AS MARAVILHAS DE WALTER BENJAMIN

J.M. COETZEE
TRADUZIDO DO INGLÊS POR JOSÉ RUBENS SIQUEIRA

RESUMO
Neste texto o escritor sul-africano J. M. Coetzee comenta a vida e a obra de Walter Benjamin (1892-1940), a propósito da publicação de três títulos que compõem o projeto da Harvard University Press de tradução da obra benjaminiana para o inglês. Trata-se do inacabado The arcades project (Trabalho das passagens), lançado em 1999, e dos volumes I e II dos Selected writings, que reúnem textos dos períodos 1913-26 e 1927-34 e foram publicados em 1996 e 1999, respectivamente. PALAVRAS-CHAVE: Walter Benjamin; Trabalho das passagens; marxismo; comunismo.

SUMMARY
Here, the South-African writer J.M. Coetzee comments the life and work of Walter Benjamin (1892-1940) from a review of three titles that compose the Harvard University Press' project of translating Benjamin's oeuvre into English. It deals about the unfinished Arcades Project, issued in 1999, and the two first volumes of the Selected Writings, which gather texts from 1913-26 and 1927-34 and were published respectively in 1996 and 1999. KEYWORDS: Walter Benjamin; The Arcades Project; Marxism; Communism.

I

[*] Originalmente publicado em The New York Review of Books, vol. 48, nº 1, janeiro de 2001.

A história já é tão conhecida que quase não precisa ser contada. O cenário é a fronteira franco-espanhola, em 1940. Fugindo da França ocupada, Walter Benjamin apresenta-se para a esposa de um certo Fittko, que conhecera num campo de detenção. Soube, diz ele, que Frau Fittko poderia guiá-lo com seus companheiros na travessia dos Pireneus para a Espanha neutra. Ela o leva em uma caminhada para fazer o reconhecimento das melhores rotas; ele carrega uma pasta pesada. A pasta é mesmo necessária? — pergunta ela. Contém um manuscrito, ele responde. "Não posso correr o risco de perder isto. Precisa ser salvo. É mais importante do que eu".

Uma cópia do manuscrito deixada em Paris fora escondida na Bibliotèque Nationale por George Bataille. militou por muito tempo no movimento juvenil antiautoritário de retorno à natureza liderado por Wyneken. torna Benjamin um ícone do scholar para o nosso tempo. e só o deixou quando este declarou apoio à I Guerra Mundial. conhecido em inglês como Arcades project. para a maioria dos padrões. Os papéis não estão em ordem. A polícia faz um inventário dos pertences do morto. lançou-se no ativismo pela reforma educacional. sugeriu que era a última revisão do inacabado Passagen-Werk [Trabalho das passagens]. em alemão e com enormes trechos em francês. Benjamin toma uma overdose de morfina. Aos 12 anos. e em 1925 submeteu à Universidade de Frankfurt sua dissertação . têm de voltar para a França. amigo de Benjamin. os Benjamin eram abastados. Benjamin cumpriu todos os passos exigidos para obter a Habilitation (doutorado superior) que lhe permitiria tornar-se professor. de salvar seu manuscrito das fogueiras do fascismo. lendo filosofia e trabalhando em uma dissertação de doutoramento para a Universidade de Berna. Benjamin tinha atração por universidades assim como Kafka por companhias de seguro. Gustav Wyneken. embora inútil. Recuperado depois da guerra. levando-o a salvo para a Espanha e em seguida para os Estados Unidos. Na fronteira. No inventário não há nenhum registro de um manuscrito. são detidos. só podemos especular. foi publicado em 1982 em sua forma original. ("Para grandes escritores". isto é. Ao concluir que o ambiente intelectual não lhe apetecia. Sua esposa reclamava que eles não tinham vida social. amigo de Benjamin. furtou-se ao serviço militar primeiro fingindo um problema de saúde e depois mudando-se para a Suíça neutra. Em 1912 Benjamin matriculou-se na Universidade de Freiburg como estudante de filologia. numa família judia assimilada. Quando a guerra eclodiu. depois de uma infância doentia e cercada de cuidados. Em desespero. Gershom Scholem. Benjamin foi enviado para um colégio interno progressista no campo. observou seu amigo Theodor Adorno.No dia seguinte atravessam as montanhas. A história tem uma virada feliz. Agora temos a magnum opus de Benjamin em tradução integral para o inglês. Após deixar a escola. Apesar dos escrúpulos. Ali ficou até 1920. Benjamin parando a cada poucos minutos por causa do coração fraco. O pai era um bem-sucedido leiloeiro de arte que expandiu suas atividades para o ramo de investimento em propriedades. diz a polícia espanhola. onde sofreu a influência de um de seus diretores. "uma obra terminada pesa menos que aqueles fragmentos em que trabalharam a vida inteira". escreveu Benjamin. O que havia na pasta e como desapareceu. em Berlim. e estamos ao menos em posição de fazer a pergunta: por que tanto interesse por um tratado sobre compras na França do século XIX? Benjamin nasceu em 1892.) O esforço heróico.

ficou dando desculpas até o fim. permanece o seu olhar afiado. Em 1926 Benjamin viajou a Moscou para um encontro com Lacis. tiveram de ser abandonados. Em vez de recorrer a intérpretes. três dos sete volumes foram terminados. Em seu registro da visita Benjamin revolve o seu infeliz estado de espírito. Algumas das proposições de Benjamin sobre a experiência "histórico-mundial" que ele vê em curso na União Soviética hoje parecem ingênuas. "Toda vez que experimentei um grande amor. Todos os traços de idealismo do seu pensamento. Na viagem a Moscou. e Benjamin não contava com um orientador preparado para encaminhar o seu caso. Seu amigo do peito Scholem já havia emigrado para a Palestina e esperava que ele o seguisse. Benjamin achou uma desculpa para não ir. bem como se pergunta se deveria ou não se filiar ao Partido Comunista e submeter-se à sua linha. tentou ler Moscou a partir de fora — o que depois designaria como seu "método fisiognômico" —. Surpreendentemente. a distinção de classes pode ter sido abolida. "Um amor genuíno me faz ficar parecido com a mulher que eu amo. passei por uma transformação tão fundamental que assombrava a mim mesmo". "Para pessoas progressistas em seu juízo perfeito. mas dentro do Partido está se engendrando um novo sistema de castas.sobre o drama barroco alemão. Mesmo assim. disse-lhe Lacis incisivamente. Ela não o recebeu calorosamente (estava envolvida com outro homem). a transformação implicou uma mudança de rumo político. Uma das suas encomendas foi a tradução de À Ia recherche de Proust. radialista e jornalista free-lance. Muitos dos novos moscovitas ainda são camponeses — observa — vivendo vidas de aldeia em ritmos de aldeia. Uma cena num mercado de rua capta o status degradado da religião: um ícone à venda flanqueado por retratos de Lênin "como um prisioneiro entre dois policiais". A ligação precipitou a ação de divórcio em que Benjamin se comportou com notável mesquinharia para com sua mulher. para não falar do seu flerte com o sionismo. Fracassados seus planos acadêmicos. Dois anos depois eles se reuniram brevemente em Berlim: viviam juntos e freqüentavam as reuniões da Liga dos Escritores Revolucionários-Proletários." Nesse caso. Benjamin lançou-se numa carreira de tradutor. Ele não falava russo. não à Palestina". Embora Asja Lacis seja uma constante presença de fundo no "Diário de Moscou" e Benjamin insinue que suas relações sexuais eram . a dissertação não foi aceita: ficava entre as cadeiras de literatura e filosofia. diretora de teatro da Letônia e comunista engajada. escreveu em retrospecto. esquivando-se de abstração ou julgamento e apresentando a cidade de uma tal forma que "toda factualidade já é teoria" (a frase é de Goethe). Lá conheceu Asja Lacis. Em 1924 Benjamin visitou Capri. na época o reduto de férias favorito dos intelectuais alemães. O encontro foi decisivo. Benjamin manteve um diário que depois revisou para publicação. o caminho do pensamento leva a Moscou.

Benjamin não tinha o dom de evocar as pessoas.. "Uma coisa [. inclusive Kafka.] jamais poderá ser consertada: ter deixado de fugir de meus pais". acomodada. pudica e acima de tudo autocomplacente — à qual ele era visceralmente hostil.. atraiu Benjamin por algum tempo. Não ter fugido de casa cedo o bastante significava que ele estava condenado a fugir de Emil e Paula Benjamin pelo resto da vida: ao reagir contra a prontidão de seus pais em se assimilar à classe média alemã. diz a dedicatória de Rua de mão única. aforismos. a coleção de anotações de diário. impaciente com palavrório e provido de . O engenheiro é o homem ou mulher do futuro. Pelo resto de sua vida Benjamin se intitulou como um comunista ou um companheiro de viagem. Como escritor. escreve Benjamin em Rua de mão única. As primeiras incursões de Benjamin pelo discurso da esquerda são deprimentes de se ler. "Esta rua se chama Asja Lacis em honra daquela que como um engenheiro a abriu através do autor". relatos de sonhos. A comparação tem um intento elogioso. contra a burguesia e sua própria origem burguesa. suas mãos desajeitadas. diz em um texto não incluído nos Selected writings da Harvard) ou recita os execráveis eufemismos do Partido: O comunismo não é radical. Ele meramente põe à prova essas relações para determinar sua capacidade de mudança.. aquele que. egoísta. ele se igualava a muitos judeus germanófonos de sua geração. Ele pergunta a si mesmo: a família pode ser desmantelada de modo que seus componentes possam ser socialmente refuncionalizados? Essas palavras vêm de uma resenha de uma peça de Brecht. moral e historicamente. Portanto.] está condenada ao declínio em razão de contradições internas que se tornarão fatais à medida que se desenvolverem". mini-ensaios e mordazes observações sobre a Alemanha de Weimar com a qual se deu a conhecer em 1928 como um intelectual free-lance. O que incomodava os amigos de Benjamin em seu marxismo era que parecia haver nele algo de forçado ou meramente reativo. não tem intenção de simplesmente abolir as relações familiares. Nos escritos de Lacis temos uma impressão muito mais viva do próprio Benjamin: seus óculos como pequenos refletores. que Benjamin conheceu por intermédio de Lacis e cujo "pensamento rude". Há um deslize para o que só se pode chamar de estupidez voluntária quando ele tece rapsódias sobre Lênin (cujas cartas têm "a melodiosidade da grande épica". Mas quão profundo terá sido o seu caso com o comunismo? Durante anos depois de conhecer Lacis. Benjamin repetiria sentenças marxistas sem ter lido Marx — "a burguesia [. despido de amenidades burguesas. dá-se ali pouca idéia da pessoa física de Lacis. "Burguesa" tornou-se o seu anátema para uma mentalidade — materialista.problemáticas. Proclamar-se comunista era um ato de se postar..

que de qualquer forma há muito se sentia deslocado na Alemanha e passava temporadas na França ou em Ibiza sempre que podia.conhecimento prático. no sentido de tomar como tarefa sua "refuncionalizar" a humanidade de dentro para fora). não é o que parece ser? Está fazendo uma colocação prática. São. com seu pendor para histórias realistas facilmente compreensíveis e com acentuada propensão progressista. sobre a vida do escritor de aluguel? Uma carta a Scholem (a quem no entanto ele nem sempre conta toda a verdade) sugere a última leitura. tipificada para Benjamin pelos surrealistas.) Um breve texto do mesmo ano pode fornecer uma pista. Benjamin se sente obrigado a apelar mais uma vez para o glamour da engenharia: o escritor. . Benjamin. logo os acompanhou (seu irmão mais novo. Sua fidelidade ao Partido não lhe causava nenhum mal-estar num momento em que a perseguição de artistas por Stálin estava a pleno vapor? (A própria Asja Lacis viria a se tornar uma das vítimas de Stálin. muitos dos companheiros de Benjamin. como um açougueiro que se recusa a cortar uma carcaça. inclusive Brecht. constataram o inevitável e fugiram. a velha ladainha da estética marxista: o que é mais importante. Como ler esse texto? Benjamin está ironicamente louvando a antiquada integridade intelectual? Está confessando veladamente que ele. II Na época em que os nazistas chegaram ao poder. Ali Benjamin defende seu comunismo como "a óbvia. Em questão. Em outras palavras. Um dos textos mais conhecidos de Benjamin. insistindo em vendê-la inteira. Discutir nesse nível tão tosco não era fácil para Benjamin. ele segue o Partido pela mesma razão que move qualquer proletário: porque é de seu interesse material. razoável tentativa de um homem que está completamente ou quase completamente privado de quaisquer meios de produção de proclamar seu direito a eles". como o engenheiro. é um especialista técnico e deveria ter voz em questões técnicas. Georg. Walter Benjamin. "O autor como produtor" é uma defesa da ala esquerdista da vanguarda modernista. "O autor como produtor" (1934). Para defender sua causa. age. mesmo que amarga. forma ou conteúdo? Benjamin propugna que uma obra literária será "politicamente correta somente se for também literariamente correta". diz ele. recusando-se a entender que para ser bem-sucedidos têm de apresentar faces diferentes para públicos diferentes. e age decisivamente para transformar a paisagem (Stálin também admirava os engenheiros: para ele os escritores deviam se tornar engenheiros das almas humanas. demonstra muito claramente a influência de Brecht. Ali Benjamin zomba dos intelectuais que "fazem de ponto de honra ser inteiramente eles mesmos em todas as questões". contra a linha do Partido em matéria de literatura. passando anos num campo de trabalho.

Solto graças a instâncias do PEN francês. O que é original em Benjamin é a sua proposição de que a política como teatro grandioso. pereceu em Mauthausen em 1942). para criar seus novos cidadãos fascistas. não era apenas uma armadilha do fascismo. Stempflinger) e do contrário vivendo de doações. mas fascismo em essência. o cinema sobretudo. O fascismo usou o poder da arte do passado — o que Benjamin chama de "arte aurática" — somado ao poder multiplicador das novas mídias pós-auráticas. imediatamente fez arranjos para fugir para os Estados Unidos. Esses insights estão mais plenamente expressos em "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade tecnológica" (para usar o título preferido pelos tradutores dos Selected writings). Os insights mais agudos de Benjamin sobre o fascismo. organizada por Ernst Jünger. Com a eclosão da guerra ele se viu detido como estrangeiro inimigo. a única identidade à mostra. Ele se estabeleceu em Paris. esse inimigo que o privou de um lar e de uma carreira e que acabou por matá-lo. com sua combinação de declamação. era a identidade fascista em uniforme fascista e com posturas fascistas de dominação ou obediência.foi menos prudente: preso por atividades políticas em 1934. O cerne do fascismo alemão de fato residiria antes na política como espetáculo do que no ressentimento e nas aspirações de revide histórico? Se Nuremberg era política estetizada. K. A. mais que como debate. as massas alemãs recebiam imagens de si mesmas conforme seus líderes determinavam que fossem. dizem respeito ao expediente por ele usado para vender-se ao povo alemão: transformar-se a si próprio em teatro. Para os alemães comuns. onde levou uma existência precária colaborando para jornais alemães (sob pseudônimos que soavam arianos: Detlef Holz. de 1936. Nos filmes de Leni Riefensthal. partindo assim em sua viagem fatal rumo à fronteira espanhola. música hipnótica. encontraram seu modelo nas produções de Wagner em Bayreuth. aquela que olhava de volta para eles da tela. coreografia de massa e iluminação dramática. É lugarcomum observar que os comícios de Hitler em Nuremberg. onde estaria o elemento fascista na política midiática das democracias ocidentais? Não haveria diversas modalidades de política estética? O conceito-chave que Benjamin inventa (embora no seu diário insinue que na verdade foi idéia original da livreira e editora Adrienne Monnier) para descrever o que acontece com a obra de arte na era de sua reprodutibilidade tecnológica (principalmente a era da câmera: Benjamin tem pouco a dizer acerca dos processos de impressão) é o da . assim como nos documentários de atualidades exibidos em todos os cinemas do país. A análise de Benjamin sobre o fascismo como teatro suscita muitas questões. por que não o seriam igualmente as extravanganzas e os julgamentos-espetáculo do 1° de Maio de Stálin? Se a marca do fascismo foi a supressão da divisa entre política e mídia. mas são prenunciados numa resenha de 1930 sobre a coletânea Guerra e guerreiros.

. escreve o seguinte em seu diário: [Benjamin] diz: quando você sente o olhar de alguém pousar em você.perda da aura.. diz ele. ora evanescentes. ao passo que as fotografias da geração posterior a perderam. O fim da aura. dedicada à fabricação de trabalhos manuais únicos — "criações" — destinados à reprodução em massa. Brecht. Seus escritos autobiográficos são construídos a partir de momentos intensos e descontínuos. Tudo muito místico. inclusive a da obra de arte tradicional. E assim que a abordagem materialista da história é adaptada! Isso é um tanto chocante. Como evidenciado pelos relatos pessoais incluídos no segundo volume dos Selected writings. No Trabalho das passagens ele insere a perda da aura num processo histórico mais amplo: a propagação de uma desencantada conscientização de que a unicidade. por assim dizer — têm aura. persistia uma relação propriamente intersubjetiva entre a obra de arte e seu espectador: o espectador olhava e a obra de arte. diz Benjamin. converteu-se numa mercadoria como outra qualquer. O cinema substituirá a arte aurática. porque a câmera. ele não tinha talento como escritor de narrativas. "Perceber a aura de um fenômeno [significa] investi-lo da capacidade de nos olhar de volta. você reage (!). Seus dois ensaios sobre Kafka tratamno mais como um parabolista e professor de sabedoria do que como . Benjamin fala pela primeira vez em aura na sua "Pequena história da fotografia" (1931). a quem Benjamin expusera o conceito durante longas visitas à sua casa na Dinamarca." Há assim algo de mágico na aura. mesmo às suas costas. O filme é pós-aurático. diz ele. sendo um instrumento. A expectativa de que tudo o que você olha está olhando para você cria a aura [. derivado de elos remotos. entre arte e ritual religioso. por assim dizer. olhava de volta. Benjamin não estava especialmente interessado no romance como gênero. Até mesmo os amigos de Benjamin achavam difícil apreender a aura. Até meados do século XIX. em que tenta explicar por que (a seus olhos) os primeiríssimos retratos fotográficos — incunábulos da fotografia. Numa revisão posterior. será mais que compensado pelas capacidades emancipatórias das novas tecnologias de reprodução. Outros amigos não foram mais encorajadores. Benjamin sugere que o fim da aura pode ser fixado no momento da história em que as multidões urbanas ficam tão densas que as pessoas — os passantes — não mais retribuem o olhar alheio. não pode ver (uma asserção questionável: os atores certamente reagem à câmera como se ela estivesse olhando para eles). Em "A obra de arte" a noção de aura é um tanto temerariamente estendida das velhas fotografias para as obras de arte em geral. Ao longo dos anos 1930 Benjamin se empenhou para desenvolver uma definição plausivelmente materialista de aura e perda de aura. Aponta nessa direção a indústria da moda. apesar das atitudes antimísticas dele.].

não em narrativas". projetam seus estados fetais entrelaçando os membros sempre que podem e se embolando um com o outro. A história narrativa impõe causalidade e determinação a partir de fora. esse texto não é construído cronologicamente. mas o nome de uma Idéia. diz ele. n'O castelo os dois ajudantes do agrimensor K. os dois volumes em pauta contêm algumas outras peças autobiográficas: um relato mais propriamente literário sobre ficar esperando uma amante que não aparece. a palavra. escreveu. e as coisas deveriam ter uma chance de falar por si mesmas. também escrita à sombra de Proust.um escritor. diz ele. Apesar do título. O gesto é "a forma suprema em que a verdade pode nos aparecer numa era desprovida de doutrina teológica". aparecerá no terceiro volume dos Selected writings. Os fundamentos da filosofia da linguagem de Benjamin foram estabelecidos no começo de sua carreira. que inclui uma excursão a um bordel masculino freqüentado por Proust. . Mas a hostilidade mais insistente de Benjamin era reservada para a história narrativa: "A história se decompõe em imagens. Em "A tarefa do tradutor" (1921) ele tenta dar corpo à sua idéia da Idéia recorrendo ao exemplo de Mallarmé e a uma linguagem poética libertada de sua função comunicativa. No ensaio-chave "Sobre a linguagem enquanto tal e sobre a linguagem do homem" (1916) ele argumenta que a palavra não é um mero signo. O autobiógrafo deveria pensar em si mesmo como um escavador. de modo que se trata mais das vicissitudes da memória do que de eventos reais da sua infância. Além do "Diário de Moscou" e da "Crônica berlinense". fragmentos de diário (Benjamin estava preocupado com o suicídio em 1931 e 1932) e um diário de Paris trabalhado para publicação. registros de experiências com haxixe. mas como uma montagem de fragmentos do passado intercalados com reflexões sobre a natureza da autobiografia. Entre as revelações mais surpreendentes. transcrições de sonhos. em Kafka. Não fica claro como um conceito de linguagem simbolista poderia jamais ser reconciliado com o posterior materialismo histórico de Benjamin. Benjamin usa uma metáfora arqueológica para explicar sua oposição à autobiografia como a narrativa de uma vida. a obra autobiográfica mais interessante de Benjamin. mas ele sustentou que uma ponte podia ser construída. nos surrealistas. O que temos no volume 2 é a anterior "Crônica berlinense". cavando mais e mais fundo nos mesmos poucos lugares em busca das ruínas enterradas do passado. recua da significação no sentido "burguês" e retoma seu elementar poder gestual. um substituto para algo. Em seus ensaios literários dos anos 1930 ele dá uma idéia sobre com o quê tal ponte poderia se parecer. uma admiração por Hemingway ("uma lição de como pensar direito por escrever correto") e uma antipatia por Flaubert (arquitetônico demais). "Infância em Berlim por volta de 1900". "por mais forçada e problemática que essa ponte pudesse ser". Em Proust. Assim. inédita durante sua vida.

A tarefa da teologia é recuperar a palavra. que constitui o desenvolvimento supremo da faculdade mimética. conforme ele o concebe. Uma intensiva leitura de Kafka iria deixar marcas indeléveis nos últimos — e pessimistas — escritos de Benjamin. conforme sempre o reconheceram teorias da linguagem "místicas" ou "teológicas". pois linguagens decaídas ainda podem. Em ensaios datados de 1933 Benjamin esboça uma teoria da linguagem baseada na mimese. A linguagem adâmica era onomatopaica. Hoje só as crianças preservam e aplicam um poder mimético comparável. as palavras pain. Embora superficialmente diferentes. quando a faculdade mimética. diz ele. (Persuadir-nos de que essa proposição não é tão vã quanto parece demanda o máximo das capacidades de Benjamin. A abordagem de Benjamin acerca da linguagem está em total descompasso com a ciência lingüística do século XX. A tarefa da crítica não é essencialmente diferente. têm semelhanças "não-sensoriais" com o que significam. Brot e xleb são semelhantes num nível mais profundo ao corporificarem a Idéia de pão. carrega consigo um arquivo dessas semelhanças não-sensoriais. nos apontar para a linguagem pura. embora possam não soar ou parecer semelhantes (a teoria pretende funcionar tanto para a linguagem escrita quanto para a falada). Daí o paradoxo de "A tarefa do tradutor": uma tradução é superior a seu original. um conto de fadas dialético narrado surrealisticamente por meio de uma montagem de textos fragmentários: . dos textos sagrados em que ela foi preservada. A ciência astrológica que temos hoje. particularmente ao primevo. diz ele. o lugar da linguagem e das Idéias. Desde então a linguagem sofreu uma longa queda. No final dos anos 1920 Benjamin concebeu uma obra inspirada nas passagens de Paris. na totalidade de suas intenções.No tempo de Adão. sendo muito mais vigorosa. Seria uma versão da história da Bela Adormecida. A leitura tem o potencial de se tornar uma espécie de experiência onírica que dá acesso a um inconsciente humano comum. os quais constituem importantes apêndices a seus escritos sobre a filosofia da linguagem. Sinônimos de línguas diferentes. III A história do Trabalho das passagens é mais ou menos a seguinte. "mundo pantanoso" de Kafka. que trataria da experiência urbana. a palavra e o gesto de nomear eram a mesma coisa.) A linguagem. quase pré-humano. em todo o seu poder mimético originário. Benjamin escreveu diversos textos sobre astrologia. no sentido de que remete à linguagem anterior a Babel. permitia correspondências realmente imitativas entre as vidas dos seres humanos e os movimentos das estrelas. da qual Babel foi apenas um estágio. é uma versão degenerada de um corpo de conhecimento de tempos remotos. mas lhe propicia um majestoso acesso ao mundo do mito e da fábula.

Emblemas assim fazem uma inesperada reaparição no palco histórico na forma de mercadorias. Benjamin começou a copiar citações de suas leituras sob títulos como Tédio. (Benjamin parece não ter lido Wordsworth. Recebeu dele uma crítica tão severa que resolveu deixar de lado o projeto por um tempo e extrair da sua massa de materiais um livro sobre Baudelaire. por exemplo. que sob o capitalismo não são mais o que parecem. que o convenceram de que não podia escrever sobre o capitalismo sem um domínio adequado de Marx. Em "O cisne". remeteria a superestrutura cultural da França do século XIX às mercadorias e seu poder de se tornar fetiches. Adorno leu parte do livro e mais uma vez foi crítico: os fatos eram deixados a falar por si mesmos. incapaz de abrir as asas e levantar vôo. Baudelaire era figura central para o projeto das Passagens porque n'As flores do mal ele pela primeira vez teria revelado a cidade moderna como um assunto para poesia. sobejam "em sutilezas . Baudelaire expressara sua experiência da cidade em alegoria. por exemplo. Poeira.como o beijo do príncipe. Sob o reinado do mercado as coisas têm a ver com seu valor real tão arbitrariamente quanto. a obra despertaria as massas européias para a verdade de suas vidas sob o capitalismo.) Contudo. que cinqüenta anos antes de Baudelaire escrevera sobre como era fazer parte de uma multidão de rua. uma caveira tem a ver com a sujeição do homem ao tempo na emblemática barroca. Por que Baudelaire optou pelo modo alegórico? Benjamin usa O capital de Marx para responder à sua própria pergunta. Benjamin fez várias revisões. bombardeado por olhares de todos os lados. que tiveram uma recepção mais cálida. como advertiu Marx. A idéia da Bela Adormecida perdeu o brilho. A promoção do valor de mercado a única medida de riqueza. um modo literário fora de moda desde o período barroco. o qual submeteu a Adorno (à época Benjamin recebia um estipêndio — e portanto estava em alguma medida devedor — do Instituto de Pesquisa Social. filosoficamente mais ambicioso: usando o mesmo método de montagem. Mas à medida que ele as articulava ao texto as páginas se dilatavam cada vez mais com novas citações e notas. Ele discutiu seus problemas com Adorno e Horkheimer. Ao se preparar para redigir o que imaginava como algo em torno de cinqüenta páginas. reduz a mercadoria a nada mais do que um signo — o signo do valor pelo qual será vendida. diz Marx. que Adorno e Horkheimer haviam transferido de Frankfurt para Nova York). dossiê) com palavras-chave e referências cruzadas. Moda. Em 1934 Benjamin tinha um novo plano. mas. Uma vez que suas notas se avolumavam. Sob o título "Paris. disse-lhe — não havia teoria suficiente. ele alegoriza o poeta como um nobre pássaro patinando comicamente no chão pavimentado do mercado. aturdido com anúncios. capital do século XIX" redigiu um résumé do material que havia reunido. passou a dispô-las num complexo sistema de arquivo baseado em 36 "convolutas" (do alemão Konvolut: maço.

quando foram eclipsadas pelas lojas de departamentos. um mundo em miniatura. sobretudo de autores do século XIX mas também de contemporâneos de Benjamin. com edição de Rolf Tiedemann. O auge das passagens se estendeu até o final do século. A história do Trabalho das passagens — uma história de procrastinações e falsas largadas. Na hipotética casa terminada esses materiais teriam sido juntados pelo pensamento de Benjamin. de perambulações por labirintos arquivísticos na busca de exaustividade tão característica do temperamento colecionador. Mas a intenção de Benjamin. era que em algum ponto o seu comentário seria discretamente removido. Traduz todo o francês para o inglês e acrescenta notas de apoio. Benjamin continuava tomando notas para o projeto das Passagens e a acrescentar novas convolutas.] estão as lojas mais elegantes. é o modo exatamente certo para uma era de mercadorias. É um belo livro e um triunfo de engenhosidade tipográfica no trato com as complexas referências cruzadas de Benjamin. Retemos boa parte desse pensamento na forma das interpolações de Benjamin.]. As passagens de Paris. são bulevares internos [. mas nem sempre podemos ver como o pensamento encaixa ou abrange os materiais. além de uma profusão de ilustrações. por mais utópica que fosse.]. O Arcades project da Harvard usa o texto de Tiedemann mas omite muito de seu material de fundo e seu aparato crítico.metafísicas e amenidades teológicas". de crítica exercida precipitadamente e. argumenta Benjamin. de fundamentações teóricas movediças. de um Benjamin que não sabia aonde queria chegar — denota que o livro que nos restou é radicalmente incompleto: incompletamente concebido e dificilmente composto em qualquer acepção convencional.. Enquanto trabalhava no jamais terminado livro sobre Baudelaire. de forma que uma tal passagem é uma cidade. Sob tais condições. A arquitetura aérea de vidro e aço logo foi imitada em outras cidades do Ocidente. Esse material foi publicado em 1982 na Alemanha como Passagen-Werk. A alegoria. diz um guia de 1852. Tiedemann o compara aos materiais de construção de uma casa. Os papéis recuperados do seu esconderijo na Bibliothèque Nationale depois da guerra somavam cerca de novecentas páginas de extratos.. O livro das Passagens nunca foi pensado como uma história econômica (embora parte de sua ambição fosse funcionar como corretivo para toda a disci- . Ladeando ambos os lados [. deixando de fora as citações. talvez tivesse sido melhor publicar apenas as palavras de Benjamin.. agrupados sob títulos e com comentários intercalados.. diz Tiedemann.. corredores com teto de vidro e painéis de mármore que se estendem por quarteirões inteiros de edifícios [. em termos gerais. deixando o material citado sustentar todo o peso da estrutura. além de uma variedade de planos e sinopses..

constituem uma fantasmagoria. iluminassem uns aos outros. e elas só despertarão de seu encantamento coletivo quando forem levadas a entender o que lhes aconteceu. que enfoca a Kaisersgalerie e seu poder de evocar a sensação de uma era passada. porém. e Spazieren in Berlin [Passeando em Berlim]... conduz ao mundo inferior — uma terra repleta de lugares inconspícuos de onde brotam os sonhos. for lido em conjunção com o item 2. o labirinto de moradas urbanas parece com a consciência. as passagens [. o último dinossauro da Europa". então a analogia "o museu está para a loja de departamentos como a obra de arte para a mercadoria" idealmente irá lampejar na mente do leitor.] despertar o mundo de seu sonho sobre si mesmo". A grande inovação do Trabalho das passagens estaria em sua forma. Assim.. que delineia a transição das passagens para as lojas de departamentos. que se refere à abertura de um museu de arte no Palácio de Versalhes em 1837. por exemplo. sua escuridão carregada projeta-se como uma ameaça e o pedestre noturno passa depressa — a menos porém que o tenhamos imbuído de ousadia para enveredar pelo caminho estreito. constantemente mudando de forma de acordo com as marés da moda e oferecidas a multidões de idólatras encantados como .1 da convoluta L. mas tão logo vem o sono nos vemos ansiosamente tateando o caminho de volta para nos perder em seus escuros corredores. Funcionaria sobre o princípio da montagem. Nossa existência em vigília é igualmente uma terra que. sem nada suspeitar. de Franz Hessel.4 da convoluta A. A noite. Durante o dia. justapondo fragmentos textuais do passado e do presente na expectativa de que eles. Estas. o que marca o mundo moderno é a perda de crença. se o item 2.] fluem despercebidas para as ruas. com seu afetuoso tributo à Passage de l'Opéra.. Benjamin tem um ângulo diferente: o capitalismo pôs as pessoas para dormir. sob a tenebrosa massa das casas. o desencantamento. de Louis Aragon. uma experiência ainda recuperável em seus dias. Segundo Max Weber. Os sonhos da era capitalista estão corporificados nas mercadorias. em seu conjunto. O dia inteiro. Um esboço inicial sugere algo muito mais parecido com "Infância em Berlim": Sabia-se de lugares na Grécia antiga onde o percurso conduzia ao mundo inferior. A inscrição da convoluta N vem de Marx: "A reforma da consciência consiste tão-somente em [. Dois livros serviram de modelo a Benjamin: Un paysan de Paris [Um camponês de Paris]. faiscando entre si. passamos por eles. em certos pontos ocultos.plina da história econômica). Em seu livro Benjamin tentaria captar a "fantasmagórica" experiência do parisiense vagando entre vitrines de mercadorias. quando "as passagens pontilham a paisagem metropolitana como cavernas que contêm os restos fossilizados de um monstro desaparecido: o consumidor da era pré-industrial do capitalismo.

a corporificação de seus desejos mais profundos. interagindo espontaneamente para fornecer energia política. "fundamentariam sua representação como um texto escrito com tinta invisível. A alegoria. A fantasmagoria sempre esconde as suas origens (que residem no trabalho alienado). Se o mosaico de citações é construído corretamente deve emergir um padrão. "Apenas imagens dialéticas são imagens genuínas. poeira. Mas para o leitor não convencido pela teoria. escreveu ele em 1935. poderia assumir o papel do pensamento abstrato. mas está mais para o trabalho do sonho freudiano operando em âmbito coletivo. uma profusão de citações intencionalmente provocantes." Não é preciso dizer mais sobre a teoria. e mais uma vez expressou dúvidas sobre a densidade da sua teorização. e suas interações geram significados que não precisam da intromissão da teoria. um pouco como a ideologia em Marx — um tecido de mentiras públicas sustentadas pelo poder do capital —. E em outro ponto: "As idéias estão para os objetos como as constelações estão para as estrelas". prostitutas. "Não preciso dizer nada. aberto à inspeção. figuras de cera. A reação de Benjamin a críticas desse tipo foi inventar a noção de imagem dialética. social. o leitor para quem as imagens dialéticas nunca ganham vida como deveriam. e para isso voltou-se à emblemática do barroco — idéias representadas por imagens — e à alegoria baudelairiana — a interação de idéias substituída pela interação de objetos emblemáticos. escreveu Benjamin. o leitor talvez não receptivo à narrativa mestra sobre o longo sono do capitalismo seguido pela aurora do socialismo. ("Os eventos que cercam o historiador e nos quais ele toma parte". movimento dialético momentaneamente congelado. fragmentos de textos tomados do passado e colocados no campo carregado do presente histórico são capazes de se comportar à maneira dos elementos de uma imagem surrealista. à qual apela o livro profundamente antiteórico de Benjamin. engenhosa como é. bonecas mecânicas — são (para Benjamin) emblemas. Na mesma linha. "dialética em suspenso". Os objetos e figuras que habitam as passagens — jogadores. O que desalentava Adorno quanto ao projeto era a fé de Benjamin em que uma mera assemblage de objetos (no caso. assim. espelhos. um padrão que é mais que a soma de suas partes mas não pode existir independentemente delas: essa é a essência da nova forma de composição materialista histórica que Benjamin acreditava estar praticando. o que o Trabalho das passagens tem a oferecer? A mais breve das listas incluiria o seguinte: um rico tesouro de informações curiosas sobre Paris. sugeriu ele. citações descontextualizadas) pudesse falar por si mesma: Benjamin estava "na encruzilhada entre magia e positivismo". Adorno teve a oportunidade de ver todo o corpus das Passagens em 1948. Apenas mostrar" — diz Benjamin.") Assim é que os fragmentos constituem a imagem dialética. a coleta de uma mente aguda e idiossincrática passando sua . A fantasmagoria em Benjamin é.

E isso não seria de todo mau. tragicamente. J ("Baudelaire"). ensaios sobre pedagogia. Pound. o mito e o destino. numerosos ensaios de crítica literária. O destino dos Cantos tem sido o de um punhado de excertos reunidos em antologias. Ambas têm ambições econômicas e economistas como figuras norteadoras (Marx num caso. sobre livros infantis. o resto sendo placidamente ignorado. Inesperadamente. H ("O colecionador"). E ambos foram tragados pelo monstro do fascismo — Benjamin. sobre uma série de assuntos caros ao autor (exemplo: "A prostituição pode ter pretensões a ser considerada 'trabalho' no momento que o trabalho se torna prostituição") e lampejos de Benjamin brincando com uma nova maneira de ver a si mesmo — como colecionador de "palavras-chave num dicionário secreto". compilador de uma "enciclopédia mágica". O destino das Passagens pode bem ser semelhante. observações sucintas. incluindo dois textos longos sobre Goethe. Pode-se prever uma edição condensada para estudantes. fabulista de um universo reescrito. Ambos os autores investiram em corpos de conhecimento antigos cuja relevância para seus tempos superestimaram. uma interpretação d'As afinidades eletivas e um magistral panorama da carreira do poeta. metafísica. O ensaio sobre as Afinidades eletivas se destaca como uma performance particularmente estranha: uma ária prolongada. filosofia da história). polidas a um alto grau de lustro aforístico. sobre o amor e a beleza. N ("Da teoria do conhecimento") e Y ("Fotografia"). estética. filosofia da linguagem. Ambas são construídas a partir de fragmentos e citações e filiam-se à estética de imagem e montagem do alto-modemismo. em prosa supersutil e apurada. K ("Cidade de sonho"). um cativante texto pessoal sobre o hábito de colecionar livros. há uma seleção de seus precoces e diligentemente idealistas escritos sobre educação. Além dos textos aqui comentados. Nenhum dos dois sabia quando parar. esse leitor esotérico de uma cidade alegórica parece próximo de seu contemporâneo Jorge Luis Borges. IV É ampla a gama de interesses representada pelos Selected writings de Benjamin. Gesell e Douglas no outro). I ("O interior"). sobre brinquedos. excursões por vários tópicos de filosofia (lógica. vergonhosamente. uma variedade de peças de viagem e investidas na ficção. extraída sobretudo das convolutas B ("Moda"). levada a um alto tom de intensidade pelas semelhanças secretas que Benjamin viu entre a trama do romance . na qual as citações serão reduzidas a um mínimo e a maior parte do texto sobrevivente será do próprio Benjamin. os Cantos de Ezra Pound. a magnum opus de Benjamin tem um curioso parentesco com outra grande ruína da literatura do século XX. Ambas as obras são resultado de anos de leitura babélica. Aos olhos de hoje.rede de pescar por milhares de livros.

M. As informações sobre as figuras relacionadas a/por Benjamin por vezes estão ultrapassadas (como no caso de Robert Walser) ou incorretas: as datas referentes a Karl Korsch (que foi expulso do Partido Comunista Alemão por suas opiniões independentes e a quem Benjamin recorre copiosamente na sua interpretação de Marx) são dadas como 1892-1939 quando na verdade são 1886-1961. apoiada em agudeza de intelecto. . tomando por material seus refugos em vez de suas obras de arte. v Quem foi Walter Benjamin? Um filósofo? Um crítico? Um historiador? Um mero "escritor"? A melhor resposta talvez seja a de Hannah Arendt: ele foi um dos "inclassificáveis [. Sua peculiar abordagem — chegar a um assunto não diretamente. Algumas práticas gerais dos editores e tradutores também são questionáveis aqui. seja qual for nosso veredicto sobre ele — ruína. em uma erudição levemente desgastada e num estilo de prosa que. movendo-se gradativamente de um sumário perfeitamente formulado para o próximo — é tão imediatamente reconhecível quanto inimitável. E seu apelo (nas "Teses sobre o conceito de história") por uma história centrada no sofrimento dos vencidos em vez de nas conquistas dos vencedores é profético do modo como a escrita da história começou a pensar em si mesma em nossos tempos. Na base de seu projeto de chegar à verdade dos nossos tempos há um ideal que ele encontrou expresso em Goethe: estabelecer os fatos de tal forma que eles sejam sua própria teoria. J. se tornou uma maravilha de acuidade e concisão. O livro das Passagens. o tradutor deveria se sentir livre para fracioná-los. cuja obra não se encaixa na ordem existente nem introduz um novo gênero". Há erros de grego e latim. fracasso. mas por um ângulo..e a tragicômica relação erótica a quatro em que ele e sua mulher estavam envolvidos. Aqui e ali são incluídas duas versões do mesmo texto sem que se esclareça por quê. depois que ele desistiu de se ver como o Professor Doutor Benjamin. As notas explicativas estão próximas do mesmo alto padrão. por sua discreta eficiência em lidar com as mudanças de estilo e tom que marcam a evolução de Benjamin como escritor. mas não chegam lá. e entre os vários tradutores merece ser destacado Rodney Livingstone. sugere um novo modo de interpretar uma civilização. projeto impossível —. Para textos em alemão citados por Benjamin usam-se traduções já existentes mesmo quando estas estão claramente abaixo do padrão. escrevendo a história a partir de baixo em vez de por cima.. As traduções são excelentes.].COETZEE é escritor. Benjamin tinha o hábito de escrever parágrafos de páginas inteiras: certamente.

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