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“Para isso existem as escolas, não para ensinar as respostas, mas para ensinar as perguntas.

As
respostas nos permitem andar sobre a terra firme. Mas, somente as perguntas nos permitem entrar
pelo mar desconhecido.” (Rubem Alves)

A passagem acima se encontra nos slides de nossa primeira aula e apresenta uma proposta razoável
para um dos objetivos da escola, ao menos na perspectiva de educadores e docentes: a escola como
formadora de seres capazes de questionar de forma construtiva sua realidade e, assim, perpetuar a
caminhada da sociedade.

Entretanto, o público da escola é múltiplo. Há docentes, alunos e pais, há os agentes responsáveis pelas
correspondentes políticas públicas, em suas diferentes etapas, há ainda eventuais interessados da
sociedade em geral, assim como também o educador – aquele ou aquela que estuda o processo de
educação e participa juntamente com os professores stricto sensu e demais agentes de políticas
públicas da concepção e operacionalização do processo educativo na sala de aula. Assim, como na
ciência jurídica cabe ao jurista o estudo do processo legislativo, sua fundamentação teórica política,
legal, filosófica e socioeconômica e a seus operadores – analistas judiciários, advogados, promotores,
magistrados, etc. – cabe a efetivação da justiça; no âmbito da educação, cabe ao educador a concepção
e fundamentação teórica do processo educacional, enquanto ao professor resta sua operacionalização
em sala de aula, a fim de alguma forma contribuir para o atingimento de uma sociedade justa, a partir
de sua parcela na formação do cidadão.

Essa analogia pode ajudar na compreensão da complexidade do processo educacional e da inevitável


relação entre este e os conceitos de ética e moral, em especial no modelo de sociedade capitalista
ocidental predominante hoje. Cada vez menos as pessoas veem a política como uma forma eficaz de
exercício de um direito e de um dever (de leis). Igualmente, os jovens adentram os portões da escola
mais descrentes dos benefícios que preceitos morais e práticas éticas possam ter para sua vida privada e
pública. Entretanto, direito (leis), moral e ética são instrumentos sociais imprescindíveis ao bem viver
social e à justiça, que parecem perdidos em uma sociedade cada vez mais fragmentada, esquecida do
valor dos bens públicos e difusa em perspectivas e interesses múltiplos que parecem não mais convergir
um bem comum. Assim os pais esperam que o Estado supra sua falta de tempo para a “formação” de
seus filhos, os filhos têm dificuldade de perceber a relevância da escola e os professores lamentam o
desinteresse geral no processo que encabeçam.

É importante resgatar o que Althusser argumenta em seu clássico texto “Ideologia e Aparatos
Ideológicos do Estado” (Althusser, L.; 1970, “Ideology and Ideological State Apparatuses”; disponível em
https://www.marxists.org/reference/archive/althusser/1970/ideology.htm, acessado em 22/06/2014):
no Estado secular capitalista, o complexo igreja-família foi substituído pelo complexo escola-família na
sociedade moderna. Para aquele autor, a partir de sua ótica conceitual marxista – apesar da redução da
importância da infraestrutura econômica na visão de Althusser – a divisão do trabalho e as
correspondentes exigências do modo de produção capitalista colocariam sobre a escola (um dos
aparatos ideológicos do moderno Estado capitalista), ao lado da família, não só a responsabilidade de
formação técnica da futura mão-de-obra, como também o papel de conformação do cidadão (ou cidadã)
à ordem política, econômica e social capitalista e, consequentemente, em alinhamento com seus
códigos de conduta materiais (entre eles a moral vigente) e formais (entre eles a legislação positivada
em vigor, as leis).

Destarte, inegavelmente e com pesar, hoje se pode constatar, sem a premência de maiores
sustentações teóricas, que em larga medida, por diversos fatores intrínsecos ao processo de produção e
consumo capitalistas, a família vem gradualmente perdendo seu peso nessa fórmula. Cada vez mais
educadores e professores veem-se sujeitos a demandas da sociedade e dos próprios pais para que eles
sozinhos deem conta de uma responsabilidade que historicamente foi originariamente da família, ainda
que no bojo de uma sociedade fortemente apoiada sobre ditames da igreja cristã, como o foi no
ocidente até a era moderna, com a ascensão do Estado secular.

Por conseguinte, tem restado à escola e seus agentes (professores, educadores, etc.) a responsabilidade
de preparar pessoas que sejam capazes de operar em sociedade não só como agentes econômicos, mas
também como agentes políticos. Sendo que por agente político entenda-se não o detentor de direitos e
obrigações imediatamente políticas como direito ao voto, à representatividade ou à vida partidária, mas
a partir de uma perspectiva mais ampla que incorpore o cidadão, o ser político, em sua acepção mais
ampla, como participante de articulações sociais em deliberações formais (e.g. em eleições) e materiais
(e.g. na atividade em ONGs e grupos de pressão ambientais ou por direitos de minorias, em atos que
respeitem sua dignidade e obrigações individuais e sua comunidade, etc.).

Agora, por razões didáticas – limitando-se o escopo de considerações mais amplas sobre as demais
possíveis acepções de “valores”, “moral”, “leis” e “ética” – tomemos por “valores” as qualidades que
têm uma representação do que é importante e valoroso para o bem comum. Por “moral” tememos um
código material de conduta a governar os indivíduos e a comunidade, segundo padrões e princípios
comuns, na direção desse mesmo bem comum. Por “leis” leia-se o conjunto de normas materiais e
formais, positivadas ou não, alicerçadas sobre os poderes de polícia e de império do Estado,
promulgados ou outorgados pelo respectivo processo legislativo que as originaram e, ainda que em
graus variáveis, igualmente alinhadas ao bem comum, em especial no Estado democrático de direito.
Por fim, por “ética” compreenda-se o processo ou ato de reflexão sobre o que se deseje, o que se possa
e que se deva fazer ou possuir; sobre o que seja certo ou errado; sobre as possíveis justificativas de
eventuais ações ou omissões; ou mesmo sobre um possível questionamento e revisão da norma moral
ou legal.

Seguindo tal raciocínio, de uma escola formadora de cidadãos e dessas acepções de balizadores e
construtores de conduta (i.e. valores, moral, leis e ética), é inevitável que a escola seja percebida como
um fórum necessário à “vida boa” – na acepção da filosofia clássica – e ao bem comum – na acepção das
escolas contratualistas de Locke à Rousseau e da Teoria Crítica, da escola de Frankfurt.

Assim, hoje, a escola vê-se investida de uma tarefa árdua: formar os jovens não só conforme critérios
técnico-científicos, como também conforme requisitos humanísticos essenciais ao cidadão de um Estado
democrático de direito. Jovens capazes de encontrar um lugar no mercado de trabalho e, ao mesmo
tempo, inserir-se no processo de cidadania – aquele que envolve sua participação política stricto sensu
(voto, representatividade e organização partidária) e lato sensu (a condução de uma vida coerente e
consistente com as normas morais e legais de sua sociedade, não só levando sua vida diária, mas
efetivamente contribuindo com a manutenção do que permanece válido para o bem comum e para a
justiça e com a transformação do que seja necessário à adequação de novas percepções para esse bem
comum).

Independente de outras considerações de ordem prática – mau uso dos recursos públicos ou a triste
alocação do papel e do status da classe docente a debates oportunistas e fortuitos – o estado da
educação no Brasil parece indicar que a atribuição do papel formativo do cidadão à escola seja
igualmente injusto para com a própria escola e seus agentes e insuficiente para efetivação de uma
sociedade capaz de alcançar uma vida boa e justa, de forma tranquila.
À escola devem se juntar outros aparatos ideológicos de caráter formativo cultural, assim como
resgatar-se o papel formador da própria família, se assim ainda for possível nesse início de século,
dentro de uma sociedade cada vez mais fragmentada e imersa em informações infinitas.

Por fim, é relevante relembrar dois clássicos da língua alemã. Primeiro, o livro “A Ética Protestante e o
Espírito Capitalista”, de Max Weber, traçando um paralelo entre a ética do protestantismo e o modus
operandi do capitalismo, e a relação entre aquela e o avanço do modo de produção deste. Segundo, o
romance “Os Buddenbrooks”, de Thomas Mann. Neste, o primogênito e herdeiro da administração de
uma família burguesa, de Lübeck, ouve de sua irmã que há um concorrente em apuros financeiros e que
venderia suas terras por uma pechincha, mas logo é lembrado pelo antigo conselheiro de seu pai que
aquele não aprovaria tal negócio, pois o lucro resultaria não do trabalho, mas da desgraça de um
companheiro de guilda – no fim o negócio é realizado, mas com efeitos desastrosos para a família
protagonista do livro. Com certeza, hoje, tal consideração pode parecer sem sentido. Apesar da
reconhecida variabilidade da moral conforme o contexto cultural, é evidente o processo de
desvinculação entre a ética protestante e o capitalismo contemporâneo. O ponto que se deseja
estabelecer é que os mesmos jovens que hoje adentram os portões da escola, carentes de uma
formação moral mais sólida a partir de estruturas ideológicas como família ou igreja, entram mais tarde
em suas atividades profissionais da mesma forma. É sintomático que ética profissional – aquele ramo da
ética aplicado ao exercício de atividades produtivas – seja um tema tão em evidência. Parece que em
algum ponto, no passado distante, nos primórdios do capitalismo, esse tema fosse quase que intrínseco
à prática do capitalismo – como ilustra Mann acima e Weber ao reproduzir uma carta de Benjamin
Franklin em seu livro.

Quiçá mais do que nunca as palavras de Rubem Alves sejam urgentes: o questionamento na escola
talvez deva ir além do próprio exercício da ética – em sua medida de reflexão e estudo da moral e dos
valores – e encorajar o próprio questionamento do movimento histórico e seus contextos que tornaram
possível a perda de importantes agentes na construção e incorporação de valores e preceitos morais
essenciais ao homem e à sua vida em sociedade. A formação humanista da escola envolveria não
somente a construção de um aparato moral e ético, como também histórico-cultural que auxiliasse na
reversão ou restruturação da sociedade a fim de que aqueles que a atendam sejam capazes de
recuperar valores morais e éticos necessários ao bem viver e à justiça.