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Como os coletivos feministas mudam

colégios de elite

Escolas como Gracinha e Bandeirantes têm grupos de alunas que fazem


intervenções e tentam acabar com o machismo nas instituições de ensino

Por Anita Efraim Do Estadão

De uns anos para cá, o movimento feminista começou a fazer parte da vida
das mulheres no Brasil de forma mais consistente. As universidades, por
exemplo, foram lugares em que o feminismo ganhou espaço para ser debatido.
Agora, o movimento começa a chegar ao ensino médio de escolas
particulares.

Na Escola Nossa Senhora das Graças, conhecido como Gracinha, em 2014,


um grupo de meninas do ensino médio decidiu criar um coletivo feminista.
Fernanda Helito, 16 anos, hoje no terceiro ano, não participou do processo,
mas é atuante no Eu Não Sou Uma Gracinha e explica que a iniciativa serve
para as meninas atuarem dentro da escola.
“Nós conversamos com os meninos, professores, resolvemos questões dentro
da escola. No cotidiano, é bastante útil”, opina a aluna. Fernanda relembra que
o Gracinha incentivou as criadoras quando o projeto surgiu.

Wagner Borja, vice-diretor do Gracinha, afirma que, de início, o movimento


foi impactante. “Foi uma reação delas ao que entendiam ser posturas
inadequadas da escola e isso gerou um debate interno forte. A nossa reação foi
criar um grupo interno para discutir questões do gênero”, assim, os
profissionais da escola foram se capacitar sobre o assunto.

O Eu Não Sou Uma Gracinha atua de diversas maneiras no cotidiano escolar.


Uma delas é com happenings, ou seja, ações inesperadas para fazer críticas ou
propor mudanças. Um dos mais recentes, como relata Fernanda, foi por causa
das aulas de educação física: os meninos podiam usar coletes sem camiseta
por baixo, mas as meninas não podiam ficar de top ou sutiã com colete por
cima.

“Fomos falar com o professor e ele não deu importância, então, fizemos um
happening. As meninas foram sem camiseta para a escola, só com colete”,
exemplifica. A resolução foi que elas não poderiam ficar sem blusa por baixo
do colete, mas os meninos tampouco.

As meninas do coletivo, que atualmente são 15 alunas, realizam outros


eventos, como reuniões às sextas-feiras e cinedebates. “Neste mês de março
elas organizaram um cineclube que tem exibido filmes de temática feminista”,
diz Borja. Além disso, elas são convidadas a participarem de debates sobre
questões como sexualidade e gênero no ambiente escolar.

Embate. Fernanda explica que às sextas-feiras, em suas reuniões, a opção das


meninas é que não haja homens no ambiente. No entanto, a direção da escola
é contra: “O que temos falado dentro da escola é que não tenham eventos que
os meninos sejam proibidos de participar”, explica o vice-diretor.

As alunas, por outro lado, preferem um ambiente exclusivo delas para que
possam sentir-se mais à vontade para se abrirem e debater assuntos
relacionados ao feminismo.
No Colégio Bandeirantes, um dos mais tradicionais de São Paulo, o Coletivo
Tuíra nasceu em 2016, com o nome que homenageia a índia Tuíra, famosa
pela sua atuação no caso Belo Monte.

Stephanie Ribeiro, 17 anos, participa desde o início do processo e afirma que


o coletivo começou com o objetivo de abordar o machismo e acolher as
meninas no Bandeirantes. “Nós queríamos desconstruir o machismo dentro da
escola para que todos se sentissem bem”, explica a aluna do terceiro ano.

As reuniões ocorrem a cada 15 dias e, quando julgam necessário, as alunas


fazem intervenções na escola. Cátia Pereira, professora de português, participa
do coletivo e relembra uma das atuações mais marcante dos Tuíra até agora:
“A intervenção que elas fizeram na escola ano passado, ao meu ver, foi muito
boa, mas causou. Elas colocaram post its nas paredes com frases machistas
que costumamos ouvir”.

A professora lembra que, no momento, muitos alunos homens ficaram


revoltados por causa da ‘generalização’. No entanto, Cátia defende a iniciativa
das meninas, “a ideia foi mostrar que isso [o machismo] existe”,

No Bandeirantes, não há problema com o fato de só mulheres participarem


das reuniões. “São só meninas, porque a base é nossa, vemos o feminismo
como uma luta em que o protagonismo tem de ser das mulheres”, explica
Stephanie. “Mas nós também queremos dialogar com os meninos, com os
funcionários”, porque, apesar das reuniões serem só de mulheres, os homens
são atingidos também.

Resistência. Tanto no Gracinha quanto no Bandeirantes as meninas enfrentam


resistência de parte dos alunos. No caso da primeira escola, Fernanda afirma
que logo que o coletivo foi criado, a situação era pior, “mas, conforme o
tempo foi passando, as meninas perceberam que o coletivo existe e tudo bem,
mas muitas não participam”. A aluna sente que o maior repúdio vem das
crianças mais novas.
Stephanie acredita que a sociedade, machista como um todo, influencia alguns
alunos, o que os leva a criticarem o Coletivo Tuíra. “Mas, de maneira geral,
conseguimos o nosso espaço e [a resistência] está melhorando”, opina.

Contribuição. Borja, vice-diretor do Gracinha, vê grandes conquistas das


meninas ao tentarem mudar o ambiente escolar. “Acho que o grande mérito
delas foi ter colocado a nu a questão do gênero e a necessidade da escola
pensar nisso”, pondera. “Hoje, essas questões não estão escondidas, elas
aparecem na preparação, na montagem das atividades que os professores vão
desenvolver”.

Além do cineclube organizado pelo Eu Não Sou Uma Gracinha, em março,


professoras da escola fizeram uma mesa para discutir o papel das mulheres em
temas como ciências da natureza e matemática. “Esse é um debate fruto da
ação das meninas, passou a ser um trabalho do nosso cotidiano”, define.

No Bandeirantes, Cátia vê o movimento como “extremamente necessário”. “A


escola é o espaço em que é necessário que se tenha esse tipo de discussão,
para que se amplie horizontes. Não é só uma coisa de uma pauta, é o que está
no dia a dia das meninas, das mulheres. E no dos homens também”, pontua.
Para a professora, informar sobre questões de gênero é importante e
necessário.
Uniforme e representatividade. No Colégio Israelita Brasileiro A. Liessin,
no Rio de Janeiro, há um uniforme, feito pela marca Reserva, com nomes de
pensadores judeus notáveis: “Freud, Spielberg, Einstein e eu”.

Incomodadas com a falta de representatividade, Maika Caner, 16 anos, e uma


amiga encabeçaram um projeto para criar um modelo similar, mas com nomes
de judias. “Começamos a pesquisar, lemos vários livros e montamos um
mural para que criássemos textos sobre essas mulheres”, explica. Ao final, o
objetivo era fazer uma votação com toda a escola para eleger quem seriam as
pensadoras para o novo uniforme. O projeto foi uma parceria entre a escola e
as alunas.

A estudante do segundo ano do Liessin afirma que, de cara, a escola gostou da


sugestão. Rafael Bronz, diretor da área judaica, ao ouvir a ideia das meninas,
viu todo o sentido. “Foi um insight que nós aceitamos na hora e
transformamos em um projeto educativo”, afirma.

O resultado: uma camiseta em modelo feminino e masculino com os nomes


Golda [Meir], [Anne] Frank, [Clarice] Lispector e eu.

Apesar de o Liessin não ter um coletivo feminista, Maika diz que as


iniciativas do movimento têm crescido dentro da escola.
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Sociedade
Entrevista

Jessé Souza: “A classe média


é feita de imbecil pela elite”
por Sergio Lirio — publicado 23/06/2017 00h30, última modificação 24/06/2017 14h33

Os extratos médios, diz o sociólogo, defendem de forma


acrítica os interesses dos donos do poder e perpetuam uma
sociedade cruel forjada na escravidão
inShare

Paulo Pinto/Fotos Públicas


Inocentes úteis? Ou só úteis?

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"O capitalismo, mais uma vez, não tem funcionado"

Em agosto, o sociólogo Jessé Souza lança novo livro, A Elite do Atraso – da


Escravidão à Lava Jato. De certa forma, a obra compõe uma trilogia, ao lado
de A Tolice da Inteligência Brasileira, de 2015, e de A Ralé Brasileira, de 2009,
um esforço de repensar a formação do País.
Neste novo estudo, o ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicadaaprofunda sua crítica à tese do patrimonialismo como origem de
nossas mazelas e localiza na escravidão os genes de uma sociedade “sem
culpa e remorso, que humilha e mata os pobres”. A mídia, a Justiça e a
intelectualidade, de maneira quase unânime, afirma Souza na entrevista a
seguir, estão a serviço dos donos do poder e se irmanam no objetivo de manter
o povo em um estado permanente de letargia. A classe média, acrescenta, não
percebe como é usada. “É feita de imbecil” pela elite.
CartaCapital: O impeachment de Dilma Rousseff, afirma o senhor, foi mais
uma prova do pacto antipopular histórico que vigora no Brasil. Pode explicar?
Jessé Souza: A construção desse pacto se dá logo a partir da libertação dos
escravos, em 1888. A uma ínfima elite econômica se une uma classe, que
podemos chamar de média, detentora do conhecimento tido como legítimo e
prestigioso. Ela também compõe a casta de privilegiados. São juízes,
jornalistas, professores universitários. O capital econômico e o cultural serão as
forças de reprodução do sistema no Brasil.
Em outra ponta, temos uma classe trabalhadora precarizada, próxima dos
herdeiros da escravidão, secularmente abandonados. Eles se reproduzem aos
trancos e barrancos, formam uma espécie de família desestruturada, sem
acesso à educação formal. É majoritariamente negra, mas não só. Aos negros
libertos juntaram-se, mais tarde, os migrantes nordestinos. Essa classe
desprotegida herda o ódio e o desprezo antes destinados aos escravos. E pode
ser identificada pela carência de acesso a serviços e direitos. Sua função na
sociedade é vender a energia muscular, como animais. É ao mesmo tempo
explorada e odiada.

CC: A sociedade brasileira foi forjada à sombra da escravidão, é isso?


JS: Exatamente. Muito se fala sobre a escravidão e pouco se reflete a respeito.
A escravidão é tratada como um “nome” e não como um “conceito científico”
que cria relações sociais muito específicas. Atribuiu-se muitas de nossas
características à dita herança portuguesa, mas não havia escravidão
em Portugal. Somos, nós brasileiros, filhos de um ambiente escravocrata, que
cria um tipo de família específico, uma Justiça específica, uma economia
específica. Aqui valia tomar a terra dos outros à força, para acumular capital,
como acontece até hoje, e humilhar e condenar os mais frágeis ao abandono e
à humilhação cotidiana.
CC: Um modelo que se perpetua, anota o senhor no novo livro.
JS: Sim. Como essa herança nunca foi refletida e criticada, continua sob outras
máscaras. O ódio aos pobres é tão intenso que qualquer melhora na miséria
gera reação violenta, apoiada pela mídia. E o tipo de rapina econômica de
curto prazo que também reflete o mesmo padrão do escravismo.
CC: Como isso influencia a interpretação do Brasil?
JS: A recusa em confrontar o passado escravista gera uma incompreensão
sobre o Brasil moderno. Incluo no problema de interpretação da realidade a
tese do patrimonialismo, que tanto a direita quanto a esquerda, colonizada
intelectualmente pela direita, adoram. O conceito de patrimonialismo serve para
encobrir os interesses organizados no chamado mercado. Estigmatiza a
política e o Estado, os “corruptos”, e estimula em contraponto a ideia de que o
mercado é um poço de virtudes.
"O ódio aos pobres é intenso"
CC: O moralismo seletivo de certos setores não exprime mais um ódio de
classe do que a aversão à corrupção?
JS: Sim. Uma parte privilegiada da sociedade passou a se sentir ameaçada
pela pequena ascensão econômica desses grupos historicamente
abandonados. Esse sentimento se expressava na irritação com a presença de
pobres em shopping centers e nos aeroportos, que, segundo essa elite, tinham
se tornado rodoviárias.
A irritação aumentou quando os pobres passaram a frequentar as
universidades. Por quê? A partir desse momento, investiu-se contra uma das
bases do poder de uma das alas que compõem o pacto antipopular, o acesso
privilegiado, quase exclusivo, ao conhecimento formal considerado legítimo.
Esse incômodo, até pouco tempo atrás, só podia ser compartilhado em uma
roda de amigos. Não era de bom tom criticar a melhora de vida dos mais
pobres.
CC: Como o moralismo entra em cena?
JS: O moralismo seletivo tem servido para atingir os principais agentes dessa
pequena ascensão social, Lula e o PT. São o alvo da ira em um sistema
político montado para ser corrompido, não por indivíduos, mas pelo mercado.
São os grandes oligopólios e o sistema financeiro que mandam no País e que
promovem a verdadeira corrupção, quantitativamente muito maior do que essa
merreca exposta pela Lava Jato. O procurador-geral, Rodrigo Janot, comemora
a devolução de 1 bilhão de reais aos cofres públicos com a operação. Só em
juros e isenções fiscais o Brasil perde mil vezes mais.

Souza: novo livro em agosto (Foto: Filipe Vianna)

CC: Esse pacto antipopular pode ser rompido? O fato de os antigos


representantes políticos dessa elite terem se tornado alvo da Lava Jato não
fragiliza essa relação, ao menos neste momento?
JS: Sem um pensamento articulado e novo, não. A única saída seria explicitar
o papel da elite, que prospera no saque, na rapina. A classe média é feita de
imbecil. Existe uma elite que a explora. Basta se pensar no custo da saúde
pública. Por que é tão cara? Porque o sistema financeiro se apropriou dela. O
custo da escola privada, da alimentação. A classe média está com a corda no
pescoço, pois sustenta uma ínfima minoria de privilegiados, que enforca todo o
resto da sociedade. A base da corrupção é uma elite econômica que compra a
mídia, a Justiça, a política, e mantém o povo em um estado permanente de
imbecilidade.
CC: Qual a diferença entre a escravidão no Brasil e nos Estados Unidos?
JS: Não há tanta diferença. Nos Estados Unidos, a parte não escravocrata
dominou a porção escravocrata. No Brasil, isso jamais aconteceu. Ou seja,
aqui é ainda pior. Os Estados Unidos não são, porém, exemplares. Por conta
da escravidão, são extremamente desiguais e violentos. Em países de passado
escravocrata, não se vê a prática da cidadania. Um pensador importante,
Norbert Elias, explica a civilização europeia a partir da ruptura com a
escravidão. É simples. Sem que se considere o outro humano, não se carrega
culpa ou remorso. No Brasil atual prospera uma sociedade sem culpa e sem
remorso, que humilha e mata os pobres.
CC: Algum dia a sociedade brasileira terá consciência das profundas
desigualdades e suas consequências?
JS: Acho difícil. Com a mídia que temos, desregulada e a serviço do dinheiro, e
a falta de um padrão de comparação para quem recebe as notícias, fica muito
complicado. É ridícula a nossa televisão. Aqui você tem programas de debates
com convidados que falam a mesma coisa. Isso não existe em nenhum país
minimamente civilizado. É difícil criar um processo de aprendizado.
CC: O senhor acredita em eleições em 2018?
JS: Com a nossa elite, a nossa mídia, a nossa Justiça, tudo é possível. O
principal fator de coesão da elite é o ódio aos pobres. Os políticos, por sua vez,
viraram símbolo da rapinagem. Eles roubam mesmo, ao menos em grande
parte, mas, em analogia com o narcotráfico, não passam de “aviõezinhos”. Os
donos da boca de fumo são o sistema financeiro e os oligopólios. São estes
que assaltam o País em grandes proporções. E somos cegos em relação a
esse aspecto. A privatização do Estado é montada por esses grandes grupos.
Não conseguimos perceber a atuação do chamado mercado. Fomos
imbecilizados por essa mídia, que é paga pelos agentes desse mercado.
Somos induzidos a acreditar que o poder público só se contrapõe aos
indivíduos e não a esses interesses corporativos organizados. O poder real
consegue ficar invisível no País.
CC: O quanto as manifestações de junho de 2013, iniciadas com os protestos
contra o reajuste das tarifas de ônibus em São Paulo, criaram o ambiente para
a atual crise política?
JS: Desde o início aquelas manifestações me pareceram suspeitas. Quem
estava nas ruas não era o povo, era gente que sistematicamente votava contra
o projeto do PT, contra a inclusão social. Comandada pela Rede Globo, a mídia
logrou construir uma espécie de soberania virtual. Não existe alternativa à
soberania popular. Só ela serve como base de qualquer poder legítimo. Essa
mídia venal, que nunca foi emancipadora, montou um teatro, uma farsa de
proporções gigantescas, em torno dessa soberania virtual.
Um resumo das relações sociais no Brasil

CC: Mas aquelas manifestações foram iniciadas por um grupo supostamente


ligado a ideias progressistas...
JS: Só no início. A mídia, especialmente a Rede Globo, se sentiu ameaçada no
começo daqueles protestos. E qual foi a reação? Os meios de comunicação
chamaram o seu povo para as ruas. Assistimos ao retorno da família,
propriedade e tradição. Os mesmos “valores” que justificaram as passeatas a
favor do golpe nos anos 60, empunhados pelos mesmos grupos que antes
hostilizavam Getúlio Vargas. Esse pacto antipopular sempre buscou tornar
suspeito qualquer representante das classes populares que pudesse ser levado
pelo voto ao comando do Estado. Não por acaso, todos os líderes populares
que chegaram ao poder foram destituídos por meio de golpes.
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