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O campo econômic >


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Este livro de Pierre Bourdieu é uma coletânea de textos
marcada pelo dizer-verdadeiro, cujo eixo essencial é a ética, -·
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barreira contra a sujeição e morte da alteridade.

Aprática salutar de uma ética do cotidiano, pontuada na vida


e nos escritos de Bourdieu pela parrhesía - arte' Cl~ dizer a
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v erdade - , emerge nos escritos aqui selecionados como
linhas de fuga, produção desejante .de um pensamento-outro
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em t otal rebe.lião contra a tirania de uma P;Oiítica econômica
única que faz do ator social, em sua maioria, um "suicidado
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pela sociedade". À denegação da alteridade, axioma funda-
mental dos "sábios" da economia, bürocràtas a serviço do
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processo mundial de globalização, aqyLcompreendida como s-
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um·· univ erso sem ou~rem, Bourdieu propõe ao ator social a . c5 tJ
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alteridade' como condiÇã9 essencial à construção de um •.
projeto de c ivilização, plataforma contra a barbárie.
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Amigo do Brasil, admirador de nosso "temperamento", ·fã o·
número um de nosso futebol, ele fala ·..com cari~ho, numa
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entrevista inédita neste livro, de suas relações,afetivas com
intelectuais brasileiros'.-.e, sob;etudo, de seu "amor à ~
distância pelo Brasil'', "t~rra hospitaleira". Q) .·

Daniel Lins
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Pierre Bourdieu I
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Sociólogo e filósofo, é professor do
Collége de France, diretor da École
de Hautes Études en Sciences
Sociales de Paris e do Centre de
Sociologie Européenne, fundador e
O CAMPO ECONÔMICO
diretor de Actes de la Recherche en A DIMENSÃO SIMBÓLICA
Sciences Sociales. A sua obra DA DOMINAÇÃO

constitui uma das maiores referên-


cias das ciências sociais no mundo
contemporâneo. Autor de dezenas
de livros tem, entre outros, publica-
dos no Brasil: O poder simbólico
(Ditei, 1989), Coisas ditas (Brasili-
ense, 1990), A economia das trocas
simbólicas (Perspectiva, 1992), As
regras da arte (Companhia das
Letras, 1996), Sobre a televisão
seguido de A influência do jorna-
lismo e os Jogos olímpicos (Jorge
Zahar, 1997) e A miséria do mundo
(Vozes, 1998). Pela Papirus publi-
cou A ontologia política de Martin
Heidegger(1989) , Razões práticas:
Sobre a teoria da ação (2a ed.,
1997) e participa das coletâneas
Cultura e subjetividade. Saberes
nômades (2aed. , 2000) e A domina-
ção masculina revisitada (1998),
organizadas por Daniel Lins.

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PIERRE BOURDIEU

tradução
Roberto Leal Ferreira

organização, introdução e revisão técnica


Daniel Lins

O CAMPO ECONÔMICO
A DIMENSÃO SIMBÓLICA
DA DOMINAÇÃO

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·P APIR U S ED I TORA
Capa: Fernando Cornacchia
© Pierre Bourdieu, 1999
Tradução: Roberto Leal Ferreira
Revisão técnica: Daniel Lins
Copidesque: Mônica Saddy Martins
Revisão: Lúcia Helena Lahoz Morelli

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Bourdieu, Pierre, 1930-
0 campo econômico : A dimensão simbólica da dominação I
Pierre Bourdieu ; tradução Roberto Leal Ferreira ; revisão
técnica Daniel Lins. - Campinas, SP : Papirus, 2000.

ISBN 85-308-0587-9
SUMÁRIO
1. Cullura I. Titulo.

00-1082 CDD-306
Índices para catálogo sistemático:

- 1. Sociologia da cultura 306


APRESENTAÇÃO .7
1. BOURDIEU E O BRASIL: UM "AMOR À DISTÂNCIA" 11
2. CHAMADAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
3. A CRÍTICA ARMADA OU MIT DEN WAFFEN DER KRITIK. 35
~OQUEÉFALAR? . . . . .. .. . . . . . ·. . . . . . . . .. . 51
/o FETICHISMO POLÍTICO OU DESVENDAR
OS MOTORES DO PODER . . . . . . . 59
6. CONTRA A MAGIA DAS PALAVRAS. 65
7. A SOCIOANÁLISE DO SOCIÓLOGO 71
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8. A FICÇÃO CIENTÍFICA . . . . . . . . 83
9. REPRODUÇÃO PROIBIDA: A DIMENSÃO SIMBÓLICA
BiBLIOTECA ~\!T~-Al DA DOMINAÇÃO ECONÔMICA . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93

N.0 Stiti.. Data,_,..


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DIREITOS RESERVADOS PARA A LÍN GUA PORTUGUESA:
© M.R. Cornacchia Livraria e Edilora Ltda. - Papirus Editora
Telefones : (19) 272-4500 e 272-4534 - Fax: ( 19) 272· 7578
Caixa Postal 736 · CEP 13001 -970 - Campinas - SP - Brasil.
E-mail : papiru s@ lexxa.com.br - htlp://www.papirus.com.b r

Proibida a reprodução tolal ou parcial. Editora afiliada à ABDR.

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APRESENTAÇÃO

O campo econômico- A dimensão simbólica da dominação é uma


coletânea de textos, artigos, entrevistas, resenha de livros, do sociólogo
e filósofo Pierre Bourdieu, que analisa questões de grande atualidade
relacionadas com a economia dos fenômenos culturais e simbólicos, com
os capitais jurídico e lingüístico, com a violência invisível, calada, e a
dimensão da dominação inserida tanto nas práticas culturais quanto na
economia dos bens simbólicos.
Heterogêneos, os textos aqui reunidos, na sua diversidade, têm
como eixo fundamental repensar o simbólico, ou a sociologia da cultura,
conceitos básicos na obra de Pierre Bourdieu. Baseado na elaboração e
na discussão das práticas simbólicas acopladas à sociologia da cultura,
o autor revi sita Marx e, notadamente, a concepção de classes sociais. Ao
sublinhar, desde o início de suas análises, que as relações de classe são
simultaneamente de força e de sentido, Bourdieu afasta a dicotomia
marxista do econômico e do ideológico, e a problemática ortodoxa da
"última instância" suspeita de tudo reduzir ao econômico.. Se, de
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fato, a
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classe social tern_uma base econômica, não se pod~, togav:ia, r~stringi-la
ao conjunto de relações econômicas. A análise estrutural das relaçqes de
classe supõe que se estudem ao mesmo tempo as relações econômicas e

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producentes quando, perante um universo diferente que o produziu, o ·


suas práticas culturais, presumindo que elas estão inteiramente vincula-
habitus gira por assim dizer no vazio, projetando num mundo em que as
das e que se reproduzem continuamente nas formas de interiorização e
palavras desaparecem a expectativa das estruturas objetivas de que ele é o
de exterioridade e de exteriorização das subjetividades: "a descrição da
produto".
subjetividade objetivada remete à descrição da interiorização da objeti-
vidade" (Pierre Bourdieu, J.C. Passeron e J.C. Chamboredon. Le métier de Marcadas por uma extrema atualidade, as reflexões aqui reperto-
sociologue, préalables épistémologiques. 4ª ed. Paris: Mouton-Bordas riadas examinam, por exemplo, no vasto campo da cultura de bens
1983, p. 38). . . ' simbólicos, a problemática geral dos "desclassificados", hoje líderes, em
alguns países, como o Brasil, da propalada "indústria cultural". Ao
Os textos aqui selecionados são de fato marcados por uma releitura
dominar o mercado de bens simbólicos, os "desclassificados" promovem
do dizer-fazer sociológico. Bourdieu alerta para o desgaste de palavras
uma desforra que termina por instituir não só a tirania do pensamento
que se tornam pouco a pouco redundantes e vazias, perdendo assim a
único, mas notadamente a dominação da estética única. Uma televisão
dimensão conceitual, móvel, asfixiando a dinâmica, necessariamente
"desclassificada" que produz para um público "desclassificado", uma
agressiva, no sentido latino da palavra, do pensamento, em seus múlti-
universidade "desclassificada" que produz diplomas para alunos "des-
plos campos e facetas: "Todo vocabulário sociológico está repleto de
classificados" etc.
história. Enquanto não fizermos uma sociologia da produção e usos
dessas palavras, das relações sociais entre usuários, das relações de Negados, historicamente; sem direito à educação nem à significa-
dominação, por exemplo, entre filósofos e sociólogos, seremos manipu- ção social, os "desclassificados" vivem hoje o retorno do recalcado,
lados da maneira mais insidiosa que existe, ou seja, por nossas próprias marcado pela tirania da estética única correlata do pensamento único -
categorias de pensamento", conclui Bourdieu. o não-pensamento ou a ditadura do grotesco? O conceito de habitus de
Pierre Bourdieu tem muito a nos ensinar sobre a dominação de uma
O autor demonstra, à sua maneira, como e por que a sociologia -
estética única - desforra dos "desclassificados" ou inclusão dos excluí-
e as ciências humanas no seu conjunto - se constitui a partir de práticas
dos? Estética do feio ou dissidência contra o conformismo? Alienação
econômicas, culturais e políticas inseridas no campo da subjetividade e
ou revolta às avessas contra o destino social?
regidas pela "reprodução proibida", pela dimensão simbólica da domi-
nação econômica. No momento em que a sociologia se apresenta como uma ciência
sôfrega, enferma, mergulhada numa anestesia geral, sem elementos
. Constatamos com Bourdieu o movimento migratório e emigrató-
teóricos nem instrumentos adequados para repensar o Brasil contempo-
no de signos no interior de um habitus, território em processo constante
râneo, o presente aporte teórico de Pierre Bourdieu surge como uma I
de desterritorialização, regido por umjluxo-habitus marcado pela memória
contribuição crítica, pensada, elaborada, severa e lúcida, energia neces-
e pelo esquecimento. Ora, o habitus responde ou reage ao ser brutalmente
manipulado por um universo que emerge aniquilando relações e se articu-
sária à derrocada de um "fetichismo político" que transforma o real em r
imaginário enganador, habitado pela "magia das palavras" que exila o
lando em campos - jurídicos, políticos, religiosos etc . . . ,., numa velocidade
diferente social (a maioria) na sua própria exclusão.
que ofusca e nega as subjetividades, elimina o romance pessoal e a mitologia
de um sujeito habitado por uma multiplicidade que faz dele um sujeito
plural, atento à alteridade. Mas "as respostas do habitus podem ser contra- Daniel Lins

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8
1
BOURDIEU E O BRASIL:
UM "AMOR À DISTÂNCIA" 1

• Daniel Lins: O senhor é muito conhecido no Brasil. Seu pensamento


está, muitas vezes, inserido no discurso cotidiano, não só de intelec-
tuais, mas também da mídia e, não raro, I}as declarações de alguns
responsáveis pela segurança, nas instâncias políticas, na polícia etc.
"Violência simbólica", "capital cultural", habitus; "teoria dos campos"
etc., esses conceitos circulam por todos os lados. Mas, infelizmente,
Bourdieu ainda não é bastante lido no Brasil! O que o senhor pensa
desse "amor à distância"? Quais são as suas relações com o Brasil? O
senhor não se incomoda de ser incorporado assim, de uma maneira
quase antropofágica, e não só pelo meio universitário?

Pierre Bourdieu: Eu gosto muito da expressão e da idéia de "amor à


distância", que sintetiza muito bem minhas relações com o Brasil. É
um pouco como esses romances de amor por meio de cartas. Não parei
de ler mensagens vindas do Brasil, livros, evidentemente, teses, pro-

· 1. Entrevista exclusiva concedida a Daniel Lins. Tradução de Daniel Lins.

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jetos de artigos (publicamos muitos textos de brasileiros e brasileiras • Lins: Considerando, por um lado, o silêncio e a apatia da maioria dos
na revista Actes de la Recherche en Sciences Sociales), de responder sociólogos, na França e no Brasil, e, por outro, a redundância vazia
às mensagens e de enviar mensageiros ao Brasil. Penso em todos inserida nos raros discursos dos sociólogos, transformados, em sua
aqueles que vieram trabalhar comigo, em um ou outro momento, e que grande maioria, em burocratas, "fazedores" de projetos para o Estado,
se tornaram meus amigos: Sérgio Miceli, Sérgio Leite Lopes, André para ONGs, grupos privados etc., para que servem os sociólogos hoje?
Loyola, Lígia Cegaud, Moacir Palmeira, Afrânio Garcia, José Carlos Será Bourdieu o último sociólogo? O que o senhor diria do desencan-
Garcia Durand, Arakcy Martins-Rodrigues e muitos outros, e em tamento do brasileiro com os sociólogos e, por <ijllálgama, com os
todos os meus amigos que estiveram no Brasil. Penso também em intelectuais? Para que serve um intelectual hoje?
Abdelmalek Sayad, para quem a descoberta do Brasil foi um retorno
Bourdieu: Penso que os intelectuais, e sobretudo os sociólogos, são
a seu país natal, a Argélia, em Yves Dezalay, que realizou importantes
mais do que nunca necessários. Eles são os únicos capazes de desem-
estudos sobre as "elites" brasileiras, e em tantos outros. Sim, gosto
penhar o papel de ouvidores, de dizer tudo aquilo que o discurso
também da idéia de ser apropriado, devorado por uma espécie de
dominante sufoca e oculta. Os brasileiros têm o direito de estar
cúmplice um pouco antropofágico e de existir também no Brasil, tão
decepcionados com os intelectuais e, notadamente, com todos os
longe, em um certo sentido mais do que aqui, na França, onde tenho
"sábios" do poder, economistas ou sociólogos, que colocam sua
a impressão, às vezes, de ficar de escanteio. Devo dizer que, graças à
autoridade estatutária a serviço dos mais aptos políticos, pelo menos
qualidade de meus primeiros amigos brasileiros, o Brasil tornou-se
a longo prazo, para destruir todos os direitos sociais adquiridos e todas
para mim, muito cedo, quando eu era ainda um jovem pesquisador,
as solidariedades que os tornaram possíveis,
uma terra hospitaleira, e muitas vezes me perguntei qual era o funda-
mento dessas afinidades de estilo entre a sociologia que eu defendia
e o Brasil, o "temperamento" intelectual brasileiro. Talvez a leveza, a • Lins: O Brasil, nação da desigualdade social por excelência, é um dos
vivacidade, o sentido da complexidade. (Puxa! Vão pensar que falo países com maior concentração de renda do planeta. A universidade,
do futebol brasilt~iro.) Sem brincadeira, penso- mas isso é um pouco pública ou privada, como a educação em geral, está inserida numa
complacente -que minha obra, pelo fato de ser lastrada por toda uma violência simbólica e patrimonial instituída, marcada pelo "racismo
experiência biográfica de trânsfuga de um "país do sul" e também por de inteligência" diluído nas práticas e nas formas históricas de gerir o
tudo aquilo que aprendi sobre "a miséria do mundo" ao longo dos anos cotidiano do país. Mesmo se, aqui ou ali, sobretudo na escola primária,
em que passei na Argélia, e além disso, tem uma espécie de gravidade, podemos constatar uma real evolução em relação ao direito de educa-
de seriedade, às vezes um pouco patética (apesar de eu ter horror do ção par~ todos "o estado do Ceará, no Nordeste pobre do Brasil, é um
pathos), que vale a pena ser entendida, notadamente no momento exemplo dessa vontade pública, apesar dos limites da experiência", a
atual, em que, mais do que nunca, os sociólogos são levados a falar escola e a universidade funcionam ainda sob a lógica da desigualdade
para não dizer nada ou a ficarem silenciosos. e da apartação social. Estamos, por outro lado, acompanhando com
interesse e cert:;t perplexidade a problemática da violência na escola

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francesa, especialmente nos colégios da periferia. Qual é a situação certo número de fatos indiscutíveis, e porque nada fizemos (muito pelo
da escola hoje na França? Por que tanta violência se, ao contrário do contrário) para fortalecer a eficácia de um sistema que, se contribui
Brasil, o ensino na França é obrigatório e gratuito para todos? O que I
de fato para a produção das desigualdades, poderia, em certas condi-
mudou depois da publicação, em 1971, de seu livro A reprodução-
Elementos de uma teoria do sistema de ensino?
ções, ser um dos meios eficazes de reduzi-las. Isso supõe que se pague .I
o preço, em vez de deixar o sistema de ensino público se degradar, e
até ser destruído, por uma política de privatização larvada.
Bourdieu: Essa questão exigiria uma resposta de várias horas. O
sistema escolar continua a preencher, mais do que nunca, sua função
de conservação da ordem social e, caso seja necessário mudar alguma • Lins: Senti seu desejo, em sua primeira resposta a essa entrevista, de
coisa na descrição apresentada em Herdeiros e em Reprodução, trata- falar sobre o futebol brasileiro. Voltaremos- quem sabe?-, em breve,
se sobretudo do fato de que as crianças das classes dominadas a conversar sobre o assunto. De fato, a última vez em que nos
(principalmente provenientes da imigração), de certa maneira, com- encontramos, em Paris, foi na véspera da final da Copa do Mundo, em
preenderam na prática o papel do sistema escolar na reprodução das 1998, no café Bleu-Blanc-Rouge, na Bastilha. O senhor vibrava com
desigualdades sociais e os limites das correções que ele pode trazer à o Brasil. Falava, como um bom torcedor "brasileiro", da beleza do
hereditariedade social, pelo fato de que, para aqueles que conseguem nosso futebol, de sua leveza e de nossa vitória anunciada. A França
obter diplomas, a sanção do mercado de trabalho se impõem quase foi campeã. Soube o resultado no avião, de volta para o Brasil! Fiquei
que implacavelmente. A violência é, de alguma maneira, a expressão triste, mas dividido ... E Boürdieu, perguntei-me, por quem ele torceu?
dessa descoberta. Em um texto que escrevi com Patrick Champagne
Bourdieu: Obrigado, Daniel Lins.
no livro intitulado A miséria do mundo, falamos de "excluídos do
interior", isso para dizer que passamos de um estado de sistema escolar • Lins: Obrigado, Pierre Bourdieu.
no qual as crianças das classes populares eram muito cedo excluídas
do sistema, a maioria das vezes por volta dos 12 anos, para um estado
em que elas se mantinham na escola, muitas vezes até os 16 anos, e
mesmo além, mas para nela vivenciar a experiência de sua incapaci-
dade de satisfazer as exigências explícitas ou implícitas desse jogo,
no qual se sentem deslocadas. Daí, sem dúvida, essa nova forma de
miséria, ou de revolta, que paradoxalmente se volta contra a instituição
que, durante muitos séculos de ilusões e de esperanças republicanas,
foi considerada instrumento de libertação por excelência. Em síntese,
o que nos fazia aparecer como muito pessimistas nos anos 70 foi
confirmado depois, especialmente porque não levamos a sério um

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2
CHAMADAS 1

• Claude Duverlie: Pierre Bourdieu, o senhor está à frente de uma obra


considerável, que impressiona, por assim dizer, tanto pela abundância
quanto pela variedade dos assuntos abordados, já que vai dos costumes
dos cabilas ao trabalho na Argélia, aos estpdantes e seus estudos, à
sociologia da cultura e da educação, à sociologia da sociologia, à lingüís-
tica, à arte moderna, ao mercado de bens literários. Qual é o fio condutor
que atravessa essa obra ou o grande plano em que se inscreve esse
vasto empreendimento?

Pierre Bourdieu: Esse projeto intelectual só parece estranho porque os


sociólogos se consagraram a uma especialização prematura: acredi-
tando assim se conformar à imagem que têm da ciência e que só é
verdadeira sobre certas ciências da natureza - a física, pÓr exemplo-
em seu estado mais avançado, eles propenderam a dividir sua disci-
plina em pequenas áreas. Tomo um único exemplo, o da educação, da
cultura e da arte. Nos congressos mundiais de sociologia, tem-se uma

r I. Entrevista a C. Duverlie, para a televisão, realizada em Paris, em maio de 1985, sob os auspícios da
Universidade de Baltimore.

17
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seção de "sociologia da cultura", uma seção de "sociologia da educa- sistemas de classificação. Um dos primeiros textos que escrevi, na
ção" e uma seção de "sociologia da arte". Ora, desde que comecei a década de 1960, na época em que estava passando da antropologia à
sociologia, chamava-se "Sistemas de ensino e sistemas de pensamen-
trabalhar sobre esses assuntos, por exemplo, durante meus estudos
to". É um artigo do qual, hoje, não gosto muito, mas em que tento
sobre a freqüência aos museus europeus, fui evidentemente obrigado
mostrar que, em nossas sociedades, devíamos procurar no sistema
a ultrapassar a fronteira entre a sociologia da educação e a sociologia
escolar a gênese dessas "formas primitivas de classificação" de que
da cultura, pois o sistema escolar desempenha um papel determinante
falavam Durkheim e Mauss, dessas categorias de percepção e de
na inculcação da cultura, das hierarquias culturais, das divisões em
pensamento. É o caso, por exemplo, da dissertação em três pontos,
gêneros etc. Poderia dizer o mesmo das fronteiras entre a antropologia que é uma tradição nacional: todo estudante francês aprende, sem que
e a sociologia. lhe ensinem expressamente isso, que a dissertação deve ser dividida
Mas o caráter ao mesmo tempo muito diversificado e sistemático de em três partes - uma tese, uma antítese e uma vaga síntese. Essa
minhas pesquisas decorre do fato de que tenho como projeto intelec- estrutura tem uma genealogia e remonta; acho, a Santo Tomás, à
tual (se é que podemos caracterizá-lo em poucas palavras) tentar fazer divisão tripartite da Suma de Santo Tomás, que Panofsky reencontrou
uma economia dos fenômenos culturais e simbólicos. A nossa cultura, na catedral gótica. Ou seja, podemos fazer uma genealogia histórica
no sentido acadêmico do termo, é construída sobre a oposição entre o das estruturas mentais. E o sistema escolar é uma boa oportunidade
cultural e o econômico, entre a arte e o dinheiro, entre tudo o que é de apreender esses processos e muitas outras coisas. Por que dediquei,
gratuito, desinteressado, e tudo o que é material e econômico: essa em seguida, tanto tempo a ele? É um fato da sociologia da ciência que
grande oposição históricaimpede que se faça uma ciência econômica os pesquisadores são empreendedores que, depois de investir numa
dos bens simbólicos. Nesse aspecto, ineu projeto pode ser entendido área, têm muita dificuldade para se reconverter, para passar a outro
como uma maneira de prolongar o que foi, a meu ver, a grande campo: A lógica da reconversão racional leva a passar da educação à
contribuição de Max Weber: ao fazer uma economia das práticas freqüência aos museus, da freqüência aos museus à produção das obras
de arte, e assim por diante. Mas é óbvio que os vínculos externos que
culturais, religiosas, artísticas etc. de tipo materialista, ele ocupou o
pesam sobre o trabalho intelectual não bastam para explicar todo o
terreno que Marx abandonara.
itinerário da pesquisa. Cada progresso faz surgirem novos problemas:
assim, para compreender verdadeiramente a função do sistema das
• Duverlie: Sim, mas o senhor se apegou em especial à sociologia da instituições de ensino superior, para saber- essa era a hipótese que
educação e da cultura? parecia se depreender da análise desse universo- reproduzir a estru-
tura das diferenças constitutivas do espaço do que chamo de campo
Bourdieu: Sim, evidentemente, a sociologia da educação e da cultura
do poder - a classe dominante -, .foi preciso realizar uma imensa
desempenhou um papel importante em meu trabalho, na medida em
investigaÇão sobre o conjunto dos campos constitutivos do campo do
que o sistema escolar era uma ocasião privilegiada de estudar os
poder, campo dos diretores de indústria, campo universitário, campo I
fenômenos de transmissão cultural ou, em outras palavras, de colocar administrativo, episcopado etc. Investigação essa que, aliás, não ter-
a respeito de nossa sociedade problemas que os antropólogos tradicio-
minou, e faz surgir toda espécie de outros problemas.
nalmente colocam acerca das sociedades estudadas por eles, como,
por exemplo, o problema da transmissão das estruturas mentais e dos

18 19
• Duverlie: O senhor diz muitas vezes que a sociologia da sociologia de Marx, Weber de Marx, Marx de Durkheim etc., sempre com a
deveria ser e, na verdade, deve ser a condição primeira da sociologia. sensação de que o que impedia as pessoas de ver que esses autores
Por que e como? diziam a mesma coisa, ou coisas complementares, eram razões pura-
mente sociais. Essa é uma das vantagens proporcionados pela
Bourdieu: Acho que, no caso da sociologia, a sociologia da sociologia
sociologia da sociologia, mas existem muitas outras ainda.
é uma dimensão fundamental da epistemologia. Para escapar do
círculo vicioso do historicismo ou do sociologismo, que os adversários
da sociologia gostam de lembrar- ou seja, para poder responder à • Duverlie: O que parece absolutamente fundamental para o senhor é a
pergunta "como, estando inscrito numa sociedade, você pode fugir aos sociologia da relação com o objeto, ou seja, a necessidade de analisar
determinismos sociais que descreve?"-, o único meio é servir-no~cg a relação com o objeto como dimensão do conhecimento do objeto.
- sociologia para tentar conhecer os determinismos sociais que p~~
Bourdieu: Sim. Em certo sentido, minha contribuição sobre esse ponto
sobre o sociólogo e, com isso, tentar dominá-los. Portanto, a sociolo-
não é muito nova. Muitos sociólogos- tenho e~ me~t~er-e*em~õ)
gia da ciência a soci_Qlogia da sociologia, não é uma especialida~e
Gouldner - insistiram na necessidade de uma sociOlogia reflex y,a:.
Dito isso, tento dar um verdadeiro conteúdo ~-.es.sa_op~raç'ão, tento
entre outras: é o pré-requisito de toda prática sociológi3 QQ__ ue diz
respeito a ser capaz de fornecer OS instrumentos do conhecimento dQS
torná-la operacional e metódica. Creio que a mera análise da relação
'Vínculoss ociais que po:dem agir quer na forma de pr~ssões externas,
social com o objeto e o domínio que ela torna possível evitariam
~é be~ pior, na forma de coerção interiorizada. Penso, por
grande parte dos erros científicos. O que me deprime quando leio
exerrÍplo: qu;o que acabo-de fazer acerca da Suma de Santo Tomás e
certos trabalhos sociológicos é que pessoas que professam objetivar
do plano em três pontos poderia ser feito em relação a todas as
o mundo social sejam tão pouco capazes de objetivar a si mesmas e
ferramentas intelectuais que empregamos, a todas as palavras que
não vejam que o que fala em seu discurso de aparência científica não
usamos, "consenso", "integração", "conflito", "anomia" etc. Todo o
é o objeto, mas sim a relação delas com o objeto, o ressentimento, a
vocabulário sociológico está repleto de história. Enquanto não fizer-
inveja, a concupiscência social, as aspirações inconscientes, muitas
mos uma sociologia da produção e dos usos sociais dessas palavras,
coisas não analisadas. Mas isso não é o mais importante. Em muitos
das relações sociais entre os usuários, das relações de dominação, por
casos, ocorre um efeito muito mais pernicioso, muito mais escondido:
exemplo, entre filósofos e sociólogos ou entre matemáticos e soció-
refiro-me a tudo o que introduzimos em nossa visão do objeto, pelo
logos, conforme as épocas etc., seremos manipulados da maneira mais
simples fato de estarmos na posição do observador, para o qual há
insidiosa que existe, ou seja, por nossas próprias categorias de pensa-
objetos, objetos constituídos como tais na objetividade, diante do
mento. Uma das coisas que a sociologia da sociologia me ensinou é
sujeito cognoscente. Em outras palavras, denuncio uma espécie de
que muitíssimas vezes os obstáculos ao conhecimento são sociais. Por
etnocentrismo de cientista, que não sabe tudo o que é introduzido em
exemplo, há aproximações entre conceitos ou entre autores que não
sua percepção do objeto pelo fato de estar situado fora do objeto, de
podemos fazer, porque esses conceitos ou esses autores pertencem a
observá-lo, de longe e de cima. É no caso da antropologia que essa
universos que se excluem. Passei a vida tramando casamentos desi-
exterioridade teórica em relação ao objeto é particularmente visível,
guais entre conceitos, isto é, aproximando Cassirer de Durkheim, Kant
pois o antropólogo é um estranho para quem a exterioridade do

20 21
cientista, que não está no jogo mas vê jogar, fica na moita, como se • Duverlie: Em seus trabalhos sobre a lingüística, o senhor discute a
diz, é duplicada pela exterioridade do estranho que é totalmente alheio questão da autoridade e do poder na linguagem, e como isso afeta a
ao jogo, mesmo quando brinca de participar de um rito: entre outras normalização das convenções. Seu trabalho teórico esteia-se numa
razões, porque está só de passagem, não vai permanecer naquela analogia entre a troca lingüística e o mercado. Ainda é necessário
sociedade, não tem estatuto social nem tem nada em jogo etc. Ora, os precisar que repensar o mercado lingüístico não é transferir para a
antropólogos esquecem-se de inscrever em sua análise essa exteriori- sociologia conceitos tomados da economia. É, como o senhor disse
dade, o lado lúdico de sua relação com o objeto, que está no princípio repensar os fundamentos esquecidos da troca e fazer à economi~
de sua visão do objeto e de todo um conjunto de erros que daí decorre. perguntas ocultadas.Quais são alguns desses fundamentos esquecidos
Creio, na verdade, que a maioria dos erros da tradição estruturalista, da troca e dessas perguntas ocultadas a que o senhor se refere?
quer se trate das teorias do parentesco, como as desenvolveu Lévi-
Strauss, quer se trate das teorias do ritual ou do mito, decorre do fato Bourdieu: Essa é uma pergunta abrangente. Posso tentar respondê-la
de o cientista não saber que está falando das coisas de que fala como sobre um ponto preciso. O que há na troca lingüística de que 0
alguém que nada tem a ver com elas. Como o sociólogo que estuda o economista - se é que ele se ocupa desse gênero de troca - se
sistema escolar é guiado por preocupações totalmente diferentes das esqueceria? Há essencialmente relações de força. O que lembro a
do pai de família que procura inscrever seu filho na melhor instituição, respeito da troca lingüística é que, em toda troca, trata-se da relação
o antropólogo que estabelece uma genealogia tem uma relação com o de força entre o emissor e o receptor: ali onde só se vê uma mera
objeto "parentesco" que é completamente diferente da do pai de relação de comunicação mediada por um código, parece-me que há
família cabila que quer casar da melhor maneira possível seu filho ou tambéin uma relação de poder, na qual um emissor dotado de uma
sua filha. Não devemos concluir daí que o conhecimento teórico não autoridade social mais ou menos reconhecida dirige-se a um receptor
vale nada, mas sim que devemos conhecer os seus limites e que é que reconhece mais ou menos essa autoridade. E o que quero mostrar
preciso duplicar toda descrição científica com uma descrição dos é que uma parte bastante considerável do que se passa na comunicação
limites da descrição científica: o conhecimento teórico (aquele que lingüística, o conteúdo mesmo da mensagem, permanece ininteligível
produz os esquemas, os planos, as genealogias) deve suas principais enquanto não levamos em conta essa estrutura de poçler. Tomo um
propriedades às condições em que é produzido, e que não são as da exemplo muito simples, o da comunicação entrec olonizador e colo-
prática. Os agentes não dominam como tal o sistema das relações de nizado numa situação colonial (ou pós-colonial): que língua eles vão
parentesco, que é produto de um interesse e de um trabalho puramente usar? Será que o dominante vai, para ressaltar sua preocupação com
teóricos; eles têm um senso do parentesco, do que se deve fazer, do a igualdade, adotar a língua do dominado? Se assim for, há uma boa
que não se deve fazer com este ou aquele parente, conforme ele esteja probabilidade de que o faça por aquilo que chamo de estratégia de
mais ou menos próximo numa métrica puramente genealógica, mas condescendência: ao abdicar de modo ostentatório de sua posição de
também conforme o interesse (no sentido mais amplo) que existe em dominante para se colocar, por assim dizer, "ao alcance" daquele a
manter relações com ele. quem se dirige, ele tira partido dessa relação, que continua a existir,
denegando-a; ele até ajuda a fortalecê-la, fazendo-a ser reconhecida
como legítima: djrão que ele é modesto, simples etc. A denegação (no

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sentido freudiano de Verneinung), como colocação entre parênteses os tem. E com isso, a sociologia dos intelectuais, a sociologia dos
fictícia da relação de força, explora a relação de força para produzir o profissionais da análise, desempenha uma função extremamente impor-
reconhecimento da relação de força que a abdicação suscita. Mas tante: tornar visíveis todos os pressupostos inerentes à situação de
podemos imaginar também que é o dominado que é obrigado a adotar intelectual, aqueles, por exemplo, que são inerentes à situação teórica que
a língua do dominante- é a situação mais freqüente. Nesse momento, mencionei há pouco, ou os que estão implicados no uso de categorias de
ele falará uma língua "quebrada", broken, como se diz em inglês, uma pensamento herdadas. Ao usar a palavra "categoria", invoco 20 séculos
língua mais ou menos demolida, como mostrou William Labov, e seu de história da filosofia. O que a sociologia do conhecimento ensina é que,
capital lingüístico será em parte destruído: na relação com o dominan- por exemplo, quando uso a palavra "categoria", posso ter sido inspirado
te, define-se um mercado no qual seu capital lingüístico sofre uma pela preocupação de ser chique, de ter ares "teóricos" etc. Uma palavra
espécie de desvalorização. E é natural que ele viva essa relação na que parece funcionar como um signo informativo funciona, na realidade,
timidez, no constrangimento ou até na vergonha, quando não é pura e como um signo exterior de riqueza simbólica: "Você sabe, está falando
simplesmente condenado ao silêncio. Para continuar a análise, seria com um filósofo." Mas pode evocar toda uma filosofia idealista, que
preciso introduzir todo tipo de variáveis: o gender (conforme se trate funciona por intermédio dele em minha cabeça sem que eu sequer o saiba
de uma mulher ou de um homem), o nível de instrução etc. Todas essas etc. Não creio ser um daqueles que, de tanto se ver pensando, acabam
variáveis vão aparecer a cada instante, para determinar a estrutura não pensando mais, que têm uma tal preocupação de pensar seus instru-
objetiva da troca, e a forma que a interação lingüística assume depen- mentos de pensamento que nada mais fazem com eles: passei a vida
derá muito dessa estrutura, completamente inconsciente. Em suma, se fazendo investigações empíricas, questionários. Creio que essa preocu-
um francês fala com um argelino, no limite, não são dois homem que pação com a reflexividade desenvolvida por rnjm nasceu justamente da
se falam, é a França que fala com a Argélia, são duas histórias que se experiência do trabalho empírico. Por exemplo, toda a teoria que elaborei
falam, é toda a colonização, é toda a história de uma relação de acerca das classificações, dos sistemas de classificação, nasceu do en-
dominação ao mesmo tempo econômica, cultural etc. E o mesmo contro entre perguntas teóricas que me fazia acerca das classificações
acontece entre um americano e um francês. escolares (em disciplinas, especialidades etc.) e, num registro completa-
mente diferente, acerca da percepção das obras de arte e das dificuldades
• Duverlie: Pode-se dizer que sua obra, na totalidade, é um "despertar completamente concretas com que deparei na codificação das investiga-
contra a ilusão de não ter limites sociais" ou até, como disseram, "uma ções empíricas. Se tenho uma crítica a fazer aos epistemólogos e aos
insurreição contra a negação do real social". Em que consistem esses metodólogos da tradição anglo-saxônica, é a de dirigirem toda a reflexão
limites sociais, qual é a natureza deles, como vê-los em ação e como para as operações mais anódinas, em que é preciso ser burro para cometer
se acham eles mascarados ou até negados? etTos, e de se entregarem à intuição, em nome de uma filosofia positivista,
nas operações mais arriscadas, que comportam perigos enormes, isto é,
Bourdieu: Os intelectuais estão especialmente sujeitos a essa ilusão da na construção do objeto da ciência, na delimitação da população-mãe
ausência de limites. É até a ilusão por excelência do intelectual acreditar (pelo menos tão decisiva quanto a escolha dos procedimentos de amos-
que não tem ilusões nem limites: ele sempre analisa os limites dos outros, tragem), na codi4cação (pelo menos tão determinante quanto o método
esquecendo-se de que seu próprio limite consiste em acreditar que não usado para analisar os dados). Esse tipo de reflexividade é um jeito de se

24 25
apropriar de seu próprio pensamento. Podemos pretender ser um pensa- na literatura, é a oposição entre o puro e o impuro, ou seja, o comercial,
dor quando não sabemos com que pensamos? Essa é a grande lição da a literatura industrial denunciada por Flaubert ou Mallarrné, aquela
filosofia crítica, que reflete sobre os lirni tes para tentar não ultrapassá-los, que deixa se imporem de fora seus fins e que é orientada pela busca
para tentar não pensar além dos instrumentos de pensamento. do lucro. Historicamente, o campo intelectual constituiu-se contra a
lei do lucro econômico; o que não quer dizer que ser um empresário
de produção de bens culturais exclua para sempre toda espécie de
• Duverlie: Nestes últimos anos, o senhor se dedicou especialmente ao lucro, mesmo econômico. Na verdade, as empresas intelectuais que
campo da produção cultural, a respeito do qual descobriu essa coisa se dão bem são, não raro, aquelas que começam muito mal economi-
bastante surpreendente, pois esse campo de produção cultural seria, camente e que conseguem imensos lucros simbólicos e econômicos,
digamos, "o mundo econômico ~s avessas". mas somente a longo prazo. Mas é freqüente que esses lucros sejam
póstumos e não sejam aproveitados pelos produtores. O que constitui
Bourdieu: Sim. Eu poderia, em apoio a essa proposição, que pode
toda a dificuldade da entrada no campo: um dos paradoxos do campo
parecer mais ou menos surpreendente, citar dezenas de textos. Em
artístico é que é preciso ser muito rico para nele se afirmar e se manter
Mallarmé, por exemplo, há uma espécie de exaltação da antítese entre
na ausência, até, de todo lucro econômico. O estudo dos White sobre
a arte e o dinheiro, entre o mundo do gratuito, do desinteressado, e o
os pintores franceses do século XIX mostra que aqueles que podem
mundo mercenário da vida cotidiana. Mas o que quero dizer é que,
se sustentar sem o mercado são os mais ricos, Manet, Cézanne etc.,
historicamente, no campo artístico- essa espécie de subuniverso que
aqueles que têm papais capitalistas e vivem de renda. Para que haja
se costuma chamar de República das Letras e que tem, como a
produção sem mercado, é preciso que o produtor tenha recursos para
República, seu governo, seus dominantes, seus dominados, seus juí-
esperar. É preciso ser rico para poder desafiar.as leis da economia. (Na
zes, seus tribunais-, há uma espécie de lei não escrita que consiste na
verdade, é muito mais complicado: eles recebem garantias e, portanto,
suspensão da busca do lucro econômico no sentido comum do termo
ganham segurança, altivez, ambição intelectual, disposições que os
(o que não quer dizer que não se busquem outros lucros, mas que eles
protegem contra a submissão ao mercado e aos comerciantes, ou, mais
não são reconhecidos como tais, permitindo assim que as pessoas se
simplesmente, às convenções e às conveniências.)
percebam como desinteressadas). Segue-se daí que, para os recém-
chegados, aqueles que chegam à República sem capital, pois são
jovens e pobres, sem outra riqueza que o entusiasmo, a audácia, uma • Duverlie: Seus livros Les héritiers,L'amourde l'art, La reproduction,*
das maneiras de desacreditar os dominantes e de acumular capital para só citar alguns, analisaram as instituições, especialmente as
consiste em dizer que eles são corruptos, que aceitaram demasiada- escolares, encarregadas de inculcar a superioridade de certa cultura e de
mente as honras, o poder e o dinheiro. o sucesso e, em especial, o certa maneira de usar a cultura. Como essa cultura legítima consegue se
sucesso de venda, o sucesso comercial, que, no universo "normal", no impor aos dominados?
universo dos negócios, no universo do poder, é procurado e aprovado,
vê-se atingido por uma espécie de suspeita no universo da arte, essa Bourdieu: Na realidade, os sistemas es.colares assumem corno função
espécie de mundo ao inverso. Não é por acaso que, hoje, uma das inculcar a cultura. Mas acontece que essa cultura é socialmente
oposições fundamentais do campo de produção, tanto na pintura como
* Pierre Bourdieu e Jean Claude Passeron. A reprodução. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.

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distribuída de maneira desigual e, ao mesmo tempo, inculcar o reco- mundo ... e não dão a menor importância à cultura legítima~ois bem,
nhecimento do que é dado como a cultura em sua universalidade é não é nada disso. Na verdade, uma das grandes dificuldades da
inculcar o reconhecimento do privilégio daqueles que pOssuem essa investigação é que, pelo menos na França, hoje, o reconhecimento da
cultura. Na verdade, o que me surpreendeu em meus trabalhos empí- cultura tergiversa as respostas ao questionário e as pessoas tendem a
ricos foi em que extraordinário grau a cultura dominante é reconhecida fingir gostar de coisas das quais não gostam. Sabe-se que, em todas
por aqueles que não a possuem. Muitas vezes, imagina-se que a as enquetes sobre a cultura, as pessoas superestimam sua prática e
carência cultural seja acompanhada de uma indiferença em relação à dizem que vão muito mais ao museu do que realmente vão. Quando
cultura, que as pessoas que ignoram tudo sobre a música clássica, comparamos as probabilidades de ir ao museu, tais como podemos
sobre a pintura tal como a vemos nos museus etc. tenham em relação calculá-las com base nas declarações de uma amostra representativa,
a ela uma atitude de indiferença. Na realidade, primeiro na pequena e as probabilidades de ir ao museu, tais como podemos obtê-las com
burguesia, o reconhecimento concedido à cultura é fantástico e os base na medição da freqüência real aos museus, temos uma diferença
erros típicos dos pequeno-burgueses em matéria de cultura (como a muito grande. Em suma, há um reconhecimento muito grande da
alodoxia, que consiste em dedicar a obras ilegítimas um respeito cultura, e um dos papéis principais do sistema escolar, paradoxalmen-
reservado às obras legítimas, ou a hipercorreção, que consiste em falar te, consiste menos em fazer conhecer a cultura do que em fazê-la ser
mal por uma preocupação excessiva com o bem-falar) decorrem, por reconhecida, ensinar que "ninguém deve ignorar a lei" cultural.
assim dizer, de um excedente do reconhecimento cultural em relação
ao conhecimento. Em sua b_u limia cultural, eles compram enciclopé-
• Duverlie: La distinction e Le sens pratique, dois de seus livros, de
dias, querem a qualquer custo mostrar que são cultos, ao passo que o
1979 e 1980, revelam funções sociais ocultas e essa relação social de
homem "realmente" culto tem como ponto de honra recusar essa
distinção que se dissimula na arte e na cultura. Onde se encontra essa
preocupação. O que, muitas vezes, é um jeito de esconder que não
sabe. Diante do autodidata pequeno-burguês, que responde a todas·as relação de distinção? Como ela se estabelece e como funciona?
perguntas dos programas "desiste ou dobra o prêmio" da televisão, Bourdieu: O que quero dizer é que as relações sociais, as preferências ,
não há outra solução para o professor universitário senão dizer que os consumos, o jeito de se vestir, o jeito de falar funcionam automa-
esse jogo é idiota e que a verdadeira cultura não se reduz a esses ticamente na lógica da distinção. A "distinção" não implica de modo
saberes ridículos ou, então, que ela é, segundo a frase célebre, cuja algum a busca da distinção. Em primeiro lugar, no próprio mundo
função vemos bem aqui, "o que resta quando tudo se esqueceu". social, a definição de distinção, se é que existe, é não buscar a
Portanto, para os pequeno-burgueses, é claro. Isso é mais surpreen-
distinção: as pessoas "realmente" "distintas" são aquelas que não
dente quando chegamos no âmbito das classes populares, das quais
precisam procurar ser distintas. Pelo contrário, a "vulgaridade" é o
diríamos de bom grado- e acho que, nos Estados Unidos, o precon-
fato de buscar a distinção, como aqueles que chamamos em francês
ceito é tão forte quanto na França- que tomam sorvete, lêem romances
de m 'as-tu-vu, e que procuram se "fazer notar" por roupas "cheguei",
idiotas, adoram fotonovela ou soap opera,* têm o pior gosto do
cores "berrantes", é o consumo ostentatório de Veblen, por exemplo,
* As soap operas são, diferentemente das telenovelas, narrativas de ficção compostas por
segmentos não-lineares, sem uma história principal que funcione como condutor da trama. que é próprio dos novos-ricos. É preciso, pois, diferenciar a distinção
Ao contrário das telenovelas que se organizam em "próximos capítulos", indicadores do que se busca da distinção automática, que aparece tão logo as pessoas
desfecho final da história, as soap operas possuem um núcleo que se desemola indefinida-
mente, podendo, assim, perdurar por décadas. (N.R.T.)
façam as mesmas coisas de um modo diferente: numa sociedade

28 29
diferenciada, em que nem todos têm os mesmos bens, em que nem gravura, o que é um jeito de não usar gravata mostrando que podería- I~
todos fazem as mesmas coisas, em que as pessoas se vestem diferente, mos usá-la. Dito isso, façamos o que fizermos, somos pegos pe~
falam diferente etc., todos os atos sociais funcionam como marcas de sistema de diferenças e somos significados sem cessar.
diferença. O universo social funciona como um sistema de fonemas
segundo Saussure, ou seja, como um sistema de afastamentos diferen-
• Duverlie: Num livro em preparação, o senhor analisa o caso particular
ciais, de estilos de vida. Quer eu procure ou não ser distinto, sou
do campo literário no final do século XIX. Sabendo que suas obras
distinto, isto é, percebido como diferente por uma diferença que pode
anteriores tratavam da lingüística e da universidade, quais são os
ser avaliada positiva ou negativamente e, portanto, ser distinta ou
interesses e as preocupações atuais que o levaram a pôr a literatura,
vulgar. A partir do momento em que alguém usa uma gravata, todas
digamos, no colimador, e por que a literatura do final do século XIX?
as pessoas que não usam gravata são distintas: haverá ausências de
gravata de primeiro grau- não tenho gravata'J)orque não posso- ou Bourdieu: Na verdade, esse não é, absolutamente, um interesse recen-
de segundo grau - não tenho gravata porque não quero. Mas como se te. Meus trabalhos mais antigos de sociologia são meus trabalhos
vai saber se não posso ou não quero? Isso será julgado em razão do sobre a literatura, e foi até a propósito dos problemas de sociologia da
resto de meu traje, de minha linguagem ou de meu estatuto. Dirão: literatura que tentei elaborar a noção de campo a que me referi há
dada a maneira como ele está vestido, sua não-gravata é uma ausência pouco. São muitas as razões que me levaram a estudar a sociologia da
eletiva. Ao passo que, num homem de uniforme azul de trabalho, seria literatura: por um lado, queria mostrar que, para fazer uma sociologia
uma ausência necessária etc. da produção literária, era preciso fugir à alternativa em que a ciência
Assim, o sistema social não é apenas um sistema de diferenças das obras culturais ainda hoje está encerrada, com poucas exceções.
objetivas, medidas, como na física, na forma de distribuições. Os Por um lado, o estudo interno ou, para falar como Cassirer após
sujeitos sociais percebem uns aos outros e se comparam. Ver é fazer Schelling, tautegórico: tomamos a obra e a explicamos em si mesma
comparações, é fazer diferenças, é distinguir formas em relação a e por si mesma. Por outro lado, o estudo externo, alegórico, que cai
fundos. A partir do momento em que os sujeitos sociais percebem uns no erro do curto-circuito ao relacionar diretamente as obras de uma
aos outros, as diferenças entre eles entram em sistemas simbólicos e época com a sociedade ou a economia, segundo o exemplo de Lukács,
temos um espaço de distinções. Minha tese central é que esse espaço Goldman e toda essa tradição. Achei importante mostrar que havia
de distinções simbólicas exprime e reproduz o espaço das diferenças uma mediação, como eu teria dito na época, entre a sociedade e a obra,
materiais. Estas últimas, uma vez percebidas, classificadas e aprecia- essa sociedade na sociedade que é constituída pela sociedade dos
das, funcionam também como traços distintivos, afastamentos autores e que a história artística e tradicional jamais estudava como
estilísticos em sistemas de diferenças, tornando-se assim simbólicas. tal, em suas leis de funcionamento, em suas leis de sucesso, em suas
Somos condenados a significar por meio do jogo da diferença. Evi- leis de carreira, em ·seus vínculos próprios. Penso, pois, que, para
dentemente, podemos tentar jogar com a significação objetiva. É o que compreender uma obra cultural, devemos compreender o campo de
fazem os intelectuais, por exemplo. Como dizia há pouco, o intelectual produção e a posição de seu autor nesse espaço. Há uma correspon-
pretende-se livre, não determinado; normalmente, poderia comprar dência entre o espaço das obras em determinado momento e o espaço
um carro médio, uma 204 ou um Simca 1000, mas, por não poder dos autores e das instituições que as produzem. Creio que os forma-
adquirir um Jaguar ou um Mondrian, ele compra uma 2 CV e uma listas russos, graÇas provavelmente ao modelo lingüístico, sentiram

30 I 31
-~~-~~~~.':"'f"~~~-------
< Ul'HVE2.SIDADE DO PARÁ 1

~o~::;:::C~T=-~
os autores são, para falar como Espinosa, "duas versões da mesma frase".
que as obras eram um espaço e que era preciso realizar estudos
Por conseguinte, a história social da literatura deve reunir os dois níveis
intertextuais. Ao mesmo tempo, sentiram também que, para com- '
ler, uns em relação aos outros, textos que falam constantemente uns dos
preender em particular as mudanças das obras, os fenômenos de
outros, porque os autores falam sem parar dos outros autores, consciente
desbanalização, de rotinização, de canonização etc., era preciso com-
ou inconscientemente e, mais precisamente, porque a posição deles, que só
preender as relações entre as obras, que são ao mesmo tempo relações
se define relacionalmente, em relação a outras posições, ocupadas por
entre os autores: por exemplo, a geração ortodoxa será contestada por
outros autores, fala sem cessar através de suas obras.
uma geração herética, e assim por diante. Dito isso, agiram como se
o princípio dessas mudanças se situasse no nível das obras, como se,
em determinado momento, as obras se tornassem banais e pedissem a • Duverlie: Dentre as grandes questões ou interrogações que informam
mudança deles. Não viram que, se há um espaço das obras, há também ou dirigem suas investigações, há a do papel e da responsabilidade do
um espaço de produção, e que as mudanças no plano do espaço das intelectual. Que dizer desse papel e dessa responsabilidade?
obras são a projeção, segundo uma lógica muito particular, das lutas
no espaço dos autores. Por exemplo, por que, num determinado Bourdieu: Um dos objetos do trabalho que pude fazer sobre o campo
momento, vamos assistir a uma reviravolta da ortodoxia na poesia? intelectual no século XIX foi também a tentativa de fazer a genealogia
Interessei-me pela segunda metade do século XIX porque é o início histórica desse personagem muito especial, que é quase uma especia-
do movimento de revolução permanente, com uma perturbação a cada lidade francesa, a saber, o intelectual. O intelectual é uma espécie de
I
dez anos. Por quê? Porque temos um campo estruturado ao redor da instituição histórica, que se constituiu aos poucos, com Voltaire e a
oposição entre dominantes e dominados: os dominantes foram heré- Enciclopédia, depois Zola e, em seguida, Gide, Sartre etc. Essa genea-
ticos, foram a vanguarda, desacreditaram o capital dos dominantes logia histórica é importante não na lógica d.a celebração (em geral,
anteriores e acumularam capital simbólico, em nome dos mesmos fazem~se genealogias para autentificar uma nobreza), mas, antes, para
valores de pureza que haviam fundamentado a dominação de seus tentar reapreender a necessidade histórica que está na origem do que
predecessores e, ao se tornarem dominantes, por sua vez, vêem chegar somos e que nos determina. Neste ano, por exemplo, estudei a luta dos
novos dominados que lhes aplicam o mesmo golpe e denunciam a impressionistas para fazer uma autêntica revolução cultural, para
corrupção e a decadência dos mais velhos, pregando o retorno às redefinir de ponta a ponta o que é pintar, o que é um pintor, para
fontes, à poesia realmente poética, condenando o lirismo, Lamartine inventar a noção mesma de artista; essa luta preparou o golpe repre-
ou Victor Hugo, com a primeira revolução parnasiana: nada de senti- sentado pelo 1 'accuse, de Zola. O Zola escritor naturalista e o Zola de
mentos, nada de estado de alma. Depois, chegam outras revoluções, 1'accuse fizeram com que fosse esquecido um outro Zola, aquele que
cujas tomadas de posição são geradas a cada vez em oposição à foi companheiro de viagem dos impressionistas e que, nessa qualida-
configuração particular do campo, e assim por diante. Ou seja, as lutas de, fez-se o teórico da arte pela arte, da arte pura. Há uma ligação entre
internas ao campo de produção, entre Verlaine e Mallarmé, por esse personagem esquisito, que foi o teórico da arte pela arte (e de
exemplo, é que são o motor da mudança. Os recém-chegados desba- quem fizeram o símbolo da arte engajada, da arte proletária etc.), e
nalizam. Dizem: abaixo a rotina. Há uma história das obras que é a aquele que, no fim da vida, escreveu 1 'accuse? Na verdade, é o mesmo
retradução para a lógica das obras das lutas travadas no interior do Zola que, tendo lutado pela autonomia dos intelectuais, fez um ato de
espaço de produção delas. A história das obras e a história das lutas entre intervenção intelectual no terreno político. O que só é contraditório

32
~VERSlDADE ff:'!E~~ J. 00 Ptt\<'t 33
...... ~'QtJ(ffEC.'~ CEí ' 'I'· ! l
aparentemente. O intelectual aparece num universo intelectual cons-
tituído, com uma autonomia muito grande, que implica recusas (tenho
em mente a frase de Flaubert: "As honras desonram", Sartre recusando
o prêmio Nobel), porque se afirma no fato de não reconhecer nenhuma
outra legitimidade além da legitimidade intelectual. Adquirida essa
autonomia, coletivamente, alguém que tenha autoridade na República
das Letras pode intervir no terreno da política, não à maneira de um
político (havia, na época de Zola, intelectuais que faziam política, mas
renunciando a ser intelectuais), mas como intelectual, com uma auto-
ridade de intelectual, que o intelectual deve, em parte, ao fato de não
fazer política, ou seja, de ser "desinteressado", "puro", possuidor de 3
1
valores transcendentes etc. Ele se torna o advogado do universal. É A CRÍTICA ARMADA
em nome da autonomia dos intelectuais que Zola e, depois dele, todos OU MIT DEN WAFFEN DER KRJTJK
os intelectuais podem e devem fazer política. Zola é o inventor de um
modelo histórico, uma espécie de especialidade nacional que me
parece merecer ser defendida, embora eu conheça seus limites histó-
ricos. Criou-se, por razões históricas estranhas, um universo em que • H.D. Zimmerman: Designar suas análises de La distinction (Diefeine'}
há lucro em ser desinteressado; um dos raros universos em que se lucra Unterschiede) como uma "antropologia da França", como o senhór
defendendo causas universais, lutando contra o apartheid, pela Gua- fez em seu prefácio à edição alemã, quer qizer que o senhor quer
temala ou pelo Chile. Há uma especialidade francesa da petição que designar de antemão os limites gerais de seus propósitos teóricos? Ou
muitas vezes me enerva, porque vejo muito claramente os lucros trata-se, antes, de um alerta contra "análises", principalmente ameri-
daqueles que querem deixar sua assinatura ao lado da de Simone de canas, da sociedade francesa que, na maioria das vezes, não passam
Beauvoir e de Jean-Paul Sartre. De qualquer forma, essa instituição de estereótipos exóticos vestidos de jargão científico?
tem certo valor, porque, se não houvesse um lucro específico em
defendê-los, há toda uma série de causas universais que não encontra- Pierre Bourdieu: Ao falar de etnografia da França, eu tinha antes de
riam defensores. Trata-se de uma feliz astúcia da razão histórica. tudo uma intenção negativa, queria definir meu trabalho contra uma
Podemos ao mesmo tempo compreender que, no jogo em que estamos · maneira muito distante, muito abstrata, de falar do mundo social; o
inseridos, praticamente não há espaço para a liberdade, e podemos mérito dos etnógrafos é, de fato, que, em contraposição aos sociólo-1
tentar valer-nos das necessidades históricas para tentar modificar um gos, ~esmos ver a realidade, el~s mes!llos. interrogam, tiram I -"
pouquinho a necessidade histórica. fotografias, em vez de ver as coisas de longe, por meio do questionário)

~
1. Entrevista a H.D. Zimmerman, acerca de La distinction, gravada em Paris, em J 9 Y, para a televisão
alemã, e publicada em alemão com o título "Die feinen Unterschiede, oder: Die Ablangigkeit aller
Lebensaüsserungen vom sozialem Status", em L'80 (Colônia), de 28 de novembro de 1983, pp.
131-143. .

35
34
e do pesquisador. Foi contra essa tendência particularmente difundida ser relativamente independente da posição ocupada no momento
entre os sociólogos de ver as coisas do alto e de longe e de falar em considerado, por ser o rastro de toda uma trajetória passada, que está
termos abstratos, ou melhor, concretos-abstratos- porque, apesar de no princípio de tomadas sistemáticas de posição. Mas, além disso, há
tudo, referem-se a sua própria experiência, mas não objetivada -,que efetivamente um vínculo entre dimensões completamente diferentes
falei de antropologia. Bateson, na introdução de Naven, insiste sobre da prática, entre a maneira de falar, a maneira de dançar, a maneira de
o fato de que o antropólogo está próximo do romancista que tenta rir, a maneira de ler, e também entre o que se lê, o que se ama, as
restituir a intuição de uma totalidade cultural, mas que, ao contrário pessoas que se visitam etc. Pouco se disse sobre essa unidade global
deste último, busca apreender os Rrinc'piGs_das_práticas que descreve. das práticas antes de mim, acho eu, afora os romancistas. (O que
" Nesse sentido, meu trabalho pode ser considerado como antropologia, provavelmente explica a aproximação que surpreendeu você e que
pois pretende propor um modelo teórico dessa sociedade, ao mesmo considero uma homenagem.) Por exemplo, Balzac sempre insistia
tempo em que tenta conservar, sobretudo por todo um trabalho de que, ao descrever o ambiente em que viviam seus heróis, descrevia
escritura, a contribuição insubstituível da evocação intuitiva, capaz de seus heróis, e que, ao descrever seus heróis, falava de sua situação de
comover e de fazer sentir. vida. Em Flaubert, isso é ainda mais claro: em A educação sentimental,
ele descreve as diferentes refeições correspondentes aos diferentes
meios e, com isso, evoca os estilos de vida correspondentes. Ou seja,
• Zimmerman: Em seu livro, o senhor mostra, baseando-se numa massa essa unidade das práticas é algo de que temos a intuição, que os
de dados empíricos, que a vida dos indivíduos é marcada pelo fato de romancistas haviam exprimido, mas que as ciências sociais não resti-
pertencerem a determinada classe. O número de cuecas, a preferência tuíram por várias razões : em primeiro lugar, porque a lógica
pelo pijama ou pelo robe, por Strauss ou Bach, tudo isso é reduzido a experimentalista tal como é praticada, por exemplo, na psicologia
essa pertença. Mas o que faz com que esse amontoado de pormenores social, conduz à atomização das práticas por meio de experiências
os mais diversos constitua verdadeiramente um quadro coerente, um aplicadas de maneira independente a aspectos diferentes do compor-
estilo de vida sistemático? Acrescentarei uma observação um tanto tamento (uma das dificuldades que tive que superar nessa investigação
surpreendente para nós alemães: certas resenhas compararam seu livro foi tentar apreender o máximo de aspectos diferentes da prática de
a modelos literários, a Balzac ou Proust. uma mesma pessoa com um único questionário). Outra razão pela qual
se deixa escapar essa unidade é que, como tento mostrar no post-
Bourdieu: Acho que o sentido do empreendimento não é apenas scriptum que dediquei a Kant, a definição científica do gosto, cuja
vincular as maneiras de viver a pertenças de classe. Na verdade, eu expressão mais típica foi dada por este último, recusa essa unidade:
quase poderia dizer que minha intenção nesse livro é destruir a noção na Crítica da faculdade de julgar, ele sempre insiste na oposição entre
comum de classe, muito mais do que reforçá-la. O que tento mostrar os gostos puros, isto é, os gostos estéticos, e os gostos impuros, ou
é que há uma relação entre a posição que as pessoas ~~o seja, "os gostos do paladar, da boca e dos sentidos". Quis lembrar que
:r-~ soci.al-g.-sgu_es. · e_~.as-ess~aç.ãO--nãG-é-mge-ânica:-Não é há uma unidade do estilo de vida, uma "estrutura do comportamento",
Jfuma-relação diFe-t:a,-t-arque,- sabendG onele_ se encontra..alguém,-sabe- e que nossos gostos não são o produto das determinações mecânicas
'~\ría~o_s automatkame~te os- gGs_t~s-que..tem. ~~i-a~ãO--en.t.fe--8Ssa do meio, mas decorrem de uma alquimia, de uma transformação, de
1 pJ)StÇàõ no espaço socral-e-as-pr-at.J.Cas, as-preferenetas.,e-o-que-êhamo uma elaboração no sentido da unidade e da coerência, que não é coisa
lde-habitus, ou seja, uma disposição geral diante do mundo, que pode da consciência. ·

36 37
l.l~N'ERStOA~ f'Em::Rf./.1. t:.:' '>1.. , ú 0 .
~~1~1 }CiTf:::: ~. r·<::;:~.?;.:_

• Zimmerman: Ainda existe um campo livre para a espontaneidade e a somos livres dentro de limites. E podemos até conseguir uma liberda-
individualidade? Não existe algo que escape à determinação, como, de suplementar ao tomar consciência desses limites.
por exemplo, o dom individual, o talento ou mesmo o gênio? Aqueles
que têm a mesma origem social ou a mesma formação que Einstein • Zimmerman: Uma parte bastante considerável de seu livro é dedicada
não se tornam necessariamente outros Einsteins. às transformações do sistema escolar, ao "crescimento maciço da
Bourdieu: É verdade que, ao introduzir a noção de habitus e ao população escolarizada", provinda dos segmentos populares e médios.
descrever as condições sociais de produção dessa disposição, pareço O senhor fala de inflação e de desvalorização dos títulos escolares,
fortalecer a representação determinista do mundo social. Ali onde se mas também de desilusão de grande número de jovens, cujas aspira-
costuma ver um sujeito livre, que está no princípio de suas palavras, ções à promoção social ligadas a uma utilização maior da escola são
de suas ações, de seus pensamentos, coloco uma espécie de automaton desmentidas mais ou menos rapidamente e, na maioria das vezes, de
spirituale, como dizia Leibniz, uma espécie de autômato espiritual maneira brutal. O senhor poderia lembrar a relação que estabeleceu
socialmente constituído. Por exemplo, quando intenogo alguém como entre essas análises e seu assunto principal, a gênese social do gosto?
sociólogo, meu questionário destina-se a funcionar como uma série
de stimuli escolhidos para fazer reagir o mais amplamente possível, Bourdieu: Em primeiro lugar, acho que a inflação e a conespondente
num tempo limitado, um habitus. Uso a hipótese de que há, na minha desvalorização dos títulos escolares tiveram efeitos muito gerais:
frente, uma máquina complexa, cujo programa procuro descobrir. O poderíamos ligar a isso certos aspectos do movimento dos jovens, da
habitus é algo como esse programa, baseado no qual posso obter todas ecologia, do movimento feminista, certas mudanças profundas na
as respostas que me forem dadas e que possam parecer incoerentes, política, o aparecimento do esquerdismo etc. E, evidentemente, os
sem nexo, e muitas outras," que não foram dadas, mas que teriam sido próprios gostos sofreram o efeito dessa mudança. Assim, como uma
se a pergunta tivesse sido feita. O habitus, que pode ser pensado por das teses principais do livro consiste em mostrar que há uma corres-
analogia ao que Chomsky chama de "gramática gerativa", é um pondência entre o espaço das posições sociais e o espaço dos estilos
princípio de invenção. É da ordem da ars inveniendi; produz condutas de vida, das maneiras de viver, dos gostos, toda mudança profunda do
relativamente imprevisíveis, mas dentro de certos limites. Quando se espaço das posições sociais devia exprimir-se de uma maneira mais
"conhece bem alguém", como se diz, ou seja, quando temos uma intuição ou menos direta no espaço dos gostos e dos estilos de vida. Assim é
de seu habitus, sentimos o que ele não pode fazer. O pequeno-burguês, que, para dar conta de certos fenômenos atuais, por exemplo, o
· como diz Marx em algum lugar, não pode ultrapassar os limites de seu aparecimento de esportes novos como o surf, o windsurf, a asa-delta,
cérebro. Há coisas que são para ele impensáveis, impossíveis, não-fac- · eu devia analisar essa transformação profunda da sociedade que está
tíveis, que o escandalizam, chocam etc. Mas, pelo contrário, dentro ligada às transformações do sistema escolar.
desses limites, ele inventa o tempo todo e não se pode dizer qual será
exatamente a sua reação. Aqui, a analogia entre estilo de vida e estilo • Zimmerman: Esse "crescimento maciço da população escolarizada" não
artístico ganha todo o seu sentido: o estilo de uma época é essa arte é, porém, o sinal de uma mobilidade que ultrapassa as barreiras sociais?
particular de inventar que faz com que, ainda que não saibamos
exatamente o que cada artista vai fazer, conheçamos de antemão os Bourdieu: Creio que seja preciso reformular completamente a pergun-
limites dentro dos quais ele vai inventar. É a mesma coisa para nós: ta, que permanece encerrada na própria representação do mundo social

38 39
~NM;R&tDAt'E 'FEDERALn~~~
~~~~ JOiECll. CENTR:At

que todo o meu trabalho visa a destruir. O que tento mostrar é que ali ~Qutra-Glas.<;@~De-EJUalquer-foFma;-as pessoãs qué estão próximas
onde se costuma pensar em termos de classes sociais, ou seja, de (realmente) serão mais fáceis de se aproximar âimbolicamente). Se
grupos sociais bem delimitados (você fala, assim, de "barreiras" que sou um líder político e me proponho fazer um grande partido que reúna
a "mobilidade" permite superar) e justapostos hierarquicamente, é ao mesmo tempo patrões e operários, isso tem pouca probabilidade de
preciso ver um espaço social que podemos pensar por analogia ao dar certo, porque eles estão muitos distantes no espaço social; em
espaço geográfico. Esse espaço tem uma estrutura, como o espaço determinada conjuntura, graças a uma crise nacional, com base no
geográfico. Há pessoas que estão em cima, outras embaixo, outras no nacionalismo ou no chauvinismo, talvez eles possam se aproximar,
meio e que podem, por exemplo, dever uma parte muito considerável mas essa reunião continuará sendo bastante fictícia e muito provisória.
de suas propriedades ao fato de estarem entre, isto é, nem de um lado Em suma, é preciso ter em mente um espaço de duas dimensões, que
nem de outro (neuter, em latim). Quando descrevo o espaço social, vou tentar evocar com simplicidade. É preciso pensar numa espécie
ajo mais ou menos como agiria um geógrafo que distinguisse uma de cruz: numa primeira dimensão, vertical, as posições e os agentes
Alemanha do Norte e uma Alemanha do Sul, uma Alemanha do Norte distribuem-se e opõem-se segundo o volume global do capital (capital
que é mais protestante e uma Alemanha do Sul que é mais católica; econômico e/ou capital cultural); e, na segunda dimensão, perpendi-
que, em seguida, no interior da Alemanha do Sul, distinguisse ainda cular à oposição principal, temos uma oposição entre um pólo mais
o Wurtemberg, a Baviera e assim por diante, podendo cada uma dessas cultural e um pólo mais econômico, em posições e agentes que se
regiões ser caracterizada em relação ao resto da Alemanha do Sul etc. diferenciam segundo sua riqueza, sobretudo em capital cultural (à
Construir o espaço ~ocial é construir ~ma distribui?ã~, sobr~ um plano esquerda) ou em capital econômico (à direita). Esse espaço das
( (fictício) de duas d1mensões, do conJunto das postçoes pertmentes na posições vai exprimir-se num espaço dos e~tilos de vida e é preciso
estrutura de um mundo social, e do conjunto das propriedades e das imaginar, superposta ao espaço das posições, uma transparência sobre
I práticas estruturalmente ligadas a essas posições. Os agentes singula- a qual se inscreva a distribuição espacial dos estilos de vida, das
res são distribuídos por esse espaço em virtude de sua posição nas preferências, dos gostos. Por exemplo, no alto e à esquerda, teremos
distribuições das duas espécies maiores de capital, o capital econômi- o intelectual, e acima, sobre a transparência, teremos o jornal que ele
co e o capital cultural, sendo o afastamento de dois agentes nessas lê, um jornal mais ou menos de esquerda, hoje, Libération eLe monde,
distribuições uma medida de sua distância social. Concretamente, isso uma 2 CV etc. Isso não exclui que ele possa ter uma Mercedes, como
significa que pessoas situadas na parte de cima do espaço têm poucas não fica excluído que um bávaro seja protestante; simplesmente,
chances de se casar com pessoas que estão na parte de baixo: em · quando se é protestante num universo predominantemente católico,
primeiro lugar, porque têm poucas chances de encontrá-las; depois, sabemos muito bem que não se é protestante da mesma maneira que
porque, quando as encontram, é numa estação, num trem, de passa- quando se é protestante num universo predominantemente protestante.
gem, e, mesmo que se falem, não se entenderão realmente, não se Mas o próprio esquema, por mais útil que seja, é perigoso, pois leva
, apreciarão. A proximidade no espaço social predispõe à aproximação: a se considerar a relação direta entre uma posição no espaço e um bem,
se recorto um pequeno setor qualquer de meu espaço, as pessoas assim entre a posição em cima e à esquerda do intelectual e o Libération ou
reunidas terão muitas propriedades em comum._9..gue ãG-quet:-dizer a 2 CV. Ao pa~so que o que é preciso considerar é a relação global
que form_arãG- uma...classe unifi.cada- e-mel*liwà-a,-sobmtudo-c.Qntra

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entre os dois espaços, o espaço das posições, que se definem relacio- neste momento trabalhando sobre o campo intelectual e, como nos
nalmente, e o espaço dos bens e das práticas. O habitus, como sentido mapas de geografia em que se mostra, num canto, uma imagem
da colocação, opera na prática o relacionamento. O princípio do ampliada de Berlim, estou estabelecendo um mapa detalhado do
relacionamento dos dois espaços, o sentido da conveniência entre uma mundo intelectual. Efetivamente, o mundo intelectual é ele próprio
posição e um atributo qge em sua relação com outros atributos, um espaço no qual há dominantes e dominados (artistas burgueses,
funciona como u~gno di~ permanece o mais das vezes tácito, defensores da arte pela arte e pessoas que fazem arte social, como se
inconsciente. Mas ele pode, em determinados casos, ser enunciado dizia no século XIX). Nesse microcosmo, trava-se uma luta que é
explicitamente, quer de maneira negativa, "isso não é para nós", quer como a "imagem reduzida" da luta de classes. Muitas vezes, as lutas
de maneira positiva, "isso tem um ar intelectual", pois esses agentes no interior desse microcosmo são confundidas pelos intelectuais com
sociais por mim classificados são eles próprios classificadores: _.2. as lutas do espaço social inteiro e querem que se creia que as lutas
es aço social exi cunesmo tem120Jill...Qbjetividade e nos cérebro~ entre o intelectual pária e o intelectual burguês ou, por intermédio dele,
na..forma..de_dis_Qo ·ç.ôes-aEiquü:idas._q.ue.orcientarfi;"entre outras msas, o burguês, sejam automaticamente solidárias com as lutas entre pro-
as hitaLde ela ts.ificaçõ_es. letários e burgueses. Muitas vezes, conseguem fazer com que se
A posição ocupada no espaço das posições, ou seja, na estrutura da acredite nisso. Em todo caso, eles quase sempre crêem nisso.
distribuição das diferentes espécies de capital, que também são armas, Mas, para ser mais exato, seria preciso extrair todas as conseqüências 1
comanda a tomada de posição nas lutas para conservar ou transformar do fato de os intelectuais serem parte integrante do que se....costuma
esse espaço, ou, se quiserem, essa distribuição. Por conseguinte, a chamar de classe dominante e que prefiro chamar d campo do poder,
estrutura do espaço é que encerra o princípio das lutas destinadas a ou seja, um espaço no interior do qual qs indivíduos lutam pelo
conservar ou a transformar o espaço. monopólio do poder, ou, mais exatamente, para impor o predomínio
da forma particular de poder que detêm. Mais precisamente, os inte-
• Zimmerman: O senhor classifica os intelectuais entre a "classe domi- lectuais participam do campo do poder e nele ocupam uma posição
nante". Mas os intelectuais não têm nem poder econômico nem poder dominada. ~mbos os termos são importantes. Eles fazem parte dos
político. Não seria preciso distinguir entre os intelectuais que têm dominantes como dominados. Detêm um poder, mas um poder domi-
poder ou influência e aqueles completamente despojados dos dois? Os nado. O poder que os intelectuais detêm, e que se baseia na posse de
capital cultural ou, mais precisamente, informacional, é uma forma _
"intelectuais de esquerda" tornam-se os críticos da classe dominante: .
denunciam-na e assumem posições em favor dos oprimidos. Perten- inferior de poder. Por exemplo, na Idade Média, como mostrou
cem, porém, à classe dominante? Georges Duby em seu estudo das relações entre as três ordens, aqueles
que eram chamados de oratores, aqueles que falam e que rezam,
Bourdieu: Evidentemente, o universo intelectual não é homogêneo, é estavam numa posição dominada em relação aos bellatores, aqueles
também um espaço. Em La distinction, fiz um mapa em escala muito que combatem, os guerreiros, os cavaleiros etc. ~as tinham, apesar
grande do espaço social, no qual os intelectuais são representados por de tuçlo, um poder, o poder de conferir legitimidade por meio do
um ponto. Mas esse mesmo ponto é um universo e, por exemplo, estou discurso, de justificar ou de condenar ~ poder temporal. E creio que,
"-----

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úNi'VE~IDf:\'DE'fE~\..;~~·'ff~ ;
RlP.! .lOTEC/\ CF:\íTR f~t

em todas as classes dominantes de todas as sociedades, há uma espécie • Zimmerman: O senhor é agrégé de filosofia,* viveu e trabalhou
de luta permanente entre esses dois poderes, sendo um dos objetivos durante alguns anos na Argélia, publicou estudos sociológicos e
dessa luta constituído pelos laboratores, os "trabalhadores". Quanto antropológicos sobre esse país e, depois, de volta a Paris, em 1960,
mais fortes se tornam os laboratores, mais se fortalecem seus instru- voltou-se para a sociologia da cultura (nos dois sentidos), e hoje, desde
mentos de expressão, que não raro lhes são oferecidos pelos intelectuais, 1982, é titular da cadeira de sociologia do College de France. Nessa
e mais, os intelectuais, dominantes-dominados (para não falar dos trajetória, o senhor vê mais a continuidade ou a ruptura - e qual é,
dominados no universo dos dominantes-dominados, que são os recém- hoje, sua concepção da relação entre a filosofia (e sobretudo a feno-
chegados ao campo intelectual), tornam-se fortes em sua luta contra menologia), a antropologia e a sociologia?
os dominantes propriamente ditos. Em suma, os intelectuais são
dominantes-dominados que, em determinados contextos, podem, às Bourdieu: Se eu quisesse oferecer uma visão um pouco idealizada de
meu itinerário, poderia dizer que foi um empreendimento que me
vezes, lutar contra os dominantes apoiando-se nos dominados absoh.~­
permitiu realizar, a meus próprios olhos, a idéia que eu tinha de
tos, ou seja, nos laboratores e se fazendo porta-vozes deles. r'
filosofia, o que é um modo de dizer que aqueles que costumeiramente
são chamados de filósofos nem sempre realizam a idéia que eu tinha
• Zimmerman: Em algum lugar, o senhor escreve que os pequeno- de filosofia. Dito isso, é uma visão completamente idealizada, pois,
burgueses são sempre pagos em "imitações": couro de imitação em em toda biografia, há uma parte enorme de acaso. A maior parte das
vez de couro de verdade, "imitação de arte" em vez de arte autêntica. coisas que fiz não as escolhi realmente. Ao mesmo tempo, acho que
Essas constatações não são juízos feitos do ponto de vista do intelectual? há uma parte de verdade nessa resposta, pois creio que, hoje, dado o
desenvolvimento das ciências sociais, dados. os progressos das técni-
Bourdieu: Na minha mente, não há equívoco, mas é possível que, em cas científicas, ficou difícil, embora isso não, pareça incomodar a
meus textos, tenha dado a entender..9 que você-diz. Tenho em mente maior parte dos filósofos, privar-se das contribuições dessas ciências
a distinção feita por Weber entre" _eferência aos valores ) e "juízo de e dessas técnicas. Acho que tive muita sorte em escapar da ilusão da
valor". É na realidade mesma que funciona a tsttnç·rroêrÍtre a imitação página em branco e da caneta. Basta-me olhar um tratado recente de
e o autêntico, e que o pequeno-burguês é visto - pelos burgueses e filosofia política para imaginar o que eu poderia dizer se só tivesse
também, mais confusamente, pelos membros dos segmentos popula- como instrumental a contribuição da filosofia, que, aliás, considero
res -como alguém condenado às imitações. Essa é uma das bases do absolutamente capital. Não há um dia em que não leia ou releia
trabalhos filosóficos - sobretudo anglo-saxões, na verdade. Estou
jogo da distinção: o pequeno-burguês é sempre vítima, porque chega
constantemente trabalhando com filósofos e constantemente ponho os
tarde demais e há produtos que são falsos, kitsch, ele nunca tem o
filósofos para trabalhar. Mas a diferença é que, para mim, a contribui-
autêntico. Pode-se dizer que tudo isso é relativo. Mas o universo social
ção filosófica- isto é um pouco dessacralizante -é exatamente como
não é relativista. É na realidade da luta simbólica cotidiana que a contribuição matemática ou a contribuição técnica: um texto de Kant
funciona a oposição entre o grande e o pequeno, tão fundamental do é a mesma coisa que um método de análise fatorial.
ponto de vista estético.
* Agrégé vem de agrÇgation, um dos concursos para professor mais difíceis da França - raros
são os que conseguem passar. (N.R.T.)

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É preciso ir à linha de frente, e vemos o mundo social de um modo
• Zimmerman: Sua concepção de sociologia parece excluir qualquer
totalmente diferente. As visões de general, é claro, podem ser úteis. O
tipo de "filosofia social". Mas sua idéia de crítica, de sociologia crítica,
ideal é somar uma visão de general, uma visão de conjunto, um mapa
não continuará sendo, pelo menos em parte, uma "filosofia social
global e perspectivas particulares. Foi mais ou menos isso que tentei
crítica"?
em La distinction. Em minha prática, deparei com as idéias teóricas que
Bourdieu: A própria prática científica implica uma postura crítica. O considero mais importantes ao fazer uma entrevista ou uma codificação
que chamo pejorativamente de filosofia social não pode realizar de pesquisa. Por exemplo, toda a crítica das classificações sociais que me
completamente sua ambição crítica, pois não dispõe dos me}os para levou a repensar completamente o problema das classes sociais nasceu
tanto e, com isso, está condenada a dizer generalidades e banalidades. de reflexões sobre as dificuldades encontradas concretamente na
O que pode dar toda sua força à crítica não é a crítica das armas, como classificação das profissões. Foi o que me permitiu escapar dos
dizia Marx, mas sim a crítica armada. discursos gerais sobre as classes sociais, do confronto eterno entre
Marx e Weber e das generalidades vagas e tagarelas.
• Zimmerman: O que é sedutor em seu livro, entre outras coisas, é a
quantidade de dados empíricos que o senhor apresenta em apoio a suas • Zimmerman: O senhor trabalha com a noção de estrutura ao mesmo
teses e proposições. Mas talvez haja aí dois perigos: o primeiro, de tempo em que critica o estruturalismo tal como é representado por
que o leitor, esmagado por essa massa de "fatos", abaixe as armas e, Lévi-Strauss. Por quê?
com sentimento de culpa, conceda-lhe tudo; o segundo perigo é o
Bourdieu: A referência a Lévi-Strauss é, para mim, evidentemente
inverso: que ele se afaste, desdenhoso, chamando-o de "positivista".
muito importante e, em certa medida, se fos'se preciso dar um rótulo
De qualquer modo, em ambos os casos, não se reflete sobre a relação
a meu trabalho, ele poderia ser chamado de estruturalista. Mas acho
entre suas hipóteses teóricas e todo o aparato empírico. Como o senhor
que fiz com que o estruturalismo sofresse uma modificação importan-
vê essa relação?
te. O estruturalismo nasceu do esforço de pensar sistemas simbólicos,
Bourdieu: Fico muito contente com essa pergunta, porque minha a língua, depois os sistemas mítico-rituais, depois a literatura eté:-l1
primeira preocupação, quando comecei a fazer ciências sociais, era meu trabalho consistiu em passar do que poderíamos chamar de urnl
justamente destruir essa oposição entre a teoria e a empiria, que é ela estruturalismo simbólico, que procura extrair as estruturas dos siste- \
mesma uma expressão da estrutura do espaço social que acabo de mas simbólicos, a um estruturalismo que procura a correspondência 11
descrever. A teoria, evidentemente, fica em cima. O theorein é o ver, entre a estrutura dos sistemas simbólicos e as estruturas sociais. E~
o ver em seu conjunto. Sempre cito uma frase de Virgínia Woolf de meu livro, tento mostrar que, para compreender a estrutura das mani-
que gosto muito: "As idéias gerais são idéias de general." O general festações simbólicas de uma sociedade - o vestuário, os edifícios, a
está numa elevação, tem uma luneta, vê o todo, é o filósofo, o filósofo arquitetura etc. - , é preciso analisar essa conespondência entre os
social; ele pensa as batalhas, descreve a luta de classes. Eu, por meu símbolos, a língua etc. e as estruturas sociais, correspondência que não
lado, assumi o ponto de vista de Fabrice em Waterloo, que não vê é mecânica. Como nem todo o mundo se veste da mesma maneira,
nada, não compreende nada, vê só o rastro dos projéteis que explodem. como na China durante certo tempo, a roupa significa automaticamente.

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uNIVERSiOfl\OE f·EDEAAlfJ~~
P.!RI lOTECA CENTRJ.Itt

A sociedade é automaticamente simbólica, porque as pessoas se • Zimmerman: Como muitos intelectuais franceses de grande fama,
comportam de maneiras diferentes. Não podemos compreender essas . como Sartre, Merleau-Ponty, Aron, Foucault, o senhor é um ex-aluno
diferenças situando-nos apenas no plano simbólico. da École Normale Supérieure, da rua d'Ulm, em Paris, um dos estabele-
Mas há um outro ponto no qual difiro de Lévi-Strauss: acho que as cimentos escolares mais famosos, onde se forma a intelligentsia francesa
estruturas objetivas ou objetivadas, e também as estruturas mentais, e, sobretudo, parisiense. Ao mesmo tempo, é um dos críticos mais
incorporadas, são produto de uma história individual ou coletiva. Nesse agudos desse tipo de escola elitista e de seus produtos. Existe alguma
sentido, se quisessem mesmo me rotular e falar de estruturalismo, seria relação entre a sua atitude crítica e o fato de não ser de origem
preciso falar de estruturalismo genético. É na prática, individual ou parisiense, mas do Béarn, uma região que, até hoje, opõe certa resis-
coletiva, que são geradas as estruturas sociais- por exemplo, os campos tência à pretensão política e cultural da capital?
sociais e as oposições segundo as quais eles se organizam - e que se
constituem (por aprendizado) as estruturas cognitivas, os esquemas de Bourdieu: Não creio que a tradição das províncias distantes que
pensamento, de percepção e de ação que orientam a prática. resistiram aos dragões do rei durante gerações desempenhe um papel
importante em minhas disposições críticas. Ainda que a postura, às
vezes um tanto pugnaz, que muitas vezes faz com que eu seja mal
• Zimmerman: O senhor foi comparado, provavelmente em razão da
compreendido e mal julgado no universo intelectUal, deva sem dúvida
acuidade de suas análises dos matizes de comportamento e dos modos
muito às normas culturais da região de minha infância. Acho que o
de pensamento dos diferentes grupos sociais e de suas descrições
simples fato de chegar a uma escola de elite com um habitus que não
fenomenológicas, de uma clareza impressionante, a Simmel e a Nor-
seja o mais difundido ali torna você ao mesmo tempo mal adaptado e
bert Elias. O que acha dessas comparações?
lúcido sobre muitas coisas. Lembro-me de ·uma descrição feita por
Bourdieu: Só posso ficar contente com elas. O que você diz explica Groethuysen da chegada de Rousseau a Paris (mais uma vez, uso
sobretudo a aproximação que podemos fazer com Simmel, que li metáforas gloriosas). Para mim, foi um deslumbramento. É verdade
muito e de cujas análises gostei muito, principalmente no que se refere que sou um produto da École Normale que traiu a École Normale. Mas
à cultura. Sem deixar de notar, muitas vezes, que ele confiava talvez também era preciso ser da École Normal e para poder escrever aquelas
facilmente demais numa intuição, sem dúvida finíssima, mas às vezes coisas sem parecer inspirado pelo ressentimento. Daí não se sai...
um pouco superficial. Sinto-me mais próximo de Norbert Elias, mas
por outras razões. Não tenho em mente o Elias das grandes tendências
históricas, do "processo de civilização" etc., mas, antes, aquele que; • Zimrnerman: A sua nomeação para a cadeira de sociologia do College
como em La société de cour, capta mecanismos ocultos, invisíveis, de France, uma das instituições culturais de maior prestígio de seu
baseados na existência de relações objetivas entre os indivíduos ou as país, talvez a de maior prestígio, poderia ser descrita, em sua própria
instituições. A corte, tal como Elias a descreve, é um belíssimo linguagem, como uma "consagração social" . Esse mecanismo social,
exemplo do que chamo um campo em que, como num campo gravi- ao qual o senhor mesmo está sujeito agora, foi analisado pelo senhor
tacional, os diferentes agentes são arrastados por forças insuperáveis, da maneira mais lúcida. Como vê seu trabalho nessa posição?
inevitáveis, num movimento perpétuo, necessário para manter as
hierarquias, as distâncias, os afastamentos.

48 49
Bourdieu: Provavelmente, não é por acaso que o momento em que fui
nomeado para o College de France coincidiu com todo um trabalho
sobre o que chamo de efeito de consagração e sobre os ritos de
instituição. Por quê? Porque, tendo refletido sobre o que é uma
instituição e, em especial, uma instituição escolar, eu não podia deixar .I

de saber o que implicava o fato de ser assim consagrado. Portanto, ao


fazer uma reflexão sobre o que acontecia comigo, procurava uma
liberdade em relação ao que me acontecia. Fazer a sociologia dos
intelectuais, fazer a sociologia do College de France, fazer a sociologia
do que é dar uma aula inaugural no College de France é, no momento
mesmo em que se é pego pelo jogo, assinalar que podemos tentar ser 4
livres. Para mim, a sociologia desempenhou o papel de uma espécie O QUE É FALAR? 1
de socioanálise, que me permitiu compreender e suportar coisas que
achava insuportáveis. Para voltar, então, ao College de France, já que
foi de lá que parti, se tenho alguma chance de que a consagração não
acabe comigo, é talvez porque tentei analisar a consagração, e creio • Jacques Baudouin: Seu esforço teórico sempre consistiu em extrair
até que poderei me valer da autoridade que me é dada por essa dos mecanismos sociais de dissimulação a verdade social das práticas
consagração para dar mais força à minha análise dos efeitos da simbólicas. E desta vez, seu objeto de estudo é a linguagem. O ponto
autoridade e da consagração. de partida de Ce que parler veut dire é uina crítica da lingüística
estrutural e, em particular, da oposição com a qual Ferdinand de
Saussure fundou essa lingüística.

Pierre Bourdieu: A lingüística realmente exerceu um domínio mui-


to pesado sobre o conjunto das ciências sociais, essencialmente por
intermédio da antropologia estrutural, e, com isso, achei importan-
te, em determinado momento de meu trabalho, tornar explícito ao
mesmo tempo o que me parece ser o modelo implícito da teoria
estruturalista e o modelo que, a meu ver, deve ser contraposto a ele.
Este último modelo diz respeito à teo_ria da a ão e em J?.articul'!!_,
ao ato de fala. Ao retomar a expressão popular francesa c e que parler

1. Entrevista a Jacques Baudouin acerca de Ce que parlervelll dire, gravada para Magazine des Sciences
Humaines, RTB, em 14 de novembro de 1982.

50 51
dr~NERStOA-f;k, ·FEDE~. OO~~ru.,
~ ! RJ .lOTECA CEf'ffRt\iL

veut dire, *quis insistir no fato de que compreender o que fazemos quando propriamente lingüística. Não podemos aprender uma língua sem
falamos é compreender o ato de falar e não simplesmente a língua. · aprender ao mesmo tempo tudo o que se aprende por meio das
Poder-se-ia pensar que se trata apenas de uma troca de palavras; na condições de aprendizagem. Toda essa ciência da relação entre a
verdade, acho que o que está em jogo é importante, pois a lingüística língua e a situação é logo incorporada ao que chamo de habitus
estrutural e, depois dela, a antropologia estrutural ou a semiologia lingüístico, ou seja, esse sistema de disposições que permitem falar
colocam-se diante dos fenômenos simbólicos numa atitude que é a do oportunamente. Esse é um primeiro ponto.
receptor de uma língua morta; eles estão diante de práticas, de compor- A segunda diferença fundamental em relação à tradição lingüística
tamentos, de falas, de discursos etc. como alguém que descobriu um texto pura, ou seja, puramente interna, fundada no corte, como se pode
escrito numa língua desconhecida e procura reconstituir o código, a cifra, muito bem ver em Saussure, entre a língua e as condições sociais em
decifrar~so implica, a meu ver, uma teoria da ação: agimos como se os que ela é produzida e nas quais é utilizada, a segunda ruptura é a
fenômenos sociais tivesse "do oduz· os para serem..de..cifrados, ou reintrodução do que chamei não de situação - como outros fizeram
seja, ara o cientis~Baseei-me nessa crítica da postura do cientista, em antes de mim -, mas sim de mercado, e isso não pelo prazer de usar
particular em meus trabalhos antropológicos sobre a Argélia, e quis uma analogia econômica.
estender essa crítica até o próprio coração das teorias do simbólico que
se impuseram às ciências sociais, isto é, aos fenômenos de linguagem.
• Baudouin: Sim. Quem diz mercado, diz capital, nesse caso capital
Substituir o ponto de vista da língua pelo ponto de vista do falar é dizer simbólico, diz valor, diz preço, diz formação dos preços e diz até lucro.
que não podemos compreender o que é falar sem fazer intervir não só
a competência lingüística do locutor, é claro, como disseram Saussure, Bourdieu: Quando falamos, produzimos um p1;oduto, um produto que,
Chomsky e todos os lingüistas, mas também uma outra forma de em certo aspecto, é um produto como outro qualquer, portanto, desti-
competência, aquela que é necessária para usar corretamente a com- nado a estar sujeito não só à interpretação., mas também à~ç.ão_
petência. Diziam os sofistas que o importante no aprendizado da E se é preciso fazer voltar a intervir essa avaliação de que depende
linguagem é o aprendizado do momento oportuno (kairós), do senso todo produto lingüístico, isso ocorre porque a antecipação do preço
do oportuno; que pouco importa o que se diz se não for dito oportu- que o produto vai receber vai intervir no nível da produção. Concre-
namentetfalar é ter uma competência lingüística gue permite produzir tamente, isso significa que, quando produzo um determinado discurso,
frases sintaticamente corretas, mas é também ter uma outra forma de preocupo-me mais ou menos com o efeito que ele vai produzir naquele
competência, igualmente importante, para fazer um discurso bem a quem o dirijo. A antecipação do preço que meu discurso receberá
constituído, um discurso aceitável, e, como veremos talvez, eficaz,j ajud~ a determinar a forma e o conteúdo dele, que será mais ou menos

Essa competência é o conhecimento da situação, o conhecimento do tenso, mais ou menos censurado, às vezes até o ponto de ser anulado - é o
que convém, do que é oportuno numa situação determinada. Essa silêncio da intimidação.
competência é adquirida ao mesmo tempo em que a competência '@e meu discurso pode receber um preço, isso ocorre porque, quando
falo, digo o que digo, mas também digo algo a mais na maneira de
* Qu 'est-ce que parler é uma expressão francesa que, literalmente, significa "o que quer dizer
falar", ou seja, "o valor exato do que é dito". (N.T.)
dizê-m Devemos. fazer intervir, na própria produção do discurso, os

52 53
uN~wtYAtJt: nrx:;1~t tf{j,,~n·l"·
811~1 .lOTECA cnrn=uu
efeitos sobre a produção do discurso da avaliação antecipada do preço
língua não é um bem raro. Na verdade, a participação é totalmente
que o discurso receberá. A noção de "aceitabilidade" que encontramos
desigual, e essa competência teoricamente universal é, na verdade,
entre os chomskianos é uma noção muito interessante, mas que, pelo
menos no que posso julgá-la, não desempenha nenhum papel real na
monopolizada por alguns tE as desigualdade de c ~ · a ·_
~stam-se no mercado das.truca cetidianas: ou.s_ej_a, no diálogo entre
teoria chomskiana. Ora, essa Q2_Ção de aceitabj!jdade é extremamente <!uas pessoas ou numa reunião ública,Jlo rádio ou..na televisão, num
importante, pois pelo senso da aceitabilidade social, o sentido do que
meeting ou mJm_semin~ competência funciona de maneira
pode ou não pode ser dito em determinada situação, o senso do que é diferencial, e há monopólios no mercado dos bens lingüísticos assim
conveniente ou inconveniente etc., por meio desse senso que temos
como os há no mercado dos bens econômicos. Pode-se ver bem isso
em estado prático, exerce-se uma censura extraordinária. Por exem-
no terreno político, onde os porta-vozes, como detentores do mono-
plo, todos têm uma competência lingüística, todos podem falar - a pólio do acesso à expressão política legítima, falam não só em favor
língua é o único terreno sobre o qual o desapossamento nunca é de seus mandatários, mas também em lugar deles.
absoluto, pois os emigrados, ou seja, os mais carentes, dispõem de
uma espécie de mínimo lingüístico vital - , acontece que cettas categorias
de locutores se vêem como gue desapossados dessÂ..Competência em • Baudouin: Para o senhor, então, um ato de fala não é apenas da alçada
deter ·nadas-situações,_e_not esse desapossam~nto com~ ue~ de um código que o decifra, é um encontro. Mas quando os lingüistas
-àgricultor q~ para explicm: por q~e nem_ seq~ pensou_em ~isp~~~ falam de língua, o senhor disse há pouco que falam de língua morta.
o cargo de prefeito de uma cidadezmha, disse: ~as eu nao sei fal<:::J Podemos dizer também que falam da língua legítima. O que faz com
que essa língua legítima se imponha?
Se é assim, é porque essa competência mínima em sua própria língua
ou numa língua tomada de empréstimo será situada objetivamente em Bourdieu: Outros o disseram antes de mim, a lÍngua de que falam os
relação a um universo de competências concorrentes, que definirão lingüistas não é aquele tesouro comum de que todos participam, mas
objetivamente o valor que lhe será atribuído. Com isso, o que o um artefato histórico, ou seja, o produto de um trabalho social operado
lingüista como lingüista deve descrever como competência normal pela conjunção de um conjunto de agentes (evidentemente, não devemos
(não há língua inferior) funcionará n uso oc·a com um estigma de descrever esses agentes como inspirados por uma vontade maquiavélica
inferioridade. Aquele que usa jargão, algaravia, gíria ou, como se diz de impedir aos dominados o acesso à linguagem; esse é um enorme
muitas vezes, numa expressão que não quer dizer grande coisa, perigo da leitura ingênua do discurso sociológico, ele é retraduzido
"linguagem popular" será desqualificado e poderá ser condenado ao em termos de vontade, de complô).
silêncio.~m outras palavras, essa competência lingüís~ica gue _os
lingüistas atribuem a todos é uma espécie de competência potenctal
que, na verdade, ; ó se exerce muito desig~JOSaussure diz que • Baudouin: Não se impõe a língua legítima por decreto ...
a língua é um "tesouro" e descreve a relação dos indivíduos com a Bourdieu: Não, ela não é imposta por decreto. Todos os debates sobre
língua como uma espécie de participação no tesouro comum. O que a francofonia, a defesa da língua etc. são marcados por essa ingenui-
chamo de ilusão do comunismo lingüístico é a ilusão de que todos dade politiqueira ~ue consiste em crer que podemos manipular
participem da língua como do sol ou da água, numa palavra, que a mecanismos extremamente complexos em que intervêm grandes

54
55
."<~íVERSIOADE FEDERAl 00\PJ~'R'k
qç~; fOTECA CE!\/TRAl_ ..--

quantidades de agentes. Dito isso, não deixa de ser verdade que a espécie de custos, em especial os políticos.[9 fato de o mercado
língua, tal como é ensinada, o que é chamado de língua francesa, o político excluir as competências ilegítimas faz com que grandes
que muita gente considera a única língua digna de ser falada e fora da ~dades de coisas não possam nele ser ditas e q~
qual não há salvação, essa língua é um artefato produzido, como a monopólio dos porta-yoze: J
maior parte dos produtos culturais, na concorrência: concorrência
entre os escritores, concorrência entre os escritores e os gramáticos
• Baudouin: Os signos não são só signos de comunicação, são também
(com estes últimos denunciando as liberdades que os escritores tomam
signos de riqueza, signos de autoridade. O que está em jogo é a questão
com a gramática, e os escritores denunciando o lado pedante e absurdo
do poder e do poder simbólico. Mas o que faz com que as palavras
dos gramáticos) etc. E nessas lutas entre gramáticos e escritores, entre
possam agir e tenham uma eficácia?
escritores de vanguarda e escritores de retaguarda, produz-se não só
a língua legítima, aquela que é recenseada pelos dicionários, como Bourdieu: Por meio do problema dos porta-vozes, a questão já fica em
também, além disso, o culto da língua legítima. Esse, a meu ver, é um parte colocada. Graças aos filósofos da linguagem, Austin em espe-
efeito importantíssimo. Quanto ao que chamam de "língua popular", cial, os lingüistas vieram a se perguntar o que faz com que as palavras
trata-se muito simplesmente do que não é registrado pelos dicionários ajam; como é que, quando digo a alguém "abra a janela", em certas
ou só aparece neles marcado por um sinalzinho: pop. oufam. (fami- condições, essa pessoa a abra. E até, se eu for um velho lorde inglês
liar). Existe um inferno dos dicionários, e as pessoas que querem que lê o seu jornal no fim de semana, posso contentar-me em dizer
reabilitar a "linguagem popular" fazem dicionários com base no "John, não acha que está um pouco frio?", e John fecha a janela. Em
mesmo modelo dos dicionários legítimos, mas nos quais registram outras palavras, como é que as palavras produzem efeitos? Isso é uma
apenas o que os dicionários legítimos excluem. Falar, como Cellard e coisa completamente espantosa quando refleti"rnos sobre ela. Trata-se
Rey, de não-convencional já é melhor, pois aí, pelo menos, a definição pura e simplesmente de magia: e para dar conta dessa ação à distância,
negativa se declara como tal. sem contato físico, é preciso, como no caso da magia, segundo Mareei
Os fenômenos de dominação podem ainda exercer-se por certa forma Mauss, reconstruir todo o espaço social em que são geradas as dispo-
de canonização das línguas dominadas. Por exemplo, fazer um dicio- sições e as crenças que tornam possível a eficácia mágica.
nário do francês não-convencional é, ao mesmo tempo, romper uma
censura ao fazer aparecer montes de palavras reprimidas ou usos
reprimidos das palavras nobres, e, simultaneamente, é, de certa ma-
neira, consagrar uma divisão do trabalho lingüístico que deixa aos
dominantes o monopólio da língua dominante e dos efeitos de domi-
nação por ela permitidos. Com efeito, todas as situações oficiais
excluem qualquer outra linguagem que não seja a linguagem legítima.
Daí o problema dos porta-vozes das classes dominadas, que não têm
escolha senão se exprimir na linguagem dominante, ao preço de toda

56 57
?' ' JNOIERSf!JAí.}E ÇEOEAAt~_w,;,~.
P[~l lOTECA CE~T~

5
O FETICHISMO POLÍTICO
1
OU DESVENDAR OS MOTORES DO PODER

• D. Eribon: O que me impressionou em Ce que parler veut dire é que,


(

na verdade, ele é atravessado de ponta a ponta pela questão do poder


e da dominação.

Bou.rdieu: Seja qual for o discurso, ele é o produto do encontro ehtre )


um habitus lingüístico, ou seja, uma competência inseparavelmente1
técnica e social (ao mesmo tempo a capacidade de falar e a capacidade
de falar de certa maneira, socialmente marcada), e um mercado, ou
seja, um sistema de formação dos preços que vai contribuir para
- orientar de antemão a produção lingüística. Isso vale n~ plano da díade
)
elementar, mas também, de maneira mais evidente, por ocasião do
enfrentamento de um público, no discurso elevado das ocasiões ofi-
ciais ou na escritura filosófica, como tentei mostrar a respeito de
Heidegger. Ora, todas essas relações de comuni ç.ãu_s_ão também,
-r~

salvo convenção especial, relaç.õ~s_de-pod<?r-,. e o mercado lingüístico


também tem seus monopólios, quer se trate das línguas sacrais ou

L Entrevista a D. Eribon úespeito de Ce que parler veut dire, Libération, 19 de outubro ~e 1982.

59
úNM~tOADE•FEDE"Rt:rt.!i)~~ :N,
~!Ri ~OTECt: CEfiT~f!L

reservadas a uma casta, quer das línguas secretas, passando pelas • Eribon: O senhor considera, então, que a linguagem deveria estar no
línguas eruditas. centro de toda análise da política?

Bourdieu: Também nesse caso, temos de evitar as alternativas co-


• Eribon: Mais profundamente, porém, tem-se a impressão de que, nesse muns. Ou falamos da linguagem como se ela só tivesse a função de
livro, delineia-se em filigrana uma teoria geral do poder e até do comunicar, ou tratamos de procurar nas palavras o princípio do poder
político, sobretudo pelo viés da noção de "poder simbólico". que se exerce, em certos casos, através delas (tenho em mente, por
Bourdieuio poder simbólico é um poder (econômico, político, cultural exemplo, as ordens ou as palavras de ordem). Na realidade, as palavras
ou outro) que está em condições de se fazer reconhecer, de obter o exercem um poder tipicamente mágico: fazem ver, fazem crer, fazem
reconhecimento, ou seja, de se fazer ignorar em sua verdade de poder, de agir. Mas, como no caso da magia, é preciso perguntar-se onde reside
violência a:~itrári~A ~ficácia própria~der exerce-se não no plano o princípio dessa ação ou, mais exatamente, quais são as condições
da força flSlca, mas stm no plano do~ e do~o. Por sociais que tornam possível a eficácia mágica das palavras[P poder
exemplo, o nobre, segundo o latim, é um nobilis, um homem "conheci- das palavras só se exerce sobre aqueles q.ue..e.sião dispostos a ouvi-las
do", "reconhecido". Dito isso, tão logo se escapa do fisicismo das ~a ~scutá-las, em sun;a, acre. _ne ~Efi} dialeto do Béarn, obedecer
relações de força parareintroduzir as relações simbólicas de conhecimen- se dtz crede, que tambem quer dtzer crer. E toda a primeira educação, no
to, a lógica das alternativas obrigatórias faz com que tenhamos todas as sentido mais amplo, que deposita em cada um as molas que as palavras
chances de cair na tradição da filosofia do sujeito, da consciência, e de (uma bula papal, uma palavra de ordem de partido, uma fala de psicana-
pensar esses atos de reconhecimento como atos livres de submissão e de lista, ~m parecer técnico de _psicólogo num j~~en:o _de divórcio etc.)
cumplicidade. Ora, sentido e conhecimento não implicam de modo poderao, num ou noutro dta, desencadear-LQ_.pnnctpiO .do poder das
algum consciência, e é preciso buscar numa direção completamente palavras reside na cum12licidade Qill!~1ahelece pGr..rneio..d~,_entre
oposta, a indicada pelo último Heidegger e por Merleau-Ponty: ~agentes ~orpo social encarnado nurn..C.QJP..P bioló ico o do mta-voz autQri:

sociais e os próprios dominados estão unidos ao mundo social (até mesmo zado, e corpos biológicos socialmente moldados para rec9nheser ~
~o mais repugnante e revoltante) por uma relação de cumplicidade ordens, mas também suas exortações, suas insinuaçõe~~as injunções,
padecida que faz com que certos aspectos deste mundo estejam sempre e que são os "sujeitos falados", os fiéis. os crente!] . -
além ou aquém do questionamento críti@ É por intermédio dessa relaÇão
obscura de adesão quase corporal que se exercem os efeitos do poder . • Eribon: Mas existem mesmo efeitos e eficácia próprios da linguagem?
simbólico~ submissão política está inscrita nas posturas, nas dobras d~
co o e nos automatismos do cérebro. O vocabulário da dominação está Bourdieu: É, de fato, espantoso que aqueles que não se cansaram de
cheio de metáforas corporais: "curvar-se", "ficar de joelhos", "mostrar-se falar da língua e da fala, ou até da "força ilocutória" da fala, nunca
maleável", "dobrar", "deitar-se" etc. E sexuais também, é cl~ Ã"s tenham colocado a questão do porta-voz. ,Se o trabalho polí.t.iGe· é,
~ trabalhe -sebF€l- as- pala..v.ras,_é_pmqu€-as
palavras só dizem tão bem a ginástica política da dominação ou da
pa~·ud m azer-o-rnu.tKlosocial. Basta pensar nas inúmeras
submissão porque são, com o corpo, o suporte das montagens profunda-
mente ocultas em que uma ordem social se inscreve de modo duradouro. circunlocuções, perífrases ou eufemismos que foram inventados ao

60 61
longo de toda a guerra da Argélia para evitar conceder o reconheci- • Eribon: O senhor considera seu trabalho um questionamento radical
mento implicado no fato de chamar as coisas por seu nome, em vez da política?
de negá-las pelo eufemismo. Na política, nada é mais realista do que
Bourdieu: A sociologia assemelha-se à comédia, que desvela os
as brigas de palavrasÍUsar uma 12alavra no lugar de outra é mudar a
mecanismos propulsores da autoridade. Pelo disfarce (Toinette médi-
visão do mundo social e, com isso, contribuir para transformá-lo. Falar
ca), pela paródia (o latim de feira de Diafoirus) ou pela caricatura,
de classe o12erária, fazer falar a classe o12erária (falando por ela),
representá-la, é fazer existir de outra maneira, para si mesmo e 12ara Moliere desmascara o maquinismo oculto que permite produzir os
efeitos simbólicos de imposição ou de intimidação, os truques e as
os outros, o grupo que os eufemismos do inconsciente ordinário
trucagens que fazem os poderosos e os importantes de todos os
anulam simbolicamente (os "h~mildes", a "gente simples", o "homem
tempos, o arminho, a toga, os barretes, o latim, os títulos escolares,
da rua". o "francês médio" ou, em alguns sociólogos, as "categorias
tudo o que Pascal foi o primeiro a analisar.
IJ}Qdest~.:23 O paradoxo do marxismo é que ele não englobou em sua
teoria das classes o efeito de teoria que produziu a teoria marxista das Afinal, o que é um papa, um presidente ou um secretário-geral, senão
classes e que ajudou a fazer com que exista hoje algo como classes. alguém que se toma por um papa ou um secretário-geral ou, mais
exatamente, pela lgrej a, pelo Estado, pelo partido ou pela nação? A
No que se refere ao mundo social, a teoria neokantiana que confere à
única coisa que o distingue do personagem de comédia ou do mega-
inguagem e, de um modo mais geral, às representações uma eficácia
lômano é que geralmente ele é levado a sério e lhe é reconhecido o
propriamente simbólica de construção da realidade_é_perfeitamente
direito a essa espécie de "impostura legítima", como diz Austin.
fundamentada. Os grupos (em particular as classes sociais) são sem-
Acreditem, o mundo visto desse jeito, ou seja, como ele é, é bastante
pre, por um lado, artefatos: são o produto da lógica da representação,
cômico. Mas já se disse muitas vezes que o· cômico é vizinho do
que permite a um indivíduo biológico ou a um pequeno número de
trágico. É mais ou menos como um Pascal encenado por Moliere.
indivíduos biológicos, o secretário-geral ou o comitê central, papa e
bispos etc., falar em nome de todo o grupo, fazer o grupo falar e
caminhar "como um só homem", fazer crer - e em primeiro lugar o
grupo que eles representam- que o grupo existe. Grupo feito homem,
o porta-voz encarna uma pessoa fictícia, essa espécie de corpo místico
que é um grupo; ele tira os membros do grupo do estado de simples
agregado de indivíduos separados, permitindo-lhes agir e falar com .
uma só voz por meio dele. Em contrapartida, recebe o direito de aair
b -

e de falar em nome do grupo, de se tomar pelo grupo que encarna (a


França, o povo), de se identificar com a função a que se entrega de
corpo e alma, dando assim um corpo biológico a um corpo constituído.
A lógica da política é a da magia ou, se preferirem, a do fetichismo.

62 63
I:

6
1
CONTRA A MAGIA DAS PALAVRAS

A-fi_lill;ofia analítica foi durante muito tempo ignorada na França.


O domínio da filosofia alemã, que impusera certa imagem da filosofia,
e, depois, a onda neomarxista pouco favoreceram a leitura dos filósofos
anglo-saxões. E sobretudo o senso da altura teórica, que leva a identificar
a filosofia com uma forma de obscuridade peremptói"ia, pouco predispu-
nha a reconhecer uma filosofia nas análises pacientes dos filósofos
ingleses. Mas os tempos e a moda mudaram. Entre outras coisas, porque
a filosofia analítica tornou-se uma arma na luta permanente entre os
recém-chegados e os autores consagrados. Passou a ser in dizer que os
filósofos franceses são glór~as meramente nacionais, estranhas aos ver-
dadeiros valores que circulam no país do dólar. Nestes tempos de
freudismo avançado, em que é imperativo matar o pai, com toda liber-
dade, vovôs desclassificados e netos apressados e dedicados fazem coro

l. Resenha do livroAnalyse de l'être, de D. Zaslawsky (Paris: Minuit, 1982), publicada no Libération


em 7 de dezembro de 1982.

65
para vaiar os pais nacionais. Teríamos de refletir sobre tudo isso, ou seja, de um paralelismo entre a língua e o pensamento, ela espera que uma
sobre os lucros e as perdas ligados à importação-exportação cultural. exploração sistemática do universo das regras inconscientes da lingua-
Mas quero falar do livro de Denis Zaslawsky, Analyse de l'être. gem revele as estruturas afetivas ou intelectuais que organizam o
Em que esse livro se distingue daqueles que a moda trouxe e que outra pensamento (e nisso se une às preocupações de diferentes correntes das
moda levará? Penso que Denis Zaslawsky, com mais alguns outros, ciências do homem, que se esforçam por objetivar as estruturas impen-
Jacques Bouveresse, Maurice Boudot, Jean-Claude Pariente (pode-se, sadas do pensamento).
por exemplo, ler o seu belíssimo artigo sobre o nome próprio e o Mas talvez esse efeito terapêutico nunca seja tão visível quanto
\
problema da individuação), 2 inaugura um tempo em que os filósofos já quandd se aplica, como nesse caso, ao discurso sobre o ser ou sobre a
não produzirão apenas estudos sobre a filosofia analítica, mas pesquisas verdade. Ponto de partida: o velho paradoxo do ser do não-ser. Sabemos,
de filosofia analítica. Num setor da produção cultural em que os produ- desde os gregos, que devemos desconfiar do verbo ser: cópula num uso
tores franceses parecem não ter outra escolha senão a incultura nacional predicativo - este horriem é humano-, ele é também tese de existência
ou nacionalista e a importação clandestina de produtos sem etiqueta, no uso ontológico ou absoluto - este homem é. "Não é a mesma coisa",
ficamos contentes em ver aparecer um autor que tem como ambição dizia Aristóteles, "ser alguma coisa e simplesmente ser". Eni outras
"menos expor os dados históricos do que prolongá-los, desenvolvendo- palavras, não é porque podemos pensá-lo, isto é, falá-lo, que o não-ser
os, por assim dizer, pela prática". E que se propõe "esboçar uma solução é. Mas o que dizer quando colocamos a existência, por um efeito de
de inspiração ao mesmo tempo lingüística e filosófica, de um dos linguagem, sem ter sequer necessidade de enunciá-lo explicitamente
problemas clássicos colocados pelo conceito metafísico de Ser". Ambi- como tal? Nesse contexto, a crítica russelliana da_ argumentação em favor
ção característica de uma tradição filosófica que se atribui como tarefa do ser do não-ser ganha toda sua força. Num enunciado como "o rei da
não enunciar teses, doutrinas ou teorias, mas pôr em ação um método França é calvo", o enunciado predicativo (o rei da França é calvo)
numa prática capaz de progredir em relação às contribuições anteriores esconde e supõe um enunciado existencial, explicitado pelo quantifica-
de que ela se nutre. Poderíamos mostrar tudo o que essa intenção dor existencial "existe" (existe um e um só indivíduo que é o rei da
"progressiva" e prátiea, continuamente lembrada por Wittgenstein, tem França). O mesmo duplo sentido, ligado a um duplo jogo da linguagem,
de autenticamente progressista. E, em primeiro lugar, pelo efeito "tera- que, nos dois usos da palavra ser, encontra-se nos dois empregos, tantas
pêutico" produzido pela própria intenção de submeter à análise filosófica vezes confundidos, da negação, negação contraditória e negação contrária.
aquilo mesmo que permite que o filósofo pense. Valendo-se do caráter "profundamente coletivo" da filosofia analítica,
Esforçando-se por pensar o pensamento e os limites do pensamen- Denis Zaslawsky mobiliza a teoria das categorias de Ryle para levar ao
to, a filosofia analítica leva até o fim a intenção crítica tal como se limite extremo a crítica da ontologia que está inscrita nos usos comuns
exprimia em Locke, Hume e, sobretudo, Kant: com base no postulado ou eruditos da palavra ser (temos em mente Heidegger e a crítica que
Carnap dele fazia). O que é questionado não é apenas o estatuto ontoló-
gico das entidades ~bstratas ou a propensão à generalização abusiva, que
2. J.C. Pariente. "Le nom propre et la prédication dans les langues naturelles", Langages 66 (junho de
1982).

66 67
vNf~S~OA1'é f'EDE~UXM?~ },
~!Rf fOTEC!l~ CE.NV'Rillt

ção dos conceitos e a propensão à generalização abusiva estão inscritas


está inscrita na confiança excessiva nas palavras. É o uso filosófico
nas palavras com que falamos o mundo social. E isso sobretudo por haver
comum da palavra ser, que tem a particularidade de, por assim dizer,
todo tipo de gente que tem um interesse vital em dar o golpe do rei calvo
concentrar os dois perigos inerentes à linguagem: perigos decorrentes da
da França, em introduzir um enunciado existencial- a Nação existe, a
excessiva generalidade (que o ser compartilha com a verdade) e perigos
França existe etc. -sob um enunciado predicativo - a Nação é unânime,
decorrentes da propensão a pensar que a existência é um predicado e que
podemos passar de um enunciado como "penso que o não-ser é" (ou a Opinião está indignada.
mesmo, mais sutilmente, "penso que o não-ser não é") ao enunciado: "o Compreendem-se todas as virtudes que encerra essa maneira de
não-ser não é", pois penso nisso, ou melhor, digo isso. Pode-se reconhe- filosofar: ao se propor explicar um pouco a linguagem pelo explaining
cer o parentesco dessa crítica com a crítica kantiana das provas clássicas away dos conceitos abstratos, ou seja, por um trabalho de crítica que visa a
da existência de Deus. A filosofia analítica generaliza a crítica da Razão: se livrar dos conceitos no ato mesmo em que eles são explicados, ela traz
basta combinar a propensão a tratar tudo o que pode ser dito como uma contribuição importante, com a condição de ser generalizada para todos
existente e a possibilidade, oferecida pela linguagem, de dizer tudo, para as áreas da existência, à crítica do pensamento mágico, teológico e fetichista
achar na própria linguagem a possibilidade, senão o princípio, dos que ainda assombra todo o discurso sobre o mundo social.
delírios ontológicos e teológicos que podem ser observados bem além
da filosofia.
·E, em primeiro lugar, no terreno da política. É por isso que,
valendo-me da concepção que a filosofia analítica tem da atividade
filosófica, gostaria de evocar apenas o alcance subversivo, e não só no
plano teórico, que poderia ter uma aplicação ao mundo social da análise
terapêutica da linguagem. Sem dúvida, não é por acaso que os exemplos
invocados por Ryle para ilustrar sua teoria das categorias são daqueles
que sempre preocuparam o sociólogo: a criança que, depois de ver
passarem os três batalhões que compõem o regimento, pede para ver o
regimento, ou o visitante de Oxford que, depois de visitar todas as
faculdades, pede para ver a universidade, cometendo um erro de catego-
ria. Que é a universidade ou o regimento? Que é existir no caso de uma
dessas entidades abstratas, às quais deveríamos acrescentar, para mostrar
que não estamos de modo algum na esfera do abstrato, a Igreja ou o
Estado? Pode-se dizer que uma Igreja ou um Estado existem no mesmo
sentido que uma pedra, um animal ou uma idéia? A inclinação à reifica-

69
68
L
7
A SOCIOANÁLISE DO SOCIÓLOG0 1

• Jacques Baudouin: Em Homo academicus, o senhor diz que, com a


pesquisa, escreveu seu tratado das paixões acadêmicas, mas, ao mesmo
tempo, quer prevenir-se contra as leituras passionais desse trabalho: o
que o senhor escreveu não é um panfleto nem tampouco o que se
encontra ali é uma denúncia de seus colegas.

Pierre Bourdieu: Entendo o interesse jornalístico que pode haver em,


por assim dizer, dramatizar o meu trabalho, mas acho que essa
apresentação ameaça destruir um dos efeitos que procurei produzir. O
que eu esperava era que os leitores, e em especial os leitores univer-
sitários, pudessem encontrar nesse trabalho o que eu mesmo encontrei
nele, ou seja, um jeito de compreender melhor a si mesmos e, em certos
casos, de se aceitar melhor e, ao mesmo tempo, talvez, um jeito de
aceitar melhor seus colegas mais distantes no espaço universitário.

I. Entrevista a Jacques Bat1douin.

71

1
uNWERSIDAOE :ff!DE-P.Al ~QG~i>'iMh.
,(D.f f.OT.EC:'~, GH!TRJiL~ .

• Baudouin: Mas uma das questões em jogo nesse texto é a da relação momento em que chegam à terra prometida, onde vão finalmente
com o objeto, que sempre esteve no centro de sua reflexão, e esse receber o lucro por seus sacrifícios, às vezes fantásticos, vêem chegar
retorno reflexivo sobre seu trabalho de construção de seu objeto uns jovens bárbaros, não raro burgueses e radicais, que os ultrapassam
científico é um dos momentos constitutivos de sua trajetória. pela esquerda. E vêem também alguns de seus jovens colegas, intro-
Bourdieu: É verdade. Uma das coisas que creio serem importantes em duzidos no sistema sem ter pago o preço, sem ter passado pelos
minha análise prévia é o esforço para escapar do que é provavelmente concursos, muitas vezes também mais burgueses do que eles (os
uma das tentações inerentes à profissão de sociólogo, a tentação de pesquisadores, sobretudo os de origem parisiense, têm acesso às
assumir um ponto de vista absoluto sobre os objetos estudados. disciplinas novas com menos custo do que esses oblatos etc.), vêem
Evidentemente, tratando-se de um objeto de que fazemos parte, essa todas essas pes~oas que, a seu ver, são burgueses revolucionários
tentação é particularmente forte, pois, ao fazer sociologia do conhe- apenas no discurso, vêem essas pessoas contestá-los, denunciar o
cimento, instituímo-nos como juiz dos juízes e arrogamo-nos uma mandarinàto etc. Vivem o esboroamento do mundo universitário
espécie de poder intelectual sobre o mundo intelectual- em todo caso, como uma espécie de fim do mundo. São pessoas que, como os
tentamos fazê-lo, pretendemos fazê-lo. Para poder levar a bom termo celibatários do Béarn, que estudei há quase 25 anos, eram os privile-
minha pesquisa e publicá-la, foi preciso que eu descobrisse o que é a giados do sistema anterior e cujos privilégios de repente se vêem
verdade profunda desse campo, a saber, que ali todos lutam para fazer aniquilados, em parte por causa de sua preocupação em não perdê-los.
o que o sociólogo tem a tentação de fazer; foi preciso que eu conse- Dito isso, a análise tem uma força intrínseca de destruição, e algumas
guisse objetivar essa tentação e, mais precisamente, objetivar a forma frases frias ou torturadas, ou até um pouco contorcidas, de tanto serem
que ela assume num determinado momento para o sociólogo, e para controladas, podem continuar sendo muito brutais. Temo, por exem-
o sociólogo Pierre Bourdieu. plo, que as pessoas de que acabo de falar sintain as páginas que escrevi
sobre elas como páginas repletas de uma violência terrível, tanto mais
que foram escritas por alguém que pode, por uma espécie de experiên-
• Baudouin: Há um aspecto de socioanálise em seu trabalho.
cia mental, colocar-se na pele e na cabeça delas.
Bourdieu: Exatamente. Escrevi algumas das frases mais cruelmente
objetivantes, sabendo que elas se aplicam a mim e que, no fundo, • Baudouin: O objeto de sua pesquisa era, portanto, a universidade
poderiam ser voltadas contra mim. Por outro lado, escrevi páginas francesa. Mas essa é uma pesquisa que se esteia numa investigação
(creio que no fim do capítulo sobre as faculdades de letras) acerca das empírica: quais são os indicadores que o senhor manteve para cons-
pessoas que foram as mais violentas reacionárias em maio de 68 com truir seu objeto?
um sentimento de quase-identificação teórica. Eu tinha de dar conta
do sentimento de miséria e desespero que puderam sentir essas pessoas Bourdieu: Talvez por um efeito do aristocratismo ligado à minha
que chamo de oblatos, ou seja, pessoas que, como os oblatos da Igreja, foram formação, tenho uma espécie de repugnância pela ostentação dos
"dadas" à escola de sua infância, que tudo devem à escola. Eles foram trabalhos empíricos (ao que se soma o fato de, como você sabe, nada
ser mais caro na tipografia do que os quadros estatísticos, os gráficos,
consagrados pelo sistema escolar (são normaliens e agrégés) e, no
os diagramas etc".): em La distinction., eu poderia ter feito um livro de

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três mil páginas se tivesse reproduzido não todos os quadros que tinha • Baudouin: Ao término desse trabalho empírico considerável, quais são
analisado, mas todos os quadros estatísticos a que me refiro. No que as oposições principais que o senhor conseguiu evidenciar no que
tange a esse livro, não exibi meu material, mas as operações empíricas chama de conflito das faculdades na universidade francesa em 1967,
tiveram um peso considerável, pois adotei como regra não recorrer à portanto pouco antes da crise de maio de 1968?
investigação direta. Eu havia feito algumas experiências de interroga-
ção direta ao mesmo tempo de familiares e de pessoas que eu não Bourdieu: Muito grosseiramente, no interior do espaço das faculdades
conhecia, e descobrira que, por um sem-número de razões, não podia (letras, ciências, direito, medicina), vemos delinear-se claramente,
obter por esse caminho as informações que desejava. Antecipando as com base em certo número de indicadores relativamente limitados,
reações hostis provocadas nos intelectuais por toda investigação, uma oposição principal, que poderíamos ter pressentido, entre as
resignei-me a agir como os historiadores, a fazer prosopografia faculdades de ciências e de letras, por um lado, e as faculdades de direito
apoiando-me em documentos publicados, informações públicas. É um e de medicina, por outro. Há, em seguida, uma oposição secundária que,
trabalho de cão, porque foi preciso, para as mínimas coisas (as pessoas por sua vez, atravessa todas as faculdades, a oposição entre os menos
têm a agrégation ou não?), achar listas, construir índices objetivos.
consagrados e os mais consagrados, ao mesmo tempo temporal e
Por exemplo, um índice de notoriedade internacional: uma das coisas
intelectualmente, ou seja, dotados de propriedades como o fato de
que estão em jogo nesse campo é saber quem é realmente célebre e
pertencer ao Institut de France ou o fato de ser traduzido no estrangeiro
quem não é etc. Logo me ocorreu o Citation Index, que enumera todas
etc. A oposição principal, embora seja relativamente trivial e dada pela
as menções aparecidas em certo número de revistas analisadas. Depois
pensei no número de traduções no estrangeiro: peguei o anuário da intuição, é, creio, muito importante: reconhecemos a velha oposição,
biblioteca de Washington e foi preciso, para cada indivíduo, fazer uma já descrita em O conflito das faculdades, de Kant, vale dizer, a
ficha que indicava as traduções em inglês, em alemão, em espanhol oposição entre as faculdades dependentes do poder temporal, que
etc. E isso, a cada vez, com um monte de problemas: nem todas as recebem sua autoridade de uma espécie de delegação social, e as
disciplinas têm as mesmas chances de ser traduzidas nas diferentes faculdades que poderíamos chamar de puras, que são, por assim dizer,
línguas. Pensei no fato de pertencer ao Instituto, mas isso não tem o autofundadas, que têm o princípio de sua autoridade na cientificidade,
mesmo sentido conforme as disciplinas e constitui uma forma de sendo a faculdade de ciências típica dessa categoria. O fato de a
consagração exclusivamente universitária. Pensei, então, em criar um . oposição de Kant ser reencontrada hoje levanta o problema das
índice de notoriedade intelectual: na medida em que o intelectual, invariantes trans-históricas. O que é divertido é que o problema do
em sua definição social, é aquele de quem a mídia fala, tomamos a fundamento, sempre colocado pelos filósofos, está inscrito na posição
série das listas de La quinzaine littéraire durante dois anos e que eles ocupam nessa estrutura: há aqueles, diz Kant, que recebem
contamos as presenças (isso também deu um trabalho considerá- procuração do Estado, os teólogos, os juristas, os médicos etc., que
vel). Contamos também as presenças na televisão. Tudo isso são
têm uma competência social, socialmente garantida, vindo sua com-
outros tantos pontos num diagrama, mas cada um desses pontos
petência científica das faculdades puras. Por outro lado, há faculdades
custou horas e horas de trabalho. Cada indicador, mesmo o mais
puras, que não têm procuração, que são, por assim dizer, irresponsá-
inocente, exigiu um trabalho enorme, que, faço questão de dizê-lo,
foi feito juntamente com Yvette Delsaut. veis politicamente, portanto livres; mas a contrapartida dessa liberdade
é o fato de não terem base social. Daí o sonho autofundador. Kant não

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analisou a raiz social da ambição de fundamento radical, que é a • Baudouin: Uma das preocupações que o senhor tem é o cuidado de
ambição filosófica por excelência, embora tenha dado todos os ele- defender a autonomia do campo científico. Será, então, que não se
mentos para isso. Era um pequeno parêntese. pode imaginar que, ao final de um processo, certos campos sejam mais
autônomos do que outros e que permitam mais, senão o livre jogo,
pelo menos o exercício de uma maior liberdade da parte dos sujeitos
• Baudouin: Mas importante, porque toca realmente num dos pontos que neles se inscrevem?
talvez mais controvertidos de seu trabalho. Há, nesse livro, uma
sociologia do campo universitário como espaço, mas há também um Bourdieu: Sim, uma das lições desse tipo de trabalho é que a liberdade
esboço, sobretudo a respeito da querela da "nova crítica" entre Barthes não é uma propriedade individual, mas uma conquista coletiva. Não
e Picard, em 1965; um esboço da sociologia das produções culturais, nos libertamos sozinhos e, sobretudo, não por atos de auto-afirmação
e é nesse terreno que o seu discurso é mais atacado, pois é acusado de mais ou menos imaturos.
sociologismo e, enfim, de reducionismo, de considerar o espaço das
produções culturais como completamente determinado. • Baudouin: Para o senhor, não existe um sujeito racional que se possa
Bourdieu: É verdade que o exemplo do debate Barthes-Picard dá uma constituir pela ação de uma vontade livre e individual?
idéia do que um conhecimento da sociologia dos produtores permitiria Bourdieu: Esse mesmo projeto é um projeto histórico. As pessoas que
fazer em matéria de sociologia das obras. Ao mesmo tempo, por assumem essa posição deveriam saber que são herdeiras históricas de
motivos de prudência (para não tirar do sério os meus leitores) e homens que foram colocados em condições históricas tais que pude-
também por razões deontológicas, porque acho que é difícil objetivar ram fazer progredir um pouco a liberdade, qt,Je, para eles existirem
os contemporâneos, não levei o exercício tão longe quanto poderia, a com esse projeto, é preciso que haja cátedras de filosofia (o que
meu ver. Gostaria de ter publicado simultaneamente um livro que implica também uma forma de alienação), que a filosofia como
provavelmente se chamará "A economia dos bens culturais", no qual, disciplina de Estado tenha sido inventada etc. Para que o intelectual
a respeito do século XIX, faço esse trabalho de relacionamento de uma como mito, e como mito eficaz, possa existir, para que seja possível
descrição do espaço de produção e do conteúdo das produções. Essa o intelectual francês, que se crê obrigado a intervir na África do Sul,
análise relativa ao passado será muito mais bem tolerada. no Afeganistão ou no Chile, foi necessária a Comuna, foi preciso o
caso Dreyfus, foi preciso Zola. As instituições de liberdade, como a
seguridade social, são conquistas sociais.
• Baudouin: Mesmo no que se refere a Mallarmé, por exemplo?

Bourdieu: Sim. Mas, apesar de tudo, vou provocar urros, porque os • Baudouin: Daí, volta-se, talvez, a esse espaço universitário que o senhor
homólogos reais ou imaginários de Mallarmé no espaço atual vão analisa em Homo academicus: o que fez com que esse espaço, essa ordem
sentir-se visados. As homologias de posição estão no fundamento de universitária que existia em 1967 fosse rompida, fosse desequilibrada?
alianças entre pessoas de diferentes épocas. Essas são coisas que a
Bourdieu: Seria preciso muito tempo para responder a essa pergunta.
história literária manipula de maneira completamente ingênua quando
Um dos objetos do livro é, de fato, tentar dar conta, da maneira mais
comenta um juízo de Balzac ou de Proust acerca de Sainte-Beuve.

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completa possível, digamos de maneira menos incompleta do que até • Baudouin: Mas um de seus objetivos teóricos, e seu livro comporta
agora, da crise de maio de 1968 e, com isso, descobrir, a respeito dessa muitos deles, é que o senhor propõe uma representação do que é
crise particular, alguns indicadores para um modelo invariante do que considerado o histórico por excelência, a saber, o acontecimento
é uma crise, uma revolução etc. singular, o evento notável como maio de 68 pôde ser, e é uma
representação sobre a qual o senhor diz que ela pode, eventualmente,
permitir escapar à alternativa entre a história estrutural e a história
• Baudouin: Sim, o senhor produz uma teoria da crise e-da revolução, o
fatual.
senhor tenta.
Bourdieu: A oposição que se fez ao redor da École des Annales entre
Bourdieu: Eu tento. A respeito dessa crise, descobri certo número de
a história das estruturas de longa duração e a história fatual, a história
propriedades sobre as quais me pergunto se não são gerais. Em
dos personagens, dos grandes homens etc., e que teve uma função
primeiro lugar, tentei mostrar que a crise interna foi o produto do
científica em determinado momento, parece-me constituir um obstá-
encontro de crises parciais ligadas a evoluções autônomas: por um
culo epistemológico hoje. E uma das funções da teoria dos campos
lado, uma crise do corpo docente, ligada aos efeitos do crescimento
proposta por mim, ou seja, a teoria desses universos relativamente
maciço e rápido do corpo de professores e às tensões daí decorrentes
autônomos, no interior dos quais são desempenhados papéis particu-
entre as categorias subalternas e as categorias dominantes do corpo
lares, é a de fazer desaparecer essa oposição. Normalmente, dá-se um
universitário; e, por outro lado, uma crise do meio estudantil, ligada a
salto brutal da história da economia à evolução da música, por exem-
todo tipo de fatores, com, entre outros, a superprodução de diploma-
plo; relaciona-se diretamente as grandes greves dos anos 1880 e a
dos, a desvalorização dos títulos escolares que dela decorria etc. As
música de Debussy e de Fauré. Esse tipo de curto-circuito, muito
crises parciais e locais convergiram, servindo de base para alianças.
praticado pela sociologia marxista ou neomarxista, reforça a oposição
Em seguida, a crise propagou-se por vias que nada tinham de aleatório,
entre o estrutural e o fatual. Na realidade, salta-se por cima do campo
em especial na direção de todas as instâncias de produção simbólica,
universitário, ou do campo literário, onde se situa uma parte dos
o rádio, a televisão, a Igreja, ou seja, todos os universos em que havia
determinismos particulares, que refratam de acordo com leis particu-
conflitos entre os detentores oficiais da legitimidade do discurso e os
lares determinismos mais globais. Por exemplo, tratando-se de
recém-chegados que pregavam o sacerdócio universal. Uma das ana-
compreender o pensamento de Heidegger, a mediação do campo
logias mais interessantes é a que se pode fazer entre o movimento de
universitário permite compreender o efeito específico que a inflação
maio de 68 e as heresias. As grandes heresias muitas vezes giravam
que assolava a Alemanha do pós-guerra gerou em professores revol-
ao redor do tema do retorno ao sacerdócio universal (algumas chega-
tados com o fato de pessoas tão instruídas e tão consagradas como eles
vam a conceder às mulheres o direito de ministrar os sacramentos). Se
serem reduzidas a uma condição tão miserável. A mediação propria-
existe um fenômeno capaz de tirar do sério e de desesperar aqueles
mente universitária permite, pois, passar do esboroamento da
que eram chamados de mandarins, e em especial aqueles que mencio-
Alemanha e da inflação ao contexto mais especificamente intelectual,
nei, é exatamente que Cohn-Bendit possa pregar, e pregar com
em que se constitui uma problemática propriamente filosófica. Mas,
autoridade, em suma, que todos possam fazer aquilo cuja exclusivi-
para compreender como se exercem os vínculos estruturais, seria
dade eles se arrogam.

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preciso, às vezes, retomar o que conta a história mais anedótica da fiou que torna vivível esse meio que vive da crença. Será que não há
literatura, ou seja, os salões, os amores, as inspiradoras etc. Os aí uma espécie de paradoxo: o sociólogo que contribui para suspender
mecanismos estruturais agem por meio de aventuras aparentemente esse fiou não ajuda a tornar invivível este mundo?
anedóticas.
Bourdieu: Mais uma vez, foi o retorno crítico da prática sociológica
sobre si mesma que me permitiu, creio, reintroduzir em minha descri-
• Baudouin: Então, o que poderia dar conta, no limite, de todos esses ção a presença desse fiou, que a descrição científica suspende, destrói.
mecanismos estruturais seria a construção científica, sociológica, e, Creio que essa é uma propriedade permanente do empreendimento
ao mesmo tempo, as técnicas de escritura do "romance de formação"? científico nas ciências sociais: num primeiro momento, ela objetiva,
traz à luz mecanismos que escapam aos atores e que os atores ignoram
Bourdieu: A restituição científica de uma análise sociológica aprofun-
ou reprimem. Sem dúvida, o fato de trabalhar sobre meu próprio meio
dada como a que gostaria de fazer coloca problemas muito difíceis de
me fez descobrir que a análise, ao destruir o fiou, produz um modelo
escritura. Seria preciso inventar uma linguagem nova, e a revistaActes
que não dá conta verdadeiramente da realidade, pois, na realidade, o
de la Recherche en Sciences Sociales, que editamos, foi para mim uma
modelo é ignorado. Esse fiou cuja existência lembrei, provavelmente
espécie de laboratório em que tentei inventar um novo modo de
em razão de minha implicação pessoal, é constitutivo da realidade.
expressão. As revistas de sociologia não têm in;tagens. Por quê? É Um bom modelo da realidade deve implicar a distância entre a
surpreendente. Meu sonho seria criar uma linguagem que permitisse
experiência dos agentes e o modelo, que permite que os mecanismos
que os produtores de discurso sobre o mundo social escapassem à
descritos pelo modelo se exerçam com a cumplicidade inconsciente
alternativa da análise objetivista em seu rigor gélido e do discurso
dos agentes.
literário (no sentido tradicional). Na lógica de suas pesquisas, os
A sua pergunta é muito difícil e tenho, sem dúvida, posições contra-
romancistas inventaram, por razões puramente formais, modelos que,
repatriados no terreno da ciência social, onde teriam funções, podem ditórias a respeito dela. Preciso crer que a sociologia é libertadora e,
ao mesmo tempo, inquieto-me com o efeito de desencantamento que
permitir dizer coisas que hoje não podem ser ditas. Em Actes, assim
pode produzir. De fato, a sociologia pode desesperar e autorizar um
como em La distinction, tentei inventar uma forma de discurso que
certo cinismo, ou até mesmo servir de álibi à renúncia. Creio que não
permitisse, por efeitos de colagem, oferecer simultaneamente o dis-
curso científico e a intuição direta do percebido que esse discurso é esse o uso que faço dela.
científico analisa. No caso do Homo academicus, eu havia pensado
nisso, mas teria dado uma tal violência a minhas análises que desisti;
a ilustração teria produzido um terrível efeito de alfinetada.

• Baudouin: Uma última pergunta. O senhor acabou de situar a socio-


logia ao lado das luzes, mas, ao mesmo tempo, insiste, em Homo
academicus, sobretudo no que se refere ao campo universitário, no

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1
A FICÇÃO CIENTÍFICA

• Y. Hemot: Fala-se de literatura e, a respeito da ficção cientítica, de


paraliteratura. Quais são os critérios que a instituição escolar e, além dela,
a universitária consideram ao legitimar um texto como "literário"? E,
inversamente também, o que faz da ficção científica uma "paraliteratura"?

Pierre Bourdieu: Como não estudei diretamente a ficção científica, só


posso reagir por analogia a universos que conheço, ou seja, tentando
aplicar à ficção científica as análises feitas por mim mesmo ou por
colegas a respeito de universos análogos, como as histórias em qua-
drinhos, analisadas por Luc Boltanski. Dizer que a ficção científica
ou as histórias em quadrinhos são gêneros menores, ou seja, social-
mente inferiores, é uma simples constatação. O registro empírico de
uma hierarquia é muitas vezes entendido como uma ratificação dessa
hierarquia. E, de fato, em geral, aquele que registra, inscreve num
registro, confere com isso um valor de direito ao escrever: um nasci-
mento ou um casamento registrados tornam-se legítimos. É o que
torna muito ambíguo, na percepção que dele têm os leitores, o estatuto

1. Entrevista a Y. Heniot, publicada em Science-FictionS (outubro de 1985), pp. 166-183.

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do discurso sociológico. Portanto, registro essa hierarquia, mas sem filiações ou das escolas. Contudo, o mais inesperado e o mais terrível
consagrá-la. Ao mesmo tempo em que lembro, pelo contrário, que seu dos indícios, dessa vez interno, seria a preocupação de reabilitação
único fundamento é a arbitrariedade do social, da instituição. A ficção que, como tal, implica o reconhecimento da legitimidade da hierar-
científica participa do descrédito ligado a todas as produções diretamente
quia: tenho em mente, por exemplo, o movimento que se desenvolveu
comandadas pelo mercado. Na origem, e ainda hoje em suas formas
na década de 1960 entre os autores especializados em ficção científica,
comuns, no mais das vezes, é um produto diretamente criado para o
com vistas a criar revistas especializadas, uma crítica própria, uma
mercado, com freqüência por encomenda (um autor de ficção científica,
creio que Ellison, conta que produzia textos por quilômetro com base em teoria específica etc. Dito isso, como todas as classificações sociais,
assuntos impostos na forma de capas). Grandes tiragens, baixos preços, as hierarquias entre os gêneros se enraízam nas estruturas sociais que
produção em série, estão reunidas todas as componentes que fazem o elas consagram e ratificam. Por um lado, e esta é uma lei da sociologia
descrédito dos gêneros menores. Outro indício, a rejeição da instituição da literatura, um gênero é qualificado de modo muito forte pela
escolar e da chamada imprensa séria: "Le monde des livres", as revistas qualidade social de seu público: a posição dos gêneros no campo de
literárias etc. não falam da ficção científica, ou falam apenas com produção corresponde estreitamente à posição de seu público no
desenvoltura e, no melhor dos casos, com condescendência. Não se pode espaço social. O romance, ao longo de todo o século XIX, era consi-
imaginar que seja possível dar um texto de ficção científica para o exame derado um gênero menor, muito inferior à poesia, a tal ponto que o
de bacharelado- se isso acontecer, será nas seções técnicas, em nome da últimos dos poetas simbolistas podia considerar-se superior a Zola. E
mesma condescendência. se Zola não foi levado pelo desprezo que cercava os chamados
romances populares (como os de Eugene Sue ou Ponson du Terrail),
• Hernot: Com efeito, constatei, ao comparar os manuais escolares foi em grande parte porque conseguiu enobrecer o gênero romanesco
destinados aos liceus e sobretudo às chamadas turmas literárias tal como o praticava, em primeiro lugar, por sua escritura, e também
àqueles que se destinam aos LEP, *que a freqüência da presença de texto~ por seus esforços teóricos, suas referências ao método experimental
de ficção científica (mas também de trechos de romances policiais etc.) etc., e sobretudo, sem dúvida, porque J' accuse o salvou ao constituí-lo
é consideravelmente maior no segundo caso do que no primeiro, em que como intelectual. A ficção científica, portanto, é contaminada pelo
estão, na maimia das vezes, ausentes, com exceção de Orwell, de fato de atingir um público de jovens, de adolescentes.
Huxley... Se pensarmos nas clientelas respectivas dos liceus e dos LEP,
veremos que há aí um sintoma que interessa ao sociólogo. • Hernot: Farei duas observações. Por um lado, no caso de Zola, havia
diálogo apesar de tudo, ainda que, da parte dos escritores legitimados,
Bourdieu: Outro indício poderia ser o fato de podermos confessar sem
este se desse na forma de acusação, de ataque, ao passo que o escritor
nos envergonharmos que ignoramos tudo da ficção científica ou que
de ficção científica não é um interlocutor, ele está fora do jogo. Por
lemos os seus livros "daquele jeito", ocasionalmente, sem sermos
outro lado, se o público da ficção científica era realmente, em sua
capazes de citar nomes de autores ou sem termos a mínima idéia das
maioria, no começo, um público de adolescentes, esse público se
* LEP- Colégio de Formação Profissional. Os alunos desses colégios são, geralmente, os mais transformou e podemos observar uma relativa divisão entre o que lêem
fracos, são alunos com dificuldades de aprendizagem, com problemas tanto sociais como, às
vezes, psicológicos e existenciais, vivendo em condições desfavoráveis. (N.R.T.)

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os adolescentes e o que vão ler pessoas que são adultas e têm um por referência à história do gênero e decodificando as microvariações
estatuto cultural muito mais alto. no interior desse gênero extremamente estrito. Trata-se do mesmo tipo
de leitura que se concede aos clássicos: os vínculos são muito fortes
• Bourdieu: Exatamente. Você antecipou meu segundo ponto: os gêne- e, como diante de uma fuga, a deleitação culta ocupa parte considerá-
ros estruturalmente inferiores devem o essencial de suas propriedades vel do prazer que se tem em observar como o autor lidou com essas
a sua posição num espaço. E a literatura industrial, história em exigências. Isso não é tudo: o aparecimento de um campo (as princi-
quadrinhos ou ficção científica, é definida por sua relação com o pais posições são sem dúvida marcadas, como em outros lugares, por
gênero dominante, que a exclui, como você diz. Essa situação produz revistas ou coleções que funcionam como lugares de reunião e emble-
efeitos no próprio interior do espaço dos produtores dominados, como mas totêmicos) e a constituição da ficção científica como gênero culto
a autodepreciação ou, pelo contrário, a "pretensão", que deprecia ou coincidem com o aparecimento de características novas nas próprias
desconsidera aos olhos dos dominantes etc. Mas, a partir de um obras: refiro-me principalmente a todos os fenômenos de auto-
determinado momento, a ficção científica (como as histórias em referência (referência aos precursores, à história do gênero etc.) e a
quadrinhos, o cinema, a fotografia) começa a se definir como um todos os indícios de intelectualização do gênero (ficção científica
espaço relativamente autônomo, com suas leis próprias de funciona- política, história em quadrinhos de ficção científica etc.) ou de ambi-
mento, seus teóricos, suas revistas, que se gabam de selecionar a ção literária (esforço de estilo, de escritura etc.).
"verdadeira" ficção científica. Assim, constitui-se um campo da fic-
ção científica, que comporta um conjunto de instâncias específicas de • Hernot: Isso quer dizer que uma obra singular, tomada isoladamente,
consagração, júris, prêmios etc.; constitui-se, ao mesmo tempo, uma já não poderia ser apreciada fora do conhecimento exaustivo da
legitimidade específica, de que um dos indícios seria o aparecimento história do gênero?
de historiadores que registram a história do gênero, escrevem biogra-
fias, canonizam certas formas em oposição a outras, distinguem o bom Bourdieu: Sim. Como tendência. O que chamamos cultura é essa
· do mau (com as antologias), codificam, legislam. Chega um momento cultura histórica que permite referir o recém-chegado aos predecesso-
em que já não se pode compreender o que é produzido num campo se res e aos contemporâneos. Numa palavra, fazer diferenças, distinções.
não se conhece a sua história: uma cultura histórica específica é Pode-se ver bem isso na pintura de vanguarda, em que a maioria das
investida na produção (aquele que escrevesse ficção científica com produções só pode ser realmente apreciada no âmbito de uma história.
pretensões, sem conhecer as obras reconhecidas, expor-se-ia a ser
visto como ingênuo, no sentido dos pintores como o Douanier Rous- • Hernot: Em relação à minha pergunta inicial, o que o senhor disse dá
seau, e isso por mais experiente que ele possa ser em outro campo, a entender que é por ter-se constituído como história muito antes da
"novo romance" ou sociologia); e, ao mesmo tempo, essa cultura ficção científica que a literatura geral é a literatura legítima.
também é exigida do leitor legítimo. Isso é notável no caso do faroeste,
que é hoje um gênero, por assim dizer, de foco duplo: um público Bourdieu: A antigüidade é um dos critérios de nobreza em todas as
comum o vê no primeiro grau, um público culto o lê no segundo grau, dimensões da cuJtura (isso vai da aristocracia, que se baseia na
antigüidade garantida pelas genealogias, até os móveis antigos etc.).

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Mas, na hierarquia dos gêneros, aparecem vários fatores, como, na Dito isso, é conhecido o jogo intelectual da transgressão: passar a
pintura, até a revolução impressionista, o grau de nobreza dos objetos fronteira sagrada comporta um risco - o da vulgaridade -, mas pode
representados, desde as pinturas religiosas ou as pinturas de história ser também o cúmulo do chique. As histórias em quadrinhos, a ficção
até as pinturas de gênero. No que se refere à ficção científica, ela deve científica ou, anteriormente, o cinema beneficiaram-se ou beneficiar-
provavelmente seu estatuto inferior, como eu disse, ao fato de que, em se-ão dessa arte de "brincar com o fogo": assume-se um ar canalha,
determinado momento, tratava-se de uma literatura industrial, que mostrando-se e exibindo-se como alguém capaz de situar-se além
servia de ganha-pão aos seus produtores e, por conseguinte, era muito dessas fronteiras primárias, boas para os pedantes. É um exemplo
determinada pelas condições sociais de produção, urgência, exigên- típico de estratégia de condescendência, com o qual se obtêm as
cias estritas da encomenda etc., condições desfavoráveis ao exercício vantagens da hierarquia e as vantagens de sua transgressão. Essas
de uma literatura "nobre", em que a "forma" tinha a primazia sobre o estratégias são muitas vezes coisa de pessoas que estão numa posição
"fundo", em que os cuidados com a construção são prioritários etc. marginal ou inferior no campo intelectual e que conseguem uma
Mas há também efeitos de conteúdo: originalmente, como o romance espécie de desforra ao tentar reabilitar as artes menores. Nesses jogos
romanesco, a ficção científica comum - contra a qual se constituiu a internos ao campo intelectual, as artes menores são objetivos de jogo.
ficção científica de pesquisa - libera o herói das necessidades sociais O destino dos gêneros menores é estarem sempre enfrentando a
e, sobretudo, físicas (é o super-homem); o raio laser substitui a espada questão de sua legitimidade (são os maiores fotógrafos que admitem
mágica. Poder-se-ia pensar que fazer uma mitologia da era da ciência confidencialmente que fazem pintura e que jogariam fora toda sua
ajudaria a dar valor à ficção científica numa época em que a cultura obra de fotógrafos, em que são excelentes, por uma pintura em que
científica era tão valorizada. Na verdade, não. Na medida em que a não têm certeza de serem bons).
cultura- ou seja, as "Humanidades"- constituiu-se, em parte, contra
a ciência, isso era um defeito a mais. Poder-se-ia dizer também que a
• Hernot: Os autores de ficção científica teriam todos essa má consciên-
ficção científica coloca problemas sociais e políticos que são os da
cia em relação à literatura legítima, e não produziriam ficção científica
utopia tradicional, e, com isso, conferir-lhe também cartas de nobreza.
simplesmente porque julgariam que, por esse meio, pudessem trans-
Poder-se-ia dizer, ainda, que a ficção científica é, de todas as artes
mitir certo número de idéias ou colocar problemas impossíveis de
atualmente existentes, aquela que coloca mais diretamente certo nú-
transmitir e colocar de outra maneira?
mero de problemas últimos, tradicionalmente encerrados nos grandes
mitos arquetípicos. Mas também aí esses são, antes, defeitos, pois faz Bourdieu: Escolha deliberada, razões alimentares, refúgio contra o
parte da evolução da literatura desde Flaubert (seria preciso pôr à parte fracasso num gênero nobre: seria preciso examinar empiricamente
o romance russo, em especial Dostoievski) estabelecer um corte entre como os autores se distribuem entre as diferentes categorias, conforme
o discurso literário e os conteúdos filosóficos ou metafísicos. Seria as épocas - e também conforme os países e a hierarquia de gêneros
preciso levar em conta tudo isso para compreender o descrédito que os caracteriza. Outra possibilidade seria a prática da arte menor
atribuído a essa literatura. como meio de adquirir os recursos necessários para praticar uma arte
maior: isso é com~m na música, na decoração, na pintura; leva-se uma
vida dupla, existindo a produção alimentar para tornar possível uma

88 89
J~NE~S~.\l~l)f.,rfDE:ftA~,.,.OJ~~ ·
(?Ir:?J. J.o;r-sCA ca~:r ., ~.t

outra produção. Há também aqueles que, consagrados numa arte bases para uma revolução específica, pois esses "desclassificados",
menor, elevam suas ambições e praticam uma forma maior de arte para existirem culturalmente, são levados a constituir como cultura
menor, enobrecendo-a assim. Podemos também imaginar que, como produções desqualificadas.
você sugere, certo número de escritores escolhem deliberadamente a
ficção científica, porque vêem nela um veículo insubstituível para
• Hernot: Gérard Cordesse tentou mostrar num livro, La nouvelle science-
transmitir certo número de considerações sobre o mundo.
fiction américaine, o papel, a seu ver importantíssimo, do fandom, dos
grupos de fãs, na difusão e até na produção da ficção científica. Você
• Hernot: Tanto mais que um escritor de ficção científica perde seu acha que- isso é verdade principalmente nos Estados Unidos, aliás -
rótulo tão logo é legitimado: é o caso de Orwell, Zamiatine, Huxley, isso possa ter desempenhado um papel efetivamente muito importante
Wells etc. Falarão de "utopia", de "fábula filosófica" ... ou atribui uma importância maior a outros fatores?

Bourdieu: Fazendo-os passar a fronteira assim que atingem o cume do Bourdieu: O papel do f andam deve, sobretudo, ser determinante para
gênero, perpetuam-se a fronteira e a definição do gênero. Na verdade, o aparecimento e o desenvolvimento de uma ficção científica de
esses gêneros menores passam por uma evolução que obedece a leis pesquisa (por analogia com o papel dos cinemas de arte e de ensaio).
muito gerais. Mencionei o que diz respeito ao lado da produção. Uma literatura de vanguarda que escape à sanção do mercado só pode
Gostaria de mencionar brevemente o que diz respeito ao lado do se constituir se houver uma vanguarda no público. No século XIX, os
consumo. Em primeirb lugar, por volta da década de 1960, apareceu pintores aprendizes, os estudantes e a boêmia constituem esse público
um sistema de gêneros menores: constituiu-se como "contracultura", que oferece à vanguarda, ao mesmo tempo, u~a sustentação- sobre-
com uma intenção ofensiva e crítica, um conjunto de práticas culturais tudo simbólica, mas muito importante- e um controle, uma censura
que tinham em comum serem estigmatizadas e que, até então, estavam contra as concessões. A constituição do campo -e em especial de um
simplesmente justapostas (música pop, histórias em quadrinhos, ro- espaço de revistas especializadas - só ocorre com a multiplicação
mance policial, ficção científica etc.). Sem dúvida, esse fenômeno foi (ainda que muito limitada) dos admiradores, que compram as revistas,
favorecido nos Estados Unidos pelo fato de, ao contrário da Europa, assistem às manifestações, fundam coleções etc. Depois, vêm os
lá existir uma importante camada de intelectuais que vivem da indús- prêmios (o prêmio Goncourt desempenhou esse papel de reabilitação
tria cultural, em especial o cinema, que permitem que essa produção de um gênero e de artistas menores), as academias, os museus, e depois
seja para si mesma seu próprio mercado. Outro fator muito importante os programas escolares etc. Mas o que é engraçado - se quiserem ... -
foi o aparecimento, com a escolarização maciça no ensino secundário e que tende a provar, em todo caso, que não se escapa assim tão
e, em menor grau, no ensino superior, de um grande número de pessoas facilmente à lógica da cultura legítima, é que os defensores iconoclas-
desclassificadas que, não tendo obtido do sistema escolar tudo o que tas da "contracultura" importam as posturas mais tradicionais da
esperavam dele, têm disposições subversivas em relação ao sistema ordem da cultura mais culta. É quase paródico: não há nada mais
escolar e à cultura que ele transmite e garante, e que são levadas a , "culturalista" do que os programas de jazz da France-Musique, em
mudar de terreno e a fornecer um público muito qualificado a essa que não se omite sequer o nome do terceiro trompetista ou a data da
literatura, à qual conferem uma legitimidade antagonista. Há aí as gravação, em suma, todo o lado "discos antigos" dos apresentadores

90 91
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K1Rt f..OTECA CEMJ.~ ,,

de música clássica. As mesmas perversões, que são um efeito invertido


da dominação, devem poder ser encontradas em relação às histórias
em quadrinhos e à ficção científica. Nelas se vai investir, numa
preocupação de desforra e numa vontade de inverter as hierarquias, as
posturas mais caricaturalmente culturais que se investiram, em outro
lugar, na pintura do Quattrocento. De qualquer forma, trata-se de um
fator importante de mudança. E não fica sequer excluído, afinal, que,
por um efeito de autoridade científica, a simples explicitação da
arbitrariedade das hierarquias possa exercer certa força social.

9
REPRODUÇÃO PROIBIDA:
A DIMENSÃO SIMBÓLICA DA
DOMINAÇÃO ECONÔMICA

O camponês só se torna "burro" ali onde ele é pego pela engrenagem


de um grande império, cujo mecanismo burocrático ou litúrgico lhe
continua sendo estranho. (Max Weber, O judaí.\'IÍW antigo)

A proposta que me foi feita de voltar, depois de tanto tempo, ao


problema do celibato ao mesmo tempo me maravilha e me perturba.
Tenho, de fato, um afeto especial por esse velho trabalho' que, embora
apresente todas as incertezas dos primeiros passos, parece-me conter o
princípio de vários desenvolvimentos maiores de minha pesquisa ulte-
rior: tenho em mente, por exemplo, noções como habitus, estratégia ou
dominação simbólica, que, sem chegarem sempre à explicitação com-
pleta, orientam todo o texto ou o esforço de reflexividade que o inspira
de ponta a ponta e se exprime, não sem certa ingenuidade, em sua

I. P. Bourdieu. "Célibat et condition paysanne", Études Rurales 5-6 (abril-setembro de 1962), pp.
32-135.

92 93
vl'J~RS,OAD~.í~I::OEML PQ· ~~.
e!PJ XJTECP. CEd:U~l

conclusão. E se não fosse detido pelo temor de parecer complacente, de fato, escapar a lógica prática das estratégias pelas quais os agentes
poderia mostrar como a reapropriação da experiência social mais ou visavam a tirar o melhor partido possível de seus "trunfos" específicos
menos reprimida que ele favoreceu tornou possível, sem dúvida, a título (tamanho da propriedade, condição de nascença etc.). A comparação
de socioanálise prévia, a instauração de uma relação com a cultura, entre a tentativa inicial de encerrar numa fórmula de aspecto formal a
científica ou "popular", ao mesmo tempo menos tortuosa e torturada do relação, materializada pelo adot, entre as estruturas econômicas ( apreen-
que a que os intelectuais de todas as origens costumam manter com tudo didas por meio da distribuição das propriedades segundo o tamanho) e
o que se refere ao povo e à cultura. Mas não posso me defender de certo as estruturas matrimoniais, e a reconstrução final do conjunto dos vín-
mal-estar no momento de reabrir, sem ter o gosto nem o lazer de nelas culos (ou dos fatores determinantes) que orientam as estratégias
tornar a mergulhar completamente, as pastas onde dormiram durante tanto matrimoniais oferecem uma boa ocasião de observar, no pormenor
tempo as peças e os trechos que escrevi no início dos anos 70, com vistas à concreto da pesquisa, a ruptura com a visão estruturalista que foi preciso
publicação em inglês (devida à iniciativa amiga de Julian Pitt-Rivers) de realizar, principalmente nos procedimentos de interrogação e de obser-
uma versão revista e aumentada do artigo de Études Rurales: como deter- vação e na linguagem usada, para estar em condições de produzir uma
minar, na confusão desse canteiro de obras abandonado, o que ainda é válido teoria adequada da prática e de compreender as "escolhas" matrimoniais
depois de tantos trabalhos importantes e, em primeiro lugar, esses que estão dos agentes como o produto das estratégias razoáveis, mas não desejadas,
2
aqui reunidos? Como, sem refazer de ponta a ponta o artigo inicial- e essa de um habitus objetivamente ajustado às estruturas. O progresso teórico
era a minha intenção-, transmitir os princípios fundamentais das cotTeções e metodológico é ele próprio inseparável de uma conversão da relação
e das adições que gostaria de fazer? subjetiva do pesquisador com seu objeto, cedendo a exterioridade um
tanto altiva do observador objetivista lugar à proximidade (teórica e
prática) que a reapropriação teórica da relação indígena com a prática
Adendo e errata . favorece. Não é por acaso que a introdução de um ppnto de vista que

Não retornarei à primeira parte, em que me esforçava por descre- 2. Os descobiimentos científicos têm, não raro, o piivilégio ambíguo na antropologia de se tomarem
evidentes assim que são aprendidos e, a menos que se evoque a expeiiência, afinal puramente
ver a lógica das trocas matrimoniais nas sociedades de antigamente. O subjetiva, do trabalho que eles custaram, não se pode achar uma melhor atestação, pelo menos para
fins pedagógicos, do caminho percomdo do que os estados sucessivos do trabalho que foi necessário
artigo intitulado "As estratégias matrimoniais no sistema das estratégias para obtê-los ou as correções e as adições aparentemente mínimas que, melhor do que as autocríticas
de reprodução" (Annales 4-5, julho-outubro de 1972, pp. 1.105-1.127) sonoras, mostram a lenta camínhada da conversão intelectual. Podem'os, assim, dar uma idéia do
movimento da pesquisa, evocando o estado históiico da problemática em relação à qual ela se instituiu
foi concebido para ocupar o lugar da velha descrição da lógica das trocas (cf. P. Bourdieu. "De la regle aux stratégies". In: Clwses dites. Paiis: Minuit, 1987). É notável que,
numa retificação acerca de um artigo que descrevia o surgimento e a difusão recente do conceito de
matrimoniais tal como se apresentava antes da crise cuja manifestação estratégia, limitando-se, as usual, à produção anglo-saxônica (G. Crow. "The use of the concept of
mais visível é o celibato dos herdeiros: embora ela tenha sido pensada 'strategy' in recent sociologicalliterature", Sociology 23 (I) (fevereiro de 1989), pp. l-24), David H.
Morgan, que trabalha nessa área, lembra que os primeiros usos desse conceito e o novo "paradigma"
contra a maneira, então dominante, de conceber as relações entre as que eles introduzem na antropologia e na sociologia apareceram na esfera da sociologia e da históiia
da famflia e da casa de família (cf. D.HJ. Morgan. "Strategies and sociologists: A comment on Crow",
estruturas de parentesco e as estruturas econômicas, essa análise deixava,
Sociology 23 (l) (fevereiro de 1989), pp. 25-29).

94 95
mais velhos do que entre os mais jovens (61% contra 42%), os efeitos
coloca os agentes e suas estratégias numa posição central, no lugar das do direito do irmão mais velho já não são perceptíveis entre os pequenos
estruturas hipostasiadas pela visão estruturalista, impôs-se em relação a proprietários. Entre as moças, não observamos nenhuma relação signi-
sociedades que, como as comunidades camponesas da área européia, na ficativa entre a emigração e o tamanho da propriedade ou a condição de
verdade durante muito tempo excluídas da grande tradição antropológi- nascimento, já que as moças de boa família deixam a terra numa
ca, estão próximas o bastante para tornarem possível, uma vez superada proporção levemente mais alta do que as outras. Quanto às chances de
a distância social, uma relação de proximidade teórica com a prática que casamento, elas são, nitidamente maiores entre os que partem do que
se opõe tanto à participação fusional na experiência vivida dos agentes, entre os que ficam,3 e, entre estes últimos, mais altas entre os habitantes
buscada por certa mística populista, quanto à objetivação distante que da vila do que entre os habitantes dos lugarejos. 4 Mas o fato mais
certa tradição antropológica, fazendo de necessidade virtude, constitui importante, e que impressiona os interessados como um escândalo, é que,
como partido metodológico. entre os que ficam, as probabilidades de casamento praticamente não
Quanto à análise estatística das probabilidades diferenciais de variam, nos lugarejos, em função do tamanho da propriedade ou da
casamento ou de celibato, tivemos, por um maior rigor, de refazer os posição de nascença, podendo alguns "grandes irmãos mais velhos" ou,
cálculos, tomando como população-mãe não mais (como no artigo de em todo caso, herdeiros de patrimônios consideráveis ver-se condenados
1962) o conjunto das pessoas que residem em Lesquire no momento da ao celibato. 5
enquete, mas sim o conjunto das coortes concernidas (cf. o quadro Na verdade, a emigração e o celibato estão estreitamente ligados
anexo). Com isso, obtivemos o meio de estabelecer as taxas diferenciais entre si (sobretudo porque a probabilidade de ~ermanecer celibatário é
de emigração segundo diferentes variáveis (sexo, ano de nascimento, consideravelmente fortalecida pelo fato de se ficar, principalmente nos
categoria socioprofissional do pai, posição na família e localização -na
vila ou no lugarejo - do domicílio) ao mesmo tempo que as probabilidades
de casamento dos migrantes e dos remanescentes, segundo essas mesmas 3. Não ocoiTe o mesmo entre as moças- aquelas que ficaram na região apresentam uma taxa de celibato
levemente inferior (18% globalmente, ou seja, 22% na vila e 17,5% nos lugarejos) à das que foram
variáveis. Na verdade, essas estatísticas, muito difíceis e demoradas de embora (24%), o que é compreensível, pois enfrentam um mercado menos difícil.
4. De uma série de quadros estatísticos estabelecidos com base nas listas nominativas para os anos de
estabelecer (já que as informações sobre os emigrados devem ser reco- 1954, 1962 e 1968, para as diversas comunas do cantão de Lesquire, fica claro que em toda parte se
lhidas oralmente com uma série de informadores), confirmam, tornando-as observam as regularidades já observadas em Lesquire, atingindo a intensidade do celibato masculino
índices muito altos, análogos aos dos lugarejos de Lesquire, lias pequenas comunas remotas e isoladas,
mais precisas, as conclusões já alcançadas: podemos, de fato, aventar (com e muito parecidas com os lugarejos, por seu afastamento de qualquer centro urbano, seu hábitat
a prudência imposta pela exigüidade dos efetivos) que as probabilidades de ' disperso e sua estrutura socioprofissional, ao passo que ela diminui na comuna que se acha muito
próxima de uma cidade operária, Oloron, e comporta uma fração relativamente considerável de
partida são muito maiores entre as mulheres do que entre os homens, operários.
5. A noção de irmão mais velho ou de herdeiro deve ser tomada no sentido social, e não no sentido
sobretudo nos lugarejos, onde o excedente de homens chega a proporções biológico. Na situação tradicional, a arbitrariedade da definição social podia achar-se mascarada:
impressionantes; que, entre os homens, as chances de permanecer na quase inevitavelmente, era o irmão mais velho biológico que era tratado e agia como irmão mais
velho social, ou seja, como herdeiro. Hoje, com a partida do mais velho, um irmão mais moço pelo
terra aumentam conforme o tamanho do patrimônio; e que se, no con- nascimento pode ver-se investido do estatuto de herdeiro. O herdeiro já não é apenas aquele que fica
porque é o mais ve1he, mas também aquele que é o irmão mais velho porque ficou.
junto, a probabilidade de emigrar é nitidamente menor entre os irmãos

97
96
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ei~~ IDT-ECA CEMTP.f ~

QUADRO 1
lugarejos) e estreitamente ligados ao mesmo sistema de fatores (o sexo,
A parte dos que ficam e, entre eles, dos celibatários, segundo o domicílio, o sexo
a categoria socioprofissional de origem e, no caso dos agricultores, o e o tamanho da propriedade entre as pessoas nascidas em Lesquire antes de 1935. 6
tamanho da propriedade, a condição de nascimento e, por fim, o domi-
cílio, na vila ou nos lugarejos). O que a estatística das relações entre esse Vila Lugarejo
Remanescentes Remanescentes Remanescentes R emanespen tes
sistema de fatores mais ou menos estreitamente ligados · entre si e as celibatários celibatários
chances de emigrar e de aceder (mais ou menos jovem) ao casamento Pequenos H 25 ,8 * 43 57
proprietários F
apreende é o efeito das transformações globais do espaço social e, mais (+domésticos)
50 * 33,5 15,2

precisamente, da unificação do mercado dos bens simbólicos, tal como Médios H 75 * 70,5 61,5
F
ele se exerceu diferencialmente nos diferentes agentes conforme seu 100 * 50 22
Grandes H 100 * 82 55,5
apego objetivo (máximo entre os filhos mais velhos das grandes famílias) F 40 * 43 33,5
e subjetivo (ou seja, inscrito nos habitus e nas héxis corporais) ao modo Outras H 14
profissões F
58,5 33,5 *
de existência camponês de antigamente. Em ambos os casos, medimos 23,5 50 36,5 *
Conjunto H 54 15,5 49,5 56,5
a resultante tangível da força de atração exercida pelo campo social F 33,5 22 37 17,5
agora unificado ao redor das realidades urbanas dominantes, com a
*Números nulos ou pequenos demais (e dados a título indicativo).
abertura dos grupos isolados, e da força de inércia que os diferentes
agentes lhe contrapõem em razão das categorias de percepção, de apre-
ciação e de ação constitutivas de seu habitus. A unificação do campo "Do mundo fechado ao universô infinito"
social, de que a unificação do mercado dos bens simbólicos, portanto do
mercado matrimonial, é um aspecto, dá-se ao mesmo tempo na objetivi- Ao retomar o título do famoso livro de Alexandre Koyré, gosta-
dade - sob o efeito de um conjunto de fatores tão diferentes quanto a ríamos apenas de evocar o conjunto dos processos que, na ordem
amplificação dos deslocamentos, favorecida pela melhora dos meios de econômica, mas também e sobretudo simbólica, acompanharam a aber-
transporte, a generalização do acesso a uma forma de ensino secundário tura objetiva e subjetiva do mundo camponês (e, de um modo mais geral,
etc. -e nas representações. Estaríamos propensos a dizer que ela só se rural), neutralizando progr~ssivamente a eficácia dos fatores que ten-
dá na objetividade - acarretando fenômenos de eliminação diferencial, diam a garantir a autonomia relativa desse mundo e a tornar possível uma
cujo exemplo mais significativo é o celibato dos herdeiros - , porque se . forma particular de resistência aos valores centrais: ou seja, para citar
dá na subjetividade dos agentes e pela subjetividade dos agentes, que apenas os mais importantes, a pouca dependência em relação ao merca-
do, principalmente em matéria de consumo, graças ao privilégio
concedem um reconhecimento ao mesmo tempo extorquido e aceito a
processos orientados para sua própria submissão.
6 . Ao adotarmos (em 1970) o ano de 1935 como limite superior das coo1tes retidas, situávamo-nos
acima da idade média de casamento dos homens (29 anos) e das mulheres (24 anos) e peito do limite
superior da "casabilidade" (só se conhecem quatro ou cinco casos de casamento depois dos 35 anos).

98 99
I JM~RSIGA6E FEDfC~A ~·'
f:!r~r it;Tt:':::[\CCUT, ,oL

concedido à ascese do autoconsumo (de que a homogamia é um aspecto) A unificação do mercado dos bens econômicos e simbólicos tem
e o isolamento geográfico, reforçado pela precariedade dos meios de como efeito primeiro fazer d~arecerem as condiçõ s e istênc· e
transporte (caminhos e veículos), que tendia a reduzir a área de desloca- valores camponeses capazes de se colocar ante os valores dominantes
mentos e a favorecer o fechamento num mundo social de base local, como antagonistas, pelo menos subjetivamente, e não apenas como
impondo ao mesmo tempo a interdependência e o interconhecimento outros (para evocar a velha oposição platônica entre o enantion e o
para além das diferenças econômicas ou culturais. Esse fechamento heteron, que bastaria para esclarecer muitas discussões confusas sobre a
objetivo e subjetivo tornava possível uma forma de particularismo "cultura popular"). A dependência limitada e mascarada vai progressi-
cultural; baseada na resistência, mais ou menos garantida, às normas da vamente cedendo lugar a uma dependência profunda e percebida, e até
cidade, sobretudo em matéria de língua, e uma espécie de localocentris- reconhecida. Muitas vezes, foram descritas a lógica e os efeitos do
mo em matéria de religião e de política: por exemplo, as escolhas fqrtalecimento da dominação da economia de mercado sobre a pequena
políticas comuns eram, em grande parte, feitas com referência ao con- agricultura (na qual se situam os "maiores" camponeses de Lesquire).
texto imediato, ou seja, em virtude da posição ocupada na hierarquia No que se refere à produção, a exploração agrícola depende cada vez
dentro do microcosmo fechado que tendia a servir de barreira ao mais do mercado de bens industriais (máquinas, adubos etc.) e só pode
macrocosmo social e à posição relativa que o microcosmo, globalmenté, arcar com os i~vestimentos necessários para modernizar o equipamento
nele ocupava (assim, a partir de um certo nível da hierarquia local, era produtivo e melhorar o rendimento recorrendo a empréstimos capazes
obrigatório, por assim dizer, ser praticante e conservador e, para um de comprometer o equilíbrio financeiro da empresa agrícola e de prendê-la
"grande" camponês, freqüentar regularmente a igreja e levar ao padre o a um tipo determinado de produtos e de mercados. No que se refere à
vinho da missa era uma questão de pourtalé, de portal, de condição comercialização, ela também depende cada vez mais estreitamente do
social). Ou seja, a posição ocupada no espaço social por esse microcosmo mercado de produtos agrícolas e, mais precisamente, da indústria alimen-
dotado de suas hierarquias sociais próprias, de seus dominantes e de seus tar (nesse caso particular, daquela que faz a coleta do leite). Uma vez que
dominados e de seus conflitos de "classes" não tinha nenhum efeito seus gastos de exploração dependem da evolução geral dos preços,
prático sobre a representação que os camponeses tinham de seu mundo sobretudo industriais, sobre os quais não têm nenhum controle, e uma
7
e da posição que nele ocupavam. vez que, principalmente, suas rendas dependem cada vez mais de preços
garantidos (como o do leite ou do tabaco), os acasos da conjuntura dos
7. As categorias de direita e esquerda, próprias do campo político central, não detêm, de modo algum, preços tendem a ocupar, na realidade e em sua visão do mundo, o lugar
o mesmo sentido no macrocosmo e no microcosmo local (se é que têm algum sentido nesse contexto).
É à alodoxia estrutural decorrente da autonomia relativa, pelo menos subjetiva, das unidades de base
que cabia antigamente aos acasos da natureza: pela intervenção econô-
local, e não à dispersão espacial, como sugere Marx, com a metáfora do saco de batatas, que pode mica dos poderes públicos -e em particular a indexação dos preços -, o
ser imputada a singularidade constante das tomadas de posição políticas dos camponeses e, de um
modo mais geral, da gente do campo. Para explicar completamente essa alodoxia, cujos efeitos estão
que fez sua aparição no mundo quase natural da economia camponesa
longe de ter desaparecido, é preciso levar em consideração um conjunto de traços característicos da foi uma ação política capaz de suscitar reações políticas. 8 O que tem
condição camponesa e mral, que aqui só podemos mencionar: o fato de que as exigências inerentes
à produção se apresentem na forma de relações naturais em vez de relações sociais (os horários e os
ritmos da produção parecem determinados exclusivamente pelos ritmos da natureza e mundos de po11as fechadas, onde cada qual se sente constantemente sob o olhar dos outros e
independentemente de toda vontade humana, parecendo que o sucesso do empreendimento depende condenado a coexistir com eles por toda a vida (é o argumento "é preciso ir vivendo!", invocado para
das condições climáticas mais do que das estmturas da prop1iedade ou do mercado etc.); o fato de justificar a submissão prudente aos vereditos coletivos e a resignação ao conformismo) etc.
que a dependência universal em relação ao juízo dos outros assume uma forma muito particular nesses 8. Embora ela sempre· se disfru·ce, mesmo aos olhos daqueles que são responsáveis por ela, sob

100 101
como efeito inclinar a uma visão mais politizada do mundo social, mas A crescente subordinação da economia camponesa à lógica do
cuja coloração antiestatal ainda deve muito à ilusão de autonomia que é mercado não teria bastado, por si só, para determinar as transformações
o fundamento da auto-exploração. A representação dividida, ou até profundas de que o mundo rural foi lugar, a começar pela emigração
contraditória, que esses pequenos proprietários convertidos em quase- maciça, se esse processo não tivesse estado ligado, por uma relação de
assalariados têm de sua condição, e que se exprime muitas vez.es em causalidade circular, a uma unificação do mercado de bens simbólicos
tomadas de posição políticas ao mesmo tempo revoltadas e conservado- capaz de determinar o declínio da autonomia ética dos camponeses e,
ras, tem seu fundamento nas ambigüidades objetivas de uma condição com isso, o enfraquecimento de sua capacidade de resistência e de recusa.
profundamente contraditória. Tendo permanecido, pelo menos na apa- Admite-se que, de maneira muito geral, a emigração para fora do setor
rência, senhores da organização de sua atividade (ao contrário do agrícola é função da relação entre os salários na agricultura e nos setores
operário que leva ao mercado sua força de trabalho, eles vendem produ- não-agrícolas e da oferta de emprego nesses setores (medida pela taxa de
tos), proprietários de meios de produção (edifícios e equipamentos) que não-emprego industrial). Poder-se-ia, assim, propor um modelo mecânico
podem representar um capital investido muito considerável (mas, na simples dos fluxos migratórios, colocando por um lado que existe um campo
verdade, impossível de converter em dinheiro líqüido), eles muitas vezes de atração com as diferenças de potencial tanto maiores quanto maior for
só tiram de um trabalho duro, exigente e pouco recompensador simboli- o desvio das situações econômicas (nível de renda, taxa de emprego) e, por
camente, embora cada vez mais qualificado, rendimentos inferiores aos outro lado, que os agentes contrapõem às forças do campo uma inércia ou
de um trabalhador qualificado. Por um efeito não proposital da política uma resistência que varia conforme diferentes fatores.
tecnocrática, sobretudo em matéria de auxílios e de crédito, eles foram Mas só podemos nos satisfazer com esse modelo se nos esquecer-
levados a contribuir, com investimentos de todo tipo, para a instauração mos das condições prévias de seu funcionamento, que nada têm de
de uma produção na verdade tão fortemente socializada quanto a das mecânico: assim, por exemplo, o efeito da distancia entre as rendas na
chamadas economias socialistas, principalmente pelos vínculos que agricultura e fora da agricultura só se pode realizar na medida em que a
pesàm sobre os preços e sobre o próprio processo de produção, ao mesmo comparação, como ato consciente ou inconsciente de relacionamento,
tempo em que conservavam a propriedade nominal e também a respon- torna-se possível e socialmente aceitável e em que ela pende para o modo
sabilidade pelo aparelho de produção, com todas as incitações à de vida da cidade, de que o salário é apenas uma dimensão entre outras;
auto-exploração que daí decorrem. ou seja, na medida em que o mundo fechado e finito se abre e vêm a cair
progressivamente as barreiras subjetivas que tornavam impensável toda
justificações técnicas, a política de preços depende fundamentalmente do peso do campesinato na espécie de aproximação entre os dois universos. Em outras palavras, as
relação das forças políticas e do interesse que representa para os dominantes a manutenção da vantagens associadas à existência urbana só existem e agem se se
existência de uma agricultura pré-capitalista cara, mas politicamente segura, logo rentável num outro
sentido (e necessária, como se descobtiu nos anos 80, para conservar os encantos estéticos do campo). tornarem vantagens percebidas e apreciadas, se, por conseguinte, forem
Será que a vontade tecnocrática de intensificar o êxodo rural para reduzir os desperdícios e para lançar apreendidas em razão de categorias de percepção e de apreciação que
po mercado de emprego industrial os trabalhadores e os capitais atualmente "desviados" na pequena
agricultura se afirmaria tão brutalmente se a pequena burguesia da cidade, ávida de ascensão e façam com que, deixando de passar despercebidas, de ser ignoradas
preocupada com a respeitabilidade, não tivesse substituído, no sistema de alianças políticas, um (passiva ou ativamente), elas se tornem perceptíveis e apreciáveis,
campesinato que se vê assim relegado a formas de manifestação ao mesmo tempo violentas e
localizadas (em razão especialmente de seu isolamento em relação às outras forças sociais) em que visíveis e desejáveis. E, de fato, a atração do modo de vida urbano só
se exprimem todas as suas contradições?

102 103
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P!r<r g;-:-rc !J. c::.:1 :;'P.Al

pode se exercer sobre mentes convertidas a suas seduções: é a conversão urbano. Menos apegadas do que os homens (e os próprios filhos mais
coletiva da visão do mundo que confere ao campo social arrastado a um moços) à condição camponesa e menos empenhadas no trabalho e nas
processo objetivo de unificação um poder simbólico fundado no reco- responsabilidades de poder, logo menos presas pela preocupação com o
nhecimento unanimemente concedido aos valores dominantes. patrimônio a "manter", mais dispostas em relação à educação e às
A revolução simbólica é o produto acumulado de inúmeras con- promessas de mobilidade que ela contém, elas importam para o coração
versões individuais, que, de um determinado limiar, arrastam-se do mundo camponês o olhar citadino, que desvaloriza e desqualifica as
reciprocamente, numa corrida cada vez mais precipitada. A banalização "qualidades camponesas".
criada pelo hábito leva, com efeito, a esquecer o extraordinário trabalho Assim, a reestruturação da percepção do mundo social, que está
psicológico que, especialmente na fase inicial do processo, cada partida no coração da conversão individual e coletiva, é o mesmo que o fim da
para longe da terra e da casa supõe; e seria preciso evocar o esforço de autarquia psicológica, mantida coletivamente, que fazia do mundo fe-
preparação, as ocasiões capazes de favorecer ou desencadear a decisão, chado da existência familiar uma referência absoluta. Referência tão
as etapas de um afastamento psíquico sempre difícil de realizar (com um totalmente indiscutida que o afastamento seletivo daqueles que, filhos
emprego de carteiro ou de motorista de meio período, por exemplo, ou filhas mais jovens pobres, deviam abandonar a terra, para e pelo
fornecendo o trampolim para a ida para a cidade) e às vezes nunca trabalho ou casamento, era ainda uma homenagem prestada aos valores
9
acabado (como demonstram os esforços, que duram toda uma vida, dos centrais e reconhecida como tal. A conversão coletiva que leva a partidas
emigrados forçados para "se aproximarem" do país). cada vez mais numerosas e que acabará afetando os próprios sobrevi ven-
Cada um dos agentes concernidos passa simultaneamente ou tes é inseparável do que devemos chamar de uma revolução copernicana:
sucessivamente por fases de certeza de si, de ansiedade mais ou menos o lugar central, imutável, sede de uma hierarquia também ela imutável e
agressiva e de crise de auto-estima (que se exprime na lamentação ritual única, não é mais do que um ponto qualquer num espaço mais vasto, pior
do fim dos camponeses e da "terra": "a terra está fodida"). A propensão ainda, um ponto baixo, inferior, dominado. A comuna, com suas hierarquias
a percorrer mais ou menos depressa a trajetória psicológica que leva à (por exemplo, a oposição entre os "grandes" e os "pequenos" camponeses),
inversão da tábua dos valores camponeses depende da posição ocupada vê-se ressituada num espaço social mais amplo, no interior do qual os
na antiga hierarquia, por meio dos interesses e das disposições associadas camponeses todos ocupam uma posição dominada. E aqueles mesmos que
a essa posição. Os agentes que opõem a menor resistência às forças de mantinham as posições mais elevadas nesse mundo bruscamente despreza-
atração externas, que percebem antes e melhor do que os outros as do acabarão, por não terem realizado a tempo as conversões e reconversões
vantagens ligadas à emigração são os menos apegados objetiva e subje- necessárias, arcando com todas as despesas da revolução simbólica, que
tivamente à terra e à casa, porque mulheres, filhos mais moços ou pobres.
É ainda a ordem antiga que define a ordem pela qual nos afastamos dela.
9. A ruína simbólica dos valores camponeses é hoje tão completa que é preciso lembrar alguns exemplos
As mulheres que, como objetos simbólicos de troca, circulavam de baixo típicos de sua afirmação triunfante. Por exemplo, esta denúncia do rebaixamento de condição
para cima e se viam por isso espontaneamente inclinadas a se mostrar pronunciada pouco antes da Segunda Guerra Mundial pela mulher de um "grande herdeiro" de
Denguin a respeito de um outro "grande herdeiro": "X vai casar sua filha com um operário!" (na
solícitas e dóceis em relação às injunções ou às seduções citadinas são, realidade, um pequeno proprietário de Saint-Faust que trabalhava como funcionário na Maison du
juntamente com os filhos mais moços, o cavalo de Tróia do mundo Paysan). Ou este outro brado do coração a respeito de uma grande família de Arbus, cuja filha única
fora casada com um-funcionário: "Dap u emplegat!" (Com um empregado!).

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I
atinge a ordem antiga num ponto estratégico, o mercado matrimonial; panha a passagem do mercado local para a economia de mercado. 11
pelo fato de a exploração ag:tícola estar situada num ambiente econômico Segundo a frase de Engels, os agentes "perderam o controle de suas
e num mercado de trabalho que a condena a só usar de mão-de-obra próprias inter-relações sociais"; as leis da concorrência impõem-se a eles
doméstica, esse mercado comanda na verdade, muito diretamente, a "apesar da anarquia, na anarquia e pela anarquia". 12 Os grandes herdeiros
reprodução da mão-de-obra agrícola e, com isso, da empresa camponesa. condenados ao celibato são as vítimas da concorrência que passou a
dominar um mercado matrimonial até então protegido pelos vínculos e
pelos controles, não raro mal tolerados, da tradição. Ao determinar uma
A unificação do mercado matrimonial
desvalorização brutal de todos os produtos do modo camponês de pro-
dução e de reprodução, de tudo o que as famílias camponesas têm para
Como mercado totalmente particular, em que são as pessoas, com
oferecer, quer seja a terra e a vida no campo, quer seja o próprio ser do
todas as suas propriedades sociais, que recebem concretamente um
camponês, sua linguagem, sua roupa, suas maneiras, sua postura e até
preço, o mercado matrimonial constitui para os camponeses uma ocasião
seu "físico", a unificação do mercado neutraliza os mecanismos sociais
particularmente dramática de descobrir a transformação da tábua de
que lhe garantiam, nos limites de um mercado restrito, um monopólio de
valores e o esboroamento do preço social que lhes é atribuído. É o que
fato , capaz de lhe fornecer todas as mulheres necessárias à reprodução
revela, de maneira particularmente dramática, o bailinho de Natal, ponto de
social do grupo, e somente estas.
partida de toda a pesquisa, que aparece, ao final de um longo trabalho de
construção teórica, estendido durante a realização a objetos empíricos Em matéria de casamento, como em toda outra espécie de troca,
fenomenalmente completamente diferentes, como a realização paradigmá- a existência de um mercado não implica de modo nenhum que as
tica de todo o processo que leva à crise da ordem camponesa do passado. 10 transações só obedeçam às leis mecânicas da concorrência. Muitos
mecanismos institucionais tendem de fato a ga"rantir ao grupo o controle
O baile é, de fato, a forma visível da nova lógica do mercado
das trocas e a protegê-lo dos efeitos da "anarquia" lembrada por Engels
matrimonial. Ponto de chegada de um processo no qual os mecanismos
e que temos o costume de esquecer em razão da simpatia espontanea-
autônomos e auto-regulados de um mercado matrimonial cujos limites
se estendem muito além do mundo camponês tendem a substituir as
trocas regulamentadas do mercadinho local, subordinado às normas e 11. Os informadores contrapõem explicitamente os dois modos de instauração das relações que levam
aos interesses do grupo, ele faz ver, concretamente, o efeito mais espe- ao casamento: a negociação entre as famílias, muitas vezes com base em laços anteriores, e o contato
direto, cuja ocasião é quase sempre o baile. A liberdade proporcionada pela interação direta entre os
cífico - e mais dramático - da unificação do mercado das trocas interessados, assim libertos das pressões familiares e de todas as considerações econômicas ou éticas
(por exemplo, "reputação" da mocinha), tem como preço a submissão às leis do mercado dos
simbólicas e a transformação que, nesse campo como em outros, acom- indivíduos entregues a si mesmos.
12. A distinção feita por K. Polanyi entre "os mercados isolados" (isolated markets) e "a
economia de mercado" (market economy), ou seja, mais precisamente, entre os " mercados
10. Seria preciso, a respeito desse exemplo, tentar esclarecer o que costumamos chamar de intuição. A regu lamentados" (regulated markets) e o "mercado auto-regulamentado" (self-regulating
cena concreta na qual se designa o problema é um autêntico paradigma comportamental, que market) (c f. K. Po lanyi. The great transformation, the political and economic origins of our
condensa, em uma forma sensível, toda a lógica de um processo complexo. E não é indiferente que time. Boston: Beacon Press, 1974, pp. 56-76. 7~ reedição. 1967), traz uma precisão
o caráter altamente significativo da cena só se entregue primeiramente a uma percepção interessada, importante à análise marxista da "anarquia" da "produção sociali zada" (socialized
ou até profundamenteenviesada (biaisée), como dizem os tratados de "metodologia", porque repletas production) em que "o produto governa os produtores" (lhe product govems the producers):
de todas as ressonâncias afetivas e de todas as colorações emocionais que implica a participação a ex istência de um mercado não basta para fazer a economia de mercado enquanto o grupo
simpática na situação e no ponto de vista doloroso das vítimas. conserva o controle·ctos mecanismos da troca.

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mente concedida ao modelo "liberal", que, como na comédia clássica, restrição do tamanho do mercado matrimonial, medido em distância
livra os amantes dos imperativos da Razão de Estado doméstica. Assim geográfica e, sobretudo, em distância social. Se tanto nesse campo
é que, no antigo regime matrimonial, pelo fato de a iniciativa do casa- quanto em outros o mundo camponês nunca conheceu a autonomia e a
mento não caber aos interessados, mas sim às famílias, os valores e os autarquia totais que os antropólogos muitas vezes lhe atribuem, mesmo
interesses da "casa" e de seu patrimônio tinham mais chances de triunfar tomando-se como objeto a aldeia, ele foi capaz de conservar o controle
contra as fantasias ou os acasos do sentimento. 13 E ainda mais porque de sua reprodução, garantindo a quase totalidade de suas trocas matri-
toda a educação familiar predispunha os jovens a se submeter às ordens moniais no interior de um "mercado pertinente" extremamente reduzido
dos pais e a apreender os pretendentes segundo categorias de percepção e socialmente homogêneo: a homogeneidade das condições materiais de
propriamente camponesas: o "bom camponês" que se reconhece pela existência e, por conseguinte, dos habitus é, de fato, a melhor garantia
condição de sua casa, ligado inseparavelmente ao tamanho de sua da perpetuação dos valores fundamentais do grupo.
propriedade e à dignidade de sua família, e também a qualidades pessoais Esse mundo fechado, onde as pessoas se sentiam entre elas e em
como a autoridade, a competência e o ardor no trabalho, ao passo que a casa, foi aos poucos se abrindo. Nos lugarejos da área principal dos
boa esposa era antes de tudo a "boa camponesa", resistente ao sofrimento casamentos, como nos lugarejos de Lesquire, as mulheres olham cada
e preparada para aceitar a condição que lhe era oferecida. Jamais tendo vez mais para a cidade em vez de para seu lugarejo ou para os lugarejos
conhecido "outra coisa", as moças dos lugarejos vizinhos e de toda a vizinhos. Mais dispostas do que os homens a adotar os modelos e os
zona das colinas estavam mais dispostas a se acomodar com a existência ideais urbanos, elas se recusam a se casar com um camponês que lhes
que lhes era prometida pelo casamento; nascidas e criadas numa área prometa aquilo mesmo de que querem fugir (entre outras coisas, a
relativamente fechada às influências externas, tinham menos oportuni- autoridade dos sogros, que "não querem se omitir" e principalmente a
dades também de julgar seus parceiros eventuais segundo critérios tirania tradicional da velha daune, que pretende conservar o controle da
heterodoxos. Assim, antes de 1914, o mercado matrimonial dos campo- casa, especialmente quando o pai carece de autoridade porque fez um
neses dos lugarejos de Lesquire estendia-se à região compreendida entre casamento de baixo para cima). Enfim e sobretudo, elas têm mais
os Gaves de Pau e de Oloron, conjunto econômica e socialmente muito chances de encontrar um partido fora do mundo camponês, em primeiro
homogêneo de comunas compostas, como Lesquire, de uma pequena vila lugar porque, segundo a própria lógica do sistema, são elas que circulam,
ainda fortemente camponesa e de fazendas dispersas pelas colinas e pelas e de baixo para cima. Segue-se daí que as trocas matrimoniais entre os
14
montanhas baixas. O controle do grupo sobre as trocas afirmava-se na lugarejos camponeses e as vilas ou as cidades só podem ser de sentido
único. Como o prova a presença nos bailinhos do campo de jovens da
13. A mais típica instituição do antigo regime matrimonial era evidentemente o casamenteiro (chamado cidade, cujo bem-estar e cuja postura lhes dão uma vantagem inestimável
de trachur ou ta/ame) quase institucionalizado ou espontâneo. Num universo em que a separaç.ão
entre os sexos, sempre muito marcada, provavelmente só fez crescer em razão do afrouxamento dos sobre os camponeses, o mercado matrimonial outrora controlado e quase
laços sociais tradicionais, sobretudo nos lugarejos, e do espaçamento das ocasiões tradicionais de reservado está agora abetto à concorrência mais brutal e mais desigual. O
encontro - como todos os trabalhos coletivos - , o laissez-.faire do novo regime matrimonial só pode
reforçar a vantagem dos citadinos. citadino pode escolher entre diferentes mercados matrimoniais hierarqui-
14. Os diferentes bairros de Lesquire tinham, no interior da área comum, setores próprios, definidos pela zados (cidades, vilas, lugarejos), ao passo que os camponeses dos lugarejos
fr~qüen~ação privilegia~ dos mesmos mercados e das mesmas festas ou, mais precisamente, pela
ullhzaçao dos mesmos ombus (que transportavam a população dos diversos bairros em direções ficam restritos a sua área, sofrendo a concorrência, até mesmo no interior
diferentes e davam oportunidade a contatos entre os usuários).

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\

I
dela, de rivais mais ricos, pelo menos simbolicamente. Longe de a a dureza dos tempos impõe aos mais carentes. É o caso desses herdeiros
extensão recente da área matrimonial dos camponeses dos lugarejos de boa família que se fecham no celibato depois de várias tentativas
assinalar o acesso a um grau de liberdade superior e conduzir, com o inúteis com moças de sua mesma condição, ou dos que, paparicados e
aumento do espaço dos casamentos possíveis, a um aumento das possi- cortejados, deixam passar seu momento, a virada dos anos 1950 em que
bilidades de casamento, ela exprime simplesmente a necessidade em que o casamento ainda é coisa fácil para os "grandes" camponeses ("Muitas
se encontram os mais desfavorecidos de estender a área geográfica de moças que ele desprezou hoje dariam conta do recado", dizem de um
prospecção, mas nos limites da homogeneidade social (ou melhor, para deles). Quer porque apliquem à situação nova princípios antigos, que os
manter essa homogeneidade) e de dirigir suas expectativas, ao contrário levam a agir desajeitadamente. Como aquelas mães que tratam de
de suas irmãs, para os lugarejos mais remotos do País Basco ou da procurar um partido para a filha quando seria preciso pensar no menino,
Gasconha. 15 ou daquelas, ainda mais numerosas, que rejeitam como maus casamentos
que deveriam aceitar como milagres. As respostas do habitus que,
Como costuma acontecer quando uma ordem social balança,
quando está em conexão com o mundo, são muitas vezes tão milagrosa-
sobretudo de maneira imperceptível, os antigos dominantes cont1ibuem
mente ajustadas que podem fazer crer que houve um cálculo racional,
para o próprio declínio. Quer porque obedecem ao senso da elevação
podem, pelo contrário, ser contraproducentes quando, perante um mundo
estatutária que lhes proíbe rebaixarem-se e realizarem a tempo as revi-
diferente do que o produziu, o habitus gira, por assim dizer, no vazio,
sões necessárias ou, até mesmo, recorrer às estratégias do desespero que
projetando num mundo em que elas desapareceram a expectativa das
15. Sem pretender propor aqui uma teoria geral das trocas matrimoniais nas sociedades socialmente
estruturas objetivas de que ele é o produto.
diferenciadas, gostruíamos apenas de indicar que a desc1ição dos processos de unificação do mercado Sem dúvida, o afastamento entre o habitus e as estruturas, bem
matrimonial não implica de modo nenhum a adesão ao modelo do mercado matJimonial unificado
que está em ação, em estado implícito, nas teorias comuns da "escolha do cônjuge" e que, postulando como as falhas de comportamento que dele decorrem são a ocasião de
a homogeneidade das funções da homogamia (sem ver que ela pode ter sentidos opostos, conforme
se refira aos ptivilegiados ou aos mais carentes), faz da atração do semelhante sobre o semelhante,
retornos críticos e de conversões. Mas a crise não gera automaticamente
segundo a intuição do senso comum ("quem se parece se reúne"), ou seja, da busca da homogamia, a tomada de consciência; e o tempo necessário para compreender o novo
o princípio universal, mas vazio, da homogamia. Mas nem por isso se trata de sucumbir à ilusão
oposta, que consistiria em tratar os diferentes mercados matrimoniais (por exemplo, o mercado curso das coisas é, sem dúvida, tanto maior quanto mais importantes
"camponês", que continua, bem ou mal, a funcionar) como universos separados, livres de toda forem o apego objetivo e subjetivo ao mundo antigo, os interesses e os
dependência. Assim como só podemos explicar as variações dos salários confom1e as regiões, os
ramos ou as profissões com a condição de abandonrumos a hipótese de um mercado de trabalho único investimentos nos objetivos que ele propõe. É isso que faz com que,
e unificado e de renunciar a agregarmos rutificialmente dados heteróclitos para procurar as leis
estruturais de funcionrunento próptias dos diferentes mercados, só podemos compreender as
tantas vezes, o privilégio se inverta. Na verdade, os diferentes agentes
vruiações que observamos nas chances de casamento das diferentes categorias sociais, ou seja, do percorrem, em velocidades diferentes, conforme os interesses que inves-
preço que recebem os produtos de sua educação, com a condição de percebermos que existem
diferentes mercados hierarquizados e que os preços que as diferentes categorias de "casáveis" podem tiram no velho e no novo sistema, com avanços e recuos, a trajetória que
receber dependem das chances que elas têm de ter acesso aos diferentes mercados e da rruidade, leva do antigo ao novo regime matrimonial, ao custo de uma revisão dos
portanto do valor, delas nesses mercados (que pode ser medida pelo valor mate1ial ou simbólico do
bem matrimonial contra o qual foram trocadas). Os mais favorecidos podem ampliar a área geográfica valores e das representações associadas a um e a outro. E o efeito mais
e a área social dos casamentos (nos limites dos casamentos desiguais), ao passo que os mais
desfavorecidos podem ser condenados a ampliar a área geográfica pru·a compensar a restJição social característico da crise revolucionária, que se exprime em profecias
da área social em que podem encontnrr parceiros. É com essa lógica, a lógica da estratégia do profiláticas, previsões com função de exorcismo - do tipo "a terra está
desespero, que podemos entender as "feiras de celibatários", a primeira das quais foi organizada em
Esparros, em Baroruües, em 1966.

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fodida" -, é essa espécie de duplicação da consciência e da conduta, que
a consciência do camponês. O esboroamento da certitudo sui que os
leva a agir sucessiva ou simultaneamente conforme os princípios contra-
camponeses tinham conseguido defender de todas as agressões simbóli-
ditórios de dois sistemas antagonistas.
cas, como a da escola integradora, duplica os efeitos do questionamento
A estatística estabelece, assim, que os filhos de camponeses, que o provoca: a crise dos "valores camponeses", que encontra na
quando chegam a se casar, fazem-no com filhas de camponeses, ao passo anarquia das trocas do mercado matrimonial a oportunidade de se
que as filhas de camponeses, muitas vezes, unem-se a não-camponeses. exprimir, duplica a crise do valor do camponês, de seus bens, de seus
Essas estratégias matrimoniais manifestam, em seu antagonismo mesmo,
produtos e de todo o seu ser, no mercado dos bens materiais e simbólicos.
que o grupo não quer para suas moças o que quer para seus rapazes ou, A derrota interior, sentida em escala individual, que está no princípio
o que é pior, não quer, no fundo, seus rapazes para suas moças, ainda que
dessas traições isoladas, feitas graças à solidão anônima do mercado,
queira suas moças para seus rapazes. Recorrendo a estratégias estrita-
leva a esse resultado coletivo e não desejado, a fuga das mulheres e o
mente opostas, conforme tenham de dar ou receber mulheres, as famílias celibato dos homens.
camponesas mostram que, sob o efeito da violência simbólica, essa
O mesmo mecanismo está no princípio da conversão da atitude
violência de que se é ao mesmo tempo objeto e sujeito, cada uma delas
dos camponeses em relação ao sistema de ensino, instrumento principal
está dividida contra si mesma: a endogamia atestava a unicidade dos
da dominação simbólica do mundo da cidade. Uma vez que a escola
critérios de avaliação, portanto o acordo do grupo consigo mesmo, ao
aparece como a única capaz de ensinar as competências que o mercado
passo que a dualidade das estratégias matrimoniais revela a dualidade
econômico e o mercado simbólico exigem com uma urgência cada vez
dos critérios que o grupo usa para estimar o valor de um indivíduo, logo
maior, como a manipulação da língua francesa .ou o domínio do cálculo
seu próprio valor como classe de indivíduos. De acordo com uma lógica
econômico, desaparece a resistência até então oposta à escolarização e
análoga à que comanda os processos de inflação (ou, num grau de
aos valores escolares. 16 A submissão aos valores da escola reforça e
intensidade superior, os fenômenos de pânico), cada família ou cada
acelera o renegamento dos valores tradicionais que ela supõe. Com isso,
agente contribui para a depreciação do grupo como um todo, visto que a
a escola preenche a sua função de instrumento de dominação simbólica,
própria lógica se encontra na origem de suas estratégias matrimoniais.
contribuindo na conquista de um novo mercado para os produtos simbó-
Tudo se passa como se o grupo simbolicamente dominado conspirasse
licos citadinos: de fato, no momento mesmo em que ela não consegue
contra si mesmo. Ao agir como se a mão direita ignorasse o que faz a mão
fornecer os meios de apropriação da cultura dominante, ela pode pelo
esquerda, ajuda a instaurar as condições do celibato dos herdeiros e do
êxodo rural, que, por outro lado, deplora como uma calamidade social. Ao
dar suas moças, que costumava casar de baixo para cima, à gente da cidade,
ele manifesta que retoma por conta própria, consciente ou inconscientemen- 16. A baixa progressiva da cotação das línguas vemáculas no mercado das trocas simbólicas é apenas
um caso particular da desvalorização que atinge todos os produtos da educação camponesa: a
te, a representação citadina do valor atual e conente do camponês. Sempre uni fi cação desse mercado foi fatal para todos esses produtos, mane1ras, Objetos, roupas, reJeitados
como velha1ia e vu]oares ou rutificialmente conservados pelos emditos locais, num estado foss1hzado
presente, mas reprimida, a imagem citadina do camponês impõe-se até de folclore. Os can~poneses entram nos museus de artes e tradições populares, ou nessa espécie de
reservas de caipiras empalhados que são os ecomuseus, no momento em que saem da realidade da
ação histórica.

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menos inculcar o reconhecimento da legitimidade dessa cultura e daque- comportar com as mulheres têm pouco valor: o camponês toma-se
les que detêm os meios de apropriar-se dela. "camponês", no sentido que a injúria da cidade dá a esse adjetivo.
Segundo a lógica do racismo, que se observa também entre as classes, o
A correlação que une a taxa de escolarização e as taxas de celibato
camponês é continuamente obrigado a contar em sua prática com a
dos agricultores (agregados na região) não deve ser lida como uma
representação dele mesmo que os citadinos lhe reenviam; e reconhece
relação causal. Isso seria esquecer que os dois termos da relação são o
ainda nos desmentidos que ele lhe opõe a desvalorização que o citadino o
produto do mesmo princípio, ainda que a educação possa ajudar, por seu
lado, a reforçar a eficácia dos mecanismos que produzem o celibato dos faz sofrer.
homens. 17 A unificação dos mercados econômico e simbólico (de que Vemos imediatamente a aceleração que o sistema de ensino pode
um dos aspectos é a generalização do recurso ao sistema de ensino) tende, dar ao processo circular de desvalorização. Em primeiro lugar, não há
dúvida de que ele detém por si mesmo um poder de desvio que pode
como vimos, a transformar o sistema de referência em relação ao qual
bastar para derrotar as estratégias de reforço pelas quais as famílias visam
os camponeses situam sua posição na estrutura social; um dos fatores da
a fazer com que os investimentos das crianças vão para a terra em vez
desmoralização camponesa, que se exprime tanto na escolarização das
de para a escola - quando a própria escola não foi suficiente para
crianças quanto na emigração ou no abandono das línguas locais, reside
desencorajá-los, com suas sanções negativas. Esse efeito de descultura-
no esboroamento das barreiras das relações sociais de base local que ção é exercido menos por meio da própria mensagem pedagógica do que
ajudavam a lhes camuflar a verdade de sua posição no espaço social: o por intermédio da experiência dos estudos e da condição de quase-estu-
camponês apreende a sua condição por comparação com a do pequeno dante. O prolongamento da escolaridade obrigatória e o alongamento da
funcionário ou do operário. A comparação já não é abstrata e imaginária, duração dos estudos colocam os filhos de agricultores na situação de
como antigamente. Ela se dá nos confrontos concretos no próprio interior "colegiais", ou até de "estudantes", separados da sociedade camponesa
18
da família, com os emigrados e, sobretudo, talvez, nas relações de por todo seu estilo de vida e, em particular, por seus ritmos temporais.
concorrência real em que os camponeses se vêem comparados aos Essa nova experiência tende a desrealizar, na prática, os valores trans-
não-camponeses, por ocasião do casamento. Concedendo praticamente mitidos pela família e a dirigir os investimentos afetivos e econômicos
a preferência aos citadinos, as mulheres recordam os critérios dominan- não mais para a reprodução da linhagem, mas para a reprodução, por
tes da hierarquização social. A valiados dessa forma, os produtos da
educação camponesa e, . em particular, as maneiras camponesas de se
18. Quanto mais tempo os filhos de agricultores permanecem no sistema de ensino, maiores são as suas
chances de abandonar o trabalho agrícola. Dentre os filhos de agricultores, aqueles que seguiram o
ensino técnico ou geral, secundário ou superior, são os mais propensos a se afastar da agricultura, por
17. É quase impossível apreender, na escala da região, o sistema dos fatores explicativos que determinam oposição àqueles que só receberam uma formação primária ou um ensino agricola. Além de terem
as estratégias matrimoniais dos agricultores. Dada a heterogeneidade das culturas agricolas no próptio sido preparados explícita ou implicitamente para exercer uma profissão não-agricola ou para viver
seio da região, seria preciso poder levar em conta, ao mesmo tempo, o tamanho da cultura, o ciclo no meio urbano, eles sofrem uma falta de ganho tanto mais considerável ao entrar na agricultura, que
de vida da farm1ia, o número de filhos, sua distribuição por sexo, seu êxito escolar respectivo etc. não são alcançados certos limiares de superfície de exploração e de capital. Enfim, eles são os mais
Assim; um cultivador agricola com um filho de 25 anos e dono de 20 hectares não poderá aposentar-se aptos a ter um bom conhecimento da oferta de empregos não-agricolas e a se deslocar para áreas em
aos 50 anos para deixar a fazenda para o filho, que a teria retomado. Se tivesse uma cultura maior, que as perspectivas de renda são maiores (cf. P. Daucé; G. Jegouzo e Y Lambert. Lajo1mation des
poderia cortá-la provisoriamente em duas; se tivesse uma diferença de idade maior em relação ao enfants d'agriculteur~ et leur orientation hors de l'agriculture. Résultats d 'une enquête exploratoire
filho, poderia deixá-la para ele aos 60 anos. en llle-et-Vilaine. Rennes: INRA, 1971).

114 115
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I
parte do indivíduo singular, da posição ocupada pela linhagem na estru- luz do dia e em divulgar amplamente, até os próprios "interessados", as
tura social. Também aqui, é sobretudo por intermédio da ação que exerce leis da economia de mercado que condenam os pequenos agricultores,
sobre as jovens que a escola atinge os filhos de agricultores destinados os pequenos artesãos e os pequenos comerciantes, contribui, pela dialé-
a reproduzir a família e a propriedade camponesa: a ação de descultura- tica do objetivo e do subjetivo, para a realização dos fenômenos por ela
ção encontra terreno particularmente favorável entre as jovens cujas descritos. A desmoralização nada mais é que uma forma particular de
aspirações tendem sempre a se organizar em razão do casamento e que, realização de uma profecia. O campesinato representa um caso-limite e,
por isso, são mais atentas e mais sensíveis aos modos e às maneiras como tal, particularmente significativo, da relação entre os determinis-
urbanas e ao conjunto dos marcadores sociais que definem o valor dos mos objetivos e a antecipação de seus efeitos. É porque interiorizaram
parceiros potenciais no mercado dos bens simbólicos, logo mais propen- seu futuro objetivo, e a representação que deles têm os dominantes, que
sas a reter do ensino escolar pelo menos os sinais exteriores da civilidade têm o poder de contribuir para fazê-lo por suas decisões, que os campo-
citadina. E é significativo que, como se, mais uma vez, eles se tornassem neses realizam ações que tendem a ameaçar a sua própria reprodução.
cúmplices de seu destino objetivo, os camponeses escolarizam mais e O que está em jogo no conflito sobre as representações do futuro
19
por mais tempo as suas filhas. não é senão a atitude das classes em declínio diante desse declínio: quer
Além de ter como efeito separar os agricultores de seus meios de a desmoralização que leva à debandada, como somatória de fugas
reprodução biológica e social, esses mecanismos tendem a favorecer o individuais, quer a mobilização, que leva à busca coletiva de uma solução
aparecimento, na consciência dos camponeses, de uma imagem catastró- coletiva para a crise. O que pode fazer diferença é fundamentalmente a
fica de seu futuro coletivo. E a profecia tecnocrática que anuncia o posse dos instrumentos simbólicos que permitam ao grupo obter o
desaparecimento dos camponeses só pode reforçar essa representação, controle da crise e organizar-se com vistas a lhe opor uma resposta
conferindo sentido e coerência aos múltiplos indícios parcelares que lhes coletiva em vez de fugir da degradação, real ou.temida, no ressentimento
20
fornece a experiência cotidiana. O efeito de desmoralização exercido por reacionário e na representação da história como complô.
uma representação pessimista do futuro da classe contribui para o declí-
nio da classe que o determina. Segue-se daí que a concorrência 20. De maneira geral, a alienação econômica que leva à violência reacionátia da revolta conservadora é
econômica e política entre as classes se dá também por intermédio da ao mesmo tempo uma alienação lógico-política: os agentes em declínio voltam-se para o racismo ou,
mais geralmente, para a falsa concretização que coloca num gtupo tratado como bode expiatório
manipulação simbólica do futuro: a previsão, essa forma racional da Gucleus, jesuítas, maçons, comunistas etc.) o princípio ele suas clificulclacles atuais e potenciais, porque
profecia, é capaz de favorecer o advento do futuro que profetiza. Não há não dispõem de esquemas de explicação que lhes permitam compreender a situação e se mobilizar
coletivamente para modificá-la em vez de se refugiar no pânico dos subterfúgios indivicluais. No caso
dúvida de que a informação econômica, quando se contenta em levar à particular, é certo que a reivindicação regionalista ou nacionalista constitui uma resposta específica
e sensata à dominação simbólica decorrente da unificação elo mercado: isso contra as diferentes
formas de economicismo que, em nome de uma definição resu·ita da economia e da racionalidade e
na falta de compreender como tal a economia dos bens simbólicos, reduzem as reivindicações
19. Em 1962, 41,1% das fill1as de agticultores com idade de 15 a 19 anos eram escolruizadas, contra apenas propriamente simbólicas, que estão sempre mais ou menos comprometidas nos movimentos
32% dos rapazes (cf. M. Pradetie. "Hétitage social et chances d'ascension". In: Danas. Le panage des lingüísticos, regionaustas ou nacionalistas, ao absurdo da paixão ou do sentimento (c f., por exemplo,
bénéfices. Paris: Minuit, 1966, p. 348). Se os índices de escolruização de moças e rapazes são bastante esta declaração típica de Raymond Cattier na Paris-Match de 21 de agosto de 1971, acerca das
próximos para a faixa de lO a 14 anos e para a faixa dos 20aos 24 ru1os, observamos que as moças de 15 reivindicações dos católicos irlandeses: "Nada mais absurdo, a pattida de um ou de outros significm·á
a 19 anos, sobretudo aquelas cujo pai ditige uma cultura de mais de dez hectares, são muito mais um desastre econômico. Mas não é o interesse, infelizmente, que conduz o mundo, o mundo é
escolruizadas do que os rapazes (cf. "Environnementéconomique des exploitations agricoles françaises", conduzido pela paixão."). Na verdade, o que é absurdo, e que lança três qurutos das condutas humanas
Staristiques agricoles 86 (outubro de 1971 ), pp. 155-166. Suplemento, série Études). no absurdo, é a distinção clássica entre as paixões e os interesses, que faz esquecer a existência de

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"Opiniões sadias do povo" Se, depois de ler estas análises, as pessoas ficarem convencidas
de que a dominação simbólica exercida graças à unificação do mercado
Tendo dito o bastante sobre a suspeita em que se deve ter a matrimonial desempenhou um papel determinante na crise específica da
sociologia espontânea e cada vez mais propenso a recusar todas as formas reprodução da família camponesa, elas devem reconhecer que a atenção
de "tagarelice cotidiana" sobre o cotidiano que têm de novo trânsito hoje, dada à dimensão simbólica das práticas, longe de representar uma fuga
ao final de um ciclo da moda intelectual, sinto-me no direito de lembrar idealista para as esferas etéreas da superestrutura, constitui a condição
que os desesperos ou as indignações dos primeiros interessados muitas sine qua non, e não somente nesse caso, de uma autêntica compreensão
vezes designam problemas que a pesquisa não raro ignora ou evita. É o (que se pode chamar, se quiserem, de materialista) dos fenômenos de
caso do celibato dos herdeiros, que, por volta da década de 1960, num
dominação. Mas a oposição entre a infra-estrutura e a superestrutura ou
momento em que um certo discurso populista cantava o surgimento de
entre o econômico e o simbólico é apenas a mais grosseira das oposições
uma nova elite camponesa, parecia concentrar toda a angústia das
que, ao encerrar o pensamento dos poderes em alternativas fictícias,
famílias rurais. De fato, se aceitarmos a teoria de que a reprodução
biológica da família agrícola faz parte das condições de funcionamento coerção ou submissão voluntária, manipulação centralista ou automisti-
da empresa agrícola em sua forma tradicional, 21 compreenderemos que ficação espontaneísta, impedem que se compreenda completamente a
a crise que ataca a instituição matrimonial, pedra angular de todo o lógica infinitamente sutil da violência simbólica que se instaura na
sistema das estratégias de reprodução, ameaça a própria existência da relação obscura por si mesma entre os corpos socializados e os jogos
. . em que e1es estão engaJados.
socrms . 23
"casa" camponesa, essa unidade indissociável de um patrimônio e de
uma casa de família: um sem-número de proprietários médios, que,
segundo as estatísticas nacionais, foram os grandes beneficiários da
ligeira concentração de terras possibilitada pela decadência das pequenas
propriedades e que se mostraram os mais modernistas, tanto no plano
técnico quanto no terreno das associações ou dos sindicatos, foram
atingidos pelo celibato: ao deixar tantas terras sem herdeiros, o celibato
dos filhos mais velhos realizou o que os efeitos da dominação econômica
e da degradação, pelo menos relativa, das rendas agrícolas, por si sós,
não teriam podido conseguir. 22
aposentadorias" ("Perspectives sur !e remplacement des chefs d'exploitation agricole d'apres
l' enquête au 1/1Oe de 1963", StatistiqueAgricole,Supplément 28,julho de 1967). Em 1968, em Lesquire,
interesses simbólicos totalmente tangíveis e capazes de fundar na razão (simbólica) condutas 50% dos agricultores tinham mais de 45 anos, mais da metade era celibatária e a população camponesa
aparentemente tão perfeitamente "passionais" como as lutas lingüísticas, certas reivindicações assinalava um claro declínio em razão do déficit dos nascimentos decorrente do celibato e do adiamento
feministas (como o jogo com he or she do novo discurso universitário anglo-saxão) ou certas forinas do casamento. Em 1989, a geração diretamente atingida pela crise da década de 1960 chega a seu tenno,
de reivindicações regionalistas. e uma parte bastante considerável das propriedades vai desaparecer juntamente com seus proprietários.
2 !. Cf. A. V. Chayanov onthe theory of peasant eco1wmy, de D. Thomer; B. Kerblay e R.E.F. Smith 23. Embora não goste muito do exercício, tipicamente escolar, que consiste em passar em revista, para
(orgs.). Homewood, lllinois: Richard D. I1win Co., 1966 (e em particular· a introdução de B. Kerblay, deles nos distinguirmos, todas as temias concorrentes da análise proposta - entre out:ras razões, porque
publicada também em Cahiers du Monde Russe et Soviétique V (4) (outubro-dezembro de 1964), ele pode dar a entender que esta última pode ter tido como único princípio a busca da diferença-,
pp. 411-460); D. Thomer. "Une théorie néo-populiste de l'économie paysanne: L'école de A.V. gostaria de assinalar toda a diferença que separa a teoria da violência simbólica, como
Cajanov", Annales 6 (novembro-dezembro de 1966), pp. 1232-1244. desconhecimento fundado no ajuste inconsciente das estruturas subjetivas às estruturas objetivas, da
22. Ao final de um estudo sobre os fatores de desaparecimento das culturas agrícolas, André Brun conclui temi a foucaultiana c4t dominação, como disciplina e adestramento - ou ainda, numa outra ordem, as
que as '"saídas' de agricultores cultivadores são essencialmente o resultado da mortalidade e das metáforas da rede aberta e capilar de um conceito como o de campo.

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