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TEMPOS BELICOSOS
A REVOLUÇÃO FEDERALISTA NO PARANÁ E A REARTICULAÇÃO DA VIDA POLÍTICO-ADMINISTRATIVA DO ESTADO (1889–1907)

Tempos Belicosos: a Revolução Federalista no Paraná

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Instituto Memória Editora e Projetos Culturais Rua Deputado Mário de Barros, 1700 – cj. 412 – Centro Cívico CEP: 80530-280 – Curitiba – Paraná – Brasil – (41) 3352-3661 www.institutomemoria.com.br Editor: Anthony Leahy

Capa: Duílio David Scrok

ISBN: 978-85-61801-06-9
S454 Sêga, R.A. Tempos Belicosos: a Revolução Federalista no Paraná Rafael Augustus Sêga - autor 2ª edição - Curitiba: Instituto Memória, 2008 234 p. 1. História do Paraná 2 . Sul 3. História do Brasil I. Título.

CDD 981.62
CDU 94(7/8)(81)

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Rafael Augustus Sêga

Rafael Augustus Sêga

TEMPOS BELICOSOS
A REVOLUÇÃO FEDERALISTA NO PARANÁ E A REARTICULAÇÃO DA VIDA POLÍTICO-ADMINISTRATIVA DO ESTADO (1889–1907)

2ª edição

Curitiba – 2008

Tempos Belicosos: a Revolução Federalista no Paraná

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Conselho Editorial
Formado por profissionais com titulação mínima de Doutor, e sólida experiência acadêmica, os membros do Conselho Editorial chancelam a qualidade das obras aprovadas para publicação. de Santa Maria, Brasil (1985). É professora adjunta da Prof. Dr. Luiz Felipe Viel Moreira – COORDENADOR Universidade Federal de Santa Maria, Brasil. Integra o – Pós-Doutorado pela Universidade Nacional de Conselho Editorial da Revista Brasileira de Direito Córdoba, Argentina – UNC. Doutor em História Social Ambiental. pela Universidade de São Paulo, Brasil – USP. Mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande Profa. Dra. Elaine Rodrigues – Doutorado em História do Sul, Brasil – UFRGS. Professor Associado do e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista – Departamento de História e do Programa de PósJúlio de Mesquita Filho, Brasil – UNESP (2002). Mestre graduação em História da Universidade Estadual de em Educação pela Universidade Estadual de Maringá, Maringá, Brasil – UEM, com pesquisas em História da Brasil – UEM (1994). Graduada em Pedagogia pela América Latina. Universidade Estadual de Maringá, Brasil – UEM (1987). Atualmente é professora Adjunta do Prof. Dr. Carlos Roberto Antunes dos Santos – Pósdepartamento de Fundamentos da Educação e do Doutorado em História da América Latina pela Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Paris III, França. Doutor em História Universidade Estadual de Maringá, Brasil – UEM. pela Universidade de Paris X – Nanterre, França. Mestre em História do Brasil pela Universidade Federal Prof. Dr. Rafael Augustus Sêga – Doutorado em do Paraná, Brasil – UFPR. Professor da Universidade História do Brasil pela Universidade Federal do Rio Federal do Paraná, Brasil – UFPR. Reitor da Grande do Sul, Brasil – UFRGS. Mestre em História do Universidade Federal do Paraná, Brasil – UFPR Brasil pela Universidade Federal do Paraná, Brasil – (1998/2002). Membro do Conselho Nacional de UFPR. Professor da Universidade Tecnológica Federal Educação (2003/ 2004) e do Conselho Superior da do Paraná, Campus Curitiba – UTFPR. Pós-doutorando CAPES (2003/2004). em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná, Brasil – UFPR. Prof. Dr. Paulo Roberto Cimó Queiroz – Doutorado em História Econômica pela Universidade de São Prof. Dr. Luc Capdevila – Pós-Doutorado, Professor Paulo, Brasil – USP. Mestre em História pela Titular da Universidade de Rennes 2, França, em Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, História Contemporânea e História da América Latina e Brasil – UNESP. Professor da Universidade Federal de Diretor do Mestrado de História das Relações Mato Grosso do Sul, Brasil – UFMS. Internacionais. Membro do Conselho Científico da Universidade de Rennes 2 e do Conselho Editorial de Prof. Dr. Guido Rodríguez Alcalá – Doutorado em várias revistas científicas (CLIO Histoire, Femmes, Filosofia, na Diusburg Universität (1983), com bolsa da Sociétés; Nuevo Mundo Mundos Nuevos; Diálogos; Konrad Adenauer Stiftung. Mestre em Literatura, na Takwa). Especialista em História Cultural sobre Ohio University e The University of New México, com conflitos sociais contemporâneos, dirige atualmente um bolsa de estudos da Fulbright-Hays Scholarship. programa de investigação multidisciplinar sobre a Graduado em Direito pela Universidade Católica de Guerra do Chaco. Assunção (Paraguai). Autor de numerosos livros de poesia, narrativa e ensaio, tendo já sido publicado no Prof. Dr. Domingo César Manuel Ighina – Doutorado Brasil a novela Caballero (tchê!, 1994) e o ensaio em Letras Modernas pela Universidade Nacional de Ideologia Autoritária (Funag, 2005). Córdoba, Argentina – UNC. Diretor da Escola de Letras da Faculdade de Filosofia e Humanidades da Profa. Dra. Jalusa Prestes Abaide – Pós-Doutorado Universidade Nacional de Córdoba, Argentina. na Université de Saint Esprit de Kaslik, Líbano (2006). Professor da cátedra de Pensamento latino-americano Doutora em Direito pela Universidade de Barcelona, da Escola de Letras da Universidade Nacional de Espanha (2000). Mestrado em Direito pela Córdoba. Membro do Conselho Editorial da Revista Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil – UFSC Silabário. (1990). Graduada em Direito pela Universidade Federal

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O tempo curto é a mais caprichosa, a mais enganadora das durações. Daí procede, entre alguns de nós, historiadores, uma viva desconfiança com relação à história tradicional, dita factual, confundindo-se a etiqueta com a etiqueta da história política, não sem alguma injustiça: a história política não é forçosamente uma história factual, nem é condenada a sê-lo.

Fernand Braudel

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DEDICATÓRIA E AGRADECIMENTOS

Dedico a publicação desse livro ao meu filho Jonas e à minha mulher Katia, amores da minha vida e razão da minha dedicação. Quero expressar minha profunda gratidão e sincera estima ao senhor Cláudio Petrycoski pela publicação da 1ª edição deste trabalho e ao editor Anthony Leahy pelo lançamento desta 2ª edição. Gostaria de externar meu reconhecimento a todos que, de alguma maneira, ajudaram-me nessa tarefa, especialmente (em ordem alfabética) a Antônio Francisco Sêga, Arthur Virmond de Lacerda, Carlos Alberto de Freitas Balhana, Cláudio Luiz DeNipoti, Cel. Cláudio Moreira Bento, Daniel Sampaio Figueira, Eloisa Helena Capovilla da Luz Ramos, Helga Iracema Landgraf Piccolo, Jaques Mário Brand, John Charles Chasteen, Judite Maria Barboza Trindade, Ivo de Lourenço Júnior, Luís Fernando Lopes Pereira, Márcia Elisa de Campos Graf, Maria José Secundino, Marli Pinheiro Sêga, Sandra Jatahy Pesavento, Solange de Oliveira Rocha, Stella Maria Moreira Barvinski, Tangriani Simioni Assmann, Thelma Belmonte e Y. Shimizu. Esse livro foi originalmente apresentado como tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em História, linha de pesquisa “Relações de Poder Político-Institucionais”, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob orientação da professora doutora Helga Iracema Landgraf Piccolo, defendida em 30 de maio de 2003.

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PREFÁCIO
Tempos belicosos é um trabalho renovador, pois aborda um tema bastante explorado – o da Revolução Federalista – a partir de um ponto de vista diferenciado. Em primeiro lugar, por analisar comparativamente o Rio Grande do Sul e o Paraná, o autor evita se perder nos encantos do ufanismo regional que tanto tem caracterizado as histórias da Revolução de 1894. Situar elites políticas e econômicas, enfatizando distinções e semelhanças em um contexto específico e explosivo contribui para essa característica do trabalho. Por sua vez, ao relativizar as análises, o autor não incorre nos juízos de valor sobre os personagens envolvidos neste fenômeno revolucionário, juízos esses que acompanham visões mais tradicionais da história do Brasil – em particular um certo memorialismo, ainda cultivado no âmbito da política regional. Nesse sentido, a abordagem historiográfica rende ao autor a possibilidade de investigar processos de construção de memória regional, à medida que o evento revolucionário é abordado de acordo com diferentes olhares políticos, ao longo dos últimos cem anos. No caso específico da historiografia paranaense – alvo principal do estudo – a investigação amplia enormemente a compreensão sobre processos de reescrita da memória. Some-se a essas características o fato de o trabalho com as fontes permitir ao autor – e seus leitores – a compreensão dos processos discursivos relativos a essa memória; e temos um livro que traz uma valiosa colaboração à historiografia brasileira quanto a processos de legitimação e apropriação do poder.
Cláudio DeNipoti

Historiador, Doutor em História

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S U M Á RI O

INTRODUÇÃO........................................................................... 13 CAPÍTULO 1 O solapamento do império e os prenúncios da República ....... 31 1.1. A política imperial ........................................................... 32 1.2. As dificuldades da implantação da República no Brasil ...57 CAPÍTULO 2 Os percalços do novo regime e a Revolução Federalista ......... 75 2.1 A trama episódica ............................................................. 86 2.2 A urdidura historiográfica ............................................... 108 CAPÍTULO 3 A Revolução Federalista no Paraná e a rearticulação da vida político-administrativa do Estado...................................... 123 3.1 A formação histórica do Paraná ...................................... 124 3.2 O contexto socioeconômico da Província do Paraná ....... 131 3.3 A dinâmica político-partidária do Paraná no século XIX ................................................................. 146 3.4 As representações no discurso político da imprensa paranaense...................................................................... 156 3.5 Ensaio biográfico ............................................................ 195 3.6 O “consulado” de Vicente Machado ............................... 209 CONCLUSÃO ........................................................................... 217 REFERÊNCIAS ........................................................................ 221

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INTRODUÇÃO

O objetivo central do presente trabalho é estudar a sociedade política paranaense nos primeiros anos da República, mais especificamente o governo do Estado entre 1889 e 1907. O tema a ser tratado diz respeito à rearticulação da vida político-administrativa do Paraná motivada pela implantação do regime republicano e pelos influxos da Revolução Federalista em seu território em 1894, revolta armada que eclodiu no Rio Grande do Sul no ano anterior como fruto dos antagonismos de segmentos da classe dominante local, que se aglutinaram, de um lado, pela centralização política estadual proposta por Júlio de Castilho, e de outro, pelas propostas parlamentaristas de Gaspar Silveira Martins. O desenrolar da guerra civil fez com que o exército revolucionário dos federalistas (o “Exército Libertador”) avançasse para o norte, passando por Santa Catarina e, sob inspiração da Revolta da Armada, atingisse o Estado do Paraná. Esse ciclo de vilanias só terminaria oficialmente em 1895 no município de Pelotas, com a assinatura do Armistício de Piratini1, firmado entre republicanos e federalistas no dia 23 de agosto. Contudo, as feridas da insurreição permaneceriam abertas nos três Estados do sul do Brasil por mais tempo. Em solo paranaense, a instauração do regime republicano fez com que os liberais fossem afastados do governo provincial, sendo instaurada uma aliança entre conservadores e republicanos sob a liderança de Vicente Machado. Todavia, os liberais (majoritários no Congresso Legislativo Estadual) se reorganizaram e conseguiram eleger Generoso Marques para a sucessão da Presidência do Estado, mas o apoio dado por este ao golpe de Deodoro acelerou sua deposição, e o grupo ligado a Francisco Xavier da Silva e Vicente Machado foi reconduzido ao executivo estadual paranaense por influência de Floriano. Diante desse quadro político conturbado, a
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Apesar de a ata final de pacificação ter sido lavrada em Pelotas, o armistício leva o nome de Piratini porque “nos primeiros dias de julho, deram-se ordens de suspensão das hostilidades, e a 10, na Estação (de trem) Piratini (hoje na cidade de Pedro Osório), foi lavrada a primeira ata da conferência de pacificação.” In: FRANCO, Sérgio C. Júlio de Castilhos e sua época. Porto Alegre: Editora da UFRCS, 1996. p. 143.

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chegada dos revoltosos federalistas ao Paraná encontrou adeptos entre setores do antigo Partido Liberal, envolvidos com a atividade pastoril e pequenos negócios do “Paraná Tradicional”, uma vez que o comércio das tropas gerava um intenso contato comercial e cultural dos paranaenses dos Campos Gerais com os gaúchos. Já no Estado no Rio Grande do Sul, a derrocada dos antigos liberais, seguidores de Gaspar Silveira Martins, assinalou a efetivação do plano político-administrativo positivista de Júlio de Castilhos, iniciado por ele e levado a cabo pelo seu discípulo Antônio Augusto Borges de Medeiros, que ficou vinte e cinco anos frente ao Executivo rio-grandense. No Paraná, ao contrário, não existia um grupo orgânico como o dos positivistas gaúchos, e a vitória sobre os insurretos da Revolução Federalista não assinalou a implantação de uma plataforma política planejada, pois a condução de Vicente Machado visou essencialmente ao afastamento dos antigos liberais da cena política e o assassinato do Barão do Serro Azul (antigo conservador) criou um “vácuo” entre as lideranças econômicas do Estado do Paraná. Na verdade, o Paraná entrou em um período de crise política, que perdurou até 1907, quando da morte de Vicente Machado. Se no Estado gaúcho, os antigos federalistas voltaram a se reorganizar em 1924 por meio da Aliança Libertadora; no Paraná, mediante a uma rearticulação da vida político-administrativa, eles retornaram em 1908, com a organização da “Coligação Republicana”, em torno da eleição de Francisco Xavier da Silva, que reuniu antigos republicanos e federalistas. O ápice desse retorno de antigos federalistas ao poder no Paraná deu-se em 1916, com a eleição para governador de Affonso Alves de Camargo, antigo simpatizante da causa revolucionária. Por que dois Estados, tão ligados culturalmente até então, tomaram rumos políticos tão díspares? Este trabalho tentará sugerir respostas para essa questão com argumentos novos, a partir da investigação dos impulsos conjunturais determinantes à vida política paranaense com os influxos da Revolução Federalista. Utilizaremos como substrato, a análise das estruturas sociais e econômicas formadas pela atividade criatória desenvolvida nos Campos Gerais e pela atividade industrial do mate desenvolvida no litoral e na região de Curitiba; aliado a esse quadro, utilizaremos o discurso político impresso no jornal governista do período.

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Partimos da hipótese de que a Revolução Federalista constituiu-se, em solo paranaense, no momento crucial da cisão interna das camadas dominantes do Estado, e que essa cisão rompeu com a antiga ordem política herdeira do Império, acarretando uma rearticulação da vida político-administrativa estadual. Nosso episódio em tela não se caracterizou, em termos de Paraná, como sendo um episódio “exótico” (“gaúcho”), descolado da realidade social paranaense, como apregoa a corrente historiográfica tradicional seguidora dos passos de David Antônio da Silva Carneiro2, e nem tampouco um movimento com raízes na guerra do Paraguai, como acredita a corrente liderada por Octávio Secundino Júnior 3 Para nós, a Revolução Federalista é, no Paraná, o que Antônio Gramsci chamou de crise orgânica das classes fundamentais:
Num determinado momento de sua vida histórica, os grupos sociais se afastam dos seus partidos tradicionais, isto é, os partidos tradicionais com uma determinada forma de organização, com determinados homens que os constituem, representam e dirigem, não são mais reconhecidos como expressão própria da sua classe ou fração de classe. Quando se verificam estas crises, a situação imediata torna-se delicada e perigosa, pois abre-se o campo às soluções de força, à atividade de poderes ocultos representados pelos homens providenciais ou carismáticos. (...) A crise cria situações imediatas e perigosas, pois as diversas camadas da população não possuem a mesma capacidade de orientar-se rapidamente e de se reorganizar com o mesmo ritmo. A classe dirigente tradicional, que tem um numeroso pessoal preparado, muda homens e programas e retoma o controle que lhe fugia, com uma rapidez maior do que a que se verifica entre as classes subalternas 4.

Grande parte dos revoltosos paranaenses era composta, ideologicamente, por setores liberais (e seus dependentes políticos) engajados no modelo econômico-político-social do “Paraná Tradicional” e essas camadas eram caracterizadas pelo conservadorismo e pelo afastamento do debate travado nacionalmente sobre a crise da monarquia e o republicanismo. Os vínculos entre eles originavam2

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CARNEIRO, David A. S. O Paraná e a revolução federalista. São Paulo: Atena, 1944. p. 89-99. SECUNDINO JR., Octávio. O solar do barão. Paranaguá: edição de autor, [s/ d.]. p. 265. GRAMSCI, Antônio. Maquiavel, a política e o Estado Moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. p. 54.

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se por razões econômicas com raízes na própria atividade rural tradicional (no caso dos revoltosos do campo) e no pequeno comércio (no caso dos revoltosos urbanos). Seus capitais eram essencialmente comerciais, e eles não conseguiam amealhar condições para promover aumentos na produção, na expansão ou na tecnificação (o que já havia ocorrido com a atividade ervateira), e, conseqüentemente, na capacidade de aumentar seus capitais e reinvestir na sua capacidade produtiva. Sob essas condições, os federalistas paranaenses não conseguiam enxergar, devido à sua “consciência real”5, que sua decadência decorria muito mais da crise do modelo agrárioexportador do Império que do advento da República propriamente dita, mas, ao contrário, acreditavam que a mesma era um regime que punha em risco seu modo de vida, e por isso queriam retornar a um status quo ante6. Acreditamos que, mesmo sendo os setores sociais do Paraná que aderiram aos revoltosos federalistas um grupo politicamente coeso, eles não teriam se insurgido sem a inspiração causada pelos maragatos gaúchos. Partimos da premissa de que esses setores adesistas à revolta eram identificados, em termos de atuação política, com os princípios parlamentaristas dos federalistas rio-grandenses e que acabaram vislumbrando na Revolução Federalista uma oportunidade de combater a liderança política regional de Vicente Machado e o projeto político nacional centralizador de Floriano. Parece-nos pobre em argumentação, por exemplo, dizer apenas que a parcela da sociedade paranaense que aderiu aos revolucionários federalistas (adeptos e simpatizantes) possuía meros vínculos monarquistas, pois a “comunidade simbólica” dos federalistas paranaenses açambarcava um espectro social e ideológico extremamente amplo: grandes criadores rurais, seus capangas e seus agregados sociais; pequenos produtores rurais; indivíduos urbanos desvinculados da produção social e que se dedicavam a atividades marginais (lumpenproletariat); camadas médias urbanas; pequena burguesia citadina comercial e uma parcela tradicional dos políticos ligados ao
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Partimos dos conceitos de “consciência real” e “consciência possível” propostos por Lucien Goldmann, na qual a consciência real de uma classe social é fruto das distorções impostas pela vivência empírica e a consciência possível corresponderia a uma visão de mundo mais elaborada e coerente com sua condição de classe. (GOLDMANN, Lucien. Ciências humanas e filosofia. São Paulo: Difel, 1967. p. 87). HOBSBAWM, Eric J. Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 26.

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antigo Partido Liberal (nesse caso, o medo era que a rotatividade imperial entre liberais e conservadores fosse abolida definitivamente), dentre outros. Consideramos “adeptos” aqueles que lutaram ao lado dos maragatos efetivamente e “simpatizantes”, aqueles que se limitaram ao apoio político, sem, no entanto, pegar em armas. Destarte, essas categorias sociais passaram a ver na Revolução Federalista uma chance fugaz da restauração da “idade de ouro”7 de uma velha ordem social dos tempos de um apogeu apregoado, como o poema da “passante” de Charles Baudelaire, “aquela que surge da multidão e nela logo desaparece, oferecendo, por um instante, uma promessa de felicidade em um olhar profundo.”8. O tema tratado neste livro é de uma relevância muito grande para a historiografia brasileira como um todo. Esse episódio foi extremamente conturbado e muitas vezes enaltecido de uma maneira linear, seqüencial e sem maiores problematizações. Sem dúvida, o caso mais controvertido do episódio em tela foi o assassinato do empresário Ildefonso Pereira Correia, mais conhecido pelo seu título nobiliárquico, Barão do Serro Azul. Após o fracasso da Revolução Federalista no Paraná, o barão foi tido como monarquista, acusado de colaboracionismo com os gaúchos, e foi sumariamente julgado e executado. Ao contrário dos acusadores, o barão argüiu que ele não havia favorecido os maragatos e sim, negociado a proteção de uma cidade sitiada e sem amparo militar, mas o argumento não demoveu seus algozes e, por volta de meia-noite de 20 de maio de 1894, no quilômetro sessenta e cinco da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, nos contraforte da Serra do Mar, o barão morria fuzilado junto a cinco outros companheiros de infortúnio, em meio à densa cerração de uma fria noite de outono. Como veremos no decorrer do trabalho, Vicente Machado sempre negou ser o mandante da execução, mas esse fato marcou profundamente a vida política paranaense pós–1894, uma vez que a morte do barão fez sumir a única liderança local capaz de fazer frente a Vicente Machado. A referida execução tem uma carga simbólica muito forte, como se a República tivesse vindo para se impor até mesmo sobre antigos poderosos do Império.
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GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 97. KOTHE, Flávio R. Para ler Benjamin. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. p. 99.

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Em uma breve apuração da produção historiográfica sobre a Revolução Federalista no Paraná, atestamos uma forma bem tradicional de explicação histórica e quase sempre nos deparamos com a descrição factual da insurreição em solos paranaenses: os precedentes políticos, a invasão do Estado, a tomada de Paranaguá e Tijucas, a investida sobre Curitiba, o assédio e rendição da Lapa e, finalmente, a debandada dos revoltosos. Encontramos essa narrativa seqüencial em A Revolução de 93, de José Cândido da Silva Muricy; em A Revolução Federalista e o Paraná, de David Antônio da Silva Carneiro; em Um episódio maragato, de Octávio Secundino Júnior; em Dias fratricidas: memórias da Revolução Federalista no Paraná, de José Bernardino Bormann; Maragatos x Pica-paus, de Milton Miro Vernalha; A revolução brasileira e lutas sociais no Parará, de Noel Nascimento. A mesma disposição episódica pode ser encontrada como verbetes em coletâneas, atlas ou dicionários históricos como em História do Paraná, de Romário Martins; Geografia e História do Paraná, de Luíza P. Dorfmund; Dicionário histórico-biográfico do Paraná, editado por Luís Roberto N. Soares; em Contribuições históricas e geográficas para o dicionário do Paraná, de Ermelino Agostinho Leão; em História do Brasil, de José Francisco da Rocha Pombo; em História do Paraná, de Ruy Christovam Wachowicz, e em Pequena história do Paraná, de Cecília Maria Westphalen. Dentro dessa mesma tendência, podemos subdividir ainda dois acontecimentos marcantes nas publicações atinentes ao assunto em tela: o cerco da cidade da Lapa (e o falecimento de Antonio Ernesto Gomes Carneiro) e o assassinato do Barão de Serro Azul. O historiador Carlos Roberto Antunes dos Santos, sobre isso, tece considerações bem pertinentes:
Nesse sentido, a História como heroísmo e a História como tragédia acabam dando cores a esta historiografia. A narrativa é centrada preferencialmente no cotidiano da violência e nas estratégias militares, acabando por criar um imaginário explicado por resistências, fidelidades, traições, estupros, resgates, decapitações, fuzilamentos, enfim, um imaginário de violência e sangue 9.

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SANTOS, Carlos R. A. Por uma nova leitura da revolução: pensar a revolução fora da revolução. In: WESTPHALEN, Cecília M. (Org.). Revolução Federalista. Curitiba: Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica, 1977. p. 79-80.

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Entrementes, podemos inferir ainda as obras historiográficas tradicionais que se subdividem nas categorias “heróicas” e “trágicas”, na primeira podemos citar O cerco da Lapa e seus heróis: antecedentes da Revolução Federalista no Paraná e O Paraná na história militar do Brasil, de David Antonio da Silva Carneiro; Gomes Carneiro e o cerco da Lapa, de João Cândido Ferreira; Vento leste nos Campos Gerais, de Rubens Mário Jobim; O cerco da Lapa do começo ao fim, de Francisco Brito de Lacerda, e Cerco da Lapa, de Filippe Maria Wolff. Na segunda categoria, a história como tragédia, encontramos uma corrente que procura resgatar a dignidade do Barão de Serro Azul frente ao seu fim funesto: Para a história: notas sobre a invasão federalista no Estado do Paraná, de José Francisco da Rocha Pombo; O solar do barão, de Octávio Secundino Júnior; Barão de Serro Azul, de Leôncio Correia e, dentro de uma linha teoricamente mais consistente, destacamos a célebre obra da professora Odah Regina Guimarães Costa: Ação empresarial do Barão de Serro Azul. Temos, por fim, os anais do Primeiro Congresso de História da Revolução de 1894, realizado em 1944 e que traz os trabalhos de Herculano Teixeira d' Assumpção, Pedro Carolino de Azevedo, José Loureiro Fernandes, Vicente Nascimento Júnior, José Niepce da Silva, entre outros. Retomemos, então, a análise de Carlos Roberto:
Mas esta historiografia é importante? É óbvio que sim, pois preencheu um espaço importante na produção historiográfica paranaense, principalmente com documentos inéditos que foram pesquisados e a elaboração da descrição etapista da revolução. (...) A aplicabilidade das novas concepções metodológicas da História para o estudo da Revolução Federalista no Paraná implica, acima de tudo, em estudar as conjunturas e estruturas das quais decorre o processo revolucionário 10.

É com essa preocupação que procuramos enquadrar a Revolução Federalista em uma explicação histórica mais ampla que aquela do tempo curto e buscamos conhecer a passagem dos maragatos gaúchos no Paraná como uma experiência própria de seu tempo, sem, no entanto, tomá-la como um fato encerrado em si mesmo, exaltando-a; isso, a historiografia tradicional já o fez.

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SANTOS, Carlos R. A. Op. cit., p. 80.

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Tomamos tal fato como um momento ímpar e que só se revela quando enquadrado em um movimento histórico maior. Diante disso, tratamos, estruturalmente, da inserção do Brasil no liberalismo e no capitalismo monopolista e, conjunturalmente, da problemática nacional da crise da monarquia e proclamação da República, da passagem do trabalho escravo para o trabalho livre, da imigração, da manutenção das oligarquias durante o regime republicano, da consolidação de um Estado burguês (sob a hegemonia dos cafeicultores paulistas), da crise da atividade criatória no sul do Brasil, da manutenção da estrutura agrário-exportadora, do surgimento das indústrias, da marginalização política dos Estados periféricos (fora do eixo São Paulo – Minas Gerais – Rio de Janeiro), entre outros; para, a partir daí, voltarmos nosso enfoque para o sul do Brasil e, conseqüentemente, para o Paraná à época da Revolução Federalista. As economias formadas nos três Estados do sul do Brasil ao final do século XIX apresentavam um grau de industrialização incipiente, constituindo-se em sociedades eminentemente agrárias, cujo montante de capitais privados investidos era muito baixo. Nesse contexto, o controle do aparato estatal era precioso para a manutenção do clientelismo eleitoral. Nessa época, processava-se a transferência das terras públicas devolutas para as mãos de particulares 11, o que fazia aumentar ainda mais a importância do executivo estadual na distribuição desses territórios. No caso do Rio Grande do Sul, o comércio ilegal de gado pela fronteira uruguaia fazia com que os produtores precisassem se aproximar das autoridades policiais e tributárias para garantir uma “margem de tolerância” razoável para suas atividades ilícitas. Com a República, a súbita mudança do poder das mãos dos liberais, tanto no Rio Grande do Sul como no Paraná, acarretou em uma desarticulação da máquina burocrática estadual que atendia aos interesses das elites agrárias. No Paraná, essa súbita mudança de poder será alvo das nossas análises no decorrer do trabalho. Ainda mais, a nova regulamentação da legislação eleitoral prevista pela Constituição de 1891 preconizou uma ampliação do universo de votantes em relação ao montante do período imperial, fazendo
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FRANCO, Sérgio C. A guerra civil de 1893. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1993, p. 56.

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com que o controle fugisse das mãos dos “donos do poder” do período provincial. No caso gaúcho, o aparato burocrático castilhista foi montado no intuito de afastar qualquer outro grupo dos espaços do poder político-institucional, e a única alternativa encontrada pelos liberais gasparistas foi o confronto armado o que, guardadas as devidas peculiaridades regionais, foi imitado pelos seus congêneres paranaenses. Já alguns dissidentes do próprio grupo castilhista preferiram se abster da luta, mas apoiar os revoltosos, como foi o caso de Demétrio Ribeiro. Preocupados em levar a cabo uma pesquisa historiográfica renovada sobre os efeitos da Revolução Federalista na vida políticoadministrativa do Paraná, tentamos fugir das armadilhas da história regional tradicional, que procura efetuar uma homogeneização no imaginário paranaense, em que todos são herdeiros dos “heróis” do cerco da Lapa, ou da “justa” execução do Barão de Serro Azul. Na verdade, a idéia de que certos paranaenses possuem do referido cerco só serve para universalizar os grupos dominantes, aquilo que Walter Benjamin chamou de “cortejo triunfal”12, a idéia que a classe dominante faz de si mesma e que, por hegemonia cultural, passa a ser aceita por todos os setores da sociedade civil. O que Marilena Chauí classificou por “senso comum”:
(...) ela (a ideologia) se populariza, torna-se um conjunto de idéias e valores concatenados e coerentes, aceitos por todos os que são contrários à dominação existente e que imaginam uma nova sociedade que realize estas idéias e estes valores (...) ou seja, o momento essencial da consolidação social da ideologia ocorre quando as idéias e valores da classe emergente são interiorizadas pela consciência de todos os membros não dominantes da sociedade 13.

Metodologicamente, buscamos sair da explicação factual da história política tradicional, que até hoje é tão forte, e não foi à toa que a narrativa linear e seqüencial dos feitos político-militares predominou na historiografia por mais de dois mil anos, pois a historiografia é “filha de seu tempo”, e como tal atendeu continuamente às suas intenções ideológicas: à noção de pertencimento à polis ou à grandeza de Roma, à índole guerreira da nobreza feudal ou ao sen12 13

KOTHE, Flávio R. Op. cit., p. 100. CHAUÍ, Marilena. O que é Ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1984. p. 108.

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timento religioso dos fiéis da Santa Igreja, ao temperamento empreendedor da modernidade ou aos enlevos nacionalistas contemporâneos etc. Sobre isso Pierre Lêvéque infere:
Os historiadores, com toda a naturalidade, tiveram a tendência de privilegiar os fatos que traziam uma espécie de justificação a essas ideologias, e melhor respondiam às preocupações das “elites” para as quais eles escreviam, quer dizer, a seu interesse primordial pelas atividades ligadas à vida dos Estados e ao governo dos homens. O advento progressivo, na época moderna e contemporânea, de novos grupos dirigentes, só pôde modificar muito lentamente essa situação: o burguês comprador e leitor de história foi, primeiro, antes de tudo, o burguês de “antigo regime”, o notável fundiário, jurista, letrado, funcionário do Estado nacional, muito mais do que o homem de negócios ou o engenheiro. Como muitas vezes o observou Lucien Febvre, impuseram-se as grandes subversões técnicas e econômicas do século XX para que florescessem curiosidades novas e exigências que a história política tradicional não podia satisfazer14.

Deveras, a história “historizante” (factual) sucumbiu aos ataques feitos pela sociologia de Émile Durkheim e François Simiand e pela renovação metodológica proposta por Henri Berr e mais tarde pelos Annales, na busca de uma história que levasse em conta as determinantes geográficas, sociais e econômicas, em que (usando uma metáfora do próprio Fernand Braudel), o événementielle (factual) não passaria de uma onda diante das profundezas do oceano da longue durée (longa duração). As novas formas de entender a história passaram a adotar o princípio de que todos aspectos sociais estavam sujeitos a transformações e mudanças, e não só o político. Historiadores do porte de Lucien Febvre e Marc Bloch agruparam-se, em 1929, em torno da revista Annales de Histoire Économique et Sociale, mais tarde: Annales: économies, societés, civilisations (origem do termo École dês Annales), e buscaram construir uma historiografia que se constituísse em uma ciência social, levando em conta fontes indiretas e muitas vezes imateriais, sem a pretensão positivista da descrição objetiva do “real”. Para tais historiadores, formas de viver e culturas eram mais permanentes que me14

LEVÊQUE, Pierre. História política. In: BURGUIÈRE, André. Dicionário das ciências históricas. Rio de Janeiro: Imago, 1993. p. 382.

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ros acontecimentos particulares, ou seja, cada sociedade carrega aspectos inerentes à sua própria estrutura, cabendo ao historiador investigar além da mera aparência do fenômeno social. Nesse sentido, o estudo histórico passou a se voltar às vidas materiais, à geografia, ao cotidiano, às oscilações econômicas etc. O homem passou a ser encarado em sua totalidade, onde muitos de seus aspectos essenciais só poderiam ser sentidos em temporalidades muito longas. Outros dois importantes paradigmas intelectuais, o marxismo e o estruturalismo, também viriam reforçar esse desprezo pelo estudo da instância do político; o primeiro, por considerá-lo uma mera “superestrutura”, ou um reflexo das forças econômicas, o segundo, por achar que o mesmo era um simples “epifenômeno” de um “todo articulado”. Após um período de ostracismo, a história política tirou proveito das novas diretrizes metodológicas, e, de meados da década de sessenta (notadamente após o “Maio de 68”) para cá, ela foi sendo retomada em uma vertente inovadora, em que as atitudes dos sujeitos políticos passaram a ser inseridas em um contexto econômico, social e mental maior. Outras análises mais renovadoras ainda passaram a buscar as “capilaridades” do poder. Essa corrente, da genealogia do poder, proposta por Michel Foucault, inclinou-se a dissecar a atuação dos pequenos poderes cotidianos vividos nos hospitais, nas fábricas, escolas ou seio familiar 15. No decorrer da década de sessenta, as revoluções (principalmente a francesa) foram reestudadas, isto se deveu tanto por influência da própria historiografia francesa renovada, herdeira dos Annales, a Nouvelle Histoire (Nova História), com suas investigações sobre as mentalités16 (mentalidades), como pela inglesa, de cunho marxista, ligada à New Left Review (Revista Nova Esquerda), que buscou nas sublevações, no fazer-se de classe17, nos motins, nas revoltas e nos movimentos revolucionários, captar um momento importante de manifestação das percepções culturais da população.

15 16

17

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1989. p. 1 -14. ARIES, Philippe. A história das mentalidades. In: LÊ GOFF, Jacques. A história nova. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p. 153-176. THOMPSON, Edward. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, v. 1 (A árvore da liberdade), 1987. p. 9.

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Entretanto, para Philippe Tétart, o “acontecimento fundador” da renovação da história política remonta a 1954, com a publicação de La droite française (A direita francesa), por René Rémond,
Seu afresco classificatório das direitas francesas, sobre a longa duração (sécs. XIX-XX), baseado no estudo dos comportamentos sociológicos e espaciais, dos discursos, dos modos de expressão, rompe radicalmente com a perspectiva factual positivista. Ele contém outro “sentido” da história. Abre uma nova era. Em 1957–1958, Raoul Girardet – outro pioneiro – e Rémond publicam vários artigos na Revue Française de science politique. Apelam para a redescoberta da história política “abandonada”18.

Atualmente, muitos historiadores passaram a rejeitar as análises macroscópicas e até mesmo estruturais que predominaram nas décadas de sessenta e setenta, os “paradigmas dominantes”19, e voltaram seus focos de análises para a narrativa das vidas privadas, do cotidiano das pessoas comuns e dos acontecimentos diários. Por isso, pomos também em relevo a corrente conhecida como Nova História Cultural20, donde subsumimos uma renovação teóricometodológica para a história política. Esse ramo da historiografia contemporânea é um movimento relativamente recente, sendo fruto direto das mudanças na maneira de escrever a história, decorrentes da École des Annales e da Nouvelle Histoire. Essa corrente possui uma natureza etnográfica fortemente influenciada pelo estudo do universo simbólico21, procurando, ao estudar o poder, resgatar a ação política humana no tempo e os sentimentos, emoções, formas de pensar ou idiossincrasias dos agentes e não mais cair nas armadilhas ingênuas da história política tradicional, onde os líderes eram transformados em meras “emanações” da vontade popular (daí o desprezo pelo povo em si), decalcados do tecido social. É importante ressaltar ainda os “empréstimos” que a oficina da história tem feito de outras ciências humanas para discernir sobre os estabelecimentos políticos do passado, principalmente da ciência política, da sociologia e da antropologia. Nesse sentido,
18 19

20 21

TÉTART, Philippe. Pequena história dos historiadores. Bauru: EDUSC, 2000. p. 126. CHARTIER, Roger. O mundo como representação. Estudos Avançados. São Paulo: CEBRAP, n. 11, 1991. p. 173. Nesse caso, o autor refere-se ao estruturalismo e ao marxismo. HUNT. Lynn. A nova história cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p. l6. BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1987.

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Bronislaw Bazcko reitera os estudos dos exercícios do poder nas ciências humanas:
Se nos virarmos para as ciências humanas, é fácil verificar que a imaginação, acompanhada pelos adjectivos “social” ou “colectiva”, ganhou também terreno no respectivo campo discursivo e que o estudo dos imaginários sociais se tornou um tema na moda. As ciências humanas mostravam, porém que, contrariamente aos slogans que pediam “a imaginação no poder”, esta sempre tinha estado no poder. (...) Os antropólogos e os sociólogos, os historiadores e os psicólogos começaram a reconhecer, senão a descobrir, as funções múltiplas e complexas que competem ao imaginário na vida colectiva e, em especial, no exercício do poder. As ciências humanas punham em destaque o facto de qualquer poder, designadamente o poder político, se rodear de representações colectivas. Para tal poder, o domínio do imaginário e do simbólico é um importante lugar estratégico22.

Essa renovação metodológica da história política passou a incorporar também uma reflexão sobre os mecanismos culturais de poder, isto é, como são estabelecidas as relações evocativas entre governantes e governados. Nesse sentido, novos matizes teóricos podem ser incorporados a uma história política com novo brilho. Francisco Falcon, em seu texto A identidade do historiador, ressalta que a historiografia contemporânea apresenta duas tendências fundamentais: o “giro lingüístico” (linguistic turn ou semiotic challenge) preconizado pelos trabalhos de Hayden White e o “retorno do político”:
Baseadas como são em geral tais teorias na autonomia da linguagem e da produção de sentido, elas significam, para a história, a eliminação do referente, se entendermos como tal a realidade extra-discursiva, assim como a supressão do papel do sujeito individual e, ainda, no limite, a negação da existência de qualquer laço entre a história e as ciências sociais. Já em relação ao chamado retorno ao político, considero bastante simplista e limitada a visão exposta por Chartier, sobretudo ao identificar em tal retorno, ou em todos que os defendem, a intenção de afirmar um
22

BAZCKO, Bronislaw, Imaginação social. Enciclopédia Einaudi – Anthropos-Homem Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1985, v. 5. p. 297.

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certo primado do político, com o que se eliminam tantas e tão importantes iniciativas tendentes à construção de uma Nova História Política, ou seja, a resgatar o papel e importância do político sem recair, no entanto, na tradicional história política de viés positivista23.

René Rémond ressalta que, se a esfera política existe sobressaindo-se das demais instâncias da realidade social, ela é exclusiva e autônoma, “imprimindo sua marca e influindo no curso da história” 24. Para ele, apesar de a história política ter sido associada neste século como um favorecimento do superficial em detrimento das estruturas mais permanentes, de uns tempos para cá ela tem sido resgatada em função de um debate jornalístico calcado na ciência política e pelo contato com outras epistemes sociais. Nesse ponto, apelamos mais uma vez a Philippe Tétart:
Na confluência da análise sócio-política sobre o tempo médio, longo, e do reconhecimento da contingência factual, os partidários da história política explicam a possibilidade de fundar um enfoque misto, com contribuições das diferentes ciências sociais e das diversas correntes historiográficas do séc. XX. Esse voluntarismo permite deixar o campo fechado das idéias políticas, reintegrar as aquisições epistemológicas e metodológicas de Clio para mostrar a centralidade do político na história das sociedades. Da linguística à prática militante, da flutuação da história das idéias à da opinião e da mídia, do estudo dos comportamentos cotidianos ao da filmografia etc., todos os assuntos-objetos falando do político tecem uma problemática vastíssima e susceptível de desembocar numa explicação globalizante da mecânica social e histórica25.

O presente trabalho procura, a partir dos referenciais teóricos de uma história política renovada, expostos acima, remontar uma narrativa dos efeitos da Revolução Federalista sobre a sociedade política paranaense nos primeiros anos da República. Este livro apresenta-se dividido em três capítulos.
23

24

25

FALCON, Francisco. A identidade do historiador. Estudos Históricos. Rio de Janeiro: CPDOC/FGV, v. 9, n. 17, 1999. p. 23. RÉMOND, René. Por que a história política? Estudos Históricos. Rio de Janeiro: CPDOC/ FGV, v. 7, n. 13, 1994. p. 7. TÉTART, Philippe. Op. cit., p. 128-129.

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O primeiro capítulo dedica-se à análise dos aspectos da vida política do Império e os percalços da implantação do regime republicano no Brasil, no qual faremos interpolações da política nacional com a política regional da região sul, e procuraremos mostrar que a República foi efetivada em nosso país sob a égide de vários grupos que, após a implantação do regime, passaram a exercer pressão para que seus projetos de sociedade fossem concretizados. O segundo capítulo versa sobre a Revolução Federalista em si e traz uma breve narrativa episódica do movimento sedicioso em tela no intuito de articulá-lo historicamente. Acreditamos na pertinência dessa postura, pois apenas nos ateremos à trama factual da política no Brasil e nos Estados do Sul como um “pano de fundo” para buscar, em seguida, uma análise historiográfica e entender a interposição da Revolução Federalista na conjuntura política brasileira da Primeira República. O terceiro capítulo é o principal, no qual tentaremos discorrer sobre o livro em si, ou seja, a Revolução Federalista no Paraná e a rearticulação da vida político-administrativa do Estado. As três primeiras partes do último capítulo tratam da formação histórica, do contexto socioeconômico e da dinâmica político-partidária do Paraná no século XIX, nos quais pomos em destaque as atuações dos partidos políticos Liberal e Conservador e da formação do “Paraná ‘Tradicional’” e do “Paraná Ervateiro”; já nas três últimas partes, trataremos das representações no discurso político da imprensa paranaense; faremos a seguir um ensaio biográfico, no qual tentaremos identificar as lideranças federalistas paranaenses como integrantes do “Paraná ‘Tradicional’”, e, por fim, discorreremos sobre o “consulado” que Vicente Machado estabeleceu no Paraná com a derrocada da Revolução Federalista no Estado e como ela não acarretou, ao contrário do Rio Grande do Sul, a instalação de uma plataforma político-administrativa planejada 26, e, sim, um governo personalista em torno de Vicente Machado. A partir de uma narrativa muitas vezes factual, tentaremos identificar as durações mais permanentes e buscaremos comprovar nossa hipótese de trabalho. Para tanto, utilizamos, muitas vezes, instrumentais do marxismo, do positivismo, do histerismo, do libe26

Entrementes, a historiografia mais recente tem questionado a existência de um projeto castilhista, como é o caso da tese de doutorado de Gunter Axt, Génese do Estado Burocrático-burguês no Rio Grande do Sul, defendida na USP em 27 jun. 2001.

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ralismo político e da Nova História Cultural. Acreditamos que tais correntes não são necessariamente antagônicas se utilizadas de forma complementar. Do marxismo, buscamos analisar a infraestrutura econômica e entender a Revolução Federalista como uma crise no bloco do poder; do positivismo e do liberalismo político, buscamos entendê-los como as doutrinas basilares do pensamento político brasileiro no século XIX; do histerismo, buscamos situar a parte factual da política paranaense no referido século; e, por fim, da Nova História Cultural, buscamos analisar o sentido simbólico da Revolução Federalista quando da implantação do regime republicano no Brasil. Queremos ressaltar que a bibliografia arrolada ao final do trabalho inclui leituras que subjazem à redação do texto e não apenas às referências bibliográficas. Com relação às fontes, é preciso, sobretudo, resgatar a obra de Marc Bloch sobre o seu tratamento:
Desde que nós não resignemos a registrar pura e simplesmente o que dizem nossas testemunhas, desde que entendemos forçá-las a falar, mesmo contra sua vontade – impõem-se mais do que nunca um questionário. E é esta, efetivamente, a primeira necessidade de qualquer investigação histórica bem conduzida27.

E Joyce Appleby, Lynn Hunt e Margareth Jacob vão mais longe:
Historiadores devem lidar com um passado consumido que deixou a maioria de seus eventos registrados em documentos escritos. A tradução das palavras destes documentos escritos para uma história que busca ser fidedigna com o passado constitui o desafio pessoal do historiador com a verdade. Isso requer uma atenção rigorosa aos detalhes dos registros dos arquivos assim como às atribuições imaginativas da narrativa e interpretação 28.

27 28

BLOCH, Marc. Introdução à história. Lisboa: Publicações Europa-América, 1987. p. 60. Do original: Historians must deal with a vanishedpast that hás left most ofits traces in written documents. The translation ofthese words from the documents into a story thatseeks to be faithful to the past constitutes the historian's particular struggle with the truth. It requires a rigorous attention to the details ofthe arquivai records as well as imaginative casting ofnarrative and interpretation. In: APPLEBY, Joyce; HUNT, Lynn; JACOB, Margareth. Telling the truth about history. New York: W. W. Norton and Company, 1994. p. 249. Tradução de Thelma Belmonte.

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Deveras, os procedimentos de levantamento e fichamento das fontes foram realizados durante toda a pesquisa, dessa forma, utilizamos como fontes primárias: 1) Mensagens dirigidas pelos governadores ao Congresso Legislativo do Estado do Paraná, entre 1889 e 1908, local: Seção Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba. 2) Fontes de imprensa, principalmente o jornal A República, entre 1889 e 1908, local: Seção Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba. 3) Boletins do IHGEP, publicados nas décadas de 1980 e 1990, local: Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense, Curitiba. 4) Documentos do Arquivo Histórico do Exército, referentes a telegramas e cartas emitidos entre 1891 e 1894, local: Casa da Memória de Curitiba 29. 5) Códices do APP, entre 1889 e 1908, local: Arquivo Público do Paraná, Curitiba. 6) Fontes primárias publicadas (livros de época e almanaques) entre 1889 e 1908, local: Biblioteca Júlio Moreira, Curitiba. 7) Relatórios do IPARDES, local: Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social, Curitiba. 8) Séries estatísticas históricas do IBGE referentes ao quadro demográfico do Brasil entre 1872 e 1920 e sobre a quantidade e valor da exportação de erva-mate entre 1831 e 1987, local: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Curitiba. 9) Anais da Assembléia Constituinte, do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, entre 1890 e 1896, local: Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, Serviço de Pesquisa, Documentação Histórica e Museu do “Solar dos Câmara”, Porto Alegre.

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Esses documentos foram coligidos pelos pesquisadores da Casa da Memória de Curitiba no mistério do Exército no Rio de Janeiro, quando das comemorações do centenário da Revolução Federalista no Paraná em 1994.

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É importante destacar que todos esses locais facilitaram acesso ao historiador. Utilizamos as fontes da forma subseqüente: nos capítulo 1 e 2, por se tratar de capítulos de revisão bibliográfica, não foram utilizadas fontes primárias. Os relatórios do IPARDES e as séries estatísticas históricas do IBGE foram utilizados na primeira parte do capítulo 3, na reconstituição do “Paraná Tradicional” e o Paraná Ervateiro; as mensagens enviadas ao Congresso Legislativo pelo presidente do Estado do Paraná, os anais do Congresso Legislativo do Estado do Paraná, os códices do APP, os documentos do Arquivo Histórico do Exército, as fontes primárias publicadas (fontes de imprensa – o jornal A República), Anais da Assembléia Constituinte, do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, foram usados nas três últimas partes do terceiro capítulo, auxiliando na narrativa da tomada do poder pelos maragatos no Paraná, ilustrando a postura política e a ação efetiva dos poderes constituídos paranaenses e federais frente à Revolução Federalista e, principalmente, com relação às fontes de imprensa, elas nos auxiliaram na elaboração das representações sociais que os grupos contendores fizeram um do outro no campo simbólico. O presente trabalho intenta preencher uma lacuna na historiografia acadêmica sobre as implicações da Revolução Federalista nas relações de poder no Paraná na Primeira República. É, portanto, inédito.

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CAPÍTULO 1

A maneira de conhecer a história (processo) como reconstrução de uma experiência vivida no eixo do tempo nos leva a atribuir aos acontecimentos que a distinguem não mais um valor em si mesmos à maneira de uma outra concepção dita antiga. Na concepção prevalecente entre nós, cada acontecimento é sempre um momento, ponto ímpar e incomparável no tempo, que só revela o seu valor se referido a um movimento mais geral – o processo tecido pela narrativa – que lhe reserva um lugar, assinala uma qualidade e imprime um sentido30.

O SOLAPAMENTO DO IMPÉRIO E OS PRENÚNCIOS DA REPÚBLICA A implantação do regime republicano presidencialista no Brasil é comumente associada a um golpe militar, no qual, na famosíssima expressão do jornalista Aristides Lobo, a população civil testemunhara “bestializada, atônita, surpresa, sem saber o que significava” 31. Entretanto, atrás da aparência do fato, a proclamação da República em nosso país foi um coup de grâce num sistema econômico e político que já estava em seus estertores, o do Império Brasileiro, levado a efeito por grupos políticos articulados:
A partir da década de 1870, começara a surgir uma série de sintomas de crise do Segundo Reinado. Dentre eles, o início do movimento republicano e os atritos do governo imperial com o Exército e a Igreja. Além disso, o encaminhamento do problema da escravidão provocou desgastes nas relações entre o Estado e suas bases sociais de apoio. Esses fatores não tiveram um peso igual na queda do regime monárquico, explicável também por um con30

31

MATTOS, Ilmar R. Do império à república. Estudos Históricos. Rio de Janeiro: CPDOC/GV. v. 2, n. 4, 1989. p. 163. CASTRO, Celso. A proclamação da república. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. p. 7.

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junto de razões de fundo onde estão presentes as transformações socioeconômicas que deram origem a novos grupos sociais e à receptividade às idéias de reforma32.

Com o intuito de tentar “colocar em destaque as categorias de duração e sucessão” 33 é que remetemos nossa narrativa dos prenúncios da implantação do regime republicano no Brasil à derrocada da estrutura do Império, seguindo as diretrizes propostas por Ilmar Rohloff de Mattos expostas em epígrafe, para, em nosso trabalho, buscar identificar nesse período os elementos que subsidiem a explicação da desestabilização da vida político-administrativa do Paraná em razão da Revolução Federalista. 1.1 A POLÍTICA IMPERIAL

O Império Brasileiro foi a única monarquia duradoura do continente americano no século XIX e, se, por um lado, a formação do mesmo se deveu às particularidades de seu processo emancipatório, por outro, isso permitiu a manutenção da América portuguesa sob a égide de um só país. Em 1822, as correntes políticas republicanas foram abafadas pelas peculiaridades da independência brasileira, em que em um caso sem paralelos no mundo, o príncipe herdeiro de uma metrópole promoveu a emancipação política de uma colônia; todavia, por trás da histrionice do gesto “às margens plácidas do Ipiranga” estava conjugada uma série de interesses, como o do comércio inglês, da burocracia residual portuguesa e das parcelas ultraconservadoras da aristocracia escravocrata, que forjaram boa parte do caráter do Império. Deveras, o processo emancipatório do Brasil foi, em grande parte, um ato eminentemente político-administrativo e sem muita participação popular, no qual o príncipe português D. Pedro (1798– 1834) coligou-se com a aristocracia agrária nacional para promover o rompimento colonial da maneira mais conservadora possível 34.
32 33 34

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP-FDE, 1996. p. 217. MATTOS, Ilmar R. Op. cit., idem. Sobre a independência do Brasil ver: DIAS, Maria Odila. A interiorização da metrópole, In: MOTTA, Carlos G. M. (Org.). 1822 – Dimensões. São Paulo: Perspectiva, 1972 e OLIVEIRA, Cecília H. S. A independência e a construção do império. São Paulo: Atual, 1995.

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Era a forma encontrada para fugir, de um lado, da tentativa de recolonização promovida pelas Cortes de Lisboa; e, de outro, pela ameaça de uma revolução popular, assinalada pelos movimentos de 1798 e de 1817 e pelas manifestações de 1821. Dos acontecimentos do conturbado período do Primeiro Reinado, pomos em destaque para nosso trabalho alguns aspectos institucionais, como a outorga da primeira Constituição brasileira em 1824 e que perduraria até 1889, norteando toda a vida política do País durante o período e propiciando também a formação dos grupos políticos. A carta constitucional do Império trazia muitos pontos do projeto original da Assembléia Constituinte dissolvida por D. Pedro, mas seu objetivo maior era o reforço do poder imperial, com a inclusão de um quarto poder, o “Moderador”. Contudo, a carta professava o liberalismo clássico em relação aos direitos individuais, às atividades econômicas e à propriedade, e eram garantidas as liberdades de imprensa e opinião. Desde o início do processo de emancipação, antes mesmo de 1822, começaram a se configurar as duas facções políticas que, no transcorrer do tempo, viriam a formar os principais partidos do período imperial:
De um lado, liderados por José Bonifácio de Andrada e Silva (1763–1838), estavam os coimbrãos, em geral mais maduros e cosmopolitas, com passagem pela Universidade de Coimbra (daí o nome que os caracterizava) e larga experiência da vida pública no Império luso-brasileiro. De outro, os brasilienses, tendo em Joaquim Gonçalves Ledo (1781–1847) o seu principal porta-voz, mais jovens, chegados à idade adulta sob a influência da Corte na América e dispondo de um horizonte mais circunscrito à realidade do Brasil. Não eram tanto os valores fundamentais ou a cultura política, herdada da Ilustração ibérica por ambos, que os distinguia, mas sim, interesses privados e uma sensibilidade diferente, elaborada em círculos de solidariedade social diversos, talvez mais perto da esfera cortesã, para os experimentados coimbrãos, e mais próximos do ambiente de uma camada média urba-

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na, que se formara na cidade após 1808, para os irrequietos brasilienses35.

O autoritarismo de D. Pedro I chocou-se com os interesses das aristocracias rurais brasileiras até sua insustentabilidade política e abdicação em 1831. O período regencial que se seguiu foi igualmente tumultuado, e a saída encontrada foi o chamado “Golpe da Maioridade” em l840, quando D. Pedro II (1825–1891) assumiu o trono brasileiro. Seguiu-se um processo de estabilização do regime com as pacificações da Balaiada em 1841, das Revoltas Liberais de 1842, da Revolta dos Farrapos em 1845 e da última insurreição do regime, a Revolta Praieira de 1848. Deu-se prosseguimento a uma forte centralização política, garantida pelo Poder Moderador do soberano, pela reforma do Código de Processo Criminal, pela interpretação do Ato Adicional de 1834 e pela recriação do Conselho de Estado, que havia sido extinto durante o período regencial. O aparelho burocrático tornou-se coeso, e o regime escolhido foi a monarquia constitucional parlamentar. Entretanto, o parlamentarismo adotado foi “às avessas”, pois ao contrário do modelo inglês, aqui era o Imperador quem exercia a intermediação entre os partidos de patronagem “Liberal” e “Conservador”, que se alternavam no poder. Os anseios de um Estado forte por parte da elite imperial constituíam-se, no fundo, numa falácia, pois, a despeito da centralização política durante o Império, era impossível que se pudesse governar o Brasil sem a cooperação dos grupos privados regionais com a burocracia patrimonial36. O Partido Liberal constituiu-se a partir de 1836 por antigos partidários de Diogo Feijó contrários à política conservadora de Bernardo Pereira de Vasconcelos que fundou na mesma época o Partido Conservador. Os dois partidos eram compostos majoritariamente por representantes da aristocracia rural e escravocrata, surgidos, de início, como projeções de alianças particulares ou familiares, confirmadas por elites urbanas estamentais que estudavam em Coimbra ou nas faculdades de Direito de Recife e São Paulo. Em termos administrativos, o território que hoje forma as terras paranaenses não constituiu uma unidade própria durante o período colonial. O Paraná passou a aparecer no cenário político nacio35

36

NEVES, Lúcia M.; MACHADO, Humberto F. O Império do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 85. URICOECHEA, Fernando. O minotauro imperial. São Paulo: Difel, 1978. p. 37.

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nal como província quando deixou de ser a Quinta Comarca de São Paulo, em 1853. A economia paranaense, nesse período, era principalmente baseada na erva-mate, na extração da madeira e nas atividades agropastoris desenvolvidas nos Campos Gerais. Todavia, o ideal emancipatório era perseguido pelas elites locais desde o início do Império sendo que, na conjuntura das revoltas Farroupilha, no Rio Grande do Sul, e Liberais, em São Paulo e Minas Gerais, as autoridades imperiais acharam oportuna a emancipação da comarca. Ricardo Costa de Oliveira sobre isso esclarece:
A classe dominante do Paraná apoiou substancialmente a lealdade imperial. A Comarca separava os revoltosos de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Esse apoio foi observado pelo núcleo de estrategistas do Partido Conservador. O retorno liberal de 1844 atrasou o projeto de emancipação. Com o retorno da situação conservadora em 1848 e vencida a praieira, o projeto se viabiliza. Em pleno gabinete Itaboraí, a Lei 704, de 29 de agosto de 1853, criava a Província do Paraná. Em 6 de setembro de 1853 tomava posse o Marquês do Paraná com o gabinete da conciliação, sob o signo do qual se instalava a nova província em 19 de dezembro de 185337.

Em termos nacionais, não obstante, a atuação política dos conservadores do Império era fisiológica, calcada em uma pragmática defesa de seus privilégios sociais, sob a alegação da defesa da ordem constitucional em vigor. Já o Partido Liberal apregoava, em tese, a diminuição do poder pessoal do Imperador e uma maior descentralização política. Sobre as diferenças dos partidos do Império, Helga Piccolo elucida:
Entre as teses defendidas pelos conservadores estavam: a defesa do Estado – visto como entidade anterior à Nação, que deve por ele ser organizada e que não tem poderes para mudar a forma de governo; a ordem como pressuposto para o desenvolvimento; a continuidade histórica, contra, pois rupturas na ordem social e política. Seriam os conservadores também conhecidos, a partir de 1842, como “saquaremas”. Em contrapartida, à articulação de elementos conservadores/regressistas, foi organizado o Partido Liberal integrado por monarquistas radicais ou exaltados e por re37

OLIVEIRA, Ricardo C. O silêncio dos vencedores; genealogia, classe dominante e estado no Paraná. Curitiba: Moinho do Verbo, 2001. p. XIX.

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publicanos. O partido criticou a concepção e práticas unitárias do Império; defendeu a construção do Estado pela Nação; pregou a livre-iniciativa e foi um intransigente propugnador dos direitos e garantias individuais, especialmente do “sagrado direito de propriedade” o que vai explicar, no processo político brasileiro, as dificuldades que teve para conciliar seus princípios doutrinários com a abolição da escravatura. Seriam os liberais também conhecidos a partir de sua derrota nas revoluções de 1842, como “luzias”38.

A estrutura econômica e social do tempo colonial foi mantida; em suas linhas gerais no centro do País (monocultura – trabalho escravo – latifúndio), durante o período imperial, a maioria da aristocracia social do Império não conseguiu, pela sua própria consciência possível, enxergar a crise do sistema na segunda metade do século XIX. O regozijo dos membros da elite imperial era o recebimento de títulos nobiliárquicos diretamente de Dom Pedro II.
O melhor título, nessa estrutura burocrática, para influir e decidir será a permanência no poder. O núcleo político adquire maior consistência na vitaliciedade, assentada principalmente no Senado. O título nobiliárquico, também vitalício, despido do cargo, não logrará formar um quadro efetivo de ação, perdido nos bordados sem conteúdo, não raro vistos com desdém.39

A maneira mais corriqueira para obtenção desses títulos era o conchavo com alguém influente do círculo íntimo do Imperador e, a partir daí, o novo nobre sentia-se em obrigação para com o soberano e passava a transmitir os valores monárquicos em sua base de origem. Talvez as obras mais profundas sobre a elite política imperial tenham sido escritas pelo historiador José Murilo de Carvalho em seus trabalhos A construção da ordem e Teatro de sombras (reunidas em um só volume), onde ele tece considerações bem apropriadas sobre a burocracia:
Uma das principais características da elite política imperial, à semelhança de outras elites de países de capitalismo retardatário ou frustrado, era seu estreito relacionamento com a burocracia

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PICCOLO, Helga I. L. Vida política do século 19; da descolonização ao movimento republicano. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1998. p. 46. FAORO, Raymundo. Os donos do poder; formação do patronato político brasileiro. Rio de Janeiro: Globo, 1989. p. 392.

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estatal. Embora houvesse distinção formal e institucional entre as tarefas judiciárias, executivas e legislativas, elas muitas vezes se confundiam na pessoa dos executantes, e a carreira judiciária se tornava parte integrante do itinerário que levava ao Congresso e aos conselhos de governo40.

A carreira política era confundida com a burocrática (haja vista que pouquíssimos podiam votar e ser votados) e a maior parte da classe dominante (senhores de escravos em sua maioria) almejava a nobreza e a vida na Corte. Dessa forma, a elite cultuava o absenteísmo, os favores, o empreguismo, o ócio e o sustento por meio dos rendimentos obtidos da exploração do latifúndio escravista. Um quadro bem adverso do capitalismo industrial que estava em vigor em outras partes do globo. Mais uma vez, recorremos a José Murilo:
O ponto crucial da questão era o relacionamento do Estado imperial com a agricultura de exportação de base escravista. Esse relacionamento caracterizado pelo que chamamos de dialética da ambigüidade, usando uma expressão de Guerreiro Ramos. Independentemente da elite política, o Estado não podia sustentar-se sem a agricultura de exportação, pois era ela que gerava 70% das rendas do governo-geral via impostos de exportação e importação. (...) O Brasil não era uma economia mercantil como a portuguesa que pudesse ser governada pela aliança de um estamento burocrático com comerciantes. Era uma economia de produtores agrícolas com mão-de-obra escrava e de criadores de gado com ou sem escravos. As bases do poder tinham que ser aqui redefinidas. 41

A Lei de Terras de 1850 foi mais um sustentáculo jurídico da “ordem saquarema”, pois, ao revogar a posse como forma de propriedade, acabava-se impedindo o acesso a unidades agrícolas de outros setores sociais. Essa lei ia contra toda a estrutura fundiária colonial uma vez que o certificado de propriedade passava a ser expedido por um juiz togado, não importando quem estivesse ocupando o terreno. Essa medida gerou uma reviravolta no campo, pois,
Com a nova lei, melhorou bastante a situação dos grandes fazendeiros, que em geral tinham poder suficiente para nomear o ma40

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CARVALHO, José M. A construção da ordem; a elite política imperial & Teatro de sombras; a política imperial (Edição reunida). Rio de Janeiro: Editora da UFRJ e Relume Dumará, 1996. p. 129. CARVALHO, José M. Op.cit., p. 212.

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gistrado local. Obtendo deste juiz um documento de posse, eles garantiam a propriedade de milhares de alqueires já ocupados por posseiros ou indígenas. Esta possibilidade deu origem a um expediente: uma pessoa com influência junto a um juiz incentivava a ocupação de terras por posseiros. Estes derrubavam a mata e começavam a plantar roças. Quando as terras estavam abertas – o desmatamento era a fase mais trabalhosa para a obtenção de solo cultivável – o interessado obtinha um registro de proprietário com o juiz. Em seguida, empregava tropas ou jagunços para expulsar os ocupantes de “suas” terras. (...) O resultado foi um clima de espoliação permanente nas zonas de expansão agrícola e um grande atraso no projeto de trazer imigrantes, tudo em benefício dos grandes proprietários rurais42.

A alguns grandes proprietários rurais coube a tarefa de levar a cabo a cultura do café, que viria a se tornar, por mais de um século, o principal produto agrícola de exportação do país 43. A grande lavoura cafeeira nasceu no Rio de Janeiro e depois se expandiu para o vale do rio Paraíba, organizando-se nos mesmos moldes da plantagem (ou plantation) do açúcar. Aos grandes proprietários coube o título de “barões do café”, a aristocracia econômica que veio a dominar a política do Império Brasileiro. Na década de quarenta do século XIX, o café já era o primeiro produto agrícola da pauta de exportações brasileiras, tendo encontrado nos Estados Unidos seu principal comprador. A estrutura de produção montada pelos cafeicultores do vale do Paraíba permaneceu antiquada enquanto, a partir da metade do
42

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CALDEIRA, Jorge et alii. CD-ROM Viagem pela História do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. “A combinação da cultura do café e do uso de escravos proporcionou novo alento ao sistema escravista. Como a planta demorava para dar os primeiros frutos – em torno de oito anos –, era necessário um grande capital para se entrar no negócio. Mesmo na economia capitalista, a concorrência com o modo de produção escravista era quase impossível: entre investir em algo que, mesmo dando um retorno menor, não exigia muito capital, e uma custosa aventura de longo prazo, os capitalistas da época sempre preferiam a primeira hipótese. Já os proprietários de escravos, obrigados a investir na compra de cativos antes de começar a produzir, achavam atraente a perspectiva de esperar oito anos. Um senhor que já pagou por seu escravo não tinha grandes gastos para alimentá-lo enquanto amadureciam os cafezais, pois afinal os próprios escravos plantavam a comida. Por esse motivo, o mercado de café tornou-se na prática um monopólio brasileiro: não havia no mundo nação capaz de comprar escravos e investir no produto de longa maturação. E o próprio crescimento do mercado de café incentivava as aplicações em escravos e novas plantações, reforçando os vínculos entre o café e os escravos africanos.” In CALDEIRA, Jorge et alii. Op. cit.

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século XIX, o café atingiu o oeste de São Paulo com um ímpeto empresarial. Já a economia desenvolvida no Paraná no referido período difere em alguns aspectos da desenvolvida no centro do País. A vida econômica dos que viriam a ser chamados “paranaenses”, após a emancipação da província em 1853, calcou-se nas atividades atreladas, em um primeiro momento, ao latifúndio pastoril, principalmente nos Campos Gerais, e, mais tarde, nos campos de Guarapuava e Palmas. A atividade criatória desenvolvida nessa região conciliava o gado bovino, voltado para o abastecimento do centro do País, com a invernada de muares, destinados à manutenção do caminho das tropas que traziam o charque do Rio Grande do Sul em direção às feiras sorocabanas. Paralelo a isso, desenvolvia-se uma pequena lavoura de subsistência para consumo local. Em verdade, a região paranaense (e sulina como um todo) constituía-se economicamente no cenário imperial como a “periferia da periferia”; nesse ponto rogamos às considerações de João Luís Fragoso:
As províncias do Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) constituíam parte daquilo que os cientistas sociais costumavam classificar como “periferia da periferia”. Isto é, se a economia escravista-exportadora brasileira girava em torno do mercado internacional – no qual prevalecia a hegemonia, no século XIX, do modo de produção capitalista –, por sua vez as produções do Sul apareciam como integrantes da periferia daquela economia exportadora. Na verdade, a economia do Sul estava voltada para o mercado interno (fugindo assim, de certo modo, ao modelo exportador brasileiro) abastecendo em particular as áreas escravistas do Sudeste. Constituídas por um mosaico de formas nãocapitalistas de produção (escravos, peões e camponeses), as produções do Sul faziam parte do pano de fundo da agro exportação do século XIX. Pois, se é certo que a plantation escravista não era auto-suficiente e, portanto, se reproduzia no mercado, igualmente é verdade que parte deste mercado era abastecido e constituído por formas não-capitalista de produção, o que dava àquela plantation certa resistência e autonomia frente às flutuações de preços do mercado internacional 44.
44

FRAGOSO, João L. Economia brasileira no século XIX: mais do que uma plantation escravista-exportadora. In: LINHARES, Maria Y. (org.). História geral do Brasil. Rio de Janeiro: Campus,1990. p. 160-161.

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Por outro lado, outro produto adquiriria destaque na economia paranaense do século XIX, a erva-mate. A historiadora paranaense Cecília Maria Westphalen, em sua obra Comércio exterior do Brasil meridional, mostra como o Sul do país inseriu-se no capitalismo ocidental por meio do comércio de produtos não-tropicais (carnes, couros, erva-mate, madeiras, azeites etc.) com outras nações e, no caso específico do Paraná, a congonha (erva-mate) se transformaria na principal riqueza daquele Estado por mais de um século45. Entrementes, havia em território brasileiro, em meados do século XVIII, por volta de um milhão e duzentos mil escravos, em contraste com uma população de aproximadamente três milhões de pessoas livres. O escravo negro era, desde os pródromos da ocupação portuguesa no Brasil, a principal força motriz do país e a agricultura extensiva do café foi, em sua maior parte, subordinada ao trabalho dos braços negros. Os barões do café resistiam ferreamente a qualquer abalo no sistema servil, contudo, desde meados do século XIX o quadro econômico internacional acenava para o trabalho assalariado em detrimento do escravo46. Diante disso, alguns setores mais progressistas da elite imperial brasileira eram contrários à escravidão. Contudo, eles comparti45

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“A notícia da existência das ervas paranaenses já alcançara a Corte. Em novembro de 1729, carta régia ordenava ao Governador Rodrigo César de Menezes, a remessa de um caixote de ervas à Corte, bem como a receita para seu correto uso. O Rei, atendendo às recomendações de Pardinho, pela Provisão Régia, de 29 de abril de 1722, concedeu aos moradores de Paranaguá, liberdade de comércio. (...) Os ervais eram nativos, cobrindo dilatada extensão do seu território. Estavam por toda parte e sem custar o mínimo esforço aos seus habitantes, podiam colher as folhas, secá-las ao fogo, quebrá-las miudamente e vendê-las aos engenhos que as beneficiavam para a exportação. O mate e apenas o mate, conforme observação dos viajantes que passavam, continuava a ocupar os paranaenses, nas horas de trabalho, na sua produção, como nas horas de lazer, no uso do chimarrão. (...) A erva-mate significava o produto de maior exportação em volume e valor, dirigida para o Prata e para o Chile.” WESTPHALEN, Cecília. Comércio exterior do Brasil meridional. Curitiba: CD, 1999. p. 93 e 110. “No decorrer do século XIX, o sistema capitalista, que se constituía em nível mundial, transformava-se no sentido de subverter as condições de produção vigentes no mundo que a ele se integrava. Vencida uma fase de acumulação primitiva, a vitória da fábrica moderna, da produção mecanizada e da aplicação da ciência à tecnologia, impunha redefinições em escala internacional. Numa primeira fase, este processo em curso implicara a ruptura do chamado “pacto colonial”, a extinção dos monopólios e a liberdade de comércio, desembocando no processo de independência das colônias latino-americanas. Num segundo momento, a exigência para a expansão capitalista traduziu-se na eliminação do trabalho servil.” In: PESAVENTO, Sandra. O Brasil contemporâneo. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1991. p. 11.

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lhavam do receio que os setores mais conservadores tinham da abolição imediata e de que a transição e reorganização do trabalho no país deveria acontecer de maneira gradual. Em 1831, era promulgada no Brasil a lei que libertava os escravos que aqui chegassem. Todavia, as leis não condiziam com a realidade, e a repressão ao tráfico dava-se “só para inglês ver”. A Bill Aberdeen britânica de 1845 estabelecia a proibição do tráfico negreiro, mas aqui essa medida só fez aumentá-lo, pois os importadores resolveram fazer “reservas” frente a essa ofensiva. Com o intuito de diminuírem-se os atritos com os ingleses, o ministro da justiça Eusébio de Queirós, assinou em 1850, a lei que levaria seu nome e que extinguiria o tráfico externo de africanos para o Brasil. A supressão do tráfico de escravos fez com que o capital proveniente dessa atividade pouco nobre fosse dirigido para outros ramos mercantis. Começaram a surgir os bancos de financiamento, as companhias de colonização e imigração e vias férreas.
Com a paralisação das atividades dos traficantes essa vultosa quantia foi repentinamente liberada, passando a ser aplicada em outros setores econômicos (transportes, comércio, indústria, bancos). (...) Enquanto entre 1841 e 1845 foi expedida apenas uma patente industrial, entre 1851 e 1855 esse número subiu para quarenta. Também no meio circulante os efeitos da proibição do tráfico se faziam notar: “O dinheiro abundava e uma subida extraordinária teve lugar nos preços das ações de quase todas as companhias. No decênio 1850–1860 foram fundados nada menos de 62 empresas industriais, 14 bancos, 3 caixas econômicas, 20 companhias de navegação a vapor, 23 companhias de seguros, 8 estradas de ferro, além de empresas de mineração, transporte urbano, gás etc. O Brasil entrava num período de modernização econômica e começavam a aparecer os primeiros empresários burgueses, ligados muito mais à riqueza mobiliária do que propriamente à fundiária. Para isso, contribui bastante o investimento inglês, graças à política imperialista posta em prática”47.

O abolicionismo foi um movimento político que permeou todo o Segundo Reinado. Entretanto, ele só se fez sentir de uma maneira mais organizada alguns anos após a sanção da lei Eusébio de Queirós, quando parlamentares abraçaram a causa. Diante dos
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MENDES JR., Antonio et alli, CD-ROM Brasil História. São Paulo: Digitalmídia, 1995

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fatos e da pressão internacional, o Imperador começou a estudar a abolição junto ao Conselho de Estado e alguns projetos de lei começaram a tramitar nas casas legislativas do Império. Tais projetos punham em xeque toda uma complexa rede de sociabilidades, como, por exemplo, a libertação dos recémnascidos, indenização aos escravos, fim dos castigos e a alforria. Contudo, a guerra do Paraguai fez com que algumas dessas atitudes fossem tomadas em razão da necessidade de recrutas para o front, obrigando alguns escravos a trocar a enxada pela espada. A participação dos negros como soldados do Exército Brasileiro fez com que a condição jurídica deles fosse questionada. Os partidos Liberal e Conservador não tinham propostas antiescravistas em seus programas, e o abolicionismo foi um movimento mantido pela sociedade civil. A causa contou com o apoio de vários advogados e poetas, e foram organizadas várias associações e jornais. Em termos legislativos, podemos enumerar as leis “Do Ventre Livre” de 1871, sobre a liberdade aos filhos de escravos e a “Dos Sexagenários” de 1885, que libertava os cativos com mais de sessenta anos (ou pelo menos aqueles que conseguiam chegar a essa idade). Em 1884, a província do Ceará proibiu a escravidão, o que foi seguido pela província do Amazonas. Vale destacar o papel desempenhado pelos militares, que em 1887 invocaram às autoridades imperiais o direito de se recusarem a prestar o papel de perseguidores de escravos foragidos. Podemos, enfim, ver que a abolição foi um movimento político que perpassou à margem dos poderes constituídos e da vontade dos poderosos senhores de escravos. Levando em conta o ponto de vista meramente legal, a abolição foi sancionada pela Lei 3.353 (a “Lei Áurea”), de 13 de maio de 1888, pela princesa Isabel, que estava na posição de regente do Império e outorgou liberdade imediata a todos os escravos do País, sem que, no entanto, fosse criado nenhum projeto de indenização nem aos libertos, nem aos antigos proprietários e nenhum programa de integração dos ex-escravos à sociedade capitalista foi levado a efeito. Em relação ao regime escravocrata no Paraná, podemos dizer que foi organizado nos mesmos moldes do restante do Império, mas com algumas peculiaridades.

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No Paraná, o sistema do trabalho escravo foi também empregado, mas não chegou a ser exclusivo, devido ao tipo de economia que aqui se desenvolveu, uma vez que o regime escravocrata instalouse no Paraná com o início da mineração de ouro no litoral. Os elementos lusos, para cá atraídos por tal atividade,não chegavam a ganhar o avultado capital necessário para a compra de grande número de escravos africanos, de modo que, no século XVII, o trabalho escravo existente no Paraná baseava-se sobretudo no índio. (...) De qualquer forma, porém, a escravatura não foi, no Paraná, a única fonte de trabalho, porque, paralelamente aos escravos, eram inúmeros os homens livres que trabalhavam, não como empregados, mas como membros de famílias numerosas ou pequenos posseiros. (...) No século XVIII, à proporção que decaía a mineração, o elemento escravo era transferido de preferência para a agricultura e a pecuária do planalto. Os grandes criadores de gado possuíam inúmeros escravos, de forma que estes eram também a base da mão-de-obra no desenvolvimento da pecuária, nos chamados Campos Gerais48.

Com o intuito de suprir a carência de mão-de-obra decorrente da decadência do sistema escravista, nosso país recebeu uma forte leva de imigrantes na segunda metade do século XIX, que se concentraram principalmente em São Paulo, cuja administração subscrevia as passagens e albergava os imigrantes recém-chegados para mais tarde encaminhá-los a um fazendeiro. Contudo, o Governo Imperial adotou uma política diferente, a criação de colônias, que obtiveram melhores resultados na parte meridional do País, onde as condições climáticas eram mais parecidas com as européias. A maior leva de imigrantes foi constituída de italianos que, a partir de 1880, chegavam em um montante médio de cinqüenta mil ao ano e passaram a se concentrar principalmente em São Paulo e nos três Estados do Sul do Brasil. Os portugueses vieram em menor contingente e acabaram se instalando na capital imperial. Afora esses dois grupos, também desembarcaram em terras brasileiras espanhóis, alemães, sírios, libaneses, judeus e japoneses. Apesar do intento agrícola das autoridades brasileiras, muitos dos imigrantes acabaram rumando para as cidades a fim de exercer os ofícios que desempenhavam em suas pátrias de origem, causando um crescimento populacional vertiginoso nas principais cidades brasileiras na virada do século XIX.
48

WACHOWICZ, Ruy C. História do Paraná. Curitiba, Vicentina: 1988. p. 132-135.

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O crescimento da corrente imigratória se deve à ação conjunta de particulares direta ou indiretamente ligados à lavoura cafeeira e dos Governos Provincial e Imperial, que por meio de propaganda, auxílios financeiros e outros meios procuraram imigrantes que impedissem a crise na lavoura por falta de mão-de-obra. Quanto mais progressos fazia a campanha abolicionista, tanto mais o Governo Imperial e principalmente o Provincial agiam para suprir de mão-de-obra as lavouras cafeeiras, pois ficou patente que o número de imigrantes chegados era inferior às necessidades 49.

Se, por um lado, São Paulo absorveu mais da metade dos contingentes estrangeiros, por outro, a imigração européia para o Paraná foi de um vulto imenso para a configuração social daquele Estado. Para termos uma idéia da importância do fluxo imigratório em terras paranaenses, lá chegaram, no período entre 1829 e 1934, por volta de cem mil estrangeiros, na sua grande maioria eslavos. Sobre isso é patente a posição da historiadora paranaense Altiva Pilatti Balhana:
O Governo Provincial paranaense, orientado pelas novas formulações da política imigratória brasileira, que passou a objetivar o fornecimento de mão-de-obra para a agricultura, com vistas à substituição do trabalho escravo, elaborou e colocou em prática um plano de colonização destinado a criar, no Paraná, uma agricultura de abastecimento, atendendo às condições peculiares da Província que, à época, não se dedicava às grandes lavouras de exportação. (...) Todavia, as comunidades de imigrantes, de modo geral, mantiveram por largo tempo uma economia de subsistência e não contribuíram prontamente, como se esperava, para alterar os hábitos e costumes da sociedade tradicional, adaptando-se, pelo contrário, aos mesmos50.

Em termos políticos nacionais, os últimos vinte anos de existência do Império Brasileiro assinalaram o ocaso político do sistema instaurado por D. Pedro I em 1822 e que conhecera seu esplendor nas décadas de cinqüenta e sessenta do século XIX51.
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50

51

PETRONE,Teresa S. Imigração assalariada. In: HOLANDA, Sérgio B. (Org.). História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, t. II, v. 3, 1985. p. 278. BALHANA Altiva P. Imigração no Paraná. In: SOARES, Luis R. N. Dicionário histórico biográfico do estado do Paraná. Curitiba: Chain/Banestado, 1991. p. 207-208. MATTOS, Ilmar R. Op. cit., p. 164.

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Do meio de vários acontecimentos que explicitam esse quadro de decadência política, três deles merecem relevo, as chamadas “questões” militar, religiosa e abolicionista, pois suas ações catalisaram os descontentamentos contra o regime e canalizaram as manifestações para sua superação. É importante ressaltar que tais “questões” só adquiriram essas dimensões em razão do momento histórico dado52. Até a Guerra do Paraguai, a maior agremiação de gendarmaria do país era a Guarda Nacional, todavia, o conflito paraguaio assinalou uma mudança de atitude do Exército Brasileiro frente à sociedade brasileira. A luta fez com que os militares dessa arma organizassem a corporação, crescendo efetivos e aprimorando equipagens, além de criar um esprit de corps em torno dos ideais republicanos e abolicionistas. A proximidade dos militares brasileiros com seus pares platinos durante a guerra provocou o surgimento de questionamentos sobre a legitimidade do regime monárquico brasileiro, uma vez que os outros dois países da “Tríplice Aliança”, Argentina e Uruguai, eram repúblicas presidencialistas. E mais, o grosso da tropa era formado por escravos arregimentados, fazendo com que os oficiais simpatizassem com as reivindicações de liberdade da soldadesca. Vale lembrar que, na década de setenta do século XIX, Brasil e Cuba eram os únicos países escravocratas do continente:
A abolição, idéia vigorosa mesmo antes da Guerra do Paraguai, tomou-se claramente mais forte, na medida em que os oficiais entravam em repetidos contatos com ex-escravos. Dado que a maioria dos homens alistados nas fileiras compunha-se de antigos cativos ou de homens livres de cor, a sociedade brasileira tendia a considerar os oficiais como pouco mais do que feitores. Talvez a sensação de o baixo status de seus soldados diminuía sua própria posição social e contribuísse para o abolicionismo dos oficiais, mas indubitavelmente eram eles inspirados, também, por simpati52

“Se o Império não estivesse já em fase de declínio, se as estruturas que o marcavam não estivessem já carcomidas, enfim se a monarquia não estivesse politicamente condenada, tais “questões” não teriam passado de assuntos meramente episódicos, retratados apenas em monografias específicas. Nas circunstâncias, no entanto, representaram o rompimento definitivo do Estado brasileiro com dois setores sociais muito importantes e, por isso mesmo, tanto mais significativos enquanto bases de apoio do sistema monárquico: a Igreja e o Exército”. MENDES JR., Antonio et alii, Op. cit.

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as humanas em relação aos seus soldados e pelo desejo de ver o Brasil livre53.

Com o fim da cruenta guerra, os oficiais voltaram aos seus postos com o ímpeto de se fazerem valer no cenário político nacional, nem que essa postura acarretasse um posicionamento avesso ao Império ao criticar abertamente a escravidão. Em linhas bem gerais, as chamada “questões” militar e religiosa trataram da repressão por parte do Império a oficiais contestadores do regime e a bispos que perseguiam a sujeição ao ultramontanismo de Roma. Tais “questões” são de conhecimento tão notório de todos que achamos que não cabe aqui pormenorizá-las. Ao contrário do Rio Grande do Sul, a presença de guarnições do Exército no Paraná e a influência dos militares na política local não foram grandes. Se compararmos a situação militar dos dois Estados, veremos que, enquanto o Rio Grande do Sul possuía na segunda metade do século XIX oito batalhões de infantaria (Rio Grande (2), São Gabriel, Uruguaiana, Porto Alegre (2), Alegrete e Pelotas), cinco regimentos de cavalaria (Jaguarão (2), São Borja, Livramento, Bagé), dois regimentos de artilharia de campanha (São Gabriel e Bagé), um batalhão de artilharia a pé (Rio Grande) e um batalhão de engenharia (Cachoeira) e um corpo de transporte (Porto Alegre), o Paraná, devido a outra posição geopolítica, possuía em sua capital um batalhão de infantaria, um regimento de cavalaria e um regimento de cavalaria de campanha 54. Seguindo a mesma tendência, a situação da Igreja no Paraná era igualmente de pouca relevância 55. Entrementes, se a imagem do Império ficou arranhada por tais “questões”, os acontecimentos envolvendo o Gabinete Imperial e os partidos foram tão ou mais desgastantes.
53

54 55

SCHULZ, John. O Exército e o Império. In: HOLANDA, Sérgio B. (Org.). História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, t. II, v. 4. 1985. p. 254. VERNALHA, Milton M. Maragatos X Pica-Paus. Curitiba: Lítero-Técnica, 1984. p. 60-61. “Pela Bula pontifícia Ad Uníversas Orbi Eclesias, entre outras dioceses brasileiras, foi criada a 27 de abril de 1892 a Diocese de Curitiba, abrangendo os estados do Paraná e de Santa Catarina. Nessa conjuntura, final do século XIX, a situação geral da Igreja no Paraná era crítica, como ressonância do longo tempo de união entre a Igreja e o Estado, sua ruptura com a implantação da república, a escassez de sacerdotes, a ausência total de clérigos católicos, a ignorância religiosa da maioria, e, sobretudo, pelo avançar das novas idéias do liberalismo ateu e do anticlericalismo”. WESTPHALEN, Cecília M. Clericais e anticlericais no Paraná. In: SOARES, Luis R. N. Dicionário histórico-biográfico do estado do Paraná. Curitiba: Chain/Banestado. p. 75.

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Os partidos oficiais atuavam como “amortecedores” dos conflitos sociais nos fóruns legislativos, e esses conflitos eram oriundos de todas as camadas, inclusive a dominante, e é justamente quando alguns setores dessas camadas dominantes não viram mais legitimidade nos partidos tradicionais que o republicanismo começa se firmar como uma plataforma política. Isso aconteceu nos dois últimos decênios do Império Brasileiro. O ano de 1868 é considerado por muitos como o grande marco da ruptura na estrutura político-partidária imperial.
Sempre que podiam, os liberais e Caxias se fustigavam surdamente. Ao assumir o comando (da Guerra do Paraguai), Caxias não criou nenhum problema, até porque os adversários não queriam fazer nada que prejudicasse a guerra. Porém, assim que sentiu ter superioridade militar sobre o inimigo, Caxias resolveu atacar no flanco político antes de desencadear a ofensiva contra Humaitá. No início de 1868 enviou um ultimato ao imperador: ou se demitia do comando das tropas ou o imperador demitia o chefe do gabinete, Zacarias de Góes. (...) Depois de idas e vindas, Caxias saiu vitorioso. Em maio de 1868, um mês antes da tomada de Humaitá, Zacarias de Góes foi obrigado a pedir demissão. Para seu lugar foi nomeado, o visconde de Itaboraí, grande arquiteto da política conservadora da década de 1850. Mas o verdadeiro comandante do país, todos sabiam, passava a ser o chefe militar56.

O episódio político narrado acima consumaria o descontentamento de alguns setores do Partido Liberal com a política imperial. A queda do gabinete de Zacarias Góes de Vasconcelos (coincidentemente, o primeiro presidente da Província do Paraná) fez com que o grupo auto-intitulado “radical” se distanciasse dos “moderados”, pois os primeiros passaram para a implacável denúncia das mazelas políticas do Império e a absoluta rejeição ao gabinete conservador de Itaboraí. Os políticos liberais mais experientes procuraram conciliar-se com as novas tendências do partido; com esse escopo, o Conselheiro Nabuco de Araújo redigiu em março de 1869 o “Manifesto do Centro Liberal” onde ele denunciava as desdouras do novo gabinete conservador, entre elas o recrutamento de liberais

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CALDEIRA, Jorge et alii, Op. cit.

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para combater no Paraguai e perseguição política e pedia que os liberais não participassem das eleições. O vigor das denúncias levadas a cabo por Nabuco de Araújo, entretanto, não chegava a propor uma oposição sistemática ao governo, rogando apenas por reformas institucionais, a fim de evitar uma ruptura mais grave. Mais uma vez, o Partido Liberal assumia sua feição conciliatória, fazendo com que os “radicais” procurassem outras vias de ação, como os clubes e as academias literárias, onde os debates em torno do abolicionismo, e, inevitavelmente, do republicanismo foram açodados independentemente da posição oficial do partido. Mais tarde, as propostas dos liberais “radicais” acabaram se confundindo com as dos republicanos “históricos”: autonomia administrativa, fim do Poder Moderador, da Guarda Nacional e do Conselho de Estado, a revogação da escravidão (nesse ponto eles eram mais incisivos que os próprios republicanos) e a ampliação do voto a todos os cidadãos. Por fim, as “Conferências Radicais” levadas a efeito na Corte, em prol do republicanismo, descerraram as barreiras para o Manifesto de 03 de dezembro de 1870, que veremos mais adiante. Durante o Império, as classes médias urbanas quase inexistiam e as possibilidades de ascensão social praticamente se restringiam ao quartel, à burocracia e à igreja, para os que não pertenciam às famílias abastadas. Já os filhos dos aristocratas rurais do café geralmente faziam seus primeiros estudos nos colégios jesuítas e adquiriam formação superior em Direito, na maior parte das vezes em Coimbra, Recife ou São Paulo e, quando esses decidiam-se pela vida militar, era para ingressar nas escolas de oficiais 57. Esse “bacharelismo” propiciava à elite dirigente do País uma bagagem “livresca” romântica com enleves nacionalista; entretanto, a formação em ciências físicas e biológicas ficava relegada aos engenheiros e médicos militares. Nesse contexto é que o cientificismo e o positivismo vieram para superar o ecletismo proposto por Victor Cousin, até então a principal reflexão intelectual da elite dirigente nacional. O avanço tecnológico europeu do início do século XIX, decorrente da primeira revolução industrial, fez com que o homem
57

No Rio Grande do Sul à época, o oficialato não pertencia obrigatoriamente à classe média, uma vez que existiam muitos oficiais oriundos das grandes famílias proprietárias de terra.

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acreditasse em seu completo domínio da natureza e que todos os problemas da humanidade e as necessidades da inteligência humana seriam resolvidos por meio da investigação científica. O cientificismo surgiu nessa época como uma corrente de pensamento que apregoava o predomínio da ciência e do método empírico sobre os devaneios metafísicos da religião. No Brasil, no meio literário o romantismo já não satisfazia a intelligentsia nacional que deslocava seu foco de análise das trivialidades da aristocracia rural e da Corte para questões, mais voltadas às classes subalternas. Com a fixação da Corte no Rio de Janeiro, o eixo da vida intelectual nacional fixou-se nas cidades do centro-sul do País. O jornalismo urbano fomentou um novo debate em torno de idéias liberais, abolicionistas e republicanas influenciadas pelo pensamento europeu da época, principalmente o positivismo e o evolucionismo. O movimento intelectual erigido por Isidore-Auguste-MarieFrançois-Xavier Comte (1798–1857) defendia que todo saber do mundo físico advinha de fenômenos “positivos” (reais) da experiência, e eles seriam os únicos objetivos de investigação do conhecimento. A doutrina positivista inicial propunha um postulado ético leigo e mundano, muito parecido com outra corrente de pensamento do século XIX, o utilitarismo de John Stuart Mill e Jeremy Bentham, cujo mote buscar “a maior felicidade possível para o maior número possível de pessoas”, exprime bem a ideologia da época. Às raízes epistemológicas do positivismo atribuem-se o empirismo absoluto de David Hume, que concebia apenas a experiência como insumo do conhecimento e também a ilustração, ou iluminismo, que apregoava a razão como base do progresso da história humana. Destarte, o positivismo é filho de sua época, fruto direto da consolidação econômica da revolução industrial e da tomada do poder político pela burguesia, expressa nas Revoluções Inglesas do Século XVIII e na Revolução Francesa de 1789. Comte buscou a síntese de uma “física” social (a “sociologia”) que reformulasse o quadro social instável decorrente das novas relações de trabalho. Na primeira fase de seus trabalhos, Comte teve como seu mentor o teórico do socialismo utópico, o Conde de Saint-Simon, que transmitiu a seu pupilo a crença em um projeto político que reformulasse completamente as condições da existência humana na

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Terra. Em sua obra Curso de filosofia positiva (1830–1842), Comte expôs a base de sua doutrina cujos alicerces teóricos estão assentados na norma de três Estados do desenvolvimento humano e do conhecimento. Tais Estados são: o teológico, o metafísico e o positivo 58. Na fase teológica o ser humano entende o mundo a partir dos fenômenos da natureza atribuindo a eles um caráter divino. Essa fase encerra-se no monoteísmo. Na fase metafísica a interpretação do mundo não é calcada em elementos sobrenaturais, mas em conceitos abstratos, idéias e princípios. Por fim, na fase Positiva o ser humano atém-se a expor os fenômenos e fixar “as relações constantes de semelhança e sucessão entre eles”. Nessa fase, as causas e as essências dos fenômenos são deixadas de lado para se evidenciar as leis que regem a sociedade, pois o “conhecimento humano está destinado a organizar e não a descobrir”. Comte partiu das feições reais do termo positivo para atingir uma significação moral e social maior, a fim de reorganizar a sociedade, com a supremacia do amor e da sensibilidade sobre o racionalismo, cujo apogeu é a religião da humanidade. A filosofia positiva passava, então, não só a preconizar uma epistemologia, mas também, uma teoria de reforma da sociedade e uma religião. A unidade do conhecimento positivo passa a ser coletiva em busca da fraternidade universal e a convivência prática em comum. A junção entre teoria e experiência é baseada no| conhecimento das ações repetitivas dos fenômenos e sua previsibilidade científica. Assim é possível o aprimoramento tecnológico. O estágio positivo corresponde à atividade fabril à transformação da natureza em mercadorias. Se entendermos a ciência como a investigação da realidade física, o positivo é o objeto e o resultado dessa investigação. Dessa forma, a sociedade também é passível dessa análise, e a fase positiva será caracterizada pela passagem do poder político para os sábios. Na segunda fase dos trabalhos de Comte, a doutrina positivista adquiriu uma feição religiosa com credo na ciência. O pensamento positivista chegou ao Brasil em torno de 1850 e foi trazido por brasileiros que tinham ido estudar na França; alguns tinham até mesmo sido ex-alunos de Comte.

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RIBEIRO JR., João. O que é positivismo. São Paulo: Brasiliense, 2001. p. 19.

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A presença da doutrina positivista (em sua fase científica) no Brasil tornou-se visível, a partir de 1850, quando ela apareceu na Escola Militar, depois no Colégio Pedro II, na Escola da Marinha, na Escola de Medicina e na Escola Politécnica. Já o positivismo de vertente religiosa pôde ser atestado no Apostolado Positivista a partir de 1881, fruto da iniciativa de Miguel Lemos (1854–1917) e Raimundo Teixeira Mendes (1855–1927). A atuação do positivismo no Brasil foi uma reação filosófica contra a doutrina confessional católica, a reflexão intelectual de maior peso no País desde os tempos coloniais. Nessa pugna no campo das idéias figuraram também o naturalismo e o evolucionismo. Uma das balizas do pensamento positivista no Brasil é o estabelecimento da Sociedade Positivista Brasileira (origem da Igreja da Humanidade) que foi fundada no Rio de Janeiro em 1876. O positivismo que chegava ao Brasil moldava-se a ele e adquiria o perfil de doutrina com influência geral e aceita por um grupo reduzido de estudiosos. Tal grupo configurava-se em duas facções posivitistas, isto é, os ortodoxos e os dissidentes. Miguel Lemos e Teixeira Mendes lideravam o primeiro e alguns políticos como Luís Pereira, Tobias Barreto e Sílvio Romero lideravam o último, buscando em Comte fundamentação para a República. Entre os republicanos brasileiros havia duas alas: a “liberaldemocrática” de inspiração norte-americana e a “autoritária” de inspiração positivista. Todavia, em um primeiro momento, o programa do Partido Republicano estava muito mais preocupado com o combate objetivo ao Império do que a pendências intelectuais. Merecedora de destaque é a atuação doutrinária efetivada por Benjamin Constant Botelho de Magalhães (1833–1891), professor de matemática da Escola Militar e ferrenho defensor do princípio positivista da valorização do ensino para se alcançar o estado sociocrático, elaborando uma reforma de ensino de clara orientação positivista em 1890 quando ministro da instrução pública, correios e telégrafos. Contudo, se para Comte esse ensino deveria ser destinado às camadas pobres do continente europeu, no Brasil isso foi impossível devido ao baixíssimo nível de instrução do proletariado nacional, e, assim, a transmissão dos ensinamentos positivistas acabou se restringindo aos poucos que estudavam nas escolas militares59.
59

HOLANDA, Sérgio B. Da maçonaria ao positivismo. In: HOLANDA, Sérgio B. (Org.). História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, t. II, v. 5, 1985. p. 302.

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Essa atividade doutrinária bem no seio da massa pensante das forças armadas brasileiras foi fundamental para inculcar na cabeça da oficialidade o destino “histórico” de implantar um regime republicano que fosse fundamentado na razão e na ciência positivista. Os republicanos positivistas (“jacobinos”) antagonizavam-se com os monarquistas e com os republicanos liberais e apregoavam a instalação de uma república ditatorial com o fim de se alcançar a “sociocracia” preconizada por Comte. Notamos, assim, uma cisão dentro do próprio movimento republicano e até mesmo entre os positivistas, pois, no movimento de 15 de novembro de 1889, sentimos a presença dos positivistas “dissidentes” (militares seguidores de Benjamin Constant) em detrimento dos “ortodoxos” (civis seguidores da Igreja Positivista). Sobre esse princípio político positivista, José Murilo de Carvalho esclarece-nos:
Comte tirara sua idéia de ditadura republicana tanto da tradição romana como da experiência revolucionária de 1789, estas duas, aliás, também relacionadas. A expressão implica ao mesmo tempo na idéia de um governo discricionário de salvação nacional e na idéia de representação, de legitimidade. Não se trata de despotismo. Para Comte, Danton era um ditador republicano e Robespierre era um déspota60.

O positivismo acabou tornando-se uma filosofia fundamental para o debate político no Brasil do século XIX, e o movimento de 15 de novembro sofreu fortes influências dessa corrente (conjugada ao liberalismo) na organização formal da República Brasileira entre elas, o dístico “Ordem e Progresso” da bandeira, a separação da Igreja e do Estado; o decreto dos feriados as instaurações do casamento civil e das liberdades religiosa e profissional, o fim do anonimato na imprensa, a revogação da medidas anticlericais e a reforma educacional proposta por Bejamin Constant. Na verdade, o positivismo como ideologia burguesa, tinha muitos pontos em comum com a doutrina liberal. Entrementes, os ideais comteanos não conheceram unanimidade no meio político brasileiro, pois os políticos liberais herdeiros da prática imperial (desde o início do Império, o sistema político
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CARVALHO, José M. Entre a liberdade dos antigos e a dos modernos: a república no Brasil. Pontos e bordados; escritos de história e política. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1999. p. 88.

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brasileiro embasara-se na noção de representação eleitoral preconizada por John Locke em sua obra Segundo tratado sobre o governo) não apoiavam a idéia de uma “ditadura republicana” e logo passaram para a oposição aos positivistas no Congresso Nacional arrefecendo sua influência no governo federal. O fanal do positivismo não-ortodoxo no Brasil seria transferido para o Rio Grande do Sul onde o regime republicano foi foco dominado pelos positivistas, que encontraram no advogado Júlio Prates de Castilhos (1860–1903) seu mentor e que faria escola na política gaúcha, adaptando à doutrina positivista um caráter orgânico, popular e ecumênico. Castilhos havia entrado em contato com a doutrina comteana após ter estudado na Faculdade de Direito de São Paulo. Ao contrário do Rio Grande do Sul, o positivismo não encontrou eco como doutrina política no Paraná. Foi o emérito historiador David Antonio da Silva Carneiro (1904–1990), após estudar no Colégio Militar do Rio de Janeiro entre 1919 e 1922, quem se dedicou à divulgação da obra de Augusto Comte no Paraná em sua fase religiosa e ajudou a organizar o Centro de Propaganda do Positivismo no Paraná (que daria origem à Capela da Humanidade de Curitiba), mas apenas na primeira metade da década de vinte do século XX. Ao nosso ver, é leviandade atribuir o epíteto de “positivistas” aos republicanos paranaenses que defendiam um poder Executivo forte ou a superação do Império, como é caso dos presidentes da província entre 1883–1885, Oliveira Belo e Brasílio Machado. As crises políticas nacionais, vistas anteriormente, somadas à Guerra do Paraguai, agravavam a situação política do Império. Ao fim do conflito paraguaio, o governo persistia em postergar a solução de problemas graves como a escravidão e a descentralização política. Não obstante, no segundo semestre de 1870, o Imperador indicou o conservador Marquês de São Vicente para a chefia do gabinete com o intuito de que esse realizasse tais reformas, uma vez que o Visconde de Itaboraí não o havia conseguido e não se podia mais usar a Guerra do Paraguai como desculpa. Enquanto o ano de 1870 assinalava internacionalmente a unificação da Itália e da Alemanha, o nascimento da Terceira República na França e a deflagração do conflito franco-prussiano, aqui a cisão do Partido Liberal levava seus setores “radicais” a fundar o Clube Republicano. E em 03 de dezembro desse mesmo ano, eles publi-

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cavam no jornal carioca A República, o “Manifesto Republicano”, cujo conteúdo era extremamente crítico (apesar de não ser extremista) e atacava todos os laivos do Império, como a escravidão, o regalismo, a elitização do ensino etc. Em abril de 1873, era realizada na cidade paulista Itu, a primeira convenção do Partido Republicano 61. Entrementes, em termos políticos regionais, durante o período provincial (1853–1889), o Paraná seguiu os ditames nacionais da “ordem saquarema”, com o revezamento dos Partidos Liberal e Conservador no poder, mas os presidentes provinciais eram oriundos dos círculos íntimos do Imperador, o que causava desgaste desses com a aristocracia local. A estratégia de atuação política dos republicanos “históricos” oscilava entre os que apoiavam a participação em eleições (ala liderada por Saldanha Marinho e Quintino Bocaiúva, ficando conhecida por “evolucionista”, pois acreditava na evolução natural do republicanismo e da decadência presumível da monarquia) e os que rejeitavam os mecanismos eleitorais (ala liderada por Silva Jardim, conhecida por “revolucionária”, pois defendia a derrubada da monarquia por vias de força). O Partido Republicano Paulista era o maior defensor do federalismo em razão das peculiaridades da província de São Paulo. Descontentes com a centralização política imperial, os cafeicultores paulistas visavam a uma maior autonomia regional, principalmente no intuito da retenção dos impostos que fluíam da província bandeirante para outras partes do Império. A substituição do conservador João Alfredo pelo liberal Visconde de Ouro Preto para a chefia do Gabinete Imperial em 1889 assinalou, no Paraná, a ascensão do liberal Jesuíno Marcondes de Oliveira e Sá (1827–1903), chefe supremo dessa facção política no
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“O setor decrépito segue o trono, o setor em ascensão busca a República. Na Convenção de Itu (18 de abril de 1873), dentre 133 convencionais, 78 são lavradores, para 55 de outras profissões (12 negociantes, 10 advogados, 8 médicos etc.). Ainda mais: muitos desses fazendeiros eram senhores de escravos, mas não apenas senhores de escravos, o que levou os republicanos, divididos entre liberais e moderados, a um acordo, que eludia o problema abolicionista, transferindo-o aos partidos monárquicos, que o deveriam resolver antes de instaurado o novo regime. Com isso conciliavam-se os fazendeiros aos abolicionistas, entregue aos primeiros a direção do partido. O abolicionismo seria exigência imediata dos círculos democráticos, igualitários, e não dos liberais e federalistas, realidades que não se confundem.” FAORO, Raymundo. Op. cit., p. 456-457.

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Estado em razão de sua atuação política como em várias legislaturas, como secretário de Estado e ministro dos negócios da agricultura, comércio e obras públicas no gabinete Francisco José Furtado entre 1864 e 1865. Jesuíno Marcondes, ao lado do Conselheiro Manuel Alves Araújo (1836–1910), ex-ministro também da Agricultura, Comércio e Obras Públicas no gabinete Martinho Silva Campos em 1882, compunham as principais oligarquias envolvidas com a atividade pecuária no Paraná, a dos “barões do Tibagi” (Jesuíno era filho do primeiro barão, José Caetano de Oliveira) e a dos “barões dos Campos Gerais” (Manuel era genro do primeiro barão, David dos Santos Pacheco). Nesse ponto, a articulação política dos liberais paranaenses com seus correligionários gaúchos é inequívoca e, guardadas as devidas particularidades regionais, irá recrudescer durante a Revolução Federalista:
No final do Império, o domínio da política gaúcha encontrava-se nas mãos dos liberais. Esta agremiação representava, sobretudo, os pecuaristas da Campanha, economicamente dominantes na Província. Enquanto na maior parte do Brasil as instituições e grupos políticos monárquicos afundavam-se lentamente, os liberais gaúchos mantinham-se coesos e organizados “como um regimento de Frederico, o Grande”, sob a liderança autocrática de Silveira Martins. Em 1889, justamente quando estes começam a adquirir projeção nacional, na esteira do vácuo político que começa a se criar, a República é proclamada. Silveira Martins encontrava-se a caminho do Rio de Janeiro para assumir sua vaga no Senado Imperial no dia 15 de novembro...62

Já o Partido Conservador era capitaneado, em terras paranaenses, pelo Visconde de Nácar (Manuel Antonio Guimarães, 1813– 1893), um dos maiores comerciantes exportadores de erva-mate no Paraná no século XIX e proprietário da maior firma de importação de Paranaguá no período e pelo Conselheiro Manuel Francisco Correia (1831–1905), irmão do Barão Serro Azul, ex-presidente da província de Pernambuco em 1862, ex-ministro dos negócios estrangeiros no gabinete Rio Branco, em 1871. Eles compunham as principais oligarquias envolvidas com a produção e comercialização da erva-mate.
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VIZENTINI, Paulo G. F. Divididos pelo Rio Grande, unidos contra ele. In: GONZAGA, Sergius; FISHER, Luís A.; BISSÓN, Carlos A. (Orgs.). Nós, os gaúchos/2. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1998. p. 155-156.

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Cecília Maria Westphalen atenta para o fato de que, no Paraná, entre os liberais predominava a aristocracia fundiária e entre os conservadores predominava a aristocracia comercial63. Mas a diferença era apenas nominal, pois tais facções apenas representavam discrepâncias de parcelas dominantes e alguns mais oportunistas, como Vicente Machado da Silva Lima (1860–1907), ex-liberal, acabaram se intitulando “republicanos” em 1881 diante das crises políticas do Império. O republicanismo paranaense não é filho nem da cisão do Partido Liberal em 1870, nem tampouco da Convenção de Itu em 1873. O tíbio movimento republicano paranaense foi iniciativa de alguns jovens membros, filhos das aristocracias locais que, ao retornarem das faculdades de Direito (principalmente de São Paulo), traziam idéias novas de republicanismo e abolicionismo. Nesse rol, atestamos jovens liberais e conservadores que abraçavam a causa, e os primeiros clubes republicanos surgiram em Curitiba e Paranaguá apenas em meados da década de oitenta do século XIX. Já os primeiros periódicos de tendências republicanas no Paraná são um pouco mais antigos que os clubes: Imprensa Livre fundado em Curitiba por Sérgio de Castro em 1865, O Povo fundado em Morretes por Rocha Pombo em 1879, Livre Paraná fundado em Paranaguá por Fernando Simas em 1883, e o mais engajado de todos, A República fundado em Curitiba por Eduardo Mendes Gonçalves em 1886 e que se arvorava em “órgão do Partido Republicano Paranaense”. Em suma, podemos inferir que o projeto republicano no Brasil se alimentou de várias influências: o abolicionismo dos “radicais” do Partido Liberal, o trâmite político dos republicanos “históricos”, o federalismo e o liberalismo econômico dos cafeicultores paulistas e, por fim, o autoritarismo positivista de alguns oficiais (os “bacharéis fardados”) do Exército, que, junto a outros setores militares mais tradicionais (os “tarimbeiros”), acabaram tomando para si a missão de desfraldar o novo regime. No ano do centenário da queda do Ancien Régime, os franceses construíam no Campo de Marte de Paris, por ocasião Exposição Internacional, a torre Eiffel, projeto ousado de arquitetura metálica
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WESTPHALEN, Cecília M. et alii. História do Paraná. Curitiba: Grafipar, 1969. p. 148149.

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que mostrava, para o mundo, o arrojo da civilização burguesa ocidental. Por mera coincidência, a República era instaurada em nosso país cem anos após a Revolução Francesa. E esse fato não passou despercebido aqui:
A crença de que é possível mudar o homem e a sociedade, mudar as estruturas que garantiam por nascimento a desigualdade entre os homens, configura a atualidade da Revolução Francesa como ideal simbólico, e ela foi pródiga em construir símbolos nacionais capazes de garantir coesão social em substituição à antiga tradição monárquica e aristocrática. Bandeira, hino, datas comemorativas, cerimônias, procissões, marchas, festas para a deusa da razão e heróis objetivavam garantir a obediência, a lealdade e a cooperação dos súditos, ainda mais quando estes tinham se tornado cidadãos64.

Na manhã do dia 15 de novembro de 1889, muitos presidentes das províncias imperiais recebiam pelo telégrafo a notícia do golpe republicano e da destituição do gabinete imperial pelo “povo, o Exército e a Armada Nacional” 65. A abulia do velho regime (e do próprio monarca) era tanta que quase nenhum setor social aventou a possibilidade de uma resistência armada, à exceção da “Guarda Negra” e de alguns baianos que tentaram esboçar reação. A defesa pelo Império foi logo refreada frente aos próprios fatos. 1.2 AS DIFICULDADES DA IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA NO BRASIL

O regime instalado no lugar do Império tentou se espelhar, em alguns aspectos, em seu congênere norte-americano e passou a chamar-se “República dos Estados Unidos do Brasil”. Assumindo a república federativa como forma de governo 66, no qual o poder decisório deveria, a princípio, ser dividido entre as unidades federativas, indo contra o sistema centralizador do Império. O Rio de
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OLIVEIRA, Lúcia L. As festas que a república manda guardar. Estudos Históricos. Rio de Janeiro: CPDOC/FGV. v. 2, n. 4, 1989. p. 173. CASALECCHI, José E. A proclamação da república. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 90. SOUZA, Maria do C. C. O processo político-partidário na primeira república. In: MOTTA, Carlos G. (Org.). Brasil em perspectiva. São Paulo: Difel, 1985. p. 162.

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Janeiro, de antigo “Município Neutro da Corte”, passava a ser “Distrito Federal”; as antigas províncias, “Estados”; e os chefes dos Executivos federal e estaduais, “Presidentes”. A rigor, não havia um “Partido Republicano” propriamente dito no Paraná antes de 15 de novembro de 188967. Após a notícia do golpe republicano no Rio de Janeiro chegar ao Paraná pelo telégrafo, o poder saiu das mãos do presidente provincial e foi entregue ao chefe da guarnição do exército de Curitiba. Como no resto do país, a transição política foi relativamente calma.
Instituída a República, a 16 de novembro, embora não oficialmente chegava a notícia a Curitiba. O Presidente Jesuíno Marcondes e o Comandante da Brigada Militar, coronel Francisco José Cardoso Júnior, imediatamente realizam reunião, objetivando a manutenção da ordem na Província. Os oficiais, porém, da guarnição manifestam o seu apoio ao gesto de Deodoro e logo chega também o telegrama deste encarregando o Comandante da Brigada, da manutenção da ordem pública, até a nomeação de um Governo provisório. Em conseqüência, nesse mesmo dia, Jesuíno Marcondes entregou a Presidência da Província a Francisco José Cardoso Júnior, o qual tomou posse, a 17 de novembro, perante a Câmara Municipal de Curitiba68.

Os primeiros dois anos do regime republicano no Paraná foram um caos, sete governadores provisórios se alternaram no cargo, quatro militares e três civis, e pior, nenhum deles era paranaense. O Partido Conservador, que estava fora do governo no Paraná quando da proclamação da República, bandeou peremptoriamente à nova ordem, e só após o ‘15 de novembro’ é que as duas alas políticas adquiriram uma nova “roupagem” republicana. Já no Rio Grande do Sul, a instalação do regime republicano foi sui generis, pois desde cedo o novo governo foi dominado pelos positivistas, que encontraram em Júlio Prates de Castilhos seu mentor. Na verdade, Castilhos adquirira sua projeção por meio de sua militância política no Partido Republicano Rio-Grandense, fundado em 1882 e como articulista polêmico do jornal A Federação. O
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COSTA, Samuel G. Introdução. In: CARNEIRO, David; VARGAS, Túlio. História biográfica da república no Paraná. Curitiba: Banestado, 1994. p. 3. WESTPHALEN, Cecília; BALHANA, Altiva. A república no Paraná. Revelações e conferências. Curitiba: SBPH, 1989. p. 49-50.

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projeto político de Castilhos e seus seguidores de um “autoritarismo ilustrado” era baseado nos ensinamentos de Augusto Comte ao buscar o progresso por meio da ordem e da ciência. Propunham a expansão das relações capitalistas e um desenvolvimento geral da sociedade gaúcha, com melhorias na educação, nos transportes, nas comunicações, nas técnicas agrícolas e industriais. Porém, o castilhismo propunha uma modernização conservadora, pois, para essa doutrina, a estrutura social deveria ser mantida e os conflitos sociais negados, uma vez que o proletariado deveria ser incorporado à sociedade de uma maneira paternalista. Entrementes, Gaspar Silveira Martins (ex-senador, ex-conselheiro extraordinário do Império e ex-presidente provincial, 1835– 1901) constituía-se no maior representante da elite rural ligada ao antigo Partido Liberal e era o único líder gaúcho com condições de esboçar uma reação frente aos castilhistas, todavia, ele havia sido expulso do País em 1889. Quando da proclamação da República, Castilhos recusou o cargo de presidente do Estado e preferiu assumir como secretário do governo estadual, sob a chefia do Visconde de Pelotas (José Antônio Corrêa da Câmara, 1824–1893). Castilhos estava convicto no intento de inaugurar uma nova fase positiva na política rio-grandense, ao transformar as velhas práticas político-administrativas clientelistas do período imperial. Em 1890, Júlio de Castilhos elegeu-se deputado ao Congresso que iria elaborar a primeira Constituição da República e logo identificou-se com a ala ultrafederalista, passando a defender o projeto político jacobino69. Em 14 de julho 1891, Júlio de Castilhos promulgaria a nova Constituição estadual, que reproduzia quase integralmente o anteprojeto proposto por ele mesmo70. Eleito presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelos próprios deputados, Júlio de Castilhos assumiria o governo logo em seguida. A carta gaúcha possuía forte teor centralizador e concentrava a maior parte dos poderes nas mãos do presidente de Estado, que passava a ser eleito por cinco anos, com direito à reeleição (mais tarde, Borges de Medeiros, usando deste estratagema, permaneceu
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FRANCO, Sérgio C. Júlio de Castilhos e sua época. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1996. p. 82. FRANCO, Sérgio C. Op. cit., p. 94.

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no poder por vinte e cinco anos). E ainda, podia governar por decreto e tinha a prerrogativa de nomear o próprio vice. O legislativo estadual gaúcho (“Assembléia dos Representantes”) restringiu sua ação à elaboração e aprovação do orçamento. Castilhos procurou criar um governo autoritário de inspiração positivista. Com a nova Constituição, o grupo ligado a Júlio de Castilhos assegurou-se perpetuamente no poder, pondo fim ao revezamento dos tempos imperiais. Estava plantada a semente da discórdia que traria como fruto dois anos e meio de uma guerra cruel e fratricida. Em termos nacionais, a instalação relativamente tranqüila do regime republicano fez com que seu artífice, marechal Manuel Deodoro Fonseca (1827–1892), assumisse a presidência do mesmo e tomasse as primeiras medidas para a sua estabilização, formando o primeiro gabinete republicano com ministros civis e militares engajados na ruptura, como se vê a seguir: Pasta da Justiça – Campos Sales (cafeicultor paulista), Pasta da Guerra – Benjamin Constant (positivista, ocuparia a Pasta da Instrução Pública, Correios e Telégrafos no ano seguinte), Pasta das Relações Exteriores – Quintino Bocaiúva (republicano “histórico”), Pasta da Marinha – Eduardo Wandenkolk (militar de carreira), Pasta do Interior – Aristides Lobo (republicano “histórico”), Pasta da Agricultura, Comércio e Obras Públicas – Demétrio Ribeiro (positivista) e Pasta da Fazenda – Rui Barbosa (ex-liberal). A consumação do regime se daria dois dias depois com a partida de Dom Pedro II para Paris. As primeiras medidas tomadas pelo Governo Provisório visavam superar as deficiências mais prementes, acumuladas do período imperial. Dentre elas podemos destacar a separação da Igreja e do Estado, a secularização dos cemitérios, o estabelecimento do registro civil de nascimentos e casamentos, a abertura de linhas de crédito e a convocação da Assembléia Constituinte no ano seguinte. Não obstante, em termos econômicos é de bom alvitre acompanhar o quadro do País na passagem do Império para a República, descrito por Nelson Werneck Sodré:
Em 1889, o quadro brasileiro pode ser traçado em umas poucas coordenadas: o país dispõe de 14 milhões de habitantes, distribuídos em 916 municípios, com 348 cidades; conta com apenas dois portos aparelhados e apenas uma usina elétrica; com 8.000 escolas, 533 jornais, 360 quilômetros de rodovias, 10.000 quilômetros de ferrovias e 18.000 de linhas telegráficas; sua produção ascen-

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de, em moeda nacional, ao valor de 500.000 contos de réis, e a sua produção industrial a excede um pouco, pois vai a 508.000 contos de réis; em dados per capita, a produção industrial corresponde a 35.750 réis, enquanto a produção agrícola corresponde a 35.700; a exportação per capita é de 15.000 réis e a receita per capita de 11.500 réis. (...) No comércio exterior, verifica-se que, entre 1876 e 1885 a nossa importação ascendeu a 1.770.000 contos, quando a exportação atingiu a 1.970.000 contos. No decênio de 1886 a 1895, já em parte sob o novo regime, a importação atingiria a 3.300.000 contos, e a exportação a 4.100.000. O saldo, naquele decênio, subiria a mais de 800.000 contos, dado realmente importante. Começava, no Brasil, a capitalização 71.

Dentre as 21 províncias que foram elevadas à categoria de Estados da União pelos republicanos em 1889, o Paraná (com uma população de aproximadamente 330.000 habitantes na virada do século XIX) possuía ainda uma projeção muito tímida em termos nacionais72. Por causa da influência dos positivistas, os militares compartilhavam do ideal do “progresso” (dentro da “ordem”), não possuindo em termos de política econômica um projeto específico. Combatiam o liberalismo dos cafeicultores paulistas, por acreditar que esses só visavam a seus interesses próprios. Com um quadro nacional econômico tímido, se comparado às nações já inseridas no capitalismo monopolista, mas estável por outro lado (o café estava com os preços em alta), é que assumiu a Pasta da Fazenda o advogado Rui

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SODRÉ, Nelson W. A república; uma revisão histórica. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1989. p. 76. “Embora criada pelo Império para ser seu ponto de apoio na região, a Província do Paraná não recebia deste qualquer privilégio, ao contrário, sofria com graves problemas econômicos e políticos. Sua economia era basicamente extrativista, seja a partir da extração da madeira, seja da erva-mate, cujo surto econômico propiciará o desenvolvimento cultural de sua capital. Apesar deste desenvolvimento, o estado era o 18º em população, ficando à frente somente do Espírito Santo, Mato Grosso e Amazonas, e 2/3 de seu território ainda se encontrava desocupado e mesmo suas fronteiras não eram bem definidas. Talvez por estes fatores a tese de que o Paraná era um mero local de ligação e passagem, uma estância para tropeiros tenha se consolidado, esquecendo que neste período praticamente todo o país vivia em condições precárias e encontrava-se com a maior parte de seu território desabitado.” PEREIRA, Luís F. L. Paranismo: o Paraná inventado; cultura e imaginário no Paraná da Primeira República. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1998. p. 23-24.

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Barbosa de Oliveira, com o intuito de modernizar a economia brasileira. Sobre isso, apelamos mais uma vez a Nelson Werneck Sodré:
A república, nas alterações que introduz, marca nitidamente o extraordinário esforço de adaptação das condições internas às condições externas, de uma capitalização em início a um processo capitalista que atinge a sua etapa imperialista. Com a República, assistimos, realmente, ao apogeu da estrutura colonial de produção: o Brasil é um dos principais supridores de matérias-primas do mercado mundial, e o seu produto fundamental é o alimentício que figura em maior volume, nas correntes de troca, com a particularidade de fazê-lo ainda sem concorrência. Isto acontece quando o mundo assiste a um extraordinário surto de comércio internacional, decorrente do crescimento vertical da produção capitalista que, com o surto demográfico, invade mercados e destrói velhas relações73.

A proposta econômica de Rui Barbosa era investir o superávit na produção industrial, e isso ia contra as aspirações de financiamentos dos cafeicultores paulistas, mas acabou agradando aos militares. A primeira medida de Rui Barbosa como ministro foi uma reforma bancária, a fim de facilitar a expedição de títulos de crédito. No início, tudo correu sem problemas, e várias empresas foram criadas no Distrito Federal. Otimistas, previam um bom panorama de crescimento devido ao crédito facilitado pela reforma. Em termos econômicos, reparamos um quadro parecido com o visto anteriormente quando do fim do tráfico de escravos, cujos capitais foram conduzidos a novos empreendimentos. Agora, porém, o deslocamento dos fluxos de capitais era feito com o aumento artificial do meio circulante; com essa medida as autoridades esperavam baixar as taxas de juros e transformar os investimentos nas empresas mais atrativos do que a especulação no mercado financeiro. Na prática, a teoria mudava substancialmente, pois o retorno financeiro de um investimento industrial leva tempo para se concretizar e era mais fácil lucrar sem trabalhar que desenvolver projetos com viabilidade econômica. O que parecia uma boa intenção acabou virando um pesadelo. A historiadora Sandra Jatahy Pesavento sobre isso esclarece:

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SODRÉ, Nelson W. Op. cit., p. 76-77.

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A ampliação do meio circulante, conjugada a um sistema de crédito amplo e fácil para as iniciativas que surgissem, proporcionou uma febre especulativa no mercado de ações e uma proliferação de novas empresas. Por outro lado, o aumento do papel-moeda em circulação incidiu sobre o valor externo da moeda brasileira, ocasionando uma baixa de câmbio. Paralelamente, para fazer frente às necessidades fiscais do governo, determinou-se a cobrança de uma taxa-ouro sobre as mercadorias importadas, ao mesmo tempo em que se elevavam as taxas de importação74.

Num curto espaço de tempo, a especulação financeira era bem maior que os empreendimentos de fato. O entusiasmo pelo lucro fácil com papéis contaminou a vida econômica da capital da República e passou para a história com o malfadado nome de “Encilhamento”, e a crise por ele gerada marcou a vida econômica dos primeiros anos da República com inflação e carestia, o que ajuda a entender, em parte, a insatisfação dos estratos mais humildes da população com as autoridades constituídas. Em 03 de dezembro de 1889, era nomeada uma comissão de estudos para a instalação da Assembléia Constituinte e a redação de um anteprojeto, tarefa que foi concretizada por Rui Barbosa. No entanto, as correntes republicanas expostas anteriormente entraram no confronto de qual projeto de sociedade a Constituição deveria privilegiar. Os positivistas defendiam um Executivo forte, posição compartilhada por alguns setores do oficialato e por membros do Governo Provisório, entre eles o próprio presidente Deodoro, que protelou ao máximo a convocação da Assembléia Constituinte. Os antagonismos entre os primeiros e os cafeicultores paulistas já não podiam mais ser disfarçados; estes clamavam por democracia e alegavam a ilegalidade da situação jurídica do Governo Provisório. O apaziguamento das vontades e opiniões predominou e, ao final de junho de 1890, as eleições para os constituintes foram convocadas para setembro seguinte e, num pleito conturbado, finalmente, foram indicados os elaboradores da nova Carta Magna da Nação, que acabaram acatando, quase que na íntegra, o anteprojeto de Rui Barbosa. Promulgada a 24 de fevereiro de 1891, a primeira Constituição republicana estabeleceu os princípios norteadores do País para o
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PESAVENTO, Sandra J. O Brasil contemporâneo. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1991. p. 22.

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período que se estenderia até a Revolução de 1930, a chamada “Primeira República Brasileira”. A historiadora Maria do Carmo Campello de Souza tece considerações importantes sobre tais princípios:
Federalismo, presidencialismo e ampliação do regime representativo são as três coordenadas legais da Primeira República, (...) associadas às características de uma estrutura econômica definida pela grande propriedade. (...) A Federação surge em atendimento às necessidades de expansão e dinamização da agricultura cafeeira, desfeitas, já na Abolição, as motivações econômicas que ligavam as várias regiões produtoras75.

Extraordinariamente, o primeiro presidente eleito foi escolhido por via indireta, o marechal Deodoro da Fonseca. A Constituição de 1891 estabelecia o presidencialismo como forma de governo e ao chefe do Executivo federal cabia a escolha dos ministros e o mesmo tinha autonomia para execução de projetos nacionais, sem a interferência do Congresso, encerrando a negociação parlamentarista imperial. O presidente tinha ainda a prerrogativa de intervir na administração das unidades da federação (Estados) com o escopo de manter a “ordem” republicana. A fundação de bancos emissores de moeda ficava sob a tutela do presidente. Em reação a essa concentração de poderes, os liberais restringiram o mandato presidencial em quatro anos, sem reeleição. Apesar do ideal federalista, o ponto de equilíbrio, que no Império era exercido pela aristocracia agrária, passou para as oligarquias rurais paulistas e mineiras, que controlavam os maiores contingentes eleitorais e que se revezaram no poder de 1894 a 1930. As eleições para o Congresso (os senadores não eram mais vitalícios) e para presidente passaram a ser diretas. O sufrágio passou a ser livre, não obrigatório e universal (sem contar a renda), mas apenas para homens alfabetizados maiores de 21 anos, o que ainda restringia muito o universo de eleitores. Apesar de algumas tendências centralizadoras, várias conquistas liberais foram alcançadas, como autonomia administrativa dos Estados, que puderam elaborar suas próprias constituições, estabelecer tributos locais, contrair empréstimos no exterior e criar sistemas judiciários, policiais e militares estaduais. Tais medidas beneficiaram os Estados mais desenvolvidos como São Paulo,
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SOUZA, Maria do C. C. Op. cit., p. 163-164.

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Minas Gerais e Rio Grande do Sul, pois a tributação estadual consentia na adoção de políticas regionais independentes da União. Por fim, no tocante “aos direitos e garantias do cidadão” manteve-se o liberalismo, vigente desde a carta do Império:
Como os homens de 1824, os de 1891 acreditavam religiosamente nas fórmulas do liberalismo político. Embutia-se o Brasil no molde norte-americano, como, outrora, o tinham enquadrado no constitucionalismo francês. Da extrema centralização para o mais largo federalismo, eis o salto que ele ia dar. Era idêntica, todavia, a inspiração das duas Constituições: o individualismo político e econômico, ascendente no mundo em 1824, e em pleno apogeu em 1891. No começo, como no fim do século, pelo modelo europeu ou pelo modelo norte-americano, o domínio ideológico era ainda o dos filósofos da Enciclopédia, de Rousseau e dos economistas liberais. A diferença essencial entre a constituinte monárquica e a republicana consistia no desaparecimento das fortes rivalidades entre unitários e federalistas76.

Como vimos, a primeira eleição presidencial foi feita no âmbito do Congresso em 1891, quando o marechal Deodoro venceu Prudente de Morais por uma pequena margem de votos, contudo, na eleição para o cargo de vice-presidente a delicada estabilidade entre os candidatos não seguiu a mesma tendência, e o vice da chapa de Prudente, o marechal Floriano Vieira Peixoto (1839–1895), venceu com ampla margem o candidato da chapa de Deodoro, o ministro da marinha Eduardo Wandenkolk. Esse escrutínio causou apreensão no Congresso, pois,
Cedendo à pressão das tropas e para evitar uma possível intervenção militar, seguida de confronto com sérias conseqüências, os parlamentares sufragaram o nome de Deodoro. (...) No dia da posse, enquanto Deodoro era recebido por “palmas protocolares”, a entrada de Floriano no recinto do Congresso foi saudada com uma “ovação delirante”77.

A antipatia entre Deodoro e os “casacas” (civis) era recíproca em razão de seu afastamento dos interesses dos cafeicultores paulistas, e o seu mandato constitucional foi marcado por atitudes auto76 77

BELLO, José M. História da República. São Paulo: Nacional, 1983. p. 72. MONTEIRO, Hamilton M. Op. cit., p. 39.

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ritárias de sua parte, homem acostumado com a disciplina dos quartéis. Em verdade, o pacto circunstancial realizado pelos parlamentares para a primeira eleição presidencial desagradou os setores que se intitulavam “defensores do 15 de novembro”, como as oligarquias regionais, os ex-liberais, os republicanos históricos e militares não-positivistas. Tais setores passaram a fazer oposição sistemática a Deodoro. Oportunista, Floriano aderiu a esse bloco de descontentes. Já no Rio Grande do Sul, as divergências internas intensificariam-se com a volta de Gaspar Silveira Martins, beneficiado por medida de Deodoro, anulando a expulsão dos exilados políticos. Quando do seu desembarque no Rio de Janeiro, no início de 1892, Silveira Martins passou a fazer severas críticas tanto ao marechal Floriano, como a Júlio de Castilhos, que, mesmo afastado da presidência do Rio Grande do Sul, continuava sendo o homem forte do Estado. Martins propunha a instalação de uma república parlamentarista aos moldes do Império, idéias que não agradaram nem um pouco a Floriano. Do Rio de Janeiro, Silveira Martins seguiu para o Rio Grande do Sul, dando início à oposição ao Partido Republicano RioGrandense, de Castilhos, que defendia ferreamente a autonomia estadual, leal ao preceito positivista das “pequenas pátrias”. Sobre o retorno de Silveira Martins, Edgard Carone refere:
Em 19 de novembro de 1890, Deodoro da Fonseca decreta a anulação do banimento dos monarquistas e, em junho do ano seguinte, Ouro Preto volta ao Brasil; em 05 de janeiro de 1892, Silveira Martins aporta no Rio de Janeiro, onde se encontra com Floriano e diz “estar tudo errado; que precisava desfazer-se o que estava feito para adotar a república parlamentar”. Sua vinda vai incentivar o movimento oposicionista no Rio Grande do Sul e, no futuro, o desencadeamento da revolução federalista, apesar de ser, o próprio Gaspar Silveira Martins, contrário à ação armada. À sua chegada ao Rio é recebido com aclamações e declara que seu programa é a defesa do parlamentarismo78.

Desde a demissão coletiva do primeiro ministério do Governo Provisório, em janeiro de 1891, Deodoro chamou o barão de Lucena para o papel equivalente ao de chefe de Estado e lhe ofereceu os ministérios da Justiça e da Agricultura. Após a promulgação da
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CARONE, Edgard. A república velha: evolução política. São Paulo: Difel, 1971. p. 80.

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Constituição, Lucena permaneceu como ministro interino das pastas, mas depois, em caráter efetivo, passou a ministro da Fazenda. Sem maioria no Congresso, Deodoro teve sua atuação presidencial estorvada. Diante disso, o presidente sentiu-se acossado e passou a adotar uma série de medidas polêmica, que envolviam concessões de obras sem concorrência, substituição de presidentes de Estados, taxações alfandegárias, entre outras. O presidente alegava boa-fé e tinha crença de estar contribuindo para o desenvolvimento do País. Mas o Congresso não compartilhava essa opinião e intensificou o boicote e a investigação dos atos do presidente. A situação tornou-se insuportável até a consumação do ato desesperado de 03 de novembro de 1891:
Em reunião no palácio, Deodoro reclama do Congresso: chama-o de “ajuntamento anárquico” e proclama a necessidade de seu fechamento “para a felicidade do Brasil”. (...) Acostumado aos expedientes monárquicos de dissolver a Câmara, quando convinha ao Executivo, Deodoro usa-o inconstitucionalmente. Não se estava mais no Império, e o regime republicano não admitia atos desse tipo, a não ser por meio de um golpe militar ou rebelião popular, fugindo completamente à ordem legal. O que o Presidente não entendia era que a defesa da Constituinte e a legalização do novo regime foram levantadas pelas forças conservadoras, encabeçadas por São Paulo79.

A atitude de Deodoro demonstra o quanto ele ainda estava imbuído do jogo político imperial, quando, em situações intrincadas, o Imperador dissolvia o parlamento por meio do Poder Moderador e convocava novas eleições. Mas os tempos eram outros e, ainda que muitos acatassem o fechamento do Congresso e a decretação do “Estado de Sítio”, alguns deputados intensificaram um movimento de resistência que atraiu setores da Marinha ligados ao almirante José Custódio de Melo (1840–1902), que prometeu “apontar seus canhões” contra o golpe. Deodoro aventou o confronto, mas desistiu, receando que o choque das armas levasse o País a uma guerra civil. Enfermo e aborrecido, Deodoro chamou Floriano para a transmissão do cargo e assinou sua renúncia a 23 de novembro de
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MONTEIRO, Hamilton M. Op. cit., p. 42-43.

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1891. A resistência da Armada mostrava o quanto a República dependia dos militares, e como o poder civil ainda era frágil frente às vicissitudes do novo regime. Assim como seu antecessor, o marechal Floriano era um veterano “tarimbeiro” da Guerra do Paraguai, e, apesar de ter sido ministro da Guerra do Governo Provisório em 1890, Floriano representava, no meio militar, uma ala mais envolvida com a causa dos republicanos “históricos”. Sobre a cisão no ambiente castrense Boris Fausto esclarece:
As forças armadas não atuavam como um grupo homogêneo diante de uma classe social cujos representantes políticos se achavam unidos. As rivalidades se recortavam entre Exército e Marinha – razão principal da Revolta da Armada – entre quadros jovens e velhos, entre partidários de Deodoro e Floriano. A disputa entre os seguidores dos dois chefes, cujos objetivos não eram essencialmente diversos, demonstra como a unidade do grupo se quebrava diante de lealdades pessoais. A influência militar foi sem dúvida muito grande nos primeiros anos da República, a ponto de apenas metade dos Estados ser governada por civis. Entretanto, mesmo nesta época de apogeu, os militares partilharam o poder com o núcleo agrário-exportador, fizeram-lhe concessões essenciais e, para bem ou mal, acabaram por ceder-lhe as rédeas do governo80.

Tão logo assumiu, Floriano revogou o estado de sítio, convocou o Congresso Nacional para o mês seguinte e garantiu respeito à Constituição. Não obstante, depôs todos os governadores que apoiaram o golpe de Deodoro (só o Pará escapou), dissolvendo as Assembléias locais, e nomeando militares de confiança nas presidências dos Estados. Os presidentes dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Maranhão e Amazonas protestaram e foram refreados pelo Exército. Floriano começava a pôr as mangas de fora... Na implantação da República, o Rio Grande do Sul possuía duas correntes políticas bem definidas: os republicanos castilhistas e os parlamentaristas gasparistas, e a oposição não aceitou passivamente quando Castilhos manteve-se reservado face ao malogrado golpe de Deodoro em fechar o Congresso e organizou a “União Nacional”.

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FAUSTO, Boris. Pequenos ensaios de história da república (1889–1945). São Paulo: Cadernos CEBRAP, n. 10, 1973. p. 2.

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Quando Castilhos resolveu se declarar contrário à ação de Deodoro, o tempo hábil já tinha passado, e o Rio Grande do Sul inteiro mobilizara-se com rebeliões militares em São Borja, Uruguaiana, Alegrete, Bagé, Jaguarão, Rio Grande, São Gabriel e Quaraí, manifestações civis em Porto Alegre e Bagé e, na serra gaúcha, o líder Antônio Prestes Guimarães alardeou ter 2.500 homens para a pugna. Castilhos se viu acuado frente a um comitê que exigia sua renúncia e acabou deixando o cargo para uma junta governativa que ele próprio escarneceu com a conhecida pecha de “governicho” (período compreendido entre 12 de novembro de 1891 a 17 de junho de 1892)81. A tensão política no Rio Grande do Sul estava apenas começando, já que nesse ínterim era fundado, em Bagé, o Partido Federalista Brasileiro, presidido por Silveira Martins e composto por antigos correligionários do Partido Liberal. Unidos no combate a Júlio de Castilho, os federalistas propunham a revisão da Constituição estadual e o fortalecimento do poder federal por meio do parlamentarismo. Para eles, o positivismo castilhista feria as “sacrossantas” liberdades individuais resguardadas pela doutrina liberal. Ironicamente, Castilhos havia sido articulista e diretor do jornal republicano A Federação, fundado em 1884. Na verdade, dentro da teoria clássica, o federalismo, de acordo com o cientista político Lúcio Levi, pode ser entendido como:
O princípio constitucional no qual se baseia o Estado federal é a pluralidade de centros de poder soberanos coordenados entre eles, de modo tal que ao Governo federal, que tem competência sobre o inteiro território da federação, seja conferida uma quantidade mínima de poderes, indispensável para garantir a unidade política e econômica, e aos Estados federais, que têm competência cada um sobre o próprio território, sejam assinalados os demais poderes82.

Destarte, os republicanos de Castilhos encaixar-se-iam melhor na defesa do conceito de federalismo exposto acima que os próprios federalistas de Silveira Martins.

81

82

FLORES, Moacyr. Dicionário de história do Brasil. Porto Alegre: Editora da PUCRS, 1996. p. 244. LEVI, Lucio. Federalismo. Dicionário de Política. Brasília. Editora da UnB, 1991. p. 481.

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Após o fracasso do golpe, Deodoro retirou-se da política, vindo a falecer em agosto de 1892, e Castilhos retornaria à polêmica jornalística e à política de oposição, organizando o “Movimento Reivindicador”. Todavia, as dificuldades da política fizeram com que o “Marechal de Ferro” apoiasse Castilhos diante do mal maior que era Gaspar Silveira Martins. Política tem dessas coisas... O impasse estava criado, e as duas facções passaram a se confrontar nem sempre apenas no campo das idéias. O “governicho” não conseguia se manter no poder, e, após várias vicissitudes, os republicanos castilhistas assenhorearam-se novamente do poder em meados de 1892, e a tensão política resultou na perseguição dos federalistas que acabaram, ao final desse ano, refugiando-se no Uruguai a fim de organizaram militarmente o “Exército Libertador”, e a partir de fevereiro de 1893 iniciaram as invasões ao Rio Grande do Sul. Entrementes, ao assumir a presidência, Floriano nomeou o fazendeiro paulista Francisco de Paula Rodrigues Alves para a Pasta da Fazenda, que estabeleceu uma política econômica conservadora, com diminuição da emissão de moeda, obtenção de financiamentos externos, alta dos juros, aumento dos gastos do governo, desestimulando uma política pública de financiamentos para empreendimentos industriais. O artigo 42 da Constituição da República previa que “no caso de vaga, por qualquer causa, da presidência ou vice-presidência não houvessem ainda decorridos dois anos do período presidencial, proceder-se-á a nova eleição”. Floriano a princípio nem se preocupou com esse dispositivo constitucional, alegando que seu caso era excepcional, pois, as “Disposições Transitórias” que fixaram a eleição indireta dele e de Deodoro previam que “o presidente e o vicepresidente eleitos na forma deste artigo (via indireta) ocuparão seus cargos por quatro anos”; dessa feita, para ele seu mandato era legal até o final do período previsto para Deodoro em 1894. Essa artimanha gerou debates exaustivos nos jornais e no Congresso, órgão competente para a solução da pendência, e este manifestou-se pela permanência de Floriano na presidência até 1894. Evidentemente, essa era uma decisão mais política do que jurídica, e outra vez os paisanos arrefeciam frente aos acenos de intervenção militar.

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Como foi visto anteriormente, não existia unidade entre as armas brasileiras, e, no início de 1892, Floriano começaria a se deparar com as primeiras sublevações militares contra seu mandato com o motim das tropas das fortalezas de Santa Cruz e Lage na capital federal. Acossado, Floriano ordenou a prisão dos soldados insubordinados. Em abril do mesmo ano, oficiais não deixariam passar incólumes tais atitudes. Fernando Henrique Cardoso sobre isso infere:
Em torno a esta questão (do artigo 42) articulou-se o eixo político da oposição e o processo culminou quando, mais uma vez, os militares envolveram-se na conspiração. O Manifesto dos treze generais pedindo eleições e apontando a desordem reinante, bem como a recusa de Floriano a acatar o pedido, seguida da reforma dos militares, começou a apontar o caminho escolhido pelo Marechal para romper o impasse: o reforçamento do poder presidencial 83.

A solução draconiana para o caso dos generais provocou protestos, que Floriano reprimiu com igual diligência: deportou militares, jornalistas e parlamentares oposicionistas para lugarejos remotos da Amazônia. Era o início das jornadas do “Marechal de Ferro”... A Revolta da Armada foi uma das rebeliões militares mais sérias que Floriano enfrentou em seu período presidencial. As ironias do destino fizeram com que o mesmo almirante que havia garantido sua posse, Custódio de Melo, agora ministro da Marinha, pedisse exoneração do cargo e comandasse um segundo levante da marinhagem. Custódio alegava a mesma justificativa anterior: desrespeito à Constituição, pois, para ele, Floriano havia se tornado um “ditador”, e clamava pela deposição do presidente e por eleição para o primeiro mandatário da República, na qual o próprio Custódio tinha pretensões eleitorais. A 06 de setembro de 1893, Custódio apossou-se da belonave Aquidabã, o que foi seguido pela oficialidade (entre eles Luís Filipe de Saldanha da Gama, 1846–1895, e Eduardo Wandenkolk, 1838– 1902) e pela marinhagem de dezesseis outros vasos de guerra e dezoito navios mercantes fundeados na baía da Guanabara. Assim como no contragolpe naval a Deodoro, Custódio acreditava que seus canhões junto ao apoio dos setores civis seriam suficientes para forçar a renúncia de Floriano.
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CARDOSO, Fernando H. Dos governos militares a Prudente – Campos Sales. História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, 1985.t. III, v. 1. p. 43.

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Ledo engano, pois os paisanos não vieram em apoio aos marujos, e Floriano contou com a lealdade do Exército, que respondeu aos bombardeios da Armada da mesma forma. Diante do impasse, os insurretos resolveram, em dezembro do mesmo ano, dividir a esquadra e rumar para o sul atrás do suporte dos federalistas, o que facilitou a tarefa de Floriano na capital, obtendo rapidamente o controle das fortalezas e das tropas terrestres da Marinha e passou a arquitetar a compra de navios para o combate marítimo, o que passaria para a história com a denominação jocosa de “Esquadra de Papelão”. A aquisição dessa esquadra tem um forte caráter simbólico, uma vez que Floriano preferiu adquiri-la junto aos Estados Unidos, que era uma república, do que junto à Inglaterra, uma monarquia84. Os vasos de guerra estrangeiros ancorados na baía da Guanabara, notadamente da Itália, Portugal, França e Inglaterra, alegando neutralidade, ameaçaram intervir em prol dos seus interesses comerciais nacionais e dos seus concidadãos residentes na capital da República e declararam o Rio de Janeiro uma “cidade aberta”. Impediram tanto o desembarque de munição para os governistas como pressionaram os revoltosos da Armada contra bombardeios. Em um episódio lendário, che si non è vero, è bene trovato, um representante inglês teria indagado Floriano sobre como ele receberia eventuais forças destinadas a defesa dos interesses britânicos no Rio de Janeiro, e o marechal teria simplesmente respondido: “à bala!” 85. Essa passagem, verdadeira ou não, deixa transparecer o caráter inflexível e implacável de Floriano. No início de 1894, os revoltosos da Armada tentaram ocupar Niterói, mas foram contidos. Em março, desembarcava no Rio de Janeiro a “Esquadra de Papelão” comandada pelo almirante Jerônimo Gonçalves, e os rebelados da capital se rendiam depois de seis meses de combates.

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“A República não alterou, imediatamente, a política externa do Império. De fato, logo após o golpe militar de 15 de novembro, os Estados Unidos desfrutaram de invejável popularidade entre os brasileiros, como acentuou Oliveira Lima. Os governos de Deodoro e Floriano empurraram o Brasil para o eixo de Washington, com a ajuda de Salvador de Mendonça, nomeado Ministro naquela capital. Era uma forma de contestar o passado e de resistir ao predomínio da Inglaterra, implantado desde os tempos coloniais”. BANDEIRA, Moniz. Presença dos Estados Unidos no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973. p. 166. QUEIROZ, Suely R. R. Os radicais da república. São Paulo: Brasiliense, 1986, p 149.

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Triunfante na capital, o governo transferiu suas forças para o Sul do País e, em meados de abril de 1894, o Aquidabã iria a pique no Desterro, mas a Revolta da Armada só findaria simultaneamente à Revolução Federalista, em junho de 1895, com a morte do Almirante Saldanha da Gama no Campo Osório, Rio Grande do Sul. Embora oriunda de conflitos nacionais e regionais da implantação do regime republicano no Brasil e nas províncias, e, mesmo se tratando de uma rebelião contra Floriano no plano nacional, não cabe aqui tergiversar sobre a Revolução Federalista, pois, como tema principal desse trabalho, trataremos dela, com profundidade, no capítulo seguinte, em que realizaremos, inclusive, uma abordagem mais demorada da interseção da mesma com a Revolta da Armada.

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CAPÍTULO 2

Em termos mais gerais, no quadro preciso de uma sociedade determinada e por um período igualmente determinado, a noção de legitimidade não corresponde a nada além do reconhecimento espontâneo da ordem, da aceitação natural, não obrigatoriamente das decisões daqueles que governam, mas dos princípios em virtude dos quais eles governam. Todo poder pode, em última análise, aparecer como legítimo quando, para a grande massa da opinião e no segredo dos espíritos e dos corações, a manutenção das instituições estabelecidas é reconhecida como uma evidência factual, escapando a toda contestação, ao abrigo de todo questionamento86.

OS PERCALÇOS DO NOVO REGIME E A REVOLUÇÃO FEDERALISTA A crise da implantação do regime republicano no Brasil foi, antes de mais nada, uma crise de legitimidade. Os percalços da nova ordem política obrigaram os novos atores a sobreporem instituições e os governantes do período anterior, e a saída encontrada para essa tarefa foi, em grande parte, a força e a violência política 87. Como vimos no capítulo anterior, a instalação do regime republicano no Brasil exigia um novo pacto político em torno de um bloco no poder que conciliasse os interesses da economia cafeeira com a manutenção da unidade nacional, e os governos militares de Deodoro e Floriano foram fundamentais para consolidar de forma
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GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 88. “Esse tempo forte, composto de momentos de efervescência da vida política, caracteriza os primeiros dez anos da República (1889-98), também chamados de ‘anos entrópicos’, nos quais a quantidade de desafios parece ser maior que a capacidade dos atores de erradicar a ignorância sobre o que se passava. Nessa ‘década de caos’ se buscou, sem êxito, construir as bases da obediência legítima.” OLIVEIRA, Lúcia L. As festas que a república manda guardar. Estudos Históricos. Rio de Janeiro: CPDOC/FGV. v. 2, n. 4, 1989. p. 175-176.

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coercitiva esse novo estado de coisas, realçando a força em detrimento do consenso.
Defrontavam-se pelo menos três projetos diferentes na política nacional. O projeto castilhista, cuja defesa do federalismo era radical apenas com o fito de defender uma solução particularmente centralizada no Estado do Rio Grande do Sul, imbricava-se com o projeto militarista florianista, que defendia o presidencialismo autoritário, resvalando em uma possibilidade de ditadura. Tinham a seu favor forças heterogêneas na esfera econômica e social. Ao lado de frações de oligarquias locais, presentes no PRF, que se hostilizavam no próprio corpo partidário, havia camadas das incipientes classes médias que compunham a população dos maiores centros urbanos, cuja luta pela estabilidade social passava pelos problemas de carestia dos gêneros alimentícios, habitação, conquista de empregos etc. O nacionalismo, a ordem, o progresso, o xenofobismo, eram as representações ideológicas que sustentavam esse movimento difuso, embora, aparentemente, de perspectivas democráticas mais amplas. O terceiro projeto, o da burguesia paulista, apresentava-se cada vez mais consistente, com base na agricultura cafeeira, e nas novas relações de produção sintonizadas com os interesses do capitalismo internacional 88.

Contudo, as relações estabelecidas no interior da classe dominante, vistas acima, não estavam livre de confrontos e oposições internas, pelo contrário, dentro do conceito “classe dominante” coexistem, em seu bojo, várias “frações autônomas de classe” 89. Nesse sentido, as frações autônomas de classe surgem a partir de sua posição dentro do processo social de produção capitalista, ou melhor, elas podem se subdividir em frações envolvidas ou com a produção, ou com o financiamento, ou com a comercialização. Tais frações correspondem a todas as fases de reprodução do capital e, apesar de às vezes seus interesses parecerem antagônicos ou ser difícil sua precisão, elas precisam umas das outras para sobreviver. No caso do Paraná ao final do século XIX, essas frações autônomas

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JANOTTI, Maria de L. M. Os subversivos da república. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 138. POULANTZAS, Nicos. Poder político e classes sociais. São Paulo: Martins Fontes, 1986. p. 74-82.

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de classe corresponderiam à burguesia do mate e às parcelas envolvidas com a atividade criatória desenvolvida nos Campos Gerais 90. Para Nicos Poulantzas91, apenas podemos notar o caráter dessas frações autônomas de classe quando a vivência das mesmas se faz sentir nos níveis políticos (por meio de partidos ou organizações de classe) ou ideológico (pela luta de classes), ao que ele chama de “efeitos pertinentes” 92. Diante disso, só podemos entender os interesses dos pecuaristas identificados com os federalistas, por exemplo, por meio de uma ideologia própria – o liberalismo – em rivalidade de outra – o positivismo – no desdobramento histórico da luta concreta entre duas frações autônomas de classe, no caso do Rio Grande do Sul. Já os militares formaram, durante a Primeira República, um grupo de difícil inserção conceitual dentro da análise da sociedade de classes, cuja percepção de seus efeitos pertinentes também é uma tarefa penosa.
O longo processo de formação da caserna privilegia a obediência sem discussão, a autoridade sem vacilações, a imposição da ordem mesmo à custa da liberdade. (...) Ao militar, portanto, é difícil assimilar um pensamento como o liberal, assumido pelas classes dominantes que o excluíram da participação política e de vantagens sociais. Por outro lado, sua relação é com o Estado. Não
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“Assim, as simples formas produtivas, dinheiro e mercadoria do capital não nos revelam frações desse mesmo capital. Essas formas, assumidas sucessivamente por um capital individual no seu movimento cíclico, só se transformam em frações do capital quando encaramos este último a partir de um novo prisma, isto é, como um todo, como capital social total. Deste ponto de vista, essas formas não são mais fases sucessivas de um capital individual, mas funções específicas de um grupo de capitalistas permanentemente dedicados a elas. Temos, então, por efeito da divisão social do trabalho, essas funções substantivadas, confiadas, permanentemente, a uma categoria particular de capitalistas. A forma produtiva se transforma em capital produtivo, a forma mercadoria em capital comercial e a forma dinheiro em capital bancário, funções específicas do processo social de produção.” PERISSINOTTO, Renato M. Classes dominantes e hegemonia na República Velha. Campinas: Editora da UNICAMP, 1994. p. 21. POULANTZAS, Nicos. Op.cit. (Nota 4), idem. Para Poulantzas, os efeitos pertinentes da ação de uma fração autônoma de classe acontecem em condições históricas concretas e não apenas nas relações econômicas, mas no cerne da batalha política: “De fato, as classes sociais só existem na luta de classes, em dimensão histórica e dinâmica. A constituição e mesmo a delimitação das classes, das frações, das camadas, das categorias só pode ser feita considerando-se essa perspectiva histórica da luta de classes.” POULANTZAS, Nicos. As classes sociais no capitalismo hoje. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1978. p. 29.

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tem parte direta na estrutura de produção, não compreende o jogo das forças econômicas e os mecanismos políticos de que se servem, sendo-lhe menos fácil chegar à consciência de classe que um burguês ou operário. Por isso, preocupa-se com homens, aqueles que dirigem e utilizam os recursos da nação 93.

Nas relações das forças econômicas, o “bloco no poder” constitui-se na unidade dentro da diversidade, com a qual as classes ou frações autônomas de classe politicamente dominantes agem por meio do Estado frente às demais classes da sociedade. Retomemos as considerações de Nicos Poulantzas:
Não nego absolutamente que a contradição fundamental é entre classes dominadas e classes dominantes. Também não nego que as contradições no seio do bloco no poder são em última instância devidas também ao tipo de resistência que as classes dominadas desenvolvem em relação às classes dominantes. Por exemplo, um dos aspectos decisivos da incoerência da política do aparelho de Estado deve-se às classes dominadas. Dito isto, será que a resistência-luta das classes dominadas se manifesta no seio do Estado sempre e apenas de maneira directa e aberta, ou também através das contradições internas do bloco no poder, contradições de que ela é o factor fundamental?94

Um outro conceito que emprestamos de Poulantzas é o de “hegemonia”95, entendido como a relação de subordinação das frações autônomas de classe frente a uma fração que prepondera sobre as demais e cujos interesses econômicos acabam se tornando prioritários. Nesse sentido, hegemonia é a habilidade com a qual a classe dominante e suas frações têm em sobrepor seus próprios interesses no corpo social. No confronto dos interesses entre as classes ou entre as frações dominantes, destacando as relações de submissão entre elas, a hegemonia efetua o convencimento que a fração da classe dominante que prepondera leva a cabo no cumprimento de seus interesses próprios, por meio da ação dos órgãos públicos.

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QUEIROZ, Suely R. R. Os radicais da república; jacobinismo: ideologia e ação 1893– 1897. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 269-270. POULANTZAS, Nicos. O Estado, o poder e nós. In: BALIBAR, Etienne. (Org.). O Estado em discussão. Lisboa: Edições 70, 1981. p. 98. POULANTZAS, Nicos. Op. cit. (Nota 4), p. 137.

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Ora, entendemos que os percalços do regime que serão explicitados no presente capítulo foram uma crise no bloco no poder de um sistema hegemônico que tentava se firmar e onde as classes subalternas atuaram como grupos de apoio para parcelas dominantes em conflito. Em termos nacionais, o embate acontecia entre os cafeicultores paulistas e os militares ligados a Floriano, momentaneamente imbuídos de um vago projeto político, fruto do “movimento difuso” visto anteriormente no texto de Maria de Lourdes Mônaco Janotti, e em termos regionais, entre os pecuaristas da Campanha e os positivistas castilhistas, no Rio Grande do Sul e entre a aristocracia agrária dos Campos Gerais contra os republicanos, no Paraná. As propostas federativas levadas a efeito pela implantação da República no Brasil tentavam atender a uma nova realidade regional do país, dando uma maior autonomia aos Estados. Todavia, a abolição da escravidão em 1888 assinalou o primeiro grande marco da passagem de um Estado escravista moderno para um Estado de tipo “burguês”96. Para Jacob Gorender, “a Abolição foi a única revolução social jamais ocorrida na História de nosso país”.
Com o desaparecimento da escravidão, desapareceram também o modo de produção escravista colonial – dominante durante quase quatro séculos – e a formação social escravista correspondente. A profunda transformação na estrutura econômica não deixou de se manifestar na superestrutura político-jurídica. A Monarquia centralizadora estava esclerosada e se tornara um trambolho. Daí ter sido substituída pela República federativa descentralizada, na qual os Estados ganharam ampla autonomia, sob a batuta hegemônica dos dois Estados mais poderosos: São Paulo e Minas Gerais97.

A proclamação da República assinalou, em termos políticoinstitucionais, a superação da estrutura estatal imperial, e a Constituição de 1891 foi o coroamento dessa metamorfose políticojurídica 98.

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SAES, Décio. A formação do Estado burguês no Brasil (1888–1891). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. p. 181-192. GORENDER, Jacob. A burguesia brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 21. OLIVEIRA, Ricardo C. O silêncio dos vencedores; genealogia, classe dominante e estado no Paraná. Curitiba: Moinho do Verbo, 2001. p. 228.

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Constatamos no capítulo anterior que a República foi efetivada em nosso país sob a égide de vários grupos que, após a implantação do regime, passaram a exercer pressão para que seus projetos de sociedade fossem concretizados. Fundamentalmente, o Exército foi o grupo que mais se destacou nos primeiros anos do novo regime, todavia, ele não conseguiu alterar o cerne da economia brasileira de então, a estrutura fundiária de produção, que se manteve, em linhas gerais, nas mãos das oligarquias agrícolas. Na estrutura de classes sociais da Primeira República, o papel desempenhado pelas camadas médias urbanas (nas quais podemos inserir os militares) em propor um projeto político alternativo ao da burguesia cafeeira paulista é pífio, quer seja pela heterogeneidade social, quer seja pela inconsistência ideológica. Francisco Corrêa Weffort elucida bem esse aspecto:
As camadas médias nunca conseguiram, por um lado, formular uma ideologia adequada à situação brasileira, isto é, uma visão ou programa para o conjunto da sociedade brasileira: adotaram os princípios da democracia liberal que, nas linhas gerais, constituem o horizonte ideológico dos setores agrários. Ademais, suas ações nunca puderam superar radicalmente e com eficácia os limites institucionais definidos pelos grupos dominantes99.

Entrementes, o grupo com maior força econômica, os cafeicultores paulistas, teve que barganhar tanto com o exército como com as outras oligarquias agrárias regionais para erigir seu sistema hegemônico em termos nacionais, o que só se concretizaria com a “Política dos Governadores”, na gestão de Campos Sales. Tais negociações geraram tensões no bloco hegemônico, e, no meio econômico interoligárquico, tanto as produções agrárias regionais como as incipientes atividades industriais urbanas ficavam muitas vezes incompatíveis com as propostas econômicas dos cafeicultores paulistas. É inquestionável que o grupo capitalista e mercantil formado em São Paulo com as exportações de café tornou-se a fração hegemônica da vida econômica e política da Primeira República brasileira. Contudo, essa fração de classe não existiu em termos nacionais, como fruto do curso próprio da concentração de capitais no
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WEFFORT, Francisco C. Estados e massas no Brasil. Revista Civilização Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, n. 7, maio de 1966. p. 140-141.

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Sudeste do País, principalmente no Estado de São Paulo. Isso aconteceu porque a divisão do trabalho da lavoura cafeeira ficava restrita ao local de produção e porque outros produtos nativos de exportação, tais como açúcar, algodão (a borracha só conheceria seu boom no início do século XX100) tinham pouca demanda no mercado externo nessa época. 101 A orientação do sistema econômico capitalista em seu estágio monopolista reservava externamente ao Brasil o papel de produtor primário, o que beneficiava as frações autônomas de classe produtoras de café, notadamente os produtores paulistas. E, dentro desse contexto tímido em termos internacionais, a regionalização da economia brasileira gerou desequilíbrios, e o três Estados do Sul do Brasil, principalmente o Rio Grande do Sul, possuíam características próprias e interesses muitas vezes divergentes da elite cafeeira. Para o emérito historiador norte-americano Joseph Love, o Estado gaúcho mostrou-se um “fator de instabilidade na República Velha”:
Tanto na política quanto na economia da República Velha, o Rio Grande do Sul constituiu uma anomalia: economicamente nem para a exportação nem para a subsistência; politicamente, não foi um Estado dominante (no sentido em que o foram Minas Gerais e São Paulo), nem um Estado satélite. (...) Em parte alguma foi a instabilidade política nos anos iniciais da República maior do que no Rio Grande do Sul. (...) Em contraste com sistema amorfo do partido
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PRADO JR., Caio. História econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1945. p. 249. O economista Paul Singer assim insere o Brasil na economia mundial do período: “Como participante da divisão internacional do trabalho, o Brasil era produtor especializado num artigo de sobremesa – o café – numa matéria-prima extrativa – a borracha – que estava em vias de ser produzida de uma forma superior, em plantações, não no Brasil mas muito significativamente em outros países. Mesmo como produtor primário, o Brasil conheceu uma série de fracassos: foi superado pelos Estados Unidos duas vezes, uma após a Guerra (Americana) pela Independência e outra após a Guerra da Secessão, no mercado mundial do algodão; no mercado internacional de açúcar, o Brasil foi superado pelas ex-colônias espanholas, particularmente Cuba, sobretudo após a Guerra Hispano-Americana (1898); finalmente, no mercado mundial da borracha, a hegemonia brasileira foi derrubada, nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, pela competição das plantações de seringueiras no Extremo Oriente. O Brasil apenas mantém seu predomínio no mercado do café e uma posição de certa importância no do cacau. Dado o tamanho do país e de sua população, seu desempenho na divisão internacional do trabalho parece medíocre . SINGER, Paul. O Brasil no contexto do capitalismo internacional. In: FAUSTO, Boris (Org.). História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, 1985. t. III, v. 1. p. 349-350.

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único, dominado pelo governador e pelos notáveis, de quase todos os Estados na Primeira República, a política no Rio Grande continuou a girar em torno de dois partidos bem organizados. Paradoxalmente, talvez, os dois partidos tinham, ao mesmo tempo, mais nítida orientação ideológica (presidencialismo ditatorial versus parlamentarismo) do que os partidos em outros pontos do Brasil. A família e a posição social, de que tanto caso se fazia em outras partes do país, significavam relativamente menos no Rio Grande102.

Deveras, mais do que conflitos entre “oligarquias regionais”, o regionalismo político decorrente da regionalização da economia visto acima deve ser entendido como expressão de conflitos no interior do bloco no poder 103. Como vimos anteriormente, a Constituição de 1891 foi a sagração do projeto civil sobre o militar e jacobino, ou seja: da República liberal e federativa sobre a República autoritária e centralizadora. Todavia, os militares conseguiram impor a eleição indireta do primeiro presidente, o que lhes daria uma sobrevida de mais quatro anos no poder (completada com Floriano). A análise do período da gestão presidencial de Floriano é uma das mais difíceis em termos de história política, pois a aceleração dos episódios políticos e administrativos refletiam as divergências entre as oligarquias estaduais com a ordem militar e as transformações levadas a efeito entre 1889 e 1894 foram rápidas demais para que os grupos tradicionais as digerissem. Na verdade, o referido período reflete a explosão das tensões acumuladas desde a década de setenta do século XIX, decorrentes principalmente da superação paulatina
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LOVE, Joseph L.O Rio Grande do Sul como fator de instabilidade na República Velha. In: FAUSTO, Boris (Org.). História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, 1985. t. III, v. 1. p. 99 e 110-111. “Os chamados ‘conflitos regionais’ são, na verdade, conflitos entre São Paulo e Minas, por um lado, e os outros estados, chefiados pelo Rio Grande do Sul, por outro lado. Não havia, portanto, um conflito generalizado e aleatório de todos os estados entre si, mas sim, um padrão. Os conflitos regionais foram, portanto, entendidos como conflitos entre os setores da classe dominante voltados para o mercado externo, que justamente devido à regionalização da economia agroexportadora, tomaram a forma de uma luta entre regiões, de uma luta entre unidades da Federação. Assim, essencialmente, procuramos entender tais conflitos de classe e não como conflitos entre ‘oligarquias regionais’. (...) Conseqüentemente, quando falamos em ‘hegemonia’ na Primeira República devemos falar em hegemonia de uma classe e não de uma região. Falar em hegemonia de uma região é estar preso às aparências com que a regionalização da economia agroexportadora recobriu a luta de classes no interior do bloco no poder na Primeira República.” PERISSINOTTO, Renato M. Op. cit., p. 245-246.

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do trabalho escravo. Nos rendemos, nesse ponto, às considerações de Maria de Lourdes Mônaco Janotti:
Jamais o país presenciara tal acúmulo de inovações na esfera político-administrativa e nas relações sociais. Desorganizara-se o antigo estamento burocrático e o Exército tornara-se, com Floriano, senhor do Estado. Desarticulara-se o antigo sistema parlamentar do Império introduzindo-se novas relações de poderes. Contudo, ainda não se firmara o federalismo bem como nenhuma conquista democrática. Partiram contestações ao regime do seu próprio interior. (...) Todos esses impactos caracterizam a instabilidade das relações do poder com o resto da sociedade civil104.

A Constituição de 1891 levou a efeito o federalismo de inspiração norte-americana ao conceder autonomia política e administrativa aos Estados. Na discriminação dos impostos entre a União e os Estados, aquela ficava com a taxação do selo e das importações, enquanto esses ficavam com a taxação das exportações, dos bens móveis, das atividades fabris e das profissões; isto fazia com que São Paulo detivesse grandes recursos em função da exportação do café. Por outro lado, a hegemonia paulista se completava com o preenchimento da Câmara dos Deputados proporcionalmente ao número de habitantes, o que ocasionou a posterior aliança com o populoso e vizinho Estado de Minas Gerais. O que reparamos, então, é a consolidação de um federalismo desigual e a construção de um Estado nacional liberal na forma, mas, oligárquico no conteúdo, e é nesse contexto que Revolução Federalista surgiu como uma insubordinação inicialmente regional, mas que conseguiu aglutinar insatisfações nacionais. Desde o início da insurreição federalista, os revoltosos insistiram em nominá-la “Revolução”, fruto de óbvio entusiasmo por parte dos federalistas. Porém, se adotássemos o conceito proposto pelo sociólogo britânico J. S. Eros que concebe revolução como sendo: “Mudanças súbitas e radicais nas condições sociais e políticas, isto é, a substituição brusca e violenta de um governo legalmente constituído assim como de uma ordem social e jurídica por outro governo”105; chamaríamos a Federalista de revolta, assim como a da
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JANOTTI, Maria de L. M. Op. cit., p. 83. ERÖS, J. S. Revolução. Dicionário de Ciências Sociais. Rio de Janeiro: FGV, 1987. p. 1075.

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Armada (apesar de não ser descabido chamá-la de “guerra civil”), pois para o cientista político italiano Gianfranco Pasquino:
A Revolução se distingue da rebelião ou revolta, porque esta se limita geralmente a uma área geográfica circunscrita, é, o mais das vezes, isenta de motivações ideológicas, não propugna a subversão total da ordem constituída, mas o retorno aos princípios originários que regulavam as relações entre as autoridades políticas e os cidadãos, e visa à satisfação imediata das reivindicações políticas e econômicas106.

Entendido tais conceitos, vemos que os dois grupos dominantes antagônicos lutavam pelo controle do Estado dentro da política oligárquica tanto nos Estados do Rio Grande do Sul como no Paraná. No Rio Grande do Sul havia, de um lado, os republicanos, defensores do desenvolvimento econômico geral, com o apoio dos empresários, pequenos comerciantes, agricultores e do Exército; e de outro, os federalistas, defensores da República parlamentar liberal, apoiados por pecuaristas da Campanha, a grosso modo. No Paraná, a cizânia surgiu a partir do antagonismo de dois blocos políticos distintos, o primeiro, formado pelos antigos liberais (representantes da aristocracia agrária dos Campos Gerais), e o segundo, composto da união entre os conservadores e republicanos. Aqueles, envolvidos com as atividades criatórias, e estes, imbuídos de um projeto econômico industrial mais amplo, baseado nos capitais oriundos da atividade ervateira107. Para José Murilo de Carvalho, apesar dos esforços civilizatórios da elite brasileira em promover uma “modernização conservadora” entre 1870 e 1914, a força da tradição foi assaz vigorosa para conservar os valores de uma “sociedade rural, patriarcal e hierárquica”, na qual podemos inserir a Revolução Federalista:
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PASQUINO, Gianfranco. Revolução. Dicionário de Política. Brasília. Editora da UnB, 1991. p. 1121. Observação: o termo “revolução” é largamente usado no Rio Grande do Sul e no Uruguai para designar qualquer espécie de movimento insurreto. Bronislaw Baczko tece considerações bem apropriadas sobre o antagonismo gerado do choque de forças modernizadoras frente às tradicionais e que ajudam a subsidiar o entendimento da Revolução Federalista: “Quando uma colectividade se sente agredida pelo exterior – por exemplo, uma comunidade de tipo tradicional agredida por um poder centralizado moderno de tipo burocrático –, ela põe em marcha, como meio de autodefesa, todo o seu dispositivo imaginário, a fim de mobilizar as energias dos seus membros, unindo e guiando as suas ações.” BAZCKO, Bronislaw, Imaginação social. Enciclopédia Einaudi – Anthropos-Homem. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1985, v. 5. p. 310.

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Não só do mundo rural vinha a reafirmação de valores tradicionais. A própria capital foi palco de reações. A começar pela revolta da Armada, de 1893, que por seis meses manteve o Rio de Janeiro sob bloqueio, e que assumiu ao final características monarquistas. Além do total apoio da Marinha, muitos elementos da elite política manifestaram simpatia pelo movimento, que se ramificou na revolta federalista do Rio Grande do Sul. A sobrevivência do novo regime esteve por algum tempo em sério perigo 108.

Entre os variados prismas que a análise da Revolução Federalista implica, talvez um dos que mais precise de esclarecimentos seja o do caráter restaurador do movimento, contudo, não cabe nesse trabalho um estudo singular sobre esse aspecto. Em termos ideológicos, a peleja foi mais antiflorianista e anti-castilhista do que monarquismo versus republicanismo propriamente ditos. Deveras, na luta simbólica entre as duas partes, os republicanos não atribuíram aos federalistas apenas o grave labéu de sebastianistas, mas também, o de estrangeiros (uruguaios) e de secessionistas. Por outro lado, os federalistas contra-atacavam com a acusação de usurpadores do poder e tiranos para os castilho-florianistas. E foi somente com a Revolta da Armada que o movimento deu uma guinada mais restauradora, graças a alguns oficiais navais, principalmente o almirante Luís Filipe de Saldanha da Gama 109. O monarquismo não foi uma bandeira dos federalistas, uma vez que a aceitação de Silveira Martins em ratificar a moção de um
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CARVALHO, José M. Brasil 1870–1914: a força da tradição. Pontos e bordados; escritos de história e política. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1999. p. 117. Alinhando-se a esse entendimento, o notável trabalho de Maria de Lourdes Mônaco Janotti sobre o assunto, Os subversivos da república, já visto anteriormente, esclarece: “A resolução de Saldanha da Gama de aderir, decididamente, à Revolta da Armada mais uma vez veio entusiasmar os monarquistas que, assim como os demais leitores do manifesto do almirante, julgaram chegada a hora da luta pela restauração. Datado de 7 de dezembro de 1893, o manifesto (...) referia-se, a princípio, à anterior não participação do signatário de qualquer idéia de revolta ou conluio. Contudo, o próprio governo levava-o a empreender uma luta pela libertação da Pátria, agora nas mãos do militarismo e do ‘mais infrene jacobinismo’. E seu patriotismo impelia-o a combater a anarquia, o descrédito e a ‘asfixia de todas as liberdades’. (...) Os mais próximos trataram de mostrar a inconveniência de um texto que, tão claramente, revelava a preferência do autor pelo sistema monárquico bem como suas intenções de promover um plebiscito sobre o regime a ser adotado no país. Mas Saldanha não se dobrou às advertências de que haveria muita exploração em torno de suas afirmações. Manteve a versão original, provocando a ira dos seus adversários e até mesmo de revolucionários. Mais se esforçavam, tanto federalistas quanto membros da Armada, em combater os boatos que os acoimavam de restauradores”. JANOTTI, Maria de L. M. Op.cit., p. 70-71.

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plebiscito em toda nação para deliberar sobre a forma de governo a ser adotada, exposta acima, visou apenas trazer Saldanha da Gama para as hostes dos opositores a Floriano, já que Silveira propunha um parlamentarismo republicano e não, a restauração da coroa, como apregoavam os seus antagonistas. 2.1 A TRAMA EPISÓDICA

Revolução Federalista é a denominação mais conhecida da série de conflitos armados que ocorreram nos três Estados do Sul do Brasil entre 1893 e 1895. Podemos encontrar divergências tanto na designação da mesma como no corte sincrônico. Autores como Sérgio da Costa Franco110, Davis Ribeiro de Sena 111 e o coronel Cláudio Moreira Bento112 insistem em nomeá-la “Guerra Civil”, e outros, como o general José Cândido da Silva Muricy113, Moacyr Flores, Hilda Agnes Hübner Flores114, Angelo Dourado115, Wenceslau Escobar 116 e Euclydes B. de Moura 117, em “Revolução de 1893”. Alguns autores paranaenses chamam-na de “Revolução de 1894”, porque esse foi o ano no qual os federalistas ocuparam o Estado. Em relação ao corte temporal, Davis Ribeiro de Sena, visto acima, traz a baliza inicial do conflito para 1892, pois para ele, as divergências começaram “no manifesto público assinado por treze almirantes e generais em 31 de março de 1892, quando a legalidade do governo de Floriano era questionada” (página 23); já para Luciana Rossato, o marco indicativo do encerramento ideológico do ciclo
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FRANCO, Sérgio C. A guerra civil de 1893. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1993. SENA, Davis R. de. O grande desafio brasileiro: Guerra Civil 1892/5. Rio de Janeiro: Edição de autor, 1995. BENTO, Cláudio M., Cel. Contribuição paulista ao combate à Revolução na Armada e à Guerra Civil (1893–1895). Revista A Defesa Nacional. Rio de Janeiro, n. 769, jul./set. 1995. p. 119-140. MURICY, José C. S. A revolução de 93 nos estados de Santa Catarina e Paraná; memórias. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1946. FLORES, Moacyr; FLORES, Hilda A. H. Rio Grande do Sul: aspectos da revolução de 1893. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1999. DOURADO, Ângelo. Voluntários do martírio; narrativa da Revolução de 1893. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1992. ESCOBAR, Wenceslau. Apontamentos para a história da revolução rio-grandense de 1893. Brasília: Editora da UnB, 1983. MOURA, Euclydes B. de. O vandalismo no Rio Grande do Sul, antecedentes da revolução de 1893. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2000.

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belicoso deve ser procrastinado para 1896, pois nesse ano se encerra a “trajetória liberal, após a proclamação da República até o Congresso Federalista de 23 de agosto de 1896” 118. Formalmente, a Revolução Federalista tem como baliza inicial a invasão de uma coluna de maragatos de Gumercindo Saraiva (1851– 1894) ao Rio Grande do Sul em 05 de fevereiro de 1893, quando, vindos de Aceguá, no Uruguai, eles transpuseram a fronteira e acamparam em um capão em Ana Correia, próximo ao rio Jaguarão, no município de Bagé. E o marco de encerramento mais difundido é a assinatura do Armistício de Piratini, firmado entre republicanos e federalistas em 23 de agosto de 1895, lavrado no município de Pelotas. Todavia, acreditamos que a Revolução Federalista deva ser enquadrada em um contexto bem mais amplo que aquele das duas datas limítrofes, pois:
A Revolução, como um movimento, foi dinâmica e ela estava “aberta” antes de fevereiro de 1893 e deixou seqüelas na formação social sul-riograndense depois de agosto de 1895. Sua eclosão (bem como a eclosão de outros movimentos, com destaque para a Revolta da Armada) demonstrou que a consolidação da República não se faria apenas através de normas jurídicoinstitucionais. A consolidação teria que passar por confrontos (armados ou não), que revelaram a existência de projetos políticos alternativos àqueles consubstanciados nos textos constitucionais119.

Podemos, então, reparar que a Revolução Federalista é um tema onde o consenso e a unanimidade de posições estão longe de serem alcançados. Acreditamos que isso aconteceu porque sua marca registrada foi a brutalidade120. Todos os escritores contemporâneos
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ROSSATO, Luciana. Imagens construídas; imaginário político e discurso federalista no Rio Grande do Sul (1889–1896). Florianópolis: Dissertação de mestrado, PPG em História/UFSC, 1999. p. 8. PICCOLO, Helga I. L. O Congresso Nacional e a Revolução Federalista. In: III Simpósio Fontes para a história da Revolução de 1893. Bagé: mimeografado, 28 a 30 de abril de 1993. p. 2. Para Sandra Jatahy Pesavento, a prática da degola tem raízes culturais e econômicas: “O certo é que de ambos os lados generalizou-se a prática da ‘degola’, forma de execução rápida e barata, uma vez que não requeria o emprego de arma de fogo. Consistia, na sua maneira mais usual, em matar a vítima tal como se procedia com os carneiros: o indivíduo era coagido a, de mãos atadas nas costas, ajoelhar-se. Seu executor, puxando sua cabeça para trás, pelos cabelos, rasgava sua garganta, de orelha a orelha, seccionando as

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às batalhas narraram o pavor e o assombro frente às sessões de degola dos vencidos. O historiador militar Cláudio Moreira Bento assinala que, apesar de os dois lados contendores buscarem estro nos amores-perfeitos do brasão da República Rio-Grandense (“firmeza” e “doçura”), as tradições dos farrapos foram ignoradas.
Na Revolução de 1893, o comando das ações táticas esteve concentrado, na maioria das vezes, nas mãos de chefes civis improvisados; muitos abarbarizados tendo, para comandar, tropas incontroláveis, as quais muitas vezes os ultrapassavam. Eram tropas recrutadas entre aventureiros, ex-escravos e desempregados rurais, mercenários uruguaios e argentinos. Se, numa força regular em campanha, se registram abusos de tropas, o que dizer de aventureiros e mercenários, sobre os quais os rigores de um regulamento disciplinar ou Código Penal Militar não podem incidir? 121

As violências praticadas durante a Revolução Federalista foram tantas que elas não passaram desapercebidas nem mesmo pelo maior escritor gaúcho de todos os tempos, Érico Veríssimo122:
O ataque se fez. Foi uma tempestade. Não ficou nenhum prisioneiro vivo para contar dos outros. Quando a madrugada raiou, a luz do dia novo caiu sobre duzentos homens degolados. Corvos voavam sobre o acampamento de cadáveres. O general passou por entre os destroços. Encontrou conhecidos entre os mortos, antigos camaradas. Deu com a cabeça dum primo-irmão fincada no espeto que na tarde anterior servira aos maragatos para assar churrasco. Teve um leve estremecimento. Mas uma frase sooulhe na mente: “Inimigo não se poupa”.

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carótidas, com um rápido golpe de faca. (...) Os executores de todos estes atos eram membros da massa rural empobrecida. Peões de estâncias, ‘crias’ de fazenda, agregados dos senhores de terra, marginais do campo, despossuídos: foi toda uma massa coagida a lutar por interesses completamente alheios. Acostumados a obedecer, a viver na dependência de coronéis, sem opção de vida, sem terra, sem recursos, brutalizados, a população anônima dos campos executou atos cruéis e habituou-se ao crime.” PESAVENTO, Sandra J. A Revolução Federalista. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 89-91. BENTO, Cláudio M., Cel. Uma possível explicação para a violência na revolução de 1893-95. Revista A Defesa Nacional. Rio de Janeiro, n. 768, abr./jun. 1995. p. 142. VERÍSSIMO, Érico. Os devaneios do general. In: MOREIRA, Maria E.; BAUMGARTEN, Carlos A. (Orgs.). Literatura e guerra civil de 1893. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1993. p. 47.

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Em um estudo interessante, Elio Chaves Flores acredita que as razões que levaram os revoltosos a praticar tanta violência, especialmente a degola (a “gravata colorada”) foram frutos da radicalização política endógena do Rio Grande do Sul na Primeira República.
A ‘Revolução Federalista’ e a ‘Revolta Assisista’, ambas ações de violência política, estiveram relacionadas com o modelo positivista castilhista-borgista, sustentado tanto pela cooptação política, quanto pela coerção social. A facção oligárquica no poder, pretensamente progressista, e a facção oligárquica na oposição, ligada ao ciclo pastoril-militar, esboçam projetos políticos diferenciados para o direcionamento do Estado. Entretanto, a luta ideológica entre positivistas e liberais reflete o vinco “moderno” do discurso conservador. (...) É a luta interna da classe dominante que explica o desenrolar da República Velha. Outros setores potencialmente ativos são desorganizados ou sofrem a cooptação e quando esta é impotente, sentem o fio da espada sangrando seus ideais123.

Após a queda do “governicho” em 17 de junho de 1892, Júlio de Castilhos foi reempossado no cargo de presidente do Rio Grande do Sul pela Guarda Cívica, e o Estado passou a ter dois presidentes nesse dia, Castilhos em Porto Alegre e João Nunes Tavares (o “Joca”) em Bagé124. E, nesse mesmo fatídico dia, Castilhos abdicou do cargo máximo do Rio Grande do Sul em prol de seu vice por ele nomeado, Vitorino Monteiro, que ficaria na função até fins de setembro, quando assumiu Fernando Abbott, Secretário do Interior. Ao final de janeiro de 1893, Júlio de Castilhos voltaria à presidência do Estado (eleito pelo voto direto em fins de 1892) em um franco clima de guerra, e, assim como os federalistas, os republicanos também haviam se preparado para a luta: um pouco antes da eleição, a Brigada Militar havia sido criada a partir da Guarda Cívica, com dois batalhões de infantaria e um de cavalaria. Foram organizadas para a guerra três divisões governistas, a da capital, a do centro e a do norte. Ao general Hipólito Ribeiro coube a incumbência de comandante-em-chefe.

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FLORES, Elio C. No tempo da degolas; revoluções imperfeitas. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1996. p. 10-11. FRANCO, Sérgio C. Júlio de Castilhos e sua época. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1996. p. 124.

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Diante dessa força militar, somada ao Exército Brasileiro e aos “corpos provisórios republicanos”, os federalistas passaram ao Uruguai para se preparar para o confronto, com a confiança de um ‘David frente a um Golias’. O historiador norte-americano John Charles Chasteen faz questionamentos bem incitantes sobre a determinação da “montonera” (grupo de guerrilheiros montados) dos maragatos:
Não obstante que alguns desses trezentos ou quatrocentos homens portassem armas de fogo (geralmente algumas variedades de antigüidades), a maioria carregava apenas uma lança ou um longo punhal, o facão. De certa forma surpreendente, dado o tamanho e a capacidade do Exército Brasileiro há apenas sete anos antes da virada do século vinte, o plano dessa montonera era invadir o subcontinente brasileiro e fazer o governo capitular. A montonera de Gumercindo Saraiva apresenta-nos um problema interpretativo. Inevitavelmente, pergunta-se: Esses homens eram loucos? Por que eles começaram uma guerra civil sangrenta contra um força imensamente maior? Como eles poderiam marchar mil e cem quilômetros através dos estados brasileiros do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná para ameaçar, mesmo que por um instante, o governo nacional? Mais difícil que explicar seu sucesso fugaz (se bem que, para soldados não profissionais, esses homens eram atletas militares imponentes) é explicar a sua motivação e, sobretudo, sua resolução para lutar por trinta longos meses, animados apenas pelas maiores esperanças pouco plausíveis125.

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Do original: Although some of these three to four hundred men had firearms (generally of some antique variety), most carried only a lance and a long kife. Rather surprisingly, given the size and capability of the Brazilian army just seven years before the tum of the twentieth century, the plan of this montonera was to invade the Brazilian subcontinent and force its government to its knees. Gumercindo Saraiva's montonera present us with an interpretative problem. Inevitably, one wonders: Were these men crazy? Why did they start a bloody civil war against a vastly superior force? How were they able to march six hundred miles north through the Brazilian states of Rio Grande do Sul, Santa Catarina, and Paraná, to threaten – if only for a moment – the country's political and economic heartland? More difficult than explaining their fleeting success (for though not professional soldiers, these men were impressive milítary athletes) is explaining their motivation and, above all, their resolve to fight on for thirty long months, animated only by the most far-fetched hopes. CHASTEEN, John C. Heroes on horseback; a life and times of the last gaucho caudillos. Albuquerque: University of New México Press, 1995. p. 910. Tradução de Thelma Belmonte.

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Como vimos antes, a luta irrompeu no início de fevereiro de 1893, quando Gumercindo Saraiva cruzou a fronteira com seus maragatos debilmente armados. O termo “maragato” adquiriu uma feição muitas vezes pejorativa e podia designar “pessoa desqualificada” ou “castelhano”, que usava bombacha e tinha fama de desordeiro. Sua origem é controversa, mas a hipótese mais aceita faz retroceder a uma região na Espanha, La Maragataria, região povoada durante a dominação moura por berberes da região do Maragath, no Egito. Para os uruguaios, o termo designava as pessoas oriundas do departamento de San José, descendentes dos maragatos espanhóis. Foram os republicanos legalistas que deram aos revolucionários o nome pejorativo de maragatos, atribuindo-lhes intentos mercenários e estrangeiros. Mais tarde, a denominação passou, porém a ser um epíteto honroso para os defensores da causa parlamentarista. Já a origem do termo “chimango” vem de “pássaro ruim para caça e não merece chumbo” e que, durante a Revolução Farroupilha, designava liberais moderados, ou de centro. As tropas federais passaram a ser conhecidas por “pica-paus”, em razão do uniforme azul e do barrete vermelho. Sobre tais epítetos existem ainda histórias peculiares. No “romance-reportagem”, A cabeça de Gumercindo Saraiva, de Tabajara Ruas e Elmar Bones, os autores, citando Manoelito de Ornellas, exibem algumas particularidades dos maragatos espanhóis:
Prisioneiros da velha índole nômade, dedicaram-se os maragatos à faina de mensageiros e ligaram, comercial e socialmente, distintas cidades da península, a levar, de uma a outra, correspondências, mercadorias e valores, quer de Castela a Galiza, como de Madri a La Coruna. Primeiro com tropas de mulas e, mais tarde, em carros chamados carromatos (sic). Foram tão populares na Espanha que a sua honestidade se tornou proverbial, pois jamais os registros policiais do país acusaram uma queixa contra esses arrieiros morenos e altos, de lenços e coletes bordados de vermelho126.

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RUAS, Tabajara; BONES, Elmar. A cabeça de Gumercindo Saraiva. Rio de Janeiro: Record, 1997. p. 139.

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Vale a pena recorrermos mais uma vez a Joseph Love, agora em seu clássico historiográfico O regionalismo gaúcho e as origens da Revolução de 1930, quando ele discorre sobre as implicações posteriores do motejo “chimango” na história do Rio Grande do Sul:
No final de 1915, (Ramiro) Barcelos escreveu um poema épicosatírico Antônio Chimango, dirigido a Borges e sua máquina. O trabalho baseava-se vagamente no Martin Fierro de José Hernandez e, tal como o épico argentino, pretendia ser uma estória da vida no campo contada em dialeto gauchesco. Seu protagonista é um capataz de estância cujo único interesse é dominar seus peões. O chimango, um pássaro esquelético comedor de carniça do Sul do Brasil, representa o fraco e pescoçudo Borges de Medeiros – “magro como lobisomem/mesquinho como o demônio” – a estância e seus peões, o Rio Grande do Sul e seus cidadãos. A Brigada Militar tentou apreender a obra, mas apesar disso esta ganhou grande circulação clandestinamente. “Chimango” e “Chimangada” (seus asseclas) rapidamente entraram no vocabulário político e os epítetos tornaram-se gritos de guerra quando a oposição se revoltou em 1923127.

Deixando os apodos de lado, acreditamos na pertinência de uma análise sobre a situação econômica do Rio Grande do Sul às vésperas da Revolução Federalista, nas palavras de Sandra Jatahy Pesavento:
Por volta de 1870, a economia pecuária gaúcha encontrava-se estagnada, sem maior avanço das forças produtivas. Não se quer dizer que baixasse o volume da exportação dos produtos oriundos da pecuária, que continuavam figurar como os primeiros no Rio Grande, mas a campanha perdera definitivamente a sua dinamicidade, conjugando um baixo nível tecnológico com uma criação extensiva de baixa produtividade. Considerando-se o ponto de vista da charqueada – unidade fundamental da transformação da carne no sul – haviam-se configurado, a partir de 70, de forma dramática, as contradições internas do escravismo enquanto sistema, como economia de desperdício obrigatório da força de tra-

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LOVE, Joseph L. O regionalismo gaúcho e as origens da Revolução de 1930. São Paulo: Perspectiva, 1975. p. 183.

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balho, baixa produtividade por mão-de-obra, impossibilidade de adequação da oferta à demanda, baixa capitalização etc 128.

Na Campanha oriental, terra de predomínio político de Gaspar Silveira Martins (região de Bagé), a crise econômica era mais sentida, e os federalistas apelavam ao passado de lutas, ressaltando lealdades e lideranças; entretanto, na campanha ocidental (região de Alegrete), onde a situação econômica era mais estável em função do comércio de charque através de Montevidéu, o Partido Republicano Rio-Grandense tinha predominado entre os proprietários de terra, que acabaram mobilizando as redes de patronagem rurais tradicionais para apoiar o governo. Os republicanos dominavam o distrito das Missões, onde o coronel de São Borja, Manoel do Nascimento Vargas (pai de Getúlio), organizou uma coluna de republicanos129. À soma de suas heterogêneas forças, os federalistas deram o nome de Exército Libertador, que possuía em suas hostes militares de carreira no Exército Brasileiro, como, por exemplo, Luís Alves Leite de Oliveira Salgado e Isidoro Dias Lopes. Contudo, o grosso da tropa era formado por agregados arregimentados por algum homem forte local. Adeptos da tática de guerrilhas, os federalistas procuravam evitar o enfrentamento direto com as tropas legalistas, e, convictos da insatisfação popular para com as autoridades constituídas, tinham fé na adesão da população civil. Muitos autores têm atribuído aos membros da elite campeira do Rio Grande do Sul e do Paraná, à época da Revolução Federalista, o conceito de “coronel” (sinonimizado, de forma indevida, com “caudilho”). Entretanto, se utilizarmos o conceito mais difundido, proposto por Victor Nunes Leal, de “coronelismo” como “um compromisso, uma troca de proveitos entre o poder público, progressivamente fortalecido, e a decadente influência social dos chefes locais, notadamente senhores de terras” 130, achamos mais apropriado, por se tratar de um movimento na primeira metade da década de noventa do século XIX, quando as primeiras eleições republicanas

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129 130

PESAVENTO, Sandra J. República velha gaúcha: 'Estado autoritário e economia'. In: DACANAL, José; GONZAGA, Sergius. (Orgs.). RS: economia & política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1979. p. 199-200. CHASTEEN, John C. Op. cit.. p. 83-84. LEAL, Victor N. Coronelismo, enxada e voto. São Paulo: Alfa-Omega, 1986. p. 20.

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ainda estavam começando, adotar o conceito de “mandonismo” proposto por José Murilo de Carvalho:
Essa visão do coronelismo (de Victor N. Leal) distingue-o da noção de mandonismo. Este talvez seja o conceito que mais se aproxime do de caciquismo na literatura hispano-americana. Refere-se à existência local de estruturas oligárquicas e personalizadas de poder. O mandão, o potentado, o chefe, ou mesmo o coronel como indivíduo, é aquele que, em função do controle de algum recurso estratégico, em geral a posse da terra, exerce sobre a população um domínio pessoal e arbitrário que a impede de ter livre acesso ao mercado e à sociedade política. O mandonismo não é um sistema, é uma característica da política tradicional. Existe desde o início da colonização e sobrevive ainda hoje em regiões isoladas. A tendência é que desapareça completamente à medida que os direitos civis e políticos alcancem todos os cidadãos 131.

Entrementes, exercendo o mandonismo ou não, os dois lados contendores acreditavam serem legatários dos heróis farroupilhas. Nesse sentido, a pugna não aconteceu só no campo de batalha:
Os bens simbólicos, que qualquer sociedade fabrica, nada têm de irrisório e não existem, efectivamente, em quantidade ilimitada. Alguns deles são particularmente raros e preciosos. A prova disso é que constituem o objecto de lutas e conflitos encarniçados e que qualquer poder impõe uma hierarquia entre eles, procurando monopolizar certas categorias de símbolos e controlar as outras132.

Já em um trecho do clássico Os sertões, Euclides da Cunha mostra a maneira pela qual procurou-se fazer da Revolução Federalista um símbolo da luta pelo republicanismo através da construção de heróis, principalmente entre as vítimas oriundas das camadas mais elevadas ou dos militares de mais altas patentes:
Entre dous extremos, do arrojo de Gumercindo Saraiva à abnegação de Gomes Carneiro, a opinião nacional oscilava espelhando os mais díspares conceitos no aquilatar vitoriosos e vencidos; e
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CARVALHO, José M. Mandonismo, coronelismo, clientelismo: uma discussão conceitual. Pontos e bordados; escritos de história e política. Belo Horizonte: Editora da UFMC, 1999. p. 1 33. BAZCKO, Bronislaw, Op. cit., p. 299.

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nessa instabilidade, nesse baralhamento, nesse afogueado expandir da nossa sentimentalidade suspeita, o que de fato se fazia em todos os tons, com todas as cores e sob aspectos vários – era a caricatura do heroísmo. Os heróis, imortais de quarto de hora, destinados à suprema consagração de uma placa à esquina das ruas, entravam, surpreendidos e de repente pela história dentro, aos encontrões, com intrusos desapontados, sem que se pudesse saber se eram bandidos ou santos, envoltos de panegíricos e convícios, surgindo entre ditirambos ferventes, ironias diabólicas e invectivas despiedadas, da sangueira de Inhanduí, da chacina de Campo Osório, dos barrocais do Pico do Diabo, ou do platonismo marcial de Itararé 133.

Após algumas escaramuças em Salsinho, Quaraí, Livramento, Dom Pedrito e Alegrete, com algumas pequenas vitórias federalistas, o primeiro confronto de vulto dos lados contendores aconteceu justamente na campanha ocidental, no início de maio de 1893, em Alegrete nas proximidades do arroio Inhanduí134, tido por muitos como uma das maiores batalhas da história do Rio Grande do Sul. Os bem armados republicanos, apesar da inferioridade numérica, conseguiram repelir os federalistas do campo de batalha com canhões e metralhadoras, e, ao cair da noite, o coronel Joca Tavares resolveu retirar a tropa federalista do local. A retirada foi um desastre, pois os campos estavam encharcados e as carroças com os feridos atolavam no terreno. Os governistas reorganizaram o encalço e impuseram aos insurretos perdas de monta e obrigaram-nos a voltar para o Uruguai para reorganizar suas forças. A certeza da vitória final era tanta que os chefes legalistas passaram um telegrama a Júlio de Castilhos no qual afirmavam peremptoriamente: “Revolução Estrangulada”135. Mas, os fatos mostrariam que tal afirmação havia sido precipitada. É nesse momento que começa a despontar a liderança inconteste de Gumercindo Saraiva. E, quando os insurretos achavam que a revolução estava perdida, ele se destacou tanto como líder quanto como estrategista, chegando a ser chamado, com um certo exagero, de “Napoleão dos Pampas”. Gumercindo tinha por volta de qua133

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CUNHA, Euclides da. Os sertões: a campanha de Canudos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984. p. 203. ESCOBAR, Wenceslau. Op. cit., p. 118. ESCOBAR, Wenceslau. Op. cit., p. 121.

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renta anos à época da Revolução Federalista, nascido no Uruguai no início da década de cinqüenta do século XIX, ele era o filho primogênito de Francisco Saraiva, um brasileiro que havia imigrado para o Uruguai durante a Guerra dos Farrapos. Os Saraivas acabaram se tornando uma importante liderança do Partido Blanco, em Melo, no departamento uruguaio de Cerro Largo. Mas, em 1883, Gumercindo, contudo, perseguido politicamente após lutar em algumas montoneras blancas, resolveu se estabelecer em uma estância de seu pai em Santa Vitória do Palmar, no Rio Grande do Sul. Essa região, localizada nos antigos “Campos Neutrais” 136, tinha se transformado em um couto perfeito para os contrabandistas de gado da fronteira e celerados de todas as espécies. Homem rude, mas com sólidos princípios morais, Gumercindo concentrou-se em combater os malfeitores, atuando como autoridade policial ad hoc e chegou a tenente-coronel da Guarda Nacional. Em termos políticos, acabou se identificando com o Partido Liberal e, quando Gaspar Silveira Martins ocupou a presidência da província em julho de 1889, ele foi oficialmente nomeado delegado de polícia. Entretanto, quando os liberais perderam o governo em 15 de novembro, Gumercindo recusou-se a bandear para o lado castilhista e foi perseguido, chegando a ser acusado de assassinato e sevícias de opositores políticos em sua estância de Curral dos Arroios, obrigando-o a fugir e retornar para o Uruguai, quando ele passou a se empenhar para os preparativos para a Revolução Federalista. Em dezembro, Gumercindo já contava com quase quatrocentos homens engajados, entre eles seu irmão mais moço, Aparício, e quase meia centena de combatentes oriundos do departamento de San José, que acabaram designando todo o grupo de “maragatos”. Após a batalha de Inhanduí, Gumercindo e seus maragatos eram a única força insurreta que permaneceu atuando na campanha gaúcha em um inverno particularmente chuvoso, já que Joca Tavares e Salgado haviam se rendido a oficiais uruguaios na fronteira, junto com seus homens. Por outro lado, Tavares e Salgado, apesar de supostamente detidos, gozavam de total liberdade de movimentos em solo uruguaio para poder reorganizar militarmente suas forças.
136

PESAVENTO, Sandra J. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992. p. 17.

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No lado brasileiro, Gumercindo contava com aproximadamente seiscentos homens e quase mil e quinhentos cavalos e pouquíssimas armas de fogo (as principais armas dos maragatos eram a lança e o facão) e, consciente da sua inferioridade frente às forças governamentais, ele evitava se defrontar com elas, preferindo as escaramuças e o saque às cidades, chegando ao abuso de roubar cavalos em Bagé. Aqui, mais uma vez nos rendemos à narrativa de John Charles Chasteer:
Os republicanos receberam uma notificação perturbadora sobre o que deixar nos depósitos quando os homens de (Gumercindo) Saraiva entrassem furtivamente nos arredores de Bagé nas primeiras horas da manhã para levar a maior parte dos dois mil cavalos da guarnição. Algumas semanas depois, a coluna de Saraiva exibiu-se em uma cidade quase no meio do caminho para Porto Alegre, conduzindo uma guarnição diminuta, sendo tratados como heróis pela população da cidade, e desaparecendo de novo antes que (Carlos) Telles pudesse reagir. Saraiva confundiu seus perseguidores republicanos com sua guerrilha de montoneras que volteava pela área ao leste de Bagé pelas cabeceiras do rio Negro, esmagando a cavalaria republicana sempre que ele conseguia separá-la da infantaria, cujo poder de fogo assassino ele não podia encarar. Perseguido de perto pelas forças governamentais num local chamado Serrilhada, Aparício conduziu os maragatos numa retirada falsa seguida por uma inversão súbita e um contra-ataque compacto contra a cavalaria perseguidora (que tinha deixado a infantaria de suporte atrás), um ardil clássico da guerra gaúcha137.

137

Do original: “The republicans received a disquieting intimation of what lay in store when Saravia's men crept into the outskirts of Bagé in the small hours of the morning and made off with most of the garrison's two thousand mounts. A few weeks later, Saravia's column paraded into a town almost halfway to Porto Alegre, routing a tiny garrison and receiving a hero's welcome from the townspeople. He was gone before Telles could react. Saravia tied his Republicans pursuers in knots as he tuned and twisted through the área east of Bagé, then back through the headwaters of the Rio Negro, trouncing the Republican cavalry just as often as he could separata it from the infantry whose murderous firepower he could not match. Hotly pursued by government forces at a place called Serrilhada, Aparicio led the Maragatos in a feigned refreai followed by a sudden reversal and a compact counterattack against the pursuing cavalry (who had left their supporting infantry behind) – a classic gambit of the guerra gaucha.” CHASTEEN, John C. Op. cit., p. 87. Tradução de Thelma Belmonte.

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Ao final de julho de 1893, Gumercindo (agora general do Exército Libertador) juntou suas tropas com as do também general Salgado e, juntos (mesmo sem ir um com a cara do outro), conseguiram somar quase dois mil homens e prosseguiram suas operações, tomando pequenas cidades da Campanha até a primeira vitória auspiciosa, Cerro do Ouro, em fins de agosto. A maioria dos combatentes federalistas eram peões de estâncias e usavam seus ponchos nas batalhas, já que não tinham uniforme. A incompatibilidade de gênios entre Gumercindo e Salgado talvez tenha nascido desse fato. Como foi visto, Salgado era militar de carreira e, no intuito de organizar a tropa, obrigou-os a usarem fitas vermelhas (as “divisas”) nos chapéus para mostrar sua ascendência militar, e o vermelho tornou-se a cor de identificação dos insurretos federalistas. Mas, Gumercindo, Aparício e todos os blancos (que formavam a maior parte do contingente uruguaio entre os federalistas) opunham-se, pois, para eles, a cor rubra simbolizava seus inimigos figadais, os colorados, e essa recusa quase fez com que brasileiros e uruguaios desfizessem sua aliança militar. No início do mês seguinte à batalha de Cerro do Ouro (27/08), os federalistas receberam as notícias que lhes dariam um novo júbilo: na Capital da República, a Armada, sob a liderança do almirante Custódio de Melo havia se rebelado contra a “ditadura” de Floriano. No entanto, a Divisão do Norte, cujo comandante de brigada (eram cinco) mais célebre foi o senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado (1851–1915), amainou o entusiasmo dos federalistas, impedindo-lhes as manobras rápidas, forçando os mesmos a avançarem ao norte, ao encontro dos revoltosos navais estacionados na ilha de Santa Catarina, logo após a insurreição de Custódio de Melo. Proclamado pelo capitão-de-mar-e-guerra Frederico Guilherme de Lorena, o “Governo Nacional Provisório” foi instalado em Desterro, em meados de outubro. Sem esperar, a insurreição gaúcha parecia mais próxima de um triunfo que os insurretos federalistas jamais podiam imaginar. Apesar da afinidade na repulsa a Floriano, os dois movimentos tinham propósitos próprios e muitas vezes incompatíveis. A Revolta da Armada foi um movimento surgido no centro do poder e proposto por militares de altas patentes. O precursor do movimento de setembro foi o almirante Eduardo Wandenkolk, que, em uma ação isolada, tentou ocupar a cidade de Rio Grande, em sua quixotesca expedição do vapor “Júpiter”, no início de julho de 1893,

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quando, após tentativas vãs de junção com os federalistas, acabou aprisionado alguns dias mais tarde em Canasvieiras, no litoral de Santa Catarina, onde se entregou e foi conduzido para a prisão na fortaleza de Santa Cruz, sendo posteriormente indultado. A rivalidade de farda entre a Armada (Marinha) e o Exército vinha desde os tempos do Império, pois a primeira era a arma predileta do Imperador e de sua corte. O Exército, por outro lado, era uma das poucas chances de ascensão para os que não pertenciam às famílias do entourage imperial, como vimos no primeiro capítulo. Todavia, com a República os papéis se inverteram, e o Exército passou a ter mais destaque, o que causou um sentimento de inferioridade entre os oficiais da Armada. Esse sentimento foi captado pelo almirante Custódio de José Melo, que o canalizou para o seu ingresso na vida pública, quer seja como deputado constituinte, quer seja como líder do contragolpe a Deodoro. A auto-estima da oficialidade naval voltou com a subida de Floriano, quando Custódio tornou-se a eminência parda do governo, no papel de ministro da Marinha. Mas, logo os egos dos dois entrariam em choque, pois a insistência do ministro para que Floriano interviesse no Rio Grande do Sul, os ressentimentos causados pelo apoio de Floriano ao golpe que pôs fim ao “Governicho” e os próprios interesses políticos de Custódio obrigaram-no renunciar ao ministério. Novamente, os ânimos das duas armas acirraram-se, e a figura do vice-presidente (título o qual Floriano manteve mesmo na titularidade do cargo de primeiro mandatário da nação) passou a simbolizar o desequilíbrio entre as duas forças militares. Após o fiasco do “Júpiter”, Wandenkolk foi eleito presidente do Clube Naval, em um claro ato de provocação. A partir daí, o descontentamento da oficialidade naval culminou na rebelião de 06 de setembro. Os argumentos para a eclosão do movimento oscilaram entre a premência da pacificação no Rio Grande do Sul e a necessidade de novas eleições presidenciais (senão Custódio de Melo, de preferência um civil...). A análise do historiador militar Hélio Leôncio Martins sobre esse impasse é de uma acuidade invulgar:
A recusa de Floriano de intervir na Revolução Federalista, malgrado as informações e sugestões que recebia de seus enviados (...) não tem explicação, dando aso somente a conclusões especulativas. As declarações do Vice-presidente limitavam-se a citar o cumprimento do Art. 6º da Constituição que determinava o auxílio federal aos Governos estaduais quando solicitado. Fora disto,

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não aceitava de forma alguma agir no Estado sulista. (...) Ou Floriano não acreditava que personalidades fortes, prestigiadas no Estado, seguidas por grande número de correligionários, como eram as de Silveira Martins e Júlio de Castilhos, empunhando bandeiras ideológicas e políticas opostas, jamais conseguissem chegar a um acordo ou serem pacificadas sem a vitória definitiva de uma delas (qualquer intervenção da União não poderia ser permanente, e a eleição que se realizasse parecia favorecer os federalistas, o que não seria aceito sem nova luta), ou suas simpatias pendiam para Castilhos, quer pela repulsão que sentia por Silveira Martins, com passado imperial e presente parlamentarista ameaçando sua autoridade, quer porque seu temperamento amoldava-se mais à disciplina do republicanismo comtista138.

Contando com o cruzador “República”, Custódio de Melo teve que enfrentar o fogo das fortalezas da baía da Guanabara, e a inferioridade bélica obrigou-o a abandonar a ilha das Cobras, com toda sua infra-estrutura (oficinas, tanques de combustível, mantimentos etc.), além da ponta da Armação, com farta munição e armas de artilharia. Custódio achava que poderia intimidar Floriano com bombardeios, como havia feito com Deodoro, mas o vice-presidente não se abalou. Passando por uma epidemia de beribéri, a esquadra revoltada começou a perder o ânimo frente aos canhões das fortalezas, fiéis ao governo, e Custódio resolveu romper o cerco do canal da barra com o encouraçado “Aquidabã” e o cruzador-auxiliar “Esperança” para se ligar ao cruzador “República” (agora comandado por Lorena), na ilha de Santa Catarina, no início de dezembro. O aristocrático diretor da Escola Naval, o almirante Saldanha da Gama, um homem com nítidas convicções monarquistas, acabou tomando partido pela revolta nesse ponto como uma atitude de noblesse oblige, com nove navios armados e mil e quinhentos homens, que acabaram vencidos em março de 1894, pelo almirante da esquadra legalista, Jerônimo Gonçalves, fato que obrigou Saldanha e seus subordinados a pedir em asilo nas corvetas portuguesas “Afonso Albuquerque” e “Mindelo”, rumando para Buenos Aires o que causou o rompimento das relações diplomáticas entre Brasil e Portugal.

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MARTINS, Hélio L. A revolta da Armada História Naval Brasileira. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha do Brasil, t. l A, v. 5, 1995. p. 249.

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A eclosão da Revolta da Armada pode ser considerada como a explosão da indignação da oficialidade naval contra Floriano e Custódio de Melo, seu artífice. Contudo, faltou à mesma um planejamento estratégico em sua união à Revolução Federalista139.
O deslocamento da Revolta para o Sul, instalando o Governo Nacional Provisório, ligando-se à Revolução Federalista e seguindo o Almirante Custódio para o Desterro, apresentou êxito nos primeiros momentos, com a ocupação dos Estados de Santa Catarina e do Paraná. Mas, a união dos dois movimentos não se manteve coesa nem com visão de conjunto que lhe desse continuidade, mesmo porque os pretensos aliados nada tinham em comum. Silveira Martins desejava inicialmente apenas depor Júlio de Castilhos e instituir no Rio Grande do Sul constituição parlamentarista, substituindo a positivista que havia sido aprovada pela Assembléia estadual. (...) A ligação entre os dois movimentos foi prejudicado especialmente pelos numerosos incidentes, atritos, discordâncias, surgidos entre os dirigentes da Armada e os federalistas, o que, surpreendentemente, não impediu que se realizasse a única operação bem planejada, bem articulada, da qual resultou o domínio dos dois Estados – Santa Catarina e Paraná140.

Em fins de novembro de 1893, em outra frente de combate, uma força governista foi dominada por Joca Tavares às margens do rio Negro, nas proximidades de Bagé, onde ocorreu uma das maiores atrocidades de todo o período insurrecional, quando, na noite do dia 24, por volta de trezentos dos mil prisioneiros foram executados
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Para o historiador catarinense Carlos Humberto Pederneiras Corrêa, o Governo Provisório acabou se transformando em uma “nau sem rumo”: “A divergência entre as diversas facções representadas no Governo revolucionário era constante, separando-os e impedindo o almejado fortalecimento dos ideais contra Floriano Peixoto. As intrigas e acusações mútuas afastaram os gaúchos e suas pretensões iniciais de participarem do Governo. Por outro lado, a falta de organização interna, com pouca sustentação política aliada aos parcos recursos financeiros esgotaram a razão de ser de uma tentativa séria, envolvendo líderes do quilate de Silveira Martins, Custódio de Melo e outros políticos civis e militares de igual importância, no fim, tornou-se uma aventura sem conseqüências para a nação. Desta maneira, o Governo, criado com propósitos tão diversos, sem nenhuma identidade ideológica, onde se misturavam pensamentos republicanos federalistas e centralistas, monárquicos, positivistas, militares e civilistas, enfim, tão pouco prováveis de se misturarem, mesmo que visando unicamente a queda do Governo de Floriano Peixoto, pouca ou nenhuma possibilidade de sucesso poderia ter do ponto de vista político estratégico.” CORRÊA, Carlos H. P. O Governo Provisório do Desterro, SC, l893/1894. In: Anais da XIII reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica. Curitiba: SBPH, 1994. p. 43. MARTINS, Hélio L. Op. cit., p. 251.

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por degola, sob supervisão de Adão de Latorre. Mas, essa chacina não passaria incólume. Como era de se esperar, este episódio levou a novas crueldades; as 300 vítimas não seriam esquecidas. Um general castilhista, Firmino de Paula, vingou-se exterminando quase um número igual de maragatos em Boi Preto, em abril de 1894. Por toda a Serra e Campanha, estupros, castrações e degolas, que marcaram os meses turbulentos precedentes à invasão, continuaram incontrolados141. Logo em seguida, o general Joca Tavares apostaria todas suas forças para tomar a cidade de Bagé. Para Joca, tomar Bagé de assalto possuía um valor simbólico muito forte, pois, além de ser o local de sua residência (e de Martins também), essa cidade era o berço do movimento federalista. Além do que, Bagé era sede de uma bem armada guarnição militar, possuía ligação ferroviária com a cidade de Rio Grande e era a cidade de maior relevo da Campanha oriental. Após sua estadia no Uruguai para recuperar-se de Inhanduí, Joca Tavares retornou com aproximadamente três mil homens e começou o cerco. Contudo, o velho Joca não contava com a obstinação do coronel Carlos Maria da Silva Telles, que resistiu bravamente às investidas federalistas, obrigando os revolucionários a desistirem das mesmas, na primeira semana de janeiro de 1894, após quarenta e sete dias de cerco. Mais ao norte, a Divisão do Norte não deixava o rasto dos maragatos, obrigando-os a dividir o Exército Libertador em duas colunas. A primeira, ficou com o general Salgado, e a segunda, com Gumercindo. Habituados à paisagem da Campanha, muitos jamais tinham saído de lá, os maragatos atravessaram vários reveses para transpor as matas, os declives e os rios da Serra Geral. Ângelo Dourado assim descreve a odisséia gaúcha:
O caminho que tivemos que percorrer para chegar ao rio é um verdadeiro desfiladeiro. Poucos foram os que o fizeram a cavalo. Depois entramos na mata cuja entrada com as chuvas se transformara em atoleiro. Um que caía paralisava toda a coluna que lhe vinha após, e as quedas eram constantes. Depois chegamos ao rio largo, pouco correntoso, porém tendo apenas um estreito lajeado por onde podia passar um a um, porque fora dali eram as pedras cobertas de limo tão escorregadio que nem infantes, nem ca141

LOVE, Joseph L. Op. cit. (Nota 42), p. 72.

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valos se poderiam conservar de pé. (...) Apesar de ser novembro, fazia um frio de arrepiar. No outro dia via-se gelo por todos os lugares onde havia uma poça de água. Tínhamos de marchar quase todos a pé, porque os nossos cavalos estavam completamente estropiados, e os caminhos eram horríveis 142.

Após atravessar o rio Pelotas, a coluna de Gumercindo (o “Primeiro Corpo do Exército Libertador”) rumou para Lajes e conseguiu chegar em Blumenau onde, margeando o rio Itajaí-Açu, galgou a cidade litorânea de Itajaí, pela qual pretendia se juntar aos revoltosos da Armada. Contrariado com os rumos da revolução, o general Salgado guiou sua coluna (o “Segundo Corpo do Exército Libertador”) pelo litoral e, após passar por Araranguá, Criciúma, Tubarão e Laguna resolveu seguir para Desterro antes de retornar ao Rio Grande do Sul. Mas, Gumercindo prosseguiu sua marcha setentrional em um plano audacioso: tomar as principais praças de guerra em terra montadas por Floriano no Estado do Paraná, Tijucas e Lapa, enquanto que Custódio de Melo se encarregaria do porto de Paranaguá. A tomada das cidadelas florianistas no Estado do Paraná por Gumercindo e Custódio assinalou o auge da Revolução Federalista, apesar do alto custo em vidas. Enquanto Salgado e os aristocráticos oficiais navais esbanjaram o raro momento de vitórias da revolução em sua estadia em Desterro, deleitando-se em bailes elegantes oferecidos pela “nata” da sociedade mais preeminente da cidade e pleiteando cargos no Governo Provisório, os maragatos de Gumercindo ofereciam cargas de lanceiros frente a canhões Krupp na cidadezinha paranaense de Tijucas. Mas, em uma semana de cerco, a munição dos sitiados acabou e a guarnição rendeu-se. Após a queda relativamente rápida de Tijucas, Gumercindo dirigiu-se para a Lapa. Contudo, lá, o comandante Antônio Ernesto Gomes Carneiro preferiu a morte à rendição. Os maragatos sitiaram o perímetro da cidade e foi só com a morte de Carneiro que os defensores renderam-se após vinte e seis dias de cerco, a 11 de fevereiro de 1894. Da Lapa, para cuidar dos feridos, os maragatos tomaram um trem e chegaram na capital do Estado do Paraná, que já havia capitulado frente a Custódio de Melo no dia 20 de janeiro e onde tiveram uma acolhida plena de saudações, apesar da aversão de Gumercindo
142

DOURADO, Ângelo. Op. cit., p. 69-71.

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às exibições aparatosas dos citadinos. Quando soube que Salgado pretendia tomar o porto de Rio Grande pelo mar, Gumercindo zombou da notícia e deixou clara sua vontade de voltar para a Campanha143. Diante dessa ofensiva, o vice-governador do Estado do Paraná em exercício, Vicente Machado, transferiu a capital para Castro, deixando Curitiba à mercê das forças federalistas, que exigiram “empréstimos de guerra” para não saquear a cidade. A missão de amealhar o dinheiro foi levada a cabo por Ildefonso Pereira Corrêa, o Barão de Serro Azul. Quando se achava que a vitória dos federalistas era inevitável, Floriano conseguiu organizar a contra-ofensiva, obtendo importantes vitórias sobre os revoltosos da Armada, que sofreram seu primeiro grande revés em meados de abril quando uma torpedeira da esquadra legalista pôs a pique o principal vaso de guerra dos revoltosos navais, o Aquidabã, acelerando o fim do Governo Provisório de Desterro. Isso abalou a confiança dos maragatos em terra em sua marcha setentrional e arrefeceu; seus ânimos em invadir o Estado mais poderoso da União, São Paulo, onde o Governo Federal, com a colaboração do governador Bernardino de Campos, havia organizado um exército de quase seis mil homens em Itararé, território paulista. Apesar de o general federalista Antônio Carlos da Silva Piragibe ter chegado a enviar batedores para Jaguariaíva, próximo à divisa do Paraná com São Paulo, desta vez o otimismo um tanto negligente da revolução foi abrandado, só restando aos insurretos recuo em suas posições no Paraná, marchando para Oeste pelo interior, em outra penosa jornada. Gumercindo dividiu seu exército em três colunas; uma, dele; outra, de Aparício e a última, de Jucá Tigre. Os republicanos enviaram a Divisão do Norte para encontrá-los em Passo Fundo, onde a coluna de Gumercindo lutou sua última e mais renhida batalha. Os maragatos impuseram grande baixas sobre a Divisão do Norte, mas as cargas de lanceiros eram inócuas frente a uma infantaria armada com fuzis Comblains e canhões Krupp, obrigando os revolucionários a fugirem. A retomada legalista em território paranaense foi marcada pela execução do Barão de Serro Azul no quilômetro sessenta e cinco da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, sob ordem do
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DOURADO, Ângelo. Op. cit., p. 186.

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comandante militar Ewerton Quadros. A vingança legalista seria cruenta nos três Estados sulistas da União. No dia 10 de agosto de 1894, Gumercindo estava passando em revista seu combalido exército quando foi alvejado por um francoatirador oculto numa mata e viria a morrer dois dias mais tarde:
Os ajudantes do general ferido carregaram-no ao acampamento, onde ele implorou por água gelada, continuou a emitir ordens (“diga a Aparício para observar seu flanco”), e suplicou para os que o cercavam manter seu equipamento pessoal de montaria fora das mãos republicanas. Aparício deu uma olhada nele, virou-se angustiado e saiu sem dizer palavra. Gumercindo cobriu seu rosto com as mãos. “Eles me mataram”, disse várias vezes, mas ainda estava vivo quando carregaram-no a uma carroça depois de escurecer, e enquanto os maragatos acometidos pela notícia marchavam pela noite, Dourado, receoso de pânico nas fileiras, cavalgou ao lado da carroça emitindo prognósticos otimistas. Quando os esperançosos insurretos acamparam pela manhã, entretanto, ele vazou a informação sobre a morte de Gumercindo ao exército144.

Após a morte de Gumercindo, a Revolução Federalista tornou-se um protesto errante, e os maragatos optaram pelo refígio na Argentina. De lá, eles marcharam para o sul em direção à Campanha, e muitos acabaram desistindo da luta. Mas Aparício, revoltado com a profanação que os republicanos fizeram com o corpo de Gumercindo, permaneceu fiel à revolução e esperou para preparar uma nova invasão ao Brasil ao lado do almirante Saldanha da Gama. A subida de Prudente de Morais à presidência da República em 15 de novembro de 1894 assinalou o início da derrocada do projeto político militarista de Floriano, sobre o qual a historiadora norte-americana June E. Hahner esclarece:
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Do original: The wounded general's aides carried him to camp, where he pleaded for cold water, continued to issue orders (“tell to Aparicio to watch his flank”), and begged those around him to keep his personal riding gear from falling into Republicans hands. Aparicio took one look at him, turned away in anguish, and left without speaking. Gumercindo covered his face with his hands. “They’ve killed me”, he said several times, but he was still alive when they loaded into a cart after dark, and as the strickem Maragatos marched through the night, Dourado, fearful of panic in the ranks, rode beside the cart issuing optimistic prognoses. When the hopeful insurgents camped in the morning, however, he let the army know that Gumercindo was dead. CHASTEEN, John C. Op. cit., p. 108. Tradução de Thelma Belmonte.

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Nos seus primeiros tempos de governo, Prudente removeu muitas pessoas nomeadas por Floriano e preencheu os postos com homens de acordo com sua política. Estes atos irritaram Floriano e muitos de seus partidários, os quais viram que Prudente estava enfraquecendo suas posições e fortalecendo as das facções rivais. (...) Fazendo isso, suscitou uma hostilidade tremenda da parte do pessoal de Floriano, mas estes já não mais controlavam a máquina governamental e, devido à fragmentação das Forças Armadas, não podiam reunir poder suficiente para fazê-lo parar145.

Nesse contexto, a pacificação da Revolução Federalista era fundamental para o exercício do controle civil sobre a República, em detrimento dos grupos radicais jacobinos, que evocavam um governo militar e ditatorial. Sobre a trajetória do jacobinismo na vida política da Primeira República, a historiadora Suely Robles Reis de Queiroz insere, com desenvoltura, essa doutrina nos antagonismos peculiares dos primeiros anos da República:
O momentâneo vazio de poder é preenchido, de imediato, pelas Forças Armadas, única organização com estrutura e coesão suficientes para garantir o êxito da mudança e assegurar-lhe continuidade. Ora, a permanência destas como grupo dirigente não convém à fração hegemônica, para quem o espaço político aberto deve servir ao fortalecimento do espaço econômico já conquistado. (...) Tais circunstâncias são a geratriz dos conflitos que rompem a coesão das heterogêneas forças momentaneamente unidas para acabar com a Monarquia, provocando o clima de instabilidade característicos dos primeiros tempos republicanos. O jacobinismo reflete a dispersão dessas forças e a sua reaglutinação sob forma diversa; sempre heterogêneas, abrigando interesses e finalidades diferentes, o radicalismo de algumas emerge com clareza no período de Floriano e mantém o governo de Prudente, o primeiro presidente civil, em permanente tensão 146.

A morte de Floriano em 29 de junho de 1895 não só não arrefeceu os ânimos dos jacobinos, como criou uma idolatria política sem precedentes na história do País. O jacobinismo em si conheceria seu ocaso dois anos mais tarde, com a frustrada tentativa de
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146

HAHNER, June E. Relações entre civis e militares no Brasil (1889–1898). São Paulo: Pioneira, 1975. p. 151. QUEIROZ, Suely R. R. Op. cit., p. 11-12.

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assassinato de Prudente, quando o ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt, foi morto por Marcelino Bispo de Carvalho. Ambos haviam lutado em Canudos. Lincoln de Abreu Penna aduz que a veneração que recaiu sobre a figura de Floriano, durante e após seu mandato, foi fundamental para a “republicanização” (sic) do Brasil:
A rigor, a república era um ideário fundado em concepções diversas que influíram de modo diferenciado, como não poderia deixar de ser, o movimento que logrou convertê-la em realidade através do pronunciamento de novembro de 1889. (...) Por vias atípicas, os elementos da construção desta ordem produziram uma sociedade política que mitigou preceitos organizacionais conflitantes, como o federalismo de impulsos autonomistas e o presidencialismo de vocação excessivamente centralizador. Floriano Peixoto foi involuntariamente o artífice deste modelo políticoinstitucional. As circunstâncias levaram-no a apoiar-se justamente nas forças díspares, de um lado o grupo oligárquico representado pelos interesses de São Paulo, e de outro, no republicanismo radical da pequena política que o consagrou popularmente. (...) O florianismo representou a ordem num ambiente no qual sua demanda se impunha como mediadora do conflito, a curto prazo, porém abriu caminho para que a médio prazo se instalasse o sistema fechado que se perpetuou ao longo da República oligárquica147.

Entrementes, a Revolução Federalista sofreu sua derrota final em junho de 1895 no combate de Campo Osório, onde o almirante Saldanha da Gama e seus quatrocentos homens resistiram até a morte frente aos republicanos chefiados pelo coronel João Francisco Pereira de Souza. O acordo de paz foi assinado em 23 de agosto de 1895, pelo armistício de Piratini, assinado próximo a Pelotas, entre o general Inocêncio Galvão de Queiroz, emissário do governo federal, e Joca Tavares, representante dos federalistas, cuja reivindicação principal reduziu-se à revisão da constituição estadual. A guerra civil terminou com uma debandada de dez mil maragatos para o Uruguai e um

147

PENNA, Lincoln de A. O progresso da ordem; o florianismo e a construção da república. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1997, p 187.

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saldo de dez mil mortos, segundo as estimativas mais confiáveis (e otimistas). O acordo assinado entre Galvão de Queiroz e Joca Tavares, que anistiou os insurretos e assegurou a possibilidade da revisão da constituição do Rio Grande do Sul, desagradou sobremaneira a Júlio de Castilhos que firmou o pé pela manutenção da carta magna gaúcha e obrigou as autoridades federais a rever o pacto:
Finalmente, em outubro de 1895, um projeto modificado de anistia foi votado. Para garantir a aprovação segura deste projeto, Prudente tentou apressar a coleta de armas rebeldes no Rio Grande do Sul. Ameaçou também renunciar à presidência. Embora fosse derrotado um projeto de anistia incondicional, Prudente manobrou para reduzir de três para dois anos o lapso de tempo para que os oficiais rebeldes pudessem retornar à ativa 148.

A constituição gaúcha permaneceu inalterada, e o fim da Revolução Federalista assinalou, no Rio Grande do Sul, o predomínio do Partido Republicano Rio-Grandense sobre a vida políticoinstitucional do Estado, da consolidação da máquina administrativa castilhista e do seu monopólio político. Castilhos governaria até 1898; e a carta magna estadual foi o sustentáculo jurídico do perpetuamento de Borges de Medeiros frente ao executivo máximo gaúcho por quase três décadas, com o interregno de 1908 a 1913. Propositadamente, a Revolução Federalista no Paraná não foi aprofundada aqui porque, por se tratar da problemática do trabalho, será tratada com a minúcia necessária no próximo capítulo. 2.2 A URDIDURA HISTORIOGRÁFICA

Ocorrida na última década do século XIX, a Revolução Federalista foi uma das mais bem registradas da história da Primeira República. Isso se deveu em função da existência de grande número de cronistas, jornalistas e participantes letrados do conflito, os quais produziram registros escritos do mesmo. A importância da guerra civil e as produções literária e historiográfica foram prolíficas nos três Estados do Sul do país, envolvidos na insurreição.

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HAHNER, June E. Op. cit., p. 155.

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Nesse caso, nos três Estados sulinos as primeiras obras historiográficas sobre a Revolução Federalista estavam imbuídas do espírito historista do século XIX, quando se buscou uma narração “objetiva” dos fatos e do enaltecimento dos heróis. Todavia, a partir dos trabalhos de Eric John Hobsbawm149 da década de sessenta, historiadores têm relacionado tais espécies de conflito com a estreita relação entre o domínio da estrutura fundiária e a dominação política nas sociedades tradicionais (ou “pré-políticas”). Como toda escolha é sempre influenciada por preferências pessoais, então achamos que qualquer tentativa de arrolamento da vasta produção historiográfica sobre o assunto seria uma atitude arbitrária. Cremos ser pertinente, então, explanar sobre os principais trabalhos historiográficos aqui utilizados. Alguns constituem-se em “clássicos” sobre a Revolução Federalista em si, escritos no Rio Grande do Sul, outros tentam inserir o episódio em um contexto mais amplo e, por fim, outros versam sobre assuntos correlacionados. Nossa intenção aqui não é fazer um levantamento exaustivo da produção historiográfica sobre o tema, mas articular uma linha de análise sobre as obras que mais nos influenciaram na redação na primeira parte do presente capítulo. Como foi visto na introdução desse trabalho, a produção historiográfica paranaense do conflito ateve-se, na maioria dos casos (salvo raras exceções), a uma abordagem factual do conflito, mas o mesmo não aconteceu com os trabalhos produzidos no Rio Grande do Sul, onde o tema tem uma forte aceitação nos meios acadêmicos150. Todavia, elegemos os dois trabalhos mais importantes produzidos por autores paranaenses (pelo menos os mais citados) sobre o assunto para ilustrar a abordagem historiográfica produzida naquele Estado. Esses trabalhos são: Para a história, notas sobre a invasão federalista no Estado do Paraná, de José Francisco da Rocha Pombo (1857–1933) e O Paraná e a Revolução Federalista, de David Antônio da Silva Carneiro (1904–1990).

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HOBSBAWM, Eric J. Bandidos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1976. A respeito dos trabalhos acadêmicos produzidos no Rio Grande do Sul sobre a Revolução Federalista ver: PICCOLO, Helga I. L. A Revolução Federalista no Rio Grande do Sul: considerações historiográficas. In: ALVES, Francisco das N.; TORRES, Luiz H. (Orgs.). Pensar a Revolução Federalista. Rio Grande: Editora da FURG, 1993. p. 6582, complementada na Revista do IHGB, n. 381.

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Professor, jornalista, escritor em prosa, poeta, deputado provincial, Rocha Pombo pode ser considerado um dos nomes mais conhecidos da historiografia brasileira herdeira da “Escola Metódica” na primeira metade do século XX com sua coleção História do Brasil, publicada entre 1905 e 1917, com o intuito de fornecer “uma visão de história do país que influenciasse várias gerações”. Entretanto, nosso interesse aqui é sua controversa obra referente à Revolução Federalista (alguns autores negam sua autenticidade 151). Para a História foi um livro publicado em 1980 por iniciativa da Fundação Cultural de Curitiba e com o aval do professor doutor Carlos Roberto Antunes dos Santos como prefaciador. O livro se constitui, antes de mais nada, em um libelo de indignação contra a chacina do Barão de Serro Azul e “seus infortunados companheiros de ideal”, contudo, podemos sentir a intenção de Rocha Pombo de conciliar sua condição de contemporâneo aos fatos com a preocupação de inseri-los em uma conjuntura histórica (levada a efeito na 2ª parte, Histórico dos acontecimentos que se deram no Paraná), mas, como homem de seu tempo, tais preocupações têm limites, e o que reparamos ao final é, nas palavras do professor Carlos, um posicionamento de “recolhimento de fatos particulares reverenciados dentro da história”. Já em O Paraná e a Revolução Federalista, David Carneiro tenta traçar uma abordagem mais “imparcial” ao tema. Ex-aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro, engenheiro, professor universitário de economia, o grande mérito de Carneiro foi o de ser o maior propagador das idéias de Auguste Comte em solo paranaense. Apesar de ter tido uma trajetória pessoal totalmente adversa da de Rocha Pombo, Carneiro compartilhava com ele os mesmos ideais de “mestra da vida” para os estudos históricos. O que constatamos nessa obra é um encadeamento causal da Revolução Federalista no Paraná, cuja tese central é a de que a resistência prolongada dos defensores do cerco da Lapa possibilitou a organização armada dos republicanos ao reter os maragatos por 26 dias (de 17 de janeiro a 11 de fevereiro de 1894), impedindo que os mesmos avançassem para São Paulo.

151

Podemos atestar essa postura em: VERNALHA, Milton M. Maragatos X Pica-Paus. Curitiba: Lítero-Técnica, 1984. p. 371-379.

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Entrementes, uma das principais obras sobre da Revolução Federalista foi escrita à época por um médico de campo federalista, Ângelo Cardoso Dourado (1856–1905), Voluntários do Martírio. Dourado era um médico baiano, radicado em Bagé, exerceu seu ofício como oficial-cirurgião (coronel) do Exército Libertador, sendo homem de confiança de Gumercindo Saraiva. Em tese, o livro foi fruto da intensa correspondência que Dourado estabeleceu com sua esposa Francisca, publicado em 1896 em Pelotas. Na verdade, Voluntários do Martírio constitui-se num livro de “memórias”, pois a intenção do autor era que suas impressões diante de tantas agruras não caíssem no esquecimento. O próprio Dourado assume que não pretendeu escrever a história da Revolução de 1893, pois ele achava isso prematuro demais, uma vez que “a tinta em que deve-se mergulhar a pena de fogo para escrevê-la deve ser de justiça, e para isso é preciso tempo” 152. A obra nos fornece uma descrição detalhada do conflito. Espectador perspicaz do desenrolar das batalhas, Dourado narra com fluência e objetividade a marcha da Revolução Federalista pelos Estados do Sul do Brasil. Descreve as diferenças culturais e sociais das várias localidades por onde passa durante a longa marcha maragata. O ofício da medicina fez com que Dourado se preocupasse com as pessoas comuns e registrasse os efeitos devastadores da guerra civil sobre suas vidas pessoais e sobre suas lides cotidianas. Outra obra gaúcha “clássica” e fundamental para o entendimento da Revolução Federalista é Apontamentos para a história da revolução rio-grandense de 1893, de Wenceslau Escobar (1857–1938), publicada originalmente em 1919 e reeditada em 1983 pela editora da UnB. O autor era gaúcho de São Borja, formado em direito, exerceu cargos de promotor e juiz em sua cidade natal e de deputado provincial pelo Partido Liberal (mas era republicano). Com a volta de Gaspar Silveira Martins após o banimento, Escobar ingressou nas fileiras do Partido Federalista, chegando a ser um dos redatores de A Reforma, jornal da militância gasparista, e com a eclosão da Revolução Federalista aderiu aos insurretos. Ao contrário de Ângelo Dourado, Escobar tem pretensões historiográficas. Partindo do princípio da época de que a história é a “mestra da vida”, na qual “o homem vai haurir lições sobre a sua
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DOURADO, Ângelo. Op. cit., p. 1.

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trajetória no planeta” 153, Escobar intenta fazer um relato imparcial da insurreição, mas ele mesmo reconhece que, levada em conta sua posição durante a mesma, é impossível. Todavia, Helga Piccolo 154 adverte que no capítulo IX (Operações revolucionárias na região serrana) Escobar utilizou amplamente o livro de Antônio Ferreira Prestes Guimarães (A Revolução Federalista em cima da serra) sem mencioná-lo, fato que acaba desmerecendo um pouco a obra. O livro traz uma narrativa minuciosa e seqüencial do desenrolar das batalhas, mas em razão de sua formação jurídica o autor também privilegia alguns aspectos político-institucionais. Durante todo o livro, Escobar tenta deixar claro que os federalistas só se insurgiram motivados pelas perseguições que lhes foram impostas pelos castilhistas após a tomada do poder e que o objetivo maior dos insurretos era a revisão da constituição estadual, o que não foi conseguido. O último grande narrador contemporâneo aos conflitos que mencionaremos aqui é Luiz de Senna Guasina em seu Diário da Revolução Federalista, publicado recentemente (1999) pelo Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Os dados biográficos de Luiz Guasina são controversos, mas o prefaciador do livro, Corálio Bragança Pardo Cabeda, acredita que ele era oriundo de São Sepé, provavelmente cartorário do Registro Civil daquela localidade. Combatente e correligionário convicto da causa de Gumercindo Saraiva, mas sem a pretensão literária de Ângelo Dourado e Wenceslau Escobar, Luiz Guasina elaborou um minucioso diário pessoal dos fatos do dia-a-dia da Revolução Federalista (talvez nem ele mesmo acreditasse que tais anotações viriam um dia a se constituir em livro) no qual ele descreve a sucessão cronológica das batalhas e traz recortes de jornais de época. O grande mérito do livro de Luiz Guasina é, além da quantidade enorme de informações, proporcionar ao leitor um contato direto com as fontes primárias, sem os filtros culturais que as interpretações historiográficas tecem a posteriori. Os três autores vistos acima eram militantes federalistas, e, como tais, forneceram relatos parciais dos acontecimentos. Para contrapor essas posições, outros antigos participantes legalistas da revolução procuraram passar outra visão do episódio, como é o caso de Germano Hasslocher, A verdade sobre a revolução e
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ESCOBAR, Wenceslau. Op. cit., p. 3. PICCOLO, Helga l. L. Op. cit. (Nota 65), p. 69.

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Fabrício Batista de Oliveira Pilar, Memórias da revolução de 1893, todos autores gaúchos. A partir da década de vinte, a historiografia sobre a Revolução Federalista ficou restrita a alguns poucos trabalhos produzidos no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul155. O historiador Décio Freitas acredita que a razão desse descaso aconteceu porque os gaúchos sentem vergonha do tema, em função do “estigma da infâmia” 156 que esse conflito carrega. A virada na abordagem sobre a Revolução Federalista se deu no início da década de sessenta, quando pesquisadores oriundos do meio universitário se propuseram uma discussão mais arejada da mesma. O grande pioneiro foi Sérgio da Costa Franco que, em uma célebre passagem, afirmou que não tinha mais cabimento os historiadores evitarem o tema como “pudicas noviças diante de uma página fescenina” 157. O referido artigo acabou dando origem ao livro A guerra civil de 1893. As linhas gerais da análise de Sérgio da Costa Franco foram inovadoras na época, uma vez que ele foi um dos primeiros historiadores a tentar inserir a Revolução Federalista nas mudanças socioeconômicas que se operavam no Rio Grande do Sul na segunda metade do século XIX, como fruto de seus refluxos políticos. Seguindo esse fio de análise, pomos em destaque a tese de doutorado de Sílvio Rogério Duncan Baretta: “Political violence and regime change: a study of the 1893 civil war in southern Brazil”158 (tradução livre: “Violência política e mudança de regime: um estudo da guerra civil de 1893 no Brasil meridional” e não foi lançado no Brasil), defendida na Universidade de Pittsburg em 1985. Tal trabalho é tido por sérios especialistas no tema como “a pesquisa mais abrangente e mais profunda até agora feita tendo a

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158

PICCOLO, Helga I. L. Op. cit. (Nota 65), p. 76. FREITAS, Décio. A revolução da degola. In: POSSAMAI, Zita (Org.). Revolução Federalista de 1893. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Cultura – Caderno Ponto & Vírgula, 1993. p. 22. FRANCO, Sérgio C. O sentido histórico da Revolução de 1893. In: Fundamentos da cultura Rio-Grandense, 5ª série. Porto Alegre: Faculdade de Filosofia da UFRGS, 1962. p. 100. Utilizamos aqui um paper produzido pelo autor para o curso de pós-graduação em história na UNICAMP (sem data) e que traz as linhas gerais de seu trabalho final de doutorado.

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Revolução Federalista como objeto de análise”159. Baretta absteve-se da narrativa das batalhas para salientar a importância dos partidos políticos provinciais (precursores dos correlatos republicanos) como origem dos conflitos, levando em conta as bases eleitorais (como classes sociais) e o choque entre os respectivos projetos. A partir disso, o autor passa a analisar o processo político-partidário nos primeiros anos da República no Rio Grande do Sul, mostrando as influências da política nacional no Estado. Para ele, a Revolução Federalista ganha uma dimensão econômica ao se constituir no momento do enfrentamento entre dois setores das classes dominantes; de um lado, os federalistas, representantes dos criadores de gado e de outro, os republicanos, representantes de uma incipiente classe média. Já o livro do historiador norte-americano Joseph L. Love O regionalismo gaúcho e as origens da revolução de 1930, lançado no Brasil em 1975, pode ser considerado uma baliza na produção historiográfica sobre a política gaúcha durante a Primeira República. Publicado originalmente em 1971 com o título Rio Grande do Sul and Brazilian Regionalism, 1882–1930 pela editora da Universidade de Stanford, o merecimento do livro de Joseph Love está na inovação heurística, pois ele foi o primeiro historiador a ter permissão para pesquisar no Arquivo Borges de Medeiros. Nessa obra, o autor trabalha com a Revolução Federalista no capítulo 3 (O terror e a guerra) da parte I (Ascensão do castilhismo) de modo amplo, e o grande mérito de Love foi ir além das datas-limites e inserira insurreição federalista no processo histórico que estava se operando na política do Rio Grande do Sul com a subida de Júlio de Castilhos ao poder, e como “o resquício de ódio desempenharia o seu papel na política rio-grandense quase até o fim da República Velha” 160. Dentro da tendência inovadora, outra obra importante é o livro de Sandra Jatahy Pesavento, A Revolução Federalista, com circulação nacional por ter sido publicado pela Editora Brasiliense em 1983, na coleção Tudo é História, e, apesar de ser um livro de divulgação, o tema é tratado com muita propriedade pela autora. Sandra Pesavento procurou, com competência, encaixar o movimento federalista dentro do jogo de poder da Primeira República e

159 160

PICCOLO, Helga I. L. Op. cit. (Nota 65), p. 71. LOVE, Joseph. Op. cit. (Nota 42), p. 77.

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aos interesses econômicos da oligarquia estancieira do Rio Grande do Sul, a partir dos pressupostos do materialismo histórico. Sandra Pesavento deixou de lado a descrição das batalhas (talvez influenciada pelo paper de Sílvio Baretta) para privilegiar a análise das mudanças econômicas e sociais que se estavam operando no Brasil e no Rio Grande do Sul ao final do século XIX, e como tais mudanças infra-estruturais refletiram na superestrutura em forma de guerra civil, no caso a Revolução Federalista. Para a autora, o quadro econômico gaúcho apresentava-se atrelado ao cenário nacional de uma forma peculiar, pois se, por um lado, ele estava desvinculado do processo agroexportador, por outro, ele se vinculava à economia central pela produção do charque. Na segunda metade do século XIX, os antagonismos entre os produtores gaúchos e os setores cafeeiros dominantes acirraram-se porque esses não tinham interesse em aumentar as taxas de importação do charque platino para criar uma economia regional no Rio Grande do Sul. Isso causou uma descapitalização das charqueadas e uma crise no setor criatório do Estado, que não conseguiu nem aumentar seus capitais para reinvestir na capacidade produtiva (promovendo a vinda de maiores contingentes de mão-de-obra) e nem tampouco promover a renovação tecnológica (o que já havia ocorrido com a atividade platina). Pelo contrário, para compensar as flutuações do preço nacional do charque, o produtor gaúcho baixou o preço do gado, “com isto, a crise da charqueada repercutiria sobre toda a pecuária, abrindo-se internamente uma área de atrito entre as duas frações da camada dominante local” 161. Já o livro do historiador norte-americano John Charles Chasteen, Heroes on horseback; a life and times of the last gaucho caudillos é extremamente inovador em sua temática (tradução livre: “Heróis a cavalo; vida e época dos últimos caudilhos gaúchos”, publicado pela editora da Universidade do Novo México em 1995 e lançado em 2003 no Brasil pela Editora Movimento, de Porto Alegre, com o título Fronteira Rebelde). Chasteen é professor de história na Universidade da Carolina do Norte, e a obra é fruto de sua tese de doutorado. Todavia a obra não é a mera transposição do trabalho acadêmico para livro. Indo contra a tendência imensamente empirista da historiografia norte-americana, Chasteen parte em Heroes... de uma narrativa
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PESAVENTO, Sandra J. Op. cit. (Nota 35), p. 40.

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literariamente bem construída, com licenciosidades poéticas, cujo foco principal é o exame cuidadoso da liderança carismática exercida pelos irmãos luso-uruguaios Gumercindo e Aparício Saraiva (a quem ele classifica como “heróis culturais”, daí a origem do título) no espaço geográfico, histórico e social da fronteira entre o Rio Grande do Sul e a República Oriental do Uruguai no decurso do século XIX, em que ele aborda, com maestria, desde a ocupação da terra até a cultura social e política, passando pelas trajetórias belicosas dos dois insubordinados irmãos. Ambos comandaram movimentos insurretos (entre eles a Revolução Federalista), mobilizando centenas, às vezes milhares de camponeses de uma região pouco povoada à época. Só que a trajetória de cada um teve desdobramentos completamente díspares: Gumercindo, apesar de melhor estrategista, acabou sendo identificado como um opositor ao poder central do Brasil e adquiriu pouca relevância na memória das lutas riograndenses; já Aparício, apesar de não possuir o talento militar do irmão, acabou recheando o imaginário uruguaio com sua figura montada de líder de montoneras. As duas trajetórias acabam metaforizando um pouco os contrastes culturais e políticos entre as Américas espanhola e portuguesa. Já o vice-almirante Hélio Martins escreveu sobre a Revolta da Armada em 1995 para a coleção História Naval Brasileira, do Serviço de Documentação da Marinha (volume 5º, tomo I-A), mas, ele frisa que não se trata de uma versão oficial do órgão. Ao contrário do que possa parecer, o autor não mergulha em um empirismo absoluto ou em meras descrições factuais das sucessivas batalhas, apesar de descrevê-las com acurado rigor. O principal foco de interesse do autor está voltado para os aspectos militares e estratégicos da revolta, articulando-os com a conjuntura política do período florianista, nutrindo-se de uma excelente e atualizada bibliografia acadêmica 162.
162

É interessante ver a análise de José Murilo de Carvalho para essa obra: “Dos quatro trabalhos sobre revoltas, saliento o de Hélio Leôncio Martins, intitulado ‘A Revolta da Armada’. Trata-se de uma excelente narrativa da revolta de 1893, que atende ao requisito que mencionei no início destes comentários: uma simpatia com o objeto acompanhada do necessário distanciamento para permitir uma visão equilibrada e crítica. O autor consegue este equilíbrio, embora tratando de tema que até hoje desperta reações apaixonadas. O que lhe pediria é acrescentar notas e indicação das fontes utilizadas. As notas e referências foram sem dúvida deixadas de lado por razões práticas, pois estamos diante de um historiador experimentado, mas elas fazem falta para a orientação do leitor.”. CARVALHO, José M. Relatório. In: Anais do congresso de história da república. Rio de Janeiro: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1989. p. 16.

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O livro vem permeado com biografias, farta iconografia, mapas de época e quadros sinópticos, além de uma interessante (e inédita) comparação entre a Revolta da Armada brasileira com a Revolta Naval Chilena de 1891 contra o presidente Balmaceda, entre outros. A obra de Hélio Leôncio Martins é um das mais amplas sobre o assunto, pois em outra obra bastante citada Trade and gunboats: the United States and Brazil in the age of empire 163 (tradução livre: “Comércio e navios de guerra: os Estados Unidos e o Brasil na era do Império”, publicado pela editora da Universidade de Stanford em 1996 e não lançado no Brasil) a ênfase que o autor, o historiador norte-americano Steven Topik, deu ao tema (inserido, no caso, como resquício da política imperial) esteve mais voltada à importância da presença internacional no conflito, principalmente a norte-americana. Em Os subversivos da república (1986), Maria de Lourdes Mônaco Janotti tem com objeto de análise o papel desempenhado pelos monarquistas após a implantação do regime republicano, quando, alijados do poder, eles passaram a se organizar para promover a restauração da coroa. Tarefa hercúlea, uma vez que o próprio D. Pedro II não havia organizado a resistência no exílio e a sucessão ficava comprometida com o Conde D'Eu, que era uma figura extremamente impopular no País. Os monarquistas formavam um grupo intelectualmente preparado e com interpretações consistentes da realidade nacional, com nomes como Eduardo Prado, Afonso Celso (filho do visconde de Ouro Preto), Joaquim Nabuco, entre outros. Eles tinham esperanças de que os percalços do novo regime levassem a opinião pública a rejeitá-lo. A primeira forma de atingir esse objetivo foi tentar eleger deputados constituintes para defender, no plenário, a bandeira de um plebiscito que referendasse a opção monárquica, sob a alegação de manutenção da unidade nacional, o que não obteve sucesso. Contudo, os republicanos, principalmente os jacobinos não deixaram por menos e souberam se aproveitar da existência dos monarquistas para criar no País um clima de pânico, passando a perseguir esses focos de “subversão” com implacável rigor, atribuindo a eles todas as mazelas do novo regime e todos os atos de insu163

ALMEIDA, Paulo R. Os estudos sobre o Brasil nos Estados Unidos: a produção brasilianista no pós-Segunda Guerra Estudos Históricos. Rio de Janeiro: CPDOC/FGV, n. 27, 2001. p. 42.

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bordinação: a Revolta da Armada, a Revolução Federalista e, mais tarde, a Guerra de Canudos. Mas, para a autora, “se o grande medo dos monarquistas era – na aparência – o fracionamento e – na essência – a revolução democrática, eles puderam considerar-se vitoriosos: foram esmagadas todas as veleidades dessa natureza. Predominou na República o conservadorismo dos conselheiros do Império” 164. Em Relações entre civis e militares no Brasil (1889–1898) de June Edith Hahner – publicado no Brasil em 1975, e originalmente em 1969 pela editora da Universidade da Carolina do Sul com o título Civilian-military relations in Brazil (1889–1898) –, são analisados os tumultuados episódios das relações dos dois grupos do título nos dois primeiros quadriênios presidenciais, uma vez que o período de Campos Sales é considerado o da consolidação do domínio civil, com a Política dos Governadores. Ao pôr em destaque os dois grupos sociais, civis e militares, June Hahner subdivide os civis em monarquistas e republicanos, e, estes, em civilistas e jacobinos. Já os militares são subdivididos pelas armas, Exército e Armada, e, estas, em oficialidade e tropa. Tais rivalidades no meio militar foram engenhosamente utilizadas pelos cafeicultores paulistas (republicanos e civilistas) para a superação do período presidencial militar. Em linhas bem gerais, a análise de June Hahner tenta mostrar como a força econômica dos paulistas foi se transformando em força política, na medida em que eles consolidaram o regime federativo e superaram os militares por meio do compromisso, em troca de recursos para combater as revoltas federalista e da armada, pois para a autora “sabiamente, (os paulistas) esquivaram-se das tentativas de derrotar a facção militar no poder mediante a adesão aos grupos militares rivais, e em retribuição a seu apoio decisivo, foi permitido a Prudente eleger-se o primeiro presidente civil da República do Brasil em 1894” 165. Em Os radicais da república; jacobinismo: ideologia e ação, 1893–1897 (1986), Suely Robles Reis de Queiroz procurou recuperar o papel histórico, na implantação da República, de alguns setores com uma inclinação nacionalista radical, os jacobinos. Os

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JANOTTI, Maria de L. M. Op. cit., p. 265. HAHNER, June E. Op. cit., p. 182.

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republicanos jacobinos constituíam uma espécie de “batalhão de frente” na defesa da “pureza” dos princípios republicanos. As balizas temporais propostas pela autora têm como marco inicial o enfrentamento de Floriano com os revoltosos da Armada, em setembro de 1893 e, como encerramento, o atentado promovido por Marcelino Bispo contra Prudente, em novembro de 1897, visto anteriormente. Oriundos dos batalhões patrióticos, os jacobinos eram compostos, de maneira geral, por cadetes, militares de baixa patente, profissionais liberais, amanuenses e pequenos comerciantes. Essa pequena burguesia organizava-se em torno de clubes e de jornais no intuito de combater (nem sempre com palavras) aqueles considerados “nocivos” ao regime, principalmente os monarquistas e os portugueses. Para eles, a república presidencialista deveria ser fortalecida em prol do desenvolvimento autônomo do País e viam nos militares um moralismo regenerador e salvacionista. O jacobinismo conheceu seu auge com o governo de Floriano, mas sua força aumentou como oposição a Prudente de Morais, em razão de suas propostas civilistas e do fiasco em Canudos. Contudo, os jacobinos não tinham uma plataforma política bem definida e nem tampouco uma determinação ideológica. O atentado de Marcelino Bispo fez com que os órgãos públicos, agora nas mãos dos cafeicultores paulistas, passassem a combater de frente os republicanos radicais, até o desmantelamento do movimento. Outro texto importante é O progresso da ordem; o florianismo e a construção da república (1997), de Lincoln de Abreu Penna. A grande inovação de Lincoln Penna foi integrar o jacobinismo ao fenômeno do “florianismo de rua” e interpretá-los à luz do “pulso firme” de Floriano, frente aos insurretos navais e federalistas, quando ele despertou setores até então excluídos para a participação política. Já o “florianismo governamental”, todavia, nasceu da aliança entre Floriano com os cafeicultores paulistas no combate aos opositores do regime. Ao final, o “florianismo governamental” acabou superando o “de rua”, pois Floriano teve que acatar a eleição de Prudente de Morais em contrapartida ao apoio. O autor também compara o florianismo ao bonapartismo, que, ao subjugar o parlamento e o judiciário, tenta governar (ainda que de forma aparente) diretamente com as massas, para promover

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“o progresso da ordem, aquela que, ao reconhecer os litigantes, enquadrava-os na lógica da supremacia do Estado” 166. O último texto que será analisado nessa parte do trabalho é A ortodoxia positivista no Brasil: um bolchevismo de classe média, no qual José Murilo de Carvalho busca fazer uma análise renovada sobre o papel dos positivistas ortodoxos dentro do movimento comtista brasileiro. José Murilo tenta mostrar que os ortodoxos não eram fanáticos empedernidos em rituais religiosos e sim, um grupo político com objetivos nítidos e estratégias próprias por meio de uma rígida disciplina, como uma vanguarda leninista avant la lettre. Para subsidiar essa explicação, o autor analisa a trajetória de Miguel de Lemos, primeiro presidente da Sociedade Positivista do Rio de Janeiro, que, em busca de uma “pureza” doutrinária, chegou a romper com o líder mundial do movimento, Pierre Laffite. Para isso, Lemos propõe uma ação política calcada em uma análise própria da realidade nacional. José Murilo mostra que os positivistas ortodoxos eram oriundos de camadas médias da sociedade imperial (engenheiros, médicos, empregados públicos etc.) e que essa condição de classe fazia com que os mesmos forjassem um projeto político (mesmo que conservador) alternativo ao da elite da época. Com a derrocada da ordem imperial em 1889, os ortodoxos foram um dos grupos politicamente mais coesos na nova cena, cabendo a eles o encabeçamento de várias posições, todavia, o seu maior legado foi a “separação entre os ideais de reforma social e de democracia representativa que dominou o pensamento político brasileiro desde o início da República até recentemente” 167. Por fim, temos a nítida consciência de que redigir uma narrativa sobre a Revolução Federalista é uma tarefa arriscada diante da vasta bibliografia sobre ela escrita. Todavia, Carlo Ginzburg em seu texto Sinais: raízes de um paradigma indiciário168 compara a atividade do historiador com a de um detetive particular que reconstrói uma cena a partir de vestí166 167

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PENNA, Lincoln de A. Op. cit., p. 194. CARVALHO, José M. A ortodoxia positivista no Brasil: um bolchevismo de classe média, Pontos e bordados; escritos de história e política. Belo Horizonte: Editora da UFMC, 1999. p. 199. GINZBURG, Cario. Mitos, emblemas e sinais; morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 143-179.

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gios. Acreditamos que, além das fontes primárias, o historiador também possa recriar uma situação a partir de alguns indícios historiográficos, desde que ele tenha claro quais objetivos queira atingir. Não tivemos a pretensão de recriar a totalidade do passado com a “pena de fogo” de Ângelo Dourado, nem prover as gerações futuras com exemplos de vida, como pretendia Wenceslau Escobar, mas, a de proporcionar um cenário que tentasse explicar os motivos que levaram um grupo de fronteiriços gaúchos a cavalo a galgar os Campos Gerais paranaenses, um lugar tão distante dos pampas e das querelas partidárias rio-grandenses. Como num tear, tentamos articular descrições com interpretações, no intuito de tecer uma rede que pudesse fornecer subsídios à explicação da chegada dos maragatos de Gumercindo ao Estado do Paraná, cuja formação socioeconômica e história política serão abordadas no próximo capítulo169.

169

Essa metáfora foi inspirada em Carl. E. Schorske: “O historiador é o tecelão, mas a qualidade do tecido depende da firmeza e cor dos fios. Ele tem que aprender um pouco de fiação com as disciplinas especializadas, cujos estudiosos, na verdade, perderam o interesse de utilizar a história como uma de suas modalidades básicas de entendimento – mas ainda sabem melhor do que o historiador o que constitui, em seu ofício, um fio resistente de cor firme. O rústico tecido caseiro do historiador será menos fino que o deles, mas, se imitar o método de confecção, ele fiará fios bastante prestáveis para a talagarça que é chamado a fazer”. SCHORSKE, Carl E. Viena fin-de-siècle; política e cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 17.

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CAPÍTULO 3

Campistas, acampai no Paraná. Ou melhor, não; abstende-vos. Reservai aos últimos pontos da Europa os vossos papéis engordurados, os vossos frascos indestrutíveis, as vossas latas de conservas esventadas. Espalhai aí a ferrugem das vossas tendas. Mas respeitai, para além da faixa pioneira e até que termine o prazo tão curto que nos separa do saque definitivo, as torrentes fustigadas por uma espuma jovem que os socalcos cavados nos flancos violetas dos basaltos ladeiam aos saltos. (...) Paisagem virgem e solene que parece ter conseguido preservar, pelos séculos fora, a face intacta do carbonífero e que a altitude, conjugada com o afastamento do trópico, liberta da confusão amazônica, conferindo-lhe uma majestade e uma ordenação inexplicáveis, a menos que isso seja obra duma utilização, cuja memória se perdeu, feita por uma raça mais sábia e poderosa do que a nossa, graças ao desaparecimento da qual devemos o facto de podermos penetrar neste parque sublime, hoje mergulhado no silêncio e no abandono170.

A REVOLUÇÃO FEDERALISTA NO PARANÁ E A REARTICULAÇÃO DA VIDA POLÍTICO-ADMINISTRATIVA DO ESTADO Um dos objetivos do presente capítulo é mostrar a relevância da formação histórica do Paraná na compreensão de sua vida política ao longo do século XIX, principalmente na configuração dos partidos locais, colocados em marcha a partir de um processo de diferenciação econômica e dicotomizados entre os senhores dos Campos Gerais e os empresários da erva-mate. Após essa explanação, levada a cabo nas três primeiras partes deste capítulo, trataremos da nossa problemática em si nas partes subseqüentes.

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LEVI-STRAUSS, Claude. Tristes trópicos. Lisboa: Edições 70, 1986. p. 147.

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Para os indígenas, paraná significa “rio caudaloso” (do tupiguarani para + ná, “semelhante ao mar”), e a unidade da federação brasileira herdeira desse nome está situada na região sul do país, ocupando uma área de aproximadamente duzentos mil quilômetros quadrados, cujos limites são a leste, o oceano Atlântico; ao norte, São Paulo; ao sul, Santa Catarina; ao noroeste, o Mato Grosso do Sul; a sudoeste, a Argentina, a oeste, o Paraguai. Na composição morfológica do Estado, preponderam as superfícies planas arranjadas em altitude, traçando planaltos íngremes pertencentes às serras do Mar e Geral, destacando-se cinco unidades de relevo de leste para oeste: baixada litorânea, serra do Mar, planalto cristalino (o primeiro planalto do Paraná ou planalto de Curitiba), planalto paleozóico (o segundo planalto ou planalto dos Campos Gerais ou de Ponta Grossa) e planalto basáltico (terceiro planalto ou planalto de Guarapuava). É no Paraná que se dá a transição do clima tropical para o subtropical, que se sobressai na região sul. A vegetação predominante varia entre as florestas e os campos; as florestas separam-se em tropicais e subtropicais, e os campos, em limpos e cerrados. Além da transição climática, é no Paraná que se dá também a passagem do espaço cultural gaúcho para a área de influência paulista. 3.1 A FORMAÇÃO HISTÓRICA DO PARANÁ

Historicamente, o Paraná foi constituído por três formações regionais: o “Paraná Tradicional”, que surgiu ainda no século XVII com a extração do ouro de aluvião e seguiu pelo século XVIII com a organização da sociedade dos Campos Gerais, calcada na grande propriedade rural de criação e comercialização de gado muar e vacum, destaque para as cidades de Curitiba e Paranaguá; o “Paraná Paulista”, estruturado no norte do Estado como uma frente de expansão da lavoura cafeeira de São Paulo, destaque para as cidades de Londrina e Maringá; e, por fim, o “Paraná Gaúcho”, organizado no sudoeste e oeste do Estado, impulsionado pela criação de suínos e pela lavoura cerealífera, com fortes vínculos culturais com o Rio Grande do Sul, destaque para as cidades de Cascavel e Pato Branco; as duas últimas formações regionais foram devidas às políticas de colonização encetadas a partir da primeira metade do século XX.

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O Paraná, enquanto unidade da administração portuguesa, não existiu durante o período colonial. Deveras, apenas uma estreita faixa de litoral “paranaense” pertencia às terras lusas pelo Tratado de Tordesilhas, cujo último entreposto era Laguna, no atual Estado de Santa Catarina. Esta delgada banda de terras constituiria, em teoria, a Capitania Hereditária de Santana, destinada a Pêro Lopes de Souza. Dentro da estrutura da economia colonial, em sua etapa de acumulação primitiva de capital, o território que hoje se convenciona chamar de Paraná não atraía muito os olhares dos colonizadores ibéricos. Contudo, as tentativas de viabilização econômica e ocupação efetiva do território correspondente ao Paraná iniciaram-se em duas frentes: a primeira, no século XVI, espanhola, a partir do que hoje corresponderia ao extremo oeste do Estado que, em 1541, Álvar Nuñes Cabeza de Vaca havia alcançado, após sobrepujar os rios Tibagi e Iguaçu, vindo da ilha de Santa Catarina; a segunda, no século XVII, portuguesa, os desbravadores saíram a partir do litoral de São Vicente em busca de ouro de aluvião nos rios da baía de Paranaguá, cujo lugarejo foi alçado à condição de vila em 1648. A colonização espanhola aconteceu de forma mais efetiva às margens do rio Paraná, onde foi fundado o conjunto das reduções da missão jesuítica do Guayrá e outros, situados entre os rios Paranapanema, Iguaçu, e Tibagi. Entretanto, o interesse da coroa espanhola por essa região era secundário, uma vez que o centro das atenções dos castelhanos na América do Sul, nessa época, estava voltado ao ouro dos incas, no atual Peru, e às minas de prata de Potosí, na atual Bolívia. Por outro lado, as atenções dos portugueses eram outras. Na primeira metade do século XVII, a grande lavoura de açúcar no Nordeste brasileiro absorvia a maior parte da mão-de-obra africana. A falta de recursos das regiões periféricas aos engenhos de cana, notadamente no litoral de São Vicente, obrigou os colonos a encontrarem alternativas para o suprimento de braços. A saída encontrada foi o aprisionamento dos índios e, nesse ponto, os interesses entre os vicentinos e os jesuítas do Guayrá entraram em choque, cujo ápice foi a investida dos bandeirantes Antônio Raposo Tavares e Manuel Preto contra as reduções, destruindo-as em 1631 e capturan-

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do os nativos. De forma singular, o economista Francisco Magalhães Filho considera essa a primeira manifestação econômica do Paraná.
Essa foi a primeira atividade econômica exercida no Paraná. Poucas estatísticas sobre ela são conhecidas. Sabe-se, porém, que, no século XVII, São Paulo exportou cerca de 90.000 escravos índios, com um valor aproximado de £ 560.000. Era o principal artigo de exportação da Capitania, e esse valor correspondia a um terço das exportações anuais de açúcar do Nordeste 171.

O primeiro registro da presença de ouro de aluvião em Paranaguá foi feita à Província de São Paulo pelos povoadores pioneiros vicentinos na primeira metade do século XVII, que, além do metal precioso, buscavam também madeiras nobres. Durante o período da dominação espanhola sobre a coroa portuguesa (a “União Ibérica” entre 1580 e 1640), as autoridades coloniais estimularam as relações comerciais entre os vicentinos com colonos platines, ativando a navegação do litoral atlântico meridional, motivados em parte pela possibilidade da preação dos índios. Nas últimas décadas do século XVII, iniciou-se a transposição da Serra do Mar para se atingir as campinas de Curitiba atrás de ouro, encontrado no leito do rio Iguaçu em pouco volume, o que obrigou os garimpeiros a diversificarem suas atividades e praticarem uma pequena economia de subsistência, que era ligada ao litoral por meio dos caminhos da Graciosa e do Itupava. Curitiba viria a se organizar politicamente como vila no ano de 1693. Nessa mesma época, ao final do século XVII, a metrópole portuguesa iria encontrar um novo alento em sua colônia sulamericana com a descoberta de ricos veios auríferos na região do rio das Velhas, no atual Estado de Minas Gerais. No decurso de algumas décadas, essa região tornar-se-ia a mais importante produtora de ouro em todo mundo da época, com o afluxo de mais de um milhão de pessoas para lá. Esse surto econômico alterou toda a disposição econômica da colônia, associada à decadência da atividade açucareira no Nordeste brasileiro, decorrente da concorrência da produção holandesa de cana nas Antilhas, desde a expulsão dos holandeses de Pernambuco em 1654.
171

MAGALHÃES FILHO, Francisco. Evolução histórica da economia paranaense. Revista Paranaense de Desenvolvimento. Curitiba: BADEP, abril de 1996. p. 132.

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A principal dificuldade enfrentada pelos moradores da região das Minas Gerais, nessa época, foi, sem sombra de dúvida, os transportes, uma vez que o porto mais próximo era o do Rio de Janeiro e, para alcançá-lo, era preciso transpor várias centenas de quilômetros através de sendas estreitas que ziguezagueavam entre serras de grande porte, e o único meio de locomoção disponível era por tração animal, principalmente muar. No decorrer do século XVIII, a demanda por esse tipo de animal, por artigos de couro e charque aumentara de súbito, e coube à região sul do Brasil dar respostas a esses incitamentos econômicos. Não obstante, a inclusão serôdia portuguesa do atual Rio Grande do Sul (antiga Capitania do Rio Grande de São Pedro) no conjunto colonial português fez da região paranaense uma espécie de “corredor” entre o extremo sul e as regiões povoadas no centro do País. Sobre a tardia ocupação do extremo meridional do País, Sandra Jatahy Pesavento esclarece-nos que a combinação de interesses na exploração do rebanho de gado vacum xucro (decorrente de seu abandono pelos jesuítas) com a expectativa de efetuar o contrabando das riquezas espanholas que afluíam para o rio da Prata (vindas de Potosí) impeliu o elemento português a expandir seus domínios para a extremidade austral do continente em fins do século XVII, com a fundação da Colônia do Sacramento (1680) que “proporcionou aos portugueses o conhecimento das reservas de gado da Vacaria Del Mar” 172. Sobre isso, Cecília Maria Westphalen vai ainda mais longe:
Esse gado multiplicou-se e tornou-se chucro (sic) face à dispersão provocada pelos ataques dos bandeirantes paulistas às Reduções Jesuíticas. Assim, originaram-se as Vacarias: do Mar, no litoral norte de Montevidéu, abertas e exploradas nos fins do século XVII e início do XVIII; do Pinhal, na região norte do Rio Grande do Sul, exploradas nos meados dos séculos XVIII ao XIX; e do Uruguai, às margens do rio Uruguai, exploradas no século XIX173.

Os choques entre portugueses e espanhóis pela ocupação do sul do Brasil obrigaram os lusos a ocuparem as terras que pertenciam
172

173

PESAVENTO, Sandra Jatahy. A revolução farroupilha. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 18-19. WESTPHALEN, Cecília M. O Barão dos Campos Gerais e o comércio das tropas. Curitiba: CD, 1995. p. 9.

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a Portugal pelo Tratado de Madri de 1750, principalmente aquelas ligadas aos interesses dos pecuaristas para o fornecimento de carne para as regiões centrais do Brasil, incrementando o interesse pelo caminho das tropas de muares que provinham de Viamão, passavam por Vacaria, Lages, Lapa (antiga Vila Nova do Príncipe), Castro (antiga Iapó), Jaguariaíva, Itararé, Itapetininga, para desembocarem nas feiras de Sorocaba; tal trilha ficou conhecida por “Caminho do Viamão” ou “Estrada da Mata”. Em meados de 1810, uma força armada luso-brasileira alcançou os campos de Guarapuava com os intentos de tomar posse da terra e submeter o elemento silvícola. Para isso, foram doadas sesmarias, e os nativos apresados foram dirigidos aos homens “de cabedais”, dando início a uma ocupação que se consumaria trinta anos mais tarde, quando uma segunda frente de conquista dessa região foi levada a cabo nos campos de Palmas por duas sociedades privadas. Estava finda, na primeira metade do século XIX, a ocupação das campinas do interior sul do atual Estado do Paraná. Para retratar a paisagem física dos Campos Gerais, nesse período, é forçoso ressaltar as passagens do pintor francês JeanBaptiste Debret (1768–1848) e de seu conterrâneo, o naturalista Auguste de Saint-Hilaire (1774–1853) pelo Brasil e, particularmente, pelas plagas que mais tarde seriam “paranaenses”. Debret observou em detalhes, por meio de aquarelas e desenhos, a paisagem do cenário do dia-a-dia brasileiro na primeira metade do século XIX. O célebre pintor nasceu em Paris no ano de 1768. Já na virada dos séculos XVIII para XIX, levou a cabo bemsucedidas exposições versando sobre motivos históricos, bem no espírito dos cânones neoclássicos que sucederam às artes plásticas da sociedade francesa napoleônica pós-Revolução. Mas, a saída do imperador corso conduziu-o à proscrição profissional, obrigando-o a aceitar ofertas de trabalho fora da França, como o convite do príncipe regente D. João para integrar a missão artística francesa no Brasil em 1816, quando passou a ajudar na construção da Academia de Belas Artes. Após um período na corte, Debret resolveu retratar a vida do interior do país, magnificamente registrado em sua Voyage pittoresque et historique au Brésil, ou Séjour d'un artiste français au Brésil, depuis 1816 jusqu'en 1831. Esse álbum com 350 estampas foi reimpresso no Brasil por Sérgio Milliet em 1940 e teve o título

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abreviado para Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. Nesse trabalho, Debret registrou também a vida dos Campos Gerais nessa época. Para nosso trabalho, ressaltamos as gravuras relativas a essa região, “contribuição para o documentário pictórico da antiga ‘Quinta Comarca’ de São Paulo” 174. Já as descrições de viagem do naturalista Augustin-FrançoisCésar Prouvençal de Saint-Hilaire, ou simplesmente Auguste de Saint-Hilaire, constituem relatos literários importantes sobre o cotidiano do Brasil na primeira metade do século XIX, e, no nosso caso, das terras paranaenses. Saint-Hilaire nasceu na França, onde veio a se tornar um reconhecido botânico, tendo lecionado em Paris. Em 1816, veio para o Brasil para integrar uma missão oficial francesa, comandada pelo Duque de Luxemburgo. Permaneceu aqui até 1822, tendo percorrido várias províncias brasileiras da época, quando classificou centenas de plantas da nossa flora e coletou, aproximadamente, 6.500 espécies vegetais para o Museu de História Natural de Paris. Suas descrições da flora das regiões brasileiras eram complementadas com narrativas do meio físico e cultural, daí sua obra ter adquirido enorme importância como fonte historiográfica. Entre suas obras destacamos: Plantes usuelles des brésiliens (1824), Histoire des plantes les plus remarquables du Brésil et du Paraguay (1824), Flora Brasiliae meridionalis (1825–1832) e resumos de suas viagens às províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais, ao Distrito Diamantino, às nascentes do rio São Francisco, à província de Goiás e às Províncias de São Paulo (e Paraná, onde esteve em 1820 e que era sua Quinta Comarca), Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Sobre os Campos Gerais, Saint-Hilaire entusiasmou-se tanto a ponto de chamá-los de “paraíso terrestre do Brasil!” 175. Beleza esta atestada quer seja pelo casmurro antropólogo belga Claude Lévi-Strauss vista na epígrafe deste capítulo, quer seja pelo Visconde de Taunay (1843–1899):
Quem viaja pelos Campos Gerais, não pode por vezes reprimir um movimento de admiração, ao contemplar aquelas verdejantes
174

175

CARNEIRO, Newton. Debret no Paraná. In: PRADO, João F. A. Jean-Baptiste Debret. São Paulo: Editora Nacional/USP, Série Brasiliana, 1973. p. 82. SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem pela comarca de Curitiba. Curitiba: Farol do Saber, 1995. p. 32.

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vastidões que se desenrolam, não chatas e uniformes como planícies intermináveis, porém, sim, dobradas, cheias de pitorescos acidentes, com fundas e elegantes ondulações, verdadeiras bacias de colossal parque inglês, vastidões em que os pinheiros, já em grupos, já isolados, já no encontro das quebradas, já no ponto culminante dos outeiros, já solitários, já casando a sua folhagem áspera e glauca com a coloração multicor de outros vegetais, dão cunho particular e imprimem feição toda sua àqueles campos iluminados pelo sol... 176

E foi Saint-Hilaire o primeiro estudioso a identificar e fornecer um nome científico para a erva-mate, baseado em espécimes colhidos nos Campos Gerais. Contudo, deve-se tomar cuidado com as alegações que Saint-Hilaire fez de que, no Paraná, predominavam elementos brancos e que lá não existiu escravidão; pesquisas históricas mais precisas desmentiram tais afirmações, como mostra a historiadora paranaense Márcia Elisa de Campos Graf177. Nesse ínterim, ainda que o Estado do Paraná possuísse uma população de aproximadamente 60.000 pessoas na primeira metade século XIX, no âmbito da ocupação do território, ele era um “deserto demográfico”, permeado por quase duas dezenas de localidades quase que totalmente isoladas entre si. Dois terços do território paranaense eram despovoados, e as vias de comunicação eram extremamente precárias; com relação às ferrovias, durante a segunda metade do século XIX, registra-se apenas a que liga Curitiba a Paranaguá, com 111 quilômetros de extensão. Os agrupamentos humanos de então, primeira metade do século XIX, eram: duas cidades (Curitiba e Paranaguá), sete vilas (Guaratuba, Antonina, Morretes, São José dos Pinhais, Lapa, Castro e Guarapuava), seis freguesias (Campo Largo, Palmeira, Ponta Grossa, Jaguariaíva, Tibagi e Rio Negro) e quatro “capelas curadas” (Guaraqueçaba, Iguaçu, Votuverava e Palmas)178. Em termos administrativos, o Paraná só começou a figurar como Província no cenário político do Império quando deixou de ser a Quinta Comarca de São Paulo, em 1853.
176

177

178

ABREU, Aluízio F. et alii. Campos e pinheirais; Taunay e outros. Curitiba: Farol do Saber, 1995. p. 7. GRAF, Márcia E. de C. Imprensa periódica e escravidão no Paraná. Curitiba: Secretaria do Estado da Cultura e do Esporte, 1981. MARTINS, Romário. História do Paraná. 4. ed., Curitiba: Farol do Saber, 1995. p. 409.

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3.2

O CONTEXTO SOCIOECONÔMICO DA PROVÍNCIA DO PARANÁ

No caso da economia paranaense, é interessante situar sua inserção em função de mercados internos e externos. Paralelo à atividade mineradora desenvolvida no centro do país foi que a economia do Paraná despertou. Os proprietários de terra da região, herdeiros dos primeiros bandeirantes e sesmeiros, acabaram por envolver-se no comércio das tropas e forjaram as primeiras frações de classes dominantes locais, já que em seu poder concentravam-se as primeiras acumulações primitivas de capital. Esse fato acarretou uma série de mudanças nos hábitos de consumo local, aumentando a importação de artigos mais refinados, pagos com o excedente de capital da atividade criatória. Entretanto, nem todos condutores de tropas possuíam terras, grande parte deles vivia da mera intermediação de compra e venda dos animais entre o Rio Grande do Sul e as feiras de Sorocaba e, quando precisavam de pastos, alugavam-nos. Sobre os influxos políticos desse comércio,
A maior rentabilidade do comércio e engorda de gado atraiu fatores (sic) dos outros setores da economia paranaense. A concentração de renda na nova atividade dinâmica alterou as bases do poder político local. Eram freqüentes as queixas dos antigos criadores, cujas terras estavam afastadas das principais rotas, de que o tropeiro era contrário aos interesses da região, levando ao abandono da criação e ao esvaziamento dos campos. Nada disso adianta, os grandes proprietários de terra e comerciantes de gado passaram a comandar politicamente a região. Eram os tropeiros de tiro longo, cujo capital lhes permitia sustentar o giro demorado exigido pelo processo completo, desde os campos do sul até Sorocaba, permitindo-lhes, às vezes, ter mais de uma tropa no caminho179.

A decadência da atividade mineradora ao final do século XVIII trouxe reflexos para a economia desenvolvida em torno do Caminho do Viamão e nos Campos Gerais, ocorreu uma contração do mercado decorrente da diminuição da procura por muares. Entretanto, uma parcela bem significativa da sociedade agrária
179

MAGALHÃES FILHO, Francisco. Op.cit., p. 135-136.

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local havia enriquecido com a compra de muares, courama e charque no sul para sua revenda nas feiras sorocabanas, ocupando o segundo planalto paranaense com fazendas criatórias ou de engorda com base no trabalho escravo ou na peonagem de mestiços. Indubitavelmente, o maior estudioso da formação histórica da sociedade camponesa dos Campos Gerais, ou do “Paraná Tradicional”, foi o historiador paranaense Brasil Pinheiro Machado. Para ele, a ocupação das terras dessa região foi feita “pelos ricos e poderosos de São Paulo, Santos e Paranaguá, não como um meio para transladar-se uma sociedade inteira, mas simplesmente como um negócio a ser explorado comercialmente, tendo em vista o abastecimento de São Paulo e, principalmente, das regiões mineradoras do século XVIII” 180. As primeiras fazendas de engorda, de muares ou bovinos, ao longo do Caminho do Viamão foram assentadas na primeira metade do século XVIII. Nessa época, quem pretendia levar adiante a criação de animais deveria tomar posse de um torrão de terra para, a posteriori, pedir a doação da sesmaria junto às autoridades coloniais, “fiéis representantes del Rey”. Nessa época, foram demandadas quase cem sesmarias na região dos Campos Gerais, cujas extensões eram, em média, de 6.000 alqueires “paulistas” (cada alqueire paulista corresponde a 5.000 braças quadradas – cada braça corresponde a 2,2 metro, ou 2,42 hectares – cada hectare corresponde a 10.000 metros quadrados). Em um arrolamento dos sobrenomes dos principais beneficiários dessas doações, atesta-se que a grande maioria deles estava relacionada com famílias de bandeirantes paulistas do século XVII. Ao contrário dos pioneiros portugueses do extremo sul do Brasil, esses colonos eram absenteístas e não se estabeleciam com suas famílias nas fazendas dos Campos Gerais, e estas ficavam quase que invariavelmente sob a supervisão de um preposto. Nessa época, a ligação destas com centros de comércio fazia-se preferencialmente com São Paulo, o que causou protestos por parte da Câmara de Vereadores de Curitiba, registrados em uma carta dirigida à rainha D. Maria em 1777. Repara-se, então, que a oposição entre os citadinos e a aristocracia agrária tem raízes históricas mais
180

MACHADO, Brasil P. Formação histórica dos Campos Gerais. In: MACHADO, Brasil P.; BALHANA, Altiva P. (Orgs.). Campos Gerais, estruturas agrárias. Curitiba: Faculdade de Filosofia da UFPR, 1968. p. 30.

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profundas. Sobre esses contrastes, recorre-se novamente ao mestre Brasil Pinheiro Machado:
A oposição entre a pobre população curitibana e as ricas fazendas dos Campos Gerais fica mais patente nos episódios da abertura da “estrada do Viamão”. Os proprietários das sesmarias dos Campos Gerais opuseram-se à abertura desse caminho. Ao pedir a cooperação dos curitibanos para os trabalhos da estrada, o Capitão General de São Paulo procurava convencê-los de que para eles só haveria vantagens em trazer gado das Vacarias da Serra para os campos paranaenses, onde os paulistas, donos das sesmarias, detinham o monopólio da criação do gado que abastecia as Minas Gerais, onde um boi alcançava altíssimos preços, a troco de ouro em pó181.

Contudo, a grande propriedade não era a única estrutura fundiária dos Campos Gerais, pois ao final do século XVIII, das 175 propriedades ao longo da parte paranaense do Caminho do Viamão, 125 eram de pequeno porte. A escravidão negra e a indígena foram formas de trabalho largamente utilizadas nos Campos Gerais e, culturalmente, a sociedade camponesa do “Paraná Tradicional” oscilou entre duas matrizes bem distintas: a gaúcha e a paulista. Se, por um lado, a elite local tinha por ancestrais os bandeirantes, por outro, a “arraia miúda” descendia dos tropeiros rio-grandenses, além do contato comercial constante com estes. Evidentemente, preponderou a cultura gaúcha. Para ilustrar isso, Brasil Pinheiro Machado nos traz o interessante relato do primeiro presidente da Província, Zacarias Góes de Vasconcelos (que era baiano) e seu estranhamento em relação aos costumes “exóticos” dos habitantes dos Campos Gerais em 1854:
O vasto poncho de que se serve a maioria dos habitantes, e as largas e estrepitosas chilenas (esporas) não eram artigos mais essenciais ao trajar dum homem do povo, do que a inseparável cartucheira, a faca e as pistolas, já não digo em viagem pelas estradas ou em seus trabalhos de campo, mas em passeio à cidade e (parece incrível) até nos templos do Senhor!182

Sem dúvida, a consolidação dos padrões de comportamentos gaúchos sobre os paulistas na sociedade camponesa ajuda-nos a
181 182

MACHADO, Brasil P. Op. cit., p. 32-33. MACHADO, Brasil P. Op. cit., p. 39.

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subsidiar nossa tese de que, quando da eclosão da Revolução Federalista, esses setores serão os mais identificados culturalmente com os maragatos de Gumercindo. No decurso da primeira metade do século XIX, a rede de convivência criada nos Campos Gerais tinha se estabelecido nos moldes de uma “sociedade camponesa” (peasant society) propostos pelo cientista social norte-americano Edward Norbeck, cujas características mais marcantes são: “a família como unidade social essencialmente importante; status social baixo; interdependência econômica em grau variável, com centros urbanos; cultura simples; apego à terra, à comunidade local e à tradição” 183. Queremos ressaltar que, no presente trabalho, sinonimizamos “sociedade camponesa dos Campos Gerais” com “Paraná Tradicional”. As parcas cidades que existiam nessa região viviam economicamente em torno da atividade pecuária, com um comércio rudimentar e sediando precários órgãos públicos e igrejas. E, ao contrário dos primeiros proprietários absenteístas do século XVIII, no século seguinte os fazendeiros passaram a morar em suas fazendas com suas famílias e dirigiam-se, de tempos em tempos, para essas cidades com intuito de resolver seus negócios. E interessante a descrição de Saint-Hilaire sobre uma dessas cidades dos Campos Gerais, por volta da década de vinte do século XIX, comparando-a, inclusive, com outras de regiões diferentes do Brasil:
Três ou quatro comerciantes, prostitutas e alguns artesãos constituíam praticamente toda a população de Castro. Dentre os últimos, os mais numerosos eram os seleiros, o que não é de admirar numa região onde os homens passam a maior parte do tempo em cima de um cavalo. Geralmente podemos avaliar os gostos e os hábitos de uma região pelo tipo de ofício exercido pela maioria dos artesãos. Nas regiões auríferas, mesmo muito pobres, há muitos ourives, porque todas as mulheres querem usar jóias de ouro; em São Paulo e nos distritos mais prósperos, onde se cultiva a cana-de-açúcar, a profissão que predomina é a de alfaiate, porque os habitantes do lugar podem andar bem vestidos. Em Santos, porto marítimo, encontram-se muitos calafates, e os carpinteiros proli-

183

NORBECK, Edward. Sociedade Camponesa (Peasant Society). Dicionário de Ciências Sociais. Rio de Janeiro: FGV, 1987. p. 1.140.

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feram nas regiões onde as constantes imigrações fazem aumentar continuamente a população etc 184.

Nota-se, assim, a formação de grupos sociais fixos, residentes nas cidades, e eventuais, envolvidos com a lide das tropas. Contudo, no decorrer do século XIX, aos grandes fazendeiros (mesmo que viessem ocasionalmente às cidades) coube o papel de mando político185. Guardando as devidas peculiaridades, a sociedade camponesa do Campos Gerais também padeceu as crises internacionais do sistema capitalista. Segundo Cecília Westphalen, “o paralelismo das flutuações não exclui, entretanto, importantes diferenças de intensidade das crises e depressões e mesmo certas defasagens cronológicas, motivadas pelas desigualdades do desenvolvimento e pela ocorrência de fenômenos regionais e locais”186. Com efeito, dentre as cinco crises arroladas pela eminente historiadora lapeana no decurso do século XIX (1847, 1857, 1866, 1873 e 1883), pomos em destaque a penúltima como o momento crucial para o rearranjo das sociedades tradicionais do mundo ocidental. Em termos mundiais, o sistema capitalista atravessou sua primeira grande crise em meados da década de setenta do século XIX, quando a etapa do liberalismo clássico foi superada. As mudanças puderam ser sentidas no ocaso da Inglaterra como pólo irradiador de técnicas e capital e no aparecimento de novos países na competição mundial, como a Alemanha, a França, os Estados Unidos e o Japão, entre outros. Essa mundialização do sistema fez com que esses países passassem a competir entre si pelo fornecimento de matérias-primas e conquista de mercados consumidores. Essa nova organização dos mercados mundiais obrigou que as novas potências garantissem
184 185

186

SAINT-HILAIRE, Auguste. Op. cit., p. 76. “Durante o século XVIII, ela (a classe senhorial) sofrera violentas restrições ao seu poder por parte do Estado Colonial português, representado pelo Capitão General. Quando veio a revolução da Independência, adotaria os seus princípios liberais que a viriam libertar do poder da Capitania. (...) Obtida a emancipação da província do Paraná, em 1853, o poder local é inteiramente restituído às classes superiores locais e, especialmente, à classe dos fazendeiros dos Campos Gerais, que passam a exercer o poder político da Província, principalmente através da liderança das famílias fazendeiras dos Marcondes e dos Araújos. De fato, a lideranças exercida pelos fazendeiros se processa sob a forma de oligarquias”. MACHADO, Brasil P. Op. cit., p. 41-42. WESTPHALEN, Cecília M. Comércio exterior do Brasil meridional. Curitiba: CD, 1999. p. 189.

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para si os territórios destinados à sua ampliação de capital, adquirindo colônias e zonas de influência e tomando medidas protecionistas. Essa crise assinala a derrocada do liberalismo econômico tradicional apregoado por Adam Smith, acelerando o processo de concentração da produção e do capital. Era o início do capitalismo monopolista, que se acentuaria na virada do século XIX para o XX. Os monopólios surgiram da associação do capital industrial com o bancário, gerando o capital financeiro, e, assim, esse tipo de riqueza fica sob o controle de alguns poucos grupos. O poder desses grupos passou a ser tão forte que eles passaram até mesmo a conduzir a vida política de algumas nações. O ano de 1873 assinalou o agravamento da crise capitalista. A súbita ampliação da produção industrial assinalada na Europa desde o início do século XIX, calcada em bens duráveis, foi seguida por uma queda nos preços em razão da superprodução. Com isso, os lucros diminuíram e quem mais sofreu com esse revés foram a indústria ferroviária e o comércio marítimo, as atividades mais rentáveis até então. O sistema capitalista internacional já tinha atravessado períodos críticos anteriormente, mas a crise de 1873 é considerada a primeira grave. As causas dessa crise não são completamente entendidas; no caso inglês ela se explica ora pela retração do consumo, ora pelo descompasso da produção. Após o alargamento incessante de mercados consumidores de seus produtos desde a Primeira Revolucão Industrial, a Inglaterra vivia um momento delicado. A crise atingiu também, com vigor, a Rússia, a Alemanha e os Estados Unidos e afligiu a crença no liberalismo clássico, calcado na livre concorrência. Os empresários ficaram descapitalizados e começaram defender o protecionismo e acordos de preços entre produtores, pois, com a concentração tanto do capital como da produção, a tendência era a convergência da propriedade com o controle das políticas econômicas. Paradoxalmente, foram as nações de industrialização tardia, notadamente a Alemanha e os Estados Unidos, que primeiro lançaram mão do controle e centralização das atividades comerciais. A Inglaterra, por sua tradição liberal, se recusava a adotar tais medidas. Por entre os eventos marcantes para a compreensão da vida econômica brasileira do século XIX pode-se pôr em relevo a estreita

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ligação econômica com a Inglaterra no plano externo, e a organização escravista da produção, no interno. Em teoria, os processos racionais do modo capitalista de produção tenderam a tornar-se incompatíveis com a condição escrava do trabalhador. Ou, melhor, na empresa nacional de então, como em qualquer empresa capitalista ou tendente a esse padrão, a participação da mão-de-obra precisava conformar-se às exigências da produção de lucro. Isso exigia larga flexibilidade na ordenação dos “fatores” e, em conseqüência, na organização do empreendimento. Isto é, o capital, a terra, a técnica e a mão-de-obra precisavam ser combinados em função das flutuações ou exigências da oferta e da procura187. Nesse quadro, enquanto as nações industrializadas atravessavam a crise da concentração de capitais, no Brasil a questão econômica nacional mais séria, a partir da segunda metade do século XIX, constituía-se justamente na substituição do trabalhador escravo pelo assalariado. Entretanto, no sul do país, a ampliação da lavoura de café para o oeste paulista, principalmente na segunda metade do século XIX, deu um novo fôlego à economia pecuária do Brasil meridional que, conjugada às crises políticas das ex-colônias espanholas na América do Sul, principalmente as dos países platinos, conheceu uma conjuntura favorável para outros produtos.
De modo geral, os portos do Sul do Império e, particularmente, o de Paranaguá, partilharam no século XIX, destinos comuns com aqueles do rio da Prata. Foi a falta de víveres em Montevidéu, ocasionada pelo sítio que lhe fora dado pelas forças argentinas de Rondeau e pelos patriotas de Artigas, que motivaria que dessa praça se viesse procurar e comprar gêneros nos portos do Brasil meridional, sobretudo no de Paranaguá, conhecido pela sua produção de farinhas, bem como, desde o final do século XVIII, por aquela de arroz pilado. De outro lado, carente ainda o Uruguai de madeiras e de lenha, do porto de Montevidéu procediam embarcações em busca de fornecimento de madeiras nos portos brasileiros mais próximos188.

187

188

IANNI, Otávio. O progresso econômico e o trabalhador livre. In.: HOLANDA, Sérgio B. (Org.). História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, t. II, v. 3, 1985. p. 298. WESTPHALEN, Cecília M. Op. cit. (Nota 17), p. 165.

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O tropeirismo conheceu uma nova frente de expansão na primeira metade do século XIX, quando surgiu uma nova frente de abastecimento de muares além do Rio Grande do Sul. Atravessando o rio Uruguai, os tropeiros paranaenses começaram a trazer bestas oriundas da província argentina de Comentes; esse trajeto foi chamado de “Caminho das Missões” por provir da região missioneira do Tape, passando por Cruz Alta, Passo Fundo, Goio-en, Palmas, Guarapuava e acabava desembocando em Ponta Grossa. Contudo, mesmo essa nova frente começou a entrar em decadência na segunda metade do século XIX, quando os trens começaram a substituir as mulas. A sociedade camponesa dos Campos Gerais não passou incólume às transformações econômicas mundiais, e, da segunda metade do século XIX em diante, a estrutura socioeconômica do “Paraná Tradicional” entrou em franco processo de desagregação. Entre os fatores determinantes, podem-se enumerar: diminuição da produção, desaceleração da demanda dos mercados paulistas e cariocas, surgimento das ferrovias, ocupação completa das terras do campo (o que impedia a transmissão por herança), falta de capitais líquidos, surgimento de uma classe média urbana, introdução de novas técnicas agrícolas por parte dos imigrantes, surgimento de indústrias (principalmente a do mate), entre outros. O declínio da atividade de compra e venda de muares e bovinos carreou complicações econômicas para a sociedade camponesa dos Campos Gerais. As fazendas das famílias-troncos tradicionais (que eram compostas por várias células familiares menores) já não garantiam mais o sustento de todos. Tal quadro resultou no êxodo rural tanto de pobres como de ricos para os núcleos urbanos. E ainda, ao final do século XIX, praticamente toda a criação de muares e bovinos havia sido deslocada para os campos de Palmas e Guarapuava. Paralelo a isso, era incentivada uma política no Paraná de estabelecimento de núcleos de colonização com estrangeiros (italianos, alemães, polacos, açorianos, russos, suíços e franceses), mas com poucas condições de um desenvolvimento econômico maior que o de subsistência. Nesse ponto, a análise de Francisco Magalhães Filho é muito apropriada:
As estradas de ferro liquidaram o tropeirismo. Não a construção de ferrovias no Paraná, ou a conclusão da ligação entre o Rio

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Grande do Sul e São Paulo, mas seu desenvolvimento no CentroSul, o que reduziu sensivelmente a demanda por mulas. O número de muares negociados anualmente em Sorocaba caiu de cerca de 100.000, em 1860, para menos de 5.000 ao final do século XIX. 189

Todavia, outras duas atividades econômicas viriam a se consolidar no Paraná na segunda metade do século XIX: a madeira e o mate, mas deve-se tomar cuidado para não incorrer numa explicação causal da história econômica paranaense, como se um ciclo sucedesse ao outro de maneira estanque. Pelo contrário, a dinâmica econômica da Província do Paraná, no decurso do referido século, é bem complexa, uma vez que a região econômica da atividade ervateira desenvolveu-se na baixada litorânea e no primeiro planalto, portanto à margem do “Paraná Tradicional”. A exploração da madeira, por outro lado, uniu os dois pólos econômicos, pois as barricas (substitutas dos “surrões” de couro) destinadas à exportação da erva-mate eram feitas desse material, o que fez com que os senhores dos Campos Gerais, diante da crise econômica, acabassem arrendando as matas que ladeavam suas propriedades para os empresários ervateiros. Os paranaenses costumam denominar seu Estado de “Terra dos Pinheirais”, em razão das inúmeras matas dessas grandes árvores da família das araucariáceas que lá existiam, tanto que a Araucária angustifolia é nacionalmente chamada de “pinheiro-do-paraná”. Desde os pródromos da ocupação das terras paranaenses, a araucária foi utilizada no fabrico de artigos destinados ao uso local e à arquitetura vernacular. Entretanto, a exploração ficou no nível manual até a inauguração da estrada de ferro da Serra do Mar em 1885. Conjugado a isso, em 1872 foi fundada a Companhia Florestal Paranaense, com o intuito de explorar o pinheiro para exportação, fazendo surgir as primeiras serrarias a vapor do Estado. Esse incremento da atividade madeireira decorreu tanto em função do desenvolvimento geral da economia brasileira, motivada pela cafeicultura, como pela ampliação das exportações para a Argentina. Já a erva-mate era largamente consumida pelos indígenas dos vales dos rios Paraná, Uruguai e Paraguai, e os colonizadores europeus aprenderam, com eles, tal gosto. Todavia, no Brasil, a produção
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MAGALHÃES FILHO, Francisco. Op. cit., p. 136.

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e comercialização desse produto ficaram, até meados do século XIX, restritas ao consumo interno e foi só com a ampliação das exportações para os mercados platinos e chileno que a erva-mate adquiriu uma importância econômica de vulto para os produtores paranaenses. Contudo, a Provisão Régia de 1722 já previa a exportação da erva-mate paranaense para Buenos Aires, mas a falta de capitais retardou essa determinação em quase um século. Até o final do século XVIII, os mercados do Prata eram abastecidos pelos produtores paraguaios, baseados nas reduções jesuíticas, protegidas por monopólio facultado pelas Cortes Espanholas. Todavia, com a expulsão dos membros da Companhia de Jesus da América Ibérica nessa época, a produção ervateira missioneira entrou em franco processo de desarticulação, diminuindo a oferta. Na primeira metade do século XIX, a produção ervateira paranaense ficava restrita à junção dos vales dos rios Paraná e Iguaçu. A erva produzida nessa região era escoada para o Prata, ora através do rio Uruguai, ora pelo litoral paranaense, nos portos de Morretes e de Porto de Cima no rio Nhundiaquara e nos portos marítimos de Antonina e Paranaguá, e, por ocasião do cerco de Montevidéu pelas tropas do general Rondeau em 1812, os platinos passaram a ver em Paranaguá uma possibilidade de abastecimento de gêneros de primeira necessidade, entre eles a erva-mate. Todas as etapas envolvidas no processo produtivo da ervamate acarretaram um surto de desenvolvimento econômico no Paraná. Boa parte da produção foi transferida para o litoral do Estado, e o setor comercial também foi incrementado com atividades complementares, como a da venda de artefatos de madeira, surrões de couro, utensílios etc., e assim, a atividade pecuária desenvolvida nos Campos Gerais ganhou um pouco de fôlego. Surgiram, então, no litoral vários engenhos de soque, o que possibilitou um desenvolvimento industrial sui generis, muito parecido com o que havia ocorrido na Inglaterra durante a Primeira Revolução Industrial190.
190

“A gênese e o desenvolvimento da indústria do mate (no Paraná) podem ser comparados a processos semelhantes ocorridos na Europa a partir de sistemas de putting-out. (...) Em seus primórdios, a burguesia mercantil que se instalou nesse ramo dedicava-se ao comércio da erva beneficiada por produtores autônomos. Posteriormente, ela começou a envolver-se na produção, comprando erva pré-beneficiada para moê-la e embalála em suas casas de soque. Somente a partir de 1820 ou 1830, começaram a ser intro-

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Ao final da década de vinte do século XIX, a erva-mate já representava o principal produto na pauta de exportações da ainda Quinta Comarca de São Paulo. Em verdade, a erva-mate incitou a consolidação de uma nova fração autônoma de classe no Estado do Paraná: a burguesia industrial ao longo do século XIX. Mesmo se considerar que os capitais acumulados nas mãos da elite envolvida com a atividade das tropas eram de origem comercial, as mesmas ainda dependiam, em muito, do trabalho escravo. A economia da erva-mate, por outro lado, desde cedo desvinculou-se dos braços escravos em razão de seu processo de industrialização peculiar. O desenvolvimento das forças produtivas da indústria ervateira, estimuladas pelas exportações, fizeram das mesmas uma atividade capitalista plena, uma vez que a mão-deobra assalariada que este modo de produção passou a exigir foi encontrada tanto junto a antigos trabalhadores do “Paraná Tradicional”, como entre os recém-chegados imigrantes europeus. Entrementes, o grau de desenvolvimento das forças produtivas que se configurava no Estado do Paraná ao final do século XIX indicava uma evidente aceleração da divisão social do trabalho. Isso se deveu tanto pela extinção do trabalho escravo como pela intensificação da imigração, o que ocasionou a formação de uma notável quantidade de mão-de-obra de reserva despossuída. Paralelo a isso, o modo de produção da sociedade camponesa do “Paraná Tradicional” já estava totalmente desagregado ao alvorecer do século XX:
Parte da massa de negros libertos e brancos imigrantes compôs o conjunto dos trabalhadores livres nas indústrias e no comércio do Paraná. A grande maioria dos imigrantes formaram colônias de subsistência vinculadas ao mercado local, pois o desempenho pouco agressivo da economia desestimulava o desenvolvimento do trabalho como valor de troca, como mercadoria, fazendo permanecer relações de dependência e favor191.

191

duzidos novos processos produtivos voltados à mecanização e concentração do trabalho. Num prazo de 50 anos, os burgueses do mate teriam em suas mãos um parque fabril bastante tecnificado”. PEREIRA, Magnus R. M. Semeando iras rumo ao progresso. Curitiba: Editora da UFPR, 1996. p. 19-20. RIBEIRO, Luiz C. O mandonismo local e o movimento republicano. Revista História: Questões & Debates. Curitiba: Associação Paranaense de História, jun. de 1982. p. 69.

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Com efeito, os principais produtos da economia desenvolvida no Paraná nessa época passaram a ser a madeira e o mate e acabavam atrelando-se, dessa feita, quase que inteiramente ao mercado externo. Por outro lado, foi criada uma outra estrutura social calcada na pequena propriedade rural e na lavoura de subsistência. No caso paranaense, a criação de colônias agrícolas ao redor de Curitiba possibilitava o abastecimento de alimentos frescos a preço acessível, abaixando o nível do custo de vida; criava-se um proletariado, ampliavam-se as frentes de investimento, valorizando-se assim, as terras compreendidas entre as colônias e a cidade, estendendo-se a especulação imobiliária a outras áreas. Compreender o estabelecimento das colônias agrícolas ao redor de Curitiba no decorrer do século XIX foi entender as origens do proletariado urbano dessa cidade no início do século XX. Foram os descendentes desses imigrantes que acabaram vindo para o núcleo urbano, na virada do século, culminando no “inchaço” populacional na primeira década. O historiador Carlos Roberto Antunes dos Santos mostra-nos a amplitude da estrutura econômica encetada no Paraná.
A comunidade paranaense foi recolocada num conjunto mais amplo, isto é, se integrando ao contexto da economia brasileira e no processo capitalista de Economia-Mundo: inicialmente através da economia pecuária e, após, na segunda metade do século XIX, através de exportação do mate. 192

Os hábitos e costumes da burguesia paranaense da época deixavam transparecer sua visão de mundo e seu projeto político. A busca de hábitos “cosmopolitas” por parte da camada dominante também foi atestada pelo referido historiador:
A burguesia do mate, beneficiada com o aumento das exportações e a alta do preço do produto, viu expandir seus negócios e acelerar o processo de acumulação de capital. Em Curitiba, o setor importador de artigos de luxo aumenta as suas ofertas, como aparece quotidianamente nos anúncios da imprensa: champanhe, vinho tinto e conhaque da França, vinho branco e do Porto de Portugal, cerveja inglesa, manteiga inglesa e francesa, presunto

192

SANTOS, Carlos R. A. História da alimentação no Paraná. Curitiba: Farol do Saber, 1995. p. 92.

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da Westphália, queijo flamengo, sardinha de Nantes-França, conservas portuguesas, azeitonas de Eiva, passas inglesas etc.193.

Assim, a economia paranaense do período em tela foi mantida basicamente, de um lado, pela exportação de produtos primários voltados para o mercado externo, principalmente para o Prata (mas, com baixa procura internacional se comparados ao café, principal produto do país à época) e por outro, por uma pequena lavoura de subsistência. Em verdade, apesar de o Estado do Paraná desenvolver uma economia auto-sustentada, em termos nacionais, era, na virada do século XIX, uma economia secundária em relação à hegemonia dos cafeicultores paulistas. Nesse quadro, suas frações autônomas de classe locais não possuíam poder de decisão na política nacional, o que causava ressentimentos entre os paranaenses. O historiador paranaense Pedro Calil Padis em seu trabalho Formação de uma economia periférica: o caso do Paraná, indica o entendimento da história econômica do Paraná como fruto de uma vinculação de centro e periferia com São Paulo194. Para ele, ao passo que São Paulo desenvolveu e variou sua economia, o Paraná teimou em manter-se à margem da industrialização brasileira, com uma estrutura de produção que insistia em ficar restrita às explorações de erva-mate e madeira, e foi somente a partir da década de trinta que a economia paranaense procurou sair do atraso vinculando-se, de maneira marginal, à economia de São Paulo. A aristocracia rural dos Campos Gerais já assinalava sua decadência econômica e via no controle do Estado (e no ingresso na burocracia) uma “tábua de salvação”, por isso a necessidade de forçar a rotatividade administrativa dos tempos do Império, mesmo com a República.
A desagregação da sociedade campeira, com a perda do braço escravo e do comércio de gado, é absorvida pela aristocracia que usa da prática do coronelismo, do mandonismo, para se respaldar e se manter no poder. Nesse sentido, apoiou o golpe militar de Deodoro,

193 194

SANTOS, Carlos R. A. Op. cit., p. 59. PADIS, Pedro C. Formação de uma economia periférica: o caso do Paraná. Curitiba: Secretaria do Estado da Cultura e do Esporte, 1974, p 52.

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buscando na forma federativa maior poder de barganha nas relações comerciais internas e externas195.

Além do mais, a acumulação primitiva de capitais oriunda da atividade do tropeirismo não conseguiu formar uma burguesia capitalista campeira paranaense, diferente do que ocorreu no Rio Grande do Sul, onde a atividade pecuária promoveu a industrialização do charque196. Já a burguesia do mate (em plena fase de acumulação primitiva), buscava firmar seu predomínio político constituindo um bloco no poder que fosse além dos seus interesses imediatos. Dessa forma, ela enriquecia, consolidava a oposição ao proletariado e tentava conviver com a aristocracia agrária, mas restringindo a atuação desta no Estado. Reproduzia-se, nas terras paranaenses, o fenômeno da separação entre capital e o trabalho, ocorrido na Europa durante a Primeira Revolução Industrial. Em termos econômicos nacionais, se o cenário capitalista mundial colocava, por um lado, a posição brasileira de exportadora de café em uma situação desfavorável em relação aos países industrializados, por outro, ficava favorável em relação aos outros países agrário-exportadores, uma vez que o Brasil detinha em torno de dois terços das exportações mundiais desse produto. Tal situação fez com que a aristocracia rural brasileira tivesse um lugar (mesmo que periférico) no jogo do comércio mundial e defendesse os princípios do liberalismo e a implantação da República no Brasil, o que assinalou uma série de traumas para a instauração de uma ordem política em sintonia com os interesses econômicos dos cafeicultores. Por esse aspecto, a implantação do regime republicano no Paraná encontrou um quadro social peculiar, pois, “dentre as 21 províncias que após a proclamação da República foram elevadas à categoria de Estado, o Paraná como a última criada durante o Império, tinha uma posição ainda extremamente apagada” 197. Nesse período apenas um terço do território paranaense era ocupado, e as principais atividades econômicas ali desenvolvidas
195 196

197

RIBEIRO, Luiz C. Op. cit. (Nota 22), p. 70. PESAVENTO, Sandra J. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992. p. 75-76. COSTA, Samuel G. Introdução. In: CARNEIRO, David: VARGAS, Túlio. História biográfica da república no Paraná. Curitiba: Banestado, 1994. p. 3.

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eram extrativistas e exportadoras, a erva-mate e a madeira, e a força de trabalho utilizada em ambas era, em sua maioria, assalariada, e isso fez com que parte da sociedade paranaense do período fosse calcada no trabalho das famílias de imigrantes em pequenas propriedades. Todavia, havia uma elite campeira oriunda da atividade pecuária desenvolvida nos Campos Gerais, e esse grupo era marcado, em fins do século XIX, por uma situação econômica e política difícil; primeiro, em razão da decadência da atividade criatória extensiva; segundo, por ser uma oligarquia periférica e sem poder de negociação nas decisões tomadas pelo poder central. Vejamos as apropriadas considerações de Luiz Carlos Ribeiro a esse respeito:
Este caráter conservador da aristocracia agrário-exportadora paranaense justificava-se pela sua vinculação a um capital fundamentalmente comercial, cujo desempenho, o de circular mercadorias, não acumulava os componentes necessários para determinar mudanças significativas nas relações de produção. Em outras palavras, apesar de o desenvolvimento capitalista proporcionar um certo volume de acumulação, ele se desenvolveu limitado pelo capital comercial que se internacionalizou em direção a essas áreas não industrializadas, não alterando nelas as suas forças produtivas. (...) Diante da necessidade de manter a propriedade, a sociedade campeira institucionalizou-se através de uma aristocracia que, com o desenvolvimento de uma economia de mercado externo – com o mate – e a persistência de áreas de subsistência, consolidou-se politicamente baseada na manutenção de seus interesses econômicos e sociais198.

A busca de uma nova condição econômica que não fosse apenas primário-exportadora, fez com que a burguesia paranaense lograsse elaborar não só um discurso, mas também uma série de medidas que modernizassem a economia do Estado (unidade federativa). Mais uma vez, recorremos a Luís Carlos Ribeiro:
A idéia de modernização da sociedade paranaense esteve presente no discurso de sua classe dirigente, pelo menos nos últimos cem anos de sua história. (...) O fato é que tal progresso não é simplesmente irreal, mas sim, uma visão parcial – de classe – sobre uma realidade que guarda uma multidiversidade de fatores. O

198

RIBEIRO, Luiz C. Op. cit. (Nota 22), p 68.

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que os autores desses projetos procuraram elaborar foi um discurso lógico que, por uma hegemonia de classe, se impusesse ao conjunto da sociedade como um discurso único, eliminando as contradições tanto em nível da relação com elites de outros Estados, quanto em nível interno, as contradições de classe 199.

Entretanto, se, no Rio Grande do Sul, o contraponto das bases programáticas do Partido Federalista Brasileiro, em sua orientação liberal parlamentar, foi o centralismo excessivo do poder nas mãos do Partido Republicano Rio-Grandense em seu intento positivista, no Paraná, o quadro político era diferente. As facções políticas paranaenses oriundas dos partidos imperiais passaram a se arvorar, após 15 de novembro de 1889, em republicanos, sendo que os antigos liberais lutavam pela mera manutenção da rotatividade política, e os antigos conservadores, sem um programa de governo consistente como o dos castilhistas, procuravam simplesmente estabelecer seu predomínio político. Foi o quadro de decadência econômica da aristocracia campeira paranaense que assinalou uma série de atitudes políticas suas ao final do século XIX, cujo ápice foi seu envolvimento na Revolução Federalista ao lado dos maragatos de Gumercindo Saraiva. No entanto, no Paraná, consolidado o domínio econômico, caberia à burguesia ervateira firmar-se no campo político frente aos senhores rurais dos Campos Gerais. Essa batalha, entretanto, foi mais encruada, como veremos a seguir. 3.3 A DINÂMICA POLÍTICO-PARTIDÁRIA DO PARANÁ NO SÉCULO XIX

Em 1811, as comarcas de Curitiba e Paranaguá foram instaladas, subordinadas ao sistema administrativo da capitania de São Paulo e, ainda nesse mesmo ano, um grupo de vereadores de Paranaguá demandou a emancipação política a Dom João, alegando morosidade administrativa, fisco desigual e falta de sensibilidade política por parte dos administradores paulistas, mas a iniciativa foi infrutífera.

199

RIBEIRO, Luiz C. O sonho do progresso. Tradição/Contradição. Curitiba: Museu de Arte Contemporânea do Paraná, 1986. p. 113.

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Em 1821, uma outra iniciativa emancipacionista, com as mesmas alegações, também fracassaria. Os “parnanguaras” (naturais de Paranaguá) eram os mais interessados em sair da tutela dos paulistas. Após a independência, durante o período regencial e parte do segundo reinado, várias revoltas espocaram pelo País, fazendo da Quinta Comarca de São Paulo um território perigosamente estratégico no cenário nacional. Duas delas, a Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul, entre 1835 e 1845, e a Liberal, em São Paulo, em 1842, fizeram com que o governo imperial temesse a união dos gaúchos com os paulistas em um intento separacionista, facilitado pela disposição geopolítica dessas Províncias em relação ao resto do País. É importante lembrar aqui que o líder liberal paulista Tobias de Aguiar foge para o Rio Grande do Sul após a derrocada da revolta paulista. Em função disso, o presidente da Província de São Paulo, barão de Monte Alegre, encarregou o tropeiro João da Silva Machado da missão de dissuadir os moradores da Quinta Comarca da junção dos dois movimentos, ainda mais que muitos senhores rurais dos Campos Gerais simpatizavam com as propostas dos liberais paulistas, e os tropeiros identificavam-se com a cultura gaúcha. A Província do Paraná surgiria, então, como uma espécie de “bastião” do poder central brasileiro, um anteparo que resguardaria a integridade territorial do País, cindindo uma eventual união entre farroupilhas e liberais. Concomitante a isso tudo, os Campos Gerais desenvolviam-se a olhos vistos. Além da atividade criatória a produção da erva-mate ganhava vulto com exportações, criando uma burguesia com interesses locais peculiares. As esperanças de emancipação finalmente se concretizaram no Parlamento em 20 de agosto de 1853, quando o projeto de Lei 704, que estabelecia a criação da Província do Paraná, obteve aprovação e determinou Curitiba como nova capital provisória, que mais tarde seria definitivada, e, em 19 de dezembro daquele mesmo ano, chegaria o primeiro presidente da nova Província, o político do Império Zacarias Góes de Vasconcelos. O Paraná não obteve uma seqüência administrativa e orgânica em sua fase como Província, e em trinta e seis anos de governo provincial, foram designados cinqüenta e três mandatários, escolhidos de acordo com o grupo político que estivesse no domínio do gabinete imperial.

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Dentro do período de existência da Província do Paraná, deve-se, segundo o historiador paranaense David Antônio Carneiro, levar em conta o advento da guerra do Paraguai como um “divisor de águas”:
Politicamente e para o sentido da evolução, pode dizer-se que os 36 anos de período provincial dividem-se em duas partes: uma que vai de 1853 até o começo da guerra do Paraguai, caracterizase por nomeações quase exclusivas de elementos estranhos à província. Os presidentes eram nomeados pelo Imperador e assim também os vice-presidentes, que eram vários e que eventualmente deviam governá-la. Outra fase é a que vai de 1870 a 1889, caracterizada pelo prevalecimento à testa dos negócios públicos provinciais de elementos nascidos na terra 200.

Entretanto, o primeiro paranaense a presidir a Província foi João José Pedrosa, apenas em 1882. Com relação à composição dos partidos Liberal e Conservador na Província do Paraná, faz-se necessária uma análise teórica mais ampla dos mesmos em termos nacionais. Para tanto, recorremos ao historiador mineiro José Murilo de Carvalho em seu trabalho A construção da ordem, na qual ele acaba analisando as várias correntes de explicação sobre as diferenças (e semelhanças) entre os partidos imperiais e, após uma análise acurada tanto dos teóricos como das origens dos membros partidários, ele infere:
Uma vez que tanto magistrados como profissionais liberais se vinculavam em proporções mais ou menos iguais à posse da terra, podemos deduzir, que o grosso do Partido Conservador se compunha de uma coalizão de burocratas e donos de terra, ao passo que o grosso do Partido Liberal se compunha de uma coalizão de profissionais liberais e de donos de terra. Este resultado é muito consistente com nossa tese sobre a duplicidade do liberalismo e esclarece também as dificuldades do processo de formação do Estado durante o Império201.

200

201

CARNEIRO, David A. História do período provincial do Paraná. Curitiba: Banestado, 1994. p. 11. CARVALHO, José M. A construção da ordem; a elite política imperial & Teatro de sombras; a política imperial (Edição reunida). Rio de Janeiro: Editora da UFRJ / Relume Dumará, 1996. p. 192.

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O Ato Adicional de 1834 fixou a criação das Assembléias legislativas provinciais e a extinção do Conselho de Estado. Entre o golpe da maioridade em 1841 e 1853 os conservadores e os liberais se alternaram no poder. Já entre setembro de 1853 e maio de 1857, foi formado um gabinete imperial de “conciliação”, no qual conservadores e liberais aliaram-se momentaneamente e foi durante esse gabinete conciliador, mas sob presidência saquarema, que a Quinta Comarca de São Paulo obteve anuência para sua emancipação provincial, em um esforço de suas elites locais. Nesse período, a Província do Paraná foi governada por três conservadores (Zacarias Góes de Vasconcelos – que mais tarde tornar-se-ia liberal progressista, Teófilo Ribeiro de Rezende e o padre Pires da Mota) e um liberal moderado (Beaurepaire Rohan) e, se administração de Zacarias caracterizou-se por esforços para o incremento econômico da incipiente Província, incentivando o cultivo da erva-mate, as demais administrações do período da conciliação foram marcadas pela preocupação com a instalação dos aparelhos burocráticos e policial na Província, o início da construção de uma estrada que ligasse o primeiro planalto ao litoral e pela confirmação de Curitiba como capital provincial. Após a fase da conciliação, os conservadores ficam no poder até maio de 1862 (com um breve período liberal, de Francisco Liberato de Matos), e esse período foi marcado pelo início das políticas públicas provinciais para o estímulo da imigração européia, com a formação das colônias de povoamento de Assungui e Superagui e da colônia militar do Jataí; além da criação de uma rede de navegação entre Paranaguá e Antonina, cujo porto começou a ser construído. Entre 1862 e 1868, verifica-se um período de domínio dos liberais progressistas. Em 1868, os conservadores subiram ao poder, destituindo o gabinete liberal de Zacarias Góes de Vasconcelos. Em termos regionais, pomos em destaque a administração do liberal André Pádua Fleury que procurou avançar a ocupação da Província para além dos Campos Gerais, enviando expedições exploradoras aos rios Paranapanema, Ivaí e Tibagi, além de propor a ocupação do sudoeste do Estado, por meio das colônias militares do Chapecó e do Chopim (próximo à atual cidade de Pato Branco).

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Os conservadores permaneceram no poder até janeiro de 1878, período marcado em termos nacionais por instabilidades econômicas. No Paraná, esse foi o período do auge do empenho do governo provincial em fundar novas colônias para abrigar imigrantes, complementado na gestão do liberal Adolfo Lamenha Lins. A vinda de colonos atendia assim ao problema, agravado pela evasão da mão-de-obra escrava, da escassez e carestia dos produtos agrícolas. Nas últimas décadas do século XIX, a construção de estradas de ferro e linhas telegráficas empregou colonos trazidos por sociedades de imigração. Nesse período e no início do século XX, estabeleceram-se no Paraná mais de quarenta núcleos coloniais, com mais de cem mil colonos assentados. Depois dessa década saquarema, os luzias permanecem sete anos à frente do poder: de julho de 1878 a julho de 1885, quando os conservadores voltaram ao poder pela sua última vez no Império, até junho de 1889. Nesse ínterim, pomos em destaque o período pelo qual Ildefonso Pereira Correia esteve à frente da presidência da Província. Todavia, o último gabinete do Império foi liberal, até a proclamação da República no dia 15 de novembro. Alguns historiadores paranaenses consideram que os partidos organizados na Província do Paraná eram meras divisões das classes dominantes202. Consideramos tais afirmações inapropriadas, por tentar identificar as frações autônomas de classe que cada agremiação representava, fundamento de nosso trabalho. No Paraná, o Partido Liberal organizou-se sob a batuta de Jesuíno Marcondes de Oliveira e Sá e Manuel Alves de Araújo, seu cunhado, membros das influentes oligarquias familiares do Barão dos Campos Gerais e do Barão de Tibagi. O Partido Liberal era, dessa forma, a organização por excelência do “poder privado” dos representantes do “Paraná Tradicional”. A identificação política dos liberais paranaenses com os seus congêneres rio-grandenses era tão
202

É o caso de Luís Fernando Lopes Pereira: “No Paraná deste período do final agonizante do Império, os liberais dominam a Assembléia Provincial e o presidente da província era conservador. Mas, à época, poucas diferenças existiam entre os ditos partidos da ordem. Aliás, em termos de Paraná falar em partidos políticos já era um grande exagero, pois os mesmos não passavam de agrupamentos de pessoas com interesses particulares, em geral orbitando a influência das grandes, tradicionais e poderosas famílias curitibanas que dominavam a cena política local.” PEREIRA, Luís F. L. Paranismo: o Paraná inventado; cultura e imaginário no Paraná da Primeira República. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1998. p. 22.

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clara que os conservadores chamavam-nos (de uma maneira um tanto hostil) de “farrapos”, e aqueles, por sua vez, respondiam a seus adversários com a alcunha de “cascudos”203. Sobre a adaptação da doutrina liberal à realidade brasileira, apelamos ao historiador gaúcho Newton Luis Garcia Carneiro:
O liberalismo político, a principal força econômica e ideológica do período, acomodou-se perfeitamente ao autoritarismo e exclusão promovidos pelo Estado oligárquico. As transformações econômicas modernizantes verificadas ao longo do período monárquico-não são acompanhadas de quaisquer mudanças de fundo na ordem social e no sistema político 204.

Já o Partido Conservador era liderado por Manuel Antônio Guimarães (Visconde de Nácar) e Manuel Francisco Correia Júnior (Senador do Império), pertencentes a famílias de comerciantes parnanguaras, envolvidos com a produção e comercialização da erva-mate. A preocupação desse agrupamento político era estabelecer sua supremacia econômica e livrar-se dos entraves jurídicos impostos pelos bacharéis dos Campos Gerais, que monopolizaram a atuação administrativa da Província do Paraná desde sua fundação:
Enquanto burguesia bacharelesca, os senhores dos Campos Gerais articularam os discursos jurídico-institucionais que deram os moldes às legislações locais. Portanto, eles podem ser considerados como os grandes responsáveis pela constituição formal dos aparelhos de estado brasileiros em nível regional. Da mesma forma, foi de sua responsabilidade a construção da poderosa máquina fiscal que atuava sobre a economia da erva-mate, e que durou até a década de 20 deste século (vinte). De posse da máquina legislativa e fiscal do estado, eles nunca concederam grandes es203

204

MARTINS, Wilson. A invenção do Paraná, estudo sobre a presidência Zacarias de Góes de Vasconcelos. Curitiba: Imprensa Oficial, 1999. p. 61. A doutrina liberal que viria mais tarde influenciar os revoltosos federalistas era tributária dos ditames filosóficos apregoados pelos iluministas em oposição ao Antigo Regime, na defesa dos princípios da liberdade política, da igualdade jurídica, do estado de direito fundado em um “contrato social” firmado entre governantes e governados, que, quando desrespeitado, dava, aos últimos, o direito de sublevação. Os liberais consideram a liberdade humana a base do direito natural, o qual tem como dever a defesa da vida humana, expressa na propriedade privada e consolidada no livre desenvolvimento do espírito e das faculdades do ser individual. In: CARNEIRO, Newton L. G. A identidade inacabada, o regionalismo político no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da PUCRS, 2000. p. 38.

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paços à burguesia do mate, mesmo quando, a partir do final do século XIX, esta detinha em suas mãos o domínio econômico da Província. Ainda no início da república, a burguesia industrial do mate viu-se obrigada a dividir o poder com os bacharéis dos Campos Gerais, herdeiros políticos dos antigos fazendeiros205.

A sociedade política que foi forjada no Estado desde a emancipação em 1853 permaneceu, com a República, configurada em dois grupos bem distintos a partir de suas atividades econômicas: a aristocracia campeira entre os antigos liberais e a burguesia industrial e comercial entre os antigos conservadores como foi atestado ao longo do trabalho, porém, para Luiz Carlos Ribeiro, as “aristocracias exclusivamente agrárias ou exclusivamente comerciais inexistiam no Paraná, estando umbilicalmente ligadas, donde as divergências eram mais de cunho pessoal, superficiais”206, contudo a história mostrou que esses antagonismos eram mais fortes do que aparentavam... Entretanto, a elite campeira e a burguesia urbana ervateira num ponto “fechavam” politicamente, no que se referia à completa rejeição do universo sociocultural das classes subalternas, cujos hábitos e costumes eram considerados “inferiores” ou “incivilizados”, haja vista a cruzada encetada pelas classes dominantes contra as danças populares (os “fandangos”), que praticamente deixaram de existir no Paraná. Desde o manifesto de 1870 ocorreram no Paraná manifestações esporádicas, e sem organicidade, de simpatia pela república. Mesmo depois da fundação dos jornais Livre Paraná, em Paranaguá, e A República, em Curitiba, e da criação de clubes republicanos nas duas cidades, o movimento não chegou a se aprofundar. Alguns paranaenses se destacaram na campanha republicana, mas fora da Província, como foi o caso de Ubaldino do Amaral207.

205 206 207

PEREIRA, Magnus R. M. Op. cit., p. 21. RIBEIRO, Luiz C. Op. cit. (Nota 22), p. 71. “Nasceu na Lapa em 1842. Bacharel em Direito por São Paulo em 1867. Advogou em Sorocaba e no Rio de Janeiro. Republicano histórico e abolicionista. Presente na Convenção de Itu em 1873. Senador Constituinte republicano pelo Paraná. Ministro do Supremo Tribunal Federal. Diretor do Banco da República. Presidente da Intendência Municipal (prefeito) do Rio de Janeiro. Presidente do Banco do Brasil. Jurisconsulto internacional, membro do Tribunal de Haia. Escritor. Livre pensador. Faleceu em 1920.” OLIVEIRA, Ricardo C. O silêncio dos vencedores; genealogia, classe dominante e estado no Paraná. Curitiba: Moinho do Verbo, 2001. p. 262-263.

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O Partido Republicano não existiu, na prática, na Província do Paraná, pois seus correligionários não conseguiram eleger nenhum deputado na Assembléia Provincial nas eleições de 1887 e acabaram contando apenas com Vicente Machado da Silva Lima, e que foi figura de projeção nos primeiros anos do novo regime. Quando do movimento de 15 de novembro, o quadro políticoadministrativo do Paraná seguia os mesmos ditames do período imperial, isto é, as parcelas locais dos partidos que estivessem à frente do gabinete imperial revezavam-se no poder de maneira encadeada. A queda do último gabinete conservador (de João Alfredo) e a formação do gabinete liberal de Ouro Preto assinalaram a subida de Jesuíno Marcondes à presidência da Província do Paraná; ele já havia exercido a mesma anteriormente por quatro vezes, mas na condição de vice-presidente. Esta gestão de Jesuíno Marcondes foi marcada por instabilidades econômicas, mas sem maiores implicações políticas, tanto que o novo regime foi recebido em Curitiba sem alvoroços, como se fosse fruto de mais uma troca de gabinete. Os liberais paranaenses, apeados do poder, demoraram um pouco para se sintonizarem com novo estado de coisas. Mas os conservadores, mais oportunistas, aderiram em bloco à nova ordem republicana. Dessa forma, a República foi implantada no Paraná mais pela ausência de ação e conformismo, tanto dos liberais como dos conservadores, do que pela efetiva atuação dos republicanos locais. Uma vez instaurado o governo da “coisa pública” no Rio de Janeiro, Jesuíno Marcondes achou melhor transmitir o cargo ao comandante da Brigada Militar, coronel Francisco José Cardoso Júnior. Os primeiros anos da República no Paraná foram conturbados e com uma alternância exagerada de governantes. Por outro lado, as duas vertentes políticas herdeiras do jogo imperial permaneceram bem demarcadas; os republicanos e os conservadores aglutinaram-se em torno de Vicente Machado e fundaram o “Partido Republicano Federal”, e os liberais, em torno de Generoso Marques dos Santos (herdeiro político de Jesuíno Marcondes) e organizaram a “União Republicana do Paraná”. Após o conturbado período dos governos provisórios, os liberais acabaram vencendo, com a candidatura de Generoso Marques, a primeira eleição indireta para o cargo de presidente do Estado em abril de 1891, pleito esse marcado pelas habilidosas articulações de Emygdio Westphalen para que o candidato dos antigos liberais chegasse ao poder. Os

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velhos hábitos de intimidação política ainda funcionavam... Todavia, Generoso Marques só governaria o Estado do Paraná até novembro, por causa do apoio ao malfadado golpe do marechal Deodoro, que foi substituído por elementos ligados a Vicente Machado, segundo Romário Martins:
Constitui-se, então, uma Junta Governativa, da qual participaram o coronel Roberto Ferreira, comandante da Guarnição Federal, dr. Bento José Lamenha Lins e coronel Joaquim Monteiro de Carvalho e Silva. Esse governo realizou novas eleições e instalou, a 25 de fevereiro de 1892, a Assembléia Legislativa, com amplos poderes para rever ou substituir a Constituição promulgada a 14 de julho (1891). Para esses fins baixara a Junta Governativa o Regulamento Eleitoral de 16 de dezembro de 1891 e determinara o dia 25 de janeiro para as eleições208.

Achamos importante tecer alguns esclarecimentos sobre a intermitência dos tratamentos para os primeiros mandatários do Estado do Paraná. Durante o período imperial, os governantes da Província do Paraná, assim como das demais do país, eram chamados de “presidentes”. Já na República, o governo provisório estabeleceu a designação “governador”, todavia, a Constituição do Estado de 1891 restaurou o título de presidente. A Constituição estadual do ano seguinte optou por governador, que durou até 1904, quando o tratamento presidente voltou a vigorar até o movimento revolucionário de 1930. O impasse cessou com a Constituição Federal de 1934 que definiu o tratamento de governador para todos os governantes dos Estados da Federação, o que vigora até hoje. A deposição de Generoso Marques marca o início do ostracismo político dos antigos membros do Partido Liberal, cujas conseqüências serão sentidas durante a Revolução Federalista. A nova Constituição do Estado do Paraná entrou em vigor em 07 abril de 1892, quando Francisco Xavier da Silva foi eleito governador com Vicente Machado como vice; esse último governava interinamente o Estado do Paraná (Xavier da Silva estava oportunamente afastado por motivos de saúde) quando da invasão dos maragatos de Gumercindo Saraiva.

208

MARTINS, Romário. Op. cit., p. 433.

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A subida de Xavier da Silva e Vicente Machado é, sem embargo, o momento histórico do início do predomínio político dos setores representantes da burguesia ervateira sobre a aristocracia campeira na condução da máquina administrativa do Estado do Paraná. Outrossim, a Revolução Federalista acabou abrindo a “caixa de Pandora” da política do três Estados do Sul do Brasil; nos rendemos, nesse ponto, às considerações de Ricardo Costa de Oliveira:
O mais grave e violento conflito entre as diferentes frações da classe dominante do sul do Brasil foi seguramente a Revolução Federalista de 1893–1894. Suas causas estão vinculadas à implantação do sistema político-partidário republicano no sul do Brasil. A sobrevida relativa dos quadros do antigo Partido Liberal nos Estados sulinos provocou um choque com o regime unipartidário da República. O confronto deveu-se às dificuldades dos antigos liberais em se integrarem no novo sistema político republicano. Em termos gerais, os liberais que se tornaram a força política mais importante e hegemônica no sul com o desmantelamento do antigo Partido Conservador, passam com a República a nova denominação de federalistas209.

Entre 1893 e 1895, o espectro social dos combatentes dos dois lados da revolta era enorme, tanto no Rio Grande do Sul como no Paraná, e o liame simbólico que atava os federalistas, por exemplo, era a luta contra a “usurpação” do poder pelos grupos republicanos nacionais ou regionais. O engajamento de setores da sociedade paranaense nos dois lados contendores fizera do Paraná (um Estado que aparentemente não possuía vínculos mais profundos com as refregas políticas que estavam acontecendo no Rio Grande do Sul) o fulcro da luta armada, transformando-o no lugar onde se deram alguns dos combates mais importantes e em cenário das batalhas mais decisivas da sublevação federalista, pois, dele, os maragatos no pasarán210.

209 210

OLIVEIRA, Ricardo C. Op. cit., p. 171-172. Inspiramo-nos aqui na conhecida palavra de ordem usada durante a Guerra Civil Espanhola (1936–1939), lançada por Isidora Dolores Ibárruri Gómez (1895–1989), cognominada “La Pasionaria”, símbolo da resistência republicana contra os falangistas, adeptos de Francisco Franco e apropriadamente referida pela professora Odah R. G. Costa em seu texto 1893–1894 Paraná: dele, não passaram!.In: ALVES, Francisco das N.;

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3.4

AS REPRESENTAÇÕES NO DISCURSO POLÍTICO DA IMPRENSA PARANAENSE

O contato cultural entre paranaenses dos Campos Gerais e gaúchos sempre foi intenso em razão do comércio das tropas, e, durante os primeiros anos da República, a identificação daqueles para com esses acabou refletindo politicamente na aceitação e defesa dos ideais parlamentaristas gasparistas por parte de membros da aristocracia agrária do “Paraná Tradicional”, antigos membros do Partido Liberal. Nossa apresentação das fontes primárias dar-se-á de maneira cronológica, com o intento de demonstrar que, à medida que a luta armada eclodia no Rio Grande do Sul, a imprensa governista paranaense utilizava a mesma com o escopo de detratar os oposicionistas locais. Ao passarmos, a seguir, à análise dos periódicos de época, concordamos com a historiadora Helenice Rodrigues da Silva, de que uma “realidade” reconstruída em um trabalho historiográfico por meio de fontes escritas não passa de uma representação211 e, nesse ponto, nos entregamos às suas considerações de ordem teórica:
Quanto à prática histórica, convém lembrar que, há tempos, o historiador aprendeu a não confiar no realismo documentário, que tendia a apresentar o “texto” e/ou documento (rastro de um acontecimento) como a “reprodução fiel da realidade”. Na verdade, o “texto” não é outra coisa senão a representação do real. Com efeito, a reconstituição da realidade não passa de uma inferência, de uma dedução: ela é fruto de uma construção subjetiva; em outras palavras, ela reflete o ponto de vista daquele que a relata212.

Vistas essas considerações, adotaremos, de forma complementar, o conceito de “representação” proposto pelo historiador paulista Orivaldo Leme Biagi, ou seja:
TORRES, Luiz H. (Orgs.). Pensar a Revolução Federalista. Rio Grande: Editora da FURG, 1993. p. 163-171. SILVA, Helenice R. da. A história como ‘a representação do passado’: a nova abordagem da historiografia francesa. In: CARDOSO, Ciro F.; MALERBA, Jurandir (Orgs.). Representações: contribuição a um debate transdisciplinar. Campinas: Papirus, 2000. p. 83. SILVA, Helenice R. da. Op. cit., p. 83-84.

211

212

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Entendemos por representação como alguma coisa que se encontra no lugar de outra coisa, ser o “outro do outro”, simultaneamente evocado e cancelado pela representação. O que representa, o que está no lugar de outra coisa, é o signo, ou seja, o elemento que possui um referencial ao qual ele se reporta. Em outras palavras, podemos dizer que a representação é a maneira subjetiva da manifestação do imaginário – é o tecido pelo qual o imaginário se manifesta através de uma linguagem, seja ela qual for. E, na constituição da linguagem, não podemos desprezar a sua forma213.

Buscaremos doravante recuperar, nos discursos que os dois grupos políticos em questão usaram, por meio da imprensa, as representações construídas, ora a favor de um lado, ora de outro; e, como tais imagens foram utilizadas para atacar supostos inimigos ou elogiar supostos aliados, como louvaram atos de bravura de um lado ou covardias de outro; etc. Em suma, nosso trabalho vai tentar resgatar a maneira como a imprensa paranaense construiu seu discurso sobre a situação política no Estado e sobre a Revolução Federalista de acordo com seus interesses imediatos e como o campo simbólico foi trabalhado pela mesma. Nesse sentido, não pretendemos explorar as fontes como um objeto empírico encerrado em si mesmo, mas, como uma espécie de “via de acesso”, isto é, utilizamos as mesmas como uma forma de abordar o entendimento da sociedade na qual ela estava inserida. Dessa forma, os jornais são uma maneira de percepção das práticas e estratégias da vivência social dos vários grupos, no espaço político, como foi atestado por Orivaldo Biagi:
Partimos do suposto mais geral que a imprensa (e as assim chamadas mídias) procura, de uma maneira quase inconsciente, criar uma imagem que aponte para uma ordem, uma organização nos elementos que constituem o real da sociedade. Tais elementos estão impregnados, na maioria das vezes, de paixão, de componentes irracionais que coabitam com a razão. Neste sentido, a mídia manipula o real, mas também é manipulada por ele, na re-

213

Apud: BIAGI, Orivaldo L. O imaginário e as guerras da imprensa – estudo das coberturas realizadas pela imprensa brasileira da Guerra da Coréia (1950–1953) e da Guerra do Vietnã na sua chamada “fase americana” (1964–1973). Campinas: Departamento de História da UNICAMP, tese de doutorado, 2001. p. 7.

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lação entre o real e as representações, entre o real e o imaginário social – relação esta que, em síntese, é instituinte da História 214.

Assim, é preciso que os grupos em disputa se apoderem não só do poder político institucionalizado, mas também do poder simbólico da política, por meio das representações. A política tem, como afirma José Murilo de Carvalho, que atingir o coração das pessoas215, ou ainda, é por meio do controle do imaginário que a sociedade responde as perguntas que ela mesma criou 216. O controle do imaginário é, nas sociedades contemporâneas, um dos requisitos fundamentais para a tomada e, principalmente, manutenção do poder, nas quais o discurso jornalístico passa a ser fundamental na construção das representações em jogo na disputa política, como mostra Roger Chartier:
As percepções do social não são de forma alguma discursos neutros: produzem estratégias e práticas (sociais, escolares, políticas) que tendem a impor uma autoridade à custa de outros, por elas menosprezados, a legitimar um projeto reformador ou a justificar, para os próprios indivíduos, as suas escolhas e condutas. Por isso esta investigação sobre as representações supõe-nas como estando sempre colocadas num campo de concorrências e de competições cujos desafios se enunciam em termos de poder e dominação217.

E, para procedermos à análise dos discursos dos jornais em foco, devemos, segundo as lingüistas Leonor Lopes Fávero e Ingedore Villaça Koch, fazer a distinção entre os conceitos “texto” e “discurso”:
O termo texto pode ser tomado em duas acepções: texto, em sentido lato, designa toda e qualquer manifestação da capacidade textual do ser humano, (quer se trate de um poema, quer de uma música, uma pintura, um filme, uma escultura etc.), isto é, qualquer tipo
214 215

216

217

BIAGI, Orivaldo L. Op. cit., p. 1. “É por meio do imaginário que se podem atingir não só a cabeça, mas, de modo especial, o coração, isto é, as aspirações, os medos e as esperanças de um povo. É nele que as sociedades definem suas identidades e objetivos, definem seus inimigos, organizam seu passado, presente e futuro.” CARVALHO, José M. A formação das almas; o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia da Letras, 1990. p. 10. CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 1982. p. 177. CHARTIER, Roger. A história cultural – entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Difel, 1990. p. 17.

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de comunicação realizado através de um sistema de signos. Em se tratando da linguagem verbal, temos o discurso, atividade comunicativa de um falante, numa situação de comunicação dada, englobando o conjunto de enunciados produzidos pelo locutor (ou por este e seu interlocutor, no caso do diálogo) e o evento de sua enunciação. O discurso é manifestado, lingüisticamente, por meio de textos (em sentido estrito). Neste sentido, o texto consiste em qualquer passagem, falada ou escrita, que forma um todo significativo, independente de sua extensão. Trata-se, pois, de uma unidade de sentido, de um contínuo comunicativo contextual que se caracteriza por um conjunto de relações responsáveis pela tessitura do texto – os critérios ou padrões de textual idade, entre os quais merecem destaque especial a coesão e a coerência218.

Dessa feita, para entendermos um texto como uma totalidade dotada de coerência, precisamos detectar não apenas as relações de coesão, pois, para Leonor Lopes Fávero, “a coesão é decorrência, e a concatenação linear não é garantia de um texto coerente, e é preciso que o leitor desenvolva habilidades que lhe permitam detectar as marcas que levarão às intenções do texto” 219. Após essas breves considerações de ordem teórica, as quais nos servirão para o embasamento de nossa análise, acreditamos importante ressaltar os porquês da escolha de nossa pesquisa empírica. Infelizmente não obtivemos exemplares do periódico oposicionista A Federação para levantamento (sem nenhum vínculo com seu homônimo gaúcho, pelo contrário), “Órgão da União Republicana”, talvez isso tenha ocorrido em razão da severa repressão que se sucedeu com os paranaenses simpatizantes dos revolucionários gaúchos após a derrota da Revolução Federalista no Paraná e do apagamento de sua memória política. Encontramos apenas referências desse jornal no Almanaque Paranaense, o qual utilizaremos de forma complementar. Com relação ao periódico governista A República, contamos com exemplares conservados em forma de microfilmes na Seção Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná. Tal jornal era, à época pesquisada, de propriedade de Torquato José Gonçalves e se denominava “Órgão do Partido Republicano”, tendo sido fundado em

218

219

FÁVERO, Leonor L.; KOCH, Ingedore G. V. Lingüística textual: introdução. São Paulo: Cortez, 2000. p. 25. FÁVERO, Leonor L. Coesão e coerência textuais. São Paulo: Ática, 1993. p. 69.

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1886, por iniciativa de Eduardo Mendes Gonçalves 220. Passaremos assim, a analisar editoriais desse periódico como nossa fonte primária principal. No editorial intitulado Liberais e Conservadores, de 05 de janeiro de 1893, assinado pelo deputado estadual Leôncio Correia (1865–1950), depois deputado federal e posteriormente diretorgeral da Instrução Pública da Imprensa Oficial no Rio de Janeiro, percebe-se que a situação política já indicava acirramento de ânimos no Paraná antes mesmo do início “oficial” da Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, a qual se deu um mês mais tarde.
Se é possível a existência de um vivo amarrado a um morto, se é possível que os destinos políticos de uma nação sejam regidos pelo silêncio dos túmulos, os liberais existem, os conservadores vivem. (...) Infelizmente, porém, há os que têm por ela a mais profunda indiferença, fazendo-a somente de ponte sobre a qual devem transitar as suas ambições irrequietas, os seus caprichos pessoais. (...) o que se deu neste Estado após a proclamação da República, mas depois de quebrada a promessa conciliatória, foi uma cisão natural entre homens que queriam a República pelo poder e homens que queriam a República pela República. (...) O partido que hoje se acha à frente dos destinos paranaenses apoia-se na imensa maioria formada de quase totalidade dos republicanos históricos, de uma brilhante e numerosa legião do antigo Partido Liberal e do concurso quase unânime do ex-partido conservador. Esses elementos são indispensáveis a um partido que quer governar, em período da opinião esclarecida, e que sabe confundir a todos, corporificando num só, que tem como lema sagrado: – Tudo pela Pátria! Tudo pela República!221

O discurso aqui apresentado pretende que o público leitor perceba e compartilhe da opinião negativa que os governistas tinham dos liberais. Para tanto, os opositores são chamados “mortos”, os governistas “vivos”; os opositores são comparados a túmulos que (meramente) existem, enquanto os governistas atuam. Aos liberais é atribuída uma ação política irresponsável e imatura (... “ambições irrequietas”, “caprichos pessoais” e “quebra de promessa concilia220

221

WESTPHALEN, Cecília M. República no Paraná. In: SOARES, Luis R. N. (Org.). Dicionário histórico-biográfico do Estado do Paraná. Curitiba: Chain – Banestado, 1991. p. 402. A República. Curitiba, 05.01.1893.

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tória”), ao passo que os governistas são referendados como a “imensa maioria”, “quase totalidade”, “brilhante e numerosa legião” e “opinião esclarecida”. Tais argumentos são bastante apelativos na tentativa de conquistar o leitor para o lado governista e contra os liberais. Esse tipo de prática é usada pelos homens desde as primeiras manifestações de retórica na história, notadamente nas civilizações clássicas. Cinco dias mais tarde, pela primeira vez apareceria o Rio Grande do Sul como chamada de editorial:
RIO GRANDE DO SUL – Tudo pela liberdade! Morte ao exército! Volta da Monarquia! Tal é a legenda com que os inimigos da Pátria, entrincheirados em paz no estrangeiro, querem dar ao grito de guerra! E nesta obra de destruição contam, dizem os emigrados, com elementos em Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Quais são esses elementos? É o que em breve os desdobramentos dos fatos, dos quais talvez dependa a sorte da República, nos há de dizer. Não se iludam, porém, os que julgam que, com a simples notícia da invasão dos monarquistas no solo sagrado da Pátria brasileira, está alcançando triunfo. Não julguem que a simples passagem de suas tropas cintilará o astro da vitória e será aniquilada essa República magnânima, tolerante, benévola, que se faz entre aplausos, e que está amparada pela flor das classes conservadoras, pelos impulsos de todas as consciências honestamente patrióticas e pelos braços generosos da mocidade de hoje!222

O texto acima citado refere-se aos gaúchos através de referentes223 exofóricos224 de caráter negativo (“inimigos da Pátria”, “obra de destruição”, “esses elementos”, “invasão dos monarquistas”). A condição exofórica presente nesse discurso parece-nos ter a função de reforçar o desprezo nutrido pelos revolucionários riograndenses. Os mesmos nem sequer são citados explicitamente, como se nem isso merecessem.
222 223

224

A República. Curitiba, 10.01.1893. “Na semiologia, ‘referente’ é aquilo que o signo designa; contexto. Tradicionalmente, aplica-se o conceito de referente com relação aos objetos do mundo real a que as palavras das línguas naturais se referem.” CD-ROM Dicionário Aurélio Eletrônico. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994. “A referência é exofórica quando a remissão é feita a algum elemento da situação comunicativa, isto é, quando o referente está fora do texto.” KOCH, Ingedore G. V. A coesão textual. São Paulo: Contexto, 1991. p. 20.

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Por outro lado, assim como o editorial impele o público leitor a construir uma imagem repudiável aos rio-grandenses, também convoca o mesmo público leitor (“não se iludam”, “não julguem”) a compartilhar e, por que não, defender o “solo sagrado da Pátria brasileira”, o “astro da vitória”, “República magnânima”, “tolerável”, “benévola“ etc. As alternâncias das publicações sobre a situação política nacional com a regional são freqüentes; no dia 20 de janeiro de 1893, figurava na primeira página de A República um editorial enaltecedor da situação política no Estado (em detrimento da oposição):
Se há alguma coisa que indique claramente a situação atual da política paranaense, é, com certeza, a calma serenidade do governo e o grito desesperado da oposição. Até hoje não apontou ainda a oposição um só ato que possa desdourar o governo do honrado e ilustre paranaense Dr. Francisco Xavier da Silva. Sem uma elaboração de crítica e de análise, sem um critério seguro, sem revelação de superioridade moral, a oposição se tem limitado a descompor e faz da descompostura a sua única arma. Isto nada mais é do que a nostalgia do poder, que lhe sorri através de planos deliciosos...225

O texto acima apresentado, em contraste com outros anteriormente citados, é explícito quanto à caracterização da imagem da oposição. O interlocutor, já inicialmente e de maneira assertiva, conduz o leitor a perceber como a política paranaense está em uma situação “claramente e com certeza” de “calma serenidade”, devido a um “governo honrado”. Por outro lado, a oposição é sobejamente desqualificada. Para tanto, o interlocutor coloca em contraste a propalada “serenidade” já citada com o “grito desesperado”; também quando afirma que “se há alguma coisa que indique claramente a situação atual da política paranaense” em contraste com “até hoje não apontou ainda a oposição um só ato...”. E para tornar mais forte e evidente esta situação, o interlocutor faz uso da representação negativa de “sem” repetidas vezes, o que ajuda a caracterizar a ausência de estrutura política da oposição. Uma semana mais tarde, às vésperas da invasão das tropas federalistas ao Rio Grande do Sul, Leôncio Correia redigia uma

225

A República. Curitiba, 20.01.1893.

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verdadeira elegia aos republicanos castilhistas (membros do Partido Republicano Rio-Grandense – PRR):
A pouco e pouco, esforçadamente, patrioticamente, o glorioso partido republicano rio-grandense vai dissipando dos horizontes pátrios as nuvens sinistras, prenhes das ameaças restauradoras. A confiança renasce, a tranqüilidade volta, a vida normal se acentua, ao mesmo tempo que o desânimo aniquila os emigrados, que há poucos formados em linha contra a República. (....) Como uma muralha de bronzeou como uma estátua de ouro hão de se levantar os heróis da propaganda honesta da doutrinação leal na terra legendária de Bento Gonçalves, hão de se levantar os que fizeram da bandeira estrelada da República a inspiradora suave de todos os atos de sua consciência, há de se ouvir, como um canto imortal de alegria, o grito imenso e sublime da mocidade para celebrar o triunfo eterno do Brasil Republicano. 226

Já no texto acima, percebe-se como o interlocutor tenta conquistar a simpatia do leitor para com os republicanos. O mesmo descreve a situação atual num crescendo, tanto para calmaria (“pouco a pouco”, “vai dissipando” etc.), como para a grande parte dos membros do PRR, que são comparados a “muralha de bronze”, “estátua de ouro”, “heróis”. Observa-se também a confiança nas ações vindouras, “hão de se levantar”, “há de se ouvir”. Toda essa seqüência vai ter como ápice o “triunfo eterno do Brasil Republicano”. Essa linha de exaltação ao PRR segue principalmente quando da iminência da invasão dos federalistas ao Estado gaúcho, o que reflete identificação e articulação política entre os republicanos do Paraná e do Rio Grande do Sul e, deles, com o Governo Federal:
A República brasileira não pode se subtrair, de modo algum, à lei natural que rege os destinos dos povos obrigando-os a acompanhar a marcha ascensional da humanidade no seu incessante caminhar pela estrada luminosa e ampla da civilização. (...) Não é ainda decorrido muito tempo que alguns indivíduos, perversos e maus, tentaram assaltar o poder no Estado do Rio de Janeiro. A atitude assumida pelo Governo Federal, correta e louvável, obrigou-os a fugir indigna e covardemente do teatro dos acontecimentos. O rico e futuroso (sic) Estado do Rio Grande do Sul, há muito já é presa das arruaças e das perturbações da ordem, por
226

A República. Curitiba, 27.01.1893.

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parte dos especuladores, que por ambição uns, outros por ódios, por falta de patriotismo todos, têm levado ao seio da população a ameaça e o terror, e algumas vezes o luto, a desolação, e a morte. Em breve pois, estará assegurada a paz pública, e firme o governo dos republicanos. E nem é de esperar outra atitude dos descendentes dos “gaúchos” heróis de 35, cujos feitos imortais são outros tantos padrões de glória para os filhos daquela terra227.

Novamente nesse trecho, percebe-se a exaltação do governo versus a execração dos separatistas. A República brasileira aqui é duplamente enaltecida, quando fez fugir os indivíduos “perversos e maus” (os marujos da Armada) e no estabelecimento da paz pública contra os “especuladores que causam terror, luto, desolação e morte”. Observa-se também uma certa admiração pelos farroupilhas “heróis de 35”, os quais são comparados a deuses pelos seus “atos imortais” como “padrões de glória”.
Lancemos o olhar para a terra legendária da geração de 35. Se algo nos pode turvar a vista, é com certeza a lágrima, oriunda da mágoa, a mais sincera, derivada da dor, a mais profunda, filha da angústia, a mais aflitiva. É horrível, em verdade, ver, com os olhos da alma, aquele belo e límpido céu sinistramente listrado de línguas de fogo, ver aquele sol esplêndido e fulgurante empanado pelos novelos de fumo, ver aqueles pampas formosos, onde o gaúcho rio-grandense desafia todas as cóleras da natureza, juncados de cadáveres de irmãos! E por quê? Pela ambição desmedida de um Júpiter tonante que não tem tido a nobreza de se resignar à posição de vencido228.

É bom lembrar que os dois lados contendores se arvoravam em herdeiros políticos dos farroupilhas de 1835 e que o lexema “gaúcho” ainda não tinha sido generalizado como adjetivo gentílico dos naturais do Estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Tal admiração é agora associada à solidariedade dos governistas paranaenses para com os republicanos, em que aqueles choram o infortúnio destes por terem seus pampas “juncados de cadáveres”, provenientes de uma guerra regida, de um lado, por um deus (Júpiter – referência a Gaspar Silveira Martins) impiedoso, sinistro e inconformado e, para contrapor, Júlio de Castilhos, no editorial de três de março,

227 228

A República. Curitiba, 05.02.1893. A República. Curitiba, 01.03.1893.

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era chamado de “intemerato republicano e eminente cidadão presidente do Rio Grande do Sul”. A importância geopolítica do Paraná, em relação ao resto do Brasil, (único Estado da federação que separa totalmente a região sul do resto do País), já se fazia notar no cenário da invasão dos federalistas ao Rio Grande do Sul. Em uma carta do vice-presidente em exercício, Marechal Floriano, em fins de fevereiro de 1893, dirigida ao general Pego Jr. em Curitiba, o mesmo afirma ter “total consciência do estado atual da situação e que se torna necessário o patriotismo dos bons brasileiros contra os ‘bandidos invasores’ e que, para tanto, é necessário, decisivo e preciso um companheiro inteligente, prático, bravo e conhecedor desse Estado”. Portanto, Floriano informava que o General Telles (vindo da sede da República, no Rio de Janeiro) seguia em auxílio, no intuito de tomar medidas prontas e enérgicas, solicitando todo o apoio para fornecer “elementos para castigo aos rebeldes que transporão a guerra ao solo da pátria com a bandeira da restauração monárquica” e, por fim, conclama os soldados a resistirem até “os últimos cartuchos”229. O fomento à defesa da Pátria, no Paraná, não estava vinculado apenas às armas, mas também, à imprensa, onde figuravam as mais ácidas acusações do governo paranaense para com aqueles que defendessem os revolucionários gaúchos, como vemos nessa passagem:
Os que aplaudem a conduta sinuosa dos invasores que se declarem francamente pela monarquia. Isto é nobre. Ou esperam a vitória dos celerados para aderirem com a facilidade com que aderiram à ditadura? É sina da oposição do Paraná aderir a tudo quanto traduza a humilhação e o aviltamento da Pátria? Ah! Parece que o poder produz vertigens fatais! (...) É chegada a hora de se definirem as posições. Vamos! A linha divisória está traçada. Cada qual em seu posto: pela República ou pela Monarquia! Todos os bons brasileiros devem fazer sua a seguinte brilhante profissão de fé de “O País”, essa legenda de civismo, essa barricada perpetuamente alerta na praça pública para defender os interesses da Pátria e da lei contra os perturbadores da ordem e os inimi-

229

Documentos do Arquivo Histórico do Exército (Casa da Memória de Curitiba), 28.02.1893.

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gos das instituições. O senhor Silveira Martins é uma ameaça e o marechal Floriano é uma garantia230.

Esse trecho qualifica a oposição paranaense em forma de igualdade com os revolucionários, isto é, como “perturbadores da ordem e os inimigos das instituições”. Devido à importância da situação, em meados de março de 1893, o jornal A República passa a publicar uma seção intitulada “Rio Grande”, para dar conta dos eventos e para atacar não só os revolucionários, mas também os defensores locais destes.
No intuito de pôr os leitores de A República ao fato das ocorrências que vão dando no glorioso Estado rio-grandense, abrimos espaço à seção cujo título encima essas linhas. (...) É vergonhoso o procedimento dessa horda de hunos que renegaram a Pátria e foram rebuscar estrangeiros para estenderem sobre aquela parte do solo brasileiro o leito e a miséria. Mais vergonhoso é ainda a existência de patrícios nossos que aplaudem semelhantes bandidos! Felizmente os Judas hão de se convencer muito breve desta verdade inconclusa: pelo caminho que seguem, os inimigos das instituições vigentes, não hão de ir muito longe, a verdade mostrará que quando quiserem retroceder, será tarde; o Paraná conhece-os de longa data e uma regeneração qualquer, embora tardia, mesmo assim os deixará de tal maneira incompatibilizados com o povo, que dele receberão quando muito um tiro de misericórdia! 231

Percebe-se aqui, também que tanto os revolucionários quanto a oposição são expostos através de seus atos bárbaros, os quais os remetem aos “hunos”, a “bandidos” e a “Judas”.
De um lance de olhos se vê o que é e o que vale esta oposição. Em todos os seus movimentos se apercebe uma coisa: a sede do poder. Há mais de ano que governa o Estado do Paraná o Partido Republicano, e que tem acompanhado a vida da imprensa oposicionista e as diatribes com que se exibe, terá sem grande esforço feito seguro juízo. Fez-se uma reforma constitucional e a oposição sobre ela não articulou um conceito; foram feitas todas as leis de organização política do Estado e ainda a mesma oposição se limita a apelidar o Congresso de “munhecas”, foi elaborado e pôs-se

230 231

A República. Curitiba, 08.03.1893. A República. Curitiba, 21.03.1893.

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em execução um orçamento e os mesmos homens que durante um ano e tanto de governo não tiveram capacidade para organizar um plano financeiro e muito menos coragem para arcar com a responsabilidade do fato, não puderam sequer explorá-lo perante a opinião que desejam convulsionar. Longe iríamos se quiséssemos pôr em evidência a vida inglória dessa oposição232.

A partir de então, os governistas aproveitam para atacar a oposição de todas as formas. Até agora o ataque era principalmente pelo apoio dessa, aos revolucionários; nesse trecho, averigüa-se o niilismo que o interlocutor atribui às atitudes da oposição, a qual “não articulou um conceito”, limitou-se a “apelidar”, “não foram capazes de organizar”, “não tiveram coragem para arcar” etc. Outrossim, a cena política gaúcha servia de fundamento pela prensa de A República para depreciar os oposicionistas locais.
Agora, que uma alegria nebulosa parece invadir a alma dos oposicionistas (paranaenses) à situação atual, examinemos com calma e com patriotismo os intuitos que movem a invasão riograndense, que tão fundamente tem perturbado a marcha do governo republicano. O que querem os federalistas do Rio Grande? Restauração? Unitarismo? Separação? Vindita? Destas quatro aspirações dos revolucionários, que ainda não definiram claramente o seu ideal político, qual a nobre, qual a patriótica, qual a digna? (...) Nos tempos do Império do Brasil ninguém se bateu mais em nome da opinião, para a vitória da qual apelava a todos os momentos, do que o senhor Gaspar Silveira Martins. (...) É por efeito desse fenômeno singular que o tribuno rio-grandense, que, aliás, podia estar prestando ao País os inestimáveis serviços do seu esclarecido talento, está, pelo contrário, sendo o chefe de uma nova e monstruosa inquisição que tudo sacrifica e imola: a honra das donzelas, a fortuna honrada dos particulares, a generosidade de seu Estado e a dignidade de sua Pátria! 233

Observa-se aqui um questionamento aos oposicionistas paranaenses sobre qual a razão da alegria e apoio aos revolucionários, uma vez que estes não têm um ideal político definido, nem aspirações nobres, patrióticas, dignas e nem tampouco um chefe honrado.

232 233

A República. Curitiba, 25.03.1893. A República. Curitiba, 05.04.1893.

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No início do mês de maio de 1893, enquanto os combatentes se enfrentavam na localidade gaúcha de Inhanduí e quando tudo levava a crer que a luta ficaria restrita ao Estado do Rio Grande do Sul, os editoriais de A República continuariam na sua luta (no terreno das letras) contra a oposição paranaense, usando um presumido apoio dessa à Revolução Federalista como argumentação para tal ataque.
Não deixa de ter certo interesse e certa graça o modo por que a oposição do país “presta seu apoio” à causa da revolução riograndense. Pela do Paraná, podemos estender o nosso juízo às outras e por isso assinalemos um fato muito do conhecimento de nossa imprensa e de todo o Estado. Transmitido daqui para o Rio, logo em começo da Revolução, um telegrama em que se declarava que “a oposição do Paraná obedecia à sanha do sr. dr. Gaspar Martins”. (...) E isso pela razão muito simples que as simpatias que demonstram pela causa revolucionária não significam outra coisa que o prazer que lhe causam as dificuldades que surgem para a república, pela ameaça ao governo e pelas esperanças e pelos sonhos que engendram a ilusória expectativas do auxílio às suas trêfegas ambições234.

Na citação anterior, de 05 de abril de 1893, verificamos um questionamento sobre o motivo do apoio da oposição aos revolucionários. Já na citação agora apresentada, o interlocutor já nos oferece um motivo, nada digno, pois aponta para o prazer de ver o sofrimento de outros. Dessa feita, a transcrição e análise contínua que estamos fazendo até aqui dos editoriais de A República sobre a Revolução Federalista servem para demonstrar o quanto os ânimos políticos estavam exaltados no Paraná vários meses antes da chegada dos maragatos ao Estado. Às vezes, tais ânimos beiravam às ofensas grosseiras, como foi o caso do editorial de 25 de maio, no qual a oposicionista “União Republicana” era referida como “orgãosinho” (sic).
Enfim, continua a oposição a debater-se no lado de sua campanha de infâmias, continua a mostrar ao povo paranaense o quadro de um bando de abutres esfaimados, prontos ao sinal (que o velho cacique do sul já deu e ao qual não corresponderam) continue no seu papel, porque sobre este fundo negro, o Partido Republicano Paranaense continuará a se mostrar partido puro, ho234

A República. Curitiba, 18.05.1893.

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mogêneo, com ideal político definido, trabalhando por um fim único, a liberdade e o progresso da Pátria Paranaense 235.

Observa-se que o tom agressivo, mais dissimulado no início, vem se tornando mais e mais ofensivo à medida que a situação se torna mais acirrada no Rio Grande do Sul, como vemos em “campanha de infâmias” ou “bando de abutres esfaimados”. No início do mês de junho de 1893, começam a aparecer em A República referências às articulações entre o executivo e o legislativo federais, em torno de Floriano:
Têm os fatos sobejamente provado que o patriótico e benemérito governo do Marechal Floriano Peixoto, conta com decidido apoio nas duas casas do Congresso Nacional. (...) Na Câmara dos Deputados é o sr. Demétrio Ribeiro, um ortodoxo comtista, cuja carreira política na República tem sido uma sucessão de desastres e um dos responsáveis pela triste situação do seu belo estado natal, que vem “lastimar a continuação da guerra civil no sul”, o que todo o país a lastima e o deplora, sem intervenção da retórica positivista do ilustre representante do Rio Grande. (...) Para a oposição na Câmara não podia demonstrar melhor o seu plano do que escolhendo para seu “líder” o deputado por este Estado o sr. Bellarmino de Mendonça, um sequioso de reeleição por um Estado que não o conhece, que não o quer, que tem filhos ilustres para eleger e que só logrará a seu intuito por menos surpresas em ocasiões em que a anormalidade prejudique o juízo calmo do povo236.

No trecho acima fica muito claro que o alinhamento político de A República é com o grupo castilhista, haja vista a depreciação pela qual o sr. Demétrio Ribeiro é tratado e, apesar de positivista, ele acaba adquirindo a pecha de traidor da causa republicana. Demétrio era realmente um “ortodoxo comtista”, talvez por influência de Miguel de Lemos, com quem cursou a Escola Politécnica. Foi Ministro da Agricultura no governo provisório de Deodoro e foi um dos artífices da separação do Estado da Igreja. Como adepto da Religião da Humanidade, rompeu com Júlio de Castilhos em 1893, por crer nos desvios desse com a doutrina de Comte. Com a eclosão da Revolução Federalista, acabou apoiando os insurretos.

235 236

A República. Curitiba, 25.05.1893. A República. Curitiba, 01.06.1893.

Tempos Belicosos: a Revolução Federalista no Paraná

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A primeira ação política efetiva, motivada pela Revolução Federalista em solo paranaense, aconteceu em 26 de junho de 1893, quando os antigos liberais tramaram (sem sucesso) a deposição de Vicente Machado da presidência do Estado. Os líderes do conluio, Menezes Dória, Emygdio Westphalen e Cunha Brito foram indiciados em inquérito policial. Inexplicavelmente, a conspiração de 26 de junho não foi explorada por A República em seus editoriais. Acreditamos que isso aconteceu como uma tentativa de não dar repercussão aos feitos dos conspiradores, no intuito de enfraquecê-los. Entrementes, o assunto da sedição federalista só retornaria às suas páginas quase um mês mais tarde, em uma exaltação peculiar da situação política do Paraná e São Paulo, em relação ao infortúnio dos demais Estados, deixando transparecer a admiração que os governistas locais tinham pelo Estado vizinho e de seu “modelo de desenvolvimento”.
A agitação em que sempre tem trazido o espírito público, a oposição formada em 23 de novembro de 1891 para cá, com os aderentes do golpe de Estado, além do abalo considerável do nosso crédito no exterior, tem influído desastrosamente na administração dos Estados. (...) No Paraná, felizmente, e isto devido à penúria dos elementos de oposição, tal fato tem tido influência mínima e podemos nos felicitar de vermos todos os dias prosperar o nosso Estado, ao influxo de uma corretíssima administração. Além do Estado de São Paulo, onde a exuberância de recurso e de vida, zomba da política sediciosa da oposição, e cujo espantoso progresso todos os dias e a despeito de tudo se manifesta, observamos o fato de levarem a vida regularíssima e próspera os Estados, em que a oposição, ou vive dentro da lei, ou por sua insuficiência em nada influi 237.

O final do mês de julho de 1893 ficou marcado por excitação de ânimos, em termos de política paranaense, motivada por um discurso difamatório contra o governador Vicente Machado, pronunciado pelo deputado oposicionista Bellarmino de Mendonça, na Câmara dos Deputados, no Rio de Janeiro.
Não nos propomos a rebater as ínfimas calúnias vomitadas na tribuna da Câmara pelo parvenu (sic) que no meio das agitações do Governo Provisório arrebatou o mandato de representante do Paraná, porque julgamos o honrado e ilustre paranaense que ocu237

A República. Curitiba, 23.07.1893.

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pa o elevado cargo de governador do Estado, muito acima das investidas desse explorador político e das diatribes e injúrias que assacou num dia esse deputado para o dia seguinte fugir corajosamente a responsabilidade das mesmas. Mais uma vez temos dito que por honra do Estado do Paraná, este há muito não considera o sr. Bellarmino de Mendonça como seu representante, senão estaria a essas horas coberto de vergonha ao presenciar a esquisita coragem de um deputado que só é acobertado pela imunidade e que injuria e calunia seus adversários. Deixamos ao desprezível de sua posição e à vergonha de retratação do que fez, o deputado caluniador, e ao qual o Paraná há de em tempo fazer a devida justiça238.

O tom exaltado e bairrista do texto acima deu-se em função da origem de nascimento do deputado Bellarmino Augusto Mendonça Lobo, carioca de Barra Mansa, mas que traçou sua trajetória no Paraná como engenheiro militar. A República publica, já no início do mês de agosto, o conteúdo de um telegrama do deputado governista Marciano Augusto Botelho de Magalhães ao vice-governador em exercício Vicente Machado sobre a fundação do Partido Republicano Federal, com o intuito de “desenvolver um programa francamente presidencialista e que se ponha ao lado da Constituição”239. Isso nos demonstra o nível de articulação política entre os governos estadual e federal em torno de um pacto que atendesse ao interesse das frações autônomas de classe frente à desestabilização provocada com a eclosão da Revolução Federalista. O Estado de Santa Catarina só veio a figurar em A República nessa época, como que anunciando a amplitude que a Revolução Federalista adquiriria com a eclosão da Revolta da Armada, um mês mais tarde.
No Estado de Santa Catarina é que os acontecimentos políticos tiveram, segundo consta, um desfecho bastante sério. Como é sabido, o governador do vizinho Estado, depois de declarar-se formalmente em oposição ao governo do marechal Floriano Peixoto, aderia à causa dos revolucionários do Rio Grande do Sul, isto exaltou os ânimos da oposição, que em luta armada acaba de depor o gover238 239

A República. Curitiba, 26.07.1893. A República. Curitiba, 01.08.1893.

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no. De que lado está a razão e o direito? De que lado está o erro? Só poderão dizê-lo aqueles que de mais de perto conhecem a política do vizinho Estado. O que eu entendo porém, é que, é preciso depor a oposição. Deixem os governos de tomar posições falsas e de ofender com atos levianos a integridade nacional que serão garantidos embora a contragosto dos adversários apaixonados 240.

Nesse período, enquanto o periódico governista paranaense anunciava, com uma boa dose de indignação, que o líder federalista Gumercindo Saraiva organizava mais uma ofensiva na campanha rio-grandense próximo a Jaguarão e depois Dom Pedrito, Vicente Machado dirigia mensagem no dia 15 de agosto ao Congresso Legislativo do Estado como se nada de grave estivesse acontecendo, essa mensagem foi, basicamente, uma fala burocrática em torno da reforma constitucional do Estado241. Em verdade, nem passava por sua cabeça que o referido líder gaúcho obrigaria Vicente Machado a abandonar a capital do Estado do Paraná seis meses mais tarde em desabalada carreira... Nessa época, reparamos um distanciamento das relações entre os órgãos da política institucional e o fluxo dos acontecimentos relativos à Revolução Federalista. Em termos teóricos, para explicar esse distanciamento entre os acontecimentos e os debates em nível dos parlamentos, tanto estaduais como federais, seguimos a linha de explicação do cientista político italiano Maurizio Cotta presente no Dicionário de Política. Ele afirma que a natureza da ligação entre a sociedade e o Parlamento é determinada pelo processo eleitoral e que é dele que depende tanto o grau de autonomia das casas parlamentares em relação às outras estruturas políticas, como em relação ao restante da sociedade civil. Diante desse exposto, seria ingênuo pensar que o Parlamento é uma mera extensão da base eleitoral, uma vez que sua composição é condicionada por um complexo jogo de forças políticas242, como é atestado a seguir:
O Congresso Legislativo do Paraná, considerando a gravidade dos acontecimentos que atualmente se desenvolvem na
240 241

242

A República. Curitiba, 03.08.1893. Mensagem dirigida ao Congresso Legislativo do Estado do Paraná pelo 1º vicegovernador Dr. Vicente Machado da Silva Lima, Curitiba, 15.08.1893. COTTA, Maurizio. Parlamento. In: BOBBIO, Norberto et alii (Orgs.). Dicionário de Política. Brasília: Editora da UnB, 1991. p. 880.

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Capital Federal e que constituem extraordinário atentado à paz pública e à consolidação das leis vigentes, resolve conceder ao Governador do Estado ampla autorização para usar de todos os meios que julgar necessários a fim de cooperar na defesa dos poderes constituídos para a conservação da ordem neste Estado243.

Vemos, a partir do trecho acima, que a eclosão da Revolta da Armada a 06 de setembro viria a causar um estremecimento nas certezas de vitória dos republicanos paranaenses, obrigando-os a se “precaver”. Para tanto, o legislativo paranaense, que até então vinha tendo uma atuação secundária na política do Estado, decide dar plenos poderes ao governador, para que o mesmo possa agir em prol da defesa do Paraná e da Pátria. Em 25 de setembro de 1893, era decretado pelo Marechal Floriano o estado de sítio em quatro Estados da Federação (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo) e no Distrito Federal. Os revoltosos da Armada não estavam mais tão distantes do Paraná e a proximidade de Curitiba com o litoral fazia com que novas conjecturas em relação a conspirações possíveis brotassem da pena dos republicanos locais, com a ferocidade de sempre, quando o assunto era a oposição liberal.
Causa verdadeiro nojo o comportamento de meia dúzia de desocupados a serviço da nula e inepta oposição deste Estado, pondo em circulação boatos em relação à força estacionária em Paranaguá, com o evidente fim de alarmar o espírito das famílias que ali têm pessoas caras, empenhadas na defesa da república. É uma covardia digna dessa gente, incapaz do ato mais insignificante de abnegação patriótica e cuja coragem só se revela nessas coisas. Depois que chegou o chefe que há muito passou a ser apenas capitão de bandeira da carcomida carcassa, o boato avolumou-se e circula sob a égide protetora de sua incompatível coragem e nunca desmentida capacidade! Era melhor que fornecesse sapatos velhos para aumentar a esquadrilha do sr. Custódio!244

Observa-se nesse trecho o tom de desprezo, sempre constante, tanto em relação aos liberais, chamados de “meia dúzia de desocupados”, quanto a suas ações, “nula e inepta oposição”, “pondo em
243 244

A República. Curitiba, 16.09.1893. A República. Curitiba, 24.09.1893.

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circulação boatos”, “a fim de alarmar”, “covardia digna”, “incapaz de abnegação patriótica”. O mês de outubro de 1893 foi marcado pela adesão dos oficiais do forte Villegaignon à Revolta da Armada e também pelos primeiros esboços da junção do movimento insurrecional federalista com a mesma. Isso pode ser atestado quando o Primeiro Corpo do Exército Libertador partiu da localidade de Cruz Alta para o norte do Estado do Rio Grande do Sul no dia 09 desse mesmo mês para unir-se com os marujos insurretos. No Paraná, essa movimentação dos maragatos gerava preocupações, fazendo com que os republicanos locais conclamassem seus pares ao seu “dever cívico” em defesa da Pátria.
Os graves acontecimentos que se desdobram aos olhos atônitos da nação, repelem a estagnação dos pântanos e a imobilidade das esfinges. Antes reclamam de todo o cidadão brasileiro, que ame sua Pátria, uma posição definida e clara. Em nosso Estado, onde a oposição acompanha com ansiedade escandalosa a marcha sinuosa e triste da grave empreitada pelo sr. Custódio, o dever cívico aconselha os amigos da situação e todos aqueles que sentem a alma confrangida de dor ante aos descalabros desses dias de luto nacional, a se colocar ao lado do governo constitucional, que representa a opinião pública, a serenidade da lei, os brios da Pátria e a salvação da República245.

Pode-se, aqui, sentir um certo rumor de invasão ao Estado do Paraná já nessa época. Na verdade, a pesquisa nos mostra que o mês de outubro de 1893 foi, no Paraná, o momento da tomada de algumas posições contra os revolucionários. Tal fato pode ser percebido em um editorial do dia 14 do corrente denominado A Situação:
Diametralmente opostos ao procedimento do benemérito Governo do Estado, na triste contingência a que nos arrastou a malsinada ambição de um marinheiro perverso, tem sido o de oposição desta terra. (...) O chefe da oposição era cúmplice de um crime de lesa patriotismo; o dr. Vicente Machado é réu sublime que há de ser coroado pela justiça e a história. Aquele se arrastou pela lama, este se eleva a altura a qual só é dado atingir aos que se batem por uma causa santa. O Governo do Estado não desconhece a melindrosa gravidade da situação; dispõe, porém de elementos para manter a ordem e garantir a liberdade individual. Disso dá seguro, penho245

A República. Curitiba, 08.10.1893.

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ra (sic) a calma com que tem agido neste período anormalíssimo e angustioso. E, quando passado o formidável fracasso desta catástrofe inaudita, o povo paranaense sentir-se-á aliviado do medonho pesadelo que o acabrunha, que volte as suas bênçãos para o lutador valente, para o republicano leal, para o governador benemérito que mede sua abnegação pela causa pública, o seu devotamento e amor a essa terra pela grandeza dos sacrifícios a que se voltou voluntariamente, e que há de ser a sua coroa de glórias, como podem ter tido a sua coroa de espinhos246.

Esse trecho não só relata a posição do governo para garantir a paz e ordem pública, mas também enaltece as atitudes do governador Vicente Machado nessa luta. A 17 de outubro de 1893 chegava a Curitiba o general de brigada Francisco de Paula Argollo, incumbido pessoalmente por Floriano para assumir o comando do Quinto Distrito Militar, sediado em Curitiba, e a defesa do Estado do Paraná. O clima de guerra era tão iminente que começaram, nessa época, a ser organizados no Paraná os “batalhões patrióticos” legalistas (unidades militares compostas por militares de carreira e voluntários), expediente usado pelos dois lados da contenda. Em um telegrama de Alberto Abreu (sem identificação de cargo e/ou função), no último dia de outubro de 1893, dirigido ao marechal Floriano no Rio de Janeiro, ele informava que “Argollo partiu nesta data, às 10 horas para Lapa levando farda, munição e cavalhada. Enaltece a República e o Governo” 247. Duas semanas mais tarde Alberto Abreu passava um outro telegrama, só que dessa vez para o coronel Jardim na cidade de Santos (SP), ao qual ele informava (com dois meses de antecedência) a expectativa da invasão federalista ao Estado do Paraná.
Gumercindo e Paulino estão preparados para invadir o Paraná com 2 colunas e as estradas estão péssimas, abandonadas, mas convém estarmos prevenidos. Solicito que o Ministro envie um batalhão de infantaria, pois contamos com uma Guarda Nacional

246 247

A República. Curitiba, 14.10.1893. Documentos do Arquivo Histórico do Exército (Casa da Memória de Curitiba), 31.10.1893.

Tempos Belicosos: a Revolução Federalista no Paraná

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mal organizada e pergunto quando chega o armamento e munição para metralhadora248.

A essa altura compreende-se que a condição do governo “pronto para a defesa pública” (conforme editoriais de A República) e sua real condição (conforme citação acima) não coincidiam. Essa atitude discursiva tem como objetivo expor à população aquilo que incentive, encoraje, fortaleça e por outro lado, desencorajar, intimidar e atemorizar os grupos de oposição. Na mesma época em que Antônio Conselheiro iniciava sua saga milenarista, mandando queimar os editais do fisco em Bom Conselho, Bahia, A República publicava um editorial com uma chamada bem peculiar, “Não é só no velho mundo que pululam boatos...”.
Correm boatos por toda a parte, dizíamos, e já agora, quando no Paraná, nós julgávamos enveredar por um caminho tranqüilo, embora ouvindo atentos o troar longínquo dos canhões de mar no Rio de Janeiro e só vendo lá, para aquelas bandas, velhos, crianças e mulheres fugindo, aos magotes, das balas mortíferas do ex-contra-almirante Mello, sempre empenhado em mortes e bombardeios. (...) O que nos é dado a saber (também) de Gumercindo, este caudilho, embora esteja no Estado vizinho, fundando ora em Lages, ora em Tubarão, algum governo provisório dos beduínos que é feitor ainda não se comunica com o Governo Provisório de Lorena, no Desterro249.

E nem o lendário Gumercindo Saraiva escapa da aspereza dos republicanos paranaenses:
Não deixamos de notar que o nome de Gumercindo, não no Rio Grande do Sul ou em outro qualquer Estado, mas no nosso amado Paraná, produz um pânico inexplicável. Isso, confessamos, entristece-nos de sobremodo. Será uma simples questão de fonética? Ou porque no físico e no moral estejamos os paranaenses assim inferiores e degenerados? Morra Gumercindo! Morra Custódio de Mello! Viva a Pátria e a República!250

248 249 250

Documentos do Arquivo Histórico do Exército (Casa da Memória de Curitiba), 13.11.1893. A República. Curitiba, 18.11.1893. A República. Curitiba, 21.11.1893.

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No trecho acima, podemos verificar o mesmo tratamento dedicado a outros líderes federalistas, visto em citações anteriores, como, por exemplo, “velho cacique do sul” ou “capitão de bandeira”; mas nesse trecho a citação explícita assume o sentimento verdadeiro dos republicanos paranaenses, conclamando suas mortes. O final do mês de novembro de 1893 foi um período decisivo para os revoltosos, cuja marca registrada foi o início do cerco de Bagé (que duraria até 8 de janeiro de 1894). Gumercindo, por sua vez, chegou a Blumenau e rumou para Itajaí. No Rio de Janeiro, Custódio de Melo venceu a resistência das fortalezas legalistas e ultrapassou a barra da baía da Guanabara com o encouraçado “Aquidabã” rumo ao Desterro, na companhia do cruzador “Esperança”. Em 09 de dezembro, o almirante Saldanha da Gama bandearia para o lado dos revoltosos da Armada. Paralelo a isso, no Paraná, o general Argollo entrava em choque com as forças do chefe federalista Piragibe nas proximidades de União da Vitória, divisa com Santa Catarina. O coronel Gomes Carneiro era nomeado para o comando da guarnição da Lapa, e o general de brigada José Maria Pego Jr., para o do Quinto Distrito Militar, em Curitiba.
Bastou cessar anteontem o estado de sítio que o benemérito presidente da República colocou o Paraná, como os demais Estados do sul, usando assim uma atribuição que lhe confere a Constituição em momentos de perigo, em que a ordem pública esteja ameaçada, para surgirem das furnas em que se ocultavam, as cabeças dos inimigos da República. (...) O caudilho Gumercindo está em Santa Catarina se havendo com as forças legais, comandadas por Oscar e Lima, que para ali foram com direção ao Desterro. Houve notícias de que ele se achava em Curitibanos, naquele Estado, mas que dali já foi obrigado a sair, e anda então para o outro lado, perseguido, levando aqui o terror, além da pilhagem e morte. Como, pois, anunciam os inimigos da República sua estada no Paraná? É preciso estar alerta com essa turma de espalhadores de mentiras, que se divertem a soprar como bolhas douradas de sabão toda a sorte de boatos e alarmas251.

Essas movimentações e um tanto de boatos não passaram desapercebidas aos republicanos paranaenses, os quais tentavam tornar público e esclarecer a real situação dos episódios acima de
251

A República. Curitiba, 02.12.1893.

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modo a elevar a República, rebaixar os revoltosos e tranqüilizar a população civil. Entretanto, nem só de boatos vivia a guerra civil; em carta do simpatizante federalista Sebastião Bandeira para o comandante Piragibe, em Joinville, e interceptada pelo Exército, ele relata não só a situação dos revoltosos no interior de Santa Catarina, mas também, as manobras a que estão prestes a realizar.
Informo a chegada de Gumercindo e da força, já remeti o gado para os mesmos e os cavalos para Jucá Tigre. Recebi 24 mulas do Alípio e espero cento e tantos cavalos (sic) de uma tropa vinda de Rio Negro, mando uma escolta de 10 rio-grandenses para juntarse a Jucá Tigre. Felício acha-se em São Lourenço com 300 homens, 30 armados. Abílio partiu com 100 homens, sendo 50 lanceiros e 50 clarineiros (sic) para a retaguarda da Lapa para “escangalhar” (sic) a estrada de ferro e o telégrafo, deitando os dormentes no rio. Não darei armamento à gente do Felício por ser preferível reservá-lo para a gauchada do Rio Grande. Não esqueça as bandeirolas ao Jacques (Ouriques) e metralhadoras pelo dr. Macedo. Estou arrecadando gêneros alimentícios para o aumento das forças. A força de Argollo está em Tijucas com 150 homens e 2 bocas de fogo (canhões) para impedir a passagem de nossa força. Gumercindo chegou com 500 homens e não realizará ataque por Paranaguá, pois lá chegaram forças de São Paulo em auxílio de Argollo252.

Em 11 de dezembro, a Divisão do Norte forçava as tropas federalistas a deixar Itajaí que, a bordo dos navios “Urano” e “Meteoro”, rumaram ao Desterro. Entretanto, após essa ofensiva a Divisão do Norte teria um retorno difícil para o Rio Grande do Sul, com muitas baixas. No jornal A República o último editorial sobre a Revolução Federalista em 1893 tinha o singular título de “Agora é tarde”.
Os que aderiram à República por medo, utilitariamente, ou, por especulação, mas, que são espíritos reacionários e monarquistas por educação, não conseguem acertar suas posições na República e atiram para todos os lados. Acreditam que a República foi um cogumelo brotado de um momento para o outro nas portas dos quartéis. Esquecem os fatos históricos que antecederam e que fo252

Documentos do Arquivo Histórico do Exército (Casa da Memória de Curitiba), 03.12.1893.

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ram os desdobramentos naturais e com sangue de heróis que se escreveu esta página da história da Pátria. (...) E em nome desse reacionarismo pulha levanta a bandeira da restauração o traidor da ilha das Cobras (Saldanha da Gama), que no acontecimento de 15 de novembro, não vê a continuação, o elo de um passado de sacrifícios sangrentos pela República, mas unicamente uma sedição militar triunfante num momento de surpresa e estupefação nacional!253

Percebe-se nesse texto, novamente, a exaltação da República e a dificuldade que é e foi manter sua integridade. Também percebe-se a reprovação por aqueles que reconhecem a República como uma conquista árdua, gloriosa e benéfica para todo o país. Esse foi o último editorial sobre a Revolução Federalista e a Revolta da Armada em A República antes da invasão do Paraná pelas tropas federalistas em 11 de janeiro de 1894. Só voltaremos a encontrar material atinente ao tema nesse periódico na primeira metade do mês de maio posterior. A lacuna de fontes primárias a respeito desse período em A República será preenchida doravante por documentos do arquivo histórico do Exército e por outras fontes primárias publicadas, principalmente pela seção “Crônica” do Almanaque (Almanach) Paranaense. No último dia do ano de 1893, um telegrama de Gomes Carneiro, na Lapa, para Pego Jr., em Curitiba, relatava e pedia medidas contra a adesão de imigrantes à Revolução Federalista: “No Portão, Colônia Santa Bárbara, margem do rio Iguaçu, município de Palmeira, existem polacos (poloneses) nossos inimigos, armados e com bombas de dinamite; peço-vos providências para que a Guarda Nacional de Palmeira os mande atacar” 254. Diante disso, podemos atestar que, no Paraná, nem só membros da sociedade camponesa do “Paraná Tradicional” aderiram aos revoltosos gaúchos, mas também os imigrantes polacos (nessa época ainda não tinha sido inventado o galicismo eufêmico “polonês”). Tal adesão à insurreição serve para mostrar a insatisfação desses com as políticas de assentamento iniciadas pelos governos republi-

253 254

A República. Curitiba, 22.12.1893. Documentos do Arquivo Histórico do Exército (Casa da Memória de Curitiba), 31.12.1893.

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canos federal e estadual e com os maus-tratos perpetrados pelas autoridades na nova terra. Durante a invasão ao Paraná pelos maragatos, a colônia de polacos de São Mateus, sob a chefia Antônio Bodziack, chegou a atacar a localidade paranaense de São João do Triunfo e a organizar três batalhões patrióticos federalistas. Atestamos também participações de imigrantes italianos (alguns ativistas anarquistas) e alemães ao lado dos insurretos federalistas no Paraná, porém elas se deram de forma muito mais acanhada do que a dos polacos255. Segundo Sérgio da Costa Franco256, em 04 de janeiro de 1894, “em São Francisco do Sul, Santa Catarina, os chefes rebeldes Gumercindo Saraiva, Piragibe e Jacques Ouriques combinam o plano de invasão do Paraná”. Provavelmente, foi nessa ocasião que esses líderes federalistas decidiram encetar a conquista do território paranaense nas frentes de Tijucas, Paranaguá e Lapa, e talvez essas localidades tenham sido escolhidas por abrigarem guarnições militares, nas quais eles pudessem se apoderar dos armamentos lá existentes. Nos primeiros dias do mês janeiro de 1894, deu-se o final do cerco de Bagé, quando o Exército Federalista de Joca Tavares se retirou sem êxito dos arredores da cidade e rumou para Livramento. No dia 11, os insurretos federalistas, chefiados por Gumercindo Saraiva, assediavam a praça de Tijucas, defendida por tropas legalistas, que, após um sítio de oito dias de resistência, capitularam. Entretanto, Gumercindo sofreu perdas consideráveis de homens. Em Paranaguá, o almirante insurreto Custódio de Melo iniciou sua ofensiva da Armada na manhã do dia 15 de janeiro abrindo fogo contra as fortificações em terra com os navios “República”, “Urano” e “Esperança”. Após alguns bombardeios, o almirante narrava um fato vergonhoso por parte de um general do Exército Brasileiro.
Em meio do combate o General de divisão Antônio José Maria Pêgo Júnior, que se achava ocasional ou propositalmente em Paranaguá, esquecido dos deveres inerentes ao alto cargo de coman255

256

VERNALHA, Milton M. Maragatos X Pica-Paus. Curitiba: Lítero-Técnica, 1984. p. 199-201. FRANCO, Sérgio C. A guerra civil de 1893. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1993. p. 74.

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dante em chefe do distrito militar, desapareceu inesperadamente, seguindo caminho de Curitiba em um trem expresso, com todo o seu estado maior e quase totalidade dos oficiais da guarnição daquela cidade257.

Com a fuga dos oficiais, a praça de Paranaguá caiu nas mãos de Custódio logo a seguir, e dois dias mais tarde chegava a coluna federalista do coronel federalista Timóteo Pahim em apoio ao almirante rebelde. Sem sombra de dúvida, a campanha mais polêmica dos federalistas em terras paranaenses foi a tomada da cidade da Lapa, nos Campos Gerais, a qual, no dia 17 de janeiro, foi assediada pelas forças federalistas de Piragibe, divididas em três colunas. Essa cidade só cairia dia 11 de fevereiro, após a morte do chefe militar republicano Gomes Carneiro. Em Curitiba, Pêgo Jr. completaria sua fanfarronada fugindo para São Paulo, o que fez com que o vice-governador em exercício, Vicente Machado, abandonasse a capital e transferisse a administração para Castro, cidade próxima à divisa de São Paulo. Segundo o historiador David Carneiro, “Pêgo, que poderia ter cooperado com a resistência de Tijucas e Lapa, desgastando as forças federalistas de invasão, traz consigo a cauda de pânico indizível e deixa atrás de si a porta aberta aos invasores” 258. A fuga de Vicente Machado de Curitiba para Castro deixou a capital à mercê da sanha dos revolucionários e, no dia 20, Curitiba era ocupada militarmente por uma força de 450 homens, sob o comando do chefe federalista Menezes Dória, aclamado governador provisório do Estado do Paraná para suceder Teófilo Soares Gomes (que havia sido empossado provisoriamente em Paranaguá dias antes). Logo em seguida à ocupação de Curitiba, foram criados os batalhões patrióticos federalistas “Menezes Dória”, “Voluntários de São Mateus”, “Teuto-Brasileiro” e “Ítalo-Brasileiro”. A tipografia de A República foi empastelada, e os novos donos do poder voltaram a publicar o jornal Federação, que havia sido fechado em 26

257 258

Almanaque Paranaense. Curitiba, janeiro de 1896. p. 52. CARNEIRO, David A. S. O Paraná e a revolução federalista. São Paulo: Atena, 1944. p. 146.

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de junho de 1893, quando do conluio de Emygdio Westphalen e Cunha Brito. Com a conquista de boa parte do território do Estado do Paraná, Custódio de Melo, Gumercindo Saraiva e João José César, chefe dos telégrafos, passaram um telegrama ao marechal Floriano, concitando-o a abandonar a presidência da República 259 e passar o cargo ao seu substituto legal. Floriano deve ter dado boas risadas com a audácia dos revolucionários. Dias depois, o Marechal de Ferro recebia uma carta de Vicente Machado, que estava na condição de vice-governador em exercício de um governo de resistência, com explicações dos motivos que levaram o Paraná a cair em poder dos revoltosos.
Todos os movimentos dos inimigos faziam crer e geralmente se anunciava um ataque geral por mar e por terra, às forças legais do Paraná, no dia 15 de janeiro, o que de fato realizou-se. (...) Posso garantir a V. Ex.ª que esgotei todos os meios para conseguir a resistência. Propus ao general Pêgo Jr. concentrar todas as forças da guarnição de Curitiba em um ponto da cidade, no Portão, para levantar o espírito da tropa e evitar deserções. Entretanto, esta idéia não foi posta em execução, pois tínhamos 700 e poucos homens, fora a guarda cívica urbana dos Caçadores Curitibanos, além, do que, as munições ficaram nos vagões da estrada de ferro. Quando desaparecerem os inconvenientes criados pela ação revolucionária, e em ocasião oportuna, hei de discutir e expor ao país, os fatos do Paraná para que os mesmos não sejam comentados, com desabono para minha autoridade 260.

Tal carta reflete a real situação do governo paranaense legalista frente aos revoltosos, ou seja: o mesmo não se encontrava preparado mesmo sabendo de antemão dos movimentos dos inimigos. Aqui, Vicente Machado tenta se proteger atribuindo a responsabilidade do infortúnio ao general Pêgo Jr. e à falta de munição. Esse tipo de atitude, a esquiva, marcará a postura de Vicente Machado frente a suas desventuras administrativas, como veremos mais tarde. O início do mês de fevereiro de 1894 ficaria marcado por uma prática dos federalistas no Paraná que ficou famosa e que, para
259 260

Almanaque Paranaense. Curitiba, janeiro de 1896. p. 56. Documentos do Arquivo Histórico do Exército (Casa da Memória de Curitiba), 25.02.1894.

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muitos, denegriu a imagem dos revolucionários: a cobrança dos célebres “empréstimos de guerra”, cabendo ao Barão de Serro Azul a missão de amealhar o dinheiro. No dia 02, a Federação publicava o Decreto 17, do chefe do governo provisório da República, em Santa Catarina, autorizando o governo provisório do Estado do Paraná a fazer operações de crédito de até 300 contos 261. Entrementes, concomitantemente ao frisson causado pela Revolução Federalista no Estado, o Paraná passava ao final do século XIX por uma agitação cultural sem precedentes. O comércio da erva-mate possibilitou o surgimento de uma burguesia que buscava ilustração para o espírito e incentivava manifestações culturais. Na Curitiba fin-de-siècle formou-se uma geração local de artistas pioneiros, com destaque para o grupo literário simbolista “Cenáculo”, que se envolveu entusiasticamente com a Revolução Federalista no Paraná.
Para Silveira Neto, assim como o simbolismo francês teve como pano de fundo a revolta de 1870, a corrente simbolista no Paraná teve suas origens no clima gerado pela invasão federalista, na qual estiveram diretamente envolvidos como combatentes vários poetas, como Luís Murat, preso no Teatro São Pedro, como rebelde partidário de Gumercindo Saraiva262.

A capital do Estado do Paraná foi um dos principais pólos do movimento simbolista no Brasil, com destaque para o poeta curitibano Emiliano David Perneta (1866–1921). No dia 09 de fevereiro, o coronel Antônio Gomes Carneiro morria na Lapa rogando a seus homens para que não capitulassem, mas, seus apelos foram em vão; dois dias depois a cidade caía em mãos federalistas, após 26 dias de um persistente sítio. Depois do intenso cerco da Lapa, Gumercindo Saraiva e Ângelo Dourado rumaram para Curitiba em um trem carregado de homens feridos, onde foram recebidos por um trombeteiro animado, quando “um orador de improviso galgou uma mesa e teceu líricas

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Almanaque Paranaense. Curitiba, janeiro de 1896. p. 57. CAROLLO, Cassiana L. Simbolismo: características, grupos, evolução. In: SOARES, Luis R. N. (Org.). Dicionário histórico-biográfico do Estado do Paraná. Curitiba: Chain – Banestado, 1991. p. 456.

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sobre o tema da coragem e heroísmo até Gumercindo interrompêlo de modo que os feridos pudessem ser levados ao hospital” 263. De volta a Paranaguá, Gumercindo foi recebido com festas, e o batalhão com seu nome era convertido em regimento, com oito esquadrões. Era o auge da Revolução Federalista em terras paranaenses, tanto que Emygdio Westphalen foi nomeado para o cargo de ministro do governo provisório da República no Desterro como representante do Paraná e chegava, a Curitiba, Henrique Hasslocher, repórter do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, a fim de recolher notícias sobre a invasão264. No dia 22 de fevereiro, era publicando no jornal Federação, o Decreto 4 chamando ao serviço militar os oficiais e praças do “governo decaído” (sic), sob pena de serem considerados desertores e, diante dessa pressão, alguns oficiais do batalhão “FrancoAtiradores” enviaram à Federação uma declaração de adesão à revolta 265. Na frente gaúcha, no último dia de fevereiro de 1894, as forças do general legalista Hipólito Ribeiro, da Divisão do Norte, perseguiam a coluna federalista de David Martins e Rafael Cabeda em Sarandi, município de Livramento; já no Paraná, concomitantemente, a luta dos federalistas era outra, no campo das finanças; a Federação publicava mais um decreto que estabelecia o pagamento da quantia de duzentos contos de reis, a título de “empréstimo de guerra”266. O início de março foi marcado por uma relativa calma para os revolucionários no Paraná, mas o mesmo não aconteceu com seus correligionários no Rio Grande do Sul que ocuparam militarmente Santa Maria, Santo Ângelo e São Gabriel. No Rio de Janeiro, a esquadra insurreta de Saldanha da Gama rendia-se no dia 13, refugiando-se em navios portugueses, o que ocasionou o rompimento das relações diplomáticas entre Brasil e Portugal naquele período267.
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“(...) an impromptu orator climbed onto a table and waxed lyrical on the subject of courage and heroism until Gumercindo had him interrupted so that the wounded could be taken to the hospital.” CHASTEEN, John C. Heroes on horseback; a life and times of the last gaucho caudillos. Albuquerque: University of New México Press, 1995. p. 106. Tradução de Thelma Belmonte. Almanaque Paranaense. Curitiba, janeiro de 1896. p. 59. Almanaque Paranaense. Curitiba, janeiro de 1896. p. 59. Almanaque Paranaense. Curitiba, janeiro de 1896. p. 60. FRANCO, Sérgio C. Op. cit., p. 78.

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A rendição dos revoltosos da Armada no Rio de Janeiro arrefeceu em muito os ânimos dos revolucionários em terra. No Paraná, ocorreu uma “agitação surda” (sic), na qual vários boatos falavam de derrocada do governo revolucionário268. Coincidência ou não, o governador provisório, Menezes Dória, passou o cargo ao general Francisco José Cardoso Júnior ao final de março de 1894 (ironicamente, Cardoso Júnior tinha sido o primeiro governador do Estado do Paraná, nomeado quando do movimento de 15 de novembro de 1889) com a alegação de seguir para o Prata em missão oficial. Tal versão é desmentida por muito autores, que falam em fuga do mesmo para Buenos Aires. E, para piorar a situação militar do Estado, Custódio de Melo abandonava o porto de Paranaguá logo em seguida à saída de Menezes Dória, com destino ao Desterro. Custódio intentava seguir para o litoral gaúcho em detrimento da proteção do litoral paranaense269. O governo provisório do Estado do Paraná começava a conhecer seus primeiros revezes sérios, com indícios para sua derrocada algumas semanas mais tarde. Os governadores se alteravam de uma maneira exagerada. No dia 03 de abril, o general Cardoso Júnior passava o governo para o chefe de polícia, Tertuliano Teixeira de Freitas, que ficou só dois dias no cargo, passando a incumbência para Antônio José Ferreira Braga, último governador do período revolucionário. No dia 07 de abril de 1894, a Federação publicava uma extensa ordem do dia de Gumercindo Saraiva, na qual ele dizia concentrar o Exército Libertador, que se achava espalhado nas fronteiras do Estado do Paraná e em outros pontos, e iria dirigir-se sobre a grossa coluna das forças legalistas em São Paulo, expulsando-as deste Estado. Dizia ainda, o intrépido gaúcho, que ao chegar nesta fronteira, não daria um passo além se levantasse contra Floriano e se isso não acontecesse ele proclamaria a independência dos três Estados do Sul do Brasil270. No dia seguinte, o general Salgado e Custódio de Melo iniciavam suas ofensivas por mar e terra contra a cidade portuária de Rio Grande, sem sucesso e, logo depois, acontecia o funesto “Massacre
268 269 270

Almanaque Paranaense. Curitiba, janeiro de 1896. p. 62. FRANCO, Sérgio C. Op. cit., p. 78. Almanaque Paranaense. Curitiba, janeiro de 1896. p. 64.

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do Boi Preto”, no qual mais de trezentos federalistas foram chacinados no município de Palmeira das Missões 271. No Paraná, Gumercindo, com o intuito de concentrar a operação pública ao lado das operações bélicas, transferia a capital do governo provisório para Ponta Grossa no início de abril de 1894 272. A segunda metade do mês de abril de 1894 foi marcada pela contra-ofensiva governista, com a retomada do Desterro (que passaria a se chamar Florianópolis), na qual foi instalado um regime de vinganças cruéis, sob a batuta do descomedido coronel Antônio Moreira César. Custódio de Melo e Saldanha da Gama acabaram fugindo para o Uruguai; aquele se dirigiu mais tarde para a Argentina, onde entregou seus vasos de guerra ao governo portenho 273. Diante do completo ocaso do ímpeto revolucionário, só restava a Gumercindo deixar o Paraná e, no dia 25 de abril, dividido em três colunas, ele operava a retirada do Exército Libertador dos Campos Gerais em direção sul. Findava assim a aventura revolucionária no Paraná. Com a debandada das tropas federalistas, o general Ewerton de Quadros assumiu o comando Exército Brasileiro nos Estados do Paraná e Santa Catarina e do Quinto Distrito Militar. Para completar, o almirante Jerônimo Gonçalves e sua “esquadra de papelão” desembarcavam em Paranaguá 274. No dia 05 de maio, chegavam a Curitiba, proveniente de Castro, o vice-governador deposto Vicente Machado, junto ao general Ewerton de Quadros e, quatro dias depois, era reativado o jornal governista A República, que retomava suas diatribes em bom estilo.
Já prevíamos: quando do sul do país a revolta armada foi repelida com tenacidade pelo vulto heróico de Júlio de Castilhos, julgamo-la desde logo essa causa perdida. Daí o banditismo federalista, já operando-se de uma forma medonha; as tristes correrias selvagens desses demolidores que levaram a descrença a todos os espíritos; o luto, o saque, o incêndio, o sangue; as depredações maiores por toda a parte. Nem se pode medir a crueldade que os simbolizava. O mundo não os presenciará maior. Jamais consideramos que seria essa chamada revolução, desde que não a vimos
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FRANCO, Sérgio C. Op. cit., p. 79. Almanaque Paranaense. Curitiba, janeiro de 1896. p. 65. FRANCO, Sérgio C. Op. cit., p. 81. Almanaque Paranaense. Curitiba, janeiro de 1896. p. 66.

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como a parte sã da sociedade brasileira, a moral a seu lado. Felizmente, o ínclito marechal Floriano Peixoto, glória imorredoura da grande república brasileira – os patriotas – os dedicados republicanos fizeram cair por terra essa degradante força que de longe estendeu o seu cenário de crimes, até o nosso amado Estado, hoje felizmente todo livre. (Manoel Negrão)275.

O texto acima apresenta, de certa forma, um ácido resumo das barbaridades (pelo ponto de vista dos republicanos) perpetradas pelos federalistas, tal característica foi sempre bem marcada em edições anteriores e que agora vem para confirmar tudo o que tinha sido dito anteriormente. Também serve para enaltecer aqueles que resgataram ao País a sua integridade política e moral. Face a todos os acontecimentos no Paraná que envolvem, desde o apoio aos revolucionários, a tomada do governo do Estado, até o restabelecimento da ordem, o marechal Floriano dirigiu uma mensagem áspera ao Congresso Nacional:
Vários são os elementos que entram nesse plano de ruína: aos falsos republicanos e conspiradores de 1892 reuniram-se os outros contingentes de despeito e de indisciplina: os especuladores da bolsa, que procuravam a reabilitação necessária dos desastres econômicos à custa do desastre, para eles indiferente, da Pátria, alguns oficiais da marinha aliciados por um chefe saído há pouco do governo que tinha reprimido os primeiros atos de conspiração; outro alto representante da classe, até então inimigo pessoal e político do primeiro, e propugnador da idéia restauradora, e todos esses elementos, de natureza heterogêneas, fundiram-se na mesma ação e pensamento dos chamados “federalistas” do Rio Grande do Sul, mensageiros da depredação e do morticínio, ao mando de um antigo ambicioso político que, com o advento da República, ficou privado dos privilégios de que astutamente gozava no regime decaído276.

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A República. Curitiba, 05.05.1894. Mensagem dirigida ao Congresso Nacional pelo Marechal Floriano Peixoto, vicepresidente da República dos Estados Unidos do Brasil, por ocasião da abertura da primeira sessão ordinária da segunda legislatura, sessão de 07.05.1894. In: Anais do Senado Federal e da Câmara dos Deputados (Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, Serviço de Pesquisa, Documentação Histórica e Museu do “Solar dos Câmara”, Porto Alegre).

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No texto acima identificam-se os “elementos” referidos: o “chefe saído há pouco do governo” é Custódio de Melo, o “outro alto representante da classe” é Saldanha da Gama, e o “antigo ambicioso político” é Gaspar Silveira Martins. Repara-se, com essas referências, a intenção, por parte do autor de demonstrar tamanho desprezo por esses líderes que eles não são nem dignos de serem chamados pelo nome.
Não imaginaste o forte prazer e entusiasmo sufocante que senti na memorável data de 05 do corrente, dia em que vós em número incalculável fostes recebido debaixo de vivas e de flores e conduzido em andor braçal até o palácio, o vulto resplandecente do dr. Vicente Machado. Devemos caros patrícios, orgulharmo-nos pelo regresso à nossa pátria estremecida de seu digníssimo e serviçal representante, o qual acompanhado de outros nossos conterrâneos, bem como de muitos destemidos brasileiros militares, viera de alto salvar-nos de tantos e inconscientes atrocidades como sois testemunhas, e das quais por cinco minutos deixei de ser vítima protegida pela justiça de Deus, notado, ser chamado pela imprensa e procurado por libertadores! (Joaquim Turíbio da Costa)277.

A acolhida de Vicente Machado pelos bajuladores de plantão como herói da resistência legalista é bastante evidente no texto acima. O autor não poupa adjetivos para qualificar e vangloriar ações que, pelo que já apresentamos até aqui, não são merecedoras de tantos elogios. Essa questão sempre foi polêmica na historiografia paranaense. Entrementes, o próprio Vicente Machado sempre lutou contra o episódio do abandono de Curitiba, reiterando seguidas vezes sua versão do ocorrido:
Depois dos gravíssimos sucessos que tiveram por cenário o nosso querido Estado, com a invasão revolucionária, que batida das campanhas do sul veio fazer a sua carreira de luto, de pranto e de desolação no seio da família paranaense, é me profundamente grato, restabelecido o regime da lei, encontrar-me com os beneméritos representantes do povo. (...) Ao julgamento dos meus patrícios, e quase que esse julgamento já está feito, eu deixei os protagonistas dessa encenação com que se preparava a entrada da revolta cuja lembrança aí está quente na nossa memória e na de todos
277

A República. Curitiba, 12.05.1894.

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que assistiram esses quatro meses de aviltamento para o Estado do Paraná278.

Percebe-se, no discurso acima, uma tentativa de Vicente Machado de se esquivar do assunto em tela por meio de uma retórica empolada que acaba deixando sua real participação no ocorrido sem comentários. A contra-ofensiva legalista no Paraná foi tão eivada de rancores como em Santa Catarina. Com os legalistas de volta ao poder, foi instituído o “Conselho Marcial” para julgar os crimes políticos, que investigou quase duas mil pessoas sob acusações de colaboração com os invasores federalistas ou traição. Existem muitas contestações sobre as execuções dos réus; alguns historiadores falam em duas dezenas de pessoas; outros, em duas centenas, infelizmente essas informações, pela sua delicadeza, não apareceram nas fontes primárias por nós consultadas. Todavia, a execução mais controversa foi a do Barão de Serro Azul, no quilômetro sessenta e cinco da estrada de ferro Curitiba – Paranaguá. A morte do barão foi um ato de barbárie contra uma das maiores lideranças do Paraná e que ajudou em muito a desestabilizar as vidas econômica e política do Estado após a Revolução Federalista279. A palavra de ordem passou a ser atacar os federalistas de qualquer forma e não importava com qual tipo de ofensa.

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Mensagem dirigida ao Congresso Legislativo do Estado do Paraná pelo 1º vicegovernador Dr. Vicente Machado da Silva Lima, Curitiba, 18.05.1894. Resumidamente, Odah Regina Guimarães Costa relata a obra empresarial do Barão de Serro Azul da seguinte forma: “Ildefonso Pereira Correia, por tradição de família, que exercia papel destacado na comunidade paranaense e nas esferas políticoadministrativas do Império e do partido conservador, ele próprio eleito deputado provincial, em 1877, e camarista da cidade de Curitiba, ocupando a presidência da Câmara Municipal, sendo agraciado pelo governo imperial com a comenda da Ordem Rosa e, em 1888, com o título de Barão de Serro Azul, exercendo a Presidência da Província do Paraná, além da projeção no cenário industrial da erva-mate e da madeira e em todas as iniciativas de progresso da época e nos acontecimentos políticos que envolveram a Revolução Federalista e que culminaram no seu brutal desaparecimento, teve sempre projeção e ascendência social, tendo oportunidade de aumentar sua fortuna particular, gerindo seus negócios, ampliando-os e aplicando os lucros na dinamização de suas empresas e na sua renovação e constante aperfeiçoamento, além da sua diversificação, aluando nos setores mais rendosos da economia paranaense, o ervateiro e o madeireiro.” COSTA, Odah R. G. Ação empresarial do Barão de Serro Azul. Curitiba: Secretaria do Estado da Cultura e do Esporte, 1981. p. 23-24.

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A matilha de lobos sanguinários, o bando de ursos destruidores, emigrados das campinas vizinhas dos pampas e fugidos das margens do Prata, fartaram-se finalmente, destruíram, devastaram, estragaram o próspero Estado do Paraná, deixando após a sua passagem a morte, seguida de roubo, o roubo acompanhado de degolamento e o degolamento precedido do insulto, feito frio e calculadamente com intenção de intimidar os fortes e apavorar os fracos. Vinham sequiosos de sangue, açulados por desejos perversos, espicaçados por instintos depravados, na sanha animalescamente egoísta das feras que se aproximam das presas! (Alberto Sarmento)280

É bom lembrarmos agora um dos intuitos de nossa análise discursiva. Todo indivíduo é um agente social com determinada função, e o discurso serve de interlocutor entre um agente social e outro com a finalidade de transmitir um discurso. Então, é óbvio no trecho acima assim como em outros trechos anteriores, que o agente pronunciador desse discurso tem como objetivo rechaçar os federalistas demonstrando suas pérfidas ações e colocar o Estado do Paraná como vítima com o intuito de conquistar a solidariedade dos paranaenses, que se inteiravam dos acontecimentos em tela, muito em parte, por meio do jornal A República. Metodologicamente, o registro das falas publicadas, tais como são apresentadas por A República, representam bem a forma pela qual os combates aconteciam em termos simbólicos,
Porque os jornais definem papéis sociais, entendemos que o destinatário está presente o tempo todo, ora fornecendo os parâmetros do discurso através da idealização que o emissor faz dele, ora como tipo padrão de leitor que o emissor quer formar. A partir desses pressupostos tentamos perceber a representação do real que faziam e, em conseqüência, os projetos que estavam em jogo281.

No Rio Grande do Sul, as lutas ainda estavam acontecendo. No último dia de maio, a Divisão do Norte, chefiada por Manoel do Nascimento Vargas, derrotava a retaguarda das forças de Gumercindo Saraiva, na passagem do rio Pelotas 282.
280 281

282

A República. Curitiba, 15.05.1894. VIEIRA, Maria do Pilar de Araújo et alii. A pesquisa em história. São Paulo: Ática, 1989. p. 54. FRANCO, Sérgio C. Op.cit., p. 82.

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Os federalistas não eram somente atacados com a força das armas, mas também, com as injúrias, cada vez mais acerbas, principalmente após uma derrota.
A princípio os brasileiros punham em dúvida a série imensa dos crimes hediondos que a imprensa republicana ia narrando, tocando-as (sic) de apaixonado, ou de pouco escrúpulo. (...) Os rebeldes tinham por chefes homens de nacionalidades duvidosas, tinham por armas os punhais dos bandidos, tinham por pessoal a castelhanada (sic) vagabunda e de salário fácil e por fim não tinham, entre si, dois representantes de uma mesma idéia social ou política...283

Nota-se, nesse trecho, um ataque aos federalistas quanto à sua formação, falta de organização e barbárie. Não se esquivaram também, de atacar aqueles que não davam crédito à imprensa republicana. Apesar de estarem em desvantagem, alguns maragatos ainda permaneciam, no Estado do Paraná, renitentes. Em meados de junho de 1894, a retaguarda da coluna de Jucá Tigre entrava em combate às margens do rio Paraná com as forças legalistas do coronel Braz Abrantes, os federalistas sofreram uma fragorosa derrota, sendo obrigados a se refugiar no Paraguai284. A represália aos imigrantes aderentes à Revolução Federalista também foi severa. Conseguimos achar, em nosso levantamento de fontes, algumas correspondências do Ministério das Relações Exteriores do Brasil para o Governo do Estado do Paraná, que servem para demonstrar tal constatação. Aqui segue como exemplo, um trecho que ilustra essa represália:
Diz a legação da Itália que o súdito do seu país Dr. Giuseppe Franco Grillo, residente na vila de Palmeira, nesse Estado, queixase de que um grupo de 17 soldados às ordens de um alferes apresentou-se a 15 de junho último em sua casa para prendê-lo por determinação do general Ewerton de Quadros. Avisado a tempo, conseguiu ocultar-se sabendo depois que o procuravam por ser acusado de ter favorecido as tropas revolucionárias e com elas cooperado em algumas execuções praticadas dentro de suas terras. Tendo o queixoso alegado não ter tomado parte de forma al283 284

A República. Curitiba, 09.06.1894. FRANCO, Sérgio C. Op.cit., p. 82.

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guma na guerra civil, a referida legação pede-me que, no caso de não existirem provas contra ele, se tomem providências a fim de que possa viver em paz e entregue ao seu trabalho. Em uma relação que me apresentou dos prejuízos alegados pelo dr. Grillo figura o seguinte: destruição de 2 quilômetros de cercas e impedimento do exercício da profissão de médico285.

Indubitavelmente, a morte de Gumercindo Saraiva em agosto de 1894 em Carovi, município de Santiago, Rio Grande do Sul, tornou a Revolução Federalista uma insurreição sem rumo e se Júlio de Castilhos, a seu turno, rogava que “pesada, como os Andes, te seja a terra que generosamente cobre seu cadáver maldito” 286, no Paraná as injúrias pelos republicanos locais não ficavam atrás ao afirmar que tinham “motivos para satisfação da morte do torvo revolucionário” 287. Com esse fato, a Revolução Federalista ficou, grosso modo, restrita a escaramuças entre tropas legalistas e coronéis gasparistas no Estado do Rio Grande do Sul. Uma carta escrita em 14 de agosto de 1894 e enviada pelo capitão Arthur Madureira, que se encontrava a serviço no Paraná, foi lida pelo senador Costa Azevedo em plenário, na sessão de 10 de maio de 1895. Através dela tem-se informações sobre a situação de derrota dos federalistas e os estragos que produziram.
Creio que o 1º regimento ainda se demorará muito tempo em Palmas. Dos federalistas por aqui, não há mais notícias. Não calculas em que estado ficou a cidade da Lapa, causou lástima e ao mesmo tempo indignação por ver que ali estão sepultadas muitas de nossas vítimas dos bandidos revolucionários. Tudo agora por aqui é governista (boa dúvida, risos)288.

Os revoltosos da Armada, por sua vez, refigiaram-se quase que, em sua totalidade, no Uruguai e na Argentina, e, segundo
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287 288

Códice do Arquivo Público do Estado do Paraná, referente à correspondência de 23.08. 1894. Obs.: registramos em nossa pesquisa outro ofício com conteúdo da mesma espécie por parte da legação da Áustria-Hungria em 28.08.1894, mas não achamos necessário reproduzi-lo por causa da semelhança de conteúdo. ESCOBAR, Wenceslau. Apontamentos para a história da revolução rio-grandense de 1893. Brasília: Editora da UnB, 1983. p. 286. A República. Curitiba, 18.08.1894. Anais do Senado Federal (Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, Serviço de Pesquisa, Documentação Histórica e Museu do “Solar dos Câmara”, Porto Alegre), sessão de 10.05.1895.

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A República, enquanto Menezes Dória “vivia como um lorde”, os marujos “andavam como mendigos” 289. A partir do confinamento das batalhas no Rio Grande do Sul, o tema da Revolução Federalista voltou a algumas notas esparsas em A República dali para frente, e em verdade, notamos em nosso levantamento desse periódico que os editoriais passaram a se ocupar apenas com a consolidação do mando no Estado do Paraná do grupo ligado a Vicente Machado, dentro da presidência de Prudente de Morais, que assumiu o cargo em 15 de novembro de 1894, e que deu novos rumos aos desdobramentos da Revolução Federalista. Deveras, a vida política do Paraná após a Revolução Federalista foi marcada pela absoluta preponderância dos republicanos locais sobre os liberais, calados diante da sua derrota militar e perseguidos por meio de inquéritos criminais. Tal domínio político pode ser atestado nos pleitos seguintes, como mostraremos mais adiante no “Ensaio Biográfico”. Passemos, agora, a um editorial sobre as primeiras eleições pós-Revolução Federalista no Estado do Paraná:
No dia 27 deve reunir-se em sessões preparatórias, e no dia 1º do mês próximo, em segunda e última sessão ordinária da legislatura, o congresso legislativo do Estado. A benemérita corporação que com tanta abnegação e civismo, assistiu todo o desenvolvimento da revolta e da invasão cercando então o chefe do executivo do Estado, do largo e desprendido apoio de sua confiança e que depois da reconquista da ordem legal, com igual sentimento patriótico veio trazer concurso e cooperação para o completo restabelecimento do regime constitucional 290.

O que marca o texto acima é o mais deslavado cabotinismo, através de vocábulos como “benemérito”, “abnegado”, “cívico”, “patriótico”, dentre outros, e Vicente Machado é reconhecido como possuidor de “largo e desprendido apoio”. Com a derrota final da Revolução Federalista em 24 junho daquele mesmo ano, no combate de Campo Osório, em que morreu o almirante Saldanha da Gama, só restou aos insurretos um acordo de paz, que foi assinado dois meses depois no município de Pelotas,
289 290

A República. Curitiba, 21.08.1894. A República. Curitiba, 25.09.1894.

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após estabelecidas as condições aceitáveis pelo governo federal dentre as exigidas por Joca Tavares, e, no mês seguinte, era concedida a anistia aos insurretos federalistas e aos marujos da Armada. Por fim, retomando nossas considerações teóricas de uma história política renovada, expostas na introdução desse trabalho, recorremos ao historiador francês Jean-Noël Jeanneney, que acredita que o historiador deva tomar muito cuidado tanto ao analisar as relações de poder entre os meios de comunicação e o Estado, como ao ponderar sobre as instituições de comunicações em si, pois,
Se alguém alegar que isso foge ao político stricto sensu, eu retrucaria, a partir da minha experiência, que sempre se esbarra no político, de uma maneira ou de outra, no interior desses estabelecimentos, porque na vida cotidiana de um jornal, de uma rádio, de uma televisão, se reflete constantemente a vida política do país. Com todas as deformações que se queira, vê-se aí resumido, reunido, com relevos acentuados, o jogo que é jogado no mundo político291.

Já com relação a quem escreve nos jornais, devemos, segundo Maria Helena Rolim Capelato, “desmistificar a categoria abstrata ‘jornal’, fazendo emergir a figura dos jornalistas como sujeitos dotados de consciência que se determina na prática política” 292. Nesse entendimento, é necessário lembrar que um indivíduo, no nosso caso, um jornalista, é um agente social que pertence a uma rede de relações efetivadas num tempo e numa situação sociopolítica específicos, cujos valores e práticas são manifestados por meio de discursos que, aqui, são impressos em A República. Vimos, no decorrer do trabalho, que as refregas políticas entre os antigos membros dos extintos partidos imperiais em torno dos ideais federalistas propostos pelos gaúchos se deram, no Paraná, antes mesmo da invasão do Estado pelos maragatos em janeiro de 1894. Nessa parte do trabalho, principalmente, vimos ainda como a luta também aconteceu no âmbito da imprensa durante todo o período da nossa pesquisa. Consideramos essa análise importante porque ela deixou muito claro o clima tenso da política paranaense nos
291

292

JEANNENEY, Jean-Noël. A mídia. In: RÉMOND, René. (Org.). Por uma história política. Rio Janeiro: FGV/UFRJ, 1996. p. 224-225. CAPELATO, Maria H. R. Os arautos do liberalismo; imprensa paulista (1920– 1945). São Paulo: Brasiliense, 1989. p. 12.

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primeiros anos da República e ajudou-nos também a demonstrar a rearticulação da vida política do Estado do Paraná face aos influxos da implantação do regime republicano e da Revolução Federalista. 3.5 ENSAIO BIOGRÁFICO

Apesar de sofrer o preconceito de “tradicional” ou “positivista”, a história biográfica é um recurso de pesquisa largamente utilizado pela historiografia contemporânea em razão das renovações metodológicas que têm sido operadas na nova história política.
Refinando seus métodos e ampliando seu campo, a história, tornada mais complexa, não quer mais nada ignorar do que a constitui. A paixão do público pela história biográfica não é estranha a esse renascimento, assim como não o é o interesse que historiadores sérios atribuíram a um gênero tido como marginal ou frívolo. Se os grandes homens não explicam tudo, faltando muito para isso, eles nem por isso são estrangeiros no “território” do historiador. (...) A biografia, cercada de todas as garantias de trabalho sério e preocupada em reconstituir, em toda a sua complexidade, os laços entre o indivíduo e a sociedade, apareceu, portanto, como um lugar de observação particularmente eficaz293.

Dessa forma, o objetivo desta parte do trabalho é fornecer subsídios finais para a comprovação de nossa hipótese de que a Revolução Federalista constituiu-se, em solo paranaense, em momento crucial da cisão interna das camadas dominantes do Estado, por isso a razão do presente ensaio biográfico. Nesse arrazoado, para a emérita historiadora paulista Laura de Mello e Souza, “o eventual destaque dado a biografias individuais não persegue o factual, mas procura perscrutar nele o microcosmo revelador de toda uma camada social” 294. Entrementes, a cisão provocada pela implantação do regime republicano no Paraná e pela Revolução Federalista rompeu com a antiga ordem política herdeira do Império, acarretando a desestabilização da vida político-administrativa com o afastamento dos antigos políticos liberais.
293

294

CHAUSSINAND-NOGARET, Guy. Biográfica, história. In: BURGUIÈRE, André. Dicionário das ciências históricas. Rio de Janeiro: Imago, 1993. p. 95-97. SOUZA, Laura de M. O diabo e a terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras, 1986. p. 335.

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Para tanto, pretendemos fazer um levantamento biográfico das principais lideranças políticas paranaenses ao final do século XIX, com o intuito de identificar a formação das frações autônomas de classe a partir da diferenciação econômica; os federalistas a partir de suas militâncias no Partido Liberal, identificando-os, por essa constatação, com a sociedade camponesa do “Paraná Tradicional”; os governistas com o Partido Conservador e, conseqüentemente, com a burguesia ervateira295. 1) Jesuíno Marcondes de Oliveira e Sá (1827–1903)

Nasceu em Palmeira, importante cidade dos Campos Gerais. Formou-se em direito pela Faculdade de Olinda em 1849. Iniciou sua carreira profissional em Curitiba e, quando da emancipação política da Província do Paraná, assumiu cargos públicos, tais como inspetor da Instrução Pública do presidente Zacarias Góes de Vasconcelos e deputado à Assembléia Legislativa Provincial, onde exerceu três mandatos. Eleito deputado geral para a Câmara no Rio de Janeiro, chegou a ministro e secretário de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas no gabinete de Francisco José Furtado, entre 1864 e 1865, quando obteve o título de conselheiro do Imperador. Líder máximo do Partido Liberal no Paraná, exerceu interinamente a presidência da Província do Paraná várias vezes na condição de vice-presidente e, em 1889, assumiu a presidência, na qual se achava quando do movimento de 15 de novembro. Com o advento da República, atritou-se com o grupo de Vicente Machado e, decepcionado com a política, retirou-se para a Europa, onde veio a falecer em Genebra. Para o célebre Brasil Pinheiro Machado, a trajetória de vida de Jesuíno Marcondes é a própria metáfora do ocaso do “Paraná Tradicional”:

295

WESTPHALEN, Cecília M. Verbetes biográficos. In: SOARES, Luis R. N. (Org.). Dicionário histórico-biográfico do Estado do Paraná. Curitiba: Chain – Banestado, 1991. Sá, Jesuíno M. de Oliveira e, Conselheiro. p. 422-423; Westphalen, Emygdio. p. 555-556; Santos, Generoso Marques, Presidente. p. 429-430; Batista, Bonifácio José Batista, Barão de Monte Carmelo. p. 37; Batista, Firmino Teixeira, Coronel Vivida. p. 37-38; Marcondes, Amazonas de Araújo, Coronel. p. 274-275; Borba, Telêmaco Augusto Enéas Morocine, Coronel. p. 40; Silva, Francisco Xavier da, Presidente. p. 441.

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É interessante, neste ponto, como um documento significativo, o inventário do Conselheiro Jesuíno Marcondes, processado em 1904. O Conselheiro era de uma família de fazendeiros e de tropeiros dos áureos tempos dessa atividade. Na descrição dos bens inventariados, o que chama desde logo a atenção é a insignificância dos imóveis rurais. Rebento de uma notável família dos Campos Gerais, líder político provincial, o Conselheiro, nos fins do século XIX, não possuía mais terras, abandonara a tradição da família, não era mais um fazendeiro. Sua renda provinha de investimentos em títulos da dívida pública. No decorrer das primeiras décadas do século XX, a produção das fazendas diminuía constantemente, empobrecendo os fazendeiros296.

2)

Emygdio Westphalen (1847–1927)

Nasceu na Lapa (antiga Vila do Príncipe), principal cidade dos Campos Gerais na época. Formou-se em direito pela Faculdade de São Paulo em 1867 e iniciou sua carreira profissional no Rio de Janeiro, junto ao Conselheiro Zacarias Góes de Vasconcelos. Após militância liberal e abolicionista na Corte, retornou ao Paraná no início da década de setenta do século XIX, quando ingressou na política. Foi vereador na Lapa e em Curitiba, e deputado provincial pelo Partido Liberal. Na República, foi um dos fundadores da “União Republicana”, oposição ao Partido Republicano Federal, do grupo dos antigos conservadores. Foi desembargador do primeiro Tribunal de Apelação do Estado do Paraná. Participou da conspiração de 26 de junho de 1893 para depor Vicente Machado. Com a invasão do Paraná pelas forças federalistas foi indicado por Custódio de Melo para integrar o Governo Provisório do Desterro. Com o esfacelamento da experiência revolucionária, exilou-se em Buenos Aires, mas foi anistiado pelo Governo de Prudente de Morais em 1895, quando foi reintegrado à magistratura paranaense e, antes de falecer, ainda exerceu um mandato de deputado estadual em 1907 e terminou sua vida como procurador geral da justiça do Estado do Paraná.

296

MACHADO, Brasil P. Op.cit., p. 47.

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3)

Generoso Marques dos Santos (1844–1928)

Nasceu em Curitiba, mas envolveu-se com o “Paraná Tradicional” por influência de seu sogro, o Coronel Benedito Enéas de Paula. Formou-se em direito pela Faculdade de São Paulo em 1865 e no ano seguinte foi nomeado inspetor geral da Instrução Pública da Província do Paraná, quando entrou em contato com a sociedade camponesa dos Campos Gerais. Exerceu também o magistério, lecionando no Instituto Paranaense. Foi eleito deputado provincial pelo Partido Liberal em seis mandatos; foi ainda vereador em Curitiba e deputado geral duas vezes. Com o afastamento de Jesuíno Marcondes, Generoso Marques transformou-se no seu maior herdeiro político. Senador da primeira constituinte republicana, Generoso Marques foi também o primeiro presidente eleito do Estado do Paraná em abril de 1891, mas foi deposto em novembro desse mesmo ano em razão do apoio dado ao golpe de Deodoro. Simpatizante da causa federalista teve que se refugiar na corveta portuguesa “Mindelo”, para depois seguir para Buenos Aires. Afastado da cena política paranaense após a vitória legalista, Generoso Marques retornou anos mais tarde, exercendo vários mandatos de deputado estadual (de 1897 a 1912) e foi senador pelo Estado do Paraná várias vezes (de 1909 a 1926), até seu falecimento. Vale lembrar que Generoso Marques foi o maior personagem político de vulto a fazer oposição ao “consulado” de Vicente Machado. 4) João de Menezes Dória (1857–1934)297

Nasceu em Paranaguá, cidade litorânea paranaense, sendo filho de pai italiano e mãe parnanguara; completou os seus primeiros estudos na cidade de Curitiba e formou-se em medicina no Rio de Janeiro, em 1879. Como profissional de sua área, porém, traçou sua carreira na cidade de Ponta Grossa, onde tornou-se médico dos fazendeiros dos Campos Gerais e acabou identificando-se politicamente com o Partido Liberal. Durante a Revolução Federalista, Menezes Dória mostrou-se um exaltado simpatizante dos maragatos, chegando a primeiro
297

CARNEIRO, David; VARGAS, Túlio. História biográfica da república no Paraná. Curitiba: Banestado, 1994. p. 125-128.

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mandatário paranaense do Governo Revolucionário entre janeiro e março de 1894. Exilado em Buenos Aires, só voltou ao Brasil após a anistia, em 1895. A partir daí, sentiu-se perseguido e retirou-se da vida política como pretendente a cargo eletivo, limitando-se à oposição literária e jornalística contra o grupo de Vicente Machado. 5) Bonifácio José Batista (Barão de Monte Carmelo) (1827–1897)

Nasceu na Lapa. Sem formação acadêmica, atuou como tropeiro e comerciante de gado. Tornou-se líder do Partido Liberal na cidade de Castro, nos Campos Gerais, onde montou sua base eleitoral para eleger-se deputado provincial em 1854; nessa localidade também se tornou coronel da Guarda Nacional. Recebeu do Imperador o título de barão em 1886. Com a invasão do Estado pelos federalistas, aderiu ao lado dos revoltosos, mas com a derrota foi obrigado a deixar o Paraná, vindo a falecer poucos anos mais tarde. 6) Firmino Teixeira Batista (Coronel Vivida) (1834–1903)

Nasceu em Ponta Grossa, importante cidade dos Campos Gerais. Assim como seu irmão, o barão de Monte Carmelo, Firmino não cursou faculdade e tornou-se tropeiro, trazendo gado de Passo Fundo, esse seu itinerário fez com que ele acabasse se fixando em Palmas, na expansão da sociedade tradicional paranaense, onde se tornou o primeiro presidente da Câmara local pelo Partido Liberal, vindo a se tornar coronel da Guarda Nacional, à semelhança de seu irmão. Simpatizante da causa federalista teve suas terras invadidas pelos homens da Divisão do Norte. Ao contrário de seu irmão, resistiu e manteve-se no Paraná até sua morte. 7) Affonso Alves de Camargo (1873–1959)298

Nasceu em Guarapuava, importante cidade do comércio das tropas, na expansão da sociedade tradicional paranaense. Apadrinhado político de Jesuíno Marcondes, Affonso Camargo tornou-se um entusiasta do Partido Liberal no Paraná e mais tarde da causa
298

BENGHI, Lina. Camargo, Affonso Alves de, Pres. do Paraná. In: SOARES, Luis R. N. (Org.). Dicionário histórico-biográfico do Estado do Paraná. Curitiba: Chain – Banestado, 1991. p. 48.

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federalista, pois, quando do governo revolucionário de João Menezes Dória, foi nomeado chefe de polícia e promotor de justiça em Curitiba. Formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo em 1894. Mesmo perseguido pelo grupo governista após a Revolução Federalista, exerceu cinco mandatos de deputado estadual entre 1897 e 1914 e é considerado o mentor intelectual da “Coligação Republicana”, de 1908, movimento que tentou reconciliar os dois blocos antagônicos do conflito federalista no Paraná. Tendo sido eleito vice-presidente do Estado em 1911, exerceu a presidência duas vezes, entre 1916 e 1920, e, 1928 e 1930. 8) Amazonas de Araújo Marcondes, Coronel (1847–1924)

Nasceu em Palmas, outra importante cidade do comércio das tropas. Sem formação acadêmica, tropeiro e precursor da navegação entre Porto Amazonas e União da Vitória. Combatente da guerra do Paraguai, chegou ao posto de sargento e em 1882 foi nomeado coronel da Guarda Nacional de Palmeira. Militante do Partido Liberal e adepto da causa federalista, sofreu severas punições com a derrotas dos maragatos em solo paranaense, com seus vapores postos a pique pelos governistas. Terminou sua vida como prefeito de União da Vitória. 9) Telêmaco Augusto Enéas Morocine Borba (1840–1918)

Nasceu em Curitiba, mas logo se mudou para os Campos Gerais, pois sua família possuía fazenda na região de Tibagi. Sem formação acadêmica, Telêmaco Borba administrou os aldeamentos indígenas de São Pedro de Alcântara e atuou como chefe do Partido Liberal em Tibagi. Por essa localidade, elegeu-se prefeito municipal e formou base eleitoral para eleger-se deputado provincial e no, período republicano, deputado estadual. No oeste do Estado, foi um dos primeiros paranaenses a se deparar com os saltos das Sete Quedas em Guaíra e com a foz do rio Iguaçu. Sertanista, escreveu A atualidade indígena e vocabulário. Quando da Revolução Federalista, Telêmaco Borba capitaneou uma força militar federalista em Tibagi e acompanhou Gumercindo Saraiva em sua retirada.

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10)

Vicente Machado da Silva Lima (1860–1907)

Será visto com a profundidade adequada no subcapítulo 3.6, “O Consulado de Vicente Machado”, mais adiante. 11) Ubaldino do Amaral Fontoura (1842–1920) Foi visto no início desse capítulo. 12) Francisco Xavier da Silva (1838–1922)

Nasceu em Castro, cidade dos Campos Gerais. Graduou-se em direito pela Faculdade de São Paulo em 1860. Foi eleito vereador em Castro e depois deputado para diversas legislaturas para a Assembléia Legislativa Provincial. Após o movimento de 15 de novembro bandeou para o Partido Republicano Federal, agremiação política que aglutinava antigos conservadores. Foi eleito senador em 1903 e presidente do Estado do Paraná três vezes: 1892, 1900 e 1908. 13) José Pereira dos Santos Andrade (1842–1900)299

Nasceu na cidade portuária paranaense de Paranaguá. Após trabalhar alguns anos no comércio da erva-mate, transferiu-se para Recife, onde se formou em direito em 1875. Membro do Partido Conservador, Santos Andrade foi promotor de justiça em Antonina e deputado provincial. Com a República, elegeu-se senador constituinte. Durante a Revolução Federalista, comandou o 7º Batalhão da Guarda Nacional, pelo lado florianista. Eleito presidente do Paraná em 1896, tentou restabelecer as finanças do Estado, abaladas pela passagem dos maragatos. 14) Cândido Ferreira de Abreu (1856–1918)300

Nasceu em Paranaguá, cidade portuária do Paraná, e em 1874 transferiu-se para a Corte (Rio de Janeiro) para dar prosseguimento aos seus estudos. Em 1879, matriculou-se no curso de Engenharia
299 300

OLIVEIRA, Ricardo C. Op. cit., p. 241. SÊGA, Rafael A. A capital Belle Époque, a reestruturação do quadro urbano de Curitiba durante a gestão do prefeito Cândido de Abreu (1913–1916). Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2001. p. 31-38.

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da Escola Politécnica (antiga Escola Central), no qual chegou a preparador do gabinete do professor titular de física. Concluiu seu curso no ano de 1882, e já, no ano seguinte, iniciou sua carreira profissional na epopéia amazônica da construção da estrada de ferro Madeira–Mamoré como engenheiro de 1ª classe da Comissão de Exploração, chegando a chefe de seção. Após trabalhar na Amazônia, atuou como inspetor de colonização no Rio Grande do Sul. Em 1885, retornou ao Rio de Janeiro e passou a atuar junto ao Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas; dois anos mais tarde, em 1887, o presidente da Província do Paraná, Alfredo d'Escragnole Taunay, convidou-o para assumir o cargo de diretor das Obras Públicas da Província, chegando a inspetor especial de terras e colonização. Permaneceu nesse cargo até ser nomeado, em 1890, chefe da Comissão de Saneamento de Campos, renunciando ao cargo antigo. Em 1892, Cândido de Abreu venceu a primeira eleição para prefeito da cidade de Curitiba, porém seu mandato foi extremamente curto (11 meses). No ano seguinte à renúncia, Cândido de Abreu foi convidado por Aarão Reis para fazer da Comissão Construtura de Belo Horizonte, nova capital mineira em substituição a Ouro Preto. Ao final do mandato de Floriano Peixoto na presidência, em 1894, Cândido de Abreu foi nomeado tenente-coronel honorário do Exército, por destacados serviços prestados à causa republicana, inclusive adesão às tropas legalistas quando da Revolução Federalista, num episódio com desdobramentos insólitos:
Coube ao Dr. Cândido de Abreu a árdua missão de conduzir por terra um corpo expedicionário das forças que reconquistaram o Paraná, de Santos a Paranaguá, o que desempenhou satisfatoriamente. Regressando ao Rio de Janeiro, quando se deu a fuga dos revoltosos dos navios de guerra de Portugal, Floriano Peixoto consultou-o se aceitaria a missão secreta, chefiando um grupo de republicanos portugueses, no sentido de promover a imediata implantação do regime democrático na nação-mater. Cândido de Abreu respondeu que seus serviços estavam ao dispor da legalidade, onde e quando fosse preciso. A missão, porém, não foi desem-

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penhada, tendo Floriano desistido da árdua empresa que desejava confiar a Cândido de Abreu301.

Cândido de Abreu atuou, nessa época ainda, também como arquiteto de renome em Curitiba e depois secretário dos Negócios e Colonização, tendo destacado papel no assentamento de cento e trinta mil imigrantes, aproximadamente. Em 1899, foi nomeado por José Pereira Santos Andrade, presidente do Estado, secretário das Obras Públicas e Indústria, atuando em comissões de construção de estradas, medições de terras, elaboração de mapas do Paraná. Em 1903, foi eleito deputado federal pelo PRF e, em 1906, senador pela mesma agremiação política, mandato a que renunciou para assumir a Prefeitura Municipal de Curitiba entre 1913 e 1916, quando levou a efeito um vasto programa de reestruturação urbana da cidade. Cândido de Abreu encerrou sua gestão como prefeito de Curitiba em fevereiro de 1916; atuou ainda como professor de Física Experimental na então recente Universidade do Paraná. Antes de morrer, em 22 de fevereiro de 1918, estava trabalhando nas comissões demarcadoras dos limites entre Paraná–São Paulo e Paraná– Santa Catarina. 15) Manoel Alencar Guimarães (1865–1940)302

Neto do maior líder do Partido Conservador no Paraná, o Visconde de Nácar, Manoel Alencar Guimarães nasceu em Buenos Aires em razão dos negócios da família com erva-mate no rio da Prata. Formou-se em direito pela Faculdade de Recife em 1886. Exerceu o cargo de promotor público em Ponta Grossa e foi nomeado chefe de polícia pela junta do governo provisório em 1891. Eleito deputado federal em 1894, 1897, 1900, 1903 e 1906, assumiu o lugar de Francisco Xavier da Silva no senado federal em 1906, cargo para o qual foi eleito novamente em 1912 com mandato de nove anos.

301

302

LEÃO, Ermelino A. Contribuições históricas e geográficas para o dicionário do Paraná. Curitiba: Empresa Gráfica Paranaense, 1926. p. 288. OLIVEIRA, Ricardo C. Op. cit., p. 257.

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Um último inventário é pertinente nesse ensaio biográfico, o da origem político-partidária dos deputados federais e senadores do Paraná no período privilegiado por nosso trabalho 303. Infelizmente não dispusemos de dados precisos referentes afiliação partidária dos deputados estaduais do mesmo período e seremos obrigados a deixá-los de fora desse exame. Partimos da premissa, aqui, de que os políticos ligados à União Republicana do Paraná (URP) representavam setores envolvidos com o “Paraná Tradicional” (antigos membros do Partido Liberal) e os ligados ao Partido Republicano Federal (PRF), com o Paraná Republicano e Ervateiro (antigos membros do Partido Conservador). Segundo a Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, promulgada em 24 de fevereiro de 1891, no artigo 17, parágrafo 2º, as legislaturas dos deputados federais eram de três anos304. 1) Deputados Federais 1ª Legislatura (1891–1893) a) Bellarmino Augusto Mendonça Lobo, engenheiro militar, ligado à URP. b) Eduardo Mendes Gonçalves, engenheiro civil e jornalista, ligado ao PRF. c) Fernando Machado Simas, farmacêutico, ligado ao PRF. d) Marciano Augusto Botelho de Magalhães, militar de carreira, ligado ao PRF. 2ª Legislatura (1894–1896) a) Bento José Lamenha Lins, bacharel em direito, ligado ao PRF. b) Brasílio Ferreira da Luz, médico militar, ligado ao PRF. c) Francisco de Almeida Torres, engenheiro civil e empresário, ligado ao PRF. d) Manoel de Alencar Guimarães, bacharel em direito, ligado ao PRF.
303 304

OLIVEIRA, Ricardo C. Op. cit., p. 254-265. CONSTITUIÇÕES DO BRASIL. (1824, 1891, 1934, 1937, 1946 e 1967) Organizado por ALENCAR, Ana V. A. N.; RANGEL, Leyla C. B. Brasília: Subsecretária de Edições Técnicas do Senado Federal, 1986. p. 116.

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3ª Legislatura (1897–1899) a) Brasílio Ferreira da Luz, médico militar, ligado ao PRF. b) Bento José Lamenha Lins, bacharel em direito, ligado ao PRF. c) Leôncio Correia, jornalista, escritor e professor, ligado ao PRF. d) Manoel de Alencar Guimarães, bacharel em direito, ligado ao PRF. 4ª Legislatura (1900–1902) a) Bento José Lamenha Lins, bacharel em direito, ligado ao PRF b) Carlos Cavalcanti de Albuquerque, engenheiro militar, ligado ao PRF. c) João Cândido Ferreira, médico, ligado ao PRF. d) Manoel de Alencar Guimarães, bacharel em direito, ligado ao PRF. 5ª Legislatura (1903–1905)305 a) Cândido Ferreira de Abreu, engenheiro civil, ligado ao PRF. b) Carlos Cavalcanti de Albuquerque, engenheiro militar, ligado ao PRF. c) Manoel de Alencar Guimarães, bacharel em direito, ligado ao PRF. d) Antônio Augusto de Carvalho Chaves, bacharel em direito, ligado ao PRF. 6ª Legislatura (1906–1908) a) Antônio Augusto de Carvalho Chaves, bacharel em direito, ligado ao PRF. b) Manoel de Alencar Guimarães, bacharel em direito, ligado ao PRF. c) Vítor Ferreira do Amaral e Silva, médico, ligado ao PRF.
305

Bento José Lamenha Lins, do PRF, foi eleito nessa legislatura, mas renunciou.

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d) João Menezes Dória, médico, ligado à URP. 2) Senadores 1ª Legislatura (1890–1891 Constituinte – 1891–1893 Ordinário) a) Ubaldino do Amaral Fontoura, bacharel em direito, ligado ao PRF. b) José Pereira dos Santos Andrade, bacharel em direito, ligado ao PRF. c) Generoso Marques dos Santos, bacharel em direito, ligado à URP. 2ª Legislatura (1894–1896) a) Vicente Machado da Silva, bacharel em direito, ligado ao PRF. b) Arthur Ferreira de Abreu, militar, ligado ao PRF 306. c) Alberto José Gonçalves, padre, ligado ao PRF307. 3ª Legislatura (1897–1899) a) Alberto José Gonçalves, padre, ligado ao PRF. b) Vicente Machado da Silva, bacharel em direito, ligado ao PRF. c) Joaquim Rezende de Lacerda, militar, ligado ao PRF308. 4ª Legislatura (1900–1902) a) Brasílio Ferreira da Luz, médico militar, ligado ao PRF. b) Alberto José Gonçalves, padre, ligado ao PRF. c) Vicente Machado da Silva, bacharel em direito, ligado ao PRF. 5ª Legislatura (1903–1905) a) Francisco Xavier da Silva, bacharel em direito, ligado ao PRF 309.
306 307 308

Assumiu no lugar de Ubaldino do Amaral Fontoura, do PRF, que renunciou. Assumiu no lugar de José Pereira dos Santos Andrade, do PRF, que renunciou. Assumiu no lugar de Arthur Ferreira de Abreu, do PRF, que renunciou.

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b) Brasílio Ferreira da Luz, médico militar, ligado ao PRF. c) Alberto José Gonçalves, padre, ligado ao PRF. 6ª Legislatura (1906–1908) a) Cândido Ferreira de Abreu, engenheiro civil, ligado ao PRF. b) Manoel de Alencar Guimarães, bacharel em direito, ligado ao PRF 310. c) Brasílio Ferreira da Luz, médico militar, ligado ao PRF. Dessa feita, podemos inferir, a partir dos dados arrolados, que o universo dos deputados federais nas duas primeiras legislaturas (1891–1893 e 1894–1896), com pleitos realizados antes da Revolução Federalista, era de um deputado da URP frente a sete do PRF. Após 1894 (portanto, após a Revolução Federalista), o quadro muda substancialmente, dos 16 deputados das legislaturas 1897–1899, 1900–1902, 1903–1905 e 1906–1908, a URP permanece com apenas um deputado frente a 15 do PRF. De uma percentagem de 12,5% para a URP frente a 87,5 para o PRF antes da Revolução Federalista, após a mesma, esse quadro muda para 6,25% para a URP frente a 93,5% para o PRF, ou seja, a URP praticamente deixa de existir como força política durante o “consulado” de Vicente Machado. Todavia, entender o revezamento político do Senado Federal da Primeira República é uma tarefa mais penosa, pois pela Constituição de 1891, o artigo 31 estipulava que o mandato do senador era de nove anos, “renovando-se o Senado pelo terço trienalmente” 311. Dessa forma, nos seis mandatos arrolados, os cargos de senadores são na verdade oito, que perpassam os mesmos até completar os nove anos previstos pela Carta Magna. Desse montante, apenas um senador foi eleito pela URP em 1890, Generoso Marques dos Santos. Aqui nem precisamos elaborar uma percentagem para mostrar o completo ocaso da URP na Câmara Alta Federal após a Revolução Federalista.

309 310 311

Assumiu no lugar de Vicente Machado da Silva, do PRF, que renunciou. Assumiu no lugar de Francisco Xavier da Silva, do PRF, que renunciou. CONSTITUIÇÕES DO BRASIL. Op. cit., p. 117.

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Das 24 legislaturas de deputados federais arroladas, cinco indivíduos exerceram 14 desse montante (Manoel de Alencar Guimarães com 5, Bento José Lamenha Lins com 3, Brasílio Ferreira da Luz com 2, Carlos Cavalcanti de Albuquerque com 2 e Antônio Augusto de Carvalho Chaves com 2). Isso demonstra que a representação para a Câmara dos Deputados “era considerada como um espaço relativamente menos fechado que o Senado por parte dos grupos tradicionais”312. A análise acima reflete substancialmente a guinada política que a opinião pública paranaense deu em função da Revolução Federalista. Metodologicamente, a opinião pública é um recurso heurístico de difícil apreensão, como nos mostra Jean-Jacques Becker:
A divergência situa-se no nível dos objetivos: enquanto a história das mentalidades gosta dos “espaços” amplos da longa duração, onde se determinam as atitudes profundas, a conduta dos indivíduos durante séculos, ou, ao menos, prefere os horizontes mais limitados da média duração, que registram as mudanças progressivas de uma geração para outra, a história da opinião pública, para retomar uma expressão de Fernand Braudel, é uma “microhistória”, “atenta ao tempo breve, ao indivíduo, à história”. Por tempo breve, deve-se entender a reação imediata a um acontecimento preciso e num momento estritamente delimitado 313.

Dessa forma, as forças que compunham a URP praticamente sumiram do cenário eleitoral para a representação do Paraná na Câmara dos Deputados e no Senado após 1894, salvo a eleição de João Menezes Dória para deputado federal em 1906. Após a morte de Vicente Machado, ocorreu uma reestabilização do quadro político com as duas correntes. Esses dados ajudam a subsidiar nossa hipótese de que a Revolução Federalista constituiu-se, em solo paranaense, no momento crucial da cisão interna das camadas dominantes do Estado, acarretando a rearticulação da vida político-administrativa do Estado.

312 313

OLIVEIRA, Ricardo C. Op. cit., p. 254. BECKER, Jean-Jacques. A opinião pública. In: RÉMOND, René. (Org.). Por uma história política. Rio de Janeiro: FGV/UFRJ, 1996. p. 189.

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3.6

O “CONSULADO” DE VICENTE MACHADO

Na república romana e na primeira república francesa, o “cônsul” era uma espécie de magistrado supremo que atuava politicamente de forma efetiva sem, no entanto, ser o primeiro mandatário. Foi, guardadas as devidas particularidades históricas e regionais, numa condição de “eminência parda” que Vicente Machado traçou sua trajetória política no Paraná após a Revolução Federalista. Vicente Machado da Silva Lima nasceu na cidade de Castro, nos Campos Gerais, em agosto de 1860, filho de militar de carreira, formou-se em direito em 1881 pela Faculdade da São Paulo, onde foi contemporâneo de Júlio de Castilhos, Silva Jardim, Júlio de Mesquita e Assis Brasil 314. Ainda acadêmico, Vicente Machado escreveu para o jornal republicano paulista A República, tendo participado da luta política pela abolição da escravidão. De volta ao Paraná, atuou como promotor de justiça, secretário do governo provincial, professor e juiz de direito antes de ingressar na vida política em 1886 como deputado na Assembléia Legislativa Provincial pelo Partido Liberal, tornando-se o primeiro político paranaense a se declarar “republicano”. Apesar de Vicente Machado começar sua vida política pelo Partido Liberal e, portanto, sob influência da sociedade agrária dos Campos Gerais, ele sempre procurou deixar claro que era adepto de uma modernização burguesa do Estado do Paraná o que acabou conduzindo-o para o grupo dos conservadores até a proclamação da república. Com o movimento de 15 de novembro de 1889, bandeou-se para o lado dos antigos conservadores, no Partido Republicano Federal, tendo sido nomeado chefe de polícia do governo provisório e eleito deputado ao Congresso Legislativo e Constituinte do Paraná. Ao contrário de seu colega de faculdade Júlio de Castilhos, Vicente Machado nunca professou fé na doutrina positivista. Como vimos ao longo do trabalho, após exercer cargo de presidente interino do Paraná em Castro em razão da invasão do
314

WESTPHALEN, Cecília M. Lima, Vicente Machado. In: SOARES, Luís R. N. (Org.). Dicionário histórico-biográfico do Estado do Paraná. Curitiba: Chain – Banestado, 1991. p. 257-258.

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Estado pelos federalistas, Vicente Machado devolveu o cargo a Xavier da Silva em 14 de junho de 1894, pouco tempo após a debandada das tropas de Gumercindo Saraiva, e passou a se preparar para a campanha ao Senado, pois ele só completaria a idade mínima de 35 anos para o ingresso nessa casa legislativa no ano seguinte. Foi eleito para a Câmara alta federal para mandatos 1894–1903 e 1903–1912, mas desistiu do último para eleger-se presidente do Estado do Paraná em 1904. Todavia, Vicente Machado traçaria no plenário do Senado uma trajetória tíbia, e muitos de seus pares não o deixaram em paz por causa da execução do Barão de Serro Azul, e essa pecha foi adquirida, em parte, em razão da compaixão dos senadores frente aos lamentos da viúva de Ildefonso, a Baronesa do Serro Azul. Em carta dirigida ao senador barão do Ladário, lida em plenário em junho de 1895, ela expôs seu libelo contra o ex-presidente do Estado do Paraná:
O governador deste Estado, naquele tempo, V. Exª. sabe também, hoje senador da República, e como o coronel Pires Ferreira, aí está clamando porque, antes de tudo, se aprovem os atos do marechal Floriano e necessariamente todas as monstruosidades cometidas em nome do Vice-Presidente da República. Até agora, portanto, os dois homens (homens, senhor!) que fizeram no Itararé o conhecido pacto negro, mantêm-se fiéis ao seu juramento de covardia e de sangue: estão ambos no Senado da pátria, naturalmente bendizendo a miséria que, como Prometeu aos seus abutres, os alimenta de posição e talvez de fortuna, com o próprio sangue e com a desgraça de seus filhos. (...) É verdade também que poderia aludir a minha suspeição de mulher e de viúva obumbrada (sic) pela fatalidade que me feriu. Mas, senhor, o que aí fica – peço a V. Exª., que não esqueça agora – nasce da alma de uma criatura que tem os olhos voltados para a misericórdia de Deus e que não clama senão pela justiça, para que o martírio das vítimas não fique pesando sobre os destinos deste país, em que tenho de deixar os meus tristes filhos315.

Essa carta deixou transparecer a linguagem própria das pessoas enlutadas, na qual a tristeza profunda contrastava com indife315

Anais do Senado Federal (Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, Serviço de Pesquisa, Documentação Histórica e Museu do “Solar dos Câmara”. Porto Alegre), sessão de 25.06.1895.

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rença das autoridades, e esse lamento impressionou inclusive o egrégio jurista baiano Rui Barbosa, que não deixou o caso passar incólume na tribuna do Senado:
Há, senhores, nos quadros da montanha do Paraná, onde a voz dos homicídios confiada ao sigilo dos precipícios passa do vento à cordilheira, onde os trens por muito tempo patinaram sobre a carniça dos míseros trucidados, onde vítimas ilustres, patriotas dos mais estimáveis como o Barão de Serro Azul e seus companheiros dormem o último sono em uma quebrada da serra, sem direito talvez a uma dessas cruzes com que a piedade assinala o lugar onde o viandante incauto cai sobre o punhal do salteador inesperado!316

Esse assunto tornou-se seu “calcanhar-de-Aquiles” e não era raro Vicente Machado perder a compostura, como nessa altercação entre ele e o senador Joaquim Catunda no plenário do Senado,
V. M. – Nós brasileiros somos sempre um pouco hiperbólicos. Esta hipérbole é igual àquela de que V. Exª. usou em relação à trindade. (risos) J. C. – Mas não igual àquela que se deu com relação aos assassinatos no Paraná. V. M. – Se V. Exª. tiver coragem de reduzir a verdadeiros termos essa insinuação eu responderei. Presidente – Atenção! Costa Azevedo – Tiver a coragem, não é expressão parlamentar. V. M. – Repito: se honra o mandato que recebeu reduza o honrado Senador a termos essa insinuação para eu poder esmagála. Presidente – Atenção!317

Em várias outras sessões plenárias, levantadas em nossa pesquisa, ele “lavou suas mãos” e defendeu-se das acusações impingindo a culpa aos militares que cuidaram do caso. Contudo, tais acusações não foram tão marcantes que o impedissem de traçar seu “consulado”
316 317

Idem, sessão de 31.08.1895. Ibidem; sessão de 07.10.1895.

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no Paraná após a expulsão dos maragatos de Gumercindo Saraiva do Estado. E não foi só no Senado que Vicente Machado adquiriu a pecha de responsável pelos assassinatos no quilômetro sessenta e cinco; muitos historiadores corroboram essa versão. Até hoje essa é a lembrança mais forte no imaginário paranaense atrelada à figura de Vicente Machado frente à Revolução Federalista, junto ao abandono de Curitiba diante da invasão dos insurretos; todavia, achamos que abordar esse tema aqui, fugiria à nossa proposta de análise. Contudo, precisamos esboçar o quadro político nacional após a pacificação da Revolução Federalista para entendermos a inserção de Vicente Machado na política oligárquica do período. Se, por um lado, a atuação de Floriano foi uma das principais razões para a eclosão da Revolução Federalista, a apresentação de Prudente de Morais como novo candidato à Presidência da República, por outro, não acenou por si só para a pacificação. Ele era visto com muita desconfiança, inclusive pelos nacionalistas mais exaltados. O próprio Floriano nunca se entusiasmou muito com a candidatura do paulista para sua sucessão, visto pelo marechal como alguém que pudesse pôr em risco a “soberania” tão arduamente conquistada na sua conturbada gestão. Mas sua indisposição não conseguiu impedir que Prudente se alçasse à Presidência da República em novembro de 1894. A ele coube a condução das negociações de paz com os federalistas, no ano seguinte, na condição de primeiro mandatário da nação com aqueles já desanimados após as mortes de Gumercindo Saraiva e Saldanha da Gama. Contudo, um outro conflito colocaria em xeque a novel República brasileira nos sertões da Bahia logo em seguida. O falecimento do marechal Floriano em junho de 1895 esvaziou em muito os argumentos dos grupos políticos mais radicais, e para refrear suas ardentes manifestações, Prudente lançou mão de uma estratégia que visava desordenar o acordo firmado entre civis e militares em torno das propostas jacobinas de nacionalismo exacerbado. O grande exemplo disso está no proveito político que Prudente tirou do fiasco militar da campanha de Canudos ao desmerecer a atuação do Exército. O grande desfecho dessa atitude foi o atentado contra o próprio presidente Prudente em 1897 (no qual morreu seu ministro da Guerra), perpetrado por um soldado que havia lutado contra os adeptos do Conselheiro em Monte Santo e que dizia se identificar com Deocleciano Mártir, editor do jornal O Jacobino.

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O novo pacto político firmado nos anos que se seguiram à pacificação da Revolução Federalista ensejou um federalismo conservador em torno das facções políticas dos Estados-membros. Era a “Política dos Governadores”, que possuía peculiaridades próprias enquanto prática oligárquica. Tais peculiaridades estavam fortemente ligadas à figura do coronel e seu raio de ação, pois, se os oligarcas atuavam em nível estadual, às vezes regional, o coronel era um potentado local, associado à prática do “mandonismo”. E foi a articulação desses níveis de poder o ponto crucial para o entendimento da prática política brasileira e conservação do poder nas mãos das elites regionais na Primeira República. A prática da aparente “supremacia” dos Estados-membros sobre a União era complementada com a fraude eleitoral, ou as eleições a “bico de pena”, o que inviabilizava qualquer movimento oposicionista efetivo. Essa prática marcou fundo a vida política brasileira318. O ideal democrático, tão caro a alguns artífices da implantação do regime republicano, foi aos poucos perdendo sua consistência à medida que as oligarquias regionais passaram a ver na “coisa pública” um expediente para a manutenção de seus interesses e privilégios. Nesse sentido, os governos de Prudente de Morais e Campos Sales assinalaram a consolidação de uma “legalidade conservadora”, já que as principais vozes dissonantes desse projeto (monarquistas, jacobinos, revolucionários federalistas, revoltosos da Armada e sebastianistas de Canudos) haviam sido silenciadas de maneira bem eficaz, e os dois Estados mais populosos, São Paulo e Minas Gerais, passaram a comandar o país com o aval das oligarquias estaduais. E se pleitos eram viciados, os representantes eram genuínos na medida pela qual eles se constituíam em mandatários das elites dominantes de todos os níveis de poder do país, desde o pequeno município até a presidência da República. Nas unidades mais avançadas da federação, em que as relações de produção encontravam-se em um estágio mais avançado (Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais), o papel de intermediação exercido pelos partidos republicanos locais foi mais efetivo. Todavia, nas demais unidades federativas, menos desenvolvidas, predominou a política clientelista e personalista, e, apesar dessas disparidades

318

PENNA, Lincoln de A. República brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 91.

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regionais escancaradas, os interesses intra-elites predominaram em torno de um acordo político extremamente conservador. Essa situação histórica resultou, nos três Estados meridionais do Brasil diretamente envolvidos pela Revolução Federalista, em quadros políticos particulares. No Rio Grande do Sul, a derrocada da Revolução Federalista acarretou a implementação de uma plataforma administrativa de inspiração comteana, com a qual o Rio Grande do Sul foi submetido a mais bem elaborada política estadual de “modernização conservadora” do Brasil à época. Em 1898, Antônio Borges de Medeiros assumiu a condução do Estado gaúcho319 com o compromisso de levar adiante as diretrizes positivistas do seu mestre, nas quais o Executivo não era legitimado pelo sufrágio universal, e o Legislativo ficava restrito à aprovação do orçamento estadual. A derrocada dos federalistas calou os clamores que destoavam desse projeto, fazendo com que o Rio Grande do Sul encontrasse um equilíbrio forçado, tanto econômico como político, transformando-o em uma das unidades mais influentes da Federação, atuando com independência frente aos ditames da Política dos Governadores na defesa de seus interesses regionais particulares, em um pacto de convivência de não ingerência recíproca entre gaúchos, paulistas e mineiros. Em Santa Catarina, por sua vez, o poder foi dividido entre os grupos atrelados às oligarquias de Felipe Schmidt, Hercílio Luz e Lauro Müller. Ao final da Revolução Federalista, o Paraná, contudo, não possuía, nem uma vanguarda política tão bem organizada como a dos gaúchos positivistas, nem tampouco um triunvirato tão bem definido como o dos catarinenses. As feridas abertas pela referida insurreição cicatrizaram, nesse Estado, de forma diferente do Rio Grande do Sul ou de Santa Catarina. A derrocada da Revolução Federalista no Paraná emudeceu os setores de oposição envolvidos com a sociedade camponesa dos Campos Gerais. A Vicente Machado, sem atuar diretamente no executivo estadual paranaense nos dez anos posteriores à Revolução Federalista, coube o papel do “oligarca estadual” da Política dos
319

Júlio de Castilhos faleceu em 1903, mas Borges de Medeiros já havia assumido o governo do Estado gaúcho em 1898, quando exerceu dois mandatos. Em 1908, passou o governo para Carlos Barbosa e elegeu-se sucessivamente em 1913, 1918 e 1923.

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Governadores, pois os dois governantes máximos do Paraná desse mesmo período, Francisco Xavier da Silva (1894–1896 e 1900– 1904) e José Pereira dos Santos Andrade (1896–1900), tiveram atuações tímidas, tentando administrar um Estado com uma sociedade política esfacelada pela guerra civil, e seu principal produto, a erva-mate, começava a conhecer os revezes decorrentes da concorrência argentina. Nenhuma política econômica governamental planejada foi colocada em prática no Estado do Paraná, uma vez que as preocupações dos governantes desse período ficaram mais voltadas ao afastamento dos antigos políticos do Partido Liberal, e isto só cessaria em 1907, com a morte do oligarca-mor Vicente Machado. O retorno dos antigos liberais só se daria em 1908, com a organização da “Coligação Republicana”, em torno de mais uma eleição de Francisco Xavier da Silva, que reuniu antigos inimigos da Revolução Federalista no Paraná. O ponto alto desse entendimento e do retorno de antigos federalistas ao poder no Estado deu-se em 1916, com a eleição para governador de Affonso Alves de Camargo, antigo simpatizante da causa federalista, algo absolutamente impensável no Rio Grande do Sul na época.

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CONCLUSÃO

O Paraná tem uma identidade política tão clara quanto vários outros estados. Se no Rio Grande do Sul a questão sempre passa pela maneira como o Rio Grande se relaciona com o poder central, apesar de sua peculiaridade e de seus sentimentos oposicionistas crônicos, no Paraná a questão se apresenta a partir de como e de que maneira o Paraná conduz o seu situacionismo em relação ao centro de poder real ou virtual, ao centro de poder efetivo a ao que se construirá. A política paranaense sempre esteve com a tendência nacional vitoriosa, seja em 1842, 1853, 1894, 1930, 1932, 1945, 1961, 1964, 1982, 1994 e em 2000. Esse tem sido o destino da formação geopolítica paranaense, ser uma ponte de união, de consolidação e de situação na política brasileira em suas inflexões320.

Desde o início desse trabalho nossa preocupação central sempre foi pôr em destaque as implicações políticas da Revolução Federalista no Paraná para a consolidação do regime republicano no Estado que, desde os prolegômenos de sua formação econômica e social, sempre teve um intenso contato cultural com o Rio Grande do Sul. Entretanto, vimos ao longo do trabalho que o referido processo insurrecional teve nesses dois Estados desfechos díspares e isso não se deveu apenas em função de diferenças econômicas regionais, mas principalmente, devido às diversidades das situações políticas forjadas nos dois Estados após a proclamação da República. Muitos historiadores e escritores paranaenses concentraram suas penas no esforço de mostrar como a Revolução Federalista foi um evento “fora do lugar” na história do Estado. O exemplo mais claro disso está na obra de David Carneiro que, à guisa de exemplo, chega a chamar os maragatos de “corrientinos bombachudos de má
320

OLIVEIRA, Ricardo C. O silêncio dos vencedores; genealogia, classe dominante e estado no Paraná. Curitiba: Moinho do Verbo, 2001. p. xxiii. Em 2002, a tendência de alinhamento do Paraná com o poder central foi mantida, com a eleição de Roberto Requião para o cargo de governador. Apesar de ser do PMDB, Requião sempre se declarou aliado do candidato petista Luís Inácio Lula da Silva, atual presidente do Brasil.

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catadura” 321, com o intuito de demonstrar a absoluta alteridade cultural dos invasores gaúchos nas terras dos pinheirais. Com todo respeito ao insigne historiador, nosso esforço foi no sentido contrário; tentamos mostrar a profundidade dos laços culturais entre paranaenses e gaúchos em função do comércio das tropas, e nossa preocupação central sempre foi pôr em destaque a relevância da diferenciação econômica entre a oligarquia agrária dos Campos Gerais com a burguesia da erva-mate na formação dos Partidos Liberal e Conservador, respectivamente, ao longo do século XIX. Nesse ponto reside o ineditismo do nosso trabalho, ao mostrar que a adesão de setores da sociedade paranaense ao irredentismo gaúcho em 1894 foi reflexo direto do quadro de decadência econômica que a aristocracia dos Campos Gerais estava atravessando. Nunca tivemos a pretensão de fazer uma história comparada entre os Estado do Paraná e o Rio Grande do Sul, mas tentamos, de forma superficial, dissecar o aparente embaralhamento de similitudes e divergências culturais, econômicas e políticas entre essas duas unidades da federação brasileira em torno de um episódio tão conturbado. Essa postura também é inédita na historiografia paranaense. Um quadro teórico foi montado, onde tentamos inserir a Revolução Federalista em um momento histórico maior. Isso pôde ser atestado ao longo deste livro, na qual buscamos entender a formação dos grupos políticos paranaenses a partir da análise dos aspectos da vida política do Império e inserir o Brasil nos quadros do capitalismo mundial, analisando a crise do Império com a superação do trabalho escravo. Os percalços da implantação do regime republicano no Brasil acabaram se refletindo na construção de um Estado nacional oligárquico, na decadência da atividade criatória, na manutenção da estrutura agrário-exportadora e, para o nosso trabalho principalmente, na marginalização política dos Estados do Paraná e Santa Catarina. Já o Rio Grande do Sul, optou pelo seu auto-isolamento econômico, influenciado pela ideologia positivista das “pequenas pátrias”.

321

CARNEIRO, David A. S. O Paraná e a revolução federalista. São Paulo: Atena, 1944. p. 266.

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Inevitavelmente, a tumultuada vida política nacional nos primeiros anos da República acabara de se refletindo nos três Estados do Sul do Brasil, cristalizada na forma de uma sangrenta guerra civil, a Revolução Federalista, a qual foi vencida pelas forças legalistas. No Rio Grande do Sul, a derrota dos federalistas assinalou a efetivação do plano político-administrativo castilhista de orientação positivista, que se perpetuou até meados da década de vinte do século XX. Já no Paraná, entrementes, não existia uma plataforma política como a gaúcha, e a vitória sobre os revolucionários visou, basicamente, ao afastamento dos antigos liberais da cena política do Estado. O termo “revolução” é polissêmico e pode designar, em política moderna, “transformação radical por meio de ação violenta” ou, em astronomia, “rotação ou giro”. Com esse último sentido, na Antigüidade, o termo podia denotar uma noção cíclica do tempo ou o retorno a um status quo ante. No caso do Paraná, a derrocada da Revolução Federalista e o estabelecimento do “consulado” de Vicente Machado não acarretaram nem uma coisa nem outra, uma vez que não ocorreu nenhuma mudança radical dos rumos do poder no Estado, se adotarmos a acepção política moderna, nem tampouco uma tentativa de volta a um estado de coisas anterior, se adotarmos a concepção antiga. Em verdade, foi mais um rearranjo lampedusiano322, com vistas à acomodação e à conservação, características bem típicas da política paranaense. Por fim, achamos pertinente tecer aqui considerações finais sobre o foco do nosso trabalho e nosso levantamento de fontes, que ficou assentado em boa parte no jornal A República. Apesar de o leitmotiv de nosso livro ter sido a compreensão da estrutura econômica do Estado do Paraná, isso não diminuiu, ao nosso modo ver, a importância da análise do referido jornal à luz do se convenciona chamar, no meio acadêmico, de Nova História Cultural, pois as representações atestadas no periódico, apesar de não apontarem para a situação econômica do Estado do Paraná, mostraram bem a
322

Como na célebre passagem do livro Il Gattopardo, na qual o jovem personagem Tancredi argumenta a seu aristocrático tio don Fabrizio, príncipe de Salina (cuja dinastia tinha como símbolo uma espécie rara de leopardo), que era hora de este apoiar a unificação da Itália: “– Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude.”. In: LAMPEDUSA, Giuseppe T. O leopardo. São Paulo: Edibolso, 1976. p. 37.

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completa dissociação dos dois projetos de sociedade, o clima de tensão política e a inevitável identificação dos oposicionistas com os revoltosos gaúchos. Temos a convicção de que em História nenhum trabalho é definitivo e não somos levianos em afirmar que nossa abordagem ou nossa pesquisa empírica esgotam o assunto em tela; pelo contrário, esperamos que a mesma venha a ser um estímulo para que outros historiadores desenvolvam trabalhos relacionados à história política do Paraná na Primeira República, principalmente com respeito à trajetória política de Vicente Machado, em um ensaio prosopográfico, campo de pesquisa tão instigador, mas ainda pouco explorado em termos historiográficos acadêmicos.

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www.institutomemoria.com .br PARADIGMAS
I – Acreditamos que a integração entre povos se constrói de forma ética e solidária a partir da democratização cultural como forma de fortalecer e enriquecer a própria humanidade. Somente a cultura permite quebrar preconceitos e superar barreiras ideológicas, posicionando o ser humano como ponto de partida e chegada de todos os esforços da humanidade; II – Enxergamos que a dialogicidade que o livro estabelece, entre as diferentes culturas, permite a superação dos limites impostos pela geografia e pelas normas, viabilizando que a integração entre os povos se faça de forma ética e sustentável, formando indivíduos reflexivos e autônomos, comprometidos com os valores que lhes permitam alcançar seus objetivos sem ferir os valores do outro; III – Defendemos que somente a cultura legitimiza a civilização, distanciandonos dos outros animais, libertando-nos do eterno agora dos instintos e dos limites impostos pelo meio-ambiente. Portanto, ao democratizar o saber e a cultura, promovemos a própria humanidade e civilização; IV – Sustentamos que os países são tão mais fortes e ricos, quanto mais cultos são os seus cidadãos, entendendo que investir em ações que promovem o livro é contribuir para a construção de um mundo mais justo; V – Em um mundo que corre a passos largos para a empobrecedora e reducionista padronização cultural, lutamos pela cultura regional enquanto elemento identificador da nossa própria identidade. Afinal, defendendo as identidades regionais que promoveremos a rica diversidade cultural nacional que nos caracteriza enquanto povo e país; VI – Por isto, o Instituto Memória Editora e Projetos Culturais concentrará seus esforços na publicação de livros regionais e numa distribuição nacional mais efetiva, gerando e promovendo integração com respeito às diferenças; VII – Para o Instituto Memória, cada autor é considerado como o capital estratégico essencial, pois sem autor não existem livrarias e editoras, mas o autor existirá sempre.

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