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alquimicamente, o embrião da imortalidade.

[Mircea Eliade, The Forge and the Crucible, Nova Iorque,

Harper and Row, 1962, pág. 117].

Se o herói sobreviver à iniciação que a vida apresentou nessa carta, poderá declarar, como

William Blake: have said to the Worm: Thou art my Mother and my sister.William Blake, "The Gates of

Paradise", The Pt, pág. 276. “Eu disse ao Verme: És minha Mãe e minha irmã”].

Vale a pena contrastar a situação do Enforcado com a do Enamorado, que também dramatiza um

processo. Pinta-se o Enamorado de pé, ereto, encaixado e imobilizado por duas mulheres, que estão

plantadas, sólidas como árvores, de cada lado dele. A resolução do seu problema e a força motriz

necessária à ação vêm da figura alada de Eros no céu, acima da cena. Mas o Enforcado, imobilizado

entre dois possantes símbolos maternos, só encontra inspiração nas profundezas.

A suposta localização física da consciência humana varia de cultura para cultura: no Antigo

Testamento afirma-se com freqüência que os rins são o centro da consciência; para o africano, esse tipo

de percepção está localizado no coração ou no abdome; o homem moderno coloca a consciência na

cabeça. O africano e o hebreu do Antigo Testamento, para os quais a consciência residia bem no fundo

do corpo, geralmente falavam de inspiração supraconsciente descida do alto. Para o homem moderno,

porém, que vive em demasia na cabeça, "O Outro" é mais freqüentemente encontrado nas profundezas

inferiores. Nós, como o Enforcado, fomos desligados das nossas raízes. Temos necessidade de descer -

religar-nos às nossas origens na história e na natureza. O motivo do sacrifício e do desmembramento,

sugerido nos cotos vermelhos de sangue das árvores truncadas, repete-se nas pernas e nos braços

vermelhos da figura pendurada, insinuando que ele também deve dar sangue, deve sacrificar seus dias

passados de compreensão e ação. Muitos dos seus velhos deuses caíram da árvore, e entre eles, sem

dúvida, a imagem da vida como mãe sempre boa e beneficente, cuja função, no seu entender, era

defendê-lo contra o infortúnio e alimentar-lhe toda e qualquer fantasia. Como Jung assinalou, a palavra

"sacrifício" significa "tornar sagrado". Sacrificar nossas imagens centradas no ego é tomar a nossa vida

total e santa; então já não haverá ruptura entre a imagem de como as coisas deveriam ser e as

realidades da existência humana. Somente nós, seres humanos, somos propensos a - e capazes de -

esse tipo de sacrifício e sofrimento espiritual. O fardo (e o potencial) inerente ao legado da Crucificação

coloca-nos à parte do resto do reino animal.

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