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ALEGORIA DO FASCISMO BRASILEIRO

A BESTA-FERA-ANHANGÁ

Eu vou contar uma história


Que aconteceu no Brasil,
Onde uma matança inglória
Houve sem lança ou fuzil:
Artes duma besta-fera
Que habitava uma cratera
N'alma da gente mais vil.

Deu-se no século XXI,


No seu segundo decênio,
Quando o país melhorava
Depois de meio milênio
Submerso na iniquidade,
Sem ter possibilidade
De alcançar o oxigênio.

O Brasil desabrochava
Aos olhos do mundo inteiro.
O povo vinha elegendo
Um governo BRASILEIRO
Pleito após pleito, emendado,
Mostrando seu peito inflado,
No bom sentido, altaneiro.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

As riquezas naturais
Sendo exploradas, enfim,
Com tecnologia própria,
O que garantia, assim,
Um salto em soberania.
Até submarino havia
No plano tupiniquim.

Debaixo d'água do mar


Um grande manancial
De ouro preto, óleo de pedra,
Alimento mineral
Das indústrias e transportes
De grandes, pequenos portes,
Em escala mundial.

Leis e projetos nasciam


Em amparo à sociedade,
De maneira que se dava
Um salto de qualidade
Nas políticas sociais.
Em outros tempos, jamais,
Houve igual realidade.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

As pessoas que compunham


A camada miserável
Deixaram de padecer
Da mazela deplorável
De lhes faltar alimento,
Viés por demais cruento
Desumano, inaceitável.

Gente pobre da cidade,


Assim como os camponeses,
Cujas famílias não tinham
Os excessos dos burgueses,
Passaram a receber
Renda pra poder comer,
O mínimo, todos os meses.

Programas que garantiam


Superior formação
Àqueles de baixa renda,
Herdeiros da escravidão,
Vinham suprimindo a dívida,
Fechando esta chaga vívida
De Mãe Preta e Pai João.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

No globo o que se falava


Era que o Brasil agora
Tinha voz e vez conforme
Outros gigantes de fora.
Nos tornamos respeitados;
Deixamos de ser coitados
Conforme fomos outrora.

Mas aí veio o pior:


Enquanto levava o povo
Sua vida, não notava
Que alguém incubava um ovo
Cujo embrião peçonhento
Só aguardava o momento
De sujeitá-lo de novo.

Uma raça de energúmenos,


Movida por truculência,
Que infesta as terras brasis
Com inépcia e virulência
Desde a época colonial,
Achou que seu cabedal
Passava por ingerência.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

Eram seres infelizes,


Que não se consideravam
Autênticos brasileiros
E por demais desprezavam
Sua raça mestiçada,
Sua estirpe acaboclada
Que os séculos lhes legaram.

Ao passo que, muito menos,


Eram quem queriam ser:
Os verdadeiros senhores
Da cangalha do poder.
Eram por estes usados
Para manter seus reinados,
Seus impérios, a saber.

Os donos do capital;
Gigantes parasitários
Que, pregados nos estados,
Sugam todos seus erários,
Quando não, dentro de empresas
Mantêm vivas suas presas
Sob contratos precários.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

Para seu serviço sujo


Escalam as já citadas
Criaturas sem moral,
As quais são sempre compradas
Com dinheiro e privilégios
E produzem sortilégios
Das formas mais variadas.

Nesta história que versejo


Estes seres são da raça
Dos vira-latas brasis,
Uma malta ultradevassa
Disposta a matar irmãos
E cortar as próprias mãos
A viver em meio à massa.

Deu-se que foram chamados


A conversar com os tais
Detentores do poder
E das cangalhas, os quais
Possuem forma de abutre,
Porco, ou bicho que se nutre
De detritos animais.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

Num arranha céu altíssimo


Num continente do norte,
Chegaram os vira-latas,
Cheirando a rabugem forte.
De vestes verde-amarelas,
Iam roendo as canelas
Prontos a dar seu suporte.

Sentaram-se num tapete,


Três dos cachorros em voga:
Um com faixa sobre o peito,
Outro vestindo uma toga,
Mais um velho rabugento
Que tinha o discernimento
De quem sabe com quem joga.

E foi ele quem falou


Primeiro entre os vira-latas:
⎼ Meus senhores do poder,
De quem sempre lambo as patas,
Que comece a reunião.
De servir faço questão,
Que façam constar nas atas!

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

⎼ Meu velho lobo do mar,


Que tanto nos serve bem.
Desde que mataste o índio
Para assá-lo no moquém
Que vem cumprindo os mandados
Para sermos regalados
Da carne que o povo tem.

Respondeu um porco enorme


De ventas arreganhadas,
No que atalhou-lhe um abutre,
Asas branco-acinzentadas:
⎼ Um sabujo traidor
Parece ter mais valor
Que cem porcas amojadas!

Ao que tornou o cachorro:


⎼ Meu ofício é ser vassalo.
Não me importa o que fizerem
À súcia do povo ralo.
Desde que meus bolsos encham,
Seus dólares os preencham,
Eu mato e cozinho o galo.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

⎼ Já servi, tem meio século,


Aos ditames simianos.
Apesar de que, no fundo,
Sirvo sempre a vossos planos.
Pode até não parecer,
Temos muito mais a ver
Com os norte-americanos!

Enquanto todos se riam


Uma águia, num rompante,
Adentrou janela adentro
E arrancou num só instante
Um pedaço do costado
Do cão que andava togado ⎼
Tributo vivissecante.

Já tendo engolido a naca,


Do couro do seu servente,
Empoleirou-se nos braços
Dum trono que havia à frente.
E num tom mais que cruel
Falou ao grupo fiel
Que jazia à sua frente.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

⎼ Embaixo (no sul) existe


Gente que pensa existir.
Não tarda e, se nós deixarmos,
Como homens irão agir.
Já é hora da cangalha
Ir ao lombo da gentalha;
Vocês devem assumir!

⎼ Mister, temos trabalhado


Dia e noite, sem cessar,
Com matérias levianas
Para o povo acreditar
Que o bom é, de fato, mau,
Vice-e-versa, coisa e tal.
Pós-verdade está no ar!

Respondeu o mais velhaco,


Porém, devo esclarecer:
Ele usava tanto termo
Estrangeiro pra inglês ver
Que resolvi traduzir
Visando não confundir
Àqueles que fossem ler.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

⎼ Não somente pelo ar,


Internet hoje é a via!
Lembram das grandes jornadas
Que noticiaste um dia?
Foram todas convocadas
Pelas redes, mascaradas;
“Fora todos”, se dizia?

Observou a águia velha


E seguiu com seus conselhos:
⎼ Inovem, pois o discurso
De combater os vermelhos
Hoje não surte os efeitos
Que outrora deitou eleitos
Com os bélicos aparelhos.

⎼ Preciso que os três se aliem


Num objetivo comum:
Mentir, mentir e mentir,
Um por três e três por um.
Com vossos viralatismos
Derrubam-se os progressismos
E põe-se em vala comum.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

⎼ Senhor, faz favor, licença ⎼


Disse o togado em sotaque
De caipira efeminado ⎼
Precisamos doutro achaque.
Um político autoritário,
Demagogo, chama-otário,
Um bravateador de araque.

⎼ Esses abundam, há mil…


A rapinante falou.
Veja a quantidade deles
Nos quais teu povo votou:
Bancadas da bíblia, bala,
Formam juntos maior ala
Que o führer jamais sonhou!

⎼ Vão e não percam mais tempo.


Unam a experiência
De quem já promoveu golpe
Com quem adquiriu ciência
Na nossa mais nobre escola.
Quanto a ti, velho gabola,
Assumes a presidência?

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

⎼ Conforme o tempo dirá,


Lá posicionar-me-ei
E esta faixa que ora ostento
Será verdadeira, eu sei.
Por enquanto ela é postiça,
Mas de acordo coa justiça
O presidente eu serei!

Disse alfim o derradeiro


Dos cachorros decadentes.
Após lamberem as patas,
Garras, partes indecentes
Dos polutos mandatários
Partiram os salafrários
Muito diligentemente.

Fizeram uma pinguela,


Num ato de vassalagem,
Pros interesses externos
Ofertar ampla passagem.
Também uma operação
Aos moldes da “Limpa-Mão”
Na mais pura sacanagem.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

Porém, crucial papel


Teve o sabujo sarnento.
Com sua megaestrutura
Promoveu convencimento
De muitos com vis campanhas,
Metendo-lhes nas entranhas
Ódio a todo momento.

Os vira-latas brasis
Detratavam, distorciam.
Nas mentes dos vulneráveis
Só mentiras incutiam,
De modo que alguns humanos
Que acompanhavam seus planos
As suas formas perdiam.

As tevês bombardeavam
O povo com altas doses
De peçonha, de tal forma
Que muitas metamorfoses
Transformavam gente em cão,
E cada qual, desde então,
Já portando zoonoses.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

Outros veículos de mídia


Prestavam papéis iguais;
Jornais impressos, revistas,
Blogues, redes sociais,
Transfiguravam as gentes
Em cães, em patos dementes,
Em bichos irracionais.

Tamanho era o contingente


De bandos, pencas, matilhas,
Que os vira-latas, enfim,
Federados em quadrilhas,
Partiram para o ataque
E mediante um grande baque
Ungiram seus cabecilhas.

Claro que houve resistência


Daqueles ainda humanos.
Bravamente contra os cães,
Patos, urubus ufanos,
Pelejaram os sensatos.
Mas por conta dos ingratos
Imperaram os insanos.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

Nisto deu-se um grande golpe


No peito dos brasileiros.
De início muitos não viram
Descerem de seus poleiros
Para se apossar de tudo
O abutre carrancudo
Com os demais carniceiros.

Mas enquanto estes bicavam


Com avidez seus bocados,
Gestava-se um anhangá
De trinta peitos cruzados,
Filho do cio da cadela,
Num ovo posto por ela
Por mil fascistas galados.

Besta fera polifágica


De apetite insaciável.
Devoradora de tudo:
Da carniça impalatável
Ao filé da carne humana.
Uma assombração profana
Das profundas do insondável.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

As garras da besta-fera,
Eram grandes à direita,
Bem como a musculatura
Que à destra era melhor feita.
Tudo um lado era maior,
Confessando, ao derredor,
Os sinais da sua seita.

Quando de dentro do ovo


Finalmente ela eclodiu
O povo que se encontrava
Desarmado então se viu
Sem meios para impedi-la.
Logo formou-se uma fila
De seres que ela engoliu.

Sob a Batuta dum porco


Uma orquestra ia entoando
Dissonantes monocórdicos,
Enquanto a besta, pulando,
Atalhava os dominados
Que vinham hipnotizados,
Em marcha se aproximando.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

Primeiro foram os patos


Recém-metamorfoseados.
Estes voavam direto
Por entre os dentes afiados
Cuja bocarra ostentava.
Sequer a besta engulhava
Coas plumas dos depenados!

Quando as aves se extinguiram


Foi a vez dos vira-latas,
Mas só os que davam lombo
Aos de cima porem patas.
Foram todos triturados
Os cães menos abastados
Que antes diziam bravatas.

Enquanto essa reles corja


Sofria tal condição,
As gentes se dividiam
Em parcial comoção.
Alguns temiam a morte,
Uns se lançavam à sorte
Como quem não faz questão.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

Enfim foi chegada a vez


Do suplício das pessoas.
E se deu numa avalanche,
Feito ataque de leoas.
Uma violenta orgia
Mil violações paria
Conforme as ratas, leitoas.

Morreram trabalhadores
Cujos empregos sumiram.
Aqueles que, por ventura,
Outros postos assumiram
Já iam encangalhados;
Conquanto eram explorados,
Não tardava, sucumbiam.

Os contingentes de pobres
Que não tinham o seu teto
Enchiam as avenidas,
As calçadas de concreto.
A besta, quando passava,
Grupos de dez devorava
Goela abaixo, direto.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

Indígenas, nas florestas


Limítrofes de fazendas,
Foram todos dizimados
Nas mais desiguais contendas.
De forma igual, camponeses
Abatidos feito reses
Nas cabanas e nas tendas.

Grupos étnicos, minorias


De gênero, mais imigrantes,
Eram liquidificados
Em gerigonças gigantes,
No que a besta se nutria
Com o sumo que escorria
Entre gritos suplicantes.

Políticos esquerdistas
Constituíram-se em presa
Das águias que os acossavam
Para comer-lhes à mesa.
Não restou porto seguro
Àqueles do alto do muro:
Findaram por sobremesa.

Eduardo Macedo
A BESTA-FERA-ANHANGÁ

Mulheres, gays, estudantes,


Camponeses, operários,
Afrodescendentes, índios,
Imigrantes, proletários,
Autônomos e artistas,
Políticos progressistas
E pequenos empresários.

Todos pratos do cardápio


Da besta-fera fascista,
O cão-de-guarda-larápio
Que o mundo capitalista
Quando necessário invoca.
Muita gente não se toca,
Mas também está na lista!

Todos os que estão abaixo


Dos senhores do poder
Estarão sempre fadados
A morrer ao bel prazer
Dos caprichos do sistema.
Há um só estratagema:
Pela esquerda combater!

Eduardo Macedo

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