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C om entário

D evo cio n al
da B íblia

L a w r e n c e O. Richards
REIS BOOK DIGITAL
Todos os direitos reservados. Copyright £ 2012 paia a língua portuguesa da Casa Publicadora das Assembleias de Deus.
Aprovado pelo Conselho de Doutrina.
Título do original em inglês: Devotional Commentary
Cook Communicalioiis Ministries, Colorado Springs, CO, EUA
Primeira edição em inglês: 2002
Tradução: Degmar Ribas
Preparação dos originais: Anderson Grangeão, Caroline Tuler, Daniele Pereira, Elaine Arsenio,
Tanana Costa e Verônica Araújo
Revisão: Verônica Araiijo
Projeto grafico e editoração: Oséas Maciel
Capa: Wagner de Ahneida
CDD: 3 - Comentários
ISBN: 9~S->5063-0227-2
.As crações Kbikas fotam extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995, da Sociedade Bíblica do
Brasil nidicação em contrário.
Para niacces raformações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos lançamentos
da CPAD. '•szm aosso site: http://www.cpad.com.br.
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Av. Brasil >1.-101. Bangu, Rio de Janeiro - RJ
c e p i i ^ í : —:c
I* aicão : 2’’' 12 Tiragem: 3.000
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ESDRAS
05 254
COM O USAR O COMENTÁRIO NEEMIAS
DEVOCIONAL 260
06
ESTER
GÊNESIS 268
09

ÊXODO 272
46
SALMOS
LEVÍTICO 285
70
PROVÉRBIOS
NÚMEROS 337
87
ECLESIASTES
DEUTERONÔM IO 350
105
CANTARES DE SALOMÃO
JOSUÉ 358
131
ISAÍAS
JUÍZES 362
145
JEREMIAS
RUTE 393
160
LAMENTAÇÕES
1 SAMUEL 423
164
EZEQUIEL
2 SAMUEL 427
184
DANIEL
1 REIS 453
197
OSEIAS
2 REIS 466
214
JOEL
1 CRÔNICAS 476
229
AMÓS
2 CRÔNICAS 481
238
OBADIAS EFÉSIOS
490 851
JONAS FILIPENSES
494 865
MIQUEIAS COLOSSENSES
501 876
NAUM 1 TESSALONICENSES
511

00
00
HABACUQUE 2 TESSALONICENSES
514 892
SOFONIAS 1 TIM ÓTEO
519 898
AGEU 2 TIM ÓTEO
524 910
ZACARIAS TITO
528 917
MALAQUIAS FILEMON
538 921
MATEUS HEBREUS
546 925
MARCOS TIAGO
594 950
LUCAS 1 PEDRO
619 961
JOÄO 2 PEDRO
662 970
ATOS 1 JOÃO
713 979
ROMANOS 2— 3 JOÃO
761 988
1 CORÍNTIOS JUDAS
798 992
2 CORÍNTIOS APOCALIPSE
822 996
GÁLATAS
841

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A Biblioteca de Estudo Bíblico em Casa
Bem-vindo a este volume da Biblioteca de Estudo Bíblico em Casa, uma série criada especialmente para você.
Como um cristão sério, você é um estudante da Palavra de Deus. Você está ávido para estudar a Bíblia de uma
forma mais profunda, mas sem a linguagem técnica e a abordagem acadêmica dos livros-textos dos seminários.
O que você quer são livros de pesquisas que vão fornecer ajuda prática quando você ministra como professor
da Escola Dominical, líder de jovens, líder de estudo bíblico ou simplesmente como um estudante. Você quer
livros de recursos que trarão a Escritura viva e vão ajudá-lo a conhecer o Senhor cada vez melhor.
Este é o motivo porque temos publicado a Biblioteca de Estudo Bíblico em Casa. Estes três volumes foram
escritos com uma linguagem clara e de fácil compreensão pelo Dr. Larry Richards, um professor de seminário
que já escreveu mais de 200 livros e estudos bíblicos. Cada livro nesta Biblioteca de Estudo Bíblico em Casa
o conduz a melhor entendimento e aplicação da Palavra de Deus, levando-o à essência das questões que estão
próximas ao coração de Deus. Embora a sua Biblioteca de Estudo Bíblico em Casa conte com o mais recente
e melhor conhecimento para esclarecer o texto, cada um desses volumes fala tocante e diretamente a homens
e mulheres comuns.
Cada volume desta série tem a sua própria ênfase distintiva, e faz a sua contribuição própria e única para o seu
entendimento da Palavra de Deus.
Comentário Devoáonal da Bíblia conduz o leitor à Bíblia inteira por um ano, enriquecendo o seu caminhar
diário com Deus e ajudando-o a ver um significado pessoal das passagens do Antigo e do Novo Testamento.
Guia do Leitor da Bíblia destaca capítulo por capítulo da Bíblia, fornecendo um fascinante entendimento ar­
queológico e cultural que enriquece a sua compreensão quando você lê as Escrituras. O livro também define os
termos-chave e ajudam você a traçar temas e doutrinas-chave por meio da Palavra de Deus.
Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento leva o leitor ao mundo do primeiro século, trazendo os
ensinamentos de Jesus e as cartas de Paulo vivas de uma maneira fresca e vital.
Juntos, esses três volumes na Biblioteca de Estudo Bíblico em Casa oferecem ao leitor um ensinamento sem
igual da Palavra de Deus. Estudar essas obras irá ajudá-lo a entender a Bíblia de capa a capa, aprofundando o seu
relacionamento pessoal com Deus, e mostrando-lhe como falar com os outros o que Deus está lhe ensinando.
Comentário Devocional da Bíblia
Tenho ouvido várias vezes: “Não consigo entender nada da leitura da Bíblia, especialmente o Antigo Testa­
mento”. Longe de muitos cristãos, a Palavra de Deus parece tão vital e emocionante como um livro texto de
história.
Mas a Escritura não é um livro texto. A Escritura é a viva Palavra de Deus, transmitindo a sua mensagem para
você e para mim hoje. Quando nos voltamos para ouvir a Bíblia, para ouvir a voz de Deus falando a nós pes­
soalmente, a Bíblia torna-se, de fato, viva.
E por isso que escrevi o Comentário Devocional da Bíblia, uma aventura de um ano de duração criado para
conduzi-lo através da Bíblia do começo ao fim. O meu objetivo é ajudá-lo a descobrir em toda passagem da
Escritura algumas de muitas mensagens pessoais que o Espírito de Deus transmite ao povo de Jesus. Em muitos
lugares surpreendentes você descobrirá palavras de conforto, palavras de desafio, boas-novas que vão encorajá-
lo nos momentos difíceis, e compreensões profundas que vão purificar e limpar sua vida.
Tenho recebido mais cartas de pessoas usando este comentário do que de leitores de algum dos mais de 200
livros que já escrevi. Muitos me dizem que têm usado o comentário em seus devocionais não só por um ano,
mas por três ou quatro ou até mesmo cinco.
Oro para que Deus use este livro para ajudá-lo a experimentar a sua Palavra como uma mensagem calorosa e
pessoal para você a cada dia.
Lawrence O. Richards

5
COMO USAR O
COMENTÁRIO DEVOCIONAL DA BÍBLIA
Apresentamos aqui quatro formas flexíveis de usar este Comentário para enriquecer a sua vida e o seu
ministério com os outros. (1) Você pode recorrer ao Comentário para aplicaçáo pessoal quando prepara
uma palestra ou lição, ou quando lê a Bíblia por conta própria. (2) Você pode ler a Bíblia toda em um
só ano seguindo algum dos dois diferentes planos de leitura de 1 ano! (3) Você pode seguir um dos pro­
gramas especiais de leitura que explora o Relacionamento Pessoal com Deus ou fornece uma Visão Geral
da Bíblia. (4) Você pode usar as leituras do ano cristão, talvez com a sua família inteira, para ter 40 dias
especiais na Quaresma, 10 dias no Natal, ou 7 dias na Páscoa.
Você pode usar este comentário do jeito que quiser, e nossa oração é que ao utilizá-lo, sua vida seja en­
riquecida com o entendimento da Escritura como a Palavra pessoal de Deus para você, e o ajude a ouvir
sua voz vivificante hoje.

DOIS DIFERENTES PLANOS DE LEITURA PARA UM ANO


PLANO A: mostrando os Profetas, traçando a narrativa histó­
Plano de Leitura. Sequencial: rica, caminhando com Jesus, ouvindo os ensina­
mentos dos apóstolos, adorando com o salmista.
Gênesis a Apocalipse No período de um ano, você vai ler a Bíblia inteira,
cada mês vai ser cheio da estimulante variedade e
Comece com Gênesis, e dia após dia siga desenro­ inesperado entendimento.
lando a kistória do plano de Deus para a humani­ Ou use este Comentário Devocional único em
dade. Acompanhe a história de Abraão, Moisés e uma de várias outras maneiras.
a geração de Exodo. Observe a ascensão e a queda
dos reinos de Israel. Investigue a literatura da sabe­ Janeiro
doria do Antigo Testamento, e ouça as vozes dos Gênesis Cantares de Salomão
profetas. Então veja o cumprimento da promessa Lucas
em Jesus, ouça os seus ensinamentos e acompanhe-
o em sua jornada para a cruz. Compartilhe a alegria Fevereiro
da ressurreição quando a jovem igreja vibrante al­ Salmos 1— 84 2 Coríntios
cança o mundo perdido. Finalmente, reflita as li­ 1 Coríntios
ções ensinadas nas Epístolas: lições que têm guiado
a igreja cristã por mais de 2000 anos. Março
Josue Hebreus
PLANO B: Juizes %Tiago
Rute
Plano de Leituras Selecionadas: Abril
Alternando leituras do A T e N T Mateus 1 Tessalonicenses
Mantenha a sua leitura da Escritura atualizada al­
Jeremias Filipenses
ternando a leitura do Antigo e do Novo Testamen­ Maio
to. O Plano “B” de leituras segue a tabela (abaixo), Salmos 85— 150 2 João
e mantém a sua leitura devocional estimulante e Daniel 3 João
revigorante. A cada semana ou duas, você vai ex­ Apocalipse Naum
plorar uma faceta diferente da Palavra de Deus: 1 João Esdras
6
Comentário Devocional da Bíblia

Junho Setembro
Neemias Amós 1 Crónicas Ezequiel
Ester Jonas 2 Crônicas Ubaaias
Efésios Miqueias 1 Pedro 2 Tessalonicenses
Filemom Zacarias 2 Pedro Habacuque
Oseias Gálatas
Joel Judas Outubro
Romanos Ageu
Julho 1 Samuel Malaquias
Marcos 2 Reis 2 Samuel Zacarias
Provérbios Tito
1 Reis Colossenses Novembro
Deuteronômio João
J f !9ydo 2 Timóteo Dezembro
Levítico Eclesiastes Atos Isaias
Números Lamentações
1 Timóteo

7
PROGRAMAS ESPECIAIS DE LEITURA
Um programa especial de leitura em 30 dias irá ajudá-lo a explorar seu relacionamento pessoal com Deus
ou fornecerá uma Visão Geral da Bíblia. Se você não está preparado para se comprometer com um plano
de leitura em um ano, experimente um desses programas de 30 dias e descubra como encontrar Deus em
sua Palavra, e ouvir a mensagem pessoal dEle para você.
VISÁO GERAL DA BÍBLIA EM 30 DIAS DEZ DIAS NO NATAL
Dia Passagem Dia Passagem Dia Passagem Dia Passagem
1 Gn 1— 2 16 1 Rs 12— 14 1 Is 7 6 M c 4— 5
2 Gn 3— 4 17 Ez 8— 11 2 Is 9 7 Mc 6—7
3 Gn 12— 14 18 Hc 3 Lc 2 8 M c 8— 10
4 Gn 15— 17 19 2 Cr 34— 3 6 4 Mc 1 9 Mc 11— 12
5 Êx 1— 4 20 Jr 31— 34 5 Mc 2— 3 10 Mc 14— 16
6 Êx 20— 23 21 M t 1— 2
7 Lv 16— 20 22 M t 6 —7 SETE DIAS NA PÁSCOA
8 Nm 11— 14 23 M t 8—9 Dia Passagem Dia Passagem
9 D t 5— 7 24 M t 24—25 1 Lc 22— 23 5 1 Co 15
10 Js 6 — 8 25 M t 2 6 —28 2 Lc 24 6 1 Ts 3— 5
11 J d l— 3 26 A t 3— 4 3 Rm 5 7 Ap 21— 22
12 1 Sm 16— 19 27 Rm 2— 3 4 Rm 6—7
13 2 Sm 6— 10 28 Rm 4
14 1 Rs 1— 4 29 1 Co 15 40 DIAS ANTES DA PÁSCOA
15 1 Rs 5— 8 30 Ap 20— 21 Dia Passagem Dia Passagem
1 Is 53 21 Jo 20— 21
2 Jo 1.1-18 22 H bl
RELACIONAMENTO PESSOAL EM 30 DIAS 3 Jo 1.19— 2.24 23 Hb 2— 3
Dia Passagem Dia Passagem 4 Jo 3 24 Hb 4— 5
1 Gn 15— 17 16 Jo 17 5 J° 4 25 Hb 6
2
3
Êx 1— 4
D t 5— 7
17
18
Rm 4
Rm 8
6 J° 5 26 Hb 7— 8
7 Jo 6 27 Hb 9
4 D t 28 19
5 1 Sm 16— 17 20
Rm 12 8 J° 7 28 H b lO
Rm 13 9 Jo 8 29 H b ll
6 Sl 23 21 Rm 14 10 Jo 9 30 Hb 12
7 2 Sm 11— 13 22 1 Co 13 11 Jo 10 31 Hb 13
8 Sl 51 23 2 Co 8— 9 12 Jo 11 32 Ap 1
9 Jó 1— 14 24 E fl 13 Jo 12 33 Ap 5
10 S137 25 E f2 14 Jo 13 34 Ap 14
11 Lc 5— 6 26 E f3 -4 15 Jo 14 35 1 Ts4
12 L c ll 27 E f5 16 Jo 15 36 Ap 19
13 Jo 10 28 ljo l 17 Jo 16 37 Ap 20
14 Jo 15 29 1 Jo 2— 3 18 Jo 17 38 Is 65.19-66
15 Jo 16 30 1 Jo 4— 5 19 Jo 18 39 Ap 21
20 Jo 19 40 Ap 22

8
GÊNESIS
INTRODUÇÃO
O livro de Gênesis é o primeiro dos cinco livros escritos por Moisés durante o período do Êxodo, entre
1450 e 1400 a.C. Usando como fontes a revelação direta de Deus, e as tradições orais e escritas do seu
povo, Moisés examinou a história, desde a Criação até a sua própria época.
O livro de Gênesis está dividido em duas partes. Gênesis 1— 11 narra as tratativas de Deus com toda a
raça humana, desde a Criação até a época de Abraão, aproximadamente em 2100 a.C. Gênesis 12 intro­
duz um tema vital. Deus faz um concerto com um homem e seus descendentes. Deus irá operar por in­
termédio deste homem, Abraão, e sua família, Israel, para revelar-se à humanidade, e, em última análise,
propiciar uma salvação disponível a todos.

ESBOÇO D O CONTEÚDO
I. As Tratativas de Deus com a Raça H um ana....................................... ..Gn 1— 11
A. A Criação................................................................................................. ....Gn 1— 2
B. A Queda ................................................................................................... ....Gn 3—5
C. O Dilúvio e suas consequências........................................................... ..Gn 6— 11
II. As Tratativas de Deus com a Família de Abraão................................. Gn 12— 50
A. Abraão....................................................................................................... Gn 12—25
B. Isaque........................................................................................................ Gn 22—27
C. Jacó e Esaú .............................................................................................. Gn 25—36
D. José............................................................................................................ Gn 37—50

GUIA DE LEITURA (14 Dias)


Se você tiver pressa, pode ler somente a “passagem essencial” na sua Bíblia, e o Devocional em cada ca­
pítulo deste Comentário.
Leitura Capítulos Passagem Essencial
1 1— 2 1.26,27
2 3— 5 3.8-19
3 6— 8 6.9-22
4 9— 11 9.8-17
5 12— 14 12.1-9
6 15— 17 15.1-19
7 18— 21 18.16-33
8 22.1— 25.18 22.1-19
9 25.19— 28.22 27.1-33
10 29— 32 32.1-21
11 33— 36 35.1-15
12 37— 41 39.1-23
13 42— 46 46.1-27
14 47— 50 50.1-21
GENESIS
1 DE JANEIRO LEITURA 1
A COROA DA CRLAÇÁO
Gênesis 1— 2

“E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era Na Rússia, o Dr. Boris P. Dotsenko, na ocasião
muito bom” (Gn 1.31). chefe do departamento de física nuclear no Institu­
to de Física em Kiev, começou a pensar seriamente
O trabalho de cada dia da Criação se encerra com a a respeito da natureza do universo. “De repente,
avaliação divina, “era bom”. Somente o trabalho do eu percebi”, escreveu ele posteriormente, “que deve
sexto dia, no qual o Senhor criou a humanidade, existir uma força organizadora muito poderosa que
ganhou a aprovação suprema — “muito bom”. age contrariamente à tendência desorganizadora
que há na natureza, mantendo o universo controla­
Visáo Geral do e em ordem. Esta força não poderia ser material;
Deus criou os céus e a terra (1.1). O processo orga­ caso contrário, ele também ficaria desordenado. Eu
nizado descrito aqui passa da formação de um am­ concluí que este poder deve ser, ao mesmo tempo,
biente singular para a vida (w. 3-19), à povoação onipotente e onisciente. Deve haver um Deus —
da terra com vida animal (w. 20-25), à criação de um único Deus — que controla tudo” (Larry Ri-
seres à imagem de Deus (w. 26,27). O homem, a chards, It CouldntJust Happen [Fort Worth: Sweet,
coroa da Criação concluída, está destinado ao do­ 1989], pág. 17).
mínio (w. 28-31). Gênesis 2 retorna para examinar Posteriormente, no Canadá para estudos adicio­
mais cuidadosamente estes seres destinados a ser a nais, o Dr. Dotsenko apanhou uma Bíblia. Ali, ele
coroa da Criação de Deus. conheceu o Deus que ele tinha decidido que devia
existir, e tornou-se um cristão.
Entendendo o Texto
Criar (Gn 1.1). A palavra hebraica bara’ não sig­ “O dia primeiro” (Gn 1.5). Os cristãos debatem o
nifica “criar alguma coisa a partir do nada”, mas significado de “dia” em Gênesis 1. Alguns acredi­
dar início ou originar uma sequência de eventos. O tam que “dia” é usado de maneira imprecisa, para
livro de Gênesis afirma que Deus é a causa de tudo indicar uma era. Outros, observando a “tarde” e a
o que existe. Deus — e não o acaso — originou “manhã” mencionadas no texto, concluem que o
toda a vida e os seres humanos formados de ma­ significado é de um dia de 24 horas. Mesmo aqui,
neira singular. Contemplar a Deus como Criador é existe um debate. Os dias de 24 horas foram con­
uma fonte de grande consolo. secutivos? Ou poderiam ter sido separados por mi­
lhões de anos?
“Sem forma e vazia” (Gn 1.2). A segunda lei da ter­ As Escrituras pouco fazem para satisfazer a nos­
modinâmica afirma que, se abandonado, qualquer sa curiosidade científica. Por quê? Talvez porque
sistema irá decair. Mas a nossa terra contém formas “pela fé, entendemos que os mundos, pela palavra
de vida que são altamente organizadas e complexas, de Deus, foram criados; de maneira que aquilo que
distantes do estado “sem forma e vazia” que esta lei se vê não foi feito do que é aparente” (Hb 11.3).
universal da natureza prediz. Mesmo se os detalhes fossem conhecidos, os in-
Gênesis 1—2

crédulos zombariam e ainda se apegariam aos seus de atraente e agradável a benéfico e útil. Deus criou
caprichos. o nosso universo com um objetivo. Da maneira
Mas existe ainda outra razão. como foi constituído originalmente, o universo, e
O livro de Gênesis nos incentiva a olhar além do tudo o que há nele, eram idealmente adequados
material, ao imaterial — além da Criação, para o para revelar a glória de Deus e para realizar os seus
Criador. Nada deve nos distrair do reflexo de Deus propósitos. A tragédia do pecado, introduzido em
que nós vemos no que Ele criou. Gênesis 3, deturpou a Criação original. Ainda as­
sim, a beleza e a grandeza que Deus investiu na
“Haja”(Gn 1.3,6,9,etc.). Todos, exceto um, dos atos Criação ainda podem ser vistas.
criativos de Deus, foram realizados pelo simples ex­
pediente de proferir a palavra. O salmista toma este “Façamos” (Gn 1.26). Alguns sugerem que a pala­
tema, e clama: “[Ele] falou, e tudo se fez; mandou, e vra plural, Elohim, usada aqui a respeito de Deus,
logo tudo apareceu” (SI 33.9). Os ecos das palavras é um “plural majestoso”. Assim como a realeza hu­
de Deus ainda são ouvidos na criação que, então, mana, às vezes, fala de “nós” quando o significado
passou a existir. O Salmo 19 diz que “os céus mani­ é “eu”, também se considera que Deus se refere a si
festam a glória de Deus e o firmamento anuncia a mesmo como plural. Os cristãos, no entanto, veem
obra das suas mãos”. E acrescenta que “Sem lingua­ nesta antiga expressão, evidências de que o Deus
gem, sem fala, ouvem-se as suas vozes” (w. 1-3). das Escrituras existe nas três Pessoas, plenamente
O testemunho da Criação à existência de Deus é reveladas somente em o Novo Testamento.
uma pedra fundamental do argumento de Paulo
de que os seres humanos se desviaram de Deus. “Um jardim no Éden, da banda do Oriente”
Em Romanos 1.20,21, Paulo diz que “as suas coisas (Gn 2.8). A descrição do Eden no livro de Gênesis
invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu é significativa. Deus não somente projetou o Éden
eterno poder como a sua divindade, se entendem e para a beleza (v. 9) como também para ocupar o
claramente se veem pelas coisas que estão criadas, tempo e os talentos dos seres aos quais Ele tencio­
para que eles fiquem inescusáveis”. Eles ficam ines­ nava deixar encarregados do jardim. O jardim re­
cusáveis porque “tendo conhecido a Deus, não o flete o fato de que o homem verdadeiramente traz a
glorificaram como Deus, nem lhe deram graças”. imagem de Deus. Como Deus, Adão podia realizar
Que lembrete, para mim e para você. Quando nós um trabalho significativo (v. 15). Como Deus, Adão
andamos pela praia, olhamos maravilhados para tinha uma capacidade de criar (v. 19). Como Deus,
as estrelas, ou sentimos a fragrância de uma flor, Adão também tinha liberdade de escolha moral (v.
nós devemos sentir que Deus está falando conosco 16). Deus não plantou a “árvore da ciência do bem e
por meio da sua criação. E, vendo-o, nós devemos do mal” como uma cilada para Adão, mas para dar a
adorá-lo e dar graças. ele a oportunidade de escolher aquilo que era corre­
to e bom, assim como Deus escolhe fazer o bem.
“Domine” (Gn 1.26). O conceito de domínio afir­
mado aqui não é um “direito de usar”, mas uma “A djutora” adequada (Gn 2.20). A expressão não
“obrigação de guardar e proteger”. A responsabili­ sugere inferioridade, pois a mesma palavra hebrai­
dade do homem moderno com o bem-estar ecoló­ ca (?zer) é usada para identificar Deus como o au­
gico da terra é declarada aqui, no livro de Gênesis, xílio do homem em Salmos 33.20 e em diversas
muito tempo antes que os “progressos” da ciência outras passagens. Certamente Deus não é inferior
moderna ameaçassem o equilíbrio da natureza. ao homem porque nos oferece ajuda! Na realidade,
“adjutora” adequada ensina a plena igualdade entre
“Frutificai, e multiplicai-vos” (Gn 1.28). A Bíblia homens e mulheres, e indica que, em Eva, em con­
mantém uma atitude saudável e positiva com traste com todo o reino animal, Adão encontrou
relação à sexualidade humana. A relação sexual um ser que compartilhava plenamente da sua na­
não era, como alguns erroneamente ensinaram, a tureza, e assim podia relacionar-se com Adão física,
“maçã” que Adão e Eva foram proibidos de provar! intelectual e espiritualmente.
Aqui nós encontramos evidências, muito tempo
antes da Queda, de que Deus sempre tencionou “Da costela” (Gn 2.22-25). Os rabinos judeus
que os seres humanos aproveitassem e usassem as logo perceberam que o modo da criação da m u­
suas capacidades sexuais. lher é significativo. Se Eva tivesse sido feita do
pó da terra original, Adão poderia tê-la consi­
“Bom” (Gn 1.10,12,etc.). A palavra hebraica usada derado como uma criação secundária e inferior.
aqui tem uma ampla variedade de significados, des­ Formando Eva a partir da substância do próprio
11
Gênesis 1—2

Adão, Deus afirmou a plena identidade de ho­ recebida como “osso dos meus ossos e carne da
mens e mulheres como pessoas que trazem a minha carne”.
imagem divina. Adão viu as implicações ime­ Que lição está inserida aqui para os cristãos consi­
diatamente, e as aceitou completamente. Eva foi derarem seriamente!

DE V OCIONAL______
A Imagem e a Semelhança de Deus fazemos cuidadosamente, colocando-o em uma
(Gn 1.26,27) gaveta, onde não será danificado. Se você e eu
Uma das mais assombrosas expressões encontradas compreendermos a importância de sermos criados
nas Escrituras está aqui, em Gênesis 1. “Façamos”, à imagem e semelhança de Deus, viremos a apre­
diz Deus, “o homem à nossa imagem, conforme a ciar a nós mesmos também. Nós nos recusaremos
nossa semelhança”. E o texto continua: “E criou a ser degradados por outras pessoas, e rejeitaremos
Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus tentações que possam nos danificar física ou espiri­
o criou; macho e fêmea os criou”. tualmente. Por trazermos a imagem e a semelhança
As duas palavras hebraicas usadas aqui para de­ do Criador, também somos importantes demais
finir a essência humana são selem, que significa para arruinarmos a nossa vida.
“imagem” ou “representação”, e demut, que sugere Considere. Se outros são criados à imagem e se­
similaridade. Quando unidas, elas fazem uma de­ melhança de Deus, devem ter valor e importância
claração teológica decisiva. A essência da natureza como indivíduos, quaisquer que sejam as fraque­
humana somente pode ser compreendida pela si­ zas que apresentem. Quando eu compreender que
milaridade com o próprio Deus. Nós jamais po­ todos os seres humanos compartilham da ima­
deremos compreender o homem aludindo a algu­ gem e semelhança de Deus, eu tratarei os outros
ma suposta derivação de animais pré-históricos. com respeito. Eu aprenderei a ignorar as falhas e a
Em um ato criativo totalmente singular, Deus transmitir amor. Eu perceberei que a existência da
deu a Adão não somente vida física, mas também imagem e semelhança de Deus, por mais distorcida
a sua qualidade de pessoa — a sua capacidade de que esteja pelo pecado, significa que a outra pes­
pensar, de sentir, de avaliar, de amar, de escolher, soa pode responder, como eu respondi, ao amor de
como um indivíduo autoconsciente. Deus revelado em Jesus Cristo. E assim eu estendo
O próprio relato do livro de Gênesis enfatiza a a mão, para ele ou ela, com amor.
singularidade humana. Todos os outros aspectos Considere. Se os homens e as mulheres compar­
da Criação foram trazidos à existência pela pala­ tilham verdadeiramente da imagem e semelhança
vra proferida de Deus. Mas, quanto ao homem, de Deus, cada um deles deve ter uma importância
Deus curvou-se, para moldar pessoalmente um e um valor que independem do sexo, raça ou da
corpo físico, e então, gentilmente, amorosamen­ condição social. Quando eu compreender verda­
te, infundiu vida naquele corpo. Para que não deiramente que cada ser humano compartilha co­
houvesse engano quanto à intenção de Deus, Ele migo da imagem e semelhança de Deus, começarei
formou Eva de uma das costelas de Adão. O livro a deixar de lado os preconceitos que orientam o
de Gênesis é claro. Adão e Eva têm a mesma subs­ comportamento humano. Eu aprenderei a ver as
tância. Eles participam igualmente da imagem e mulheres como pessoas, e a apreciar tudo o que elas
da semelhança dadas somente aos seres humanos. tiverem para oferecer como contribuições na famí­
Este relato faz mais do que explicar a origem do ho­ lia, no local de trabalho e na igreja. Eu me tornarei
mem. Ele tem o poder de moldar as nossas atitudes daltônico, e deixarei de lado categorias como preto
mais básicas, com relação a nós mesmos e a outros. e branco, rico e pobre, e começarei a tratar todas as
Considere. Se eu sou criado à imagem de Deus, pessoas que eu encontrar com respeito e afeição.
então eu devo ter valor e importância como um Quando isso acontecer, eu terei aprendido o ensi­
indivíduo. E irrelevante comparar-me com os ou­ namento de Gênesis 1.26,27, e terei começado a
tros, se a minha existência essencial pode ser com­ compreender quão preciosos os outros são para o
preendida pela similaridade com Deus! Sabendo Deus que os criou, e que me criou.
que Deus me criou à sua imagem, eu aprendo a
amar e a valorizar a mim mesmo. Aplicação Pessoal
Você já percebeu como nós tratamos as coisas que “Senhor, ajude-me a olhar para os outros com novos
valorizamos? Nós usamos orgulhosamente o reló­ olhos. Capacite-me a ver cada pessoa como o Senhor a
gio ou o broche novo. Quando o tiramos, nós o vê, e, de maneiras práticas, transmitir respeito e amor”.

12
Gênesis 3— 5

Citação Im portante Ontem, eu vi um debate sobre pornografia, no


“Lembre-se de que compartilhar significa mais programa “Crossfire” pela emissora CN N , e vi os
do que cortar um pedaço de bolo em duas fatias argumentos de Satanás reunidos outra vez. Um
iguais. Isso envolve toda a sua atitude com relação advogado da ACLU (American Civil Liberties
à outra pessoa. Lembre-se de todas as maneiras Union) ridicularizou a ideia de que até mesmo
nas quais vocês são pessoas iguais na estima de a pornografia vulgar é errada. Ele afirmou que
Deus; então, equilibre a sua vida para adequar-se a censura à pornografia iria negar aos leitores os
à opinião dEle, e não à da sociedade à sua volta.” seus direitos e prazeres. E afirmou que nenhum
— Pat Gundry mal resultaria de encher a mente com imagens
pornográficas.
2 D E JANEIRO LEITURA 2 A nossa única proteção contra o mal é a fé que
A CHEGADA D O PECADO Eva abandonou. Nós precisamos afirmar o que
Gênesis 3—5 Deus disse. Nós devemos estar convencidos de
que os padrões divinos não pretendem nos negar
“Temi, porque estava nu, e escondi-me” (Gn 3.10). prazeres, mas nos proteger do mal. E devemos
perceber que haverá consequências trágicas à
Um dos grandes mistérios, que confunde os filó­ violação dos padrões de Deus quanto ao que é
sofos, está solucionado em Gênesis 3. O pecado certo e errado.
não é o inexplicável remanescente do suposto sur­
gimento da humanidade a partir da bestialidade, “Morrereis” (Gn 3.4). Na Bíblia, “morte” é um ter­
mas uma herança que se seguiu à Queda de Adão. mo abrangente, que descreve o fim da vida bioló­
Contudo o foco, nestes dois capítulos, não está no gica. Mas também descreve a condição psicológica,
fato do pecado, mas nas suas consequências. social e espiritual do homem. Quando Deus adver­
tiu Adão que não comesse o fruto proibido, expli­
Visão Geral cou: “Não comereis dele... para que não morrais”.
Eva sucumbiu à tentação e persuadiu Adão a deso­ O pecado de Adão trouxe a “morte” nos seus quatro
bedecer a Deus (3.1-6). Subjugado pela culpa e pela significados. Biologicamente, o processo de envelhe­
vergonha, o casal fugiu do Deus Criador, que os ama­ cimento começou quando Adão pecou; um proces­
va (w. 7-10). Deus os encontrou, e explicou as con­ so que levou à morte do primeiro casal, e à morte
sequências do seu ato (w. 11-20). O próprio Deus física que espreita cada ser humano agora. Psicolo­
ofereceu o primeiro sacrifício da história (v. 21) e os gicamente, Adão e Eva foram tomados de culpa e
expulsou do Jardim (w. 22-24). Adão e Eva viveram vergonha, expressas aqui na sua percepção de nudez
para ver as consequências do pecado na sua própria (3.7). Socialmente, Adão e Eva começaram a ter
família, quando Caim matou seu irmão, Abel (4.1- ideias divergentes, culpando um ao outro pelo seu
16). Lameque, o descendente de Caim, representa a ato. A harmonia que tinham conhecido foi rompida
sociedade pecadora que surgiu (w. 17-26). pela discussão (w. 11-13). Espiritualmente, Adão e
Aqui está a base da doutrina cristã da “depravação Eva foram alienados de Deus, e isso criou um senti­
total”. O homem não é tão mau como pode ser. mento de medo. O Deus de amor tinha se tomado,
Mas a humanidade, separada de Deus, é tão má repentinamente, um objeto de terror (w. 8-10).
como pode ser. Nenhum ser humano é tão mau como pode ser.
Mas todos os seres humanos, as vítimas do legado
Entendendo o Texto do pecado que é a morte física, psicológica, social e
“E à mulher disse” (Gn 3.1-6). A aproximação de espiritual, são tão maus como podem ser.
Satanás a Eva é um modelo clássico do raciocínio Nós estamos familiarizados com todos estes aspec­
que nos leva ao pecado. A ordem de Deus de não tos do que a Bíblia chama de “morte”. Cada um
comer de uma árvore no Jardim (2.17) estabele­ deles é um testemunho — um quadro de avisos
ceu um padrão. Satanás atacou este padrão, de três — que anuncia em alta voz que o pecado é uma
maneiras. realidade com a qual nós devemos lidar.
Satanás questionou a existência do padrão: “E as­
sim que Deus disse?” (3.1) “Coseramfolhas defigueira” (Gn 3.7). A frase retrata
Satanás lançou dúvidas sobre os motivos de Deus o primeiro e inútil esforço do homem de lidar com
para estabelecer o padrão: “Deus sabe que, no dia o pecado. Adão e Eva tentaram se cobrir. Mas nós
em que dele comerdes... sereis como Deus” (v. 5). sabemos que a sua tentativa de lidar com o pecado
Satanás negou as consequências da violação ao pa­ fracassou. Como sabemos disso? Quando Adão e
drão: “Certamente não morrereis” (v. 4). Eva ouviram a voz de Deus próxima a eles, “escon­
13
Gênesis 3— 5

deu-se Adão e sua mulher da presença do Senhor pecado que se expressou na hostilidade de Caim e
Deus, entre as árvores do jardim” (v. 8). Por mais no seu ato homicida.
que tentemos lidar com o pecado com nossos pró­ A história de Caim e Abel suscita várias perguntas.
prios esforços, no fundo nós, seres humanos, con­ Por que Deus rejeitou a oferta de Caim? Os rabi­
servamos um sentimento de culpa e vergonha que nos concluíram que Caim oferecera a Deus frutos
testemunha a nossa condição de perdidos. Jamais podres. Uma explicação melhor é a de que Abel,
houve, e jamais haverá um ser humano salvo pelas ao fazer um sacrifício de sangue, seguiu uma pres­
suas próprias obras. crição que Deus tinha dado a Adão e Eva, quando
os vestiu em peles pela primeira vez. Ao oferecer
“E fez o Senhor Deus a Adão e a sua mulher túnicas frutos da terra, Caim sugeriu que os seus melhores
de peles e os vestiu” (Gn 3-21). Esta simples declara­ esforços eram bons demais para serem oferecidos a
ção está cheia de significado simbólico. Ela é consi­ Deus. O lembrete de Deus, “Se bem fizeres” (v. 7)
derada como o “primeiro sacrifício da história”. O sustenta esta interpretação. Caim sabia a maneira
próprio Deus tirou a vida de um animal para cobrir correta de dirigir-se a Deus, mas não se dispôs a
a nudez de Adão e Eva. fazê-lo.
Observe que Deus fez as vestes. Nós não consegui­ Por que Caim matou Abel? Qualquer pessoa que
mos lidar com o pecado. Esta é uma situação em peque e se recuse a aceitar a responsabilidade, pos­
que o próprio Deus deve agir. sivelmente procurará um bode expiatório e será
Observe que houve derramamento de sangue. hostil com ela. A pessoa verdadeiramente boa atrai­
Aqui, como no sistema de sacrifícios da Lei mo­ rá provavelmente a hostilidade do ímpio, pois a sua
saica, diversas lições são ensinadas. O pecado me­ própria bondade recorda ao ímpio o seu pecado.
rece a morte. Mas Deus aceitará a morte de um Onde Caim obteve a sua esposa? Se Adão e Eva
substituto. Não havia mérito no sangue de bois e eram os únicos seres humanos, e Caim e Abel
cabras mortos nos altares antigos. O sacrifício de eram seus únicos filhos, onde Caim poderia ob­
animais era o auxílio visual de Deus, preparando a ter uma esposa? A resposta, naturalmente, é que
humanidade para reconhecer, na morte de Cristo Caim e Abel não eram os únicos filhos de Adão
no Calvário, um sacrifício substituto que realmente e Eva. Gênesis 5.4 diz que eles geraram “filhos e
tira o pecado. filhas”. Caim e Abel foram os únicos menciona­
dos em Gênesis 4, simplesmente porque a história
“O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim” (Gn é sobre eles! Podemos supor, com base em 5.4, que
3.23). A expulsão de Adão e Eva foi um ato de gra­ existia uma grande comunidade de filhos de Adão,
ça, não de punição. O primeiro casal foi expulso, e talvez até de filhos de seus filhos, antes que Caim
para que “não estenda a sua mão, e tome também atacasse seu irmão.
da árvore da vida, e coma, e viva eternamente”. Te­ Todas estas perguntas, no entanto, nos desviam da
ria sido horrível, inimaginável, para Adão e Eva, ênfase pretendida pelo autor do livro de Gênesis. A
terem vivido ao longo de milênios, forçados a tes­ morte que Deus tinha anunciado que seguiria à de­
temunhar as guerras, a injustiça, o sofrimento que sobediência atingiu não somente Adão e Eva, mas
derivou do seu ato original de pecado. Quão apro­ foi herdada pelos seus filhos! O pecado corrompeu
priadas poderiam ter sido as palavras de Isaías, gra­ a raça do homem, e todos nós vivemos com as trá­
vadas sobre a entrada proibida ao Éden: “O justo é gicas consequências do pecado de Adão.
levado antes do mal. Ele entrará em paz; descansa­
rão nas suas camas os que houveram andado na sua “Eu matei um varão, por meferir” (Gn 4.23). Gênesis
retidão” (Is 57.1,2). 4 continua a investigar as consequências do peca­
do. Um descendente de Caim, chamado Lameque,
“Irou-se Caim fortemente” (Gn 4.1-16). Adão e Eva violou a ordem divina para a sociedade, casando-se
não puderam deixar de observar esta evidência de com duas mulheres. Então, ele justificou o assassina­
morte espiritual que transmitiram a seus descen­ to, explicando que o homem que ele tinha matado
dentes. Quando Deus aceitou o sacrifício de Abel, o tinha ferido. Uma mulher já não era mais conside­
e rejeitou a oferta de Caim, este encheu-se de ira. rada como companheira de um homem, mas as mu­
Caim atraiu seu irmão “ao campo”, onde o atacou lheres tinham se tornado subservientes, objetos para
e matou! o uso do homem. A injustiça foi racionalizada, e o
Que desoladora experiência para Adão e Eva! Um assassinato era considerado pelos orgulhosos como a
filho claramente amado, morto, por outro filho. E justa recompensa por insultos. Nesta passagem, nós
eles sabiam que, na verdade, a culpa era deles mes­ vemos a própria sociedade sendo arrancada de seus
mos! Adão e Eva tinham introduzido na história o fundamentos morais.
14
Gênesis 3— 5

Aqui existe mais do que um toque de ironia. gada pelo sofrim ento e pelo pecado. Em pre­
Gênesis 4.19-22 descreve as realizações dos filhos sas fabricantes de cigarros, responsáveis pelas
de Lameque. Um deles conseguiu controle sobre mortes prematuras de 380 mil pessoas por ano,
o reino animal (v. 20). Outro introduziu as belas promovem livrem ente seus produtos. Os bêba­
artes que nós, humanos, associamos com “cultura” dos e drogados chocam seus complexos auto­
(v. 21). Outro aprendeu a extrair metais da terra e móveis contra outros seres humanos. Grandes
moldá-los para o uso do homem (v. 22). Há algu­ corporações do m undo livre ajudam nações
ma invenção, há alguma altura, à qual a humanida­ terroristas a construir indústrias para guerras
de não possa chegar? químicas. M aus tratos a crianças e assassina­
Hoje nós vivemos em um m undo assombro­ tos, guerras e rumores de guerras, enchem as
so. Nós enviamos homens à lua, sondas não páginas de nossos jornais. Sim, o hom em pode
tripuladas a planetas distantes. Nós aplicamos conseguir maravilhas no m undo material. Mas
radiação para destruir células cancerosas, e a hum anidade está espiritualm ente m orta, in­
inundam os o mercado com remédios que pro­ capaz de vencer o puxão do pecado ou de evi­
longam a vida. Nós enchemos as ondas do ar tar suas terríveis consequências. Novamente,
com músicas, e nos deslocamos por estradas nós não somos tão maus como podemos ser.
em máquinas que são mais complexas do que a Mas, sem Deus, nós continuam os sendo tão
nossa capacidade de entendim ento. Mas, ape­ maus como poderíamos ser.
sar de todas as nossas realizações no universo Tudo isso é ensinado e demonstrado em Gênesis
material, a nossa sociedade permanece estra- 3 e 4.

DEVOCIONAL______ Alguns entendem que “Multiplicarei grandemente


“Porque Comeste”
(Gn 3.8-19) a tua dor e a tua conceição” indica um ciclo mens­
O diálogo entre Deus e Adão está no cerne des­ trual mais frequente. “O teu desejo será para o teu
tes trágicos capítulos. Deus encontrou Adão e o marido” indica uma nova dependência psicológica
questionou. As palavras de Adão revelaram o fato quer irá substituir o sentimento original de Eva de
de que esta era verdadeiramente a história de uma uma forte identidade pessoal. E “ele te dominará”
Queda, apesar da reivindicação de alguns de que introduz, pela primeira vez, a ideia de hierarquia:
comer o fruto proibido tenha sido “a subida de um em um universo pecador, os seres humanos irão lu­
degrau”. tar para obter o domínio uns sobre os outros, e as
Adão agora tinha medo do Deus cuja imagem tra­ mulheres serão forçadas, pela sociedade, a papéis
zia (v. 10). Adão estava ciente da sua culta, e sentiu subservientes que anulam a personalidade. Aqui a
vergonha (v. 10). Adão recusou-se a encarar a reali­ causa não é a moralidade do universo, mas a dis­
dade e tentou atribuir à Eva a culpa pelo seu ato (v. torção causada pelo pecado propriamente dito.
12). Eva também não aceitou a responsabilidade Quando Adão e Eva abandonaram a submissão à
(v. 13). Deus, então, anunciou as consequências vontade de Deus para afirmar a sua própria vonta­
que deveriam se seguir às escolhas feitas por cada de independente, o conflito tornou-se inevitável.
ator no drama de Gênesis 3. Adão também iria sofrer, desta vez pela distorção
É importante ver as consequências não como al­ que o pecado causou à natureza (w. 17-19). O tra­
guma punição arbitrária, mas como um requisito balho se tornou esforço, e a vida, uma luta contra
exigido pela natureza moral do universo que Deus a natureza.
criou. A serpente que emprestou seu corpo como Em todas estas coisas, nós vemos novas evidências da
um veículo a Satanás perdeu a sua beleza (v. 14). destruição que o pecado traz. Mas nós também per­
Despido da ilusão, o pecado é sempre feio e degra­ cebemos uma nota de esperança. Aquilo que Adão
dante. Satanás ganhou a hostilidade, em lugar da fez, Cristo consertou, e consertará. Quando Jesus vier,
lealdade, da raça humana (v. 15). Diferentemente a própria natureza será libertada (Rm 8.18-21). Mas
dos anjos que caíram, a humanidade não irá se alis­ você e eu podemos sentir a libertação, agora mesmo!
tar voluntariamente seguindo Satanás na sua louca Não, não das mudanças físicas causadas pelo primei­
guerra contra Deus. Satanás também estava desti­ ro pecado. Mas nós podemos ser liberados em nossos
nado a ser destruído por aquEle que nasceria da relacionamentos. Nós podemos ser liberados da com­
raça humana caída (v. 15). Em um universo moral, petição em nossos lares e em nossas igrejas, e pela mú­
é impossível que o mal triunfe. As consequências tua submissão à vontade de Deus, voltaremos a ter a
paraiíz« foram físicas, psicológicas e sociais (v. 16). harmonia que reinava antes da Queda. Nós podemos
15
Gênesis 6— 8

ser liberados do desejo de estabelecer a nossa própria na arca, Deus provocou um Dilúvio que eliminou
superioridade, pela dominação sobre os outros. Em todas as outras pessoas e animais (7.1-24). Um ano
Cristo, nós podemos ser liberados também da repre­ depois, a família de Noé saiu da arca, para uma
ensão, do ódio, e de fazer injustiças. terra purificada (8.1-20). Depois da adoração de
A imagem obscura aqui obtida, à medida que se Noé, Deus prometeu não destruir outra vez toda a
definem as consequências do pecado, nos lembra vida — até o dia do Juízo Final (w. 20-22).
do que houve antes da Queda. Aquela imagem do
que o homem perdeu nos informa do tipo de pes­ Entendendo o Texto
soas que nós devemos ser em Cristo, e do brilhante “Nefilins” (Gn 6.4, versão TB). Não se sabe ao certo
futuro que Cristo promete ao povo de Deus. o significado deste termo. Alguns entendem que
ele se refere a gigantes, resultado de uma união
Aplicação Pessoal entre anjos caídos (sendo os “filhos de Deus” suas
Quais indicações da Queda você vê nos seus pró­ criações diretas) e mulheres humanas. Embora os
prios relacionamentos com outras pessoas? Sinta-se versículos 1, 2 e 4 sejam obscuros, o significado
encorajado! Cristo morreu para libertar você exata­ da passagem é claro. A iniquidade humana alcan­
mente destas consequências do pecado. çou novos níveis, chegando a um clímax funesto:
“Toda imaginação dos pensamentos de seu coração
Citação Im portante [do homem] era só má continuamente” (v. 5).
“Nós estamos estabelecendo um recorde de todos
os tempos na produção de coisas materiais. O que “Tristeza e dor” (Gn 6.6). Observe que o texto não
nos falta é uma fé justa e dinâmica. Sem ela, todo diz “ira e revolta”! Deus não se alegra em punir
o resto tem pouca serventia. A falta de fé não pode aqueles que pecam. Em vez disso, Ele sente uma
ser compensada por políticos, ainda que sejam há­ enorme dor — pelo mal que as suas criações cau­
beis; nem por diplomatas, ainda que sejam astu­ sam, umas às outras, e pela necessidade de punir
ciosos; ou por cientistas, ainda que sejam inventi­ pessoas criadas à sua própria imagem.
vos; nem por bombas, ainda que sejam poderosas.”
— John Foster Dulles “Varão justo” (Gn 6.9). Quando aplicadas a seres
humanos no Antigo Testamento, as palavras “jus­
3 D E JANEIRO LEITURAto”3 e “inocente” jamais indicam que a pessoa esteja
. £ l i _ O DILÚVIO PURIFICADOR sem pecados. Em vez disso, elas são usadas para
Gênesis 6 — 8 retratar pessoas que respondem sinceramente a
Deus, e que honestamente tentam agradá-lo. So­
“Destruirei, de sobre a face da terra, o homem que mente Noé mereceu esta descrição.
criei”.... (Gn 6.7).
“Trezentos côvados” (Gn 6.15). A arca era uma em­
A brilhante promessa da Criação original de Deus ti­ barcação maciça até mesmo pelos padrões modernos
nha sido deteriorada pelo pecado do homem. Agora, (veja a ilustração). Ela tinha o objetivo de levar casais
o livro de Gênesis introduzia um tema que ecoa por de animais reprodutores de várias espécies, e provi­
toda a Escritura. Deus é juiz moral do seu universo. sões para eles, assim como Noé e a sua família. Foram
Deus não se esquivará da sua responsabilidade. Cer­ desenhados muitos modelos diferentes da arca, mas
tamente, Deus punirá aqueles que pecam. as informações obtidas do texto são insuficientes para
retratar com exatidão o gigantesco barco. A ilustração
Visão Geral desta página dá alguma ideia do tamanho da arca em
Libertados de suas restrições, os homens se dedica­ comparação com embarcações antigas e modernas.
ram ao mal, e um Deus entristecido decidiu limpar
a terra (6.1-8). Noé, o único homem justo sobre a “Tudo... o que tinha fôlego de espirito de vida em seus
terra, obedeceu à ordem de Deus de construir um narizes... morreu”(Gn 7.22). Muitos discutem se o
barco gigantesco (w. 9-22). Depois que a família Dilúvio do livro de Gênesis foi local ou universal.
de Noé e casais de animais reprodutores entraram Certamente, o texto sugere um cataclisma, com águas
Gênesis 6— 8

subterrâneas e atmosféricas surgindo sobre uma terra quais a arca de Noé flutuou são um lembrete a ser
destruída por terremotos. A afirmação de que “todos mantido diante dos olhos daqueles que zombam
os altos montes que havia debaixo de todo o céu fo­ e seguem os seus próprios maus desejos. Pedro
ram cobertos” foi interpretada, por um lado, como convida estas pessoas a olharem para trás — e en­
evidência de que o Dilúvio foi local, pois não exis­ tão, para frente. “Eles voluntariamente ignoram
te água suficiente na terra para cobrir picos como o isto: que... pelas quais coisas pereceu o mundo de
Everest, o Ararat e o McKinley. A mesma afirmação então, coberto com as águas do dilúvio. Mas os céus
é interpretada, por um outro lado, como a evidência e a terra que agora existem pela mesma palavra se re­
a favor de um Dilúvio universal. A pressão das águas servam como tesouro e se guardam para o fogo, até
pode ter feito com que a superfície da terra, então ins­ o Dia do Juízo e da perdição dos homens ímpios” (2
tável, fizesse subir os picos modernos e baixar o leito Pe 3.5-7).
do mar. O Dilúvio do livro de Gênesis é o triste lembrete da
Mas este debate ainda deixa obscura a mensagem que história de que o pecado merece o juízo divino, e de
o texto enfatiza. Três vezes Gênesis 7 repete esta men­ que os pecadores serão julgados.
sagem. “E expirou toda carne que se movia sobre a
terra” (v. 21). “Tudo o que havia no seco, morreu” (v. “Não tomarei mais” (Gn 8.21). Depois de um ano
22). “Foi desfeita toda substância que havia sobre a na arca (cf. 7.11; 8.13), Noé emergiu, para ado­
face da terra” (v. 23). rar ao Senhor. Naquela ocasião, Deus assumiu um
O Dilúvio não é combustível para debate geológi­ solene compromisso, de jamais voltar a destruir to­
co, mas a grande afirmação histórica de que Deus é das as criaturas viventes, “enquanto a terra durar”
o Juiz Supremo da humanidade — e de que Deus (v. 22). Um juízo completo e purificador está agora
ird julgar o pecado. Os mares revoltos sobre os reservado para o fim da história.

DEVOCIONAL_______
Justo e Reto em suas Gerações continuou fiel. Ele tinha ouvido Deus falar. “Assim
(Gn 6.9-22) fez Noé; conforme tudo o que Deus lhe mandou”.
Noé é um dos mais impressionantes homens da Bí­ Chris, o filho adolescente do nosso pastor, Richard
blia. Ele vivia em uma sociedade totalmente corrupta. Schmidt, pode compreender a pressão sobre Noé.
Mas ele era comprometido com a santidade, e con­ No vestiário, ele era ridicularizado pela sua determi­
seguiu viver uma vida irrepreensível. Ainda mais im­ nação em permanecer sexualmente puro. “E nisso
pressionante é o fato de que, quando Deus lhe disse que eu acredito”, disse ele, “e isso é o que eu vou
que construísse uma embarcação gigantesca, em uma fazer”.
época quando ainda não se conhecia a chuva (2.6), Provavelmente, você também consegue entender.
imediatamente Noé se pôs a fazer isso! Existem tantos, no nosso mundo moderno, que
Noé e seus filhos cortaram e moldaram toneladas e riem das pessoas que ouviram a voz de Deus e ten­
toneladas de vigas, para firmar a quilha e o esqueleto. tam fazer “conforme tudo o que Deus lhe mandou”.
Eles serraram incontáveis milhares de tábuas para as Imagine! Noé conheceu exatamente esta pressão,
laterais. Eles plantaram, juntaram e armazenaram co­ por parte de todos, e por 120 anos! Mas Noé conti­
lheitas para servirem como alimentos para si mesmos nuou fiel. E você e eu também podemos continuar
e para os animais que Deus iria trazer quando chegas­ sendo fiéis.
se o momento. E durante todo o tempo eles devem Pedro nos deu uma ideia especial do que queria dizer
ter sido ridicularizados por seus vizinhos, que ouvi­ a fidelidade de Noé. Sim, a fidelidade de Noé para
ram e zombaram as loucas predições de Noé sobre a com a Palavra de Deus significava a libertação para
água prestes a cair do céu e a destruí-los. si mesmo e para a sua família. Mas 1 Pedro 3.19,20
Quanto tempo Noé e seus filhos trabalharam? sugere que, pela ação do Espírito Santo, o próprio
Gênesis 6.3 nos diz. Quando Deus tomou a deci­ Cristo falou por meio de Noé nas longas décadas em
são de trazer juízo, deu à humanidade 120 anos. Foi que “a longanimidade de Deus esperava” que Noé
durante este tempo que Noé e seus filhos realizaram concluísse a sua tarefa.
suas hercúleas tarefas. E durante todo este tempo Quão importante é a nossa fidelidade. Quando nós,
Noé suportou as chacotas feitas às suas custas. Ele como Noé, suportarmos a pressão que vem sobre
ignorou os cochichos que pretendiam que ele ou­ nós, Cristo, pelo seu Espírito Santo, falará, por nos­
visse. E continuou trabalhando, rodeado pelos risos so intermédio, às mesmas pessoas que riem e duvi­
dissimulados de seus vizinhos. Apesar de tudo, Noé dam. E desta vez, nós podemos responder!

17
Gênesis 9— 11

Aplicação Pessoal O mesmo parágrafo lança a fundação para o gover­


A nossa fidelidade, quando outros riem, fala mais no humano. Poderes menores (como fazer regras
poderosamente do que as palavras do mais talento­ que promovam o bem-estar) são implicados no que
so pregador que o mundo já conheceu. Deus requer de nós, na punição dos homicídios.
Citação Im portante Concerto (Gn 9.9). Esta palavra do Antigo Testa­
“Primeiramente o pecado é agradável, depois fica mento, vitalmente importante, indica um compro­
fácil, depois delicioso, depois frequente, depois misso formal e legalmente obrigatório. A promessa
habitual, e depois confirmado; então o homem de Deus de jamais voltar a destruir toda a vida com
se tom a impenitente, depois obstinado, e depois um Dilúvio não foi feita levianamente.
decidido a jamais se arrepender. E então, ele está
arruinado.” — Bispo Leighton “Viu... a nudez de seu pai ”(Gn 9-22). Esta é a inter­
pretação da versão Almeida Revista e Corrigida. O
4 D E JANEIRO LEITURA 4 original hebraico diz “descobriu a nudez de seu pai”.
NUNCA MAIS O que esta expressão sugere é incerto, mas a serieda­
Gênesis 9— 11 de com que o livro de Gênesis trata o evento indica
“E eu, eis que estabeleço o meu concerto convosco, e que Cam fez mais do que vislumbrar um corpo des­
pido. A delicadeza com que Sem e Jafé trataram seu
com a vossa semente depois de vós, e com toda alma pai (w. 23,24) nos serve de lembrete da modéstia
vivente”(Gn 9.9,10). com que as Escrituras tratam os assuntos sociais.
Noé e seus filhos trouxeram consigo a semente do “Maldito seja Canaã” (Gn 9.24-27). A “maldição”
pecado ao novo mundo. Mas agora Deus introduzia proferida aqui não provocou a condição futura de
um novo tema, que, com o da Criação, do pecado
Canaã, mas a predisse. As maldições e bênçãos do
e do juízo, ecoa por todo o Antigo Testamento. E o Antigo
tema da promessa-, de um compromisso divino com Testamento frequentemente são preditivas,
os seres humanos, feito apesar do que nós somos, e ainda que os povos pagãos considerassem as maldi­
não por causa do que somos. ções como pronunciamentos mágicos, que podiam
prejudicar os inimigos.
Visão Geral Aqui não existe sugestão de que Canaã participasse
Deus permitiu que o homem explorasse o reino do ato de seu antecessor, Cam. Mas a falha moral
animal, mas não outros seres humanos (9.1-7). Ele vista em Cam evoluiu, com o passar dos séculos, na
fez do arco-íris um sinal da sua promessa de nunca flagrante imoralidade praticada pelos cananeus, que
mais extirpar toda a vida com um dilúvio (w. 8-17). praticavam a prostituição nos rituais (ambos os se­
Mas o ato de Cam, filho de Noé, mostra que o pe­ xos), como parte da sua religião.
cado ainda estava enraizado na natureza humana Devemos abrir nossas vidas inteiramente ao poder
(w. 18-29). As raízes das nações antigas são estuda­ purificador de Deus. Ele pode remover até mesmo
das (capítulo 10), e a origem de línguas diferentes as pequenas falhas que, de outra forma, podem ser
é explicada (11.1-9). A genealogia chama a atenção amplificadas na vida dos nossos filhos.
para um homem que será essencial no grande plano
de redenção de Deus — Abraão (w. 10-32). “Estas são as gerações” (Gn 10.1-32). O livro de Gê­
nesis usa línguas e também áreas de terra para identi­
Entendendo o Texto ficar os povos antigos. Embora agora a identificação
“Certamente requererei” (Gn 9.1-6). Neste parágrafo exata seja difícil, muitos destes nomes de povos e
curto, mas crítico, Deus responsabiliza a sociedade nações foram encontrados em inscrições antigas.
pelo comportamento individual. Os homens são
responsáveis por colocar em vigor a proibição de “Habitaram ali” (Gn 11.1-4). Muitos concordam
Deus contra o homicídio. As palavras “quem derra­ que a torre edificada em Babel era um zigurate, uma
mar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue estrutura escalonada que, nos tempos antigos, fre­
será derramado” sustentam os proponentes da pena quentemente tinha um templo no seu cume. Talvez
de morte, ordenando que a sociedade execute os as­ as palavras “toque nos céus” dê a entender a precoce
sassinos. E afirmada a lógica, “porque Deus fez o ho­ instituição da adoração idólatra. Mas o texto sugere
mem conforme a sua imagem”. A vida humana é de um pecado diferente. A torre seria um símbolo da
tão supremo valor que nenhuma penalidade menor unidade racial, para que os homens não fossem “es­
por tirar a vida pode significar o quão verdadeira­ palhados sobre a face de toda a terra” (v. 4). Mas
mente importante é cada indivíduo. Deus disse especificamente a Noé e a seus filhos
18
Gênesis 9— 11

que “enchessem a terra” (9.1-7). Isso pode ter pare­ em agosto, e foram recebidos por uma onda de ca­
cido pouca coisa. No entanto, era importante, para lor na qual as temperaturas chegaram a 44 graus.
o plano de Deus, que o homem se multiplicasse. Depois de dois dias, a “vocação” do rapaz se derre­
Aqui também há uma liçáo para nós. Tudo o que teu, e eles deixaram a cidade. Como Deus deve ter
Deus nos diz é importante. Nós precisamos prestar rido. Como a confusão de línguas, a sua onda de
atenção a cada ordem. calor tinha “dispersado” um casal que não estava
onde devia estar.
“Confundamos ali a sua língua” (Gn 11.5-9). Que Talvez você também possa olhar para trás e ver
indicação do senso de humor de Deus. Você con­ maneiras gentis com que Deus redirecionou a sua
segue imaginar, na manhã seguinte, um dos tra­ vida. Como Deus é gracioso. Como Ele é bondoso
balhadores dizendo “Pode me passar outro tijolo, em não irromper em ira cada vez que nós nos afas­
por favor?”, e seu amigo ouvindo “Xpul Kodlyeme tamos do seu caminho.
kakkadoke, seppulvista?” E você consegue ver as
pessoas correndo em busca de outros com quem “Gerou” (Gn 11.10-32). A genealogia era vitalmen­
pudessem conversar e a quem pudessem compre­ te importante para os hebreus. Nas genealogias
ender? Logo, as pessoas que falavam diferentes lín­ hebraicas, “gerou” frequentemente significa “foi
guas se encontraram, e cada grupo se afastou, para ancestral de”.
ir se estabelecer no seu próprio território. Desta Além disso, as genealogias hebraicas frequen­
maneira gentil, “dali os espalhou o Senhor sobre a temente saltam gerações, nomeando apenas os
face de toda a terra”. Deus frequentemente respon­ ancestrais importantes. Não há como dizer, com
de desta maneira à nossa desobediência. Ele não base em genealogias como esta, quantas gera­
envia um relâmpago, não causa grande sofrimento. ções houve, ou quanto tempo passou, desde a
Em vez disso, gentilmente e algumas vezes com hu­ primeira pessoa mencionada em uma lista até a
mor, Ele muda a direção das nossas vidas. última. Em vez disso, a genealogia nos indica as
No verão, faz calor em Dallas. Um jovem casal, sen­ pessoas verdadeiramente importantes na história
tindo uma vocação para o ministério, inscreveu-se da Bíblia, preparando-nos aqui para conhecer
no seminário que eu frequentava. Eles chegaram Abraão.

DEVOCIONAL_______ a humanidade, Deus continua comprometido com


O Sinal do Concerto
(Gn 9.8-17) esta promessa feita a Noé.
O concerto é uma chave para a compreensão do O texto nos diz que o arco-íris deve servir como
que o Antigo Testamento ensina a respeito do um lembrete de Deus desta promessa específica de
caráter do nosso Deus. Nos tempos do Antigo concerto. Mas o arco-íris significa outra coisa para
Testamento, um concerto (hebraico, brit) era um nós. Em vez de ser um lembrete de uma promessa
contrato formal, que tencionava fazer um acordo específica, o arco-íris é um lembrete do caráter de
legalmente obrigatório. Em questões internacio­ Deus e da natureza do nosso relacionamento com
nais, um concerto era um tratado. Na vida de uma Ele. O arco-íris nos lembra que Deus vem a nós
nação, ele servia como constituição. Nos negócios, com promessas, e não exigências; que Deus, na gra­
um concerto era um contrato. Nos relacionamen­ ça, assume compromissos conosco, que não depen­
tos pessoais, era um compromisso. dem do nosso desempenho. Nós podemos falhar
A maioria dos concertos dos tempos antigos eram com Deus, mas Ele jamais falhará conosco.
acordos entre duas partes. Isto é, cada pessoa ou Somente em Jesus nós compreendemos plenamen­
grupo envolvido especificava o que ele ou ela faria te. Somente na promessa de Cristo de vida eterna
para cumprir o acordo. Se uma das partes deixasse a todos os que confiam nEle nós compreendemos
de cumprir, o acordo era rompido, e a outra parte a plena maravilha da graça de Deus. Mas nós per­
não mais estava obrigada. cebemos algo desta maravilha aqui, no livro de
Mas veja o concerto de Deus com Noé. E pura pro­ Gênesis. E cada vez que vemos um arco-íris, nós
messa! Deus não impôs condições. Não há “ses”. nos lembramos. O Deus que prometeu não mais
Em vez disso Deus simplesmente disse, “E eu, eis destruir toda a vida com um dilúvio é o Deus da
que estabeleço o meu concerto convosco, e com promessa, o Deus da graça. Os compromissos que
a vossa semente depois de vós... não haverá mais Ele assume conosco, em Cristo, são promessas que
dilúvio para destruir a terra”. O que quer que faça nunca falharão.

19
Gênesis 12— 14

Aplicação pessoal Abençoar-te-ei Abraão teve uma vida


Na próxima vez que você vir um arco-íris, deixe ( 12.2). plena e rica.
que ele lhe recorde da maravilhosa graça de Deus.
Engrandecerei o teu
Judeus, cristãos e
Citação Im portante nome (12.2). muçulmanos honram
“Deus não criou o primeiro ser humano, porque Abraão como o fun­
Ele precisasse de companhia, mas porque Ele queria dador de sua fé.
alguém a quem Ele pudesse mostrar a sua generosi­
dade. Deus não nos disse que o seguíssemos porque Tu serás uma bênção As Escrituras e o Sal­
Ele precisasse da nossa ajuda, mas porque Ele sabia (12.2). vador vieram através
que amá-lo nos tornaria completos.” — Irineu de Abraão.
E abençoarei os que Nações se ergueram
5 DE JANEIRO LEITURA 5 te abençoarem e e caíram, de acordo
• PARTINDO PARA CANAÃ amaldiçoarei os que com o tratamento que
Gênesis 12— 14 te amaldiçoarem dispensaram ao povo
“Assim, partiu Abrão, como o Senhor lhe tinha dito” (12.3). judeu.
(Gn 12.4). A tua semente darei Esta promessa é con­
esta terra (12.7). siderada como o títu­
O foco do livro de Gênesis agora se desvia, da raça lo de propriedade de
como um todo, para um único homem, Abraão. O Israel aos judeus.
restante do Antigo Testamento fala sobre Abraão
e seus descendentes. Abraão é, ao mesmo tempo, Assim como Deus assumiu grandes compromissos
uma figura histórica c um exemplo. Nós devemos com Abraão, também assume compromissos com
ver, na sua resposta de fé a Deus, a chave para um todos os que demonstrem a confiança de Abraão
relacionamento pessoal com o Senhor, o qual todos no Senhor.
somos convidados a vivenciar em Jesus. Õ exame à
vida de Abraão nos dá ideias que podem transfor­ Ur dos caldeus (Gn 11.28). Escavações em Ur reve­
mar a nossa própria caminhada com Deus. lam que Abraão decidiu deixar uma cidade prós­
pera, então no ápice de seu poder e influência.
Visão Geral Esculturas de ouro e harpas incrustadas refletem a
Seis promessas foram feitas a Abraão, e então ele cultura de Ur. As fortes muralhas da cidade e seus
viajou para Canaã (12.1-9). As suas primeiras edifícios públicos refletem o seu poder. Registros
aventuras revelaram tanto a fraqueza pessoal de de transações comerciais revelam a sua prosperida­
Abraão (w. 10-20) quanto os seus grandes pontos de. Não devemos supor que Abrão era um pobre
fortes de caráter e fé (13.1— 14.24). peregrino que vivia em uma tenda quando ouviu
a voz de Deus. Ele era um homem rico, e vivia em
Entendendo o Texto uma cidade com praticamente todas as condições
“Farei” (Gn 12.1—3,7). O tema da promessa de sanitárias modernas e com casas construídas para
graça continua quando Deus disse a Abraão o que refrescar o ar quente do verão.
Ele iria fazer. Aqui não há sugestão de condições. No entanto, o texto diz, “Assim, partiu Abrão”
Abraão tinha demonstrado a sua fé, obedecendo ao (12.4).
mandamento de Deus, de deixar a sua terra natal Ele não sabia para onde estava indo. Mas mes­
(12.1). Agora, Deus estava livre para derramar dá­ mo aos 75 anos de idade, Abrão estava disposto
divas incondicionais sobre o seu servo. a ir para a terra a qual Deus disse, “Eu te mos­
Algumas das seis promessas a Abraão foram man­ trarei” (v. 1).
tidas. Outras teriam consequências que se estende­ De certa forma, o nosso relacionamento com Deus
riam ao futuro. As seis promessas são: segue este mesmo padrão. Deus nos convida a aban­
donarmos a nossa preocupação com o que o mundo
Far-te-ei uma grande Abraão foi o pai dos aprecia, e que partamos em uma jornada pessoal de
nação (12.2). grandes povos hebreu fé. O nosso guia, nesta jornada, é a própria Palavra
e árabe. de Deus. O que nos sustenta é a convicção de que,
cada dia, Deus nos mostrará o nosso próximo pas­
so. Como Abrão, os cristãos que consideram a vida

20
Gênesis 12— 14

como uma jornada de fé jamais podem se estabelecer primeira escolha pertencia ao mais velho. O fato
nem chamar as cidades da terra de “lar”. Nas pala­ de que Abrão não exigisse os seus direitos mos­
vras de Hebreus 11.16, nós “desejamos uma [pátria] trou um espírito não beligerante que tem grande
melhor, isto é, a celestial”. Nós sabemos que Deus importância aos olhos de Deus (2 Tm 2.24).
nos “preparou uma cidade”, e que a cidade celestial Ló escolheu “toda” a planície bem regada, deixando a
é nosso verdadeiro e único lar. seu tio somente a região montanhosa e mais seca. A
escolha foi egoísta. Pode ter parecido “um bom negó­
“Desceu Abrão ao Egito” (Gn 12.10). Deus tinha cio”. Mas estas planícies eram dominadas por Sodo-
levado Abrão a Canaã. Mas quando uma fome ma e Gomorra, que tinham uma população já famosa
atingiu aquela terra, Abrão foi ao Egito para vi­ pela iniquidade. Mais adiante, quando Deus julgou
ver. Aqui, não há sugestão de orientação divina. Sodoma e Gomorra, toda a riqueza de Ló foi destruí­
O que nós percebemos é o medo de Abrão e a sua da, juntamente com estas duas cidades (Gn 19.15). O
dúvida, à medida que a seca em Canaã ficava cada comportamento não egoísta de Abrão assegurou o seu
vez mais grave. futuro. O egoísmo de Ló assegurou a sua ruína.
Nós precisamos nos lembrar de que as dificulda­ Deus recompensou Abrão com um lembrete. Tudo
des não nos liberam da obediência. As vezes, Deus o que ele podia ver em todas as direções, da sua po­
quer que nós permaneçamos onde estamos, e con­ sição no alto das colinas, foi dado a ele e à sua des­
fiemos nEle, ainda que seja nas épocas secas de cendência — para sempre. A posse momentânea de
nossas vidas. Nós precisamos de uma palavra direta Ló da terra mais rica perdeu o significado quando
de Deus, mais do que as circunstâncias podem nos comparada com a promessa de concerto feita pelo
proporcionar, para nos mostrar a sua vontade. Deus de Abrão.
“Dize que és minha irmã” (Gn 12.11-20). Abrão “Tomaram a Ló” (Gn 14.1-16). Arqueólogos inves­
tinha fé. Mas, como todos nós, Abrão também tigaram a rota percorrida por forças militares que
errou, pelo pecado. Na fronteira do Egito, Abrão viajassem do norte para a Palestina. Muitos exér­
pediu que Sarai passasse por sua irmã. O temor citos marcharam para o sul, para atacar as cidades
motivou Abrão a mentir, e, o que é ainda mais da Síria-Palestina, mesmo nos séculos anteriores aos
terrível, colocar em perigo sua esposa Sarai. Deus eventos aqui descritos.
libertou Abrão, apesar destes atos. E com base no Uma associação de quatro reis atacou e derrotou
retrato totalmente honesto que as Escrituras fa­ Sodoma e Gomorra, e tomou todos os seus bens e
zem da fraqueza de Abrão, nós aprendemos várias alimentos como espólio. No princípio dos tempos
lições importantes. bíblicos, a maioria das guerras envolvia ataques em
busca de espólio, e não com o objetivo de invadir
* Até mesmo aqueles que têm grande fé podem e controlar áreas adicionais. Ló e seus bens foram
errar. Não devemos ficar chocados com as nos­ levados com os de outros moradores de Sodoma.
sas fraquezas, nem com as dos outros. Quando Abrão soube disso, reuniu o seu próprio
* Os fracassos pessoais afetam outras pessoas. O pequeno exército e perseguiu os saqueadores. Ata­
que fazemos e o que somos sempre tem o seu cando à noite, Abrão derrotou o exército do inimi­
impacto sobre os que estão à nossa volta. go, que era maior, e libertou, não apenas Ló, como
* Somente Deus pode redimir nossos erros. Ja­ também os outros.
mais permita que a sua culpa ou vergonha afaste Aqui Abrão exibiu as características de lealdade e
você de Deus. Ele é o Único que pode ajudar. coragem.
* Deus não nos abandona quando as nossas fra­
quezas nos traem. Deus pode, e irá, intervir por “Melquisedeque, rei de Salem ”(Gn 14.18-20). Os no­
nós, quando recorrermos a Ele. mes bíblicos em geral têm grande significado. Mel­
quisedeque significa “rei da justiça”, e Salém significa
“Ló ia com Abrão” (Gn 13.1-18). Gênesis 13 e 14 “paz”. Õ texto diz que este rei era um “sacerdote do
mostram os grandes pontos positivos do caráter Deus Altíssimo”, um dos nomes usados no Novo
de Abrão, assim como 12.10-20 mostram as suas Testamento para falar do Senhor.
fraquezas. Embora Abrão devesse estar ciente da sua própria
A primeira característica positiva é exibida no seu importância, como alguém chamado por Deus, e
relacionamento com seu sobrinho, Ló. Quando que recebeu promessas exclusivas, ele aceitou a bên­
os rebanhos de cada homem cresceram, a ponto ção oferecida por Melquisedeque. Este ato fala da
de terem que se separar, Abrão, que era mais ve­ humildade de Abrão, pois nos tempos do Antigo
lho, ofereceu a Ló a escolha da terra. Por direito, a Testamento, a pessoa mais importante abençoava a
21
Gênesis 12— 14

menos importante, e oferecer uma bênção envolvia “Não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu” (Gn
uma reivindicação implícita de superioridade. Nis­ 14.21-24). Quando o rei de Sodoma ofereceu a
so, vemos outra das qualidades de Abrão: ele per­ Abrão o espólio que Abrão tinha obtido de volta
maneceu humilde, apesar do seu relacionamento dos reis invasores, Abrão recusou. A sua razão é de­
especial com Deus. clarada com clareza. Ele não desejava aceitar nada,
O Novo Testamento trata Melquisedeque como para que, mais adiante, o povo não viesse a dizer
uma teofania, uma representação visível de Deus que os homens de Sodoma tinham enriquecido
como um ser humano. Somente Jesus, com uma Abrão. Com isso Abrão tinha em mente a glória
natureza humana fornecida por uma mãe humana, devida a Deus. Abrão desejava somente aquilo que
pode reivindicar ser Deus encarnado. vinha, de maneira tão inconfundível, da mão de
O livro de Hebreus vê Melquisedeque como o Deus, para que os outros fossem forçados a dizer,
modelo para o sacerdócio singular de Jesus. O “Deus abençoou seu servo”.
Antigo Testamento nada diz a respeito da origem E esta é outra das grandes qualidades de Abrão. Agora
de Melquisedeque ou de sua morte. Com um dis­ ele estava pronto a confiar plenamente no Senhor, e a
cernimento rabínico típico, o autor do livro de dar a Deus a glória por quaisquer bênçãos que pudes­
Hebreus argumenta que Cristo, cuja origem está se receber. Nós podemos apreciar estas características
na eternidade, e que jamais morrerá, é um Sacer­ no caráter de Abrão, e considerá-lo um modelo de
dote “segundo a ordem” desta pessoa, e não na altruísmo, lealdade, coragem, humildade, confiança
linhagem dos sacerdotes levitas, estabelecida por em Deus e prontidão a dar publicamente glória a
Moisés. Deus por aquilo que Ele faz em nossas vidas.

DEVOCIONAL
Como o Senhor lhe Tinha Dito ativa em Deus e nas suas promessas que nos faz
(Gn 12.1-9) obedecer.
Alguns comentaristas sugeriram que as promessas Nós a vemos muito claramente na vida de Abrão.
de Deus a Abrão eram promessas condicionais. Por Abráo crer nas promessas de Deus, deixou Ur
Eles dizem que a condição era a obediência à or­ e a sua riqueza para viver uma vida nômade em
dem de Deus de deixar a cidade de Ur. Afinal, se uma nova terra. A promessa de Deus ativou a obe­
Abrão não tivesse partido, nenhuma das coisas que diência de Abrão. A sua obediência não ativou as
Deus prometeu poderia ter se concretizado. promessas.
Esta opinião distorce tanto o texto bíblico quanto Mais adiante, já na terra, Abrão tirou os olhos das
uma verdade vital a respeito da vida espiritual. As promessas e teve medo. Ele temeu a fome, e temeu
promessas de Deus não se ativam pela nossa obe­ o que poderia acontecer se os egípcios vissem e de­
diência. Pelo contrário, é a nossa obediência que se sejassem a sua bela esposa. Por ter se esquecido das
ativa pelas promessas de Deus. promessas, Abrão desobedeceu. Mas mesmo assim
Ás vezes, você e eu cometemos o engano de pensar Deus foi fiel ao seu compromisso! Ele tirou Abrão da
que Deus é como a instalação elétrica em nossas confusão que a sua partida de Canaã e as suas men­
casas. Nestes fios elétricos há uma energia tremen­ tiras tinham criado, e trouxe Abrão a salvo de volta
da. E somos você e eu que fazemos esta energia à Terra Prometida.
trabalhar! Nós ativamos a energia, acionando um Ali, Abráo novamente fixou os olhos nas promes­
interruptor de luz, ligando um aparelho eletrônico sas. Ele foi altruísta no seu relacionamento com Ló
ou pressionando o botão da nossa lavadora de rou­ porque acreditou que Deus lhe tinha concedido
pas. Deus também tem uma tremenda energia. E toda a terra. Ele foi leal e corajoso porque acredi­
alguns cristãos supõem que podem ligar e desligar tou na promessa de Deus, de abençoá-lo. Ele foi
esta energia, com o que eles fazem. Se acionarem humilde, porque sabia que, com Deus a seu lado,
o interruptor correto, Deus age. Se colocarem o ele não tinha que provar nada. Ele não desejou to­
seletor no canal certo, ou se colocarem o controle mar a riqueza oferecida pelo rei de Sodoma porque
no ajuste correto, Deus virá, sendo chamado. Mas desejava que todos vissem claramente que somente
não é isso o que acontece, de maneira alguma, em Deus era a origem de todo o bem que ele recebia.
nossas vidas! Foi a promessa, e a fé na promessa, que libertou Abráo,
O que acontece é que a fé estabelece um relaciona­ não somente para obedecer a Deus, mas também para
mento com Deus, a fonte suprema de energia. A se tornar o tipo de pessoa que todos admiramos, al­
fé conserva este relacionamento. E uma confiança truísta, leal, corajosa, humilde, e sincera.
22
Gênesis 15— 17

Deve ser assim também com você e comigo. Nós Entendendo o Texto
podemos continuar pensando que devemos fa­ “Sou teu... galardão”(Gn 15.1). O adesivo no para-
zer isso ou aquilo para merecer os benefícios de choques da minha caminhonete diz, “Pescar não é
Deus — e nos perguntarmos por que, quando uma questão de vida ou morte — é mais impor­
apertamos os botões corretos, a energia náo flui. tante do que isso”. Aqui, Abrão foi lembrado de
O u podemos simplesmente conservar nossos que, na realidade, um relacionamento com Deus é
olhos fixos em Deus, e nas suas promessas a nós, o principal na vida. O próprio Deus era o escudo
e permitir que a sua graça abundante nos capa­ e o galardão de Abrão. Tudo o que Abrão tinha ou
cite a obedecer. esperava se concentrava na pessoa do seu Deus.
Deus é tudo o que nós temos, também, e todas
Aplicação Pessoal as nossas esperanças se concentram nEle. A fé nas
“Senhor, enquanto eu conservar meu coração fixo promessas de Deus nos ajuda a continuar concen­
em Ti e nas tuas promessas a mim, faça de mim o trados no Senhor.
tipo de indivíduo que Abrão foi”.
“Creu Abrão no Senhor” (Gn 15.2-6). Apesar do fato
Citação Im portante de que estava envelhecendo, e ainda não tinha fi­
“Frequentemente, na verdade, com excessiva lhos, Abrão creu na promessa de Deus de uma prole
frequência, Deus permite que os seus maiores incontável. A Bíblia diz que “creu Abraão em Deus,
servos, aqueles que mais tiveram progressos na e isso lhe foi imputado como justiça”. Nós não po­
graça, cometam os mais humilhantes enganos. demos oferecer a Deus uma vida sem pecado. Todos
Isso os humilha aos seus próprios olhos, e aos nós já falhamos, e falharemos novamente. Tudo o
olhos de seus companheiros. Isso impede que que podemos fazer é confiar em Deus e ter confian­
eles vejam e se orgulhem das graças que Deus ça na sua promessa. Na graça, Deus aceita a nossa
lhes concede, ou das boas obras que fazem, para fé — e escreve “justo” ou “justificado” ao lado do
que, como declara o Espírito Santo: ‘Nenhuma nosso nome.
carne se glorie perante ele’.” — Louis-Marie
Grignion De M ontfort “Como saberei?” (Gn 15.7-21). Abrão creu, mas
quis saber. Deus não se aborreceu. Em vez disso,
6 DE JANEIRO LEITURA 6 Deus disse a Abrão que preparasse a mais obriga­
SABER COM CERTEZA tória forma dos concertos antigos, o “concerto de
Gênesis 15— 17 sangue”. Hebreus 6.17, 18 nos diz que Deus fez
isso, “porque quis “mostrar mais abundantemente
“Não temas, Abrão, Eu sou o teu escudo, o teu gran­ a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da
díssimo galardão ” (Gn 15.1). promessa”. Assim, Ele confirmou a sua promessa
“com juramento, para que por duas coisas imutá­
A fé é muito mais do que a mera esperança de que veis, nas quais é impossível que Deus minta, te­
alguma coisa improvável possa acontecer. E uma nhamos a firme consolação, nós, os que pomos o
profunda certeza interior, enraizada na nossa con­ nosso refugio em reter a esperança proposta”. Nós
fiança no que Deus disse. Nós nos voltamos à vida cremos. Como Deus está totalmente comprometi­
de Abrão, onde temos ideias vitais que podem en­ do conosco, nós também sabemos.
riquecer a nossa fé pessoal em Deus.
“Saber com certeza” (Gn 15.13). Deus conhece o fu­
Visão Geral turo, e está em pleno controle dele. Com base nisso,
Sem filhos, Abrão creu na promessa de Deus de que nós, como Abrão, não devemos ter dúvidas quando
teria um filho, mas perguntou como poderia saber o Senhor nos revela as suas intenções. Abrão sabia,
disso (15.1-8). Deus fez um concerto com seu servo, com base exclusivamente na palavra de Deus. Nós
para que ele pudesse “saber com certeza” (w. 9-13). sabemos, não somente porque Deus é aquEle que
Mas, devido à insistência de Sarai, Abrão teve um nos fala, mas porque podemos olhar para trás, como
filho com a sua criada, Agar, gerando um conflito Abrão não podia, para as profecias cumpridas. Os
familiar (16.1-16). Catorze anos depois, Deus re­ 400 anos no Egito, a escravidão imposta sobre os
novou a promessa, e mudou o nome de Abrão. O descendentes de Abrão, a punição do Egito e a li­
centenário Abraão confiou que Deus lhe daria um bertação do Êxodo são história hoje em dia. Tudo
filho com Sara, e com a ordem de Deus, circuncidou aconteceu exatamente como Deus disse que iria
todos os homens da sua casa, como um sinal de fé acontecer.
nas promessas do concerto (17.1-27). Nós realmente cremos. E sabemos.
23
Gênesis 15— 17

“Porventura, terei filhos” (Gn 16.1-16). Nos tempos Deus, o homem de 100 anos de idade anunciou a
bíblicos, ter filhos era considerado, pelas mulheres, todos os seus servos que, a partir daquele dia, eles
algo que dava significado a suas vidas. Abrão tinha deveriam chamá-lo de “Abraão”!
acreditado na promessa de Deus, mas à medida que O fato de que Abraão adotou este nome aparente­
os anos passavam e não chegava nenhum filho, Sarai mente ridículo era outra dimensão da sua fé. Abraão
ficou impaciente. Finalmente, ela insistiu que Abrão estava disposto, como Noé também tinha estado,
engravidasse a sua serva, Agar. até mesmo a se fazer de tolo por amor a Deus.
De acordo com os costumes daquele tempo, este Se você ou eu alguma vez nos sentirmos tolos, ten­
não era um ato imoral. Era uma maneira reconheci­ tando agradar a Deus, devemos nos lembrar deste
da de dar a uma esposa sem filhos, os filhos que ela nome, Abraão. E devemos também nos lembrar de
chamaria de seus. Mas neste caso, Sarai — e Abrão que Abraão foi vingado. Hoje ele é honrado por to­
— cometeram um erro trágico. O erro está expresso dos como o pai espiritual de uma multidão, que é
no pensamento de Sarai, “Porventura, terei filhos”. impossível contar.
Que loucura, quando Deus tinha dito que Ele edi­
ficaria a família de Abrão! E que loucura a nossa, “Riu-se” (Gn 17-17). A primeira reação de Abraão à
quando tentamos fazer a obra de Deus com nosso declaração divina de que sua esposa, Sara, teria um
próprio esforço, ou insistir em impor o nosso crono- filho, foi o riso. Parecia tão incrível.
grama em vez de esperar que o Senhor aja. Mas Deus declarou novamente, “Na verdade, Sara,
tua mulher, te dará um filho, e chamarás o seu nome
“Sou menosprezada aos seus olhos” (Gn 16.5). A aven­ Isaque”. E Abraão creu.
tura de Sarai no esforço próprio teve mau resultado. A você e a mim dificilmente nos é pedido que creia­
Agar realmente engravidou. Mas Agar então sentiu, mos no inacreditável. O u que sigamos um curso de
e demonstrou, desprezo pela sua senhora! Como ela ação que envolve grande risco. Mas, quando isso
estava grávida de Abrão, estava claro que a falta de acontecer, podemos nos lembrar de que a promessa
filhos do casal era por culpa de Sarai. incrível de Deus a Abraão e Sara foi cumprida. Aqui­
Sarai não tinha esperado este resultado, quando se lo que Deus diz que fará, Ele pode fazer. E Deus é
aventurou por conta própria. Este também é o nos­ capaz de fazer, por nosso intermédio, aquilo que Ele
so problema. Quando nós tentamos fazer as coisas nos diz que devemos fazer.
à nossa maneira, com nossos próprios esforços, as
coisas não saem como desejamos. O conflito que “Serd circuncidado; todo macho nas vossas ge­
então dominou as tendas de Abrão nos recorda que rações” (Gn 17.10-14). A circuncisão era um
devemos confiar em Deus em vez de seguir adiante sinal do concerto que Deus fez com Abraão e
sem a sua orientação. seus descendentes, através de Isaque, e tinha a
Sarai reagiu ao desprezo de Agar com hostilidade finalidade de demonstrar a fé. Os judeus que,
previsível. Novamente, de acordo com o costume nos milênios futuros, considerassem im portan­
antigo, Sarai tinha completa autoridade sobre a sua te o seu relacionamento com Deus, através de
serva. Ela costumava maltratar Agar. A serva final­ Abraão, deveriam ser circuncidados, e deveriam
mente fugiu, retornando somente quando Deus circuncidar seus filhos.
prometeu que abençoaria o filho que ela carregava. Os cristãos não têm uma prática que seja análoga
E assim, quando Abrão tinha 86 anos, nasceu seu à circuncisão. Mas existem maneiras pelas quais
filho Ismael, que se tomou o ancestral daquelas na­ nós podemos mostrar que o relacionamento com
ções árabes que vivem, ainda hoje, em perpétua hos­ Deus é importante para nós. A nossa fidelidade na
tilidade contra os descendentes de Sara, os judeus. igreja. A nossa consistência na leitura da Palavra
de Deus. O nosso compromisso com a oração. A
“Abraão será o teu nome” (Gn 17.1-22). Os nomes nossa disposição em compartilhar as Boas-Novas
eram particularmente importantes nos tempos bí­ de Jesus com outros. A nossa generosidade ao
blicos. Eles pretendiam fazer um pronunciamento doar. Os nossos esforços em colocar em prática
a respeito do caráter ou da identidade essencial da o que aprendemos de Deus. Nada disso é a rea­
pessoa ou da coisa que tinha este nome. O nome de lidade. Nada disso, em si mesmo, estabelece ou
Abrão significava “pai”, e ele não tinha filhos! Que conserva o nosso relacionamento com o Senhor.
peso lhe deve ter sido este nome! Mas cada uma destas coisas, como a circuncisão,
Agora, Deus lhe apareceu, e lhe disse que ele seria é um sinal. Cada uma delas é uma maneira pela
chamado “Abraão”, que significa “pai de uma mul­ qual podemos expressar o fato de que o nosso re­
tidão”, ou “pai de muitos”! Imagine, se desejar, os lacionamento com Deus é verdadeiramente im­
risos quando, na manhã seguinte à sua conversa com portante para nós.
24
Gênesis 18—21

DEVOCIONAL_________Deus por intermédio de Jesus nos garante uma


A Fé que Sabe
(Gn 15.1-19) única coisa. Deus nos ama, e Ele está presente co­
Abrão realmente creu em Deus. Gênesis 15.6 nos nosco, até mesmo na mais sombria das ocasiões.
garante: “Creu ele [Abrão] no Senhor”. Mas ele de­ Assim, não mais devemos vacilar quando vierem
sejava uma certeza interior. Este anseio levou Abrão os tempos difíceis, como se alguma coisa estranha
a perguntar, “Senhor... como saberei?” (v. 8) Quan­ estivesse acontecendo. O povo de Deus frequen­
do você e eu, embora sejamos crentes, desejarmos temente foi escravizado e afligido. Mas com tudo
a certeza, podemos nos voltar para esta passagem. isso, nós cremos, e sabemos. Deus continua sendo
Deus falará conosco, como falou com Abrão. nosso escudo. E Ele mesmo é nosso galardão.
Deus disse a Abrão que trouxesse animais e aves,
e os partisse ao meio, em preparação para o mais Aplicação Pessoal
obrigatório de todos os concertos antigos, o “con­ Escolha um versículo destes três capítulos para
certo de sangue”. Neste concerto, os participantes memorizar como uma barreira contra a dúvida.
empenhavam suas próprias vidas. Eles simboliza­
vam este compromisso, passando entre as metades Citação Im portante
dos animais sacrificados. “[Abraão] não enfraqueceu na fé, nem atentou
Quando tudo estava pronto para a cerimônia do para o seu próprio corpo já amortecido (pois era
concerto, Deus fez com que Abrão caísse em um já de quase cem anos), nem tampouco para o
sono profundo. Então Deus passou entre as me­ amortecimento do ventre de Sara. E não duvidou
tades — sozinho. da promessa de Deus por incredulidade, mas foi
Não poderia haver prova mais clara. Deus empe­ fortificado na fé, dando glória a Deus; e estan­
nhou a sua própria vida, afirmando que cumpri­ do certíssimo de que o que ele tinha prometido
ria as suas promessas do concerto. O fato de que também era poderoso para o fazer.” — Romanos
somente Deus passou entre as carcaças divididas 4.19-21
significou que Deus iria cumprir o seu compro­
misso — independentemente do que Abrão ou 7 D E JANEIRO LEITURA 7
a sua descendência pudessem fazer! Uma vez que ALTOS E BAIXOS ESPIRITUAIS
Abrão não passou entre as carcaças, nada do que Gênesis 18— 21
ele pudesse fazer cancelaria ou anularia a obriga­
ção de Deus! Abrão agora “sabia com certeza”. “Não se ire o Senhor que ainda só mais esta jezfalo”
Nós temos esta mesma certeza. Séculos depois, Je­ (Gn 18.32).
sus fez outra caminhada solitária — para a cruz do
Calvário. Ali Ele fez um Novo Concerto, e o selou Abraão hesitou em orar por alguma pessoa justa
com seu próprio sangue. Ali Ele morreu por nós. na ímpia Sodoma, preocupado com a possibilidade
A sua morte é a garantia de Deus — a garantia de de que Deus se irasse. No entanto, pouco tempo
Deus da sua própria vida — de que o perdão que depois, Abraão novamente mentiu sobre o seu re­
nos é prometido no evangelho é verdadeiramente lacionamento com Sara. Como Abraão, algumas
nosso. Nós cremos. E também sabemos com cer­ vezes nós deixamos de compreender as prioridades
teza que fomos salvos pelo sangue de Cristo. de Deus. Os altos e baixos espirituais de Abraão
Apesar desta evidência, nós ainda podemos, às vezes, tomam estas prioridades muito claras para você e
ficar perturbados por dúvidas e temores. Deus disse para mim.
a Abrão que a sua descendência seria “escravizada e
afligida” no futuro (v. 13). A posse da promessa de Visão Geral
Deus não era uma garantia de que o povo de Deus Visitantes angelicais anunciaram que Sara daria
poderia evitar o sofrimento. A fé não é um título à luz dentro de um ano (18.1-15). Eles também
de posse de uma vida de tranquilidade. Quando tais revelaram que Deus estava prestes a destruir Sodo­
coisas acontecem, nós precisamos nos lembrar do ma e Gomorra. Hesitante, Abraão intercedeu (w.
que Deus disse a Abrão. “Eu sou o teu grandíssimo 16-33). Deus destruiu estas cidades, mas salvou Ló
galardão”. (19.1-29). Novamente o medo motivou Abraão a
Deus não disse, “Uma boa vida na terra é o teu mentir sobre o seu relacionamento com Sara (20.1-
galardão”. Ele disse, “Eu sou”. 18). Isaque, o filho prometido, nasceu, por fim
Nós precisamos nos lembrar disso quando vie­ (21.1-7), e Ismael, o filho de Abraão com Agar, foi
rem os problemas. O nosso relacionamento com mandado embora (w. 8-21).
25
Gênesis 18—21

Entendendo o Texto ter se preocupado. Deus estava ainda mais interes­


A hospitalidade de Abraão (Gn 18.1-8). Nos paí­ sado do que Abraão, e, na verdade, poupou a única
ses do Oriente Médio, uma grande ênfase era co­ pessoa “boa” que se encontrava ali: Ló.
locada em demonstrar hospitalidade a estranhos. Deus se preocupa profundamente com todas as
Isto é exemplificado na acolhida de Abraão a três pessoas. Ele jamais se aborrece quando nós lhe su­
homens que apareceram próximo à sua tenda, no plicamos por outras pessoas. As orações de inter­
fato de tê-los convidado a comer, e na sua pressa cessão são particularmente bem-vindas, pois quan­
em trazer-lhes comida pessoalmente. Examinando do oferecemos tais orações, as nossas prioridades se
este evento, o autor do livro de Hebreus, do Novo igualam às de Deus.
Testamento, exorta os cristãos: “Não vos esqueçais
da hospitalidade, porque, por ela, alguns, não o sa­ “Traze-os fora a nós” (Gn 19.T29). Somente dois
bendo, hospedaram anjos” (Hb 13.2). dos anjos seguiram para Sodoma. Eles receberam
a hospitalidade de Ló, o sobrinho de Abraão. Os
“E disse o Senhor” (Gn 18.9-15). Alguns acreditam homens da cidade demonstraram a extensão da sua
que um dos três visitantes que Abraão recebeu impiedade, exigindo que Ló mandasse para fora os
era uma teofania, uma visitação pré-encarnada de seus convidados, para que se tornassem vítimas de
Deus Filho. Nós não devemos supor que os anjos um estupro homossexual! Quando Ló se recusou
se parecem com seres humanos no seu estado real. a atendê-los, os sodomitas decidiram invadir a sua
No entanto, quando os anjos visitavam Abraão e casa. Somente a intervenção dos anjos, ferindo de
outras pessoas, frequentemente assumiam forma cegueira os homens, evitou consequências mais de­
humana. Não existe registro de anjos que apareces­ sastrosas.
sem como mulheres. Em todos os eventos bíblicos, A oferta de Ló, de enviar as suas filhas virgens, nos
os anjos apareceram sendo homens. choca, hoje em dia (v. 8). E deveria. Mas o inciden­
A palavra anjo, tanto em hebraico quanto em gre­ te nos mostra o quanto a responsabilidade de um
go, significa “mensageiro”. Quer o orador fosse ou anfitrião para com seus hóspedes estava presente
não o Senhor, ele falou com autoridade de Deus. no mundo antigo.
O Senhor estava prestes a cumprir a sua promes­ A oferta de Ló não deve desviar a nossa atenção
sa. Dentro de um ano, Abraão e Sara teriam um do pecado de Sodoma, e dos resultados da ho­
filho. mossexualidade em uma sociedade. A Bíblia iden­
tifica todos os atos homossexuais como pecados,
“Sara riu-se” (Gn 18.12). A mesma palavra he­ chamando-os de detestáveis, degradantes, pecami­
braica, usada para descrever a reação anterior de nosos, vergonhosos, indecentes e perversos (cf. Lv
Abraão (17.17), é usada para descrever a reação 18.22; Rm 1.22-28). Qualquer sociedade que tole­
de Sara. Sara não deve ter sentido medo, e tentou re, e na realidade promova este pecado, como fazia
mentir. Deus espera uma incredulidade inicial. E Sodoma, se precipita no juízo.
impossível e desnecessário esconder de Deus nos­
sos sentimentos. “Foi tido por zombador” (Gn 19.14). Aconselhado
pelos anjos a fugir da cidade, Ló apressou-se a avi­
“E chegou-se Abraão” (Gn 18.16-33). Antes que sar os dois jovens que iam se casar com suas filhas.
os visitantes partissem, o Anjo do Senhor disse a O texto os chama de “genros” porque o dote tinha
Abraão que Deus estava prestes a destruir as cida­ sido pago, e os contratos de casamento assenta­
des de Sodoma e Gomorra, porque, disse ele, “o dos, ainda que os casamentos ainda não tivessem
seu pecado se tem agravado muito”. A princípio, acontecido. As palavras de aviso de Ló foram inter­
Abraão simplesmente ficou ali, atordoado. A se­ pretadas como uma piada. Ló tinha vivido calado
guir, aproximou-se, para interceder por algum jus­ em Sodoma tempo demais para ser levado a sério
to que pudesse ser encontrado nas cidades. agora. Uma coisa é amar o pecador, como frequen­
Este é um dos “altos” espirituais de Abraão — um temente nos é dito que devemos fazer. Outra coisa
momento em que seu coração estava realmente em é ignorar o pecado. Sodoma nos lembra que nós
sintonia com Deus. Nós podemos aprender muita devemos confrontar os pecados na nossa sociedade,
coisa com este incidente. (Veja o DEVOCIONAL.) expondo-os como são, enquanto retemos uma pro­
Por enquanto, observe somente uma coisa: Abraão funda e amorosa preocupação com o pecador. Se
temeu e hesitou em insistir no seu pedido de que desejarmos avisar outras pessoas que Deus definiu
Deus poupasse as cidades por causa de 50 pessoas que um dia Ele irá julgar os vivos e os mortos, não
justas. Depois, por 45, então por 40, então 30, en­ podemos ficar quietos a respeito de questões mo­
tão 20, e finalmente, por 10. Abraão não precisava rais. Diferentemente de Ló, que se comprometeu
26
Gênesis 18—21

quando se estabeleceu na ímpia cidade, nós deve­ vez disso, o Senhor falou com Abimeleque, o
mos nos manifestar. governante a quem Abraão tinha m entido, e
identificou Abraão como profeta. E, em respos­
“O Senhor fez chover enxofre e fogo sobre Sodoma” ta às orações de Abraão, Deus abençoou o rei
(Gn 19.24). Já se pensou que as ruínas destas que tinha sido enganado.
ímpias cidades estariam sob a extremidade sul do Os nossos altos espirituais frequentemente são
mar Morto. Recentemente, restos cobertos por seguidos por baixos espirituais. Quando isso
cinzas de cinco cidades foram encontrados nas acontece, Deus é tão gentil conosco como foi
planícies ao sul das suas águas, que lentamente gentil com Abraão. Deus não nos renega, pois o
se reduzem. Arqueólogos acreditam que um ter­ nosso relacionamento com Ele se baseia na fé, e
remoto inflamou depósitos de betume na região, não nas nossas obras.
criando o inferno descrito nos versículos 23-26. No devido tempo, Deus restaurou Abraão e
O pecado não é motivo para riso. E o juízo divi­ Sara, assim como restaurou a m inha motivação
no não é uma piada. para m inistrar aos homens na minha ala. Ele
também irá restaurar você dos seus baixos es­
“Ló e as suas duas filhas” (Gn 19.30-38). O inci­ pirituais.
dente registrado aqui volta a enfatizar um tema.
Ló, ao decidir fixar-se em uma cidade ímpia, “Deus me tem feito riso” (Gn 21.1-7). As Escri­
não somente comprometeu os seus próprios turas agora nos convidam a ver o cumprim ento
princípios, como também sujeitou suas filhas a da promessa de Deus a Abraão. Sara deu à luz
más influências. Como sempre, no Antigo Tes­ seu filho Isaque. Apesar dos anos de angústia,
tamento, os pecados são exibidos como tendo Sara, por fim, conheceu a alegria.
um impacto duradouro. Séculos depois, os mo- As palavras seguintes de Sara são significativas
abitas e amonitas, descendentes dos filhos gera­ para nós. “Todo aquele que o ouvir se rirá co­
dos pelas filhas de Ló, se tornaram inimigos dos migo”. Por que estas palavras são significativas?
descendentes de Abraão.
“E minha irm ã” (Gn 20.1-18). Mais um a vez, PorqueSara é um
dão a entender que a experiência de
modelo para as nossas próprias expe­
Abraão, temeroso de que alguém pudesse riências. Nós
matá-lo para obter a sua esposa, disse a Sara pera, anos semtambém risos.
podemos ter anos de es­
Mas, no final, poderemos
que mentisse a sobre o seu relacionamento. testem unhar com Sara, “Deus tem me trazido o
Mais uma vez, Deus interveio. Pouco tempo riso também”.
antes, Abraão teve medo de orar por qualquer
pessoa justa que pudesse haver em Sodoma.
Agora Abraão não teve medo de abandonar a A“Deita fora esta serva e o seu filh o ” (Gn 21.8-13).
confiança no Senhor, e mentir! O “alto” espi­ e Ismael eradecontrária
exigência Sara de que Abraão exilasse Agar
aos costumes. Abraão a
ritual de Abraão foi seguido por este “baixo” considerava um ato imoral. Além disso, Abraão
espiritual.
Quando eu frequentava a Universidade de Mi- se preocupava com seu filho Ismael. Foi ne­
chigan, trabalhava, em período integral, em um cessário uma ordem direta de Deus para que
hospital psiquiátrico próximo dali. Eu traba­ Abraão desse o passo exigido.
lhava na ala masculina, onde conduzia estudos Por que era necessário expulsar Ismael? Deus
bíblicos noturnos para os pacientes que desejas­ desejava que a promessa do concerto, feita a
sem comparecer. Alguns dos psiquiatras se opu­ Abraão, fosse transm itida através de Isaque. Is­
seram a isso, e eu orava seriamente pelo meu mael deveria ser expulso, para que não houvesse
pequeno ministério. Finalmente, a questão foi nenhum a dúvida sobre a quem pertencia a li­
definida em uma reunião administrativa, quan­ nhagem do concerto.
do o chefe da psiquiatria disse aos seus subor­ Mas Deus abrandou o golpe. Deus prometeu
dinados relutantes: “Ele provavelmente deveria a Abraão que Ele também faria de Ismael uma
estar pregando para vocês\” grande nação, “porquanto é tua semente”.
A vitória foi seguida por um estranho declínio Deus tem um propósito para as separações pe­
espiritual. Terminado o conflito, eu perdi toda las quais passamos. Que consolo, quando elas
a motivação de continuar as aulas, e tive que acontecem, perceber que os nossos entes que­
lutar comigo mesmo para prosseguir. ridos são preciosos para Deus, e que Ele está
No entanto, observe: Ainda que Abraão tivesse empenhado em estar com eles, mesmo que nós
errado, claramente, Deus não o renegou. Em não possamos.
27
Gênesis 22.1—25.18

“E abriu-lhe Deus os olhos” (Gn 21.14-21). Esta ver os recursos espirituais e outros recursos que
foi uma passagem predileta para mim durante estão à nossa volta.
anos. Agar e Ismael, sem dúvida abalados e com
os corações partidos, partiram errantes para o de­ “Deus eterno” (Gn 21.22-34). A seção termina
serto. Quando a água que tinham acabou, Agar com o relato de um tratado que define um rela­
desistiu. cionamento harmonioso entre Abraão e o gover­
Então, quando tudo parecia mais sombrio, Deus nante o qual ele tinha enganado anteriormente.
falou a ela. Ele lhe disse que náo tivesse medo, e O mais importante é que o relacionamento de
“abriu-lhe os olhos; e [ela] viu um poço de água”. Abraão com Deus é plenamente restaurado tam­
Deus náo criou uma nova fonte d’água. Ele sim­ bém, e ele “invocou o nome do Senhor”.
plesmente abriu os olhos dela, para ver o que já Como é significativo o nome dado a Deus aqui
havia. Quando nós estamos desesperados, rara­ — “Deus eterno”. Deus é nosso, para sempre. Ele
mente Deus precisa criar alguma coisa nova, para está conosco, para sempre. Nada no presente, no
nos libertar. Na maioria dos casos, Ele simples­ passado, ou no futuro, pode mudar o fato de que
mente abre os nossos olhos, para que possamos Ele é Deus, e de que nós somos seus.

DEV OCIONAL______
A Emoção de Deus se preocupa! Abraão finalmente estava disposto a
(Gn 18.16-33) ver nove justos morrer, para que os ímpios fossem
Quando o Senhor disse a Abraão que iria julgar a punidos. Mas Deus não estava disposto a ver nem
ímpia Sodoma, Abraão ficou profundamente pre­ mesmo uma pessoa sofrer injustamente.
ocupado. Ele não questionou o direito do Senhor Quando nós oramos por outras pessoas, devemos
de julgar os ímpios. Ele se preocupou com o fato nos lembrar de que Deus se preocupa com eles
de que os justos iriam sofrer um destino imerecido, muito mais do que nós podemos nos preocupar.
juntamente com os ímpios. Nós podemos suplicar pelos outros sem ter medo
A preocupação de Abraão o impeliu a apelar a de incomodar a Deus. Ele fará tudo o que é possí­
Deus. Esta é a primeira oração de intercessão re­ vel para atender às nossas orações de intercessão.
gistrada na Bíblia, e nos ensina duas importantes
lições. Aplicação Pessoal
Em primeiro lugar, Abraão estava um pouco te­ Peça a Deus que encarregue você de orar por outras
meroso de que poderia ultrapassar os seus limites, pessoas que têm alguma necessidade especial.
ao fazer pedidos repetidos. Às vezes, nós podemos
sentir que os nossos repetidos apelos por outras pes­ Citação Im portante
soas possam, de alguma maneira, “incomodar” o “Deus não criou o primeiro ser humano, porque
Senhor. A reação de Deus a Abraão mostra que Ele Ele precisasse de companhia, mas porque Ele que­
não somente está disposto a ouvir, como também ria alguém a quem Ele pudesse mostrar a sua gene­
irá responder às nossas orações de intercessão. rosidade.” — Irineu
Em segundo lugar, o temor de Abraão era o resulta­
do de interpretar mal a Deus. Abraão se preocupou 8 DE JANEIRO LEITURA 8
com a possibilidade de que Deus pudesse realmen­ “EIS-ME AQUI”
te “destruir” a cidade e “não poupar” os justos que Gênesis 22.1—25-18
nela houvesse. Abraão reduziu gradualmente — de
50 para 10 — o número de justos que, segundo “Porquanto fizeste esta ação e não me negaste o teu
ele pensava, justificariam a atitude de poupar a ci­ filho, o teu único, que deveras te abençoarei” (Gn
dade. Abraão chegou a 10. Mas como a história 22.16,17).
continua no capítulo 19, nós ficamos sabendo que
havia uma única pessoa que poderia ser considera­ A fé de Abraão foi demonstrada quando ele dei­
da, até mesmo, ligeiramente boa, nas cidades — e xou Ur, e quando, com uma idade avançada, ele
Deus trouxe esta única pessoa à segurança. Ele até acreditou na promessa de Deus de ter um filho.
mesmo poupou as duas filhas de Ló, que não eram A profundidade da fé de Abraão foi demonstrada,
merecedoras! não somente em um teste final, mas também no
O engano de Abraão foi pensar que ele poderia impacto que ele causou naqueles que melhor o co­
se preocupar mais com as pessoas do que Deus nheciam.

28
Gênesis 22.1—25.18

Visão Geral deram que a oferta do heteu de “dar” a Abraão


A fé de Abraão foi posta à prova quando Deus lhe o campo era simplesmente cortesia. Como re­
ordenou que sacrificasse Isaque (22.1-19). Abraão tribuição, Abraão teria que dar a ele um “pre­
sepultou sua esposa Sara (23.1-20) e enviou o sente” no valor que os dois acordassem para a
seu servo principal a procura de uma esposa para propriedade.
Isaque (24.1-66). Depois de muitos anos mais, O preço era elevado, em parte porque a venda da
Abraão morreu, e foi sepultado por seus dois filhos terra a Abraão lhe daria direitos na comunidade
amados, Isaque e Ismael (25.1-18). dos heteus, que, de outra maneira, ele não teria.
Para nós, o significado da história não se encon­
Entendendo o Texto tra no seu retrato dos costumes, mas na dor que
“Eis-me aqui” (Gn 22,1). No Antigo Testamento, Abraão sentiu quando sepultou a sua companheira
“ouvir” a Deus significa que a pessoa não somen­ de tantas décadas.
te entende o que o Senhor diz, mas também que
irá obedecer. De maneira similar, o fato de Deus “Disse Abraão ao seu servo, o mais velho da casa”
“ouvir” orações significa que Ele pretende atendê- (Gn 24.1-67). O capítulo contém um dos verda­
las. Este fato é a base da reação de Abraão quando, deiros romances registrados no Antigo Testamen­
alguns anos depois do nascimento de Isaque, Deus to. Rebeca, uma jovem muito bonita, recebeu o
falou com ele novamente. Quando disse, “Eis-me pedido de casamento de um rico pretendente,
aqui”, Abraão indicou a sua prontidão em atender sem vê-lo. Um servo contou a ela sobre ele, e lhe
ao que o Senhor iria dizer. trouxe ricos presentes. Ela teve permissão de esco­
Abraão não fazia ideia da grandeza do teste pelo lher — e decidiu aceitar.
qual a sua fé estava prestes a passar. (Veja o DEVO- Os adeptos da alegoria interpretam Rebeca como
CIONAL.) Mas a prontidão de Abraão em respon­ sendo a igreja; Isaque, Cristo; e o servo cujo nome
der é um modelo para todos nós. não é mencionado, o Espírito Santo, que vem do
Há alguns anos, eu conduzi um grupo de estudo céu para cortejar a noiva de Jesus. Talvez. Mas exis­
Bíblico em Phoenix, no Arizona. Bárbara era uma te mais valor em um exame cuidadoso do conteúdo
cristã nova convertida, entusiasmada e ansiosa para literal do texto.
crescer na sua fé. Uma das mulheres do nosso gru­ O servo é identificado como o que “tinha o go­
po tinha se envolvido em um relacionamento adúl­ verno sobre tudo o que [Abraão] possuía”, ou seja,
tero com um líder da sua igreja. Nós a tínhamos o “mordomo” de Abraão. Anteriormente, um ho­
confrontado e tentamos ajudá-la, mas em lugar mem chamado Eliézer de Damasco era o mordomo
de romper o relacionamento, ela deixou de vir ao de Abraão, e, segundo o costume naquele tempo,
estudo bíblico. Esta pessoa continuou telefonando teria herdado a riqueza de Abraão se o seu senhor
para Bárbara, apresentando desculpas e tentando não tivesse filhos (cf. 15.2,3). Se este era Eliézer,
justificar seus atos. Certa noite, Bárbara nos con­ toda esperança de ganhar a riqueza de Abraão ago­
tou o quanto isso a incomodava, mas disse que não ra tinha sido perdida. A importância do “mordo­
sabia o que fazer. Eu expliquei as orientações da mo” diminuiu tanto, que o autor nem se preocupa
Bíblia sobre a disciplina da igreja, que nós seguía­ em registrar o seu nome!
mos, e o que fazer quando uma pessoa não quer se Mas, como este mordomo cumpriu a sua missão,
arrepender. Lembro-me da resposta entusiasta de vemos que ele tinha obtido algo muito mais im­
Bárbara. “Não vejo a hora dela me telefonar outra portante do que a riqueza de Abraão. Ele tinha ob­
vez, para poder lhe dizer o que eu tenho a ver com tido a fé de Abraão! Ele orou e vivenciou a resposta
tudo isso”. Bárbara, uma jovem cristã, tinha desco­ de Deus à oração (24.12-17). Ele reconheceu a li­
berto um segredo que Abraão também conhecia. A derança de Deus (v. 26). E louvou a Deus pela sua
nossa tarefa é dizer: “Eis-me aqui”, quando Deus bondade e fidelidade para com Abraão (v. 27).
falar conosco — e, então, devemos fazer exatamen­ Nós nos surpreendemos com a fé que Abraão de­
te o que Ele disser. monstrou na sua prontidão em oferecer o seu único
filho a Deus. Mas talvez mais surpreendente seja o
“Sara morreu” (Gn 23.1-20). Este capítulo é um fato de que a fé de Abraão em Deus tinha conquis­
dos mais importantes do livro de Gênesis para os tado seu “mordomo”, que o conhecia muito bem,
estudiosos da cultura do antigo Oriente Médio. e o tinha levado a uma confiança similarmente pro­
Ele contém um relato fascinante da polida nego­ funda e altruísta em Deus.
ciação que teve lugar quando Abraão negociou O teste mais verdadeiro para a nossa fé não é a ma­
com um heteu por uma propriedade na qual neira como nós nos comportamos quando há uma
sepultar Sara. Todos, daquela época, compreen­ crise. O mais verdadeiro teste é se nós somos capa­
29
Gênesis 22.1—25.18

zes de influenciar àqueles que nos conhecem bem, anterior de seu pai, e que os dois se reconciliaram.
pela qualidade de nossas vidas. Deus verdadeiramente abençoou Abraão, como ti­
nha prometido. Que maravilhoso é o fato de que o
“E sepultaram-no Isaque e Ismael, seus filhos” (Gn Deus de Abraão é o nosso Deus. Quão maravilhoso
25.1-18). Eu gosto muito deste versículo. Ele me é saber que Deus se comprometeu em nos abenço­
diz que Ismael acabou compreendendo a rejeição ar também.

DEVOCIONAL
“Deus Proverá” “Havendo adorado, tornaremos a vós”(v. 5). O Novo
(Gn 22.1-19) Testamento comenta este versículo, dizendo que
Esta história certamente é uma das mais conheci­ Abraão considerou que Deus era poderoso para até
das do Antigo Testamento. Deus ordenou a Abraão dos mortos ressuscitar Isaque (Hb 11.18). Deus
que oferecesse o seu filho, Isaque, como sacrifício. tinha prometido que Abraão teria descendência
Abraão preparou-se para obedecer. Quando Abraão através de Isaque. Abraão estava totalmente con­
estava prestes a matar seu filho, Deus o fez parar, e vencido de que Deus iria cumprir esta promessa.
apontou para um carneiro cujos chifres tinham fi­ Abraão estava tão certo disso, que disse, confian­
cado presos em um arbusto próximo. Deus elogiou te, “tornaremos a vós”. Sim, Abraão tinha a total
Abraão pela sua obediência, e voltou a confirmar as intenção de sacrificar Isaque, como lhe tinha sido
suas promessas anteriores ao seu servo. ordenado. A frase “tornaremos a vós” nos diz que
Este resumo não faz justiça à história nem às suas Abraão também sabia que, de alguma maneira, o
consequências para nossas vidas. Para isto, nós de­ seu filho iria sobreviver. Mesmo se Deus tivesse que
vemos observar com atenção as frases do texto. ressuscitar Isaque, Ele o faria, para cumprir as suas
promessas.
“Pela manhã, de madrugada” (v. 3). Pense nisso. Senhor, dá-nos este tipo de confiança nas tuas pro­
Abraão não somente estava disposto a obedecer, messas! Com este tipo de fé, a obediência fica fácil.
ele parece estar ansioso! Sem perder tempo até o
meio-dia, quando faria um calor excessivo para via­ “O teu filho, o teu único" (v. 12). Isaque não era
jar. Sem a desculpa de que, depois da sesta, já seria o único filho de Abraão. Mas Isaque era o úni­
tarde demais para começar. De alguma maneira, co filho que importava — o único que poderia
nós percebemos que para Abraão, isso parecia uma herdar o concerto e ser contado na linhagem do
aventura, e Abraão estava ansioso para descobrir concerto. E, tendo Ismael sido mandado embo­
como Deus iria solucionar o seu dilema. ra, Isaque era o único filho que tinha restado a
Frequentemente, nós hesitamos, quando percebe­ Abraão.
mos que Deus deseja que nós façamos algo difícil. A frase é pungente, pois sugere a dor que o pró­
Nós precisamos do espírito de aventura de Abraão: a prio Deus deve ter sentido, contemplando o dia
sua convicção de que Deus irá resolver as coisas, e a em que seu único Filho, Jesus, iria completar o
consequente ansiedade para ver como Ele fará isso. sacrifício que Abraão tinha apenas começado.

Na época de Abraão, as moedas ainda não haviam sido inventadas. O “siclo” de Gênesis 23.16 é uma unidade de
peso, determinada por pedras como estas, empilhadas em um prato de balança. A moeda tão conhecida do Novo
Testamento obteve o seu nome desta unidade de peso.
30
Gênesis 25.19—28.22

“Agora sei” (v. 12). O ditado antigo é exato. Falar é velho serviria ao mais moço (25.19-26). Esaú, o
fácil. Muitos que dizem ser cristãos dizem ter uma mais velho, vendeu seu direito de primogenitura
boa fé. Mas o teste de uma verdadeira fé é a obedi­ — o seu direito de herdar o concerto que Deus fez
ência a Deus. Abraão tinha provado, sem sombra de com Abraão — a seu irmão mais jovem, Jacó (w.
dúvida, que confiava verdadeiramente em Deus. 27-34). A experiência de Isaque mostra o quanto
é vital o direito de primogenitura (26.1-35). Anos
“Porquanto fizeste esta ação... deveras te abençoarei” depois, Jacó e sua mãe tramaram para roubar a
(vv. 16,17). Não devemos entender mal isso. A cau­ bênção de Esaú, por quem seria transmitido o di­
sa suprema de bênção era a promessa de concerto reito de primogenitura (27.1-40). Isso antagonizou
de Deus. Mas a causa mais próxima — o meio que Esaú e forçou Jacó a fugir (27.41— 28.9). Em Be­
Deus usou para trazer Abraão ao lugar onde ele po­ tei, Jacó teve a sua primeira experiência pessoal e
deria ser abençoado — foi a obediência de Abraão. direta com o Deus do concerto, e comprometeu-se
Deus pretende abençoar você e eu. Ele se com­ em servir ao Senhor (w. 10-22).
prometeu a fazê-lo. Mas somente um caminhar
obediente nos capacita a ter direito a esta bênção. Entendendo o Texto
E como se estivesse chovendo sobre a colina. Nós Isaque. A respeito de Isaque há menos material
sentimos o seu frescor, e ficamos ansiosos em sentir escrito do que sobre qualquer outro patriarca. Ele
os pingos revigorantes. E há um caminho, que se é importante principalmente como a ponte entre
chama “Obediência”, que leva diretamente a ela. seu pai, Abraão e seu filho, Jacó, cujo nome foi,
As bênçãos de Deus caem em forma de chuvas posteriormente, mudado para Israel. Pessoalmente,
abundantes e revigorantes. Mas somente aqueles Isaque parece ter sido uma pessoa um pouco inde­
que seguem pelo caminho chamado “Obediência” cisa e passiva, sem grande discernimento espiritual.
é que as experimentam. Estas características são vistas no fato de ter fugido
do conflito com Abimeleque, e na sua preferência
Aplicação Pessoal a Esaú, porque “a caça era de seu gosto” (25.28).
Se existe alguma coisa que Deus deseja que você Embora Isaque fosse ofuscado, tanto por seu pai
faça, e você hesita em fazer, deixe que a experiência quanto por seu filho, ele vivenciou a graça de Deus,
de Abraão o encoraje a começar agora. e no final a fé triunfou sobre a preferência pessoal,
quando Isaque reconheceu a escolha que Deus fez
Citação Im portante de Jacó sobre Esaú, e confirmou a transmissão das
“Faça pequenas coisas como se fossem grandiosas, promessas do concerto ao seu filho mais jovem.
por causa da majestade do Senhor Jesus Cristo, que
habita em ti; e faça coisas grandiosas como se fos­ “O maior servirá ao menor” (Gn 25.19-26). Roma­
sem pequenas, por causa da Sua onipotência.” nos 9 enfatiza a importância desta declaração que
— Blaise Pascal. Deus fez a Rebeca, antes do nascimento de seus
filhos gêmeos. A escolha de Jacó, o mais jovem, por
9 DE JANEIRO LEITURA 9Deus, para herdar as suas promessas do concerto,
' PRECIPITAR-SE foi feita antes que os meninós nascessem. Isso mos­
À FRENTE DE DEUS trava que a escolha não dependia do que cada um
Gênesis 25.19— 28.22 deles fizesse. Deus é livre para escolher, da maneira
como quiser. O fato de Esaú ter provado que era
“Eis que estou aponto de morrer, epara que me servi­ desinteressado pelas coisas espirituais mostra quão
rá logo a primogenitura?” (Gn 25-32) sábias são as escolhas de Deus.
“Para que me servirá logo a primogenitura?"
Diferentemente de Esaú, seu irmão gêmeo, Jacó, valo­
(Gn 25-27-34). O primogênito tinha o direito de
rizava muito a promessa de concerto de Deus. Mas Jacó
mostrou pouca sensibilidade espiritual quando plane­
herdar a maior parte da propriedade do seu pai,
e também quaisquer possessões intangíveis, como
jou e mentiu desnecessariamente para obter aquilo que
Deus já estava empenhado em dar a ele. Ao precipitar-
título ou posição. Aqui, a “primogenitura” que
Esaú vendeu tão levianamente incluía o seu direito
se à frente de Deus, em vez de esperar pelo Senhor, Jacó
trouxe dor e separação à sua família. natural, como o filho mais velho, à promessa do
concerto de Deus. Descobertas arqueológicas mos­
Visão Geral traram que, nos tempos patriarcais, o filho mais
Deus disse a Rebeca, esposa de Isaque, antes que velho podia vender o seu direito de primogenitura,
nascessem os seus filhos gêmeos, que o filho mais e às vezes realmente o fazia. Ao vender a sua pri-
31
Gênesis 25.19—28.22

mogenitura a Jacó por uma tigela de guisado, Esaú era equivalente a um último desejo, com que uma
mostrou a pequena importância que dava às pro­ pessoa transmitia as suas possessões tangíveis e in­
messas de Deus. Aqui, a palavra “desprezar” (hazah tangíveis à geração seguinte. Assim, a bênção de
—v. 34) quer dizer “atribuir pouco valor a” alguma Isaque foi fervorosamente procurada por Esaú, e
coisa, e, na realidade, sugere desprezo. invejosamente desejada por Jacó.
O caráter de Jacó tinha falhas, mas ele valorizava o Jacó e sua mãe entraram em pânico quando Isaque
seu relacionamento com Deus. O Senhor sempre anunciou que iria dar a Esaú a sua bênçio. Eles
poderá trabalhar na vida das pessoas que o consi­ tramaram juntos enganar Isaque, e roubar a bên­
derarem importante, apesar das fraquezas que ti­ ção, fazendo Jacó se passar por seu irmão mais ve­
verem. Deus não podia trabalhar na vida de Esaú, lho. Eles conseguiram enganar Isaque, então cego.
pois ele não tinha lugar para o Senhor em seus Mas eles deserdaram Esaú de tal maneira, que ele
pensamentos. tomou a decisão de matar Jacó depois que Isaque
morresse!
“Apareceu o Senhor a Isaque” (Gn 26.1-34). A histó­ O lado trágico desta história é que a fraude deles
ria deste capítulo pode parecer uma digressão. Mas não era necessária! Antes que os meninos nasces­
é vital no desenvolvimento do tema de Moisés. sem, Deus tinha anunciado a Rebeca que pretendia
Isaque possuía as promessas de concerto que Esaú exaltar o seu filho mais jovem sobre o mais velho
desprezou. Que importância tinha, realmente, o (25-23). O pânico levou Rebeca e Jacó a mentir e
concerto? Em primeiro lugar, a orientação de Deus trapacear para obter algo que Deus tinha prometi­
(w. 1-6). O Senhor apareceu a Isaque, e orientou-o do que Ele lhes daria!
a permanecer em Canaã, em vez de ir para o Egito. Como é tolo precipitar-se à frente de Deus. A nossa
Ele permaneceu em Canaã, na costa então ocupa­ situação jamais é tão sombria para que tenhamos
da pelos filisteus. Em segundo lugar, a proteção de que adotar meios ilícitos ou pecaminosos, em um
Deus (w. 7-11). Embora Isaque mostrasse a mesma desesperado esforço de alcançar bons fins!
falta de fé ativa que levou Abraão a mentir a respei­
to da sua esposa, por medo de que fosse morto por “Vendo, pois, Esaú” (Gn 28.1-9). Esaú não era uma
causa dela, Deus protegeu Isaque e a sua família. pessoa má. Ele era simplesmente um destes seres
Aqui, “Abimeleque” não é a pessoa a quem Abraão humanos cujos olhos estão tão cheios de imagens
mentira, aproximadamente cem anos antes. Mui­ deste mundo que não conseguem vislumbrar reali­
tos acreditam que o nome é um título, como Faraó. dades espirituais. Depois que Jacó foi enviado (fu­
Em hebraico, quer dizer “meu pai é rei”. giu) a Padã-Arã, para encontrar uma esposa entre
Em terceiro lugar, o concerto assegurava a bênção seus parentes, finalmente Esaú compreendeu que
de Deus (w. 12-22). Deus enriqueceu Isaque, mul­ seus pais não estavam felizes com as suas esposas
tiplicou a sua riqueza. Em quarto lugar, a inter­ cananeias. Em um esforço para contentá-los, en­
venção de Deus (w. 23-35). Quando disputas pelo controu outra esposa, entre os descendentes de Is­
direito de terra e água levaram Isaque a mudar-se mael. Que comovente, e, no entanto, que trágico.
de um lugar para outro, Deus falou com ele, in­ Esaú realmente fez o melhor que pôde. Mas a sua
centivando-o a não temer. Os filisteus, finalmente, escolha por esposas cananeias foi um sintoma da
fizeram um acordo com Isaque, “porque”, disseram sua insensibilidade espiritual, e não a causa da sua
eles, “havemos visto, na verdade, que o Senhor é rejeição. Nós podemos encontrar qualidades ad­
contigo”. miráveis naqueles que não têm interesse por Deus.
Em cada um destes incidentes nós podemos ver Mas por mais que essas pessoas tentem, sempre
— e Esaú e Jacó teriam observado — quão im­ estarão aquém das expectativas. O próprio esforço
portante era, verdadeiramente, a possessão da pro­ deles demonstra quão pouco conhecem a respeito
messa do concerto de Deus. Com o concerto, veio do Deus de Abraão.
o comprometimento de Deus em guiar, proteger,
abençoar e intervir. As realidades espirituais pare­ “Eu sou o Senhor” (Gn 28.10-22). Jacó tinha visto
cem irrelevantes para alguns. Mas, na verdade, elas a importância de um relacionamento com Deus na
são muito mais importantes do que qualquer coisa experiência de seu pai Isaque. Ele tinha consciência
que os materialistas possam tocar, ver ou sentir. da importância do espiritual. Agora, no entanto,
o próprio Jacó tinha uma experiência pessoal com
A bênção de Isaque (Gn 27.1-40). Nas culturas o Senhor.
antigas, as bênçãos conferidas pelos pais ou por Em Betei (que quer dizer “casa de Deus”), o Senhor
alguém de autoridade eram consideradas como confirmou a transmissão do concerto de Abraão a
tendo grande poder. A bênção no leito de morte Jacó (w. 13-15; cf. 12.1-3,7). As palavras de Jacó,
32
Gênesis 29—32

“Se Deus for comigo” (28.20-22) não são uma ne­ de nós na jornada da vida, satisfazendo as nossas
gociação com Deus. Em vez disso, são uma res­ necessidades básicas. Ele nos dá outras pessoas com
posta de fé a Deus. Uma vez que Deus tinha se quem podemos ter um relacionamento familiar.
comprometido com Jacó, e certamente cumpriria Em segundo lugar, Jacó nos mostra a resposta bá­
as suas promessas, Jacó se comprometeria com o sica que é apropriada. Nós devemos honrar ao Se­
Senhor. nhor como Deus. Nós devemos dispor de tempo e
As palavras de Jacó são importantes para nós, de lugares para adorá-lo. E devemos expressar o nosso
duas maneiras. Em primeiro lugar, Jacó nos mostra comprometimento através da nossa liberalidade,
os benefícios básicos de um relacionamento pessoal utilizando o nosso tempo e os nossos recursos para
com Deus (w. 20,21). Deus é conosco. Ele cuida servirmos ao precioso Senhor.

DEV OCIONAL______
“Será Bendito” agiu com fé e com nobreza. Confirmou a bênção
(Gn 27.1-33) que tinha acabado de proferir, dizendo a Esaú
Esta é uma daquelas histórias da Bíblia em que “[ele] será bendito”.
normalmente nos concentramos em um persona­ Você e eu precisamos ser tão acessíveis e nobres
gem, e ignoramos os outros. Nesta história sobre como Isaque provou ser. Quão dispostos deve­
o impostor, nós damos atençáo a Jacó e talvez à mos ser, especialmente em nossas famílias, para
sua mãe, Rebeca, que tramou com ele. Algumas examinar nossas atitudes — com relação a nosso
vezes, pensamos em Esaú, cujas lágrimas e ira são cônjuge, nossos pais, nossos filhos, nossos irmãos
tão compreensíveis. Raramente, pensamos em e irmãs. Se julgarmos os outros com critérios su­
Isaque. Mas eu suspeito de que Isaque foi quem perficiais, precisamos estar prontos, como Isaque,
aprendeu mais com o incidente, e foi o único que a reconhecer nosso engano.
o aceitou com fé e nobreza. Como Isaque nos mostra, nunca é tarde demais
Veja, Isaque sempre tinha favorecido seu filho para mudar.
Esaú. Esaú era o homem que vivia ao ar livre, o
atleta. Ele era, por assim dizer, o “esportista”. O Aplicação Pessoal
tipo atlético e viril que seu pai sempre tinha de­ E especialmente importante ser realista a respeito
sejado, e talvez sempre tinha desejado ser. Jacó, de nossos filhos e valorizar cada um deles por suas
o filhinho de mamãe, não era o tipo de filho que qualidades especiais. Senhor, ajude-nos a ser tão
um pai sonhou! Jacó era o tipo que preferiria to­ acessíveis e nobres como Isaque provou ser.
car piano a jogar futebol; que preferiria ir a algum
museu em lugar de caçar ou pescar. E assim, por Citação Im portante
Isaque ser tão cativado por seu filho mais velho,
foi cego às fraquezas de Esaú, e incapaz de ver os Eu andei um quilômetro com o Prazer
pontos fortes de Jacó. Ele conversou por todo o caminho,
Na verdade, durante aproximadamente 40 anos, mas não me deixou nem um pouco mais sábio
Isaque foi cego ao fato de que Esaú não se impor­ com tudo o que tinha a dizer.
tava com Deus, e que Jacó, pelo menos, se impor­ Eu andei um quilômetro com a Tristeza
tava com a bênção de Deus. e ela não disse sequer uma palavra;
Até o fim, Isaque persistiu em sua opinião. Até o Mas, oh, as coisas que eu aprendi com ela,
fim, Isaque teve a intenção de que Esaú herdasse Quando a Tristeza andou comigo!
a promessa divina. E então Isaque foi enganado, — Robert Browning
pronunciando a sua bênção a Jacó!
Quando descobriu que tinha sido enganado, Isa­ 10 DE JANEIRO LEITURA 10
que deve ter ficado irado. Ele poderia ter retirado O ENGANADOR ENGANADO
a bênção, e tê-la substituído por uma maldição! Gênesis 29— 32
Mas, em vez disso, Isaque finalmente percebeu “Vosso pai me enganou e mudou o salário dez vezes”
que, durante todos aqueles anos, ele esteve er­ (Gn 31.7).
rado! Ele percebeu que Deus pretendia que Jacó
tivesse a bênção, e que Jacó pelo menos se in­ Às vezes nós precisamos nos colocar no lugar do
teressava pelo relacionamento de concerto com enganado, para perceber por que Deus nos convida
o Deus de Isaque. Percebendo tudo isso, Isaque a viver uma vida verdadeiramente santa.
33
Gênesis 29— 32

Visão Geral Leia poderia ter encontrado satisfação em seus fi­


Jacó encontrou seus parentes, e casou-se com duas ir­ lhos, mas ansiava pelo amor de Jacó. Labão poderia
mãs, Raquel e Leia (29.1-35). O ciúme e os conflitos ter valorizado mais as pessoas do que a riqueza, e
deturparam a casa de Jacó, mas seus rebanhos cres­ teria sido amado por todos. Jacó poderia ter assu­
ciam (30.1-43). Finalmente, Jacó tomou sua família mido uma posição contra seu sogro e suas esposas,
e seus rebanhos e fugiu de seu tio Labão, o sogro en­ mas permitiu que cada um deles o intimidasse ou
ganador que “mudou o salário dez vezes” (31.1-55). se aproveitasse dele.
Livre, por fim, de seu tio opressor, Jacó preparou-se, No entanto, apesar das falhas de todos eles, Deus
temeroso, para encontrar Esaú. Neste momento crí­ usou cada um destes indivíduos para criar uma
tico, Jacó encontrou-se Deus, e lutou com Ele, e seu família que se tornaria o canal da bênção divina
nome foi mudado para Israel (32.1-32). ao mundo. E, apesar da insatisfação que cada um
deles sentia, todos foram verdadeiramente abenço­
Entendendo o Texto ados. Como nós precisamos aceitar a nós mesmos
“Labão tinha duas filhas” (Gn 29.1—30.24). O ca­ e as nossas limitações! Como precisamos nos ale­
samento de Jacó com duas irmãs, e a aceitação de grar com o que temos, em vez de nos tornarmos,
suas servas como concubinas (esposas secundárias) e às outras pessoas, infelizes, na busca do que não
não era imoral pelos costumes da sua cultura. Mas o temos!
conflito na casa de Jacó sugere o quanto é prudente
adotar o casamento monogâmico, como Deus pre­ Os rebanhos de Jacó (Gn 30.1-43). A primeira vista,
tendeu. Cada personagem principal desta passagem o uso que Jacó fez de varas listradas enquanto os
merece cuidadosa consideração. rebanhos de Labão se acasalavam parecia ser magia.
Este conceito, comum a sistemas de mágica, anti­
Labão. Labão estava disposto a usar suas próprias gos e modernos, pressupõe que algum objeto possa
filhas e qualquer outra pessoa para alcançar seus influenciar outro para parecer ou ser como ele. Mas
próprios objetivos. Em Labão, Jacó, que tinha agido isso não foi mágica. Certamente Jacó deu a Deus o
da mesma maneira anteriormente, encontrou um crédito quando os genes recessivos, presentes nos
páreo à altura. animais, se tornaram dominantes, e os rebanhos
produziram uma parte maior dos animais more­
Jacó. Jacó provou que trabalhava duro. Ele serviu nos, malhados ou salpicados que Labão concordou
Labão durante sete anos para conseguir sua esposa, que pertenceriam a Jacó (cf. 31.4-13).
Raquel, mas foi enganado por Labão, que substituiu Deus opera confortavelmente na natureza, trans­
Raquel por Leia na noite do casamento. Casado formando eventos “naturais” para alcançar os seus
com ambas, Jacó não teve paz, pois as duas irmãs se propósitos. Deus operou através dos códigos gené­
tornaram rivais pelo seu afeto. Em sua competição ticos que já estavam presentes nos rebanhos de que
para gerar filhos, Raquel e Leia chegaram a forçar Jacó cuidava. Ele opera nas circunstâncias naturais
Jacó a acrescentar suas duas servas, Bila e Zilpa, à sua de nossas vidas, também.
lista de esposas. O enganador tinha sido enganado, e
era o foco de uma disputa familiar! Anteriormente, “Não nos considera ele como estranhas?” (Gn 31.1-
Jacó tinha dito: “Eu vou fazer à minha maneira!” 21). Pelos costumes antigos, Jacó provavelmente
Agora, ele estava ouvindo a mesma coisa! teria sido adotado por Labão. Jacó, suas esposas e
seus filhos eram considerados como “pertencendo”
Leia. Não sendo amorosa nem amada, Leia tentou a Labão, o patriarca da família (cf. 31.43). No en­
desesperadamente obter o afeto de Jacó, dando-lhe tanto, depois de 20 anos, Labão tinha maltratado
filhos. Ela tinha inveja de sua bela irmã Raquel, e tanto a família de Jacó que as suas filhas estavam
embora tivesse gerado seis filhos a jacó, jamais con­ prontas a seguir Jacó a Canaã. Elas não tinham
seguiu encontrar a felicidade. confiança de que Labão fosse cuidar de seus filhos,
pois ele tratava suas filhas como estranhas e não
Raquel. Bela e amada por Jacó, Raquel era infeliz, como membros da família.
porque não tinha filhos. Ele insistiu que Jacó dor­
misse com Bila, pois naquela cultura os filhos de “Enviou mensageiros” (Gn 32.1-21). Jacó fugiu de
uma serva eram considerados filhos da sua senhora. um tio opressivo rumo a um irmão que ele pensava
Cada pessoa lutava por alguma coisa que não ti­ odiá-lo. Que época incerta na sua vida! Jacó fez o
nha, em vez de procurar a satisfação nos dons de melhor que pôde para preparar-se para o encontro.
Deus. Raquel poderia ter ficado feliz com o amor Ele enviou mensageiros para que a sua volta não
de Jacó, mas teve inveja da fertilidade de sua irmã. fosse uma surpresa (w. 1-8). Ele orou, lembrando a
34
Gênesis 29—32

Deus de Suas promessas (w. 9-12). E enviou ricos dizer “o que luta com Deus”. Embora a referência
presentes antes dele (w. 13-21). Este último ato aqui seja a uma luta literal, claramente o nome tem
não era suborno, mas reflete o costume de dar pre­significado literal. Jacó tinha lutado durante toda
sentes às pessoas cuja benevolência desejamos ob­ a sua vida, trama após trama, para progredir. Mas
agora Jacó lutava para obter a bênção de Deus. Ten­
ter. Ao dar tais presentes, Jacó deu a entender que
considerava seu irmão como superior a si mesmo. do obtido a bênção, Jacó recebeu um novo nome,
Quando nós nos encontramos em circunstâncias in­ para assinalar a sua transformação interior.
Como Jacó, nós precisamos parar de lutar para pro­
certas, devemos ser prudentes e seguir o que fez Jacó.
Nós precisamos confiar em Deus, fazer tudo o que gredir pelas nossas próprias forças, e lutar, em vez
pudermos, e continuar humildes perante os outros. disso, para confiar inteiramente em Deus. Como
exemplifica Jacó, isso não quer dizer que devemos
“Não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel” nos sentar e ficar sem fazer nada. No entanto, sig­
(Gn 32.22-32). O antigo nome de Jacó queria di­ nifica uma mudança de atitude. A nossa confiança
zer “enganador”. O seu novo nome, Israel, queria deve estar no Senhor, e não em nós mesmos.

DEVOCION AL_
“Esta Mensagem” tinha enganado, fazendo do própriojacó umavítima.
(Gn 32.1-21) Eu suspeito que, algumas vezes, Deus usa o mesmcT
Pode parecer estranho, mas o temor evidente que remédio quando lida conosco. Quando nós somos
Jacó sentia de Esaú é um sinal de crescimento pes­ feridos, isso é frequentemente um reflexo da maneira
soal. Os psicólogos chamam o problema anterior como nós ferimos os outros, um lembrete pouco gen­
de Jacó de “egocentrismo”. Com isso, eles se re­ til de que Deus nos incumbiu com o dever de amar os
ferem a ver as coisas somente da sua própria pers­ outros, assim como amamos a nós mesmos.
pectiva, e estar alheio à perspectiva dos outros. Nos Seria maravilhoso se você e eu pudéssemos ser na­
seus primeiros anos, Jacó tramou roubar o direito turalmente sensíveis aos outros. Mas esta é uma
de primogenitura e a bênção de seu irmão, sem se atitude que devemos desenvolver. A promessa e
preocupar sobre como estes atos poderiam afetar
seu irmão e o relacionamento entre eles. Jacó e sua
mãe, na verdade, pareceram surpreendidos com a
ira de Esaú. Eles jamais tinham imaginado como
Esaú poderia reagir ao ser enganado.
Vinte anos depois, no entanto, o próprio Jacó ti­
nha sido vítima de uma trama. Labão tinha sido
tão injusto com Jacó como Jacó tinha sido injusto
com Esaú! Agora Jacó tinha vivenciado muitos dos
sentimentos que Esaú deve ter conhecido, senti­
mentos vividos por todos os que são vítimas —
frustração, desamparo e ira.
Por fim, Jacó pôde identificar-se com seu irmão
Esaú, e compreender como os seus próprios atos
devem ter feito Esaú se sentir. E como compre­
endia isso, Jacó teve medo. Ninguém merece ser
tratado da maneira como ele tinha tratado Esáu,
ou como ele mesmo tinha sido tratado agora. Tal
tratamento suscita ira e merece-punição.
Com excessiva frequência, nós, cristãos, também
caímos na armadilha do egocentrismo. Nós po­
demos falar ou agir de um modo que nos pareça Os ídolos do lar que Raquel roubou (31.22-25) prova­
justo, completamente inconscientes de como o que velmente eram parecidos com estas estátuas, de aproxi­
dizemos pode afetar outras pessoas. Nós tentamos madamente 1800 a.C. O roubo de Raquel pretendia ser
alcançar algum objetivo, mas frequentemente ig­ uma garantia para o futuro. Naquela época, a posse de
noramos como nossos métodos ferem os outros. ídolos constituía uma reivindicação de posse das proprie­
Deus fez Jacó sentir os sentimentos do irmão que ele dades da família.

35
Gênesis 33—36

o.aviso estão claros na vida de Jacó. A promessa Entendendo o Texto


é que até mesmo indivíduos improváveis como “Eu tenho bastante”(Gn 33.1-20). O temeroso Jacó
Jacó podem se tornar pessoas que compreendam ficou assombrado quando Esaú o recebeu com ale­
e considerem outras pessoas. O aviso é que, se gria. Devemos acreditar que Esaú tinha um espíri­
nós vivermos vidas egocêntricas, aproveitando- to generoso e perdoador? Na verdade, não.
nos dos outros, Deus nos colocará em posições Esaú sempre tinha sido materialista, incapaz de ver
onde sentiremos as mesmas dores que causamos qualquer benefício na vida espiritual. Esta atitude
ao próximo. tinha sido demonstrada, anos antes, quando ele
desprezou a promessa do concerto de Deus, tro­
Aplicação Pessoal cando seu direito de primogenitura por uma tigela
Se considerarmos os sentimentos dos outros, faremos de guisado (25.29-34). Esaú tinha ficado furioso
escolhas mais prudentes e também mais piedosas. quando Jacó roubou a bênção de seu pai, mas so­
mente porque queria a herança da riqueza material
Citação Im portante da família. Quando, depois da fuga de Jacó, Esaú
Senhor, faze de mim um instrumento da tua paz. ficou rico, sua ira desapareceu. Para Esaú, parecia
Onde houver ódio, que eu semeie amor. que Jacó tinha fugido sem nenhum dinheiro, com
Onde houver ofensa, perdão. nada além de alguma promessa sem significado, de
Onde houver dúvida, fé. um Deus invisível. A declaração “Eu tenho bastan­
Onde houver desespero, esperança. te” resume o ponto de vista de Esaú. Por que ter
Onde houver trevas, luz; e raiva? Jacó não tinha nada de real valor. Em termos
Onde houver tristeza, alegria. de riquezas terrenas, Esaú tinha tudo o que sempre
O Mestre Divino, faze com que eu possa não tinha valorizado ou desejado!
procurar ser consolado, mas consolar; Como Jacó era diferente. Jacó esperava que seu ir­
Ser compreendido, mas compreender; mão estivesse furioso, porque as promessas do con­
Ser amado, mas amar; certo de Deus eram as coisas mais importantes da
Pois é dando que recebemos; vida de Jacó!
é perdoando que somos perdoados; e De certa forma, Deus abençoou tanto Esaú quanto
é morrendo que nascemos para a vida eterna. Jacó. Cada irmão recebeu o que mais desejava na
— Francisco de Assis vida. Mas somente a escolha de Jacó tinha impor­
tância eterna.
11 D E JANEIRO LEITURA 11
.UM LUGAR ONDE HABITAR Estupro e vingança (Gn 34.1-31). Os irmãos de
Gênesis 33— 3 6 Diná tinham razão de “se entristecer e irar-se mui­
to” quando ela foi violentada. No entanto, quando
“A li farei um altar ao Deus que me respondeu no dia o rapaz de Siquém pediu permissão para se casar
da minha angústia e que foi comigo no caminho que com Diná, ele estava agindo de maneira honrada,
tenho andado” (Gn 35-3). de acordo com os costumes daquela época. Cer­
tamente os irmãos de Diná estavam errados em
Por fim, Jacó retornou, não apenas para Canaã, vingar-se de toda uma cidade pelo ato de um de
mas para casa. Os seus 20 frustrantes anos com seus cidadãos.
Labão tinham se acabado, e a sua disputa com seu Jacó, cujos temores foram aliviados pela reconcilia­
irmão Esaú tinha sido resolvida. Agora, olhando ção com Esáu, agora tinha uma nova preocupação.
para trás, Jacó percebia o grande papel que Deus Os outros cananeus atacariam a sua família, por­
tinha tido na sua vida. que seus filhos tinham se vingado de maneira tão
sangrenta?
Visão Geral Como a vida de Jacó, a nossa nunca está completa­
Jacó e Esaú se encontraram e se reconciliaram (33.1- mente livre de tensões. Uma ansiedade é aliviada,
20). A vingança que Simeão e Levi promoveram mas logo é substituída por outra. Jesus disse, “no
contra a cidade de um homem que violentou sua mundo tereis aflições” (Jo 16.33). Nós precisamos
irmã, criou novos temores para Jacó (34.1-31). Deus de uma paz que tenha uma fonte além deste mun­
disse a Jacó que retornasse a Betei e ali se estabele­ do, uma paz que não se abale pelo que nos acon­
cesse (35.1-15). Raquel morreu, mas Jacó encontrou teça aqui.
seu pai Isaque (w. 16-29). A história dos dois irmãos
gêmeos se encerra com uma genealogia de Esaú e da Morte e reunião (Gn 35.16-29). O texto somente
nação edomita que ele fundou (36.1-43). toca nos pontos principais dos anos seguintes da
36
Gênesis 33—36

vida de Jacó. Raquel, que tinha chorado pela sua suas raízes. As genealogias possibilitaram que o povo
condição estéril, morreu dando à luz Benjamim hebreu investigasse estas raízes até Abraão, validan­
(w. 16-20). O filho mais velho de Jacó teve um do assim a sua declaração de ser o povo escolhido
caso amoroso com uma das concubinas de seu pai de Deus, herdeiros da promessa que Ele fez àquele
(v. 22). Jacó e Esaú sepultaram seu pai e o prantea­ patriarca. Mas por que examinar tão cuidadosamen­
ram juntos (w. 27-29). Dor, ira, desapontamento, te a linhagem de Esaú? Esaú não pertence à linha­
reconciliação, e perda — tudo isso é uma heran­ gem prometida. Inclusive, ele voltou suas costas à
ça que nós compartilhamos com Jacó, como seres promessa, considerando que ela não tinha nenhum
humanos. Somente o relacionamento com Deus, valor.
e a confiança nas suas promessas pode tornar esta Talvez a genealogia de Esaú sirva como um im­
vida, com suas alegrias e tristezas mescladas, signi­ portante lembrete de que aqueles que estão fora
ficativa. da casa de Deus não devem ser ignorados nem ex­
cluídos como se não tivessem importância. Cada
“A s gerações de Esaú” (Gn 36.1-43). As genealogias indivíduo tem valor e importância aos olhos de
eram particularmente importantes para o povo de Deus, e deve ser valorizado por nós. Os 91 estra­
Deus no Antigo Testamento. Elas propiciam uma nhos citados nesta genealogia não têm significado
sensação de continuidade, possibilitando que cada para nós, mas nenhuma pessoa é insignificante
geração compreenda a sua identidade, examinando para Deus.

DEV OCIONAL_______
“H abita ali; faze ali um altar” mas para ouvir e responder ao que Deus tem a nos
(Gn 35.1-15) dizer pessoalmente. Na Palavra de Deus nós ouvi­
O retorno de Jacó a Betei, a “casa de Deus”, foi es­ mos as suas promessas, sentimos a sua orientação,
pecial. Foi ali que Deus falou com ele pela primeira encontramos a sua autorização. A nossa Betei são as
vez. Agora, Betei iria se tornar um refúgio. Escrituras, pois na Palavra nós sentimos a presença
Três coisas no texto estabelecem Betei como um daquEle que se encontrou com Jacó em Betei, há
refúgio: O altar, que traduz adoração (w. 3,7); a tanto tempo.
promessa repetida, que traduz a presença de Deus (3) A lembrança é a maneira como nós voltamos a
(w. 9-13); e a coluna de pedra, que traduz lem­ entrar na presença de Deus em qualquer momento
brança (w. 14,15). durante o dia. A coluna de pedra que Jacó erigiu
(1) A adoração é essencial se você e eu desejamos na Betei bíblica é mais bem compreendida como
encontrar paz interior em um mundo perturbado. zikkaron. No Antigo Testamento, zikkaron repre­
Como Jacó, nós precisamos de um momento e um senta qualquer objeto ou celebração religiosa que
lugar dedicados especialmente para nos encontrar­ tenha a função de auxiliar um crente a se identifi­
mos com Deus. Nós precisamos habitar ali — ser car com a presença ativa de Deus na história. Sem­
constantes em observar um compromisso diário pre que Jacó via a coluna de pedra, ele era levado de
com o Senhor. Jacó disse à sua família, “Tirai os volta, em lembrança, à comunhão com Deus que
deuses estranhos que há no meio de vós”. Na ado­ tinha sentido naquele lugar.
ração, nós eliminamos de nossos corações e mentes A Betei que você e eu criamos com a adoração e
tudo o que compete com Deus pela nossa atenção, pela leitura das Escrituras serve como uma âncora
para a nossa época. A qualquer momento nós po­
e nos concentramos completamente nEle. demos retornar, em nossa lembrança, e encontrar
Talvez a melhor definição de adoração seja “expres­ uma renovação de nossas forças.
sar apreciação a Deus pelo que Ele é, por natureza”. Como é importante que apliquemos a nós mesmos
Isto é, nós pensamos sobre as qualidades de Deus, as palavras que Deus disse a Jacó: “Sobe a Betei: e
os seus atributos, os seus atos de amor, e o louva­ habita ali”.
mos por quem Ele é, e pelo que Ele é. A nossa Betei
é a adoração diária. Ali nós começamos a sentir a Aplicação Pessoal
paz que Jacó encontrou. Selecione um momento e um lugar em que você
(2) A presença de Deus é sentida quando nós ouvi­ possa encontrar-se diariamente com Deus.
mos a sua voz falando conosco. Foi isso o que Jacó
sentiu em Betei (w. 9,11). E isso o que você e eu Citação Im portante
sentimos hoje, quando abrimos e lemos as Escri­ Louvai ao Senhor e invocai o seu nome; fazei co­
turas, não à procura somente de nova informação, nhecidas as suas obras entre os povos.
37
Gênesis 37— 41

Cantai-lhe, cantai-lhe salmos; falai de todas as suas um lado, a história de José é um relato inspirador
maravilhas. de um jovem cuja fé em Deus é finalmente recom­
Gloriai-vos no seu santo nome; alegre-se o coração pensada. Por outro, é um lembrete de que Deus
daqueles que buscam ao Senhor. é verdadeiramente capaz de transformar “todas
Buscai ao Senhor e a sua força; buscai a sua face as coisas” na nossa experiência de modo que elas
continuamente. “contribuam para o bem” (Rm 8.28).
Lembrai-vos das maravilhas que fez, dos seus pro­
dígios e dos juízos da sua boca. Sonhos. Os sonhos são essenciais na história de
— Salmos 105.1-5 José. No Antigo Testamento, os sonhos eram co­
muns (como em Jó 7.14) ou eram meios pelos
12 D E JANEIRO LEITURA 12 quais Deus revelava informações (como em Nm
^ :£ 2 . J O S É 12.6). Frequentemente, os sonhos de revelação são
Gênesis 37— 41 simbólicos e requerem interpretação. Em outras re­
ligiões antigas, existiam livros que tinham o objeti­
"Porventura viremos eu, e tua mãe, e teus irmãos a vo de propiciar uma chave para a interpretação dos
inclinar-nos perante ti em terra?" (Gn 37.10) sonhos, assim como há livros sobre sonhos encon­
trados em livrarias modernas! Mas nas Escrituras os
Poucos personagens da Bíblia são tão admiráveis sonhos simbólicos somente podem ser interpreta­
quanto José. Ele sofreu injustiça após injustiça, e, dos pelo próprio Deus ou por um profeta ao qual
ainda assim, perseverou. A sua fé foi, afinal, recom­ Ele conceda dons. Como José disse a Faraó, “Isso
pensada, e José percebeu que Deus tinha usado [interpretar um sonho] não está em mim; Deus
cada experiência dolorosa para realizar o bem. dará resposta de paz a Faraó” (Gn 41.16).
O papel do intérprete, na maioria das histórias de
Visão Geral sonhos das Escrituras, deveria nos advertir a não
José, o filho favorito de Jacó, era odiado por seus procurarmos a orientação pessoal por meio de so­
invejosos irmãos, e foi vendido como escravo nhos, nem a interpretar os nossos sonhos como
(37.1-36), embora seus irmãos fossem muito me­ palavras diretas do Senhor.
nos devotos do que ele (38.1— 9.23). Deus recom­
pensou a fidelidade de José com uma capacidade “Sendo José de. dezessete anos” (Gn 37.1-11). A vida
de interpretar sonhos (40.1-23), o que lançou José deve ter sido emocionante para José aos dezessete
da prisão ao poder político no Egito (41.1-57). anos. Ele era o favorito de seu pai, e sonhava que
teria um grande futuro! Cheio de tais visões, José
Entendendo o Texto não estava ciente de como o comportamento de
José. A fidelidade de José possibilitou que Deus o seu pai, e o seu próprio, afetava seus irmãos. Eles ti­
usasse grandemente. A ascensão de José ao poder nham inveja, e quando José lhes contou sobre seus
político no Egito lançou a fundação para que a sonhos, eles ficaram irados.
família mudasse para aquela terra. Durante apro­ Não podemos culpar um rapaz de 17 anos por falta
ximadamente 400 anos o povo hebreu permane­ de sabedoria. Podemos, no entanto, observar o quan­
ceu ali, a princípio como convidados e mais tarde, to é importante ser sensível a outras pessoas, e estar
como escravos. Durante este período de tempo a ciente de como o que fazemos e dizemos os afeta.
pequena família de 70 pessoas cresceu e chegou a
milhões. Na verdade, o Egito serviu como um úte­ “Que proveito haverá.?” (Gn 37.12-36). A inveja e a
ro no qual Deus fez crescer a nação que nasceu pelo ira dos irmãos transbordaram quando José foi en­
ministério de Moisés. Enquanto guerra após guerra viado para encontrá-los e a seus rebanhos. A maio­
devastavam Canaã, o povo de Deus estava a sal­ ria deles desejou matar José. Mas Judá, mostrando
vo no Egito, livre para multiplicar-se “e aumentar ser um dos melhores irmãos, salvou a vida de José,
muito” (Ex 1.7). Ao mesmo tempo, a história de sugerindo que ele fosse vendido como escravo a
José é o retrato dramático de um homem verdadei­ uma caravana de mercadores midianitas que pas­
ramente bom que superou uma série de tragédias. sava. Nenhum dos irmãos, exceto Rúben, desejou
José aceitou a posição de escravo, e depois de prisio­ que José retornasse a seu pai. Somente Rúben pa­
neiro, serviu fielmente a seus senhores e conservou receu se preocupar com a angústia que a morte de
a sua confiança em Deus. Deus usou cada tragédia José certamente causaria ao seu pai (cf. w. 31-35).
para colocar José onde Faraó ouvisse falar dos seus
dons, convidasse José para interpretar seus sonhos “J udá” (Gn 38.1-30). Judá aplieou os padrões mo­
e então desse a José grande poder e autoridade. Por rais da sua cultura em seu relacionamento com
38
Gênesis 37— 41

Tamar, a esposa de um de seus filhos mortos, que É útil fazer uma lista das experiências de José, e
fingiu ser uma prostituta. A história sugere o quan­ imaginar como ele deve ter se sentido quando cada
to José era verdadeiramente superior. Judá parece evento aconteceu. E ainda mais útil pensar sobre
ter feito por medo o que pensava ser certo (v. 11) o que aconteceu na sua própria vida. Você já teve
e foi rápido em julgar Tamar quando pensou que experiências que afetaram você, como os eventos
ela tinha pecado (v. 24). Pressionado por tentações da vida de José o afetaram?
muito maiores, José fez o que era certo, por res­ Como é bom que Deus inclua as histórias de ho­
peito a Deus (39.9), e quando, posteriormente, se mens e mulheres como José, para nos dar o discer­
encontrou com os irmãos que o venderam como nimento do que Ele pode estar fazendo em nossas
escravo, José os perdoou livremente (cf. 45.4-8). próprias vidas.
Uma coisa é ser “bom” segundo os padrões de nossa
cultura. E outra coisa, por amor a Deus, estar aci­ A Vida de José
ma destes padrões para ser verdadeiramente justo. Infância feliz Gn 37.1-3
Colocadas lado a lado, as histórias de Judá e José
nos lembram que Deus usa a pessoa que está com­ Irmãos invejosos Gn 37.4-11
pletamente comprometida com Ele. Os Judás têm
funções no plano de Deus. Mas os Josés encontram Maus tratos Gn 37.12-36
funções verdadeiramente significativas!
“Pecaria contra Deus” (Gn 39.9). O nosso sistema Serviço fiel Gn 39.1-6
legal faz uma distinção entre crimes com vítimas e Comprometimento com o Gn 39.7-10
sem vítimas. A noção é que alguns crimes, como
ataque ou roubo de uma casa, criam vítimas. Ou­ que é correto
tros atos criminosos, como prostituição ou homos­
sexualidade, teoricamente não têm vítimas. Cada Tratamento injusto Gn 39.11-20
pessoa envolvida é um adulto que consente!
José foi convidado a manter uma relação sexual Trabalho árduo Gn 39.21-23
com a esposa de seu senhor. Ela guardaria segre­
do. Potifar jamais saberia. Quem iria se magoar Ajuda aos outros Gn 40.1-22
por uma pequena aventura amorosa? Afinal, como
sugere o sistema de classificação de censura dos fil­ Esquecido por outros Gn 40.23
mes, estas são aquelas coisas que os “adultos” fazem
e gostam de fazer! Oportunidade única Gn 41.1-40
José não se deixou enganar. O crime “sem vítimas”
era, na verdade, “um pecado contra Deus”. Reconhecimento, por fim Gn 41.41-57
Satanás coloca novos rótulos em antigos pecados,
tentando confundir a humanidade e nos proporcio­ Sucessos/realizações Gn 41—50
nar desculpas para fazermos o que sabemos que é
errado. E importante que a nossa visão seja tão clara Perdão à sua Gn 45
quanto a de José, e que sejamos tão honestos conos­ família
co mesmos como José foi com a esposa de Potifar.
Reencontro, Gn 46
“Dois funcionários” (Gn 40.1-23). O título de por fim
“copeiro-mor” e “padeiro-mor” eram dados a dois
importantes funcionários do Egito antigo. Estas “Deus dará resposta de paz a Faraó” (Gn 41.1-40).
descobertas dos arqueólogos são duas das muitas Quando foi chamado da prisão para interpretar o
que assinalam Gênesis 40— 41 como surpreen­ sonho de Faraó, José poderia ter se considerado
dentemente precisos no seu relato dos costumes na muito importante. Em vez disso, ele tomou cui­
corte de Faraó. Até mesmo uma lista de condena­ dado para dar a Deus todo o crédito. As palavras
dos em uma prisão do rei, muitos dos quais com de José, “Isso não está em mim; Deus dará...” (v.
nomes semitas, foi recuperada. 16) são um reflexo completamente exato da nossa
O relato do livro de Gênesis é história, não ficção. própria condição espiritual.
José, cuja vida nos ensina tantas lições a respeito de Muitos líderes cristãos caíram, porque se esquece­
Deus, foi um ser humano real, com cujas tragédias ram da verdade de que José se lembrou. O sucesso
e triunfos você e eu podemos nos identificar. nos enche de autoconfiança, e logo nós começa-

39
Gênesis 37— 41

mos a agir como se as realizações pelas quais somos ele pudesse desenvolver as habilidades necessárias.
conhecidos fossem nossa própria obra. Nós preci­ Na casa de Potifar, e depois na prisão, José apren­
samos nos lembrar — e dizer em voz alta o que deu a ser um administrador!
José fez. Tal confissão levará outros a Deus. E tal Não há informação sobre como Deus pretende usar
confissão irá nos proteger do orgulho espiritual que as nossas experiências dolorosas para nos capacitar
tem lugar antes de uma queda. para um trabalho significativo no futuro. Mas o li­
vro de Gênesis nos lembra que devemos lidar com
“Posto sobre toda a terra” (Gn 41.41-57)- José tinha estas experiências como José lidou, continuando
apenas 30 anos de idade quando foi encarregado positivos e aproveitando ao máximo as oportuni­
de toda a terra do Egito. Mas desde a idade de 17 dades que recebemos. Se nós seguirmos o exemplo
anos, Deus tinha colocado José em posições onde de José, Deus poderá nos promover também.

DE V“JoséOCIONAL______
esteve ali na casa do cárcere,
e o Senhor estava com ele”
(Gn 39.1-23)
Uma das experiências mais difíceis com que qualquer
de nós tem que lidar é ser tratado de maneira injusta.
Carmine passou horas incontáveis, quando adul­
to, ajudando seus pais em seus negócios. Mas re­
centemente eles disseram a Carmine que ele seria
excluído do testamento, em favor de um irmão e
uma irmã que jamais ajudaram, nem pareceram se
importar.
Jackie ainda chora sempre que pensa no acidente
que tirou a vida de seu filho de 21 anos de idade, Ll
na noite do casamento dele.


Don sente uma grande amargura porque ficou sa­
bendo que sua esposa, que trata tanto a ele como aos ...
seus filhos com tanta frieza, teve um caso amoroso. 1 >\\
Maria deixou de ser promovida no escritório de ad­
vocacia onde trabalha. Mulheres mais jovens que Pinturas em muros egípcios mostram oficiais de altas
são mais atraentes do que ela, recebem as promo­ patentes investidos com os símbolos de autoridade que
ções, embora ela conheça mais o assunto e trabalhe Faraó deu a José.
com mais afinco do que elas.
Gil, forçada a mover uma ação judicial pela perse­ cia de José estava limpa. Ele sabia que o acontecido
guição de um ex-chefe que tentava expulsá-la do não tinha sido culpa sua.
campo em que ambos trabalhavam, está sendo tra­ Nós não podemos impedir que os outros nos tra­
tada de maneira cruel por amigos cristãos, por levar tem de maneira injusta. Mas vivendo uma vida
um irmão cristão aos tribunais. correta e boa, nós podemos ter a certeza de que
Eu conheço pessoalmente estas cinco pessoas que o que acontece conosco não é consequência de al­
acabo de descrever, embora tenha alterado seus no­ gum pecado que tenhamos cometido.
mes. Eu sei quanta dor cada uma delas sente. O (2) Continuar fazendo o melhor de si. A prisão era
que mais magoa é o fato de que o que acontece a muito diferente do palácio que José tinha adminis­
cada uma destas pessoas não é justo. trado para Potifar. Mas mesmo ali José fez o melhor
José certamente compreenderia, pois ele também de si. Como resultado, ele foi nomeado responsável
foi tratado injustamente. Nesta passagem, que nar­ sobre “tudo o que se fazia ali”.
ra a história de José, encontramos três princípios Fazendo o melhor de nós, apesar das injustiças da
que podem ajudar a cada um de nós a lidar com as vida, nós demonstramos a nossa inocência, e nos
coisas injustas em nossa vida. preparamos para qualquer tarefa que Deus possa
(1) Conservar uma consciência limpa. José resis­ ter para nós no futuro.
tiu às tentativas de sedução da esposa de Potifar. (3) Andar sempre na presença de Deus. A Bíblia
Quando ela mentiu e o enviou à prisão, a consciên- diz que “José esteve ali na casa do cárcere, e o Se­

40
Gênesis 42—46

nhor estava com ele”. Deus também está conos­ faziam ideia de que era José. Mas está claro que
co mesmo quando a vida parece mais injusta, e, nenhum deles tinha se esquecido do que fizeram a
o futuro, mais sombrio. Nós podemos sobreviver José. A pergunta é; Eles tinham mudado?
e triunfar, andando sempre na presença de Deus.
Nós fazemos isso, recordando que Ele está conos­ Visão Geral
co, pela oração, conscientemente confiando nEle, e Quando a fome levou os meios-irmáos de José ao
fazendo o melhor de nós, cientes de que servimos Egito, para comprar comida, eles não o reconhece­
ao Senhor, e não aos homens. ram (42.1-38). Em uma segunda visita, quando foi
Deus não garante que hós jamais seremos tratados também o irmão de José, Benjamim, José os pôs
de maneira injusta. Mas Deus nos assegura de que à prova (43.1— 44.34). José finalmente se revelou
sempre teremos a sua bendita presença. Se andar­ à sua surpresa família (45.1-28). O clã mudou-se
mos em sua presença, continuarmos fazendo o para o Egito, onde Jacó se encontrou com o filho
melhor de nós, e conservarmos consciências lim­ que pensou estar morto (46.1-34).
pas, não apenas sobreviveremos, mas triunfaremos
como José. Entendendo o Texto
“Sois espias”(Gn 42.1-17). Quando os irmãos apare­
Aplicação Pessoal ceram no Egito para comprar trigo, José os acusou
Quão injusta a vida é com você? Você está reagindo de serem espiões. Esta e as outras coisas que José fez
a isso como José reagiu? a seus irmãos, devem ser interpretadas como testes.
Vinte e dois anos antes, quando José tinha apenas
Citação Im portante 17 anos, seus meios-irmãos o tinham vendido como
Oh, nós confiamos que, de alguma maneira, o bem escravo. José quis saber se o Senhor tinha operado
vencerá o mal, alguma mudança em suas personalidades. Os testes
quer nas dores da natureza, nos pecados dos de­ que José planejou mostraram que sim!
sejos,
nas imperfeições e dúvidas, e nas manchas de san­ “Somos culpados acerca de nosso irmão” (Gn 42.18-
gue; 38). Os irmãos se perturbaram com seu breve
aprisionamento, e pelas suspeitas proferidas pelo
Para que nada exista sem objetivos; governante do Egito. A convicção de que estavam
para que nenhuma vida seja destruída, sendo punidos mostra que jamais tinham se esque­
nem lançada fora, como lixo, ao nada, cido dos apelos de José quando cruelmente o ven­
Quando Deus tiver concluído todas as coisas; deram como escravo. Por mais de duas décadas eles
tinham vivido com esta lembrança.
Confiamos que nem um verme exista em vão; As pessoas pecam levianamente, como se agir mal
que nem mesmo a atividade de uma traça seja vã, não fosse nada sério. Mas, uma vez comprometi­
ainda que ela murche no fogo, haverá um propó­ dos, a lembrança do pecado nos persegue de perto,
sito, carregando-nos de culpa e vergonha.
podendo servir para o ganho de outros. Observe também a declaração de Rúben: “O seu san­
gue também é requerido”. Isso resume a interpretação
Eis q‘ue não conhecemos todas as coisas; do pecado no Antigo Testamento como (1) uma vio­
fnas podemos confiar que o bem, por fim, lação de um padrão conhecido, (2) por alguém que
poderá alcançar todos aqueles que o desejarem, deve prestar contas, (3) e que merece punição.
e cada inverno se converterá em primavera.
— Alfred Lord Tennyson “O seu íntimo moveu-se” (Gn 43.1-34). Este capítu­
lo é profundamente emocionante. Nós sentimos a
13 DE JANEIRO LEITURA 13 angústia de Jacó ao pensar no perigo para o outro
ESPERAR PARA VER filho de Raquel, Benjamim. Nós sentimos o terror
Gênesis 42— 46 dos irmãos quando enfrentaram o retorno ao Egi­
to, onde se convenceram de que o governante pre­
“O seu sangue também é requerido” (Gn 42.22). tendia “tomá-los por servos, e a seus jumentos” (v.
18). Somente a perspectiva da fome em Canaã for­
Vinte e dois anos tinham se passado desde que os çou Jacó a enviar Benjamim, e impeliu os irmãos a
irmãos de José o venderam como escravo. Quando tomar novamente a estrada para o Egito.
a fome os levou ao Egito, e eles se apresentaram José também foi tomado pela emoção. Ele mal
ao segundo homem mais poderoso do Egito, não conseguiu se controlar ao ver seu irmão, e ter notí­
41
Gênesis 42— 46

cias de seu pai. Mas José controlou suas emoções, A reação de Judá oferece esperança a todos os que se
não por necessidade, mas por prudência. O teste sobrecarregam com lembranças de pecados passa­
de seus irmãos não estava concluído. José ainda dos. O nosso passado não deve determinar o nosso
precisava conhecer seus corações. futuro! Nós podemos confessar os nossos pecados a
Frequentemente nós agimos com emoção, e não Deus e, como Judá, podemos ser transformados.
com prudência. É particularmente importante,
quando lidamos com nossos filhos, fazer o que “José ainda vive e ele também é regente em toda a
é melhor para eles, e não o que o nosso coração terra do Egito” (Gn 45.1— 46.34). Um Jacó surpre­
nos diz. endido ouviu as novidades e percebeu que antes de
morrer poderia ver o filho perdido o qual amava
“Para que não veja eu o mal que sobrevirá a meu tanto. Emocionalmente, este é o clímax da história
pai" (Gn 44.1-34). O teste final que José planejou, de José.
colocou sobre seus irmãos uma tensão insuportável No curso de Gênesis, não é. O significado históri­
— mas revelou o que José precisava saber. Como co de José é que, pela sua ascensão, da escravidão
é significativo que Judá seja aquele que faz o apelo ao poder, Deus tornou possível que a sua pequena
registrado nos versículos 18-34. Anos antes, Judá família fosse para o Egito onde puderam se mul­
tinha se oposto ao pensamento de seus irmãos de tiplicar e se tornar um grande povo. Mas a alegria
matarem José, mas estava mais do que disposto a que ecoa no anúncio emocionado dos irmãos com
vendê-lo como escravo e levar para casa evidências a notícia de que José estava vivo serve como um
de que José tinha sido morto por um animal sel­ lembrete importante.
vagem (cf. 37.26-31). Agora Judá se oferece como Quando Deus executa o seu grande plano para
escravo em lugar do jovem Benjamim, motivado as gerações, Ele jamais se esquece dos indivídu­
pela ideia da angústia que a perda de Benjamim os. Ele se lembra de cada um de nós, e se preo­
causaria ao seu pai! cupa verdadeiramente com nossas alegrias e nos­
Deus tinha operado uma verdadeira transformação sas tristezas. Eu confesso que meus olhos ficam
no coração deste homem que foi tão insensível 20 cheios de lágrimas quando leio Gênesis 45.26-
anos antes. 28. Falando de maneira figurada, eu suspeito que
Pode parecer estranho, mas a percepção de que nós Deus ficou com lágrimas nos olhos quando tes­
pecamos frequentemente dá início à transformação tem unhou esta cena. Em última análise, as mais
pessoal. A culpa não pretende nos levar para longe importantes obras de Deus não são aquelas que
de Deus, mas para perto dEle. Nem mesmo uma Ele realiza, moldando o curso da história, mas as
pessoa que tem alguma coisa tão terrível no seu pas­ que Ele realiza nos corações dos seres humanos.
sado, como Judá, deve se desesperar. Deus é o Deus Transformando um Judá. Trazendo a Jacó uma
que perdoa o pecado e que transforma o pecador! alegria inesperada.

DE V OCION A L______
Berseba passado por Berseba na sua pressa para alcançar o
(Gn 46.1-27) Egito (12.10-20) — embora Deus o tivesse coloca­
Berseba está localizada no sul de Canaã. E um lugar do em Canaã. Jacó não iria deixar a terra na qual
agradável, a cerca de 300 metros acima do nível do Deus o colocou, apesar de seus fortes motivos, sem
mar. Mais para o sul, no entanto, pode-se olhar para parar em Berseba para orar.
o Neguebe e o deserto de Zim, desertos pelos quais Gênesis 46 nos diz que ali Deus falou a Jacó, em
passava um caminho antigo rumo ao Egito. De certa uma visão, e lhe disse que não tivesse medo de des­
forma, Berseba está na fronteira de Canaã. Prosseguir cer ao Egito. Ali Deus deu a Jacó a confirmação de
mais para o sul é deixar a Terra Prometida para trás. que estava fazendo a coisa certa.
Eu suspeito que foi por isso que Jacó parou em Eu acredito que esta parte da história de José nos
Berseba para edificar um altar e oferecer sacrifícios fornece um modelo para as nossas próprias to­
a Deus. Jacó estava muito ansioso para ver José ou­ madas de decisão. Nós consideramos cuidadosa­
tra vez. A terra seca e devastada de Canaã já não era mente nossas opções. Nós observamos razões para
um lugar onde se pudesse viver. Ainda assim, Jacó fazer uma coisa em lugar de outra. Com base nas
parou em Berseba. nossas informações e nossos desejos nós “parti­
Eu aprecio a sabedoria de Jacó. Muitas décadas mos”. E isso está certo. Deus nos deu mentes com
antes disso, Abraão, levado por outra fome, tinha as quais podemos considerar, e desejos que nos
42
Gênesis 47— 50

movem para um objetivo ou para outro. As nos­ Visão Geral


sas tomadas de decisões como cristãos não devem A família chegou e se estabeleceu na excelente
ser místicas, mas tão práticas e racionais quanto terra do Egito (47.1-31). Jacó considerou os dois
foi a decisão de Jacó de levar a sua família para filhos de José como seus (48.1-22) e abençoou os
o Egito. 13, antes da sua morte (49.1-33). José enterrou
Mas, quando “partirmos”, nós precisamos nos cer­ seu pai, reafirmou o seu perdão aos seus irmãos, e
tificar de que paremos em Berseba. Nós precisamos obteve a promessa de que, quando Deus trouxes­
ser sensíveis à liderança de Deus e pedir ao Senhor se a sua descendência de volta a Canaã, os seus
que nos confirme ou nos corrija na direção para a ossos retornariam à sua terra natal (50.1-26).
qual decidimos ir.
Os 70 membros da família de Jacó que se reuniram Entendendo o Texto
no Egito podiam ter certeza de que estavam onde “Egito e Canaã” (Gn 47-1-31). Canaã dependia
Deus queria que estivessem. Jacó tinha parado em da chuva para obter a umidade necessária para
Berseba. as plantações. O Egito, no entanto, dependia do
Como é bom, quando tomarmos decisões impor­ rio Nilo, que transbordava anualmente e enri­
tantes em nossas vidas, parar em Berseba e indicar quecia as terras ao longo de suas margens. Em
a nossa disposição de continuar ou voltar, confor­ antigos registros egípcios se observam tempos de
me a orientação de Deus. Quando pararmos em fome, mas em geral o Nilo tornava o Egito a sal­
Berseba, teremos a confiança de que, aconteça o vo da fome. Relevos e registros egípcios mostram
que acontecer, estaremos vivendo no centro da povos da Síria-Palestina pedindo permissão para
vontade de Deus. permanecer no Egito durante a fome; e vindo ao
Egito para comprar comida.
Aplicação Pessoal
Tome decisões cuidadosamente. Mas acostume-se, “A terra ficou sendo de Faraó” (Gn 47-20). Ins­
quando as põe em prática, a parar em Berseba. crições antigas confirmam que o Egito era con­
siderado como pertencendo a Faraó, e que 20%
Citação Im portante da colheita deveriam ser dele. Registros também
“O Getsêmani nos ensina que só se pode entrar mostram que as terras do templo não pertenciam
no reino de Deus pela negação da vontade própria aEgito Faraó, o que quer dizer que os governantes do
e pela afirmação da vontade de Deus. Portanto, a rarquiasfrequentemente eram perturbados por hie­
cruz deve estar no centro de uma compreensão do Nenhumreligiosas excessivamente independentes.
reino. Uma vez que a essência do reino é a nos­ a história registro egípcio independente apresenta
sa obediência à vontade absoluta de Deus, nós a propriedadede de José nem explica como o direito de
Faraó foi estabelecido.
compreenderemos somente quando depositarmos
a nossa própria vontade ao pé da cruz. Nenhuma “Os teus dois filhos... serão meus” (Gn 48.1-22).
vontade própria é capaz de subsistir no reino de Às vezes, ficamos confusos. As “12 tribos de Isra­
Deus.” — Dennis Corrigan el” são frequentemente mencionadas no Antigo
Testamento. Mas, se compararmos listas, exis­
14 D E JANEIRO LEITURA 14 tem, na verdade, 13 grupos tribais! Levi não é
“DEUS SERÁ CONVOSCO” incluído em algumas listas, porque a sua tribo
Gênesis 47— 50 fornecia sacerdotes e líderes para adoração. Em
outras listas, como a de Apocalipse 7.5-8, Levi é
“Eis que eu morro, mas Deus será convosco e vos fará incluída, e Dã não.
tornar à terra de vossospais” (Gn 48.21). O que aconteceu foi que Jacó “adotou” os dois
filhos de José. Estes dois filhos, Manassés e
O livro de Gênesis é concluído com a família de Efraim, se tornaram chefes de grupos tribais, e o
Jacó estabelecida no Egito. Mas a morte dos pa­ nome “José” se perdeu.
triarcas assinala o início, e não o fim, daquilo que E útil que nos lembremos disso, se outra pessoa
Deus fará pelos descendentes de Abraão, Isaque e receber o crédito pelo que fizermos, enquanto
Jacó. A mesma coisa acontece conosco. A morte de nosso nome não é mencionado. O livro de Gê­
uma geração não é o fim. Se confiarmos em Deus, nesis lembra-nos de que não é o reconhecimento
poderemos dizer a nossos filhos, “Deus será con­ que é importante. E a contribuição.
vosco”. Nós podemos confiar que Deus realizará o O nome de José pode não aparecer nas listas de
seu propósito na vida deles. tribos israelitas das Escrituras. Mas nós sabemos
43
Gênesis 47— 50

— e Deus sabe — que ele deu um a contribuição “Quarenta dias” (Gn 50.1-14). Novamente, o tex­
maior do que qualquer dos outros irmãos! to fornece um retrato preciso dos antecedentes
culturais. O sepultamento dos israelitas tinha lu­
A bênção de Jacó (Gn 49.1-28). O conceito de gar tão imediatamente após a morte quanto fosse
bênção é um conceito poderoso no Antigo Tes­ possível, sem nenhum preparativo para preservar
tamento. Ao dar uma bênção, um superior, como o corpo. No Egito, no entanto, tinha lugar um
um pai, conferia verbalmente um dom ou doação demorado processo de remoção das vísceras e de
a outra pessoa. Isso não era mágica, pois o Anti­ tratamento do corpo com produtos para sua con­
go Testamento deixa claro que toda bênção vem servação. Jacó foi embalsamado segundo o costu­
de Deus (Gn 14.19; Nm 22; D t 10.8). Somente me egípcio porque tinha pedido que seus filhos o
uma pessoa que estivesse em íntimo relaciona­ enterrassem em Canaã, uma viagem longa demais
mento pessoal com Deus poderia agir como um para ser feita com um cadáver corruptível.
canal pelo qual Deus abençoaria outras pessoas. Por que Jacó desejava ser enterrado em Canaã?
Em Gênesis 49, Jacó, capacitado por Deus, olha O pedido de Jacó era uma afirmação de fé. Deus
para o futuro e na sua bênção faz predições sobre o tinha prometido que os seus descendentes iriam
futuro de cáda grupo familiar, com base, em parte, herdar Canaã. Ao escolher ser enterrado com seu
no caráter de cada um de seus filhos (v. 28). pai e seu avô em Canaã, Jacó afirmou sua convic­
O que é mais importante para nós, no entanto, é ção de que seus descendentes iriam retornar e as
uma expressão encontrada na bênção dada a José. promessas de Deus seriam cumpridas.
Esta expressão é a seguinte: “pelo Deus de teu pai,
o qual te ajudará, e pelo Todo-poderoso, o qual “Deus certamente vos visitara ’ (Gn 50.22-26).
te abençoará... As bênçãos de teu pai excederão Quando a morte finalmente visitou José, ele tam ­
as bênçãos de meus pais, até à extremidade dos bém aproveitou a oportunidade para afirmar a sua
outeiros eternos” (w. 25,26). fé no concerto de Deus. Ele teve a promessa da
A profunda fé em Deus que José demonstrou, família de que, quando Deus tirasse os hebreus
abençoou seus filhos, e permaneceu como uma do Egito e lhes desse a Terra Prometida, seu corpo
influência vital até mesmo para gerações mais seria levado para cása.
distantes. Se nós desejarmos ser uma bênção para As mortes de José e Jacó nos lembram que os fu­
os filhos dos nossos filhos, não há maneira mais nerais dos crentes, embora escurecidos pela dor,
garantida do que viver tão íntimos de Deus como também são brilhantes de alegria. Nem José nem
José viveu. Quando nós somos fiéis e obedientes, Jacó consideraram a morte como o fim. Ambos
nossas “bênçãos são maiores”. olharam além do seu próprio tempo na terra e
encontraram consolo no que Deus iria fazer no
“O cetro não se arredará de Judá” (Gn 49.10). Jesus futuro. Este também é o nosso caso. Por causa
veio da tribo de Judá. Esta bênção, que prediz que de Jesus, nós compreendemos até melhor do que
um governante viria da linhagem de Judá, é uma eles. O aguilhão da morte ainda dói. Mas nós sa­
das mais antigas e mais claras das profecias messiâ­ bemos que a morte do corpo é a nossa entrada em
nicas do Antigo Testamento. uma experiência plena de vida eterna.

DEVOCIONAL______
E se? Naquela tarde eu disse a meu pai que tinha perdido
(Gn 50.1-21) o dinheiro.
Eu me lembro de como me senti estranho naquela De alguma maneira, o fato de saber que eu tinha
tarde. Eu entrei devagar na nossa sala de estar, pas­ agido mal, distorceu o meu relacionamento com
sei por meu pai e me dirigi para o meu quarto. meu pai. Eu não me senti à vontade com ele na­
Normalmente não era assim. Normalmente, eu ia quela tarde. De modo nenhum.
rapidamente para casa, corria para papai e pergun­ Assim, eu posso verdadeiramente entender os ir­
tava se nós íamos pescar naquela tarde. mãos de José. Eles se lembraram do mal que ti­
Mas naquele dia, não. Naquele dia eu tinha ido à nham feito, e isso os deixou desconfortáveis. E se
escola segurando uma moeda que papai me deu, José tivesse guardado rancor? E se José tivesse a in­
para comprar novos cadarços para os sapatos. Fui tenção de pagá-los na mesma moeda? E se?
à loja de Eli Bassett, mas não consegui passar do José deve ter compreendido isso também. O texto
balcão dos doces. Na escola, tentei comer o doce, diz que ele “os acalmou com palavras carinhosas,
mas não me pareceu correto, e então o joguei fora. que tocaram o coração deles” (Gn 50.21, NTLFI).
44
Gênesis 47— 50

José até deixou o seu compromisso com eles ine­ a pessoa que peca contra nós. Isso não quer dizer
quivocamente claro: “Eu vos sustentarei a vós e a que nós ignoramos o pecado. Afinal, José disse:
vossos meninos”. “Vós bem intentastes mal contra mim”. Mas José
O que foi que permitiu que José perdoasse tão li­ continuou falando de modo consolador com seus
vremente? Perspectiva. José compreendeu que seus irmãos, para assegurar-lhes o perdão e expressar
irmãos tinham desejado prejudicá-lo. Mas ele tam­ outra vez seu compromisso com eles.
bém entendeu que Deus tinha usado seus irmãos Quando nós seguimos, o exemplo de José, deixan­
para alcançar um fim bom e importante. Olhando do clara nossa disposição em perdoar e nosso con­
além do ato de considerar a Deus, José foi capaz de tinuado compromisso em cuidar daquele que nos
ver o pecado de seus irmãos a partir de uma nova feriu, a dor do pecador e a dor daquele que sofreu
perspectiva. O fato de sentir a boa mão de Deus até o pecado podem ser curadas.
mesmo no mal dos outros libertou José da ira, e de E teremos seguido um caminho marcado não so­
qualquer desejo de obter vingança. mente por José mas também por Jesus.
E estranho, não é mesmo? Os irmãos sofreram
mais pelos seus pecados do que o homem contra o Aplicação Pessoal
qual tinham pecado! Assim como quando criança Se você sentir o seu afastamento de alguém que
eu sofri mais por utilizar mal o dinheiro que meu feriu você, ou pecou contra você, por que não ex­
pai me deu, para comprar cadarços, do que ele so­ perimentar a abordagem de José?
freu. Eu sofri mais porque o meu ato fez sentir-me Citação Im portante
culpado, e a consciência da culpa criou o que me “Dos sete pecados capitais, a ira é, possivelmente,
parecia um abismo intransponível no meu relacio­ o mais divertido. Lamber as suas feridas, beijar
namento com meu pai. tristezas antigas, passar a língua pela perspectiva de
Quando alguém que nós conhecemos peca contra amargos confrontos ainda por vir, saborear até o
nós, nós precisamos adotar a perspectiva que José último delicioso bocado a dor que você recebe e
tinha das coisas. Nós precisamos compreender que a dor que você devolve; de muitas maneiras, é um
Deus pode e irá usar, até mesmo as nossas mágoas, banquete digno de um rei. O grande inconvenien­
para o bem. Nós precisamos compreender que o te é o fato de que aquilo que você está devorando
pecado fere o pecador, talvez até mais do que fere a é você mesmo. O esqueleto no banquete é você.”
pessoa contra quem o pecado foi cometido. — Frederick Beuchner
Nós podemos reagir com ira quando somos feri­
dos. Nós podemos atacar ou usar o silêncio como O Plano de Leituras Selecionadas continua em
arma para expressar nossa dor. Ou podemos seguir LUCAS
o exemplo de José e falar de modo consolador com

45
EXODO

INTRODUÇÃO
Êxodo significa “sair”. O livro conta a história da libertação dos israelitas da servidão no Egito, ocorrida
por volta de 1450 a.C.
Êxodo conta como Deus, fiel às promessas de alianças feitas a Abraão, Isaque e Jacó, fez milagres para
quebrar as cordas que prendiam o seu povo. A aventura acelerada se move rapidamente para o Sinai. Aqui
Exodo se demora, e em um cuidadoso detalhe explora a Lei que Deus deu ao seu povo, pela qual desejava
que vivessem. Este código teve a intenção de ensinar os israelitas como amar a Deus e como amarem uns
aos outros.
Exodo também apresenta Moisés, o personagem eminente do Antigo Testamento que é reverenciado
no judaísmo como o legislador, e cuja fidelidade a Deus serve como um modelo para os leigos e líderes
cristãos modernos.
Mais significativo, porém, é o que Exodo revela a respeito de Deus. Ele usa o seu poder para remir o seu
povo. Deus exige santidade daqueles que afirmam ter um relacionamento com Ele. E provê um meio para
que os pecadores se aproximem dEle e sejam transformados.
ESBOÇO D O CONTEÚDO
I. A História da Libertação ....................................................................... . Êx 1— 19
A. O chamado de M oisés.......................................................................... ....Êx 1— 4
B. M ilagres.................................................................................................. ...Êx 5— 13
C. No Sinai ................................................................................................. Êx 14— 19
II. Plano de Deus para uma Comunidade Santa ................................. .Êx 20— 40
A. Leis para a vida ...................................................................................... Êx 20— 23
B. Provisão para a adoração ..................................................................... .Êx 24— 40
GUIA DE LEITURA (9 Dias)
Se você tiver pressa, pode ler somente a “passagem essencial” na sua Bíblia, e o Devocional em cada ca­
pítulo deste Comentário.
Leitura Capítulos Passagem Essencial
15 1— 4 3
16 5— 11 5.22— 6.27
17 12.1— 15.21 15.1-16
18 15.22— 19.25 19.3-6
19 20— 23 20.1-21
20 24— 27 24.1-8
21 28— 30 29.15-30
22 31— 34 32— 33
23 35— 40 37
EXODO
15 D E JANEIRO LEITURA 15
DEUS SE REVELA A MOISÉS
Êxodo 1— 4

“Este é meu nome eternamente, e este é meu memorial “Os egípcios puseram sobre eles maiorais de tributos,
de geração em geração” (Êx 3.15). para os afligirem com suas cargas” (Ex 1.8-22). Ini­
cialmente os israelitas desfrutavam de uma posição
Nestes capítulos encontramos Moisés. Todavia, o favorecida no Egito. Eles foram estabelecidos na
mais importante, é que nestes capítulos encontra­ “melhor parte da terra” e muitos foram empregados
mos Deus, e ficamos conhecendo o seu nome mais pelo próprio Faraó (cf. Gn 47-5,6). Algum tempo
pessoal, EU SOU. depois da morte de José, porém, os israelitas foram
escravizados. Esta passagem enfatiza as terríveis
Visão Geral condições sob as quais o povo de Deus foi forçado
Os israelitas se multiplicaram no Egito, mas fo­ a viver. Palavras e frases como “opressão”, “traba­
ram escravizados (1.1-22). Moisés foi encontrado lhos forçados” (na versão bíblica ARA), “serviam
e adotado por uma princesa (2.1-10), mas quando com dureza”, e “lhes fizeram amargar a vida com
adulto se identificou com o seu povo e foi forçado dura servidão” são usadas. A opressão definitiva é
a fugir (w. 11-25). Quando Moisés tinha 80 anos vista na ordem do Faraó, pela qual todos os meni­
de idade, Deus se revelou a ele como EU SOU. De nos hebreus que nascessem deveriam ser lançados
posse do nome divino, Moisés foi enviado ao Faraó no rio Nilo para morrerem afogados!
para ganhar a liberdade de Israel (3.1-22). Equi­ A situação dos israelitas no Egito tem por objeti­
pado com sinais miraculosos, um Moisés relutante vo espelhar a condição espiritual da raça humana.
retornou ao seu povo (4.1-31). Assim como Israel era escravo do Egito, toda a hu­
manidade também era escrava do pecado. Apenas
Entendendo o Texto o poder de operação de milagres de Deus, que for­
“Os filhos de Israel... multiplicaram-se” (Êx 1.1-7). çou a libertação de Israel, pôde quebrar as algemas
Uma família de 70 pessoas entrou no Egito. Base­ forjadas pelo pecado e nos tornar verdadeiramente
ado no número de homens em idade militar regis­ livres.
trado em Números 1.46, deve ter havido entre 2 e
3 milhões de israelitas na época do Êxodo! Moisés (Êx 2.10). Moisés é a figura dominante em
“Multiplicaram-se” sugere o motivo de Deus para Êxodo e nos três livros seguintes do Antigo Testa­
a permanência temporária de Israel no Egito. Ca­ mento. Ele estava com 80 anos de idade quando
naã servia como uma ponte de terra entre o Egito Deus o comissionou para libertar os israelitas, e
e grandes impérios do norte. Exércitos marcha­ ele guiou o povo de Deus por 40 anos. Podemos
vam atravessando aquela terra e lutavam em seus aprender muito a partir da vida de Moisés, e isto
montes e vales. Se os israelitas tivessem permane­ acontecerá ao lermos Êxodo, Levítico, Números e
cido em Canaã, jamais poderiam ter aumentado a Deuteronômio. O Novo Testamento diz que Moisés
base da população necessária para estabelecer uma foi “fiel, em toda a casa de Deus” (Hb 3.5, ARA).
nação. Podemos descobrir muito a respeito da fidelidade
Êxodo 1— 4

nestas histórias reveladoras sobre Moisés, contadas Novamente podemos nos identificar com Moisés.
em Êxodo 32— 33, e Números 12, 16 e 21. Ao envelhecermos, e descobrirmos as nossas limi­
tações, os sonhos da juventude desaparecem. Não
“A filha de Faraó... o adotou” (Êx 2.1-10). Esta seremos famosos. Ou descobriremos a cura para o
frase simples nos faz lembrar que Moisés, achado câncer. Ou nos tornaremos um evangelista bem
por uma princesa, foi adotado pela família real do conhecido. Enquanto a nossa antiga autoimagem
Egito. Como filho da princesa, Moisés pode até encolhe, percebemos que estamos menos dispostos
mesmo ter reivindicado o trono do Egito! Estevão a arriscar. Em vez de oportunidades, vemos pro­
repetiu uma tradição oral correta quando disse que blemas. Em vez de tentar, pensamos em todos os
“Moisés foi instruído em toda a ciência dos egíp­ motivos que podem nos levar a fracassar.
cios e era poderoso em suas palavras e obras” (At Isso é o que aconteceu a Moisés. Nem mesmo as
7.22). promessas de Deus foram suficientes para mudar
Apesar de suas vantagens, Moisés identificou-se uma percepção que tinha se desenvolvido durante
com o seu povo oprimido e seu Deus. Hebreus 40 anos de fracasso. No entanto, em certo sentido,
11.24,25 diz que “Pela fé, Moisés, sendo já gran­ foi a consciência que Moisés adquiriu de sua fra­
de, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, queza que o tornou qualificado para o propósito
Escolhendo, antes, ser maltratado com o povo de de Deus! Moisés tinha finalmente percebido que
Deus do que por, um pouco de tempo, ter o gozo não havia nada que ele pudesse fazer. Agora tudo o
do pecado”. que Moisés precisava saber era que Deus pode fazer
Esta é certamente uma fonte da grandeza de Moi­ qualquer coisa!
sés. As suas prioridades não foram formadas pela O mesmo ocorre com você e comigo. E saudável
riqueza ou pelo privilégio. Ele verdadeiramente se reconhecer as nossas fraquezas. Mas não precisa­
importava com Deus e com o seu povo. mos insistir nelas. O que realmente precisamos
fazer é fixar os nossos olhos no Senhor, e lembrar
“Ele feriu o egípcio” (Êx 2.11-24). Apesar da preo­ que não há nada difícil demais para Ele. Qualquer
cupação de Moisés com o seu povo, ele aparente­ tarefa para a qual Deus possa nos chamar será uma
mente hesitou até ter 40 anos. Então, quando Moi­ tarefa que Ele poderá realizar através de nós.
sés viu um egípcio ferindo um hebreu, ele primeiro
olhou “a uma e a outra banda, e vendo que nin­ “Que é isso na tua mão?” (Êx 4.1-9). Moisés conti­
guém ali havia”, matou o egípcio (v. 12). Moisés nuou a fazer objeções, pondo em evidência as suas
estava despreparado para tomar publicamente uma fraquezas em vez da força de Deus. Finalmente
posição junto aos hebreus, ou para liderar uma re­ Deus lhe deu três sinais miraculosos, cuja finali­
volta de escravos. dade era servirem de evidência aos israelitas de que
Podemos nos solidarizar com Moisés. Como al­ Deus verdadeiramente tinha enviado Moisés.
guém pode representar um povo oprimido aos seus Os sinais não foram espetaculares. E Deus escolheu
opressores? Entretanto, quando uma ira justa é ex­ coisas simples — a vara dejpastor que Moisés carre­
pressa com atos hostis, pouco é conquistado. gava. A sua própria mão. Água do rio.
Mas o que me impressiona de um modo especial
“Quem sou eu?” (Ex 3.1-22). Quando Deus falou é a frase “na tua mão”. Deus tomou aquilo que
com Moisés da sarça que ardia no fogo, e não se Moisés já possuía e transformou.
consumia, o homem de 80 anos parecia muito di­ Podemos não fazer milagres. Mas Deus ainda toma
ferente do agitador irado de 40 anos. Quatro dé­ e usa aquilo que temos na mão para convencer os
cadas de vida no deserto tinham tornado Moisés outros de que Ele é real.
humilde. Aquele que uma vez foi príncipe do Egito
e que sonhava grandes sonhos havia aprendido que “Eu endurecerei o seu coração” (Êx 4.18-23). Antes
tinha as suas limitações. Quando Deus disse, “Eu Deus havia feito repetidas promessas a Moisés.
te enviarei a Faraó”, Moisés respondeu: “Quem sou Agora Ele dá ao seu servo um aviso. Por quê? As
eu, que vá a Faraó e tire do Egito os filhos de Is­ vezes os seres humanos entendem as promessas de
rael?” Deus de uma forma equivocada. Presumimos que
O restante da passagem, que narra o diálogo de Deus tomará a nossa vida fácil e removerá todos os
Moisés com o Senhor, mostra como Moisés era obstáculos do nosso caminho. Mas as promessas de
hesitante. Moisés expôs a Deus dificuldade após Deus nunca sugerem isso! Em vez disso, as promes­
dificuldade — um padrão que continua em Êxodo sas de Deus expressam o seu compromisso de estar
4 apesar das repetidas promessas de Deus de estar conosco e nos ajudar, mesmo quando os obstáculos
com Moisés, e de lhe trazer sucesso. forem os maiores possíveis! É somente quando en­
48
Êxodo 1—4

frentamos e passamos pela dor e pela tragédia que Mas por que era tão importante que os filhos de
experimentamos a fidelidade de Deus. Moisés fossem circuncidados? Porque Moisés seria
um líder. Um líder espiritual em qualquer época
“O Senhor... o quis matar” (Ex 4.24-26). Este even­ deve ser, ele próprio, obediente a Deus.
to confuso ensina uma lição importante. Séculos Para sermos usados por Deus, devemos, em pri­
antes, Deus havia ordenado que os descendentes meiro lugar, ser sensíveis a Ele.
homens de Abraão deveriam ser circuncidados
como um sinal de que eram membros da comu­ “E o povo creu” (Ex 4.27-31). Os israelitas recebe­
nidade da aliança (Gn 17.9-14). Moisés ainda não ram bem a Moisés e creram em sua promessa de
tinha circuncidado os seus próprios filhos. Parece libertação. Isso deve ter sido incentivador para
provável que Zípora, sua mulher, tenha se oposto a Moisés. Mas esta resposta adiantada, como é fre­
isso, pois quando Moisés passou por uma situação quentemente o caso, logo se transformaria em acu­
mortal ela aparentemente sabia o motivo, e agiu sações raivosas quando as coisas não funcionaram
imediatamente para circuncidar os seus dois filhos. como o povo de Deus esperava.
A sua ira subsequente (Ex 4.25) sugere que ela ti­ A fé que conta é a fé que persiste, mesmo quando
nha sido contra o ritual. as coisas parecem estar na direção errada.

DE V OCION AL_______
Deus se Revela “Eu estenderei a minha mão e... [farei] maravilhas”
(Êxodo 3) (v. 20). _
Quando Moisés hesitou, temeroso, na soleira “Eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás
da porta do compromisso, Deus lhe disse o seu de falar” (4.12).
nome. Como Moisés poderia saber que Deus manteria
Nos tempos bíblicos, cada nome tinha o seu signi­ as suas promessas? O nome disse a ele. Deus é o
ficado. Eles tinham a intenção de transmitir algo grande EU SOU. Pelo fato de estar sempre presen­
da identidade, da essência, da coisa ou da pessoa te com o seu povo, Deus pode cumprir em nosso
que o recebia. Assim quando Deus disse a Moisés presente toda promessa feita em nosso passado.
o nome pelo qual Ele deveria ser conhecido “eter­ Quando Deus disse a Moisés “este é meu nome
namente” — o nome pelo qual “serei lembrado de eternamente”, Ele estava falando com você e co­
geração em geração” (v. 15, ARA) — esta revelação migo tanto quanto com o seu profeta. Deus verda­
foi significativa. deiramente é aquEle que está sempre presente. Ele
O nome revelado do Senhor foi “EU SOU”. Nós está com você hoje. Ele estará com você amanhã. E
o conhecemos como Jeová ou Javé. Toda vez que pelo fato de Deus SER, toda promessa que Ele nos
a maioria das versões em português apresenta fez em Cristo certamente se cumprirá.
SENHOR, no hebraico lê-se “EU SOU”.
Este nome é formado pelo verbo hebraico “ser”, e Aplicação Pessoal
pode ser melhor entendido como significando “O Houve um momento ou situação em que você pre­
Deus que está sempre presente”. Deus, que este­ cisou agarrar-se ao fato de que Deus Ê, e que Ele
ve com Abraão séculos antes, estava presente com está presente com você?
Moisés e com a geração do Êxodo. Deus, que os
libertou então, também estaria presente com todas Citação Im portante
as gerações seguintes! No passado, no presente, e “Se eu pudesse lhe dar alguma informação sobre a
no futuro, DEUS Ê! Aquele que esteve com Moisés minha vida, tentaria lhe mostrar como uma mu­
está com você e comigo ainda hoje. lher de habilidades comuns foi levada por Deus,
Estes capítulos de Exodo nos ajudam a ver por que por caminhos estranhos e incomuns, a servi-lo de
este nome de Deus é tão importante. Quando Moisés acordo com aquilo que Ele fez em sua vida. E se eu
hesitou em responder ao Senhor, Deus lhe deu uma pudesse dizer tudo, você veria como Deus fez tudo,
série de promessas. Note cada uma delas no texto. e eu nada. Eu trabalhei arduamente, sim, de uma
“Eu serei contigo” (v. 12). forma árdua demais, porém isso é tudo; e jamais
“E ouvirão a tua voz” (v. 18). recusei nada a Deus.” — Florence Nightingale

49
Êxodo 5— 11

16 D E JANEIRO LEITURA 16 Faraó da mesma maneira que o sol endurece os tijo­


DEUS REVELA O SEU PODER los. Deus não endureceu o coração do Faraó contra
Êxodo 5— 11 a vontade do Faraó. Se o coração do Farão tivesse
sido como a cera em vez de como o barro, ele teria
“Quem é o Senhor, cuja voz eu ouvirei, para deixar ir amolecido em vez de ter endurecido quando Deus
Israel? Não conheço o Senhor, nem tampouco deixarei se revelou mais completamente.
ir Israel” (Êx 5.2). Se os nossos corações forem como cera, responde­
remos positivamente a Deus assim que Ele falar co­
Nos tempos antigos os deuses de uma nação eram nosco. Se os nossos corações forem como o barro,
reconhecidos pelos sucessos da mesma. Quanto mais
poderosa a nação, maior os seus deuses pareciam ser.
Mas nestes capítulos o Deus dos escravos israelitas
— o nosso Deus! — é mostrado como sendo muito
mais poderoso do que os deuses da maior nação que
havia sobre a terra.
Definição dos Termos-Chave
Milagres. As palavras hebraicas usadas para descrever
as pragas que Deus trouxe sobre o Egito significam
“maravilha” e “sinal miraculoso”. A maior parte das
10 pragas consistiu de desastres naturais que haviam
ocorrido em algum momento no Egito. No entanto,
três coisas inequivocamente os marcaram como mi­
raculosos: (1) Sua intensidade. Os desastres foram
muito maiores do que o normal. (2) Seu tempo. Os
desastres vieram e foram embora por ordem de Moi­
sés. (3) Seu motivo. Vários dos desastres ocorreram
apenas nos territórios egípcios, deixando intocadas
as áreas ocupadas pelos israelitas. Se Deus usou ou
não forças naturais para trazer os juízos, o fato é que
os egípcios que sofreram sob o domínio deles foram
forçados a reconhecer o poder do Deus de Israel.
Visão Geral
Faraó rejeitou a ordem de Moisés e aumentou os
trabalhos exigidos dos seus escravos israelitas (5.1-
21). Deus prometeu agir para remir o seu povo (v.
22— 7.5). O poder de Deus foi liberado em uma
série de nove milagres que atingiram o Egito, de­
vastando aquela terra (v. 6— 10.29). A praga final e
decisiva tirou a vida de todo primogênito macho no
Egito (11.1-10).
Entendendo o Texto
O coração duro do Faraó. Estes capítulos falam fre­
quentemente da condição “dura” do coração do
Faraó. A imagem sugere uma teimosa resistência a
Deus. O texto bíblico fala do Faraó endurecendo o
seu coração (8.15), de Deus endurecendo o coração
do Faraó (7.3), e do endurecimento do seu coração quais são mostrados aqui. As pragas de Deus foram diri­
(w. 14,22). Para entender, precisamos apenas per­ gidas contra o deus do Nilo, cujas águas mataram em vez
guntar: O que Deus fez para endurecer o coração de sustentarem a vida (7.14-24); contra a deusa da nata­
lidade, Heqt, cujas rás simbólicas se tornaram montões
do Faraó? podres que simbolizavam a morte (8.1-15); e contra o
A resposta é que Deus revelou o seu poder de forma deus sol, Rá, cuja impotência foi mostrada quando Deus
cada vez mais plena. Deus endureceu o coração do impôs três dias de absoluta escuridão (10.21-29).
50
Êxodo 5— 11

seremos como o Faraó. Quanto mais Deus falar co­ que Deus havia lhe dado, os magos egípcios os du­
nosco, mas duros nos tornaremos, até que finalmen­ plicaram. Alguns sugerem que os magos do Egito
te Deus seja forçado a nos quebrar. usaram trapaças. Os encantadores de cobras até
mesmo hoje fazem com que as cobras se tornem
“Agrave-se o serviço sobre estes homens” (Ex 5-1- enrijecidas pressionando um nervo em seus pesco­
21). O pedido de Moisés para que o Faraó li­ ços. Eles então as lançam no chão para provocá-las.
bertasse Israel para uma peregrinação tem porá­ Outros acreditam que os “encantamentos” dos ma­
ria foi desdenhosamente rejeitado pelo Faraó, gos do Egito eram mágicas reais, executadas com a
que zombou do Deus dos escravos (v. 2). Ele ajuda demoníaca. Neste caso a confrontação entre
ordenou que a cota de tijolos dos escravos fosse Moisés e os magos do Egito era um verdadeiro teste
mantida, mas que eles fossem forçados a colher dos recursos sobrenaturais.
a palha, que antes era fornecida. Palha picada Realmente não importa. Logo Deus começou a
era adicionada ao barro usado na fabricação de executar atos tão poderosos que até mesmo os ma­
tijolos. As substâncias químicas presentes na gos do Egito disseram a Faraó: “Isto é o dedo de
palha criavam um tijolo mais duro e de maior Deus” (8.19).
durabilidade. Em nossos dias, os seres humanos também tentam
A resposta espantou os israelitas e a Moisés. Eles duplicar as obras de Deus. Hospitais prometem
tinham esperado uma vitória fácil porque Deus curas para o abuso de substâncias. Psiquiatras ofe­
estava do lado deles! Ao ver que não ocorreu uma recem liberdade para os que têm sentimento de
vitória fácil, o povo se encolerizou contra Moisés culpa. Em certos casos eles até mesmo parecem ser
eArão (v. 21). bem-sucedidos! Contudo, a verdadeira libertação
Devemos nos guardar das expectativas não realis­ de toda dependência, e o perdão transformador
tas. Em Salmos 37.7 está escrito: “Não te indignes de vidas, permanecem sendo obras de Deus. Faraó
por causa daquele que prospera em seu caminho, não estava disposto a ver a diferença entre o que
por causa do homem que executa astutos inten­ os seus magos puderam fazer e o que Deus podia
tos”. Quando isso ocorrer, em vez de entrar em fazer. Precisamos estar cientes desta diferença, e de­
pânico, devemos descansar no Senhor e esperar pender do “dedo de Deus”.
pacientemente nEle (v. 7).
“Eu separarei a terra de Gôsen” (Ex 8.22). Uma ca­
racterística distintiva das diversas pragas é que elas
As Dez Pragas caíram somente sobre os territórios ocupados pe­
O Nilo transformado em sangue 7.14-24 los egípcios. Os territórios hebreus permaneceram
imunes. Isso claramente demonstrou a natureza
Rãs infestam a terra 8.1-15 miraculosa das pragas. Também deixou claro aos
Piolhos enchem o Egito 8.16-19 israelitas que eles eram, verdadeiramente, o povo
especial de Deus.
Moscas invadem os territórios 8.20-32
egípcios em enxames “Quem... temia a palavra do Senhor fez fugir os seus
A peste devasta os animais do 9.1-7 servos e o seu gado para as casas” (Ex 9.20). O ver­
Egito sículo nos faz lembrar de que os egípcios, como
alguns têm sugerido, não sofreram inocentemen­
Úlceras rebentam em todos os 9.8-12 te pelo pecado do Faraó. Eles participaram, como
egípcios exatores, de outras maneiras, da opressão de Israel.
Saraiva destrói as plantações 9.13-35 Ninguém que vê o mal e permanece calado pode
egípcias ser considerado isento de culpa.
Mesmo assim, Deus divulgou os decretos de juízo
Gafanhotos devoram toda a 10.1-20 de Moisés para que aqueles que viessem a respei­
vegetação tar o Deus dos escravos pudessem proteger os seus
Trevas caem sobre os egípcios 10.21-29 bens. Deus é bom para com os culpados que se ar­
rependem, e misericordioso para com todos aque­
Primogênitos machos do Egito 11.1-10 les que respondem positivamente à sua palavra.
morrem
“Esta vez pequei” (Ex 9.27). Quando falei com
“Seus encantamentos” (Êx 6.28— 7.24). Quando Charlie pela última vez, ele estava deitado em
Moisés mostrou ao Faraó os sinais autenticadores uma cama de hospital com duas pernas quebra­

51
Êxodo 5— 11

das. Ele tinha se deitado bêbado em uma sarjeta próxima geração, e através dele o nome da famí­
do Brooklyn e foi atropelado por um caminhão. lia fosse preservado. As leis de herança refletem a
Charlie era como Faraó. Quando as coisas se vol­ importância do filho primogênito: ele recebia no
taram contra ele, ele se voltou oralmente a Deus. mínimo o dobro da porção dos outros filhos da
Mas tão logo o problema desapareceu, lá estava ele família.
de volta à sarjeta. Assim a morte de todo primogênito no Egito foi
Faraó era úm “convertido de leito de morte”. uma perda espantosa. Somente esta praga final e
Quando estava em aflição, ele pediu oração. Mas devastadora iria finalmente forçar o Faraó a libertar
quando cada praga foi retirada, Faraó voltou para os seus escravos.
os seus velhos caminhos. Poderíamos ver as pragas sobre o Egito como uma
Vale a pena destacar o que Faraó disse em cada con­ série de crescentes castigos dolorosos. Se o Faraó
frontação com Moisés. Observe que cada expressão tivesse cedido em qualquer etapa, ele poderia ter
de arrependimento foi inútil. Como sabemos? En­ evitado os problemas mais sérios que se seguiram.
tendemos o que havia em seu coração observando Porém, pelo fato do Faraó ter se mantido duro, a
o que ele fez quando cada praga foi removida. penalidade definitiva foi finalmente imposta.
Falar é insignificante. As palavras de arrependi­ Os juízos de Deus são frequentemente misericor­
mento, sem uma mudança na vida, são tão vazias diosos, exatamente desta maneira. Eles somente se
quanto às promessas do Faraó. tornam mais severos quando continuamos a resistir
a Ele. Quando sentimos a mão disciplinadora de
“Todo primogênito na terra do Egito morrerá” (Êx Deus sobre nós, é sábio nos rendermos imediata­
11.1-10). No mundo bíblico o primogênito era mente. Por que Deus deveria golpear aquilo que é
especial. Esperava-se que ele liâerasse a família na mais valioso para nós antes de respondermos?

DEVOCIONAL______
A Poderosa Mão de Deus Quando todas as nossas vitórias são fáceis, é muito
(Êx 5.22— 6.27) provável que percamos Deus de vista. Mas quan­
Quando o Faraó aumentou a carga sobre os isra­ do tudo é muito sombrio e sem esperança a ponto
elitas, Moisés ficou tão indignado quanto o povo. de estarmos prestes a desistir, e então o livramento
Mas a sua resposta na situação foi mais espiritual. aparece de repente, sabemos que o que aconteceu
Ele não culpou os outros. Em vez disso Moisés foi a veio do Senhor. Frequentemente Deus faz com que
Deus para expressar a sua ira e a sua confusão. o livramento demore, não porque Ele queira que
Podemos sentir ambas as emoções na oração de Moi­ continuemos sofrendo, mas porque Ele quer que
sés. “Senhor! Por que fizeste mal a este povo? Por que reconheçamos a sua mão quando Ele age.
me enviaste? Porque, desde que entrei a Faraó para
falar em teu nome, ele maltratou a este povo; e, de Aplicação Pessoal
nenhuma maneira, livraste o teu povo”. Como a experiência de Moisés fala às suas próprias
E errado culpar os outros quando as coisas não dão frustrações e ira?
certo. Não é errado falar livremente ao Senhor. Ao
expressar as suas emoções, Moisés demonstrou que Citação Im portante
estava disposto a ser totalmente honesto consigo “Você ouvirá homens dizerem que nos tempos
mesmo e com o Senhor. E ao se dirigir a Deus, antigos’ as pessoas criam em milagres ‘p orque elas
Moisés reconheceu a soberania e o poder do Se­ não conheciam as leis da Natureza”’. Um momen­
nhor. Moisés não questionou se Deus poderia res­ to de reflexão mostra que isso é uma grande toli­
gatar Israel. Ele exclamou com frustração, questio­ ce. Se não se sabia que os eventos eram contrários
nando, “Por que ainda não?” às leis da natureza, como poderiam sugerir a pre­
Você e eu, que cremos em Deus, às vezes sentimos sença do sobrenatural? Como eles poderiam ser
a mesma ira e frustração que Moisés conhecia. Tais surpreendentes a menos que fossem vistos como
sentimentos não sugerem necessariamente falta de exceção à regra? E como algo pode ser visto como
confiança. Mas levantam a questão do tempo cer­ uma exceção até que as regras sejam conhecidas?
to. Por que ainda não? Se houvesse homens que não conhecessem de for­
Deus dá a Moisés a sua resposta em Êx 6.1-8. Deus ma alguma as leis da natureza, eles não fariam a
libertará com “juízos grandes” e “sabereis que eu menor ideia de um milagre, e não sentiriam ne­
sou o Senhor, vosso Deus”. nhum interesse específico por ele, mesmo que um
52
Êxodo 12.1— 15.21

milagre fosse realizado. “A crença em milagres, 30). Na manhã seguinte o povo de Deus deixou a
longe da dependência da ignorância das leis da terra do seu cativeiro (w. 31-51). Os primogênitos
natureza, só é possível à medida que estas leis sáo de Israel foram separados para Deus em honra ao
conhecidas.” — C. S. Lewis livramento no Êxodo (13.1-16). Israel passou com
segurança pelo mar Vermelho (v. 17— 14.31), e
17 D E JANEIRO LEITURA 17 Miriã liderou as mulheres em um canto de louvor
A VITÓRIA DE DEUS a Deus pelo seu compromisso para com o seu povo
Êxodo 12.1— 15.21 (15.1-21). Entretanto, três dias depois os israelitas
questionaram o compromisso de Deus com eles
“Não temais; estai quietos e vede o livramento do Se­ (w. 22-27).
nhor, que hoje vosfará” (Êx 14.13).
Entendendo o Texto
A grande celebração da Páscoa convoca toda fa­ “Nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpé­
mília judaica para juntos participarem da come­ tuo” (Êx 12.1-30). A Páscoa é a primeira de várias
moração anual do livramento que Deus concedeu festas religiosas anuais ordenadas por Deus. A
aos seus antepassados no Egito. A história contada Páscoa é a celebração da liberdade de Israel: uma
nestes capítulos retrata a vitória final de Deus sobre comemoração anual ao Deus que exerceu o seu po­
os deuses do Egito, a travessia de Israel pelo Mar der para arrancar um povo escravo das garras dos
Vermelho, e o cântico de louvor de Israel. senhores opressores. .
Não é suficiente pensarmos de vez em quando naquilo
Definição dos Termos-Chave que Deus fez por nós. Precisamos separar momentos
Páscoa. A Páscoa é (1) um evento histórico, e (2) regulares para lembrar. Celebrar a obra de Deus em
uma festa judaica anual comemorando o evento. nós e por nós é tão importante agora quanto celebrar
Na primeira Páscoa, um cordeiro, que havia sido a Páscoa era importante para o povo judeu.
levado para casa por três dias, era morto e o seu
sangue era espargido do lado de fora dos umbrais “Pães asmos” (Êx 12.17). Este é o pão que não teve
das portas. A carne era assada e o cordeiro era co­ a oportunidade de crescer. Nenhuma levedura ou
mido pela família na noite em que Deus tirou a qualquer agente de fermentação é permitido em
vida dos primogênitos do Egito. um pão asmo.
O ponto alto da festa anual é uma ceia comemora­ Os judeus modernos usam pães em forma de bis­
tiva compartilhada pelos membros de uma família coito durante a semana da festa da Páscoa. O pão,
judaica. A participação nesta ceia deveria ser “por como a ceia da Páscoa, serve como uma forma de
estatuto para vós e para vossos filhos, para sempre” lembrar o evento do passado, pois os israelitas par­
(Êx 12.24). O propósito da ceia é permitir que to­ tiram do Egito com tanta pressa que não houve
das as gerações compartilhem daquilo que Deus fez tempo para deixar o pão crescer.
pelos seus antepassados. De um modo real, aquela
primeira Páscoa trouxe a liberdade da servidão não “Apressando-se epartindo”(Êx 12.31-51). Quando o
apenas para uma geração de judeus, mas para todas Faraó percebeu que todos os primogênitos do Egi­
as gerações que se seguiram. to haviam morrido, ele rogou que os hebreus par­
Deuteronômio 16.2, 5-7 estabelece a Páscoa como tissem. A população geral estava tão ansiosa para
uma celebração nacional, como também familiar, que eles fossem embora que “emprestaram” a Israel
para ser marcada por uma semana inteira de sacri­ todo o ouro, prata e roupas que eles solicitaram.
fícios e regozijo público. Não haveria nada em que pudessem gastar uma ri­
A ceia que Jesus compartilhou com os seus discípu­ queza como esta no deserto. Mas posteriormente
los na noite anterior à sua crucificação foi a Páscoa o povo de Israel doou boa parte desta riqueza para
(cf. M t 26; Mc 14; Lc 22; Jo 13.1). ser usada na confecção do Tabernáculo, a casa de
Os escritores das epístolas veem o cordeiro da Pás­ adoração portátil de Israel.
coa como um símbolo de Jesus, que foi “sacrificado
por nós” e cujo sangue nos liberta da escravidão do “Santifica-me todo primogênito” (Êx 13.1). A cele­
pecado e da morte (cf. Jo 1.29; 1 Co 5.7). bração da liberdade está intimamente ligada a um
novo senso de obrigação de Israel. Pelo fato de
Visão Geral Deus ter poupado os primogênitos de Israel, todo
O sangue de cordeiros nos umbrais das portas dos futuro primogênito pertenceria a Ele!
israelitas os protegeu na noite em que Deus tirou Você e eu recebemos uma liberdade ganha com o
a vida de todos os primogênitos do Egito (12.1- preço do sangue de Cristo. E apropriado, uma vez
53
Êxodo 12.1— 15.21

que Ele deu a si mesmo por nós, que nos entregue­ Circunstâncias desesperadoras levaram Moisés a
mos a Ele. tranquilizar Israel. Ele os convocou a permane­
Quando nos lembramos do que Deus fez por nós, cerem firmes e a observarem o que Deus faria. As
somos motivados a perguntar o que podemos fa­ vezes, podemos nos encontrar em circunstâncias
zer por Deus. E importante nunca inverter esta desesperadoras. Quando isso acontecer, também
ordem. Frequentemente tentamos agradar a Deus precisamos permanecer firmes, e esperar que
a fim de que Ele seja prestativo a nós. Entretanto, Deus aja.
em vez disso, já somos obrigados a ser prestativos a A fé de Moisés não esmoreceu. As águas que se
Ele por causa da salvação que Ele nos deu! O bem dividiram para que Israel passasse, envolveram o
pode expressar o amor pelo Deus que nos salvou, exército egípcio, matando todos os soldados. As
mas jamais pode servir como um suborno para al­ circunstâncias não devem gerar temor, ou mes­
cançarmos o favor de Deus. mo nos tornar hesitantes. Certamente nenhuma
circunstância deveria causar pânico desde que te­
“Uma coluna defogo” (Ex 14.1-31). Deus, de forma nhamos buscado e tentado seguir a instrução de
sobrenatural, guiou o seu povo através do apareci­ Deus. Ele continua sendo capaz de nos conduzir
mento de uma coluna de nuvem e de uma coluna por um caminho seguro pelo meio do mar.
de fogo que ia à frente deles ou permanecia aguar­
dando sobre o arraial. Os israelitas tinham uma “O Senhor, quem é como tu entre os deuses? (Ex
indicação clara, visível e inequívoca do que Deus 15.11). O livramento estimulou Moisés a compor
queria que eles fizessem. um cântico. O cântico, que relembrava o que Deus
Apesar de uma indicação tão clara, os israelitas fi­ havia feito, tinha o propósito de ser uma ferramen­
caram apavorados quando a coluna os guiou para ta de ensino e um instrumento de louvor. A música
aquilo que parecia ser uma armadilha à beira de um pode nos servir da mesma maneira. A melodia de
grande corpo de água. (Ninguém tem certeza do que um hino familiar, ou a lembrança das suas palavras
era este corpo de água, como é lido no hebraico yom durante um dia difícil, nos fazem lembrar da pre­
suph, geralmente entendido como “mar de junco”.) sença de Deus e do seu poder.

DEVOCIONAL______
Celebre com Cânticos samente no passado irá conduzir o povo que remiu.
(Êx 15.1-16) Ele continuará a usar o seu poder até que introduza
A nossa filha Sara de nove anos já está aprendendo e plante o seu povo “no monte da sua herança”.
as melodias e as letras de músicas populares. Temos Você e eu podemos decidir encher nossas casas e
que tomar cuidado com os artistas que ela escu­ nossos pensamentos com melodias que celebrem o
ta e as letras que ela ouve. De alguma forma os que Deus fez, quem Ele é, e o que Éle certamente
pensamentos colocados em uma música acham um fará por nós. Esta é uma das coisas mais importan­
caminho fácil para dentro do coração e da mente. tes que podemos fazer pelos nossos filhos, como
Esta é uma razão de estarmos tão satisfeitos pelo também pelo nosso próprio crescimento espiritual
fato de Sara estar no coral infantil da igreja. Ela e nossa paz de espírito.
canta pela casa as músicas que está aprendendo lá,
e as letras das músicas cristãs também estão encon­ Aplicação Pessoal
trando um lar no coração dela. Verifique a música cristã disponível em sua livraria
O cântico que Moisés compôs, registrado aqui nes­ cristã local.
ta passagem, compreende três aspectos do tipo de
música que devemos ouvir. Citaçáo Im portante
O cântico de Moisés celebra o que Deus fez. Vemos “Se alguém lhe falasse sobre o caminho mais curto
este tema nos versículos 1-10. Como um guerreiro, e mais certo para toda a felicidade e toda a per­
majestoso em seu poder, Deus agiu para arremessar feição, esta pessoa deveria lhe falar sobre agrade­
os carros e o exército de Faraó dentro do mar. cer e louvar a Deus por todas as coisas que lhe
O cântico de Moisés celebra quem Deus é. Vemos acontecem. É certo que se você agradecer e lou­
isso no versículo 11. Deus é “glorificado em santi­ var a Deus por toda calamidade aparente que lhe
dade, terrível em louvores, operando maravilhas”. acontecer, você a transformará em uma bênção.
O cântico de Moisés celebra o que Deus fará pelo Se você pudesse realizar milagres, eles não seriam
seu povo crente. Este Deus que operou tão podero- tão grandes quanto aquilo que você poderia fazer
54
Êxodo 15.22— 19.25

por si mesmo através deste espírito de gratidão. drões claros, serviu para tornar os israelitas respon­
Ele cura e transforma em felicidade tudo aquilo sáveis por suas ações, e deu a Deus a base sobre
em que toca.” — William Law a qual Ele poderia disciplinar o seu povo quando
errassem.
18 D E JANEIRO LEITURA 18 Hoje Deus trata conosco em sua graça. Mas Ele é
- INTENÇÕES DE DEUS sábio demais e amoroso demais para nos dar tudo
Êxodo 15.22— 19.25 o que queremos ou que pensamos que precisamos.
Deus continua a disciplinar os cristãos, não para
“Porque toda a terra é minha. E vós me sereis reino nos punir, mas para nos guiar. Hebreus 12.10 diz
sacerdotal epovo santo” (Êx 19.5,6). que Ele nos corrige “para nosso proveito, para ser­
mos participantes da sua santidade”.
A insatisfação e a contenda dos israelitas em relação
à jornada em direção ao Sinai demonstram o quan­ “Se ouvires atento a voz do Senhor” (Êx 15-26,27).
to este povo estava longe da nação santa que Deus O princípio da recompensa pela obediência, intro­
queria que eles fossem. duzido aqui, é válido em todas as épocas. Mas a
promessa específica — que a obediência preserva­
Visão Geral ria das doenças — foi feita a Israel, a você e a mim.
Israel murmurava (15.22-27) e, embora Deus Entretanto, alguns entendem que a experiência de
tenha providenciado carne e maná (16.1-36), o Paulo (2 Co 12.1-10) nos mostra que os cristãos
povo tentava a Deus (17.1-7). No entanto, Deus podem ou não ser curados por Deus, e o Senhor
concedeu uma vitória militar (w. 8-16), e Moisés pode usar as enfermidades físicas para alcançar pro­
compartilhou a responsabilidade pela solução das pósitos espirituais em nossas vidas, inclusive o de
disputas (18.1-27). Eles chegaram ao Sinai, onde levar-nos para a eternidade.
Deus revelou a sua santidade e anunciou a sua in­
tenção de fazer deste povo insensível uma nação “Maná e codornizes” (Êx 16.1-36). Alguns sugerem
santa (19.1-25). que o maná era, na verdade, a excreção de uma
planta do deserto, a tamargueira, que cai no chão e
Entendendo o Texto endurece formando uma substância doce. O maná,
“O povo murmurou contra Moisés” (Ex 15.22-25). porém, foi o produto de um milagre. Foi produ­
A euforia pela vitória contra os egípcios desapare­ zido o suficiente para alimentar milhões; estava
ceu rapidamente quando, após três dias no deser­ disponível em todo lugar que o povo ia durante o
to, apenas água amarga e alcalina foi encontrada. período de cerca de 40 anos; ele aparecia somente
Moisés orou a Deus, que lhe mostrou como tornar seis dias por semana. E, diferente do produto da ta­
a água doce. margueira, o maná criava bichos quando guardado
O incidente estabeleceu um padrão que foi repeti­ de um dia para o outro, derretia, era de cor branca,
do na jornada até o Sinai. (1) Algo causa insatisfa­ e com ele podia-se fazer bolos.
ção. (2) O povo murmura contra Moisés e Deus. Na Escritura, o maná serve como um símbolo da
(3) Deus responde misericordiosamente e provê provisão de Deus. O Senhor conhece as nossas ne­
o que o povo precisa ou quer. (4) Em vez de ser cessidades básicas e age para atendê-las.
agradecido, o povo se torna mais insatisfeito e mais
rebelde (veja também 16.1-12; 17.1-7). “Cada um colheu tanto quanto podia comer” (Ex
Há algum tempo atrás a criação “permissiva” de fi­ 16.18). É significativo que o maná não aparecia na
lhos era popular. A teoria era, deixe que a criança panela, mas no chão, onde as pessoas tinham que
faça o que quiser, e a sua beleza natural se abrirá colhê-lo. Deus provê, mas espera que trabalhemos
como as pétalas de uma flor. O único problema era para consegui-lo.
que esta criação permissiva produzia adultos ego­ E significativo que o maná aparecia diariamen­
ístas, improdutivos, e insatisfeitos, assim como a te. Jesus ensinou os seus discípulos a pedirem
permissividade que Deus mostrou durante a jorna­ a Deus Pai o seu “pão” cotidiano. Deus atende
da de três meses em direção ao Sinai permitiu que as nossas necessidades dia a dia, para que con­
os israelitas se tomassem mais insatisfeitos e mais tinuemos a depender dEle. Se Deus colocasse
rebeldes. A graça sem a responsabilidade, como o 10 milhões de dólares na nossa conta bancária,
amor sem a disciplina, não promove a santidade. teríamos pão para a “vida toda”, e não teríamos
O comportamento dos israelitas na viagem em di­ necessidade de recorrer a Ele diariamente. Jesus
reção ao Sinai nos mostra porque Deus considerou quer que os seus discípulos permaneçam depen­
necessário introduzir a Lei. A Lei, com os seus pa­ dentes de Deus, de forma que o busquemos dia-
55
Êxodo 15.22— 19.25

riamente e alimentemos o nosso relacionamento conselho a Deus antes de agirem de acordo com
com Ele diariamente. ele. E quando estivermos dando conselho, não im­
porta quão bom ele seja, precisamos buscar a con­
“Tentais ao Senhor” (Ex 17.1-7). A presença de firmação de Deus antes de agirmos.
Deus era visível a Israel através da coluna de
nuvem e de fogo que os guiava, e no maná que “Tu só não o podes fazer” (Ex 18.17-27). Este capí­
aparecia diariamente. No entanto, quando o povo tulo é frequentemente citado como evidência para
acampou onde náo havia água, eles acusaram a “organização” na igreja. É melhor ver isso como
Moisés de tentar matá-los, e estavam quase a pon­ uma palavra para aqueles que não conseguem parar
to de apedrejá-lo. de trabalhar.
Deus providenciou água. Mas Moisés chamou o Um dos pregadores mais populares da rádio cristã
lugar de Massá (“tentação”) porque o povo ques­ americana dos anos 80 é um viciado em trabalho.
tionou se Deus estava ou não com eles. Ele leva para casa, não maletas, mas caixas de tra­
Quando as aflições sobrevêm, é natural pergun­ balho para fazer nos finais de semana e feriados. Ele
tarmos onde está Deus. Mas devemos nos guardar incentiva os ouvintes a darem prioridade às suas
contra a descrença mostrada por Israel em Massá. famílias, mas o seu ministério tem deixado a sua
Como? Tornando uma prática relembrar todas as própria família fora da sua vida. Como Moisés, ele
coisas boas que Deus fez e está fazendo por nós. precisa ser lembrado de que há “homens capazes”,
Em vez de nos concentrarmos no problema, deve­ “tementes a Deus” e "homens de verdade” nas pro­
mos concentrar a nossa atenção no Senhor. ximidades. Delegar responsabilidades hoje, como
nos dias do Antigo Testamento, não só é sábio, mas
“Agora sei” (Ex 18.1-12). Jetro, sogro de Moisés, correto.
foi até o Sinai encontrar-se com Moisés. Quan­
do Moisés lhe contou o que o Senhor tinha feito “Defronte do monte” (Ex 19.1-25). A manifestação
no Egito, e como o Senhor havia salvado Israel do poder de Deus no monte Sinai é posteriormen­
em sua jornada até o Sinai, Jetro louvou a Deus e te descrita como um “fogo consumidor no cume
disse: “Agora sei que o Senhor é maior que todos do monte” (24.17). Isso teve o propósito de inspi­
os deuses”. rar espanto e temor, e transmitir algo da santidade
Sentar-se com amigos ou parentes e contar o que do Deus de Israel. Apenas Moisés subiria e estaria
Deus tem feito em nossas vidas, ainda é a melhor diante dos trovões e dos relâmpagos que brilhavam
maneira de compartilhar o Senhor com os outros. constantemente, cobrindo o cume do monte.
Hebreus 12.18 descreve o monte como estando
“Se... Deus to mandar”(Ex 18.13-27). Jetro aconse­ “aceso em fogo... [uma visão de] escuridão, trevas,
lhou Moisés a distribuir responsabilidades para re­ e tempestade”. Era tão aterrorizante que até mes­
solver quaisquer disputas que surgissem. Mas Jetro mo Moisés disse: “Estou todo assombrado e tre­
foi cuidadoso ao reconhecer o domínio de Deus mendo” (v. 21).
quando deu o seu conselho. Ele esperava que Moi­ Enquanto os cristãos vão diretamente a Deus atra­
sés consultasse o Senhor para confirmar a sabedoria vés de um Cristo amoroso, algo importante sobre
existente naquilo que ele disse. a natureza de Deus foi comunicado no Sinai. A
Precisamos ter esta mesma atitude quando damos carta aos Hebreus nos faz lembrar que devemos
ou recebemos conselhos. Não importa o quanto servir “a Deus agradavelmente com reverência e
possamos sentir que o nosso conselho seja sábio, piedade; porque o nosso Deus é um fogo consu­
é importante rogar aos outros que apresentem este midor” (w. 28,29).

DE V OCION AL______
M inha Propriedade Peculiar nhos, fariam com que você quisesse colocar a sua
(Êx 19.3-6) casa à venda. Ontem.
E muito fácil ler estes capítulos e se concentrar Contudo, Deus libertou este povo do Egito e, diz
nos defeitos óbvios do caráter de Israel. O povo Ele, “vos trouxe a mim” (v. 4). Deus até diz que Ele
era ingrato. Eles eram rebeldes. Eles eram maldosos escolheu este povo “dentre todos os povos”, para
e hostis. Eles eram egoístas e desprezíveis. Talvez ser a propriedade peculiar.
uma boa maneira de resumir isto é que eles eram A palavra hebraica aqui é significativa. Segullah
um tipo de gente que, se você os tivesse como vizi- significa “propriedade valiosa”, “bem pessoal”, ou
56
Êxodo 20—23

“tesouro particular”. Deus olhou sobre toda a terra, Êxodo 20. Os princípios expressos nos Dez Manda­
e escolheu Israel e disse: “me sereis reino sacerdotal mentos são válidos para todas as pessoas, de todas as
e povo santo” (v. 6). épocas, pois eles refletem a natureza moral de Deus.
Estes poucos versículos nos fazem lembrar das coi­
sas maravilhosas acerca do nosso Deus. Como o Definição dos Termos-Chave
mineiro de diamante que apanha uma pedra bruta Dez Mandamentos. Protestantes, católicos, e judeus
e sem brilho e grita com prazer, Deus sente prazer concordam que há Dez Mandamentos. Mas eles não
em pessoas imperfeitas. Èle sabe que pedras pre­ concordam sobre quais são estes dez! Os protestantes
ciosas, através da sua moldagem e polimento, os tomam Êxodo 20.3 como o primeiro mandamento.
pecadores podem se tornar. Os católicos agrupam os versículos 3-6 como o pri­
Ê difícil para mim e para você termos este prazer meiro mandamento, e dividem o versículo 17 em 2.
em pessoas imperfeitas. Tendemos a ver apenas Os judeus entendem o versículo 2 como o primeiro,
os pontos fracos, a forma sem graça e sem vida. e também agrupam os versículos 3-6.
Quando nos encontramos perto de pessoas que são
como membros da geração do Êxodo, queremos Quatro características. Quatro características dos
levantar e ir embora. Dez Mandamentos devem ser observadas. (1) Cada
O que precisamos fazer é pedir a Deus que com­ um é declarado como sendo absoluto. Outros an­
partilhe a sua perspectiva conosco. Precisamos ver, tigos códigos de lei geralmente listavam os atos e
nas pessoas menos agradáveis, alguém que possa as suas consequências — se você fizer isso, então
ser uma propriedade peculiar de Deus. Alguém a acontecerá aquilo. Devemos seguir os mandamen­
quem Deus possa transformar e tornar belo. Al­ tos de Deus porque eles são corretos, e não por
guém que possa se juntar ao Reino de sacerdotes de medo de castigos. (2) Oito dos 10 mandamentos
Deus, e se tornar um cidadão santo da nação santa são declarados como negativos, mas cada um su­
que Ele pretende criar. gere um positivo. “Não roubarás” claramente nos
Aplicação Pessoal chama a respeitar os direitos de propriedade dos
O primeiro passo para desenvolver a perspectiva de outros. (3) Cada um é dirigido à segunda pessoa
Deus é orar diariamente por outras pessoas imper­ do singular (“tu”). Deus não falou a todo o Israel,
feitas. mas a cada membro individual da comunidade de
crentes. Não podemos garantir que outros obede­
Citação Im portante cerão aos mandamentos de Deus. Mas cada um de
Visto que eu não gosto de você, como posso cum­ nós deve ser responsável por si mesmo. (4) Cada
prir a lei do amor? mandamento é relacional. Os quatro primeiros nos
A sua fala, as suas maneiras, a sua própria imagem mostram como viver harmoniosamente com Deus.
nos meus olhos... Os seis últimos nos mostram como viver harmo­
Todas estas coisas me revoltam... (e não ajuda nada ter niosamente com outras pessoas. Não podemos
a certeza de que você não liga para a minha opinião!) violar os mandamentos de Deus sem prejudicar o
nosso relacionamento com Ele e com os outros.
Desse modo, a cabeça e o coração, com ofensas e
ressentimentos mútuos... Visão Geral
Ficam incandescentes à luz do amor. Mas ambos, Deus deu a Moisés 10 mandamentos básicos reve­
eu acho, devem certamente ser de Deus, e assim lando como expressar o amor a Deus (20.1-11) e às
uma lição pungente diz, outras pessoas (w. 12-21). Leis específicas tratan­
Que a mente deve amar aqueles que o coração se do dos altares (w. 22-26), servos (21.2-11), danos
recusa a amar. pessoais (w. 12-36), e propriedades (22.1-15) se
Ó Deus, me ajude a tentar! — Samuel J. Miller seguiram. Moisés também identificou pecados he­
diondos (w. 16-31), compaixão ordenada (23.1-
19 DE JANEIRO LEITURA 19 9), descanso para a terra, para o homem, e para os
DEUS REVELA A SUA LEI animais (w. 10-13), e estabeleceu três festas reli­
Êxodo 20— 23 giosas (w. 14-19). Deus prometeu fazer o seu povo
próspero se tão somente o adorassem e obedeces­
“E servireis ao Senhor, vosso Deus, e ele abençoará o sem as suas leis (w. 20-33).
vosso pão e a vossa água” (Êx 23.25).
Entendendo o Texto
Os rabinos identificam 613 leis nos escritos de Moi­ “Sairáforro, de graça”(Êx 21.2-11). As leis do Anti­
sés. Os 10 mandamentos básicos estão declarados em go Testamento protegiam cada escravo muito mais
57
Êxodo 20—23

do que outros códigos de lei da época, e requeriam rada entre o criminoso e a sua vítima, e assim o
que um escravo hebreu não servisse por mais de criminoso pagava a restituição.
seis anos. Ele só poderia ser ligado a um senhor Estas leis nos fazem lembrar que quando ferimos
por toda a vida através de sua própria escolha, livre ou prejudicamos os outros, não é suficiente dizer
e pessoal. “Desculpe-me”. Não temos o direito de pedir per­
Esta lei do Antigo Testamento nos ensina que cada dão até que o dano tenha sido reparado, e a resti­
indivíduo deve ser respeitado, seja qual for a sua tuição seja feita. O perdão é de graça. Mas não é
posição social. Nem mesmo os mais fracos deve­ barato.
riam ser oprimidos, mas antes deveriam ser pro­
tegidos. Resoluto e compassivo (Ex 22.16-31). As leis conti­
das nessa passagem parecem quase contraditórias.
“Considerado responsável” (Ex 21.12-36). O man­ Várias claramente exigem a pena de morte — por
damento diz, “Não matarás”. Aqui o texto cita feitiçaria, bestialidade, e idolatria. Outros reque­
vários exemplos específicos mostrando que “Não rem que a máxima compaixão seja mostrada às
matarás” é uma declaração que significa: “Respei­ viúvas e aos órfãos. Os necessitados devem tomar
tarás a vida e o bem-estar dos outros”. As pessoas dinheiro emprestado sem juros. Qualquer um que
que intencionalmente prejudicam outras, ou até tomar uma roupa como garantia de pagamento de
mesmo causam dano a outros por causa da sua dívida deve devolvê-la à noite, para que aquele que
negligência, deverão ser consideradas responsáveis. tomou o dinheiro emprestado possa usá-la como
Até deixar uma cova aberta após ser cavada, onde cobertor.
uma pessoa ou animal possa cair dentro dela, gera As leis “severas” do Antigo Testamento são con­
responsabilidade (w. 33,34). traditórias ao Deus de “compaixão” revelado em
Mais de um médico que parou para ajudar uma outras leis e em Jesus? Absolutamente não. Alguns
pessoa ferida em um acidente automobilístico já pecados corrompem tanto a sociedade, e levam a
foi posteriormente processado por ter agido con­ tantos sofrimentos, que é necessário tomar uma
forme uma prática inadequada. Hoje em dia, mui­ posição firme e resoluta contra eles.
tos estados americanos protegem o profissional que O importante é manter o nosso senso de equilí­
agir assim, através das leis do “Bom Samaritano”. brio. A inflexibilidade sem compaixão é errada,
Contudo, é fácil ver por que tantos hoje apresen­ mas também é uma compaixão que falha em exigir
tam um sentimento de repulsa: “Não quero me responsabilidade.
envolver”. Esta palavra reflete o espírito do nosso Há alguns anos atrás, ninguém questionava o con­
tempo. Mas não reflete o Espírito do nosso Deus. ceito de uma quarentena por ordem médica. Pes­
soas com uma doença contagiosa eram restringidas
“Olho por olho" (Ex 23.24). As pessoas que cau­ às suas casas ou aos sanatórios. Esta “violação dos
sarem um dano sério a outros devem ser conside­ direitos de uma pessoa doente” era aceita por todos
radas responsáveis. Mas o famoso lex talona — a como uma proteção necessária para a sociedade. No
lei exigindo olho por olho, dente por dente — é entanto, hoje as pessoas com AIDS, uma doença
seriamente mal entendido. No mundo bíblico, as que é sempre fatal, são tratadas com tanto cuidado
inimizades entre as famílias eram possibilidades que nenhum político ou agente de saúde pública
sempre presentes. O princípio de olho por olho, ousa mencionar a possibilidade de quarentena.
dente por dente, limita a penalidade que uma pes­ Embora a Lei do Antigo Testamento defenda os
soa pode impor! Uma parte prejudicada, ou a sua direitos dos indivíduos, ela nunca o faz às custas da
família irada e amargurada, poderiam tentar tirar comunidade. E ela considera os indivíduos respon­
a vida por um olho, ou um membro por um den­ sáveis pelos seus pecados.
te! A Lei de Deus determina a responsabilidade, e,
ao mesmo tempo, não permite a escalada de uma Liberdade e justiça para todos (Ex 23.1-9). Esta ga­
disputa. rantia na Constituição Brasileira é firmemente es­
tabelecida na Lei do Antigo Testamento. Observe
“Restituição” (Ex 22.1-15). Na Escritura, o roubo alguns dos princípios declarados aqui:
ou outros crimes de propriedade são crimes con­ “Quando você testemunhar, não perverta a justiça
tra a vítima. No sistema legal americano, eles são ficando ao lado da multidão”.
crimes contra o estado. Portanto, no sistema legal “Não mostre favoritismo a um homem pobre em
americano o criminoso é punido pelo estado e en­ seu processo judicial”.
viado para a prisão. No sistema legal do Antigo “Não negue a justiça ao seu povo pobre em seus
Testamento a harmonia social deveria ser restau­ processos judiciais”.
58
Êxodo 20—23

“Não se envolva em falsas acusações”. Não fazemos um favor a Deus separando um dia
Somente tratando a todos igualmente, sendo ab­ para a adoração e o descanso. Fazemos um favor a
solutamente justos com os ricos e os pobres da nós mesmos.
mesma forma, com os famosos e os desconhecidos,
podemos refletir a justiça, bem como a misericór­ "Adorai ao Senhor, vosso Deus”(Êx23.20-33). Como
dia do nosso Deus. a ênfase na adoração se encaixa nestes capítulos so­
bre a Lei? De forma muito simples. A adoração não
“O sétimo dia” (Êx 23.10-13). O único dos dez consiste simplesmente em ir à igreja e cantar hinos
mandamentos que não é repetido em o Novo Tes­ de louvor. A adoração consiste em colocar a nossa
tamento como um princípio pelos quais os cristãos fé em prática amando a Deus e seguindo os seus
devem viver é o mandamento de guardar o séti­ mandamentos.
mo dia como santo. Ainda assim, há muito para se Quando Deus deu estas leis a Moisés, para que as
aprender com as leis do Sábado do Antigo Testa­ compartilhasse com Israel, Ele as identificou com
mento. Uma das lições é encontrada nestes versícu­ adoração e com sucesso. Quando colocamos Deus
los. O sábado foi estabelecido para o benefício do em primeiro lugar, e o honramos com a nossa obe­
homem, não para o benefício de Deus, para que os diência, Deus nos dá uma vida plena.
crentes “se refrigerem” (Êx 23.12, TB)

DEV OCIONAL______
Deus Falou todas estas Palavras devem viver. Podemos traduzir cada um deles como
(Êx 20.1-21) uma diretriz positiva, observando que cada um de­
Os Dez Mandamentos são mais do que leis que Is­ les nos chama para mostrarmos respeito por Deus e
rael tinha a responsabilidade de seguir. Eles expres­ pelos outros, de maneiras simples, mas vitais. Aqui
sam princípios básicos pelos quais os seres humanos estão os 10 princípios pelos quais devemos viver.
1 Não terás outros deuses diante de mim Respeite a Deus como o teu único Senhor.
(20.3).
2 Não farás para ti imagem de escultura Respeite a natureza de Deus e não o banalize.
(20.4-6).
3 Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, Mostre sempre respeito por Deus, considerando-o
em vão (20.7). como Alguém real e presente.
4 Lembra-te do dia do sábado, para o santifi­ Mostre respeito por Deus separando tempo para
car (20.8-11). adorá-lo.
5 Honra a teu pai e a tua mãe (20.12). Mostre respeito pelos seus pais.
6 Não matarás (20.13). Mostre respeito pela santidade da vida humana.
7 Não adulterarás (20.14). Mostre respeito pelo casamento e pelos membros
do sexo oposto.
8 Não furtarás (20.15). Mostre respeito pela propriedade dos outros.
9 Não dirás falso testemunho contra o teu Mostre respeito pela verdade e pela reputação dos
próximo (20.16). outros.
10 Não cobiçarás (20.17). Mostre o máximo de respeito pela santidade, guar­
dando os seus motivos bem como as suas ações.

Nenhuma diretriz mais clara e mais significativa Aplicação Pessoal


para a vida foi incorporada em qualquer código de O respeito por Deus e pelos outros é revelado
lei. Se vivermos por elas, certamente agradaremos primeiramente nas escolhas que fazemos diaria­
a Deus, e toda a nossa vida se tornará um ato de mente.
adoração aceitável.

59
Êxodo 24—27

Citação Im portante Moisés não só se aproximou do Senhor no monte,


“Quem fala da parte de Deus? O próprio Senhor mas “permaneceu ali” na presença de Deus.
fala muito bem por si mesmo. Ele fala através da E incrível perceber que hoje você e eu compar­
sua Palavra santa e infalível — e da obediência si­ tilhamos os privilégios que naquela época só fo­
lenciosa dos seus servos.” — Chuck Colson ram conferidos a Moisés. Através de Jesus, Deus
nos convida a nos aproximarmos dEle livremente
20 D E JANEIRO LEITURA(Hb 20 4.16). Nós também podemos compartilhar
. LIBERDADE COM O UM SÍMBOLO a Palavra de Deus com os outros (cf. At 8.4). Em
Êxodo 24— 2 7 vez de escreverem a Palavra de Deus, os nossos
corações são tábuas nas quais o próprio Deus es­
“E me farão um santuário, e habitarei no meio deles” creve (2 Co 3.3). Nós nos juntamos aos outros
(Êx 25.8). para oferecermos a Deus sacrifícios espirituais
(Rm 12.2). Temos sido comissionados como
Alguém já observou que Deus levou seis dias para embaixadores de Deus, para reconciliarmos ou­
criar o mundo — e 40 dias para dar o projeto do tros com o nosso Senhor (2 Co 5.18-20). Em
Tabernáculo a Moisés. Muito tem sido escrito sobre Jesus, Deus não só nos convidou a nos chegar­
o significado simbólico do desenho e dos materiais mos a Ele, mas a permanecermos com Ele e nEle
do Tabernáculo. Mas o tema central é este: o centro sempre (Jo 15.4,7).
de adoração portátil servia como um lembrete visí­ Moisés foi um grande homem. Mas você e eu te­
vel de que Deus habita entre o seu povo. mos privilégios ainda maiores.
Visão Geral “E me farão um santuário” (Êx 25.1—27.40). O
Os israelitas se comprometeram a guardar a Lei de Antigo Testamento enfatiza a importância do Ta­
Deus (24.1-8). Moisés foi instruído a edificar uma bernáculo, uma tenda portátil, na adoração de Is­
casa de adoração portátil, o Tabernáculo, que ser­ rael. Êxodo usa sete capítulos (25— 31) para listar
viria como um símbolo da presença de Deus com as especificações do Tabernáculo, e então dedica
Israel (w. 9-18). As instruções abrangiam os ma­ mais seis para a sua edificação (35— 40). O Novo
teriais (25.1-9), os móveis e utensílios (w. 10-40), Testamento menciona alguns dos simbolismos,
o projeto da tenda (26.1-37), seu pátio e seu altar declarando que o projeto e o uso do Tabernáculo
(27.1-21). tiveram o propósito de refletir realidades celestiais
(cf. Hb 9— 10).
Entendendo o Texto Livros já foram escritos sobre o significado simbó­
“Tudo o que o Senhor tem falado faremos” (Êx 24.1- lico dos móveis e utensílios do Tabernáculo e dos
8). Deus não impôs simplesmente a sua Lei sobre materiais utilizados. Ê dito que o ouro representa
Israel. Moisés cuidadosamente explicou o que a glória de Deus; a prata, a redenção; e o bronze, o
Deus esperava do povo que viveria em um rela­ juízo; enquanto a cor azul representa o céu; o roxo,
cionamento pessoal com Ele (Êx 20— 23; 24.3). a realeza; e o escarlate, o sacrifício. No entanto, de­
A ratificação da Lei por parte de Israel marca uma vido ao fato do Antigo Testamento não interpretar
mudança no relacionamento com Deus. O povo se os símbolos, não podemos ter certeza do que os
comprometeu a guardar os mandamentos de Deus, materiais realmente significam.
e então cada um foi totalmente responsável pelos Diversas realidades significativas refletidas no Ta­
seus atos. bernáculo são: (1 )0 Tabernáculo era um lembrete
O evento também nos diz algo sobre Deus. Ele cui­ visível de que Deus está com o seu povo. (2) O Ta­
dadosa, misericordiosa, e completamente explicou bernáculo tinha apenas uma porta, pois há apenas
o que o relacionamento com Ele envolvia antes de um caminho para se chegar a Deus (Jo 14.6). (3) O
pedir um compromisso. altar, exatamente do lado de dentro da porta do pá­
tio, mostrava que um pecador só poderia se apro­
“Só Moisés se chegará ao Senhor” (Êx 24.1-18). O ximar de Deus através do sacrifício. (4) A cortina
capítulo transmite um senso poderoso do relacio­ entre o átrio santo frontal do Tabernáculo, e o átrio
namento especial que Moisés tinha com o Senhor. interior do “Santo dos Santos” era um lembrete
Só Moisés se chegou ao Senhor. Moisés disse ao de que os seres humanos não tinham, então, livre
povo as palavras e as leis de Deus. Ele escreveu acesso a Deus. Quando Jesus morreu, a cortina no
tudo o que o Senhor disse. Também supervisionou Templo de Jerusalém rasgou-se de alto a baixo, um
os sacrifícios a serem feitos ao Senhor. E convo­ sinal do livre acesso a Deus que agora desfrutamos
cou o povo de Deus para. um compromisso total. (cf. Hb 10.8-10).
60
Êxodo 24—27

“De todo homem cujo coração se mover voluntaria­ “Construa o altar” (Ex 27.1-8). Um altar de
mente para dar” (Ex 25.2). O relacionamento com bronze foi colocado exatamente do lado de den­
Deus nos dias do Antigo Testamento estava longe tro da única porta que abria para o interior do
de ser formal e legalista. Naquela época, como ago­ pátio em torno do próprio Tabernáculo. Este al­
ra, a verdadeira obediência e a adoração real eram tar tinha um único propósito — como um local
questões ligadas ao coração. E significativo o fato de sacrifício.
de que todos os materiais utilizados para a constru­ O fluxo do Êxodo nos ajuda a ver porque o altar era
ção do Tabernáculo tenham sido fornecidos pelo tão importante. Deus havia libertado Israel da servi­
povo, que movidos por amor a Deus, os deu es­ dão. Ele os levou para o Sinai e lhes deu a Lei pela
pontaneamente. qual deveriam viver. Embora a lei provesse padrões
Deus ainda quer que as nossas ofertas e serviços sejam claros, ela também tornava culpados aqueles que a
expressões de amor, ofertadas livremente, e não atos violavam. E a culpa faz uma separação entre Deus
motivados pelo temor ou por um senso de obrigação e o povo! Imediatamente Deus agiu para prover
(veja 2 Cr 29.5; 1 Co 9.17; 2 Co 9.7; 1 Pe 5.2). uma maneira para que os pecadores se aproximas­
sem dEle e o adorassem. Ele mandou que Moisés
“Faça o tabernáculo” (Ex 26.1-37). Foi dito a construísse um Tabernáculo que simbolizaria a sua
Moisés que fizesse o Tabernáculo, os seus móveis presença. E ali, em sua entrada, o Senhor mandou
e utensílios, “conforme tudo o que eu te mostrar que Moisés colocasse um altar para sacrifícios. Israe l
para modelo” (25.9). O capítulo 26 nos mostra pecaria, mas o sangue cobriria o pecado do ofertant;
quão detalhadas eram as instruções de Deus. e permitiria que o tal se aproximasse de Deus.
Podemos ficar entediados ao ler passagens repletas A realidade simbolizada pelo altar é a morte de
daquilo que aparentemente não passaria de “tri­ Cristo no Calvário. Por causa do sangue de Cristo,
vialidade”. Contudo, elas nos fazem lembrar que o nosso pecado desapareceu, e nós podemos nos
o Senhor nosso Deus é o Deus de detalhes. Que chegar a Deus livremente, sabendo que o perdão
conforto isso é para nós, pois nos tranquiliza de é nosso.
que Deus está preocupado com todos os aspectos Deus jamais teve a intenção de que o pecado isolas­
da nossa vida. se os seres humanos dEle para sempre.

61
Êxodo 28— 30

DEVOCIONAL__________
Comprometimento Inteligente tração, compaixão ao ajudar os pobres, firmeza ao
(Êx 24.1-8) permanecer na verdade, e rigor ao manter a disci­
Olhando para trás, Carol percebeu o que tinha plina.” — Bede, o Venerável
acontecido. Bem lá no fundo, parecia que ela tinha
ouvido uma voz lhe dizendo para não se casar com 21 DE JANEIRO LEITURA 21
Stan. Mas ela havia procurado tanto por ele... _ O SACERDÓCIO
Dez anos depois, após um divórcio devastador que Êxodo 28—30
a deixou com dois filhos pequenos, Carol estava
lutando com a sua dor, mas estava crescendo como "Santificarei a Arão e seus filhos, para que me admi­
cristã. Então, quando era tarde demais, ela perce­ nistrem o sacerdócio” (Êx 29.44).
beu que a voz interior que ela tinha ouvido era do
Espírito Santojjivisando-a. “Mas você sabe”, ela Somente os sacerdotes de Israel estavam qualifica­
disse, “naquela época eu nem mesmo sabia que ha­ dos para oferecer os sacrifícios exigidos daqueles
via um Espírito Santo”. que se chegassem a Deus. O Novo Testamento, en­
Hoje Carol ensina em uma classe de mulheres di­ sinando que todo crente é um sacerdote (1 Pe 2.9),
vorciadas em sua Igreja Metodista local. E ela está torna especialmente significativos estes capítulos
espantada sobre quão pouco a maioria delas sabe a que lidam com o sacerdócio de Israel.
respeito da Bíblia e da vida em Cristo.
Não consigo deixar de pensar em Carol e nos mui­ Definição dos Termos-Chave
tos outros crentes verdadeiros como ela quando Sacerdócio. Somente os homens da família de Arão
leio estes versículos. Deus tomou o cuidado de tinham a permissão para servir como sacerdotes. A
mandar Moisés explicar exatamente que compro­ sua função era apresentar sacrifícios a Deus, buscar
metimento com o Senhor estaria envolvido. Moi­ a direção de Deus para a nação ou os indivíduos,
sés contou “ao povo todas as palavras do Senhor e instruir o povo nos estatutos de Deus, servir como
todos os estatutos” (v. 3). Ele então escreveu tudo o guardiões da aliança e do santuário de Israel e dos
que o Senhor dissera (v. 4). Na manhã seguinte ele tesouros sagrados.
se levantou e “tomou o livro do concerto e o leu aos Os sacerdotes, portanto, eram mediadores entre
ouvidos do povo” (v. 7). Deus e a nação Israel. Eles representavam o povo
Deus pediu comprometimento. Mas Ele queria ter diante de Deus oferecendo sacrifícios e incenso, li­
certeza de que os israelitas tinham entendido exata­ derando a adoração, e orando em busca da direção
mente o que a vida com Ele envolveria. divina. Eles também representavam a Deus diante
E verdade, naturalmente, que as pessoas podem de­ do povo, pois os sacerdotes instruíam Israel na Lei
positar a sua confiança em Cristo sem um entendi­ de Deus, sendo canais através dos quais Deus trans­
mento profundo do evangelho ou da Bíblia. Mas a mitia a sua vontade, e serviam como marcos vivos
menos que continuemos ouvindo todas as palavras para lembrar que Deus perdoa o povo pecador.
de Deus, lendo-as repetidas vezes, dia após dia, ou­ Hoje, cada cristão é um sacerdote com acesso dire­
vindo-as constantemente, estaremos em falta com to a Deus. Cada um de nós pode interceder a favor
o comprometimento inteligente que Deus deseja. de outros, em nossas orações ao Senhor. Cada um
O comprometimento inteligente, apresentando de nós pode ser um canal através do qual o amor
um entendimento crescente da vontade de Deus, e a graça de Deus alcançam homens e mulheres
teria protegido Carol, e guardará você e a mim. perdidos.
Aplicação Pessoal O sumo sacerdote. O sumo sacerdote do Antigo Tes­
Comprometimento inteligente significa conhecer a tamento tinha um único dever que o separava dos
Palavra de Deus, e colocá-la em prática. outros membros do sacerdócio. Ele, e somente ele,
entrava no Santo dos Santos no Dia da Expiação
Citação Importante anual, levando o sangue do sacrifício, através do
“Portanto, com uma mente completa, uma fé fir­ qual o Senhor Deus prometeu que cobriria todos
me, uma coragem destemida, um amor perfeito, os pecados do seu povo (cf. Lv 16).
estejamos prontos para o que quer que Deus de­ O Novo Testamento apresenta Jesus Cristo
seje; guardando fielmente os seus mandamentos, como o verdadeiro Sumo Sacerdote, que entrou
tendo inocência em simplicidade, tranquilidade no céu com o seu próprio sangue. Na qualidade
em amor, modéstia no serviço, diligência na minis- de nosso Sumo Sacerdote, o Senhor Jesus fez um
62
Êxodo 28—30

sacrifício único ao oferecer a si mesmo; assim, O éfode (Êx 28.6-14). Este manto exterior tinha
Ele conquistou a salvaçáo eterna para todos os duas pedras fixadas uma em cada ombro. O nome
que creem (Hb 10.10-14). de cada tribo israelita estava gravado em uma destas
pedras. Sempre que Arão entrava no Tabernáculo,
Visão Geral ele representava todo o povo de Deus.
Vestes especiais foram preparadas para o sumo sa­ Hoje, Jesus, o nosso Sumo Sacerdote, representa a
cerdote (28.1-43). Arão e seus filhos deveriam ser Igreja diante do trono de Deus. O Novo Testamen­
ordenados em uma cerimônia impressionante que to diz: “Temos um Advogado para com o Pai, Jesus
durava sete dias (29.1-46). Deveres sagrados foram Cristo, o Justo” (1 Jo 2.1).
descritos, e fórmulas para os óleos e os incensos sa­
grados foram registradas (30.1-38). O peitoral (Êx 28.15-30). Essa algibeira (espécie de
bolso) era ligada ao éfode com correntes de ouro.
Entendendo o Texto Doze pedras preciosas eram fixadas nela, cada uma
“Farás vestes santas a Arão ” (Êx 28.1-44). Como com o nome de uma única tribo. O texto diz: “Arão
sumo sacerdote, Arão recebeu vestes distintas levará os nomes dos filhos de Israel no peitoral do
para “lhe conferir distinção e honra”. Cada item juízo sobre o seu coração, quando entrar no santu­
que Arão usava também tinha um significado ário”. O simbolismo é poderoso. Aqui cada tribo,
simbólico. em vez de ser gravada juntamente com outras so­
bre uma tarja de pedra nos ombros, é simbolizada
individualmente por uma pedra de valor bastante
elevado. Cada uma é usada sobre o coração. Jesus
faz mais do que nos representar no céu. Ele carrega
cada indivíduo em seu coração. Cada um de nós é
conhecido e amado. Cada um de nós é precioso ao
nosso Salvador.
O Urim e Tumim (Êx 28.30). O peitoral era uma
espécie de bolso, chamado de “peitoral do juízo”.
Ele continha dois itens chamados Urim e Tumim,
usados pelo sumo sacerdote para discernir a vonta­
de de Deus.
Ninguém sabe exatamente como eles eram usados.
Talvez um representasse não e o outro sim, e eles
eram puxados às cegas pelo sumo sacerdote quan­
do indagações eram dirigidas a Deus. Sabemos,
porém, que Deus os usava para transmitir a sua
vontade a Israel.
Hoje o nosso Sumo Sacerdote nos enviou o seu Es­
pírito Santo. Não sabemos exatamente como o Es­
pírito guia ou transmite a sua vontade a nós. Mas
sabemos que, quando buscamos honestamente a
direção de Deus, o Espírito Santo nos conduz em
sua vontade.
Manto, túnica, e mitra (Êx 28.21-42). A veste usa­
da pelo sumo sacerdote era feita do material mais
fino, e lindamente elaborada. Precisamos oferecer
a Deus o melhor que tivermos, e o melhor de nós.
Quando servimos a Deus fielmente, Ele nos dá o
seu melhor.
“Incenso... cada manhã” (Êx 30.1-10). Apocalipse
usa o incenso como um símbolo das orações dos
santos a Deus (Ap 8.3, 4). Arão “tinha a obrigação”
de queimar incenso aromático sobre um altar de
63
Êxodo 28—30

ouro dentro do Tabernáculo “cada manhã”. A ima­ a Deus através dos sacrifícios oferecidos pelos sa­
gem nos lembra que a oração diária é uma “obriga­ cerdotes.
ção” para os cristãos, não só para o nosso próprio
proveito espiritual, mas porque é um ingrediente “Uma pia de cobre... para lavar” (Êx 30.17-21).
vital na adoração a Deus. No Antigo Testamento, água fala de purifica­
ção. Os sacerdotes jamais deveriam se aproxi­
“O dinheiro das expiações” (Êx 30.11-16). Um im­ mar do Tabernáculo sem antes lavarem-se na
posto de metade de um siclo, recolhido de cada pia de cobre.
homem hebreu, era usado para a manutenção do
Tabernáculo. O imposto é descrito como uma “Toma para ti” (Êx 30.22-38). Os óleos e as es­
expiação, ou resgate. No Antigo Testamento toda peciarias aromáticas usados na adoração eram
expiação está associada ao sacrifício. Isto também compostos de acordo com fórmulas especiais.
é verdadeiro aqui, pois o “serviço da tenda da con­ Na Lei do Antigo Testamento, era mantida uma
gregação” sugere o pagamento pelos animais para clara distinção entre o secular e o sagrado, e as
os sacrifícios que eram exigidos nas ofertas diárias, coisas sagradas jamais deveriam ser usadas para
nos sábados, e nas festas especiais. qualquer propósito secular. Qualquer coisa que
Observe que cada israelita pagava a mesma quantia é separada para Deus deve ser totalmente consa­
pequena. Ricos e pobres tinham o mesmo acesso grada a Ele.

DEV OCION AL_______


Sobre o seu Coração ridade que refletem os valores de Deus, e não os
(Êx 29.15-30) valores da nossa sociedade.
Em seu livro Hide or Seek, James Dobson sugere Primeiro, porém, cada um de nós precisa aceitar o
que devemos rejeitar decisivamente os valores de dom que Deus nos oferece no simbolismo das joias
uma sociedade que despreza a menina simples e usadas sobre o coração do sumo sacerdote. O dom
o homem menos inteligente como não tendo ne­ de perceber que nós somos especiais. A despeito do
nhum valor. Em uma sociedade que dá tanta ênfase que quer que os nossos pais ou a nossa sociedade
à aparência, à inteligência, às conquistas atléticas, e tenham declarado, temos um valor infinito para
às riquezas, a maioria cresce com um senso de in­ Deus. Nós somos joias. E Ele leva os nossos nomes
ferioridade pessoal e até mesmo de insignificância. próximos ao seu coração.
Uma baixa autoimagem, diz Dobson, é o produto
doloroso de uma sociedade que menospreza o in­ Aplicação Pessoal
divíduo. Que quaisquer anéis ou joias que você veja lhe fa­
Mas esta é a opinião da sociedade — não de Deus. çam lembrar do peitoral do sumo sacerdote, e o
A diferença é refletida no plano de Deus mostra­ quanto você é precioso aos olhos de Deus.
do através do peitoral do sumo sacerdote. Deus
especificou uma pedra preciosa diferente para re­ Citação Importante
presentar cada tribo de Israel. Cada pedra levava o “Se os indivíduos vivem apenas setenta anos, en­
nome de uma pessoa, o antepassado que represen­ tão um estado, ou uma nação, ou uma civilização,
ta a tribo. Cada pedra era ligada com filigranas de que pode durar mil anos, é mais importante do
ouro a uma bolsa usada sobre o coração do sumo que um indivíduo. Mas se o cristianismo é ver­
sacerdote. Cada nome era levado ali, sobre o seu dadeiro, então o indivíduo não só é mais impor­
coração, para o átrio interior da própria presença tante, mas incomparavelmente mais importante,
do Senhor. pois ele é eterno e a vida de um estado ou civili­
Deus vê cada um de nós como um indivíduo. No zação, comparada à dele, é apenas um momento.”
entanto, cada um de nós é diferente, cada um é — C. S. Lewis
uma pedra preciosa para o Senhor. E cada um de
nós está próximo do coração de Jesus Cristo, o 22 DE JANEIRO LEITURA
Sumo Sacerdote de Deus. „ DEUS REVELA A SUA IRA
A maioria de nós não será capaz de deixar riquezas Êxodo 31— 34
para os filhos. Mas cada um de nós tem um dom
importante que pode dar. Podemos dar a cada um “Irá a minha presença contigo para tefazer descansar"
dos nossos filhos um senso do seu valor e peculia- (Êx 33.14).

64
Êxodo 31—34

Arão atendeu a exigência popular e confeccionou A nossa única explicação é que o pecado corrompe
um ídolo para o povo adorar. Israel estava prestes a tanto os seres humanos que qualquer um é capaz
descobrir que o castigo, como também a capacita­ de ignorar a evidência da existência de Deus. Nem
ção divina, são obras de Deus. mesmo a “prova” pode mudar o coração e o pen­
samento de um indivíduo que está determinado a
Visão Geral não crer.
Deus capacitou os artífices de Israel (31.1-11), e
enfatizou a obrigação de guardar o sábado (w. 12- “Arão os atendeu” (Êx 32.2). Arão e Moisés nos dão
18). No entanto, enquanto Moisés se encontrava inspirações contrastantes sobre a liderança espiri­
com Deus no monte Sinai, Arão fez um ídolo de tual. Quando o povo exigiu que Arão lhes fizesse
fundição (32.1-6), despertando a ira de Deus e tra­ deuses, ele fez o que eles disseram (w. 2,3). Es­
zendo uma rápida disciplina (32.7— 33.6). Deus pera-se que os líderes façam o que Deus requer, e
mostrou a Moisés a sua bondade (w. 7-23) e deu- não o que o povo exige. Arão foi ainda mais além.
lhe novas tábuas de pedra, nas quais Ele próprio Ele “viu” a reação deles ao bezerro de ouro (v. 5).
havia escrito os seus mandamentos (34.1-35). Ele então tomou a iniciativa e construiu um altar.
Como um político moderno que confia em pesqui­
Entendendo o Texto sas para descobrir o que o povo quer, e então faz
“O enchi do Espírito de Deus” (Êx 31.1-11). É um promessas, Arão percebeu para onde os israelitas
engano supor que todos os dons estão listados em estavam se encaminhando, e apressou-se para sair
Romanos 12 e 1 Coríntios 12. Toda habilidade na frente!
especial que Deus dá pode contribuir para adorar As vezes cada um de nós é tentado a usar a “saída
e enriquecer a vida de outros. A pessoa cheia “de fácil” de Arão. Acompanhar a multidão pode pa­
sabedoria, e de entendimento, e de ciência em todo recer um modo de evitar um conflito desconfortá­
artifício”, assim como o pregador e evangelista, vel. Mas não é. Ê um modo de se tornar culpado
exercita um dom espiritual, e precisa contar com do “grande pecado”, tanto nosso como dos outros
o Espírito de Deus. (v. 21).
“Entre mim e os filhos de Israel” (Êx 31.12-18). O “Disse... o Senhor a Moisés”(Êx32.9-14). Enquanto
sábado é para os cristãos? O texto afirma clara­ por fraqueza Arão estava cedendo aos clamores dos
mente que o sábado é um sinal da aliança de Deus israelitas, Moisés estava corajosamente pleiteando
com Israel. Desde o princípio os cristãos têm se com Deus. O Senhor disse a Moisés o que havia
reunido no domingo, e não no sétimo dia da se­ acontecido no vale, expressou a sua ira, e ameaçou
mana. Enquanto o sábado comemora a Criação destruir Israel. Ele estabeleceria a sua aliança so­
(v. 17), o primeiro dia da semana comemora a mente com Moisés.
ressurreição de Jesus (Mt 28.1; At 20.7). O que O apelo de Moisés reflete duas preocupações: des­
liga os dois é que cada um é um dia de descanso truir Israel faria com que os egípcios entendessem
e adoração. E cada um serve para lembrar sema­ errado os motivos pelos quais Deus havia liberta­
nalmente aos crentes do seu relacionamento com do os israelitas; e Deus sempre se manterá fiel às
Deus. promessas que fez a Abraão, Isaque, e Jacó.
O bezerro de ouro (Êx32.1—33-6). Figuras de um “Quem é do Senhor” (Êx 32.25-35). Quando Moi­
bezerro e um touro fundidos em metal frequente­ sés viu por si mesmo a adoração idólatra de Israel,
mente serviam como ídolos na Síria-Palestina. As a sua reação foi muito parecida com a de Deus.
figuras representavam o poder viril do deus. Em Ele ficou tão irado e indignado que quebrou as tá­
alguns casos o touro ou bezerro parece ter sido buas de pedra nas quais Deus tinha escrito a Lei
visto como um trono sobre o qual uma divindade (v. 19). Então Moisés convocou aqueles que eram “do
invisível ficava em pé ou sentada. Senhor” para irem até ele.
Fazer tais figuras era uma rejeição pública a Deus. Quando Moisés tomou uma posição, ele descobriu
Ainda pior, dizer, “Estes são teus deuses, ó Israel, que não estava sozinho. Acontece o mesmo hoje.
que te tiraram da terra do Egito”, levou o povo a Adolescentes, jovens, e também adultos, frequen­
creditar às divindades pagãs a obra salvadora que o temente se sentem sozinhos em seu compromisso
Senhor havia realizado! com o que é certo. “Eu sou o único rapaz na minha
Como algo assim poderia acontecer na própria classe que ainda é virgem”, queixou-se um jovem
sombra do Sinai, onde os trovões e os relâmpa­ de 17 anos. Porém, quando ele tomou uma posição
gos testificavam sobre a presença do Deus Vivo? em favor daquilo em que acreditava, e se expôs ao
65
Êxodo 31— 34

ridículo da zombaria que lhe foi dirigida no vestiá­ Moisés buscou aprender os caminhos de Deus e
rio, descobriu que não estava sozinho! Outros que conhecê-lo melhor (w. 12,13).
tinham ficado com medo de se manifestar vieram a Moisés apropriou-se das promessas de Deus e afir­
ele e disseram que concordavam. mou a sua dependência no Senhor (w. 14-17).
Moisés tomou esta posição pública. A sua coragem Moisés expressou o seu desejo ardente de ver a
moveu os levitas que não haviam participado do Deus mais claramente (v. 18).
pecado dos outros, mas que o haviam apoiado em Estas são diretrizes úteis para os nossos próprios
silêncio, a unirem-se a ele abertamente. momentos de oração privada. Quando nos en­
Quando a consciência nos convence de que algo contramos com Deus face a face, também deve­
está errado, precisamos seguir o exemplo de Moi­ mos nos concentrar em aprender os seus cami­
sés e tomarmos uma posição aberta. E se outra nhos, em nos apropriarmos das suas promessas,
pessoa assumir o papel de Moisés, devemos estar e em conhecê-lo mais intimamente.
preparados, como estavam os levitas, para “nos
unirmos a ele”. “O Senhor passou perante a face de Moisés” (Ex
34.1-9). No Sinai outra vez, Moisés lavrou novas
“Irmão, amigo e próximo” (Ex 32.27). Moisés disse tábuas de pedra. O próprio Deus escreveu nelas
aos levitas que atravessassem o arraial e matassem a sua Lei. Deus mostrou a Moisés a sua bondade,
aqueles que haviam se envolvido na adoração resumida em uma das confissões mais famosas
pagã. O incidente mostra um princípio vital do do Antigo Testamento:
Antigo Testamento. Os crentes são responsáveis
por manter a santidade na comunidade da fé, Jeová, o Senhor, Deus misericordioso e piedoso,
mesmo quando isso significa posicionar-se contra tardio em iras e grande em beneficência e ver­
aqueles que são próximos e caros a nós. Deus deve dade; que guarda a beneficência em milhares;
vir em primeiro lugar. Nenhum relacionamento que perdoa a iniquidade, e a transgressão, e o
deve ter prioridade sobre o nosso compromisso pecado; que ao culpado não tem por inocente;
com o Senhor. que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos e
sobre os filhos dos filhos até à terceira e quarta
“No dia da minha visitação, visitarei, neles, o seu geração (w. 6,7).
pecado” (Ex 32.30—33-6). Quando chegar a hora
de castigar, eu castigarei. Deus perdoa. Mas Deus A segunda metade desta confissão é importante.
também castiga. Pela primeira vez Israel, que tinha A compaixão e o amor de Deus devem ser vistos
confirmado a aliança da Lei e prometido obedecer contra o pano de fundo da obrigação divina de
a Deus, se deu conta de que há um castigo pela castigar o pecado. O Deus que “ao culpado não
desobediência! tem por inocente” é em primeiro lugar o Deus
Despojar dos seus atavios (33.6) era um sinal de que manifesta compaixão e graça extraordiná­
tristeza e arrependimento no mundo antigo. Final­ rias.
mente Israel estava impressionado com a seriedade Alguns têm questionado a justiça de Deus ao
do pecado. castigar os filhos por causa dos pecados dos pais.
Os cristãos possivelmente cometem um a dois E melhor entender esta e outras expressões simi­
erros ao reagirem aos pecados pessoais. Um erro lares como uma revelação de realidade. O fato é
é ser tomado por tanta culpa e medo de castigo, que o pecado afeta não só o pecador, mas os seus
que falhamos em nos apropriar do perdão que é descendentes. Pesquisas têm mostrado que aque­
prometido a nós em Jesus. Se esta é a nossa tendên­ les que maltratam seus filhos foram tipicamente
cia, punimos a nós mesmos desnecessariamente. O maltratados quando eram jovens. O padrão esta­
outro erro é enfatizar tanto o amor de Deus que belecido pelos pais é repetido nos filhos.
ignoramos a sua santidade, e agimos como se os Desta maneira os pecados dos pais trazem casti­
pecados não fossem absolutamente nada. Se esta é go aos seus filhos, pois os filhos tendem a come­
a nossa tendência, quando chegar a hora de Deus ter os mesmos pecados.
castigar, Ele castigará!
“Um véu sobre o seu rosto” (Ex34.29-34). Estar na
“Irá a minha presença contigo” (Êx 33.7-23). Os presença de Deus fez com que o rosto de Moisés
israelitas não puderam ver o que se passava den­ resplandecesse. Nenhuma mudança visível pode
tro da tenda da congregação quando Moisés se ocorrer quando você e eu passamos um tem­
encontrou com o Senhor. Mas estes versículos po com Deus. Mas encontros regulares com o
nos dizem. Senhor realmente fazem uma diferença real!
66
Êxodo 35— 40

DEV OCIONAL__________
Face a Face 23 DE JANEIRO LEITURA 23
^ (Êx 32— 33) _ /. \ SÍMBOLOS DE DEUS
Tendo em vista Êxodo 32, fica claro que enquanto Êxodo 35— 40
os israelitas estavam admirados com Moisés, eles
tinham pouco respeito pelo seu irmão Arão. Como “O povo traz muito mais do que basta para o serviço
sumo sacerdote, Arão tinha uma posição religiosa da obra que o Senhor ordenou sefizesse” (Ex 36.5)■
oficial. Mas só a posição nunca é suficiente para
ganhar respeito. A importância do Tabernáculo e dos seus móveis é
Muitas qualidades fizeram de Moisés um forte líder vista no fato de Êxodo 35— 40 repetir, frequente­
espiritual. Ele era corajoso. Buscava agradar a Deus mente palavra por palavra, a descrição do centro de
e não aos homens. Estava disposto a tomar uma adoração de Israel em Êxodo 25— 30. Por aproxima­
posição. Ele reuniu apoio. Orava pelos pecadores, damente 500 anos, Israel adorou nesta tenda portátil,
no entanto estava disposto a confrontá-los. Mas o que com os seus móveis simbolizou verdades básicas
segredo da grandeza de Moisés é encontrado na sobre o relacionamento pessoal com Deus.
“tenda da congregação”, onde ele se encontrava
com o Senhor face a face. Definição dos Termos-Chave
O texto nos diz que “entrando Moisés perante o Símbolos. Nas Escrituras, um símbolo é um objeto,
Senhor, para falar com ele, tirava o véu até que saía... pessoa, prática, ou palavra que representa uma rea­
e tornava Moisés a pôr o véu sobre o seu rosto, até lidade espiritual básica. Enquanto alguns símbolos
que entrava para falar com ele”. Ninguém sabia o não são claros, outros são representações poderosas
que acontecia dentro da tenda, embora a coluna de e óbvias das verdades espirituais. Por exemplo, o
nuvem descesse para permanecer na porta da tenda sangue espargido sobre os altares judaicos tanto en­
quando Moisés estava em seu interior. Contudo, o sinava a dura verdade de que “o salário do pecado
próprio fato de que Moisés se encontrava ali com é a morte”, como transmitia a promessa gloriosa
Deus causava espanto, e a evidência da presença de de que Deus aceitaria um substituto. O significado
Deus fazia com que o povo adorasse ao Senhor. total deste símbolo somente é entendido na morte
Você e eu temos oportunidades de influenciar ou­ de Jesus no Calvário. Mas as realidades simboli­
tras pessoas. Estas outras pessoas incluem os nossos zadas pelo sacrifício poderiam ser discernidas no
próprios filhos, os nossos vizinhos, e colegas de tra­ Antigo Testamento assim como nos dias do Novo
balho, bem como membros da nossa igreja. Como Testamento.
Arão, podemos ter uma posição, tal como “pai ou O Tabernáculo e os seus móveis, diz o escritor aos
mãe”, que sugere autoridade. Mas a única manei­ Hebreus, “servem de exemplar e sombra das coi­
ra de verdadeiramente influenciarmos os outros é sas celestiais” (8.5). Isto é, o Tabernáculo e os seus
seguir o caminho de Moisés e nos encontrar com móveis são símbolos das realidades espirituais. Ao
Deus regularmente face a face. O nosso impacto na lermos estes capítulos queremos olhar não para o
vida deles será diretamente proporcional ao tempo obscuro, mas para as representações óbvias das ver­
que passamos face a face com Deus. dades espirituais.
Outros não saberão o que acontece durante o
tempo que passamos a sós com o Senhor. Mas a Visão Geral
presença de Deus irá conosco. Estar com Deus nos
Materiais foram recolhidos e a igreja em forma de
muda — e a mudança que Deus opera em nós é tenda foi construída (35.1— 36.38). Móveis sim­
a chave da nossa habilidade para influenciarmosbolicamente significativos foram preparados (37.1-
outros a adorarem a Ele, e a obedecerem-no. 29), como também o pátio do Tabernáculo com o
seu altar e pia (38.1-31). Vestes foram confecciona­
Aplicação Pessoal das para os sacerdotes (39.1-31). Depois que Moisés
O poder espiritual depende de uma vida de cons­ inspecionou o trabalho (w. 32-43), o Tabernáculo
tante oração. foi levantado e consagrado (40.1-33). Ele então foi
cheio da “glória do Senhor” (w. 34-38).
Citação Importante
“Eu não digo nada a Deus. Eu só me sento, Entendendo o Texto
olho para Ele e deixo que Ele olhe para mim.” “Do que vós tendes” (Êx 35-1-29). Os materiais uti­
— Um velho camponês de Ars lizados na construção do Tabernáculo consistiram

67
Êxodo 35—40

de contribuições do povo. Completar qualquer A arca (Èx 37.1-9). O Antigo Testamento tem 22
obra de Deus neste mundo requer que o povo de maneiras de se referir à arca, incluindo “a arca do
Deus contribua. testemunho” (25.22), “a arca da aliança de Deus”
(Jz 20.27), “a arca do Senhor” (1 Sm 4.6), e “a arca
“A habilidade para ensinar a outros” (Ex 35.30— do Senhor Soberano” (1 Rs 2.26). Aarca, uma caixa
36.21). Bezalel e Aoliabe simbolizam o cristão ma­ de madeira revestida de ouro, foi o ponto focal
duro. Deus lhes deu a habilidade para fazer e, com dentro do Tabernáculo onde residia a presença de
isso, a habilidade para ensinar. Deus. Uma vez por ano, o sumo sacerdote deveria
Espiritualmente, as duas qualidades andam juntas, espargir sangue sobre a tampa de ouro maciço da
como cara e coroa de uma mesma moeda. O crente arca, como expiação por todos os pecados de Israel.
deve viver a Palavra de Deus a fim de ensinar a fé Esta tampa, onde o sangue era espargido, era o
de uma maneira que transforme vidas, pois as Es­ lugar específico onde Deus podia e se encontrava
crituras falam a respeito da vida. Somente quando com o homem.
a fé e as ações andam juntas podemos ensinar a A arca, com a sua tampa, que era chamada de
outros o verdadeiro significado do relacionamento “propiciatório”, nos lembra que os seres humanos
com Deus. somente podem se encontrar com Deus porque o
Se você e eu formos praticantes da Palavra, o nosso sangue do seu sacrifício perfeito, Jesus, foi derra­
próprio modo de vida ensinará aos outros a respei­ mado.
to do Senhor.
A mesa de ouro (Ex 37.10-16). Pães eram mantidos
“Todo sábio de coração... fez o tabernáculo”(Ex 36.8- nesta mesa revestida de ouro, na qual também ha­
28). O significado simbólico central do Tabernácu­ via pratos e bacias de ouro maciço. Comentadores
lo funcionou como um sinal visível da presença de discordam sobre o significado simbólico. A mesa e
Deus com o seu povo. Observe aqui que foram uti­ os seus pertences representam a provisão de Deus
lizados apenas os melhores e mais caros materiais para todas as necessidades daqueles que se aproxi­
em sua construção. Deus merece — e exige — o mam dEle. O pão também é tomado para simboli­
melhor que podemos dar. zar Jesus, o Pão da Vida (cf. Jo 6).
O castiçal de ouro (Ex 37.17-24). Este objeto, cha­
mado de “menorah” pelos judeus, era uma lâmpada
de azeite com sete braços que fornecia a única luz
dentro do Tabernáculo, no qual não havia janelas.
O castiçal que dá luz é um símbolo da ilumina­
ção divina concedida àqueles que se aproximam de
Deus. O castiçal também é tomado como um sím­
bolo de Cristo, a Luz do mundo (cf. Jo 9).
O altar de ouro (Ex 37.25-29). O altar de ouro no
interior do Tabernáculo era uma versão menor do
altar de bronze que ficava do lado de fora. Incenso
era queimado no altar interior; animais de sacrifí­
cio eram consumidos no altar exterior. O incenso
representa as orações e a adoração daqueles que
ganharam acesso a Deus através do sacrifício ofere­
cido do lado de fora. O incenso é também tomado
para simbolizar a vida perfeita que Jesus viveu no
nosso mundo (cf. Jo 17).
”Pez também o pátio” (Ex 38.1-31). As cortinas que
formavam o pátio que cercava o Tabernáculo ti­
nham aproximadamente dois metros e meio de al­
tura! Ninguém podia enxergar através das paredes
de tecido para vislumbrar a beleza do Tabernáculo.
No entanto, as cortinas que formavam o pátio tam­
bém eram feitas do material mais fino. Qualquer
contato com a habitação de Deus causaria uma
68
Êxodo 35— 40

Díofunda impressão positiva, devido à sua beleza. estava ligada à mitra do sumo sacerdote de Israel:
y/océ e eu entramos em contato diário com não “SANTIDADE AO SENHOR”.
cristãos, que podem nunca ter tido sequer um vis-
.umbre de Deus. Quando fazemos isso, servimos “E fê-la Moisés; conforme tudo o que o Senhor lhe orde­
como cortinas que cercam o lugar santo. A nossa nou, assim ofez”(Ex 40.1-33). Moisés foi responsável
rarefa é impressioná-los com a beleza do Senhor, por supervisionar e inspecionar o trabalho do povo.
refletindo-a em nosso caráter. Mas ele mesmo sempre permaneceu sujeito à palavra
de Deus. Podemos apenas confiar nos líderes que es­
"Vestes santas para Arão” (Ex 39.1-31). A veste do tão dispostos a se sujeitarem à Palavra de Deus.
sumo sacerdote também tinha um significado sim­
bólico. Como crentes sacerdotes, o estilo de vida “A glória do Senhor enchia o tabernáculo ” (Ex 40.34-
que adotamos deve nos vestir de beleza, e refletir o 38). A presença de Deus encheu o Tabernáculo ter­
lema que estava gravado sobre a placa de ouro que minado, e foi visível aos israelitas.

DEV OCION AL_______


Símbolos Vivos [ou amor] de um coração puro, e de uma boa cons­
(Êx 37) ciência, e de uma fé não fingida”. Quando verda­
O missionário metodista Larry Rankins, da ALFA- deiramente amamos aos outros como Jesus amou,
LIT, fala de um grupo de índios no México que se a sua beleza brilha através das nossas vidas.
mantinham estritamente isolados, evitando os bran­ Símbolos humanos devem ser complexos. Observe
cos que os ridicularizavam e os degradavam. Então, o detalhe complexo elaborado no castiçal de ouro.
auxiliado pela ALFALIT, este grupo de índios não A nossa religião não é estereotipada, tornando-nos
só aprendeu a 1er, mas recebeu ajuda para construir cristãos idênticos, como se viéssemos de uma linha
uma ponte que atravessava um rio perigoso que os de produção. Cada crente é um original “especial”.
separavam da cidade. Durante um momento de tes­ Cada um de nós possuiu dons diferentes, personali­
temunho, perto do fim do projeto, um dos índios dades diferentes, modos diferentes de servir e glorifi­
mais velhos se levantou, e contou como o seu povo car a Deus. Precisamos apreciar as diferenças uns dos
tinha se sentido inútil e envergonhado diante dos outros, pois é frequentemente na maneira que outro
brancos [que se impunham como] superiores. Ago­ cristão difere de nós que descobrimos uma nova ins­
ra, não só capazes de 1er, mas também capazes de piração espiritual.
projetar e construir a sua própria ponte, eles perce­ Símbolos humanos são custosos. O metal mais caro
beram que eram um povo que poderia se afirmar, e então conhecido, o ouro, revestiu completamente
se orgulhar. os móveis do Tabernáculo. Contudo, um ser huma­
Deus usou a ponte que os índios construíram como no redimido é o mais valioso de todos, pois fomos
um símbolo — representando que eles tinham va­ comprados pelo preço mais alto que já existiu e que
lor pessoal. Que fundamento para o ministério do existirá: a própria vida de Jesus Cristo.
evangelho. Pois a Boa-Nova do evangelho é que cada
ser humano tem tanto valor aos olhos de Deus, que Aplicação Pessoal
Jesus, o Filho de Deus, deu a sua própria vida para As outras pessoas veem os cristãos como represen­
remi-los. tantes de Deus. Nós somos símbolos, quer deseje­
Deus ainda usa símbolos, e o símbolo que mais fre­ mos, ou não.
quentemente serve como uma ponte entre Deus e
os perdidos é um símbolo humano — o crente. Se Citação Importante
olharmos de perto as descrições feitas por Moisés “Os hereges se converterão muito mais facilmente
dos artigos simbólicos no Tabernáculo, aprendere­ por meio de um exemplo de humildade e outras vir­
mos três coisas sobre as pessoas que servem a Deus, tudes do que por qualquer demonstração externa ou
como símbolos. batalhas verbais. Assim, armemo-nos com orações
Os símbolos humanos devem ser bonitos. O brilho devotas e comecemos a mostrar sinais de humildade
do ouro refletia cada raio de luz sobre os artigos genuína, encaminhando-nos com pés descalços para
que estavam no interior do Tabernáculo. Nós re­ combatermos Golias.” — Dominic
presentamos melhor a Deus quando a sua beleza
é vista nas nossas vidas e nas nossas atitudes em O Plano de Leituras Selecionadas continua em
relação aos outros. 1 Timóteo 1.5 (ARA) diz que o LEVÍTICO
objetivo de ensinar a doutrina cristã é “a caridade
69
LEVÍTICO

INTRODUÇÃO
Por volta de 2.100 a.C., Deus escolheu um homem, Abraão, e lhe fez algumas promessas especiais. O
Senhor seria o Deus de Abraão e dos seus descendentes. Ele também disse que seus descendentes seriam
escravos no Egito durante cerca de 400 anos.
Aquilo que Deus havia predito aconteceu. Um grupo de seus descendentes, exatamente 70 deles, se esta­
beleceu no Egito, seus membros eram chamados de “israelitas” por causa de Israel, neto de Abraão, e lá
eles se multiplicaram rapidamente. Durante esse tempo, os israelitas tornaram-se escravos dos egípcios e,
porque estavam esmagados com a opressão exercida pelos egípcios, eles clamaram ao Deus dos seus país.
Por volta de 1.450 a.C., o Senhor usou Moisés, um israelita que havia sido adotado pela família real egíp­
cia, para libertar o seu povo. A história dos milagres que Deus realizou para o seu povo está registrada no
livro do Êxodo. Esse livro também descreve a viagem do povo até o Sinai, onde Deus lhes deu uma Lei
pela qual deviam viver, e um Tabernáculo que simbolizava sua presença entre eles.
O livro de Levítico focaliza o relacionamento de Deus com o povo que escolheu. Esse livro contém as
instruções especiais que Ele deu a Moisés durante o ano em que os israelitas estiveram acampados diante
do monte Sinai. Essas instruções mostram como o povo escolhido poderia manter um relacionamento
íntimo e permanente com o Deus vivo.
Levítico é essencialmente um livro sobre adoração, um livro que trata dessa intimidade com Deus. Atu­
almente, podemos aplicar muitos dos princípios vistos nas práticas estabelecidas para Israel a fim de
aprofundar o nosso relacionamento pessoal com o Deus único e verdadeiro.
ESBOÇO DO CONTEÚDO
I. A Adoração como Sacrifício e Oferta................................................... ....Lv 1— 7
II. A Adoração como Serviço de Dedicação............................................ ..Lv 8— 10
III. A Adoração como Separação.............................................................. Lv 11— 15
IV. A Adoração como Garantia de Salvação............................................ Lv 16— 17
V..A Adoração como uma Vida de Santidade......................................... Lv 18— 22
VI. A Adoração como um Compromisso Pessoal.................................. ,Lv 23— 27
GUIA DE LEITURA (6 Dias)
Se você tiver pressa, pode ler somente a “passagem essencial” na sua Bíblia, e o Devocional em cada ca­
pítulo deste Comentário.
Leitura Capítulos Passagem Essencial
24 1— 7 4.1— 5.13
25 8— 10 9
26 11— 15 11
27 16— 17 16
28 18— 22 19.1-18
29 23— 27 25.8-55
LEVÍTICO
24 D E JANEIRO LEITURA 24
REGRAS PARA OS SACRIFÍCIOS
Levítico 1— 7

“Se qualquer outra pessoa do povo da terra pecar por ofertas de grãos (2.1-16), ofertas de comunhão
erro, fazendo contra algum dos mandamentos do Se­ (3.1-17), ofertas pelo pecado (4.1— 5.13) e ofertas
nhor aquilo que se não devefazer e assim for culpada” pela culpa (v. 14— 6.7) (veja quadro adiante). De­
(Lv 4.27). pois, Deus deu a Moisés instruções sobre os sacer­
dotes que faziam essas ofertas (v. 8— 7.21). Israel
O sacrifício e a oferta simbolizam a adoração de não devia comer a gordura ou o sangue dos animais
um povo que cometeu uma falta, que encontra (w. 22-27) e deveria dar aos sacerdotes, partes dos
o perdão e que, ao encontrá-lo, passa a gozar da animais sacrificados (w. 28-38).
comunhão com o Senhor. Nesses capítulos existe
uma variedade de sacrifícios e de ofertas que falam Entendendo o Texto
sobre esse relacionamento. “ Trazei as ofertas” (Lv 1.1-17). Todo holocausto re­
Definição dos Termos-Chave presentava um sacrifício voluntário e simbolizava o
Sacrifícios. O sacrifício de animais já era um ele­ compromisso assumido pelo adorador com Deus.
mento da adoração do Antigo Testamento antes de Era uma expressão de gratidão, uma indicação do
Deus dar a Lei a Moisés. O próprio Deus reali­ seu desejo de estabelecer uma comunhão com o
zou o primeiro sacrifício da história ao matar dois Senhor.
animais para providenciar roupas para Adão e Eva O derramamento de sangue representa uma expiação
depois que ambos pecaram (cf. Gn 3.21). — cobria o pecado. Mas uma coisa fazia essa oferta
Os sacrifícios descritos em Levítico 1— 7 estão além ser diferente das outras: todo o animal, e não apenas
do sacrifício pelo pecado. Os holocaustos simboli­ uma parte dele, devia ser consumido pelo fogo.
zavam uma consagração completa e a oferta de co­ Também para mim e para você, a consagração é
munhão simbolizava um íntimo relacionamento. um ato voluntário. Recebemos a salvação quando
Cada sacrifício exigia que o ofertante colocasse as aceitamos a Cristo, o único Sacrifício do qual todo
mãos na cabeça da sua oferta identificando-se com o sistema do Antigo Testamento está falando. Mas
ela na entrega da sua vida a Deus. somente respondemos inteiramente a Jesus quan­
Que saudável lembrança para nós. Jesus deu a sua do também decidimos dedicar a nossa vida ao Se­
vida para podermos receber o perdão. Mas, como nhor. Provavelmente, Paulo estava pensando nos
agora somos o seu povo, não devemos viver para holocaustos do Antigo Testamento como um todo
nós mesmos a vida que Ele redimiu. Ao contrá­ quando escreveu Romanos 12.1, “Rogo-vos, pois,
rio, devemos nos comprometer alegremente a viver irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis o
para o Senhor, em consagração e santidade. vosso corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a
Deus, que é o vosso culto racional”.
Visão Geral
Deus deu a Moisés instruções detalhadas para a “A s ofertas de manjares” (Lv 2.1-16). A oferta dos
comunidade em relação aos holocaustos (1.1-17), grãos exigia que ela fosse feita com a flor da farinha
Levítico 1—7

e que o grão não fosse inteiro ou de qualidade infe­ ou “bem-estar”. A oferta de comunhão representa
rior. E os grãos deviam estar misturados com azeite a celebração da harmonia e da paz interior expe­
de oliva, obtido depois de esmagar com grandes rimentadas por um pessoa que está em paz com
pedras o fruto daquela árvore. Deus. Assim sendo, ela era uma expressão de grati­
Esta oferta, que devia ser preparada pelo adorador, dão e de alegria (cf. 7.12,13).
simboliza o trabalho das nossas mãos. A expiação A família do ofertante comia, em conjunto, as
era alcançada através do sacrifício do animal e servepartes do animal sacrificado. Isso tem um simbo­
para nos lembrar de que nada que uma pessoa possa lismo muito poderoso, pois retrata os membros
fazer será suficiente para pagar pelos seus pecados. da família como convidados da mesa de Deus. No
O sangue deve ser derramado e uma vida deve ser Oriente Médio, servir alimentos era uma honra e
oferecida. A oferta de grãos lembra-nos de que uma uma expressão de amizade. Ao servir o alimento
vez que a expiação foi feita, tudo o que fizermos iráo anfitrião assumia a obrigação de proteger seus
contar. Podemos usar a nossa vida redimida para hóspedes. Dessa maneira, a oferta de comunhão
trabalhar para Cristo e pelo seu reino. nos lembra como a recepção de Deus é completa.
Nós nos sentimos protegidos e saudáveis na pre­
“O sacrifício de comunhão” (Lv 3.1-17). A palavra sença do Senhor nosso Deus. E Ele se compro­
hebraica é shalorn, ou “paz”. O sentido básico desse mete totalmente com aqueles que se aproximam
poderoso termo hebraico é “completa integridade” dEle com fé.
SACRIFÍCIOS E OFERTAS
Levítico 1.1— 6.7
Oferta Escritura Procedimento Disposição Simbolismo
Queima total Lv 1.3-17; 6.8-13 Colocar as mãos O sangue é Compromisso total
(animal) N m 28.1-8 sobre a cabeça do derramado sobre do adorador com o
animal sacrificado. o altar, o resto do Senhor.
Matá-lo no altar. animal é quei­
mado.
Cereal (grãos, Lv 2; O alimento é Uma porção Doação de talentos
bolos) 6.14-23 preparado pelo é queimada, o pessoais para enri­
ofertante e levado resto vai para os quecer o compro­
ao sacerdote. sacerdotes. misso.
Comunhão* Lv 3; Colocar as mãos O sangue é Refeição comum
(animal) 7.11-16 sobre a cabeça do derramado sobre como hóspedes
animal sacrificado. o altar, parte de Deus, estando
Matá-lo na porta é queimada, assim sob a sua
do Tabernáculo. parte é dada aos proteção.
sacerdotes, e
parte é comida
pela família do
ofertante.
Pecado Lv 4.1-25; Colocar as mãos O sangue nos Confissão do
6.24-30; 12.6-, sobre a cabeça do chifres e na base pecado e identifica­
14.12-14; animal. Matá-lo do altar. Partes ção com o animal
16.10,11 sobre o altar. são queimadas, sacrificado que
partes são dadas morre no lugar do
aos sacerdotes. pecador.
Culpa Lv 5.14— 6.7; Colocar as mãos Sangue derra­ Confissão do
(animal) 14.12-18 na cabeça do mado no chão. pecado e restaura­
animal sacrificado. Partes são dadas ção do relaciona­
Deve fazer restitui­ aos sacerdotes. mento com Deus
ção e pagar uma a quem o adorador
penalidade. ofendeu.
*Ofertas de ação de graças (Lv7.12; 22.29), ofertas votivas (Lv 7.16,17; N m 6.17-20), e ofertas voluntárias (Lv 7.16; 22.29; N m 15.3), são
tipos de ofertas de comunhão.

72
Levítico 1—7

'Sacrifícios pelos erros dos sacerdotes” (Lv 4.1— soa que utilize o dízimo do Senhor para pagar as
5.13). A oferta pelo pecado não era voluntária. suas próprias despesas violou uma “coisa santa”.
Aquele que pecasse, fosse um sacerdote que fora O dinheiro usado deveria ser reposto com um
ungido, fosse toda a comunidade, um líder ou acréscimo de um quinto e, a título de penalidade,
qualquer outro membro comum da comunidade, um animal deveria ser apresentado como oferta
deveria obedecer ao mesmo procedimento. pela culpa.
Para alguns deve ter sido difícil fazer a oferta pelo Por outro lado, se alguém pecasse contra outra
pecado, pois, como se tratava de um ato públi­ pessoa, ele ou ela deveria fazer uma restituição
co, ela servia como uma aberta admissão do pe­ total e, além do acréscimo de um quinto, um ani­
cado. Levítico 5.5,6 deixa bem claro a exigência mal deveria ser apresentado como uma oferta pela
de Deus. “Será, pois, que, culpado sendo numa culpa, a título de penalidade.
destas coisas, confessará aquilo em que pecou. E a A oferta pela culpa lembra-nos de que somos res­
sua expiação trará ao Senhor, pelo seu pecado que ponsáveis pelos nossos atos e pelo mal que possa­
pecou: uma fêmea de gado miúdo, uma cordeira mos fazer aos outros, mesmo quando esse mal não
ou uma cabrinha pelo pecado; assim, o sacerdote for proposital.
por ela fará expiação do seu pecado”.
Para alguns líderes deve ter sido particularmente “Dá ordem a Arão e a seus filhos” (Lv 6.8— 7-21).
difícil obedecer ao princípio expresso aqui. Nem Moisés deu instruções específicas aos sacerdotes
mesmo os pecados involuntários, que estão sen­ sobre como deviam fazer cada oferta.
do considerados nessa passagem, deveriam ser
escondidos, mas tratados abertamente. As vezes, “Fala aos filhos de Israel” (Lv 7.22-36). Dois ele­
os cristãos ficam preocupados com o fato de que mentos do sistema de sacrifícios foram enfatizados
se os outros virem suas faltas, irão duvidar do nessas palavras pronunciadas a toda comunidade.
evangelho. Portanto, esses cristãos vestem másca­ Ninguém devia comer a gordura ou o sangue dos
ras, fazem de conta que nada fizeram de errado, animais (veja Levítico 17) e as pessoas deviam
inventam desculpas e, geralmente, se recusam a certificar-se de que os sacerdotes receberiam a sua
tratar até mesmo os comportamentos involuntá­ parte.
rios que possam tê-los deixado em falta, ou até
ferido os outros. “Esta é a lei do holocausto” (Lv 7.37,38). Séculos
Esse capítulo, com as suas repetidas afirmações mais tarde, muitas pessoas têm discutido sobre
do tipo “devem trazer” lembra-nos de que lidar
com o pecado pessoal não é uma opção de uma quem teria registrado a história sagrada para justi­
comunidade de crentes. Trata-se de uma exigência ficar essas práticas. Esses dois versos nos contam,
necessária para um relacionamento saudável com inequivocamente, que foi Moisés.
Deus. Como? Estes versos foram escritos segundo um
antigo sistema de inscrição da Mesopotâmia, uma
“O sacrifício pelos pecados ocultos” (Lv 5.14— 6.7). forma usada no segundo milênio antes de Cristo,
A oferta pela culpa volta ao tema da oferta pelo com o qual Moisés estava bastante familiarizado.
pecado. Se uma pessoa infringir qualquer um dos No entanto, essa forma não foi usada nos séculos
mandamentos do Senhor, mesmo que seja por ig­ posteriores quando, segundo alguns sugeriram,
norância, será culpada e considerada responsável. os documentos bíblicos foram realmente escritos.
A oferta pela culpa serve como uma penalidade Esses versos representam uma clara indicação da
pelos erros cometidos. Por um lado, Deus deve autoria mosaica e da sua data, da mesma maneira
receber uma reparação pelo uso indevido de qual­ como a página de um livro moderno indica a data
quer coisa que seja santa. Por exemplo, uma pes- e o lugar da sua publicação.

DEVOCIONAL______
“Não Foi p or Querer” Não deu outra, na próxima corrida Sara chocou-se
(Lv 4.1— 5.39) com Sue, sua mãe, e machucou suas costas.
— Cuidado, você pode machucar alguém. — Sue — Sara! — mamãe gritou. — Isso me machucou.
preveniu Sara, de nove anos, que estava correndo — Não foi por querer. — respondeu Sara.
pela casa junto com Maximiliano, nosso cãozinho Essa desculpa, “Não foi por querer” se infiltrou em
da raça shnauzer. grande parte da teologia popular. Mesmo agora,
73
Levítico 8— 10

um dos meus amigos sofreu uma séria persegui­ cados e das faltas que cometemos sem querer para,
ção por parte de um conhecido líder cristão cuja então, podermos atingir aquele novo nível de ma­
desculpa foi, “Não tive a intenção de machucá-lo”. turidade espiritual que nos aguarda.
Sua teoria é que se os atos que prejudicaram a outra
pessoa não foram realizados através de uma viola­ Aplicação Pessoal
ção consciente e intencional da vontade de Deus, Quando é mais provável que você diga, “Mas, foi
náo houve nenhum pecado nesta situação. Portan­ sem querer”? De que outra maneira você poderia
to, ele não foi responsável pelo dano que causou à agir nessa situação?
vida de um irmáo.
Brenda, uma cristã muito imatura do nosso gru­ Citação Importante
po de estudo bíblico, chegou ao extremo. Ela ar­ “Qual é a essência do ritual religioso na Bíblia? Ele
gumentava que se alguma jovem solteira tomava é um meio de comunicação entre Deus e o homem,
anticoncepcionais em uma determinada data, era uma peça de teatro realizada em um palco e assis­
porque estava planejando manter relações sexuais e tida por espectadores humanos e divinos. Os ritu­
isso era pecado. Mas, se “isso simplesmente acon­ ais do Antigo Testamento expressam visualmente,
tecesse”, sem qualquer planejamento, então não e não verbalmente, as verdades religiosas. Eles são
seria pecado! Essa é uma teologia do “não foi por o equivalente antigo da televisão.” — Gordon J.
querer”, levada ao absurdo. Wenham
Essa passagem de Levítico nos convida a reavaliar a
nossa teoria do pecado e da responsabilidade. Muitas 25 DE JANEIRO LEITURA 25
e muitas vezes o texto diz, se alguém “pecar involun­ ADORAÇÁO COM O SERVIÇO
tariamente e praticar o que foi proibido em algum Levítico 8— 10
dos mandamentos da lei” esse alguém é culpado.
Somos plenamente responsáveis pelos nossos atos, “Então, disse Moisés à congregação; Isto é o que o Se­
pela nossa involuntária violação da Lei de Deus e nhor ordenou que sefizesse” (Lv 8.5).
também por qualquer mal involuntário que cau­
samos a alguém. A vista de Deus, esses atos são Estes capítulos descrevem a iniciação de Arão e
pecados. de seus filhos no sacerdócio de Israel. De maneira
Por que nessa passagem Deus insiste tanto sobre os significativa, cada um deles ressalta que, embora o
pecados involuntários? Primeiro, porque Ele quer fato de oferecer ao Senhor um serviço consagra­
que aceitemos a responsabilidade daquilo que fa­ do seja uma forma pela qual podemos mostrar a
zemos. Não podemos ser amigos de Deus, ou dos nossa adoração, o nosso ministério deve ser execu­
outros, se continuamos a nos desculpar dos atos tado totalmente de acordo com os mandamentos
pecaminosos que praticamos lamentando: “Mas foi de Deus.
sem querer”. Segundo, Deus insiste nesses pecados
porque quando confessamos e corrigimos o mal Visão Geral
que causamos, Ele está pronto para nos perdoar. Aarão e seus filhos foram consagrados em uma ce­
Foi difícil para Sara, com seus nove anos, enten­ rimônia comovente que durou sete dias (8.1-36).
der que precisava aceitar a responsabilidade e di­ Eles oficiaram nos sacrifícios oferecidos da maneira
zer: “Sinto muito, não vou mais correr pela casa”. prescrita (9.1-24). Nadabe e Abiú morreram por
Ela preferia dar a desculpa de que havia sido “Sem oferecer “fogo estranho”, e Moisés insistiu na im­
querer”. Na verdade, sabemos que ela não tinha in­ portância de servir a Deus exatamente como Ele
tenção de machucar a mamãe. Mas, com intenção havia prescrito (10.1-20).
ou não, o fato é que machucou. Será essencial para
Sara aprender a ser responsável pelos seus atos se Entendendo o Texto
deseja crescer e tornar-se uma pessoa madura e gen­ “Sua consagração levará sete dias” (Lv 8.1-36). Uma
til, e também aprender a pensar antes sobre como comovente cerimônia de ordenação serviu para
deve fazer para evitar causar danos aos outros. acentuar a importância do sacerdócio no Antigo
Isso também é difícil para os adultos. Muitas vezes, Testamento e o admirável privilégio dos sacerdotes.
dizemos sinceramente: “Não tive intenção de fazer Os homens, suas vestes e tudo que deveriam usar
isso a você”, no entanto, aquilo que aprendemos para servir ao Senhor eram reservados totalmente
nessa passagem é que dizer, “Não tive a intenção” para o serviço a Deus.
não é nenhuma desculpa. Durante o serviço da consagração, Moisés colheu
Portanto, devemos aceitar a responsabilidade pelos o sangue de um carneiro e colocou um pouco dele
nossos atos. Devemos praticar a confissão dos pe­ sobre o lóbulo da orelha direita do sacerdote, sobre
74
Levítico 8— 10

o polegar da mão direita e sobre o polegar do seu rar que o povo tenha “jubilado e caído sobre as suas
pé direito (w. 22,23). Aqueles que servem a Deus faces” quando viu as chamas celestiais.
devem estar prontos para ouvir a sua voz, para de­ A “Alliance Church” na cidade de Salem, Oregon,
dicar todo o seu esforço ao serviço do Senhor e an­ adotou a prática de colocar “Cartões de Agrade­
dar segundo os seus caminhos. cimento” nos bancos da igreja. Seus membros são
Esse padrão também é verdadeiro para os sacerdo­ orientados no sentido de enviar um agradecimento
tes de nossos dias. Se quisermos adorar a Deus com às pessoas que lhes ministraram naquela semana,
o nosso serviço, devemos também ouvi-lo, deve­ ou que os ajudaram de alguma maneira. Os cris­
mos nos esforçar para alcançar os seus fins e manter tãos também se alegram e se sentem levados ao
nossa santidade pessoal através da obediência. culto quando veem provas de que Deus aceitou
seus serviços e os usou para enriquecer a vida de
“Fogo saiu de diante do Senhor e consumiu o holo­ outros.
causto” (Lv 9.1-24). Os sacerdotes começaram seu
ministério oferecendo uma série de sacrifícios, pri­ “Fogo estranho” (Lv 10.1-7). Não podemos de­
meiro por eles mesmos, e depois pelo povo. terminar os motivos que levaram Nadabe e Abiú
A sequência destes sacrifícios é bastante significa­ a fazer uma oferta que os levou à morte. Sabe­
tiva. Primeiro, a oferta pelo pecado (w. 3,8,15), mos, na verdade, que eles infringiram um claro
segundo, o holocausto (w. 3,12,16), e terceiro a mandamento de Deus a respeito de como Ele
oferta pacífica e da comunhão (w. 4,18). A oferta devia ser servido. A frase “Fogo estranho” suge­
pelo pecado fala da expiação pela qual os pecados re que houve uma infração. O incenso só podia
do ofertante são cobertos. O holocausto fala sobre ser queimado sobre carvões tirados do altar do
a consagração pessoal e voluntária da própria pes­ sacrifício (cf. 16.2). Além disso, somente Arão
soa a Deus. A oferta da comunhão fala da ação de podia oferecer incenso dentro do Tabernáculo
graças e do completo bem-estar. (Êx 30.1-10).
Essa mesma sequência é obedecida na nossa experi­ Qualquer que tenha sido o seu motivo, os atos de
ência com o Senhor. Devemos, em primeiro lugar, Nadabe e Abiú mostraram um total desprezo em
confiar no Salvador que morreu pelos nossos peca­ relação às detalhadas e cuidadosas instruções de
dos e depois podemos dedicar nossa vida ao seu ser­ Deus sobre o serviço sacerdotal. Imediatamente,
viço. Somente então, em um relacionamento pessoal começou a surgir um fogo vindo do Senhor e os
com Jesus e através do nosso compromisso com Ele, consumiu e eles “morreram perante o Senhor”.
iremos encontrar a alegria e a paz interior. Deus explicou este castigo: “Serei santificado na­
Os últimos versos, que falam sobre o fogo do Senhor queles que se chegarem a mim, e serei glorificado
que consumiu os sacrifícios, indicam que Deus es­ diante de todo o povo”.
tava satisfeito com os sacrifícios e tinha aceitado as Aqueles que afirmam servir a Deus devem honrá-
ofertas dos sacerdotes e do povo. Não é de se admi­ lo servindo-o da maneira como Ele prescreveu. E é

n u ; h , h »'W d 'w „„.i.,'.

Os incensórios nos quais o incenso era queimado eram pequenos, e tinham a forma de uma pá. Muitos incensórios,
como aqueles que são mostrados aqui, foram recuperados de centros religiosos por todo o Oriente Médio.
75
Levítico 8— 10

particularmente importante que aqueles que afir­ é chamado para ensinar não pode, simplesmente,
mam representar a Deus sejam obedientes a Ele. sofrer qualquer prejuízo das suas faculdades cau­
Em certo sentido, Deus colocou a sua glória e a sua sado pela bebida ou, como nos tempos modernos,
honra nas nossas mãos. pelas drogas.
“Vinho ou bebida forte [fermentada]... não bebereis’’ “Será que o Senhor ficou satisfeito?” (Lv 10.12-20).
(Lv 10.9-11). No Antigo Testamento, o vinho está Arão e seus dois outros filhos continuaram a mi­
frequentemente associado à alegria e à celebração. nistrar no Tabernáculo depois que Nadabe e Abiú
O vinho [não fermentado] era bebido em banque­ foram mortos. Entretanto, podem ter sentido que
tes e festas (1 Sm 25.18), oferecido como presente somente eles podiam oferecer os sacrifícios exigi­
(2 Sm 16.1) e até derramado sobre as ofertas feitas dos. Moisés havia ordenado que não se lamentas­
a Deus (Êx 29.40; Lv 23.13; Nm 15.7). sem da maneira como os israelitas se comportavam
Embora muitas vezes o vinho seja símbolo de júbi­ habitualmente quando a morte os atingia (v. 6).
lo, a embriaguez e o abuso do álcool eram rigorosa­ Mais tarde, naquele mesmo dia, Arão e seus filhos
mente censurados. Os sacerdotes eram advertidos não comeram a sua parte da oferta pelo pecado,
a nunca beber vinho quando entravam no Taber­ como Moisés havia ordenado. Moisés ficou zanga­
náculo para servir ao Senhor. Por quê? Porque os do, mas Arão explicou: Será que Deus ficaria con­
sacerdotes tinham a responsabilidade de “fazer di­ tente se Arão tivesse exercido o seu privilégio como
ferença entre o santo e o profano” e de “ensinar sacerdote para se regalar com a oferta pelo pecado,
aos filhos de Israel todos os estatutos que o Senhor tendo em vista aquela trágica desobediência e as
lhes tem falado”. Aquele que serve a Deus, e que suas consequências?

DE V OCIONAL_______
Jesus E Senhor podem ser aplicadas em um debate sobre a figura
(L V 9teológicas
)
do Senhor. Em primeiro lugar, nós devemos nos
Essa é uma das questões que as pesso­ aproximar de Deus através de Jesus, e essa é a nossa
as gostam de discutir. Você consegue aceitar Jesus oferta pelo pecado. Crer nEle como nosso Salvador
como Salvador sem aceitar também que Ele é o representa o fundamento da nossa salvação. Segun­
Senhor? do, uma vez salvos, podemos nos comprometer
Um lado argumenta que tudo o que Deus exige é voluntariamente com Jesus, como sendo o nosso
que creiamos sinceramente que Jesus morreu pe­ Senhor. Terceiro, logo depois desse total compro­
los nossos pecados, enquanto o outro afirma que, misso experimentaremos a paz que Deus torna dis­
como Jesus é o Senhor, para que alguém possa ver­ ponível a todos aqueles que são seus.
dadeiramente crer nEle deverá também aceitar que Parece que essa analogia está do lado daqueles que
é ao mesmo tempo Salvador e Senhor. dizem que você pode aceitar a Jesus como Salvador,
Estabelecer uma analogia com Levítico 9 irá nos sem se comprometer com Ele como Senhor. Mas,
ajudar a resolver a questão. Observe a sequência essa sequência nunca tem fim! A experiência cristã
dos sacrifícios oferecidos pelos sacerdotes e pelo se compõe de uma série de passos em direção a essa
povo. Primeiro, era sacrificada a oferta pelo pecado intimidade. Deus nunca pretende que um crente
e esse sacrifício devia cobrir os pecados do ofer- salvo deixe de se comprometer totalmente com a
tante. Como Levítico 4— 5 afirma repetidas vezes sua comunhão.
que a pessoa que se aproxima de Deus deve levar Isso representa um grande estímulo. Sim, é emo­
essa oferta se deseja ser aceita. O holocausto era cionante conhecer a Jesus como Salvador. Mas a
sacrificado em seguida. Esse sacrifício simbolizava salvação é o começo, e não o fim, da nossa jornada
o total compromisso do fiel para com Deus e era em direção a Deus. Somente à medida que você e
uma oferta voluntária que representava o compro­ eu continuemos a caminhar em direção a Ele, dan­
misso pessoal que se deve esperar de um cristão do, diariamente nossos passos de compromisso e
que, conscientemente, se compromete com Jesus obediência, iremos descobrir a plenitude da alegria
como seu Senhor. Em terceiro lugar era sacrifica­ de conhecer as promessas de Jesus.
da a oferta pela comunhão. Essa oferta fala sobre
a inteireza e a harmonia interior experimentadas Aplicação Pessoal
pela pessoa que vive em uma íntima amizade com Procure pensar que a fé cristã é uma caminhada em
o Senhor. Esse padrão sugere várias realidades que direção à intimidade com Deus. A que distância
76
Levítico 11— 15

você está nessa caminhada? Do que você precisa e demonstravam que a nação devia ser separada
para dar o próximo passo? para o Senhor.
Citação Importante Separação. A ideia básica era remover uma coisa de
“Almeje a presença de Deus com pequenas, mas outra coisa e, dessa maneira, fazer uma distinção
frequentes manifestações de coração. Admire sua entre as duas. O relacionamento da separação com
beleza, peça sua ajuda, coloque-se espiritualmente as inúmeras leis encontradas nessa seção está defi­
ao pé da sua cruz, adore a sua bondade, converse nido em Levítico 20.24,25, onde o Senhor expli­
com Ele sobre a sua salvação, dê a Ele toda a sua cou: “Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos separei
alma mil vezes por dia.” — Francis de Sales dos povos. Fareis, pois, diferença entre os animais
limpos e imundos e entre as aves imundas e as lim­
pas”. Essas práticas um pouco peculiares, descritas
26 DE JANEIRO LEITURA 26 nesses capítulos de Levítico, tinham a finalidade de
DEVOCIONAL COM O SEPARAÇÃO lembrar, constantemente, ao povo de Deus que eles
Levítico 11— 15 eram diferentes de todas as outras nações por causa
do seu relacionamento pessoal com o Senhor.
Você deve “fazer diferença entre o imundo e o limpo”
(Lv 11,47). Visão Geral
As leis tinham o propósito de separar os israelitas
Algumas leis do Antigo Testamento parecem ter, dos outros povos, regulamentar sua alimentação
como principal finalidade, o estabelecimento de (11.1-47) e purificá-los da imundície (12.1-8). A
um estilo único de vida para o povo de Deus. Os fim de proteger a saúde de Israel, os portadores de
israelitas eram constantemente lembrados a respei­ doenças infecciosas da pele eram isolados (13.1-
to do relacionamento com o Senhor e sobre sua 46), e as vestes que estivessem contaminadas por
diferença em relação aos outros povos da terra. fungos eram queimadas (w. 47-59). Um ritual de
purificação era realizado para as pessoas que tives­
Definição dos Termos-Chave sem sarado de alguma doença de pele (14.1-32), e
Imundo e limpo. A palavra hebraica taher significa se houvesse uma reinfestação de fungos em alguma
“ser ou se tornar puro”, enquanto Tame’ significa casa, ela deveria ser abandonada (w. 33-57). As
“ser ou se tomar imundo, corrompido”. Em Leví­ várias excreções do corpo humano, que tornavam
tico, assim como em Números, estas palavras estão uma pessoa impura, exigiam que ela fosse purifica­
associadas a um ritual ou a um cerimonial. Pessoas da (15.1-33).
“limpas” tinham permissão de participar de todos
os ritos religiosos de Israel. As pessoas que eram Entendendo o Texto
“temporariamente” imundas não tinham permissão “Estes são os animais que comereis” (Lv 11.1-47).
de juntar-se à comunidade nas suas orações ou de Foram apresentadas três teorias para explicar esses
comer a carne que havia sido sacrificada ao Senhor. regulamentos sobre a alimentação. (1) Eles tinham
Em alguns casos, a pessoa era isolada fisicamente a finalidade de ajudar Israel a evitar os ritos dos
das outras enquanto estivesse “imunda”. Somente sacrifícios pagãos. (2) Eles tinham a finalidade de
mais tarde nos Profetas, a Bíblia passa a empregar levar Israel a fontes saudáveis de alimentos e evi­
“limpo” e “imundo” para descrever a condição mo­ tar aqueles animais que possivelmente poderiam
ral de uma pessoa. transmitir doenças. (3) Eles tinham a finalidade
Nestes capítulos, as palavras limpo e imundo não de ajudar Israel a manter-se separada das outras
têm nenhum sentido moral de “bom” ou “mau”, nações e fazer com que os judeus se conservassem
nem seu sentido é de ser intrinsecamente “certo” constantemente cientes da sua obrigação de obede­
ou “errado”, embora ignorar alguma das leis de cer a todos os mandamentos de Deus.
Deus fosse um pecado para Israel. Em Levítico, Os cristãos não têm obrigação de obedecer às leis
as regras sobre a limpeza serviam para mostrar alimentares do Antigo Testamento (cf. At 10.9-22;
ao povo de Deus que o Senhor estava intima­ G1 2.11-16). A nossa separação deve ser interior, e
mente envolvido com sua vida diária. Ele estava não pode ser definida por aquilo que comemos ou
preocupado com aquilo que comiam, com suas por quaisquer outras práticas morais neutras. No
doenças, com o nascimento e a morte, e com as entanto, devemos nos manter cientes, em todo o
práticas que promoviam a saúde pública. E, de tempo, de que somos um povo separado por Deus.
uma maneira bastante real, essas regras faziam Ele está intimamente preocupado com aquilo que
com que Israel se diferenciasse dos outros povos, acontece na nossa vida cotidiana.
77
Levítico 11— 15

ALIM ENTOS LIMPOS E IM UNDOS


Animais Criaturas aquáticas Aves Insetos
ruminantes, com peixes com barbatanas pombo, galinha, de pernas ligadas -
Limpos unhas fendidas — e escamas etc. gafanhotos, etc.
carneiro, boi cabra,
etc.
todos os outros — todas as outras — aves de rapina, todos os insetos
camelo, cavalo, enguias, arraiais, comedores de de enxame e que
Imundos zebra, etc. tubarões, etc carne putrefata — rastejam —
águias, gaviões, abelhas, formigas,
quebrantossos, etc. baratas etc.
“A mulher que conceber” (Lv 12.1-8). A imundície “O momento da sua cerimônia de purificação” (Lv
não é causada pela criança, mas pela perda de sangue 14.1-57). Os regulamentos sobre a purificação
e de fluidos associados ao parto (veja 15.1-33). também contribuíam para a saúde publica de Is­
Nesse caso, o rito da purificação exige o sacrifício rael. Para que uma pessoa recuperada de uma do­
de um animal, assim como um banho com água. ença infecciosa de pele pudesse retornar à comu­
Observe que os pobres (12.8) não eram obrigados nidade ela precisava raspar todo o cabelo e pêlos
a trazer um cordeiro, mas apenas duas rolas ou dois de seu corpo e lavar cuidadosamente suas roupas
pombinhos. Essa foi a oferta de Maria quando e seu corpo. Além disso, essa pessoa devia fazer a
cumpriu esses ritos depois do nascimento de Jesus. oferta pelo pecado e pela culpa.
Cristo não nasceu apenas como um verdadeiro ser Observe que o sacerdote oficiante devia aspergir o
humano, Ele nasceu em uma família que vivia à sangue do sacrifício sobre a orelha direita e sobre o
beira da pobreza. polegar da mão e do pé do fiel, exatamente como
“Uma doença infecciosa de pele” (Lv 13.1-46). As era feito na ordenação dos sacerdotes. O leigo, as­
versões mais antigas traduzem a palavra samat sim como o ministro, deve ouvir e responder à voz
como “lepra”. Na verdade, ela significa qualquer de Deus, a fim de se comprometer com o serviço
doença de pele e foi ampliada para indicar o mofo ativo e andar nos caminhos de Deus.
ou qualquer podridão que aparecia nas vestes ou na
parede de um edifício. “Se derribará a casa" (Lv 14.33-57). Uma casa
Quando aparecia qualquer erupção ou inchaço na onde o mofo fosse recorrente deveria ser derru­
pele a pessoa tinha o dever de mostrar ao sacerdote bada. Não há nenhuma regra semelhante para
porque a lesão poderia se transformar em uma do­ o ser humano, pois para você e para mim Deus
ença infecciosa. Nesse caso, essa pessoa permanecia sempre estende os braços para nos acolher. Tudo
“imunda” e “habitará só; a sua habitação será fora que precisamos fazer é abandonar o nosso pecado,
do arraial”. confessá-lo e Deus irá “perdoar os pecados e nos
Esse regulamento nos lembra que até o animal sa­ purificar de toda injustiça” (1 Jo 1.9).
crificado a Deus devia ser sem mácula. Simbolica­
mente, isso fala sobre a pureza da vida que nos foi “Qualquer homem que tiver fluxo de sua carne” (Lv
oferecida pela morte de Cristo. Efésios 5.25-27 nos 15.1-33). Qualquer tipo de fluxo da carne era
diz que Cristo “amou a igreja e a si mesmo se entre­ suficiente para tornar um israelita impuro. Qual­
gou por ela, para a santificar, purificando-a com a quer coisa que uma pessoa impura tocasse, assim
lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si como suas vestes, também se tornavam impuras.
mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem As pessoas e as roupas deviam ser lavadas com água
coisa semelhante, mas santa e irrepreensível”. e continuavam impuras “até à tarde”. A tarde era
Embora as leis relativas à doença de pele tivessem particularmente especificada porque os hebreus
uma mensagem simbólica para Israel, elas também consideravam que a tarde representava o fim de um
tinham a finalidade prática de promover a saúde dia e o começo do outro.
pública. O isolamento protegia os filhos de Deus Novamente, essas especificações tinham valor para
de muitas pragas que devastavam os outros povos a saúde pública, mas também tinham, pelo menos,
da antiguidade. mais uma outra implicação.
78
Levítico 16— 17

As religiões pagãs geralmente relacionavam a ado­ E nenhuma pessoa ritualmente imunda tinha
ração às divindades com o ato sexual e muitas ve­ permissão de participar da adoração ao Senhor!
zes incluíam na adoração a participação de pros­ Dessa maneira, Deus deixou bem claro que esta­
titutas do sexo feminino e masculino. Mas em va preocupado com a pureza moral. A adoração
Israel a eliminação do sêmen tornava ritualmente ao Senhor não devia ser corrompida por práticas
imundos o homem e a mulher (cf. w . 2,16,32). pagãs pervertidas.

DEV OCIONAL______
A Separação na Atualidade Citação Importante
(Lv 11) “Não devemos comer do seu pão porque podemos
Quando eu era um cristão novo convertido, me ser levados a beber do seu vinho. Não devemos be­
envolvi com uma pequena igreja Batista cujas ber do seu vinho porque podemos ser levados a nos
práticas se assemelhavam às leis de separação casar entre eles, e isso só serviria para nos levar a
de Israel. Tínhamos uma relação das coisas que adorar os seus deuses.” — O Talmude
um cristão podia ou não fazer, coisas que nos
separavam dos outros. Os adolescentes levavam 27 DE JANEIRO LEITURA
Bíblias de capa vermelha pata a escola secular, . AADORAÇÁO COM O GARANTIA
e nenhum de nós podia ir ao cinema, dançar, Levítico 16— 17
ingerir bebidas alcoólicas ou dizer algum pala­
vrão. íamos à igreja duas vezes aos domingos e “Assim, fará expiação... por causa das imundícias dos
também nas noites de quarta-feira. filhos de Israel e das suas transgressões, segundo todos
A despeito do que alguém poderia pensar, para os seus pecados” (Lv 16.16).
mim não representava nenhum problema vi­
ver sob esses regulamentos. Eu até os obedecia As ofertas pelo pecado tratavam apenas dos peca­
alegremente, pois nesta mesma igreja encontrei dos involuntários. No Dia da Expiação era ofereci­
carinho, aceitação, estímulo, entusiasmo, com­ do um sacrifício que dava aos israelitas a certeza de
promisso, oração fervorosa e a sincera atenção que todos os seus pecados estavam perdoados.
que uns dedicavam aos outros, assim como ao
destino eterno dos nossos vizinhos. Definição dos Termos-Chave
Foi somente bem mais tarde que comecei a en­ Perdão. No hebraico esta palavra significa “cobrir
tender a verdade. A nossa verdadeira “separação” ou esconder”. Nos sacrifícios de expiação de Israel
não era definida pelo que fazíamos ou deixáva­ Deus cobria os pecados do seu povo para poder
mos de fazer. O que realmente nos diferenciava estabelecer comunhão com eles.
dos outros, por formarmos uma verdadeira co­
munidade de pessoas de Deus, era o carinho que Sangue. O sangue exercia um papel vital nos sa­
compartilhávamos quando nos encontrávamos crifícios do Antigo Testamento. Ele representava a
para amar o Jesus que existia em cada um de nós. vida biológica do homem e dos animais. Na Bíblia,
Porém, mesmo assim, não podemos fazer aquilo o perdão de Deus está consistentemente relaciona­
que as pessoas mundanas fazem. do com o derramamento de sangue.
A morte de Jesus cancelou os regulamentos que Visão Geral
governavam Israel e fez com que eles se tornas­ Deus deu aos sacerdotes e aos israelitas instruções
sem irrelevantes para nós atualmente. Mas o detalhadas para o Dia da Expiação (16.1 -34), assim
povo de Deus ainda deve mostrar que é diferente como as regras para a apresentação dos sacrifícios
e está separado de todos os outros. A diferença (17.1-9). Era proibido comer carne sem o respecti­
que é verdadeiramente importante para Deus é vo derramamento de sangue (w. 10-16).
a diferença marcada pelas atitudes, pelo amor,
pelo carinho e pelo compromisso que experi­ Entendendo o Texto
mentei na primeira Igreja que frequentei há tan­
“Efiará expiação por si”(Lv 16.1-6). No Dia da Ex­
to tempo atrás. piação, o sumo sacerdote de Israel devia sacrificar
um novilho para a expiação dos seus próprios pe­
Aplicação Pessoal cados e, somente então, podia fazer um sacrifício
Para Deus, a separação é uma questão do cora­ pelos pecados do povo. Cada um de nós necessita
ção. Faça com que aquilo que o torna diferente se aproximar humildemente de Deus, pois todos
dos outros seja realmente importante. nós pecamos.
79
Levítico 16— 17

O fato do sumo sacerdote de Israel oferecer um “A expiação deverá ser feita... uma vez no ano” (Lv
sacrifício público para o perdão dos seus próprios 16.24-34). O sacrifício do Dia da Expiação devia
pecados mostra que cada um de nós deve, também, ser repetido anualmente. Hebreus 10.3, 4 revela
se manter humilde perante os outros. que a repetição desse sacrifício servia como uma
“comemoração dos pecados, porque é impossível
“Um bode para expiação do pecado” (Lv 16.7-22). que o sangue dos touros e dos bodes tire pecados”.
Dois bodes eram escolhidos para o Dia da Expiação. Esse sacrifício realmente cobria os pecados de Isra­
Um deles era sacrificado e seu sangue era espargido el; mas, para tirar os pecados, somente um sacrifí­
sobre o altar. O outro era separado “para ser bode cio seria realmente eficaz.
emissário” (azazel — conforme a versão NTLH). Como é bom saber que “temos sido santificados
Essa palavra hebraica ocorre somente aqui e seu pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma
significado é discutido. A explicação mais provável vez” (v. 10).
é que azazel corresponde a um termo teológico que Cristo ofereceu, para todo o sempre, um sacrifício
significa “remoção completa”. pelos pecados “porque, com uma só oblação, aperfei­
Na cerimônia do Dia da Expiação, depois que os çoou para sempre os que são santificados” (v. 14).
sacrifícios terminavam, o sumo sacerdote estendia
as mãos sobre a cabeça do bode expiatório trans­ Sacrifícios no arraial (Lv 17-1-9). Todos os sacrifí­
ferindo, simbolicamente, para ele os pecados de cios feitos pelos israelitas deviam ser oferecidos no
Israel. Ele era, então, levado para o deserto e isso Tabernáculo. Essa regra colocava os israelitas à par­
simbolizava uma “remoção completa” de “todos os te das outras nações cujos povos ofereciam sacri­
pecados” da comunidade da aliança. fícios aos deuses pagãos em diferentes santuários.
Esse ato de remover os pecados tinha a finalida­ Isso nos lembra das palavras de Jesus; “Eu sou o ca­
de de transmitir a Israel a segurança de que seus minho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai
pecados haviam sido verdadeiramente elimina­ senão por mim” (Jo 14.6). Se desejamos ir a Deus
dos. A nação havia sido perdoada e aceita pelo devemos nos aproximar dEle da maneira como Ele
Senhor. nos ordenou.
“Todas as iniquidades” (Lv 16.18-22). A língua he­ “Porque a alma da carne está no sangue” (Lv 17-10-
braica faz uma distinção entre os pecados daqueles 16). Deus reservou o sangue dos animais, que é a
que tentam acertar mas não conseguem, e os peca­ fonte e o símbolo da vida biológica, para o sacrifí­
dos cometidos de forma voluntária e consciente. cio. O verso 11 diz: “Porque a alma da carne está
Os primeiros representam expressões inadvertidas no sangue, pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar,
da fragilidade humana, enquanto os outros são pe­ para fazer expiação pela vossa alma, porquanto é o
cados voluntários descritos com palavras hebraicas sangue que fará expiação pela alma”.
que significam “iniquidades” e “rebelião”. Como o sangue representa a própria vida, e era
Os sacrifícios descritos em Levítico 1— 7 não se usado na religião de Israel para o perdão dos pe­
destinam ao perdão dos pecados voluntários, pois cados, ele era um fluido sagrado. Nenhum judeu
somente pecados involuntários podiam ser trata­ devia ingerir sangue. O sangue do animal selvagem
dos através de ofertas pessoais. devia ser derramado sobre o solo e coberto com
Mas no Dia da Expiação Deus perdoava todos os terra. Comer qualquer animal, cujo sangue não
pecados de iniquidade e de rebelião. tivesse sido derramado por ocasião da sua morte,
O desejo de Deus é que todos nós saibamos que, tornava uma pessoa imunda.
qualquer coisa que tenhamos feito, Ele está pronto A natureza sagrada do sangue está frequentemente re­
para perdoar. Não há nada que possamos fazer para fletida em o Novo Testamento, onde o sangue de Je­
merecer a salvação, mas no supremo Dia da Expiação sus representa a vida que Ele deu por nós. Efésios 1.7
Jesus morreu no Calvário, pagando, em nosso lugar, o diz que “temos a redenção pelo seu sangue, a remissão
preço por qualquer coisa que possamos ter feito. das ofensas, segundo as riquezas da sua graça”.

DEV OCIONAL______
Ele Removeu os nossos Pecados ligava diariamente para minha casa em Phoenix,
(Lv 16) EUA.
Não sei como ela conseguiu o número do meu te­ Era uma dessas pessoas que se encontram atormen­
lefone. Mas, da cidade de Toronto, no Canadá, ela tadas pela incerteza. Será que ela havia realmente
80
Levítico 18—22

sido perdoada? Será que realmente acreditava? Será acorda e lhe dá alegria para enfrentar o dia. Ele
que tinha sido aceita por Deus? Depois de cada acalma a sua mente quando você dorme, e repousa
conversa, parece que ficava aliviada e tranquila. sobre seus olhos para que você não tenha sonhos de
Mas, no dia seguinte, o telefone tocava novamente medo e de mal, de malícias e de ofensas. E quando
quando sentia necessidade de partilhar seu tormen­ acordar novamente, ele lhe oferecerá um novo dia
to interior. de felicidade e paz.” — Gerald Jampolsky, M.D.
A cerimônia descrita em Levítico 16 lembra-nos de
que Deus não pretende nos deixar cheios de dúvi­ 28 DE JANEIRO LEITURA 28
das. Ele deseja que saibamos que fomos perdoados. : \ UMA VIDA DE SANTIDADE
Ele deseja que o adoremos com a completa segu­ Levítico 18— 22
rança da fé.
Mas, o que transmite segurança? A imagem do “Os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os
bode expiatório, a figura do sumo sacerdote, trans­ quais, fazendo-os o homem, viverá por eles. Eu sou o
ferindo simbolicamente “todas as iniquidades dos Senhor” (Lv 18.5).
filhos de Israel e todas as suas transgressões, segun­
do todos os seus pecados” — para o bode. E a fi­ Adorar é honrar a Deus. Nós honramos ao Senhor
gura deste bode sendo levado para o deserto, para quando o louvamos. Mas também o honramos ob­
nunca mais ser visto novamente na comunidade de servando suas leis e seus mandamentos e decidindo
Israel. viver uma vida santa.
Davi entendeu a mensagem e escreveu em um dos
seus Salmos: “Quanto está longe o Oriente do Oci­ Definição dos Termos-Chave
dente, assim afasta de nós as nossas transgressões” Estatuto. A palavra hebraica traduzida como esta­
(SI 103.12). tuto significa “gravar”. Ela sugere regras que foram
Lembre-se dessa imagem na próxima vez que se gravadas na pedra e que são(Jportanto, imutáveis.
sentir inseguro quanto ao seu relacionamento com
Deus. Imagine todos os seus pecados. Feche os Juízo, Lei. A palavra hebraica é mishpat e indica a
olhos e sinta que seus pecados estão sendo levados decisão judicial feita por uma autoridade compe­
para longe, não pelo bode expiatório de Israel, mas tente servindo, desse modo como um precedente
pelo próprio Jesus. Então, deixe que essa certeza do estabelecido para orientar os futuros juizes.
perdão lhe traga a paz interior. As leis descritas nessa seção não cobrem toda pos­
Os seus pecados foram eliminados. Eles estão mui­ sível violação aos princípios encontrados nos Dez
to longe de você, assim como o Oriente está longe Mandamentos. Elas servem como exemplos para
do Ocidente; isto significa que você está verdadei­ guiar Israel à medida que as futuras gerações ve­
ramente livre. Livre para adorar a Deus, e oferecer- nham a enfrentar novas situações.
lhe a sua gratidão.
Visão Geral
Aplicação Pessoal Deus espera que o seu povo goze uma vida de boa
O fato de saber que você foi perdoado afeta seus moral. Agora, a nação de Israel estava sendo en­
sentimentos a respeito de Deus? A respeito de si sinada que a santidade exige pureza sexual (18.1-
mesmo? A respeito dos seus pecados e dos seus er­ 30), responsabilidade social (19.1-18) e rejeição às
ros anteriores? práticas pagãs (w. 19-37). A infração às leis morais
exige um castigo (20.1-27) e os sacerdotes de Israel
Citação Importante estabeleceram um padrão moral ainda mais eleva­
“O que você pode desejar que o perdão não possa do e a pureza cerimonial (21.1— 22.33).
dar? Você quer paz? O perdão pode oferecer. Você
quer felicidade, uma mente tranquila, a certeza de Entendendo o Texto
um propósito e um sentido de valor e de beleza que “Relações sexuais” (Lv 18.1-18). Todas as sociedades
transcende o mundo? Você quer cuidados e segu­ estudadas pelos antropólogos têm regras contra o
rança, e o cuidado contínuo de uma proteção se­ incesto. Muitos sugerem que as regras estão funda­
gura? Você quer uma tranquilidade que não possa mentadas na genética: pais que são parentes próxi­
ser perturbada, uma benignidade que nunca possa mos têm não apenas a tendência, mas uma elevada
ser ferida, um consolo profundo e permanente, e possibilidade de gerar filhos deficientes. Mas essa
um repouso tão perfeito que nunca possa ser per­ passagem amplia o incesto para além do relacio­
turbado? O perdão pode lhe oferecer tudo isso, e namento sanguíneo considerando-o, por exemplo,
muito mais. Ele brilha nos seus olhos quando você no caso da mulher do irmão do pai de alguém.
81
Levítico 18— T l

A razão mais provável pela qual o incesto é uma uma deusa pagã na esperança de melhorar a saú­
coisa ruim, e também errada, é que ele cria emo­ de, ou de obter um emprego melhor, ou de obter
ções destruidoras que pervertem a própria estrutu­ riquezas. Aos olhos de Deus não existe nada que
ra da família, que é a unidade básica da sociedade. possa se igualar a uma vida humana.
Quando a família é ameaçada, toda a nação corre
perigo. “Não” (Lv 19.1-18). O que está implícito nos Dez
Essas leis nos lembram uma importante verdade. Mandamentos? Eles foram reescritos aqui, alguns
As leis de Deus definem o que é certo e o que é com suas detalhadas implicações. Abaixo estão al­
errado. Mas, elas não são arbitrárias. Aqueles que guns versos que podem ser comparados com cada
obedecem descobrem que as leis de Deus levam a um deles.
uma vida feliz e sadia. Aqueles que infringem as
leis de Deus descobrem que a desobediência leva Mandamento Versos
ao desastre.
I, II 4
“Não vos contamineis” (Lv 18.19-30). Essa passa­ III 12
gem identifica várias práticas como sendo “detes­
táveis” e contaminadoras. Entre elas, as principais IV, V 3
são a homossexualidade e a bestialidade, isto é, ter VI 16
relações sexuais com animais. E impossível, para al­
guém que leva as Escrituras a sério, descartar a ho­ VII 29
mossexualidade contemporânea como sendo um VIII, IX 11-16
“estilo de vida alternativo”. Os atos homossexuais
são pecados. Os estatutos de Deus permanecem X 18
firmemente gravados no tecido moral do nosso
universo. “Diferentes espécies” (Lv 19.19-37). Muitas regras
desta passagem, como não cruzar diferentes tipos
“Da tua semente não darás para a fazer passar pelo de animais, ou usar vestes tecidas com dois tipos de
fogo perante Moloque”(Lv 18.21). Esse tópico apa­ material, refletem o princípio da separação. Muitas
rece novamente em 20.1-5, que condena essa prá­ práticas de Israel tinham, simplesmente, a finali­
tica com os mais rigorosos termos. Por quê? Os es­ dade de lembrar ao povo de Deus que eles eram
tudiosos hebreus acreditam que a raiz mlk deveria diferentes dos outros povos.
ser traduzida como “sacrificado como uma oferta
votiva”, e não como um nome próprio, Moloque. “Amá-lo-eis como a vós mesmos” (Lv 19.33,34). Is­
Próximo às ruínas da antiga Cartago, uma pessoa rael havia passado por maus tratos no Egito. Deus
pode, atualmente, ir a um jardim onde estão enter­ insiste com o Seu povo para se lembrarem de como
rados os restos de milhares de crianças. A maioria se sentiam quando estavam lá, e diz: “Como o na­
delas é de recém-nascidos, mas suas idades variam tural, entre vós será o estrangeiro que peregrina
até quatro anos. Cada uma delas era enterrada viva convosco”; em outras palavras, ele deverá ser trata­
como uma oferta votiva à deusa Tanat. Para obter o do como se fosse um de vocês.
favor da deusa para alguma coisa que queriam, eles Quando algumas pessoas são maltratadas, elas se
ofereciam um filho. tornam hostis e cruéis para com os outros. Qual­
Isso me lembra uma amiga, uma cristã que se sub­ quer ofensa que você e eu possamos receber deve
meteu a dois abortos. Ela não consegue ver nada nos deixar ainda mais sensíveis, pois lembrar a ma­
de errado naquilo que fez, “E a mesma coisa que neira como fomos maltratados deve nos convencer
afogar cachorrinhos”, ela diz. Mas a razão de não de que devemos tomar cuidado para não maltratar
querer os filhos era, simplesmente, o fato de não os outros.
ser conveniente. Havia outras coisas que ela queria;
portanto, sacrificava uma criança que ainda náo “Certamente morrerá” (Lv 20.1-27). Outro antigo
tinha nascido. código legal impunha, frequentemente, a pena de
Suponho que existam casos em que, quando a vida morte por crimes contra a propriedade. O Antigo
da mãe correr perigo, o aborto poderá ser justifica­ Testamento, ao contrário, reserva a pena capital
do. Mas fazer um aborto apenas porque dar à luz é para crimes cometidos contra pessoas ou contra o
uma coisa inconveniente não deixa de ser um ato bem-estar público.
semelhante ao daqueles pais de antigamente que Em uma comunidade santa, certos padrões de­
comerciavam a vida de seus filhos com um deus ou vem ser impostos. Cada um dos crimes relaciona­
82
Levítico 23—27

dos aqui é mais grave do que poderia parecer. Por com padrões morais e rituais que Deus havia es­
exemplo, “amaldiçoar” a mãe ou o pai não signifi­ tabelecido.
cava apenas xingar qualquer um deles. Aqui “amal­ Mas, de dentro dessa santa comunidade, os sacer­
diçoar” implica uma tentativa de lhes fazer mal dotes haviam sido separados para o Senhor. Por­
pelo uso da mágica. Em Israel era proibido recorrertanto, os padrões pelos quais deveriam viver eram
a qualquer poder sobrenatural que não fosse Deus ainda mais elevados.
Por serem crentes e sacerdotes, os cristãos são cha­
(cf. v. 27). Qualquer tentativa de usar tais poderes
contra os pais representava um crime especialmen­ mados para viver de acordo com os padrões mais
te hediondo. elevados de santidade. Somente confiando no Es­
pírito Santo de Deus, e contando com a sua ajuda
“Aos sacerdotes” (Lv 21.1—22.33). Toda a comu­ é que podemos atender e superar os requisitos de
nidade de Israel era santa e devia viver de acordo justiça da Lei do Antigo Testamento (Rm 8.4).

DEV OCIONAL_______
A Natureza da Santidade É esse o tipo de vida que Deus nos pede para viver
(Lv 19.1-18) diariamente. E essa maneira de viver, essa simples
Moisés iniciou este texto citando palavras ditas prática de amor, é a santidade.
pelo Senhor Deus: “Santos sereis, porque eu, o Se­
nhor, vosso Deus, sou santo”. Aplicação Pessoal
Para a maioria dos cristãos, “santidade” é um ter­ Usando os critérios estabelecidos nessa passagem,
mo um pouco místico e enigmático. Desejamos ser qual é a pessoa mais “santa” que você conhece?
santos, mas não sabemos exatamente o que é a san­
tidade. Sabemos que Deus é santo, e entendemos Citação Im portante
que devemos ser santos como Ele. Mas, como fazer “Finalmente descobri qual é a minha chamada! A
para ser igual a Ele? minha chamada é amar.” — Teresa de Lisieux
Em Levítico 19 as leis são uma expressão do caráter
santo de Deus. Se desejarmos ter uma ideia sobre 29 D E JANEIRO LEITURA 29
a natureza da santidade tudo o que precisamos fa­ A ADORAÇÃO COM O UM
zer é meditar sobre alguns desses versos e entender COM PROM ETIM ENTO
aquilo que eles estão nos dizendo sobre Deus. Por
exemplo: Levítico 23— 27
* “Quando também segardes a sega da vossa ter­ “Observai os meus estatutos, guardai os meus juízos
ra, o canto do teu campo não segarás totalmen­ e cumpri-os; assim, habitareis seguros na terra” (Lv
te, nem as espigas caídas colherás da tua sega... 25.18, ARA).
deixá-los-ás ao pobre” (w. 9, 10).
* “Não fareis injustiça no juízo; não aceitarás o po­ Os crentes demonstram seu compromisso com o
bre, nem respeitarás o grande; com justiça julga­ Senhor através das decisões que tomam. Os últi­
rás o teu próximo” (v. 15). mos capítulos de Levítico analisam algumas deci­
* “Não te porás contra o sangue do teu próximo” sões que os israelitas deviam tomar quando entras­
(v. 16). sem na Terra Prometida e refletissem as escolhas
* “Não te vingarás, nem guardarás ira contra os que eu e você enfrentamos hoje em dia.
filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo
como a ti mesmo” (v. 18). Visão Geral
Eles deviam mostrar o compromisso assumido com
O que aprendemos com estes versos? Talvez tenha o Senhor reservando algum tempo para a adoração
sido o fato surpreendente de que a santidade e o (23.1-44), através da obediência diária, mesmo em
amor são gêmeos idênticos! meio às crises (24.1-23), pelo cuidado com a ter­
A expressão mais verdadeira da santidade é de­ ra (25.1-7) e a compaixão pelos pobres (w. 8-55).
monstrar amor pelos outros através de maneiras Para estimular esse compromisso, Deus recompen­
práticas. Cuidar dos pobres. Ser igualmente justo sava a obediência (26.1-13) e castigava a desobedi­
com os ricos e os necessitados. Não fazer nada que ência (w. 14-46). Além disso, cada pessoa devia,
possa fazer mal a alguém. Amar aos outros como voluntariamente, oferecer suas posses e a si mesmo
a si mesmo. ao Senhor (27.1-34).

83
Levítico 23—27

Entendendo o Texto misso com Deus deve ser expresso através da


“As Solenidades do Senhor”(Lv 23.1-44). Os israeli­
obediência.
tas deviam realizar seis festas anuais. Nenhum tra­
Os versos 1-9 enfatizam termos e ideias que trans­
balho devia ser feito em nenhum desses dias, elesmitem conceitos de “continuidade”, de uma “ordem
deviam ser dedicados à adoração e à celebração. que dura para sempre”, e de “regularidade”, e falam
Os feriados religiosos eram vívidas lembranças dasobre padrões repetidos na vida de cada crente. De­
natureza do relacionamento de Israel com o Senhor.
vemos ter a certeza de que as coisas comuns de cada
Vários deles repetiam experiências que Israel tivera
dia estejam em harmonia com a vontade de Deus.
com o Senhor e tinham a finalidade de afirmar a Os versos 10-23 descrevem uma crise. Um jovem,
identidade da nova geração como um povo redimi­ descendente de pais de diferentes origens, “blas­
do, guiado, protegido e assistido pelo Senhor. Não
femou o nome do Senhor e o amaldiçoou”. Sua
é de admirar que a maioria dessas festas represen­
implicação é que ele usou o nome de Deus para
tasse uma ocasião de alegria e de júbilo. fazer um encantamento mágico com a finalidade
O calendário religioso de Israel estabelecia o mesmo
de prejudicar um inimigo (cf. v. 10). Essa era uma
padrão que nós, cristãos, obedecemos atualmente. situação muito incomum, e o povo, sabiamente,
No Natal nos lembramos da encarnação do Filho procurou uma decisão da parte de Deus. Quando o
de Deus. Na Sexta-Feira da Paixão meditamos so­ povo ficou sabendo qual era essa decisão, obedeceu
bre a morte de Cristo por nós e em cada Páscoa e apedrejou o blasfemo até à morte.
nós nos alegramos com sua ressurreição que é uma Quando enfrentamos uma situação de crise nós
garantia da nossa própria ressurreição. também precisamos esperar até que a vontade de
Podemos focar a atenção no significado espiritualDeus fique bem clara e, então, devemos agir de
dos nossos feriados e, então, fazer deles um período
acordo com ela.
de celebração e de renovação espiritual. Tanto a obediência habitual à vontade de Deus,
como procurar a sua orientação, são maneiras de
“Fizeram os filhos de Israel como o Senhor orde­ demonstrar o nosso compromisso com a obediên­
nara a Moisés” (Lv 24.1-23). Esse capítulo des­ cia; e o Senhor Deus recebe esta atitude como uma
creve duas situações nas quais o nosso compro­ adoração aceitável.

OS FERIADOS RELIGIOSOS DE ISRAEL


Mês Data Feriado Significado
Io Nisã 14 Páscoa Ao fazer a refeição da Páscoa, a família repetia a noite em
(março— abril) que Deus matou os primogênitos do Egito, e trouxe a
libertação de Israel. Somos um povo redimido.
15-21 PãesAsmos Ao comer pão sem fermento a família partilhava a experi­
ência da primeira geração. Somos um povo de peregrinos.
16 Primícias Ao apresentar ao Senhor os primeiros feixes de cevada
madura, Israel o louvava pela expectativa da abundância.
Olhamos para o Senhor com esperança e confiança.
3o Sivã Pentecostes Nessa alegre celebração, marcada por muitos sacrifícios,
(maio—junho) Deus é louvado por uma rica colheita. Vemos a mão de
Deus nas dádivas que Ele nos dá.
7° Tisri Trombetas Um dia de repouso marca o primeiro dia do Ano Novo
civil. Deus renova nossa vida diariamente.
(set.— out.) 10 Dia da Nos ritos solenes desse dia Deus reafirma o perdão ofe­
Expiação recido ao seu povo pecador. Deus cobre o pecado, e, assim,
: ser aceitos como;
15-21 Taberná­ As famílias vivem ao ar livre representando a jornada até a
culos Terra Prometida. Deus está com o seu povo perdoado afim
de atender as suas necessidades

84
Levítico 23—27

“A terra guardará um sábado ao Senhor”(Lv25■1-7). te cumpriria a sua palavra e os abençoaria quando se


No Éden, Deus conferiu uma importante respon­ voltassem a Ele. Terceiro, o castigo serve para cons­
sabilidade a Adão: Lavrar e guardar o jardim (Gn cientizar as pessoas sobre a necessidade que têm de
2.15). Agora, Deus diz aos israelitas que deviam Deus. Somente pessoas cientes de que precisam do
deixar a terra repousar a cada sete anos e não plan­ Senhor são capazes de voltar-se para Ele.
tar nenhuma semente. O princípio é claro. Os seres Nós precisamos entender estas raras ocasiões quan­
humanos são responsáveis pela ecologia da terra. A do Deus castiga para nos encorajar. Como diz Pro­
chuva ácida não é apenas um jogo político entre vérbios 3.11, 12: “Filho meu, não rejeites a corre­
os países, mas o reflexo da falta de disposição do ção do Senhor, nem te enojes da sua repreensão.
homem de viver com responsabilidade no mundo Porque o Senhor repreende aquele a quem ama,
que Deus confiou aos seus cuidados. assim como o pai, ao filho a quem quer bem”.
“Se andardes nos meus estatutos’ (Lv 26.1-46). E “Um voto particular” (Lv 27.1-34). A Lei estabele­
muito fácil alguém se enganar. Muitas vezes pen­ ceu uma quantia mínima com a qual os israelitas
samos a respeito do castigo como uma penalidade, deveriam contribuir para sustentar os ministros
quando na verdade ele é uma forma de encorajar as (w. 30-33). Mas cada indivíduo tinha o privilégio
pessoas. Esse capítulo lembra a Israel que Deus usa de fazer um voto particular ao Senhor. A pessoa
duas maneiras para encorajar a sua obediência. que fazia esse voto podia dar qualquer coisa que
A primeira é a recompensa (w. 1-13). Deus pro­ possuísse; a si mesma, alguém da sua família, um
mete abençoar Israel se eles andarem nos seus es­ animal, sua casa, a terra da família ou um campo
tatutos “e guardarem os seus mandamentos”. Cada que tivesse comprado. Na verdade, essa pessoa pa­
benção deve nos deixar agradecidos e motivados gava ao Tabernáculo, ou ao tesouro do Templo, o
para continuar nos caminhos de Deus. valor da coisa dedicada.
A segunda é o castigo (w. 14-16). O castigo será Por que, então, esse capítulo não fala simplesmen­
aplicado “se me não ouvirdes, e não fizerdes todos te sobre dar várias quantias de dinheiro em vez de
estes mandamentos”. No entanto, até o castigo tem especificar pessoas, animais, casas e terra? Para nos
a finalidade de encorajar as pessoas e não de deses­ ensinar que tudo que é importante para nós, cada
perá-las. Como? Primeiro, ele serve para lembrar relacionamento e cada coisa possuída, deve ser
que Deus se mantém envolvido com a vida do seu mantido sob a nossa guarda e, quando solicitado,
povo, até quando pecamos! Se praticarmos o mal e deve ser colocado à disposição do Senhor. O di­
prosperarmos, isso é uma prova de que Deus nos nheiro é algo impessoal e somente quando o pre­
abandonou! Segundo, o castigo mostra que Deus é sente que damos a Deus representa alguma coisa
fiel à sua palavra. O Senhor prometeu castigar Israel que nos é cara e preciosa, significará alguma coisa
quando o seu povo desobedeceu. Mas Ele certamen- para nós, ou para Ele.

DEVOCIONAL_______
O Ano do Jubileu alimentos sem ter nenhum tipo de lucro (w. 35-
(Lv 25.8-55) 37). Segundo, se estivesse desesperado, um ho­
O Ano do Jubileu devia ser um ano de júbilo. mem poderia vender o direito de guardar o fruto
Devia ser o ano em que toda a família pobre “ga­ da colheita que a terra da família tivesse produ­
nhava na loteria”, e cada homem rico se alegrava zido, mas nunca vender a própria terra (w. 13-
por estas famílias. 29). Terceiro, se ficasse na miséria, um homem
Quando Israel entrou na Palestina, cada família poderia vender a si mesmo, mas nunca poderia ser
devia receber a sua própria terra para cultivar. tratado como um escravo (w. 39-53).
Essa terra, e a colheita que produzisse, iria susten­ Mas, quando chegasse o 50° ano, o Ano do Jubi­
tar a família e ser a fonte da sua riqueza. Deus dis­ leu, tudo deveria ser corrigido. Qualquer dívida
se que “a terra não se venderá em perpetuidade”. que o pobre tivesse devia ser cancelada, qualquer
Nenhuma família seria lançada na pobreza e cada terra que a família tivesse vendido devia ser devol­
um devia ter e manter o seu capital. vida e qualquer um que vivesse na escravidão de­
Mas o que poderia acontecer se uma família via ser libertado. Não é de admirar que a palavra
enfrentasse contratempos e se tornasse pobre? “jubileu” viesse a significar “júbilo” e “regozijo”.
Primeiro, aqueles que pudessem, deviam ajudar Deus realmente se preocupa com os pobres. Atra­
emprestando dinheiro sem usura, ou vendendo vés dessas provisões anuais da Lei do Antigo Tes­

85
Levítíco 23—27

tamento, Deus mostrou ao seu povo como eles Aplicação Pessoal


poderiam também mostrar seu cuidado para com Que elementos mostrados neste capítulo os cristãos
os pobres. podem adotar atualmente para lidar com a pobreza?
No entanto, ficamos sabendo que o Ano do Jubi­
leu, da maneira prescrita aqui, nunca foi celebrado Citação Importante
em Israel, nem uma única vez. Quando chegava o "Não cabe ao homem cristão pensar dessa maneira:
50° ano, os ricos aumentavam o controle sobre as O que tenho a ver com essa pessoa?... Basta que
suas riquezas, e os pobres continuavam na sua po­ nos lembremos de todas as coisas que o bondoso
breza. O povo de Deus teve várias oportunidades Senhor Jesus Cristo tem feito por nós, e que não
de realizar um sonho, mas muitas e muitas vezes devem ser retribuídas a Ele, mas direcionadas ao
as abandonaram. nosso próximo. Observe as necessidades do seu se­
Atualmente, quando lemos o código eterno melhante, e o que você pode fazer por ele. Pense da
que, de maneira tão maravilhosa, demonstra seguinte forma: ele é meu irmão no Senhor, coer-
a preocupação de Deus para com os pobres e deiro em Cristo, um membro do mesmo corpo, re­
os oprimidos, nós também somos impelidos a dimido com o mesmo sangue precioso, um irmão
sonhar com uma sociedade justa e moral. Uma na fé, chamado para a mesma graça e felicidade da
comunidade de fé, na qual as pessoas têm prio­ vida porvir.” — Erasmo de Rotterdam
ridade, e onde existe a preocupação com aque­
les que são menos afortunados, tem a marca da O Plano de Leituras Selecionadas continua em
santidade. NÚMEROS

86
NÚMEROS

INTRODUÇÃO
Este quarto livro do Antigo Testamento continua contando as origens de Israel. Os descendentes de
Abraão, o homem de fé de Deus, foram libertados da escravidão do Egito. Eles foram guiados até o Sinai
onde receberam uma complexa Lei pela qual deviam viver, e um Tabernáculo onde deviam orar. Agora os
israelitas estão prestes a sair do Sinai e fazer uma peregrinação até a Terra Santa. Por causa da sua desobe­
diência, esta viagem que poderia ter terminado em repouso para o povo de Deus dentro de alguns poucos
anos, foi prolongada para 38 anos. Durante a viagem morreu a geração que havia iniciado a peregrinação
e ela foi substituída por uma outra geração disposta e ansiosa para seguir o Senhor.
O livro dos Números tomou esse nome por causa do censo que registrou. Esse livro é em parte uma
narrativa e em parte uma legislação. Seu foco é a Terra Prometida para a qual Israel estava viajando. Suas
histórias e suas leis estão cheias de lições que podemos aplicar nas nossas próprias peregrinações na terra
em direção ao céu.

Egito Sinai Cades Campinas de Moabe

Ex 1 13 19 Lv N m 10 13 20 22 38

ESBOÇO DO CONTEÚDO
I. No Sinai.................................................................................................................................................Nm 1— 9
A. Organizando o acampamento......................................................................................................... Nm 1— 4
B. Purificação e consagração..................................................................................................................N m 5— 9
II. A Geração Perdida.........................................................................................................................N m 10— 19
A. A viagem para Cades..................................................................................................................... Nm 10— 12
B. A desobediência de Israel.............................................................................................................Nm 13— 14
C. Anos de peregrinação.................................................................................................................... N m 15— 19
III. A Nova Geração...........................................................................................................................Nm 20— 36
A. De Cades para Moabe...................................................................................................................Nm 20— 21
B. Balaão...............................................................................................................................................N m 22— 25
C. Preparação para a vitória..............................................................................................................Nm 26— 30
D. Promessas de vitória......................................................................................................................Nm 31— 36

GUIA DE LEITURA (6 Dias)


Se você tiver pressa, pode ler somente a “passagem essencial” na sua Bíblia, e o Devocional em cada ca­
pítulo deste Comentário.
Leitura Capítulos Passagem Essencial
30 1— 9 9
Comentário Devocional da Bíblia

31 10— 14 14
32 15— 21 21
33 22— 25 22.21-41
34 26— 30 27.1-11
35 31— 36 32

88
NÚMEROS
30 DE JANEIRO LEITURA 30
PRONTOS PARA A PEREGRINAÇÃO
Números 1— 9

“Segundo o dito do Senhor, osfilhos de Israelpartiam” como membros do exército de Deus. A questão
(Nm 9.18). não é se somos ou não importantes, é se Deus pode
contar conosco.
Uma peregrinação exige que cada crente se prepare Anos mais tarde, depois que uma nova geração ha­
para a guerra e para a adoração. Quando o povo de via substituído os homens e as mulheres que acam­
Deus começou a sua marcha, eles deveriam estar param no Sinai, foi feito um outro censo e o núme­
preparados para as duas coisas. ro total obtido foi aproximadamente o mesmo, isto
é, 601.730 pessoas. Mas o número de pessoas que
Visão Geral formavam as várias tribos havia mudado bastante.
Depois de passar um ano no Monte Sinai, o povo
de Israel passou 50 dias se preparando para a via­ Tribo Números 1 Números 2 6
gem até Canaã. Moisés fez uma contagem dos ho­
mens em condição de lutar (1.1-54), determinou Rúben 46.500 43.730
os acampamentos (2.1-34) e as tarefas da viagem Simeão 59.300 22.200
para os levitas (3.1— 4.49). Ficaram decididas três
questões sobre a pureza do ritual (5.1— 6.27), o Gade 45.650 40.500
Tabernáculo e os levitas foram purificados (7.1— Judá 74.600 76.500
8.26), e o povo celebrou a Páscoa (9.1-23).
Issacar 54.400 64.300
Entendendo o Texto Zebulom 57.400 60.500
“Levantai o censo” (Nm 1.1-54, ARA). Esse primei­
ro censo registrado em Números tinha a finalidade Efraim 40.500 32.500
de contar os homens capazes de servir ao exército. Manassés 32.200 52.700
Essa contagem incluía todo homem acima de 20
anos que estivesse em boa condição física. Benjamim 35.400 45.600
Cada um foi relacionado “nominalmente, cabeça Dã 62.700 64.400
por cabeça” e o censo revelou o número de 603.550
homens capazes de servir. Aser 41.500 53.400
É fascinante observar a ênfase dada a cada indiví­ Naftali 53.400 45.400
duo entre centenas de milhares de homens. Quan­
do o povo de Deus estava em peregrinação cada 603.550 601.730
pessoa era importante.
O mesmo acontece com a igreja atualmente. Não Mas, o que sugere o declínio de cerca de 37.000
importa quantos milhares de crentes possam exis­ pessoas da tribo de Simeão, e o aumento de mais
tir, você e eu somos relacionados “nominalmente” de 20.000 da tribo de Manassés? Simplesmente
Números 1—9

que, mesmo que não façamos a nossa parte, ainda A tenda real era colocada no meio do acampamento
assim Deus realizará a sua obra, e outra pessoa rece­ e era circundada pelas diferentes tropas do exército.
berá a bênção que deveria ter sido nossa. Esse simbolismo não quer dizer que Deus está sendo
protegido pelo seu povo, pois Ele é o protetor. A or­
‘jís tendas serão armadas segundo as suas insígnias”(Nm ganização do acampamento serve para demonstrar a
2.1-34). No 13° século a.C. os exércitos egípcios usa­ todos que o Senhor é o Comandante e o Rei de Israel,
ram a mesma formação que o Senhor introduziu aqui. o coração e o centro da vida da nação.

A ORGANIZAÇÃO DO ACAMPAMENTO
Dã Aser Naftali
62.700 41.500 53.400
Benjamim Meraritas Judá
35.400 6.200 74.600
Manassés Gersonitas Moisés Issacar
32.200 7.500 Tabernáculo Arão 54.400

Efraim Coatitas Zcbulom


40.500 8.600 57.400
Leste --------->Oeste
Gade Simeão Rúben
45.650 59.300 46.500
“Tenho tomado os levitas do meio dos filhos de Isra­ 22.000 levitas, entre 30 e 50 anos, tomaram o lu­
el” (Nm 3.12). Os levitas não estavam incluídos gar dos 23.273 “primogênitos” que pertenciam ao
entre os homens guerreiros; eles foram separados Senhor. Deus havia afirmado que os primogênitos
para guardar o Tabernáculo e fazer o “trabalho pe­ de Israel eram seus quando matou os primeiros pri­
sado” {‘abad, abodah) de desmontar, transportar e mogênitos do Egito.
remontar o Tabernáculo. Mas como podiam existir apenas 22.273 primogê­
Essas palavras hebraicas vêm de uma raiz que sig­ nitos em uma comunidade com mais de 600.000
nifica servo, ou até escravo. Na época do Antigo homens com idade para servir o exército? Alguns
Testamento a “posição” de um servo dependia de sugerem que esses 22.273 nasceram depois do iní­
duas coisas, o quanto estava próximo do seu se­ cio do Êxodo, cerca de 13 meses antes.
nhor e a importância do seu serviço. A estrutura do Mas, por que somente homens entre 30 e 50 anos fo­
acampamento colocava os levitas mais próximos ram contados? Possivelmente porque o “trabalho pe­
do Tabernáculo do que qualquer outra tribo, e seu sado” de Deus exigia servos que estivessem, ao mesmo
trabalho era guardar e transportar os objetos mais tempo, amadurecidos, e no auge da sua força.
sagrados da fé de Israel.
Fazer o “trabalho pesado” de Deus é um privilégio, “Fora do arraial os lançareis, para que não con­
pois nos coloca perto dEle e, ao servi-lo, estamos taminem os seus arraiais’ (Nm 5.1-4). Essa é a
construindo para a eternidade. primeira das questões sobre a pureza que Deus
90
Números 1— 9

levantou ao preparar Israel para a peregrinação. Os sacerdotes não podiam beber vinho antes de
O acampamento foi organizado de forma a se oferecer sacrifícios (Lv 10.9) e o nazireu não
preparar para a guerra. Porém, para viajar com podia usar nenhum produto da vinha. Assim,
segurança, Israel precisava depender de Deus e como o sumo sacerdote, o nazireu não podia se
permanecer próximo a Ele. Qualquer um que lamentar pelos parentes próximos (21.2 e ver­
estivesse corrom pido e pudesse interrom per a sículos seguintes). Ao term inar o seu voto, o
comunhão com Deus, assim como alguém que nazireu oferecia os mesmos sacrifícios que Arão
tivesse uma doença infecciosa na pele, precisava ofereceu quando foi consagrado (cf. Lv 8).
ser afastado a fim de evitar a contaminação da A presença dos nazireus lembrava Israel que
comunidade (veja Lv 11— 15). toda a comunidade era santa, tanto os leigos
A sua aplicação à nossa própria peregrinação é como os levitas. Cada crente podia, voluntaria­
óbvia. Precisamos purificar a nossa vida das im ­ mente, se oferecer totalm ente ao Senhor.
purezas, assim como Israel recebeu ordens de
limpar o seu acampamento. “A ssim abençoareis os filhos de Israel” (Nm 6.22-
27). Com a comunidade organizada e purifica­
“E de quaisquer outras iniquidades” (Nm 5.6- da, Arão e seus filhos foram capazes de pronun­
31). A contaminação ritual por qualquer do­ ciar uma das mais belas bênçãos sobre Israel. As
ença infecciosa da pele podia ser visível, mas bênçãos que foram pronunciadas também são
as falhas morais eram mais difíceis de serem nossas quando vivemos na mesma pureza que
identificadas. Primeiro, uma pessoa que “de Jesus e os seus servos viveram.
qualquer forma” tivesse causado prejuízo à ou­
tra, era culpada e “devia” confessar o mal que O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor
causou e fazer a restituição total. Cada um de faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha
nós é responsável por m anter um correto rela­ misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante
cionamento com Deus e com os outros na co­ o seu rosto e te dê a paz.
munidade da fé.
Mas, e se o outro não estiver disposto a admitir Seguros da presença de Deus e organizados
o seu erro? O texto descreve um teste que deve como uma força mais disciplinada, Israel estava
ser aplicado a uma esposa cujo marido está sus­ pronto para a guerra. Mas, primeiro, eles preci­
peitando da sua infidelidade. Deus prometeu savam estar prontos para a adoração.
agir através dos ritos para purificar uma esposa
inocente, ou para identificar aquela que é cul­ “Moisés consagrou o Tabernáculo e todos os seus
pada. Esse rito lembra-nos de que se nós mes­ utensílios” (Nm 7.1— 8.26). Um pouco antes de
mos não lidarmos com os nossos pecados, da partir, o Tabernáculo, seus utensílios e os levi­
mesma maneira como a esposa culpada, iremos tas que iriam servi-lo, foram todos purificados
“levar a nossa iniquidade”. cerimonialmente com o sangue do sacrifício, e
consagrados ao serviço de Deus.
“Um voto especial” (Nm 6.1-21, ARA). A pes­ As solenidades das cerimônias realçavam a im ­
soa que fazia um voto de nazireu também es­ portância da santidade para qualquer um que
tava fazendo um voto em relação a muitas das estivesse pronto para começar uma peregrina­
obrigações especiais dos sacerdotes de Israel. ção espiritual em sua vida.

DEV OCIONAL______
A Natureza da nossa Peregrinação a garantia de cada indivíduo a um relacionamento
(Nm 9) pessoal com o Senhor.
O ato final de Israel, antes de iniciar a sua viagem Nem mesmo a impureza cerimonial impedia
para Canaã, foi a celebração da Páscoa. Essa festa uma pessoa de celebrar a Páscoa. Na verdade,
anual da libertação lembrava os poderosos atos de aqueles que eram cerimonialmente impuros re­
Deus para conquistar a liberdade do seu povo. Ele ceberam a ordem de celebrar a Páscoa. Por quê?
também servia para lembrar Israel da sua redenção Porque o relacionamento pessoal com Deus de­
do Egito, pois essa redenção havia estabelecido os pende da experiência da salvação, e não de se
fundamentos da existência de Israel, e representava viver uma vida boa.

91
Números 10— 14

Mas observe o que se segue a essa cerimônia da em deixar de obedecer, de alguma maneira, à Pala­
reafirmação da salvação de Israel. O autor de vra de Deus.
Números vai mais adiante e faz um resumo da
experiência diária de Israel na sua peregrinação. Visão Geral
“Sempre que a nuvem se alçava sobre a tenda, Vários sinais de incredulidade mancharam a via­
[indicando a presença visível de Deus ao lado do gem à Canaã. Apesar dos cuidadosos preparativos
seu povo] os filhos de Israel após ela partiam; e, (10.1-36) os israelitas se queixavam das dificulda­
no lugar onde a nuvem parava, ali os filhos de des que encontravam (11.1-3). Até Miriã e Arão fi­
Israel assentavam o seu arraial” (v. 17). Um povo caram enciumados pela liderança de Moisés (12.1-
redimido podia esperar que o Senhor lhe desse 16). Israel acampou nos limites de Canaã e doze
orientações diárias. homens foram enviados para tomar conhecimento
O mesmo acontece conosco atualmente. A con­ das condições que lá existiam (13.1-26). A maioria
versão é o início, e não o fim da nossa peregri­ dos espias voltou aterrorizada com o poder do povo
nação. Existem muitas dificuldades à nossa fren­ de Canaã (w. 27-33) e o povo de Israel se rebelou
te, mas Deus pode e irá nos guiar seguramente recusando-se fortemente a atacar Canaã e, por isso,
através das provações da vida. Se desejarmos via­ foi condenado a vagar pelo deserto durante 40 anos
jar com segurança, devemos nos lembrar de que até que todos, com exceção de dois daquela geração
Deus está conosco, procurando, diariamente, a incrédula do Êxodo, tivessem morrido.
sua direção e orientação.
Entendendo o Texto
Aplicação Pessoal “Serão por lembrança perante vosso Deus”(Nm 10.1-
A organização fala de disciplina, e da pureza de um 10). Josefo diz que as duas trombetas de prata que
compromisso moral. Sem ambos a nossa viagem Deus mandou Moisés confeccionar tinham cerca
espiritual irá, certamente, ser marcada por contra­ de 42cm de comprimento. Duas dessas trombetas
tempos e atrasos. foram retiradas do Templo quando a cidade de Je­
rusalém foi destruída no ano 70 d.C., e estão retra­
Citação Im portante tadas no Arco do Triunfo de Tito em Roma.
Mestre, fale! Possa eu estar pronto As trombetas eram usadas para dirigir as tribos
Quando tua voz for ouvida, quando estavam em marcha e também deviam ser
Com obediente alegria e resolução soadas quando Israel participava de uma batalha.
Para seguir cada palavra. Deus iria, então, “lembrar-se” do seu povo. Aqui,
Estou ouvindo, Senhor, então, “lembrar” não quer dizer pensar, mas agir em be­
Mestre, fale, oh, fale comigo! nefício de alguém.
— Francês Ridley Havergal Deus também faz com que nos lembremos da nos­
sa peregrinação. Como veremos em seguida, a ver­
31 D E JANEIRO LEITURA 31 dadeira questão é: Será que vamos nos lembrar de
AS AMEAÇAS AOS PEREGRINOS agir de acordo com a sua Palavra?
Números 10— 14
“De olhos nos servirás” (Nm 10.11-36). Embora al­
“A té quando me provocará este povo? E até quando guns pensem assim, não parece que o pedido feito
me não crerão por todos os sinais que fiz no meio de­ por Moisés ao seu cunhado, Hobabe, para que ele
les?” (Nm 14.11). acompanhasse Israel, fosse prova de sua falta de fé.
Os midianitas daquela época formavam um povo
Cada derrota que o crente experimenta está essen­ nômade e estavam muito familiarizados com as
cialmente enraizada na sua incredulidade. Nesses terras ao sul de Canaã. Moisés seguia a nuvem que
importantes capítulos de Números aprendemos Deus havia ordenado para qualquer lugar que ela
que a falta de confiança em Deus pode ser expressa fosse e Hobabe fornecia informações a respeito da
de diferentes maneiras. área para qual eles estavam se dirigindo.
Atualmente, é muito bom que os cristãos procurem
Definição dos Termos-Chave o conselho de outros crentes. A única coisa errada é
Incredulidade. Aqui a incredulidade não é absoluta­ permitir que os conselhos humanos tomem o lugar
mente deixar de acreditar que Deus existe. Como da orientação divina.
Tiago nos lembra: “Também os demônios o creem
e estremecem” (Tg 2.19). Ao contrário, a incredu­ “O povo se queixava das suas dificuldades” (Nm
lidade é deixar de confiar em Deus e está expressa 11.1-3). As planícies do Sinai são verdejantes com­
92
Números 10— 14

paradas ao deserto de Et-Tih. O povo se sentia respondeu a Moisés compartilhando o seu espírito
oprimido pela desolação e começou a se queixar. com 70 anciãos de Israel.
A nuvem de Deus havia guiado Israel para esse de­ Nem todo descontentamento é pecado. Quando
serto; no entanto, depois de apenas três dias, eles nossas preocupações são espirituais, ou as nossas
começaram a se preocupar com as suas “provações” necessidades são reais, nunca devemos hesitar de
em vez de se ocuparem com a esperança das boas levá-las a Deus.
terras para onde estavam viajando.
O fogo de Deus “consumiu” apenas alguns “que “Falaram Miriã e Arão contra Moisés” (Nm 12.1-
estavam na última parte do arraial”. Mas esse fogo 16). Miriã, irmã de Moisés, era a líder das mulhe­
serviu apenas como advertência e “Moisés orou ao res de Israel e uma profetisa (cf. Êx 15.20). Arão,
Senhor, e o fogo se apagou”. irmão de Moisés, era o sumo sacerdote, o maior
A incredulidade é alimentada por cada provação, líder religioso de Israel. No entanto, estes dois co­
enquanto a fé está voltada para a esperança no meçaram a sentir ciúmes de Moisés e desafiaram o
futuro. seu papel profético, porque era a primeira pessoa
através de quem Deus falava com o seu povo.
“Ah, se tivéssemos um pouco de carne para comer!” Deus convocou os três na entrada do Tabernáculo,
(Nm 11.4-35, NTLH). O povo encontrou um ou­ afirmou a primazia de Moisés e surpreendeu Mi­
tro motivo para se queixar: uma dieta monótona! riã com uma doença infecciosa de pele. Arão foi
O livro de Números diz que “Moisés ouviu chorar poupado porque essa doença o teria desqualificado
o povo pelas suas famílias, cada qual à porta da sua para a posição de sumo sacerdote e Israel precisava
tenda”. dele para oferecer os sacrifícios de expiação.
Durante um ano, Deus havia mandado o maná, A chave para aplicar essa passagem reside na descri­
um alimento milagroso e perfeitamente balancea­ ção de Moisés como sendo um varão “mui manso”
do que fornecia tudo de que o povo precisa para (ou “mui humilde” v. 3). A palavra hebraica ‘a naw
manter uma boa saúde. Em vez de ficar agradecido, descreve a atitude de Moisés. Ela indica a ausên­
o povo gritava proclamando sua insatisfação. cia de orgulho ou de autoconfiança, o que permite
Deus lhes deu o que queriam — carne para comer uma total dependência de Deus.
— mas com ela veio uma praga que matou milha­ Essa história aponta um perigo comum para os
res de pessoas. líderes através dos quais Deus tem falado. Esses
Em 1 Timóteo 6.8 o apóstolo Paulo retrata uma líderes são suscetíveis àquelas expressões sutis de
atitude que nós, crentes, devemos adotar na nossa incredulidade, orgulho e ciúmes. Ao contrário,
peregrinação. “Tendo, porém, sustento e com que a humildade nos líderes é sinal de uma contínua
nos cobrirmos, estejamos com isso contentes”. A confiança em Deus.
pessoa que verdadeiramente confia em Deus está
contente com aquilo que Ele lhe dá. A preocupa­ “Moisés os envioupara explorar Canaã”(Nm 13.1-25).
ção com coisas materiais, sejam elas alimento ou Foram enviados representantes das várias tribos para
riqueza, é uma sutil, mas real expressão da incre­ explorar Canaã. Observe que o Senhor disse a Moi­
dulidade. sés para enviar os espias (w. 1-24). Tentar aprender
E o que dizer sobre a codorniz? Ainda nos pri­ o máximo possível sobre o lugar para onde estamos
meiros anos deste século, grandes bandos de co- indo não é uma indicação de incredulidade.
dornizes migravam através da península do Sinai.
Cerca de 2 milhões dessas aves foram capturadas “E vieram a Moisés, e a Arão, e a toda a congregação
nas redes dos árabes que ali viviam. De modo que dos filhos de Israel” (Nm 13.26-33). Os espias es­
a história bíblica sobre essas aves de voo rasante tavam de acordo na sua descrição da terra; ela era
tem um corolário moderno. Entretanto, em N ú­ rica e muito fértil. Mas estava habitada por povos
meros, o mais importante é o resultado. Com a guerreiros que viviam em cidades muradas. Mas
carne que Israel tanto desejava veio uma praga os espias discordavam sobre o que isso significava
que matou milhares de pessoas. Para a maioria para Israel. Dez dos espias estavam atemorizados
de nós, a abundância que tantas vezes desejamos e afirmavam: “Não podemos atacar esses povos,
pode ser espiritualmente desastrosa. E muito mais eles são mais fortes do que nõF>E)ois deles, Ca-
sábio agradecer a Deus pelo que temos do que lebe e Josué discordavam: “Devemos ir e tomar
manifestar a nossa incredulidade almejando aqui­ posse da terra, pois certamente temos condição
lo que não temos. de fazer isso”.
Moisés também clamou. Ele se sentia esmagado A fé e a incredulidade ainda estão presentes quan­
sob o peso de liderar um povo insensível. Deus do interpretamos os desafios da vida. O problema
93
Números 10— 14

raramente está nos fatos, em si; ele está na maneira condenada iria vagar em círculos nas proximidades
como os interpretamos. É um desastre espiritu­ de Cades-Barneia, até que todos morressem.
al esquecer o fato mais importante de todos, que Quanto aos dez espias que haviam espalhado a má
Deus pode nos levar ao triunfo. notícia, eles foram atingidos imediatamente por
uma praga (v. 37).
“Levantemos um capitão e voltemos ao Egito” (Nm Uma desobediência direta está sempre enraizada na
14.1-46). Os israelitas aceitaram a opinião dos incredulidade, e leva aos castigos mais rigorosos.
dez espias e se revoltaram (w. 1-4). Moisés e Arão
“caíram sobre os seus rostos” como uma expressão “Por que quebrantais o mandado do Senhor?” (Nm
de horror perante o terrível pecado de Israel (v. 5). 14.39-45). Depois que o castigo de Deus havia
Quando imploraram ao povo para não se rebelar sido anunciado o povo resolveu que, afinal de con­
contra Deus “disse toda a congregação que os ape­ tas, eles iriam atacar Canaã. Moisés, corretamente,
drejassem”. identificou essa atitude como uma outra desobe­
Moisés e Arão foram salvos somente pela aparição diência.
da visível glória do Senhor no Tabernáculo. O tempo é um fator importante no relacionamen­
Como castigo, o Senhor anunciou que todo ho­ to com Deus. Agir demasiadamente tarde é uma
mem acima de 20 anos, exceto Josué e Calebe, iria prova de incredulidade, da mesma forma como a
morrer no deserto. Durante 40 anos essa geração hesitação. Ambas levam ao desastre e à derrota.

DEVOCIONAL______
Com Medo de Obedecer? mesmo a ele (cf. Êx 34.6,7. Nm 14.17,18). Deus é
(Nm 14) “longânimo e grande em beneficência, que perdoa
“Você acha que os quatro anos que Deus me fez a iniquidade e a transgressão”, no entanto, “o cul­
sofrer não são suficientes?” pado não tem por inocente”.
Esta pergunta foi feita por uma jovem em uma sala Nesta passagem, assim como na vida da jovem da
de aula da Escola Dominical, na Flórida. Durante Escola Dominical, o perdão e as consequências são
várias semanas sua história havia sido gradualmen­ mostrados.
te compartilhada entre as outras mulheres da clas­ Deus não atingiu Israel com a morte “como a um
se. Ela foi noiva de um jovem que a deixou grávida, só homem”. Eles viveram o suficiente para ver seus
e depois rompeu o noivado e se casou com a sua filhos se tornarem adultos e esses filhos realmente
melhor amiga. Depois de um ano, esse casamento ganharam a Terra Prometida. No entanto, como
terminou e o jovem voltou para se casar com ela. consequência da sua incredulidade e da sua rebe­
Porém agora, eles estavam divorciados... mas ainda lião, os mais velhos não puderam entrar nessa terra.
viviam juntos. Eles tiveram o mesmo destino que temiam, e mor­
Gentilmente, o professor tentou explicar. “Não reram no deserto.
culpe a Deus por tê-la feito sofrer. Na maioria das A incredulidade ainda nos impede de prosseguir,
vezes, o sofrimento é uma consequência das nossas e bloqueia a nossa obediência ao Senhor. Às vezes,
próprias escolhas. Se você quiser evitar o sofrimen­ o nosso motivo é o medo. Queremos obedecer a
to, terá que fazer escolhas melhores”. Deus, mas temos medo. Às vezes, o nosso moti­
Essa é uma lição que Israel deixou de aprender, da vo é o egoísmo. Sentimos que se obedecermos a
mesma maneira que a jovem de 22 anos daquela Deus não obteremos aquilo que queremos muito.
classe da Escola Dominical entendeu que uma pes­ Qualquer que seja o nosso motivo, deixar de con­
soa pode crer em Deus e fazer qualquer coisa que fiar suficientemente em Deus para obedecê-lo traz
quiser. Ambos ouviram o ensinamento de Deus, péssimas consequências para nós. Israel vagou pelo
mas haviam resolvido que não iriam obedecer. Ao deserto, e a jovem divorciada da Flórida sofre com
tomar esta decisão, cada um deles manifestou aqui­ as suas incertezas e com a sua dor.
lo que a Escritura chama de “incredulidade”. Seria muito mais fácil nos colocarmos simples­
Em Números 14 sentimos a ira que os pecados da mente nas mãos de Deus, obedecendo-o sem he­
rebelião haviam criado e também a graça ainda sitação.
disponível ao pecador. Deus estava suficientemen­
te irado com Israel para matar esse povo “como a Aplicação Pessoal
um só homem” (v. 15). No entanto, Moisés lem­ Esteja alerta contra as muitas formas que a incre­
brou ao Senhor sobre a sua anterior revelação de si dulidade pode assumir na sua vida.

94
Números 15—21

Citação Im portante “Certamente morrerá o tal homem” (Nm 15.32-36).


“Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de Os versos 30, 31 determinam que qualquer pessoa
vós um coração mau e infiel, para se apartar do que “pecar de propósito” (na versão NTLH) “será
Deus vivo. Antes, exortai-vos uns aos outros todos extirpada do meio do seu povo”. Um profanador
os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para do sábado, descoberto quando apanhava lenha
que nenhum de vós se endureça pelo engano do para fogueira neste dia sagrado, foi apedrejado até
pecado... Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua à morte por toda a comunidade. Israel precisava
voz, não endureçais o vosso coração, como na pro­ entender que o pecado intencional corrompe a co­
vocação.” — Hebreus 3.12-15 munidade e deve ser tratado com firmeza.
1 DE FEVEREIRO LEITURA 32 “Nas franjas das bordas porão um cordão azul” (Nm
/ ..V A PUREZA PARA OS PEREGRINOS 15.38). A cor azul representa a realeza e a divindade,
Números 15— 21 era a cor predominante nas vestes dos sumos sacer­
dotes e também a cor do tecido que envolvia a Arca
“Eles serão responsáveis” (Nm 18.3). da Aliança. Um cordão azul nas franjas pendentes
das roupas dos hebreus comuns servia para lembrar
A repetição das antigas leis dos sacrifícios e os ri­ que cada crente era santo e que a comunidade havia
gorosos castigos que Deus infringe aos sacerdotes sido chamada para ser um sacerdócio real.
desobedientes servem para lembrar Israel de que os
crentes devem ser puros enquanto fazem a pere­ “Porventura, pouco para vós é que o Deus de Isra­
grinação. el vos separou1” (Nm 16.1-41). Os levitas Corá,
Datã e Abirão desafiaram a liderança espiritu­
Visão Geral al de Moisés e Arão. Eles basearam seu desafio
Uma revisão dos sacrifícios e das ofertas (15.1-31), a na própria verdade enfatizada pelo cordão azul:
execução de um profanador do sábado (w. 32-36), “toda a congregação é santa”. Entretanto, da
e uma nova lei (w. 37-41), lembram a Israel de que mesma maneira como acontece conosco atual­
o povo de Deus deve ser santo. Castigos rápidos al­ mente, eles realçaram uma verdade às custas de
cançaram os levitas desobedientes (16.1-50) quan­ outra verdade. Toda a comunidade era santa, mas
do Deus reafirmou a primazia de Arão (17.1-13) e Deus havia escolhido Moisés para ser o líder, e a
insistiu novamente sobre as responsabilidades dos família de Arão para o sacerdócio. Precisamos ter
levitas (18.1-19), assim como sobre a necessidade de cuidado com aqueles que baseiam suas teorias
uma purificação contínua (19.1-22). em uma linha do ensinamento bíblico e igno­
Eles aprenderam a confiar quando o rei de Arade ram outras verdades cuja finalidade é promover
foi derrotado (21.1-3), quando as picadas de cobra o equilíbrio entre elas.
foram curadas simplesmente ao olharem para uma Psicologicamente, é fascinante que essa rebelião
serpente de bronze (w. 4-9), e quando as forças tenha sido dirigida pelo levitas, pois eles gozavam
mais importantes dos amorreus foram esmagadas de maiores privilégios espirituais do que a maioria
em uma batalha (w. 10-35). dos israelitas. No entanto, estes levitas estavam des­
contentes porque não podiam servir como sacer­
Entendendo o Texto dotes. Até hoje em dia, alguns que quase nada têm
“Oferta queimada, holocausto, ou sacrifício” (Nm se mostram mais agradecidos do que aqueles têm
15.1-31). A narrativa da viagem é interrompida quase tudo. Parece que quando temos quase tudo,
aqui pelas regras que regem uma variedade de ofer­ aquele pouco que nos falta é justamente aquilo que
tas. Por quê? Estes capítulos sobre os rituais servem mais provavelmente despertará o nosso desconten­
como comentário sobre os capítulos anteriores. tamento.
O povo de Deus havia se recusado a crer e tinha Este desafio aos líderes era, também, mais uma
desobedecido. Estas leis serviam para lembrá-los expressão de incredulidade. Coate e seus compa­
da exortação inicial feita por Deus a respeito da nheiros conspiradores se recusavam a reconhecer
santidade. que Deus havia falado claramente e, muitas vezes,
Observe, também, que estes regulamentos tinham através de Moisés.
uma vigência determinada: “quando entrardes na Seu pecado também foi enfrentado com um casti­
terra das vossas habitações, que eu vos hei de dar”. go imediato e espetacular. O fogo consumiu aque­
Desse modo, estas leis também representavam a les que ousaram se aproximar de Deus com incenso
promessa de que Deus levaria Israel para casa, ape­ enquanto infringiam a sua lei, enquanto a terra se
sar da incredulidade de uma geração. abriu, engolindo Coate e os seus seguidores.
95
Números 15—21

“Vós matastes o povo do Senhor” (Nm 16.41-49)- A e deve ser tratado imediatamente. Devemos cuidar
acusação também é um outro sinal de increduli­ dos nossos pecados sem demora. Devemos con-
dade. Novamente Deus agiu para castigar, e uma fessá-los a Deus imediatamente, fazer a restituição
praga matou 14.700 israelitas. que for necessária, e confiar na promessa de Deus
Desta vez a praga foi vencida com um ato de Arão de nos perdoar e de nos purificar de toda injustiça
que, humildemente, ofereceu incenso e se colocou (1 Jo 1.9).
entre os vivos e os mortos.
Esse fato deu início a uma série de eventos dirigi­ “Como... [o Senhor] tinha ordenado” (Nm 20.1-
dos a realçar a importância do sacerdócio de Israel, 13). Assim que retomaram a jornada em direção
que, por sua exclusividade, era a única nação que a Canaã, Israel sofreu os piores infortúnios pos­
podia oferecer sacrifícios que purificavam o povo, e síveis. Miriã morreu e foi sepultada. Como não
tornavam a santidade possível. encontraram mais água, a oposição se levantou
novamente, e Moisés ficou tão perturbado que fa­
“Você é responsável” (Nm 17-1— 18.32). A fim de lhou em obedecer a Deus completamente; em vez
demonstrar que havia escolhido Arão, Deus fez de falar à rocha da qual Deus pretendia produzir
com que, da noite para o dia, milagrosamente a água, ele a feriu.
vara de Arão brotasse, florescesse e produzisse fru­ Essa desobediência à ordem de Deus, assim como
tos. Tendo confirmado o sacerdócio à família de a clara rebelião de Israel em Cades-Barneia, eram
Arão, o texto continua a definir as suas responsabi­ expressões de incredulidade. Como consequência,
lidades. Os sacerdotes deviam cuidar do santuário e Deus anunciou a Moisés que ele também iria mor­
oferecer os sacrifícios necessários para purificar um rer antes de Israel entrar na Terra Prometida.
povo com tanta disposição para pecar (18.1-7). Ninguém é tão importante para a obra de Deus, a
Em compensação, os sacerdotes iriam receber ponto de não ser castigado. Ninguém é tão impor­
uma parte dos sacrifícios oferecidos a Deus, além tante que possa deixar de obedecer ao Senhor de
de um décimo do dízimo pago aos levitas pelas forma completa.
outras tribos.
Dessa maneira, os privilégios espirituais estavam “Israel se desviou dele” (Nm 20.14-29). Os dias
acompanhados de sérias responsabilidades e de sombrios continuaram, pois Israel se retirou peran­
grandes recompensas. te um grande exército moabita, e Arão morreu.
No entanto, mesmo na tristeza, uma brilhante es­
“A água de purificação ” (Nm 19.1-22). Em Israel, a perança estava presente. O texto diz que Arão foi
impureza ritual era contagiosa. Se uma pessoa to­ “recolhido ao seu povo”. Esta frase é usada no An­
casse o corpo de um morto ela não só se tornava tigo Testamento quando fala da morte dos crentes
impura como qualquer objeto que ela tocasse daí que viveram até uma idade avançada, e expressa a
em diante se tornaria impuro também. Isso signi­ firma confiança de que essa pessoa irá se reunir aos
ficava que a impureza devia ser tratada imediata­ seus entes queridos que já haviam partido há muito
mente, antes que todo o acampamento e o próprio tempo.
Tabernáculo pudessem ser contaminados. Sendo Quando sofremos a perda de um entre querido, e
assim, eles conservavam à mão as cinzas de uma tudo nos parece sombrio, essa frase nos lembra da
bezerra sacrificada, prontas para serem misturadas esperança que é compartilhada pelo povo de Deus
com água e aspergidas sobre qualquer pessoa que em todas as épocas. A morte não é o fim, é uma
tivesse tocado em um cadáver. reunião. Um dia todos aqueles que creem irão se
Esse rito não era uma mágica, mas refletia as reali­ reunir à feliz companhia dos redimidos, e gozar
dades espirituais. O pecado contamina realmente, plenamente o dom divino da vida eterna.

DEVOCIONAL______
Olhe e Viva nio na sua jornada em direção a Canaã. Até Moisés
(Nm 21) havia demonstrado ser vulnerável à incredulidade.
Muitas vezes, a sequência dos eventos registrados A desesperança, a derrota e a morte pareciam ser
na Escritura, assim como os próprios eventos, nos tudo que o povo de Deus podia esperar.
ensinam importantes verdades. Este é, certamente, Mas, então, o tom do texto do Antigo Testamento
o caso de Números 21 que apresenta um grande muda totalmente. Israel procurou a ajuda de Deus
contraste com o capítulo 20. No capítulo anterior, e conquistou uma vitória sobre o rei cananeu Arade
Israel havia atingido um ponto extremo de infortú- (w. 1-3). Que importa se este reino do sul era in­
96
Números 22— 25
significante? Era uma vitória enfim. Quando tudo 2 D E FEVEREIRO LEITURA 33
parece sombrio, cada vitória é importante. í \ A HOSTILIDADE AOS PEREGRINOS
E, entáo, o povo falou novamente contra Deus e Números 22— 25
contra Moisés! Dessa vez, o Senhor enviou uma
invasão de serpentes venenosas e, novamente, um “Vem, pois, agora, rogo-te, amaldiçoa-me este povo”
novo tema foi introduzido. Moisés confeccionou (Nm22.6).
uma serpente de bronze, colocou-a no alto de uma
haste e prometeu que as pessoas mordidas podiam De uma maneira ou de outra, os crentes que esta­
simplesmente olhar para esta serpente de bronze vam peregrinando em direção à Terra Prometida
e logo ficariam curadas. As pessoas que tinham fé por Deus, realmente ameaçaram os outros. Quan­
olhavam e eram curadas! do a oposição aparece é bom lembrar que embora
Embora a comunidade estivesse coberta de incre­ muitos possam nos amaldiçoar, Deus prometeu
dulidade, ainda havia esperança para os indivíduos que vai nos abençoar.
que estavam dispostos a confiar em Deus. E claro
que a confiança é um antídoto eficiente contra a Visão Geral
incredulidade! Quando Israel se aproximou, os aterrorizados mo-
O próximo incidente sugere que agora a confian­ abitas e midianitas chamaram Balaão, um profeta
ça havia se tornado contagiosa, da mesma maneira pagão, para amaldiçoar o povo de Deus (22.1-8).
como antes o mesmo acontecia com a incredulida­ Apesar das repetidas advertências, Balaão foi a Mo-
de. Os israelitas enfrentaram os maiores inimigos abe (w. 9-41). As três tentativas para amaldiçoar
em dois reinos amorreus vizinhos, e conquistaram Israel falharam e, em lugar da maldição, Deus obri­
a ambos. Deus havia dito: “Não o temas, porque gou Balaão a abençoar Israel (23— 24). O astuto
eu to tenho dado na tua mão, a ele, e a todo o seu profeta sugeriu aos moabitas que deviam seduzir
povo, e a sua terra”. Desta vez o povo creu, obede­ os israelitas e levá-los a cometer a idolatria a fim
ceu, e venceu! de obrigar o próprio Deus a amaldiçoar o seu povo
Esta fase da viagem, que havia começado com ta­ (25.1-5). Essa conspiração fracassou através da in­
manho desespero, terminou em alegria. Israel esta­ tervenção de um sacerdote de Deus (w. 6-18).
va aprendendo que um povo purificado, e desejoso
de confiar em Deus, iria gozar a vitória em vez de Entendendo o Texto
sofrer derrotas. “Chamem Balaão, filho de Beor” (Nm 22.1-21). A
Essa é uma grande mensagem que precisa estar aproximação de Israel aterrorizou os moabitas e os
sempre em nosso pensamento. Não importa o midianitas e Balaão foi chamado para amaldiçoar
quanto a nossa vida passada tenha sido imperfeita, Israel. Aqui “maldição” corresponde a uma expres­
nem o quanto o nosso presente seja sombrio; de­ são vocal “mágica” que, segundo acreditavam, po­
vemos ter esperança. Podemos decidir agora que os dia refrear ou limitar os poderes de alguém.
nossos próximos passos serão passos de fé. Invariavelmente, as passagens bíblicas retratam Ba­
Podemos e devemos crer, podemos e devemos obe­ laão como um indivíduo que tinha um caráter per­
decer e, quando o fizermos, venceremos! verso, amava mais o dinheiro que a Deus e também
estava ansioso para amaldiçoar Israel (cf. D t 23.4,5;
Aplicação Pessoal 2 Pe 2.15; Jd 11; Ap 2.14), O Antigo Testamento
Devemos nos lembrar de que tanto a confiança diz que Balaão recebeu “o preço dos encantamen­
como a incredulidade são contagiosas. Devemos tos” e que, geralmente, recorria a “encantamentos”,
ter a certeza de transmitir aos nossos entes queridos ou seja, à bruxaria (Nm 22.7; 24.1). Estas práticas
a “doença” correta. pagãs eram abominações proibidas em Israel (Dt
18.10). Números 31.8-16 diz que Balaão sugeriu
Citação Im portante aos inimigos de Israel que deviam seduzir o povo
Se confiarmos em nossas próprias forças, de Deus e levá-lo à idolatria na esperança de que,
o nosso esforço será perdido; então, Deus seria forçado a amaldiçoá-lo. Em vista
O mesmo acontecerá se não tivermos a pessoa certa disso tudo, podemos entender melhor os motivos
ao nosso lado, de Balaão e dos seus atos.
o Escolhido de Deus. A constante referência que Balaão fazia ao dinheiro
Você está perguntando quem poderia ser? deve ser entendida como uma sutil demanda por
Ele é Cristo Jesus — Jeová Sabaoth é o seu nome. um preço maior. Sua insistência em dizer apenas
De geração em geração Ele é o mesmo, aquilo que Deus queria que ele dissesse não era si­
E vencerá a batalha. — Martinho Lutero nal de piedade, mas um esforço para se promover

97
Números 22— 25
como um porta-voz escolhido por Deus. Embora, Agague e, sob o segundo rei, Davi, o reino de
à primeira vista, Balaão falasse e parecesse piedoso, Israel foi “exaltado”.
a piedade era apenas uma aparência com a finalida­ O nosso futuro também é certo e brilhante.
de de esconder sua ganância.
“Nos últimos dias” (Nm 24.10-25). Furioso, Bala­
“Edificá-me aqui sete altares” (Nm 23.1-6). Balaão que se recusou a pagar Balaão que respondeu di­
obedeceu a um procedimento escrito em uma tá­ zendo que só podia dizer aquilo que Deus man­
bua cuneiforme encontrada na Babilônia. Essa tá­ dava. Então, ele se apresentou voluntariamente
bua prescrevia: “Ao amanhecer, na presença de Ea, para pronunciar mais oráculos que reproduziam o
Shamash e Marduque, você deve edificar sete alta­ destino dos inimigos de Israel.
res, colocar sete incensórios de cipreste e derramar A frase “nos últimos dias” (v. 14) pode significar
o sangue de sete carneiros”. A posição de Balaque simplesmente “no futuro”, mas muitas vezes ela in­
“ao pé do seu holocausto”, e a escolha de Balaão dica o fim da história. A referência clara e direta a
por uma elevação em busca de alguma revelação, “uma estrela procederá de Jacó, e um cetro subirá
também revelam algumas práticas pagãs comuns. de Israel” está dirigida a Davi e faz uma provável
Balaão era um pagão, e seguia um ritual pagão, alusão ao maior Filho de Davi, Jesus. Os papiros
quando Deus aproveitou a sua iniciativa e falou do mar Morto, assim como muitos rabinos, enten­
através dele. dem que essa passagem é messiânica.
Davi realmente feriu e destruiu Moabe e Edom,
Balaão “alçou a sua parábola” (Nm 23.7—24.9). como Balaão havia previsto. Também se cumpri­
Os sacrifícios foram repetidos três vezes, em três ram outras profecias expressas nestes oráculos; os
diferentes elevações. De cada uma delas podia se amalequitas foram derrotados (v. 20) por Saul, por
ver uma seção diferente do acampamento de Israel. Davi, e, finalmente, foram destruídos por Ezequias
Para aumentar a frustração de Balaão e de Balaque, (1 Cr 4.43). Provavelmente, os navios de Quitim
Deus transformava em uma bênção cada tentativa levavam povos invasores, os filisteus, que derrota­
de amaldiçoarem Israel. ram as tribos costeiras de Israel; mas esses povos
A primeira bênção (23.7-10) reflete a escolha di­ também foram arruinados.
vina de Israel para ser um povo que “habitará só Entretanto, de qualquer maneira que essas profe­
e entre as nações não será contado”. Como podia cias sejam interpretadas, elas anunciavam a derrota
Balaão amaldiçoar um povo a quem Deus não ha­ final de todos os inimigos do povo de Deus. Na
via amaldiçoado? verdade, os crentes sofrem certa oposição à medida
Para nós é muito importante lembrarmos disso. que se dirigem à Terra Prometida por Deus. Essa
Podemos experimentar ódio e até perseguição oposição pode criar uma verdadeira e séria dificul­
em nossa peregrinação cristã. Mas, como alguém dade. Mas, “nos últimos dias”, os nossos inimigos é
poderia fazer o mal a um povo que Deus não ha­ que serão derrotados pelas mãos de Deus.
via amaldiçoado? Paulo reflete esta realidade em
Romanos 8.31, quando diz: “Se Deus é por nós, “O povo comeu e inclinou-se aos seus deuses” (Nm
quem será contra nós?” 25.1-18). O texto em Números 31.16 diz que Ba­
A segunda bênção (Nm 23.18-24) focaliza a pre­ lão advertiu os moabitas dizendo que eles iriam
sença de Deus entre o seu povo: “O Senhor, seu corromper Israel tanto moral quanto espiritual­
Deus, é com ele e nele, e entre eles se ouve o mente. Então, as mulheres moabitas se colocaram à
alarido de um rei”. Portanto, “contra Jacó não disposição dos homens de Israel nos limites do seu
vale encantamento, nem adivinhação contra Is­ acampamento e, depois de seduzi-los, elas “convi­
rael”. Aquilo que Balaque temia iria certamente daram o povo aos sacrifícios dos seus deuses”.
acontecer: o exército de Israel seria como uma Foi emitida uma sentença de morte a todos que
leoa que devora sua “presa e bebe o sangue de haviam prevaricado, mas aparentemente, as execu­
mortos”. ções foram adiadas e, em seu lugar, Deus enviou
Atualmente, também é a presença de Deus que uma devastadora praga. Durante esse tempo, um
nos mantém salvos e, por causa dEle, são os nossos israelita trouxe abertamente uma mulher midianita
inimigos que por fim, irão conhecer a derrota. à sua tenda e ambos foram seguidos por Finéias,
A terceira bênção (24.3-9) prevê a instalação de um sacerdote, que matou a ambos com um simples
Israel naquela terra. Depois, ela passa a prever golpe da sua lança. Esse ato deu fim à praga, mas
o dia em que um rei se elevaria “mais do que até então 24 mil já haviam morrido.
Agague” e que seu reino seria “exaltado” (ARA). Esta história tem duas lições para nós. Primeiro, é
Saul, o primeiro rei de Israel, realmente derrotou perigoso deixar de tratar a questão do pecado ime-
98
Números 22— 25
diaramentc; se não estivermos dispostos a cuidar Nós também somos responsáveis. Ao vermos um
dos nossos pecados, Deus estará. pecado claro e flagrante na comunidade da fé, de­
Segundo, Finéias agiu com responsabilidade ao ma­ vemos tomar a iniciativa, e fazer o que pudermos
tar o profanador israelita. Como sacerdote, ele era para eliminá-lo. Aqueles que amam a Deus devem
responsável por manter a pureza do acampamento. odiar o pecado, e se colocar sempre contra ele.

DE V OCIONAL______
Quando a Jum enta Fala Testamento. O apóstolo Paulo adverte contra a
(Nm 22.21-41) inocente suposição de que o sucesso no ministé­
Foi fascinante falar com a publicitária que meus rio, ou uma boa reputação, indiquem uma piedade
editores haviam contratado. Eu estava em Los An­ pessoal. Ele diz: “Ainda que eu fale as línguas dos
geles visitando várias estações de rádio para ser en­ homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como
trevistado sobre um dos meus livros. Entre uma e o bronze que soa ou como o címbalo que retine.
outra visita, a publicitária falou com desembaraço Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça
sobre um certo número de “grandes” homens cris­ todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu
tãos que desempenhavam importantes ministérios tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes,
dizendo que eram admirados por muitos e, prova­ se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distri­
velmente, até idolatrados por alguns. bua todos os meus bens entre os pobres e ainda que
“Por exemplo, Jerry Falwell”, ela disse, “é um dos entregue o meu próprio corpo para ser queimado,
homens mais bondosos e gentis com quem já tra­ se não tiver amor, nada disso me aproveitará” (1 Co
balhei. Quando as coisas não iam bem ele nunca se 13.1-3, ARA).
alterava. E, ao contrário de alguns, depois das nos­ Qual é a prova da santidade? Paulo responde:
sas viagens ele sempre agradecia a minha ajuda”. “Amor”. E diz: “O amor é paciente, é benigno; o
Depois ela continuou a falar sobre um outro cris­ amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se
tão “famoso” que era muito diferente. Esse homem ensoberbece, não se conduz inconvenientemente,
era impaciente, arrogante e indelicado. “Podem me não procura os seus interesses, não se exaspera, não
pagar o que quiserem, nunca mais vou trabalhar se ressente do mal; não se alegra com a injustiça,
com ele outra vez”. mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo
Lembrei-me dela ao ler novamente a história de Ba- crê, tudo espera, tudo suporta” (w. 4-7, ARA).
kão e separei vários comentários. Alguns autores fi­ Deus pode usar qualquer um para ser o seu porta-
cam tão impressionados por Deus ter falado através voz. Devemos nos lembrar de que é o amor — não
de Balaão, que chegam a entender que isso prova os dons espetaculares, não o “sucesso” ou a repu­
que Balaão era um verdadeiro profeta, e até um ho­ tação, ou mesmo ser usado por Deus — que é a
mem piedoso, um verdadeiro homem de Deus. marca da verdadeira espiritualidade, e de um rela­
Mas esses analistas não levam em consideração a cionamento íntimo e pessoal com o Senhor.
jumenta de Balaão. Veja, o texto diz que “a ira de
Deus acendeu-se” (v. 22) quando Balaão começou Aplicação Pessoal
a viagem para Moabe. Ele continuava a insistir com Ser sensível a Deus, e obedecê-lo, é melhor do que
Deus que queria ir, apesar de saber muito bem que qualquer reconhecimento público de ser um dos
não tinha a permissão divina de fazer essa viagem. seus porta-vozes.
Quando Balaão se aproximou, e um anjo se posi­
cionou para matá-lo, a jumenta parou e se recusou Citação Im portante
a continuar. Zangado, Balaão bateu no animal que Rei Jesus, por que escolheste
resistia à sua vontade. E, então, a jumenta falou! Um solitário jumento para te carregar? ^m ontar na
Que ironia! Se o fato de Deus ter falado através de tua entrada triunfal?
Balaão prova realmente que ele era um verdadeiro Será que não tinhas nenhum amigo
profeta e um homem santo, o que prova o fato de Que tivesse um cavalo, uma montaria real e espe­
Deus ter falado através de uma jumenta? Imagino cial,
que o fato de estar sendo usado como porta-voz de Adequado para ser montado por um rei?
Deus não serve como prova de qualquer piedade Por que escolher um jumento, um pequeno e des-
ou santidade pessoal — como vários evangelistas pretencioso
da TV americana têm demonstrado ultimamente. Animal de carga, treinado para arar,
A história de Balaão tem o seu paralelo em o Novo E não para carregar reis?

99
Números 26—30

Rei Jesus, por que me escolheste, e mesmo assim a comunidade não havia perdido
Uma humilde e insignificante pessoa, a sua força!
Para te carregar no meu mundo de hoje? Os obedientes iriam herdar a terra que os desobe­
Sou pobre e insignificante, treinado para traba­ dientes haviam desprezado.
lhar,
E não para carregar reis, muito menos o Rei dos “Morreu... e não teve filhos” (Nm 27.1-11). Moisés
reis. foi abordado por cinco filhas de um homem que
No, entanto, Tu me escolheste para levar-te em morreu e não deixou filhos homens. O pedido que
triunfo, elas fizeram, em relação às propriedades, reflete a
Neste dia a dia do mundo. estrutura patriarcal da sociedade israelita. Somente
Rei Jesus, conserve-me pequeno, os filhos homens tinham o direito a herdar, e o fi­
Para que tudo que eu possa ver seja a tua grandeza. lho mais velho recebia o dobro da herança que os
Conserva-me humilde para que tudo que eu possa mais jovens recebiam.
dizer seja, Em primeiro lugar, o pedido mostrava que aquelas
“Bendito seja aquele que veio em nome do Se­ moças criam que Israel teria sucesso na tomada de
nhor”, Canaã. Somente a vitória faria com que houvesse
e não: “que grande jumento Ele está montando.” terras para dividir e herdar.
— Joseph Bayly Este episódio mostra como muitas leis do Antigo
Testamento foram desenvolvidas. Quando ocorria
3 DE FEVEREIRO LEITURA 34 uma nova situação, Moisés apresentava o caso ao Se­
O PANORAMA PARA nhor, e a maneira como Deus agia se tornava o pre­
OS PEREGRINOS cedente para a solução de outros casos semelhantes.
Números 2 6 —30
“Moisés... tomou a Josué e apresentou-o... peran­
“A estes se repartirá a terra em herança” (Nm te toda a congregação” (Nm 27.12-23). Quanto
26.53). mais Israel se aproximava de Canaã, mais próxi­
mo ficava o momento de Moisés morrer. Moisés
Novamente purificados, os israelitas se preparam deixou de lado quaisquer receios que tivesse a
para entrar na Terra Prometida. Os acontecimentos este respeito, e pensou naquilo que a sua morte
e as leis registrados nesses capítulos servem como poderia significar para Israel. Ele orou para que
promessas de Deus ao seu povo. Canaã estava à sua Deus indicasse um homem da comunidade para
frente, e a vitória estava assegurada. substituí-lo (“ponha um homem sobre esta con­
gregação”).
Visão Geral Esse incidente demonstra a estatura de Moisés
Um censo militar revelou que Israel estava pronto como um verdadeiro homem santo. O Novo Tes­
para atacar Canaã (26.1-65). A confiança de que tamento nos dá uma definição parcial do que é ser
Israel iria conquistar sua herança foi mostrada atra­ cristão: “Que ninguém procure somente os seus
vés das filhas de Zelofeade (27.1 -11 ), pela indicação próprios interesses, mas também os dos outros”
de Josué (w. 12-23) e por uma revisão das ofertas (Fp 2.4, NTLH).
a serem feitas perpetuamente depois da Conquista Deus respondeu à oração de Moisés dizendo que
(28.1— 29.40). Foram esclarecidas regras para os ele devia, publicamente, indicar Josué para sucedê-
.votos pessoais que eram feitos frequentemente um lo. Aqui, o ato de colocar as mãos é um símbolo da
pouco antes da guerra (30.1-16). transferência de liderança.
Ê bom saber que quando as pessoas das quais de­
Entendendo o Texto pendemos se afastam, Deus tem outras para tomar
“Entre estes nenhum houve” (Nm 26.1-66). O o seu lugar.
censo realizado com aqueles que estavam em
condições de servir ao exército estabeleceu dois “Da minha oferta... tereis cuidado, para mas ofere­
fatos importantes. O número total de homens cer a seu tempo determinado” (Nm 28.1— 29.40).
disponíveis era de 601.730, com a diferença de O propósito da próxima seção, com seus detalhes
apenas alguns milhares de 40 anos atrás. “E entre a respeito das ofertas rituais, parece estar fora de
estes nenhum houve dos que foram contados por lugar. Por que aqui, e não em outro livro como
Moisés e Arão, o sacerdote, quando contaram Levítico?
aos filhos de Israel no deserto do Sinai” (v. 64). Estes regulamentos funcionam aqui como uma
A geração antiga e desobediente havia morrido, promessa divina. Deus especifica os animais que
100
Números 26—30

deviam ser oferecidos a Ele em cada dia do ano Muitas vezes, o voto assumia uma forma de bar­
enquanto Israel ocupasse aquela terra. Somando ganha: “Se Deus fizer isso, então eu farei...” (Gn
tudo vemos que os israelitas deviam oferecer 113 28.20-22; 1 Sm 1.11). Exatamente agora que Israel
bezerros, 32 carneiros e 1.086 cordeiros, mais estava prestes a invadir Canaã, as leis relativas aos
uma tonelada de farinha e mil medidas de azei­ votos foram esclarecidas.
te e de vinho. Isso tudo e mais quaisquer outras Em poucas palavras, qualquer homem que fizesse
ofertas voluntárias ou ofertas pelo pecado feitas um voto ficava comprometido com ele. Mulheres
pelo povo. casadas ou solteiras também podiam fazer votos,
A relaçáo diária das ofertas, semana após semana e mas eles poderiam ser anulados por um marido ou
mês após mês, era uma promessa com um sentido pai, se desejasse, quando tomasse conhecimento do
duplo. Israel iria, seguramente, ocupar a terra onde voto.
as ofertas deviam ser feitas, e a terra iria se mostrar Essa passagem introduz um importante princípio
suficientemente fértil para sustentar os israelitas, e legal. Se o marido ou o pai não dissessem nada ao
fornecer generosas ofertas para o Senhor. saber sobre o voto da esposa ou da filha, esse voto
traria uma vinculação. O silêncio implica o con­
“Quando um homem fizer voto ao Senhor” (Nm sentimento.
30.1-16). Votos eram promessas voluntárias para O mesmo acontece atualmente. Se algum de nós
dar dinheiro, ou qualquer outra coisa de valor, ao deixar de falar a respeito de alguma coisa que estiver
Senhor. Quando uma pessoa fazia esse juramento, errada, e ficarmos em silêncio, o silêncio significará
ela ficava comprometida, e o juramento não podia que estamos de acordo e nos tornará participantes
ser quebrado. daquilo que estiver errado.

DEV OCIONAL______ providenciar um dote. Este presente de casamento,


O Panoram a para as Mulheres
(Nm 27.1-11) que frequentemente podia consistir de roupas, joias,
“Está na hora de deixar esta igreja” Carol insistia. móveis, dinheiro e até jovens escravas, representava
“Eu simplesmente não aceito que minha filha seja a parte da noiva nas posses da família. Assim, fica
criada em uma atmosfera onde as mulheres são bastante claro que as mulheres eram valorizadas, e
constantemente menosprezadas”. que lhes era atribuído um valor justo! Elas simples­
O que incomodava Carol não era tanto aquilo que os mente recebiam a sua parte através de uma maneira
líderes diziam, mas o que faziam. Tudo era feito pelos diferente de se conceder uma herança.
homens, não havia nenhuma mulher como auxiliar, Esta história nos lembra como é importante enten­
elas nunca falavam no púlpito e nem mesmo davam der a maneira de viver do Antigo Testamento antes
qualquer comunicado. Somente os homens tinham de julgarmos a justiça ou injustiça de algumas prá­
a permissão para servir a Santa Ceia, e somente os ticas específicas e antes de aplicarmos aos tempos
homens podiam fazer parte do conselho da igreja. modernos os princípios que extraímos delas.
Carol entendia que sua igreja tinha muito para O que a história das filhas de Zelofeade nos faz
recomendá-la, mas a impressão de que as mulheres pensar é que as mulheres eram realmente impor­
não tinham importância, sutilmente transmitida tantes em Israel. E a sua importância era simples­
pelas práticas da igreja, criava uma sensação de mente mostrada de uma maneira diferente da dos
opressão que ela não podia mais suportar. filhos. No entanto, ambos eram valorizados e cada
A questão levantada pelas cinco filhas de Zelofeade um deles recebia uma parte justa de tudo aquilo
parece refletir a preocupação de Carol. Será que o que a família possuía.
sistema patriarcal de Israel discriminava as mulhe­ Talvez o que devamos extrair desta história seja
res? Será que também em Israel as mulheres eram um desafio para reavaliarmos as práticas nas nos­
cidadãos de segunda classe? Alguns poderiam até sas igrejas. Talvez a importânèja das mulheres não
argumentar que o domínio masculino na cultura precise ser afirmada da mesma pianeira como a im­
de Israel serviu como um exemplo da eliminação portância dos homens é demonstrada. Mas, a não
das mulheres de uma participação significativa nas ser que as mulheres sejam reconhecidas como to­
igrejas de hoje! talmente participantes da comunidade cristã, esta­
Mas será que havia uma discriminação contra as mu­ remos ofendendo a sua personalidade e negando as
lheres? Superficialmente, talvez; entretanto, quan­ dádivas que Deus concedeu a todas, como também
do uma jovem israelita se casava, seu pai precisava a cada uma delas em particular.
101
Números 31— 36

Aplicação Pessoal “Nenhum falta” (Nm 31.25-54). Podemos ver a for­


Em nossa viajem em direção à Terra Prometida ça do inimigo através dos 800 mil animais e das 32
existe um lugar para cada peregrino. mil virgens que foram capturados como espólio de
guerra. Na época da Bíblia, as jovens se casavam ain­
Citação Importante da na puberdade, de modo que o número 32 mil re­
“As Escrituras provam, sem sombra de dúvida, que presenta apenas uma pequena parte da população.
o apóstolo Paulo tinha muita consideração pelo tra­ Quando os israelitas fizeram a chamada, eles desco­
balho e pelo ministério das mulheres. As Escrituras briram que essa vitória total havia sido conquistada
mostram que as igrejas locais e outros ministérios sem a perda de um único homem! A vitória sobre
cristãos devem se esforçar para encontrar funções Midiã era uma previsão e uma promessa do sucesso
eficientes e satisfatórias para as santas mulheres que que Deus iria proporcionar ao seu povo se continu­
neles servem ao Senhor. Algumas das trágicas situ­ asse a confiar nEle.
ações que se originaram de um intenso aconselha­ Desta vez Israel respondeu adequadamente, eles
mento entre os membros do sexo oposto poderiam presentearam o Senhor com todo o ouro que ha­
ter sido realmente evitadas se as mulheres tivessem viam adquirido. O povo de Deus havia, finalmente,
a permissão de exercer a sua vocação de aconselhar aprendido a ser agradecido.
outras mulheres... Muitas outras facetas da obra
de Deus são bem-sucedidas ou não, dependendo “Dê-se esta terra aos teus servos em possessão” (Nm
da disponibilidade de mulheres santas e eficientes 32.1-42). No começo, Moisés entendeu que o pedi­
para liderá-las.” — H. Wayne House do dos rubenitas e dos gaditas como uma falha em
obedecer completamente a Deus. Mas a promessa
4 DE FEVEREIRO LEITURAfeita 35 por estas tribos de aderir à batalha por Canaã
_ .Z .X . PROMESSAS AOS PEREGRINOS mostrava que eles permaneciam fiéis ao Senhor. Pre­
Números 31— 3 6 cisamos avaliar os outros através do compromisso
que têm com Deus e não se estão completamente
“E tomareis a terra em possessão e nela habitareis; de acordo conosco.
porquanto vos tenho dado esta terra, para possuí-la”
(Nm 33.53). “Estas são asjornadas dosfilhos de Israel”(Nm 33.1-49).
Alguns entendidos apresentaram uma variedade de
Israel havia alcançado os limites da Terra Prometi­ teorias criativas a respeito do significado das 42 pa­
da e tudo nestes últimos capítulos pode ser inter­ radas mencionadas aqui. No entanto, uma coisa está
pretado como uma firme promessa de que Deus bastante clara. Deus havia conduzido o seu povo desde
iria conceder vitória e paz ao seu povo. o Egito até os limites de Canaã. Apesar dos pecados
e dos erros de Israel, apesar da desolação e da secura
Visão Geral do deserto, e apesar dos exércitos inimigos, Deus havia
Israel havia esmagado os midianitas (31.1-54), e permanecido fiel. Analisando cada estágio da jornada,
cerca de duas das suas 12 tribos receberam suas ter­ Israel podia fazer uma previsão do futuro em tudo que
ras (32.1-42). Moisés fez uma revisão da viagem de havia acontecido. O Senhor que os havia conservado
Israel (33.1-49), reiterou que o povo deveria des­ com segurança iria, certamente, lutar por eles quando
truir completamente os cananeus (w. 50-56), fixou finalmente invadissem a Terra Prometida.
os limites da Terra Prometida (34.1-29) e lembrou Analisar os eventos ocorridos no passado é uma ati­
a Israel que devia separar terras para os levitas e tude que pode ter um valor similar para nós. Sim,
as cidades refúgio (35.1-34). E também ordenou encontraremos muitos exemplos de fracassos pesso­
que as mulheres que herdassem terras se casassem ais. Nós nos lembraremos de ocasiões em que a vida
dentro da sua própria tribo (36.1-13). parecia desolada e vazia. Mas também perceberemos
que o Senhor nosso Deus nos ajudou a atravessar
Entendendo o Texto estes períodos de dificuldades, sim, nos dirigiu, nos
“ Vinga osfilhos de Israel dos midianitas”(Nm 31.1 -24). fortaleceu, e nos trouxe com toda a segurança ao
Além de terem se colocado contra os israelitas, os mi­ momento que estamos vivendo. Lembrarmo-nos
dianitas também haviam colocado em prática a estra­ da fidelidade de Deus nos ajuda a prosseguir com
tégia de Balaão e levado muitos israelitas à idolatria. A confiança, à medida que damos os nossos próximos
completa destruição de Midíã foi o castigo divino que passos em direção à Terra Prometida.
recaiu sobre este pecado e sobre a própria idolatria.
Muitas vezes, Deus usa os seres humanos como ins­ “Lançareis fora todos os moradores da terra” (Nm
trumentos para castigar o pecado. 33.50-56). Moisés repetiu a ordem de-Deus ao or-
102
Números 31—36

denar que todos os cananeus fossem expulsos da


Terra Prometida. Qualquer íntima associação com
os povos pagãos poderia corromper Israel e o povo
de Deus devia permanecer isolado e puro.
O Novo Testamento reflete este pensamento, mas com
uma modificação significativa. Paulo observa que a úni­
ca maneira de evitarmos contato com os pagãos e suas
práticas é “sair deste mundo” (1 Co 5.10). Portanto,
devemos simplesmente evitar nos “prender a um jugo”
com os infiéis (2 Co 6.14). Devemos nos identificar
com nossos companheiros crentes e não com os con­
denados. Se o nosso coração pertence exclusivamente
ao Senhor, e os nossos desejos mais íntimos foram mol­
dados dentro de uma comunidade cristã, então iremos
permanecer isolados e puros, capazes de representar
Jesus perante as pessoas deste mundo.
“Deem cidades aos levitas” (Nm 35.1-5). As cidades
dos levitas estavam dispersas ao longo do territó­
rio das outras tribos. Dessa maneira, os levitas que,
juntamente com os sacerdotes, deviam ensinar a
Lei de Deus para Israel, estariam disponíveis.
Não podemos influenciar aqueles com quem não
temos nenhum contato.
“Cidades de refúgio” (Nm 35.6-34). A Lei do Anti­
go Testamento estabelece uma clara diferença en­
tre o crime premeditado e o homicídio acidental.
Foram incluídas situações especificas como eventos
dos quais podemos extrair alguns precedentes.
Em Israel não existia nenhuma força policial na­
cional ou local. Os membros de cada comunidade
eram responsáveis pela aplicação das leis de Deus
depois que um júri formado pelos anciãos locais As cidades de refúgio estavam localizadas de tal maneira
determinava os fatos de cada ocorrência. No caso que qualquer pessoa que matasse alguém acidentalmente
de haver uma morte, o parente mais próximo da teria que caminhar apenas a jornada de um dia para estar
vítima, chamado de “vingador do sangue”, era en­ em segurança. O Deus que julga e pune os culpados pro­
carregado de executar o assassino. tege o inocente com muita rapidez.
A lei era muito severa ao lidar com o crime preme­
ditado. “O sangue faz profanar a terra; e nenhumaas tribos de Israel. Cada tribo, e cada família desta
expiação se fará pela terra por causa do sangue que
tribo, deveria conservar perpetuamente o pedaço
se derramar nela, senão com o sangue daquele que de terra recebido, como uma herança permanente
o derramou”. do Senhor. Embora as filhas de Zelofeade tivessem
Deus proveria a terra para o seu povo, e eles seriam
recebido a garantia da sua terra, elas foram avisa­
responsáveis por manter a sua pureza. das de que deviam de casar dentro da sua própria
tribo a fim de preservar a herança desta tribo.
“Se casem na família da tribo de seu p a i” (Nm Aquilo que Deus dá não deve ser levianamente
36.1-13). A Terra Prometida seria dividida entre transferido para os outros.

DE V OCIONAL____________________________
E a Escolha deles jovem aviador que o nosso pastor tinha se conven-
(Nm 32) eido de que deveria se dedicar à atividade missioná-
Muitos anos atrás, eu fui escolhido para ser pa- ria como piloto da Missionary Fellowship Aviation.
drinho de casamento de um amigo. Jack era um Lembro-me de como o pastor ficou aborrecido
103
Números 31—36
quando Jack anunciou que iria se casar e perma­ Moisés aceitou estas condições e concedeu a Rú­
necer trabalhando na sua companhia de aviação. O ben, a Gade, e à meia tribo de Manassés, vastas
pastor estava convencido de que Jack havia escolhi­ áreas de terra a oeste do rio Jordão. Essa é uma coi­
do algo que estava muito abaixo daquilo que Deus sa boa para lembrarmos quando nos sentirmos ten­
havia preparado. tados a julgar alguém por causa de alguma decisão
Moisés teria entendido a reação do nosso pastor. que tenha tomado. Moisés pode não ter gostado da
Ele também ficou muito aborrecido quando as tri­ decisão que Rúben e Gade haviam tomado, mas
bos de Rúben e de Gade, junto com metade da convencido do seu compromisso e da sua confian­
tribo de Manassés, lhe pediram a região além do ça em Deus, Moisés lhes deu liberdade para colocá-
Jordão que eles haviam tomado dos midianitas. O la em prática.
problema era que esse território estava localizado Nós podemos, realmente, dizer a uma pessoa o que
fora de Canaã, a terra que Deus havia prometido seria o melhor de Deus para ela, mas a nossa opi­
a Abraão. nião não é tão importante. O que importa ainda
Será que seu pedido era justo, ou mesmo correto? é o seu compromisso, e a sua ativa confiança em
O texto não nos dá uma resposta clara, embora à Deus. Todos devem ter a liberdade de caminhar
primeira vista possa parecer que instalar-se fora da para onde Ele os guiar.
Terra Prometida seria uma clara rejeição do propó­
sito declarado de Deus e das suas promessas. Aplicação Pessoal
No entanto, duas coisas sugerem que o motivo des­ O conselho mais importante que podemos dar a
te pedido não era uma falta de compromisso com uma pessoa é: Confie no Senhor, e caminhe para
Deus ou de fé. As tribos requerentes prometeram onde Ele mandar.
atravessar o Jordão para combater na batalha por
Canaã. Aqui a palavra hebraica é comovente, pois Citação Importante
diz realmente: “Nós nos armaremos, apressando-nos “Cada vez que dizemos, ‘Creio no Espírito Santo’
diante dos de Israel” (v. 17). As tribos de Rúben e de estamos dizendo que cremos que exista um Deus
Gade demonstraram seu compromisso e sua dispo­ vivo capaz e disposto a entrar na personalidade hu­
sição de liderar Israel na batalha e de suportar o ím­ mana e modificá-la.” — J. B. Phillips
peto dos ataques. Eles mostraram sua confiança em
Deus com a sua presteza em abandonar suas famílias O Plano de Leituras Selecionadas continua em
e seus rebanhos desprotegidos enquanto os homens 1 TIMÓTEO
capazes estavam indo para a guerra.

104
DEUTERONÔMIO

INTRODUÇÃO
Deuteronômio é o quinto e último livro escrito por Moisés. Situado historicamente em aproximadamen­
te 1400 a.C., Deuteronômio significa “segunda lei [repetida]” e foi escrito sob a forma de um tratado do
segundo milênio a.C, entre um governante e o seu povo.
Os israelitas haviam sido escravos no Egito até a intervenção de Deus, por volta de 1450 a.C. Eles foram
libertados por Deus através de uma série de milagres e conduzidos até o monte Sinai. Neste lugar, Moisés
que fora chamado por Deus para liderar Israel deu ao povo uma Lei, um sacerdócio, um sistema de sacri­
fícios e um lugar portátil para adoração. Mas, quando as gerações do Êxodo se aproximaram de Canaã,
a terra que Deus havia prometido a Abraão, antecessor de Israel, os israelitas se rebelaram. Durante 40
anos eles vagaram em círculos pelo deserto até que todo membro adulto daquela primeira geração rebelde
tivesse morrido. Em Deuteronômio Moisés está falando aos seus filhos, uma nova geração que agora está
pronta para obedecer a Deus e prestes a conquistar a terra que Ele havia prometido ao seu povo. Esta revi­
são da lei divina foi transmitida à nova geração de israelitas a fim de explicar a natureza do seu relaciona­
mento com o Senhor. No final desse livro, esta nova geração, conhecendo a natureza do relacionamento
que Deus pretende ter com Israel, enfrenta o desafio de se comprometer plenamente com o Senhor.
Deuteronômio lembra-nos de que os relacionamentos de Deus com os seres humanos sempre foram ca­
racterizados pela graça. Foi apenas o amor que o motivou a escolher Israel. A Lei que mostra a Israel como
deve viver dentro de um relacionamento pactuai com Deus, também é uma expressão de amor. Esse livro
também ensina que o amor a Deus é o único motivo que tem força suficiente para levar os seres humanos
a responder obedientemente ao Senhor. Deuteronômio, que é citado cerca de 80 vezes em o Novo Testa­
mento, tem sido justamente chamado de “Evangelho do amor” do Antigo Testamento.
ESBOÇO D O CONTEÚDO
I. Revisão da História Feita por Moisés.................................................... .... D t 1—4
A. O que Deus fez por Israel....................................................................... .... D t 1— 3
B. Como Israel deve responder................................................................... .......... Dt 4
II. A Apresentação que Moisés Faz do Tratado com Deus.................... .. D t 5— 28
A. Princípios Fundamentais do relacionamento...................................... ..D t 5— 11
B. Exemplos específicos dos regulamentos............................................... D t 12— 26
C. Desafios ao Compromisso Pessoal........................................................ D t 27— 28
III. Exortação de Moisés para um compromisso total........................... ...D t 29.30
IV. Últimos atos de Moisés......................................................................... D t 31— 34

GUIA DE LEITURA (10 Dias)


Se você tiver pressa, pode ler somente a “passagem essencial” na sua Bíblia, e o Devocional em cada ca­
pítulo deste Comentário.

Leitura Capítulos Passagem Essencial


36 1— 4 4.1-31
37 5— 7 6.4-8
38 8— 11 9.7— 10.11
Comentário Devocional da Bíblia

39 12.1— 16.17 14.22— 15.18


40 16.18— 18.22 18.9-22
41 19.1— 21.14 19
42 21.15— 26.19 26
43 27— 28 28.15-68
44 29— 30 30.11-20
45 31— 34 34

106
DEUTERONÔMIO
5 D E FEVEREIRO LEITURA 3 6
OS PODEROSOS ATOS DE DEUS
Deuteronômio 1— 4

“Estes quarenta anos o Senhor, teu Deus, esteve conti­ tendas. Eles são uma característica de todos nós, e
go; coisa nenhuma te faltou” (Dt 2.7). refletem uma fraqueza humana normal. Observe
que isso não atrasou Israel. Moisés simplesmente
A revisão feita por Moisés do Êxodo lembrou à indicou juizes e estabeleceu os princípios nortea-
nova geração de que Deus é fiel apesar dos erros dores.
humanos. E que, somente se forem fiéis a Ele, o Todos nós estamos sujeitos às fraquezas humanas
povo de Deus irá conhecer o sucesso. e a uma variedade de erros. Mas, isso não deve ser
suficiente para nos atrasar em nossa jornada espi­
Visão Geral ritual. Devemos nos avaliar e continuar a jornada.
Moisés fez uma revisão de cada estágio da jornada Deus não exige perfeição, mas espera que realmen­
desde o Sinai até o seu atual acampamento locali­ te lidemos honestamente com os nossos erros e
zado no lado oriental do rio Jordão (1.1— 3.29). pecados.
Moisés aplicou as lições da história, e desafiou a
nova geração a obedecer e adorar a Deus (4.1-49). “Fostes rebeldes ao mandado do Senhor” (Dt 1.19-
46). O trágico atraso de Israel em chegar à Terra
Entendendo o Texto Prometida foi causado por uma consciente e volun­
“Onze jornadas há desde Horebe”(Dt 1.1-5). Os três tária desobediência ao mandado de Deus. Moisés
sermões de Moisés que formam o corpo principal identifica o medo aos cananeus como a causa ime­
de Deuteronômio foram proferidos ao lado do Jor­ diata da sua desobediência. Esse medo tinha as suas
dão, diante da Terra Prometida. Este lugar estava raízes no fracasso da confiança no amor de Deus (v.
exatamente a uma distância de 11 dias de cami­ 27) e na capacidade divina de ajudar (v. 32).
nhada desde o Monte Horebe (Sinai) onde Deus A desobediência consciente é, certamente, uma
havia entregado a Lei ao seu povo. Mas, esta Lei forma de atrasar o nosso progresso espiritual. En­
havia sido entregue 40 anos antes! Veja o atraso que tretanto, podemos argumentar ou explicar a re­
a desobediência causou. belião. A desobediência traz o castigo e nos torna
Deuteronômio 1— 3 seleciona crises que ocorre­ vulneráveis ao desastre.
ram durante a viagem a fim de explicar os frustran­
tes anos de atraso de Israel. “Estes quarenta anos o Senhor teu Deus esteve
Deus se comprometeu a nos levar ao lugar da bem- contigo” (Dt 2.1-15). Esta é uma das mais co­
aventurança. Mas o período de tempo necessário moventes declarações na revisão que Moisés fez
para chegarmos até lá vai depender da nossa dispo­ da história. Apesar da rebelião de Israel, e dos
sição de obedecer. seus repetidos pecados, Deus, disse ele, “esteve
contigo”. O Novo Testamento diz: “Se formos
“Ouvi as contendas” (Dt 1.9-18). Primeiro, Moisés infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si
mencionou os problemas, as obrigações e as con­ mesmo” (2 Tm 2.13). O compromisso que Deus
Deuteronômio 1— 4

O monte Sinai (Horebe), rude e irregular, é um símbolo da Lei que Deus deu a Israel através de Moisés. Atualmente,
existe um mosteiro no lugar onde outrora Israel acampou. Como Deuteronômio nos mostra, apesar do trovão que
sacudiu esta montanha naquela ocasião, a Lei de Deus está fundamentada no seu amor, e é a expressão deste amor.

tem conosco está fundamentado nos seu próprio O texto mostra que, em certo sentido, Deus
caráter e não em qualquer coisa que possamos concedeu o pedido de Moisés! O idoso líder,
ou não fazer. que tinha agora cerca de 120 anos, implorou:
Até mesmo quando nos afastamos completamente “Rogo-te que me deixes passar, para que veja esta
de Deus, Ele continua cuidando de nós. boa terra”. Em vez disso, Deus levou Moisés ao
Mas Moisés lembrou a Israel de que a nação tinha topo do monte Sinai e lhe concedeu uma visão
vagado durante 38 anos até que a geração rebelde de Canaã.
tivesse morrido (Dt 2.14,15). Deus irá cuidar de A vista que se tem a partir desta montanha, do
nós, mas também irá nos castigar até que o sofri­ outro lado do Jordão, é impressionante. Elevan­
mento elimine as raízes da nossa tendência a nos do-se de uma planície fértil, existe uma série
rebelar. de montanhas que gradualmente formam uma
“Agora, comecem a conquistar” (Dt 2.16-—3.20). cordilheira notável. Suas cores brilhantes e suas
Quando a velha geração morreu, Deus começou a sombras refletem a complexidade da Palestina
dar à nova geração o sabor do sucesso. Numa série com a sua grande variedade de climas e de solos,
de batalhas cada vez mais difíceis, Deus deu a Israel fazendo com que a terra seja capaz de produzir
vitórias cada vez maiores. qualquer tipo de colheita. Moisés não “passou”
Quando retornamos ao Senhor, depois de um tem­ o Jordão, mas ele realmente viu a “boa terra” à
po de desobediência, a nossa renovada confiança qual havia, com tanto sucesso, liderado o povo
se desenvolve frequentemente através de pequenas de Deus.
vitórias espirituais, que mais tarde crescem e se
avolumam. Cada passo em direção à fé é recom­ “Pergunta agora aos tempos passados” (Dt 4.32-
pensado quando reaprendemos a amar a Deus 40). Agora Moisés deixa bem claro porque Israel
completamente. precisava olhar para trás e também para frente.
Ao olhar para aquilo que Deus havia feito an­
“Também eu pedi graça ao Senhor” (D t 3.21-29). teriormente o povo iria descobrir como Deus é
Moisés foi sincero ao relatar o próprio erro que grande e o que eles representavam para Ele.
havia cometido deixando de confiar em Deus, Deus havia tomado “p ara si um povo do meio de
embora não entre em detalhes aqui. A imagem outro povo, com provas, com sinais, e com milagres,
de Moisés, implorando a Deus a sua permissão e com peleja, e com mão forte, e com braço estendi­
para atravessar o rio Jordão e ver a Terra Prome­ do, e com grandes espantos”. Os atos de Deus na
tida, é muito comovente. Moisés havia sido um história podem definir quem Ele é.
líder fiel e santo. No entanto, esse seu único ato Israel pode ser definido pelo seu relacionamen­
de desobediência foi severamente castigado (cf. to com Deus. Israel era um povo a quem Deus
Nm 20). Por quê? Sem dúvida para nos lembrar “amou”, “escolheu” e “tirou” do Egito... “para te
de que ninguém está imune ao castigo divino. introduzir na terra e ta dar por herança”. Tudo
Ninguém pode pecar sem que corra um grande isso podia ser entendido quando olhassem para
perigo. trás. Considerar o que Deus é, e ver nEle a sua
108
Deuteronômio 5—7

identidade, iria motivar Israel a obedecer e levar Cristo; e ao lembrarmos que o seu sofrimento e o
o povo a alcançar futuras bênçãos quando sofres­ seu subsequente triunfo foram realizados por nós,
sem alguma provação. e entendermos como somos preciosos para Deus, o
O mesmo acontece conosco atualmente. Olhamos nosso recém despertado amor nos motiva a servir
para trás e vemos o que Deus fez através de Jesus ao nosso Senhor.

DEVGarantia
OCIONAL_______
de Sucesso Espiritual Certamente, Moisés e a nova geração de israelitas
(Dt 4.1-31) iriam dizer, junto com os santos espiritualmente bem-
Sempre fico fascinado com os anúncios que apare­ sucedidos através dos séculos, “Isso vale a pena”.
cem nas revistas das empresas aéreas prometendo
aos homens de vendas um sucesso rápido e fácil. Aplicação Pessoal
Conheci um vendedor, chamado Ed, que fre­ Que métodos você desenvolveu para ajudá-lo a al­
quentava regularmente os seminários anunciados cançar o sucesso espiritual?
nestas revistas, além de ouvir diariamente as suas
gravações. Mas Ed não era exatamente um vende­ Citação Importante
dor bem-sucedido, o que me leva a ter dúvidas a “Deus nos conclama, não ao sucesso, mas à fé, à
respeito das promessas feitas por estes anúncios. obediência, à confiança e ao serviço. E Ele orde­
Por outro lado, tenho certeza de que aquilo que na que não nos preocupemos em medir os méritos
Moisés disse a Israel em Deuteronômio 4 pode do nosso trabalho como faz o mundo. Devemos
garantir o sucesso na vida espiritual de qualquer plantar; e Ele irá colher como bem entender.”
pessoa. — Charles Colson
O que você ouviria em uma das gravações de Moi­
sés, ou em um dos seus seminários? Provavelmente, 6 DE FEVEREIRO LEITURA 37
alguma coisa parecida com isso: AMAR A DEUS
(1) “Guardai os mandamentos do Senhor” (v. 2). Esta Deuteronômio 5— 7
é uma diretriz segura para se viver uma vida boa!
(2) “Guarda-te a ti mesmo e guarda bem a tua Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu co­
alma, que te não esqueças daquelas coisas que os ração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder”
teus olhos têm visto, e se não apartem do teu cora­ (Dt 6.5).
ção todos os dias da tua vida” (v. 9). Reveja o que
Deus faz por você todos os dias e, assim, você ficará Estes capítulos identificam os princípios fundamen­
motivado! tais do relacionamento pessoal com Deus. As regras
(3) “E as farás saber a teus filhos e aos filhos de teus que aparecem mais tarde são meramente exemplos
filhos” (v. 9). Conte aos outros aquilo que Deus de como estes princípios fundamentais devem ser
significa para você; isso deixará a sua fé sempre re­ aplicados por um povo que ama a Deus.
novada, e fará de Deus uma realidade para as pes­
soas que estiverem à sua volta. Definição dos Termos-Chave
(4) “Guardai, pois, com diligência a vossa alma... Deuteronôm io 6 nos exorta a dedicar o “cora­
para que não vos corrompais” (w. 15,16). Não se ção”, a “alma” e o “poder” para amar a Deus.
deixe enganar, qualquer um pode escorregar e cair. No Antigo Testamento, o “coração” é o lugar
Nunca dê a qualquer ídolo — seja riqueza, poder, onde estão assentadas a mente e as emoções.
amor ou até boas obras — o lugar central que so­ A “alma” é entendida aqui como o “ser” de al­
mente Deus tem o direito de ocupar em sua vida. guém. Devemos amar a Deus com todo o nosso
E claro que eu não posso saber se as gravações de ser, sem limitá-lo aos menores compartimentos
Moisés e seus seminários teriam boa acolhida no da nossa vida. “Poder” sugere a direção volun­
mercado. Veja, as pessoas estão sempre procurando tária de toda a nossa capacidade em direção ao
uma maneira_/afz7de alcançar sucesso. Naquilo que amor. O uso destas três palavras poderosas em
concerne ao sucesso espiritual, não existe nenhuma um único verso deixa bem claro que o relacio­
maneira fácil. namento com Deus exige uma devoção total da
Portanto, talvez Moisés acrescentasse um outro pessoa. A implicação destes capítulos é que so­
conselho para nós modernos. Como, por exemplo, mente uma pessoa verdadeiramente devotada a
“Cuide do seu relacionamento com Deus”. Deus irá obedecê-lo.

109
Deuteronômio 5—7

Os Dez Mandamentos. Dez regras breves e bási­ dizer e, depois, irá cuidadosamente aplicá-la à sua
cas para mostrar aos seres humanos como devem vida diária.
amar a Deus e às outras pessoas. Para outras ex­
plicações sobre os Dez Mandamentos veja Êxodo, “Para que bem lhesfosse a eles e a seusfilhos, para sempre!”
Leitura 19. (Dt5.22-33). Alguns agem como se os padrões morais
estabelecidos nos Dez Mandamentos fossem arbitrá­
Visão Geral rios e restritivos. Eles se ressentem das palavras: “Não
Os dez mandamentos básicos recebidos no Sinai deverás...” contidas nas Escrituras como se elas tivessem
mostram como amar a Deus e aos outros (5.1-21), a intenção de tirar a alegria da humanidade, e tornar a
e obedecê-los proporciona bem-estar (w. 23-33). O vida humana tão miserável quanto possível.
amor e a veneração por Deus produzem a obediência Nada poderia estar mais longe da verdade. As leis de
e devem ser ensinados às futuras gerações (6.1-25). Deus têm, na verdade, a intenção de promover a fe­
Deus exige fidelidade completa. As crenças que com­ licidade humana. Nós, humanos, somos seres morais
petissem com a verdadeira fé deveriam ser expulsas da criados por Deus com um senso do que está certo e
terra, para que Deus pudesse dar continuidade ao seu do que está errado. Como um trem que só funciona
pacto de amor com Israel (76.1-26). quando está sobre os trilhos, os seres humanos so­
mente funcionam de uma maneira feliz e sadia quan­
Entendendo o Texto do são capazes de viver uma vida moralmente boa.
“Não foi com nossos pais... se não conosco” (Dt 5.1-21). Existe uma urgência especial na exortação de Moisés
Os adultos que haviam se colocado perante Deus no à obediência a Deus. Israel gozava o relacionamen­
monte Horebe (Sinai), e ouviram os Dez Manda­ to do pacto feito com Deus. Nesse relacionamento,
mentos pela primeira vez, já haviam morrido quando Deus tinha se comprometido não só a abençoá-los
Moisés repetiu esses mandamentos para a nova gera­ pela obediência, mas também a castigá-los pela de­
ção. No entanto, ele disse que o pacto de Deus “não sobediência.
foi com nossospais... senão conosco, todos os que hoje aqui Os incrédulos, assim como os crentes, se sentem me­
estamos vivos”. lhor quando vivem uma vida moralmente boa. Mas
O que Moisés queria dizer? Que a Palavra de Deus Deus está ativamente envolvido na vida dos crentes
tem uma mensagem importante e atual para cada e, por se preocupar tanto conosco, sentimos o efeito
ouvinte. Essas palavras foram ditas pela primeira vez imediato dos nossos pecados.
séculos atrás, mas se conservam tão atuais como se
tivessem sido pronunciadas hoje. Em um sentido ver­ “Quando comeres e te fartares” (Dt 6.10-25). Moisés
dadeiro, a Palavra de Deus é falada atualmente, e é disse, “quando” porque sabia que Deus certamente
através dela que o Deus vivo interage conosco. Tudo iria abençoar o seu povo. Para Israel, isso queria dizer
que Ele disse naquela ocasião também está sendo dito herdar uma terra com “grandes e boas cidades, que tu
para nós agora; o efeito é o mesmo que ela teve na não edificaste, e casas cheias de todo bem, que tu não
vida das pessoas das gerações passadas. encheste, e poços cavados, que tu não cavaste, e vi­
Nunca devemos ler a Bíblia como se ela fosse simples­ nhas e olivais, que tu não plantaste”. No entanto, tais
mente o registro de alguma coisa que aconteceu há bênçãos são perigosas. Quando a vida é demasiado
muito tempo. Devemos ler atentamente, esperando fácil, e ficamos satisfeitos com ela, temos a tendência
que Deus fale agora conosco. Como diz o autor de de nos “esquecer do Senhor”.
Hebreus: “Se ouvirdes a sua voz, não endureçais o Moisés explicou a maneira como os crentes deviam se
vosso coração” (Hb 3.15). A Bíblia é a voz de Deus, guardar quando fossem abençoados. Primeiro, disse
através dela Ele está falando não só aos nossos pais, ele, “O Senhor teu Deus temerás” Aqui, estas pala­
mas também a nós! vras significam que eles deviam tratar a Deus com
respeito, lembrando que Ele é capaz de abençoar e
“Ouve... e os aprendereis e guardareis para os cumprir” também de castigar. Depois, “diligentemente guar­
(Dt 5.1). Cada uma destas palavras é encontrada nas dareis os mandamentos do Senhor”. O crente deve­
primeiras palavras que Moisés dirigiu à assembleia de rá fazer “o que é reto e bom”. Finalmente, o crente
israelitas (v. 1). Os Dez Mandamentos estabelecem os deverá “no tempo adiante”, no futuro, transmitir a fé
princípios fundamentais que devem ser aplicados no à próxima geração. Esta é a única maneira de nos pro­
nosso relacionamento com Deus e com os outros. teger, e aos nossos filhos, de vivermos uma vida vazia
E importante não confundir o amor a Deus, e aos e sem sentido.
outros, com os sentimentos amorosos. O amor é uma
escolha, a pessoa que ama a Deus irá ouvir a sua Pa­ “ Totalmente as destruirás” D t (7.1 -6). A ordem para
lavra, estudar para entender o que esta Palavra quer que Israel destruísse totalmente os povos que habi­
110
Deuteronômio 5—7

tavam Canaã antes deles, tem preocupado muitas a Terra Prometida, poderia salvar Israel de uma cor­
pessoas. Como esta ordem pode estar de acordo com rupção moral e espiritual. Um pai que observasse, de
todas as palavras de Deuteronômio 6 sobre o amor? modo indiferente, o seu amado filho ser contaminado
Como podemos entendê-la perante a revelação divina por uma doença mortal, seria um pai muito estranho.
sobre o amor que Jesus Cristo tem para com todos? Deus estava protegendo os seus filhos.
Para ter essa resposta precisamos fazer várias obser­ Uma outra observação: Israel não recebeu ordem
vações. Primeiro, a arqueologia confirmou o retrato para ir além das fronteiras de Canaã e eliminar ou­
feito na Escritura mostrando que a cultura dos ca- tros vários grupos raciais representados na Palesti­
naneus era moral e religiosamente depravada. Cerca na. O primeiro cuidado de Deus estava dirigido ao
de 600 anos antes, Deus havia dito a Abraão que Ele bem-estar do seu povo.
não iria expulsar o povo da Terra Prometida daquela Sim, Deus realmente se preocupa com cada um de
época “porque a medida da injustiça dos amorreus nós. Mas aqueles que o conhecem e amam são a sua
não está ainda cheia” (Gn 15.16). Agora, aquela me­ prioridade número um.
dida completa da iniquidade havia sido alcançada, e
Israel seria o instrumento da punição infligida pelo “Masporque o Senhor vos amava” (Dt 7.7-26). Por
Senhor. É importante lembrar que Deus, que ama que Deus escolheu Israel e decidiu abençoar esta na­
os seres humanos, também odeia o pecado. Qual­ ção? Por que Deus se preocupa tanto conosco atu­
quer conceito de Deus que deixe de considerar o seu almente? Este enigma pode ser desvendado através
compromisso de castigar o pecado é, essencialmen­ da menção de um mistério ainda maior. Por quê?
te, contrário às Escrituras. Porque o Senhor nos ama.
Segundo, a ordem para destruir os cananeus servia para Deus não precisa de nenhuma razão além do amor
realçar a chamada de Israel para ser um povo santo. para nos abençoar. Embora houvesse muitas ra­
Qualquer íntimo relacionamento com os cananeus iria zões, pois é para o nosso benefício que devemos
levar Israel (como de fato levou) à idolatria. Somente obedecer, não precisamos de nenhuma outra razão
a destruição deste povo que, naquela ocasião habitava para amá-lo.
DE V OCION A L______
“Comunicando o Amor de Deus” quando Ele escreve suas leis no nosso coração, e eles
(D t 6.4-8) passam a ter alguma expressão na nossa vida, que
Amar a Deus é muito importante. Certamente, o somos capazes de “intimá-las” aos nossos filhos (v.
amor ao Senhor é a herança mais importante que 7). Quando o amor a Deus nos torna sensíveis aos
podemos deixar para os nossos filhos. seus mandamentos, e eles se tornam uma parte inte­
Quando meu filho mais velho estava na sétima série gral da nossa vida, somos capazes de falar sobre eles
do nosso ginásio cristão, eu era professor de Educa­ “assentados em nossa casa, e andando pelo caminho,
ção Cristã da Wheaton College Graduate School. Eu e deitando-nos, e levantando-nos”. Deus, que é real
fiz uma experiência com a sua classe para saber como para nós, também será real para os nossos filhos e,
os meninos e as meninas dos lares cristãos “adqui­ então o nosso amor por Ele encontrará guarida no
riam” a fé dos seus pais. coração dos nossos filhos e filhas.
Descobri que a maioria das coisas que os pais faziam O que faz a diferença? Simplesmente isso: Se Deus
ou deixavam de fazer para transmitir a sua fé pratica­ é real para você, se você o ama e o segue fielmente,
mente não fazia nenhuma diferença na vida dos seus então Ele também será real para os seus filhos.
filhos. A única coisa que realmente fazia diferença
está explicada aqui com as mesmas palavras usadas Aplicação Pessoal
por Moisés milênios atrás. Mostre diariamente o seu amor por Deus compro-
Moisés diz que a comunicação da fé começa com o metendo-se a fazer a sua vontade.
próprio amor que os pais sentem por Deus. O amor
“de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de Citação Im portante
todo o teu poder” (v. 5). Esse tipo de amor nos abre “Os cristãos, com muita frequência, consideram
para Deus, para que Ele possa escrever os seus man­ a Lei como um conjunto de regras, e observam o
damentos em nosso coração (v. 6). Mas, por que povo judeu tentando obedecer a Lei à risca. Então,
isso é tão importante? Porque enquanto os manda­ [os cristãos] proclamam que o Novo Pacto descreve
mentos de Deus parecerem apenas ordens gravadas como Deus opera na graça para redimir o seu povo,
numa pedra, nunca seremos capazes de transmiti-los e derramar o seu amor abundantemente sobre eles.
ou de transmitir o nosso amor por Deus. E somente Não existe uma divisão como esta entre o Antigo e
111
Deuteronômio 8— 11

o Novo Testamento. Deuteronômio descreve como o seu povo na pobreza, devemos observar aquilo
Deus abençoou Israel e derramou o seu amor sobre que o Senhor havia fornecido a Israel. Alimento
esta nação por causa da sua graça e misericórdia. O (v. 3), roupas que não se estragavam (v. 4) e boa
que o Senhor esperava como retribuição por parte saúde (v. 4). Na terra que estavam prestes a possuir,
de Israel era um transbordamento de amor. Embo­ Deus iria proporcionar a Israel a riqueza mineral e
ra algumas pessoas tenham desviado as intenções agrícola (w. 7-9).
de Deus e desenvolvido um substituto legal, um Deus pode nos privar de coisas materiais para nos
remanescente de cada geração sempre amou, hon­ ensinar a depender dEle. Mas a promessa de Isaías
rou e serviu profundamente ao Senhor, seu Deus.” ainda está em vigor: “Se quiserdes, e ouvirdes, co­
— Lewis Goldberg mereis o bem desta terra” (Is 1.19).
7 DE FEVEREIRO LEITURA 38 “E ele o que te dá força para adquirires riquezas” (Dt
LEMBRANDO-SE DE DEUS 8.10-20, ARA). O orgulho e a humildade são atitu­
Deuteronômio 8— 11 des contrastantes. A pessoa humilde reconhece sua
dependência de Deus, enquanto a pessoa orgulhosa
“Guarda-te para que te não esqueças do Senhor, teu credita o sucesso ao poder e à força das suas mãos.
Deus, não guardando os seus mandamentos, e os seusjuí­ A maldição sofrida pelo orgulhoso consiste em dar
zos, e os seus estatutos, que hoje te ordeno”(Dt 8.11). a si próprio o crédito pelas habilidades que recebeu
de Deus, esquecendo-se dEle. Moisés avisou que se
Definição dos Termos-Chave Israel se tornasse um povo orgulhoso “certamente
Guardar. No Antigo Testamento a palavra “guar­ pereceriam”.
dar” representa mais do que o ato mental de pensar Paulo reproduziu o ponto de vista que nós deve­
a respeito de alguma coisa que aconteceu no pas­ mos desenvolver: “Pois quem é que te faz sobres­
sado. Seu significado mais profundo é relembrar sair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se
ou prestar atenção e, depois, agir sobre aquilo que o recebeste, por que te vanglorias, como se o não
foi lembrado. Nestes capítulos Deus exorta Israel tiveras recebido?” (1 Co 4.7, ARA). Se tudo que
a lembrar daquilo que aconteceu na jornada para
Canaã a fim de ajudar o povo a tomar decisões me­
lhores quando entrasse na Terra Prometida.
Visáo Geral
Israel devia se lembrar dos anos passados no deserto
quando Deus ensinou ao seu povo que devia de­
pender dEle (8.1-20). Os eventos daquela viagem
serviram para mostrar a rebeldia de Israel (9.1-29), e
também a fidelidade de Deus que continuou a exor­
tar o seu povo a viver a santificação (10.1-22). Olhar
para trás iria ajudar Israel a amar a Deus, a observar
cuidadosamente os seus mandamentos e, dessa ma­
neira, experimentar a sua bênção (11.1-32).
Entendendo o Texto
“E te humilhou” (Dt 8.1-9). A raiz da palavra he­
braica “humilde” significa ser pobre e, portanto,
dependente. Durante os anos passados no deserto, Este pequeno boi de metal foi recuperado pelos arque­
Deus deixou que o povo de Israel sentisse fome, e ólogos de um local elevado de adoração localizado em
então alimentou o seu povo para ensiná-lo a de­ território anteriormente ocupado pela tribo israelita de
pender totalmente dEle. Dã. O boi ou o touro eram, frequentemente, objetos
Quando Satanás desafiou Jesus a transformar pedras e temas de adoração dos cananeus. Este animal repre­
em pães (Mt 4; Lc 4), Ele citou um verso desta pas­ sentava o deus Baal, ou era interpretado como um tro­
sagem: “Nem só de pão viverá o homem, mas de no sobre o qual esta divindade invisível se sentava. O
touro simbolizava a virilidade nas religiões onde o ritual
toda a palavra que sai da boca de Deus”. Jesus sabia da prostituição e as orgias sexuais desempenhavam um
o que significa depender completamente de Deus e papel importante. A adoração de Israel, dirigida a um
ficar satisfeito com aquilo que o Senhor nos dá. bezerro de ouro, mostrava seu retrocesso a um paganis­
Antes de assumir que a intenção de Deus é manter mo grosseiro.
112
Deuteronômio 8— 11

temos são dádivas de Deus, na verdade nada temos “Que é o que o Senhor, teu Deus, pede de ti?" (Dt
do que nos orgulhar, a não ser agradecer por tudo 10.12-22). Fazendo uma breve revisão, Moisés
o que recebemos. resumiu a forma santa de vida que Deus esperava
do seu povo. Atualmente, nós também devemos
“Por causa da minha justiça” (Dt 9.1-29). Como “circuncidar o nosso coração” (demonstrar um ín­
devemos interpretar as boas dádivas de Deus? timo compromisso com Deus) amando aos outros
Moisés advertiu Israel de que deviam entender e adorando e louvando ao Senhor.
que as bênçãos recebidas de Deus “não” eram por
causa da sua “justiça”, nem pela sua “retidão”. “Guardarás fielmente” (Dt 11.1-32). Observe
Na verdade, o incidente do bezerro de ouro (w. como este capítulo estabelece uma íntima rela­
7-21) e outros vários eventos (w. 22-29) mos­ ção entre lembrar e responder. Muitas e muitas
traram que Israel havia sido “povo obstinado”, vezes Moisés lembrou aos seus ouvintes aqui­
um povo de “dura cerviz”. Este termo resume o lo que Deus havia dito e realizado. Usando esse
retrato feito na Escritura sobre a pecadora na­ argumento ele exortou Israel dizendo: “Amarás,
tureza humana. Toda humanidade, assim como pois, o Senhor, teu Deus, e guardarás a sua obser­
Israel, é indiferente a Deus, desobediente e ati­ vância” (v. 1), “guardai... todos os mandamentos”
vamente rebelde. (v. 8), “guardai-vos, que o vosso coração não se
A ocupação da terra, por Israel, é uma prova da engane, e vos desvieis, e sirvais a outros deuses”
(v. 16) e condicionou: “Se diligentemente guar­
fidelidade de Deus às promessas do pacto, e não dardes
da justiça de Israel. todos estes mandamentos que vos orde­
no para
O amor e a fidelidade de Deus, e não as nossas Deus, andando os guardardes, amando o Senhor, vosso
boas obras, são a verdadeira explicação para to­ vos achegardes”,ementão...
todos os seus caminhos, e a ele
(v. 22).
das as bênçãos recebidas. Ele pode derramá-las No entanto, Moisés fez mais do que apelar ao pas­
ainda hoje sobre você ou sobre mim. sado para mostrar o valor da obediência. Ele olhou
para frente e ligou a divina promessa de futuras
“Naquele mesmo tempo” (Dt 10.1-11). A incom­ bênçãos com amar e servir a Deus. Ao pensar em
parável graça de Deus é retratada nestes versos. Deus, e na maneira como Ele havia tratado o seu
Deus perdoou o pecado de Israel, deu-lhe novas povo, Moisés declarou: “Eis que hoje eu ponho
tábuas onde estavam escritas a sua Lei e disse a diante de vós a bênção e a maldição” — as bênçãos
Moisés: “Levanta-te, põe-te a caminho diante do se obedecessem os mandamentos do Senhor, seu
povo, para que entre e possua a terra que jurei a Deus, e a maldição se desobedecessem.
seus pais dar-lhes”. O Senhor Deus está disposto a fazer, novamente,
Ao pensarmos em Deus, devemos nos sentir mara­ aquilo que já fez. Ele o fará, porque é fiel e con­
vilhados por sua graça perdoadora. sistente.

DEV OCIONAL______
Lembre-se dos nossos Bezerros de Ouro adorar a criação das suas próprias mãos. De uma
(Dt 9.7— 10.11) maneira bem básica, o bezerro de ouro representa­
Eu não gosto mesmo de lembrar dos meus pecados. va uma total rejeição a Deus.
Aquele acesso de vergonha e aquela consciência do No entanto, a Bíblia diz: “Naquele mesmo tempo,
erro não são nada agradáveis. Além disso, como me disse o Senhor” (10.1). Naquele mesmo tempo,
pessoas absolvidas, nossos pecados já não foram quando Israel abertamente o rejeitava, Deus disse a
perdoados e o passado já não foi esquecido? Moisés para voltar ao monte Sinai e lá Deus lhe deu
Embora não exista nada de espiritual em naufragar novas tábuas contendo a sua Lei (w. 2-8). E, naque­
na culpa, de vez em quando precisamos voltar aos le tempo, Deus também disse: “Levanta-te, põe-te a
lugares onde erguermos os nossos bezerros de ouro. caminho diante do povo, para que entre e possua a
O bezerro de ouro, feito por Israel nas planícies terra que jurei a seus pais dar-lhes” (w. 10,11).
do Sinai, representava a derradeira afronta que este Moisés lembrou Israel do bezerro de ouro não para
povo podia fazer a Deus. Ele havia libertado seu envergonhá-los, mas para ajudá-los a entender
povo da escravidão, mas agora esse povo preferia como Deus é grande e bom.
ignorá-lo e adorar um ídolo. Deus havia alimen­ Essa é a razão porque de tempos em tempos pre­
tado e protegido Israel, no entanto eles preferiram cisamos visitar novamente os nossos bezerros de

113
Deuteronômio 12.1— 16.17

ouro: Para lembrar o quanto Deus tem sido mi­ (15.1-18). Os israelitas deviam também reservar os
sericordioso, gentil e bondoso conosco. “Naquele animais primogênitos para o Senhor (w. 19-23) e
tempo” da nossa vida, no tempo do nosso maior observar fielmente as festas religiosas (16.1-17).
erro, Deus veio até nós através de Jesus. Ele nos le­
vantou nos seus braços, nos perdoou e nos colocou Entendendo o Texto
novamente no caminho da justiça. “Buscareis o lugar que o Senhor, vosso Deus, esco­
lher” (Dt 12.1-32). O povo de Canaã tinha luga­
Aplicação Pessoal res sagrados espalhados por toda a terra. Nestes
Que acontecimento do seu passado torna você lugares eles ofereciam sacrifícios, realizavam ritos
mais agradecido pelo perdão recebido de Deus? de orgia e praticavam vários tipos de mágica com
a intenção de influenciar os seus deuses. Os ritos
Citação Importante de adoração de Israel, como os sacrifícios, deviam
“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e ser realizados num único lugar. O texto prometia
justo para nos perdoar os pecados e nos purificar que depois que Israel tivesse conquistado a terra,
de toda injustiça. Se dissermos que não pecamos, Deus iria escolher um lugar especial, e se identi­
fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em ficaria com ele (“para ali pôr o seu nome”). Este
nós. Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo para lugar, que só foi escolhido no tempo de Davi, era
que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Ad­ Jerusalém.
vogado para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo. E ele A ênfase num único centro de adoração reflete um
é a propiciação pelos nossos pecados e não somente tema comum do Antigo Testamento. Havia uma
pelos nossos, mas também pelos de todo o mun­ única entrada para o pátio do Tabernáculo de Is­
do.” — 1 João 1.9— 2.2 rael, e uma única entrada para entrar no Taberná­
culo. Mais tarde, o Templo seguiu esta planta. De­
8 DE FEVEREIRO LEITURA 39 veria haver um único altar de sacrifícios, um único
ADORAR A DEUS sumo sacerdote e um único propiciatório onde o
Deuteronômio 12.1— 16.17 sangue do sacrifício era derramado todo ano, no
Dia da Expiação.
“Assim não farás ao Senhor teu Deus” (Dt 12.31). A verdade que estas coisas simbolizavam foi expres­
sa por Jesus: “Eu sou o caminho, e a verdade, e
Adorar é a maneira de expressar a intimidade do a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo
nosso relacionamento pessoal e coletivo com Deus. 14.6). Atualmente, pode ser bastante popular dizer
Pelo fato de Deus ser especial, a adoração também que existem “muitos caminhos para Deus”. Mas
precisa ser algo especial. este pensamento não é bíblico. As Escrituras repe­
tem este coro: “Há um caminho, e somente um”.
Definição dos Termos-Chave
Adorar. As pessoas modernas têm a tendência de “Para vos apartar do caminho que vos ordenou o Se­
pensar que adorar é simplesmente cantar hinos e nhor, vosso Deus” (Dt 13.1-18). A história moderna
louvar a Deus aos domingos. Entretanto, as pala­ mostra como as pessoas são vulneráveis às seitas.
vras hebraicas e gregas traduzidas como “adorar” Como respondemos quando alguém bate na nossa
significam “inclinar-se” ou “prostrar-se” e transmi­ porta com mensagens das Testemunhas de Jeová,
tem a imagem de mostrar um supremo respeito. dos Mórmons, dos adeptos do reverendo Moon, ou
De uma maneira mais ampla, qualquer ato pelo de qualquer outra religião? Se alguém nos incitar a
qual expressamos um profundo respeito por Deus abandonar o Senhor, trocando-o por uma outra re­
é um ato de adoração. Estes capítulos de Deutero­ ligião, nós “não ouviremos as suas palavras’’ (v. 3);
nômio fazem uma revisão de algumas formas pe­ mas, antes, nos lembraremos que “após o Senhor,
las quais Israel demonstrava respeito pelo Senhor nosso Deus, andaremos, e a Ele temeremos, e os seus
quando o seu povo entrou na Terra Prometida. mandamentos guardaremos, e a Sua voz ouviremos,
e a Ele serviremos, e a Ele nos achegaremos” (v. 4).
Visão Geral Deus merece a nossa total dedicação. Adorar a Ele,
Para Israel, adorar consistia em estabelecer um como Ele se revelou nas Escrituras deve ser a nossa
santuário central (12.1-32), rejeitar a idolatria primeira prioridade.
(13.1-18) e os ritos pagãos (14.1,2), honrar as leis
concernentes aos alimentos (w. 3-21), entregar “Não vos darei golpes”(Dt 14.1,2). O povo de Deus
os dízimos fielmente (w. 22-29), perdoar as dívi­ não deve adotar as práticas que refletem a atitude
das e libertar os escravos hebreus a cada sete anos dos povos pagãos vizinhos em relação à morte.
114
Deuteronômio 12.1— 16.17

“Nenhuma abominação comereis” (Dt 14.3). Alguns tecido através das Escrituras, está particularmente
têm argumentado que as leis alimentares dos he­ visível nas leis que explicam como tratar os pobres.
breus proibiam, como alimento, o uso de animais Os necessitados precisam ser ajudados volunta­
portadores de doenças. A verdadeira explicação riamente. A cada sete anos deveria ser perdoada
para isso é mais profunda. Deus queria lembrar ao a dívida de todos aqueles que não foram capazes
seu povo que Ele estava envolvido em todos os as­ de pagar os empréstimos. E qualquer hebreu que
pectos da vida deste povo. Em tudo o que fazemos tivesse sido obrigado a se vender como escravo de­
podemos demonstrar respeito pelo Senhor. Assim, veria ser libertado.
tudo o que fazemos pode ser um verdadeiro ato de Ajudar os pobres é um ato de adoração que é
adoração. particularmente agradável a Deus. Esta passagem
diz: “pois por esta causa te abençoará o Senhor,
“Darás os dízimos” (Dt 14.22-29). A economia de teu Deus, em toda a tua obra e em tudo no que
Israel era agrícola, e a sua riqueza eram a terra e os puseres a tua mão” (v. 10) e, novamente: “assim,
seus produtos. Deus, o Doador da terra, reclamava o Senhor, teu Deus, te abençoará em tudo o que
um décimo dessa fartura como sua parte em toda fizeres” (v. 18).
colheita. Desde o início, mostrar respeito por Deus
através da nossa doação tem sido parte integral da “Guarda o mês de abibe” (Dt 16.1-17). Depois que
adoração. Israel conquistasse a terra, seu povo devia realizar
festas anuais de adoração às quais todos deviam
“Que o teu olho seja maligno para com teu irmão comparecer. O quadro da página seguinte mos­
pobre” (Dt 15.1-18). A profundidade do relacio­ tra o calendário religioso de Israel. Para conhecer
namento de uma pessoa com Deus está revelada o significado de cada festa, veja a Leitura 28, em
na maneira como trata os outros. Este princípio, Levítico.

DE V OCION A L______
A Parte de Deus exigidas por Deus, como as doações voluntárias
(D t 14.22— 15.18) que Ele estimulava, serviam para atender as neces­
“Trazei teus dízimos à casa do tesouro”, costumava sidades humanas.
pregar o Pastor L., “estão poderás dar aos outros”. Se você examinasse as nossas declarações de im­
Para mim está claro que o que ele queria dizer era posto de renda nos últimos anos, veria um padrão
que a igreja local devia receber o dízimo cristão. interessante. A nossa igreja local recebe uma ajuda
Todas as outras despesas dos cristãos estavam mui­ constante, mas a maior parte das nossas doações
to acima dos 10 por cento que deveria ser entregue são dirigidas a ministérios como a Prison Fellowship
à igreja local. que cuida diretamente dos necessitados da nossa
Eu entendo esta mensagem. Mas questiono a sua sociedade. E algumas vão para causas que não são
exegese. Particularmente quando leio capítulos dedutíveis, e até “seculares”.
com mensagens semelhantes a estas em Deutero­ Certamente esta importante passagem de Deutero­
nômio. Aqui existe algo que liga o dízimo que Isra­ nômio nos dá, pelo menos, uma visão mais recente
el devia entregar, e a generosidade que os israelitas do amável coração do nosso Deus. E talvez nos leve
estavam sendo incentivados a demonstrar. E qual a parar e avaliar a maneira como nós o adoramos
seria este elemento de ligação? A obrigação de dar, através das nossas doações.
e a doação opcional, tinham, como finalidade prin­
cipal, atender as necessidades humanas. Aplicação Pessoal
O dízimo obrigatório era entregue ao Templo para De que maneiras você mostra sua reverência a Deus
ser usado na manutenção dos levitas e dos sacerdo­ nos dias de semana?
tes que serviam a Deus. Depois, a cada três anos,
esse dízimo era armazenado localmente com uma Citação Im portante
finalidade específica: “Então, virá o levita (pois “A piedade consiste apenas de atos específicos como
nem parte nem herança tem contigo), e o estran­ a oração e a obediência aos rituais, mas ela também
geiro, e o órfão, e a viúva, que estão dentro das está ligada a todas as atividades, e é concomitan­
tuas portas, e comerão, e fartar-se-ão, para que o te com tudo que fazemos e com todos os eventos,
Senhor, teu Deus, te abençoe em toda a obra das acompanhando e modelando as ações da vida. A res­
tuas mãos, que fizeres” (14.29). Tanto as doações ponsabilidade do homem perante Deus é um palan-

115
Deuteronômio 16.18— 18.22

CALENDÁRIO AGRÍCOLA dos por Deus para ser um líder, Ele irá guiar os
nossos passos.
Julho Oliveiras
Abe Defíniçáo dos Termos-Chave
Profeta. Em Israel, o profeta era o porta-voz de
Agosto Deus, um homem ou uma mulher que havia sido
Elul encarregado (a) de transmitir as mensagens de
Deus. O papel do profeta não era hereditário. Deus
Setembro Figos e Tâmaras chamava e dava este encargo aos indivíduos que es­
Tisri colhia em qualquer das tribos de Israel.
Embora os profetas previssem os acontecimentos
Outubro Arar que ocorreriam no futuro distante, o principal mi­
Marquesvã nistério do profeta era desempenhado junto à sua
própria geração. O profeta oferecia orientação divi­
na a qualquer indivíduo nas ocasiões especiais, mas
Novembro geralmente ele se dedicava àqueles que governavam
Quisleu o povo de Deus.
Dezembro Semear Deuteronômio 18 é uma passagem bíblica chave,
Tebete que trata do profeta do Antigo Testamento. Ela
fornece os critérios que devem ser usados por Israel
para reconhecer alguém como porta-voz de Deus.
Janeiro O verdadeiro profeta deverá falar em nome do Se­
Sebate nhor, e não de outro deus (v. 20). E aquilo que
Fevereiro Cítricos um verdadeiro profeta predisser, deverá acontecer
Adar (v. 22).
Visão Geral
Março Linho Uma grande variedade de líderes iria servir Israel
Nisã sob as ordens de Deus, o Rei das nações (16.18—
Abril Cevada 18.22). Esses líderes incluíam os juizes locais
Zive (16.18-20), uma suprema corte composta por sa­
cerdotes (17.8-13), um rei (w. 14-20), e todo o
Maio Trigo sacerdócio (18.1-8). Quando Israel precisasse de
Sivã uma orientação especial, Deus iria fornecê-la atra­
vés dos profetas.
Junho Uvas
Tamuz Entendendo o Texto
“Juizes e oficiais porás em todas as tuas portas” (Dt
16.18-20). Não existia uma força policial nacional
que sobre o qual ele se coloca diariamente, enquanto em Israel. Em cada comunidade os anciãos de boa
edifica a sua vida. Cada um dos seus feitos, e cada reputação deveriam servir como juizes. Estes juizes
pensamento têm lugar neste palanque, de modo que iriam determinar os fatos nos casos legais e, em se­
ele se encontra trabalhando incessantemente, seja guida, aplicar a Lei de Moisés a fim de estabelecer
construindo ou destruindo a sua vida, o seu lar, ou a quaisquer castigos necessários.
sua esperança em Deus.” — Abraham Heschel O primeiro parágrafo a respeito daqueles que ser­
vem corretamente a Deus e ao seu povo descreve
9 DE FEVEREIRO LEITURA o40caráter dos juizes. Vemos a mesma coisa nas di­
í -í SERVIR A DEUS retrizes do Novo Testamento quanto à seleção dos
Deuteronômio 16.18— 18.22 líderes cristãos (1 Tm 3; Tt 1). Como preparo para
a liderança espiritual, o caráter era mais importante
“Porás, certamente, sobre ti como rei aquele que esco­ do que o talento.
lher o Senhor, teu Deus” (Dt 17.15). O caráter era o mais importante porque os jui­
zes não podiam mostrar nenhuma parcialidade,
E algo muito especial ser chamado para servir a nem aceitar nenhum “suborno”. A palavra tradu­
Deus como líder do Seu povo. Se formos chama­ zida como “suborno” também pode ser traduzida
116
Deuteronômio 16.18— 18.22

como “presente”. Esta injunção reflete uma prá­ demonstrava uma falta de confiança em Deus.
tica antiga e também moderna do Oriente Mé­ Segundo, Israel era uma nação destinada a ser
dio de dar presentes àqueles de quem uma pessoa diferente de todas as outras nações. Essa razão
espera receber favores. Este presente não é men­ de ser uma nação como “todas as nações que
cionado como um “suborno”, mas quem dá sente estão em redor de mim” sugeria abandonar a
que estabeleceu um relacionamento especial que chamada de Israel.
merece favores da pessoa que o recebeu. No entanto, esta passagem tem uma mensagem
Nenhum “relacionamento especial” deveria existir especial e maravilhosa para nós. Deus usou até
na comunidade do pacto. O único compromisso mesmo a rejeição para a sua glória, e para o bem
do juiz devia ser com a justiça. a humanidade. Quando o próprio Filho de Deus
assumiu a forma humana, Ele nasceu na linha­
“Tirarás o mal do meio de ti” (Dt 16.21— 17.7). gem real de Israel. Jesus, sendo tanto Deus como
Alguns podem imaginar porque as leis “religiosas” homem, é exaltado como Rei dos reis e Senhor
foram inseridas aqui, numa seção que trata da li­ dos senhores.
derança humana. A razão? Deus era o Soberano de A habilidade de Deus de introduzir os erros de Is­
Israel, o Governante de quem os líderes humanos rael no seu plano deve nos encorajar. Cada um de
recebem a sua autoridade. Se Israel abandonasse nós irá pecar às vezes, assim como Israel pecou. E,
a Deus, toda a estrutura da sua autoridade iria quando isso acontecer, devemos nos lembrar da
desmoronar. Portanto, Israel não devia estabele­ graça de Deus. Devemos pedir que Ele nos per­
cer nenhum símbolo da religião pagã como, por doe, lembrando-nos de que Ele continua sendo
exemplo, um bosque de árvores (ou um poste de capaz de transformar os erros em algo bom.
Aserá, na versão TB) ou massebot (uma pedra sa­
grada). Israel devia honrar a Deus levando sempre “E nele lerá todos os dias da sua vida” (Dt 17-18-
o melhor para Ele como sacrifício. 20). O pedido de Israel por um rei revelava uma
O total compromisso com Deus era tão vital que falha espiritual no povo de Deus. Ele ainda iria
qualquer israelita que fosse comprovadamente governar o seu povo através deste rei humano,
culpado de ter adorado deuses ou deusas pagãos mas este rei deveria estar totalmente comprome­
devia ser apedrejado até a morte. tido com Deus.
Foram determinadas quatro regras especiais para
“Quando alguma coisa te for dificultosa em juízo” os governantes. O rei, “ele e seus filhos” deveriam
(Dt 17.8-13). Os sacerdotes do santuário central ser do “meio de Israel”. Somente alguém do povo
deviam ter um entendimento profundo da Lei do pacto de Deus poderia governar a comunida­
divina. Dessa forma, eles iriam servir como uma de do pacto. O rei não devia “multiplicar para
autoritária corte suprema e decidir os casos que si cavalos” e tinha que depender de Deus e não
os anciãos locais não podiam resolver. A decisão de qualquer poder militar. O rei não poderia
do sacerdote era final e tinha que ser aceita. En­ “multiplicar mulheres para si”. Nos tempos bí­
tretanto, essa decisão devia ser cuidadosamente blicos, os casamentos entre as casas reais selavam
explicada e estar fundamentada na Lei (v. 11). simbolicamente os tratados entre as nações. To­
Nós também precisamos respeitar os nossos líderes, mar muitas esposas sugeria esta prática que iria
mas os líderes também se encontram obrigados a (como aconteceu no caso de Salomão) introdu­
tomar decisões baseadas na Palavra de Deus e têm a zir o paganismo na própria casa real. O rei não
responsabilidade de explicar os princípios bíblicos devia “multiplicar muito ouro nem prata para
sobre os quais estas decisões estão baseadas. si”, mas governar em benefício do seu povo e não
para o seu próprio engrandecimento.
“Porei sobre mim um rei” (D t 17-14-20). Foram Estas regras têm uma aplicação direta aos líderes
necessárias várias centenas de anos, depois da espirituais atuais. Estes líderes devem ser crentes
entrada em Canaã, para que Israel solicitasse verdadeiros, devem confiar totalmente em Deus,
um rei. No entanto, esse pedido estava errado, e devem estar completamente comprometidos
por duas razões. Primeiro, Deus era o Rei de com Ele, cuidando mais das pessoas a quem ser­
Israel; e o pedido para terem um rei humano vem do que de qualquer ganho pessoal.

117
Deuteronômio 19.1—21.14

DEVOCIONAL____________
Deus certamente Guiará dado outra pessoa a aprender que podia realmente
(Dt 18.9-22) depender de Deus.
Quando Karen procurou Ron, um presbítero da
nossa igreja, ela estava frustrada. Precisava tomar Aplicação Pessoal
uma decisão importante, no entanto, todos os seus Deus também deu o seu Espírito a você. Você
amigos estavam lhe dando conselhos conflitantes. pode, hoje mesmo, buscar diretamente a orienta­
Então, Karen resolveu ir à igreja e perguntar a Ron ção de Deus.
o que ela devia fazer.
Nenhuma forma específica de “irás” ou “não irás” Citação Importante
foi aplicada e Ron mostrou-lhe várias passagens da “Confie no Senhor de todo o coração e não se
Bíblia com princípios que poderiam ser aplicados. apoie na sua própria inteligência. Lembre de Deus
Finalmente, ele lhe disse para orar e perguntar a em tudo o que fizer, e ele lhe mostrará o caminho
Jesus o que deveria fazer. certo.” — Provérbios 3.5,6 (NTLH)
Zangada, Karen explodiu: “Mas, você é um presbí­
tero. Você tem a obrigação de me dizer o que devo 10 DE FEVEREIRO LEITURA 41
fazer”. HONRAR A DEUS
Em certas ocasiões, todos nós sentimos necessi­ Deuteronômio 19.1— 21.14
dade de uma orientação especial, de alguém que
possa nos dizer o que fazer. No mundo antigo, “Quando te achegares a alguma cidade... apregoar-
geralmente as pessoas lançavam mão da feitiçaria lhe-ás a paz” (Dt 20.10).
ou da adivinhação, ou mesmo lançavam encantos à
procura de uma orientação sobrenatural. Algumas A vida humana é preciosa para Deus. Mesmo nos
pessoas modernas fazem a mesma coisa; elas pro­ casos em que tirar a vida era permissível — ao exe­
curam cartomantes, espíritas ou a astrologia. Nesta cutar um assassino ou na guerra — o povo de Deus
passagem, Israel é asperamente informado de que deveria honrar ao Senhor demonstrando respeito
tais práticas são “abomináveis”. O povo de Deus pela vida.
não deve, de maneira nenhuma, adotar nenhuma
delas (w. 9-14). Definição dos Termos-Chave
Então, imediatamente, Deus faz uma promessa. Assassinato. O hebraico faz uma distinção entre o
Sim, surgirão situações que não estão cobertas pe­ assassinato pessoal (rasa) e o ato geral de tirar a
las Escrituras. Sim, haverá ocasiões em que o povo vida (harag}. O assassinato e o homicídio premedi­
precisará de uma orientação especial e sobrenatu­ tado são rasa’, enquanto uma execução judicial, ou
ral. Mas, então: “O Senhor, teu Deus, te despertará matar na guerra são harag. Um número adicional
um profeta do meio de ti”. de palavras também é usado na descrição da morte
Deus assumiu um compromisso. Através dos pro­ na guerra.
fetas, Ele mesmo iria fornecer qualquer orientação E importante entender que o mandamento, “Não
espiritual de que seu povo pudesse necessitar. Israel matarás” se coloca contra a rasa’, um ato pessoal de
nunca precisaria procurar nenhuma outra fonte matar, e não contra matar judicialmente ou matar
que não fosse Deus. militarmente.
Karen ficou furiosa porque Ron não lhe disse o que Deuteronômio 19 trata de rasa, e o capítulo 20
deveria fazer. Ron explicou que Deus havia conce­ trata, indiretamente, de harag. Seja intencional ou
dido o seu Espírito a cada crente e Karen precisava não, rasa’ é pecado, mas somente a morte inten­
orar sobre a sua situação e deixar que o próprio cional — que chamaríamos de assassinato em pri­
Deus lhe guiasse. “Eu não sou Deus”, Ron expli­ meiro grau ou premeditado — merece a pena de
cou, “Não sei o que Deus definiu que seria melhor morte. Como ensinam estes capítulos, não é errado
para você, mas Ele o fez. E, se você ouvir, Ele lhe impor a pena de morte a um assassino — é uma
mostrará o que deve fazer”. exigência. Algumas circunstâncias até exigiam que
Karen permaneceu zangada durante dois dias, mas Israel se envolvesse em guerras de extermínio.
finalmente decidiu fazer o que Ron havia dito. As leis do Antigo Testamento não tratam de todas
Mais tarde, ela voltou muito animada. Deus ha­ as questões levantadas por aqueles que censuram
via lhe orientado e ela encontrara uma solução na publicamente a pena de morte, ou por aqueles que
qual nem ela, nem seus amigos, tinham pensado. adotam uma posição pacífica na guerra. No entan­
Ron, como bom servo de Jesus Cristo, havia aju­ to, estas leis estabelecem importantes diferenças
118
Deuteronômio 19.1—21.14

que precisamos entender para discutir tais questões de, o supremo valor que Deus atribui a uma única
de maneira inteligente. Estas leis mostram, real­ vida humana.
mente, que Israel devia honrar a Deus mostrando
um raro respeito pela vida humana. “Não mudes o marco do teu próximo” (Dt 19.14).
Nos tempos bíblicos, os limites da terra de uma
Visão Geral família eram marcados com pedras. Por que esta lei
Regulamentos detalhados exigiam que Israel hon­ foi colocada aqui numa discussão sobre questões
rasse a Deus através do respeito à vida humana. relacionadas à vida e à morte? Possivelmente, por
Haviam sido estabelecidas cidades de refúgio para causa da conexão entre o meio de subsistência da
proteger aqueles que haviam cometido um homi­ família — a sua terra — e a própria vida.
cídio acidental (19.1-14). Regras rígidas relaciona­ O mandamento que proibia a morte estabelecia a
das às evidências governavam todos os casos crimi­ importância da vida humana. Ele se coloca eter­
nais (w. 15-21), assim como outras regras rígidas namente como uma barreira a qualquer ato que,
tinham que ser seguidas ao se fazer a guerra (20.1- de alguma maneira, direta ou indiretamente, possa
20). Os assassinatos não solucionados exigiam uma ameaçar o bem-estar de outro ser humano. Os cris­
purificação (21.1-9), e as mulheres prisioneiras de­ tãos dos nossos dias precisam defender as leis que
veriam ser tratadas com especial cuidado e respeito promovem a justiça, sem deixar de exigir o castigo
(w. 10-14). dos malfeitores.
Entendendo o Texto “Uma só testemunha contra ninguém se levantará”
“Preparar-te-ás o caminho” (Dt 19-1-3). A Lei do (Dt 19.15-21). Em qualquer assunto relacionado
Antigo Testamento exigia o estabelecimento de ci­ com um crime eram necessárias duas ou três tes­
dades de refúgio onde uma pessoa que tivesse aci­ temunhas para estabelecer a culpa. Além disso, os
dentalmente matado alguém pudesse ficar a salvo. juizes deviam examinar cuidadosamente essas tes­
A frase, “Preparar-te-ás o caminho” é bastante sig­ temunhas. A justiça era tão importante que uma
nificativa. Deus não queria que alguma coisa pu­ testemunha falsa devia sofrer um castigo, não o
desse impedir ou atrasar a fuga de qualquer pessoa castigo por mentir, mas o castigo estabelecido pelo
para o refúgio. crime sobre o qual havia mentido. Uma rígida jus­
Nós também temos a responsabilidade de procu­ tiça era necessária “para que”, diz o verso 20, “os
rar que a justiça seja feita na nossa sociedade. Mas que ficarem o ouçam, e temam, e nunca mais tor­
também somos responsáveis por “preparar cami­ nem a fazer tal mal no meio de ti”.
nhos” que irão proteger o inocente. A maneira mais segura de promover o crime é dei­
xar de punir os criminosos.
“A quele que por erro”(Dt 19-4-13). Em Israel, algum
parente próximo da vítima de um assassinato tinha “ Quando saíres à peleja” (Dt 20.1-9). No início, Is­
a responsabilidade de matar o criminoso. Podemos rael não dispunha da presença de um exército e,
compreender que tal pessoa, um filho, um irmão em seu lugar, se formava uma milícia composta
ou um pai, pudesse estar suficientemente zangado por cidadãos, quando a nação era ameaçada ou ia
para matar sem esperar a verificação das circuns­ à guerra.
tâncias da morte. As cidades de refúgio eram esta­ A lei bíblica concedia exceções humanitárias e
belecidas de forma que a pessoa que tivesse matado qualquer um que sentisse medo era enviado para
alguém pudesse estar a salvo enquanto a morte era casa “para que o coração de seus irmãos se não der­
investigada. Se fosse verdadeiramente um acidente, reta como o seu coração”. Estas exceções refletem a
como no exemplo incluído no verso 5, o assassino crença em Deus que os sacerdotes deviam procla­
poderia permanecer na cidade de refúgio até que o mar antes de toda batalha. A vitória não dependia
atual sumo sacerdote morresse, para depois voltar do tamanho do exército de Israel, mas de Deus. “O
para sua casa. Mas, se a investigação mostrasse que Senhor, vosso Deus, é o que vai convosco”.
a morte havia sido intencional, “então”, diz o verso Este é um princípio importante que devemos lem­
12, “os anciãos da sua cidade mandarão, e dali o brar sempre que nos sentimos pequenos e impo­
tirarão, e o entregarão na mão do vingador do san­ tentes. A questão não é a nossa força, nem a força
gue, para que morra”. do inimigo, a questão é se o Senhor vai conosco.
Esta lei reflete a preciosa natureza da vida humana.
Nenhuma quantia em dinheiro, e nenhum castigo “Quando te achegares" (Dt 20.10-18). Esta passa­
possível, podem repor uma vida que foi tirada. A gem faz uma importante distinção. Quando Israel
pena de morte reafirma, perante toda a comunida­ fazia guerra fora dos limites de Canaã, os exércitos
119
Deuteronômio 19.1—21.14

inimigos eram convidados a se render, e somente xima deviam degolar uma bezerra que iria repre­
quando a cidade inimiga resistia, o exército de Isra­sentar o criminoso e, desse modo, demonstrar a
el tinha ordem para matar e saquear. Entretanto, se sua disposição de aplicar o castigo que Deus exigia.
a guerra acontecesse dentro de Israel, seu exército Em seguida, eles deviam anunciar publicamente
tinha ordens para “destruir totalmente’ as cidades que ignoravam a identidade do assassino perante
inimigas. A razão para isso foi claramente explica­ os sacerdotes que representavam a própria Lei. Esta
da: “Para que vos não ensinem a fazer conforme to­ cerimônia purificava a terra da culpa por ter derra­
das as suas abominações, que fizeram a seus deuses, mado “sangue inocente”.
e pequeis contra o Senhor, vosso Deus”. Esta cerimônia reflete novamente o fato de que, se­
gundo a Lei do Antigo Testamento, toda comuni­
“Não destruirás o seu arvoredo” (Dt 20.19). Náo dade de fé era responsável pela conduta individual
existe nenhum paralelo com as regras de guerra das dos seus membros.
outras nações da antiguidade. Somente Israel devia
preservar as árvores frutíferas ao atacar uma cidade “Tu serás seu marido, e ela, tua mulher” (Dt 21.10-
murada. Esta lei faz mais do que refletir a preo­ 14). Os exércitos de antigamente se caracterizaram
cupação de Deus com todos os povos. Ela mostra pelo estupro e pelo saque, mas a Lei de Deus subs­
que, para Israel, o estado ideai era um estado de tituiu o estupro pelo casamento. Mudar as vestes e
paz, não de guerra. Os assírios e os babilônios, e cortar o cabelo da mulher prisioneira simbolizava
também outros povos poderosos do mundo antigo sua separação da nação de origem, e que ela havia
prosperavam com a guerra e não se preocupavam sido adotada por Israel. Em seguida, ela dispunha
com as devastações que provocavam. Somente em de algum tempo para lamentar a perda dos parentes
Israel a paz representava a principal preocupação e, então, era aceita como esposa e não como escrava
do país. (v. 13). Se, por qualquer razão, acontecesse o divór­
cio, essa mulher deveria receber a liberdade e não ser
“Sem que se saiba quem o matou” (Dt 21.1-9). Toda tratada como escrava. Os arqueólogos recuperaram
a comunidade da aliança era responsável pela apli­ regulamentos de guerra de outras nações da antigui­
cação das Leis de Deus. Se acaso desconhecessem dade, mostrando que elas dedicavam às mulheres
qualquer assassino, os anciãos da cidade mais pró- prisioneiras um tratamento muito mais cruel.

DEVOCIONAL______
Preparadores de Caminhos que o inocente possa encontrar o caminho para
(Dt 19) uma cidade de refúgio. E verdade, devemos casti­
Ouvi uns boatos a seu respeito”, disse-me alguém gar o culpado. Mas, antes, precisamos nos certificar
ao telefone, “Só queria saber por mim mesmo”. de que nenhum inocente sofra injustamente.
Gostei muito do seu telefonema. Tinha ouvido a Então, o que devemos fazer ao ouvir alguma coi­
história que estava circulando e me divertia com sa a respeito de um suposto erro ou problema na
ela. Não sou nenhum ser perfeito, mas essa história vida de um irmão ou de uma irmã? Deuteronômio
era ridícula. O único problema era que as pesso­ 19 sugere diversos princípios para a preparação de
as que a ouviam continuavam a repeti-la como se caminhos.
fosse verdade. Por fim, um grupo de irmãos e ir­ Primeiro, procure levar algum tempo antes de re­
mãs cristãos ouviu a história, acreditou e passou a petir um boato. A cidade de refúgio do Antigo Tes­
repeti-la. No entanto, o telefonema que recebi era tamento era, primeiramente, um lugar onde uma
da primeira — e única — pessoa que se preocupou pessoa podia encontrar um refúgio temporário en­
em conferir os fatos pessoalmente comigo. quanto seu caso estava sendo investigado.
Depois de algum tempo, esta história morreu. Em Segundo, verifique os fatos. Não é suficiente man­
primeiro lugar, porque não era verdadeira e Deus ter-se calado, procure a pessoa que lhe contou a
havia protegido o meu ministério, de modo que história — onde ela obteve esta informação? Sabe
estes boatos realmente não me prejudicaram. Mas, se é confiável? Se a história estiver sendo repetida
este incidente me faz lembrar de como nós, cristãos, sem a pessoa interessada ter conhecimento dos fa­
estamos muito mais dispostos a pegar um machado tos, confronte aquele que a está circulando. É peca­
e partir atrás de alguém que julgamos ter cometido do testemunhar falsamente contra qualquer um.
um erro — como modernos vingadores de sangue Terceiro, se este boato continuar, fale com a pessoa
— do que partir para construir estradas a fim de que está sendo acusada. Ela tem o direito de saber
120
Deuteronômio 21.15—26.19

o que está sendo dito a seu respeito e o direito de (cf. Êx 20.12; 21.15, 17; Lv 20.9) como fez Jesus
ser ouvida. (Mc 7.10).
O cristão não deve, de maneira alguma, absolver a Segundo, os pais não tinham direitos absolutos
culpa ou ignorar o pecado. Mas o boato, a maledi­ sobre seus filhos. De acordo com a lei romana o
cência e a falsa acusação são pecados que devem ser pai podia ordenar a morte de um filho, mas em
eliminados de uma comunidade de crentes. Israel um pai só podia castigar. Somente os juizes
da comunidade, que tinham a responsabilidade de
Aplicação Pessoal determinar a culpa ou a inocência de um filho, po­
“Para que o sangue inocente se não derrame no diam ordenar uma execução.
meio da tua terra” (Dt 19.10). Terceiro, tanto o pai como a mãe deviam estar de
acordo em fazer alguma acusação contra o filho.
Citação Im portante Os direitos da esposa e mãe, ignorados em mui­
“Aquele que acusa toda a humanidade de corrup­ tos códigos da antiguidade, eram reconhecidos em
ção deve se lembrar de que, seguramente, está con­ Israel.
denando apenas um.” — Edmund Burke Para nós, a família também é uma unidade básica.
Embora como pais, nós não possamos garantir que
11 DE FEVEREIRO LEITURA os42nossos filhos façam todas as escolhas certas, nós
■/~V OBEDECENDO A DEUS assumimos a responsabilidade de dar orientação e
Deuteronômio 21.15—26.19 disciplina aos meninos e às meninas.
“O Senhor, hoje, tefez dizer que lhe serás por povo seu “O seu cadáver não permanecerá no madeiro” (Dt
próprio, como te tem dito, e que guardarás todos os 21.22,23). Nas sociedades antigas o corpo do cri­
seus mandamentos” (Dt 26.18). minoso executado era, muitas vezes, pendurado ao
ar livre para servir de lição aos outros. Em Israel
A Lei do Antigo Testamento abordava todos os as­ esta exposição estava limitada a um dia, “porquan­
pectos do estilo de vida dos israelitas mostrando to o pendurado é maldito de Deus”. Paulo aplica
que Deus está intimamente envolvido com tudo esta frase a Jesus em Gálatas 3.13, a fim de mostrar
que acontece na vida do crente sobre a terra. Mui­ que Ele se tornou realmente maldito a fim de nos
tas das leis desta seção são notáveis pela preocupa­ livrar da maldição da Lei (isto é, da exigência da
ção que demonstram pelos indivíduos. Lei de que o pecado deve ser castigado).
Definição dos Termos-Chave “Não te esconderá deles” (Dt 22.1-4). Alguém que
“Se... então”. Muitas dessas leis são casuísticas na encontrasse alguma coisa perdida era obrigado a
sua forma; elas aplicam princípios morais gerais ao devolvê-la, ou cuidar dela até que o proprietário
examinar cada caso específico. Então, estes casos se fosse encontrado. Em Êxodo 23.4,5 a obrigação de
tornavam precedentes e eram usados para orientar ajudar era estendida aos inimigos.
os procedimentos e as decisões quando surgiam ca­ Jesus aplicou este princípio quando respondeu a
sos semelhantes perante as cortes judaicas. um “doutor da lei” que o desafiou a definir o “pró­
ximo” que, segundo a Lei do Antigo Testamento,
Visão Geral devia ser amado como a si mesmo. Na parábola do
As leis que abordam inúmeros aspectos da vida de Bom Samaritano Jesus mostrou que o nosso “pró­
Israel naquela terra foram agrupadas nesta seção e, ximo” é qualquer pessoa que esteja necessitada e a
entre uma miscelânea de regras, existem conjuntos quem temos a capacidade de ajudar.
de leis que tratam da família (21.15-21), do casa­
mento (22.13-30) e dos rituais religiosos (26.1-19). “Não haverá trajo de homem na mulher” (Dt 22.5).
Tanto o homem como a mulher usavam túnicas
Entendendo o Texto semelhantes na época do Antigo Testamento, mas
“Um filho contumaz e rebelde” (Dt 21.18-21). Não o corte e os adornos eram diferentes. Este manda­
existe nenhum registro de pais que entregaram o fi­ mento afirma, realmente, a importância de ambos
lho aos juizes locais para ser executado. Mas este caso os sexos, e os exorta a afirmar a sua identidade se­
estabelece vários princípios legais importantes. xual através da roupa, em vez de se vestirem de um
Primeiro, este caso realça a importância de uma fa­ modo que negue esta identidade.
mília estável, pois em Israel a família representava
a unidade religiosa e econômica básica. Outras leis “ Quando edificares uma casa nova, farás no telhado
também afirmam a importância de honrar os pais um parapeito” (Dt 22.8). As casas de Israel tinham
121
Deuteronômio 21.15—26.19

um telhado plano e uma escada exterior que levava soa é preciosa perante Deus e deve ser respeitada
até ele. O telhado era usado pela família e os ami­ por nós.
gos como ponto de reunião para conversar ou tra­
balhar. Esta lei, uma extensão da lei de não matar, “A teu irmão não emprestarás à usura”(Dt23.19,20).
exigia a construção de um muro baixo em volta da Arqueólogos encontraram documentos de culturas
área do telhado. Aqui, essa proibição divina assim contemporâneas à do Antigo Testamento que esta­
como em outro caso da lei do Antigo Testamento, belecem as taxas de juros. Algumas leis limitavam
foi transformada numa lei positiva que envolve um as taxas que podiam se cobradas, mas contratos do
significado mais profundo. século XV encontrados em Nuzi, no norte da Assí­
Nós também devemos promover ativamente o ria, registram taxas de juros de 50%!
bem-estar dos outros, e não apenas evitar fazer-lhes O princípio aqui é bastante claro. Devemos ajudar
algum mal. as pessoas necessitadas, e não oprimi-las ainda mais
visando o nosso próprio proveito. O explorador
“Sinais da virgindade” (Dt 22.13-19). Tradicional­ dos pobres que cobra um aluguel exagerado está
mente, esta lei tem sido usada para mostrar que cometendo uma clara violação do princípio subja­
o sangue na cama do casal recém-casado era uma cente a este regulamento do Antigo Testamento.
prova de que o hímen da noiva havia sido rom­
pido. Mas aqui a palavra betulim pode significar “Seu primeiro marido... não poderá tornar a tomá-
“adolescência” e não “virgindade”. Portanto, será la” (Dt 24.1-4). O divórcio e um novo casamento
melhor entender o “sinal” como algum tecido usa­ eram permitidos em Israel, embora demonstras­
do na menstruação. O fluxo menstrual da jovem sem um fracasso da pessoa por não viver o ideal
noiva era prova de que ela não estava grávida quan­ divino do relacionamento monogâmico que du­
do se casou, e também uma prova de que ela havia rasse a vida toda. Entretanto, esta lei estabelecia,
atingido a idade para se casar. em particular, um claro limite. A pessoa que tives­
se se divorciado, casado novamente, e se divorcia­
“Quando o homem for achado deitado com mulher do outra vez não podia se casar pela segunda vez
casada” (Dt 22.22-30). Várias leis que tratam do com o primeiro cônjuge.
adultério, sedução e estupro realçam a importância E provável que a finalidade desta lei fosse a de for­
da fidelidade sexual. As nações pagãs, situadas ao talecer o segundo casamento, pois tornava impossí­
redor de Israel, mantinham uma atitude casual em vel que uma esposa que tivesse se casado novamen­
relação ao sexo. A moderna teoria do “playboy”, em te pudesse retornar ao seu primeiro marido.
nossos dias, que entende o sexo como uma diversão O divórcio nunca foi o ideal de Deus. E o casamen­
inocente, não tem nada de nova! to não deve ser tratado de maneira irresponsável, a
As leis bíblicas nos lembram de que o povo de Deus ponto de quase se tomar uma competição de coros
é chamado à pureza. O sexo deve ser uma parte im­ musicais. Devemos fazer o possível para conservar
portante da vida, mas da vida matrimonial. O sexo e fortalecer o compromisso do casamento.
deve ser algo sagrado para os crentes, uma expres­
são de intimidade e de amor que só é permitida e “Nem mesmo a mó de cima” (Dt 24.6). Em Israel
apropriada dentro do contexto do casamento. era comum que alguém tomasse posse de algum
objeto como garantia de um empréstimo. Essa lei
“Não entregarás a seu senhor o servo que se acolher a ti menciona as mós usadas diariamente por cada fa­
de seu senhor” (Dt 23.15). O Código de Hamurabi mília israelita para moer o trigo e fazer o pão a fim
condenava à morte o homem que escondesse um de estabelecer um outro princípio. Nada podia ser
escravo fugido. Em Israel, o escravo que estivesse feito pelo credor que pudesse limitar a capacidade
fugindo de um senhor estrangeiro deveria receber de outra pessoa de ganhar dinheiro, ou manter a
refúgio e não ser oprimido pelo fato de ter sido própria vida.
escravo. As leis modernas em nossa nação aplicam este prin­
O ponto de vista das Escrituras sobre o valor dos cípio para proteger a casa e o carro de uma família
seres humanos, e a maneira como este valor é ratifi­ que declara a sua falência.
cado, é muito diferente do ponto de vista adotado Esta lei nos lembra a preocupação de Deus com
por muitas sociedades da antiguidade. cada um de nós. Todo individuo tem direito aos
Devemos ter muito cuidado com a maneira de recursos necessários para manter a vida e susten­
“classificarmos” os outros. Raça, credo, religião, tar a família. Quando limitamos as oportunida­
educação, posição, riqueza — tudo isso é impor­ des de alguém estamos, na verdade, roubando a
tante. Mas o que conta realmente é que cada pes­ sua “mó de cima”.
122
Deuteronômio 27—28

DEVOCIONAL______
Formas de Adoraçáo comunhão dos santos, no perdão dos pecados, na
(Dt 26) ressurreição do corpo e na vida eterna.”
“Vamos cantar este refrão novamente!" — O Credo dos Apóstolos, 140 d.C.
Fico muito entusiasmado quando canto (tenho
uma voz bem alta). E gosto muito da informali­ 12 DE FEVEREIRO LEITURA
dade dos cultos de adoraçáo e louvor. Certa oca­ _£ ^ DESOBEDECENDO A DEUS
sião até argumentei que somente o espontâneo Deuteronômio 27—28
e o informal podiam representar corretamente a
adoração congregacional. Se alguma vez discuti “Maldito aquele que não confirmar as palavras des­
esta afirmação devo agora confessar que estava ta lei, não as cumprindo” (Dt 27.26),
errado.
O que me convenceu foi a frequente inclusão, nas Um princípio básico da Lei da Aliança diz que a obe­
liturgias de adoração no Antigo e Novo Testamen­ diência traz a bênção e que a desobediência traz o
tos, de certas palavras e frases que sáo repetidas castigo. E muito importante entendermos as trágicas
pelos crentes. Este capítulo contém uma liturgia consequências do pecado de desobedecer a Deus.
usada na Festa das Primícias e uma liturgia usada
quando os dízimos eram entregues na casa do te­ Visão Geral
souro local a cada três anos. Cada uma delas in­ Moisés e os anciãos deram instruções para a cons­
clui afirmações que lembram aos crentes porque, trução de um altar assim que entrassem na Terra
exatamente, eles estão comparecendo perante o Prometida (27.1-8). Do monte Ebal foram dadas
Senhor, e o que o Senhor representa para eles. orientações para as bênçãos e as maldições (w.
Se você frequenta uma igreja que é rica nas suas 9-26), bênçãos para a obediência (28.1-14) e mal­
expressões litúrgicas, junte-se conscientemente a dições para a desobediência (w. 15-68).
ela. Ouça as palavras da sua liturgia como se elas
estivessem sendo ouvidas pela primeira vez. Repi­ Entendendo o Texto
ta-as do fundo do coração. Pois a liturgia muitas “A li edificarás um altar ao Senhor, teu Deus” (Dt
vezes captura, realmente, e de forma sucinta e po­ 27.1-8). Essa ordem era a última das determi­
derosa as realidades básicas da nossa fé. nações do pacto, e afirmava aquilo que o povo
devia fazer. As leis dos capítulos 21— 26 fazem
Aplicação Pessoal uma lista das práticas que deviam ser obedecidas
O Credo dos Apóstolos é uma das mais antigas fielmente pelas futuras gerações. Este capítulo
afirmações cristãs. Se você não o conhece, por que prescreve uma cerimônia que devia ser realizada
não decorá-lo agora? uma vez, uma cerimônia na qual Deus imprimia
em Israel a suprema necessidade da obediência.
Citação Importante Através dela o povo de Israel mostrava sua com­
“Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do pleta aceitação da Lei de Deus e das consequên­
céu e da terra. Em Jesus Cristo, seu único Filho, cias da desobediência.
nosso Senhor que foi concebido pelo Espírito O altar e os sacrifícios ali realizados confirma­
Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob vam a aceitação oficial das Leis de Deus por
Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepulta­ aquela geração.
do. Desceu ao inferno e no terceiro dia ressusci­ Precisamos ter certeza de que nossos filhos en­
tou dos mortos. Subiu ao céu e está assentado à tendem as consequências dos seus erros. Q uan­
mão direita de Deus Pai, Todo-Poderoso de onde do tivermos enunciado estas consequências, te­
há de vir para julgar os vivos e os mortos. Creio remos uma base clara sobre a qual poderemos
no Espírito Santo, na santa igreja universal, na castigar e corrigir.

123
Deuteronômio 27—28

Remanescentes de um altar maciço foram encontrados por arqueólogos no monte Ebal. A ilustração acima mostra
como era a aparência deste altar quando foi construído.

RAZÕES DA MALDIÇÃO

0 Pecado Deuteronômio 27 Passagens Paralelas


Construir ídolos 27.15 D t 4.16; 5.8; Êx 20.23; Lv 19.4; 26.1
Desprezar os pais 27.16 D t 21.18-21; Êx 21.15; Lv20.9
Mudar o marco/limite 27.17 D t 19.14
Fazer errar o caminho 27.18 Lv 19.14
Impedir a justiça 27.19 D t 10.18; 24.17; Êx 22.21; Lv 19.33
Pecado sexual 27.20 D t 22.30; Lv 18.6-8
Bestialidade 27.21 Êx 22.19; Lv 18.23
Incesto 27.22,23 Lv 18.9-17; 20.14,17
Assassinato 27.24,25 Êx 21.12,29; 23.7

“Maldito aquele”(D t27.9-26). As leis contidas náo somos informados de que, além disso, Deus “nos
só em Deuteronômio, mas também em livros an­ abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lu­
teriores de Moisés, apresentam um resumo de doze gares celestiais em Cristo” (Ef 1.3).
violações. O quadro desta página relaciona passa­ As bênçãos espirituais nos garantem a amável pre­
gens paralelas. sença de Deus em nossa vida, e que “todas as coisas
As pessoas deviam dizer em alta voz, “Amém” depois contribuem juntamente para o bem daqueles que
que cada uma dessas maldições fosse recitada. Não amam a Deus, daqueles que são chamados por seu
podia haver nenhuma confusão; Israel conhecia a decreto” (Rm 8.28).
Lei, e aceitava a responsabilidade de obedecê-la.
“Se não deres ouvido à voz do Senhor” (Dt 28.15-
“Se obedeceres plenamente” (Dt 28.1-14). As bên­ 68). Encontramos aqui três grupos de maldições.
çãos prometidas a Israel por causa da sua obediên­ Os versos 15-46 advertem que se Israel desobe­
cia estavam dirigidas à prosperidade e à segurança decer, a nação irá experimentar a pobreza e não
dentro da Terra Prometida. O cristão dispõe de a prosperidade. Os versos 47-57 advertem que se
um compromisso semelhante da parte de Deus, e Israel desobedecer, a nação irá viver sob a constan­
124
Deuteronômio 29—30

te ameaça de invasão estrangeira e os versos 58-68 na Terra Santa. Somente agora existe um sinal de
avisam que se a desobediência persistir a nação de que o povo de Israel irá se reunir na sua antiga
Israel será removida da sua terra e lançada entre as terra natal.
outras nações onde o povo de Deus não terá repou­ Quando os profetas proclamavam suas ameaças à
so, mas “o Senhor ali te dará coração tremente, e rebelde nação de Israel, muitas das suas previsões
desfalecimento dos olhos, e desmaio da alma”. estavam baseadas no programa divino revelado
Como muitos já observaram, este capítulo faz neste importante capítulo do Antigo Testamen­
uma previsão daquilo que realmente aconteceu to. A realização destas previsões nos lembra que
a Israel. Primeiro, os assírios e os babilônios dis­ ninguém pode pecar impunemente. Deus irá nos
persaram o povo de Deus. Mais tarde, os roma­ punir diretamente, ou através das consequências
nos esmagaram aqueles que haviam se reunido naturais do nosso pecado.

DEV OCIONAL______
A “Nova” Geração sombrias consequências das nossas decisões erradas
(Dt 28.15-68) com tantos detalhes, Deus está nos obrigando a en­
Um recente artigo do jornal de Sáo Petersburgo frentar a realidade.
afirmou que enquanto é preciso uma média de 8 Ninguém pode pecar impunemente. Ninguém
a 10 anos para alguém experimentar plenamente pode pecar descaradamente. Ninguém pode es­
as consequências do poder destruidor do álcool, capar, por muito tempo, das consequências dos
a pessoa que usar algum derivado da cocaína irá seus atos.
constatar que teve sua vida arruinada depois de
apenas sete a oito meses! Ainda de acordo com o Aplicação Pessoal
jornal, o uso do “crack” é epidêmico na cidade de Viva uma vida justa hoje, e deixe que o amanhã
São Petersburgo e atrai usuários de todas as cama­ cuide de si mesmo.
das sociais.
Isso não me surpreendeu realmente. Nós ameri­ Citação Importante
canos estamos nos tornando gradualmente uma “O salário do pecado é a morte — graças a Deus
nação de pessoas que exigem uma gratificação ins­ pedi demissão antes do dia do pagamento.”
tantânea. Queremos gozar os nossos prazeres agora. — Reamer Loomis
Tragicamente, poucos se preocupam se obter estes
prazeres envolve fazer o certo ou o errado, ou se 13 DE FEVEREIRO LEITURA 44
os prazeres que exigimos irão nos ajudar ou nos ESCOLHENDO DEUS
prejudicar ao longo do tempo. Deuteronômio 29— 30
De alguma maneira, algumas pessoas somente se
importam com o momento presente. O futuro, “Hoje te tenho proposto a vida e o bem, a morte e o
moldado de acordo com as consequências das es­ mal” (Dt 30.15).
colhas feitas agora, parece muito irreal para receber
qualquer consideração. Definição dos Termos-Chave
Talvez esta seja a razão pela qual o livro de Deute­ Concerto ou Aliança. A palavra hebraica brit cor­
ronômio dedique cerca de quatro vezes mais espaço responde a um termo usado para uma variedade
para descrever as consequências da desobediência, de compromissos vinculantes. Entre as nações, brit
do que para enumerar as bênçãos que a obediência representa um tratado, e entre indivíduos ela pode
traz. Neste aspecto, as pessoas sempre tentam, de­ ser um contrato. Deus usou muitas vezes uma for­
sesperadamente, ignorar o futuro. Não seríamos os ma conhecida de aliança/concerto para confirmar
primeiros a fingir que o pecado é irrelevante, e que as promessas que Ele fez a Abraão.
as escolhas que fazemos hoje não trarão consequên­ Na antiguidade também se usava a palavra brit para
cias para o amanhã. descrever o relacionamento entre um governante e
Imagino que alguns iriam ficar um pouco aborreci­ seus súditos. Esta passagem de Deuteronômio obe­
dos com Deus por ter gastado tanto tempo pintan­ dece ao formato usado no segundo milênio a.C.
do um quadro tão sombrio. Mas, na verdade, essa para descrever esse tipo de relacionamento. E neste
passagem me faz lembrar como Deus é bondoso. sentido “constitucional” que a palavra “pacto” foi
Ele entende a nossa tendência humana de escolher usada simbolicamente em Deuteronômio e espe­
o prazer, sem pensar no amanhã. Ao descrever as cialmente aqui.

125
Deuteronômio 29—30

Estes dois capítulos são, em essência, uma re­ A questão que os israelitas enfrentavam perante
visão de Deuteronômio 1— 28. Israel ouvira a Moisés naquele “hoje” era simples. Será que deve­
longa explicação feita por Moisés a respeito do riam se comprometer com um Deus que já estava
relacionamento que Deus, como Rei, desejava comprometido com eles?
estabelecer com o seu povo. Agora, talvez alguns Esta questão é muito parecida com a questão que
dias mais tarde, Moisés faz uma breve revisão da enfrentamos hoje. Deus realizou o seu Novo Con­
aliança que iria servir como a constituição nacio­ certo de amor em Jesus Cristo. A morte de Cristo
nal de Israel, e exortou o povo a se comprometer na cruz, e a sua ressurreição, representam a prova
com ele e com Deus. do seu compromisso irrevogável conosco. A úni­
ca questão restante, e que cada um de nós precisa
Visão Geral enfrentar no seu “hoje” é: Será que devemos nos
Moisés resumiu a aliança existente entre Deus e Is­ comprometer plenamente com Ele?
rael. Ele fez uma revisão da obra salvadora de Deus
(29.1-9), e da sua exortação ao relacionamento “Terei paz, ainda que ande conforme o bom parecer
de aliança (w. 10-15). Moisés advertiu sobre as do meu coração” (Dt 29.16-29). Eu me converti
maldições aos rebeldes (w. 16-29), mas afirmou quando estava servindo à Marinha. Comecei a me
a intenção de Deus de restaurar Israel (30.1-10). dedicar ao estudo da Bíblia na hora do almoço e
Em vista disso, Moisés exigiu do povo um firme a colocar os seus versos no quadro de avisos per­
compromisso com o Senhor (w. 11-20). to da lanchonete. Isso serviu para estimular várias
conversões e alguns debates. Um dos grandes argu­
Entendendo o Texto mentos que meus amigos tinham contra a minha
“ Tendes visto tudo quanto o Senhor fez” (Dt 29.2- nova fé era, “Está certo, você foi salvo e vai para o
9). O relacionamento de Israel com Deus começou céu não importa o que tenha feito, não é? Então,
com atos salvadores. Quando o povo estava aban­ vai poder fazer o que quiser e estará tudo bem? Isso
donado e escravo numa terra estrangeira, Deus re­ não pode estar certo”.
alizou “sinais e grandes maravilhas” para libertá-lo. Tentei explicar que uma pessoa que conhece a Jesus
O motivo mais forte que os israelitas tinham para ama a Deus. E o amor a Deus, e não o medo dEle,
se comprometer com Deus era lembrar-se de tudo que impede os cristãos de pecarem. Meus colegas
aquilo que Ele já havia feito por eles. céticos da Marinha simplesmente não podiam acei­
O mesmo acontece conosco. Deus não está pedin­ tar isso. Se soubessem que poderiam ficar livres do
do uma fé cega, ou um compromisso com o desco­ castigo fazendo qualquer coisa que quisessem, eles
nhecido. O Deus que pede o nosso compromisso já escolheriam ter uma “overdose” de pecados.
agiu através de Jesus para nos salvar do poder e do Imagino que, embora a minha resposta estives­
castigo do pecado. Conhecemos seu amor através se correta, atualmente eu poderia ter tratado esta
da morte de Jesus por nós, e o seu poder através da questão de uma forma diferente. Talvez da manei­
ressurreição de Jesus. E realmente seguro nos com­ ra como Moisés tratou com Israel. Não podemos
prometer completamente com Deus? Em vista de olhar para tudo que Deus tem feito por nós e de­
tudo que Ele já fez por nós, só podemos responder cidir o que significa a frase: “Terei paz, ainda que
com toda segurança que sim! ande conforme o bom parecer do meu coração”.
Fazer as coisas à nossa maneira nunca é seguro; é
“Vós todos estais hoje perante o Senhor, vosso Deus” uma receita para o desastre.
(D t29.10-15). Centenas de anos antes, Deus havia Para Israel, deixar de se comprometer com o Deus
feito uma promessa a Abraão, Isaque e Jacó de que do Concerto significava a calamidade. A terra iria
Ele seria o seu Deus, e o Deus dos seus filhos. Ele se tornar um deserto fumegante, o povo iria ficar
já havia confirmado essa promessa inicial a Abraão fraco por causa das doenças e dos inimigos estran­
através de uma cerimônia que estabelecia o con­ geiros. Para nós, cometer um erro semelhante sig­
certo (cf. Gn 15.8-16). Este antigo concerto ainda nifica viver num deserto espiritual, sem nenhum
estava em vigor, estendendo-se através dos séculos senso da presença de Deus, nenhuma experiência
e proporcionando a cada geração de israelitas um da orientação divina, nenhum consolo ou garantia,
relacionamento especial com Deus. e também a probabilidade de que as nossas decisões
O Concerto da Lei, proposto no Sinai, era a forma irão nos levar ao desastre.
usada por Deus para mostrar aos israelitas como
todas as gerações poderiam experimentar as bên­ “Ainda que os teus desterrados estejampara a extremi­
çãos do relacionamento com um Deus que já havia dade do céu, desde ali te ajuntará o Senhor, teu Deus,
se comprometido com eles. e te tomará dali” (Dt 30.1-10). Pesquisando a histó­
126
Deuteronômio 29—30

ria Bíblica, podemos constatar que muitas gerações Nós podemos pecar (e não há dúvida de que so­
de israelitas realmente abandonaram a Deus e vol­ freremos as consequências trazidas por cada um
taram para a idolatria. Os desastres que Moisés ha­ de nossos pecados), mas a porta estará sempre
via previsto aconteceram, inclusive o exílio da Terra aberta para voltarmos para Deus. Podemos rei­
Prometida. Mas, como Moisés deixou bem claro, vindicar a promessa feita a Israel há tanto tem­
Deus manteve o compromisso com o seu povo. As po atrás: “[Se] tornares ao Senhor, teu Deus, tu
gerações desobedientes experimentaram o desastre, e teus filhos, de todo o teu coração... então, o
mas a desobediência delas não anulou as promessas Senhor, teu Deus, mudará a tua sorte” (w. 2,3,
feitas por Deus a Abraão. ARA).

DEVOCIONAL_______
“Eu Prometo” em sua vida. Porém aqueles que pararem na jorna­
(Dt 30.11-20) da, ou retrocederem, seráo destruídos.
Talvez a cerimônia do casamento seja a melhor Nós, cristãos, precisamos compreender que o nosso
analogia que se possa fazer com o compromisso relacionamento inicial com o Senhor Jesus Cristo
que Deus nos pede para assumir com Ele. O ca­ deverá crescer e se aprofundar a ponto de também
samento acontece como o ponto culminante de termos o seguinte sentimento: “Quero que a mi­
um conhecimento gradual entre as pessoas depois nha vida esteja comprometida com esta Pessoa ma­
de meses (às vezes, de anos) de convivência. Com ravilhosa, que me ama”. Este entendimento pode
o tempo, a amizade floresce e a atração inicial se acontecer na igreja em resposta à exortação de
transforma em uma profunda apreciação mútua. um pastor. Pode acontecer na privacidade do seu
Em seguida, cada um percebe que “quer passar a quarto quando você estiver lendo uma literatura
vida com a outra pessoa” e os dois planejam o ca­ devocional como este livro. Quando isso realmente
samento — uma cerimônia para anunciar a todos acontecer, então você precisará tomar uma decisão.
que estas duas pessoas resolveram apegar-se uma à Será que devo me comprometer plenamente com
outra para o melhor e o pior, na doença e na saúde, Deus, entendendo que esta decisáo irá determinar
até que a morte os separe. minhas escolhas para o resto da minha vida?
E fascinante. Esta cerimônia que representa o pon­ Talvez o próprio Moisés esteja nos dando a mais
to mais elevado dos sonhos de tantos jovens não é importante razão para tomarmos esta decisão ago­
o fim, mas o começo. E o começo de uma vida in­ ra. Ele diz: “Os céus e a terra tomo, hoje, por tes­
teira em que o casal agirá de acordo com a decisão temunhas contra ti, que te tenho proposto a vida
que foi marcada por aquela cerimônia. E o começo e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a
de uma vida inteira de tomadas de decisões mol­ vida, para que vivas, tu e a tua semente, amando
dadas pelo fato de que, em um determinado mo­ ao Senhor, teu Deus, dando ouvidos à sua voz e te
mento do tempo, duas pessoas se colocaram lado achegando a ele; pois ele é a tua vida e a longura
a lado e se comprometeram mutuamente; naquele dos teus dias; para que fiques na terra que o Senhor
momento, e para sempre. jurou a teus pais, a Abraão, a Isaque e a Jacó, que
É exatamente este tipo de cerimônia que vemos em lhes havia de dar” (w. 19,20).
Deuteronômio 30. Moisés conclama a nova gera­
ção a tomar uma decisão que irá moldar a sua vida. Aplicação Pessoal
Moisés conclama Israel a se comprometer com Se você ainda não assumiu o compromisso espe­
Deus, a escolher a vida com Ele e depois manter esse cífico de amar e obedecer a Deus, por que não faz
compromisso, na prática, pelo resto da sua vida. isso agora mesmo?
Como diz Moisés, o tipo de vida exigido por este
compromisso “não é encoberto e tampouco está Citação Importante
longe de ti”. Esta vida está contida na Palavra que “Glorioso e poderoso Deus, ilumine a escuridão do
Deus nos deu, uma Palavra que está junto de nós, meu coração e dê-me, Senhor, uma verdadeira fé,
sim, que está em nossos lábios e em nossos cora­ uma segura esperança, uma perfeita caridade, per­
ções. Moisés prometeu que aderindo a este com­ cepção, e o conhecimento para que eu possa por
promisso e mantendo-o, cada servo e cada serva do em prática o seu santo e verdadeiro mandamento.”
Senhor viverá, prosperará, e terá a bênção de Deus — Francisco de Assis

127
Deuteronômio 31—34

14 DE FEVEREIRO LEITURA 45 Livro de Deuteronômio. Este livro devia ser lido


A DESPEDIDA DE MOISÉS para toda a nação — “homens... mulheres... meni­
Deuteronômio 31—34 nos... e os...estrangeiros que estão dentro das tuas
portas”. Esta leitura devia ser feita a cada sete anos,
“Da idade de cento e vinte anos sou eu hoje; jâ não na Festa dos Tabernáculos, “todos os dias que viver­
poderei mais sair e entrar” (Dt 31.2). des sobre a terra”.
Todos nós temos o direito de conhecer e entender
Cada um de nós deixa para trás uma herança quan­ aquilo que Deus nos diz nas Escrituras.
do chega ao fim da vida. Moisés deixou uma heran­
ça gloriosa, uma geração preparada para a vitória, “Porquanto conheço os desígnios que... estãoformulando”
uma Lei pela qual Israel devia viver e a lembrança (Dt 31.14-29). Apesar de ordenar que a Lei fosse ensi­
de um Deus que cumpre as suas promessas. nada fiel e regularmente a Israel, Deus disse a Moisés
que dias sombrios estavam à frente e que logo Israel
Visão Geral iria voltar para a idolatria e, disse o Senhor, “anulará o
Deus iria estar com Josué, o novo líder de Israel meu concerto que tenho feito com ele”.
(31.1-8). A Lei devia ser lida por Israel a cada sete Deus sabe de todas as coisas: “Porquanto conheço
anos (w. 9-13), mas Deus predisse uma futura re­ os desígnios que, hoje, estão formulando, antes que
belião (w. 14-30). Moisés ensinou-lhes um cântico o introduza na terra que, sob juramento, prometi”
singular, sob a forma de uma denúncia jurídica, a fim (v. 21, ARA). A palavra hebraica yeser (“desígnio”,
de encorajar a obediência (32.1-47). Pouco antes da ou “propósito”) significa aqui uma tendência, um
sua morte (w. 48-52) Moisés abençoou as tribos de impulso ou uma disposição. A revelação desta ten­
Israel (33.1-29). Mais tarde, um escritor desconhe­ dência pode ser recebida como uma surpresa, pois
cido acrescentou o epitáfio de Moisés (34.1-12). os israelitas obedeciam a Deus sob o comando de
Josué. Na verdade, o seu comportamento era exem­
Entendendo o Texto plar. Mas Deus, que conhece o coração das pessoas,
“Da idade de cento e vinte anos sou eu hoje” (Dt reconheceu a íntima tendência que tinham ao pe­
31.2). No Egito, o número 110 simbolizava a ida­ cado, apesar da sua aparente obediência.
de dos homens sábios. Como Moisés, aqueles que Nós também precisamos ser sensíveis ao nosso co­
fundamentam a sua vida no relacionamento com ração. Esta tendência ao pecado ainda existe dentro
Deus são mais sábios do que o mais sábio deste de nós. Podemos estar em uma condição de gran­
mundo. de risco, mesmo quando não exista nenhum sinal
E fascinante lembrar que Moisés tinha oitenta anos de estarmos em falta em nosso comportamento
quando foi chamado pela primeira vez para servir a exterior. Certa vez Jesus explicou a sua crítica em
Deus. O último terço da sua vida foi o mais produ­ relação a certos fariseus que eram extremamente
tivo, espiritualmente falando. A velhice não é um rigorosos na sua abordagem à Lei de Deus: “Este
fim para nenhum de nós, embora algumas pessoas povo honra-me com os lábios”, Ele disse, “mas o
que encontram grande satisfação em sua atividade seu coração está longe de mim” (Mc 7.6). Somente
profissional frequentemente pensem assim. O tem­ um amor sincero pode nos proteger contra a ten­
po que antes era dedicado ao trabalho pode agora dência ao pecado.
ser dedicado a servir a Deus, e às outras pessoas.
“Moisésfalou as palavras deste cântico” (Dt 31.30 —
“O Senhor, vosso Deus, é o que vai convosco” (Dt 32.47). Os israelitas deviam decorar esse longo
31.3-8). Moisés apresentou Josué como o novo lí­ “cântico” ou poema. Nas culturas onde ler e es­
der de Israel e lembrou ao povo que era o Senhor crever é um ato muito raro é comum o hábito de
que havia alcançado as vitórias passadas e aquele decorar poemas extremamente longos, lendas, tra­
que “passará adiante de ti”. tados etc.
Para nós, é natural depender de líderes humanos. Este fascinante poema obedece ao que é conheci­
Mas esta dependência está mal dirigida. Deus, e do hoje como o “padrão RIB”. A palavra hebraica
não Moisés, havia sido a chave dos triunfos ante­ “rib” significa uma controvérsia ou uma ação legal.
riores. Devemos respeitar os nossos líderes, mas Este cântico era, na realidade, a condenação divina
devemos depender apenas do Senhor. de Israel por ter anulado a aliança feita com o Se­
nhor, como Soberano.
“Moisés escreveu esta Lei, e a deu aos sacerdotes” (Dt O impressionante é que este poema continua a
31.9-13). E provável que aquilo que Moisés entre­ acrescentar um material adicional que não é en­
gou aos sacerdotes tenha sido a parte principal do contrado nas antigas acusações seculares! Deus as­
128
Deuteronômio 31—34

segurou a Israel que embora eles fossem uma nação zes, as bênçãos poéticas deste capítulo são um
de “dura cerviz”, Ele ainda se compadeceria deles pouco obscuras, mas estão baseadas nas caracte­
(w. 26-38). Mais uma vez, Deus iria libertar Israel rísticas dos patriarcas das tribos e nas revelações
dos seus inimigos (w. 39-43). de Deus a respeito do futuro. Elas contêm ora­
O padrão rib do poema mostra a sua origem anti­ ções, previsões, louvor e mandamentos. A ênfase
ga, pois ele se encaixa confortavelmente na cultura de cada bênção está mostrada abaixo:
existente nos dias de Moisés. Mas a variação des­
te padrão é o mais importante para nós. Aqueles Rúben Uma oração pela
que se irritaram contra os governantes seculares sobrevivência.
haviam morrido. A declaração que exprimia a pu­
nição infligida àqueles que anularam o concerto Judá Uma predição de vitória.
colocou um fim à acusação. Mas mesmo quando Levi Uma oração pela bênção, um
pecamos e merecemos o juízo e o castigo, eles não chamado à fidelidade.
representam a última palavra de Deus. Sua última
palavra para nós, assim como para Israel, é uma Benjamim Uma promessa de segurança.
palavra de perdão. Nós também podemos ser res­ Efraim Uma promessa de proemi­
taurados. nência.
Nós também podemos voltar e, uma vez mais,
adorar o nosso Deus como um povo que foi per­ Manassés Uma predição de poder.
doado. Zebulom Uma predição de riqueza.
Issacar Uma predição de riqueza.
AS ACUSAÇÕES DE DEUS Gade Uma promessa de terras.
CONTRA ISRAEL
Uma declaração do caráter de Deus (w. 1-4) Dá Uma predição de energia.
Uma acusação implícita contra Israel (w. 5,6) Naftali Uma promessa de bênção.
Relembrando os atos de Deus a favor de Israel (w.
7-14) Aser Uma oração por poder e
Acusações específicas contra Israel (w. 15-18) segurança.
A sentença (w. 19-25)
A relação das bênçãos previstas mostrava novamen­
te que Deus deseja o melhor para o seu povo. No
“Esta, porém, é a bênção com que Moisés... aben­ entanto, à medida que este magnífico salmo chega
çoou” (Dt 33.1-29). No antigo Oriente Próximo, ao final, precisamos lembrar de que a dádiva mais
a bênção final pronunciada por um pai moribun­ importante que Deus pode nos conceder já é nossa
do era entendida como um testamento e tinha — Ele mesmo. Como disse Moisés: “O Deus eter­
valor legal. A bênção de Moisés, o pai espiritual no te seja por habitação, e por baixo de ti estejam
de Israel, continha elementos proféticos. Às ve­ os braços eternos”.

DE V OCION AL______
O Epitáfio de Moisés muito diferentes um do outro, mas Deus havia re­
(Dt 34) alizado alguma coisa maravilhosa na vida de cada
Um dos privilégios mais singulares que tive foi servir um. Sempre havia alguma coisa para nos lembrar
como capelão da minha família. Embora já consagra­ de que eles o haviam honrado, o que tornava a lem­
do, eu ainda não tinha atuado como pastor de ne­ brança destes entes queridos ainda mais preciosa.
nhuma igreja, de modo que a maioria dos casamentos Então, depois da morte de Moisés, um autor des­
que eu celebrava, além de todos os funerais, foram conhecido acrescentou um epitáfio. Ele descreveu
realizados para os membros da minha família. as palavras que Deus falou a Moisés (w. 1-4), a
Até agora eu já fiz a cerimônia de sepultamento da dor que Israel estava sentindo (w. 5-8), e colocou
minha mãe, do meu pai, de minha madrasta, de algumas palavras sobre Josué para mostrar que a
um tio e de uma tia e, cada vez que precisava recor­ vida continuava (v. 9). Depois ele concluiu com
dar suas vidas, sempre encontrava alguma coisa que um epitáfio cuja finalidade era mostrar o que ha­
fazia delas pessoas muito especiais. Meus pais eram via de especial a respeito de Moisés: “Nunca mais

129
Deuteronômio 31—34

se levantou em Israel profeta algum como Moisés, Aplicação Pessoal


a quem o Senhor conhecera face a face; nem se­ De qual das suas características os membros da sua
melhante em todos os sinais e maravilhas, que o família se lembrarão com uma grande alegria?
Senhor o enviou para fazer na terra do Egito, a Fa­
raó, e a todos os seus servos, e a toda a sua terra” Citação Importante
(w. 10,11). “Goze a sua vida sem compará-la com a vida dos
Quando Deus entra na vida de alguém, Ele usa outros.” — Marquês de Condorcet
pelo menos uma das características da pessoa, tor­ O Plano de Leituras Selecionadas continua em
nando-a uma pessoa bela. JOÃO

130
JOSUÉ

INTRODUÇÃO
O nome do livro se deve a Josué, que substituiu Moisés como líder de Israel. Moisés tinha liderado o povo
de Israel na saída do Egito, até a fronteira da terra que Deus tinha prometido dar aos descendentes de
Abraão. Josué comandava os exércitos que iriam conquistar Canaã. O livro de Josué conta a história desta
conquista, e abrange um período de aproximadamente 1400 a 1375 a.C.
Este é o primeiro de diversos livros que apresentam a história da nação de Israel, desde os tempos de
Israel até a conquista babilônia, em 586 a.C. Também é um livro com uma mensagem. Canaã é o
presente de Deus ao seu povo. Mas este presente somente pode ser reivindicado e conservado com a
obediência. A desobediência assegura a derrota.
Visão Geral do Antigo Testamento
Israel como Nação
PENTATEUCO HISTÓRIA PROFETAS
I II III
Origens Possessão Dispersão
Gênesis— Deuteronômio Josué—Juizes Isaías, outras
1e 2 Samuel vozes
le 2 Reis proféticas
1 e 2 Crônicas
Rumo à terra Na terra Da terra

ESBOÇO DO CONTEÚDO
I. Preparativos para a G uerra................................................................... .............................................. Js 1— 5
II. A Campanha M ilitar............................................................................ ............................................ Js 6— 12
III. A Divisão da T erra.............................................................................. ..........................................Js 13— 21
IV. A Convocação de Josué ao Comprometimento............................. ..........................................Js 22— 24
GUIA DE LEITURA (5 Dias)
Se você tiver pressa, pode ler somente a “passagem essencial” na sua Bíblia, e o Devocional em cada
capítulo deste Comentário.
Leitura Capítulos Passagem Essencial
46 1— 5 2
47 6— 8 6
48 9— 12 10
49 13— 21 19.49-51
50 22— 24 24
JOSUE
15 DE FEVEREIRO LEITURA 46
PREPARANDO-SE PARA A CONQUISTA
Josué 1— 5

“Tão-somente esforça-te e tem mui bom ânimo para desde o início. Ele liderou o exército de Israel
teres o cuidado de fazer conforme toda a lei que meu desde o início (cf. Ex 17.9-13), um fato que
servo Moisés te ordenou; dela não te desvies, nempara a levou alguns à suposição de que Josué tinha
direita nem para a esquerda, para que prudentemente servido como oficial no exército egípcio.
te conduzas por onde quer que andares” (Js 1.7). Isso é possível, pois textos egípcios que apre­
sentam listas de soldados com nomes semitas
A percepção da presença de Deus deu a Josué e foram recuperados por arqueólogos. O que
aos israelitas a coragem de que necessitavam para é mais im portante, Josué foi um dos espiões
seguir adiante. Esta mesma sensação de “Deus co­ originais enviados a Canaã, aproxim adam en­
nosco” é a chave para as nossas vitórias espirituais te 40 anos antes. Naquela época, somente ele
hoje em dia. e Calebe insistiram com Israel para invadir a
terra, certos de que Deus iria assegurar a vi­
Contexto tória, apesar da superioridade m ilitar dos ca-
Quando Israel invadiu Canaã, por volta de 1400 naneus. Desta forma, as credenciais de Josué,
a.C., a terra era habitada por vários povos diferen­ como líder m ilitar e espiritual, estavam bem
tes, organizados em cidades-estado relativamente estabelecidas.
pequenas. E muitas das cidades eram protegidas Talvez, no entanto, a m aior vantagem que
por muralhas sólidas. O povo estava acostumado Josué tinha era o fato de ter servido sob o
à guerra, e alguns estados conservavam carros de comando de Moisés. Ele observou o com­
guerra, os tanques do mundo antigo. Embora as prom etim ento daquele homem hum ilde com
cidades-estado fossem independentes, e frequen­ o Senhor, e tam bém o com prom etim ento de
temente tivessem guerreado entre si, as cidades Deus com Moisés. Q uando Deus prom eteu,
no norte e no sul se uniram para resistir aos seus “Como fui com Moisés, assim serei contigo”,
inimigos comuns, os israelitas. estas palavras devem ter trazido grande segu­
rança.
Visão Geral Cada um de nós precisa de um relacionamento
Deus incentivou Josué, o sucessor de Moisés (1.1- com alguém que possa servir de modelo. Cada
9). Josué mobilizou Israel a se preparar militarmen- um de nós precisa ver nos outros tanto a fi­
te (w. 10— 2.24) e espiritualmente (3.1— 5-15) delidade a Deus, quanto a fidelidade de Deus
para a invasão de Canaã. para com todos.
Entendendo o Texto “Esforça-te e tem bom ânimo” (Js 1.1-9). Observe
“Como fui com Moisés, assim serei contigo” (Js particularmente as palavras repetidas de Deus, de
1.5). Josué tinha sido o ajudante de Moisés exortação e encorajamento.
Josué 1— 5

Exortação Encorajamento
Esforça-te e tem bom ânimo Serei contigo
Tem o cuidado de fazer conforme toda a lei Te darei
Medita no livro desta lei Não te deixarei
Tem cuidado de fazer Nem te desampararei
Nâo pasmes Farás prosperar o teu caminho
Não te espantes Deus é contigo, por onde quer que andares

Nestes poucos versículos, as Escrituras resumem o obras, quando recolheu os emissários e os despediu
caminho para a vitória, em qualquer situação que por outro caminho?” (Tg 2.25).
possamos enfrentar. O incidente nos mostra que, nos tempos do Antigo
Testamento, como também hoje em dia, as pessoas
“Provede-vos de comida” (Js 1.10-18). Imediata­ de qualquer nacionalidade, que confiam em Deus,
mente Josué tomou medidas para preparar Israel podem encontrar salvação. E também nos lembra
militarmente. O seu primeiro passo foi fazer com de que o nosso passado não é um obstáculo para
que o povo examinasse suas provisões e se orga­ um relacionamento pessoal com Deus. Não foi a
nizasse para cruzar o rio. O povo também se pre­ vida boa que Raabe tinha vivido que a salvou, mas
parou — concordando em obedecer a Josué como a sua fé ativa no Deus de Israel.
seu comandante.
O próximo passo de Josué foi enviar espiões para “0 Senhor fará maravilhas no meio de vós” (Js 3.1-
investigar Jericó. 17). O primeiro elemento nos preparativos espiri­
tuais de Israel para a Conquista foi a clara evidência
“Em ninguém mais há ânimo algum” (Js 2.1-24). da presença contínua de Deus. Esta evidência lhes
Jericó era uma cidade murada, que controlava a foi propiciada quando as águas do rio deixaram de
passagem que levava às regiões montanhosas do correr, tão logo os sacerdotes que levavam a Arca
centro de Canaã. Dois espiões que se infiltraram na do Concerto puseram os pés na água.
cidade foram abrigados por Raabe, uma prostituta Josué demonstrou fé quando anunciou antecipada­
que, muito provavelmente, como era muito co­ mente que isso iria acontecer. Quando o que ele ti­
mum naquela época, tinha uma hospedaria. Raabe nha dito aconteceu, a confiança de Israel em Deus
escondeu os espiões e lhes pediu que poupassem a e também em Josué se aprofundou.
sua vida quando Israel tomasse a cidade. Frequentemente Deus nos dá algum sinal especial da
O Novo Testamento examina o ato de Raabe, e a sua presença quando nós iniciamos uma tarefa difícil.
elogia por este ato de fé. Tiago diz: “De igual modo Não é errado pedir que Deus nos encoraje com uma
Raabe, a meretriz, não foi também justificada pelas resposta à oração, ou algum sinal da sua presença.

Josué ordenou que um homem de cada tribo levasse uma grande pedra do leito do rio Jordão ao acampamento de
Israel. As doze pedras, então, foram empilhadas. Aquela pilha de pedras serviu como um zikkaron, um lembrete per­
manente a Israel de que Deus dividiu as águas do Jordão para que o seu povo pudesse entrar na terra.

133
Josué 1— 5

“Estas pedras serão para sempre por memorial aos fi­ ela servia a um propósito religioso, mais do que de
lhos de Israel” (Js 4.1 -24). A palavra em hebraico saúde pública. A circuncisão foi dada aos descen­
para “memorial” é zikkaron. E um termo técnico dentes de Abraão como sinal da sua participação
teológico para uma coisa, um lugar ou evento re­ no concerto da promessa que lhe tinha sido feita.
petido, que pretende servir como lembrete vívido Entre as promessas feitas a Abraão, estava um
de algum ato de Deus pelo seu povo. Por exemplo, comprometimento de libertar os descendentes de
a festa da Páscoa era um zikkaron. Aqueles que co­ Abraão da escravidão e dar-lhes “esta terra... as ter­
miam da Páscoa reviviam a experiência da geração ras dos queneus, dos quenezeus, dos cadmoneus,
do Êxodo. Cada família, ao comer a Páscoa, per­ dos heteus, dos perizeus, dos refains, dos amorreus,
cebia que Deus tinha libertado a eles, e não apenas dos cananeus, dos girgaseus e dos jebuseus” (Gn
aos seus ancestrais. 15.7-21, NTLH). A circuncisão, neste ponto críti­
A pilha que Josué formou com as doze pedras co na história, era um ato de fé, que reivindicava as
tiradas do rio Jordão devia ser um símbolo para antigas promessas de Deus.
gerações futuras. Quando, “no futuro”, os filhos Embora o livro de Josué enfatize a obediência, esta
perguntassem, “O que significam estas pedras?”, os obediência era vista naqueles que tinham um rela­
pais deveriam contar a eles a história de como Deus cionamento fiel com Deus. A circuncisão fala de fé,
fez com que o rio deixasse de correr. Tocar e sentir não de lei. Somente a pessoa que tem fé em Deus
estas pedras ajudaria a tornar a história — e Deus pode reivindicar a sua ajuda.
— real para as gerações futuras.
Observe as palavras de dedicação de Josué, quan­ “Os filhos de Israel... celebraram a Páscoa” (Js 5.10).
do a pilha de pedras foi erigida em Gilgal: “O Se­ Este foi o último ato da preparação espiritual: re­
nhor... fez secar as águas do Jordão diante de vós... cordar a provisão de Deus.
como... fez ao mar Vermelho... Para que todos os Quando examinamos toda a sequência, encontra­
povos da terra conheçam a mão do Senhor, que é mos uma prescrição de prontidão espiritual: Sentir
forte, para que temais ao Senhor, vosso Deus, to­ a presença de Deus. Estabelecer memoriais. Reafir­
dos os dias” (w. 23,24). mar a fé. E celebrar o que Deus já fez.
“A estes Josué circuncidou” (Js 5-1-9). A circuncisão “E cessou o maná” (Js 5-10-12). A partir de ago­
dos homens consiste na extirpação da pele que re­ ra, Israel viveria pela fé, não pela visão. Agora, o
cobre a ponta do pênis. Durante os anos de pe­ maná cessou. Nenhuma coluna de fogo iria liderá-
regrinação pelo deserto, os israelitas deixaram de los. Diariamente, a evidência visível da presen­
circuncidar seus filhos, assim como deixaram de ça de Deus estaria ausente, pela primeira vez, na
obedecer aos mandamentos do Senhor. Agora, an­ memória de muitos dos israelitas. No entanto, o
tes de iniciar a conquista, Deus disse a Josué que povo liderado por Josué devia confiar em Deus, e
ordenasse que os israelitas realizassem este rito. A obedecer a Ele. Visto ou não, Deus está com o seu
medicina moderna mostrou que a circuncisão tem povo. Nós podemos confiar nEle, crendo que Ele
inúmeros benefícios para a saúde. Mas em Israel, nos conduzirá à vitória.

DEV OCIONAL______
Quando Conhecer não E Suficiente e em ninguém mais há ânimo algum”. Todas as
(foi
J s 2assombrosa:
) pessoas de Jericó receberam a mesma informação.
A confissão de Raabe “O Senhor, E todas elas chegaram à mesma conclusão que Ra­
vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo abe: “O Senhor, vosso Deus, é Deus”.
na terra”. A diferença é que as pessoas de Jericó decidiram
Esta mulher pagã, uma prostituta, tinha ouvido resistir de qualquer maneira, ao passo que Raabe
falar de como o Senhor secou as águas do mar Ver­ decidiu comprometer-se com o Deus do inimigo.
melho. Ela tinha ouvido sobre a vitória de Israel Eu suspeito que muitos, hoje, que não são crentes,
sobre os reis ao leste do Jordão. E tinha chegado compartilham a convicção do povo de Jericó. Eles
a uma simples conclusão: “O Senhor, vosso Deus, também sabem que “o Senhor, vosso Deus, é Deus”.
é Deus”. Mas, de alguma maneira, ainda são inimigos. Eles
E há algo ainda mais assombroso no relato de erigem muros, não de pedras, mas de boas obras,
Raabe: “Ouvindo isso, desmaiou o nosso coração, de desculpas, de zombaria, de crença na evolução,
134
Josué 6— 8

ou até mesmo de religião, e desesperadamente ten­ Visão Geral


tam se esconder por trás deles. Eles sabem. Mas Israel obedeceu ao mandamento de Deus e atacou
somente o conhecimento não pode salvar. Jericó, com sucesso (6.1-27). Mas o pecado de um
Raabe nos ensina a diferença entre conhecer a soldado, Acã, provocou a derrota em Ai (7.1-21).
Deus como um ato intelectual, e conhecer a Deus Acã foi executado (w. 22-26). Com o pecado pur­
pessoalmente. O que Raabe fez foi agir, no seu gado, Ai foi tomada (8.1-29). Uma cerimônia re­
conhecimento de que “Deus é”. Raabe estava ligiosa solene lembrou Israel de obedecer à Lei de
disposta a comprometer-se completamente com Deus (w. 30-35).
Deus, certa de que, de outra maneira, ela não te­
ria esperança. Entendendo o Texto
Que bom ter feito a escolha de Raabe. Que bom “Rodeareis a cidade” (Js 6.1-27). Jericó era uma ci­
ter feito do nosso conhecimento a respeito de Deus dade murada. Escavações feitas ali revelaram que
um ponto de partida para uma decisão de nos en­ as suas fortificações incluíam um muro de pedra
tregarmos a Ele. Que bom saber que nós também de aproximadamente 3,4 metros de altura. No seu
estamos salvos agora. topo, havia um suave aclive de pedra, que se incli­
nava para cima, à razão de 35 graus para 10 metros,
Aplicação Pessoal onde se unia a muralhas de pedras maciças que se
Como pode a história de Raabe ajudar um amigo erguiam a níveis mais altos.
ou parente que conhece, mas ainda não decidiu Na maneira antiga de guerrear, estas cidades eram
confiar em Deus? cercadas, e eram privadas de alimentos até que se
rendessem, ou eram atacadas. Os atacantes podiam
Citação Importante tentar enfraquecer os muros de pedra com fogo, ou
“Deus está mais ansioso para conceder as suas fazendo túneis. Ou podiam simplesmente fazer um
bênçãos sobre nós, do que nós estamos dispostos a monte de terra que lhes serviria como rampa. Cada
recebê-las.” — Agostinho um destes métodos de ataque demorava semanas
16 DE FEVEREIRO LEITURA 47 ou meses, e o exército de ataque normalmente so­
VITÓRIA, E DEPOIS DERROTA fria pesadas perdas.
Josué 6■—8 O mandamento de Deus a Josué — de que o povo
marchasse silenciosamente ao redor de Jericó, du­
“Gritou, pois, o povo, tocando os sacerdotes as buzi­ rante seis dias, e depois de sete circuitos, no séti­
nas; e sucedeu que, ouvindo o povo o sonido da bu­ mo dia, gritasse — foi realmente estranho. Mas,
zina, gritou o povo com grande grita; e o muro caiu ainda assim, Josué seguiu as instruções divinas li­
abaixo, e o povo subiu à cidade, cada qual em frente teralmente. Quando o povo finalmente gritou, as
de si, e tomaram a cidade” (Js 6.20). sólidas fortificações vieram abaixo, e Israel obteve
uma vitória fácil.
A obediência a uma ordem que lhes parecia tola, A vitória em Jericó foi orquestrada para ensinar
trouxe Israel à vitória, e lhes ensinou uma lição vi­ diversas lições. A mais importante delas era que a
tal. A chave para vencer é fazer tudo da maneira que obediência, mesmo quando os mandamentos de
Deus quiser. Deus parecem tolos, traz a vitória. A vitória mila­
grosa também confirmou a liderança de Josué. E
Definição dos Termos-Chave mostrou que Deus certamente lutaria por Israel nas
Consagrado. A palavra hebraica é usada a respei­ batalhas que se seguiriam.
to de itens que são dedicados a Deus, e por isso Cada um de nós às vezes precisa vencer uma Jericó.
não podem ter nenhum uso comum ou secular. Mas as vitórias sobre Jericó só são ganhas quando a
Quando os israelitas “consagravam” a Deus uma obediência é completa.
cidade inimiga, matavam todos os seus habitantes
e rebanhos, e queimavam toda a sua riqueza, ou “Deu Josué vida à prostituta Raabe” (Js 6.25). A fé
a traziam ao Tabernáculo, como um presente a de Raabe no Deus de Israel, demonstrada quan­
Deus. Nesta passagem, Jericó, a primeira das cida­ do ela escondeu dois espiões israelitas (Js 2), foi
des pagãs de Canaã a ser atacada pelos israelitas, recompensada. Ela e sua família foram poupadas
foi assim consagrada. Isso significava que nenhum quando caiu Jericó.
soldado devia separar para si nenhum bem, uma
proibição que um homem, Acã, desafiou com ter­ Deus ainda poupa os crentes quando as nações
ríveis consequências. caem. Veja Ezequiel 18.
135
Josué 6— 8

“Fugiram diante dos homens de A i” (Js 7.1-9)- Ai, “Israel o apedrejou” (Js 7.22-26). Alguns expres­
uma pequena cidade acima de Jericó, derrotou os saram choque, pelo fato de que o roubo de Acã
três mil homens que Josué comandou contra ela, merecesse a punição de morte. Mas não foi pelo
matando 36 dos israelitas. A derrota apavorou Jo­ roubo que Acã foi apedrejado. O seu pecado tinha
sué. Como bom general, Josué sabia que um exér­ provocado a derrota de Israel, e as mortes de 36
cito aterrorizado tinha pouca chance no campo de homens pelas mãos do inimigo. Acã foi apedrejado
batalha. A vitória sobre Jericó tinha feito com que porque “turbou” o seu povo.
“a sua fama” corresse “por toda a terra” (6.27). Jo­Este evento nos lembra de uma importante rea­
sué temia que as notícias da derrota em Ai trouxes­ lidade. A qualquer momento que nós pequemos,
sem coragem aos cananeus, e que eles se unissem e afetamos outras pessoas. Como uma pedra é ati­
derrotassem Israel. rada a um lago tranquilo, as ondas dos pecados
O medo jamais está muito longe de qualquer um humanos permanecem perturbando não somente
de nós. Mesmo depois de termos recebido alguma a nossa própria paz mas também a paz de outros.
bênção de Deus, como tinha Josué, nós somos Antes de pecarmos conscientemente, devemos fa­
propensos a esquecer disso, se surge algum contra­ zer uma pausa e considerar como os nossos atos
tempo. Olhar para trás e nos lembrarmos do que podem afetar outros que nos amam, ou que con­
Deus fez por nós, traz consolo. Olhar para frente e fiam em nós.
nos preocuparmos com o que pode acontecer é, ao Mas por que a família de Acã também foi apedre­
mesmo tempo, tolo e inútil. jada? Talvez a melhor resposta esteja na confissão
de Acã, de que ele escondeu o seu roubo “no meio
“Israel pecou” (Js 7.10-21). Depois que Israel foi da minha tenda”. O resto da família compartilhou
derrotado em Ai, Josué, tolamente, se concentrou da sua culpa secreta, assim tornando-se também
nas possíveis consequências. A sua oração (w. 7-9) responsável.
claramente revela o seu pânico e a sua preocupação
com o que poderia estar à frente. As palavras se­ “Olha que te tenho dado na tua mão o rei de Ai, e o
guintes de Deus a Josué dáo uma nova perspectiva seu povo, e a sua cidade, e a sua terra” (Js 8.1-29).
à situação. “Israel pecou”. Josué não devia se pre­ Tendo sido resolvida a causa da derrota de Israel,
ocupar com as possíveis consequências da derrota, Deus concedeu ao seu povo a vitória total sobre Ai.
mas procurar a causa da derrota. O motivo pelo A cidade foi exterminada com o seu povo, cum­
qual Israel perdeu a batalha era mais importante do prindo o mandamento de Deus, de expulsar ou
que o que a perda poderia significar, em termos de destruir todos os cananeus, cuja idolatria e outros
moral para o inimigo. pecados mereceram esta punição.
Quando nós temos um contratempo, é melhor que
procuremos pela causa do que nos preocupemos “Josué edificou um altar ao Senhor, Deus de Israel,
com as consequências. Se nos examinarmos, e não no monte de Ebal”( Js 8.30-35)- Depois da vitória
encontrarmos nenhum pecado, então poderemos sobre Ai, Josué cumpriu um mandamento dado
progredir com confiança. Se encontrarmos algum por Moisés (Dt 27). Ele colocou o povo em dois
pecado, ainda que não seja intencional, precisare­ montes opostos, e depois de oferecer sacrifícios
mos lidar com ele imediatamente. Neste caso, Jo­ ao Senhor, pronunciou em voz alta as maldições
sué aparentemente usou o Urim e o Tumim, usados (consequências desastrosas) de desobedecer à lei de
pelo sumo sacerdote, para encontrar o homem que Deus.
havia pecado. Então este homem, Acã, confessou Quão poderosamente esta mensagem convenceu
ter tomado para si despojos de Jericó, mesmo sa­ os homens e as mulheres que tinham passado pela
bendo que a cidade havia sido consagrada a Deus. derrota em Ai, que tinham participado do apedre­
A causa da derrota foi conhecida. Agora era neces­ jamento de Acã, e que tinham visto, então, a der­
sário lidar com o pecado. rota transformada em vitória.

DEVOCIONAL______
Perspectiva quela muralha, incline-se e olhe para baixo, daquela
(Js 6) estonteante altura. Então olhe ao redor e veja estes
Imagine-se em pé, sobre a muralha de Jericó. Colo­ tolos israelitas. Durante seis dias eles marcharam,
que suas mãos em uma daquelas sólidas pedras da­ sem dizer uma palavra, ao redor da sua cidade.
136
Josué 9— 12

No primeiro dia, quando viu que eles se aproxima­ nossa brincadeira é alegre, decente, séria, e admirá­
vam, você, e todos os seus amigos, se aterrorizaram. vel, que alegra a visão daqueles que a assistem do
Vocês se lembraram de todas as histórias contadas céu.” — Bernard de Clairvaux
sobre eles e o seu Deus, e vocês tremeram. Quando
eles não atacaram, mas simplesmente andaram em 17 DE FEVEREIRO LEITURA 48
silêncio ao redor da sua fortaleza de seis acres, to­ A VITÓRIA COMPLETA
dos se preocuparam. Todos vocês passaram a noite Josué 9— 12
acordados, conversando, imaginando qual seria o
plano deles. Assim, Josué tomou toda esta terra” (Js 11.23).
No dia seguinte, eles fizeram a mesma coisa. No
terceiro dia em que eles marcharam ao redor de A Bíblia diz que Josué fez guerra contra os reis
Jericó, vocês começaram a se sentir um pouco me­ cananeus “por muitos dias” (11.18). Deus jamais
lhor. Quem sabe não havia um plano, afinal. No disse que a vitória seria fácil. Ele somente promete
quarto dia, todos se sentiram aliviados. Você tocou que a vitória está assegurada.
as muralhas, sentiu a rocha sólida e começou a se
sentir seguro. No quinto dia, e no sexto, todos se Definição dos Termos-Chave
sentiram cheios de coragem. Vocês começaram a Destruído. Estes capítulos falam repetidamente de
gritar insultos. Vocês riram e ridicularizaram. E destruir completamente, ou destruir totalmente,
claro que vocês estavam salvos! Como alguém po­ as cidades de Canaã e todos os seus habitantes. As
deria passar pelas muralhas de Jericó? Como pu­ razões para esta política precisam ser recapituladas.
deram vocês sentir medo deste bando de bárbaros, (1) Os cananeus eram um povo ímpio cuja religião
estes peregrinos do deserto, que viviam em tendas, e moral eram corruptas. A guerra e a devastação
que não faziam nenhuma ideia sobre como atacar eram juízos divinos diretos sobre os cananeus pelos
uma fortaleza como a sua! seus pecados. (2) Os israelitas foram convocados
E assim, o medo que vocês sentiram converteu-se a um estilo de vida santo. Qualquer cananeu que
em alívio, e o alívio, em desprezo. Estes tolos israe­ ficasse na terra iria corromper Israel, em termos de
litas. Que marchem o quanto quiserem. O que eles religião e moral (e eles o fizeram!). A destruição dos
podem fazer contra vocês? Nada! Nada, mesmo. cananeus tinha o propósito de ser uma proteção
Eu suspeito que os cristãos sempre pareceram to­ para o povo de Deus.
los aos povos do mundo. A nossa marcha é di­ As vitórias de Josué foram completas, mas ele não
ferente. Nós obedecemos aos mandamentos de exterminou realmente todos os povos cananeus.
um Deus que muitas vezes se mostra misterioso. Cada tribo israelita devia “eliminar” qualquer ca­
Em um sentido real, nós somos estrangeiros, fo­ naneu que ainda estivesse no território destina­
rasteiros, não somos como os outros. Não é de do à tribo. O fracasso de sucessivas gerações em
surpreender se nós parecemos um pouco ridículos executar a política divina de exterminação levou a
às pessoas deste mundo. desastres espirituais e nacionais que a política ten­
Se você já se sentiu tolo por alguma posição que cionava evitar.
tomou como cristão, lembre-se de que hoje é so­ Uma última observação: os vários povos que se es­
mente o primeiro dia, ou o terceiro, ou o sexto, da tabeleceram em Canaã representaram uma popula­
sua marcha ao redor de Jericó, somente depois que ção maior do que a que existia em outras terras. O
vier o sétimo dia, e este mundo desmoronar como mandamento de Deus de exterminar estava limita­
as muralhas de Jericó, é que serão revelados aqueles do àqueles que viviam em Canaã, e não envolvia o
que foram realmente tolos. extermínio de uma raça inteira.
Aplicação Pessoal Visão Geral
Não importa o que os outros pensam, nunca é lou­ Os gibeonitas enganaram Josué em um tratado
co ou tolo obedecer a Deus. de paz, que Israel honrou (9.1-27). Em uma sé­
rie de brilhantes campanhas, Josué, primeiramen­
Citação Importante te, esmagou as cidades-estado do sul (10.1-43), e
“O que mais pensam os mundanos que nós esta­ a seguir, as do norte (11.1-23) de Canaã. A seção
mos fazendo, além de brincar, quando fugimos do termina com uma lista de conquistas (12.1-24).
que eles mais desejam na terra, e desejamos aquilo
de que eles fogem? Nós somos como palhaços e Entendendo o Texto
acrobatas que, com as cabeças para baixo e os pés Aqueles homens israelitas... não pediram conselho à
no ar, atraem todos os olhares para si mesmos... A boca do Senhor” (Js 9.1-27). A história de como os
137
Josué 9— 12

gibeonitas, que viviam há poucos quilômetros do “Assim, feriu Josué toda aquela terra” (Js 10.29-43).
acampamento israelita, iludiram Josué, atraindo-o A derrota dos exércitos amorreus deixou as suas
a um tratado de paz, é especialmente instrutiva. fortalezas do sul sem defesa. Josué imediatamente
Em primeiro lugar, ela nos lembra da im portân­ dirigiu as suas forças para o sul, e destruiu as prin­
cia da oração. Os israelitas examinaram o pão cipais cidades naquela região.
mofado e o vinho ruim que os gibeonitas apre­
sentaram como evidência de que viviam fora de “Saíram, pois, estes e todos os seus exércitos com eles,
Canaã, e aceitaram o que eles disseram, sem per­ muito povo” (Js 11.1-23). As cidades-estado do
guntar ao Senhor. Ainda que eu e você devamos norte uniram suas forças e reuniram um grande
examinar as situações cuidadosamente antes de exército, que incluía um grande número de car­
tomar decisões, nós não podemos confiar exclu­ ros. Josefo relata que este exército tinha 300 mil
sivamente nas evidências dos nossos sentidos. soldados de infantaria, dez mil de cavalaria e vinte
Nós precisamos tornar as decisões importantes mil carros!
um motivo de oração. A palavra “apressadamente” (v. 7), que descreve
Em segundo lugar, quando os israelitas percebe­ o ataque de Josué, pode indicar o que aconteceu.
ram que tinham sido enganados, honraram o “tra­ Nos tempos bíblicos, os carros, frequentemente
tado de paz” que tinham feito com os gibeonitas. uma arma decisiva na batalha, eram desmontados
Israel tinha feito um juramento e se comprome­ para o transporte pelas colinas até o campo de ba­
tido. O fato de que tinham sido enganados não talha, e ali eram montados outra vez. E possível
invalidava a promessa. Nós precisamos honrar a que Josué tivesse atacado o inimigo antes que eles
nossa palavra, porque a demos. Quer os outros pudessem ter montado e posicionado os carros.
sejam fiéis ou não, nós devemos ser fiéis aos nos­ Qualquer que fosse o elemento de tática envol­
sos compromissos. vido, “o Senhor os deu [os inimigos] na mão de
Finalmente, Deus redimiu o engano de Israel. Israel”. Nós devemos lutar com prudência, mas
O capítulo a seguir nos diz que, quando outras o resultado da batalha depende inteiramente do
cidades-estado em Canaã atacaram os gibeonitas, Senhor.
Josué veio em auxílio dos gibeonitas e atingiu os
exércitos inimigos desprotegidos. Quando nós so­ “Os seus cavalos jarretards e os seus carros quei­
mos fiéis, Deus pode usar até mesmo os nossos marás a fogo” (Js 11.6). Por que foi dito a Josué
enganos para realizar os seus propósitos. que destruísse o arsenal de guerra capturado do
inimigo? M uito provavelmente, porque Israel
“Cinco reis dos amorreus” (Js 10.1-28). Cinco reis devia confiar em Deus, e não no poderio militar.
da mesma etnia, de cidades da região montanhosa Como Josué confiava em Deus, este mandamen­
de Canaã, uniram as suas forças para punir os gi­ to foi obedecido.
beonitas por terem feito as pazes com Israel. Josué
respondeu imediatamente a um pedido de aju­ “Estes, pois, são os reis da terra” (Js 12.1-24). A
da, e, depois de uma marcha de toda uma noite, maioria dos acadêmicos acredita que a Conquista,
surpreendeu os exércitos amorreus. Esta foi uma descrita de maneira tão impressionante nestes ca­
grande vitória estratégica, pois os exércitos amor­ pítulos, na realidade tardou cerca de sete anos para
reus foram surpreendidos em campo aberto, fora ser concluída. Quando a vitória total tinha sido fi­
das muralhas das suas cidades, onde podiam ser nalmente obtida, Josué cuidadosamente listou as
mais facilmente destruídos. 31 cidades-estado dos cananeus que ele tinha der­
A intervenção de Deus a favor de Israel é vista rotado. Israel podia examinar esta lista impressio­
em duas circunstâncias. Pedras de saraiva mata­ nante e sentir-se encorajado. Deus, que tinha pro­
ram muitos dos inimigos. E o “sol se deteve, e a metido vitória, manteve a sua palavra. Certamente
lua parou”, de modo que a matança dos amorreus poderiam confiar em Deus para terem a vitória nas
pudesse ser completa. batalhas que ainda estavam por vir.

138
Josué 9— 12

Em uma série de campanhas brilhantes, Josué conquistou, primeiramente, a Canaã central, dividindo a terra em
duas partes. (1) A seguir, ele se dirigiu para o sul, e subjugou aquela região. (2) Finalmente, ele atacou e destruiu as
principais fortalezas do norte. (3) A sua estratégia, de dividir e conquistar, as suas táticas de marchas durante a noite
toda, e os ataques surpresa, ainda estão em estudo nas academias militares modernas.
139
Josué 13—21

DEVOCIONAL_________
As Marchas durante a Noite toda 18 DE FEVEREIRO LEITURA 49
(Js 10) DISTRIBUIÇÃO DA TERRA
Eu me lembro muito bem de como ela costumava Josué 13—21
sentar-se à mesa, esperando que Deus agisse. “Eu
realmente quero servir a Deus”, ela dizia. E eu acho “Fizeram repartir, por sorte da sua herança”
que ela era sincera. Mas, mesmo quando vieram as (Js 14.1,2).
oportunidades — um convite para ensinar em um
estudo bíblico, um chamado de um amigo que pedia A Bíblia diz: “Desta sorte, deu o Senhor a Israel
que ela o visitasse — ela continuava esperando. “Eu toda a terra que jurara dar a seus pais” (21.43). A
não posso fazer nada por minha própria conta”, di­ luta pode ser longa. Mas o fruto da vitória é doce.
zia ela. “Eu tenho que esperar até que Deus me diga
para ir. Eu tenho que esperar até vê-lo agir”. Definição dos Termos-Chave
Naturalmente, a minha amiga jamais conheceu Repartir. A terra foi repartida lançando a sorte. Nós
Josué. Nem assistiu Josué colocando a sua fé em ação. poderíamos dizer “por um jogo de dados”. Não ha­
Se tivesse visto, poderia ter ficado surpreendida. via acaso envolvido, pois o próprio Deus governou
Josué não era o tipo de pessoa que ficaria esperando. o lançar da sorte (cf. Pv 16.33). Este método tam­
Sim, ele sabia o quanto era importante ouvir a voz bém foi usado nas tribos, para determinar as pro­
de Deus e obedecê-la. Mas Josué também sabia que, priedades de cada família. A partir de então, cada
na maioria das situações, uma pessoa precisa usar o israelita considerou a propriedade de sua família
bom senso. como uma dádiva dada diretamente pelo Senhor. A
Foi o que aconteceu, quando Josué recebeu a notícia propriedade da família não devia ser vendida, mas
de Gibeão, de que um exército de amorreus estava conservada para sempre, como herança de Deus.
atacando a cidade. Josué não disse, “Eu acho melhor Em Salmos 16.6, Davi usou a imagem da sorte lan­
esperar até que Deus comece a agir”. Ele reuniu o seu çada para expressar o apreço pelo papel que Deus
exército, comandou uma marcha por toda a noite, e lhe tinha dado na vida. Quando contemplamos a
na manhã seguinte desferiu um ataque surpresa sobre bondade de Deus por nós, em Cristo, as palavras
o inimigo. E então Deus interveio, ajudando na ba­ de Davi bem poderiam ser as nossas: “Caem-me as
talha, trazendo granizo sobre os amorreus, e fazendo divisas em lugares amenos, E mui linda a minha
com que o sol parasse. A marcha noturna de Josué o herança” (ARA).
tinha levado ao lugar exato onde ele precisava estar,
para que Deus agisse. Visáo Geral
As vezes, nós somos pouco realistas, nas nossas ex­ Josué relacionou a terra ocupada a leste do Jordão
pectativas. Nós ficamos parados e desejamos que (13.1-33). Cuidadosamente, ele descreveu o terri­
Deus aja por nós. O fato é que Deus normalmente tório ocupado pelas nove e meia tribos remanes­
age somente depois que nós tenhamos demonstrado centes nas terras de Canaã (14.1— 19.51). Foram
uma fé como a de Josué. E depois daquela marcha definidas as cidades de refugio (20.1-9), e os levitas
noturna, quando a batalha está em andamento, que receberam cidades denrro dos limites das outras
Deus age. tribos (21.1-45).
Assim sendo, na próxima vez que você tiver uma
oportunidade para servir — ensinar em uma classe,Entendendo o Texto
aconselhar um amigo — não espere. Agarre a opor­ “Ainda muitíssima terraficou para possuir” (Js 13.1).
tunidade. E espere que Deus aja quando você estiver
O poder dos cananeus tinha sido rompido pelo
servindo. Este é o lugar onde você precisa estar para
poder da nação de Israel unida. Mas ainda havia
que Deus opere por seu intermédio. bolsões de resistência em cada área designada às
várias tribos.
Aplicação Pessoal A população israelita não era suficientemente gran­
Quando surgirem as oportunidades para servir, de para encher toda a terra. Cada tribo era respon­
agarre-as! sável por tomar terras adicionais à medida que a
sua população crescesse.
Citação Importante
“Você pode avaliar o que estaria disposto a fazer “Eu, porém, perseverei em seguir o Senhor, meu Deus”
pelo Senhor, analisando aquilo que você já faz.” (Js 14.1-15)- Entre as listas de tribos e cidades, há
— T. C. Horton uma história muito pessoal. Calebe era um dos doze
140
Josué 13—21

homens que tinham espionado Canaá aproximada­


mente 45 anos antes (cf. Nm 13— 14). Somente
ele e Josué tinham incentivado Israel a confiar em
Deus e invadir Canaá naquela ocasião. Agora, com
85 anos de idade, Calebe ainda confiava ativamente
em Deus. Ele pediu um lote de terra ocupado por
um povo particularmente guerreiro, os anaquins,
e disse, confiantemente: “O Senhor será comigo,
para os expelir, como o Senhor disse”.
Uma das dádivas que Deus me deu quando eu era
um cristão novo convertido foi o privilégio de par­
ticipar de uma igreja onde os homens mais velhos
eram modelos do tipo exato de fé que Calebe ti­
nha. Quão felizes somos por conhecer os Calebes
de hoje em dia. Com excessiva frequência, nós te­
mos a tendência de segregar os crentes mais velhos
dos nossos jovens. No entanto, os jovens das nossas
igrejas precisam ter contato com homens e mulhe­
res devotos e mais velhos:
“Porém não os expeliram de todo” (Js 17.13). Ape­
sar da vitória, apareceram, entre as tribos de Israel,
indicações de um desastre futuro, a desobediência.
Quando a população de Manassés cresceu, a tri­
bo subjugou diversas cidades de cananeus no seu
território. Mas em lugar de expulsar estas pessoas,
como Deus tinha ordenado, os manassitas os es­
cravizaram.
Houve uma falta de confiança. Quando desafiados
a tomar a terra extra de que os membros da tribo
precisavam, eles responderam: “Todos os cananeus
que habitam na terra do vale têm carros de ferro”
(v. 16, ARA). Apesar do registro ininterrupto de
vitórias militares obtidas com a ajuda de Deus, os
carros ferrados bloqueavam a visão que esta tribo Josué 20. As cidades dadas aos sacerdotes e aos levitas se
tinha de Deus. espalhavam pelos territórios dados às outras tribos israe­
As vitórias espirituais passadas não são uma garan­ litas. Os sacerdotes e levitas tinham sido encarregados de
tia de que a nossa fé continuará forte. Nós precisa­ ensinar as Leis de Deus. Cada família em Israel deveria
mos nos concentrar, todos os dias, em obedecer a ficar próxima daqueles que poderiam instruí-los nos ca­
Deus e confiar nEle. minhos de Deus.
“Puja para alguma daquelas cidades" (Js 20.1-9).
Esta é a terceira passagem importante sobre as ci­ que é tratado detalhadamente em três passagens
dades de refúgio, para onde poderia fugir alguém do Antigo Testamento. Isso mostra claramente a
que matasse acidentalmente outra pessoa (cf. Nm importância que Deus dá a proteger os inocentes
35; D t 19). Um princípio geral de interpretação quando se trata de assuntos relacionados a crimes.
bíblica é o fato de que aquilo que é repetido duas Precisamos ter cuidado para que o nosso interesse
vezes é muito importante. Aqui temos um assunto pela justiça não viole os direitos dos inocentes.

DE VOCIONAL
Momento de Relaxar encosta atrás de sua casa. Ele é uma pessoa mui­
(Js 19.49-51) to ativa e dinâmica. Generais e líderes espiri­
É difícil imaginar Josué relaxado à sombra de tuais não parecem ser candidatos à aposenta­
uma oliveira, ou cuidando de vinhas em uma doria.
141
Josué 22—24

Mas com as vitórias obtidas e a terra dividida, Jo­ A primeira parte do livro de Josué revelou os esfor­
sué se instalou na sua própria herança. A Bíblia diz ços para conquistar a terra de Canaã. Estes capítu­
que ele recebeu a cidade de Timnate-Sera, e “reedi­ los nos contam os esforços para conservar a Terra
ficou aquela cidade e habitou nela”. Prometida.
Na verdade, a aposentadoria de Josué não foi sim­
plesmente uma merecida recompensa pelas suas Definição dos Termos-Chave
décadas de serviço exemplar. Josué se aposentou Servir. Frequentemente Josué convocava Israel a
para o bem de Israel! Por quê? servir a Deus. A palavra em hebraico sugere um
Quando o povo de Manassés precisou de mais terra servo ou escravo. O seu significado básico é o de
(Js 17), correram para Josué e reclamaram. Josué realizar tarefas de acordo com a vontade e a orien­
lhes disse: “Corta para ti... lugar na terra”. Os ma- tação de outra pessoa. Servir a Deus nos tempos do
nassitas retrucaram, temerosos porque os cananeus Antigo Testamento realmente significava adorá-lo,
tinham carros de ferro. Eles queriam que Josué mas também obedecer a Ele em todas as coisas.
lutasse por eles as suas batalhas. Mas, sabiamente,
Josué disse: “Expelirás os cananeus, ainda que te­ Visão Geral
nham carros de ferro, ainda que sejam fortes”. As três tribos do leste erigiram um altar que sim­
A primeira frase é a chave. “ Tu expelirás os cana­ bolizava a solidariedade com os israelitas em Canaã
neus”. Já era hora de Israel deixar de depender de (22.1-34). Josué dirigiu-se aos líderes (23.1-16) e
Josué, e dar seus próprios passos. Manassés, e todas convocou as tribos reunidas a servir a Deus (24.1-
as outras tribos, precisavam confiar em Deus por 27). Josué morreu e foi sepultado (w. 28-33).
si mesmas.
A sabedoria de Josué em aposentar-se é uma lição Entendendo o Texto
que cada um de nós precisa aplicar. Nós precisamos “A vossos irmãos por tanto tempo até ao dia de hoje
aplicá-la, quando nossos filhos crescem, e particu­ não desamparastes” (Js 22.1-9). Três grupos tribais
larmente, quando deixam a nossa casa. Nós pode­ tinham pedido e tinham recebido terra a leste do
mos encorajá-los. Mas precisamos parar de fazer rio Jordão. No entanto, eles tinham prometido a
tudo para eles. Moisés que os seus guerreiros iriam acompanhar as
Os conselheiros precisam aplicar esta lição no seu outras tribos na guerra em Canaã. Estas tribos ser­
relacionamento com seus aconselhados. Os líderes viram fielmente e depois foram enviadas para casa.
espirituais precisam aplicá-la no seu relacionamen­ Esta seção de conclusão do livro de Josué está cheia
to com uma congregação, uma organização, ou de exortações. A advertência feita às tribos do leste
com os discípulos. Chega um momento em que é típica: “Tende cuidado... que ameis ao Senhor,
cada um de nós precisa abdicar da autoridade e di­ vosso Deus, e andeis em todos os seus caminhos,
zer àqueles aos quais instruímos: “Você os expelirá. e guardeis os seus mandamentos, e vos achegueis
E hora de eu me retirar. E é hora de você aprender a ele, e o sirvais com todo o vosso coração e com
o que Deus pode fazer por você, e com vo ct. toda a vossa alma”.
Aplicação Pessoal “Edificaram um altar junto ao Jordão, um altar
Em quais relacionamentos você precisa se retirar de grande aparência” (Js 22.10-34). Esta história
e permitir que os outros sejam responsáveis por si mostra como é fácil interpretar mal os atos de
mesmos? outra pessoa. Quando as tribos que retornavam
erigiram um altar junto ao Jordão, seus irmãos in­
Citação Importante terpretaram isso como um ato de apostasia. Deus
“Quando Deus tenciona realizar alguma obra tinha ordenado que os sacrifícios fossem feitos
grandiosa, Ele a começa pela mão de alguma cria­ somente sobre o altar que ficava diante do Ta­
tura humana pobre e fraca, a quem posteriormente bernáculo. O altar junto ao Jordão parecia, para
Ele ajuda, de modo que os inimigos que procuram as outras tribos, ser um ato de rebelião contra o
destruí-la sáo derrotados.” — Martinho Lutero. Senhor, e eles estavam prontos a guerrear contra
seus irmãos do leste, a correr o risco da punição
19 DE FEVEREIRO LEITURA 50 divina (w. 19,20).
COMPROMISSO As tribos do leste explicaram aos representantes
Josué 22— 24 que lhes foram enviados. Eles não pretendiam usar
o altar junto ao Jordão para sacrifícios. Isto era sim­
“Porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor” bólico da herança racial e religiosa que tinham em
(Js 24.15). comum com o povo a oeste do Jordão. Edificando
142
Josué 22—24

o altar de acordo com as especificações dadas na “O Senhor expeliu de diante de nós a todas estas gen­
Lei, a construção característica forneceria a evidên­tes” (Js 24.1-18). A seguir, Josué se dirigiu a todo o
cia da herança comum. povo, e basicamente argumentou a favor do com­
Os dois grupos agiram sabiamente ao lidar com promisso. Ele relembrou tudo o que Deus tinha
este assunto. As tribos do oeste decidiram conver­ feito. Em uma das mais famosas declarações de fé
sar antes de agir. As do leste não se ofenderam, mas do Antigo Testamento, Josué expressa o seu pró­
explicaram humildemente o que tinham feito. prio compromisso: “Porém eu e a minha casa servi­
E bom relembrar o exemplo dos dois grupos remos ao Senhor” (v. 15).
quando nós ficarmos aborrecidos por alguma coi­ Josué podia assumir este compromisso por si mes­
sa que outra pessoa ou grupo tenha feito. Antes mo. Não podia fazê-lo pelos outros. Mas Josué po­
de acusarmos, precisamos procurar as pessoas en­ dia confrontá-los, e realmente o fez, certificando-
volvidas e conservar sobre o que aconteceu. E se se de que cada família em Israel percebesse que o
alguém interpretar mal nossos atos, antes de nos compromisso era necessário.
aborrecermos, precisamos ser humildes e desejo­ O povo reconheceu a validade do que Josué tinha
sos de explicar. dito. O Senhor “nos fez subir... da terra do Egito,
da casa da servidão”. E o Senhor expeliu os inimi­
“Anciãos, e cabeças, e juizes, e oficiais” (Js 23.1- gos. “Também nós serviremos ao Senhor”, disse o
16). Josué falou separadamente aos líderes de povo, “porquanto é nosso Deus”.
Israel, que seriam os maiores responsáveis por
garantir que o povo de Israel continuasse a ser­ “O Senhor... é Deus santo” (Js 24.19-27). Josué ti­
vir ao Senhor. Observe o padrão das observações nha argumentado a favor do compromisso. Agora
de Josué. Ele começa com uma promessa, passa ele deixa claro o custo do compromisso.
para a exortação, e conclui com um lembrete e Quem se comprometer ao Senhor deverá fazer um
advertência. compromisso total. Não se pode fazer meio concer­
A promessa: Deus que tinha expelido o inimigo to com o Senhor.
continuaria a impeli-los diante de Israel. Mesmo quando confrontados com o custo do com­
A exortação: Esforcem-se, tomem cuidado para promisso, o povo insistiu que serviria ao Senhor.
obedecer à lei de Deus, não se associem com na­ O versículo 23 indica duas formas de demonstrar
ções pagãs ou com seus deuses, e se apeguem ao o compromisso total. (1) “Deitai fora os deuses
Senhor. estranhos que há no meio de vós.” Não devemos
O lembrete: Deus expulsou o inimigo, como pro­ conservar nada em nossas vidas que possa competir
meteu. com Deus pela nossa lealdade. (2) “Inclinai o vosso
A advertência: Se vocês se afastarem de Deus, o coração ao Senhor, Deus de Israel”. Nós devemos
Senhor não mais os expelirá. Além disso, “a ira do entregar ao Senhor voluntariamente tudo o que te­
Senhor sobre vós se acenderá”. mos e somos.
Estas quatro funções resumem a responsabilidade e
o ministério de grande parte dos líderes espirituais “Eis que esta pedra nos será por testemunho” (Js
de nossos dias — incluindo os pais. Nós devemos 24.27). Uma testemunha é alguém que pode tes­
viver segundo as promessas de Deus, e transmiti- tificar o que viu ou ouviu. Às vezes, objetos ina­
las. Nós devemos ser fiéis, e exortar à fidelidade. nimados eram comissionados como testemunhas
Nós devemos nos lembrar do que Deus fez, e recor­ das palavras de compromisso (cf. Gn 32— 52;
dar aos outros. Nós devemos ter ciência, e advertir D t 31.21). As palavras que são ditas são forçosas.
os outros, sobre as consequências de nos afastar­ Elas são tão permanentes quanto o lugar onde
mos do Senhor. são proferidas.

DEVOCIONAL______
A Época Atual Josué defendeu o compromisso. Josué deixou claro
(Js 24) o custo do compromisso. Josué deu um exemplo
Aqui está registrado um maravilhoso epitáfio para de compromisso, e por todos os dias da sua vida o
Josué. “Serviu, pois, Israel ao Senhor todos os dias povo de Israel serviu fielmente ao Senhor.
de Josué e todos os dias dos anciãos que ainda vive­ A esta altura, provavelmente alguém irá objetar e
ram muito depois de Josué”. indicar o que aconteceu depois que Josué morreu.

143
Josué 22—24

É verdade que depois destas poucas décadas pro­ gerações, como Lutero é lembrado pela igreja lute­
missoras o povo de Deus o abandonou. Durante rana, ou como D. L. Moody é lembrado pelo Moo-
aproximadamente 400 anos, durante a era dos Ju­ dy Blue Institute. Provavelmente nós nem mesmo
izes, Israel conheceu ciclos de breve reavivamento seremos lembrados daqui a duas ou três gerações.
e aprofundamento na apostasia. Mas o que acon­ Mesmo que fôssemos, isto não seria importante. O
teceu durante estes séculos não teve nada a ver que é importante está resumido no epitáfio que as
com Josué. Escrituras fazem a Josué: “Serviu... Israel ao Senhor
O Novo Testamento assim explica: “Digo, conhe­ todos os dias de Josué”.
cendo o tempo, que é já hora de despertarmos” (Rm Josué foi fiel a Deus enquanto viveu. Enquanto vi­
13.11). O que este versículo indica é que o único veu, Josué influenciou os homens e as mulheres da
tempo que você ou eu temos é o presente. Não po­ sua época.
demos modificar o passado. Não podemos controlar
o futuro. Mas podemos viver para Deus hoje. Aplicação Pessoal
Foi exatamente o que Josué fez. Ele serviu a Tocar ao menos uma vida, trazendo-a a Deus, é a
Deus enquanto viveu. E, na época de Josué, Is­ realização mais importante que qualquer ser huma­
rael serviu a Deus. no pode alcançar.
Você e eu não temos garantias do que irá acontecer
aos nossos filhos, aos nossos netos, nem aos nossos Citação Importante
bisnetos. Na verdade, isso não nos compete. Não “Uma vida santa produzirá a impressão mais pro­
podemos controlar o futuro. Tudo o que você eu funda. Faróis não tocam trombetas; eles somente
podemos fazer é seguir o exemplo de Josué de com­ brilham.” — D. L. Moody
promisso pessoal, e assim influenciar àqueles que
estão vivos na nossa época. O Plano de Leituras Selecionadas continua em
Provavelmente, ninguém que leia isso será lembra­ JUÍZES
do por alguma instituição que perdure por várias

144
JUÍZES

INTRODUÇÃO
O livro de Juizes abrange o período entre a morte de Josué, aproximadamente em 1375.a.C., e a coroação
do primeiro rei de Israel, Saul, aproximadamente em 1040 a. C. O livro descreve a deterioração da fé e da
sorte de Israel, e explica por que o povo de Deus deixou de experimentar as suas bênçãos.
O livro de Juizes tem este nome por causa dos líderes carismáticos que Deus levantou quando Israel
abandonou a idolatria e voltou-se para Ele, pedindo ajuda. Os “juizes” eram líderes nacionais, no sentido
mais completo. Tipicamente, funcionavam como comandantes militares, líderes religiosos e governantes
das tribos às quais serviam. Este pequeno livro normalmente é apreciado pelas suas histórias sobre heróis
como Débora, Gideão e Sansão, mas a sua mensagem é mais amarga. O futuro é sombrio para qualquer
pessoa que abandone a Deus e o justo modo de vida que a sua Lei prescreve.

ESBOÇO DO CONTEÚDO
I. Causas da Era dos Juizes......................................................................... .....Jz 1.1— 3.6
II. Condições durante a Era dos Juizes.................................................... . Jz 3.7— 16.31
Sete ciclos de opressão/libertação
1. O tniel....................................................................................................... .......Jz3.7— 11
2. Eglom ....................................................................................................... .... Jz 3.12— 31
3. Débora e Baraque.................................................................................... ... Jz 4.1— 5.31
4. Gideão...................................................................................................... ,... Jz 6.1— 8.32
5. Tola e Jair................................................................................................. ..Jz 8.33— 10.5
6. Jefté............................................................................................................ Jz 10.6— 12.15
7. Sansão....................................................................................................... Jz 13.1— 16.31
III. Consequências Humanas da Era dos Juizes..................................... Jz 17.1— 21.25

GUIA DE LEITURA (6 Dias)


Se você tiver pressa, pode ler somente a “passagem essencial” na sua Bíblia, e o Devocional em cada ca­
pítulo deste Comentário.
Leitura Capítulos Passagem Essencial
51 1— 3 2
52 4— 5 5
53 6— 8 6.25— 7.21
54 9— 12 11.29-40
55 13— 16 16
56 17— 21 19
JUÍZES
20 DE FEVEREIRO LEITURA 51
DECLÍNIO ESPIRITUAL
Juizes 1— 3

"Outra geração após eles se levantou, que não conhe­ Deus recusou-se a continuar ajudando o seu povo
cia o Senhor, nem tampouco a obra quejizera a Isra­ desobediente (2.1-5). As gerações seguintes se vol­
el” (Jz 2.10). taram aos ídolos e celebraram casamentos com os
cananeus, causando o declínio nacional. Mesmo os
Existe causa e efeito, tanto no universo espiritual, juizes que Deus forneceu conseguiram um novo
como no físico. A causa do fato de que a geração compromisso apenas temporário com o Senhor
seguinte não conhecia a Deus estava enraizada na (w. 6-23).
obediência incompleta de seus pais.
Entendendo o Texto
Contexto “E foi o Senhor com Judá” (Jz 1.1-26). Depois da
Séculos antes disso, Deus tinha prometido a morte de Josué, a tribo de Judá demonstrava fé
Abraão que os seus descendentes possuiriam Ca- continuada em Deus. Eles atacaram ousadamente
naã. Sob a liderança de Josué, estes descendentes, os cananeus, ainda no seu território. As vitórias
os israelitas, invadiram a Terra Prometida. Em uma que obtiveram deveriam ter encorajado toda Is­
ampla campanha militar, Josué rompeu o poder rael.
das cidades-estado dos cananeus, e dividiu a terra Uma das coisas mais importantes que podemos
entre as tribos israelitas. Mas ainda havia bolsões de fazer para fortalecer a nossa fé é ler as biografias
resistência; áreas ocupadas pelos vários grupos ét­ de cristãos. Embora elas não sejam publicadas
nicos que tinham se estabelecido em Canaã muito frequentemente, hoje em dia, as histórias de vida
antes disso. Cada tribo dos hebreus era responsável de homens e mulheres de fé podem nos desafiar
por expulsar os cananeus restantes, à medida que a e nos encorajar. Publicações relativamente recen­
sua população crescesse e o seu povo precisasse de tes como Through Gates ofSplendor e Bom Again,
mais terras. Mas havia uma exigência. Os cananeus além de outras obras clássicas mais antigas, sobre
deviam ser exterminados ou expulsos da terra, para Hudson Taylor e George Müller, podem aprofun­
que a sua religião não corrompesse o povo escolhi­ dar a nossa consciência daquilo que Deus pode
do de Deus. fazer, por intermédio dos indivíduos.
O livro de Juizes narra a trágica história de um Se as demais tribos de Israel tivessem aprendido
povo que tinha sido abençoado por Deus, mas com a experiência de Judá, os séculos seguintes
perdeu o direito ao futuro por sua obediência in­ da história de Israel poderiam ter sido muito di­
completa. ferentes.
Visáo Geral “Os cananeusforam determinados” (Jz 1.27-36). As
Judá atacou corajosamente os cananeus que per­ outras tribos não seguiram o exemplo de Judá. Elas
maneciam no seu território (1.1-26). Mas outras hesitaram em atacar os cananeus em seu território.
tribos não expulsaram os cananeus (w. 27-36). Os cananeus estavam mais determinados em per-
Juizes 1—3

“A ira do Senhor se acendeu” (Jz 2.6-23). O autor


do livro de Juizes agora insere um resumo que ex­
põe uma sequência de eventos, que foi repetida por
toda esta era. Cada elemento do ciclo pode ser vis­
to na maioria das histórias dos juizes, encontradas
neste livro.
A avaliação global do período é expressa vigoro­
samente em 2.19: “Porém sucedia que, falecendo
o juiz, tornavam e se corrompiam mais do que
seus pais, andando após outros deuses, servindo-
os e encurvando-se a eles; nada deixavam das suas
obras, nem do seu duro caminho”.
Cada ciclo via o povo de Deus afastando-se cada
vez mais do Senhor, e os sujeitava a juízos cada vez
mais difíceis.
A vida cristã normal deve ser um caminhar inin­
terrupto de comunhão com o Senhor. Aqueles que
veem a experiência cristã como um ciclo de peca­
do, confissão, restauração, obediência temporária
A arqueologia confirma o relato do Antigo Testamento e pecado, outra vez, não entenderam a mensagem
dos israelitas confinados na região montanhosa de Canaã deste livro do Antigo Testamento. A cada vez que
(Jz 1.19). Nas planícies, os exércitos cananeus, com car­ decidimos nos aventurar no pecado, temos a possi­
ros, pareciam fortes demais para que os temerosos israe­ bilidade de ir mais além. Deus está sempre disposto
litas os atacassem. Os carros, como este, eram os tanques a nos aceitar de volta. Mas o pecado irá, em última
das guerras antigas. Nesta época, eles costumavam atacar análise, endurecer os nossos corações contra Ele.
diretamente, destruindo as formações da infantaria.
“Os filhos de Israel clamaram ao Senhor” (Jz 3.12-
manecer do que Israel estava decidida a obedecer 31). O capítulo 3 do livro de Juizes apresenta, em
a Deus e expulsá-los: esta hesitação em obedecer a poucas palavras, a história dos dois primeiros jui­
Deus levou à desobediência direta. Quando Israel zes. Observe que cada história incorpora todos os
tornou-se mais forte, em lugar de atacar os cana­ elementos do ciclo esquematizado abaixo.
neus, simplesmente os escravizou.
Qualquer ineficiência na obediência é um passo PECADO 3.7 3.12
em direção à desobediência.
SERVIDÃO 3.8 3.13,14
“Estarão às vossas costas, e os seus deuses vos serão por SÚPLICA 3.9 3.15
laço” (Jz 2.1-5). Deus confrontou Israel com o pe­
cado da desobediência, e proferiu o julgamento. SALVAÇÃO 3.9, 10 3.13-29
Ele retiraria a sua ajuda. Agora, Israel não seria ca­ SILENCIO 3.11 3.30
paz de expulsar os cananeus.
Na vida espiritual, “não farei” muito breve se torna Nós só podemos romper ciclos como este em nossa
“não poderei”. vida, resistindo à tentação de pecar.

CICLO DE EVENTOS
PECADO 2.11-13 Os israelitas se voltam à adoração de Baal e à imoralidade.
SERVIDÃO 2.14,15 Nações estrangeiras derrotam e oprimem Israel.
SÚPLICA 2.15 Sob opressão, Israel confessa o pecado e ora.
SALVAÇÃO 2.16 Deus levanta juizes para libertar o seu povo.
SILÊNCIO 2.18 Durante a sua vida, o juiz conserva Israel “mais ou menos” fiel ao
Senhor.

147
Juizes 4— 5

DEV OCIONAL_________ 21 DE FEVEREIRO LEITURA 52


Criando a Próxima Geração
(Jz 2) DÉBORA
Você já se deparou com alguns daqueles ditados que Juizes 4—5
parecem ter a função de fazer os pais se sentirem
culpados? Por exemplo, “Pau que nasce torto, cresce “Assim, ó Senhor, pereçam todos os teus inimigos! Po­
torto”? ou, “A maçã nunca cai longe da árvore”? rém os que o amam sejam como o sol quando sai na
De minha parte, eu jamais aceito a sugestão. Cada sua força" (Jz 5.31).
pessoa é responsável por suas próprias escolhas. Eu
não posso considerar que tenha algum mérito pelas As mulheres, geralmente, não eram líderes na Is­
escolhas devotas que meus filhos já crescidos fazem. rael patriarcal. Mas o fato de ser do sexo feminino
E igualmente, não sou responsável pelas suas esco­ não desqualificou Débora, cujos dons espirituais
lhas erradas ou tolas. eram desconhecidos pelo povo de Deus.
Mas esta passagem, como tantas nestes primeiros li­
vros do Antigo Testamento, deixa claro que cada ge­ Visão Geral
ração influencia a seguinte. Aqui o texto nos diz que Débora, a líder e profetisa de Israel, disse ao he­
“foi também congregada toda aquela geração [que sitante Baraque que levantasse um exército (4.1-
tinha lutado com Josué por Canaã] a seus pais, e ou­ 11). A vitória israelita (w. 12-24) é celebrada em
tra geração após eles se levantou, que não conhecia um dos mais belos poemas antigos, o cântico de
o Senhor, nem tampouco a obra que fizera a Israel” Débora (5.1-31).
(v. 10). De alguma forma, toda uma geração tinha
deixado de transmitir a realidade da sua experiência Entendendo o Texto
com Deus à geração seguinte. Débora. Débora é identificada como uma profe­
Se você se perguntar por que eles falharam nisso, a tisa. Deus a usou como porta-voz, transmitindo
resposta está aqui mesmo, no capítulo 1 deste livro mensagens especiais ao seu povo. O texto tam­
do Antigo Testamento. Depois da morte de Josué, bém diz que ela “julgava a Israel naquele tempo”.
somente Judá exibiu confiança em Deus, e enfren­ Isso era muito incomum em uma sociedade que
tou o inimigo cananeu. As outras tribos hesitaram, enfatizava a liderança masculina e a subordinação
temerosas. É quando, por puro motivo do aumen­ feminina. O texto também afirma que Débora
to de sua população, intimidaram os cananeus, em servia como um tipo de suprema corte, e decidia
lugar de expulsá-los, os israelitas os escravizaram. disputas que não podiam ser decididas localmen­
Os pais deixaram de confiar em Deus. Desobe- te. Qualquer uma destas funções poderia tornar
deceram-no. E os seus filhos “não conheciam o especial qualquer indivíduo, fosse homem ou m u­
Senhor, nem tampouco a obra que fizera a Israel”. lher. O fato de ter as três funções indica que Dé­
Nós — você e eu — não podemos garantir que nos­ bora era uma mulher verdadeiramente incomum,
sos filhos conhecerão o Senhor, ou que viverão para com grandes dons pessoais e espirituais.
Ele. Mas se confiarmos o suficiente em Deus, para Débora nos lembra que os estereótipos da socie­
agirmos conforme a sua Palavra, se formos obedientes dade não precisam ser mantidos quando se trata
em nossas vidas diárias, nossos filhos jamais poderão do povo de Deus. A escolha que Deus fez de Dé­
dizer a respeito de Deus: “Eu não o conheço”. bora mostra que Ele está livre para trabalhar por
A realidade de quem é Deus está revelada na fé que intermédio de qualquer ser humano. Esta escolha
mães e pais põem em prática, e na obediência à sua nos lembra que o sexo de uma pessoa não a des­
Palavra. qualifica ou qualifica automaticamente para um
ministério significativo.
Aplicação Pessoal Baraque. O caso do próprio Baraque é um estu­
Não há nada mais importante que podemos fazer do fascinante. Baraque era hesitante e temeroso,
por nossos filhos, do que amar, confiar e obedecer sem disposição para enfrentar o inimigo, a menos
ao Senhor. que Débora acompanhasse o seu exército (4.8),
apesar de Débora lhe ter prometido a vitória em
Citação Importante nome de Deus. A confiança em Deus é desejável.
“Existe uma única maneira de criar um filho no A confiança em seres humanos, mesmo naqueles
caminho em que ele deve andar; e esta maneira é que podem representar a Deus, não é. O erro de
seguir este caminho, você mesmo.” Baraque foi confiar que Deus agiria somente por
— Abraham Lincoln intermédio de Débora, em vez de confiar em Deus
148
Juizes 4— 5

diretamente. Nós podemos apreciar e honrar nos­ a Sísera a bebida que ele pediu, e o escondeu na
sos líderes espirituais; mas não devemos exaltá-los sua tenda. A seguir, ela violou os costumes, e com
ao ponto que Baraque exaltou Débora. um único golpe cravou uma estaca da tenda na
testa de Sísera.
“Jabim, rei de Canaã, que reinava em Hazor” (Jz Nós não deveríamos nos surpreender com a força
4.1-11). Hazor tinha sido destruída por Josué. de Jael. Entre os povos nômades do Oriente Mé­
Mas o local estratégico foi reconstruído, e um dio, as mulheres armavam as tendas, de modo que
novo Jabim (provavelmente um nome de dinas­ o martelo e as estacas deviam ser instrumentos fa­
tia) controlava as planícies e o Israel “violenta­ miliares para elas.
mente oprimido”. Esta opressão é descrita em Apesar da sua violação de hospitalidade, Débora
5.6-10. Os israelitas temiam viajar pelas estra­ abençoou Jael. Diferentemente de outras pessoas,
das, abandonaram muitos vilarejos e não tinham Jael apresentou-se “em socorro do Senhor, em so­
armas suficientes. Por outro lado, os cananeus, corro do Senhor, com os valorosos” (5.23).
sob seu hábil comandante, Sísera, tinha 900 car­ Há ocasiões em que os cristãos também precisam
ros de ferro. se apresentar e dar um passo à frente, mesmo
Um exame do mapa mostra que a opressão afe­ quando um ato de consciência for contra os pa­
tava somente a parte norte das tribos de Israel, drões da comunidade. A desobediência civil du­
especialmente Naftali e Zebulom. A posição de rante os anos 1960 — o movimento dos direitos
Débora na região montanhosa de Efraim sugere civis — foi uma destas ocasiões. Eu suspeito que
que ela não foi diretamente afetada. os protestos contra as clínicas de aborto nos anos
Nós não precisamos ser diretamente afetados pelo 1990 tenha sido outra ocasião em que os cristãos
sofrimento para nos envolvermos. Paulo diz, sobre precisavam estar dispostos a apresentar-se “em so­
o Corpo de Cristo: “se um membro padece, todos corro do Senhor com os valorosos”.
os membros padecem com ele” (1 Co 12.26).
“Pela janela" (Jz 5.28-31). A imagem e a ironia
“Sísera convocou todos os seus carros, novecentos car­ desta curta passagem levaram-na a ser reconhe­
ros de ferro, e todo o povo que estava com ele... até cida como, talvez, o mais brilhante de todos os
ao ribeiro de Quisom" (Jz 4.11-16). Na estação das poemas antigos.
secas, o vale de Esdraelom (ou “vale de Jezreel”),
por onde corria o ribeiro de Quisom, era ideal “Eles o exterminaram” (Jz 4.24). A vitória sobre
para os combates com carros: plano e duro, com o exército de Sísera drenou a força dos cananeus.
espaço para manobras. No entanto, quando mo­ A guerra não estava terminada. Mas esta batalha
lhado, o vale se convertia em um lamaçal imundo, foi o ponto decisivo. O texto diz que, depois da
tornando o uso dos carros um grande perigo. batalha, os israelitas ficaram mais fortes, e final­
Embora Juizes 4.15 afirme simplesmente que “o mente destruíram... o rei cananeu e o seu reino.
Senhor derrotou a Sísera”, e que “Sísera desceu do Juizes 5.31 acrescenta: “E sossegou a terra qua­
carro e fugiu a pé”, o cântico de Débora explica renta anos”.
a situação. Ela descreve como “até os céus goteja­ Alguns cristãos creem que a atitude de se voltar
ram... até as nuvens gotejaram águas” (5.4). para Jesus soluciona todos os problemas automa­
Baal, adorado pelos cananeus, era originalmente ticamente, sem nenhum esforço pessoal.
um deus de trovões e tempestades. Aqui, o Senhor Eu conheci um ou dois alcoólatras que afirmaram
dirige a tempestade contra os adoradores do deus que, depois das suas conversões, jamais tiveram
da tempestade, e usa a chuva para neutralizar a vontade de beber um gole. Mas eu conheço muitos
sua vantagem militar! A vitória sobre os cananeus mais que dizem que é necessário lutar diariamen­
foi um juízo divino sobre a religião dos cananeus, te contra a vontade de tomar apenas uma dose. A
assim como sobre o tratamento que eles dispensa­ vitória sobre Sísera lembra-nos de que temos que
ram ao povo de Deus. combater as coisas que nos oprimem na vida. Nós
temos que tomar uma posição e declarar a vitória.
“Dá-me, peço-te, de beber um pouco de água” (Jz Mas a primeira batalha na qual o inimigo sofrer
4.17-23). O pedido de Sísera por água pode su­ uma derrota esmagadora, bem poderá ser um pre­
gerir mais do que sede. Entre os povos nômades, lúdio de anos de lutas. Nós, assim como os israeli­
até mesmo o mais mortal dos inimigos, a quem tas, precisamos nos fortalecer cada vez mais, reco­
fosse dada comida ou bebida, era colocado sob nhecendo que pode demorar algum tempo, ou até
a proteção de quem o derrotasse. Na ausência de mesmo muito tempo para “destruirmos o inimigo
seu esposo, Jael agiu como uma anfitriã. Ela deu da nossa alma”.
149
Juizes 6— í

DEVOCIONAL________
Ficar no Campo de Batalha 22 DE FEVEREIRO LEITURA 53
(J*5) GIDEÂO
O cântico de Débora é um brado de vitória. Ele vi­ Juizes 6—8
bra com emoção e louvor. Ele transborda de alegria
e entusiasmo. E não é de admirar. A batalha contra “Vai nesta tua força e livrarás a Israel da mão dos mi-
Sísera foi um ponto decisivo para uma geração in­ dianitas; porventura, não te enviei eu?” (Jz 6.14).
teira. Vinte anos de opressão foram transformados
em 40 anos de paz. Débora e Baraque lideraram O herói hesitante desta história pediu a Deus sinais
um exército de homens cujo clamor mais orgulho­ tranquilizadores. E Deus graciosamente o tranqui­
so, nos anos futuros, seria “Eu estive ali, no ribeiro lizou. A experiência de Gideão ensina uma lição
de Quisom”. Não é de admirar que o poema da importante sobre “secar o velo”. Mas, não, talvez, a
vitória seja tão eletrizante, tão vibrante e tão cheio lição que esperamos.
de alegria.
Exceto por alguns poucos versículos no meio do Definição dos Termos-Chave
texto. Os versículos que descrevem as tribos que Anjo do Senhor. Muitos creem que o Anjo do Se­
deixaram de atender ao chamado para combater nhor do Antigo Testamento é uma teofania, uma
os cananeus. Vieram os homens de Efraim. Esta­ aparição de Deus em forma humana. E importante
vam ali as tribos de Zebulom e Issacar. Mas onde distinguir entre tais manifestações do Antigo Tes­
estava Rúben? Onde estavam Gileade, e Dã, e tamento e a Encarnação. Em Jesus Cristo, Deus
Aser, quando “o povo de Zebulom expôs a sua Filho assumiu a natureza humana e se tornou um
vida à morte”? verdadeiro ser humano. O Anjo do Senhor sim­
“Entre as facções de Rúben”, diz Débora, “houve plesmente se parecia com um ser humano.
grande discussão” (ARA). “Por que ficaste tu entre
os currais para ouvires os balidos dos rebanhos?” Visão Geral
(w. 16-18, ARC). Porque, quando chegouaopor- As tribos do sudeste de Israel eram gravemente opri­
tunidade de fazer história, estas pessoas ficaram em midas pelos midianitas quando o Anjo do Senhor en­
casa, absortas nas tarefas comuns da vida diária? carregou Gideão de libertá-los (6.1-16). Gideão obe­
Ficaram entre os currais. Cuidando dos rebanhos. deceu a Deus e derrubou um altar erigido a Baal (w.
Como se nada especial estivesse acontecendo do 17-35), mas pediu sinais milagrosos que confirmas­
outro lado da montanha, onde seus irmãos arris­ sem o compromisso de Deus em manter a sua pro­
cavam suas vidas. messa (w. 36-40). O exército de Gideão foi reduzido
Realmente, não existe resposta para esta pergunta. a 300 homens (7.1-8). Depois de novas confirmações
Foi falta de visão? Eles deixaram de ver a oportuni­ (w. 9-14), Gideão atacou e derrotou os midianitas
dade? Foi uma falta de preocupação, eles deixaram (w. 15-25). A humildade de Gideão evitou a guerra
de se comover com o sofrimento dos outros? entre as tribos (8.1-5), mas ele puniu decididamente
Qualquer que seja a razão, estes membros da casa as cidades israelitas que se recusaram a ajudar quando
de Deus deixaram de perceber que o momento crí­ ele estava perseguindo os reis midianitas (w. 6-21).
tico tinha chegado. Eles deixaram de agir. E Deus Posteriormente, Gideão fez um éfode que se tornou
obteve a vitória, sem eles. um ídolo para Israel (w. 22-35).
E que lição para nós, hoje em dia. Deus obterá as
Suas vitórias, com quem quer que seja voluntário. Entendendo o Texto
Mas que triste seria para nós, se nós ficássemos jun­ “Prevalecendo a mão dos midianitas sobre Israel” (Jz
to aos currais enquanto a história é feita. 6.1-6). Os midianitas eram um povo nômade que
periodicamente invadia Israel para roubar a sua co­
Aplicação Pessoal lheita. Este povo do sudoeste liderou uma coalizão
Que oportunidade é grandiosa demais, hoje, para de midianitas e outras raças do deserto sírio. Quan­
que você a perca? do Israel os derrotou pela primeira vez, eles tinham
confiado em jumentos para seu transporte (Nm
Citação Importante 31.32-34). Aqui, são descritos como montando
“Nós ficaremos deitados por tanto tempo depois camelos, talvez o primeiro uso militar em grande
da morte, que vale a pena ficarmos em pé enquanto escala destes animais na história.
estivermos vivos. Vamos trabalhar agora; um dia, Os midianitas invadiram grandes regiões do sul e
descansaremos." — Agostina Pietrantoni do centro de Israel, roubando ou destruindo plan­
150
Juizes 6— 8

tações e forçando os israelitas a se esconderem em tado uma noite toda de trabalho dos dez homens
cavernas. de Gideão! Um altar a Baal encontrado em Megi-
do tinha aproximadamente 1,3 metros de altura e
“Não destes ouvidos à minha voz” (Jz 6.7-10). Um 8 metros de diâmetro, feito de tijolos cimentados
profeta não citado nominalmente lembrou os is­ com barro!
raelitas de que Deus tinha sido fiel no seu com­ O medo de Gideão dos homens da cidade era o
promisso com eles. O desastre aconteceu porque resultado da sua correta avaliação da situação. Se
os israelitas não foram fiéis ao Senhor. ele tivesse agido à luz do dia, o povo da cidade cer­
E loucura culpar Deus pelas más consequências de tamente o teria impedido. Deus não ordenou que
nossos próprios pecados. Gideão derrubasse o altar durante o dia. A decisão
Mesmo assim, Deus ouviu as orações de Israel (v. de Gideão sugere prudência, não covardia.
6) e decidiu salvar mais uma vez o seu povo de­ Não é necessário anunciar a nossa obediência. É
sobediente. Como é bom compreender, quando suficiente obedecer.
tivermos pecado, que Deus nos ouvirá se nos di­
rigirmos a Ele. “Naquele dia, lhe chamaram [a Gideão] Jerubaal”
(Jz 6.30-35). Os cidadãos furiosos foram afastados
“E que êfeito de todas as Suas maravilhas?” (Jz 6.11- pela zombaria do pai de Gideão, aparentemente
14). Quando o Anjo do Senhor apareceu, Gideão um homem influente. Este nome, quando dado
estava malhando o trigo no lagar. O lugar normal pela primeira vez a Gideão, sugeria que Baal estava
para malhar o trigo era uma colina onde houves­ em guerra contra Gideão. Posteriormente, depois
se vento, onde a brisa separaria o trigo da palha. da vitória sobre Midiã, a ênfase sutilmente muda,
Gideão usava um lagar, normalmente uma área e “Jerubaal” é usado com orgulho, no sentido de
murada no pé de uma colina, para trilhar. O ato “aquele que combate Baal”.
ilustra o quão temerosos estavam os israelitas de
que pudessem ser vistos pelos midianitas e ter a sua “Se hás de livrar Israel... como tens dito” (Jz 6.33-
colheita, roubada. 40). Gideão agiu corajosamente e enviou mensa­
Não é de admirar que Gideão, forçado a olhar teme- geiros a diversas tribos para recrutar um exército.
rosamente em todas as direções, enquanto disfarça­ Os seus atos públicos foram corajosos, mas Gideão
damente trilhava seu trigo, respondesse com sarcas­ ainda sentiu dúvidas e temores em seu interior.
mo quando o anjo lhe disse: “O Senhor é contigo, As orações de Gideão no caso do velo não foram
varão valoroso”. Se Gideão era um varão valoroso, um esforço para determinar qual era a vontade de
por que estava se escondendo em um lagar? Se Deus Deus. Gideão a conhecia. Os pedidos foram feitos
era realmente com Israel, onde estavam os milagres para o encorajamento pessoal de Gideão, e foram
de libertação que Ele realizou pelos pais? feitos somente depois que Gideão já rinha demons­
Com excessiva frequência as nossas circunstâncias trado a sua disposição de obedecer a Deus.
também nos roubam o senso da presença de Deus.
Mas frequentemente, como no caso de Gideão, “A inda muito povo há” (Jz 7.1-8). Gideão precisa­
quando nos sentimos mais abandonados, ou mais va desta tranquilidade. Em uma série de passos,
céticos, Deus já começou a agir. Deus reduziu o exército de Gideão, de 32 mil, a
Deus disse a Gideão: “Vai nesta tua força”. Cada meros 300 homens. A razão é instrutiva. A vitória
um de nós deve agir na força que tem, confiando ganha por 300, contra milhares, deixaria claro o
no fato de que Deus verdadeiramente está conosco, papel de Deus.
mesmo se não sentirmos a sua presença. Às vezes, nos é pedido que empreendamos grandes
tarefas com poucos recursos, para que a glória, após
“Gideão... fez como o Senhor lhe dissera” (Jz 6.15- a vitória, só possa ser atribuída a Deus.
29). A “oferta” de Gideão era o tipo de presente
normalmente dado a um visitante, não um sa­ “Se ainda temes descer” (Jz 7-9-15). Gideão recebeu
crifício do tipo que deveria ser oferecido a Deus. um último incentivo do Senhor, na forma de um
Quando subiu fogo da penha e queimou a comida sonho relatado por um midianita, quando estava
que Gideão tinha trazido, ele percebeu que o seu escondido próximo do acampamento inimigo. A
convidado era o Anjo do Senhor. especificação do “pão de cevada” é importante. A
Embora Gideão fosse, talvez, consciente demais cevada era o que os pobres usavam para fazer pão.
das suas fraquezas (v. 15), ele obedeceu ao manda­ Ela simbolizava o Israel oprimido.
mento de Deus, e destruiu o altar a Baal e cortou No mundo antigo, os sonhos eram considerados
o bosque que existia ao pé dele. Isso teria represen­ um canal pelo qual os deuses se comunicavam com
151
Juizes 6— 8

os homens. Neste caso, Deus deu o sonho e a sua que eles tinham feito, e sugeriu, humildemente,
interpretação. Deus não é limitado nos meios que que eles tinham feito mais do que ele mesmo. Que
utiliza para se comunicar conosco — nem nos ins­ as pessoas que desejam crédito o tenham. Aqueles
trumentos que Ele escolhe. que mais merecem crédito, como Gideão, rara­
mente o consideram importante.
"Espada do Senhor e de Gideão” (Jz 7.16-25). A
principal arma de Gideão na batalha foi o terror. “Os homens de Sucote” (Jz 8.4-17). A atitude dos
O súbito aparecimento de tochas acesas na colina, homens de Sucote e Penuel, que não somente se re­
acompanhado por uma cacofonia de sons altos e cusaram a auxiliar Gideão, mas o ridicularizaram,
ásperos, produzidos em 300 trombetas de chifre exigia uma retaliação. Estes israelitas se recusaram
de carneiro, lançou o acampamento midianita em a se unir à batalha, e demonstraram desprezo pelo
tal agitação que, na confusão, os soldados inimigos Deus que tinha convocado Gideão a liderar Israel
se atacavam, uns aos outros. O exército midianita em uma guerra santa.
fugiu, e os israelitas apareceram e perseguiram os
inimigos. “Sossegou a terra quarenta anos nos dias de Gideão”
É fácil unir-se à batalha quando o seu lado está (Jz 8.22-35). Gideão, ainda com o nome “o que
vencendo claramente. É mais difícil ser um entre luta contra Baal”, impediu que Israel adorasse a
300 que combatem um inimigo antes dos demais. Baal, enquanto viveu. Mas Gideão mostrou dois
No entanto, sem os primeiros e ousados 300, não sinais de fraqueza. O primeiro, ele fez um éfode de
haveria nenhuma vitória. Devemos nos lembrar ouro (como um colete, usado pelo sumo sacerdote
disso quando você ou eu formos desafiados a nos de Israel), que foi adorado como um ídolo.
posicionarmos a respeito de alguma questão moral O segundo foi que, embora Gideão recusasse aber­
em nossa igreja ou sociedade. tamente a oferta de um reinado, posteriormente
nomeou um de seus filhos, Abimeleque. Em he­
“A sua ira se abrandou” (Jz 8.1-3). A convocação braico, o significado é “Meu pai é rei!” Posterior­
original que Gideão fez por voluntários não chegou mente, este filho também tomou este nome muito
à tribo de Efraim. Agora, este grupo, que seguiu os a sério. Depois da morte de Gideão, Abimeleque
midianitas que fugiam, criticou Gideão. Ele não matou todos os seus irmãos, e durante algum tem­
tentou explicar. Ele não se ofendeu. Em vez disso, po serviu como um rei insignificante, sobre uma
muito sabiamente, deu as efraimitas crédito pelo pequena parte da terra de Israel.

DEVOCIONAL_______
Você Pôs o seu Velo na Eira? Um Gideão temeroso e muito humano é tranqui­
(Jz 6.25— 7.21) lizado pelo sonho que Deus dá a um soldado mi­
Como você pode conhecer a vontade de Deus para dianita (7.8-15).
a sua vida? Bem, uma maneira não é “por o velo na Um Gideão, agora confiante, lidera o ataque sobre
eira”. Este ato de Gideão tem um significado com­ Midiã.
pletamente diferente. Gideão procurou confiança Observe que a reafirmação foi dada depois que Gi­
e tranquilidade, e não o conhecimento da vontade deão tinha obedecido a uma ordem do Senhor, e
de Deus. Deus graciosamente atendeu a oração de não antes. Algumas vezes, nós colocamos equivo-
Gideão, porque Gideão já tinha demonstrado a sua cadamente nosso velo na eira, ou pedimos a Deus
disposição em obedecer. algum sinal, antes de termos obedecido a sua Pala­
Existe um padrão nestes capítulos que é muito im­ vra. Então esperamos, em uma situação infeliz, e
portante.
não recebemos nenhum sinal. O que a experiên­
Um Gideão temeroso obedece a Deus e derruba o cia de Gideão nos diz é que a obediência precede
altar de Baal (6.25-32). a reafirmação. Deus pode graciosamente nos dar
Um Gideão cheio do Espírito reúne os israelitas um sinal da sua presença. Mas tais sinais são dados
para a batalha (6.33-35). àqueles que já demonstraram a fé, quando começa­
Um Gideão muito humano pede a Deus algo que ram a fazer a sua vontade.
o tranquilize, e o recebe, quando póe o velo na eira
(6.36-40). Aplicação Pessoal
Um Gideão obediente manda para casa quase todo Se você sabe qual é a vontade de Deus para a sua
o exército israelita (7.1-7). vida, não espere um sinal para depois obedecer.
152
Juizes 9— 12

Citaçáo Importante pulos, rápido em usar a religião, mas sem fé pessoal


“A vontade de Deus nem sempre é clara, especial­ nem comprometimento religioso. Abimeleque, filho
mente no tocante às complicações da conduta di­ de um israelita e uma cananeia, rejeitou o Senhor e
ária em nosso mundo confuso. Mas a vontade de escolheu o caminho de seus antepassados pagãos.
Deus é frequentemente clara, e as suas principais
instruções também são claras. Um homem não de­ “Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei”
verá esperar um esclarecimento sobre a vontade de (Jz 9.7-21). O filho mais jovem de Gideão, Jotão,
Deus para as situações de conduta mais complica­ escapou quando seus irmãos foram assassinados. A
das da vida, se não estiver disposto a seguir a von­ sua parábola sobre as árvores foi incisiva. As árvo­
tade divina mais clara que está revelada nas coisas res que eram benéficas para os homens recusaram
mais simples da vida.” — George A. Buttrick o título. Somente o espinheiro, que era inútil, de­
sejou a coroa. Mas ele não era apenas inútil, era
23 DE FEVEREIRO LEITURA 54 também perigoso, pois os seus ramos secos rapida­
ABIMELEQUE E JEFTÉ mente se incendiavam. Jotão advertiu os cidadãos
Juizes 9— 12 de Siquém. Se não tinham procedido “em verdade
e sinceridade” quando fizeram rei a Abimeleque,
“E tiraram os deuses alheios do meio de si e serviram “saia fogo de Abimeleque e consuma os cidadãos...
ao Senhor; então, se angustiou a sua alma por causa e saia fogo dos cidadãos... e consuma a Abimele­
da desgraça de Israel” (Jz 10.16). que”. Qualquer pessoa que deixe de proceder “em
verdade e sinceridade” espalha ao redor de seus
Dois jovens desprivilegiados nos lembram que o próprios pés o combustível que irá irromper em
ambiente não determina o futuro de ninguém. O chamas e destruí-la.
que importa são as escolhas que cada indivíduo faz
na vida. “Deus fez tornar sobre Abimeleque o mal que tinha
feito” (Jz 9.22-57). O pequeno reino de Abimele­
Visão Geral que não abrangia toda Israel. Das cidades mencio­
Abimeleque, filho de Gideão e uma mulher cana- nadas, ele parece ter governado somente na parte
neia de Siquém, matou seus 70 irmãos e, com a ocidental de Manassés. Dentro de três anos este pe­
ajuda do povo de sua mãe, se colocou como rei queno reino se desintegrou, quando os cidadãos de
(9.1-21). Depois de três anos os siquemitas se re­ Siquém, perto de importantes rotas comerciais, se
belaram e mataram Abimeleque (w. 22-57). Jefté voltaram ao banditismo, roubando assim, de Abi­
(JEFF-thah), filho de pai israelita e uma prostituta, meleque, os impostos que ele poderia ter coletado
foi rejeitado por sua família e seu clã, mas foi cha­ dos mercadores e viajantes (v. 25). Abimeleque
mado de volta quando a tribo foi ameaçada pelos atacou e destruiu Siquém. Ele foi morto atacando
amonitas (11.1-12). Quando as negociações fra­ outra cidade rebelde. Abimeleque e seus cúmplices
cassaram (w. 13-28), Jefté conduziu Israel à vitória em Siquém se destruíram, uns aos outros, como
(w. 29-33). Mas a vitória foi obtida com grande Jotão predisse.
custo para a filha de Jefté (w. 34-40), e levou a A predição de Jotão não exigia uma fonte sobrena­
batalhas entre as tribos (12.1-7). tural. Os maus atos sempre têm más consequências
para os perpetradores.
Entendendo o Texto
“Os irmãos de sua mãe” (Jz 9.1-6). A identificação Abimeleque e Jefté. A história de Abimeleque nos
dos siquemitas como “homens de Hamor” (v. 28) prepara para a história de Jefté. Cada um destes jo­
e sua adoração de Baal-Berite indicam que a popu­ vens tinha uma ascendência mista. Cada um deles
lação desta cidade era principalmente de cananeus. pode ter sido rejeitado por seus irmãos. Mas aqui
Abimeleque convocou a ajuda destes homens, (1) termina a semelhança. Enquanto Abimeleque re­
lembrando-lhes de que ele era sua própria carne e jeitava o Senhor, Jefté confiava nEle completamen­
seu sangue, (2) dando a entender que os 70 filhos de te. Enquanto Abimeleque matou seus irmãos, Jefté
Gideão pretendiam reinar sobre eles, e (3) sugerindo salvou sua família e tribo. As origens de cada um
uma ameaça à sua religião, usando o nome Jerubaal, destes homens podem lhes ter causado dor. Cada
“o que combate Baal”. Os cidadãos de Siquém fi­ um deles pode ter sido tratado de maneira injus­
nanciaram o assassinato dos outros filhos de Gideão, ta. No entanto, foi a decisão que cada um deles
com o dinheiro do tesouro do seu templo. tomou, de rejeitar ou buscar um relacionamento
A história revela o caráter de Abimeleque. Ele era pessoal com Deus, que se tornou o fator determi­
ambicioso, manipulador, sem consciência nem escrú­ nante na sua vida.
153
Juizes 9— 12

“E julgou a Israel vinte e três anos” (Jz 10.1-5; 12.8- “Enviou Jefté mensageiros” (Jz 11.12-28). Jefté en­
15)• Estes capítulos falam brevemente de cinco fatizou que os amonitas não tinham direito à terra
juizes que governaram durante vários períodos de que planejavam tomar, pois ela era de Israel, por
tempo. Os governos de muitos dos juizes foram direito de conquista, e por direito de 300 anos de
sobrepostos, pois a maioria deles tinha influência ocupação. Esta mensagem é reveladora. Em pri­
sobre somente algumas das tribos e parte da terra. meiro lugar, ela mostra que Jefté, apesar de ser
rejeitado pelos israelitas, tinha uma profunda fé
“Os filhos de Israel... deixaram o Senhor e não o ser­ no Deus de Israel. Em segundo lugar, mostra que
viram” (Jz 10.6-18). A magnitude da apostasia que os israelitas tinham uma lembrança clara do que
precedeu Jefté é sugerida (1) pela lista de cinco na­ Deus tinha feito para trazer o seu povo à terra.
ções cujos deuses Israel servia juntamente com os A fé que este rejeitado tinha no Deus de Israel cer­
Baalins e Astarotes dos cananeus, (2) pela severa tamente envergonhou aqueles de “puro sangue”,
opressão, tanto por parte dos filisteus ocidentais que sabiam sobre Deus tanto quanto Jefté, mas o
quanto dos amonitas orientais, e (3) pela pouca tinham rejeitado em favor dos ídolos. Devemos
disposição expressa de Deus de salvar o seu povo, nos lembrar de que a única base que você ou eu
embora eles se arrependessem (w. 11-13). Tudo temos para nos orgulhar é o fato de que amamos e
isso mostra não somente o pecado de Israel, mas servimos ativamente a Deus. A linhagem, a rique­
também a compaixão de Deus. Embora a punição za ou a posição social não têm importância.
fosse merecida, Deus “se angustiou... por causa da
desgraça de Israel” (v. 16). “Jeftéfez um voto ao Senhor” (Jz 11.29-40). Fazer
Como é consolador nos lembrarmos, quando pe­ uma promessa de realizar alguma coisa especial
camos, que o Senhor “não nos [trata] segundo os por Deus, se Ele possibilitasse a vitória, não era
nossos pecados, nem nos [retribui] segundo as nos­ incomum em Israel. Jefté, que, segundo o tex­
sas iniquidades” (SI 103.10). to, estava cheio do Espírito do Senhor, fez esta
promessa antes da sua guerra contra os amoni­
“Jefté... valente e valoroso" (Jz 11.1-11). Depois da tas. Como as casas israelitas desta época tinham
morte de seu pai, Jefté, filho de uma prostituta, espaço para animais, além de pessoas, Jefté, sem
foi forçado a fugir, por seus meios-irmãos, com o dúvida, tinha em mente o sacrifício de um animal
apoio dos anciãos de Gileade. Assim como Davi, quando fez este voto.
quando forçado a fugir de Saul, Jefté reuniu um
pequeno exército de aventureiros endividados ou “Os homens de Efraim... passaram para o norte”
banidos, por outro motivo. Rapidamente eles con­ (Jz 12.1-7). Com a notícia da vitória de Jefté,
quistaram reputação militar. Quando lhe pediram os israelitas a oeste do Jordão cruzaram o rio e
que retornasse e liderasse o exército de Israel, Jefté o ameaçaram. A queixa deles de que não tinham
negociou com os anciãos, que lhe prometeram a sido convidados à batalha era uma mentira (v. 2),
posição de “cabeça e príncipe”; isto é, chefe na paz, e provavelmente uma exigência disfarçada para
assim como na guerra. que participassem do espólio da vitória. A amea­
O preconceito expulsou Jefté de Gileade. A necessidade ça, “Queimaremos a fogo a tua casa contigo”, era
o trouxe de volta. É fácil esquecer o passado de alguém pura chantagem.
quando precisamos de sua ajuda. Como é melhor tra­ Jefté respondeu, convocando seus exércitos e es­
tar a todos de maneira graciosa, antes de mais nada. magando os invasores.

DE V OCIONAL______
O Restante da História Mas Jefté realmente teria sacrificado a sua filha? De
(Jz 11.29-40) modo nenhum. A lei dos votos (Lv 27.1-8) permi­
A história do voto de Jefté é uma das favoritas tia a substituição. O que Jefté fez foi prometer a sua
das pessoas que gostam de debates. Um gru­ filha ao celibato, enquanto ela vivesse, servindo no
po insiste que Jefté realmente matou sua filha, Tabernáculo, como em Êx 38.8; 1 Sm 2.22. Isso é
como um sacrifício de sangue. O outro grupo sustentado pelo fato de que (1) o texto enfatiza a
afirma que ele não fez isso. Como acontece fre­ sua virgindade eterna, não a sua morte (Jz 11.37-
quentemente com passagens difíceis da Bíblia, 39), (2) o sacrifício de filhos era condenado pela lei
o debate obscurece o restante da história — e o (Lv 18.21; 20.2-5), (3) nenhum sacerdote oficiaria
seu objetivo. um sacrifício humano, e (4) a carta de Jefté aos
154
Juizes 13— 16

amonitas mostra que ele conhecia a lei, pois ela era des abertas nas quais Sansão matou pessoalmen­
a fonte da história que ele citou. te mil homens (15.1-20). Mas a paixão por Da-
Mas e o restante da história? Ele é contado, nas lila levou Sansão a revelar o segredo da sua força
palavras simples da filha adolescente. “Pai meu, (16.1-17). Ele foi capturado, cegado e forçado a
abriste tu a tua boca ao Senhor; faze de mim como moer grãos para seu inimigo (w. 16-22). A força
saiu da tua boca”. de Sansão retornou, e ele morreu destruindo um
Deus tinha sido fiel, ao dar a vitória a Israel. A pe­ templo filisteu, matando milhares de seus inimigos
quena família de Jefté, e a sua única filha, deveriam (w. 23-31).
ser igualmente fiéis a Ele, seja qual fosse o custo.
Entendendo o Texto
Aplicação Pessoal “Rogo-te... que nos ensine o que devemosfazer ao me­
A fé verdadeira é mais bem expressa pelo compro­ nino que há de nascer” (Jz 13.1-25). Sansão é uma
misso silencioso do que pelo debate erudito. das poucas pessoas nas Escrituras cujo nascimen­
to foi anunciado a seus pais. Ele compartilha esta
Citação Importante honra com Isaque, João Batista, e Jesus.
“Não devemos atribuir muito valor ao que damos Os pais de Sansão eram israelitas devotos que acre­
a Deus, uma vez que receberemos, pelo pouco que ditaram na predição e pediram que Deus lhes mos­
lhe dermos, muito mais, nesta vida, e na próxima.” trasse como deviam criar seu filho. A sua oração foi
— Teresa de Ávila atendida. Sansão devia ser criado como um nazireu
— uma pessoa que devia ser consagrada a Deus
24 DE FEVEREIRO LEITURA 55 (veja Nm 6.1-8). Os nazireus não bebiam vinho,
SANSÁO não cortavam seus cabelos, e deviam cumprir algu­
Juizes 13— 16 mas outras exigências.
E surpreendente que o autor não expresse suas
“Sansão julgou a Israel, nos dias dos filisteus, vinte ideias, nesta e em outras histórias do livro de Ju­
anos’’ (Jz 15.20, ARA). izes. Ele simplesmente conta a história, sem mo­
ralizar nem comentar. Mas as histórias falam por
Este texto não traz a conclusão, “e a terra sossegou”. si mesmas, particularmente no caso de Sansão.
Sansão, embora com toda a sua força física, não Diferentemente de Jefté, Sansão tinha pais devotos
teve a força interior necessária para colocar seu e amorosos. Ainda quando era adolescente, “o Es­
povo à frente de seus próprios desejos extremos. pírito do Senhor o começou a impelir” (Jz 13.25).
Os muitos defeitos de Sansão dificilmente podem
Definição dos Termos-Chave ser atribuídos aos seus pais, ou a Deus.
Filisteus. Grandes populações deste povo se assen­ Que consolo para os pais cristãos devotos cujos fi­
taram nas planícies costeiras da Palestina aproxi­ lhos não optaram por seguir a Jesus. Cada mãe ou
madamente em 1200 a.C., depois de uma invasão pai atormentado, que olha para trás e se pergunta,
malsucedida do Egito. Gradualmente, eles invadi­ “O que foi que eu fiz?” ou “O que foi que eu deixei
ram o terreno montanhoso ocupado por Israel, e de fazer?” pode encontrar consolo na história de
se misturaram aos israelitas. Israel não conseguiu Sansão. Os pais de Sansão não falharam. As de­
resistir à invasão, em parte porque os filisteus ti­ ficiências que posteriormente destruíram Sansão
nham o segredo da fundição do ferro, e tinham estavam nele mesmo.
armas superiores a tudo o que Israel possuía.
Sansão conduziu uma guerra solitária contra os “Tomai-me esta” (Jz 14.1-20). O desejo de Sansão
filisteus, mas jamais ordenou que seu povo resis­ de ter uma esposa filisteia indica a sua fraqueza. A
tisse aos invasores. Os filisteus continuaram sendo Lei de Deus proibia o casamento entre o seu povo
um inimigo poderoso durante todo o governo de e os povos pagãos (Dt 7.3). Mas Sansão era go­
Samuel e o reinado de Saul, até serem destruídos vernado por seus desejos. A sua paixão por uma
por Davi, aproximadamente cem anos depois da mulher, com base meramente na sua aparência,
era de Sansão. parecia mais importante para ele do que a vontade
expressa de Deus. Assim, apesar das suas objeções,
Visão Geral o pai de Sansão tratou do casamento.
O nascimento de Sansão foi anunciado pelo Anjo O comentário de que “isto vinha do Senhor; pois
do Senhor (13.1-24). Ele insistiu em se casar com buscava ocasião contra os filisteus” provavelmente
uma filisteia, mas foi enganado e humilhado nas é uma observação ou um comentário feito por um
bodas (14.1-15). A vingança chegou às hostilida­ editor posterior. Mas a observação é válida. Deus
155
Juizes 13— 16

pode utilizar até mesmo as nossas fraquezas para


seus propósitos.
Foi provocado um confronto quando Sansão pro­
pôs um enigma que os filisteus desafiados somente
poderiam responder ameaçando a sua esposa. O
comentário de Sansão de que não o tinha expli­
cado sequer a seu pai ou à sua mãe (Jz 14.16) é
interessante. Sendo um nazireu, ele não devia tocar
um cadáver. No entanto, ele tinha extraído mel do
corpo de um leão que ele tinha matado.
O incidente é outra indicação do caráter devoto de
seus pais, e das falhas de Sansão.
“Inocente sou esta vez” (Jz 15.1-20). Quando
Sansão soube que seu sogro tinha dado sua esposa
a outro homem, capturou 300 raposas (e não lo­ As passagens das portas das cidades antigas eram cuidado­
bos) e as soltou na seara dos filisteus com tições ata­ samente construídas para evitar o acesso de pessoas inde­
dos a suas caudas. Houve a retribuição. Os filisteus sejáveis. As próprias portas eram maciças, normalmente
queimaram a esposa de Sansão e seu pai, e depois reforçadas com metal. Sansão não somente derrubou as
exigiram que os israelitas lhes entregassem Sansão portas de Gaza, que pesavam muitas centenas de quilos,
para ser executado. Os israelitas amarraram Sansão, mas as levou “ao cume do monte que está defronte de
mas depois de ser entregue, Sansão rompeu as cor­ Hebrom”, a 61 quilômetros de distância!
das e, usando uma queixada fresca de um jumento,
“feriu com ela mil homens”. o dinheiro, quanto Sansão estava para obtê-la! Ne­
O texto esclarece vários aspectos a respeito do pe­ nhum dos principais personagens desta história
ríodo e da história de Sansão. Em primeiro lugar, merece admiração. Cada um deles exibe fraquezas
a casual brutalidade dos filisteus é vista no fato muito humanas, das quais você e eu devemos nos
de terem queimado a esposa de Sansão e seu pai guardar.
(v. 6). Em segundo lugar, a atitude subserviente
dos israelitas é vista no fato de não terem apoia­ “Foram mais os mortos que matou na sua mor­
do Sansão, e no seu temor aos filisteus, que, dis­ te” (Jz 16.23-31). A oração final de Sansão su­
seram eles, “dominam sobre nós” (v. 11). Mas o gere que ele pouco tinha aprendido durante a
que é mais revelador são as alusões de Sansão ao sua vida, pois a sua preocupação ainda é com a
seu direito de fazer “algum mal” aos filisteus e de vingança, desta vez, disse ele, “pelos meus dois
fazer aos filisteus “como eles me fizeram a mim” olhos” (v. 28).
(w. 3, 11). Este é o mesmo tipo de pensamento O templo ao qual Sansão foi levado provavel­
que caracterizava os filisteus (v. 10). Sansão não mente estava edificado de acordo com uma plan­
pensou na opressão vivida pelo povo que ele lide­ ta comum a estruturas deste tipo naquela épo­
rava. A sua vingança contra os filisteus era pessoal. ca. Sendo assim, a maioria dos filisteus estaria
Sansão odiava os filisteus, não pelo que eles ti­ reunida no telhado, que era apoiado por mui­
nham feito ao seu povo, mas pelo que eles tinham tas colunas. Alguns entendem que a multidão,
feito a ele, pessoalmente. Deus usou o egoísmo de inclinando-se para ver o herói cativo, poderia ter
Sansão para “começar a livrar a Israel da mão dos contribuído para tornar a estrutura instável, de
filisteus” (13.5). Mas o próprio Sansão se revela modo que, quando Sansão abraçou as colunas,
como uma pessoa superficial, sem a profundidade o templo veio abaixo. “Foram mais os mortos
espiritual nem a preocupação com os outros, que que [Sansão] matou na sua morte do que os que
assinalam os que são verdadeiramente devotos. matara na sua vida”.
Que diferença entre este epitáfio e o de outros
“E te daremos cada um mil e cem moedas de prata.” juizes, que comumente era: “E a terra sossegou”.
(Jz 16.1-21). O pagamento combinado de qua­ Sansão matou os inimigos de Israel. Mas este va­
se 68 quilos de prata era uma grande soma para rão forte, moralmente fraco, não conseguiu a paz
aquela época. Dalila estava tão ansiosa para obter para o seu próprio povo, nem para si mesmo.

156
Juizes 17—21

DEVOCIONAL_________
Agora, ou Nunca? Contexto
(Jz 16) O material contido nestes últimos capítulos do li­
A história de Sansáo e Dalila é uma das mais co­ vro de Juizes não é datado. Ele não é associado a
nhecidas das Escrituras. A paixão de Sansáo por nenhum juiz específico. Em vez disso, trata-se de
Dalila é lendária, assim como é a traição dela, por um material de “retratos de vida”: seções transver­
dinheiro. sais extraídas deste período, para revelar as con­
Porém, quando lemos a história, nós nos lembra­ sequências religiosas, pessoais e sociais do fato de
mos mais de crianças do que de adultos. Sansão e Israel ter deixado de servir a Deus. Estas histórias
Dalila, cada um deles queria desesperadamente o exemplificam o preço que as pessoas comuns paga­
que desejava... agora. Lendo a história, nós nos sur­ ram pela apostasia da nação.
preendemos que Sansão continuasse voltando para
Dalila quando ela disse, e tão claramente mostrou, Visão Geral
a sua intenção de traí-lo. Mas a paixão de Sansão Um efraimita, chamado Mica usou prata roubada
era tão dominante que ele não se preocupou com para fazer um ídolo, e recrutou um levita para ser­
o futuro. A sua única preocupação era que o seu vir como sacerdote da família (17.1-13). O levita
desejo fosse satisfeito agora. e o ídolo foram levados por danitas que procu­
Nós nos espantamos com a cegueira de Sansão. É ravam terra onde habitar. Eles estabeleceram um
muito mais fácil ver uma falha em alguém do que centro de adoração no norte, que competiu com o
em nós mesmos. Com que frequência nós toma­ Tabernáculo durante esta era (18.1-31). Quando
mos decisões porque queremos alguma coisa agora, homens de uma cidade de Benjamim violentaram
sem considerar o futuro? Com que frequência as e mataram a concubina de um levita, irrompeu a
nossas escolhas são feitas simplesmente com base guerra civil entre as outras tribos, praticamente eli­
na nossa vontade, sem que paremos para conside­ minando a tribo de Benjamim (19.1— 21.25).
rar a vontade de Deus? Entendendo o Texto
Sansão nos lembra de que nós, adultos, não pode­ “Agora sei que o Senhor me fará bem” (Jz 17.1-13).
mos adotar a perspectiva de vida de uma criança, A simples história de Mica e seu ídolo retrata as
e não podemos ser controlados por nossas paixões consequências religiosas do período. As mais claras
e desejos. e mais importantes exigências de Deus tinham sido
distorcidas ou perdidas.
Aplicação Pessoal Sob a Lei de Deus, (1) era proibido fazer ídolos,
Na escolha entre o agora e o nunca, o nunca é fre­ (2) somente os descendentes de Arão deviam servir
quentemente melhor. como sacerdotes, (3) os sacrifícios deviam ser feitos
somente no Tabernáculo, (4) e a bênção era um
Citação Importante resultado da obediência, e não da observância aos
“O amor desenfreado da carne é crueldade, porque, rituais. No entanto, Mica violou cada um destes
sob a aparência de agradar o corpo, nós matamos a princípios religiosos básicos — convencido de que
alma.” — Bernard de Clairvaux as suas ações mereciam a benevolência de Deus!
Há algo que talvez seja ainda mais revelador: Mica
25 DE FEVEREIRO LEITURA 56 foi capaz de encontrar um levita disposto a servir
RESULTADOS DA APOSTASIA como sacerdote para a família. Isso, apesar do fato
Juizes 17—21 de que os levitas eram comissionados por Deus a
ensinar a sua Lei em Israel.
“Naqueles dias, não havia rei em Israel, porém cada Esta história é contada em primeiro lugar, por uma
um fazia o que parecia reto aos seus olhos" razão muito simples. A falta de conhecimento de
(Jz 21.25). Deus é a causa principal do desmoronamento de
uma sociedade inteira.
Os livros de história raramente fornecem tanta in­
formação sobre um período como o fazem as his­ “E chamaram o nome da cidade Dã” (Jz 18.1-31).
tórias dos homens e mulheres que viveram então. A história continua, quando um grupo de danitas
Em três breves retratos de vida, o autor do livro que procurava onde habitar passou pela casa de
de Juizes nos mostra quão realmente sombria era Mica. Este grupo tinha abandonado a terra des­
esta época. tinada à tribo, pela pressão de forças estrangei­
157
Juizes 17—21

ras. Os danitas ofereceram ao levita de Mica um Segundo a Lei, a tribo de Benjamim era respon­
posto de sacerdote para toda a tribo. Ele aceitou sável por entregar os malfeitores, para que fossem
alegremente, e os danitas o levaram, e também aos punidos. Em vez disso, os benjamitas decidiram
ídolos de Mica. protegê-los.
Indo para o norte, os danitas atacaram uma cida­ Esta história final resume a análise que o autor faz
de “quieta e confiada”, e ali se estabeleceram. Esta do período. Ele começou com o declínio religioso,
história é significativa. Dã se tornou um impor­ passou pelo fracasso moral, e agora nos mostra o
tante local de adoração, e depois que o reino de impacto de rejeitar a Deus na sociedade como um
Salomão foi dividido, em 931 a.C., Dã foi con­ todo.
sagrada como um centro oficial de adoração pelo
apóstata Jeroboão I. “Arrependeram-se os filhos de Israel acerca de Benja­
A origem de Dã como centro de adoração se deve, mim” (Jz 21.1-25). Para preservar a tribo de Benja­
portanto, ao roubo de um ídolo, e ao serviço de mim, as outras tribos forneceram esposas, matando
um sacerdote não qualificado. Ela conservou esta os homens de uma cidade que deixaram de atender
característica ao longo de sua história. à convocação para a guerra, e inventando uma fic­
Quando edificamos para o futuro, precisamos ter ção religiosa.
um sólido alicerce de integridade. As tribos tinham jurado não “dar” esposas a ne­
nhum benjamita. Assim, eles decidiram permitir
“Nunca tal se fez, nem se viu” (Jz 19.1-30). A his­ que os homens de Benjamim, que precisassem de
tória do estupro e do assassinato da concubina de esposas, tomassem e levassem moças que pudessem
um levita por homens de Benjamim pretende dar a se casar, que participassem de uma festa religiosa
conhecer a situação moral em Israel. Nem um úni­ anual.
co participante desta história, e certamente nem o Aqui, vemos a tendência de Israel de romper re­
levita, é retratado como uma pessoa justa. gras. Não existe neste texto nenhuma sugestão de
que o povo apelasse a Deus pedindo orientação.
“Procederemos contra ela por sorte” (Jz 20.1-48). Em vez disso, eles confiaram no tipo de sofisma
Quando a tribo de Benjamim se recusou a entregar que ignorava a intenção de enfatizar o que está es­
os homens que tinham violentado e assassinado a crito na lei. Este tipo de atitude foi criticado poste­
concubina do levita, irrompeu uma guerra civil. riormente por Jesus, quando Ele condenou muitos
Sobreviveram apenas 600 homens de Benjamim. dos fariseus (cf. Mc 7.9-13).

DEVOCIONAL______
Integridade Moral concubina, quando a atirou pela porta em vez de
(Jz 19) defendê-la, nem na manhã seguinte, quando dis­
Alguém disse que as pessoas que vivem em casas se friamente ao seu corpo morto, “Levanta-te, e
de vidro não devem atirar pedras. Jesus esclareceu vamo-nos”.
isso, insistindo que nós devemos ignorar o argueiro A história é irônica, porque os levitas em Is­
do olho de outra pessoa até termos lidado com a rael deviam servir a Deus. Eles eram, com os
trave em nosso próprio olho. Há algo deste tipo, sacerdotes, os guardiões estabelecidos da Lei e
na história da concubina do levita. da moral. Quando um guardião perde toda a
O levita não desejava passar a noite em uma cidade sensibilidade moral e abandona os outros, ou
estrangeira (cananeia). Mas quando parou em uma os trata como objetos, a sociedade está verda­
cidade benjamita, os homens desta cidade recusaram deiramente perdida.
hospitalidade ao casal (v. 18). Mais tarde, eles tentaram O erro do levita é uma advertência para nós.
fazer dele a vítima de um estupro homossexual (v. 22). Sim, nós precisamos nos levantar contra a in­
Mas o levita fez sair a sua concubina, uma esposa se­ justiça e os pecados da nossa sociedade. Mas só
cundária, pela porta. Os benjamitas a violentaram du­ poderemos fazer isso estando em uma posição da
rante toda a noite, e ela morreu pela manhã. Cheio de integridade moral pessoal.
indignação moral, o levita cortou o corpo dela e enviou
partes a todas as outras tribos, pedindo vingança. Aplicação Pessoal
A ironia, naturalmente, está no fato de que o pró­ As nossas vidas, mais do que as nossas palavras, de­
prio levita não mostrou preocupação com a sua vem testemunhar a justiça.

158
Juizes 17—21

Citaçáo Importante homem faça alarde sobre o seu conhecimento da


“Muitas vezes falamos muitas palavras, mas es­ Lei, se ele minar os seus ensinos com os seus atos.”
tamos vazios em termos de ações, e por isso so­ — Antônio de Pádua
mos amaldiçoados pelo Senhor, uma vez que Ele
mesmo amaldiçoou a figueira quando náo encon­ O Plano de Leituras Selecionadas continua em
trou frutos, mas somente folhas. E inútil que um RUTE

159
RUTE

INTRODUÇÃO
O livro de Rute conta a história simples e bela de Noemi, uma mulher hebreia, e sua nora moabita, Rute.
A história de Rute e Noemi, cujas circunstâncias se dão nos dias sombrios dos juizes, lembra-nos de que,
até mesmo nas piores épocas, os homens e mulheres devotos vivem vidas tranquilas de fé.
O livro, provavelmente escrito durante o princípio da monarquia em Israel, é importante, por outras
duas razões. Ele examina a linhagem de Davi, um dos descendentes de Rute, e exemplifica o conceito do
Antigo Testamento do parente remidor, que, motivado pela lealdade familiar, age para salvar um parente
desamparado. Um dia, o Filho de Deus, Jesus Cristo, nascido nesta linhagem familiar, se tornaria verda­
deiramente Homem, para que pudesse ser o parente remidor da humanidade.

ESBOÇO DO CONTEÚDO
I. Rute Retoma a Israel com N oem i....................................................... Rt 1.1-22
II. Rute Colhe Espigas no Campo de Boaz........................................... Rt 2.1-23
III. Rute Procura Casar-se com Boaz .................................................... .Rt 3.1-18
IV. Nasce Obede, Filho de R u te.............................................................. Rt 4.1-22
GUIA DE LEITURA (1 Dia)
Se você tiver pressa, pode ler somente a “passagem essencial” na sua Bíblia, e o Devocional em cada ca­
pítulo deste Comentário.
Leitura Capítulos Passagem Essencial
57 1— 4 2— 3
RUTE
26 D E FEVEREIRO LEITURA 5 7
A HISTÓRIA DE RUTE
Rute 1— 4

“A onde quer que tu fores, irei eu e, onde quer que Visáo Geral
pousares à noite, ali pousarei eu; o teu povo é o meu Uma fome levou a família de Noemi a Moabe,
povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rt 1.16). onde os homens morreram (1.1-5). Uma nora,
Rute, retornou a Belém com Noemi (w. 6-22).
A história simples e emocionante desta “mulher Rute colheu espigas no campo de Boaz, um pa­
virtuosa” lembra-nos de que, por mais corrupta rente próximo de Noemi. A bondade dele (2.1-23)
que uma sociedade possa parecer, ainda podem ser incentivou Noemi a fazer com que Rute procuras­
encontrados indivíduos devotos. se um casamento com um parente remidor (3.1-
18). Boaz casou-se com Rute, e seu primeiro filho,
Definição dos Termos-Chave Obede, se tornou o avô de Davi, o maior rei de
Parente remidor. A palavra em hebraico é ga’al. A Israel (4.1-22).
sua raiz quer dizer “agir como um parente”, ou
cumprir as obrigações familiares. Na lei do Antigo Entendendo o Texto
Testamento, isso incluía, (1) resgatar a terra ven­ “Tornai, filhas minhas, ide-vos embora” (Rt 1.1-15).
dida por um parente pobre, para conservá-la na Em Moabe, morreram o esposo e os dois filhos de
família (Lv 25.25-28), (2) resgatar um parente da Noemi, deixando-a sozinha e a suas duas noras
escravidão (w. 48-55), (3) vingar um assassinato também. O curso normal, em tal situação, seria
(Nm 35.10-28), e (4) casar-se com a viúva sem que as viúvas mais jovens se casassem novamente.
filhos de um parente, sendo, neste caso, o primo­ De acordo com os costumes, se houvesse um filho
gênito considerado filho do parente morto (Dt mais jovem na família do marido, ele poderia to­
25.5-10). A palavra em hebraico expressa pode­ mar a viúva como sua esposa. Neste caso, a idosa
rosamente o sentimento da obrigação de auxiliar Noemi não tinha outros filhos, e assim, nenhum
os membros da família sempre que isso seja pos­ futuro a oferecer a nenhuma de suas noras. Mandá-
sível, e tem grandes consequências teológicas. Ao las embora tencionava ser um ato de bondade.
se tornar um verdadeiro Homem, um membro É trágico quando, como Noemi, sentimos que nos­
da família humana, Jesus se tornou nosso parente sos melhores anos já passaram, e não temos mais
remidor, aceitando a responsabilidade de pagar o nada a oferecer aos outros. No seu luto, Noemi
preço pela nossa redenção. Hebreus 2.14,15 diz: honestamente se sentia desta maneira. Mas uma de
“Visto como os filhos participam da carne e do suas noras discordava.
sangue, também ele [Jesus] participou das mes­
mas coisas, para que, pela morte, aniquilasse o “Não me instes para que te deixe”(Rt 1.16-22). Uma
que tinha o império da morte... e livrasse todos os das noras, Rute, via mais em Noemi do que a pró­
que, com medo da morte, estavam por toda a vida pria Noemi via. Talvez Rute sentisse em Noemi
sujeitos à servidão”. uma fé de que a própria Noemi tivesse se esqueci-
Rute 1—4

do. De qualquer forma, Rute assumiu um compro­ “Não é Boaz... de nossa parentela?” (Rt 3.1-18). O
misso — com Noemi, e com o Deus de Noemi. gentil tratamento que Boaz dispensou a Rute en­
Isso reflete o processo pelo qual homens e mulhe­ tusiasmou Noemi. Sendo parente, Boaz estava em
res, hoje, frequentemente encontram seu relacio­ posição de desempenhar o papel de parente remi-
namento pessoal com Deus. Os indivíduos são dor. Isso envolveria casar-se com Rute, trabalhar na
atraídos a um cristão, ou a cristãos, e por meio de­ terra da família, que teria sido herdada pelo filho
les, vêm a conhecer a Cristo. Bárbara, uma jovem de Noemi, que morrera, e dar a Rute um filho que
mãe, explicou como se tornou cristã. Ela tinha me daria continuidade à linhagem do marido de Noe­
ouvido falar em uma igreja, e achou interessante. mi. Subitamente, parecia a Noemi que ela teria um
Assim, ela veio para o nosso pequeno grupo de es­ futuro, afinal!
tudo bíblico, e, disse ela, “encontrei pessoas que Noemi, então, instruiu Rute a ir até à eira de
realmente me amavam”. A princípio, Bárbara se Boaz, à noite, e “descobrir-lhe os pés, e deitar-se”.
sentiu um pouco estranha, percebendo que não era Rute seguiu estas instruções. Quando Boaz acor­
“uma verdadeira cristã”. Mas ela foi aceita e amada dou, ela lhe pediu “estende, pois, tua aba sobre a
mesmo assim, e depois de alguns meses, recebeu a tua serva”.
Cristo como seu Salvador pessoal. O significado exato desta expressão e o significado
Quando compartilhamos nossas vidas com outras de descobrir os pés de Boaz se perderam no tempo.
pessoas, mesmo quando estamos enfrentando pro­ Alguns opinam que os pés foram descobertos para
blemas, como estava Noemi, alguma coisa sobre a que ficassem frios, assim despertando Boaz. Boaz
realidade do nosso relacionamento com Deus res­ interpretou o pedido de ser coberta pela aba como
plandece e atrai outras pessoas ao Senhor. uma proposta de casamento. Não existe aqui suges­
tão de imoralidade nesta parte da história, embora,
“Não vãs colher a outro campo” (Rt 2.1-23). A lei nas religiões pagãs, a eira possivelmente fosse asso­
Mosaica obrigava os proprietários de terras a dei­ ciada com ritos de fertilidade.
xarem aquela parte da colheita que caísse ao chão,
ou que ainda não estivesse madura, para os pobres. “Também tomo por mulher a Rute, a moabita" (Rt
O nome dado ao trabalho de ajuntar as sobras no 4.1-11). Por haver um parente mais próximo na
campo de outra pessoa era “colher”. cidade, Boaz tinha que oferecer a ele a primeira
Como Noemi e Rute não tinham outros meios oportunidade de servir como parente remidor.
de sustento, Rute saiu, para colher, em um cam­ Levítico 5.48-55 sugere que a ordem do relacio­
po próximo a Belém. O proprietário era Boaz, que namento passava dos irmãos aos tios, depois aos
tinha ouvido falar sobre Rute e a sua lealdade com sobrinhos. E impossível saber o parentesco exato
Noemi. Ele não somente a recebeu em seus cam­ de Boaz ou do outro candidato.
pos, como disse a seus lavradores que deixassem Quando o outro homem soube que resgatar a
alimento extra no chão para ela. terra da família envolvia o casamento com Rute,
A bondade de Boaz e a sua óbvia confiança em recusou-se a fazê-lo. Tomar a terra e também Rute
Deus (v. 12) sugerem que ele era o tipo de pessoa significaria, em primeiro lugar, pagar quaisquer dí­
que Deus desejava que cada israelita se tornasse, vidas da terra, sustentar Rute como sua esposa, e
quando deu a lei a Israel. Boaz, mais que qualquer depois dar a terra ao filho que ela pudesse gerar. O
outra pessoa nesta história, recorda-nos de que até custo parece ter sido maior do que o outro parente
mesmo em sociedades pecadoras podem ser encon­ estava disposto a pagar. Mas Boaz, que admirava
trados indivíduos devotos. Rute e a desejava como sua esposa, estava disposto
Mas Boaz era incomum para esta época? O seu avi­ a pagar qualquer custo para tê-la.
so aos seus lavradores para que não tocassem (vio­ O comunicado público de que estava exercendo o
lentassem) Rute, e a sua advertência a ela, para que direito de parente remidor e tomando Rute como
não fosse colher em outro campo, lembram-nos de sua esposa era tudo o que era exigido, naquela épo­
que a história tem lugar no tempo dos juizes, quan­ ca, para constituir casamento. A história apropria­
do “cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos” damente termina aqui, com os cumprimentos e vo­
(Jz 21.25). Boaz era uma exceção, um homem de­ tos de felicidade oferecidos pelos anciãos da cidade,
voto, numa época em que a impiedade era a regra. e outros habitantes (Rt 4.11,12).
Que incentivo para nós. Não importa o que os ou­
tros, à nossa volta, possam fazer; você e eu ainda “Ele te será recriador da alma” (Rt 4.13-18). Com o
poderemos seguir ao Senhor. Nós não temos que tempo, Rute teve um filho, e naquele filho encon­
nos render às más influências na nossa sociedade. E trou consolo e esperança. De certa forma, como
nem nossos filhos! o filho era considerado prole do próprio filho de
162
Rute 1—4

Noemi, ele era neto de Noemi; uma indicação de O amor de Rute, tão valioso quanto um filho
que a vida continuava, e de que Noemi não seria nos braços, é que foi capaz de renovar a vida de
esquecida. Noemi.
No entanto, mais comovedor é o elogio que as mu­ Que grande presente nós damos aos outros, quan­
lheres de Belém fizeram a Rute. Em uma época em do os amamos. O amor ainda é capaz de levantar
que ter filhos era a coisa mais importante na vida uma pessoa desalentada como Noemi, e renovar a
da maioria das mulheres, as mulheres de Belém po­ sua vida.
diam admirar “tua nora, que te ama...” e que “te é
melhor do que sete filhos”.

DEVOCIONAL______
A Escolha Correta comunidade, que tinha ficado impressionada com
(Rt 2— 3) suas muitas qualidades. Assim, Rute foi atraente
“Eu fiquei assustada”, disse Carrie ao conselheiro. para Boaz, não somente por sua juventude e beleza,
“Eu me dei conta de que os homens que eu namo­ mas pelo tipo de pessoa que ela era.
rava eram como o meu primeiro marido, que bebia Neste caso, as duas pessoas escolheram sabiamen­
demais, e me batia”. te — e a prudência de suas escolhas se reflete no
Os conselheiros reconhecem o problema. Homens caráter de seu bisneto, Davi.
e mulheres se veem atraídos a relacionamentos que Observe como nós, os cristãos de nossos dias, pre­
não são saudáveis. Eles não param para analisar o cisamos basear a nossa escolha de um cônjuge em
que realmente desejam no casamento, ou por que critérios semelhantes aos que foram usados por
acham tão atraente o tipo errado de pessoas. No Rute e Boaz. As coisas superficiais enfatizadas no
entanto, provavelmente não existe nenhuma es­ romance moderno — aparência, estilo, riqueza e
colha mais importante, que qualquer pessoa possa talentos sociais — não são a base para um com­
fazer, do que a de um cônjuge. E não existe um promisso que deve durar a vida toda, que é o ca­
livro mais útil, na escolha de um cônjuge, do que samento.
o livro de Rute.
A primeira impressão que Rute teve de Boaz foi a Aplicação Pessoal
da sua bondade. Até mesmo uma leitura apressada Nós precisamos ser cuidadosos ao estabelecer qual­
de Rute 2 mostra que Boaz era bondoso, em pala­ quer relacionamento de longa duração.
vras e atos. Ele era generoso, devoto e sensível aos
sentimentos de Rute (cf. w. 15,16). Embora Noe­ Citação Im portante
mi ficasse impressionada pela capacidade de Boaz “Não pode haver um fiel e verdadeiro aprendizado
de propiciar um lar e segurança, sem dúvida, as de Cristo quando não estamos dispostos a desapren­
qualidades pessoais de Boaz emocionaram Rute. der. Por herança, por educação, por tradição, nós
Boaz abençoou Rute pelo seu interesse por ele, em­ estabelecemos ideias sobre a vida, e eles, frequen­
bora ele fosse mais velho do que ela. Rute mostrou temente, são grandes obstáculos para que vivamos
lealdade com a família, procurando um parente a verdade. Conhecer a Cristo exige a disposição de
remidor, e a lealdade familiar era muito valorizada submeter cada valor que tenhamos à sua inspeção,
em Israel. Boaz também soube que Rute era uma para censura e correção.” — Andrew Murray
“mulher virtuosa”. A palavra “virtuosa”, aqui, é um
termo forte, que sugere mais do que bom caráter. O Plano de Leituras Selecionadas continua em
Rute era considerada uma mulher ideal por toda a HEBREUS

163
1 SAMUEL

INTRODUÇÃO
Os livros de 1 e 2 Samuel eram originalmente um único livro no cânone hebreu. Juntos, eles fornecem
a história completa da transição de Israel, de um grupo de tribos levemente aparentadas, governadas por
juizes, a uma monarquia unida e poderosa. O período abrangido é de aproximadamente 120 anos, de
1050 a 931 a.C.
1 Samuel examina o surgimento da monarquia por meio da história de três homens. Samuel serviu como
o último juiz de Israel. Ele ungiu o primeiro rei de Israel, Saul. Quando Saul provou não ter disposição
para obedecer aos mandamentos de Deus, Samuel, secretamente, ungiu Davi, para sucedê-lo. A ascensão
de Davi, depois que matou Golias, e a perseguição sofrida por parte de Saul, são relatadas neste livro, que
contém muitas histórias favoritas e familiares da Bíblia.

ESBOÇO D O CONTEÚDO
I. O Ministério de Samuel....................................................................................................................1 Sm 1— 7
II. O Governo de Saul.........................................................................................................................1 Sm 8— 15
III. A Ascensão de Davi....................................................................................................................1 Sm 16— 31

GUIA DE LEITURA (8 Dias)


Se você tiver pressa, pode ler somente a “passagem essencial” na sua Bíblia, e o Devocional em cada ca­
pítulo deste Comentário.

Leitura Capítulos Passagem Esse


58 1— 3 1
59 4— 7 6— 7
60 8— 12 10— 11
61 13— 15 15
62 16— 17 17
63 18— 20 18
64 21— 25 24
65 26— 31 27
1 SAMUEL
27 D E FEVEREIRO LEITURA 58
OS MELHORES DONS
1 Samuel 1— 3

“Todo o Israel... conheceu que Samuel estava confir­ lização. A sua dor é a mesma experimentada por
mado por profeta do Senhor” (1 Sm 3.20). cada pessoa que se sente inútil e um fracasso. No
caso de Ana, a sua ferida era mantida aberta, pela
Quando você ou eu sentirmos a frustração ou a de­ constante provocação de Penina, a segunda esposa
pressão, a história de Ana poderá nos ajudar. de seu marido, que tinha vários filhos e sentia um
prazer perverso em atormentar Ana por causa da
Contexto sua esterilidade.
Samuel nasceu na época dos Juizes. Durante a Durante anos, Ana chorou diante do Senhor quan­
maior parte da sua vida, o seu povo esteve limita­ do a família comparecia às festas religiosas, obser­
do à região montanhosa de Israel pelos poderosos vadas regularmente em Siló, onde o Tabernáculo
filisteus, na costa, e pelos amonitas, do outro lado esteve durante grande parte da era dos juizes. Fi­
do Jordão. Estes primeiros capítulos que falam da nalmente, Ana fez uma promessa — uma promessa
infância de Samuel, se concentram em importantes de que, se Deus lhe desse um filho, ela o entregaria
influências formativas sobre aquele que se tornou o para que ele servisse a Deus no Tabernáculo.
último juiz e o mais importante profeta, desde os Há muitas lições a aprender deste curto capítulo.
dias de Moisés. As biografias de muitos líderes cristãos falam de
mães que, antes mesmo de engravidarem, entrega­
Visão Geral vam seu futuro filho ao Senhor. Muitos anos de­
Ana prometeu dedicar seu filho ao serviço de Deus pois que iniciei o meu ministério, minha própria
se Ele lhe possibilitasse dar à luz (1.1-20). Depois mãe contou-me como tinha feito uma dedicação
de Samuel ter sido desmamado, ela cumpriu o seu similar — e deu continuidade a ela, com uma vida
voto (w. 21-28), expressando a sua alegria em uma de orações, para que minha irmã e eu pudéssemos
das mais belas orações das Escrituras (2.1-11). Sa­ servir a Deus. Nós devemos muito às mães devotas
muel cresceu sob a orientação do sacerdote, Eli, que veem os seus filhos como presentes de Deus,
cujos próprios filhos eram maus (w. 12-26) e fo­ que devem ser devolvidos a Ele.
ram julgados por Deus (w. 27-36). Por outro lado, Outra lição é encontrada no alto custo da promessa
Samuel exibia uma prontidão em ouvir a Deus que Ana fez. Ter um filho era o desejo mais profun­
(3.1-18) e logo foi reconhecido por Israel como do de Ana. No entanto, ela estava disposta a abrir
profeta (w. 19-21). mão deste tesouro, caso lhe fosse dado. Frequente­
mente, você e eu devemos entregar mentalmente a
Entendendo o Texto Deus o que mais desejamos, antes que estejamos
“Com amargura de alma, [Ana] orou ao Senhor e preparados para recebê-lo.
chorou abundantemente” (1 Sm 1.1-20). Ana era Samuel, o filho de Ana, cresceu e se tornou um
uma mulher sem filhos, em uma sociedade que dos maiores profetas do Antigo Testamento, e cer­
considerava o fato de gerar filhos como uma rea­ tamente o maior dos juizes. Como Ana deve ter se
1 Samuel 1—3

sentido orgulhosa ao ver que, à medida que Samuel cendentes de Arão. Desta maneira, os filhos de Eli
crescia, “todo o Israel... conheceu que Samuel estava serviam no sacerdócio, como seu pai tinha servido.
confirmado por profeta do Senhor”. Como é sábio Mas, embora Eli fosse devoto, seus dois filhos eram
entregar os nossos bens mais preciosos nas mãos “filhos de Belial”. Eles tratavam a oferta do Senhor
de Deus. Ele é muito mais capaz do que nós, de “com desprezo”, violando as regras dos rituais (w.
usá-los para a sua glória, e para a nossa completa 12-17), e usavam a sua posição para seduzir mulhe­
realização pessoal. res que vinham adorar (v. 22). Os dois ignoraram
a repreensão de seu pai. Apesar do exemplo deles,
“Lá fique para sempre” (1 Sm 1.21-28). Os filhos Samuel decidiu seguir o exemplo de Eli, e “ia cres­
hebreus normalmente desmamavam aos três ou, cendo e fazia-se agradável... para com o Senhor”.
até mesmo, aos quatro anos de idade. Assim sendo, Samuel e os filhos de Eli cresceram próximos ao lo­
Ana teve Samuel nestes preciosos anos de infân­ cal de adoração de Israel. Mas somente Samuel per­
cia. A resposta de Elcana ao anúncio de sua esposa, cebeu a realidade de Deus, e viveu na sua presença.
de que iria apresentar Samuel ao Senhor, é signi­ Ir à igreja pode ser uma experiência sem nenhum
ficativa. De acordo com a lei dos votos (Nm 30), significado para nós também, a menos que com­
um marido podia anular o voto da esposa, quando preendamos que vamos, junto com outros crentes,
o ouvisse. Aqui, Elcana confirma o voto de Ana: sentir a presença de Deus, e adorá-lo.
“Faze o que bem te parecer a teus olhos”.
Ana precisava de um marido devoto e compreen­ “Por que... honras a teus filhos mais do que a mim?"
sivo, pois os filhos eram bens que tinham até mes­ (1 Sm 2.27-36). O profeta que confrontou Eli pre­
mo um elevado valor econômico no antigo Israel. disse a morte de seus dois filhos, “no mesmo dia”.
Como é importante que um marido e uma esposa Ele fez esta pergunta ao velho sacerdote. Mas nós
compartilhem de um compromisso comum com podemos nos perguntar, o que mais poderia Eli ter
Deus. Deus nos aconselha a não nos casarmos com feito?
pessoas que não tenham a mesma fé que temos; o A resposta é amarga. Eli certamente conhecia as
objetivo desta atitude não é nos negar algum pra­ histórias de outros sacerdotes que tinham tratado
zer. Esta regra é um preceito sábio e amoroso, que com desprezo o altar de Deus, e tinham sido mor­
tem o propósito de nos dar lares unidos e felizes. tos pelo Senhor (cf. Nm 16). Eli poderia pelo me­
nos ter tirado seus filhos do sacerdócio. Na melhor
“O meu coração exulta” (1 Sm 2.1-10). Nós pode­ das hipóteses, ele teria seguido a antiga lei que per­
mos imaginar a angústia de Ana, quando se aproxi­ mitia que os pais, cujos filhos fossem incorrigíveis,
mava do Tabernáculo de Siló, de mãos dadas com os acusassem perante os anciãos, com a pena de
o pequeno Samuel, sabendo que deveria deixá-lo morte, caso considerados culpados (Dt 21.18-21).
ali e retornar sozinha para casa. No entanto, depois A falta de ação de Eli mostrou que honrava seus
de ter entregue o filho, Ana repentinamente se en­ filhos mais do que honrava a Deus, a quem seus
controu cheia de alegria! O Espírito Santo de Deus filhos tratavam com desprezo.
tinha preenchido o vazio que ela temia. Há ocasiões em que os pais devem se posicionar
Haveria momentos de solidão à frente. Certamente, do lado contrário dos seus filhos. Uma mãe ou um
Ana sentiria falta de seu filhinho. Mas este cântico pai, que constantemente intervém para ajudar seus
de louvor, em que Ana contemplava a grandeza de filhos a evitar as consequências de seus maus atos,
Deus, é testemunho do consolo que ela encontrou os condena. E o mesmo caso da falta de ação de
na sua fé. Um consolo que também está disponível Eli contra os seus filhos, que tornou a morte de­
para você e para mim. les inevitável. O ditado, “O sangue é mais espesso
Nós vemos que Deus também consolou Ana de do que a água”,1 deve ser equilibrado por outro:
uma maneira prática. Ela via seu filho nas festas “Aquilo que é certo é mais importante do que o
religiosas anuais. E Deus deu a ela mais três filhos relacionamento”.
e duas filhas (v. 21). E bom lembrar que não pode­
mos jamais superar a Deus em termos de doação. “Fala, porque o Teu servo ouve” (1 Sm 3-1-21). A
palavra “ouvir”, em hebraico, é muito significativa.
“Eram, porém, osfilhos de Eli filhos de Belial” (1 Sm “Ouvir (a mesma palavra em hebraico) implica não
2.12-26). O sacerdócio em Israel era hereditário, somente o ato físico, mas também processar e rea­
um papel a ser desempenhado somente pelos des­ gir ao que é dito”. Assim, quando o salmista pede a

‘N. do E.: Este ditado significa que a família deve ser o mais importante.

166
1 Samuel 4— 7

Deus “ouve a minha oração”, ele está pedindo que continuaram pecando. Foi a disposição de Samuel
Deus aja. E quando Samuel disse a Deus, “o teu em “ouvir” que o fez adequado para ser um instru­
servo ouve”, estava expressando a sua prontidão em mento de Deus em um período crítico da história
responder a tudo o que Deus dissesse. sagrada.
Aqui o autor destaca o contraste entre a atitude de Não há nada mais importante, para alguém que
Samuel com relação a Deus, e a atitude dos filhos deseja ser usado por Deus, do que adotar a atitude
de Eli, que “não ouviram a voz de seu pai”, mas de Samuel: “Fala, porque o teu servo ouve”.

DEVOCIONAL______
O nde Procurar Consolo Citação Im portante
(1 Sm 1) “Qual é o mandamento associado a receber aquilo
Eu acho fácil sentir-se como Ana, tão desanimada que o nosso coração deseja? ‘Deleite-se’. A expres­
e deprimida pelo que teria parecido um fracasso são ‘deleitar-se’ significa ser brando e maleável. Nós
total. Eu suspeito que todos nós tenhamos nossos poderíamos dizer: ser moldável e educáveí. O signi­
momentos de depressão. Momentos em que a vida ficado é mais do que se sentir feliz ou entusiasmado
parece sombria e vazia, como se todos os resultados a respeito de Deus.” — Earl D. Wilson
fossem maus.
Com Ana, a situação havia ultrapassado os limites. 28 D E FEVEREIRO LEITURA 59
A dor era tão grande que o seu coração tinha se tor­ A ARCA PERDIDA
nado amargo. Na sua amargura, o alimento perdeu 1 Samuel 4— 7
todo o atrativo, e ela era incapaz de comer (v. 7).
No caso de Ana, o problema foi resolvido quando “Deus veio ao arraial” (1 Sm 4.7).
ela fez sua promessa a Deus, e o Senhor atendeu
à sua oração. Para alguns de nós, a resposta não Nós jamais devemos julgar os símbolos da nossa
vem tão rapidamente. Ou, às vezes, nunca. Assim, fé como sendo realidade. No entanto, para muitas
é importante saber onde procurar consolo durante pessoas, os símbolos são importantes.
os momentos amargos.
A resposta é vista na descrição que o texto faz de Definição dos Termos-Chave
Elcana, marido de Ana. A Bíblia diz que “ele a A Arca do Concerto, ou Testemunho. A Arca era o
amava”. Em vez de censurá-la por não gerar filhos, objeto mais sagrado na religião de Israel. Este ob­
Elcana tentava consolá-la, dizendo, “Não te sou eu jeto, com a forma de uma caixa, revestido de ouro,
melhor do que dez filhos?” Está claro que, apesar continha recordações do Êxodo — particularmente
do que Ana sofria, o seu marido era uma bênção as tábuas de pedra que continham os Dez Man­
constante e presente. damentos, e um vaso de maná. Dois querubins de
E aqui que você e eu devemos encontrar consolo, ouro foram colocados sobre a sua tampa, com suas
enquanto esperamos que Deus alivie a nossa dor. asas cobrindo o seu centro, onde, todos os anos, o
Não em uma esposa ou em um marido amoroso. sumo sacerdote espargia sangue dos sacrifícios, no
Mas em quaisquer bênçãos presentes que Deus Dia da Expiação. A arca, que simbolizava a presença
possa nos dar. Precisamos nos concentrar nas boas de Deus entre o seu povo, devia ser conservada no
coisas, pois nelas encontramos evidência de que santuário mais interior do Tabernáculo. O ato dos
Deus não nos abandonou. Nelas, encontramos evi­ filhos de Eli, removendo-a, mostrava tanto o seu
dência de que somos amados, ainda que possamos desprezo pelos mandamentos de Deus quanto um
sentir desespero. respeito supersticioso pela arca, como um símbolo.
Concentrar-se nas boas dádivas de Deus não re­
moverá a dor imediatamente. Mas pode torná-la Visão Geral
suportável. E, com o tempo, recebamos ou não o Os filisteus mataram os dois perversos filhos de Eli
que desejamos, a consciência do amor de Deus irá em batalha, e capturaram a Arca do Testemunho
nos sustentar e nos levará a sentir alegria. (4.1-22). Pragas assustaram os filisteus e os fizeram
devolver a arca (5.1-21). Aproximadamente 20 anos
Aplicação Pessoal depois, Samuel conduziu Israel de volta a Deus (7.1-
Deus dá boas dádivas a todos. Tudo o que preci­ 6). Deus, então, ajudou os israelitas a obter uma vi­
samos é a sabedoria para reconhecê-las, e a graça tória esmagadora contra os filisteus em Mispa, e os
para apreciá-las. protegeu durante toda a vida de Samuel (w. 7-17).
167
1 Samuel 4—7

Nós podemos nos orgulhar da beleza de nossas


igrejas ou catedrais. No entanto, a verdadeira glória
de Deus não se encontra nelas, mas no seu amor e
na sua graça.
“O Senhor... os assolou... e osferiu com hemorroidas”
(1 Sm 5.1— 6.21). Quando a Arca de Deus foi co­
locada no templo de Dagom, um deus filisteu, o
ídolo caiu diante da Arca. Até mesmo um símbolo
de Deus é maior do que os deuses dos pagãos.
Muitos acreditam que os “tumores” (ARA) que
Deus enviou eram realmente hemorroidas. Que
conveniente que os filisteus não pudessem nem
mesmo se sentar confortavelmente na presença da
Arca de Deus!
Por fim, os filisteus concluíram que o Deus de
Israel causou o seu desconforto, e devolveram a
Arca. Durante vinte anos, ela permaneceu como
propriedade de um homem chamado Abinadabe.
“Porquanto olharam para dentro da arca do Senhor”
(1 Sm 6.19). Quando os israelitas olharam para
Os arqueólogos recuperaram muitos artefatos filisteus dentro da Arca com curiosidade, Deus os feriu.
que mostram um elevado nível de cultura material, e Por quê? Os dois filhos de Eli tinham demonstra­
desenvolvimento artístico. Os filisteus eram muito su­
do um desprezo a Deus, ao ignorarem as regras
periores aos israelitas em suas habilidades, porém muito
que Ele havia determinado para a condução da
inferiores em termos de religião.
adoração. Estes homens demonstraram desprezo
por Deus ao tratarem a Arca, um objeto sagrado,
Entendendo o Texto como se fosse um objeto comum. Embora o sím­
“Deus veio ao arraial” (1 Sm 4.1-11). A reação dos bolo não seja a realidade, os símbolos daquilo que
filisteus, quando a Arca foi trazida ao acampamen­ é sagrado devem ser tratados com respeito.
to dos hebreus, nos informa sobre a sua religião.
Eles adoravam ídolos, e supuseram que o Deus de “Os filhos de Israel... serviram só ao Senhor” (1 Sm
Israel também era um ídolo. O que é mais impor­ 7.1-6). Quando Samuel atingiu a idade adul­
tante, no entanto, é a reação de Israel. O povo de ta, ele pôde conduzir Israel de volta ao Senhor.
Deus gritou de alegria, pois eles também acredi­ Samuel foi reconhecido como um porta-voz de
tavam que o próprio Senhor se identificasse com Deus (3.20). Quando ele prometeu que Deus
este objeto. libertaria o seu povo da opressão dos filisteus, o
Nós podemos valorizar símbolos do que é sagrado. povo creu nele.
Mas jamais devemos confundir estes símbolos com As vezes, somente o sofrimento nos impulsiona a
Deus, ou confiar neles como se fossem o próprio retornarmos a Deus. Se isso for necessário, Deus
Deus. Como Jesus nos ensinou: “Deus é Espírito, e nos abençoará com sofrimento.
importa que os que o adoram o adorem em espírito
e em verdade” (Jo 4.24). “O Senhor lhe deu ouvidos” (1 Sm 7.7-17). Quan­
do os filisteus atacaram uma convocação religiosa
“Foi-se a glória de Israel” (1 Sm 4.12-22). Na bata­ em Mispa, Israel lhes resistiu, enquanto Samuel
lha, os filhos de Eli foram mortos, e a Arca, cap­ orava. A Bíblia diz que o Senhor respondeu ao
turada. A perda da Arca era um desastre, mas não seu servo. Samuel tinha ouvido a Deus durante
porque fosse um “deus”. A Arca era o único lugar toda a sua vida. Agora, Deus o ouvia. A obediên­
onde o sangue podia ser espargido no Dia da Ex­ cia à Palavra de Deus lança um bom alicerce para
piação, para purificar Israel do pecado. A verdadei­ a oração.
ra glória de Deus, exibida na sua bondade e no seu O texto nos diz que Samuel julgou (“governou”)
amor perdoador, tinha verdadeiramente deixado Israel todos os dias da sua vida. Durante este perí­
Israel. O povo de Deus não tinha como se aproxi­ odo, a força israelita cresceu, e, por fim, eles con­
mar do Senhor, para encontrar perdão. seguiram expulsar os filisteus de suas terras.
168
1 Samuel 8— 12

DEVOCIONAL_________
Os Símbolos e a Realidade em termos da maneira como fazem o seu trabalho
(1 Sm 6— 7) diário, e do espírito amoroso que demonstrem dia­
A Arca de Deus era o símbolo que Ele havia esco­ riamente no seu contato com as outras pessoas, é
lhido para a sua presença com Israel. A Arca não que o cristianismo poderá influenciar esta vida mo­
era Deus. Ele não habitava nela. Mas, de uma ma­ derna, que é tão pesada, servindo como o fermento
neira real, ela o representava. Como tal, o símbolo de Deus.” — Leslie D. Weatherhead
devia ser tratado com respeito.
Quando os filisteus vitoriosos levaram a Arca para 1 DE MARÇO LEITURA 60
o templo de seu deus, eles a viram como um troféu. _ O PRIMEIRO REI DE ISRAEL
Ali colocada, a Arca simbolizaria a superioridade 1 Samuel 8— 12
da sua divindade sobre o Deus de Israel. Em lugar
disso, o ídolo de Dagom, caído e quebrado, provou “Dá-nos um rei, para que nos julgue” (1 Sm 8.6).
que somente o Senhor é verdadeiramente Deus.
Quando uma praga de hemorroidas irrompeu nas A história da transição de Israel para uma monar­
cidades dos filisteus, eles souberam o motivo. O quia nos lembra que a raiz dos nossos problemas
Deus de Israel era tão santo que os filisteus não po­ frequentemente está em nós mesmos.
diam sequer sobreviver à presença de um símbolo
que o representava. Definição dos Termos-Chave
Quando a Arca retornou, Deus feriu muitos do Rei. Na época do Antigo Testamento, os reis con­
seu próprio povo, aqueles que olharam para dentro trolavam todas as funções do governo — legislati­
dela com curiosidade, tratando-a como se fosse um va, executiva e judicial. O povo devia total lealdade
objeto comum e não algo consagrado e sagrado. ao seu governante, e este, por sua vez, protegia o
Cada um destes eventos nos ajuda a compreender seu povo, liderando-o nas guerras, assim como nos
aqueles que hoje em dia dão importância aos sím­ tempos de paz.
bolos cristãos. Os vitrais, as igrejas, os órgãos, as Da maneira como foi originalmente concebida,
cruzes, os rituais, os presépios cristãos, e até mesmo Israel era uma teocracia — um povo cujo Rei era
os santuários à beira das estradas, não devem ser Deus. No concerto da Lei do Antigo Testamento,
identificados com Deus, como se Ele estivesse pre­ Deus se comprometeu a lutar as batalhas de Israel,
sente neles. No entanto, cada um deles serve como e a fazer com que a nação prosperasse. Em retri­
um símbolo daquilo que é sagrado. Cada um de­ buição, o povo devia obedecer às leis promulgadas
les pode fazer os crentes se lembrarem de Deus, e, pelo seu Monarca, e dedicar-lhe completamente a
através desta lembrança, convidá-los à adoração. sua lealdade.
Você e eu não confiamos nos símbolos na nossa O papel do rei nos tempos do Antigo Testamento,
adoração, sabemos que não são necessários, e en­ e o ensinamento das Escrituras de que o próprio
tendemos que são um obstáculo à verdadeira ado­ Deus era o Rei de Israel, nos ajudam a ver por que
ração. Mas a Arca de Deus, que era sagrada na era os pedidos de Israel, por um monarca humano,
do Antigo Testamento, lembra-nos de que Deus eram, na verdade, uma rejeição ao Senhor.
fala a algumas pessoas por meio de símbolos. E
quando Ele o faz, o símbolo passa a ter alguma Unção. O ato de derramar azeite sobre a cabeça
utilidade. de uma pessoa. A unção era um ato simbólico de
consagração de pessoas que Deus tinha escolhido
Aplicação Pessoal para uma função especial, como um sacerdote ou
Aqueles que possuem algum símbolo religioso pre­ um rei.
cisam ter a certeza de que estes realmente dirijam
os seus pensamentos a Deus. Visão Geral
O pedido de Israel por um rei significava rejeição a
Citação Im portante Deus (8.1-22). Samuel ungiu Saul particularmente
“Está claro que nada que a igreja organizada consi­ (9.1— 10.8), e posteriormente o apresentou pu­
ga fazer através dos seus cultos, por meio de livros blicamente como o escolhido de Deus (w. 9-27).
religiosos, pelo rádio ou pela televisão, irá realizar Depois que Saul conduziu Israel à vitória sobre os
a mudança necessária. Somente à medida que os amonitas (11.1-11), o povo o confirmou como go­
indivíduos consigam traduzir o seu cristianismo vernante (w. 12-15). Samuel abdicou da liderança

169
1 Samuel 8— 12

política, mas aconselhou Israel a obedecer a Deus, e “Ele livrará o meu povo da mão dos filisteus” (1 Sm
prometeu orar constantemente por eles (12.1-25). 9.1— 10.8). O texto descreve uma série de even­
tos que deixam claro que o Senhor supervisionou
Entendendo o Texto pessoalmente a escolha de Saul. A perda de várias
“Constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós... como jumentas levou Saul a uma viagem que o condu­
o têm todas as nações” (1 Sm 8.1-22). Moisés tinha ziu, passo a passo, a Samuel. Deus identificou Saul
predito que, um dia, Israel teria um rei (cf. Gn como aquele que Ele desejava que governasse o seu
49.10; Nm 24.17; D t 17.14-20). Mas o motivo povo. Depois que ungiu Saul como rei, Samuel fez
pelo qual os anciãos de Israel pediram que Samuel uma série de predições com a intenção de conven­
lhes indicasse um rei era errado. cer aquele jovem relutante de que Deus realmente
Deus tinha controlado os filisteus durante todo o o tinha escolhido (10.2-7).
longo governo de Samuel como juiz (1 Sm 7.13). Uma pergunta que incomoda os crentes é: Por que
Mas os filhos de Samuel, que ele imprudentemente Deus escolheu Saul, tendo em vista os erros poste­
tinha indicado como juizes, aceitaram subornos. riores que este homem cometeu? Deus pretendia
Este fato, aliado à idade avançada de Samuel, criou mostrar ao povo os erros que eles cometiam, atra­
uma incerteza sobre o futuro. A necessidade pa­ vés da escolha de um líder imperfeito? De modo
receu urgente quando os amonitas se prepararam nenhum. O povo tinha pedido um líder que saís­
para atacar Israel (12.12). Em vez de perguntar a se adiante deles, e fizesse as suas guerras. Quando
Deus o que deviam fazer, os anciãos de Israel pro­ Deus ordenou a Samuel que ungisse Saul, o Senhor
curaram maneiras pagãs de lidar com o vácuo de li­ lhe disse: “Ele livrará o meu povo da mão dos fi­
derança. Eles pediram um rei “como o têm todas as listeus” (9.16). Deus deu a Israel um rei que faria
nações”. Deus enfatizou, para um Samuel visivel­ exatamente o que o povo pediu!
mente preocupado, que o pedido era, na verdade, Nós precisamos avaliar cuidadosamente as nossas ora­
uma rejeição a Ele, pois desde o Exodo o próprio ções. O que pedimos é realmente o que necessitamos?
Senhor tinha agido como Rei de Israel. O que pedimos é realmente o melhor para nós?
Samuel advertiu Israel, mostrando os erros que O que Israel deveria ter pedido era um rei que tivesse
havia no sistema pagão. Os reis exigem impostos, um relacionamento íntimo com Deus. Um rei que
tomam os mais inteligentes e melhores para servir responderia positivamente a Deus, e que conservaria
em suas administrações, e até mesmo transferem as Israel na santa presença do Senhor. O fato de, depois
propriedades dos cidadãos a seus auxiliares (8.10- que as imperfeições de Saul foram plenamente reve­
18). Mas o povo insistiu. Eles queriam desespera­ ladas, o Senhor ter dado ao seu povo um rei como
damente ser “como todas as outras nações; e”, dis­ Davi, foi uma grande graça de Deus.
seram eles, “o nosso rei nos julgará, e sairá adiante
de nós, e fará as nossas guerras” (v. 20). “Vedes já a quem o Senhor tem elegido” (l Sm 10.9-
Como os antigos israelitas, os cristãos modernos 26). Um dos meios usados no Antigo Testamento
podem se precipitar ao buscarem soluções secula­ para determinar a vontade de Deus, era lançar a
res. Em tempos de incerteza, nós frequentemente sorte. Outro meio eram o Urim e Tumim — pro­
nos voltamos para o mundo. Há pastores que, por vavelmente pedras preciosas, que indicavam sim
terem dificuldades para liderar a igreja, se inscre­ ou não — que eram levadas pelo sumo sacerdote.
vem em seminários sobre administração. Missio­ Aqui, um destes meios foi usado para indicar a es­
nários ansiosos por alcançar um mundo perdido colha que o Senhor fez de uma tribo, de um clã, de
procuram, nas estatísticas, o melhor método para o uma família e, finalmente, de um indivíduo.
crescimento da igreja. Pais desesperados em busca Saul, possivelmente levado por uma modéstia co­
de orientação experimentam a psicologia popular. movedora, ou talvez, pelo medo, foi encontrado
Embora cada uma destas coisas possa ser de alguma escondido em meio à bagagem. Ele era uma figura
utilidade, cada sistema secular tem as suas desvan­ imponente, “mais alto do que todo o povo, desde o
tagens. Mas, o que é mais trágico, cada uma delas ombro para cima”. Com base da altura média dos is­
serve como substituto para maneiras melhores, que raelitas daquele tempo, Saul provavelmente mediria
Deus indicou na sua Palavra, para os crentes. entre 1,90 e 2 metros de altura. Saul foi apresentado
A insistência de Israel em uma monarquia, a ao povo, e a maioria das pessoas ficou impressionada
esta altura de sua história, nos serve como uma pela sua altura, e clamou, “Viva o rei!”
advertência. Quando enfrentamos a incerteza, Como Israel, nós frequentemente ficamos impres­
devemos procurar a resposta de Deus, em vez sionados pela aparência. O convite de Israel, “Ve­
de adotarmos as soluções do mundo, e sermos des...”, nos lembra que não devemos julgar pelas
“como todos os outros”. aparências, mas procurar a honradez e o caráter.
170
1 Samuel 8— 12

“Vamos nós... e renovemos ali o reino” (1 Sm 11.1- “Assim vós, como o rei que reina sobre vós, seguireis
15). O ataque amonita em Jabes-Gileade pode ter o Senhor, vosso Deus” (1 Sm 12.6-25). Samuel en­
sido um desafio direto a Saul, que, como benjami- tregou as rédeas do poder político a Saul na con­
ta, podia ter antepassados nesta cidade (Jz 21.9- gregação pública em Gilgal, embora permanecesse
16). Saul reuniu Israel e conduziu o povo à vitória. como líder espiritual (cf. v. 23). As suas palavras
A vitória solucionou quaisquer dúvidas ainda exis­ foram dramáticas. Samuel relembrou o quanto
tentes, e Saul foi confirmado como rei por todo o Deus tinha sido fiel quando Israel o considerava
povo em Gilgal. O tratamento gracioso que Saul governante, e deixou claro que o motivo de Isra­
dispensou àqueles que, antes, se recusaram a reco­ el, em procurar um rei naquela época, era errado.
nhecê-lo, foi notável (1 Sm 11.12,13). Também o Para enfatizar isso, Deus enviou trovões e chuvas
foi a humilde atitude de Saul, quando deu o crédi­ destruidoras. Como a colheita do trigo ocorre na
to pela vitória “ao Senhor [que] fez um livramento estação seca em Israel, isto foi considerado como
em Israel” (v. 13). um sinal milagroso, e levou Israel a admitir que o
seu pedido por um rei tinha sido um pecado.
“Em nada nos defraudaste, nem nos oprimiste” (1 Samuel responde por nós, assim como por Israel.
Sm 12.1-5). Poucos líderes políticos ou espirituais “Não temais; vós tendes cometido todo este mal;
podem concluir suas carreiras como Samuel. Ele porém não vos desvieis de seguir ao Senhor”. O
liderou por amor ao povo e por amor a Deus, e não pecado é errado, mas Deus não irá rejeitar a pessoa
por ganho pessoal, ou por poder. que se afasta do pecado e se apega fielmente a Ele.

DE V OCIONAL_______
Plenamente Equipado Saul mais uma vez foi cheio do Espírito quan­
(1 Sm 10— 11) do convocou a nação para combater os amonitas
Cada criança que frequenta a Escola Dominical (11.6,7). Deus deu a Saul uma capacitação especial
está familiarizada com o erro de Saul. Ele é o rei quando veio a crise.
imperfeito, o inimigo vingativo de Davi, que repe­ E a vitória de Saul foi evidência da presença de
tidas vezes desobedeceu a Deus. Não é de admirar Deus. O novo rei percebeu que “o Senhor fez um
que alguns questionem se Deus escolheu delibera­ livramento em Israel” (v. 13).
damente um homem que iria falhar, como punição O que isso mostra é que Deus não fez nada que
para aqueles que insistiam em pedir um rei. Deus pudesse ter provocado os erros posteriores de Saul.
preparou uma cilada para Israel? A escolha que Em vez disso, o Senhor fez todo o possível para
Deus fez de Saul foi somente para que Ele pudesse capacitar Saul para o sucesso! Como afirma o Novo
dizer: “Não vos avisei”? Testamento: “Deus não pode ser tentado pelo mal
Esta pergunta encontra sua resposta clara e firme e a ninguém tenta. Mas cada um é tentado, quando
no texto. E esta resposta é não. Na verdade, Deus atraído e engodado pela sua própria concupiscên­
preparou Saul completamente — não para o fra­ cia” (Tg 1.13,14).
casso, mas para o sucesso. Que importante mensagem para nós. Quando
Observe. Saul recebeu sinais para assegurar que Deus nos convoca para qualquer tarefa, Ele deseja
ele percebesse que tinha sido escolhido por Deus que tenhamos sucesso! E Ele fornece todos os re­
(10.1-7). Deus imediatamente fez com que Saul cursos de que necessitamos para alcançar o sucesso.
soubesse que Ele estava pessoalmente envolvido na Se nos conservarmos próximos a Ele, evitaremos a
escolha de Saul, e na sua vida. tragédia que posteriormente se abateu sobre Saul,
Saul foi cheio com o Espírito de Deus, e, o texto o primeiro rei de Israel.
diz: “Deus lhe mudou o coração em outro” (w.
9,10). Deus operou em Saul para torná-lo sen­ Aplicação Pessoal
sível a Ele. Como cada um de nós tem defeitos, é vital que nos
Saul repentinamente foi capaz de profetizar, pro­ mantenhamos próximos ao Senhor.
vocando assombro naqueles que o conheciam (v.
11). Deus preparou os conhecidos de Saul para a Citação Importante
sua nova função. “A cada pensamento da Palavra que a sua inteli­
Saul foi publicamente escolhido por Deus em Gil­ gência compreender, curve-se diante de Deus com
gal (w. 20-24). Deus deixou claro, para toda a na­ dependência e confiança. Creia, com todo o cora­
ção, que Saul era a sua escolha. ção, que Deus pode fazer todas as coisas, e que fará
171
1 Samuel 13— 15

o melhor por você. Peça que o Espírito Santo opere Gilgal antes de algum grande confronto, e que es­
no seu coração até que a Palavra se tome a força da perasse ali durante sete dias (cf. 10.8). Mas esperar
sua vida.” — Andrew Murray foi demais para Saul, que entrou em pânico quando
viu desertarem mais homens de seu pequeno exér­
2 DE MARÇO LEITURA 61 cito. Em vez de esperar por Samuel, o próprio Saul
. AS FALHAS DE SAUL ofereceu sacrifício ao Senhor. Saul pecou ao oficiar
1 Samuel 13— 15 este sacrifício. Somente os sacerdotes deviam servir
no altar. Com esta atitude, Saul desobedeceu à or­
“Porquanto tu rejeitaste a palavra do Senhor, ele tam­ dem de Samuel de esperar, e à proibição de Deus
bém te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1 Sm de que qualquer pessoa, exceto os descendentes de
15.23). Arão, oferecesse sacrifícios. Aqui, “nesciamente” é
uma palavra forte, que sugere não somente uma
O sucesso frequentemente gera orgulho. Quando isso falta de entendimento, mas uma falta de caráter
acontece, existe um perigo real de que nós não mais moral. Sob pressão, Saul mostrou que falhou pro­
confiemos no Senhor — nem obedeçamos a Ele. fundamente. O texto acrescenta uma nota irônica.
Posteriormente, Saul contou, e descobriu que ele
Visão Geral ainda tinha 600 homens. Era o dobro dos 300 com
Ao enfrentar um poderoso exército filisteu, Saul que Gideão, anteriormente, derrotou um exército
entrou em pânico e oficiou um sacrifício, em vez inimigo similar.
de esperar por Samuel (13.1-15). No entanto, os
mal equipados israelitas (w. 16-22), liderados por Armas de ferro (1 Sm 13.16-22). E verdade que Is­
Jônatas, filho de Saul, atacaram (14.1-14) e der­ rael não tinha armas. O segredo filisteu de fundir o
rotaram o inimigo (w. 15-23). A intervenção do ferro lhes tinha dado uma inquestionável superio­
exército salvou Jônatas, que inadvertidamente in­ ridade militar. Mas Gideão derrotou seu inimigo
fringiu a ordem de Saul (w. 24-52). Ironicamente, com 300 cântaros, 300 tochas, e 300 trombetas.
o homem que se dispôs a executar seu filho, por Se Saul tivesse se lembrado do que Deus fizera, ele
desobedecê-lo inconscientemente, desobedeceu teria sido menos temeroso e mais disposto a obe­
conscientemente a Deus, e foi rejeitado pelo Se­ decer.
nhor (15.1-35).
“Isso nos será por sinal” (1 Sm 14.1-14). O texto
Entendendo o Texto apresenta Jônatas, o filho de Saul, que atacou um
“Os homens de Israel que estavam em angústia”(1 Sm posto avançado filisteu depois de procurar e rece­
13.1-7). Os filisteus eram o principal inimigo de ber um sinal de que “o Senhor os tem entregado na
Israel durante este período. Eles controlavam a cos­ nossa mão”. Jônatas e suas armas também eram em
ta. Arqueólogos encontraram evidências de postos menos número do que os inimigos. Mas Jônatas,
avançados filisteus, até o vale do Jordão. Quando o diferentemente de Saul, confiou completamente
filho de Saul atacou um destes postos avançados, os em Deus, e não temeu.
filisteus ajuntaram um grande exército para esma­
gar o levante dos hebreus. “Retira a tua mão” (1 Sm 14.15-23). Depois da
Anteriormente, os homens de Israel responderam vitória de Jônatas, Deus lançou temor no arraial
à convocação de Saul, e combateram os amoni- filisteu. Saul, ouvindo a agitação, pediu que um sa­
tas (11.7). Agora eles correram, e se esconderam, cerdote usasse o éfode [não a “Arca”] para consultar
e alguns até mesmo deixaram o país. Muitos dos a Deus. A medida que o tumulto do outro lado do
homens do pequeno exército de 3 mil homens de vale aumentava, Saul não pôde esperar, e disse ao
Saul começaram a desertar. Na descrição da bata­ sacerdote: “Retira a tua mão”. Ou seja, ele disse,
lha amonita, o texto diz que Israel foi motivado “não se preocupe”, e partiu em batalha.
pelo “temor do [respeito ao] Senhor”. Mas o que Apesar do comportamento de Saul, o Senhor aju­
todos eles sentiam era medo dos filisteus. dou Israel. Os filisteus começaram a fugir, e os is­
O Antigo Testamento diz, corretamente, que “o raelitas que tinham se escondido acompanharam a
temor do Senhor é o princípio do saber” (Pv 1.7, perseguição.
ARA). E loucura não ver o fato de que Deus é mais
poderoso do que qualquer adversário humano. “Todo o povo se absteve de provar pão” (1 Sm 14.24-
45). Saul proferiu uma maldição sobre qualquer
“Agiste nesciamente” (1 Sm 13.8-15). Anteriormen­ israelita que comesse até que a batalha estivesse
te, Samuel tinha instruído Saul a encontrá-lo em terminada. Jônatas não ouviu esta maldição, e pro­
172
1 Samuel 13— 15
vou um pouco de mel que encontrou durante a Não as suas realizações, mas as suas imperfeições
batalha. pessoais. A mesma coisa acontece hoje. A verdadei­
A ordem de Saul não foi sábia. As suas tropas perse­ ra medida de um homem não está no que ele faz,
guiram os filisteus por aproximadamente 28 quilô­ mas no tipo de pessoa que ele é.
metros (desde Micmás até Aijalom)! Posteriormen­
te, eles ficaram tão exaustos, que mataram animais “Temi o povo e dei ouvidos à sua voz” (1 Sm 15-1-
e comeram a carne ali mesmo. Comer a carne antes 34). O incidente revelador final descreve o ataque
que o sangue tivesse sido drenado era uma grave de Saul contra os amalequitas. Esta invasão era
violação da lei do Antigo Testamento. punição divina, e a cidade atacada devia ser “con­
Quando Saul estava ansioso para ir e invadir o sagrada” a Deus. Isto é, todo o povo e todos os ani­
território filisteu, o sacerdote que Saul tinha con­ mais da área deviam ser mortos, e não deveria ser
sultado antes, insistiu que o monarca pedisse tomado nenhum espólio.
orientação a Deus. Mas Deus não lhe deu resposta. Saul atacou. Mas retornou com grandes rebanhos
(Muitos acreditam que o sacerdote levava uma pe­ e um prisioneiro da realeza. Deus enviou Samuel
dra branca no éfode, além de pedras que indicavam para confrontar o rei desobediente. A princípio,
sim e não). Saul concluiu que algum pecado estava Saul insistiu que tinha obedecido a Deus. Afinal,
bloqueando a resposta. Lançada a sorte, Jônatas foi os amalequitas tinham sido destruídos. Finalmen­
escolhido, e admitiu ter infringido a ordem de seu te, Saul admitiu que tinha infringido a ordem de
pai. Embora a ordem de Saul não tivesse sido sábia, Deus, e confessou que tinha agido assim porque
quando proferida como maldição era obrigatória, e “tinha temido o povo”.
a desobediência era um pecado. Que comentário. Saul, o rei, era governado pelo
Quando Saul propôs a execução de Jônatas, o exér­ medo. Ele tinha temido o exército filisteu. Agora,
cito se recusou a permitir que Saul o ferisse. ele tinha medo de seu próprio povo. Se Saul tivesse
Novamente, percebemos uma ironia. Saul estava temido a Deus, o respeito pelo Senhor o teria liber­
pronto a matar o seu próprio filho, por desobede­ tado do peso de temer meros homens.
cer à sua ordem. No entanto, o próprio Saul não
julgou como algo grave desobedecer ao Senhor, o “Honra-me, porém... diante de Israel” (1 Sm 15.30).
verdadeiro Deus e Rei de Israel. O versículo é um epitáfio adequado. Um Samuel
entristecido e irado anunciou a rejeição final de
“Houve-se valorosamente”(1 Sm 14.47,48). A maior Saul, por parte de Deus. Este rei desobediente não
parte do texto se dedica a uma análise das falhas de estabeleceria nenhuma dinastia em Israel. E tudo o
Saul. Dois versículos resumem as suas qualidades. que Saul pôde pensar, quando Samuel se virou, foi
Saul era um soldado valente, que derrotou os ini­ o que o seu povo pensaria disso!
migos de Israel. Que Deus permita que não nos preocupemos tanto
Para o autor bíblico, que dedica apenas dois ver­ com o que o povo pensa a nosso respeito, e sim com
sículos para registrar as vitórias de Saul, o que im­ o que Ele pensa a nosso respeito, e nos liberte da hi­
porta não é a valentia de Saul, mas seu orgulho. pocrisia que é gerada por uma atitude equivocada.

DEV OCIONAL______
Saul e Você estava disposto a confiar em Deus, e julgava impos­
(1 Sm 15) sível obedecê-lo. Saul teve medo quando confron­
Alguns consideram a leitura a respeito de Saul tado por um grande exército de filisteus (1 Sm 13).
amedrontadora. Ele esqueceu-se de que Deus era capaz de salvar.
Saul os lembra de suas próprias fraquezas. Saul Não tendo confiado que Deus iria agir naquela si­
reflete as suas próprias falhas. E assim os leitores tuação terrível, Saul desobedeceu ao Senhor.
fazem perguntas a si mesmos. Talvez, como Saul, Quando lemos esta última história, Saul já tem
eles tenham ido longe demais. Será que também medo do seu próprio povo. Mais uma vez, o medo
podem ser rejeitados por Deus? de Saul se origina de uma falta de confiança, e se
Mas a história de Saul não tem a finalidade de nos expressa na incapacidade de obedecer ao Senhor.
amedrontar. Ela está na nossa Bíblia para nos en­ A única coisa que destruiu a vida de Saul e o seu
corajar. E para nos ensinar a maneira como evitar a futuro, foi a sua incapacidade de confiar em Deus,
armadilha em que caiu o primeiro rei de Israel. expressa na sua desobediência. Isso é tão encorajador
O problema básico de Saul era o fato de que ele não na história de Saul. A medida que a lemos, com­
173
1 Samuel 16— 17
preendemos a questão principal na vida espiritual. o prometido Libertador da humanidade, descende­
A história de Saul nos ensina que a única coisa que ria de Davi. Outras profecias mostram que esta Pes­
devemos fazer é confiar em Deus, e que a confiança soa, o grande Filho de Davi, também seria Filho de
irá nos libertar, para que possamos obedecer. Deus. As genealogias dos Evangelhos deixam claro
Quando você ou eu sentirmos medo ou pânico, é o que Jesus Cristo cumpre este requisito, e cumpre
momento de fazer uma pausa e nos lembrarmos de a promessa de Deus a Davi, de que o Governante
quem é o nosso Deus. Pensar na sua grandeza. Recor­ supremo viria da sua linhagem familiar.
dar o seu poder. Meditar sobre o seu amor. Quando
conservamos nossos corações fixos em quem Deus é, Visão Geral
nós nos entregamos a Ele. E obedecemos. Deus enviou Samuel à casa de Jessé, onde o ve­
lho profeta ungiu Davi como o futuro rei de Israel
Aplicação Pessoal (16.1-13). Davi começou a servir a Saul como mú­
A confiança em Deus nos liberta para obedecer. E a sico (w. 14-23). Quando os filisteus se reuniram
obediência nos protege do destino de Saul. para atacar Israel, somente Davi se dispôs a enfren­
tar o campeão deles, o gigante Golias (17.1-37).
Citação Importante No duelo mais famoso da história, o jovem Davi
“Aquele que não é capaz de obedecer, não é capaz matou Golias com a sua funda (w. 38-58).
de comandar.” — Benjamin Franklin
Entendendo o Texto
3 D E MARÇO LEITURA 62 “O homem vê o que estã diante dos olhos, porém o
PASTOR E SALVADOR Senhor olha para o coração” (1 Sm 16.1-12). Deus
1 Samuel 16— 17 enviou Samuel à casa de Jessé, em Belém, para un­
gir um de seus filhos como rei, no lugar de Saul, a
“Eu vou a ti em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus quem Ele tinha rejeitado. Ali, Samuel ficou bem
dos exércitos de Israel” (1 Sm 17.45). impressionado com o filho mais velho de Jessé, que
tinha uma aparência esplêndida, mas não era o es­
Quando os obstáculos que enfrentamos parecem colhido de Deus.
intransponíveis, é útil relembrar-se do jovem pas­ Nós vemos a sabedoria da rejeição de Eliabe por
tor, Davi, cuja fé lhe deu coragem para enfrentar o Deus mais adiante, quando Eliabe não somente se
gigante Golias. acovardou diante de Golias, como o resto de Israel,
mas, irado, repreendeu Davi por expressar a sua fé
Biografia: Davi de que Deus iria ajudar um israelita a derrotar “este
Davi foi o rei ideal de Israel, um tipo do Messias incircunciso filisteu” (cf. 17.26-28).
que o Antigo Testamento prediz que reinará, um E significativo que até mesmo Samuel, um homem
dia, não somente sobre a Terra Santa, mas toda a sábio e com grande discernimento espiritual, fosse
terra. Como rei de Israel, Davi uniu as 12 tribos em enganado pela aparência física de Eliabe. Não é de
uma nação poderosa e unida. Ele subjugou os inimi­ surpreender que hoje em dia nós coloquemos de­
gos de Israel, e multiplicou 10 vezes o seu território. masiada importância na beleza quando escolhemos
Davi também uniu a nação espiritualmente, fazendo um cônjuge, e na imagem da televisão quando es­
de Jerusalém a capital religiosa, além de política. Ele colhemos líderes nacionais. A repreensão de Deus a
reorganizou a adoração em Israel e escreveu muitos Samuel é algo que cada um de nós precisa considerar
dos salmos usados nos cultos públicos. seriamente. Como Deus, nós precisamos fazer esco­
Apesar de suas muitas realizações, Davi é retratado, lhas com base no que está no coração dos outros.
nas Escrituras, como um indivíduo muito humano. Como nos falta o conhecimento perfeito de Deus,
Ele era um homem que verdadeiramente amava a você e eu precisamos ser cautelosos ao desenvolver
Deus, mas era um homem que tinha sérias fraque­ relacionamentos. Muitas vidas foram destruídas por
zas. O que distingue Davi de Saul é a humildade um compromisso feito rapidamente, sem conheci­
de Davi, e a sua disposição em confessar os seus mento suficiente do caráter, um do outro.
pecados, não somente ao Senhor, mas também pu­
blicamente (cf. SI 51). Como acontece com tantos “Desde aquele dia em diante, o Espírito do Senhor
outros homens famosos, os filhos de Davi o desa­ se apoderou de Davi” (1 Sm 16.13). O Novo Tes­
pontaram, e Davi não conseguiu lidar com eles de tamento ensina que o Espírito Santo vive agora
maneira sábia. em cada crente, e é a Fonte de nosso crescimento
Davi é uma figura importante, teologicamente fa­ espiritual e poder (cf. 1 Co 3.16; 2 Co 3.18). Mas
lando. O Antigo Testamento prediz que o Messias, não devemos entender este significado do Novo
174
1 Samuel 16— 17
Testamento na expressão do Antigo Testamento. A pergunta, “Quem é, pois, este incircunciso filis­
No Antigo Testamento, o fato do Espírito “se apo­ teu?” é desdenhosa. Uma vez que Golias não per­
derar” de alguém é uma frase teológica que signifi­ tencia ao povo do concerto de Deus, não poderia
ca que Deus capacitava a pessoa mencionada para esperar nenhuma ajuda do Senhor e deveria ser
uma tarefa específica. No caso de Davi, a tarefa era derrotado facilmente.
governar Israel, com todas as responsabilidades mi­
litares e outras que o governo acarretaria.
Deus fornece os recursos de que precisamos para
realizar qualquer tarefa que Ele nos apresente.
“Um espírito mau, da parte de Deus” (1 Sm 16.14-
23). Saul, tendo rejeitado a Deus, agora estava
sujeito a acessos de ira e profundas depressões.
O Antigo Testamento responsabiliza “um espíri­
to mau, da parte de Deus” pelos momentos irra­
cionais deste homem. Alguns entendem que isso
indica um demônio, um dos seguidores de Sata­
nás, que tinha permissão de atormentar Saul (cf.
M t 12.24). Outros acreditam que a expressão fala
do próprio espírito de Saul, “mau”, no sentido de
prejudicial ou doloroso. Qualquer das interpreta­
ções afirma a soberania de Deus, e sugere punição
ou um último esforço para trazer Saul de volta a
Deus.
Davi iniciou a vida na corte quando foi elogiado
como um talentoso harpista. O tocar de Davi tran­
quilizava Saul, durante seus maus momentos. Davi
não ficava permanentemente com o rei, mas tinha
permissão para voltar para casa, quando Saul estava
bem (1 Sm 17.15).
“Hoje, desafio as companhias de Israel” (1 Sm 17.1-
16). Os exércitos de Israel e da Filístia ficaram em
lados opostos. Um profundo desfiladeiro corta o
vale do Carvalho (ou “vale de Elá”, ARA), e apa­
rentemente nenhum dos exércitos estava disposto a
arriscar-se, atravessando-o. Assim, o gigante Golias
apareceu diariamente, por mais de um mês, e de­
safiou Israel a enviar um representante para lutar
contra ele. Tais duelos, antes da batalha principal,
não eram incomuns nos tempos antigos. Como
Golias tinha aproximadamente 3 metros de altu­
ra, e trazia uma lança cuja ponta era mais pesada
do que uma bola para lançamento de peso, os is­
raelitas estavam excessivamente aterrorizados para
aceitar o desafio.
“Quem é, pois, este incircunciso filisteu?” (1 Sm
17-17-31). Nos tempos do Antigo Testamento,
os soldados tinham que conseguir as suas próprias
provisões. Desta maneira, Jessé enviou seu filho
mais jovem, Davi, para levar mais alimento a seus Nos tempos do Antigo Testamento, o israelita mediano
tinha aproximadamente 1,5 metro de altura. A ilustra­
irmãos. Davi ficou chocado ao saber que ninguém ção mostra um israelita típico, Saul (que era uma cabeça
tivera disposição de lutar contra Golias, e expres­ mais alto que outra pessoa [cf. 1 Sm 10.23]), e o gigante
sou abertamente sua surpresa. Golias.

175
1 Samuel 18— 20
As perguntas repetidas de Davi sobre a recompen­ pequena que deseja tentar do que com todo um
sa oferecida a quem derrotasse Golias, e as suas exército de soldados hesitantes.
ousadas declarações, enfureceram o seu irmão
mais velho. Mas tiveram o efeito desejado. Saul “Eu vou a ti em nome do Senhor”(1 Sm 17.38-54).
ouviu falar das observações de Davi, e o chamou Todos nós conhecemos o resultado desta bata­
à sua tenda. lha. Com uma única pedra lançada de sua funda,
Davi matou Golias, servindo, desde então, como
“Não poderás” (1 Sm 17.32-37). O coração de o exemplo supremo da fé conquistando o impos­
Saul deve ter se angustiado quando viu Davi, um sível.
mero rapaz, e mais baixo do que o israelita médio,
com estas intenções. Mas Davi confiantemente “De quem é filho este jovem?” (1 Sm 17.55-58). A
narrou suas proezas contra animais selvagens que pergunta não contradiz a descrição, feita em 1
atacaram o rebanho de seu pai, e a sua fé de que o Samuel 16, de Davi na corte de Saul. Saul sabia
Senhor “me livrará da mão deste filisteu”. Talvez quem era Davi, mas não se lembrava da sua linha­
Saul tivesse ficado impressionado. De qualquer gem. Davi identificou seu pai (que se beneficiou
forma, ele deu a Davi permissão para lutar. da vitória de Davi), que ficou isento dos impostos
Deus ainda pode fazer mais com uma pessoa reais para sempre (cf. 17.25).

DEVOCIONAL_______
Matadores de Gigantes 4 DE MARÇO LEITURA 63
(1 Sm 17) DAVI NA CORTE DE SAUL
Há muitos sermões sobre o assunto para voltar a 1 Samuel 18— 20
mencioná-lo. As chances pareciam impossíveis
quando Davi saiu para enfrentar Golias. No entan­ “Vendo, então, Saul que tão prudentemente se condu­
to, com fé em Deus e uma simples funda de pastor, zia, tinha receio dele” (1 Sm 18.15).
Davi venceu.
Todas as pessoas passam por ocasiões em que en­ O caráter frequentemente se revela na maneira
frentam um Golias pessoal em alguma situação na como uma pessoa reage ao sucesso. Especialmente
qual as chances parecem impossíveis. Um desafio ao sucesso de outros!
que ninguém mais está disposto a assumir. Uma
luta que parece impossível de vencer. Quando isso
Biografia: Jônatas
acontece, nós, como Davi, não temos para onde Jônatas é um dos mais atraentes personagens do
nos voltar, exceto a Deus. Nós devemos nos lem­ Antigo Testamento. Embora herdeiro do trono
brar de que nós também podemos enfrentar este de Saul, Jônatas permaneceu próximo de Davi e
gigante pessoal em nome do Senhor Todo-Podero- enfrentou seu pai por tratar Davi injustamente.
so, o Deus dos Exércitos. Quando soube que Saul tinha decidido matar
Foi em nome de Deus que Davi matou Golias. E Davi, Jônatas avisou seu cunhado. Ciente de que
com a ajuda de Deus que os cristãos, ao longo dos
Deus pretendia tirar o trono da casa de seu pai,
séculos, têm enfrentado chances igualmente im­ por causa dos pecados de Saul, Jônatas prometeu
possíveis — e têm vencido. apoiar Davi, e Davi prometeu fazer o bem a Jô­
natas e à sua família. Depois que Jônatas foi mor­
Aplicação Pessoal to em batalha, e Davi foi feito rei, Davi cumpriu
Aprenda a ver os seus problemas como “filisteus aquela promessa. O amor incondicional de Jônatas
incircuncisos”. Enfrente-os com coragem e fé. por Davi continua a servir como modelo de amiza­
de para os cristãos.
Citação Importante
“As dificuldades servem como missões de Deus. Visão Geral
Quando somos enviados nestas missões, devemos O sucesso de Davi, agora oficial no exército de Saul,
considerá-las como uma prova da confiança de fez com que o rei sentisse inveja e medo (18.1-19).
Deus, e como se estivéssemos sendo cumprimen­ Saul tentou usar o amor de sua filha Mical por
tados por Ele.” — Henry Ward Beecher Davi para fazer com que ele fosse morto em bata­

176
1 Samuel 18—20

lha, mas Davi mais uma vez teve sucesso e passou a deração de seu pai, assim como de outras pessoas,
fazer parte da família real pelo casamento (w. 20- sem dúvida contribuiu com a amargura e a ira que
30). Davi evitou diversos atentados contra a sua ela posteriormente exibiu contra Davi e contra
vida, feitos por Saul (19.1-24). Quando o príncipe Deus (cf. 2 Sm 6.20-23).
Jônatas, amigo de Davi, percebeu que Saul estava As ações motivadas pela inveja e pela ira são sempre
determinado a matar o genro, ajudou Davi a fugir prejudiciais — para o indivíduo e para todos à sua
(20.1-42). volta.
Entendendo o Texto “Jônatas falou bem de Davi” (1 Sm 19.1-7). Uma
“E temia Saul a Davi, porque o Senhor era com ele reconciliação, incentivada por Jônatas, teve vida
e se tinha retirado de Saul” (1 Sm 18.1-16). A der­ curta, apesar da promessa de Saul de não matar
rota de Golias conquistou para Davi uma posição Davi. Não é raro, nos relacionamentos íntimos, em
de elevada patente no exército de Saul. O sucesso que uma pessoa que fere a outra mostre remorso
militar de Davi foi tão espetacular, e a sua popu­ e prometa: “Nunca mais farei isso”. Mas quando
laridade táo grande, que Saul ficou intensamente se desenvolve um padrão, com desculpas repetidas,
invejoso. seguidas de repetidos ataques de ciúmes e ira, tome
Anteriormente, Saul tinha demonstrado que estava cuidado!
mais preocupado em ser honrado pelo seu povo do
que em ser fiel a Deus (15.30). A popularidade de “Mical desceu a Davi ”(1 Sm 19.9-17). Por fim, Saul
Davi fez com que Saul tivesse inveja. Quando Saul decidiu matar Davi abertamente, e acabar com ele.
percebeu que o sucesso de Davi se devia ao seu rela­ Mical soube do plano, e ajudou Davi a escapar.
cionamento com o Senhor — um relacionamento Investigações recentes sugerem que o terafim, o ob­
que Saul tinha perdido — ele também temeu Davi. jeto que Mical colocou na cama de Davi e cobriu
Aterrorizado com a possibilidade de que Davi pu­ com uma coberta, não necessariamente quer dizer
desse suplantá-lo como rei, o próprio Saul tentou “ídolo”, neste contexto. Como é significante dois
matar Davi duas vezes (18.11). dos filhos de Saul tomarem o partido de Davi con­
Quando Saul ofereceu sua filha mais velha a Davi, tra seu próprio pai. Nós também precisamos agir
como tinha prometido antes da batalha contra segundo o que acreditarmos que seja certo, a des­
Golias, Davi percebeu que isto o colocaria em um peito do custo desta decisão.
perigo ainda maior, e recusou.
“Está também Saul entre os profetas?” (1 Sm 19.18-
“Eu lha darei, para que lhe sirva de laço” (1 Sm 24). Quando Saul soube que Davi tinha ido à
18.20-30). Como a popularidade de Davi cres­ procura de Samuel, e que os dois estavam juntos
cia, Saul hesitou em atacá-lo diretamente. Quan­ em Ramá, enviou homens para capturar Davi. No
do soube que Mical, sua filha mais jovem, estava entanto, quando os homens de Saul aproximaram-
apaixonada por Davi, Saul enviou oficiais da corte se de Samuel, foram subjugados pelo Espírito de
para dizer a Davi que o rei verdadeiramente o que­ Deus, e “profetizaram”. Muitos acreditam que,
ria como genro. Saul recusou o dote, ou preço da aqui, a palavra “profetizar” seja alguma forma de
noiva, normal, que para a filha de um rei teria sido discurso extasiado, talvez um corolário ao dom de
extremamente elevado. Em lugar do dote, Saul dis­ línguas do Novo Testamento.
se que se contentaria com troféus que provessem O próprio Saul foi a Ramá, e também sentiu o Es­
que Davi tinha matado cem filisteus. O objetivo pírito do Senhor vindo sobre ele. Lembre-se do sig­
de Saul era que Davi fosse morto pelo inimigo de nificado limitado, no Antigo Testamento, da “vinda
Israel, para que a culpa não pudesse ser atribuída a do Espírito sobre” uma pessoa. Isso não era sinal de
ele. Quando Davi foi bem-sucedido, Saul não pôde espiritualidade, nem mesmo de fé. Afinal de contas,
fazer nada, exceto cumprir a sua promessa. No en­ certa vez o precioso Espírito capacitou uma jumenta
tanto, esta nova evidência da bênção de Deus fez para falar a Balaão, o vidente pagão (Nm 22).
com que Saul se tornasse um inimigo ainda mais
determinado. “Nós temosjurado ambos em nome do Senhor” (1 Sm
O que algumas vezes é negligenciado é o uso cruel 20.1-42). Em uma irada confrontação com seu pai,
que Saul fez de Mical. Ele não se importou com o Jônatas, por fim, se convenceu de que Saul jamais
fato de que ela amava Davi, e não pensou na infe­ deixaria de tentar matar Davi. Jônatas avisou Davi,
licidade que a morte de Davi traria à sua filha mais e ambos juraram eterna amizade.
jovem. Mais adiante, depois que Davi fugiu, Saul Que exemplo para os cristãos! Rivais potenciais
casou Mical com outra pessoa. A brutal desconsi­ para o mesmo trono, cada um deles deixou
177
1 Samuel 21—25

de lado seus interesses pessoais pela profunda Davi reivindicar o trono, e Mefibosete poder se
afeição que sentiam um pelo outro. Jônatas se tornar um rival. Davi e Jônatas exibem a atitu­
expôs à ira de seu pai, e até mesmo arriscou a de que Paulo, posteriormente, exortou os cris­
sua vida, por causa de Davi. Mais adiante, Davi tãos a terem: “Que ninguém procure somente
restituiu as propriedades do filho mais jovem os seus próprios interesses, mas também os dos
de Jônatas, apesar do fato da descendência de outros” (Fp 2.4, N TLH ).

DEVOCIONAL______
Lidando com a Inveja Davi, mas o casamento em nada contribuiu para
(1 Sm 18) levar Davi ao trono, mas somente confirmou a hos­
As pessoas inseguras provavelmente se sentirão ame­ tilidade de Saul com relação a Davi.
açadas pelo sucesso dos outros. O que Davi enfren­ Não podemos fazer muita coisa para modificar uma
tou não é nada incomum. Alguns maridos se sentem pessoa que está determinada a ser hostil conosco.
ameaçados quando suas esposas são promovidas no Mas, se seguirmos o exemplo de Davi, podemos
trabalho, ou obtêm um diploma na faculdade. Os conservar nossos corações puros, e limitar os danos
chefes frequentemente se sentem ameaçados por que uma pessoa hostil pode nos causar.
funcionários brilhantes e competentes. Outros se
sentem ameaçados quando um amigo se torna po­ Aplicação Pessoal
pular, ou é atraente, ou se veste bem. Como Saul, Normalmente, é mais sábio e prudente evitar os
estas pessoas inseguras tendem a expressar sua inveja indivíduos hostis do que combatê-los.
como ira, e atacam. Normalmente, elas atacam com
palavras que tencionam humilhar ou desprezar, ou Citação Importante
roubar o crédito da outra pessoa. “Se as pessoas falarem mal de você, viva de modo
De certa maneira, nós devemos lamentar pela pes­ que ninguém acredite nelas.” — Platão
soa que é tão insegura a ponto de diminuir os ou­
tros em um esforço para elevar a si mesma. Mas 5 D E MARÇO LEITURA 64
ainda dói quando alguém nos ataca. Então, a per­ DAVI, O FUGITIVO
gunta é: “O que podemos fazer em uma situação 1 Samuel 21— 25
em que nós, como Davi, somos vítimas inocentes
da vingança de outra pessoa?” O texto em 1 Sa­ “Jônatas, filho de Saul, foi para Davi ao bosque, e
muel 18 nos sugere três princípios. fortaleceu a sua mão em Deus” (1 Sm 23■16).
(1) Continuar tentando fazer o bem. Davi não
permitiu que o antagonismo de Saul lhe roubasse Os anos em que esteve fugitivo foram alguns
o seu entusiasmo pelo seu trabalho de oficial do dos mais importantes para Davi, espiritualmen­
exército, nem destruísse a sua eficácia. te. Das dolorosas experiências registradas nestes
(2) Continuar próximos do Senhor. Parte do anta­ capítulos se originaram alguns dos mais belos
gonismo de Saul se enraizava no seu conhecimento salmos de Davi.
de que o Senhor estava com Davi. O sucesso de
Davi se originou desse relacionamento, pois Deus Visão Geral
abençoava os esforços de Davi. Estar próximos do Na fuga, Davi mentiu, para obter ajuda de uma
Senhor, quando somos vitimados pelos outros, irá família de sacerdotes, em Nobe (21.1-9). Ele so­
nos confortar. E irá nos capacitar a continuar tendo mente escapou da Filístia fingindo ser louco (w.
vidas bem-sucedidas. 10-15). Davi reuniu cerca de 400 guerreiros e se es­
(3) Conservar um comportamento humilde. Davi tabeleceu em uma região deserta (22.1-5). Ali, ele
prudentemente recusou-se a se tornar genro de ficou sabendo que Saul tinha assassinado os sacer­
Saul quando este privilégio lhe foi oferecido pela dotes que o tinham ajudado (w. 6-23). O exército
primeira vez. Davi era sinceramente humilde. Mas de Davi salvou uma cidade da Judeia (23.1-6), mas
ele também era sábio o suficiente para perceber que fugiu quando Saul partiu com um exército para
Saul não foi sincero na sua oferta. A melhor manei­ matá-lo (w. 7-29). Davi poupou a vida de Saul, e
ra de evitar as armadilhas que os outros possam nos o rei abandonou a perseguição (24.1-27). Abigail,
propiciar é ser sinceramente humilde. inteligente e bela, impediu que Davi se vingasse de
Posteriormente, Davi deixou de lado este princípio seu tolo marido, e posteriormente se tornou esposa
e casou-se com uma filha do rei. Deus protegeu de Davi (25.1-44).
178
1 Samuel 21—25

Entendendo o Texto Não existe algo como uma “pequena” mentira. Fa­
“Então, veio Davi a Nobe, ao sacerdote Aimeleque” lar ou agir com a intenção de enganar os outros é
(1 Sm 21.1-9). Davi mentiu a Aimeleque, dizendo- errado.
lhe que estava em uma missão para Saul. A mentira Sem justificar o pecado de Davi, é importante exa­
parecia suficientemente inocente, estando Davi de­ minar novamente como o seu caráter se compa­
sesperado por comida e uma arma. Davi logo sabe­ ra com o de Saul. Em uma ocasião anterior, Saul
ria que até mesmo as “pequenas” mentiras trazem tinha se recusado a admitir um pecado seu, mes­
trágicas consequências. mo sendo obviamente culpado, e confrontado por
Posteriormente, Jesus comentou o fato de Aimele­ Samuel! (15.13-20). Imediatamente, Davi acei­
que ter dado a Davi um pouco do pão sagrado, que tou a responsabilidade pelas consequências da sua
devia ser comido somente por sacerdotes (cf. Ex mentira, ainda que não houvesse indicação de que
25.30; Lv 24.5-9). Jesus elogiou Aimeleque, que Abiatar o culpava.
percebeu que a obrigação moral de auxiliar uma Se formos honestos com nós mesmos, com Deus
pessoa em necessidade era mais importante do que e com os outros, também iremos crescer rumo à
as regras de rituais (Mt 12.3,4; Mc 2.25,26). maturidade espiritual, como aconteceu com Davi.
Davi errou ao ignorar a sua obrigação moral de ser
sincero com Aimeleque. Mas Aimeleque acertou, “Davi com os seus homens... foram-se aonde pude­
ao dar à sua obrigação moral com Davi maior prio­ ram” (1 Sm 23.1-29). Davi usou o seu exército cada
ridade do que a uma obrigação com rituais. vez maior para ajudar a cidade israelita de Queila
a combater os filisteus. Mas, talvez por medo, o
“Davi... veio aAquis, rei de Gate” (1 Sm 21.10-15). povo continuou leal a Saul. Isso deixou Davi sem
Davi também recebeu uma arma, de Aimeleque, ter para onde ir, exceto a regiões desertas, onde pu­
o sacerdote — a espada de Golias. Nós podemos desse se esconder do exército de Saul. O exército se
compreender algo do estado mental de Davi quan­ aproximava, quando uma notícia de que os filisteus
do lemos que dali, ele foi para Gate, a terra natal do estavam atacando o afastou. O Salmo 54 reflete o
gigante, onde a arma certamente seria reconhecida! medo de Davi, e a sua fé nesta situação crítica.
Ela foi reconhecida, e Davi somente escapou fin­ Novamente, nós nos lembramos de que é quando
gindo ter ficado louco. nos encontramos em situações desesperadoras que
Provavelmente podemos explicar a mentira de Davi aprendemos, “Deus é o meu ajudador, o Senhor é
a Aimeleque e também a sua fuga para Gate, lem­ quem me sustenta a vida” (SI 54.4, ARA).
brando que Davi ainda era muito jovem. A sua vida
estava em perigo, e ele estava sozinho e desampa­ “Jônatas... fortaleceu a sua mão em Deus” (1 Sm
rado. Mas desta experiência de pânico e incerteza, 23.16-18). Este encontro final dos dois amigos
Davi obteve uma inabalável fé em Deus. As verdades nos lembra do quanto Jônatas foi importante na
aprendidas neste período sustentaram Davi por toda vida do jovem Davi. Jônatas tinha salvado a sua
a sua vida, e se refletem nos Salmos 34 e 56. vida. Quando Davi parecia não ter mais futuro,
Somente uma pessoa que conheceu o medo com­ Jônatas expressou a sua convicção de que o Se­
preende a necessidade de confiar. nhor, um dia, tornaria Davi rei. Jônatas também
expressou a sua disposição de ficar em segundo lu­
“Aimeleque, morrerás certamente” (1 Sm 22.6-23). gar. Jônatas teria sido um grande e devoto gover­
Quando Saul soube que Aimeleque tinha auxiliado nante. Mas o seu papel na vida era ser um grande
Davi, acusou o sacerdote de conspiração. Aimele­ e devoto amigo.
que respondeu racionalmente. Todos sabiam que Poucos de nós alcançaremos a grandeza nesta vida.
Davi era leal — ele não era o genro do rei, e o Mas cada um de nós pode ser o tipo de amigo que
capitão da guarda real? O paranoico Saul pode ter ajuda os outros a encontrar forças em Deus.
se enfurecido ainda mais com este elogio implícito
a Davi. Com a ordem de Saul, 85 sacerdotes e suas “Tu me recompensaste com bem, e eu te recompensei
famílias inteiras foram assassinados! com mal” (1 Sm 24.1-22). Davi não matou Saul
Um filho, Abiatar, escapou. Quando Davi soube o quando teve a oportunidade, mas poupou a sua
que aconteceu, imediatamente confessou, “Eu dei vida. Mais adiante, Davi ficou a alguma distância,
ocasião contra todas as almas da casa de teu pai”. e mostrou a Saul um pedaço da orla de seu manto,
Davi jamais poderia ter imaginado que Saul pudes­ para provar que poderia ter assassinado o rei. Cha-
se ser tão perverso a ponto de matar os sacerdotes mando-se de “cão morto” e de “pulga”, Davi usou
de Nobe. Mas Davi percebeu que a sua mentira comparações para transmitir a ideia de que ele era
tinha levado a esta tragédia. inofensivo, e não representava ameaça a Saul.
179
1 Samuel 21—25

Saul, profundamente comovido, admitiu que es­ tinha prejudicado Davi, (2) trouxe as provisões que
tava errado. Ele pediu que Davi náo matasse a Nabal tinha se recusado a fornecer, e (3) pediu o
sua família, quando o Senhor o fizesse rei. Davi perdão de Davi.
prometeu, e posteriormente cumpriu a sua pa­ Abigail também levou Davi a considerar as conse­
lavra. quências de longo prazo, de agir com ira. Davi ten­
Saul pode ter sido sincero naquele momento, mas cionava se tornar rei. Matar alguns de seus futuros
Davi sabia que Saul era inconstante e náo merecia súditos dificilmente seria considerado prudente,
confiança. Não se fie no que uma pessoa diz ou pois isso criaria medo e hostilidade. Por que Davi
sente em um momento. Fie-se no que ela faz ao deveria ter o peso de um derramamento desneces­
longo de um período de tempo. sário de sangue na sua consciência?
Se desejarmos que as pessoas às quais prejudicamos
“Olha, pois, agora, e vê o que hás de fazer" (1 Sm deixem de lado a sua ira, precisamos dar os três
25-1-44). A sabedoria de Abigail em neutralizar a passos de Abigail.
ira de Davi pelos insultos de seu marido Nabal nos Não é de admirar que, quando Deus matou o ma­
fornece um modelo que podemos seguir (w. 23- rido de Abigail, pouco tempo depois Davi a tenha
31). Observe que Abigail (1) admitiu que Nabal desejado como esposa.

DEVOCIONAL______
O Contra-Ataque Como podemos lidar com aqueles que nos preju­
(1 Sm 24) dicam? Em primeiro lugar, nós devemos entregá-
Talvez aconteça quando aquele motorista impru­ los ao Senhor, pedindo que Ele vingue o mal que
dente lhe fecha em uma esquina, fazendo com que possam nos ter feito. Esta é uma ação positiva, e
você pise no freio para evitar um acidente. Talvez nos alivia do sentimento de sermos vítimas. Na
aconteça quando o chefe é elogiado uma vez mais verdade, nós os “entregamos ao tribunal”. Não a
pelo trabalho que você fez, ou pelas suas ideias. Tal­ um tribunal humano, mas ao tribunal mais eleva­
vez aconteça quando o seu cônjuge grosseiro lhe do de todos. A seguir, nós simplesmente esperamos
menospreza na frente dos amigos. Mas acontece a que Deus os julgue.
todos nós, em alguma ocasião. Nós nos cansamos Ao mesmo tempo, nós assumimos um compromis­
de ser vítimas. E então temos vontade de contra- so pessoal. Davi disse: “A minha mão não será con­
atacar. tra ti”. Para nós, isso significa que devemos decidir
Eu suponho que não há problema em irar-se quan­ não nos vingarmos, nem tentar retribuir aos outros
do as pessoas nos convertem em vítimas. Deus en­ o mal que nos fizeram.
tende este fluxo de adrenalina, o rosto enrubescido, A escolha que Davi fez não é uma escolha fácil.
e o repentino sentimento de fúria. Mas nenhuma Quando alguém nos prejudica, quando nós nos
ira — nem mesmo a ira justificada — nos dá o iramos, nós temos grande vontade de contra-atacar
direito que algumas pessoas reivindicam. O direito e ferir a pessoa que nos feriu. Mas a escolha que
de contra-atacar. “Não fique louco de raiva”, diz o Davi fez é a escolha cena. Isso é o que importa para
mundo; “Vingue-se”. Deus, e o que também deve importar para nós.
Certa vez, o próprio Davi pode ter se sentido des­
ta maneira. Mas quando Saul, inadvertidamente, Aplicação Pessoal
entrou em uma caverna onde Davi e seus homens Em qual relacionamento você precisa aplicar o
estavam escondidos, Davi tinha crescido espiri­ ensino deste incidente?
tualmente. Os homens de Davi ficaram agitados.
“Veja, Davi”, sussurraram eles. “Aqui está a sua Citação Importante
oportunidade! Deus lhe entregou Saul! Agora, ele “Nada deve ser mais temido do que uma paz
está nas suas mãos. Mate-o!” muito longa. Você se enganará se pensar que um
A resposta de Davi nos ensina como você e eu, cristão pode viver sem perseguições. Aquele que
como crentes, devemos lidar com aqueles que nos não vive sob nenhuma perseguição está sofrendo a
vitimam. Davi não permitiu que seus homens fi­ maior perseguição de todas. Uma tempestade tor­
zessem mal a Saul. Mais tarde, Davi disse ao rei, na um homem vigilante e o obriga a empreender
“Vingue-me o Senhor de ti; porém a minha mão seus máximos esforços para evitar um naufrágio.”
não será contra ti” (v. 12). — Jerônimo

180
1 Samuel 26—31

6 DE MARÇO LEITURA 65 de transformação. A esta altura, Davi já sabia que


OS ANOS DE FUGITIVO Saul não era merecedor de confiança. Desanimado
TERMINAM e temeroso, pensando, “ainda algum dia perecerei”,
/ Samuel 2 6 —31 Davi decidiu deixar Israel.
Nós podemos dar a Saul o benefício da dúvida, e di­
“A inda algum dia perecerei pela mão de Saul” (1 Sm zer que ele foi sincero quando fez esta promessa. Às
27.1). vezes, você e eu somos sinceros quando assumimos
compromissos. Mas a sinceridade não é suficiente.
As vezes, a pressão se torna tão grande que nós A sinceridade nos impele a assumir compromissos.
tentamos escapar. Davi finalmente se sentiu de­ Mas é necessária integridade para mantê-los.
sanimado e fugiu para a Filístia. Como acontece Nós devemos evitar pensar que a nossa sinceri­
frequentemente, a escuridão profunda foi um pre­ dade é suficiente quando fazemos promessas a
núncio de um novo amanhecer. outros. Nós devemos ser homens e mulheres de
integridade.
Contexto
Mercenários. Nos tempos antigos, grupos de solda­ “Davi ... passou ... a Aquis ... rei de Gate” (1 Sm
dos desempregados frequentemente vendiam seus 27-1-12). O governante filisteu tratou Davi como
serviços a governantes estrangeiros. Posteriormente, um líder mercenário, e de boa vontade deu-lhe
o próprio Davi teve uma guarda de 600 homens de uma cidade na qual viver. Aqui esperava que Davi
Gate, que permaneceram leais a ele quando o seu vivesse segundo o código mercenário.
próprio povo se rebelou (cf. 2 Sm 15.16-22). Quan­ Davi, no entanto, atacou os inimigos de Israel,
do Davi fugiu de Saul e entrou em território filisteu, dizendo a Aquis que seus ataques eram contra os
o governante de Gate tratou a ele e a seus homens acampamentos dos hebreus. Esta mentira não foi
como um exército mercenário, e esperou que Davi favorável a Davi. Mas a decisão de Davi de deixar
fosse leal ao código mercenário daquele tempo. Israel quase o forçou a agir de maneira enganosa.
Davi pretendia ser rei de Israel um dia, e jamais
Visão Geral atacaria o seu próprio povo. Mas Davi estava em
Davi e seus seguidores se estabeleceram em ter­ uma posição na qual teve que agir como súdito de
ritório filisteu (27.1-12). Com a proximidade da um dos piores inimigos de Israel.
guerra, Saul procurou orientação desesperada­ A experiência de Davi nos ensina uma im portan­
mente, voltando-se, por fim, para uma feiticeira te lição. Uma maneira de evitar o engano é ficar
que consultava os mortos (28.1-25). Enquanto fora de situações em que as mentiras pareçam
isso, Davi foi salvo da luta contra Israel quando necessárias.
os governantes filisteus expulsaram seus homens
do exército deles (29.1-11). Davi voltou para casa, “Buscai-me uma mulher que tenha o espírito de feiti­
para encontrar a sua cidade queimada, e as espo­ ceira” (1 Sm 28.1-25). Saul ficou aterrorizado pela
sas e os filhos de seus homens capturados (30.1-6). dimensão do exército filisteu que se levantou con­
Eles dominaram os inimigos e salvaram suas famí­ tra ele. Ele não recebeu resposta, quando buscou a
lias (w. 7-31). Saul foi morto na guerra com os Deus pedindo orientação. Assim, ele ordenou que
filisteus, e os anos de fugitivo de Davi, finalmente, seus criados lhe encontrassem uma médium.
terminaram (31.1-13). O Antigo Testamento exigia a morte daqueles que
usavam feitiçaria, adivinhação ou outras práticas
Entendendo o Texto ocultas (Lv 19.31; D t 18.10,11). O próprio Saul
“O Senhor me guarde de que eu estenda a mão contra tinha tentado livrar a terra de pessoas que tivessem
o ungido do Senhor” (1 Sm 26.1-25). Uma vez mais, tais práticas. No seu medo, agora ele se voltava às
Davi teve uma oportunidade de matar Saul, desta forças ocultas, à procura de ajuda.
vez quando Saul dormia, rodeado por seu exérci­ A história, que é tão conhecida, nos diz como
to. Em vez de fazer isso, Davi tomou a lança e a esta “adivinha de En-Dor” ficou quando a forma
bilha de água do rei, e usou estes objetos para pro­ disfarçada de Samuel apareceu. Ela pode ter sido
var que tinha poupado seu inimigo uma vez mais. um canal para uma expressão enganosa (conside­
Saul prometeu deixar de perseguir Davi, e admitiu rada demoníaca por muitos), mas não tinha acesso
a respeito de Davi: “Grandes coisas farás e também aos espíritos dos mortos. A mensagem para Saul
prevalecerás”. foi clara: era tarde demais para ele. Israel seria der­
O rei pode ter sido sincero — naquele momento. rotado na batalha seguinte contra os filisteus, e o
Mas palavras sinceras não são evidências suficientes próprio Saul seria morto.
181
1 Samuel 26—31

E possível que uma pessoa se afaste tanto de Deus “Tinham ferido a Ziclague, e a tinham posto afogo”
que não haja como retornar ao lugar da bênção. No (1 Sm 30.1-31). Retornando para casa, Davi en­
entanto, para um rei que vivia em terror paranoico, controu sua aldeia queimada, e as esposas e os fi­
vendo conspiração em todas as partes, a morte seria lhos de seus homens, capturados. Esta era uma si­
uma dádiva. tuação devastadora para Davi, pois os seus próprios
Existem coisas piores do que a morte. Uma delas homens estavam tão amargos, a ponto de falar em
é continuar vivendo depois de perder todo o senso apedrejá-lo.
da presença de Deus. Davi, agora, consultou ao Senhor, e foi orientado,
através do Urim e do Tumim, a prosseguir e atacar
“A tua entrada e a tua saída comigo no arraial são os invasores. As famílias foram resgatadas, e Davi
boas aos meus olhos” (1 Sm 29.1-11). Como vassalo chegou a tomar espólio extra dos invasores, para
de Aquis, Davi se viu obrigado a ter seus homens dar como presentes para várias comunidades de
se unindo ao exército filisteu. Que dilema esta ação Judá. A generosidade de Davi também lhe foi útil,
representou! A decisão que Davi tinha tomado, ela ajudou o povo de Judá a esquecer a sua fuga à
quando foi desencorajado pela constante perse­ Filístia, e, posteriormente, Judá foi a primeira tribo
guição de Saul, o colocou em uma situação muito a reconhecer Davi como rei.
difícil.
Não existe registro de Davi perguntando ao Senhor “Faleceu Saul, e seus três filhos” (1 Sm 31.1-13). Is­
se deveria ir à Filístia. E importante que aprenda­ rael foi derrotado pelos filisteus, e Saul foi morto.
mos a não tomar decisões precipitadas quando esti­ O texto acrescenta uma nota emocionante. Os cor­
vermos esgotados emocionalmente, e que jamais é pos de Saul e seus filhos foram tirados, à noite, dos
prudente fazer escolhas importantes sem procurar muros de uma cidade da Filístia, onde tinham sido
cuidadosamente a orientação de Deus. fixados em exibição. Isso foi feito pelos homens de
Neste caso, Deus livrou outra vez a Davi. Os Jabes-Gileade. No seu primeiro ato como rei, Saul
outros governantes filisteus se recusaram a per­ tinha salvado esta cidade dos amonitas. Os cida­
mitir que Davi servisse com Aquis, e, por isso, dãos agora recompensavam a sua bondade.
Aquis, desculpando-se, mandou Davi de volta Durante o seu longo reinado, Saul tinha provado
para casa. ser um líder militar eficaz. E ele foi, adequadamen­
Davi aprendeu a lição? Aparentemente, sim. O ca­ te, honrado por seu povo. Se não fosse pela sua
pítulo seguinte nos diz que ele fez uma pausa, sob grande imperfeição, a incapacidade de confiar no
a mais intensa pressão, para consultar ao Senhor Senhor e obedecer a Ele, Saul poderia ter sido um
antes de agir (cf. 30.7,8). grande rei, e o seu devoto filho, Jônatas, um digno
Já é suficientemente ruim quando você ou eu sucessor.
cometemos erros sérios. E pior se deixarmos de Com a morte de Saul, os anos de fugitivo de Davi
aprender com estes erros. terminaram.

DEVOCIONAL______
Indo embora para a Filístia? do a decisão de Davi de ir para território filisteu.
(1 Sm 27) Seria uma negação de quem ele é, e de quem Deus
Meu filho de 31 anos é um “artista que passa fome”. o chama para ser.
Não, ele não é nenhum artista que contribui para as Eu não posso avaliar o que meu filho deve fazer.
vendas de alguma marca que seja patrocinada por este E eu fico profundamente ferido ao ver a sua luta,
nome. Paul é um pintor muito talentoso, totalmente e não ser capaz de ajudar. Às vezes, eu penso que
devotado à sua arte. E vive em extrema pobreza. seria mais fácil se ele simplesmente desistisse. Se
Paul pode entender a pressão que Davi sentia, esquecesse o seu talento excepcional, e tentasse ter
depois de meses e anos escapando por pouco das uma vida melhor neste mundo.
mãos de Saul. Ele pode entender por que Davi, E então, eu me lembro de Davi.
profundamente desencorajado, finalmente decidiu Ele desistiu. Mas entre os filisteus, Davi se viu for­
ir para a Filístia. Com frequência, meu filho se per­ çado a negar quem ele era — o futuro rei de Israel.
guntou se ele não deveria simplesmente desistir da Davi viveu uma vida dupla ali, e foi novamente
sua arte, e arranjar um emprego que prometa mais forçado a mentir, simplesmente para sobreviver.
do que simplesmente sobreviver. Para ele, essa ati­ Pode não haver um a orientação para o meu fi­
tude representaria uma rendição tão grande quan- lho na história deste período da vida de Davi.
182
1 Samuel 26—31

Mas existem princípios segundo os quais você Ela me leva incessantemente pelas estradas da vida,
e eu devemos viver. Q uando a vida fica difícil, às vezes trazendo perigo para mim e para os outros,
devemos evitar procurar a saída mais fácil. Com pelo caminho.
excessiva frequência, o “caminho fácil” nos co­ Se eu a trouxer diariamente a Deus, em oração,
loca em uma situação na qual somos forçados certamente Ele poderá refrear estas tendências
a comprometer quem somos, apenas para so­ Com o seu amor compreensivo
breviver. E gentilmente a curvará à sua vontade e à sua ma­
neira
Aplicação Pessoal durante este difícil período de crescimento,
As circunstâncias raramente são a melhor indica­ a caminho da maturidade espiritual.”
ção da vontade de Deus. — Carolyn N. Rhea
Citação Importante O Plano de Leituras Selecionadas continua em 2
“Esta minha vontade teimosa, adolescente, SAMUEL
está me tornando uma delinquente espiritual!

183
2 SAMUEL

INTRODUÇÃO
1 e 2 Samuel eram originalmente um único livro no cânone hebreu. Os dois livros narram a transição
histórica de Israel, de um grupo de tribos dispersas e governadas por juizes, a uma nação unida e poderosa.
O tempo abrangido pelos dois livros é aproximadamente de 120 anos, de 1050 a 931 a.C.
2 Samuel dá continuidade à história de Davi, que já tinha sido um fugitivo, mas agora era rei, a princípio
de Judá, e depois de toda a nação dos hebreus. Este livro narra as muitas realizações de Davi, mas com
a mesma honestidade registra os seus fracassos pessoais e os seus problemas familiares. Através desta his­
tória, nós passamos a ter um apreço maior a Davi como ser humano, e um apreço muito maior ao Deus
gracioso de Davi.

ESBOÇO DO CONTEÚDO
I. Os Triunfos de Davi........................................................................................................................2 Sm 1— 10
II. Os Problemas de D avi............................................................................................................... 2 Sm 11— 20
III. Outras Histórias sobre D avi....................................................................................................2 Sm 21— 24

GUIA DE LEITURA (5 Dias)


Se você tiver pressa, pode ler somente a “passagem essencial” na sua Bíblia, e o Devocional em cada ca­
pítulo deste Comentário.

Leitura Capítulos Passagem Esse


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67 6— 10 7
68 11— 14 13— 14
69 15— 20 15— 16
70 21— 24 24
2 SAMUEL
7 D E M ARÇO LEITURA 66
DAVI DÁ INÍCIO AO SEU REINADO
2 Samuel 1— 5

“Da idade de trinta anos era Davi quando começou a A reação de Davi mostrou um respeito apropriado,
reinar; quarenta anos reinou” (2 Sm 5-4). tanto por Deus quanto por Saul, e claramente in­
dicou que, apesar de ter sido perseguido por Saul,
Mesmo tendo deixado atrás de si os anos de fugi­ Davi não tinha desejado nenhum dano pessoal ao
tivo, os primeiros anos de Davi como governante monarca.
foram cheios de tensão. Não espere que a vida não
tenha lutas, apesar de vitórias ao longo do cami­ “Lamentou Davi” (2 Sm 1.17-27). Davi expressou a
nho. dor que sentiu pela morte de Jônatas e Saul através
de um poema em que tinha a intenção de honrá-los.
Visão Geral O poema fala do seu amor por seu “irmão Jônatas”,
Davi lamentou a morte de Saul e Jônatas (1.1-27). e também honra Saul pelas suas realizações.
A sua confirmação como rei em Judá (2.1-7) con­ A exemplo de Davi, precisamos ser suficientemente
duziu a uma demorada guerra civil (w. 8— 3.5). nobres para reconhecer as qualidades daqueles que
Abner, comandante do exército inimigo, decidiu forem nossos inimigos pessoais.
aliar-se a Davi (w. 6-21). Davi era inocente de
dois assassinatos, o de Abner e o do filho de Saul, “O capitão do exército de Saul tomou a Isbosete, filho
Isbosete (w. 22— 4.12). Mas estas mortes puseram de Saul... e o constituiu rei” (2 Sm 2.8—3.5). Is-
um fim à guerra, e Davi foi, por fim, confirmado bosete significa “Filho da Vergonha”. O seu nome,
como rei sobre um Israel unido (5.1-5). Davi cap­ na verdade, era Esbaal, “Baal vive” (cf. 1 Cr 8.33;
turou Jerusalém e fez dela a sua capital (w. 6-1 6). 9.39). O autor bíblico não desejava honrar o nome
Quando os filisteus atacaram, Davi lhes infligiu da divindade pagã, e assim fez a substituição pelo
a primeira de uma série de derrotas devastadoras termo “vergonha”.
(w. 17-25). Isbosete era, na verdade, uma autoridade simbó­
lica, embora tenha sido aclamado rei pelas tribos
Entendendo o Texto do norte. O verdadeiro poder pertencia a Abner,
“Arremessa-te sobre mim”(2 Sm 1.1-16). O relato da o comandante do exército. Na guerra civil que se
morte de Saul aqui é diferente do apresentado em 1 seguiu, Abner matou um irmão do comandante de
Samuel 31. Por que esta diferença? Este relato regis­ Davi, Joabe. Gradualmente, os exércitos de Davi
tra o que disse o amalequita que trouxe a coroa de ganharam força, ao passo que os exércitos do norte
Saul a Davi, e não necessariamente o que aconte­ ficavam mais fracos.
ceu. O amalequita contou a sua história, esperando Neste caso é possível atribuir a responsabilidade
alguma recompensa de Davi, por ter matado o seu pela guerra civil à ambição de um único homem,
inimigo. Em vez de recompensá-lo, Davi mandou Abner. Tendo em vista as muitas vidas perdidas e a
executá-lo, pois, pelas suas palavras, ele era culpado destruição de todo o reino, Abner mereceu a morte
de ter assassinado o ungido do Senhor. que em breve receberia pelas mãos de Joabe. O des-
2 Samuel 1— 5

tino de Abner exemplifica o princípio das consequ­ devem ser valorizados, e não usados, e os seus in­
ências naturais, declarado por Jesus, quando disse teresses devem ser considerados, tanto quanto os
a Pedro: “Todos os que lançarem mão da espada à nossos.
espada morrerão” (Mt 26.52).
“ímpios homens... mataram” (2 Sm 3.22— 4.12).
“Então, se irou muito Abner” (2 Sm 3.1-21). A de­ Dois assassinatos abriram o caminho para que Davi
serção de Abner, aliando-se a Davi, foi precipita­ se tornasse rei de um Israel unido; no entanto, ele
da pela acusação de Isbosete de que Abner teria não teve participação em nenhum deles, pois am­
dormido com uma das concubinas de Saul. Este bos foram injustificados. O principal objetivo de
ato teria tido consequências políticas no mundo Joabe ao matar Abner era vingar-se por seu irmão,
antigo, sugerindo que Abner pretendia reivindicar Asael, a quem Abner havia matado em batalha. Os
o trono de Israel. O comandante do exército não assassinos de Isbosete esperavam ser recompensa­
negou a acusação, mas ficou furioso com a acusa­ dos por levar “boas-novas” a Davi.
ção implícita de deslealdade (v. 8). Davi rapidamente agiu para mostrar ao seu povo
Na sua furia, Abner decidiu entregar o reino a que ele nada tinha a ver com nenhuma das duas
Davi, e começou as negociações com esta finalida­ mortes. Ele lamentou e honrou publicamente Ab­
de. As palavras de Abner aos anciãos de Israel são ner, e executou os dois homens que assassinaram
significativas: “Muito tempo há que procuráveis Isbosete.
que Davi reinasse sobre vós” (v. 17). Aparentemen­ Nós podemos nos beneficiar dos atos pecaminosos
te, somente o medo de Abner e dos benjamitas, a dos outros. Mas jamais devemos nos alegrar por eles.
própria tribo de Saul, tinha impedido que os anci­
ãos agissem até então (cf. w. 19-21). “Ungiram Davi rei sobre Israel” (2 Sm 5.1-16). A
O medo frequentemente impede as pessoas de fa­ guerra civil de sete anos chegou ao fim, e Davi ini­
zerem o que acreditam ser correto. Se os anciãos de ciou um reinado de 33 anos sobre um reino hebreu
Israel tivessem temido a Deus mais do que a meros unido.
seres humanos, a tragédia da guerra civil poderia A sua escolha de Jerusalém como capital foi astuta.
ter sido evitada. A cidade, então ocupada por um povo cananeu,
ficava na divisa entre norte e sul. A escolha de­
“Dá-me minha mulher Mieal” (2 Sm 3.13-16). Foi monstrou a ausência de favoritismo por qualquer
amor ou foi política que levou Davi a exigir o re­ parte da nação de Davi. A cidade também era rela­
torno de Mical, a filha de Saul? As possibilidades tivamente segura — tão facilmente protegida que
são de que a política teve sua importância, pois o os cananeus zombeteiramente predisseram que os
seu casamento com a filha de Saul fortalecia a rei­ mancos e cegos poderiam protegê-la contra qual­
vindicação de Davi ao trono de Saul. quer força que a atacasse. Eles estavam errados.
De qualquer forma, observe que ninguém pergun­
tou a Mical se ela desejava ou não voltar para Davi. “E os filisteus tornaram a subir” (2 Sm 5.17-25).
Por exigência de Davi, ela foi tirada de seu choro­ Durante a longa guerra civil, Israel não representou
so segundo marido, Paltiel, e seguiu para unir-se ameaça aos filisteus. Agora, no entanto, eles ataca­
a Davi. Mical tinha sido usada por seu pai (1 Sm ram, determinados a matar ou a capturar Davi. O
18.20-25). Aqui, aparentemente, ela era usada por Senhor guiou Davi a uma vitória decisiva.
Davi. Não é de admirar que ela, mais tarde, tenha E significativo que Davi não atacasse em primei­
se tornado endurecida e amarga. ro lugar. Ele tinha vivido por algum tempo perto
Nós precisamos ser especialmente cuidadosos de Gate, e tinha obrigações com o seu governante,
para não usarmos as outras pessoas em benefício Aquis. Quando os filisteus atacaram, Davi estava
dos nossos próprios interesses. Os seres humanos livre para combatê-los.

DE V OCIONAL______
Pelas suas Obras se você voltar para mim”, é outra promessa popu­
(2 Sm 3— 4) lar. “Eu não sou culpado de tal pecado” é uma frase
Você já percebeu com que facilidade as pessoas são que nós aprendemos a questionar, mesmo quando
persuadidas por palavras? “Será diferente quando proferida por evangelistas contemporâneos.
estivermos casados”, promete o pretendente gros­ Não. As palavras não significam muita coisa. O
seiro