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Daltonismo

Paulo A. Campos (BH/MG)

Azul ou vermelho? Vermelho ou azul? Para mim a única diferença entre essas
duas cores está na grafia. Daltonismo de acordo com o “mini Aurélio” é “um
distúrbio visual que consiste na incapacidade de distinguir diferentes frequências
do espectro luminoso”. Na prática eu não conheço as cores azuis ou vermelhas,
no meu cérebro elas se transformam em roxo.

Parar no sinal roxo, comprar uma camisa roxa do cruzeiro, comer uma suculenta
maçã roxa. Como vocês podem ver o daltonismo nunca atrapalhou o meu dia a
dia, eu estava acostumado com meu modo de enxergar o mundo, mas na vida
tudo tem uma primeira vez.

Eu me formei em jornalismo, meu sonho era cobrir grandes acontecimentos
mundo afora, mas acabei mesmo foi parando na cidade de Pontiguassu, no
interior de minas, cuidando do jornal local. Pontiguassu era uma cidade típica de
interior, vivia basicamente da agricultura e fora algumas festas e feiras realizadas
ao longo do ano, era raro acontecer algo de interessante na cidade. Por isso
uma eleição fora de época movimentava tanto os ânimos dos cidadãos.

Os olhos do Brasil estavam apontados para Pontiguassu. O Prefeito eleito foi
impedido de assumir o cargo. O escândalo ganhou repercussão nos telejornais,
tinha muito dinheiro envolvido nos esquemas de corrupção, agora os
pontiguacensses tinham a chance de escolher um novo prefeito, e dessa vez
alguém melhor.

Faltava uma semana para as novas eleições, a praça da igreja estava lotada de
espectadores, o último debate estava prestes a acontecer. Eu acabava de voltar
de férias e caia de cabeça, meio perdido, naquele turbilhão político sendo o
responsável por cobrir o debate.

Eu não conhecia os novos candidatos, sabia apenas que eram parentes, primos
de segundo grau, alguma coisa assim… Chamavam-se Cláudio e Carlos.
Tinham quase a mesma idade, eram advogados. Cláudio se candidatava pelo
PCP, partido comunista pontiguacensse, e Carlos era o candidato do PDP,
partido democrata pontiguacensse. Era um embate direto entre a esquerda e a
direta local.

Na internet eu havia visto algumas fotos dos candidatos. Carlos tinha um rosto
oval, olheiras escuras e um nariz fino. Seu primo Cláudio tinha os olhos claros,
um queixo quadrado e o mesmo nariz fino. Os dois candidatos surgiram sob as
vaias e aplausos do público, eu distante do palanque forçava as vistas em vão
ao tentar distingui-los. Inocentemente perguntei a um colega ao meu lado:

“Você sabe quem é o Cláudio e quem é o Carlos?”

“O Cláudio é o de camisa vermelha. O Carlos tá de camisa azul.”

“Não tem importância” pensei. não podemos deixar que o consumo caia. Eu estava quase certo que aquela era a voz do Cláudio do PCP. Com as vistas doloridas e um zumbido no ouvido. . o palanque a minha frente começou a girar e rodopiar. O que aconteceu a seguir é de difícil explicação. Temos que dificultar o acesso ao crédito. Achei que iria desmaiar. para mim os dois candidatos estavam vestidos de roxo. Ele quer diminuir sua aposentadoria e seu seguro desemprego! Essa é a verdade que ele mascara!” A praça encheu-se de vaias e aplausos. Vamos abaixar o preço do dólar e incrementar a indústria!”. os candidatos contradiziam seus slogans. “Você está cego?” Fiquei atônito. ao tentar achar uma diferença entre os dois candidatos. Precisamos cortar gastos com a administração pública!” “Queridos amigos. por isso temos que nos unir e fazer os sacrifícios necessários para que o Brasil volte a crescer. quem discursou primeiro foi o candidato de vermelho e depois o candidato de azul. Comecei a suar frio e a tremer. rebateu o adversário político__ O excelentíssimo candidato chama de gastos os direitos do cidadão. dificultando minha tarefa de identificá- los. poderia sem dificuldade identificá-los por suas ideias. Não companheiro. Agora tentaria reconhecê-los por suas vozes. assim estaremos sempre aquecendo o mercado. Quando voltei meu olhar para o palanque os candidatos se rodeando voltaram a falar: “Povo Pontiguacensse! Devemos estimular nossas empresas. Em pé no palanque eles se movimentavam de um lado para o outro. Antes de voltar a crescer é preciso parar de produzir e consumir em demasia”. Um mal estar tomou conta de mim. ele foge da verdade amarga. Seria o Carlos do PDP que falava? “Meu Deus eu devo estar ficando louco”. Precisamos do dólar alto para tornar nossas empresas competitivas. Os dois candidatos foram apresentados ao público. gerando emprego.Agradeci sem jeito. Estava claro para mim que os discursos eram proferidos por Carlos do PDP e Cláudio do PCP. O primeiro candidato começou seu discurso: “Nosso país está imerso numa crise econômica global. me respondeu outro jornalista. eu estava prestes a gritar por ajuda quando de repente todos os meus sintomas desapareceram. O Slogan de Cláudio era “Uma vida melhor para o trabalhador” enquanto Carlos defendia “Uma economia forte e independente”. o candidato diz o que vocês querem ouvir. “Caros eleitores. eu considero sua causa o esforço contínuo e infrutífero que eu fiz durante horas de discurso. Mas aproveitei a confusão para me certificar. suas vozes eram indistinguíveis.

. mas apenas roxos. Percebi que os demais cidadãos aplaudiam e vaiavam o mesmo (o único) candidato. servia apenas para criticar ou apoiar o que lhe convinha. Era impossível identificá-lo. Seu discurso não era de esquerda ou de direita.Ainda ofegante olhei para frente e vi apenas um candidato com o dedo em riste. no final das contas eles não conseguiam perceber que eles não eram vermelhos ou azuis. vociferando e apontando para os eleitores. era um discurso de situação.

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