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Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul

ACÓRDÃO

AGRAVO REGIMENTAL NA PRESTAÇÃO DE CONTAS N.°


120-16.2014.6.12.0000 - CLASSE 25.a
Origem: Campo Grande
Agravante: ÓRGÃO DE DIREÇÃO REGIONAL DO PARTIDO SOCIALISMO E
LIBERDADE - PSOL
Advogados: DOUGLAS RAMOS, FRANCISVALDO MENDES DE SOUZA, FLORA
TOSIN SARAIVA e MARLUCE MARIA DE PAULA
Agravada: JUSTIÇA PÚBLICA ELEITORAL
Relator: Juiz ABRÃO RAZUK

EMENTA - EMBARGOS DE DECLARAÇÃO COM PEDIDO DE


EFEITOS INFRINGENTES. DECISÃO MONOCRÁTICA.
RECEBIMENTO COMO AGRAVO REGIMENTAL. PRESTAÇÃO
DE CONTAS. TRÂNSITO EM JULGADO. REAPRECIAÇÃO DAS
CONTAS. IMPOSSIBILIDADE. COISA JULGADA.
ESTABILIDADE DAS RELAÇÕES JURÍDICAS
CONSOLIDADAS. VALORES RECEBIDOS DE ORIGEM NÃO
IDENTIFICADA. DEVOLUÇÃO. PARCELAMENTO.
IMPOSSIBILIDADE. AGRVO REGIMENTAL IMPROVIDO.
Devem ser recebidos como agravo regimental os embargos de
declaração com pedido de efeitos infringentes, interpostos em face de
decisão monocrática.
Ocorre a preclusão, sob pena de instabilidade das situações jurídicas
consolidadas, a prestação de contas julgada desaprovadas, das quais não foi
interposto qualquer recurso. O julgamento definitivo da prestação de contas
torna preclusa a discussão da matéria já decidida e alcançada pelo manto da
coisa julgada, ante a necessidade de estabilização das relações jurídicas.
Por não ter natureza de multa, não cabe o parcelamento dos valores
recebidos de origem não identificada, cuja utilização é ilícita, determinada
na decisão que julgou desaprovadas as contas.
Agravo Regimental improvido.

Vistos, relatados e discutidos estes autos, ACORDAM os Juízes do Tribunal


Regional Eleitoral, na conformidade da ata de julgamentos e das notas, que ficam fazendo
parte integrante desta decisão colegiada, à unanimidade e de acordo com o parecer, em
negar provimento ao agravo regimental, nos termos do voto do relator.

Sala das Sessões do Tribunal Regional Eleitoral.

Em Campo Grande, MS, aos 20 de setembro de 2016.

Dr. ABRÃ CERTIDÃO E t ■M;TTj ÜAC AO


Relator Certifico a : j&V» n - no DJEMS 1
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Eu. IP tóv: oi a presente certidão.
Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul
AGRAVO REGIMENTAL NA PRESTAÇÃO DE CONTAS N.° 120-16.2014.6.12.0000

RELATÓRIO

O Senhor Juiz ABRÂO RAZUK (20.9.2016)

Trata-se de agravo regimental interposto pelo ÓRGÃO DE DIREÇÃO


REGIONAL DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE - PSOL contra decisão
monocrática de fls. 181/183, que negou seguimento a pedido de revisão de sanção
requerido nos autos da prestação de contas em epígrafe.

O pedido de revisão objetivava desconstituir decisão colegiada desta Corte


Regional Eleitoral que desaprovou a prestação de contas anual do partido, relativa ao
exercício financeiro de 2013, aplicando-lhe as sanções de:

(I) suspensão, com perda, das cotas do Fundo Partidário, pelo prazo
de 03 meses;

(II) incremento do percentual de 2,5% aos valores destinados à


participação das mulheres, nos termos do art. 44, § 5.°, da Lei n°
9.096/1995, com a redação dada pela Lei n.° 12.034/2009; e

(III) devolução, após o trânsito em julgado da decisão, do montante


de R$ 13.709,97.

No presente recurso, em apertada síntese, sustenta que a decisão recorrida


deixou de se manifestar sobre os documentos apresentado no pedido de reconsideração,
que comprovam a devida utilização do dinheiro recebido do fundo partidário. Assim,
reitera o argumento de que não houve irregularidade na aplicação deste recurso.
Alternativamente, requer que a devolução do valor seja parcelada em 30 vezes.

Instada a se manifestar a douta PROCURADORIA REGIONAL


ELEITORAL opinou pelo desprovimento do recurso, porquanto caso fosse possível a
revisão das contas em comento, o pedido foi protocolado mais de um mês despois, ou seja,
a Lei prevê para os casos de decisão anteriores a edição da Lei 12.034, que o pedido seja
realizado em três dias do trânsito em julgado, portanto, seria intempestivo.

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VOTO

O Senhor Juiz ABRÃO RAZUK (Relator)

Inicialmente cumpre registrar que contra a decisão monocrática recorrida o


ÓRGÃO DE DIREÇÃO REGIONAL DO PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE -
PSOL interpôs embargos de declaração, o qual fora recebido, por fungibilidade recursal,
como agravo regimental.

Nessa linha o seguinte precedente desta Corte Regional Eleitoral: Recebe-se


como agravo regimental, conforme o princípio da fungibilidade, os embargos de
declaração interpostos, com efeitos infringentes ou modificativos, em face de decisão
monocrática proferida por relator, juiz-membro deste Tribunal, mormente quando a
intenção da parte é ver a reforma do decisum atacado. (Acórdão n.° 6966, de 23.8.2011,
rei. Juiz AMAURY DA SILVA KUKLINSKI)

No que toca a questão de fundo, conforme relatado, o agravante se insurge


contra a decisão monocrática que negou seguimento a pedido de revisão, que objetivava
desconstituir o acórdão que desaprovou a prestação de contas anual do partido, relativa ao
exercício financeiro de 2013.

Para melhor análise da matéria, transcreve-se a fundamentação da decisão:

(...) Pois bem. Compulsando os autos, constata-se que a prestação de


contas referente ao exercício financeiro de 2013 do partido requerente foi
desaprovada em razão de irregularidades materiais que impossibilitaram a
verificação da correta aplicação de recursos e realização de despesas,
consoante julgamento realizado em 04.04.2016 (fls. 117). A decisão foi
publicada e decorreu o prazo sem que fosse interposto qualquer recurso ou
pedido, e, diante do trânsito em julgado do decisum, em 04.05.2016,
certificado às fls. 130, a Presidência deste Tribunal oficiou o diretório
nacional do PSOL, bem como ao colendo TSE acerca da suspensão do
repasse das contas do Fundo Partidário.

Preliminarmente, deixa-se assentado que, nos termos do art. 55, §§


I o e 2o, da Resolução TSE n° 23.464/2015, no pedido de revisão só se
examina o montante da sanção aplicada, não se podendo reexaminar as
irregularidades e impropriedades constatadas na decisão de desaprovação
das contas, ou alterar o resultado do julgamento, salvo em relação ao
valor da sanção imposta ao partido.

Em que pese a relevância dos argumentos do requerente, a entrave


processual que impede que se reanalise a dosimetria da pena que lhe fora
imposta.

Nos termos do art. 53 da Resolução TSE n.° 23.464/2015: “As


prestações de contas apreciadas na via administrativa e desaprovadas

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antes da edição da Lei n.° 12.034, de 2009, podem ser revistas para fins de
aplicação proporcional da sanção aplicada, mediante requerimento
ofertado nos autos da prestação de contas”. (g.n.)

Cumpre registrar, por oportuno, que as disposições processuais


previstas no diploma infralegal supra devem ser observadas nos feitos de
prestação de contas referentes aos exercícios financeiros de 2009 e
seguintes que ainda não tenham sido julgados.

Como é cediço, a prestação de contas anual dos partidos políticos foi,


até pouco tempo, regulamentada pela Resolução TSE n° 21.841/2004,
editada a partir da concepção de que feitos dessa natureza encerravam
procedimento eminentemente administrativo. O art. 28, inciso IV, desta
resolução dispunha que “no caso de desaprovação das contas, a suspensão,
com perda, das cotas do Fundo Partidário perdura pelo prazo de um ano, a
partir da data de publicação da decisão (Lei n. ° 9.096/95, art. 37) ”. (g.n.)

A par da redação taxativa deste dispositivo, que reproduzia a norma


inserta no art. 37 da Lei n° 9.096/95, as contas partidárias, uma vez
desaprovadas, implicavam como única alternativa de penalidade a
suspensão das contas do fundo partidário pelo prazo de 01 (um) ano, sem
nenhuma possibilidade de dosimetria da pena com fundamento nos
princípios da proporcionalidade e razoabilidade.

Com a reforma da legislação partidária implementada pela Lei


Federal n.° 12.034, de 30.09.2009, o referido art. 37 da Lei Orgânica dos
Partidos Políticos, recebeu o acréscimo de quatro parágrafos, entre eles os
§§ 3. °, 5.0e 6. °. O primeiro, possibilitando a análise da prestação de contas
com base nos critérios de proporcionalidade e razoabilidade na aplicação
da sanção de suspensão do repasse de quotas do fundo partidário; o
segundo, determinando que “as prestações de contas desaprovadas pelos
Tribunais Regionais e pelo Tribunal Superior poderão ser revistas para fins
de aplicação proporcional da sanção aplicada, (...)”; e o terceiro,
estabelecendo que o exame da prestação de contas anual passou a ter
caráter jurisdicional.

Assim, com a entrada em vigor do aludido normativo, a revisão de


decisão em sede de prestação de contas só foi permitida para os feitos
julgados anteriormente à sua vigência, pois, até então, o exame dos feitos
de prestação de contas não observavam os princípios da proporcionalidade
e razoabilidade. Aliado a isso, ocorreu a judicialização da prestação de
contas, implicando na observância da coisa julgada material em processos
dessa natureza.

E o que assentou o seguinte aresto do TSE, cujos princípios bem se


amoldam ao caso em tela:

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“EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. PRESTAÇÃO DE CONTAS.


PARTIDO TRABALHISTA DO BRASIL. AUSÊNCIA. CONTRADIÇÃO.

1. O prazo de 5 (cinco) anos para a imposição da pena de suspensão


das cotas do fundo partidário, tal como previsto no § 3.° do art. 3 7 da Lei
n.° 9.096/95, inserido pela Lei n.° 12.034/2009, deve ser aplicado aos
processos de prestação de contas pendentes de julgamento, mas contado a
partir da vigência da lei nova.

2. Se é permitida a revisão de decisões já proferidas, com vistas à


adequação à regra prevista na lei nova, no que tange à proporcionalidade
na aplicação da pena, conforme expressamente previsto no § 5 o do art. 37
da Lei n.° 9.096/95, inaugurado pela Lei n.° 12.034/2009 respeitada, em
todo caso, a coisa julgada, com mais razão é de se entender pela incidência
de tal preceito aos processos pendentes de julgamento.

3. Ausência de contradição.

4. Embargos rejeitados. (EPET - EMBARGOS DE DECLARAÇÃO


EM PETIÇÃO n° 1628 - Brasília/DF, Acórdão de 13/04/2011. Relator Min.
MARCELO HENRIQUES RIBEIRO DE OLIVEIRA. Publicação: DJE -
Diário da Justiça Eletrônico, Data 01/08/2011, página 202/203) (g.n.)

Destarte, vê-se que o art. 53, da Resolução TSE n.° 23.464/2015 está
em perfeita consonância com a redação do § 5o do art. 37 da Lei n°
9.096/95, acrescido pela Lei Federal n.° 12.034/2009, porquanto, antes
desta alteração legislativa, a prestação de contas era entendida como um
procedimento meramente administrativo e, uma vez que não fazia coisa
julgada material, abria-se a possibilidade de reconsideração da decisão
pelo próprio órgão prolator, que poderia rever a sanção, aplicando-a de
forma proporcional e razoável.

Desta feita, a revisão requerida nos presentes autos não pode ser
levada a efeito, notadamente quando cuida da prestação de contas do
exercício financeiro de 2013, analisada sob o crivo dos princípios da
proporcionalidade e razoabilidade.

Ademais, considerando que a decisão transitou em julgado em


04.05.2016, verifica-se que o pedido foi protocolado nesta corte
(15.06.2016), muito além do prazo de 03 (três) dias a que alude o disposto
no art. 54, da Resolução TSE n° 23.464/2015.

Do exposto, nego seguimento ao presente Pedido de Revisão de


Sanção, indeferindo desde logo a inicial, nos termos do art. 485, inciso VI,
do Código de Processo Civil, para extinguir o feito sem resolução de mérito
e determinar seu arquivamento.

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Na oportunidade, alegou o agravante que o procurador constituído para


acompanhar a tramitação do presente feito fora acometido de enfermidade oftalmológica,
que o impossibilitou de apresentar defesa e justificativas às irregularidades apontadas no
relatório técnico. A entidade partidária só tomou ciência da decisão deste Tribunal
Regional com o recebimento da notificação de suspensão da conta do Fundo Partidário
encaminhada ao Órgão de Direção Nacional, em Brasília. Aduz, ainda, que o acolhimento
do pedido, é de vital importância para a manutenção e atuação política do partido nesta
cidade, mormente, nesse ano de pleito eleitoral.

Assim, requer nova manifestação deste Tribunal Regional quanto à


documentação acostada ao pedido de revisão ajuizada, que demonstram a regularidade na
aplicação dos recursos oriundos do fundo partidário.

Em que pese os argumentos, o agravante já teve as suas contas relativas ao


exercício financeiro de 2013 julgadas desaprovadas por esta Corte Regional, não tendo
sido apresentado qualquer recurso contra essa decisão. Em casos tais, o colendo
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL tem entendido que se opera a preclusão, não se
podendo reapreciar as contas, sob pena de se atribuir indesejável instabilidade jurídica às
situações já consolidadas.

Nesse sentido:

Nos processos de prestação de contas, cuja natureza é jurisdicional,


impera a regra da preclusão. Dada oportunidade prévia para a parte
apresentar documentos, não é possível suprir a falha em momento posterior
ao do julgamento. (TSE - Acórdão no AgR-REspe. n.° 539553, de
17.6.2016, rei. Min. HENRIQUE NEVES DA SILVA)

Portanto, o julgamento definitivo da prestação de contas tornou preclusa a


discussão da matéria já decidida e alcançada pelo manto da coisa julgada, ante a
necessidade de estabilização das relações jurídicas.

Como bem salientou o parecer ministerial, como não há em sede eleitoral a


possibilidade de ação rescisória, não há possibilidade de reforma, ainda que sobre o valor
da sanção, em razão da vedação constitucional de se prejudicar o ato jurídico perfeito, a
coisa julgada ou o direito adquirido. Pelas mesmas razões não é possível o
reconhecimento da documentação juntada com o agravo.

No que tange ao parcelamento requerido não há como concedê-lo,


porquanto o valor a ser devolvido, no montante de R$ 13.709,97, não se trata de multa,
mas de verba de origem não identificada, cuja utilização é ilícita, devendo ser restituída
integralmente aos cofres público, como ponderou o parecer ministerial.

Ante o exposto, acompanhando o parecer, nego provimento ao agravo


regimental, mantendo o entendimento esposado na decisão monocrática.

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EXTRATO DA ATA - DECISÃO

AGRAVO REGIMENTAL NA PRESTAÇÃO DE CONTAS N.°


120-16.2014.6.12.0000 - CLASSE 25.a
Origem: Campo Grande
Agravante: ÓRGÃO DE DIREÇÃO REGIONAL DO PARTIDO SOCIALISMO E
LIBERDADE - PSOL
Advogados: DOUGLAS RAMOS, FRANCISVALDO MENDES DE SOUZA, FLORA
TOSIN SARAIVA e MARLUCE MARIA DE PAULA
Agravada: JUSTIÇA PÚBLICA ELEITORAL

Conforme consta na ata de julgamentos, a DECISÃO foi a seguinte:

À UNANIMIDADE E DE ACORDO COM O PARECER, NEGARAM


PROVIMENTO AO AGRA VO REGIMENTAL, NOS TERMOS DO VOTO DO RELATOR.

Presidência do Exm.° Sr. Des. DIVONCIR SCHREINER MARAN.

Relator: Juiz ABRÃO RAZUK.

Procurador Regional Eleitoral, o Exm.° Dr. MARCOS NASSAR.

Tomaram parte no julgamento, além do relator, os Exm.°s Senhores


Juízes: RAQUEL DOMINGUES DOS SANTOS, Des. CARLOS EDUARDO CONTAR
(Membro Substituto), LAUANE BRAZ ANDREKOWISK VOLPE CAMARGO (Membro
Substituta), EMERSON CAFURE e JOSÉ EDUARDO NEDER MENEGHELLI.

Sala das Sessões do Tribunal Regional Eleitoral.

Em Campo Grande, MS, aos 20 de setembro de 2016.