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Diagnóstico da expansão da cadeia produtiva da soja na região de Carajás

Astrid Boehmerl e Eva Eliana Mund (ASA-Teilnehmerin 2007)

Introdução

A soja é hoje o principal grão do agronegócio brasileiro e o carro chefe da agricultura modernizada nas atuais fronteiras agrícolas. Na economia nacional, aumenta as exportações e contribue para proporcionar um saldo positivo na balança comercial. Junto com os Estados Unidos, Brasil é o líder mundial no mercado internacional do complexo soja (grãos, farelo e óleo). A maioria da safra se vende em forma de grão ou farelo (resíduo do grão esmagado) para Europa ou Ásia onde é destinada à alimentação animal na pecuária intensiva e industrial.

Como a soja é o maior destaque do agronegócio brasileiro, o governo federal e os atores dominantes nas economias nacionais e estaduais têm um forte interesse na expansão das áreas da oleaginosas. Desde o Sul do país, a soja se espalhou primeiro pelo Centro-Oeste. Hoje em dia, as antigas fronteiras agrícolas no Centro-Oeste se têm convertidos em regiões centrais da agricultura mecanizada e da agroindústria. No processo desse „desenvolvimento econômico“ uma grande parte da população tradicional ficou fora dos lucros gerados pelo agronegócio e o meio-ambiente foi danificado severamente.

Nos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins a fronteira agrícola avançou rapidamente dentro das ultimas duas décadas. É questionável se os lucros gerados recompensam os impactos socioambientais da expansão da agricultura mecanizada nessa região. O carro chefe do agronegócio brasileiro é a soja, que ocupa muitas das áreas recentemente desmatadas.

Como uma grande quantidade da soja é exportada para Europa, o Fórum Carajás (São Luis, Maranhão) e o programa ASA (Alemanha) iniciaram juntos um estudo sobre os aspectos do cultivo de soja, enfocando nos impactos sócio-ambientais. As pesquisadoras viajaram em quatro meses nos estados de Maranhão, Piauí, Pará e Tocantins para falar com todos os atores e grupos relacionados com a soja e o agronegócio: comunidades

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vizinhas às fazendas de soja, trabalhadores nas fazendas, sindicatos, fazendeiros, empresas multinacionais, ONGs, e outros. Ao mesmo tempo, analisaram estatísticas. O resultado dessa pesquisa foi resumido nesse artigo.

1. O papel da soja no Brasil

A soja, uma leguminosa rica em proteínas, forma parte da alimentação humana no Extremo-Oriente há milhares de anos, e desde o século passado se consuma também em outros continentes. O grão da soja pode ser preparado como legume, seco ou sob a forma de farinha para fabricar leite, tofu ou molho de soja. Na América do Sul, hoje em dia a soja é cultivada principalmente para exportação.

Fig.1 e 2: Campo de soja; grãos de soja

O Brasil, com 50,2 milhões de toneladas (Mio. t) ou 23% da produção mundial de soja (2005), é juntos com EUA (82,8 Mio. t ou 39%) e Argentina (38,3 Mio. t ou 18%) o maior exportador de soja, em forma de grão, de farelo (resíduo do grão esmagado) e de óleo.1 A maioria da safra se vende em forma de grão ou farelo para Europa ou Ásia onde é destinada à alimentação animal na pecuária intensiva e industrial.2

A soja é, hoje em dia, o carro chefe da agricultura modernizada no Brasil. Em 2003, 36 Mio.t de grão, farelo e óleo de soja determinaram cerca de um terço de todas exportações agrícolas, e 11% de todo o valor exportado do pais (8,1 bilhões de USDollar).Desde 2000, a produção aumentou em só três anos de 32 Mio. t a 52 Mio. t (2003) – tendência aumentando.3,

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FAO, Faostat, 8/2006. FASE 2006b, 2. 3 Centro de Estudos em Logistica 2008.
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Segundo especialistas, a demanda por soja no mercado mundial vai aumentar continuamente nos próximos anos. Razões por isso são mudanças nos costumes de alimentação em países asiáticos; a nova prosperidade de grandes partes da população se articula em maior consumo de carne, leite e ovos. Também, a demanda por bicombustíveis, derivados entre outros da soja, aumentará. Por isso, a produção de soja é hoje e no futuro de importância central para a economia brasileira. Tanto governo como atores econômicos dominantes a nível nacional e regional estão muito interessados em expandir ainda mais as áreas de produção.

2.1 Historia – a Revolução Verde e Modernização Conservadora no Brasil

A soja se plantou por primeira vez no Brasil no final do século XIX, na Bahia. No século XX, se mudou para Rio Grande do Sul, onde se popularizou nos anos cinqüenta e sessenta. Desde o extremo sul do país, o cultivo se expandiu para outros estados, devido a novas evoluções internacionais. Nos anos sessenta, instituições internacionais de pesquisa agropecuária criaram um novo modelo agrícola, conhecido como “Revolução Verde”, baseado em tecnologias inovadoras com o objetivo de aumentar a produção mundial de bens de alimentação.

Também nos laboratórios brasileiros foram criadas novas variedades de plantas melhor adaptadas a diferentes condições climáticas. Ao mesmo tempo, o governo federal começou a propagar, mediante um amplo sistema de créditos de financiamento, o uso de máquinas agrícolas, agroquímicos e adubos artificiais. Para aumentar a produção agropecuária nos “grandes vazios” no interior do país, foram criadas nos anos setenta a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e a Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMBRATER), e se criaram programas especiais de apoio aos agricultores.

Com essas modernizações da agricultura nasceu a agroindústria brasileira. Porém, desde o começo, o apoio por parte do governo federal era altamente seletivo: os créditos se davam apenas para certos produtos de exportação que prometiam trazer muitas divisas (principalmente soja, arroz e café). Alem disso, créditos e assistência técnica eram ligados à compra de adubos, agroquímicos e sementes. Assim, o apoio somente era acessível para plantadores de grande e meio porte. Os agricultores familiares, os quais produzem até hoje

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a maioria dos alimentos básicos para o mercado interno, não receberam nenhuma forma de financiamento, nem assistência técnica. Se fala de “modernização conservadora” dos anos sessenta e setenta, porque as estruturas injustas já existentes no pais foram ainda reforçadas. 4

Nos anos oitenta, a agricultura

modernizada expandiu até ao Centro-Oeste, no

Cerrado. Esse tipo de savana foi considerado por muito tempo uma região imprópria para agricultura, por causa de solos ácidos e um clima semi-árido. Só depois das descobertas inovadoras recentes, de correção de solo com calcário e novas variedades adaptadas ao clima extremo, a exploração nessa região começou a estender-se rapidamente, sobre tudo para o plantio de soja.

É que o Cerrado, o segundo maior ecossistema no Brasil, cobre mais do que dois milhões de quilômetros quadrados ou 22% do território nacional5, a possibilidade de explorar essa área prometeu um aumento enorme da produção agrícola nacional. Por isso, foram formados programas especiais, como PRODECER os quais aceleraram a expansão desde o Sul até o Centro-Oeste, e numa segunda etapa até as atuais fronteiras agrícolas no Norte e Nordeste do país. 6

Essa expansão foi facilitada pelo melhoramento da infra-estrutura. Foi construída uma ampla rede de rodovias, e também ferrovias e hidrovias, conectando as periferias com os centros econômicos do país, maiormente no litoral.

Nas fronteiras agrícolas no Norte e Nordeste estão ocorrendo atualmente discussões controversas sobre novos projetos de infraestrutura. 2.2 As conseqüências econômicas da „Revolução Verde“ no Brasil até hoje

A modernização da agropecuária brasileira gerou muitos lucros beneficiando o crescimento econômico do país. O aumento das áreas cultivadas e da produtividade na agropecuária possibilitaram altas cotas de exportação de produtos agrícolas, as quais proporcionam muitas divisas para o governo federal. Até hoje, o agronegócio é de fundamental importância para a economia brasileira: é responsável para 33% do Produto

4 5

COY 2001a, página 260. Ministério do Meio Ambiente 2008, página 27. 6 COY 2001a, página 260.

4

Interno Bruto (PIB), responde por 42% das exportações totais e gera 37% dos empregos brasileiros. 7

Com o financiamento oficial a partir da Revolução Verde, o governo federal logrou promover o desenvolvimento científico-tecnológico e a modernização da atividade rural. Segundo o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), “o desenvolvimento científico-tecnológico e a modernização da atividade rural, obtidos por intermédio de pesquisas8 e da expansão da indústria de máquinas e implementos, contribuíram (...) para transformar o país numa das mais respeitáveis plataformas mundiais do agronegócio.” 9 Em virtude desse desenvolvimento foram “abertos” vastos terrenos periféricos que por muito tempo tinham sido considerados inférteis e sem valor econômico.10

Os créditos de financiamento também promoveram novos complexos agroindustriais que combinam a produção de insumos com o marketing e processamento dos produtos. Este novo setor do agronegócio traz até hoje muitos investimentos nacionais e estrangeiros.

Hoje em dia, se pode observar um novo processo de concentração no setor agropecuário brasileiro. No centro da internacionalização da agricultura mecanizada estão empresas multinacionais e capital estrangeiro. O financiamento privado tem substituído os créditos estaduais: Algumas empresas agroindústrias prefinanciam a produção agrícola. Dessas empresas, cada vez mais empresas brasileiras são compradas por companhias multinacionais. Os investimentos oficiais se limitam a projetos de infraestrutura para facilitar a produção, o transporte e a exportação de bens agrícolas – e mesmo aqui investimentos privados são cada vez mais importantes.11

2.3 Expansão da soja do Sul ao Centro-Oeste ate o Nordeste Desde a “Revolução Verde”, os produtores de soja e de outros bens de exportação passaram gradativamente para um sistema de dependência das empresas de sementes e produtos químicos, e dos créditos e subsídios. O acesso fácil a esse financiamento durou até a segunda crise mundial do petróleo em 1979. Depois dessa data, o êxodo rural se acelerou e a soja se converteu no motor da exclusão no campo.
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Atlas do Desenvolvimento Humano (ADH) (2007): Perfil Municipal: Campos Lindos.

“As variedades de sementes desenvolvidas pela Embrapa representaram 77% das variedades de arroz oferecidas no Brasil entre 1976 e 1999; 30% do feijão; e 37% da soja. Entre os materiais desenvolvidos pela empresa até 2004 são contabilizadas 91 variedades de arroz, 36 de feijão, 68 de milho, 87 de trigo, 37 de algodão e 210 variedades de soja.” MAPA 2008. 9 MAPA 2008. 10 FASE 2006a, página 35
11

COY 2001b, página 19.

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Nas regiões da agricultura industrializada, principalmente no Sul do país, centenas de milhares de sojicultores endividados se vieram obrigados a vender suas terras. Ao longo das novas rodovias, muitos “gaúchos” migraram até o atual Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde as terras eram ainda muito mais baratas e se abriram novas oportunidades de fortuna com a exploração do Cerrado recém começando. Com a chegada desses

migrantes, as estruturas econômicas e sociais mudaram profundamente

dentro de poucos anos. Mapa: As atuais fronteiras agrícolas no Brasil12 Hoje em dia, as antigas fronteiras agrícolas no Centro-Oeste se têm convertidas em regiões centrais da agroindústria. Quase a metade das 22 milhões de hectares de plantio de soja em 2006 se encontrava no Centro-Oeste (10,3 milhões ou 46%) e mais do que a metade desses no estado de Mato Grosso (5,8 milhões ou 26% da colheita
©2000-2003 AgBrazil, Inc. nacional).13

Nesse processo de „desenvolvimento econômico“, a maioria dos lucros gerados pelo agronegócio ficou com os investidores e agricultores imigrados do Sul e Sudoeste do pais. Uma grande parte da população tradicional, contendo indígenas, ribeirinhos e agricultores pequenos, foi mais bem prejudicada.

Convivendo em estreita ligação com a natureza, cultivando principalmente para subsistência e aproveitando os produtos do mato, esses grupos tradicionais foram despojados da sua base de vida. Por causa de conflitos de recursos, quase todos tinham q mudar ate regiões periféricas e menos férteis (que não prestam para cultivo de soja). Alem da existência ameaçada dessa população, também o meio ambiente foi prejudicado severamente.14
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Fonte: http://images.google.com/imgres?imgurl=http://agbrazil.com/images/brazil.gif&imgrefurl=http://agbrazil.com/p/braz il_s_ag_frontier.htm&h=266&w=261&sz=4&hl=de&start=3&sig2=qUhZpN0NYLDIV_dURbtOLQ&um=1&tbnid=uM eil5yvDomJdM:&tbnh=113&tbnw=111&ei=wYChSI71MpOWxAGm3Lm2Dw&prev=/images%3Fq%3Dfronteira%2 Bagricola%2Bbrasil%26um%3D1%26hl%3Dde%26lr%3D%26sa%3DN
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IBGE 2007.
Compare Gutberlet 1999.

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Sob esse fundo dos acontecimentos nas regiões de antigas fronteira agrícola, em nossa pesquisa queremos estudar as conseqüências sociais e ambientais do cultivo de soja nas atuais fronteiras agrícolas nos Estados de Maranhão, Piauí e Tocantins. Queremos responder às perguntas, quais vantagens ou desvantagens a soja trouxe para a região, como têm sido os impactos ambientais, quais grupos sociais e atores econômicos aproveitaram das mudanças e como é a perspectiva para a região no futuro.

3 Área de pesquisa: a nova fronteiras agrícola em Maranhão, Piauí e Tocantins (MA, PI, TO) 3.1 Caracterizações da área

Maranhão (MA) e Piauí (PI) são os estados mais pobres do Brasil e uma grande parte da população mora em áreas rurais. Por isso, as mudanças estruturais nas regiões da atual fronteira agrícola afetaram muitas pessoas.

Mesmo que nas últimas décadas o êxodo rural foi um fenômeno observado em todo Brasil, ele também ficou agudo nesses estados. Enquanto em 1991 69% da população total no Maranhão moravam em áreas rurais, em 2000 foram somente 40 %. No Piauí foram 47% em 1991, e apenas 37% em 2000. Um êxodo rural particularmente forte aconteceu no município Campos Lindos em Tocantins: alí, em 1991 99% da população morava fora das cidades. Dentro de nove anos, a situação mudou completamente: até 2000, a porcentagem caiu a 60,8%.15

3.1.1 Ecorregião Cerrado A vegetação no Maranhão, Piauí e Tocantins é dominada pelo Cerrado e áreas de transição entre Cerrado e floresta tropical, ambas especialmente delicadas e em perigo. Como o solo contém poucos nutrientes como fósforo e potássio, não é uma floresta densa, mas uma vegetação “aberta”, típica para savanas (Fig.3 e 4).

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Atlas do Desenvolvimento Humano

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Fig.3 e 4: Cerrado – vegetação

O Cerrado é a savana com maior biodiversidade no mundo, com muitas espécies endêmicas, adaptadas ao clima semi-árido dessa região.16 Além do seu valor natural, muitas dessas espécies de fauna e flora nativa servem de fonte de alimentação e plantas medicinais para as comunidades tradicionais.

Fig.5 Ecorregião Cerrado. Fonte: NASA, wikimedia. Originalmente o Cerrado cobriu 2 mil. km2. Assim, representando a segunda maior ecoregião, e a savana com mais rica em espécies de flora e fauna no mundo.17

A ecorregião do Cerrado é o berço de cinco grandes bacias hidrográficas brasileiras: Amazônica, Tocantins-Araguaia, Atlântico Norte-Nordeste, São Francisco, Atlântico-Leste e

16 17

Ministério do Meio Ambiente (2008), p. 27. Fearnside&Ferraz 1999, p.7

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Paraná-Paraguai

Fig. 6 e 7 :Bacias hidrográficas do Brasil. Fonte: Wikimedia, André Koehne, pt.wikipedia.org

Por isso, as alterações nas águas dessa região têm influencia até em outros estados, e a proteção das águas nessa região é duma importância primordial para um território imenso. Especialmente os impactos nas nascentes dos rios que correm até a Amazonia, causam conseqüências graves no ecossistema da Floresta Amazônica, na qual está enfocado o interesse principal das iniciativas ambientais nacionais e internacionais. 18

Embora mereça a mesma atenção, a ecorregião do Cerrado e a sua importancia ficam ainda desconhecidos pela maioria dos cidadãos no mundo.

3.1.2 Vida rural tradicional
As populações tradicionais nos municípios visitados do Maranhão, Piauí e Tocantins vivem em estreita ligação com a natureza. Como a maioria deles são agricultores familiares com poucos ou nenhuns recursos financeiros, as principais atividades para garantir a sobrevivência são cultivar a roça, criar pequenos animais e extrair o que precisam do entorno natural. No sistema tradicional de agricultura, chamado “roça de toco”, os agricultores queimam primeiro uma área limitada, para desmatá-la e depois cultivar os alimentos básicos, principalmente arroz, milho, feijão e alguns legumes. A terra somente se utiliza durante um ano, depois se deixa descansar por 10 a 12 anos, para que o solo se recupere.

18

Ministério do Meio Ambiente (2008), S. 28f.

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Outra atividade importante é a criação de animais como galinhas ou porcos, para o próprio consumo e as vezes, para venda. Além disso, as famílias rurais extraem muitos recursos do Cerrado: frutas, madeira de construção, animais de caça e plantas medicinais.

Com a chegada e expansão da agricultura mecanizada em monocultura, essa forma tradicional de viver e cultivar está sendo ameaçada. O desmatamento de grandes áreas para plantio de soja, cana-de-açúcar e eucalipto, os grandes projetos de infraestrutura e a influencia de novos atores na região põem em risco as terras e com isso a existência de milhares de famílias de agricultores locais. Em algumas áreas onde a proximidade dos campos de soja causa muitos conflitos, a sobrevivência se torna quase impossível (ver cap. 4), porque geralmente os latifundiários, com mais capital e educação, dominam com exito nos conflitos sociais e na luta de recursos. “Em todos os municípios visitados, mudanças estruturais na agricultura e sociedade são visíveis.”

3.1.3 Fatores favoravéis para a sojicultura
Os produtores e investidores foram e são atraídos pelos fatores favoravéis do Maranhão, Piauí e Tocantins. Essa região com condições climáticas adequadas é rica em recursos naturais (terra, agua, madeira) a preços económicos:

As serras da região são adequadas para trabalhá-las com máquinas, e com a aplicação de agroquímicos e calcário, as condiçoes do solo fácilmente se podem adaptar às necessidades da sojicultura. Os preços de terra foram muito baixos especialmente no começo da expansão de soja. É possível construir poços sem leis restritivas, então a extração de água para irrigação artificial não custa nada além da energia da bomba. O desmatamento em alguns lugares (p.ej. Baixo Parnaiba) está feito por empresas metalúrgicas, as quais cobram apenas a madeira em troca, para cubrir a sua necessidade enorme de energia. Além disso, na região tem muita mão-de-obra barata – mesmo que muitas vezes a educação deficiente está sendo lamentada. Hoje, também a presença de empresas multinacionais na região se considera uma vantagem, já que essas garantem o abastecimento com meios de produção e a venda da safra.

10

A infraestrutura existente e o apoio ou pelo menos nenhum “freio” pela politica local são outras razões são favoravéis para essa região.

Os municipios visitados durante essa pesquisa estão situados em quatro estados brasileiros, em distâncias de até mais que 1000 km. A sojicultura começou em momentos diferentes, de maneiras diferentes. Na continuação, se descreverão as particularidades de cada região e os aspectos econômicos da expansão de soja. O capitulo 4 logo tratará as conseqüências sociais e ecológicas.

3.2 Soja na área de pesquisa, conseqüências econômicas
Desde a metade dos anos setenta, os chamados “gaúchos” chegaram ao sul do Maranhão, e com eles a agricultura modernizada. Primeiro, eles plantaram arroz, mas por causa das condições climáticas e falta de créditos para os meios de produção, não ganharam muito com esse produto. Buscando alternativas, os agricultores tentaram um pouco de pecuária, e finalmente, a base das inovações na pesquisa agrícola mudaram para sojicultora.

Na continuação, a expansão de soja no sul de Maranhão e Tocantins (Pedro Afonso), foi promovida pelo programa nacional PRODECER (Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimiento dos Cerrados), consistindo em pesquisas agrícolas, asistencia técnica e créditos especiáis. Esse programa foi estabelecido para apoiar a agricultura de exportação no Cerrado. Em Balsas (MA) e Pedro Afonso (TO), o PRODECER começou no ano 1997.19

O Japão estava interessado nesse programa para establecer uma nova fonte de abastecimento para suas importacões agrarias. O governo brasileiro esperava o desenvolvimento e aproveitamento dos recursos agrarios nessa área ainda pouco explorada antes das inovacões agro-técnicas.20 Foi planejado o cultivo de grãos, frutas e soja para exportação, para abastecer a pecuaria nordestina, e para o consumo humano (oleo de soja). Ao mesmo tempo, planejaram uma agro-industria para o processo de soja e carne.21

19

Para a administração e cooperação do programa, fundou-se 1978 a Companhia de Promoção Agrícola (Campo). Na primeira etapa, desde 1978 apoiou-se o nordeste de Minas Gerais (PRODECER I), logo desde 1987 outras regiões de Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Bahía (PRODECER II). A terceira fase desde 1997 esta dedicada as regiões Balsas em Maranhão do sul e Pedro Afonso em Tocantins. www.asiayargentina.com/usp-05.htm 20 Neide Mayumi Osada: PRODECER: Projetos no Cerrado e dívidas agrícolas. Online: http://www.asiayargentina.com/usp-05.htm 21 Banco do Nordeste (1998), S. 8-11.

11

O PRODECER teve êxito economicamente, o que mostrou a expansão das áreas de cultivo: Em Balsas, as áreas aumentaram de 16.310 ha no ano 1996 a 108.100 ha em 2006 (ver gráfico 1).22 Especialmente as empresas multinacionais construiram grandes armazéns e criaram a industria de processamento. O lado negativo desses mega-projetos agrarios foram as consequencias saciais e ecológicas (ver cap.4), e também o endividamente de muitos produtores de soja, os quais se viram obrigados a abandonar suas terras ou estão lutando até hoje para poder pagar suas dividas.23

Grafico 1: Expansao de soja em Balsas (Maranhão) 1991 - 2007

Fonte: IBGE (2008)

22
23

IBGE 2008.
Neide Mayumi Osada: www.asiayargentina.com/usp-05.htm

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3.2.1 Pedro Afonso

Com o PRODECER III o cultivo intensivo de soja chegou até o municipio Pedro Afonso em Tocantins.24 Antes de 1996/97, teve menos de 3000 ha de áreas agrícolas nesse municipio, e a maioría foi usada para o cultivo de arroz seco e pasto para a pecuaria extensiva. Com esse apoio nacional para a produção e comercialização no mercado mundial, as áreas expandiram desde 1997 e se usaram sementes de soja mais adaptadas.

Hoje, a soja é o carro chefe da agricultura mecanizada em Pedro Afonso; além disso se planta um pouco de milheto (como „entre-safra“ da soja). Em 2006, foram plantados mais do que 300.000 ha de soja, e fomente em Pedro Afonso foram mais de 40.000 ha. Do mesmo jeito, a produtividade aumentou muito, de 30 sacos (à 60 kg) por ha em 1991 a 5560 sacos por ha hoje, e também os preços da terra na região multiplicaram-se: de 300 - 400 Reais por ha a 4.000 - 12.000!25

Grafico 2: Expansão de soja em Pedro Afonso (TO) 1991 - 2006

Fonte: IBGE (2008)
24

As seguintes informaçoes conseguimos em conversas com CAMPO e COAPA em Pedro Afonso. A COAPA (Cooperativa Agropecuaria de Pedro Afonso) fundou-se em 1998. Hoje participam 86 produtores, alguns deles provenientes de outros municipios.
25

Entrevista com CAMPO, septembre 2007.

13

Atualmente, os produtores de soja lamentam que nao têm mais créditos nacionais para pre-financiar a sua safra. Os bancos dão créditos apenas para produtores que mostram suficiente segurança financeira, e nao têm dividas ainda. Todos aqueles que nao cumprem essas condiçoes, se vem obrigados a pedir créditos nas empresas multinacionais como Bunge ou Cargill, as quais pedem juros bastante altos (Bunge 1,2% e Cargill 1% por mês!). Assim, é fácil endividar-se, p.ej., quando a safra é pequena, por causa do clima, como aconteceu nos últimos dois anos (2005/06 e 2006/07).26

A dependência dos agricultores se vê aumentada não somente na área de pesquisa, mas a nivel mundial.27

Nesse contexto, representantes da COAPA (Cooperativa Agropecuaria de Pedro Afonso) afirmavam que eles estão motivando os seus membros para diversificar os cultivos. (existem novos projetos para criação de animais e fruticultura), mas as suas ambições foram limitadas pelos bancos: seguindo ordens oficiais, eles dão créditos apenas para a sojicultura, e não para produtos tradicionais, os quais poderiam ser cultivados até nos mesmos campos, praticando rotação de culturas, um modo natural para prevenção de pragas e empobrecimiento do solo. A razão dada para esse problema, sempre é “o mercado”: a demanda de soja é tão grande que no momento, isso é o produto agrário mais lucrativo no Brasil.

Em Pedro Afonso, se cultiva soja exclusivamente para exportar. Quase toda a safra é transportada a Porto Franco, e de via hidrovias até o porto de exportação em São Luis. Nao existe industria de processamento em Tocantins, pela qual se poderia criar desenvolvimiento local.

3.2.2 Campos Lindos, Baixo Parnaiba e Uruçuí
Depois que a sojicultura já tinha chegado nas regiones Sul de Maranhão e Pedro Afonso nos anos 80 e começo dos anos 90, somente nos últimos cerca dez anos, começou a expandir até Campos Lindos, Baixo Parnaiba e Uruçui.

26
27

Entrevista com CAMPO, septembro 2007.
Ver p.ej.. www.globalbrutal.net, www.bioboom.de, www.greenpeace.de/themen/umwelt_wirtschaft/wto etc.

14

Campos Lindos O „projeto agrario Campos Lindos” foi também financiado pela cooperação nippobrasileira, e CAMPO participou na escolha dos produtores. Em 1998,uma área de mais de 100.000 ha foi „doada“ pelo governo do estado a pessoas com influencias políticas. No município, a área de soja aumentou de 450 ha em 1997 a quase 49.000 ha hoje(2007), representando 90 % da área agrícola desse município.
28

A traves disso, Campos Lindos se tornou a região mais importante do cultivo de soja em

Tocantins. Empresas multinacionais estão dominando nessa região desde os primeiros anos do século XXI. Elas estão comercializando a soja principalmente para a exportação: 90% da safra são enviados via o porto Itaqui de São Luis a Europa e Asia. Baixo Parnaíba A região Baixo Parnaíba no leste do Maranhão é outra nova área de plantio de soja. A continuação, quando falamos de Baixo Parnaiba, não quer dizer somente a microrregião “Baixo Parnaíba Maranhense”, mas uma região um pouco maior, contendo entre outros os municipios Santa Quitéria do Maranhão, Chapadinha, Anapurus, Brejo, Buriti, Mata Roma, Milagres do Maranhão.

A agricultura mecanizada chegou juntos com a construção da BR-163 CuiabáSantarém (inaugurada 1973) na região. A BR-163 ainda é muito pouco asfaltada; a sua ampliação (planejada desde 2004) multiplicaria ainda as consequencias da infraestrutura.

Aqui tambem, depois dos primeiros cultivos de arroz e soja (ca. 500ha) nos anos 80, a expansão das areas começou em 2001. Hoje, os membros da APACEL29 (Associacão de Produtores de Graos do Cerrado Leste) estão cultivando 90.000 toneladas de soja numa área de 40.000 ha.
30

São ca. 50 propriedades de tamanhos medios (na meia 800 ha, a

menor tem 200ha, e a maior 4000 ha).

De todas as regioes visitadas, o Baixo Parnaíba apresenta uma vantagem especial por causa da proximidade ao porto de exportação: de Chapadinha são somente 240 km ao Porto de Itaqui em São Luis, comparado com o Sul do Maranhão, Uruçui ou Tocantins, o que diminui bastante os custos de transporte (fator economico importante na produção de soja).
28 29

IBGE 2008. Interessenvertretung der Soja-, Mais- und Reisproduzenten in Baixo Parnaíba 30 IBGE 2008.

15

O porto de Itaqui além disso é um dos mais próximos dos destinos desejados, Europa e Asia.

Juntos com chuvas regulares, uma produtividade alta e bons preços pela terra (de 200 a 2000 Reais por ha)31, esses fatores favoravéis tornam o Baixo Parnaiba uma das “melhores fronteiras agrícolas com potenciais para o futuro no Brasil” – até denominada “China brasileira” -, e a expansão do agronegocio nessa região está predestinada. 32 Uruçui Em Uruçuí, no sud-oeste do Piauí, a empresa multinacional está ativa desde o ano 2000. Em 2003, ela construiu uma fabrica de processamento de soja – ate hoje a única no Estado, a qual compra também grande parte da safra do Maranhão. Para comprar o terreno e construir a fabrica e alojamentos para os trabalhadores, foram investidos 126 milhões de Reais. Nessa fabrica, os grãos de soja estão sendo moidas, para produzir farelo (80%) e óleo de soja (20%). O farelo se comercializa como forrajem no mercado interior e para a exportação; o óleo é trabalhado numa refinaria de óleo da Bunge em Pernambuco, para ser vendido nos supermercados brasileiros.
Grafico 3: Expansão de soja em Uruçuí (Piauí) 1991 - 2006

Fonte: IBGE (2008)

31

Porque Chapadinha é considerada a melhor região do Brasil para se produzir grãos. http://agriculturanomaranhao.blogspot.com/2007_04_01_archive.html Zahlen vglen mit Wilson-Interview 32 Entrevistas com APACEL em Chapadinha

16

As informações dessa pesquisa se referem as regiões de Maranhão, Piauí e Tocantins. Embora, também existem áreas importantes de soja no Pará, especialmente na floresta tropical, ao redor de Santarém e Paragominas. Mas como essa pesquisa estava focada nas consequências sociais e ecológicas do cultivo de soja no Cerrado e nas florestas de transição, estamos falando no contexto do Pará somente do porto de exportação em Santarém, mas não das áreas de soja. Encontram-se muitas informações sobre a produção de soja na Amazonia nessas páginas:

4 Análise do Problema
A introdução da agricultura mecanizada no Cerrado trouxe graves conseqüências sociais e ecológicas que vêm prejudicando as populações locais assim como o meio ambiente até hoje. As regiões que foram visitadas para a elaboração desta pesquisa variam muito entre si em termos da situação sócio-econômica, dos ecossistemas, do contexto da introdução da cultura de soja, etc., porém, os problemas que estas regiões estão enfrentando em relação aos grandes projetos agrários que foram implementados sem uma estratégia adequada de planejamento e controle ambientais, são idênticos. A cultura extensiva de soja trouxe para as populações rurais destas regiões inúmeras conseqüências negativas. “Conseqüências ecológicas da sojicultura”

4.1.1.

Desmatamento

Com o desmatamento do Cerrado está se perdendo um bioma único rico em flora e fauna. O desmatamento ocorre na maioria das vezes para dar lugar a atividades de mineração (extração de bauxita), criação de novas pastagens para o gado, estabelecimento de negócios com a produção de carvão vegetal ou para o plantio de soja, cana-de-açúcar ou eucalipto. A instalação de infra-estrutura nesta região, como a abertura de novas rodovias, também provoca o desmatamento, e nas imediações das novas estradas surgem novos povoamentos acelerando ainda mais o processo de desmatamento. 33

Além de reduzir a variedade biológica, o desmatamento exerce uma influência maciça na alteração do microclima. Em todas as regiões visitadas, os moradores confirmaram que nos últimos anos, a época das chuvas tem começado mais tarde do que nas décadas anteriores
33

Vankrunkelsven 2006, página 244.

17

e que a quantidade de chuva também é menor. Com isso muitas correntes de água secam e o lençol freático baixa – especialmente nas regiões onde as margens dos rios foram desmatadas, porque ali a água se evapora mais rapidamente.34

A mata de mangue perto das margens dos rios, dos lagos e das fontes de água é de suma importância para o ecossistema e a conservação dos recursos naturais. Esta vegetação funciona como um corredor ecológico para favorecer o intercâmbio genético dos animais. O manguezal também protege as correntes aquáticas dos agrotóxicos vindo dos campos de soja, evita a erosão e impede o aumento da temperatura no ecossistema aquático35.

Nas regiões desmatadas, apenas 20 por cento das já escassas chuvas conseguem penetrar o solo ressecado (em comparação com os 60 por cento nas regiões florestais); a maior parte das chuvas corre na superfície do solo e chega inclusive a provocar inundações nas cidades. As plantações se tornam ainda mais secas e o risco de desertificação aumenta. As queimadas constituem mais um problema muito significativo. Os latifundiários utilizam esse meio para desmatar grandes áreas rapidamente. Quase três quartos de todas as emissões de CO2 no Brasil são originadas por incêndios florestais e queima de áreas com crescimento de capim e cana-de-açúcar. “Nos meses de agosto a outubro, quando se aproxima a semeadura, ocorrem muitos “incêndios espontâneos” até mesmo nos Parques Nacionais”.36

A população rural também realiza tradicionalmente queimadas nas áreas a serem cultivadas, o que muitas vezes provoca a perda de controle do fogo. Essas áreas de cultivo em “roça de toco” se localizam geralmente na região ribeirinha porque ali o solo é fértil e existe água em quantidade.

As dimensões destas pequenas áreas de desmatamento, entretanto não são comparáveis com a enorme área desmatada em virtude dos grandes projetos agroindustriais. Originalmente, estas pequenas queimadas não apresentaram nenhum problema ambiental grave: enquanto existiam áreas disponíveis o suficiente, as regiões desmatadas pelos pequenos agricultores eram utilizadas por apenas um ano e então deixadas em
34

A retirada de água para a irrigação mecânica na agricultura também sobrecarrega sobremaneira as reservas de água. 35 FASE et al. 2006a, a partir da página 72. 36 Vankrunkelsven 2006, página 213.

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descanso por um período de 10 a 12 anos. Também deve-se salientar que a perda de nutrientes do solo – o que vem a ser uma conseqüência irremediável das queimadas – nunca teve conseqüências tão negativas como atualmente.

Hoje, em função da forte ampliação da agricultura mecanizada, os pequenos agricultores têm que se contentar com uma área de cultivo cada vez menor, o que faz que eles não possam mais se ater ao tradicional sistema de rotação de culturas. Eles se vêem obrigados a utilizar a mesma área duradouramente, o que dentro de poucos anos provoca o empobrecimento do solo, assim como a erosão, e conseqüente queda da rentabilidade. Por este motivo, recentemente as organizações não governamentais tem realizado campanhas por métodos agrícolas alternativos que evitem as queimadas. O “Reflorestamento” de áreas desmatadas com a substituição das espécies locais por eucalipto não tem como função proteger a variedade de espécies, porque este tipo de árvore exótica que está sendo plantada na região de monocultura não é adequado ao ecossistema nativo. A plantação de eucalipto necessita visivelmente mais água do que a vegetação típica do Cerrado e simultaneamente provoca uma acidificação rápida do solo. 37 Além disso estas plantações tem sobretudo uma função econômica: em poucos anos a área plantada é novamente desmatada e a madeira é utilizada para a fabricação de celulose ou como lenha – e por esta razão a definição do conceito de reflorestamento está mal colocada dentro desta concepção.

Com a finalidade de proteger a vegetação natural foi introduzida no Brasil a Lei de Preservação das Reservas Legais. Como reserva legal entende-se uma dada área dentro de um terreno localizado no espaço agrário, que deve ser preservada em seu estado original, isto é, não pode ser desmatada. Estas reservas têm a função de preservar os recursos naturais e os processos ecológicos, assim como permitir que estes recursos e processos voltem a existir, além de oferecer às espécies nativas da fauna e da flora um habitat protegido. As reservas legais não devem ser confundidas com as Áreas de Proteção Permanente. O tamanho da reserva legal depende das respectivas zonas de

vegetação/respectivo bioma e do tamanho do terreno. Elas importam:

I.

80 % de um terreno que se encontra nas regiões de floresta tropical equatorial na denominada Amazônia legal;

37

Compare FAO 1985.

19

II.

35 % de um terreno que se encontra em um estado do Cerrado, integrando a Amazônia Legal38 . 20 % de um terreno que se encontra em outras regiões do Brasil. 39

III.

A Lei das reservas legais foi introduzida com a finalidade de limitar o desmatamento. Nas áreas protegidas é proibido qualquer tipo de atividade agrícola e a partir de uma área de 1000 hectares o desmatamento só pode ser realizado após a autorização da autoridade responsável. O instituto brasileiro de meio ambiente IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) é responsável pelo cumprimento e pelo controle das leis nacionais de meio ambiente. O Instituto concede Licenças para desflorestamento, autoriza a utilização de recursos naturais e controla e pune, pelo menos na teoria, a exploração ilegal de recursos naturais. Na realidade o principal problema do IBAMA reside na deficiência crônica de pessoal e falta de recursos financeiros, principalmente em regiões agrárias. Para citar um exemplo, no estado do Maranhão uma grande maioria dos funcionários trabalha na capital São Luís, enquanto que no Escritório Regional do Sul do Maranhão trabalham apenas 3 funcionários que têm que coordenar 44 municípios. Por esta razão não é de se admirar que ocorram muitos desmatamentos ilegais e que em 25 anos foram realizados apenas 2 vôos de helicóptero para o controle do desmatamento. Porém, uma presença relativamente boa do IBAMA não é também nenhuma garantia de que as leis ambientais serão cumpridas. Através de contatos pessoais ou corrupção pode-se ter acesso rápido a licenças e às vezes nem sequer é necessário dar entrada. Muitos produtores agrícolas já afirmaram em entrevistas que desistiram das licenças porque o processo é muito trabalhoso e pode durar até dois anos. Ao mesmo tempo as penas são baixas – elas correspondem apenas uma fração dos ganhos que o agricultor poderá usufruir com a área desmatada. Uma lacuna na Lei oferecida pelo fato de que a terra desmatada ilegalmente não deverá ser reflorestada ou substituída dentro da mesma escala de valores, mas será apenas recompensada através de uma pena financeira, provoca conseqüências devastadoras para o meio ambiente. Sempre quando se trata de Leis Ambientais significa que o IBAMA “controla”. Mas na realidade não se pode verificar nenhum controle regular, e o que na verdade acontece é no

38

Destes 35 % devem pertencer no mínimo 20 % ao próprio terreno. Os outros 15 %, tomando-se em conta o sentido de uma recompensa, pelo menos devem pertencer à mesma bacia micro-hidrográfica. 39 WWF 2006.

20

máximo uma denúncia - que na maioria das vezes se passa de forma anônima freqüentemente após uma briga de vizinhos.

O Ministério do Meio Ambiente do Brasil confirmou, baseado em foto de satélites de 2002, que hoje apenas cerca de 60 por cento do Cerrado está coberto por sua vegetação natural original. A situação em que se encontram as áreas preservadas não foi examinada. 40 Apesar de seu imenso significado biológico como a savana mais rica em espécies do mundo, a região não é protegida suficientemente através de leis ambientais: apenas uma a cada dez espécies de plantas nativas está protegida pela lei. 41

Assim como a falta de leis de proteção, também o sentido de algumas leis e regras existentes são passíveis de crítica. Por exemplo, existe uma Lei que prevê a proteção da árvore Pequi, mas do ponto de vista ecológico não faz sentido. Devido a esta Lei podem-se encontrar árvores de Pequi isoladamente no meio da plantação de soja porque se é proibido a cortar essa espécie - ignorando o fato de que este tipo de árvore necessita estar rodeado por um sistema ecológico intacto para poder prosperar. Essa lei também nao tem em conta que o fruto do pequi serve de recurso natural para os moradores locais – os quais logicamente não podem entrar no campo de soja para pegar os frutos. 4.1.2 Agricultura mecanizada e Plantação em Monocultura A plantação de soja de forma mecanizada em uma área nova, segue normalmente os seguintes passos: - As áreas novas são desmatadas42. - Na segunda etapa, os restos de raízes que poderiam danificar as máquinas agroindustriais têm que ser cortadas e recolhidas, o que é feito manualmente. Aliás, esta é a única tarefa no plantio de soja em que verdadeiramente se empregam numerosos trabalhadores locais, apesar deste trabalho ter pouca duração e ser mal remunerado. - Em seguida, o solo é arado, aplainado e tratado com a adição de calcário para equilibrar o nível de acidez do solo, que no Cerrado é bastante elevado. - As sementes são então antes de serem semeadas tratadas com imunização utilizando bactérias capazes de promover a captação de nitrogênio, e caso necessário também com agentes protetores vegetais. Também são empregados herbicidas para destruir as ervas
40 41

Ministério do Meio Ambiente 2008, página 28. Fearnside & Ferraz 1999. 42 Para o desmatamento de áreas extensas, muitas vezes se utiliza um correntão de metal que é colocado entre dois tratores. As instituições ambientais criticam este método, através do qual se destrói todo um ecossistema por completo, incluindo árvores que são protegidas por lei e que servem aos camponeses como fonte de fruta.

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daninhas ou outras plantas residuais da cultura anterior, e isso se faz antes da semeadura e também mais tarde enquanto as plantas ainda são pequenas. - A fim de se evitar que as plantas de soja sejam infestadas por insetos nocivos e fungos (como lagartas e percevejos, por exemplo), elas são pulverizadas após a brotagem com outros agrotóxicos em intervalos de tempo diferenciados. - Antes da colheita, a secagem da soja é induzida através do emprego de outro tipo de agroquímico. Desta forma, a colheita se torna mais fácil e os grãos encontram melhores condições de armazenamento.43

A agricultura mecanizada facilita o trabalho do agricultor, mas traz consigo altos custos ecológicos e também financeiros. Como as máquinas utilizadas são muito pesadas, elas provocam a compactação dos solos. Os agrotóxicos utilizados contaminam solos e as correntes de água. Os solos empobrecem em virtude do desmatamento e do emprego da monocultura. Como conseqüência da perda de substâncias nutritivas e minerais se faz necessário o emprego de quantidades cada vez maiores de fertilizantes. Mais um problema se traduz através do surgimento dos sinais de Erosão, os quais muitos agricultores procuram prevenir através da semeadura direta. A semeadura direta é um método de semeadura sem a preparação prévia do solo: o solo não é arado entre a colheita e a nova semeadura. Na região examinada se semeia freqüentemente um “fertilizante verde” após a colheita da soja. Estas plantas são ressecadas com a ajuda de agentes químicos antes da nova semeadura da soja. Os restos vegetais deste fertilizante verde que cobrem o solo, amortecem o impacto das gotas de chuva e evitam que muito material na superfície do solo seja levado pelas chuvas. Diante da presença de irradiação solar intensa este manto protege o solo contra o rápida ressecamento. Da mesma forma pode favorecer um aumento muito maior da capacidade de absorção de água durante precipitação intensa do que através da técnica de arado, porque o espaço interno vazio deixado pelas raízes mortas reforçam a penetração da água até as camadas mais profundas do solo. Estes efeitos positivos da semeadura direta são, entretanto, relativos pela intensa necessidade de se empregar os referidos herbicidas com a finalidade de se combater não só a cultura anterior mas também o crescimento de ervas daninhas. A desertificação intensa das áreas erodidas assim como o consumo crescente de água gerado pela agricultura extensiva e pela transformação industrial, contribuem significativamente para a escassez das reservas de água. Apesar de que no Cerrado o clima dominante é o semi-árido, em muitos locais a atividade agrícola, principalmente a
43

Criar e Plantar 2008.

22

plantação de cana-de-açúcar, é realizada durante todo o ano com o auxílio de equipamento de irrigação. A consciência da população, especialmente dos produtores agroindustriais, a respeito da preocupante escassez de água é no momento muito pouca, inclusive porque o senso de responsabilidade através do custo monetário não lhes é repassado. Com exceção da taxa de autorização para a perfuração de poço, a agroindústria não arca com nenhum custo pelo seu consumo de água – simplesmente porque nesta região a água é retirada de rios, riachos ou de poços privados, e por esta razão, grátis! Também as famílias e o serviços domésticos não se dão conta de como se desperdiça água porque na maioria das vezes se paga apenas uma taxa mensal muito baixa e com valor fixo, independente da quantidade de água consumida.

A soja momentaneamente ainda não é na maioria dos casos plantada durante todo o ano. Muitos Fazendeiros alegam a imprescindível irrigação artificial como impedimento para o cultivo repetido. Porém, o problema aqui é mais o suprimento elétrico do que as reservas de água. (Eles aguardam atenciosamente pela realização breve da construção de uma represa que já está planejada – e que do ponto de vista ecológico existem muitos motivos contra esta intenção, sem se levar em consideração os gravíssimos efeitos nocivos provocados pela construção em si).

4.1.3 Agrotóxicos

Como já mencionado anteriormente, na plantação convencional de soja se utilizam muitos pesticidas, herbicidas e fungicidas contra doenças e pragas que surjem freqüentemente no caso de monoculturas. Como insetos e outras pragas podem desenvolver resistência, é necessário o uso de agrotóxicos cada vez mais fortes e em dosagens cada vez mais elevadas, com a finalidade de garantir a colheita – muitas vezes com conseqüências devastadoras.

Os agrotóxicos são pulverizados várias vezes ao ano através de máquinas agrícolas ou de aviões. Nas regiões vizinhas as famílias não podem sequer deixar as crianças brincarem do lado de fora durante este período; muitos moradores testemunham a morte rápida de animais domésticos, como aves e porcos, em conseqüência da pulverização nos campos de soja nas proximidades (como por exemplo no povoado de Secura na região de Anapurus no Baixo Parnaíba).

23

Para os trabalhadores rurais faltam sempre equipamentos de proteção assim como as informações técnicas necessárias à manipulação dos produtos químicos, mesmo quando ambos estão prescritos por Lei44.

Muitos entrevistados informaram que sofreram de sintomas de envenamento, como dor de cabeça, vômitos, diarréia, sudorese, problemas respiratórios ou estado de choque após o manuseio inadequado do veneno. Quase todos os trabalhadores rurais entrevistados conheciam pelo menos um caso no qual o colega de trabalho ou conhecido morreu vítima de envenamento com agroquímicos. No Posto de Saúde de Campos Lindos são atendidos de quatro a cinco casos mensais de envenamento.

Os venenos ,entretanto, não atuam apenas no momento do uso no campo, mas também têm conseqüências que manifestam a longo prazo: através da erosão, a terra contaminada é transportada durante o período das chuvas desde os planaltos onde se localizam as plantações de soja até os riachos e rios, ou ainda através do vento pela região. Desta maneira, os venenos conseguem se acumular em outros pontos do ecossistema e assim provocarem danos na população local. Devido ao fato de que a maior parte da população rural não tem nenhum acesso a água encanada e tratada45, a poluição dos lençóis d’água assume um caráter devastador porque a maioria das famílias obtém a água para beber e para o uso geral diretamente dos rios e riachos ou dos pequenos poços.

Em quase todos os municípios examinados esta forma de poluição nos foi identificada como sendo o maior problema: as doenças de pele se alastram nas pessoas que bebem da água e que a utilizam para a higiene corporal. Os animais que bebem da água adoecem ou morrem. Os peixes morrem em quantidades maciças e a contaminação da própria colheita põe em risco a segurança alimentar. No povoado de Rio Sangue nas proximidades de Urucuí, por exemplo, morreram cinco bois após terem bebido da água de um riacho. Pelo fato de as mortes terem sido súbitas e exatamente na ocasião da pulverização e como além disso, esta água foi trazida pelas chuvas diretamente das plantações de soja até o riacho, os moradores estão convencidos de que os animais morreram envenenados. Para as famílias, a morte de cinco

44

Muitos trabalhores rurais entretanto afirmaram durante as entrevistas que eles não gostam de utilizar o equipamento de proteção individual disponível – principalmente as máscaras respiratórias quando o calor é muito intenso. Isto vem comprovar que eles não estão conscientizados a respeitos dos riscos para saúde decorrentes do manuseio dos produtos tóxicos, e que por sua vez não houve esclarecimento a esse respeito por parte do empregador. 45 Em todos os Municípios visitados em 2001 em média menos que 20% da população tinham acesso a água encanada (PNUD 2007).

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reses representa uma enorme perda, mas elas não podem contar com indenizações por isso.

Muitos moradores de Terra Dura (Município de Sonhem), Batavo (Município de Balsas) e Campos Lindos confirmaram que a água dos rios apresenta turvação e odor estranho. Após apenas alguns minutos na água pode-se observar imediatamente irritações na pele. Doenças crônicas de pele e dos olhos que surgiram em alguns moradores tornaram o uso da água impossível.

Em várias das comunidades visitadas as condições de vida desde então pioraram claramente. Apesar de muitas famílias possuírem córrego imediatamente nas proximidades de suas casas, elas são obrigadas atualmente a percorrer um longo caminho a pé para apanhar água potável em uma outra fonte que seria menos poluída, e ainda arcar com a dificuldade de transportar os pesados recipientes com água no caminho de volta para casa. Outras famílias se vêem obrigadas a perfurar um poço. Isso era o que acontecia em localidades como São Francisco, Campos Lindos, em Terra Dura / Buritirana, Loreto e várias comunidades no Baixo Parnaíba. Em outros locais os moradores não tinham outra escolha a não ser abandonar suas terras, porque o biossistema destes terrenos em sua totalidade – solo, água, flora – estavam poluídos, os animais morreram e até mesmo estes moradores se encontravam doentes.46

Muitos dos entrevistados externaram sua insegurança,

seu desamparo e

preocupações a respeito da água potável, que eles mesmos e também as crianças consumem diariamente. Por parte da política eles nunca receberam apoio e com raras exceções, nunca se realizou uma análise da qualidade da água. Uma análise da qualidade da água poderia no mínimo oferecer a estas pessoas a informação se elas ainda poderiam beber desta água sem preocupação. Entretanto mesmo quando altas concentrações de agrotóxicos fossem comprovadas, seria quase impossível identificar os responsáveis pela poluição assim como incriminá-los através dos trâmites legais, porque não se pode identificar através do tipo de poluente quem o pulverizou.

Muitos produtores de soja, assim como os funcionários de empresas multinacionais negaram a nocividade dos agrotóxicos. Muitos deles defenderem o ponto-de-vista de que a pulverização das plantações por via aérea é mais segura porque a quantidade necessária é
46

Conversa realizada com antigos pequenos agricultores nos acampamentos ilegais de Araguaína (Tocantins).

25

calculada automaticamente e a área a ser tratada é completamente coberta por GPS. Por esta razão acidentes e poluição das áreas adjacentes seriam impossíveis. Só resta esclarecer a dúvida, se as plantações seriam apenas pulverizadas na ausência absoluta de vento. A segurança deste processo deixa também transparecer contraditória através do relato de muitas famílias, cujas plantas no jardim e na lavoura perderam todas as folhas imediatamente após a pulverização das plantações vizinhas. Ou ainda, através da afirmação de um motorista de ônibus, de uma professora e de quinze estudantes que seguiam juntos no ônibus pela rua, quando um avião pulverizou veneno quase em cima do ônibus escolar que foi invadido pela fumaça fétida, tendo como conseqüência que no decorrer dos dias seguintes várias crianças sofreram acessos de tosse e apresentaram febre. Para nos convencer de que os referidos produtos químicos seriam inofensivos a saúde, um grande produtor tentou provar oferecendo o exemplo de um trabalhador rural que tentou se suicidar ingerindo agrotóxico, e mesmo assim não conseguiu.

Em uma das maiores fazendas de soja do Maranhão, onde a plantação se distribui em cerca de 10.000 hectares, nos foi esclarecido em primeiro lugar que a aplicação de agrotóxico é realizada de forma tão exata que uma contaminação da água na região estaria totalmente excluída, e em segundo lugar que mesmo quando uma quantidade mínima de agrotóxico atingisse a água, esta não seria suficiente para provocar qualquer dano. Afirmaram-nos que a análise da água que é realizada de acordo com o que a Lei prescreve, ou seja, a cada três meses deverá ser analisada a água utilizada na área de produção, onde nascem muitos rios, não se verificou nenhuma alteração. Porém, estes resultados ainda não foram publicados. Então em decorrência do prosseguimento da conversa veio à tona o tema da saúde dos agricultores que trabalham na fazenda. Nos foi assegurado que para eles não existe “nenhum risco de envenenamento” dentro da área da Fazenda principalmente porque eles se servem de água retirada de um poço de 80 metros de profundidade! “A contradição contida nesta afirmação dispensa qualquer comentário”.

Muitos fazendeiros de soja que estavam sendo acusados de envenenamento da água afirmaram que isto seria feito por pequenos agricultores que utilizam produtos químicos inadequadamente e desta forma poluem o meio ambiente. Levando-se em consideração o fato de que a maioria dos pequenos agricultores da região, não chegam sequer a dispor de renda monetária e de que agrotóxicos são caros, esta afirmação não chega então a ser conclusiva. Porém, cumpre-se ressaltar que muitos pequenos agricultores confessaram durante as entrevistas, que utilizariam veneno para combater a infestação de pragas em suas plantações, caso possuíssem dinheiro o suficiente.

26

A poluição tanto dos lençóis subterrâneos como da água superficial no Cerrado é em todas as perspectivas alarmante. Na savana brasileira nascem inúmeros sistemas fluviais que são um dos maiores da América do Sul. A mudança na qualidade da água no Cerrado pode, por este motivo levar rapidamente a conseqüências gravíssimas em outras regiões.

No total são utilizados anualmente no Brasil 182.000 toneladas de agrotóxicos, em grande parte importado da Europa, principalmente através da Firma Bayer. Uma agrônoma supõe que freqüentemente são vendidos e utilizados herbicidas que na Europa já foram inclusive proibidos, como por exemplo “Tordo” que está incluído entre os POP´s (persistant organic pllutants = poluentes orgânicos persistentes) que constam como internacionalmente proscritos. Esta informação naturalmente foi desmentida pelo Ministério da Agricultura,

porém, controles rotineiros não são realizados.

Além disso, deve-se ressaltar que a produção de agrotóxicos consume muita energia, que por sua vez provoca o aquecimento do planeta assim como outros problemas relacionados com a produção de energia.

4.4.4 Soja Transgênica

Até há três anos atrás (02.03.2005) o cultivo de plantas geneticamente manipuladas no Brasil era considerada ilegal e por este motivo a proporção de soja transgênica na produção total é até hoje significativamente menor (40% da safra de 2007) no Brasil do que na Argentina (99%) e nos Estados Unidos (acima de 90%). Enquanto no Sul do Brasil se planta cada vez mais soja geneticamente manipulada, os produtores do Norte e do Nordeste ainda dão preferência às plantas convencionais, que são claramente melhores e que se adaptam melhor ao clima semi-árido. Muitos agricultores destas regiões porém, aguardam ansiosos que logo sejam desenvolvidas espécies de soja transgênica especialmente para o Nordeste.

A resistência desenvolvida contra o princípio ativo Glifosato 2,4 D permite o uso do herbicida completo “Round Up” na plantação de soja geneticamente manipulada. Este herbicida foi desenvolvido e patenteado pela empresa multinacional Monsanto. Esta “Arma Maravilhosa” faz efeito tanto contra todas as plantas verdes como contra ervas daninhas em potencial, porém deixa intacta a plantação de soja geneticamente manipulada. Dessa maneira, de fato emprega-se menos herbicida específico.

27

Problemático, porém, é que cada vez mais plantas desenvolvem resistência contra o Glifosato e os riscos biológicos da Tecnologia Genética ainda não foram suficientemente pesquisados. Além disso, esta “Técnica Milagrosa” apresenta muitos riscos econômicos e os Fazendeiros de Soja ficam desta forma sujeitos a forte dependência das empresas multinacionais.

No Brasil foi permitida pela Lei de Biosegurança 11.105/2005, de 2 de Março de 2005 a semeadura e a produção de espécies geneticamente manipuladas e também a semeadura de sementes produzidas pelo próprio agricultor, desde que estas sementes sejam para o próprio uso, e não para a comercialização47.

Poucos meses após a Assinatura da Lei a Monsanto informou a introdução de um sistema complexo de “Royalties”. Este sistema trata-se de uma obrigação unilateral de pagamento para a utilização de sementes patenteadas, que explora por meio de um aparato jurídico não só a propriedade intelectual favorecendo as empresas de biotecnologia, como também o Governo dos Estados Unidos. As dimensões destas Leis podem ser medidas pelo fato de que a Monsanto já controla atualmente 91% do mercado mundial de sementes.

O lado pérfido neste sistema de Royalties é que se deve pagar por cada grama de sementes utilizadas na semeadura, independente da qualidade atingida na colheita. Foram apresentadas aos produtores não apenas colheitas seguras, mas também lucros elevados, e por esta razão muitos optaram pelo cultivo de soja geneticamente manipulada. A colheita efetiva ficou, porém, freqüentemente muito aquém do lucro almejado: o Estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, teve no ano de 2005 80% da safra de soja transgênica perdida em função da seca provacada pela escassez de chuvas, porque este tipo de planta é muito mais sensível às altas temperaturas e à falta de chuvas do que as espécies tradicionais. Entretanto os Fazendeiros tiveram que pagar os Royalties de qualquer maneira, o que levou a endividamentos altíssimos.48

Em virtude destes riscos, as plantas de soja convencionais são preferidas pela maioria dos produtores no Norte e no Nordeste, inclusive porque elas se ajustam com mais facilidade à seca e ao solo pobre em nutrientes. Durante uma entrevista um produtor de soja declarou que, o lucro nas plantações experimentais com soja transgênicas chegaram a ser
47

Art. 35. Ficam autorizadas a produção e a comercialização de sementes de cultivares de soja geneticamente modificadas tolerantes a glicofosato registrada no Registro Nacional de Cultivares – RNC do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Fica autorizado o plantio de grãos de soja geneticamente modificada tolerante a glifosato, reservados pelos produtores rurais para uso próprio, na safra 2004/2005, sendo vedada a comercialização da produção como semente. 48 Reis 2007.

28

25% menor do que nas áreas de plantação tradicional. Pelo fato de que as sementes transgênicas serem muito caras e ao mesmo tempo a colheita ser incerta, para muitos Fazendeiros o cultivo de soja transgênica ainda não é rentável. Há pouco tempo, porém, começaram a surgir cada vez mais tentativas com um tipo de soja geneticamente manipulada resistente ao calor intenso assim como com novos adubos com a finalidade de que no futuro o uso de soja transgênica consiga se sobressair.

Apesar de tudo, não é possível a nenhum dos produtores de soja entrevistados garantir que seu produto seja “GMO-free”, porque seria extremamente dispendioso se controlar ao longo da cadeia produtiva se as sementes convencionais que atualmente são cultivadas na região, não estão misturadas com 7-10% de sementes geneticamente manipuladas. Tanto para o uso de herbicidas do tipo Round-Up como para o cultivo de soja transgênica nas regiões examinadas, ainda se faz obrigatório, ao contrário dos estados do sul, a obtenção de uma licença ambiental estadual.

Dentre os produtores de soja entrevistados, não se chegou a um consenso se o cultivo de soja transgênica necessita de mais ou de menos agrotóxico do que a plantação tradicional. Também a respeito do mercado consumidor surgiram opiniões contraditórias: alguns Fazendeiros,por exemplo, disseram que os consumidores europeus são mais exigentes do que os chineses em relação à liberdade de se utilizar tecnologia genética, o que era uma vantagem para o Brasil antes da legalização da Soja-GMO. Outros Fazendeiros, porém, alegaram que não existiriam diferenças e que todos os consumidores estariam apenas interessados no preço. Isso se deve provavelmente ao fato de que freqüentemente se trata de soja a ser utilizada como alimento para os animais, para a qual ainda não existe nenhuma obrigação de idenficação dentro da União Européia.

A rejeição da tecnologia genética por parte dos europeus é esclarecida por parte de algumas companhias exportadoras com a justificativa de que empresas como a Bayer e outros grandes fabricantes de agrotóxicos de origem européia incentivam o medo diante da tecnologia genética, para que desta forma eles consigam continuar comercializando seus agrotóxicos para as espécies convencionais.

29

4.2 Conseqüências sociais da destruição ambiental

4.2.1 O caso de Campos Lindos como exemplo

Na comunidade rural de Campos Lindos as pessoas viviam e trabalhavam por muito tempo, relativamente distanciadas entre si e, com uma relação muito próxima com a natureza. Seus antepassados imigraram do Maranhão por volta de 1900 na procura por um lugar melhor para viver; a maioria das famílias são descendentes destes imigrantes nordestinos e dos povos indígenas. Até a chegada da agricultura “moderna”, há cerca de 10 anos atrás, as pessoas viveram em Campos Lindos praticamente intocadas, utilizando a agricultura de subsistência, a criação de gado em forma de coletividade, caça, pesca e coleta de frutas e plantas típicas do Cerrado. O dinheiro por mais da metade do século vinte não tinha nenhum significado para estas pessoas; o excedente de sua produção era trazido uma ou duas vezes por ano em lombo de burro e em balsas, viajando várias semanas, até as cidades de Balsas ou de Riachão. Lá, os produtos foram trocados nas feiras locais por outras coisas, principalmente sal e tecidos. Em suas lavouras de “roça de toco”, queimadas sem utilização de adubos ou produtos químicos, eram cultivados arroz, milho, mandioca, diversos tipos de feijão, abóbora, melancia, bananas, abacaxi e algodão. Eles criavam porcos, galinhas e – coletivamente – gado, que andavam livremente e retiravam seu alimento da natureza. No Cerrado eram caçados principalmente o veado, catitu (um tipo de javali), antas, emas, cotias (animal aparentado com a lebre), seriemas, tatus e perdizes. A savana lhes oferecia uma quantidade imensa de frutas nativas como o bacuri, buriti, babaçu, cajú, pequi, bacaba ou mangaba, além de plantas medicinais. E ainda haviam mel silvestre e muitos peixes nos rios. A imensa variedade de fontes alimentícias garantia às famílias uma vida saudável e riqueza alimentar por muito tempo49.

No final dos anos 90 as famílias de pequenos agricultores foram tomadas de surpresa pelo boom da soja. A área de cultivo de soja cresceu de apenas 450 hectares em 1997 até os atuais 45.000 hectares! A população local não estava preparada para a mudança tão súbita de seu meio ambiente e para a aceleração e a capitalização do seu ritmo de vida, e permanece até hoje traumatizada.

49

Até aqui todas as informações são oriundas da FASE et al. 2006a, página 28-36 e entrevistas próprias.

30

A sua produção não estava orientada para a acumulação de bens materiais; seu ponto central era a sua sobrevivência individual assim como de sua família, não só hoje, mas como também no futuro, e desta forma assegurar a perpetuação do seu modo de vida50. Com a chegada súbita da agricultura mecanizada que veio acompanhada de intenso afastamento até violenta expulsão do trabalhador dos campos, as pessoas passaram a ver que a base da sua existência se encontrava agudamente ameaçada. As reservas de peixes e de animais diminuíram significativamente dentro de poucos anos, lençóis d’água foram contaminados, começaram a surgir casos graves de envenamento e ruas que sempre foram utilizados pela população rural, de repente foram declaradas como propriedade particular: as pessoas deveriam a partir de agora aceitar a tomar um atalho a pé com várias horas de caminhada para poder chegar ao próximo povoado.

De fato Campos Lindos possue atualmente conexão à malha rodoviária (esta infraestrutura foi construída para favorecer o transporte dos produtos agrícolas para a exportação), entretanto como a maioria das famílias camponesas na melhor das hipóteses possuem apenas uma bicicleta, raramente uma motocicleta quanto menos um automóvel, e que aqui não existe sequer transporte público, estradas não lhes trazem vantagem alguma: “Antes durava a viajem (até Balsas para vender e fazer compras) de ida e volta oito dias ou mais. Hoje pode-se sair daqui pela manhã e a tarde já estar de volta, mas isso não traz vantagem, porque nós não temos nada que possamos levar para vender. Antes a viajem era difícil e cansativa mas pelo menos tínhamos alguma coisa para vender.” 51

Na verdade os moradores de Campos Lindos já antes da chegada do cultivo de soja eram muito pobres no que se refere a renda e ao acesso à educação e assistência médica. Todavia viviam, de própria declaração, relativamente contentes, sem fome, e capazes de utilizar sua riqueza de conhecimentos tradicionais para segurar sua base de vida.

Passamos a citar alguns fatos:

- Muitos municípios na região pesquisada estão entre os mais pobres do Brasil e apresentam um Índice de Desenvolvimento Humano (HDI = Human Development Index) que se equipara ao dos países africanos mais pobres. Com um HDI-M52 de 0,58 Campos Lindos estava incluído no ano 2000 entre os 550 municípios mais pobres do Brasil (em um total de 5500). A expectativa de vida era de 60 anos e entre 100 crianças 6 morriam antes de
50 51

FASE et al. 2006, página 28. Citação de Dona Florência de Vereda Bonita, Maio de 2006, retirada de FASE 2006, página 37. 52 O HDI-M corresponde ao Human Development Índex aplicado ao nível municipal.

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completar um ano de vida. A cada três moradores um era analfabeto e a população total freqüentou a escola em média por 2,4 anos.53

Quando se comparam estes dados com os números de 1991 pode-se constatar uma melhora discreta em relação ao acesso à educação e à assistência médica. Este fato pode ser constatado na maioria dos municípios brasileiros e se deixa explicar através de medidas governamentais, como o Programa Bolsa Família, por exemplo. Mas ao mesmo tempo a renda familiar média neste mesmo período caiu e a desigualdade entre ricos e pobres aumentou.54 Em 1991 viviam 82,7 por cento da população na pobreza absoluta, nove anos depois ainda mais (85,2%). Desde então, de acordo com declarações da Comissão Pastoral da Terra (CPT), as condições de vida de muitas pessoas piorou ainda mais e sua fragilidade aumentou. A extrema concentração de propriedade e renda nas mãos de poucos aumentou enormemente. O contraste entre a extrema pobreza de algumas famílias e a tecnologia de ponta ultra moderna que a poucos quilômetros de distância é utilizada nas plantações de soja não poderia ser maior.55

A expansão da soja também tem impactos muito negativos em terras indígenas. Os povos indígenas que vivem na região do Cerrado, entre eles os Krahõ, sofrem com a abertura de estradas na fronteira da região onde eles habitam, assim como com os grandes desmatamentos e a poluição com produtos químicos dos rios que nascem nas serras e atravessam os territórios indígenas. A poluição com resíduos químicos prejudica ainda a oferta de alimentos aos indígenas que vivem diretamente da caça e da pesca. Os principais problemas são a retirada ilegal de madeira, a caça ilegal, desmatamento, grilagem de terras e a presença de camponeses invadindo os limites do território indígena, que por sua vez é tão importante para a sobrevivência deste povo. Os limites deste território é importantíssimo para o povo Krahõ porque lhes oferece um corredor de proteção natural. Os camponeses são forcados a vender suas terras aos fazendeiros de soja.56 O caso de CL 96.

Através da descrição da situação de Campos Lindos, se torna claro que o “desenvolvimento” da região, incentivado pelos defensores da agricultura mecanizada e da industrialização que deveriam beneficiar todos os moradores através da geração de empregos, desenvolvimento da infra-estrutura e agregação de valores, não trouxe nenhuma melhora das condições de vida à grande maioria dos camponeses, tão pouco como em muitos outros municípios no Maranhão, Piauí e Tocantins.

53 54

PNUD 2007: Perfil Municipal - Campos Lindos, Páginas 2-5. Coeficiente de Gini: de 0,50 (1991) para 0,69 (2000) ADH Campos Lindos, página 3. 55 FASE et al. 2006, página 24. 56 FASE 2006a, página 96.

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As áreas de cultivo de soja continuam crescendo e de acordo como o Prefeito de Campos Lindos o Cerrado no Estado do Tocantins também será tomado pela cultura de cana-de-açúcar e pelo plantio de eucalipto.

4.2.2 Risco alimentar

Essas conseqüências ambientais têm um profundo impacto no sistema de produção dos camponeses. Como a área destinada às atividades destes pequenos agricultores foi reduzida, eles se vêem obrigados a encurtar o período de descanso do solo, o qual por esta razão se degenera. Ao mesmo tempo, o uso intensivo de agrotóxicos nos campos de agricultura mecanizada tem a desvantagem de fazer com que a grande quantidade de insetos que surgem em virtude da monocultura, abandonem os campos de cultivo mecanizado em busca de alimento, que é encontrado muitas vezes nas roças de agricultores familiares, que não possuem poder aquisitivo para comprar inseticida. Como conseqüência, as roças tradicionais dos pequenos agricultores foram atingidas nos últimos anos por pragas com maior freqüência o que provocou uma queda significativa da produtividade. Muitos dos entrevistados relataram que antes da instalação dos grandes projetos agrícolas raramente se viam pragas nas roças.

Na comunidade de Sonhem, município de Loreto, no Sul do Maranhão por exemplo, as pragas invadiram as plantações de feijão durante o inverno de tal maneira, que os agricultores atualmente se vêem forçados a plantar feijão no verão. Em virtude da escassez de chuvas nesta época do ano, a irrigação tem que ser feita manualmente, o que significa um trabalho adicional para os moradores além de um maior gasto de água.

Com a expansão da agricultura de extensão também a criação de animais na região foi visivelmente prejudicada. Como suas terras fazem divisa diretamente com as plantações de soja, os camponeses são obrigados a manter suas reses em pastos cercados, o que não acontecia anteriormente. Caso um animal invada a plantação de soja, o que acontece corriqueiramente, ou este animal será morto ou seu proprietário será obrigado a pagar uma multa em dinheiro para que o animal seja posto em liberdade. “Antes a roça era diversificada e a criação também. Hoje o nosso gado está preso nas fazendas e se a gente os quer de volta precisa pagar por eles...”.57

57

FASE et al. 2006a, Página 84.

33

Os encargos para os pequenos agricultores não se referem apenas à construção da cerca, que tradicionalmente é confeccionada a partir da disposição bem entrançada de galhos e ramos de árvores coletados com muito esforço (materiais que devido ao desmatamento se tornam cada vez mais raros). Para estes agricultores surgiu o problema adicional da alimentação dos animais, porque na pecuária confinada os animais passam a ser alimentados pelos próprios camponeses ao contrário do gado criado solto, onde os animais buscam o alimento na natureza por conta própria. Isto pode ser ilustrado através do comentário de um dos entrevistados: “Aqui se conta que antigamente os animais se alimentavam por conta própria e então às pessoas. Hoje em dia acontece exatamente o contrário. Para poder criar animais temos que alimentá-lo pessoalmente. Nossas lavouras não produzem o suficiente para alimentar também o gado, e até o Cerrado oferece cada vez menos alimentos que a gente possa colher. Para nós a criação de animais não é mais compensadora.”

Aqueles que desejam ainda apesar de tudo, alimentar sua família a base de carne, poderiam caçar. Porém, devido a destruição de seu ambiente natural, o acervo animal do cerrado encontra-se bastante reduzido e a quantidade dos que ainda existem é tão pequena, que se tem que aprovar Leis para protegê-los da extinção. O pequeno agricultor então encontra animais para a caça apenas raramente, e neste caso ainda se vê obrigado a cometer um ato ilegal.

Para muitas comunidades o extrativismo deixou de existir. Com o intenso desmatamento desaparecem as espécies frutíferas do Cerrado, como por exemplo o buriti, bacuri, pequi...o que prejudica a alimentação familiar. Se antigamente os habitantes do Cerrado caçavam, hoje isso é quase impossível.

A pesca encontra-se em situação igualmente complicada: no Rio Manoel Alves e seus confluentes em Campos Lindos, no Rio Balsas ou ainda em muito dos outros rios e riachos na região visitada e demais locais, tanto a quantidade de peixes assim como o nível da água diminuíram. A sobrevivência da população ribeirinha, que vivem em estreita ligação com os cursos de água, encontra-se em risco. As análises de água que foram realizadas nos anos de 1999 e 2006 em Campos Lindos mostraram que a qualidade da água piorou consideravelmente em relação à turvação, pH e presença de contaminantes.

Devido ao lucro cada vez menor na lavoura, a perda da criação de animais como fonte adicional de renda e de alimentação assim como as limitadas possibilidades oferecidas atualmente pelo extrativismo (caça e coleta de frutos silvestres) muitas famílias na região

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pesquisada perderam a garantia alimentar. Em muitos locais, onde a própria colheita já não é mais suficiente para viver, as pessoas são obrigadas – caso possuam meios financeiros para isso – a comprar alimentos. Isso pode representar uma carga muito pesada, porque devido à enorme distância em que são transportados, os alimentos são mais caros aqui do que nos grandes centros metropolitanos do Sul e Sudeste do país, onde são produzidos. Simultaneamente isto torna raro ou quase impossível para algumas famílias ter uma fonte de renda baseada nos excedentes gerados pela venda de seus produtos. 4.2.3 Conflitos de Terras, Processos de Invasão e Expulsão de Terras

O consumo do espaço agrário é um dos maiores problemas da expansão da soja, juntamente com a perda das colheitas pela contaminação por pragas. Através da expansão da área cultivada com a soja sobra cada vez menos terra disponível para o uso do pequeno agricultor. Por meios legais e ilegais à mando dos latifundiários eles são em muitos locais exortados a sair ou até mesmo expulsos com violência.

Com a valorização da Região do Cerrado devido à agricultura mecanizada orientada para a exportação, chegaram e continuam chegando novos atores à Região, que almejam a aquisição de grandes faixas de terras. Entre eles encontram-se tanto agricultores como pecuaristas que utilizarão diretamente pelo menos uma parte das terras recém adquiridas, como também investidores que nem sequer planejam se estabelecer na região, mas apenas especular com o preço da terra, adquirindo grandes extensões de terra para dentro de alguns anos obter ganhos estrondosos com a revenda destas terras.

Em muitas regiões do Brasil, como Maranhão, Piauí e Tocantins, os conflitos de terra que se originam a partir de relações de propriedade sem seguridade jurídica58 estão na ordem do dia59. Nas regiões examinadas a população tradicional está estabelecida parcialmente na verdade há mais de um século no mesmo terreno, porém, até hoje não possuem nenhum documento que lhes assegure o direito de propriedade.

58

De acordo com declarações oficiais do governo encontram-se 12 por cento dos terrenos percentes ao Governo, ou seja, quase 100 milhões de hectares, ocupados ilegalmente. De um total de 859 milhões de hectares apenas 418 apresentam escritura. Quando se abstrai a partir deste número o espaço metropolitano, rodovias, rios e mares, sobram 200 milhões de hectares cujas escrituras encontram-se em litígio. Vankrunkelsven 2006, página 213. 59 O motivo da relação injusta de propriedade deve-se a distribuição de terras realizadas pela Coroa Portuguesa no periódico colonial. As Elite políticas e econômicas conseguem impor sua influência até hoje para evitar uma reforma agrária abrangente. Por esta razão o trabalho do Instituto Nacional de colonização e Reforma Agrária (INCRA) fundado em 1970 caminha apenas a passos lentos. INCRA 2008.

35

De acordo com o Artigo 191 da Constituição Brasileira de 1988, toda pessoa que produza e administre um terreno de até no máximo 50 hectares por um período de pelo menos 5 anos, adquire automaticamente o direito de propriedade. Mas na realidade lhes faltam à população local tanto o acesso ao auxílio jurídico como à educação, para capacitálos a exigir de fato o cumprimento da lei e lhes permita a liberação do seu Título de Propriedade NT = Escritura).

Desta forma, estas pessoas se tornam vítimas fáceis da denominada grilagem, ou seja, a falsificação de escrituras, na maioria das vezes realizadas por pessoas muito influentes para poder provar seu suposto direito de propriedade. Muitas fazendas são administradas coletivamente, o que dificulta ainda mais a questão da propriedade. Além do mais, muitas pessoas até há pouco tempo não viam nenhum sentido em se reivindicar o direito de propriedade de um terreno. Um investidor do Sul do Brasil chegou a contar sarcasticamente num programa de televisão, que ele perguntou a uma mulher que ia passando na rua, se ela sabia a quem pertenciam as fazendas coletivas. Ele não pode acreditar quando ela respondeu que as fazendas coletivas “ pertenciam somente a Deus”. Desta forma se deixam transparecer valores culturais básicos da população rural da Região: algo como propriedade de terra não existe de jeito nenhum, o solo pode ser utilizado por qualquer um para satisfazer as suas necessidades.

Nos processos de venda de terras o direito de uso da população local pode ser ignorado de várias formas. Em vários locais acontece que as autoridades revendem um terreno pertencendo oficialmente ao Estado, mesmo quando este terreno é habitado por pessoas já há décadas. Nestes casos o novo proprietário vai querer retirar estas pessoas do terreno: às vezes através do pagamento de indenizações, porém freqüentemente através de ameaças maciças, do uso da força policial ou do uso de grupos armados (pistoleiros), que também incendeiam casas e fazem ameaças de morte.

Em Campos Lindos por exemplo foram no final dos anos 90 mais de 100.000 hectares de terra inicialmente desapropriada (o provável proprietário jamais foi visto na região) e então “doadas” a amigos do Governo e a pessoas influentes não só da localidade como também do sul do Brasil (Decreto 437/98)! A escolha dos beneficiados se deu de acordo com critérios como por exemplo a capacidade de trazer tecnologia e “Know How” específicos, com a finalidade de desenvolver o “Projeto Agrícola Campos Lindos” que compreende uma extensa plantação de soja direcionada para a exportação.

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Esta distribuição de terras como presente, atingiu negativamente 80 famílias de camponeses que há várias gerações viviam na região. Estas famílias não receberam nem esclarecimentos durante os preparativos nem tampouco foram idenizadas de alguma forma. Juntamente com Associações locais e Sindicatos de Trabalhadores Rurais 60 elas ainda lutam por seus direitos. As 40 famílias que viviam na área da Fazenda Sussuarana receberam ameaças de morte e suas casas foram queimadas, o que não é nenhum fato raro nos conflitos de terras nas regiões pesquisadas. Em Campos Lindos e em muitos outros lugares além do citado acima, ainda ocorrem fatos como destruição de cercas, passagens e pontes, assim como morte de animais. Atualmente moram ali apenas umas poucas pessoas no meio de um oceano de campos de soja; a maioria já desistiu e se mudaram para a cidade, onde sua qualidade de vida não veio a melhorar.61

Nos primeiro anos da expansão da soja, os produtores se instalaram principalmente no plano superior da região onde o trabalho mecanizado é possível. A população rural tradicional mora em sua maioria nos vales acidentados, próximo às correntes de água e cultiva ali seus campos porque este solo é relativamente fértil. Ao mesmo tempo muitas famílias possuíam terras nas partes mais elevadas, que eram destinadas acima de tudo, a criação de gado solto. Principalmente estas terras das fazendas coletivas de gado, que do ponto de vista dos Fazendeiros eram inutilizadas, foram as primeiras a serem vendidas pelos pequenos agricultores, espontaneamente ou obrigados.

De acordo com declarações dos Sindicatos e de Organizações Não Governamentais no Maranhão, essa fase em que as terras situadas nas partes mais elevadas caíram nas mãos dos investidores foi seguida de uma segunda etapa, na qual o interesse por terras na região dos vales cresceu. Esta segunda etapa tem durado até hoje. Na verdade, esta região se deixa utilizar para agricultura mecanizada apenas com muita dificuldade em virtude de seus despenhadeiros íngremes, rochedos e abismos. Porém elas conseguem atingir um outro objetivo importante: elas servem como reservas legais para os latifundiários. Como explicado anteriormente (veja o capítulo 4.1.1), reservas legais são áreas de proteção prescritas por lei que se encontram em terrenos utilizados para atividade agrícola, e que devem ser mantidas no seu estado natural original. “Então não são os agricultores os próprios culpados por vender suas terras?”
60

FETAET (Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Tocantins) e STR (Sindicato dos Trabalhadores Rurais). 61 Entrevistas realizadas em Campos Lindos em Setembro/Outubro 2007, Informações adicionais obtidas em FASE et al. 2006a, páginas 27, 43-51 e 88.

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Muitos camponeses deixaram-se convencer pela idéia de vender suas terras barato aos produtores de soja porque desta forma eles teriam mais dinheiro na mão do que anteriormente. Nesta ocasião não lhes pareceu claro que eles na realidade só iriam obter uma pequena parte do valor real do terreno e que além disso o dinheiro seria gasto dentro de pouquíssimo tempo, enquanto um pedaço de terra pode prolongadamente servir como base de existência e garantir a sobrevivência por um longo período. Como o sonho de se conseguir uma vida melhor na cidade conseguiu se difundir, muitos camponeses se decidiram por vender suas terras e com a pequena base financeira emigrar para a cidade.

Só que na cidade o sonho de uma vida melhor se realizou apenas para alguns poucos emigrantes. Muitas pessoas que foram entrevistadas nas periferias de cidades médias e grandes relataram que elas no momento se arrependeram da decisão de ter vendido suas terras, porque elas não encontraram trabalho na cidade ou as condições de trabalho aqui eram muito precárias. A vida se tornou visivelmente mais sacrificada do que era no campo, onde elas tinham no mínimo o suficiente para comer. Aqui também não foi possível reproduzir a rede social, e a relação com a natureza foi destruída. Abuso do álcool, criminalidade e prostituição freqüentemente já presente entre os adolescentes, são os problemas mais recentes trazidos por esta confrontação com a “vida moderna”. Nos bairros pobres das regiões metropolitanas faltam energia elétrica, água encanada e tratamento de esgoto, rua asfaltada e assistência médica. As moradias construídas pessoalmente pelos moradores em áreas descampadas nas imediações das cidades são na maioria das vezes ilegais e as pessoas correm o risco constante de serem expulsas daqui também.

Depois que o destino dos emigrantes passou a ficar conhecido, muitos dos que permaneceram no campo não quiseram mais vender suas terras, porém, mesmo assim não lhes resta mais outra escolha, porque eles são ameaçados ou então seu meio ambiente se tornou cada vez mais hostil em função do uso dos agrotóxicos. Não existe nenhum auxílio jurídico, o governo municipal de muitas localidades permanece do lado dos grandes produtores.

Em muitos casos não é oferecido sequer uma indenização, muito pelo contrário, a escritura falsa (grilagem) é utilizada provavelmente para fazer valer as próprias reivindicações em torno de um pedaço de terra e expulsando os moradores por meio de apelação jurídica e em casos extremos, também com uso da violência. Em vários lugares

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encontramos famílias que foram ameaçadas e intimidadas de todas as formas imagináveis quando elas se recusaram a deixar suas terras. Aviões que pulverizavam agrotóxicos não apenas nos campos próximos, mas também sobrevoavam as casas e jardins dos camponeses provocando, como nos exemplos citados de Campos Lindos e Baixo Parnaíba, a morte de plantas assim como das galinhas após bicar grãos, destruindo desta forma a base existencial das pessoas. Em inúmeras comunidades os “novos proprietários” contrataram pistoleiros para expulsar os moradores violentamente, especialmente na época da expansão da soja. No Sul do Maranhão a intimidação e as ameaças aos pequenos agricultores pelos pistoleiros provocou o despovoamento de povoados inteiros (=> veja também Filho, Irmão Bruno).

Outra problemática permanece na tendência da juventude em virar as costas ao próprio povoado (veja também o capítulo sobre a EFA). “Conflito de terras no Sul do Maranhão”

O ITERMA (Instituto de Colonização do Sul do Maranhão) que é responsável pela realização da política agrária no Maranhão legalizou várias reinvidicações de direito de propriedade que estavam baseados em documentos falsificados. Segundo Souza Filho (1996), o Instituto considerou apenas as declarações e os interesses das grandes empresas e investidores enquanto que à população que tradicionalmente morava na região não foi dado direito de participação. Especialmente TERRA SOJA, uma empresa que negocia com imóveis e que ficou conhecida na região devido a suas práticas duvidosas para fazer negócios. Com auxílio de declarações falsas e corrupção muitas personalidades influentes conseguiram obter uma Escritura Rural, que elas novamente vendiam a empresas rentáveis ou os negociavam com fazendas coletivas ou ainda utilizavam para si próprias para o cultivo de soja na região. Em muitas localidades como em Ferreira por exemplo, haviam inclusive muitos políticos municipais e autoridades locais com participação nos lucros e que por esta razão se transformavam nos patrocinadores destas práticas ilegais. Além de Ferreira, também nos Municípios de Buritirana, Por Enquanto, Sucupira, Tasso Fragoso e muitos outros, estas práticas levaram ao surgimento de conflitos de terras, nos quais TERRA SOJA contratou tropas de intimidação armadas que perseguiram os moradores locais.

Desta forma roubou-se terras às populações rurais locais, nas quais estas populações estavam estabelecidas há 70 e até mesmo há 100 anos e que eram consideradas até esta data como propriedade do governo. Hoje muitos dos moradores vivem expulsos em precárias condições de vida nos centros regionais e/ou são obrigados a

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aceitar as precárias condições de trabalho nas fazendas de soja (mais a esse respeito no próximo capítulo)62.

4.2.4

A situação precária dos pequenos agricultores e exôdo rural

Para os pequenos agricultores que permaneceram no campo existem apenas limitadas possibilidades como fontes de renda. As áreas que lhes estão disponíveis ficam cada vez menores e por esta razão eles são obrigados a encurtar o período de repouso entre as queimadas, o que empobrece ainda mais o solo.

Como os agricultores dispõem de áreas cada vez menores, eles precisam de acesso urgente ao assessoramento agrário para tentar descobrir como eles poderiam aumentar sua produtividade, conhecer melhores técnicas de cultivo e otimização do uso do terreno. Porém, eles não possuem nenhum acesso ao assessoramento técnico. Existem alguns projetos alternativos na região, que são baseados na Agroecologia e mostram aos pequenos agricultores alternativas para as queimadas, mas até o momento eles são limitados na quantidade e a introdução de inovações nas comunidades rurais é um processo muito longo e complicado. A venda de frutas nativas ou dos seus produtos derivados é na maioria das vezes dificultada pela falta de infraestrutura e de propaganda. Os produtores dispõem apenas de algumas poucas possibilidades de vendas. Se os acessos forem demasiado longos, fracassa a venda de verduras que se estragam com facilidade ou das frutas sensíveis ao choque, devido à falta de transporte adequado. Como a subvenção oferecida pelo Governo favorece, sobretudo o Agrobusiness e como os pequenos agricultores não podem participar da economia de escalas, eles não possuem a menor chance de atuar no mercado livre.

Esta situação precária é geralmente ignorada com satisfação pelos produtores de soja oriundos dos estados do Sul. Eles alegam por um lado que os camponeses vivem nos vales e não atrapalham as plantações de soja, mas por outro lado eles culpam a própria população por sua pobreza (“isto é um problema cultural, porque eles não conseguem/não querem trabalhar eficientemente”, eles não sabem economizar”). Esta discriminação social não é um problema que possa ser ignorado e por isso é muito difícil de se estabelecer um diálogo entre as duas partes.

62

Souza Filho 1996, páginas 253-254.

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Mesmo nos povoados onde os moradores não seriam expulsos em virtude da expansão da soja, as condições de vida têm se tornado cada vez mais difícil. Em locais com menos perspectivas de futuro o número de suicídio entre jovens e idosos aumentou visivelmente.

Muitos adolescentes vão para as cidades para poder ir à escola e são atraídos para o mundo do consumo e das festas. Para a maioria destes jovens esse sonho de uma vida melhor termina da mesma forma que o sonho dos expulsos das terras: eles não conseguem encontrar emprego fixo, vão morar nos redutos da miséria que crescem cada vez mais rápido, desta forma deslizando depressa na delinqüência, vício e prostituição.

4.2.5

O Trabalho nas Fazendas e os Casos de Escravidão moderna (escravidão branca)

Um dos argumentos principais dos Fazendeiros e dos Políticos é sempre o de que a agroindústria gera empregos.

Na realidade a plantação de soja emprega muitos poucos trabalhadores, podendo-se citar, por exemplo, o fato de que na colheita de cada 200 hectares em média, se fazem necessários apenas uns poucos empregados. Para as funções que exigem maior qualificação são trazidos ou recrutados principalmente pessoas com formação profissional do sul do país, porque lhes faltam conhecimentos e experiência a uma boa parte dos trabalhadores.

Para o trabalho braçal, como por exemplo o corte e a coleta de raízes, ou ainda a pulverização de veneno, são utilizados moradores da própria região, freqüentemente pequenos agricultores, que estejam precisando de ganhar algum dinheiro. Muitos dos funcionários que nós entrevistamos (no acampamento de soja Batavo) relataram precárias condições de trabalho.

As queixas mais freqüentes foram as seguintes: carga horária de trabalho muito pesada (salário de 15 R$ por dia, por às vezes até 24 horas de jornada de trabalho), assistência alimentar e condições de higiene insuficientes, péssimas acomodações, ausência de equipamento de proteção individual para o manuseio de pesticidas e ausência de seguridade social e plano de aposentadoria.

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Na maioria das vezes os contratos de trabalho são apenas sazonais e durante o resto do ano falta outra fonte de renda. Caso algum equipamento de trabalho seja danificado o trabalhador tem que pagar a substituição ou o conserto.

Existem muitas outras fazendas com condições de trabalho que se aproximam da escravidão: os trabalhadores são recrutados com base em falsas promessas, levados para um local ermo onde lhes são retirados os documentos e mantidos sob vigilância constante, de forma que só debaixo de risco de vida conseguiriam fugir. Eles são obrigados a pagar pela alimentação e pelas acomodações, o que significa que no final das contas eles têm mais dívidas do que salário a receber.

De acordo com estimativas da CPT existem atualmente ainda 25.000 pessoas neste tipo de trabalho escravo no Brasil, a maioria delas na Amazônia Legal Brasileira, a atual fronteira agrícola. .A maioria das denúncias eram do Pará (123), seguido do Tocantins (41), Maranhão (33) e Mato Grosso. Os casos relatados nas plantações de soja são menores do que os verificados na pecuária. No Tocantins ainda em 2001 foram libertados 25 trabalhadores da Fazenda do ex- Ministro da Agricultura, Dejandir Dalpasquale.

5 Resume e reflexão
A soja não é cultivada por pequenos agricultores no nordeste do Brasil. As áreas de cultivo pertencendo a uma só pessoa podem elevar-se a milhares de hectares. A maioria dos sojicultores vieram na região nas últimas décadas, quando estudos científicos revelaram que os solos do Cerrado se podiam utilizar para agricultura em grande escala, com o uso intensivo de adubos químicos, agrotóxicos, calcário e outros insumos. Como estes insumos são caros, igual como as máquinas pesadas necessárias, é preciso muito capital para poder plantar soja. No Maranhão, Piauí e Tocantins, os produtores de soja são quase exclusivamente atores de fora, recorrendo a créditos de empresas multinacionais e comprando os insumos das mesmas - como Cargill, Bunge e outros.

Nos estados visitados encontraram-se varias diferenças em termos da situação sócioeconômica, dos ecossistemas, da historia da soja etc., mas sempre acontecem os mesmos problemas relacionados com a soja.

Um dos maiores impactos é o desmatamento do Cerrado. Além da perda desse ecossistema valioso, o desmatamento contribui na mudança climática global e local. Em

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todas as regiões visitadas, a quantidade e intensidade de chuva diminuiu nos últimos anos. .O desmatamento nas beiras dos rios contribui com que muitos rios e riachos secam, o nível do lençol freático baixa e ecossistema aquático está sendo alterado.

Com o desflorestamento diminui a quantidade de fauna e flora silvestre, o que prejudica os moradores locais que tradicionalmente extraem madeira, frutos e plantas e caçam animais do Cerrado. Também, o solo está sendo degradado pela monocultura e compactado pelo uso de máquinas pesadas. Outro problema grave é que na época da chuva, os agrotóxicos aplicados nos campos de soja poluem os correntes de água, causando doenças aos animais e homens. Na aplicação dos agrotóxicos, acontecem casos de intoxicação nos aplicadores. Através do vento, os vapores podem ser levados até comunidades vizinhas, onde tem casos de intoxicação e doenças respiratórias e de pele. O discurso oficial com a chegada da soja e outros “cash crops” foi que traziam investimentos, emprego direito e indireto e desenvolvimento para todos. Por isso, ao começo, os camponeses viam a soja com expectativa - até o momento quando se iniciaram conflitos pela posse das terras e os camponeses se deram conta que eles estavam excluídos do grande projeto da soja.

Com a chegada do cultivo de soja, aumentaram os preços da terra, e muitos agricultores familiares venderam a sua propriedade, o seu meio de subsistência. Alguns deles mudam para as cidades, onde muitas vezes não melhoram a situação de vida. Em outros casos, mediante documentos grilados (falsificados) e ameaças, os moradores tradicionais são expulsados das suas terras. Os conflitos de terra ganham geralmente aqueles com recursos financeiros e influencia política, o sistema de justiça falha.

Porém, existem também vantagens da soja? Os lucro prometido fica quase exclusivamente com os fazendeiros e empresas multinacionais, sobretudo com a exportação. Os empregos prometidos se originam apenas na fase inicial, no desmatamento e na preparação do solo. São quase exclusivamente trabalhos fisicamente pesados e temporários com baixa renumeração. Uma vez iniciado o plantio, precisa-se mais ou menos que um funcionário por 100 hectares. Por falta de conhecimento técnico da mão-de-obra local, muitos fazendeiros preferem empregar pessoal de fora para trabalhos mais exigentes.

As condições de trabalho nas fazendas variam em termos de alojamento, alimentação, provisão medicinal, normas de segurança e renumeração. Em alguns lugares, se pagam

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salários três vezes mais altos que a media regional, em outros, têm casos de trabalho escravo.

Porém, o governo federal segue priorizando o cultivo de soja e outras monoculturas (por exemplo, cana de açúcar e eucalipto) dentro de um conjunto de grandes projetos que promovem o desenvolvimento econômico. Barragens e carvoarias geram energia em grande parte para siderúrgica, e a infraestrutura ferroviária, rodoviária e hidroviária facilitam o transporte regional e até os portos de exportação.

Isso definitivamente não é um desenvolvimento social e ecologicamente sustentável. Considerando os danos ambientais permanentes, até o valor econômico merece dúvidas. Justamente o povo cujo meio de sobrevivência se vê ameaçado por esses projetos fica excluído dos lucros, os quais se geram para os latifundiários provenientes de outros estados, e que beneficiam em maior parte empresas multinacionais e os mercados de outros países.

Então, como poderia ser um desenvolvimento alternativo? Projetos defendíveis devem ser orientados para justiça social e sustentabilidade ecológica a fim de beneficiar as marginalizadas populações rurais. Na região já existem vários projetos focando na agroecologia e agricultura familiar, por exemplo, as escolas família agrícola- EFA. Nessas escolas, os alunos aprendem métodos de cultivo e o ensino está ligado com o objetivo político de melhorar a posição social dos agricultores na sociedade local e nacional, lutando com isso contra o exôdo rural. Porém, como muitos jovens têm o desejo de morar na cidade, promovido pela televisão, os professores têm uma tarefa difícil.

Outros projetos incluem reservas extrativistas, reflorestamento com árvores nativos, hortas comunitárias, beneficiamento de frutos silvestres, apicultura e outros. Ainda são poucos e enfrentam dificuldades de transporte e acesso aos mercados, de financiamento e de assistência técnica. É evidente que no futuro breve estes projetos alternativos não substituirão os cultivos de grande escala previstos pelas forças políticas e econômicas. Mas também não poderá seguir o “desenvolvimento” de maneira atual.

Como mostraram nos últimos anos os preços desfavoráveis no mercado mundial e as colheitas ruins da soja por falta de chuva e pragas, a monocultura também leva muitos riscos econômicos. Muitos sojicultores se endividaram e os processos de concentração no agrobusiness se aceleraram. Referindo-se a esses acontecimentos, os grandes produtores devem ser persuadidos de diversificar seus plantios.

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Em longo prazo seria mais razoável diversificar os bens produzidos e plantar mais para o mercado interno; sobre tudo a produção familiar para mercados locais e regionais tem que ser fermentada. Em vez de desmatar novas áreas, é preciso aproveitar as áreas existentes de maneira mais sustentável. Mas os atores mais poderosos, os grandes produtores, empresas e políticos têm outros interesses. Para encontrar um acordo entre a população rural, fazendeiros e empresários, o maior desafio será juntar todos os atores para começar a dialogar sobre possíveis formas de desenvolvimento no futuro, já que em cada grupo existe desconhecimento e falta de compreensão para o outro. Mas por causa de desconfiança num lado e desinteresse no outro, isso vai ser difícil de realizar.

Finalmente, é preciso lembrar-se que somente se produz tanta soja no Brasil porque as indústrias de criação animal na Europa e China demandam cada vez mais. E essa crescente demanda promete grandes lucros aos sojicultores e exportadores. Por isso, os consumidores de soja e carne também têm uma responsabilidade nos acontecimentos relacionados com a produção de soja.

Cada pessoa que tenha um interesse em fazer uma contribuição para um desenvolvimento justo especialmente em regiões marginalizadas no Brasil e muitos outros países, não deve deixar de examinar primeiro os próprios hábitos de consumo, não somente em relação ao consumo de produtos animais, mas também em todos os outros setores da vida.

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