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E ncontrei J esus numa festa de I srael


As festas judaicas e o evangelho
Encontrei Jesus numafesta em Israel © 2010, Editora Cultura Cristã. © 2009 by
John Sittema under the title I met Jesus at a Jewish party. All rights reserved.

Ia edição 2010 - 3.000 exem plares

Conselho Editorial
Adão Carlos do Nascimento
Ageu Cirilo de Magalhães Jr.
Cláudio Marra (Presidente)
Fabiano Almeida de Oliveira
Francisco Solano Portela Neto
Heber Carlos de Campos Jr.
Jôer Corrêa Batista
Jailto Lima
Mauro Fernando Meister
Tarcízio José de Freitas Carvalho
Valdeci da Silva Santos
Produção Editorial
Tradução
Abbey Editoração
Revisão
Claudete Água
Edna Guimarães
Sandra Couto
Editoração
Rissato
Capa
Magno Paganelli

S6236e Sittema, John


Encontrei Jesus numa festa em Israel / John Sittema Tradução de
Abbey editoração . _ São Paulo: Cultura Cristã, 2010
160 p.
Tradução de I met Jesus at a Jewish party
ISBN 978-85-7622-339-9
1. Cristologia 2. Evangelização 3. Teologia bíblica

I. Título
232 CDD

ÉDITORR CUITURR CRISTR


Rua Miguel Teles Júnior. 394 - Cambuci
01540-040 - São Paulo - SP - Brasil
Fone (11) 3207-7099 - Fax (11) 3209-1255
www.editoraculturacrista.com.br - cep@cep.org.br

0800-0141963
Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas
Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
S umário

In tro d u ç ão .......................................................................................................... 9
1. O E xercício do D escanso:
Os Sábados .................................................................................................. 13
2. Eis o Cordeiro!
A Festa da Páscoa ..................................................................................... 29
3. F axina G eral:
A Festa dos Pães Asmos .......................................................................... 49
4. D espertar a A lva
A Festa das Primícias .............................................................................. 63
5. P oder p ara o Povo!
A Festa de Pentecostes ............................................................................ 77
6. A T rom beta Soará
A Festa das Trombetas ............................................................................. 91
7. E ste É o Dia!
O Dia da Expiação .................................................................................... 107
8. Volta ao L ar
A Festa dos Tabernáculos ...................................................................... 121
9. A ssim n a Terra com o no C éu
O Ano do Jubileu ....................................................................................... 135
N o ta s .................................................................................................................... 151
P a ra m in h a m ã e , J e a n e tte S itte m a ,
q u e m e c o n to u a h is tó ria
e me mostrou ofio da trama
I ntrodução

I m a g in e ...
u m a m anhã em N ova York no final do verão. Seu m arido, B ob, está
prestes a sair para pegar o trem para M anhattan. Q uando ele j á está na
porta, você o lem bra do interruptor que ele prom eteu consertar no final de
sem ana. M as não consertou. D e novo. Vocês discutem . Ele pega a pasta e,
enfurecido, sai p orta afora sem lhe dar um beijo de despedida. Você sabe
que à noite vocês dois conversarão e farão as pazes, m as, ainda assim , sente
um peso im enso no coração. Será que deve correr atrás dele? M elhor não...
Duas horas depois, sua vizinha bate à porta e grita p ara você ligar a televisão.
Q u an d o lig a o ap arelh o , o seu co ração p ara. U m re p ó rte r co n h ecid o dá
a n o tíc ia com voz agitada, m exendo nos p ap éis e tro p eçan d o nas pró p rias
p alav ras. A s m esm as im ag en s g rav ad as ap arecem rep e tid a m en te : um
av ião , d o is av iõ es d esp ed açam as to rres g êm eas do W orld T rade C enter.
(N ão p o d e ser verdade, deve ser um film e.) E xplodem . Q ueim am . C aem
num m ontão de escom bros ardentes. M as é lá que B ob trabalha! O telefone
com eça a tocar. A p rim eira de centenas de ligações que você receberá nos
próxim os dias.

I m a g in e ...
que v o cê tem câncer. E stá ex au sto , en fra q u e cid o p e la q u im io e
radioterapia, indescritivelm ente esgotado. O tratam ento vem se arrastando
h á anos; tom ou-se parte de sua vida a ponto de você não se lem brar de
com o era ter saúde. Os dias são um a sucessão de exam es: hem ogram as,
exam es p ara saber se o tratam ento está dando resultado, se será preciso
m u d ar de estratégia. N o com eço, tudo isso o assustava; agora, só faz
aum entar o cansaço. A lguém bate à porta. A equipe m édica inteira entra no
seu quarto de hospital. E m au sinal, não? Seu m édico, porém , sorri e diz:
“O tratam ento funcionou. O câncer desapareceu! Volte p ara casa e aproveite
um pouco a vida. Você m erece!” E nquanto seu acom panhante vai buscar o
carro no estacionam ento, você com eça a ju n ta r suas coisas o m ais rápido
possível, olhando p ara a porta com m edo de que eles tenham se enganado e
v oltem p ara corrigir. Sai do hospital e olha em volta, ainda um pouco
entorpecido. Q uando chega em casa, o choque passou. Você com eça a dar
u m a p o rção de telefo n em as. P re cisa co n tar a to d o s a ótim a n o tíc ia e
co n v id á-lo s para com em orar!
10 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

N otícias com o essas, quer venham na form a de im agem na televisão


ou sejam transm itidas pessoalm ente por um m édico, remetem ao passado ,
a algo que j á aconteceu. L evam -nos, portanto, a fazer um balanço, refletir,
nos arrepender, chorar a perda, celebrar. A o m esm o tem po, contudo, apontam
para ofuturo , p ara dias vindouros desconhecidos. U m a sim ples notícia faz
a v id a m udar e form a na m ente um turbilhão de cogitações.
O evangelho — literalm ente, as “boas-novas” -— de Jesus C risto é
u m a n o tíc ia q u e m u d o u tu d o . N ão m e re firo a m u d an ç a s co m o seu
com prom isso de usar o cinto de segurança o tem po todo, de encaixar m ais
um curso do seu filho na agenda lotada ou de cortar carboidratos da dieta.
R efiro-m e a m udanças com o aquelas que o dia 11 de setem bro trouxe para
a histó ria dos EU A , com o a notícia de estar curado de um câncer traz para
a v id a de u m a pessoa. R efiro-m e a transform ações de tirar o fôlego, que
m arcam 10 n a escala R ichter de m udanças. A vinda de Jesus ao m undo, sua
chegada num a estrebaria em B elém , não acrescentou apenas um feriado ao
m ês de dezem bro; anunciou a chegada de um Rei m ais m ajestoso e poderoso
do que César e que tom aria a R om a de C ésar um a lem brança distante, história
antiga. Os relato s de sua v id a sim ples e m orte cruel e da ressurreição que
outros tentaram encobrir, se tom aram notícias tão incríveis a ponto de causar
im pacto sobre a v ida futura de todos os seres hum anos que já existiram ou
ainda virão a existir. Jesus, o M essias, não foi apenas um bom exem plo ou
o fundador de u m a religião; ele transform ou o m undo.
Q uando escrevem os um parágrafo com o esse, sobre algo que parece
tão extraordinário, não há com o evitar a pergunta: Com o isso aconteceu?
M ostre-m e! D iga-m e com o é possível, com o você sabe que é verdade?
É ex atam en te isso o que a B íblia faz. A s E scrituras não são apenas
um livro de leis e regulam entos, nem um a coletânea de perfis de indivíduos
com os quais se pode aprender ética ou técnicas p ara o autoaprim oram ento.
A B íblia é u m a narrativa e seu caráter é singular. E a h istó ria de D eus e da
red en ção que ele oferece, na qual além de salvar seu povo, ele tam bém
restau ra todo o U niverso. Jesus é a chave para a narrativa, o personagem
p rin cip al, o fio central em to m o do qual D eus tece a tap eçaria ex trao rd i­
n ária da salvação.
Pode ser difícil entender esse fato. Pode ser ainda m ais difícil entendê-lo
com o âm ago de seu ser. R equer o tipo de fé que só D eus concede. O m ais
difícil, porém , é crer que Jesus constituía o centro da H istória m uito antes
de entrar em cena no m undo. Foi o que D eus pediu, contudo, ao povo de
Israel: que depositasse sua fé e esperança num R edentor e M essias que só
v iria m ais de m il anos depois.
Para ajudar seu povo a visualizar e identificar o M essias vindouro,
ainda que de m odo im perfeito e distante, D eus fez prom essas aos patriarcas
Introdução 11

A braão, Isaque e Jacó. U sou M oisés e os profetas p ara voltar os olhos de


Israel p ara o futuro po r m eio das palavras da Torá e dos escritos proféticos.
U m dos recursos m ais im portantes que forneceu ao seu povo antigo para
que ele cresse foi o conjunto de festas ou festivais que deviam dar form a à
vida diária e ao calendário anual. C ada um a das celebrações fornecia um
indício, um vislum bre daquele que estava p o r vir. O papel de cada um a
dessas festas, no entanto, não era apenas inform ativo. Elas visavam tam bém
proporcionar um antegosto, abrir o apetite e estim ular o povo.
H oje, cerca de dois m il anos depois da vinda do M essias, D eus quer
que as pessoas saibam que Jesus — e, de m odo m ais específico, sua cruz e
ressurreição — realizou um a revolução; quer que creiam e confiem nele e
que o sigam de todo o coração. A ssim com o o povo de outrora teve dificul­
dade em crer nas prom essas de D eus, as pessoas de nosso tem po tam bém
enfrentam conflitos associados à fé. É difícil crer num Jesus descrito com o
um hom em bom e hum ilde que sabia ensinar e sofreu um a m orte atroz.
F actoides desse tipo são apenas fragm entos de inform ação, norm alm ente
sem ligação com a história. M uitas vezes, porém , é o único tipo de inform a­
ção que as pessoas ouvem acerca de Jesus.
Infelizm ente, o sim ples ato de registrar e processar essas inform ações
não é sinônim o de um a fé autêntica e dinâm ica.
N este livro, quero lhe falar m ais sobre Jesus. M uito m ais. A o descre­
ver e explicar as festas antigas, é m eu objetivo fornecer aos leitores m oder­
nos u m a visão m ais com pleta das boas-novas de D eus, revelar o significado
da identidade de Jesus com o M essias e explicar com o e po r que sua vinda
m udou tudo.
E ssas festas, instituídas 1.200 anos antes da vinda de Jesus, eram , na
verdade, celebrações associadas a ele. N ão m e refiro a celebrações do m odo
com o o N atal com ercializado precisa se esforçar p ara ser associado a Jesus,
m as sim no m esm o sentido em que ser curado de câncer é um a celebração
diária da vida. A lém de estruturarem o calendário do Israel veterotestam en-
tário e de servirem de pano de fundo para a vida e o m inistério de Jesus, as
festasdefinem sua vida e m inistério. C ada um a delas m ostra, a partir de um
ângulo singular, com o sua vida, m orte e ressurreição eram o ponto central
da história redentora de D eus, com o cada um desses elem entos transform ou
o m undo e com o seus seguidores continuam a fazer o m esm o.
A seguir, um “ aperitivo” para incentivá-lo a virar a página e ir com igo
encontrar Jesus nas festas.
■ Foi necessário que um terrem oto ocorresse durante a m orte de Jesus
naPáscoa ; afinal, ela anunciou o fím do m undo (pelo m enos do
antigo m undo da m orte e do pecado)!
12 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

■ É possível que os cristãos não tenham um a aparência m uito diferente


da ap arência dos incrédulos, m as o sepultam ento de Jesus na festa
dos Pães Asmos explica com o e po r que eles já são “ santos” .
■ Foi necessário que ocorresse outro terrem oto na ascensão de Jesus
durante a festa das Primícias (e não na Páscoa); afinal, era o início
de u m novo m undo!
■ O s a c o n te c im e n to s em Pentecostes ta m b é m fiz e ra m a te rra
estrem ecer, anunciando que é o Espírito, e não a lei, o responsável
p ela n o v a ordem m undial.
■ N este novo m undo, a igreja tem um a incum bência urgente: tocar
suas Trombetas p ara anunciar a vinda do reino de Deus.
■ O s c id a d ã o s do re in o de C risto n ã o são a p e n a s m a is b e m -
inform ados, m as tam bém transform ados, purificados de m odo tão
co m p leto do seu p assa d o a p o n to de p re c isa re m de um novo
aniversário, o Dia da Expiação.
■ O s s e g u id o re s de C risto n u n c a an d am so z in h o s; a fe sta dos
Tabernáculos os lem bra que estão sem pre “ em casa” com D eus e
sua fam ília.
■ Os cristãos não desfrutam sua herança apenas quando esta vida
chega ao fim ; o Jubileu revela que a vida eterna é um tipo
diferente
de vida, é o céu que com eça a irrom per na terra!
C ertas n otícias trazem m udanças. A s boas-novas de Jesus, o M essias,
m udaram tudo. Vire a página e deixe-m e m ostrar com o isso aconteceu.
1
O E xercício do D escanso :
OsSábados
Levítico 23.1-3

A lg u n s anos atrás, um am igo cristão, p ro d u to r c in em ato g ráfico ,


co m p artilh o u com igo u m a ideia que m udou o m odo com o assisto a film es.
D e acordo com ele, a m aior parte das boas histórias, aquelas com as quais o
público se identifica, parece ter elem entos sem elhantes em seus enredos.
C om eça m ostrando u m a v id a tran q u ila e feliz em que tudo corre bem .
L ogo em seguida, porém , ocorre o conflito. Pode ser um a m udança nas
circu n stân cias ou a chegada de um novo personagem . O resultado causa
in ten sa p ertu rb ação e dissonância que m exem com as em oções. O m ais
im portante, contudo, é o m odo com o o conflito é resolvido: p o r m eio da
red en ção , n o rm alm ente à custa de um grande sacrifício pessoal que, aliás,
con stitu i o cerne d a tram a. É esse sacrifício que leva o esp ectad o r a se
id en tificar com a h istó ria .1
D esde então, uso essa ótica p ara assistir a film es. E stou certo que as
observações do m eu am igo se aplicam aos seus film es prediletos tanto quanto
se aplicam aos m eus. Sem pre fui fa de J. R. Tolkien (m inha esposa diria que
sou mais do que fa) e, apesar de os film es de P eter Jackson não fazerem ju s
aos livros de Tolkien, a trilogia do Senhor dos Anéis é um a obra extraordi­
nária, grandiosa e de com plexidade m aravilhosa em sua tram a, linguagem e
caracterização. O que a to m a tão espetacular é o fato de ser um a história de
redenção à custa de um sacrifício caríssim o e é esse sacrifício que to m a o
final tão gratifícante.
Claro que as histórias de redenção não constituem o único gênero predi­
leto dos espectadores. Outro gênero bem diferente é a tragédia, um a form a de
literatura, teatro ou filme tão antiga quanto os gregos. N as tragédias, o foco
central não é a redenção, m as a desventura de um m undo pecam inoso ou
arruinado. O personagem principal de um a obra trágica norm alm ente tem um
fim desastroso e a narrativa costum a expor os piores m ales da sociedade.
Pouco tem po atrás, assisti a Onde os Fracos Não Têm Vez, film e dos irm ãos
Coen, baseado no rom ance de C orm ac M cCarthy. M al os créditos iniciais
aparecem e a tela se enche de violência repulsiva. A bm talidade dá o tom até
14 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

o final. Todas as pessoas boas m orrem , enquanto o assassino vil sobrevive


m ais um dia para destruir outros inocentes. A vida de pessoas sim ples na
região rural do oeste do Texas é retratada com o um a sucessão de atividades
sem nexo. C orrem de um lado para o outro com o form igas, esforçando-se
para sobreviver e existir num universo controlado por um acaso cruel. O des­
tino delas é determ inado por esse acaso: cara ou coroa decidem se será vida
ou m orte. N ão encontram os nenhum vestígio de redenção. Quando a tela es­
curece de m odo repentino indicando o final, o espectador se vê inteiram ente
desprovido de esperança. N o cinem a onde assisti ao filme, a plateia toda per­
m aneceu sentada por vários m inutos depois do fim, em silêncio aturdido,
recusando-se a crer que havia term inado daquela m aneira.
A pesar de constituírem um gênero literário im portante, as tragédias
proporcionam u m a sensação m enos gratificante, pois contam um a verdade
incom pleta. P or certo, feiura e m aldade estão po r toda parte no m undo real
e seu poder é horrendo. N inguém está fora de seu alcance; os “m ocinhos”
sofrem tanto quanto os “bandidos” . N ossa alm a anseia, contudo, po r acredi­
tar que a vid a se estende além da tragédia.
Os tem as de redenção proporcionam satisfação m ais profunda não
apenas porque preferim os nos sentir bem quando saím os do cinem a, m as
porque, com o m eu am igo sugeriu, film es desse tipo refletem de m odo m ais
com pleto a verdade da narrativa divina. A história de Deus não fica presa à
tragédia; busca a redenção de m odo incansável. O m ovim ento da redenção
não é apenas agradável; é norm ativo e m olda a m aneira com o vem os a vida,
pois é o m ovim ento da vida.

O ENREDO
Sentado no colo de m inha m ãe, decorei um versinho que se to m o u um
g u ia útil sem pre que leio a B íblia. Para explicar o enredo da redenção em
seus desdobram entos ao longo das duas alianças das E scrituras, m inha m ãe
ensinou que “O N ovo, no A ntigo é ocultado; o A ntigo, no N ovo é revelado” .
P o r trás desse ditado, encontra-se a convicção de que a B íblia é um a única
h istória e sua narrativa flui de m odo a revelar um tem a central m aravilhoso
que se estende pelas páginas da narrativa. O tem a em questão é, obviam ente,
a vinda de Jesus Cristo.
O enredo da B íblia é dram ático e se desenrola em três atos: Criação,
Queda, Redenção.2 Os dois prim eiros atos são bastante curtos e, na verda­
de, são apresentados em apenas algum as páginas de Gênesis,
o prim eiro
livro da B íblia. N em por isso, contudo, são m enos im portantes. A com pre­
ensão correta da Criação e da Q ueda é fundam ental para entender devida­
m ente o restante da B íblia, o ato divino de R edenção.
O E x e r c í c i o do D e s c a n s o : O s S á b a d o s 15

Criação
De acordo com o capítulo inicial da B íblia, “ criou D eus os céus e a
terra” . N ão se trata de m era polêm ica contra a evolução. A final, a proposta
de D arw in está p ara lá de equivocada. A questão central das prim eiras
palavras da B íblia não é se ou quando D eus criou os céus e a terra, m as
quem ele é eo que o m undo é em relação a ele. D eus é o C riador, e a criação
(“ os céus e a terra”, ju n to s em unidade harm oniosa) é apresentada com o
seu dom ínio, o reino, sobre o qual ele governa de m odo soberano.
Sob seu governo, a criação possui um caráter dinâm ico: D eus conferiu
a responsabilidade de exercer dom ínio ativo ao sol (o luzeiro m aior), “para
governar o dia” e à lua (o luzeiro m enor), “para governar a noite” . Estabele­
ceu lim ites para o processo reprodutivo no reino vegetal e anim al (“segundo
as suas espécies”). D eus, o Rei m aior, tam bém conferiu a responsabilidade
de exercer dom ínio ativo a A dão, o rei m enor, e ordenou que sujeitasse a
terra e governasse sobre todas as coisas (G n 1.28).
A dão não recebeu perm issão divina para fazer o que bem entendesse
com a criação; devia exercer dom ínio responsável , sem pre em sujeição a
D eus, o Soberano (G n 1.26-28). Sob seu cuidado, a criação devia louvar a
D eus de novas m aneiras. N o tocante à sua identidade, A dão era portador da
im agem de Deus; seu trabalho, portanto, tam bém refletiria a im agem divina.
A ssim com o D eus “ fez separação” entre luz e trevas, atm osfera e superfície
do planeta, terra e m ar, o m andato cultural de A dão era para que ele e seus
descendentes separassem , isto é, diferenciassem e fizessem crescer, a criação
que Deus lhes havia confiado. Extrairiam m inerais do solo e os estudariam e
com preenderiam de m odo a form ar pigm entos que, um dia, seriam usados
por D a Vinci para pintar a Mona Lisa (e por m im , para pintar m inha garagem).
O som do vento e da chuva nas diferentes estações, ao ser ouvido, captado e
reproduzido por Antonio Vivaldi, resultaria na obra As Quatro Estações que,
com o as estações da natureza, tam bém louva ao Senhor.
Q uando Deus term inou a criação, ela era perfeita. A o inspecionar seu
reino, declarou em voz majestosa: “E m uito bom !” e, no sétimo dia, descansou
(G n 2.2-3). O C riador não estava exausto; o sábado aparece pela prim eira
v ez na narrativa bíblica para m arcar a alegria de D eus, a celebração e prazer
porque a criação era perfeita e desfrutava shalom.
Queda
A alegria durou pouco. O pecado se infiltrou po r m eio de um rebelde
que desafiou a autoridade do Rei da criação ao colocar sua palavra real em
dúvida (“É assim que D eus disse...?”). C om eficácia terrível, o pecado
corrom peu tudo o que D eus havia criado e desvirtuou tudo o que antes era
16 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

bom . A gora, p o rtan to , “não é com o d ev eria ser” .3 Os teó lo g o s cham am


esse acontecim ento de “ Q ueda” , m as a palavra não faz ju stiça à devastação.
U m casam en to que com eçou com um “U au !” , p asso u a ser envolto p e la
fo lh a-m o rtalh a g ro sseira da vergonha, enquanto a agradável cam inhada
de D eus com seu assistente no ja rd im ao cair da tarde se tran sfo rm o u num
jo g o de esco n d e-esco n d e m arcado p e la culpa. N u m a sucessão ráp id a de
p ro n u n ciam en to s ju d ic ia is, D eus am ald iço o u Satanás, sen ten cio u A dão
e, em seguida, su a esposa. A m ulher, criad a p a ra descan sar nos braços
carin h o so s do m arid o e se re g o z ija r co m o d om v iv ific a d o r de d ar à luz,
g e m e ria de d o res e se a n g u stia ria sob seu g o v ern o . O h o m em , criad o
p a ra se r feliz e p ro d u tiv o em seu tra b a lh o e rep o u sa r n a doce fad ig a
c a ra c te rístic a do fin al de u m longo dia de tra b a lh o , p ro v a ria a am arg u ra
e a fru stra ç ã o d a labuta. O p raz e r de D eus n a criação m u ltic o lo r qu e o
lev o u a d e c la rá -la “ m u ito b o a ” d e u lu g ar a u m d e serto c in z e n to de
d e sesp e ro h u m an o .

Redenção
M as espere um pouco. Dos escom bros de um m undo que se desintegrou,
cintila um a claridade tênue, m ais visível devido ao m om ento estranho em
que surge. Deus não via a hora de redim ir. M al term ina de declarar a m aldição
e profere a prom essa de redenção, acendendo a cham a da esperança antes
m esm o de pronunciar a sentença. A o contrastar a esperança com o horror
gélido de um longo conflito, o Rei anuncia seu plano: esm agará Satanás e
será vitorioso por m eio do “descendente da m ulher” .
D eus endireitará tudo o que o pecado desvirtuou. R estaurará o estado
de shalom e dará descanso ao seu povo outra vez. Em decorrência do pecado,
a criação se tom ou irrequieta. O utrora encantado com sua criação “m uito
b o a” , agora D eus não tem m ais p razer no que ela é\
ele e toda sua criação
anseiam hoje pelo que deve ser
, pelo que será.
A restauração da alegria e do descanso acarretará conflito. Em G ênesis
3.15, D eus prom eteu “ inim izade entre [Satanás] e a m ulher” . O longo con­
flito seria benéfico p ara a raça hum ana: precisam os saber o preço do nosso
pecado e aprender, pela fé, a ansiar pela redenção de D eus. E m nenhum
m om ento, contudo, há dúvida acerca do resultado. D eus garantiu que triun­
faria p o r m eio do “ descendente da m ulher” . Sua prom essa perm itiria que a
cham a frágil da esperança trem eluzisse, apesar dos ventos de guerra num
m undo que testem unharia fratricídio (Gn 4.8), ameaças terroristas (Gn 4.23-24)
e anarquia étnica: “E ra continuam ente m au todo desígnio do seu [do hom em ]
coração” (G n 6.5).
O E x e r c í c i o do D e s c a n s o : O s S á b a d o s 17

REPRESENTAÇÕES, TIPOS E SOMBRAS


C erta vez, quando m eus filhos eram pequenos, passam os as férias
perto do cam po de batalha em P ea R idge, um local no noroeste do E stado
de A rkansas onde foram travados com bates da G uerra Civil N orte-am ericana.
O dia estava lindo e o local se encontrava bem preservado. E u não estava
preparado, contudo, para a frustração que senti a m anhã inteira. N ão fazíam os
ideia do que estávam os vendo. O parque era im enso e, sem um m apa para
m ostrar os lugares m ais im portantes e o m odo com o a batalha se desenrolou,
continuaríam os frustrados.
N a jo rn ad a rum o ao descanso de D eus, o povo tam bém precisaria de
ajuda. A o lutar dia após dia contra a tensão da inim izade, perderia de vista o
p anoram a m ais am plo da fé. A o longo dos séculos, houve ocasiões em que
D eus interveio de m odo direto com m ão forte, porém tem a, a fim de estim u­
lar a fé do seu povo: esm agou um inim igo poderoso aqui, abriu um túm ulo
selado ali. M as ele tam bém operou de m aneiras m ais sutis. P ara dar form a à
rotina diária do povo de Israel, um povo cuja história teve início bem m ais
de m il anos antes do M essias e cuja fé precisava, portanto, de resistência,
D eus instituiu festas que serviriam p ara estruturar a vida e, ao m esm o tem ­
po, retratar a redenção. Levítico 23 traz a prescrição das festas que revelam ,
a partir de ângulos diferentes, a m aravilha e a graça da obra redentora.
D eus cham ou as festas fixas de “santas convocações” (Lv 23.1-2).
V ários term os hebraicos se encontram po r trás dessa tradução para a nossa
língua. O prim eiro, a palavra mo ’ed, define todos os festivais com o “festas
fixas” instituídas pelo Senhor e regulam entadas po r suas prescrições. D en­
tre elas, havia ashaggim, festas de peregrinação, ocasiões em que o povo de
Israel devia se encam inhar p ara um lugar central. Trata-se de um nom e apro­
priado, pois o singular hag lem bra m ovim ento e sugere um a dança alegre.
N o livro de Levítico, as festas são especificadas pela expressão miqra
qodesh, trad u zid a em geral com o “ santas convocações” , sugerindo um a
convocação com fins religiosos, caracterizada p ela esperança.4 P ara Israel,
acam pado ju n to ao Sinai no início de sua v id a com o p ovo rem ido, as con­
vo caçõ es santas de D eus não fo ram instituídas apenas p ara com em orar
atospassados de redenção, m as tam bém p ara rep resen tar o que estava p o r
vir.5 Q uando Israel fosse convocado para um a das festas de peregrinação ou
quando as fam ílias se reunissem nos lares ou nas ruas dos vilarejos para
celebrar as outras festas, deviam voltar seus olhos (e sua fé) p ara o futuro.
Israel não era com o as outras nações ao seu redor, cujos encontros religio­
sos v isavam a apaziguar os deuses exigentes e irados com as deficiências de
seus adoradores no ano anterior. N ão se tratava de um a tentativa desespera­
da de barganhar p ara receber boas colheitas no ano seguinte e fertilidade
18 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

p ara as m ulheres. As festas de Israel não exigiam que Israel negociasse com
Deus. Foram instituídas depois de os israelitas terem sido libertados da es­
cravidão do Egito pela graça m aravilhosa de D eus, rem idos po r essa graça
p ara ser seu povo especial. O propósito das festas era ajudar o povo a olhar
para a frente, conferir à vida um sentido futuro, apontar inexoravelm ente
para o M essias que cum priria tudo o que as festas retratavam .
C ada festa era um tipo do M essias. Em geral, entende-se que a palavra
“tipo”, derivada do term o grego tupos, se refere ao uso do Antigo Testam ento
com o fonte de m odelos, figuras hum anas cuja vida serve de exem plo de virtu­
des ou características cristãs. Diz-se, portanto, que Daniel é um tipo da cora­
gem cristã, Davi é um tipo da am izade piedosa (cf.
as narrativas sobre Jônatas)
ou do arrependim ento sincero (a narrativa sobre Bate-Seba). Versões contem ­
porâneas de IC oríntios 10.6 chegam a traduzir tupos
com o “exem plos” .6
Esse uso de “tipo” , contudo, é lim itado. N a verdade, o term o indica
algo m uito m ais rico, a ideia de antegosto , um a apresentação prévia do todo.7
Um exemplo do jan ta r de hoje à noite seria um copo de leite com alguns
biscoitos, arrum ados por um a criança de 4 anos de idade, apresentados de
m odo pom poso e dram ático num pequeno prato de plástico para um a por­
ção de bonecas assentadas em volta de um a m esa de jan tar de papelão. Seria
u m a refeição de brincadeirinha, diferente em substância do ja n ta r da fa­
m ília à noite. N ão podem os dizer o m esm o do tipo.
N o N atal passado,
enquanto aguardava com im paciência pela ceia que ainda levaria uns quinze
m inutos p ara com eçar, entrei sorrateiram ente na cozinha, com o um gatuno,
p ara roubar um bocado saboroso da carne assada que seria o prato principal.
A carne h av ia acabado de ser tirada do forno e descansava num a travessa, à
espera da conclusão do restante dos preparativos. Eu sabia que, em alguns
segundos, alguém entraria na cozinha, de m odo que usei as duas m ãos para
executar m inha tram a perversa. C om a m ão direita cortei um a fatia não
m uito fina da extrem idade do assado suculento, coberto de tem peros, gor­
dura tostada e m olho. C om a m ão esquerda, usei um pedaço de pão italiano
para absorver um pouco do m olho e, em seguida, peguei um a pequena por­
ção de purê de batata com alho, ainda esfum açando e enchendo m inhas
n arin as com seu arom a irresistível. Pego em flagrante p ela cozinheira
indelicada, fui expulso da cozinha sem sentir um pingo de arrependim ento.
C onsum i as provas do crim e lentam ente, rum inando, perdido no êxtase de
sabores m aravilhosos e ansioso por m ais um a porção.
U m a brincadeira de criança pode dar u m a ideia do que é com ida e
bebida. U m tipo faz a boca salivar, pois é um antegosto do banquete que
está por vir. E ra desse m odo que as festas antigas de Israel serviam ao povo
de Deus. N ão constituíam apenas encenações religiosas; antes, proporcionavam
O E x e r c í c i o do D e s c a n s o : O s S á b a d o s 19

ao povo de D eus um gostinho real e autêntico da redenção que o M essias


traria séculos depois, um gostinho que os levava a ansiar com fé e esperança
p ela revelação p lena da dádiva de Deus.
A o se dirigir a um a cultura diferente um m ilênio depois, o apóstolo
Paulo em pregou outra m etáfora para esclarecer o m esm o ponto. C ham ou
as festas de sombras (Cl 2.17). Pense num hom em andando em direção ao
oeste num a m anhã ensolarada. Enquanto o sol aquece as costas do andarilho,
sua som bra se estende adiante e chega à esquina bem antes dele. A som bra
não é apenas um exemplo dele, m as sim , um elem ento ligado de m odo
inseparável à sua pessoa. A nuncia que sua chegada é im inente. M ais do que
isso, fornece várias indicações reais a seu respeito, por exem plo, seu tam anho
e form a e a velocidade que cam inha. As indicações talvez não sejam m uito
claras, m as, um a vez que se originam de um a pessoal real, são autênticas.
A história da B íblia é a história de Jesus, o M essias. Ele é o personagem
p rin cip al, aquele que faz som bras en quanto se m ove p e la h istó ria da
hum anidade rum o à sua encarnação em Belém da Judeia. A som bra apareceu
no antigo Israel em seus sacrifícios e festas. C ada um desses elem entos
criava expectativas acerca do M essias prom etido e da redenção que traria
consigo. N ão eram indicações inteiram ente claras ou fáceis de identificar à
prim eira vista, de m odo que sem pre exigiam fé e explicação. N ão obstante,
a som bra era a prom essa daquele que estava p o r vir, um retrato bastante
real da “realidade” que “é encontrada em C risto” .

UMA QUESTÃO DE DESCANSO


N o sopé do m onte Sinai, D eus instituiu p ara o seu povo sete festas
que seriam com o quadros separados de um m esm o rolo de film e, um a série
de com em orações que os ajudaria a vislum brar a som bra do M essias. O utra
festa, porém , instituída na m esm a ocasião e descrita na m esm a passagem
bíblica, era distinta das sete celebrações e fazia o papel de m oldura em tom o
de todas elas. Levítico 23 com eça com essa festa, um a celebração cham ada
de Sábado. Seu nom e sugere a ideia de descansoe sua com em oração confere
u m tom característico a todas as outras festas. O p ro p ó sito central da
redenção, em suas dim ensões ricas e variegadas, conform e as sete festas
m ostrariam em breve, era trazer de volta o descanso e a restauração do
estado de shalom. Se a B íblia é um a narrativa, seu m ovim ento dram ático
expressa inquietação e avança m m o ao descanso sabático.8

Descanso como lembrança


O sábado não era apenas um dia para ser observado a cada sem ana.
N a verdade, havia sábados, no plural, com o Israel descobriria em breve,
20 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

que d everiam ser com em orados no sétim o dia, no sétim o ano e no ano do
Jubileu, o Sábado dos sábados, um a celebração de u m ano inteiro depois do
sétim o ciclo de sete anos.
G uardar os sábados im plicava, em prim eiro lugar, dar ouvidos ao cha­
m ado para “lem brar” . M as o que Israel devia lem brar? N a prim eira ocorrên­
cia do term o nas E scrituras (G n 2), o sábado era u m a lem brança da criação.
O próprio D eus descansou e se lem brou com p razer da obra que havia rea­
lizado ao criar os céus e a terra. M ais adiante, quando entregou o D ecálogo
p ela prim eira vez (Êx 20.8-11), D eus fundam entou a observância do sábado
p o r Israel no descanso associado à criação: “Lem bra-te do dia de sábado,
p ara o santificar [...] porque, em seis dias, fez o S enhor os céus e a terra, o
m ar e tudo o que neles h á e, ao sétim o dia, descansou; po r isso, o S enhor
abençoou o dia de sábado e o santificou” .
Q uando entregou a lei pela segunda vez (D t 5.12-15), porém , D eus de­
finiu um a base diferente para a celebração do sábado, a saber, a lem brança do
livramento do Egito: “Porque te lem brarás que foste servo na terra do Egito e
que o S enhor, teu Deus, te tirou dali com m ão poderosa e braço estendido;
pelo que o S enhor , teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado” .
A s duas bases dão sabor à receita de sabor delicado, porém rico, da
dádiva divina do repouso.

Lembrar e descansar: A criação


A o con v o car Israel a se lem brar da criação, D eus não queria que os
israelitas apenas se recordassem de G ênesis 1 e do fato de que ele criou
todas as coisas. A ntes, queria que se esforçassem para captar a verdade
m aravilhosa de que todos os aspectos da criação derivavam seu significado
e propósitodaquele que os fez existir. O sábado se tom ou, portanto, um a
dádiva que definia o conceito israelita de trabalho e lhes dava u m senso de
vocação santa. D esde o m anejo dos anim ais de carga até a adm inistração
dos servos e em pregados, Israel devia entender que era um povo com um a
m issão p ecu liar a ser executada em nom e de seu D eus. N oortzij observa:
“O caráter rítm ico que o sábado conferia à vida dos israelitas, algo sem
paralelos no A ntigo O riente Próxim o, contribuía para distingui-los com o
p ovo p ecu liar e, ao m esm o tem po, exercia u m a influência extrem am ente
favorável tanto sobre a capacidade de trabalhar quanto sobre o m odo de
v id a em geral do povo” .9
Se os sábados sem anais se tom assem rotineiros, o sétim o ano desen­
cadearia u m a lem brança ainda m ais forte. R ecordar-se da criação não era
apenas um exercício m ental; D eus sujeitou pernas e pés ao seu m andam ento.
N os diasde sábado, hom ens e anim ais deviam tirar um a folga para provar a
O E x e r c í c i o do D e s c a n s o : O s S á b a d o s 21

dádiva do descanso concedido p o r D eus num m undo exausto e recordar a


bondade desfrutada antes de a terra ser sufocada p or ervas daninhas ou cober­
ta de sal por invasores. N o princípio, toda a criação, inclusive o solo, era boa;
levava a m arca vocal de Deus, pois havia sido criada pela sua palavra.10
N um retrato encantador da fé e da vida na região rural do E stado de
Iow a, na década de 1930, o poeta Sietze B uning nos ajuda a entender o
descanso que abrangia toda a criação:

A lavagem diária de leite desnatado e fubá,


Usando uma lata como medida, papai acrescentava
na noite de sábado umaporção dupla de Suplemento Mineral Perfeito do Peet
para o café da manhã de domingo dos porcos.
Na manhã de domingo, a mistura havia espumado e transbordado do barril
e formado uma crosta tão espessa na superfície que precisava ser servida
com uma pá.
Era como servir pão doce com glacê para os porcos no domingo.

Cada um dos nossos quatro cavalos, Roy, Bob, Frank e Snoodles,


recebia um galão adicional de aveia na manhã de domingo;
cada uma das vacas recebia meio galão adicional de farinha de milho;
as galinhas recebiam um galão adicional de grãos de milho para ciscar
no chão...

Nem mesmo na época da debulha nossos cavalos encorpados


precisavam de mais aveia. Ainda assim, se refestelavam de bom grado...

As explicações de papai:
“Confiamos em Deus como os animais confiam em nós.
Para eles, somos o seu conceito de Deus, sua imagem de Deus.
O amor de Deus pelos animais flui até eles por nosso intermédio.
Como conhecerão o amor de Deus se nós não lhes mostrarmos?
Como saberão distinguir o Dia do Senhor dos outros dias?
De que outro modo podemos lhesfazer um agrado senão pelo alimento?
Eles gemem pelo sábado eterno com o restante da criação ”.n

Lembrar e descansar: Livramento


N a segunda vez em que é ordenado, o sábado é caracterizado pelo
livramento que se to m a o segundo foco de todos os sábados. Tam bém nesse
caso, era preciso lem brar: Israel devia recordar e relatar a h istó ria dos
p atriarcas (e esp ecialm ente a h istó ria do êxodo) às gerações m ais novas.
A observância do sábado não deixava de envolver, porém , um esforço de fé
p ara vislum brar a redenção que viria de m odo m ais pleno no futuro. A final,
os sábados inclinavam Israel em direção ao M essias vindouro, A quele que
22 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

traria, por fim , o descanso verdadeiro. Seu nom e era Jesus; todos os sábados
do A ntigo Testam ento se cum pririam nele.
Jesus clamou: “Vinde a m im , todos os que estais cansados e sobrecarre­
gados, e eu vos aliviarei” (M t 11.28). N os versículos seguintes, ele se refere a
si m esm o com o “senhor do sábado” e corrobora sua afirm ação ao curar, no
sábado, um hom em que tinha um a das m ãos ressequidas. A o rejeitar de m odo
desafiador a exigência dos fariseus de que se honrasse o sábado com a absti­
nência total de trabalho, insistiu que seu trabalho proporcionava descanso.
Seu descanso não foi decorrente de haver curado um hom em ou ter
colhido espigas no sábado, fornecendo ao povo, desse m odo, um exem plo
que am pliava a visão tradicional do com portam ento no sétim o dia. O ensi­
nam ento central de Jesus acerca do sábado consistia no fato de que ninguém
encontra descanso po r seus próprios esforços, ao “guardar a lei” , com o di­
zem as E scrituras, nem m esm o as leis acerca do sábado. A proibição do
A ntigo T estam ento de trabalhar no sábado, cuja desobediência era passível
de nada m enos do que a pena de m orte (Êx 31.15), prenunciava essa verda­
de. D eus queria que seu povo soubesse, a cada geração, que buscar descan­
so pelos próprios esforços era um projeto destinado a fracassar, pois eles
n u n ca achariam repouso no final da busca. Proibiu-os, portanto, de traba­
lhar na tentativa de encontrá-lo.
A s p alav ras de Jesus e o m odo com o observou o sábado são com o
u m a p laca de n éon num lugar público p ara servir com o advertência a to ­
das as gerações: Esforçar-se para descansar não adiaiita; nem se deem o
trabalho de tentar!
Som ente Deus pode proporcionar descanso, e apenas por m eio de C ris­
to. O descanso concedido por D eus seria garantido pela m orte de Jesus na
cruz com o castigo por nossos pecados e com o fim da culpa que deixa nossa
alm a tão irrequieta. Paulo disse aos rom anos acerca de Jesus: “Foi entregue
p or causa das nossas transgressões” (4.25) e “Foi crucificado com ele o
nosso velho hom em , p ara que o corpo do pecado seja destruído, e não sirva­
m os o pecado com o escravos” (R m 6.6). Ele explicou a ideia em m ais deta­
lhes em sua carta aos gálatas: “E stou crucificado com Cristo; logo, já não
sou eu quem vive, m as Cristo vive em m im ” (G 12.19b-20a).12 G arantiu aos
rom anos: “Justificados, pois, m ediante a fé, tem os paz com D eus” (R m 5.1).
C oncluiu que, diante da cruz de Cristo, “Já nenhum a condenação há para os
que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).
Trata-se de um descanso profundo, pois liberta nossa alm a do peso da
culpa de pecados com etidos e obediência om itida, costura o tecido esgarçado
de nossa história pessoal e dá a cada um de nós novo propósito e significado
intim am ente ligados à nova vida que desfrutam os no am or de Deus.
O E x e r c í c i o do D e s c a n s o : O s S á b a d o s 23

Os olhos m ais aguçados e o coração m ais sensível sabem m uito bem ,


contudo, que a inquietação do m undo e da alm a hum ana ainda não foi elim i­
nada de todo. O sofrim ento, o choro e a m orte que continuam a fazer parte
de nossas experiências são m arcas da velha inquietação geral.

James e Rebeccaformavam um casal exemplar. Recém-casados,


perto dos 30 anos de idade, os dois eram tão bonitos que a foto de
casamento deles parecia aquelas que vemos em porta-retratos à ven­
da em lojas de departamento. Com a chegada do primeiro filho, a
vida não poderia ser melhor. James havia trabalhado como mergu­
lhador da Marinha e, com todo seu treinamento e condicionamento
físico, era o tipo de sujeito quefazia inveja aos homens com mais de
40 anos. Ele e a esposa eram sócios num novo empreendimento que
prometia umfuturo sólido e próspero.
Quando James passou nove dias com dores de cabeça intensas
e contínuas, porém, não foi só Rebecca quem ficou preocupada;
os médicos aceleraram o passo parafechar um diagnóstico. Investi­
garam a fundo e pediram exames que deixaram todos perplexos e
assustados. Os testes confirmaram o que mais temiam: James tinha
um tumor no cérebro.
O diagnóstico deu início a uma série de açõesfrenéticas: a cirur­
gia de emergência foi radical e deixou marcas visíveis; a radiação
subsequente matou células deforma indiscriminada e destruiu não
apenas as células malignas, mas também os folículos de cabelo; e
a quimioterapia causou uma exaustão para a qual nenhum homem
jovem está preparado. As lágrimas deram lugar aos medos e os
temores trouxeram mais lágrimas à medida que o desconhecido co­
meçou a tomar o lugar antes ocupado pela segurança de tudo que
era rotineiro. Em princípio, mal falavam no tumor; era o elefante
cor-de-rosa que todo mundo sabe que está presente na sala, mas
ninguém quer reconhecer. Aos poucos, pela fé e com o apoio de
familiares e amigos, o tumor se tornou uma realidade com a qual o
casal precisou lidar, um elemento da vida diária, mas não um ele­
mento definidor.
James e Rebecca continuam a descansar em Cristo. Como todos
nós, eles não sabem o que o futuro lhes reserva. Se alguém lhes
perguntar, porém, não hesitarão em responder que estão em paz.
H istórias com o essa lem bram que nosso descanso em C risto possui
um ainda não inegável. H abitam os um m undo corrom pido; os seguidores
24 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

de C risto cam inham aos trancos e barrancos, sujeitos às consequências da


corrupção universal e do pecado pessoal, sem pre inclinados, porém , em
direção à n o v a ordem que a ressurreição de seu Salvador prom ete. Q uem se
achega a Cristo, encontra o perdão, a alegria e a esperança proporcionados
p ela obra consum ada na cruz. N em sem pre, contudo, experim entam cura
com pleta, pelo m enos não deste lado da glória. N ossos pecados não desapa­
recem da noite para o dia, nem suas consequências. A lgum as pessoas com
tum ores cerebrais são totalm ente curadas; às vezes, porém , o tratam ento é
árduo e o resultado é triste. A lguns com portam entos conjugais pecam inosos,
desvirtuados ao longo de décadas, não são desem baraçados com facilidade;
m em órias não são desvinculadas de im ediato de relacionam entos cruéis e
palavras ríspidas e, po r anos a íio, o coração continua a se encolher de m edo
desesperador depois de agressão física ou verbal. E possível ser libertado
de vícios, m as u m fígado corroído talvez represente o preço a ser pago por
décadas de excessos. U m a m ente jo v em e brilhante possui potencial ilim i­
tado, m as a autoim agem m utilada po r apelidos cruéis inventados por outras
crianças ou danificada pela crítica de pais que nunca dem onstraram am or
incondicional nem aprovação, pode ficar m arcada para o restante da vida,
pelo m enos p ara o restante da vida aqui neste m undo.
Podem os p ro v ar um a parte do descanso, m as ainda não fom os saciados
p ela m esa do banquete com pleto. “Portanto, resta um repouso p ara o povo
de D eu s” (H b 4.9).

SÁBADOS DISTORCIDOS, DESCANSO EXAUSTIVO


Você algum a vez foi convidado para um a festa na casa de alguém e
descobriu que a celebração não tinha nenhum m otivo? N ão havia nada para
com em orar, n ad a que reunisse o grupo ali presente senão a personalidade
dos anfitriões. Em reuniões desse tipo, a m aioria das pessoas anda de um
lado p ara o outro por algum tem po e vai em bora cedo. C om todo respeito
pelos anfitriões, não há m otivo p ara ficar num a festa dessas.
Festas sem sentido são vazias; não visam a outro propósito senão a
diversão, u m a falsificação barata da verdadeira alegria. Verdade seja dita, é
fácil perder de vista o objetivo de um a com em oração. Pode-se celebrar um
aniversário de casam ento com am igos, com um jan tar num restaurante cin­
co estrelas, u m cartão ou um presente, enquanto o “prim eiro am or” que
floresceu nos votos m atrim oniais continua a m urchar ano após ano po r falta
de cuidados. Tradições com o dar presentes, sem nenhum a relação com o
nascim ento de Cristo em B elém da Judeia, m as essenciais p ara o frenesi
com ercial de 25 de dezem bro, cercam as festas de final de ano com estresse
e pressões financeiras que fazem dessa época a ocasião ideal para crises
O E x e r c í c i o do D e s c a n s o : O s S á b a d o s 25

fam iliares dolorosas e depressão sazonal. N a cultura com ercializada de hoje,


v er o Filho encarnado de D eus nas celebrações é tão difícil quanto ver um
grão de m ostarda no piso de um shopping center em dezem bro.
Pode ser igualm ente fácil perder de vista o significado dos sábados.
A o longo dos séculos, Israel distorceu a dádiva bíblica do descanso ao redu­
zir o sábado a um dever e vinculá-lo a um período de 24 horas com início ao
pôr-do-sol de sexta-feira. E xagerou seus esforços de guardar o dia e “trans­
form ou a perm issão de descansar num a im posição” .13 O bedeceu às regras
com o m áxim o de escrúpulo e abstraiu todas as im plicações das prescrições
bíblicas, m as, em nenhum m om ento, encontrou o descanso que o dia pro­
clam ava. Fez esforços exaustivos para não trabalhar: seus rabinos defini­
ram o lim ite da distância a ser percorrida no sábado sem to m ar os passos
laboriosos. A dona-de-casa podia rem over um ponto de um a veste, m as re­
m over dois seria equivalente a trabalho e, portanto, a um a transgressão da
lei. A lguns nós podiam ser atados no sábado, outros não. Todos os nós “per­
m anentes”, com o o nó de m arinheiro ou o que era usado para atar um camelo,
eram proibidos. Se havia um a pedra na borda de um recipiente, era perm iti­
do inclinar o recipiente de m odo a fazer a pedra cair, m as não era perm itido
pegá-la, pois constituiria trabalho.14
H oje em dia, as pessoas reagem de várias m aneiras ao conceito de
sábado. M uitas o ignoram de todo e não atribuem significado espiritual
algum ao sábado/dom ingo, considerando-os apenas um “ final de sem ana”
p ara fins recreativos.15 A lgum as com unidades cristãs não veem nenhum a
ligação relevante entre o dom ingo e o sábado bíblico. E m sua opinião, a era
da “lei” encerrou-se com o início da era da “ graça” e, com a m udança de
épocas, o sábado se to m o u um a relíquia da dispensação anterior.
O utros grupos de cristãos adotam um a lógica diferente: o sábado é
ligado ao quarto dos D ez M andam entos de D eus, o dom ingo substituiu o
sábado do AT e se to m o u o sábado cristão e guardar o dom ingo/dia de
descanso é um a questão de obediência. Os cristãos devem seguir as leis de
D eus acerca de trabalhos ou com ércio desnecessário no D ia do Senhor.
A queles que desassociam com tan ta facilidade o sábado do AT do
dom ingo correm o risco de esquecer que, no início, o sábado não era um
conjunto de regras, m as um a celebração do descanso que refletia o descanso
de D eus e m arcava a com unhão entre a criação e seu Criador. Tam bém
correm o risco de esquecer que o sábado lem bra redenção, prim eiro no
êxodo e, de m odo m ais pleno, som ente em Cristo. L em brar-se de D eus
com o Senhor da criação e R edentor por m eio de C risto é, h á dois m il anos,
um dos elem entos fundam entais do padrão de fé da igreja: os cristãos se
reuniam todos os dom ingos p ara descansar no Senhor.
26 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

Q uem sugere a possibilidade de encontrar descanso na observância


das prescrições ju d aicas acerca do sábado, hoje aplicáveis ao dom ingo,
tam bém corre um risco. N esse caso, o risco de esquecer que o descanso que
precisa ser obtido po r esforços hum anos, até m esm o aqueles para guardar o
sábado, não é descanso verdadeiro.
H oje em dia, a dificuldade em honrar o sábado consiste em identificar
o que é representação e o que é festa de fato, o que era tem porário e o que
é eterno, o que é som bra e o que é a substância que a projeta.
N a verdade, porém , tais dificuldades não são novas. O reform ador do
século 16, João Calvino, com enta a questão de m odo bastante proveitoso e
adverte acerca da “ superstição” no tocante à observância do dia de descanso:

...com a vinda do Senhor Jesus Cristo, aboliu-se a parte


cerimonial desse mandamento. Porquanto, ele próprio é a verdade
e em sua presença todas as figuras se dissipam; ele é o corpo, em
cujo aparecimento as sombras ficam para trás. Ele é o cumprimento
verdadeiro do sábado... Os cristãos devem, portanto, rejeitar de
todo as observâncias supersticiosas dos dias .16

N o m esm o p a rá g ra fo em que C alv in o a rg u m e n ta que a “p a rte


cerim onial” do quarto m andam ento deve ser abolida, ele apresenta dois
m otivos válidos para “observar o dia de descanso” . O prim eiro é o cham ado
p ara se “reu n ir em dias fixos” p ara a adoração e instrução na P alavra de
D eus, duas p ráticas que nos ajudarão a descansar em C risto e abandonar as
tentativas de m erecer descanso po r m eio das obras da carne. O segundo é o
cham ado p ara tratar bem os em pregados e lhes dar um dia de descanso a
fim de m o strar a graça holística que o reino de D eus traz consigo.17
A s advertências equilibradas de C alvino são atuais e oportunas para
os cristãos da atual geração. Q ualquer conceito ou prática do dia de descanso
que fo caliza nosso com portam ento num dia da sem ana, em vez de se
concentrar n a obra de redenção realizada p ela graça de C risto, erra o alvo.
Jesus C risto é o verdadeiro sábado; todas as prescrições acerca do sábado
no A ntigo T estam ento apontam p ara o descanso que só ele p odería prover
ao seu povo po r interm édio da cruz e da ressurreição. A prender a descansar
n a salvação que Jesus trouxe, sem acrescentar nossos esforços, é o m odo
c o rre to d e a d o ta r o d e s c a n s o s a b á tic o . O p e s o d a s a lv a ç ã o re c a i
exclusivam ente sobre C risto, concedido a nós som ente pela graça e recebido
som ente p ela fé.
Pouco tem po atrás, m inha esposa e eu tivem os o privilégio de tirar um
p e río d o “ s a b á tic o ” de a lg u m a s a tiv id a d e s . A liá s, n a é p o c a , e s ta v a
trabalhando neste capítulo, de m odo que era um assunto prioritário em m inha
O E x e r c í c i o do D e s c a n s o : O s S á b a d o s 27

m ente e coração. Ficam os contentes, portanto, quando visitam os outra igreja


e vim os no boletim que o pastor pregaria sobre “guardar o sábado” . D e m odo
articulado e bastante persuasivo, o pregador tratou de algum as questões
im portantes. Convidou-nos a “descer do carrossel” de estresse e encontrar
liberdade da tirania do urgente. R elatou estatísticas im pressionantes para
m ostrar com o nossa cultura é atarefada e com o precisam os encarecidam ente
encontrar equilíbrio ao descansar das exigências do trabalho. L am entou
que o núm ero crescente de dispositivos para econom izar tem po na verdade
só faz aum entar nosso nível de estresse ao nos seduzir com a ilusão de que
estam os realizando m ais coisas do que nunca. Sua solução, porém “ G uarde
o dia de descanso; não trabalhe no dom ingo!” errou o alvo. E m m om ento
nenhum falou sobre descansar somente em Cristo. N enhum a palavra voltou
n ossa atenção para a cruz e a ressurreição com o base para a nossa paz. Em
v ez disso, com o substituto p ara a redenção, ofereceu u m a lição sobre
gerenciam ento do tem po.
E n q u a n to saíam o s da ig re ja, im a g in e i q u e as m esm as p a la v ra s
p oderiam ter sido ditas po r um ju d eu ortodoxo m ergulhado nas prescrições
acerca do sábado fornecidas pela Mishnú , ou por um consultor em presarial
secular ao oferecer conselho p ara um cliente estressado. É possível que a
p alav ra “ sábado” não teria aparecido em algum as das apresentações, ou se
teria proposto outro dia para ele. N ão obstante, a m ensagem teria sido a
m esm a: se você tirar um dia de folga, obterá equilíbrio entre com prom issos
e relacionam entos, poderá dizer “não” para o excesso de atividades, investir
m ais tem po no casam ento e na fam ília e os benefícios farão seu esforço
valer a pena.
Poucas pessoas discordariam da ideia de que um dia de folga pode ser
benéfico p ara os estressados, e que renovar nosso com prom isso com um a
fam ília atarefada é um a dem onstração de am or e provê o cuidado a um a
geração de crianças que tam bém estão sofrendo os resultados das pressões
do estilo de v id a atual. A s correntezas do descanso , porém , são profundas e
sua nascente borbulha de um lugar m uito além da obediência hum ana. Ir à
igreja todos os dom ingos não é, em si, um a solução para a cobiça que m otiva
as p esso as no s outros dias. O com prom isso de não fazer com pras no
dom ingo, não fazer n egócios nem ir ao escritó rio n esse dia, pode ser
m otivado pelo desejo de honrar a D eus de m odo m ais puro. T am bém pode,
c o n tu d o , se r m o tiv a d o p o r tra d iç õ e s, c o stu m e s ou m esm o m edo de
represálias do Senhor, de seus pais ou da igreja. E m últim a análise, guardar
o sábado p o r m eio de com prom issos com portam entais não é garantia de
que desfrutarem os descanso em C risto ou de que nosso trabalho nos outros
dias será “p ara o Senhor” .
28 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

A fim de encontrar descanso num m undo m arcado por transform ações


incessantes, pelo estresse e pela tirania do urgente, precisam os de um novo
coração, u m coração desprovido de confiança em nossos recursos, aliviado
do peso de deveres frustrantes e ansioso p o r receb er a g raça de D eus.
Precisam os do tipo de redenção que colocará o m undo em ordem outra vez.
O sábado, em Levítico 23, m ostrou o m ovim ento do enredo da redenção
divina: D eus trariadescanso a um m undo irrequieto. A redenção seria algo
m isterioso, diferente de tudo que Israel poderia imaginar. N a verdade, seriam
n ecessárias sete festas p ara ajudar o povo de D eus a sonhar.

Perguntas para estudo e discussão


1. D eus instituiu os “sábados” (plural) que visavam abençoar anim ais,
servos e até a própria terra com descanso. De que m aneira esse fato influencia
o seu conceito sobre a redenção que C risto trouxe?
2. R eleia M ateus 11.28-12.13. De que m aneira a cura do hom em com
a m ão ressequida lhe conferiu “descanso sabático” ?
3. H ebreus 4.9 se refere a um descanso sabático futuro. Será um
descanso associado ao sábado (o sábado do A ntigo Testam ento), ao dom ingo
(que m uitos cham am de “ sábado cristão”) ou a nenhum dos dois?
4. Você descansa de m odo apropriado n a cruz e na ressurreição de
C risto? Sua igreja descansa? Explique.
5. E ste capítulo se refere ao “m ovim ento inexorável da história da
inquietação p ara o descanso” . De que m aneira esse m ovim ento afeta o m odo
com o você lê as notícias todos os dias? Com o ele influencia os anseios de
seu coração? C om o ele influencia a estratégia m issionária de sua igreja
local p ara o ferecer descanso aos irrequietos de sua com unidade?
2
Eis o C ordeiro!
A Festa da Páscoa
Levítico 23.4-5; Êxodo 12.1-30

D epois dos dois prim eiros capítulos da B íblia, o palco da H istória se


escureceu de m odo sinistro antes de as cortinas subirem para o terceiro ato,
a redenção. Talvez você se lem bre de que um dos resultados do pecado foi
a “inim izade” ordenada p o r D eus, a guerra entre a descendência da serpente
e a descendência da m ulher. O caráter repulsivo do conflito ficou evidente
de imediato: a vida desintegrada dos prim eiros pais espalhou-se para a geração
seguinte, irrom pendo na form a de violência entre irm ãos. C aim m atou A bel
e, desse m odo, revelou a p resen ça das linhas de batalh a entre a fé e a
d escrença dentro da prim eira fam ília (G n 4).
A té m esm o num a zona de guerra, a v id a prossegue. C om o passar do
tem po, hom ens e m ulheres, fiéis a D eus ou contrários a ele, construíram a
cultura e desenvolveram o m undo. T rabalharam sob o m andato cultural de
D eus a A dão e Eva: sujeitar a terra ao seu dom ínio, cultivar elem entos m ais
sim ples p ara form ar elem entos m ais com plexos, estim ular o conhecim ento
de m o d o a d esen v olver p rodutos b elos e úteis, m as, p o r vezes tam bém ,
objetos que causariam m edo e aversão. Poucos versículos (m as m uitos anos)
depois da história horrível de C aim e A bel, o texto bíblico m ostra com o a
cultura se to m o u diversificada: Jabal foi o pai dos boiadeiros; Jubal foi o
pai dos m úsicos e Tubalcaim , o pai dos m etalúrgicos.
E ram herdeiros de A dão e contribuíram para form ar a cultura, m as a
cultura que desenvolveram estava fora de esquadro, pois as m otivações do
coração deles eram egoístas, e não voltadas p ara D eus. N esse sentido, se­
guiram seu pai, L am eque, um hom em abusivo que se gabava de sua violên­
cia p ara m anter as esposas na linha (G n 4.24).
O po d er de corrupção do pecado desvirtuou toda a criação. O sum ário
diagnóstico no início da história de N oé não doura a pílula: “Viu o S enhor
que a m aldade do hom em se havia m ultiplicado n a terra e que era continua­
mente m autodo desígnio do seu coração” (G n 6.5). D eus castigou aquele
m undo com u m dilúvio; m as, com o som ente D eus poderia fazer, o castigo
trouxe consigo sem entes de redenção. A em barcação selada po r D eus que
30 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

m anteve os perversos do lado de fora e, desse m odo, garantiu a destruição


deles, tam bém m anteve em segurança dentro de si N oé e sua fam ília e, com
eles, a esperança para o futuro.
A o longo do restante de Gênesis , a inim izade se desenrola com o um a
novela, nesse caso, sobre fatos reais. A narrativa inclui vulgaridades com o
prostituição nas ruas, com petição entre m ulheres por um am ante, um garoto
m entiroso e m im ado pela m ãe que deu um golpe no favorito do pai. A lente
da história focaliza gêm eos do m esm o ventre em lados opostos no relacio­
nam ento com Deus e abre-se num a visão panorâm ica para retratar um a guerra
entre reis e nações e a fom e que afetou a superpotência da época. Q uando o
prim eiro livro da B íblia chega ao final, a linhagem da aliança de D eus havia
testem unhado hom icídio, adultério, traição e engano. Seus heróis nem se­
quer parecem dignos de ser cham ados por esse nom e.
N ão obstante, em m om ento algum D eus se desviou de seus p ro p ó si­
tos red en to res e, no fim do livro, a linhagem recém -fo rm ad a de Jacó é
co n d u zid a ao E gito. D eus faria red u n d ar em bem o m al que os irm ãos de
José in ten taram contra ele ao vendê-lo com o escravo p o r inveja de seu
p resen te de aniversário.

CONFRONTO FINAL NO NILO


D eus u so u o E gito com o incubadora p ara tran sfo rm ar o seu povo
recém -n ascid o num a grande nação. A incubadora, porém , com eçou a dar
p roblem as. O Faraó b enevolente que honrou José foi substituído, pouco
d ep o is, p o r o u tro que esq u eceu do que Jo sé h a v ia feito. O p ovo que
o u tro ra h a v ia se refe ste la d o com a fartu ra da g raç a logo sentiu o am argor
d a servidão.
A escravidão dos filhos de Israel no Egito foi tão cabal quanto cruel e
eles se to m aram p ropriedade do Faraó. Êxodo 1 descreve a situação: “com
tiran ia” , foram sujeitados a trabalhos forçados, im pelidos p ela opressão e
m o tiv a d o s p e la p re se n ç a e x tre m a m en te re a l da m o rte ao re d o r d eles.
O s e g íp c io s “lhes fizeram am argar a vida” . E, quando as bênçãos de Deus
sobre seu povo irrom peram na form a de um índice de natalidade altíssim o,
apesar de todos os abusos sofridos, o Faraó sim plesm ente m udou de tática e
ordenou um infanticídio em m assa.
Por m ais horrível que tenha sido essa ordem , os capítulos seguintes
tratam de um a realidade ainda m ais assustadora: os filhos de Jacó perderam
sua identidade espiritual. D eus se lem brou da prom essa que havia feito a
eles n a aliança: “ O uvindo D eus o seu gem ido, lem brou-se da sua aliança
com A braão, com Isaque e com Jacó ” (Êx 2.24). O povo de D eus, em
contrapartida, o apagou de sua m em ória. E m seu encontro com o Senhor
Eis o C o r d e i r o ! A F e s t a da P á s c o a 31

ju n to à sa rç a a rd e n te , M o isé s te v e de p e rg u n ta r: “ Q u al é o seu n o m e ? ”
E D eus resp o n d eu : “ Eu S ou O Q ue S o u ” . M oisés tev e de p e d ir u m a
ajudazinha: “Eis que, quando eu vier aos filhos de Israel e lhes disser: O D eus
de vossos pais m e enviou a vós outros; e eles m e perguntarem : Q ual é o seu
nom e? Q ue lhes direi?” C om grande paciência, D eus o orientou a respon­
der: “ O S enhor , o D eus de vossos pais, o D eus de A braão, o D eus de Isaque
e o D eus de Jacó, m e enviou a vós outros; este é o m eu nom e etem am ente,
e assim serei lem brado de geração em geração” (Êx 3.13-15).
A gora M oisés tem um nom e para transm itir aos filhos de Israel, YH W H,
um nom e que é m ais do que isso. É um serm ão poderoso de um a palavra só
que identifica e, ao m esm o tem po, proclam a: Y H W H significa “A quele que
é” .18 M oisés deve voltar ao Egito, falar tanto com Israel e quanto com o
Faraó e apresentar Y H W H com o o Deus que é, defato, em contraste com os
deuses que não são.19
M oisés seguiu as instruções do Senhor. R egressou ao Egito p ara con­
frontar o Faraó divinizado, enfrentar os deuses do panteão egípcio e cham ar
o povo de Israel p ara seguir Y H W H rum o à liberdade. Está preparado o
palco p ara as dez pragas, cada um a delas evidência apocalíptica da ira divi­
na, isto é, “ ...ju íz o sobre todos os deuses do E gito” (Êx 12.12) e revelação
graciosa do “D eus que é” p ara o povo do seu coração.
P ara en ten d er as pragas, é im portante saber que os egípcios, com o os
can an eu s que Isra e l e n fre n ta ria em b rev e , co n sid e rav a m seus deuses
territoriais. Im aginavam que as divindades só exerciam poder sobre regiões
definidas ou certas dim ensões de âm bito natural. Y H W H vai ao encontro
de cada u m a delas em seu próprio território. N en h u m a é páreo p ara o
“D eus que é” .
A prim eira p raga transform ou a água do N ilo em sangue (Ê x 7.14-24),
u m g olpe san g rento de Y H W H co n tra o deus H api, p ai dos deuses e
divindade territorial sobre o N ilo, a fonte de vida de todo o Egito. E m
seguida, o Senhor enviou rãs (Êx 8.1-15), num a dem onstração de desprezo
p o r H eqt, a deusa-rã considerada governante da terra. A terceira praga, os
piolhos (Êx 8.16-19), foi com o um a saraivada de socos no rosto de G eb, o
ídolo da terra e da vegetação. A quarta trouxe consigo um a onda de m oscas
(Êx 8.20-32), um ataque atordoante a K hepfi, considerado o deus dos insetos.
A p rag a seguinte (Êx 9.1-7) afetou os rebanhos da terra e revelou a
im potência de A pis e H athor, o deus-touro e a deusa-vaca do Egito. A sexta
provocou úlceras que afligiram hom ens e anim ais (Ê x 9.8-12) e acertou um
gancho no queixo do indefeso T hoth (Im hotep), a divindade que os egípcios
invocavam quando precisavam de cura. P or vezes, os egípcios ofereciam
holocaustos hum anos e espalhavam as cinzas para pedir o favor de Thoth.
32 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

U m a vez que h av ia crescido n a corte real egípcia, M oisés conhecia essa


prática. A gora, porém , conhecia tam bém a Y H W H , de m odo que zom bou
do “não -d eu s” ao espalhar cinzas que provocaram enferm idades dolorosas,
em vez de curá-las. A sétim a praga, o granizo (Êx 9.13-35), destruiu todas
as plantações e devastou o território de N ut, a deusa do céu cuja chuva
supostam ente abençoava as colheitas. C om a oitava praga, os gafanhotos
(Ê x 10.1-20), Y H W H concluiu a destruição da terra do E gito e hum ilhou
A nubis, deus dos cam pos. E, com a n o n a praga, um a escuridão palpável, de
tão densa que era (Êx 10.21-29), revelou a fragilidade do grande A m on-R á,
o deus-sol e pai dos Faraós.
A décim a p raga foi o nocaute (Êx 11-12). N ela, Y H W H executou
“ju ízo sobre todosos deuses do E gito” . Y H W H , o “D eus que é” , concentrou
sua ju stiça no Faraó divinizado e não apenas devastou seu reino presente,
m as acabou com sua dinastia ao m atar seu prim ogênito, o herdeiro ao trono
e tam bém considerado divino.

VIDA À SOMBRA DA MORTE


Esses acontecim entos form aram o pano de fundo para a instituição da
Páscoa. N ão h á dúvida de que se tratava de um a festa, m as seu tom era solene.
A prim eira de todas as festas tanto em sequência quanto em im portância,
corporificava o dram a pesado da redenção. N a Páscoa, D eus revelou que a
base da aliança com seu povo era o sangue e m ostrou que a salvação viria por
m eio da m orte. E m sua graça, porém , aceitaria um cordeiro com o sacrifício
substitutivo. A Páscoa representava um a verdade dolorosa: o livram ento da
escravidão do pecado teria um alto preço. A o m esm o tem po, corporifícava
paz: a liberdade traria consigo um a nova vida e u m novo status.
D epois da
Páscoa, aqueles que outrora haviam sido escravos se tom ariam filhos de Deus.

HISTÓRIA E CELEBRAÇÃO DA FESTA


C om o no caso de todas as festas que exam inarem os nestas páginas,
ao lo n g o do s sécu lo s em C an aã, Isra e l d e sen v o lv e u v á ria s tra d iç õ e s
c o m e m o ra tiv a s . U m e stu d o m a is d e ta lh a d o e x ig iria , p o rta n to , u m a
com paração entre a celebração original p rescrita ju n to ao Sinai e registrada
n a T o rá de M o isé s e a fe sta c o n fo rm e e ra c o m e m o ra d a n o s sécu lo s
subsequentes até a chegada do M essias.

No limiar da liberdade
A P áscoa foi celebrada p ela p rim eira v ez no dia da partida de Israel do
E gito. Ê xodo 12 registra os requisitos específicos que M oisés transm itiu ao
povo de D eus p ara observar a Páscoa:
E is o C o r d e i r o ! A F e s t a da P á s c o a 33

■ Os participantes pertenciam ao círculo íntim o: tratava-se de um a


celebração fam iliar e cada hom em deveria escolher um cordeiro
p ara a sua casa e só com partilhá-lo com o vizinho se sua fam ília
fosse pequena dem ais para consum ir o cordeiro inteiro.
■ O cardápio era sim ples: um cordeiro ou um cabrito de um ano e
“ sem d efeito” (Êx 12.5), escolhido no décim o dia do m ês, m as
im olado som ente no décim o quarto dia, assado ao fogo e consum ido
p o r inteiro; os restos deveriam ser queim ados. Ervas am argas e
pães asm os constituíam os acom panham entos sim ples.
■ O traje era informal: os israelitas deviam com er vestidos com roupas
de viagem e cajado na m ão (Êx 12.11).
■ A “celebração” era sangrenta: deveriam im olar o cordeiro sobre
um a valeta ju n to à porta de cada casa e esfregar o sangue do anim al
“em am bas as om breiras e na verga” da porta de m odo a “ cobrir”
os quatro lados da entrada.20

U m resum o com o esse, porém , não conta a história toda de um a festa


tão rica. Enquanto Israel observava a Páscoa no Egito, no lim iar da libertação,
D eus envolvia seu povo num a história m uito maior. D ias antes, havia se
apresentado a eles com um a dem onstração m agnífica de poder ao destruir
os deuses egípcios. N esse m om ento, Israel devia se to m a r m uito m ais do
que um observador im parcial, pois a Páscoa tam bém significa vida ou m orte.
Se os israelitas confiassem de fato em Y H W H , viveriam pelo sangue do
co rdeiro . Se d u v id assem e não m arcassem as p o rtas com sangue, seu
prim ogênito seria m orto com os prim ogênitos do Egito.
Sob a liderança forte de M oisés, Israel confiou, respondeu com fé ativa
a Y H W H e o aceitou com o o D eus que se m anifestava a todos os seus
sentidos. Os olhos bem abertos procuraram po r algum defeito no cordeiro.
As m ãos ficaram m anchadas com o sangue da im olação e aplicação à porta.
N os ouvidos, ressoaram os gritos agudos dos anim ais que m orriam . A s narinas
se en ch eram com o fed o r de m o rte e o aro m a ag rad áv el de carn e assada.
A boca saboreou cada bocado na refeição que se seguiu.
Os elem entos da refeição m ostrariam a Israel quem ele era aos olhos de
Deus. A s ervas am argas o lem brariam de sua própria história, dos séculos
de opressão cruel e tirania severa. Os pães asm os contariam outra história,
sobre um novo com eço, um rom pim ento com o passado infeliz e o ingresso
num a vida radicalm ente nova e diferente. O cordeiro imolado, elemento central
da refeição, era o substituto de um povo inteiro. Seu sangue daria testem unho
do am or de Deus pelo povo de seu coração. Israel não havia sido esquecido
no Egito; Deus tinha ouvido seu clam or e o atendera. H avia coberto seu
34 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

povo, protegendo-o da ju stiça a ser executada pelo anjo da m orte. A té m esm o


o nom e da festa era significativo e contava a história do evangelho: “Pesach” ,
o term o hebraico p ara Páscoa, vem do radical egípcio “pesh” , um term o
que retrata a im agem v ívida de um D eus que “ abre as asas” sobre seu povo
a fim de protegê-lo e salvá-lo.21 O Deus que é destruiu os deuses que não
são e, ao m esm o tem po, estendeu asas de afeição sobre seu povo am ado
p o r m eio do sangue do cordeiro.

Em Canaã
A com em oração da P áscoa no deserto cessou depois de apenas duas
festas. N a verdade, não é de adm irar, pois o espírito de m urm uração não é
dado a festividades; prefere ficar em burrado. A s celebrações da P áscoa só
seriam retom adas quando Israel se encontrava acam pado em G ilgal, nas
cam pinas de Jerico (Js 5.10), 39 anos depois.
A s práticas associadas à Páscoa logo se adaptaram à nova vida de
Israel em Canaã. O povo não era m ais nôm ade; vivia na terra em que D eus
era Rei; o tabernáculo e, m ais tarde, o Tem plo, serviriam de sede para o seu
trono. D e acordo com as instruções em D euteronôm io 16.1-8, transm itidas
pouco antes de Israel atravessar o Jordão e entrar em Canaã, a Páscoa deixou
de ser um a refeição familiar, consum ida às pressas em roupas de viagem .
T om ou-se m ais com unitária, devendo ser observada “no lugar que o Senhor
escolher p ara ali fazer habitar o seu nom e” . Som ente naquele local seria
perm itido im olar os cordeiros. Essa m udança transform ou a Páscoa na prim ei­
ra das “festas peregrinação” para as quais os israelitas deviam se deslocar até
a casa do Senhor.
N ão sabem os m uita coisa sobre as práticas de Israel durante a Páscoa
nos séculos da m onarquia. A festa é m encionada no restan te do A ntigo
T estam ento apenas em relação aos reavivam entos ocorridos no reinado de
Josias (2R s 23.21-22; 2C r 35.1-17) e Ezequias (2C r 30). M ais de cinco
séculos depois, quando Deus enviou N abucodonosor para saquear o Templo
e levar o povo de Judá para a Babilônia, as celebrações da Páscoa cessaram de
todo até o regresso dos exilados (Ed 6.19).

No século 1Q
D epois do exílio e durante os quatrocentos anos entre os Testam entos,
a celebração da Páscoa desenvolveu um núm ero cada vez m aior de tradições.
P or vo lta do século I o., havia se associado à Festa dos Pães A sm os a ponto
de am bas se to m arem um a única celebração. U m a vez que essas duas festas,
bem com o a F esta das Prim ícias, aconteciam no espaço de três dias, os
peregrinos viajavam a Jem salém um a vez para as três ocasiões. Lucas reflete
Eis o C o r d e i r o ! A F e s t a da P á s c o a 35

essa convergência ao escrever: “E stava próxim a a F esta dos Pães A sm os,


cham ada P áscoa” (Lc 22.1).
A s tradições desenvolvidas em tom o da com em oração envolviam to­
dos os aspectos da festa. A prim eira m udança considerável na Páscoa, do
século 1Q, envolveu um torvelinho de atividades associadas à inspeção do
cordeiro. O s israelitas deviam exam inar os cordeiros pascais para se certifi­
car de que eram “ sem defeito” . Q uer se tratasse do cordeiro a ser consum ido
p or um a fam ília ou aquele que seria oferecido pela nação no Tem plo, no
século l 9, todos os anim ais para o sacrifício eram inspecionados pelos sa­
cerdotes que m inistravam no tem plo de H erodes. Os sacrifícios podiam ,
evidentem ente, ser trazidos de fora do tem plo, m as tinham de passar pela
vistoria dos sacerdotes antes de serem im olados. A m aioria das pessoas com ­
prav a os cordeiros dos rebanhos certificados do Tem plo. A lição difícil en­
sinada p o r u m sistem a corrupto foi que os sacerdotes podiam encontrar, e
com frequência encontravam , im perfeições m inúsculas em qualquer cor­
deiro trazido de fora; o único m odo de se garantir era com prar um cordeiro
dos rebanhos “aprovados” .
O enfoque inicial da Páscoa sobre a fam ília não se perdeu de todo.
G rupos de dez a vinte adultos ainda constituíam um a “fam ília” em núm ero
suficiente para consum ir um cordeiro inteiro. U m rabino e seus discípulos,
com o Jesu s e os D oze, p o r exem plo, tam b ém p o d e ria m cu m p rir esse
requisito. N o século l 9, porém , os grupos ou fam ílias apresen tav am o
cordeiro no Tem plo, onde, ao som de um a trom beta de prata no décim o
quarto dia de N isã, a garganta dos cordeiros sacrificados era cortada pelos
sacerdotes, o sangue era recolhido em bacias e, posteriorm ente, derram ado
na base do altar. N o m om ento do sacrifício, um coral de levitas cantava o
grande H allel, isto é, os salm os 113-118, enquanto a congregação respondia
em antífona: “H allelu-Y ah!” , “ L ouvado seja o Senhor!”
Os g ru p o s de d ez a v in te in teg ran tes v o lta v a m p a ra casa ou lo cal de
reu n iã o p a ra co m e r o co rd eiro na refe iç ã o Sêder (“ o rd em de c u lto ”)
tra d ic io n a l. O s sa lm o s de H a lle l ta m b é m e s tru tu ra v a m a re fe iç ã o ,
e n q u an to os alim en to s serv id o s e as quatro taças de v in h o lhe co n fe ria m
um fo co red en to r.22

■ R ecitava-se o Kiddushou bênção de abertura sobre a prim eira taça


de vinho, a taça da bênção, depois da qual se derram ava água sobre
as m ãos do anfitrião num a lavagem cerim onial.
■ O prim eiro alim ento trazido à m esa era a karpas,
um tipo am argo
de alface ou salsinha; as folhas eram m ergulhadas em água salgada
ou v in ag re e entregues a cada p articipante. A seg u n d a taça de
36 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

vinho, a taç a da ira,era servida, m as não bebida. N esse m om ento,


o filho m ais jo v e m tin h a a in cu m b ên cia de perg u n tar (E x 12.26):
“ Q ue rito é este?” e o anfitrião /p ai narrav a a triste h istó ria da
escravidão de Israel e o livram ento dos israelitas do Egito. B ebia-
se, então, a taça da ira.
■ O restante dos alim entos (cordeiro, ervas am argas e pão asm o) era
servido enquanto os presentes cantavam a prim eira parte do H allel
(SI 113-114), cânticos que falavam do fato de que Y H W H havia
livrado Israel do Egito. D epois de outra bênção, consum iam -se os
alim entos. O anfitrião rep artia o pão asm o ( matzo
) e o distribuía.
O pão era em bebido em maror — um a m istura de ervas am argas,
raiz-forte m oída sozinha ou m isturada com alface am arga, endívia
ou coentro — para lem brar o am argor da servidão e haroseth,
um a
m istura de m açãs picadas, especiarias e nozes que representava a
argam assa usada por Israel na tarefa árdua de produzir tijolos no
E gito. Por fim , os participantes com iam o cordeiro que lhes trazia à
m em ória a salvação.
■ D epois da refeição, servia-se e bebia-se a terceira taça de vinho, a
taça da redenção e cantava-se ou recitava-se o restante dos salm os
de H allel (SI 115-118), cânticos que olhavam para o passado e
expressavam os louvores de um povo agradecido pela redenção
realizada.
■ P or fim, servia-se e bebia-se a quarta taça de vinho, a taça do reino,
e o Sêder term inava com um cântico sobre o futuro. O cântico
com eçava com as palavras: “Todas as tuas obras te louvarão, YHW H,
nosso Deus” e concluía dizendo: “De geração em geração, tu és Deus.
Não tem os outro Rei, R edentor ou Salvador além de ti”.

A lém da refeição Sêder


observada em reuniões de fam ília, as celebrações
da P áscoa no século I o. tam bém eram observadas em público, de m aneira
corporativa, num a cerim ônia solene e im pressionante, presidida pelo sum o
sacerdote no pátio do Tem plo. A Páscoa pública possuía o próprio conjunto
de tradições. V ários dias antes da Páscoa, no décim o dia de N isã, conform e
prescrito em Ê xodo 12.3, o cordeiro para o povo
era colocado em exibição
no pátio do Tem plo, para que todos pudessem exam iná-lo. As nove horas
da m anhã do dia 14 de N isã, com o pano de fundo para o sacrifício de m ilhares
de cordeiros para as celebrações em fam ília,2Í o sum o sacerdote conduzia o
cordeiro para o povo até o altar e o am arrava a um a “ estaca” , onde ficava
aguardando a im olação na hora do sacrifício da tarde. A s três horas da
tarde, o cordeiro p ara o povo era im olado, sua garganta era cortada e seu
E is o C o r d e i r o ! A F e s t a da P á s c o a 37

sangue era recolhido enquanto o sum o sacerdote recitava a fórm ula litúrgica
p ara a oferta pacífica.

EIS O CORDEIRO!
Jesus, um rabino do século I o., celebrou a festa do m odo com o foi
tra n sm itid a à sua g eração , u m a co m em o ração e n v o lta em sécu lo s de
costum es. H onrou todos os requisitos de um a celebração pascal tradicional.
Sua “U ltim a C eia” foi, evidentem ente, um a refeição Sêder.
P o rém , Jesu s fez m ais do que cele b ra r a P áscoa. E le a encarnou.
Jo ã o B a tis ta h a v ia a p re se n ta d o Je su s com p a la v ra s e m p re sta d a s da
im ag eria da festa da P áscoa: “ Eis o C ordeiro de D eus, que tira o p ecad o
do m u n d o !” (Jo 1.29). Suas p alav ras eram m ais v e rd a d e ira s do que até
ele m esm o im ag in av a.

Um Cordeiro sem defeito


De acordo com um dos requisitos de Ê xodo 12.5 e das celebrações
m ais antigas, o cordeiro pascal devia ser “ sem defeito” . E ssa era a prim eira
questão da qual Jesus precisava tratar antes de reivindicar o título de Cordeiro
de D eus. O C ordeiro foi exam inado de várias m aneiras, todas bastante
rigorosas. N o final de cada um a, as E scrituras registram o veredicto.
A s p rim e iras p ro v as foram públicas
, rea liz a d a s p e lo s farise u s e
saduceus, os dois partidos religiosos da época. Jesus chegou à cidade de
Jerusalém no tum ulto da E ntrada Triunfal. N o dia seguinte, na m esm a hora
e local em que o “cordeiro para o povo” foi colocado para exibição pública
no pátio do Tem plo, Jesus se apresentou para ser exam inado pelos princi­
pais sacerdotes, m estres da lei e anciãos. Interrogaram -no com rigor, espe­
cialm ente no tocante à sua autoridade para realizar m ilagres (M c 11.27s.),
m as ele desm ascarou a m alícia po r trás dos questionam entos, desse m odo
invalidando o julgam ento deles. Em seguida, os fariseus e herodianos procu­
raram pegá-lo com um a pergunta ardilosa a respeito de im postos e lealdade a
C ésar (M c 12.13s.). A resposta sim ples de Jesus os deixou boquiabertos.
A s E scritu ras d izem que os in terro g ad o res “ m u ito se ad m iraram d e le ” .
N a sequência, os saduceus o testaram com um a situação hipotética (Mc 12.18s.),
m as não conseguiram apanhá-lo em contradição. Os fariseus realizaram outra
tentativa (M t 22.34s.) e foram calados.
Terminados esses exam es do cordeiro em público, não encontraram cri­
m e algum nele. Com o resultado, “ ... ninguém lhe podia responder palavra,
nem ousou alguém , a partir daquele dia, fazer-lhe perguntas” (M t 22.46).24
Os exam es seguintes, m ais form ais e públicos, passaram aos tribunais
de hom ens oficialm ente encarregados de p reserv ar a verdade e a ju stiça.
38 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

Foi ju lg ad o prim eiro perante A nás (Jo 18.13), sogro de C aifás, m as que,
pelo visto, era o poder po r trás do m anto do sum o sacerdote. Ele interrogou
Jesus “acerca dos seus discípulos e da sua doutrina” . N ão conseguiram ,
porém , acusá-lo de nada específico (Jo 18.23). A nás o enviou, então, a Caifás
(M t 26.57), o qual concluiu que Jesus havia com etido blasfêm ia (M t 26.65),
um veredicto precipitado, pois nenhum dos testem unhos contra ele foi válido
segundo os padrões da lei (M t 26.60).
E m seguida, o julgam ento foi transferido para o tribunal civil
de Pilatos,
o governador rom ano. D epois de interrogar Jesus, Pilatos o declarou ino­
cente: “E u não acho nele crim e algum ” (Jo 18.38), não havendo, portanto,
m otivo p ara castigá-lo. Sem dúvida, Pilatos tinha experiência com intrigas
políticas e atos de crueldade, m as, ainda assim , ficou perturbado com o
encam inham ento do processo e, seguindo o conselho de sua esposa aflita,
lavou as m ãos.
N ão obstante, num a dem onstração clara de conduta indevida, entre­
gou Jesus para ser crucificado e, desse m odo, serviu à causa do evangelho.
A últim a inspeção do cordeiro, a m ais decisiva, ainda estava para ser reali­
zada. Seria exam inado não num tribunal hum ano, m as na corte celestial,
tendo D eus com o ju iz. Os acusadores eram m uitos e estavam sedentos de
sangue. N ão havia advogado para o réu; ele teria de se pronunciar em favor
de si m esm o.
O “tribunal” se encheu de dram a intenso. D e repente, o acusado já
estava n a cruz, pregado às traves de m adeira às nove horas da m anhã, exata­
m ente o horário em que o cordeiro para o povo era preso à estaca. Os acusa­
dores, ou seja, os principais sacerdotes e m estres da lei estavam prontos
p ara p ro n u n ciar os argum entos finais. C onvencidos de que ganharam a
causa, em p reg aram a técn ica da zombaria. A intenção era ridicularizar
“ escarn ecen d o de alguém ao fingir que ele não é quem ele é” .25 Os algozes
atorm entaram Jesus com citações do salm o 22, um salm o m essiânico, com
o objetivo de provar que ele não era o M essias, pois não era capaz de salvar
a si m esm o nem a outros. O evangelho de M ateus traz os autos do “processo”
(cf. M t 27.39 com SI 22.7; M t 27.42-43 com SI 22.8).
Jesus ab so rveu as palavras de zom baria em sua alm a enquanto sentia
em seu corpo a agonia dos açoites, dos pregos e da coroa de espinhos.
Q ualquer m ovim ento era torturante e a respiração não passava de um a luta
dolorosa, um esforço contra o próprio diafragm a no processo lento de asfi­
xia pelo qual as crucificações rom anas eram fam osas. Q uando, po r fim ,
conseguiu proferir algum as palavras ofegantes, Jesus usou o salm o citado
contra ele: “ D eus m eu, Deus m eu, por que m e desam paraste?” A ironia
suprem a era que, p ara validar sua afirm ação de ser o M essias, ele não podia
Eis o C o r d e i r o ! A F e s t a da P á s c o a 39

descer d a cruz, com o exigiam . A ntes, devia suportar a ira concentrada de


D eus em lugar de seu povo. A citação do salm o m essiânico foi sua defesa
m ais sim ples: “Em verdade, sou o M essias” .
O veredicto final foi pronunciado. O D eus da criação declarou-o com
um transtorno cósm ico: o véu do tem plo se rasgou de alto a baixo, um
terrem oto sacudiu o solo e despedaçou as rochas e a ressurreição de m ortos
e s c a n c a ro u as s e p u ltu ra s (M t 2 7 .5 1 -5 3 ). O c e n tu riã o e os g u a rd a s
acrescentaram um ponto de exclam ação: “ V erdadeiram ente este era Filho
de D eus” (M t 27.54).
Em outros tem pos, Deus havia instruído Israel com respeito ao cordeiro
pascal (Êx 12.46): “N em lhe quebrareis osso nenhum ” . Sem ter ideia da
profecia que estavam cum prindo, os guardas responsáveis pela execução
obedeceram a essa instrução ao contrariar a prática rom ana de quebrar as
pernas do crucificado para garantir o fim de um hom em que ainda se agarrava
obstinadam ente à vida. Em vez disso, traspassaram seu lado com um a lança
para provar que ele já estava morto. Até m esm o depois de m orto, ele confirm ou
que, segundo todos os requisitos da lei, era um cordeiro sem m ácula.
N ão restou dúvida que C risto era um cordeiro “sem defeito” . Faltava
saber, porém , com o o sacrifício desse cordeiro salvaria seu povo.

O corpo e o sangue
O m om ento central da refeição Sêder
girou em tom o do terceiro cálice,
o cálice da redenção. Jesus tom ou o pão asm o, m ergulhou-o no recipiente
de ira e tristeza e anunciou com as palavras relem bradas com frequência
em observâncias sacram entais ao redor do m undo: “Tom ai, isto é o m eu
corpo” (M c 14.22). N essa frase m isteriosa, Jesus voltou o foco do evangelho
das eras sobre si m esm o. T om aria em seu corpo a ira de D eus que deveria
recair sobre você e eu, absorvendo-a no G etsêm ani e, especialm ente, na
cm z. A ceitaria toda a aflição da injustiça, a iniquidade das eras, até m esm o
a m aldição da m orte que havia perseguido o povo de D eus dos labores
árduos do E gito até o presente.
A lguns instantes depois, Jesus encheria e serviria a taça. M ais um a
vez, pregaria um serm ão a respeito de si m esm o: “ Isto é o m eu sangue, o
sangue da [nova] aliança, derram ado em favor de m uitos” (M c 14.24).
O sangue colocado nas om breiras e vergas das portas de G ósen tantos
anos antes havia antevisto esse m om ento, pois o sangue que “cobriu” o
povo lá com asas de proteção divina foi um ensaio dessa grande expiação.
P o r m eio do derram am ento do sangue do C ordeiro, a ira ju sta de D eus seria
aplacada de u m a vez po r todas. D eus é ju sto ; e, no entanto, todos os que
creem no C ordeiro de D eus encontram m isericórdia no substituto.
40 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

O fato de ele ter m orrido e de sua m orte ter sido física, psicológica e
espiritualm ente terrível é apenas parte da H istória. O que a com pleta é a
ocasião em que ele m orreu.
A hora do dia é repleta de significado. Com o observam os, o cordeiro
p ara o povo era preso à estaca às nove horas da m anhã. N o m om ento exato
em que o sum o sacerdote estava am arrando o anim al irrequieto, Jesus esta­
va sendo pregado na cruz do outro lado do m uro, diante dos olhos do m un­
do. A tarde, no horário tradicional de im olação do “cordeiro para o povo” , o
sum o sacerdote cortou a garganta do anim al e concluiu a oferta de paz com
a declaração litúrgica habitual: “E stá consum ado” . Exatamente no mesmo
instante, do outro lado do m uro, Jesus, o Sacerdote que presidiu sobre seu
próprio sacrifício, tam bém clam ou “Está consum ado!” e deu seu últim o
suspiro (M c 15.33; M t 27.45s.; Jo 19.30). Jesus não apenas com em orou a
Páscoa. Ele a encarnou.

O EVANGELHO NA FESTA
D esde o princípio, a intenção de D eus era que a F esta da Páscoa fosse
um retrato com pleto da redenção. C om um a tipologia intensa, as som bras
da redenção em C risto haviam trem eluzido nas paredes de tijolo do Egito,
ilum inadas p or acontecim entos que só ocorreriam m uitos anos depois. Essas
prim eiras som bras do A ntigo Testam ento revelam form as indistintas, porém
identificáveis, da verdade de D eus; a Luz que as projetou esclareceu as
lições, algum as difíceis, outras, agradáveis.

Pecado
A p rim eira lição dizia respeito ao pecado. A Páscoa revelou o pecado
com o algo que vai m uito além de erros pessoais ou fracassos m orais e m os­
trou seu poder de escravizar. A labuta diária de Israel era realizada sob a
tirania do Faraó. Os israelitas lhe pertenciam ; eram sua força de trabalho,
cu jo s b e b ê s n ão p a ssa v a m de n o v o s tra b a lh a d o re s p a ra su b stitu ir os
an tig o s. Q u an d o seu n ú m ero cre sc e u e x c essiv am e n te , to rn a ra m -se u m a
a m eaça. Ê xodo 1 reg istra a solução terrível p ara esse “pro b lem a” : o Faraó
m andou m atá-los.
N os dias de hoje, o pecado continua sendo um capataz. Ele aprisiona
co rações, m entes, p adrões éticos e vidas e os controla com crueldade.
M uitos de nós tem os consciência de pecados , violações de leis específicas
de D eus que constituem nódoas em nossa vida. C obiçam os o novo utilitário
esportivo do vizinho, apesar do preço alto da gasolina e de saberm os que
não teríam os com o m anter um carro desses. Justificam os a luxúria, m esm o
quando não consum am os um adultério e im aginam os que se trata apenas de
Eis o C o r d e i r o ! A F e s t a da P á s c o a 41

um deslize, m as sabem os que estam os errados. As m entiras vêm com facili­


dade n e sta era de marketing m an ip u la d o r e d iscu rso s p o lític o s “v a z io s” ;
o m aior desafio é dizer a verdade toda.
N em tantos, porém , reconhecem que o Pecado (com P m aiúsculo) é a
força p or trás dos pecados. A escravidão do pecado é tão certa quanto o
controle que o vício exerce sobre o viciado. Efésios 2.1-3 retrata de m aneira
v ív id a a e x is tê n c ia em p e c a d o com o a n e c e ssid a d e de a lim e n ta r as
com pulsões e “saciar toda vontade” .

David lutava havia anos contra a pornografia. Sabia nofundo


da alma que a pornografia era umafalsificação vulgar do amor ver­
dadeiro. Também sabia que seu contatofrequente com ela não agra­
dava a Deus, mas enganava a si mesmo e tentava se convencer de
que era um hobby inofensivo. Não há como descrever o desespero
em seu rosto quando descobriu que o vício lhe custaria seu casamen­
to e destruiria o relacionamento com seus filhos. Chorou amarga­
mente, o corpo sacudindo-se em soluços. Seu mundo ruiu.
No final de semana seguinte, porém, comprou um computador
novo com uma placa de vídeo mais rápida para que pudesse alimen­
tar o mesmo vício no apart-hotel barato que havia alugado quando
sua esposa o expulsou de casa.

As compulsões não controlam apenas o âmbito sexual da vida. O “pecado


com o poder” tam bém desvirtua outras dim ensões, com o nossas exigências
físicas p o r alim ento e água. Pecados com o bebedeira e gula são fáceis de
identificar. O “pecado com o poder” penetra, contudo, cam adas além dos
co m portam entos superficiais e corrom pe até m esm o a satisfação dessas
n ecessid ad es diárias. A norexia, b u lim ia e outros distúrbios alim entares
refletem p adrões com pulsivos difíceis de entender e ainda m ais difíceis
de m udar. O “p ecado com o p o d er” exerce controle tão grande sobre as
p essoas a ponto de to m a r absurda a id eia de um a v ontade p ró p ria v erd a­
deiram ente livre.
A Páscoa m ostrava a Israel, e m ostra a nós, que o pecado escraviza e
sua servidão pode ser cruel. E am arga e desprovida de alegria, pois elim ina
da vida toda liberdade e esperança. A Páscoa tam bém m ostra que a escravi­
dão tem um alto preço. A libertação só é possível por m eio da m orte, não
apenas do cordeiro, m as tam bém dos deuses aos quais o nosso coração in­
sensato se curva no lugar do único D eus verdadeiro. Porquanto o Senhor
tem ciúm es de nosso amor: p ara rom per os laços m ortais do pecado, ele
destruiu os falsos deuses do panteão egípcio. H oje, as falsificações que o
nosso coração adora, as falsificações que escravizam nossa vida, tam bém
42 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

são alvo de seu julgam ento. Ele nos am a dem ais para perm itir que o pecado
nos engane e nos leve a crer que é possível ter um a vida real e gratificante
longe de Deus.

Graça
A P ásco a ap resenta, tam bém , a agradável lição da redenção. E^m
prim eiro lugar, proporcionava um antegosto da graça
com o força m otriz da
salvação. M ostrava que a redenção não se baseia nos esforços dos escravos.
N enhum conhecim ento ou esforço de nossa parte é capaz de endireitar o
que o pecado desvirtuou. A ntes, a redenção se baseia na substituição de
outrem. Israel não contribuiu em nada para a sua libertação; foi salva som ente
p orque D eus “ lem brou-se da sua aliança” . O gago M oisés não era um
salvador; era apenas o m ensageiro hum ano do “ D eus que é” , o D eus que,
p o r sua força poderosa, salvou seu povo.
A graça foi a força que operou no passado e a graça é a dinâm ica
operativa p ara quem crê em C risto hoje. “Porque pela graça sois salvos,
m ediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que
ninguém se glorie” (E f 2.8-9).

Expiação
A P áscoa nos fornece o prim eiro vislum bre da expiação
, um conceito
fundam ental da m ensagem bíblica. Seu significado literal é “ cobrir com
sangue” e retrata D eus cobrindo seu povo tem am ente com as asas, com o a
galinha cobre seus pintinhos. A Páscoa não era sim plesm ente um a cerim ônia
p rim itiv a sanguinária e, portanto, um sinal da irrelevância da B íblia p ara o
presente. M uito ao contrário. A festa apresenta um D eus am oroso que lidou
de m odo pessoal com as consequências bastante reais de nossa culpa e
aceitou cordeiros no lugar de hom ens, para que jam ais fosse necessário que
hom ens derram assem o próprio sangue a fim de apaziguar um D eus irado.
E m nenhum m om ento o am or de D eus é m ais visível do que na m orte de
Jesus, o C ordeiro de D eus, o Filhode D eus, que m orreu p ara transform ar
inim igos em filhos.

Justificação
A P áscoa representa a justificação pelafé.A s E scrituras deixam claro
que o am or eterno de D eus é a causa geradora de nossa redenção (Jo 3.16;
E f 1.4), m as tam bém revela, de m odo inequívoco, que no espaço e no tem po,
a m orte do C ordeiro é o ponto de origem , um a fonte da qual fluem inúm eros
riachos. Justificados pela m orte substitutiva do Cordeiro, os cristãos recebem
E is o C o r d e i r o ! A F e s t a da P á s c o a 43

a identidade de filhos de D eus. P ela graça, desfrutam paz com Deus, em


vez de culpa e m edo e essa graça os capacita para viv er em santidade e
produz dentro deles o desejo e a alegria da adoração.
Liberdade
A P ásco a tam b ém an tev ê a tran sfo rm ação ju b ilo s a d a v id a pelo
evangelho de C risto, pois no sangue do C ordeiro o povo de D eus encontra
lib e rd a d e . N ã o se tra ta a p e n a s de lib e rd a d edo
p e c a d o , m as ta m b é m
de lib e rd a d epara um a vida nova.
A liberdade é anunciada logo no início da narrativa da Páscoa. A o
instituir a F esta da Páscoa, D eus faz um a declaração surpreendente: “ Este
m ês vos será o principal dos m eses; será o prim eiro m ês do ano” (Êx 12.2).
D eus realizo u algo que é da alçada som ente de um m on arca absoluto:
m udou o calendário e anunciou a um p ovo que há m uito estruturava suas
atividades em to m o do calendário ag ríco la dos egípcios que, com sua li­
b ertação , a vid a recom eçaria. A s estações não m udariam , nem os ciclos
de p lan tio e co lh eita que as acom panhavam . A essas estações e ciclos,
porém , so b repunha-se um a n o v a realidade. A cada celebração anual da
F esta da P áscoa, Israel devia se lem brar de que sua ex istên cia com o povo
de D eus h av ia com eçado com o poderoso livram ento da escravidão rea li­
zado p o r Deus.
N a antiguidade, era com um am arrar os escravos uns aos outros em
longas fileiras. E ram atados po r correntes no pescoço e, po r vezes, até por
fios ligados a anzóis fincados na face, a prática aludida na profecia assus­
tadora de A m ós (A m 4.2). E ra possível, contudo, com p rar indivíduos da
fileira de escravos e libertá-los m ediante o pagam ento de um preço. O term o
bíblico “redim ir” é derivado dessa prática. A redenção proporciona liberdade
do pecado, da culpa e da vergonha, o triunvirato m aligno de conspiradores
que tram am p ara privar as pessoas de sua alegria e paz. Pedro declara cate­
goricam ente: “ Sabendo que não foi m ediante coisas corruptíveis, com o
prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedim ento que vossos
pais vos legaram , m as pelo precioso sangue, com o de cordeiro sem defeito
e sem m ácula, o sangue de C risto” (IP e 1.18-19).

Laura tinha 12 anos quando a mãe a entregou a um namorado


para que fizesse sexo com ela como pagamento por uma pequena
dívida. Não demorou muito para Laura aprender a odiar a si mesma
e a não confiar em ninguém. Na lógica distorcida das vítimas de
abuso, porém, descobriu uma maneira de sobreviver: podia usar os
homens como eles a usavam. Tornou-se stripper e fez do sexo o seu
44 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

vocabulário de interação com os homens. Era um modo de controlá-


los, em vez de ser controlada, um substituto para o amor verdadeiro
que poderia fazê-la sentir-se desejada e aceita. Era uma maneira de
conviver com as feridas interiores.
Quando uma colega de trabalho lhe falou sobre o amor de
Cristo, Laura zombou dela. Sua mãe era religiosa, apesar de sua
prática religiosa não passar de uma imitação barata de um relacio­
namento vivo com Deus. Laura não conseguiu se livrar, contudo, da
impressão deixada pelas histórias que sua colega lhe contava sobre
um Deus que amava de modo tão profundo, íntimo e incondicional
que se podia confiar nele e abrir para ele os recônditos do coração e
contar seus segredos.
Certo dia, Laura resolveu ir à igreja. Encaminhou-se ao escri­
tório e contou à secretária da congregação, com uma voz cansada e
admiravelmente calma que era stripper, desejava deixar sua ocupa­
ção e precisava de uma igreja que a ajudasse a mudar de vida. Não
havia dúvida de que Deus esta\’a trabalhando em sua alma.
Sem que Laura soubesse, Deus também havia tocado no cora­
ção da secretária. Ela e o marido haviam se conscientizado da com­
placência espiritual em que se encontravam e desejavam sair da área
de conforto de uma vida sem riscos. Havia semanas, a secretária
estava orando para Deus lhe dar a ousadia espiritual necessária
para viver para Cristo em obediência radical.
Imagine a surpresa de Laura quando a secretária perguntou,
sem piscar: “Por que você não vem morar na minha casa? ”(Imagine,
também, a reação do marido quando a esposa chegou em casa com
uma stripper.) Laura passou vários meses na casa deles. Ali,foi ama­
da com graça e misericórdia e, por meio das palavras e atos do ca­
sal, ouviu o testemunho do amor do Salvador. Esse amor começou a
mudar Laura. Ela começou a estudar a Bíblia, frequentar os cultos
da igreja e dar provas claras dafé em Cristo e seu poder de transfor­
mação. Experimentou uma alegria tão grande que passou afalar de
sua vida “a.C. e d.C. ”, e chamou sua ida a Cristo de segundo aniver­
sário, o novo começo no calendário de sua vida.

Filiação
O evangelho da Páscoa não apenas anuncia liberdade, m as tam bém nos
m ostra que viverem os a nova vida com o filhos de Deus. M uitos anos depois,
Jesus explicou o êxodo nas palavras do profeta Oseias: “Do Egito cham ei o
m eu filho” (Os 11.1). A filiação não dizia respeito apenas ao povo antigo;
antes, é a identidade ju b ilo sa de todos os que creem em C risto no presente.
O apóstolo João exulta: “M as, a todos quantos o receberam , deu-lhes o poder
de serem feitos filhos de D eus” (Jo 1.12). Paulo é igualm ente explícito:
Eis o C o r d e i r o ! A F e s t a da P á s c o a 45

Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de
Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes,
outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados
no qual clamamos: Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso
espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também
herdeiros, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo (Rm 8.14-17).

P or m ais gloriosas que sejam essas palavras, ainda é difícil crer que
se é um a filha preciosa de D eus quando alguém a entregou com o pagam ento
p o r u m a dív id a e quando você se to m o u um a stripper.
A luta interior
constante de L aura ainda não chegou ao fim : “E stou no lugar errado! Com o
é p ossível ser filha de D eus? N em m inha m ãe m e quis!”
Sem captar, de fato, a ideia de filiação, é im possível entender a liber­
dade radical da redenção. N esse caso, é preferível voltar para o Egito e
viver com o escravo, pois é um am biente m ais conhecido.

ENFIM, LIVRE?
Foi o que aconteceu com Israel. O povo saiu livre do Egito, m as logo
olhou p ara trás e quis voltar p ara a terra da servidão, de suas sepulturas e
"... dos pepinos, dos m elões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos”
(N m 11.5; Ê x 14.11-12). O conhecido, ainda que cruel, era confortável; o
d esconhecido, sua nova liberdade, era assustador. Se M oisés houvesse
perm itido, os israelitas teriam se arrastado de volta p ara a escravidão no
prim eiro dia. H aviam sido libertados, m as ainda não estavam livres.
Pessoas com o Laura, para as quais a liberdade ainda é novidade, m ui­
tas vezes se sentem atorm entadas po r sua nova condição de vida. É difícil
aceitar um novo status quando se sabe que ele é im erecido. Todos nós nos
sentim os mais à vontade com as equações conhecidas da contabilidade moral:
m an tem o s os liv ro s-caix as com longos reg istro s de créd ito s e débitos
m o rais e avaliam os a nós m esm os e aos outros de acordo com o total do que
é m erecido. T om am o-nos tão com petentes nessa prática que a constatação
do filho pródigo nos parece correta: “N ão sou digno de ser cham ado teu
filho” (Lc 15.19). Vivemos, portanto, com o escravos; a liberdade é território
estranho para aqueles que não conhecem outra coisa que não a servidão.

Em seu livro King Rat,26James Clavell baseou-se em sua ex­


periência pessoal como prisioneiro de guerra num campojaponês
na península da Malásia, no final da Segunda Guerra Mundial.
As condições de vida no campo eram tão precárias e a comida
tão escassa que os prisioneiros famintos faziam de tudo para so­
breviver. O personagem principal, o soldado King, elaborou um
46 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

plano para comercializar alimento com lucro na esperança de manter


a si mesmo e aos colegas vivos até ofinal da guerra. Um empreen­
dedor norte-americano nato, King era o mandachuva do campo e
se realizava com a ideia de que podia enrolar qualquer um, até
mesmo os guardas. Depois de convencer a todos que tinha acesso
ao escasso e delicioso ”cervo-rato ”, gerou lucro exorbitante com a
venda da carne.
As aparências, contudo, podem ser enganosas. Por uma ironia
macabra, descobriu-se que o “cervo-rato ”que King comercializava
era, na verdade, carne de ratos e, pior ainda, engordados com o
cadáver de prisioneiros mortos. Essa revelação horrível, contudo,
foi apenas o início da queda de King. Quando o campofoi libertado,
King entrou em crise. O que faria da vida? Apesar de ter criado um
plano para garantir sua sobrevivência e a dos colegas até que al­
guém viesse libertá-los, a liberdade se mostrou um inimigo mais po­
deroso. No campo, King havia ocupado um lugar especial. Uma vez
libertado, tornou-se um desconhecido.

N a obra de M ilton, Paradise Lost , Satanás explica a lógica desvirtuada:


“M elhor reinar no Inferno do que servir no C éu” .27
D eu s co n tin u a a lib e rta r as p esso as e o ev an g elh o de Jesus C risto,
o M essias, a n u n c ia a lib ertação . E u m a lib erd ad e p ara viver, e não a p e ­
n as sobrev iv er. É a lib erd ad e de u m escrav o que se to rn o u filho. A m e ­
n o s que v o cê creia em C risto e aceite a m o rte dele com o seu liv ram en to ,
p o rém , ja m a is e x p e rim e n tará essa lib erd ad e. Jam ais e x p e rim e n tará a
a le g ria d a filiação .
A m u d an ça de co n d ição de escravo p a ra filho ex ig e u m a tra n sfo r­
m ação tão radical que desafia a lógica. Seria preciso m ais do que um a nova
atitude. E xigiria a m orte de velhos hábitos e o nascim ento de um a vida
inteiram ente nova.

Perguntas para estudo e discussão


1. L eia m ais u m a vez os prim eiros capítulos de Ê xodo e faça u m a
rev isão do trech o desse capítulo que tra ta das prag as que D eus enviou
p a ra rev elar a im p o tên cia dos antigos deuses do E gito. D e acordo com um
h isto riad o r cu ltu ral, os ídolos m odernos que u surpam o lu g ar de D eus em
nosso coração são: ídolos da H istó ria (p. ex., crer no progresso gradativo,
p o rém in ev itá v e l, da h u m an id ad e); íd o lo s de M am om (p. ex., fé nos
sistem as eco n ô m icos que nos levam a co n fiar em dinheiro, investim entos
e riq u ezas com o base p ara a n o ssa segurança); ou ídolos do p o d er (p. ex.,
Eis o C o r d e i r o ! A F e s t a da P á s c o a 47

c o n fia r que o E stad o nos salv ará de d ific u ld a d e s e p o b reza ou que a


in strução g aran te sucesso n a vida). P o r que esses ídolos são deuses falsos,
im p o ten tes p ara salvar?

2. L eia novam ente o trecho deste capítulo que explica os julgam entos
de Jesu s, b em com o as referên cias b íb licas incluídas. P or que era tão
im portante que Jesus fosse confirm ado com o “cordeiro sem defeito”?

3. L eia R om anos 3 -5 . P rocure escrever u m a definição concisa de


“justificação”. Por que a justificação é o cerne das boas-novas
de Jesus Cristo?
De que m aneira a justificação é a fonte do culto e da alegria do cristão?

4. E m que sentido a autoim agem de um filho difere da autoim agem de


u m escravo? Q ual é a diferen ça entre a heran ça do filho e a do escravo?
D e que m odo a redenção em C risto deve influenciar sua autoim agem ?
3
F axina G eral :
A Festa dos Pães Asmos
Levítico 23.6-8

Tem pos atrás, um am igo aconselhou-m e. Viúvo havia alguns anos, eu


estava planejando m e casar novam ente. Ele havia passado por circunstâncias
parecidas e im aginou, com razão, que eu p recisava avaliar a situação com
cuidado. D epois de m e parabenizar pelo m eu noivado, ele m e ofereceu o
conselho na form a interrogativa: “D epois do casam ento, vocês dois não
vão m orar na sua casa, v ão ?”
Fiquei um pouco surpreso com a sua pergunta, pois era exatam ente o
que estava pensando em fazer. A final, m esm o depois de dois anos que trans­
form aram a casa de m inha fam ília na m oradia de dois solteirões, um a vez
que m eu filho tinha vindo m orar com igo depois de term inar a faculdade, ela
ainda estava em boas condições. A lém do m ais, a ideia parecia econôm ica.
M eu am igo explicou com toda paciência que levar a nova esposa para um a
casa que havia sido m obiliada e decorada com todo carinho po r outra m u­
lher criaria um a situação im possível. Se ela a redecorasse, poderia ofender
m em bros da fam ília que eram apegados às lem branças da casa e à “parede
da fam a” , a colagem com fotos da fam ília tiradas em com em orações e férias
das quais ela não havia participado. Se ela não a redecorasse, seria igual­
m ente com plicado: se veria às voltas com resíduos do passado que a incapa­
citariam estabelecer um novo lar e um a nova vida.
O conselho de m eu am igo foi sim ples e incisivo: “Venda a casa, doe
os m óveis e rom pa com pletam ente com o passado” .
Ele estava falando de ferm ento.

HISTÓRIA E CERIMÔNIA DA FESTA


A F e s ta d os P ã e s A sm o s c o m e ç a v a n o d ia se g u in te à da P á sc o a .
O cordeiro havia sido im olado e consum ido nas cerim ônias solenes dessa
festa. Esse dia, um sábado, dava início a um a nova celebração que durava
u m a sem ana e expandia a alegria que a Páscoa iniciara.28
De acordo com a Torá (Lv 23.6s.), a Festa dos Pães A sm os era ancora­
da p o r sete elem entos tradicionais. C laro que havia alim ento. C om ia-se
50 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

pão asm o ou matzo todos os dias. O que na P áscoa era um sim ples acom ­
p an h am en to to rn ava-se o elem ento central da sem ana e da festa seguinte.
A dem ais, iniciava-se e encerrava-se com duas “ santas convocações” , um a
no sábado logo depois da Páscoa e outra no sábado da sem ana seguinte.
Com o a Páscoa, a F esta dos Pães A sm os era um a celebração observada em
fam ília que, posteriorm ente, se to m o u um a com em oração conjunta na casa
do Senhor quando Israel entrou na terra de Canaã.
U m elem ento-chave dessa festa era a tensão dinâm ica que o povo de
D eus experim entava entre ordens afirm ativas e negativas. Por um lado, a
festa incluía um a ordem afirm ativa: Israel “deveria” com er o matzo
asmo
todos os dias. Por outro lado, a observância da festa envolvia um a negativa
séria: Israel devia retirar todo ferm ento das casas. N o m undo antigo, o fer­
m ento não era com o esse produto que com pram os em pacotinhos no super­
m ercado, m as um “lêvedo” ativo e borbulhante de m assas anteriores. Para
os propósitos da festa, a definição incluía tudo
o que havia sido “ levedado” ,
até os farelos m ais m inúsculos. De acordo com Êxodo 12.15, no prim eiro
dia da festa, Israel devia tirar o ferm ento de suas casas, “ ... pois qualquer
que com er coisa levedada, desde o prim eiro dia até ao sétim o dia, essa p es­
soa será elim inada de Israel” . A prescrição era séria, pois “ elim inar” era o
term o pactuai para a pena de m orte.
A urgência da linguagem faz ainda m ais sentido se nos lem brarm os da
situação em que Israel se encontrava enquanto se preparava para sair do
Egito. O s israelitas fizeram a refeição de Páscoa vestidos com roupas de
viagem e com eram com pressa, pois o castigo de D eus não tardaria a sobre­
v ir aos deuses do Egito e a vida nova de Israel com eçaria em m eio aos gritos
de m orte p o r toda a terra. N o “prim eiro dia” da Festa dos Pães A sm os, o
povo estaria em m ovim ento, seria o dia da partida na jo rn ad a conhecida
com o êxodo. A rem oção de todo vestígio de ferm ento das casas seria teste­
m unho visível de sua fé e confiança em Deus. N ão estavam levando nada do
E gito consigo e nenhum poder vivente do passado escravo acom panharia o
povo recém -libertado na jornada.
Q uarenta longos e difíceis anos depois, o povo de Israel atravessou,
p o r fim, o rio Jordão p ara entrar em G ilgal, nas cam pinas de Jerico. A essa
altura, o Egito era um a lem brança distante. E stavam em C anaã e, com exce­
ção de Josué [e C alebe - N. T.], ninguém da geração anterior que havia
saído do Egito ainda estava vivo. A m orte de seus pais havia criado um
rom pim ento absoluto com o passado repleto de lem branças dolorosas de
pecado e desobediência. A o entrarem em sua nova terra natal sob o com an­
do de Josué, celebrariam a festa de m odo a representar um rom pim ento
litúrgico com o passado: “C om eram do fruto da terra, no dia seguinte à
F axi na G e r a l : A F esta dos P ã e s A sm o s 51

Páscoa; pães asm os e cereais tostados com eram nesse m esm o dia” (Js 5.11).
O “dia seguinte” foi a Festa dos Pães A sm os.

FAXINA GERAL
N ão encontram os nenhum registro da com em oração da Festa dos Pães
A sm os no restante do Antigo Testam ento. N ão obstante, ao longo dos séculos
da histó ria de Israel e especialm ente no período entre os Testam entos, a
ordem para “rem over o ferm ento das casas” se transform ou num a prática
fam iliar que transm itia o significado central da festa. E ssa prática m anteve,
tam bém , o caráter da festa com orepresentação , um tipo/som bra da redenção
que o M essias proporcionaria. C om o a Páscoa, tam bém passou a incluir um
m om ento pedagógico. N a refeição pascal, um dos filhos perguntava ao pai:
“Por que esta noite é diferente?” O m om ento pedagógico da Festa dos Pães
A sm os era conhecido como Bedikat HaMetz, “a rem oção do lêvedo da casa” .
O costum e envolvia toda a fam ília e, na verdade, não com eçava no
prim eiro dia da festa, conform e prescrito po r Êxodo 12.15, m as um a sem a­
na antes. D epois da lim peza norm al da casa, a m ãe deixava de propósito
vários pedaços de pão com ferm ento espalhados pela casa, alguns grandes
em lugares óbvios para as crianças pequenas e outros m inúsculos e em luga­
res m ais difíceis para os filhos m ais velhos. O pai liderava a aventura. U san­
do um a vela, um a colher de pau, um a pena e um pedaço de tecido de linho,
a fam ília procurava diligentem ente até encontrar todos os pedaços. Trans­
bordando de anim ação, as crianças riam cada vez que encontravam um a
m igalha, até que o pai indicava que fizessem silêncio enquanto ele, com
todo cuidado e gestos dram áticos, varria o ferm ento p ara dentro da colher
com a pena (ninguém podia tocá-lo!) com o se estivesse desativando um
explosivo poderoso. Para enfatizar a solenidade da ocasião, no final, todas
as m igalhas eram queim adas.

MAIS DO QUE MIGALHAS


N ão se tratava, contudo, apenas de um jo g o ; a dram atização ensinava
um a lição im portante: “ C rianças, o ferm ento rep resen ta a idolatria e a
influência do Egito. D eus ordenou que deixássem os todas essas coisas para
trás quando nos tirou de lá pelo sangue do C ordeiro. N unca se esqueçam
disso!” Tratava-se de um a lição apropriada, pois os pequenos e curiosos
israelitas logo descobririam que apesar de o Egito fazer parte do passado
distante, o poder do ferm ento ainda estava vivo e continuava a representar
um risco na vida nova em C anaã. Lá, Israel encontraria os B a ’ais.
A s dez pragas haviam reduzido a cultura m ais rica do m undo a algo
sem elhante à superfície da lua. O castigo de D eus havia dizim ado o Egito e
52 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

revelado a im potência de seus deuses falsos. A lição das pragas, contudo,


tam bém se aplicava a Israel. D eus era zeloso de seu povo. O “Deus que é”
não toleraria nenhum flerte com deuses que não eram . Q uando Israel foi
libertado do E gito, teve de deixar seus ídolos para trás. Q uando atravessas­
se o Jordão, o Senhor não toleraria nenhum a atração exercida pela terra de
Canaã. Os dois prim eiros m andam entos codificam essa realidade, sendo
que a desobediência era passível da pena de m orte:

Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura,
nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra,
nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto;
porque eu sou o S enhor, teu Deus, Deus zeloso (Êx 20.3-5).

P o r m eio dos m ilagres do castigo que seu julgam ento trouxe, D eus
desm ascarou os ídolos do Egito. E m seguida, foi adiante de Israel para C anaã
e espalhou relatos a respeito desse julgam ento ao longo do cam inho, zunin­
do pelos ouvidos dos habitantes daquelas terras com o as “vespas” que ele
hav ia prom etido (Êx 23.28; D t 7.20; Js 24.12). R aabe descreveu o im pacto
dos rum ores sobre a coragem de Jerico: “Todos os m oradores da terra estão
desm aiados [...] porque o S enhor , vosso D eus, é D eus em cim a nos céus e
em baixo n a terra” (Js 2.8-11).
D eus dera a Josué instruções claras para extirpar todos os ídolos de
C anaã e destruir todos os idólatras. Sua ordem não foi brutal, severa ou
sanguinária, m as am orosa. A vida sob o dom ínio dos falsos deuses do Egito
havia sujeitado Israel à escravidão terrível. D eus não queria que seu povo
am ado fosse entregue à tirania de novos falsos deuses. No início da cam panha
m ilitar para conquistar a terra, Josué e o povo obedeceram (Js 10.40-42) e
D eus lhes concedeu paz e segurança (Js 11.23). Q uando a fé e o zelo de
Israel vacilaram , porém , e o povo deixou de rem over todo o fennento de
idolatria da terra, os resultados foram calam itosos.

DE DENTRO PARA FORA OU DE FORA PARA DENTRO?


Séculos depois, Jesus voltou a alertar sobre o ferm ento. A dvertiu seus
discípulos a se guardarem do ferm ento dos fariseus, dos saduceus e de
H erodes (M c 8.6,14-15; M t 16.12). R eferia-se aos ensinamentos desses
grupos, p o r m eio dos quais os líderes religiosos voltaram a escravizar o
povo de Deus.
À prim eira vista, suas palavras parecem bastante objetivas: devem os
e v ita r m ás in flu ên cias com o g o v ern an tes c o rru p to s e m estres ineptos.
P elo m en o s, é assim que se costum a interpretar a passagem .
F a xi na G e r a l : A F esta d o s P ã e s A sm os 53

D e fato, separar-se e até m esm o destruir pessoas perversas com o m odo


de p roteger outros de sua influência corruptora tem sido a estratégia de
religiosos ao longo das eras. Os fariseus ficaram estarrecidos quando Jesus
com eu com cobradores de im postos e “pecadores” (M c 2.15), pois nem os
rabinos ju d eu s de boa reputação nem seus seguidores conviviam com essas
pessoas. A seita ju d aica dos essênios foi ainda m ais longe e se isolou no
deserto de Q um ran, às m argens desoladas do m ar M orto, para evitar os
pecados de um a sociedade im pura e, ao m esm o tem po, criar um a nova co­
m unidade. Posteriorm ente, os cristãos m onásticos tam bém se separaram do
m undo para viver em santa reclusão. U m dos indivíduos m ais esquisitos
desse grupo era Sim eão Estilita, que viveu de 423 a 459 d.C. num a platafor­
m a quadrada com dois m etros de lado no alto de um a coluna no deserto da
Síria. Em princípio, a coluna tinha cerca de cinco m etros de altura. Aos
poucos, porém , ele a afastou do solo p ara obter um grau cada vez m aior de
separação do m undo até viver (e m orrer) cerca de 20 m etros acim a do solo.
E, com o sabem os, em nom e de Jesus, os cruzados cristãos m ataram m i­
lhares de “ in fiéis” m uçulm anos nos séculos 11 e 12, fato que ainda d ifi­
culta o testem unho dos cristãos ao m undo islâm ico na atualidade. Talvez
com o reação, os extrem istas islâm icos de hoje com batem um a g u erra de
terro rism o a fim de rem over o ferm ento do O cidente do m undo que dese­
ja m m an ter puro.
A té m esm o as igrejas m odernas, tão distantes da tradição m onástica,
m uitas vezes se isolam da cultura ao redor a fim de evitar as m ás influências
e proteger os fiéis. Esse distanciam ento ocorre de vários m odos, desde dis­
ciplinas sim ples com o evitar os colegas de escola ou trabalho que bebem ou
usam drogas, cuidar com o que se assiste na televisão e no cinem a e ficar
longe de bares e m ulheres de reputação duvidosa. O utras constituem esco­
lhas sociais m ais com plexas, com o deixar os grandes centros urbanos para
viver em condom ínios e com unidades m ais afastadas ou tirar os filhos de
escolas públicas e colocá-los em escolas particulares cristãs.
N ão é difícil entender a lógica que prim a pela proteção. U sei-a com o
pai que ansiava proteger os filhos de tudo que, a m eu ver, lhes seria prejudi­
cial. A plico o m esm o princípio hoje com o m entor de um aluno do quarto
ano de um a escola no centro da cidade. A lgum as das pressões e dilem as que
ele enfrenta na vida diária não deveriam fazer parte do universo de um a
criança de 9 ou 10 anos de idade. P ara ele, “ afastar-se” de certas pessoas e
situações é um a questão de sobrevivência.
D evem os considerar, porém , um pequeno detalhe: nem sem pre o afas­
tam ento funciona. N a prim eira página do jo rn al de hoje, vi um a reportagem
sobre Jam al, um m enino de 14 anos da m inha cidade. A m ãe de Jam al se
54 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

desdobrava em cuidados para protegê-lo. Jam al era um garoto responsável


e toda a vizinhança gostava dele. Educado e respeitoso, evitava as drogas e
gangues que se alim entam da paz na sociedade com o o câncer se alim enta de
tecidos saudáveis. Jam al m orreu na noite de ontem dentro de casa, dentro da
proteção de seu quarto, vítim a de um a bala perdida que atravessou a parede
e o m atou enquanto ele fazia sua lição de casa.
N o m esm o jo rn al, encontrei outra reportagem escondida na terceira
página. F alava de um condom ínio cujo síndico havia sido indiciado por
abuso de m enores.
Podem os fugir, m as não tem os com o nos esconder. O ferm ento não se
refere apenas a influências externas; antes, descreve o poder do m al no ser
interior. Jesus foi claro quando disse:

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo


e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança!
Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo,
para que também o seu exterior fique limpo! (Mt 23.25-26).

A realid ad e desagradável é que a dinâm ica do m al opera de dentro


p ara fora. O coração hum ano não com eça com o um a tabula rasa, um qua­
dro em branco, lim po e puro, corrom pido por influências externas. A B íblia
ensina o oposto: fom os concebidos e nascem os em pecado (SI 51.5); nosso
co ração j á se en contra ferm entado pelo m al e o transbordam ento de co m ­
p o rtam en to s p ecam inosos em no ssa vida ev id en cia a p ro fu n d a co rru p ção
interior. O p ro fe ta Jerem ias d escrev e o co ração do h o m em com o sendo
“ ... en g an o so [...] m ais do que to d as as co isas, e d esesp erad am en te cor­
ru p to ” (Jr 17.9). O ap ó sto lo declara: “N ão h á ju sto , nem um seq u er”
(R m 3.10).
O ro m an ce clássico de W illiam G olding, The Lord of the Flies , foi
p u b lic a d o p e la p rim e ira v ez na G rã -B re ta n h a em 1954. O livro co n ta a
h istó ria de m en in o s in g leses que acabam so zin h o s n u m a ilh a d ep o is de
u m acid en te de avião. E les com eçam b em e se o rg an izam de fo rm a h ie ­
rárq u ic a ap ro p riad a, com o se esp era ria de in g leses cultos. N ão h av ia
n en h u m a p e sso a n a ilha, n en h u m a in flu ê n cia e x tern a p a ra c o rro m p er
esse n o v o m u n d o deles. A in d a assim , porém , a p rese n ç a da m ald ad e in ­
te rio r co m eça a o p erar n e ssa n o v a so cied ad e. M edo, cru eld ad e e v io lê n ­
cia irro m p em no m eio do grupo e lutas ferren h as p elo co n tro le d e sin te ­
g ram os relacio n am en to s. A h istó ria ch eg a ao ápice com um assassin ato
p a rticu la rm e n te hed io n d o .
N os prim eiros anos, o livro de G olding vendeu apenas três m il exem ­
plares. A inda hoje, apesar de ser um clássico, continua a ser considerado
F a x i n a G e r a l : A F esta d o s P ã e s A s m o s 55

controverso.29 N ossa era se apega com unhas e dentes ao m ito da bondade


essencial do hom em , m as a história de G olding apresenta um a verdade de­
sagradável que não podem os negar. Pessoas que parecem cultas, educadas e
refinadas por fora, são m otivadas por im pulsos horrendos e apenas um a
linha extrem am ente fina (ou, por vezes, linha nenhum a) os separa do com por­
tam ento dos piores elem entos da sociedade. Os indivíduos m ais excelentes,
líderes, pastores, m estres e pais, são contam inados por concupiscências que
revestem seus pensam entos, ganância que consom e seus desejos e ira que
am eaça seus relacionam entos.
A história de G olding fornece um corolário im portante: se a dinâm ica
do m al não se m ove de fora para dentro, m as de dentro p ara fora, pode-se
dizer o m esm o a respeito da graça da redenção.
Jesus afirm ou que era preciso nascer de novo para entrar no reino de
Deus. Ele quis dizer exatam ente isso. O poder de transform ação opera de
dentro para fora no novo coração, evidencia o novo nascim ento interior e
propaga a redenção po r todas as áreas da vida. N inguém é salvo sim ples­
m ente porque se expõe a ensinam entos m ais corretos, segue exem plos su­
periores ou anda com gente de igreja e acrescenta alguns cultos aos progra­
m as habituais. O indivíduo nasce de novo no reino de D eus; entra de m odo
m iraculoso num novo tipo de vida originada e m antida a partir do céu pelo
E sp írito Santo de D eus, a “ v id a etern a” . E ssa v id a é lig ad a de m odo
inseparável à pessoa e obra do próprio Cristo.

JESUS LIMPA A CASA


A ssim com o o sim ples fato de Jesus participar de um a refeição na Sêder
noite anterior à sua m orte não representa todo seu envolvim ento com a
Páscoa, tam bém seus ensinam entos acerca do ferm ento não representam
todo seu envolvim ento com a F esta dos Pães A sm os. Seu m inistério terreno
e, especialm ente, as narrativas a respeito da Paixão, abarcam os costum es e
tradições dessa festa.
Jesus celebrou os elem entos habituais da festa e o fez de m aneiras
novas e surpreendentes. Com o chefe de fam ília, supervisionou o Bedikat
HaMetz, a cerim ônia de purificação da casa. A surpresa é que a casa em
questão não foi apenas o côm odo que ele e seus discípulos ocuparam na
últim a Páscoa. .Antes, os Evangelhos relatam que ele exam inou sua habita­
ção real. N os últim os dias aqui na terra, procurou ferm ento “na casa do
Senhor” , a com eçar pelo Tem plo em Jerusalém .
N o capítulo anterior, com entei com o Jesus foi exam inado de m odo
m inucioso em seus últim os dias e com o os testes com provaram que ele era
o C ordeiro pascal sem defeito. Os testes não descrevem , porém , apenas
56 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

com o Jesus foi exam inado, m as tam bém com o ele exam inou os despenseiros
de Israel. M arcos conta com o foi: Jesus entrou em Jerusalém em triunfo e
foi direto p ara o Tem plo. Verificou o que se passava ali, m as se retirou em
seguida para B etânia, pois era tarde. N o cam inho de volta ao tem plo no dia
seguinte, viu um a figueira junto à estrada. Ao encontrar apenas folhas, am al­
diçoou a árvore por não ter frutos (M c 11).
N a m an h ã seg u in te, o e p isó d io da fig u e ira se rep e tiu n um local
in esp erad o : o p átio do T em plo, onde Jesus co n fro n to u co m ercian tes e
cam b istas que não se preocupavam com a alm a do povo de D eus, m as ape­
nas com o próprio lucro. N um paralelo claro com o exam e da figueira, a
busca de Jesus revela a m esm a realidade triste. H avia apenas folhas - as
atividades da religião - sem os frutos de vidas transform adas. Com o no
caso da figueira, Jesus agiu de acordo com essa realidade.
É p o ssív el que a purificação do Tem plo ten h a sido, na realidade, um
Bedikat HaMetzl C om o observam os, apesar de Israel ter recebido instru­
ções de M oisés para retirar todo ferm ento das casas, alguns dos costum es
da cerim ô n ia do século l s só se desenvolveram no final do período do
A ntigo T estam ento. E, no entanto, a ligação parece, no m ínim o, plausível.
A o am eaçar castigar um a Jerusalém apóstata, o p ro feta Sofonias aponta
p ara o “dia do sacrifício do S enhor” , a m orte do M essias. N a linguagem
u sad a p elo profeta, encontra-se um a referên cia que p arece indicar o cos­
tum e da festa:

No dia do sacrifício do S enhor, hei de castigar os oficiais, e os filhos do rei,


[...]. Castigarei também, naquele dia, todos aqueles que [...] enchem de violência
e engano a casa dos seus senhores. [...] Naquele tempo, esquadrinharei a
Jemsalém com lanternas e castigarei os homens que estão apegados à
borra do vinho e dizem no seu coração: O S enhor não faz bem, nem faz mal
(Sf 1.8-9,12).

Quando Jesus esquadrinhou a casa do Senhor na Jerusalém do século 1Q,


n a época habitual da cerim ônia do Bedikat HaMetz, ele voltou seu olhar
perscrutador sobre o tem plo de D eus e descobriu o ferm ento sobre o qual o
profeta havia advertido. Tom ou, então, as providências exigidas pela festa:
p u rific o u sua casa da id o latria, v arreu os tra n sg re sso re s p ara fo ra do
T em plo e, cônscio de que eram apenas a ponta do iceberg
, desafiou os che­
fes, os principais sacerdotes e m estres da lei que perm itiam as operações
desse com ércio ganancioso. “N ão está escrito: A m inha casa será cham ada
casa de oração para todas as nações? V ós, porém , a tendes transform ado em
covil de salteadores” (M c 11.17).
F a x i n a G e r a l : A F esta d o s P ã e s A s mos 57

A LIMPEZA DA CASA HOJE


A instrução p ara vasculhar nossa “casa” , quer inclua os pensam entos,
os co m p o rtam en to s m orais, as fam ílias ou as igrejas, parece um a m aneira
apropriada de honrar essa festa. Q uando fazem os isso, buscam os a santidade
e, ao m esm o tem po, salvaguardam os a liberdade da redenção em Cristo,
u m a red en ção caracterizad a de m odo claro p ela au sên cia de ferm ento.
Jesus não perm itirá que m inim izem os a profundidade de nossa depravação
n em que neg u em os a influência ferm en tad o ra do pecado sobre nossos
relacionam entos. A ntes, ele nos conclam a a exam inar nossa vida de m odo
m inucioso e profundo.
C onsidere as seguintes palavras do Serm ão do M onte: “P orque vos
digo que, se a vossa ju stiç a não exceder em m uito a dos escribas e fariseus,
jam a is entrareis no reino dos céus” (M t 5.20). Seu bisturi corta fundo: há
m ais coisas envolvidas no hom icídio do que se vê na superfície; a ira e o
ju lg am en to h ip ó crita são evidências do m esm o pecado. A lâm ina brilha
o u tra vez: h á m ais coisas en v o lv id as no ad u ltério do que tra ir a esposa;
o h áb ito de tan to s ho m en s de m ed ir u m a m u lh e r de alto a b aixo com
olh o s ch eio s de d esejo sensual “ só p o r b rin c a d e ira ” , co n stitu i um p e c a ­
do ig u alm en te sério e corrom pe do m esm o m odo o am o r que deve ser
p u ro , fiel e íntegro.
P or que Jesus nos faz passar sem anestesia por essa cirurgia da alm a?
Seu exam e visa a revelar o ferm ento em nossa vida. Suas palavras não são
apenas conselhos que podem os “ aceitar ou rejeitar” . R efletem seu direito
com o rei. Em seu reino, não há lugar para o ferm ento. Seu exam e é exigente.

Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti;


pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o
teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te faz tropeçar,
corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus mem­
bros, e não vá todo o teu corpo para o inferno (Mt 5.29-30).

Por m ais dolorosa que seja um a autoavaliação, é de im portância crucial.


Perm ita-m e ilustrar esse fato com um a experiência pessoal.

Era primeiro de dezembro de 1997. Senti um calafrio percor­


rer a espinha ao ouvir as palavras do médico: “John, você tem
leucemia”. Seguiu-se uma pausa para eu assimilar o que ele havia
dito. Não demorou muito tempo. Conheço essa doença horrível de
perto. Por mais inacreditável, ilógico e estatisticamente improvável
quefosse, minha esposa querida estava moirendo do mesmo mal num
quarto alguns andares acima do consultório onde eu me encontrava.
58 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

Fazia quase um ano que estava doente e só teve mais dois meses de
vida. As palavras seguintes do médico me deixaram estarrecido:
“Vamos aplicar uma dose extremamente alta de quimioterapia; va­
mos colocá-lo tão perto da morte que você verá a beirada. O trata­
mento será difícil, talvez até brutal, mas é o que precisamos fazer
para salvar a sua vida ”.
Apesar das estatísticas desfavoráveis, as opções eram poucas
ou inexistentes. A quimioterapia começou no dia seguinte. No pri­
meiro mês, recebi uma infusão diária de dois agentes quimioterápicos
que mefizeram perder todo o cabelo no décimo primeiro dia, as partes
mais calejadas das mãos e dos pés cerca de uma semana depois e
quase vinte quilos em um mês. No resultado mais baixo, a contagem
das células brancas, anotada todo dia num quadro no meu quarto
para que eu pudesse acompanhar o progresso do tratamento, chegou
a menos de cinquenta (o normal é três mil); as plaquetas (fator de
coagulação) baixaram para menos de 1% do nonnal. O médico não
havia mentido: de meu leito, podia ver a morte e até sentir seu cheiro.
Ainda que pequeno, o progressofoi real. Os blastácitos (células
sanguíneas imaturas) produzidos pela medida cancerosa diminuíram
aos poucos com o efeito da quimioterapia.
Leucemia mieloide aguda é um câncer da medula, uma doen­
ça sistêmica. Não se limita a um tumor sólido que pode ser extirpado
ou irradiado. A fim de acabar com a doença, o tratamento também
precisa ser sistêmico; é necessário matar todas as células
cancerígenas. Depois de algumas semanas de recuperação, come­
çou a segunda rodada de mais trinta dias com duas drogas
quimioterápicas novas. O tratamento trouxe mais efeitos colaterais,
inclusive danos (felizmente apenas temporários) ao sistema nervoso
que se manifestaram no exercício diário de escrita. Em pouco tempo,
minha assinatura se parecia com a letra de uma criança pequena.
A perda de peso, quase 32 quilos no total, foi inevitável, uma vez que
a quimioterapia queimou todas as células epiteliais (o tecido que
recobre a boca e a garganta), impedindo-me de ingerir alimento só­
lido. Mastigar e engolir eram tarefas impossíveis e tive de receber
nutrição parenteral por mais de um mês.
O tratamento, contudo, salvou minha vida. Recebi alta em 25
de fevereiro de 1998 e nunca mais precisei voltar. Ouase um mês
antes, em 31 de janeiro de 1998, minha esposa também havia deixa­
do o hospital, mas para descansar em Cristo.

A lição é inequívoca: aquilo que acontece do lado de dentro é perigoso.


A leucem ia pode matar, m as Jesus afirm ou que o ferm ento canceroso do cora­
ção hum ano idólatra é ainda m ais letal, pois certamente term ina em morte.
F a xi na G e r a l : A F esta d o s P ã e s A s m o s 59

O relato citado visa dem onstrar outra realidade: o tratam ento para o
ferm ento, seja do câncer ou do pecado, é radical. A quim ioterapia não foi
nem um pouco divertida, m as pelo m enos seus efeitos podiam ser am eniza­
dos com bons cuidados m édicos e rem édios potentes. “A rrancar” o olho e
“cortar” a m ão não são soluções para os covardes e não há m edicam entos
paliativos para tom á-las m ais fáceis.

AS NOVAS SÃO MESMO BOAS?


A prim eira vista, a observância dos Pães A sm os parece qualquer coisa,
m enos u m a Festa. A m inuciosa avaliação de si m esm o e a renúncia radical
das quais Jesus falou não p arecem boas-novas. P arecem m ais um trabalho
exaustivo, agonizante e infindável da alm a. Trazem à m ente as roupas de
pelo e a autoflagelação dos penitentes da Idade M édia, a m ortificação da
cam e para rev elar e tratar de pecados secretos.
D e fato, a F esta dos Pães A sm os não celebraria boas-novas se não
fosse p or um detalhe: o sepultamento de Jesus.
Ele ocorreu no final do dia, depois que José de A rim ateia tirou o corpo
da cm z, e o colocou num túm ulo novo num horário significativo. N o século
1°., o pôr-do-sol indicava p ara os israelitas o início de um novo dia. Logo, o
corpo de Jesus não foi sepultado na Páscoa, m as no início da Festa dos Pães
A sm os, em cum prim ento específico da prescrição: “Ao prim eiro dia, tirareis
o ferm ento das vossas casas” (Êx 12.15).
Trata-se de um fato de im portância significativa. Jesus não apenas guar­
dou a festa com o ju d eu do século I o. Jesus se tornouo ferm ento e seu sepul­
tam ento acarretou a purificação de nossa vida. A nunciou que nós
não precisa­
m os varrer o ferm ento do pecado e do m al de nossa vida; Cristo
cum pre essa
tarefa. Paulo declara: “A quele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por
nós; para que, nele, fôssem os feitos justiça de D eus” (2Co 5.21).
E m term os doutrinários, Jesus, o C ordeiro pascal, m orreu com o substi­
tuto para que pudéssem os ser considerados justificadospela graça, m ediante
a fé. Jesus tam bém foi sepultado em nosso lugar e levou consigo para o
túm ulo o ferm ento de nosso pecado a fim de que pudéssem os ser declarados
santificados nele.
Santificação é um term o bíblico im portante, entendido, em geral, como
um processo que se estende por toda a vida e po r m eio do qual o Espírito
Santo nos separa do pecado. A s E scrituras nos cham am a participar desse
processo p ela autodisciplina que o E spírito nos capacita p ara exercitar.
C on sid ere as palavras do apóstolo:

Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição,


impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria...
60 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

nessas mesmas coisas andastes vós também, noutro tempo, quando


vivíeis nelas. Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto:
ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso
falar (Cl 3.5-8).

M as com o podem os fazer isso? Com o nos livrar das concupiscências,


dos d e sejo s m alig n o s, da av a re z a? L e m b ro -m e de ler o p ro g ra m a de
B en jam in F ran k lin p ara o “ aprim oram ento do caráter” . D e acordo com
F ranklin, se id en tificarm os um a falha de caráter de cada v ez (p. ex., p re ­
guiça, procrastinação ou im paciência) e nos concentrarm os nela com grande
determ in ação e au to d iscip lin a, serem os capazes de superá-la de m odo
gradativo e, em seguida, tratar de outra falha. O problem a é que o m eu
d iagnóstico de “falhas de caráter” , a força de vontade e a autodisciplina
n ecessárias p ara extirpá-las se encontram p rofundam ente alquebrados e
ferm en tad o s pelo pecado. N ós, seres hum anos, nem sequer conhecem os
as dim ensões de n o ssa p ecam inosidade e, po r certo, não som os capazes de
nos consertar.
P o r trás do cham ado para o processo de santificação, porém , por trás
do autocontrole provido pelo Espírito, encontra-se um a verdade extraordi­
nária: se crem os em C risto Jesu s,yd somos santos, já estam os santificados,
pois fomos sepultados com Cristo pela fé no poder de D eus (Cl 2.12).
O teólogo John M urray cham a essa realidade de “santificação defini­
tiva” e sugere: “N essa questão, o indicativo se encontra na base do im pera­
tivo e nossa fé verdadeira é indispensável para o cum prim ento do dever” .30
A linguagem de M urray é caracterizada pela term inologia gram atical, m as o
ponto central de seu argum ento é a m ais pura graça: j á som os santificados,
pois, pela fé, j á m orrem os e fom os sepultados com Cristo. Essa realidade se
to m a o alicerce da nova vida de obediência que deve vir e, com certeza, virá
na sequência.
T rata-se de um a consideração bastante esclarecedora, pois nos perm i­
te entender algum as passagens que não se encaixam no conceito habitual de
santificação. U m a dessas passagens é IC oríntios 5.7.
Enquanto n a segunda parte do versículo Paulo cham a Cristo de C or­
deiro pascal, na prim eira parte ele fala do dia e da Festa seguinte: “Lançai
fora o velho ferm ento, para que sejais nova m assa” . As palavras do apóstolo
lem bram o conselho de Franklin para o aperfeiçoam ento próprio po r m eio
da autodisciplina, não? M as a frase não term ina aí. Paulo continua: “Lançai
fora o velho ferm ento, para que sejais nova m assa, como sois, defato, sem
fermento ” . A queles que se uniram a C risto pela fé em sua m orte com o o
C ordeiro, tam bém estão unidos a ele em seu sepultam ento com o o ferm en­
to. Em Cristo, seu pecado foi elim inado, o ferm ento foi varrido para fora.
F a x i n a G e r a l : A F es ta d o s P ã e s A s m o s 61

E is o cern e do q u estio n am en to ético em R om anos 6.2-3,11. N o


versículo 2, Paulo pergunta: “ C om o viverem os ainda no pecado, nós os que
para ele m orrem os?” Em seguida, unindo as duas dim ensões da santificação
em um a só, afirm a tanto o indicativo quanto o im perativo: em C risto, som os
purificados em caráter definitivo e devem os viver, na prática, de m odo
coerente com essa realidade. O versículo 11 traz a conclusão lógica: “A ssim
tam bém vós considerai-vos mortos para o pecado, m as vivos para D eus,
em C risto Jesu s” . A qui, o apóstolo em prega um term o que sugere um
processo m ental m inucioso e deliberado. Em essência, desenvolve a seguinte
linha de raciocínio: vocês estão m ortos para o pecado, pois m orreram com
C risto. A dem ais, foram sepultados com ele e rem overam o ferm ento do
pecado de um a vez po r todas. Estão lim pos. A gora vivam de acordo com
esse fato!
A F esta dos Pães A sm os proclam ava um elem ento crucial das boas-
novas de D eus, m as apontava adiante para o M essias e p ara um a dim ensão
da redenção outrora desconhecida. O Israel do A ntigo Testam ento precisava
ser lem brado, p o r m eio da rem oção anual do ferm ento, que havia sido
libertado do Egito. A F esta lhes dava um a pequena am ostra das boas-novas,
m as durava pouco e era fácil de esquecer, pois constituía apenas um a som bra
da liberdade duradoura que se m ostraria tão intangível, a liberdade do poder
do m al no ser interior. M esm o quando D eus deu ao seu povo a nova terra de
C anaã e exigiu apenas que rem ovessem dela todos os ídolos e idólatras,
Israel ficou aquém do ideal. Juízes 1.28 resum e a situação triste: “ Q uando,
porém , Israel se tom ou m ais forte, sujeitou os cananeus a trabalhos forçados
e não os expulsou de todo” . U m a vez que o ferm ento perm aneceu dentro da
terra, Israel nunca foi verdadeiram ente livre. P or isso, D eus anunciou: “N ão
os expulsarei de diante de vós; antes, vos serão po r adversários, e os seus
deuses vos serão laços” (Jz 2.3). Israel chorou em alta voz.
A realidade da santificação não se concretizaria po r m eio dos esforços
de um povo, m esm o que ele fosse conduzido pelos sacerdotes e profetas e
perturbado p ela p rópria consciência. A santificação só se cum priria por
m eio de C risto Jesus, com o Paulo expressa de m aneira sim ples e direta:
C risto Jesus é nossa “ ... justiça, e santificação, e redenção” (IC o 1.30).
São novas radicais, revolucionárias, p ois já são v erd ad eiras, ap esar
de ainda não term os conseguido rem over todo o ferm ento do pecado de nossa
vida aqui n a terra. M esm o que as características com pulsivas do alcoolism o
ainda o aflijam todos os dias; m esm o que um tem peram ento colérico ainda o
envergonhe e assuste sua fam ília; m esm o que você ainda lute contra o pecado
destrutivo da fofoca, apesar de ter prom etido a si m esm o e a D eus que
controlaria a língua, se crê, de fato, em Cristo, você já é santo.
62 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

A lguém pode im aginar que fui longe dem ais. “Você acabou com a
obediência. A nulou a im portância do arrependim ento e calou a ordem para
abandonar o pecado. A dotou a licenciosidade e desprezou o cham ado de
Jesus p ara a abnegação. D estruiu a doutrina da santificação que afirm a
estar ensinando!”
N ão fiz nada disso. Todas as doutrinas m encionadas se referem a
realidades bíblicas im portantes e cada um a delas é essencial para a vida de
fé. M as nem a qualidade de nosso arrependim ento nem a qualidade de nossa
obediência determinam nossa santidade. A ntes, com o um riacho que flui da
n ascen te p a ra espalhar v id a pelo deserto estéril, o arrependim ento e a
obediência fluem p ara dentro de nossa vida som ente po r m eio da santidade
que já nos pertence em C risto, pela graça, mediante a fé.31
A v id a nova que faria o deserto vicejar m ostraria sua prim eira flor já
no dia seguinte.

Perguntas para estudo e discussão


1. P rocure um hino ou cântico cristão que celebre o sepultamento
de
Jesus (e não apenas focalize a ressurreição).
Se possível, aprenda-o e
cante-o para o Senhor. Se não encontrar um hino com esse teor, tente escrever
u m verso celebrando a verdade do sepultam ento de C risto e adapte-o a um a
m elodia conhecida.

2. E xplique a tensão entre o sepultam ento de Jesus e a purificação


definitiva do povo de D eus e as várias passagens que nos instruem a deixar
de lado as obras do pecado e realizar as obras da fé.

3. A o estudar a igreja de hoje (inclusive a sua


igreja), você vê frutos
ou apenas folhas? O que se deve fazer a esse respeito?

4. U m am igo m eu e a esposa dele dedicam a últim a sem ana de cada


ano a u m a avaliação séria da p rópria vida. Juntos, exam inam o estado de
saúde da fam ília, analisam a saúde física, conversam sobre dieta, exercício
e preocupações que sentem um pelo outro com o passar do tem po. A nalisam ,
tam bém , a saúde financeira e a m ordom ia. E xam inam evidências da fé em
su a v id a e n a v id a dos filh o s. C o n v e rsa m so b re a saú d e do c a sa m en to .
A prática anual m udou o m odo com o vivem e, no lugar de providências
aleatórias, acrescentou um senso de propósito. Se você já fez algo parecido,
com partilhe algum as de suas descobertas com o grupo ou o com panheiro
de estudo. Caso nunca tenha feito essa experiência, com ece agora. (N ão há
necessidade de esperar até a últim a sem ana do ano!)
4
D espertar a A lva
A Festa das Primícias
Levítico 23.9-14

E u o bservava m eus netos, na época com 7 e 9 anos de idade, abrirem


os presentes de N atal. Pode-se dizer que, po r pouco, não era um exercício
de violência desenfreada. C ada presente, em brulhado com tanto am or e
cuidado p ela m ãe, tia ou avó, era libertado de seus em brulhos coloridos em
segundos, sem nenhum a preocupação em guardar o papel para ser reutilizado
(m inha m ãe teria ficado estarrecida). C om olhos arregalados e sorrisos
igualm ente im ensos, cada “ obrigado” sincero, porém apressado, m al havia
escapado de seus lábios e os dois m eninos já sentiam a atração m agnética
do próxim o presente sobrepujar seus sentidos. Forças interiores os im peliam
a rasgar o pacote e ver o que havia dentro.
O s filhos de Israel abriam as dádivas festivas de D eus no m esm o ritm o
de staccato. C elebravam a F esta da P áscoa no décim o quarto dia de N isã.
O décim o quinto dia era a F esta dos Pães A sm os. Q uase sem fôlego depois
das cerim ônias, com a barriga ainda cheia do banquete farto e a m ente e o
coração atordoados com tantas verdades densas, continuavam a festejar na
som bra da redenção e esperança que as duas prim eiras festas projetavam
quando o décim o sexto dia de N isã chegava de m odo repentino. E ra o dia
das Prim ícias, a terceira das festas de prim avera.

OS REQUISITOS DA FESTA
A F esta das Prim ícias não foi celebrada no E gito, nem tam pouco
durante a jo rn a d a de Israel pelo deserto. N ão faria sentido. N o deserto,
Israel era um povo nôm ade que não plantava nem colhia, de m odo que não
h a v ia p rim íc ias p a ra ceifar. A n te s, Israel v iv ia p e la m ais p u ra g raça
dem onstrada na provisão divina de m aná, água e codom izes. A F esta das
Prim ícias só com eçou quando Israel entrou na terra de Canaã, o m aná cessou
e foi substituído pelas dádivas rotineiras, porém igualm ente graciosas, do
am or de D eus que cresciam com fartura na terra de leite e m el.
Com o a Páscoa e a Festa dos Pães Asm os, a Festa das Prim ícias possuía
dim ensões pessoais e com unitárias, não m uito diferente das com em orações
64 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

de hoje. A celebração do D ia de A ção de G raças nos E stados U nidos, por


exem plo, norm alm ente gira em tom o da fam ília e envolve um a refeição
digna da realeza. P em , presunto ou outra cam e assada agraciam a m esa da
m aioria das pessoas que conheço. Sei de um a fam ília que usa esse feriado
para reunir todos os parentes, m ais de cem pessoas, um a com em oração fa­
m iliar m ais num erosa do que m uitas igrejas! Para outros, a com em oração
gira em to m o dos jo g o s de futebol am ericano. M uitos outros cristãos não
conseguiriam im aginar o D ia de A ção de G raças sem o culto na igreja. Para
eles, não se trata apenas de um feriado nacional; é um m om ento de adora­
ção e orações em conjunto.
Com o o D ia de A ção de G raças nos Estados U nidos, as celebrações
das Prim ícias no antigo Israel variavam de um a fam ília para outra. É possí­
vel que algum as fam ílias se reunissem na casa dos avós, enquanto outras
iam à casa do filho m ais velho. A lguns faziam parte de fam ílias grandes e
provavelm ente lidavam com dram as fam iliares sem elhantes aos de nossos
dias. O utros faziam parte de fam ílias m enores, m ais íntim as e tranquilas.
Todas as celebrações, porém , eram m oldadas pelo caráter da festa com o
representação da redenção. O livram ento do povo do Egito pelo sangue do
C ordeiro havia lhes perm itido recom eçar e a Festa dos Pães A sm os ressalta­
va o rom pim ento com o passado. Essas representações da redenção im peli­
am Israel em direção à nova vida, um a vida cujo tipo
se encontrava nas
prim ícias da nova terra e que sem pre ansiaria po r algo m ais.

UMA FESTA DE COLHEITA


A festa se encaixa de m odo natural no calendário agrícola do O riente
M édio e sua prescrição coincide com o tem po de fartura das bênçãos da
colheita na terra que D eus lhes dera. A Páscoa, no entanto, havia reiniciado
o calendário, de m odo que a nova vida era definida pela redenção, e não
p ela agricu ltu ra. E ra apropriado, portanto, que a festa fosse celebrada
inicialm ente no Tabernáculo e, em seguida, no Tem plo de Salom ão, um a
vez concluídas as obras do edifício m agnífico.
N os prim eiros dias de Israel na terra de C anaã, era um a com em oração
sim ples. Q uando as chuvas de prim avera regavam os cam pos e o sol do
M editerrâneo aquecia as plantações, a cevada e o linho com eçavam a m os­
trar os prim eiros sinais de am adurecim ento na época correspondente ao sé­
tim o m ês do calendário agrícola. Q uando os cam pos, ainda um m ar de ver­
de profundo, com eçavam a m ostrar as prim eiras ondas douradas, o agricul­
to r israelita ceifava o prim eiro feixe de cereal m aduro de sua colheita e o
levava ao sacerdote. O sacerdote, por sua vez, o m ovia diante do Senhor no
dia depois do sábado em sinal de gratidão e louvor pela dádiva bondosa de
D e s p e r t a r a A lva - A F e s t a d a s P r i m í c i a s 65

D eus. E ssa oferta m o v id a era acom panhada de outro ho lo cau sto de um


cordeiro de um ano, sem defeito, bem com o de um a oferta de m anjares,
constituída de 4,5 litros de flor de farinha m isturados com azeite e um a
oferta de libação de um litro de vinho.32
E m louvor à graça m aravilhosa de D eus, D euteronôm io 26.11 descre­
ve o que acontecia em seguida. E m term os sim ples, Israel festejava! O povo
e os levitas, e até m esm o os estrangeiros em seu m eio se alegravam “por
todo b em ” que D eus havia concedido. C om iam até se fartar e celebravam
com o coração repleto de alegria e gratidão.
C om o p assar dos séculos, os costum es da Festa das Prim ícias se tor­
naram m ais estruturados, especialm ente aqueles que se referiam à celebra­
ção em conjunto no Tem plo. A lffed E dersheim sugere que o século 1Qtrou­
xe consigo o desenvolvim ento de um a cerim ônia elaborada p ara “iniciar” a
co lh e ita com g ran d e p om pa. D ep o is de d e fin ir com a lg u n s dias de a n te ­
ced ên cia a parte exata do terreno de onde o feixe seria cortado, o Sinédrio
(o c o n selh o que governava Israel na época) enviava três hom ens ao local,
cada um com um a foice e um cesto, pouco antes do pôr-do-sol do décim o
quinto dia de Nisã.

Primeiro, faziam as mesmas perguntas três vezes a qualquer


pessoa que estivesse por perto: “O sol já se pôs?” “Com esta foice?”
“Neste cesto?” “Neste sábado?” e, por fim, “Devo colher?” Depois
de receberem uma resposta afirmativa para cada pergunta, em cada
repetição, ceifavam um efa, dez ômeres ou três seás de cevada, o
equivalente a pouco menos de 30 litros no nosso sistema de medida.33

OLHAR ADIANTE
Tanto as tradições que se form aram ao longo das décadas quanto o
en volvim ento do Sinédrio e do sacerdócio no Tem plo m ostram que as
Prim ícias não eram apenas um a celebração de ação de graças. A pesar de
Israel ser, de fato, agradecido pelas safras abundantes que haviam crescido
nos cam pos ao longo dos m eses, a F esta das Prim ícias possuía um sentido
espiritual. Israel apresentava feixes de cereais novos
, um a oferta que trazia
em seu cerne sinais de esperança de um a nova vida.
Esse m odo de abordar a festa da colheita com o olhar voltado para o
futuro exigia fé, um m odo de encarar a vida que precisava não apenas dos
olhos, m as tam bém do coração para enxergar. C ontrastava nitidam ente com
as superstições repletas de m edo que caracterizavam as nações vizinhas.
E m Canaã, os adoradores de Baal realizavam negociações angustiantes com
seus deuses e, n a tentativa de persuadi-los, cortavam -se até sangrar (com o
fizeram os sacerdotes de B aal no m onte C arm elo) ou queim avam os filhos
66 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

com o sacrifícios p ara garantir prosperidade (com o no hediondo culto a


M oloque). A cada ano, o sucesso religioso era m edido pelo núm ero de sacas
de cereal p o r alqueire e o insucesso, pelo núm ero de m ortes p o r fam ília.
Israel não precisava negociar com D eus para garantir que ele cuidaria
de suas necessidades diárias e anuais; ele havia prom etido fazê-lo com o
dem onstração de amor. A cada dia, os israelitas reconheciam , agradecidos,
a provisão generosa, davam graças ao Senhor e desfrutavam a vida em co­
m unhão com ele. E, no entanto, m esm o na terra de leite e m el, nem tudo
corria bem , com o ficava evidente para os de coração m ais sensível. M uitos
haviam se tom ado escravos e se encontravam em pobrecidos pelas circuns­
tâncias da vida. O estrangeiro órfão viúva
,o ea que viviam em Israel eram
não apenas pobres, m as tam bém indefesos e vulneráveis ao abuso dos
inescrupulosos. D eus já havia revelado seu caráter; sem som bra de dúvida,
se levantaria para defendê-los (D t 10.17-18) e esperava que seu povo fizes­
se o m esm o.
A fim de estruturar e to m ar visível essa prescrição de m isericórdia,
D eus entreteceu na vida com unitária de Israel várias práticas que refletiam
o tem a da Festa das Prim ícias. D euteronôm io 24.17ss. define as leis que
governavam a respiga , prática central no livro bíblico de Rute. Proprietários
de terras com o B oaz deviam abster-se propositadam ente de ceifar os cantos
dos cam pos e p erm itir que os pobres, com o N oem i e R ute, colhessem o
alim ento necessário para sobreviver. D euteronôm io 26 associa as Prim ícias
a outra expressão do m esm o espírito de m isericórdia, o dízimo.
U m décim o
de to d a a fartura com a qual D eus havia abençoado Israel devia ser entregue
ao sacerdote no tem plo.
Q u er as P rim ícias fossem um a form a de dízim o ou o dízim o e as
resp ig as fossem form as da celebração das P rim ícias, fica evidente que os
três co nstituíam m anifestações do m esm o coração repleto de fé. O gesto
de d ev o lv er u m a porção a D eus v isav a dar form a clara ao desejo de Israel
de ter m isericó rd ia e ju stiça . Os três eram dádivas ju b ilo sas que ex p ressa­
vam o v islu m b re da fé, ofertas que rev elav am o anseio da alm a p o r um a
n o v a ex istên cia onde o am or p o r D eus e p o r outros substituiria o egoísm o
com o m odo de vida.
C om o p assar do tem po, contudo, o pov o esqueceu da p rescrição de
m isericó rd ia e as ofertas que D eus h av ia instruído Israel a ap resen tar p er­
deram o sentido. A s p ráticas associadas ao dízim o refletiam o coração do
povo: à m edida que Israel esfriou, passo u a apresentar o dízim o de m odo
m ecânico, a ressentir-se dele ou a ignorá-lo de todo. O p ro feta M alaquias
revelou a corrupção do coração de Israel quando apontou para os depósitos
v azios do tem plo. D e acordo com o p rofeta, ao deixarem de entregar o
D e s p e r t a r a A lva - A F e s t a d a s P r i m í c i a s 67

dízim o oprim em a viúva e o órfão, e torcem o direito do estrangeiro” e


roubam de Deus aquilo que lhe é devido (M l 3.5,8-10). Quando os líderes
espirituais aum entaram a pressão para o povo contribuir, fixaram -se no modo
mais do que no motivo. Vemos, portanto, os fariseus conservadores do século 1Q
entregarem o dízim o das ervas e tem peros, "... da hortelã, do endro e do
com inho” , m as se m ostrarem hipócritas ao desconsiderar as questões mais
im portantes da lei, a saber, “ ... a justiça, a m isericórdia e a fé” (M t 23.23).
Infelizm ente, o espírito de m isericórdia que olhava para o futuro, o
caráter representativo do dízim o, tam bém se perdeu em diversas igrejas de
hoje. Para m uitos, o dízim o é o m étodo prescrito po r D eus p ara determ inar
a porcentagem que se deve dar à igreja e a instituições beneficentes. Pior
ainda, é o fato de que m uitos norte-am ericanos foram seduzidos a im aginar
que, ao entregarem 10% a D eus, garantem suas bênçãos sobre os outros
90% . (O utro dia, vi um adesivo num carro que expressava perfeitam ente
essa ideia: “ Se 10% é suficiente para D eus, deveria ser suficiente p ara o
Im posto de R enda” .) Os púlpitos evangélicos ressoam com o “ evangelho da
prosperidade” e instituições assistenciais do país todo capitalizam o concei­
to ao sugerir (m esm o que im plicitam ente) que contribuir é um m odo de
enriquecer. Os incentivos fiscais para doações a instituições assistenciais e
a ideia de ter um prédio com seu nom e tendem a alim entar o egoísm o que o
dízim o visava corrigir.34
A m otivação, porém , não é o único problem a. A riqueza que guarda­
mos tam bém pode ser perigosa. Os bens m ateriais não possuem um caráter
inerentem ente m au. Entendidos de m aneira correta, são um a dádiva copiosa
da graça de Deus que perm ite às pessoas desfrutar a criação bo a de D eus e
dem onstrar generosidade de um m odo que anseia ver a ju stiça fluir para
todos.35 A s riquezas, porém , contam inam o coração. M oldado pelo egoísm o,
o d in h eiro se tra n sfo rm a em p o d e r e po d e irro m p e r em m an ifestaçõ es
h e d io n d a s de opressão. A pobreza intensa escraviza continentes inteiros
enquanto os E stados U nidos, repletos de recursos, os consom em com vora­
cidade e com a ideia de que têm direito a tudo que adquirem . Desse m odo, os
ricos negam a outros recursos e oportunidades que só eles têm acesso m ais
prontam ente. E a m aioria dos norte-am ericanos nem sequer pensa nisso.
N um m undo desvirtuado pelo pecado, onde governos e econom ias há
m uito servem ao poder do m al, D eus opera para redim ir. O Senhor sem pre
se im portou profundam ente com os efeitos do pecado sobre a criação com o
um todo. A rede de benevolência que ele estabeleceu, com eçando com as
Prim ícias, m as incluindo o dízim o e a respiga, foi um antegosto, um bocado
experim entado na cozinha, da vida copiosa que estava po r vir. E D eus que­
ria que seu povo ansiasse po r ela.
68 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

PRIMÍCIAS E REDENÇÃO
C om o as outras festas, as Prim ícias era um tipo ( tupos
) da redenção
m ais p len a que v iria com C risto. M ais u m a vez, a data é significativa.
L em bre-se do calendário: a Páscoa term inava em 14 de N isã e a F esta dos
Pães A sm os era no dia 15 de N isã. C risto foi oferecido com o C ordeiro
pascal n a P áscoa e sepultado na véspera da Festa dos Pães A sm os.
A noite do décim o quinto dia e o décim o sexto dia de N isã davam
início à F esta das Prim ícias. H oje cham am os esse dia de Páscoa, o dia no
qual Jesus ressuscitou de entre os m ortos.
A data da ressurreição de Jesus não é acidental. N ão foi por acaso que
ocorreu num a das festas judaicas (com o o m eu aniversário, que é no m esm o
dia da F esta do Vinho de C harleston, C arolina do Sul, um fato interessante,
porém irrelevante). N ão, a ressurreição de Jesus, o M essias, é significativa
pelo fato de Deus tê-la planejado de acordo com o calendário com em orativo
de Israel. D eus estruturou a redenção não apenas para que Jesus perm ane­
cesse n a sepultura até o terceiro dia (conform e exigia o “ sinal de Jonas” em
M t 12.39-41), m as especialm ente para que Jesus irrom pesse do túm ulo na
Festa das Primícias. A festa define, portanto, o significado da ressurreição:
não foi apenas o m ilagre da vida depois da m orte, m as tam bém o início de
um novo mundo depois da morte do antigo.
A B íblia explica o m odo e o m otivo pelos quais essa realidade consti­
tui boas-novas.

Primícias da sepultura
E m p rim eiro lugar, sua ressu rreição foi as p rim ícias da sep u ltu ra
física. C om lógica irrefutável, o apóstolo Paulo reflete sobre a ressurreição
de C risto e conclui: “E, se C risto não ressu scito u , é v ã a v o ssa fé, e ainda
perm aneceis nos vossos pecados [...] M as, de fato, C risto ressuscitou dentre
os m o rto s, sen d o ele as p rim íc ias dos qu e d o rm e m ” (IC o 15.17-20).
T ra ta -se de u m a n o tíc ia m ara v ilh o sa p a ra to d o s nós que v iv em o s na
frag ilid ad e da carne hum ana. H á m uito, a m orte m arca no ssa v id a e nosso
m undo e, u m dia, todos nós terem os de en carar o fim de no ssa ex istên cia
física. E, p io r ainda, enquanto cam inham os p a ra a sepultura, derram am os
lágrim as de tristeza p ela p erd a de entes queridos que a m orte to m a de
nós. A m o rte dói! E se a m orte é o resultado final de seg u ir a D eus, a fé
não p a ssa de p erd a de tem po.
Paulo declara, contudo, que esse não é ofim. A m orte era o resultado
ju d icial do pecado (G n 2.17; IC o 15.56); m as em Cristo, o pecado foi ven­
cido e, com ele, a m orte. Por isso, Paulo exultou: “ Tragada foi a m orte pela
vitória” (IC o 15.54).
D e s p e r t a r a A lva - A F e s t a d a s P r i m í c i a s 69

A ressurreição de C risto foi as prim ícias da ressurreição do corpo.


M oveu os prim eiros feixes de um a nova vida e abriu um cam inho além da
m orte p ara aqueles que m orrem no Senhor. U m a colheita ainda m ais abun­
dante virá quando as sepulturas forem abertas. A igreja ao longo das eras
confessa seu anseio num a das frases do Credo A postólico: “ C reio na ressur­
reição do corpo” .

Gretchen sofria de esclerose lateral amiotrófica, a “doença


de Lou Gehrig”, uma enfermidade terrível de declínio lento.
Gretchen morreu aos poucos: dezoito meses entre o diagnóstico e o
fim. Sua vida ativa e vibrante se transformou de modo gradual,
porém inexorável, em dor, dificuldade de andar e impossibilidade
de se movimentar. Por fim, confinada ao seu leito, fo i destituída
de todos os sinais de vida, exceto uma consciência intensa: esta­
va cruelmente consciente de tudo que se passava. Em meio a esse
processo, seu marido Lee a amou com ternura e cuidou dela com
carinho exemplar.
Sua morte provocou uma mistura estranha de emoções na co­
munidade da fé. Sorrimos e rimos quando nos lembramos do seu
modo de viver, sempre cheia de alegria. Entristecemo-nos e lamenta­
mos o modo como sua vida chegou ao fim: ela tão frágil e nós tão
impotentes para deter o avanço terrível da doença. No funeral, pro­
cessamos nossa tristeza com lágrimas, apegando-nos firmemente à
esperança da nossafé. Ao proferirmos o Credo com vigor e volume,
declaramos nossa crença na “ressurreição do corpo e na vida eter­
na Tivemos a sensação de que, pouco além do som audível de nos­
sas vozes no norte do Texas, um coro de vozes suaves ecoou nossas
palavras. Eram as vozes de nossos avós, de Calvino e Lutero, de
Agostinho e Anselmo, de Paulo e Pedro, de todos para os quais a
ressurreição de Cristo era a garantia de outra ressurreição.
Quando o culto fúnebre terminou, várias pessoas ficaram no
cemitério, se abraçando, chorando, dividindo a dor umas com as
outras. Passamos tanto tempo em volta do túmido que o agentefune­
rário chamou Lee em voz baixa, perguntou se poderiam baixar o
caixão e acrescentou, quase em tom de desculpas: “Vocês podem
ficar, se qiúserem ver”. As pessoas que estavam por perto ficaram
chocadas com a ideia de ver o caixão ser baixado à cova. Os costu­
mes dos norte-americanos em relação afunerais mudaram drastica­
mente; a realidade austera da cova parece não combinar com a gra­
ma artificial que esconde os montes de terra ou com o caixão de
madeira nobreforrado de seda que parece quase confortável, selado
hermeticamente numa tentativa inútil de conter a decomposição que,
cedo ou tarde, penetrará suas paredes.
70 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

O marido de Gretchen, porém, não estava preocupado com a


etiquetafúnebre; era movido pelafé. Sem hesitar, respondeu ao agente
funerário em voz baixa, porém firme: “Vamosficar”. A multidão si­
lenciosa se aproximou do retângulo perfeito e observou em silêncio
enquanto o corpo de Gretchen era baixado ao solo. Alguns punha­
dos de terra quebraram o silêncio ao irem de encontro à tampa do
caixão. Lee pigarreou, enxugou as lágrimas, me abraçou e disse em
voz firme e alta o suficiente para todos ouvirem: “Agora, vamos to­
mar café ”.
Uma das senhoras presentes suspirou, espantada com o que, a
seu ver, foi uma expressão de insensibilidade. Para mim, porém, as
palavras de Lee não foram uma demonstração de indiferença, mas
sim, uma profissão defé. Lee acreditava na ressurreição dos mortos.
Acreditava, de fato, que a morte não era o fim para a sua esposa e
não seria para ele.
Afinal, Jesus, o Messias, foi ressuscitado dentre os mortos como
primícias dos que dormem.

Primícias de um novo mundo


A ressu rreição de Jesus deu início a algo m aio r do que a v id a depois
da m orte física. D e acordo com IC o rín tio s 15.45, Jesus foi “ o últim o
A d ã o ” . Sua cruz m arco u a m orte do m undo do prim eiro A dão, sujeito ao
p o d er da m orte desde a queda em pecado. C onstituiu, p o rtan to , o início
de u m novo mundo , um novo céu e n o v a terra. C onform e P aulo explica, a
p rim eira criação “ está sujeita à vaid ad e, não v o luntariam ente, m as po r
cau sa d aq u ele que a su jeito u ” e as consequências do p ecad o do prim eiro
A dão fo ram cósm icas: “to d a a criação, a um só tem po, g em e” . A m o rte e
a ressu rreição do últim o A dão, porém , tro u x eram esperança p ara a p ró p ria
criação. O velh o m undo de frustrações, no qual o solo é cheio de ervas
d an in h as, o ar e a água são co ntam inados p e la p oluição e células sofrem
de esclero se m ú ltip la ou câncer, está chegando ao fim . “A p ro p ria criação
será red im id a do cativeiro da co rrupção, p ara a liberdade da glória dos
filhos de D eu s” (R m 8.18-21).
Quando esse m undo se m anifestará? A m aioria im agina que será num
futuro indefinido, na ocasião da volta de Jesus. A ressurreição de Cristo como
prim ícias, porém , significa que o novo m undo já se iniciou.
Paulo declara
com ousadia em Rom anos 8.23 que já “tem os as prim ícias do Espírito” como
evidência desse fato.36 N ão pense, contudo, que a nova criação foi revelada
por inteiro; os próprios cristãos ainda “gem em ” pela consum ação da reden­
ção, pois ainda há m ais por vir. N o entanto, sem dúvida, o dia já raiou.
N as E scrituras, o novo m undo é um reino de graça que, um dia, se
estenderá po r todo o universo.37 A B íblia usa vários term os para descrever a
D e s p e r t a r a A lva - A F e s t a d a s P r i m í c i a s 71

n o v a ord em m undial. Jesus a cham ou de "... reino de D eu s” (M c 1.15) e


“ ... reino dos céus” (M t 4.17). O Evangelho de João se refere ao novo tipo
de vida com o “ ... vida eterna” (Jo 3.16). E m A pocalipse 21.1, é cham ado
sim plesm ente de “novo céu e nova terra” . A surpresa da últim a passagem é
que o novo céu e nova terra não são apenas futuros, m as já se m anifestam
aqui e agora. P o r certo, precisam os ter fé p ara vê-los, pois, a cada dia, so­
m os confrontados com o m al e a desintegração, tão evidentes no nosso
m undo. N ão obstante, o novo m undo está se abrindo.
O m acrófago é um tipo m aravilhoso de célula branca que destrói células
in v a so ra s, in clu siv e célu las c a n ce ríg e n a s. O n o m e sig n ific a “ g ran d e
com edor” e define sua função; um m acrófago devora células m alignas e
consom e até os detritos que restam depois que o inim igo é destruído. A lém
de atacar o problem a, contudo, o m acrófago tam bém contribui para a solução
ao estim ular um a colônia crescente de novas células que fortalecem o sistem a
im unológico do organism o e, desse m odo, alim enta a vida nova que deixa
em seu rastro.
O poder da ressurreição de Jesus com o prim ícias opera de m aneira
sem elhante. N a cruz, ele devorou o pecado; ao ressuscitar, conquistou a
m orte. M as não p arou po r aí. A cruz e a ressurreição foram as prim ícias, o
início de um a colheita m aior. O evangelho do C risto ressurreto está, em
term os literais, produzindo colônias de vida nova que têm se espalhado
pelo m undo afora. N a m etáfora encantadora de N . T. W right, os cristãos
são “cidadãos do céu, colonizando a terra” .38
E ssas colônias são p rova de que o novo céu e a nova terra estão
irro m p en d o n este m u n d o . São e x tre m a m en te rea is, id e n tific a d a s nas
E scrituras, e recebem um nom e. N o penúltim o capítulo da B íblia, João usa
três m etáforas para descrevê-las: “N ova Jerusalém ” , “noiva adornada para
seu esp o so ” e “a esposa do C ordeiro” . A s três m etáforas bíblicas não se
referem ao céu, m as à igreja. João não descreve a igreja depois da volta de
C risto, m as agora , um a com unidade de fé apresentada com o D eus a vê pela
lente do M essias: m orta para os pecados p o r causa da cruz, santificada po r
causa do sepultam ento e trazida de volta dos m ortos p ara um a nova vida
por causa da ressurreição.
E possível que você tenha de refletir a respeito desta verdade por
algum tem po. A o ler o últim o livro da B íblia, a m aioria de nós supõe que
fala apenas de u m a esperança futura. D o m esm o m odo, a m aio ria que
conhece a igreja do Senhor de m aneira íntim a, dificilm ente a descreveria
com o o céu n a terra.
N o entanto, Paulo afirm a de m odo inequívoco (atente p ara os tem pos
verbais): “ ... se alguém está em C risto, é nova criatura; as coisas antigas já
72 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

passaram ; eis que se fizeram novas” (2C o 5.17). “ Q uando falam os de ‘nova
criatu ra’, não nos referim os apenas ao indivíduo; antes, devem os pensar
num a ‘n o v a criação ’, no novo m undo que D eus recriou e deu início com
C risto, e no qual todos que estão em C risto são incluídos” .39

Os cristãos como primícias


A queles que seguem a C risto são prim ícias, e não apenas pessoas que
esperam ir p ara o céu quando m orrerem . A vida deles j á produz um a colheita
diferente. São m ovidos pelos im pulsos do novo m undo; são diferentes por
dentro. N ão são m ais m arcad o s p e la raiva, m alícia, v io lên cia, cobiça,
co ncupiscência e egoísm o, ou seja, pela colheita característica da carne.40
A ntes, sua v id a revela o início de um a transform ação autêntica: “ ...o fruto
do E spírito é: am or, alegria, paz, longanim idade, benignidade, bondade,
fidelidade, m ansidão, dom ínio próprio [...] E os que são de C risto Jesus
crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” (G 15.22-24).
A inda h á m ais po r vir. U m dia, aquilo que se iniciou com a ressurrei­
ção de C risto e com eçou a produzir fruto em nós renovará todas as coisas,
num a colheita abundante m uito além de todo entendim ento. Paulo não se
continha de em polgação ao pensar naquilo que nos espera:

Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou


em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o
amam. Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito (ICo 2.9-10).

A co lh eita com pleta pro m o v erá m arav ilh o sa reconciliação p o r m eio


de C risto em todas as dim ensões da vida (C l 1.20). F alarei m ais a esse
resp eito no últim o capítulo, m as convido você a refletir p o r um m om ento
sobre a ab ran g ên cia da expressão “todas as co isas” . A redenção ab so lu ta­
m ente in clu siv a p ro m o v erá cu ra em casam entos p ara os quais não parece
m ais h av er esperança, paz entre nações que têm se digladiado há séculos,
shalom nas ru as de cidades ensanguentadas p ela v io lên cia e tingidas pelo
m edo, e cu ra p ara corpos enferm os, doloridos e m oribundos. E nfim , a
criação que gem e sob o efeito de agrotóxicos, poluição e estupro da terra
en co n trará descanso.
A redenção de “todas as coisas” será, de fato, redenção em grande
escala!

Primícias de nosso testemunho


L em bre-se de que havia dois lados da m oeda n a F esta das P rim ícias
no A n tig o T e sta m e n to . P rim e iro , e ra u m a celebração de gratidão.
D e s p e r t a r a A lva - A F e s t a d a s P r i m í c i a s 73

D epois das cerim ônias que m arcavam a data, da apresentação do feixe de


cereal e do ritual de m over o ‘ omer , o povo de D eus se refestelava com os
frutos da redenção de D eus em um banquete literal na terra que m anava
leite e m el. O outro lado da m oeda m ostrava que a festa tam bém possuía
um aspecto m elancólico. A som bra das festividades, as leis sobre a respiga
e as prescrições do dízim o lem bravam Israel que, deste lado da glória, nem
tudo ainda estava em ordem . Israel devia desejar m ais, se inclinar p ara a
frente em direção a um novo dia e, po r m eio de suas ofertas generosas,
reco n h ecer as carências dos dependentes, necessitados e indefesos.
A ressurreição de Jesus C risto no décim o sexto dia de N isã tam bém
ressoa nesses dois tons. P or um lado, perm ite que os cristãos experim entem
e, portanto, percebam e celebrem , já no presente, as dádivas graciosas do
E spírito Santo. O Espírito "... é o penhor da nossa herança” (E f 1.14) que
nos perm ite descansar seguros no conforto das prom essas de D eus. P or ou­
tro lado, a ressurreição de Cristo antevê, anseia e se esforça po r um a colhei­
ta m ais p len a da redenção. E im possível os cristãos não verem que em toda
a parte ao seu redor ainda há um longo cam inho a percorrer até que D eus
com plete a obra da redenção.
E xatam ente no m eio dessa tensão, D eus reserva u m a surpresa para
nós: tem os um papel a desem penhar na realização da colheita da nova vida.
Jesus nos falou da nova vida que seria plantada e com o am adureceria.
Por m eio da parábola do sem eador, m ostrou que a P alavra de D eus seria
lançada no solo com o um a pequena sem ente e, no entanto, produziria: “ ...a
cem , a sessenta e a trinta por um ” (M t 13.8). A F esta das Prim ícias represen­
ta um a lição: cada cristão leva essa sem ente em sua nova v id a de fé, pois a
ig reja do C risto ressu rre to é c o n stitu íd a de p e sso a s com u m a m issão.
D epois de terem sido, elas próprias, transform adas pela graça, agora levam
co nsigo a P a lav ra e p lan tam a sem en te do ev an g elh o p o r onde passam .
D e que m odo? C olossenses 4.5-6 m ostra com o isso acontece: “Portai-vos
com sab ed o ria p ara com os que são de fora; aproveitai as oportunidades.
A vossa palavra seja sem pre agradável, tem perada com sal” . A últim a refe­
rência se baseia na prática antiga de selar alianças não com um a assinatura,
m as com a troca de porções de sal, sim bolizando perm anência e preserva­
ção. D eus quer que nossas conversas tenham consequências eternas. Isso
significa falar do evangelho de m odo deliberado, seja na padaria do bairro,
com o m entor de um jo v em ou pelo celular, num a conversa com um am igo
de longa data.
Claro que não som os capazes de salvar ninguém . A inda assim , Deus
quer que saibam os a im portância de nossa fé pessoal nessa colheita da nova
vida e, portanto, sejam os incentivados em nosso testem unho. D uas passagens
74 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

u m tanto esquecidas deixam a questão clara. N a prim eira, Paulo se refere a


E pêneto com o primíciasda Á sia p ara C risto” (R m 16.5). A segunda
referência, sem elhante à prim eira, encontra-se em IC oríntios 16.15: “ Sabeis
que a casa de E stéfanas são as primícias
da A caia” . P or que Paulo m encio­
naria indivíduos da igreja prim itiva que, para quase qualquer pessoa, foram
incidentais no fluxo central da H istória? O apóstolo possuía um a fixação
p o r detalhes e desejava m anter registros precisos? D e m aneira nenhum a.
Paulo era u m estudioso rabínico de prim eira linha e sabia m uito b em da
im portância do conceito de prim ícias. E stava dizendo à igreja prim itiva (e a
nós, dois m il anos depois) que o novo m undo h av ia se iniciado com a res­
surreição de Cristo. P or isso, a colheita m ais p len a do novo céu e nova terra
se propaga um a pessoa de cada vez, po r m eio da rede de relacionam entos e
do âm bito de influência dos cristãos. Epêneto e E stéfanas, os prim eiros a
crer em C risto em suas respectivas regiões, foram apenas os prim eiros fei­
xes da colheita. A colheita m aior se daria p o r m eio da obra do evangelho
transm itido p o r servos com o eles.
Vem os aqui um a dinâm ica im portante do evangelism o. É fato conhe­
cido que a m aio ria das pessoas que recebe a C risto o faz p o r m eio do
co n v ite e testem unho de fam iliares m ais próxim os e am igos chegados.
E ssa d in âm ica faz sentido, pois o testem unho de pessoas é confiável, en­
quanto apelos feitos p o r estranhos são, em geral, u m a estratégia m enos
eficaz, especialm ente no m undo pós-m odem o do século 2 1 . 0 evangelism o
relacional é m uito m ais natural, autêntico e, portanto, eficaz. C onquistam os
o direito de ser ouvidos em relacionam entos autênticos de amor, cultivados
ao longo de m uitas semanas e m eses. U m dos m eus “m étodos de evangelism o”
prediletos é aquele que norteia a igreja Saddleback, na C alifórnia, onde
descubra o que você gosta defazer: jogar golfe ou
R ick W arren é pastor:
tênis, cozinhar ou cuidar do jardim, viajar ou ir a concertos, e realize
essas atividades com alguém que não conhece a Cristo! A o lo ngo do
tem p o , u m rela cio n a m e n to a u tên tico e afetu o so se d esen v o lv erá, os c ris­
tão s c o n q u istarão a co n fian ça de seus am igos e essa c o n fia n ça p e rm itirá
que os am ig o s d esejem sab er a “ ... razão d a e sp eran ça que h á em v ó s”
( IP e 3.15).
A colheita é obra exclusiva de D eus. A sem ente que se transform a
num a plan ta e dá frutos reflete forças m isteriosas da natureza. O m esm o se
a p lic a à P a la v ra d a q u al n a sce a fé q u e p ro d u z u m a c o lh e ita e sp iritu a l.
A fonte exclusiva do poder para essa colheita é o Espírito de Deus.
Esse po d er é o enfoque da festa seguinte.
D e s p e r t a r a A lva - A F e s t a d a s P r i m í c i a s 15

Perguntas para estudo e discussão


1. A Festa das Prim ícias é um a festa de colheita? E m caso afirm ativo,
fale sobre a colheita que ela celebra.

2 . 0 final do Evangelho de M ateus fala de dois terrem otos: o prim eiro,


ocorrido no m om ento em que Jesus m orreu (M t 27.51), e o segundo, “um
grande terrem oto” , no m om ento que o túm ulo de C risto se abriu (M t 28.2).
Qual a im portância desses acontecim entos?

3. O presente capítulo afirm a que a ressurreição de C risto é o início


de um a nova criação e que os cristãos são as prim ícias deste m undo: “ Se
alguém está em C risto, é nova criatura” (2C o 5.17). M edite sobre isso por
alguns m om entos. Você consegue identificar sinais desse novo m undo na
vid a de cristãos do seu convívio? E m sua p rópria vida?

4. C om ente sobre os costum es de sua igreja e com unidade em relação


a funerais. Elas “inclinam as pessoas para a frente”, em direção à ressurreição
futura do corpo, ou se concentram exclusivam ente na lem brança de que a
vida acabou de chegar ao fim ? A seu ver, com o seria possível m elhorar
essas p ráticas de m odo a darem um testem unho m ais claro de nossa fé?

5. Você costum a dar o dízim o? Em caso afirm ativo, com pare suas
m otivações com as que Paulo m enciona em 2C oríntios 9.6-15.
5
P oder para o P ovo !
A Festa de Pentecostes
Levítico 23.15-22; Atos 2

Quando conheci JD, ele ainda era casado, mas o relacionamen­


to estava por um fio. O problema era simples: JD era adúltero. Atri­
buía esse pecado a hábitos sexuais formados havia muito tempo, pa­
drões estabelecidos por um pai que expôs seufilho deliberadamente à
pornografia e à prostituição como ritos de passagem. JD seguiu o
exemplo do pai ao longo de toda a vida adulta. Já havia frequentado
bordéis em várias cidades e contraído dívidas de milhares de dólares
num cartão de crédito secreto reservado exclusivamente para o seu
hobby ilícito. E a esposa havia acabado de desmascará-lo.
JD queria ajuda. Esperava ser capaz de restabelecer limites
para não se meter em encrencas e traçar diretrizes específicas que o
ajudariam a evitar pessoas e lugares que havia se tornado ocasião
para a sua derrocada moral no passado. Queria que eu lhe dissesse
para que saísse somente com homens uma vez por semana e só quan­
do houvesse um amigo da igreja com o grupo. Queria que eu lhe
dissesse que restaurantes com garçons eram apropriados, mas com
garçonetes vestidas em trajes sensuais, não. Queria que eu indicasse
programas de computador que mandam um e-mail de notificação
para outra pessoa sempre que entrasse em seus sites pornográficos
prediletos, sites que ele amava e, ao mesmo tempo, odiava.
JD queria leis. O problema é que havia convivido com regras
como essas durante os quase oito anos de casamento e elas não o
impediram de pecar. Seu segredo foi revelado como uma cebola que
é descascada numa sucessão de camadas malcheirosas. Sem saber, a
esposa entrou no jogo e começou a desempenhar diversos papéis:
detetive particular, guarda de trânsito, vilã, executora.
JD também participava do jogo. Quando a esposa começou a
verificar os extratos do cartão de crédito à procura de despesas sus­
peitas, JD adquiriu cartões novos, com outro endereço. A esposa
revirou o computador da casa para saber como o marido usava a
internet. JD comprou um notebook pequeno que levava consigo para
onde quisesse. Quando a esposa começou a telefonar para o traba­
lho dele e para a academia para saber onde ele estava, JD resolveu
procurar parceiras quando viajava a negócios.
78 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

Foi pego novamente quando contraiu uma doença sexualmen­


te transmissível e a passou para a esposa.
JD ficou ainda mais envergonhado. Não queria mais leis; não
haviam funcionado. Dessa vez, queria religião. Queria que Deus,
por intermédio do pastor, o absolvesse completamente e eliminasse
toda a vergonha. Queria que eu o ajudasse a levar a religião a sério:
de qual classe de escola dominical devia participar, qual grupo de
homens poderia salvar o casamento dele, quais livros devia ler?
A seu ver, tudo isso era necessário, pois ele próprio disse, repentina­
mente, repleto de zelo: “Deus odeia o divórcio

C om ecem os este capítulo com um a pequena recapitulação. Todas as


festas que D eus estabeleceu visavam cham ar seu povo do A ntigo Testam en­
to a comemorar , a se lem brar das bênçãos da redenção que o Senhor j á lhes
dera, m as tam bém a ansiar emfé, antecipando a redenção m ais plena que o
M essias traria. C ada um a das festas, portanto, servia de tipo ou som bra, um
m odo real de provar de antem ão a redenção vindoura. A dem ais, as festas
eram estruturadas em to m o do ritm o do sábado, pois todas, sem exceção,
tinham o objetivo de incentivar Israel a ansiar po r descanso.
O ritm o do
sábado pu lsav a nas sete festas, um a “sem ana” inteira de celebrações, de
m odo a dar form a a esse anseio.
A s três prim eiras festas, as com em orações da Páscoa, dos Pães A sm os
e das Prim ícias na prim avera, eram fundam entais devido aos acontecim entos
que celebravam . A Páscoa era o alicerce: Israel precisava aprender que sua
própria existência se baseava na graça, pois era rem ida pelo sangue de ou­
trem . A Festa dos Pães A sm os ensinava que o povo libertado era um povo
santo, liv re não apenas de nom e, m as v erd ad eiram en te livre do p o d er
escravizador do pecado e da idolatria e cham ado para viver com o tal. D eus
havia libertado seu povo com um propósito: viver com o presença do futuro,
com o prim ícias das evidências da colheita de um novo m undo que ele esta­
v a concretizando.
Vim os, tam bém , que essas três com em orações fundam entais aponta­
v am p ara o ministério terreno de Cristo. Ele m orreu na Páscoa com o sacri­
fício expiatório p o r nossos pecados, com o nossa justificação. Foi sepultado
n a F esta dos Pães A sm os com o nossa santificação e, em sua graça, rom peu
o controle exercido pelo pecado. R essuscitou na Festa das Prim ícias, sendo
que seu próprio corpo ressurreto representou o prim eiro feixe de cereal da
nova criação p o r vir.
D epois de um a p ausa de sete sem anas e um dia, Israel com eçava a
celebrar a p róxim a festa na sequência estabelecida por Deus. A espera valia
a pena, pois a festa seguinte retratava a expansão da redenção que extrapolava
todos os lim ites im agináveis.
P o d e r p ara o P o v o - A F e s t a d e P e n t e c o s t e s 79

A HISTÓRIA DA FESTA
A F esta das Sem anas era um a celebração da colheita que concluía a
com em oração iniciada com a F esta das Prim ícias. A s duas eram ligadas de
m odo inseparável um a à outra, com o a Festa dos Pães A sm os era ligada à
Páscoa. A F esta das Sem anas só passou a ser observada, portanto, depois
que Israel entrou na Terra P rom etida e com eçou a desfrutar sua abundância.
N a verdade, ela teve início quando Israel seguiu a instrução p ara
“ co n tar” os dias depois da F esta das Prim ícias (Lv 23.15-16). A contagem
regressiva, ou “contar o íomer,,\ enum erava de m aneira m inuciosa os ci­
clos de sete sem anas. A cada noite, o dia que havia term inado era m arcado
pelo chefe da fam ília de um a m aneira criativa para ensinar às crianças a
prom essa e expectativa da esperança da colheita. C om o passar do tem po, o
povo com eçou a usar o salm o 67 nessa época. R ecitados a cada dia, seus
sete versículos com 49 palavras (em hebraico) acrescentavam um sim bolis­
m o que ia além do tem a da colheita. Sua conclusão confiante lem brava
Israel de que sua v id a possuía um propósito além de si m esm o: “A bençoe-
nos D eus, e todos os confins da terra o tem erão” (vs. 7).
D epois da contagem e da espera, enfim , o dia da festa chegava, no
encerram ento da colheita do trigo. Tam bém nesse caso, o dia era miqra
qodes , santa convocação, para a com unidade inteira se regozijar com as
boas dádivas da fartura divina e representar o que estava po r vir. Israel apre­
sentava porções sim bólicas da farta colheita num m om ento de culto que
assum ia o caráter de celebração de ação de graças. A oferta de m anjares era
feita com cereais frescos, preparados na form a de dois pães feitos com
fer­
m ento, um sinal da abundância da nova terra de “leite e m el” , precursora do
novo m undo vindouro no qual o pecado não corrom peria nada.41 Os pães
eram acom panhados de holocaustos ao Senhor e o doce arom a da fum aça
subia ao céu só para titilar as narinas de D eus com a fragrância de adoração
e louvor puro. A s ofertas pelo pecado que deviam ser apresentadas em favor
do sacerdote, eram constituídas de um bode e dois cordeiros.
N a descrição das instruções p ara a festa, D eus estipulou as leis para a
respiga que acrescentariam um a dim ensão de m isericórdia à celebração fes­
tiva (Lv 23.22), repetindo a m esm a prática observada na F esta das Prim ícias.
A quele que se identificou com o sendo o D eus “ ... que faz ju stiça ao órfão e
à viúva e am a o estrangeiro” (D t 10.18) não se esquecería deles ao distribuir
a fartura de sua graça.
N enhum a p assagem da Torá associava a F esta das Sem anas de m odo
form al a um acontecim ento redentor isolado, com o a P áscoa era associada
ao êxodo. A provisão divina, depois de m ais de quatro séculos de servidão,
de u m a “terra rica que m anava leite e m el” era, sem dúvida, suficiente para
80 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

rev elar novas dim ensões da obra redentora de D eus e convidar o povo a
festejar. C om o p assar do tem po, contudo, as tradições em to m o da festa da
colheita com eçaram a assum ir um novo caráter. N o final do período do
A ntigo Testam ento, duas m udanças im portantes haviam ocorrido: prim eira,
a F esta não era m ais cham ada de Sem anas, m as de P entecostes; segunda, e
m ais significativa, a festa se to m a v a form alm ente vinculada à tradição
rab ín ica da entrega da lei no Sinai.
A data da chegada de Israel ao Sinai (Êx 19.1) parecia apropriada.
C inquenta dias depois de partir do Egito, Israel havia, de fato, acam pado
no sopé desse m onte. H avia sido livrado por Y H W H “ ... com m ão poderosa,
e com braço estendido” (D t 4.34), testem unhado a devastação total do Faraó
e seu exército, atravessado o m ar em terra seca e sido reunido pelo Senhor
ju n to ao sopé do m onte no qual ele estabeleceria sua aliança. Y H W H seria
o D eus deles e os israelitas seriam seu povo, rem ido p ara constituir sua
propriedade peculiar.
O Senhor, contudo, era Deus santo, enquanto Israel era povo pecam inoso.
Ê xodo 19 relata com o os israelitas se aproxim aram de D eus com terror: a
m o n tan h a co b erta de fum aça estrem ecia com v io lên cia enquanto raios
cortavam o céu e trovões ribom bavam com tam anha força que todos trem iam
de m edo. Israel d ev ia m anter-se afastado, pois do contrário, m orreria.
Som ente M oisés po d eria subir ao m onte p ara falar com Y H W H .
N ão é de adm irar, portanto, que no período entre a F esta das P rim ícias
e o P entecostes, os rabinos tenham com eçado a focalizar o arrependimento
diante de um D eus tão santo e tem ível, em um período que recebeu o nom e
de “espera p ela dádiva” . P ara os rabinos, a “dádiva” era a Torá, a lei de
D eus. P o sterio rm en te, o P en teco stes p asso u a ser cham ado n a oração
p rincipal da sinagoga de “tem po da entrega de nossa lei” .42 D urante os
cinquenta dias que antecediam a festa, to m o u -se costum eiro Israel ler toda
a Torá e m ed itar sobre o salm o 119, um cântico que exalta as bênçãos da
lei. M uitos m em orizavam o salm o em sua totalidade enquanto “ esperavam
p ela dádiva” todos os anos.

UMA COLHEITA DIFERENTE


C o m o as três festas da p rim a v era , P e n tec o stes e ra u m a celeb ração
re p re s e n ta tiv a que a n te v ia a red e n ç ã o m ais a m p la p o r vir. H a v ia se
to rn a d o claro que a e n tre g a da T orá não era a ú ltim a d ád iv a p e la q u al o
p o v o d e v ia esperar.
N a única m enção do N ovo Testam ento à Festa de Pentecostes, esse fato
é determ inado de im ediato no início de Atos. A ntes de descrever os aconteci­
m entos m om entosos daquele dia, Lucas relata as palavras de despedida de
P o d e r para o P ovo - A F esta de P e n t e c o s t e s 81

Jesus aos seus discípulos (A t 1.4): não deviam deixar Jerusalém , onde o povo
de Deus estava reunido para a festa de peregrinação. Antes, deviam esperar
a promessa do Pai, a qual, disse ele, de m im ouvistes” .
Jesus não instruiu seus discípulos a apenas “ co n tar o ‘o m e r’” com o
seus antep assad os haviam feito. A ntes, disse-lhes p ara esperar com gran­
de ex p ectativ a p ela dádiva que faria av ançar a obra divina g raciosa de
reden ção , p ois a dádiva à qual o M essias se referiu não era a Torá, m as o
E sp írito Santo.
Por fim, o dia de Pentecostes chegou de m odo estrondoso. E m m ani­
festações que lem bravam os raios, terrem oto e trovões da teofania no Sinai,
P entecostes foi acom panhado de “um vento im petuoso” , línguas de fogo e a
capacidade dada pelo Espírito de os discípulos falarem em línguas que nun­
ca aprenderam . P ara explicar os acontecim entos extraordinários, Pedro, o
porta-voz dos apóstolos, citou o profeta Joël e usou linguagem apocalíptica
que lem brava os acontecim entos aterradores de Êxodo 19:

E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do


meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas
profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos;
até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do
meu Espírito naqueles dias, e profetizarão. Mostrarei prodígios em
cima no céu e sinais embaixo na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça.
O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o
grande e glorioso Dia do Senhor. E acontecerá que todo aquele que
invocar o nome do Senhor será salvo (At 2.17-21).

A s diferenças entre u m a celebração que focalizava a Torá e um a


com em oração que focalizava o E spírito Santo eram profundas. P or fim , o
significado de Pentecostes seria ancorado no m inistério do M essias não
aqui n a terra, m as no m inistério do céu, onde está assentado à m ão direita
de D eus, um m inistério envolto em poder capaz de fazer a terra estrem ecer.
Pedro em pregou a linguagem apocalíptica da profecia de Joel, trazendo à
m em ória os acontecim entos estrondosos do Sinai (Êx 19), para explicar os
acontecim entos de P entecostes. A inda que um a lua com sangue não tenha
aparecido n aquela noite de m odo literal, os prodígios e sinais no céu e na
terra não foram outra coisa senão o derram am ento do E spírito Santo sobre
pessoas de todo tipo. A im portância desse acontecim ento faria estrem ecer
os céus e a terra.
E m prim eiro lugar, apesar de P entecostes/Sem anas sem pre ter sido
um a festa de colheita, só agora a natureza da colheita fica evidente. D eus
não tinha em m ente e no coração um a colheita de trigo e cevada, m as um a
82 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

celebração da colheita da redenção que havia se iniciado com o próprio


C risto. A briu a sepultura nas Prim ícias com o “prim ícias dos que dorm em ” ,
não apenas de corpos m ortos, m as daquilo que esses corpos evidenciavam ,
a saber, o m undo m orto em pecado (A p 1.5). E, se C risto era o prim eiro
feixe, a colheita m ais plena faria os cestos transbordarem e teria dim ensões
cósmicas. A o citar Joel, Pedro sugere um a redenção tão grandiosa que in­
cluiria jo v en s e velhos, hom ens e m ulheres e todas as nações. “Todo aquele
que invocar o nom e do Senhor será salvo” (A t 2.21).
O m étodo de juntar a colheita tam bém seria surpreendente. Jesus h a ­
via exercido seu m inistério terreno n a G alileia e na Judeia, percorrendo as
estradas poeirentas de um a vila à outra e convidando o povo pessoalm ente a
segui-lo p o r m eio de seus ensinam entos e curas. H avia explicado, tam bém ,
que o reino de D eus estava “dentro de vós”, pois sua extensão estava ligada
à presença física de C risto (Lc 17.21); posteriorm ente, o Espírito se faria
presente em poder onde C risto estivera presente de form a física. C om a
ch eg ad a de P entecostes, porém , o S enhor cham aria p ara si pessoas do
m undo inteiro p o r m eio do evangelho levado por outros. Os portadores da
m ensagem seriam as incontáveis testem unhas da igreja cheia do Espírito.
Os apóstolos haviam recebido a instrução de esperar pela dádiva da
prom essa, m as a dádiva era m ais do que sonharam . “M as recebereis poder,
ao descer sobre vós o E spírito Santo, e sereis m inhas testem unhas tanto
em Jeru salém com o em toda a Ju d eia e S am aria e até aos confins da terra ”
(A t 1.8). E difícil ignorar o ponto central da declaração: o Espírito Santo foi
derram ado para lhes dar a capacitação e o poder necessários para a etapa
seguinte da obra redentora de Deus, isto é, a m issão dos discípulos. Som ente
pelo poder do Espírito derram ado o reino de Deus se expandiria da presença
física de Jesus na Palestina do século I o. para os confins da terra; som ente por
m eio da ousadia concedida pelo E spírito para hom ens com uns pregarem , o
alcance pleno de sua redenção se to m aria conhecido.
Jesus fez m enção de tudo isso em seus ensinam entos aos discípulos
perto do final de seu m inistério, ao explicar: “A quele que crê em m im fará
tam bém as obras que eu faço e outras maiores fa rá , porque eu vou para
ju n to do P ai” (Jo 14.12). Os discípulos não haviam entendido. C om o seria
possível que eles, pescadores incultos da G alileia, pudessem realizar obras
m aiores do que as de seu M estre? Ele havia ressuscitado pessoas dentre os
m ortos, curado enferm os e derrubado os argum entos brilhantes dos hom ens
m ais instruídos de Israel!
Em Pentecostes, os discípulos finalm ente entenderam o que Jesus ha­
via dito; a dádiva pela qual deviam esperar era um poder que transform aria
a vida deles e o m undo.
P o d e r p ar a o P ov o - A F e s t a d e P e n t e c o s t e s 83

OBRAS MAIORES...
Línguas remidas
A prim eira surpresa que os apóstolos incultos tiveram foi a capacidade
de pregar o evangelho nas línguas das várias nações reunidas em Jerusalém
para a festa. P or m eio do dom de línguas em Pentecostes, o M essias Jesus
com eçou a rem ir um m undo dividido pelas línguas desde a torre de Babel.
N essa narrativa, registrada em G ênesis 11, a hum anidade se uniu num a
conspiração. Form ou um a aliança rebelde contra o Rei C riador e procurou
u surpar seu lugar e tom ar para si a sua glória ao construir um zigurate
escalonado que chegaria até o céu. D eus frustrou a conspiração e rom peu a
unidade do povo ao confundir sua linguagem . D ispersou-os por toda a terra
onde as nações e, po r fim , seis m il línguas, perm aneceram fragm entadas,
p o r anos a fio.
A dádiva do Espírito, contudo, m udaria tudo isso. A bênção de Pente­
costes subverteu a m aldição de B abel e as línguas passaram a contribuir
para o avanço do reino de D eus. A conspiração contra o R ei da criação foi
ultrapassada pela estratégia de Jesus de trazer a redenção que reconciliaria
em vez de dividir e reuniria “toda tribo, língua, povo e nação” num só povo
para aprazer a D eus (A p 5.9-10).
O m ilagre das línguas em Pentecostes deve ser entendido à luz dessa
ligação dram ática entre a história do A ntigo Testam ento e do N ovo. O dom
de “línguas” foi m uito m ais do que um a língua pessoal de oração ou um a
experiência pessoal que confirm a um a segunda bênção além do dom da fé.
A ntes, as línguas em Pentecostes tiveram relevância cósm ica e estratégica.
N ão foram apenas um sinal, m as um método por m eio do qual o m undo
gentio poderia se abrir para o governo da graça de Cristo.
O m undo das nações de “outrora” perm anecera, pela perm issão sobe­
rana de Deus, sob o poder de Satanás, daí Jesus se referir ao inim igo com o
“príncipe do m undo” (Jo 14.30; 16.11). C om a ascensão de C risto, porém , a
perm issão de Satanás de enganar as nações havia chegado ao fim .43 A gora,
toda autoridade pertence a Jesus (M t 28.19) e ele com issionou sua igreja a
ir ao m undo com o evangelho do seu reino. D eus não seria m ais conhecido
apenas p o r Israel e as nações não contem plariam sua glória apenas quando
peregrinassem a Jerusalém p ara ver o Tem plo branco resplandecente de
Salom ão, com o a rainha de Sabá fizera em outros tem pos. A té então, o
evangelism o havia sido centrípeto , ao atrair as nações p ara o Tem plo, o
cen tro do m undo. O evangelho de C risto , p o rém , seria lev ad o às naçõ es
com fo rç a centrífuga , im p elid o p ara fo ra na lín g u a de to d o s os p o v o s.44
A s lín g u as de P entecostes eram línguas reais, pois pessoas reais precisa­
v am o u v ir e e n te n d e r o e v an g elh o , p e sso a s com o “ ... os n a tu ra is da
84 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

M esopotâm ia, Judeia, C apadócia, Ponto e Á sia, da Frigia, da Panfília, do


Egito e das regiões da Líbia, nas im ediações de C irene” (A t 2.9-10).
O m ilagre das línguas em Pentecostes não foi o fato de pescadores
incultos falarem um a língua espiritual que nem m esm o eles entendiam , ou
de a m ultidão entender essa língua, com o M ichael G reen sugere.45 A ntes,
foi o fato de Pedro e os outros falarem línguas reais e terrenas da época, que
nenhum deles aprendera e, desse m odo, reivindicando todo o universo para
o Senhor Jesus, o M essias!

O poder da vida
A inda há m ais a dizer. C onform e os estudiosos rabínicos concluíram ,
a p rim eira F esta de Pentecostes não foi celebrada nos cam pos de C anaã,
m as no sopé do m onte Sinai. Lá, em m eio à fum aça, terrem oto e m edo,
Israel com eçou a ser visitado por Y H W H . À luz da santidade tem ível de
D eus, o povo enxergou a realidade de sua condição pecam inosa. H aviam
sido livrados pelo braço forte de D eus; a partir de então, aprenderiam que
ele era R ei e que sua P alavra era a lei da vida.
D urante o tem po em que p erm an eceu no Sinai, Israel teve de lid ar
n o v a m e n te c o m se u s a n tig o s im p u ls o s id ó la tr a s . D e a c o rd o c o m
D eu tero n ô m io 32.1, M oisés passou um longo tem po no m onte. N esse ín ­
terim , Israel caiu em pecado. Im pacientes “com M o isés” e desejosos de
terem u m deus que pudessem “v e r” e to car com as m ãos, os israelitas
com issionaram a confecção de um bezerro de ouro, um a recriação de Á pis,
o d eus-touro egípcio que Y H W H já destruíra, e o colocaram no lugar do
D eu s v erd ad eiro . R ecru taram A rão, o sum o sacerd o te de D eus e irm ão
de M o isés, p a ra fo rja r o ídolo de ouro, v a len d o -se das riq u ezas que os
eg íp cio s co lo caram nas m ãos do p ovo de Isra e l quando este d eix o u a
te rra de escrav id ão .
Q uando M oisés desceu do m onte com as duas tábuas da lei e viu a
orgia de pecado a pleno vapor, despedaçou as cópias da aliança, não num
acesso de raiv a ou exasperação, m as em reconhecim ento doloroso de que o
povo já hav ia quebrado a aliança de Deus. Prim eiro, confrontou seu irm ão
que, a exem plo de A dão, tentou se exim ir da culpa num a ju stificativ a tão
descarada quanto criativa: “Então, eu lhes disse: quem tem ouro, tire-o.
D eram -m o; e eu o lancei no fogo, e saiu este bezerro”\ (Êx 32.24). C om ira
ju sta, o Senhor m andou os levitas percorrerem o arraial em punhando espa­
das p ara m atar “ cada um a seu irm ão, cada um , a seu am igo, e cada um , a
seu v izinho” . Três m il pessoas pereceram naquele dia.
B em m ais depois de um m ilênio, em outro Pentecostes, o M essias
entronizado enviou seu Espírito Santo aos discípulos e lhes deu poder para
P o d e r p a r a o P ov o - A F e s t a d e P e n t e c o s t e s 85

preg ar o evangelho usando um a arm a de outro tipo. A “espada do E spírito”


era ainda m ais afiada do que o aço levítico e penetrava o cerne de toda
questão e toda alm a, cortando com tam anha profundidade a ponto de reve­
lar e ju lg a r até os pensam entos e atitudes do coração. Essa espada, porém ,
traz vida em vez de m orte. N um a dem onstração espantosa de graça divina,
houve um a inversão do Sinai e exatam ente três m il pessoas foram salvas.
Paulo expressa a ideia de m aneira sim ples: “Porque a letra m ata, m as
o espírito vivifica” (2Co 3.6).
A lei, po r si m esm a, jam ais teve o poder de salvar; servia para destacar
a própria im potência, um a incapacidade arraigada no coração corrupto da­
queles que tentavam obedecer a ela com as forças da própria cam e. A lei
sem pre aponta, portanto, p ara outrem , para o único que pode guardá-la, o
único que cum pre todos os seus requisitos em sua própria cam e. A lei apon­
tava para C risto e a antiga aliança esperava ansiosam ente pela nova.

A OBSERVÂNCIA DA FESTA HOJE


A F e sta de P en tec o stes é fu n d am e n ta l p a ra a ig re ja de D eus no
sécu lo 21. U m a vez que som os abençoados com um a com preensão m ais
plena da graça que Cristo derram ou em seu Espírito, Pentecostes é um tem po
de observar a festa p ela lem brança e regozijo. Infelizm ente, poucos se
recordam dela em nossa cultura atual que perdeu quase todas as celebrações
redentoras, exceto a Páscoa e o N atal (duas com em orações que, de tão
secularizadas, fazem pouco sentido para a cultura).
A observância da Festa de Pentecostes hoje requer um exercício inten­
sam ente pessoal.
C om eça com a “pregação do evangelho para si m esm o a
cada dia” , conform e o conselho de M artinho Lutero p ara um povo com o
nós cuja atitude do coração seria sem pre de culpa e m edo diante do D eus
santo. Precisam os nos lem brar, a cada dia, de nossa identidade com o filhos
de D eus justificados, perdoados e adotados em sua fam ília. Do contrário,
viverem os escondidos, cheios de m edo e insegurança, sob o estigm a perm a­
nente de “pecadores” .
Q uem se vê preso nesse círculo vicioso padece a angústia diária que
Paulo cham a, literalm ente, de “ lei da lei” : a única coisa que a lei pode fazer
é revelar o pecado e produzir m ais pecado.46A s pessoas veem em si m esm as
apenas o poder da cam e e a vida delas é um a im itação trágica de G ollum , a
criatura infeliz retratada por Tolkien em O Senhor dos Anéis. C om o ele,
elas m al conseguem lem brar de quem são e perdem o contato com o que
Deus as criou para ser e o que se tom aram outra vez em Cristo. Com o Gollum,
discutem com a própria alm a num diálogo patético e esquizofrênico: a cam e
está sem pre tram ando para obter o precioso Anel, enquanto o Espírito anseia
86 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

por dignidade, propósito e descanso. Com o ele, estão sem pre guerreando,
m as nunca encontram paz.
N o início deste capítulo, relatei a história de JD. E le conhecia as leis,
m as elas o m ataram : revelaram seu pecado e, com o R om anos 7.8 nos revela,
despertaram e produziram m ais pecado. JD tam bém era religioso, m as sua
religiosidade não o absolveu da culpa. Sabia, p o r dolorosa experiência, que
voltaria a p ecar e que não poderia se desvencilhar de padrões que haviam
controlado sua vida por décadas. JD precisava de um novo coração; precisava
do p o d er do E spírito p ara transform á-lo de dentro p ara fora. Sua única
esperança era um a m etam orfose, um a m udança radical que o levaria a am ar a
D eus m ais do que ele am ava os pecados pelos quais seu coração ansiava.
P a ra p esso as com o JD , o evangelho de P entecostes proclam a, em
letras g arrafais, que é possível en co n trar p az no fim da an g ú stia in terio r
d a lei, p az que acom panha o p o d er de m udar. Paulo instruiu os efésios:
enchei-vos do E spírito” (E f 5.18), usando, p ara isso, um a form a verbal
d istin tiv a ch am ada de im perativo passivo. A vo z p assiv a en fatiza que o
p o d er v em de D eus, enquanto o im perativo desafia os cristãos a v iverem
n esse p o d er divino.
A C ruzada E studantil treinou todo um m ovim ento m issionário sob
esse princípio. E la instruiu incontáveis obreiros acerca do que é cham ado
de “respiração do E spírito” que inclui expirar, ou seja, se arrepender dos
pecados e confessá-los com sinceridade, e inspirar profundam ente a Palavra
p oderosa do Senhor em estudo, m em orização e aplicação na vida diária.
O b serv ar a F esta de P entecostes nos dias de hoje tam bém é um a
atividade comunitária da igreja, m isteriosa e, ao m esm o tem po, estratégica.
Pentecostes revelou que a obra redentora contínua de C risto estaria ligada
ao dom de línguas hum anas. D em onstradas de m odo m iraculoso no prim eiro
Pentecostes, as línguas foram potencializadas p ara propagar o evangelho a
todas as nações representadas na festa. O dom de línguas continua a servir
ao m esm o propósito em nossos dias ao perm itir que m issionários, m estres
e tradutores da B íblia do m undo inteiro anunciem o evangelho de Deus.

Aindajovens, Doug e PJ resolveram se dedicar ao trabalho de


tradução da Bíblia. Cerca de quinze anos atrás, mudaram-se para
Mali, na África ocidental, afim de traduzir a Bíblia para os nômades
fulani, cuja linguagem oral, o dialeto fulfulde, não havia sido devi­
damente documentado. Sabiam que seria uma tarefa gigantesca à
qual teriam de aplicar boa parte da vida; também sabiam, porém,
que o poder do Espírito era maior do que as limitaçõesfrustrantes da
língua. Possuíam o dom de línguas, a capacitação divina de trabalhar
com línguas de maneiras impossíveis para a maioria de nós.
P o d er para o P ovo - A F esta d e P e n t e c o s t e s 87

O estágio inicial do trabalho exigiu evidências dos dons de


Deus. A primeira tarefa deles consistiu em aprenderfrancês, idioma
que serviria de ponte para os povos e culturas da África ocidental.
Em seguida, em francês, tiveram de estabelecer relacionamentos de
confiança e respeito com os membros da tribo fulani em Mali, rela­
cionamentos que lhes permitiriam aprender o vocabulário e as
nuanças da língua tribal. O terceiro passo do processo foi a docu­
mentação dessa língua e a elaboração de um dicionário e, em segui­
da, o ensino da língua naforma escrita ao povo da comunidade que
a conhecia apenas na forma oral. Só então, com conhecimento e
segurança suficiente, puderam começar o trabalho de tradução dos
livros individuais da Bíblia para essa língua.
O estágio seguinte do trabalho também exigiu dons de Pente­
costes: do original grego ou hebraico, a Palavra de Deusfluiu para
o cérebro acostumado a pensar em inglês e foi traduzida para a
línguafulfulde de modo a permitir a comunicação com os membros
da tribo que não falavam inglês. Em seguida, foi traduzida, pala­
vra por palavra, do fulfude para a língua nacional de Mali, o fran­
cês, a fim de que consultores bíblicos pudessem verificar a exati­
dão da tradução. Por último, foram realizados os ajustes na tradu­
ção para a língua tribal.
Quando finalmente entregaram o Novo Testamento concluído
para os líderes da tribo, foi um dia de celebração sem medida. Líde­
res e membros da tribo, tradutores, missionários e cantores vieram
de todas as partes para festejar, adorár e se regozijar diante do Se­
nhor pelo que ele havia capacitado seus servos para fazer por meio
do dom de línguas, de seu Espírito de Pentecostes. Muitos amigos e
familiares de outras partes do mundo participaram, em espírito, das
festividades comunitárias.
O dom de línguas é irrequieto e deseja sempre avançar em
novas direções. Doug e PJ não descansaram nos louros. Agora, es­
tão sendo conduzidos pelo dom do Espírito a novas dimensões de
serviço. Não deve causar surpresa o fato de seu novo ministério re­
velar uma dimensão inédita e tecnológica do dom de Pentecostes.
Agora, atuam como consultores e conselheiros não apenas na África
ocidental, mas em todo o continente e em outras partes do mundo,
ajudando missionários e tradutores a usar programas modernos de
computador para auxiliar no desenvolvimento de traduções mais
rápidas e, ao mesmo tempo, mais precisas da Bíblia para milhares
de línguas que ainda não têm as Escrituras.

Enviar m issionários e tradutores aos confins da terra faz parte da alegria


dessa com em oração que a igreja pode celebrar. Pentecostes tam bém desafia
igrejas locais a verem o propósito de sua existência com o missionário, pois,
88 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

com o festa m oderna de fé, Pentecostes celebra não apenas o poder do E spí­
rito, m as tam bém sua estratégia. N o século 21, a cultura do O cidente se
to m o u tão pagã e pós-cristã quanto o século I o. era pré-cristão. N ossa cultu­
ra, envolta de longa data em vestígios de cristianism o, m esm o que despro­
vida de sua fé vital, não conhece a Palavra de D eus e nem crê m ais nela, não
entende m ais o poder da graça e não tem noção das boas-novas. As igrejas
locais precisam ter com o objetivo tom ar-se com unidades dinâm icas de cris­
tãos que v ivem pelo poder do Espírito de Pentecostes e que são portadores
ind iv id u ais e com unitários da P alavra, exem plificando a g raça e a alegria
do S enhor que os transform ou, traduzindo o evangelho po r m eio de rela ­
cionam entos e atos na linguagem daqueles que os cercam . A santidade, a
paixão p ela ju stiça e retidão, o am or e a com paixão, a com unhão autêntica e
até m esm o o arrependim ento e a confissão deles (todos im perfeitos) dão
testem unho inesperado, porém autêntico, do evangelho de Jesus C risto e
seu reino que avança a cada dia.
O evangelho é não apenas pessoal, m as cósm ico; não apenas particu­
lar, m as global. Com o observam os, Jesus havia explicado a m otivação e a
abrangência do evangelho da redenção ao dizer, sim plesm ente: “D eus am ou
ao cosmos ” (Jo 3.16). N essa passagem conhecida, João usa um term o grego
para “m undo” que indica a criação em si, em todas as suas dim ensões m ais
am plas. D eus tam bém am a, contudo, “as nações” . A F esta de Pentecostes
representa o outro term o grego para “m undo” , ecumene
, um a referência ao
m undo de povos. Q uando a unidade foi frustrada pelo pecado em B abel, a
hum anidade se viu fragm entada po r língua, cor, econom ia e política. Essa
unidade está sendo restaurada em Cristo que sobrepujou a m aldição de Babel.
Pessoas de todos os tipos, representantes das m ais diversas culturas e lín­
guas, encontram um a só vida, esperança e voz em Jesus, o M essias, pois ele
com prou “p ara D eus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação”
e os constituiu “reino e sacerdotes” para servir a D eus (Ap 5.9-10).
Israel era o rizom a no qual os ram os das nações seriam enxertados.
Seu povo foi cham ado antes das outras nações, m as, com o D eus garantiu a
A braão em G ênesis 12.3, era apenas o rizom a, e não a árvore inteira. Seu
cham ado seria expandido de um a terra para o m undo inteiro, da linhagem
de A braão para a linhagem da fé num a igreja constituída de judeus e genti­
os, hom ens e m ulheres, escravos e livres. M ais im portante ainda, a fim de
alcançar todas as nações da terra com as boas-novas do reino de D eus, a
igreja não transm itiria sua m ensagem po r m eio de um sistem a religioso, um
tem plo com pleto com sacerdotes e sacrifícios. P recisaria de um instrum en­
to bem diferente.
E la receberia um a trom beta.
P o de r para o P ovo - A F esta de P e n t e c o s t e s 89

Perguntas para estudo e discussão


1. A m orte de três m il pessoas no episódio do bezerro de ouro e a
salv ação de trê s m il p e sso a s em A tos 2 p o n tu am a d eclaração b íb lica:
“A letra m ata, m as o espírito vivifica” (2C o 3.6). E xplique.

2. As diversas com unidades cristãs interpretam o conceito de “línguas”


de m aneiras distintas. D e que m aneira a explicação deste capítulo acerca
das línguas de Pentecostes ajuda (ou atrapalha) sua com preensão desse dom ?

3. O povo de Deus realiza, de fato, “ obras m aiores” do que as que


C risto realizou n a terra? Com o?

4. R eflita sobre a “respiração espiritual”, o m étodo prático descrito


m ais no final deste capítulo e que faz parte do treinam ento da C ruzada
E studantil com o aplicação de Efésios 5.18 à vida cristã de hoje. Você prática
essa respiração diariam ente? E sua fam ília? E sua igreja?
6
A T rombeta S oará
A Festa das Trombetas
Levítico 23.23-25

G osto de instrum entos de sopro. P or vários anos, toquei trom beta na


adolescência e na ju v en tu d e e cheguei a pensar em estudar m úsica e m e
profissionalizar. D eus ajustou m eu cham ado, porém , po r m eio de um jo g o
de beisebol no qual alguns dos m eus dentes encontraram um taco de m adeira.
Para m im , foi um a das m aneiras m ais criativas de ele m ostrar a um jo v em
obstinado que seu cham ado era o m inistério. H oje em dia, só toco de vez
em quando, e nunca m uito bem , m as ainda gosto do instrum ento e das
m úsicas escritas p ara ele. Fico encantado com os concertos de H aydn,
Telem ann e Vivaldi. G osto de jazz blues
e antigos, com o Louis A rm strong.
Sou apaixonado po r todo trabalho de W ynton M arsalis que toca jazz com o
poucos e, ainda assim , é acessível, com o provam os diversos Grammys que
recebeu p o r seu brilhantism o clássico.
U m a das características m arcantes dos instrum entos de sopro da fam í­
lia das trom betas é seu som alto. Q uem já tocou esse tipo de instrum ento
nunca esquece disso. Se você com ete um só deslize num concerto ou toca
um a nota errada num recital, não há com o disfarçar. Todo m undo percebe.
A orquestra sinfônica de nossa cidade tem duas dúzias de violinos, m as
apenas três trom betas. N ão precisa m ais.
Talvez por causa do seu som penetrante, as trom betas nem sem pre são
usadas p ara fins m usicais e de entretenim ento. E m term os históricos, trom ­
betas de vários tipos eram associadas a funções m ilitares. F aziam parte dos
toques m usicais que m arcavam grandes eventos de reis e rainhas; eram um
im portante m eio de com unicação no cam po de batalha, onde sinalizavam
ordens para atacar, recuar, qual estratégia e quais arm as usar e, é claro,
serviam com o sistem a de alarm e: quando a trom beta soava, a cidade ficava
em alerta p ara algum perigo im inente.
O som da trom beta é o foco da Festa das T rom betas, a prim eira de três
festas de outono celebradas no sétim o m ês do calendário de Israel que
corresponde, aproxim adam ente, ao m ês de outubro. A ssim com o as festas
ministério terreno
de prim avera se cum priram no de Cristo e a de Pentecostes
no derramamento do seu Espírito , as festas de outono se cum prem na obra
92 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

da igreja. O im pacto do seu evangelho é duplo: prim eiro, prom ove transfor­
m ação n a vid a das pessoas nos dias de hoje; segundo, m udará todas as coi­
sas quando Jesus voltar p ara com pletar o plano de redenção.
A F esta das T rom betas com eçava no prim eiro dia do sétim o m ês.
L em bre-se de que, desde o êxodo, a v id a de Israel não girava em to m o da
agricu ltu ra, m as da redenção, de m odo que D eus havia transferido o ano-
n ovo do sétim o m ês p ara o prim eiro, p ara que coincidisse com a P áscoa, a
celebração do livram ento (Ex 12.1). A o longo dos séculos, porém , Israel
h a v ia p erd id o de vista o propósito red en to r de sua eleição com o povo
esco lh id o de D eus. C om isso, as festas do sétim o m ês que deviam celebrar
e m a rc a r a c o lh e ita re d e n to ra de D e u s v o lta ra m ao seu fo c o o rig in a l.
A F esta das T rom betas, assim cham ada pelo próprio D eus em L evítico 23,
p asso u a ser co n hecida po r outro nom e que in dicava um propósito in teira­
m ente distinto. Rosh HaShanah ou “ cabeça do ano” , era um a celebração
de ano-novo.
A fim de entender o caráter dessa festa, conform e sua com issão origi­
nal po r D eus, tem os de voltar ao seu propósito levítico, associado ao instru­
m ento p eculiar feito de chifre de carneiro, cujo som era um dos elem entos
centrais da celebração.

SONS DE TROMBETAS
Poucos sabem que, com o as pessoas, cada trom beta possui um a voz
diferente. O “trom pete” que eu tocava na m ocidade era, na verdade, um
cornetim , u m instrum ento um pouco m ais curto e de tom um pouco m ais
grave. A nos depois, um am igo apareceu no ensaio do culto com um fliscom e.
Esse instrum ento, que tam bém faz parte da fam ília das trom betas, possui
u m a câm pula m aior e curvas m enos acentuadas e produz um som m ais
cheio e aveludado. Em outra ocasião, um trom petista apareceu no culto de
N atal com u m “trom pete piccolo
” . O instrum ento era tão pequeno que
parecia um brinquedo e seu tom , um a oitava m ais alto do que um trom pete
norm al, acrescentava um a m elodia com plem entar m agnífica, m ais aguda
que as vozes da congregação. C ada um desses instrum entos da fam ília das
trom betas tem a própria voz, ou som. Podem os dizer o m esm o das trom betas
nos tem pos bíblicos.
N a verdade, tam bém precisam os definir o term o bíblico para trom be­
tas. E m Israel, havia dois tipos distintos. A s trom betas de prata, hotsotsera,
eram instrum entos de m etal, com o o par que havia sido confeccionado p e­
los artífices segundo as instruções do Senhor (N m 10). Em geral, eram usa­
das p ara fins com unitários: convocavam Israel para se reunir e transm itiam
instruções durante a peregrinação do povo pelo deserto.
A T r o m b e t a S o ar á - A F esta d a s T r o m b e t a s 93

O outro tipo de trom beta, m ais im portante p ara a v id a de fé dos


isra e lita s , e ra o c h ifre de c a rn e iro ou shofar. A F e sta das T ro m b e tas
( li t, Yom t ’R uah ou “dia de soprar”) era um festival estruturado, original­
m ente em tom o do som desses instm m entos. Com o as trom betas de hoje, os
shofarim possuíam diversos sons. A lguns eram trom pas grandes, de tim bre
grave, com o os baixos de um coral; outras eram interm ediárias, com voz de
tenor e as m enores eram de tim bre m ais agudo, em tom de contralto ou
m esm o soprano. A o longo dos séculos, os levitas confeccionaram in stm ­
m entos litúrgicos tradicionais de chifres de carneiros e antílopes, m as nun­
ca de bois ou bezerros, fato que, para alguns, é um a possível referência ao
bezerro de ouro. Os tipos de chifres usados contribuíam para a diversidade
de sons e tim bres. Em todos os instm m entos, eram acoplados bocais de
prata ou de ouro e os levitas que os tocavam eram m úsicos habilidosos.
D evia ser m aravilhoso ouvir o som de grandes corais de trom betas de chifre
o dia todo, do am anhecer ao entardecer.
A ssim era a Festa das Trom betas: insistente, bela, m ajestosa e sonora.
C orrendo o risco de entediar o leitor com excesso de detalhes, além da
diversidade de sons e oitavas das trom betas, o Mishná identifica pelo m e­
nos três melodias distintas. U m a delas era sustentada, a outra era trinada e a
terceira era prolongada.47 A lém disso, no dia da festa, eram realizados vários
solos com nom es particulares, pois assum iam caráter especial e m arcavam
m om entos im portantes da festa. H avia a “prim eira trom beta” que anunciava o
início da festa e convocava Israel para se reunir. Posteriorm ente, a “prim eira
trom beta” se to m aria a proclam ação form al da lua nova ou do ano-novo
agrícola. A “últim a trom beta” indicava, obviam ente, a conclusão da “festa
do sopro das trom betas” . E no décim o dia do sétim o m ês, o D ia da Expiação
ou Yom Kipur , soava a “grande trom beta” .

NOSSO DEUS REINA!


O so m da tro m b e ta de c h ifre de c a rn e iro ta m b é m p o s s u ía um
significado arraigado na história da redenção. Q uando ordenou que A braão
sacrificasse Isaque sobre um altar (Gn 22), Deus forneceu um carneiro com o
substituto p ara o filho. P or m eio de seu sangue, o anim al proporcionou
livram ento divino. D esde esse dia, a trom beta de chifre de carneiro passou
a despertar e renovar a lem brança. Esse seria o som da presença de Deus .
O som das tro m b etas que sin a liz a v a m a p rese n ç a de D eus tra n sm i­
tia v árias m en sag en s ao seu povo. U m a delas, d izia resp e ito à soberania
do Senhor.
O p re s id e n te dos E stad o s U n id o s é a p re se n ta d o co m u m to q u e
sim p les de tro m b e ta , rep e tid o três vezes: D it, d it-d it-d a t, d it-d it-D aaah !
94 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

D it, d it-d it-d a t, dit-dit-D aaah! D it, dit-dit-dat, dit-dit-D aaah!, seguido da
m elodia conhecida de “H ail to the C h ie f ’. D o m esm o m odo, o toque do
shofar fazia parte de eventos de E stado no Israel do A ntigo Testam ento.
Seus reis hum anos, com o D avi e Salom ão, foram coroados ao som de trom ­
betas, m as o soberano suprem o de Israel era Deus
, de m odo que os sons que
acom panhavam a entronização possuíam im plicações que transcendiam a
dinastia hum ana de D avi e Salom ão. Israel não era com o os outros povos
cujos líderes não passavam de m eros m ortais. A ntes, com o nação, ela p ró ­
p ria era evidência visível do reino de D eus na terra. Seu reinado havia se
m anifestado no início da vida de Israel. A cam pado no sopé do m onte Sinai,
convocado p ara o m onte pelo som do shofar (Ex 19), o povo israelita foi ao
encontro do D eus que o havia rem ido e, portanto, possuía direitos reais de
governar sobre eles com o seu Senhor. A o introduzir sua lei real, Y H W H
declarou: “E u sou o S enhor , teu D eus, que te tirei da terra do Egito, da casa
da servidão” (Êx 20.2).
Deus tam bém era Rei sobre todas as nações, sobre toda a terra. O Deus
de Israel não era um a sim ples divindade territorial, com o eram , suposta­
m ente, os ídolos das nações. Israel aprenderia a cantar a esse respeito tam ­
bém , acom panhado do som do shofar que declarava a soberania de D eus
não apenas sobre Israel, m as sobre toda a terra.

Subiu Deus por entre aclamações, o S enhor, ao som de trombeta.


Salmodiai a Deus, cantai louvores; salmodiai ao nosso Rei, cantai louvores.
Deus é o Rei de toda a terra; salmodiai com harmonioso cântico.
Deus reina sobre as nações; Deus se assenta no seu santo trono.
(SI 47.5-8)

O utra m ensagem transm itida pelo toque do shofar


era a convocação
p ara lembrar. A trom beta cham ava à fé num D eus com um histórico de
graça. A o longo da história de Israel, m uitas m em órias seriam desencadeadas
pelo som do shofar
, nenhum a m ais vívida do que a narrativa da queda de
Jericó. D epois de m archar sete vezes em tom o da cidade (Js 6), o povo foi
instm ído a soar a trom beta de chifre de carneiro. O som da trom beta invo­
cou a intervenção de Y H W H e convocou Israel a agir com a coragem que
nasce da fé. Q uando as m uralhas caíram , a m ensagem ficou clara: foram
derrubadas p ela m ão forte de D eus. D iante das m inas da cidade m ais antiga
da terra, cujas m uralhas poderosas haviam perm anecido incólum es p o r m i­
lhares de anos, Israel se lem braria de que sua segurança não estava em m u­
ros, m as no Senhor. A s m inas serviriam para lem brar o povo do som da
trom beta e do D eus que era seu R ei e Redentor.
A T r o m b e t a S o ar á - A F esta das Trombetas 95

C o m o fic o u c laro em p o u c o tem p o , Isra e l não


lem b ro u de D eus.
O coração cada v ez m ais em pedernido dos israelitas esqueceu do D eus
que jam a is p o d eria esquecer do seu povo (Is 49.14-15). O esquecim ento
de Israel rep resentou um rom pim ento da aliança com D eus. M oisés havia
adv ertid o solenem ente: “ G uarda-te, para que não esqueças o S e n h o r , que
te tiro u da terra do E g ito ...” (D t 6.12). M as Israel esqueceu e, quando isso
aconteceu, D eus enviou profetas cuja voz foi com parada ao toque do shofar
p ara ad v ertir a cidade do ju lg am en to . Os profetas, “ atalaias sobre os m u ­
ro s” da cidade, foram enviados p ara despertar o povo p ara a n ecessidade
de arrependim ento antes da chegada do Rei. O perigo estav a a cam inho,
perigo do tipo que a ju stiç a sem pre traz sobre os iníquos. O R ei Justo do
céu e da terra se aproxim ava: “ ... tocai a tro m b eta em T ecoa e levantai o
facho [...] p o rq u e do lado do N o rte surge um gran d e m al, u m a grande
calam id ad e. A fo rm o sa e d elicad a, a filh a de Sião, eu deixarei em ruí­
nas ” (Jr 6.1-2).

A CELEBRAÇÃO NO SÉCULO 1°
N o sécu lo l 9, a tra n siç ã o de Yom t ’Ruah (o “ d ia de so p ra r” as
trom betas) p ara Rosh HaShanah (“cabeça do ano”) já havia se com pletado,
trazen d o consigo não apenas um novo nom e, m as u m a m udança to tal de
e n fo q u e . A “ F e s ta d as T ro m b e ta s ” n ã o e ra m a is c o n s id e ra d a u m a
celeb ração d a o bra red en to ra de D eus e um cham ado p ara ad o rar o R ei
com fé e arrep endim ento. H avia se to m a d o um a das m uitas e rep etitiv as
celeb raçõ es da “ lua n o v a ” esp ecial apenas no sentido de que anunciava a
c h eg ad a do “ a n o -n o v o ” . T rata-se de u m a d ife ren ç a sig n ific a tiv a : um
elem en to e ssen cial de Yom t ’Ruah , au sen te de Rosh HaShanah era a
p resen ça clara de D eus, o enfoque inequivocam ente red en to r que conferia
à F esta o seu caráter singular.
E m parte, essa m udança de foco talvez se deva à ausência de um acon­
tecim ento redentor específico na história do Israel do A ntigo Testam ento
que ligasse o coração do povo ao toque da trom beta. A s festas da Páscoa,
dos P ães A sm os e das Prim ícias eram todas ancoradas no êxodo do E gito e
se c u m p rira m na m o rte , no se p u lta m e n to e n a re ssu rre iç ã o de C risto .
N o d e v id o tem po, Pentecostes encontrou seu tipo no Sinai e sua conclusão
no derram am ento do Espírito. A F esta das T rom betas não apresenta nenhu­
m a associação sem elhante. N enhum a referência nos E vangelhos parece li­
gar de m odo claro o m inistério terreno de Jesus com essa festa antiga.
A m enos, é claro, que considerem os o texto de m odo um pouco m ais
profundo. N a verdade, o som da trom beta foi crucial p ara o m inistério con­
tínuo do M essias; apenas teve ressonância diferente no século l 9.
96 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

C om o início do N ovo Testam ento, a trom beta de D eus continuou a


proclam ar sua soberania , a convocar o povo de D eus p ara lembrar e, po r­
tanto, adorar , e a chamar os pecadores ao arrependimento. Em outras p ala­
vras, continuou a anunciar a presença e o governo de Deus. O próprio Sobe­
rano foi revelado de m odo m ais pleno: ele é Jesus e sua vinda a terra é a
chegada do reino de D eus. D urante seu m inistério terreno, Jesus disse clara­
m ente: “ Se, porém , eu expulso dem ônios pelo Espírito de D eus, certam ente
é chegado o reino de D eus sobre vós” (M t 12.28). A inda no Evangelho de
M ateus, pouco antes da grande C om issão (M t 28.19s.), Jesus expandiu essa
declaração ao acrescentar um a afirm ação de soberania universal: “Toda a
autoridade m e foi dada no céu e na terra” (v. 18). Em virtude da cruz e da
ressurreição, subiu ao céu para tom ar posse da autoridade sobre um m undo
que, até então, havia perm anecido em m ãos rebeldes. A gora, toda a criação
de D eus está sujeita à autoridade de Cristo, do m esm o m odo que Israel se
apropriara da terra ao som dos shofarim de Josué.
A chegada do Soberano tam bém seria anunciada pelo som de um a
trom beta.

A TROMBETA DO EVANGELHO
Q ue trom beta faz ressoar esse toque? N enhum a das passagens que
descrevem o m inistério de Jesus sequer m enciona qualquer instrum ento
m usical. Há, contudo, um a trom beta que anuncia o Rei: a pregação do
evangelho p o r vozes hum anas.
N o grego, o verbo principal para pregar é “kerusso” ; o teor da prega­
ção é “kerugm a” . O term o transm ite a ideia do anúncio feito po r um arauto
investido de autoridade real, que declara sua chegada com toques de trom ­
beta e proclam a a palavra de um Rei. N o N ovo Testam ento, a pregação do
evangelho é o novo som do antigo shofar, assim com o, em outros tem pos, a
voz do p rofeta soou a “trom beta” sobre os m uros de Sião (Ez 33.3,7).
N o s prim eiros séculos da igreja, a pregação “kerusso” era realizada
p o r hom ens separados po r m eio da ordenação, hom ens cham ados de profe­
tas, evangelistas, pastores e m estres. P or vezes, falavam em sinagogas; com
m ais frequência, porém , em esquinas, praças ou lugares de reunião, com o o
m onte M arte em A tenas, onde Paulo pregou sobre Cristo p ara os filósofos
epicureus e estoicos da época (A t 17). N esse contexto, a pregação tinha um
caráter real, pois anunciava que D eus, o Rei, tinha vindo na pessoa de Jesus
C risto e que sua chegada requeria um a resposta. O anúncio era caracteriza­
do p ela graça, pois proclam ava redenção; ao m esm o tem po, contudo, era
insistente, pois exigia o coração de todos que ouviam .
A T r o m b e t a S o a r á - A F esta d a s T r o m b e t a s 97

A o contrário dos ouvintes m odernos (que não costum am entender a


pregação dessa m aneira), os ouvintes do século 1°., tanto religiosos ju d eu s
quanto gentios pagãos, pareciam entender o cerne da proclam ação. Os pri­
m eiros v ersícu lo s de A tos 18 n a rra m o testem u n h o de P au lo aos ju d e u s
"... que o C risto é Jesus” (v. 5). A reação da m ultidão foi violenta: opuse-
ram -se a ele e “blasfem aram ” . N o capítulo seguinte, L ucas relata a reação à
pregação de Paulo em É feso, um a espécie de solo de trom beta. O resultado
foi u m a revolta popular tão intensa que colocou em risco a segurança de
Paulo e seus com panheiros de viagem . Sem som bra de dúvida, aqueles que
ouviram Paulo pregar realm ente entenderam que Deus estava afirm ando
sua autoridade sobre a vida e a cidade deles e se opuseram a isso.
O utros que ouviram a pregação do evangelho no século I o. creram .
A atitude deles tam bém revela que entenderam a seriedade do toque da trom ­
b eta de D eus. Atos 19.19 relata: “Tam bém m uitos dos que haviam praticado
artes m ág icas, reu n in d o os seus liv ro s, os qu eim aram d ian te de todos.
C a lc u la d o s os seus p reç o s, a ch o u -se que m o n tav am a cin q u e n ta m il
denários” . Os ouvintes levaram a pregação a sério. U m denário correspondia
ao salário de um dia de trabalho; a fogueira consum iu a renda anual total de
140 trabalhadores, um a verdadeira fortuna.
N a igreja prim itiva, nem todos que “tocavam a trom beta” do evange­
lho eram profissionais. A lém do trabalho dos apóstolos, evangelistas e p as­
tores, todos os cristãos entendiam que tam bém tinham o dever de “pregar” e
o faziam de m aneira natural, com o respiravam . V iviam cada dia conscientes
do papel de em baixadores de C risto e realizavam suas tarefas com o ocupan­
tes perm anentes do “banco das testem unhas” . O N ovo Testam ento em prega
um term o grego diferente para esse toque da trom beta: evangelizo descreve
o testem unho de todos os cristãos. Expulsos de Jerusalém pela perseguição,
levaram o evangelho aos confins da terra e foram “ ... po r toda a parte p re­
gando [evangelizando] a palavra” (A t 8.4).
C om poder e ousadia concedidos pelo E spírito de P entecostes, com os
apóstolos e pregadores na dianteira, m as abrangendo todos os m em bros, a
igreja prim itiva se inseriu nas culturas pagãs de todas as nações para soar a
trom beta e indicar que seu Rei, C risto, havia declarado possuir “toda a auto­
ridade” sobre eles. Sua pregação foi o toque da trom beta de D eus, com a
urgência de vida ou m orte: “N osso D eus reina! A rrependam -se de seus p e ­
cados, creiam no Filho de Deus e adorem o R ei!”

UM TOQUE ABAFADO
A pregação, com o a entendem os no século 21, está passando po r
tem pos difíceis. P ara a m aioria das pessoas fora da igreja
, pregação é
98 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

sinônim o de conversa insistente e hipócrita de pouco valor. Para m uitos


dentro da igreja, a pregação é com o um anestésico.
N ão se trata de um sim ples problem a de estilo: pouco im porta se o
preg ad o r veste um tem o ou trajes m ais inform ais, se está ju n to ao púlpito
ou num palco com m úsicos, se sua m ensagem é curta ou longa. O problem a
é que a igreja, sem falar no m undo no qual a igreja deve servir ao Rei,
perdeu de v ista a natureza eo caráter da “pregação” .
N o N ovo T estam ento, a pregação é sem pre a m anchete, e nunca um a
m era no ta de rodapé. E sem pre um anúncio claro de que o R ei chegou. Sua
vinda trará m udanças autênticas e radicais e ele tem o direito de reivindicar
autoridade real sobre todas as criaturas do seu reino. A pregação apresenta,
portanto, duas dim ensões: é o clam or do arauto e o toque da trom beta, e
tam bém é o som que vem diretam ente da boca de D eus p ara os nossos ouvi­
dos e coração.
D e acordo com a definição b íb lica do term o, p reg ar n unca é falar
sobre u m assunto. N u n ca é um a conversa de três pontos: u m a m ensagem
m in h a (ponto A ) p ara você (ponto B) sobre determ inado assunto (ponto
C ).48 A p reg ação n u n ca é apenas um serm ão de dom ingo p ara pessoas que
reserv aram lugares nos b ancos p ara o culto das 11 horas (e, o que é m ais
im p o rtan te, p ara o churrasco de co n fraternização ou a p artid a de futebol à
tarde). A d iferen ça entre isso tudo e a pregação v erd ad eira é a diferença
en tre o som lím pido e sonoro de u m a tro m b eta e o toque surdo de um
in stru m en to com abafador.
D e acordo com a definição bíblica, a pregação é sem pre m otivada pela
graça, pois declara a pessoa e a obra de Jesus, o M essias, com o Salvador.
Tam bém é real, pois proclam a que o Senhor Jesus quer sua vida e o cham a
p ara segui-lo. O pregador tem a autoridade de em baixador, pois representa
o R ei. P o r vezes, é incisivo. Passa sem pedir desculpas do indicativo p ara o
im perativo e m ete o nariz da Palavra de D eus em sua vida. P regar não é
apenas convencer alguém a aceitar inform ações úteis com o se estivesse
com prando um seguro de vida. A ntes, é insistir p ara que o ouvinte responda
ao R ei com fé, se arrependa do pecado, deixe a desobediência e aceite o
cham ado p ara seguir a Cristo. A boa pregação, com o o típico m ensageiro do
R ei, espera u m a resposta. Entendida em term os bíblicos, sem pre provoca
u m a crise n a vida do ouvinte.
Isso acontece porque a pregação é condicionada pelo caráter das boas-
novas que transm ite. Jesus pregou: “A rrependei-vos, porque está próxim o o
reino dos céus” (M t 4.17). Ele não queria dizer que o reino poderia
qstar
próxim o se as pessoas cressem em seu sermão. N ão convidou as pessoas a
considerarem se o rei estavapróximo ou não, caso elas cressem. Proclam ou o
A T r o m b e t a S o ar á - A F esta d a s T r o m b e t a s 99

reino com o um fato, pois o iniciou quando veio ao m undo. Com base nessa
realidade e com o evidência da m udança de regim e que sua vinda causou,
Jesus expulsou dem ônios, curou enferm os, fortaleceu os aleijados, restaurou
a visão dos cegos e a audição dos surdos. Ele próprio explicava em todo lugar
que passava: “ Se, porém , eu expulso os dem ônios pelo dedo de D eus,
certam ente, é chegado o reino de Deus sobre vós” (Lc 11.20).
E m outras palavras, ao enviar C risto, D eus voltou a se apropriar da
criação que, outrora, havia sido seu dom ínio “m uito bom ” . A criação caiu
em pecado, m as D eus a tom ou de volta para si e endireitou aquilo que o
pecado desvirtuou no m undo inteiro. Esse era o plano de D eus desde o
princípio dos tem pos.

PÉS FORMOSOS
A o enviar a igreja para o m undo inteiro com o evangelho em seus
lábios e sua vida, o R ei que declarou ter “toda a autoridade sobre o céu e a
terra” não enviou apenas repórteres. A palav ra da pregação serviu, em si
m esm a, de instrum ento legal p ara a reapropriação que propagou os direitos
do Soberano p o r m eio de novas ondas de pregadores com procurações para
falar em nom e de seu Senhor. Em term os bíblicos, a pregação possui esse
tipo de poder legal; não se atém a falar de C risto, m as leva C risto para o
ouvinte. A pregação em si é, de fato, redentora.
Sem pre m e im pressiona a p rática estranha do m undo antigo de exe­
cu tar o co rred o r que levava m ás notícias ao rei. A expressão “m atar o
m en sag eiro ” v em desse costum e que funcionava do seguinte m odo: se o
exército p erd ia um a batalh a num a p lan ície distante no dia 1Qde ju n h o , o
rei, em sua sala do trono, só ficava sabendo do ocorrido quando o m en sa­
geiro chegava com as notícias da batalh a no dia 3 de ju n h o . P or ironia,
não eram os gritos aterradores do cam po de batalha, m as sim a voz do
mensageiro que enchia de dor o coração do m onarca e de seu povo. U m a
vez que o m en sageiro havia sido responsável po r tran sm itir a n o tícia e po r
cau sa da an g ú stia que ela provocava, ele levava a culpa e era punido com
a p en a m áx im a da execução.
Em contrapartida, se o exército h av ia vencido a batalh a no d i a l 0 de
ju n h o , m as a n o tícia da vitó ria só chegava dois dias depois, o m ensageiro
que lev av a a n o tícia à cidade no dia 3 de ju n h o era recebido com festa.
Com o corredor de longas distâncias, provavelm ente era um rapaz m agricelo,
com costelas proem inentes e pés calejados, de p o rte inapropriado para
com bate direto e, quase com certeza, longe de ser um herói fam oso nos
cam pos de batalha. N ão obstante, o m ensageiro receb ia um a coroa de lou­
ros e era recom pensado com fam a e fortuna, com o se ele p róprio houvesse
100 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l •

exterm inado m ilhares de soldados inim igos - tudo isso porque era portador
de boas-novas!
O outro lado do costum e de “m atar o m ensageiro” é o que se encontra
p o r trás do clam or exultante de Isaías: “ Que form osos são sobre os m ontes
os pés do que an uncia as boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia
coisas b o as, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu D eus rein a!”
(Is 52.7). Isaías não estava cantando sobre os pés sujos, ensanguentados e
m alcheirosos dos corredores que percorriam os m ontes. A ntes, estava cele­
brando o papel dos pés do m ensageiro na proclam ação de boas-novas para
os ouvintes do evangelho, novas que m udariam a vida deles para sem pre.
A pregação do evangelho tem esse poder. D eus não apenas enviou
Jesus ao m undo para m orrer com o C ordeiro de D eus p o r volta de 33 d.C.,
com o tam bém envia a igreja para proclam ar este fato ao m undo, 21 séculos
depois. A igreja é a voz do m ensageiro que efetiva
as boas-novas p ara todos
que ouvem e creem . A salvação oferecida po r D eus foi realizada na cruz e
n a ressurreição de Jesus. São as novas acerca da cruz e da ressurreição, as
boas-novas que a pregação do evangelho anuncia, porém , que salvam quem
crê. As palavras de P aulo em R om anos 10.17 não constituem apenas um
conselho tático; revelam um a realidade profunda: “ . ..a fé vem pela prega­
ção” ! Em IP ed ro 1.23-25, o apóstolo Pedro vai ainda m ais longe: o evange­
lho pregado é a sem ente do novo nascim ento!
N o m undo de hoje, não costum am os “m atar o m en sag eiro ” . N ão
obstante, ainda existem histórias que validam o argum ento de que as notícias
to m am a v itória (ou derrota) real para o ouvinte. Talvez você tenha ouvido
falar de soldados japoneses que, anos depois do final da Segunda G uerra
M undial, perm aneciam em estado de alerta nas bases secretas em cavernas
de ilhas longínquas nas Filipinas. C om as linhas de com unicação cortadas,
não haviam recebido a notícia do fím da guerra. Só depois de ouvirem as
novas de fontes confiáveis é que puderam descansar e entregar suas arm as.
A lguns capítulos anteriores, relatei m inha experiência com leucem ia
aguda. Perm ita-m e contar um pouco m ais da história.

Recebi alta em 25 de fevereiro de 1998, mas precisava vol­


tar com frequência para fazer exames de sangue, primeiro sema­
nal, depois quinzenal e mensalmente. Estava começando a me
sentir saudável.
Foi quando conheci Carol.
Começamos a sair juntos cerca de dezoito meses depois de eu
ter recebido alta e não demorei a me apaixonar por ela. Uma vez que
planejava pedi-la em casamento, senti-me na obrigação de me certi­
ficar do meu bom estado de saúde antes de me declarar. (Algo como
A T rombeta S oará - A F esta das Trombetas 101

inspecionar os dentes antes de comprar o cavalo velho. Nesse caso,


porém, eu era o cavalo velho.)
Quando pedi ao meu médico para fazer uma biópsia de medu­
la, ele olhou para mim como se eu tivesse perdido o juízo. Já havia
me submetido a esse teste quatro vezes. No procedimento doloroso, o
médico faz um orifício de aproximadamente 0,3 cm no osso pélvico,
logo ao lado da espinha. Insere um instrumento no orifício e aspira
uma amostra de medula. Nenhuma anestesia local funciona nessa
região, de modo que o médico só aplica um pouco de anestésico
tópico na superfície da pele. Em resumo: dói. A vantagem é que o
teste permite uma análise mais completa do estado da medula que
produz as células sanguíneas brancas e é um instrumento de diag­
nóstico muito mais preciso do que um simples exame de sangue. An­
tes de propor uma vida nova para Carol, eu queria saber o máximo
possível sobre meu estado de saúde.
O médico balançou a cabeça, mas, porfim, concordou emfazer
o exame. Não era demorado, apenas doloroso. Saí mancando do con­
sultório, voltei de carro para casa, tomei um analgésico e esperei.
O dia arrastou-se até que eu conseguisse obter o resultado.
Sabia que este, quer positivo quer negativo, apenas mostraria a
atividade celular em andamento no meu corpo havia muito tempo.
Quando o próprio médico ligou, respirei fundo. “Está tudo em
ordem, John. Parabéns! Pode se casar sossegado!” Com um longo
suspiro, derramei uma lágrima de alegria.
Naquela noite, fizemos uma festa e comemoramos muito mais
do que as células saudáveis da medula. Comemoramos o recebimento
de boas-novas.

O EVANGELHO E A LEI
O to q u e d a tr o m b e ta d e D e u s n a p r e g a ç ã o é c o m o a q u e le
telefo n em a. T raz, ou m elhor, dá v id a, à a le g ria do e v a n g elh o n aq u eles
que o u v em e creem . P o r m eio da P a lav ra p ro cla m a d a , C risto concede
graça àq u eles que o u v em e creem . A P a la v ra de D eus tam b ém p o ssu i,
co n tu d o , u m c a rá te r rea l; é a lei de D eus seg u n d o a q u al h o m en s e
m u lh e res de fé devem v iv e r de ag o ra em d ian te. E, a fin a l, a P a lav ra do
R ei, e n ão ap en as info rm ação .
P arte con sid erável da pregação em nossos dias perd eu essa dinâm ica
real, fato que se deve, em parte, a u m a visão im precisa da relação entre
“ lei” e “ ev an g elh o” que distancia os dois e reduz o “ evangelho” a um a
sim ples o ferta.49 O utro fator é o im pacto inexorável da televisão em nossa
cu ltu ra que m udou o m odo com o a m ente h um ana p ro cessa inform ação.
M arva D aw n o b serva que “ a televisão acostum ou os espectadores com
102 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

m u ita inform ação e pouca ação” , de m odo que “as pessoas estão habituadas
a ‘a p re n d e r’ b o a s id e ia s (até m esm o de se rm õ e s) e não fa z e r n a d a a
re s p e ito d elas” .50
Q uando en tendida de m odo correto, porém , a pregação é tão crucial
p ara o p lan o red en to r do evangelho que Jesus a lista com o o terceiro pé do
trip é da red en ção e asso cia sua m orte e ressurreição de m odo inextricável
às b o as-n o v as acerca de am bas. “A ssim está escrito que o C risto h av ia de
p ad ecer e ressu scitar dentre os m ortos no terceiro dia e que em seu nom e
se p reg asse arrependim ento p ara rem issão de pecad o s a todas as n açõ es”
(Lc 24.46-47).

A OBSERVÂNCIA DA FESTA
C om o podem os, então, “guardar a festa”, celebrar de fato, no século
21, u m a festa antiga que com em orava o som da trom beta do cham ado de
D eus? Perm ita-m e fazer algum as sugestões relacionadas a um envolvim ento
sério com a pregação real do evangelho.
Prim eiro, ouça o som da trom beta com frequência. C om isso quero
dizer, sem m e desculpar, que você deve se sujeitar voluntariam ente à prega­
ção fiel num a igreja im pelida pelo evangelho. R efiro-m e ao tipo de prega­
ção que lhe traz à m em ória o que D eus fez em C risto e aplica as boas-novas
de m odo direto às áreas problem áticas do seu
coração, da sua vida, da sua
cidade. Perm ita-se ser franco: se você não é transform ado pela pregação do
evangelho em sua igreja; se ela não m exe com suas crenças, com portam entos
e m otivações; se não m olda sua vida de m aneira contínua tanto para libertá-lo
do po d er do pecado quanto para lhe m ostrar a alegria de seguir a C risto, é
h ora de pro cu rar outra igreja.
S egundo, envolva-se com u m a igreja que entende o cham ado p ara
fazer soar a tro m b eta para a sua cidade. U m a das verdades centrais acer­
ca do p ro p ó sito da igreja é que ela existe para o mundo. Sua pregação
deve ser sem pre o clam o r do arauto p ara a cidade n a qual D eus a colocou.
E m outras palav ras, a igreja foi salva e cham ada p ara um p ropósito m aio r
do que ela p rópria. E la vive para que
po ssa p ro clam ar louvores a D eus às
n açõ es; existe para que o m undo conheça o C risto que é R ei. D eve levar a
tro m b eta e não ousar servir apenas de sala de aula. Se sua igreja esqueceu
d essa v erd ad e, lem bre-a!
Terceiro, você precisa pregar. L em brar sua igreja de soar a trom beta
p ara a cidade p arecerá im plicância hipócrita se você não estiver levando o
evangelho pessoalm ente ao âm bito de atuação onde D eus o colocou. Com o
os cristãos do século I o. que levavam a palavra p ara onde quer que fossem ,
você precisa levar o evangelho para o seu m undo, cum prindo um cham ado
A T rombe ta S oará - A F esta das T r o m b e t a s 103

de d im ensões v erb ais e éticas. P edro explica, com eçando com a dim ensão
verbal: “V ós, porém , sois raç a eleita, sacerdócio real, nação santa, povo
de pro p ried ad e ex clusiva de D eus, a fim de p roclam ardes as v irtudes da­
quele que vos cham ou das trevas p ara a sua m arav ilh o sa lu z” (IP e 2.9).
N os v ersícu lo s seguintes, esclarece a dim ensão ética: "... m antendo exem ­
plar o vosso procedim ento no m eio dos gentios, para que, naquilo que falam
contra vós outros com o de m alfeitores, observando-vos em vossas boas obras,
glorifiquem a D eus” .
Você e eu fom os cham ados, em resum o, para contar a história do evan­
gelho, a história da redenção em C risto. U m a das m aneiras de fazerm os isso
é contar a história de nossa redenção pela graça de Deus.
C ontei várias histórias nestas páginas, m as não contei a sua história.
E la é singular e som ente você pode narrá-la. Q uando são autênticas, nossas
histórias possuem a força do evangelho. Talvez você tenha um a história
sobre seu casam ento, u m relato de p erd ão depois de in fid elid ad e que
exem plifica o perdão que Cristo oferece a pessoas infiéis com o nós. Esse tipo
de história dá ao seu próxim o, bem com o ao casam ento dele, esperança
ancorada em C risto e não em técnicas de aconselham ento. Talvez você te­
nha u m a história sobre câncer, que trata francam ente da m ortalidade, m as
aponta p ara a esperança em C risto que vai além desta existência cam al.
T alvez sua h istó ria seja de trabalho e fale sobre com o você foi redim ido
dos íd olos do poder, da riq u eza e do sucesso que escravizam tan ta gente.
Ou, talv ez, sua história fale de sexo, da procura por am or nos lugares erra­
dos e do am or que você encontrou em C risto, aquele que nos aceita pela
graça, som ente p o r m eio da fé.
E m sua obra To Be Told [Para ser narrado], D an A llender dem onstra
com grande habilidade com o você pode “ escrever sua história” para que
outros no m undo ao seu redor a leiam , um a história de redenção e graça,
que proclam a o am or e a graça de D eus.51
O uso de sua própria história p ara os propósitos de D eus é o assunto
de P aulo em 2C oríntios 1.3ss. Q uando D eus anda ao seu lado em m eio à
aflição, ao pecado e ao sofrim ento da vida, não deixa que você sim plesm ente
apague tudo da m em ória e n unca m ais volte a refletir sobre sua culpa ou
dor. A ntes, convida você a u sar as lem branças dolorosas e hum ilhantes da
sua fraqueza p ara m inistrar a outros. U m a vez salvos, os cristãos não têm
p erm issão p ara adotar um a fachada de respeitabilidade e integridade com o
se nu n ca tivessem sido um caso perdido. E m vez disso, são cham ados a
não esquecer de todas as coisas das quais foram salvos e lem brar sem pre
para que foram salvos, a fim de m ostrar àqueles que ainda estão presos às
ervas daninhas a esperança e a cura que a graça de D eus provê em C risto.
104 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

A llen d er coloca as próprias sugestões em prática e fala abertam ente da fase


em que u so u drogas antes de conhecer a C risto. A franqueza notável é o que
to m a suas palavras tão im pressionantes e a m ensagem tão convincente.
Q uarto, observar a Festas das Trom betas exige um a visão am pla. U m a
vez que C risto é Senhor de tudo, a trom beta deve ressoar pelo m undo inteiro.
Isso exige dos cristãos um com prom isso sério com o treinam ento e envio
de pregadores a todos os lugares onde o Senhor não é conhecido. O catecism o
de H eidelberg, do século 16, identifica esse com prom isso com o o prim eiro
dever de guardar o sábado com o dia santo: “Prim eiro, que o m inistério do
ev angelho e a instrução cristã sejam m an tid o s” . O cum prim ento desse
com prom isso talvez envolva a contribuição p ara sem inários e institutos
bíblicos, o sustento de trabalhos de tradução ou o custeio generoso de m étodos
criativ o s de trein am en to que alcancem um a po rcen tag em crescente da
população do m undo que não tem acesso à instrução tradicional. U m exem plo
é a organização T hird M illenium M inistries, com sede em O rlando, Fl,
coordenada p o r R ichard Pratt. P ratt deixou um a carreira de sucesso com o
p ro fesso r de u m sem inário teológico tradicional para dirigir um m inistério
que oferece pacotes de treinam ento em nível de sem inário por m eio de
áudio, vídeo, internet e im pressos p ara 90% dos pastores e professores do
m undo inteiro que não têm acesso a espaços físicos de treinam ento.
“ O bservar a F esta” das Trom betas exige, em especial, que você ore.
G ostaria que todas as igrejas orassem por seus pastores da m aneira com o
os m em bros do B rooklin Tabem acle oram pelo pastor deles, Jim C ym bala.52
Sabem , p o r experiência, que toda vez que o pastor proclam a a P alavra de
D eus, h á u m confronto entre as afirm ações do Rei R edentor e as forças
espirituais do m al em N ova York. T oda vez que ele prega, os m em bros
esperam a ocorrência de crises e as testem unharam com os próprios olhos
em várias ocasiões. P or isso, um grupo grande se reúne num a sala ao lado
do santuário e ora durante todo o culto. F isicam ente prostrados, se curvam
com o rosto em terra em oração urgente e suplicam para que o Espírito
envolva a pregação do pastor com o im enso poder do Espírito. As histórias
que C ym bala relata de orações respondidas são inspiradoras.
O b serv ar a F esta das T rom betas de m aneiras p ráticas com o essas
inclina a igreja p ara a frente, na expectativa ardente pelo dia em que todas
as pessoas terão ouvido as novas ju b ilo sas de que o Rei chegou. Q uando a
igreja vive com essa postura e esse tipo de poder é, de fato, capaz de m udar
o m undo. E ssa igreja nunca perderá seu im pacto nem se to m ará irrelevante
e nu n ca se envergonhará de sua resposta se alguém perguntar aos seus
m em bros: “ Se D eus estendesse a m ão do céu e rem ovesse sua congregação
da cidade, alguém , além dos m em bros, perceberia a ausência dela?”
A T rombe ta S oará - A F esta das T rombetas 105

D evo dirigir um a palavra aos colegas pastores que foram cham ados
de m o d o esp ecífico p a ra esse m in isté rio . N o s dias de h o je, v o cês se
encontram sob a pressão injusta de providenciar, praticam ente sozinhos,
para que seu m inistério seja bem -sucedido, que a igreja cresça com o se
fosse um a em presa e ofereça m inistérios com o m ais alto grau de criatividade
e sofisticação. E spera-se que cum pram essa m issão enquanto andam na
corda bam ba, procurando satisfazer as exigências dos m em bros tradicionais
e p ro m o v er m udanças e novidades p ara alcançar as gerações m ais jo v en s
que não se im pressionam com as tradições. Tudo isso, sem contrair dívidas.
H oje em dia, a pressão não é sutil; é explícita. Tam bém é perversa.
O resultado triste é que m uitos de nós que servim os no m inistério
eclesiástico deixam os de olhar p ara o cham ado principal de nossa vida, o
cham ado para fazer ressoar a trom beta da P alavra de D eus. Os atalaias nos
m uros devem tocar a trom beta com o em baixadores do Rei ao qual dedicaram
a v id a . P o ré m , n ã o p o d e m o s c u m p rir e sse c h a m a d o se e s tiv e rm o s
preocupados com índices de aprovação ou desem penho. D eus é o único
“p ú b lico ” que precisam os agradar.

JÁ, AINDA NÃO


N o início do capítulo, com entei sobre as trom betas com “n o m e” que
so av am n a F e sta das T ro m b etas e su g eri com o alg u n s d esses n o m es
contribuem p ara m oldar nossa visão da história da redenção. A “prim eira
trom beta” da F esta soou quando C risto derram ou seu E spírito e enviou a
igreja p ara p reg ar o evangelho a todas as nações. D eu início ao cham ado
m issionário da igreja, à com issão para levar o evangelho a um m undo pagão.
A igreja de C risto já está soando essa trom beta.
Porém , a H istória ainda não chegou ao fim; o dia dos sons da trom beta
ainda não term inou. U m dia, a “últim a trom beta” soará. Será o terceiro
toque da Festa, ao qual IT essalonicenses 4.16 e lC o rín tio s 15.52 se refe­
rem . D epois que essa trom beta soar e C risto voltar, a pregação cessará, pois
não será m ais necessária.
V ivem os hoje entre esses solos das trom betas. A inda tem os a com is­
são de anunciar que Jesus C risto é Salvador e Senhor, pois o dia final ainda
não chegou. Enquanto esse dia não vem , a pregação (tanto de pastores quanto
de donas-de-casa e cam inhoneiros cristãos, cada um à sua m aneira singular)
é a tarefa prioritária da igreja. C ulturas e grupos linguísticos inteiros ainda
não ouviram as boas-novas de Deus. P essoas que conhecem os e am am os
ainda não dobraram seus joelhos ao R ei Jesus.
Q uando hom ens, m ulheres e crianças ouvem o som do evangelho de
D eu s e c re e m n e le , o u tra tro m b e ta soa. E u m to q u e a le g re, de reg o z ijo .
106 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

A “grande trom beta” cham a o povo de D eus para a festa seguinte, Yom
Kippur. E um som , e um a celebração, da redenção oferecida po r D eus e que
se to m a intensam ente pessoal. E o som da liberdade.

Perguntas para estudo e discussão


1. O uça u m C D de b o a m ú sica de trom pete (recom endo W ynton
M arsalis, m as fique à vontade p ara escolher outro m úsico). C om ente com o
a m úsica de trom pete difere em caráter de um a p eça para violino ou piano.
D e que m an eira a diferença ajuda você a entender a função dos nashofarim
h istó ria de Israel?

2. E ste capítulo explica o costum e antigo de “m atar o m ensageiro”


p o rtad o r de m ás notícias. D e que m aneira os ouvintes m odernos ainda
“m atam o m ensageiro” quando não gostam da m ensagem ?

3. Se v o c ê fre q u e n ta u m a ig reja, re flita com seried ad e sobre as


pregações que ouve norm alm ente. A nunciam que C risto é S alvador e Rei?
Interferem de m aneira apropriada na v id a das pessoas ao insistirem na
sujeição ao senhorio de C risto? Você ora antes de ouvir a pregação? A ceita
o desafio depois?

4. S upondo que seja o caso, de que m aneiras a pregação na m ídia


(televisão, rádio ou podcasting
, situações em que o pregador e os ouvintes
não se conhecem e não têm a possibilidade de se conhecer) afeta o conteúdo
da mensagem pregada?
E ste È o D ia !
O Dia da Expiação
Levítico 16; 23.26-32

Scott e Jenna estavam em meu escritório outra vez. A filha de


13 anos, Elizabeth, continuava a se mutilar. Dessa vez, havia usado
uma lâmina de barbearpara cortar a parte inferior do abdome. Como
era de se esperar, os pais estavam extremamente preocupados.
Eu também estava preocupado, não apenas com Elizabeth e
sua prática assustadora de automutilação. Em termos pastorais,
faltava uma peça no quebra-cabeça. Conhecia Scott e Jenna havia
anos e tinha perdido a conta de quantas vezes eles me procuraram
para tratar de uma crise ou outra. Ao pensar não apenas neles,
mas em seus parentes, era espantoso como uma única família con­
sumia uma porção tão grande da energia e do tempo limitado que
nossa equipe pastoral podia oferecer. Casamentos desfeitos, casos
de adultério, crises de adolescência que incluíam não apenas
automutilação, mas também anorexia, tudo isso se desenrolava num
contexto permanente de depressão, desespero e baixíssima
autoestima que marcava a família toda. Como era possível haver
tanta disfuncionalidade na família de um casal com mais de 60
anos de idade que, em todos os sentidos, era uma das colunas da
igreja e um exemplo de respeitabilidade?
Perplexo diante da situação, esforcei-me ao máximo para ou­
vir, demonstrar empatia e orar. O encontro em questão, contudo, foi
diferente dos outros. Dessa vez, desesperadapor causa dafilha, Jenna
finalmente começou afalar sobre seu pai, o avô da menina. Relatou
coisas que eu já sabia: era um homem poderoso que havia juntado
uma fortuna considerável; era um homem generoso que gostava de
presentearfilhos e netos e contribuir na igreja; era um líder respei­
tado por todos na comunidade. Também relatou coisas que eu não
sabia: havia obrigado cada uma das filhas a cometer incesto com
ele quando eram adolescentes, durante um período que se estendeu
por quase vinte anos, fazendo ameaças às filhas e à esposa caso
revelassem o segredo da família.
O conceito de “visitar a iniquidade dos pais nosfilhos ”assumiu
um novo aspecto para mim nesse dia. O impacto trágico do pecado de
108 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

um homem havia despedaçado dezenas de vidas ao longo de três


gerações da história da família. Havia desvirtuado a autoimagem
dessas mulheres, impedido-as de dar e receber amor e comprometi­
do sua capacidade de respeitar e confiar em figuras de autoridade.
Ele as havia privado de toda a alegria e enchido a alma delas de
amargura e raiva. E havia comprometido seriamente a capacidade
delas de confiar em Deus. Liam as palavras de Jesus na Bíblia: “De
maneira alguma te deixarei, nuncajamais te abandonarei ” (Hb 13.5),
mas se perguntavam onde ele estava quando o pai destruiu tudo o
que havia de puro em suas vidas?

Infelizm ente, histórias com o essa são com uns hoje em dia. As estatís­
ticas sugerem que um a entre quatro m ulheres na A m érica do N orte sofreu
abuso de algum a figura de autoridade na fam ília. Uma entre quatro.
Incluí a
história m encionada neste capítulo porque ela m ostra a realidade terrível de
que a corrupção abrangente do pecado não é exclusividade da atual gera­
ção. Era, na verdade, o tem a do D ia da Expiação, a pressuposição funda­
m ental que dava significado a esse dia.
C om eçando com a F esta das Trom betas, a agitação festiva do sétim o
m ês encerrava o calendário com em orativo. N o décim o dia do sétim o m ês,
Israel celebrava o Yom Kippur, o D ia da Expiação, um a celebração que ins­
pirava tam anha reverência a ponto de ser cham ada sim plesm ente de “ o D ia” .
A o longo dos séculos, foi aclam ada com o o m aior dos D ias Santos, pois
levava Israel ao “Lugar Santíssim o” p ara se encontrar face a face com a
esperança m essiânica.

A PURIFICAÇÃO DOS IMUNDOS


A s tradições com plexas que vieram a definir a celebração do D ia da
E xpiação têm sua origem nas instruções explícitas que M oisés recebeu
diretam ente de Y H W H . A s prescrições para a F esta são apresentadas com
um a breve, porém triste, história: “ F alou o S enhor a M oisés, depois que
m orreram os dois filhos de A rão, tendo chegado aqueles diante do S enhor ”
(Lv 16.1). N ão h á com o saber ao certo o que os filhos de A rão, am bos
sacerdotes, haviam feito. Talvez tivessem se aproxim ado de Y H W H num
m om ento inapropriado (fora dos horários de sacrifício pela m anhã e no
final da tarde), de m aneira im própria (violando um a das especificações das
ofertas prescritas) ou com um espírito inapropriado (im puros no coração
ou n a vida). U m a coisa é certa: o ju lg a m e n to de D eus h av ia sido rápido.
Ele era santo e insistia em ser honrado com o tal por seu povo e, em particular,
p o r aqueles separados p ara o sacerdócio.
E s t e é o D ia - O D i a da E x p i a ç ã o 109

P ara ser sacerdote, o indivíduo precisava de um senso de identidade


correto e saudável. A pesar de serem hom ens com uns, eram separados para
u m a ta re fa ex trao rd in ária. S uas v e stim e n tas eram c o n feccio n ad as dos
m esm o s tecidos usados no tabernáculo. Seu m undo era o edifício e a área
separada ao redor, considerada “ santa para o Senhor” . D esde os trajes que
vestiam até a m aneira com o deviam se com portar, eram , conform e Trem per
L ongm an III sugere, “parte da própria estrutura do Tabernáculo” .53
Enquanto estavam em serviço, deviam voltar toda a atenção p ara o
Santo de Israel. N ão podiam perm itir a introm issão das rotinas da vida fora
das paredes do Tabernáculo. C om ternura, sem dúvida, m as tam bém com
firm eza, M oisés lem brou A rão desse fato no m esm o dia em que os dois
filhos de A rão m orreram . A fam ília m ais am pla poderia lam entar a m orte de
N adabe e A biú, m as A rão e os outros filhos, sacerdotes em serviço diante do
Senhor, eram proibidos de expressar o luto de m aneira visível (Lv lO.óss.).
C om o isso é possível? D eus havia dito: “M ostrarei a m inha santidade n a­
q u eles que se ch eg u em a m im e serei g lo rific ad o d ian te de to d o o p o v o ”
(L v 10.3). E espantoso observar que “A rão se calou” .
A santidade de D eus constituiria, portanto, um a das âncoras da F esta
conhecida com o Yom Kippur. A s cerim ônias do D ia não tardariam em reve­
lar outra, pois dariam testem unho claro da extensão da falta de santidade de
Israel. T ratava-se de um dia que sim plesm ente “celebrava” a purificação de
tudo que era im undo.
Os prim eiros itens a serem purificados eram os “ instrum entos” físicos
do sistem a sacrificial. A brangiam A rão e os outros sacerdotes, contam inados
tanto pelos próprios pecados com o pelo envolvim ento sacrificial com os
p e c a d o s do p o v o . A rão não p re c isa v a se r lem b rad o d e sse fato . S ua
participação infeliz no episódio do bezerro de ouro hav ia m anchado sua
reputação e, sem dúvida, causou grande sofrim ento a ele. Os pecados de
seus dois filhos que resultaram na dem onstração da ira ardente de Y H W H
devem ter trazido de volta à tona a culpa e a im pureza de sua fam ília.
A rão devia se p reparar com um banho cerim onial com água e, em
seguida, v estir os trajes sagrados: roupas de baixo, cobertas por um a túnica
am arrada com um cinto na cintura e, na cabeça, um turbante. Todas as
peças eram feitas de linho. O turbante era adornado com um a lâm ina de
ouro presa à parte anterior com um fio azul e contendo a seguinte inscrição:
“ Santidade ao S enhor ” (Ê x 28.36). U m a vez devidam ente vestido, devia
entrar na área do santuário com o novilho que seria abatido m ais tarde para
a sua pró p ria o ferta pelo pecado e p ara fazer expiação pelo sacerdote e sua
fam ília (Lv 16.4-6).
110 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

Outros levitas que tam bém ministravam no Tabernáculo (e, posteriormente,


no Tem plo), tam bém precisavam ser purificados. O assistente do sacerdote
que conduziria o bode expiatório até o deserto precisava se purificar antes
de v oltar à com unidade (v. 26), e o levita que enterrava a pele, a carne e as
entranhas das ofertas pelo pecado fora do arraial tinha de lavar as roupas e
se b an h ar com água (v. 28). Os am bientes tam bém precisavam de expiação:
o espaço físico e a m obília do Tabernáculo, inclusive o L ugar Santíssim o
(v. 16), a ten d a da congregação com o um todo (v. 16) e o altar (v. 18) tinham
de ser santificados e purificados a fim de rem over as “ ... im purezas dos
filhos de Israel” (v. 19).

EXPIAÇÃO POR SANGUE


A m á no tícia era que o pecado do povo havia contam inado tudo. N ada
estav a fo ra do alcance de sua corrupção. H av ia, contudo, boas-n o v as
representadas num a cerim ônia com dois bodes. Pelo lançam ento de sortes,
u m deles era escolhido “p ara Y H W H ” e o outro, “para bode em issário” ou
“p ara A zazel” (N V I).54 O bode “para Y H W H ” era um a oferta pelo pecado55
e d ev ia ser im olado pelo sum o sacerdote em favor do povo (Lv 16.15s.);
o bode em issário era m antido vivo e, m ais tarde, levado para o deserto
com o bode expiatório.
A fin a lid a d e d ife re n te de c a d a b o d e d e fin e o c o n c e ito ric o e
m ultifacetado de “expiação” , um conceito que parece estranho e prim itivo
p ara os leitores atuais da Bíblia. A expiação envolvia sangue, m uito sangue.
E nquanto o L ugar Santíssim o se encontrava envolto na nuvem de incenso,
o sum o sacerdote realizava dois rituais. N o prim eiro, m ergulhava o dedo
num recipiente com sangue do novilho sacrificado pelos pecados do pró ­
prio sum o sacerdote e sua fam ília, e aspergia o sangue sobre o propiciatório
da arca sete vezes com o propiciação , um sacrifício voltado para D eus que
satisfazia as exigências de sua santidade. E m seguida, pegava o sangue re­
co lh id o do b o d e “p a ra Y H W H ” e re p e tia o ritu a l de asp ersã o com o
propiciação pelo povo.
A aspersão no L ugar Santíssim o não era um procedim ento lim po, pois
espirrava sangue po r todo o côm odo. Tratava-se, contudo, de um desalinho
intencional, pois o ritual visava fazer expiação pelo L ugar Santíssim o devi­
do à im pureza e rebeldia dos israelitas. A contam inação do pecado havia
saturado a estrutura, o espaço, o tecido que revestia as paredes e tudo preci­
sava ser purificado.
E claro que o Senhor não é um D eus sanguinário, que exige ser sacia­
do com sangue. A fé nele tam bém não é um a regressão a práticas prim itivas
e irrelevantes p ara o hom em m oderno sofisticado. Para o povo antigo, e
E s t e é o D i a - O D i a da E x p i a ç ã o 111

p ara nós tam bém , o D ia transm itia um a m ensagem sem pre oportuna: o pe­
cado destrói a vida em todos os níveis concebíveis. A m ensagem não pode­
ria ser m ais clara: D eus a escreveu com o sangue que representa vida.
N ão é de adm irar que o serviço de todos os envolvidos nas cerim ônias
de expiação fosse m arcado por reverência e trem or. M ais adiante na história
de Israel, o sum o sacerdote entrava no L ugar Santíssim o com um a corda
am arrada n a cintura e sinos presos à borda de sua vestim enta. Se os sinos
parassem de tocar, os israelitas concluiriam que o sacerdote havia m orrido e
seu corpo pod eria ser arrastado para fora em segurança.
A o sair de costas do Lugar Santíssim o, o sum o sacerdote repetia o
ritual no L ugar Santo, o côm odo m aior do Tabernáculo que tam bém havia
sido contam inado pelos pecados dos israelitas. A fastava-se ainda m ais, até
sair do Tabernáculo e se ver diante do altar no pátio, onde repetia o ritual de
sangue, pois o altar, em particular, se encontrava im undo, m anchado ao
longo do ano pelo sangue dos pecados de Israel (Lv 16.18-19).

O BODE EXPIATÓRIO
U m a vez concluído o ritual de purificação no T abernáculo, o sum o
sacerdote levava p ara fora o bode expiatório. C olocava as m ãos na cabeça
do bode e confessava sobre ele "... todas as iniquidades dos filhos de Israel”
(L v 16.21). E ssa variação da cerim ônia de ordenação to m av a v isív el a
segunda n u an ça do conceito de expiação, a saber, de que a expiação era
realizada p o r substituição. O bode expiatório não era m orto, m as enviado
ao d e s e rto , sob os c u id a d o s de u m h o m em e sc o lh id o p a ra essa ta re fa .
O bode levava sobre si “ ... todas as iniquidades deles p ara terra solitária”
(Lv 16.22). M ais tarde, desenvolveu-se outro costum e: p ara garantir que o
bode não voltaria à comunidade, ele era empurrado da beira de um precipício.56
H artley sugere que os antigos acreditavam que o deserto inacessível e
om inoso, era “a habitação de dem ônios ou espíritos m alignos” . A seu ver, o
term o “A zazel” , em pregado em algum as versões é, portanto, um a referên­
cia às forças dem oníacas presentes no m undo. O bode expiatório não era
um sacrifício feitoao príncipe dos dem ônios; antes, representava o banim ento
do pecado para longe do povo santo, um sacrifício de expiação. E ra um tipo
do dia em que o pecado seria lançado p ara sem pre nas profundezas arden­
tes, o devido lugar dele e do diabo.
Q uer essa tradução “para A zazel” esteja correta ou não, um a coisa é
certa: o “ritual de banim ento” , com o H artley o cham a, garantia a Israel de
m odo enérgico e visível que sua culpa havia sido elim inada po r m eio do
sacrifício expiatório e que seu poder e efeito constante no m eio do povo de
D eus havia sido rom pido.57
112 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

SOMBRA E REALIDADE
C om o vim os, cada um a das F estas era um a som bra que se estendia ao
longo da h istória passada, projetada p ela Luz brilhante redentora cham ada
Jesus, o C risto. O D ia da E xpiação não é diferente. Seus com ponentes e
rituais são visual, em ocional e espiritualm ente m essiânicos. C ada dim ensão
da rica tap eçaria de experiências celebradas no D ia antevia a expiação que
o M essias traria. C ada um a ensinava um a lição profunda.
A p rim eira lição a ser aprendida era a extensão da contam inação do
pecado. Q uem não ficaria com ovido com a verdade triste de que todos os
elementos do sistem a sacrificial, desde o sacerdote até o altar, o L ugar San­
to e o L ugar Santíssim o, os utensílios, as paredes e o piso, se encontravam
contam inados p ela corrupção dos pecados do povo de D eus?
A segunda lição era que D eus salvaria pela graça (a expiação devia ser
feita p o r u m substituto!), m as que apesar de ser oferecida sem custo, a graça
tin h a um alto preço. E nvolvia sangue e m orte.
A terceira lição era que a expiação exigiria propiciação
para apazi­
guar a ira ju sta do D eus santo e expiação p ara purificar a culpa (e, com o
verem os, a consciência culpada) de um povo im puro.
A lição m ais dolorosa talvez tenha sido a que foi entendida só depois
de séculos, ao ser explicada pela E pístola aos H ebreus no N ovo Testam en­
to: todas as cerim ônias de Yom Kippur, toda a purificação, todos os rituais,
todo o sangue e m orte, não eram capazes de remover um pecado sequer.
E m últim a análise, a m orte de um anim al não tinha poder de expiar pelos
pecados de u m povo e um sacerdote corrupto que precisava fazer expiação
p o r si m esm o não podia, em últim a análise, fazê-la por outros.
P or que não? O autor de H ebreus explica que as ofertas e os sacrifícios
ap resen tad o s não eram capazes de p u rificar a consciência do adorador
(H b 9.9). E m outras palavras, os sacrifícios oferecidos ao longo do D ia da
E xpiação não tinham o poder de to m ar a pessoa pura por dentro,
onde o
ferm ento do pecado se encontra arraigado. E ra preciso um sacerdote m aior
e u m sacrifício m aior. Jesus, o M essias, é o sacerdote m aior que “ ... não por
m eio de sangue de bodes e de bezerros, m as pelo seu próprio sangue, entrou
no Santo dos Santos, um a vez p o r todas, tendo obtido e te m a red en ção ”
(H b 9.12). C risto ofereceu um sacrifício m aior: entregou a si m esm o com o
sacrifício “sem m ácula a D eus”, com o as diversas avaliações durante a se­
m ana anterior à sua m orte na Páscoa evidenciaram . Esse sacrifício purifi­
cou “ a nossa consciência de obras m ortas” (Hb 9.14).
Se os sacerdotes do T abem áculo/Tem plo eram parte integrante da es­
trutura, conform e Trem per L ongm an III argum enta, o Jesus M essias o era
ainda m ais. A o recordar a aspersão de sangue sobre o propiciatório da arca
E s t e é o D i a - O D i a da E x p i a ç ã o 113

da aliança, H artley observa: “N o D ia da E xpiação era sobre o propiciatório


que o sum o sacerdote aspergia o sangue das ofertas de purificação a fim de
obter expiação para si m esm o e p ara o povo. A gora, D eus enviou Jesus
com o propiciatório de expiação. Enquanto o propiciatório da arca ficava
escondido no recôndito do Lugar Santíssim o, Jesus m orreu em público, para
todos verem . E ssa m udança de local anuncia que a m orte de Jesus obtém
expiação p ara todos que creem nele” .58
Todos os sacrifícios de Yom Kippur oferecidos nos séculos que ante­
cederam a v inda de C risto eram ineficazes; o D ia servia apenas de tipo
da
redenção m aior. O sacrifício de C risto foi superior: oferecido por um sacer­
dote superior num lugar superior de expiação. H ebreus dá testem unho des­
se fato p or m eio de um contraste verbal nítido: cada sacerdote do A ntigo
T estam ento “ se apresenta” constantem ente para repetir os m esm os sacrifí­
cios, cerim ônia após cerim ônia, ano após ano. Jesus, porém , “assentou-se”
depois de fazer o seu sacrifício (H b 10.11-12). O sacerdócio não está m ais
ativo. A obra foi consum ada com a m orte de Cristo.
C om o que para acrescentar um ponto de exclam ação, o antigo ritual
da expulsão do bode em issário do acam pam ento tam bém se cum priria no
M essias crucificado do lado de fora dos m uros da cidade,59ju n to às estradas
m ovim entadas da antiga Palestina e, portanto, diante dos olhos do m undo.
N unca foi intenção de D eus que o “D ia” fosse apenas p ara Israel. A expia­
ção se aplica aos pecados de todos que creem .

PERDA DO SIGNIFICADO
Q uando os longos séculos do A ntigo Testam ento se aproxim avam do
final, os olhos da fé de Israel se turvaram e as som bras da expiação que o
M essias realizaria se tom aram cada vez m ais indistintos. Os rituais do D ia
co m eçaram a m udar: de m odo lento no p rin cíp io , m as inex o rav elm en te,
levando a u m a alteração de foco e à p erd a total do significado redentor,
apesar d a co b ertu ra e dos adornos de cerim ônias e trad içõ es cada vez
m ais so fisticados.
N o tem po de A nás e Caifás, sum os sacerdotes durante o m inistério ter­
reno de Jesus, os vários preparativos do tem plo para YomKippur se iniciavam
na véspera. Os assistentes do sum o sacerdote eram incum bidos de ajudá-lo a
deixar tudo pronto, usando um processo que com eçava com o estudo m inu­
cioso do texto da Torá para que ninguém errasse por ignorância no desem pe­
nho de suas tarefas. Caso o sacerdote se cansasse de estudar, os assistentes o
colocavam em pé sobre o chão frio de m árm ore para despertá-lo.60
N a m an h ã da Festa, o sum o sacerdote era conduzido até o local de
purificação, onde tom ava o banho ritual. Em dias norm ais, o sacerdote lavava
114 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

as m ãos e os pés antes de com eçar os sacrifícios. N o D ia da Expiação, porém ,


b anhava o corpo todo cinco vezes. Pelo m enos um dos banhos era realizado
à vista do povo, atrás de um painel de linho, para m anter o decoro.
Em seguida, ele se ataviava em esplendor m uito m ais glorioso do que
o de Arão: o linho branco de outrora havia recebido orlas de ouro, a estola
com as pedras preciosas e o turbante tam bém eram tecidos com ouro, sendo
que o turbante m antinha a inscrição “ Santidade ao Senhor” , conform e pres­
crito séculos antes (Ex 28.36). O incensário de prata que o sum o sacerdote
carregava nos dias norm ais era substituído po r um incensário de ouro.
Era u m espetáculo im pressionante. A tensão entre os outros sacerdo­
tes tanto alim entava com o refletia a em oção da congregação: todos trem iam
de expectativa enquanto os pais apontavam e sussurravam explicações para
os filhos que observavam tudo de olhos arregalados.
O sum o sacerdote com eçava os rituais com u m a confissão pessoal
de p ecad o sobre a cabeça do novilho. E ra um m om ento extraordinário: o
h o m em m ais santo de todos confessava os próprios pecados! E m seguida,
lançav am -se sortes p ara escolher os bodes “p ara Y H W H ” e “p ara A zazel”
e os dois anim ais eram levados aos seus respectivos destinos. O sum o
sacerdote v o ltav a ao novilho. C om habilidade experiente cortava a gar­
g an ta do n o v ilh o e reco lh ia o sangue num a bacia, um a tarefa n ad a fácil
p ara alguém v estido de branco e trêm ulo de nervosism o. Os gritos do n o ­
v ilho, o esforço físico p ara controlar os m ovim entos espasm ódicos e v io ­
lentos do anim al e o jo rro de sangue arterial to m av am o m om ento in es­
quecível p ara to dos que o testem unhavam .
T erm inada essa etapa, o sum o sacerdote estava pronto para realizar o
cem e do ritual, a jo rn ad a dram ática até o Lugar Santíssim o. Im agine a cena
com igo. O tem plo de H erodes era im enso, m uito m aior do que o T abernácu­
lo. A cam inhada lenta levava algum tem po e, enquanto o sum o sacerdote
andava, os sinos nas franjas de sua veste soavam . O sum o sacerdote entrava
no L ugar Santo onde realizava os rituais necessários com toda solenidade.
A proxim ava-se, por fim , do véu espesso que separava o L ugar Santo do
L ugar Santíssim o, a sala do trono do próprio YH W H ! Com m ãos trêm ulas,
abria o v éu p ara contem plar... absolutamente nada!
A arca da aliança, com seu propiciatório e querubins revestidos de
ouro h a v ia sid o lev a d a p a ra a B a b ilô n ia c e rc a de seis sécu lo s antes.
N abucodonosor tinha retirado tudo de valor do Tem plo e levado todos os
tesouros de ouro de Salom ão (2Rs 24.13). D epois do exílio, restou apenas
um a plataform a vazia, com três dedos de altura, um a “pedra fundam ental”
que os rabinos cham avam de “Shetijah” .61
De m odo espantoso, o sumo sacerdote cum pria o ritual m etodicam ente,
com o se o ritual em si, sem o sacrifício no qual era baseado e pelo qual
E s t e é o D ia - O D i a da E x p i a ç ã o 115

ansiava com tanta intensidade, pudesse, de algum m odo, elim inar a conta­
m inação e a culpa pelo pecado. Ele fazia isso porque era nisso que ele e
todo o Israel acreditavam . D epois do saque do Tem plo, a religião ju d aica
teria de passar por um a m udança drástica. O Tem plo havia sido construído
para práticas de adoração que giravam em tom o dos sacrifícios, todos volta­
dos para a arca da aliança. M as a arca da aliança fora levada em bora e, no
tem po de Jesus, esse acontecim ento ocorrera havia quase seiscentos anos!
Sem a arca, os estudiosos rabínicos com eçaram a buscar por um novo signifi­
cado para o D ia da Expiação, um significado que não dependesse do sangue
aspergido sobre o propiciatório desaparecido. Eles encontraram o significado
que procuravam no ato de arrependimento , um ato que não exigia nenhum
sacrifício e nenhum utensílio do Tem plo. P osteriorm ente, o rabino A kiba
(135 d.C.) explicou: “A iniciativa da expiação encontra-se no pecador. Ele
purifica a si mesmo no D ia da Expiação por m eio de um a introspecção im pla­
cável e confissão sincera e tom a a firm e decisão de não repetir as transgres­
sões do ano anterior” .62 M uito tem po depois, M aim ônides (1204 d.C.) foi
ainda m ais direto e argum entou que o ato de arrependim ento em si expiava
to d a iniquidade.63
N as Escrituras, o arrependim ento sem pre foi um sinal im portante de um
coração quebrantado diante do Senhor. N ão possui, contudo, poderes m ági­
cos e não é capaz de elim inar a culpa só porque estam os contritos. Pouco
tem po atrás, assisti na televisão a um a “declaração de rem orso” de um assas­
sino condenado, feita pouco antes de ele receber a sentença. C om contrição
aparentem ente sincera, em lágrim as, o jo v em pediu perdão ao tribunal, aos
pais do m enino cuja vida ele havia tirado de m aneira brutal, bem com o à sua
própria fam ília pela vergonha que ele havia lhes causado. O m om ento m ais
com ovente, porém , foi quando o ju iz pronunciou a sentença de 25 anos de
prisão. A turdido, olhando perplexo para os advogados e depois para a sua
m ãe sentada atrás dele, o rapaz disse: “M as eu m e arrependi!”
A o longo dos séculos, o Yom Kippur prefigurou um a m ensagem dife­
rente: nossa vida é repleta de culpa que contam ina tudo em nós. Sem dúvida,
é preciso haver arrependim ento, m as o poder purificador do arrependim ento
não se encontra em nossa declaração de contrição, m as na elim inação do
pecado pela m orte expiatória de um substituto. Jesus, o M essias, foi o sacri­
fício quepropiciou a ira do D eus ju sto e foi o bode expiatório queexpiou a
culpa e a contam inação pelo pecado de todos que creem nele.

UMA VIDA LIMPA


R esta u m ponto a ser esclarecido: a questão da redundância. P or que
D eus se deu o trabalho de instruir Israel a celebrar o D ia da E xpiação no
116 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

sétim o m ês? Já havia prefigurado a expiação num a festa anterior, no sacrifício


do C ordeiro P ascal, u m a redenção que p arecia com pleta em si m esm a.
N o fin al da festa, o sacerdote/Cordeiro havia exclam ado: “Está consum ado!”
A resposta diz respeito à arquitetura. E m term os sim ples, você não mora
num alicerce, m as sim no edifício construído sobre ele. O alicerce é funda­
m ental, m as é nos espaços acim a dele que você coloca a m obília que caracte­
riza a sua vida. A cadeira favorita fica num canto, as fotografias da fam ília
penduradas n a parede do corredor e, acim a do sofá, você coloca a pintura que
trouxe da E uropa quando foi para lá com em orar o seu 25°. aniversário.
A m orte do C ordeiro Pascal de D eus foi fundam ental. Foi concluída,
consum ada, suficiente p ara cobrir os pecados de todos. A s E scrituras se
referem a ela em tom universal: “ ... h á um só D eus e um só M ediador entre
D eus e os hom ens, C risto Jesus, hom em ” ( lT m 2.5).
N em todos os hom ens e m ulheres, contudo, são salvos, pois nem to ­
dos creem . As E scrituras sem pre deixam claro que D eus requer fé para que
a redenção seja eficaz. A fé não é m eritória, não conquistam os a salvação
pelo ato de crer, m as pelo dom que D eus concede em sua graça. N inguém
pode se vangloriar de sua fé (E f 2.8-9) e, no entanto, sem ela, não há salva­
ção (A t 4.12).
C om o vim os no capítulo anterior, a Festa das Trom betas representava
a tarefa gloriosa da igreja de levar as boas-novas a hom ens e m ulheres do
m undo inteiro. A obra da redenção, realizada na cruz, no sepultam ento e no
túm ulo vazio de Cristo, se concretiza na vida dos pecadores som ente por
m eio do evangelho que a igreja anuncia.
O D ia da E xpiação representava o que vem em seguida: a m aravilha e
a alegria da aceitação pessoal do evangelho. Trata-se de um a verdade sim ­
ples, po rém espantosa: se você crê verdadeiram ente, você é verdadeiram en­
te salvo! Paulo disse aos gentios de Éfeso: “E m [Cristo] tam bém vós, de­
pois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, ten­
do nele também crido , fostes selados...” (E f 1.13). P ara cristãos de C orinto,
ele u so u p a la v ras que p a recem u m a refe rê n c ia d ireta ao Yom Kippur :
“E is, ag o ra, o tem p o sobrem o d o o p o rtu n o , eis, agora, o dia da sa lv a ç ão ”
(2Co 6.2). N ão se refere a um a oportunidade que precisam os aproveitar en­
quanto está disponível, m as que talvez passe logo. “A intenção não é outra
senão apontar para a vinda definitiva de Deus, há tanto esperada, para a hora
das horas, o dia da salvação, no sentido realizador e escatológico do term o” .64
Q uero que você entenda isto de m aneira pessoal: quando você
ouve o
“toque agudo da trom beta” do evangelho e se curva diante de seu R ei R e­
dentor pela fé, esse dia aplica à sua v id a o Yom Kippur, o dia da expiação há
tanto esperado e representado ao longo dos anos. N esse dia, a culpa e a
E s t e é o D i a - O D ia da E x p i a ç ã o 117

contam inação que m ancharam sua vida inteira são elim inadas. N ão se trata
de um a lavagem tem porária, repetida a cada sem ana num a confissão ou a
cada ano num D ia Santo. Essa purificação é de “um a vez por todas” . O pera
de dentro para fora:seu coração é “purificado de m á consciência”. A lavagem
não exclui nada: seu corpo é “ ... lavado [...] com água p u ra ” e purificado
(H b 10.22). N ão resta nenhum a nódoa, m ácula ou im perfeição.
Se você crê em Jesus C risto, j á experim entou a alegria de saber que
foi purificado. R egozije-se com essa verdade diariam ente. Pregue para você
m esm o e para os seus irm ãos e irm ãs em Cristo, pois Satanás, o A cusador,
tentará em purrar sua consciência de volta a um estado de culpa.
Se você ainda não assum iu o com prom isso de seguir a Jesus, o M essias,
desejo que você conheça e experim ente a alegria que esse “D ia” lhe trará.
C onvido-o e insto-o a aceitar hoje o sacrifício de C risto com o substituto por
sua culpa e o sangue dele que purifica você de toda im undície. N ão se trata
de um convite para participar de um ritual religioso, a m era articulação de
palavras de u m a oração pronta, o sentim ento tem porário de rem orso, a
verbalização da penitência. N ada disso salva sem a fé pessoal e vital. “ Sem
fé é im possível agradar a D eus, porquanto é necessário que aquele que se
aproxim a de D eus creia que ele existe e que se to m a galardoador dos que o
buscam ” (Hb 11.6).
A fé confere um a visão diferente, leva você a ver a si m esm o e tudo ao
redor com os olhos de Deus. Pela fé, é possível enxergar com m uito m ais
clareza a realidade repulsiva do pecado que m anchou seu coração e sua vida.
Pela fé, você se arrepende em vez de negar, justificar ou culpar outras pessoas
ou circunstâncias por essa realidade. Pela fé, você crê nas Escrituras segundo
as quais Jesus, o M essias, é a fonte de expiação, crê que o sangue dele purifi­
ca o pecador e a m orte dele rem ove sua culpa de um a vez por todas.

AINDA NÃO...
C rer p ela fé em Jesus, o M essias, seja p ela prim eira vez na vida seja
p ela prim eira v ez no dia de hoje, é celebrar o D ia da E xpiação e se regozijar
com a purificação dos pecados.
O bservar a festa im plica inclinar-se para a frente, para o cum prim ento
da redenção divina que ainda está po r vir. Os seguidores de Jesus, o M essias,
ainda anseiam p o r outro Dia, no qual todo o universo será purificado da
contam inação e tudo que o pecado destruiu será restaurado. Pentecostes
deu o poder necessário e a Festa das Trom betas proclam ou a colheita do
evangelho que já se iniciou, m as ainda não foi com pletada. Do m esm o m odo,
o D ia da E xpiação aponta para a redenção pessoal, m as p ara m uito m ais do
que isso tam bém , pois C risto não descansará enquanto não tiver destruído
118 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

todo principado, potestade e poder e colocado "... todos os inim igos debai­
xo dos pés. O últim o inim igo a ser destruído é a m orte” (IC o 15.25-26).
Só então, os cristãos e toda a criação descansarão, po r fim , n a presen­
ça de D eus.

Scott e Jenna continuam casados. Elizabeth agora é mãe de


quatro filhos e não sofre mais da compulsão de se mutilar. Estaria
mentindo se dissesse que “viveram felizes para sempre ”. Cada dia é
uma luta para cada membro dafamília. Depois que os pais de Jenna
morreram, asfilhas venderam a casa deles e não visitam o túmulo da
família com frequência. Apesar de as memórias serem menos vívi­
das, não desapareceram de todo. Ainda marcada pelo abuso, Jenna
procura confiar em Scott, para se sentir segura no amor dele, especi­
almente na intimidade fisica. Ambos se esforçam diariamente para
ser abertos e transparentes, para viver à luz em vez de guardar se­
gredos e evitar conflitos. A franqueza e honestidade dos pais têm
ajudado Elizabeth a fazer progresso. Eles confiam em Deus, mas às
vezes, se apegam àfé com dedos fracos e até escorregadios e, quase
sempre, desesperados.

A F esta seguinte m ostra para Scott e Jenna, para você e eu, um m odo
de nos apegarm os com m ais firm eza à cura que a redenção proporciona.
N ela, descobrirem os que podem os, finalm ente, chegar ao nosso lar.

Perguntas para estudo e discussão


1. R ecapitule a relação extensa de rituais do Yom Kippur
descrita em
L evítico 16. P o r certo, todos eles tinham um propósito, m as vários eram
p articularm ente significativos, pois definiam e exem plificavam a verdade
da expiação. E m sua opinião, quais eram esses rituais m ais significativos?
P o r quê?

2. Q ual é a d iferença fundam ental entre fé e religião?


3. P o r que, ao co n trário do que p ro p u se ra m os rab in o s A k ib a e
M aim ônides, o “ato de arrependim ento” não é suficiente p ara rem over os
p ecados das pessoas?

4. P o r que, de acordo com a E pístola aos H ebreus, Jesus é sacerdote


superior e sacrifício superior?

5. E ste cap ítulo sugere que certos padrões


de p ecad o , p o r vezes
aprendidos com os pais, outras vezes desenvolvidos em reação ao pecado
E s t e é o D ia - O D i a da E x p i a ç ã o 119

de outros, podem m arcar a vida e afetar sua capacidade de am ar e confiar


em D eus e em outros. U m exem plo disso é a tentativa constante de evitar
conflitos. Você reconhece padrões desse tipo em sua vida? C onvido você a
trazer luz à escuridão hoje e com partilhar a questão com um am igo cristão
de confiança. E, m ais im portante ainda, ter um a conversa franca com D eus
a esse respeito.
8
V olta ao L ar
A Festa dos Tabernáculos
Levítico 23.33-44; Números 29.12-39

D iz-se que H ow ard H endricks, p rofessor de longa data do D allas


T heological Sem inary, aconselhava seus alunos: “V ivam com frugalidade,
m as v ia je m co m fre q u ê n c ia ” . S em pre g o ste i d esse c o n selh o e ten h o
procurado segui-lo.
C om o m uitas pessoas que vivem nos Estados U nidos do século 21,
m inha esposa e eu viajam os um bocado. Enquanto escrevo esta obra, m em ­
bros da nossa fam ília se encontram em quatro Estados do país, nenhum
deles a m enos de 1.500 quilôm etros de distância, de m odo que, para m an­
term os contato com nossos filhos e o núm ero cada vez m aior de netos, te­
m os a agradável obrigação de viajar de carro com frequência. A o longo dos
anos, o m inistério e os convites para falar m e perm itiam form ar m em órias
valiosas de lugares distantes em outros continentes. A s viagens de férias
são, obviam ente, as m ais preciosas, pelo m enos no estilo tranquilo que m i­
nha esposa e eu adotam os: nenhum a lista de com prom issos à vista e flexibi­
lidade p ara realizar as atividades do dia. A única regra é o firm e propósito
de explorar os “lugares m enos turísticos” .
A lguns anos atrás, recebi um convite para dar palestras durante um a
sem ana num encontro anual de m issionários na Á frica ocidental, um a parte
do m undo que nunca havia visitado. Pegam os um voo até Banjul, em Gâm bia,
onde esperávam os encontrar nossos anfitriões no aeroporto. Tivem os de
aguardar um pouco m ais do que o norm al para pegar a bagagem , m as quan­
do se faz viagens internacionais, esse tipo de percalço não causa surpresa.
N osso alívio ao ver as m alas na esteira desapareceu quando percebem os
um a parte da blusa predileta de m inha esposa do lado de fora de um a das
m alas que h av ia sido aberta e depois fechada às pressas e sem nenhum
cuidado. A o olharm os m elhor, descobrim os que o cadeado tinha sido arrom ­
bado e estavam faltando alguns cosm éticos e produtos de higiene e algum as
roupas e sapatos, inclusive um tênis caro. (N ão o par, m as apenas um dos
pés. Q uem furta um pé de tênis?) Essas pequenas perdas não causaram m uito
transtorno à viagem ; teria sido bem pior se houvéssem os perdido toda a
122 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

bagagem . A inda assim , o sentim ento desagradável de ter a privacidade in­


vadida persistiu durante a sem ana toda.
C om parada com as histórias de horror de m uitos viajantes, a nossa
não foi grande coisa. N ão obstante, a viagem de volta, passando po r três
aeroportos e a chegada aos EU A foram inesperadam ente reconfortantes.
A m igos que viajam com frequência dizem a m esm a coisa: “Voltar para casa
depois de u m a ausência prolongada é sem pre gostoso” .
Para os filhos de Israel, depois da longa jo rn ad a em um m undo desola­
do, a F esta dos Tabernáculos era com o voltar ao lar.

AS PRESCRIÇÕES DA FESTA
O últim o haggim , ou festival de peregrinação instituído pelo Senhor
encerrava o ano com em orativo em grande estilo. A festa, que com eçava no
décim o quinto dia do sétim o m ês (apenas cinco dias depois da solenidade
reverente do YomKippur), era um a explosão exuberante de alegria. Em vários
sentidos, era um a celebração incom parável: nenhum a das outras festas exigia
tantos sacrifícios, enchia as estradas estreitas para Jerusalém com tantos
peregrinos nem envolvia tanta participação diária das m ultidões quanto
Sukkoth, a F esta das C abanas ou T abernáculos que, ao longo dos séculos,
se to m o u conhecida sim plesm ente com o A Festa.
C om o em todas as festas instituídas por D eus no Sinai e descritas em
L evíticos 23, um a lista de prescrições detalhadas estruturava a com em ora­
ção. C om o vim os, as práticas que se desenvolveram ao longo dos séculos
acrescentaram novas dim ensões às atividades tradicionais.

Cabanas
O nom e da Festa, Sukkoth , vem das cabanas ou tendas tem porárias
nas quais Israel viveu durante os quarenta anos em que vagou pelo deserto.
U m a vez em Canaã, depois da m orte da geração que havia peram bulado
pelo deserto, D eus ordenou aos israelitas “ Sete dias habitareis em tendas
de ram os [...] p ara que saibam as vossas gerações que eu fiz habitar os
filhos de Israel em tendas, quando os tirei da terra do E gito” (Lv 23.42-43).
C ada fam ília devia construir um a cabana que trouxesse à m em ória a
flora do deserto. E ra possível encontrar ram os de palm eiras e alguns galhos
com folhas perto do oásis. R am os de choupo, salgueiro ou m urta, m istura­
dos com as oliveiras tão com uns na região, eram entretecidos de m odo a
fornecer abrigo do sol intenso e do calor do O riente M édio em pregando
um a técnica com um de trançar.65
N ão foi só Israel que viveu em cabanas. O próprio Y H W H habitou num a
tenda, um a estrutura transportável cham ada mishkan
, term o que chegou até
V olta ao L ar - A F e s t a d o s T a b e r n á c u l o s 123

nós (pelo latim “tabem acula”) com o “tabernáculo” . Com o as cabanas ou


tendas do povo, o Tabernáculo era um a habitação desm ontável, feita de
tábuas e coberta de tecido e peles.66 Todos os com ponentes do Tabernáculo
— desde as colunas, bases e capitéis da estrutura até as bases que cobriam o
santuário e a m o b ília e utensílios, inclusive o altar, a bacia, o candelabro,
a m esa dos pães da proposição e a pró p ria arca da aliança — foram con­
feccionados de m odo a poderem ser carregados pelos levitas. Q uando D eus
lev an tav a acam pam ento e partia, a coluna de nuvem de dia e de fogo à
n o ite in d icav a que os israelitas deviam seguir, tendo à frente os levitas
com a arca d a aliança. Q uando D eus acam pava, a coluna de nuvem ou
fogo perm an ecia parada, sem pre visível sobre o “lar” tem porário que m ar­
cava a sede do seu governo.
O Tabernáculo e o Tem plo de Salom ão, construído depois que Israel
entrou n a Terra Prom etida, não passavam , contudo, de tipos
de algo ainda
m ais glorioso. P or m ais belos que fossem , eram apenas edifícios feitos por
m ãos hum anas que se desintegrariam com o tem po e eram incapazes de
conter o D eus etem o, Senhor de toda a criação, cuja glória encheria toda a
terra (N m 14.21). Até m esm o Salom ão, o construtor do Tem plo, reconheceu
sua lim itação: “Eis que os céus e até o céu dos céus não te podem conter,
quanto m enos esta casa que eu edifiquei” ( lR s 8.27).
Sukkoth era um a festa baseada em estruturas tem porárias, m as que
não perdia de vista a glória exaltada de Deus.

Regozijo
E ssa g ló ria in sp irav a gran d e alegria. Sukkoth era, p o rtan to , um a
com em oração com pleta. As cabanas eram o ponto de p artida p ara várias
atividades ju b ilosas que se estendiam po r oito dias inteiros. O bservada entre
dois sábados de descanso,67 a festa era, em prim eiro lugar, um a celebração
da provisão bondosa de D eus por m eio da colheita. O décim o quinto dia de
T isri ca ía a p ro x im ad a m en te no m ês de o u tu b ro , “ ... q u an d o tiv e rd es
recolhido os produtos da terra” (Lv 23.39), incluindo os cereais respigados
e as uvas a serem prensadas para fazer vinho (D t 16.13).
As festividades de ação de graças exigiam um núm ero extraordinário
de sacrifícios, todos em m últiplos de 7.68 A prescrição de sacrifícios diários
em Núm eros 29 abrangia um total de 70 novilhos, 14 carneiros e 98 cordeiros,
além de sete bodes com o ofertas diárias pelo pecado; todos os sacrifícios
deviam ser acom panhados por um total de 336 efas de farinha para a oferta
de m anjares. As quantidades correspondem a pelo m enos o dobro do que
era oferecido nas outras festas e o quíntuplo de novilhos oferecidos na
sem ana da Páscoa.
124 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

E m u m a das p o u c a s c o m e m o ra ç õ e s da F e sta dos T a b e rn á c u lo s


m encionada no A ntigo Testam ento, a celebração associada à dedicação do
tem plo de Salom ão, a quantidade de sacrifícios apresentados ao Senhor é
espantosa: 22 m il bois com o sacrifícios pacíficos, 120 m il ovelhas, bem
com o holocaustos e ofertas de m anjares (lR s 8.63-64). A dem onstração de
devoção im pressionou o povo: “Então, se foram às suas tendas, alegres e
de coração contente po r causa de todo o bem que o S enhor fizera a D avi,
seu servo, e a Israel, seu povo” (v. 66).
O coração de Israel, porém , não tardou a esfriar. C om o vim os em
seções deste estudo, seu declínio espiritual profundo durante o período
m onárquico corroeu o significado e desvirtuou a prática da m aioria das
festas. N e n h u m a foi tão afe tad a q u an to Snkkoth. A fin al de co n tas, é
im possível celebrar a redenção com o coração em pedernido e o espírito
frio. A o longo dos anos, Israel esqueceu com pletam ente do am or e da graça
que deixaram m arcas divinas por toda sua vida e história. A Torá se to m o u
um texto secundário, destinado, po r fim , aos depósitos em poeirados do
Tem plo. C om o ficou perdida, Israel negligenciou com pletam ente as festas
até a reform a feita po r Josias (2Rs 22) e, especialm ente, as reform as feitas
sob a direção de Esdras e N eem ias (Ed 3.1-4; N e 8.14-15) de que restauraram
Sukkoth à proem inência visível e observância sistem ática.
N o século 1°., apesar de m anter o aspecto fam iliar, no qual cada fam ília
constm ía a própria cabana, Sukkoth havia se transform ado num a celebração
com unitária. A cada dia, os m ilhares de peregrinos, que haviam construído
suas cab an as tran çad as em to d as as m a s, b eco s, p átio s e terraç o s de
Jem salém , se reuniam e levantavam a voz em conjunto com grande jú b ilo
ao Senhor num a festa à qual os rabinos deram o nom e de Zeman Simhatenu,
a “época da alegria” .
Suas ex p ressões de regozijo incluíam o uso das E scrituras. O povo
m em o rizav a, recitav a e cantava os salm os de H allel (SI 113-118) nas
litu rg ias fam iliares e conjuntas. D o m esm o m odo que hinos com o “N oite
feliz” ou “ P eq u en a v ila de B elém ” dão form a às nossas reuniões de N atal,
p o d em o s ter u m a ideia de com o esses salm os conferiam estrutura à festa.
Os cân tico s não eram apenas acom panham ento; eles definiama festa,
pois sua aleg ria era a celebração da redenção. C ada salm o louvava o D eus
da a lia n ça p elas in ú m eras d im en sõ es de seu am o r e graça, term in an d o
(SI 118.26) com os olhos voltados claram ente p ara o futuro: “ B endito o
que v em em nom e do S enhor!”
A cada dia da F esta dos T abernáculos, o m om ento p red ileto das
cria n ça s d e v ia ser a h o ra de a g ita r os lulavim. R am os de p a lm e ira s,
salg u eiro s e m u rtas reco lh id o s ao longo dos dias antes da festa eram
V olta ao L a r - A F e s t a d o s T a b e r n á c u l o s 125

am arrados un s aos outros e agitados “p eran te o S enhor” durante a liturgia


diária nos pátios do tem plo. As crianças tom avam a frente nessa dem onstração
física de alegria: os lulavim eram agitados com tan ta força que as folhas
caíam dos galhos! Im agine o entusiasm o dos pequeninos. Se você escutar
com aten ção , talv ez co n sig a o u v ir os g ritos de ale g ria e p raz e r (e as
ad v ertên cias das m ães: “ C uidado p ara não espetar o olho da sua irm ã com
esse g alh o !”).
Tam bém havia com ida. C om o sem pre, as frutas eram parte essencial
da festa, especialm ente o etrog, ou cidra, consum ido com o se fosse um a
guloseim a. O cardápio incluía um a grande variedade de pães, bolos e carnes
assadas. A cada dia, preparava-se, literalm ente, um banquete.

CERIMÔNIAS DA FESTA
E m m eio às expressões de jú b ilo , duas cerim ônias realizadas som ente
n a Festa dos T abernáculos ocorriam no últim o dia, aquele que o E vangelho
de João cham a de “ ... o grande dia” (Jo 7.37). As cerim ônias serviam para
instruir os israelitas de todas as idades acerca da redenção da qual Sukkoth
era apenas um a representação, um m ero tipo e som bra.

A coleta da água
A prim eira cerim ônia, a Coleta da A gua, devia im pressionar a m ultidão:
Nissuch Ha-Mayim era, de fato, um ritual extrem am ente dram ático.
U m sacerdote levítico ataviado com seus trajes im ponentes e carre­
gando u m a ja rra de ouro, p erco rria a longa descida pelas ruas tortuosas de
Jeru salém , do Tem plo até o tanque de Siloé, acom panhado, a cada passo
do cam inho, p o r flautistas litúrgicos e centenas de adoradores. Sem d úvi­
da, as crianças corriam adiante nas ruas pavim entadas com pedras e se
m etiam nos espaços vazios p ara ver m elhor. D epois da coleta cerim onial
de água do tanque, o sacerdote conduzia a p rocissão de volta ao Tem plo,
e n tran d o p e la P o rta das A g u as. T ro m b etas de c h ifre de c a rn e iro , os
shofarim , an u n ciavam sua chegada com um toque sonoro e prolongado,
um trinado e outro toque pro lo n g ad o .69
O sacerdote atravessava o pátio e se colocava ao lado do grande
altar, onde d erram ava a água num a b acia ostentosa de prata. N u m a m u ­
dança estranha do tom da cerim ônia, o povo exigia v er a água ser d erra­
m ada. G ritava: “Levante a mão! Levante a m ão!” D e acordo com a Mishná,
essa trad ição p arece ter se iniciado po r v o lta de 95 a.C ., quando um dos
reis-sacerd o tes m acabeus derram ou a água no chão e o povo irado o b o m ­
b ard eo u com frutas. A indignação da m ultidão custou a vida de seis m il
pesso as no m assacre su b sequente.70
126 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

A pesar de não ser descrita na Torá, no século l 5, a Coleta da Á gua havia


se tom ado um m om ento central das festividades. Os rabinos tom avam com o
base bíblica a p rofecia de Isaías 12.3: “V ós, com alegria, tirareis água das
fontes da salvação” . O Talm ude explica: “P or que é cham ada de C oleta de
Á gua? P o r causa do derram am ento do Espírito Santo, de acordo com o que
é dito: ‘V ós, com alegria, tirareis água das fontes da salvação’” .71
Jesus participou da festa conform e era celebrada em seu tem po, que
incluía a cerim ônia da Coleta da Á gua. Em Jesus, o caráter dram ático intenso
da cerimônia alcançou patam ares ainda m ais elevados. “No último dia, o grande
dia da festa”, talvez no exato m om ento em que o sumo sacerdote derram ava a
água de m aneira dram ática para todo o povo ver, Jesus se levantou e disse em
alta voz, acim a dos sons do sacerdote e da m ovim entação irrequieta das crian­
ças: “ Se alguém tem sede, venha a m im e beba. Quem crer em m im , como diz
a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.37-38).
A p ro m essa de Isaías era grandiosa: p ara um povo que, outrora, v a ­
g ara pelo deserto árido e poeirento, cuja sede h av ia sido saciada ex clu si­
vam en te pelo D eus poderoso que p artiu um a pedra p ara lhes dar de beber,
p ara gerações de povos do O riente M édio que sabiam , p o r experiência
p r ó p ria , c o m o a á g u a r e p r e s e n ta v a v id a , o f lu ir de á g u a sdo seu
interior p arecia incrível, um sonho im possível. A s palavras de Jesus o fe­
reciam a chave p ara o enigm a: a b ênção m uito esperada h av ia chegado
com a v in d a de C risto, aquele que derram aria o E spírito p ara saciar os
anseios m ais profu ndos do coração.

A luz do mundo
O utra cerim ônia m arcava a celebração da F esta no século 1Q. E ra um
acontecim ento noturno que concluía a sem ana de festividades com um a
exibição espantosa, que deixava os participantes sem palavras.
N o início do dia, quatro candelabros im ensos, cada um com 25 m etros
de altura, eram colocados no pátio das m ulheres. N o alto de cada um , ficava
o óleo que serviria de com bustível para as cham as e, junto aos candelabros,
eram colocadas escadas para que jo v en s de fam ílias sacerdotais içassem
cântaros com capacidade de dez galões para encher os recipientes. Os pavios
das lâm padas eram grossos, feitos de linho torcido das vestes utilizadas
pelos sacerdotes no ano anterior. A luz das lâm padas era extrem am ente bri­
lhante, conform e a M ishná relata: “N ão havia terraço em Jerusalém que não
fosse ilum inado p o r sua luz” .72
U m a vez preparado o pano de fundo dessa cerim ônia im pressionante,
era o m om ento de revelar seu significado dram ático. Todos os presentes
prendiam o fôlego enquanto os jo v en s subiam as escadas perigosas carre­
V olta ao L a r - A F es t a d o s T a b e r n á c u l o s 127

gando o óleo e expressavam espanto ao ver as cham as trem eluzentes per­


c o rre re m os p a v io s e n so p ad o s de c o m b u stív e l e ilu m in a re m a n o ite .
N o silê n c io reverente daquele m om ento, Jesus levantou a voz outra vez,
agora p ara declarar: “Eu sou a luz do m undo; quem m e segue não andará
nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (Jo 8.12).
Sua afirm ação foi tanto ousada quanto inequívoca. O D eus Y H W H ,
cuja glória havia, outrora, ilum inado a noite sobre as tendas no deserto,
tin ha voltado para o seu povo! Ele perm anecera calado po r m ais de quatro­
centos anos. D esde que o profeta M alaquias havia profetizado em nom e de
D eus, o povo não tinha m ais recebido nenhum a palavra do Senhor. A gora,
porém , D eus estava de volta! O “E u sou” havia se pronunciado outra vez.
Seu nom e era Jesus, o M essias!

A JORNADA PARA O LAR


N ão é fácil p ara os cristãos do século 21 com preender o significado
pleno dessa festa p ara o povo antigo de Israel. P ara isso, é preciso m ais do
que um a noção do caráter dram ático das atividades e cerim ônias da Festa
das Cabanas. E preciso, tam bém , entender o significado da cabana de D eus
- o prim eiro T abernáculo transportável e, posteriorm ente, sua habitação
m ajestosa de ped ra cham ada de Tem plo — na história da redenção.
D iz-se que a arquitetura é um a linguagem . M uitos edifícios em n o s­
so m undo foram criados p ara falar, p ara contar u m a história, e não apenas
ab rig ar o m aio r núm ero po ssív el de pessoas com eficiência pragm ática.
M uitos lugares de adoração cristãos, p o r exem plo, p o ssu em o form ato de
u m a cruz, um a representação da m ensagem central do evangelho. C erta vez,
m in istrei num santuário que é um a rép lica do sím bolo de sua den o m in a­
ção , u m a c ru z c o rta d a p o r u m c írc u lo . P o r sé cu lo s, as ig re jas e ram
co n stru íd as com um a acentuada elevação v ertical que v isav a ex altar a
m ajestad e celestial de D eus ao atrair o olhar p ara o alto. E m tem pos m ais
recentes, a arq u itetura dos santuários enfatiza o p lano h o rizo n tal com te ­
tos b aix o s, co nstruídos p ara acentuar a com unhão dos m em bros do povo
de D eus uns com os outros.
O lu g ar de habitação de D eus tam bém tem um a h istó ria p ara contar.
O projeto arquitetônico, m obília e utensílios que D eus desenhou e organi­
zou, contavam a história da longa jo rn a d a de redenção: a volta ao doce
descanso do povo alquebrado, exausto e irrequieto de Deus. A jo rn a d a do
Egito para C anaã foi apenas o com eço. “Ir ao Tem plo” significava realizar
outra jorn ad a, um a jo rn ad a de volta p ara Deus.
D epois de tirar seu povo do Egito e conduzi-lo para ju n to dele no
deserto, D eus encarregou M oisés de construir o Tabernáculo. B ezalel e
128 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

A oliabe, capacitados de m odo singular pelo Espírito, receberam a incum ­


bência de supervisionar o projeto e a execução da estrutura e todos os seus
com ponentes. O Tabernáculo seria o lugar de habitação de Y H W H , “o Deus
que é” (Êx 25.8); com o m atéria-prim a, os construtores usaram as riquezas
tom adas com o espólio do povo do Egito e de seus “deuses que não são” .
O Tabernáculo possuía form a retangular. O átrio exterior m edia 22,5
p o r 45 m etros, sendo os lados m ais longos dispostos no sentido leste-oeste.
D entro da m etade ocidental do átrio, voltada para o leste (para o Éden),
ficava a tenda que abrigava o L ugar Santo e o Lugar Santíssim o. N o átrio do
lado de fora da tenda ficava o altar e a bacia. O altar era um a estrutura
im pressionante com 2,5 m etros de cada lado e 1,5 m etro de altura; o altar do
Tem plo seria ainda m ais grandioso, com 10 m etros de cada lado e 5 m etros
de altura. A bacia de água cham ada de “m ar” era igualm ente im pressionante.
A o entrar n a tenda, via-se o prim eiro côm odo, o L ugar Santo. N ele, ficavam
a m esa dos Pães da Proposição, o candelabro e o altar de incenso. N o côm odo
interior, o L ugar Santíssim o, ficava a A rca da A liança, o trono do Soberano
de Israel.
A disposição e a direção do átrio e do Tabernáculo representavam a
jo rn ad a do povo. A representação com eçava do lado de fora. O povo entrava
no átrio por um a abertura convidativa com 10 m etros de largura. A recepção
calorosa, porém , logo deparava com a frieza da realidade: os adoradores
entravam carregando um sacrifício, pois se aproxim avam do D eus santo na
condição de povo pecam inoso. Os sacerdotes recebiam as ofertas e, na im o­
lação do sacrifício, atuavam com o m ediadores do povo.
A p a ra d a seg u in te n a jo rn a d a era o altar, sobre o qual o sacerd o te
q u eim av a a c arcaça do sacrifício e na base do qual d erram av a o sangue
do an im al. E m seguida, o sacerd o te lav av a as m ãos no “ m ar” , um ritu al
de p u rific a ç ão p a ra rem o v e r o sangue antes de e n trar n a te n d a p ro p ria ­
m en te dita. A e n trad a dos sacerd o tes n a ten d a era reg u la m e n tad a po r
d iv ersas n o rm as, com o vem os n a m o rte de N ad ab e e A biú, os filhos de
A rão (L v 16.1).
P reparado com sangue e água, o sacerdote entrava na tenda, onde era
envolvido de im ediato po r um a nuvem de incenso. C oberto com peles pesa­
das de anim ais e cortinas espessas, o Lugar Santo era escuro. A única fonte
de luz b m xuleante era o candelabro a óleo com sete hastes. A m aior parte da
claridade era absorvida pelo véu, o elem ento de m aior destaque na tenda.
E ra um a p eça m agnífica, tecida com “ ... estofo azul, púrpura, carm esim e
linho fino retorcido; com querubins o fizeram de obra de artista” (Êx 36.35).
A pesar de belos, os anjos eram om inosos, pois bloqueavam com pletam ente
a entrada para o L ugar Santíssim o.
V olta ao L ar - A F e s t a d o s T a b e r n á c u l o s 129

Os querubins seriam um elem ento arquitetônico ainda m ais visível no


tem plo de Salom ão. Ricos entalhes de anjos cobriam todas as paredes inter­
nas e no L ugar Santíssim o havia um par de esculturas de querubins. R eves­
tidos de ouro, se estendiam po r 10 m etros, de um a parede à outra, a ponta da
asa de um tocando a ponta da asa do outro. E, é claro, tanto no Tabernáculo
quanto no Tem plo, havia querubins encurvados, voltados um para o outro,
com as asas se tocando sobre a arca da aliança.
P or que querubins? D e acordo com a explicação m ais com um , anjos
cercam D eus para lhe cantar louvores em sua habitação celeste, da qual o
Tabernáculo coberto de peles e o edifício im ponente de pedra do Tem plo
eram apenas cópias (Hb 9.23). D e fato, anjos servem o D eus glorioso. Isaías
6.2 revela, porém , que os anjos ao redor do trono de D eus são serafins
,e
não querubins. Para entender os querubins tecidos no véu do Tabernáculo e,
posteriorm ente, do Tem plo, precisam os voltar ao prim eiro livro da B íblia,
aos anjos encarregados de “guardar o cam inho” de volta para D eus e para a
árvore da vida (G n 3.22-24).
A B íblia com eça com um a afirm ação extraordinária: “N o princípio,
criou D eus os céus e a terra” . O bserve as palavras com atenção: “os céus”
foram criados com o parte do m undo de D eus do m esm o m odo que a terra.
“Os céus” e “a terra” não são lugares distintos e separados (segundo as
cosm ovisões antigas, um colocado sobre o outro e, nas cosm ovisões m oder­
nas, um sendo “real” enquanto o outro é objeto de fé), m as sim, reflexos das
ricasdimensões do universo criado que inclui tanto o físico quanto o espiri­
tual, am bos extrem am ente reais. A pesar de refletir diferentes dim ensões da
criação, “ os céus e a terra” eram unidos e, nesse m undo, D eus e o hom em
habitavam ju n to s em alegre harm onia. C onversavam e cam inhavam ju n to s
pelo jard im n a viração do dia. C om grande prazer, D eus investia naquilo
que estava acontecendo no cosmo que ele havia declarado ser m uito bom .
Im agine as conversas entre D eus e o hom em !
Porém , A dão e Eva pecaram e, em decorrência do pecado deles, bre­
chas com eçaram a aparecer na criação outrora coesa. A terra sentiu o rom pi­
m ento e as ervas daninhas, as dores de parto e as tensões entre os sexos
constituíram apenas o com eço das distorções do pecado. “ Os céus” tam bém
foram afetados e além de serem separados da terra, um a vez fraturada a
união entre Deus e o homem, demonstraram um a ruptura interna. U m a criatura
ch am ad a L úcifer, um “ anjo de lu z” , se to m o u “ S atanás” , o acusador e
inim igo. L úcifer liderou um a rebelião contra D eus que com eçou com as
hostes angelicais e se espalhou para a terra. O resultado foi sem elhante a um
terremoto. Quando as placas tectônicas se m ovem ou colidem de m odo abrupto,
a força incrível gerada por seu m ovim ento a quilôm etros de profundidade
130 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

irradia para a superfície da terra. A pesar de o poder na superfície ser trem endo,
capaz de m over m ontanhas, form ar e subm ergir ilhas e despedaçar as m aiores
obras da engenharia hum ana com o se fossem feitas de palitos de fósforos, seu
im pacto é m uito m ais profundo. Com o Paulo disse aos Efésios, a igreja não se
encontra envolvida num conflito superficial, m as sim, num a batalha contra as
forças espirituais do m al, nas regiões celestes (E f 6.12).
A redenção seria necessária não apenas para rem over os pecados de
pesso as feitas de carne e sangue na superfície da terra, m as tam bém para
“ ... fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tem pos, todas as
coisas, tanto as do céu, com o as da terra” (E f 1.10). D eus sem pre teve em
m ente essa visão cósm ica da redenção; sem pre se preocupou profundam ente
com sua criação. Jesus deixou este fato claro: “Porque Deus am ou o cosmo
de
tal m aneira que deu o seu Filho unigénito” (Jo 3.16).
A ntevendo a redenção, no relato de G ênesis 3.22-24, D eus expulsa
seu am igo e corregente do Jardim do É den e encarrega querubins de guarda­
rem o cam inho para a árvore da vida. Ele não estava preocupado que A dão
encontraria um m odo de se esgueirar p o r trás dos anjos e roubar a vida
eterna ao m order o fruto proibido. A ntes, o banim ento foi m otivado por
am or: não desejava e não podia perm itir que a hum anidade continuasse a
viver sob o engano de Satanás, im aginando e crendo que a vida real neste
m undo, a vida plena, duradoura, ju b ilo sa e cheia de significado, era p o ssí­
vel sem a união com Deus. U m band-aid não seria suficiente; era preciso
efetuar cura verdadeira.
Os querubins ficariam a postos para deixar esse fato claro.
E ram esses querubins, outrora colocados do lado oriental do É den para
guardar a santidade de D eus e dar testem unho de sua obra redentora pelo
hom em , que haviam sido tecidos no véu do Tabernáculo. Só po r um ato de
D eus seria possível passar por eles.
C laro q ue os sa ce rd o te s ten ta v am ; e m p re en d ia m a jo rn a d a com
se rie d a d e , p len a m en te cien tes do p ecad o e de seu custo. R ealizav am
co m d ilig ên c ia as tarefas de o fere c er sacrifício s, re c o lh e r o san g u e e
se g u ir as p resc riç õ e s da Torá. O s sacrifício s de n o v ilh o s e b o d es, p o rém ,
não eram suficientes, m esm o quando os sacerdotes seguiam todas as regras;
sem p re h a v ia outro dia, outro ano, outro n o v ilh o ou bo d e e m ais sangue.
O escritor de H ebreus declarou: “É im possível que o sangue de touros e
bodes rem ova p ecados” (Hb 10.4).
N ão, a jornada com eçava à porta, se m ovia lentam ente para o altar e a
bacia e, por fim, entrava no Lugar Santo, onde parava. N ão havia com o passar
pelo véu pesado de oito m etros, com seus guardiões m udos, porém ominosos.
A té que D eus os dispensou.
V olta ao L ar - A F e s t a d o s T a b e r n á c u l o s 131

N o m om ento da m orte de Jesus, “Eis que o véu do santuário se rasgou


em duas partes de alto a baixo ” (M t 27.51). Em outras palavras, o Senhor
do céu dispensou os guardiões e abriu cam inho p ara os pecadores voltarem
para o lar, para ju n to de Deus.
T om ou-se possível obter a vida real com D eus outra vez. Seria com o a
vida que A dão e E va haviam desfrutado com D eus no jard im , um a vida na
qual ele era o com panheiro constante, e não apenas Senhor da criação, m as
um am igo querido. Seria um a vida de com unhão, um a vida em que não
teriam vergonha na presença dele. Seria o tipo de vida que Jesus cham ara de
vida eterna. N ão viria de um a vez, m as com eçaria, de fato, em Jesus Cristo.
O bserve os tem pos verbais que o apóstolo João utiliza: quem ouve e crê em
Jesus “tem a vida eterna” e “...passou da m orte para a vida” (Jo 5.24).
A dem ais, a própria separação cósm ica foi curada, “todas as coisas”
foram reconciliadas com D eus po r m eio de C risto, “ ... quer sobre a terra,
quer nos céus” (Cl 1.20). U m a vez que a ruptura pecam inosa que rasgou o
céu e trouxe inim izade a terra foi de proporções cósm icas, a reconciliação
exigia cura em escala igualm ente grandiosa. O relato da m orte e ressurreição
de Jesus apresenta evidências desse im pacto cósmico: terrem otos intensos
anunciaram sua m orte (M t 27.52) e sua ressurreição (M t 28.2).

O ÉDEN RESTAURADO
A jo rn a d a de volta ao lar, da frivolidade desolada do pecado para a
presença ju b ilo sa de D eus, era a esperança de Sukkoth.
A F esta não som ente
lem brava “fatos de um passado distante” , quando D eus havia habitado com
os israelitas enquanto eles se encontravam acam pados no deserto. Tam bém
se inclinava para a frente; D eus queria que soubessem que um lar m elhor
estava p o r vir.
E m outros tem pos, quatro rios cortavam o jardim . D epois que A dão e
E va foram expulsos, contudo, descobriram logo que a água era escassa fora
do Éden, nos lugares desolados da vida. A gora, o M essias oferece provisão
perm anente de água viva que flui do ser interior, conform e o profeta e a
cerim ônia da festa haviam predito.
E m outros tem pos, todas as árvores haviam fornecido alim ento a A dão
num farto bufê diário. Fora do Éden, porém , era difícil obter alim ento. Deus
teve de prover m aná e codom izes, pois, de outro m odo, Israel teria m orrido
de fom e. A gora, o M essias oferece a si m esm o, o pão da vida que sacia os
anseios m ais profundos da alma.
Em outros tem pos, o Éden havia sido um lugar seguro. A vida fora do
jard im , porém , era som bria e assustadora. H avia hom icidas, agressores,
estupradores e outros hom ens violentos, com o os prim eiros capítulos de
132 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

G ênesis indicam . A o longo das eras, os hom ens habitaram em trevas espiritu­
ais tão assustadoras quanto a cegueira, tão espessas que eram palpáveis. A fim
de m ostrar o cam inho, Deus havia ilum inado o cam inho com sua presença na
form a de coluna de fogo. Agora, Jesus declara que é a “luz do m undo” .73
Jesu s chegou a B elém p ara nos lev ar de v o lta ao lar, ou talvez, m ais
p recisam en te, p ara tra z er o lar a nós. “E o V erbo se fez carne e h ab ito u
entre nós, cheio de g raça e de v erdade, e vim os a sua g ló ria” (Jo 1.14).
E le h a b ita em n ó s de m o d o a in d a m a is ín tim o em se u E s p írito .
P o sterio rm en te, P aulo declarou a cristãos individuais e à com unidade da
fé: “ O vosso corpo é santuário do E spírito S anto” e “ sois santuário de
D eu s” (IC o 6.19; 3.16).

JÁ, AINDA NÃO...


E evidente que nem o Tem plo antigo nem as igrejas m odernas são
capazes de conter D eus. Ele tam bém não vive num céu distante da terra.
A ntes, hab ita no m eio de um povo form ado por indivíduos de todas as
línguas e nações, na “nova Jerusalém ” que não fica na Palestina. O endereço
de D eus fica na terra, num a cidade/noiva/igreja que não precisa de tem plo,
n em tam pouco de sol ou lua, “pois a glória de D eus a ilum inou, e o C ordeiro
é a sua lâm pada” que fornece a luz necessária n a escuridão que até as nações
percebem (A p 21.22-24). N os últim os capítulos da B íblia, só a linguagem
m is te r io s a d e A p o c a lip s e é a d e q u a d a p a ra d e s c r e v e r o fu tu ro se
transform ando em presente, a gloriosa habitação de D eus, seu reino do
céu que com eçou com a vinda de Jesus e tem continuidade na igreja e por
m eio dela.
A pesar de essas passagens darem ao olhar o brilho da esperança e faze­
rem o coração bater m ais depressa repleto de anseios, a realidade é inevitável.
A vida ainda não se parece m uito com o céu. Este m undo ainda possui bolsões
de escuridão, becos som brios que provocam calafrios de m edo e trazem à
m em ória a culpa e a vergonha. A lguns desses bolsões são lugares , com o as
ruas do centro da cidade, cheias de drogas, m edo e violência. Outros são
pessoas cruéis e m aldosas, que usam o poder que têm ou o cargo que ocupam
para abusar dos fracos e indefesos. Outros ainda, são memórias, cicatrizes do
pecado que m arcam os lugares m ais profundos da m ente.

Jaquez mora com suafamília — a mãe de 31 anos, o namorado


dela e onze parentes — num apartamento minúsculo numa região
perigosa da cidade. A mãe de Jaquez e suas duas irmãs mais velhas
são viciadas em drogas. Jaquez carrega sobre os ombros muito mais
responsabilidades do que um menino de 11 anos deveria. Procura
cozinhar para afamília, pois a mãe nem sempre prepara as refeições.
V olta ao L ar - A F es t a d o s T a b e r n á c u l o s 133

Faz o possível para cuidar de seus cinco irmãos mais novos quando
a mãe não está em casa, como acontece com frequência; tudo isso
num ambiente extremamente difícil. Pouco tempo atrás, Jaquez teve
de ir ao mercado com os irmãos mais novos. Enquanto ajudava os
pequeninos a atravessarem uma avenida larga, com seisfaixas, acon­
teceu o inimaginável. Um utilitário esportivo grande apareceu na
curva e atropelou a irmã mais nova. A menina não sobreviveu. Jaquez
culpou a si mesmo e alguns de seus familiares também o responsabi­
lizaram pelo ocorrido. Mas a culpa não fora dele. A vida não era
para ser assim.

Os bolsões de trevas tom am o ato de viver a nova vida, a vida etem a,


um exercício de fé. É preciso ter olhos diferentes para ver D eus e crer nas
boas-novas em m eio à feiura e às m ás notícias do dia-a-dia. É preciso um
novo tipo de visão cham ado fé para confiar que D eus trará cura profunda,
m esm o q u an d o os o lh o s de carn e v eem a p e n as os dan o s na su p e rfíc ie .
O e s c rito r de H ebreus declarou: “ ... a fé é a certeza de coisas que se espe­
ram , a convicção de fatos que se não veem ” (Hb 11.1).
A qui no crepúsculo m atutino, entre a escuridão da noite e o resplendor
do D ia, vivem os na esperança de dias m elhores e de um m undo m elhor.
Voltar ao lar, a D eus, foi a esperança da vida e do culto de Israel por
séculos, u m a jo rn ad a representada no Tabernáculo e no Tem plo, cuja ale­
gria o povo experim entava no Sukkoth. O lar final do povo de D eus, porém ,
será m uito m ais rico do que eles, ou nós, podem os im aginar. Paulo disse à
igreja de Corinto:

Nem olhos viram,


nem ouvidos ouviram,
nem jamais penetrou em coração humano
o que Deus tem preparado para aqueles que o amam (ICo 2.9).

A dim ensão dessa riqueza fica evidente na celebração do Jubileu.


Perguntas para estudo e discussão
1. L eia Jo ão 7; 8.12s. D e que m an e ira o c o n tex to da F e sta dos
T abernáculos ajuda você a com preender a passagem ? O que a “ água viva”
significa p ara as alm as sedentas (7.37-38)? D iscuta o significado de Jesus
ser a “ luz do m undo” (Jo 8.12).

2. P rocure n a internet ou num a B íblia de estudo um diagram a do


tabernáculo. A com panhe verbalm ente a “jo rn a d a ” que o capítulo descreve.
C onsidere com atenção o significado de toda a m obília e utensílios.
134 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

3. D iscu ta o fato de o véu do tem plo ter se rasgado no m om ento da


m orte de C risto (M t 27.52). P or que é tão im portante que tenha se aberto
“de alto a b aix o ” ?

4. D iscu ta a afirm ação deste capítulo de que a redenção em C risto


afetará “os céus e a terra” .
9
A ssim na T erra como no C éu ...
O Ano do Jubileu
Levítico 25.8-55; Lucas 4.16-21

U m am igo chegado, cristão m aduro, confessou p ara m im tem pos atrás


que tinha dificuldade em orar, “Vem, Senhor Jesus!”, a súplica urgente e o
anseio derradeiro expressado na últim a página da B íblia. R econheceu que
fazer essa oração parecia ferir o seu senso de cham ado diário. M eu am igo
sabe que foi salvo com um propósito, para viver com alegria e a serviço de
C risto em tudo o que faz. Sabe que um a vida vivida po r C risto não é vã,
m as sim u m culto que apraz a D eus, u m a oferta diária de louvor ao Rei.
Para alguém com esse tipo de cosm ovisão sólida, orar para Jesus voltar
parece um pedido por um atalho, um a saída fácil, um a fuga do que os rem idos
devem ser e fazer.
Seu dilem a não reside no fato de ele não desejar ver C risto face a face
e se deleitar em sua presença. A ntes, revela um a confusão com um . M uitos
cristãos de hoje foram levados a im aginar que a vida neste m undo de pecado
e tristeza é apenas u m a espera e preparação para a nossa m udança de ende­
reço. U m a vez que este m undo é pecam inoso e repleto de m al e, um a vez
que nosso destino perm anente é o céu, acredita-se que o cristão não deve se
en v o lv er de m odo profundo com a cultura deste m undo, m as se m anter
distante, em separação santa. Letras de hinos confirm am essa estratégia e
fazem-na parecer aceitável. “Este mundo não é m eu lar, só estou de passagem ” *
é um refrão com um .
N o entanto, essa é um a visão deturpada em dois níveis: subestim a o
propósito e o valor da vida dedicada a D eus no presente e reflete um a visão
im precisa do céu com o nosso destino futuro. P ara dar ao seu povo entendi­
m ento claro tanto do significado da vida atual quanto de nossa esperança
para o futuro, logo no início da vida de Israel com o povo, D eus instituiu
um a festa que deveria durar um ano inteiro, o Jubileu. Essa com em oração
entreteceria u m fio dourado à tapeçaria da vida diária que envolvia as m ais

* N E : Em inglês, literalm ente “This w orld is not m y hom e, I ’m only passing through”, que
foi traduzido p ara o português com o a conhecida canção “A qui não é m eu lar, um
viajante sou”, m uito cantada antigam ente p o r quartetos e conjuntos evangélicos.
136 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a de I s r a e l

diversas atividades econôm icas, jurídicas, agrícolas e relacionais e suas di­


m ensões tem porais passada, presente e futura. O fio dourado seria tanto
u m a bela decoração quanto um a âncora firm e: acrescentaria um brilho de
esp eran ça à inquietação m elancólica de dias pecam inosos e, ao m esm o
tem p o , firm aria a vida presente no solo firm e do reino vindouro de Deus.
O Ano do Jubileu é u m a das festas m enos com preendidas das co m e­
m o raçõ es instituídas p o r Y H W H no A ntigo T estam ento. N ão é u m a das
festas an u ais, m as sim , um dos sábados cujas p resc riç õ e s d efin iam a
e stru tu ra geral da vida de Israel. C om o tal, indicava o rum o da h istó ria da
red en ção e lev ava o povo de D eus e a criação com o um todo da in q u ieta­
ção ao descanso. Se os sábados sem anais e anuais, bem com o as festas
que estudam os n este livro, eram representações desse descanso, o Jubileu
era o ensaio final.

DEFINIÇÃO DO TERMO
O Ano do Jubileu devia com eçar com o toque do shofar no D ia da
E x p iação do quinquagésim o ano, logo depois do sétim o ciclo de anos
sabáticos. O núm ero sete era, de longa data, um sím bolo im portante da
consum ação do descanso redentor de Israel, m as a celebração depois do
sétim o ciclo de sete anos não era m arcada p ela sutileza. D e acordo com
suas prescrições, a trom beta devia soar não apenas no Tem plo, m as tam bém
pro clam ar "... liberdade na terra a todos os seus m oradores” (Lv 25.9-10).
E ssas p alavras são conhecidas dos norte-am ericanos, pois se encontram
inscritas no Sino da L iberdade, na Filadélfia.
O term o “Jubileu” vem da palavra grega “ soprar o chifre” e sua raiz é
o nom e Jubal, o pai dos instrum entos m usicais (G n 4.21). A com posição
m usical era um concerto m ajestoso para trom beta: um a abertura com o som
do shofar em Yom Kippur e o acréscim o de um tom m ais agudo, talvez de
um trom pete piccolo, de Sukkoth apenas três dias depois. O concerto fazia
soar o reino da graça de D eus em tons m elodiosos de liberdade e perdão.
O term o para liberdade que é em pregado em Levítico 25.10 indica o
“ fluxo in co n tid o ” das águas que inundavam as m argens de um rio e se
esp alh av am aleatoriam ente p ela terra árida. A extensão da liberdade que o
Jubileu an u n ciav a era do m esm o m odo incontida. O utros dias e anos
sábaticos proporcionavam um a bela dádiva de descanso libertador para h o ­
m ens e anim ais, um a dádiva que abençoava até a terra (Lv 25.11-12; 25.4ss.).
O alcance do descanso do Jubileu , porém , era m uito m aior. Todo israelita
era cham ado a “voltar à sua propriedade” , um a convocação que ia m uito
além da oportunidade sociável de se reunir com a fam ília no lar ancestral e
que servia para anunciar de m aneira inequívoca que as concessões originais
A s s i m n a T e r r a c o m o n o C é u ... - O A n o d o J u b i l e u 137

de terras seriam restauradas. A s vendas de propriedades, registradas desde a


divisão da Terra Prom etida entre as tribos no tem po de Josué, deviam ser
consideradas arrendam entos com base no núm ero de anos até o próxim o
Jubileu. N esse ano, todos os arrendam entos venciam e a propriedade voltava
aos beneficiários originais da dádiva de Deus.
T ratava-se de um a prática radical. A terra não era devolvida àqueles
que apresentavam um histórico de excelência com o agricultores e adm inis­
tradores. Tam bém os agricultores incom petentes, que não conseguiam fazer
até o solo m ais fértil produzir e cujas plantações tinham sido sufocadas por
ervas daninhas porque seus proprietários eram preguiçosos dem ais para
cultivá-las ou irrigá-las, recebiam suas terras de volta. O princípio se apli­
cava tam bém a outras propriedades: casas perdidas porque os proprietários
não honraram as prestações ou pela necessidade de pagar um a dívida alta
eram d evolvidas aos donos originais. Israel teve um a longa h istó ria de
“ direito de redenção” , um costum e que perm itiu a B oaz redim ir a proprie­
dade de N o em i po r m eio de um pagam ento. N o , a propriedade Jubileu
v o ltav a ao dono original sem que ele precisasse pagar nada (Lv 25.28,31).
P arece louco, ou m esm o ilógico? Pode ser, m as esse é o risco da
v erd ad eira liberdade. U m a vez que o rio ultrapassa os lim ites de suas m ar­
gens, a água flui com abundância incontida.
A penas um fator governava a liberdade que o Jubileu
concedia: o cora­
ção de Deus. Era o direito
de soberania divina sobre toda a terra e propriedade
que to m av a o Jubileu
possível. “A terra é m inha” , D eus disse, “ ... vós sois
para m im estrangeiros e peregrinos” (Lv 25.23). E o que alim entava o Jubileu
era o amor de Deus. Seu am or fluía livrem ente, não apenas sobre os bem -
sucedidos, os grandes realizadores, os vencedores, m as até (e especialm ente)
sobre os pobres, os órfãos, as viúvas e os estrangeiros.
N as nações pagãs do m undo antigo, os devedores se v endiam com o
escravos e p ag avam com seu trabalho as dívidas que haviam contraído.
E ntre os israelitas, porém , os devedores não tinham perm issão de se v en ­
der com o escravos. P odiam oferecer seus serviços e usar o pagam ento
p ara q u itar as d ívidas, m as deviam trab alh ar com dignidade, e não em
servidão forçada. E ssas p rescrições foram inseridas no sistem a legal in sti­
tuído no tem po de M oisés e governaram a v id a de Israel ao longo de sua
história. O Jubileu
, contudo, ia ainda m ais longe: todo israelita era exim i­
do de to d a dívida, libertado p ara v o ltar à sua fam ília e à p ropriedade de
seus an tepassados (Lv 25.41).
E evidente que havia escravos em Israel. Em geral, eram estrangeiros
que haviam escolhido viver entre os israelitas ou sido derrotados em com ­
bate e tom ados com o espólio. A té m esm o esses servos eram libertados no
138 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a d e I s r a e l

ano do Jubileu (Lv 25.54). A graça de D eus que, outrora, havia libertado do
Egito os israelitas cativos, se estendia às nações não israelitas dentro de
suas fronteiras.
Jo h n R. S c h n e id e r a rg u m e n ta q u e o Jubileu
não v isa v a a u m a
redistribuição socialista das riquezas a fim de acabar com a desigualdade
entre ricos e pobres. O bserva que os estrangeiros não recebiam propriedades;
a restituição de propriedades se aplicava apenas a israelitas, aqueles entre
cujas fam ílias a terra havia sido distribuída quando Israel entrou em Canaã.
Estrangeiros de outras nações provavam da graça, m as não recebiam terras.
N ão se tratava de um a prescrição injusta ou preconceituosa, m as sim , de
um a extensão da graça do Jubileu: os proprietários israelitas dem onstrariam
m isericó rd ias futuras p o r m eio das leis da respiga e do dízim o que alim en­
tariam os levitas e os pobres.74
Jubileu significa, sim plesm ente, restaurar a econom ia divina da graça.

VOLTADO PARA O FUTURO


A co m b in ação do c a rá te r su p o sta m en te iló g ico do e da Jubileu
infidelidade do povo de Israel talvez explique po r que essa festa suprem a
n u n c a foi c e le b ra d a n a T erra P ro m e tid a d u ran te o A n tig o T e sta m en to .
A trom beta não soou nenhum a vez.
N ão se trata de algo surpreendente, pois, com o já sugeri, a graça libe­
ral não se m istura com os cam inhos deste m undo; a graça não flui de um
coração acostum ado com o espírito de contabilidade da carne. N a carne,
nos sentim os m ais à vontade quando recom pensam os realizações, elogia­
m os habilidades e punim os a preguiça ou a insensatez. Israel, um povo cuja
vida sob a aliança havia com eçado com graça im erecida, voltou rápida e
irrevogavelm ente ao seu antigo m odo de agir. A graça ilim itada era dem ais
para o seu coração em pedernido.

O CHAMADO DO JU B IL E U
U m a vez que o Jubileu
nunca foi celebrado nos longos séculos da
v id a de Israel, não é de adm irar que seja m encionado apenas u m a vez no
A ntigo Testam ento, num a profecia de Isaías que olha p ara o futuro com
grande expectativa, aguardando o Jubileu
no novo m undo que se iniciaria
com a v inda do M essias.

O E spírito do S enhor D eus está sobre m im ,


porque o S enhor m e ungiu
p ara preg ar b oas-novas aos quebrantados,
enviou-m e a curar os quebrantados de coração,
a p ro clam ar libertação aos cativos
A s s i m n a T e r r a c o m o n o C é u ... - O A n o d o J u b i l e u 139

e a pôr em liberdade os algemados;


a apregoar o ano aceitável do S enhor
e o dia da vingança do nosso Deus;
a co n so lar todos os que choram
e a pôr sobre os que em Sião estão de luto
u m a coroa
em vez de cinzas,
óleo de alegria,
em vez de pranto,
veste de louvor,
em vez de espírito angustiado;
a fim de que se cham em carvalhos de ju stiça,
plantados p elo S enhor p ara a sua glória
(Is 61.1-3).

Foi essa profecia de Isaías que anunciou o início do m inistério de Jesus.


O Evangelho de Lucas com eça com a narrativa do nascim ento de Jesus
e passa rapidam ente para o seu batism o e tentação no deserto. Logo em
seguida, Jesus inicia o m inistério público na G alileia, depois volta para
N azaré, cidade onde havia crescido (Lc 4.16). Lá, num sábado qualquer,
cercado p or fam iliares e am igos, Jesus tom ou o rolo que lhe entregaram
para leitura, o rolo de Isaías, abriu no capítulo 61 e leu a passagem que já
citam os. Q uando term inou de ler, assentou-se em seu lugar.
O culto habitual de sábado na sinagoga assum iu um caráter inédito.
Enquanto todos olhavam para ele, Jesus disse, sim plesm ente: “H oje, se cum ­
priu a E scritura que acabais de ouvir” (Lc 4.21).
P or um a fração de segundo, os presentes se perguntaram se tinham
ouvido direito. E m princípio, foram educados e elogiaram a m aneira com o
o rapaz daquela cidade havia falado em público: “E ele é apenas o filho de
um carpinteiro!” N ão tardaram , porém , a se to m ar m al-hum orados. Jesus
prosseguiu em sua asserção e com parou a incredulidade educada e conser­
vadora do co ração deles à falta de fé com a qual o p ro fe ta E lias deparou.
O m au hum or se transform ou em ódio hom icida. A rrastaram o herói local
até a b eira de u m penhasco com a intenção de lançá-lo de lá e transform á-lo
no m ártir local. E ntenderam m uito bem que ele estava afirm ando ser o
M essias e, por isso, queriam m atá-lo.
A história não term ina aí. O toque da trom beta, isto é, a pregação na
sinagoga, apenas anunciou o início do Jubileu’,
o m inistério de Jesus o colo­
caria em prática. A o deixar N azaré, Jesus dirigiu-se de im ediato às vilas ao
red o r da cidade, onde a liberdade com eçou a fluir com a abundância carac­
terística da chegada do Jubileu,
um reino de graça conhecido com o reino de
D eus. E m C afam aum , Jesus u so u sua autoridade real p ara expulsar os
140 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a d e I s r a e l

espíritos m alignos que escravizavam tantas pessoas. C urou a sogra de Pedro


e m uitos outros. A s m ultidões com eçaram a afluir, encantadas com a g ra­
ça copiosa. L ev avam consigo conhecidos que sofriam de vários tipos de
enferm idade e Jesus curava a todos. A té m esm o os dem ônios p articip a­
ram , g ritando u m evangelho involuntário enquanto eram expulsos: “Tu és
o Filho de D eu s!”

CÉU NA TERRA
N o A ntigo Testam ento, o propósito do Ano do Jubileu
não era ser um
ano de férias, u m a interrupção das atividades diárias a cada cinquenta anos
p ara quebrar de m odo agradável a m onotonia da rotina. Seu propósito era
m uito m aior. R epresentava a chegada de um a nova ordem m undial, um
novo regim e, u m a nova m aneira de viver que seria sim plesm ente celestial.
E isso deve ser entendido de m aneira literal. O que Ano do Jubileu
Jesus inaugurou no início de seu m inistério terreno foi a plantação da se­
m ente do “reino do céu” no solo da terra, com o Jesus descreve em M ateus
13. O reino do céu não viria com pom pa e um exército poderoso, m as de
m odo discreto e despretensioso, com o um grão de m ostarda (M t 13.31), tão
invisível para este m undo quanto Jesus o era para o Im pério R om ano do
século I o. C om o o trigo, o grão teria de cair na terra e m orrer (Jo 12.24)
antes de produzir fruto. Suas prim ícias, porém , m ovidas na m anhã da res­
surreição, dariam início à colheita dos “novos céus e nova terra” e seu desa­
brochar pleno aguarda a volta de Jesus.
C onform e sugeri ao longo de todo este livro e especialm ente no capí­
tulo anterior, a proclam ação de Jesus do “reino do céu” ou “vida eterna”
contrasta de m odo nítido com a visão popular contem porânea de “ céu” .
A lguns desses conceitos m odernos de céu são bastante seculares. N o film e
Campo dos Sonhos, o pai reencam ado do personagem de K evin C ostner
vo lta a u m cam po de beisebol construído num m ilharal para dem onstrar ao
seu filho perplexo que existe, de fato, um lugar cham ado céu, “ o lugar onde
os sonhos se realizam ” . U m a perspectiva m ais pós-m odem a aparece na obra
de ficção do autor best-sellerD ean K oontz. O personagem O dd Thom as
incorpora Elvis e outros “m ortos rem anescentes” (fantasm as que não obtêm
sua recom pensa final de im ediato) e explica seu conceito de céu por m eio
de seus personagens:

A o longo dos anos, encontrei m otivos p ara crer q ue a m aio ria


dos m ortos rem an escen tes é d estinada a u m m undo m elh o r do que
este, se eles se m o stra re m d isp o sto s a ac eitá-lo . E les resistem à
m ud an ça p o r várias razões, nenhum a delas racional. E lvis am av a sua
m ãe tão pro fu n d am en te e a p erd e u tão cedo n a v id a que, d epois de
A s s i m n a T e r r a c o m o n o C é u ... - O A n o d o J u b i l e u 141

m orrer, d esejav a deixar este m undo e se ree n co n trar co m ela. N o


entanto, p o r te r vivido de u m a m an eira que ela não aprovaria, p o r
n ão q u erer en c arar as crítica s m a tern as ao uso de d ro g as, à sua
p ro m is c u id a d e e d e v a s s id ã o g e ra l, d e m o ro u -s e aq u i até e s ta r
convencido de que h avia adiante, à sua espera, perd ão q ue ex ced ia a
todo o en tendim ento.75

U m livro que se to m o u best-seller,


escrito po r M aria Schriver, esposa
de A m o ld S chw artzenegger e sobrinha de John F. K ennedy, explica o céu
para as crianças. D e acordo com Shriver, o céu é:

... um lu g a r lindo, onde v o cê p o d e se a sse n ta r em n u v en s


fofinhas e con v ersar com as p esso as que estão lá. A noite, v o cê p ode
se assentar ju n to às estrelas, m ais b rilhantes ali do que qu alq u er lugar
do u niverso [...] Se v ocê for b om a v id a inteira, en tão irá p ara o céu
[...] Q uando sua v id a te rm in ar aqui n a terra, D eus en v iará an jo s p ara
levá-lo p ara o céu p ara ficar co m ele...76

A o contrário do que pregam essas teologias populares, o céu não é


ap en as u m destino
e sp iritu a l, o e n d ereço após a m o rte d aq u eles que
apresentam as devidas qualificações. É um reino
do qual quem crê em Jesus,
o M essias, é cidadão. N esse reino, há um tipo
diferente de vida, pois nele,
a vida não é v ivida apenas na terra e no tem po, m as deriva seu ím peto e
extrai sua energia do celestial e do etem o. E, portanto, (o term o vida eterna
q ue o E v a n g e lh o de Jo ão e m p reg a). E v id a que c o m e ç a não co m o
nascim ento físico, m as pelo renascim ento espiritual (Jo 3.3-5). É vivida
pela fé, pu lsa com um novo coração e reflete um a intim idade piedosa com
D eus. Esse reino do céu, esse novo tipo de vida, se estende de m odo a
abarcar tanto o presente quanto o futuro, tanto a dim ensão espiritual quanto
a dim ensão física da existência.
P ara poderm os entender o que a B íblia ensina acerca do céu, tem os de
repensar parte considerável daquilo que acreditam os que acontece depois
da m orte física. A m aioria dos cristãos não hesita em dizer: “Q uando m or­
rerm os, vam os para o céu”. C itam com o prova a história do ladrão na cruz.
Jesus disse ao ladrão: “Eloje estarás com igo no paraíso” (Lc 23.43). É ver­
dade. M as onde fica esse lugar e, o que é m ais im portante, o paraíso é o céu?
Tudo indica que não, pelo m enos não o céu na concepção de m uitos que
usam essa palavra. N o final daquele dia, o corpo de Jesus não foi levado
para um lugar lá no alto, m as para a sepultura, onde esperou pelo m om ento
da ressurreição. Sem dúvida, nas E scrituras o “paraíso” não é o cam po de
beisebol do personagem de K evin Costner, nem a recom pensa final de Odd
142 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a d e I s r a e l

T hom as nem , tam pouco, o futuro fofinho de M aria Shriver. A ntes, refere-se
à alegria bem -aventurada na presença de D eus, da qual desfrutam aqueles
que m orrem no Senhor. Os cristãos cujos corpos se encontram na sepultura
são recebidos de im ediato pelo am or do Pai e se encontram na presença de
Cristo. A guardam , contudo, algo m ais. O “paraíso” não é o ponto final, pois
hav erá a ressurreição do corpo, com o IC oríntios 15.12-13 ensina de m odo
tão claro. A s sepulturas se abrirão, os que m orreram em Cristo ressuscitarão
e se encontrarão com o Senhor nos ares (lT s 4.17).

E depois?
C ostum a-se supor que eles irão em bora e deixarão a terra para trás.
M as p ara onde irão? Q ual é o seu destino? O nde fica o “ céu” ? E ssa parece
a ideia de m uitos cristãos norte-am ericanos de hoje, sob a influência de
u m a série debesí-sellers de ficção sobre o arrebatam ento. O resum o incisivo
de N. T. W right dessa teologia popular é digno de m enção: “ O povo de
D eus será, literalm ente, levado para o alto, deixando para trás casas, carros
e fam iliares e escapando para sem pre do m undo de espaço-tem po que rum a
p ara a destruição” .77
N a verdade, porém , aqueles que forem ressuscitados das sepulturas e
forem ao encontro do Senhor não deixarão o m undo para trás, m as voltarão
com C risto p ara um a terra renovada. Paulo declara em IT essalonicenses
4.14: “D eus, mediante Jesus, trará, em sua companhia , os que dorm em ” .
Esses acontecim entos m om entosos trazem à m ente a im agem da chegada de
u m C ésar vitorioso, aclam ado pelo povo ao longo das estradas enquanto se
dirige com toda pom pa para um a cidade recém -conquistada. M ais im por­
tante ainda, a descrição do arrebatam ento e da volta de Cristo repete a primei­
ra entrada triunfal de Jesus, quando a m ultidão saiu de Jerusalém para ir ao
encontro de seu Rei somente para voltar com ele
para a cidade real (M t 2 1 .8).78
D essa vez, ficará claro que ele é o único e verdadeiro Senhor do céu e da
terra e que o im pério de C ésar (e todos os im périos m odernos), com todo o
seu aparato de poder e riqueza, “não passa de um a paródia” .79
A dem ais, “céus” , com o vim os no capítulo anterior, é um term o que
quase sem pre aparece nas E scrituras com “terra” para descrever a criação
com o um todo. E ssa ju n ção se baseia em G ênesis 1.1: “N o princípio, criou
D eus os céus e a terra". O uso de “ os céus” se refere, sem dúvida, a algo
diferente do endereço dos salvos depois da m orte; reflete a dim ensão da
criação de D eus na qual a inim izade anunciada em G ênesis 3.15 se desenro­
la no âm bito de anjos e dem ônios e im pele o m esm o confronto no m undo de
pessoas e nações. C onvém repetir a abrangência cósm ica da batalha: “Por­
que a nossa luta não é contra o sangue e a cam e, e sim contra os principados
A s s i m n a T e r r a c o m o n o C é u .. . - O A n o d o J u b i l e u 143

e p o testad es, co n tra os dom inadores deste m undo tenebroso, contra as


forças espirituais do m al, nas regiões celestes.
Portanto, tom ai toda a arm a­
dura de D eus...” (E f 6.12-13).
Q uando a redenção realizada por C risto com pletar o desígnio de D eus,
“os céus e a terra” serão reunidos e reconstituirão a criação originalm ente
coesa, m as hoje dividida. P or m eio da cruz de C risto, D eus ajuntará e recon­
ciliará todas as coisas no céu e na terra (C l 1.16-20). U m a vez reconcilia­
dos, os filhos do segundo A dão cam inharão e conversarão com D eus com o
o prim eiro A dão fazia no jard im e a alegria e o prazer deles na presença do
Senhor se darão num a terra rem ida. Os anjos de D eus não precisarão lutar
p or nós contra seus antigos com panheiros, m as darão louvores a D eus pela
graça vitoriosa de Cristo.
A ssim é que deveria ter sido, pois D eus criou a hum anidade p ara viver
na terra e nos colocou aqui para desfrutar a presença dele e viver para a
glória dele com o criaturas à sua im agem que refletem sua glória. Q uando a
vida voltar a ser com o deveria, os céus e a terra serão reunidos.

Aos 65 anos de idade, Jake era um solteirão que vivia à mar­


gem da sociedade numa pequena cidade rural do centro-oeste dos
Estados Unidos. Apesar de seus problemas mentais, era perceptivo o
suficiente para reconhecer e sentir em sua alma o escárnio cruel de
seus vizinhos. Com o passar do tempo, tomou-se calado e solitário,
encontrando realização apenas em seu trabalho numa fazenda de
gado de corte Holstein, onde os animais nunca zombavam dele. Sua
única arma era aforça extraordinária de suas mãos. Quando as pes­
soas faziam gozações, ele oferecia a mão para cumprimentá-las; se
elas aceitassem, era primeira e última vez. Jake apertava até pedi­
rem arrego ou ouvirem algum osso quebrar. Nessa hora, a zombaria
cessava, pelo menos em sua forma audível.
Apesar de tudo, Jake amava Jesus Cristo e compreendia, mais
do que a maioria das pessoas, as duas realidades que relato aqui.
Sabia, por experiência, que aqui e agora a vida não é como deveria
ser, mas porta as marcas inegáveis do pecado e do mal. Sentia isso
no escárnio de seus vizinhos e em suaprópria raiva. Em contrapartida,
Jake conhecia a Bíblia e aguardava com grande expectativa o dia
em que poderia provar as glórias do novo céu e nova terra. Costu­
mava declarar essefato em alta voz para o seujovem pastor, quando
o via do outro lado da praça: “Bom dia, pastor ”, Jake gritava. “Vai
ser divertido cuidar da fazenda na nova terra. E o novo céu não vai
ter er\’as daninhas! ”

Os vizinhos riam dele, m as Jake estava certo.


144 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a d e I s r a e l

POVO DO JUBILEU
Jake era u m hom em do Jubileu, um cidadão da nova criação. Pessoas
com o Jake, cristãos que sabem quem são em C risto, entendem , com base
em sua fé, o rum o da vida e propagam o reino do céu na terra. P ara elas,
esse é o m odo de vida diário em C risto. V ivem em graça radical, dando à
v id a de hoje a form a de coisas por vir.
Com o observam os, N . T. W right cham a essas pessoas de “cidadãos do
céu, colonizando a terra” . G osto dessa descrição. Seu estilo de vida é estra­
tégico e m ostra às pessoas da terra com o é o reino celestial da graça divina
hoje e, m ais ainda, am anhã. D e acordo com Paulo, a unidade da igreja reú ­
ne, num só corpo, judeus e gentios, hom ens e m ulheres, escravos e livres, e
constitui um m istério que to m a conhecidas as boas-novas para anjos e de­
m ônios que lutam uns contra os outros, os “ ... principados e potestades nos
lugares celestiais” (E f 3.10). Pedro segue a m esm a linha ao declarar que “ o
procedim ento exem plar” dos cristãos cala a zom baria do m undo que não
entende a santidade e, portanto, q u estiona suas m otivações (IP e 2.12).
T rata-se de um mysterion, um m istério, um a revelação de D eus que não
pode ser com preendida pela m era lógica hum ana: se o im pensável pode
ocorrer, se o irreconciliável pode, de fato, ser reconciliado, e se m alfeitores
podem ser verdadeiram ente transform ados pelo evangelho de m odo a, pelo
po d er do Espírito, produzir o fruto de u m a vida transform ada, o céu está
irrom pendo e a brecha cósm ica está se fechando.
Em m inha experiência, foram poucos os lugares em que senti o gosto
am argo do m edo ou trem i de horror com a violência m ais do que em B elfast,
Irlanda do N orte. P or décadas, a luta sectária causou m orte e destruição em
suas ruas. O m ais triste é que as batalhas são travadas em nom e de Deus:
católicos contra protestantes, am bos afirm ando estar do lado de D eus e, no
entanto, divididos pelo ódio de tal m odo que a reconciliação representa, até
hoje, u m sonho im possível.
Isto é, até o novo m undo irrom per no velho.
Charles Colson conta um a história de reconciliação nesse contexto de
violência e ódio. E a história de Liam , um católico, e Jimmy, um protestante.

Liam era o último membro da famosa greve de fome da Prisão


Maze [...] na qual Bobby Sands havia levado à morte quase uma
dúzia de companheiros terroristas. Quando chegou sua vez, Liam
passou 55 dias sem comer. Cego, fraco e à beira da morte, recebeu a
visita de sua mãe que o convenceu a quebrar o jejum. No período de
recuperação, Liam percebeu que tinha de escolher entre sua causa, o
Exército Republicano Irlandês, e Jesus Cristo. Escolheu Cristo e,
dali em diante, sua fé o levou a tomar atitudes radicais de perdão e
A s s i m n a T e r r a c o m o n o C é u ... - O A n o d o J u b i l e u 145

amor. Começou a comer com antigos inimigos, rompendo, desse modo,


a segregação rígida entre católicos e protestantes no refeitório da prisão.
E, por fim, por meio do testemunho de Liam, Jimmy, ex-terrorista
protestante, conheceu Cristo [...] Os dois se apresentaram num palco
diante da multidão de católicos e protestantes. Ao colocar o braço sobre
o ombro de Jimmy, Liam evidenciou o poder do Cristo que reconcilia:
“Antes, se eu visse Jimmy na rua”, explicou, “eu teria atirado nele.
Agora, ele é meu irmão em Cristo. Eu morreria por ele!”80

C orrie Ten B oom conta um a história sem elhante de reconciliação com


base em sua ex p eriência no cam po de concentração nazista, onde ela e
seus fam iliares ficaram presos p o r ajudarem ju d eu s na H olanda durante a
Segunda G uerra M undial. O pai e a irm ã de Corrie m orreram em Ravensbruck
e a própria C orrie sofreu horrores nesse cam po.

Eu o vi num culto em Munique. Era o guarda da SS que ficava


junto à porta dos chuveiros no centro de processamento [...] No final
do culto, enquanto as pessoas saíam da igreja, ele veio falar comigo,
inclinando a cabeça com um sorriso no rosto: “Fraulein , sou
extremamente grato pela sua mensagem”, disse. “E pensar que, como
você falou, Jesus lavou meus pecados!”
Em seguida, estendeu a mão para mim. Eu, que havia pregado
com tanta frequência para o povo de Bloemendall sobre a necessidade
de perdoar, não fui capaz de estender a minha mão.
No mesmo instante em que os pensamentos de ódio e vingança
borbulharam dentro de mim, percebi como eram pecaminosos. Jesus
havia morrido por aquele homem; eu iria pedir mais do que isso?
“Senhor Jesus”, orei, “perdoe-me e ajude-me a perdoar este homem”.
Tentei sorrir e me esforcei para estender a mão, mas não
conseguia. Não sentia nada, nem uma fagulha de afeto ou caridade.
Mais uma vez, orei em silêncio. “Jesus, não posso perdoá-lo. Dê-me o
teu perdão”.
Quando finalmente apertei a mão dele, algo extraordinário
aconteceu. Percorrendo meu ombro e a extensão do braço até a mão,
uma corrente pareceu passar de mim para ele enquanto, em meu
coração, surgia um amor quase sufocante por aquele desconhecido.
Descobri, desse modo, que a cura do mundo não depende de
nosso perdão nem de nossa bondade, mas sim, do Senhor. Quando
nos diz para amar a nossos inimigos, ele concede, com a ordem, o
próprio amor.81

Perm ita-m e contar m ais um a história, esta no contexto do racism o


dentro de um a prisão. Por m ais de um ano, alguns irm ãos e eu m inistram os
146 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a d e I s r a e l

a presidiários po r m eio de um estudo bíblico sem anal num presídio estadual


no Texas. M ês após m ês, os hom ens sentavam -se no salão im enso segundo
o código de segregação que eles próprios haviam criado: negros à esquerda
do palestrante, brancos à direita e hispânicos (um a m inoria naquele presí­
dio), agrupados no fundo da sala. D epois de um estudo sobre o poder vito­
rioso da cruz de Jesus Cristo, m ais de cem hom ens se levantaram e, com
m ovim entos lentos e hesitantes, voltaram -se uns p ara os outros. Os guardas
responsáveis pelo salão ficaram tensos e se prepararam p ara reagir. O capi­
tão chegou a pegar seu rádio. C ontato visual direto entre as raças de p risio ­
neiros norm alm ente é o precursor da violência; dessa vez, contudo, antece­
d eu algo d iferen te. O céu irro m p e u n a q u e le p ed aço co nfinado de terra.
Os hom ens se abraçaram com lágrim as de alegria nos olhos. H aviam se
tom ad o um em Cristo e o amor, o perdão e a graça haviam trazido vida nova
a um m undo cercado po r aram e farpado.
H á m uitas m aneiras de o novo povo de D eus servir com o presença do
Jubileu, com o cidadãos do reino do céu que, já em nosso tem po, flui livre­
m ente pelo m undo reconciliando todas as coisas em Jesus Cristo. D arei
alguns exem plos, m as você poderá pensar em m uitos outros.
Pessoas que vivem de acordo com o Jubileu
revelam prioridades dife­
rentes. Protegem a terra em vez de abusar dela. São com o Josh, um rapaz
que está concluindo o doutorado em B iologia num a grande universidade.
C om esse diplom a em m ãos, não teria dificuldade de obter sucesso finan­
ceiro no m undo. U m a vez que pertence a Jesus C risto, porém , Josh se preo ­
cupa m enos em enriquecer e consum ir do que em glorificar a D eus por m eio
da m ordom ia da criação. Jesus disse que D eus am ou o cosm o de tal m aneira
que enviou seu Filho unigénito para redim i-lo (Jo 3.16). Para seguir o exem ­
plo do Pai, Josh planeja usar seu grau de doutor para redim ir; quer desen­
volv er novas m aneiras de fornecer água lim pa para habitantes de regiões
secas de U ganda. A lém de levar água para sustentar a vida física dessas
pessoas, espera levar a A gua Viva da F esta dos Tabernáculos, o M essias
que satisfará as necessidades m ais profundas do coração deles.
P esso as que v iv em de acordo com o Jubileu
são h o n estas e não
distorcem a verdade com astúcia e artifícios para atender aos próprios inte­
resses, m as “seguindo a verdade [acuradamente] em am or” , um a tradu­
ção literal de Efésios 4.15. T ransm item a verdade porque estão ancorados
em Jesus e rom peram os laços com o pai da m entira. R obbie era viciado em
pornografia havia anos. Seu pecado tinha vindo à tona e o casam ento com
L ily estava, nas palavras de R obbie, “po r um fio, pois m inha esposa não m e
entende” . O problem a real era que R obbie não entendia a si m esm o, sua
depravação interior e o im pacto de seu “hábito inofensivo” sobre o coração
A s s i m n a T e r r a c o m o n o C é u ... - O A n o d o J u b i l e u 147

de sua esposa. De m odo surpreendente, Lily se m anteve firme. M esm o quando


j á havia perdido as esperanças de ver o m arido restaurado, orou para que ele
fosse libertado. Só acreditou na autenticidade do arrependim ento de R obbie
quando percebeu que ele estava sendo honesto a respeito de tudo. V iu as
p rim eiras g otas de lib erd ad e do Jubileu
q u ando R o b b ie p a ro u de u sa r
eu fem ism o s p ara os pecados dele e p asso u e com eçou a confessá-los com
ho n estid ad e ao Senhor, a ela e a outros. As gotas se transform aram num
riacho quando ele entendeu que D eus o havia redim ido do pecado para um
m inistério no qual ele teria de com partilhar a vergonha de sua história p e s ­
so al a fim de a ju d a r o u tro s h o m e n s p re s o s a p e c a d o s s e m e lh a n te s .
O fluir da graça na vida de R obbie com eçou a curar o coração ferido de Lily
e restaurar sua confiança no m arido. O rio que os confortou e curou em suas
dificuldades agora corre com o um a torrente e flui do seu casam ento para
derram ar água curativa sobre outros. A ssim é a dinâm ica do céu: os feridos,
um a vez curados por D eus, se tom am seus dedos bondosos na vida daqueles
que ainda sofrem (2Co 1.3).82 H oje, R obbie e L ily dirigem um m inistério
para casais na igreja deles, um trabalho que deu origem a dezenas de histó­
rias sem elhantes do Jubileu.
Pessoas que vivem de acordo com o Jubileu
são poderosas, m ais do
que aparentam na carne, pois são cheias do E spírito de D eus. P ossuem
coragem e au to d isciplina que a cam e não entende nem é capaz de im itar
(2T m 1.7; H b 11.32-38). A chinesa franzina im aginava estar sozinha e ser a
única seguidora de Cristo que havia restado depois de a Revolução C ultural
de M ao d e c la ra r a fé cristã “e rra d ic a d a ” . O expurgo fo ra cru el e cabal.
N o início da década de 1970, a esposa de M ao afirm ou que as únicas Bíblias
restantes n a C hina estavam em m useus. E, no entanto, quando m issionários
entraram n a C hina po r H ong K ong, ansiosos para descobrir o que havia
acontecido nos anos de silêncio desde que todos os prim eiros m issionários
tinham sido expulsos, encontraram essa alm a solitária. E la lhes contou um a
história terrível: havia sido hum ilhada publicam ente po r sua fé, forçada a
usar um chapéu com orelhas de burro durante seu julgam ento no cam po de
futebol da vila, diante de todos os habitantes. Com o castigo po r seguir a
C risto, havia recebido a sentença de prisão perpétua: para o restante da
vida, teria de fazer a m anutenção da vala po r onde passava o esgoto do
vilarejo. A pesar de ter sido banida da sociedade instruída, apegou-se ao seu
Salvador. Q uando encontrou os m issionários cristãos vindos do O cidente,
perguntou: “A inda há outros cristãos na C hina?” e ficou m aravilhada com a
resposta que lhe deram .
Os visitantes voltaram ao hotel decididos a ajudar a m ulher no que
fosse possível. A rrancaram partes das seis Bíblias que haviam levado consigo
148 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a d e I s r a e l

p ara a C hina e, com um kit de costura do hotel, costuraram essas partes um a


à outra de m odo a form ar um a B íblia com pleta, protegida po r um a capa
feita às pressas com um pedaço de tecido rasgado de um vestido. D eixariam
a Palavra de Deus com ela e, ao m esm o tem po, poderiam passar pelo funcio­
nário m eticuloso da alfândega o qual havia avisado, em tom severo, que se
certificaria pessoalm ente de que eles sairiam do país levando as seis Bíblias
com as quais haviam entrado.
Ao voltarem à C hina alguns anos depois, os m issionários visitaram a
senhora idosa novam ente. Q uando lhe ofereceram um a nova B íblia, ela re­
cusou gentilm ente, agarrando-se à sua velha B íblia coberta com um trapo e
insistindo para que dessem a B íblia nova “a alguém que estivesse precisan­
do” . Q uando perguntaram se podiam fazer m ais algum a coisa por ela, a
senhora sorriu e respondeu que não. Depois de recusar as ofertas de dinheiro
e alim ento, explicou: “Deus é tão bom para mim . A lém de prover alim ento e
dinheiro, ele m anda m uitos outros presentes que passam boiando por m im
no esgoto. Tenho m ais coisas do que todos os m eus vizinhos” .83
P essoas que vivem de acordo com o Jubileu
são apaixonadas; d etes­
tam o m al e apegam -se ao bem (R m 12.9). Seu zelo po r u m a vida de san­
tid ad e nasce da consciência de que, em C risto, j á estão santificadas pela
graça. G ratas p o r sua n o v a vida, desejam viver cada vez m ais p ara C risto.
O usadas em seu testem unho (A t 1.8; 7.54-55; 8.4), anunciam o evangelho
a to d as as pessoas e, sem tim idez, reivindicam toda a vida p ara C risto.
F azem isso p orque D eus é soberano e elas se com prazem em ser filhas que
levam o nom e dele e vivem p ara a glória dele. São confiantes — aliás, são
destem idas — pois sabem de um segredo: “E o D eus da paz, em breve,
esm ag ará debaixo dos vossos pés a S atanás” (R m 16.20). O film e Jornada
pela liberdade (2007) conta a história de coragem de W illiam W ilberforce.
U m hom em de constituição física frágil, que lutou anos a fio contra p ro ­
blem as gastro in testinais debilitantes, W ilberforce derrubou sozinho o trá ­
fico de escravos realizado p ela G rã-B retanha. A p esar de todos estarem
co n tra ele, desde a coroa até o P arlam ento, desde grandes hom ens de n e­
gócio até os líderes da igreja, recebeu p oder do céu, concedido pelo E sp í­
rito e, portanto, perseverou. A nação e, por fim , o m undo ocidental civ ili­
zado, sofreram um a transform ação. O p arlam ento v o tou a abolição do trá ­
fico de escravos em 1807, 56 anos antes de L incoln assin ar a P roclam ação
de E m ancipação.
Pessoas que vivem de acordo com o Jubileu
podem estar no m undo,
m as não são do m undo. São cidadãos de outro reino e é desse reino que flui
o poder que m ove a vida deles. A pesar de viverem na cam e e experim entarem
seu pecado e corrupção, não são da cam e. Provam as boas dádivas de um
A s s i m n a T e r r a c o m o n o C é u ... - O A n o d o J u b i l e u 149

novo m undo que está irrom pendo e, no entanto, não se sentem plenam ente
saciados. U m pequeno bocado não basta para eles; pessoas que vivem de
acordo com o Jubileu
anseiam pelo banquete com pleto. A Palavra de D eus
os enche de expectativa; anseiam pela revelação plena do céu. Esperançosos
e até obstinados, inclinam -se para a frente com o faziam os m em bros da lista
de H e b re u s 11, a g u a rd a n d o “ ... u m a p á tria su p e rio r, isto é, c e le s tia l”
(Hb 11.16). Essa pátria celestial, que com eçou a surgir com o sim ples grão
de m o sta rd a em B elém da Ju d eia, flo re sc e rá em sua p len itu d e na v o lta
de C risto.
A conclusão dram ática da longa história divina de redenção, da qual
todas as festas são representações e sím bolos, é descrita em sua form a final
e m ais gloriosa no últim o capítulo da Bíblia. A pocalipse 22 retrata um futuro
tão belo que deixa o coração apertado, um futuro que já com eçou. Os verbos
no p resente passam de m odo im perceptível p ara o futuro, na interseção do
já com o ainda nãoda redenção. A qui, o rio que flui do trono de D eus já
transbordou de suas m argens e corre livrem ente. A “árvore da vida” , outrora
guardada p o r anjos para que o hom em não tivesse acesso, entra em cena
outra vez; produz novo fruto (do E spírito) a cada m ês e suas folhas trazem
cura p ara as nações da terra. A m aldição antiga foi/será revogada e, por
isso, o povo de D eus vê sua face outra vez, po r ora um tanto nebulosa, m as
cada vez m ais nítida. O povo de D eus não o serve tem plo feito de num
pedras e revestido de ouro; agora, são
o tem plo do E spírito. U m a vez que o
véu foi rasgado, já desfrutam com ele um a intim idade que to m a as velhas
tendas desprezíveis.
N a c o n c lu s ã o d a n a rra tiv a b íb lic a v e m o s a n o v a c ria ç ã o que
fm alm en te se d esdobra segundo os desígnios iniciais do C riador, aquilo
que teria sido se o pecado não houvesse causado a separação. A no v a
criação constitui um reino vivo no qual D eus é, ao m esm o tem po, o A m igo
querido e o S enhor da criação. H om ens e m ulheres voltarão a rein ar com o
A dão e E v a e exercer dom ínio sobre tudo p ara g lo rificar ao D eus que
adoram com todo seu ser. O povo de D eus v o ltará a cam inhar e conversar
com ele no jard im na viração do dia, sem a v ergonha do pecado que os
lev o u a esconder-se p o r m edo.
Q uando esse dia chegar, quando a celebração do tiv er tocado Jubileu
todas as pessoas e a vida toda com sua liberdade e graça, todo jo elh o se
dobrará diante do Senhor, os m ontes cantarão louvores a ele e as árvores do
cam po baterão palm as de alegria.
N aquele dia, por fim , tudo descansará.
150 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a d e I s r a e l

Perguntas para estudo e discussão


1. R eleia L evítico 25 e as prescrições para o A no do Jubileu. Por que
o Ju bileu n u n ca foi celebrado no A ntigo Testam ento? A seu ver, o que
co nstituiria u m a dem onstração radical de graça nos dias de hoje?

2. D iscuta os conceitos com uns de “céu” . C om pare-os com o retrato


de “ céu” apresentado neste capítulo. Q ual a diferença que as duas im agens
fazem no seu v iv er diário?

3. O Jubileu é um a festa que os cristãos “já celebram ” , “ ainda não


celebram ” ou as duas coisas?

4. Você costum a orar “Vem, Senhor Jesus!” ? O que você quer dizer
quando ora desse m odo?

5. Você costum a orar “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim
na terra como no céu”? O que você quer dizer quando ora desse m odo?
N otas

1 D evo essa visão a G regg Easterbrook.


2 C raig G. B a r t h o l o m e w e M ichael W. G oheen subdividem a “redenção”
em iniciação (Israel do AT), realização (o m inistério terreno de C risto e
da igreja m issionária) e conclusão (a vo lta de C risto). The Drama of
Scripture: Finding Our Place in the Biblical Story. G rand Rapids: B aker
A cadem ic, 2004.
Not the Way Its Supposed to Be: A Breviary of Sin.
3 C ornelius P l a n t in g a ,
G rand Rapids: E erd m an s’s P ublishing C om pany, 1996 (Publicado no
Brasil p ela E ditora C ultura C ristã com o título Não era para ser assim
[N. T.]).
Dictionary of Biblical Languages
4 S.v. “m iqra” , n õ 5.246 in Jam es S w anso n , ;
With Semantic Domains: Hebrew (Old Testament). E dição eletrônica:
L ogos R esearsh System s, 1997.
5 S .v. nQ4.744 in Jam es S t r o n g , The New Strong’s Dictionary of Hebrew
and Greek Words, N ashville: Thom as N elson Publishers, 1996. Edição
eletrônica.
6 A N V I, p o r exem plo, traz “exem plos” , enquanto a R C traz “figura” .
7 Tupos é um term o técnico para indicar exatam ente isso. Cf G erhard K ittel ,
Theological Dictionary of the New Testament, org. G. Friedrich. G rand
Rapids: W m . B. E erdm ans P ublishing Co, 1972, vol. 8, págs. 251-2.
8 C . V o n k se re fe re ao “ c o n c e ito de d e s c a n s o ” co m o o “ e le m e n to
característico” de todas as festas, e não apenas do sábado. De Voorzeide
Leer: Leviticus. U itgave: D rukkerij B arendrecht, 1963, vol. lb , pág. 635.
Bible Student’s Commentary: Leviticus.
9 A. N o o r d t z ij , G rand R apids:
Z ondervan P ublishing Corp., 1982, pág. 230.
The Land: Place as Gift, Promise, and Challenge in
10 W alter B r u eg g e m a n ,
Biblical Faith. Philadelphia: Fortress, 1977, pág. 49.
11 Sietze B u n in g , “A n O pen L etter” , in Style and Class. O range City:
M iddleburg Press, 1982, págs. 56-57.
12 O verbo é significativo: está no tem po presente e enfatiza um a ação
com pletada, com resultados que ainda persistem .
13 N o o rtzij lem b ra q u e a p ro ib iç ã o de to d o tra b a lh o n ão era a b so lu ta .
Bible Student’s Commentary: Leviticus.
A. N o o r d t z ij , G rand Rapids:
Z ondervan P ublishing C orp., 1982, pág. 230.
152 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a d e I s r a e l

14 Para um vislum bre da extensa tradição rabínica em to m o das leis do


sábado, veja Shabbath 15.1 in The Mishnah. Trad. H erbert Danby. Oxford:
O xford U niversity Press, 1933, pág. 113.
15 P or ironia, aquilo que nossa cultura cham a de “recreação” (referindo-se a
fins de sem ana, esportes e atividades de lazer) tem suas raízes no conceito
bíblico de redenção, a vinda da nova criação e, com ela, o descanso.
16 João C a lv in o , A s Instituías. São Paulo: E ditora C ultura C ristã, 2006,
livro 2, capítulo 8:31.
17Idem, 8:32. P ara Calvino, o “dom ingo” não possuía nenhum a prerrogativa
especial com o dia de descanso, m as era um a acom odação à nossa fraqueza,
reco m en d áv el apenas porque não cultuam os todos os dias. C om enta:
“ Q uem dera tivéssem os o privilégio de fazê-lo!”
18 O nom e Y H W H , grafado com frequência com o “Javé” ou “Jeová” é
traduzido n a m aior parte das versões m odernas da B íblia com o S e n h o r ,
em versalete. Por causa do terceiro m andam ento, os ju d eu s em geral
preferem se referir a ele com o HaShem, “o N om e” .
19 W. H. G is p e n ,Bible Students Commentary: Exodus. G rand R apids:
Z ondervan, 1982, pág. 55.
20 Ceil e M oishe R o sen , Christ in the Passover. C hicago: M oody Press,
1978, pág. 31. O bserve que “bacia” em Ê xodo 12.22 provavelm ente não
era um recipiente no sentido que em pregam os o term o hoje, m as sim , de
acordo com a etim ologia egípcia sap,
o lim iar ou vala cavada na frente da
p o rta de u m a casa para evitar infiltrações.
21 O m esm o term o é usado outra vez em Isaías 31.5: “C om o pairam as aves,
assim o S en h o r dos E xércitos am parará a Jerusalém ; protegê-la-á e salvá-
la-á, po u p á-la-á e livrá-la-á” . É possível que o term o tam bém sirva de
base para o term o lam ento de Jesus em Lucas 13.34: “Jerusalém , Jerusalém
[...] Quantas vezes quis eu reunir teus filhos com o a galinha ajunta os do
seu próprio ninho debaixo das asas” . Cf., também,
Arthur W. P ink , Gleanings
in Exodus. Chicago: M oody Press, s.d., citado in Rosen, pág. 22.
” P a ra u m a d e s c riç ã o m ais d e ta lh a d a da re fe iç ã o Sêder
do sé cu lo l õ,
cf. Ceil e M oishe R o se n , Christ in the Passover. C hicago: M oody Press,
1978, págs. 50-59.
21 C alcula-se que, no século l 9, Jerusalém possuía cerca de seiscentos m il
habitantes. C om o acréscim o dos peregrinos que lotavam as ruas da cidade
durante as festas, sua população subiu p ara dois m ilhões ou m ais.
24 A sequência de veredictos é relatada em M arcos 11.3 ls.; 12.17; 12.27;
12.32-34; M t 22.46.
Greek-English Lexicon of the
25 Johannes P. L o u w n ; E ugene A lbert N id a ,
New Testament: Based on Semantic Domains , edição eletrônica da 2a.
ed. N ova York: U nited B ible Societies, 1996. S. 1:434.
N o t a s 153

26 Jam es C l a v e l l , King Rat. N o v a York: D ell P u b lish in g C o., 1962.


Changi.
[Publicado em português com o título de R io de Janeiro: Record,
1982. (N .T .)].
Paradise Lost and Paradise Regained,
27 John M ilton , org. C hristopher
Ricks. N o v a York: Signet, 1982. [Publicado em português com o título de
O paraíso perdido. B elo H orizonte: Vila R ica Ed., 1994. (N. T.)].
28 John R it c h ie argum enta que as festas de um dia (Páscoa, Prim ícias,
Sem anas e D ia da E xpiação) focalizam atos específicos de redenção,
enquanto as celebrações de sete e oito dias apontam para os resultados
Feasts of Jehovah.
c o n tín u o s d e sse s a to s. G ra n d R a p id s: K re g e l
Publications, 1982, págs. 33-34.
29A obra ficou na septuagésim a posição na lista de livros “m ais controversos”
da A m erican L ibrary A sso ciatio n n a d écad a de 1990. [P ublicado no
O senhor das moscas.
B rasil com o título R io de Janeiro: N o v a Fronteira,
2006. (N. T.)].
Redemption Accomplished and Applied.
30 John M urra y , G rand R apids:
W m . B. E erdm ans Publishing Co., 1955, pág. 146 [Publicado no B rasil
Redenção consumada e aplicada.].
pela Editora Cultura Cristã com o título
cf.
31 Para um a excelente explicação dessa questão, Holiness
B ryan C h a pell ,
by Grace: Delighting in the Joy that is our Strength. W heaton, IL:
C rossw ay B ooks, 2001.
32 T rem per L o n g m a n III fornece um a explicação esclarecedora a respeito
dessas ofertas: “O ‘olah (holocausto) enfatizava a natureza expiatória do
sacrifício, enquanto o minhah (oferta de m anjares e libação) ressaltava o
sacrifício com o oferta” . Era um a oferta, contudo, no sentido de dever:
correspondia ao tributo pago a um rei. Trem per L ongm an III. Immanuel
in our Place, Seeing Christ in Israel’s Worship. P hillipsburg, N J: P& R
Publishing, 2001, págs. 77-92.
The Temple, Its Ministry and Services as they were at
33 A lfred E d e r sh e im .
the time of Christ. G arland, TX: G alaxie Softw are, 2000, ed. eletrônica.
34 A p esar desses benefícios, a o ferta cristã não chega n em perto de 10%
da renda. N em sequer ultrapassa de m odo significativo a m édia nacional
de c o n trib u iç õ e s p a ra c a rid ad e s q u e é de 2,3% . Annual Report of
Philantropy for the year 2004. Indianapolis: G iving U S A F oundation;
A A F R C T ru st fo r P h ila n th ro p y , C e n te r o f P h ila n th ro p y at In d ia n a
U niversity, P h ilan tro p y 2005.
The Good
35 John R. S c h n eid er exalta um a visão correta da riqueza in
Affluence: Seeking God in a Culture of Wealth. G rand Rapids: W illiam B.
E erdm ans Publishing C o., 2002.
Resurrection and Redemption: A Study in Paul’s
36 R ichard B. G a ffin J r .
Soteriology. Phillipsburg, N J: P & R Publishing, 1987, 2a ed., pág. 41ss.
154 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a d e I s r a e l

Cf N. T. W right,
37 T ratarem os dessa questão em m ais detalhes no capítulo 9.
Surprised by Hope: Rethinking heaven, the Resurrection, and the Mission
of the Church. N ova York: H arperO ne, 2008, págs. 98-99.
38 Idem, p. 100.
39 H erm an R , Paul: An Outline of his Theology. G rand R apids:
id d e r b o s
W illiam B. E erdm ans P u blishing C o., 1975, pág. 45. [P ublicado em
português com o título A teologia do apóstolo Paulo: a obra definitiva
sobre o pensamento do apóstolo aos gentios. São Paulo: E ditora C ultura
Cristã, 2004 (N. T.)].
40 O term o grego p ara carne, sarx,
apresenta várias nuanças distintas de
significado que variam desde o corpo físico até a força espiritual que
constituiu a contraparte do “E spírito” . G erhard K ittle e G erhard F riedrich
(o rg s.), Theological Dictionary of the New Testament, Vol. ú n ic o ,
trad. G eoffrey W. B rom iley. G rand R apids: E erdm ans Pub. Co., 1985,
págs. 1.004-1.005.
41 H á d iferen tes opiniões quanto ao significad o do pão com ferm ento.
P a ra N o o rd tzij ( Leviticus, pág. 236), é u m a re fe rê n c ia ao alim en to
n o rm al de Isra e l e, p o rta n to , u m a o ferta de g ratid ão p elo pão de cada
dia. P ara H artley {op. cit.), o ferm ento sim boliza um a “ocasião ju b ilo sa ” .
E d w a rd C h u m n e y a c re d ita q u e , n e sse c a so , o fe rm e n to su g e re a
ex istên cia n acio n al de Israel, inclusive seu p ovo p ecam inoso. Cf. The
Seven Festivals of the Messiah. Shippensburg, PA: Treasure H ouse, 1994,
p ág . 94. E p o ssív e l, co n tu d o , q u e n e ssa c o m e m o ra ç ã o o pão co m
ferm ento seja sim plesm ente um a antevisão da nova criação na qual nada,
n em m esm o o ferm ento, será m au.
Das Buch Leviticus,
42 H o f fm a n n , págs. 224-240, citado em N oordtzij.
43 C om o verem os logo em seguida, “reino m ilenar” em A pocalipse 20 é o
reino que, segundo a proclam ação de Jesus, se iniciou com sua prim eira
v in d a (M t 4.17; Lc 11.20, etc.). Sua ascensão foi a entronização do R ei e,
o aprisionam ento de Satanás para que não possa m ais “seduzir as nações” ,
constituiu o corolário essencial das línguas em Pentecostes que perm itiu
o avanço do reino {cf.
Lc 11.20-21).
44 C onform e aprendi com m eu professor, R obert Recker.
45 N um m undo no qual o grego era a língua universal, G reen acredita que
Pedro preg o u em grego e todos os presentes entenderam . D e acordo com
ele, o m ilagre em Pentecostes diz respeito kglossolalia,
a língua espiritual
singular de louvor concedida de m odo m iraculoso a todos os discípulos e
com preendida de m odo m iraculoso po r toda a m ultidão p o r m eio do dom
de interpretação. Thirty Years That Changed the World: The Book of Acts
for Today. G rand R apids: Eerdm ans, 1993, págs. 252-253.
N o t a s 155

46 C onform e Lloyd Jones ressalta em sua exposição equilibrada de Rom anos


7. D avid M artyn L loyd Jones, Romans: An Exposition of Chapters 7:1 —
8:4. G rand R apids: Z ondervan Publishing C orp., 1973.
47A Mishná, R osh H a-S hanah 4:9, pág. 194.
48 D evo este discernim ento a Jay A d a m s , Preaching With Purpose. G rand
R apids: B aker B ooks, 1982, pág. 42s.
49 C. V e e n h o f , ao escrever sobre a interação entre lei e evangelho, sugere
que “vo lta e m eia, a igreja assum e um a postura incorreta a esse respeito,
resultando em prejuízo para a vida de fé” . Cf. Prediking em Uitverkiezing.
K am pen: J. H. K ok, 1959, págs. 215-234; trad, ingl., The Word of God
and Preaching , trad. N elson D. K loosterm an. Dyer, IN: M id A m erica
R eform ed Sem inary, 1987.
50 M arva J. D a w n , Reaching Out without Dumbing Down. G rand R apids:
W illiam B. E erdm ans P ublishing Co., 1995, pág. 21.
51 D an B. A llender, To Be Told. C olorado Springs: W aterB rook Press, 2004.
Fresh Power.
52 Jim C y m bala e D ean M erril , G rand Rapids: Zondervan
Publishing Com pany, 2001, pág. 53s. [Publicado em português com o título
Poder renovado: experimentando os recursos inesgotáveis do Espírito
Santo. São Paulo: Vida, 2001 [N. T.]. N ão deixe de ler o quarto capítulo.
53 T rem per L ongmanIII. Immanuel in our Place, pág. 125.
54 H a rtle y resu m e as o p çõ es p a ra a in te rp re ta ç ã o d e sse term o d ifícil:
(1) um a referência específica ao “bode que vai em bora” ; (2) um a descrição
m ais abstrata do “bode para rem oção” ; (3) um precipício rochoso, o lugar
para o qual o bode para rem oção era levado e (4) um nom e que se referia
a um ser dem oníaco, talvez ao próprio Satanás. John E. H a r tley . Word
Biblical Commentaiy: Leviticus. D allas: W ord, In co rp o rate d , 1998.
Ed. e le trô n ic a, Logos Library System , S. 237.
Immanuel in our Place
55 T rem per L on g m a n III. , pág. 93s.
56 M itch e Zhava G la ser acrescentam o detalhe de que ele era em purrado de
costas. The Fall Feasts of Israel. Chicago: M oody Press, 1987, pág. 104.
57 O s ritu a is de sa n g u e no sa n tu á rio e ju n to ao a lta r p u rific a v a m a
contaminação do pecado do povo, enquanto o bode expiatório levava a
culpa desse pecado. A com binação dos dois elem entos era necessária para
a expiação plena daquilo que H artley cham a, apropriadam ente, de várias
“trajetórias” da influência m ortal do pecado. Hartley, op. cit., pág. 237.
op. cit.,
58 H a r tley , pág. 245.
59 U m a questão que H ebreus 13.12 enfatiza.
60 D evo algum as das colocações do parágrafo seguinte a M itch e Z hava
Glaser, op. cit., págs. 91-107.
61 M itch e Z hava G l a se r ,op. cit., pág. 101.
156 E n c o n t r e i J e s u s n u m a f e s t a d e I s r a e l

62 Jospeh H erm an H er t z . The Pentateuch andHaftoras, Leviticus. Londres:


O xford U niversity Press, 1936, pág. 162 (ênfase acrescentada).
63 C itado in N oordzij, Leviticus , pág. 173.
Paul
64 R id d e r b o s , , pág. 45.
65 O te rm o Sukkoth é u s a d o em o u tro s lu g a re s , em p a s sa g e n s n ão
relacio n ad as à F esta, com referên cia a cabanas que pod iam ser arm adas
com rap id ez p ara p ro teg er anim ais (G n 33.17), trab alh ad o res (Is 1.8) e
g u erreiro s (2Sm 11.11).
nQ
66 V erb ete “ M is h k a n ” , 5 .4 3 8 , in S w an so n , ; Dictionary of Biblical
Languages With Semantic Domains.
67 N a opinião de alguns, com o K eil e D elitzsch, o oitavo dia, cham ado
atzaret , não era co n sid erad o fo rm alm en te p arte de Sukkoth
, m as sim ,
“ o e n c e rra m e n to so len e de to d o o c ic lo de festa s a n u a is ” . C. F. K e il ,
e F. D elitzsch , Biblical Commentary on the Old Testament , vol. II, págs. 446-
447. G rand R apids: W m . B. E erdm an’s P ublishing Com pany, 1949.
68 C om o vim os anteriorm ente, o núm ero 7 sim bolizava a consum ação havia
m uito ansiada do descanso redentor. A repetição parece im portante para
Deus. O núm ero 7 se destacava não apenas nas Festas, m as tam bém no
culto de Israel.
69A Mishná, Sukkah 4:8.
70 A lfred E d e r sh e im . The Temple, ed. eletrônica, op. cit.
71Idem.
72A Mishná, Sukkah 5:2, 5:3.
73 E interessante observar que, depois da narrativa de João 7 -8 , dentro do
contexto de Sukkoth, a cegueira é o tem a do capítulo 9. A cura de um
hom em cego quando Jesus pede que ele se lave com água do tanque de
Siloé contrastada nitidam ente com a cegueira espiritual dos fariseus que
se recusam a viver segundo a L uz do m undo.
The Good Affluence,
74 John R. S c h n e id e r , p á g . 83.
Odd hours.
75 D ean K o o n t z . N ova York: B antam B ooks, 2008, pág. 156.
What’s Heaven?
76 M aria S c h r iv e r . N ova York: S t. M artin ’s Press, 1999, in
Surprised by Hope: Rethinking heaven, the Resurrection,
N. T. W r ig h t ,
and the Mission of the Church. N ova York: H arperO ne, 2008, pág. 17.
Paul in Fresh Perspective.
77 N. T. W r ig h t . M inneapolis: Fortress Press,
2005, pág. 55.
78Idem, pág. 56.
Paid in Fresh Perspective.
79 N . T. W r ig h t . M inneapolis: Fortress Press,
2005, pág. 56.
The Role of the Church in Society: Responding to a
80 C harles C o l s o n .
Watching World. W heaton: V ictor B ooks, 1986, págs. 22-23.
N o t a s 157

The Hiding Place.


81 C orrie T en B o o m . N ova York: B antam B ooks, 1974,
pág. 238. (Publicado em português com o título O refúgio secreto. B elo
H orizonte: B etânia, 2000 [N. T.]).
82 Todas as referências a “confortar” e “consolar” nessa seção de 2Coríntios 1
traduzem o term o grego “paraklete” , o nom e que Jesus deu ao Espírito
Santo. O m inistério dos cristãos deve expressar o E spírito Santo que é,
ele próprio, p enhor da nova criação (E f 1.14).
83 M eus agradecim entos a John B echtel por m e contar essa história, e à sua
esposa p ela habilidade com o costureira.
Este inspirador estudo demonstra que as Festas não foram apenas costumes israelitas antigos. Elas são
relevantes ainda hoje. Sua relação com o evangelho de Jesus é de grande significado. Livro proveitoso
para cristãos em geral e líderes que desejam aprofundar seus estudos e mensagens.
Com aplicações práticas e cosmovisão coerente, é recomendado para grupos de estudo.
“Este livro foi escrito com arte para levá-lo a maravilhar-se e a louvar o Senhor. A igreja precisa desta leitura
para recuperar a unidade da Bíblia e seu poder transformador. Esta obra satisfaz: é estudo bíblico franco,
mensagem pastoral calorosa, apresenta sólidas evidências culturais e um sabor de alegria no Senhor que
só os filhos de Deus experimentam. Uma delícia de livro.”
Nelson D. Kioosterman
Professor de Novo Testamento e Ética no MidAmerica Reformed Seminary, Dyer, IN

“O Antigo Testamento é para muitos uma coleção de histórias sobre gente do passado. Fica faltando o fio
condutor redentivo que em Cristo une os episódios e revela seu sentido maior. Este livro acompanha
aquele fio pelas festas que marcaram o calendário de Israel, anunciaram a vinda de Jesus e o evangelho.
Seu modo de ler a Bíblia vai mudar. Recomendo este livro para indivíduos, para pequenos grupos e para
classes da ED.”
Dr. Charles Dunahoo
Diretor de Educação Cristã e Publicações da Presbyterian Church inAmerica, Atlanta, GA
“Claro e preciso, Encontrei Jesus é um estudo sugestivo dos festivais que Deus mesmo instituiu entre seu
povo. Seu significado último seria revelado pela vida, morte e ressurreição de Jesus, com tremendas
consequências para toda a humanidade. Leitura essencial para crentes novos ou maduros.”
“B”: Líder na igreja subterrânea chinesa, anônimo por segurança.
“Este livro está repleto de inspiradoras percepções da Escritura, que se tornam doces momentos em que
se vê a grandiosidade de Jesus, tal como revelado no antigo e no Novo Testamento.”
Frank Reich
Presidente do Reformed Theological Seminary e pastor, Charlotte, NC
“Ao mesmo tempo em que transmitia mensagens urgentes para imediata aplicação pelo povo de Deus, a
revelação de Deus no Antigo Testamento apontava para a Revelação final do Pai, na pessoa de Jesus
Cristo. Não se pode ler o AT sem atenção para os dois aspectos da mensagem e, quanto às festas de
Israel, John Sittema nos ajuda nesse sentido, com abençoadoras aplicações pastorais.
Dr. Cláudio A. B. Marra
Editor da Cultura Cristã, professor do seminário JMC e autor

O Dr. John Sittema (MDiv, DMin) é pastor com larga experiência no ministério e preletor em
conferências internacionais, Brasil inclusive. Leciona Liderança Pastoral e Missionária no
Reformed Theological Seminary em Charlotte, Carolina do Norte. Entre seus trabalhos está
o excelente livro Coração de Pastor, publicado no Brasil pela Editora Cultura Cristã.

Evangelização
Teologia bíblica
Cristologia

s
CDITORA CULTURA CRISTÃ