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Inquietudes da crítica literária militante de

Antonio Candido*
Rodrigo Martins Ramassote

Entre os anos de 1943 e 1947, Antonio Candido atuou como crítico literá- * Agradeço a Luiz Carlos Jackson
pelo convite e aos integrantes
rio militante na grande imprensa paulista, assinando os rodapés da coluna do Projeto Temático da Fapesp
“Notas de crítica” nos jornais Folha de S. Paulo (de janeiro de 1943 a janeiro “Formação do campo intelectual
e da indústria cultural no Brasil
de 1945) e Diário de S. Paulo (de setembro de 1945 a fevereiro de 1947).
contemporâneo” pela leitura
No total, foram publicados 162 escritos, dos quais oitenta foram recolhidos crítica, estímulos e sugestões a
uma primeira versão deste texto.
em livros (Brigada ligeira, de 1945, e Observador literário, de 1959), revistas
(Literatura e Sociedade, Remate de Males, Inimigo Rumor, entre outras), ou 1. Editada entre maio de 1941
e novembro de 1944, a revista
reunida em um volume organizado por Vinicios Dantas (cf. 2002b). Clima perdurou por dezesseis
Como se sabe, com o prestígio amealhado pela participação na seção edições. À frente da seção de crí-
tica literária, Candido assinou 28
de crítica literária da revista Clima1 – quando ainda era estudante no Cur- contribuições, distribuídas entre
so de Ciências Sociais (1939-1941) da Faculdade de Filosofia Ciências e artigos, resenhas e notas (algumas
delas com pseudônimos). Sobre
Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP) –, Candido viabilizou Clima, ver Pontes (1998).
seu ingresso na imprensa diária de São Paulo2. Indicado por Lourival 2. Cf. Pontes (1998, p. 112).
Gomes Machado, também formado em Ciências Sociais e colaborador da
3. Ex-militante do Partido Co-
seção de artes plásticas, e sob o aval de Hermínio Sacchetta3 (diretor de munista Brasileiro (PCB) – com
o qual rompe por divergências
redação), assumiu a condição de crítico titular no jornal Folha da Manhã,
ideológicas em 1939 – e então
com a obrigação de “fornecer semanalmente, sobre livros do momento, dirigente da organização trotskis-

um comentário que ocupava toda a parte inferior de uma das páginas ta Partido Socialista Revolucio-
nário (PSR), o jornalista paulista
internas, o ‘rodapé’ (antigamente, ‘folhetim’), subordinado a uma rubrica Hermínio Sachetta (1909-1982)
geral invariável, que dava nome à secção e vinha impressa acima do título iniciou sua carreira como revi-
sor no Correio Paulistano. Em
de cada artigo” (Candido, 1992a, p. 10). novembro de 1937, assumiu o

Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido, pp. 41-70

cargo de diretor de redação na O exame das posturas e alianças políticas, ambições intelectuais, pressu-
Folha da Manhã.
postos doutrinários, preferências literárias, autores privilegiados e conceitos
analíticos incrustados nesse material depende da consideração de quatro
frentes correlatas de pesquisa. Em primeiro lugar, os contornos mais gerais
do contexto social e clima político-ideológico desses anos. Período de in-
tensa agitação política, os anos de 1943 a 1945 marcam, no plano interno,
o declínio do Estado Novo (e seus corolários: os primeiros movimentos
contestatórios, a reorganização da vida política, o abrandamento da censura
etc.) e, no externo, o desfecho da Segunda Guerra Mundial. Em segundo
lugar, a alternância vivida por Candido entre a atividade de crítica literá-
ria e a profissionalização acadêmica na área da sociologia. A inserção na
FFCL-USP – como professor-assistente da Cadeira de Sociologia II (sob
a direção de Fernando de Azevedo) e dando prosseguimento às etapas da
carreira acadêmica (ao ingressar no curso de Especialização) – repercutiu
profundamente na perspectiva analítica adotada por ele nos rodapés. Em
seguida, a militância política em pequenos grupos de esquerda. Aderindo à
luta contra a ditadura varguista, Candido assume posições políticas e inte-
lectuais combativas, participando de agrupamentos de oposição na esteira
do processo de retomada da democracia. Por fim, a apreensão, por parte do
jovem crítico, do movimento e vida literária do início da década. Assinalado
pelo convívio entre os remanescentes do modernismo e as novas tendências
e autores que despontavam.
4. Cf. Bolle (1979), Lafetá Conforme afirma a bibliografia sobre o assunto4, a década de 1940
(2000), Candido (1988, 2000a),
prolonga e acentua as transformações de ordem estrutural e ideológica do
Johnson (1995) e Pontes (2001).
decênio anterior: expansão do mercado editorial e do sistema de ensino,
ampliação da grande imprensa e aumento do número de periódicos, acir-
ramento da polarização de ideários políticos e religiosos, entre outras. Mas,
no plano literário, caracteriza uma época de transição, em que veteranos
consagrados das primeiras gerações modernistas e jovens estreantes dividem a
cena literária. Às publicações tardias de escritores associados ao modernismo
ou à geração de 1930 (Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Jorge Amado,
José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Érico
Veríssimo etc.) se juntam as primeiras obras de Clarice Lispector, João Cabral
de Mello Neto, Fernando Sabino, Geir Campos, Lêdo Ivo, entre outros.
Dos 92 rodapés redigidos durante o período em que atuou na Folha da
Manhã, Candido selecionou e refundiu dezoito para compor os ensaios do
seu livro de estreia, Brigada ligeira, publicado em fins do primeiro semestre
de 1945. Neste artigo pretendo rastrear as principais discussões que mar-

42 Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 23, n. 2

Rodrigo Martins Ramassote

caram a produção intelectual de Candido nessa primeira fase, para então
finalizar com comentários sobre os critérios que presidiram a reunião e a
organização dos ensaios do livro.

O método crítico de Antonio Candido

Conforme prescrevia a tradição, em seu artigo de estreia na Folha da Ma-
nhã – intitulado “Ouverture” – Candido delineia o programa de trabalho a
ser seguido, destacando os fundamentos e a afinidade de seu método crítico
com o contexto histórico abrangente. Recusando o impressionismo como
finalidade última do julgamento crítico, admite, contudo, a sua validade
como “prolegômeno a toda atividade crítica” (Candido, [1943]* 2002c, p. * A data entre colchetes refer-se
à edição original da obra. Ela é
25). Por outro lado, a chamada “crítica científica”, pautada pelo ânimo de
indicada na primeira vez que a
superar as “condições personalíssimas” que constituem a base da avaliação obra é citada. Nas demais, indica-
se somente a edição utilizada
em nome de “fórmulas aplicáveis ‘objetivamente’”, consiste, no fundo, numa
pelo autor.
quimera: “pedantismos criados pela pretensão dos homens de letras” (Idem,
p. 24). Deflagrada pelas impressões pessoais, a qualidade e a penetração
da leitura ainda subordinada à “aventura do espírito” será superada, numa
segunda etapa, pelo esforço de “integrar a significação de uma obra no seu
momento cultural” (Idem, p. 25).
De acordo com os principais estudos sobre a crítica literária no Brasil,
a década de 1940 e a seguinte constituem o momento de apogeu do
rodapé, em cujas sessões atuavam representantes já veteranos da “crítica
modernista”5 (Tristão de Athayde, Mário de Andrade, Sergio Buarque de 5. A expressão foi cunhada por
Wilson Martins (1999).
Holanda, Sergio Milliet, Álvaro Lins, para citar os mais conhecidos), ao
lado de jovens recém-formados pelas faculdades de filosofia que surgiam
pelo país. Nas palavras de Süssekind,

Os anos 1940 e 1950 estão marcados no Brasil pelo triunfo da “crítica de rodapé”.
O que significa dizer: por uma crítica ligada fundamentalmente à não especializa-
ção da maior parte dos que se dedicam a ela, na sua quase totalidade “bacharéis”;
ao meio em que é exercida, isto é, o jornal – o que lhe traz, quando nada, três
características formais bem nítidas: a oscilação entre crônica e noticiário puro e
simples, o cultivo da eloquência, já que se tratava de convencer rápido leitores e
antagonistas, e a adaptação às exigências (entretenimento, redundância e leitura
fácil) e ao ritmo industrial da imprensa; a uma publicidade, uma difusão bastante
grande (o que explica, de um lado, a quantidade de polêmicas e, de outro, o fato
de alguns críticos se julgarem verdadeiros “diretores de consciência” de seu público,

novembro 2011 43

o panorama da vida intelectual começa a se modificar. a um diálogo estreito com o mercado. 2000b). e do curso de Letras da Fa- culdade Nacional de Filosofia da Universidade do Rio de Janeiro. o estatuto adquirido e o papel exercido pelo crítico conferiam influência e autoridade para arbitrar legitimamente sobre a dinâmica da vida cultural. a adoção de uma orientação científica indispensável para o exercício da pesquisa e ensino em literatura – sem deixar de reconhecer. v.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. e. em várias passagens. Comen- pressionista” e “crítica científica” servem a variados desígnios e são tando em rodapé quatro conferências7 promovidas pelo Departamento acionados por ele de modo distin. 1943a. estabelecendo critérios e formando cânones. para tanto. mas que nem sempre triunfa na análise de um autor. infor- 7. atraindo o interesse e atiçando as preten- sões de seus possíveis postulantes. esclarece. com o movimento editorial seu contemporâneo (Süssekind. crítica. Emitindo juízos. 23. Falta às vezes para esta crítica. entra em cena o especialista munido de sólida formação científica adquirida nas salas de aulas. 2002. o exercício regular de uma coluna ou rodapé de crítica literária era bastante cobiçado. 44 Tempo Social. A chegada dessa nova geração redefine os princípios e os critérios de legitimidade da atividade crítica. compara. por fim. fácio de Papéis avulsos (1958) ou então o ensaio dedicado a Sergio de um modo geral. Substituin- do a figura do bacharel polígrafo. Rejeitando “integralmente” o “conceito impressionista que faz da crítica uma aventura da personalidade”. Municipal de Cultura e proferidas por Fidelino de Figueiredo – então to em função de contextos espe- responsável pela Cadeira de Literatura Portuguesa na FFCL-USP – para cíficos. grifos no original). acentuando a distância entre diletantes e profissionais. Candido de saída avalia que a proposta analítica do conferencista. tal. n. Antonio visão panorâmica. que permite o contato íntimo com a criação literária (Candido. aclamando ou conde- nando estreias e lançamentos literários. pp. através da imaginação. onde a Fidelino de Figueiredo. tância desse ciclo de conferências (cf.. de períodos e movimentos literários. Em ensaio de homenagem a ma.] é mais uma crítica de erudito e historiador – crítica que situa. no qual Candido reivin- dica a retomado do ato crítico (cf. o papel desempenhado pelo gosto e apuro literários6. por excelência. contudo. 6. Com a criação da FFCL-USP. 41-70 como costumava dizer Álvaro Lins. 1994). de uma obra. [. 1986. 17). Milliet. em pre. Candido. em 1939.. aquela força penetrante e como que poética de simpatia. Basta lembrar a defesa das impressões pessoais no método celebrar o centenário de nascimento do poeta português Antero de Quen- crítico de Plínio Barreto. em 1934. 2 . 2002d. dominante à época. Dada a centralidade da literatura e da imprensa diária na vida intelec- tual do período. a única. Candido defende. Os marcadores “crítica im. p. Amora. requer o senso histórico e Soares Amora destaca a impor- a profundidade da erudição. na sua complexidade e diversidade. revista de sociologia da USP.

1941a. um esforço para inserir na mesma ordem de que participa a essência da obra literária” (Candido. De acordo com Candido. separam a crítica especializada Candido não deixa de registrar sua divergência em relação à postura pro. no 8. Chamando a atenção para a dedicação integral de Lins ao ofício. pois “falta-nos o hábito e a formação necessários para nos dedicarmos ao trabalho indispensável da localização da obra no seu tempo. porém. que transcende às contingências”. mas sim a equivocada perspectiva de análise por eles adotada8. Parece-nos que ele se coloca sempre ante de um livro como que diante de um absoluto. p. Não são exatamente a ausência de especialização e o amadorismo dos colegas de profissão que preocupam Candido. do Sen- tido. Rodrigo Martins Ramassote Não obstante. e a produzida por amadores. o empenho analítico de Kopke é menos uma explicação do que “um esforço de comunhão” da realidade misteriosa da novembro 2011 45 . a atitude defendida pelo historiador português é de grande importância. relatividade” (Idem. “por mais completa que possa ser a participação de um crítico no núcleo essencial de uma obra. quer como crítico de ideias. daquilo que é eterno. Da Beleza. e à busca inteligente das circunstâncias com ela relacionadas” (Idem). Carlos Burlamaqui Kopke manifesta preocupações que poderiam ser chamadas de essen- cialistas. [1943] 2002i. diante da predominância da postura impressionista imperante – promovida em sua maior parte por “franco-atiradores” –. se refere a um certo padrão eterno de conduta (Candido. É o que se lê. Candido afirma: Quer como crítico de ficção e poesia. na obra literária. 1944d). ibidem). da Poesia. [1943] 1999. é fora de dúvida que só há um meio para se chegar a eles: os seus sinais exteriores. num meio no qual “quem não reconhece em si mesmo nenhuma vocação específica se põe a fazer crítica de livros”. Para Candido. ele comenta o empenho do crítico em averiguar “a determinação. Candido. 1979). [1944] 2002j). segundo livro do crítico titular do jornal paulista A Noite. por exemplo. sempre confrontadas do ângulo fessada pelo crítico pernambucano – o mais influente do período (cf. Isso não significa que Can- dido não reconheça (e exorte) rodapé dedicado à leitura da segunda série do Jornal de Crítica. Da leitura de Faces descobertas – também publicado em 1943 –. de Álvaro Lins. Embora o tom elogioso predomine no artigo. tornando-a “uma aventura da personalidade. o sr. das diferenças geracionais (cf. 17). contingência. Bolle. Quero sugerir com este vocábulo impreciso a sua tendência de procurar o sentido por assim dizer metafísico das obras. Quando fala da missão do intelectual. toda aquela parte que significa neles ligação com o tempo. publicada as profundas diferenças que em 1943. A mesma objeção é endereçada a Carlos Burlamarqui Kopke.

pp. Candido esclarece que a “especificação das funções do crítico varia na razão direta da complexidade e consequente diferenciação do trabalho cultural de uma sociedade” (Candido.]”.. Em vista disso. “procurou-se fazer uma seleção nítida entre certos gêneros de crítica”. 23. 2 . afirma que “meus leitores nunca me viram. Respondendo a certos leitores que o haviam acusado. “minha escola de crítica”. filosofantes.] para a compreensão e o aproveitamento humano de uma obra o critério cul- tural (sentido largo) me parece melhor e mais sólido do que o critério metafísico. e provavelmente nunca me verão falar de livros de teatro.. Com efeito. Quanto ao resto. a fim de que este julgamento se torne um bem comum” (Idem).. de música. O primeiro tende a incorporar o trabalho no patrimônio da história da cultura.. Em contraposição a tal enfoque. datado de 11 de julho de 1943. é difícil dizer quais os limites precisos entre o crítico da literatura e o de ciências morais ou filosofia”. de cinema.. v. pode-se encontrar uma definição precisa da posição do autor. Ao proceder dessa maneira. críticos.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. como que o limita aos prazeres de uma aventura pessoal (Idem). escritores políticos.” (Idem). revista de sociologia da USP. em “umas duas admoestações escritas e umas quatro orais”. o autor encontrar-se-ia nas antípodas “do verdadeiro espírito crítico. de pintura ou de economia. é aquele que consegue captar nas obras literárias 46 Tempo Social. No rodapé “Problema de jurisdição”. porventura mais profundo e mais poético. até mesmo imposto por sua época. Candido adota o conceito de fun- cionalidade como a diretriz geral de sua orientação analítica. Por sentir-se “tanto mais à vontade para comentá-lo e tanto mais livre para apreciá-lo quanto me acho em posição bastante diversa da sua”. conferindo “uma notória preferência a livros que não são romances nem contos. sociologizantes. Num meio marcado pela incipiente diver- sificação funcional. o encarregado de tal seção se vê obrigado a dar conta das solicitações que o ambiente lhe faz (Idem). “em que não raro os indivíduos são ao mesmo tempo poetas. romancistas. que o nosso autor pretende nunca esquecer. Ela deve poder extrair da obra analisada um julgamento tão desligado quanto possível do eu crítico. n. ou seja: objetivo. 1943g). Candido assevera que [. ele anuncia que o método mais adequado. 41-70 poesia com o “drama mental” do escritor (Idem). porque é uma ilusão. o segundo.. Ressalvando que na revista Clima. o resultado da crítica deve ser uma objetivação. de “deslizar frequentemente para fora da crítica literária e invadir canteiros do próximo”. De evitar a ficção. numa palavra [.

leitura de Dois mundos. Isso ao ponto e. eu direi que é o critério da sua necessidade. Proust é uma sobrevivência de que a obra pareça alguma coisa que não poderia deixar de existir [. critério de aferição da quali.. Não garanto a superioridade do método. útil (Idem). quase sempre de maneira cursões a municípios do interior do estado visando travar contato cambiável. como desculpa vossa. não raro. lar) –. Mas confesso que o acho bom. à atuação profissional9 10. É certo. Rodrigo Martins Ramassote [. Bastide. Condicionamento histórico-social. contudo.] creio que não pode haver ofício mais interessante e. em arma de combate. que a concepção de funcio. um princípio norteador: [. mortas. um dos autores preferidos de dade literária e princípio de seleção dos autores que merecem a atenção do Candido.. como em Éramos seis ou no Moleque Ricardo[. para designar a preocupação com os nexos entre a produção com práticas e manifestações da literária e seu contexto social. E. nalidade por ele adotada prende-se. Apesar de não publicar ne- funcionalmente. Este caráter museu” (Candido. Necessi. Assim. é possível ao crítico embrenhar-se pela literatura. voluntariamente. mais útil do que levar para as coisas literárias certos princípios de ordem sociológica e filosófica. “na homenagem do vigé- crítico. compartilho- a com vós outros) há um pouco Se me perguntarem qual o critério mais firme e mais imediato para se julgar uma do amor que dedicamos às coisas obra de arte ou de literatura. Contando que considere nelas.].. nesse momento Candido exercia a função de professor-as- sistente na Cadeira de Sociologia Não se pode encontrar uma definição mais precisa da moldura social II e estava às voltas com a eleição em que a obra literária está engastada. neste sentido. dessa concepção se tornar.. empreendia pequenas in- os achados analíticos utilizados por Candido. o elogio ao escritor francês. [revela-se] quase um atestado de óbito. livro de contos de Aurélio Buarque de Holanda. Proust passou. Proust não tem razão de dade. isto é. cultura popular. é necessário um ponto de vista. simultaneamente. partindo de uma formação filosófica ou socio- lógica. em certa medida. num apanhado geral. que tendia a transformar a obra literária simo aniversário de sua morte”. de seu objeto de pesquisa de dou- torado. se há culpa. E que leva a situações pa- radoxais: no rodapé “Vinte anos e às posições derivadas da militância política então exercida. selecionando. No amor permanente que Candido indica que dedicamos a Proust (veja bem o plural. procurando interpretá-la 9.”.. o crítico pode ser literário e ana- lisar uma obra como Casa-Grande & Senzala ou Raízes do Brasil ou História Geral das Bandeiras. eis. novembro 2011 47 . os livros que mais se prestam sociologia – o que somente virá a ocorrer em 1947 (quando ele a esse tipo de estudo. vem acompanhado da consta- tação de que a data “para a sig- No rodapé “Ficção (I)” datado de 4 de fevereiro de 1943 e dedicado à nificação funcional de sua obra. quer dizer a presença de uma série de razões que fazem com ser.. buscando nela a repercussão da época e a sublimação dos traços nhum ensaio científico na área da da cultura. sobretudo. Para tanto.. que procuro por em se afasta da crítica literária regu- prática. Proust envelheceu. 1943d). Sob o estímulo de Roger momento cultural e histórico.] o que há de mais fundamente cultural.. Daí o interesse com que. espírito de época. Uma atitude arriscada10.] o denominador que aparenta umas às outras as diferentes manifestações de uma fase da cultura (Idem). o que nelas significa o caráter comum de todas as obras de uma cultura. dedicado a Marcel Proust.

41-70 é dado à obra por um conjunto de fatores. no sentido próprio. depende em grande parte daquele. os 92 rodapés redigidos na Folha da Manhã assumem um registro predominantemente sociológico e político.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. [. com isso. Ao caráter funcional da obra literária “vem ligar-se o seu valor próprio. a sua razão de ser em função de certos problemas ou. 2 . pode-se identificar uma insistente preocupação com o papel do intelectual diante das circunstâncias históricas de período marcado pela agitação e confusão político-ideológica. Sendo a arte. porque ela se integra funcionalmente no conjunto das atividades de uma cultura. isto é. é sempre uma resposta: uma resposta dada por um indivíduo.] quando. seja pelos pressupostos doutrinários adotados. coisa alguma existe que permita sentir a sua eficiência artística – podemos dizer sem medo que esta obra é desnecessária. Em decorrência imediata dessa posição. por fim. pelas preferências estéticas e autores privilegiados. Por conseguinte. aos inúmeros problemas que ele vê ou pressente em si. tanto internos quanto externos. que atravessa de ponta a ponta o conjunto. de modo geral. afinal de contas. ela constitui então o fundamento central de sua orientação crítica. a meu ver. portanto. n. simplesmente.. Com as mudanças provocadas pela situação externa. v. uma produção do homem vem responder a este esforço de penetração. nesse sentido. a importância do empenho participativo nos rumos de sua época. seja em razão do quadro conceitual assumido. Uma obra autêntica. que se reúnem. Essa perspectiva for- nece régua e compasso para a avaliação das obras analisadas e. para a sua funcionalidade. seja uma máquina que permite um domínio maior sobre a natureza. porém. de mais sensibilidade ou mais penetração do que a média. o valor de uma obra é inseparável deste aspecto de resposta a uma incógnita – de que acima falei” (Idem). 48 Tempo Social. é fatal para ela (Idem). seja um poema que torna mais claro um canto qualquer da alma – podemos dizer que o seu aparecimento foi necessário. Quando se vê que numa obra nada responde a nada. 23.. E tal constatação. um fenômeno de antecipação nas esferas do conhecimento. ao contrário da imagem apregoada por Candido – da sociologia como ponto de vista –. Este. certas características do homem ou da sociedade de uma época. 1943b). revista de sociologia da USP. pp. nos outros ou no grupo (Candido. Com efeito. ou. não me parece exagerado afirmar que. o posicionamento do intelectual no debate sobre a vida nacional avança para primeiro plano e.

ao mesmo tempo. a luta sem tréguas ao fascismo. Solução de elite. Clerica- lismo! Era só o que faltava! (Idem). de modo consciente. que geram as condições morais – mas como a criação isenta de um enquadramento ideal. de reajustamento constante do homem com as suas condições de vida. quando 11.] preocupação central do autor: a luta por um novo humanismo que substitua o anti-humanismo dos dias presentes e passados. O resto viria depois (Idem).] boa vontade que deseja. não se acha. novembro 2011 49 .. 1943i) Nesse amálgama de pontos de vista contraditórios. O prefácio foi republicado em Aspectos da literatura brasileira não incompatíveis. espécie de norma para uma pseudo elite intelectual. que toca harpa enquanto Roma arde e salvaguarda a pureza de um Espírito que só tem sentido humano quando se volta para o sangue e a dor dos homens. aceitar a inteligência. eis o que ela é. a que Candido exclama: Arrepio-me ao ver um moço. uma democracia popular. é a crença na reforma graças a uma tomada mais funda de consciência. pode-se constatar a [. Quer um estado de coisas em que os homens participem intensamente da existência um dos outros. não como um instrumento de vida e de reforma. anti-hierárquicos da política moderna. que o Sr. Girando em torno do personalismo essencialista. todos unidos num regime de justiça social. Candido identifica tendências conflitantes. e que no seu caso. Não me parece. combinado com a Reação” (Idem). mesmo. [. contudo. Andrade ([1945]1978). um tipo cristão de existência. nas quais se misturam a (cf. “característico dos diferentes espiritualismos. Rodrigo Martins Ramassote Avaliando o lançamento de Ensaios do nosso tempo. E prega. reunião de escritos do jovem crítico Otávio de Freitas Júnior. Rejeita violentamente as implicações direitistas do seu credo religioso e aceita plenamente certos aspectos populares. a uma compreensão mais aguda e mais essencial dos próprios problemas por parte do homem de inteligência. para isso. Otávio de Freitas Junior esteja bem orientado nesse sentido. que não percebe o quanto a sua orientação pouco ou nada resolve. milagrosamente.. com efeito. e dos melhores. uma ética individualista e essencialista. o pensamento adotado pelo crítico pernambucano acaba por afastá-lo das questões essenciais e prementes do tempo. O seu grande trunfo.. Me parece.. publicado em 1944 e prefaciado por Mário de Andrade11. bernanosia- namente [referência ao escritor francês George Bernanos]. solução de classe. a autorealização espiritual pela autoconsciência (Candido.

Erro e manivelada na roda-gigante da Reação.. 23. gira. ver neles soluções coletivas de progresso. Ora. e convida os outros para as delícias do Clericalismo! Não faltava mais nada! (Idem).] não basta ser anti-fascista. Há lugar para tudo. no rodapé “Os mitos e a reação”. os mitos emergem quando ocorre a ruptura entre a estrutura social e as representações coletivas correspondentes. Através do gidismo autofágico. do intelec- tual católico carioca. buscando uma explicação de caráter filosófico. gira. Ao abordar o ensaio Mitos do nosso tempo (publicado em 1943). que o autor não fez. num livro que pretende agir sobre os outros. v. da perda em si mesmo. em diferentes ocasiões. É nesse período que sua filiação doutrinária de esquerda aparece com maior estridência. investindo contra os representantes da “Reação” – sempre grafada em maiúscula–. é erro. Candido (1943e) aponta como a principal falha do livro encarar “o mito em si.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. que gira. e cada intelectual tem o direito de seguir os caminhos que escolheu. o pensamento católico ou conservador assu- mido por intelectuais consagrados da geração anterior. [Athayde] remastiga vagos ideais. 2 . que visa julgar o seu alcance ético de acordo com um ponto de vista ontologista. que são soluções novas. tendia. Talvez fosse mais acertado fazer um estudo. Candido não poupa nem mesmo figuras de prestígio como Gilberto Freyre e Tristão de Athayde. não sai do lugar. Querer. a fazer a avaliação crítica com base na importância 50 Tempo Social. n. servindo de ponto de apoio para coletividades desnortea- das.. E encerra seus comentários com a seguinte frase: “Nada propondo de efetivo. vá lá. Na outra ponta. isto é. nunca os problemas de convivência humana serão solucionados. 41-70 E arremata o artigo: [. chamou a atenção para essa questão. revista de sociologia da USP. às vezes. porém. tal como apregoava Athayde. Longe “de virem de crises morais internas do homem ou da falta de sentido religioso da vida” (Idem). do caráter funcional do mito na sociedade”. Ele próprio. Por uma militância de esquerda independente Não é possível compreender as posições analíticas adotadas por Can- dido nos rodapés sob exame sem levar em conta seu envolvimento com a militância política. o apelo reacionário ao passado é um perigo para o mundo futuro” (Idem). reconhecendo a predominância de certo “sec- tarismo deformante” que o conduzia “para o aspecto ideológico o mais que podia. Tomá-los como ética privada. pp. num momento em que há ideias vivas.

esse interesse foi reforçado pelo contato com o professor de filosofia Jean Maügué. Paulo Emílio contatou na França “grupos e pessoas de orientação marxista. Rodrigo Martins Ramassote ideológica. Candido revelou um interesse precoce pelas ideias de esquerda. a nos dar livros reveladores. como Bukarin. ingressar na FFCL-USP e con- viver com Candido e os demais integrantes do que viria a ser conhecido por grupo Clima. portanto. p. Ao retornar ao país. Adotando uma fórmula de ativismo marcada. Eric Czaskes. Paulo Emilio [. 8). mas não stanilistas nem trotskistas” (Idem. novembro 2011 51 . “simpatizante comunista e [que] aconselhava a leitura de livros de Marx. onde passou a adolescência (cf. Piatakov e outros “confessando” que eram todos traidores a serviço das potências capitalistas! Foi uma das farsas mais trágicas e mais ignominiosas da história (Idem. apud Jackson. Ex-membro da Juventude Comunis- ta. 128). alto funcionário que fugiu para o Ocidente e começou a revelar as iniquidades do regime socialista. nem fanático. juntando-se a outros na rede clandestina de luta pela redemocratização (nucleada em torno da Facul- dade de Direito de São Paulo). de outro. Lembro da impressão que tive vendo as atas dos Processos de Moscou. Germinal da Costa Feijó e Antonio Costa Correia) que se reúne aos finais de semana para discutir temas políticos. 12. como o de Alexandre Barmine. de um lado. Com o ingresso na FFCL-USP. encarcerado em dezembro de 1935 (na onda repressiva que se seguiu à Intentona Comunista) no presídio Paraíso – de onde fugiu no Carnaval de 1937 para o exílio na Europa –. ainda em Poços de Caldas (MG). alterando a fundo sua visão política12. p. sobretudo. Radek. pelo exemplo de Paulo Emílio Salles Gomes.. p. 2002. preconizador de um “tipo de socialismo independente” (Idem. Kamenev. mas um pouco redutor” (Candido. Sobre o assunto.] começou a nos comunicar essas coisas. Zinoviev. redigir documentos e praticar alguns atos contra a ditadura. Nunca cheguei a ser esquemático. das diretrizes impostas pela União Soviética – o grupo adquiriu certa expressividade. pela independência tanto em relação às posições stalinistas como trotskistas e. Sob o estímulo e a orientação de Paulo Emílio. Candido. com um espírito muito aberto” e. ver Can- dido (1986). De acordo com depoimento concedido à revista Praga. 1996a). pela busca de um modelo de socialismo ajustado à rea- lidade nacional – afastando-se. em fins de 1939. Candido integra-se no final de 1942 a um pequeno grupo de intelectuais (composto por Paulo Zingg. 8). 8). Fiquei petrificado quando li as declarações dos grandes revolucionários de 1917. p..

e seu feito de maior destaque foi a redação do Manifesto da União Democrática Socialista (UDS). Candido. a um grupo combativo de estudantes ou jovens formados em Direito – composto em sua maioria por liberais– para formar a Frente de Resistência. numa tradução “muito má e revisão abaixo da crítica”. Com o declínio da ditadura. ver tiva. pp. no interior do Partido farei crítica literária”. v. 41-70 Dessas reuniões dominicais surge o Grupo Radical de Ação Popular (GRAP). 52 Tempo Social.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. Candido adverte. a ED mudou o nome para Partido Socialista 13. a militância assumida por Candido reivindicava uma posição inde- Candido não se ligou aos partidos pendente e autônoma da disciplina e do conteúdo doutrinário exigidos pelos de esquerda tradicionais. o leitor: “nessa semana não política assumida Florestan Fernandes. suas incursões políticas dedicação extremada à causa privilegiam a bibliografia internacional sobre o marxismo e temas relacionados não coadunavam com o perfil profissional admitido dentro da com a Revolução Russa e seus principais protagonistas. pois. 1943c). de uma indústria apenas esboçada e limitada ao aspecto manufatureiro também Ridenti (2010). também. Nos rodapés. os rigores impostos pela tradicionais partidos políticos de esquerda. 1986) 13. Dada a “dificuldade de arregimentar e coordenar as tarefas para a luta eleitoral que então se iniciava” o grupo. Em meados de 1947. Seguindo de perto o modelo instaurado pelo GRAP. de projetou o país da “extrema carência econômica. para fora da literatura. Camur- ça (1998) e Rubim (1988). de Maurice Hindus – vertido tões políticas mais candentes). n. que se ligou. em 1943. Sobre o assunto. o livro Hitler cannot conquer Russia. 2 . as reuniões do grupo ocorriam na casa de Paulo Emílio. por modalidade de participação A Resistência Russa –. intelectual. as divergências internas afloraram e o grupo se desfaz: os liberais ingressaram na União Democrática Nacional (UDN). há “certos livros que nos arrastam violentamente Socialista Revolucionário (PSR). Não se enquadrando per. Ele destaca a espantosa transformação econômica que critica da economia política. que a para o português. de saída. feitamente no perfil social de adeptos indicado por Rodrigues Distanciada dos embates políticos. em pleno jogo das ideias vivas e dos acontecimentos” tenha se restringido à tradução e comentário de Contribuição à (Candido. 23. em 25 FFCL-USP (distante das ques. Resenhando. de fevereiro. Brasileiro (cf. os socia- listas fundam a União Democrática Socialista (UDS). de uma agricultura primi- Karl Marx. ao segundo lugar no mundo na produção pesada e a um desenvolvimento agrícola que é o mais perfeito da terra” (Idem). De igual maneira. antes de se dissolver. Não é casual. centrada na elucubração e intervenção (1986) em análise sobre o PCB. coligou-se à Esquerda Democrática (ED) – que então se formara no Rio de Janeiro – e participou de seu estabelecimento em São Paulo. A principal iniciativa dessa frente foi a publicação de quatro edições do jornal clandestino A Resistência. além do lançamento de um manifesto (redigido por Paulo Emílio) em 1945. A eficiência do modelo rus- so – reconhecida “mesmo pelos que não partilham da doutrina oficial do governo de Moscou” – parece-lhe “devida a dois fatores: compreensão clara da forma de organização econômica compatível com as condições nacionais e execução dos seus princípios dentro de um regime político que mergulhava solidamente nas tradições do país” (Idem). revista de sociologia da USP.

o artigo salienta a correspondência entre a orientação adotada na condução dos processos que culminaram na transformação indicada e características e tradições seculares do povo russo: “Longe de ser uma ruptura total com o passado. Candido. O rodapé destaca ainda a trajetória revolucionária e participação decisiva de Trotski na tomada do poder pelos bolcheviques em 1917. de 4 de julho. no sentido da inteireza ideológica e da intransigência na defesa dos interesses populares” (Idem). Rodrigo Martins Ramassote Revelando um domínio extenso da literatura sobre a história russa – sem dúvida decorrente da participação nas reuniões da GRAP –. Foi. 1943f ). é tratada no rodapé “Uma vida exemplar”. A despeito da rejeição das tendências trotskistas – mas não da admiração da figura e dos escritos de Trotski –. o seu deslanchador em Leon Trotski” (Candido. e da consequente rejeição do legado de Trotski pela maioria dos partidos políticos de esquerda. diariamente anunciada por quem sabe ver de um neofacismo de após guerra. que venera e cultua o sucesso do fato consumado como a verdade suprema” (Idem). a autobiografia do revolucionário russo. com indisfarçável satisfação. teve o seu realizador. Minha vida (traduzida em 1943 por Lívio Xavier). tampouco aceitá- las de maneira fatalista: “[posição] que se colocam certos intelectuais de um oportunismo sem imaginação que. torna-se mais dramático e comovente o apelo que faz uma grande vida como a de Trotski. portanto. uma revolução que se apoiou nas mais profundas tradições nacionais. Assim. assi- nala a importância desse revolucionário para a concretização da Revolução Russa: se “Lenine foi o Patriarca e o Condutor. se escudando num soi disant motivo dia- lético. A propósito do embate Trotski versus Stalin – oposição “entre a Pureza e a Eficiência” –. que foi de encontro a condições favoráveis. Em tempos de domínio absoluto da doutrina stalinista. ser a imposição totalmente nova de um tipo de vida a um povo não preparado para recebê-la” (Idem). Candido comenta que não se deve julgar as realizações do segundo como desvios em relação ao ideário comunista. Num momento em que “sentimos no ar a ameaça. quando muito. E se indaga: novembro 2011 53 . e só por isso conseguiu realizar o que realizou (Idem). propondo solução compatível com os problemas da “realidade russa”. O regime soviético é um fenômeno especificamente russo. não podendo “de modo algum. o que estão é. apesar dos esforços de muitas das Nações-Unidas. assentou a sua construção com a racionalização de alguns de seus mais sólidos princí- pios”. se curvando ante não sei que desfibrado evenemencialismo.

Não se pense. Requer uma agudeza psicológica. 54 Tempo Social. concedida em janeiro de 2011.] assunto. revista de sociologia da USP. 41-70 O apelo de uma vida como a sua transcende as divisões ideológicas para se situar no campo em que se encontram todos os homens interessados em ver justiça na terra. O que vem provar mais uma vez que a honestidade e a boa vontade não bastam para fazer obra de arte. porém. cuja ação dá confiança na ação. como é angustiado o brado que levanta em relação à condição da massa proletária e como se orienta decididamente para a sua justa solução” (1943h). 23. O romancista é que é o culpado pelo desperdício do assunto e pela inconsistência que se esvai o problema social exposto.. 2 . nem da concepção de vida do autor. da definição de uma existência” (Idem). Em entrevista a mim composição sem as quais o resto de nada vale (Idem). No Sr. a concepção dos homens em sociedade. Sobre a Livraria e Editora Martins e Por incentivo do amigo e futuro editor José Martins14. A vida desse homem foi uma ilustração destas suas palavras. Que exemplo melhor para reinfundir confiança no homem.]. Daí seu defeito ser não do [. Na leitura de Entre o chão e as estrelas (publicado em1944). de modo a articular os acontecimentos por que passa o protagonista do romance com a “sucessão correlata de estados psicológicos que vão se organizando no sentido de uma evolução interior. Esta não se nutre apenas da riqueza humana do autor.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. operando a passagem da vida à arte” (Idem). Batini confina a vida de seus personagens ao pitoresco e ao acúmulo exterior de sentimento.. isto é. v. ou do seu sentido mais ou menos justo das coisas. que as convicções políticas redundem na descon- sideração pelos desafios da linguagem literária. do fundo do caos em que estamos? (Idem). a mais justa e a mais propícia para encher os pulmões de um verdadeiro escritor.. Incapaz de delinear a psicologia de seus personagens – “não se tem a impressão de gente viva. reunir em livro parcela expressiva dos rodapés publicados na Folha da Manhã. Candido decide seu proprietário. ver Silva Brito (1968) e Pontes (2001). Candido confirmou que a sugestão da publicação veio da Da militância combativa à brigada ligeira parte de José Martins. Tito Batini o defeito vem do romancista. Batini “não tem a constituição romanesca necessária para dar aos seus ideais um cunho verdadeiro de literatura. Não é mais o trotskista Trotski quem fala. n. Candido lamenta discordar esteticamente do autor: “porque se percebe logo quanto de humanidade e justiça há na sua orientação em face do homem. cujo pensamento esclarece o pensamento [. do escritor comunista Tito Batini.. O assunto é o mais rico possível. mas de fantoches do autor” –. Não obstante. um senso de participação e qualidades de 14. pp. É um homem cuja vida é exemplo.

Batini. Com efeito. Não por acaso. por sua redigidos a partir do final do vez. mond e Cassiano Ricardo– era As metamorfoses e Mundo enigma (Murilo Mendes). de Pedra volume organizado por Dantas (2002b). como veremos a seguir. bem como a redefinição das (1982. publicado ros não literários (biografias. defendido por Candido. acima mencionado e a partir da qual ele começa a rever seus pressupostos 17. Sobre a polêmica com Oswald. em 1943. Mar absoluto (Cecília ligada à chamada poesia espi- novembro 2011 55 . talvez de maneira mais nítida do que nos escritos sobre prosa de 18. para uma estratégia de depuração dos excessos do engajamento então primeiro semestre de 1944 dão prova das mudanças em curso.1944. A rosa do povo (Carlos Drummond de Andrade). Stuart Gerry Brown. E com isso retornamos à questão do sectarismo crítico. em “An- cunho programático ou polêmicos e os rodapés dedicados à poesia. revela. volumes finos e de pequeno for- Organizada paralelamente à redação de O método crítico de Sílvio Ro. 20. abordada ante- H. coletâneas de ensaios. Se. his Cow. palestras. Diário Oficial de São mais ampla e comprometedora do rodapé de jornal” –. em 28 maio. 416). De acordo com Hallewell e política no centro de seu projeto intelectual. de obras contemporâneas brasileiras. Dantas. certa distorção em Zero” e “Marco Zero”). Deixando de fora artigos de circunstância. O período de inscrição ao volume. permitindo uma discussão mais mica com Oswald a respeito do julgamento da obra de Tito qualificada do problema. conforme expresso no prefácio. gêne. nos estudos de poesia Candido assume com maior e expectativa”. historiografias literárias. Dedicado a Alfredo Mesquita – patrocinador da revista Clima e estipulado foi de 150 dias. a maioria Candido não aborda o lançamento de livros importantes de poetas consa- desses poetas – exceto Drum- grados do modernismo20. [1945] 1988) – tese com que se candidatou ao concurso sua maioria de crítica literária”. “Antes de Marco ênfase a orientação política. Exemplo disso é a polê- ficção. Paulo no final do primeiro semestre desse ano. Lawrence and Susan. de João Cabral de Melo Neto –. Publicado na coleção Mosaico16 15. livros de crítica etc. textos de de Cleanth Brooks. p. os rodapés intelectuais17 –. excluída da versão final de nas quais a cobrança da participação dos intelectuais adquire uma posição “Estouro e libertação” (composta da junção dos artigos “Romance mais discreta e de fundo. (1998). De acordo com Candido. estudos históricos. foi “iniciada a ‘Coleção Mosaico’. riormente. menciona Reading também excluía as contingências temporais mais evidentes – não se furtando poems. Rodrigo Martins Ramassote O objetivo imediato era robustecer o currículo profissional para concorrer à vaga do concurso da Cadeira de Literatura Brasileira.). o que. na revista Clima de setembro. de um lado. o livro de estreia de Paulo. que viria a ocorrer entre 23 de julho e 4 de agosto de 194515. Em “Última nota”. Diversamente das leituras dedicadas aos romances. o que acarreta. sociologia 16. em mero (Candido. Candido (1944a) cita Modern poetry and tradition traduções. do Sono (publicado em 1942). O edital do concurso foi publicado no Diário de S. não raro. de outro. de 26 de março do mesmo ano. a extensão e o limite dessa questão. o autor tologias”. ver Pontes seus julgamentos críticos. de posições assumidas por ele até o momento. conferiu certa unidade 1944. a tese sobre responsável por atribuir “a seção de crítica literária” ao autor – e a Lourival Sílvio Romero foi redigida entre Gomes Machado – que “dois anos depois” empurrou-o “para a aventura 1º de fevereiro e 11 de março de 1945 (cf. 2002a). é verdade que o período caracteriza certa entressafra de 19. Boa parte deles reunida no estreias poéticas promissoras – com exceção. Uma avaliação detida dos rodapés dedicados à análise de poesia19 de William York Tindall. Brigada ligeira privilegiou análises na data de 19 de outubro de de romances. resenha D. de Wright Thomas e nem mesmo a retocar ou elidir trechos significativos dos artigos escolhidos18. a seleção dos rodapés de Brigada ligeira sinaliza. Candido traduz com precisão a justaposição entre crítica literária. mato (17 cm de altura).

129-130). o perigo de ser mal compreendido (ela poderia se prestar a “segundas inter- pretações”) –. já que “a aspiração de grande parte das correntes posteriores foi se limitar aos momentos poéticos. o ro- 1945 no volume Plataforma da dapé “Longitude”. preocupada com a meditação sobre o homem e seus problemas. liação elogiosa de autores representativos da poesia participante que 22. republicado em hoje estão completamente esquecidos. A voz do grande rio” (Idem). No depoimento concedido a Mário Neme. Com a preocução Meireles). aos momentos raros em que uma emoção agudamente sentida fosse transmitida com pureza ao leitor” (Idem. se não me engano. marcada pelo lirismo intimista e pela notação emotiva. em boa parte. a atenção de Candido recaiu Minha hipótese é de que a exclusão dos rodapés de poesia de Brigada preferencialmente sobre os poetas de sua geração. hoje esquecidos e. descontados Paulo”22. v. de um lado. nesse sentido. Já abordei essa questão em “a poesia passou. revista de sociologia da USP. p. falo. a crítica – literária. a uma valorização exagerada de poetas trabalho.243). guardando um silêncio interrompido após a Guarnieri. Moraes) – todos publicados entre 1943 e 1945 – são alguns exemplos disso. Candido (1944b) lamenta que Guarnieri tenha se mantido os inéditos? Rossine Camargo “esquivo ante o público. não causa espanto a ava- 2009). 2 . “é com prazer da sua poesia? Justamente esta ausculta angustiada. publicado em 30 de utilidade não pode ser negada” (Candido. 28). n. a uma visão bastante reticente das tendências tística. 41-70 ritualista. a partir do simbolismo. do tempo e do homem” Esboçando uma tipologia de conotação política – ainda que reconheça (Candido. O rodapé começa assinalando que “a poesia moderna. pp. cuja produção ligeira – que perfazem apenas nove dos noventa artigos publicados – se despontava no cenário literário relaciona à excessiva ênfase na defesa da poesia participante por parte do nacional. [1944] 2002e. p. Procedimento que não deixa de ser coerente com a di- crítico. mas perfeitamente justo em suas apreciações de ordem estética” (Can- dido. de que lhe que dou a notícia do seu último livro. pois que a ela incumbe uma parte desse tores estudados levou. Candido indaga: “Quem é o grande poeta da em 1944 – segundo livro de poesia de Rossine Camargo Guarnieri. científica – nos poéticas intimistas e formalistas que culminariam logo mais na chamada aparece como um instrumento de conhecimento e um guia geração de 1945. abril de 1944. Candido discute as pertinência de se adotar como critério estético a oposição en- tre poesia menor. É ilustrativo. [1943] 2002c. ar. Em decorrência dessa linha de raciocínio. p. Recuperando um artigo de Carlos Lacerda – “polêmico. [1943] 2002i. de outro. e a sua Exemplar nesse sentido é o escrito “Sobre poesia”. 23. 129) – a propósito do absenteísmo da poesia de Manuel Bandeira (que autoqualificara sua obra como menor). a querer ser pura” (Idem)21. retriz assumida em “Ouverture”: Esses rodapés evidenciam que a cobrança do engajamento político dos au- “Assim compreendida. ou seja. nos caminhos difíceis. Ramassote. outro artigo (cf. Candido sugere que 56 Tempo Social. Numa palavra: 21.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. pp. Por isso. tende a ser menor”. filosófica. O sangue das horas (Cassiano Ricardo) e Cinco elegías (Vinícius de de orientar o sentido geral do movimento que então surgia. há seis anos [1938]”. dedicado à leitura de A voz do grande rio – publicado nova geração. o que estava em conflito com a redefinição pela qual ele passava. nossa idade aqui em São Paulo: Saudando-o como o “melhor e o mais forte dos poetas moços de São o único verdadeiro poeta. Qual é a característica publicação de Porto seguro. e poesia maior.

estilização acentuadamente pessoal de qualquer impressão. tomam consciência do mundo e o opõem a si mesmos. vêm de preferência correlativos objetivos – para usar uma expressão de Eliot – das suas idiossincrasias. e à sua direita. levando-os a coletivizar as suas emoções em oposição à primeira atividade.]. abrindo a sua sensibilidade ao mundo e ao semelhante e procurando uma expressão mais total do mundo. embora muito lhe falte para atingir a posição verdadeiramente poética conseguida por ele e por mais alguns poucos na literatura moderna: Aragon. Rodrigo Martins Ramassote [. numa palavra. Vinicius de Moraes. a poesia de A voz do grande rio se nutre novembro 2011 57 .. maior ou menor. A segunda atitude caracterizaria os poetas preo- cupados sobretudo com a expressão do destino individual. muito em voga à época. criando beleza dentro de condições extremamente individuais de sensibilidade. o rodapé recusa a convicção. que. Day Lewis.] os poetas se organizam segundo um meridiano ideal. Os poetas de esquerda tentam transpor este individualismo. partindo do seu eu (etapa em que permanecem os da primeira categoria). se me permitem a expressão. O sr. Alinhada aos desafios de seu tempo. qualquer que ele seja. Rossine Camargo Guarnieri também se coloca ao seu lado. A primeira atitude compreende os poetas aos quais a sua própria personali- dade aparece irremediavelmente misturada com a dos outros.. assim. na vertente oposta. a ponto de se tornar poesia – isto é. excessivamente teses. usando os termos. Nas coisas e nas cenas do mundo. Os poetas de direita geralmente não se ultrapassam. Spender. Carlos Drummond de Andrade [. que procura individualizá-las ao extremo. São poetas sintéticos. construindo um sistema poético em que sobreleva a necessidade de expansão do eu e da obtenção de uma poesia mais ou menos pura. de que pelo fato de ser intemporal a poesia não deve “se dirigir aos problemas presentes da coletividade. uma esquerda e uma direita poéticas. mas relacionados a questões de técnica e de concepção da poesia. havendo os que se colocam à sua esquerda. emoção ou ideia por meio de verso” (Idem).. “encontra- mos apenas um grande poeta. Aplicada ao exame da tradição poética brasileira recente. Haveria. a poesia (Idem). Neruda” (Idem). foi incorporado à sensibilidade do poeta. não no sentido político corrente. Murilo Mendes – uns mais outros menos” (Idem). resultando. pois assim se torna demasiado circunstancial” (Idem). Manuel Bandeira. como síntese. São. Por outro lado. Além disso.. Candido afirma que a questão reside em saber “até que ponto o tema. no sentido de bastante a si mesmo e inimiga do tema poético. tal classificação indica um predomínio maior de poetas à direita do meridiano adotado: “Schmidt.

A apreciação.. O poeta sofre e canta com os seus irmãos da terra inteira. O rodapé “Um poeta impuro”. a China enchem as páginas com a sua dor e a sua paixão. de um líder da Abolição cheio de imagens e bêbado com o som da própria voz. mas porque representa das poucas tentativas sérias feitas entre nós no sentido de uma poesia menos personalista e mais humana” (Idem). 41-70 [. Candido chama a atenção para o uso recorrente de recursos como o “slogan. 1944c) – no grêmio estudantil Centro XI de Agosto da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. num movimento intenso de fraternidade. Agora. “é deste equívoco que acuso o sr. a Espanha. 2 .Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. dedicado ao exame de Poemas – também publicado em 1944 –. o dístico quase de propaganda ideológica [que] mutila dolorosamente certos poemas que.] (Idem). Os países que sofreram primeiro de todos os botes do fascismo são como que os heróis que aparecem a cada poema. Parece que é este sentimento de compromisso moral. Não faz muito tempo que soube tratar-se do Sr. E é justamente o verbalismo do poeta (“um condor mais polido e manso”) que chama a atenção de Candido. José Tavares de Miranda. n. se teriam tornado obras- primas” (Idem). Assim. Rossini Camargo Guarnieri. Na ocasião. O nosso poeta aceita a sua fatalidade oratória e faz bem – porque se ela o torna não raro palavroso 58 Tempo Social.. v. de ontem e agora. com tanto mais veemência quanto não se trata de um qualquer. Nunca mais vi o moço de sotaque nortista. “é um livro que é necessário ler. mais pensados e mais depurados. e a lembrança daquela sessão agitada do XI de Agosto ajuda-me a compreendê-lo melhor” (Idem). pp. segue na mesma direção.. Essa característica relega “para segundo plano o elemento consciente que em geral leva o poeta a construir o poema. não deixa de assinalar ressalvas. que inflama o poeta e forma a base desse livro [. encontro-o num livro de versos. de José Tavares de Almeida. Candido teve “a impressão exata de um último condoreiro. no entanto. 23. Indicando certo desequilíbrio no livro de Guarnieri – resultado da ausência de “amadureci- mento suficiente dos temas para que eles encontrem a sua forma própria” –. Seja como for. organizando-o e podando-lhe os brotos excessivos. A crítica inicia com uma lembrança pessoal: a figura do poeta pernambu- cano discursando – “dando às palavras uma veemência de tribuno antigo” (Candido. obrigação inelutável de bradar contra a iniquidade. não só porque nele se encontram poemas de vigorosa beleza.. A Abssínia. revista de sociologia da USP.] do fato de todo dia. mas de um poeta de primeira qualidade levado ao discursivismo pela sua intenção – aliás muito nobre de transformar o seu verso em arma de com- bate” (Idem).

. sobretudo. do dadaísmo” (Candido. Estamos num tempo em que se exagera bastante. portanto. que não passa de um ideal. o crítico exorta: Não é possível a arte. 168). que todos os seus poemas sejam a poesia – como se pretendeu afirmar durante certo tempo. compreensiva (cf. o som (Idem). Para ser fecunda. lhe dá em troca. José ção de Candido sobre a poesia Tavares de Miranda. Aborda o tema pelo exterior. como mui- ta gente. novembro 2011 59 .] o Sr. raramente [. acentuando as qualidades plásticas. um corres- pondente moral da pureza poética. tornando-se mais mal explicadas (1944c)23. é a negação mesma do esforço artístico. de antinatural na concepção semítico-cristã de castidade – por exemplo. do surrealismo. E sustenta: De minha parte. ao encerrar o rodapé sobre José Tavares. A pureza está longe de ser um ideal artístico absoluto. para se realizar. [a] pureza que esteriliza de certo modo algumas das expressões mais vivas do homem. a concep- virar som puro – porque neste caso vou ao concerto. as mais das vezes. aliás. porque sinto nele um calor de finessecular francesa – e também sua congênere nacional – irá se vida nem sempre discernível nas chinoiseries e no vocábulo puro – [coisas]. Nós todos sabemos o que vai de antivital. as sensações que lhe pode dar. Pires. confesso que o aprecio mais por esta circunstância. Mas não quero. [1944] 2002h. Quero poetas como o Sr. Ele reconhece a importância do Simbolismo francês “não só pelos valores próprios que manifestou”. Os seus temas são simbólicos ou gravemente altíssonos. Poesia para ele é exaltação antes de compreensão ou ponto de vista. e. 2010). Nesse sentido. p. E a poesia não escapa à regra.. Mallarmé e. a poesia. cheio de demasias. Como toda gente. despida que se nutre das migalhas do silêncio e soluça por não poder atingi-lo. toda pureza deve começar por renunciar a si mesma. Com efeito. leio Mallarmé e gosto muitíssimo dele. sob pena de ser um significado extremamente limitado e quase aberrante. A poesia pura. mas também porque tornou possível a “desbragada experimentação do cubismo poético. Posteriormente. as bêtes noires de Candido. Mesmo assim. Quero palavras que tenham coragem de ser palavras. a eloquência que leva o tema acima da banalidade” (Idem). as virtudes de despojamento e pureza poética. se quisermos ver nela a poesia. Quero os elementos humanos que a tornam comunicativa e inteligível. Verlaine são. modificar. Rodrigo Martins Ramassote e superficial. impuro. Tavares de Miranda usa meio tom e nunca se faz o cantor da vida corriqueira ou pequenina. e não que queiram 23. a meu ver. a cor. É dos meus poetas prediletos. E mesmo de ideal humano. nesse momento.

p. os rodapés foram publicados. com veemência. no entanto. Num momento de polarização e acirramento ideológico entre 2001-2002. antes. os impasses dos intelectuais e o realinhamento ideológico – pelas quais o país passou no decurso das 26. Oswald de Andrade detecta com precisão esse aspecto: “Aliás. dois dos traços que terão longa vida na fortuna crítica do autor pernambucano. Porém. O rodapé “Poesia ao norte” assinala a construção rigorosa dos poemas e a influência do surrealismo. menta: “[João Cabral de Melo Trata-se. uma análise sociológica das transformações sociais – a dinâmica de classes. que Candido foi um dos primeiros a reco- nhecer o valor literário do estreante João Cabral de Melo Neto. composição e técnica narrativa) e comentários analíticos sobre as modificações de ordem econômica social e ideológica 60 Tempo Social.]” (Candido. de uma perpectiva que decorre de uma preocupação mais Neto é] a mais promissora das estrelas poéticas dos últimos geral com o afastamento dos intelectuais dos conflitos que assolavam o país tempos [. Conjugando exame das características internas dos livros avaliados (traços estilísticos. Em outra ocasião.... de outro. do sentido de comunicação que justifica neste momento a obra de arte” (Candido.140). 293). de imediato. ela tende a se bastar a si mesma. ideários de direita e de esquerda. v. Candido repele. uma reflexão sobre a prosa modernista brasileira. tendo em vista as pretensões do crítico em relação ao concurso da Cadeira de Literatura Brasileira. p. Intuição semelhante. Em “Antes do Marco zero”. Subvertendo a ordem cronológica em que contudo aprofundar o problema. qualquer forma de absenteísmo ou alheamento dos problemas objetivos que afetavam 25. a entrada das análises. a grandeza do poeta pernambucano foi. p. por isso mesmo. [1944] e o mundo. 24. 2 . o perfil descobertas: a poesia brasileira começou com Rossini Camargo da crítica politicamente orientada do autor não foi totalmente relegado. em minha opinião. o destino dos homens25. o Sr. construção dos personagens. revista de sociologia da USP. Como se vê. efetuadas por Candido são também um meio de reafirmar a trama entre áreas de pesquisa e frentes de atuação profissional na qual estava envolvido. concebida de modo a formar um panorama do romance modernista nesse período – bastante apropriado. Guarnieri. assinalada24. pp. Isso porque a seleção e a reunião 2004. sem décadas de 1920. 68). ele co.. os artigos de Bri- gada ligeira revelam um duplo encadeamento: de um lado. Apreendidos na sequência em que foram dispostos. afinal.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. Ganha uma beleza meio geométrica e se isola. Se o esforço de neutralizar os aspectos mais salientes desse sectarismo Antonio Candido é mestre nessas condicionou a organização do material reunido em Brigada ligeira. [1943] 2002f. Candido não padece propriamente de insensibilidade poética – conforme o acusam seus detratores e seus adeptos o defendem –. foi encontra-se em Aguiar (2000). [1943] Mas esse aspecto não esgota a questão. o crítico não deixa de pontificar que a riqueza verbal da obra tem como contrapartida “certo empobrecimento humano”: “O erro de sua poesia é que. 23. aliás. 1930 e 194026. n.” (Andrade. construindo o mundo fechado de que falei. 41-70 Deve-se lembrar.

Enquanto José Geraldo Vieira causa a impressão de não cação de massa e da tendência a adentrar em “campo alheio ter sido incomodado pela renovação promovida pelo romance de 1930. Rodrigo Martins Ramassote do período em curso. tas. 48). comenta episódio – uma con- versa com o escritor paulista e Fernando Sabino (de passagem Aferrados às narrativas de cunho marcadamente social. mas 1942 e 1944: Inácio (de Lúcio Cardoso). política. de certo modo.] a força do romance moderno foi ter entrevisto na massa. de 1922. os estivadores. de 1933. romance de José Geraldo Vieira também publicado em No centro do livro estão três artigos dedicados aos principais representan- 1943. Candido já chamava a atenção para “o abandono constante e Num primeiro bloco. a técnica literária excessivamente intelectualista de de Andrade e foi suscitado pela publicação de A Revolução ambos expressa a cosmovisão de uma burguesia que se via mergulhada no melancólica em 1943. Os escritores aprenderam. do aspecto artístico da sua obra” diante da concorrência com minados não conseguem se desgarrar dos influxos estilísticos e ideológicos os principais meios de comuni- dos anos de 1920. No rodapé “O romance vendeu sua alma”. Filosofia. É bastante significativa a e sociais operadas no meio rural e operário. transfundindo Em depoimento recente sobre Mário de Andrade. em que ambos as mazelas e as injustiças que acometiam as realidades locais e regionais. cosmopolitismo litorâneo do Encilhamento e confrontada pelos primeiros 29. composto pelos artigos “Estouro e libertação”28 progressivo. da Semana de Arte Moderna em São Paulo e das primeiras revoltas essa geração inaugura “o romance brasileiro”31. Candido institui uma linha de continuidade entre 27. O artigo examina a pro- internacional – do misto de intenção ideológica avançada e realização dução romanesca de Oswald passadista do segundo. Ao abandonar a representação pitoresca e exótica 30. com os trabalha- anjo de pedra (ambos de Octávio dores de engenho. denunciando por São Paulo). que tende a integrar as grandes quase completa ausência de inte- massas da população à vida moderna: resse pelo romance introspectivo. na qual a prosa de ficção procurava seu lugar em meio à crescente sexto número da revista Clima. porta. O lodo das ruas e O realidade criadora.. Essa Miramar. de Farias) são alguns exemplos.. publicado no as obras. alheada dos problemas contemporânea” (Candido. conscientização é concomitante à aceleração das transformações econômicas 31. 1922 é ano de fundação do das camadas populares – mero objeto de contemplação estética – em favor Partido Comunista. realizando e dando sentido humano ao pro. Candido observa que os autores exa. Através dos livros. no sentido pleno. especialização do trabalho intelectual27. os plantadores de cacau. vão aceitar o povo. defendiam o mérito literário novembro 2011 61 . estética – todas estas e a técnica pontilhista utilizada não se coaduna à proposta de romance mural. os operários de fábrica. verdadeiro recheio da boa ficção prema afirmação literária” das classes dominantes. p. 47). sociologia. muitas coisas mais constituem o Em que pese a distância que separa o cosmopolitismo do primeiro – “su. 1992c. nacionais e sustentada por uma economia agrária voltada para o mercado 28. o e receber as mais disparatadas primeiro volume do ciclo Marco Zero de Oswald de Andrade fracassa porque transfusões. por parte dos artis- e “Um romancista da decadência”29. os principais tenentistas. apesar da publicação de obras importantes entre os anos de [. 1941b). Nesse sentido. Esses eventos foram escritores dessa geração “vão viver menos obsessivamente voltados para a registrados no estouro da prosa experimental e satírica do par Europa. Candido o seu vigor e a sua poesia na literatura europeizada da burguesia (Idem. Leitura de A quadragésima movimentos de contestação à sociedade capitalista em início de decadência30. e Serafim Ponte Grande. Memórias sentimentais de João grama estético dos rapazes de Vinte-e-Dois” (Candido. não assunto. tes do romance de 1930. p. toda essa massa anônima criou. de realização de um retrato sensível de sua realidade objetiva e complexidade humana.

551). Nessa disposição sequencial silêncio)32 representam. em José Lins do Rego. n. para anunciar que ao ler o artigo lembrou-se imediata- mente de Ciro dos Anjos: “um dos maiores dentre os poucos estrategistas da literatura brasileira contemporânea” (Candido. vislumbra na postura de Belmiro 62 Tempo Social. a análise do romance de estreia de Ciro dos Anjos. pp. José Lins do Rego (Fogo morto) e Érico Veríssimo (O resto é 32. a atenção Libertadora (ANL). e da Intento. os esquematismos e a qualidade mais declarado para o de convic. incorporando-o ao nosso “patrimônio estético e ético” burguesa”: “Eles não tiram o sono de Roberto Simonsen” (Candido. 50). nem a narrativa se passa em 1935. Burocrata lírico. no qual incorporando ao gênero categorias e tipos sociais até então relegados pelos teria dito que os romances do ciclo burguês eram “prolixos” “escritores burgueses”. ao que tudo indica. p. as obras maduras de Jorge Amado (Terras do sem fim). de Candido retém-se no processo mais geral e nos responsáveis pela defecção na Comunista (cf. v. 79). a tensão entre a nostalgia e o inconformismo social referente ao universo decadente de sua região. 41-70 de Octávio de Faria –. por “Estraté- gia” – a atenção se volta para as experiências literárias surgidas no começo de 1940. a decadência dos engenhos da zona da mata do Nordeste e as vicissitudes das camadas médias urbanas das grandes capitais. o ideal de romance almejado por é possível divisar a transição do escritor de engajamento político Candido. ver o terceiro Vargas. a dialética entre documento e poesia.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. Deve-se lembrar que de elogiar a beleza. ano tampouco de abordar a influência machadiana e a relação entre autobiografia da formação. A esse respeito. a elegância e o equilíbrio da prosa do escritor mineiro. Sobre esse assunto. No terceiro e último bloco – iniciado. Realizando a passagem dos veteranos do romance de 1930 para os jovens estreantes do decênio seguinte. p. 1992d. (Idem). ver No- bile (2005). Candido capítulo de Miceli (1979). imerso na malhas do serviço público 34. por exemplo – com o pleno domínio dos meios de expressão literários. em Érico Veríssimo. duvidosa de parte das obras anteriores. Combinando de forma equilibrada a denúncia social – as condi- 2008. Não constituindo um lançamento literário. demarcando um antes e um depois na trajetória evolutiva da prosa de ficção do período. significativamente. Bueno. Deixando de lado. Candido justifica a decisão de abordá-lo com uma referência à distinção formulada por Almeida Salles entre escritores táticos (que se valem do impulso criativo) e estrategistas (que concebem o ato criativo como um “afloramento definitivo de um largo trabalho anterior”). 23. nos três casos. revista de sociologia da USP. a geração de romancistas de 1930 empreendeu a “va- e não questionavam a “ordem lorização do povo”. Não deixando 33. 2 . revelam a síntese feliz operada por cada autor: em Jorge Amado. as realizações literárias analisadas ções mais discretas e ambíguas. oscilação entre a representação da psicologia diferencial das classes sociais e o destino individual de seus membros. crescimento e fe- chamento da Aliança Nacional e romance – aspectos destacados na recepção imediata da obra33 –. p. por que passa a intelectualidade após a implantação do regime ditatorial de 34. 2006. O amanuense Belmiro – originalmente lançado em 1937 (ano de instauração do Estado Novo) – representa um marco fronteiriço. ções aviltantes dos trabalhadores da zona cacaueira da Bahia.

tal Nesse sentido.] num tempo como o nosso.. tem sido dos mais brilhantes da literatura deste fim de civilização história literária. mostrando É nesse contexto intelectual e político que a obra de autores estreantes que o arrefecimento do romance social (ou proletário) em detri- é lida. desligada mento das tendências intimistas do meio social envolvente e pairando no jogo desinteressado da inteligência. questão se torna explícita: “devi- do ao desenvolvimento das suas contradições internas. Sobre a relação parada à imagem do peru hipnotizado e paralisado.]” (Candido. um dos instrumentos se opõe ao desenvolvimento dialético da personalidade e da sociedade. setor que.. do “conflito em solução dinâmica do progresso” (Candido. do assunto se amplia. as estruturas opressivas de poder insulam os intelectuais em meros exercícios de autocon. ou quando entra reverente no seu séquito (Idem. e ideológica da burguesia [. como defesa das posições já gastas da inteligência e da sociedade. na autocontempla- ção. 89). a ficção autocentrada entre intelectuais e o mercado de e ensimesmada dentro do “círculo magnético do próprio eu” de A marca. Embora não ressurja nos demais artigos. sociedade organizada. p.. não apresenta virulência alguma que possa pôr diretamente em xeque a ela. p. Com. p. “rompendo a coexistência relativamente harmoniosa que certa medida.. não deixa de cor- responder aos fatos. Nisto não vai um julgamento de valor estético. a linha excessivamente personalista do romance entrou em crise e. os poderosos desse mundo só o deixam em paz quando ele se expande nos campos geralmente inofensivos da literatura personalista. Por força avanço da literatura introspectiva ao abafamento político causado dessas estruturas ocorre uma radical separação entre preocupações estéticas pelo Estado Novo. que até aqui tem movido uma conspi- ração geral para belmirisá-lo. pelos quais me desculpo –. Nada mais natural que a crise se manifestasse no Numa última palavra – e usando termos rebarbativos. p. procurando mais autênticos destas [. No já citado tinha assegurado o amplo movimento do decênio de 30” (Candido. padece da paralisia vital que impede a transformação 36.]. a impressão que templação e são responsáveis pela linha excessivamente personalista que se tem é que Candido associa o passa a dominar o panorama literário do início dos anos de 194035. explorando metodicamente os seus complexos e cacoetes. 1992e. deveu-se tanto à incapacidade de renovação do gênero como a narrativa revelada nesse período reflete as agudas contradições sociais e a ao realinhamento ideológico crise de consciência que marcariam o fim da civilização burguesa36. 2000-2001.] o destino do intelectual na sociedade. com ela. postos públicos e privados entre 1920 e 1945. provocado pela instauração do Estado Novo. o que. escapando aos quadros brecar o vir a ser por meio do prolongamento indefinido das oposições do ser e do que o contiveram cerca de dois não-ser. estudo de Bueno. Criando-lhes condições de vida mais ou menos abafantes. 92). justamente por ser reflexo dos conflitos que é das mais grandiosas da do nosso tempo. numa aventura relação à literatura personalista. ideologias. 84) Pelo que se pode depreender do argumento de Candido.. No rodapé “Esclarecendo”.. a compreensão pp. datado de 9 de junho de 1944. o romance é bem reflexo da crise estrutural burguesa (Idem. 2000b. absorto nas donzelas Arabelas. a burguesia [. atirando-se à busca de novos campos.. mas antes histórico.. 35. Anar- quizado. Rodrigo Martins Ramassote [. romance. novembro 2011 63 . não raro. 189). para confiná-lo nas esferas em que seu pensamento. de Fernando Sabino. nas Vilas Caraíbas do passado. as suas aparece. ver Miceli (1979). 116-117). em e político-sociais. em séculos. Singularizada pelo predomínio do romance introspectivo.

ver Almeida (2000). Daí o caráter de exercício assumido pelo livro: “tentativa de transplantar a planta estrangeira para a terra pátria”. de de 1938 e 1945 em pequenas cidades do interior do Rio de Janeiro e de outro. monarquista e antitotalitário. 23. n. 107). então refugiado no Brasil. é provável que a decisão de por Candido enfocaram a obra poética de T. Tal como a avaliação da produção romanesca de Érico Veríssimo. Católico con- dial. No comportamento doloroso dos personagens. 113). como uma grande obra que 64 Tempo Social. O agressor. Lançado primeiramente no Brasil – onde sua redação foi concluída –. é claro. Eliot. Trata-se. livro no país. p. 2 . consigo próprio e com a vida. revista de sociologia da USP. Embo- ra Candido constate que os recursos técnicos utilizados por Veríssimo se inspiram em autores estrangeiros (especialmente os ingleses). 1992g. Ao contrário do que sucede com a obra do escri- tor gaúcho. numa conjuntura marcada pela “paixão dos valores”. a diretriz adotada pelo livro excluiu sagrado. e pregando um catolicismo sensível às 38. (Idem. numa verdadeira aposta. Sobre a recepção crítica do questões sociais. 2000c). o conteúdo dos artigos era “deliberadamente informativo” Minas Gerais. de George Bernanos. perdidos em uma situação de incerteza e desagregação. pois. Devo essa condenando a ascensão dos regimes nazi-fascistas e a política colaboracio- indicação a Vinicius Dantas. constitui um exemplo indicativo da consciência burguesa em crise: “desvairada ante o divórcio cada vez mais pronunciado entre as suas ideologias e a sua significação social” (Candido. de um lado. Com efeito. p. Monsieur Ouine recebeu uma avaliação elogiosa de Candido. de “um dos romances capitais de nosso tempo. escreveu livros panfletários e artigos de jornal (cf. nista adotada por Vichy na França. para a eleição de novos valores – aposta que pode levar à sal- vação ou à perdição irremissível” (Candido. do desafio estético os três últimos rodapés redigidos que o romance impunha à recepção crítica38. p. Talvez o romance Monsieur Ouine. 41-70 Do mesmo modo. o retrato da pequena aldeia francesa traçado por Bernanos exprime a obsolescência dos princípios valorativos que até então sustentavam os alicerces da civilização do Ocidente. Bernanos residiu entre os anos as apreciações de poesia e. Candido não reconhece no romance de Fusco uma assimilação efetiva das correntes super-realistas surgidas na Europa. são poucas as análises de literatura estrangeira produzidas por Candido. v. 1992f. Além. o romance de estreia do escritor de Cataguases suscita comentários sobre a assimilação de correntes literárias estrangeiras.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. a linguagem. Nessa estadia. 106). pp. outro nome incluir “Paixão dos valores” em Brigada ligeira tenha ocorrido em função de peso no cenário literário mun- do renome do escritor francês. S. seja 37. Candido. Ocorre que. os temas. os personagens e os sentimentos expressos em sua obra seriam “essencialmente brasileiros”. De acordo com o crítico. percebe-se o equilíbrio instável das condutas: “o indivíduo como que solicitando perigosamente as mais desencontradas possibilidades. Não se deve esquecer que o principal representante desse filão37. em conversa pessoal. de Rosário Fusco.

(2000). em que se entrelaçam o por Costa Neto. pp. Brigada ligeira. me comunicar um fato impor- Grande parte dos rodapés escritos por ele no período permaneceu inédita. (1994). Aspectos da literatura brasileira. Em fins de janeiro de 1945. p.]. Sandra Jatahy (org.]” (Sachetta. Almeida. acaba- referências e reflexões que. pp. “Fidelino de Figueiredo na origem dos estudos de literatura portuguesa no Brasil”. jul.. predile. In: Nitrini. assim. tante: havia vendido o jornal. Andrade. dessa mércio de café e proprietário da Folha da Manhã Ltda.). Teresa de. 215-223. O fato é que eu sai e comigo saíram mais de 50 companhei- ou então subentendido. Constituem.. pelo que tem de permanente no seu sentido apocalíptico e no seu admirável estilo” (Idem. 117). ros. Eis o modo como Candido encerra sua apreciação de Monsieur Ouine e. iria assumir a instauram uma série de princípios analíticos. Referências Bibliográficas Aguiar. “Segundo momento pernambucano”. se projeta pelo restante da vam de perder seu secretário-geral produção intelectual do autor. que faria parte do escritó- rio de Costa Neto. pp. Estudos Avançados. Fundamos um novo diário. direção da empresa. São Paulo. novembro 2011 65 . Candido se demite do cargo de crítico literá- rio titular do jornal Folha da Manhã em solidariedade aos companheiros de redação39. reformulado [. também. “Brusco lampejo: digressão sobre a presença de Érico Veríssimo em Brigada Ligeira. Vendera para um grupo liderado Elaborados numa etapa de indefinição profissional. In: . O dr. (1986). Editora da Universidade/UFRGS. 257-262. p. São Paulo. . 325). Mário. 1981. marco na contestação ao regime de Vargas. “Fidelino de Figueiredo: sua obra crítica e sua ação na Universidade de São Paulo”. Sacchetta comenta o caso: “Certo dia o Octaviano Alves de de Escritores. Nabatino ativismo político e as atribuições da Cadeira de Sociologia II. Ao mesmo tempo.. Editora Martins. Respondi ao ções estéticas e intersecções disciplinares. um quadro de Octaviano que as ‘Folhas’. tam- bém naquele momento. Porto Alegre. São Paulo. São Paulo. o ‘Jornal de S. “Bernanos no Brasil: o rastro de uma permanência”. participa ativamente do I Congresso Brasileiro 39. 8: 7-12. Aquém e além mar: relações culturais Brasil-França. Oito meses depois ele voltará às páginas da grande imprensa. (2000). 115-130 Amora. adesões ideológicas. 22 (8): 423-426.). Antonio Soares. de Antonio Candido”. Rodrigo Martins Ramassote é necessário ler. mesmo que de modo atenuado. esses escritos Ramos. Sandra (org.-dez. 1ª edição 1945. set. Tradução & Comunicação. In: Pesavento. Paulo’. veículo a 1945] apareceu na redação para no qual permanecerá pelos dois anos seguintes. financiado pelo grupo da rádio Record [. (1978). já em franco de- Lima [fazendeiro ligado ao co- clínio. em suas linhas gerais. Leituras cruzadas. Juízo significativo para se refletir tanto acerca de uma civilização em vias de reconstrução após um sangrento conflito ar- mado mundial como sobre um país que começava a dar adeus a uma longa ditadura rumo ao futuro ainda incerto. Paulo.. Flávio. de 1931 vez assumindo a coluna “Notas de crítica” no Correio de S. Hucitec.

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). 15-36. 3. Busca correlacionar a perspectiva analítica defendida pelo crítico com a militância política em pequenos agrupamentos de esquerda e as atribuições de professor-assistente da Cadeira de Sociologia II. Tais critérios guardam afinidade com as frentes de atuação e os princípios doutrinários assumidos por Candido no período. v. Paulo: 1921-1981. It looks to correlate the analytic approach pursued by the critic with his political activism in small left-wing groups and his responsibilities as assistant professor of Sociology Chair II. Brigada ligeira. tratados e ensaios: a formação da crítica brasileira moderna” In: . aborda o livro de estreia do autor. “Depoimento” In: Mota. pp. v. Flora. Editora da UFRJ. (2002). Rodrigo Martins Ramassote é doutorando pelo Departamento de Antropologia Social do IFCH- Unicamp e técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Ar- tístico Nacional (Iphan). Campinas. História da Folha de S. pp. Militância política. História do marxismo no Brasil. Political activism. pp. E-mail: <ramassote@hotmail. (1988).Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. Süssekind. 2 . 23. Impres. 325. Maria Helena. (1981). Finally. Footnote critique. Carlos Guilherme & Capelato. Ao final. 41-70 Rubim. Antônio Albino Canelas. “Rodapés. Resumo Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido Este artigo examina os rodapés de crítica literária assinados por Antonio Candido na coluna “Notas de crítica literária” do jornal Folha da Manhã. identifying the criteria involved in the selection and organization of the included essays. n. the text examines the author’s first book. These criteria are closely associated with the political and professional activities and theoretical principles adopted by Candido during the period. In: Moraes. revista de sociologia da USP. Papéis colados. Texto recebido e aprovado em 30/7/2011. Brigada ligeira. Editora da Unicamp. 305-382 Sachetta. Brigada ligeira. Rio de Janeiro. “Marxismo. Hermínio. p. Palavras-chave: Antonio Candido. Abstract The disquiet of Antonio Candido’s activist literary criticism This article examines the footnotes of literary criticism authored by Antonio Candido in the column ‘Notes of literary criticism’ in the newspaper Folha da Manhã between 1943 and 1945.com>. Crítica de rodapé. entre os anos de 1943 e 1945. Keywords: Antonio Candido. 70 Tempo Social. cultura e intelectuais no Brasil”. Brigada ligeira (Light brigade). João Quartim (org. identificando os critérios que presidiram a seleção e a reunião de seu conteúdo. São Paulo.