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Mantida pela: Associação Educacional Americanense

CNPJ: 96.509.583/0001-50
Credenciamento: Portaria MEC nº. 766/99 - DOU 18/05/99

NED 1/ 2016 1
QUESTÃO INDÍGENA
Tema: Cultura e educação indígena

Texto n. 1

Educação indígena1

Educação se define como o conjunto dos processos envolvidos na socialização dos indivíduos,
correspondendo, portanto, a uma parte constitutiva de qualquer sistema cultural de um povo,
englobando mecanismos que visam à sua reprodução, perpetuação e/ou mudança. Ao articular
instituições, valores e práticas, em integração dinâmica com outros sistemas sociais, como a economia,
a política, a religião, a moral, os sistemas educacionais têm como referência básica os projetos sociais
(idéias, valores, sentimentos, hábitos etc.) que lhes cabem realizar em espaços e tempos sociais
específicos.
Assim, a educação indígena refere-se aos processos próprios de transmissão e produção dos
conhecimentos dos povos indígenas, enquanto a educação escolar indígena diz respeito aos processos
de transmissão e produção dos conhecimentos não-indígenas e indígenas por meio da escola, que é
uma instituição própria dos povos colonizadores. A educação escolar indígena refere-se à escola
apropriada pelos povos indígenas para reforçar seus projetos socioculturais e abrir caminhos para o
acesso a outros conhecimentos universais, necessários e desejáveis, a fim de contribuírem com a
capacidade de responder às novas demandas geradas a partir do contato com a sociedade global.
[...]
Há algum tempo atrás, os povos indígenas do Brasil acreditavam que a educação escolar era um
meio exclusivo de aculturação e havia certa desconfiança e repulsa quanto à escolarização. Isto está
mudando. Diante das necessidades de um mundo cada vez mais globalizado, os índios julgam que a
educação escolar, quando apropriada por eles e direcionada para atender às suas necessidades atuais,
pode ser um instrumento de fortalecimento das culturas e das identidades indígenas e um possível
canal de conquista da desejada cidadania, entendida como direito de acesso aos bens e aos valores
materiais e imateriais do mundo moderno.
Ainda existe no Brasil a idéia generalizada e errônea de que os povos indígenas não possuem
nenhum tipo de educação. Nada mais equivocado, posto que os saberes ancestrais são transmitidos
oralmente de geração em geração, permitindo a formação de músicos, pintores, artesões, ceramistas ou
cesteiros, além de todos saberem cultivar a terra e a arte de caçar e pescar. Os pais e os avós são os
responsáveis por transmitir os seus filhos ou netos, desde a mais tenra idade, a sabedoria aprendida de
seus ancestrais. Assim, as crianças desde cedo vão aprendendo a assumir desafios e responsabilidades
que lhes permitam inserir-se na vida social e o fazem, principalmente, por meio da observação, da
experiência empírica e da auto-reflexão proporcionadas por mitos, histórias, festas, cerimônias e rituais
realizados para tal fim. Os bons exemplos dos pais, dos irmãos mais velhos e dos líderes comunitários
são fundamentais para o desenvolvimento do caráter, das atitudes, dos comportamentos, das virtudes e
das habilidades técnicas de uma pessoa, indispensáveis para a vida individual e a boa convivência
social. Por esta razão, não há necessidade da figura e do papel do professor, na medida em que este
seria interpretado como o resultado da incapacidade dos pais, dos adultos e da própria comunidade de
cumprirem o seu papel social.

1
Trecho extraído de: Gersem dos Santos Luciano. O Índio Brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas
no Brasil de hoje. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade;
LACED/Museu Nacional, 2006, p. 129-131 e 156-157.
Av. Joaquim Boer, 733 – Jd Luciene >> Americana SP >> CEP 13477 360 >> Fone/Fax 19 3478 2449 >> www.fam.br
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Ao contrário do que muita gente pensa, os povos indígenas do Brasil continuam mantendo sua
alteridade graças a estratégias próprias de vivência sociocultural, sendo a prática pedagógica uma
delas. As formas de educação que desenvolvem lhes permitem continuar a ser eles mesmos e transmitir
suas culturas através das gerações. Subsiste uma variedade de povos indígenas com suas línguas e
culturas; às vezes, sem suas línguas, mas com culturas e saberes próprios. A educação praticada e
vivenciada pelos povos indígenas possibilita que o modo de ser e a cultura venham a ser reproduzidas
pelas novas gerações, mas também dão a essas sociedades o poder de encarem com relativo sucesso
situações novas, o que faz com que eles não se mostrem “perdidos” diante de acontecimentos para eles
inteiramente inéditos. A educação indígena tradicional continua levando em conta essa alteridade – a
liberdade de o índio ser ele próprio – em que há o propósito de uma educação que visa à liberdade, ou
seja, faz com que as pessoas e as coletividades possam ser elas mesmas.
Cada povo indígena projeta e deseja para si um tipo de alteridade, o que se confunde com a
constituição da pessoa, a sua construção e o seu ideal. O ideal de vida de um indivíduo tem a ver com
o que é bom para ele e para o seu povo. Ser um bom xavante, um bom guarani, um bom baniwa é o
objetivo que guia a ação pedagógica xavante, guarani e baniwa. Em conformidade com esse ideal, a
prática pedagógica tradicional indígena integra, sobretudo, elementos relacionados entre si: o território,
a língua, a economia e o parentesco. São os quatro aspectos fundamentais da cultura integrada. De
todos eles, o território e a língua são os mais amplos e complexos. O território é sempre a referência e
a base de existência, e a língua é a expressão dessa relação. O modo como se vive esse sistema de
relações caracteriza cada um dos povos indígenas. A forma como se transmite os conhecimentos
acumulados sobre a vida e sobre o mundo, especialmente aos mais jovens, isto é a vida pedagógica.
[...]

Educação escolar indígena: avanços, desafios e possibilidades

A grande importância inicial da proposta de educação escolar indígena diferenciada, com suas
educação intercultural e educação bilíngue ou plurilíngüe, foi ter trazido idéias e propostas concretas
que alimentaram o ânimo, a motivação e a esperança dos professores e das lideranças indígenas
emergentes. As idéias serviram como valioso argumento para marcar posição política e uma razão
necessária para capitanear o apoio dos povos e das comunidades indígenas em favor das lutas mais
amplas do que aquelas que as emergentes organizações indígenas estavam desenhando e
implementando, como a defesa da terra e a (re)valorização cultural. A proposta, portanto, ao lado de
outras bandeiras de luta, como a defesa e a garantia da terra, a defesa do meio ambiente, o
desenvolvimento sustentável e a saúde indígena diferenciada, alimentaram o repertório da agenda
política interna e externa do movimento indígena contemporâneo. Os discursos foram bem-aceitos,
principalmente pelo público externo preocupado com o futuro da humanidade ameaçado pelo
desequilíbrio ecológico – os povos indígenas poderiam ser importantes aliados nessa luta.
No âmbito interno, a luta por ofertas de políticas públicas diferenciadas somava-se, por um
lado, ao processo maior de luta por reconhecimento étnico e por uma cidadania diferenciada e, por
outro lado, por uma necessidade de superação do fracassado modelo tutelar do órgão indigenista
oficial que, com o discurso e a prática assimilacionista e paternalista, não fora capaz de garantir o
mínimo de condições de sobrevivência às comunidades indígenas.

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Texto n. 2

Como são as escolas para os índios?2


Você sabia que as escolas para índios têm algumas peculiaridades que as diferem do
ensino que estamos acostumados? Vamos conferir mais detalhes!

Conheceremos uma escola diferente: na floresta, indígena. Como as comunidades aprendem o


saber do homem branco e ao mesmo tempo preservam suas tradições e costumes ancestrais? Vamos
conhecer sobre esse mundo fascinante que também podemos aprender a conhecer e a respeitar.
Várias tribos indígenas estão espalhadas por todo o nosso país, e cada uma delas busca da
melhor forma possível, o desenvolvimento de suas crianças e jovens buscando o aprendizado de forma
a satisfazer suas necessidades.
O ensino que era imposto para muitas etnias e povoados, era um método de ensino ultrapassado
em que nada agregava para a cultura e necessidade dos índios. Os professores somente lecionavam em
português, o que dificultava e muito o aprendizado, além de que o conteúdo dado era muito longe da
realidade, com informações nada importantes para crianças e jovens do local. O que tornou ainda mais
grave a situação é que o ensino era apenas da 1ª à 4ª série e não focava as crenças, a cultura e o idioma
local. Esses fatores afastaram a comunidade indígena das escolas.
Com a ajuda do Instituto Sócio Ambiental (ISA) os índios desenvolvem metodologias
específicas para o aprendizado de cada região, pois cada região possui costumes e língua diferentes.
Com a criação de vários projetos essa realidade foi alterando, e atualmente, das 220 escolas
municipais que ficam na região habitadas pelas tribos cerca de 80 escolas já possuem o ensino
fundamental do 1º ao 9º ano e em boa parte são ministradas nos idiomas locais.

Metodologia
A metodologia foi adotada e criada pelos próprios índios. Eles valorizam e resgatam princípios
e valores socioculturais dos povos nativos e realizam pesquisas para a sustentabilidade da região.

2
Publicado no site Colégio Web, em 03/02/2014. Disponível em: <http://www.colegioweb.com.br/curiosidades/como-sao-
escolas-para-os-indios.html >. Acesso em:
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O ensino deve ser útil, deve demonstrar sua realidade, deve ter sentido à vida de cada indivíduo
da comunidade. Por esses motivos, foi criado um método em que recuperasse o conhecimento das
tradições e crenças indígenas e associasse ao conhecimento do homem branco ao que interessasse para
o indígena, na medida em que agregasse ao seu conhecimento, ajudando nas tarefas do seu dia-a-dia.

A rotina escolar
A rotina escolar inclui atividades que serão usadas no dia-a-dia dos afazeres dos jovens índios
como pescar, coletar itens da floresta, cultivar alimentos, fazer a contagem das plantações, tecer palha
para a cestaria entre outros trabalhos. Não podemos esquecer de que os jovens ouvem as histórias dos
mais velhos como lição de casa e contam aos professores e colegas de aula.
Cada assunto ou tema importante de cada comunidade é levado para a discussão em sala de
aula e compartilhado da melhor forma com outras comunidades. Eles discutem os seus problemas,
procurando uma solução de forma sábia e mais rica para todos.
As matérias das escolas atuais tradicionais, como geografia, matemática, história e biologia se
aprendem durante as pesquisas ou nas oficinas. Por exemplo, a biologia se aprende estudando as
plantas da região. Nesse momento, o professor apresenta princípios de botânica, aborda temas
relacionados à ecologia e a preservação da floresta. Todo o conteúdo abordado é por meio das oficinas
e deve ter utilidade na vida do aluno. Assim, a prioridade não é aprender fórmulas e regras, mas
adquirir conhecimentos que possam utilizar na prática. Assim deveria ser toda escola, aprender e
ensinar na prática o que necessitamos para o futuro.

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Texto 3

‘O Brasil mantém os indígenas como segmento anexado’, afirma antropólogo Gersem Baniwa3
Pesquisador adverte para retrocesso do Estado brasileiro na inclusão dos indígenas como parte
natural da sociedade e aponta combinação de fatores que ameaça a existência desses povos

Por Ivânia Vieira

Gersem Baniwa é pesquisador e diretor do Departamento de Ações


Afirmativas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) (Evandro
Seixas)

O pensamento prevalente nas décadas de 1960 e 1970, quando os povos indígenas eram
tratados como empecilho ao desenvolvimento nacional, está de volta. Reaparece forte e sustentado por
vários instrumentos de efeitos combinados na estrutura de poder do Brasil. É essa a percepção de um
dos mais respeitados intelectuais indígenas do País, o antropólogo Gersem José dos Santos Luciano.
“Vivemos um retrocesso e, se não cuidarmos dessa questão com a atenção que ela merece,
voltaremos ao estágio de cinco décadas atrás, quando a ordem era extinguir os povos indígenas”,
afirma o pesquisador e diretor do Departamento de Ações Afirmativas da Universidade Federal do
Amazonas (Ufam).
Por meio do Fórum de Educação Escolar Indígena (Foreeia), do qual é coordenador, e em
parceria com organizações do movimento indígena da região, Gersem Baniwa trabalha, desde o ano
passado, para realizar em Manaus um encontro de discussão e proposição a partir dos indígenas.
A data está definida: 17 e 18 deste mês. Um dos temas que mais o mobiliza é a educação
escolar indígena. O estudioso tem denunciado a precariedade das escolas indígenas no Amazonas e o
silêncio oficial sobre o assunto. Nesta entrevista a A CRÍTICA, Gersem Baniwa explica o porquê do
retrocesso brasileiro que mantém os povos indígenas como anexados.

3
Publicado no site A crítica, Manaus (AM), 15 de fevereiro de 2016. Disponível em:
<http://acritica.uol.com.br/amazonia/Brasil-indigenas-antropologo-Gersem-Baniwa_0_1522647734.html >. Acesso em:
18/02/2016.

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Por que o senhor afirma que o Brasil retrocede no trato com os povos indígenas?
O que está aí foi uma espécie de concessão para os índios em situação de esgotamento. O ano
de 2015 mostrou muito claramente como os indígenas não estão recepcionados, não estão acolhidos
em definitivo no seio da sociedade brasileira. Os povos indígenas voltaram a ser tratados como
segmento anexado. Dito de outra forma, os povos indígenas não compõem a sociedade brasileira.

No que se baseia para situar os indígenas como anexados?


Estamos lidando com a volta da visão civilizatória da colonização. Nós, indígenas, estamos no
lugar errado, no espaço errado e no tempo errado porque essa sociedade é calcada numa civilização
ocidental europeia capitalista, monopolista e individualista, enquanto nossas sociedades, as culturas
indígenas, o pensamento indígena, não se encaixam nesse modelo. Os povos indígenas não estão a fim
e não querem aderir a uma civilização com essas características, que preza o processo cumulativista
com forte viés de degradação dos valores humanos e cosmológicos. Como indígenas, voltamos ao
pensamento que prevalecia nas décadas de 1960/1970, de que éramos empecilhos para o que essa
civilização chama de desenvolvimento. As hostilizações às quais os indígenas estão sendo submetidos
mostram essa realidade, estão aí os sinais de maior incidência de racismo, de preconceito e de
discriminação. No caso específico do Amazonas vejo que em 2015 ficou mais nítida a presença da
frente expansionista no Estado. O problema em Humaitá (Sul do Amazonas, envolvendo os Tanharim)
não é cultural, e sim de fundo econômico: por trás de todo o conflito criado está o interesse de chispar
os povos indígenas. Primeiro tem que desqualificar esses povos para depois negar os direitos
e “limpar” os territórios indígenas, a fim de que a vontade e as formas de expansão capitalista avancem
e se realizem. Talvez tenhamos imaginado que essa era uma etapa vencida a partir das reformas, da
Constituição de 1988, enfim, dos direitos instituídos constitucionalmente, do ingresso de indígenas na
universidade. O que está ocorrendo mostra exatamente o contrário, não superamos e, pior,
caminhamos para retroceder no que foi conquistado porque não somos, de fato, parte, apenas anexos.

Mas, na outra ponta ou mesmo em meio a esse processo está o movimento indígena agindo,
reagindo...
Sim e esse é o outro dado importante. Se a dimensão cultural ainda se preserva fortemente no
Brasil dando continuidade a uma visão filosófica colonial, de predominância europeia que considera
ter o direito de se sobrepor a qualquer outro povo, a outra cultura, a novidade é que temos outras
formas hoje: intelectuais indígenas, educadores, há protagonismo. Os indígenas avançaram e se tornam
cada dia mais sujeitos na construção da sua história e não iremos nos submeter calados ao retrocesso.
Agora, algum sinal sobre como somos tratados devem ser vistos e refletidos. A ausência de
indígenas na partilha e na participação dos campos superiores do poder é um exemplo do tratamento
dos povos indígenas como anexados. Nós não temos os mesmos direitos dos cidadãos neoeuropeus.
Não temos em nenhum campo do poder, por exemplo no Amazonas, indígenas participando. Os índios
não estão acolhidos na conformização do Estado. Examine as PECs no Congresso Nacional, todas elas
são para negar direitos dos indígenas principalmente aqueles ligados aos territórios. Ora, sabemos que
os povos indígenas sem território não existem. Logo há de fato uma ameaça de que voltemos a viver a
década de 1970, quando a extinção dos povos indígenas era o discurso dominante.

Como o senhor qualifica a relação dos povos indígenas com o Governo do Amazonas?
É problemática, nebulosa e didaticamente confusa. Embora registremos que os espaços
conquistados são resultados das estratégias e dos processos construídos legitimamente pelos povos
indígenas (como foi o caso da Seind, extinta no ano passado) ocorre mais uma vez dois aspectos: um,
os povos indígenas subestimaram a importância desses espaços não considerando o que é o Estado, a
serviço de quem o Estado está e de que modo o Estado opera e se organiza e em função de quais
interesses. O Estado aproveitou esse espaço para se impor ainda mais neutralizando, domesticando e,

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de algum modo, manipulando a vida, a dinâmica, as pautas, as agendas, as resistências indígenas. Por
outro lado, os povos indígenas, por meio das suas organizações, não foram capazes de perceber essas
operações, estudar, refletir e agir sobre elas. Precisamos fazer do diálogo uma das nossas disposições
em relação ao Estado. Você poderia me perguntar, bem mas os índios não conseguiram mais espaços e
isso não é expressão do diálogo? Eu digo não é. As ocupações de espaços diminuíram e até anularam
o diálogo. Isso porque os índios ao ocuparem os espaços se tornaram mediadores e não conseguiam
mais dialogar com os governantes, com os políticos. Estavam postos para dar conta de outras
demandas e como são espaços subalternos, como foi o caso da Seind (uma secretaria interessante, mas
recursos). Há muito tempo o governo não recebe indígenas para conversar. Eu não me recordo quando
foi a última vez. A volta da mobilização indígena tem que reposicionar o diálogo, ele é fundamental
para o que os indígenas defendem.

Por que o diálogo não ocorre, o que o impede?


Os dirigentes do Amazonas não estão mais habituados a dialogar. São dirigentes que, em geral,
não aceitam críticas porque passaram a última década sem receber críticas. Os índios, em suas funções,
se tornaram alvo das críticas. A esfera superior do poder não suporta crítica. Então, temos que
desenvolver, juntos, movimento indígena, governantes e políticos, um processo pedagógico para
aprender a lidar com os movimentos sociais porque se não houver, nesse campo, a mínima
combinação, o processo será muito mais difícil e doloroso. O objetivo das mobilizações não é apenas
para marcar terreno, tem um desejo concreto de construir e avançar na construção de políticas de
interesse dos povos indígenas. Hoje, qualquer crítica feita aos governos é recebida como sendo
problema pessoal. Tratar dessa maneira é querer manter as coisas do jeito como estão.

O senhor tem sido vítima dessa interpretação?


Sim. Contudo, continuaremos a falar e a lutar para que possamos conversar, somar esforços e
superar os problemas. Veja, ninguém quer assumir, por exemplo, a vergonha que é a infraestrutura das
escolas indígenas. Querem manter invisíveis os problemas sérios que temos. Tentam convencer que o
Amazonas é um Estado ambiental e socialmente bem organizado, sem problemas, pacífico, onde a paz
reina. O movimento indígena deixou e o governo se aproveitou do momento silencioso para construir
essa imagem. Agora, quando a gente reage e expõe as mazelas que estamos vivendo, as autoridades
entendem que é problema pessoal. Não é possível esse tipo de comportamento. No caso das escolas
indígenas, eu tenho fotografias desses espaços e a precariedade é geral. No Vale do Javari o que se vê
é deplorável, agride a todos nós. Como calar diante dessa realidade? Por isso, precisamos reinstaurar o
diálogo para buscar soluções que não são fáceis e não podem ser unilaterais”.

Perfil
Nome e idade: Gersem José dos S. Luciano ‘Baniwa’, 51 anos
Escolaridade: Graduado em Filosofia pela Ufam, Mestre e Doutor em Antropologia Social pela UnB;
Experiências: Co-fundador da Foirn, da Coiab; secretário municipal de Educação em São Gabriel da
Cacheira; Atuou como coordenador-geral de Educação Escolar Indígena da Secad/MEC;
Formação: Graduado em Filosofia (Ufam); Mestre e doutor em Antropologia Social (UnB); Recebeu
o Prêmio Capes de Tese, em 2012;
Cargos: Gerente do Projetos Demonstrativos dos Povos Indígenas (PDPI); É professor da
Faced/Ufam e coordenador do Fórum de Educação Escolar Indígena do Estado do Amazonas
(Foreeia).

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Vídeo

Vídeo: Olhar Indígena - Daniel Munduruku fala sobre Educação Indígena

Daniel Munduruku, Povo Munduruku – PA. Publicado no Youtube, em 1 de fevereiro de 2012.


Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=WSyjdc4QKsE >. Acesso em 18/02/2016/

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