You are on page 1of 2

UMA BREVE DISCUSSÃO DOS PASSOS 165b a 167b DO TEETETO

DISCIPLINA: QUESTÕES A. DE HISTÓRIA DA FILOSOFIA ANTIGA

ALUNO: GLAUCIO VINICIUS DE SOUZA ALVES

Sócrates encontra-se em peleja dialógica com Teeteto, a quem pergunta acerca do
fundamento do saber (145e). A primeira defesa de Teeteto, que identifica conhecimento e sensação
(151e), aparência e realidade, baseia-se no sofista Protágoras, para quem “cada um é a medida do
que é e do que não é” (166d). Para Platão (como para Aristóteles), as coisas palpáveis são fluxo ( cf.
Crátilo e Timeu), o que parece, exclusivamente neste ponto, fazer convergir o órganon
epistemológico platônico e as teses do mais terrível dos interlocutores de seu mestre Sócrates. A
relação entre verdade e percepção é, com efeito, ponto nevrálgico no Teeteto.
Estamos em meio à reiteração da tese relativista de Protágoras (166a-168c). Conforme este,
ser é para cada um segundo lhe parece. Para impor dificuldades à concepção de Teeteto/Protágoras,
Sócrates interpela Teodoro e Teeteto: “Será possível que aquele que sabe alguma coisa não saiba o
que sabe?” (165b). Como reputam ser isto impossível, o filósofo assevera que, caso cerre-se um dos
olhos e se observe um manto à frente, pode-se dizer, caso saber e sentir sejam de fato idênticos, que
se conhece e que não se conhece simultaneamente que há um manto diante de si.
Eric Voegelin destaca, a partir do “princípio antropológico” (fundado na Era Axial de Karl
Jaspers), a relevância para o filósofo ateniense da noção de metaxy (entremeio) na qual o homem se
acha: entre a transcendência e a imanência, diríamos hoje – isto afasta a ideia de que Platão seja o
primeiro utopista político do Ocidente, a propósito. O que importa, na presente discussão, é que
Voegelin, ao tratar do tema na sua A nova ciência da política, ressalta que Platão aponta a divindade
como a medida1, contrapondo-se à sentença de Protágoras de que o homem seria a medida das
coisas.
Claro que a posição de Protágoras, no trecho do Teeteto a que nos referimos neste trabalho, é
dita pela boca de Sócrates. Mas a flagrante contradição das palavras “Pois afirmo que a verdade é
como eu escrevi” (166d) face ao relativismo é corolário da tese do sofista. Ao dizer que um homem
e outro “diferem infinitamente”, Protágoras lhes interpõe um abismo epistêmico intransponível. Se
não há perspectivas comuns, o homem sábio seria, portanto, aquele que faz as coisas que lhe

1 VOEGELIN, E. La nueva ciencia de la política: una introducción. Buenos Aires: Katz, 2006, p.
87.
aparecem más tornarem-se boas. Poderíamos objetar: como se justifica então o trabalho sofístico?
Se as perspectivas são irredutíveis a um ponto de vista comum, como pode alguém ensinar outrem a
mudar o que parece a este outro pessoalmente mau? Ou por outra: como e por que podem as
palavras do preceptor sofista invadir (e serem efetivas sobre) a cosmovisão de seu aluno? “Mas
deve-se fazer uma mudança no doente, porque é melhor o estado do outro; mas o médico faz a
mudança com remédios e o sofista com discursos” (167a).
A despeito da defesa de que cada homem, no privatismo de sua posição, possui uma opinião
verdadeira, a tese sofística encontra-se enredada em dificuldades como as apontadas.