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A rtigo

Estratégia para construção de indicadores


para avaliação da sustentabilidade e
monitoramento de sistemas *
Deponti, Cidonea Machado ** debate social. A grande discussão em torno
Eckert, Córdula *** da sustentabilidade dirige-se à construção de
Azambuja, José Luiz Bortoli de**** indicadores – instrumentos que permitem
mensurar as modificações nas características
Introdução de um sistema - e que permitem avaliar a
sustentabilidade dos diferentes sistemas.
A partir da década de oitenta, o termo sus-
Apesar da recente variedade de publicações
tentabilidade começa a aparecer com muita
sobre indicadores, poucos são os esforços para
freqüência, tornando-se tema importante no
tornar operativo seu conceito. O presente ar-
tigo objetiva propor uma estratégia para cons-
* Este documento foi elaborado com base na Monografia
trução de indicadores que permitam avaliar a
de Especialização de Deponti (2002) e no trabalho
sobre Redes de Referência realizado em conjunto com os sustentabilidade e monitorar sistemas.
seguintes núcleos da Divisão de Apoio Técnico (DAT) da Para tanto, o texto apresenta, em primeiro
EMATER/RS: NUIPA (Núcleo de Investigação Participa- lugar, a base conceitual sobre Indicadores,
tiva), representado pela Engenheira Agrônoma Msc. procurando defini-los e caracterizá-los. A se-
Córdula Eckert e Economista Msc. Cidonea Deponti; guir, propõe uma metodologia de análise inte-
NUPEP (Núcleo de Pesquisa, Estudos e Projetos), grada de indicadores para monitoramento das
representado pelo Engenheiro Agrônomo José Luiz Bortoli diferentes dimensões: técnica, econômica,
de Azambuja, Economista Especialista Ricardo Barbosa e ambiental e social, propiciando um acompa-
o Médico Veterinário Luiz Alberto Trindade; NUCSP nhamento sistêmico de uma unidade produti-
(Núcleo de Cadeias e Sistemas de Produção), representa- va, que tem por base o MESMIS (Marco de Ava-
do pelo Administrador de Empresas Msc. José Romualdo
liação de Sistemas de Manejo de Recursos Na-
Ferreira, e com as equipes dos Escritórios Regionais de
turais Incorporando Indicadores). Em terceiro
Erechim (RS) e Passo Fundo (RS), sob coordenação do
lugar, inserido em uma proposta de investiga-
Engenheiro Agrônomo Msc. Valdir Zonin e Engenheiro
Agrônomo Msc. Gilmar Meneguetti. Destaca-se ainda a ção-ação1, propõe estratégias participativas
colaboração do colega Engenheiro Agrônomo Msc. para a construção de indicadores, articulando
Nelson Baldasso. técnicos, agricultores e parceiros como sujei-
** Economista, Especialista em Desenvolvimento Rural tos e interlocutores nesse processo.
pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul-RS,
Mestre em Integração Latino-Americana pela Universida- Palavras-chave: indicadores, sustentabili-
de Federal de Santa Maria (RS) e Técnica da dade de sistemas, avaliação e monitoramento.
EMATER/RS.
***Engenheira Agrônoma, Mestre em Desenvolvimento
Agrícola pela Universidade Federal Rural do Rio de
1 Base conceitual sobre
Janeiro (RJ) e Técnica da EMATER/RS. Indicadores
**** Engenheiro Agrônomo, Especialista em Desenvolvi-
mento, Agricultura e Sociedade pela Universidade Federal O termo Indicador origina-se do latim
Rural do Rio de Janeiro-RJ (Defesa prevista para 28/11/ "indicare", verbo que significa apontar. Em
44 2002) e Técnico da EMATER/RS. Português, indicador significa que indica, tor-

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na patente, revela, propõe, sugere, expõe, erente com os propósitos da avaliação, é ne-
menciona, aconselha, lembra. No presente cessário ter clareza sobre:
documento, entende-se indicador como um • O que avaliar? Como avaliar? Por quanto
instrumento que permite mensurar as modi- tempo avaliar? Por que avaliar?
ficações nas características de um sistema. • De que elementos consta a avaliação?
Conforme Camino; Müller (1993, p. 49-50), • De que maneira serão expostos, integrados
Masera; Astier; Lopez-Ridaura (2000, p. 47) e e aplicados os resultados da avaliação para o
Marzall (1999, p. 38-39) há algumas caracte- melhoramento do perfil dos sistemas analisados?
rísticas importantes a serem consideradas na A clareza quanto aos aspectos acima é fun-
definição dos indicadores. O indicador deve: damental, pois são eles que deverão orientar
• ser significativo para a avaliação do sistema; a definição quanto ao tipo de indicador reco-
• ter validade, objetividade e consistência; mendado para o monitoramento do objeto pro-
• ter coerência e ser sensível a mudanças posto. Não são raros os casos em que ativida-
no tempo e no sistema; des de monitoramento geram muitas informa-
• ser centrado em aspectos práticos e cla- ções que, posteriormente, são pouco utiliza-
ros, fácil de entender e que contribua para a das, o que pode talvez ser explicado pelo fato
participação da população local no processo do indicador utilizado para o monitoramento
de mensuração; não retratar os anseios do grupo diretamente
• permitir enfoque integrador, ou seja, for- relacionado com o objeto. Exemplo: no acom-
necer informações condensadas sobre vários panhamento de uma unidade de produção de
aspectos do sistema; milho pode ser privilegiado o monitoramento
• ser de fácil mensuração, baseado em in- de um dado X, quando na verdade a preocu-
formações facilmente disponíveis e de baixo pação dos agricultores era com Y. A constru-
custo; ção dos indicadores deve estar diretamente
• permitir ampla participação dos atores relacionada com a resposta às questões aci-
envolvidos na sua definição; ma formuladas, relativas aos objetivos reais
• permitir a relação com outros indicado- do monitoramento e da avaliação.
res, facilitando a interação entre eles. Outro aspecto importante é que no levanta-
Para que a escolha de indicadores seja co- mento de indicadores considerados importan-

Quadro1:Conceitosdedescritor,indicadoreparâmetro
Conceitos Exemplos
Descritorsãoascaracterísticassignificativasparaamanutençãoeofuncio- Diminuir o grau de dependência a
namentodosistemaquepermitirãoalcançaropadrãodesustentabilidadeide- insumosexternos.
alizadopelosagricultores.Éoqueospropositoresdesejameoqueporelesé
vistocomonecessárioparaasustentaçãoepermanênciadosistema.

Indicadoréoinstrumentoquepermitemensurarasmodificaçõesnasca- Totaldeinsumoscomprados/totalde
racterísticasdeumsistema,ouseja,osindicadoresdeverãoestabelecer,para insumosusados.
umdadoperíodo,umamedidadasustentabilidadedosistema.

Parâmetrossãolimitesidealizadosquedeterminamonívelouacondição Oidealseráqueototaldeinsumoscom-
emqueosistemadevesermantidoparaquesejasustentável,balisadoresfun- pradosrepresente10%,20%,30%,40%ou
damentaisdeumprocessodemedidadasustentabilidade. 50%dototaldeinsumosusados.
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tes (pelo público envolvido com o objeto a ser tentabilidade de um sistema é o uso do méto-
monitorado), podem ser apontados não indi- do MESMIS - Marco de Avaliação de Sistemas
cadores e sim descritores, pelo fato de serem de Manejo de Recursos Naturais Incorporan-
genéricos, qualitativos e, portanto, não passí- do Indicadores de Sustentabilidade - que é
veis de mensuração. Esses descritores neces- uma ferramenta metodológica que permite
sitarão ser traduzidos em ítens mensuráveis, avaliar a sustentabilidade de um agroecossis-
quantificáveis, ou seja, em indicadores. tema. Esta metodologia é o resultado de um
Todavia, a mensuração ou a apuração trabalho multi-institucional, interdisciplinar
quantitativa de um dado pode não identificar e integrador coordenado pelo Grupo
se isso significa crescimento, estagnação ou Interdisciplinar de Tecnologia Rural Apropri-
decréscimo. O dado passará a ter significado ada (GIRA) do México, proposto a projetos flo-
apenas se referido a parâmetros, que neces- restais, agrícolas e pecuários3.
sariamente não são universais, estáticos e O MESMIS permite a identificação de pa-
imutáveis. Pelo contrário, em geral, os drões sustentáveis de desenvolvimento que
parâmetros refletem os interesses concretos considerem aspectos técnicos, ambientais,
que se colocam para o avaliador naquele mo- econômicos e sociais. Para tanto, faz-se ne-
mento histórico. Os cessário definir
parâmetros são limites descritores, indicadores
idealizados por seus "Indicador é um instrumento e parâmetros que
propositores que repre- mensurem, monitorem
sentam o nível ou a con- que permite mensurar as e avaliem a sustentabi-
dição (na ótica dos mes- lidade nesses aspectos.
modificações nas características
mos) em que o sistema Destacam-se abaixo al-
deve ser mantido para de um sistema." gumas características
que seja sustentável. que justificam a adoção
do MESMIS como base
2 Metodologia base para a construção de uma metodologia de
monitoramento:
Para o acompanhamento de sistemas de • Permite a análise e a retroalimentação
produção, de redes referência2, de projetos de do processo de avaliação;
investigação participativa, de unidades de • Promove a interação entre as dimensões:
experimentação participativa ou de qualquer técnica, econômica, social e ambiental;
unidade de observação, faz-se necessário o • Avalia de forma comparativa o sistema,
monitoramento de dados e de informações. seja mediante a confrontação de um ou mais
Ademais, inserindo-se em uma visão sistemas alternativos4 com um sistema de re-
sistêmica, com base em princípios da Agroe- ferência5 (avaliação transversal) ou mediante
cologia, percebe-se que não são suficientes a observação das modificações das proprie-
apenas as informações relacionadas à efici- dades de um sistema ao longo do tempo (ava-
ência técnica-econômica, em geral referentes liação longitudinal);
à produção e renda, sendo demandadas tam- • Apresenta estrutura flexível para adap-
bém informações que envolvam outros aspec- tar-se a diferentes níveis de informação e ca-
tos, como os sociais e ambientais, permitindo pacidade técnica disponível localmente;
avaliar a sustentabilidade de sistemas, den- • Permite o monitoramento do processo
tro de uma trajetória histórica.
46 Uma alternativa para a avaliação da sus-
durante certo período de tempo;
• Favorece a participação do agricultor, pos-
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sibilitando o seu empoderamento6, entre ou- e no monitoramento do sistema, que poderá ser
tras questões, a saber: os agricultores definem formado por agricultores, instituições de pesqui-
sua própria visão de sustentabilidade e suas sa, órgãos públicos, universidades, etc. Nesta fase
prioridades; aumentam sua capacidade de par- é importante identificar os diferentes atores que
ticipação e de organização; adquirem novas tenham interesse pelo trabalho de construção
habilidades; fortalecem sua capacidade de ar- de indicadores para monitoramento e avaliação
gumentação frente a outros interlocutores; atu- de sistemas. É interessante que ocorra o
am de forma comunitária; potencializam a envolvimento, especialmente dos agricultores, no
descentralização e o desenvolvimento local. processo, pois estes devem sentir-se parte dele e
O MESMIS é a metodologia que dá a base para identificados com as suas ferramentas, passos e
a estratégia a ser desenvolvida no sentido de iden- objeto de estudo.
tificar os indicadores para avaliação e A identificação inicial desse público a ser
monitoramento de sistemas, abaixo apresentada. envolvido no processo geralmente parte do
técnico, no entanto, caso existam parceiros,
3 Estratégia de execução grupos de agricultores interessados ou agri-
cultores com quem já se trabalha há mais tem-
Uma característica valorizada em uma pro- po, tal identificação não é necessária. É rele-
posta de investigação aplicada (por exemplo, vante que parceiros, técnicos e agricultores
em que o objeto avaliado é o sistema de pro- estejam sensibilizados, pois uma proposta por
dução), refere-se ao fato de que, além do co- mais interessante que possa parecer, por si
nhecimento técnico, também deve ser consi- só, não é garantia de motivação e de conti-
derado e valorizado o saber do agricultor acu- nuidade do trabalho.
mulado ao longo de sua vida que, geralmen- Para a condução da(s) reunião(ões) com os
te, pauta suas opções de condução da unida- agricultores, pode-se fazer uso de algumas das
de produtiva, com razões e justificativas que, sugestões como: organizar a reunião em um
muitas vezes, não são percebidas pelo técni- lugar central, se possível, acolhedor e dividir
co. Assim, entende-se que devem ser busca- os participantes em grupos. É interessante
das metodologias que promovam processos mesclar o máximo possível o grupo, por exem-
participativos na condução de qualquer plo, outorgando um número de 1 a 3 a cada
monitoramento ou investigação. participante e, logo depois, separar da seguinte
forma: os números 1 formam o 1º grupo, os
3.1 Passos para construção de indicadores números 2 o 2º grupo e assim sucessivamen-
Com a intenção de apoiar um acompanha- te; cada grupo deverá definir um coordena-
mento de forma sistêmica e participativa, apre- dor (relator) e um secretário (anotador).
senta-se algumas alternativas metodológicas
3.1.2 Determinação do objeto de estudo e
de apoio a processos de monitoramento e de do tipo de avaliação
investigação aplicada. Os passos abaixo apre-
sentados podem ser utilizados para a constru- O segundo passo é a determinação do ob-
ção de indicadores para avaliação da susten- jeto de estudo. Este é um aspecto essencial
tabilidade de sistemas, permitindo e enfocando para o desenvolvimento dos demais passos,
a participação dos agricultores. pois é nesta fase que se determina a escala
espacial, e a partir dela a caracterização do
3.1.1 Identificação do público envolvido sistema e a definição do tipo de avaliação a
O primeiro passo consiste em identificar e ser desenvolvido. Além da escala espacial, é
reunir o público que será envolvido na avaliação necessário identificar a abrangência do siste-
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ma a ser analisado. Dessa identificação deve- versal. Além disso, também é possível realizar uma
rão constar alguns aspectos, tais como: avaliação denominada longitudinal, que significa
• Delimitar geograficamente o sistema (lo- analisar o mesmo sistema ao longo do tempo.
cal, região, município, comunidade); Segundo a metodologia apresentada para a
• Determinar a escala temporal (análise quin- avaliação da sustentabilidade e o monitoramento
zenal, mensal, bimestral, semestral, anual); de sistemas, há ainda um terceiro tipo de avali-
• Caracterizar o sistema de produção ou a ação, denominado de avaliação mista, que con-
unidade produtiva, incluindo uma descrição siste na mescla da avaliação longitudinal com a
clara dos seguintes aspectos: avaliação comparativa dos sistemas entre si, ou
— Diferentes componentes do sistema: cli- seja, compara-se um determinado sistema de
ma, relevo, vegetação natural, tipo de solo, con- uma região ou localidade com um sistema simi-
dições de fertilidade e de produtividade, descri- lar de outra região. Por exemplo: sistema de cul-
ção do sistema de cultivo (consórcio, rotação, tivo X da região Y é comparado com o sistema de
sucessão, repartição de parcelas, calendário), cultivo X da região Z.
descrição do sistema de O procedimento indi-
criação (espécies, raças, cado pela metodologia
manejo alimentar, sanitá- implica em realizar uma
rio e reprodutivo); "Uma característica valorizada em avaliação da sustenta-
— Levantamento ge- bilidade comparativa
ral da unidade produti-
uma proposta de investigação
entre sistemas, ou seja,
va: limites, localização aplicada refere-se ao fato "o sistema X da região
dos rios, fontes de água, Y é mais (ou menos)
áreas florestais, área dis- de que também deve ser sustentável que o siste-
ponível, área cultivada, considerado e valorizado o ma X da região Z".
prédios, benfeitorias, No entanto, a opção
equipamentos; saber do agricultor, acumulado pelo tipo de avaliação a
— Insumos e produtos ser realizado dependerá
ao longo de sua vida."
necessários (entradas e do acordo firmado com
saídas); os agricultores. A opção
— Práticas agrícolas, pecuárias e florestais; por uma avaliação longitudinal ou transver-
— Níveis e tipos de organizações agrícolas sal, ou pelos dois tipos, concomitantemente,
(características sócio-econômicas): é interes- não deverá engessar o processo, o qual poderá
sante destacar a forma de tomada de decisão, sofrer modificações na metodologia adequan-
a composição familiar, a força de trabalho dis- do a análise a cada caso.
ponível, a participação em organizações, como
por exemplo associações)7. 3.1.3 Definição de Desenvolvimento Sus-
Todavia, os procedimentos a serem
tentável e Unidade Produtiva Sustentável
adotados deverão ser construídos junto com É necessário explicitar a compreensão que
os agricultores, com o objetivo de promover os agricultores têm de sustentabilidade, sen-
um compromisso entre os diversos atores do fundamental definir, em conjunto, onde se
quanto à condução do monitoramento. quer chegar, ou seja, o padrão sustentável para
Quanto a tipos de avaliação, o MESMIS pro- o sistema. Este é um exercício muito impor-
põe avaliar a sustentabilidade comparando um tante, pois a compreensão que os agricultores

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ou mais sistemas alternativos com um sistema tenham de sustentabilidade servirá de orien-
de referência, que se denomina avaliação trans- tação ao longo do trabalho. O importante é que
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esta definição: jugam-se os pontos convergentes e desenvol-
• esteja orientada para a realidade local; vem-se, a partir de uma discussão geral, um
• inclua a participação dos agricultores; conceito de sustentabilidade, suas caracterís-
• incorpore o longo prazo; ticas, os pontos críticos do sistema de acordo
• vincule aspectos técnicos, econômicos, com a visão dos agricultores.
sociais e ambientais do sistema em análise.
3.1.6 Definição dos descritores
Para conhecimento da opinião dos agricul-
tores, pode-se utilizar, entre outros instru- Da definição de sustentabilidade e da deter-
mentos, um questionário com perguntas minação dos atributos e pontos críticos ter-se-
orientadoras. ão os descritores, pois geralmente os agriculto-
res definem descritores, ou seja, desejos, aspec-
3.1.4 Determinação dos atributos ou carac- tos importantes para o funcionamento do siste-
terísticas da sustentabilidade
ma e padrão de sustentabilidade por eles ideali-
É preciso definir quais são as característi- zado. Para esses descritores deverão ser encon-
cas que o sistema deve ter para ser considera- trados um ou mais indicadores, lembrando-se
do sustentável. Podem ser levantadas várias que os indicadores deverão permitir mensurar
características pelos agricultores, sendo que as modificações ocorridas no sistema.
aquelas consideradas relevantes para a análi-
3.1.7 Levantamento da lista de indicadores
se do tema deverão compor as características
desejáveis da sustentabilidade buscada por Essa lista consiste num amplo conjunto de
aquele grupo. A literatura8, por exemplo, aponta indicadores técnicos, econômicos, sociais e
alguns atributos (ou características) desejáveis ambientais levantados junto aos agricultores
da sustentabilidade, tais como: diversidade, com base na sua compreensão de sustentabili-
eqüidade, resiliência9 e autonomia. Estes atri- dade, e demais definições dos passos anterio-
butos poderão se confirmar ou não na opinião res (3.1.3, 3.1.4 e 3.1.5). Como os agricultores
dos agricultores, bem como outros atributos geralmente definem descritores, cabe aos téc-
poderão ser apontados. nicos, em discussão conjunta com os agriculto-
res, transformarem os descritores em indica-
3.1.5 Definição de pontos críticos (estran- dores que permitam a mensuração do sistema
gulamentos) analisado. Para esses descritores deverão ser
Os pontos críticos são aspectos ou proces- encontrados um ou mais indicadores, salien-
sos que limitam ou fortalecem a capacidade tando-se que os indicadores deverão permitir
dos sistemas de sustentar-se no tempo. É con- mensurar as modificações ocorridas no siste-
veniente identificar o maior número de pon- ma. Cada descritor poderá ser avaliado através
tos críticos possíveis. Para sua identificação, de um ou mais indicadores, conforme ilustra-
pode-se levantar as seguintes questões: se, a título de exemplo, no quadro abaixo:
• Quais são os pontos vulneráveis do sis-
tema? Descritor Indicador
• Quais são os pontos fortes do sistema? ·Melhorararenda ·Remuneraçãodamão-de-obra/UTH
Após a determinação das características e ·Rendalíquida
dos pontos críticos nos pequenos grupos, for-
3.1.8 Seleção de indicadores estratégicos
ma-se um grande grupo com a participação
de todos para exposição das idéias, podendo- Do conjunto de indicadores levantados no pas-
se utilizar a visualização móvel10 como técni- so anterior (3.1.7), deverão ser selecionados os "in-
ca de exposição dos resultados. Assim, con- dicadores estratégicos", os quais serão trabalha- 49
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dos, monitorados e avaliados. São considerados verão ser sugeridos pelos agricultores e basea-
indicadores estratégicos aqueles que se repetem dos na sua visão do que é sustentável para o
nos vários trabalhos realizados junto aos agricul- sistema em estudo, conforme a definição obtida
tores, que sejam fundamentais para avaliação da no item 3.1.3. Os parâmetros permitirão a cone-
sustentabilidade, e que descrevam um amplo con- xão entre a avaliação e o monitoramento do sis-
tema com a realidade local. O quadro abaixo
junto de aspectos técnicos, econômicos, sociais e
exemplifica o conceito de parâmetro:
ambientais. Este conjunto de indicadores deverá
ter abrangência e profundidade, de modo que, com
Descritor Indicador Parâmetro
um pequeno número de indicadores, seja possível
•Melhorararenda •Remuneraçãoda •2,5saláriosmí-
realizar uma avaliação de qualidade acerca da sus-
mão-de-obra/UTH nimospormês
tentabilidade do sistema e uma comparação entre
os sistemas estudados. Por exemplo, qual o nível de renda neces-
Recomenda-se, para a escolha ou seleção sário para a sobrevivência da família? Caso
dos indicadores estratégicos, primeiro fomen- os agricultores definam 2,5 salários por mês,
tar uma discussão aberta e participativa em esse passaria a ser um parâmetro de susten-
torno das características dos indicadores, bus- tabilidade idealizado.
cando-se melhorar a compreensão por parte
de todos os envolvidos, para após ser valida- 3.1.10 Medição e monitoramento
da pelos agricultores e técnicos. Aqueles indi- De posse dos indicadores obtidos de forma
cadores que não forem considerados estraté- participativa com a presença, o envolvimento
gicos, poderão também ser monitorados pe- e a discussão com os agricultores, passa-se à
los agricultores, através de cadernos de ges- medição e ao monitoramento que se inicia com
tão especiais. Isso permitirá substituir um in- a coleta de dados, cuja periodicidade depen-
dicador estratégico que, porventura, não seja derá do tipo de dado a ser obtido. Para isso,
adequado ou não esteja permitindo a serão utilizados "cadernos de anotações", onde
mensuração da sustentabilidade do sistema. o agricultor irá registrar as informações rela-
Um indicador estratégico deve apresentar al-
tivas ao sistema. Os cadernos de anotações
gumas características essenciais, devendo ser:
deverão ser organizados de modo a permitir o
• centrado em aspectos claros e práticos;
registro de dados relevantes para a
• simples de entender;
quantificação dos indicadores, bem como para
• baseado em informações confiáveis;
registrar informações qualitativas julgadas
• fácil de medir e de monitorar;
importantes para o entendimento e explica-
• sensível, isto é, deve permitir a avaliação
ção dos dados numéricos (quantitativos).
das modificações nas características do sistema;
Para cálculo dos indicadores econômicos,
• integrador, ou seja, que permita a inter-
pode ser utilizado o Programa de Gestão Agrí-
relação com outros indicadores, compreenden-
cola - CONTAGRI11 - software que permite a ob-
do aspectos das diferentes dimensões.
tenção dos dados econômicos (contabilidade
3.1.9 Determinação de parâmetros rural). Caberá aos técnicos o estudo e tabulação
das informações dos cadernos de gestão, assim
Para cada um dos indicadores estratégicos,
como a integração e a organização dos indica-
serão definidos, de forma coletiva, parâmetros.
dores técnicos, econômicos, sociais e
Os parâmetros são os níveis ou as condições que
ambientais, os cálculos necessários e a repre-
deverão ser alcançadas ou mantidas para que o
50 sistema seja sustentável. Esses parâmetros de-
sentação gráfica dos indicadores estratégicos em
planilhas do Excel que permitirão a visualização
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das informações, análises e comparações. Os indicadores descrevem um processo es-
pecífico e são particulares a esses processos, e
3.1.11 Apresentação, integração e valida-
por isso não há um conjunto de indicadores
ção dos resultados
globais adaptáveis a qualquer realidade. Os
Nesse passo ocorre a restituição aos agricul- indicadores devem refletir o objetivo de seus
tores para discussão e validação dos resulta- propositores. Assim, o processo participativo
dos, iniciando-se a fase de construção da análi- na sua construção garante a identificação dos
se. Após a validação dos resultados, estes serão propositores com os indicadores selecionados.
analisados de forma conjunta, preferentemente Quanto à metodologia proposta, ela apre-
em parceria com instituições afins ao processo. senta uma orientação prática e baseia-se em
O resultado dessa discussão permitirá defini- um enfoque participativo, mediante o qual se
ções para melhorar a sustentabilidade dos sis- promove a discussão e retroalimentação en-
temas analisados. Destaca-se que o processo é tre avaliadores e avaliados; permite examinar
construtivo e que os agricultores participam de em que medida os sistemas são efetivamente
todo o percurso realizado para a obtenção, a mais sustentáveis e identificar pontos em que
construção e a mensuração dos indicadores. se faz necessário impulsionar mudanças.
O método pode desenvolver-se com todo o
4 Considerações finais seu potencial sempre e quando a equipe que
o aplique trabalhe verdadeiramente de forma
A construção de indicadores para avaliação participativa, o que exige, acima de tudo, uma
da sustentabilidade é um trabalho que exige postura dialógica, que respeite e valorize a opi-
uma equipe interdisciplinar, pois não há uma nião dos interlocutores, especialmente, dos
fórmula pronta, é necessário análise, interpre- agricultores. A
tação e compreensão por parte dos envolvidos.

Referências
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ção da sustentabilidade em contextos de dade de Agronomia. Programa de Pós-Gradua-
desenvolvimento rural local. 2001. 155 p. ção em Fitotecnia, UFRGS. Porto Alegre.
Monografia (Especialização) - UFRGS. Progra-
ma de Pós-Graduação em Desenvolvimento PAULUS, G. Empoderamento. Porto Alegre,
Rural, Porto Alegre. 2001, 1 p. (não publicado).
51
Agroecol. e Desenvol. Rur. Sustent. Porto Alegre, v.3, n.4, out/dez 2002
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Notas
1
A pesquisa participativa envolve o participante no cidadania por parte dos envolvidos. No âmbito
seu local de trabalho ou a comunidade no contro- do desenvolvimento rural, esse processo reflete-
le do processo inteiro da pesquisa. Por meio da se na efetiva participação dos agricultores e suas
pesquisa participativa é estabelecida uma nova re- organizações em espaços de discussão e deci-
lação entre teoria e prática, entendida esta última são, de caráter não apenas consultivo, mas tam-
como a ação para transformação. "A pesquisa par- bém deliberativo, como é o caso de muitos Con-
ticipante é um processo permanente de investiga- selhos Municipais de Desenvolvimento
ção e ação. A ação cria a necessidade de investi- Agropecuário e de Fóruns Regionais de Desen-
gação, por isso pressupõe-se que o problema a volvimento. Sob esse enfoque, ainda que possa
ser investigado origina-se na comunidade ou no vir a influenciar estruturas formais de poder, o
próprio local de trabalho" (Haquette, 1995). A in- empoderamento surge da consciência dos indi-
vestigação ação implica em reciprocidade, exige víduos do seu próprio poder (saber que sabem e
que o investigador sempre projete uma ação posi- que podem), que se potencializa em ações soci-
tiva para os interlocutores rurais, que crie as refe- ais coletivas" (Paulus, 2001).
rências objetivas que permitam apreciar o valor
da palavra de ambos interlocutores, e a satisfação 7
As informações relevantes para descrição dos as-
às aspirações a um maior bem-estar, tanto do in- pectos acima relacionados para a identificação e
vestigador no cumprimento de seu trabalho pro- a caracterização da unidade produtiva poderão
fissional como do interlocutor rural (de acordo não ser encontradas em Roteiro de Sistematização para
aos conceitos urbanos, senão aos valores propria- Entrevista Semi-diretiva com o Agricultor ou Gru-
mente rurais), o que denomina-se de benefício po de Agricultores, desenvolvido pelo Consultor,
compartilhado (Gasché, 2002). contratado pela EMATER/RS para trabalho com
Redes de Referência, Xavier Barat. Tal roteiro está
2
A EMATER/RS, através da atuação dos técnicos à disposição no NUIPA da EMATER/RS ou na Bi-
de seus Escritórios Central, Regionais e Munici- blioteca Central da empresa.
pais, desenvolve nas regiões de Passo Fundo e de
Erechim uma proposta de trabalho com Redes de 8
A definição de atributos da sustentabilidade pode
Referência, na qual se utiliza da metodologia aqui ser verificada em Masera, Astier, López-Ridaura
apresentada para construção de indicadores para (2000, p. 18-23).
a avaliação e monitoramento de sistemas.
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Resiliência é a capacidade do sistema de retornar
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Informações obtidas em Masera, Astier, López- ao estado de equilíbrio ou manter o potencial pro-
Ridaura (2000). dutivo depois de sofrer perturbações graves. Por
exemplo, uma queda drástica do preço de um
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Sistema alternativo é aquele em que se incorpo- dos produtos fundamentais do agroecossistema
rou inovações tecnológicas ou sociais em relação (Masera, Astier, López-Ridaura, 2000).
ao sistema de referência. Por exemplo: um siste-
ma agroecológico. 10
A visualização móvel é uma técnica que, atra-
vés do registro em tarjetas, permite que as idéi-
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Sistema de referência representa o esquema as e opiniões dos participantes de um traba-
técnico e social usualmente praticado na re- lho sejam expostas de forma sintética para todo
gião. Por exemplo: um sistema tradicional ou o grupo.
um sistema convencional.
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De uma perspectiva sociológica, a expressão 11
CONTAGRI é um sistema informatizado de con-
empoderamento refere-se ao processo crescen- tabilidade de gestão agrícola, desenvolvido pela
te de protagonismo individual e coletivo dos ato- Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Ru-
res e grupos sociais, resultando em uma apro- ral de Santa Catarina - EPAGRI, para fins de
52 priação de conhecimento e exercício efetivo de gerenciamento de unidades produtivas rurais.

Agroecol. e Desenvol. Rur. Sustent. Porto Alegre, v.3, n.4, out/dez 2002