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AULA 29: FEMINISMO

SOCIOLOGIA

Feminismo

 Introdução
O feminismo é um movimento social historicamente datado na modernidade.
Além disso, reconstrói-se todos os dias, conforme as conquistas acumuladas pelas mulheres
frente a desigualdade e a injustiça da sociedade machista (e capitalista). Surge com bastante
força, mais ou menos paralelamente a outros movimentos de luta contra a opressão da
sociedade capitalista, tais como, o movimento negro, o movimento LGBT, o movimento
ecologista, entre outros. Seu foco é criar uma realidade mais justa, livre e igualitária. No
entanto, em que consiste feminismo? Primeiramente, precisamos ter em mente que tal
movimento busca entender o gênero como um fenômeno político, ou seja, deixar claro o
caráter opressivo e hierarquizado que ele possui atualmente (Homem > Mulher). O
feminismo não concorda com essa divisão arbitrária dos gêneros e repudia qualquer tipo
de autoritarismo e centralismo, por isso, não tenta homogenizar a luta, deixando os vários
grupos de mulheres organizarem suas lutas de acordo com as suas características históricas
específicas. Entretanto, não podemos perder de vista que para a efetivação das lutas sociais é
necessário uma articulação recíproca entre os diversos movimentos sociais, pois fragmentar
e hostilizar a luta alheia já é, em si, uma derrota.

➢ As diversas representações da mulher na história

Antes de começarmos a discutir sobre o movimento feminista propriamente dito,


precisamos entender um pouco da história da representação social da mulher, tema bem pouco
explorado pelas ciências sociais, mas que deveria ser trabalhado muito mais e de modo
profundo. Sendo assim, podemos começar pela Grécia Antiga (XI A.C. – II A.C.), onde
tomando Atenas “a cidade mais sábia” como exemplo, é possível enxergarmos logo de cara
que a mulher não era livre. Somente era livre na democracia ateniense os homens, com
mais de 21 anos e nativos proprietários de terra em Atenas. Segundo o famoso sofista
Xenofonte, a mulher tinha a função natural de cuidar dos filhos e realizar trabalhos manuais,

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tais como, trabalhar no tear de lã. Nesse período, vale mencionarmos o mito de Antígona1
que pode ser considerada a “primeira feminista da história ocidental”, cujo espírito
crítico contrariou as leis da polis, pensando por por si mesma ainda que isso lhe tenha lhe
custado a própria vida.
Na Roma Imperial (I – V), a mulher não estava excluída da atividade política, no
entanto, sua ação era muito limitada, caso comparada com a liberdade dos homens. Um
fenômeno bem ilustrativo era a exclusividade do trasporte publico aos homens, enquanto as
mulheres eram obrigadas a andarem por todo o império a pé. Uma questão muito
importante antes de continuarmos a exposição histórica é destacar o papel das mulheres
nas civilizações ditas barbaras pelos romanos (Gauleses, germânicos) e supostamente
selvagens na visão dos ocidentais (os iroqueses norte-americanos), na qual não havia
significativa diferenciação de poder entre os gêneros, pois as mulheres participavam
ativamente das discussões política, conseguiam ocupar qualquer posição dentro da sociedade,
bem como iam para guerra defender seu povo.
Na Idade Média (V – XV) o fenômeno do patriarcalismo atingiu o seu ápice,
portanto, foi um dos momentos históricos nos quais a mulher sofreu mais preconceito, tendo
em vista a forte pressão da religião para consolidar a hierarquia entre os gêneros (Homem >
Mulher), enxergando a mulher sempre como donzela indefesa e lhe negava o direito a
estudar. Contudo, esse período histórico foi muito paradoxal, pois, ao mesmo tempo que
as mulheres sofriam muito com o machismo inseparável do catolicismo, elas podiam como
nunca antes agir de forma relativamente livre em duas circunstâncias: por um lado,
quando se tornavam viúvas, podendo administrar a herança do marido como bem
entendessem (sempre que não se casassem de novo, porque aí o poder voltava ao homem) e,
por outro lado, ao atuarem como parteiras, uma espécie de conhecimento que só as mulheres
possuíam, ou seja, o modo como trazer os filhos com segurança para vida. Essa profissão que
a mulher possuía proporcionava-lhe muito prestígio social e autonomia sobre o seu a sua ação.
Ainda assim, a Idade Média foi um período terrível para a mulher, por causa, do
fenômeno da “caça as bruxas”, um genocídio sistemático de mulheres que eram queimadas
na fogueira em praça pública (um verdadeiro espetáculo macabro). A justificativa religiosa e
ideológica era que tais mulheres eram desentendes degeneradas de Eva que mantinham

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Seu irmão cometeu suicídio e segundo a lei da polis não tinha direito de ser enterrado. Sua irmão desafiou tudo
e todos para conseguir que o irmão fosse enterrado. Ela conseguiu, mas para que isso acontecesse tiveram que
enterrá-la viva junto com ele.

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relações diretas com o anjo caído Lúcifer (o capiroto). Todavia, na realidade, as mulheres
condenadas por bruxaria eram todas aquelas que ousavam pensar por si mesmas e
pensar diferente, desafiando o domínio patriarcal dos homens, ou outras ideias
preceituosas e opressivas aceitas pela sociedade. Outra observação importante é não termos
ilusões quanto ao protestantismo, pois, durante o avanças do pensamento protestante,
luteranos e calvinistas costumavam competir com os católicos para descobrirem quem
queimava mais “bruxas”.
Durante o Renascimento (a partir do século XVI) as mulheres vivenciaram outro
período extremamente paradoxal, haja vista que o feudalismo estava se arruinando e as ideias
de possibilidade de reflexão filosófica e artística sobre os seres humanos voltavam a ter
importância. Medicina, A filosofia, e a arte estavam caminhando novamente sem as grades
impostas pelo catolicismo feudal. Em resumo, o ser humano tornou-se o centro do
pensamento (antropocentrismo), e muitas conquistas foram consumadas, no entanto,
somente para o gênero masculino, pois, ao mesmo tempo que o pensamento filosófico e o
científico (ainda embrionário) estavam ganhando força, as profissões e qualquer tipo de
instrução intelectual era exclusividade dos homens (ricos), enquanto mulheres foram
proibidas de serem intruidas, sendo obrigadas a agirem somente no âmbito doméstico,
cuidando dos filhos e suportando as traições dos maridos.

➢ Um movimento político e organizado

O século XVIII ficou conhecido como o século das luzes, o século do progresso e do
avanço de diretos, das ciências e das artes. O iluminismo, a revolução francesa e a
independência dos EUA, são alguns exemplos que ilustram esse momento tão distinto da
história da humanidade. O famoso trecho da Declaração de Independência dos EUA
proclama: “Todos os homens nasceram foram criados iguais”, frente a essa frase Abigail
Adans escreve a seu marido John Quincy Adans (um dos idealizadores do movimento de
independência) questionando a restrição do termo homem apenas aos seres humanos do
gênero masculino, e o marido responde categoricamente que os “revolucionários da
independência estadunidense” não estão dispostos a abrir mão dos seus privilégios na
hierarquia dos gêneros. Quando os revolucionários franceses derrubaram a Bastilha em 1789,
eles gritavam: Liberté, Égalité, et Fraternité! [Liberdade, Igualdade e Fraternidade!], no

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entanto, sobre esse acontecimento precisamos nos perguntar: Para quem? De fato, somente
tornaram-se livres, iguais e fraternos, os homens (gênero masculino), brancos e ricos, em
poucas palavras: a alta burguesia. Portanto, a parte mais significativa da sociedade foi
apartada das conquistas da modernidade2, por causa disso, inúmeros movimentos sociais
surgirão a partir do final do século XVIII, reivindicando as promessas não cumpridas das
revoluções burguesas.
Nesse sentido, podemos descartar a coragem de Olympe de Gouges 3 (1748 –
1793), importante artista e revolucionária francesa que afirmava nascerem as mulheres
tão livres e iguais quanto os homens, no entanto, seus direitos foram arbitrariamente
restringidos. Em com sequência das suas críticas, foi condenada pela sociedade patriarcal e
machista do século XVIII, sob a acusação de desejar tornar-se “um homem de Estado”, e sua
punição foi a morte na guilhotina em 1793. A morte de Gouges tornou-a um mártir e
intensificou o movimento feminista na frança, até que a livre organização das mulheres
tornou-se um crime em 1795 (um verdadeiro absurdo para uma sociedade liberal). Até
mesmo o filósofo mais importantes do iluminismo, Jean-Jacques Rousseau,
compartilhada visão que pensava a mulher como um ser humano destinada satisfazer as
necessidades familiares dos homens, sem ambicionar qualquer coisa a não ser a vida
doméstica burguesa.
Avançando um pouco na cronologia da luta feminista, chegamos ao século XIX, o
período de ascensão plena do capitalismo no qual as revoluções industriais se consolidaram e
o modo de produção capitalista industrial se tornou hegemônico em todo o globo. As
reivindicações feministas nesse momento concentraram-se, primeiramente, na desigualdade
gritante existente entre o salário pago aos homens que eram muito maiores do que aqueles
pagos para as mulheres. A ideologia machista da época afirmava que existiam maridos
para sustentar as mulheres e devido ao fato delas serem, na sua maioria desqualificadas
profissionalmente, deveriam então ganhar menos. Contudo, bem como discutimos nessa
aula, as instruções e a profissionalização foram negadas historicamente as mulheres. Portanto,
como elas poderiam competir igualmente com os homens que aprenderam tradicionalmente a
profissão, ou tiveram acesso ao ensino universitário? Muita luta do movimento feminista foi
necessária para o ingresso das mulheres no mercado de trabalho e no ensino superior.
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Sobre esse assunto, existem outras das nossas aulas são mais profundas, por enquanto nos focaremos em
compreender os movimentos sociais que surgem a partir disso.
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Referência universal para todos os feminismos, inclusive para o movimento sufragista do século XIX.

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O século XIX foi também o momento de florescimento dos movimentos socialistas e
muitos movimentos feministas acabaram tomando contato com os escritos de Marx e Engels e
tornando-se comunistas, começando a lutar por melhorias salariais, melhores condições de
trabalho, até, por fim, questionarem o próprio capitalismo. Em 1848 as feministas
estadunidenses conquistaram uma vitória simbólica, conseguiram mudar o texto da
independência acrescentando o termo mulher: “Todos os homens e mulheres foram criados
iguais”. Em 8 de março de 1857, as funcionárias da indústria têxtil de Nova Iorque
saíram para as ruas protestando por melhores condições de trabalho e jornada de
trabalho de 12 horas, no entanto, acabaram reprimidas. Cinquenta e um anos depois,
em 1908, no mesmo dia 8 de março, novamente as trabalhadoras de Nova Iorque
revoltaram-se dentro da fábrica exigindo melhores condições de vida, salário e o direito
ao voto. Contudo, dessa vez a repressão do capitalista foi mais fria e cruel, pois, mandou seus
capatazes trancarem as operárias na fábrica e incendiá-la com elas lá dentro. Essa opressão
inescrupulosa intensificou mais ainda a crítica feminista e tornou o que hoje conhecemos
como o dia Internacional da Mulher.

➢ O movimento sufragista

O século XIX é marcado por muitos processos e conquistas sociais, uma delas é o
“sufrágio universal” (masculino), ou seja, quando o voto deixou de ser um direito restrito por
renda e passou a ser “universal para todos”, menos para as mulheres. Frente a essa injustiça
as mulheres se uniram e decidiram lutar pelo direito ao voto. Muitas lutas aconteceram
inspiradas pelo feminismo, entretanto, o movimento sufragista (como ficaram conhecidas as
mulheres que lutaram pelo direito ao voto) foi o que conquistou maior destaque na época.
Depois de inúmeras passeatas e protestos, somente em 1920 os EUA aceitam o sufrágio
universal feminino.
Na Inglaterra, a luta começa tem um marco importante em 1865, quando o
filósofo liberal John Stuar Mill encaminha para o parlamento o projeto de lei do
sufrágio universal feminino. A luta na Inglaterra assume os mesmos moldes dos EUA (com
exceção das suffragettes que assumiram uma postura mais violenta e atacavam
propriedade privada), no entanto, a repressão contra o movimento foi mais violenta
ainda, pois as suffragettes foram encarceradas em celas comuns (estimulando o estupro e

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a violência física e sexual) e àquelas que fizeram greve de fome foram forçosamente
alimentadas por tubos que iam do nariz até o estômago. A vitória chegou apenas 8 anos
depois, em comparação aos EUA, ou seja, em 1928.
No Brasil, a luta não apresentou um caráter de massa como nos EUA e na
Inglaterra, sua expressão mais significativa foi o lobbying parlamentar (discussões e
pressão no congresso nacional), iniciado a partir de 1910, por meio do Partido
Republicano Feminino (PRF). O primeiro estado a sancionar o voto feminino foi o Rio
Grande do Norte, em 1927, pouco a pouco, os outros estados foram aderindo ao sufrágio
universal feminino, até que, finalmente, Getúlio Vargas aprovou o voto feminino em 1932. A
luta feminista não se resume nem termina no movimento sufragista, no entanto, ele é um
exemplo histórico significativo da força das mulheres e pode atuar como inspiração para os
novos movimentos sociais.

➢ O movimento atualmente
A partir da Segunda Guerra Mundial, por conta da necessidade de se liberar a força de
trabalho masculina para a guerra, houve um incentivo ao trabalho feminino, porém, com o fim
da guerra, e o retorno da disponibilidade da força de trabalho masculina, houve uma grande
mobilização ideológica segregar as funções sociais atribuídas aos homens e às mulheres, os
primeiros vistos como provedores da família e as segundas como “donas de casa”. Em crítica
a tal tendência ideológica, a filósofa Simone de Beauvoir, em Segundo Sexo, destaca a
necessidade de se estudar e criticar o processo de socialização da mulher e como ela é
alienada de seu próprio sexo, sendo treinada a ser uma espécie de “apêndice do homem”,
enquanto, o homem se afirma em seu sexo, como aquele que tem a autoridade sobre si e sobre
a própria mulher. Os escritos de Beauvoir inspiraram os movimentos feministas que se
desenvolveram a partir de 1960. A partir de 1960 o feminismo assume uma grande frente de
luta: a contestação dos discursos biologizantes que classificam a mulher como inferior ao
homem e que segrega funções socialmente desiguais entre ambos. A mulher então é
interpretada como naturalmente propensa ao assim chamado mundo interno (do lar, da
obediência e do prazer sexual) e o homem ao mundo externo (do trabalho, da ciência,
das posições de mando político e econômico). Este discurso legitima uma hierarquização
entre homens e mulheres, na qual os primeiros estão acima das segundas. O movimento
feminista atual surge para criticar e superar essa visão segregacionista e desigual entre

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os sexos, endossada social, política e religiosamente. De Beauvoir as feministas se
inspiraram em sua célebre conclusão “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum
destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da
sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e
o castrado que qualificam de feminino” (BEAUVOIR, 1967, p. 9). Vale lembrar que o
discurso que naturaliza inferioridade e desigualdade da mulher em relação ao homem
tem a mesma raiz que as teorias eugenistas racistas desenvolvida no século XIX e
reproduzida no século XX pelos cientistas eugenistas nazistas.
Podemos citar quatro principais bandeiras do movimento feminista atual. A
primeira das reivindicações do movimento feminista atual se manifesta no sentido da
sexualidade e da luta contra a violência sexual. Em resumo, o movimento feminista
defende que a mulher tenha liberdade e autonomia no uso de seu próprio corpo (“meu
corpo minhas regras”). Nesse sentido, criticam a tendência histórica de contenção q ue vem
sendo aplicada ao corpo da mulher, por parte da família, do Estado e da religião. Também
denunciam as diversas formas de assédio (moral, psicológico e sexual) e violência
doméstica. A segunda reivindicação se desdobra no âmbito da saúde, em especial, no que
diz respeito ao conhecimento do próprio corpo (cerceado, limitado e dominado desde a caça
às parteiras e a orgiem da medicina focada no homem) e na luta pela legalização do aborto
encarado como questão de saúde pública, uma vez que muitas mulheres morrem praticando
formas “caseiras” de aborto ou procurando clínicas clandestinas. A terceira reivindicação se
expressa no campo da ideologia e, basicamente, consiste no combate as ideais e processos
sociais que inferiorizam a mulher em relação ao homem. Seu principal objetivo e atuar na
educação, desconstruindo o machismo. A quarta reivindicação desenvolve-se na esfera do
mundo do trabalho, em especial na luta por acesso a todas as profissões e aos cargos de
poder, gestão e mando, bem como à remuneração igual para mesma função. Além disso,
reivindicam a construção de creches e a divisão das tarefas domiciliares par combatar a
chamada “dupla jornada”.
Uma outra forma interessante de luta feministas são os grupos de relato, discussão e
organização, formados apenas por mulheres, com intuito de discutir os principais problemas
enfrentados pelas mulheres: assédio, violência, descriminação, preconceito, segregação,
desigualdade, entre outros. A a partir destes grupos é possível apreender sobre a própria
condição da mulher em nossa sociedade, diagnosticar certas formas de assédio

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naturalizadas, combinar manifestações sociais e se fortalecer em um mundo que
privilegia a mulher em detrimento do homem.

Referências Bibliográficas

ALVES, B. M. & PPITANGUY, J. O que é feminismo. São Paulo: Brasiliense, 1983. 79 p.

DE BEAUVOIR, S. O segundo sexo: a experiência vivida. São Paulo: Difusão europeia do


livro, 1967, 502p.