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RESENHA – Fluxo e Refluxo – Pierre Verger

https://segundavia.org/2011/02/04/fluxo-e-refluxo-pega-na-mentira/

VERGER, Pierre

FLUXO E REFLUXO (do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e


a Bahia de Todos os Santos. Dos séculos XVII a XIX), Corrupio, 1987.

Esta resenha saiu na REVISTA DA BAHIA, em dezembro de 1988. Foi a


minha primeira, num gentilíssimo oferecimento de Gustavo Falcón, meu
professor e então editor da revista. Detalhe: o gostosíssimo livro tem mais de
700 páginas e ele queria uma resenha em 08 (oito) dias. Doido para sair na
mesma revista em que saía o mega Antônio Risério(por exemplo), queimei
pestana. Fui muitas vezes (e voltei) à África e Europa, a braço. Entreguei em 15
dias. A reação foi boa:
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Imaginemos uma situação: no


interior de um velho navio,
repousam, após reiterado ma-
nuseio, pilhas e mais pilhas de
documentos sobre o tráfico de
escravos da África para o Brasil e
o imbricado histórico,
econômico, político e cultural
que o acompanham. Sobre a
carga, exitoso e reflexivo, um
incansável investigador relembra
as inúmeras viagens que fizera à
África, Bahia e Europa e conclui
que não há mais nada a fazer: o
arsenal de provas que ele
conseguiu reunir entre um
arquivo e outro de Londres, Paris
e Lisboa e entre um contato e
outro com os arquivos e culturas de Salvador, Nigéria e Daomé é mais do que
suficiente para a reconstituição dos fatos e das suas conseqüências. Cônscio de
ter-se preocupado apenas com a detectação desses fatos, sem julgá-los à luz da
sua formação ou dos seus interesses extra-profissionais, o frio investigador
agora sabe que a história foi desvendada e se prepara para a sua revelação.

Neste momento em que paramos para imaginar, estamos no ano de 1968. O


velho cruzador descansa sobre as águas remexidas do Atlântico, e o detetive-
historiador manuseia o produto do seu trabalho. “FLUXO E REFLUXO…” é o
relatório final de vinte anos de pesquisa do etnólogo francês Pierre Verger, que,
vinte anos depois de tê-lo publicado na França, tem agora a sua tese de
doutorado pela Sorbone publicada no Brasil e reconhecida como a sua obra
máxima. “FLUXO E REFLUXO” são termos através dos quais o autor sintetiza e
traduz duas direções do movimento de tráfico já referido: uma, primordial e
causadora, mas estagnável, refere- se às idas e vindas dos navios negreiros entre
uma margem e outra do Atlântico.
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A outra, fruto da primeira,


mas ininterruptamente
consequente, refere-se ao
movimento de culturas que
vêm e voltam, reciclando-se
num processo mútuo de in-
fluências. Através deste reflu-
xo(que tem início com a rebe-
lião dos Malês em 1835,
quando a elite dirigente da Ba-
hia começa a temer o poten-
cial de revolta dos escravos e
seus descendentes), o
complexo cultural transposto
para a Bahia começa a se redirigir à África, onde já chega transmutado. O autor
oferece um painel de fotografias e relatos da “sociedade brasileira” da África:
crenças, comidas, festas, arquiteturas, modos de vestir e morar, tipo físico,
cantigas populares já esquecidas do lado de cá, etc, são ainda encontrados no
Daomé e na Nigéria, em cuja capital o autor localizou um “bairro brasileiro”.
Dessa região, a Bahia recebeu a maior parte dos seus escravos e, para lá,
reenviou os seus descendentes, entre os quais se encontravam pedreiros,
carpinteiros, ferreiros, domésticos e outros transmissores de cultura. Embora
esta não seja, especificamente, uma obra de etnólogo, mas de um historiador
que quer investigar o tráfico de escravos e a sua conjuntura entre a Bahia e o
Golfo do Benin, o autor penetra, sempre que tem tempo, o interior das culturas
traficadas.

Fiel ao compromisso de retratar a história de que se ocupa com a rigidez de um


fotógrafo – profissão que conhece bem e utiliza – e com a precisão de um
anatomista (expediente que o força a resgatar os fatos juntamente com as suas
circunstâncias), Pierre Verger é, neste livro, tão exaustivo e consistente que
chega a ser incômodo: a cada instante, ele obriga o leitor a subir ao cume de
uma montanha de documentos originais e, no momento seguinte, a voltar ao
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fato para possíveis


reflexões. Por isso, não se
trata de um livro para
diletantes. Trata-se de um
livro básico para pesquisa
que assume uma
importância particular
para a História do Brasil,
principalmente por dispor
de um forte potencial de
luz para abordar o buraco
negro aumentado (ou
gerado) pelo jurista Ruy
Barbosa, que, enquanto
ministro das finanças do Império, foi quem primeiro autorizou a queima de
arquivos referentes ao tráfico.

Em suas 728 páginas recheadas de notas, índices, apêndices e uma série de ilus-
trações, este livro esmiúça o cotidiano da história que passa por Portugal, Bahia,
Inglaterra, Espanha, França e Holanda, os principais centros responsáveis pelo
movimento de navios que fuça a terra de um lado e outro do Atlântico. Só
isso? Não. Presta atenção, também, ao interior das cortes africanas, como a do
Daomé e de Oió, cujos reis disputavam
entre si a supremacia no fornecimento
da “mercadoria” para o tráfico e
solicitavam a construção de fortes em
seus portos às potências européias. E
fazendo passagem com as mãos a mais
de dois séculos de história que ele vira e
revira, o autor não deixaria de detectar
as tensões e conflitos de interesses que
geraram aquelas relações. Assim, o livro
se estende, volumosamente, desde as
três razões imediatas que, no fim do
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século XVII, tornaram as condições de comércio com o Golfo do Benin


amplamente favoráveis ao fumo da Bahia (Fluxo), até a formação de
uma sociedade brasileira naquela parte da costa africana, já no século
XIX (Refluxo). Sendo tão abrangente, o autor não deixaria, ainda, de explorar as
interessantes e, neste caso, incestuosas relações da cultura com a escravidão.

Outra novidade é que, tratando do


tráfico, o autor não fala de dentro dos
navios. Pierre Verger fala do tráfico
sem dó nem piedade, mas com uma
característica própria de quem
prometeu, desde a introdução,
“…pesquisar e publicar, sem
comentários indignados ou
moralizantes, tudo aquilo que
arquivos e relatos de viajantes