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IMAGENS DE SI E PERSUASÃO NO DISCURSO POLÍTICO

Carlos Eduardo Silva Pinheiro 1

Acomode-se no coletivo de um centro urbano e, em poucos


minutos, depare-se com uma representação discursiva que articula, como
todas as outras, mas talvez de modo mais incisivo, a tríade aristótélica da
argumentação: a do vendendor ambulante.
Não se trata de um vendedor ambulante qualquer, como aqueles
que empurram carrinhos de pipoca em calçadas ou penduram vassouras
sobre os ombros e batem de porta em porta. Tampouco, está-se falando dos
que vendem óculos em praias ou flores na porta de cemitérios no dia de
finados. O vendedor ambulante de um coletivo é, diga-se de passagem, um
artista de rua, que encena, com a soberba de um ator premiado, uma
narrativa dramática na qual logos, ethos e pathos se vinculam em um jogo
persuasivo cujo objetivo é fazer-se ouvir e ser aceito pelos potenciais
clientes, quais sejam, passageiros fadigados e estressados.
A representação inicia, geralmente, com a entrega voluntária
dos produtos a serem vendidos com um imperativo repetido de banco em
banco com suas variações situacionais: “Bom dia, senhor, segure isto, por
favor!”. Até o olhar mais severo e desatento identifica um indíviduo
fisicamente frágil com o rosto suado, trajando roupas muito simples e
cabelos desgranhados. Quando entregue a mercadoria, inicia-se a
intervenção do logos com um discurso cuidadosamente elaborado e - pois
repetido ao longo do dia em dezenas de outros coletivos para centenas de
outros mal humorados passageiros - já decorado pelo vendedor: trata-se de
uma história de superação, um pai ou mãe de família desempregrado, ex-
usuários de drogas, que poderia estar matando, roubando ou prostituindo-se,
que usa argumentos bíblicos para convencer, emocionar, vender alguns
doces e lucrar! Aqui, a emoção domina o público, que vê-se obrigado a obter,
mesmo sem querer, os produtos deixados por aquele sujeito em suas mãos.
Vê-se, nesse exemplo curto e rotineiro, o que se entende na análise

1 Graduando do curso de Letras – Língua Portuguesa da Universidade da Integração


Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).
do discurso como estratégias argumentativas engatilhadas pela articulação
de logos, pathos e ethos. O logos, a razão sugerida pelos argumentos bem
colocados, o ethos encenado pela projeção de uma imagem frágil e digna de
atenção e misericórdia e o pathos ativado por essa representação constituem
também um coletivo, se podemos assim dizer, um veículo discursivo cujo
caminho é a persuasão e o destino é a resposta positiva e imediata do
auditório ao que é solicitado pelo enunciador.
Nesse trabalho, contudo, não trataremos dessa articulação entre
as três partes de um todo que é o jogo discursivo, embora nos pareça
insulficiente ou desnecessário ou, ainda, impróprio, analisar os efeitos
retóricos de apenas uma dessas partes, visto que elas constituem um todo,
como a Trindade bíblica, na qual Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo
são três entidades diferentes e, no entanto, os três são Deus. Dito isso,
pretende-se analisar a construção e os efeitos persuasivos do ethos no
discurso de defesa da presidente Dilma Rousseff (2011-2016) pronunciado
quando do julgamento do seu impeachment em 29 de agosto de 2016.
Na análise, partiremos das categorias tomadas por Charaudeau
(2010) acerca dos ethé de credibilidade e identificação e sobre o discurso de
justificação. Inicialmente, deve-se considerar o que, exatamente, o autor
considera como ethos. Charaudeau retoma, como fizeram outros analistas do
discurso, a noção aristótélica de ethos inscrevendo-a não como uma entidade
prévia, isto é, anterior ao discurso, mas como uma entidade construída no e
pelo discurso através da enunciação. Grosso modo, o ethos é “o resultado de
uma encenação linguageira que depende dos julgamentos cruzados que os
indivíduos de um grupo social fazem um dos outros ao agirem e falarem”
(CHARAUDEAU, 2010, p. 118).
Sobre os ethé de credibilidade, o autor afirma que se trata de algo
construído no discurso a partir da intencionalidade do enunciador de parecer
digno de crédito pelo auditório. Nesse sentido, considerando o discurso
político, é preciso que o enunciador posicione-se discursivamente de modo
que o que diz e o que pensa sejam correspondentes – embora essa
correspondência não seja real, mas uma obra de ficção ardilosamente
arquietatada - e transparentes ao auditório.
A priori, o discurso de defesa de Dilma Rousseff baseia-se,
sobretudo, na busca de reconstrução de uma credibilidade fragilizada ao
longo de seu percurso político. Fragilidade essa, deve-se ressaltar, advinda
menos pelo seu desempenho enquanto presidente e mais pelas acusações
feitas arbitrariamente por um grupo de políticos da oposição. Assim, as suas
escolhas enunciativas refletem, inicialmente, a intenção de se fazer crível
para um auditório que seria responsável pela seu julgamento.
Nesse movimento de reconstrução, a presidente faz uso de
diversos recursos de representação de si, dentros os quais destacam-se o
ethos de sério, virtuoso e de competência.
O primeiro pode ser identificado na própria postural física da
presidente ao longo de sua defesa. Não há gestos exagerados ou sorrisos
estampados em seu rosto, mesmo nos momentos em que celebra os feitos
virtuosos que conquistou enquanto líder do Poder Execultivo. Sua voz
permanece em um tom firme e cuidadoso tocado, por vezes, pela emoção.
Outra observação é que a frase de efeito “Quem acredita, luta!”, pronunciada
nos primeiros momentos do discurso, suscita a admiração do auditório e,
poderia, se recorrente, ser prejudical para o ethos de sério que se buscou
construir. Essa estratégia alivia o que, eventualmente, poderia ser entendido
como austeridade e que, indubitavelmente, seria encarado como o limite para
que a imagem de sério fosse percebida como negativa.
O ethos de virtude é reverberado pelas constantes alegações de
honestidade feitas pela presidente. Como líder política eleita
democraticamente, seria de estranhar que ela pratica-se atos ilícitos. Há um
trecho do discurso em que presinte põe em jogo a própria idade como prova
de sua equidade moral:

Aos quase setenta anos de idade, não seria agora, após ser
mãe e avó, que abdicaria dos princípios que sempre me
guiaram. Exercendo a Presidência da República tenho
honrado o compromisso com o meu país, com a Democracia,
com o Estado de Direito. Tenho sido intransigente na defesa
da honestidade na gestão da coisa pública.
Em outro momento, Dilma Roussef enfatiza, de modo breve, em a
sua inocência em relação às acusações recebidas:

Todos sabem que não enriqueci no exercício de cargos


públicos, que não desviei dinheiro público em meu proveito
próprio, nem de meus familiares, e que não possuo contas ou
imóveis no exterior. Sempre agi com absoluta probidade nos
cargos públicos que ocupei ao longo da minha vida.

O ethos de competência, por sua vez, pode ser evidenciado na


propriedade da presidente no que diz respeito às acusações, pontuadas ao
longo da defesa, e aos argumentos utilizados pelos acusadores para justificá-
las. Dilma retoma, quase sempre, os dizeres da Constituição para mostrar-se
competente. Um desses momentos é quando ela afirma que o Tribunal de
Contas da União mudou a posição em relação aos créditos suplementares
logo depois que eles foram editados pela presidente e quando ainda eram
permitidos pela legislação vigente.
Charaudeau (2010) também trata das formas de representação dos
ethé de identificação: o ethos de potência, caráter, inteligência, Humanidade,
chefe e solidariedade. Para o autor, o éthe de identificação é responsável por
permitir ao auditório identificar-se com o enunciador e, portanto, aderir as
teses apresentadas por ele. Nesse sentido, o político coloca-se, ao mesmo
tempo, como sujeito humano e sujeito público cuja imagem de “humanidade”
reverbera a postura de um sujeito bom e honesto cujas palavras
pronunciadas não são produtos da verdade, mas frutos de uma carreira
política construída na interação social com o povo e nas lutas cotidianas
universais.
Uma das imagens possíveis é a do ethos de potência. No discurso
de Dilma essa representação pode ser percebida no momento em que ela
desenha duas imagens: uma referente ao seu julgamento durante a ditadura
militar brasileira e outra referente ao próprio momento da enunciação. Aqui, o
discurso da presidente a impõe como uma mulher forte que resiste às
adversidades:
Este é o segundo julgamento a que sou submetida em que a
democracia tem assento, junto comigo, no banco dos réus. Na
primeira vez, fui condenada por um tribunal de exceção. Daquela
época, além das marcas dolorosas da tortura, ficou o registro, em
uma foto, da minha presença diante de meus algozes, num
momento em que eu os olhava de cabeça erguida enquanto eles
escondiam os rostos, com medo de serem reconhecidos e julgados
pela história. Hoje, quatro décadas depois, não há prisão ilegal, não
há tortura, meus julgadores chegaram aqui pelo mesmo voto
popular que me conduziu à Presidência

Sobre o ethos de caráter, Charaudeau (2010, p. 139) afirma tratar-se


“mais da força do espírito que da do corpo”. É a imposição de um caráter
subjacente ao sujeito e demonstrado por ele em seu discurso. No caso da
defesa de Dilma, destacam-se três momentos: o primeiro quando da
provocação indireta feitas aos envolvidos na sua acusação. Nesse momento,
Dilma reforça a integridade do seu caráter qustionando a idoneidade moral
dos seus acusadores:

Se alguns rasgam o seu passado e negociam as benesses


do presente, que respondam perante a sua consciência e
perante a história pelos atos que praticam. A mim cabe
lamentar pelo que foram e pelo que se tornaram. E resistir.
Resistir sempre. Resistir para acordar as consciências ainda
adormecidas para que, juntos, finquemos o pé no terreno que
está do lado certo da história, mesmo que o chão trema e
ameace de novo nos engolir.

O outro momento refere-se a postura positiva que a presidente


conserva em relação aos membros da acusação. Embore discorde da
legitimidade do processo, Dilma Rousseff afirma: “Tenho por todos o maior
respeito, mas continuo de cabeça erguida, olhando nos olhos dos meus
julgadores” e, ainda, “Não nutro rancor por aqueles que votarão pela minha
destituição”.

Por último, há outra figura importante na construção do ethos de


caráter: a coragem. No discurso, percebe-se as retomadas de uma narrativa
que remete ao que Dilma sofreu durante a ditadura militar no Brasil. Em dado
momento do discurso, Dilma cita as adversidades que enfrentou durante a
vida e reforça que seu único desejo é a justiça:
Por duas vezes vi de perto a face da morte: quando fui
torturada por dias seguidos, submetida a sevícias que nos
fazem duvidar da humanidade e do próprio sentido da vida; e
quando uma doença grave e extremamente dolorosa poderia
ter abreviado minha existência. Hoje eu só temo a morte da
democracia, pela qual muitos de nós, aqui neste plenário,
lutamos com o melhor dos nossos esforços. Reitero: respeito
os meus julgadores. Não nutro rancor por aqueles que
votarão pela minha destituição.

O ethos de inteligência é uma figura sobre a qual incide a ideia de


capital cultural. Dilma Rousseff não impõe sua formação acadêmica como
economista para justificar a sua argumentação em relação à economia
brasileira e a recente crise. Entretanto, cria-se a imagem de um sujeito que
tem domínio sobre o que enuncia, ou seja, um sujeito cujo capital cultural é
sulficiente para colocá-la em uma hierarquia de saber no vínculo entre a
presidente e o auditório.
Acerca do ethos de humanidade é revelado em alguns momentos do
discurso da presidente. Para Charaudeau (2008), o “ser humano” é uma
atribuição dada aqueles que consegue demonstrar sentimentos. No caso em
análise, nota-se três momentos em que essa figura é evocada: o primeiro
quando Dilma mostra compaixão pelo povo, afirmando que eles seriam os
principais prejudicados com a sua condenação. O segundo, quando ela
assume ter defeitos. Em suas palavras:
[…] me aproximei mais do povo, tive oportunidade de ouvir
seu reconhecimento, de receber seu carinho. Ouvi também
críticas duras ao meu governo, a erros que foram cometidos
e a medidas e políticas que não foram adotadas. Acolho
essas críticas com humildade. Até porque, como todos, tenho
defeitos e cometo erros. Entre os meus defeitos não está a
deslealdade e a covardia. Não traio os compromissos que
assumo, os princípios que defendo ou os que lutam ao meu
lado.
O terceiro momento é quando, ao falar do câncer que enfrentou e
que poderia ter custado sua vida, Dilma se emociona, o que é possível
perceber no tom embargado de sua voz.
Sobre o ethos de chefe, Charaudeau (2010) considera que ele é
menos voltado para si mesmo, ou seja, para o próprio enunciador e mais
orientado para o cidadão. Como líder, Dilma assume que seu papel é
corresponder a responsabilidade que foi-lhe entregue pelos milhões de votos
que recebeu. Por isso, afirmações como “Fui eleita por mais 54 milhões de
votos”, um governo legítimo, escolhido em eleição direta com a participação
de 110 milhões de brasileiros e brasileiras ou “Fui eleita presidenta por 54
milhões e meio de votos para cumprir um programa cuja síntese está gravada
nas palavras “nenhum direito a menos””, coloca a presidente como chefe não
apenas de Estado, mas como líder humana, ou, nos dizeres de Charaudeau
(2010), uma “guia-pastor” cuja função é iluminar o caminho do povo que a
colocou no poder.
A última figura tomada por Charaudeau (2010) para tratar dos ethé
de identificação é a do ethos de solidariedade. Para o autor:

A solidariedade caracteriza-se pela vontade de estar junto,


de não se distinguir dos outros membros do grupo e,
sobretudo, de unir-se a eles a partir do momento em que se
encontrarem ameaçados. Aquele que é solidário não está
em uma posição diferente da dos outros; ele partilha as
mesmas ideias e os mesmos pontos de vista de seu grupo
[...]. (2010, p. 163)

Como “guia-pastor”, Dilma Rousseff se projeta como líder de um


povo heterogênero e multifacetado. Opondo-se ao conservadorismo, a
presidente reverbera a importância das mulheres, dos negros, dos LGBTI+ e
outras minorias na construção de uma democracia e do Estado de direito.
Nesse sentido, a solidariedade é revelada no abraço às causas minoritárias e
na carinho recípro desses com a presidente.
Outras estratégias persuasivas nas quais o ethos e as imagens de si
são veiculadas são as que compõe o discurso de justificação. Para
Charaudeau (2010), o discurso de justificação é uma tentativa do sujeito
político de defender de atos que, porventura, foram criticados. São três as
estratégias tomadas pelo autor: a negação, a razão superior e a não
intencionalidade.
A negação nada mais é que a rejeição das denúncias. Dilma faz isso
com propriedade. Ela não apenas rejeita, apresentando argumentos jurídicos,
mas as categoriza como ilegítimas. A razão superior é tomada para explicar
porque determinadas ações, outrora focos de críticas, foram tomadas. É o
que faz a presidente quando, por exemplo, justifica a edição de três decretos
de crédito suplementar sem autorização legislativa. A não intencionalidade,
por sua vez, é evocada quando o enunciador reconhece que cometeu um ato
inadequado, mas que não o cometeu intencionalmente. No caso de Dilma,
vê-se que, em nenhuma das três acusações, foi cometido um ato ilícito que
justificasse o processo de impeachment.
Na breve análise empreendida, viu-se que, em seu discurso de
defesa, Dilma projeta uma sequência de figuras de ethos que corroboram
para a construção de uma imagem de si positiva e que intenciona convencer
um auditório composto por sujeitos que seriam responsáveis pelo seu
julgamento. Notou-se o relevante papel das estratégias de representação de
si na construção da argumentação.