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o conto do tsar saltan, de seu

filho o glorioso e bravo


príncipe paladino gvidon
saltanavitch e da bela princesa
cisne; aleksandr s. púchkin
akakakak

saule
Título original - Сказка о царе Салтане, о сыне его
славном и могучем богатыре князе Гвидоне
Салтановиче и о прекрасной царевне Лебеди

Dados - Púchkin, Aleksandr S. O conto do tsar Saltan, de


seu filho o glorioso e bravo príncipe paladino Gvidon
Saltanavitch e da bela princesa cisne. (Tradução do russo
Lucas Machado de Oliveira) – Florianópolis: Saule: 2016.

1. Literatura russa. I. Púchkin, Aleksandr S. II. Machado

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Site - editorasaule.wordpress.com
O CONTO DO TSAR SALTAN,
DE SEU FILHO O GLORIOSO E BRAVO PRÍNCIPE
PALADINO GVIDON SALTANAVITCH
E DA BELA PRINCESA CISNE

Aleksandr Serguêievitch Púchkin

Tradução do original russo


Lucas Machado de Oliveira

Revisão
Amanda Gnecco

saule

Desterro, 2016
6

Três moças junto a uma janela


Teciam tarde à luz de vela.
"Fosse eu sua alteza, a tsarina" -
Disse a primeira das meninas, -
"Para todo o mundo cristão
Faria farta refeição”.
"Fosse eu sua alteza, a tsarina" -
Disse a segunda das meninas -
"Para o mundo inteiro eu sozinha
Teceria manta de linha”.
"Fosse eu sua alteza, a tsarina" -
Falou a terceira menina, -
"Para o nosso tsar venerável
Gestaria um herói indomável”.

Apenas pôde ela o dizer,


Ouviu-se da porta o ranger;
Entrou na sala o grande tsar,
Senhorio daquele lugar.
Durante o tempo da conversa
Ficara atento noutra peça;
E de tudo o que fora exposto,
Do dito último fez mais gosto.
"Saúdo-te, bela mocinha," -
Disse, - "seja minha rainha
E dê-me um herói sem igual
Até de setembro o final.
Quanto a vós, queridas irmãs,
Tornar-vos-ei, pois, cortesãs.
Segui-me rápidas o passo,
Rápidas rumo ao meu palácio:
Para que tu venhas bordar,
7

E tu, zelosa, cozinhar”.

À entrada chegou o patriarca,


E ao pátio se lançou a marca.
O tsar sem demora aprontou-se,
E, na mesma noite, casou-se.
Saltan pôs-se junto à riqueza
Da tsarina e sua bela mesa.
E os nobres convivas, ao fim,
Armaram o leito de marfim,
Para lá deixar o casal,
Em retiro matrimonial.
Irou-se uma irmã ao assar,
Lamentou-se a outra ao tear,
Ficaram a invejar a sorte
Da jovem e real consorte.
Cumpriu a moça o prometido,
Concebeu um filho do marido,
Com o que esta noite transcorreu.

Então uma guerra aconteceu.


O tsar se despediu da bela,
De um cavalo sentado à sela,
Ordenando-lhe a proteção
Do seu amor, filho e rincão.
Entre inimigos apartado,
Bateu-se feroz, transtornado,
Enquanto atacava outra plaga,
Deu-lhe Deus filho como paga;
A mãe cuidava do filhinho,
Assim como a águia do seu ninho;
Enviou carta por mensageiro
8

Para alegrar o pai guerreiro.


A tecelã e a cozinheira,
Mais Babarikha alcoviteira,
Pretendendo sempre arruiná-la,
Quiseram da carta privá-la;
Despacharam um outro correio
E eis das suas palavras o esteio:
"À noite pariu a tsarina
Não um menino, não uma menina,
Não um camundongo, não uma rã,
Mas uma besta que não é sã".

Enquanto escutava o patriarca,


Ao mensageiro e à sua carta,
Sua ira começou a borbulhar,
Quis o mensageiro enforcar;
Desta vez porém se acalmou
E ao mensageiro isto ordenou:
"Fiai na volta do soberano
E na decisão de seu amo".

Foi-se ele com o tal documento


E chegou enfim, num momento.
A tecelã e a cozinheira,
Mais Babarikha alcoviteira,
Roubá-lo da carta ordenaram;
O mensageiro embebedaram,
Puseram em sua bolsa vazia
Outra carta à sua revelia -
Levou neste dia embriagado
Ordem doutro significado:
"O tsar ordena aos seus boiardos:
9

Não percais tempo com cuidados;


A ambos, tsarina mais infante,
Lançai à água neste instante".
Impotente, a leal nobreza
Afligiu-se pela realeza.
À cata de mãe e varão
Acorreram, em multidão.
Anunciaram o real mandado -
E o que lhes cabia de fado,
Leram à alta voz o decreto
Do qual eram o fulcral objeto;
Dentro de um barril os fecharam,
E os vedaram, e os transportaram,
E os jogaram ambos ao mar -
Como havia ordenado o tsar.

No céu as estrelas luziam,


No mar as ondas se batiam;
A nuvem pelo céu vagava,
Pela espuma o barril nadava.
Como uma viúva abandonada,
Chorava a rainha trancada;
Nisto crescia o bebê agora,
Não bem aos dias, senão às horas.
Ia-se a tarde, a mãe arfava…
E o menino a onda exortava:
“Tu, onda boa, onda amiga,
És estrondosa e, sem fadiga,
Borbulhante, vais aonde queres,
E os rochedos marinhos feres,
Transbordas desta terra a beira,
Navios elevas à cimeira -
10

Não mates tu nosso futuro:


Mas põe-nos a porto seguro!”
E a boa onda, obediente,
Levou-os à terra, clemente;
Deixado na terra o barril,
Refluiu quieta a onda gentil.
Mãe e filho em seguro estado
Sentiram da terra o costado.
Mas do barril, como sair?
Os Céus haveriam de agir.
Nas pernas o filho se ergueu,
E o fundo à testa suspendeu,
Esticou-se mais um pouquinho:
“E se aqui eu fizesse um furinho?”
Disse ele e, forçando a madeira,
Com vivo pulo ganhou a beira.

Eles estavam pois libertos;


Vendo morro e campos abertos;
Mar azul profundo em redor,
No morro, carvalho maior.
E o filho: “jantar aprestado
Aceitaria eu de bom grado”.
Arrancou à árvore um ramo,
Fez arco e quis caçar um gamo.
O crucifixo desfiado,
Engendrou arco retesado,
Ramo afilado espedaçou,
Seta leve e forte aprestou,
E foi ver no vale ao limite,
O que saciasse seu apetite.
11

Quando chegou próximo ao mar,


Ouviu um como que reclamar…
No mar algo moto em tensão:
Olhou e viu infame ação:
Fugia um cisne perturbado
De um vil falcão imoderado;
Acossada a ave esvoaçava,
Agitava-se, a água espirrava…
O agressor das garras se armou,
E o bico sangrento aprestou...
Mas então uma seta sibila -
Ao colo do falcão se enfia -
O falcão sangue despejou.
O príncipe do arco largou;
Enquanto o falcão soçobrava,
Não era voz de ave a que soava,
O cisne a ele se avizinhando,
Seu inimigo vil foi bicando,
Apressando-o à morte iminente,
Batendo-lhe as asas, veemente -
E ao príncipe o cisne, depois,
Em russo claro e fluido expôs:
“Tu, príncipe, meu salvador,
Meu pujante libertador,
Não te preocupes que por mim
Mesmo se hoje falte festim,
Posto a seta ter ido ao mar;
Haverá mais a se queixar.
Retribuirei meu benfeitor,
Em dia diverso, ulterior:
Pois não sou cisne como vês,
Mas donzela em conversa tez;
12

Nem era falcão o alvejado,


Mas feiticeiro disfarçado.
Doravante não esquecerei:
Desejes, e lá estarei,
Retorna e repousa-te agora,
Não te consternes mais por ora.

Foi-se a ave de rica beleza,


E os dois membros da alta nobreza,
Transpuseram a noite em jejum,
Pois não havia comer algum.
Despertou ele de manhã,
E, dissipando a noite vã,
Apercebeu-se, em sua frente,
De uma cidade resplendente:
Muro de ameia coroada
Orlava cena inusitada
De domos e igrejas suntuosos
E monastérios luminosos.
Acordou a sua mãe de presto
E esta, com admirado gesto,
Ouviu dele o rir divertido:
“Eis da rica ave o prometido!”
Dirigiram-se àquela parte
E assim que deram com o baluarte
Foi aclamando o natural
Numa algazarra sem igual:
A ele o povo todo acorreu,
E loas para Deus soergueu;
Em carruagens de ouro brilhante
Recebeu-os corte radiante;
Por toda a gente ovacionado
13

O príncipe foi coroado,


E o capelo próprio à realeza
Puseram-lhe sobre a cabeça;
Assentado em sua capital,
Certo da benção maternal,
Começou, pois, o seu reinado,
Como Gvidon foi batizado.

O vento sobre o mar flanava


E as velas dum barco enfunava;
Singrando das ondas a escuma,
Cortava-as a nave uma a uma.
A tripulação se agitava,
Sobre o convés se aglomerava,
Pois que na ilha já visitada
Viram nova cidade ornada:
Auréola de domos dourados,
Docas e postos reforçados -
Canhões no cais reverberaram,
Ao navio parar ordenaram.
Acostaram-se ao cais os hóspedes,
Gvidon os recebeu como hóspedes,
Deu-lhes de comer e beber,
Quis das suas viagens conhecer:
“Que mercadorias trazeis,
Para que partes navegueis?
E a tripulação, em resposta:
“Nós visitamos toda costa
Mercadejamos zibelinas
E peles de raposa finas;
Agora nos é dado o azo,
De encaminharmo-nos do ocaso,
14

Passando a ilha de Buian,


Ao reino do grande Saltan...”
O príncipe lhes disse então:
“Seja propícia a excursão,
Correndo do mar a vasteza
A visitar Saltan, sua alteza;
Deem a ele minha reverência.”
Gvidon, partida a diligência,
A alma tomada de pesar,
Caminhava só à beira-mar
Quando viu sobre a água abundante
As formas do cisne flutuante.
“Salve, meu príncipe espantoso!
Que há, é hoje dia nimboso?
Fala, que te atormenta a alma?”
Interpelou-o a ave, calma.
O príncipe tornou aflito:
“A tristeza me rói o espírito,
Embalo apenas um desejo
Que é encontrar meu pai sobejo.”
E a ave: “E há que se lamentar!
Escuta; queres pelo mar
Seguir voando aquele navio?
Sê mosquito, cruza o bravio”.
Agitando-se as grandes asas,
Chapinhou com ruído nas águas,
O borrifo molhou sua alteza,
Inteiro dos pés à cabeça.
Num pontinho ele se encolheu,
Num mosquito se converteu,
Ziguezagueou e zumbiu
Adejando atrás do navio,
15

Numa fresta pousou suave


E escondido quedou na nave.

O vento alegre sibilava,


O barco alegre navegava
Até a ilha de Buian,
O reino do grande Saltan,
E o destino de sua viagem
Surgiu ao longe na paisagem.
Pousaram à margem os hóspedes;
Saltan os recebeu como hóspedes,
E seguindo-os até a corte
Foi-se lépido o nosso forte.
Viu do real trono a ostentação,
De tsar Saltan em seu salão,
À testa, coroa radiante,
Melancolia no semblante;
A tecelã e a cozinheira,
Mais Babarikha alcoviteira,
Próximas ao tsar assentavam-se
E nos seus olhos concentravam-se.
Tsar Saltan, à hora do jantar,
Mostra a cada um o seu lugar.
“Vós, meus senhores estimados,
Por onde tendes navegado?
O caminho vos foi custoso?
Que vistes de maravilhoso?”
E a tripulação, em resposta:
“Nós visitamos toda costa
No mar viver não é custoso;
E há isto de maravilhoso:
Havia uma ínsula escarpada,
16

Solitária e desamparada;
Numa sua campina vazia,
Um velho carvalho crescia;
Entretanto lá agora assoma
Dum novo palácio a redoma,
Mais igrejas resplandecentes,
Mansões e jardins imponentes.
Do infante Gvidon é o torrão;
De quem trazemos saudação”.
Disse então o tsar encantado:
“Caso mais viver me for dado,
Esta ilha visitarei,
De Gvidon à mesa cearei.”
A tecelã e a cozinheira,
Mais Babarikha alcoviteira,
Não tencionavam permiti-lo
Do lugar contemplar o brilho.
“Que coisa insólita e curiosa” -
Piscando às duas outras, manhosa,
É a cozinheira que alfineta, -
“Uma vila no mar ereta!
Mas ouvi, e não é pulha essa:
Em abeto de fronde espessa,
Uma ode um esquilo cantarola
Quando nozes ele devora,
Mas as nozes não são vazias,
As cascas são de ouro maciças,
E a baga é gema sem rudeza;
Eis um portento, com certeza!”
Surpreso o tsar Saltan ficou,
E o mosquito, que se zangou,
Pregou-lhe lesto com despeito
17

Ferrão ao seu olho direito.


A cozinheira mui gemeu,
Apagou-se, enfraqueceu.
Todos, em meio a muito grito,
Tentaram pegar o mosquito.
“Coisa repulsiva e infeliz!
Vamos…”, mas ele, por um triz,
Voando a janela alcançou,
E o mar calmamente cruzou.

Gvidon na praia caminhava,


E do mar o olhar não desviava,
Quando viu sobre a água abundante
As formas do cisne flutuante.
“Salve, meu príncipe espantoso!
Que há, é hoje dia nimboso?
Fala, que te atormenta a alma?”
Interpelou-o a ave, calma.
O príncipe tornou aflito:
“A tristeza me rói o espírito
Há maravilha num lugar
Que meu peito só faz ansiar:
Em abeto de fronde espessa,
É vero, e não é pulha essa -
Uma ode um esquilo cantarola
Quando nozes ele devora,
Mas as nozes não são vazias,
As cascas são de ouro maciças,
E a baga é gema sem rudeza;
Mas como ter firme a certeza?”
E o cisne a Gvidon assegura:
“Tal caso não é impostura;
18

Que é um portento bem sei eu;


Minha alma, teu rogo valeu.
Ânimo! Saberei por certo
Quando preciso estar por perto”.
De alma destarte encorajada,
Gvidon foi ter à sua morada;
Mal alcançou da corte o largo,
Viu debaixo de um abeto farto,
Um Esquilo a comer sem demora;
Quando as nozes de ouro devora,
Esmeraldas vai retirando,
E as cascas vai ele ajuntando,
Em montinhos bem ordenados,
Cantando em assovios ritmados
Da gente a vida pelos ares:
“Pelos jardins, pelos pomares”.
Gvidon, com viva admiração
E faceirice na expressão -
“Dê ao alvo cisne, Deus meu,
Que seja ela feliz como eu”.
Ao esquilo fez-se pousada
De cristal manufaturada.
De guardas dispôs o lugar
E de um notário a calcular,
Contando as nozes com rigor
Em prol de Gvidon e roedor.

O vento sobre o mar flanava


E as velas dum barco enfunava;
Singrando das ondas a escuma
Rasgava-as a nave uma a uma.
Em frente à ínsula escarpada
19

Em frente à cidade dourada;


Canhões no cais reverberaram,
Ao navio parar ordenaram.
Acostaram-se ao cais os hóspedes,
Gvidon os recebeu como hóspedes,
Deu-lhes de comer e beber
Quis das suas viagens conhecer:
“Que mercadorias trazeis,
Para que partes navegueis?
E a tripulação, em resposta:
“Nós visitamos toda costa,
Mercadejamos os corcéis
Das margens do Don em tropéis,
Agora nos é dado o azo
De irmos por curso demorado
Passando a ilha de Buian
Ao reino do grande Saltan...”
O príncipe lhes disse então:
“Seja propícia a excursão,
Correndo do mar a vasteza
A visitar tsar Saltan, sua alteza;
E dizei-lhe que de Gvidon
Vão a amizade e a saudação”.

Ao príncipe eles se inclinaram


E sem mais à via se lançaram.
No mar Gvidon entre a revolta
Viu cisne errante, desenvolta.
E ele: queria que me levasses,
Que meu coração sossegasses...
De novo ela molhou sua alteza
Inteiro dos pés à cabeça.
20

Em mosca ele se converteu,


Zumbiu no ar, asas bateu.
Dos céus e mares cruzou o arco,
Escondido quedou no barco.

O vento alegre sibilava,


O barco alegre navegava
Passando a ilha de Buian,
Ao reino do grande Saltan,
E o destino de sua viagem
Surgiu ao longe na paisagem.
Pousaram à margem os hóspedes;
Saltan os recebeu como hóspedes,
E seguindo-os até a corte
Foi-se lépido o nosso forte.
Viu do real trono a ostentação,
Do tsar Saltan em seu salão,
À testa, coroa radiante,
Melancolia no semblante;
A tecelã e a cozinheira,
Mais Babarikha alcoviteira,
Junto ao tsar Saltan assentadas,
Mais a sapas aparentadas.
Tsar Saltan, à hora do jantar,
Mostra a cada um o seu lugar.
“Vós, meus senhores estimados,
Por onde tendes navegado?
O caminho vos foi custoso?
Que vistes de maravilhoso?”
E a tripulação, em resposta:
“Nós visitamos toda costa
No mar viver não é custoso;
21

E há isto de maravilhoso:
Em certa ilha em meio ao mar
Vê-se uma cidade assomar,
Com igrejas resplandecentes,
Mansões e jardins imponentes.
Um abeto há em frente ao castelo
E em casinha de cristal belo,
Esquilo lá vive amansado,
E a maravilha de tal quadro!
Uma ode o esquilo cantarola
Quando nozes ele devora,
Mas as nozes não são vazias,
As cascas são de ouro maciças,
E a baga é gema sem rudeza;
Servos lá estão em sua defesa,
Servindo-o nesta atividade,
Notário à contabilidade
Contando as nozes com rigor;
Tropas ovam-no com fervor;
Donde flui moeda em tal quantia
Que sempre encontra serventia;
Donzelas despejam as gemas,
A sete chaves, em despensas;
Na ilha todos são abastados
Não há choças, apenas sobrados;
Do infante Gvidon é o torrão,
De quem trazemos saudação”.
Disse então o tsar encantado:
“Se mais viver me for dado,
Esta ilha visitarei,
De Gvidon à mesa cearei.”
A tecelã e a cozinheira,
22

Mais Babarikha alcoviteira,


Não tencionavam permiti-lo
Do lugar contemplar o brilho.
Sorrindo ágil, espertalhã,
Falou ao tsar a tecelã:
“E que há pois de tão surpreendente?
Esquilo a roer nozes com o dente,
Ativo entre cascas douradas
E, dizem, gemas amontoadas;
Isto não nos estupefaz,
Seja vero ou não, tanto faz.
No mundo há ainda outro portento:
Onde o mar, retorto em tormento,
Chiando, desprende seu vagido,
Arfando em lugar desprovido,
Inundando a margem em fragor,
Encontram-se, em pleno fulgor,
Em malhas de ferro encarnado,
Trinta e três guerreiros armados,
Todos arrojados, garbosos,
Jovens colossais, valorosos,
Postos em justa formação,
Junto a Chernomor capitão.
Eis aqui de fato um portento,
Que ao narrar falta o justo tento.”
Os hóspedes de siso calam,
Pois para discutir não falam.
Encantado Saltan ficou,
Gvidon se zangou e zangou…
E picou da tia desta feita
O olho esquerdo, pela desfeita.
A tecelã se empaleceu:
23

“Ai ai!”, assim ela gemeu;


Todos juntos gritaram: “Peguem-na!
Esmaguem a mosca, esmaguem-na.
Espera só por um tantinho!”
Mas o príncipe em seu caminho
Voando a janela alcançou,
E o mar calmamente cruzou.

Gvidon na praia caminhava,


E do mar o olhar não desviava,
Quando viu sobre a água abundante
As formas do cisne, flutuante.
“Salve, meu príncipe espantoso!
Que há, é hoje dia nimboso?
Fala, que te atormenta a alma?” -
Interpelou-o a ave, calma.
O príncipe tornou aflito:
“A tristeza me rói o espírito -
Há prodígio que o coração
Sonha ter à disposição”.
- “Onde e como é este portento?”
- “Onde o mar, retorto em tormento,
Chiando, desprende seu vagido,
Arfando em lugar desprovido,
Inundando a margem em fragor,
Encontram-se, em pleno fulgor,
Em malhas de ferro encarnado,
Trinta e três guerreiros armados,
Todos arrojados, garbosos,
Jovens colossais, valorosos,
Postos em justa formação,
Junto a Chernomor capitão”.
24

A Gvidon a ave respondeu:


“Eis tudo para o espanto teu?
Minha alma, teu rogo valeu.
Que é um portento bem sei eu;
Mas cada marinho campeão
De que falam é meu irmão.
Acalma-te, ao lar regressa,
Espera meus irmãos sem pressa”.

Ele, deixando seu desgosto,


Pôs-se a, em torre de alto posto,
Examinar o mar em frente,
Que expõe, bramindo num repente,
Ocupando a margem em fragor,
Parando, em pleno fulgor,
Em malhas de ferro encarnado,
Trinta e três guerreiros armados;
Vão-se par em par os campeões,
Em poderosos garanhões,
Adiante o capitão reluz
À bela cidade os conduz.
Da torre o príncipe concorre,
Os caros guerreiros acolhe;
A gente inteira se alvoroça,
Chernomor à frente reforça:
“A donzela a ti nos enviou
Com força legal ordenou
A ilustre cidade suster
Com rondas diárias a fazer.
De agora em diante, pontualmente
Iremos, rigorosamente,
Percorrer teu extenso muro
25

Despontando do mar escuro,


Retornaremos em seguida,
Por ora estamos de partida;
Árduo nos é da terra o ar.”
E à casa optaram voltar.

O vento sobre o mar flanava


E as velas dum barco enfunava;
Singrando das ondas a escuma
Rasgava-as a nave uma a uma.
Em frente à ínsula escarpada,
Em frente à cidade dourada;
Canhões no cais reverberaram,
Ao navio parar ordenaram.
Acostaram-se ao cais os hóspedes;
Gvidon os recebeu como hóspedes,
Deu-lhes de comer e beber,
Quis das suas viagens conhecer:
“Que mercadorias trazeis,
Para que partes navegueis?
E a tripulação, em resposta:
“Nós visitamos toda costa;
Mercadejamos ferros, armas,
Mais peças de ouro e prata puras,
Agora nos é dado o azo,
De irmos por curso demorado,
Passando a ilha de Buian
Ao reino do grande Saltan...”
O príncipe lhes disse então:
“Seja propícia a excursão,
Correndo do mar a vasteza
A visitar tsar Saltan, sua alteza;
26

E dizei-lhe que de Gvidon


Vão a amizade e a saudação”.

Ao príncipe eles se inclinaram


E sem mais à via se lançaram.
No mar Gvidon entre a revolta
Viu cisne errante, desenvolta.
E ele: queria me levasses,
Que meu coração sossegasses...
De novo ela molhou sua alteza
Inteiro dos pés à cabeça.
Num pontinho ele se encolheu,
Num zangão já se converteu,
Ziguezagueou e zuniu;
Adejando atrás do navio,
Numa fresta pousou suave
E na popa quedou da nave.

O vento alegre sibilava,


O barco alegre navegava
Até a ilha de Buian,
O reino do grande Saltan,
E o destino de sua viagem
Surgiu ao longe na paisagem.
Pousaram à margem os hóspedes.
Saltan os recebeu como hóspedes,
E seguindo-os até a corte
Foi-se lépido o nosso forte.
Viu do real trono a ostentação
Do tsar Saltan em seu salão.
À testa, coroa radiante,
Melancolia no semblante;
27

A tecelã e a cozinheira,
Mais Babarikha alcoviteira,
Próximas ao tsar assentadas
Quatro olhos nas três ajuntadas.
Tsar Saltan, à hora do jantar,
Mostra a cada um o seu lugar.
“Vós, meus senhores estimados,
Por onde tendes navegado?
O caminho vos foi custoso?
Que vistes de maravilhoso?”
E a tripulação, em resposta:
“Nós visitamos toda costa
No mar viver não é custoso;
E há isto de maravilhoso:
Em certa ilha em meio ao mar
Vê-se uma cidade assomar,
Todo dia há um novo portento:
Onde o mar, retorto em tormento,
Chiando, desprende seu vagido,
Arfando em lugar desprovido,
Inundando a margem em fragor -
Encontram-se, em pleno fulgor,
Em malhas de ferro encarnado,
Trinta e três guerreiros armados,
Todos arrojados, garbosos,
Jovens colossais, valorosos,
Postos em justa formação,
De Chernomor velho a legião,
Com ele do mar despontando
E às pares fileiras marchando,
Para a tal cidade suster
Com rondas diárias a fazer -
28

E outra escolta não há mais briosa,


Mais diligente ou corajosa.
Do infante Gvidon é o torrão;
De quem trazemos saudação”.
Disse então o tsar encantado:
“Se mais viver me for dado,
Esta ilha visitarei,
De Gvidon à mesa cearei”.
Da tecelã, da cozinheira,
Nem um pio!, mas a alcoviteira,
Sorrindo ardilosa externou:
“Quem com tão pouco se pasmou?
Gente em ferros do mar saída,
E entre rondas diárias, perdida!
Seja isto falsidade ou vero,
Milagre aqui não considero.
Há no mundo um milagre tal?
Mas eis aqui algo de real:
Há uma princesa de além-mar
Que o olho não cansa de mirar
Do dia a luz solar ela cobre,
De noite a terra ela descobre,
À trança ela leva o crescente,
À testa, astro resplendente,
Tem qualquer coisa de escultura,
Do passo do faisão, doçura;
Tão belo é o seu expressar
Como um regato a sussurrar.
Que ao narrar falta o justo tento.
Eis aqui de fato um portento.”
Os hóspedes de siso calam,
Pois para discutir não falam.
29

Encantado Saltan ficou,


O príncipe é que se zangou…
Mas de dó lhe deixou inteira
A vista da vil alcoviteira,
Sobre ela zumbiu, circulou -
Sobre o seu nariz já sentou,
Picou o nariz o cavaleiro:
De bolhas o cobriu inteiro.
Nova comoção dá-se agora:
“Meu Deus! Minha Nossa Senhora!
Ajudai-me! Peguem-no, peguem-no
Esmaguem o zangão, esmaguem-no...
Espera só por um tantinho!”
Mas o príncipe em seu caminho
Voando a janela alcançou,
E o mar calmamente cruzou.

Gvidon na praia caminhava,


E do mar o olhar não desviava,
Quando viu sobre a água abundante
As formas do cisne, flutuante.
“Salve, meu príncipe espantoso!
Que há, é hoje dia nimboso?
Fala, que te atormenta a alma?
Interpelou-o a ave, calma.
O príncipe tornou aflito:
“A tristeza me rói o espírito:
Das núpcias sou só o convidado,
Mas desejo ser desposado”.
- “E a que pretendente te aferras?”
“Há do mundo por dentre as terras,
Dizem, princesa sem comparar,
30

Que o olho não cansa de mirar.


Do dia a luz solar ela cobre,
De noite a terra ela descobre,
À trança ela leva o crescente,
À testa, astro resplendente,
Tem qualquer coisa de escultura,
Do passo do faisão, doçura;
Tão belo é o seu expressar
Como um regato a sussurrar.
Mas será só uma ilusão?”
Quer ele da ave a solução.
O níveo cisne silencia
E após ponderar, anuncia:
“Existe mesmo uma tal moça.
Mas não é como luva uma esposa
Para da alva mão desatar
Ou à cintura pendurar.
Eis aqui todo meu conselho:
Repensa sobre isto com zelo
Para que logo o casamento
Não te seja como um tormento”.
O príncipe pôs-se a jurar
Que era-lhe o tempo de casar,
E que sobre isto e todo o resto
Pensaria depois, de presto;
Pois tinha pronta a alma vibrante,
Pela princesa deslumbrante,
A milhas sem fim percorrer
E a outras cousas prometer.
E o cisne diz por um suspiro:
“Para que tão imenso giro?
É perto o casamento teu,
31

Pois a tal princesa sou eu”.


Agitando-se as grandes asas,
Revoluteou por sobre as vagas
Até os arredores da margem;
Pousando por sobre a ramagem,
Ela se abanou, espanou-se,
Numa princesa transformou-se
À trança ela leva o crescente,
À testa, astro resplendente,
Tem qualquer coisa de escultura,
Do passo do faisão, doçura;
Tão belo é o seu expressar
Como um regato a sussurrar.
O príncipe a princesa abraça,
Estreita junto a si a enlaça
E leva-a com rápido gesto
À mãe em prazer manifesto.
Ele, clamando, prosternado:
“Mãe gentil! Real potentado!
Eu escolhi-me minha esposa,
Filha a ti sempre respeitosa.
Solicitamos permissão,
Acompanhada da tua benção:
Tuas crianças agora abençoa
Para que levem vida boa”.
Por sobre o casal recatado,
À mão, ídolo aparatado,
Lacrimejando, ela enseja:
“Que Deus eterno vos proteja!”
Príncipe Gvidon não tardou,
E com a princesa se casou.
Juntos passaram a viver,
32

E um filho esperavam ter.

O vento sobre o mar flanava


E as velas dum barco enfunava;
Singrando das ondas a escuma
Cortava-as a nave uma a uma
Em frente à ínsula escarpada
Em frente à cidade dourada;
Canhões no cais reverberaram,
Ao navio parar ordenaram.
Acostaram-se ao cais os hóspedes.
Gvidon os recebeu como hóspedes.
Deu-lhes de comer e beber,
Quis das suas viagens conhecer:
“Que mercadorias trazeis,
Para que partes navegueis?”
E a tripulação, em resposta:
“Nós visitamos toda costa
Mercadejamos com proveito
Por contrabando satisfeito;
Agora nos é dado o azo,
De regressarmos ao ocaso,
Passando a ilha de Buian,
Ao reino do grande Saltan,
O príncipe lhes disse então:
“Seja propícia a excursão
Correndo do mar a vasteza
A visitar Saltan, sua alteza;
E relembrai-lhe sem demora,
Que aqui um seu súdito mora;
Prometeu-nos uma visita,
Sua tardança nos é maldita -
33

A ele vai minha reverência”.


Gvidon, partida a diligência,
Em casa desta vez quedou,
E da esposa não se apartou.

O vento alegre sibilava,


O barco alegre navegava
Passando a ilha de Buian,
Ao reino do grande Saltan,
E o destino de sua viagem
Surgiu ao longe na paisagem.
Pousaram à margem os hóspedes.
Saltan os recebeu como hóspedes,
Os hóspedes no palacete
Miram o tsar com seu barrete.
A tecelã e a cozinheira,
Mais Babarikha alcoviteira,
Próximas ao tsar assentadas,
Quatro olhos nas três ajuntadas.
Tsar Saltan, à hora do jantar,
Mostra a cada um o seu lugar.
“Vós, meus senhores estimados,
Por onde tendes navegado?
O caminho vos foi custoso?
Que vistes de maravilhoso?”
E a tripulação, em resposta:
“Nós visitamos toda costa;
No mar viver não é custoso,
E há isto de maravilhoso:
Em certa ilha em meio ao mar
Vê-se uma cidade assomar,
Com igrejas resplandecentes,
34

Mansões e jardins imponentes.


Um abeto há em frente ao castelo,
E em casinha de cristal belo:
Esquilo lá vive amansado,
E a maravilha de tal quadro!
Uma ode o esquilo cantarola
Quando nozes ele devora,
Mas as nozes não são vazias,
As cascas são de ouro maciças,
E a baga é gema sem rudeza;
Vigia-o a guarda com presteza.
Lá vê-se mais outro portento:
Onde o mar, retorto em tormento,
Chiando, desprende seu vagido,
Arfando em lugar desprovido,
Inundando a margem em fragor,
Encontram-se, em pleno fulgor,
Em malhas de ferro encarnado,
Trinta e três guerreiros armados,
Todos arrojados, garbosos,
Jovens colossais, valorosos,
Postos em justa formação,
Junto a Chernomor capitão.
E outra escolta não há mais briosa,
Mais diligente ou corajosa.
E há a ainda sua esposa de além-mar,
Que o olho não cansa de mirar:
Do dia a luz solar ela cobre,
De noite a terra ela descobre,
À trança ela leva o crescente,
À testa, astro resplendente,
Gvidon comanda tal cidade
35

E guia o povo com bondade;


Dele trazemos saudação
Junto a uma reprovação:
Prometestes uma visita,
Sua tardança lhes é maldita”.

Então o tsar não se controlou,


E a preparar frota ordenou.
A tecelã e a cozinheira,
Mais Babarikha alcoviteira,
Não tencionavam permiti-lo
Do lugar contemplar o brilho.
Saltan não lhes volta a atenção
E lhes abafa a comoção:
“Que sou eu? Um tsar ou um rapaz? -
Disse ele e, sem discutir mais. -
Vou-me agora!” - Ele exclamou,
Foi-se embora e a porta fechou.

Gvidon à janela sentado,


Observava as ondas calado,
O mar nem puxa nem ondeja,
Na superfície mal serpeja.
E distante, no mar anil
Surgiu mais do que um só navio:
Num mastro, ao longe no oceano
Viu-se do tsar Saltan o pano.
O príncipe muito exaltou,
E estrepitoso, exclamou:
“Venha ver, minha mãe estimada!
E tu, minha esposa prezada!
Observem bem o mar por lá
36

Vejam que navio vem pra cá!”


A frota à ilha se encaminha.
De luneta ele se aproxima:
E o tsar no convés retesado,
Vê o filho na lente aumentado;
Junto tecelã, cozinheira,
Mais Babarikha alcoviteira;
Espanto lhes envolve o olhar
Pela fortuna d’além-mar.
De pronto os canhões dispararam;
Os sinos em loas repicaram;
Gvidon avança até o mar
Para o tsar Saltan encontrar,
Mais a tecelã e a cozinheira,
Mais Babarikha, encrenqueira;
Vão pai e filho lado a lado,
E o príncipe Gvidon, calado.

Ao pórtico do palacete
Brilha da guarda o capacete,
Observa o tsar maravilhado
Trinta e três guerreiros armados,
Todos arrojados, garbosos,
Jovens colossais, valorosos,
Postos em justa formação,
Junto a Chernomor capitão.
Ele alcançou da corte o largo:
Lá debaixo de um abeto farto
Uma ode o esquilo cantarola,
Quando nozes de ouro devora,
Esmeraldas vai retirando
E num saquinho as vai guardando.
37

E do espaçoso pátio o chão


É juncado de ouro o saguão.
Os hóspedes, de ar alterado, -
“Mas e esta princesa é um achado!”
À trança ela leva o crescente,
À testa, astro resplendente,
Tem qualquer coisa de escultura,
Do passo do faisão, doçura;
Suave a sogra sua ela traz.
A memória real se refaz…
O entusiasmo se lhe desperta!
“O que eu vejo aqui? Quem é esta?”
Os sentimentos exultantes,
Os olhos de água transbordantes,
Abraça o tsar Saltan a esposa,
E mais o filho e a jovem moça,
À mesa a corte se sentou;
Banquete rico se passou.
A tecelã e a cozinheira,
Mais Babarikha alcoviteira,
Aos cantos se dissimularam;
A muito custo as encontraram.
Reconheceram toda a culpa,
Choraram, pediram desculpa.
O tsar estava tão faceiro
Que ao lar as três enviou ligeiro.
Saltan, ao fim do dia, no leito
Adormeceu bem satisfeito.
Estive lá, muito entornei -
E só os bigodes molhei.
Outros títulos:

1. O conto do tsar Saltan, de seu filho o glorioso e bravo


príncipe paladino Gvidon Saltanavitch e da bela princesa
cisne; Aleksandr S. Púchkin

2. Gon, a raposa & outros contos; Niimi Nankichi

3. Penacho: um conto moral; Nathaniel Hawthorne

4. A pata de macaco & O poço; W. W. Jacobs

5. A galinha preta ou os habitantes do subterrâneo; Antoni


Pogoriélski

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