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Literatura Portuguesa I UNIDADE 04 AULA 10

Edilane Rodrigues Bento Moreira


Francilda Araújo Inácio
Marta Célia Feitosa Bezerra

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

O segundo e o terceiro
momento do Romantismo
português (1838 a 1860)

1 Objetivos da aprendizagem

„„ Analisar e discutir aspectos importantes da prosa e poesia


românticas portuguesas no segundo e no terceiro momento;
„„ Promover, por meio da leitura interpretativa, o contato
e a aproximação do aluno com um variado acervo de
textos românticos portugueses em poesia e prosa.
O segundo e o terceiro momento do Romantismo português (1838 a 1860)

2 Começando a história

Caro aluno,

Dando continuidade aos nossos estudos acerca do Romantismo português,


avancemos agora rumo ao momento de maior efervescência romântica, do
ponto de vista estético: o segundo e o terceiro momento, ocorridos, mais ou
menos, no período compreendido entre 1838 a 1860.

No que diz respeito ao segundo momento, podemos dizer que este se mostra
mais amadurecido, trazendo à tona o domínio da estética romântica, haja vista
o fato de ter conseguido, de certa forma, desamarrar-se dos laços clássicos.

No terceiro momento, percebemos a presença de algumas características que já


anunciam o movimento estético posterior: o movimento realista. Já era possível
detectar ocorrências como: a preocupação com a descrição precisa, a focalização
da natureza e dos comportamentos sociais, a objetividade no tratamento aos
tipos sociais e a caracterização psicológica dos personagens.

3 Tecendo conhecimento

Visando melhor sistematizar nossa exposição, trataremos inicialmente do segundo


momento do Romantismo português. Vamos lá?

Diferentemente do momento anterior, este já se mostrava descomprometido


com os preceitos arcádicos, assumindo com domínio pleno a estética romântica:
liberou-se a imaginação – até desmesuradamente – e daí surgiu o grupo de
escritores a quem se convencionou denominar ultrarromânticos. Vamos conhecer
mais sobre esse momento tão relevante para o movimento romântico português?

Nada mais interessante para nos fazer imergir no fantástico mundo ultrarromântico
do que as palavras do mestre Massaud Moisés (s/d, p. 142) acerca das características
dos escritos que compunham a produção romântica vigente nesse segundo
momento. Vejamos:
[os ultrarromânticos] purificam de tal modo as características
do Romantismo que fatalmente caem no exagero e no
esparramamento. Discípulos de Castilho, cultivam com
veemência não rara declamatória e num tom paroxístico,
eruptivo, algumas tendências do decálogo romântico:
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temas medievais, o tédio, a melancolia, os temas soturnos


e fúnebres, as morbidezas atribuídas a Byron, o desespero,
a morte, a efemeridade da vida, o luar, a palidez, ânsias do
além, temas populares e folclóricos, etc., tudo com base
num conceito meio místico do poeta e de sua missão social,
expresso numa linguagem fácil e comunicativa.

A produção poética marcou sobremaneira o ultrarromantismo português, mas


não podemos desconsiderar a importância da prosa dessa geração, representada,
sobretudo, por Camilo Castelo Branco e Soares de Passos, seus principais
representantes. Veremos, a partir de agora, um pouco da contribuição desses
escritores para o Romantismo português.

Camilo Castelo Branco, considerado um dos maiores


escritores portugueses do século XIX, nasceu, em
1825, em Lisboa, e faleceu, em 1890, na cidade de
São Miguel de Seide. Amor de perdição (1863)
foi sua mais conhecida obra, a qual versou sobre
amores impossíveis, um tema, aliás, central na obra
camiliana. Dedicou-se ao jornalismo e é dono de uma
vasta produção literária, dentre a qual se sobressai a
Figura 1
produção novelesca. É importante, porém, destacar
que o escritor cultivou ainda a poesia, o teatro, a historiografia e a crítica literárias.
Quanto à novela camiliana, tivemos exemplos de produções de natureza passional,
histórica e de aventuras.

Camilo Castelo Branco possui uma vasta produção literária, que engloba os mais
variados gêneros. Aproveite para pesquisar, na internet ou em outras fontes, as
principais obras deste autor.

A fim de entrarmos em contato com o estilo e a temática deste autor, vejamos,


a seguir, um trecho marcante de Amor de perdição, a mais famosa novela
passional de Camilo Castelo Branco. Ela aborda, em linhas gerais, o amor proibido
entre Teresa e Simão, cujas famílias se odiavam e, por isso, impediram a união
entre eles. Temos, representada aqui, a cena da morte de Teresa e, em seguida,
o dramático momento em que Simão toma conhecimento do ocorrido.

Lembre-se, caro aluno, de que o tema do amor impossível já povoou a Literatura


portuguesa desde os romances de cavalaria. Retorne à aula 3 desta disciplina a
fim de comparar o estilo e a temática.

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O segundo e o terceiro momento do Romantismo português (1838 a 1860)

Às nove horas da manhã pediu a Constança que a acompanhasse ao


mirante, e, sentando-se em ânsias mortais, nunca mais desfitou os olhos
da nau, que já estava verga alta, esperando a leva dos degredados.

Quando viu, a dois a dois, entrarem, amarrados, no tombadilho, os


condenados, Teresa teve um breve acidente, em que a já frouxa claridade
dos olhos se lhe apagou, e as mãos conclusas pareciam querer aferrar a
luz fugitiva.

Foi então que Simão Botelho a viu.

E ao mesmo tempo atracou à nau um bote em que vinha a pobre de Viseu,


chamando Simão. Foi ele ao portaló, e, estendendo o braço à mendiga,
recebeu o pacotinho das suas cartas. Reconheceu ele que a primeira não
era sua, pela lisura do papel, mas não a abriu. Ouviu-se a voz de levar
âncora e largar amarras. Simão encostou-se à amurada da nau, com os
olhos fitos no mirante.

Viu agitar-se um lenço, e ele respondeu com o seu àquele aceno.

Desceu a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distintamente


Simão viu um rosto e uns braços suspensos das reixas de ferro; mas não
era de Teresa aquele rosto: seria antes um cadáver que subiu da claustra
ao mirante, com os ossos da cara inçados ainda das herpes da sepultura.

- É Teresa? - perguntou Simão a Mariana.

- É, senhor, é ela - disse num afogado gemido a generosa criatura, ouvindo


o seu coração dizer-lhe que a alma do condenado iria breve no seguimento
daquela por quem se perdera.

De repente aquietou o lenço que se agitava no mirante, e entreviu Simão


um movimento impetuoso de alguns braços e o desaparecimento de
Teresa e do vulto de Constança, que ele divisara mais tarde.

A nau parou defronte de Sobreiras. Uma nuvem no horizonte da barra,


e o súbito encapelamento das ondas causara a suspensão da viagem
anunciada pelo comandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia

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com o piloto-mor, que mandava lançar ferro até novas ordens. Mais tarde
adiou-se a saída para o dia seguinte.

E, no entanto, Simão Botelho, como o cadáver embalsamado, cujos olhos


artificiais rebrilham cravados num ponto, lá tinha os seus imersos na interior
escuridade do miradouro. Nenhum sinal de vida. E as horas passaram até
que o derradeiro raio de Sol se apagou nas grades do mosteiro.

Ao escurecer, voltou de terra o comandante, e contemplou, com os olhos


embaciados de lágrimas, o desterrado, que contemplava as primeiras
estrelas, iminentes ao mirante.

- Procura-a no céu? - disse o nauta.

- Se a procuro no céu... - repetiu maquinalmente Simão.

- Sim!... No céu deve ela estar.

- Quem, senhor?

- Teresa.

- Teresa...! Morreu?!

- Morreu, além, no mirante, donde ela estava acenando.

Simão curvou-se sobre a amurada, e fitou os olhos na torrente. O comandante


lançou-lhe os braços, e disse:

- Coragem, grande desgraçado, coragem! Os homens do mar crêem em


Deus! Espere que o céu se abra para si pelas súplicas daquele anjo!

Fonte: BRANCO, Camilo Castelo. Amor de perdição. Biblioteca digital. Coleção Clássicos da
Literatura Portuguesa. Editora do Porto. Disponível em: http://cvc.institutocamoes.pt/conhecer/
biblioteca-digital-camoes/doc_details.html?aut=1049. Acesso em: 2 abr. 2013.

Vamos conhecer integralmente a obra? Ela está disponível em nossa Biblioteca.

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O segundo e o terceiro momento do Romantismo português (1838 a 1860)

Outra novela muito conhecida de Camilo Castelo


Branco é Amor de salvação. Ela também está
disponível na nossa Biblioteca para você.

Figura 2

Veja agora o que diz o crítico Massaud Moisés a respeito de Soares de Passos:
António Augusto Soares de Passos nasceu em 1826, no
Porto. De família burguesa, vê-se obrigado a trabalhar no
balcão do armazém paterno enquanto faz seus estudos.
Finalmente, consegue do pai que o deixe estudar Direito
em Coimbra, onde se matricula em 1849. Em 1851, funda
O Novo Trovador, mas no ano seguinte começa a sentir
os primeiros achaques da tuberculose, que o obrigam a
Figura 3 retrair-se do convívio social. Em 1854, formado, volta ao
Porto, a tentar em vão um emprego condigno. Debilitado,
recolhe-se no seu quarto meses a fio, indiferente a tudo,
inclusive à poesia, apenas mantendo com o mundo exterior
uma ténue ligação, propiciada pelos vários amigos que o
visitam. Faleceu em 1860. Soares de Passos reuniu suas
composições num volume, Poesias (1855), que mereceram
de Herculano rasgados elogios, infelizmente desmentidos
logo depois: “Na minha opinião, V. S.a está destinado a ser
o primeiro poeta lírico português deste século. Há nos seus
poemas lampejos de génio, que o simples talento não pode
produzir.” (Carta de 5 de Agosto de 1856.) Ditas por quem
personificava a sobriedade, essas palavras valiam por uma
consagração que, lamentavelmente, mal resistiu às novas
modas literárias que entraram em circulação após a morte
do poeta. (MOISÉS, 2001, p. 144).

Você se recorda do movimento literário conhecido como mal-do- século?


Pesquise, então, o vasto material disponibilizado sobre o assunto, na
internet, a exemplo do site: http://www.recantodasletras.com.br/
teorialiteraria/3403082.

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Soares de Passos constitui a encarnação perfeita do “mal-do-século”, por isso


encontrou sua mais perfeita expressão no Ultrarromantismo. De acordo com
Moisés (2001), este poeta viveu na própria carne os desvarios de que se nutria
sua fértil imaginação de tuberculoso narcisista e misantropo, pois tanto em sua
vida quanto em sua obra se espelha claramente o prazer romântico da fuga, no
caso, das responsabilidades concretas do mundo social. Daí o paradoxo sobre
o qual se assenta sua poesia, refletindo um conflito íntimo estabelecido entre a
sensibilidade e certas apetências morais que o poeta não resolveu até a morte.
“De um lado, sua poesia entrega-se a um negro pessimismo, a um desalento
derrotista, próprio de quem sente a morte próxima e cultiva-lhe carinhosamente a
presença, um tanto por morbidez, um tanto por ‘literatura’. ” (MOISÉS, 2001, p. 144).

Foi daí que nasceu a sua poesia da decomposição, a poesia do cemitério, de que é
exemplo o poema que tornou Soares de Passos famoso no começo e ridicularizado
depois: “O Noivado do Sepulcro”, poema que conheceremos a seguir:

O NOIVADO DO SEPULCRO
BALADA

Vai alta a lua! na mansão da morte Chegando perto duma cruz alçada,
Já meia-noite com vagar soou; Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte Parou, sentou-se e com a voz magoada
Só tem descanso quem ali baixou. Os ecos tristes acordou assim:

Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe «Mulher formosa, que adorei na vida,
Funérea campa com fragor rangeu; «E que na tumba não cessei d’amar,
Branco fantasma semelhante a um monge, «Por que atraiçoas, desleal, mentida,
D’entre os sepulcros a cabeça ergueu. «O amor eterno que te ouvi jurar?

Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste «Amor! engano que na campa finda,


Campeia a lua com sinistra luz; «Que a morte despe da ilusão falaz:
O vento geme no feral cipreste, «Quem d’entre os vivos se lembrara ainda
O mocho pia na marmórea cruz. «Do pobre morto que na terra jaz?

Ergueu-se, ergueu-se!...com sombrio espanto «Abandonado neste chão repousa


Olhou em roda... não achou ninguém... «Há já três dias, e não vens aqui...
Por entre as campas, arrastando o manto, «Ai, quão pesada me tem sido a lousa
Com lentos passos caminhou além. «Sobre este peito que bateu por ti!

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O segundo e o terceiro momento do Romantismo português (1838 a 1860)

«Ai, quão pesada me tem sido!» e em meio, «Deixei a vida... que importava o mundo,
A fronte exausta lhe pendeu na mão, «O mundo em trevas sem a luz do amor?
E entre soluços arrancou do seio «Saudosa ao longe vês no céu a lua?
Fundo suspiro de cruel paixão. – «Oh vejo sim... recordação fatal!
– «Foi à luz dela que jurei ser tua
«Talvez que rindo dos protestos nossos, «Durante a vida, e na mansão final.
«Gozes com outro d’infernal prazer;
«E o olvido cobrirá meus ossos «Oh vem! se nunca te cingi ao peito,
«Na fria terra sem vingança ter! «Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
«Quero o repouso de teu frio leito,
– «Oh nunca, nunca!» de saudade infinda «Quero-te unido para sempre a mim!»
Responde um eco suspirando além...
– «Oh nunca, nunca!» repetiu ainda E ao som dos pios do cantor funéreo,
Formosa virgem que em seus braços tem. E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Cobrem-lhe as formas divinas, airosas, Foi celebrada, d’infeliz amor.
Longas roupagens de nevada cor;
Singela c’roa de virgínias rosas Quando risonho despontava o dia,
Lhe cerca a fronte dum mortal palor. Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
«Não, não perdeste meu amor jurado: Quebrada a lousa por ignota mão.
«Vês este peito? reina a morte aqui...
«É já sem forças, ai de mim, gelado, Porém mais tarde, quando foi volvido
«Mas inda pulsa com amor por ti. Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
«Feliz que pude acompanhar-te ao fundo Foram achados num sepulcro só.
«Da sepultura, sucumbindo à dor:

“O Noivado do Sepulcro”, poema mais conhecido de Soares de Passos, exemplifica,


de acordo com Massaud Moisés, “à perfeição a psicologia que informava o
Ultra-Romantismo” (2000, p. 285-287). Esse poema, estruturalmente composto
por dezenove quadras decassílabas, narra a história de um amor que supera a
morte, a partir de um casal de esqueletos, revelando as principais características
do Ultrarromantismo, tais como o ambiente fantasmagórico, mágico, “negro”,
funéreo, o exagerado tom melodramático que beira a pieguice, o amor etéreo,
idealizado, acima de todas as convenções sociais e, até mesmo, “espirituais”, haja
vista o noivado “além-túmulo”, a relação de amor e morte, não raro dotado de
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excessiva teatralidade, o ímpeto desmedido, irracional, o anseio pelo infinito,


a alienação, o clima noturno, os ideais transcendentais, tudo isso está presente
nesse poema de Soares de Passos.

É importante perceber, caro aluno, que, no poema, a morte é representada


enquanto remédio apaziguador do espírito (primeira estrofe), como uma espécie de
cura da alma, ou seja, há uma valorização do ideal, em oposição ao mundo terreno,
que é efêmero e corrompido pela sociedade e suas convenções mesquinhas.
Em seguida (estrofe 02), surge o elemento fantástico, a partir do fantasma que
se levanta de seu sepulcro. O ambiente noturno (estrofe 03, verso 02) revela
uma das principais características da poesia ultrarromântica: a importância do
significado da noite, do obscuro, do irracional, como princípio de sua filosofia,
em oposição às “luzes” do Iluminismo.

E então, pronto para conhecermos um pouco mais sobre a Literatura romântica


portuguesa? Vamos, portanto, ao terceiro momento do Romantismo em Portugal.

O terceiro momento do Romantismo em Portugal desenvolve-se durante os


anos seguintes a 1860. Nesse momento há, segundo Moisés (2001), um tardio
florescimento literário que corresponde ao terceiro momento do Romantismo,
em fusão com remanescentes do ultrarromantismo bruxuleante. Esse período,
de acordo com o autor, é marcado pela presença de poetas como João de Deus,
Tomás Ribeiro, Bulhão Pato, Xavier de Novais e Pinheiro Chagas, e de um prosador,
Júlio Dinis. Conforme Moisés (2001, p. 151), esses escritores, colocados no final do
processo romântico, já extemporâneos ou retardatários, adotaram três posturas:
a) por via da abstração, purificaram até o extremo as características românticas,
como é o caso, por exemplo, de João de Deus; b) aderiram ao carcomido exemplo
de Castilho, como Pinheiro Chagas; c) se tornaram figuras de transição, como
Tomás Ribeiro, Bulhão Pato e Júlio Dinis.

Dentre esses escritores, João de Deus e Júlio Dinis são as maiores figuras
do momento.

Vamos conhecer melhor esses autores?

Júlio Dinis nasceu no Porto, em 1839. Formado em Medicina


em 1861, entrou para o magistério universitário na Escola
Médico-Cirúrgica do Porto, mas se viu obrigado a abandoná-lo
por motivo de doença: a tuberculose. À procura de saúde,
retirou-se para Ovar, nos arredores de sua cidade natal, e para
a Ilha da Madeira. Faleceu precocemente, em 1871, no Porto.
Figura 4

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O segundo e o terceiro momento do Romantismo português (1838 a 1860)

Júlio Dinis escreveu vários gêneros literários: o teatro (Teatro Inédito, 3 vol., 1946-
1947), a crítica literária (Inéditos e Dispersos, 2 vol., 1910), a poesia (Poesias,
1873-1874), o conto (Serões da Província, 1870), o romance (As Pupilas do
Sr. Reitor, 1867; A Morgadinha dos Canaviais, 1868; Uma Família Inglesa,
1868; Os Fidalgos da Casa Mourisca, 1872). Desses aspectos, é a prosa de
ficção, especialmente os romances, que possui interesse ainda hoje; o restante
corresponde, segundo Moisés (2001, p. 154), “a iludidores pruridos numa
sensibilidade de autêntico ficcionista”.

À semelhança de Camilo, embora em posição diametralmente oposta, Júlio Dinis


cultivou o romance do namoro. Conforme aponta Moisés (2001), várias causas
objetivas podem ser lembradas como influências:
(...) primeiro, o conhecimento directo de romancistas ingleses
(Richardson, Fielding...) graças à educação britânica, pois
sua mãe era de ascendência irlandesa e inglesa; segundo,
uma formação científica e positiva; terceiro, a impressão
que lhe causou a leitura dos Contos do Tio Joaquim, de
Rodrigo Paganino, efectuada durante uma de suas estadas
em Ovar. Derivam dessas contingências as características
principais da ficção de Júlio Dinis.

Júlio Dinis tem destaque maior por seu romance As pupilas do Sr. Reitor,
considerado uma de suas melhores obras, que aborda a estória de amor e
desencontros que permeiam a vida das órfãs Clara e Guida. Trabalhando com a
temática do amor proibido, o autor narra a história de Guida e Daniel, enamorados,
separados pelas condições sociais. Intensifica-se,
nesse romance, a narrativa da mocinha que, obrigada
a separar-se do seu amor, resigna-se a uma vida de
lamentações e espera, enquanto o rapaz, levado a morar
em um grande centro, volta contaminado e embriagado
dos prazeres mundanos por lá vividos, esquecendo
seu grande amor. A trama se vai tecendo em torno da
decepção amorosa e da vingança, bem ao gosto dos
Figura 5 poetas e escritores românticos.

Achou interessante? Vamos, então, ler um trecho dessa obra?

Defronte do campo, donde, com as melhores intenções deste mundo, o


reitor estava espionando, e separado apenas dele pela estreita e úmida
rua, de que já falamos, estendia-se um trato de terreno inculto, muito

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coberto de tojo e de giestas, e dessa espontânea vegetação alpestre, que,


no nosso clima, enflora ainda mais os montes mais áridos e bravios.

Dispersas por toda a extensão deste pasto, erravam as ovelhas e cabras


de um numeroso rebanho, de que eram os únicos guardadores, um
enorme e respeitável cão pastor e uma rapariguita de, quando muito,
doze anos de idade.

Até aqui nada de notável para o reverendo pároco.

Mas o que o maravilhou foi o grupo que formavam, naquele momento,


a pequena zagala, o cão e o nosso conhecido Daniel, por via de quem o
bom do padre empreendera tão trabalhosa excursão.

A pequena sentada junto de uma pedra informe e musgosa, folheava


com atenção um livro, dirigindo, de tempos em tempos, meios sorrisos
para Daniel, que, deitado aos pés dela, de bruços, com os cotovelos
fincados no chão e o queixo pousado nas mãos, parecia, ao contemplar
embevecido os olhos da engraçada criança, estar divisando neles todos
os dotes mencionados na canção da Morena, que lhe ouvimos cantar.

Jaziam ao lado dos dois uma roca espiada e os livros de Daniel.

Completava o grupo o cão, enroscado junto do pequeno estudante com


desassombrada familiaridade, e denunciando assim que o conhecimento
entre eles, e por conseguinte de Daniel com a pastora, não era já de
recente data.

[...]

A pequena, que estivera por muito tempo inclinada sobre o livro, como
a lutar com alguma dificuldade de leitura, que procurava vencer por si,
acabou por fazer um gesto de impaciência, e, apontando com o dedo
a palavra da dúvida, colocou a página diante de dos olhos de Daniel,
perguntando-lhe:

— Isto que quer dizer?

Daniel olhou por algum tempo para o livro, e afinal respondeu:

— Cataclismo.

— E o que vem a ser cataclismo?

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O segundo e o terceiro momento do Romantismo português (1838 a 1860)

Daniel ficou embaraçado. A falar a verdade, ele não sabia bem o que era
cataclismo. Não teve coragem para o dizer francamente e titubeou:

— Cataclismo... sim... cataclismo é... sim... eu sei o que é... agora para to
dizer é que ... Cataclismo...

[...]

Margarida, que era este o nome da pequena, adivinhou a causa da hesitação


de Daniel e delicadamente lhe pôs fim, olhando outra vez para o livro e
continuando a estudar em silêncio.

[...]

Uma terceira interrogação. Desta vez foi a palavra pragmática que a originou.

Daniel estava em maré de infelicidades. Esta acabou de o impacientar.


Tirando o livro comprometedor das mãos da discípula, disse com certo
despeito mal encoberto:

— Deixa-te de estudar, Margarida; não estou agora para isso.

— Mas depois... amanhã...

— Amanhã! Que tem? Sossega, que não te castigo. E demais ainda tens
muito tempo. Não vês que só venho e tarde?

— Mas...

— Mas... agora não quero que estudes, quero que cantes.

— Ora cantar! Que hei eu de cantar?

— A cantiga da Morena.

— Eu não gosto dela.

— Não?

— Eu, não.

— Então de qual gosta mais, Guida? — perguntou Daniel, dando à pergunta,


e sobretudo àquela familiar alteração do nome de Margarida, uma música
de afetuoso galanteio, que não deixaria ficar mal ninguém.

— A da Cabreira, é muito mais bonita.

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— Já não me lembra bem. Pois então canta a da Cabreira.

— Agora não.

— Agora sim; e por que a não hás de cantar agora?

— A minha irmã Clara é que a sabe cantar bem, eu não.

— Ora adeus, ela é ainda uma criança — disse Daniel com um soberbo
gesto de homem - Eu quero-a ouvir de ti.

— Eu julgo que nem a sei.

— Sabes, sabes, ora vamos a ver.

— Olhe... eu canto, mas...

E Margarida pôs-se a cantar e com a voz tão sonora e agradavelmente infantil,


que, se o reitor estivesse despreocupado, em uma posição mais cômoda
e disposto a julgar com imparcialidade, confessaria que era excelente.

Fonte: As pupilas do senhor reitor. Cap. IV (p. 17-19). Biblioteca digital. Coleção Clássicos
da Literatura Portuguesa. Editora do Porto. Disponível em: http://cvc.instituto-camoes.pt/
conhecer/biblioteca-digital-camoes/doc_download/1063-as-pupilas-do-senhor-reitor.html.
Acesso em: 18 abr. 2013.

Nesse trecho, vê-se uma das principais características das obras deste escritor:
a felicidade na vida campestre. De acordo com Moisés (2001, p. 156 ), Júlio Dinis
defende a tese segundo a qual a bem-aventurança só existiria no regresso ao
campo e à vida simples que ali é possível levar.

As obras de Júlio Dinis contêm aspectos de conteúdo que ainda não envelheceram,
e, considerando-se a atualidade de sua obra, pode-se afirmar que Júlio Dinis e
Camilo Castelo Branco são os dois grandes ficcionistas portugueses românticos,
apesar das várias diferenças entre ambos. “Na verdade, cada qual em seu terreno e
com as próprias possibilidades, colaboraram para criar a melhor ficção Portuguesa
do Romantismo” (MOISÉS, 2001, p. 156).

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O segundo e o terceiro momento do Romantismo português (1838 a 1860)

Exercitando

Após a leitura dos textos e poemas dos autores portugueses mais representativos
do Romantismo, produza um pequeno texto, identificando a relação sentida
entre a produção romântica portuguesa e a produção medieval, verificando,
desse modo, a possível influência desta última em relação à forma e à temática
românticas.

Vamos nos apropriar das palavras de Massaud Moisés (2001) para sabermos mais
sobre outro grande nome da Literatura romântica portuguesa:
João de Deus Ramos nasceu em S. Bartolomeu de Messines
em 1830. Em 1849, ingressa no curso de Direito em Coimbra,
mas apenas o conclui após dez anos de estúrdia e vadiagem
académica. Depois duma estada em Beja, em 1869 é eleito
deputado a contragosto e vai para Lisboa: nesse mesmo
ano estréia em poesia com Flores do Campo. Em 1876,
publica a Cartilha Maternal, e inicia uma incessante acção
pedagógica. Venerado como um mestre por alguns realistas
(especialmente Antero e Teófilo Braga), morre em 1896, em
Lisboa. Sua obra poética reuniu-a Teófilo Braga em dois
volumes, Campo de Flores, saídos em 1893, o mesmo
fazendo com suas Prosas, aparecidas em 1898.

No que se refere à obra desse autor, Moisés afirma que sua poesia biparte-se
em lírico-amorosa e satírica, conforme os dois volumes de Campo de Flores,
das quais a primeira é a mais importante, sobretudo pelas canções, cançonetas,
odes, idílios e elegias. O amor é o motivo permanente na poesia de João de
Deus; embora o Ultrarromantismo tenha conduzido os temas amorosos ao limite
da pieguice, o poeta retoma a tradição lírica esquecida, mal compreendida ou
desprezada durante a hegemonia romântica: o lirismo trovadoresco, ou o que
dele ficara vivo no curso do tempo, e a poesia lírico-amorosa de Camões. O
poeta integrou toda essa massa lírica em sua sensibilidade e, purificando-a até
onde seria possível, construiu sua própria poesia, acrescentando à tradição os
achados de seu excepcional talento lírico.

Sua poesia satírica (2º volume de Campo de Flores) já não tem o mesmo interesse
da poesia lírica, pois, embora revele a mesma fluência e o mesmo propósito dessa
poesia, tem o defeito inerente ao gênero e a toda poesia de circunstância. Fruto
de sua incomum facilidade em poetar, nada lhe acrescenta ao nome.

Para Massaud Moisés (2006), João de Deus, através do uso de uma linguagem
simples, sóbria e fluida, expressou como ninguém a espontaneidade do convívio
amoroso. O crítico chega mesmo a afirmar que a obra desse poeta é o melhor
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do Romantismo português, embora, por uma série de fatores, a crítica atual não
lhe tenha feito, até hoje, integral justiça.

Vamos nos aprofundar um pouco mais na produção poética de João de Deus,


lendo um de seus mais belos poemas líricos.

Amo-te Muito, Muito!

Amo-te muito, muito! Que fogo é que em ti lavra


Reluz-me o paraíso E as forças te aniquila,
Num teu olhar fortuito, Que choras, mas tranquila,
Num teu fugaz sorriso! E nem uma palavra?...

Quando em silêncio finges Oh! se essa mudez tua


Que um beijo foi furtado É como a que eu conservo
E o rosto desmaiado Lá quando à noite observo
De cor-de-rosa tinges, O que no céu flutua;

Dir-se-á que a rosa deve Ou quando à luz que adoro


Às horas do infinito,
Assim ficar com pejo Nas rochas de granito
Quando a furtar-lhe um beijo Os braços cruzo e choro;
O zéfiro se atreve!
Amamo-nos! Não cabe
E às vezes que te assalta Em nossa pobre língua
Não sei que idem, jovem, O que a alma sente, à mingua
Que o rosto se te esmalta De voz... que só Deus sabe!
De lágrimas que chovem;

Disponível em: http://www.citador.pt/poemas/amote-muito-muito-joao-de-deus. Acesso em: 19 abr. 2013.

Nesse poema lírico-amoroso de João de Deus, veem-se muitas das características


dos versos desse poeta: a simplicidade, a espontaneidade e a musicalidade que
lembram Camões e a poesia trovadoresca. Tanto na estrutura (uso das quadras),
quanto no conteúdo, percebe-se que o poeta preferiu um verso mais simples
153
O segundo e o terceiro momento do Romantismo português (1838 a 1860)

e claro. A mulher, colocada num pedestal, ser quase inatingível, que nada fala,
mas que sente, é como a dama do trovador medieval. Importante observar que
a figura feminina sugerida no poema desenvolve no eu-lírico um amor quase
místico, que só Deus sabe entender. Conforme aponta Moisés (2006), João de
Deus foi um
poeta emocional por excelência, sensível às sutilezas do trato
amoroso, uma espécie de lírico ‘puro’, nele ressoa a voz mais
límpida do Romantismo Português: entre sua sensibilidade e
autêntico lirismo romântico, bem como entre ela e o lirismo
tradicional que remonta à Idade Média, operava-se uma
rara identificação. De onde ter sido o mais inspirado poeta
romântico e uma das mais sonoras vozes líricas da Literatura
Portuguesa. (MOISÉS, 2000, p. 317).

Exercitando

No Dicionário de termos literários, de Massaud Moisés (1997), temos o seguinte


comentário acerca da novela:
Instalado no Romantismo, a novela tornou-se um dos
entretenimentos mais caros à Burguesia, por ventura em
razão de oferecer-lhe alimento à imaginação e preencher-lhe
as largas horas de ócio. Assim se explica a voga das narrativas
em folhetim, que cruzou todo o século XIX e permaneceu
até bem recentemente. Mesmo os escritores mais exigentes
não ficaram imunes ao fascínio exercido pela novela.

Aproveitando o tema, organize com a sua turma um trabalho de observação


de uma novela televisiva atual, comparando-a com as características do gênero
novela descrito por Moisés. O material disponível na Biblioteca sobre novela
ajudará na realização dessa atividade. Tente fazer com que os alunos percebam
o que há em comum (ou não) entre a novela televisiva e a novela (uma delas)
de Camilo Castelo Branco.

4 Aprofundando seu conhecimento

Caro aluno, para um bom aproveitamento dos conteúdos aqui explicitados, é


muito importante que você aprofunde suas leituras, buscando outras fontes,
como livros, revistas, internet e outros. Para tanto, como incentivo a sua busca,
elencamos aqui algumas obras, bastante pertinentes, para a complementação
de seus estudos.

154
AULA 10

O livro organizado por Paulo Franchetti reúne


uma série de artigos teóricos, cuja análise parte
das questões estéticas e históricas, produto de sua
formação. Há, no livro, importante capítulo que
trata da lírica camiliana.

Figura 6

Drácula, de Bram Stoker, dirigido por Francis Ford


Coppola, lançado em 1992, tornou-se um clássico.
Há, em seu enredo, sem dúvida, características
ultrarromânticas como a morte, o amor ao eterno,
volta ao passado medieval, religiosidade.

Figura 7

Para entender um pouco mais o Romantismo e


sua inserção no mundo moderno, Michael Löwy,
em Revolta e melancolia: o Romantismo na
contramão da modernidade, editado pela Vozes
em 1995, produziu um excelente texto teórico, em
que concebeu o Romantismo não somente como
uma expressão artística, mas principalmente como
atitude filosófica e política. Figura 8

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O segundo e o terceiro momento do Romantismo português (1838 a 1860)

5 Trocando em miúdos

Como vimos, no segundo momento do Romantismo em Portugal, contamos com


produções que caem no exagero e na afetação. Os escritores representativos
desse momento se desvencilham dos ideais clássicos que, de certa forma,
teimaram em permanecer na produção do primeiro momento e entregaram-se
à imaginação desregrada.

O terceiro momento do Romantismo em Portugal se sobressai tanto mais por


seu valor mais histórico do que propriamente estético, em função, sobretudo,
de assumir nuances realistas, dando representação a um período transicional
entre o Romantismo e o Realismo-Naturalismo.

6 Autoavaliando

A partir dos textos propostos e das leituras realizadas nesta aula, para uma perfeita
compreensão do conteúdo, é preciso que, num exercício de autoavaliação, você
se faça os seguintes questionamentos:

„„ Sou capaz de reconhecer as principais características do Romantismo


português?
„„ Percebo diferenças de estilo e temáticas nos diferentes momentos do
Romantismo em Portugal?

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Referências

FRANCHETTI, Paulo. Estudos de literatura brasileira e portuguesa. Cotia: São


Paulo: Ateliê Editorial, 2007.

LOPES, Oscar; SARAIVA, Antonio José. História da Literatura Portuguesa. 12.


ed. corrigida e atualizada. Portugal: Porto Editora, s.d.

MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1997.

______. A literatura portuguesa. 34. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

______. A literatura portuguesa através dos textos. 30. ed. São Paulo:
Cultrix, 2006.

VECHI, Carlos Alberto. O primeiro momento do Romantismo português (1825-


1836). In: MOISÉS, Massaud (Org.) et al. A Literatura Portuguesa em perspectiva.
São Paulo: Atlas, 1994.