo seguinte: Sim, senhor ca-
agora que tenho em casa, ninguém podem mais que a riqueza. FELÍCIO, só - Quanto eu a amo!
NEGREIRO - Mas o que quer a pitão, pode contar com aminha pro- mo arrancará. Morrendo-me algum MARIQUINHA - Oque pode você Dois rivais! Um negociante de meia-
senhora em suma? Os direitos são CLEMÊNCIA - Aonde vai? Aonde teção, contanto que V. S... Não
vai? outro escravo, digo que foi ele. fazer? Seremos sempre infelizes. cara e um especulador. .. Belo par,
tão sobrecarregados! Veja só os gê- sei se me entende? Suponha agora FELÍCIO - Eminha tia precisava FELÍCIO - Talvez que não. Sei na verdade! Ânimo! Comecem-se ha-
JÚLIA, parando no meio da sala. que este éum homem esturrado, des- ....,
neros de primeira necessidade. Quan- ~ deste escravo, tendo já tantos? que a empresa é difícil. Se ele te je as hostilidades. Veremos, meus
to pagam? O vinho, por exemplo, - Vou chamar opreto dos manuês. tes que não sabem aonde tem a ca- senhores, verepl0s! Um de vós sairá
CLEMÊNCIA -. Tantos? Quanto amasse, ser-me-ia mais fácil afastá-lo
cinqUenta por cento! CLEMÊNCIA - E para isso pre- ra e que vivem no mundo por ver mais, melhor. Ainda eu tomei um de ti; porém ele ama o teu dote, e corrido desta casa pelo outro, e um
cisa correr? Vá, mas não caia. os outros viverem, e que ouvindo o só. E os que tomam aos idnte e aos desta qualidade de gente arrancar só ficará para mim - se ficar...
CLEMÊNCIA - Boto as mãos na
capitão, responda-lhe com quatro pe- trinta? Deixa-te disso, rapaz. Venha um idntém é omesmo que arrancar
cabeça todas as vezes que recebo as
contas do arn1azém e da loja de fa- JlÍlia mi para janeTa echama para I dras na mão: Não senhor, não con- vê-lo, senhor Negreiro. (Saem) a alma do corpo... Mas não in- (Entra Mister Gainer)
zendas. ma dando psius. sinto! Isto é uma infame infração porta.
da lei e o senhor insulta-me fazen- MARIQUINHA - Não vá você fa-
NEGREIRO - Porém as mais puxa- NEGREIRO - Apecurrucha gosta I do semelhante proposta! E que de- zer alguma coisa com que a mamã
dinhas são as das modistas, não é de doces! pois deste aranzel de asneiras pega CENA 2 CENA 4
se zangue e fique mal com você...
assim? JÚLIA, da jallela - Sim, ai nres-I na pena e oficie ao Governo. Oque FELÍClO - Não, descansa. Aluta
CLEMÊNCIA - Nisto não se fala~ mo. (Sai da jallela evai para apor- lhe acontece? Responda. FELÍCIO eMARlQUINHA FELÍcIO e GAINER
há de ser longa, pois que não éeste o
Nà última que recebi vieram dois ta, aonde momentos depois chega FELíclO - Acontece o ficar na FELÍCIO - Ouviste, prima, como único inimigo. As assiduidades da- GAINER - Viva, senhor.
vestidos que já tinha pago, um que 11m preto com um tabuleiro com conta de íntegro juiz e homem de pensa este honrem conr quem tua quele maldito Gainer já também FELÍCIO --.: Oh, um seu venera-
2 não tinha mandado fazer, e uma manuês e, descansando-os no chão, bem. mãe pretende casar-te? inquietam-me. Veremos ... E se for dor. .,
GAlNER - Passa bem? Estima GAlNER - Eu explica e mos- MARIQUINHA, para Cecília, abra- to de Mariquinha, que brinc(( com a CLEMÊNCL\ - Não se vê senão JOÃo, p((/'(/ Felício - Temos ma-
muito. Senhora dona Clemência foi tra ... Até nesta tempo não se tem çando e dando beijo ~ Há quanto criança). injustiças, çada!
passear? feito caso das osso, destruindo-se tempo! EUFIV\SIA, assentmldo-se ~ Ai, es- EUFRÁSIA - Comadre, passando FELÍcIO - Estão as senhoras no
FELícIO - Não senhor, está lá grande quantidade delas, e eu agora CECILIA - Você passa bem? (To- tau cansada de subir suas escadas. de uma coisa para outra: a cesíu- seu geral.
dentro. Queria alguma coisa? faz desses osso açúcar superfina... dos CIIl11primentam,se, Felício apel'- CLEMÊNCIA - Pois passe a noite reira esteve cá hoje? CLEMÊNCIA, mostrando os vestidos
GAINER - Coisa não; vem fazer Fm.ícIO _. Desta vez desacredi- ta amão de João do Amaral, corteja comigo efaça aoutra visita amanhã. - Olhe. (As quatro senhoras ajun-
CLEMÊNCIA - Esteve eme trouxe
minhas comprimentos. tamse as canas, as senhoras. João do Amaral corteja JoÃo DO AMARAL - Não pode ser. os vestidos novos. tam-se ri roda dos vestidos e exami-
FELÍcIO - Não pode tardar. (À NEGREIRO - Continue, continue. Mariquinha) nam ora um ora outro; a rapariga
CLEMÊNCIA - Deixe-se disso. EUFRÁsrA - Mande buscar.
parte) Principia-se. (Para Gainer) GAINER - Nenhuma pessoa mais CLEMÊNCIA - Venham-se asen- (Batendo palmas) Ô lá de dentro? fica em pé na porta; o menino bole
Sinto muito dizer-lhe que... Mas planta cana quando souberem de tar. CECÍLIA - Sim, sim, mande-os em tudo quanto acha e trepa nas
EUFRÁsIA - Não, comadre. (Che- buscar, madrinha.
chega minha tia. (iI Parte) Em ou- minha método. EUFRÁSIA - Nós nos demoremos ga Iml pagem pardo à porta), cadeiras para bulir com os vidros; Fe-
tra ocasião ... CLEMÊNCIA - Mas os ossos plan- pouco. CLEMÊNCIA, batendo palmas - licio eGainer levantam-se epasseiam
CLEMÊNCIA - Aprontem o chá Pulquéria? (Dentro, uma voz: Se- de braço dado pela sala, conversando.
GAINER - Senhor, que sente? tam-se? CLEMÊNCIA - É que faltava. depressa. (Sai opagem).
GAINER, meio desconfiado - Não nhora?) Vem cá. As quatro senhoras quase que falam
MARIQUINHA, pegaudo na criança JOÃo - Não pode ser. Muito obri- CECÍLIA, para Mmiquinha - ao mesmo tempo).
senhor. gado.
- OLulu como está bonito! (Cobre- Quantos vestidos novos você mandou CECÍLIA - Esta chita é bonita.
CENA 5 FELÍcro - Ah, percebo! Espre- ode beijo). FELÍclO - Aonde vai com tanta
mcm-se (Gainer fica indignado)
CLEMÊNCIA, chegando-se para ver pressa, minha senhora? Ifaw~ EUFRÁslA - Olhe este riscadinho,
menina!
JÚLlA - Quem éque pode espre- MARIQUINHA e CLEMÊNCIA -
Entram CLEMÊNCIA, MARlQUINIlA, - Coitadinho, coitadinho (Fazendo- EUFRÁsIA - Nós? Dois. (Entra uma rapariga).
mel' o osso? Ohl (Felício e Mari- CLEMÊNCIA -Pois custou bem
JÚLlA eNEGREIRO lhe festas) Psiu, psiu, negrinho! Como JOÃo, para Felício - Um pequeno barato; comprei à porta.
quinha riam,) égalante! CLEMÊNCIA - Vai lá dentro no
negócio. meu quarto de vestir, dentro do guar- CECÍLIA - Que feitio tão elegan-
CLEMÊNCIA, entrando - Estou
contente com ele. Oh, o sr. Gainer EUFRÁSIA - Tem andado muito EUFRÁSIA - Vamos àcasa de dona da-fato à direita, tira os vestidos te! Este éseu, não é?
por cá! (Cumprimentam-se) rabugento com a desenteria dos den- Rita. novos que vieram hoje. Olha, não MARlQUINHA - É, eu mesmo é
CENA 6 íes CLEMÊNCIA - Deixe-se de dona machuque os outros. Vai, anda. (Sai
GAINER - Vem fazer meu visita. que dei omolde.
MARlQUINHA - Pobrezinho! Psiu, Rita. Que vai lá fazer? arapariga). CLEMÊNCIA - São todos diferen-
CLEMÊNCIA - Muito obrigada. EUFRJ\srA, na porta do fundo - psiu! Bonito! (Toma a criança da E~FRÁSIA - Vamos pedir a ela CECÍLIA, para Mariquinha - De teso Este é de costa lisa, e este não.
Hi dias que onão vejo. Dá licença, comadre? negra) para falar à mulher do Ministro. que moda mandou fazer os vestidos? CECÍLIA - Este há-de ficar bem.
GAINER - Tenha estado muita CLEl>1ÊNCIA - Oh, comadre, po-
ocupado. EUFRÁSIA - Olhe que não lhe CLEMÊNCIA - Pra que? MARIQUINHA - Diferentes e... CLEMÊNCIA - Muito bem. É uma
de entrar. (Clemência eMariquinlw faça alguma desfeita! EUFRÁSIA - Nós ontem ouvimos Ora, ora, Lulu, que logro! luva.
NEGREIRO, com ironia - Sem dú- encaminham-se para a porta, assim,
vida com algum projeto? MARlQUINHA - Não faz mal. dizer que se ia criar uma repartição EUFRÁsIA eCECÍLIA - Oque foi? MARlQUINHA - Já viu ofeitio de-
como FeUcio; Gainer fica no meio ....
nova e queria ver se arranjávamos ta manga?
GAINER - Sim, estou redigindo da sala. Entram Eufrâsia, Cecília, (Mariquinha leva acriança para jrlll- I
MARIQUINHA - Mijou-me toda!
to do candieiro e, mostrando·lhe a um lugar pra João. CECÍLIA - É verdade, como é
uma requerimento para as deputados. João do Amarar, um menino de dez EUFRÁSIA - Não lh~ disse? (Os
luz, brinca com ele ad libi/llm). CLEMÊNCIA - Ah, já não ateimo. bonita! Olhe, minha mãe.
NEGREIROS e CLEMÊNCIA - Oh! anos, uma negra com uma criança mais riem-se).
CLEMÊNCIA - Descanse um pou- FELÍcIO, para João - Estimarei EUFIV\SIA - São de pregas envie-
FELÍClO - Sem indisclição. Não no colo e um moleque vestido de muito que seja atendido; éjustiça que MARIQUINHA - Marotinho! sadas? (Para amenino) Menino,
poderemos saber. .. calça e jaqueta e chapéu de olea- co, comadre, (Puxa-lhe pela saia para
do. Clemência, abmçando Eufrâsia) junto do sofâ). lhe fazem. EUFRÁsIA - Rosa, pega omenino. fique quieto.
GAINER - Pois não! Eu peça no Como tem passado? EUFRÁSIA - Osenhor diz bem. MARlQUINHA - Este cabeção fica
JoÃo - Não podemos ficar muito CECÍLIA - Eu já não gosto de
requerimento uma privilégio por trin- muito bem.
EUFRÁSIA - Assim, assim. tempo. JoÃo - Sou empregado de repar- pegar nele por isso. (A preta toma
ta anos para fazer açúcar de osso.
tição extinta; assim, é justo que me omenino eMariquinha fica sacudin- CECÍLIA - Tenho um assim,
TODOS - Açúcar de osso! CLEMÊNCIA - Ora esta, comadre! CLEMÊNCIA - Já osenhor prind-
empreguem. Até mesmo éeconomia. do ovestido), EUFRÁsIA - Que roda!
NEGREIRO - Isto deve ser bom! pia com suas impertinências. Assen-
JoÃo DO AMARAL - Sra. D. Cie- tem-se, (Clemência eEufrâsia assen- GAINER - Economia sim! JOÃo, - Foi boa peça. MAR!QUINHA - Assim é que eu
Oh, oh, oh! mência? tam-se no sofâ,' João do Amaral, JoÃo, para Gainer - Há muito MARIQUINHA - Não faz mal, gosto.
CLEMÊNCIA - Mas como é isto? I CLEMÊNCIA - Sr. João, viva! Felicio, Gainer eomenino, nas cadei- "- tempo que me deviam ter empregado, (Entra arapariga com quatro vesti- CLEMÊNCIA - Enão levou muito
FELÍclO, ri parte - Velhaco! Como está? ras; Cecília eJúlia ficam em pé jUIl- mas enfim, .. dos e entrega aCremência). caro.
FELÍCIO - Mas veja como os ho- CENA 8 CEcíLIA - Oh, se amava! Não
EUFRÁSIA - Quanto? (Para ome- CLEMÊNCIA - Fazem-me perder acabado, não precisa mais de faço outra coisa todos os dias. Olha,
mens são maus. Chamarem ao senhor,
nino) Juca, desce daí. a paciência. Ao menos as suas não cuzinheiro, de sapateira c de outras amava ao filho de d. Joana, aquele
muitas ofícias. que é o homem mais filantrópico c FELÍCIO, só - Lá vai ele como um
CLEMÊNCIA - A três mil-réis. são tão mandrionas. desinteressado eamicíssimo do Brasil, raio! Se encontra o Negreiro, temos tenente, amava aquele que passava
EUFRÁSIA - Não écaro. EUFRÁSIA -- Não são? Xi! Se eu FELÍCIO - Então amáquina supre sempre por lá, de casaca verde;
especulador de dinheiros alheios e salsada. Que furor mostrou por lhe
CEcíLIA - Parece seda esta chita. lhe contar não há de crer. Ontem, todos esses ofícios? amava...
outros nomes mais. dizer eu que ochamavam de velhaco.
(Para amenino) Juquinha, mamã todo santo dia aMônica levou a ensa- GAINER - Oh, sim! Eu bota a MARIQUINHA - Com efeito! E
GAINER - Amim chama especula- Dei-lhe na balda! Vejamos no que
já disse que fique quieto. boar quatro camisas do João. máquina aqui no meio da sala, man- amavas a todos?
dora? Amim? By God! Quem é o dá tudo isto. Segui-Io-ei de longe até
CLEMÊNCIA _ AMerenciana está CLEMÊNCIA - É porque não as da vir um boi, bota aboi no buraco que se encontre com Negreiro; deve CEcíLIA - Pois então?
da maquine e depois de meia hora atrevido que me dá esta nome?
cortando muito bem. I esfrega. ser famoso o encontro. Ah, ah, ah!
EUFRÁsIA _ É assim. \ EUFRÁSIA - É o que a comadre
sai por outra banda da maquine tudo
já feita. muita paciência. Dizerem que o se- I
I
FELÍCIO - É preciso na verdade (Toma ochapéu esai). MARIQUINHA - Tens belo coração
de estalagem!
CEcíLIA - Já não mandam fazer pensa. FELÍCIO - Mas explique-me bem nhor está rico com espertezas! CEcíLIA - Ora, isto não é nada!
mais na casa das franccsas? CLEMÊNCIA - Eu não gosto de isto.
d ' dar paneadas. Porém, deixemo-nos GAlNER - Eu rica? Que calúnia! MAIUQUINHA - Não énada?
MARIQUINHA Man amos so os d' . - GAINER - Olha. Acarne de boi CENA 9
~sso agora. ~ comadre sinda nao
I -
de seda. Eu rica? Eu está pobre com minhas CEcíLIA - Não. Agora tenho mais
VJll omeu afncano? s~i feit,; em beef, em .roas[-beef, em projetas para bem do Brasil.
A
namorados que nunca; tenho dois
CLEMENCIA - Não vale a pena ? fncando e outras muitas; do couro ENTRAM CEcíLIA e MARIQUINHA
mandar fazer vestidos de ehita pelas
r - '
I
EUFR~SIA - Na~. POIS teve um. sai sapatas, botas ... FELÍCro, àparte - Obem do bra-
militares, um empregado do Tesouro,
o cavalo rabão ...
francesas; pedem sempre tanto dinbei- CLEMENCIA - TIve; venham ver. FELÍCIO, cOJllmui[a seriedade - sileiro é o estribilho destes malan- MARIQUINHA - É como eu t~ digo.
rol (Es[a cena deve ser [ada mui[o (Levantam-se) Deixe os vestidos aí Envernizadas? dros... (Para Gainel') Pois 11ão é CEcíLIA - Tu não gostas nada MAIUQUINHA - Cavalo rabão?
viva. Ouve-se dentro bulha como de que a rapariga vem buscar. Felício, isto que dizem. Muitos crêm que o dele? CEcíLIA - Sim, um que anda num
GAlNER - Sim, também pode ser.
louça que se quebra) Oque éisto lá dize ao :enhor Mi~te: que se quiser senhor tem um grosso capital no Ban- cavalo rabão.
Das chifres sae bocetas, pentes ecabo MARIQUINHA - Aborreço-o.
dentro? (Voz, dentro: Não é nada entrar nao faça cenmoma. co de Londres; ealém disso chamam-
de faca; das assas sai marcas ... CEcíLIA - Ora, deixa-te disso. Ele MARIQUINHA - Ah!
não Senhora) Nada? Oque éque se GAINER - Muito obrigado lhe de velhaco.
FELÍclO, 110 mesmo - Boa oca- não é rico? CEcíLIA - Tenho mais outros dois
quebrou lá dentro? Negras! (A voz CLEMÊNCIA - Então com sua sião para aproveitar os ossos para o
delltro: Foi ocachorro) Estas minhas licença. ' GAINER, desesperado - Velhaca, MARIQUINHA - Dizem que muito. que eu não conheço.
seu açúcar. velhacal Eu quero mete um bala nos
negras! Com
. licença. (Clemência sai). E UFRASIA, paro apreta - Traz o
' CEcíLIA - Pois então'! Casa-te MARIQUINHA - Pois também na-
GAINER - Sim, sim, também sai miolos deste patifa. Quem éestes que com ele, tola. moras a quem não conheces?
EUFlVíSIA - É tão descuidada csta menino. (Saem Clemêllcia, Eufrásia, açúcar, balas da Porto e amêndoas. me chama de velhaca?
nossa gente! Mariquiniw, Cecília, João do Ama- MARIQUINHA - Mas, Cecília, tu CEcíLIA - Pra namorar não é
FELÍCIO - Que prodígio! Estou FELÍclO - Quem? Eu lhe digo: sabes que eu amo omeu primo.
JoÃo DO AMARAL _ É preciso ter rol, Júlia, o menino, a preta e o maravilhado! Quando pretende fazer preciso conhecer. Você quer ver a
ainda não há muito que oNegreiro CEcíLIA - E oque tem isso? Es- carta que um destes dois mandou-me
paciência. (Ouve-se delltro bulha moleque). trabalhar a máquina? disse. tou eu que amo a mais de um, e mesmo quando estava me vestindo
como de bofetadas echico[adas) Es-
tes nossos escravos fazem-nos criar
GAlNER - Conforme: falta ainda
alguma dinheira. Eu queda fazer uma
I
GAINER - Negreira disse? Oh, que c::.: perderia um tão bom casamento para sair?
cabelos brancos. (Elltro Clemêllcia CENA 7 patife de meia-cara. Vai ensina ele ... I eomo o que agora tens. É tão belo MARIQUINHA - Sim, quero.
empréstima. Se o senhor quer fazer
ammjmrdo olenço do pescoço emui- seu capital render cinquenta por cen-
Ele me paga. Goddam! I ter um marido que nos dê carrua-
, . gens, chácara, vestidos novos pra CEcíLIA, procurando no seio acar-
to esfogueada). FELÍCIO e GAINER to dá amim para acabar amáquina, ta - Não tive tempo de deixá-Ia na
FELICIO - Se.lhe (~SSe5Se tudo todos os bailes. .. Oh, que fortuna!
CLEMÊNCIA - Os senhores des- que trabalha depois por nossa conta. quanto ele tem dItO... Já ia sendo feliz uma ocasião. Um gaveta; minha mãe estava no meu
FELÍcm - Estou admirado! Exce-
culpem, mas não se pode. .. (Assell- FELÍCIO, à parle -'- Assim era eu GAINER - Não F.cisa dize; basta negociante, destes pé-de-boi, quis quarto. (Abrindo acarta, que estava
lente idéia! Bela e admirávelmáqui-
ta-se e[ama respiração). Ora veja só. tolo. .. (Para Gainer) Não sabe IlIlIito dobrada) Foi o moleque que
chama velhaca a m:::l para eu mata casar comigo aponto de escrever-me
Foram aquelas desavergonhadas dei- na! quanto sinto não ter dinheiro dispo- me entregou. Escute. (Lendo) "Mi-
xar mesmo na beira da mesa asalva GAINER, contente - Admirável, nível. Que bela ocasião de triplicar, ele. Oh, que palifa de meiHara! Eu uma carta, fazendo a promessa; po-
nha adorada ecrepitante estrela... "
com os copos para o cachorro dar sim. , vai dizer a cOillml/nder do brigue rém logo que soube que eu não tinha (Deixando de ler) Bem?
.. quadruplicar, quintuplicar, que digo, Wizart que este patife é meia-cara; dote como ele pensava, sumiu-se e
com tudo no chão! Mas pagou-me! FELICIO - Deve dar muiío inle- centuplicar omeu capital em pouco! MARIQUINHA - Continua.
pra segura nos navios dele. Velhaca! nunca mais o vi.
EUFRÁsIA - Lá por casa éames- resse. I Ah! Velhaca! Goddam! Eu vai mata ele! MARIQUINHA - E nesse tempo CEcíLIA, lendo - Os astros que
ma coisa. Ainda ontem a pancnha .GAINER - Muita interesse o Ia- GAINER, àparte - Destes tolas eu
Oh! (Sai desesperado). amavas a alguém? brilham nas chamejantes esferas de
6 da minha Joana quebrou duas xícaras. bricante, Quando este máquina tiver I quero muiti.
teus sedutores eatrativos olhos, oíus- MARIQUlNHA - Tens habilidade. CLEMÊNCIA - Mostra que tem "CLEMÊNCIA - Já? . CECÍLIA ~ Adeus. Boas-noites; sr. ClEMÊNCIA .e: .MARlQUlNJjA .':"'-
caram cm tão subido e sublimado CECÍLIA - Ê tão bom estar-se à habilidade. JoÃo - Ê. tarde. FeUcio. Adeus, adeus!
ponto omeu amatório discernimento,
que por ti me enlouqueceu. Sim, meu
janela, vendo-os passar um atrás do EUFRÁSIA - Assim ébom, pois o EUFRÁSIA - Adeus, comadre, EUFRÁSIA, parando quase junto da I
EUFRÁSIA, chega àporta epara -
outro como os soldados que passam meu nem por isso. Quem também já qualquer destes dias cá virei. D. Ma- porta - Você sabe? Nenhuma das Quando quiser, mande aabóbora para
bem, um general quando vence uma em continência. Um aceno para um, sementes pegou. fazer odoce.
batalha não é mais feliz do que cu! vai adiantado éoJuca; ainda ontem o riquinha, adeus. (Dá um abraço eum
uma tossezinha para outro, um sorri- João comprou-lhe um livro de fábula. beijo) . CLEMÊNCIA - Pois sim, quando
Se receberes os meus sinceros sofri- CLEMÊNCIA - Ê que não soube
so, um escárnio, evão eles tão con- estiver madura lá mando, e...
mentos, serei ditoso; se não, ficarei CLEMÊNCIA - As mestras da Júlia MARIQUlNHA - Passe bem. Cecilia, plantar.
tentezinhos ...
louco eirei viver na Hircânia, no Ja- estão muito contentes com ela. Está até quando? EUFRÁSIA - Qual. JOÃo, à parle - Ainda não vai
pão, nos sertões de Minas, enfim, em muito adiantada. Fala francês e da- desta, irra!
toda parte aonde possa encontrar de- CECÍLIA - Até nos encantarmos. MARIQUlNHA - Adeus Lulu.
qui a dois dias não sabe mais falar
sumanas feras, e lá morrerei. Adeus CENA 10 português. Adeus. (Dá abraço emuitos beijos). EUFRÁSIA - Não eram boas. ICECÍLIA para Mariquinha - Es-
deste que jura ser teu, apesar da ne- EUFRÁSIA, para Clemência - Não queci-me de te mostrar o meu cha-
FELÍclO, àparte - Belo adianta- CLEMÊNCIA - Eu mesmo as colhi. péu
gra efria morte. Omesmo". (Deixan- . ENTRA FELÍCIO menta! se esqueça daquilo.
do de ler) Não está tão bem escrita? .1vIARIQUJNHA - Marotinho! CLEMÊNCIA - Não bota cravo.
FELÍCIO, entrando - Perdi-o de CLEMÊNCIA - Ê muito bom colé- CLEMÊNCIA - Não.
Que estilo! Que paixão, hem? Como CECÍLIA - Se você ver dona Lui- CECÍLIA - Manda buscar?
vista. gio, Júlia, cumprimenta aqui osenhor JOÃo, para Clemência - Comadre, sa, dê lembranças.
estas, ou melhores ainda, tenho lá
em casa muitas! CECÍLIA, assllstmJdo-se - Ai, que em francês. boas noites. EUFRÁSIA - Pois sim, tenho uma
susto me meteu osr. FeUcio! JÚLIA - Ora, mamã. EUFRÁsrA - Mande outras. receita.
MARIQUlNHA - Que te faça muito CLEMÊNCIA - Boas noites, com-
bom proveito, pois eu não tenho nem FELÍCIO - Muito sinto que... padre. MARIQUlNHA - Manlã, olhe Lulu MARIQUlNHA - Não, teu pai está
CLEMÊNCIA - Faça-se de tonta!
uma. CECÍLIA - Não faz mal. (Com que está lhe estendendo os braços. zangado.
ternura) Se todos os meus sustos fos- JÚLIA - Bon jOllr Monsieur, com- EUFRÁSIA e CECÍLIA -. Adeus,
CEcíLIA - Ora veja só! Qual éa ment vaus portez-vous? Je suis votre adeus! Até sempre. (Os de casa acom- CLEMÊNCIA - Um beijinho. . CLEMÊNCIA - Com flor de la-
sem como este, não se me dava de
moça que não recebe sua cartinha? serviteur. ponham-nos) . CECÍLIA - Talvez possa vir ama- ranja.
Sim, também não admira; vocês dois estar sempre assustada.
FELÍCIO - Eeu não me daria de JoÃo - Oui. Está muito adian- EUFRÁsrA, parando 110 meio da casa nhã. EUFRÁSIA - Sim.
moram em casa.
causar, não digo susto, mas surpresa tada. - Mande ovestido pela Joana. CLEMÊNCIA - Eu mando outras, JoÃo, à parte, batendo com o pé
MARIQUINHA - Mas dize-me, Ce- a pessoas tão amáveis ebelas como É de mais!
cília, para que tem você tantos na- EUFRÁSIA - É verdade. CLEMÊNCIA - Sim. Mas quer um comadre. -
asra. dona Cecília. só ou todos os dois? JoÃo - Então, vamos ou não va- CEcíLIA - Mande para eu ver.
morados? CLEMÊNCIA, para Júlia - Como
. CECÍLIA - Não mangue comigo, émesa em francês? mos? (Desde que Eufrásia diz -
CECÍUA - Para que? Eu te digo; EUFRÁSIA - Basta um. MARIQUINHA - Sim.
. ora veja! Você sabe, nen/lllma das semellles...
- - para duas coisas: primeira, para di- JÚLIA - Tab/e. CLEMÊNCIA - Pois sim. EUFRÁSIA - Que o açúcatseja
MARIQUJNHA, àparte - Já ela está falam todos ao mesmo tempo, com
vertir-me; segunda, para ver se de a namorar o primo. Ê insuportável. CLEMÊNCIA - Braço? CEcíLIA, para Mariquinha - Você algaZO/Ta). bom.
tantos, algum cai. Primo? JÚLIA - Bras. também mande-me omolde das msn- CLEMÊNCIA - Já vão, já vão. CECÍLIA - Eoutras coisas novas.
MARIQUlNHA - Mau cálculo. FELÍCIO - Priminha? CLEMÊNCIA - Pescoço? gas. Mamã, não era melhor fazer o EUFRÁSIA - Espere um bcea- CLEMÊNCIA - Ê muito bom.
Quanto se sabe que uma moça dá MARIQUlNHA - Aquilo? JÚLIA-COU. vestido de mangas justas? dinho.
corda a todos, todos bricam e to- EUFRÁSIA - Está bem, adeus. Não
FELÍCIO - Vai bem. CLEMÊNCIA - Meuina! EUFRÁSIA - Faze como quiseres. JoÃo, para Felício - Não se pode se esqueça.
dos...
CEcíLIA - Oque é? JÚLIA- Ê COlI mesmo, mamã; não JoÃo - Deixem isso para outra aturar senhoras.
CEcíLIA - Acaba. éprimo? Não é coll que significa? CLEMÊNCIA - Não.
MARIQUINHA - Uma coisa. ocasião evamos, que étarde. EUFRÁSIA - Adeus, comadre, o
MARIQUINHA - Etodos adespre- CLEMÊNCIA - Está bom basta. CEcíLIA - Enquanto a Vitorina
EUFRÁSIA - Já vamos, já vamos. João quer-se ir embora. Talvez ve-
zam. está lá em casa.
EUFRÁSIA - Estes franceses são Adeus, minha gente, adeus. (Beijos e nham cá os Reis.
CECÍLIA - Desprezam! Pois não. CENA 11 muito porcos. Ora veja, chamar opes- abraços). CECÍLIA - Ê verdade, e... MARIQUlNHA - Conta bem.
Só se se é alguma tola e dá logo a coço, que está ao pé da cara, com CECÍLIA - Adeus, Júlia.
perceber que tem muitos namorados. CECÍLIA, para Mariquinha - O JoÃo - Ainda não basta?
Entram CLEMÊNCIA, EUFRÁsrA, este nome tão feio.
Cada um dos meus supõe-se único na livro que te prometi, mando amanhã. EUFRASIA - Que impertinência! JÚLIA - Mande aboneca.
JOÃo, JÚLIA, o menino, apreta com JOÃo, para Eufrásia - Senhora, ~.
18 minha afeição. acriança e o moleque. I são horas de nos irmos. MARIQUlNHA - Sim. Adeus, adeus! CEcíLIA, .-:-Sim..
- JÚLIA -Lulu, adeus; bem, adeus, CLEMÊNCIA - Viste a Cecilia camada, o qual fica em pé dentro do to toma o dinheiro efica algllm tem- inglês do diabo, se eu te pilho, inglês GAlNER - Negreira atrevida. ,.
como vinha; não sei aquela comadre cesto) 6 gentes!
MARlQUINHA - Não faça ele cair! po olhando para ele) Então, acha de um dardo! NEGREIRO - .,. teve a pouca-
onde quer parar. Tanto luxo e o MARlQUINHA, ao mesmo tempo - pouco?
JÚLIA - Não, marido ganha tão pouco! São mila- vergonha ...
Oh! ONEGRO - Eh, eh, pouco ...
JoÃo - Eu vou saindo. Boas noi- gres que estas gentes sabem fazer. GAINER - ... chama amim ...
FELÍCIO, o mesmo tempo - Um carga pesada ... CENA 15
tes. (À parte) Irra, irra! MARlQUINHA - Mas elas cosem meia-cara! NEGREIRO - .,. de denunciar-
pra fora. NEGREIRO, ameaçando - Salta já me...
CLEMÊNCIA - Boas noites, sô NEGREIRO - Então, hem? (Para daqui, tratante! (Empllrra-o) Pouco, ENTRA GAINER APRESSADO
João, CLEMÊNCIA - Ora, o que dá a o moleque) Quenda, quanda! (PILta pouco! Salta! (Empurra-o pela porta GAINER - ... velhaca ...
costura? Não sei,não sei! Há coisas o moleque para fora). a"fora). GAINER, entrando - Darda tu,
EUFRÁSIA - Anda, menina. Juca, FELÍcIO - Senhores!
que se não podem explicar... Desde CLEMÊNCIA - Pra que o trcure patife!
vem. FELÍeIO, à parte - Sim, empurra CLEMÊNCIA - Pelo amor de Deus
lhes vem odinheiro, não posso dizer, no cesto? NEGREIRO - Oh!
TODOS - Adeus, adeus, adeus! Elas que o digam, (Entra FeUdo) opobre preto, que eu também te em- sosseguem!
(Toda esta cena deve ser como a Felício, você também não acompa- NEGREIROÍ - Por causa dos mal- purrarei sobrealguém... GAINER, tirando apressado acasa- NEGREIRO, animando-se - Ainda
outra, falada ao mesmo tempo). nha os Reis? sins ... ca - Agora me paga!
NEGREIRO, voltando - Acha um não estou em mim...
FELÍcIO - Hei-de acompanhar, CLEMÊNCIA - Boa lembrança vintém pouco! FELÍCIO, rindo-se - Temos touros!
JoÃo - Enfim! (Saem Eufrásia, GAlNER, animando-se - Inglês não
minha tia. (Examinando o moleque) Está gor-
Cecília, João, o menino e a preta; FELÍcIO - Senhor Negreiro, .. NEGREIRO, indo sobre Gainer - sofre, ..
dinho' bons dentes ...
Clemência, Mariquinha ficam àporta. CLEMÊNCIA - E ainda é cedo? NEGREIRO - Meu caro senhor? Espera, goddam dos quinhentos! NEGREIRO - Quase que omato!
Felício acompanha as visitas). NEGREIRO, àparte, para Clemência
FELÍcIO, tirando orelógio - Ain- - É dos desembarcados ontem, no FELÍcIO - Tenho uma coisa que GAINER, indo sobre Negreiro - GAINER - Goddam! (Quer ir con-
CLEMÊNCIA, da porta - Adeus! da, apenas são nove horas, Botafogo... lhe comunicar, com acondição porém· Meia-cara! (Gainer eNegreiro brigam tra Negreiro, Clemência e Felício
EUFRÁSIA - Toma sentido nos CLEMÊNCIA - Ah, meu tempo! CLEMÊNCIA - Ah, fico-lhe muito que osenhor se não há-de alterar. . aos socos. Gainer gritando continua- apartam).
damente. Meia-cara! Patifa! Goddam,
Reis pra me contar. obrigada. NEGREIRO - Vejamos. eNegreiro: Velhaco! Tratante! Felício CLEMÊNCIA - Sr. Mister/Sr. Ne-
CLEMÊNCIA, da porta - Hei-de NEGREIRO para Mariquinha - Há FELÍCIO - Asimpatia que pelo ri-se, de modo porém que os dois greiro!
tomar bem sentido. CENA 13 de ser seu pajem, senhor sinto é que me faz falar. .. não pressintam. Os dois caem no cltão NEGREIRO ~ Se não fosse asenho-
erolam brigando sempre). ra, havia de ensinar-te, yes do diabo!
CEcíLIA, de dentro - Adeus, bem.
Mariquinha?
Entra Negreiro acompanhado de I ~RIQUINHA - Não preciso de
pajem.
NEGREIRO - Adiante, adiante ...
FELÍcm, àparte, vendo abriga - CLEMÊNCIA - Basta, basta!
UI1l preto de ganho com UI1l cesto à FELÍcIO, àparte - Espera, que eu Bravo, os campeões! Belo soco! As-
cabeça coberto com um cobertor de CLEMÊNCIA - Então, Mariquinha? te ensino grosseirão. (Para Negreiro) sim, inglesinho! Bravo, Negreiro! Lá GAINER - Eu vai-se embora, não
MARlQUINHA - Adeus! quer mais ver nas minhas olhos este
baeta encamada. NEGREIRO - Está bom, trar-lle-ei Osr. Gainer, que há pouco saiu, dis- caem.. , Como estão zangados!
CLEMÊNCIA, da porta - Ô coma- se-me que ia ao juiz de paz denunciar homem. (Sai arrebatadamente, vestil!-
dre, manda o Juca amanhã que é NEGREIRO - Boas noites. uma mocamba. di) acasaca).
os meias-caras que osenhor tem em
domingo. CLEMÊNCIA - Oh, pois voltou? O CLEMÊNCIA - Tantos obsé- casa eao comandante do brigue inglês NEGREIRO, para Clemência -
que traz com este preto? quios ... Dá licença que oleve para Wizart os seus navios que espera to- CENA 16 Faz-me ofavor. (Leva-a para olado)
EUFRÁsIA, dentro - Pode ser.
NEGREIRO - Um presente que lhe dentro? dos os dias. A senhora sabe quais são minhas
Adeus.
ofereço. NEGREIRO - Pois não, é seu. NEGREIRO - Que? Denunciar-me, ENTRAM CLEMÊNCIA e MARlQUINHA intenções nesta casa arespeito de sua
CLEMÊNCIA - Vejamos o que é. aquele patife? Velhaco-mar! Denun- filha, mas como creio que este mal-
CLEMÊNCIA - Mariquinha, vem FELÍcIO, vendo-as entrar - Se- dito inglês tem as mesmas inten-
NEGREiRo - Uma insignificân- ciar-me? Oh, não que eu me importe
CENA 12 cá. Já volto. (Sai Clemência, levando nhores, acomodem-se! (Procura apar- ções...
cia... Arreia, pai! (Negreiro ajuda pela mão o moleque, eMariquinha). com adenúncia ao juiz de paz; com
ao preto abotar ocesto no chão. Cle- este eu cá me entendo; mas épatifa- tá-los). CLEMÊNCIA - As mesmas inten-
CLEMÊNCIA, MARIQUINHA e FELÍCIO mência, Mariquinha chegam-se para ria, desaforo. CLEMÊNCIA - Então, oque éisto, ções?
junto do cesto, de modo porém que FELÍCIO - Não sei porque tem ele senhores? Contendas em minha casa? NEGREIRO - Sim, senhora, pois
CLEMÊNCIA - Menina, são horas este fica àvista·dos espectadores). CENA 14 tanta raiva do senhor. FELÍCIO - Senhor Negreiro, aco- julgo que pretende também casar com
de mandar arranjar a mesa para a
ceia dos Reis.
CLEMÊNCIA -- Descubra. (Negrei- NEGREIRO - Porque? Porque eu mode-se! (Os dois levantam-se e fa- sua filha.
ro descobre o cesto edele levanta-se NEGREIRO, para o preto de ganho digo em toda parte que ele éum es- lam ao mesmo tempo). CLEMÊNCIA - Pois éda Mariqui-
MARlQUINHA - Sim, mamã. um moleque de tanga e carapuça en- - Toma lá. (Dá-lhe dinheiro, opre- peculador velhaco e velhacão! Oh, NEGREIRO -: Este yes do diabo .... nha que ele gosta?
NEGREIRO - Pois não nota asua casamento omaIs breve possível. Lá CLEMÊNCIA - Ele se há de zan- CENA 20 ALBERTO - Quem és tu? Respon· para amulher! Ah, inglesinho, agora
assiduidade? com a moça, em suma, não me m- gar. de! (Agarra-o). me pagarás!
CLEMÊNCIA, àparte - Eeu que porta; oque eu quero éodote. Faz· NEGREIRO - Puderá não! E de- Entra ALBERTO, vagaroso epensa- NEGREIRO - Eu? Pois não me ALBERTO, tomando-o pelo braço
pensava que era por mim! me certo arranjo ... Eoinglês tan- pois de dar um moleque que podia tivo; olha ao redor de si examinando conheces, senhor Alberto? Sou Ne- - Vinde... Tremei, porém, se sois
NEGREIRO - É tempo de decidir: bém queria, como tolo. Já ando meio vender por duzentos mil·réis! tudo com atenção. Virá vestido po- greiro, seu amigo ... Não me conhe· um caluniador. Vinde! (Escondem-se
ou eu ou ele. desconfiado ... Alguém vem! Se bremente mas com decência. NEGREI- ce? ambos na janela eobservam durante
eu me escondesse, talvez pudesse CLEMÊNCIA, no mesmo - Mas toda aseguinte cena).
CLEMÊNCIA - Ele casar-se com RO, que da janela espiando oobseJva, ALBERTO - Negreiro ... sim...
ouvir... Dizem que é feio... Que que importa? É preciso por meus ne-
Madquinha? É oque faltava! mostra-se aterrado durante toda ase- Mas meu amigo, eescondido em casa NEGREIRO, da janela - Atempo
me importa? Primeiro omeu dinhei- gócios em ordem, esó ele écapaz de guinte cena.
NEGREIRO - É quanto pretendia ro, em suma. (Esconde-se por trás da os arranjar depois de se casar comigo. de minha mulher! nos escondemos, que alguém se apro-
saber. Conceda que vá mudar de rou- NEGREIRO - Sim, senhor, sim se- xima.
canina da primeira janela). NEGREIRO, àparte - Hem? Como ALBERTO - Eis-me depois de dois
pa, ejá volto para assentarmos one· anos de privações emiséria restituído nhor, por ser seu amigo é que estava
gócio. Eu volto. (Sai). é lá isso? Ahi escondido em casa de sua mulher.
ao seio de minha familia!
CLEMÊNCIA, à parte - Era dela CLEMÊNCIA - Há dois anos que ALBERTO, agarrando Negreiro pelo CENA 21
CENA 18 NEGREIRO, àparte - Odefunto!
que ele gostava! Eeu, então? (Para meti marido foi morto no Rio Grande pescoço - Infame!
Mariquinha) Oque estão vocês aí pelos rebel~es, indo lá liquidar umas ALBERTO - Minha mulher e mi·
bisbilhotando? As filhas neste tempo Entra CLEMÊNCIA contas. Deus tenha sua alma em gló- nha filha ainda se lembarão de mim? ' NEGREIRO - Não me afogue! Olhe Entram FELÍCIO eMARIQUINHA
Serão eles felizes, ou como eu expe- que eu grito!
não fazem caso das mães! Pra dentro, CLEMÊNCIA - É preciso que isto ria; íem-me feito uma falta que só eu FELÍCIO - É preciso que te reol-
pra dentro! rimentarão os rigores do infortúnio? ALBERTO - Dize, por que te es-
se decida. Ó lá de dentro! José? sei. É preciso cassr-ne; ainda estou vas oquanto antes.
Há apenas duas horas que desembar- condias?
MARIQUINHA, espmllada - Mas UMA Voz DENTRO - Senhora! moça. Todas as vezes que me lembro ALBERTO, da janela - Minha fi-
quei, chegando dessa malfadada pro- NEGREIRO - Já lhe dsse que por
mamã ... do defunto vêm-me as lágrimas aos lha!
CLEMÊNCIA - Vem cá. Aquanto olhos ... Mas se ele não quiser? víncia aonde dois anos estive prsio- ser seu verdadeiro amigo ... Não
CLEMÊNCIA, màis zangada - Ain- estão as mulheres sujeitas! (Entra um neiro. Lá os rebeldes me detiveram, aperte que não posso, e então íam- MARIQUINHA - Mas...
da em cima respondona! Pra dentro! pajem. Clemência, dando-lhe uma NEGREIRO, àpm1e - Se odefun· porque julgavam que eu era um es- bém dou como um cego, em suma.
(Clemência empurra Mariquinha pra to não quiser? pião; minhas cartas para minha famí· FELÍcm - Que irresolução é a
carta) Vai àcasa do sr. Gainer, aque- ALBERTO, deixando-o - Descul- tua? Adesavença entre os dois fará
dentro, que vai chorando). le inglês, eentrega-lhe esta carta. (Sai lia foram interceptadas e minha mu-
CLEMÊNCIA - Mas não, afortuna pa-te se podes, ou treme... que atia apresse oteu casamento -
FELÍCm - Que diabo quer isto opajem. Negreiro, durmlte toda esta que tenho e mesmo alguns atrativos lher talvez me julgue morto ... Dois
dizer? Oque diria ele a núnha tia anos, que mudanças terão trazido NEGREIRO - Agora sim... Vá com qual deles não sei. Ocerto é
cena easeguinte, observa, espiando). que possuo, seja dito sem vaidade, que de um estamos livres; resta-nos
para indispô-la deste modo contra a consigo? Cruel ansiedade! Nada inda- ouvindo. (À parte) Assim saio-me da
NEGREIRO, àparte - Uma carta podem vencer maiores impossíveis. arriosca e vingo-me, em suma, do outro. Só com coragem e resolução
prima? O que será? Ela me dirá. para oinglês! guei, quis tudo ver com meus pró-
Meu pobre defunto marido! (Chora) prios olhos ... É esta aminha casa, inglesinho. (Para Alberto) Sua nu- nas podemos tirar deste passo. Oque
(Sai atrás de Clemência).
CLEMÊNCIA, passeando - Ou com Vou fazer aminha toilelte (Sai). mas estes móveis não conheço... lher éuma traidora! disse oNegreiro à tua mãe não sei,
ele, ou com nenhum mais. Mais dcas e suntuosos são do que porém, o que quer que seja, a tem
ALBERTO - Traidora? perturbado muito, emeu plano vai-se
NEGREIRO - Ah, ocaso éeste! aqueles que deixei. Oh, terá também
CENA 17 CLEMÊNCIA, no mesmo - Estou NEGREIRO - Traidora, sim, pois desarranjando.
CENA 19 minha mulher mudado? Sinto pas- não tendo certeza de sua morte, tra-
bem certa que ele fará afelicidade de sos ... Ocultemo-nos. .. Sinto-me MARIQUINHA - Oh, é verdade, a
tava já de casar-se.
Entra NEGREIRO na ocasião uma mulher. ansioso de temor e alegria... Meus mamãe tem ralhado tanto comigo de-
que FELÍCIO sai NEGREIRO, àparte - Muito bom, NEGREIRO sai da janela Deus! (Encaminha-se para a janela ALBERTO - Ela casar-se? Tu men- pois desse momento, e me tem dito
muito bom! aonde e.stá escondido Negreiro). teso (Agarra-o com força). mil vezes que eu serei acausa da sua
NEGREIRO - Psiu! Não ouviu- NEGREIRO - Eentão? Que tal a NEGREIRO - Olhe que perco apa· morte...
CLEMÊNCIA, no mesmo - Omau viúva? (Arremedando avoz de Cle- NEGREIRO, àparte - Oh, diabo!
me. .. Esperarei. Quero que me dê foi ele brigar com oNegreiro. Ei-Io comigo! (Alberto, querendo ciência... Que diabo! Por ser seu FELÍCIO - Se tivesses coragem de
informações mais miudas a respeito mência). Meu pobre defunto mario amigo evigiar sua mulher agarra-me dizer a tu~ mãe que nunca te casarás
NEGREIRO, àparte - Eopior é do ... Vou fazer minha toilelte. Não esconder-se na jmlela, dá com Negrei·
da denúncia que otal patife deu ao deste modo? Tenha propósito, ou com oGainer ou com oNegreiro ...
não lhe quebrar eu acara... 1'0 erecua espantado).
cruzeiro inglês dos navios que espero. émá. Chora por um eenfeita-se por eu. .. Cuida que é mentira? Pois es-
Isto. .. Não, que os tais meninos CLEMÊNCIA - Mas não devo hesi- outro. Estas viúvas! Bem diz oditado ALBERTO - Um homem! Um ho- NEGREIRO, da janela - Obrigado!
çonda-se um instante comigo everá.
andam com oolho vivo pelo que bem tar: se for necessário, fecharei minha que viúva rica por um olho chora e mem escondido em minha casa! (Alberto esconde orosto nas mãos e MARIQWNHA - Jamais oousarei.
-
osei eu, etodos em suma. Seria bem porta ao Negreiro. por outro repica. Vem gente ... Será NEGREIRO, saindo da janela - fica pensativo. Negreiro àparte). Não FELÍCIO - Pois bem, se o não
bom que eu pudesse arranjar este NEGREIRO - Muito obrigado. oin~ês? (Esconde-se). Senhor! está má aressurreição! Que'.surpresa ousas dizer, fujamos.
MARIQUINHA ~ Oh, nao, não! '\ NEGREIRO:"" Quê petisco para o bam; enfim, se isto durar mais tem- de Clemência, esfi'ega, à parte, as ner, dando e descompondo. Alberto
marido. E casai-vos! po, dou-me por quebrada. mãos de contente. Clemência con- vai para Clemência)
CLEMÊNCIA, dentro - Mariqui- nuando) Há muito que o conheço ALBERTO _ Mulher infiel - Em
nha! ALBERTO eNEGREIRO sempre na CLEMÊNCIA - É ele! GAINER - Este émau, quebrada
émau. e eu... sim... não se pode... o dois anos de tudo te esqueceste!
janela
MARIQUINHA - Adeus! Nunca estado deve ser ~onsiderado e... Ainda não tinhas certeza de minha
pensei que você me fizesse semelhan- CLEMÊNCIA - Se eu tivesse porém ora. ,. Por que ?hel-~e eu. ter vergo- morte e já te entregavas a outrem?
ALBERTO - Oh, minha ausência, uma pessoa hábil e diligente que se
te proposição! minha ausência! CENA 25 nha de o ~Jzer. Sr. Geiner, eu o Adeus, enunca mais te verei. (Quer
pusesse àtesta de minha casa, estou tenh~ escclhidc para. meu ~ando; ~ sair, Mariquinha lança-se a seus
FELÍCIO, segurando-a pela mão - NEGREIRO - Amim não me mata-
Perdoa, perdoa ao meu amor! Estás rás! Safa, em suma. Entra GAINER
bem cerla que ela tomaria outro
rumo.
o Ira-de ser de mnha filha, seja I pés)
meu ...
mal comigo? Pois bem, já não falarei MARIQUINHA - Meu pai, meu pai!
ALBERTO - Aque cenas vim eu GAINER - It is true. GAINER - Mim aceita, mim acei-
em fugida, em planos, em entregas; GAINER, entrando - Dá licença?
apareça só aforça ecoragem. Aquele assistir em minha casa! Sua criado... Muito obrigada. CLEMÊNCIA - Eu podia, como ta! ALBERTo - Deixa-me, deixa-me!
que sobre ti lançar vistas de amor ou muitas pessoas me têm aconselhado, Adeus! (Vai sair arrebatadamente;
NEGREIRO - Eque direi eu? Que NEGREIRO, na janela - Não há de
de cobiça comigo se haverá. Que me tal o menino? tomar um administrador, mas temo Clemência levanta acabeça eimplo-
que. muito dar esse passo; omundo havia ra aAlberto.. que ao chegar à porta
importa avida sem ti? Eum homem
ALBERTO - Clemência, Clemên- CLEMÊNCIA, confusa - O se- ter logo que dizer, eminha reputação CENA 26 encontra-se com Felício. Negreiro e
que despreza avida ...
cia, assim conservavas tu ahonra da nhor... eu supunha... porém... antes de tudo. Gainer neste tempo levantam-se)
MARIQUINHA, suplicante - Felício! nossa fanília? Mas osenhor preten- ALBERTO sai da janela com
eu... Não quer se assentar? (Assen- GAINER - Reputation, yes. FELÍCIO - Que vejo? Meu tio!
CLEMÊNCIA, dentro - Mariqui- dia casar-se com minha filha? tam-se). NEGREIRO e agarra GAINER pela Sois vós? (Travando-o pelo braço,
nha! NEGREIRO - Sim, senhor, ecreio CLEMÊNCIA - Ealém disso tenho garganta.
MARIQUINHA - Senhora? Eu te que não sou um mau partido; poré!ll,
I GAINER - Eu recebe uma carta uma filha já mulher. Assim oúnico
oconduz para afrente do tealro)
para vir trata de um negócia. remédio que me resta é casar. CLEMÊNCIA - O defunto, o de- ALBERTO - Sim, é teu tio, que
rogo, não me faças mais desgraçada. já desisto, em suma e... Caluda, funto, odefunto! (Vai cair desmaiada veio encontrar sua casa perdida e
caluda! CLEMÊNCIA - Fiada em sua bon- GAINER - Oh, yes! Casar Miss no sofá ,afastando as cadeiras que
CLEMÊNCIA, dentro - Mariqui- dade... sua mulher infiel!
nha, não ouves? Mariquinha, depois tem uma genra acha no caminlio)
GAINER - Oh, meu bondade... para tomar conta na casa. GAINER - Seu mulher! Tudo está
MARIQUINHA - Já vou, minha GAINER - Goddam! Assassinal perdida!
CENA 24 .obrigada CLEMÊNCIA - Não é isto o que
mãe. Não éverdade que estavas brin- ALBERTO, lutando - Tu é que
CLEMÊNCIA - Osr. Mister bem eu lhe digo! ALBERTO - Fujamos desta casa.
cando? me assassinas!
Entra CLEMÊNCIA muito bem vestida sabe que... (À parte) Não sei oque (Vai asair apressado)
FELÍCIO - Sim, sim; estava. Vai GAINER - Então mi não entendo
lhe diga. GAINER. Ladrão! FELÍCIO, indo atrás - Senhor,
descansada. ALBERTO, na janela - Minha mu- português.
lher Clemência! GAINER - Oque é que eu sabe? NEGREIRO - Toma lá, inglesinho! meu tio! (Quando Alberto chega à
MARIQUINHA - Eu creio em lua CLEMÊNCIA - Assim me parece. (Dá-lhe por trás) porta, ouve-se cantar dentro)
palavra. (Sai apressada). NEGREIRO, na janela - Fique quie- CLEMÊNCIA - Talvez que não Digo que é preciso que eu, eu me
to. iguore que pela sentida morte de meu case. ALBERTO, lutando - Tu e aquele UMA VOZ, dentro, cantando:
defunto. .. (finge que chora) fiquei infame ...
CLEMÊNCIA, assentando-se - Ai, GAINER - Oh, by God! By God! - Ó de casa, nobre gente
CENA 22 já tarda... Este vestido me vai bem... senhora de uma boa fortuna. Escutai e ouvireis,
CLEMÊNCIA, levantando-se - De Que da parte do Orieute
Estou com meus receios... Tenho GAINER - Boa fortuna ébom. que se espanta? Estou eu tão vellIa, CENA 27 São chegados os três Reis.
minha cabeça ardendo de alguns ca-
FELícIO, só - Crê na minha pala- CLEMÊNCIA - Logo que estive que não possa casar?
belos brancos que arranqnei. .. Não
vra, porque eu disse que serás minha. sei o que sinto; tenho assim umas certa de sua morte, fiz inventário por- ALBERTO, para àporta - Oh!
GAINER - Mi não diz isto ... Eu Entram MARIQUINHA e JÚLIA
Com aquele dos dois que te ficar lembranças de meu defunto ... É ver- que me ficavam duas filhas menores; pensa na home que será seu marido.
pertencendo irei ter, e será teu espo- daque que já estava velho. assim me aconselhou um doutor de MARIQUINHA O que é isto? Meu Continuam arepresentar, enquan-
so aquele que a morte poupar. São S. Paulo. Continuei por minha conta CLEMÊNCIA, à parte - Bom... Pai! Minha mãe! (Corre para ]'unto I
to dentro, cantam.
dez horas, os amigos me esperam. NEGREIRO, na janela - Olhe, cha- com onegócio do defunto; porém o (Para Gainer) Aúnica coisa que me de Clemência) Minha mãe (ALBER-
Amanhã se decidirá minha sorte. ma-o de defunto e velho! sr. Mister bem sabe que numa casa embaraça éaescolha. Eu ... (à par- TO éajudado por Negreiro, que tran-
(Toma o chapéu que está sobre a CLEMÊNCIA - Sobem as escadas! sem homem tudo vai para trás. Os te) Não sei como dizer-lhe .. , (Para ça apema em Gainer e lança-o no I FELÍCIO, segurando-o - Assim
mesa esai). (Levanta-se). cab;eiros mangam, os corretores rou- (Gaíner, que já entendeu aintenção chão. Negreiro fica acavalo em Gai- quereis abandonar-nos, meu tio? 25
~MARIQUINHA, indo para Alberto -
CENA 28 (Solo)
Meu pai...
Puros votos de amizade
.'
RETÁBULO DAS MARAVILHAS
FELÍClO, conduzindo-o para afren- Entram dois moços vestidos de Boas Festas eBons Reis
te - Que será de vossa mulher ede jaqneta e calças brancas. Em nome do Rei nascido
vossas filhas? Abandonadas por vós, Vos pedimos que aceiteis. entremez de
UM DOS MOÇOS - Em nome de
todos as desprezarão. .. Que horrí-
vel futuro para vossas inocentes fi- meus companheiros pedimos àsenho- (Coro) MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA (1547-1616)
lhas! Esta gente que não tarda aen- ra dona Clemência a permissão de
cantarmos os Reis em sua casa.. Ó de casa, nobre gente,
trar espalhará por toda a cidade a Acordai e ouvireis,
notícia de seu desamparo. CLEMÊNCIA - Pois, não, com
muito gosto. Que da parte do Oriente tradução de JosÉ CARLOS LIsBOA
MARIQUINHA - Assim nos des- São chegados os três Reis.
prezais? OMOÇO - Acomissão agradece I e HELOISA GuIMARÃEs FERREIRA
(Saem os dois)
JÚLIA, abrindo os braços como TODOS DA CASA - Muito bem!
FELÍCro, para Alberto - Morro
para abraçá-lo - Papá, papá - CLEMÊNCIA - Felício, convida
de impaciência por saber como po-
FELÍClO --:- Vede-as, vede-as! às senhoras e senhores para toma-
de meu tio escapar das mãos dos re- PERSONAGENS: para que serve este Rabelim que
rem algum refresco.
ALBERTO, comovido - Minhas beldes para nos fazer tão felizes. contratamos? Os dois sozinhos, não
FELÍCro - Queiram ter abonda- CHANFALLA, apresentador do
filhas! (Abraça-as com transporte) ALBERTO - Satisfarei com vagar dariamos conta do recado?
de de entrar; que muito nos obse- Retábulo
a tua impaciência.
GAINER - Mim perde muito com quiarão. QUIRINOS, sua mulher CHANFALLA - Precisávamos dele
este. .. E vai embora! OS DO RANCHO - Pois não, pois como de pão para aboca. Ele tocará
RABELIM, um garoto maltrapi- nos intervalos enquanto não apare-
NEGREIRO - Aonde vai? (Quer não! Com muito gostol lho
CENA 29 cem as figuras do retábulo das ma-
segurá-lo; Gainer dá-lhe um soco CLEMÊNCIA - Queira entrar. PEDRO CAPACHO, o escrivão ravilhas.
que olança no chão, deixando aaba BENITO REPOLHO, o alcaide
da casaca na mão de Negreiro. CLE- Entram moços e moças que vêm Clemência eos de casa caminham QUJRINOS - Maravilha será se
MÊNCIA, vendo Alberto abraçar as Cmltar os ReÍs; alguns deles tocando para dentro eorancho segue tocall- JoÃo CAPÃO, ocorregedor não nos apedrejarem por causa deste
filhas, levanta-se e camÍnha para dÍferentes ÍllStnLmentos, precedem o lima alegre marcha, edesce o PWlO, TERESA REpOLHA mesmo Rabelim. Em toda minha vi-
ele). rWlcllO .Cumprimentam quando en- JOANA CAPÃO, sobrinha do cor- da, nunca ,~ criatura tão enfezadi-
tram. gedor nha ...
CLEMÊNCIA, humilde --:- Alberto!
OSOBRINHO do alcaide
ALBERTO - Mulher, agradece às
tuas filhas... estás perdoada...
OMOÇO - Vamos aesta, rapazia-
da. I
I
OOFICIAL Aparece RABELIM
.Longe de núnha vista este infame. UM MOÇO eUMA MOÇA, cantando:
"
r
"

Onde está ele? Entram CHANFALLA eQUIRINOS RABELIM - Vamos dar algum es-
(Solo) petáculo neste lugarejo, senhor em-
NEGREIRO - Foi, mas, em suma, presário? Estou aflito para mostrar a
deixou penhor. CHANFALLA - Quirino, não te
No céu brilhava uma estrela, Vossa Senhoria que não sou uma
esqueças das minhas advertências;
ALBERTO - Que nunca mais me Que a tres Magos conduzia carga inútil.
principalmente as últimas, para este
apareça! (Para Mariquinha eFelício) Para oberço onde nascera
novo embuste, que há de sair tão QUIRINOS -..: Dois de você não da-
Tudo ouvi junto com aquele senhor, Nosso Conforto e Alegria.
bem como o outro do "fazendor de vam para fazer um pacote, quanto
(aponta para Negreiro) evossa hon- chuva". mais uma carga; se você étão grau·
(Coro )
ra exige que de hoje aoito dias este-, QUIRINOS - Ilustre Chanfalla, o de músico quanto é grande, vamos
jais casados. Ó de casa, nobre gente, mal. ..
Acordai eouvireis, que entra nos meus ouvidos fica lá
FELÍCro - Feliz de mim! Que da parte do Oriente moldado. Tenho tanta memória como RABELIM - Na verdade até já
NEGREIRO - Em suma, fiquei ma- São chegados os três Reis. inteligência, e a elas junta-se uma me quiseram contratar para uma
~6 mado e sem dote... vontade de satisfazê-lo que excede companbia de anões, por causa do
(Ritornelo) h às outras qualidades. Mas,'conta-me: meu aspecto,
lido e escrivido, podeIs. entender es- I QUIRINOS - Deus o pennita ... CHANFALLA - Senhores, venham
CHANFALLA - Se os papéis Ies-
sem distribuido. de acordo com o
CAPACHO - Ciceroniana, quis di-
zer oSr. Alcaide Benito Repolho.
I senhor esteja de acordo, que fique
noiva esta noite a senhora Teresa,
r sas conversas estraageíras, mas cu Vossas Mercês, tudo está pronto e
não. Saem de cena JoÃo e CHANFALLA não falta mais que começar.
tamanho, o seu ia ser quase invisÍ- BENITO - Sempre quero dizer o sua filha de quem sou padrinho e, na
veJ. Quirinos, estamos chegando ao que émelhor, mas amaioria das vc- festa de regozijo, quero que osenhor JoÃo - Pois bem, contenta-se o
senhor que lhe demos como adianta-
I OGOVERNADOR - Senhora Auto·
QUIRINOS - Eodinheiro está no
papo?
povoado e aquelas pessoas devem zes não acerto. Mas o que deseja, Montie! exiba em vossa casa o seu
Retábulo. mento meia dúzia de ducados? E ra, que poetas são agora conhecidos CHANFALLA (batendo 110 bolso so-
ser, são sem dúvida, ogovernador c bom homem? ainda prometemos que se terá todo na corte, especialmente entre os cha- bre opeito) Já está me aquecendo o
as alcaides. Vamos ao encontro de- JoÃo - Tudo farei para servir ao
CHANFALLA - Eu sou, senhores o cuidado para que não entre gente nados cômicos? Porque faço meus peito.
les ... Trata de amolar a língua na senhor Governador, cuja sentença
meus, Montiel, oque traz oRetábu· do povoado esta noite em minha ensaiozinhos como poeta e tenho QUIRINOS - Pois anuncio-te,
pedra da adulação, mas, com calda- subscrevo, aprovo e sustento, rero-
lo das Maravilhas. O Provedor da casa. minhas comichões na comédia e na Chanfalla, que oGovernador époeta.
do, não te cortes com eJa. gadas as disposições em contrário, se
Santa Casa faz-me chamar à corte CHANFALLA - Estou satisfeito, tragédia. Tenho vinte duas comédias,
as houver. CHANFALLA - Poeta? Santo Deus!
porque a Irmandade está sem autor confio nas boas intenções de Vossa todas novas, nascidas umas atrás das
Aparecem o Govel'1lador e Benifo Já está enganado, porque todos os de
de comédia e em teatro que a sus- QUlRINOS - Adisposição que há Mercê. outras; estou esperando uma oportu-
RepollIo, alcaide, João Capão e PE· semelhante humor são feitos na nes-
tente para ohospital. Mas, com mi- em contrário é que, se não nos pa- nidade para ir à corte e enriquecer
DRO CAPACHO, escrivão. JoÃo - Pois venha comigo, rete- ma fôrma, gente simplória, crédula
nha ida para lá, tudo remediará. gam adiantado nosso trabalho, os ~e- com elas uma boa meia dúzia de em-
berá o dinheiro, verá minha casa, e e sem malícia.
O GOVERNADOR - O que quer nhores vão ver as figuras por um presários.
CrIANFALtA - Beijo as mãos de óculo. EVossas Mercês, senhores do nela, as comodidades que tem para BENITO - Vamos, empresário;
dizer Retábulo das Maravilhas? QUIRINOS - Ao que V. Mercê,
Vossas Senhorias. Quem dentre as governo, têm consciência e alma mostrar o seu Retábulo. estou ardendo para ver esta mara-
CHANFALLA - Pelas coisas ma- senhor Governador, me pergunta so-
Senhorias é o Governador desta ci· nesses corpos? Seria ótimo se entras- bre .os poetas, não saberei respcn- vilho.
ravilhosas que nele se ensinam e se CHANFALLA - Vamos, e não es-
dade? se todo mundo esta noite na casa do queçam as qualidades que precisam der: há tantos que tampam o sol e
mostram, é chamado Retábnlo das
OGOVERNADOR - Eu sou ogover- Maravilhas. Foi fabricado e ço:n- sr. João Capão, ou como quer que ter os que se atrevem a olhar oRe- todos pensam que são famosos. Os Saem todos. Entram JOANA CAPÃO
nadar. Que quer obom homem? posto pelo sábio Tontonelo sob tais seja a sua graça, e visse o conteúdo tábulo maravilhoso. poetas cômicos são os de sempre e eTERESA REPaLHA, lavradoras: aúl·
CIlANFALLA - Se eu tivesse duas paralelas, meridianos, astros c esíre- do tal Retábulo, e amanhã, quando nem se precisa nomeá-Jos. Mas, di- .tima, de noiva.
quiséssemos mostrá-lo ao público, BENITO - Fique isso a meu cui- ga-me V. Mercê, como ésua graça?
gramas de inteligência, teria visto que las, com tais pontos, caracteres e dado. De minha parte posso dizer-
esta presença ampla e peripatética observações, que as coisas que nele não houvesse viv'alma que o visse! Como se chama?
-lhe que vou seguro a julgamento: JOANA - Podemos sentar aqui, .
não poderia ser de outro senão do se mostram não podem ser vistas Não, senhores, ante omnia devem OGOVERNADOR - Amim, senha-
tenho pai alcaide e quatro dedos de amiga Teresa Repelha, teremos 6
dignÍssimo governador deste honrado por quem quer que tenha sangue de pagar-nos oque for justo. ra empresária, chamam-me o licen- Retábulo bem em frente. E como
BENITO - Senhora autora, quem gordura de cristão velho rançoso so-
lugar. Qne possa um dia Vossa Mer- hereje ou que não seja filho legiti- ciado Gomezinho. sabes as condições que devem ter os
vai pagar-lhes aqui não é nenhuma bre os quatros costados de minha li-
cê deixá-lo para governar na capit~l. mo, batizado e registrado com íesíe- QUIRINOS - Valha-me Deus! En- espectadores do Retábulo, não te des-
Antônia nem nenhum Antônio. Ose- nhagem. Se é possível que eu não
QUIRINOS - Ainda em vida da munhas legais. Quem quer que paJ;)- tão, é V.Mercê olicenciado Geme- cuides, senão teremos uma grande
nhor Conselheiro João pagar-Ihes-á veja o tal Retábulo!
Senhora e dos meninos, se é que o ça de uma dessas correntes elltermi- zinho, aquele que compôs os tão fa- desgraça.
Sr. Governador os tem. dades, desista de ver as coisas nunca mais que honradamente. Ese não for i·
CAPACHO - Todos pensamos vê- mosos versos "Lúcifer passava mal" TERESA - Jásabes, Joana Capão,
vistas ou ouvidas no meu retábulo. ele, será o Conselheiro. Precisam lo, senhor Benito Repolho. e "O seu mal vinha de fora". que sou tua prima, e nem preciso
CAPACHO- OSr. Governador não
BENITO - Ora vejam! Cada dia conhecer olugar, por certo! Aqui, ir- JoÃo - Não somos Joões Nin- O GOVERNADOR - As más lín- dizer mais. Tivesse eu tão certo o
é casado.
verifico que se vêem mais coisas no- mã, não esperamos que nenhuma guém, senhor Pedro Capacho. guas me atnlmiram estes versos. São céu, como tenho ceríera de ver tudo
QUIRINOS - Os votos ficam para Antôllia pague por nós.
quando o seja; não se perde nada. vas neste mundo. Echamava-se Ton- tão meus quanto do Bispo de Braga. que o Retábulo mostrará! Pela vida
OGOVERNADOR - Tudo correrá de minha mãe, que me arranquem
OGOVERNADOR - Bem... mas o tonelo o sábio que construiu o Re- CAPACHO - Deus me perdoe, sr. Os que eu compus enão quero rene-
tábulo? bem, pelo que estou vendo, senhores gá-Jos, foram aqueles que trataní do os olhos da cara, se alguma desgra-
que deseja ohonrado cidadão? Benito Repolho, seu tiro errou o al- Alcaide, Regedor e escrivão.
QUlRlNOS - Tontonelo chamava- vo! Asenhora Autora não falou em Dilúvio de Sevilha. Ainda que os ça me acontecer! Essa praga não me
QUIRINOS - Honrados sejam os JoÃo - Vamos, Autor, mãos à poetas sejam ladrões uns dos outros, pega!
dias de Vossa Mercê, que assim nos -se. Nacido na cidade de Tontonela: Antônia nenhuma. Pediu que lhe pa-
homem de quem contam que usava gassem adiantado e antes de todas obra; que me chamo João Capão, nunca apreciei roubar nada de nin- JOANA - Calma, prima; lá vem
honra; em fim, o pinheiro dá pinha, filho de Antônio Capão e de Joana guém: com meus versos, Deus me todo mundo.
o limoeiro limão, a jaqueira jaca, e a barba pela cintura. as coisas que éoque quer dizer ante
BENITO - Sempre oavi dizer que olllllía. Macha; enão preciso dizer mais pa- ajude e furtem os outros se quise-
o honrado honra, sem poder fazer
homem barbudo sabe tudo. ra assegurar que poderei por-me ea- rem. Entram o GOVERNADOR, BENlTO,
outra coisa. BENITO - Olhe, escrivão Pedro
BENITO - Setença cicerônica, I OGOVERNADOR - Senhor cense-
lheiro João, determino, desde que o
Capacho, que me falem língua de
gente para que eu entenda. Vós sois
L ra a cara e de pé diante do referido
Retábulo. Volta CHANFALLA
JOÃo, CAPACHO, o EMPRESÁRIO e a
Empresária eo MÚSICO; outras pes-
I

I
28 sem tirar nem botar uma vírgula.
soas do povoada e lIIn sobrinha de logo incontincnlc a estes senhores I . JoÃo - Senhór Alllor, veja se po- JOANA - Ouves, amiga? Descobre ces, não deixam de ser pesados eter I BENITO - Ai, sobrinho, segura
l
13ENITO. algu~as de luas ~aravilhosas mara- de. controlar as figuras para q~~ n~o f o rosto, pois aí está uma coisa boa a força de um Hércules com a es- esta judia velhaca; mas se é judia,
vilhas, para que se regozigem e SaIa~l as que ~os alvoro~am; Ja nao para ti. Oh! qne licor tão saboroso! pada desembainhada. como pode ver estas maravilhas?
CIlANFALLA _ Senlem-se lodos. lenham prazer sem se escandalizar! o digo por mm, mas ha as moças, Proteja-se, meu pai, não vá se mo- JoÃo - Ei, senhor Autor, mas CHANFALLA - Todas as regras
ORetábulo ficará atrás deste repos- Eia, já vejo que outorgas meu ped~- que ficaram. sem pingo de sangue lhar. .
que barbaridade! Ainda quer encher têm exceção, senhor Alcaide.
.. a amora
tellO, , m"c 'lqU'[ omú- do, pois daquele, .lado aparece a ft- com aferoClClade do touro.
• . tanlbe'
sico. I #

gura do valenllsmmo Sansao, abra- JOANA - Ai, meu pai! Preciso de


JoÃo - Todos já estão protegidos,
minha filha.
nessa casa de ursos eleões?
BENITO - Olha só que rouxinóis
BENITO _ OMúsico é isto? Po- çado c~m as colunas do ~emp~o, para tres dias para voltar amim; já esta- e que cotovias nos manda T9ntone-
Ouve-se uma corneta e entra
,f do resposteiro tam- derruba-lo ao solo e assIm vIngar-se va me vendo nos chifres dele que são BENlTO - Ui! Aágua me escor- um oficial.
I
naamno atItiS ' d ' .. I D t I I reu pelos ombros até ocanal princi- 10; leões e dragões! Senhor Autor,
bém on ue em troca de não vê-lo, e seus 1ll1~lgOS. een la-se, va o- agudos como pontas de facas. faça sair figuras mais agradáveis, ou
,,p J
darei por bem empregarIoo nao ou-
7 rosa cavalheIro detenha-se pela gra-
d D p'. - tal
# # • •

JOAO - Nao fosse mlllha flha,


paI. ..
todos aqui nos contentaremos com
.I ça e eus m; nao provoque . OF1CIAL - Quem é osenhor Go-
CAPACHO - Estou mais seco que
VI- O. A # I calástrofe, porque vai colher aqui para deIxar de ver. uma palha.
os telões e, vá com Deus, não pre-
vernador?
~HANFALLA - ':' Merc~ uno tem em baixo evirar em panquecas tan- O GOVERNADOR - Chega, todo cisa mais ficar neste povoado nem
OGOVERNADOR - Sou eu. Que
razao, senhor Alcmde Bellllo Rep~-Ila c tão nobre gente reunida! mundo vê o que eu não vejo, mas O GOVERNADOR - Que diabo é um momento. deseja V, Mercê?
lho de descontentar-se com o mas- ' 'd . I isto que não senti uma gota enquan- JOANA - Senhor Benito Repolho,
OFICIAL - Que o mais depressa
co 'que na vcraaladeeemUI
é muit (I IDum I;rJS-
'... BENITO - Delenhase por todos acabo
1 dlzen
. h o que veJo, para sa var to os outros se afogam? Será que sou
v
deixe vir os ursos e os .leões, nem
possível se consiga alojamento para
tã~ efidaloo de solar conhecido, os diabos! Ia ser muito engraçado que a ionm a, o único bastardo entre tantos legíti- que seja só por nós, porque ficare-
trinta homens de armas que chegarão
O GOV~RNADOR _ Qualidades em vez de nos divertirmos, acnbás- QUlRlNOS - Esta manada de ra- mos? mos muito contentes,
it f', nra serbom 111U'
_ semos amassados! Contenha-se, se- tões que ali vai, descende em linha aqui dentro de meia hora, ou talvez
mlll onecesstlntls I' , ru tu • • • A BENITO - Tirem aquele músico antes porque já se escuta a corneta.
JoÃo - Minha filha, há pouco te
. , nhor Sansuo, arrenego, que quem reta daoneles que se cnaram na rca
SICO. J d lhe pede são boas pessoas! de Noé; há brancos, cinzentos, ma- dali; se não, palavra de honra, vou Adeus. (Sai)
espantavas com ratazanas, e agora
BENITO - De solar ee po eser, II d .. f 1 t to embora sem ver mais nada. Vai pro pedes urscs e leões? BENITO - Aposto que é o sábio
, .br CAPACHO - Está vendo alguma lU os e azUiS, e... l11a men e, - diabo, músico enfeitiçado, que toca
mas de sena; ti renuncIo... .• dos são ratões, Tontonelo quem os manda.
JOANA - Tudo que é novo diver-
-. COIsa Capao? sem \~ola e sem corda.
RAIlELIM. Esto que merece ov e - ' 'd ' I S " te, senhor meu pai. CtIANFALLA - Não, é uma com-
JOANA - Jesus, alI ~ m\m,' ;~u.
# •

llmco que vem tocar diante destes.,. JoÃo - E porque nao Ia ver? RABELIM - Senhor alcaide, não panhia de cavalaria que eslava a
QUIRINOS - Esta donzela que
Será que tenho os olhos llO cangote? rem-me que sno pe a Jane a, aa desforre comigo asua raiva; eu toco umas duas léguas daqui,
BENITO - Po: Deus que l;u.uca . zanas! Que horror! Amiga, segura agora aparece tão bonita e tão bem
vimos por aqm outros musIcas CAPACHO - Que caso llulagroso: tuas saias ecuidado para não te mor- como Deus me ensinou. vestida, { a conhecida Herodíades,
BENlTO - Agora já conheço bem
tao.. ..I
#
estou. ven do a S· ansao. a~ora, como derem; e que quantidade! Pela slma BENITO - E Deus lá te ensinou cuja dança teve como prêmio a ca-
oTontonello, esei que vós eele são
O GOVERNADOR - Paremos a ao BI,SPO de ~,raga. Po~s ~ claro que de minha avó, são mais de milhões! alguma coisa, lagartixa? Vai para beça do João Batista, precurssor de
uns grandíssimos velhacos, não es-
discussão no destes só senhor Ra- sou filho legltlDlo e cnstao dos me- . , tráz do pano; se não, juro por Deus nosso Senhor. Se alguém quiser aju-
quecendo omúsico; eolhe: eu orde-
'
belnn c no lia[" do Alcaide que será lhores REPOLHA - Eu SIm, e que sou que te jogo um banco. dá-Ia a dançar será uma mar~vilha.
no que ordeneis a Tontonelo que
• I • • , f ]' no
proceder com infinita sabedoria; e QUIRINOS _ Proteja-se, homem! III e12, me cercarmn sem q~e eu ta- não tenha o atrevimento de mandar
BENITO - Isto sim, puxa vida!
que osr. Montiel comece seu traba- Lá vem aquele touro que matou atasse; um.a rata[zana more~lIlha aa-
r
RABELlM - Acho que foi odiabo
estes homens armados, porque lhe
Que figura formosa, agradável e re-
lho. estivador em Salamanca! Deita-te, cou meu Joelho. Que os .~eus me so- que me trouxe aeste povoado!
mandarei dar duzentos açoites no
luzente; papagaio! Como rebola a
BENITO _ Pouca tralha traz oau- homem; deita-te, homem; Deus te corram porque a terra Jêl me aban- CAPACHO - Como é fresca a lombo, para exemplo de uns e an-
pequena. Sobrinho Repolho, tu que
- grande Retaibuo.
tal' para tao I l'lVfe, Docus te livrei. danou! água do santo rio Jordão; e apesar tros.
entendes tão bem de castanholas,
JoÃo - Deve ser tudo de Mará- CHANFALLA - Deitem-se todos, BENITO - Ainda bem que tenho do cuidado com que me cobri, um CHANFALLA - Garanto, senhor
ajuda-a que a festa vai ser de ar-
vilhas. deitem-se todos! Eh! Boi, eh! Boi! calções fechados: neles não há rata- pouco aiada pegou os meus bigodes, alcaide, que não é Tontonelo quem
romba'
Chô l zana que entre; não passa nem ca- e aposto como agora eles estão cla- os manda!
CHANFALLA - Atençao, meus se-
#

' d ros como ouro. SOBRINHO - Ah, isto me agrada,


nhores, que vou começar. Oh! tu, mon ongo. r , tio Benito Repolho. BENlTO - Garanto eu que éIon-
quem quer que sejas que fabricaste Deitam-se todos com o maior ai- CHA~FALLA - Esta agua que,cal BENITO - É, ecinqüenta vezes tonelo quem os manda, como man-
este Retábulo com artifícios tão ma- voroço. das nuvens com tanta pressa, e a piores do que antes. dou os outros insetos que eu vi.
ravilhosos, que veio a ser conhecido font~ que dá origem ecomeço ao rio QUIRINOS - Ali vão duas dezenas Tocal1luma sarabanda. CAPACHO - Que os vimos todos,
como o Retábulo das Maravilha~: BENITO - Otourinho vai com o Jordão, Quando toca no rosto das de leões ferozes e ursos comedores senhor Benito Repolho.
pela virtude que nele se encerra, te diabo no corpo; malhado e danado; mulheres deixa-o de prata cinzelada, 1 de mel. Todo ser vivo que se defen- CAPACHO - Ai, meu avô! Como BENITO - Não estou dizendo que
30 conjuro, invoco emando que mostres se eu não me abaixo, voava. eao homens faz as barbas douradas. da, porque embora sejam fantásti- é antiga asarabanda ea chacona! não, senhor Pedro Capacho. Para
de tocar, músico de pesadelo, senão OFICIAL - Esta gente está louca!
te racho a cabeça. Que diabo de donzela éesta? Eque DOS JORNAIS r um dos participantes negará que aprendeu e lucrou bas-
I tante durante a semana do festival. E no entanto tudo
baile e que Tonionelc? indica que esta primeira edição do Festival da Fenala foi
Volta o Oficial. CAI'ACHO - O que? O senhor
oficial não vê adonzela Herodiádes?
Itambém a última: o próprio Conselho Diretor da
! Federação, no documento final extraído de uma série de
reuniões diárias, manifestou-se "contrário à realização de
OFICIAI: - Como é, já estão pro:1-II OFICIAL _ Que diabo de donzela
tos os nlojamentos? Os cavalos cstao devo ver? festivais de qualquer natureza eem qualquer nível, enten-
chegando ao povoado. ..
BRASIL dendo-se com isto que a Fenata não deve incluir entre
.. CAPACHO - Chega: de ex lllLY es. seus objetivos, prioritários Oll não, a realização de festi-
BENITO - Oque? Tontonelo lll- _ e, r
siste nas suas? Pois eII me desforro, JOAO - Eum deles, e um deles TEATRO AMADOR vais; contrário II realização das chamadas mostragens de
espetáculos, se para realizá-los for necessário qualquer
Autor de (llmaças e de invencioni- seilhor oficia1.
tipo de processo seletivo; afavor do livre intercâmbio de
ces, vais me pagar! OFICIAL _ Sou do diabo que os grupos, que deve serincentivado por todos os meios dis-
CHANFALLA - Sejam testemunhas carregue; e por Deus vivo, que ~e
de que oAlcaide me ameaça. boto a· mão na espada, faço-os satr
oVíCIO DA COMPETIÇÃO NUM poníveis, para que se alcance um dos objetivos básicos do
Teatro Amador, que é a troca de experiências".
.
QUlRlNOS - Sejam íestemunhas
pelas janclas em vez das parlas.
...
FESTIVAL DE PRÊMIOS Esta resolução até certo ponto suicida revela pelo
de que oAlcaide diz que oquc man- CAPACHO - Chega: de ex zl/Is es. menos uma verdade: oFestival, que desde oinício incluía
da S. Majestade é osábio Tontonelo REMITO _ Chega: éum deles, já insistentemente entre as suas intenções o propósito de
quem manda. que não vê nada. não ser competitivo, acabou gravemente intoxicado pelo
Um encontro insistentemente anunciado como não vcneno do cspírito de competição. Ofato de que no encon-
BENlTO - Tontoneleada te vejam OFICIAL _ Canalha confiada: se competitivo acabou intoxicado pelo espírito de competi- tro final de Fortaleza não estava em jogo nenhum prêmio
maus olhos, tomara a Deus Todo- me chamam outra vez de um deles, ção, a ponto de um grupo impetrar mandado de segu- enenhuma classificação não constituiu proteção eficiente
Poderoso. não lhcs deixo um osso inteiro. rança, por se achar prejudicado. Foi este o clima do contra oveneno, que se alastrou pelo organismo desde as
OGOVERNADOR - Para mim, es- BENlTO - Nunea os herejes ou primeiro Festival Brasileiro de Teatro Amador, promo- eliminatórias estaduais e regionais, e cuja dose foi vio-
ses soldados devem ser de verdade. i os bastardos foram valentes; por isso vido pela Federação Nacional de Teatro Amador e en- lentamente reforçada pela bem intencionada criação do
cerrado a 15-11-75, em Fortaleza. Generosas verbas do prêmio MEC, que atribuiu um auxílio de CrS 30 mil a
OFICIAL _ De verdade? E como não podemos deixar de dizer: és um MEC/SNT, organização efeciente da Secretaria de Cul- cada um dos sete espetáculos classificados nas respectivas
não haviam de ser? Osenhor Gover- deles, és um deles. tura do Ceará, sete espetáculos (das sete regiões,repre- regiões. Também o, em princípio, democrático sistema de
nadar está no seu juizo? OFICIAL - Pelo corpo de Deus, sentadas) e algumas conclusões. Entre elas a de que o julgamento adotado nas eliminatórias, tom os próprios
JoÃo - Bem podiam . ser atonto- esperem! teatro amador só consegue ser convincente na medida em diretores dos grupos concorrentes assumindo o lugar do
neleados; como as outras coisas que . que seu trabalho deriva da realidade imediata da região júri, não se revelou ideal, e em alguns casos contribuiu
vimos aqui. Pela vida do Autor, que Pega a espada e. saz espetando em que éfeito. Quando os artistas se afastam dessa rea- muito para a criação de atritos. Resultado: muitas elimi-
,,
faça sair outra vez a donzela Hero-I todo lllundo. OAlcazde eSlllurra RA- í lidade, as falhas e as inexperiências tornam-se gritantes. natórias estaduais e regionais viraram uma luta de foice
díades, para que veja este senhor o BELlM e Q~lRINOS desprega o pano .pela classificação, easombra desses conflitos projetou-se
que nunca viu; talvez com isto osu- de rundo, dzzendo: Creio que nunca houve no Brasil um festival como pesadamente sobre o não competitivo encontro final no
bornemos para que se vá depressa este, reunindo sete grupos selecionados através de uma Ceará. Ocaso mais dramático foi o da 2~ Região, que
do lugar. QUlRINOS - Foi o diabo ter to- vasta e, em tese, bem concebida rede de eliminatórias reúne os Estados do Maranhão, Piauí e Ceará: no festi-
CHANFALLA - Num instante; ei- cado a corneta e terem chegado os estaduais e regionais do extremo Sul ao extremo Norte val regicnal houve um impasse insuperável entre um grupo
-la que volia;-e faz sinais ao seu soldados; parece que foram chama- do País, para apresentação não competitiva dos seus espe- maranhense eoutro cearense que eram os candidatos mais
acompanhante para que volte a dan- dos com campainha. táculos, acompanhada de cursos, seminários e reuniões, fortes à classificação; uma nova votação, realizada já
çar com ela. CHANFALLA - Osucesso foi ex- com participação de especialistas convidados pelo SNT. durante oFestival de Fortaleza, deu ganho de causa ao
traordinário; a virtude do Retábulo Aparentemente, tudo correu bem: a programação grupo do Maranhão; o grupo do Ceará, inconformado
SOBRINHO - Por mim não ficará ficou provada e amanhã poderemos
parada, é claro. foi cumprida rigorosamente, aorganização foi muito satis- com oprocesso adotado, impetrou mandado de segurança,
mostrá-lo ao povo; e nós mesmos fatória, os contatos dos amadores entre si ecom os profis- finalmente indeferido pela Justiça local.
BENlTO - Isto, sobrinho, cansa- podemos cantar o triunfo desta ba- sionais convidados foram amistosos e proveitosos para Por vários outros motivos, tais como falta de apoio
-a; voltas e mais voltas; por Deus, talha, dizendo: Viva Quirinos e todos, ahospitalidade cearense, osol e as praias de For- das autoridades locais eprecária organização local, alguns
12 que a rapariga é um azougue! Chanfalla! taleza criaram um quadro agradabilíssimo. Creio que nem Estados deixaram de promover seus festivais estadmiis;
outros deixaram de se fazer representar nas eliminatórias riências ementalidades regionais pode compensar oinevi· ..,.,.. prejudica amaioria das encenações parece ser asua exes- de origem, esim para a organização pelo SNT de cursos
regionais. Em decorrência de todos estes fatores, não se tável tributo da aceitação de um critério seletivo. Contan- siva prolixidade: os jovens diretores, tanto os mais como de teatro para todos os amadores da cidade de Lajes.
pode afinnar que os sete espetáculos presentes em Feria- to, éclaro, que esse critério seletivo seja assu~ido com .a os menos criativos, não sabem dosar eselecionar adequa-
leza representaram um mostruário válido do melhor teatro naturalidade eo fairplay que faltaram em mUltas das eh- dam.~nte os impactos,e as ênfases, e acabam produzindo I 3~ REGIÃO (PARAíBA, PERNAMBUCO,
amador que se faz pelo Brasil afora. Mas acabaram repre- minatórias do certame encerrado em Fortaleza. frequentemente espetaculos sobrecarregados e supersatu- ALAGOAS, SERGIPE E RAHIA)
sentando, através mesmo da sua tremenda desigualdade Oque torna oproblema particularmente difícil, no rados.
de nível, uma coisa no momento da maior importância: nosso caso é a imensa extensão territorial do Brasil, OSol Feriu aTerra e ii Chaga se Alastrou, texto
arealidade, nem sempre.sOlTidente, da organização alean- que torna 'elevadíssimos os custos de qualquer festival Pequenos comentários sobre os sete espetáculos vis- e encenação de Vilul Santos, pelo Teatro Cultura de
çada pelo conjunto do teatro amador nas diversas regiões de âmbito nacional, sujeitando a sua realização às ver- tas em Fortaleza, na ordem em que foram apresentados, Caruaru, fez subir bruscamente o nível artístico e emo-
do país, pouco mais de um ano depois da criação da bas do poder público. Talvez por causa disso, foi muito ecom especificação das regiões que representavam. cional do festival. Emocional, porque dois atores espe-
Federação que se propõe a unir e coordenar todo esse criticada em Fortaleza aexcessiva dependência da Fenata rados num avião que chegaria pouco antes do início do
movimento, e dar-lhe novo impulso. Aliás, a própria em relação ao SNT. Também neste caso pareceu existir espetáculo acabaram não vindo, eogrupo assumiu ocora-
Fenata sabia muito bem que com tão pouco tempo de certo grau de desinformação por parte dos próprios gru- 7ª REGIÃO (GOIÁS, BRASlLIA, MATO GROSSO) joso desafio de apresentar-se assim mesmo.
funcionamento asua estrutura não poderia estar suficiente- poso Sem dúvida, o Festival só foi possível graças ao
mente implantada para garantir arealização de uma amos- OGrupo Ariano Suassuna de Brasflia transfonnou Artístico, porque o espetáculo veio comprovar a
dinheiro do MECjSNT, eéaté provável que mesm? para
tragem cem por cento representativa do melhor teatro a pequena jóia que é O Vaso Suspirado, de Francisco verdade de que os amadores conseguem superar oseu des-
as suas atividades rotineiras, fora de qualquer festIVal, a
amador órasileiro; eque no m~'(imo conseguiria fazer - Pereira da Silva, num longo epesado ritual apoiado em preparo técnico einformativo quando falam dos preble-
Fenata continue dependendo dessa mesma fo.nte fi~an.ceir.a.
como de fato fez - uma amostragem - levantamento Mas averdade manda dizer que oSNT nao se ImISCUIU quase permanente acompanhamento musical einsistentes mas do seu dia-a-dia, numa linguagem que lhes éfamiliar.
dos problemas do teatro amador brasileiro. nos detalhes da realização. Se houve falhas, se houve marcações procissionais, com os já desgastados chavões Apeça, sem ser propriamente literatura de cordel, usa
Quanto ao repúdio manifestado aos festivais em excessos de burocracia e acirramento do espírito de,co?1- anticlericais, como cena de paramentação do bispo, etc. uma versiEcação eurna fantasia poética próximas do cor- ...
geral, aidéia certamente não édesprovida de fundamento. petição, isto. decorreu de normas ~do~das pelos propnos Olado positivo da direção consistiu na corajosa renúncia dei, para contar asingela história de um grupo de retiran- -i(
Para que existam festivais nacionais, terá de existir sem- dirigentes da Fenata, que nada mas sao do que represen- aqualquer re~onalismo nordestino, oque permitiu evitar tes que interrompem sua caminhada para fundar a sua "I
;~

pre algum tipo de seleção qualitativa, que nunca deixará tantes eporta-vozes de todos os g~pos filiados: E talve~, ainautenticidade que resultaria da falta de intimidade dos cidade-paraíso, que acaba arrasada pelas forças marginais ~
de ser um elemento até certo ponto desagregador. Por em última análise, os grupos esteJllm se sentmdo mas jovens de Brasília com acor local segerida pelo autor. A da regmo, as quais, por sua vez, terminam por se dilacerar '~,

outro lado, não há dú,~da de que oelevado investimento paternalizados pelo SNT do ~ue de fato osão: interpretação e a cenografia, dentro de compreensíveis entre elas. Aencenação étocantemente simples, sem fol- i
necessário para arealização de um certame dessa enver- E os espetáculos? DepOIS do segundo dia, as pers- limitações, estiveram num nível satisfatório. Mas, empos- c1orismos inúteis, projetada para ocoração de cada espec- 'l

gadura poderia ser mais utilmente canalizado para ofor- pectivas pareciam quase catastróficas. Aseguir, as coisas tada num tom excessivamente pomposo e confusamente tador pela carga de verdade que os jovens de Caruaru
talecimento da infra-estrutura do teatro amador. Oque melhoraram bastante, eobalanço final das sete apresen- crítico (todas as forças em jcgo sendo unifonnemente colocam em tudo que cantam, dizem efazem. Uma dosa-
me parece discutivel nessa condenação tão radical dos tações deixa um saldo razoavelmente satisfatório. Em condenadas ecaricaturadas), apeça perdeu grande parte gem mais seletiva das ênfases tornaria oespetáculo menos
de sua graça eespontaneidade. caótico; mas asua generosidade é comovente.
festivais éa atdbuição de quase toda aresponsabilidade todo caso, três conclusões parecem impor-se r com toda
pelos atritos, que surgiram ou repercutiram em F0l1al~za, clareza. Em primeiro lugar, oteatro amador so consegue
4~ REGIÃO (MINAS, ESPíRITO SANTO
apenas ao princípio de existência de uma seleção quallta-
tiva. Pateca-me que esses atritos se deveranl em vários
ser convincente, na forma eno conteúdo, na medida em , . 6ª REGIÃO (PARANÁ, SANTA CATARINA E ESTADO DO RIO)
que deriva oseu trabalho da realidade imediata ecotidiana I
E RIO GRANDE DO SUL)
casos muíío mais à exacerbada vaidade ou imaturidade da re~ão em que é feito: os espetáculos conce?idos a Mais uma região que não conseguiu realizar regular-
emocional dos próprios grupos, ou então à insuficiente partir de tal realidade souberam superar, com o Imp~ct.o OGrupo Diocesano de Lajes, Santa Catarina, ganhou mente oseu festival regional, ao qual não compareceram
capacidade de organização das bases regionais da Fenata. da sua autenticidade e sinceridade, todas as paSSIveiS a viagem a Fortaleza graças à desistência dos grupos
Etalvez tenha faltado ao Conselho Diretor da Fenata, nas os grupos do Estado do Rio nem do Espírito Santo. Mas
falhas de ordem técnica etoda asua inexperiência, enquan- gaúchos eparanaenses. Asua montagem da incrivelmente oespetáculo escolhido, Pelos Caminhos de Minas, de O
deliberações que olevaram a essa conclusão radical, um to essas mesmas falhas se tomavam gritantes nas encena- rançosa peça Os Deuses Riem, do romancista J. A. Cronin,
adequado volume de infonnações sobre a importância Grupo (antigo Teatro Experimental) de Belo Horizonte,
ções que abordavam problemas mais afastados da viyên- é uma coisa indescritível, desprovida de qualquer noção representou bem a re~ão. Trata-se de um espetáculo
histórica dos festivais (ou qualquer outro nome que tais cia diária dos jovens artistas. Em segundo lugar, ficou do que possa ser o teatro nos dias de hoje, e tomada muito bem acabado, sem nenhuma conotação pejorativa
reuniões possam ter) para odesenvolvimento eadinallli· flagrante a diversidade de conceitos e níve!s de trabalho particularmente chocante pelo acréscimo de um sennão do amadorismo. Retomando eenriquecendo aidéia geral
zação do teatro amador (ou do teatro jovem, ou do teatro abran~dos pelo rótulo de gl'llpo amador: V11l10S e?1 ~or- final, diante do qual acatequese do padre Anchieta asSil- de Oh, Minas Gerais, o autor, diretor e intérprete Jota
não empresarial, ou do teatro experimental) em vários taleza um espetácuJo tipico de teatrinho de colégIO íníe- me ares de vanguarda ecaracterísticas de grande sutileza. Dangelo realizou um inteligente, bonito edivertido canto
países - sobre tudo do Terceiro Mundo - teatraltnente riorano mas VinlOS também um que faria tranqüilamente Enfim, um autêntico teatrinho de paróquia. No debate de amor àsua terra. Aencenação, valorizada pelos exce-
mais evoluídos e inquietos do que oBrasil de hoje. A bela ca~reira comercial em qualquer teatro do Rio e de após oespetáculo sur~u aidéia de sugerir neste caso a lentes figurinos de Raul Belém Machado, é viva eexata,
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prática parece ter demonstrado nesses países que obene-
fício de um amplo confronto, em âmbito nacional, de expe-
São Panlo e conquistaria possivelmente alguns prêmios
no fim do ano. E, finalmente, a constante estilística que
-l utilização dos Cr$ 30 mil do prêmio MEC não para a
realização de 20 apresentações do eSDetácul0 na sua re!!ião
I ainterpretação émuito competente e comunicativa, eem
. todos os aspectos da realizacão aparece uma exneriênds
teatral e um nível de informação muito superiores aos sublinha ironicamente o patético desse lempo de espera PARAGUAI ?icamente sem se perturbarem. Em primeiro lugar, a
que caracterizam otrabalho dos outros grupos presentes. é fornecido pelo serviço interiorano de alto-íalaníes, a mteração das duas línguas deu como resultado uma ter-
Assim mesmo, osaldo final nos deixa com leve sabor de romper o vazio do silêncio. De repente, a monotonia é ceira. - o jopará - mistura híbrida de ambas, que pre-
frustração, na medida em que oespetáculo abdica da sua tonada por um incidente: a mulher sente as dores do
parto, a parteira entra em cena, ofilho nasce morto, a
GRUPO DE TEATRO ATY-NE'E(*) domma fundamentalmente nos núcleos urbanos e subur-
bano~. En: segundo lugar, a situação se caracteriza por
esboçada intenção crítica, enos mostra Minas como uma
espécie de sorridente paraíso, cujos pequenos defeitos só mocinha aproveita-se da confusão para fugir com um uma msasan permanente de ambas, com prejuízo funda-
contribuem para reforçar, pelo exótico, oseu encanto. chofer (personificado apenas pela sonoplastia do ruído mentalmente para oguarani-língua popular por excelência
do motor). Otempo de espera, mortalmente lento, mcnó- -:- qu; apesar de ser majoritária, tem desvantagens pela
tono esem seníido, recomeça. Apequena lranche de vie, sltuaçao de. "segunda língua" e de "inculta" em que vem
1~ REGIÃO (PARA, AMAZONAS
aparentemente antiquada no seu naturalismo, produz atuais sendo confmada desde os tempos coloniais, mar~naliza-
E TERRITÓRIOS)
e legítimas ressonâncias gorkianas e beckettianas, filtra- At)'-I~e'~ surge como grupo teatral em fins de 1974. da na produção "cultural" e"intelectual" (escolas univer-
OTeatro da Universidade Federal do Pará, integrado das através da evidente sensibilidade de AIdo Leite, dire- Aprcceíêrcia de seus integrantes é o Teatro Paraguaio sidades, centros, meios de comunicação direito'cinema
por alunos do seu Curso de Interpretação, classificou-se tor e autor do roteiro. Oclima ésufocantemente denso, Illdepel;dellte, ~lOvimento integrado por grupos que há teatro eíc.), ficando reduzida ao âmbito'família; e comu~
para Fortaleza com uma teatralização do poema Cobra otempo eogesto muito exales, aexecução quase brilhan- um~ decada vem b~scando o caminho para um teatro nal assin; como às manifestações culturais populares (fol-
Norato, de Raul Bopp, elaborada eencenada por Cláudio te na sua grande simplicidade. É inegável, porém, que se nacIOna~ que abranja todos os setores majoritários da clor~, m~os, contos elc.). C~da vez mais ameaçada pela
Barradas. Os preparativos consumiram 11 meses de ensaio, trata de uma experiência de linguagem que se esgota em ,:'".
populaçao, que corresponda em sua temática ecom asua dommaçao do castelhano, IU1gua em que o paraguaio
eovolume de trabalho que aparece por trás da realização si mesma enão abre caminho para uma continuidade de linguagem ao.s setores populares usualmente marginaliza- geralmente tem dificuldades de expressar-se e cada vez
é fantástico. Impressionante, também, é o preparo cor- trabalho. dos dos canas da cultura e da arte. Oobjetivo principal mais acossada pelas necessidades do auarani falado de
poral dos estudantes paraenses, e a inventividade coreo- do grupo, porta~to, .é elaberarum teatro que tenha alcance i~corporar o espanhol continuamente ;m sua comunica-
gráfica do diretor, que traduziu agigantesca lenda amazô- 5~ REGIÃO (SÃO PAULO) pop~lar, o~ue inplica numa busca de uma linguagem que çao ~e~tro de determinados níveis sociais inevitáveis (o
nica para um monumental shaw de expressão corporal, esteja enraizada na cultura popular paraguaia. conerac, as relações oficiais, a política, os meios de
As Al'enluras de Ripió Lacraia, de Chico de Assis,
no qual os atores desenham exclusivamente com seus cor-
revela a sua ultrapassada inocuidade a quem assistiu ao . ~ste obje~ivo. ?ão é simpl~, nem basta como pro-I comunicação, ofutebol).
pos as luxuriantes imagens do poema. Oespetáculo, de posçao para justficar uma atitude. Identificar-se com
uma feitura brilhante dentro da sua linha, acaba, porém, seu lançamento em ]963, mas parece servir bem aos pro-
pósitos do Teatro de Arte de Santo André, que se dirige uma cultura popular significa, em primeiro lugar, aproxi- Necessidades de illvesligação
pagando um pesado tributo ao seu gigantismo e prolixi- mar-se dela ever, analíticamente, oque há nela de autên-
dade: antes de atingir ametade dos seus 100 minutos de aplatéias operárias virgens em matéria de teatro. Oespe- tico ~ oque foi imposto por um sistema de comunicação Esta conjuntura particular que funciona desde a
duração, osofisticado formalismo das imegens começa a táculo tem um certo desembaraço alegre, ehá alguns talen- que e ~eralmente alheio à problemática e às formas de época da colô~a, a supe~osição de duas Iínguas e dois
se desgastar, ase tornar monótono, asobrepor-se hipnoti- tosos ateres no elenco, mas a direção de Jonas Bloch é expressao .~opulares por estar manipulado por grupos espaços cul~raIs, em detnmento da expressão popular,
camente ao texto, eaacusar aausência de raízes propria- pouco inspirada, bastante monótona, e se revela geral- urbanos elItIstas. tem caractenzado um processo de deterioração edestrui-
mente pouco capaz de traduzir as aventuras do popular
mente dramáticas do poema. Isto significa desde já um começo das necessidades I çã~ progressiva da.língua e da cult?ra vernácula. A cul-
herói em imagens de impacto, suscetíveis de atrair esus-
que ~e impõem. Fazer teatro não éuna atividade criativa íura popular tem Sido :,ada :ez m~ls relega~~ einacessÍ-
tentar o interesse do espectador.
2~ relacionada com as necessidades ideoló~cas de seus inle- vel, desprez.ada como mamfestaçao menor .
I
REGIÃO (CEARÁ, PIAuI E MARANHÃO) , ,
Após criar um impasse quase insolúvel para oFesti- . JAN MICHALSKI grantes qu~ possam ser projetadas, mas uma forma de 1st? eXige de tO?O grupo que se proponha recuperar
val, essa re~ão acabou fornecendo um dos seus melhores b~scar ecnar apartir das pautas e dos elementos cu1tu- esse u?lverso e toma-I? CO~l~ base de sua produção, a
momentos teatrais, através da experiência da Associação ras dos setores populares, geralmente mar~nalizados do nece~sldade de estudo slstem~tIco que seja capaz de redes-
Maranhense de Artistas eIntelectuais intitulada Tempo de teatro edas ~o.rmas de expressão, de maneira aexpressar cobnr os elemen~os expreSSIV?s. que correspondam, não
Espera. Trata-se de um espetáculo sem palavras, mas que sua problematica com fidelidade. de uma pe~spec;l~a antropolo~lca e enciclopédica, mas
não éum míncdrama, éteatro mesmo, um teatro de ges- como matenal basIco para acnação. Revalorizar eincor-
por~r ao teatro os elem~ntos desse sistema de expressão a
tos eclimas expressando ações em que qualquer palavra Problema da Lillguagem
. seria redundante. Estamos no interior de um casebre iníe- partir de uma perspectiva que possa servir como mobi-
riorano, onde uma miserável família cumpre, com uma " Se a d~v!nculaç~o e~~reJa cul;ura "culta" ea"popu- lização desses valores. Devolver as ezpresões artisti-
lentidão esmagadoramente verdadeira, omonótono ritual lar na Amenca Laíina ja e notavel no Paraguai essa cas ao seu campo original: formas de expressão de um
do seu cotidiano: ohomem tuberculoso agoniza na rede; ruptura se ;~ acentuada pelo problema da linguagem. Em povo e não ~anifestações de grupos que respondem a
A '

a mulher grávida executa os afazeres domésticos; ofilho s?a base socIO:c~lt~ral, a realidade paraguaia se canele- mteresses particulares.
volta do trabalho e prepara seu cigarro de palha; afilha ma pela conVlVenCIa de duas línguas - o guarani e o Em primeira instância isto implica em pesquisa de
recorta interminavelmente numa revista retratos de seus ,r:. espanhol - é uma relação difícil de caracterizar como campo~ elaboração teatral econfrontação permanente com
~h (r1nln~ P. ns nrende nas oaredes. Ocontraponto verbal que I I
bilingiie, isto é: em que as duas línguas convivem harmo- opublico aque se dirige ogrupo.
,
Experiência do gJ'llpo em formação. Neste momento, sobre trabalhos práticos .,.,- uma forma de conscientizá-la sobre os problemas desses 1apoio em ~ampanhas educativas, Como um element~ de
concretos, realiza-se aavaliação geral, com um dos inte- grupos, confrontaçao para oespectador. Os elementos extraIdos
Tomando como base alíngua guarani, ogrupo rea- grantes de Aty-fie'e. I da cultura popular tomaram na representação uma nova

lizou, em colaboração com odramaturgo A1cibiades Gon- O Teatro como Forma de Expressão dinâmica, uma perspectiva enriquecedora para devolver-
zales Delvalle, sua primeira obra dentro dessa linha: Yvy Por outro lado, realizaram-se atuações em 7comu-
nidades (Carlos Pfannel, Leiva'i, Takua-ICorá, Arroyo -lhes ao ctiador original, num processo de reavaliação
refio)' (O que brota da Terra). Aobra apresenta casos Desde as origens da cultura americana, oteatro surge desses valores,
populares com um personagem típico paraguaio, que reco- Moroti, Tororó, Cecilio Baez. San José), etrabalhos de como uma fOlma "natural" de expressão. Desde as comu-
lhe e distribui informação peles povoados (el complles- prospecção. Essas atuações (funções) se realizaram em nidades indígenas e seus rituais e festejos até a festa
tero) acompanhado de sua guitarra eahabilidade narra- colaboração com grupos da re~ão, integrando, além da camponesa, a máscaFa como elemento caracterizador, o Sistematização do Estudo Teatral
tiva. representação teatral, pantominas, música e canto, reali- mascaramento, arepresentação, surgem como um jogo e
zados conjuntamente com os companheiros da cidade de como uma fonna de expressão do homem. Enfrentar estas propostas implica num grau de pre-
Aobra estreou na localidade de SanJa Maria, numa Oviedo e artistas da comunidade. Postetiormente houve paro, elaboração e investigação sistemática do teatro
São vários os elementos que permitem isso. Talvez
escola agrícola onde estudam jovens de todo opaís. Pos- debate sobre teatro e suas possibilidades como meio de' como forma de expressão ede seus mecanismos erecur-
os mesmos que foram desvirtuados no continente desde a
teriormente, foi apresentada na Terceira Mostra Paraguaia comunicação e instrumento de diálogo. sos. Aty-fie-e se propõe fonnar, portanto, um grupo de
otigem do teatro comercial importado. Vátios atores dsli-
de Teatro (encontro que se realiza anualmente em Assun- estudos ede investigação sobre oteatro eoutras discipli-
mitam um espaço; dentro desse espaço seus corpos se
ção) eem bairros da capital ediante do Conselho Indígena
do Paraguai. CAAZAPA: Aconvite da escola agrícola de Caazapá, I
,;0,
converterão no elemento mais útil à imaginação que se
tenha criado. Oespectador verá surgir diversos elementos
nas que
análise,
possam
com um
conttibuir
programa
aenriquecer as perspectivas de
que inclue, atualmente:
ogrupo se locomoveu durante cinco dias para essa cida-
Desde odia 29 de agosto, ogrupo se transferiu da de, onde realizou em pequena escala o mesmo tipo de de sua realidade inventados pelo jogo dos gestos, da ação
cidade de CeI. Oviedo (capital do departamento Caagua- trabalho, como forma de iniciar as atividades nessa zona a) análise de obras
física, do movimento teatral, Quase não faz falta outro
zú) cOlllddados pela Muestra Ovetenre de Teatro, para edesenvolver um programa mais extenso em outra etapa fatoro b) formação do atol'
aescola agrícola Carlos Píamel ealgumas comunidades do projeto. Oteatro está perto, éreal, pode alcançar-se com a c) estrutura dramática eformas teatrais. -i;
do interior. Ogrupo permaneceu durante um mês nessa mão, mas é também imaginação pura; é preciso criar
,~
;,.
região, tudo apartir desse 'realismo" desafiando arealidade ea quanto ao ponto de vista do teatro e:
--~
Teatro com os Indígenas ~
!t
ima~nação. a) lingüística geral
Desde sua criação, Aty-fie-e trabalha em colaboração f'"
com o Conselho Indígena do Paraguai, organismo que Estas características - proximidade, escassez de b) métodos de pesquisa de campo I
CORSOS recursos edesafio imaginativo, convertem oteatro em um J
reune líderes das comunidades aborígenes de todo opaís, c) etnofolclore
realizando experiências teatrais que correspondam aos elemento de comunicação essencial, sempre que se o
Durante os primeiros dias trabalhou-se na escola interesses das comunidades de unificar evalodzar as cul- devolva às suas origens, ao contrátio da tendência de isolá- apartir do ponto de vista da investigação que ogrupo
agrícola Carlos Pfannel, numa reunião de jovens campo- turas originárias do país econscientizar a sociedade em 10 nas salas, de fazê-lo cada vez mais pomposo eespe- se propõe em sua primeira -etapa. Para isto conta com
neses de diversas comunidades. Os integrantes do grupo geral sobre ovalor social ecultural desses grupos com o tacular. uma equipe de elaboração eplanificação com a colabo-
---se incorporaram aos grupos de trabalho, propondo du- propósito de conseguir terras para as comunidades elutar ração sistemática de alguns profissionais, assim como a
rante as sessões o uso de improvisações teatrais sobre pelo respeito de seu direito a viver de acordo com sua O Teatro Didático ajuda de técnicos que seriam convidados atrabalhar com
," ...
problemas apresentados. A partir daí, surgiram vários organização econômica, social ecultural. I
I ogrupo durante periodos de montagens epreparação de
grupos que começaram atrabalhar com essa técnica em Estas qualidades lhe outorgam um valor fundamen-
obras.
suas comunidades. Ogrupo apresentou ante o Conselho a obra Yvy
renal, com consciência de que em alguns aspectos apro-
II tal: seu caráter como instrumento didático. Enfrentar um
espectador com um problema que, ainda que já oconheça
Dentro do mesmo trabalho, realizou-se em CeI. blemática camponesa eaindígena são seinelhantes. Apre- i: talvez, por meio da arte da síntese eda deformação que Projeção
Oviedo com os diversos grupos em formação eno núcleo sentou também aobra curta Taangá nande )'py cue (Ima- permite aelaboração teatral, dar-lhe uma nova perspecti-
da Muestra Ovetense de Teatro, já com experiências de gens de nossas origens) que apresenta aproblemática que va, outorgar-lhe uma dimensão nova que permita vê-lo Durante os últimos aI10S oteatro tem se recuperado
mais de um ano evárias montagens. Este curso, que já esses grupos enfrentaram através da h~tória, com maior riqueza, com mais clareza. Oespectador reage ~omo forma de expressão, dentro desta mesma linha
se iniciara no seio da Muestra Paragllaya de Teatro, rea- OConselho convidou ogrupo aintegrar-se em algu- aí mesmo, diante do criador, que já não éohomem ds- que ogrupo se propõe hoje, em diversos locais do conti-
lizou-se a~ível intensivo (3 horas diárias ,du~an~e 3sema- mas das comunidades para trabalhar com duas finalidades tante de outras formas artísticas, mas que está àsua frente, nente latinoamericano. OParaguai não está alheio aesse
nas) e nas apurado eacabado quanto atecmca, principais, ode incorporar oteatro como uma forma de em presença de sua técnica eexpressa seu sentimento. Aí movimento. Vários grupos têm representado omo\rymen-
Oobjetivo do mesmo foi integrar oconhecimento e expressão (originsl no caso de muitas comunidades, que já se vê refletido. Oteatro permite produzir neste momento to nacional em encontros americanos,
odiálogo. Acomunicação não éunilateral.
a experiência desses participantes dentro de um marco I opraticavam anteriormente eainda ofazem de certa for-
mais esíriío que lhes permita se converterem em monito- ma) eutilizá-lo incorporando elementos da cultura indí- I AMllestra Paraguaya de Teatro realiza anualmente
É este um sentido fundamental de sua utilização, festivais desde 1973, reunindo elencos do interior e da
3& res para manter oassessoramento aos grupos do interior [ gena, efazer um teatro diante da sociedade em geral como r r
como em muitos países já se faz, como um recurso de I capital. Os integrantes de Aty-fie'e são criadores einíe-
I
grantes deste movimento junto com outros grupos de Organização, estruturação eanálise I
..,- POLÔNIA
Ass~nção. Est~\ .exposição at,u~u como gerador, ~endo O material que será arquivado, será estudado e
realizado nos ultllllOS anos vanos cncontros teatraIS e,m I analisado de acordo com o código de estudo pre-estabe-
diversas cidades do país. Em colaboração com a MPf, jlecido, de íornar a obter uma estruturação sistemática
ogrupo. está envolvido em un~ tra~a~ho d.ea,ssessoramen- por nívei~ ~ tipologi~s. ~erá cstuda~o com aparticipação
te e cursos para grupos do intcrim ,do, p~IS qu~, pel~s de espeCIalIstas e tecmcos dos diversos campos, para
oBAILE DOS MANEQUlNS
teatral.
I
condições gerais, têm pouco acesso a tecmca e a tcona uma possível publicação dos materiais considerados vá-
lidos no primeiro momento. Essas publicações serão íei-
Nesses cursos se desenvolverá oprograma de estudo tas segundo dois critérios:
de investigação que ogrupo vem realizando, assim como
a experiência de seus integrantes e colaboradores da a) materiais válidos para oestudo sócio-cultural da OTeatro Ateneum abriu a temporada 1974/5 com
MPT para apoiar o movimento de teatro nacional. realidade nacional apeça de Bruno Jasienski, OBaile dos Manequins. Faz
b) materiais com possibilidades de ser dramatiza- parte de uma séria de peças montadas nesse teatro para
dos para possíveis obras teatrais de Aty-ne'e ou outros apresentar aliteratura dramática polonesa de entre-duas-
Investigação eEstudo da Cultura Popular grupos, com temática eexpressão ajustados às pautas da -guerras. Apeça de BJ, que só foi montada na Polônia
cultura popular. uma vez depois da guerra merece ser relembrada. Pode-
Projeto: ICA ATY-NE'E
-se admirar ao ler o cartaz: traduzida por Anatol Stern.
Pelo seu alcance, oprojeto de pesquisa eestudo da Publicações Uma peça de autor polonês teria necessidade de tradu-
cultura popular será realizado em colaboração com a ção? Sim, e a razão está no destino do autor. Nascido
equipe de pesquisa do Instituto de Comunicação de Arte. Dentro do mesmo campo, o grupo tem o projeto,
em 1901 em Klimontow, cedo abandona acasa paterna.
atualmente em sua primeira etapa, de publicar matéria
Apesquisa de campo prévia será baseada em dois de utilidade para os grupos teatrais do país em colabo- Começa seus estudos secundários em Varsóvia onde tenta
níveis diferentes quanto ao manejo da coleta de dados. ração com instituições nacionais e internacionais interes- a literatura e os continua em Moscou onde se forma.
Em primeiro lugar, um trabalho organizado na base de sadas no projeto. Atualmente, o grupo trabalha na sele- É aí que ele tem notícia dos manifestos futuristas. Estu-
um esquema lingüístico (para cujo manejo posterior os ção de obras do autor teatral Julio Correa, autor e dire- dante de Filosofia na Universidade de Cracóvia, funda
integrantes realizaram cursos sobre formas de pesquisa tor de um grupo ambulante que teve grande influência o grupo futurista "Órgão de Barbária", Liga-se ao mo-
vimento comunista e, em razão das repressões da censura
elingüística geral). durante as décadas de 30/40 em todo o país com um
e da polícia, abandona a Polônia por Paris em 1925.
Esse esquema cuidará de analisar os diversos cam- teatro em guarani. As obras inéditas com exceção de É aí que publica seu poema Narrativa para JaM Szela
pos semânticos em que se desenvolve um falante e em duas estão manuscritas eem péssimo estado atualmente, efunda um grupo recmtado entre os emigrantes polone-
que idioma os expressa: guarani, castelhano, jopara, ou- por falta de meios de conservação. ses, que oadapta. Em resposta auma obra anticomunis-
tros. Ao mesmo tempo, os dramaturgos Antonio Carmona ta e antisoviética de Paul Morand Je Bl'llle Moscou, ele
e Alcibiades Gonzalez Delvalle estão trabalhando na re- escreve o romance Je Bl'llle Palis, que {'HllInanité pu-
Pretende-se determinar com isto alinguagem predo- compilação e elaboração de "casos" e "lendas" caracte-
"( (*) O Grupo ATY-NE'E, integrado por ator~s, músicos, blica em fascículos. Como escritor comunista e membro
minante em cada um dos micro-universos sociais em que rísticas para dramatizá-las e publicá-las em obras curtas técnicos autores e diretores teatrais, para oseu Projeto 197~/6, do Partido Comunista Francês, Jasienski tem que deL'{ar
oindivíduo se desenvolve, eograu de diferença que pro- (em guarani e canelhaao), junto com a elaboração de recebeu' apoio do Instituto de Comunicação e Arte, d~ Projeto
duz na expressão ainteração das línguas que maneja. Marandú da Universidade Católica, do Corselho IDdlgen~ do a França. Dirige-se à União Soviética, a Moscou. Con-
um método de criação sobre esta base que possa suprir a fiàm-lhe adireção de Kullura Mas, revista publicada em
Paraguai, da FUDdação IDteramericaDa e da Mos.tr.a Paraguaa de
Detemúnar igualmente, o grau de influência que falta de obras adequadas e sistematizar a criação dos Teatro. Para cumprir seu projeto, o Grupo solídta o apol? de. polonês e de outra, quadrilingüe, Literatura Internacio-
têm os meios de comunicação nesse processo, assim como grupos que já trabalham no interior nessa mesma linha. pessoas e instituições interessadas, EDdereço: Grupo Projeto! nal. Preso em 1937, morre três anos depois em um
a imposição de uma língua (o castelhano em certas re- IATY-NE'E IDstituto de Comunicação e Arte - 25 de Mayo campo.
lações) ecomo afetam o desenvolvimento do indivíduo. 1836 - AssuDção Paraguai.
Em Moscou, em 1931, Jasienski escreve em russo o
Para esse estudo se partirá da base das pesquisas A TERCEIRA MOSTRA PARAGUAIA DE TEATRO Baile dos Manequins. Esta peça teria sido escrita em
relizadas sobre este tema até omomento no Paraguai. realizou-re nos dias 5a 13 de julho de 1975, sob opatrocínio da polonês, ainda em Paris: "Escrevi nessa época uma peça
Universidade Católica, com a participação dos seguintes grupos: grotesca, O Baile dos Manequins, parodiando a social-
Em segundo lugar, ogrupo se dedicará à tarefa de ATY-NE'E, do Teatro Popular de Vanguarda, do Grupo YAPAC, -democracia contemporânea'\ diz o autor. BJ tentava
gravação de anedotas, contos, lendas e mitos populares, da Companhia AteDeo Paraguaio Gente de Teatro, o Teatro
Laboratório, OTeatro Experimentat AsunceDo, o Grupo YVY-
criar uma farsa revolucionária para fazer rir aos operá-
assim como música e cultura material, recopilando os
PORA, DTestm Arte Acdcn, o Grupo YSAPY e o Teatro Po- rios às custas dos burgueses. Assistimos, então a um
40 materiais para uma auálise posterior.
pular de Vanguarda. baile de manequins no qual um homem entra por acaso,
, !

Ele tem que morrer para não trair o segredo de seus e recita-lhe poemas futuristas de Jasienski (idéia do di- t
uma máquina à qual estão presos elementos dos mane-
prazeres carnavalescos. Uma vez coríada sua cabeça, ela retor). Recita-os como papagaio mas.sna parceira sen-
'-(""~

! quins. OManequim 41 retira a máscara e convida uma MOVIMENTO TEATRAL .,


é designada ao Manequinm n, 41. No bolso do sobretudo te-se feliz. moça da platéia para dançar. Os outros manequins lan-
da vítima, esta encontra um convite para o baile em Obaile dos humanos parece-se com o dos mane- çam na platéia balões coloridos. Odesfecho é uma idéia
casa do sr. Amoux, proprietário de uma fábrica de auío- qeins; a mudança de cenário é insignificante, a música do diretor que de resto fez cortes em diferentes partes
móveis. Acabeça era a do deputado Ribandel, líder dos a mesma. Retiraram-se apenas os tapetes vennelhos das da peça. Uniu também alguns cenas numa única, valori-
sociais-democratas, que o industrial havia convidado cadeiras e viram-se as paredes: eles agora imitam papel zando olado cômico da obra. Aprimeira parte, ampla-
para o baile esperando que ele preveniria a greve dos pintado verde-cinza com motivos dourados. Apliques em mente estruturada, sofreu uma certa falta de ritmo, mas outubro-novenlbro-dezembro-1975
operários de sua usina. Certo, oManequim, guiado pelo forma de buquês de flores estão presos às paredes. Um oferece aexposição necessária à 11 parte, que se caracte-
bom senso e ignorando as regras do jogo) introduz uma brouhaha confuso de conversas e de música vem de de- riza por ritmo rápido e comicidade. Admira-se a esee-
grande confusão no meio dos magnatas das finanças. trás das portas-paredes. Os humanos são representados lente solução dos problemas técnicos do duplo papel do
Não só embaralha os negócios político-financeiros como pelos atores que fizeram os manequins com a única di- atol' que representa omanequim e o deputado. Esse es-
também suas observações demasiado francas chocam as Ierença de que os homens usam smokfllg perfeitos enão petáculo usa oprincípio do espelho deformante tão esen-
senhoras e seus maridos. Quando se torna iminente um usam aqui a caracterização de máscaras. As mulheres cial àpeça. Manequins que se parecem concseo, homem TEATRO DE BOLSO
duelo, o deputado verdadeiro chega e é com .alívio que usam as mesmas toaletes dos manequins. Mas os sorri-
oManequim se livra da cabeça do homem. sos são cheios de afetação como também os gestos for- I
.......
que parecem manequins, um manequim que aspira à
natureza humana entre homens que são manequins. Um
(Tel. 287-0870)
Vejamos oespctáculo. Na sala, à entrada, dois ma- çsdos e tensos. OManequim introduz um artifício natu- i espetáculo que diverte eqne conduz areflexões não mui-
OTempo eOs COllways, de 1. B.
nequins vestidos de porteiros (que recebem os c01!vites); ral, os gestos desajeitados porovocam riso. Não menos I to positivas sobre o compOliamento humano.
Pristley. Direção de Aderbal Júnior.
na primeira fiJa de poltronas da orquestra estão sentadas diseríida é sua ignorância das regras do jogo em vigor Com Lurdes Meier, Maria Lucia
as mulheres-manequins em vestidos de baile vermelho nesse meio. Ou talvez não seja ele esim as regras éque MALGORZATA SWIERKOWSKA Dahl, Ar.gela Leal, Olegário Hclm- ;~
carregado. Acena representa o salão de uma casa pari- são ridículas? De vez em quando as pOlias-paredes se da, Amimar Rocha e outros. Preço i
siensc de alta-costura dos anos 30: espelhos, cadeiras abrem e vêem-se pares dançando. Durante as conversas 40,00. '~
estofadas de vermelho. As armações dos bastidores são, confidenciais, permanecem fechadas mas não totalmente, f
História do Zoo, de Albee, com ~
bem como o fundo, constituidas de muitas paredes deixando entrar as cabeças dos criados curiosos que es-
móveis de papefer-mal'ché prateado, de onde saem em alto cutam disfarçadamente,
Um outro tipo de comicidade que não resulta do
Jorge Fernando Rebelo, diretor e
adaptador. j
relevo pernas e braços, negros e ampliados, de bonecas. i
Manequins estão presos nas paredes. A luz se apaga, confronto dos maneqnins com os homens, se estabelece
ouve-se oruido da rua, businas, ruidos de pneus. Aluz, na cena com os dois delegados que \~eram à casa do
projetada do alto é ora cinza ora avermelhada; vêem-se deputado para as instruções. ODelegado I informa ao TEATRO BRIGITTE BLAIR
os personagens de pé em cena. Lentamente, ouve-se o jovem colega as regras de conduta política edo compor- (ex-Miguel Lemos)
tango Jadollsfe, acena se ilumina. Assiste-se ao baile dos tamento que deve ser adotado conforme a ~tuação. De-
manequins. Ocenário e as roupas dos manequins femini- pois da saida dos delegados, os criados espalham água- (TeL 236-6343)
nos são dominados pelos tons vermelhos. Os ateres usam -da-colônia na sala. Chega o momento culminante - o "
I
..
máscaras de tecido elástico, cor de carne, que velam seus duelo. OManequim permanece de pé, inquieto, após ter Bye Bye Pororoca, de Timochen-
traços ou, então, têm o rosto maquilado como mane- atirado em primeiro lugar. Ele procura expor a cabeça, ko Wehbi. Direção de Hugo Barre-
quins. Ê principalmente a caracterização do Manequim desejando que ela sirva de mira ao adversário, visto que to, com Brigitte Blair, Henriqueta
42,. seus gestos e mímica (principalmente a expressão se trata de uma cabeça que não é a dele. Mas eis que Brieba, Rita de Cássia, Raquel de
dos olhos, inteiramente desprovidos de qualquer expres- o verdadeiro deputado entra e o manequim se desem- Biasi eoutros.
são como se fossem de vidro) que causa admiração. Os baraça de sua cabeça. Em seguida, ele não pula pela
aíqres têm movimentos rígidcs, imitando os de mane- janela como quer apeça, mas com as palavras "Preciso
quins. Falam com pausas afetadas. Aconversa se desen- voltar ao baile dos manequins", desce aescada do pres-
volve no proscênio sobre o fundo do próprio baile com cênio donde parece dirigir o duelo do autêntico sr. Ri-
TEATRO CACILDA BECKER
pares que dançanl. Às vezes amúsica aumenta, marcan- bandel. Contudo, otiro não é ouvido, as portas se abrem (antigo Teatro do Rio)
do as mudanças de situação. Os manequins são mane· deixando ver os pares dançando. Sua dança acaba pouco (Tel. 265-9933)
quins mas aspiram à natnreza humana. Têm algumas a pouco por se assemelhar à dos manequins. OMane-
características humanas, que são marcadas pela direção. quim n. 41 declama poemas futuristas. Ao mesmo tempo
Ubll Rei. de Jarry, pelo Grupo
~2 OManequim mascnlino 41 interessa-se pelo feminino 35 desce na cena algo que lembra uma carcassa metálica de (The Theatre iI! Polaad n. 6/1975) Asdrubal Trouxe o Trambone..
netto. Com Paulo Goulart, Eloi'[ 1. ~ Cidadão - José Áureo' Vilhena TEATRO TERESA RAQUEL
TEATRO CASA GRANDE I TEATRO GLÁUCIO GIL ITEATRO MAISON '"'((~

(TeI. 227-6475) (Te!. 237-7003) IDE(TeI.fllANCE


252-3456)
Araujo, Renato DobaI e outros. 2°
. Cidadão - S'"erglO Shl' ;
c esmger
3.° Cidadão - Paulo Carvalho
(TeI. 235-1113)

O Vôo dos Pássaros Selvagens, ta Cidadã - Rosana Gofman Gota D'Água, de Chico Buarque
A Mandrágora, de Maquiavel. Di- OTABLADO P Cidadã - Cristina Rego Mon- e Paulo Pontes. Direção de Gianni
reção de Paulo José. Com Dina Sfat, de Aldcmar Conrado. Direção de A Cantada Infalível, de Feydeau,
Aderbal Júnior. Com Suzana Faini (TeI. 226-4555) teiro Ratto. Com Bibi Ferreira, Osvaldo
Thelma Restom, Paulo José Lator- direção de João Bettencourt. Lonreiro, Luís Unhares, Sonia Oiti-
e Nelson Caruso. Menina - Maria Clara Mourthé -
raca eoutros. cica, Carlos Leite, Isolda Cresta,
O Dragão, de E. Schwarz, Dire- Vendendor Ambulante - José La- Norma Sueli e outros.
ção de Maria Clara Machado, pelo vigne
TEATRO NACIONAL elenco do OTABLADO.
DE COMÉDIA Diretor de prisão - Paulo Carvalho
TEATRO COPACABANA TEATRO GLÓRIA
(TeI. 224-2356) 1.0 Lacaio - Paulo Motta
(TeI. 257-1818) (TeI. 245-5527) Tradução de TEATRO SANTA ROSA
2.° Lacaio - Ivan Rodrigues Alves
MARIA JULIETA DRUMMOND (TeI. 247-8641)
A Mulher de Todos Nós, de Mumu, de Mareílio Morais, Dite- Sentinela - Carlos Alberto Barreto
Reveillon, de Flávio Márcio. Di- Becque. Direção de Fernando Ter- ção de Flávio Rangel. Com Ida
reção de Paulo José - Com Regina res. Cenários eFigurinos - Luis Carlos Guardas - Roberto Petti e Luís Karla Valeu a Pena?, de Pedro
Gomes, Osvaldo Lousada, Julia Mi- Ripper. ' " Antonio Barreto Bloch. Direção de Maurício Sher-
Duarte, Iara Amaral, Sérgio Mam- randa, André Valli. Cenário de Gian-
berti, Enio Gonçalves e outros. Música - Cecília Conde, Lonrenço Povo - Monica Botafogo Jacob mano Com Natália Timberg. Herval
ni Ratto efigurinos de Kalma Mnr- Beatriz Ferreira Lessa Ana Cristi- Rossano, Neila Tavares, Carlos Bar-
tinho. Baeta eDavid Tygel
Iluminação - Jorge de Carvalho na Gomes Costa José Augusto rosa, Tamara Taxman.
TEATRO IPANEMA Arruda Neto Afronta ao Público, de Peter
TEATRO DULCINA (TeI. 247-9794) \ Elenco: Assistente de Direção - Milton Handke. Direção de Pedro Rangel,
(TeI. 232-5817) TEATRO oPINIÃO Dragão - Carlos Wilson Silveira Dobbin com Marta Viana, Sebastião Lemos,
I
I

OEstranho Casal, de Neil Simon, (TeI. 235-2119) Lancelot - Renato Coutinho Assistentes de produção - Sergio Sergio Fonta e Tania Maria.
EDeus Criou aVaroa, textos de
Auto da Compadecida, de Anano direção de Jô Soares. Com Gracindo Burgomestre - Germano Filho Azevedo da Silveira e Murilo Lima
Suassuna, direção de Agildo Ribei- I Júnior, Carlos E. Dolabela, Célia Mockinpott, de Peter Weiss, dite- Diretor de Cena - Carlos Wilson diversos autores, Direção de Roberto
Coutinho e Teresa Austregésilo. Elza - Snra Berditchevsky Cleto, com Maria Pompeu e outros.
roo ção de José Luis Gomes, pelo Teatro Silveira
Carlos Maguo - Marcus Toledo
de Arena de Porto Alegre, Cabeças de Dragão - Julia Van
Henrique - Bernardo Jablonski
OGato - Iouse Cardoso Roger
TEATRO DA GALEIRA TEATRO JOÃO CAETANO ,1 Dois Tecelões - Toninho Lopez e Contra-Regra - José Augusto Pe- ESPETÁCULOS INFANTIS
TEATRO DA PRAIA "(' reira, Gustavo Garnier Jr, e Os-
(TeI. 225-8846) (TeI. 21-0305) José Augusto Pereira
(TeI. 267-7749) mar Ferreira Jr. Papo de Anjo, de Ricardo Filguei-
OGrão-Mestre do Grêmio dos Cha-
Viva oCordão Encal'1lado, de Luiz peleiros - Milton Dobbin Eletricista - Roberto ras, no Gláueio Gil.
Vagas para Moças de Fino Trato, Bonifácio Bilhões, de João Be-
Marinho. Direção de Luís Mendon· Cartaz - Luis Carlos Ripper Era uma vez lima IIlw, de Paulo
de Alcino Araujo. Direção de Amir thencourt. Direção do autor. Com Ferreiro - Miguel Verro
ça. Execução de Figurinos - Betty Afonso de Lima, no Museu de Afte
Haddad. Com Maria Fernanda, Ioná Hildegard Angel, Armando Bogus e OGrão-Mestre do Grêmio dos Ar- Modema. Com Isolda Cresta, João
Magalhães e Débora Duarte, Coimbra
Lima Duarte. tesãos de Instrumentos Musicais ;... Carlos Barroso, Teresa Barroso e
Gustavo Garnier Ir. Execução de Cenários - Wagner outros.
Rodrigaes dos Santos eReginaldo
TEATRO MESELA As Amigas de Elza: Dr, Baltazar, oTalentoso no MllIl-
Moreira
TEATRO PRINCESA ISABEL do da Imaginação contra oDr. Drás·
TEATRO GINASTICO (TeI. 242-4880) Ana - Bia Nunes Costureiras - Mercedes, Itsla, Lur- lico, de Luis Gonzaga Jr. eNeila Ia-
(TeI. 221-4484) (TeI. 236-3724) Lídia - Guida Vianna des e Ediméia vares, no Teatro da Praia.
Um Padre àItaliana, comédia de Berta - Ana Lucia Paula Soares Direção Geral - Maria Clara Ma· Margarida Curiosa visita a Fio·
Gaiola das LOllcas, de Peiret, di, Pedro Berrem Direção de Antônio Orquestra de Senhoritas, de Jean
Jardaeiro.,« Osmar Ferreira Jr. '. chado resta Negra,. espetáculo de bonecos
reção de João Bethencoun. . Pedro. Anouilh. Direção de,Antonio Gigo-
pelo Carreta, no Teatro Casa Gran- Zé Vagão da Roda Fina e sI/a
de. Mãe Leopoldina, de Silvia Orto!, no Textos àdisposição dos leitores na. Secretai'ia d'O TABLADO
Bingo, oCoelho Xerife, de Bri~te Teatro Senac.
Blair, no Teatro Miguel Lemos. Os Músicos de Bremen, de Grimm,
As Aventllras de um Reizinho Me- no Teatro João Caetano.
droso pelo Grupo Fantasia, no Tere- Aman-Jean OGuarda dos Pássaros 64
sa RaqueL Anônimo (séc. 15) Todomundo 62
O Gato, o Rato e aPantem cor Andrade Oswald
de Abóbora, de Eliseu Miranda. AMorte................................. 52
Arraba! Fernando Piquenique no Front 54
O Burrinho Avançado, de Jair
Pinheiro, no Teatro Galeria. Guernica .. ,..... , , ,............. 50
Brandão Raul ODoido e a Morte 63
O Mamamuchi, de Ricardo FIl-
Brecht BertoIt AExceção e a Regra .,.................... 61
gueiras, no Teatro Louis Jouve!.
EM SÃO PAULO Cervantes OTribunal dos Divórcios 63
Dona Lua Quer Canção, de Paulo
"' .....
Afonso de Lima, no Teatro Dulcina. ORetábulo das Maravilhas 67
Foram apresentados os seguintes Cocteau Jean Édipo Rei ,.... 58
O Mundo Encantado de Papai
espetáculos: Checov Anton OUrso , ,............... 29
Noel, de Eliseu Miranda.
D. Lalá, a Ratinha Cantora, de Lição de Anatomia, de Carlos Ma- OJubileu................................ 46
Carlos Nobre, no Teatro Miguel Le- teus. Direção do autor, com Geraldo Os Males do Fumo 49
mos. deI Rei, Cacilda Lanuza, Imara Reis, França Júnior Maldita Parentela 55
Jujuba, Triguelim e a Montanha Betty Canso, Carlos Eduardo e Labiche Eugene
Raimundo de Matos, no Auditório A Gramática 47
Lilás, pelo Grupo Montanha Lilás. Macedo J Manuel ONovo Otelo 43
Augusta.
A História rTo Espantalho, no Os Executivos, de Mauro Chaves. Machado de AssÍs Lição de Botânica 61
Miguel Lemos. Direção de Silney Siqueira. Com Machado MC Os Embrulhos 47
Alice 110 País das Maravilhas, -de Beatriz Segall, Aridê Peres, Serafim As Interferências 56
Jair Pinheiro, no Teatro de Bolso. [- Gonzalez, Rubens Teixeira e outros
A Gata Borralheira, de Jair Pi-
\.1 no Studio S. Pedro.
Marinho Luiz
Um Tango Argentino
A Derradeira Ceia
57
59
---nheiro, no Teatro de Bolso.
Formiguinha Fofoqueira, de Car-
los Nobre, no Miguel Lemos.
Uj
,i
Jogo Sujo, de Mario Pratti. Dire-
ção de José Renato. Com Maria
della Costa, Jarde! Filho eHelio Ari,
... Martins Pena
Maeterlinck
As Desgraças de uma Criança
A Intrusa , ,.......
45
65
Maroquinhas Frufl'll, de MC Ma- no Teatro Maria delia Costa. Qorpo-Santo Eu Sou aVida 45
chado, direção de Wolf Maia, pelo Viva o CorrTão Encarnado, de Mateus &Mateusa .. ........................ 65
Grupo Expressão, no Teatro Opi LuizMarinho. Direção de Luis Men- Souto Almeida Inês OJogo da Independência 54
nião. donça, com Iolanda Cardoso, Gra-
Synge JM ASombra do Desfiladeiro 51
cinda Freire e outros, no Teatro
Branca de Neve eos 7 Anões, de Aplicado. Tardieu Jean Conversação Sinfonieta 48
Roberto Castro, pelo CarrosseL
OCaso de Walter eKate, de Clau- Um Gesto por Outro 64
Quem Quer Casar com D. Barati- dia Castro. Direção do autor, no Yeats OÚnico Ciúme de Emer 43
nha, de Roberto Castro. Tetro Popular. Wedekind Frank AMorte eoDemônio , ,......... 66
ChapeuzinllO Vermelho, de R(). Todos Por Todos, Um por Um,
berto Castro, pelo Carrossel. de Marília de Castro, direção da
Peteleco-Eco, de José Roberto autora com o Grupo Onze em Fa-
Acham-se esgotados os seguintes as dos CADERNOS:
46 Mendes, no Teatro Opinião. mília, no Teatro Arremeta.
T do fi.o 1/16-19/23-30 ao 42.
'." -----,._---.--

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Autora: MARIA CLARA MACHADO

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Estas publicações poderão ser pedidas à Secretaria
Pluf! (gravação) 20,00 d'O TABLADO mediante pagamento com cheque GRÁFICA ÉDITORA DO LIVRO LTDA.
Embarque de Noé (música-gravação) 20,00 visado, em nome de Eddy Rezende Nunes - O ii Rio de Janeiro Brasil
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48 Tribobó (gravação-música) 20,00 TABLADO, pagável no Rio de Janeiro. r