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Centro de Filosoa Clínica Campinas

Resenha: AIUB, M. Como ler a losoa clínica: Prática da autonomia do pen-


samento. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2010.

A obra como um todo busca esclarecer a função da Filosoa Clínica, contextualizando-


a como uma proposta que busca resgatar a tarefa originária da própria Filosoa e expli-
citando as condições de possibilidade, a necessidade e o conjunto de elementos teóricos,
metodológicos e instrumentais que permitem sua existência e implementação como uma
proposta terapêutica.

No Capítulo 1: Filosoa e vida cotidiana: uma relação antiga Aiub busca situar
a Filosoa Clínica dentro da mesma motivação originária da própria Filosoa, que se
constituía em uma forma de elucidar problemas cotidianos de maneira radical e rigorosoa,
a m de solucioná-los ou compreender fenômenos correlacionados, de modo que defende
que a losoa nunca foi de fato afastada das questões da vida. Em especíco, a autora cita
o lósofo Heidegger ao mencionar sua ideia de que a losoa implica em uma disposição
em pensar junto com um outro, e prossegue mencionando Karls Jaspers ao ilustrar que
outra das características da losoa é induzir à saída da zona de conforto, desestabilizar de
algum modo. Engendrando uma discussão sobre como a losoa é usualmente pensada
do ponto de vista do senso comum, e desfazendo alguns pré-juízos relacionados, Aiub
naliza o capítulo com as noções que serão ponte para os capítulos subsequentes, a saber,
a losoa como possibilidade de estudarmos a nós mesmos e construírmos novas formas
de existir, o que é uma tarefa que a Filosoa Clínica se propõe a resgatar.

No Capítulo 2: Questões existenciais a autora traz uma discussão sobre a possi-


bilidade de tratar questões do cotidiano através de uma abordagem losóca, a qual
consistiria em investigar do que se trata, traçar o histórico do problema e, assumir o
não-saber como postura inicial. A partir daí a autora enfatiza a importância do contexto
para a apreensão relativamente aproximada do discurso de um autor em losoa, fazendo
uma analogia com um partilhante que traz à clínica suas questões: estas só podem ser
compreendidas de maneira responsável quando inseridas no contexto de vida de seu au-
tor, o que nos é dado através de sua historicidade, aqui compreendida como sua história
de vida contada sob seu próprio ponto de vista. Articular a compreensão do universo
do discurso do partilhante mediada sob estes cuidados inclui e ao mesmo tempo evita
que contaminemos as questões trazidas com nossos pré-juízos, em um processo ético que
apenas auxilia o partilhante a exercitar sua autonomia de pensamento : apesar do lósofo
ajudar o indivíduo a se compreender e esboçar suas alternativas no momento, será o pró-
prio indivíduo que escolherá os mundos possíveis adequados ao seu bem estar existencial,
sem a interferência direta do lósofo clínico.

No Capítulo 3: Construção de Conceitos e Qualidade de Vida Aiub faz referência


aos autores Deleuze e Guattari, em particular quando os mesmos defendem a ideia da
losoa como construção de conceitos, e estes neste contexto seriam delineadores de planos
de realidades possíveis. A cada apropriação de conjuntos de conceitos, o indivíduo teria,
diante de si não só a sua realidade em ato ou efetiva, mas todas as possibilidades relativas

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aos conceitos que tem à sua disposição, estando estes atualizados em seu cotidiano ou não.
É então da competência ou responsabilidade do indivíduo escolher, de maneira ao mesmo
tempo ética, pois a realidade escolhida para si vai ecoar na coletividade e construção
do mundo para as gerações futuras, e simultaneamente funcional, pois o mundo possível
a ser escolhido e vivenciado deve ser o que mais contribui para a realização existencial
da pessoa, do ser o que se é. Neste processo há muitos movimentos possíveis, e como
exemplo temos a opção por realidades insucientes para suprir as demandas existenciais
da pessoa, causando desconforto ou sofrimento, e também ocasiões em que pode ser útil
recuperar modos de vida que existiram do passado e que e tornam oportunos no momento
presente, assim como pesquisar elementos conceituais que são de culturas distantes ou
distintas das nossas, por propiciarem composições de realidades que satisfazem certas
questões urgentes. A importância do estudo dos conceitos também está presente nos
primeiros passos da clínica losóca, ao tentar recuperar na historicidade do partilhante a
gênese dos elementos que originaram seus modos de existir, elementos estes estruturados
em conceitos atualizados e exercitados pela pessoa que traz suas questões ao consultório.
Compreender quando e como estes foram estruturados e/ou adotados permite um leque
maior de opções em favor da clínica como a possibilidade de adaptar conceitos, expandí-los
em sua aplicação aos objetos, redeni-los ou mesmo subistituí-los por outros mais viáveis,
auxiliando assim o partilhante a mudar pontos chaves de sua vida.

Vemos no Capítulo 4: O Conceito de Clínica, um resgate por parte da autora de


aspectos histórico-culturais que envolvem de algum modo a noção de clínica como a com-
preendemos atualmente, perpassando o signicado original de ir ao leito do enfermo assim
como ao seu entorno, e também a motivação original de Hipócrates, hoje considerado o
"pai da medicina". Para este, o estado de bem estar de um indivíduo estaria relacionado
ao seu equilíbrio sistêmico, o qual por sua vez era indissociável do equilíbrio em um con-
texto social e cultural ao qual pertence. Deste modo, desequilíbrios sociais implicariam
desequilíbrios nos indivíduos. Aqui, a discussão de Aiub ruma para um olhar crítico à
medicina especializada, a qual em seu extremo tende a considerar o universo do indi-
víduo por suas partes constituintes, e por vezes desconsidera seus modos de vida e sua
autonomia existencial. Na acepção alternativa proposta pela Filosoa Clínica, o âmago
da questão se trata de respeitar a maneira como o partilhante vivencia suas questões e
indagar quais as condições de satisfatibilidade do conjunto de crenças que orientam a vida
deste sujeito, e formam seus hábitos, retornando assim às motivações hipocráticas origi-
nárias, que pontuavam as enefermidades como intrinsecamente relacionadas a hábitos e
práticas culturais.

No Capítulo 5: Filosoa Clínica: de onde vem a ideia, Aiub esclarece alguns pontos
sobre a construção histórica da própria Filosoa Clínica, conforme idealizada pelo seu
fundador Lúcio Packter, a qual foi inspirada em algum grau pelo movimento da Filosoa
Prática na década de 1980. Ainda trazendo elementos deste movimento e de outras ver-
tentes das Ciências Psi, Packter tentou empregar um processo de anamnese tradicional,
propondo aos indivíduos que vinham procurar a clínica perguntas relativamente fechadas
com ns de averiguar e caracterizar os problemas trazidos. Estas questões acabavam se
revelando correspondentes às perguntas do lósofo que tratavam de um conjunto bem de-

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limitado de questões típicas, indagando acerca de pntos como família, trabalho, relações
com os pais, e outros eixos temáticos xos e usuais. Uma vez caracterizada a questão
do indivíduo de acordo com estes temas fechados, uma teoria losóca seria escolhida de
maneira que melhor respondesse ao conteúdo do problema, em um processo de fazer cor-
responder um conjunto xo de soluções a determinados problemas padrão. Não tardaria
para Packter perceber que este modo de conduzir a clínica poderia induzir ao erro, pois
tornou-se fácil vericar que nesta metodologia toda a humanidade seria facilmente carac-
terizável sob um conjunto de questões fundamentais bem delimitado. Foi ao se deparar
com autores como Gadamer, Dilthey e Hegel que Packter teria se dado conta de que
era necessário revisar seu método de anamnese, o inspirando a solicitar a historicidade da
pessoa, denida como a sua história de vida contada por ela mesma. Este novo método
permitiu que a pessoa e toda sua singularidade fosse preservada, e a coleta de dados assim
se tornasse mais rica, possibilitando inclusive que o próprio partilhante pudesse ter uma
visão em perspectiva de sua situação existencial. Esta coleta de dados da historicidade, a
qual não trata exatamente dos fatos mas sim de como a pessoa em questão representa os
fatos para si, é a base dos três eixos básicos e norteadores da clínica losóca: os Exames
Categoriais (o modo de situar a pessoa no tempo e no espaço), a Estrutura de Pensa-
mento (os modos de ser que a pessoa constituiu para si) e os Submodos (as formas usuais
que a pessoa utiliza para solucionar seus problemas e que podem ser usadas também pelo
lósofo clínico).

O Capítulo 6: Como funciona a prática da Filosoa Clínica? trata da estrutura de


um típico procedimento clínico desde o momento em que o partilhante procura o auxílio
do lósofo. Dentre os vários detalhes explicitados no capítulo, destacam-se a distinção
entre o Assunto Imediato e o Assunto Último, o primeiro considerado como aquilo que
levou o partilhante a procurar a clínica losóca, sendo a sua inquietação em evidência, e
o último considerado o que está realmente por trás dos tópicos que foram apresentados na
conversa inicial, ou para onde a clínica realmente se direciona. A dialética que norteia os
dois elementos desta distinção parte da premissa de que muitas vezes a primeira queixa
do partilhante é apenas a parte visível do real motivo do desconforto existencial que se
apresenta, e para lidar com esta causa mais profunda que a clínica será estruturada. Após
o momento de exposição da queixa inicial, é explanado ao partilhante como se dará o pro-
cesso losóco clínico, e a partir daí será solicitada a historicidade do mesmo, conforme
denida no capítulo anterior. Parte-se da ideia de que a história do problema deve ser
contextualizada em uma história mais abrangente, que é a história da pessoa, sem a qual
a compreensão do problema será limitada. São tratados neste capítulo os cuidados que
devem ser conduzidos na ocasião da coleta da historicidade, como evitar interferências
no discurso do partilhante sendo permitidos apenas agendamentos mínimos, que são cha-
madas para o partilhante não saltar pontos em seu discurso, não se perder. Ao m da
primeira coleta de dados são realizados os processos divisórios, nos quais trechos obscuros
ou não sucientemente abordados da historicidade são aprofundados em uma nova coleta
de dados. Quando a história começa a se repetir durante o aprofundamento, é indício de
que podem ser realizados os enraizamentos, uma nova qualidade de aprofundamentos que
visa compreender o signicado dos termos e conceitos utilizados pelo partilhante em seu
discurso, conforme interpretados pelo próprio partilhante. Por m, o capítulo pretende

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demonstrar que a partir do conhecimento da malha conceitual pertinente ao partilhante,
assim como dos padrões revelados na historicidade e processos divisórios, é possivel, com
algum grau de aproximação, prever o resultado de cada movimentação na estrutura de
pensamento do mesmo.

O Capítulo 7: Eu sou normal? Por que parece que todo mundo pensa diferente de
mim? inicia com um questionamento por parte da autora sobre a noção de normalidade,
a qual é retratada apenas como compreendendo aquilo que está em conformidade com uma
norma vigente e que esta norma é um padrão que pode ser estabelcido para ns escusos,
perdendo assim sua legitimidade e podendo ser questionada a qualquer momento Esta
situação é ilustrada com o exemplo da personagem Dr. Bacamarte, da obra O Alienista
de Machado de Assis. A descrição de um processo de exclusão da norma é enfatizada,
como sendo aquilo que subjetivamente ou objetivamente leva muitos indivíduos à clínica,
ou seja, sentir-se não adequado ou deslocado diante de determinada norma aceita cole-
tivamente. Disto seguem variações, como o sofrimento antecipado pela possibilidade de
ser excluído, ou já na zona de exlcusão, o sofrimento por ter que se adequar à norma. É
esclarecido neste capítulo que a Filosoa Clínica enquanto terapia não toma partido sobre
a qualidade ou pertinência do padrão em questão, mas juntamente com o partilhante esta-
belece cenários possíveis para que o mesmo decida pelo melhor endereço existencial para
si, dada a situação de conito, e mais, calcula quais são as consequências de cada movi-
mento existencial pretendido, para o partilhante e seu entorno, o que traz mais elementos
para o exercício de autonomia existencial daquele que procura a clínica. Ao nal do capí-
tulo é ressaltado que o Filósofo Clínico, por não estar habilitado a diagnosticar os casos
em que o partilhante se encontra afastado da norma social em função de um desequilíbrio
químico ou orgânico, deve nestas situações desenvolver um trabalho interdisciplinar com
um prossional de medicina.

O Capítulo 8: Exames Categoriais: Como você se posiciona no mundo aprofunda o


funcionamento dos Exames Categoriais, elucidando os tópicos que os constituem, a saber:
Assunto, Circunstância, Lugar, Tempo e Relação. Novamente é explicitada a distinção
entre Assunto Imediato e Assunto Último, caracterizada a categoria Circunstância como a
que trata dos contextos de vida que se dão no entorno do partilhante, e a categoria Lugar
como a noção e os sentimentos associados aos limites de nosso corpo ou espacialidade,
conforme compreendida subjetivamente(na acepção proposta por Merleau-Ponty). Além
destas também são explanadas a categoria Tempo, que aqui é tomada tanto em sentido
cronológico como subjetivo, incluindo as percepções sobre sua duração e a idade existencial
do partilhante e a categoria Relação onde são examinadas as qualidades das relações
e interseções que o partilhante tece com outras subjetividades e com o mundo ao seu
entorno. É enfatizado que os outros eixos subsequentes na clínica só serão possíveis
com uma forte base de informações obtidas por meio dos Exames Categoriais sobre a
historicidade compartilhada.

No Capítulo 9: Estrutura de Pensamento: Como você é? a Estrutura de Pensamento


é caracterizada como um sistema composto por tópicos que representam os modos de ser
no mundo de um indivíduo. No entanto, ainda que preserve a essência de um sistema,

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onde cada um de seus tópicos ou elementos se afetam e implicam modicações entre si
mutuamente a exemplo de uma teia, a Estrutura de Pensamento é exível, uida e está
sempre em constante mutação, acompanhando as mudanças nos contextos de vida dos
partilhantes. A interdependência entre os tópicos permite, a exemplo do que pensa o
autor Lévi-Strauss, que se preveja com aproximação de que modo reagirá também todo
o conjunto no caso de modicação de um de seus elementos, sendo que há tópicos que
podem apresentar mais peso ou inuência para o conjunto do que outros.

O Capítulo 10: Submodos: como você age? trata da maneira utilizada por um in-
divíduo para lidar ou resolver suas questões, maneira esta que pode ser producente ou
não, pode estar atualizada com referência ao contexto ou não, pode ser resolutiva mas
trazer consequências desastrosas, dentre outras variações. O lósofo clínico primeira-
mente observa a aplicação informal destes Submodos, da maneira como o partilhante já
os utiliza naturalmente, mas, a partir da investigação da historicidade, exames categoriais
e estrutura de pensamento, pode, juntamente com o partilhante, criar novos submodos
adequados para as demandas existenciais, as quais podem ser atualizadas a cada consulta.

Capítulo 11: Movimentos Existenciais: O que se busca no consultório de Filosoa


Clínica? discute criticamente a ideia de f elicidade como aquilo que se busca em uma
terapia e contextualiza a Filosoa Clínica como a alternativa a uma ideia de felicidade
que age se distanciando da causa do sofrimento ou o anestesiando de alguma forma.
Não endossa necessariamente o contrário, pois para algumas pessoas debruçar-se sobre o
problema pode ser simplesmente insuportável. No entanto, auxilia o indivíduo que a busca
a ser aquilo que é. Para isto, o lósofo deve essencialmente se afastar de alguns vícios, como
impor seus pré-juízos ao partilhante, sem antes investigar do que se trata, não privilegiar
o processo da escuta interrompendo a pessoa durante o processo de coleta de dados, ou se
utliizar de sistemas losócos prontos e acabados para dar conta do universo existencial
da pessoa que busca a terapia, a reduzindo deste modo. Neste contexto, o lósofo além
de ter apreço pelo rigor conceitual, deve fazer um esforço no sentido de ser um amigo
do partilhante em algum grau, para que uma interseção positiva se forme, facilitando a
aplicação da metodologia da clínica. Em que extensão será dada esta aproximação entre
o lósofo e o partilhante é determinada pela pesquisa efetuada anteriormente desde a
historicidade. Outro ponto que é objeto de reexão no capítulo é se modicações ou
movimentações existenciais são possíveis, e a resposta dada é sim, na medida em que a
diferença entre o momento em que o partilhante chegou à clínica e o momento atual é
mensurável em muitos aspectos. No que concerne ainda a estas movimentações existenciais
há muitas possibilidades: o partilhante pode decidir que certas movimentações não são
desejáveis, e assim encerrar a clínica, o lósofo pode vericar junto com a pessoa que não
existem possibilidades de realizar aquilo que se busca.

O Capítulo 12:Continuando a Partilha traz as considerações nais da autora sobre


sua própria obra, que em suas palavras, indicou as "possibilidades de abordarmos os pro-
blemas da existência através de métodos losócos", e esboça os requisitos para que esta
proposta seja implementada na prática. Também faz uma retrospectiva dos instrumentais
que foram explanados na obra, desde os três eixos básicos até as consequências possíveis

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de suas interações e por m faz um convite para que, nos colocando na posição de amigos
do saber e amigos do outro, possamos aplicar esta metodologia para sanar nossas próprias
questões.

Monica Aiub Monteiro possui graduação em Licenciatura em Filosoa pela Universi-


dade Católica de Santos (1989), graduação em Bacharelado em Música pela Universidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1996), Pós-Graduação em Educação Brasi-
leira pela UNISANTOS (1992), Especialização em Filosoa Clínica pelo Instituto Packter
(1999), mestrado em Filosoa pela Universidade Federal de São Carlos (2006), doutorado
em Filosoa pela PUC-SP (2015). Atualmente é professora professora titular do Curso
de Formação em Filosoa Clínica e dirige as atividades do Interseção - Instituto de Filo-
soa Clínica de São Paulo. É conselheira editorial da revista Filosoa, Ciência & Vida.
Editora, atuando na Editora FiloCzar. Tem experiência na área de Filosoa, com ênfase
em Filosoa Clínica, atuando principalmente nos seguintes temas: losoa, losoa da
mente, losoa clínica, lógica, teoria do conhecimento, losoa da linguagem, saúde e
bioética.(Informações coletadas do Currículo Lattes.)