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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por
dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

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Em 1976. de Maurice Druon. muitos mestres. foi certeira: o título se transformou em um dos maiores fenômenos editoriais de todos os tempos. . que não era o foco da Sextante. quando foi trabalhar com seu pai. lançou Muitas vidas. Fã de histórias de suspense. Geraldo desenvolveu diversos projetos sociais que se tornaram sua grande paixão. Com a missão de publicar histórias empolgantes. publicando obras marcantes como O menino do dedo verde. tornar os livros cada vez mais acessíveis e despertar o amor pela leitura. capaz de enxergar mais além. de Charles Chaplin. de Brian Weiss. O Arqueiro GERALDO JORDÃO PEREIRA (1938-2008) começou sua carreira aos 17 anos. A aposta em ficção. Mas não foi só aos livros que se dedicou. Com seu desejo de ajudar o próximo. o célebre editor José Olympio. fugindo de sua linha editorial. mirar nas coisas verdadeiramente importantes e não perder o idealismo e a esperança diante dos desafios e contratempos da vida. Em 1992. livro que deu origem à Editora Sextante. fundou a Editora Salamandra com o propósito de formar uma nova geração de leitores e acabou criando um dos catálogos infantis mais premiados do Brasil. Geraldo descobriu O Código Da Vinci antes mesmo de ele ser lançado nos Estados Unidos. e Minha vida. a Editora Arqueiro é uma homenagem a esta figura extraordinária.

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br . Vera.com. Patrick. Ficção americana. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS. Título.: (11) 3868-4492 – Fax: (11) 3862-5818 E-mail: atendimento@editoraarqueiro.111(73)-3 Todos os direitos reservados. tradução: Vera Ribeiro preparo de originais: Taís Monteiro revisão: Flora Pinheiro e Gabriel Machado projeto gráfico e diagramação: Natali Nabekura adaptação de capa: Miriam Lerner imagem de capa: Marc Simonetti ebook: Marcelo Morais CIP-BRASIL. recurso digital Tradução de: The slow regard of silent things Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-8041-354-0 (recurso eletrônico) 1.com. 538 – conjuntos 52 e 54 – Vila Olímpia 04551-060 – São Paulo – SP Tel. I. Título original: The Slow Regard of Silent Things Copyright © 2014 por Patrick Rothfuss Copyright da tradução © 2015 por Editora Arqueiro Ltda. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem autorização por escrito dos editores. 2015. Livros eletrônicos. Todos os direitos reservados. São Paulo: Arqueiro.br www. Ribeiro. CDD: 813 14-17420 CDU: 821. por Editora Arqueiro Ltda. II. no Brasil. 1973- A música do silêncio [recurso eletrônico] / Patrick Rothfuss [tradução VeraRibeiro]. 2. Rua Funchal.editoraarqueiro. RJ R755m Rothfuss.

E para Tunnel Bob. pois sem ele não existiria Auri. . porque sem ela talvez não houvesse história alguma.Para Vi.

Sem o contexto daqueles livros. O pessoal do marketing não vai gostar. é melhor não começar por este. . Segundo. este livro tem muito a lhe oferecer. acho justo avisar que esta é uma história um pouquinho estranha. nesse caso. Se sente curiosidade sobre os Subterrâneos e a alquimia. Não tem um monte de coisas que costuma haver em uma história clássica.. Se você tem curiosidade de conhecer o que escrevo. provavelmente você se sentirá bem perdido. uma das personagens daquela série. se você não leu meus outros livros. Eu sei. Não gosto muito de dar spoilers.. Minha editora terá um ataque. não se espera que um autor diga esse tipo de coisa. não vai encontrá-la aqui. se você estiver esperando uma continuação da história do Kvothe.. Por outro lado. Os dois primeiros são O nome do vento e O temor do sábio. Bem. Mas prefiro ser honesto com você logo de saída. Se deseja conhecer melhor os meandros ocultos do meu mundo. comece por eles. Prefácio do autor T ALVEZ VOCÊ NÃO queira comprar este livro. Este livro fala sobre Auri. Primeiro. diferente. E. mesmo que tenha lido meus outros livros. se quiser saber mais sobre a Auri. Se você gosta de palavras e mistérios e segredos. talvez este livro seja para você.. São a melhor introdução ao meu mundo. mas basta dizer que esta aqui é.

O fundo bem profundo das coisas Q UANDO ACORDOU. até chegar a um pálido azul-crepúsculo. AURI soube que tinha sete dias. uma estrela distante. Auri olhou em volta. na prateleira de cabeceira. já que estava bem escondidinha no Manto. Auri afastou o cobertor. prendendo-o com cuidado sob o queixo para que não roçasse no chão. Viu sua cama perfeita. Ele chegaria para uma visita no sétimo dia. Em seguida. até ele tremular inteiro de brilho. Auri o abriu e deixou cair apenas uma gota no prato de Foxen. o mais íntimo dos seus lugares. Do seu tamanho exato. movendo-se com cautela para que ele não encostasse no chão. Longo para esperar. depois sorriu e deixou cair uma terceira gota. com a intensidade de um pirilampo. Coisa rara. com o peito efervescendo de animação. Mas não muito longo para tudo o que precisava ser feito. uma simples cintilação: um pontinho. Recolheu então o cobertor e foi fazendo uma dobra após outra. Sim. ele começou a se iluminar aos poucos. parecendo uma brasa azul-esverdeada. A luz era suficiente apenas para ela ver a forma pálida de seu braço quando os dedos acharam o vidro de conta-gotas. . Nada havia mudado durante a noite. Hesitou. Nada de meias medidas num dia de achar. E mais e mais cresceu seu fulgor. Auri lhe sorriu enquanto ele acabava de se levantar e inundava o Manto inteiro com sua mais fiel e mais brilhante luz branco-azulada. Auri pingou outra gota bem em cima de Foxen. Desceu da cama e sentiu o piso de pedra aquecer-se sob seus pés. Auri viu uma nesga de luz. Então. Isso era bom. sentou-se orgulhoso em seu prato. um pouco maior que uma moeda. Não se quisesse estar pronta. Ela sorriu. Dia de achar. Em seguida. Era um dia branco. A luz de Foxen continuou a aumentar. Primeiro. uma parte maior dele foi ficando iridescente. Um dia profundo. Sua bacia descansava sobre a mesa junto à cama. portanto. Após um momento. Tinha certeza. Não se ela fosse cuidadosa. ao lado de uma lasca do seu sabonete mais doce. Um longo tempo. Ao abrir os olhos.

ainda assim. Atravessou o Porto. Havia três saídas do Manto. Auri parou diante do espelho e pegou a escova de cerdas. não mais grossa que uma pétala de flor. exceto pelo espelho de corpo inteiro. pondo-a em sua caixa de cedro. Espreguiçou-se. Auri fitou-as por um momento e as levou para a estante. Auri verificou cada coisa ao redor. blocos de pedra caídos. Tirou a camisola e a dobrou. com uma paciência que Auri invejou. Não foi nem de longe um aperto. Contemplou sua cadeira. cheio de alfazema doce desidratada. Tudo certo. a refinada xícara branca que pertencia a ele o esperava. Nesse dia. Não era uma passagem larga. uma bolinha de barbante. um poleiro para o qual eram mais adequadas. as mãos e os pés. o que ele lhe dera. Correu os olhos pela sala e meneou a cabeça em sinal afirmativo. Nada era nada que não devesse ser. Pôs então seu vestido favorito. pendurada na moldura de . De novo no Manto. E no console acima dela se encontravam sua folha amarela. com a tampa hermética aberta como um pássaro faminto. lavou o rosto. Uma pedra cinzenta. Uma rocha preta. por isso a luz ali era mais tênue. Ela se infiltrava pelo topo de um portal em arco repleto de escombros: madeira quebrada. Abaixo dele ficavam um livro in-oitavo encadernado em couro. Nada era nada mais. porém. porém ainda forte o bastante para se enxergar. mas. Mais para um lado. Um corredor e um portal e uma porta. um lugar de ecos vazios. um par de rolhas. Esta última não era para ela. feliz. O Porto não andava muito movimentado nos últimos tempos. Foxen continuava descansando em seu prato. Van era um cômodo alto. O nome dela ardia como fogueira em seu peito. uma manchinha de luz. Mas ali. Sua minúscula xícara de prata. Tinha um toque suave em sua pele. esgueirando-se por uma rachadura denteada na parede. Um pedaço plano e liso de madeira. havia mais uma coisa: uma delicadíssima nesga de sol. Sua caixa de cedro. com paredes retas e brancas de pedras encaixadas. AURI APANHOU FOXEN E O CARREGOU aninhado na palma da mão. sua caixa de pedra e seu pote de vidro cinzento. A lareira estava vazia. bem no alto. Na estante da parede havia uma gota de resina amarela num prato. Na mesa central via-se um punhado de drupas de azevinho sobre uma toalha branca e limpa. Auri tomou o portal rumo ao Porto. Aquele seria um dia atarefado. mas Auri era tão pequena que mal precisou virar os ombros para não roçar nas pedras quebradas.Exatinho. Separado de todo o resto ficava um potinho minúsculo. levantando os braços e se erguendo bem alto nas pontas dos pés. No suporte para garrafas de vinho descansava a metade de um prato de porcelana quebrado.

Que grosseria. no ponto em que fez a curva. seguiu um cano gordo de cerâmica que avançava. Auri deu meia-volta e disparou feito louca pelo Umbroso. Naquele dia. O longínquo barulho da rua descia até o fundo bem profundo das coisas. gelados. abandonando-a. o arco alto do espaço estava exatamente como ela havia esperado: animado e luminoso. Era sábio o bastante para se conhecer. Escutou o ribombar distante de uma carroça que passava e a mistura . Auri ouviu o som de cascos de cavalo nas pedras do pavimento. embora nem sempre fosse seguro ou bondoso. Auri sorriu para seu reflexo no espelho. A pálida luz dourada ficou presa em sua pálida cabeleira dourada. de algum modo. cobertos de puro algodão. mas os fininhos. Parecia o sol. Os de ferro eram tão sôfregos que chegava a ser quase embaraçoso. Não levou nem um minuto para achar um cano de cobre com o tipo certo de revestimento de pano. Escovou os fios emaranhados pelo sono até o cabelo cair a seu redor feito uma nuvem. Havia inúmeros outros canos. desajeitado. O sol entrava feito uma lança pela grade no topo e batia no vale profundo e estreito do lugar cambiante. Auri sorriu e desenrolou a tira de tecido com dedos suaves. Fechou a mão sobre Foxen e. Auri não podia deixar de sentir afeição por ele. tomando enorme cuidado para não rasgá-la. cheio de ecos. o que significava mais trabalho do que ela estava disposta a ter naquele dia. não tinham nenhum revestimento. e desceu mais e mais até o Doze.madeira. nítido e redondo como um estalar de dedos. esse era o xis da questão. O Doze era um dos raros lugares mutáveis dos Subterrâneos. se mantivesse inteiramente correto. Estava cansado. bem. mas bem-disposto. não era? Ela seguiu o cano pelos túneis redondos de tijolo vermelho ao longo de quase um quilômetro. revelou Foxen e pulou depressa para o labirinto espalhado da Rubrica. seu envoltório de linho ficou solto e esfarrapado como a camisa de um menino maltrapilho. sem a luminosidade azul-esverdeada que ele emitia. Era quase único nesse aspecto e. Assim. ainda que. Ele acabou se enfurnando sob o chão. é claro. depois de dobrá-lo bem. de estanho. Um pedaço único e diáfano de linho acinzentado do comprimento do braço de Auri. o cano dobrou bruscamente e mergulhou direto na parede. tomando o cuidado de não o deixar escapulir por entre os inúmeros outros canos entrelaçados. Perfeita. corajoso o bastante para ser ele mesmo e impetuoso o bastante para se modificar. E então. Levantando a mão. Acabou por soltá-la. muito acima e atrás dela. Os de aço polido. vigas de sustentação e pela linha reta e forte de uma antiga passarela de madeira. o quarto ficou escuro como a escuridão. A luz se infiltrava por canos. eram novos demais. Mas encontrar o lugar perfeito. Auri arregalou os olhos e não conseguiu ver nada além do vago e suave borrão de luz cálida que se derramava para lá dos detritos. sem o menor indício de aviso. mas.

Havia ali dois potes de vidro equilibrados sobre um nicho raso. o cabelo a seguia. Depois. fechou um olho e estendeu a mão para tocar no verde com dois dedos. A luz do alto era tão forte que deixava Auri ver toda a descida. Então. Auri desceu a escada em espiral que atravessava a Casa das Trevas descendo e girando. Um verde e atarracado. Enfim ouviu água em movimento e o tilintar de vidros e soube que havia cruzado o limiar de Tinidos. Havia uma verde. Sorriu. Puxou-a para trás e a prendeu. Um azul e estreito. olhou para o pote de vidro cinzento em que ficava a alfazema. Superou a terceira com a impetuosidade de uma mocinha bonita que se parecia com o sol.indistinta de vozes. pés descalços batendo na pedra. . Todas tinham formas e tamanhos diferentes. uma tampa cinza de torcer e uma rolha gorda como um punho. Lá chegando. Enquanto recobrava o fôlego. Exasperada. Sorriu e estremeceu um pouco. Em disparada pelo corredor. agora saindo pelo portal inclinado. deu um sorriso. até o segundo emaranhado de canos sob a superfície. com peixinhos nervosos nadando em sua barriga. descendo e girando. uma marrom e uma transparente. pegou-o e subiu correndo a escada. foi pelos Saltos. voltou correndo ao Manto. torcendo e atando os cabelos na nuca com a velha tira de linho cinzento. em vez de pela rachadura na parede. beijou o vidro e o depôs com cuidado na borda do poço. a luz de Foxen refletiu-se na poça turva de águas negras que engolia a base da escada. Pegou-o. saltou a primeira fissura profunda do piso partido com a agilidade de uma dançarina. E em tudo se entremeava o choro agudo e aborrecido de um bebê. de água lisa como vidro. havia formado um longo rabo de cavalo que lhe descia até a cintura. acolchoou-o bem com a palha e travou o gancho sobre a borracha de vedação. esvoaçante como uma flâmula. Auri inclinou a cabeça. Quanto terminou. Subiu contorcendo-se pelo Vime enquanto Foxen lançava sombras extravagantes nas paredes. Entrou no Doze Amarelo totalmente esbaforida. Auri levantou as mãos. Despiu seu vestido favorito e o pendurou num cano reluzente de latão. inteiramente nua. pulou com a leveza de um pássaro. e três garrafas esperavam numa prateleira estreita de pedra numa das paredes. Ela já tinha palha ali. para mudar de ares. Sobre a segunda. que obviamente queria o peito e não estava sendo atendido. Segurou o recipiente na altura do rosto. fechando hermeticamente a tampa. Cruzou o Porto às pressas. Ao observá-las. porém. Havia uma tampa larga de pressão. Logo depois. mas nenhuma era propriamente certa. Na volta. Quando ela corria. examinou-o criteriosamente e o repôs em seu lugar antes de sair correndo outra vez. Auri franziu a testa. pôs Foxen dentro do pote verde. No fundo do Doze Amarelo havia um poço comprido e fundo. juntou a cabeleira flutuante com as mãos.

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Foi descendo devagar. Com os braços bem junto do peito. Então. esfregou os olhos para afastar a água. a jovem que via era miúda como um pivete pedindo esmolas na rua. Respirou fundo algumas vezes. Seria puro desprazer sem a tira perfeita de linho. Clavícula saliente. E também não era só a pequenez do corpo. Sorriu ao senti-la. Com o cabelo puxado para trás. menor. Mergulhou a ponta do dedão na água. remexendo os dedos dos pés. Não era a pequenez pela qual se esforçava todos os dias. De uma sombra no subterrâneo. Lograda. Aflita.. Não havia nada de hortelã na borda fria de pedra. Por fim. no traseiro tenro de sua nudez. Em seguida. Passado o pior. Tornou a respirar profundamente e expirou mais devagar. sustentando o peso do corpo despido sobre as mãos. estreitou bem os olhos e arreganhou os dentes. mas completamente desfeita. ela não se sentiria apenas como um pavio enrolado. e Auri viu com extrema clareza o primeiro emaranhado de . fria e doce como hortelã. entrou parcialmente no poço. ela se virou e começou a baixar o corpo na água. Agarrou-a com os dedos dos pés. o último de seus tremores cessou. sua careta tinha virado um sorriso. A luz dourada do dia. Ela se equilibrou por um instante. depois expeliu o ar. Sem seu halo de cabelo. Ilusória. Valia a pena fazer as coisas direito. sem graça. Mas não. depois o pé inteiro. quando o tremor passou. Mais frágil. depois soltou os pés e afundou o bumbum. Não fosse isso. mantendo-se dentro do poço com a água na altura das coxas. A jovem que via era magra como a magreza. Auri fechou os olhos e mergulhou também a cabeça.. Arfando e piscando. Comprimida. Mas não havia como evitar. O ÂNGULO DA LUZ ERA PERFEITO. Fez o mesmo pela terceira vez. Teve então sua grande tremedeira geral. Segurou o gargalo do vidro de Foxen numa das mãos. derretida. Auri sentia-se pequena. Ossos malares altos e delicados. batia no poço. as pernas balançando acima da água. deu dois passos minúsculos e parou diante do poço. Auri sabia não haver muito dela. Auri inspirou fundo. longe da borda. com um braço cobrindo os seios. ela se sentia. mas seu sorriso era ansioso. vinda do alto. Foi um impacto brusco. remexendo os pés até encontrar a pequena saliência de pedra. Auri franziu os lábios e se resignou a descer o que faltava. Não a pequenez de uma árvore entre as árvores. Mas. Deu uns gritinhos e o frio fez todo o seu eu arrepiar-se. soltou a borda de pedra do poço e mergulhou por completo. Quando pensava em se olhar mais de perto no espelho de pé. reta e brilhante e firme como uma lança. Embaciada. Assim. Ainda havia peixes se revirando na barriga. e ainda por cima molhado.

Algo metálico. segurou Foxen com firmeza e tornou a mergulhar no poço. Auri acomodou o objeto junto ao peito e recomeçou a subir. Assim. respirou fundo três vezes. encontrou canos conhecidos e foi puxando e conduzindo. mas não era de uma perna. não pôde enfiar seu achado embaixo do braço. Seus dedos tocaram um emaranhado de uma coisa ou outra antes mesmo de chegarem ao fundo. ao passar. Um braço. Rápida. Soltou metade do ar dos pulmões e bateu os pés com força. Para lá e para cá. Auri fez um O perfeito com a boca e soprou duas carreiras rápidas de bolhas. Uma velha passarela. Seus pulmões começaram a doer um pouco e ela soltou uma fileira de bolhas ao subir. e algumas formas pairaram vagamente perto dela no escuro. A luz em lança esmaeceu à medida que ela foi afundando. e sobrou apenas o brilho azul- esverdeado de Foxen. que corria em toda a circunferência como um anel. A pressão aumentou com a descida. tudo ao mesmo tempo. Veloz como um peixinho prateado. afundando feito uma pedra no fundo negro. foi uma captura fácil. . bem devagar. ziguezagueando pelo labirinto de formas vislumbradas. mas atentamente. Era cheio de sombras agradáveis. Às vezes havia coisas cortantes por ali. Dessa vez. Que azar! Franziu a testa e puxou. deslizando suavemente. Mas ali o cintilar dele se tornava desbotado. equilibrada. e ela chegou à superfície sem nem ter que soltar o resto do ar. mudando de velocidade e deslizando pelo espaço estreito entre dois canos de cobre da espessura de um pulso. Abaixo desse vinha o segundo emaranhado. Auri correu os dedos por toda a extensão e sentiu uma emenda minúscula. Ela fechou os dedos em torno de algo comprido e liso. Seus dedos estendidos encontraram o fundo antes de seus olhos. conseguiu libertar-se.canos. girou o corpo e os atravessou. depois. à luz dourada. O primus axial. Com a mão livre. Um bastão? Auri o encaixou embaixo do braço e se deixou boiar de volta para a luz distante. filtrado pela palha. após meio instante. perto do segundo emaranhado. Sorrindo. Dessa vez. escorregadio e duro. Ela não fazia ideia do que era. aninhou o vidro com Foxen na dobra do braço e deu impulso para cima com a mão esquerda. uma laje inclinada de pedra. mostrando que ele já fora quebrado e cicatrizara havia muito tempo. Auri afastou com o pé um velho cano de ferro para continuar a descer. Seu rosto rompeu a superfície perto da borda e. lá em cima. Depois. sem se deixar tocar por nenhum. pela água e pelo vidro verde grosso. e Auri deslizou a mão pela superfície entrevista do leito liso de pedra. por medo de perder alguma parte dele. Foi uma sensação boa. Auri o pôs de lado. Para lá e para cá. uma antiga viga de madeira coberta de algas. entalou o pé entre dois canos. puxou uma válvula com a mão livre. Apesar do mau começo. ela viu o que tinha encontrado: um osso branco e limpo. Comprido.

A terceira vez era a que valia. com um toque de roxo. com um caramujo perplexo. descobriu um jeito de levantá-lo com seus dedos pequeninos. ele deslizou e ela se deu conta da verdade. o corpo rodopiando suavemente. Os lábios tinham passado de rosa- vivo a um rosa pálido. Depois. que coloria a mão estendida dela de um pálido azul-esverdeado. dobrou os joelhos e deu um forte impulso para cima com os dois pés. sabendo que cada bolha perdida a empurraria para baixo e que ainda não estava nem perto do emaranhado inferior. os tolinhos queriam ar. o metal liso escorregou um pouco em seus dedos. Tinha um formato estranho e pesava como uma barra de irídio puro. os peixinhos na barriga nadando. Depois. Após um momento longo e escorregadio. Estendeu o emaranhado na borda do poço: um cinto velho. presa num pedaço de corda podre. que se deslocavam por seus ombros e seu peito. A madeira. Ainda meio cheios. que era o seu lugar. Devia estar parecendo uma ninfa das águas. Era um metal sólido. grosso como um livro. tão cheio que ela os sentiu vazarem a seu mais leve toque. puxando-a para baixo. Bateu os pés sem parar. Bateu os pés e moveu a mão. Durante o período de dez fortes batidas do coração. Sentiu um ímpeto de movimento. Agora os pulmões lutavam contra ela. Um galho folhoso. animados. mas com um simples puxão a fivela se soltou. Seu pé bateu com força num cano grosso de ferro. mas mal pareceu se mover. nada além da tênue luz de Foxen. do tamanho do seu dedo indicador. Descendo para a escuridão. olhando para o luzir distante da superfície. a fim de poder usar a mão para dar impulso. A pedra. Na tentativa. e Auri aproveitou para se posicionar e dar outro impulso. Auri beijou o caramujo e pediu desculpas antes de devolver o galho à água. Os nós de seus dedos roçaram o fundo e ela girou um pouco para se orientar. Era pesado. vasculhando de leve o chão de pedra negra do poço. Estava cheio de amor e de respostas. a mão direita encontrando todos os pontos de apoio amigos. No . de contornos definidos e lisos. Tentou deslocar a coisa metálica para a dobra do braço. A coisa metálica pesava. com uma fivela de prata tão manchada que estava preta feito carvão. toda enroscada no galho. uma chave fina. mas não menos importante. agora Auri tinha sido tomada por ondinhas de tremor. Os dois ficaram melhor assim. que diminuiu assim que seus pés deixaram o cano para trás. Auri o levou ao peito e sentiu as bordas afundarem em sua pele. E por último. Agarrada à borda de pedra do poço. Viu então um lampejo de luz e seus dedos esbarraram em algo sólido e frio. Ela soltou um punhado de bolhas na tentativa de enganá-los. Auri respirou fundo e tornou a mergulhar. Olhou para a água. Ela pegou o vidro de Foxen e checou se estava bem vedado. porém. O couro do cinto estava todo enrolado. Auri achou que o objeto devia estar preso à pedra. Então.

pânico repentino que se seguiu. seu cabelo prendeu em alguma coisa. seus dedos não chegaram nem a roçar no apoio habitual. mas procurou depressa a tubulação com o outro pé. não houve nada que ela temesse mais do que perder a firmeza na mão e deixar a carga de metal resvalar para a escuridão.. . sem que o corpo sequer roçasse os canos. tateou e lutou para achar o caminho entre os tubos. porém ao menos ela continuava em movimento. Contorceu-se furiosamente. Mas. Bateu com a canela num cano. Com a boca cheia d’água. Os pulmões arfavam com força. Bateu com o joelho e raspou freneticamente as costas por algo áspero de ferrugem. de modo que ela foi soltando lentamente o ar. impulsionando o corpo para cima. depressa o bastante para seu cabelo se soltar de qualquer que fosse a coisa grosseira que o havia prendido. mas os nós de seus dedos só fizeram empurrar Foxen para mais longe. Ele estava em sua companhia desde sempre. Auri arrastou-se para o emaranhado inferior de canos. subindo com arrancos desajeitados. Nesse momento. atrapalhou-se. O puxão repentino a fez parar. ela o agarrou. embora o houvesse amarrado com todo o cuidado. mas. Ela trincou os dentes e agarrou a saliência de uma pedra próxima com a mão agora livre.. jogando-lhe a cabeça para trás e fazendo seu corpo girar de lado na água. apesar de ainda nem ter vislumbrado o emaranhado inferior. o que fez todo o seu eu formigar de dor. sobrecarregada como estava com o pesado pedaço de amor contundente e duro que levava junto ao peito com tanta força. usando qualquer ponto de apoio desconhecido que conseguia encontrar. O puxão violento lhe abriu a boca à força. Ela tentou pegá-lo com a mão livre. enquanto o líquido lhe enchia o nariz e a garganta. Espocou como uma rolha. posicionou-se e deu um impulso forte. Batia os pés.. Mas estava pesada e sem ar. atrás de um trio de canos inclinados de cobre. mas agora seus pulmões estavam vazios e o corpo pesava feito chumbo. Àquela altura. Estava escuro sem Foxen. por causa do peso. Mas Foxen. Seriam as respostas contidas nele que lhe davam tanto peso? Por fim. escorregando e se soltando da mão de Auri. engasgou-se e sufocou. e o vidro de Foxen esbarrou em alguma forma invisível. seus pulmões estavam zangados. Com uma das mãos. ganhou mais uns 5 centímetros e então. ela sentiu que começava a afundar. Quase de imediato. Esticou um braço. Auri ficou paralisada. Auri começou a se afogar. mas isso não adiantava muito. Em geral ela se contorcia por entre o emaranhado feito um peixe.. Deixar o metal cair seria impensável. Auri viu o vidro de Foxen ser apanhado em um redemoinho e rodopiar para fora do seu alcance. Auri bateu os pés. Por um instante.

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fina. Ela tremia. sufocou. nove dentes e uma lacuna irregular. de onde o décimo dente fora arrancado muito tempo antes. Ela pensou em voltar. Era tão disparatado que a aterrorizava. Auri sorriu e vomitou meio estômago de água nas pedras. Ela tornou a tossir e estremeceu. Tinha um furo no meio.. Auri correu os olhos por todo o poço no fundo do Doze. Era uma engrenagem brilhante de bronze. a ideia de deixar Foxen no escuro bastou para lhe introduzir no peito uma rachadura estreita. segurou a borda de pedra do poço com a mão livre. Nada. . Era linda. pesada como um coração. Auri içou o objeto para fora d’água e ele bateu no chão de pedra com um som de sino. Três vezes. que atravessou o coração. Era assim que as coisas eram. Auri captou um lampejo de algo lá no fundo. Seu cabelo agora estava livre e girava em torno dela na água. Teve outra ânsia de vômito e virou a cabeça para que o líquido não espirrasse na luminosa engrenagem. reconfortante. Um brilho. e tornou a deslizar para baixo.. puxou e agarrou. Foxen estava igualzinho a um enorme pirilampo atrapalhado. Seu coração estava repleto de alegria. Deixar o metal deslizar para a escuridão simplesmente não podia acontecer. escalando. feito uma nuvem de fumaça.Perder Foxen era ruim. encheu a boca de água e a cuspiu no poço. A luz que vinha do alto deixava sua superfície bruxuleante e dourada. Auri segurou uma curva de cano. Ia deixá-la cega e solitária no escuro. Sorriu ao fitá-la. Ficar presa sob os canos e sufocar até a morte também seria terrível. Um segundo depois. No entanto. Dessa vez. familiar. nas pedras frias do Doze Amarelo. Então. Perdê-lo depois de tanto tempo. Estava cheia de respostas verdadeiras e de amor e luz de lareira. Mas nenhuma dessas coisas era errada. Era algo impensável. DEPOIS DE SAIR DA ÁGUA. ofegante e cuspindo água. Ela se impulsionou para cima. Parecia um pedaço de sol que Auri houvesse trazido das profundezas. Mas não. torceu para ver Foxen flutuando a esmo na superfície. Estendeu a mão e tocou a engrenagem com um dedo. bem abaixo da superfície. aos sacolejos e esbarrões na lenta subida por entre todos os canos emaranhados. A engrenagem jazia. Depois tossiu. grande como uma bandeja. voltou a subir. Seus lábios estavam roxos. Cerrou os dentes. agarrou-se de novo e encontrou mais um apoio. Muito mais grossa que seu polegar. como se tivesse garras. Mesmo sabendo que as coisas não funcionavam assim. Uma cintilação. Seu rosto assumiu uma expressão solene. Chegou à superfície.

A chave era negra como o negrume. Balançando a cabeça. Auri examinou atentamente a fivela. deixar seus cabelos finos esvoaçando e expulsar os tremores de seu corpo gelado. os canos grossos de aço do túnel estavam quentes demais para se parar perto deles. Depois de ensaboar. PRIMEIRO O MAIS IMPORTANTE. como ouro folheado a cobre. estava em seu lugar. e as paredes e o chão haviam se refestelado até também ficarem estalando de calor. sim. Ah. ela estendeu a mão e tocou no metal escuro e frio. A grande engrenagem de bronze brilhava de fora a fora. Era esbraseante. Fosse o que fosse. Não combinava com ele. Encarnado. As coisas eram exatamente como deviam ser. Algo escorregadio e pesado encostou seu peso móvel na perna dela. Apertou-o contra o peito. ela pegou o vestido favorito no Doze Amarelo. Será que a fivela seria para ele? Isso daria um bom começo para o dia. Mas a fivela era preta com um brilho por baixo. A manter fechado. esfregar e enxaguar o cabelo. Depois disso. Mesmo pegando o trajeto mais longo. usando a lasca remanescente de uma barra de sabonete que cheirava a citerina e verão. E também muito escondido. e ela também. Auri libertou Foxen do pote de vidro e o pôs ao lado dos outros na parede. Ela já deveria saber. até finalmente espocar na superfície como um pato. O cinto de couro tinha estranhos desenhos em caracol gravados. onde os dispôs na mesa central. Bastaram alguns instantes para o local secar sua pele. para não deixar que nenhuma parte de sua tenra nudez fosse assada pelo zunido rubro e silencioso que brotava dos canos. Valia muito a pena fazer as coisas direito. Brilhante com um brilho maior por baixo. Auri se retirou pela Decúria. Em seguida. . foi a Tinidos e se enxaguou na água turva. Ela esperou cinco longos minutos. Depois. ela não demorou a dobrar a esquina de Assadores. Era uma coisa oculta. E não era escuro. não. Mas não. Enfiou-o pela cabeça e carregou todos os seus tesouros de volta ao Porto. Auri deu um giro lento. E então o apanhou e o beijou. Pousou Foxen numa saliência de tijolo ali perto. Limpa. tomou banho. Não era o caminho mais rápido. Será que era um presente adequado? Ele era um tipo enrolado. pingando e espremendo o cabelo. mas seria impróprio passar pelo Acastanhado sem nada além de sua pele rosada. Ele não era chegado a atar. porém. O que não a incomodou. Sob a superfície. Auri mergulhou na interminável água negra de Tinidos. Naquele dia. com os pés molhados batendo na pedra. algo roçou nela. Ah. Era bom resolver as coisas com antecedência: ter o presente dele pronto faltando dias para a sua visita. vendo o vidro de Foxen oscilar e vagar. porque ele não gostava de muito calor. para se enxaguar pela última vez.

Auri colocou-a na estante de livros. segurou Foxen entre as mãos em concha e o soprou com delicadeza. A fivela deslocou-se e foi descansar ao lado do prato de resina. A BANCA ERA O LOCAL MAIS PRÓXIMO. O osso aninhou-se numa proximidade quase indecente das drupas de azevinho. Recolocou a chave no bolso e deixou a grande engrenagem na estante. A chave necessitava de cuidados urgentes. Chave preta. Balançou a cabeça e deu um suspiro. Não num dia branco. e aquela praticamente implorava por uma fechadura. Aquelas não eram as portas adequadas. a Decúria. Parou diante dela. Dava quase a impressão de que seria apropriada para ele – mas isso podia esperar. tinham doze dentes. com seus caminhos sinuosos e seu . Ela inclinou a cabeça. Uma chave de porta. mas era o melhor que Auri podia fazer por ora.. Já a engrenagem era um problema. antes de sair. ajudou cada coisa a encontrar seu lugar apropriado. Não era o lugar dela. E não era nada tímida quanto a isso. Ainda assim. porém maior que a primeira. Onde. Ela ficou encostada na parede. Auri apressou-se pela Rubrica. entre ela e a enorme porta cinza. pisando de leve.. e não havia dúvida de que a pobrezinha queria muito ser cuidada. então? Na Decúria? A Porta Negra? Ela estremeceu. Melhor a Galeria. tomando o cuidado de nunca seguir nenhum dos canos por muito tempo. inclinando a cabeça para passar pelos portais baixos de pedra até chegar à primeira porta. Pegou a chave e a segurou diante da engrenagem. com dobradiças que não eram mais que lascas de ferrugem. Depois. A engrenagem precisaria de observação. também velha e cinzenta. Não era exatamente o lugar apropriado. Olhou para uma e outra. virando duas vezes à esquerda e duas à direita. Auri tirou a chave do bolso e a segurou à sua frente. Dia branco. Não estava certo. com a lacuna do dente perdido apontando para cima. A porta de madeira era gigantesca e acinzentada pela idade. até chegar à segunda porta. depois a mudou para a mesa de canto. a mais inquieta do grupo. para não cometer nenhuma ofensa. Somadas. Virou três vezes à esquerda e atravessou uma janela quebrada. Não. não. Auri mal precisou olhar para a chave e a fechadura para saber a verdade. Auri assentiu para si mesma e enfiou-a no bolso do vestido. O que não trazia a menor surpresa. Preto e bronze. Aquela não era uma chave para a Porta Negra. atiçando sua luz. Era um dia de achar. por razões de equilíbrio. é claro. Em seguida veio Grilhe. de modo que Auri foi depressa para lá. A forma das coisas estava certa. com certeza. Até Passa-Fundo. O cinto ficou na mesa do centro. Auri franziu a testa. virou-se e se afastou. Ambas feitas para girar. Era. As chaves estavam longe de ser conhecidas por sua complacência. Auri a apanhou e a rolou nas mãos. A Porta Negra.

Homens brincavam na água. Tudo seco e arrumadíssimo. Auri entrou. A batidinha que ouviu quando a chave tocou na madeira aqueceu-lhe o coração. era um lugar de bom gosto. Sem correntes de ar que trouxessem poeira. Auri esfregou as mãos. No teto. Auri sorriu ao vê-la sentada ali. Lambris de madeira escura cobriam a parte inferior das paredes. Nos seus longos anos nos Subterrâneos. Auri sentou Foxen numa arandela na parede e foi . tirou a chave do bolso e a beijou. um lustre de cristal derramava uma luz branco-azulada. Ela estava à espera. Era uma coisa de sorte. bem à vontade em seu lugar apropriado. um lampejo no piso de mármore chamou sua atenção. Os degraus levavam a um cômodo miúdo e bem cuidado de pedra lavrada. Após cerca de dez passos. Era uma sala de estar. Dali desceu correndo por uma escada comprida. O trinco destravou e a porta se abriu. Deslocou o peso do corpo de um lado para o outro. girando com suavidade nas dobradiças silenciosas. Aproximando-se de um pulo. mas acabou virando à direita para o Derruído. O portal era largo o bastante para ser atravessado por uma carroça. depositou-a com cuidado sobre uma mesa vazia logo à entrada. sentindo a frieza do chão de mármore polido sob seus pés minúsculos. Auri tinha aberto só três delas. com acabamento em bronze. nus em pelo. Não era maior que um armário e estava vazio. Todas refinadas e compactas. mas no meio o local era limpo como um cadinho. Muito elegante. nem a sétima. abriu a porta e entrou com passos leves na Galeria. Havia doze portas de carvalho ao longo do corredor. feita de gravetos amarrados. Grandes afrescos decoravam o teto. Ansiosa. ela viu que um cristal tinha caído do lustre e jazia intacto no chão. Ali ela se perdeu um pouco entre as paredes em ruínas. Sem umidade. Não era a terceira porta. Sem mofo. Auri o pegou e colocou no bolso que não continha a chave. por isso Auri tinha o cuidado de se comportar da melhor forma possível. a não ser por uma velha porta de carvalho toda orlada de latão. Auri ficou um momento contemplando as imagens com um sorriso maroto. Tinha o pé-direito alto e era tão comprido que a luz de Foxen mal conseguia alcançar o amontoado de escombros que bloqueava a outra extremidade. Ela percorreu o salão com Foxen reluzindo brilhantemente em sua mão levantada. agitando-se ridiculamente. Eles só fariam confusão se fossem colocados juntos. como sempre fazia. um túnel estreito de terra tão íngreme que praticamente não passava de um buraco. e valente. Mulheres em tecidos diáfanos reclinavam-se aqui e ali.cheiro de enxofre. As duas extremidades da Galeria eram bloqueadas por pedras caídas e terra. Com homens nus ou não. Depois. cochichando e passando óleo umas nas outras. Auri já planejava seu caminho por Passa-Fundo quando avistou a nona porta. e a parte acima deles era ornamentada em gesso.

A felpa escura do tapete era macia feito musgo sob seus pés e. e teve de esticá-la um pouco até que os dedos a pegassem. Uma coisinha minúscula. Todos muito dignos. Não era nada gritante. dando- lhe tapinhas com as mãos ao colocá-lo no lugar. Auri sorriu e pôs a estatueta no bolso junto com o cristal. um carrinho cheio de copos e garrafas. Numa das mesas perto do sofá estava um relógio de algibeira. como um grilo solitário correndo loucamente pela noite. Uma cadeira alta de veludo. Lisa e fria. Perambulou pelo cômodo. Tornou a correr os olhos pela sala. e depois lhe ofereceu um sorriso compreensivo. Movia-se com graça. Mas era. Ou melhor. Mas era claro que não. não era o que havia de errado na sala. curiosa. Era espantoso. Olhou em volta com certa surpresa. acanhada. Na verdade. Também não era ele. havia algo errado. Com gestos cuidadosos. com tudo feito da maneira adequada. ansiosa por ser aberta. Então o coração de Auri bateu mais depressa. Fazia uma eternidade que ela não chegava . Se não fosse um dia branco. Mesmo assim. outras contendo pouco mais que poeira. Levantou a borda do tapete. quando ela se curvou para deslizar os dedos sobre aquela quietude. Examinou o carrinho com mais de dez garrafas de todas as cores. vislumbrou uma brancura pequenina embaixo do sofá. Era uma estatueta entalhada num pedaço de pedra pálida. O botão era exatamente o que devia ser. Auri os fitou. No canto. O pobrezinho estava só perdido. sem tocar em nada. Auri destravou o trinco. Estendeu a mãozinha alva até as profundezas das sombras. e quase como deveria ser. e ela percebeu. sem ninguém para cuidar dele. Um sofá e um tapete felpudos. Uma mesa baixa de madeira. Não. Quase perfeito. Umas fechadas e cheias. mostrando sua cota de malha e seu escudo. mas também não estava errado. Um passo. talvez Auri nem tivesse conseguido perceber que havia algo errado. Havia algo errado na sala. as mãos cerimoniosamente cruzadas às costas. Havia também um anel e algumas moedas espalhadas. atravessou um corredor e chegou apenas aos pés de uma escada. Seu lugar não era ali. Um soldadinho de linhas inteligentes. Uma falta. Outro. enrolou- a e achou um botãozinho de osso embaixo.dar uma boa olhada em volta. Era um lugar bom. Fitou-o por um longo momento. de prata polida. Auri deixou o tapete tal qual o havia encontrado. não havia nada para ela fazer ali. bondoso o suficiente para se beijar. Foi então que sentiu um carocinho sob um dos pés. Tinha pensado ainda estar na Galeria. Esse era um lugar totalmente diferente. Esse era um bom lugar. pois obviamente o lugar estivera sozinho por séculos. Nada como em Duplo Assento ou em Vultos. Porém o tesouro mais verdadeiro era a doçura de seu rosto. Tudo era quase. Uma segunda porta esperava do outro lado da sala.

Apesar das pedras caídas. Isso lhe abriu ainda mais o sorriso. Era óbvio que ela deixara a Galeria para trás. ou eram tímidos a respeito deles. Auri fingiu não vê-la. mais alto que uma mulher alta na ponta dos pés. mas era de uma timidez terrível. Tudo estava coberto de poeira. E tinha o gênio forte.a um lugar completamente novo. Vislumbrou uma . Não achara. mas a quarta estava solta. Auri espiou timidamente pelas portas entreabertas do guarda-roupa. Não. tomou cuidado. apenas ar abafado e poeira. Seria difícil achar um lugar mais diferente de uma alameda de jardim. E a décima. Seus pés descalços moviam-se para a frente e para trás no piso áspero de pedra. quase dançando de animação. Um lugar que ousasse ser inteiramente ele mesmo. e isso era sempre triste. Na parte do cômodo intacta ficavam uma penteadeira com espelho triplo e um guarda-roupa de madeira escura. Foi terrivelmente empolgante. mas havia uma abertura feita por uma parede quebrada. Assim como a sexta e a sétima. Enquanto subia. Subiu com cuidado o segundo lance de escada e constatou que metade dos degraus também estava solta ou propensa a se inclinar. educadamente. O lugar não era tão recatado quanto a escada. metade do teto tinha desabado. porém nada mais largo que um polegar. Tímido ou secreto? Perdido ou solitário? Um lugar intrigante. Algumas rachaduras. meio desmoronado e meio cheio. Havia os que não tinham nome. e um tantinho sonso. Assim. Seu nome era Carreta. testando um por um com os pés. ela examinou bem as paredes e o teto. Mais da metade do aposento era uma sólida massa de terra e pedra e madeira. o local era seco e bem vedado. Ainda assim. As primeiras eram sólidas. Era disperso. Passou a mão pelas pedras da escada. Alguns os mudavam. Auri a atravessou e se viu sorrindo de emoção. O lugar era ardiloso como um latoeiro ébrio. Uma coisa era ser reservado. tornou a descer. certificando-se de haver achado todas as pedras deslocadas. À luz constante de Foxen. As paredes eram nuas e meio condescendentes. NO TOPO DA ESCADA. Dois num dia só. Havia uma porta. Sem umidade. por isso. onde a escada invertia sua direção. Havia um patamar a meia altura. Os restos de uma cama de dossel jaziam esmagados sob os destroços. Outro lugar novo. Havia muita coisa para ver. não soube dizer que espécie de lugar era aquele. Mas não ter nome? Que horror! Que solidão! Auri subiu os degraus pela segunda vez. Umas pedras menores tinham caído e também havia terra e reboco nos degraus. Alguns locais tinham nomes. evitando os pontos que sabia estarem ruins.

outros delicados como pétalas. Rolando as que não conseguia empurrar. Sentou-se toda empertigada na beirinha da cadeira de espaldar reto. ela amarrou Foxen num cacho comprido do cabelo. é claro. Dificilmente confiaria em que um lugar como aquele se portasse bem no escuro. pequenas escovas. Depois disso a vassoura continuou inquieta. Um roupão de seda. O orgulho dele ficou um pouco ferido e Auri o beijou. Dentro estava um pequeno armário que continha um urinol vazio de porcelana. Deslizou os dedos pelo cabelo esvoaçante e sorriu. Atrás da porta ficavam pendurados dois sacos de linho vazios. sozinho. e Auri foi varrer também a escada sem nome. Mas ambos sabiam que ele tinha um prazer secreto em balambalançar loucamente para lá e para cá. A penteadeira era uma coisa jovial: tagarela e desinibida. marfim e madeira. Auri começou a trabalhar para pôr as coisas nos lugares certos da melhor maneira possível. o prato de grampos na maior balbúrdia. Tudo o que repousava em seu tampo parecia meio desalinhado. Encontrou os destroços de uma mesinha embaixo das pedras e. um escovão do tipo que se usa para esfregar conveses de navios e uma vassoura compacta de bétula. Mas. Havia um balde de madeira. então Auri tirou-a do armário e se pôs a varrer. numa desarrumação assustadora: havia pós derramados. depois de passar tanto tempo aprisionada. não era tímida. penas de escrever e uma dúzia de vidros. Estava parcialmente enterrada por uma viga partida e por blocos de pedra esfacelados. por isso Auri sorriu e o enfiou num bolso. Umas peças diáfanas. Levantou e fez força. . Pentes de chifre. Dobrou-o cuidadosamente e o guardou no bolso com o cristal e o soldadinho de pedra. Havia grampos. O menor deles estava ansioso para entrar em ação. achou um pedaço de renda branca e fina de bilro. alguns centímetros de cada vez. A vassoura também estava ansiosa.dúzia de vestidos. Levou Foxen consigo. usando como alavanca outro pedaço de madeira caído. juntando poeira e terra antigas num montinho. empurrando as que não conseguia carregar. por mais brusca e indecorosa que fosse. fazendo as sombras rodopiarem e darem gritos agudos. alguns volumosos. em meio às lascas de madeira. a porta se abriu com facilidade. Sapatos. como uma varredela apropriada do local exigia duas mãos. Liberado o caminho. para se ver refletida no tríptico. Depois. Havia também uma porta no lado oposto ao da parede quebrada. Pulseiras e anéis. Auri não pôde deixar de se afeiçoar à penteadeira. Afastou a viga de madeira que bloqueava a porta. com as dobradiças enferrujadas gemendo. vidros caídos. bastões de pintura para os olhos. todos de veludo e bordados. até conseguir removê-la. num sincero pedido de desculpa pela afronta. Apesar de escondida. retirou as pedras. Desarrumada ou não. do tipo usado pelas mulheres nos afrescos da Galeria. No tampo estavam espalhados potes de pós.

que se entreabrira. da areia e do pó. com cuidado para que nada caísse no chão. livrando os degraus das pedras caídas. a penteadeira também era irritante. Auri a levantou com os dedos. meticulosamente dobrados. que Auri pôs mais perto de um astuto anel de rubi. No fundo da gaveta. Depois de devolver a vassoura ao armário. Parecia em total desalinho. como um amante recém- chegado do frio que viesse beijá-la. A única exceção foi a escova de cabelo. mas permaneceram completamente reservados. Auri o tirou de seu lugar certo e o levou ao peito. Abriu a gaveta da parte inferior do guarda-roupa. repôs a pedra no lugar e bateu nela firmemente com o cabo da vassoura. a vassoura compacta de bétula vagueou e espanejou. Afastou o vestido de veludo vinho da túnica de seda azul-clara. ele ficou pendurado e balançou. verificou o guarda-roupa. enquanto fazia um exame rápido da escada sem nome. Havia uma pedra solta no chão junto ao guarda-roupa. Auri tomou o cuidado de não reparar em nenhuma exuberância indevida por parte dele. Em seguida. Abriu as gavetas e passou os lenços da gaveta da esquerda para a da direita. Para cima e para baixo e de novo para cima. durante algum tempo. Ajeitou a tampa de uma caixa alta de chapéu. Por último. Era fresca e gostosa de tocar. mas nenhum dos objetos pedia uma arrumação. Além disso. Auri tirou o urinol e o instalou junto do guarda-roupa. Ela cruzou os braços e passou um longo minuto olhando para o móvel. Mal percebendo o que fazia. ajeitou o saquinho de couro e o pedaço de enchimento de lã embaixo dela. Nesse instante. Um tesouro. antes de recolocá-la no lugar com um pequeno dar de ombros. Que encanto seria dormir num lençol assim! Deitar sobre ele e sentir aquela doçura em toda a sua pele nua! Ela estremeceu e fechou os dedos em torno das bordas dobradas do lençol.. Auri deslizou a mão pela superfície. Deslocou a cadeira de espaldar alto o mesmo tanto. sua respiração ficou presa no peito. Testou-a com um pé e sorriu quando ela não se deslocou mais sob o seu peso. Roçou os lábios na maciez do tecido. . levantou-a e examinou a base de seus pés. mas franziu a testa e os fez voltar ao lugar antigo. Por fim. Sem dúvida eram suficientes para um lugar como a Carreta. estavam vários lençóis perfeitos. ela havia arrumado tantas outras coisas! Com certeza.. Tão fina que seus dedos não conseguiam sentir os fios de linha. Havia outros lençóis embaixo desse. E assim. pôs- se de quatro e examinou sua parte de baixo. Eles ficaram lisonjeados com a atenção. para que ela continuasse de frente para o espelho triplo do móvel. empurrou a penteadeira inteira uns dois palmos para a esquerda e a posicionou um pouquinho mais perto da parede. Girou-o de leve para que ficasse de frente para o lugar certo. Por mais encantadora que fosse. alvos e macios. Auri estendeu a mão para tocar num deles e se admirou ao ver como a trama era fechada. Em seguida.

estendendo as mãos para se balançar nas vigas desgastadas pelo tempo que sustentavam o teto rebaixado. Não era esse o jeito das coisas. Fechou a gaveta e se empertigou. sua boca tornou-se firme e furiosa. Correndo com delicadeza na ponta dos pés. Deu uma olhada a sua volta e fez um aceno afirmativo para si mesma. sentiu-se muito melhor. Por fim. num impulso. Tudo estava exatamente onde devia. o lugar tinha nome e ela cuidara de todas as necessidades óbvias. . Lavou o rosto. Depois disso. e os pés. dançou pela Rubrica. e sentia saudade de seu cheiro quente de terra. Fechou os olhos e o repôs na gaveta. Distorcendo a forma apropriada do mundo inteiro. Saltitou pelo Bosque. Querendo mandar em tudo com o peso do seu desejo. Fitou o lençol por um longo momento. passou pela Galeria e pelo Derruído e refez todo o trajeto até o Manto. levantou Foxen bem alto. Tivera um bom começo ali. E. Mesmo assim. Da proximidade das paredes. Sorriu. deu uma corrida até a Fundura. Auri pegou Foxen e desceu a escada sem nome. Às vezes ela era uma coisa cobiçosa. e as mãos. chegou a uma porta estufada de madeira. Sorriu e. Sabia perfeitamente qual era o lugar daquele lençol. Fazia séculos que não a visitava. Cruzando-a. Sabia exatamente onde estava. Querendo algo para si. sentindo a vergonha arder no peito. Aspirou o perfume do ar. Não. mas Auri ainda não sentira qual seria a natureza dessa ajuda. Ela não se deixava enganar. Era claro que a penteadeira necessitava de alguma atenção. enquanto seus olhos eram só suavidade e desejo. abaixando-se sob os canos. Buscou água fresca.

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Isso a exasperou. Auri deu-lhe um beijo rápido de desculpas e o devolveu ao suporte de garrafas de vinho. as mãos e os pés. Auri não olhou para ela. Um dia de fazer. na perfeita escuridão. com seus dois cotocos de braço curtos demais. Estava melhor. O osso do braço e o saco de linho ficaram tão confortáveis que pareciam estar ali fazia cem anos. Acordou Foxen e dobrou o cobertor. Ainda faltava muito para ela estar pronta. Sua lasca fina de sabonete cheirava a luz solar. Sua coragem valia por dez. Posicionou-a de modo que a lacuna do dente que faltava ficasse virada para o teto. Havia muito o que fazer antes da chegada dele. a não ser pela grande engrenagem de bronze. a estatueta de pedra e o pedaço de renda estavam à vontade. não era exatamente o lugar certo. Como se levantasse as mãos. Mesmo assim. tomando cuidado para as pontas não encostarem no chão. A cama também. O portal. mas ele não se encaixava na mesa do canto. Auri acordou no silêncio. na verdade. só serviu para aborrecer o cristal. a fim de preservar a civilidade. Segurou a engrenagem pesada com as duas mãos e a levou para o Manto. Ela pegou o cristal e o colocou junto da engrenagem. Era um gesto inédito. olhou-a e tornou a suspirar. O que um olhar acarreta N O SEGUNDO DIA. Auri a cutucou para um lado. Mas não adiantou nada. Depositou-a na estreita prateleira de pedra na parede em frente à cama. Auri recuou um passo. Ótimo. O corredor era para depois. No Porto. o que a . O cristal valente ficou satisfeito no suporte para garrafas de vinho. Ela lavou o rosto. Isso significava um dia de rodar. com acabamento em ferro. Deu uma olhadela ao redor e suspirou. Havia três saídas do Manto. Estava tudo ótimo. mas a essa altura Auri estava meio perdida. Correu os olhos pelo quarto: sua caixa e a folha e a alfazema estavam bem. A velha fivela preta estava espremendo um pouco a resina. porém. Tudo exatamente como devia ser. A porta era de carvalho. o que foi corrigido de imediato. para agora.

teria ficado satisfeita em permanecer no Porto. não sabia? Relutante. Isso significava uma cobertura. Não tocou nos lençóis. Passou pela parede quebrada e entrou na Carreta. Pálido como marfim. Tocou nas linhas curvas da estatueta bondosa de pedra. O pequenino erro continuava lá. Em seguida. Deixando o lençol onde estava. Ah. Em vez disso. Não a incomodaria se tudo o mais não tivesse quase a perfeição do círculo. Adulado. O lugar dela não era ali. Mas era o tipo de coisa que só um tolo iria ignorar. sem saltitar. Entrou devagar em sua porta recém- aberta enquanto contemplava os afrescos no alto. Se ela quisesse vir. A descida da escada sem nome animou-a um pouco. tinha parecido sensato. limpo e novo. Auri pegou Foxen e fez o longo percurso até a Galeria. Deu outra olhada na engrenagem no Manto. tomou o caminho de volta para o Manto. Consolado. apesar de ainda não haver se penteado. Tirou-a e a depositou delicadamente na gaveta. com certeza. Auri assustou-se ao ver que o espelho estava agitado. precisava corrigir o espelho antes de qualquer outra providência. Não. Auri pegou a fivela de volta e a empurrou para o fundo do bolso. Então. Mas não. levantou o lençol dobrado do alto da pilha. Em seguida. A pedra chata negra? Não. Uma vez ali. O trajeto cambaleava para lá e para cá. sim.fez sorrir. por isso ela conhecia suas pequenas peculiaridades. Afinal. como um pedacinho de cartilagem nos dentes. Auri pendurou seu saco coletor de pano no ombro e jogou umas coisas dentro. pés saltitando para lá e para cá. Não. olhando para o negrume da fivela na gaveta. No Porto. Era macio e cremoso em suas mãos. Auri tinha certeza disso. suas mãos foram para os bolsos. Mas é simplesmente impossível apressar certas coisas. Auri parou. Ele queria movimento. abriu a gaveta do guarda-roupa. Dessa vez moveu-se mais devagar. Coisa orgulhosa. Isso estava longe de ser um começo auspicioso para o dia. Então ela subiu a escada sem nome. ela vestiu seu segundo vestido favorito. Há uma diferença entre a correção e o que desejamos que seja certo. mas primeiro tinha que ser acalmado. Suspirando. Além disso. Mas não. seus dedos tocaram na fivela e ela sorriu. Havia nele uma sugestão de inverno. Fez uma breve parada na sala de estar. fazia bastante tempo que o espelho estava por ali. Além do mais. Assim. Ela apalpou as facetas lisas do cristal valente. evitando as pedras frouxas. Em seguida. Sentiu um nó no estômago. era um dia de rodar. Precisava de uma capa. feito um bêbado. até. encheu os bolsos até não caber mais nada. Ansioso. E Auri não era tola. Mas Auri sabia o que parecer valia no final. . pois tinha bolsos melhores. conforme ela passava de uma parte segura para outra. Em Van. voltou a pôr o lençol na gaveta e correu os dedos por sua brancura perfeita. Ah. correndo os olhos pelo ambiente.

Uma única maçã. Assim. Nesse aspecto. tristemente acomodadas no fundo de um pote de vidro transparente. marrons e lisas como pedras de rio. A xícara rachada de cerâmica estava sentada. Nas prateleiras estava o saco de sal que ele lhe dera. Só então foi possível movê-lo para o outro lado do quarto e postá-lo diante da janela fechada por tijolos. Instalado na bancada de pedra havia um poço de resfriar. quieta. Suas panelas estavam penduradas nos lugares apropriados. Seu estômago era um punho vazio. ao levantar os braços para empurrar sua nuvem de cabelo para trás. Uma pedra virou sob seu pé e Auri agitou os braços como um cata-vento para não escorregar. Não antes do sétimo dia. exceto um naco de manteiga amarela. toda zonza de repente. Só que não estava resfriando nada.. quando já estava quase acabando. O espelho continuava irrequieto ali em Van. estendeu-o sobre o espelho e virou a face dele para a parede. Sem alternativas melhores. pareciam-se . Mas não. as mãos e os pés. ele não a estaria esperando lá. Auri cambaleou um tantinho. onde corria um fluxo lento. pelo menos. Voltando a Van. Seus pés quiseram ir para o Paço das Macieiras. Sorrindo para si mesma. Passada a tonteira. andou devagar até o Cricrido e bebeu um gole grande e demorado. Havia quatro figos gordos. Um punhado de ervilhas desidratadas. sem nada que a detivesse. Mas. Auri as contemplou com anseio e correu a ponta dos dedos pela borda da tigela de prata. Nunca tinha visto o espelho tão contente. Inclinou a cabeça de lado. Uma tigela de prata. havia mais utensílios que comida no Arboreto. Inundavam o ar. Redondas. Na bancada havia uma coisa fina e maravilhosa. solitária e murcha. constatou que seu tempo fora bem gasto. mas constante. Tudo exatamente como devia ser. onde ele queria tão desesperadamente ficar. Então. O que era bom. mas ela sabia que não restava maçã alguma. Era matreiro demais para isso.. esse lugar seria o Vira- Virou? Não. que mal servia para ser comido. Auri foi obrigada a buscar o cobertor de sua cama. Não agora. ela escovou o cabelo e tirou os nós de elfo até ele pender a seu redor como uma nuvem dourada. Com cuidado para não deixá-lo encostar no chão. transbordando de bolinhas de noz-moscada. Auri não achou que as pequenas nozes fossem boas para comer. Ela não tinha nada adequado para dividir. envoltos de forma despretensiosa numa folha de papel. dirigiu-se ao Arboreto. Isso posto. Sua lamparina a álcool estava certinha. de qualquer modo. cheio de facas. equilibrada num pé só. na verdade. tinham vindo de paragens longínquas para uma visita. quase cantando sobre sua terra distante. Auri devolveu o cobertor ao Manto e lavou o rosto. de água gelada. Havia folhas entrelaçadas gravadas nela. Sentiu-se oca. Sentiu a água fria correr por todo o seu interior. E. Por mais raras e encantadoras que aparentassem ser. Nem nada minimamente bom para ser um presente adequado.

com as pernas cruzadas e as costas eretas. Quando terminou. DEPOIS DE COMER. levou a engrenagem de volta para o lugar onde a havia achado. Não. depositou-o na prateleira e desceu para o chão. A engrenagem estava fazendo tudo o que lhe era possível. Auri simplesmente teria que agir com calma e fazer as coisas da maneira apropriada. era um lugar diferente. tentou adulá-la. mas nenhum lhe caiu minimamente bem.com a manteiga: não eram propriamente alimentos. A princípio. Durante todo o tempo que Auri a carregou. Com um suspiro. A culpa era da própria Auri. Auri pegou-a com ambas as mãos e a levou para o Umbroso. ao lado da caixa de pedra. Algumas vinham apenas de visita. suas mãos já não tremiam. ainda que ela fosse pesada. dando mordidas delicadas e cantarolando consigo mesma. a engrenagem cantou por entre seus dedos as respostas secretas que guardava. mas não conseguiu ficar zangada. Deu-lhe arrepios na barriga. nem um pouquinho mais afável do que antes. empoleirada em sua prateleira. perto do riacho. Estava curtida e cheia de outono. Naquele dia. por isso desceu o embrulho de papel e o pôs à sua frente. Seu brilho verde e sereno projetou-se entre os canos que se emaranhavam nas paredes. por algum tempo. A engrenagem ignorou o cumprimento e ficou ali parada. . Auri a carregou pela Casa das Trevas inteira. Depois disso. Auri subiu na bancada de pedra para alcançar a maçã. Não podia se zangar. Também não quis descansar no Cricrido. mas ela não ficou feliz em meio aos barris antigos de lá. por não saber o lugar dela. O simples fato de olhá-la a deixava feliz. depositou-a com cuidado no console da lareira. Colheu água do poço na mão em concha e a bebeu. ela continuou com fome. E. abrindo-o com cuidado. Ficaria triste por vê-la partir. e cortou a fruta em sete pedaços iguais para comê-la. Algumas coisas eram fiéis demais para ficar. Eram mistérios que queriam aguardar o momento propício no Arboreto. a luz de Foxen estendeu- se em direção ao teto invisível. Comeu três dos quatro figos. Tratava-se de uma coisa meiga. mas às vezes não havia mais nada a fazer. As respostas eram sempre importantes. Ela embrulhou o único figo restante. Auri soube que já passava da hora de encontrar o lugar certo para a engrenagem de bronze. Um sino silencioso que marcava as badaladas do amor. Usando as duas mãos. mas quase nunca fáceis. Já com os braços doloridos pelo peso. Sentou-se ao lado do poço de resfriar. Quando Auri entrou na escuridão arqueada do Doze Cinzento. Só para ter certeza. Aquela era a sua natureza. em todos os seus anos lá embaixo. era uma alegria tocá-la. A engrenagem era diferente de tudo o que ela já vira. Auri tentou irritar-se. instalando-a em todos os peitoris de janela.

reluzente de respostas. com a lacuna do dente partido inclinada para cima. pôs a engrenagem de pé na borda de pedra. ao lado de suas garrafas. Avançou mais. Mas a peça simplesmente ficou lá. lisa feito vidro. Mas não foi preciso imaginar o tipo de cano. Com cuidado. A engrenagem não queria partir.Mesmo assim. Mandril? Urso de Cera? Ouviu um ruflar de asas no ar. a engrenagem não chegou nem perto de tremeluzir como antes. negro e o dobro da espessura de seu polegar. provocando-a. O noitibó tornou a bater nele e mergulhou o bico no poço para beber água. Deu um passo para trás e cobriu Foxen com uma das mãos. Um caracol. Erguendo os olhos. O tilintar deixou claro que era de ferro. Ao menos isso ficou claro. toda arredia. ao menos indiferentemente ignorada. sorriu. Auri viu a forma de um noitibó desenhada contra o círculo cinza-opaco de luz que entrava pela grade lá no alto. até onde ficava a água profunda e negra do poço. Auri a pegou e experimentou colocá-la na prateleira estreita acima do poço. Sem nada além da tênue luz cinzenta da grade no alto. de pernas cruzadas. O pássaro golpeou forte o cano com alguma coisa e em seguida a comeu. Auri a fitou com atenção. imaginou Auri. . Elas bateram com força e pararam. com a cabeça inclinada para o lado. Então. se não bem-vinda. Auri soube que era bem-vinda ali. por um momento ofegante. e procurou pensar qual outro lugar serviria para a engrenagem. Auri sentou-se no chão. Ou.

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após terminar o que viera fazer. depois voou para longe. e viu pegadas de botas pesadas. Sua pele ficava toda quente e formigando. Não havia tempo para isso. Ao centro da tênue luz cinzenta. Depois. Ofegante. Primeiro foi ao Manto. voou depressa de volta ao poleiro anterior. Contudo. Mas contavam uma história de que Auri não gostava. Um circuito. Elas contavam uma história. Talvez. Ainda havia tempo. todos cheios de botas duras e arrogância. Sua pulsação começou a acelerar e. Auri sentiu um frio na barriga. Ela retribuiu o olhar por um bom momento. manchas pretas marcadas no pó cinzento do piso. Auri não gostava dali. depois seguiam para o limiar da porta em que Auri se encontrava. Sentou-se ereta e olhou para a ave com atenção. todas as outras opções eram piores. com o frio na barriga virando lentamente um nó. coberto por uma fina camada de poeira. onde lavou o rosto. Mesmo agora. Uma história que ela não queria ver repetir-se. iam de uma mesa até uma prateleira próxima. virou-se e saiu em disparada. Então esvoaçou pela terceira e última vez. Ansiosa. as mãos e os pés. Olhou para o chão. Descreviam uma espécie de círculo. Não ficava nos Subterrâneos. e sem um pingo de conhecimento adequado daquele lugar. Pegou um lenço na caixa de cedro e disparou pela Rubrica e pelo Plumário até a Banca. Seguiam na direção das mesas e da prateleira e saíam pela outra porta. Olhou a outra porta. deu um beijo na engrenagem de bronze. Com a barriga toda dolorida e gelada de medo. as palmas de suas mãos ficaram suadas. entorpecida. Era um lugar intermediário. Encostou o ouvido na madeira e escutou por um bom momento. Ao deixarem o piso empoeirado de Tenência. para que soubesse que não a estava abandonando. Vinham da outra porta. do lado oposto da sala. Abriu a porta devagar. Olhou as prateleiras abarrotadas de vidros. Não podia pedir que as coisas fossem mais claras que aquilo. Eram muito antigas. Não eram recentes. Nada. deu uma espiada no cômodo poeirento. Em seguida. Ela voltaria. essa visão fazia o coração de Auri disparar. Envergonhada de sua grosseria. de repente. porém. Um . Auri olhou em volta do contorno da porta e relaxou ao ver discretas teias de aranha. Olhou as teias que pendiam do teto e as mesas cobertas de ferramentas enferrujadas. indignada ao pensar nelas. Respirou fundo para se acalmar. parada na soleira. por mais que não gostasse dele. Essas voltavam dos Subterrâneos para Tenência. Auri continuou a olhar. Um segundo conjunto de marcas de botas contava a história ao contrário. as pegadas tornavam-se invisíveis. Eles viriam. caixas e recipientes de lata. De volta ao cano. enfim parou diante da despretensiosa porta de madeira que levava a Tenência. Ela cravou os olhos no ponto em que cruzavam a soleira. Não era para ela. Não havia indício de luz em suas frestas. Ela saiu correndo e já avançara mais de dez passos quando se lembrou de seus modos e voltou depressa.

Auri recolheu suas ferramentas e refez o percurso. Seu envoltório espesso estava totalmente encharcado. E assim ela se moveu. O esguicho . ela se afastou do vazamento e seguiu o cano no sentido inverso. poderia ter levado o dia inteiro para descobrir. Depois voltou à porta. Então. acompanhando cuidadosamente seu trajeto por entre os outros. respirou fundo de novo e cruzou o limiar para Tenência. Por fim. a contragosto. Com a expressão feroz. Auri examinou a linha escura do cano quebrado. Mesmo assim. Após um bom momento. deixou-se girar. O pé se encaixava com facilidade nas pegadas. ouviu um som parecido com o de cobras zangadas e chuva. levou uma hora para encontrar o lugar certo. Então. Fechou-a atrás de si. ao dobrar um corredor. O segundo passo pôs pouco mais que a ponta dos dedos em contato com o chão. Primeiro até uma prateleira. e ela resmungava e fumegava. ela optou por se mover devagar. não lubrificada havia muito tempo. enchendo todo o túnel de uma umidade bolorenta de estufa. Após dez minutos e um rápido desvio pela Decúria. e dos outros canos também pingava água. levando os canos aonde eles precisavam ir. De onde se encontrava. Após largar a escova e o pote. Justo quando Auri temia nunca encontrá-lo. enrolou-o na roda e tentou de novo. Os túneis redondos de tijolos da Rubrica percorriam toda a extensão e a largura dos Subterrâneos. Mas a tubulação de vapor não estava nem um pouco satisfeita. justo quando começava a temer que não estivesse mesmo na Rubrica. Não havia som de cobras. sem deixar marcas próprias. uma rodinha que mal continha suas duas mãos. Segurando Foxen bem no alto. Nada. quilômetros e quilômetros de passagens. Os borrifos tinham molhado um pouco mais de 5 metros de tijolos para cada lado. Ela tornou a inspirar outra golfada de ar calmante e se concentrou. Pôs o pezinho branco dentro da marca preta de uma bota. onde examinou os recipientes antes de pegar um pote pesado. correu para a Rubrica. pegou uma escova e apalpou as cerdas com o dedo. um passo cuidadoso após outro. cerrando os dentes com o esforço. torcendo-se para cima e para baixo e virando no sentido inverso. com tampa de vidro moído. cedeu e. Auri encontrou a válvula. Seguiu o ruído até sentir cheiro de umidade no ar. a roda.suor frio afastou todo o calor formigante da pele de Auri. Seu pé era tão pequeno que isso não era difícil. Os caninhos de bronze de ar comprimido não se importavam nem um pouco. A seguir. soltando um suspiro de profundo alívio. com passos lentos e graciosos como os de um fauno. Mesmo indo depressa. Não fosse isso. ela a segurou e girou. viu água jorrando feito uma fonte de um cano rachado de ferro preto. E a tubulação preta e gorda de urina achava tudo muito engraçado. tirou o lenço do bolso.

Mas talvez levasse ao Prédio dos Professores e. Não havia nada. Então veio a parte mais difícil. Futucando as coisas e bagunçando-as sem a menor ideia do que era apropriado. naquele exato momento. acendendo suas luzes inconvenientes por toda parte. Mas um vazamento podia passar despercebido por algum tempo... O ar estava pesado e úmido. Auri deu um suspiro. Fechou a mão sobre Foxen e se manteve quietinha na súbita escuridão. fazendo o cabelo dela grudar no rosto. Gente procurando chaves. havia uma grande probabilidade de que alguma coisa vital lá em cima ficasse muito infeliz. E se levasse ao Cadinho e algum experimento calmamente deixado para calcinar estivesse passando. ao menos teria companhia. Agora. de qualquer maneira. vozes entreouvidas ecoando pelas grades dos bueiros. Auri ficou imóvel. Ela voltou para um trecho seco do piso do túnel e se sentou com as pernas cruzadas nos tijolos entre os canos. Mas ele viria no sétimo dia. onde não havia nada a fazer além de se remexer e se preocupar. um deles estivesse no meio do banho. A espera a exasperou. Estranhos nos Subterrâneos. por uma completa e involuntária cascata exotérmica? Levaria ao mesmo resultado. Pisoteando tudo com botas duras e indiferentes. Ela recolheu suas ferramentas e ficou feliz ao ver que a tubulação de vapor enfim secara a si mesma e a tudo o . Mas não. Os Subterrâneos abrigavam milhares de coisas pequenas que se moviam. Tinha os cabelos escorridos em volta da cabeça. brancos como as juntas dos dedos. Pensou em buscar correndo a engrenagem de bronze. Um arrastar de pés? Um passo? O som de botas? Assustada. água em tubulações.. Sem saber de nada. Pessoas abrindo portas. Fitando tudo sem a menor ideia do que um olhar acarreta. então ela voltou a seu lugar de se sentar. Precisava ficar. o ribombar monótono das carroças infiltrando-se pelas pedras do calçamento. Perturbação. Era exatamente como dissera o Mestre Mandrag tantos anos antes. e ela não chegara nem perto de estar pronta. mas o túnel inteiro continuava encharcado. Aquilo era importante. Sacudiu-se e se levantou. Mas não botas. Já não estava úmido e fumegante. Auri destapou Foxen e foi novamente examinar o vazamento. Auri percebeu que seus punhos eram verdadeiros nós.. esforçando-se para escutar. Assim. Ainda não. Vazamentos eram ruins. em vez disso. Mas não. com certeza. Um eco.havia parado. vento atravessando o Enfunado. O zurro de suas vozes. com o fluxo de água desse pedaço de tubulação completamente interrompido. O ar continuava quente e úmido. Não agora. Auri tinha muito o que fazer. que poderia ficar seco por anos sem que ninguém reparasse. Ouviu algo ao longe. Agora o ar parecia mais limpo. Talvez o cano levasse a alguma parte sem uso do Magno. Sua fumaça.

tampou o pote. depois entreabriu a . sulfônio? Nafta? Estavam longe de ser o que ela usaria. A superfície do tenaculum ondulou-se e o sorriso de Auri se alargou. Em seguida. Nada. o lento silêncio das coisas tinha levado para longe a umidade do ar. fixava-se e se espalhava. banhando toda a circunferência do cano e mais um palmo além da rachadura de fio de cabelo. Melhor ainda. Mesmo assim.. Encostou o ouvido na porta. Cumprido o seu dever. Quem quer que houvesse elaborado e executado aquilo era uma prova viva de que a alquimia era uma arte. ela o enxugou com o lenço. Ah. Escutou com mais atenção. Ela parou e tornou a ouvir junto à porta. Escutou. abriu a porta devagar. para ter certeza absoluta. Seja qual for o movimento. sorriu e correu para ligar a água. Pisou com cuidado no interior das marcas pretas e abrutalhadas das botas. Com cuidado. Apenas o seu próprio medo. Depois. Auri pintou mais duas camadas. Nem espesso como geleia nem ralo como água. Era cheio de grama verde e pulinhos e. preparou a boca e cuspiu com delicadeza na borda da área umedecida. Auri fechou lentamente a porta pesada. A substância demonstrava o puro domínio da arte. Olhou para o interior.. Era esse o jeito apropriado das coisas. Sorriu e examinou o vidro. Ela esticou o dedo e teve o prazer de constatar que a superfície estava dura e lisa como vidro. Nada. mergulhou nele a escova e espalhou o líquido transparente por toda a pequena fissura. O ar parecia estranho e tenso. Em seguida. destampou o pote. um medo de tirar o fôlego. O talento artesanal empregado era inegável. Ao caminhar de volta para os Subterrâneos.. Mas não... O tenaculum era um adesivo complicado. Aderia.. Auri tornou a umedecer a escova e pintou o cano em toda a sua volta. Franzindo o nariz àquele cheiro que lembrava facas. Era encantador. em torno da rachadura. cuidou da escova e retornou a Tenência. Não era de largar coisas desarrumadas.. Foi pisando tal como a água se move em ondas suaves.. mas não se podia discutir com resultados. Auri repôs o vidro em sua prateleira. Distinguiu um vago. sim. quando ela achou ter enxergado novas pegadas de botas no. Havia algo errado. a escova. Não. Auri aproximou Foxen do cano preto de ferro e ficou aliviada ao ver que o problema não passava de uma rachadura da finura de um fio de cabelo.que havia em volta. Em pouco tempo Auri tinha revestido o cano inteiro. Apenas sombras. Por um instante seu coração gaguejou. onde o havia encontrado. instalando-o em seu próprio anel escuro e sem pó. olhou para cima. com o líquido reluzente. Verificou o trinco. a água permanece inalterada. Prendeu a respiração e escutou. Cuspiu mais duas vezes para fixar e vitrificar a substância. beijou-o. a fim de ver se não havia luz em volta da outra porta. Mas não foram. as pedras deveriam ter sido macias sob seus pés. Ao sair. Depois enxugou-o de novo. mas esse estava perfeito. Foram apenas pedras. Embora o cano parecesse seco. Passou a língua pelos lábios.

se andasse e virasse e andasse. Verificou o trinco. Ela precisava de seu lugar seguro. pelo menos.porta para espiar lá dentro. mas ela só se deu conta do quanto estava perdida ao olhar em volta e se ver na Escapada. Não conseguiu recobrar o fôlego. Nada. sua pele estava toda acinzentada de suor. Escutou. Ajoelhou-se para ter certeza absoluta de que a tinha aberto. esperando sem esperança ter um vislumbre do familiar. A areia grossa sob seus pés. E depois errado mais uma vez. As pedras sob seus pés não se pareciam em nada com suas pedras. E mesmo assim. Ela esquecera alguma coisa. em certos momentos. Abriu-a e levantou Foxen bem alto. Auri tentou. acabaria deixando a sinistra e arenosa Escapada para trás. A essa altura. Nada. Não era isso. Sairia num lugar amigável. e não fechado. se o próprio ar se tornara desleal? Todos os ângulos estavam errados em Piquerinho. Como poderia. então. Será que se movimentara com cuidado suficiente? Teria deixado uma mancha no chão? Disparou de volta para Tenência e encostou o ouvido na porta. mas não conseguiu encontrar ar suficiente no peito. Ela virou e tornou a virar. Havia algo errado. Ela sabia. Havia algo errado no ar. mas não conseguiu encontrar seu lugar. as pedras começassem a estar no lugar certo sob seus pés. Mesmo assim. Auri tornou a pressioná-la com as palmas das duas mãos. Verificou o trinco e apoiou nela o peso magro do corpo. O martelo que era seu coração lhe disse para correr. fechar os olhos e apenas respirar. Havia algo errado. Sabia que. Ou. Mas não. Será que ela se movera com cuidado suficiente? Não. Não sabia como havia ficado tão desnorteada. Mas só ver não ajudava. começou a voltar para o Manto. Mas qual era o caminho para lá? Mesmo que . para que sua luz iluminasse a poeira. pressionando com as mãos e a testa. abriu a porta e olhou de novo. Nada. mesmo assim. mas simplesmente não conseguiu relaxar. respirar quase não ajudou. Pôs as duas mãos no cano e sentiu o tremor da água passando. O cheiro de podre. Apoiou o peso nela e tentou dar um suspiro. Mas então ela reencontrou a válvula. Apesar das pedras e da estranheza do ar. Ela precisava ir para um lugar seguro. num lugar que não distorcesse e pressionasse e se agigantasse a sua volta. seus passos foram lentos. Auri andou e virou e olhou em volta. Nada. Ela sabia que parecer não chegava a ser nem metade das coisas. Assim. apesar disso. O jeito de as paredes lançarem olhares mal- intencionados. aos poucos. Torcendo para que. A umidade estava em toda parte. Auri fechou a porta pesada. Fechou-a e verificou o trinco. Voltou correndo à Rubrica. e seu coração gaguejou quando ela virou para o lado errado. mas era impossível negar onde se encontrava. Tentou respirar mais fundo. Tinha que voltar ao Manto. E. ela teve de parar. Tentou seguir adiante. Pegou o caminho mais seguro. A porta se recusava a se encaixar direito em sua moldura. De repente a luz de Foxen pareceu muito tênue. porém o coração estava enrijecido e apertado em seu peito.

Precisava voltar ao Manto. A umidade pegajosa da Escapada grudou em seu cabelo e o tornou pesado. Não se atreveu a deixá-lo para trás. Fechou a boca. estendeu a mão para se apoiar na dura indelicadeza da mais próxima. onde as paredes eram apenas carrancudas. Toda quieta. Amedrontado. Auri sorriu ao ver as coisas se abrirem à frente. refazendo o caminho por onde viera. Auri recuou. Mas. Mas a Porta Negra queria. dobrando um corredor. embora sua luz fosse rala e esfiapada. as pedras eram seguras sob seus pés. carregadas de rancor. O nó úmido e apertado da Escapada não queria que ela tornasse a entrar. seguiu para o Acastanhado. Até que enfim. Auri tateou dentro de si em busca do seu nome perfeito e verdadeiro e. Auri deixou o emaranhamento dele cair a seu redor feito uma cortina. Precisava do seu lugar mais perfeito. . Precisava que tudo não desmoronasse por completo ao seu redor. Apenas deu um passo lento e escorregadio após outro. Depois. Passos lentos. ela encontrou o caminho de Piquerinho. Reluzia. a visão dele nesse pequeno espaço a fez sorrir. Auri nem sequer se virou. Uma virada. Criou-se ali dentro um espaço minúsculo. ainda assim. Tremia e não conseguia ficar de pé. Uma máquina de lacerar. O ar estava denso e calafriante. trêmula. Por fim. Lá. O peito começou a relaxar quando ela finalmente avistou o fim da Escapada lá adiante. escorrido. Passo a passo. ela se obrigou a voltar para a Escapada. Estourado. o ar estava ficando abafado e atordoante ao seu redor. Lá. Ainda era dela. A via larga e bem-vinda que levava a ela estendeu-se diante de Auri como uma boca aberta. Auri levantou-se e caminhou vagarosamente para fora da Escapada. Descobriu-o e. Deu dois passos à frente antes de perceber o caminho que lhe era oferecido. Mas se abria para a quietude vasta e deserta da Porta Negra.soubesse. Tudo. e arriou no chão. enfim o sentiu ali. Foi difícil. apesar de haver demorado um longo e solitário momento. preta e tenebrosa. Viu o bravo Foxen brilhando bravamente no abrigo de suas mãos. As pedras se ressentiam de cada passo dela. Com movimentos lentos. tudo rosnava e se desfazia. Auri abriu os olhos e fitou esse minúsculo lugar privado. O emaranhado de túneis indesejados se abria diante dela. A parede prendeu sua mão e a machucou. por isso se dobrou sobre si mesma e se sentou de pernas cruzadas no chão. Não se atreveu a perder de vista o caminho para a Porta Negra. As paredes. Auri estava zonza e intrigada e curvada. Mas nas bordas ainda era cintilante. todo invisível. Não. Não. Uma goela. Estava trêmulo e apequenado. Todo descosido. Embora ela tivesse aversão a tocar nas paredes. Fechou os olhos. Parou. não. Um pequeno espaço só para ela. Passou um tempo longo e silencioso sentada ali. ralando a pele das juntas de seus dedos. Cobriu Foxen com a mão. tudo era meigo e correto de verdade. Inoportuno. Sentou-se toda pequenina.

Isso ajudou. chegou a ficar refulgente. Seu coração amoleceu e se aqueceu. Inspirou e soltou o ar num suspiro. ah. Tudo estava de novo em seus devidos lugares. Foxen voltou a se exceder. Ela sorriu. Sentou-se por um longo momento em sua cadeira perfeita. Lavou o rosto e as mãos e os pés. perfeito de verdade. Auri foi a Van e escovou o cabelo até tirar toda a umidade e os nós. E então finalmente sentiu as pedras do Manto sob os pés. Já não sentia a pele esticada de tensão. Aspirou o adorável ar comum. Apreciou sua folha perfeita. Sentiu seu nome doce dentro do peito. Entrou pisando de leve em seu lugar perfeito. .

A engrenagem não se mostrou mais contente. com suas paredes de lambris. Talvez fosse esse o seu lugar. Linda e quebrada A PÓS UM MOMENTO de descanso. ela pudesse ver a engrenagem sob um prisma melhor. Ou lá. Especialmente com o lugar tão novo e quase perfeito. supôs Auri. Ser tão encantadora e tão perdida. com todo aquele saber aprisionado do lado de dentro. melhor ainda. Auri bebeu água do poço do Cisco. Acomodou a engrenagem no sofá e se aninhou ao lado dela. assim. depois voltou a descer para buscar a engrenagem. Ser linda e quebrada. mas. Era um lugar tão bom quanto qualquer outro. talvez a coisa de bronze pudesse dar-lhe algum indício do que era o pequenino erro oculto que impedia a sala de estar de ressoar com a doçura de um sino. Toda cheia de respostas. Auri deu um suspiro e inclinou a cabeça para ela. Ou. E entrou em sua nova sala de estar. E. Auri carregou-a para a Galeria. Pobrezinha. talvez. Auri meneou a cabeça e pôs a mão com delicadeza no rosto liso da engrenagem. Na falta de ideia melhor. tão merecedora de achar seu lugar certo quanto qualquer um. lá foi ela para a refinada e rica Galeria. ainda assim. num gesto de consolo. Ela era paciente como três pedras. sentada em cima dos pés. .

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Mesmo assim. . Alisou-o bem com as duas mãos. em um lampejo. percebeu que o lugar dele já não era ali. Auri tornou a pegar a engrenagem de bronze. Ela colocou a fivela manchada ao lado do botão.. Mal percorrera metade do caminho de volta ao Manto. Vago. e ela meio suja e de mãos vazias. Foi então que lhe ocorreu a ideia. Todo ele cantava em dourado. Tornou a ouvi-lo. Seus pés descalços eram brancos. Como um sino.. era difícil aqueles antigos destroços da caverna lhe virem à cabeça.. Auri dançou. sorrindo ao fechar as mãos em torno dela. e cada parte do seu riso foi um pássaro minúsculo que saía aos tropeços para voar pela sala. Um som que poderia ser o tilintar de cristal no cristal. Suas mãos voaram para os bolsos. contrastando com a maciez escura e musgosa do tapete. Levantou-se e dentro dela houve um clique. Era claro. Não era possível. Pronto. Talvez um maquinismo grandalhão e morto muito tempo antes tivesse uma desesperada necessidade de nove dentes brilhantes e de amor em seu coração abandonado. o coração chegou a andar de lado em seu peito à ideia de revê-lo. Ela soube exatamente qual era o erro. Ficou imóvel como uma pedra. Silenciosa como a quietude do coração. E. como o de uma chave na fechadura. Auri disparou para o Manto mais depressa que um coelho perseguido por um lobo. Levantou o canto do tapete e o enrolou até ver o botão deitado ali. Faltavam dias e dias. com um sorriso animado. mas também poderia ser o tanger distante de uma corda esticada. quando seus olhos passaram pelo anel na mesa. COM O CORAÇÃO SALTITANTE DE FELICIDADE. à procura. Ela se postou no centro do cômodo e deu um giro completo para ver tudo. Como a lua em seu perfeito plenilúnio. quando pensava em amor e respostas. Auri riu de prazer. Virou-a.. Ela não estava nem perto. Sim. Ele estava livre para ir para onde lhe aprouvesse. Aproximou-a um pouco mais. Mas talvez fosse exatamente essa a questão. satisfeito. não é? Auri deslizou um dedo pela lateral da engrenagem e sua pele prendeu um pouquinho na borda lascada de onde fora arrancado o décimo dente. Quem sabe em Passa-Fundo? Por que não pensara nisso antes? É verdade que. Sentiu um ligeiro tremor ao repor o tapete no lugar. Ele estava lá! Com dias de antecedência. Transbordando de alegria. que poderia ser um pássaro. Ainda não. ouviu uma sugestão de música. Pôs-se de pé num salto. Agora a sala estava perfeita como um círculo. e o âmbar que continha era suave como uma tarde de outono.

Era bem refinado. Correu os olhos pela outra prateleira. verdade seja dita. com o azevidro numa das mãos. Ótimo. depois descendo por Remos e. Nem o livro. Respirou fundo e disparou pelo gramado. Deslocou-se de um pé para o outro e correu os olhos pelo Manto. Auri não queria lhe dar nenhuma sugestão de demônios. Dali podia ver tudo. e era orgulhosa demais. Agora a engrenagem estava emburrada. Ótimo. como presente.. Teria mesmo ouvido? Será que ele a estava esperando? Será que sua confusão tinha sido tal que ele se entediara e fora embora? Ela pôs Foxen em sua caixinha. A empolgação inundou seu peito. Pegou as drupas e as colocou no vidrinho. duas vezes brilhante. O coração martelava enquanto ela tentava escutar. subiu correndo pelos galhos entrelaçados. Nenhuma voz. embora ele passasse por Vultos. tampouco. Ali. não. as mãos e os pés. Então chegou ao Topo das Coisas. provando o ar. um mau presságio. correu para o Porto e examinou as prateleiras. de cor viva feito sangue na toalha. Ainda não. O osso. A grade se abriu e Auri subiu para o Paço das Macieiras. infinitamente. Era mais improvisado do que ela gostaria. Aquilo era suficiente para uma visita antecipada. é claro. com sua umidade e seu medo. Claro. Nenhuma nuvem. Nada. Tornou a pousar o cristal. Mal chegava a ser apropriado. era ele quem estava adiantado. Ficou imóvel. Respirou fundo. Auri sorriu. Era complicado. Sua folha amarela perfeita era quase a coisa certa. com certeza. Não era uma lua boa. Depois. protegida pelas cercas vivas que lá havia. Mas. com aquele cheiro horroroso de flores quentes pairando no ar. passos ecoando em todo o trajeto por Grimsby. finalmente. Tirou a roupa e pôs seu vestido favorito. Auri olhou para fora e espiou o céu. Em seguida. Ali. ela colocou a engrenagem acima da lareira. A lua fitava o Paço das Macieiras. Mas. Da segurança da sebe. indo colocar-se sob os galhos protetores de Lady Larbor. Ela escorregou um pouco e a casca áspera da árvore arranhou-lhe as solas dos pés. Escutou. Couberam perfeitamente. Música. com suas drupas de azevinho dispersas. Vidro de Azevinho. Azevidro. Fechou os olhos e tornou a escutar. trêmula de agitação nervosa. Eram zelosas e certinhas. parou para respirar e ficou imóvel como um prédio. Nada. girou-o na mão. Depois de olhar em volta mais uma vez. Disso ele já tinha o suficiente. Nenhuma luz nas janelas. E combinava com ele. Havia o anel de ouro outonal recém-encontrado.. Olhou então para o vidrinho com a tampa aberta. Uma visita antecipada. De novo no Manto. Auri fez uma pausa sob a grade pesada do bueiro. era.Pegou o caminho mais rápido. Para mantê-lo seguro. lavou o rosto. Auri pôs dois dedos no cristal. abriu o trinco oculto e empurrou as pesadas barras de ferro com os braços trêmulos. Temerant inteiro . subindo até Viagem por Baixo. Auri disparou porta afora. pegou-o.

estendia-se sob seus pés, interminável. Era tão bonito que ela quase não se importou com a
lua.
Podia ver as chaminés espetadas do Cadinho, e o Cercado com suas asas, todo cheio de
cintiluz. A leste ela avistou a linha prateada da Velha Estrada de Pedra, que cortava a
floresta como um facão, seguia para a Velha Ponte de Pedra, cruzava o rio e continuava para
longe, longe, longe...
Mas ele não estava lá. Não havia nada. Apenas o alcatrão morno sob os pés. E chaminés.
E a nitidez da lua.
Auri segurava o azevidro numa das mãos. Olhou em volta e entrou na sombra de uma
chaminé de tijolos, para que a lua não pudesse vigiá-la.
Prendeu a respiração e ouviu. Ele não estava ali. Mas talvez. Talvez, se ela esperasse.
Auri olhou ao redor. O vento passou soprando e fez seu cabelo rodopiar em volta do
rosto. Ela o afastou, franzindo a testa. Ele não estava ali. É claro que não. Só viria no sétimo
dia. Ela sabia. Sabia como as coisas funcionavam.
Ali permaneceu, imóvel, as mãos junto ao peito. Segurando o vidro de azevinho. Olhos
correndo pelos telhados enluarados.
Sentou-se de pernas cruzadas no estanho, à sombra da chaminé de tijolos.
Correu os olhos em volta. Esperou.

Um lugar aprazível bem incomum

U MA NUVEM ACABOU por esconder a lua. Convencida. E Auri aproveitou a chance para voltar
correndo aos Subterrâneos.
Sentiu o coração pesado em toda a travessia da Decúria. Mas achou um grande
emaranhado de madeira seca no Umbroso, arrastado para as grades dos bueiros em alguma
tempestade esquecida. Freixo e olmo e pilriteiro. Era tanta lenha que foram necessárias seis
viagens para carregar tudo para o Manto. Foi um achado e tanto e, ao final do processo, Auri
quase assobiava.
Lavou o rosto, as mãos e os pés. Sorrindo para o perfume da lasca ainda mais fina de
sabonete adocicado, tornou a pôr seu segundo vestido favorito. Ainda era dia de fazer.
Depois de encher os bolsos e pegar o saco coletor, ela se encaminhou para o Mandril.
Nem precisou molhar os pés, pois fazia séculos que não caía uma chuva forte. Na ponta mais
distante do caminho tortuoso, parou antes da última esquina. Havia um toque de luar
adiante, então ela deu um beijo rápido em Foxen antes de guardá-lo em sua caixinha de
madeira.
Percorreu o trecho final do Mandril de memória, mais do que pela visão, pisando com
cuidado até ficar atrás da grade vertical de escoamento, que não dava para grande coisa a
não ser o fundo de uma valeta. Posicionou-se junto às barras pesadas. Dali avistou a massa
do Refúgio, no alto do morro, uma sombra que se agigantava contra o céu estrelado.
Algumas luzes ardiam nas janelas, umas vermelhas, outras amarelas e, no andar mais alto,
uma brilhante e assustadora luz azul.
Auri prendeu a respiração. Nenhuma voz. Nenhum casco. Nenhum uivo. Olhou para
cima e viu as estrelas, a lua e uns retalhos finos de nuvem. Observou um retalho de nuvem
mover-se lentamente pelo céu. Esperou até que escondesse a nesga de lua.
Só então soltou o trinco escondido na parte interna da grade, para que ela se abrisse
como uma porta. Disparou pela valeta, atravessou um trecho de grama bem aparada e se
escondeu nas sombras, embaixo de um amplo carvalho.
Ali ficou por algum tempo, imóvel, até seu coração desacelerar. Até ela ter certeza

absoluta de que não fora vista.
Em seguida, foi contornando a árvore, até que o prédio já não pudesse vê-la. E, depois
disso, virou noutra direção e desapareceu no bosque.

ACHOU O LUGAR QUANDO COLHIA PINHAS. Um pequeno cemitério esquecido, com as lápides
cobertas de hera. As roseiras cresciam à solta, trepando no que restava de uma antiga cerca
de ferro.
Com os braços colados ao corpo e as mãos sob o queixo, Auri entrou no cemitério. Seus
pezinhos caminharam em silêncio quando ela se moveu entre as lápides.
A lua tinha ressurgido, mas agora estava mais baixa e acanhada. Auri deu-lhe um sorriso,
contente com a companhia, agora que já não estava no Topo das Coisas e o Refúgio tinha
ficado muito para trás.

.

contornou o jardim e foi ao celeiro. Ele se aproximou devagar. Sua massa equivalia a uma vez e meia o peso de Auri e seus ombros batiam quase no peito dela.Ali. com letras desgastadas pela chuva e pelo tempo. Lá havia um cão estranho. Mantendo-se na sombra. Toda estranha e deslocada. Meneou a cabeça. seus galhos assomavam no alto. Encontrou uma folha e aspirou seu aroma. Tocou-a com dois dedos e seguiu adiante. ENCONTROU um cogumelo e o comeu. E então começou a colher as frutinhas azuis do loureiro e a guardá-las no saco. com o pescoço grosso e cicatrizes no rosto todo. Era uma coisa solitária. Auri levantou a tigela de madeira e achou embaixo dela um pedaço de pão integral fresco. Saiu das sombras quando ela chegou perto do celeiro. com ardósia sobre o telhado pontudo. mas satisfeita. Todo de pedra. Ajoelhou-se e o encaixou bem fundo no espaço escuro e oco embaixo da árvore. de um lado para outro. Ali descansava um prato de madeira. Auri o deixou para as fadas. coberto por uma tigela de madeira emborcada. lambeu seus dedos. Sabia que a outra tigela continha leite. todo tendões e rosnado. Auri passou alguns minutos colhendo as que tinham o chapéu perfeito e guardando-as no saco coletor. Era um lugar de bom gosto. abriu a bocarra num . Uma coisa encantadora e repleta de convite. Ficou surpresa. Sorriu com satisfação. A seu lado havia uma tigela de barro. Levantou a hera de um monumento. Ainda mais tarde. Nele havia saúde e coração e lareira. mas o prato que a cobria estava virado para cima. na orla da clareira. EXPLOROU A FLORESTA. Auri fez pressão com a mão no tronco escuro da árvore. Suas raízes se estendiam por entre as lápides. Ela o guardou no bolso. Na varanda dos fundos. Perambulou por entre as lápides e parou diante de uma que estava quebrada. Levantou-se. O cão a farejou. Uma orelha era desigual e lhe faltava um naco. com os pezinhos bem ajustados entre as raízes. depois virou-se para ver o loureiro que avultava no canto oposto do terreno. Respirou fundo o aroma cálido de suas folhas. Chegando mais perto. a lua mostrava as bolotas espalhadas pelo chão. Auri sorriu e estendeu a mão. uma mesinha. Era preto. perto da porta. perdido em alguma briga esquecida. Circundou-a lentamente e divisou um vão escuro entre as raízes. DEPOIS DISSO. enfiou a mão no saco coletor e retirou o osso que tinha achado no dia anterior. observando-a. mantendo baixa a cabeçorra e se movendo com desconfiança. Contemplou as estrelas. cruzou um riacho que nunca tinha visto e se surpreendeu ao achar uma pequena fazenda aninhada entre as árvores. tapada por um prato de barro vitrificado. espanou a terra dos joelhos e se espreguiçou.

quase nada. Ela lhe sorriu e se demorou escovando o rabo e a crina do animal. Auri o pôs em seu saco coletor. O favo era cheio de sinos silenciosos e tardes sonolentas de verão. O sebo estava enfurecido. Estava escuro. Era um lugar aprazível. Auri subiu na pedra. Um nabo solitário havia caído de sua cesta e fora abandonado no chão. Ah. Foi mais devagar na segunda metade. Então. Havia uma cabra prenha que baliu uma saudação. Mas. enchendo o espaço aberto. Tudo era bem cuidado e amado. Auri pegou o pano branco e limpo em que tinham estado as drupas de azevinho e . Enfiou a mão no saco coletor e tateou entre as bolotas que havia colhido. deslocado ou errado. cada um mais grosso que um tijolo de cinzas e com o dobro de seu comprimento. a não ser por umas finas réstias de luar enviesadas pelas paredes de madeira. As portas estavam trancadas com um gordo cadeado de curral. tirou o pedaço de fina renda branca de bilro. Mas então seus dedos o encontraram e Auri compreendeu. Bem. Dentro do recipiente Auri encontrou cortes de carne e manteiga cremosa doce. A batedeira de manteiga. cheia de nós de hera. Era uma tempestade de maçãs de outono. Encontraria um propósito num lugar como aquele. pequena e bem equipada. Havia também uma grande máquina de resfriar de pedra na qual se empilhavam blocos de gelo. A mó. O celeiro estava repleto de almíscar e de sono. pois as tábuas do celeiro pareceram estranhas a suas mãos e seus pés. Passou os dedos pelo cristal e pelo bonequinho de pedra.enorme bocejo e se ajeitou para dormir. A rocha também não era adequada para aquele local. Auri abriu a caixinha de Foxen e sua luz verde-azulada ampliou-se. Era um encanto. Um cavalo velho afagou o pescoço de Auri com o focinho quando ela passou por sua baia. O fazendeiro amava as abelhas e fazia as coisas da maneira certa. também. Auri o guardou no fundo do saco de linho. Havia um pedaço de sebo numa tigela e um favo de mel numa bandeja. examinando tudo. O celeiro era imenso: pedra embaixo e madeira pintada em cima. Com cuidado. Não queria outra coisa senão partir. Havia um gato. pareceu que nada do que ela havia levado se encaixaria direito. Auri pôs um punhado de cereal em seu comedouro. Por um longo momento. o palheiro estava bem aberto para saudar a noite. A pedra de amolar. e os dois se ignoraram. Uma pele de urso estendida num suporte para curar. no alto. Auri passou algum tempo ali. Nem um pouquinho roubado. Até o barco mais bem vedado deixa entrar um pouco d’água. Nada que ela pudesse ver era inútil. bastante incomum. A renda era obra cuidadosa de muitos dias longos e sonolentos de outono. Auri apalpou o interior dos bolsos. velhice e raiva. com a rapidez de um esquilo. mas o favo de mel. Dobrou-o e o deixou perto da batedeira.

O cabelo fino a seguiu feito cauda de cometa. fazendo uma estrela. girando e saltando. subiu a escada para a janela aberta do palheiro. Em seguida. Em seguida. Então. Uma garotinha a observava de olhos arregalados. Era a coisa perfeita. . Dessa havia onze blocos quadrados. no fim. ainda menor que o seu. Adoraria levar também um pouco da manteiga.esfregou manteiga nele. Cheios de cravo e canto de pássaros e. além de sortudo. Depois. seu cabelo se mexia sozinho. dobrou a esquina do celeiro e deu mais ou menos dez passos antes que um arrepio na nuca lhe dissesse que estava sendo observada. Foi dançando até lá. isso era tão verdadeiro que não podia ser negado. estranhamente. avistou um rostinho pálido. eram todos adoráveis. Auri a viu. E aquele era o lugar perfeito. Isso se fosse curiosa. quase até o ombro. Saltitando. e aos poucos lhe cercou o rosto com a delicadeza de uma baforada de fumaça. É verdade que ela já não estava nos Subterrâneos. O que teria visto? A luz verde de Foxen brilhando entre as ripas de madeira? A forma pequenina de Auri. Auri vasculhou o saco coletor e procurou duas vezes em todos os bolsos. no negrume de uma janela aberta. O buraco era perfeito. bravo explorador que era. correu para dentro do arvoredo. descalça ao luar? O sorriso repentino de Auri foi escondido pela cortina de cabelo. e o embrulhou da melhor maneira possível. mas. Auri olhou em volta e viu uma árvore com um buraco escuro no tronco. No chão. obscurecida pelo cabelo feito lanugem de cardo. Auri tirou o cristal do bolso. Embrulhou o cristal numa folha e o depositou no fundo do buraco. Sem movimentar nada além dos olhos. alinhados na prateleira do resfriador. A primeira em séculos. VOLTOU AO CEMITÉRIO E SUBIU numa grande laje plana. Ela saltou. Guardou Foxen e desceu devagar pela lateral do celeiro. Ela parou no meio de uma passada e ficou imóvel feito uma pedra. quebrou um pedaço do favo grudento. Beijou-o. Mas. com a mãozinha na boca. dançando. Fechou bem o resfriador. com o saco bem preso nas costas. com a profundidade exata para que uma garotinha pudesse introduzir sua mão e apalpar o interior. afastou do rosto o cabelo esvoaçante e beijou o cachorrão no alto de sua cabeça adormecida. de costas para a casa da fazenda. uns toques carrancudos de barro. Tapou a boca com uma das mãos para não rir. pulando e rindo alto e à larga. já que a sua estava cheia de facas. ainda saiu de mãos vazias. assim mesmo. abriu a caixa de Foxen e ouviu um minúsculo arquejo propagar-se pela noite silenciosa às suas costas. No segundo andar. Com as costas empertigadas e sorrindo. e se inclinou para ver o interior do buraco. Tocado pelo vento. do tamanho de sua mão espalmada. Mesmo assim. Se fosse corajosa o bastante para enfiar o braço lá dentro.

Depois. Auri também lambeu os dedos. comeu sementes recém-tiradas das bolotas. composto de pão integral macio e um tantinho de mel. seu coração transbordava. cada qual uma iguaria minúscula e perfeita. . Durante todo esse tempo. toda travessa e indecorosa.preparou para si mesma um jantar adequado. Seu sorriso era maior do que a esguia lua crescente. como se fosse uma coisa vulgar.

Vazio NO TERCEIRO DIA. Auri chorou. .

Já fazia muito tempo. esse era um dia de velas minguantes. no quarto dia. apenas estalou. sob o manto tenebroso da escuridão completa e pesada. Ainda assim. Então. Foxen estava assustado e cheio de montanhas. quando o ouvira tocar pela primeira vez. desse jeito. Ainda havia muito o que fazer. Ela não o culpou. mesmo sabendo que nada de bom podia advir de querer algo do mundo. escapulindo quando a pessoa precisava de consolo. Riscou um fósforo no chão. Antes . Movendo-se com delicadeza no escuro. Alguns dias simplesmente pesavam na gente feito pedras. mas ela se lembrava. soltou uma chispa e se partiu. na escuridão raivosa. desejou que fosse outro tipo de dia. Quebradiços demais. ele chiou. tirando-lhe o fôlego. estava tão mal-humorado que foi quase grosseiro. Deixou-os fechados enquanto pegava fósforos e uma vela. Estivera sentada assim. as coisas tinham mudado. E esses eram todos. O segundo fósforo mal chegou a soltar faíscas. Auri sentou-se por um momento no escuro. Mau começo para um dia ruim. vazia feito casca de ovo. ela lhe deu um beijo e o devolveu ao seu lugar apropriado. Um dia de queimar. Uns eram volúveis como gatos. empurrando-a. Não fazia diferença estar de olhos abertos. por meio minuto. A escuridão raivosa Q UANDO AURI ACORDOU. O terceiro rachou-se. voltando quando ela não os queria. os dias de queimar eram centelhantes. Mas só lhe restavam três dias. Depois saiu da cama. Ele praticamente se consumia de medo. Já havia acontecido algumas vezes. O quinto triturou-se e se desfez em nada. Não eram bons dias para fazer. Ela percebeu isso antes de se espreguiçar. Sabia como isso podia ser. Vazia e com o peito carregado. Eram bons para se ficar quieto e manter o chão firme embaixo dos pés. O quarto acendeu e apagou. Auri apanhou Foxen em seu prato. Mas. Assim. Não. Ela não censurava Foxen. Mesmo sabendo que era maldade fazer isso. não haveria como persuadi-lo. Antes de entreabrir os olhos na escuridão ininterrupta. por isso os deixou fechados enquanto suas mãos buscavam a caixa de cedro.

Chegaria para uma visita em três breves dias. As prateleiras pareceram mais vazias que de hábito. Ela voltou a se sentar no chão. Auri fez sua lenta e cuidadosa saída pelo corredor. como se não bastasse. Havia três saídas do Manto. Passou pelo Urso de Cera.. Então. até aquele momento. Nem presente adequado nem. pôs- se de pé. E quase ficou por ali.. Uma dentada no pão. Viria carregado e com dedos habilidosos e. Auri se recompôs e. Logo. nada que ela pudesse dividir. Chegaria logo. Naquele dia. roçando os dedos de leve na parede para conseguir encontrar o caminho. Mas não havia sabonete. apesar de todo o trabalho e perambulação. E todas as suas outras barras estavam em seu devido lugar. ela parou e fez meia-volta. Ela sabia o caminho para a mesa da cama. Por isso. era desnecessariamente estreito e todo atravessado por teias. tantas coisas! Ele era rude com o mundo. após atravessar metade de Piquerinho. Fechou os olhos. toda corda arrebentada e cabelo embaraçado. O portal estava escuro. a chama amarela saltitante fazia tudo parecer estranho e angustiado. por medo de encontrar o Doze Negro mais adiante. o único caminho adequado. porque os Saltos eram perigosos demais sem luz. Três dias. O sonzinho gratificante da água correndo no poço de resfriar veio saudá-la. ah. A porta estava escura e fechada e vazia e não era nada. Auri ainda não havia encontrado um presente adequado para ele. O corredor estava escuro. tão desconhecedor de. Mas ela acabou achando o caminho para o Arboreto. caminhando para o Arboreto. ao lado da cama. Auri pôs no bolso os cinco fósforos restantes e bebeu água do poço de resfriar.. A súbita luminosidade lhe doeu nos olhos e. e sozinha como um botão. E. Encontrou na prateleira os poucos fósforos que lhe restavam e acendeu sua lamparina a álcool. Lavaria o rosto e as mãos. mesmo depois que ela se recuperou. e só então Auri se lembrou de como estava faminta. Escolheu a rota mais longa. Havia água fresca na bacia. Uma flor no coração dela. E. ah. na Padaria. que passava pelo Acastanhado. ela não suportaria pensar nisso. Ela lavou as . não tinha captado sequer um eco vazio de algo que pudesse levar. à luz estranha e irrequieta. que prendiam no cabelo. sem amigos nem luz a guiá-la. Assim. Apesar de tudo o que sabia sobre o jeito das coisas.de ele lhe dar seu novo nome. tantas. deixando- a grudenta e irritada. Pensar nisso tornou-lhe mais fácil ficar de pé. todo meigo e valente e arrasado e bondoso. Mas ele viria. mesmo assim.. mas. não lhe restava outro caminho senão a úmida e bolorenta Escapada. Um pedaço de sol que nunca a deixava. Simplesmente não podia ser assim. O ar no alto tão escuro e parado e gelado quanto o poço embaixo. levantando-se devagar. Auri tinha usado o último pedaço. doce e perfeito.

Ali era a Padaria. naquele amarelo tremeluzente. Modificava os Subterrâneos. Não. Atrevera-se a ir ali. . Depois. percorrendo o trajeto para o nichozinho atijolado que era absolutamente perfeito para maturar sua reserva oculta de sabonete. A poucos passos de distância. Em seguida. Não era digna de confiança. depois direita. Esquerda. Oito barras. Toda esquisita e amarela. E um tufo de pelo onde algum bichinho escalador tinha se esfregado num ressalto de tijolo. Uma coisa havia comido todo o seu sabonete perfeito. Seu rostinho. Nada de barras meticulosas de perfeito sabonete de verão. depois esquerda. Desejou que aquela coisa esganada passasse uma semana fazendo cocô. Auri parou. ficou perplexo. Depois retornou.mãos e o rosto e os pés na água gelada. atordoado. Não quente. Aquele era o seu nicho. Mesmo na morna irradiação do lugar Auri sentiu um frio na barriga. e comer tudo. Estendendo a mão. virou para um lado e tornou a virar. mas seco. como uma fornalha esquecida. comeu o último figo que sobrara.. vazia e oca na escuridão raivosa. E então sua boca enfureceu-se. e depois caísse numa fenda. Foi um gesto tão tenso de raiva que Auri teve medo de perder a cabeça e partir o mundo em dois. Ele tinha sumido. Era óbvio que esse era outro nichozinho atijolado. Os olhos endureceram.. sentou-se no chão e comeu o nabo em pedacinhos. Jogava sombras em toda parte. perdesse o nome e morresse sozinha. Que nesse dia não estava forneira. Esquerda e direita. Torceu para que defecasse as tripas do seu eu horroroso. Toda descabelada e grudenta. mas acocorada e macambúzia. Por baixo da fragrância do seu doce sabonete de citerina havia cheiro de urina e almíscar. Seu rosto miúdo exibia uma expressão grave. contando as viradas. ela saiu procurando. ela segurou o tufo de pelo entre os dedos. Mas não. O estoque de sabonete de um inverno inteiro. Alguma coisa havia comido todo o sabonete feito por ela. Era a luz cambiante da espiriteira que a estava enganando. encontrou seu saco de aniagem em frangalhos. E. ao lugar certo do sabonete. Auri bateu o pé no chão. Haveria alguém em seus Subterrâneos? Alguém estaria trocando coisas de lugar? Arranhando a polidez de todos os seus longos e árduos anos de trabalho? Toda lacrimosa e frouxa por dentro. TODA TREMELUZENTE E GRUDENTA de teias de aranha. de cabo a rabo. Nada de saco de aniagem. Ela fez meia-volta e seguiu seus passos de volta ao Rescaldo. Não havia sabonete. a princípio. Passou pelos canos melodiosos. espiando pelos cantos e iluminando sombras com a lamparina. Auri seguiu para a Padaria. Mas não havia nada nele. O cheiro de noz-moscada formigava no ar. vazio até não poder mais.

Ela segurou um gancho pendente e se inclinou sobre a água. tirou um tempinho para mergulhar no poço no fundo do Doze Prateado e se sentiu um pouquinho melhor. sacudiu-se e esfregou a pele molhada com as mãos. mas eles empacaram nos nós emaranhados. Auri a achou. Ele se debateu e ela foi forçada a apertá-lo mais do que gostaria. uma coisa perdida ia parar no fundo do Doze e caía no poço ao beber água. Um guinchinho choramingado. Tentou correr os dedos pelo cabelo. Mas era melhor do que nada. por isso Auri não se incomodou. Foi ofegante a demora até o encontro. E ela a mordeu. Quando voltou a pôr os dois pés na pedra. Aquilo estava longe de ser um banho satisfatório. e mal começara a espremer a água do cabelo quando ouviu o ruído. Mas era gentil e distante. mas Auri conteve as lágrimas. E vinham ecos de toda parte. segurando gentilmente o gambazinho na mão em concha. Ela saiu em disparada. Sua mão descreveu um arco suave e mergulhou na água. O som da aflição. levantando uma perna para se equilibrar. Toda desgrenhada e emporcalhada. seus olhos endurecidos ficaram marejados. ela confiou no luar e subiu correndo o Férreo Antigo. A lua espiava vagamente pela grade do alto. e lhe deu uma segunda mordida na ponta do dedo mindinho. Se ele tornasse a cair no poço. Uma molhadela. Um espadanar minúsculo. Ao sair da água. virou-se e saiu tempestuosamente. Enfim. mal tinha idade suficiente para sair sozinho. Levantou a mão e cutucou a pobre . procurando. Não naquele dia. Esticou-se como uma dançarina.. poderia arquejar e se afogar antes que ela o achasse e o pescasse de novo. A porcaria da tremeluzinha horrorosa parecia projetar mais sombras do que as afastar. Acalorada pela Padaria e toda suada de raiva e com a incorreção de tudo. NA VOLTA PARA O MANTO. Cravou os dentes no pedacinho carnudo entre o indicador e o polegar. Não podia pensar em voltar a Assadores para se secar. Deu uma olhadela no luar que espiava pela grade do alto. Auri pegou o caminho mais curto. os pés descalços batendo enfurecidos na pedra. E fria. enquanto o outro braço se estendia à frente da cabeça. espalhados pelos canos e pela água do Doze Prateado. num longo momento de pânico.. Auri fez uma gaiola para o gambazinho com as duas mãos encostadas no peito. nem que fosse apenas isso. Era pouco mais que um bebê. Às vezes. choramingando e chapinhando sem forças. Por um segundo. recolhendo com delicadeza a coisinha miúda e encharcada. lutando para se soltar. Auri piscou e voltou para a borda. de modo que os ouvidos mal chegavam a ajudar. Uma coisinha minúscula. Jogou o tufo de pelo no chão. Uma enxaguada. Mas aí Auri já havia chegado à grade mais próxima. Sem poder segurar a lamparina. O bicho se debateu e a arranhou no peito.

num cano limpo de bronze que procurou. mas. Achou que fosse chorar. Depois. na verdade. Ele não lhe caiu muito bem. feito um vimeiro. O azevidro pertinho dos segredos dobrados do livro in-oitavo. Auri permaneceu imóvel por um longo momento.coisinha perdida para o lado de fora. Sua caixa de cedro achava-se em estado de ligeira perturbação e havia fósforos partidos espalhados. mas as duas coisas foram prontamente corrigidas. escuro e pesado. Quando as coisas ficaram acertadas da melhor maneira que lhe foi possível. Mas não restava nenhuma lágrima dentro dela. A pequena estatueta de pedra empoleirou- se no alto do suporte de garrafas de vinho. quando Auri arrastou o vestido para enfiá-lo pela cabeça. Mas não conseguiu suportar a ideia de tocá-lo. dadas as condições em que ela se achava. mas foi só. Ao entrar no Porto. Para fora dos Subterrâneos e de volta a seu lugar noturno apropriado. descobriu que não lhe restava pranto algum. como se fosse muito melhor que o resto deles. O cobertor perfeito que ela mesma fizera. Todos bem. Cansada e decepcionada com tudo de tudo. inteiramente nu. todo por cortar? Não. O pote de vidro cinzento cheio de alfazema. E então viu o cobertor. Assim. A resina precisava de seu espaço. Ele se retorcera e havia um canto caído no chão. em vez de chorar. Auri franziu a testa e se deslocou para puxá-lo. É claro. Enfunou-se e tremulou. Auri relaxou um pouco. A única coisa que permaneceu no lugar foi o recém-conquistado pedaço perfeito de favo de mel. mas. Auri recolheu o cobertor e o levou para o Enfunado. Era mesmo esse tipo de dia. só da maneira mais apropriada. Mas foi descuidada e uma lufada de . Seu cabelo estava um horror. E sua mão doía. apenas para iluminar seu dia. Ela caminhou de volta para o Manto pelo trajeto mais longo. trabalhou o melhor que pôde para arrumar o lugar. Auri refez o caminho para o fundo do Doze Prateado e mergulhou a mão latejante no poço. Assim como sua folha perfeita. Sozinho na borda mais distante da prateleira dois. notou que quase tudo estava errado. Fazia uma era mortal desde a última vez que alguma coisa fora tão rude com ela. Auri pegou a lamparina e entrou no Manto. Era como se tudo a olhasse arrevesadamente à luz amarela. A engrenagem de bronze estava bem. O anel de ouro outonal. Seu nome lhe pendia do peito. E podia tê-lo feito. Doía muito. ao apalpar seu interior. para evitar Van e não ter que se ver no espelho. Pôs a lamparina na mesa com mais força do que precisava e fez a chama pular alto. por mais egoísta que isso fosse. Lá. deixou o vento interminável passar e viu o cobertor oscilar suavemente de um lado para outro. seus sentimentos é que estavam feridos. A caixa de pedra. O pote transbordante de bagas azul- escuras de loureiro voltou para a mesa do canto. latas de lixo e pedras de calçamento. Auri quase lhe deu uma dentada. pendurou-o feito cortina no centro do túnel. Estava repleta de vidro partido e carrapichos. feito de mães.

Reacendê-la custou outro precioso fósforo. exasperante e teimosa. Auri sentiu crescer no peito a esperança de que. Por fim. A sala pareceu diferente à luz bruxuleante e amarela. Ela escalou os escombros. E. perto da base. Não adiantou. Auri estendeu o cobertor para um banho de lua. na verdade. para que ele se refestelasse. Sentiu-se achatada e arranhada como uma velha pele de animal. Ele se superpôs quase perfeitamente ao tapete. Mas não. Estendeu-o no encosto do sofá. Ela o carregou de volta por todo o Crivo. subindo e descendo suavemente. Seca como papel escrito dos dois lados.vento apagou a lamparina. Dobrou-o e o colocou na poltrona. Depois que o Enfunado tornou a se encher de tremeluz. Nada endireitaria o cobertor. e ficar ali pendurado. não fez a mínima diferença. medonha.. assumiu um ar resoluto e estendeu o cobertor por cima do suntuoso tapete vermelho no centro da sala. Nem a implicância brincalhona do novo degrau de pedra conseguiu instilar nela um sopro de alegria. A seguir. virou-o do outro lado e tornou a pendurá-lo no cano. E então ela compreendeu. Aquilo não resolveu nada. De frente ou de costas. Cheia de medo e decepção iminentes. tomando o cuidado de não deixar que tocasse nas pedras do piso. atravessou a parede quebrada e entrou na Carreta. que ficava lá tripudiando e dourando à luz tremelante. Incapaz de pensar em outro lugar que ajudasse a amenizar a ofensa. Auri carregou o cobertor por todo o trajeto até a Galeria e entrou em sua nova e perfeita sala de estar. . Auri o carregou de volta para o Manto e o enrolou na tal engrenagem de bronze. feito gotas de neve. Levou-o ao alto de Correntes. O luar pálido descia em plumas. pela segunda vez. embolou aquela coisa ingrata e subiu a escada sem nome. Auri o levantou. Não adiantou nada. Auri desceu o cobertor. Alisou-o com as duas mãos. em autêntico desespero. Mas não. Fechando a cara. ela subiu ao Férreo Antigo e achou a grade que mais gostava da lua.. como uma lança de prata. jogou-o lá de cima e o viu despencar pelo labirinto de arames até se prender num deles. Tinha sabido desde sempre.

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fuzilando com os olhos a engrenagem de bronze.. ajoelhou-se diante do guarda-roupa e pôs a lamparina a álcool a seu lado. Com o tempo. que. Era certo. deu uma topada num bloco protuberante de pedra. Auri se achava longe das condições apropriadas para fazer reparos. Agora ela não pareceu desinibida. Sim. Depois. E então pôs a mão no lençol de cima. que jazia na pedra nua a seu lado.. Como se a engrenagem é que tivesse bagunçado tudo. Com o tempo. recolheu suas coisas. Quando Auri passou os olhos pela penteadeira. inspirou uma longa golfada de ar e a deixou escapar num suspiro. Porque agora era aquele o lugar dele. Sentiu os joelhos frios no piso de pedra ao abrir a gaveta e contemplar lá dentro os lençóis dobrados. Sentou-se com força no chão. Auri identificou uma inclinação sinistra e captou um vislumbre do que a estava desviando do prumo. Só então percebeu que deixara cair o cobertor. Como se a culpa fosse dela. ao atravessar a parede quebrada. Fechou os olhos. segurando o pé. AURI PASSOU MUITO TEMPO SENTADA em sua cadeira de pensar. com raiva. Auri trincou os dentes com tanta força que teve medo de quebrá-los. desgrenhada e pegajosa. Em vez disso. Tensa. Auri ouviu um chiadinho e sentiu cheiro de cabelo queimado. furiosa demais até para pensar em ser adequadamente educada. rastejou feito louca para trás. teve o frio consolo de ver que apenas algumas mechas soltas tinham se chamuscado. Mas. Mesmo sem ver. Num sobressalto. Não sentiu a menor vontade de cuidar daquela coisa ingrata. sentiu a suavidade dele. Seus dedos deslizaram pela superfície cor de creme. Por pouco não deixou cair a espiriteira. enfiou o cobertor no suporte de garrafas de vinho. sem asseio e oca como estava. Voltou ao guarda-roupa pisando duro. de gatinhas. Auri se acalmou o suficiente . Ao segurar o cabelo. Sob a luz cambiante. para longe da odiosa chama cuspidora amarela. viu-a de modo diferente. tirou o cobertor de lá e bateu com a gaveta. Fuzilou-a com os olhos assim mesmo. Gritou de dor e cambaleou para recuperar o equilíbrio. enfiou o cobertor com força na gaveta. voltou a custo para o Porto e. à luz amarela. era toda lampejos e mel aquecido. Passado um longo momento. Porque era assim que as coisas tinham que ser. Sentiu as bordas esfarrapadas de sua perturbação. Ainda de olhos fechados. seu mau humor se esgotou.

Nos anos antes de ela ter seu nome novo. Primeiro você se acerta. A única que cuidava do funcionamento adequado do mundo. Não. E em seguida. A princípio ela achou que fosse a solidão. murmurando um pedido de desculpas. Porém o que mais ela podia fazer? Aproximou a lamparina da boca e apagou com um sopro a língua amarela de chama. para que não lhe faltasse companhia.. e não controlar o cordame. E. Estava cansada e desgrenhada e faminta e vazia. Sentindo-se culpada. Dobrou o cobertor cuidadosamente. Mas não. as mãos e os pés. e Auri deitou-se em sua cama estreita e nua. Porque. A crueldade nunca tinha ajudado a fazer o mundo girar. como um relógio de algibeira bem regulado e azeitado. Não se podia lutar contra a maré ou alterar os ventos. era emburrar-se ou navegar. Ela sabia qual era o problema. Estava longe de ser um banho adequado. Depois endireita sua casa. Isso não era nada menos do que ela merecia. Acendeu a espiriteira e a carregou para o Porto. duas vezes mordida. e Auri deu um sorriso branco à luz vermelha de seu clarão sulfuroso. Levantou-se da cama e pegou um de seus poucos fósforos. Como é que Auri poderia não bagunçar as coisas no estado em que se encontrava? Tinha se desviado do funcionamento correto de tudo. o seu canto do céu. E se houvesse uma tempestade? Bem. Não havia sabonete. Estava muito cansada de ser tudo. retirou o cobertor do suporte de garrafas de vinho. depois disso. Nos tempos antes de ele chegar. Talvez fosse a dor surda da mão. Por isso. Não a fez sentir-se nem um pouquinho melhor. depois. é claro. o mundo começasse a cuidar um pouco do seu próprio funcionamento. Ela havia aprendido a dormir com coisa pior. Era o que esperava que acontecesse. Depois. Mas esperava que. ela mesma. ela não sabia ao certo o que acontecia em seguida.. Auri não se deixava enganar. Ou o frio. Bem. Sentia-se esgotada no coração e na cabeça. E lamentou mesmo. uma garota devia se preparar para a crise e baldear água. Mas o cobertor estava feliz ali. Não merecia ser feliz? Por acaso tudo não merecia seu lugar certo? . Mas. achou o lugar certo para ele na estante de livros e trouxe para perto a pedra lisa cinzenta. o sono não vinha.para reconhecer a verdade. Mesmo assim. PASSOU UM LONGO TEMPO DEITADA no escuro. mesmo assim. A escuridão inundou tudo e encheu o quarto. com mãos gentis. que a deixava com areia nos olhos e irrequieta. Juntou direitinho as pontas e o manteve reto e correto. doce e perfeito. Faria frio à noite e Auri sentiria falta dele. Auri se levantou a lavou o rosto. Alisou-o com delicadeza sobre a mesa. Ele acendeu na primeira tentativa. francamente. Não eram coisas suficientes para mantê-la de olho arregalado durante a noite. havia dias em que ela se irritava.

e subiu a escada sem nome. Talvez. Acima da lareira. ainda assim. Feliz. só dessa vez. Ao se sentar na beira da cama. Não por uma bagunça qualquer. no console. Levou uma hora. Eram tudo o que deviam ser e nada mais. indiferente ao mundo.. O prato e o vidro conta-gotas de Foxen descansavam na prateleira de cabeceira. ela se sentiu inquieta. Atravessou a Galeria. percebeu o que estava fora de lugar. Franziu a testa e balançou a cabeça furiosamente. Sua cadeira de pensar estava certinha. Apesar disso tudo. ela chorou um pouco ao ajeitá-lo. para que também lhe fizesse companhia. Não poderiam ser melhores. pelo não. voltou ao Porto para ter certeza de que seu choro não havia distorcido tudo. Assim. levantou-se e retornou devagar à Carreta. passou pelo Porto para dar uma olhadela no cobertor. Ela mesma estava perturbada. Depois. Auri devolveu a vassoura. A lareira estava vazia: limpa e arrumada. Agora ela estava muito cansada. Auri olhou bem para a penteadeira sob a luz . visto que o Manto praticamente já não precisava de cuidados. fazendo cócegas. Na volta. encontrava-se sua folha amarela perfeita. Era dela. Pegou os três fósforos restantes e também os colocou em cima dela. De novo no Manto. pelo sim. Depois de escalar a parede quebrada. Ainda assim. Ali. em seu lugar mais perfeito. Limpo o chão. Mesmo assim. mas ele era um lugar grande. Cansada e magoada. e o lugar a amava. trouxe uma vassoura e se pôs a varrer o chão do Manto. mas Auri levou para perto dele o azevidro. Ele estava como devia estar. Pensou na penteadeira do espelho triplo e um dedinho de culpa deslizou pelas bordas de seu coração. bem encostada na parede. perfeito como um círculo. A mesinha de cabeceira segurava sua minúscula xícara de prata. Desceu até o Derruído. O pote de vidro cinzento com a generosa alfazema desidratada.. Não era comum ela pensar nisso. até os ossos. mas é que varreu devagar e com cuidado. O anel de doce e cálido ouro outonal. e ela se encaixava ali como uma ervilha em sua vagem perfeita. Auri tocou em cada uma dessas coisas para ter certeza delas. Tornou a entrar no Manto e pôs a lamparina a álcool em sua mesa. Passou por Anelado. Auri movimentou-se pelo quarto simples. Tinha visto algo na Carreta e não cuidara disso. E a caixinha de pedra. Como se a forma do mundo dependesse do seu estado de espírito. certificando-se de que tudo estava como devia. consoladora. A engrenagem de bronze sentava-se em seu nicho. Em certos momentos ela era uma coisa malvada. havia muito piso vazio. Ele parecia passar bem. Como se ela fosse importante. Mas. Sentir-se solitário era terrível. Mas não. Retornou ao Manto e se sentou na cama. Escovou o cobertor com as mãos. E havia muito chão. Toda cheia de vontades. A caixa de cedro. acomodando-o na prateleira. Correu até a Banca.

com tampa rosqueada de prata. olhando as coisas pelos dois lados. Auri viu letras minúsculas gravadas no fundo. Tudo no tampo estava desarrumado. abriu as duas gavetas e as fitou por um momento. Tentou guardá-lo numa gaveta. E então riu abertamente. de olhos vermelhos e cabelo emaranhado. Ela o agitou displicentemente e tamborilou nele com a unha. Passados vários minutos. Tentou não olhar para os espelhos. Pálida demais. Apesar disso. ele reluziu como o coração de um deus do gelo esquecido. ciente da aparência que devia ter. na esperança de que ele se mostrasse um pouco mais afável. com frascos e quinquilharias espalhados. soltou por completo a gaveta da direita e a trocou por sua parceira da esquerda. Em vez de se olhar. Auri o levantou. sentiu o coração elevar-se ligeiramente no peito. O cristal azul-claro era delicado como uma casca de ovo. quase tudo era exatamente como devia ser. depois para a direita. Nem de longe uma grande dama. Depois disso. quando pôs o frasco no bolso. Depois. Correu os olhos pelo quarto. mas isso não foi correto. Depois de limpo. Pôs-se de joelhos para ficar com os olhos no mesmo nível do tampo da penteadeira. Riu tanto que mal conseguiu repor a tampa no lugar. uma sonora gargalhada que veio do fundo do peito. junto a um pote de ruge. Auri cobriu a boca com a mão. Nunca teria visto aquilo de forma adequada sem a natureza mutável da luz amarela. Ela o apanhou e escutou o tilintar do líquido em seu interior. Revirando-o nas mãos. As únicas exceções eram a escova de cabelo. deixando a luz amarela e as sombras deslizarem lá por dentro. estava caído de lado.bruxuleante. mas ele também não se encaixou. Não parecia haver lugar para o frasco. que escondeu embaixo de um leque dobrado. mas estava cheio de poeira. assentiu com a cabeça para si mesma. insegura. a única coisa fora do lugar ficou sendo um delicado frasco azul. Tirou o par de luvas da gaveta da direita e o colocou perto do espelho. . Tornou a abrir as gavetas da penteadeira e de novo as fechou. Chegando mais perto. Um sorriso repentino e ensolarado derramou-se por seu rosto. tirou a tampa e cheirou o conteúdo. Com as costas empertigadas. movendo as duas gavetas para lá e para cá em seus novos trilhos. Inclinou a cabeça. Um desalinho sem banho. Como muitos dos outros frascos. Diziam: Para Minha Inebriante Ester. Com gestos lentos e expressão carregada de incredulidade. Auri sentou-se na beirada da cadeira em frente à penteadeira. Ao fazer isso. Magra demais. mas um risinho abafado ainda escapou. Auri deu um bom polimento no frasco. com uma expressão de atenta concentração no rosto. Ainda ria um minuto depois. que Auri pôs na gaveta da esquerda com os lenços. Chegou para a esquerda. e um pequeno broche de ouro com dois pássaros em voo. Passou um bom tempo ali. A luz cambiante no espelho triplo fazia sombras incontáveis dançarem pelos frascos no tampo. Auri observou com atenção.

sim. o que foi duplamente bom. Auri ainda sorria quando se deitou em sua caminha perfeita. E. . Continuou sorrindo enquanto descia com cautela a escada sem nome e. porque ali faria companhia ao azevidro e ao cobertor. guardava-o no Porto. Mas isso não tinha jeito. a cama estava fria. Ele gostou mais da estante de livros. também com cuidado. Auri sabia melhor que ninguém que valia a pena fazer as coisas direito. e solitária também.

Mas Auri tinha bastante trabalho para preencher o tempo. Essa era a primeiríssima coisa que ela ia corrigir. Deitada no escuro. Auri não era presunçosa a ponto de impor sua vontade ao mundo. Não demorou a fazê-la estalar e ganhar vida. Seria um dia de visitar? Um dia de enviar? Um dia de produzir? Um dia de consertar? Auri não soube dizer. Auri tinha muito trabalho a fazer. O bastante para o sabonete. ela foi à Tamborilada buscar água fresca para sua bacia. é claro. de volta ao Manto. E então. Anunciavam-se como o trovão. Toda freixo e olmo e pilriteiro. perguntou-se o que o dia traria. Pegou a panelinha de cobre e sua xícara rachada de cerâmica. a chama amarela ajudou a aquecer o quarto sem enchê-lo de sombras frenéticas arranhando as paredes. Primeiro ela acendeu a espiriteira. Não havia sabonete. Lenha excelente e seca. Aquele era um dia assim. Isso era permitido. Ele queimaria por algum tempo. Certos dias eram orgulhosos feito trombetas. Foxen tinha se recuperado completamente do seu estado de humor. Fazia parte dos seus direitos. Esperavam que uma jovem cuidadosa os encontrasse. Mas sabia usar as coisas que o mundo lhe dera. sacudindo e chacoalhando. Outros eram corteses. Não diziam seu nome. Primeiro. lavou o rosto e as mãos e os pés. Tímido demais para bater à porta dela. Freixo e borralho Q UANDO AURI ACORDOU no quinto dia. Era o que Mestre Mandrag sempre dissera: nove décimos da química eram a espera. Com o suave cerúleo de Foxen para atenuá-la. arriscou-se a ir até o Arboreto. Mas alguns dias eram tímidos. Assim que Foxen ficou suficientemente desperto. Auri abriu a chaminé da lareira e preparou um fogo cuidadoso com seus feixes de gravetos recém-achados. cuidadosos como um cartão manuscrito numa bandeja de prata. Fitou o fogo por um instante e virou de costas. Melhor assim. Pôs no bolso o saco .

e aí o guardou num pote. Mas. e apanhou seu saco de sal. Aroma de almíscar e cardo. todo de ferro. buscou o grande pilão de pedra lá onde ele se acocorava. A ponta rosada de sua língua esticou-se timidamente para tocar a estranha bolinha marrom. Esse era simplesmente o jeito de ser das coisas. Foi lavar as mãos sujas de fuligem. Após um longo momento. então Auri fez uma viagem especial e a carregou com as duas mãos para o Manto. Muito estranhas e raras. uma por uma. E então. Sorriu. roçou com delicadeza o lado liso da noz com os lábios. Voltou ao Arboreto e trouxe de lá as bolotas que havia colhido e uma panela larga e baixa. Acrescentou sal. Quebrar e moer. Muito cheias do longínquo. Auri fechou os olhos e inclinou a cabeça. Ainda em dúvida. Já ia saindo quando parou e olhou para a tigela de bolinhas de noz-moscada. ela deu uma espiada no sebo e viu que não estava pronto. Salpicou-as com sal e as comeu. Nada parecido com um beijo. Foi um movimento terno. Moeu até ficarem finas como pó. a boca de Auri alargou-se num amplo e encantado sorriso. Colocou-as na xícara de e as compactou bem. imóvel como a imobilidade. Pendurou-o junto ao fogo para derreter. Assim. Ficou ali. depois de dois dias sem um banho apropriado. franziu a testa para ela e balançou a cabeça. cheirou-o com curiosidade e sorriu. Descascou e tostou as sementes. Preparou outro fogo e o atiçou. Depois de comer tudo. quebrou as bolinhas de noz-moscada. Aproximou-a do rosto e respirou fundo. pegou o pedaço branco e duro de sebo. Auri achou que ele se adequava com perfeição ao seu estado de espírito. uma por uma. todo furtivo e espreitante. Algumas eram amargas. Pôs o sebo num caldeirão. Perfume de cortina de bordel. Em vez disso. na Casa das Trevas. Foi até Tinidos e voltou com dois vidros. Era exatamente isso. . de olhos fechados.de linho vazio. Algumas eram doces. intensa e vermelha e cheia de mistérios. Sim. sabendo que não convinha criar caso com as facas que ela continha. Outras não eram praticamente nada. Pegou uma delas e correu as pontas dos dedos por sua casca estriada. Recolheu o pequeno tripé. Também as levou para o Manto e as depositou no fundo da xícara de cerâmica rachada. pensativo. Sim. sim. A TIGELA DE PRATA COM FOLHAS gravadas era pesada. Vasculhou o piso da Decúria até achar umas agulhas de pinheiro espalhadas. então remexeu-as na panela. Moeu-as no velho pilão de pedra. Olhou para a manteiga no poço de resfriar. A essa altura o fogo tinha esmaecido em cinzas. meio bandida e tensa. Lavou também o rosto e os pés. Em seguida. Nem de longe. Quebrar e moer. Seus olhos abriram-se como lamparinas. Auri as recolheu. O pilão era uma coisa sinistra.

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cheios de momentos roubados e do perfume da flor de silas. buscou o pote com as bagas azul-marinho do loureiro. tirou do fogo a panela de cobre com o sebo derretido. Era simplesmente impossível argumentar com aquela coisa teimosa. E o pilriteiro. Auri enrubesceu um tantinho ao pensar nisso. Quando voltou. De ésteres? Eles eram terrivelmente acanhados. Em seguida. sobretudo para ela. mas não inconveniente. O carvalho as teria tornado muito difíceis de manejar. Mas isso não era . o fogo havia apagado outra vez. Auri estava sem banho e com o cabelo desgrenhado. depois foi ao Porto e olhou suas prateleiras. Isso a exasperou. O olmo era gracioso. mas Auri sabia que não convinha forçar o mundo a se curvar a seus desejos. O freixo era orgulhoso. com os utensílios improvisados dispostos a sua volta. Diga-se apenas que. Acendeu o fogo pela terceira e última vez. e existia mesmo essa coisa de excesso de pudor. O louro seria ideal. Lavou o rosto e os pés. Nem mesmo quando ela lhe ofereceu o console da lareira. Um acréscimo adorável.. A bétula era amarga. Mexeu. Trouxe o frasco de Ester e o colocou perto da lareira. Auri acomodou-se nas pedras lisas e quentes do Manto. Sentou-se diante da lareira. Mas não. Ele se ajustaria como uma mão na outra. pegou o frasco de Ester. Foi buscar água fresca no cano adequado de cobre em Piquerinho. Perfeito. isso estava claro. Transbordava de espuma do mar. As cinzas na xícara rachada de cerâmica estavam exatamente como deviam estar. egocêntrico e satisfeito. Finas e macias. sem se fundir nem se intrometer. Eles compunham uma mescla. Auri sentiu-se injustamente provocada. Essencial. apétala ou não. Lavou as mãos sujas de fuligem. ele não quis se encaixar. Nozes que eram código e mistério. Ela deu um suspiro e levou o pote de bagas de volta a sua prateleira no Porto. com suas ferramentas.. Auri havia planejado misturar. Era exatamente de furto que ela precisava ali. ela ainda era uma mocinha saudável. bem escondidinha na Banca. Freixo e olmo e pilriteiro. Retirou a borra até não restar nada além de gordura pelando. onde ele se sentou. Não havia lugar para ele. o pote simplesmente se recusava a se acomodar com seus utensílios. Ao terminar a moenda. Então.. Tinha pensado nele assim que acordara e o sabonete lhe viera à cabeça. A noz-moscada era estrangeira e uma espécie de estranha. Encheu a lamparina a álcool numa torneira de aço brilhante. Mas. para sua grande tristeza. bem. Em seguida.. Seu nome era como o eco de uma dor dentro dela. Ela recolheu as cinzas e as compactou na xícara rachada de cerâmica. Não seria nada senão pura insensatez. mas não impropriamente apétalo. Trouxe o pano das drupas de azevinho. Mas aquela era uma mistura perfeita. Pôs a panela de lado para esfriar. Por mais que Auri tentasse.

Agora o sebo resfriado formava um fino anel branco dentro da panela de cobre. Lá a lua era maternal e espiava bondosamente pela grade. Ela compreendia que alguns segredos deviam ser guardados. formando um crescente fino como a lua. E sem louro para mantê-la afastada. Espiou a panela que esfriava e viu o sebo começando a congelar. É claro. formando um disco branco e plano. Não pôde deixar de rir ao lamber o mel dos lábios. O uso mais perfeito de um agente que a mão humana já conseguira fazer. Auri simplesmente teria que retirar a raiva. Auri sentou-se junto ao círculo de luz prateada e depôs gentilmente a panela no centro dele. beijando o piso de pedra dos Subterrâneos. com dois dedos de espessura. Três círculos. Auri levou a panela para o Arboreto e a colocou na água corrente do poço de resfriar. Era uma pena. Auri levantou com cuidado o disco de sebo da superfície da panela e jogou fora a água dourada de baixo dele. Isso não serviria. cada pedacinho de ira tinha sido retirado do sebo. Ela amarrou a conta de cera de abelha num barbante e o mergulhou no sebo ainda quente do centro da panela. Mas não havia nada a fazer. Auri percebeu que . Agora que a raiva fora retirada. dirigindo-se a ela como um urso à procura de mel. o sorriso se desfez. Era um egoísmo da pior espécie impor-se à força ao mundo. A conta de cera estava fervilhando. Depois de vários momentos. Auri sorriu. O sebo era limpo e forte. mas nele já não havia maçãs. Rápido como um grilo. Abraçava-se à borda da panela.. porque assim eram as coisas às vezes. Era uma tempestade de fúria. Sentiu a ira congelar. Levantou o favo de mel e deu uma única dentada.particularmente problemático para Auri. dia após dia. o sebo esfriou. Perfeito para pedir. Fechou os olhos e se sentiu arrepiar inteira com a doçura. Auri assentiu com a cabeça para si mesma. Em seguida. quase tonta com o trabalho das abelhas dentro dela. Depois de sugar toda a doçura. quando ela o examinou mais de perto. de modo algum. Era uma escolha bem simples. E ele também não transbordava de velhice e raiva. Voltou ao Porto e olhou em volta. notando com displicência que ela continha um toque de sono e todas as maçãs. Rolou-o entre as mãos até ele formar uma conta redonda e macia. Era melhor ser gentil e educada. seu sabonete estaria mais do que arruinado. Seria impossível lavar-se com ira. A luz suave infiltrava-se de viés. cuspiu com delicadeza o pedaço de cera de abelha na palma da mão. Caso contrário. Quando o círculo de luar deixou a panela de cobre. Achara-o sob o luar. juntar-se em torno da cera. Bem. No entanto. Ele seguiria a lua até ficar cheio. Pegou a panela com o sebo e foi para o Umbroso. relaxou ao ver que estava funcionando como um encantamento..

. escoou pela rachadura no fundo da xícara. Mas que não conteria maçãs. pingou. Isso seria suficiente. Era onde ele ficaria mais seguro. Deixou-o em seu círculo puro e perfeito. Auri lavou as mãos sujas de fuligem. Majestoso e gracioso. tão cuidadosa que o colocou numa prateleira alta de pedra. com todos os utensílios a seu redor. Ah. Ah. Era de um vermelho-escuro crepuscular. era o ódio de uma mãe pelos filhotes deixados sozinhos. Nada de doce ou gentil. Depositou o caldeirão no tripé de ferro. Auri levantou bem alto o pote com o destilado de cinzas e viu que era tão bom quanto qualquer outro que já tivesse feito. Vieram então as cinzas. . Coloriu-se do vermelho fumarento de sangue e lama e mel. Detestaria tocá-la com as próprias mãos. O sebo e o destilado de cinzas produziriam um sabonete aproveitável. quase dançava ao pensar em seu novo sabonete. Caídas as últimas gotas. pôs a conta num pote de vidro grosso. mas. para que ele derretesse mais rápido. Derramou sobre ela água limpa. foi muito cuidadosa ao carregá-lo. NO MANTO. Mas. Seria duro e frio como giz. O TERCEIRO E ÚLTIMO fogo acendido por Auri tinha se transformado em cinzas. finalmente. Pôs o sebo com delicadeza no caldeirão. o líquido continha um toque de malícia. Era forte. Parte de Auri. uma parte maldosa e irrequieta. por dentro. Mas não. Ela sorriu e se sentou no piso morno de pedra. Continha todas as coisas adequadas trazidas pela madeira. Auri alegrou-se pelo fato de a conta já estar pendurada num barbante. por baixo de tudo. Usá-lo seria como tomar banho com um tijolo indiferente. cristalina.. vedou-o com uma tampa bem apertada e levou o conjunto para a Aduana. rijo e encantador como a lua. Paciência e decoro. Por fora estava muito tranquila. Era a única coisa graciosa a fazer. Deslizou para baixo dele a lamparina a álcool. Ela tornou a varrê-las. enchendo a xícara rachada de cerâmica até a borda. para que sua chama quente e brilhante pudesse beijar o fundo de cobre da panela. Era a fúria trovejando ante uma morte prematura. queria picá-lo em pedacinhos. Lavou o rosto e os pés. depois de tanto tempo. tendo o cuidado de não ser ofensiva.era muito mais feroz do que ela havia suposto. Primeiro veio seu disco perfeito de sebo limpo e branco. Para que pudesse tomar banho e escovar o cabelo e se arrumar. Estava tudo pronto. e também muitas mentiras cáusticas. Auri pôs a xícara de cerâmica sobre um pote quadrado de vidro. Para que ela pudesse ter o sabonete mais depressa. uma coisa mutável. Atrás do vidro. que foi filtrada pelas cinzas e gotejou. Devagar e em silêncio.

Ela era uma coisa malvada. Já curvar o mundo a seus desejos era totalmente diferente. acumulou-se. para colher mais algumas preciosas gotas. Ela era inteligente demais para viver assim. Era um encanto. Não mais uma massa polpuda e escura. Ela suspirou. úmida e polpuda no saco de linho que pusera num pote de boca larga. Outra gota. tirou a rolha de prata do frasco azul-claro e verteu o perfume sobre o pó bem moído de noz-moscada. agora o bagaço de noz-moscada parecia pálido e farelento. o desperdício era grande. Duas colheradas. Mas não seria terrível? Não seria um horror viver cercada pelo puro e agudo vazio das coisas apenas suficientes? Sentada no piso morno e liso do Manto. virando o saco de linho numa panela rasa. Usou dois pauzinhos para torcer as pontas do saco até o tecido expelir um líquido oleoso. Usava seu vestido favorito. Desejar por desejar era mera fantasia. Tinha alfazema e uma folha. que gotejou no pote. Instigantemente rico em mistérios. Auri levantou o vidro e examinou o líquido viscoso. de certa maneira. Trincou os dentes. Involuntariamente. transparente como âmbar. ela olhou de relance para a porta orlada de ferro que levava à Aduana. Era algo tão maravilhoso que Auri desejou muito ter uma quantidade maior. esses dois bastariam para o sabonete. Auri desejou ter uma prensa apropriada. Ah. um encanto. seus braços trêmulos não aguentaram mais. Desviou os olhos. Nada de perfeito. em contraste com a ferroada pungente da noz-moscada. Três.. Ela esforçou-se com os pauzinhos. O linho foi espremido com mais força. sim. depois derramou a massa espessa. mudando a maneira de segurá-los e fazendo-os girarem mais meia volta. Não se assemelhava a nada que ela já tivesse visto. Ela girou os pauzinhos. relaxou e soltou os pauzinhos. Deu uma olhada na panela e pensou em espremer o bagaço com as mãos. Mas. Os braços de Auri começaram a tremer e. perfeitas e amorosas. Apenas uma colherada de líquido. Portanto. sem conseguir se conter. Cheio de almíscar e sussurros e ácido tetradecanoico. Tornou a pingar. Auri estremeceu ao pensar em se mover por tal mundo sem alegria. Por fim. Dez. uma reluzente moeda de ouro que estava sempre dentro dela. Auri sorriu e mexeu os dois com um graveto de acendalha. O líquido escuro brotou. Mais três. ao se aproximar. um encanto. não. a boca esticada num fio de concentração. Sem isso. pingou. enquanto os nós dos dedos esbranquiçavam. descobriu sentir uma estranha aversão ao tocar naquela massa . Assim. Era apenas um gotejamento vagaroso. mas não era tão má assim. muito doce e leve. Correu os olhos em volta e sorriu de todo o seu luxo. Nada de belo e correto.. Seu nome era Auri. O aroma das flores de silas inundou o quarto. escuro e espesso. Era denso de segredos e espuma do mar.

Lavou as mãos e os pés. Tentou deslizá-la de volta para recolocá-la no prumo. mas estes tinham sido roubados pela doçura das silas. ela queria o sabonete. então. para examinar o bagaço pálido. Lavou o rosto. Alisou o cobertor com as duas mãos. Levantou o pote e examinou o binato de âmbar. Encostou no livro de couro e abriu a capa. Diante disso. Queria sentar-se e terminar o que havia começado. não. tão perto de suas panelas e utensílios e suas preciosas vagens. Não. Voltou à sua bacia.. e seu estômago se revirou diante daquela visão. Assim. Devolveu o azevidro a seu lugar apropriado. para se certificar bem das coisas. AURI LAVOU O ROSTO. Não queria aquilo por perto. entre os mistérios e o almíscar. Auri virou-se. Não poderia guardar aquilo lá. Parou e inclinou a cabeça.? Mas não. Estava muito perto. Voltou-se para a porta orlada de ferro e levou o saco de linho para a Aduana.arenosa com sua pele nua. cinzento e esfarelado com mais atenção. E. Mas não. Mais que tudo. Quem sabe que caos isso acarretaria? Os gritos estavam longe de ser vizinhos gentis. Ele estava cheio de gritos. Dias de intermináveis gritos vermelho-escuros. Nem um bocadinho. de frente para a terceira saída do Manto. Sabia do vermelho. ao olhar de novo para a prateleira. como carvão em brasa. para ter certeza absoluta de que todas as suas páginas continuavam por cortar. ao lado do bagaço medonho. levantou a panela com as duas mãos e se virou para o portal. como se estivessem envenenados. Deteve-se antes de dar um só passo em direção ao bem-arrumado Porto. Deu um passo e parou. onde o vento propagaria os gritos pela totalidade dos Subterrâneos? Para o Arboreto. Lavou as mãos e os pés. apenas com as pontas dos dedos. Já sabia.. Não havia gritos escondidos ali. Ainda era uma coisa perfeita. Mas. ela pôs o saco de linho e os dois pauzinhos de torcer delicadamente na panela rasa. Transpirando um pouco. deu um pulo apressado ao Porto. Deu um passo em direção ao tripé e à panela de cobre. Manuseou-os o mínimo possível. mas parou. sem saber para onde ir. Antes eles tinham sido escondidos pelos mistérios. NA VOLTA. a respiração de Auri foi longa e trêmula. para o corredor. primeiro. e Auri viu os gritos com nitidez cristalina. Já tivera gritos demais. ela viu que a pedra ficara toda desconjuntada. mas não conseguiu enxergar sua forma e não soube . Ele estava exatamente como já o tinha visto. após descansar o pote. Continuavam. Para o Enfunado. onde queimariam lentamente. Mas. Tocou na pedra cinzenta e plana. Auri virou-se pela última vez.

. Auri correu os olhos pelo cômodo. Um lamento do mundo. ela sabia. e não havia nada que se pudesse fazer. feito um boneco desarticulado. Um uivo de tudo inteiramente desviado do prumo. Estaria agora toda cheia de gritos? De novo? Não. esgarçado. E sim. mas não devia. encostou a testa em seu frescor. O coração era um martelo em seu peito. Tão distante a sua caixa de pedra.. Sabia que sua cabeça estava toda desaprumada. Primeiro ela se agarrou à engrenagem.. Não era ela. Ela era um emaranhado confuso. todo fora do lugar. O ar. Tudo era. fez pressão com força no mundo ralo. Tudo era tudo. Auri foi procurar seu nome e não pôde achá-lo nem em vislumbre... Ela era só vazio por dentro. Mas. Cuidava-se do mundo pelo mundo. Fazia-se o que era possível. Lavou as mãos e os pés. Não com as pedras agora tão ásperas sob seus pés. Era tudo de tudo. e nele fez uma mossa. Nada conseguia desviá-la de si. Nada conseguia deslocá-la.. A luz estava tremida. Sabia que tudo seu estava com a inclinação errada. ainda assim. quando se mexeu um pouquinho. A luz estava mais brilhante e ela ouviu o som de coisas que em geral não conseguiria ouvir. Tudo de tudo desfeito e ralo e esfarrapado. ela era um palíndromo perfeito. E então Auri a tocou. Inviolada. ela precisava. Ela sabia. Ela sabia que não estava certa. Até Foxen não estava nem mesmo quase. Até seu lugar mais perfeito.. Por favor. A engrenagem de bronze. Quando o mundo inteiro era palimpsesto. orgulhosa e reluzente. toda susto. Tão longe que Auri temeu não poder alcançá-la.. Ela sabia com que rapidez as coisas podiam quebrar. Mas pronto. As bordas afiadas em suas palmas foram como uma faca tranquilizadora. Não oca como estava. ela viu que a engrenagem de bronze estava toda inalterada.. Voltou depressa ao Manto. Mas. Torcia-se para ficar em segurança. Mas o mundo inteiro a seu redor . E por baixo ficava a escuridão oca. As pedras pareciam estranhas. Sua respiração foi ficando mais difícil. Era um declive. arranhando feito faca contra seus dentes. O todo vazio e sem nome arranhava as bordas esfiapadas das paredes... Sabia. Até ali. Era repleta demais de amor. por favor. estava bem aprumada. Auri esfregou os olhos. Forçou-se a parar e olhar para as mãos. Ela precisava. como um náufrago se agarra à pedra da praia. arfante e desesperada. O mel também. Tudo era tudo mais. Ele podia desmoronar. Contemplou as mãos trêmulas. sem serventia e empalidecendo. Tão frágil a sua folha perfeita.. A alfazema. no seu lugar mais perfeito. Não apenas. Segurou-a com as duas mãos. Encostada na parede. A cama quase não era sua cama.. toda suada. viu que não era nada difícil. não. Enxergava vestígios. E. Não. Lavou o rosto. Até mesmo ali.dizer como as coisas eram e se tratava-se de um lugar em que era certo. Todo o Manto era uma casca de ovo. Sabia que não estava certa por dentro. e era muito lisa e morna na face. esfarrapado. Ela nem conseguia ficar de pé. Ela queria mel.. suor e medo. Então sentiu o pânico crescer dentro de si. Estava lá do outro lado do quarto.

e então o espaço deixado pelo dente faltante ficou diretamente voltado para baixo. apanhou a engrenagem e a abraçou junto ao peito. com os braços trêmulos. Uma última virada pesada. Na verdade. Na verdade. Tão súbito-cheia de doce alívio que arquejou. palidez e dor. Ele estalou. Encaixou-se. Firmava. Tudo desintegração. Auri arriou no chão e se sentou. E assim. na verdade. ela lutou contra ele. Tremendo. Auri a girou e só então compreendeu seu peso espantoso. Auri sentiu o mundo inteiro vibrar a seu redor. permanecia. Nada era nada que não devesse ser. mas. Era um pino. Riu. Deslocava-se. quando as bordas da engrenagem riscaram a pedra com força. A engrenagem de bronze inclinou-se de dente em dente. Fechou os olhos e chorou. . Beijou-a. Tudo desmoronadiço. Endireitou. só parecia girar. Clicou. Girou-a no sentido anti-horário. Tudo de tudo no Manto: ótimo. ela olhou em volta e viu que estava tudo bem. Do jeito de quem desfaz. Um eixo. Ela era um fulcro. A cama era apenas sua cama. E. inclinava-se. Nada era nada mais. o mundo inteiro girava. Puxou a engrenagem sobre sua estreita prateleira de pedra.ainda era tempestade.

reuniu os utensílios e os devolveu a seus lugares. Dois a dois. Pareceu travesso e delicioso. Sorriu e. Aproximou-se então da panela e ficou satisfeita ao ver que todo o sebo havia derretido. A mistura enevoou-se de imediato. Tudo conforme o desejo dela R EPONDO O FULCRO em sua prateleira estreita. Auri limpou as lágrimas borradas do meigo rosto brônzeo da engrenagem. Com o rosto atento. E mais outra. Voltou ao Arboreto. e o aposento inteiro encheu-se de almíscar e mistério e gordura de urso. em branco com um leve toque rosa. a terra. Lavou o rosto. Auri curvou-se e apagou a chama amarela com um sopro. Derramou-o também na panela. carregando vidros. Parou e pôs de lado o graveto fino. mas. Perto. aproximou-se da bacia. todo pungência de espetadela e delicadeza de pétala. cada qual de tamanho e formato diferentes. apanhou a panela de cobre já fria e a levou ao Porto. passou a mão por dentro dela e retirou uma cúpula lisa e curva de sabonete pálido e doce. ao Porto e a Tinidos. Agora. Cortou-a em sete barras. a lareira. no intervalo de uma respiração demorada. Pegou o binato de âmbar. considerando que o sabonete era seu. quase não se importou com quão desgrenhada e suja se tornara. Respirou para se acalmar. lampiões e panelas. Inclinou-a. Sentiu a mistura engrossar. Mexeu o sebo com um graveto fino. logo. Auri abriu seu sorriso mais orgulhoso e tornou a mexer. Em seguida. Lavou as mãos e os pés. O que a ajudava a se lembrar de que era realmente livre. as mãos e os pés. Auri mexeu mais uma vez. Auri fazia as próprias vontades de tempos em tempos. Sentou-se ao lado da panela no piso morno de pedra. Usou a borda lisa do prato fino como pétala para fatiá-la. Pegou o pote de destilado de cinzas e o verteu lentamente no sebo. Após isso tudo. Mexeu-o e o perfume das silas encheu o ar. esse pequeno voluntarismo não podia ser prejudicial. Inspirou e soltou a respiração. Cheirava a calor. Cada uma por si e todas para o desejo dela. . a respiração. Lavou o rosto.

totalmente só. movendo-se com todo o cuidado. uma harpa. Sorriu ante sua perfeição. Auri levantou uma barra e. Misterioso. Auri não pôde esperar nem mais um instante. mas doce. Era sabonete para beijar. Foi se deitar. Foi a Tinidos. Não havia nada igual em todo Temerant. mas firme. Correu para sua bacia. E. uma canção. Riu. cor de leite fresco com uma só gotinha de sangue. Enquanto trabalhava. Voltou depressa para casa. Riu e pulou. Era do mais pálido rosa. . Escovou o cabelo. Lavou o rosto e as mãos e os pés. Deu uma risada tão doce e alta e demorada que soou como um sino. Tomou banho. Macio. percebeu que o sabonete não era branco de verdade. sorriu e adormeceu. Nada embaixo da terra ou sob o céu. aproximou-a do rosto e a tocou de leve com a língua.

Aquela tinha sido uma dura lição. Será que ele gostaria de uma barra de sabonete de beijar? Era muito refinado. Trôpega. Era um dia de crescer. mas havia nele muito carvalho. As quatro maiores. Auri riu disso antes mesmo de sair da cama. Sentiu o medo avolumar-se. Os mistérios poderiam combinar. No dia seguinte. mas. havia dignidade em fazer as coisas a seu tempo. A menor e mais doce. guardou no fundo da caixa de cedro.. Salgueiro também.. Auri fez uma pausa. não era o sabonete certo para ele.? . E ela ainda não tinha nada bom o bastante para compartilhar. Mas não. mas ela pouco se importou. puro susto. e ele não era. Dia de produzir. Bebeu água e pôs seu vestido favorito. Seria. Auri lavou o rosto. Além disso. Escovou o cabelo até torná-lo uma nuvem dourada. A maneira graciosa de agir N O SEXTO DIA. Mas não. Seria mais que totalmente impróprio. O dia chegara muito atrasado. ao ficar de pé. Auri acordou com seu nome abrindo-se feito flor no coração. se tinha. Uma ela usara na véspera para tomar banho. Seria um dia atarefado. Seu sabonete era o mais doce que já existira. um tipo chegado a silas... Ah. Ele nunca teria visto nada semelhante. sentiu o quarto ganhar brilho e se inclinar a seu redor. com uma das mãos dentro da caixa de cedro. em Tinidos. Foxen sentiu o mesmo e explodiu completamente em luz quando ela o molhou pela primeira vez. Ele iria chegar logo.. A visita dele não esperaria. Havia três saídas do Manto. Mas essa ideia a fez conter-se um pouco. Uma ficou junto a sua bacia.. para nunca mais ter que ficar sem sabonete. Além disso. Ela havia feito sete barras. Primeiro veio a distribuição do sabonete novo e perfeito. Auri fechou a tampa de sua encantadora caixa. deu dois passos e se sentou na cama para não cair. Ela enrubesceu antes mesmo de acabar de pensar no assunto. Nenhum presente perfeito para oferecer. Não se demorou. Correu os olhos pelo quarto. levou à Padaria para curarem. de jeito nenhum. segura no Manto. as mãos e os pés.

Essa era a única maneira graciosa de agir. subiu na bancada e esticou as duas mãos para apanhar seu pote. Naquele dia haveria sopa. porém era metade do que ela possuía. Por isso. E depois disso. Depois. Mas. . depois ela faria o melhor que pudesse. Só havia essa maneira. Isso a mantinha pequena. Auri suspirou e tirou essa ideia da cabeça. Deixou-as cair na panela. Distraída. Pensou nisso enquanto as bolhas ferventes faziam as ervilhas dançarem na panela. Auri deu de ombros e despejou também a outra metade na panela. A mão não era muito grande. por mais que fosse pesado. se fosse parte apropriada das coisas. brincando de tilintar contra o vidro. A pessoa não devia desejar coisas para si. E segura. Qualquer outra era vaidade e orgulho. após um bom tempo matutando. Cuidar das coisas encontradas em desalinho. E confiar em que o mundo a faria topar com a possibilidade de comer. num impulso. resolveu que sim. Combinaria com ela às mil maravilhas. Será que ela poderia levar o favo de mel para dividir com ele no dia seguinte? Era o que havia de mais encantador. A luz bruxuleante do lampião e o brilho azul-esverdeado de Foxen mostraram a pobreza das prateleiras. levou como companhia o audacioso Fulcro. afagou a face do impetuoso Fulcro e. Auri pegou uma panela de estanho e a encheu de água fresca. No dia seguinte ele a visitaria. Por isso. Mexeu um pouco a sopa e acrescentou sal. sem criar complicações com tudo em que esbarrasse. E. quando a tontura passou. E. ela partiu para o Arboreto. Auri tinha se esquecido de cuidar de si. seria difícil atravessar os Saltos ou Venerant. ela poderia ajudar. Havia muito pouca doçura na vida dele. Após um instante de hesitação. A verdade era essa. Significava que ela poderia mover- se tranquilamente pelo mundo.. Auri abriu a tampa de vedação e derramou-as na mão pequenina até encherem sua palma em concha. Não segurava muitas ervilhas. Pôs o vidro vazio na bancada e olhou em volta.. Acendeu a espiriteira com seu penúltimo fósforo. Era algo mais simples: seu estômago virara de novo um tambor vazio. isso era realmente o mínimo que Auri podia fazer por toda a sua ajuda. Ele vira muito pouco dos Subterrâneos. o favo de mel poderia funcionar se nada mais aparecesse. Desejou que a manteiga não estivesse cheia de facas. Não. Mas apenas quase. Bem. ela pegou o caminho mais longo e foi por Piquerinho. Um pouquinho de gordura na sopa seria uma verdadeira delícia. onde elas tilintaram na água que aquecia. As panelas eram quase todas as frutas que o Arboreto tinha para oferecer. Auri voltou para o Manto. Remendar o que estivesse rachado. Com Fulcro em sua companhia. se fosse cuidadosa. As ervilhas desidratadas rolavam dentro dele. DEPOIS DA SOPA ADORÁVEL.

Um mistério. Aqui e ali. voltou correndo a Piquerinho e atravessou o portal em que havia encontrado as folhas amontoadas. com Fulcro pesando em seus braços. viu folhas dispersas pelo chão. feito um esquilo. com a lacuna do dente virada para baixo. no chão. Mas também não havia nada ameaçador. ela chegou à base de uma estreita escavação vertical que levava direto para cima. Pegou-as e. quando sentiu um estalido suave sob os pés e parou. Nada complicado naquele lugar. Auri captou um odor de rua. Curiosa. Por fim. deu-lhe um beijo na face e o endireitou comodamente em sua prateleira de pedra. Auri pôs Fulcro com delicadeza no chão e levantou a folha. E. escalou-a em dois tempos. Não fazia o menor sentido encontrá- las ali. Estava quase de volta à Duvidança. mas não sentiu nem um traço de cheiro de almíscar ou urina. viu uma janela bem no alto da parede e. mas Auri era uma coisa miúda. exceto por algumas folhas espalhadas. Procurou em volta e achou um punhado delas. ela se demorou na travessia dos túneis de pedra quadrados e apertados. quando elas se juntaram em sua mão. sopradas para dentro em alguma tempestade esquecida. Contornou um galho caído. Não havia vento em Piquerinho. pisando leve como um dançarino num . sem saber com certeza o que elas poderiam pressagiar. Depois. Ela pegou a tigela. Animada. Pareceu-lhe familiar. Era meia coisa. O local era empoeirado e sem uso. uma ou duas folhas pontilhavam o piso como migalhas de pão. suor e grama. Prateleiras abarrotadas de embrulhos. Ao olhar para baixo. correu ao Porto e levantou a tigela de prata. é claro. Auri circulou pelo cômodo com as mãos às costas. Antes de sair. Auri balançou a cabeça. Olhando em volta. já parcialmente fora do lugar. Mas só havia um meio de descobrir. Barris empilhados nos cantos. Embalagens de papel encerado repletas de figos e tâmaras. mesmo carregando a tigela de prata. Auri olhou em volta. cheio de estantes. Pulou um monte de pedras. compreendeu. Havia sacos de milho e de farinha de cevada. Seria uma antiga chaminé dos tempos de outrora? Um túnel para a fuga? Um poço? Era estreita e íngreme. Segurou a folha estalante que havia apanhado junto às folhas entrelaçadas da gravação na borda da tigela. Farejou o ar. Só que também não era que não houvesse nada. espalhadas perto de um portal aberto. Era um lugar arrumado. Em meio ao cheiro de poeira. levou Fulcro de volta ao Manto. Eram iguais. Mas continuou a ser pura simplicidade encontrar seu caminho. No alto encontrou uma prancha de madeira. Com a barriga aquecida e ainda por cima com um convidado. Nada torto nem errado. Também não havia água. alguns cacos de vidro. barriletes e caixotes. mas não conseguiu ver nem sinal de fezes de pássaros. Maçãs de inverno. Empurrou-a de lado sem dificuldade e entrou num cômodo de porão. Não sabia se algum dia já estivera naquela parte de Piquerinho.

Gravada. assim. Fez uma pausa para descansar no Anelado. sem pressa. muito melhor. retornou por onde viera. Mas a solidão era muito melhor que nada além de eco vazio.tambor. Barris de melado. Mas não. Auri viu que o cômodo estava tal como o . Com gestos cuidadosos. ou fora de lugar. A garrafa azul-clara não estava inteiramente à vontade. Pelo que indicava o desenho. logo ao lado da porta. Auri empurrou-as para dentro com o pé e amarrou o cordão bem apertado. Na véspera. Espanou então a poeira de seu novo tesouro. Depois. Mas Auri estivera mais do que um pouco esfrangalhada na ocasião. Eram adoráveis. Grave. Seria aquela um presente adequado? Auri a pegou e girou-a nas mãos. E. Quem sabe uma outra? Isso parecia quase certo. Ela a tocou com delicadeza. para a Carreta. Longe do seu melhor estado. Auri carregou o peso morno e doce de Fulcro nos braços. Fulcro acomodou-se como um rei na poltrona de veludo enquanto Auri se reclinava no divã de desmaiar e deixava os braços se recuperarem da dor. ah. Auri levantou-a e substituiu o pote pela tigela de prata. De longe. Mas ela estava atarefada demais para descansar por muito tempo. curvou-se para examinar com mais atenção uma prateleira baixa. A seguir. Só quando estava de volta à conhecida escuridão de Piquerinho foi que respirou com facilidade. Como ele ainda não os tinha visto. para que Fulcro pudesse deslumbrar-se com a estranha e astuta timidez do lugar. Uma única folha descansava sobre um pote de barro. era um lugar para começar. Assim. fazendo o máximo para reconfortá-la. Não completamente. Alguma coisa errada. pegou o caminho um pouquinho mais longo. que passava por Van e Avante e Luzente antes de seguir para a Galeria. Permitiu-se um único olhar desejoso pelo cômodo. sua nova sala de estar. doce dor de carregá-lo. Por fim. como eram pessoas refinadas. Ao atravessar a parede. E. Pensou na penteadeira da Carreta. No mínimo. AS AZEITONAS FORAM PARA O ARBORETO. ou perdida. Algumas abóboras haviam caído de seu saco de aniagem. nada mais. Ele gostava de garrafas. Auri examinou as coisas no Porto. Talvez houvesse uma garrafa misturada com o resto. Não denominada em homenagem a outra pessoa. sal e manteiga cheia de facas. Aninhava-se na prateleira inferior esquerda da parede leste. Potes de morango em conserva. mas quase. Depois. tornou a recolher a engrenagem pesada e subiu devagar a escada sem nome. ambos ignoraram a porta acanhada que descansava no patamar. colocando a folha dentro. Não esta garrafa. ela lhe parecera ajustada e perfeita. perfeita como um círculo. o pote continha azeitonas. Pareceram meio sozinhas em sua prateleira.

Sua esperança era notar algo que antes lhe houvesse escapado. Cruzou a parede. Quer olhasse direto ou de viés. abriu o guarda-roupa e espiou lá dentro. Talvez pudesse ir caçar em Lin. com um fecho esperto. como o Anelado. em especial. desceu a escada sem nome. Mesmo assim. Tocou no urinol. Auri deu um suspiro e foi embora. ah. Algo solto ou meio enrolado. Levá- lo seria exatamente tão idiota e tão cruel quanto arrancar um dente para poder entalhá-lo sob a forma de pingente e pendurá-lo num cordão. Levantou Fulcro mais alto e tentou olhar pelo furo redondo que ele tinha bem no centro de sua centração. com um cumprimento educado à vassoura e ao balde. Nela havia alguns belos frascos. que era um lugar cheio de tubos e dev.recordava. Algum fio que ela pudesse puxar para libertar alguma coisa. Perfeito. Auri já chegara até ali.. tão central. Nada de esguelha. Também examinou o armário. . Não de uma perfeita correção. chamou-lhe a atenção. Mas não. a penteadeira estava completamente arrumada. Uma coisa preciosa. ou francamente errado. Era pequeno e pálido. Por isso. ou perdido. a Carreta parecia satisfeita em roncar num longo e morno sono hibernal. Um frasco coruscante com um sopro oculto seria uma dádiva principesca. Mas não. Olhou a penteadeira. Auri não precisou abri-lo para ver que dentro havia um sopro. Coruscante como opala.. Um. Agora que a penteadeira fora ajustada. Mas sem nada flagrantemente fora de esquadro.

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Ah. Ovos são quebrados. Não estava despedaçado. Com o coração frio e branco como giz. quicou de novo no ar. Rodopiou e despencou de seus braços e saiu da nuvem de seu cabelo dourado. Tinha consciência de que. Auri se manteve de pé. Sentou-se com força nos degraus. Não . É claro. Devia ter agido mais delicadamente com o mundo. Não. rodopiou outra vez. Auri parou no degrau inferior. Ergueu os olhos e espiou. Espreitou. Quebra-se a ferocidade dos cavalos selvagens para domá-los. mas.. Fulcro pulou longe. Abriu-se num sorriso tão largo que era de se supor que tivesse comido a lua. descendo da Carreta pela escada sem nome. Quando Auri caminhava. tombou e bateu com tanta força no sétimo degrau que rachou a pedra. Sabia como as coisas funcionavam. Como uma garrafa nas pedras. para dizer o mínimo. No entanto. Sentiu os passos entorpecidos e trôpegos quando outros desatenciosos degraus de pedra tentaram derrubá-la. ah. Viu as linhas de suas bordas afiadas desenhadas na pele. Ela não conseguia se obrigar a olhar além de seus pezinhos empoeirados. Aos poucos. com o hálito quente do desejo e do vinho. Fulcro jazia em três pedaços brilhantes. e seu coração andou de lado no peito. Ainda podia senti-lo nas mãos. Como um castelo de cartas. quando alguém não pisava sempre com uma leveza de pássaro. Ondas quebram. sim. o mundo inteiro desmoronava e o esmagava. Foi nessa hora. em seu susto repentino. Por pesado que fosse. O som que fez pareceu o lamento de um sino quebrado. rígida. É claro que Fulcro havia quebrado. Fulcro havia quebrado. Na descida. Ah. em vez de cair. meditativa. Virou. Ele havia quebrado. Auri deu um grito e. Não caiu. Quebrado. um degrau de pedra virou e a lançou. Toda fria e rígida. E então viu os pedaços. Aturdida demais para andar. Ela sabia. o rosto de Auri também se abriu. De que outro modo alguém tão certo-centrado poderia soltar suas respostas perfeitas no mundo? Algumas coisas eram simplesmente corretas demais para se manter. Já não era um pino cravado com força no coração das coisas. Levantou-se e arrastou os pés escada abaixo. Como um pulso preso com força sob uma mão. uma pedra ardilosa virou sob seu pé. Desamparada. O sorriso de Auri alargou-se ainda mais. Mas isso não era errado. como um velho tolo que não se cansa de contar inúmeras vezes a mesma história sem graça. Tinha se transformado em três vezes três. ficou com o coração gelado no peito. caiu de cara sobre sua face brônzea e se espatifou no patamar.. quase pareceu flutuar. com três dentes cada uma. Ah. Lançou-a para a frente. Ah. Foi um barulho de harpa agonizante. não havia mais nada a fazer. Pedaços reluzentes se espalharam quando ele bateu na pedra. Tinha os olhos baixos e a sua volta pendia o cabelo ensolarado. De algum modo. Três formas denteadas. Isso era o pior do errado.

saber disso poderia tê-la desestabilizado terrivelmente. Mais uma coisa sobre a qual ela estivera errada. sem a menor esperança. Três coisas eram fáceis se você conhecia o caminho delas. Eram três coisas. Auri ficou tão absorta que levou vários minutos para compreender onde se encontrava. . Não com tudo tão claro. Ou melhor. Mas não naquele dia. Qual era o seu lugar. A engrenagem tinha batido no sétimo degrau. de repente. Não era de admirar que toda a sua busca desse em nada. Possuía um nome. Que tudo estivesse errado. então. Ele não viria no sétimo dia. para ela ver. Ele traria três. Auri franziu a testa e se virou para fitar os degraus. Em outra ocasião. e ela deveria fazer o mesmo. Fulcro o havia estilhaçado de maneira flagrante. Poderia deixá- la toda suarenta e confusa. percebeu que a escada enfim soubera onde estava. Iria visitá-la naquele dia mesmo.era uma coisa que ela estava procurando. Auri estava no Nonário. Não eram sete. Três três perfeitos seriam o presente dela para ele. Não com a verdade exposta de forma tão doce diante de seus olhos. Soubera o que era.

deixou os Subterrâneos para trás. O segundo três ela levou direto para Tocs. Auri disparou pelos túneis. depois atravessando um porão até o depósito da melhor hospedaria que ela conhecia. Brilhavam como desejos de conto de fadas. passando pela Galeria. Não era de admirar que houvesse tanto piso extra ali. Era esplêndido e macio. Não era de admirar que ela nunca houvesse usado a segunda prateleira da parede. Não poderia estar mais claro. estendeu com cautela o colchão junto à parede em frente a sua cama. Sorrindo. se ele tivesse alguma necessidade. ele pudesse cantar para ela à noite. pelo Anelado. leve como um fiapo. ela dispôs cuidadosamente os três. e ela sabia muito bem como os segredos bem guardados podiam tornar-se pesados. De novo no Manto. Tinham revelado seus segredos. Ele estava livre para partir. havendo esse desejo. Auri voltou correndo ao Manto. Encaixou-se como um amante ou uma chave. pressionando-o contra o peito. De novo no Manto. Ele se aninhou sem esforço. embora isso não fosse surpresa. Uma parede quebrada. . cheio de sussurros bondosos e estradas recordadas. Os dentes eram maravilhosos. uma escada oculta. estofado de inocência e penugem. com seus homens despidos. viu a forma do seu primeiro presente para ele. E. um simples sussurro bastasse. antes mesmo de acabar de acomodá-los ao longo da parede. Perto o bastante para que. Mesmo carregando aquele peso. O coração oculto das coisas A URI RECOLHEU OS três e voltou ao Manto. Auri estendeu as mãos e sentiu na ponta dos dedos a brancura lisa e fresca do lençol. Auri levou o primeiro três reluzente direto de volta à Carreta. e pelo Nonário. Auri carregou o reluzente três de bronze direto para a gaveta do guarda-roupa. perfeito como um círculo. Aproximou-o do nariz e o encostou nos lábios. todo descontraído com sua novanomice. e ali o guardou com extremo cuidado. Agora eles pareciam muito mais leves. por um sôfrego momento. Contudo. perto o bastante para que. Muito alinhados. Ali deixou o três e levou consigo um grosso colchão branco. Ofegante. Ao ver como deveria ser.

Não muito. E então veio o estalo. e o prendeu em toda a volta do colchão. E. Simplesmente já não era para Auri. não cortado. Uma fôrma. mas sabia que não era certo para ele. Se fosse para si mesma. Era verdade que ele andava meio carente de louros. que a deixou tentada. pois ele não era de coisas aos pinguinhos. Auri estendeu dois dedos para tocar no pote com as bagas de louro. quase. ao pensar em algo feito para ele por imersão do pavio na cera. era a terceira parte de algo que ela já havia iniciado. Prendeu a respiração e pensou nas duras realidades do tempo. A regra nesse dia era o três. Uma vela significava derreter. Ela precisava de mais dois presentes. depois estendeu o lençol. É claro. Auri trouxe a xícara fina que pertencia a ele. não se atreveria. Risonha. de repente Auri teve um presente para lhe dar: um lugar seguro em que ele poderia ficar. ela atravessou para o Porto e trouxe o cobertor de volta. Olhou para o azevidro. Auri enrubesceu um pouco ao pensar nisso. Ela sentiu o rosto todo contrair-se. tinha que continuar a se mexer. Era um modo diferente de pensar. Acima de tudo.. Auri praticamente não hesitou. Trouxe o livro de couro. Era um presente para visitas inesperadas. Não. Ela deu um sorrisinho. mas era . Era o único modo de fazer uma vela fina o suficiente para ele. já que era dia de produzir. Não era de admirar que ele a tivesse deixado. O favo de mel. de um creme perfeito. Mas Auri parou de repente. Uma vela. Uma vela seria a coisa ideal exata para ele. simples assim. O que haveria de melhor para manter a fúria afastada? Além disso. pessoalmente ela sabia que esse tipo de coisa era perigoso. Do Porto. Pôs os três na prateleira ao lado da cama dele. Dando um passo para trás. Levantou-o e o segurou contra a luz. significava uma fôrma. Por mais que quisesse parar e se deleitar. para que ele pudesse ter alguma beleza própria. ainda com o vidro na mão. Embora não lhe faltasse nada.. Isso não tinha nada de certo. Trouxe a pequena estatueta de pedra. todo macio e doce e seguro e belo. E. E misturar. não lido e totalmente desconhecido. Soubera a verdade das coisas muito antes dela própria. E isso significava a Aduana. que o estendeu na outra cama e notou que ele já não temia o chão. ela refletiu sobre o que poderia ser necessário a ele. ela o contemplou. VOLTOU AO PORTO E EXAMINOU as estantes com seu melhor olho de criadora. Alisou-o com delicadeza e sentiu seu encanto na pele como um beijo. e com tão bons ventos soprando às suas costas.

Sulfônio num pote de vidro. Agora não pertencia. Isso precisava ser temperado. Mas não. ela viu que a cera existente nele não chegaria nem perto de ser suficiente. Havia também as estantes de pedra. Miúda como um moleque de rua. Eram tão reverentes quanto se poderia esperar.simplesmente assim que tinha de ser. sais. Um conjunto de aros flutuantes. de modo algum. A maior parte das mesas era alta demais. Havia ali muitas garrafas. Havia bicas e torneiras bem-arrumadas. Todos perfeitos. A maioria das coisas não lhe servia. Prateleiras de pós. Por isso. Com expressão grave. Era uma folha vazia de coisa alguma que não podia pertencer. Todos reunidos e calculados e armazenados da maneira mais adequada. todas de aço e bronze e ferro. Por isso. Havia um belo moedor e uma prensa reluzente de limpa. Não para uma vela inteira. Do tipo que serviria bem para uma vela. Correndo o olhar entre a fôrma e o vidro de bagas. contemplou as bagas de louro. Auri deu um suspiro. e essas duas estavam longe de ser as piores. um dia.. Auri caminhou para o Manto. Havia ferramentas. Auri entrou na Aduana. Ácidos e reagentes em seus vidros tampados. Cadinhos e pinças e banhos de fervura.. Havia suportes nas laterais. todas montadas numa parede. Não para uma vela adequada. E. Não era para ela. ERA UM LOCAL LIMPO e silencioso. Um torno. Um suporte para queimador. não merecia um presente lindo e principesco? É claro que sim. Havia também um fio de raiva perpassando- as. Não para ele. Eram meio vira-latas. fúria. sem pavio. Isso não conviria. sim. Auri colocou o pote de bagas de louro na bancada. Catorze águas. Um belo queimador largo. Óleos e unguentos. escancarou a porta orlada de ferro. Era escura e lisa e dura como pedra. Não tinham rótulos. Ela era uma coisa miúda. Aquela sala havia lhe pertencido. Com garrafas acocoradas atrás do vidro muito. Havia peneiras e filtros e facas de cobre. Por isso. Cânfora. Então ele não merecia coisas belas? Depois de tudo o que tinha feito. . Todos corretos. muito grosso. Alambiques e retortas. óxidos metálicos e ervas. Estreitou os olhos para o pote e os números dançaram em sua cabeça. Aquela sala havia pertencido a alguém. E guardavam em si um toque da friagem do vento norte. Auri abriu uma gaveta na bancada e tirou uma forma de latão circum-angular. Era lugar nenhum. Cal dobrada. Uma continha gritos. Não era. Aquela não era. Não eram bem cuidadas como as das outras prateleiras. As estantes cuidadosas. mas também orgulhosas. Havia uma bancada de trabalho. Lotadas de vastos e numerosos utensílios do ofício. Havia prateleiras. Outra. Rolos de tubos de cobre.

Ele estava cheinho de raiva e desespero. Assim. e girou o suporte em anel para que ele sustentasse um cadinho na altura certa. uma insinuação de algo volátil. Auri precisava de algo mais. mesmo que tivesse o dia inteiro. No tempo de respirar três vezes. trabalho diligente e recompensa. olhando para a massa da fruta meio reduzida a polpa. Foi obra de meio minuto. seriam horas de trabalho. Auri acendeu o lampião sem pavio. Sorriu. Não era hora de economias. Depois. Que luxo! Enquanto esperava que a resina dissolvesse. Conhecia o modo paciente das coisas. Uma pitada de cânfora seria ideal.. Auri se deteve. toda ela doçura outonal. Mas ele ia chegar logo. Para a ligação e para manter o coração dele quente durante o inverno que se aproximava. E de orgulho. Mas ele não era um mero poeta. Os sinos também não eram indesejáveis. colocou-o na prensa e foi rodando a manivela e apertando até o mel pingar no vidro transparente e limpo abaixo. Deixando o mel gotejar. Tirou um raminho. Não havia grande quantidade. derramou as bagas de louro no moedor. Abriu a prensa. Acaso não merecia doces sonhos? Auri cerrou os dentes e tirou do pote metade da alfazema. Ali não havia nada que Auri não quisesse para ele. Ferver de novo e clarear.. Esse seria o seu segredo. Havia maneiras de eliminar essas coisas. estavam caprichosamente moídas. Auri olhou para a cera que derretia e meneou a cabeça em sinal afirmativo. apenas o bastante para encher as mãos em concha. Então. Mas ela não tinha cânfora. tirou a folha plana de cera de abelha e a dobrou em pedaços antes de colocá-la no cadinho. Auri conhecia todas. E. seria o suficiente para encher a fôrma. haveria dentro da cera princípios que não eram corretos para ele. ela assobiou e foi mexendo. isso ele tinha num excesso líquido e certo. se aquela fosse uma simples vela de poeta. Sabia que não tinha tempo para isso. mas. Movimentando-se com ar profissional. Mesmo com os utensílios adequados. risonha. muito sovina. Seu assobio também estaria presente na vela. Entrou no Manto e examinou sua alfazema perfeita no pote de vidro cinza. Retirar a borra com a peneira. Ele nunca fora avarento em sua ajuda. um lampejo. e não fazia sentido desejar. quando ela derretesse as bagas. Bem. Apenas uma pitada. Moer e ferver as bagas cerosas. Era um prazer raro trabalhar com os utensílios apropriados. Retirou-se e voltou com o favo de mel. De volta à Aduana. E então sentiu o rubor da vergonha inflando no peito. Mel e louro seriam suficientes. dois. e deixar esfriar para separar a cera. Mexeu a cera de abelha com um bastão fino de vidro. Era uma coisa sonolenta. Havia momentos em que ela sabia ser uma coisa muito. Sabia qual era a maneira certa do louro. Conhecia os círculos . Horas e mais horas. Ela sabia. logo ao lado. buscou no Porto uma pitada perfeita de breu.

Não naquele momento. Um grito. Logo. Auri meneou a cabeça para si mesma. Ela lavou o rosto. E a outra parte? Aquele décimo fininho de um décimo? O coração da alquimia era algo que Auri havia aprendido fazia muito tempo. Fechou os olhos. Um clamor. Ela conhecia a verdadeira forma do mundo. Ele logo chegaria para visitá-la. E nove décimos da química eram espera. Havia descoberto esse segredo sozinha. Sabia isolar um princípio não excludente tão bem quanto qualquer um que já se houvesse dedicado ao exercício da arte. sorriu e impôs todo o peso de seu desejo ao mundo. Certas coisas eram simplesmente importantes demais. Encarnado e doce e triste e alquebrado. Era exatamente como dizia Mandrag: nove décimos da alquimia eram química. Empertigou os ombros. E tudo se curvou para agradá-la. Antes de conhecer a chave de ser pequena. Havia símbolos. Igualzinho a ela. Cheirava a louro e abelhas. moldada com alfazema. Ela não podia apressar- se nem se retardar. havia um segredo nas profundezas do coração oculto das coisas. o rostinho com uma expressão grave. Um apelo. Era pequena como um pivete. Havia uma tensão no ar. Agora. Ela o havia estudado antes de compreender a verdadeira forma do mundo. O mundo ficou esticado e tenso. E tudo conheceu sua vontade. Não havia vento. Significantes. Tudo o mais era sombra e o som de tambores distantes. porém. Seus pezinhos sobre a pedra estavam descalços. descritos.giratórios do calcinado. Um peso. Auri achava que ele não sabia. Era uma coisa perfeita. Muitas coisas que havia suposto serem verdadeiras eram meros truques. NÃO DEMOROU PARA AURI VOLTAR ao Manto com uma vela de cor castanho-avermelhada. Respirou em ritmo lento e regular. Todas as facetas sutis. Uns registrados por pessoas. Chegaria e. Ela não falou. sim. Lavou as mãos e os pés.. . no círculo de seu cabelo dourado. Binato e conexão. Auri sabia. Não mais que maneiras astutas de falar com o mundo. E tudo sacudiu. Havia aprendido seu ofício. Mas. Mas não era hora de rogar favores à lua. Ah. Sabia sublimar e extrair. por baixo. Mecanismos de matemática. Fórmulas. Eram uma negociação. Uma espera. Recolheu as frutas cerosas e bem moídas numa peneira e a colocou sobre um pote de coleta.. do qual conhecia os caminhos ocultos e os segredos. doces e sedutoras que faziam de alguém um perito na arte. Ela ficou de pé e. como perfeito cavalheiro que era. Auri respirou uma vez e abriu os olhos. Mandrag nunca lhe dissera isso. Muitos caminhos diferentes. traria três coisas. ela sabia muito mais que isso.

Lá estava a torre envolta numa língua de fogo. Era estranho ela nunca haver notado o desenho no escudo. Uma prateleira em que ele poderia colocar seu coração. sentado na prateleira da cama dele. nada poderia machucá-lo. toda Taborlin. E a terceira? Bem.. sim. Auri escondeu o rosto e sentiu um lento rubor subir às faces. Estava muito esmaecido. Uma cama para dormir. Protelando. estendeu a mão para o soldadinho de pedra. . mas.. Não era um mero soldado. Ali. a vela inteligente. Sorrindo. mas um pequeno Amyr de pedra. Primeiro... A segunda era o lugar adequado. Auri praticamente dançou. Toda cálida e recheada de poesia e sonhos. Também teria três coisas para ele.

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. Um dia ele precisaria de um lugar. Por ele Auri traria à baila todo o seu desejo. Lavou o rosto. Ela sorriu. Auri beijou a pequena estatueta e a repôs na prateleira. prontinho para recebê-lo. tirou uma única baga minúscula. Seus lábios eram do mais pálido tom de rosa. Estava exatamente onde devia estar. Sorriu. Auri não enrubesceu. Nunca por ela. Dificilmente seria um presente adequado para ele se não fosse. Auri também viu linhas finas nos braços dele. Era um começo. À sua volta. Auri correu até Van e deu uma olhadela no espelho. Não sabia por que tinha deixado esses detalhes passarem despercebidos. Invocaria toda a sua argúcia e a sua arte. seria ele a estar todo casca de ovo. bem escondida do mundo. Mas por ele era outra coisa. deu um pulo rápido ao Porto e abriu o azevidro. Depois. oco. Ela sabia exatamente onde estava. Ela devia permanecer pequena e guardada. Era um pequeno Cirida. Mas havia a terceira coisa. Passou a língua nos lábios e pressionou a baga contra eles. Dessa vez. vazio na escuridão. É claro. Auri sorriu. viva como sangue. com o pequenino Amyr esperando para guardá-lo. toda diferente. Um dia ele viria e Auri cuidaria dele. E depois criaria um nome para ele. Farejou o ar. Examinando melhor. Lavou o rosto. alisou-a de um lado para outro entre o lábio superior e o inferior. olhou para a cama dele. as mãos e os pés. e ei-lo ali. por toda parte. Sorriu. apesar da luz verde de Foxen. Sua prateleira de cabeceira. E então. Retornou ao Manto. Depois.. Com dois dedos. Rodopiou três vezes. tudo estava perfeitamente correto. Certo. Olhou para seu reflexo. Não por ela. umedecendo-a da esquerda para a direita. Seu cobertor. Fervilhando de empolgação. Um dia. Estava perfeito. Não parecia diferente de antes. . É claro que era. as mãos e os pés. Não.

Auri ouviu uma vaga e doce melodia. Coda NAS PROFUNDEZAS DOS SUBTERRÂNEOS. . com as pedras mornas sob os pés.

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Vi assinalou algumas coisas que precisavam ser trabalhadas na história. Sabia. videotrix e pessoa encantadora em todos os sentidos. eu estava num bar em São Francisco com Vi Hart – matemusicista. eu estava ligeiramente bêbado. E tomei mais uma por estar meio nervoso com a minha história. O que é meio raro de acontecer comigo. tomei outra para acompanhar. Quando mencionei isso. Depois. alguns pontos não lapidados. Roteirizar era a melhor parte do trabalho. Redigia o roteiro de seus vídeos e depois os gravava. EM JANEIRO DE 2013. Devo mencionar que. Vi pareceu achar meio divertido e me explicou que escrever era o que ela fazia durante a maior parte do tempo. Eu havia acabado de concluir o manuscrito original da história que você tem nas mãos. Mas. Porque é isso que eu vou fazer. Não apenas inteligente. umas incongruências lógicas. Depois. – Ela não tem as coisas que se espera de uma história – disse eu a Vi. O parecer dela foi realmente bom. pareceu educado pedir uma bebida. como toda boa conversa. e a conversa teve digressões frequentes em direções estranhas. e Vi tinha concordado em dar uma olhada nele e me oferecer sua opinião. como conversávamos num bar. mas de um discernimento espantoso. Era a primeira vez que nos víamos pessoalmente. àquela altura da noite. sejamos francos: eu estava mais do que meio nervoso com a história. – Uma história deve . pedi outra porque estava meio nervoso por ser meu primeiro encontro com ela. Nota final do autor DEIXE-ME CONTAR-LHE UMA HISTÓRIA sobre uma história. no fundo do coração. eu queria ser sociável. Fazia anos que éramos fãs do trabalho um do outro sem saber. Colossal. e tínhamos sido apresentados havia pouco tempo por um amigo em comum. Assinalou também as partes de que havia gostado e falou da história como um todo. que minha narrativa recém-elaborada era um desastre enorme. Passamos umas duas horas falando da história. Bem.

duro e meio zangado. se for cuidadoso. – É uma boa história. Como eu disse. mas não pode descartar todas. e imaginei que Auri seria um bom complemento para os golpistas mais tradicionais. Mas eu não estava disposto a acreditar. E eu? Onde estão as histórias para pessoas como eu? Ela falou num tom passional. As pessoas vão ler o livro e se decepcionar. Dez páginas de um livro tão curto sobre alguém fazendo sabonete. EU NÃO TINHA A INTENÇÃO de escrever esta história. Foi uma das coisas mais gentis que alguém já me disse. – Bem. Mas a história não saiu como eu havia esperado.R. – Essa história não é para elas. eu também gosto – admiti. Você pode ignorar uma ou duas delas. Então. Já existe um monte de gente escrevendo histórias para essas pessoas. No final. organizada por George R. Balancei a cabeça. O mais perto que cheguei de uma cena de ação foi alguém fazendo um sabonete. Vi disse algo de que sempre me lembrarei: – O problema é delas. Queria que fosse um conto para a antologia Rogues. Ou melhor. Gosto de pensar que ela deu um tapa na mesa. – Senti mais ligação emocional com os objetos inanimados dessa história do que costumo sentir com personagens inteiros de outros livros – retrucou. Vi me fitou com um olhar sério. que sem dúvida apareceriam no livro. E talvez mais do que só um pouco bêbado.ter diálogo. sim. Ele não tem o que uma história normal deve ter. Deve ter mais de um personagem. Digamos que deu. É para gente como eu. não pretendia que esta narrativa sobre Auri saísse como saiu. do tipo salafrário. conflito. Isso é coisa de maluco. as pessoas esperam certas coisas de uma história. – Mas isso não importa. – Essas outras pessoas que fiquem com as suas histórias normais – continuou. – Os leitores esperam certas coisas. Passo umas dez páginas descrevendo uma pessoa fazendo sabonete. Foi mais estranha que uma simples . Martin e Gardner Dozois. acabei desabafando algo que não havia compartilhado com ninguém: – As pessoas vão ler isto e ficar fulas da vida. sem sequer levantar os olhos para ela. É a minha história. Pretendia que fosse uma história sobre um trapaceiro. Sabe. ação. Escrevi uma vinheta de trinta mil palavras! Vi afirmou que havia gostado. estava realmente preocupado com a história. Comecei a escrevê-la em meados de 2012. Poderia ter dado um murro na mesa nessa hora.

Eu gostei. Para quem não conhece essa expressão. Talvez esta fosse desse tipo. por todos os padrões tradicionais. mais importante. Não a forcei a assumir uma forma diferente nem introduzi nela coisa alguma apenas porque devesse estar lá. Foi então que escrevi “The Lightning Tree” (“A árvore reluzente”). E. Não só eu estava aprendendo muito sobre Auri e os Subterrâneos. Whiffle: The Thing Beneath the Bed (“Aventuras da princesa e do Sr. eu sabia que ele não tinha medo de histórias meio estranhas. errada e enrolada.. Então. Adventures of the Princess and Mr. Apesar de eu já haver ultrapassado o prazo de entrega do material. Auri não tinha nada de uma simples trapaceira. Ao menos por ora. Mas. percebi que não era esse o caso. que continuou a se alongar e a se tornar mais esquisita. um conto protagonizado por Bast. Não tinha as características que um tipo apropriado de história deveria ter. fazia muito tempo que eu devia um conto a Bill Schaffer. Eu estava criando uma história de gaveta. Além disso. a história dela acabou chegando a catorze mil palavras. e carecia de inúmeras coisas de que as histórias supostamente precisam. Mas. já dava para perceber que não tinha nada de normal.história de trapaceiro. apesar disso. e eu a abandonei. Depois eu sabia que provavelmente teria que usar o bisturi editorial e praticar uma cirurgia cruel para transformá-la numa coisa normal. O nome do vento tem uma porção de coisas que não se esperaria que tivesse. deixei-a desenvolver-se conforme seu desejo. Mais meio que funcionava. Muito mais adequado à antologia. Whiffle: A coisa embaixo da cama”) e sua continuação.. coloca no fundo de uma gaveta e . uma confusão. Ao menos até que eu chegasse ao fim. tinha ficado claro que não era adequada para a antologia. Ele havia publicado meus dois livros ilustrados não destinados a crianças. de modo algum se tratava de uma história de embusteiros. A certa altura. Era esquisita. uma história funciona por ser diferente. Mas aí é que está. e percebi que a única maneira de tirá-la de lá seria terminar aquele treco. Além disso tudo. da Subterranean Press. funciona. Era. Resolvi deixar que a história fosse ela mesma. Por isso. Martin e Gardner foram muito gentis e me deram mais algum tempo. Estranha demais. como havia na narrativa em si uma espécie de doçura. eu já havia passado por isso. O prólogo é um rol de elementos que nunca se deve fazer como escritor. e a própria Auri revelou-se mais cheia de segredos e mistérios do que eu tinha suposto. Era longa demais. Qualquer que tenha sido a razão. ela se refere a um manuscrito que o sujeito termina de redigir. Mas não naquele momento. Àquela altura. Mas a história de Auri continuava na minha cabeça. The Dark Of Deep Below (“A escuridão das profundezas”). Na verdade. dei prosseguimento à narrativa. quando escrevi a cena em que Auri faz sabonete. Às vezes.

intermináveis. Eu tinha finalmente encontrado a voz da Auri. você percebeu?). não para os outros. aliás. É daquele tipo que você escreve e depois lembra que existe no leito de morte. Mas Matt a leu e gostou. Betsy tinha a preferência na compra de qualquer livro que eu escrevesse. Dei de ombros e lhe disse para ir em frente e mandar a história. entreguei a história a quase quarenta leitores beta. Era estranha e doce. era encantadoramente receptivo a projetos estranhos. acabo de . Quis publicá-la. Mas eu realmente adorei. revisei esta história umas oitenta vezes. Em suma. Terminado o livro. Não. Eu sabia que Bill. em termos narrativos. Ora. NOS MUITOS MESES DECORRIDOS desde a minha conversa com Vi Hart.) Como parte desse processo. Mas. foi este: “Não sei o que os outros vão achar. de formas diferentes. Matt. mas não esperava que ele a quisesse. minha editora na DAW. Disse-lhe que iria oferecê-la ao Bill. Gosto muito dela. Betsy a leu e gostou. – Além disso – acrescentou –. é uma questão de educação colocá-la no circuito. de modo que não fora uma completa perda de tempo. então. Depois de apagar o histórico de navegação na internet. – É uma confusão. Gostou mesmo. Eu tinha de escrevê-la para saber da Auri e do mundo (que se chama Temerant. porque. mandei-o para meu agente. Ela é sua editora principal. é claro. porque é o que se deve fazer quando se é escritor. É provável que não gostem. mas este? Não. é até pouco. Mesmo assim.” Acho estranha a quantidade de gente que disse alguma versão disso. – Ela não vai querer isso – retruquei. Foi aí que comecei a suar. eu sabia que esta história era para mim. eu gostava dela. da Subterranean Press. Ele me telefonou e disse que eu deveria mandá-la para Betsy. Ligeiramente envergonhado ao pensar em Betsy lendo-a. ela era um grande desastre. Não é o tipo de história que se possa vender a uma editora. Matt me lembrou de que. de acordo com meus contratos. para reunir opiniões que me ajudassem em minhas revisões obsessivas. enquanto pede a um amigo íntimo que queime todos os seus papéis inéditos. E um comentário que as pessoas fizeram muitas vezes. esta era uma história que eu tinha de escrever para tirá-la da cabeça. É o tipo de história que um maluco escreveria. Não é o tipo que as pessoas querem ler. Na verdade. E havia aprendido muito sobre escrever na terceira pessoa. (Isto não é incomum para mim.esquece que ele existe. Às vezes isso acontece.

Esta é para todas as pessoas meio abatidas que existem por aí. em si. sempre cercados por outros que sentem exatamente a mesma coisa. sou eu o autor. o que é mais importante.. Afinal. essa história terá de esperar que eu escreva sobre ela no meu blog. o que é uma tremenda lástima.: Agora percebi que não falei nada sobre as ilustrações. Várias pessoas me disseram que se identificam com a Auri. Talvez você a aprecie melhor numa segunda leitura. tediosa ou confusa. não é incomum. Eu não esperava isso. . Não só por elas serem encantadoras.S. nesta nota do autor. meiga e dilacerada. A Auri tem consciência de que não é toda muito perfeitamente certinha por dentro. A boa notícia é que há muitas outras histórias por aí que foram escritas justamente para você. (Quase todos os meus livros são melhores da segunda vez. Vocês não estão sozinhas. E. estou sem tempo e sem espaço.. Sou um de vocês. A verdade é que gosto da Auri. Acho que é por ambos sermos meio imperfeitos. Mas é que a história de como elas vieram a ser incluídas neste livro é interessante por si só. Esta é uma história estranha. Mas isso. me desculpe.patrickrothfuss.com. Não posso deixar de me perguntar quantos de nós passamos pela vida. com a sensação de estar meio abatidos e sozinhos. Tenho um lugar especial no coração para essa jovenzinha estranha. Espera-se que eu saiba como os personagens se sentem. A verdade é que provavelmente ela não era para você.) Mas também pode ser que não. e isso a faz sentir-se muito só. Histórias de que você gostará muito mais. você poderá procurá-la lá: www. dia após dia. Se tiver interesse. Gosto dela mais do que apenas um pouco. — Pat Rothfuss JUNHO DE 2014 P. peço desculpas. nós dois sabemos disso. Disseram saber o que se passa com ela. Sei como ela se sente.perceber que eu mesmo falei algo parecido há algumas páginas. Se você é uma das pessoas que acharam esta história desconcertante. Então. Assim. Infelizmente. São todas lindas para mim. cada qual a seu jeito estranho. Se você leu este livro e não gostou. A culpa é minha. Só quando comecei a colher opiniões foi que me dei conta de como esse sentimento é comum.

O nome do vento. Martin. constrói fortes com caixas de papelão junto com os filhos e dirige a Worldbuilders.com. alcançou o primeiro lugar na lista do New York Times. Sobre o autor © Kyle Cassidy O primeiro romance de Patrick Rothfuss. Rothfuss ganhou o Quill Award (prêmio literário americano cujos vencedores são escolhidos pelos leitores) de melhor livro de literatura fantástica. Ele também conta histórias em seu blog: patrickrothfuss. tornou-se um sucesso no mundo inteiro. Rothfuss mora em Wisconsin. Foi publicado em mais de trinta países e é considerado a estreia mais brilhante no gênero literatura de fantasia nos últimos anos. nos Estados Unidos. Le Guin. onde fabrica hidromel. O temor do sábio. e recebeu elogios de escritores importantes como George R. continuação da série. R. instituição beneficente que gira em torno dos livros. Ursula K. . entre outras condecorações. Orson Scott Card e outros. volume inaugural da série A Crônica do Matador do Rei.

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O nome do vento

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personalidade – notório mago, esmerado ladrão, amante viril, herói salvador, músico
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O temor do sábio

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encantada à qual nenhum homem jamais pôde resistir ou sobreviver – até agora. Kvothe
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muito diferentes, onde vai aprender a lutar como poucos.
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Jezal dan Luthar e Logen Nove Dedos muito mais difícil. Nesse momento de incertezas. a linha que separa o herói do vilão pode ficar tênue demais. tudo o que o mulherengo Jezal deseja é obter fama e glória vencendo o campeonato de esgrima. o Primeiro dos Magos. para depois ser recompensado com um alto cargo no governo e jamais ter um dia de trabalho pesado na vida. Por sua vez. Já Nove Dedos é conhecido por jamais deixar um inimigo viver tempo suficiente para falar uma palavra sequer. Por ironia. no impacto. Assolada por conspirações internas. . O destino desses quatro personagens está prestes a colidir – e. retornando do exílio depois de séculos. Sua presença tornará a vida de Sand dan Glokta. a União ainda precisa mobilizar seus exércitos para combater os inimigos externos. agora é nas mãos dele que os supostos traidores da Coroa admitem crimes. apontam comparsas e assinam confissões – sejam culpados ou não. Glokta é um ex-prisioneiro de guerra que passou anos sob tortura. um homem se apresenta como o lendário Bayaz. CONHEÇA OUTROS TÍTULOS DA EDITORA ARQUEIRO O poder da espada Joe Abercrombie Uma guerra está prestes a eclodir.

o Primeiro dos Magos. o futuro da União está em três frentes de batalha – e nenhuma delas parece nem perto da vitória. lidera uma expedição que cruzará o continente até a borda do Mundo. . Antes da forca Joe Abercrombie Nesta ardilosa sequência de O poder da espada. Sand dan Glokta se tornou o todo-poderoso de Dagoska e tem de impedir que ela seja tomada pelos inimigos – tarefa difícil em uma cidade com muralhas decadentes e escassez de soldados. Nesta trama inteligente e de personagens complexos. Além disso. mas não antes de estarem na forca. Enquanto isso. Bayaz. Ao mesmo tempo. batalhas sangrentas são travadas. ao exército de comedores que se multiplica no Sul e aos bandos de shankas que atacam no Norte. o coronel West tem pela frente uma complicada missão: proteger o príncipe herdeiro no campo de batalha e evitar que a inexperiência e a arrogância dele levem todos para a morte. o ex-torturador também precisa desvendar uma conspiração no conselho governante e salvar a própria pele. Passando por terras amaldiçoadas e esquecidas no passado. inimigos mortais são perdoados. nas terras congeladas de Angland. antigos segredos são revelados. ele precisa encontrar a Semente – uma relíquia do Tempo Antigo que poderia pôr um fim à guerra.

azarado no amor e sem nenhuma habilidade com a espada. mas os pobres não veem nem a cor do dinheiro conquistado com os golpes. Ele de fato rouba dos ricos (de quem mais valeria a pena roubar?). cujas façanhas alcançaram uma fama indesejada. O único lar do astuto grupo é o submundo da antiquíssima Camorr. um especialista em roubos vultosos. ele instaura uma guerra clandestina e ameaça mergulhar a cidade em um banho de sangue. As mentiras de Locke Lamora Scott Lynch O Espinho é uma figura lendária: um espadachim imbatível. Preso em uma armadilha sinistra. Matando líderes de gangues. Locke Lamora é o homem por trás do fabuloso Espinho. que começa a ser assolado por um misterioso assassino com poder de superar até mesmo o Espinho. um fantasma que atravessa paredes. enquanto o restante o considera apenas uma invencionice ridícula. Metade da excêntrica cidade de Camorr acredita que ele seja um defensor dos pobres. que vai todo para os bolsos de Locke e de seus comparsas: os Nobres Vigaristas. Franzino. . Locke e seus amigos terão sua lealdade e inteligência testadas ao máximo e precisarão lutar para sobreviver.

. Mas até mesmo isso pode não ser o bastante.. É o tipo de desafio a que Locke não consegue resistir. enganando todos ao seu redor sem a mínima falha. Em pouco tempo. um trabalho inusitado para ladrões que mal sabem diferenciar a proa da popa de um navio. Locke e Jean terão que se mostrar malabaristas de mentiras. a dupla se vê envolvida com o mundo da pirataria. eles têm como alvo o maior dos prêmios. mesmo no extremo ocidental da civilização. a mais exclusiva casa de jogos do mundo. onde a regra de ouro é punir com a morte qualquer um que tente trapacear. o ambicioso líder militar verrari. Mares de sangue Scott Lynch Após uma batalha brutal no submundo do crime.. Antigos rivais dos Nobres Vigaristas revelam o plano a Stragos. . a Agulha do Pecado. não conseguem descansar por muito tempo e logo estão de volta ao que fazem de melhor: roubar dos ricos e embolsar o dinheiro. para que consigam sair vivos. Em Mares de sangue. que resolve manipulá-los em favor de seus próprios interesses. só que o crime perfeito terá que esperar. fogem de sua cidade natal e desembarcam na exótica Tal Verrar para se recuperar das perdas e feridas. Jean Tannen.. o golpista Locke Lamora e seu fiel companheiro. Porém. Desta vez.

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Sumário Créditos Prefácio do autor O fundo bem profundo das coisas O que um olhar acarreta Linda e quebrada Um lugar aprazível bem incomum Vazio A escuridão raivosa Freixo e borralho Tudo conforme o desejo dela A maneira graciosa de agir O coração oculto das coisas Coda Nota final do autor Sobre o autor Conheça outros títulos do autor Conheça outros títulos da Editora Arqueiro Informações sobre a Arqueiro .

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