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HISTÓRIA colonial DOS portuouesl

ANGOLA
APO N TA M EN TO S SÔ BR E A OCU PAÇÃO
E IN ÍCIO DO ESTABELECIM ENTO DOS PORTUGUESES
N O C O N G O , AN GO LA E BENGUELA

E X T R A Í D O S DE D O C U M E N T O S H IS T Ó R IC O S

COLIGIDOSDOR
ALFREDO DE ALBUQUERQUE FELNER

COIMBRA
IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
Iq33
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L>estiodiçSo
^ tiraranj-se
umerados c rubricados
i

HISTÓRIA COLONIAL DOS PORTUGUESES ]

ANGOLA.
APONTAMENTOS SÔBRE A OCUPAÇÃO
E INÍCIO DO ESTABELECIMENTO DOS PORTUGUESES
NO CONGO, ANGOLA E BENGUELA

E X T R A Í D O S DE D O C U M E N T O S H I S f f Ó R I C O S

COLIGIDOS POR

ALFREDO DE ALBUQUERQUE FELNER

Ç k - A-Of BlBLlOTECft JOSE CftPELft W E f»

FUVJP-BIBLtOTeC«o
140
* 950140»
COIMBRA
IM P R E N S A D A U N IV E R S ID A D E

l 933
AOS EXCELENTÍSSIMOS SENHORES

GENERAL JOSÉ MENDES NORTON DE MATOS

COMANDANTE ERNESTO DE VILHENA

O Snr. General Norton de Matos, organizando com superior inteh~


gêncta e previsão a Administração de Angola , criando o seu Estatuto
nas bases as mais próprias e adequadas, depois de ter, com pulso firme,
implantado o regime de mão de obra livre e remunerada, que tornou
possível todo o desenvolvimento que hoje admiramos; o Snr. Comandante
Ernesto de Vilhena actuando, fora de todos os meios oficiais, com o seu
brilhante talento e extraordinárias qualidades de organizador, no alto e
patriótico fim do estudo e financiamento dos mais interessantes e impor­
tantes problemas do fomento de Angola, carreando para a Colónia, através
de tôdas as dificuldades, os capitais que valorizaram as riquezas de que
há séculos nos limitávamos a apregoar a existência, sem nunca as efecti-
varmos, — conseguiram o objectivo máximo de tôda a nossa obra em
Angola.
Tendo estudado, desde o seu início, o nosso trabalho como colonizadores
em Angola, sinto a necessidade de manifestar a minha grande admiração
pelo realizado por Vossas Excelências e permitam-me que, juntando aos
seus nomes o do Grande Marquês de Sá da Bandeira, lhes dedique êstes
modestos Apontamentos.

Maio de iq33.

ALFREDO DE ALBUQUERQUE FELN ER.


EXPLICAÇÃO PRÉVIA

Com as viagem de D iogo Cão e Bartolom eu D ia s encerrámos o


período preparatório para os Grandes Descobrim entos. Os nossos cosmó­
g ra fos e matemáticos tinham adquirido todos os conhecimentos necessários
p ara poderem , aproveitando as excepcionais qualidades dos nossos capitães
e pilotos, encaminhar os seus esforços e actividade no sentido das Desco­
bertas. 9
O que se seguiu depois, a índia, o Brasil, e todo êsse M undo que trou­
xem os para a Civilização, f o i o resultado dos estudos e trabalhos até então
executados e conservados durante muitos anos debaixo do maior sigilo.
Como era natural, o que serviu de base a êsses trabalhos, os alicerces
dessa obra grandiosa, a Alta e B a ixa Etiópia, que , quer pelo litoral, quer
pelo interior, f o i tão trabalhada pelos nossos homens do mar e capitães,
fica ram quási esquecidos e ignorados perante o deslumbramento causado
pelas novas riquezas do Oriente e do Ocidente. A s grandes ambições
eram, a ín d ia para o negócio; o Brasil para as culturas que enriqueciam.
P a ra o Congo e A n gola, raros pediam licença para fa \er uma armação,
obra modesta. Assim , se criaram como que duas civilizações diferentes e
distintas. Uma, a das grandes aventuras e heroísmos; a das grandes
riquezas; grandes ambições e grandes sonhos, cheia de lutas sangrentas e
trabalhos sobrehumanos; e outra, comezinha, espécie de charneca de con­
celho, onde os pobres, mas não menos ousados, fora m fa z e r pequenas
arroteias.
A tè ao Zaire ainda se conhecem as datas dos descobrimentos e os
descobridores. Depois, daí para o sul, tirando os padrões de D iogo Cão,
tudo é obra da grande massa anónima, da qual os nossos cronistas se tião
ocuparam, e aos historiadores não mereceu a investigação cuidada e estudo
criterioso a que tinha direito.
Angola

Passaram-se sé c u lo s . O M u n d o que nós tínham os descoberto fo i- s e


d iv id in d o e n t r e a s velha s nações e as novas qu e se fo r m a r a m . C om difi­
culdades se ten ta v a m exp lo ra çõ es, e essas, j á sem a q u ele estím ulo de
a v e n t u r a , se m o in cita m en to d o D escon h ecid o.
F ic a r a a Á f r ic a , im ensa, cu jos seg red o s , ta lvez p e lo p receito imposto e
tr a n s m itid o d e g er a çã o em g era çã o , tínham os conservado na m aior reserva,
a p o n to d e tu d o s e ig n o r a r , até m esm o o p o u co qu e fic a r a escrito.
Q u á s i q u e só n ó s p o r lá andávam os, £ m as seria tudo nosso ? ic o m que
d ir e ito ?
A p a r e c e r a m ,mentão, os p rim eiros intrépidos exploradores estranjeiros,
e n ó s, p a r e c e q u e esquecidos d o q u e já tínham os fe ito , em vez d e nos o fe ­
r e c e r m o s p a r a lhes ensinar os cam inhos, m andám os repetir a lg u m a s das
v ia g e n s há centenas d e anos efectu a d a s, d a n d o a im pressão de qu e f ô r a
co m o estím u lo dos estranhos q u e nos resolvem os a estudar o qu e era nosso
e co n trib u irm o s tam bém com q u a lq u er p a rcela p a ra o conhecim ento cien­
tífico d a s r eg iõ es.
C o m o m aior cinism o acusaram -nos, não só de nada term os f e i t o em
b en efício d a colonização, com o ainda d e perm itirm os q u e os corsários e os
s e u s n e g reiro s, arm ando navios nos seus p ortos, viessem aos das nossas
co ló n ia s c a r r e g a r escra vos, p a ra os levarem p a ra as su a s. E nós, p a ra
n os d efen d erm o s e ju stifica r m o s, p a ssám os a consentir q u e dentro da nossa
ca sa fi\ e s s e m a espionagem d e todos os nossos actos e da nossa vida,
q u a n d o , a final, os escla va g ista s eram ê les, os próprios g overn os, qu e
a lg u m a s v ezes resolvia m cobrir com a sua fo r ç a os actos m ais revoltantes
d e escra v a tu ra s qu e denunciá va m os e queríam os im pedir.
E n tr e ta n to , enqua nto nos deixávam os em bair p o r este f a ls o hum a-
n ita rism o , c a d a um d ê le s e stu d o u a B a ix a E tió p ia e a G u in é In ferio r, e
p ô s so b a v ista o q u e m ais lh e convinha. C om eçaram discutindo a liber­
d a d e d e co m é rcio nos rio s n a veg áveis e su a s bacias, e descobriram qu e
p e la n o ssa le g is la ç ã o a d u a n eira levantávam os d ificu ld a d es a essa liber­
dade.
Explicação Prévia xm
D e repente, um dèles, mais esperto e mais inteligente, deixou-os j
discutir e enfiou pelo Zaire, dizendo que tudo aquilo era dele. Logo a
seguir , mal refeitos do susto, outros flibusteiros completaram a partilha
tirando-nos tudo do Cunene para o sul, e investindo pelo interior da Átrica,
entre as nossas colónias de Angola e Moçambique, ap>Msando-se de cada
uma delas, do que mais lhes convinha.
Vieram os modas vivendi e por fim os tratados. Terminada a discus­
são, demos balanço ao que nos deixaram ficar e, conformando-nos com as
extorsões, encontrámo-nos com o resto daquele nosso dote, que séculos
tínhamos levado a constituir com as migalhas daquelas pequenas arroteias,
que do Zaire para o sul, tínhamos feito.
Deixaram-nos o que não podia deixar de ser nosso, e estava fortemente
vincado pela nossa ocupação e acção civiliçadora.
IM a s como se produçira êsse assombroso trabalho? j Quem o fiçera
e como se fiçera ?
*

Quis conhecê-lo e encontrei elementos do maior valor, quási todos


dispersos e sem a necessária coordenação, de forma a facilitarem qualquer
estudo.
D e alguns, j á publicados, e outros, que encontrei nas buscas que fi\ aos
arquivos nacionais, tentei organizar uns apontamentos sóbre os nossos
primeiros reconhecimentos e ocupação em Angola, ligando factos, procu­
rando-lhes a sequência e façendo a sua crítica baseada nesses doeu-
mentos.
Facilitou muito a minha tarefa a colecção de documentos do Congo,
do fa lecido Visconde de Paiva Manso, manancial do tnais alto valor. N o
Arquivo •Nacional da Torre do Tombo encontrei mais alguns documentos
respeitantes ao Congo, que não foram publicados naquela colecção, pelo
que me pareceu conveniente reüni-los. Também, de obras antigas e hoje
muito raras, extraí a parte que poderia interessar ao Congo e a An­
gola.
Com respeito a Angola e Benguela, reüni tudo o que de mais interes­
sante encontrei na Biblioteca Nacional, na Biblioteca da Ajuda, no Arquivo
XIV Angola
da T ôrre d o Tom bo e ainda na Biblioteca d e É vora e} em bora alguns
d o cu m en to s tenham sido j á publicados, ju lg u e i conveniente reeditá-los, com
e x ce p ç ã o d os q u e fo r a m coligidos, nas M em órias d o U ltram ar, p e lo infa­
tig á v e l tra b a lh a d or que f o i L ucian o Cordeiro.
E n tr e os docum entos respeitantes a A n g o la en co n tra -se na Biblioteca
N a c io n a l o « Sumário e descripção do reino de A n gola, e tc .» m anuscrito
d e D o m in g o s d e A b reu d e B rito, que embora tenha uma p a rte qu e se
r e fe r e à história das Capitanias do B ra sil e, da qu e respeita a A n g ola
tenham sid o p ublicados fra g m en tos, j u l g u e i útil p u b licá -lo integralm ente,
constituindo um trabalho à parte dêste.
R e ü n i ainda muitos docum entos respeitantes ao litora l e p la n a lto do
s u l d e A n g o la . S ão muitos e precisam d e ser cuidadosam ente analisados.
C onstituirão umg>utro trabalho, a p u b lica r, se m e f ô r p ossível concluí-lo.

E n co n tre i nas minhas buscas, na Biblioteca N a cion a l, p o r p a rte dos


E x . m0* S rs. Visconde d e S . Bartolom eu de M essines, E rn esto E n n es e
D r . A ta id e e, na B iblioteca da A ju d a , p o r pa rte do E x .m0 S r . D r . Jordão
de F reita s, bem como do pessoal a êstes senhores subordinado, o mais leal
e fra n co a u x ílio , sem o qual me não teria sido possível levar ao fim os
m eus trabalhos. A todos d eixo consignado o meu reconhecim ento. M as,
tendo iniciado as m inhas pesquisas na Secção U ltram arina da Biblioteca
N a cio n a l, d e q u e era Conservador o E x . m0 S r. E rn esto E n n es, não
p osso d e ix a r de ag ra decer em especial a êste senhor todas as suas fin eza s,
g u ia n d o -m e nos p rim eiros p assos p a ra a busca d e docum entos, indican-
do^me aqueles qu e j á conhecia, ou os códices onde a lgum a cousa de inte­
ressante p o d eria encontrar, e fa c ilita n d o assim a minha tarefa.
C onclu íd a esta, teria todo o m eu esforço resultado inútil se não encon-
trasse no E x . m0 S r . D r . Joa quim de Carvalho, a quem está confiada a
.. direcção da Im prensa da U niversidade d e Coim bra, tôdas as fa cilid a d e s
p a ra a im pressão dêste m eu trabalho e a m aior dedicação e carinho, da
sua p a rte é da do E x . m0 S r. C ândido N a za reth , D ig .mo C h efe das Oficinas
d e Com posição.
A o s dois o m eu g ra n d e reconhecim ento.
Explicação Prévia xv

Hesitei muito, antes de me resolver a publicar èstes «aponíamenlos,


principalmente porque sinto não ter competência para o trabalho a que
me abalancei.
Êste motivo seria mais que bastante para pôr de parte a ideia da
publicação, se não tivesse conseguido reünir documentos que formam uma
colecção interessante, para aqueles poucos que se possam ainda dar a
êstes estéreis estudos.
Num país com a mais vasta e gloriosa história colonial, que é verda­
deiramente a sua própria história, em que se não fa\ a publicação oficial
de obras que a ela interessam e, onde, nem ao menos os aiversos arquivos
possuem um índice actualiçado, manuscrito que fôsse, dos documentos
existentes tias diversas secções, de modo a facilitar qualquer consulta, — a
publicação dos documentos que coligi, embora sirva para Raros apenas,
deve oferecer vantagens para êstes, poupando-lhes tempo e trabalho.

Maio de tg33.
ALFREDO DE ALBU Q U E R Q U E FELNER.
PARTE I

ZAIRE E C O N G O

1 — Os nossos descobrimentos
U — O reconhecimento do Zaire
III — A ocupação do Congo
V. •...... - ■

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As vitórias de Aljubarrota e Valverde tinham abalado profundamente
o prestígio de Castela e engrandecido o nosso. Os castelhanos, ora
pedindo tréguas, ora quebrando-as para recomeçarem as hostilidades,
se não sofriam derrotas como as que lhe foram infligidas naquelas me­
moráveis batalhas, também não alcançavam vitórias que ihes dessem o
direito de imporem as condições da paz, que nós também não adqui­
ríamos, embora cada vez mais se consolidasse o nosso poder, pelo
número de fidalgos que, com as suas terras, reconheciam a autoridade
de D. João I.
Lutava-se, mas sentia-se, de parte a parte, a necessidade de terminar
a luta. Se, mais que o espírito da época, a bravura do Condestável e a
emulação entre os fidalgos, criando uma permanente excitação, torna­
vam improfícuas as mútuas. transigências para a paz, esta, contudo,
impunha-se, e João das Regras, contrariando todos os ardores belicosos
da nobreza, empenhava-se pára a conseguir com todo o seu espírito de
político inteligente e de legista, demonstrando a D. João I a sua ne­
cessidade, não só para a consolidação da independência do reino, mas
para a sua reconstituição, dentro dos princípios do moderno direito de
então, condição essencial para aqueles poderem subsistir.
Estabelecida emfim, a paz, tão sinceramente D. João I a desejava,
que pensava, se ela perdurasse, « ordenar hnüas festas rreaaes que durem
t todo hum anuo, pera as quaaes mandarey comtidar todollos fidalgos e
« gentijs homeés que teuerem jdade e desposiçam pera tal fe ito que ouuer
« em todollos rregnos da christandade e ordenarey que nas ditas festas
« aja notauees justas e grandes torneos e muy abastosos conuites seruidos
«de todallas viandas que se per todo meu rregno e fora delle possam auer.
« E desy danças e outros jogos seram tantos e taaes que assi delles como
« de todallas outras cousas as gentes que o virem tenham que sobre a f
*
4 Angola
« g r a n e^a e as nom se possam fa \ e r outras mayores. E com esto darey
« ta n ta s e ia m g ra n d es da d iu a s prinçipalm ente aaquelles estrangeiros que
« a g r a n d e z a e d o çu ra d o s benefícios que lhes eu assi fe \ e r lhes ponha
« n e ce ssid a d e d e os apregoarem grandem ente antre todollos seus am igos e
° em f i tn d e s ta s cousas f a r e y m eus filh o s caualeiros » (i).
O s três Infantes, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique com o irmão
m ais velho, C onde de Barcelos, discutiam esta intenção do pai, não se
co n fo rm a n d o com o serem assim armados cavaleiros. Preferiam, antes,
erem o c a siã o de praticar qualquer feito de armas pelo que o merecessem
d o q u e, contudo, não viam probabilidades, visto estar firmada a paz
co m C astela. João Afonso da Azambuja, vèdor da fazenda e homem
re sp e ita d o pelo seu conselho, surpreendeu-os nesta conversa, sugerindo
q ue fôssem lem brar a D. João I, irem antes tom ar Seuta, cidade do
n o rte da Á frica, que êle sabia ser muito importante pelas informações
q u e recebera, tendo lá mandado tratar do resgate de uns cativos.
D a sugestão 8o Mestre João Afonso; do apoio dado pelo Condes-
tá vel à idea, qu e mais parecia revelação d e D e u s ; e pelo entusiasmo
com que, no conselho reünido em Sintra, formado pelos antigos valentes
de A ljubarrota, João Gomes a aprovou, gritando: russos, a lé m ! exor­
ta n d o assim os velhos que ali estavam reünidos e incitando-os à con­
quista, esta realizou-se e, nela, o Infante D. Henrique foi armado
cavaleiro .
Se as nossas anteriores viagens às Canárias, pelo menos as do
tem po de D. Afonso IV, não bastassem para que existisse no espírito
de D. Henrique a idea das navegações, a conquista de Seuta, então a
fornecedora à Europa de mercadorias vindas de regiões desconhecidas,
incitou-lhe êsse desejo. As informações que colheu em Seuta, diziam -lhe
que ca ravan as vindas de longe, da África oriental e central, conduziam
p a ra ali aquelas m ercadorias, que os navegadores e negociantes de
V en eza iam negociar e, o Infante, regressando a Portugal, foi eetabele-
cer-se em S. V icente, com o fim, diz-nos A zurara, de « a lly f a ç e r hüa
« v illa esp ecy a l p e r a trato de m ercadores , e p o r q u e todollos navyos q u e
« a tra v essa ssem d o leva nte p era o poente, p odessem a lly f a \ e r d evisa, e
« a ch a r m an tim en to e p illo t o s . . . ».
O s gen oveses, que desde essa época não deixaram de recear a nossa
co n co rrê n cia , ofereceram -lhe g ra n d e p r eço p e la V illa do Iffa n te, que êle

J f} Crónica da tomada da cidade de Seuta por El-Rey Dom Joham o Primeiro, composta
por omes Eannes de Azurara. Ed. da Acad. das Sciências de Lisboa, cap. viu.
Parte I — Zaire e Congo 5
rejeitou, para se dedicar com os seus escudeiros, o pessoal de que se
cercou e as suas embarcações, ao estudo dos problemas geográficos,
que, depois das noticias que o irmão, o Infante D. Pedro, lhe trouxera
da sua viagem pela Europa, o absorviam por completo, como bem nos
deixou descrito o seu cronista: «Oo quantas ve^es o achou o sol asseentado
« naquelle lugar onde o leixara o dya dante, vellando todo o arco da
« noite sem receber nhuú descanso, cercado de gentes de diversas naçooés,
t nom sem proveylo de cada huú daquelles, ca nom era a elle pequena
« folgança achar com que aproveitasse a todos ,
« Consiiro como recebyas a todos, como os escudavas, como passavas a
a mayor parte dos dyas e noites antre tantos cuydados, por dares proveito
a a muytos, pollo qual conheço que as terras e os mares som cheos de teus
« louvores, ca tu per continuadas passageés fizeste ajuntar o levante com o
« poente, por que as gentes aprendessem a comudar as riquezas » (i).

# #

Nas repetidas viagens que ordenava, os seus navegadores nao se


atreviam a dobrar o cabo Bojador. Doze anos levou nesta insistência,
sem nunca o conseguir, porque «... este cabo do Bojador he muito
«perigoso, por causa de hüa muito grande restingua de pedra que d ’elle
« saee ao mar mais de quatro ou sinco leguoas... e asy os mareantes que
« com elles hiam , tiam ousaram passar aleem. , . e como eram acerca do
« Bojador e hachauam o fundo baixo, que em très braças dauguoa estauam
• hüa leguoa de terra, e espantando-se das grandes correntes nenhum
« ousaua de se alarguar ao mar e passar alem deste parçel, e entam se
« tornauam á costa de Barberia e de Graada, honde andauam d’ armada
«pera tomarem alguüas presas com que forrassem a despesa d’armaçam;
a e por nam passarem o dito cabo o Infante recebia d’ isto grande des-
pra\er...y> (2).
Um dia, Gil Eanes, tendo partido para^uma dessas viagens, chega
às Canárias e traz, como prova, alguns cativos. O Infante anima-o,
incita-o a ir mais longe e, teimando sempre, fá-lo sair para nova viagem,
em 1434» em que Gil Eanes dobra 0 cabo Bojador, chega à Angra dos1

(1) Crónica da Guiné — Azurara. Visconde de Saniarem, cap. vi.


(a) Esmeraldo de Situ Orbis de Duarte Pacheco Pereira. Anotado por Epiíânio Dias,
■ publicado pela S. G. L.
ó Angola
R u ivos, desem barca e, regressando, veio contar ao Infante ff como saira
em a Lerra sem achar g e n te , ou pouoaçõo a lg ü a , & que lhe parecera m u i
<ifr e s c a & g r a c io s a : & q u e em sinal d e não ser tam esterele como as g en tes
« diyião, lra\ia a li a su a m erce em um barril cheo d e terra , hüas heruas q
« se p a r e d ã o com outras qu e cá no R cyn o tem flo r e s a qu e chamão rosas
d e sancta M a r ia » (i).
O Infante reccbeu-o com imensa alegria, e as m odestas ervas, se não
foram postas no altar onde fazia as suas orações de cristão, foram -no,
com certeza, no que erigira á sua obsidiante idea, que o novo moto que
p en sava em adoptar para a sua vida — IDA — melhor definia, e que
êle servia com a sua fé de iluminado, e onde, pela sua vontade inque­
brantável, as pobres ervas rejuvenesciam e, da mesma forma que as da
R ainha Santa Isabel eram a transformação do óbulo que levava no seu
regaço, estas, na sua simplicidade e pobreza, representavam o imenso
va lo r que as terpis de África guardavam .
El-R ei D. Duarte também não escondia a sua satisfação e o Infante
aproveita a oportunidade e, incita agora Afonso Baldaia, que fôra com
Gil Eanes. a voltar, dizendo-lhe, para o co n v en cer: «se vos achastes
« rasto d ’ h om en s-e d e cam elos, parece qne a povoação não é d 1a h minto
<x afastada, ou por ventura será gen te que atravessa com su a s m ercadorias
«p a ra a lg u m p orto d e mar, onde haja a lgum ancoradouro se g u ro p a ra os
« navios receberem c a r g a . . . » Baldaia hesita, mas o Infante insiste e com
novas razões, o convence, pelo que êle parte para a descoberta, levando
dois cavalos que o Infante lhe dera, para que ao desem barcar, m andasse
alguém nêles pela terra dentro, quanto pudessem, ■ esg u a rd a n d o bem a
« to d a lla s p a rtes se vcryam algüa povoraçom , ou g en te q u e fizesse vy a g em
«p e r a lg u ü cam inho. ..» (Azurara), mas que não levassem arm as de defesa
e apena-s suas lanças e espadas.
N a veg aram mais para o sul que na viagem anterior e, desem bar­
can d o, m andou Baldaia dois dos seus montar nos cavalos, e que fôssem
p rocu rar a p ovoação ff Conshro a q u y du a s cousas, d i\ a q u elle que
« screv eo esta e s to r y a : a prim eira qual m aginaçom sery a no pensam ento
« d a q u e lle s horneés, veendo ta l novidade, scilicet, dons m oços a ssy atrevidos
« d e co o r e feiço o és tam stranhas a e lle s ; ou que cousa p o d y a m cu id a r qu e
« os a lly tr o u x e r a , e a ind a em cima d e cavai los, com lanças e spadas, qu e
« som a rm a s q u e a lg u ü d e lle s nunca v ir a ! P o r certo eu m a g in o qu e a

(f) João de Barros — Dec. i * da Ásia, liv. i, cap. m.


Parle I — Zaire e Congo i

«fr a q u e ja d e seus coraçooes nom fo r a tamanha, que se nom teverom com


v eües com m ayor ardide\a se o spanto da novidade nom fo r a . A segunda
« cousa he o atrevimento daquelles dons moços, seendo assy em terra
« stranha , tam allongados de socorro de seus parceiros, e filharem ousyo
« de cometer tamanho numero, cujas condiçoÔes em arte de pellejar, eram
« a elles tam duvydosas » (i).
Foram duas crianças de i 5 e 17 anos, Heitor Homem e Diogo
Lopes de Almeida, os heróis deste valoroso feito. Se a Azurara,
conhecedor dos actos de heroísmo, então tão freqüentemente praticados
pelos nossos cavaleiros, mereceu referência especial o destas crianças,
para nós, cinco séculos passados, apesar dessa África ter sido trabalhada
com a vida de milhares dos nossos que lá têm ficado com tanta glória,
atinge proporções extraordinárias.
tíQue poder imenso de persuasão, que esmagador domínio era o do
Infante, para fazer arrostar com todos os preconceitos*sôbre os perigos
da África, que a tradição incutira nos nossos? Já não são os homens,
que êle poderia seduzir, mais ou menos, com promessas, excitando-lhe
assim o interesse. Eram duas crianças, i 5 e 17 anos! criadas e edu­
cadas na lenda do sobrenatural, que, magnetizadas e sugestionadas,
desembarcam na costa da África de então, que não podemos com­
preender o que representaria no seu espírito, quando ainda hoje para
parte das nossas populações do interior é qualquer cousa de horrível, e,
montando a cavalo, um sorriso nos lábios, a lança no arção da sela,
êles aí vão, trotando sete léguas pelo Desconhecido, avançando para o
fim do Mundo, que lhes tinham ensinado que acabava ali adiante, onde
as nuvens do Céu tocavam a terra que pisavam. Encontram dezanove
negros, armados com zagaias, que ao vê-los se juntam em magote e
fogem para uns penedos; mas êles avançam, procuram-n’os e os negros
atacam-n’os com as zagaias, indo ferir um dêles num pé. Estão sózinhos
num mundo novo para êles, mas não se «medrontam e avançam até
tirarem vingança, e só então, já de noite, regressam ao seu navio, sem
dúvida guiados e accionados pelo espírito do Infante, que os alumiou
na escuridão do seu caminho, pois só de madrugada chegaram à praia
donde tinham partido 1

/1

(1) Azurara — Crónica da Guiné, cit. cap. x, pág. 62 fim.


Angola

*
* *

S e p e la s n a v e g a ç õ e s os planos do Infante se iam realizando com o


o s id e a r a , em b o ra com dificuldades que rem ovia, pelo lado político da
c o n q u is ta d o norte da Á frica, tinham falhado com o desastre de T ân ger,
q u e la n ç a r a o rein o no m aior desalento.
D . D u arte, com o espírito com pletam ente abatid o perante a enor­
m id a d e da catástrofe e, espicaçado de rem orsos p or ter cedid o às
su g e stõ e s do Infante D. H enrique, cham a-o a É v o ra para o ouvir sôbre
a s p rop ostas d o M ouro, para a entrega de Seuta em troca do irmão
p risio n eiro , e, quando esperava a desistência dos seus planos, que tôda
a n a çã o rep u d iava, êle responde-lhe, adm irado da sua hesitação, que
se d everia orgatfizar outra expedição para vin g a r o desastre daquela.
N ã o podendo com preender o assom bro que a sua resposta cau sava,
p ro cu ra justificá-la, insta para que a adoptem , explica com o poderia
ser le v a d a a efeito, — eram só m ais vinte e qu a tro m il hom ens , — m as de
’ P o rtu g a l só doze mil, e, vendo que o não atendem , recolhe-se à sua
T ê r ç a N a b a l-
A í, longe do m eio lutuoso da côrte, em lágrim as pelas notícias dos
sofrim entos do pobre Infante S anto, deita balan ço à sua obra, concentra
as suas id eas e, lá ao longe, êle vê o princípio da grandeza de Portugal
m arítim o e colonial, a . existência de pretos, que fatalm ente deviam
n ego ciar, terem produtos para vender e trocar. S abia já que para além
do B o ja d o r co n tin u ava a Á frica da mesma forma que era até ali, e que
era h a b ita d a Q u an d o ch egava o m om ento de poder assim p rovar a
tô d a a gen te que se não enganára nos seus planos, organizados com os
co n h ecim en to s que ad q u irira; quando, se continuasse para diante, pela
co sta fora, h a v ia de chegar à ligação com o N ilo e com a índia,
tra ze n d o p a ra P ortu gal tôdas as riquezas do O riente, a nação inteira
re p e lia -o , em ve z de secundar a sua idea, e até a gente de L a g o s o
e s c a r n e c ia !
M a s não d esan im a, nem desiste.
V a i fa la r co m os p escad ores e, ao passo que colhia notícias,
in sin u a v a -lh e s v ia g en s, e que fôssem à ca ça dos lobos m arinhos, que
d a v a m , além da pele, m uito bom azeite.
E m 1438 m orreu o irm ão D. D uarte e é feito regente o irm ão
D . P e d ro , de quem êle sa b ia que não teria o m enor auxílio para os seus
Parle 1 — Zaire e Congo 9
planos. Conhecedor da intriga que os fidalgos fomentavam entre a
Rainha viúva e o Regente, não procura desfazê-la, antes a incita. Na
primeira aberta de sossêgo, em 41, faz sair de Lagos ura navio, que
entregou a Antão Gonçalves, seu guarda roupa a homem assa{ de nova
«idade». Ia só para carregar coirama e azeite dos lôbos marinhos, mas
Antão Gonçalves era criado e educado desde criança por êle, era um
discípulo da sua escola e, carregado o navio, propôs á companha para
fazerem mais alguma cousa que lhe pudesse agradar, ao que êles anuiram,
respondendo-lhe «que aqueües que aquy somos, da criacom do lffanle
« nosso senhor, teemos desejo e voontade de o seruyr, ataa poer uosssas
«vidas na sorte do derradeiro perigoo » (\) e, assim resolveram ir caçar
cativos, o que conseguiram, trazendo ao Infante e para mostrarem
a todos os incrédulos, os primeiros pretos da tal África Tormentosa.
Os cativos que Antão Gonçalves trouxe, depois de estarem era
Lagos, propuseram-lhe que os tornasse a pôr na su« terra, que em
troca lhes dariam outros e em maior número. Antão Gonçalves levou
a proposta aoTnfante e, aceite por êste, partiu, trazendo em troca dos
dois gentios, dez outros e algum ouro em pó (2).
Estava estabelecido o resgate! Depois, Lançarote, « almoxarife de
« Lagos, juntamente com os juizes, e alcaide, e officiaaes da vereaçom
« daquella vüla », propõem ao Infante armarem as suas caravelas para
irem à caça do cativo e ao resgate «E se Deos trouxer o fe ito a fim de
« vitorya, poderemos fa^er, sobre a deslroyçom de nossos contrairos, presas
« de grande vallor, pellas quaaes de vosso quinto poderees receber grande
« proveito, doqual nós nom ficaremos sem parte »(3) com o que o Infante
concorda e, a 10 de Agosto de 1447, sai de Lagos a primeira grande
armada de 14 navios, que, com 12 de Lisboa, Porto e Madeira se des­
tinam ao comércio marítimo nas costas da África.
Ainda no mesmo ano, outros moradores de Lagos, habituados ao
resgate em terra de mouros, lembram-se de também explorar a pesca
nos mares que percorriam e que viam povoados de muito peixe e
propõem o «trauto » de pesca, concertados porém com o « Iffante em
« certa cantidade de dinheiro que lhe avyam de dar pollo direito que lhe hi
« sobreviesse », indo estabelecer as suas secas na Angra dos Ruivos (4).

(1) Crônica da Guiné, cit., cap. xii.


(ï ) Idem, cap. xvi.
3
( ) Idem, cit., cap. rix .
(4) Idem, cap. l r v .
a
D e p o is de 47, d iz-n os A zu ra ra , que os n egócios da G uiné se
« t r a u t a r o m m a is p o r tr a u to s e a v e en ça s d e m e rca d o ria s , q u e p e r fo r te lle \ a
« n e m t r a b a lh o d a s a r m a s » (1). C o n tu d o , A rguim , era o pon to da costa
p o r o n d e o b tín h a m o s n otícias do interior e por onde com eçám os o
e s ta b e le c im e n to d e re laçõ e s com os p o v o s d o S en egal e da G am bia,
E r a p r e c is o a sse g u ra r-n o s da sua p osse e, em 48, o Infante leva o
s o b r in h o D . A fo n so V a dar com êço à co n stru ção dum forte, que foi
a s sim a p rim e ira feitoria.
J á , e n tre ta n to , a M ad eira tinha sido dada a G o n ça lves Z a rc o e
T r is t a o V a z , co m o en cargo de a p ovo arem .

#
* *

D e sd e o « C e u ta » segred ad o aos o u vid o s do Infante D. H enrique,


p e lo M estre João A fon so, que se co n cebeu no seu cérebro, ta lv e z por
fô r ç a d a « in d in a ç o m d a s ro d a s c e lle stria ã e s » não só o p lan o de transferir
d e S e u ta para L isb o a o co m ércio da Á frica e da Á sia , m as algum a
c o u s a m ais sublim e, rev ela çã o d e D e u s , com o disse o C on d estável, que
n o s d a v a um a m issão, que n ão pod en d o ser cu m p rida dentro da pou ca
te rra d a pen ínsula, que tín ham os co n q u istad o palm o a palm o, e A lju-
b a r r o ta e V a lv e rd e nos co n so lid a ra, nos condu zia à descob erta dos
s e g re d o s d os m ares e à co n q u ista de terras, p ara a legitim a expan são
d a n o ssa n acion alid ad e.
D a su g e stã o d e S eu ta à feitoria de A rguim , vão cêrca de 3 5 anos,
e, d u ra n te esse cu rto períod o, o Infante D. H enrique criou novas bases
â c o s m o g r a fia ; in iciou os p rin cíp ios em que d everia ser estab elecid a a
a rte d e n a v e g a r ; revelo u ao m undo terras desconhecidas, alterando por
co m p le to a g e o g r a fia ; creou a sciên cia da co lon ização, baseando-a no
re sg a te , n os tra to s, nas a ven ça s, nas feito rias e nas d oações, que foram
a o rig e m de tô d a s as n o v as n ações que se form aram .
jjQ u e m ais p o d eria ter feito ?
« T a n ta e ra a co n tin u a ço m d e seu tr a b a lh o , e p e r ta m a sp era m a n eira ,
o q u e a s s y co m o o s p u e ta s fin g e r o m q u e A ta lla s , o g ig a n te , so stiin h a os
* c e e o s c o m o s o m b r o s , p e lla g r a n d e s a b e d o r y a q u e em e lle a v y a a cerca
• d o s m o v y m e n to s d o s co rp o s ce lle stria a e s, a s s y a s g e n te s d o nosso r e g n o

(1) Crónica da Guiné, cap. lrvi.


Parte 1— Zaire e Congo 11
« tra^yam em vocabullo , que os grandes trabalhos dvste príncipe , quebran-
« lavam as alteras dos montes » (i).

• •

O resto seguiu-se. Eram factos certos, ligados e inevitáveis.


Depois do falecimento do Infante D. Henrique, embora não houvesse
quem, com o êle, se dedicasse exclusivamente aos descobrimentos e à
colonização, o destino da nossa nacionalidade tinha ficado por tal
forma definido e assente, que a sua falta pessoal se não fez sentir. O
Infante desaparecera, mas não morrera; o proseguimento da sua obra,
era a nossa própria vida, era a vida duma nação.
A política de ambições das casas reinantes da Europa, em que
cada uma procurava ter o maior engrandecimento e predomínio, cha­
mava a atenção dos nossos monarcas, sem que contudo êles pudessem
pôr de parte, ou deixar de viver inteiramente integrados na adminis­
tração e prosseguimento das descobertas e conquistas.
Dentro dos princípios estabelecidos pelo Infante, D. Afonso V dá,
em 1464, a Soeiro Mendes, a Alcaidaria Mór do Castelo de Arguim
« casas e vil!as da dita ylha e resgate » (2) e em 57 concede a Fernão
Gomes para daí a um ano, poder enviar uma caravela de trinta toneladas
à « cidade D a Çafi E as villas e lugares daquella comarqua e costa » (3 )
com quantas e quaisquer mercadorias lhe aprouver. Esta licença foi
depois transformada em contrato de arrendamento de tôda a terra da
Guiné e seu resgate, de que se não conhecem os termos, mas que pelas
referências de outro posterior, 1473, de prorogação daquele por mais
um an o(4), se vê que estabelecia a condição de Fernão Gomes pagar
duzentos mil reaes brancos, que pelo contrato de prorrogação eram
elevados a trezentos mil (5 ), sendo obrigado a descobrir quinhentas
léguas da costa para o sul da serra Leoa.

(1) Crónica da Guiné, cap. rv.


(2) Arq. Nac. da Tôrre do Tombo. Livro 8." da Chancelaria de D. Afonso, fls. 88. Está
5
publicado por Albano da Silveira nos Anais Marítimos e Coloniais, ." série, 1845, n.“ 2, parte
5
não oficial pág. 41, nota ( ).
3 3
( ) Idem., liv. i fl. llv. Publicado no mesmo número dos Anais a pág. 45 nota (7).
(4) Arq. Nac. da Tôrre do Tombo. Liv. 33 da Chancelaria de D Afonso S.°, fl. 147 v. Está
5
publicado por Albano da Silveira nos Anais Marítimos e Coloniais, .* série, 1843, n° 2, parte
não oficial pág. 46 nota (8)..
5
( ) Oliveira Martins avaliava em 1891 esta renda em duzentos contos de então. Os filhos
de D. João I, nota ( t ) a pág. 257.
12 Angola
Em «4 7 *i quando o filho, o príncipe D. João, mais tarde rei, tinha
16 anos, fêz-lhe doação dos tratos da Guiné e pescarias dos seus mares
assim como da Mina e Arguim, doação só confirmada por carta de 4
de Mato de 1481 (t). Desde aquela data, portanto, que os assuntos dos
descobrim entos e conquistas passaram a ser tratados pelo princípe
D. João e D. Afonso V, que, com a tomada de Arzila, fechará 0 ciclo da
sua glória, completando o plano empreendido pelo Infante D. Henrique,
d a conquista das praças fortes do norte da África, passou 0 resto da
sua vida enrodilhado pela política de Castela e da França.
Q uando subiu ao poder, D. João II já de há muito era o rei, e, assim,
a parte das conquistas continuou como vinha sendo dirigida.
Fernão Gomes, o contratador da Guiné, enriquecera por tal forma,
a-pesar-da importante renda que pagava, que D. João II lhe não renovou
o contrato, que deveria ter terminado em 75, quando muito em 76, e,
aproveitando as*conquistas e descobertas executadas pelos capitães e
pilotos ao seu serviço, estabeleceu com dados seguros, o seu plano, que,
então, já não era o indeciso e incerto da Guiné, mas outro mais vasto
e com um fim determinado, a índia, que se sabia como se havia de
atingir.
A exploração da Guiné tratou de a assegurar, mandando, logo que
subiu ao poder, Diogo da Azambuja acabar o castelo de Arguim e
fundar o de S. Jorge da Mina, « le u a n d o em s u a com panhia n o v e c a r a -
« v e lla s co m o u tr o s ta n to s ca p ita eés , h o m ês m u y h o n r ra d o s , d e q u e 0 d ito
<« D i e g u o d ? A \ a m b u jd e ra ca p ita m m ò r, e a s s y le u o u d u a s h u rca s, naos
« d e q u a tr o c e n to s to n e e s ca d a hüa, com m u u a c a l e p e d r a r ia la u r a d a e
« a s a i o u tr a a r tilh a r ia p e r a se esta o b r a f a \ e r . . . e tem o s sa b id o q u e em
« to d a h a E th io p ia d a G u in e e , d e p o is d e se r d a d a cr tacam a o m u n d o , este
«f o i o p r im e ir o e d e jiç io q u e se n a q u e lla r e g ia m fe% » (2).
Com o complemento, deu comêço á colonização da ilha de S. To­
mé (3), já então descoberta, bem como o Princípe, Ano Bom e Equador,
parece que desde 1471-72, doando-a sucessivamente a João de Paiva,
Manuel Pereira e, por fim, a Álvaro Caminha, que foi quem lhe deu

(1) T ô rre do Tombo. Chancelaria de D. Afonso V. Liv. 26 fl. 102 v. Liv. 2.® dos Místicos
3
fl. i i e i , e liv. 1 dos Reis fl. 61 v. Está publicado por Albano da Silveira nos Anais Marítimos
e Coloniais no número já referido.
(2) Esmeraldo de Situ Orbis de Duarte Pacheco Pereira. Ed. da S. G. L., anotada por
Epifânio Dias.
3
( ) Duarte Pacheco Pereira no Esmeraldo diz que «pouorou com fundamento da nauegaçam
da Índia», pág. i . 5
Parte / — Zaire e Congo i3
maior desenvolvimento, e, organizada assim esta forte base, que ia dos
Açores à Madeira e Arguim, até á Mina e S. Tomé, com reconheci­
mentos até ao rio de Santa Catarina, resolveu continuur estes, prolon­
gando-os pela costa até encontrar a ponta sul do continente Africano
que, sabia bem pelas informações que já tinha da Etiópia Oriental,
havia de encontrar.
Nessa época, o que o Mundo era, já nós sabíamos, senão com
precisão, com suposições que muito pouco se afastaram da verdade.
Em 72-74 João Vaz Côrte Real e Álvaro Homem, tinham descoberto a
Terra Nova dos Bacalhaus, e a existência de terra — ilha ou ilhas, ou
continente, ao Ocidente, era para os nossos cosmógrafos uma probabi­
lidade que êles tinham quási como certeza.
Em 1482 (1) manda sair Diogo Cão para percorrer a costa da
África para o sul, dando-lhe padrões, para que deixasse assinalada a sua
passagem. »
Nesta sua primeira viagem, descobriu Diogo Cão o Rio Zaire, onde
colocou o primeiro dos padróes que D. João II lhe dera, e continuando
para o sul, foi colocar o segundo padrão no cabo a que chamou de
S. Agostinho, na Baía de Santa Maria.
Voltando numa segunda viagem, em princípios de 1485, foi até ao
Cabo Negro onde colocou o terceiro padrão e, depois de seguir ainda
um pouco mais para o sul, regressou a Portugal.
No ano imediato partia Bartolomeu Dias para descobrir o Cabo da
Boa Esperança, ao mesmo tempo que Pero da Covilhã e Afonso de
Paiva eram mandados por terra à índia.

*
• *

Cristóvão Colombo, um tecelão genovês que viera para Lisboa (2),


convivia muito com os nossos marinheiros e, pelas relações adquiridas,
foi para a Madeira. É provável que tivesse aí tido notícias, embora
pouco concretas, de terras que procurávamos ao ocidente, e, julgando-se
na posse do segredo de uma descoberta, com mais algumas informações

(1) Luciano Cordeiro — Descobertas e descobridores. — Diogo Cão. Lisboa, 189a.


(2) Recentemente publicou o Snr. Dr. Pestana Júnior um interessante trabalho sôbre
Cristóvão Colombo.
M
1
J itg p lã

que poude colher, foi-se oferecer a D. João H para descobrir o sonhado


Cypango.
A sua proposta, submetida a o s matemáticos e cosmógrafos, foi
regeitada, e então, despeitado, mas cheio de uma fé inquebrantável,
foi expôr as suas pretendidas descobertas e oferecer os seus serviços
aos reis de Castela, que os aceitaram alguns anos mais tarde, depois de
obtida a conquista do Reino de Granada.
Iniciada a viagem, chegou às Antilhas e ao regressar com a feliz
nova aos Reis de Espanha, estes logo se apressaram a obter do Pápa
Alexandre VI a bulia de 4 de Maio de 493, estabelecendo que para
cem léguas para oeste de um meridiano passado nos Açores, tôdas as
descobertas pertenceriam a Castela (1),
Supunham os reis de Castela que, dado o limite das cem léguas
para oeste dos Açores, nos ficava assegurada a navegação e descoberta
da índia, mas lè. João If, que tinha outros planos, e outros conheci­
mentos, sem os denunciar, não se conformou com essa divisão do
mundo e apresentou os seus protestos, pelo que foi negociado o tratado
de Tordesilhas, em 7 de Junho de 1494(2), pelos nossos embaixadores
Rui de Sousa e João de Sousa, sendo uma das nossas testemunhas
Duarte Pacheco Pereira, e pelo qual o limite das cem léguas foi elevado
a trezentas e setenta, garantindo-se assim D. João II, da posse dos
terras do ocidente.
O tratado de Tordesilhas consignava que uma missão, portuguêsa
e espanhola, de astrónomos e pilotos, iria estabelecer o limite das 3jo
léguas, mas, aproveitando a morte de D. João II, D. Manuel adiou a
sua execução, e tendo feito sair Vasco da Gama com as três naus para
a descoberta do caminho marítimo pela África para a índia, logo a
seguir manda Duarte Pacheco, em segredo, descobrir o ocidente, e êste
volta dizendo-lhe «he achada e navegada hua tão grande terra firme,
«com muitas e grandes ilhas adjacentes a ella» (3).
Assombrados com as opulências e riquezas que no seu regresso, os
marinheiros de Vasco da Gama nos contaram ter visto na índia e não
menos assombrados com a confirmação do que supúnhamos sôbre as
terras do ocidente, D. Manuel manda sair uma segunda esquadra cujo
comando confia a Pedro Alvares Cabral e, na qual vão como pilotos o

(1) 'Alguns documentos do Arquivo Nacional da Tórre do Tombo, pág. 67.


(2) Idem, pág. 69 a 80.
3
( ) Esmeraldo de Situ Orbis.
Parte I — Zaire e Congo 15

escol dos nossos navegadores. Dá-lhes como missão, que torna pú­
blica, o irem firmar as relações comerciais e políticas com os reis da
índia, mas ocultamente, hoje não o podemos duvidar(j), recomenda-lhes
que sigam pelo mar de longo, o que êles fazem e, sem terem feito agoada
em Cabo Verde, e sem que houvesse tempestades que os obrigasse a
desviarem-se da derrota que Vasco da Gama indicara, metem as prôas
a oeste e vão descobrir o Brasil, de que mandam a notícia para Lisboa
ao mesmo tempo que continuam a sua derrota para a Índia.
Nos anos seguintes continuamos os reconhecimentos da quarta parte
da terra e, duma dessas expedições, faz parte, num cargo subalterno,
Américo Vespucio. As nossas navegações para o Brasil, por ordem de
D. Manuel, constituíam segredo, com que Américo Vespucio se não
conformou e mandou contar para a Europa as descobertas, que, cheio
de vaidade, a si próprio atribuía. Resultou dêste facto não só o ter-se
mais tarde dado o seu nome às terras descobertas, como tornar-se
desde logo conhecida a navegação, o que a pirataria aproveitou, indo
para o Atlântico ocidental esperar as nossas naus que vinham da índia
carregadas das mais ricas mercadorias.
Com o fim de as defendermos, organizamos esquadras que faziam
cruzeiro nas costas do Brasil, ocasionando uma considerável despêsa.
Não era o bastante e era necessário evitar que os piratas ocupassem
qualquer porto da costa para base das suas operações, e, D. João III,
tratou então, de promover o povoamento do litoral, doando porções
do território que constituiu em capitanias, com o direito de os donatários
as explorarem e a obrigação de as povoarem, para o que publicou
disposições facilitando êsse povoamento.
As riquezas da índia eram arrancadas à custa de guerras e cada
nau que regressava, representava muito sangue derramado e muita
vida perdida. Nem todos se afoitavam a essa aventura. Moçambique
e Angola, além de ficarem longe, o seu clima mortífero, como o da
Guiné, nãõ convidava à fixação do colono, e, assim, auxiliada pelas
medidas de D. João III, fàcilmente se encaminhou a emigração portu­
guesa para o Brasil.
Essa colonização, desde o seu início, nunca teve por fim a pilhágem
\
e o roubo, como nunca tiveram essas características, as colonizações
que fizemos, da Madeira, Açores, Cabo Verde e S. Tomé. Era a natural

(i) Memórias da Comissão Portuguêsa da Exposição Colombina — Memória de Baldaque


da Silva sôbre o descobrimento do Brasil por Pedro Alvares Cabral. — Acad. das Sciências, 1892.
í6 Angola
•expansão de urna raça que se sentia apertada na estreita faxa do
ocidente da peníasula e que, saindo do reino e lixando-se em qualquer
ponto, m antinha a continuidade da nacionalidade, com os mesmos
defeitos e as mesmas virtudes.
O s índios não nos recebiam bem. Nada nos parece mais ocioso do
que discutir o processo estructural dessa colonização que assumia o aspecto
de uma invasão à mão armada, porquanto na história do mundo o homem
t nunca poude aplicar à sua evolução outro processo, que não o da lei
! biológica da selecção pela luta, prolongado até aos nossos tempos... (i).
t A ssim nos lançám os na luta para obter a colaboração do seu trabalho
na exploração da terra e só pela escravidão o conseguíam os. A sua
constituição física não era de molde a dar-nos todo o esfôrço que
precisavam os. Melhores eram os indígenas da Guiné e do C ongo que
? os nossos feitores estabelecidos nas Antilhas im portavam , exportados
i de S . Tom é, levando comtudo a marca da origem G, e, Duarte C oelho,
| um dos donatários, tratou de arranjar quem lhos fornecesse (2).
j O extraordinário desenvolvimento que o Brasil tomou logo no seu
1 início, obrigou os outros donatários a seguirem o mesmo processo de
lan gariam en to de mão de obra e, o Congo, e, sucessivam ente, o resto
|de Angola, passaram a ter como principal utilidade e rendim ento, a
ven d a de escravos, não só para a florescente colonia que tínhamos em
tão pouco tempo criado na Am érica do Sul, com o para tôdas as outras
que as outras naçóes criaram .

(1) Introdução à História da Colonisação Portuguesa do Brasil, pelo Dr. António Baião

4
(2) História da Colonisação Portuguesa do Brasil — Os primeiros donatários, pelo Dr Pe-
ro Azevedo, vol, m, fase. vm, pág. 193.
II
O R E C O N H E C IM E N T O D O ZAIRE

D iogo C ão, na sua primeira viagem em 1482, depois de ter colocado


n a ponta da margem esquerda do Zaire um dos padrões que recebeu
de D. João II, entrou pelo rio acima um pequeno espaço e, m uito em bora
com dificuldade entendesse a linguagem que o gentio falava e m ais
por acenos que por a com preender, concluiu que tinham para o interior
um rei ou chefe e vendo o modo da gente e segurança com que o espera­
vam, ordenou de enviar com alguns dêles certos dos nossos, com um
presente ao rei da terra e bem assim aos indígenas que os acom panha­
v a m , com promessas que dai a tantos dias seria sua tornada (1).
E m q u a n to esp erava o regresso dos em issários, resolveu D io go C ã o
fazer o reconhecim ento do rio, p ara o que não d eixaria de le v a r re c o ­
m en d a çõ e s de D . João11 (2), que, não conhecendo ainda a lig a çã o com
o O rie n te pelo c a b o da B o a E sp era n ça, procu rava qualquer rio n a v e ­
g á v e l p o r on d e pu d esse ter com u n icação com o P re s te João, com o
an te s o tin h a te n ta d o p elos rios d a Guiné.
Diogo Cão era navegador experimentado e conhecia como nenhum
os segredos da navegação, mas o enorme estuário do Zaire e a impe­
tuosidade da sua corrente, que se fazia sentir mais de vinte léguas
pelo mar fora, como êle nunca tinha visto em rio algum, deveria
causar-lhe o maior assombro. Para onde iam? A navegação tinha
dificuldades, não só pela fôrça da corrente, mas ainda pelas calm arias,
e podem os bem calculá-las, desde que os nossos hábeis mestres dos

3 3
(1) Da Asia de João de Barros, Dec. 1.*, liv, .°, cap. .°. È paia notai que os cronistas
modernos dizem que Diogo Cão mandou ao rei do Congo quatio dos seus homens, mas nem
Barros, nem Garcia de Resende: «por certos christãos*, nem Rui de Pina: apor mensageiros
christãos» fixam tal número.
(2) Rui de Pina: «O qual Capitam de indústria, e ordenação d'El-Rei».
3
Io Angola
caíques de hoje, raros sc a tre v e m a ir a té Boma e nenhum v v
Noqui at

Mas seguiram rio acima o. à medula que avan çavam por entre ^
num erosas ilhas, que a curiosidade os levaria a reconhecer, devem
ler
com eçado a sentir algumas milhas antes de V ivi um su ssu ro(i) de
n ão poderiam supor a causa c qnc lhes deixaria uma profunda
im­
pressão. Mas foram sempre avançando com a mats extraordingrjg
e assombrosa coragem, com aquele desprendim ento da vida q^
só os nossos possuíam e, então, perante o enorme turbilhão de ág^g
que corre apertada entre os rochedos e se despenha em sucessiVas’
quedas, tiveram de reconhecer a im possibilidade de continuarem
navegar.
Impotentes, a sua sciência e êles, e sem recursos perante a fôrÇg
indomável da natureza, quiseram deixar m arcada aquela terra para 0
seu rei e, não Tevando padrões, foram ao alto de uns rochedos qlle
surgiam entre os cachões e nêles gravaram para lodo o sempre, por
amor do seu rei, que consubstanciava a idea da sua Pátria, a cruz qUe
os guiava, tendo à direita o escudo das quinas, sem os castelos e, a
esquerda, a inscrição:'

A Q U I CH EG A RA M OS NA
V IO S DO E SC LA R E C ID O

REI DOM JO Ã O O SE
G .° DE P O R T U G A L . D .° C A A O ( 2 )
P .° A N N E S . P .° D A C O S T A

Fora dês te grupo, encontram-se gravados os nomes de: Alvaro


Peres e Pedro Escobar e, mais adiante, os de João Santiago; -{- (morto)
da doença; Gonçalo (ou João) Alvares;- ) - (mortos) Diogo Ribeiro(?);

(1) «It is a series of vehement, rushing, tumultuous, and vexed waters precipitated with
remarkable force and energy, and seemingly eager to escape out of their constricted and deep
mountain prison. While working, even eight miles away, a whiff of wind from .he southward
would bring the sound of Yelala Falls startlingly clear. The Congo and the founding of its
free state by H . Stanley . — London, 1885 , vol. i, pág. 2o3.
(2) aDiogo Cão, e não Diogo Cam, é que ele próprio íiz inscrever nos padrões e é como
dizem os documentos». .
«Cam é uma variante tôla de preconceito genealógico».
Luciano Cordeiro. Descobertas e descobridore$9 Diogo Cão . *BoI. da S. G. L.», 11.* série,
n.° 2, pág. 155 .
./

P jr te / — Zaire e Congo *9

Gonçalo (?) A lvares , A n tão, parecendo lerem $ido feilos por pessoa >
*
diferentes (i).
E, durante quatro séculos, parece que, respeitando a polmca de
segredo e a vontade dominadora do homem que foi o Homem da sua
época e o maior da nossa história, ninguém viu ou smibe ler a fhfcrtçfo
dos rochedos de Yelala!

Os emissários que Diogo Cão mandou foram muito bem recebidos


e o rei demorou-os com festas, mais que o tempo que Diogo Cão
previra, pelo que êste, receando que tivessem ficados prisioneiros e
aproveitando a confiança com que os indígenas vinham a bordo do
seu navio, resolveu apanhar quatro dêles e partir para Lisboa, prome­
tendo-lhes que dentro de quinze luas estaria de volta. •
O rei do Congo, quando o soube, mostrou aos portugueses que Diogo
Cão lá deixou o seu descontentamento, e, muito embora os cronistas
da época não lhes tivessem feito a mais leve referência, nem ao menos
registando os seus nomes, parece certo que não exerceu sôbre êles
quaisquer represálias.
Chegados os indígenas a Lisboa, D. João li tratou de mandar
colher dêles tôdas as informações, e devia ter visto confirmadas as

(i) Portugal. Dicionário histórico, bibliográfico, etc., por Esteves Pereira e Guilherme
Rodrigues. — Lisboa, 1906, vol. ir, B C., pãg. 720. Cao (Diogo). .i i
Revista O Occidente, 28.0 ano, n * 944, de 20 de Março de 1905, pág. 62,2.* col., com quatro
gravuras.
Atendendo a que são hoje raros muitos dos números da revista O Occiãcnte, e à conve­
niência de se retinirem, tanto quanto possível, os elementos de estudo que se encontram
dispersos, reproduzem-se as gravuras de O Occidente.
Como delas se vê, no corpo principal da inscrição, estio, além do nome de Diogo C ão.
apenas cs de Pedro Anes e Pedro da Costa, devendo concluir-se que os restantes não foram
gravados na mesma ocasião, porquanto um piloto da categoria de Pedro de Escobar tinha
direito a que o seu nome ficasse junto do Mestre e éle não deixaria de ocupar um dos princi­
pais cargos na expedição.
Parece, assim, que, nesta viagem, Diogo Cão foi acompanhado por Pedro Anes e Pedro da
Costa e que, em outras viagens, Álvaro Peres, Pedro de Escobar e os outros teriam ali man­
dado gravar os seus nomes.
O autor do artigo da revista O Occidente diz que esta inscrição data da segunda viagem de
1 ^
Diogo Cão, em 1484. Sendo assim, é de estranhar que Martim de Boémia, que o acompanhou
nessa segunda viagem, não tivesse também mandado gravar o seu nome e, no seu Globo, não
fizesse referência às quedas do Yelala, nem ao facto de ter chegado até àquele ponto, aventura
que não seria tao corrente que não merecesse ser citada.
Também o autor do artigo de O Ocidente, diz que a inscrição foi destruída. É falso, existe,
e o Govêrno do Congo Belga dispensa os possíveis cuidados para a sua conservação.

t y
20 Angola
suposições da cp oca, do grande lago do interior da Á frica , de onde
nasciam o N ilo e outro rio grande, que sou be en tão ser o Z a ire , bem
com » veiu ao conhecim ento da marcha m igratória dos co n g u eses, do
interior sobre a costa. Mais uma \cz o Preste J o ã o se ihe d eve ler
apresentado como uma realidade e, o Z a ire, co m o um n o v o cam inho
para se conseguir a ligação com os estados d aq u ele p rín cip e .
A os pretos, a par de lhes proporcion ar tô d as as d iv e rsõ e s e bem
estar, procurou fázer-ihes sentir o valor da nossa c iv iliz a ç ã o , das nossas
riquezas e o poder de que dispúnhamos, de form a, n ã o só a deslum ­
brá-los, como a criar néles a necessidade d as nossas re la ç õ e s. E , assim ,
com preendendo bem o efeito futuro do cum prim ento da p ro m essa do
regresso, dentro do prazo m arcado por D io g o C ã o , trato u de a p re s s a r
a segunda viagem deste nosso ousado n aveg ad o r.
A repatriação e o tratam ento dispensado aos in d ígen as p rod u ziram
o efeito previsto*por D. João II. D iogo C ã o «fo i festejado mais como
conhecido e amigo que como estranho» e, por tal form a o rei do C o n g o
ficou reconhecido á maneira com o procedem os p a ra co m os seu s, e
deslumbrado com o que êstes lhe co n taram , que p ed iu a D io g o C ão
para trazer a Portugal os seus em baixadores e, com eles, a lgu n s outros
indígenas para serem educados.
Foram êstes confiados aos padres dos Loios, em cu jo con ven to
estiveram mais de dois anos, até que «já desmentido a opinião de brutos
e se encontrando capaçes do Bautismo», e então se p ro c e d e u a essa
cerimónia sendo, D. João II e a Rainha D. Leonor o s p a d rin h o s do
mais importante deles, o « Caçuta» (Nsaku), que p assou a ch am ar-se
D. João(i), e dos outros, os m ais ilustres fidalgos d a c o rte , de quem
tom aram os nomes.
R ealizado o baptism o, tratou D. João II de reen viar os p re to s para o
C o n g o ,'p a ra o que mandou preparar uma arm ada de três n a v io s , cuja
capitania-m or confiou a G onçalo de Sousa, fid a lg o da su a c a s a e o
com ando dos outros navios a Fernão de A v e la r e A fo n so de M ou ra,
levando com o pilotos Pero de Alem quer e P ero E s c o b a r (2).

1
(1) João de Barros, Dec. i.*, . ni, cap. m, diz que se ficou chamando D. João da Silva, e
no cap. ix chama-lhe D, João de Sousa. Rui de Pina e Garcia de Resende chamam-lhe D. Joáo
da Silva.
(2) Barros, Dec. cit. No recente trabalho do sr. Quirino da Fonseca Os Portugueses no
mar vem mencionada a pág. 187 uma relação das embarcações saídas de Portugal nos anos de
1498 e 1489, da qual consta que as caravelas capitaneadas por Afonso de Moura e Fernão de
Avelar levavam cada uma 64 pessoas.
Parie 1— Zaire e Congo 2 1
Para a evangelização do gentio do Congo foram pedidos padres
a uma das três ordens: S. Francisco (i), S. Domingos ou S. João
Evangelista (Loios), afirmando o cronista de S. Domingos (2) que
«foi por Prelado, e primeiro Vigairo da Cristandade de Congo, o
«Padre Fr. João de Sancta Maria», o que é confirmado por João de
Barros (3), e afirmando igualmente o cronista dos Loios que a sua ordem
forneceu cinco dos seus padres, tendo por superior Fr. João de
Santa Maria, «religioso de grandes letras, e virtudes, e calificado talento »,
sendo os restantes: Fr. João de Portalegre, Fr. António de Lisboa,
Fr. Rodrigo de Deus, e Fr. Vicente dos Anjos, a quem chamavam
« Manicongo », pelo fervor com que empreendeu a jornada e se houve
nela (4).
Saiu a armada de Lisboa, a 17 de Dezembro de 1490, levando, com
os frades, operários de diversos ofícios, agricultores e os pretos e, além
de vários presentes para 0 rei e rainha do Congo, todcfc os paramentos,
imagens, etc., necessários para 0 serviço religioso. Na ocasião da saída
havia peste em Lisboa e, durante a viagem, alguns casos se manifesta­
ram, falecendo, quando chegavam a Cabo Verde, Gonçalo de Sousa e
o preto D. João de Sousa, além de outros.
O falecimento de Gonçalo de Sousa deu lugar a questões sôbre a
sucessão, questões que foram resolvidas por Fernão de Góis, capitão
da ilha de S. Tiago, sendo eleito capitão-mor Rui de Sousa, sobrinho
de Gonçalo de Sousa e que o acompanhava como simples particular (5 ),
depois do que seguiram viagem para 0 Zaire, onde fundearam a 29 de
Março de 1491.
Desembarcaram nas terras do soba Manisonho, tio do rei do
Congo, que os recebeu com as maiores demonstrações de alegria,
pedindo logo para ser baptisado. A 3 de Abril, dia de Páscoa, cele­
brou-se nas terras de Manisonho a primeira missa e cerimónia de
baptismo, recebendo o soba o nome de Manuel e seu filho mais novo
o de António.
Poucos dias depois, os nossos iniciaram a marcha para a Embala1

(1) Rui de Pioa e Garcia de Resende, nas crónicas que escreveram de D. João II.
3
(2) História de S. Domingos de Fr. Luís Cacegas, reformada por Fr. Luís de Sousa, ." ed.,
a.* parte, vol. ui, pág. 454.
3
( ) Barros, na Dec. citada, chama-lhe apenas Fr. João.
(4) O céu aberto na terra, pelo padre Francisco de Santa Maria, Liv. t.°, cap. svni.
5
( ) Barros, Dec. cit.
Angola
Uo r u ( i) , em A i B an ou Mbâji{2), que, por corrupção, diziam Embasse
e a que mais tarde chamámos S. Salvador.
« f a n t o que el-Rei foi avizado que o Embaixador, e Vigário cami-
« nhavão, despachou dous capitães, que os fossem receber, hum traz
« o u tr o , a meio caminho, e quando chegarão à Cidade de Ambasse, em
«que tem sua Corte, e residência, foi cousa de ver o numero infinito de
« povo, que se juntou a recebcl-os: parecia estar todo o Reino junto, e
« afíirma-sé que erão mais de cem mil homens. Sahirão postos em
«arm as a seu modo, partidos em três bandos, ou esquadrões: tocando
«infinitos instrumentos, que a não serem barbaramente dezentoados,
« arremedavão na ordem que irazião très procissões de muito concerto:
«porque marchavão a dous por fileira: e ao estrondo confuso dos ins­
tru m en to s, ajuntavão vozes em louvor do Reino, e gente de Portugal,
«começando huns, e seguindo outros: e despois respondendo todos em
«alarida, que ferfci no Ceo; Como chegarão aos nossos, tomarão-nos em
« meio, e fizeraÕ volta pera casa d’el-Rei; continuando as mesmas
« vozes e festas. Eistava el-Rei em hum estrado alto, em cadeira de
«marfim, a cabeça cuberta com hum modo de Mitra feita de folha de
«palma de obra meuda, e não desengraçada; nú da cinta pera cima,
«da cinta até aos pés cuberto com hum pano de algodão no braço
«esquerdo atochada huma manilha de latão; do hombro pendurado
«hum cabo de cavalo branco: e de muita seda, peça, e louçainha, que
« naquellas partes só aos Reis pertence; como em Europa coroa de ouro.
« N’esta postura esperou o Embaixador, e Vigairo, e recebendo-os com
«honras, e gasalhados desacostumados, ouviu alegremente a proposta,
«e recados gerais da embaixada: e logo apoz elles quiz, que à vista, e(i)

(i) Barras depois de descrever o desembarque no pôrto do Sonho, no Pinda ou em S.t0 An-
tonio, e a scena do baptismo do Manisonho, diz que Rui de Sousa tinha mandado aviso ao rei
dp .Congo, da sua chegada, e escreve: Vindo o recado delRey pera irem a elle,leixou Rui de
Sousa a gente necessária pera guarda dos nauios & cõ a outra se parlio pera a cidade onde
eVe estaua: indo em sua companhia hum capitão do príncipe D. Manuel (refere-se ao Manisonho,
que assim se ficou chamando depois do baptismo) com dujentos homems de sua guarda & outros
queseruiam de leuar à cabeça toda a fardagem, etc.
f 2) M Bari-á-ucanu, em Iingua do Congo, cfr. Luciano Cordeiro e Capelo e Ivens. Mbaji a
ekongo, Ravenstein, The slrange advenlures o f Andrew Batlell, London mdcccci, The Hakluy1
Society.
Existe na Biblioteca Nacional, Reservados, Mss. 8080, uma cópia, talvez do século xvm>
das primeiras 43 fls. de uma História do Reino do Congo, que deve ter sido escrita em fins do
século xvi, princípios do xvu (depois do governo de João Furtado de Mendonça), por um padre
que foi cura no Sundi, no Congo, e esteve também em Angola. No capítulo 19 «Em que se
conta a entrada que fè ç o capitão Rui de Sousa, na cidade de Congo«, escreveu o autor: »Che­
gados Rui de Sousa e os mais chrislãos a Pangala, que he como arrabalde da cidade«, etc.
-» -í,-...

P arle 1— Z aire e Congo 23


«olhos de toda aquella multidão lhe fosse mostrado o prezente, que
«el-Rei Dom João lhe mandava. Vinha o prezente ã conta dos Frades;
«forão elles por suas mãos dezencaixando, mostrando e entregando
« tudo. Erão muitos vestidos de sedas, e panos ricos, vários de cores
«e feitios: painéis de boa pintura: baixela de ouro, è prata, c todo o
« apparato necessário pera ornamento da Igreja e Altares, e oflicio Divino.
«Hia el-Rei notando cada peça per si; e tocando com as mãos as de
« que se agradava e perguntava meudamente de que serviço erão. Foi
«ultima cousa huma Cruz de prata fermosíssima por grandeza, e por
« feitio, lavrada em Roma, e benta solemnemente pelo Papa Innocencio
« Oitavo, e mandada de prezente a el-Rei Dom João. Chegou-se o
« Vigairo à caixa, tirou-a por sua mão, e levantando-a direita, prostra-
« rão-se por terra os Religiosos, e todos os Portuguezes, venerando com
« reverencia o sinal de nossa salvação. Inclinou-se el-Rei juntamente, e
« o mesmo se vio em todo aquelle povo sem numero, com tanta humii-
« dade e respeito, que o adoravão com as mãos levantadas, e não sem
«lagrimas dos Portuguezes, que as derramavão de alegria por verem tal
«effeito n’aquella gentilidade(i).
*
* *

Duravam ainda as festas da recepção e da entrega dos presentes,


quando o rei do Congo teve a notícia de « que os povos M undequetes,
q u e habilão certas ilhas que estão em hum grande lago donde sae o rio
Z a ir e , que corre p or este reyno de Congo , erão rebellados, & fa \iã o muito
dam no em as terras a elles comarcãas, a q compria acodir elR ey em
p>essoa»(2). Não desejava seguir sem ser baptisado, mas não havia
i§rejaj Pel° que pediu aos padres para efectuarem a cerimónia na sua12

(1) História de S . Domingos, cit.


(2) Barros, Dec. /.* da Ásia, liv. ui, cap. ix. Mundequetes é corrupção de Anziqueti, como
se verifica em Duarte Lopes na descrição do Congo, que Pigafetia publicou, e em Duarte Pa­
checo Pereira, no Esmeraldo de Situ Orbis, ed. cit., pág. 134: « item. Adiante d’esta terra de
Conguo á parte do nordeste he sabida outra prouinçia, a que chamam Anjica e ko senhor há
nome aguora em nossos dias Emcuquaan^ico. Estes sam negros como os de Conguo e sam fe r ­
rados na testa ou fronte em rroda, maneira de caracol; e as mais das vejes teem guerra com
Manicongo, .. etc.».— Garcia de Resende, Cr. de D. João II, cit. escreveu: . . .seus vassalos que
lhe desobedeciam em umas ilhas situadas no rio do Padrão». — O autor da História do Reino do
Congo, referida, no capítulo 22, escreveu: «acabado isto se partio el-Rey para a guerra, a qual
posto que Garcia de Resende, e Pedro de Marij digão nos seus Diálogos, que fo i fa^er a algu­
mas Ilhas do Zaire, cujos estavão rebellados, não foi se não contra Zemga e Mafmga, como eu o
ouvi difer a Moxicongos velhos, que o ouvirão a seus Pais, e estes aos seus, porque posto que não

.s ' .
24 Angola
habitação, ao que êles anuiram, aproveitando a ocasião para iniciarem
a construção da primeira igreja(i), o que tudo teve lugar no dia 3 de
Vtaio de 1491, recebendo o rei o nome de D. João e baptisando-se com
éle outros sobas importantes que o acompanhariam na guerra.
Na embala faltavam alguns materiais para a construção da igreja,
mas o rei do Congo, tão empenhado estava nela, que pôs milhares de
carregadores a transportarem pedra e madeira e, por tal forma corre­
ram os trabalhos, que os nossos operários a 1 de Julho de 1491 a tinham
concluída.
O clima do Congo começou a fazer-se sentir nos nossos. Padre
João faleceu, e os outros padres estavam também doentes. O baptismo
da rainha tinha ficado combinado para o regresso do rei, mas era tal
o seu fervor, que com receio de que durante esse tempo os padres
podessem falecer, pediu para ser baptisada antes da partida dq rei, ao
que todos anuíram, realizando-se a cerimónia e recebendo o nome de
Leonor.
Seguiu, então, o rei para a guerra, sendo acompanhado por alguns
dos nossos e, como êle e parte dos seus já eram cristãos, Rui de Sousa
confiou-lhe um estandarté com uma cruz que D. João II lhe mandara
e que tinha sido oferecido pelo Papa Inocêncio VIII para a Santa
Cruzada.
O rei subjugou os rebeldes, que, dizem os cronistas, exagerando,
eram mais de oitocentos mil e regressou satisfeito, atribuindo a v i t ó r i a
ao auxílio de Deus, depois do que «tornando à cidade espedio-se R u i
de Sousa pera este reyno, leixandolhe pera a conuersão dos pouos f r e y
«Antonio, que era a segunda pessoa depois de fr e y João , e outros quatro
«fr a d e s : & assi algüs homerns leigos p era os acompanharem, & outros pera
«entrarem o sertão da terra com algüs naturaes, como e lR e y dom João
ffmandaua p era descobrir 0 interior d ’aquelle grão reyno, & passarem
ff alem do grão lago que dissemos » (2).

tem Historia por escripto sabem as que bastão de todos os reis passados, porque ainda que no
Zaire estejão duas Ilhas povoadas chamadas Ango-biba de cima, e Ango-biba de baixo, nunca os
senhores delias forão sujeitos, nem aos reis do Congo, nem aos reis Ansiecos. ..
(1) Hence this, the oldest church o f S . Salvador, became known as E g reja da Vera C n i-
e tc ... Ravenstein, cit. nota (4) a pig. tog. Também o autor anónimo da História do Reino do
Congo, referida, dedica um capítulo a este assunto. Anexos doc. n.° I.
(2) Barros. Dec. cit., e Garcia de Resende. Crônica de D . João II, cap. clxi .
Parte I — Zaire e Congo z5

A coragem e o valor mostrados pelos nossos nesta missão ao Congo,


não mereceram referências Iaudatórias dos cronistas.
A recepção feita era Lisboa ao Caçuta, não teve comparação com a
dispensada, poucos anos antes, a Bemohim, rei dos Jalofos, e, coratudo,
não pode restar dúvida de que D. João II, ao tomar conhecimento por
Diogo Cão e pelos negros que este trouxe, da origem dos congueses e do
que êles relatavam do interior da África, mediu bem o valor das novas
relações que adquiria. Ou porque, na realidade, pensasse na penetração,
da África, subindo o Zaire, ou porque quizesse fingir que o pensava,
para assim mostrar que de nenhum resultado prálicg tinham sido as
viagens dos seus colaboradores Diogo Cão e Bartolomeu Dias, que lhe
deram a chave da índia, o certo é que a justificação de tantos anos
de demora no Zaire, a guardou êle para si.
Para os cronistas que mais tarde relataram os nossos feitos mas
não estudaram a história dos Descobrimentos, a Guiné inferior, em que
incluíram o Congo, não foi para êles senão uma ètape do descobrimento
do caminho marítimo para a índia e, atingido êste fim, tão grandioso
êle foi, por tal forma os deslumbrou, que a nossa vida de três quartos
de século, gasta com uma persistência e um valor nunca igualados, ao
serviço duma idea e na execução dum plano, foi por êles esquecida,
para só se desvanecerem perante as riquezas que pela barra do Tejo
entravam em Lisboa, conquistadas ainda pelo valor da nossa raça,
mas agora excitado pela avidez da fortuna.
Para Seuta, para Tânger, para Alcácer, para Arzila e para a índia,
iam as naus e as caravelas artilhadas, transportando aguerridas tropas
de desembarque, que os nossos fidalgos comandavam, procurando dis­
tinguirem-se pelos seus feitos, a fim-de merecerem ser armados cava­
leiros ou obterem maior participação nas presas. Para a Guiné, que
nos deu o ouro com que mandámos fazer e artilhámos as naus da índia;
que nos deu o resgate, pelo qual nos foi possível mandar para o Brasil
os pretos com que trabalhámos as suas minas e as suas terras; para
essa e para os feitos heróicos que lá praticámos, o silêncio, só quebrado
por Azurara na parte que êle ainda conheceu.
A armada de Rui de Sousa era de três navios, mas não transpor­
tavam soldados para conquistas, e êle, ao partir, já sabia que os não
4
20 Angola

ia encher de ouro, sedas e especiarias. Levava os obreiros, padres


operários, duma civilização que fomos implantar, e cujo fruto se n“ C
colheria logo. a°
Os pretos que tinham sido educados nos Loios já nos tinham de§
crilo a pobreza da terra e os seus usos e costumes, (i) pelo que já <je
ante~mão se sabia que o rei não receberia os nossos de cabaia de
demasco, turbante guarnecido de ouro e pedrarias e recostado em
camilha
<t ...............................que se não iguala
De outra alguma no preço e no lavor».

Em vez de coroa real ou turbante de panos de ouro, o rei do Congo


tinha a cabeça coberta com hum m odo d e m itra feita de fôlha de pal­
meira, que não podendo ser rica, era apenas engraçada; em vez de
cabaia de sêda «fulgurante, «os vestidos da cinta p a ra cim a, erão os
« couros da sua carne m ui pretos & luzidos, & per b a ix o se cobria com um
de ostentação de luxo,
«pano de dam asco que lhe dera D io g o Cão-»; e,
apenas a cadeira de dentes de marfim com pés de madeira lavrada,
obra tôsca, talvez de algum daqueles dos nossos que por lá tinha ficado,
ignorado merceneiro e, nas horas vagas, mestre de cerimónias, que
não pequeno trabalho deve ter tido em o convencer ao uso da cadeira,
em vez de nos receber de cócoras.
■ Se a parte da sua missão que poderia ter sido espetaculosa, foi
assim revestida da maior modéstia, se não mesmo pob reza; se os seus
navios não nos trouxeram logo ouro; se não tiveram para serem
recebidos, de pelejar com os negros, nem por isso deixaram de m ostrar
aquele valor tantas vezes provado.
A recepção por mais de cem mil pretos, no seu batuque de guerra,
deve ter causado no espírito dos nossos, uma destas sensações que não
__ i---- --------
(i) Garcia de Resende na Miscelânea descrevia-os assim:

E começo em Guiné Tem elefantes pasmosos


e Manicongo, por ter cobras de grande grandura,
costume de se comer lagartos mui espantosos,
uns a outros, como é gatos d'Algalia cheirosos,
mui notório se fazer; arvores de grande altura,
compram homens como gados, arroz, inhames, palmeiras,
escolhidos, bem creados, gatos de muitas maneiras
e matam-os regateiras, e papagaios de sortes,
e cozidos em caldeiras cavallos marinhos fortes,
os comem, também assados. que andam fora das ribeiras
mais se apagam e, c necessário que fôsse muito grande o valor e pres­
tígio da nossa raça; que cada um daqueles dos nossos que lá estavam
o sentisse por st próprio, como fôrça nascida de si, para que, perante
uma multidão de negros, ágeis e possantes, armados, aos saltos, com
esgares de símios, dando grilos selvagens «que feria o Ceo», não
passasse pelo seu espírito a mais leve sombra de fraqueza e, nem a
suspeita de que aquele bom acolhimento poderia encobrir uma cilada
dos negros, que fàcilmente teriam abafado o punhada dos nossos,
cansados duma marcha a pé, do Pinda a S. Salvador, debaixo do
ardente sol de Abril do Congo e na maioria, já apalpados pelo clima.
Na scena da entrega do presente de D. João If, com explicações
demoradas sôbre o uso dc cada peça, quando por fim Fr. João, o
vigário, doente, em vesperas dc falecer (i), com o corpo escaldando
em febre e que estava ali, porque a alma o mantinha, toma nas suas
mãos aquela cruz de prata lavrada e, místico e sublim#, cheio de unção,
a levanta vagarosa e solene acima dos milhares de cabeças, os nossos
ajoelharam, recordando numa lágrima de terna saudade a pátria tão
distante, e o rei preto e a multidão dos seus, instintivamente ajoelham
também, dominados e subjugados por uma fôrça sobrenatural que dos
nossos vinha, sem que êlcs vissem ou percebessem como, porque era a
íntima ligação do prestígio e valor da nossa raça com a cruz, que nos
guiou por essas conquistas e descobrimentos, desde o Bojador ao Zaire.

*
* *

Não se conhece o regimento que D. João II deve ter dado a Gonçalo


de Sousa, nem o que os frades também devem ter levado, como Garcia
de Rezende nos diz: « E da maneira que se havia de ter com fazerem o
«rei christão, e os do seu reino, teve sobre isso conselho, e do que se deter-
«minou com theologos levaram os frades mui clara instrucção » (2).
D. João II não os foi buscar aos conventos, só com o fim da pre­
gação do Evangelho: «as memórias da nossa Ordem , di{em, que el-R ei
« escolheo n’ella sujeitos, que alem das sagradas letras, erão entendidos
« nas Mathematicas, pera que nas horas, que lhes vagassem da prégação,

(1) Fr. João faleceu dois dias depois.


(a) Garcia de Resende, Crónica de D. João 11, Rui de Pina, Crónica de D. João II, Inéditos
5
da História Portuguesa, n vol., pág. 1 1, que acrescenta «que foi aos ditos Frades entregue».
28 A n gola

*fossem inquirindo alguma noticia da índia polo sertão d’aquella,s


« vindas, e do grande rei do Abexim, que o vulgo chamava
« João » . . . ( i) . reste
A confirmar esta informação, também Barros nos diz (2) que .
Sousa, além dos frades e leigos, deixou outros, para que procurasse *
internar-se pelo sertão com alguns naturais, como D. João II determi
nara, para descobrirem 0 interior e passarem além do grande Lag0 y
assim se justifica que tendo em vista, não só estes descobrimentos, mas
ainda outros e, princtpalmente o estudo da navegabilidade do Zaire,
mandasse como pilotos, nos navios da armada de Rui de Sousa, os
dois grandes navegadores portugueses, glória da nossa marinha, Pedro
de Alenquer e Pedro de Escobar, o que não faria se a armada se
destinasse apenas a cumprimentar o rei do Congo e conduzir gente
nossa para ali residir e negociar, facto corrente e que não demandava
a pericia daquela dois mestres.
T ão claramente era este um dos objectivos de Rui de Sousa, que
vemo-lo, ao saber da revolta dos An\icos, informar-se da situação destes,
em relação a Embasse, onde estava, e ao porto em que desembarcara,
e, diligentemente oferecer, ao rei do Congo os seus serviços e os da sua
gente, combinando um ataque do rei do Congo, com os seus indígenas
e alguns portugueses, aos Angicos, por terra, ao passo que êle os iria
atacar, com o resto dos nossos, nos seus navios, pelo Zaire, que subiria.
A idea seduziu o preto, que a aceitou, e Rui de Sousa «se despediu d'elle
« e fo i dar ordem ao porto com os navios e gentes d'elles o v i e s s e m sei vir
« como vieram » (3).

(1) História de S. Domingos, cit., vol. ui, 2.J parte, livro vi, cap. vi.
(2) Barros, referência anterior.
3( ) Garcia de Resende, Crónica de D. João II, cit.
O sr. Quirino da Fonseca, no seu recente trabalho Os Portugueses no mar, escreve a
3
pág. i i : Entrando no Rio Zaire, foram os nossos amigavelmente recebidos pelo negro potentado
dessas regiões do litoral, mas pretendiam êles, sobretudo, avistar-se com o poderoso soberano
indígena do vasto Reino do Congo, e que residia no sertão. Eis pois, os navios de Rui de Sousa,
subindo todo o curso navegavel mas dificultoso do Rio, até junto das cataratas de Yelala,
distando bem go milhas da fo\ e ali fundeiam para estacionar; depois, os marinheiros portugue­
ses, tornados exploradores sertanejos, marcham durante 23 dias, por terra virgem de caminhantes
5
europeus, internando-se cerca de o léguas, até alcançarem o local onde habitava o magnifico
Rei do Congo.
Como se vê das transcrições feitas de Barros e Resende, esta versão não tem fundamento
Rui de Sousa fundeou os seus navios no Pinda e, deixando apenas a gente necessária para a
sua guarda, foi com a restante e acompanhado de Manisonho e da gente deste, até Embasse
donde, depois de combinar o ataque aos Anpcos, voltou ao porto para dar ordem aos navios é
gente deles, para irem servir o rei do Congo. Esta ordem aos navios c gente dèles não podia
Parte I — Zaire e Congo *9

Dizem os cronistas que os Angicos habitavam umas ilhas do Zaire,


não as mencionando. Pelo grande número dêles que tomaram parte
na rebelião, vê-se que não podiam habitar só as ilhas e deveríam
também estender-se pela margem direita do Zaire para o interior (t) e,
assim, Rui de Sousa, a pretexto de os castigar, foi subindo o rio e
batendo tôda a margem por éles ocupada, procurando talvez um outro
braço do Zaire sem o obstáculo do Yelala, obstáculo invencível e que,
ainda assim mais tarde, depois de um reconhecimento do rio, procurá­
mos remover, como veremos, pela única maneira que é possível ainda
hoje, pondo um outro barco além das cataratas, para continuar a
viagem.
Se a viagem dos navios de Diogo Cão em 1482 subindo o Zaire, a
par de nos patentear 0 profundo conhecimento que os nossos pilotos
tinham da sciência da navegação, nos causa a maior das admirações,
não menos nos assombra a intrepidez e 0 valor de Ruí*de Sousa e dos
seus companheiros, na continuação do mesmo reconhecimento no meio 4
,

de gentio rebelde que nos atacava.


Rui de Sousa colheu dos Anzicos informações detlhadas sôbre o i _■
que era o rio para além das cataratas, a sua extensão e origem no ]t /
9
Grande Lago, os habitantes dêste e os seus costumes, depois do que, ..-j
desembarcando e mandando as caravelas regressarem ao pôrto, acom­
panhou por terra o rei do Congo, com os seus guerreiros vitoriosos, até
Ambasse, onde, combinando com Fr. António e Fr. Rodrigo o plano a *
seguir, para o completo reconhecimento do interior, se despediu do rei, f ' / ’■ ■
regressando a Portugal em 1492.

■*
# *
is
1

Na ocasião em que foram baptisados 0 rei e outros fidalgos do


Congo, foi também baptisado Mbemba a N{inga, o filho mais velho do
rei, herdeiro do trono e donatário do Sundi, a província mais oriental
do reino, tomando 0 nome de Afonso. Um outro irmão, o imediato,

ser senão para subirem o rio, como devem ter subido, batendo os Anjicos, mas não se conclui
daqui que chegassem ao Yelala e ali estacionassem. O facto de entre os nomes gravados se i
encontrar o de Pedro Escobar, piloto de Rui de Sousa, também nos não obriga a concluir que
K- os navios dêste lá estivessem, porque teria também mandado gravar o seu nome, o dos capitães
%
S-- •dos navios e o do outro piloto, Pedro de Alenquer.
(1) Pigafeta.
,)0 Angola

Pattsa Aquitino(i)j não quis ser cristão, como também não quiser
ser baptisados alguns outros pretos importantes, muito embora ^
pequeno número, mas o suficiente para, chefiados por êle, constituirá
o núdeo de resistência e, no futuro, de revolta, contra a acção eva!^
gelizadora dos frades.
Além deste esbôço de resistência, um outro, e bem mais importante
se apresentava. O rei preto tinha, conforme o costume, várias mulheres
e só uma foi baptisada e reconhecida como rainha, o que provocou
o natural ciúme e inveja de parte das outras, que, passadas as festas e
recolhido o rei da guerra a que tinha ido, começaram intrigando e
excitando a resistência dos não-cristãos à supremacia que iam tomando
a rainha Leonor e o filho Afonso.
Por outro lado o rei, a-pesar-das exortações dos frades, não se
conformava com o ter de viver só com uma preta. Tantas vezes caiu
em pecado e, tantas os frades o obrigaram a penitências para o
absolverem, que êle, velho relapso e sem emenda, se começou a afastar
do convívio dos padres e a implicar com o filho Afonso.
Ou porque o gentio da província do Sundi, se revoltasse, ou
porque o pai o expulsasse, D. Afonso foi para lá viver, sendo acompa­
nhado por dois frades, Fr. António e Fr. Rodrigo, que assim conseguiam
dois dos fins da sua missão: não deixarem ò herdeiro do reino fora da
sua constante acção e reconhecerem o interior, como lhe fôra determi­
nado por D. João II.
Com a ausência do herdeiro D. Afonso redobraram as intrigas, a
ponto de convencerem o pai que êle, apesar-de distante, voava de noite
e vinha dormir com uma das suas pretas. O velho rei, furioso com a
ofensa do filho, resolveu usar dum feitiço para descobrir a verdade e,
tendo-se convencido de que a acusação era falsa, mandou-o vir a
Ambasse e reconciliou-se com êle.
Regressou D. Afonso ao Sundi e, animado pelas boas relações em
que ficara com o pai, começou a perseguir os seus súbditos que tivessem
ídolos em casa e não acatassem a religião cristã. Novas queixas e
intrigas contra êle, mas desta vez o pai resolveu matá-lo, bem como a
outro preto D. Gonçalo, seu adepto, e mandou-os vir à sua presença
ao que êles não obedeceram, passando a viverem a monte.
Entretanto o pai adoece, fazendo prever que breve faleceria e a
preta rainha I). Leonor, que sempre se manteve boa cristã e ajudando

(i) Mpanzu a kxtima.


Parte I— Zaire e Congo 3t
o filho, a visav a-o para que estivesse preparado p ara, dum momento
p a ra o outro, aparecer em Am basse e tom ar conta do reino, pelo que
êle se aproxim ou um pouco mais, e recebida a noticia do falecim ento do
p a i, introduziu-se de noite na embala, com alguns dos seus hom ens
d isfarçad os em carregadores, conduzindo quindas à cab eça dizendo
serem m antim entos para a rainha. E n con traram to do s indispostos
co n tra êles «e nos nam tynhamos outra ajuda senam noso senhor e o
« Rodrygue anues e amtonio ffernamdes » (t).
O irm ão P a n sa A qu itin o estav a fora d a e m b a la , e ao receber de
m a n h ã a n otícia , resolveu atacá-lo com a p o u c a gente qu e tinha
c o n s ig o ; m as os de D . Afonso «alli bradámos por nosso Senhor Jesu
« Christo e começamos a pelejar com os nossos contrários, e dizendo os
« nossos X X X V I homens, inspirados da graça e ajuda de Deos, já fogem,
« ja fogem, os nossos contrários se poçeram em desbarato, e fo i por elles
« testemunhado que viram no ar huma Critç branca e 8 bemavenlurado
« Apostolo Sant’ lago com muitos de cavallo armados e vestidos de vestiduras
« brancas pellejar, a matar nelles e foi tam grande o desbarato, e mortan-
« dade, que foi cousa de grande maravilha » (2).
Assim conseguiu D. Afonso do Congo apoderar-se do seu trono
e, como se vê, se tinha bem arreigada a fé cristã, os frades não se
lim itaram a ensinar-lhe o catecismo e deram-lhe também as primeiras
luzes duma educação, que, para a época e para preto, era alguma
cousa de valor, ensinando-lhe história de Portugal, cujos conhecimentos
êle aproveitou, fazendo reeditar alguns factos na do seu reinado.

(t) História do Congo, do V isconde de Paiva Manso. C a n a de D. Afonso rei do Congo a


e l-re i D. Manuel, 5 de O utubro, i 5 14, p ig . >3 , doc. xu.
(2) História do Congo, cit., pàg. 6. D oc. ix.
A OCUPAÇÃO DO CONGO

Desde o regresso a Porlugal da armada de Rui de Sousa, ate o


preto D. Afonso tomar conta do reino, devem ter decorrido cerca de
quinze anos(i) e nada nos ficou escrito sôbre o que fizeram os nossos
no Congo durante êsse espaço de tempo.
Dos poucos documentos que se encontram e das referências dalguns
dos cronistas, conclui-se que com Rui de Sousa devem ter vindo
em 1491 mais pretos do Congo para serem educados em Portugal e,
nessa ocasião, ou pouco depois, o preto D. Pedro, que mais tarde
desempenhou um papel de destaque nas nossas relações com aquele
reino.
Depois de Dezembro de 1493, êste D. Pedro deve ter voltado ao
Congo, com outros pretos, em companhia de João Soares, levando de
presente ao rei, pelo menos roupa para vestir (2) e para êle D. Pedro e
para a mulher, que, pelo que parece, o acompanhou, mandou D. João II
dar-lhes: para êle capa, pelote e calças de « londres R oxo ou pano da
sua valia » e, para ela, « huum sainho faldritha e mantilha do dito pano »
vestimenta que não destribuiu a mais nenhum dos outros, o que nos
mostra que tinha 0 D. Pedro em consideração especial.
Não deveria ter sido só esta viagem de João Soares a que fizemos

(1) Nenhum cronista da época nos indica a data certa, mas pela carta que D. Afonso es­
creveu a D. Manuel descrevendo vários sucessos do seu reinado, pode deduzir-se que foi em fins
55 56
de i o , princípios de i o . Lopes de Lima numa memória sôbre o Gongo, que publicou nos
5
Anais Marítimos e Coloniais, diz que o velho Manicongo faleceu em 1 og e o filho D. Afonso
58
lhe sucedeu nessa data. Esta informação é errada, porque em i o , quando foram para o Congo
os frades dos Lóios, já 0 D. Afonso era rei, pelo menos havia dois anos. Capelo e Ivens
D e Angola à Contra Costa e outros escritores que do Congo se têm ocupado, cometeram o
mesmo êrro.
(2) História do Congo de Paiva Manso, cit. a pág. 2 8 4 . Doc. números m-rv-v e vi.
34 A n g o la

ao Congo, d e p o is de 1490 ; o u tr a s se devem te r s e g u id o


D . J o ã o II n ã o d e ix a r ia d e m a n te r c o m ê le s c o n s ta n t e co n ta cto * , f 0lS
te r a s in fo r m a ç õ e s q u e d e s e ja v a e q u e g u a r d o u s o b o m a io r se g re d o *
r e s e r v a , a p o n to de n em um d o c u m m e n to te r fic a d o q u e n o s d ê a m enor
in d ic a ç ã o s ô b r e 0 q u e d e v e ter sid o de lu ta s , d e h e r o ís m o s e d e d e d i.
c a ç õ e s , a v i d a d o s n o sso s q u e p a r a o C o n g o fo r a m .
A lé m d a n a v e g a ç ã o d o Z a ir e , as s u a s m a r g e n s e to d o 0 in te rio r do
C o n g o , (1) fo ra m c o n h e c id o s e e x p lo r a d o s p e lo s n o s s o s . C o n h e c ía m o s
a s s u a s d iv is õ e s a d m in is tra tiv a s e os p o v o s q u e o h a b it a v a m , e fai
a in d a c o m a a ju d a d o s n o sso s, q u e o rei d o C o n g o in c lu iu n o seu
r e in o o s pan\elungos e o s angicos.

S e do C o n g o n ão nos fica ra m n o tíc ia s , ta m b é m a s q u e te m o s de


S . T o m é , cuja v id a e s ta v a in tim am en te lig a d a à d o C o n g o , se lim itam
a o re g isto d as re g a lia s aos seu s p o v o a d o r e s , p r e v ilé g io s p a r a o r e s g a te e
d o a ç õ e s , q u e, p elo p o u c o tem p o qn e os d o n a tá r io s as u su fru ía m , se
c o n c lu i n ã o terem tir a d o n ela s g ra n d e p r o v e ito (2).
Só com Álvaro Caminha, tendo já estabelecido relações com 0
Congo e depois de se terem aproveitado os filhos, rapazes e r a p a r i g a s ,
de alguns judeus expulsos de Castela, é que S. Tom é entra em desen­
volvimento, mas ainda, para isso, se concederam novas regalias aos
colonos, a par de mais largas prorogativas de jurisdicção a Álvaro
Caminha (3).
Uma dessas regalias, a dos moradores poderem ir com navios seus
ao resgate, deu lugar, certamente, a que fossem mais freqüentemente
ao Zaire, donde trouxeram escravos, já cristãos e, onde os carrega-

(x) Os vestígios da nossa estada no Sunde estão constatados no relatório da viagem ao


Zombo pelo saudoso padre António Barroso, publicado no Boi. da S . G . L 6." série, n.® 8.
(2) Arquivo Nacional da T ô rre do Tom bo. L ivro das Ilhas: regalias, 24 set.® 1485, fl. ICK}t
previlegios, 16 dez.® 1485, fl. 109 v , ; doação a João de Paiva, 11 jan.® 1486, fl. u g v . ; a Mecia
de Paiva, 14 Março *486, fl. u i v . ; a João Pereira, 4 fev.® 1490, fl. toi ; a Á lvaro Caminha, 29
julho 1493, fl. 104.
3( ) Idem, idem. Seguro aos degredados, 2 nov. 493, fl. 20 v . ; doação da alcaidaria mór
a Aivaro Caminha, 20 nov. 493, fl. «07 v.; mais prorogativas de jurisdição cível e crime, e liber­
dade aos moradores para poderem ir com navios resgatar, 21 nov. 493, fl. 106; mais proroga­
tivas de jurisdição, 8 dez. 493, fl. 106; licença para os moradores resgatarem pimenta e o preço
5
p o r que lhes seria dada, ti dez. 493, fl. jo v.
Parte I — Zaire e Congo 35
mentos eram mais fáceis e a mercadoria mais barata, tanto mais que
não havia feitor que vigiasse o negócio (i).
Os capitães dos navios que faziam o negócio da Mina e de S. Tome,
passaram a ir negociar, por conta própria ou fretados pelos moradores
desta ilha e da de S. Tiago de Cabo Verde, ao Pinda, não princi-
palmentc em escravos, porque poucos, de começo, se obtinham, mas em
marfim, algum cobre c panos de palma (2), em troca de generos para
alimentação dos poucos europeus, então ali estabelecidos, e bebidas
alcoólicas, tapeçarias, contaria de vidro, vidraria, louça de barro preto
azulado, bacias de cobre, cutelaria, panos de fustão e linho e conchas
pequenas, brancas, que corriam como dinheiro e eram apanhadas em
Cabo Verde e na Guiné, muito embora pela lei dc 24 de Julho de
1480(3) constituísse o seu negócio previlégio de D. João II.
Quando D. João 11 faleceu, em 1495, era êsle o estado de relações
entre o Congo e S. Tomé e, por sua morte, tendei D. Manuel logo
começado a executar o plano que encontrou estudado, do descobrimento
do caminho marítimo para a índia, não poude dedicar a sua atenção
aos negócios da África, mas as duas colónias intensificaram, mais ainda,
as suas relações.
Em 1499 faleceu Álvaro Caminha e em 1 5oo S. Tomé foi doada a
Fernão de Melo. O seu desenvolvimento, à custa do Congo, foi tal
e tão rápido, que em 1504 eram arrematados por João da Fonseca
e António Carneiro (4) as rendas dos seus quartos e vintenas e di{imos
da terra pela importância anual de trezentos mil reaes (5) com a obri­
gação para os arrematantes, de darem mais catorze mil reaes para o
bispo (6).

$3
(1) Lopes de Lima, numa notícia sobre o Descobrimento eposse do Reino do Congo, etc.,
5 3
que publicou nos Anais Marítimos ô Coloniais, .®série, iSqi, n.° . Parte não oficial pág. diz
que em seguida à missão de 1490, D. João II mandou estabelecer uma fortaleza, com seu feitor
e alcaide e gente de ordenança na foz do Zaire (pág. 96). Não se encontra documento algum
que confirme esta informação.
(2) Esmeraldo de Siíu Orbis « ... de pello como veludo, e ddles com lauores como çatim
velutado. . . ; e em toda ha outra Guinee nam ha terra em que saybam fa%er estes panos senan
neste Reyno de C on g tto ..» Estes panos correram, mais tarde, como moeda de Angola,
3
( ) Arquivo Nacional da T orre do Tombo. Livro n dos Reis, fl. 18S v.
(4) António Carneiro era secretário de Estado e obteve a doação da Ilha do Príncipe.
João da Fonseca seria, possivelmente, seu sócio e administrador em África; Arquivo Nacional
5 5 3
da Torre do Tombo, gav. i , maço i , doc. i e maço 14, doc. 43. Vide Anexos doc. n.°“_2 e . 3
5
( ) Atribuindo ao rea! branco o valor actual de esc. #72 (6). Lúcio de Azevedo, Épocas
de Portugal Econômicoy Apêndice, nota E, pág. 483, aquela renda corresponde a esc. 2v?.$oo%>oo.
(6) Muito embora ainda não houvesse bispo em S, Tom é, o auto de arrematação consigna
a obrigação do pagamento daquela importância para êsse fim. Cunha Matos na Geografia
.36 Angola
Esta intensificação de vida comercial não resultava sòmentc
acção dos capitães dos navios e em proveito dêstes e dos moradores
S. Tomé. Alguns mercadores nossos estariam estabelecidos no Zair^
com relações no interior, de forma a poderem arranjar o carregamentQ
dos navios e, embora não haja documentos que se refiram a êste facto
podemos, com segurança, deduzi-lo do desenvolvimento que tomou
sucessivamente, a evangelização dos indígenas (i), pois a ocupaç§0
religiosa não se faria sem a ocupação comercial, além de que comer­
ciantes eram, na sua quási totalidade, os próprios frades e padres.

*
• *

O cronista da ordem de S. João Evangelista (S. Eíoi) conta-nos


que em 15o8 foPmandada para Manicongo uma grande missão de treze
clérigos: fr. João de Santa Maria, fr. Rodrigo de Deus e fr. Vicente
de Manicongo q u e j á lá tinham estado e mais, fr. Aleixo de Vizeu;
fr. Luís de S. Miguel; fr. João de S. Estevão; fr. Simão de Montemór;
fr. João de S. Vicente o Moço; fr. António de Cristo; fr. Pedro dos
Santos; fr. Fernando de S. João; fr. Sebastião do Salvador e fr. An­
tónio de S. Jerónimo, etc. (2) o que, em parte, é confirmado por Damiao
de Góis, quando nos diz que D. Manuel, em i 5o8, no fim do ano>
« m andou João de Santa M a ria , da ordem do A postolo e E v o n g ^ ls^a
S . João, que se chamam dos a\ues, com do{e padres da m esm a ordem ao
reino do M anicongo » ( 3 ).
Cada um dos cronistas das três ordens religiosas procura revindicar
para a sua ordem, a glória de ter fornecido os primeiros missionários
para o Congo e, também, cada um deles afirma, ter ido por vigário
Fr. João, que assim ficou pertencendo às três ordens.
Embora o Padre Francisco de Santa Maria (4) fundando-se no facto
de terem estado a educar no seu convento (Lóios) os pretos vindos do
Congo com Diogo Cão, queira concluir que deveriam ser da sua ordem

54
Histórica das ilhas de S. Tomé, etc. diz: «Em / o já se achava erigida uma freguesia nesta
ilha com o titulo de Nossa Senhora da Graça, a que também chamavam de Ave-Maria e tinha
um vigário pago pela fazenda real».
(1) Damião de Góis, Crónica de D. Manuel p.» i.» cap. 76, diz que em 1504 D. Manuel man­
dou para o Congo homens letrados na Sacra Teologia e com eles mestres de lêr e escrever etc
(2) O Céu aberto na terra, já citado. ’
3
( ) Damião de Góis, Crónica de D. Manuel, 2.* parte, cap. xxx,
(4) O Céu aberto na terra, já referido.
Parte I — Zaire e Congo ò7
os padres que depois acompanharam êsses pretos em 1490, 0 certo é
que tudo nos Índica não ter sido a ordem dos Lóios quem forneceu os
padres dessa primeira missão, mas ames, talvez, a de S. Domingos,
conforme Barros e o cronista da ordem, Fr. Luís de Sousa, nos deixaram
indicado (1).
A segunda missão de i 5 o 8 , só o cronista dos Lóios a revindica
para os seus, mas como já tinha dado por vigário da primeira o fr. João,
comum das três, viu-se na necessidade de declarar que era a segunda
vê2 que êle ia ao Congo, quando o que parece certo, é que o fr. João
da primeira missão faleceu pouco depois de lá chegar, segundo nos
deixou escrito João de Barros, o mais autorisado dos nossos cronistas,
não podendo, portanto, ter feito parte da segunda.
O preto D. Afonso que mais tarde foi rei do Congo, recebeu
dos frades da missão de 1490 uma educação regular, tendo, pelo
menos por dois, Rodrigues Annes e António Fernaitdes, grande es­
tima e veneração, e não se pode admitir que na carta narrando a
D. Manuel vários sucessos do seu reinado(2), ao referir-se a fr. João
de Santa Maria, se este fôsse 0 mesmo da primeira missão, não mos­
trasse conhece-lo já de tempos anteriores, tanto mais que o procedimento
dêste clérigo, em i 5 o 8 , em comparação com o que se lhe atribui em
1491, deixa muito a desejar.
Nessa mesma carta, ao referir-se à chegada da missão de i 5 o8 ,
escreve: « e em tam dãly a pouco tempo chegaram os padres de Santa
« loya, que nos sua Allte\a mandam •>. Se tivesse sido educado pelos
frades de S. Elói, não é crível, dada a educação recebida, que
ignorasse o nome e o sexo do santo da invocação do convento dos
seus mestres. Assentemos, pois, como o mais verosímil, que os padres
da primeira missão deviam ser da ordem de S. Domingos e os da segunda
da ordem de S. João Evangelista (Lóios).
Um outro ponto em que os cronistas não concordam, é no destino
que tiveram os frades das diversas missões, inclinando-se a que deram
a vida em sacrifício da propagação da Fé.
Garcia de Resende e fr. Luís de Sousa, dizem-nos que os da missão
de 1490 faleceram todos no Congo. Fr. Francisco de Santa Maria
diz-nos que faleceram fr. João de Portalegre e fr. António de Lisboa,

3
(1) Ravenstein, ob. cit., pág. 108 nota ( ) inclina-se para a informação de Garcia de Resende
de que eram da ordem de S. Francisco.
(2) História do Congo, cit. doc. xn, já referido.
40 Angola
vantagens que para Portugal adviriam duma política de atrac -
resolveu enviar para o Congo, em 15 3
1 , Simão da Silveira, dand^0*
um regim ento (i) onde o seu plano está claramente exposto/ ° ^
Depois das instruções comuns a todos os regim entos sôbre as ree
que deveriam ser observadas pelos diversos navios da armada, quan^
a navegação, mantimentos, etc., entra em detalhes sôbre o desembarq^
e a marcha para o local onde o rei estiver, recomendando se faça
melhor ordem, não consentindo aos nossos tratarem mal a gente ^
terra, para nos receberem com prazer.
Em seguida, passa às audiências, estabelecendo a sua ordem e 0s
assuntos a tratar: a entrega de cartas(2) e as encomendas e saudaçõeSi
explicando ao rei do Congo que só assim costuma proceder par^
com príncipes cristãos, pois a infiéis não manda saudar. Depoi^
no dia seguinte, faria a entrega dos presentes, dizendo-lhe que os
enviava de mufco bom grado, por êle D. Afonso 0 merecer, corno
rei dum país onde se deu início à evangelização, para a qual êle
D. Manuel, trabalhava, principalmente, com navegações pelo mar, não
só até ao Congo, mas muito mais longe, e, que, a propósito, lhe falasse
nas cousas da índia, e das gemtes e armadas que nella trafeemos, e de
todo o que se la f a \ .
Manifestasse a satisfação que teve com a vinda a Portugal do primo
D. Pedro e em receber as suas cartas, descrevendo a vitória alcançada
sôbre os seus inimigos e o milagre que Deus lhe fêz na batalha que
com êles travou, esperando que em reconhecimento dos favores divinos,
continui trabalhando pelo desenvolvimento da fé cristã. Querendo
comemorar êsse facto, lhe enviava a carta de armas, e lhe explicasse
a sua significação e uso.
Lhe dissesse, que tendo o primo D. Pedro manifestado quanto êle
D. Afonso desejava lhe enviasse alguém para organizar os serviços
de justiça e cousas de guerra, como estavam estabelecidos em Por­
tugal, o enviava a êle Simão da Silveira para êsse fim, com um
letrado para o ajudar, levando o livro das ordenações, com tôdas as
indicações sôbre o modo de julgar e apreciar as causas, tanto crimes,

(1) Arquivo Nacional da T ôrre do Tombo. — Leis. Maço 2, n.° 25. Apesar-de publicado
em «Alguns documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo acerca das navegações e
conquistas dos portugueses, pág. 279 a 289. Entendemos conveniente repetir a sua publicação,
5
por ser já hoje rara aquela obra. Anexos doc. .
(2) N ão-se encontra na T ôrre do Tom bo. Damião de Góis publicou-a na Crónica de
5
D . Manuel, e o Visconde de Paiva Manso transcreveu-a na História do Congo, pág. , doc. vnt.
■J

Parte 1 — Zaire t Congo 4*

com o eiveis, e se o rei D. Afonso quiser estar presente no julgamento


dos feitos da sua gente, êle Sitnão da Silveira que o acompanhe e guie,
m as que « quando a nota geente, o que a ella tocâr, ficara a nos jn
* soljdo; e o que direito vos parecer, darês a eixecuçam, segundo forma
« do poder e alçada nosa que levaaes ».
S e a gente da terra tiver como rigorosas as nossas leis e penas,
com bine com o rei as modificações a fazer, de forma que «jsto se deve •j
« agora neste começo fa\er, de maneira que nem recebam escandollo, e se
« meta em uso o mais docemente que se poder fa\er ».
Indica-lhe, seguidamente, que lhe explique o uso do sinete e selo
de arm as nas cartas de previlégios e sentenças; que lhe dê conta dos
oficiais m ecânicos que leva para ensinarem os diversos ofícios*, que lhe
mostre um caderno com os diversos cargos do reino, para, se o rei
quiser, os estabelecer no Gongo e bem assim o serviço de mesa, para
êle se acostum ar; que lhe apresente as bandeiras que $nvia, indicando
quem as conduz e a sua ordem e procedência; e, finaimente, «depois de
estardes aseemtado », que comece a construção de uma igreja ou mos­
teiro de pedra e cal e de uma casa assobradada para residência do
rei.
D á-lhe, depois, instruções quanto ao pessoal que leva, recomen­
dando-lhes que vivam em paz e use para com êles de todo o rigor da
lei, castigando-os, para não haver razão de queixa da gente da terra.
Q uanto aos clérigos, devem viver recolhidos juntamente e, confia
que êles se portarão bem, devendo comtudo visitá-los amiudadas vezes,
e se algum der maus exemplos, organize o respectivo auto de culpas e
o m ande para o reino.
« Vos mandamos que todos os frades e clérigos que a vosa chegada la
« estiverem, e asy todas outras pesoas, os mandês yijr nestes navios que
« levaes, e notn fiquem, soomente os que agora vaão comvosquo__re-
« salvando, porem, aqueles que achardes que bem vivem...» não consen­
tindo àqueies que vierem, tragam escravos nos navios que manda,
podendo-os trazer noutros que lá estejam, pagando os respectivos
direitos.
Recom endando-lhe, ainda, com respeito à gente que fica, não lhes
consinta explorarem o rei com pedidos de dinheiro, etc., e, não
deixe o rei dar-lhes mais que os seus ordenados, entra depois em
m atéria respeitante a êle próprio, D. Manuel, a carga, que o rei lhe
hà-de dar, para o regresso dos navios.
D iz-lhe para mostrar ao rei as despesas que fêz afim-de mandar ao
6
42 Angola
Congo os navios, e com o presente, clérigos e mais centP *
está fazendo com a manutenção e ensino do filho e assim - e
justo regressem os navios vazios. Posto que o seu principal fi^ 0 >é
servir Deus, ele, Simão da Silveira, lembre ao rei o que nisto de^
fazer, dando-lhe escravos, marfim e cobre, mas que o faça como c o ^
sua, « como d e voso , ssem lhe dizerdes cousa a lguha de nosa part^
trabalhando, « o mais onestamente que vos p o d e r d e s » e de forma qy
daqueles 'artigos os navios venham carregados «o mais abastadamente
que ele poder ».
Depois seguem-se as informações a colher com respeito à terra, ng0
só na parte comercial, como na parte geográfica, reinos visinhos 6
reconhecimento do Zaire, sendo possível, e até ao « laguo que dv{
« estaa comarquão com o reyno de M anicongo, s a b e r : quamanho he, e
« he povoado , e de que gentes , e se ha nelle navyos, e quamto he da terra
« d e M a n icon g cf e comtra que parte, etc.», determinação que não deve
passar sem reparo, pois mostra que, na época em que o regimento foj
dado, já nós tínhamos notícias do interior da África, e outras não
podiam ser senão as primitivamente colhidas por Rui de Sousa, quando
auxiliou o rei do Congo D. João na guerra contra os Angicos confirmadas
pelas viagens daqueles humildes e ignorados pioneiros, que D. ij
com o fim de que se internassem pelo sertão com alguns naturais, lg
mandou ficar, encarregando os clérigos, que além das sagradas letras,
eram entendidos nas matemáticas, de nas horas vagas da pregação o$
dirigirem para se terem notícias do interior.
Recom endando-lhe ainda com .respeito a política, que nas cousas
de p az e de guerra encaminhe o rei, de forma a estabelecer uma orga­
nização idêntica á de Portugal, « e no que tocar a g u erra , nos meterês
« com a g e n te nosa , q u e levaes, na qu elles feitos d e que vos parecer que
« seg u ra m en te p o d ê s sa y r, e sem risquo da g em te », termina por tratar
da em baixada a m andar pelo rei D. Afonso ao Papa, com a sua obe­
diência e profissão de fé católica, para o que indica o próprio D. Pedro,
(que m andara com o Sim ão da Silveira) acom panhado de doze fidalgos,
correndo as despesas por conta dele, D. M anuel; que com a embaixada
irá o filho D, H enrique, que está muito bem ensinado, e sabe latim
para fazer a oração de obediênciu ao Papa, esperando obter nessa
ocasião a sua nom eação para bispo do Congo.
N ão se esquece D. M anuel de se referir à viagem de Gonçalo
Rodrigues, pedindo para o rei do C ongo contar tudo quanto se passou,
e finalisa juntando a nota de todos os cargos do reino.
!<*
t

Parte I — Zaire e Congo +?

* •

Este documento, sob qualquer aspecto que se encare, é extraor­


dináriamente interessante.
Não se trata de uma ocupação ou conquista. Simão da Silveira
não era capitão mór, nem feitor; era apenas um assistente ou residente,
na côrte do Congo. Em todo o regimento, não há a menor referência a
um castelo, a uma fortaleza. Manda-se construir a igreja e a casa para
o rei, mas não se fala em casa para Simão da Silveira ou para os
funcionários que o acompanhavam. Recomenda-se a Simão da Silveira,
que lhe assista constantemente, que o guie, e que o dirija; que lhe
organise a côrte como a da Europa, criando os fidalgos e os grandes
dignatários; que lhe administre o reino, conforme as Ordenações; inclu­
sivamente, que lhe ensine a comer e a estar à mesa, mas que tudo se
faça sem escandalo e se meta em uso o mais docemente que se poder
fazer. Que lhe ensine a arte da guerra e lhe organize as campanhas, mas
que só se meta naquelas em que veja que não há o menor riscopara os
nossos.
Esta orientação tem tanto mais valor, porque sai fóra dos moldes
da época.
Em S. Tomé, onde não havia indígenas naturais a combater e
dominar, tinha D. Manuel criado em 1499, para Fernão de Melo, uma
alcaidaria mór(i).
No Congo, com um território vasto e uma população indígena
numerosa e aguerrida, 0 pequeno grupo de portugueses que la tínhamos,
percorria-o todo e por todos os lados, sem pensarem na necessidade de
um castelo onde se concentrassem para a sua defesa e defendendo-se
cada um, conforme podia e sabia, nas diversas escaramuças que
tinham pelo interior.
Esta confiança no gentio do Congo, vinha desde que Diogo Cão lá
deixara aqueles quatro portugueses, que fleumáticamente esperaram
quinze luas pelo seu regresso e as crónicas deixaram esquecer. A
política do Congo foi sempre uma política de paz e D. Manuel viu bem

(1) Arquivo Nacional da Tôrre do Tombo. Livro das Ilhas, fl. 6o v. Fernão de Melo. Carta
da alcaidaria mór do Castelo que em a dita Ilha se fizer para êle e para quem for capitão dela.
5
i de Dezembro 1499.
44 Angola
a desnecessidade de despesas duma ocupação militar e, previu melho
que a suserania que estabeleceu perduraria para sempre. ° r’
Se pelo lado político o regimento nos leva a estas considerações
pelo lado comercial, não deixa de bem nos revelar o carácter do
monarca. Em cada linha resalta a avidez do lucro e a esperteza
t velhaca. Aquele prólogo de instruções a Simão da Silveira sóbre o que
tem~a~fazer e dizer desde o desembarque, marcando-lhe a sequência
das conversas, graduando-as pela importância dos assuntos, e por dias,
para terminar no que mais o interessava, a retribuição, que parecendo
ser a última cousa a tratar, passa a ser a p rim eira: « Logno dês que
«chegardes, começarês, a negociar com el rey, o mais onestamente que
apoderdes, o aviamento da tornada dos navios», vale por tudo quanto
os historiadores possam ter escrito apreciando o seu carácter. Depois,
entrando então, abertam ente, na parte do negócio, ensina a Sim ão da
Silveira o que deve dizer «como de voso » e «ssem lhe dizerdes cousa
« alguma de nossa p a r te » e conclui m agistralm ente, afirm ando que
depois do que disse, o preto deve m andar carregar os n avios o mais
abastadamente que poder e de m aneira que êle, D. M anuel ain da tenha
mais m otivos para se interessar pelas suas cousas, posto que a sua
in ten çã o non he d aver proveito de fazenda, sooniente do acrecentaniento
daJee.
N ão p ôd e fugir D. M anuel a dar, ainda, neste documento, a nota
das ostentações; por um lado, recomendando a Simão da Silveira que
lh e fale tias cousas da Jndia e das gemtes e armadas que nela tracemos,
e d e todo o que s e la fa ^ para que o preto veja bem qual o seu poder e
valor; p o r outro, esquecendo já os lucros e a ganância, com a preocu­
pação das grandezas, é êle próprio que manda oferecer ao preto, pagar
as despesas com a em baixada que diz para mandar ao Papa, tendo,
talvez, já delineada na m en te, a que anos depois mandou com Tristão
da Cunha e, p o ssiv elm en te, não co n h e ce n d o ainda o rinoceronte com
que nessa em ba ixa d a qu is representar a Á frica , pensou que um preto
educado para b isp o , deveria produzir o mesmo efeito e causar igual
adm iração.
•*
* *

Não foi o rei do Congo mais feliz com a expedição de Simão da


Silveira, de que com as remessas de joios, espinhos e ferrugem que
o Fernão de Melo lhe mandava de S. Tomé, e, também D. Manuel não
Parte I — Zaire e Congo 45
viu executado como idcára, o piano de ternas mãos de uma autoridade
nossa todo o domínio e acção sôbre os negócios do Congo, deixando
para entretimento do preto uma côrte real, nos moldes da nossa, cosi
a indumentária da época e com serviço de mesa e de cópa (i).
Antes de partir a embaixada de Simão da Silveira, D. Manuehinha
mandado para o .Congo afirn-de ensinar os indígenas, Rui do Rego, *
que, em vez de se dedicar ao ensino, tratou de negqcmr^ligajndq-se com
os comerciantes de S. Tomé e em especial com o feitor, que então
já devia ser Jõãõ délvíeío, filho de Fernão de Melo, e cujas proezas o
levaram, mais tarde, ao degredo e á perda de doação da ilha de
S. Tom é, que estava na sua família (2).
Uma autoridade no Zaire, para governar os portugueses, como
a pedira o rei do Congo não convinha aos de S. Tomé e muito menos
com os poderes de jurisdição crime e cível que legava Simão da
Silveira.
Era a morte de todo o negócio e, Rui do Rego tratou de intrigar o
preto rei do Congo com 0 Simão da Silveira, tais cousas dizendo, que
êste resolveu não desembarcar e mandou 0físico para se entender com
0 re i; mas as intrigas redobraram e Simão da Silveira viu-se obrigado
a ir êle próprio, falecendo quando se dispunha a partir.
Começam então as lutas para a sucessão, até chegar Álvaro
Lopes, com o D. Pedro, primo do rei do Congo, vindos no navio
« Gaio * que fazia parte da armada e se atrazara na viagem, parece que
por ter ido a S. Tomé. ’
Álvaro Lopes trazia a carta de sucessão e foi investido no lugar, não
propriamente no que D. Manuel queria que Simão da Silveira desem­
penhasse, conforme indicára no regimento, mas no de feitor, muito12

(1) O preto D. Afonso parece que vestia à europeia. Na carta documento xu da Historia
do Congo, êle queixa-se do sapateiro português que lá tinha e que lhe dera cabo de uma porçSo
de peles, sem ter feito calçado capaz, e do alfaiate que apenas lhe arranjara uma loba e umas
mangas de veludo, de má vontade. Na carta documento xxv acusa ao feitor de S. Tomé, ter
recebido uma porção de vestimenta que lhe mandou D. João III. O filho, tendo sido educado
em Lisboa, é provável que também vestisse á europeia. Outros reis que se seguiram parece que
reservavam os trajes europeus para as cerimónias oficiais e fora delas trajavam á indígena.
Nem toda a corte os acompanhava no vestuário. Dapper dá interessantes informações sôbre
trajes e costumes, sobretudo dos militares, que usavam bonés ornamentados com grandes e
vistosas plumas e, sôbre o tronco nu, cruzando-se do hombro para a axila, correntes de ferro­
em aneis delgados da grossura de um dedo pequeno. Nas marchas usavam tambor e cometa.
(2) Arquivo Nacional da Tôrre do Tombo, Carta de sentença da confiscação dos bens de
522 3
João de Melo, feitor de S. Tomé, 19 de Dezembro de t . Livro 2.0 dos Reis fl. to a 106 e
3 3
Gaveta 1 , maço , doc. 17.
46 A ngola
embora não se podesse considerar o Congo como uma f * •
tínhamos estabelecido na Guiné e na Mina. ieU° na Co*o
Se a parte política do regimento que Simão da Silveira levo
estava assim prejudicada, D. Manuel, sempre venturoso, não perdi1’
a parte comercial, pois o preto D. Afonso carregava os navios da
armada: os que tinham chegado primeiro, com quinhentos escravos
e ainda um refôrço de trinta para as falhas e, já ficava pronto 0
carregamento que devia seguir no « Gaio».
Não fizeram falta as sugestões de Simão da Silveira, nem f0j
necessário que outro, como cousa sua, lhe insinuasse o que tinha a
fazer. O preto, por motuo próprio e, apesar-de tôdas as desintelj.
gências dos nossos, carregou o mais abastadamente quepoude os navi0s
e, no seu procedimento é que francamente se pode afirmar, não
havia intenção ge aver proveito de fazenda, soomente do acrecentamentQ
da fe e , pois fôra com essa intenção, pela educação recebida do$
dois frades, António Fernandes e Rodrigues Annes, que mandava os
escravos.
D. Manuel devia ter ficado satisfeito com a boa compreensão que o
preto D. Afonso manifestava dos seus deveres de retribuição dos
serviços que lhe eram prestados e, logo que chegaram os primeiros
navios com o carregamento, tratou de mandar outro, dando ordem
ao seu tesoureiro para «fa\er promptas certas fazendas » (i) afim-de as
enviar como presente, certamente na mira de que o navio voltaria
carregado, também o mais abastadamente que fôsse possível.
Nêsse navio ia Manuel Vaz, que quando chegou ao Congo, foi
informado das scenas desgraçadas passadas entre os nossos. Fôra
o caso que Diogo Fernandes, o letrado que fôra na armada de Simão
da Silveira, ao vêr Álvaro Lopes nomeado feitor, quis ser corregedor,
cargo que então reünia os serviços de administração de fazenda com os
de justiça, e, tais intrigas moveu, que auxiliado pelos padres, obteve
que o preto D. Afonso o nomeasse para esse cargo e lhe desse um
escrivão.
A nomeação do corregedor era conseqüência fatal da nomeação do
feitor. Feita a primeira deturpação do regimento de D. Manuel a Simão
da Silveira, as outras eram inevitáveis e a orientação que D. Manuel(i)

(i) Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Corpo Cronológico, p. i.% maço 16. Doc. iô
de i 5 de Setembro de i5i4. Não foi publicado pelo Visconde de Paiva Manso na Historiado
Congo. Anexos. Doc. 6.
Parie I — Zaire e Congo 47
esboçava na exploração das nossas conquistas da Guiné inferior, tinha
de ser completamente posta de parte. No regimento de Símão da
Silveira não havia corregedor, mas sim um letrado *pera niso vos
« ajudar . . . e em todos os jui\os, asy de feitos crimes, como cyvees, ora
«seja d amtrc a geente nosa que levaaes, como da geente de la da terra ,
« ser a comvosquo o letrado que levaaes: e, quando ambos nam fordes
« acordados, se eixecutara aquello em que vos asentardes. . .
Não sabemos se Álvaro Lopes explorava o D. Afonso; se o fazia,
era por forma que êste ainda ficava satisfeito e o defendia e elogiava.
Desses favores ou expoliações, nasceram os ciúmes do Diogo Fernandes,
que, de uma vêz, na presença do rei D. Afonso, espancou o Álvaro
Lopes. Jurou êste vingar-se, ameaçando-o de morte, o que cumpriu
pouco tempo depois (i) assassinando-o e indo em seguida refugiar-se
na igreja de S. Salvador, onde foi entregue a Manuel Vaz que o levou
para S. Tomé, não se sabendo quem o substituiu, nvn ao Diogo Fer­
nandes, nos lugares de feitor e corregedor.
Estes e outros exemplos levaram o preto D. Afonso às suas costu­
madas reclamações, e autorisaram-no a escrever «este rreyno a nossa
«fee ainda sam como vidro por máos emxempros que os homens que cá veo
« ensynar dar »(2) numa carta para D. Manuel, que resolveu por isso
encarregar Rui de Aguiar, vigário em S. Tomé, de ir ao Congo e
providenciar sôbre cousas de relegião, parece que sem outro resultado,
além de um novo pedido de paramentos e mais artigos do culto (3 ).

*
* #

Já de há muito que se espalhara pela Europa a fama das riquezas


que trazíamos da Mina e depois da índia.12
3

(1) Carta de 4 de Março de 1S14 do rei do Congo para D. Manuel. História do Congo de
Paiva Manso. Doc. xv, pág. 34 a .36
(2) História do Congo de Paiva Manso. Doc. xin.
3
( ) O Ms. História do Congo, parte transcrita no documento I dos Anexos, termina com o
capítulo 29: Como el-rei Dom Manuel mandou a Congo por vigário ao padre Ruy de Aguiar, e
Antonio Vieira e Baltasar de Castro, seus creados». O copista interrompeu a copia deste capi­
tulo quando começava a transcrever a carta que 0 padre Ruy de Aguiar escreveu a D. Manuel
relatando o que se passara no Congo: Saberá V. A. em como este Rey D. Afonso não tra\ o
sentido senão em Nosso Senhor e em suas pégadas: ordenou agora que todo o homem pagasse
dijimo. É possível que ainda se encontre outra cópia completa ou talvez 0 exemplar autentico
da História do Congo acima referida. Se assim suceder será tratado em nota êste assunto.
48 Angola
Quando Portugal e Castela regularam por meio de tratados e
si celebrados os descobrimentos feitos, as outras nações da E u r ^
por incompetência e inaptidão, desinteressaram-se do caso. u * *
a pouco e pouco, genoveses e flamengos, e depois holandeses, fr^5’
ceses e os outros, foram aprendendo a navegar até à Guiné
iam lá com os seus navios para o resgate. Já não era exequivel *
ordem de D. Afonso V aos capitães dos navios que iam à Guiné, para
tom arem os navios estrangeiros e deitarem as tripulações ao mar(i)
D . M anuel contentava-se em conservar como D. João II, no maior
segredo, tôdas as descobertas e informações da Africa, e em proibir
fazerem-se cartas de marear além do rio M anicongo (2), medida
platónica e que só teve como conseqüência erros para a geografia e
para a história.
A cobiça dos estrangeiros era agora excitada com as notícias que
por todo o muçdo se espalharam, das riquezas que tomáramos em
M alaca e das que nos advinham da sua p osse: o cravo das Molucas , a
n o i de B a n d a , o sandalo de Timor , a canfora de B orn eo , 0 ouro d e fy *
matra e do L eq u io , e as gommas, aromas , e mais mercadorias p eaosas
da China , do Japão , de Sião , de P e g ii , etc. além do que já tínhamos com
a posse de Gôa e de Ormuz.
A embaixada de Tristão da Cunha ao Pápa em 5 145 se mostrava a
nossa opulência, não deixava de mostrar também a todos os que assis­
tiram a esse deslumbrante espetáculo, o desvario da nossa administra­
ção, de que Afonso de Albuquerque já dera a primeira prova, quando,
embriagado pelos fu m o s da tomada de M aláca, mandara sair um bando
em elefantes ricamente ajaezados, espalhando às mãos cheias pelos
habitantes índios, nos intervalos em que se calavam as trombetas, as
novas moedas de ouro, prata e estanho, que estabelecia para os ne­
gócios.
A tom ada de M aláca, enchendo de glória e riquezas os seus assal­
tantes, provocou a inveja e, como conseqüência, a intriga dos que lá
não tinham podido estar. Por um lado, os inimigos de Afonso de Albu­
querque, não podendo suportar a justa glória que o seu nome adquirira,
intrigavam-no com D. Manuel, levando o monarca a demiti-lo e subs­
titui-lo pelos que êle expulsara da índia pelos seus crimes. Por outro

(1) Arquivo Nacional da Tôrre do Tom bo. Chancelaria de D. Afonso V liv 32fl 63 6 de
Abril de 14S0. ’ ' * ' ’
3
{2) Idem, Leis, maço 2, doc. n.° 12. i de Novembro de 1504.
■... <•

Parte /— Zaire e Congo 49


os estrangeiros, ao passo que uns, mais ousados, se preparavam para
se nos oporem na índia, outros, menos poderosos, contentavam-se em
nos assaltarem as conquistas da África Ocidental, pelas quais, era
tempo, não tinham mostrado maior interêsse. E os nossos, os de Cabo
Verde, à falta de Malacas para saquearem, aproveitando a desmora­
lização da nossa vida administrativa, tão desabridamente desrespeitavam
leis, previlégios e doações, que D. Manuel se viu na necessidade de,
positivamente, os bloquear, estabelecendo disposições restritivas á
importação e exportação de mercadorias para o resgate de escravos
na Mina, cujo mínimo limitou às necessidades de cada colono (t). E os
de S. Tomé, que ali se tinham estabelecido no engodo de liberdade e
previlégios especiais, por tal modo consideravam o Congo como cousa
sua, que D. Manuel, para evitar lutas e conseguir a regularização do
comércio, resolveu proibir carregassem fazendas no Congo, a não ser
nos seus navios (2). 0
A-pesar-de tudo, a-pesar destas claras manifestações da desgraça
que se aproximava, D. Manuel não queria morrer sem colher o último
fruto da obra preparada pelos seus antepassados, — o estabelecimento
de relações com 0 fabuloso Preste João, rei da Abissínia. Pero da
Covilhã não dava notícias e D. Manuel sentia insatisfeita a sua vaidade,
se não pudesse entregar ao Papa mais um grande rei cristão, por êle
descoberto em terra de infiéis.
Gregório da Quadra, tendo sido prisioneiro do rei do Adem, conse­
guira fazer-se passar por convertido ao islamismo e chegar assim a
Ormuz, donde os nossos lhe deram passagem para a índia. Apareceu
em Lisboa, contando a D. Manuel as suas aventuras e as informações
que colhera durante o seu cativeiro. Com os conhecimentos que tinha
da Etiópia Oriental, era 0 homem que D. Manuel precisava para tentar
0 estabelecimento de relações com 0 Preste João pelo Zaire, visto supor
terem falhado tôdas as tentativas para o conseguir pelo Oriente.
Demais, as notícias que os nossos lhe mandavam do Congo confirma­
vam a existência do grande lago onde nascia 0 Zaire e não podia
deixar de ser o mesmo onde também nascia 0 Nilo.
Em 15 19 ou 15 20, Gregório da Quadra seguiu num seu navio para
0 Zaire, com cartas para 0 rei do Congo D. Afonso que, recebendo-as,12

(1) Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Leis e Regimentos de D. Manuel. Liv. 16 A.


35
Fl. 34 v. a v. De 16 de Dezembro de *5i7-
5
(2) Idem, idem, fl. 118 v. 18 de Novembro de 1 ig. Anexos. Doc. n.®7.
5o Angola
reüniu conselho com os portugueses que lá residiam e d'
nistas, o induziram a contrariar os desejos de D. M anuel2 "” 1 ° S Cr°s
e «
« nenhum modo deixasse fa { e r aquelle caminho a G regorio da O *
«porque se o descobrisse , soubesse decerto que desejava E l R e i* * ^ '
« E m a n u el tanto a amizade daquelle R e i do A b e x i, que p or ter\
« worfo de o communicar lhe avia de ir tomando seu regno pouco , ^
« e d e todolos que habitavam entrelles ambos, ate chegar ahos limites °'
« ou/ro, e/c.» (i).
Gregório da Quadra, regressou a Lisboa, com as cartas etJl
que o rei do Gongo se justificava para com D. Manuel, que
então tinha falecido, e enfadado ja dos trabalhos do m undo , professo^
na ordem de S. Francisco dos Capuchos Descalços, onde veio ^
morrer.
Esta oposição dos portugueses residentes no Congo deve ter sido a
razão exposta jror Gregório da Quadra ao seu amigo Damião de Gójs
e deduzida de conversas com alguns dos nossos, que, receosos de q^
as medidas, que D. Manuel estava tomando, pudessem vir a ser niajs
rigorosas e prejudicassem o seu negócio se o Congo passasse a ser q
pôrto da Abissínia, procuraram desviar Gregório da Quadra do seu
propósito.
Não foi êsse, com certeza, o motivo que o preto D. Afonso apresen­
tou a D. Manuel para justificar a não realização da viagem e nem
mesmo parece que o conselho dos portugueses, se na verdade eles o
deram, lhe caísse muito no seu espírito. Para com eles fingiu que
acreditava nos perigos que lhe expunham e, para com D. Manuel, deve
ter mostrado as dificuldades que realmente havia para a execução,
mas a idea sorria-lhe e calcularia, que assim como se intitulava senhor
das A n g o la s , que os nossos ocupavam , passariam a ficar sob a sua
suserania os povos que avassalássemos, situados para além do Congo
até ao Lago, e o seu reino se engrandeceria.
O receio do perigo de ser absorvido, se o teve, desvaneceu-se por
completo e, poucos anos depois, em i 526, diz-nos Baltazar de Castro:
« e lR e y d e conguo m e p a rece quer p o r em hobra descobrir oho que a por
« este seu R y o acym a e tem m uy ta certeia d e se p od er naveguar e o all
« que e lR e y m ays certo tem sabydo e creo o escreve a vossa altera pelo

(•) Damião de Góis. C rônica de D . Atanuel, 4.* parte, cap. uv, A esta viagem de Gregório
de Quadra se refere também Cadornega na »D escripçam do reino do C o n g o e t c transcrita
por Paiva Manso na H istória do C o n g o , pág. 265.
Parte I— Zaire e Congo 31
a quall peço a vossa alteia escreva a elRey de comguo que carregue este W
descobrymenlo. . . (i).
Alguns obstáculos se devem ter levantado, pois que o projectado
descobrimento não se efectuou, pelo menos pelo rio acima, mas não foi t
pôsto completamente de parte e, em i 536 , Manuel Pacheco, tendo
passado pelo Congo, o rei D. Afonso o deteve por «que query mandar
fa\er dom braguantis acyma daquella quebrada que o Rio tem pera Eu
dar aviamento a se daly Ir descobrir o llaguo » c, como demorasse a
remessa de Portugal «de certos aparelhos e cousas para elo necesarias
que lia tinha mandado pedir a Vossa Alte\a » ocupou-o no cargo de seu
ouvidor, mas «tem elRey de comguo aguora Ja madeira llavrada pera
dous braguantis e dame muita esperança que este anno se ade fa\er ho
descobrimento do llaguo (2).
Nesta carta, Manuel Pacheco refere-se áquella quebrada que 0 rio
tem, o que prova que se sabia da existência das catawtas, onde anos
antes Diogo Cão tinha chegado, e refere-se ainda a serem os bergantins
feitos acyma da quebrada para que ele desse aviamento a se dally Ir
descobri) 0 llaguo, o que mostra o conhecimento que se linha da nave­
gabilidade do rio Zaire além das cataratas e da impossibilidade de
transpor estas com embarcações, para o que a construção dos bergantins
se efectuava num ponto além delas e daí se iniciava a viagem, para a
descoberta do lago.
Para assim se poder organizar a viagem pelo Zaire, sem dúvida
alguma que devem ter sido feitos reconhecimentos por todo o interior.
Não sabemos onde chegaram êsses reconhecimentos, nem sabemos se
realizámos a viagem nos bergantins, mas o pouco que sabemos, é mais
que suficiente para mostrarmos ao mundo que não valia a pena
glorificar Stanley por ter feito, com os elementos que a civilização do
século xix lhe proporcionava, um pouco mais, senão o mesmo, que nós
fizemos quatro séculos antes (3).
Se Stanley passou no Yelala sem notar 0 imorredouro padrão que1

55
(1) Paiva Manso, História do Congo, doc. xxvni, pág. .
(2) Idem, Idem, doc. xxxvui, pág. 66.
3
( ) Em Le Congo, edição belga da narrativa de Duarte Lopes, publicada por Pigafeta, M.
Lepn Cahnn, no prólogo, escreve:
«Si Stanley, avant son départ, avait lu la même description de l Afrique imprimée en i 5ÿ8,
il eut été droit au Congo sans discutir et sans tâtonner, et eut suivi, en toute connaissance de
cause, ta route que le Portugais Edouard Lopes n'était pas le seul a pratiquer, bien longtemps :
avant lu i...
S i M. M. Serval et Griffon du Bellay, et après eux M. de Bra^a, lorsqu ils ont explore
52 Angola
Id deixámos, (jcomo poderia ele, ao lançar as primeiras fundações d
cais de Leopoldville, reconhecer que tinha sido ali a carreira
fizemos os dois bergantins? de
Que se chamem cataratas de Stanley em vez de «Diogo Cão», qUe
se chame Leopoldville em vez de «carreira de M anuel Pacheco », ^qUe
nos im porta, se não há povo algum no mundo, que, ao escrever, a
sua história, possa sentir, mais do que nós, o maior orgulho e o maior
desvanecimento pela nossa grande raça ? E é com a fôrça que nos dá o
valor dos nossos antepassados, que nós estamos fazendo hoje êste Por­
tugal Enorme. É com esta fôrça que nós temos caminhado sempre para
a frente, apesar-de tôdas as contrariedades, apesar-de nos amesqui-
nharm os a nós próprios. É esta enorme fôrça que faz de nós, pequenos
em número e pobres em dinheiro, grandes e ricos em trabalho e perse­
verança e nos permite manter por direito conquistado por essas duas
qualidades, o eiforme império colonial que temos, a-pesar-de tôdas as
intrigas e com binações para nos espoliarem, que se desfazem, não
porque seja impossível encontrar uma solução que satisfizesse a todos
as ambições, mas porque acima de todos êsses interêsses e tôdas essas
m aquinações, há um obstáculo invensível: — o que fizemos e o que
estamos fazendo.
Leopoldville! Stanley-pool! d-Que nos importa se hão-de lá estar
ainda, forçosamente, os vestígios do plano onde se assentaram as quilhas
dos dois bergantins e isso tem mais valor que os nomes geográficos?!

#
* #

D e p o is d o fa le cim en to de D. Manuel, os negócios do Congo, sem


deixarem de despertar interesse, entram contudo numa outra orien­
tação.
D. Manuel procurou desempenhar no Congo, sobretudo, um papel
p o lítico , q u e mantinha com o seu trato directo com o rei do Congo,
que elevara á categoria de seu igual, criando-lhe um a côrte e princípios

58
l ’estuaire de l ’O g o -Q u é et l e Gabon, avaient étudié le v ieu x livre de i g . . . ils auraient connu
l ’emplacem ent des cataractes du C o n g o , que M . S ta n le y a signalés d e u x cent quatre vingt douje
ans après E d o u ard L o p e f, et en amont desquelles il fau t rep rend re la navigation interrompue
du fle u v e qui conduit d e l ’A tlantique au bassin du N il et à l ’ O céan Jndian. Malheureusement,
le s érudites que lisent le s v ie u x livres ne voyag en t g u è r e , et les voyageurs qui vont étudier di­
rectem ent l e terrain ne lisent p as.
Parte I — Zaire e Congo 5ò

de administração e justiça, baseados nas nossas ordenações, e procu­


rando satisfazer-lhe e cultivar-lhe os seus desejos de conversão de
todos os seus súbditos ao cristianismo. Um dos seus últimos actos
com respeito ao Congo foi obter do Papa a bula de dispensa de idade
para o Bispo de Utica, D. Henrique, filho do rei D. Afonso, a fim de êle
poder seguir para o Congo (i).
Para D. Manuel, cuja política em matéria de descobrimento e con­
quistas se apoiava em Roma, o Congo cristão servia-lhe de reclame
ao seu zêlo pela propagação da fé e, ainda dentro dêsse aspecto,
servia-lhe para exemplo a outros povos, que, pelo que se passava no
Congo, poderiam deduzir as vantagens que lhe adviriam na conversão.
Desta acção política resultava a exploração comercial, que lhe dava os
rendimentos para o erário, e isso lhe bastava. A colonização, no
sentido de povoamento, não o interessava nem se conhecia, então.
Mas as condições políticas da Europa foram-se*modificando de
forma a obrigarem a dar outra orientação aos negócios das con­
quistas.
As nações da Europa, se não tinham tido o valor de Portugal e de
Castela, para se lançarem nas descobertas, tinham-no de sobejo para o
roubo. Os seus piratas eram ousados e destemidos e, já se não conten­
tavam em esperar as nossas naus nos pontos já conhecidos das suas
derrotas para as roubarem; atacavam também as feitorias, não só da
Guiné e da Mina, mas de S. Tomé e até o Congo.
Como defesa contra o roubo veio a necessidade de garantir a posse
e, daí, as primeiras medidas de organização colonial, que iniciámos
verdadeiramente com D. João III começando na parte respeitante à
Etiópia, por elevar e engrandecer S. Tomé, que não só se mostrava de
relativa importância agrícola, mas era um dos portos de escala das
naus da índia. Assim, além de se ampliarem as medidas anteriormente
tomadas por D. Manuel sôbre os direitos e liberdades dos escravos e

(i) O Padre Francisco de Santa Maria no Céu aberto na terra escreve: «Tres anos depois
58 5
(refere-se a t o e portanto i u) houve terceira missão, em que forão acompanhando ao prin­
cipe D. Henrique, quatro conegos nossos, Fernando de S. João, Bartolomeu de S. João, António
de S. João, e por prelado Sebastião de Santa Maria, dos quaes só este ultimo voltou, etc.». Há
manifesto engano na data, pois que não só em lõii o filho D. Henrique não era ainda Bispo,
52
como em i de Fevereiro de i o, ainda não tinha partido para o Congo, como se vê da carta
de D. Manuel, para D. Miguel da Silva, seu enviado a Roma, obter a bula da dispensa de idade
em que diz ae queryamos que fosse faqer fruyio aos Reynos de seu pay, o qual com muyia
yustancia nolo tem enviado pedir por ser já velho e desejar de ho ver frutificar em seus dias na
christandade». História do Congo, Paiva Manso, doc. xxm pág. 47.
54 A n gola
dos mulatos (i 5 1 5 e 1 5 17), outras se tomaram com respeito ao resgate;
à melhoria de administração fiscal; à ampliação do foral da povoação,
que foi elevada a cidade, c ao desenvolvimento da acção religiosa,
criando novas dignidades e assegurando-lhes melhores ordenados e
prebendas.
Para o Congo não havia modificações porque não podia ser outra
cousa além do depósito de negros para as necessidades da mão de
obra, que os colonos de S. Tomé tinham organizado e que assim con­
tinuaria na sua exclusiva dependência.
O s p ortu gu eses residentes no C ongo não se conform avam com essa
s itu a ç ã o de d ependência e levaram o D. A fonso a protestar, sugerin­
d o -lh e a idea do engrandecim ento do seu reino. Assim o vemos,
à m ed id a que as relaçães com P ortu gal se tornaram m ais íntimas,
p ro p o r a D . M anuel «m andenos d a r a ilha p o is he su a , maneira que
com e lla terem os^ m u ito descanso e nam cu id e sualte^a qu e lha pedimos
p o r n en h u m resp eito , se nam p o r com e lla a crecenta rem os a crystandade ,
p o r q u e sua lte^ a sabra q u e hos m oços nam p o d em aprem der também onde
tem s u a s tnays e p a y s, como apartados d e lle s e, p or este respeito , manda­
rem o s h u m hom em d e 1toso sa n g u e e sualtcça m anda hum p a d te bom e
v e r tu o so , p era q u e am bos regam a dita ilha , p rin cy p a lm ente no espintoal e
d esp ois no tem p ora ll etc.» (i), ao que D. M anuel nunca lhe deu resposta,
e êle passou tôda a vid a a protestar contra os males que fazia a gente
da ilha.
D epois do falecim ento de Sim ão da Silveira, vem os o preto D. Afonso
nom ear os feitores e os corregedores, e parece que D. Manuel, porque
nunca considerou o Congo senão como um estado suserano e para não
com p licar a situação com S, T om é, lhe confirm ou a faculdade de poder
escolher, entre os portugueses lá residentes, aqueles que deveriam
exercer os diversos cargos. Mas essa organização administrativa era
tô d a dêle, rei do C ongo. G uiado pelos portugueses, o preto foi tomando
um a relativa independência de S. T om é e, depois da sentença contra
João de M elo e reversão de S. T om é p ara a C oroa, essa independência
m ais se salienta, sem contudo poder ser tom ada com o rebeldia,
p assan d o a corresponder-se oficialm eníe com autoridades administra­
tiva s e judiciais, em vez de lhes dirigir as cartas humildes dos primeiros
tem pos, acom panhadas de presentes de p eç a s e manilhas, para que o
atendessem .

(i) Carta de D. Afonso Rei do Congo a D. Manuel, de 5 de Outubro de i5i4, já cit.


Parte / — Zaire e Congo 55
A comprovar esta atitude, temos o facto passado com um navio
francês, que apareceu no Zaire, por r524, c sôbre 0 qual êle tomou
logo providências, ou aceitoú as que lhe sugeriu 0 seu feitor de entáo,
Manuel Pacheco, que deveria ter aparecido no Congo, de regresso
duma viagem a Angola, talvez em 1522 ou 1523 , e ali ficara ao seu
serviço.
Manuel Pacheco, que estava na capital, em Ambasse, mal teve
notícia da chegada dos franceses, veio logo ao Sonho e procurou tomar
a nau, 0 que não conseguiu por ser bem armada e artilhada. Resolveu
então usar outro expediente, mostrando-lhes muito marfim, manilhas e
pau vermelho, ao que uma parte dos tripulantes, na mira da pilhá-
gem, se aproximaram da terra, sendo então apanhados pelos pretos
e pelos nossos, que dirigiram a operação. Puseram-se os da nau em
fuga, levando uma almadia com pretos que os vigiavam, e sem terem
procurado tirar 0 menor desfôrço para rc-haverem osaseus, a-pesar-de
armados e artilhados.
O rei do Congo deve ter comunicado 0 facto para Lisboa e esteve
muito tempo sem resposta, até que lha enviaram dizendo que man­
dasse os franceses por intermédio das autoridades de S. Tomé, o que
êle fez mas não em carta solicitando-o como mercê, mas em alvará,
como acto de serviço do Rey noso Irmaão e noso, que tanto estranheza
causou ao corregedor de S. Tomé, que, ao apresentarem-lho disse lho
amostrassem de vagar ( i).
Esta prisão dos franceses deu lugar a uma interessante manifestação
do Rei do Congo sôbre 0 aprêço das nossas relações. Muitos dêles
morreram no Zaire, e, quando chegou a ordem, já só existiam doze, dos 1

quais o rei do Congo resolveu ficar com dois: um pedreiro, porque


não tinha nenhum e precisava reparar e cobrir a igreja, e um piloto,
porque sabia latim e gramática e lhe servia para mestre da escola, que
também não tinha, Mandou os dez restantes e, entre êles, um padre,
com quem não quis ficar, a-pesar-de ter falta dêles no seu reino,
a necessidade de a evangelização dos seus ser feita por portugueses,
porque só nós tínhamos, não só 0 direito, mas 0 dever, de o fazer no
seu reino, como o escreveu: nE 0 que a nos cabe e rremediar podemos
«sem outro ajutoryo, nos ho temos feyto e comprydo, mas aquyllo que
«sem ajuda e de direyto pertence, 0 quall a ell Rey de Castella, nem de
i
«França, nem a outro nenhüu Rey Christão, amnos de rrequerer nem

(1) H istória do C o n g o , Paiva Manso, doc. xxiv, pág. 48. *

,jr ,jr
56 Angola
« obrygar, por muytos rrespeytos de que nos m uy certificado somos,
« prinçipallm ente por que a elles tiam pertemçe o tal! cuydado, polia pouco
«parte que ueste Reino tem. O quall he tam por tu gês e tam leal a
« nosso serviço , como esse proprio que V. A . de direito sobre deo e se
« g u a r d a , porque em nos nam ha lugar a jm gratidam e ssomos em perfeito
« conhecym ento dos muytos benefiçios espirituaes e corporaes por nos
« rrecebidos, e nam he em nos tamto esqueçimento que nam estimemos mais
« os agrauos da nossa própria e verdadeyra m ãy , que os comtrafeytos e
«jm fig idos mytnos da fa llssa madrasta , ajüda que todos em huma fe e e ley
« conform es sejamos, etc.» (i).
Faltava-lhe o poder fazer padres e se os tivesse podido fazer, como
fazia feitores e corregedores, outra teria sido, talvez, a história do
Congo.
Não era por o esquecermos, que lhe não mandávamos os padres.
As relações conj o Congo iniciaram-se e mantiveram-se, emquanto
pensámos que pelo Zaire se poderia chegar ao Preste João. Mas êsse
problema resolvera-se pela Etiópia Oriental, depois duma luta de anos,
duma tenacidade assombrosa, de sacrifícios e heroísmos inconcebíveis,
conseguindo D. Rodrigo de Lima avistar-se com o rei da Abissínia e
trazer Zagazabo como seu embaixador. O Congo perdera assim o
interesse maior, o que não significava que fôsse desprezado ou aban­
donado, como não podería ser o filho que confessava, entre lamenta­
ções, que, a-pesar-de tudo, preferia os agravos da própria e verdadeira
mãe, aos fin g id o s mimos duma madrasta.
É que tínhamos ido muito longe nas descobertas e conquistas,
e lutavamos como nunca nenhum povo foi capaz de lutar para as man­
termos. Lutavamos em toda a terra então conhecida.
Já não era só a Mina. Era tudo, desde Sagres ao Cabo e do Cabo
ao Suez, a Arábia, a Pérsia, a índia, a China, o Japão e a Oceania, e(i)

(i) Arquivo Nacional da Torre do Tom bo. Corpo Cronológico, parte i.*, maço 34. Doc.
n.° 127. De 25 de Agosto de i 526. Está no índice com a referência: <Manicongo (Rei de).
D. Afonso. C arla dando parte a E l R e y enviar nove fra n ceses de do^e que aprisionara, ficando
os tres p elas partes de que eram dotados». Passou despercebido ao Visconde de Paiva Manso e
desconhecido até ao presente, tendo um alto valor pela declaração do primeiro rei do Congo,
de que o seu reino era tão português como o próprio Portugal. Vide Anexos doc. n.° 8.
32
Em outro documento da mesma data (Corpo Cronológico, parte 1.*, maço , doc. 99) e a
cujo assunto, talvez êste, com as suas doces palavras, servisse de preâmbulo, o Rei do Congo,
tendo-se esquecido , entre tamto servyço de D eus , pede a D. João III para prover o filho ao bis­
pado do Congo, e mandar-lhe o sobrinho D. Afonso, que havia muitos anos estava em Portugal
a estudar e lhe constava ter-se ordenado, para seu coadjutor. Anexos, doc. n.° 9. Não foi men­
cionado pelo Visconde de Paiva Manso.
vxßT--'1~

Parte I —Zaire e Congo


■ inpregávamos ainda todo o valor da nossa raça, no sonho quiraé-
nós e
de conservarmos nas nossas mãos todo o comércio, tôdâs âs
ric°
•^uezas» que êsse Oriente ainda tinha. Por todos os lados nos ataca-
rl<5, e nós, vencendo nalguns pontos com assombrosa e inaudita
vam»
oragem, íamos perdendo noutros.
0 flstavamos sós. Dum lado a aspiração de D. João II á hegemonia
península, de outro a política de absoluto scgrêdo sôbre as des­
cobertas, conduziram-nos ao isolamento do resto das nações da Europa
cujo convívio nos escusámos, limitando-nos apenas a alianças com
Castela» para nos vender noivos para as nossas princesas.
Bem fomos emquanto a luta se circunscreveu a defendermos da
pirataria europeia e turca, as riquezas da Mina e do Oriente. Chegámos
para êles todos! Mas havia um ponto fraco, — o Brasil. Á costa da
África poderiam lá ir os piratas roubar-nos as cargas, que nós, com esta
persistência assombrosa, de que demos tantas provas, ^substituiríamos
por outras e os venceriamos a êles. Na terra não se fixavam, porque o
clima os não deixava e a facilidade de adaptação a todos os climas só
nós a tínhamos. Não se dava o mesmo com o Brasil; além de fazerem
as derrotas perto das suas costas, o clima não era tão inóspito. Os
corsários atacavam-nos, e D. João III, com inteligente previsão, mandou
em 15 3 o Martim Afonso de Sousa, percorrer a costa e dividi-la em
capitanias de cinqüenta léguas, doando-as com a obrigação de as
povoarem.
A execução dêste nosso grande plano de colonização impunha-se.
Ninguém pensou se para tão grande emprêsa chegaria a nossa pequena
população de um milhão de almas, porque, outro milhão nos tinham
levado as conquistas; confiávamos no nosso valor, que maiores prodí­ i
gios já tinha obrado. Eram necessários braços que auxiliassem os
povoadores nos trabalhos mais árduos, mas êsses fornecê-los-ia tôda a »
i
costa da África Ocidental e, daí, o desenvolvimento de S. Tomé e o
aparente esquecimento do Congo como unidade política, de que o
preto D. Afonso tão sentidamente se queixava, mas a que era impossí­
vel atender, porque não nos chegava para fornecer indígenas para a
América. r""
#
* *
t

D. João III, em reconhecimento à dedicação manifestada pelo


D. Afonso, manda-lhe um bonito presente de capuz, capa, pelote e
8

I
58 Angola
jubão de « conlray fr y s a d o », debruado de veludo e pespontado a seda,
com bandas de tafetá e barras de veludo, e calças de pano Royxl
davam pe, e outras darmentym pretas davampe , tudo numa arca, mas já
ia longe o tempo em que se contentava com presentes de fato e garrafas
de vidro, como lhe mandava o Fernão de M elo; não era isso o que êle
agora queria, mas sim padres, pelo menos cinqüenta, para distribuir
pelas diversas províncias do seu reino, e poder assim o filho D. Henri­
que, Bispo de Utica, que então já lá estava, percorrê-las devidamente
acompanhado, sem os receios que m anifestava, com o bom pai «nos
« tememos de nollo matarem com peçonha o qu e seria p a ra nos grande
«■ door e sentymento e nam vyviryamos apos elle m uito, etc.» (i).
Pensava o rei do Congo com a acção religiosa conter os desregra­
mentos provocados na sua gente pela nossa ocupação comercial, que,
tendo-se espalhado por todo o interior, com lojas fornecidas dos
principais artigcfc ao gosto do gentio, dava lugar a este fugir da cidade
para os locais onde essas lojas estavam, para mais fàcilmente adquirir
êsses artigos com a moeda de que podia dispor, — outros negros que
faziam cativos, deitando a mão aos que encontravam , sem quererem
saber se eram ou não livres, e chegando por vezes a agarrarem os
filhos dos fidalgos e os próprios parentes do rei.
Queixava-se êle de que os comerciantes, aceitando como escravos
todos os negros que os outros lhes levavam para a permuta, não
só lhe despovoavam o reino, mas davam lugar, perante as reclamações
que dos seus recebia, a não tomar o devido procedimento, mandando
soltar os negros livres, porque não queria molestar os brancos, e
assim, para obviar a estes inconvenientes apossem os p o r ley que todo
« homem bramco que Em nossos rreynos E ste u e r e conprara peças por
« qualquer tnaneyra que seja, que primeiro ho fa ça ssaber a tres fidallgos
« e oficiaes de nossa corte em quem Este casso com fyam os, a saber a
« dom pedro manipawça E a dom manoell manissaba nosso merinho mor
« E gonçalo pires nosso armador mor pera verem as ditas peças se
«ssam catiuos se forras e ssemdo p er elles despachados ao diante
«nam teram nenhuuma duvyda nem E m bargo e as poderam leuar e
« Em barquar »(2).
Pedia, então, o preto D. Afonso, a D. João III, « d o qu e deste casso
« lhe parece recebermos muyta merce nollo emviar di\er p e r sua carta , etc,*
2

(0 5
História do Congo, Paiva Manso, doc. xxvi, pág. o a 52.
56 58
(2) Idem, idem, doc. xxrx pág. a .
Parle I— Zaire e Coup 5p
e não consta de documento algum que D, João III lhe manifestasse 0
seU desagrado ou determinasse aos feitores a revogação da ordem.
A condição de escravo era um estado social da época e não o
Revemos ver com o espírito de quatro séculos depois. O que temos
que apreciar é o facto do respeito que nos merecia então a liberdade
individual e que tão injustamente temos sido acusados de oprimir (i).
Não esqueçamos que o rei do Congo, embora inteligente, e com uma
base de educação, era guiado e assistido por portugueses, que cie
escolhia para os principais cargos do seu reino, e que a medida por
êle tomada, lhe foi sugerida e indicada por algum dos nossos que
ocupava um dêsses cargos, talvez o Gonçalo Pires, a quem êle se
refere como sendo o seu armador-mor, cargo que devia corresponder
ao de chefe de serviços de marinha de hoje.
Nem só a falta de padres preocupava o rei do Congo. Ele queria
educar e civilizar a sua gente e estava convencido d# valor da nossa
civilização e, das vantagens que dos nossos usos poderia usufruir,
e por isso pedia também físicos, boticários e cirurgiões, porque,
com a falta dêsse amparo morriam muitos dos já cristãos, mas
«a outra gemte pella mayor parle se curram com emas e paõos e outras
«maneiras de sua antiguidade, os quaees se uiuem nas ditas entas e
«cirymonias poem toda sua cremça e sse morem creem que vâao ssalluos
«e que he pouco serviço de deus», e ainda insistia para que lhe man­
dassem pedreiros e carpinteiros, para poder acabar os edifícios que
tinha começado, e entre outros a igreja de Nossa Senhora da Vitória (2),
0 que D. João III lhe satisfez (3), talvez devido aos bons ofícios de
Jerónimo Leão, criado da Rãínha D. Leonor, outro português que
residia alguns anos no Congo, dos quais sete ao serviço de D. Afonso,
e a quem êste fazia as melhores referências, pedindo a D. João III que
o tornasse a mandar e lhe desse todo o crédito e aceitação nas cousas
que lhe contasse, « deste Reyno e partes da tiopia, porque delle melhor
«que doutra pessoa que a ellas veesse pode com verdade seem informado
«asy polia antyga experiencia que da terra tem, como por seu saber e
«despriçam seer pera yso ssoficiente».

(1) V ide referên cia a n terio r a medidas de liberdade de escravos e escravas determinadas
por D. M anuel para S. T o m é .
(2) V ide A n exos, d o c cit. Ravenstein na nota a pág. 109 do seu livro já citado, relaciona
várias igrejas co n stru íd as depois da de Vera Cruz, mas nenhuma sob a invocação de Nossa
Senhora da V itó ria
3
( ) Arquivo Nacional. Corpo Cronológico. Parte i.*, maço 38. Doc. m, de 26 de Janeiro
de 1528.
Angola
Náo conseguindo ter padres em número suficiente para educarem
os seus parentes e se espalharem pelo seu reino, resolve mandar um
grupo dos seus para Portugal, uns para aprenderem a ler e escrever,
outros para receberem ordens menores e ainda outros para irem a
Roma « e darem f f é das cousas ssamtas e boas que llá virem c as aprem -
« derem e deserem aos que as vystas nam tem ; » aproveitando a ocasião
para repisar queixas antigas contra um António Vieira, a quem, ainda
no tempo de D. Manuel, confiara vinte moleques para serem educados
em Portugal e de que êle se foi desfazendo na viagem, deixando uns
nos Pangelungos, outros em S. Tomé, chegando a Lisboa só com dez,
dos quais não tornou a ter notícias (i).
Aqueles parentes que êle indicava para irem a Roma, deviam acom­
panhar a embaixada que resolvera mandar ao Papa Paulo III, prestan­
do-lhe a sua obediência.
A civilizaçã# trouxera-lhe modos de ver e de se conduzir, bem
diferentes dos doutras épocas. Quando foi da sua subida ao trono,
D. Manuel, porque tinha um fim político a atingir, convenceu-o a
mandar uma embaixada ao Papa, oferecendo-se para pagar as despesas,
e, agora, depois de passarmos dezenas de anos a ensinar-lhe cerimónias
da côrte, a incutir-lhe que êle era um principe cristão como os outros,
que por ser rei, era parente com tratamento de irmão do nosso rei;
que, como êle, tinha o direito de usar títulos: p er gi~aça de deos R ey do
« Comguo e Ibumgu Cacomgo e Agoyo daquem e dalem a^ary Senhor
« dos ambundos damgolla daquisyma e musuaiiru e de matamba e muyllu
« e dos angicos e da comquista dopau\o alaumbu, etc. não o convidámos,
nem nos oferecíamos para as despesas.
Noutro tempo, êle mandara os seus principais e D. Manuel se
encarregara de os vestir e educar para irem a Roma, sem que lhe
passasse, então, pela mente a despesa a fazer e sem mesmo saber o que
significava a despesa. Agora, a civilização, ao par que lhe criara
a necessidade de, por vaidade e por interêsses políticos, se ostentar
como pessoa importante, ensinara-lhe o valor do dinheiro, que êle
não tinha, mas apenas os búzios da ilha de Luanda, que não corriam
na Europa e que de nada serviam aos seus embaixadores, a quem já
não classificava de principais da sua terra, mas de fidalgos, e a quem
tratava por duques e condes.

,
( i) História do Congo Paiva Manso, doc. xl , pág. 70.
Parte I— Zaire e Congo 61

R esolveu, então, escrever a D. João III, pedindo-lhe por empréstimo

citfO° mil cruzados.


O permanente contacto com os nossos, que, se uns, raros, o de-
pimiam, outros o engrandeciam, convenceu-o de que era grande o
;eU valor e o Congo um factor importante para a nossa política na
£uropa> Com êste fundamento, começa uma carta(i) por lembrar a
p, João III que um dos seus títulos era o de Senhor da Guiné, de que *
q Congo era a parte maior e que fôra a conversão do seu reino ao
crjstianismo que dera a Portugal uma das maiores glórias, mas que
gqueremdosse preferir, como no tempo dagora se costuma; otransytorio
((pello que permanece», se pusesse dum lado íôda a Guiné e doutro
só o Congo, e se veria que êste, só por si, rendia muito mais. Assim,
gle era, de entre os reis de que D. João III era senhor, aqueie que as
suas cousas mais estimava, melhor tratava, e mais auxiliava o seu
comércio, abrindo feiras, almadias, caminhos, e pumbos, onde se
resgatavam peças, e também aquele a quem D. João III menos galar­
doava, quando, pelos seus merecimentos em comparação com os dos
outros, não seria extraordinário que se lhe atribuísse uma renda para
certas despesas, como as que na ocasião tinha que fazer com a embai­
xada ao Papa.
Não há dúvida que é hábil esta justificação dos seus direitos,
que no tempo de D. Manuel seriam logo atendidos, sem mesmo ter
sido necessário invocá-los. Mas a época era, então, outra; as prodiga­
lidades de D. Manuel e dos seus antecessores, desde D. João I, tinham
criado ao país uma situação financeira difícil, e D. João III não podia
manter as ostentações de seu pai. Assim, o preto D. Afonso, sentindo
a diferença de tratamento, que tanto o amargurava, termina por
apelar para um empréstimo de cinco mil cruzados, dando em troca
cento e cinqüenta cofos (2) de dinheiro do seu reino, com 0 que se
poderia resgatar o número de peças equivalentes ao valor que pedia em
moeda de Portugal.
Deste despeito pela pouca consideração que lhe dávamos, facil­
mente passou o preto D. Afonso para a mania da perseguição. Ora
eram os pilotos dos navios que antes iam receber as suas ordens e, *-
agora, lhe não davam satisfações quando chegavam ou partiam; ora
eram os de S. Tomé que lhe violavam e roubavam a correspondência ï
----------- -1
( t) H istó r ia d o C o n g o , P a iva M anso, doc. xun, pag. 74.
\\
(2) C o fo , talvez co rru p ç ã o de iu ju co , que em língua do Congo significa dez mil. . •>

4 i
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ma «
Ó2 Angola
que enviava para Portugal, até que, nos últimos dias do seu reinado,
termina pela acusação a Fr. Álvaro, o nvertuoso padre frey Álvaro»,
corno êle ironicamente lhe chama, que ordenara num dia de Páscoa, a
sete ou oito homens brancos com espingardas, que na ocasião em que
êle estivesse na missa fizessem fogo para o matarem, no que era coni­
vente um outro português, Álvaro Pessanha, que se vira obrigado a
expulsar do Gongo (i).
*
* *

Os confessores e mentores do rei D. Afonso não limitaram a sua


acção à educação religiosa do seu povo e às relações com Portugal e
Roma.
A importância, a consideração que D. João II tinha dispensado aos
pretos que Dio£b Cão lhe trouxera como embaixadores do Congo e
que depois seguiram com Rui de Sousa, foi indicação bastante para a
norma das relações dos nossos com o preto do Congo, que, pela neces­
sidade do engrandecimento da nossa obra, fizemos rei e cercámos de
todo o respeito e considerações, que D. Manuel mais avolumou com a
criação da côrte e dos cargos administrativos e das regras de pragmá­
tica. Tendo-lhe estimulado a vaidade, o rei do Congo passou a ser
para nós aquilo que os nossos olhos queriam ver, — um potentado, e,
pela necessidade instintiva de ligar e coordenar as aventuras a que nos
conduzia o nosso irreprimível sentimento das descobertas, passou a ser
o rei de tôda a terra. Não só lhe prestámos todo o auxílio para
subjugar os que se rebelavam, como no conselho e informações que os
nossos, pediam sôbre a possibilidade de relações, com os povos
vizinhos, faziam tacitamente incluir uma autorização ou licença para
essas relações. Tornámos, assim, dependentes dêle todas as nossas
relações e, sós e isolados por todo o interior, sem armas para uma luta,
invocavam os nossos a sua autoridade, que sempre elevavam e engran­
deciam, com o fim de obterem bom acolhimento e um melhor e mais
rendoso resgate.
Intitulava-se o preto D. Afonso «Senhor de Angola », bem como da
Matamba, donde lhe vieram duas manilhas de prata que mandou de
presente a D. João III, escrevendo: hum fydalgo da minha terra que sse

( i) Paiva M anso, H istó ria do C o n g o , doc. x u v , pág. 76.


*

P a r te I — Z a ire Congo
63

matamba me m andou. . . » (i) quando, na verdade, se n ã o


“ atava de nenhum fidalgo da sua terra, que era só o C ongo, m as dum
irifio vizinho do C o n g o e de A ngola, até onde os portugueses tinha
rí egad° e que relacion aram com o do Congo, pelo que êle o passou a
^ c í i r nos seus dom ínios.
1(1 C om A n go la sugeriram -lhe um procedim ento igual ao que Unhamos
triiido para com êle, procu ran do o seu senhorio pela conversão do seu
&C\aO cristianism o, à cu sta dos nossos padres e dos nossos comerciart-
reS Mão só no tem po de D. M anuel, o rei de Angola m andou pedir ao
j o C o n g o que lhe m an dasse padres, o que indica a dependência em
ue aquele se ju lg a v a p a ra co m êste, com o tendo em 521
o português
galtazai* de C a stro fica d o prisioneiro do rei de A n gola, foi o do Congo
«que me tyrou do catyvo do poder dam guolan, com o, o próprio B altazar
escreveu a co n ta r a D. João III (2), a cre sce n ta n d o : « a mynha detença \
&e,n conguo he porque elR ey de conguo mandou hnm omem anguola
„para que me tyrase e hum creleguo pera o fa \ c r crystão fo y o, e depoys
«socederão cousas que d ey xo u de ho ser as quaes vossa alteia saber a
„pelo tempo porque este homem que elR ey de Conguo lá mandou f e \
acousas por onde tudo se tornou a perder como dyguo e asy se tornou e
«me fe\ fycar a m ym e eu esprevy ho que pasava a elR ey de Conguo
„ e que tevese este homem até que eu vyese e elRey feio asy eu tyve ma- !
, neyrr pera sair e chegam do a esta cydade tynha este homem dada fa m a
i de mym que heu era m ouro e outras cousas e achey fama que ele dy\ya
aque vyra serras d e prata na terra damguola e pedras e outras cousas», * \
o que prova a c o rd e a lid a d e de relações entre os dois reinos e até a
autoridade do do C o n g o sô b re A ngola, que, não provinha senão de
nós, pois, a -p esar-d e b ra n co s , n ão nos apresentávam ás declaradam ente
como conquistadores, m as fa ze n d o depender essas conquistas do rei do
Congo. E ste facto fa c ilito u a su a acção e estendeu o seu poder sôb re
outros p ovos, q ue o c o n sid e ra v a m tão poderoso que até tinha b ran co s
ao seu serviço, co m p a d re s que tinha idolos mais poderosos q u e os
deles, e co m ercian tes q u e le v a v a m m ercadorias que nunca tinham v is to
e muito a p re cia v a m , em e sp e cia l a aguardente e o vinho.
Em troca d a s m e rc a d o ria s que levavam , traziam os nossos, além
de escravos, as m an ilh a s d e c o b re , as esteiras, o marfim e a m ad eira ,
mas eram o co b re e o s m e ta is preciosos, as m ercadorias q u e, d ep o is %

( 1 ) H istória do G o n g o , P a iv a M anso, doc. xxx, pág. 58.


(2 ) ldem, idem, d o c. x x ix , pág. 56 e L u cian o Cordeiro, M em órias do U ltram a r.
!
\
\

; \
64 Angola
do escravo, mais nos seduziam, dando lugar a que loucamente nos
lançássemos na sua pesquisa.
Baltazar de Castro, que, quando foi para Angola, ouvira falar
na viagem de Gregório de Quadra pelo Zaire, ainda se refere a essa
exploração, na carta que do Congo escreveu a D. João III, mas já não
era o Zaire o que mais nos interessava. O que queríamos eram as
ricas e fabulosas minas de prata, chumbo e cobre, a que alguns se
referiam em segrêdo contado a muitos, e espalhado até chegar a Lisboa,
o que levou D. João III a mandar Rui Mendes, indivíduo entendido em
minério e que nisso negociava em Portugal, na Fiandres e na Alemanha,
para o Congo, como feitor das .minas, levando consigo, além de fundi­
dores, ferramentas e mais material necessário.
Escandalizou-se o rei D. Afonso com a chegada de Ruy Mendes
para tratar das minas, e logo «em sua corte demtro em seus paços man-
« dou fa\er fornalhas e asemlar temdas, homde se fundio a vea ssobre
«que lia escreveo a Vossa Altera e lhe tem lia mandado amostra asy
«do que se fundio como da vea » e resolveu mandar os fundidores às
minas de cobre e chumbo e «seu desejo he folguar ter com que syrva
« Vossa Altera e porem esta tam medroso de ouvyr dt\er que Vossa Al-
« te\a senhorea a Imdea e que hotnde ha ouro ou prata ally manda lloguo
«fa\er for/elejas que algüas ve^es mo tem dado em Reposta ao que lhe
« Requeiro » (1).
Parece que Rui Mendes não achou as riquezas que se apregoavam
e retirou para Lisboa sem que as minas entrassem em exploração, como
ainda não entraram até hoje, o que prova que era entendido no assunto,
mas não pensavam do mesmo modo os seus fundidores e, entre êles,
um alemão, Gimdarlache, que se deixou ficar no Congo, depois do seu
regresso e que, depois de várias viagens, taes cousas contou a Gonçalo
Nunes Coelho, que no Congo residia de há muitos anos, e desempe-
nhára os cargos de ouvidor, provedor e escrivão do rei do Congo, que
êste «por me parecer cousa Imposiuell lhe dei Juramento se 0 que de{ia
« 0fa ria cen o. . . o qual me certificou que era moor 0 proveito de cobre
«chumbo e prata que a Remda de toda espanha » (2).
Foi esta opinião do alemão Gimdarlache, que ficou prevalecendo e,
com o andar dos tempos, avolumou-se o valor das minas e estas12

(1) História do Congo, Paiva Manso doc. xxxvn pág. 66, e Luciano Cordeiro, Memórias do
Ultramar.
(2) Idem, idem, doc. xu, pág. 72.
Parte 1— Zaire e Congo 65
deram-se por todo o Congo e Angola, passando, a-pesar-de tantas
eStelR]sóes sofridas pelo que se julgaram ricos com as suas descobertas,
^sèr a constante preocupação de novos sertanejos que foram vindo e
até de muitas das nossas autoridades.

*
* *

Deve ter falecido em *540-41 0 rei do Congo D. Afonso, tendo


aovernado, não mais de cinqüenta anos, como nos deixou escrito João
de Barros, mas cêrca de trinta e cinco, sucedendo-lhe um filho D. Pedro
e, parece que depois de algumas lutas, um primo D. Francisco, e,
depois de dois ou três anos, um filho dêste (1) a quem nós, pelo
respeito às pragmáticas e à orientação estabelecida, passámos a chamar
rei D. Diogo 1, e que começou 0 seu governo em fins 5 e 544, princípios
de 545, depois de ter prendido 0 tio e os seus partidários (2).
Antes de continuarmos em detalhes sôbre a seguinte história do
Congo, analisemos, ràpidamente, a situação.
D. Manuel faleceu, tendo conseguido a dispensa de idade para
0 Bispo de Utica, D. Henrique, poder ir para 0 Congo, sem que o
Congo constituísse, contudo, um bispado e nem ainda S. Tomé, e sem
! lhe dar atribuições especiais, nem ao menos 0 nomear vigário. Era
um bispo in partibus e, pessoalmente, subordinado ao bispado da
Madeira, que lhe dava ordens por intermédio do vigário que tinha em
S. Tomé e a que 0 Congo estava subordinado.
Foi feito bispo e mandado para a sua terra natal e para a com­
panhia do pai, porque assim convinha à política de então e não podia
ir para outro ponto, porque a raça lhe não dava as qualidades neces­
sárias para pastor de brancos, tanto mais que nesse tempo, dada
a interferência das ordens religiosas na vida dos povos, os bispos
representavam um papel de alta importância e destaque. Era um bispo
para 0 Congo, um bispo para reclame da nossa acção colonial, como
0 pai era rei, com a diferença de que êste, consultando a relação dos
diversos cargos do reino, que D. Manuel lhe mandou por Simão da
Silveira, ia fazendo a seu belo prazer, os duques, condes, mordomos,12

(1) Carta de D. Diogo, rei do Congo a D. João III *despoes da morte delRey meu ssnhor e
am. Paiva Manso, doc. xlvui, pág. 83 .
(2) Vide Anexos doc. n.° 10. Lista dos Reis do Congo segundo Ravenstein.
9
66 Angola
trinchante e resposteiros, etc., ao passo que êle apenas levara uns
coadjutores e talvez uns fâmulos, que em pouco tempo desaparecera^
e não pôde renovar.
A certa altura scntiu-se deprimido. Não exercia sôbre os da sua
côr, o domínio c persuasão que exerciam os padres brancos; não tinha
dos padres brancos o respeito devido à sua dignidade e hierarquia(i).
Por outro lado, o pai, como D. João III lhe não enchia o Congo
de padres, — cinqüenta lhe pediu duma só vez, começou a amuar-se,
a queixar-se de que o abandonavam, que já não tinham consideração
para com êle, mas orgulhoso do engrandecimento que nós tínhamos
dado ao seu reino, aceitando que era tudo por êle e para êle; conhe­
cendo pelas histórias cheias de fantasia que os nossos, aos serões, lhe
deviam ter contado, o que era a vida da Europa e na índia; conven­
ceu-se de que, na verdade, era um rei e que o filho, sendo um bispo,
tendo estado em*Roma, conhecendo cardiais e outros altos dignatários,
era uma pessoa de alta importância e vítima, também, da pouca
consideração que êle julgava que a D. João III mereciam os assuntos
da África.
Soube que falecera um Papa e fôra eleito outro e disseram-lhe,
talvez o filho, que os reis católicos tinham por costume prestar
obediência aos novos pontífices. Recordava-se que D. Manuel, quando
o fêz rei, lhe mandara um papel para assinar, que era uma dessas
cartas de obediência e via que D. João IÍI nada lhe dizia sôbre o
assunto. O despeito atormentava-o, feria-lhe a sua vaidade. Era»
sinceramente, um crente, um cristão católico, apostólico, romano, rei
dum grande e rico país, ,1porque motivo não cumpria os seus deveres
para com o Sumo Pontífice?
E resolveu, então, mandar uma embaixada a Paulo III, com uma
carta, que, se atentamente a apreciarmos, é um documento da sua re­
beldia, porque, propositadamente, êle não quis copiar a anterior, que
mandara no tempo de D. Manuel e em que confessava que sendo enga­
nado p elo demónio, adorando ídolos, D. João 11 e depois dele D. Manuel,
o apontavam divinalmente de tamanho erro , e deu-lhe uma redacção
diferente, em que não há a menor referência a Portugal, quando natural

(1) Ravenstein, obra citada, diz que o Bispo de S. Tomé, D. Diogo Vilhegas, que o tinha
ordenado quando esteve em Roma, nos seus últimos momentos, manifestara o desejo de que
lhe sucedesse na cadeira episcopal e que o Papa, antes de lhe satisfazer o desejo e porque se
tratava de um nativo, quis vê-lo e ouvi-lo, pelo que D. Henrique seguiu para Roma, falecendo
na viagem em i 53$ ou antes.
Parte I— Zaire e Congo ó7
seria, querendo mosirar os progressos da fc católica no seu reino, que
se referisse à acção dos padres portugueses e dos reis D. Manuel e
D. João III.
ãSoube D, João III dêste facto e não lhe ligou importância? Talvez
não soubesse, porque anos depois, em 553, também não soube que o
rei D. Diogo I, que então governava o Congo, queria prestar obediência
ao Papa, e foi por uma carta do comendador-mor D. Afonso, de Roma,
que teve disso conhecimento.
Como se poderiam conseguir as relações entre o Congo e Roma sem
o intermédio de Portugal, são mistérios da política da época, mas o
facto de se ter realizado uma vez com sucesso, leva-nos a poder
admitir que já anteriormente se procedera da mesma forma, porque, no
que se não pode acreditar, é que a corte de Lisboa sancionasse tão
manifesto desrespeito, e o encarasse como simples manifestação de os­
tentação e vaidade, não lhe ligando maior importância^ quando, pouco
antes, era por intermédio de um seu embaixador especial, que fazia
chegar até junto de Clemente Vil, o padre Francisco Álvares com as
notícias do suposto Preste João.
Durante trinta e cinco anos do seu govêrno, o preto D. Afonso
enviou para Lisboa, quási todos os anos, pretos para serem educados e
além dêstes, outros vinham e voltavam com portugueses, constituindo
todos uma camada de civilizados, onde entravam muitos letrados e
outros com parte dos conhecimentos então exigidos para padres e que
não tinham chegado a receber ordens, que não viam de bom grado,
não a subordinação do Congo a Portugal, porque, realmente, não se
podia dizer que existisse, mas o facto dos portugueses disporem do seu
reino como dêies próprios, negociarem e percorrerem todo o país e os
vizinhos, onde tinham verdadeiro domínio.
Por outro lado sabia-se no Congo o que se passava em S. Tomé.
A pequena povoação que os portugueses tinham estabelecido, já fôra
elevada a cidade; tinha uma Sé Catedral, um bispo, cabido, etc., e uma
agricultura desenvolvida, que fazia a riqueza dos proprietários.
Transformara-se num importante centro de comércio e navegação,
suplantando a Mina e tôda a Guiné, e do seu porto irradiavam pára o
sul os navios, não se contentando já em irem negociar e resgatar
escravos ao Congo, mas até Luanda e para além Quanza, o que preju­
dicava o negócio do Zaire.
Se pelo lado do rei do Congo a situação era esta, pelo lado dos
portugueses também não era melhor.
68
Angola
Desde que em lugar do delegado do rei de Portugal, assistindo ao
rei do Congo, e dirigindo os portugueses que lá residissem sem a menor
intervenção daquele, se criou o de feitor, e depois se deixou que 0
preto os escolhesse e nomeasse, como seus empregados, a quem
pagava para dirigir os portugueses, os factos deviam tomar, fatalmente
a feição que tomaram.
Se a grande maioria dos feitores, por educação e patriotismo, se
soube conduzir no seu lugar, alguns houve que o não souberam e, no
desejo de benesses e proventos, procuravam agradar ao preto, com
prejuízo dos seus compatriotas.
Quando de Portugal não atendiam a pedidos do rei do Congo,
incutiam-lhe que era em S. Tomé que interceptavam a correspondência,
facto que, na verdade, por vezes se deu. Depois atribuíram a intrigas
dos que estavam no Congo, em cartas que escreviam para o rei,
costume muito «osso desde o princípio das conquistas e que os reis
consagraram, respondendo por vezes aos mais humildes e sem categoria
para prestarem informações, o que os colocava na dúvida sôbre a
verdade dos factos, decidindo-se na maioria dos casos, por acreditarem
que todos tinham razão, sem que contudo os punissem.
Os feitores, para se defenderem, aconselhavam o rei a que estabe­
lecesse a censura na correspondência que os moradores mandavam
para Portugal e, como não havia correio organizado, mandavam espias
a sítios certos, por onde deviam passar os portadores das cartas, para
lhas apreenderem «por que nesta terra ham p o r moor erro espreuer a
«vossa altera que fa \ e r huum gram de crime e Aesta caussa tem guardas
anos portos e pasageens da qui ate sonho que sam quaremta legoas, e
«todallas cartas que vaão pera o Reino e Ilha e dela vem see tomam
a e tracem a Sua R ea l Senhoria (era o preto rei) eperdoe deus A quem em
atam errado auiso o meteo. . .» (i).
Se o conteúdo das cartas desagradava, seguiam-se as vinganças
com inquirições e castigos, que iam até à confiscação de bens.
Deram-se êstes casos precisamente com o último feitor que serviu
com o preto D. Afonso, Fernão Rodrigues Bulhão, o que motivou o
protesto dos negociantes portugueses que residiam na capital, em
número de sessenta ou setenta, que ameaçavam retirarem-se se não
fôssem tomadas providências.

(0 Carta de Gonçalo Nunes Coelho, já referida.


Parte 1— Zaire e Congo Ó9
Essas providências devem ter demorado e, se os negociantes se não
retiraram para Portugal, como ameaçavam, internaram-se e foram
para Angola, fomentando daí 0 comércio com S. Tomé, por onde
podiam escrever cartas sem receio da censura e onde viviam longe da
acção de qualquer autoridade.
Era esta a situação, de parte a parte, quando faleceu o preto
D. Afonso, o que justifica as lutas havidas entre as duas correntes que, ^
possivelmente, se deveriam ter estabelecido entre os seus súbditos,
vencendo a que tinha por chefe 0 neto D. Diogo, ajudada pelos
portugueses descontentes do tempo do avô, pois vemos António
Caiado, um dos protestantes de então, desempenhar agora o cargo de
escrivão e tabelião, e já quando D. Diogo era rei, D. João III atender
as reclamações dos portugueses e nomear um tesoureiro para a arreca­
dação das fazendas dos defuntos, deixando êsse cargo de ser exercido
cumulativamente pelo feitor e provedor, embora cogtinuasse depen­
dente do tesoureiro de S. Tomé.

#
# #

Em 1545 quando 0 preto D. Diogo começou 0 seu govêrno a


situação podia assim resumir-se: um grupo de portugueses espalhados
pelo litoral e pelo interior, desde 0 CacongQ, ao norte de Molembo, até
pelo menos ao rio da Longa, para 0 sul do Quanza, negociando e
desviando o comércio para os portos que ocupavam, com prejuízo dos
que estavam estabelecidos no Pinda e, especialmente, no Congo; 0 rei
do Congo, não representando já para Portugal 0 papel político do
tempo de D. Manuel e, na vida interior, 0 seu poder minado pelas
pretenções da côrte que criara; a ocupação religiosa deficiente e essa
mesma exercida com pouco fervor; S. Tomé engrandecido, em plena
prosperidade agrícola e comercial e centralizando nas suas autori­
dades administrativas, fiscais, e religiosas, tôda a acção sôbre a
imensa região ocupada pelos portugueses no continente africano.
D. Diogo, usurpado o trono a seu tio D. Pedro, escreveu a D. João III
narrando-lhe o que se tinha passado, enviando a carta pelo seu capelão
e confessor, 0 padre Diogo Gomes, a quem deu poderes de seu embai­
xador, a-fim de tratar de outros assuntos que lhe interessavam e que
dependiam de resolução de D. João III.
Da conversa com o padre Diogo Gomes ficou no espírito de
7° Angola
D. João III a impressão de que o remédio para os males do Congo era
a evangelização, e, como a Companhia de Jesus se estabelecera havia
pouco, pediu ao seu superior, o padre Luís Gonçalves, lhe arranjasse
missionários para o Congo, se não foram antes estes a insinuaram, dadas
as más condições em que o ensino religioso tinha sido estabele­
cido no Congo, ser necessário que lhes fôsse confiado para o refor­
marem.
Para a missão ao Congo foram escolhidos os padres: Jorge Vaz
como superior, Cristóvão Ribeiro, Tiago Dias e o irmão auxiliar Diogo
Soveral; mas tiveram demora para a partida, entre outros motivos,
porque o padre Diogo Gomes quis ingressar na Campanhia de Jesus,
o que, depois de várias consultas, se reconheceu não ser conveniente à
política do Congo, para que não se dissesse que o confessor do rei
também era jesuíta e tudo ficava nas mãos da Companhia (i).
Entretanto, «p preto D. Diogo escrevia de novo a D. João III
pedindo para não demorar o padre Diogo Gomes e dar solução aos
i assuntos que lhe apresentara e, atendendo à urgência, D. João III
manda com aquele os padres da Companhia, que chegaram ao Pinda
; em Setembro de 1 5 ^7 , levando uma carta sua recomendando-os ao
preto D. Diogo, que os recebeu muito bem e tudo correndo, de princípio,
de forma a dar as melhores esperanças de bom êxito da missão.
Mas o problema é que não admitia delongas nem que se esperasse
pelo êxito da missão. O desvio de navegação para os portos do sul,
prejudicava fortemente os comerciantes do Congo, que, por falta
de navios, não podiam carregar todos os escravos que tinham para
exportar, tendo de os deixar meses e meses no Pinda à espera de
navio, com o que perdiam bastante, não só pelas despesas para o seu
sustento e pelos que faleciam, como, ainda, porque os poucos navios
que apareciam, tinham de embarcar mais peças do que o regimento
que traziam lhes autorizava, dando lugar à morte dos escravos pela má
f acomodação. *

No início da colonização, os colonos de S. Tomé tinham obtido


■ o privilégio do resgate no rio do Manicongo, aonde mandavam os
■ seus navios e onde tinham os seus feitores. A pouco e pouco, estes
foram sendo substituídos por colonos que ali se estabeleceram, alar-
t _________

(i) Synopsis Annalium Socielatis Jesu in Lusitania ab anno 1540 usque ad annum
Authore R. P. António Franco Societatis ejusdem sacerdote. Ano m dccxxvi — In Lusitania
Ano 1547 Nostri in Congo praedicant pág. 22.
Parte 1— Zaire e Congo 7l
«ando as suas relações pelo interior, trazendo desde Angola até ao
2aire, para embarcarem no Pinda, os seus escravos e mercadorias,
sobrecarregados para a venda, com as despesas duma tão longa
viagem.
Naturalmcnte, surgiu aos de S. Tomé a idea de evitarem êsse
encargo, procurando um pôrto da costa, mais próximo do local do
resgate, e, primeiro no Ambris, depois no Dande, chegaram ao Quanza
c ainda mais para o sul, pondo lá feitores seus ou aproveitando os que
tinham no interior do Gongo, prejudicando assim os comerciantes esta­
belecidos no Pinda.
A princípio, a cobrança dos impostos correspondentes a todo o
movimento comercial da Mina e Congo centralizava-se em S. Tomé;
mas, desenvolvendo-se o Congo, reconheceu-se, a necessidade de
arrematar em separado os seus impostos e, embora não se encontre
nos arquivos qualquer auto dessas arrematações, (i)* não nos deve
restar dúvida de que, de certa época em diante, elas se fizeram,
porque o rei preto D. Afonso, numa carta que escreveu a D. João III
em 1540, a propósito dos pilotos dos navios já não 0 procurarem,
nem quando chegavam, nem quando partiam, diz «nom sey se 0 causa
«ter vosa altera 0 trato arrendado» (2), mostrando bem que até ali o
não estava.
Devia haver, pois, dois arrematantes, um em S. Tomé, outro no
Congo, mas este cerceado nos rendimentos que lhe deviam dar os es­
cravos e mercadorias exportados pelos portos que os navios de S. Tomé,
exploravam, estabelecidos em mais de trezentas milhas da costa.
Avalia-se bem o prejuízo que daqui advinha para êle e para os portu­
gueses estabelecidos no Congo, o que os levou ao protesto.
Os negociantes queixaram-se e 0 feitor eo corregedor encaminharam
a solução para que o preto D. Dtogo mandasse proceder a uma inqui­
rição, da qual se averiguam os prejuízos sofridos pelos diversos expor­
tadores e, entre êles, Jorge Vaz, padre da Companhia de Jesus, que
pouco antes tinha chegado e já ficara com sessenta ou setenta peças
por embarcarem (3).

(1) O primeiro auto de arrematação, respeitante a Angola e Congo, que se encontra


publicado, é de 1607, Falcão, Livro de tóJa a fazenda, etc., e contudo além dêste a que nos
referimos, deve ter havido outro em 1580-87 para Angola.
(2) Doc. já cit. Paiva Manso, pág. 76.
( 3 ) História do Congo, Paiva Manso, doc. L pág. 84. É para notar que esta inquirição
é 0 traslado de outra a que 0 D. Diogo mandou proceder e que fòra interceptada em S. Tomé.
72 Angola
Se pelo lado do negócio era esta a situação, pelo que respeitava
às relações entre os portugueses, apresentava-se ainda mais agr*
vada.
Sucedeu o que era fatal que viesse a suceder, dada a situação <j0
Congo nos últimos tempos do preto D. Afonso. Este queixava-se de
que lhe tínhamos enchido o reino de «guromentes, mulatos ebenyms
«se nenhuü fru y to nem seruiço de Deos faceram sse nam ymsynar
«aqujlo de que husam que ssam mujtas torpezas e maa vida... ([) e
talvez tivesse razão. Os pretos da Guiné que para lá leváramos e 0$
mulatos que durante cinqüeuta anos por lá andámos fazendo, juntamente
com os civilizados, a que já atrás se fêz referência, (semente de qUe
vieram os calcinhas, os ambaquistas e os meninos das missões) e os
portugueses pais desses mulatos e patrões dos guinés, constituíam um
dos partidos em que se tinham dividido os portugueses e que, na
ocasião, apoiava o preto D. Diogo, ou antes, se servia da autoridade
dêle para perseguir os seus contrários.

*
* *

A acção do clero, pela supremacia que os padres da Companhia de


Jesus procuraram adquirir, veio agravar esta situação.
Os rigores de preceitos religiosos como a Companhia os queria
impor, não eram admissíveis no Congo e provocaram a mais enérgica
reacção, tanto mais que os padres da missão eram pecadores como os
outros e não resistiam à tentação do negócio, faltando-lhes assim a
autoridade para se fazerem respeitar, principalmente entre os cole­
gas, que os não consideravam mais virtuosos e se lançaram na luta
ajudando os negociantes que apoiavam, ou antes dirigiam, o preto
D. Diogo.
O irmão Diogo do Soveral veio a Lisboa contar a D. João III
o que se passava e o padre Diogo Gomes abandonou o Congo e
foi para S. Tomé, onde expôs detalhadamente o que era a vida no
Congo.
O capitão-mor e governador de S. Tomé, Francisco de Barros de
Paiva, em vista das queixas que recebera dos portugueses, procedeu às

(i ) Anexos, doc. n.° 8 já cit.


Parte l — Zaire e Congo 7$
peccssárias averiguações, tendo apurado(i) que o preto D. Diogo não
^ os mandava espancar e roubar, mas chegara ao atrevimento de
mandar cortar as orelhas a um Gaspar Ferreira; que tomava ou com­
prava as mercadorias e só as pagava quando as tinha consumido; que
estabelecia varas e côvados da grandeza que entendia; que tabelava
oS géneros e mercadorias; que fechava aos portugueses os pumbos
0nde era fácil resgatar, e os abria aos pretos da terra que negociavam,
deixando para os portugueses aqueles onde havia dificuldade e perigo,
acrescentava o capitão-mór que isto eram os agravos feitos a omens
leygos e agora tocamdo no eclesyastico. . . o bispo semdo emviado por
posa alteia aquele Reyno e hum perlado tão vertuoso terlhe tão pouquo
acatamento que veyo da maneira que vosa alte\a sera enformado e agora
os padres da companhia de Jeshum que nem omras ne Imterese buscão,
por Repremderem cousas pruvicas dopouo mandalos decer dos pulpetos e
deytar fora da ygreja, etc., pelo que tinha reünido 9 ouvidor, juízes
vereadores, feitores e oito ou dez homens principais de S. Tomé e,
expondo-lhes o caso, resolveu escrever uma carta ao D. Diogo fa­
zendo-lhe ver a incorrecção do seu procedimento, esperando que êle se
corrigisse. Se assim não sucedesse, estava em mão e vontade de
D. João III resolver o assunto, determinando que não fôssem navios ao
Congo, no que não havia perigo das conseqüências, porque quando o
D. Diogo não fose o que deue, senhores ha no Reyno tão {eloso da fee e
omra de deos que o mo consemtirão e asy elRey dom pedro que
esta na Igreja e dom Rodrigo que estaa nesta Ilha mormente vemdo que
não temfauor de vosa alte{a que o ele sostemta, etc.
Em qualquer parte onde conviesse, se faria um Congo, como por
exemplo em Changala (ilha de Luanda) onde, apesar-do D. Diogo estar
ensoberbecido com a vitória alcançada, o delegado que lá deixou se
tinha revoltado, dizendo-se, entre êles, que quem tem a posse daquela
terra é que era, verdadeiramente, o rei do Congo, por estarem lá as
minas do dinheiro e fazer-se melhor resgate que no Congo. Asy
também polo Rio de Comgo arriba, da outra bamda, está a terra dos
am{iguos e outros Resgates descrauos, que são os que vão a congo e tudo
fora dos lemytes desse Reyno e, asy, estão as minas do cobre mais arriba
ao lomgo do Rio, e o senhor da terra omde elas estão, Jaa se pode ver o
proueito que lhe vira ter comonicação com purtugueses e mais semdo per
mandado de vossa alteia. Enviava tôdas estas indicações, para que

(i) Paiva Manso, História do Congo , doc. u h , pág. 93.


10
74 Angola
se visse que, se o D. Díogo se não emendasse, fàcilmente podería ser
obrigado a proceder como devia, e só pelo temor e interesse se conseguia
alguma cousa daquela gente, pois de comprimentos e boas maneiras são
eles m uylo esquecydos.
Não se esqueceu Barros de Paiva de indicar a D. João III nesta
carta, referindo-se à parte do clero, o que êle julgava ser a verdadeira
origem da desordem do C on go: porque crea vosa altera que dos que laa
estão vem huma boa parte do dano porque asoluem de quantos casos
querem , como se fosem papas e di\em a e lR e y m il cousas com que o
fa \em muyto mais soberbo e desobediente.
Esta informação, manifestamente insinuada pelos jesuítas para
servir aos seus fins, traduz contudo a verdade, muito principalmente
na última parte e, para o confirmar, basta a carta dirigida a D. João III
escrita por António Calado, português, escrivão do preto D. Diogo
e que êste assfnou(i), na qual, insolentemente, começa por dizer:
t Os padres e leygos vasalos de vosa A ltera que de seo Reyno vem a este
« noso, pera em ele ganharem suas vydas p er suas ordes e mercadorias
« que tracem são tão desausalutos... q u e ... nos fa\em com y so muyto
« desprazer e desservyço , p olo desgosto que diso Reçebemos. E por serem
« vasalos de vosa A ltera com quem sempre queremos communycar nosa
« amligua amizade e Irm ãodade . . . pasamos por y s o e não mãodamos
ndar ho castygo que cada hum merecya, etc.», o que, fatalmente,
levaria o preto a convencer-se que era pessoa de importância e, dados
os maus instintos da sua raça, a aproveitar-se do apoio que lhe davam,
para exercer as crueldades, prepotência e faltas de respeito a que faz
referência Barros de Paiva.
Mais tarde, o preto D. Diogo assina outra carta, (2) dirigida a
D. João III a contar o que se passara com os padres, originando as
questões uma scena entre a filha e o escravo dum branco que lhe
faltou ao respeito, pelo que ela o castigou, intervindo os padres, que
depois se lhe queixaram pedindo o castigo da filha e, como êle os não
atendesse, porque também não castigara os portugueses quando foi da
guerra de Changala e que tinham escondido muito dinheiro, um dos
padres, estando no púlpito, na igreja, a fazer uma prédica ao povo,
insultou-o de perro , de parvo e de pouco seber. Constando-lhe que 0
padre Jorge Vaz escrevia a D. João III sôbre o caso e contando-o a seu12

(1) História do Congo, Paira Manso, doc. lii, pág. 91, 28 de Janeiro de 1549.
55
(2) Idem idem, doc. l v i , pág. 99, março 1 o.
i
<
Parte 1 —Zaire e Congo
f
0 âo, lhe Pe^‘a ^ue mandas$e fazer uma devassa para se averiguar
das cousas de que o acusavam (1).

* •

ari"
*
As queixas enviadas para Lisboa, quer pelo capitãoraor de S. Tomé,
Barros de Paiva, quer pelo preto D. Diogo, não tiveram a solução que
deveriam ter (2).
Era fácil concluir-se delas que a pretendida rebeldia do preto rei do
Congo era apenas a luta entre os nossos. O rei do Congo não era
mais do que uma das muitas ficções, de que sempre usámos e ainda
usamos, com que encobrimos as nossas lutas pessoais e de interêsses.
Preferíamos, em vez de denunciá-las claramente, convencermo-nos de
que, na verdade, existia um preto que se permitia ter ê atrevimento de
se dirigir em termos desrespeitosos ao nosso rei e que mandava cortar
as orelhas, mãos, etc., aos nossos, quando afinal 0 preto apenas servia
para, em nome dêle, um grupo governar e perseguir outro (3).
Em Lisboa preferiam dar ao caso foros de acontecimento para ser
tratado entre monarcas, 0 de Portugal e 0 do Congo, e êste, seguindo
nesta orientação, procurou habilitar-se com os documentos legais para
í
as suas reclamações e mandou proceder a uma devassa (4) sôbre o
crime de traição praticado pelo seu tio D. Pedro, por êle destronado,
documento que é interessante, porque revela da parte de quem o
sugeriu e de quem 0 organizou, 0 tal respeito pelas ficções, pois que
nêle não há a menor referência aos verdadeiros instigadores do preten­
dido crime de traição, e tudo se passa entre pretos, como se fossem só
êles a manobrar todo aquele trama. Fecha a devassa com a junção
de uma carta apreendida ao preto D. Afonso e por êle dirigida a um
parente D. Rodrigo, homisiado em S. Tomé.
Da leitura da devassa e da carta do capitão mór de S. Tomé,

(1) Arquivo Nacional da Tône do Tombo. Corpo Cronológico, parte i.*, maço 82.
doe. 48: Não publicado por Paiva Manso. Anexos, doc. n." ii.
{2) Mais tarde, em 1610, deram-se casos idênticos no Congo a propósito do estabelecimento *
de uma fortaleza no Pinda, e os governadores do Reino, então, resolveram-no mandando
chamar a Luanda todo 0 clero que estava no Congo, sem fazerem constar os fins, e prendendo
e mandando para 0 Reino 0 confessor do rei do Congo, um padre mulato, Diogo Rodrigues
Pestana, deão da Sé do Congo.
( 3 ) «Nil novi sube sole».
(4) História do Congo, Paiva Manso, doc. lvu, de 10 da Abril de i 55 o, pág. tot.
76 Angola
B arro s de P a iv a co n clu i-se que o preto D. P edro procurava re-haver 0
trono que lhe fôra tira d o pelo D. D iogo e p ara isso tinha reüniões
se rea iza va m na igreja. Um dos padres desconfiou das conversas
co n fesso u um dos im plicad os e in du ziu-o a «que descobrise tudo a suà
« Real Senhoria, porquanto erra caso de traiçam e toquava e Sua Reai
«pesoa » (t).
P re sa a m aio r parte dos conspiradores que estavam no Congo, 0
D . P e d ro refugiou-se na igreja, a p roveitan d o o p rivilégio do coito, que
tínham os transferido para as con qu istas e, o outro, D. Rodrigo, fugiu do
C o n g o e veio a L isboa, donde D. João III o m andou para S. Tom é (2),
e aí, subsidiado pelos seus, bem tratad o e em liberdade, tratava dos
negócios do D. Pedro, que lhe recom en dava procurasse obter uma bula
do P ap a reconduzindo-o no trono: « Irmam, eu vos emcomendo não vos
« esqeçaees de nos, vos a muito tempo que estaees lia e em vos esta toda
« ajuda pera nosfipera vos serdes hum tam mao homem. Ja não atentemos
« a perda de nosa geração, pois Inda vos estaees asim e não temos oulra
« esperança se não em vos, por que vos estaees na parte da verdade, nos
« cuidamos que vos mãodaseis ya a ellRe de portugall que mãodase a
« Roma pera nos soquorrer com huma santa bulia pera tirar aquelle tredor
«porque este tredor não tem outro medo se nam da bulia... Jamais agora
« elle tem mãodado a Roma hum homem branquo a buscar huma bulia
«pera quando vier a bulia matamos a todos gerallmente » (3 ), e êle, se
não conseguiu a bula, conseguiu que Barros de P a iv a escrevesse a
D. João III, aconselhando-lhe a não m andar os navios ao rei do Congo
m as àqueles, sempre mais ou menos rebeldes, que êle contava entre os
seus vassalos e que, com o auxílio das relações directas connosco,
tom ariam im portância e prestígio em detrimento do D. Diogo, que
veria o seu reino perder em unidade e engrandecim ento.
Confirm a-se por esta carta o que já por factos anteriores se sabia

55
(1) História do Congo, P aiva Manso, doc. l v u , de 10 de A bril de i o, pág. 101.
(2) Na Bibl. Nac. Reservados. C olecção Pom balina, n.° 647, sob o n.° 6. Papel avulso de
noticias, etc., lê-se a fl. 16 v. á m argem : Alvaras — Dom Rodrigo parente dei R ey do Congo
« fq y mandado p or el R e y Dom João a ilha de São Thome até se ordenar delle outra cousa, da
a qual ilha 0 dito Dom Rodrigo quis fu g ir para Congo, e f o i tomado no caminho, por outro
« navio que o capitão da ilha mandou, e porque desta fugida se segurarão inquietações no Reyno
do C ongo, o dito R e y mandou pedir ao de P ortugal que castigasse Dom Rodrigo, mandael
« R e y se tire devassa da dita fu g id a e do que nella passou, e se lhe mande serrada, e sellada
«para faqer o que lhe parecer ju stiça por alvará dei R e y feito em Lisboa a outo de março
«de i 56o.
55
Deve ter havido engano na referência à data dêste A lvará, que deve ser i o.
3( ) C arta apensa à devassa, e apreendida ao D. Pedro, já referida.
Parte / — Zaire e Congo 11
com respeito à facilidade de relações dos pretos reis do Congo com a
Santa Sé, e à convicção em que estavam de que o Papa tinha no seu
reino mais poder que o rei de Portugal e que, por uma simples
bula, podia depor o seu rei e nomear outro, ao passo que as cartas
e exortações do rei de Portugal e dos seus delegados, não tinham
diais que o valor de um conselho, sem obrigação de ser acatado e
seguido. *
A denúncia de que o D. Diogo mandara a Roma um homem branco
para obter uma bula em determinadas condições, tem algum funda­
mento.
O comendador-mor D. Afonso, em uma carta que de Roma enviou
a D. João III, dizia: e depois me veo dar conta Jacome da fonseca que
«hum que nesa corte de Vossa Alte\a fa\ as cousas delRey de Congo
«lhe mandaua procuração para dar obedientia em seu nome ao papa
«eu lhe dise que não fizese nada até Vossa Alteia otaber e ordenar o
« que for seu serviço, etc.» (i).
Entre os poucos documentos que ficaram nos arquivos nacionais,
apareceu uma minuta de uma carta de obediência de D. Diogo ao Papa
Paulo III, minuta que servira para outra carta do preto D. Afonso com
o mesmo fim e que tem as duas datas — 1533 e 1547— . Não se pode
afirmar se o preito de obediência foi prestado nessa ocasião, como
também se não sabe qual a resposta de D. João III ao seu mordomo-
-mor em Roma, sôbre 0 assunto, mas 0 que se vê é que havia hum que
nesa corte de Vossa Alte\a fa\ as cousas delRey do Congo, que mandava
dizer a Jácome da Fonseca para prestar obediência e que o facto não
passou a êste por muito natural e corrente, e foi pedir instruções ao
comendador-mor sôbre a sua execução.
O procurador do rei do Congo devia talvez ser Ambrósio de Azevedo
e, se não conseguiu as bulas que 0 D. Pedro dizia que êle vinha obter,
conseguiu alguma cousa mais importante, que foi a não aprovação de
D. João III à política de represálias contra 0 preto D. Diogo, que os de
S. Tomé e os padres da Companhia de Jesus preconizavam e, assim,
evitar o esfacelamento do reino do Congo, que fatalmente se teria dado
pela perda da sua unidade, se favorecêssemos a rebeldia dos Anzicos e
de fidalgos que se julgavam com direito ao trono.
D. João III, pelo contrário, procurou ainda mais uma vez, trazer o
preto D. Diogo ao bom caminho pela religião.1

(1) História do Congo, Paiva Manso, doc. lviii, pág. no.


Angola
O padre jesuíta Jorge V az tinha falecido, e os outros dois, Crista -
H ibeiro e T ia g o Dias, levavam uma vida escandalosa, lendo enriqaeJ j °
com o negócio, mas não era isso m otivo p ara que, substituídos estes
confiasse ainda outra vez aos padres da C om panhia a missão de
larizar a situação do Congo. R esolveu o Provincial da ordem mancj1*
inquerir dos actos daqueles, para lhes dar o devido castigo (i) e eQ
carregar d a n ova missão o padre Cornélio Góm ez, que « tinha nascid0
«em C o n g o , d e p a y e m ay p o r t u g u e s e s . alem destas conveniênciastinha
« sid o este P a d re m u y aceyto ao R e y do C o n g o e tinha vindo por Seu
« em b a ixa d or a P o r tu g a l e sabia m u y to bem a lin g oa da terra »(2).
Levou o padre Cornélio por com panheiro o padre Frutuoso fto.
gueira, que também já tinha estado no C ongo e ainda « tres menino^
* orfaos q. lhe deo d e sua casa o A b b a d e P ed ro D o m en ec , para lá Ca,
« thequivarem a filh o s d e naturaes d e C o n g o e fa ie r e m também casas de
«or/ãos sem elhantes á q. o dito A b b a d e D o m en ec tinha fundado em
« L isb o a » .
Acom panhava ainda a missão um em baixador do rei do Congo,
cujo nome as crónicas não registaram.-
Não foi feliz o padre Cornélio e, ainda êíe não tinha chegado e já
um « legado » ou correspondente, que o rei do Congo tinha em Lisboa,
escrevera a êste, intrigando-o, pelo que, logo que se avistou com 0
preto, teve de se justificar, parecendo que a intriga fôra desfeita e 0
preto ficara na melhor das disposições. Poucos dias depois tinha
mudado. Estas scenas repetiam-se continuadamente. Em conversa
com o padre Cornélio, o preto estava sempre de acôrdo e muito
respeitador, mas, logo que êle se retirava, vinham as ordens e os actos
em contrário, o que o padre atribuía a inconstância, mas que não era
senão o resultado da pressão exercida pelos seus conselheiros, inimigos
da Com panhia.
Convencendo-se que era infrutífera a sua estada no Congo, o padre
Cornélio retirou para S. T om é e depois para Portugal.
Ainda depois, se procurou pela acção do padre Diogo Rodrigues,

. ( j) Synopsis Annalium Soe. Jesu, já cit., pág. 38


. Profecti ad Congum & supplicium P.
Christophore Ribeiri.
(2) Na obra acima faz-se referência à ida do padre Cornélio, mas encontra-se mais de-
senvolvidamente descrita a sua estada no Congo na Crónica da Companhia de Jesus na
província de Portugal, etc., composta pelo P. M. Balthazar Teiles. Em Lisboa. Por Paulo
5
Craesbuck anno do Senhor M D C X X X X V, parte 2.", livro .°, Capítulo v, pág. 272. Bíbl. Nac.
Reservados.
Parle / — Zaire e Congo 79
seu antigo embaixador, regularizar a situação no Congo, mas também
iste nada conseguiu(i). A gente de S. Tomé tinha iniciado as relações
oficiais com Angola, e os nossos do Congo, irreductíveis na sua
orientação de conservarem Angola dependente do Congo, empregavam
os últimos cartuchos
Entretanto falecera D. João III e a educação de D. Sebastião fôra
confiada ao jesuíta Luís da Camâra.

*
* *

A Companhia de Jesus, tendo sido organizada para desempenhar


no Novo Mundo descoberto, na África, na América e no Oriente, pre­
cisamente o mesmo papel político que o clero católico desempenhara
na Península Ibérica, primeiro na luta contra os visigtjdos, e depois da
conversão destes, contra os sarracenos, exigia, para o desempenho da
sua missão, condições idênticas. Precisava da luta entre cristãos e
infiéis para excitar e exaltar o fanatismo e com êle fortalecer a sua
influência política.
No Congo não havia luta religiosa no sentido de combate de
doutrinas. A catequização, bem ou mal, estava feita. O que havia
era a luta entre religiosos, entre os clérigos das diversas ordens e os
padres da Companhia de Jesus.
Estes, intransigentes em matéria religiosa, não admitiam a acção
do frade passa-culpas, que se contentava em receber o pê de altar em
escravos e que absolviam de quantos casos queriam, como se fossem
papas. Não eram, como dizia Barros de Paiva, dos «que nem omras
nem Interese buscão», antes pelo contrário, o padre Jorge Vaz, um dos
prejudicados por não poder embarcar aqueles sessenta ou setenta
pretos e os outros dois que enriqueceram escandalosamente, bem
mostravam que se não tinham esquecido, no pouco tempo de estada
no Congo, de buscar o interesse; queriam o interêsse e queriam o
domínio absoluto, pela intransigência em princípios religiosos, amea­
çando com as penas do inferno os que os não cumprissem rigorosamente
e, quando estas não chegassem, com as penitências, com as excomu­
nhões e com a morte na fogueira.

(0 558
Carta do Padre Diogo Rodrigues para a Rainha D. Leonor, de 16 de Outubro de i .
3
Arquivo Nacional da Tôrre do Tombo. Corpo Cronológico, parte t.*, maço to . Doc. 11, não
publicado por Paiva Manso. Anexos, doc. n.# 12.
8o Angola
As prédicas do púlpito para a evangelização dos gentios, não lhes
bastavam , queriam que êles se convertessem cumprindo com fervor
todos os preceitos e deveres e, em especial o da confissão, com que os
seus contrários tinham conseguido armar tôda a intriga da cons­
piração.
O preto D. Diogo não se conformava, nem aceitava esta nova
maneira de ser religioso. Daí a luta para o deporem, o que não con­
seguiram, e, antes se viram forçados a abandonar o Congo e esperarem
ocasião e meio mais oportunos para a execução do seu plano colonial,
de que não desistiram.
Nem a realeza como nós a tínhamos criado, deixando ao rei todos
os direitos sôbre os seus e reservando para os nossos todo o comércio
e exploração do país; nem a religião como os frades a tinham ensinado,
baptisando indígenas sem se certificarem da sincera contrição do êrro
em que viviam<ce contentando-se com a substituição dos ídolos e
crenças nas adivinhas dos feiticeiros, pelas imagens dos santos e rezas
implorando os milagres, lhes convinham. Queriam mais. A religião
não se oferecia, impunha-se, e os que a não aceitassem, eram inimigos
do Rei e de Deus, por graça de quem aquele governava, tendo o dever
de lutar pelo extermínio desses inimigos. O comércio era uma mani­
festação da vida dos povos que viviam dentro da lei do Estado, que
era a lei de Deus, e não podia ser nunca o engôdo para as conversões.
A escravatura não era um comércio; era o direito dos que viviam
na lei de Deus, sôbre os seus inimigos, para os forçarem à conversão.
Os reis na impossibilidade de só pelas suas fôrças assegurarem as
suas descobertas e conquistas, tinham implorado o auxílio divino por
intermédio da Santa Sé, a quem confiaram a regularização dos seus
direitos. Acima deles, ficou havendo o Papa, a quem todos os povos
conquistados tinham de manifestar a sua obediência e acatamento e,
a religião era o primeiro dever dos povos. A Companhia de Jesus,
formada por homens de tôdas as nacionalidades, não pertencia a
nenhuma, para só servir exclusivamente a Deus. Era o seu exército,
inteligente e ousado, que vinha tomar conta do Mundo Novo, para dar
unidade à civilização Era dentro destas normas que seria orientada
a política colonial das nações que tinham feito os descobrimentos e,
para garantia da sua execução, tinham-se assenhoreado da direcção de
todos os negócios do Estado de Portugal e Castela.
O Congo, como os nossos mercadores e os frades o tinham feito
era um pecado vivo, bradava aos Ceus, estava cheio de mulatos, na
'■ Ç -

Parte I— Zaire e Congo 8r A

aioria filhos dos frades, que no aqueryyr e castidade não tinham


lXlji-egimetiio, como Manuel Pacheco, quando feitor, se queixava a
p João III. O esfôrço por êles empregado para a redempção, fôra im-
roficuo e ia resultando numa revolta, em que o rei preto D. Diogo
era instigado pelos portugueses lá residentes e, sobretudo, pelos padres
jnjinigos da Companhia, e entre êles, o seu confessor, Padre António
^uís de Sá, huseyro he vyseyro a fa\er a taes cousas como a dom
João Bautysta, bispo de S. Tomé, que tinha ido ao Congo para apazi­
guar as questões.
A luta no Congo, nas circunstâncias em que o país estava, não lhes
convinha. Os nossos, como desforço contra o procedimento de S. Tomé
pelo desvio do negócio e da navegação para Angola, que êles queriam
fechar e conservar em seu poder, animavam a insubordinação do preto
i
p. Diogo contra as autoridades da ilha e, aconselhavam-no a mandar
embaixadores ao rei de Portugal, com bons presentes, Çue, diziam-lhe,
era o suficiente para conseguir tudo o que quisesse, e êles bera sabiam
que o processo era de resultados seguros, se não pelo rei, pelos seus
conselheiros. A desorganização do Congo era um pálido reflexo do que
se passava na Metrópole.
Seguindo a boa táctica era necessário ocultar as intenções, para
se ter certa a vitória. O Congo tinha que lhes vir às mãos, mas
por outra forma, tirando-lhe Angola, a que êles, depois de a evange­
lizarem a seu modo, subordinariam o Congo. f

*
# «

A colonização, encarando-a sob o aspecto que tinha na época,


(colonizar era evangelizar, baptizar), estava feita no Congo e, desde o
início do nosso estabelecimento, sem o carácter de conquista e levada
a efeito pelas relações comerciais e pela acção religiosa, sem exageros
e sem fanatismos. Setenta anos passados, perdurava ainda o efeito do
cumprimento da promessa de Diogo Cão de regressar dentro de quinze
luas e da acção política de Rui de Sousa, que com tanta inteligência
soube deixar bem gravados nos negros, o cavalheirismo, o desinteresse,
m
a ousadia e o valor dos nossos, e da acção religiosa de Fr. António da
ordem de S. Domingos, que com tanta virtude, dedicação e sacrifício,
deixou espalhada a bondade da religião de Cristo, que outros, por êsse
mundo fóra, nessa época, impunham pela tirania.
U
i

%
82 Angola
Do conjunto de tôdas estas qualidades creou-se no espírito do
negro, um tipo de português, que se tornou necessário à sua vida,
porque, embora em seu proveito próprio, lhe aumentou a importância
e o prestigio entre os povos vizinhos com que estabelecia relações, e
o dominava, sem lhe fazer sentir o domínio.
Entrámos no Zaire com o fim do Preste João para por êle chegar­
mos à índia, mas, entretanto, dava-se o contrário, atingíamos a índia
e de lá fomos ao preste João. Desde então, o Congo perdeu para
Portugal todo o interesse político, mas manteve-se pela unidade e en­
grandecimento que lhe deram os nossos que lá andavam e que,
alheados desse interesse político, e como resultante do seu próprio,
tinham formado o esqueleto duma nação, que se estendia desde a foz
do Zaire, pelo seu curso, muito para além de Brazaville; pela costa
para o norte até ao Cacongo e para o sul, até Benguela Velha senão
mais além; pa& leste, pelo menos até aos limites do Sundi nas mon­
tanhas de Cristal, dos Panzelungos nas montanhas do Sol e da Batta
nas montanhas do Salitre; e ainda mais para o sul e para leste, até aos
reinos de Angola e de Matamba, onde tinham deixado, como marca
que os séculos não conseguiram apagar, o trilho bem nítido dos seus
passos, em duas linhas de penetração ainda hoje as mesmas, partindo
de S. Salvador: uma, pelo Ambriz aos Libongos e a Luanda, outra,
monumento do nosso valor e da nossa audácia, pelo Dembe ao Encoge
e a Duque de Bragança e a Ambaca. Tudo os nossos tinham per­
corrido e, em tôda a parte onde havia núcleo importante de indígenas,
tinham levado mercadorias para o comércio, tinha negociado e tinham
ido padres, que cravando no solo uma tosca cruz de troncos, aí
levantavam um altar, diziam missa, baptisavam e prègavam a doutrina
cristã, recolhendo os proventos que lhe davam.
Assombra como tudo isto se fêz. Os documentos que se encontram
lêem-se e relêem-se para bem se interpretar o que neles está escrito;
comparam-se com outros e as referências são certas, não podendo
duvidar-se da evidência. Começamos então a fazer passar pela nossa
imaginação as diversas scenas da vida dos nossos, sentimos o sol que
os queima e o clima que os debilita, e vemo-los nas lutas contra os
naturais, sem outra ajuda e outro recurso que os de si próprio podiam
vir. Sem querer, transportamo-nos ao presente e aos recursos que
a civilização nos trouxe e, então, a dúvida renasce e julgamos impos­
sível tôda essa obra. Enganámo-nos, certamente, tornamos a lêr e a
conferir, mas a verdade impõe-se.
«r

í í
i'

Parfó / — Za/rí e Congo

Chegámos ao Zaire e encontrámos os Congueses estabelecidos na


0jargem esquerda e para o sul. Era um povo migratório. Tinham
vindo do interior, depois de desavenças de família, ou pela necessidade
j e expansão (i). Encontraram, talvez, algumas famílias de ambuttdos
que, após pequena resistência, fugiram dos invasores, indo para o sul
e interior, juntarem-se aos seus, ao passo que aqueles se estenderam
pelo litoral até ao Cuanza, ocupando a ilha de Luanda, e constituindo
0s pequenos sobados do Sonho, Sundi, Pangala, Pemba, Bata, Bamba,
etc., todos tributários do chefe que residia em S. Salvador. Ao mesmo
tempo outros seus parentes se estabeleceram no Goio e Luango, para o
norte.
Quando chegámos, o seu domínio não estava absolutamente conso­
lidado e, o seu reino, não tinha verdadeira unidade. De princípio,
ajudamo-lo nas guerras contra Zemga e Mafinga, ou contra os An-
ficos (2), depois contra os Panzelungos (3) e ainda coriíra Mun\a hum
fidalgo dos ambulos que tynha guera com hum noso filho que comarcava
com elle e que 0 querya matar e em tam tiosfo y necessário ir a guerra...
e salvante dos que ca estavamforam com nosco, etc... (4).
D. Manuel enviou-lhe as Ordenações e 0 rei do Congo, escolhendo
entre os nossos os seus assistentes e conselheiros, feitores, estabeleceu
as bases da organização política e administrativa do seu reino. Já,
então, era rei, não só do Congo, mas de Cacongo e Azoyo, como

(1) É difícil estabelecer a origem dos congueses, Ravenstein, resumiu as opiniões de


Cavazzi, que, de uma maneira geral, concordam com as do anónimo cura do Sundi.
(2) Vide nota (2) a pág .23
3
( ) Duarte Lopes (Pigafetta) diz que a província de Pango era limitada ao norte pela de
Sundi, ao sul pela Bata, ao ocidente a provinda real de Bamba, e ao oriente pelas montanhas
do Sol. A capital era na margem esquerda do rio Barbela, que antigamente se chamava Pan-
guelunho. Era dividida em duas pelo rio Barbela, que nasce do mesmo lago que o Nilo, atra- \
vessando um lago mais pequeno chamado Aquilunda e desaguando no Zaire. Ravenstein, no
seu mapa, coloca a província de Bamba, no sul e leste, até à ilha de Luanda, e S. Salvador na
província de Mpemba, entre o Sonho e Bata. Nas suas informações, Apdx II, diz que os invaso­
res Having de/eated Mbwnbulu mwana Mpangala of Mpemba-kasi, he founded his capital etc.
Por outro lado, o nosso Cura do Sundi, como já vimos, diz-nos que Rui de Sousa e os seus
companheiros, chegaram a Pangala, que era um arrabalde, etc. 0 que mais 011 menos, concorda
com Ravenstein. O preto, rei D. Afonso, porém, na carta que em i5i2 escreveu a D. Manuel, a
propósito da conquista dos Panzelungos diz, quando conta os insultos que Fernão de Melo, de
S. Tomé, dirigiu ao seu embaixador D: Pedro «que hera um câce queJora enganar suallteja e
que nos que non lynhamos guerra com ospamfelungos e que nom merçyamos», não sendo pro­
vável que estes panzelungos fôssem os próprios habitantes da sua cidade capital. '
(4) Carta do Rei do Congo, atrás referida. Este munffl não será o Majinga do nosso
Cura do Sundi e 0 seu Zemga não será a rainha N{enda, filha do fundador do remo de
Angola 7
8-4 A n g o la

a n tjg a m c n te ch a m a v a m a C ab in d â. D epois, á m edida que os nossos se


fo ra m in te r n a n d o e e s ta b e le c e n d o n e g ó c io com os am bundos, pela
n e c e s s id a d e q u e tinham de e n ca b e ça r em alguém o princípio da auto­
rid ad e, in s in u a r a m -lh e q u e p a s s a s s e tam bém a intitular-se senhor de
A n g o la , d a Q u issam a e da M a ta m b a e de to d o s o s p on tos até onde
r le v a r a m a n o s s a p e n e tr a ç ã o c o m e r c ia l.
Q u a l ser ia em n ú m e r o s o v a lo r d o c o m é rcio q u e se fa zia no C on go,
n ã o é p o s s í v e l s a b e r -s e . S a b e - s e a p e n a s , q u e no tem p o em que os
im p o s t o s era m a r r e m a ta d o s ju n ta m e n te e m S . T o m é , a im portân cia
q u e o a r r e m a ta n te e n tr e g a v a a o E s t a d o , c o m o re n d im e n to líquido,
c o m p a r a d o c o m o d é fic it d o s o r ç a m e n t o s d e h o j e c a u s a vertigen s, e
q u e u m a g r a n d e p a r t e d ê s s e r e n d im e n t o p r o v in h a d o C o n g o , que na
é p o c a d a s u a g r a n d e c r is e , e x p o r t a v a c ê r e a d e seis m il p re to s p o r ano,
fó r a o m a r ü m , o c o b r e e a s m a d e ir a s . O q u e im p o r ta v a o C o n g o p ara
d a r e m tr o c a d é s s e s e s c r a v o s e m e r c a d o r ia s q u e e x p o r t a v a ?
O plano dos nossos do Congo, querendo conservar Angola e todo o
sul na dependência do rei preto, engrandecendo-lhe assim a autoridade,
se tivermos em consideração o conhecim ento, então, do valor da
^ Á frica, era um plano inteligente, em bora para o seu delineamento não
colaborasse nenhum estadista e apenas o interêsse dos mercadores.
M as, nós tínham os iniciado a colonização do Brasil e, o C on go, não só
n o s não era necessário com o o tínham os feito, com o até nos prejudicava,
pela centralização da navegação no P in d a, q uan do necessitavam os da
am pla liberdade do resgate por tod os os p o rto s d a co sta para o sul,
o n d e h o u v esse p retos para levarm os aos fazen d eiros d o B ra sil, que não
teríam os feito sem êsse essencial e p o d e ro so a u xílio , sem essa sangria
m o n stra q u e durou séculos.-
O C o n g o tev e p o is d e d esa p arecer p or fô rça d a s circu nstân cias,
p a r a fa ze rm o s um a o u tra obra ainda m u ito m a is g r a n d io s a , m as nem
p o r is s o o n o s s o trabalho d e cin qü enta a n o s, d e ix a d e n os orgu lh ar e
e n v a id e c e r .
Com um esfôrço e uma tenacidade de que nação alguma deu
m aiores provas; com um tacto político que não copiám os de ninguém
e com um valor e coragem que ainda ninguém igualou, civilizám os e
educám os, sem uma violência, sem nunca Já m andarm os tropas, os
indígenas do C on g o e parte dos de A ngola, aproveitan do p ara nós os
recu rsos que a região nos oferecia. Se não fizem os um a rica colónia
agrícola , co m o em S. T o m é, foi p orque a agricultura e a industria,
e n tã o , ainda n ã o con heciam a utilidade das enorm es riq u ezas do seu
Par te I — Z a ir e e C o n g o fc5
o s, qtte aqu eies que depois nos substituíram no Congo,
c tr'7-e fizera m , nem \á deixaram vestígios de quaiquer cousa
° ^ a s u a p a s sa g e m , a não ser vandaiism os, ao passo que de
ta1*' f ec ° f '^e <jo ° sem p re ficou , o reconhecimento do Z aire até muito
4V'S pai® l q a s c a ta r a ta s , e a penetração peio interior,
pó” aiént Q f^ ria a o s nosso s que em terras do C on g o baquearam ',
f^ o o ra e
R ^R T E U
argola

*5
1 —•Os Ambundos, Reconhecimentos e resgates. Peneirarão.
O sobado do Dongo
\\ — A donataria de Angóia.
^ ._O Governo Gera\.
\ \ j _Actividade económica e situação iinanceira.
ï
I

OS «AMBUNDOS». RECONHECIMENTOS E RESGATES.


PENETRAÇÃO. — O SOBADO DO DONGO.

Já vimos que os portugueses que foram para o Congo em 1490 e


os outros que se lhe seguiram, não só em cumprimento das instruções
dadas por D. João II a Rui de Sousa, para se interifcrem e colherem
tôdas as notícias do interior, mas ainda com a mira no negócio,
passaram para além do limite leste do Congo e chegaram pelo sul até
à terra dos ambundos, relacionando-se com os chefes das diversas
morindas.
Se com respeito aos congueses se não pode passar de hipóteses
sôbre a sua origem e a ocupação do território em que os encontrámos,
com respeito aos ambundos as dificuldades são as mesmas, ou talvez
maiores, agravadas pela significação que os etimologistas atribuem aos
termos: mbundo batedor ou vencedor e muchicongo devedor, e à relação
e ligação que entre estes dois termos estabelecem, querendo mostrar
que os ambundos eram o povo vencedor e os congo, vencidos, pois que
0 rei do Congo, Ngána Muchino rià Congo, não era senão: senhor rei
da regra ou da divida, senhor rei devedor (1). E, contudo, os factos
ocorridos depois da nossa chegada à Baixa Etiópia mostram-nos o
contrário, pois sempre existiu uma relativa dependência, embora não
fôsse verdadeiramsnte uma subordinação, da parte dos mbundos para
com os congo.
A-pesar-da significação dada pelos etimologistas, outros autores
que se têm ocupado do assunto, dizem-nos, uns, que ao tempo da
nossa chegada ao Zaire, a terra dos ambundos já constituída em reino

(1) Fr. Bernardo Maria Connecatim, missionário capuchinho italiano, que foi Prefeito das
Missões de Angola e Congo, no prólogo da sua « Collecçâo de observações grammaiicaes sobre
a língua Bunda ou Angolense, etc.
9o Angola
cra a província meridional do Congo, e ouiros, que um fidalgo
(»ongo sc foi oli estabelecer e, instigado pelos portugueses, se revoho°
contra o seu rei, o do Congo, formando um reino áparte. ^
A verdade, baseada nos documentos que nos ficaram, é que o rej
do Congo D. Afonso nunca conheceu o reino de Angola e, apenas c
sempre, os am bundos, entre os quais houve um fidalgo de nome Mun^a
que comarcava com um seu filho e o queria matar, pelo que êle lhe
foi fazer guerra, tendo para esse fim convidado alguns portugueses (9
Talvez já então existisse a família N g o la , mas o rei do Congo D. Afonso
nunca lhe deu relevo especial e incluia-a entre os ambundos.
Até 18 de Janeiro de í 526 (2), nas cartas e outros documentos
intitulava-se apenas R e y do com go e Senhor dos Am bungos. Em 18
de Março dêsse mesmo ano (3) acrescentou ao título «e da conquista
d e p a çoallum bo» talvez por ter só então efectuado, definitivamente
a anexação ao íeu reino dêsses povos, com quem, como sabemos, êle
esteve em guerra logo no início do seu reinado (4). Na carta que então
escreveu, pede cinqüenta padres para espalhar pelo seu reino e se­
nhorios e, ao indicar por onde os vae espalhar, cita apenas as suas
províncias: su n d y , bam ba} banta, huernbo e g a n g a e não se refere a
m bundos, n d on g os , ou n g o lo s ; notando-se contudo, como adiante
veremos, que alguns anos antes tinha mandado dizer a D. Manuel que
o Ngola lhe mandara pedir padres para se fazer cristão, e depois disso
se deram os factos narrados por Baltazar de Castro (5).
Em 28 de Janeiro de i 53o ( 6), ao mandar as manilhas de prata é
que refere terem-lhe sido enviadas por um fid a lg o da minha terra que
s e cham a m atam ba e de presumir é, sendo a prata de Cambambe,
que êle já então estendesse até lá a sua terra d e M atam ba , incluindo
nela o N g o la .
Só na carta de 1 5 de Fevereiro de 1 53 2 (7) é que, pela primeira
vez, se apresenta com todos os títulos : R e y d e Com guo Ibungu e
ca com g o e m g o y o (ou agoyo) da q uem e datem a\ary Senhor dos am­
bu n d os e d a m g o lla d a q u isy m a m u su a ru e d e matamba e mulylu (ou

(1) Paiva Manso. Doc. xn.


(2) Idem, idem, doc. xxv.
3
( ) Idem, idem, doc. xxvi.
(4) Idem, idem, doc. xn — quando se queixa do que Fernão de Melo dissera ao preto
D. Pedro (pág. 24).
5
( ) Idem, idem, doc. xxvm.
(6) Idem, idem, doc. xxx.
(7) Idem, idem, doc. xxx».
Parte I I —Angola 91
muyllu) e de musucu e dos ampcos e da comquista depam\u aiutnbu (ou
alambu).
É este o primeiro documento em que o rei do Congo, ou melhor,
os portugueses que o dirigiam, se referem ao Ngola, separadamente da
Matamba e da Quisama. Devemos, portanto, considerar destituída de
fundamento a afirmação de que o reino de Angola fôsse cm algum
tempo província do Congo, pois não passou de um platónico ou hono­
rífico senhorio.
Alguns autores, sobretudo os modernos, fazem distinção entre os
reinos de Angola e da Matamba, o que também nenhum facto justifica
porquanto tudo indica tivessem sido os nossos, por terem encontrado o
Ngola na região do Dongo que primeiro conheceram lhe chamaram,
uns, rei do Dongo e outros, rei de Angola, quando êle era oriundo da
Matamba.
Do que se tem escrito pode talvez concluir-se, seftão como certo
como o mais verosímil, que se deram várias invasÓes ou immigra-
ções na parte da África, entre o Zaire e o Cuanza. A primeira
immigração, seguindo pelo vale do Rio Cambo, deve ter-se concentrado
no planalto da Matamba, espalhando-se um ou outro para oeste, mas
não chegando ao litoral. Estes povos batendo os que encontraram,
tomaram o nome de ambundos, — vencedores. A segunda deve ter sido
a dos congueses, que seguindo o Zaire, ocuparam tôda a região para o
sul e parte do norte batendo os Anzicos(i) e formando o Congo.
A terceira deve ter sido a dos Jagas, concentrando-se parte em Cas-
sange e outros invadindo o Congo e caminhando ainda para norte do
Zaire. Poderemos ainda considerar como uma quarta immigração o
deslocamento de um grupo dos jagas, o do Gonga, para o Libolo e
Quissama, onde ficou o Cafuche e, ainda para o sul, para o rio
Cuvo (2), Bié e pelo Cunene ao Humbe, grupo que mais tarde regressou
a Cassange e se confundiu com 0 de Calaxingo, depois de ter sido um
poderoso auxiliar da nossa ocupação do Dongo.12

(1) É difícil localizar com precisão a região ocupada pelos Anzicos. Pelas informações do
nosso Duarte Lopes e de outras coligidas por Dapper, teria por limite ao norte os desertos da
Núbia e ao sul a província do Dongo e do Sunde do Congo. Eram um agrupamento de t3
reinos, sendo o seu chefe o mais poderoso dos da África e conhecido pelo grande Macoco. Os
jagas eram uma das suas tribus.
(2) Andrew Batell em 1601 encontrou um acampamento de jagas nas margens do Cuvo e
viveu com éles durante vinte e um meses. Adventures, pág. 19.
02 A n gola

C o m o n ã o en trám o s no C o n g o co m in tu ito s g u erre iro s e apenas


tro c a v a m o s a m erca d o ria q u e le v a v a m o s , p ela q u e os in d ígen as nos
p od iam d ar — e sc ra v o s, m arfim e a lg u m m in ério — os ambundos rece­
b e ra m -n o s sem o p o siçã o , e as n o ssas re la ç õ e s fàcilm en te se estenderam
pelos diversos pequenos so b a d o s, que fom os tr a z e n d o à a u to rid ad e, ou
m elh or, â d irecçã o p olítica do p reto rei d o C o n g o , d e quem os nossos
se ju lg a va m , sen ã o com o sú b d ito s, n u m a su b o rd in a ç ã o e dependência,
que fazia a vo lu m ar o seu p od er no esp írito d o s ambundos.
O rei do C o n g o p assou a ser p a ra o s so b e ta s ambundos, não
um inim igo, com o em geral os in d íg e n a s sem p re ju lg a m o s vizinhos
mais poderosos, *mas um p o ten tad o que êles n ão te n ta v a m alu ir antes
pelo c o n trá rio , pois por su a in flu ê n cia , n ão só as su as morindas eram
visita das pelos m erca d o res p o rtu g u e ses, com o p e la a c ç ã o d os m esm os
eram r e s o lv id a s m uitas das su as co n te n d a s.
D e entre os d iversos chefes ambundos a so rte fa v o re c e u N*gola (i),
que se to rn a va cad a dia m ais p o d ero so , a b so rv e n d o os pequenos
so b eta s, adqu irindo-lhes os bens e to rn a n d o -se, p o r fim , pela sua im­
p ortân cia, o m aior dos so b as, cujo territó rio se e n g ra n d e ce ra com a
an exação dos outros m ais pequ en os, e a quem nós p elo h á b ito adquirido,
p a ssá m o s a ch am ar rei, corrom p en do-lh e o nom e p a r a Angola , consi­
d eran d o -o sem pre dependente do rei do C o n g o , o qu e, p a ra êle, não
p a ssa v a d esp erceb id o , m as não o in q u ie ta v a , p o r lhe não a d vir daí
senão benefícios.
C om os m erca d o res p ortu gueses foram os fra d es e p ad res das

(i) Ravenstein, ob. cit., pág. 142 nota (1) diz que as terras do Dongo, que vieram a cons­
tituir o reino de Angola, foram conquistadas por um jaga da Matamba, Ngola a nzinga, que as
doou a um filho, Ngola mbandi e fundando-se em Cavazzi dá a seguinte relação dos reis de
3
Angola: t.° Ngola, o ferreiro, musuri, 2.0 Nzunda ria ngola, sua filh a; .° Tumba ria ngola,
outra filha que casou com Ngola kiluanji kia Samba e foi um grande guerreiro ; 4.0 Ngola ki­
5
luanji; .° Ndambi ngola; 6.° Ngola kiluanji kia ndambi, outro grande guerreiro; 7.0 Nzinga
ngola kilombo kia kasende ; 8.° Mbandi ngola kiluanji; 9.° Ngola m bandi; 10 0 Nzinga mbandi
ngola (rainha Ginga, D. Ana de Sou sa); 1 1 D. Barbara da Silva que casou com D. António
3
Carrasco nzinga a m ina; 12.0 D. João Guterres Ngola kanini,* i .° D. Francisco Guterres
Ngola kanini; 14.0 D. Victoria, a que Gadornega chama D. Verónica.
O Visconde de Paiva Manso, História do Congo, dá uma outra relação extraída de Cador-
nega, que difere um pouco desta.
Parte I I — Angola 9*
ordens, procurando ganhar a vida pela catequização dos
sendo> etn» Seral>bem ace‘tes Pe*a sua tolerância, naturaf-
gra<j uada conforme as dificuldades do negócio. O rei do Congo,
^Afons©» tendo recebido uma severa educação religiosa e sendo
P- e-5ivamente fanático, não devia ver com bons olhos esta difusão do
C*Cóc«° Por tod ° 0 interior, feito com povos que não eram verdadeira-
nC^ote cristãos. Pelo que se passara corasigo, calculava ser pela acção
^reiosa* de preferência às guerras, que conseguiria manter entre os
fC inhos o prestígio da sua autoridade. Se não proibiu, deve ter
^ cUltado essa difusão, como claramente se vê do seguinte período
sua c a rta : « Como nosso Reyno se vay a perder em tamia maneira...
&0 que causa a muita solltura que vossos feytores e oficyaes dam aos
„ homens e m ercadores sse vyrem a este Reynos assentar com llogeas
„ mercadorias... as quaes se espalham por nossos Reynos e Senhorios em
„ tamta avomdança que muitos vassallos que tynhamos htfnosa obediencya
gse aleuantam delia , etc., (i) terminando por pedir, como remédio, que
mandem padres.
Os padres e frades das diversas ordens, que se internavam até
Angola, não tratavam de impor, violentamente, um credo religioso, mas
apenas fazerem compreender, aos que aceitassem a conversão à fé cristã,
as vantagens que daí lhes advinham, sendo a principal a facilidade de
negócio com os brancos e, assim, o sóba grande de Angola— (N'goía
Inéne)— , embora sem convicção e sem fé, incitado pelos mercadores
que no interesse do desenvolvimento das suas transações a isso o
induziam, resolveu mandar dizer ao preto D. Afonso rei do Congo,
que queria ser cristão e, para êsse fim, lhe mandasse padres, pois que
era êle que os tinha no seu reino.
Avalia-se bem o que, para o papel político que o preto D. Afonso
tinha a ambição de desempenhar, representava êste pedido do mais
importante dos sobas ambundos e, com que vaidade êle o transmitira a
D. Manuel, provando-lhe, assim, a sua importância e fazendo jus às
considerações especiais que queria lhe dispensassem,para ser de entre
os reis de que o rei de Portugal era senhor, aquele que as suas coisas mais
estimava, melhor tratava, etc.
Passavam-se estes factos em 15 19 e D. Manuel, tendo já percorrido
tôda a gama das vaidades e das glórias, pouco interesse lhe despertaria
a conversão à religião cristã de mais um preto, embora fôsse o soba-

(1) Paiva Manso. História do Congo, doc. xivu, pág. 54.


94 Angola
grande de Angola, se o rei do Congo não tivesse feito acompanhar
a notícia de umas manilhas de prata (i) informando serem daquele
sobado, sem contudo precisar o local. Por este motivo resolveu
D. Manuel em i 52o , ordenar o descobrim ento d o reg no de A n g ola que
ampliou te e o ca bo d e B ô a E sp e ra n ça , porquanto eram muitos incom­
pletas as informações que tinha sôbre os potentados indígenas existentes
c possibilidades do resgate dos metaes preciosos, e se limitavam aos
conhecimentos obtidos das viagens de Diogo Cão e Bartolomeu Dias,
completados por Duarte Pacheco Pereira.
Dêsse cometimento encarregou a Manuel Pacheco como capitão do
navio e Baltasar de Castro como escrivão, dando-lhes, em 1 5 de Feve­
reiro de 1 5 20, um reg im en to (2), donde consta : « Item noso primçipall
a fu n d a m e n to h e m am darm os u os nesta viajem p era verdes se podês
« ffa ç e r com e l r e y d A m g o la q u e se f f aça christão , e asy a je m te de sua
a te r r a , com o hS e l r e y d e C o m g u o , p orqu e som os em fonnado que ho
a d e s e ja e q u e viera m j á seu s em b a ixa d o res a C o m g u o decraram do que ho
a d e seja v a s e r » . Como já sabemos, D. Manuel ocultava sempre as suas
verdadeiras intenções, e estas, só adiante as esclarece com outro
a Ite m O u tr o s y som os en form a d o qu e no dito reg n o d A m g o la a prata,
«p o r q u e se v y o p e r huüas m a n y lh a s que vyeram a nos dei r e y de Com go;
« tr a b a lh a rê s p o r sa b er p a rte dornde h e a dita p ra ta , e asy de quaeesquer
a o u tro s m eta a es ».
Para êste efeito mandou carregar um navio com fazendas para
negócio, determinando a Manuel Pacheco que fôsse por S. Tomé, não
só para o feitor lhe dar um padre e, se lá estivesse o padre Ruy de
Aguiar o convidasse a ir, porque era conhecedor das coisas de Angola,
mas ainda para mandar fazer uma embarcação própria para a entrada
dos rios.
Quando estivesse despachado, se fizesse com rumo ao rio de
S a m b a r ia s, que deve ser o S. Mexias, ao sul do Cabo Lopo Gonçalves,
para o descobrir e, se lá achasse carga, a não tomasse, trazendo
apenas amostras. Dali, seguisse para o rio de Angola e quando che-12

(1) Esta oferta de manilhas de prata não é a que consta no doc. xxx da H istória do Congo
de Paiva Manso, mas ve-se no R e g im e n to dado por D. Manuel a Manuel Pacheco.
(2) Arquivo Nacional da Tôrre do Tombo. Livro de Leis e Regimentos de D. Manuel
fl. 144 v. No índice: « R e g im e n to p a r a M a n u el P a ch eco capitam do navio enviado ao descobri­
m en to do re in o d e A n g o la , sobre o que p ra tica ria e do m esm o modo o seu escrivão na viagem no
d ito reinoa. Publicado em « A lg u n s docum entos no A rquivo N acion al da T ôrre do Tombo acerca
d a s n a v e g a çõ e s e conquistas dos p o rtu g u e se s », pág. 436-441 mas porque essa obra é já pouco
vulgar e convem coordernar os documentos mais importantes, se publica de novo. Anexos doc. i . 3
Parte U — Angola 9$

.se; procedesse com tôdas as cautelas, tomando refens de entre os


*fliurais, para se garantir da ida de Baltasar de Castro a terra a avisar
1 rCi da sua chegada, e, emquanto o Baltasar de Castro não regressasse,
g0 fôsse nem deixasse a tripulação ir a terra, mas recebesse a bordo
pretos que o quisessem visitar e os tratasse bem.
Logo que o Baltasar de Castro regressasse, ou mandasse recado,
p0r escrito, para ir, que fôsse, levando o padre e mais algumas pessoas
e ufna amostra do presente que tinha para dar ao rei. Falando com
gste, lhe exposesse que o fim da visita era a sua conversão ao cristia-
Ojsmo e, se o visse a isso disposto, mandasse ao navio buscar o resto
do presente; caso contrário, manifestasse o seu pezar e retirasse
«vemdo e pergumtamdo pelas cousas que ha na terra de vieiros e metaees,
« e quallquer resgate », e proporcionando-se ocasião de fazer qualquer
negócio pelo caminho, combinasse que lho fôssem levar a bordo e aí o
liquidasse. 9
«E pero nam se queremdo o dito rey fa\er christão, ou nam achamdo
« hy prata ou outro metall, ou cousas de que se possa receber proveyto •
o que lhe equivaleria, parece, se fizesse de viagem até ao Cabo da Boa
Esperança, pela costa do Comguo, descobrindo e vendo o que por
essas terras havia, viagem que, ainda no caso de o rei se fazer
cristão, deveria efectuar, pois havia vantagem em conhecer tôda a
costa.
Onde quer que achasse ouro, prata, ou outros metais, procurasse
conhecer a sua proveniência, o valor, e as mercadorias por que se
trocavam e tudo pusesse em memorial«e quamto a cousa valler mays
« e caa fo r mays estymada, tamlo menos lhe darês a emtemder que ha
« estymaees pela nam emcareçerem.
Se carregasse o navio em Angola, não fôsse então ao Cabo, mas
, regressasse a S. Tomé para proceder às reparações de que carecesse
e seguisse para Lisboa.
Se o rei de Angola se convertesse e quisesse ficar com o padre
e os paramentos da igreja, que os deixasse ficar, mas mandasse o
Baltasar de Castro tomar de tudo a devida nota.
Se, indo a caminho do Cabo da Boa Esperança, achasse algum rei
que quisesse ser cristão e «e vos parecer que he servyço de Deus e
noso comverter >se a fee, e que se seguira d hy fniyto », trabalhasse
para êsse fim, lhe desse os ornamentos da igreja e deixasse lá o
padre, carregando o navio de escravos, marfim e metais, «is ao rey
«que tall cargua vos der, e virdes que he noso serviço asemtardes com ele
96 Angola
■ «nosa amyçade, dar lhe ês o presem le e enderemçarês a ele a mesajem
« que levaees pera o rey d A tngola mendamdoa naquela parte que fo r ne-
« çesaria ».
Se não descobrisse pela costa até ao Cabo com quem fazer negócio,
viesse com o navio ao rei do Congo, a quem diria o que entendesse,
dando-lhe o presente e fazendo por trazer a melhor carga que pudesse
e, finalmente, se lhe parecesse conveniente alterar qualquer disposição
do regimento, reünisse para êsse fim a companha do navio e lhe
expusesse o assunto, fazendo escrever pelo escrivão as suas respostas,
resolvendo por maioria e, se houvesse empate, pela opinião dele, Manuel
Pacheco.
Depois de datado e assinado êste regim ento, D. Manuel alterou-o,
mandando que a viagem se fizesse directamente ao Cabo e «delo pela
tosta em diamte tee A m gola » vir fazendo o descobrimento como deter­
minava. *
Não se encontrou, ainda, nos nossos arquivos, documento algum
que se refira a esta interessante viagem e, apenas se sabe que efectiva-
mente se realizou, porque Baltasar de Castro, em i 52õ, escreveu do
Congo uma carta a D. João III (i) tratando da sua estada em Angola
e, pelo que escreve, se pode, talvez, deduzir, que Manuel Pacheco não
levou o padre Rui de Aguiar, nem outro, a bordo do seu navio e, fun­
deando no Cuanza, mandou o Baltasar de Castro dar parte da sua
chegada ao rei, que, por ter já mudado de opinião, resolveu faze-lo
cativo e mandar matar «ho em bayxador que l a f o y a posa A ltera».
É um novo personagem que aparece. Claramente se vê não se
tratar do embaixador ou embaixadores que o rei de Angola mandou
ao do Congo pedindo padres, porque dêstes, lá o diz D. Manuel, «que
vieram jd uns em baixadores a C om guo decrarando que ho desejava ser »,
o que não mandaria escrever se tivessem vindo a Lisboa; tratava-se
dum outro, « que la f o y a vossa A ltera ». Se êste embaixador estivesse
em Lisbea quando saiu o navio de Manuel Pacheco, teria ido nêle e
D. Manuel lhe faria referência no regim ento como a faz, no que deu
em 15 12 a Manuel da Silveira, ao preto D. Pedro que o rei do Congo
mandou. É um embaixador que chegou depois de Manuel Pacheco ter
iniciado a viagem, e regressou a Angola emquanto o navio foi ao Cabo
da Boa Esperança, como tinha ordem de ir, primeiro que fôsse a
Angola. Estava na E m ba la do rei quando lá chegou Baltasar de Castro

(i) Documento já referido na parte do Congo.


Parte / / —•Angola 97
h
e embora não haja documentos que nos elucidem sôbre os motivos
p’0r que o rei o mandou matar e prendeu o Baltasar de Castro, náo
andaremos muito longe da verdade filiando-os nos ciúmes dos portu­
gueses que lá residiam, e que tendo abandonado o Congo para fugirem
4 acção do rei e dos portugueses que junto dêle desempenhavam
diversos cargos, por todos os meios se opunham às relações directas
da Metrópole com Angola.
O facto era grave e o rei do Congo interveio, mandando um padre
para a conversão do rei de Angola e um homem para interceder afim-de
Baltasar de Castro ser sólto. O rei de Angola fez-se cristão — foy-o —
escreveu Baltasar de Castro, «e depois sucederão cousas que deyxon de
ho ser » e, entretanto, o homem que o rei do Congo mandára,/<?{ cousas
por onde tudo se tornou a perder... e asy se tornou e me fe\fycar a mym,
depois do que Baltasar escreveu ao rei do Congo, e só no fim de seis
anos viu terminado o seu cativeiro, chegando ao Cctigo nu, como o
mais pobre dos indígenas, tendo passado tôda a sorte de inclemências
e privações.
E interessante que Baltasar de Castro protesta nesta carta contra a
informação, dada pelo tal homem que o rei do Congo mandou a Angola,
de que «vyra serras de prata e pedras e outras cousas as quaes eu em
«seys anos que na dyta terra estive nunca vy por que ho que eu da terra
«soube e o que nela ha yso escrevy por manoell pacheco quando me nela
adeyxou ». Apesar-de tão perentoriamente Baltasar desmentir a exis­
tência de serras de prata, a lenda continuou por mais de um século e
foi na esperança do seu descobrimento e da sua posse, que a conquista
de Angola foi levada a efeito.
*
* *

Data, pois, de t 520 a primeira tentativa do estabelecimento de


relações oficiais directas com Angola.
-2
D. Manuel faleceu sem ter tido conhecimento dos resultados da
viagem de Manuel Pacheco, que deveria ter organizado o seu memorial
e juntado a carta de Baltazar de Castro sôbre os acontecimentos na
côrte do rei de Angola, documentos preciosíssimos, não só pela parte
da descrição da costa desde o Cabo da Boa Esperança ao Cuanza, mas
ainda para nos esclarecerem sôbre a política nessa época, entre Angola
e Congo.
No reinado de D. João III sofreu uma profunda mudança a nossa
i3
9$ Angola
política das conquistas e descobrimentos, para entrarmos verdadeira-
mente na política colonial.
Com o reconhecimento desde o Cabo ao Cuanza, D. Manuel tinha
por fim acrescentar o número de estados indígenas vassalos de Portugal,
estabelecendo ao longo da costa ocidental da África a continuidade da
nossa acção comercial como a tínhamos na costa oriental.
O seu plano não teve seguimento por parte de D. João III, porque
não se tratava já de descobrimentos e conquistas, mas da colonização
e o Brasil absorvia todas as nossas atenções. Assim, dos reconheci­
mentos de Manuel Pacheco, pelas notícias que deu sôbre a possibilidade
de resgates em pontos da costa para o sul do Zaire, só os agricultores
de S. Tomé e mercadores de Portugal aproveitaram, mandando navios
percorrerem a costa a fa zerem armações em Angola.
Diversos resgates se foram assim estabelecendo e, enquanto não
foram dados enx arrematações, eram concedidos como prémio de re­
compensa de serviços a várias pessoas que os solicitavam, como Jácome
Leitão, feitor em S. Tomé, que, em compensação das despesas extraor­
dinárias a que fôra obrigado, pedia a D. João III lhe fizesse «merce de
«de hüa llycença para fa \ e r hüa armação ê A m golla e se para parecer q
«nisto llevara ell R ey do Com gno desprazer seja cõ comdisão q eu aja e
«o prayne seu e que desta armação pago somête qnarti e vintena aos
« ojkiaes de V. A . e ysto posto q o trato se harrende ou cor (r) a de
« maneyra q hagora esta e tc . » (i).
O negocio parece que era rendoso e não só dado como recompensa
de serviços, mas explorado pelo próprio D. João III e pelas pessoas da
família real.
Em i 5 ^ 6 Diogo do Soveral, moço da real câmara, foi nomeado
pelo Infante (2) escrivão da «viagem e armaçam que ora novamente mando
«fa^er ao ao meu R y o d’ Alonga, que está 110 R ey no de B em guella, por­
quanto «tenho comcertado com Am rique P a e% e lhe dou licemça que posa
* hir ao dyto R y o he tratar nelle com hos negros e moradores da terra
« com aqelas mercadoryas com que tratam os armadores que tem arrem -
« dado a el R e y meu Senhor ho seu trato da Giné e que nam trate com
«fe r r o s do R eyn o nem com outras cousas defesas e que nam fa ç a aos
« ditos moradores nenhüa força nem cousa de que com rre-çam posam *2

(t) Arquivo Nacional da Tôrre do Tombo. Corpo Cronológico, parte 1,* maço 90
Doc. 126.
(2) Parece que o D. Henrique, mais tarde cardeal-rei, pois Diogo de Soveral era seu moço
de câmara.
Parle 11— Angola 99
rreceber escamdallo somente com muyla pa\e amiçade Irate com elles o
„ quall trato lhe tenho dado per hum ano que hade começar do dya que
fl0 rresgate for asemtado em diamle e na armaçam que hora pera ho dito
i( nyo ele dyto Amrique Pae\ vay fa\er pelo contrato que amtrc nos he
efeito eu sam obrigado a por as duas partes de todo ho gasto que se nela
«flíer e elle dyto Amrique Pae\ a hüa e pela dita maneyra avemos de
«fiqar no proveyto e rresgate delia per a que ele saya com hum terço e eu
„ com os dous (i).
Vê-se não ser a primeira vez que mandava ao rio da Longa
porquanto diz: ora novamente mando, e que tinha principalmente era
mira o resgate de ouro e prata, tendo sido informado da sua abundân­
cia. Esta informação não a pode ter obtido senão das viagens dos
nossos pelo interior, e, assim, vemos que, já nessa época, deveriam ter
ido a Cambambe e ao Lombige, supostas minas daqueles dois metais,
ou então, mais para o sul até ao Gunza dos Ambuillts, também tido
durante muito tempo como região rica em cobre, e que, possivelmente,
confundiam com o ouro.
Devemos, ainda, concluir, que se a exploração da costa chegava ao
Longa e mais para o sul, os portos intermédios e principalmente a ilha
de Luanda e o Quanza, eram também explorados e freqüentados pelos
navios, o que deu lugar ao protesto dos negociantes do Congo em 1548,
e á inquirição mandada efectuar pelo preto rei D. Diogo.
O protesto dos do Congo parece não ter sido ouvido e, dificilmente
0 governo em Lisboa 0 poderia atender. O Congo, era vasto, sem
dúvida; pelo menos o rei fazia estender a sua acção por muitas léguas
para 0 sul, mas a centralização do movimento marítimo no Pinda, tor­
nava-o acanhado para 0 desenvolvimento que estava adquirindo o
negócio do escravo, em vista das necessidades do Brasil e índias de
Castela. S. Tomé, que tinha centralizado os fornecimentos, perante a
procura do artigo, não se conformava com a limitação do negócio ao
porto do Pinda e, por outro lado, os portugueses do Congo, que pelo
seu audaz esforço iam levar mercadorias e trazer escravos dos Àtnbiin-
dos, e do Ocango e Pamba, a centenas de léguas no interior, não queriam
perder êsse monopólio.
Esta luta de interesses transformara-se facilmente em luta política,
pela entrada dos jesuítas em acção. O Congo e tôda a Baixa Etiópia

(1) Arquivo Nacional da T ôrre do Tombo. Corpo Cronológico, parte i.* maço 78. D oc.21.
Traslado do Regimento que E l Rey deu ao escrivão da viagem e armação que manda façer no
Reyno de Bemguella a 7 de Junho de 1546. Anexos, Doc. n.e 14.
IOO Angola
pertencia-lhes, mas só o conheciam peias informações colhidas dos que
por id tinham andado, insuficientes para detalharem o plano da sua
acção. Queriam tomar posse e foram encontrar uma colonização
defeituosa e os indígenas educados pelos clérigos das diversas ordens,
que, transigentes e pouco zelozos, sacrificavam a inviolabilidade dos
preceitos e regras, aos vícios inatos nos convertidos, verdadeiros pe­
cados que êsles não ocultavam e, alguns, até patenteavam com gala.
Mantinha-se essa colonização, principalmente à custa do negócio do
escravo, que os seus primeiros missionários verificaram donde vinham
e aprenderam, com larga prática e não menos proveito, a maneira de
os adquirir. Com um negócio assim, ao alcance de tôda a gente,
disperso por todo o interior onde ia quem queria, não era fácil adqui­
rirem o domínio que desejavam. Só a religião, exercida e acatada com
todo o respeito e disciplina, para poderem ter efeito as interdições e
excomunhões, <çue eram a sua arma, poderia dar-lhes êsse domínio,
mas reconheciam ser tarde para o poderem impor. A corrupção
lavrava muito fundo e até mesmo os que os ouviam, nem tomavam a
sério as suas intenções. Em Portugal com a sua primitiva atitude de
humildade e desinteresse, explorando a boa fé e crenças das populações
cançadas de sofrerem todas as prepotências dos frades e das ordens
religiosas, fácil lhes foi ganharem terreno, a confiança e mesmo a estima
geral, e, com tôda a ousadia, imporem a sua autoridade.
Mas, no Congo, o meio era diferente, e tinham sido forçados a re­
tirar perante a resistência oposta às suas tentativas da escalada dos
cargos políticos junto do rei. De nada lhes serviu o rigor com que
puniram os seus por terem prevaricado, antes pelo contrário, êsse
rigor acarretou-lhes mais ódios, pois veio mostrar que acima das leis
e usos e costumes da Nação, havia os preceitos da sua Ordem que o
Rei acatava, deixando estabelecerem-se sanções para factos que cons­
tituíam a vida de todos os dias dos seus súbditos em África e até aí
eram impunes.
Ante os dois partidos ou grupos que se guerreavam, os do Congo
e os de S. Tomé, inclinaram-se a favor dêstes, o que era lógico, não
por simpatia com a sua causa e concordância com as suas intenções e
planos, mas apenas porque, auxiliando-os, provocavam a derrocada dos
outros, única solução a adoptar para poderem tomar posse da Baixa
Etiópia. Com o Congo como estava, com o Rei sem os ter por con­
fessores, de forma a exercerem uma acção forte na política do reino, é
que eles nada podiam, e, assim, não só lhes foi fácil provocarem os
Parle 11— Angola /o r

-iúmes e dissenções entre vários fidalgos, insinuando-lhes direitos ao


trono, e quebrando a unidade do reino mantida durante a vida do rei
p. Afonso, mas levaram mais longe a sua vingança, e insinuaram a
garros de Paiva, em S.Tomé, a política que lhes convinha, levando-o a
escrever para Lisboa aconselhando cortarem-se relações com o rei
p. Diogo, pois não seria por isso que correria perigo a cristandade,
visto outros fidalgos como ele havia, tão zelosos da fé cristã e bastava •
que se ajudassem esses para o trato desta Ilha não demenuyr mas antes
açrecemtarse.
Sente-se, neste alvitre de Barros de Paiva, o plano do político
inteligente e hábil que lho inspirou, sem ele lhe poder adivinhar a
intenção. Tudo se fazia para que o negócio da ilha, que estava amea­
çado, não diminuísse, antes se desenvolvesse. Era o isco para os de
S. Tomé continuarem fazendo o seu jôgo.
Para provarem a sua afirmação de que outros fidalgos havia tão
zelozos da fé cristã como o Rei D. Diogo do Congo, convenceram o
Bispo de S.Tomé a mandar padres para converterem o Ngola. Por duas
vezes lá foram e, de uma delas «.hum religioso da muy esclarecida
«ordem do glorioso Padre Sam Bernardo, porem (como o tempo depois
«mostrou) mais pertendia o Angola o comercio de Portugal q. o bautismo
«crisiam até que finalmente estes sacerdotes, sem effeyto algum, o»
amorreram ou se tornaram a Portugal»(1).
No tempo do rei do Congo, D. Afonso, as autoridades de S. Tomé
não intervinham nas relações dos portugueses com o soba ou rei de
Angola. Tudo se passava por intermédio ao rei do Congo, e foi
procurando o seu valimento, que o Ngola em i 5 19, mandou pedir
padres, dando lugar à missão que D. Manuel enrarregou a Manuel
Pacheco e Baltasar de Castro, missão que, corno já vimos, não deu o
resultado desejado; mas, contudo, foi ainda devido somente à acção do
rei do Congo, que o Ngola se resolveu a dar liberdade a Baltasar de
Castro.
Nesse tempo só se dava valor às relações indígenas estabelecidas
em resultado da catequização efectuada pelos missionários. Nada se
tendo conseguido do Ngola nesse sentido, convinha à nossa política
continuar a considerá-lo como súbdito do rei do Congo e encabeçar
neste todo o poder no território até além do Cuanza, como alguns
cronistas o apresentam.

(1) Chron. da Companhia de Jesus na Prov. de Portugal, cit., cap. xxvn,p. 2* 1.6.°
102 Angola
O engrandecimento político do rei do Congo, que se confessava
■ sob a nossa suserânia, elevando-o, avolumando a sua importância, para
que tôda a Europa e Roma em especial o vissem e sentissem bem,
tinha sido a nossa política de mais de meio século. De repente tudo
mudava. Desfazíamos êsse potentado e procuravamos crear, vizinho
dêle, um outro, apresentando-o com muito mais valor, e a que só
faltava, para o ter realmente, fazer-se cristão. Tentá-lo por intermédio
do rei do Congo era impossível, porque os jesuítas tendo reservado
para si o papel de evangelizadores de todo o mundo que descobríramos,
se tinham incompatibilizado com o rei do Congo. Era necessário pro­
vo car a quebra das boas relações existentes entre o rei do Congo e o
N g o la , insinuando a êste não ser necessária a intervenção daquele
para manter relações comerciais com os portugueses e, bastaria diri­
gir-se ao rei de Portugal, enviando os seus embaixadores, como aquele
fazia. r
A atitude sugestionada ao N g o la e por êle adoptada, além do
prejuízo que causava ao negócio dos portugueses, feria o rei do Congo
na sua vaidade, e, os nossos que lá residiam, aproveitaram êste facto,
incitando-o a romper a guerra contra o N gola , oferecendo-se eles
próprios para o auxiliarem, dirigindo e combatendo com a sua gente,
possivelmente contra os outros portugueses que estavam no Dongo, tal
era o estado de desespero.
Em 1 5 5 6 , as tropas do Congo avançaram até ao rio Dande, onde
as do N g o la as esperavam, ferindo-se a batalha com prejuízos para
aquelas, que tiveram de retirar (i), e então, o Ngola, hesitante, sem
compreender a cena que se estava desenrolando, « Porem vendo o Rey,
« q. lhe fa lta v a o comercio com os Portugueses (porque o interesse era o
« D e o s qu e governava a este R ey, e ainda agora por nossos peccados pre-
« dom ina em a lg un s Príncipes christãos) cuydando que cessava por nam
« ter em suas terras sacerdotes , como dãtes, os mandou pedir, etc »(2), ao
que os de S. Tomé, esperando já êste desfecho, por estarem no segredo
do trama urdido, acudiram pressurosos a enviarem a notícia para a12

(1) R a v e n s te in , o b . c it. a p á g . 1 1 7 . D e v e regista r-se 0 fa cto d ê ste c o m b a te ser travado nas


m argen s do D aode. E m b o r a o s c r o n is ta s e sta b e le ce sse m os lim ites d o C o n g o a té ao C u a n za e,
a lg u n s , a in d a p a r a a lé m , v ê -s e q u e já n e s ta é p o c a o Ngola tinh a m a r c a d o 0 D a n d e co m o fron­
te ir a n o r t e d o seu t e r r itó r io . R a v e in s te in a p ág. i 43 d iz -n o s que a fo r m a ç ã o d o reino de A n g o la
c o m o D a n d e p o r lim ite n o r te , s e fê z n o in te r v a lo d a s d u a s e s ta d a s d e P a u lo D ia s em A n g o la .
Tudo n o s le v a a c r ê r q u e fo i a n te s .
(2) Chron. da Companhia de Jesus na Prov. de Portugal, cit.
:/*3 ' '*

Parte I I — Angola io 3

ôrtc em Lisboa, resolvendo D. João III receber os embaixadores do


^íaola e manda-los vir a Portugal.
Entretanto, as notícias dos acontecimentos do Congo chegaram a
1/isboa e os secretários de D. João III aconselharam-no a mandar uma
enlbaixada ao rei do Congo, tendo para isso sido escolhido Manuel
pacheco, que chegou a S. Tomé em princípios de 1557 , acompanhado
clérigos e frades, talvez de S. Francisco, e de Diogo Rodrigues.
Manuel Pacheco não devia ter deixado bôa fama de si no Congo, por
se ter envolvido na luta a favor do preto D. Rodrigo e, depois de chegar
& S. Tomé, já, por lá ter cousas de seu gosto e passatempo, já porque lhe
sorria mais ir para Angola como comissário, foi adiando a partida para
o Congo, até que faleceu (t). Em seu lugar parece que foi Diogo
Rodrigues, mas pouco feliz na sua missão, como se vê da carta que
escreveu à Rainha(2).
Depois de chegarem a Lisboa os embaixadores souWe-se ter morrido
0 Nglola que os mandára e outro era agora 0 soba do Dongo.
D. João III, cheio de escrúpulos, mandou dizer para S. Tomé que se
informasse se êle estaria nas mesmas disposições do seu antecessor(3),
mas entretanto falecia D. João III e passou a governar, durante a
menoridade de D. Sebastião, a avó D. Catarina como regente.
Emquanto se pediam e recebiam notícias de S. Tomé, os jesuítas
em Lisboa aproveitaram 0 compasso de espera, tomando conta dos
embaixadores, para colherem deles tôdas as informações, de forma a
melhor delinearem 0 seu programa e insinuar-lhes, no caso de ser afirma­
tiva a resposta, que pedissem para Angola os padres da Companhia.
Os jesuítas, aceitando esta demora das consultas para Angola,
queriam mostrar que, no seu plano de ocupação colocavam, acima de
tudo, a acção religiosa e não tinham aquela ância, desinteressavam-se
mesmo da luta, com 0 fim-de se alargar 0 comércio para os portos do
sul, para que os de S. Tomé tanto batalhavam. Quando estes su­
punham, que de tôdas as suas manobras sairia a liberdade do comércio,
encontraram o travão dos jesuítas, e ficaram sem compreender a nova
orientação dada à nossa política colonial na Baixa Etiópia, pois o que

(1) Arquivo Nacional da Tôrre do Tombo. Corpo Cronológico, parte i.* maço toi.
Doc. 65 , (Não publicado por Paiva Manso) Anexos documento o.° i 5.
(2) Idem. Parte r.*, maço io3, Doc. n . Anexos, Doc. n* 12 já referido.
(3 ) Bibl. Nacional, Reservados. Colecção Pombalina, ms. 6-çj, Papel avulço de noticias ms.
artigos de resoluções q. tomarão os Snrs. Reys de Portugal, fi. 20 á margem: Angola. Vide
Anexos, Doc. n.° 16.
104 Angola
se estava fazendo, diminuía e não acrescentava o tráfico da Ilha e não
era isso o que lhes tinham prometido.
Viam que se não tratava de obter uma maior expansão comercial,
mas uma conquista de almas para a Igreja, conquista que se queria
fazer dentro de preceitos até então não usados com pretos. Para que
era a consulta sôbre se o novo soba estaria disposto a converter-se?
O que era preciso era mandar-lhe os padres, e emquanto estes tratavam
da catequese, o comércio trataria das suas transacções; cada um faria
o seu negócio, pensavam os de S. Tom é.
A resposta do novo soba de Angola não se fez esperar, Que sim,
que queria ser cristão e estava mesmo ancioso para receber o Santo
baptismo, mandaram dizer os de S. Tom é, que serviam de interme­
diários e, a Rainha D. Catarina, ao tratar do assunto com os embaixa­
dores, recebeu deles o pedido para os padres da Companhia irem para
Angola.
D. Catarina estranhou, certamente, a indicação dos pretos, mas
já conhecia os processos dos jesuítas e conhecia também, desde o
tempo do marido, a acção que eles se propunham a desempenhar na
vida colonial. Tinham ido para o Brasil com Tom é de Sousa e era
natural que também fôssem para Angola. Sem maior esfôrço, os jesuítas
viram coroados do melhor exito os seus planos. Angola ia ser sua
pois que a evangelização do gentio lhe fôra confiada Não eram
precisas tropas, nem guerras, visto o soba declarar que se queria
converter, e todo o território ser de há muito conhecido dos nossos
sertanejos, que por lá residiam e tinham estendido a sua acção comer­
cial desde o Luango ao Cuanza e desde a costa ao Pumbo. Mas essa
acção comercial, pela forma como tinha sido estabelecida, acompanhada
da acção religiosa em que os frades também vendiam os sacramentos e
prometiam, como bonus, as bem-aventuranças do Ceo, negociando para
si, é que não convinha. Pela religião, queriam exercer o domínio
político efectivo e, a acção comercial seria encaminhada e dirigida por
eles ad majorem D e i gloriam.
A Companhia de Jesus solicitada para êste fim, indicou de entre os
seus, os padres Agostinho de Lacerda, castelhano e Francisco de Gouvea,
português, para juntamente com os irmãos Manuel Pinto e António
Mendes, constituírem a missão a Angola. Por outro lado a Regência
em Lisboa confiou o encargo de os ecompanhar a Paulo Dias de
Novaes, nomeando-o somente capitão da caravela que os conduzia e
levando também um caravelão da Companhia.
Parte U—Angola io5
instruções dadas a Paulo Dias (i), se as compararmos com as
conhecemos do tempo de D. Manuel, mostram bem quanto diferente
gj-a a mentalidade da época. Paulo Dias não se pode dizer que fôsse
um embaixador; ia apenas acompanhar os padres e dizer ao rei de
^ngola o fim a que êles iam. De resto, dirigia a navegação, e se o rei
de Angola se não quizesse fazer cristão *os ditos Padres da Companhia
, farão nisto o que levão determinado pelos deputados da mesa da coits-
«ciência e o que os Doutores e o decreto dispõem». Eram só eles a
mandar e dirigir tudo e até asendo caso que no navio em quehis, e outro
acaravelão da nossa Companhia, vá algnma pessoa ou pessoas que os
«padres da Companhia de Jesus que comvosco vão, souberetn ifelles e de
«suas vidas, lhes pareça que para o efeito a que vão não convem irem as
i(taes pessoas em sua companhia, hei por hem que deixeis ficar as ditas
apessoas em São Tomé».
Nunca nenhum dos embaixadores de D. Manuel f#i assim subordi­
nado ao clero que conduzia nos seus navios. Pelo contrário; Manuel
da Silveira tinha instruções para dirigir e vigiar a conduta do clero
que levava e do que estava no Congo e Manuel Pacheco, se levou
algum padre, ia quási como móvel ou utensílio e recomendava-se que
no caso de o desembarcar em qualquer terra, Baltasar de Castro o
tomasse a rol juntamente com os paramentos.

* *

Quando os embaixadores do rei de Angola chegaram a S. Tomé


para darem a notícia de que êle se queria baptizar e pedia padres, como
dizem os cronistas, mas, possivelmente, também para relatarem o
ataque que tinham sofrido dos do Congo, alguém, talvez o bispo, pensou
nas conseqüências que traria o deferimento do seu pedido e deve ter
exposto para Lisboa as suas apreensões. Qualquer entendimento deve
ter havido com o Congo sôbre êsse assunto, porque também veio a
Lisboa o embaixador do preto rei D. Diogo, Ambrósio de Azevedo,
português.
Nenhum documento ficou, para nos esclarecer sôbre os fins da

(i) Relações de Angola tiradas do Cartorio do Collegio dos Padres da Companhia de


Jesus, documentos mandados copiar na Biblioteca Nacional de Paris pela Sociedade de Geo­
grafia de Lisboa e publicados nos Boletins, n.0' 6 e 7 da 4.* série, i883 .
io6 Angola
missão de Am brósio de A zevedo, mas fàciímenle se depreende viria
acom panhar o assunto que se ia ventilar, justificando a atitude do rei
do Congo e dos portugueses contra o Angola e contra os padres jesuítas,
e mostrando os inconvenientes de se afastar o soba de Angola da de­
pendência directa do Congo. Sem desistirem do seu intento, os jesuítas
devem ter proposto e Am brósio aceitado, uma qualquer plataforma de
conciliação, resolvendo-se que a missão fôsse ao Congo acompanhada
por ele, para explicar ao rei os seus fins, de forma a deixa-lo na
presuasão de que o não queriam desprestigiar. Nesse sentido se es­
creveu ao capitão mór de S. Tom é, naturalmente em resposta ás suas
considerações anteriores, assentando-se em que Paulo Dias e os padres
esperariam em S. Tom é pelo Am brósio de Azevedo, que ainda ficava
em Lisboa ultimando quaesquer negócios, cuja solução talvez fôsse
propositadamente demorada para o reter.
Paulo Dias o os padres partiram, pois, mas já na intenção de
faltarem à combinação ajustada, porquanto, nas instruções se diz: «Eu
« escrevo por hua carta que os p a d res levão ao capitão da ilha de S. Tomé,
« como haveis de ir ter á dita ilha com os Padres da Companhia e n’ella
« haveis de esperar até de cá hir o em baixador de E l R e y do Congo que
« ora está neste R e y n o : e porque pode ser que o dito E m baixador por
« causa do tempo ou p o r outro alg um respeito fa ç a mais detenção do que
« convem e ser a grande inconveniente de terdes vós com os ditos Padres
«na dita Ilha: hei p o r bem que sem embargo do que acerca disto tenho
« escripto ao dito capitão vós e os ditos P a dres vos possais partir e parteis
«p a ra o R eyno de A n g o la com o caravelão e caravela de que his por
« capitão » ( i ).
Vê-se, do que fida transcrito, que no mesmo navio, ao passo que
por mão dos padres jesuítas se mandavam instruções nos termos da
combinação ajustada com Ambrósio de Azevedo e que a êste, certa­
mente, foram mostradas, para se certificar de que se cumpriria o acôrdo,
determinava-se a Paulo Dias — e note-se, sem se dar a contra-ordem
ao capitão mór de S. Tom é, — que partisse para Angola logo que
chegasse á ilha, sem em bargo do que acerca disto tenho escripto ao dito
capitão. O s padres jesuítas salvaram assim a sua responsabilidade.
Entregavam a carta com instruções para esperarem pelo Ambrósio de
Azevedo e Paulo Dias é que as assumia, dizendo ter instruções em
contrário. Pobre Paulo Dias que com eçava a sua vida em Angola no

( : ) V id e a n o t a an terio r.
Parte II— Angola 107

desempenho de um papel tão indecoroso! iMas, a-pesar-das declarações


paulo Dias, o Bispo é que se não conformou, e obrigou-os a
eSperarem pelo Ambrósio de Azevedo, como lhe determinavam nas
instruções enviadas por mão dos padres, escrevendo a esse respeito:
((et( lhe disse que vosa alte\a mandava que esperacem nesta Ilha até a
t vinda de Ambro\io de A{evedo, ambaxador dei Rey do Comguo, hebem
«acertado terse comprimento com elRey do Comguo por que se não deve
«avemturar ho serto pelo duvidoso 0(1).
Chegado Ambrósio de Azevedo partiram, então, todos na caravela,
para Angola sim, mas com escala pelo Pinda(2), onde Paulo Dias (os
padres jesuítas, na forma do costume, ocultarem-se) foi conferenciar
COm o rei do Congo, D. Diogo, mas fê-lo tão desastradamente, que 0
D. Diogo se queixou para Lisboa «do modo que teve em se partir dele
«para 0 Reyno de Angola », ao que D. Catarina, em nome de D, Sebas­
tião, por carta de 23 de Agosto de 156o, respondeu qie se informaria
e faria o que fôsse de justiça(3).
Ir-se-ia efectivamente aventurar 0 certo pelo duvidoso? Talvez que
ao espírito dos que nada viam para além do campo restrito dos seus
interesses imediatos, assim parecesse; mas, quem estudasse a solução
do problema da civilização, que se nos impunha, dos imensos territórios
que descobríramos; quem sentisse já então, 0 pulsar, embora ainda
fraco e por vezes intermitente, da grande nação que começavamos a
fazer do outro lado do Atlântico, não poderia indicar outra.
Foram os jesuítas, pela sua ambição, que a forçaram? Foram os
ministros de D. João III, que tendo iniciado a colonização do Brasil,
sem se preocuparem com a da Baixa Etiópia, marcaram a esta o
concurso a prestar aquela?
Deve ter sido o conjunto destas duas circunstâncias. Mas fôsse
como fôsse; 0 facto de termos compreendido, ou por instinto ou por
sugestão, as vantagens de abandonarmos a política platónica das
suserânias, para nos lançarmos, abertamente, na das subjugações, na
dos domínios efectivos dos territórios e das gentes, cora o fim de os

(1) Paiva Manso. História do Congo, Doc. ux, pág. 112, í o de Fevereiro de i 56o.
(2) Synopsis Amalium Societatis Jesu in Lusitania, etc. R. P. António Franco, cit, pág. 63 .
24. Navis posl appulsum ad insulas Hesperidumdivi Thomae, ac Pindam in ostio Zairefluminis,
ubi liqualum & aquatum descendêre, etc. Apesar desta referência, como vemos pela carta,
acima, não foi só para fazerem aguada que foram ao Pinda, mas terem comprimento com el rei
do Congo.
(3) Anexos, Doc. n.° 16 cit., fl. 17.
lo B Angola
utilizarmos onde nos conviesse, honra-nos sobremaneira e, sem isso,
não teríamos sido o que somos hoje.
Emfim, a missão que Paulo Dias ia levar a Angola, tendo saído do
Tejo a 22 de Dezembro de 15 5 9 , chegou à barra do Cuanza em 3 de
Maio de i 5 6 o.
*
* *

H avia 22 meses que partira a missão e não se conhecendo em


Lisboa quaesquer notícias do que se passára, mandaram-nas pedir ao
capitão mór de S. Tomé.
Soube-se então (i) que tendo fundeado no Cuanza em 3 de Maio de
i 5 6 o, poucos dias depois, em 12, Paulo Dias resolvera mandar seu
sobrinho Luís Dias, um marinheiro mulato da caravela e, como guia, 0
preto D. Antónlí) que fizera parte da embaixada enviada a Lisboa,
participarem ao rei de Angola, Ngola Kiluangi, a chegada. Seguiram
pelo Cuanza em um batel até onde o puderam navegar, e desembar­
cando em um porto, que deveria ser aquele onde mais tarde fundámos
Massangano, foram depois por terra até á embala.
Só a 24 de Junho, depois de quarenta e dois dias de demora, re­
gressaram, primeiro Luís Dias, acompanhado por vários pretos e,
pouco depois o emissário D. António, acompanhado por um preto co­
nhecido por Gougessis ou Gougocinga, fidalgo importante e por muitos
outros, afim-de acompanharem Paulo Dias e os padres.
O rei de Angola respondera à participação da chegada de Paulo
Dias e dos padres, sem mostrar os desejos de conversão ao cristianismo
que eles esperavam, e dizendo-lhes, apenas, para irem até á embala e
levarem os presentes, o que não era de molde a deixar grandes espe­
ranças no bom resultado da missão, tanto mais que Luís Dias trouxe
para Paulo Dias uma carta de um português, natural do Barreiro,
residente na embala do rei, avisando-o de que não fizesse a viagem pois
lhe preparavam uma cilada. Aceitaram o conselho resolvendo esperar
outras informações e tornando-se incómoda a vida a bordo, desem­
barcaram nas margens do Cuanza e ai fizeram uma ramada onde se
alojaram.
Resolveram enviar-lhe novamente o emissário preto D. António,

(1) D o c . 16 c ita d o e c a rta do irm ão A n tó n io M en d es p a ra o padre da C o m p a n h ia, Leão


H enriques, p u b lica d a no Boi. da S. G. L., n.° 6, 4.« série, p á g. 3oa.
Parte II—Angola 109

cort)panhado do mestre da caravela, com 0 fim de lhe exporem mais


vez o seu objectivo de tratarem da sua conversão e da sua gente.
Entretanto 0 acampamento nas margens do Cuanza foi aumentando
ela necessidade de melhorar 0 estado sanitário dos portugueses, a
quem não só o clima estava dizimando, tendo já falecido 0 padre
Agostinho de Lacerda e oito marinheiros, mas também a falta de vi­
veres, valendo-lhes 0 socorro prestado por um sobeta vizinho, que lhes
forneceu os alimentos de que dispunha, mostrando-se sempre muito
caritativo para com os nossos.
Cêrca de quatro mêses demorou 0 regresso dos emissários enviados,
tendo-se, contudo, trocado recados entre Paulo Dias e 0 rei de Angola
num tom que denotava certa irritação de parte a parte.
O Ngola Kiluangi, insistia pela ida dos padres, mas sem modificar
a sua reserva a respeito de declarar que abraçaria a religião cristã e,
paulo Dias suspeitando que talvez dos portugueses, fjue residiam na
embala, proviesse essa resistência, respondia-lhe insistindo também pela
sua parte para lhe mandar os portugueses que lá estavam. Não se
tomava, assim, qualquer decisão, mas tendo um criado feito saber a
Paulo Dias que se dizia que ele não ia por ter medo, êste, desesperado,
resolveu meter-se em um batel com sete pessoas e algumas das cousas
que levava de presente e seguir pelo Cuanza até Massangano, fazendo
depois a viagem a pé até á embala, por jornadas, a primeira de duas
léguas até ao fidalgo chamado Angora Carengala, onde esteve um dia e
uma noite; a segunda do mesmo percurso, até ao fidalgo Babatem e
daí a três jornadas (seriam seis léguas?) a outro fidalgo chamado
Cabaço (Cabasse) que o teve quatro dias comsigo(i).
O padre Gouveia não acompanhou Paulo Dias, por não poder
abandonar uns doentes em estado grave, e só seguiu pouco depois com
um grupo grande de portugueses, mas entretanto, tendo chegado á
embala a notícia de que ele ficára, vieram os pretos D. António e 0
Goucocinza (2) com muitos outros indígenas, para 0 levarem, encon-
trando-o no caminho e manifestando a sua satisfação por êsse facto,
conduziram-no á povoação onde 0 Ngola Kiluangi residia e que, dizem
os cronistas, ficava a sessenta léguas do acampamento do Cuanza (3).

(t) O documento donde extraímos esta indicação, tem a seguir a quatro dias comsigo: «e
depois meses, etc.», sem dizer que Paulo Dias saísse dali para outro ponto onde fosse a embala
ou a côrte do rei.
(a) Era o preto fidalgo que ficava encarregado de tratar com os portugueses.
(3) Os jesuítas, Synopsis Annalium, dizem-nos que Cabassa distava6o léguas da praia onde
I IO Angola

A s etnbalas dos sobas em Angola eram então, como são ainda hoje
u m a série de cercados de troncos de árvores entrelaçados, com uma
ú n ica passagem de com unicação, no meio dos quais se encontra um
recin to m ais ou menos vasto, a instalação do soba. Decorridos os
dias que a etiqueta impunha de espera aos visitantes, para poderem
ser recebidos pelo soba, foram os nossos apresentados ao A n g o la
K il u a n g i , que os recebeu assentado numa cadeira quadrada, tecida de
p alm a e revestida de tabuas, « estando cingido com uma f a i x a d e pano
a^ ul, e várias outras de diferentes cores que o circundavam p o r d eb a ix o
d o s b r a ç o s » e tinha um corno de vinho na mão e hua cabaça g ra n d e ju n to
d e s i e sem pre bebia p o rq u e esta he toda a fid a lg u ia entre elles ter que
b e b e r ». Os dignatários que o cercavam entregavam-se ás mesmas
libações, que o cronista da Com panhia de Jesus, encobrindo preposita-
dam ente o verdadeiro sentido, aprecia escrevendo que entre aqueles
b a rba ros era estti a m elhor maneira de significar a s u a profunda d e fe -
ren cia p a r a com hospedes tão ilustres , como eles consideravam os nossos.
A recepção não desanimou os nossos. O rei de Angola, em vista
dos presentes que lhe levám os, entre outros, uma mula bem arreiada,
um a vestim enta de seda vermelha e um barrete, mostrou-se satisfeito
e, em bora, quanto à sua pessoa, se limitasse a prometer que se faria
cristão, foi contudo ordenando que vinte pequenos fossem entregues ao
P ad re Gouveia para os educar e, tão bem impressionado ficou Paulo
D ias com o que se passou, que resolveu mandar pedir ao sobrinho
Luís D ias, que tinha ficado no acampamento no C uanza, lhe mandasse
os vestidos , e a bacia e os f o lie s de fe r r e ir o , que tinha trazido para a
fundição.
M as, a-pesar-disto, passaram -se cinco ou seis mêses, sem o preto
rei de A ngola consentir na retirada dos nossos que compunham a
co m itiva de Paulo Dias. A os que tinham ficado no acam pam ento
constára terem sido feitos prisioneiros e lhes fôra tom ada tôda a fazenda
que levavam , e, sendo escassos os mantimentos, receando serem
atacad os e sofrerem a mesma sorte dos outros, resolveram levantar
ferro e retirarem com a caravela para S . Tom é.
T in h a algum fundamento as suas suspeitas e receios. Satisfeita a
curiosidade do preto com respeito ao presente que Paulo Dias lhe

e s t a v a o a c a m p a m e n t o , n a s m a r g e n s d o C u a n z a e q u e d e s te p o n t o a M a s a n g a n o , e r a m 39 légu as.
D e v e , p o r ta n to P a u lo D ia s t e r p e r c o r r id o 21 lé g u a s d e M a s a n g a n o á e m b a la e e s t a ser o n d e
h o je é A m baca. P e la d is tâ n c ia do d o cu m e n to , to lé g u a s , a e m b a la s e r ia e m M b a k a , n as
m a r g e n s d o L u c a l a , o n d e e m 1 6 1 4 , c o n s tr u im o s u m fo r te .
» *■ »,

Parte I I — Angola III


I
a in d iferen ça logo de início esboçada pela vinda da m issão, era
lid a r a .
tô°0 cro n ista d a C o m p a n h ia de Jesus classifica a atitude do N gola d e
ti)idade e a trib u i-a a intrigas do rei do Congo, quando mais certo
b°s. atribui-la ás intrigas dos portugueses residentes na embala, e de
*
$efl* paulo Dias suspeitava, pois pouco depois de chegar ao C uan za,
4a mamado dizer ao re‘ de Angola para os autorizar a virem ao
il acam p a m en to no C uan za, o que eles não fizeram e antes, em
selí«nsta, o acusavam de ter medo de ir até á embala onde eles
respu 7
tavam.
pôsse como fôsse, incitado por eles ou pelo rei do Congo, que, como
. - ficou referido, era também dirigido por outro grupo de portugueses,
q certo é que o rei de Angola, por maldade própria, ou por se convencer
^ que o fim da missão dos portugueses era introduzirem-se no seu
reino para se assenhorearem das suas riquezas, resolvei reter os trinta
e oito portugueses que tinham acompanhado Paulo Dias e, dizem os
i
i f
padres, tomar-lhes tôda a fazenda. «Roubou-nos tudo quanto leva- i t
<(vamos, até o sino , e assife\ a todos os que hião conosco e reteve toda a u
n
«gente na terra té que os navios sevierãopor não poderem esperar ia com
t .
«fome no mar » escreve um dos irmãos da Companhia e, só depois de
ter notícia de caravela ter levantado ferro soltou os portugueses, que,
dirigidos pelo irmão Manuel Pinto, se encaminharam para a barra do
Cuanza, na esperança de ainda lá encontrarem os companheiros.
Ao chegarem, vendo-se sós e absolutamente desamparados, recebe­
ram daquele soba amigo a quem já nos referimos, os alimentos que êle
lhes poude dispensar e, metendo-se em almadias (i), foram navegando
ao longo da costa, para o norte, até chegarem ao Pinda. Aí encontraram
\
então, uma nau que os conduziu a S. Tomé, onde faleceu o irmão ■3
Manuel Pinto (2).

(1) «E construindo ali, em Bambolungo, um batel». Carta do padre Francisco Gouveia.


883
Boi. da S. G. L., 4,* série, n.° 6 (i 33
) pág. o .
(2) Cadornega Guerras Angolanas, i.° tomo (cópia existente na Biblioteca da Academia
das Sciências de Lisboa) dá uma outra versão sôbre 0 que se passou com esta primeira missão
I
ao Ngola. Conta que tendo êste visto a acção desenvolvida pelos portugueses na defesa do
Congo contra os jagas, mandou pedir ao rei do Congo que lhos mandasse (os mundelis
brancos) para 0 defenderem e, assim para lá foi Paulo Dias com muitos portugueses, que pres­
taram optimo serviço e tio bom, que 0 Ngola, receando do seu valor, resolveu dividi-los por
diversos sobas para os matarem. «A piedade ou a afeição de huma Infante filha deste Rei
> I
«livrou a cinco Portugueses de tamanha lirannia, mandandoos esconder de suafiereja em terras
! jS
«de umfidalgo sova vassalo de seu Pay que tinha suas terras e senhorio no rio Mocos q. desagoa
<1suas agoas em 0 famoso e caudaloso Rio Coan^a, 0 sova era 0 seu apelido quilomga quiabumgo J I
\

,1

!
I 12 Angola

* #

Foram estas as noticias que os documentos que se podem consultar


nos dizem terem sido recebidas em Lisboa. Não causou maior es­
panto o que se estava passando em Angola, nem provocou qualquer
reacção, aliás justificada em vista do espírito guerreiro, avigorado
pela leitura dos mistícos e dos livros de cavalaria, e do fervor pela
conversão dos infiéis, que dominavam o rei D. Sebastião e os seus
cortesãos.
É que, de todos estes factos, não se pode deduzir uma manifesta
hostilidade para com mercadores e padres. Se ela existisse, o preto de
Angola tinha mandado cortar a cabeça a todos os nossos. O padre
Gouveia exagendva. Não propositadamente para alardear serviços,
porque sendo um crente sincero e um apóstolo devotado à sua fé, não
procederia com essa intenção; mas talvez por isso mesmo, talvez pela
pureza das suas convicções e pela nobreza dos seus sentimentos, se
sentisse maguado com o que via e, faltando-lhe a energia e os meios
de acção, para se impôr e opôr aos desregramentos a que assistia, não
só do preto, mas dos nossos, traduzisse em lamentações a sua revolta
contra o que era um fruto da época e do meio.
Por tôda a parte queríamos ver reis, príncipes e fidalgos e ostenta­
ções de riquezas. Dos sultões e califas do norte da África passámos
para os rajás da índia e a eles nivelám os todos os pretalhóes que
fomos encontrando pela Baixa Etiópia, desde o M u en e C on g o ao M néne
fifigola. Êste, duma raça manifestamente inferior, que não era fidalgo
nem rei e apenas um chefe de bando, um quadrilheiro audacioso,
roubando aos outros pretos os mantimentos, os gados e as mulheres
fazendo-as suas escravas, via sem as compreender, mas sentindo-as, as*•

« que hoje conserva o mesmo nome e terras em o mesmo sitio, dando a obediência como Vassallo
<r que he do Príncipe nosso senhor, a fortaleza de Cambambe que fic a perto das terras de qui-
«longa e Rio Mocos como sova daquella lotação. A quem ordenou aquella piedosa e affeiçoada
a Infanta com lodo o segredo mandasse faqer uma canoa que se faq de hum pao chamado mufuma
« Carcanada. . ■ com ordem da dita Infanta que feita que fosse a dita embarcação a levasse pelo
« Rio Mocos ao do Coamqa e mettesse nella aquelles Portugueses e sustento necessário para a
o viagem, e lhes dessem fu g a p or aquelle espaço\o Rio Coamqa abaixo, entre estes Portugueses
• entrava Paulo Dias de Novaes, por cuja cauja faqia a filh a daquelle R ei estes estremos, que
« são os poderes do amor l que até huma Gentia os conhece, muito pode uma afeição ».
Como se vê esta versão em nada corresponde á verdade que se conhece dos documentos
. jeferidos. Registamo-la apenas por ser curiosa.
Parte II— Angola II.?

-{estações de respeito que os colonos de que dispúnhamos então,


a1 uireiros, na maioria homiziados, lhe rendiam em busca de interesses,
üVÊÍl n(j 0 a escravos e marfim, juntamenle com as fazendas, uns restos
e caracter. E o preto, maravilhado das contumélias da
dc pragmática, que transportámos para a sua embala, chamando-lhe
nC>lácio; sem o mais leve traço de civilização ou princípios religiosos,
Pa os mais rudimentares; tendo também só em mira o interêsse e o
alo!srn0’ desconfiava dos nossos intuitos. Aceitáva-nos até à altura
e°0 que via nisso vantagem imediata, nunca sacrificando as suas con-
^pjências, e sem se nos mostrar hostil por qualquer forma, muito
erllbora as suas faltas de respeito e consideração pudessem, como tal,
ser apreciadas, por quem ainda tinha dignidade e a presava.
«Na christandade não se fa\ nada, escrevia o padre Gouveia (i).
( Os fidalgos e pessoas nobres com que falíamos não dão pellas cousas de
„ J)eus e o Rey vemos mui poucas ve{es e quando lhe fadamos nas cousas
«da fee, fa { que não entende e depois dHmportunado di\ que elle virá a
«aprender e isto cheio de riso e {ombando de nós«, e referindo-se ao tra­
tamento : «passamos muytos trabalhos porque alem de nos não darem
«muytas ve\es nada nos espancão muytas ve{es pello que a gente nos foge
«e deixa soos, e di\er isto a E l Rey não punde nada pello que nos sofre­
amos acundando-nos com vender secretamente esta pobresa que temos far-
«rapos cousas velhas a fidalgos da terra a troco de mantimentos. . . Outro
adia di{ (refere-se ao Gongocinga a quem chamava seu amo) que somos
«escravos de E l Rey e que vamos fa\er seu serviço como algumas ve\es
afilemos como de coser lhe capas e outros vestidos de Portugal e brear
«almadias em que E l Rey se lava e outras cousas semelhantes e nisto pas-
asamos a vida».
Se era assim na parte referente às considerações devidas a pessoas
da categoria do Padre Gouveia e de Paulo Dias, com respeito ao co­
mércio, parece que se ia fazendo sem estorvo de maior, porque o Pa­
dre Gouveia o escreve: «Isto fa\ pera ms deter parecendo-lhe que
aem quanto alli estivermos virão navios de Portugue\es aos portos com
«fazenda de que tirará proveito», o que mostra que a intenção de
lhe obter a conversão pela proibição das relações comerciais fôra
posta de parte, ou antes, teve de o ser perante o interêsse da maioria,

(i) Carta do Padre Francisco de Gouveia para o Padre Do. Mirão. Das Relações de An­
gola, tiradas do Cartono do Collegia dos Padres da Companhia em Paris. Boi. da S. G. L.,
IT 4 Angola
naiuralmentc a gente de S. Tom é e os comerciantes de Lisboa, arma­
dores, etc.
Não se tendo conseguido a conversão ao cristianismo do preto rei
de Angola, nem por isso a propaganda religiosa deixava de se fazer
entre os indígenas, senão com alguns bons resultados, pelo menos com
simpatia e, a propósito de um violento incêndio que destruiu tôda a
povoação do soba, escreve ainda o Padre Gouveia : « o que mais espanto
«f e \ f o y estarem as nossas casas pegadas com os muros de E l R ey, não
« lhe fa zen d o nenhuma das ve\es o fo g o nada, antes vinha sempre morrer
« na nossa testada como milagrosa, e que ninguém o vira que o não atri-
« buisse a grande m ila g r e ... Todos nos difião que a Ig reja e as cousas
« que de D eu s n’ ella tínhamos nos guardavão e por isso foig a vã o muytos
« de nos ter por visinhos por se verem livres do fo g o e crer que por isso
«fo r ã o livres como elles também creem por estarem a p a r da Igreja, prin-
« cipalmente hur% gentio fid a lg o parente de E l R e y bem valoroso capitão
« mór deste R e y ».
Esta aceitação e reconhecimento do milagre pelos indígenas, não
representava por forma alguma a sua crença ou a sua fé. Para eles,
dentro do seu espírito, ficou existindo um feitiço com mais valor do
que os que usavam, o que, à primeira vista, parecendo uma boa indi­
cação a explorar, tinha os seus inconvenientes... porque também por
vezes sacrificavam os feiticeiros.
Do que depois se passou com Paulo Dias é que não há notícias e,
a-pesar-de o Padre Gouveia o incluir quando conta que os espancavam,
que não lhes davam de comer, que os obrigavam a coser as capas e
outros vestidos de Portugal e a brear as almadias em que o preto se
lavava, o que deve ser pôsto em dúvida, Paulo Dias nas horas vagas
foi-se entretendo com a bacia e foles de ferreiro, e outro papel mais
importante passa a desempenhar, porque em 1 5 6 5 , nos diz ainda o
Padre Gouveia, o preto de Angola o mandava a Lisboa com um seu
escravo (já lhe não chamava fidalgo) «a visitar Sua A lte ia mandando-lhe
« de presente quarenta argolas de cobre e trinta e cinco dentes de Alifante
« c quarenta paos que cá lhe chamão Quicongo que é muito estimado n’estas
« terras e assi manda mais certos escravos mãdando pedir p or isso milhares
de cousas » (i).
No Gongo tinha, entretanto, morrido o preto D. Diogo, sucedendo-

(t) Carta do Padre Francisco de Gouveia ao Colégio. Boi. da S. G. L., n.° 7, 4.* série,
pág. 338 .
Parte 11— Angola I iS
\he um filho que foi assassinado pelos portugueses, e a este, seu irmão
p. Bernardo, muito afeiçoado aos nossos, de quem escrevia António
Vieira numa carta para a Rainha D. Catarina: neste Rei Dom Barnardo
«que agora reina em Comgo e he mansebo muy llargo e mm he syo\o
e como os seus antepassados que erão syo\os do Reino damgolla que mm
gquerião com Reys de portugall descobríse o Reino damgolla e nem que-
grião que soubese o que havia nelle, etc__(i). Esta mudança de Rei
fio Congo e de política deve ter tido repercussão importante no Dongo,
e a ela devemos ligar a viagem de Paulo Dias a Lisboa.
A confirmar esta suposição, vemos ainda António Vieira, na carta
referida, escrever: «também este paullo dias que veo por embayxador
«damgolla tall como estes deve sua Altera demandar qua por que sabe o
(tfeyto da terra asym damgolla como de Comgo, etc.» o que nos mostra
a preponderante acção que Paulo Dias desempenhava junto do preto
de Angola, sendo escolhido para seu embaixador junto^io rei do Congo,
e que, a sua vinda a Lisboa não foi para urgentemente buscar socorros
a-fim-de sufocar qualquer revolta, como algures se tem escrito e repro­
duzido, mas tratar de outros assuntos, talvez expor a oportunidade de
se tomar uma solução definitiva sôbre Angola, cujas dificuldades êle
teria aplanado, indo ao Congo, devendo lá ter estado em fins de 65 ou
princípios de 66.
Foram, pois, os acontecimentos do Congo, que desde há muitos
anos se vinham agravando e que tiveram a sua eclosão com as mortes
violentas do rei D. Diogo e do primeiro filho que lhe sucedeu, que mo­
tivaram a vinda de Paulo Dias a Portugal, passando primeiro pelo
Congo, para, como embaixador do preto de Angola, tratar com o novo
rei D. Bernardo de assuntos que interessavam àquele.
Diz-nos António Vieira que o preto D. Bernardo não era cioso do
reino de Angola, como os seus antepassados, que não queriam que os
reis de Portugal descobrissem o reino de Angola. Nesta referência,
está talvez a chave do mistério da viagem de Paulo Dias. Os reis do
Congo deixavam de se importar com o facto do Rei de Portugal esta­
belecer directamente a sua acção em Angola, deixavam de ser ciosos,
isto é, acabava a lenda e reduzia-se às devidas proporções a grandeza
do Congo.

(i) Paiva Manso. História do Congo, Doc. uni, pág. 116.


I ï6
Angola

*
* •

Durante a sua permanência no Congo, Paulo Dias adquiriu perfeito


conhecimento, não só da situação política, mas principalmente da terra
e dos recursos que oferecia.
O esfacelamento daquele Congo que os nossos primeiros colonos
tinham feito, vasto e dominando todos os povos vizinhos, tornara-se
inevitável. As lutas contra o rei D. Diogo, a morte dêste e do filho
que primeiro lhe sucedeu, colocaram o outro filho, D. Bernardo, na
necessidade de contemporizar com os revoltados para poder ser reco­
nhecido como rei, o que era manifesta prova da sua fraqueza. Esta
contemporização obrigava-o a ter, antes de mais, de tratar de arrumar
a casa própria, s#ssegar a família e deixar-se de veleidades de domínios,
que nunca teve realmente, mas que lhe diziam que tinha,
O soba do Dongo, o Ngola, foi o primeiro dos seus pretensos súbditos
a pensar em engrandecer-se, senão pròpriamenle à sua custa, pelo menos
de forma a tomar para si a parte que o rei do Congo, ouvidos os por­
tugueses, dizia, vaidoso, que era sua. Dado o decrescimento do negócio
dos portugueses no Pinda, pela transferência de muitos para o Loango
e de outros para Luanda e portos para o sul, fácil lhe foi tomar, com
um apoio seguro, uma atitude, de quem queria ser alguém, atitude que
Paulo Dias deve ler coadjuvado e auxiliado, pois que a sua missão de
5g não obedecia a outros fins.
<jO que foi êle fazer ao Congo como embaixador e o que veio fazer a
Lisboa com o tal escravo, como lhe chamava o Padre Gouveia, e que
era um embaixador ao rei de Portugal e com o presente das manilhas
de cobre, marfim, pao de Quicongo e escravos? Nenhum documento
nos ficou que esclareça estes pontos, mas os factos subseqüentes talvez
nos possam dar qualquer indicação.
A acção do rei do Congo estendia-se por todo o território entre
o Zaire e o Cuanza e ainda para o norte daquele rio e sul dêste.
Mas, a-pesar-disso, a Angola, a Matamba, a Quiçama, a que o velho
D. Afonso I do Congo chamava os seus reinos e senhorios, eram e foram
sempre sobados de ambundos, que talvez mal conhecessem os congue­
ses, e muito menos os considerassem como conquistadores, e com quem.
pelas relações que tinham com os portugueses que viviam no Congo, se
foram também relacionando e integrando na sua influência política»
Parle I I — Angola 117
mais nominal que real. O reino do Congo, pròpriamente o território
ocupado pelos muxicongos, nem era verdadeiramente constituido peias
províncias que já referimos, pois algumas delas foram conquistadas (i).
A dispersão do negócio exercido pelos portugueses, se por um lado in­
teressava o rei do Congo pela importância política que lhe trazia, por
outro contrariava-o, pois «com llogeas mercadorias e cousas muitas
« por nos deffessas, as quaes se espalham por nossos Reinos e Senho-
« rios em tamta avomdança que muitos vassallos que tynhamos ha nosa
« obeiiencya se aleuantam delia por terem as cousas em mais abastança
« que nos, com as quaees hos antes tynhamos contentes e sogeitos e so nosa
« vassallagem e Jurdiçam, etc.»
Os protestos do velho D. Afonso não foram ouvidos e os portugue­
ses, entretanto, tinham-lhe ligado S. Salvador com Luanda e com o
Dongo, e estes dois pontos pela via marítima, navegando pelo Cuanza.
Emquanto D. Afonso foi vivo, a unidade do Congo ruanteve-se, mas,
depois da sua morte, vieram as lutas entre os diversos duques e mar­
queses, vieram as revoltas destes contra o rei e, perdida assim a uni­
dade, veio o enfraquecimento, tornando mais tarde fácil aos jagas a
invasão, em que levaram na sua frente, fugindo quási sem resistência,
as populações das diversas províncias do Congo e até o próprio rei,
então D. Álvaro II, que teve de se refugiar, com alguns portugueses que
o acompanharam, numa das ilhas do Zaire, emquanto de Portugal che­
gavam os socorros que mandara pedir e com que recuperou o seu reino,
mais porque os jagas se não detiveram na invasão e escolheram outros
locais para se fixarem, do que pela derrota que sofressem.
Paulo Dias percorrera os sobados do interior e colhera informações
detalhadas do seu valor. Convenceu-se, pelo que viu e pelo que lhe
disseram, que a verdadeira riqueza estava ali. Eram os escravos em
abundância; eram as minas, em que havia serras de prata e rios de
ouro, além do cobre por todos os lados, eram os mantimentos mos-

(i) O facto de incluir a ilha de Luanda nos seus domínios é ainda um ponto a esclarecer.
Não pode haver dúvida alguma de que, nem a ilha, nem a parte do continente fronteiro, perten­
ciam ao soba do Dongo. Possivelmente os nossos, quando chegaram ao Zaire e ao mesmo
tempo que estabeleciam relações com o Manicongo, foram percorrendo a costa para o sul, che­
gando à ilha das Cabras de Duarte Pacheco, onde encontraram os zimbos. Tinham das conchas
e dos búzios uma noção de valor como moeda, pois que o seu negócio na Alta Etiópia fôra re­
servado para a coroa. No Congo não havia moeda e era necessário criá-la para as transacções.
Foram talvez os nossos que lembraram ao Manicongo o estabelecimento da sua casa da moeda
na ilha das Cabras, a que depois chamámos de Luanda e que não era habitada por gentio algum,
de importância.
1 18 Angola
trando a fertilidade do solo e era, ainda mais, um clima superior ao do
Congo e permitindo uma mais longa permanência do europeu.
Ainda a situação política lhe facilitava a realização do grande sonho
que em segredo acalentava, da posse, para si e para os seus, de tôda
aquela riqueza.
Forçado o rei do Congo a aceitar o Dande como limite sul do seu
reino, ficava todo o vasto território para o sul, até além do Cuanza,
ocupado por diversas tribus, os dembos, os ngolas, os gingas, os quis-
samas e os libolos, além de alguns jagas independentes espalhados, que
não constituíam uma unidade política e dos quais um ou outro, se tinha
tornado mais notável, pela importância e prestígio de que se souberam
cercar, aproveitando as relações com os portugueses.
Com o Ngola, soba do Dongo, adquirira Paulo Dias as melhores
relações. Fomentara a sua independência do rei do Congo e era êle
que vinha agoi% acompanhar o seu embaixador ao rei de Portugal.
Esta circunstância facilitava-lhe a realização dos seus desejos. As difi­
culdades dos primeiros donatários do Brasil não era provável que se
repetissem ali. Além de uma população indígena já habituada à con­
vivência com o português, era o tráfego da escravatura, corrente entre
os indígenas, sem ser necessária a luta para os agarrar, antes pelo con­
trário, eram os diversos chefes de tribus que vinham propor a troca,
por mercadorias, dos seus prisioneiros e condenados à morte.
A terra estava também povoada de brancos. Além dos que viviam
junto da embala do soba, já na ilha de Luanda, cujo pôrto passara a
ser freqüentado pelos nossos navios, havia portugueses estabelecidos,
que se encarregavam da recepção das mercadorias que os navios des­
carregavam e dos pretos para serem exportados. Alguns operários
nossos, carpinteiros e calafates, se tinham ali fixado e, parece que devia
também haver clérigos, pois que existia uma ermida ou pequena igreja,
certamente mandada erigir de ordem do rei do Congo ou do duque Ma-
nibamba, que governava na ilha. As caravanas seguiam de Luanda
para o Dongo e para o Ambriz, pelas carreteiras abertas pelos nossos
comerciantes, através de regiões em que eram muito raras as lutas com
os seus habitantes.
Ao seguir viagem para Lisboa, Paulo Dias deveria ter ponderado
tôdas estas circunstâncias e formado o seu plano, cuja boa execução,
tanto a respeito de pretos como de brancos, julgava garantida, muito
embora pudesse dizer dêstes, pela experiência do que com êle se tinha
passado, o que Duarte Coelho dizia a respeito dos condenados que po-
Parte II — Angola 119
voavam a sua donatária no Brasil: « s ã o p io r e s cá n a te r r a q u e p e s t e »
ou o que, um pouco mais tarde Domingos de Abreu de Brito dizia a
respeito dos que povoavam Angola e Congo: « h a ta n ta s to r p e z a s q u e
p o r v e r g o n h a d a p a t r ia n ã o a p o n to » ( i ) .
M as havia uma dificuldade. Èle linha ido a Angola acompanhando
os padres da Com panhia de Jesus. Destes, um falecera, outro ficara lá,
e regressava êle que tinha de relatar a missão dos outros e a sua. ^Sôbre *
os resultados obtidos, era justo e licito pedir um a recom pensa para si?
í E a Com panhia de Jesus?

(t) Mss. de Domingos de Abreu de Brito na Bib.Nac. Edição da Imprensa da Universidade


de Coim bra.
t
I

II

A D O N A T A R IA de angola

Jfc
p ia s d e ^ o v a *s ^eve íer chegado a L isboa em fins de 1 566
ios d e l ^ ' ^ overnava o reino, com o regente, o Cardial
e 0 esP^r^ ° ^os ^dgentes estava ocupado nas lutas poli-
J e í i í i as fa c ç ô es de M artim Gonçalves e da R a fth a D. Catarina.
iícâS ^cios u^.ramar eram Um*Pesa(kl°
---- ^ Fm a us
para os governantes. Fouco
Pouco
09sS^í,e^áqC1<ter seguido para Angola em 1559 a3 missão da Companhia de
^epa‘s r0Apanhada
áepois por Paulo
ínpan^a^a ,^°r ^au^° Dias, tinha chegado
^ as>dnha chegado aa Lisboa
Lisboa 0
0 padre
padre
ms aC An Silveira, e exnnc*»r« ^ •
jgSus 8^ nçalo da Silveira, e expusera 0 plano de converter ao cristia- i,
;esaíta
.*<5uRa °x^ de Monomotapa, na África Oriental, no que tinha a maior
nis*50 0 pizia-se que havia ali as mais afamadas minas de ouro, e
eSperaíl£ ue na «serra de Fura se desfe\ de umapedreira, misturada
C0 Í l t n etn pouco tempo, mais de quatrocentos mil cru\ados; e alguns
«& oUf"0> es piram pelo amago do tronco de arvores achar-se veia de
«pofWê’ rj crescendo por dentro d}elle; e cavando no logar onde a ar-
«ouf° ^tepe em breve tiraram de\ ou do{e mil cruzados, etc. (1). O plano
<íJ/°re a Gonçalo fôra aceite e êle partira com recursos para a sua
do *a mas fôra infeliz, pois 0 rei do Monomotapa mandara-o
eXpea'v g sse desastre conhecera-se em Lisboa emquanto andava em
íriat3la a outra missão da Companhia, cujas noticias recebidas também
A”Seram animadoras, como já ficou referido.
{ *
na°Com 0 regresso de Paulo Dias a situação a respeito de Angola mo- ; ?
rtiíicava-se. Não wera tão má como se supunha, e tanto que êlejapre-
va um embaixador do rei pedindo muitas cousas e trazendo um
^esente de cobre, marfim e escravos e paus de quicongo, emquanto o
Padre Gouveia lá ficava a tratar da evangelização.
Francisco Barreto, que viera de Moçambique, também estava em

(1) D écada i 3 de A m ó n io Bocarro, parte H, capítulo a x u .

16
122 Angola
Lisboa, e queria organizar uma grande expedição militar para ir vingar
a morte do Padre Silveira e apossar-se daquelas imensas riquezas.
Para Angola nada disso era preciso. Bastava a organização duma
capitania e que Paulo Dias fôsse o novo donatário.
Por entre o fervilhar da mais nefasta intriga política e desorganiza­
ção que nos levou à perda da nacionalidade, um e outro, Barreto e
Paulo Dias, por conta da mesma entidade, a Companhia de Jesus, pro­
curavam fazer vingar os seus pontos de vista acerca dos territórios que
cubiçavam. Pouco depois de D. Sebastião assumir o governo, Barreto
conseguiu em 1569 sair com a sua expedição para a conquista do Mo-
nomotapa e, se algum auxílio para isso recebeu da fazenda real, pouco
foi, porque a maior parte do dinheiro levantou-o por empréstimos em
Portugal, como se sabe pelas dívidas que deixou. Paulo Dias ficava,
entretanto, esperando que a Companhia de Jesus convencesse o escrivão
da puridade e verdadeiro rei ainda nessa época, Martim Gonçalves da
Câmara, a dar-lhe a donataria de Angola.
Só 0 conseguiu em 1571 (1), certamente depois de muita luta, por­
que contra a corrente das aventuras de além-mar, e ainda mesmo sem
encargos para o erário, e, como que prevendo a catástrofe que se apro­
ximava, se opunham os partidários da Rainha D. Catarina, levando
esta a queixar-se ao Cardial Alexandrino da acção desgraçada que os
áulicos exerciam sôbre o neto, conduzindo-o à loucura das conquistas,
sendo necessário afastar dêle Martim Gonçalves.
Obtida a doação, Paulo Dias não seguiu logo para Angola. Uma
das cláusulas estabelecia: «partirá deste Reynno para efeituar este ne-
«gocio antes de se acabar 0 contracto da ilha de S. Tomé que ora corre
« de maneira que quando lá chegar seja 0 dito contracto acabado », e,
talvez por isso mesmo êle tivesse de esperar a proximidade do termo
do contrato ou, e essa será a razão mais provável da demora da sua
partida, pela necessidade de arranjar dinheiro para a sua emprêsa, visto
a doação ter-lhe sido feita com a cláusula expressa de: «sem de mynha
«fazenda lhe aver de ser dado ajuda alguma de dinheiro nem doutras
« cousas » e ainda de se lhe não fazer empréstimo algum de armas, na­
vios, munições, nem mantimentos.
O financiamento deve ter-lhe sido difícil. Emquanto êle procurava1

(1) Arquivo Nacional da Tôrre do Tombo. Chancelaria de D . Sebastião, 1. 26, fls a q 5 a


299, documento já publicado e ainda recentemente no n.-> 2.» da revista Portugal emAngola e
pelo rev. Pombo no seu opúsculo sôbre Paulo Dias de Novais. Anexos, Doc. n.° 17 °
parte I I —Angola n3
uir os fundos necessários, devera ter chegado a Lisboa, talvez
c0ílSfins de i 572, as notícias da expedição de Francisco Barreto, que
P°f 0;s de ver a sua gente dizimada pelo clima e, na impossibilidade de
dePj uer desfôrço contra o Monomotapa, resolvera antes presenteá-lo e
Sentar-se em saquear as libatas dos supostos assassinos do Padre Sii-
c°n apoderando-se do ouro que encontrou, — quinze mil miticais—
vC. r insignificante, não só em comparação com as despesas feitas com
Vexpediçã°, como até com o custo do presente para o Monomotapa (i).
& pesfazia-se assim aquele sonho dos veios de ouro que cresciam
jentro das árvores, e os capitalistas que tinham financiado a emprêsa
<je Franc‘sco Barreto, contentavam-se em encontrar no espólio dêste a
pota dos seus créditos, que somavam a 120.000 cruzados, qualquer
c0usa parecida com 11.776 contos de hoje (2).
Verdade seja que a fértil imaginação dos nossos pioneiros da África
Oriental não se desconcertara com 0 desaparecimento 3 as árvores com
veios de ouro e, para 0 substituir, apresentavam valor idêntico ou muito
maior, pois agora era, nada mais, nada menos, que uma serra tôda de
prata, na Chicova. Paulo Dias deve ter aproveitado a idea e por seu
lado passou a enaltecer, também, 0 valor da sua serra, embora mais
reduzida, mas igualmente de prata, em Cambambe, procurando assim,
devemos crer que com a maior sinceridade, seduzir os financeiros e ca­
pitalistas, aos ouvidos dos quais não podiam já chegar os protestos de
cinqüenta anos atrás, de Baltazar de Castro, quando escrevia: «Eachei
«fama que elle di\ia que vira serras de praia na terra de Angola... as
«quaes eu em seis amos que na dita terra estive, não vi>.
Os donatários eram, em geral, fidalgos pobres que procuravam
tentar fortuna. Com a influência do seu nome obtinham a doação,
que depois financiavam, procurando os burgueses ricos, aqueles que
tinham conseguido aferrolhar algum dinheiro no meio do descalabro
dos negócios das especiarias, e preferiam empregá-lo nestas arriscadas
emprêsas, a dá-lo a juro ao rei, de quem já tinham a certeza de não
verem nem capital nem juro. Financiando as donatarias e as sesma­
rias, ainda recebiam alguns escravos, pelo menos no inicio das ex­
plorações, emquanto a ambição desordenada dos donatários, ou dos1

(1) Épocas de Portugal Económico, Lúcio de Azevedo, pág. 199. O mitical correspondia a
46^,41346. Lima Felner: Tabela ia correspondência dos pesos da índia aos antigos pesos portu­
gueses, etc.
• (2) Épocas de Portugal Económico, Lúcio de Azevedo, Apêndice, pág. 199. 1
124 Angola
colonos, não fazia derivar todo o esfôrço para as guerras contra os na­
turais.
Parece que não foi por este meio que Paulo Dias conseguiu o ca­
pital que precisava, mas pelo pai e amigos da família, entre estes Jorge
Silva (i), e, segundo dizem alguns cronistas, ainda pelo Cardial D. Hen­
rique.
A sua doação impunha-lhe, entre outras, a obrigação de levar para
Angola 400 homens que possam p elejar com suas arm as , nos quaes entra­
rão oito pedreiros, quatro cabouqueiros, sèis taipeiros, um fis ic o , um bar­
beiro e levará mantimentos para um ano para toda a dita g ente e só para
isso era importante a despesa a fazer, que, por um orçamento apresen­
tado alguns anos depois por Domingos de Abreu de Brito pode ser
assim calculada:

Vestimenta
400 corpos de algodão com gualteíros e rebuços, a 6 cruzados cada 2.40o
800 pares de alpergatas e 400 borrachas de 2 canadas, a 200 reis cada 200

Arm am ento:
400 espingardas de 5palmos com bolços, cargas, formas e munições,
a [$400 réis cada............................................................................. 1-400
400 espadas com tira-colos, a 2 cruzados cada u m a ........................... 800

Munições:
70 quintais de pólvora para espingardas e 40 quintais para bombardas 1.5oo
100 quintais de chumbo ............................. ......................................... 5oo

Diversas:
400 passagens de Lisboa a Angola, a 3#000 réis cada uma. . . . . . 3.ooo
400 pipas de aguada, a 960 réis c a d a .................................................... 9^°
Soldo de 400 homens, a 6^400 réis por a n o ........................................ 6.400
Mantimentos — 20 cruzados por homem e por a n o ........................... 8.000
6 cavalos, calculando:
Custo.......................................... 40 cruzados
S e l a ................... 10 »
Arma.......................................... 5 »
F rete.......................................... 3o »
Alimentação.......................... . i5 »
100 » . ................. 600
Soma — cruzados . . . 25.760

que representam i o .3 o 4 » o o o réis da época, e a que corresponde o valor


actual de Esc. 3.09 i .2ooük>o.1

(1) Como consta de um dos capítulos dos regimentos dados aos governadores de Angola.
Parie 11— Angola u5

Mas não era só esta a despesa a efectuar.


Paulo Dias era ainda obrigado a levar: i galeão, 2 caravelas, 5 ber­
gantins e 3 muletas, para descobrir os rios e portos pela costa até ao
Qabo da Boa Esperança. Parece que não cumpriu em absoluto esta
obrigação, pois os navios que conduziram a sua expedição regressaram
a Portugal logo que descarregaram, trazendo até, segundo alguns cro­
nistas, parte dos homens que tinham levado e, certamente, como lastro,
algum carregamento de escravos, senão já dêle Paulo Dias, dos colonos
que já lá estavam. Contudo, deve-a ter cumprido em parte, por lhe
ser necessária, pelo que dizia respeito aos bergantins, que não seriam
cinco, mas três ou dois, 0 indispensável para as viagens pela costa para
0 sul, pelo menos até Benguela Velha, que ficava dentro das trinta e
cinco léguas de terra na costa, que constituíam a base da sua doação,
e que se sabe ter mandado explorar (1).
Além desta despesa, tinha ainda Paulo Dias a da aquisição de mer­
cadorias para negócio com os indígenas e com os próprios portugueses
que lá estavam, e ainda a dos contratos com os seus auxiliares, que se
não contentavam com a soldada de 6^400 réis anuais. Assim, não
estará muito longe da verdade 0 cálculo de 4.000 contos actuais que
Paulo Dias teve de arranjar para pôr cm Luanda a sua expedição e
para montar a exploração da sua donataria, que, com todo o seu opti-
mismo, pensava começaria a ter rendimentos imediatos, dispensando
qualquer reserva de capital.
*
* *

Avaliados os encargos da donataria de Angola, apreciemos agora o


que ela representava, quer pelo seu aspecto político e económico, quer
pelas vantagens para Paulo Dias.
A organização medieval dos feudos ou doações, que na Península
Ibérica deu lugar à formação de diversos condados, foi adoptada, com
restrições quanto aos poderes e direitos dos donatários ou senhores no
povoamento dos reinos, e entre êles, Portugal, em que êsses condados
se transformaram pela conquista de territórios. Mais tarde, e com o
mesmo fim, o Infante D. Henrique aplicou 0 mesmo processo às terras

(1) Paulo Dias não precisava de navios para as comunicações com o Brasil e o reino,por­
que essas eram asseguradas pelos que possuía a Companhia de Jesus, que, certamente, consentiu
em que se incluísse essa cláusula na carta de doação, porque contava com a sua frota.
I 26 Angola
que íamos descobrindo, tendo com eçado pela M adeira, qUC constituiu
a nossa primeira donataria, seguindo-se depois as das ouiras ilhas do
A tlântico até S. T om é.
A o m esm o tempo que se faziam doações, criavam -se noutros pontos
feitorias, m ostrando assim saberm os dar a cada colónia a organização
apropriada ao seu desenvolvimento. Dentro destes princípios, modifi­
cad os e adaptados às circunstâncias, fomos constituindo as bases da
ciência da colonização.
N o reinado de D. João II, caracterizado pelo engrandecimento das
prerogativas reais, vemos, quanto às conquistas, manterem-se algumas
das doações e reverterem outras à posse da coroa, quando as condições
políticas o indicavam. No de D. Manuel, em plena*febre da índia, só
o comércio do oriente nos preocupa, mas aí, nunca pensámos em fazer
colónias de povoamento e somente feitorias. N o reinado de D. João III,
a necessidade cft nos defendermos dos piratas franceses, levou-nos a
cuidar do Brasil, que, apresentando-se em condições absolutamente
diferentes do oriente, não tendo aquelas características especiais para
o desenvolvimento do comércio e estabelecimento de feitorias, foi por
nós aproveitado para o povoamento, pelo processo de donatarias, base
da nossa grande obra de colonização.
Não foi a penúria dos cofres do Estado que nos levou à aplicação
do sistema das donatarias ao Brasil, como erradamente se tem escrito.
É certo que se dá a coincidência das doações com êsse estado de pe­
núria, mas desfalcada e empenhada sempre esteve a fazenda real desde
D. João I, e as dívidas sucediam-se e acumulavam-se de reinado para
reinado, sem que tal facto tivesse alguma vez tido qualquer influência
na nossa obra de colonizadores.
As donatarias constituíam, pois, um sistema colonial que, a seguir
a nós, as outras nações copiaram e que se conservou até hoje, embora
modificado, sob a forma de companhias magestáticas. Nas cartas de
doação estabeleciam-se os direitos e deveres dos donatários e em docu­
mento separado, no foral, fixavam-se os foros e outros tributos que os
brancos e indígenas tinham de pagar ao rei, à ordem de Cristo e ao
donatário.
As cartas de doação, quer para a África quer para o Brasil, eram
tôdas iguais, quanto aos poderes administrativos e judiciais que o rei
transferia para o donatário, e só diferiam na extensão doada. O rei
reservava para a coroa determinados negócios, como o do pau Brasil
no Brasil e o dos negros em África. De resto, todo o outro comércio
Parle I I — Angola 1 27

era livre e, sôbre os impostos e direitos fixados no foral, é que o dona­


tário ia buscar a sua parte.
A doação de Paulo Dias compreendia duas partes distintas: uma
era a sua capitania, espécie de patrimônio ou honra, de trinta e cinco
léguas da costa de Angola, começando no Cuanza e águas a êle ver­ *
tentes para 0 sul, e entrando pela terra dentro quanto pudesse entrar,
e na qual tinha, durante vinte anos, 0 direito de escolher vinte léguas *
de terra em quatro ou cinco talhões, de forma que entre cada um ficas­
sem pelo menos duas léguas e devendo, nos quinze anos seguintes a )
tê-los escolhido e demarcado, mostrar que cultivara as terras, sem o
que elas passariam para a coroa; e outra (terra que êle governava como
dux) era a região entre o Dande e 0 Cuanza, doação somente em sua
vida e com um têrço das rendas, na qual se obrigara a construir em
dez anos três castelos de pedra e cal, sendo um dêles no porto onde
julgasse que deveriam ir os navios, e os outros dois, £elos rios acima,
onde lhe parecesse mais conveniente.
Como se vê, a parte que constituía a sua capitania ou património
abrangia a Quissama, o Amboim e parte do Seles. Não sendo admis­
sível que Paulo Dias pedisse à tôa êste lote, somos obrigados a concluir
que percorreu a região e conheceu o seu valor, 0 que mais vem confir­
mar que os quatro anos passados em Angola não foram como cativo
na embala do soba. E hoje, que se conhece a província de Angola, é M
muito interessante a escolha de Paulo Dias, porque recaiu exactamente
na região, sem dúvida a mais rica pelo seu solo e pelo valor dos seus
produtos, mas que na época dêle não deveria ser por tal assim conside­
rada, mas sim pela densidade da população e o número de escravos
que poderia fornecer e por muitos anos forneceu, o que a Paulo Dias,
como se vê, não passou despercebido.
Sôbre o resgate de escravos a sua carta de doação estabelece que
poderia mandar para o reino quarenta e cinco peças por ano com a
condição de virem ao pôrto de Lisboa, com certidão dos oficiais da ca­
pitania, e com essa certidão seriam despachados como forros e sem
t
pagarem direitos alguns, nem os 5 #/0- Além dêstes escravos podia
ainda trazer como marinheiros e grumetes nos navios, os que quisesse.
Todos os mais escravos que mandasse, pagariam de direitos quatro
cruzados por peça (1).
k

(1) Lúcio de Azevedo, Épocas de Portugal Económico, pág. 77. «A unidade era a peça da
« índia, de 7 quartos (de vara), i,j 5 metros estatura regular do negro adulto. Tre\ peças façiam
128 A n g o la

O negócio da exportação de escravos estava previsto numa das


cláusulas da carta de doação, sem que se falasse em escravos, mas sò-
mente em resgate e tratos, e de forma que representava, pela maneira
hábil com o está redigida, um dos mais importantes rendimentos de
Paulo Dias. Assim, duma maneira geral, êle tinha o terço das rendas
e direitos que ao rei e à Ordem de Cristo pertencessem. M as, se na
capitania se abrisse e achasse algum resgate ou trato que o rei, por si
ou pelos seus oficiais, quisesse tratar e negociar, ou desse licença a
quajquer pessoa para êsse fim, ainda Paulo Dias tinha o terço dos lu­
cros. E, quando os resgates ou tratos fôssem de qualidade que tôdas
as pessoas da capitania os hajam e possam tratar, e estava nesse caso o
negócio do escravo, que tôda a gente poderia ter e tratar, então, o rei
não daria o terço do rendim ento, m as somente o direito ao que os ou­
tros houvessem de dar e pagar, o que corresponde ao rendim ento total,
não deixando d ê ser interessante o em prego da restritiva somente p a ra
en co b rir um a vastíssim a am pliação (i).
R esu m in d o, a doação a P au lo D ias com preendia, além da jurisd ição
cív el e crim e, nom eação de ouvidor, juízes, tabeliães, e t c . :
a) T rinta e cinco léguas do C u a n za p a ra o sul, p a ra si e p ara os
seus herdeiros, que constituíam verd ad eiram en te a sua cap ita n ia , e na
q u a l tinha o direito de d em a rca ção e escolh a, d u ran te vin te an os, de
v in te léguas, em quatro ou cin co lotes, com o b rig a çã o de os ter a p ro ­
v e ita d o s dentro de quinze anos da d e m a rc a ç ã o ;
h) A s terras entre o D a n d e e o C u a n za , sòm en te d u ran te a sua
vid a, e q u e reverteriam p a r a a coroa p elo seu fa lecim en to ;
cj O te rço d e to d o s o s d ireito s, trib u to s e ren d a s n essa s t e r r a s ;
d) O e x c lu s iv o d o p e sca d o na c o s ta d a c a p ita n ia e m eia d ízim a
s ô b r e o p e s c a d o fora d ela ;

« uma tonelada supondo-se ocuparem a bordo outro tanto espaço de carga ordinaria. P ara a
« conta, mediam-se os negros, somando as alturas, e dividindo o total pela craveira, 5,25 metros,
« tinham-se as toneladas. D este modo todas as idades entravam na avaliação da partida, sem
«p r e ju ijo do comprador nem do vendedor. N a pratica recorria-se ás médias. D uas creanças
8
n de 4 a anos contavam-se p o r uma p e ç a ; três pretinhos de 8 5
a i só p o r dois. D ava-se tam-
« bem desconto á idade. D o s 35 aos 40 anos dois negros valiam uma p eça . Com os de idade su-
«p e r io r deviam se r as transacções escassas ».
(1) Com o se vê da carta de doação não há uma palavra a respeito de descobertas de minas
e sua exploração, quando sabemos que da parte de Paulo Dias e dos jesuítas que o mandavam,
havia esperança, senão a certeza, de as ir encontrar. Foram eles que propositadam ente as en­
cobriram ou o secretário das mercês que não quis incluí-las na doação ? É mais provável a
primeira hipótese, porque as minas, sem referência especial, podem-se considerar incluídas nos
resgates e tratos.
Parte I I — Angola I2 Ç

e ) O exclusivo da pesca do búzio do Dande para o sul;


/ ) O exclusivo de tôdas as moendas de água, marinhas de sai e
quaisquer outros engenhos;
g) O direito de exportar 48 peças de escravos por ano, sem paga­
mento de quaisquer impostos;
h) O direito de arrendar c aforar a quaisquer pessoas parte das
terras que lhe foram doadas.
E tinha como principais encargos:
a) Levar 1 galeão, 2 caravelas, 5 bergantins e 3 muletas, para des­
cobrir os rios e portos até ao Cabo da Boa Esperança;
b) Pôr na capitania 400 homens válidos e entre êles 8 pedreiros,
4 cabouqueiros, 6 taipeiros, 1 físico, 1 barbeiro e os mantimentos para
todos estes;
c) Levar 6 cavalos e dentro de três anos ter Já vinte;
d) Dentro de seis anos ter 100 famílias estabelevdas (moradores
com mulheres e filhos), entrando nestas alguns lavradores com sementes
e plantas do reino e S. Tomé;
e) Construir, na região entre o Dande e Cuanza, três castelos de
pedra e cal em determinadas grandezas e devendo um dêles ser no
pôrto onde lhe parecesse que pudessem ir navios estrangeiros;
f ) Construir uma igreja sob a invocação de S. Sebastião e levar
três clérigos.
Como se vê, não se tratava duma expedição militar para a conquista
de Angola, mas sim duma expedição colonizadora, como tinham.sido
as do Brasil. Queríamos fazer em Angola o mesmo que estávamos fa­
zendo na América e Paulo Dias propunha-se fundar o reino de Sebaste
na conquista da Etiópia.
São pelo menos estas as intenções que claramente ressaltam da carta
de doação. Seriam, efectivamente, estas, também, as de Paulo Dias e
da Companhia de Jesus, ou todo o seu plano tinha por fim mascarar o
exclusivo que queriam obter do fornecimento de escravos de Angola
para o Brasil?
Estávamos, então, na época do desenvolvimento das plantações de
cana no Brasil e da construção dos engenhos para o fabrico de açúcar.
Em 1570 o número de engenhos era de 101, dos quais os da Capitania
de S. Vicente produziam 180.000 arrobas. Dez anos depois essa pro­
dução elevava-se ao dôbro (1).

(1) Épocas de Portugal Econômico, pág. i 53.


i.3o A n gola
o Brasil precisava de escravos e, de cada ver., mais, e não s6 o
Brasil mas tôda a America, para onde os navios dos corsários carrega
vam negros, que vinham comprar à costa da Mina e S. Tomé vendr
assim quanto deveria ser rendoso o negócio em Angola.

*
* #

Paulo Dias saiu do Tejo em 23 de Outubro de 1574 e chegou à


baía de Luanda em 20 de Fevereiro de 1575. Acompanhavam-no,
pelo menos, um padre da Companhia: 0 Padre Garcia Simões, mas
mais alguns foram, e talvez um dos padres Baltazar, 0 Afonso (i)-
Divergem os cronistas sôbre o número de navios e o número de
homens que compunham a expedição. O autor do Catalogo dos Go­
vernadores de Angola (2) diz que eram sete embarcações e nelas setecentos
homens de guerra levando por principaes cabos, Pedro da Fonseca (Pa­
rente delle Governador) Luis Serrão, André Ferreira Pereira, Garcta
Mendes Castellobranco, Manuel João e outros mais, todos gente luzida e
bem armada; Domingos de Abreu e Brito (3) diz trezentos e emeoenta1*3

(1) Ravenstein, ob. eit., pég. 144, diz que os jesuítas que acompanharam a expedição eram
dirigidos pelo Padre Baltazar e que foram também tres dominicanos,
{2) Academia Reai das Ciências de Lisboa, Collecção de Noticias para a Historia e Geo-
graphia das Nações Ultramarinas, Tomo I L1
O Catalogo está publicado sem indicação do autor. D. Miguel António de Melo, sendo Go­
vernador de Angola, em 1799, em o oficio n.° 107 de 19 de Setembro desse ano para o Ministé­
rio, oficio que está ou esteve na Secção Ultramarina da Biblioteca Nacional, Angola, Caixa 159,
índica que o Catalogo foi feito pelo Coronel do Regimento de Luanda, João Monteiro de Mo­
rais, e que dele viu uma cópia, que, além dos erros do copista, tinha outros do autor. £ Será o
Catalogo publicado pela Academia uma dessas cópias, ou o original?
Existe na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa um ms: Historia de Angola de­
dicada a S. Altera Sereni$sima) o Princepe Regente Nosso Senhor por Elias Alexandre da Silva
Corrêa, cavalleiro professo na Ordem de Christo & sargento môr d'Infantaria de Milícias na
Capital do Rio de Janeiro. 1782. In-S.® pequeno, em belo cursivo e óptimo papel, muito bem
encadernado e conservado, de onde, à primeira vista, parece que o Catalogo foi copiado com
alterações de redacção e de alguns períodos, eliminação de outros e mesmo de alguns capítulos
inteiros, pois que a Historia de Angola está feita com maior desenvolvimento e com informa­
ções muito interessantes.
Sucede, porém, que a Historia abrange até ao ano de 1782, ao passo que o Catalogo não
ultrapassa o ano de 1764. Inocêncio, quando trata da Collecção de Noticias, não indica o autor,
nem menciona João Monteiro de Morais como autor de qualquer obra. Sôbre Elias Correia,
que conhece apenas por Elias Alexandre e Silva, indica-o como sendo militar na Ilha de Santa
Catarina no Brasil, e natural, segundo diziam, do Rio de Janeiro, e como autor de uma obra
que não tem relação alguma com Angola, impressa em Lisboa em 1778.
3( ) Sumario e descripção do Reino de Angola e do descobrimento da ilha de Loanda, etc,
Anno de M D LX X K II, Biblioteca Nacional, Reservados, Mss. 294.
P arle I I — Angola i3 i

homens, pouco mais ou menos, dos quaes eram a maior parte delles cha-
tins, çapateiros e alfayates, uns delles apegaram em seus ojicios, outros
por suas industrias se tornaram nas mesmas embarcações, etc.; e o padre
jesuíta Garcia Simões, que melhor podia esclarecer o assunto, numa
carta para o Provincial (i), escreve: aos vinte do dito mês (Fevereiro)
tivemos vista da ponta desta Ilha de Loanda e de alguns navios que esta­
vam ancorados no Porto em chegando, as nossas cinco vellas ao Porto
foram as tres que comnosco vieram que tomaram São Thomé, redacção
muito pouco clara e que deixando em dúvida o número de embarcações
e não se refere ao de homens.
Garcia Mendes Castelo Branco, um dos primeiros conquistadores de
Angola, e companheiro de Paulo Dias (2), diz-nos que foram 700 ho­
mens, ficando-se na ignorância dos motivos que induziríam Paulo Dias
a levar tal número de homens, quando não era obrigado a mais de
quatrocentos, que deveríam chegar para a execução dos seus planos,
ainda mesmo que no número destes entrasse a prestação de auxílio ao
Ngola contra o tal seu vassalo poderoso Quiloange Qucacoango, que lhe
prometera, muitos anos antes, quando regressou a Lisboa da sua pri­
meira estada em Angola.
A viagem deve ter corrido sem incidentes e logo que fundearam os
navios, os portugueses residentes na ilha, cheios de justificada curiosi­
dade, foram a bordo cumprimentar os que vinham, saber notícias, e,
certamente, certificarem-se das intenções de Paulo Dias.
Como atrás ficou dito, a ilha de Luanda tinha já então alguns ha­
bitantes brancos, em número tal, que justificava a existência duma
igreja com o seu cura (3 ), e deveria ter um número regular de indíge­
nas, parte do Congo, que ali se empregavam na apanha do búzio, e
parte de Angola, atraídos pelo negócio com os portugueses.
Paulo Dias tinha o maior interêsse em expor, não só aos portugueses
que residiam em Luanda, mas a todos os que estavam em Angola, e em
especial aos que viviam junto da embala do soba, as condições em que
vinha, o que representava a sua doação, os seus direitos, autoridade e

(1) Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, 4 / série, n.®7, pág. 340. Continuação
dos documentos copiados em Paris e que difem respeito ao cartorio dos Padres da Companhia de
Jesus .
(2) Biblioteca da Ajuda, God, 5i-vw-a5, fl. 79. Publicado por Luciano Cordeiro. Memória
do Ultram ar . D a Mina ao Cabo N eg ro . III.
3
( ) Carta do Padre Garcia Simões para 0 Provincial, de 20 de Outubro de 1575. B o i , da S ^
G .L ., 4,1 série, n.° 7, pág. 344, eL u d an o Cordeiro, Memórias, Relação da Costa da Guiné. Esta
igreja era mantida pelo rei do Congo.
i 32 Angola
poderes de que vinha investido. Procurou logo reüni-los e mandou
para êsse fim chamá-los, mas tal era ainda, entre os nossos, a autori­
dade do rei do Congo, e por tal forma se compreendia a vinda de Paulo
Dias como um ataque a essa autoridade, que tendo os do interior ma­
nifestado receio de repre2álias por parte do rei do Congo, Paulo Dias
lhes enviou carta d e seg u ro e assi os a ju n tou p a ra se in form ar da terra e
d a disposição em qu e estava (i).
Apresentaram -se com tôda a ostentação, com os seus escravos, com
suas arm as, arcos e frechas, espadas e adargas, acom panhados por al­
guns pretos fidalgos. Interessante deveria ser o espectáculo oferecido
por esta reünião de sertanejos, na m aioria hom isiados, procurando no
negócio em Angola os meios de fortuna que dessem o esquecim ento
dos seus crimes e, mais interessante a sua atitude perante Paulo D ias
que lhes vinha impor a lei e a autoridade, quando êles viviam fora de
uma e de outra,«sem lhe sentirem a falta. Iam pagar determinados im ­
postos, iam ter juízes para o cível e para o crime, com alçada d e m orte
natural em escravos e gentios e a si mesmo em piã is cristãos hom es livres e
nas pessoas d e m or collidade d e de\ anos de d eg red o ate cem cruzados d e
m ulta, e êles, que tinham saído de Portugal para fugirem à alçada da
justiça, encontravam-se agora debaixo da sua acção, pelo facto da terra
em que viviam ter passado a constituir doação a Paulo D ias quando,
muito antes dêle estavam lá, e nenhuma lei, nenhuma autoridade lhes
reconhecia os seus serviços.
Muitos já tinham esquecido a vida de brancos e adoptado a dos
negros. Poucos vestiriam como os pretos fidalgos do Congo, cap a, pe­
lote, gibão de chamalote, calças de bristol (2) e borzeguins de côres
berrantes. Alimentavam-se de feijão, pirão, cola e azeite de palm a e
bebiam vinho de palmeira e berlunga de milho. Os do interior tinham
por vezes galinhas do mato, capados e algumas lebres e caça grossa,
que abatiam. Para os da ilha de Luanda êsse alim ento era m ais raro,
mas em com pensação tinham peixe e, entre estes, o o n g u lo ( 3 ), cuja
carne, posta de vinha de alhos, nenhuma diferença fazia do porco e
tinha toucinho grosso como um porco bem cevado.
tíQue lhes vinha trazer Paulo Dias de benefício? N ada, era apenas
uma sujeição, de que já se tinha dasacostum ado e daí, um natural e 1

(1) Carta citada.


(2) Cham alote, seda tecida em ondulações. Bristol, pano de lã grosso.
3
( ) Em língua bunda N’gulo *= porco.
Parte I I — Angola 133
justificado fundo de revolta, que talvez não tivessem exteriorizado, mas
que nem por isso deixava de existir.
Entretanto recebia o soba de Angola a notícia da chegada de Pau lo
Dias e logo mandou um embaixador para o cumprimentar, e que se
demorou pelo caminho, chegando á ilha no dia 29 de Junho, com uma
enorme comitiva, tendo mais de cem escravos e muito gado que arranjou
durante a viagem.
Os nossos preparavam a recepção para tão importante personagem.
Na choupana dos padres, junto à igreja, fêz-se uma ramada. No chão,
juncado de mangericões bravos, foi posta uma grande alcatifa e armado
um guadamedm (1), tendo por baixo uma cadeira de estado, forrada
de veludo carmezim.
Paulo Dias com uma grande comitiva, todos bem vestidos, desem­
barcou dos navios em seis embarcações e dirigiu-se para a ilha, indo
fazer oração à igreja, depois do que se encaminhou ^>ara a ramada,
tomando assento na cadeira, ladeado por dois padres, um 0 cura que lá
estava e outro, um dos que o acompanhavam, naturalmente o Padre
Baltazar Afonso, e mandou alguns dos principais da sua comitiva que
fôsseni buscar o embaixador.
Com enorme tropel e barulho infernal, iniciou o avanço a comitiva
do embaixador. Êste era muyto reverendo e apessoado. Trazia posto
um barretinho de palha que mal lhe cobria um têrço da cabeça; vestia
uma capa de palmilha verde e da cinta para baixo uma emponda (2)
com seu pano de ruão (3); na mão, a insígnia de autoridade, o rabo de
búfalo ou de elefante. A grande maioria dos da comitiva tocavam ins­
trumentos gentílicos, buzinas, chocalhos, espécies de violas e campainhas
grandes, e os que não tocavam qualquer instrumento, gritavam e gesti­
culavam. Logo que o embaixador avistou Paulo Dias, começou pulando
e batendo as palmas e, ao aproximar-se, os seus estenderam no chão
um pano do Congo que servia de alcatifa, onde se assentou,, atirando
fora dos ombros a capa de palmilha verde, que o incomodava. Entre­
gou, então, a carta que o rei de Angola enviava a Paulo Dias, espécie
de credencial, e Paulo Dias, mostrando a sua satisfação, expôs-lhe que

(1) Sorte de tapeçaria de coiros pintados. Dic. D. José de Lacerda.


(2) Emponda == M’ponda, bandeau, ceinture, ruban = L e plus ancien dictionnaire bantu —
Vocabularium P. Georgii Gelensis — Bibliothèque Congo — Louvain iq 28.
R egras do idioma do Congo por F r. Vetralla, traduzidas do latim pelo Bispo D . Antonio
Leitão e Castro — Vocabulário N ’Bunda, pág. 102 — Cinto = N’Ponda.
3
( ) Pano de linho tosado, às vezes tinto, para forros. Dic. D. José de Lacerda.
T34 Angola
o rei de Portugal o mandava a Angola para prestar ao soba o auxílio
que precisasse e para defender os portugueses dos ataques de quaisquer
tríbus selvagens (os soasos) e resolver as questões entre êles.
As declarações de Paulo Dias foram recebidas com largos aplausos,
manifestados por gritaria, bater palmas e buzinar nos instrumentos,
depois do que, tendo Paulo Dias mandado distribuir por êles um prato
de cola (i), se encaminhou com o enabaixador para a casa onde habi­
tavam os padres, a-fim-de aí conferenciarem mais em particular, sendo
acom panhado pelos Padres Baltazar Afonso e Garcia Simões e por um
português que falava e compreendia a língua como qualquer preto, e
fazendo-lhe várias perguntas a que elle respondia em fo r m a mas o que
não queria ou lhe não parecia bem passava como que o não entendesse (2).
Term inada a conferência, ainda a embaixada se conservou três dias
na ilha, depois do que se despediram, dando Paulo Dias ao embaixador
um presente. •
*
* #

Regularizada a situação com brancos e pretos, deve entretanto


Paulo Dias ter tratado da sua instalação e da gente que o acompa­
nhava, que, parece, se deve ter pensado fazer logo no môrro fronteiro
á ilha, onde hoje é a cidade, pois que o Padre Garcia Simões, quando
nos narra a chegada da em baixada do rei de Angola, escreveu « sa­
bendo o G overnador, q u e estava ainda na ilha» , o que quer dizer que já
pensava em estabeleber a sua residência no môrro fronteiro.
A terra não era do soba de A ngola, diz-nos o Padre Gouveia (3 ),
mas de um outro pequeno soba, o M anicabunga, a quem de direito p er­
tencem todas estas terras qu e confinão cõ A n g o la , que habitava numa
libata próximo, cêrca de seis léguas, e que foi o primeiro a mandar a
sua gente cum prim entar Paulo Dias. Era gentio valente e temido e,
tendo pouco antes da chegada de Paulo Dias morto e comido quatro
brancos, numa questão que tiveram , receavam que Paulo Dias os man­
dasse castigar (4).

(1) Diz o Padre Garcia Simões na carta citada que a cola era o alimento predilecto, não
só dos indígenas, mas também dos brancos.
(a) Padre Garcia Simões, carta citada.
3
( ) Carta citada.
(4) Esta informação do Padre Gouveia vem confirm ar o que já atrás^ficou exposto, que os
ambundos e depois os Ngolas, não ocupavam o território até ào mar. Este Manicabunga de-
Parte I I — Angola i35
Dizem os cronistas que o rei do Congo, quando soube da chegada
de Paulo Dias, mandou gente sua avisar o rei de Angola: que olhasse e
soubesse que a vinda do Governador e mais portugueses a esta terra era
para lhe fa çer guerra e flnalmente para lhe tomarem seu Reyno, tendo o
soba de Angola resolvido mandar cortar a cabeça a todos os portugueses
e ao Padre Gouveia, que ainda lá residia, mas por fim convenceu-se de
que essa informação não podia ser verdadeira, nada fazendo contra os
nossos, antes pelo contrário, até, tendo adoecido o Padre Gouveia, en­
carregou os seus curandeiros e feiticeiros de o curarem, o que não con­
seguiram, falecendo o Padre, e, tão grande foi o seu desgosto, tão sin­
cero seria o seu arrependimento pelo que pensara fazer, que o manifes­
tou, distribuindo, conforme o costume de ainda hoje, bois e mantimentos
pelos seus vassalos para chorarem o Padre, e prendeu os embaixadores
do rei do Congo, enviando-os presos a Paulo Dias, que os mandou
para S. Tomé. *
No Congo estava ainda Francisco Gouveia, que tinha lá ido com
tropas de Portugal para defender o rei do Congo da invasão dos Jagas
e reeonquistar-lhe o seu território, tarefa que estava terminada. Assim,
e pouco verosímil que a intriga partisse do rei do Congo, mas antes,
talvez, de algum dos seus duques, o que governava a província de
Bamba, muito habitada por mulatos e padres negros, e que viviam em
questão permanente com o rei de Angola por causa das fronteiras, se
não partiu dos próprios portugueses a quem não podia agradar a
doação feita a Paulo Dias e, como já ficou referido, de há muitos anos
se vinha opondo à acção dos que procuravam tirar a Angola tôda a
interferência do Congo.
O certo é que a intriga não surtiu o efeito desejado e Paulo Dias e
os portugueses continuaram va viver na melhor harmonia com o rei de
Angola, ocupando-se nos seus negócios e, em especial os padres, tra­
tando da evangelização, muito embora fôsse opinião geral que a con­
versão destes barbar os não se alcançará por amor senão depois que por
armas forem sogeitos e vassalos d’el-Rey nosso senhor (i) o que bem

veria ser umja g a , talvez o Calunga e não Cabunga, que mais tarde regressou a Cassange, onde
passou a fazer parte das famílias reinantes, Culaxingo e Gonga.
Abreu de Brito diz-nos que a uma jornada de Luanda habitava o fidalgo Cassange e, anos
mais tarde, no governo de JoSo Correia de Sousa, ainda um Cassange vivia nas proximidades
de Luanda, e foi atacado por êsie governador, travando-se a célebre guerra da Ensaca de Cas­
sange. Ainda a confirmar a suposição de que fôsse jaga, está o facto de ter comido os brancos,
que não era costume entre indígenas do Congo.
(i) Carta do Padre Garcia Simões, citada.
Parte I I — Angola í 37
i36 Angola
todos os lados, pelos colonos e pelos padres, para entrar no caminho
mostra a disposição dos espíritos e a orientação que viriam a imprimir da conquista pela fôrça, para o que êle, como se calcula, não estava cm
à acção de Paulo Dias, aqueles que com êle mais privavam. condições, necessitando de algum refôrço do reino.
Esta opinião não era seguida por Paulo Dias, que não via motivo Entretanto, e devido à persistente campanha da necessidade da
para iniciar as guerras. O seu plano era assegurar-se das boas relações guerra, estas boas relações alteravam-se, e pela Páscoa de 577, em uma
com o Congo e com o Angola, a cujo rei parece que prestou auxílio povoação para 0 interior, onde residiam cêrca de cem portugueses com
contra um seu vassalo rebelde, o soba de Quiioango (i) pelo que nada pretos cristãos do Congo, os indígenas, em grande número, cercaram-
fazia prever um rompimento de hostilidades, nem se tendo, para tal, -nos, o que deu lugar a que os nossos tivessem de se defender, vencendo
preparado, pois que parte dos portugueses que trouxera andavam ne­ os sitiantes, que, sofridas algumas mortes, levantaram o cêrco, pedindo
gociando peto interior. pazes. As caravanas dos portugueses eram assaltadas pelos caminhos,
O negócio continuou por espaço de alguns anos, com pa{ e amizade, roubando-se-lhes as fazendas, e o rei do Congo, querendo mostrar a
em que iamos com grande prosperidade, e o gentio estava muito contente sua dedicação e instigado pelo seu secretário que era português, Garcia
do bom trato e correspondência que com eles tínhamos, e das mercadorias de Gusmão, manda 0 seu sobrinho Manibamba, com muita gente de
que lhes levavamos para o resgate das peças, marfim e fru to s da terra, e, guerra, atacar a libata dos assaltantes. Paulo Dias ao sabê-lo, receando
assim, com muita confiança ia nossa gente pela terra dentro a fa \er res­ represálias e atendendo a que muitos portugueses esta?am pelo interior
gates efeiras (2)1.
com fazendas e escravos e não tinham tempo para se recolherem a
Eram constantes as chegadas a Luanda de caravanas com escravos
Luanda, manda pedir ao rei do Congo que faça retroceder o M ani­
para embarcarem, calculando-se que por ano saíam cerca de 12.000 (3 ),
bamba, o que assim sucedeu e atem-se que se 0 não impedisse, estivera
muito embora êste número pareça exagerado e não condiga com o apu­
°Je de posse de quasi toda A ngola e suas minas » (1).
ramento que fêz Domingos de Abreu e Brito (4).
Estava lançado fogo ao rastilho. Paulo Dias tinha de ceder, e, pe- j
Por vezes o negócio do escravo, pelo interior, se dificultava, e os rante a insistência dos pedidos de mais escravos para a América e, pe- í
portugueses insurgiam-se e pediam a Paulo Dias para matarem os ale- rante a dificuldade que se fazia sentir para os obter, não pôde deixar
vantados, o que muitos faziam, mesmo sem licença, e os padres eram
de concordar que a conversão daqueles barbaros não se alcançaria p o r
os primeiros a acompanharem êste protesto contra a orientação de Paulo
amor e sô sujeitos pelas armas, como dizia 0 padre jesuíta Garcia Si­
Dias, apreciando-o: « Verdade he se 0 nosso governador tendo já possibi-
mões. Nesta ordem de ideas e em nome dos mais humanitários prin­
<s.lidade, vendo como estas terras lhe cabem por sua doação, elle poderá
cípios e fins, o caminho era só um — a guerra. \ Como êle se veria longe
«fa\er 0 que difiamos; mas elle está ainda muyto tenro e muy devagar,
e com saüdade do tempo em que julgava que obteria a sonhada riqueza;
«esperando que Sua Altera 0 bafeje e favoreça ... (5).
das minas com a bacia e os foles de ferreiro! *
Uns anos antes, um dos seus colegas e 0 mais fervoroso apóstolo do
cristianismo na América, preconizava, para catequizar o gentio « espada Mas não podia ser uma guerra geral de conquista pela fôrça, como
e vara de ferro, que é a melhor prégação » (6) e outros receitavam « tres os seus instigadores queriam, pois não tinha os homens necessários
P P : pau, pão e pano » (7) e, assim, Paulo Dias se via assediado por para êsse fim e, se os tivesse, se só essa conquista satisfazia a ambição
dos que o acompanhavam, não a julgava êle necessária para a realiza­
ção do seu sonho da posse das minas. Necessitava dar execução ao
(1) Catalogo dos Governadores de Angola. Esta informação foi colhida pelo autor do Ca­
talogo numa carta de Garcia Mendes Castelo Branco, a que já se fêz referência. plano, que de há muito tinha concertado para a construção dos castelos,
(2) Garcia Mendes Castelo Branco, cit.
que serviriam de apoio à sua penetração. Iria por partes. Manter-se-ia
3( ) Carta do Padre Garcia Simões de 7 de Novembro de 576. Boi. da S. G. L., n.° 7,4.*
rie, pág. 347. nas melhores relações com o rei de Angola e, entretanto, fora do reino
(4) Mss, cit.
ou sob ado propriamente dêste, no território que constituía a p rovin d a
5( ) Padre Garcia Simões, carta cit.
6( ) Lúcio de Azevedo, ob. cit., pág. 254.
{7) Idem, pág. 267.
(i) Nota à carta referida do Padre Simões, pág. 348.
18
1 38 Angola
da lia m b a , êle iria dar com eço à construção dos fortes, procedendo
co m tô d a a diplom acia.
E ra-lhe determ inado que um dos castelos seria no pôrto onde lhe
p a recesse que pudessem ir navios estrangeiros e, com o êsse pôrto não
p od ia d eixar de ser Luanda, onde tinha o seu arraial ou fundamentos
de futura cidad e, ali mandou construir hum fo r t e d e taipa e assestada
s u a a rtilh e ria e he hum m onte qu e entra com húa g ra n d e p e llo m ar na
q u a l p o n ta estam os situados p or ser bom sitio (i), obra muito passageira
e de nulo va lo r m ilitar, mas que servia para poder dizer que tinha cum­
p rid o a cláusula da sua doação.
Seguidam ente, como o gentio dos arredores nos incom odava, m an­
d o u d a r o g u o v ern a d o r uma g u erra a qua$an$e hüa jo r n a d a da villa de
1 M a n d a . . . e ch eg a n d o a g u erra que o guovernador m andara a Quasan^e
v en cerã o aos in im ig o s tom ando os g nardos (gados) mantimentos, e p o r
q u e não leva vã o % rdem d e se g u ir a victoria se retirarão p arecendo-lhe q.
tin hã o g a n h a d o a terra & na prim eira noite derão os inim igos com socorros
so b r e e lle s os m a ta rã o & a m enor p a rte delles cativarão & etc. (2).
D e ve ter sido por êste m otivo e para se não sujeitar a outro desas­
tre, que P a u lo D ias não aceitou o oferecimento do rei do Congo a que
atrás se faz m enção e assim se explica a referência que se encontra em
um a nota, extraída duma carta do Padre Baltazar do ano de 577, onde
se diz que o m otivo foi « ou p o r não confiar delles ou p o r esperar de co­
b r a r a lg u m p ed a ço d e credito p erdido na g u erra passada com estes M u ci-
canga-çes, etc.» ( 3 ).
E sta g u e r r a p a ssa d a , não deve ser outra senão a sortida que mandou
fa ze r a Q ua sa n \e (4), a um dia de viagem de Luanda, e deve ter tido
lu gar em 576. Depois disso, reconhecendo Paulo Dias a insuficiência
dos m eios de que dispunha, vendo o gentio dia a dia a revoltar-se e a
d ificultar a vida dos portugueses pelo interior, terá exposto a situação
a seu P a i, pedindo-lhe para arranjar um novo e importante reforço.
D esta v e z parece que foi o Cardial D. Henrique o financiador, tendo
em prestado vinte mil cruzados para o recrutamento dos soldados e
com pra de m unições e fazendas (5 ), importância que corresponde entre
2 .0 0 0 e 2.400 contos de hoje, que se não obteriam muito fàcilmente

(1) C arta do P ad re G arcia Simões, já cit.


(a) Mss. de Domingos de Abreu de Brito, já cit.
( 3) B o i. d a S . G . L ., n.° 7, 4.* série, pág. 348.
(4) O jaga Cassange, já referido.
( 5) C a ta lo g o dos G overnadores d e A n gola , cit.
Parte I I —Angola i,3<>
para uma empresa falida e que não tivesse tôdas as probabilidades de
garantir o capital que nela se empregasse.
Estava a emprêsa de Paulo Dias em Angola nessas circunstâncias?
É interessante fazer-se o cálculo. Diz-nos Abreu de Brito (i) que constava
do livro da feitoria de Angola, que lhe foi entregue e donde tirou tras­
lado, que desde a chegada de Paulo Dias em 1575 a 4 de Março de
1591, portanto 16 anos, se despacharam de Angola 5 2 .o 53 peças, mas
destas, 20. i 3 i tinham sido despachadas nos últimos 4 anos, 1587 a
i 5 q 1, pelos contratadores. Ficam, portanto, para os 12 anos, 1375 a
1 .5 8 6 , 31.922 peças, ou uma média de 2.660 por ano (2), que dá até
1578, 4 anos, 10.640 peças manifestadas por despacho, devendo ter
pago de direitos 3 <s>ooo réis cada uma, ou tôdas 3 1.920^000 réis da
época. Dando ao real dêsse tempo um valor médio entre o que tinha
em i 5 6 o e i 58 o, $26,8 de hoje (3), teremos que só de direitos, os ex­
portadores pagaram em moeda de hoje Esc. 8.554.5|o$ e admitindo
que a Paulo Dias só cabia 0 têrço dêsses direitos e não o todo, como
se pode deduzir da sua carta de doação, vê-se que êle arrecadou o
melhor de Esc. 2 .8 5 1.5203600 , fora o valor dos escravos, que de sua
conta tivesse exportado (4). Tendo dispendido cerca de 4.000 contos,
ve-se que a em prêsa não era muito má e dava uma regular compensação
ao capital que nela se empregasse.
O refôrço de tropas arranjou-se, e em 1579, ou talvez mais certo,
em 1 5 8 o, chegando a Luanda às ordens de António Lopes Peixoto,
sobrinho de Paulo Dias, com munições e fazendas, tendo ficado em
Lisboa a aprontar mais gente (5). Com êste refôrço foram também mais
padres da Companhia: Frutuoso Ribeiro e o outro dos Baltazares.

(1) Mss. cit.


(2) O Padre Garcia Simões diz, na carta de 7 de Novembro de 1576, que saia uma média
anual de 12.000 peças, mas vê-se haver exagêro. Não devemos esquecer que cada peça regulava
por dois negros.
3
( ) Lúcio de Azevedo, ob. cit., pág. 488.
(4) O rendimento deve ter sido muito maior, porque, segundo nos diz Abreu de Brito e
confirmam muitos outros cronistas, os navios carregavam mais um têrço das peças que mani­
festavam e a quási totalidade dessas iam para as Índias de Castella pagando o dôbro de di­
reitos.
5
( ) Divergem os cronistas sôbreêste ponto. O Catalogo dos Governadores diz-nos que em
579 foram de Portugal 200 homens, com as despesas feitas à custa do pai de Paulo Dias, e pela
mesma maneira tinha êle mandado no antecedente 400 soldados. Abreu de Brito só nos fala
5
de um refôrço de i o homens mandados pelo Senhor Rey D. Anrique e que chegou em i o. 58
Aquele primeiro refôrço de 400 soldados é muito duvidoso que tivesse ido, porque quando
58
chegou o de o, estava Paulo Dias no interior apenas com 60 portugueses e o resto gentio.
140 A ngola

• *

Mas Paulo Dias é que não podia já parar no caminho que encetara
e, emquanto não chegava o refôrço pedido, foi tratando da fundação
« dos tais castelos que êle pensou em aproveitar, não para em redor se
construírem povoações, mas como postos de étape para a marcha sôbre
Cambambe — as minas de prata, que nunca tinham deixado de ser o
seu principal objectivo. Queria, como ficou dito, fazer tudo na melhor
paz e harmonia com o rei de Angola, com quem até aí não tinha tido,
parece, a menor desavença.
« Aos ires annos da estada do Guovernador na villa de Loanda, cor-
« rendo todo este tpõ com o Rey Danguolla como levava por seu Regi-
« mento; determinou de entrar pella terra dentro com este titulo de ami-
«\ade, etc.» (i) e assim, saindo de Luanda, dirigiu-se às margens do
Cuanza a um sítio a que chamavam Tombo, e depois para Calumbo (2).
Mas o rei de Angola é que não compreendeu as suas pacíficas intenções
e quando Paulo Dias estava em Calumbo, avizou-o de que não tomava
estas suas entradas pela terra dentro à conta de amizade e que o ia
atacar, pelo que Paulo Dias se internou, indo construir um forte em
Anzelle ( 3) para melhor poder resistir.

(1) A b reu de B rito , Mss. referido.


(2) A b reu de B rito , dizendo que P au lo Dias estava na vila de L u an da, indica a m archa «en-
irando pella Barra obra de doje leguoas fe% hüa povoação a que chamam são P° <& depois de
estar nella pasou adiante dej leguoas & fe f outra a qmchamam saneia Cru$t e/c.«. Ravestein>
no Map o f Ndongo que publica com a sua obra, não indica a po voação de S. P ed ro (Pedro ou
P a u lo ? ) m as a de T om b o (S. C ruz) e a de Kalum be. Èste sítio do T o m b o é m uito antigo, po r­
35
quan to na T ô r r e do T o m b o , L iv. de Filipe II, fl. 179, encontra-se urrça P rovisão, de 3 de
A b ril de 1617, que diz respeito de João de VHoria, em que se faz referencia a ter-lhe sido c o n ­
ced id o em 1597: «hum assento de terra fora da villa de S, Paulo que começa do p é da lagoa dos
elefantes da borda do caminho que vae para o lombo e por elle adeante para a mao direita de
todo aquele morro e aguas vertentes para a banda da praia por ella adeante até ao Cabo de um
esteiro que vae por entre as margens, ficando por testada o dito caminho e delle para o mar fica
o dito assento, etc.»
G arcia C astelo B ranco não narra assim os factos e d iz n o s que em vista da paz em que v i­
víam os com o Ngola, P aulo Dias m andou à em bala, para negociarem , vinte portugueses a co m ­
panhados pelo seu parente Pedro da Fonseca, tendo 0 N gola mandado m atar a tod o s e roubado
a fazenda que levavam , e a seguir avisar P au lo D ias que nao avançasse de onde estivesse, que
era no penedo que agora se chama de S. Pedro, junto ao Cuança.
3
( ) S egu nd o os cronistas, Anzele ficava a igual distância entre o B engo e o C u an za. P elo
docum ento de G arcia C astelo B ranco, vê-se que ficava a dez ou doze léguas de L uan da e a três
ou quatro do B engo e outras tantas do Cuanza, no sobado do G acu lo Q u eh acan go, o que é
confirm ado pelo Rev. Ravenstein, K akulu kia Nkangu.
Parte I I — Angola r4 r
Soube então que o rei de Angola matara à traição todos os portu­
gueses que estavam ou tinham ido ao Dongo, apoderando-se de tôda a
fazenda que possuíam, ou tinham levado, a carga de dez navios que
estavam no pôrto, o que prova o importante movimento comercial que
em tão pouco tempo tinha adquirido Angola.
Diz um dos cronistas (i) que o acto do rei de Angola fôra provo­
cado pela denúncia, que tivera de um dos portugueses, de que o intento
de Paulo Dias era tomar-lhe as minas e assenhorear-se do reino. Não
seria necessária a denúncia do português para que o rei de Angola
compreendesse muito bem qual era o intento de Paulo Dias naquela
marcha que claramente denotava o objectivo de Cambambe, e, apre­
ciados todos os antecedentes desta ocupação de Angola, também não
repugna aceitar que algum português, já suficientemente cafrealizado,
vendo os prejuízos que ao seu negócio trazia a atitude de Paulo Dias,
assim procedesse. Nas suas cartas, um dos padres jesuítas, sempre cir­
cunspecto, cauteloso e enigmático, não esconde que «o principio disto
naceo da cobiça may de todos os males » (2) e, assim, e possível que fôsse
um dos portugueses, que, por despeito, incitasse 0 preto de Angola a
tomar aquele desforço. De admirar é que Paulo Dias não contasse com
esse procedimento por parte do preto, quando já anteriormente tinha
evitado a intervenção do rei do Congo a nosso favor, exactamente com
receio do que pudesse suceder aos portugueses, que com as suas fazen­
das estavam pelo mato.
Dirigindo-se para Anzelle, Paulo Dias ali se fortificou com sessenta
portugueses e duzentos pretos cristãos e resistiu ao ataque de doze mil
indígenas, até que lhe chegaram os reforços vindos em Fevereiro de
5 8 o, ficando então com trezentos portugueses.
Em Setembro de 5 8 o, completamente cercado de indígenas revol­
tados, resolveu iniciar a sua marcha, mas primeiro aprovisionando de
mantimentos a sua tropa, para 0 que mandou efectuar pelo sargento-
-mor Manuel João quatro ou cinco assaltos, queimando e assolando
tôda a terra da llama, onde estava « trazendo infinidade de mantimentos
que a todos fartou ». Nesses assaltos as atrocidades cometidas pelos
nossos assombraram e intimidaram o gentio e, para as avaliar, basta
referir o que narra um dos padres jesuítas: «Aqui aconteceu que hindo
« um P a e com hum filho fu g indo dos nossos, vendo que não podia salvar

(1) Catalogo dos Governadores de Angola.


(a) Carta do Radre Frutuoso Ribeiro, BoL da S . G. L., n.° 7,4,* série, pág. 35o.
142 Angola
« seu filh o se tirou para os nossos e despedio quantas fr e c h a s tinha té que
« o matarão sem se querer bulir de hum logar para o filh o se esconder e o
« P a y acabou e s e f o y ao inferno . Outro estava dentro em hua casa com
« d u a s m olheres e se defendeo de dentro tão fo rtem en te sem se qu erer dar
« até lhe porem 0 f o g o a casa e alU arderam todos Ires » (1) não nos elu­
cidando o bom Padre sôbre se êste também teria ido para o inferno,
* com o o outro que com o seu corpo cobria o do filho.
Se eram assim os padres, os pregadores do Evangelho, <;o que po­
deriam ser os homiziados que constituíam a maioria da população, os
soldados que se iam buscar às cadeias, escolhendo-os entre os fací­
noras?
Nos últimos dias de Setembro de 5 8 o pôs Paulo Dias a sua coluna,
— como hoje se diria, em marcha, posta a g en te toda em ordem com 0
f a t t o todo no meo e gente meuda, que p or todos serião 1&200 almas », se­
guindo na direcção do Cuanza, atravessando por entre o gentio revol­
tado, que não nos atacou e se limitou a tapar com estrepes e espinhos
um desfiladeiro, por onde os nossos deveriam passar.
Chegados ao Cuanza, embarcada tôda a carga, mantimentos e mu­
nições em duas galeotas e um caravellão e dous bateis e aceite a apre­
sentação e compromisso de fidelidade dum soba que trouxe muito
mantimento, capados e bois, seguia Paulo Dias pela margem do Cuanza,
quando foi avisado de que ia ser atacado por um soba importante, pelo
que acampou. O gentio estava emboscado perto, e vendo alguns dos
nossos que tinham saído fora do acampamento, atacou-os, matando
dois, pelo que logo Paulo Dias mandou sair a sua tropa, pondo-os em
debandada.
Continuada a marcha no dia seguinte, atravessou a coluna as libatas
deste mesmo soba, que as tinha deixado cheias de mantimentos, gali­
nhas, capados, carneiros e ovelhas, esperando que os nossos se des­
mantelassem e perdessem a formação de marcha, para saquearem a
povoação, mas Paulo Dias percebeu-lhes o intento e deu ordens termi­
nantes para se manter a formatura.
Acamparam então fora das libatas, e durante a noite o gentio apu­
pou constantemente os nossos. Logo ao amanhecer, em 1 de N ovem ­
bro de i 5 8 o, Paulo Dias mandou dividir a sua tropa em capitanias de
1 5 o soldados, cujo comando superior confiou ao sargento-mor M anuel

(0 Carta do Padre Baltazar Afonso, de 4 de Julho de 58i. Boi. da S . G . L ., n.® 7, 4.® série,
Parte I I — Angola 143

João, e atacarem o gentio, que sofreu a m ayor destruição qu e nunca


portugueses fi\erão, morrendo muitos, perdendo grande número de es­
cravos e escravas e tanto mantimento e gados e outros artigos, que
enchiam duas naus da índia (1) além de muito mantimento que foi des­
truído peJo fogo.
Nesse mesmo dia continuaram a marcha e foram acampar a M o-
cumba, nas margens do Cuanza (2), a três dias das minas de prata de
Cambambe, onde nos preparámos para reduzir á obediência todos os
sobas que estavam peio rei de Angola, emquanto êste nos não vinha
atacar com uma nova guerra. Luís Serrão e Manuel João, dois dos
mais destemidos e valentes companheiros de Paulo Dias, se encarrega­
ram de bater com inexcedível bravura e não menor crueldade, tôda a
província da liamba e da Quissama, saindo sempre vitoriosos.
Contudo o clima não nos poupava e, dos nossos, os que escapavam
dos combates, iam morrendo de febres, sendo necessfrio que o Padre
Baltasar Afonso se encarregasse da construção e direcção de um hos­
pital para tratamento dos doentes.
Não se podia ir mais longe, porque a gente era já pouca em estado
de combater, estan do a maior parte anemiada e estropiada. H avia
quási um ano que estavam'acampados em Mocumba e, a-pesar-das
vitórias obtidas, não se conseguia a almejada conquista das minas de
Cambambe, cujas montanhas, que os nossos supunham cheias de veios
da mais bela prata, todos os dias viam de longe, sonhando com a sua
posse.
Paulo Dias tenta, então, um último e grande esfôrço e, mandando
pedir ao rei do Congo o auxílio de tôda a tropa, portugueses e indíge­
nas, que pudesse mandar, resolve-se a enviar Manuel João à conquista
de Cambambe, com a maior parte da gente de que podia dispor, ficando
êle com Luís Serrão no acampamento.
Manuel João partiu e, como de costume, desbaratou o inimigo que
fugiu, lançando-se êle na sua perseguição com quatro brancos e alguns
pretos, emquanto deixava acampada a restante sua gente.
A ousadia e temeridade de Manuel João não conheciam limites. O s
indígenas fugiam na sua frente e êle, com os quatro valentes com pa- 12

(1) Carta do Padre Baltazar Afonso, citada. É muito possível que êste combate fôsse com
o soba da Quiçam a— Mochima Quitangombe, a que se refere Garcia Castelo Branco.
(2) Abreu de Brito e Ravenstein chamam-lhe Macunde. Os jesuítas chamaram-lhe Mo­
cumba
144 Angola
nheiros, animando os pretos que os acompanhavam, seguia-os, indo
-dar a umas furnas, onde estava o grosso das fôrças inimigas.
Estavam perdidos; mas Manuel João não se atemoriza. Os inimigos
-eram tantos e já tão próximo apertando-os no cêrco, que os nossos nem
já podiam utilizar as espingardas. Manuel João iança-se na luta corpo
a corpo, entre a massa dos indígenas, que caíam aos golpes da sua va­
lente espada. Uma azagaia atravessa-lhe um pê. Manuel João cai e
está impossibilitado de se levantar. O gentio vem então sôbre êle e,
ali o decepa e esquarteja. Os outros quatro valentes e os pretos que
os acompanhavam tiveram igual sorte, e o inimigo entoa os seus cân­
ticos de vitória.
No acampamento adivinha-se o que se está passando e, concen­
trando-se para a defesa dum provável ataque, passam assim a noite, e
pela madrugada recolhem ao arraial da Mucumba a dar a Paulo Dias
a infausta novaf
Ao mesmo tempo o socorro do Congo, de 5 o portugueses e alguns
milhares de indígenas, é desbaratado ao chegar à fronteira de Angola
e, ao passo que os negros, animados com as vitórias, se tornam ousados
e atrevidos, os nossos desanimam, e cançados duma luta que durava
mais dum ano, procuram por todos os meios alcançarem embarcações
que os levem Cuanza abaixo até Luanda.
A situação de Paulo Dias era desesperada. Não só a gente lhe fal­
tava, mas já não tinha munições. Numa das travessias do rio, volta­
ra-se uma embarcação com duas peças de artilharia e alguns quintais
de pólvora. Estávamos em Junho de 5 8 1 e da metrópole não se espe­
rava socorro rápido, a-pesar-de já pedido.

*
# *

Estava em Luanda o padre jesuíta Baltasar Barreira, que já tinha


regressado do Congo, onde talvez tivesse ido pedir o socorro que os
Angolas desbarataram na fronteira. Assistia dia a dia às cenas da che­
gada dos soldados de Paulo Dias, ouvia-lhes os comentários, sentia-lhes
o desânimo que os invadira e que atacava os que estavam longe do
teatro de tanta luta. Principal interessado nos bons resultados da cam­
panha que se encetara, homem activo e inérgico e duma vontade forte,
não podia assistir impassível à derrocada duma obra que tantas vidas
já tinha custado, e insurgiu-se contra o derrotismo que a todos inva-
t

Parte 11 — Angola 145

dira, até talvez ao próprio Paulo Dias e a Luís Serrão, que, sem reagi-
g ire m , deixavam desertar quantos queriam.
Censurando os que apareciam em Luanda vindos de Mocumba, ex-
probando-lhes a falta de patriotismo, declarou-lhes que visto que todos
fugiam iria para lá êle que não era soldado, e conseguiu que desses
corações insensíveis para tôda a dedicação que não representasse um
lucro, nascesse a revolta contra os seus próprios actos. Exortando-os,
aproveitando hàbilmente êsse despertar dum resto de sentimentos no­ »1 ^
bres, arvorou-se em chefe militar, reüniu homens, mantimentos, armas,
I ^
munições e pólvora, tudo quanto havia que pudesse servir para uma
resistência, pequena ou grande que fôsse, e partiu numa embarcação,
Cuanza acima, a levar a Paulo Dias não só o refôrço material máximo
que se poderia obter, mas o revigoramento da sua energia e dos seus
bravos companheiros. • í
Quando no acampamento souberam da sua vinda^êles que mal po­
diam sair para assaltarem alguns indígenas onde arranjassem com que
: i
entreter a fome, vieram esperá-lo ao caminho, desembarcaram-no num
ponto por onde se atalhava para chegar ao acampamento e, distribuindo
por todos as cousas que levavam, conduziram-nos a Mocumba no meio
da maior alegria, onde chegaram no dia de S. João de i 5 8 i .
Ainda duravam as manifestações de regozijo, quando se sentiu o
grito de alarme, «arma, arma». Todos se armaram e sairam ao en­
contro do gentio, que não esperando ser atacado, acostumado a atacar l
os nossos que se limitavam à defesa, fugiu sofrendo algumas perdas,
pelo que daí para o futuro nunca mais nos atacaram, antes foram os
nossos que tomaram êsse papel, e, com tão bons resultados, que muitos
fidalgos indígenas se apresentaram, prestando obediência a Paulo Dias.
Entre êles, veio o soba da Songa (1), que se fêz cristão e passou a cha-
mar-se D. Paulo, e que Paulo Dias nomeou capitão mor da gente da
terra, com o direito a se poder assentar em alcatifa, diante dêle e de
todos os Governadores que lhe sucedessem. A apresentação deste
fidalgo era importante, pois que além duma das suas filhas ser mulher
t
do rei de Angola, tinha na côrte grande conceito, sendo um dos macotas
mais considerados e que o rei mais atendia.
Readquirido o antigo prestígio, Paulo Dias a-pesar-de só poder
contar com pouco mais de um cento de portugueses, pois que os res­
tantes tinham sido mortos ou inutilizados em combates ou pelo clima,

(1) Perto da Muchima.


14Ó Angola
c, sobretudo, a-pesar-da falta de m unições, resolveu iniciar 0 seu avanço
sôbrc C am bam b e, abandonando 0 acam pam ento da M ocum ba. Acom ­
p anhava-o o P ad re B arreira e m uitos auxiliares indígenas dos sobas
que se nos tinham apresentado, e chegando à confluência do Lucala e
do C u a n za , atravesso u aquele rio na intenção de seguir sôbre C am ­
bam be. O rei de A ngola, sabendo da chegada dos nossos e do grande
núm ero de indígenas que os acom panhavam , tratou de organizar um
num eroso exército, um m ilhão e duzentos e cincoenta mil negros, dizem
o s cronistas.
A o constar a notícia entre os nossos, parte dos pretos que nos acom ­
p a n h a va m , cheios de m êdo, convencidos que era im possível com o pe­
queno núm ero dos nossos, resistir a tão form idável exército, escapa­
vam -se com o podiam , indo engrossar 0 partido do rei de Angola. Só
o preto D. Paulo se m anteve fiel, com tôda a sua gente.
Em 2 de F ^ e r e ir o de 5 8 3 estava P aulo Dias e a sua aguerrida
gente preparando-se para continuarem a m archa, quando se viram
cerca d o s em T eca-N d u n go, ao norte de Cam bam be, pelo numeroso
exército do rei de Angola, que tom ara posições sem contudo nos ata­
car, esp erando, certam ente, a noite, para nos envolver, e no dia seguinte
nos desbaratar. E ra já pela tarde, cêrca de três horas, e a batalha não
se in icia va . O preto D. Paulo, conhecedor dos planos estratégicos do
rei de A ngola, pediu a Paulo D ias que rompesse o ataque, autorizando
que êle, à frente dos auxiliares, que segundo alguns cronistas seriam
cêrca de trinta mil, se lançassem sôbre o inimigo. Aceite o alvitre, ata­
ca ra m os nossos a gente do rei de Angola e, com tal ímpeto e valor 0
fizeram , que em duas horas os tinham derrotado por completo, matando
m ilhares deles e pondo-se os restantes em fuga e por forma tão precipi­
tad a que in d o os fu g itiv o s d a r d e noite com hüa barroca m u y p ro fu n d a
c a r r e g a r ã o tanto huns sobre os outros qu e só dos qu e cayrão dentro se
en ch eo e e g u a lo u e fic o u servindo d e estrada p a ra os q u e vinhão atra\ (1).
E , era tão extraordinária a vitória alcançada, que o próprio Paulo Dias,
adm itindo que a pusessem em dúvida, enviou no dia seguinte para

(1) Carta do Padre Baltazar Barreira para o Provincial, de 20 de Novembro de i 583. Boi.
da S. G . L ,, n.° 8, 4.* série, pág. 371. Vê-se da leitura desta carta que Paulo Dias saiu da Mo­
cumba dois anos depois de lá chegar, e portanto em Novembro de i 582, e que 0 combate em
que o Angola foi derrotado, teve lugar, depois disso, em dia de Nossa Senhora, — por isso no­
meiam esse dia Nossa Senhora da Vitória, o qual outro nao pode ser senão o de 2 de Fevereiro
583
de 1 , visto a carta ser datada de Novembro desse ano. A-pesar-dísso Ravenstein indica o
ano de 1584.
\

Parte II — Angola 147

Luanda trinta carregadores conduzindo narizes, que mandou cortar aos


mortos, para que assim todos se certificassem da verdade.
Depois desta importante vitória resolveu Paulo Dias estabelecer-se
com a sua gente em acampamento permanente e, retirando-se um pouco,
foi fazê-lo em Massangano, ponto fàcilmente defensável, entre o Lucala
e o Cuanza, a que, em comemoração da vitória obtida, passou a chamar
Nossa Senhora da Vitória, para 0 que logo se começou a ordenar húa Z
confraria.
Cambambe estava perto. Viam todos os dias as serras de prata, 1
onde os raios do sol, reflectindo, davam um aspecto deslumbrante.
Era uma fogueira imensa que os estonteava e êles sentiam a necessi­
dade de se lançarem sôbre ela, de se deixarem queimar e arder, con-
tanto-que agarrassem aquela prata às mãos cheias, O Padre Baltazar
Afonso, estando em Luanda, recebeu as primeiras amostras e comen-
j0 - tava: «H e e para dar graças a Deus ver como vem d*prata nacida nas
veas das penedias com suas rai\es » e 0 Padre Barreira, com todo o seu
temperamento de guerreiro, não esconde os encantos que encontrou na
região e escreve ao Padre Afonso: «Fqy 0 senhor servido deixar nos vir t
a estes novos Reynos, novas terras, nova região Bongi, tão diferente de
tudo 0 que V. R. té agora terá visto, como são os frescos e amenos jardins,
dos matos secos e sem fruta. Pinte V. R. tudo 0 que os olhos podiam de­
sejar de vêr, todas as frescuras, toda a variedade de altos e baixos e toda
a abundancia de mantimentos e entenda que tudo ha por ca». 1
Da prata foram amostras para Portugal e ao mesmo tempo o plano
para a sua ocupação definitiva e exploração, com o pedido de gente e *
pólvora para se continuar a guerra.
Já não era o Cardial D. Henrique, 0 financiador da empresa de An­
gola, que governava o reino, mas Filipe II de Espanha e, as alterações
i
havidas e as lutas com 0 Prior do Crato, impediam uma resposta rá­ J í
i
pida, bem como a satisfação dos pedidos, aos quais, com o reconheci­
mento do novo rei, Paulo Dias juntava 0 da confirmação da sua doação,
que, parece, lhe não foi satisfeito. :*

*
* %

1
Havia dois anos que Paulo Dias estava em Massangano sem socorro
algum de Lisboa, nem soldados, nem pólvora. Mas era desta, sobre-
148 A ngo la

tudo, que mais carecia, pois havia tão pouca, que já lhe sobravam sol­
dados.
O Padre Barreira, que acom panhava as guerras, e que, indepen­
dente da direcção dos negócios religiosos tinha parte activa nos assuntos
guerreiros, Já providenciara para que se fôsse a S. T o m é b u sca r a lg u m
r e m e d io d e p o lv o r a p a r a lh e a cu d irem , com etendo êsse encargo ao Padre
B a lta za r A fo n so . É que a situação não perm itia delongas e, com a d e­
m ora h avid a, gran d e número dos sobas que tinham prestado v a ssa la ­
gem , esperan do que o rei de A ngoía fôsse vencid o, p assaram -se n o v a ­
m ente p a ra êle, ou m antinham -se indecisos, o que b a sta va p a ra o rei
d e A n g o la se en cher de ânim o e esperanças de v ir a d erro tar os nossos
em algum co m b ate. A p o sição ocu p ad a em M assa n g a n o era explên-
d id a : « e stã o e n tr e d o n s R io s m u jrto f o r t e s q u e so o p o r h u a p o n ta lh e
p o d e m e n tr a r p o r terra , q u e d o u s tiro s d e fe n d e r ã o a e n tr a d a , m a s to -
m a l- o s - h ã o á fon/% , e a s m ã o s a ca b a n d o d e s e g a s t a r e ssa p o u c a p o lv o r a
q u e te m (r).
B a lta za r Afonso, em vista dos apuros em que os nossos se encon­
travam , pôs-se em viagem para S. Tom é e a cinqüenta léguas de Luanda,
encontrou um n avio da arm ada que Felipe I m andara em socorro de
A n g o la e, p o u co s dias depois, a nau capitaria, e expondo-lhes a situação
em que se e stava, pediu-lhes fôssem com a m aior b revidade, seguindo
êle, entretanto, p a ra S. T om é, onde poucos dias depois a rrib av a a nau,
que v en to s e correntes contrárias p a ra ali levaram n ovam ente. D eses­
p e ra d o s com m ais este contratem po e atendendo â urgência dos socor­
ros, m eteram num navio setenta a oitenta sold ad os, algum m an tim ento,
d ez q uin tais d e pólvora e arcab u zes, fazen d o segu ir p a ra L u an d a, em -
q u a n to a nau co n tin u a va a sua viagem ch eia de con tratem p os, ten d o
g a sto d e S. Tom e' a L uan d a, cêrca de três m eses, de m an eira que ch e­
g a ra m a L u a n d a em Setem bro, q u an d o tinham c o m e ç a d o as p rim eira s
c h u v a s e o esta d o sa n itá rio era péssim o, tendo a d o e c id o p a rte da g e n te
q u e vin ha.
Ê ste socorro era comandado por João Castanho Vellez. Compu­
nha-se de p o u co mais de 200 soldados, mantimento, pólvora, munições
e arm am ento, sendo êste muito ordinário. Vinha com êles o Padre
D io g o da C osta , tam bém da Companhia de Jesus e, certamente, mais
algum p esso a l da Com panhia.

(1) Boi. da S. G. L., n.° 8, 4.* série, pág. 3/ 3. Carta do Padre Baltazar Afonso de t6 de Abril
de 1584.
• 'X
U Sf

Parte I I — Angola 149

Acompanhava também a expedição João Rezende Morgado, como


provedor da Fazenda e das Minas (1), levando operários, instrumentos
e ferramentas para as trabalharem, tal era a convicção em que se estava
da riqueza de Cambambe em prata c, de outros pontos, em cobre, de
que pouco antes tinha sido enviado um bordão de cobre puro lavrado
para ver q 0 governador manda a E l Rey (2).
Desembarcada a expedição, são ainda os dois padres jesuítas, Bar­
reira e Afonso, os dirigentes de todo o serviço de alojamento e depois
da organização da marcha para Massangano. São êles que tudo pre­
veem e, para mais depressa acudirem a Paulo Dias, resolveram que no
1.° de Outubro de 1584 o Padre Afonso partisse com 0 Capitão João
Castanho Vellez, oitenta soldados e as munições e armamento que pu­
dessem transportar e, depois em Novembro, o resto, com 0 Padre Bar­
reira, levando também 0 Provedor João Morgado e os seus operários e
instrumentos, e 0 Padre Diogo da Costa. *
A primeira parte desta expedição partiu na época pior. Levaram
vinte dias na viagem pelo Cuanza e logo que chegaram, tendo chovido,
começaram a adoecer os soldados por tal forma que havia setenta doen­
tes, e tinham-se esquecido dos medicamentos em Luanda. A-pesar-
-disso, foi tamanha a alegria dos desgraçados que havia três anos esta­
vam sitiados em Massangano, passando tôdas as inclemências, que mal
êles chegaram, resolveram os antigos ajustar umas contas que tinham
com um fidalgo preto vizinho e deram-lhe uma sortida, queimando-lhe
a terra, cortando-lhe os palmares e roubando-lhe 0 que puderam acar­
retar.
O resto da expedição só chegou nos primeiros dias de Dezembro e
estando todos reünidos, concertou Paulo Dias com êles o plano da
ocupação das minas, resolvendo começar por ir sujeitando todos os
sobas que se pudessem opôr.
Era necessário proceder assim, porque com a demora havida na
chegada dos socorros pedidos para Lisboa, os diversos sobas que de­
pois da vitória que alcançámos em Massangano, estavam comnosco,
tinham-se passado para o rei de Angola, visto não só sentirem fraco o
apoio que poderiam ter dos nossos, como mesmo se convencerem que
não podíamos resistir a qualquer ataque que 0 rei de Angola nos desse.12

(1) Assim o dizem os vários cronistas que se referem à sua ida a Angola, mas a verdade é
que nenhum dos regimentos ou instruções que lhe foram dados trata de assuntos de fazenda.
(2) Boi. cit., pág. 374, fim da carta.
i5 o Angola

Que de prodígios, que de temeridade e ousadia, teria sido necessário


dispender, para nos agüentarmos aqueles três anos?
Não só em Massangano a situação era difícil. Já depois da chegada
deste reforço de João Castanho, os que estavam em Luanda tinham difi­
culdades em obter a alimentação necessária, porque os indígenas aban­
donaram as suas culturas com receio das devastações dos nossos. Dizia
o Padre Diogo da Costa: «A terra em si he mayto fértil posto que as
guerras a tem desbaratado mayto e essa he a causa porque os mantimentos
custão agora muyto e não se podem achar senão com mayto trabalho (i).
Devia ser assim e, não só com muito trabalho mas com muito risco,
podiam arranjar aquilo de que careciam. A não ser algum mantimento
obtido dos resgates feitos pela costa, do Cuanza para o sul, que pouco
seria, só de Massangano lhes poderia vir e, esse, mal chegava para os
que lá estavam, que só lutando com o gentio o conseguiam.
Era necessáfio manter permanenlemente, com esforços sobrehuma­
nos, o estado de guerra; assolar constantemente os indígenas; ao menor
desacato à nossa autoridade, saqueá-los; queimar-lhes tudo e, só assim,
a ferro e fogo, seria possível que os poucos centos de portugueses con­
AM .

seguissem dominar milhões de indígenas.


3 Nesta preparação para a conquista das minas se passou o resto do
ano de 584 e parte do de 585 e, por Julho, teve Paulo Dias a notícia
de o rei de Angola ter saído da embala em Cabasse e dirigir-se contra
êle com uma poderosa guerra.
A luta já não era então só com a gente do rei de Angola. Tendo
iniciado as nossas guerras contra o gentio do Icolo e da liamba, na
maioria, independentes do rei de Angola, à medida que as nossas vi­
tórias e devastações se sucediam, os que escapavam acolhiam-se ao
Dongo, engrossando assim o exército do Angola. Passámos depois
para as margens do Cuanza e assolámos os jagas da Quissama, cujo
soba, até aí inimigo do do Dongo, se ligou com êle contra nós. Por
seu turno, o soba do Dongo ou rei de Angola entendeu-se com os seus.
parentes da Matamba e Ginga, para nos atacarem.
Quis reünir Paulo Dias a sua gente, que andava parte em assaltoa
dirigidos por diversos capitães, e alguns estavam em Luanda, mas a
aproximação da guerra não lhe deu tempo, resolvendo em 24 de Agôsto
de i 584 (2) marchar sôbre eles. Os inimigos tinham adoptado nova.12

(1) Boi. cit. Carta de 20 de Julho 585, pág. 377.


(2) A s cartas dos padres jesuítas estabelecem confusão sôbre esta data.
Parte I I — Angola 15 r
disposição tática, dividindo-se em três escalões e eram « quasi conto»
ao passo que os nossos poucos mais seriam de um cento, sendo acom ­
panhados de cêrca de dez mil indígenas.
Iniciado o combate e derrotado o primeiro escalão inimigo, apa­
receu o segundo, com o que os nossos não contavam, mas que foi aco­
metido com tal ímpeto, que em pouco tempo fugia e, quando se supunha
ganha a vitória, apareceu ainda o terceiro escalão, que teve igual sorte
dos anteriores, deixando muitos mortos e prisioneiros os principais
chefes, a quem foram cortadas as cabeças para serem reconhecidos
pelos indígenas seus partidários (i).
Esta vitória dos nossos teve um grande efeito moral sôbre os chefes
indígenas inimigos, porque o rei de Angola tinha reünido o melhor da
sua gente e dos seus aliados e em grande número, tendo anunciado a
vitória, tão certo estava de a obter. A-pesar-da derrota não se consi­
derou vencido e, embora lhe morressem os seus melhorgs capitães, con­
tinuou na luta preparando-se para novos ataques.
Por seu lado Paulo Dias reconhecia que era muito reduzido o nú­
mero de portugueses para poder levar a campanha por diante. Para
conseguir o seu objectivo de Cambambe, tinha de atacar a embala do
Angola e desbaratá-lo completamente, o que não podia efectuar sem
novos socorros de Lisboa, que pediu, continuando a sua tropa sem
afrouxar a actividade, atacando ora um, ora outro sobeta, de forma a
impedir a sua concentração.
A proximidade em que estavam de Cambambe, incitava a uma sor­
tida, que poderia ter êxito feliz e, Paulo Dias, sem poder dominar a
ansiedade em que todos estavam de se apossarem das minas, autorizou
o ataque, confiando-o a João Castanho Vellez, que para êsse fim foi
estabelecer um acampamento fortificado a uma légua das minas, par­
tindo na ante-véspera do N atal de 5 8 5 com setenta e cinco soldados
brancos e cêrca de oitocentos frecheiros pretos.
Durante a marcha os soldados queixaram-se de que tinham falta
de alim ento e pediram para irem assaltar um soba soassa ou jaga, que
h avia perto, Angola-Calunga, ao que João Castanho anuiu, tendo os
nossos cativado m uita escravaria e tomados muitos bois, capados, etc., e
desbaratado o inimigo, que se pôs em fuga.
V oltavam os nossos para o acampamento, vindo à frente metade
dos soldados com a gente preta e atrás Castanho Vellez com o resto e

(i) B oi. cií. C arta do Padre Barreira de 27 de Agosto de i 585, pág. 379-
i 52 Angola
os presos da guerra, quando apareceu um grupo dos jagas batendo as
palmas em sinal de quem pede para ser perdoado e quer prestar vas­
salagem. João Castanho parou para os receber, sem tomar a menor
atitude de defesa. Estavam sossegadamenie tratando as condições da
paz, quando, repentinamente, lhes aparece um numeroso grupo de jagas
e em tal quantidade e com tal rapidez, que nem tempo tiveram os
nossos para pegarem nas espingardas e tomarem qualquer defesa,
sendo agarrados por êles que logo ali os mataram, decepando-os.
Alguns negros que escaparam vieram dar a triste notícia ao forte,
onde apenas tinham ficado oito ou nove homens em condições de com­
bater, pois que o resto estava doente. Sabendo que os jagas vinham
atacá-los, resolveram enterrar a artilharia e queimar o fa to que não
podiam transportar e retirar para o acampamento onde estava Paulo
D ias, que, em vez da notícia da posse das desejadas minas de Cam-
bam be, recebei# o de mais êste desastre. -
Mas não desanimou e nem o podia fazer, porque naquelas circuns­
tâncias seria a liqüidação desastrosa de todo o seu esfôrço e dos que o
acompanhavam. A notícia do desastre sofrido, produzira logo os seus
efeitos entre muitos fidalgos indígenas que, se não estavam por nós,
pelo menos, com o mêdo, nos não hostilizavam. O rei de Angola apro­
veitou o momento e combinou novo e decidido combate. Paulo Dias,
sabendo-o, reüniu o resto dos seus valentes companheiros, fazendo in­
cluir nêles os velhos soldados conhecidos entre os indígenas por sambos,
elefantes (i) tal era a devastação que operavam quando apareciam.
Eram os nossos cerca de 140, acompanhados por grande número de
auxiliares negros, cêrca de de\ mil frecheiros que chamamos chorymbaris
q u e se deitarão com os nossos e muytos delles christãos homem valentes e
d e m uytos ardis , a seu modo e a gente de quarenta sobas que estavam
por nós.
Em Setembro de 5 8 6 , o rei de Angola, com os sobas que lhe eram
fiéis e os seus aliados iniciou, no maior segredo, a marcha para nos
atacar, e por tal forma, que quando os nossos se dispunham a passar
para o Lucala, souberam que a gente do Angola já o tinha passado
com três poderosas colunas, uma delas comandada pelo Angola-Ca-

(i) A carta publicada no Boi. da S. G. traz esta grafia, mas é de presumir que houvesse
êrto na transcrição, porque o termo empregado deveria ser nzambos» de N’zamba — elefante.
R egra s de F r. Vetralla, já cit., pág. 106. Abreu de Brito chama-lhe gutijos, talvez de N ’gnjo
Parie 11— Angola i53
lunga, o jaga que tão traiçoeiramente tinha morto João Castanho e
aqueles que o acompanhavam, c outra pelo soba da Matamba.
Luís Serrão comandava os nossos e, conhecendo já a táctica dos ne­
gros, receando os contra-ataques de que tinham usado na guerra ante­
rior, mandou Francisco de Sequeira com uma parte da tropa atacar os
primeiros escalões de indígenas que apareceram e que eram os do rei
de Angola, e por tal forma êsse ataque se efectuou, que o inimigo ficou
dividido, uma parte completamente desbaratada e outra com grossas
perdas, mas pôde fugir. No dia seguinte os nossos passaram o Lucala
e foram então encontrar o outro escalão, que era a gente da Matamba,
e os atacou como Luís Serrão calculava. Êste, batendo-os, obrigou-os
à retirada, e, perseguindo-os, matou-lhes o chefe, um dos sobas mais
poderosos, que se fazia acompanhar, diz a fantasia do cronista, de qui­
nhentas guerreiras, molkeres todas vestidas com seus ferragoulos ricos de
Portugal, cousa que elles tem por grande estado (i). •
O momento era azado para prosseguir na conquista, d Mas como,
se não tínhamos gente P De Lisboa não vinham os socorros pedidos e
os portugueses que se empregavam na guerra eram poucos para manter
aquela avançada de Massangano, que cobria os que estavam em Luanda,
permitindo-lhes o seu negócio, mas reduzido por tal forma, na parte que
dizia respeito à província da liamba, que foram forçados a explorar os
resgates pela costa para o sul do Cuanza, dando-lhes bastante desen­
volvimento.
Constituía todo êsse território a doação ou capitania de Paulo Dias,
que, por falta de meios, a não podia explorar como pensara, vendo-se
na necessidade de recorrer ao concurso dos portugueses estabelecidos
em Luanda, que, animados pelos bons negócios efectuados, se oferece­
ram para irem fundar um presídio em Benguela Velha. Paulo Dias
aceitou a oferta e encarregou o seu parente Lopes Peixoto de os dirigir,
tendo as melhores esperanças no bom resultado desta expedição, por­
que, segundo um dos cronistas (2): El-Rey de Benguella já mandou os
dias passados pedir sua amisade ao Governador e quer ser sogeito a E l Rey
de Portugal.
Seguiu Peixoto com os cinqüenta moradores (3 ) para Benguela,
onde chegaram e desembarcaram sem oposição, escolhendo o local para(i)*3

(i) Boi. da S . G. L,, cit. Carta do Padre Diogo ao Provincial de Portugal de 3i de Maio
de i 586, pág. 382.
(a) Idem, pág. 383.
3
( ) Abreu de Brito, Mss. cit.
20
i 54 A n g o la
uma fortaleza, cuja construção, de pau a pique, logo iniciaram e leva­
ram a efeito.
A atitude dos indígenas de nada fazia suspeitar, mas um dia, estando
quási todos os portugueses despreocupadamente na praia, apareceram-
-lhe de súbito os gentios em atitude ofensiva, atacando-os e sem lhes
darem tempo a recolherem-se ao pequeno forte e armarem-se para se
defenderem, sendo todos assassinados e a fortaleza saqueada, roubando
tôda a fazenda que tinham para o seu negócio. Apenas escaparam
dois, que numa pequena embarcação vieram a Luanda dar a notícia.
Pouco depois de sofrer mais êste desastre, sucumbia Paulo Dias de
Novais (t), em Massangano, aos efeitos de dezoito anos de Angola,
cheios de lutas e trabalhos, e sem ter conseguido atacar na sua embala
o soba do Dongo, rei de Angola, que tão tenazmente se opunha ao seu
sonho da posse das serras de Cambambe, luzentes de prata, cuja exis­
tência lhe foi confirmada, quando êle, alquimista, nos seus tempos de
cativo, na sua cubata, disfarçadamente, não fôsse o soba perceber-lhe
as intenções, experimentava na bacia, com os foles de ferreiro, as pedras
que apanhava durante o dia!
*
* *

Façamos um balanço à donataria de Angola e vejamos os resultados


obtidos, quer para a Coroa, quer para Paulo Dias.
A donataria era, como vimos, o processo de colonização que em­
pregávamos na exploração dos territórios descobertos ou conquistados.
Os donatários, na maioria das vezes por vagas informações obtidas ou
pela boa impressão colhida em qualquer desembarque, pediam a doação,
e, obtida esta, arranjavam o dinheiro, fazendo à sua custa tôdas as
despesas da instalação e exploração dos terrenos concedidos, tirando
dêles a compensação que podiam em rendas, impostos e produtos, sem
nos determos a apreciar os meios por êles empregados, que, aliás, eram
os próprios da época. Daí resultava, anos volvidos, pela acção dos
donatários e dos colonos que êles levavam, o início de uma coloniza­
ção, defeituosa, sem dúvida, mas que nenhuma outra nação fêz melhor.
Quando o julgava oportuno e sob qualquer pretexto, a Coroa ia cer­
ceando os direitos e as prerrogativas dos donatários, até que integrava
definitivamente a donataria na vida do Estado.

(i) Faleceu em 1589, contra o que diz o autor do Catalogo dos Governadores.
Parte I I — Angola l55

Estava Angola nestas condições quando foi doada? Já vimos que


não.
A região estava suficientemente reconhecida e desbravada, como o
Brasil o não estava então. Nenhum dos donatários do Brasil iniciou a
sua exploração em melhores condições ou sequer idênticas. Basta cn-
cará-las sob um só aspecto, o do rendimento. Os donatários do Brasil
precisavam cultivar a terra para terem rendimento que compensasse os
seus esforços e despesas. Em Angola não era necessário explorar a
terra, bastava a exploração comercial e o resgate dos escravos, que se
obtinham sem lutas, quási sem mesmo os ir procurar ao interior, por­
que os sobas impunham essa condição social aos seus prisioneiros e aos
seus súbditos como condenação e se encarregavam de os trazer aonde
estivessem portugueses, para os trocarem por mercadorias. Quando
isto não bastasse, havia o conhecimento perfeito da vida do indígena,
dos seus usos e costumes, e havia o negócio da permute já estabelecido,
desde quási um século, pelos portugueses que tinham ido para o Congo
e depois se espalharam por todo o interior.
Assim, a Coroa não tinha despesas a fazer e bastava ter estabele­
cido a feitoria de Luanda, arrendando a qualquer contratador a co­
brança dos impostos e direitos, para ter um rendimento certo.
Nestas condições, a donataria de Angola não obedeceu aos mesmos
fins das outras donatarias. Não era necessário que Paulo Dias, ou
qualquer outro, tomasse sóbre si o encargo de a povoar e fazer vilas e
castelos. Com mais uns anos, tudo se teria feito apenas com um feitor,
e, só mais tarde, quando o desenvolvimento o exigisse, um capitão-mor
e o respectivo pessoal administrativo. A Companhia de Jesus, porém,
precisava, para o papel que se propunha desempenhar, para garantia
de todo o seu poder e influência no Novo Mundo, que Angola fôsse
submetida ao mesmo regime das donatarias que tínhamos empregado
no Brasil, o que se justificava, porquanto, embora não houvesse resis­
tência activa dos naturais contra o cristianismo, havia indígenas sem
religião, havia infiéis, que era necessário trazer ao grémio da igreja ca­
tólica.
Precisavam ainda de um rótulo, um nome de alguém que, pelos
serviços dos seus antepassados ou pelos seus e pelo conhecimento que
tivesse de Angola, justificasse o direito de pedir a donataria, e ninguém
melhor que Paulo Dias de Novais. Discretamente, usando da sua in­
fluência, apresentaram o seu nome e obtiveram para êle a doação,
e, assim, tendo-o na sua dependência, melhor podiam orientar o
i 56 Angola

papel que a Angola tinham distribuído na civilização de todo o Novo


Mundo.
De principio deram-lhe como mentor o Padre Garcia Simões. À
falta de melhor, experimentou êste a intriga com o rei do Congo, mas
sem resultado, como se viu (t). Logo a seguir busca o pretexto da
conversão dos indígenas e é êle que, a propósito das felicitações pela
vinda da Companhia para Angola, que diz ter recebido do Governador
do Congo, Francisco Gouveia, e de outros, escreve: « M a s qu a si todos
« tem p o r a verig u a d o que a conversão destes barbaros não se alcançará
« p o r am or senão depois que p o r armas fo r e m sogeitos e vassallos d ’ el-rey
« nosso s e n h o r . . rematando com a censura ao que Paulo Dias estava
fazendo: « E m uy to menos deste m odo que agora vay que não ha quem
«p o r a m or com elle tr a te ,p o r q u e este negro tud o é in teresse ... », e com
a falsa insinuação com que queria mostrar a rebeldia do rei de Angola
e a necessidade cie o castigar: «. . . e não quer mais que ver se colherá
« outro G a n g a [padre] ás mãos p ara lá m orrer como o P a d re Francisco
« G o u v ea a q u em tinham com o negaça de mercadorias e trato de P o rtu -
« g u e t e s . . . », (2) quando o certo é que o Padre Gouveia não esteve vinte
anos na embala do soba ou rei de Angola, por negaça dêste, mas por
obediência à sua ordem; que não era por lá estar, que os portugueses
lá iam levar as suas mercadorias para o negócio, e, finalmente, que o
rei de Angola tinha tanta estima e veneração pelo Padre Gouveia, que,
durante a sua doença, recorreu a todos os feitiços para o salvar, e, pelo
seu falecimento, exteriorizou o seu desgôsto com as mais solenes mani­
festações que era costume empregar.
Durante três anos resistiu Paulo Dias a tôdas as insinuações e ten­
tativas para que iniciasse o período guerreiro, até que cedeu a autorizar
a primeira guerra nos arredores de Luanda.

(t) Não deve passar sem reparo a insistência dos cronistas da Companhia em atribuírem
sempre à acção do rei do Congo, junto do Ngola, as cenas de carnificina e roubo, de que eram
ameaçados ou foram vítimas os portugueses. A primeira vez que Paulo Dias foi a Angola, vemos
um dos irm ãos a dizer-nos que os portugueses foram todos presos e roubados. Anos depois,
volta Paulo Dias a Angola e logo de entrada vêm as queixas contra o rei do Congo, que se jus­
tificou como pôde. Passados três anos, durante os quais alguns favores confessam que nos
prestou o rei do Congo, em mais de uma carta se encontram referências a atitudes dúbias e
prejudiciais aos nossos interêsses por parte do rei do Congo. Ódio velho...
la) B o i. da S . G . L ., cit.
y;

' !i 'li- '

Parte I I — Angola i5/

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Iniciada a luta, sotrido o primeiro desastre, Angola deixava de ser


livre para nós, deixava de ser o campo vasto e sempre aberto, durante
um século, á nossa acção comercial, para ter de ser conquistada palmo
a palmo.
Vimos que, com o refôrço de soldados e munições que levou António
Peixoto, foram mais três padres jesuítas, dois dos quais passaram a ter
um papel preponderante na luta que se seguiu. Pelas suas cartas, pre­
ciosos documentos que nos deixaram, a acção de Paulo Dias quási
desaparece, para ficar a dêlés, organizando, acompanhando os solda- .
dos, excitando-os e animando-os, aparecendo em todos os combates,
ora com as suas orações pedindo a Deus a vitória par» os nossos, ora,
talvez, pelejando como os capitães-mores. Um, está com as tropas;
outro, está em Luanda; revezam-se; um vai ao Congo arranjar auxi­
liares e manda recado ao outro para vir para junto de Paulo Dias, pa­
recendo que nunca o querem deixar só. São os seus mentores P Tem-se
antes a impressão de que êle é apenas um seu delegado.
O clima e alguns desastres nas guerras com os diversos sobas, quási
que liquidaram o contingente de Peixoto, e, em pouco tempo,’a situação
apresentava-se mais agravada, porquanto na altura da luta a que se
tinha chegado é que não era possível retroceder, nem mesmo parar, e,
fôsse porque meio fôsse, as guerras tinham de continuar.
Não havia dinheiro nem fazendas e não havia soldados, mas tudo
se remediou contratando os serviços dos velhos colonos, os «{ambos»,
que dificilmente podiam exercer a sua vida como comerciantes pelo
interior, dado o estado de rebelião do gentio. Alimentar-se-iam do que
apanhassem nas razias, e o salário, na falta de mercadorias com que
pudesse ser pago a êles e aos capitães, passou a ser dado na moeda
corrente, o negro, — prisioneiro ou escravo, pouco importava. A uns,
pagava-se em peças; a outros, aos capitães e aos padres, cujos serviços
eram de outra categoria, pagava-se-lhes com sobados inteiros, mas sob
uma forma que, por ser rudimentar na organização dos povos, estava
em harmonia com os usos indígenas. Nomeavam-se protectores e re­
presentantes dos sobas conquistados junto do governador, o que cor­
respondia ao patrocínio e recomendação dos sistemas primitivos, em que
se entregava a defesa dos fracos à protecção dos mais fortes, e, desta
•rtF- .

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V I;
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158 /In^o/a

forma, não havia sujeições, não havia cativos nem escravos, mas so­
mente a retribuição a dar pelo soba ao procurador ou amo, pela pro­
tecção eficaz junto das autoridades, pela defesa constante dos seus in­
teresses e dos seus direitos.
O sistema era tão bem aceite entre os indígenas, que estes, quando
iam para as guerras, já pensavam, no caso de serem derrotados, em
quem haviam de pedir para am o, e, em geral, pediam os padres, por­
que: « tin ha m e n tre os n eg ro s g ra n d e fa m a d e sere bôs hom es, & am paro
« & p r o te y ç a m d e brancos e p r e to s », « . . . os quaes nam aceytauam isto
« m a is, q u e p a r a os cõsolarem , & a q u ie ta r e m . . . A n tes os p a d res m uytas
« ve%es r ep u g n a r ã o aos te r: m as o G ouvernador os obrigaua a isso, nem
rí «p o r resp ey to d os p a d r es, n ê do p ro u ey to qu e disso tiuessem , que era assa{
«p o u c o , nem p o r lh e f a \ e r nisso f a u o r & honra, senão p o r respeyto do bem
« d a co n q u ista & do serviço p r o p n o d e sua M a g esta d e, p ois com isso tinham
« o s S o b a s s o g e j ^ s & quietos » (i).
Não há dúvida que aos indígenas não podia repugnar o processo,
porque êles próprios o empregavam. Já em i 56o, quando a primeira
missão dos jesuítas chegou a Angola, o soba deu os nossos ao G o n g o -
cin \a , que ficou sendo nosso amo, como lhe chamava o Padre Garcia,
quando a ê!e se referia. O sistema era, pois, corrente, e os indígenas,
tendo de pagar um tributo, tanto se lhes dava que fôsse ao soba como
ao governador, desde o momento que um dêstes os garantisse das pre­
potências e ataques do outro.
Poderia Paulo Dias, à falta de fazendas e de dinheiro, ter pago os
serviços que capitães e padres lhe prestavam, dando terras em sesma­
ria, como o autorizava a sua carta de doação, mas não havia em An­
gola possibilidade de o fazer, porque ninguém queria, então, terras, mas
sim pretos que nela habitassem, como frutos que as mesmas dessem, e
êsses é que passaram a ser sesm ados, dados de juro e herdade, como
no Brasil tinham sido a ldea dos. O processo foi precisamente o mesmo
e conduzido ao mesmo fim, e Paulo Dias por tal forma foi convencido
de que era assim que deveria proceder, que em pouco tempo tinha dis­
tribuído todos os sobetas que avassalara, dizendo àqueles a quem por

(i) R e la ç a m annual das covsas que fed era m os p a d res da Com panhia de Jesus nas p artes
d a Ín d ia O rie n ta l <£ no B ra sil, A n g o la , C abo Verde, & e tc .. . . nos annos de seiscentos <Si dons &
seiscen to s & ire s & etc — p e lo p a d re F ern am G u erreiro. L x . Anno M D C V. C a p . V II. D a s
125
cp usas d o R e in o d e A n g o la , fl. e segs. Biblioteca Nacional, Res. 445 P. e edição da Imprensa­
d a U niversidade de Coim bra.
P arte I I — Angola i 5ç

esta forma remunerava os serviços prestados, que tal doação era válida,
porque era conforme ao regimento da Mesa da Consciência.

*
ft *

Contudo, a rebelião indígena aumentava, talvez por reconhecerem


que, amo por amo, antes o preto da sua côr e com quem melhor se po­
diam entender. Para a dominar pediram-se mais socorros para Lisboa,
onde então já governava Felipe II de Espanha.
Não se conhecem documentos que nos possam elucidar sôbre o que
se passou em Angola quando da anexação de Portugal à Coroa de Cas­
tela. É verossímil admitir que Paulo Dias tenha confirmado o reconhe­
cimento que o capitão de S. Tomé «con allçada nesta dita Ilha do cabo
«das palmas the o de boa esperança » fizera de Felipe I^como verdadeiro
herdeiro e legitimo sucessor de seu tio D. Henrique, e que do mesmo
capitão tivesse recebido as cartas, que êle zelosamente diz ter mandado,
pera que se fizesse o mesmo na Ilha do princepe e Reino de Congo e An -
gola (i). -
A carta com o convite, ou a ordem, para o reconhecimento de Fe­
lipe II como rei de Portugal, deve ter chegado às mãos de Paulo Dias
quando êle acabava de obter a sua grande vitória que deu lugar à fun­
dação de Massangano. A poucas léguas estava Cambambe com todo
aquele enorme e rico tesouro da prata, mas onde êle não podia chegar,
a-pesar-da vitória obtida sôbre os indígenas, porque não tinha brancos
em número suficiente.
Os de S. Tomé diziam no auto de obediência «que esperauão que o
dito senhor conforme a sua custumada grande\a teria lembransa, desta
dita Ilha e de lhe fa\er mercês e de lhe conseruar seus preuilegios efaçer
mercês de outros necessários a esta Ilha e ao bem e prol comum delia (2)
^e porque não aproveitaria êle o momento para, com 0 reconhecimento
do novo rei, pedir a confirmação da sua doação e os reforços de gente
e munições de que carecia para obter a riqueza que estava ali tão pró­
xima? 12

(1) História do Congo, Paiva Manso, cit., Doc. lxiv, pág. 120. Esta missão foi incumbida a
Sebastião da Costa, que foi portador de uma carta para 0 rei D. Álvaro, mas que não pôde
entregar por ter falecido na viagem. Duarte Lopes refere-se a esta embaixada.
(2) História do Congo, citada.
160 Angola
O pedido estava dentro da orientação dos princípios decretados
p elo rei nas C ôrtes de Tom ar.
É certo que o terceiro estado, — o povo, — tinha instado pela suspen­
são dos m onopólios e contratos sôbre o comércio das conquistas, lem­
brando que ficassem livres e pagos à fazenda os direitos que a lei es­
tabelecesse. M as, pelo seu lado, a nobreza pedia que os bens da Coroa
que vagassem fôssem providos em pessoa do mesmo sangue e, sendo
possível, do mesmo apelido, para honra e acrescentamento da fidalguia
portuguesa e conservação das famílias ilustres, e que só se provesse as
capitanias das conquistas em fidalgos e não em letrados (1).
O pedido do povo implicava uma alteração no sistema de cobrança
de receitas, que se não coadunava com a pobreza dos cofres da Real
F azenda e, assim, os partidários de Felipe II, que tão desveladamente
tinham preparado a aceitação, por tôda a nação, do seu novo rei, não
quiseram entrarrem reformas que poderiam trazer complicações e apre­
sentaram-lhe com o fórmula que evitava atritos, tudo conciliava e êle
aceitou: que continuariam para todos os ofícios, tanto da Casa Real
com o do governo, a serem nomeados só os portugueses; se não faria
m udança alguma no que até ali se praticava, e não seriam dadas cida­
des, vilas, lugares, jurisdições ou direitos reais, senão a portugueses, e
os que vagassem , não seriam tomados para a Coroa, mas providos nos p a ­
rentes d os qu e os ocupavam (2), capítulos estes que eram os de maior
im portância, por dizerem respeito aos interêsses individuais, que, assim
respeitados, constituíam a condição necessária para a boa paz e melhor
concórdia.
E ra difícil satisfazer a renovação integral da doação, — património
e terras, como lhe fôra feita, dada a falta de meios de Paulo Dias para
a m anter, para o que pedia o refôrço de gente por conta da Fazenda
Real.
Pelas suas instâncias para o refôrço, expondo o perigo em que es­
tava de tudo se perder e das enormes riquezas que se adquiririam com
a conquista, adoptou-se uma solução intermédia, deixando-lhe ficar o
■ patrimônio, — a capitania das 35 léguas da costa, do Cuanza para o sul,
e passando o restante território à acção directa do Estado, com os seus
funcionários, de que êle continuaria a ser o primeiro.12

( 1 ) R e b e lo d a S ilv a , Historia de Portugal nos séculos XVII e XVIII, tô m o II.


(2) R e b e lo d a S i l v a , Historia de Portugal, citad a .
Parte I I — Angola i6 i

*
* *

Com o reforço de homens, armamento e munições, comandado por


João Castanho Velez, mandaram também os Governadores do Reino o
Licenciado João Resende Morgado, cóm poderes especiais sòbre^a ex­
ploração de minas, administração de justiça e inquirições aos ouvido­
res « do g .dor do dilo R .n0 dangola », ao mesmo tempo que em Lisboa se
punha em arrematação os direitos dos escravos (i).
Apreciemos esta resolução, em face da carta de doação de Angola
a Paulo Dias.
De minas não trata a carta de doação, mas estabelece : e sendo
« caso que na dita terra se abrão e achem allgüs resgates e tratos tais que
« eu por m y somente ou por meus oficiais os queira tratth- e negociar em
« tal caso eu mandarei pagar e dar ao dito Paullo Dias em sua vida como
« dito he a terça parte de tudo aquillo que nos ditos tratos e resgates se
« ouver de ganho, etc__ ». Ficava assim regulado o resgate de metais,
quando estes fossem achados, podendo o Rei, por si ou pelos seus ofi­
ciais, proceder à sua exploração, dando a Paulo Dias o têrço dos lucros
que nela tivesse. Por esta disposição, o regimento que se deveria obser­
var « no descobrim!° das minas que ora se fa \ no dito R .n0», em nada
afectava os direitos de Paulo Dias, tanto mais que nêle se determinava
que em tudo João Resende consultasse e procedesse de acôrdo com
Paulo Dias,
Com respeito ao serviço de justiça, ficara estabelecido na carta de
doação: que nas trinta e cinco léguas do Cuanza para o sul, fazia mercê
a Paulo Dias e seus descendentes e sucessores, da jurisdição cível e
crime na dita terra (que era a. que se designava por capitania) podendo
Paulo Dias nomear ouvidores, juízes, tabeliães de público e judicial,

( t ) T ô r r e do T o m b o , t. i.« de L eis, fls. 91 v . ' e 1. 9.” dos Felipes, fls. 348 e seguintes. A n e ­
xos, doc. n.» 1 8 -1 9 ,e 2 0 : «P o d e r e a lç a d a q u e le v a o l.o j o ã o m o r g u a d o q u e v a y to m a r R c s i d é ç i a
a o s o u v y d o r e s q u e e s tã o n o R . no d a n g o lla , a que se seguem instruções sobre serviço de ju s tiç a
e descobrim ento de minas». C o m o se vê, nenhum dêstes docum entos d iz respeito a serviço s
de fazenda, m as contudo havia em A n go la um Proved or de F a zen d a co m um E sc r iv ã o , que era
G asp ar Ferreira, que estando ausente, foi nom eado para interinam ente exercer o seu c a rg o ,
L o p o D elgado, m oço da câm ara de E l-R ei, em 1 583. B iblioteca N acion al, S e c ç ã o U ltram arin a ■
de A n g o la , c/145, Anexos, doc. n.° 1 1. Q u an to a contrato sôbre os direitos de escravos, con sta
do mss. da B ib lio teca Nacional, de Dom ingos de A breu de B rito, já referido, qu an d o tra ta d o
rendimento dos escravos, que nos últim os quatro anos ( 1 g» m enos 4== 1 5 588 ) o s direitos esta­
vam arrem atados.
21
TÓ2 Angola
meirinhos, escrivães e mais oficiais necessários para administrarem jus­
tiça, conhecendo o ouvidor das causas em apelação e aplicando os
juízes penas e tomando resoluções até aos limites que se fixavam, e
ainda que Paulo Dias e seus sucessores a qu e (quem) esla capitania e
governança (refere-se à parte não incluída nas 35 léguas) vier (a per­
tencer) usem inteiram ente de toda a ju r d iç ã o p od er allçada nesta doação
continda a si e da maneira que nella he declarado, e t c . . . . e « que nas
terras da dita capitania (Cuanza para o sul) não entre nem possa entrar
em tempo a llg u m corregedor pera nellas usar d e ju rd içã o allgum a per
nenhum a via nem modo que seja e porem eu p oderei quando me bem p a ­
recer m andar allçada e prover em tudo o m ais que m e pareçer que cum pre
a meu serviço e bem da ju stiça e bom governo da terra, etc. . . . ».
Nas instruções dadas a João Resende, determ inava-se-lhe: « P ri-
« m ram ente tanto q. chegardes ao dito R .no dangola dareis ao g .i0T a minha
« carta q. p era e l& le u a is . . . E não entendereis na p .a do dito g .dor no q.
« tocar á m ateria da ju s t .a ne nas cousas p o r elle fe ita s e ordenadas p or-
« quanto p o r a lg ü s ju s to s resp.tot q. m e a isso m ouê o ey asy p .° b ê . . . . E y
«por bê q. tom eis c.i0 p er apellação ou agrauo de todos os casos que não
« couberê na alçada do dito g .ior conforme a sua doação E não auocarets
« os fe ito s . . . D a reis ordé praticando pr.° cõ o dito g .d0T q. nas matérias de
' « ju st.a se g u a rd e daquy en diante as ordenações do R .n0 e t c .. . . E p°uereis
« q. d a q u y en diante se ponhão em arecadação a s fa \ .das dos defuntos dando
« nisso a ord é q. vos parecei- . . . e sendo algüas f a { .das dos ditos defuntos
« gastadas p or or d ê do g .dor não entendereis na arrecadação delias ./. sp­
it m ente fa r e is p o r os autos em guarda em poder dos offi.es A q. pertence,
« etc__ E inform am os éys se no dito R .”° dangola andão a lg ü s homes
« casados q. fo s s e destes reynos e quanto tpõ ha e q. não queré vir fa \ e r
« vida com suas molkeres nê p°veremnas do necessário ./. vivendo m al e
« desoluta m en te. . . e parecendovos q. algüs dos ditos homões viuê tão de-
« solutam ente q. conué ao serviço d e noso sõr e nem ao bom exem plo f a ­
it lerd elo s em barcar o podereis fa \ e r comonicando p rim .ro com o g .d0T sê
« m o fa z e r d e s sabr et c. . . . ».
Sê é certo que em'tâdas estas intenções sobressai o desejo de não
melindrar Paulo Dias por algüs ju sto s respeitos que me a isso movem, não
é menos certo que, sôbre matéria de justiça e arrecadação de rendi­
mentos, — o exercício do poder público, — êste foi-lhe completamente
anulado, porquanto passou a haver uma entidade, corregedor, provedor
ou ouvidor, que não era nomeada por Paulo Dias mas pelo rei, e que,
levando ordens para nada averiguar do passado, nem ao menos do des-
P arteil— Angola i63
tino dos bens dos defuntos, tinha o encargo de estabelecer os serviços
conforme as leis e regimentos do reino, donde se deduz que náo deviam
estar nessa conformidade.
Era uma esponja sôbre o passado e vida nova para o futuro, com a
expulsão dos portugueses cafrealizados que por lá se encontrassem e
ordem na administração da justiça. Era emfim um processo de liquidar
a última donataria que existia e de a fazer reverter para a Coroa Real,
sem fazer alardes, e deixando ainda o donatário indeciso sôbre o papel
que ficava representando.
Estas resoluções tomadas pelos governadores em Lisboa, são da­
tadas de Outubro de 1583 , e João (Morgado, que levava consigo os
alvarás, bem como a carta para Paulo Dias, a que em um deles se faz
referência, só chegou a Angola em Setembro de 1584. É muito provável
que, entretanto, Paulo Dias tivesse tido quem o avisasse do que se pas­
sava, e êle, deitando contas à sua vida de dez anos, 1 econhecesse que
nada tinha feito, e, nem ao menos garantido aos seus o direito de lhe
poderem suceder na parte que constituía o patrimônio. <jOnde estavam
os castelos, as igrejas, os cem moradores com suas mulheres e filhos,
sendo alguns lavradores, que se obrigara a fazer estabelecer entre o
Dande e o Cuanza? Nada tinha feito nesse sentido, e só guerras, em
que sacrificou a vida de mais de seiscentos portugueses (até 1584) e
desbaratara talvez não menos de cem mil cruzados. ^Quais eram os
quatro ou cinco lotes de terreno que demarcara na área das trinta e
cinco léguas da sua capitania? Nem pensara nisso, nem sabia mesmo
por onde havia de começar, porquanto, à data, apenas conhecia a Qui-
çama que assolara por várias vezes.
Mas era necessário fazer qualquer cousa nesse sentido antes de re­
ceber a carta que sabia João Morgado trazia. Assim, em 1 5 de Agôsto
de 1584, para remediar a situação, publicou um edital «a q. chama de­
claração e nomeação dos reguengos do seu morgado » (1), no qual vem
declarar que os locais que escolhia para os três castelos a construir
entre o Dande e o Cuanza, eram: para o «primeiro, e mayor Castello

(1) Biblioteca Nacional, Secção Ultramarina, Livro de Consultas e Partes do Conselho Ul­
53
tramarino, n.° 21, 1753-1754, fls. 1 v.° e seguintes (Arquivo da Marinha e Ultramar, n.® 24). É a
consulta do Conselho Ultramarino sôbre um processo de habilitação à capitania de Angola, de
um sucessor de Paulo Dias. Do Parecer do Conselheiro Rafael Pires Pardinho, se vê que o
edital de Paulo Dias abrange de fls. 48 a 54 v.° do Processo de Habilitação. Deve ser um docu­
mento precioso, mas não foi possível encontrá-lo em nenhum dos nossos Arquivos públicos.
Extrai-se da consulta o Parecer do Conselheiro Pardinho, que é interessante. Anexos, doc. n.®aa.
; 1Ó4 Angola
• na Costa do M ar para o porto de Loanda, em q. estava a villa de
• S. P a u lo, por ser acomodado a estancia, e defenção dos navios q. a elle
«fossem , e p .a o segundo Castello por lhe parecer mais convenf o citio nas
•terras de Cambambe p .a mayor segurança das minas de prata q. aly
• havia, e p .a o terceiro a Banca e citio de Moagaloambe p.a segurança e
• defenção das terras do rn.° de Angola q. se havião conquistado »; « . . .
«querendo escolher e segurar as vinte legoas de Costa q. se lhe concederão
•p.a elle e seus sucessores poderem cultivar, beneficiar, aforar, e tc ., nas
«35 da Capp.nia as nomea e separa em quatro partes, pellos sinaes da
«costa do mar, e Rios que nelle desaguão, e por onde elles corressem, e
«dahy p .a sima, e certão linha direita até o mar de Mossambique sem no-
«mear, expressar, ou declarar povoação, villa, ou Ig r.a que tivesse feito,
«ou fu n d a d o .em qualquer dos taes Rios, ou na distançia de toda a Capp”ia.
N ã o h á d ú v i d a q u e P a u l o D ia s e s t a v a a in d a d e n tr o d o s p r a z o s es­
t a b e l e c i d o s n a A i a d o a ç ã o , p o is q u e te n d o d e z a n o s p a r a fa z e r o s c a s ­
te lo s , o p r a z o só fin d a v a e m 20 d e F e v e r e ir o de i 585; e te n d o v in te
a n o s p a r a e s c o l h e r e d e m a r c a r o s lo te s n a á r e a d a s u a c a p ita n ia , e ra m
a p e n a s d e c o r r id o s d e z. M a s o q u e ê le n ã o tin h a e r a te m p o p a r a , d e
S e t e m b r o a F e v e r e i r o , c o n s t r u ir o s c a s te lo s q u e d e v ia m ser d e p e d ra e
c a l, q u a n d o d e m a is a m a is , d o is , o d e C a m b a m b e e o d a Ban\a, n ã o
e s t a v a m o c u p a d o s , e ta m b é m n ã o e r a d e m a r c a ç ã o o q u e fiz e r a co m
r e s p e i t o a ô s lo t e s n a c a p it a n ia , q u e ia m d e A n g o la a M o ç a m b iq u e . O
s e u e d i t a i e r a a p e n a s o p r o t e s t o p la t ó n ic o d e q u e m s e v i a lu d ib r ia d o
p e lo s G o vern ad o res do R e in o , q u e sem lh e a n u la r e m c la r a m e n te a
d o a ç ã o , p r o c e d ia m c o m o s e t iv e s s e r e v e r t id o p a r a a C o r o a , e p elo s
conselheiros e m A n g o l a , q u e o e n r o d ilh a r a m em g u e r r a s , q u a n d o o
c e r t o e r a q u e e le «ainda muyto tenro e muy d e v a g a r » n ã o q u e r ia fa z e r
o q u e lh e d i z i a m , e a is s o r e s is t iu d u r a n t e tr ê s a n o s .
C o n t u d o P a u l o D i a s c o n t i n u a v a a s e r a in d a o C a p it ã o - M o r e G o ­
v e r n a d o r d e A n g o l a , m u it o e m b o r a d e si p a r a si r e c o n h e c e s s e q u e já
n a d a e r a e s ó t i v e s s e a a c o m p a n h á - l o o d e s g o s to q u e o fo i m in a n d o e
q u e , e m m a is q u a t r o a n o s , lh e t r o u x e o s o s s e g o d a m o r te . F o r a m q u a tr o
a n o s d e u m a l u t a q u e a s s o m b r a p e lo v a l o r e p e la t e n a c id a d e e p e r s is ­
tê n c ia . À c o n q u i s t a d e C a m b a m b e e d a e m b a la d o D o n g o tu d o s a c r i­
fic o u , o s s e u s e a si p r ó p r io , e, c o m t a n t a m a io r v ir t u d e , q u e é c e r to
n ã o p o d e r j á e s p e r a r p a r a s i c o u s a a lg u m a e s ó t r a b a lh a v a p a r a s a lv a r
a q u e le s q u e tin h a a r r a s t a d o n a su a a v e n tu r a .
S e d u a s b a t a lh a s , g l o r io s a s , a d e M a s s a n g a n o e m 85 e a d o L u c a la
e m 8 6 , lh e p õ d e m t e r d a d o a lg u n s m o m e n to s d e e s p e r a n ç a s , d o is fo r-
Parte I I — Angola ÍÓ5

m idáveis desastres — o de João C astanho no ataque a C a m b a m b e e o


de Peixoto em Benguela, devem ter tornado bem am argos os últim os
dias do incansável lutador.
A o falecer, em 589, é ainda agarrado à idea de fazer p revalecer a
sua doação, que nomeia seu sucessor ( i) 0 seu dedicado com panheiro
Luís Serrão, mas, embora 0 não especificasse, sòm ente na parte qu e
dizia respeito ao território entre o Dande e o C u a n za , sôbre o qual na
carta da donataria se determ inava « . . . e sendo caso que 0 dito Paullo
« Dias falleça antes de vinte annos a pessoa que elle deixa nomeada para
«prosegair na povoação desta terra e capitania não poderá ser de menos
« callidade que elle terá e averá a dita terça parte das rendas e direitos
« até os ditos vinte annos serem acabados». P ara o resto lá tinha os seus
herdeiros (2).*2

(0 Domingos de Abreu de Brito no mss. cít. escreveu: <*Pela qual re$ão lhesoçedeo em seu
lugar & guoverno Luís Serrão, capitão môr que hem então do campo petlo deixar assi o Guo-
vernador passado em seu testamento com a qual eleição o Reino & conquistadores forão todos
muito satisfeitos
O autor do Catálogo dos Governadores diz que Luís Serrão foi eleito pelos capitães e mais
pessoas principais.
É certo que Paulo Dias, pela carta de doação, podia deixar pessoa que não fosse de tttenos
qualidade que ele para proseguir na povoação desta terra a capitania e nao tinha consigo pa­
rente em condições de poder ser encarregado desse trabalho e que pudesse ser aceite pelos ou­
tros capitães.
(2) Por informações que obsequiosamente prestou o Ex.w®Sr. D. António Xavier da Gama
Pereira Cominho, d ig C o n se rv a d o r do Registo Comercial no Porto, Paulo Dias de Novais
faleceu sem filhos e sem que tivesse sucessores pela linha paterna, pelo que passou a Casa, por
sentença do Juízo das Justificações, para seu primo direito, Jorge Nogueira de Novais, filho de
Fernao Pires, irmão de sua mae e de D. Jnês Nogueira, da família dos Nogueiras de Santarém,
Principais do Reino. Jorge Nogueira de Novais era bastante idoso e pouco sobreviveu a Paulo
Dias. Sucedeu-lhe seu filho Rodrigo de Resende Nogueira de Novais, um dos revolucionários
de 1640, a quem D. Afonso VI confirmou a Capitania de Angola em 19 de Outubro de i 656
13
(Tõrre do Tombo, . .° das Portarias, fl, 279; Annaes Marítimos e Coloniaes, 4.* série, 1S44,
36
n.° 1, parte não oficial, pág. ), sem que contudo tomasse posse. Sucedeu-lhe o Capitão Gaspar
de Carvalho Resende de Nogueira de Novais, de quem nada consta sôbre a Casa de Paulo Dias,
e, depois, um filho, também Rodrigo de Resende Nogueira de Novais, que reclamou a capitania,
obtendo como recompensa o hábito de Cristo com 12# de tença, acrescentada mais tarde para
1
86# (Tôrre do Tombo, Chancelaria da Ordem de Cristo, . 73.°, fl. 256 e Chancelaria de
1
D. Afonso VI, . 48.®, fl. 45). A este sucedeu Gaspar de Carvalho de Resende Nogueira de No­
vais, que teve um filho, Rodrigo Nogueira de Perdigão de Resende e Novais, que de novo pediu
1
a capitania de Angola, não chegando a obtê-la (Biblioteca Nacional, Secção Ultramarina, . 21.°
dos Portes do Conselho Ultramarino, fl. i 53 v.°). Faleceu sem filhos, e a Casa de Paulo Dias
passou para sua sobrinha, a 2.* Marquesa de Soydos, casada com o Marquês de Soydos, em
cuja família se conserva.
v\>

* *

Sendo forçados, pelo exposto, a concluirmos que da donatária de


Angola não resultou vantagem alguma para a colonização, e, nem ao
menos, o interesse material do donatário, não podemos contudo afirmar
que não satisfizesse ao fim para que foi criada, de fornecer trabalhado­
res para o Brasil.
Dadas as circunstâncias em que estava sendo feita a colonização
da América, o papel de Angola não poderia ser outro diferente do do
Congo, — fornecer escravos; e, a nossa fixação como colonos, só se
conseguiria à medida que o desenvolvimento do próprio negócio do
escravo o pedisse, muito embora Angola, sob o ponto de vista, agrícola,
se apresentasse diferente do Congo e em condições climatéricas que
auxiliassem essa fixação. Êsse facto sabiam-no bem os que trabalha­
vam na nossa obra de colonização, e, porque o sabiam, trataram de
acenar com os lucros certos e mais fáceis, mais dentro do nosso feitio
guerreiro e de aventura, do negócio do escravo, provocando a guerra
e convencendo da impossibilidade do estabelecimento de relaçõesr pací­
ficas com o Ngola, como tínhamos estabelecido com os do Congo, para
forçarem ao único papel que no momento convinha que Angola re­
presentasse, o fornecimento de negros para trabalharem a terra da
América.
Muito embora Paulo Dias se tivesse obrigado a, no fim de seis
anos, ter estabelecidos em Angola, cem moradores com suas^mulheres
e filhos, que se dedicassem à agricultura com plantas e sementes de
S. Tomé e do reino, não o cumpriu e nem mesrfio, talvez, tivesse opor­
tunidade para o cumprir; mas o que êle fêz, porque isso lhe era neces­
sário para arranjar escravos, foi levar os quatro centos homens que
podessem pelejar para entrarem pela terra dentro, quando tôda essa terra
lhe estava aberta e franca havia quási um século; o que êle fêz, foi le­
var, com exclusão de quaisquer outros, os padres da Companhia de
Jesus (se não foram os jesuítas que o levaram a êle) que já dominavam
no Brasil e que precisavam, para ali firmarem o seu poder político e
económico, possuírem a fonte de sangue negro que deveria fertilizar a
terra, que era mesmo necessário que a fertilizasse, para se poder fazer
o que se fêz.
Não se tratou, pois, de fazer de Angola uma colónia como estáva-
Parte I I — Angola 167

mos fazendo no Brasil, ou como já tínhamos feito em S. Tomé, em quer


acima de tudo, prevalecia o poder real; tratou-se apenas de uma ocu­
pação militar, de que não havia necessidade, nem mesmo oportunidade-
de a impor, quando Paulo Dias chegou a Angola.
Os jesuítas, ao tomarem sôbre si o papel de prepararem todo o'
Mundo Novo para a civilização, inteligentes e cultos como eram, co­
nheciam tôda a história da organização social e administrativa dos
povos primitivos, em todos os detalhes da sua evolução, e, contrària-
mente ao nosso processo de impormos as nossas ordenações e a nossa
civilização, preferiram, porque isso melhor servia os seus fins, integra­
rem-se na vida indígena, começando por obterem a recomendação, ar­
mando-se, assim, em protectores ou amos, como lhes chamavam. Esta­
belecido êsse princípio rudimentar da autoridade, a simples título de
defesa dos fracos, a pouco e pouco iriam adquirindo o direito de só
êles dirigirem os indígenas nas diversas manifestações da vida, quer
políticas, quer económicas, e, conseqüentemente, o dever de estes se
lhes subordinarem, afastando-os ou fazendo-os esquecer os deveres de
súbditos de uma autoridade suprema, o Rei, para o caso representado
pelo Capitão-Mor ou Governador Geral, para a substituírem pela sua,
por êles, que tinham «grande fama de sere bós homés & amparo & pro-
« teyçam de brancos e pretos ...» (i).
Procederam assim no Brasil, exigindo, como complemento, as mais
severas leis de repressão da escravatura, para só êles, verdadeiramente,
a exercerem, com o pretexto de educarem os índios e trazê-los à civi­
lização; queriam dominar em Angola, mas aí, porque havia as melhores
relações entre os nossos e os indígenas, impedindo o seu domínio abso­
luto, ao contrário do que fizeram no Brasil, provocavam e incitavam à
guerra e à luta, para, conquistados, os indígenas lhes serem dados em
pagamento dos seus serviços e poderem depois dispor dêles em bene­
fício da sua obra no Brasil. Processos na aparência opostos conduzindo
aos mesmos resultados.
O desejo, a ânsia insofrida da conquista, na gente que acompanhava
Paulo Dias, o que, aliás, era da época, levavam a provocar os indígenas
à rebelião, com o fim de fazerem presas de guerra, que de contrário só
poderiam obter pelos processos normais da permuta. Incitados pelos
próprios jesuítas, e com êsse intuito, se lançaram numa louca penetra-:
cão por todo o interior, sem a organização de apoios, «por que em céto

(i) Relaçam annual... do P* Fernara Guerreiro.


168 Angola
« e setenta leguoas que os guovemadores tinhão ganhado, antre as quães
« não avia mais que hum só forte que he o de Masangano» (i) e contando
apenas com a ousadia e bravura dos \ambos, cuja d evastação os negros
com paravam à de uma manada de elefantes em correria desordenada
pela terra dentro.
A falta de apoios militares, de fortalezas, que permitissem e garan­
tissem esta temerária avançada pelo interior, só poderia ser suprida
entregando Paulo Dias à acção dos jesuítas os sobetas conquistados,
a cç ã o que, para ser eficaz, precisava de ser revestida dos mais largos
poderes de autoridade, que lhes desse um domínio absoluto. E, etn-
quanto na primeira linha de fogo, os Padres Baltazar Barreira e B al­
ta zar Afonso, ora um, ora outro, sob a invocação e poder da cruz que
alçavam , arrastavam capitães e tropas ao com bate dos infiéis, os outros
recebiam o papel de pacificadores, de amos dos vencidos e subjugados,
que, assim , encontravam na sua protecção a garantia de sossêgo, a cer­
teza de não serem mais atacados. Os sobas que se conform avam iam
viven d o em relativa paz, que, desaparecida a m aioria da sua gente, por
terem sido m andados para a América, os que ficaram, perdido o res­
peito p or verem enfraquecida a sua autoridade, se revoltavam , m atan­
do-os, ou fugindo, e os que não se conformavam, rebelavam -se, deser­
ta v am em massa e iam aumentar as tropas inimigas, continuando assim
as guerras que davam motivo a mais presos.
Com preende-se, por esta forma, o fim com que tinham auxiliado a
d o a çã o a Paulo Dias da donataria de Angola, e, agora, patenteadas
aos capitães e moradores as vantagens da conquista sobre a permuta,
continuasse a sucessão nos herdeiros de Paulo Dias, ou passasse A ngola
p a ra o regim e de govêrno geral, não podia, emquanto a Am érica pre­
cisasse de m ão-de-obra, deixar de ser aquilo a que era obrigada pela
sua situ ação geográfica e a sua densidade de população. Dado o con­
curso de circunstâncias económicas e políticas em que se estava fazendo
a colon ização da Am érica, a Com panhia tinha garantida a execução
dos seus planos de predomínio nessa colonização.
A ssim , a donataria de Angola, se não satisfez ao papel que D. Se­
b astião julgou ter-lhe destinado, satisfez àquele para que, realmente,
foi criada, e, foi devido a êsse facto, foi devido a nunca, então, se ter
pensado em fazer de Angola uma colónia de povoam ento, que não só
conseguim os fazer o Brasil, como os espanhóis, e todos os outros que

( i) Mss. de Abreu de Brito, cit.


V
Parte 11— Angola i69
atrás de nós e déles vieram, conseguiram fazer 0 resto da América que
lhes coube, ou de que se apossaram.
Angola, a Mãi preta!
*
* *

O falecimento de Paulo Dias deixou os Governadores do Reino, em


_ Lisboa, indecisos sôbre a sucessão, porquanto, dispondo mais ou menos
das cousas de Angola como se a donataria tivesse revertido para a
Coroa, o certo é que não havia sentença de qualquer tribunal compe­
tente que desse lugar a essa reversão, antes pelo contrário, o Juízo das
Justificações encabeçara a sucessão em Jorge Nogueira de Novais, que
só por ser já idoso e falecer pouco depois de Paulo Dias, não tomou
posse da capitania.
Emquanto no reino se assentava na resolução a totr»ar, Luís Serrão,
em Angola, preparava-se para executar o plano da conquista delineado
ainda por Paulo Dias durante o tempo em que viveu, depois da vitória
que alcançou em Setembro de 1 586 , no Lucala, contra os sobas coli­
gados. Mandou a Luanda Luís Mendes Raposo, um dos conquistadores
que tinha ido com Paulo Dias, com o fim de trazer tôda a gente que
pudesse servir como soldados, e conseguindo este 78 homens, pôs-se
em marcha para se juntar a Luís Serrão, que ficara no seu acampa­
mento (1), perto do Lucala e para além da actual Ambaca, com o Ca­
pitão-Mor André Ferreira e o Sargento-Mor Francisco de Sequeira,
com o seu exército preparado para a ofensiva, para 0 qual efeito tirou
de muitas fraquejas forças.
O ataque era agora dirigido contra 0 Matamba, o qual, avisado ou
percebendo os desígnios de Luís Serrão, resolveu tomar êle a ofensiva
antes que Luís Raposo chegasse com 0 reforço que fôra buscar a Luanda,
ligando-se para êsse efeito com gentio do Congo, da Ginga e com os Ja-
gas, e organizando um exército de cêrca de um milhão de negros.
Luís Serrão, entretanto, como Luís Raposo demorava, reüniu o
conselho dos seus e resolveu mandar marchar quinze mil frecheiros
pretos e cento e vinte oito homens brancos arcabuzeiros, entre os quais

(1) Luís Serrão deveria ter o seu acampamento muito perto da fronteira da Matamba,
senSo mesmo além e para admirar é a sua ousadia. Abreu de Brito diz-nos que ficava a 70 lé­
guas de Massangano. Ravenstein, num dos mapas que publicou, raarca-o como devendo ser
pròximamente no ponto que as nossas cartas actuais designam por Cango. Em qualquer dos
casos era uma louca temeridade um tal avanço entre gentio rebelde.
22

y y *'
yar -r

f t
170 Angola
iam três de cavalo, levando por seu capitão a Francisco de Sequeira,
pessoa que por seu esforço merecia. Iniciada a marcha desta fôrça,
teve Luís Serrão notícia da concentração do gentio, e tendo mandado
contra-ordem a Francisco de Sequeira, preparou-se para o combate,
que teve lugar a 28 de Dezembro de i 5go,— dia dos Inocentes, como
recorda Abreu de Brito, sofrendo grossas perdas que 0 obrigaram a
retirar.
Dizem os cronistas (1) que propositadamente e com o fim de evitar
a perseguição imediata do inimigo, Luís Serrão abandonou o arraial de
Angoleme-Aquitambo, deixando lá a fazenda trazida por vinte e quatro
naus que estavam no pôrto de Luanda, fazenda que acompanhava as
guerras, confiada pelos negociantes de Luanda aos conquistadores, a
maioria dêles seus empregados, ou como tais indo nas guerras, com o
fim de, quando se venciam as batalhas ou se tratava das pazes com o
inimigo, a trocSrem por escravos.
A pilhagem do arraial demorou três dias, dando assim tempo a que
Luís Serrão pudesse efectuar a retirada em ordem, embora em marchas
mais que forçadas, vindo na vanguarda João da Viloria com quarenta
arcabuzeiros, depois a guerra preta, e por fim a retaguarda, sob o co­
mando de Luís Serrão. Chegados a Aquimbolo, aí encontraram Luís
Raposo apenas com 12 dos 78 soldados que trazia de refôrço, parece
que por ter tido luta pelo caminho. Continuando a retirada, chegaram
a Mbamba Tungo, onde j á tínhamos tido um presídio e estava a duas
léguas de Massangano, sendo ponto de fácil abastecimento; porém,
como o poder dos inimigos fosse tamanho não deixava de haver perigo de
serem no tal forte cometidos, pelo que retiraram aipda para Massangano,
onde um mês depois faleceu Luís Serrão.
Foi bem desastrosa esta campanha de Luís Serrão, e os poucos dos
nossos que escaparam da morte, ficaram cativos (2). André Ferreira
Pereira, que por eleição lhe sucedeu, recebeu o pesado encargo de se
defender dos ataques de todo o gentio das cercanias e da liamba e
Ngulungo, chefiados por Muzi Zemba (Muge Asemba) (3), contra nós
revoltados. Ora acolhendo-se aos muros de Massangano, ora perse­
guindo-os até às suas libatas e raziando-os, André Ferreira soube

(1) Abreu de B rito e Catálogo.


5 25,
(2) Biblioteca da A juda, Cód. i -viu- fl. 79 e Luciano Cordeiro, Memórias. Da Mina ao
Cabo N eg ro.
3
( ) Ravenstein, op. cit.
Parte I I Angola

171

m a n te r, n o m e io d êste d e s c a la b ro , o p r e s tig io do nosso nome g-_


u m d e s a s tre m aioT , a té que o s G o v e r n a d o re s do Reino, e stu a ® ^
tu a ç ã o p e lo in q u é rito a q u e m a n d a ra m p r o c e d e r , enviaram p a r a ng
u m G o v e r n a d o r G e r a l , c u j a a c ç ã o d e v e r i a s e r o r ie n ta d a d e n tro e a se
diferen tes.

y^~.' ■ "*.....
O GOVÊRNO GERAL DE ANGOLA

Como já ficou referido, os Governadores em Lisboa ou em Madrid,


tendo satisfeito o pedido de Paulo Dias do refôrço de gente para a
guerra, que êie, naturalmente, justificou com a riqueza das minas que
ia conquistar, aproveitaram a oportunidade e mand^am para Angola
um provedor para as mesmas minas, cujas funções se estendiam a ou­
tros ramos da administração; mantendo, contudo, Paulo Dias como
donatário. Ao mesmo tempo arrendaram, por meio de contrato, os
direitos dos escravos exportados, direitos que passaram, assim, a serem
arrecadados para a Fazenda Real, o que não sucedia até então, porque,
como atrás se frisou, as disposições da carta de doação permitiam uma
interpretação de forma a Paulo Dias os poder arrecadar para si ou
para a Companhia de Jesus, que com êle, ou por intermédio dêle, ex­
plorava a donataria.
De posse do que se supunha serem as principais fontes de receita
de Angola, faltava contudo á Coroa Real ainda uma outra que não era
menos importante,— os impostos pagos pelos_s_obasjavassalados, com
o que os Governadores, certamente, não quiseram investir, por preve­
rem a oposição que se levantaria a qualquer medida nesse sentido.
Não era, talvez, só pela parte material ou monetária que a Coroa
desejaria liquidar êste assunto. O facto de não ter vassalos em Angola,
c os diversos sobas pertencerem a particulares, ou antes, na sua quási
totalidade, aos padres da Companhia de Jesus, que, na sua qualidade
dc am os ou protectores se substituíam à autoridade real, tinha um as­
pecto moral grave.
Os conquistadores que não estavam nas boas graças da Companhia
de Jesus, e, por isso, não tinham sido contemplados cora essas doações
de indígenas e o seu trabalho ou concurso nas guerras fôra retribuído
com os panos do Congo ou com os búzios, que não podiam fàciimente
174 Angola
converter em moeda, devem ter feito queixas, ferindo a tecla das usur­
pações à Coroa Real dos seus direitos sôbre todos os indígenas con­
quistados, que deveriam ser seus vassalos e não o eram. Devem ter
demonstrado que nada havia em Angola como domínio efectivo e real
da Coroa; que os indígenas, ou eram pertença da Companhia de Jesus
e dos seus amigos, ou estavam em completa rebelião; e que no fim de
tanta luta, nem o território estava conquistado, pois não-se podia
chamar conquista à avançada de Massangano, que só se mantinha pela
sua posição na confluência dos dois rios, — o Lucala e o Cuanza, e a
ligação pela via fluvial com Luanda.
Tendo, entretanto, falecido Paulo Dias, e terminado com êle a do-
nataria de Angola, seria oportuno o momento para uma intervenção
imediata e rápida, no sentido de firmar o prestígio da Coroa Real, se
os Governadore^do Reino estivessem seguros do valor das informações
colhidas nas diversas queixas que até êles subiram, queixas movidas
por interêsses feridos, mascarados com o amor da justiça e da ordem
na administração. Era preciso proceder com circunspecção, com muito
critério, porque a luta iria ser forte. <:Valeria Angola o que se dizia?
Tornava-se necessária a inspecção ou visita a Angola, feita por -J
pessoas estranhas à contenda, e os Governadores cometeram essa missão
ao Licenceado Domingos de Abreu e Brito, que para lá partiu em 1590, <
estando no Brasil, e retirando em i 5g i, entregou o seu relatório (1),
que é um dos mais interessantes documentos sôbre a história da nossa
administração colonial.
Começando por afirmar que o reino d e A n g o la é m uito g ra n d e e rico
e s ã o e a b a sta d o d e todo o m odo d e m antim entos, caça, p e ix e s e aves, em
g r a n d e q u a n tid a d e , p o r a terra ser fertilíssim a em g ra n d e abundancia e
m u ito p o v o a d a e ta n to q u e se afirm a ser a mais povoada do m undo. Que
tem m u ita s m in a s de p r a ta em quantidade e d e todos os m ais m e ta e s . . .
etc. (2), entra logo a expor a necessidade de se fazer a ocupação regular
e metódica, com bastante gente, mil homens e sessenta cavalos, cons­
truindo-se doze fortalezas: a de Luanda, que não estava ainda feita,;
outra nó Calumbo, nas margens do Cuanza, para o desembarque da
prata que viesse de Cambambe; outra em um pôr to no Cuanza para
garantia da navegação do rio; outra nas minas de sal, que era riqueza

( i) B ib lio te ca N acion al, Reservados, mss. 334, já cit. Sumário e descrição, etc., recente­
m en te ed itad o p e la Im prensa da Universidade de Coimbra.
(a) M ss. cit.
Parte I I — Angola tj5

de tanto valor como a prata; outra na Quiçama; em Cambambe; na


embala do soba de Angola; na liamba, e as restantes em pontos cuja
identificação se torna hoje difícil. O recrutamento da gente necessária
para a campanha, far-se-ia oferecendo aos portugueses que estavam
no Congo, que eram mais de cem, e aos de S. Tomé, e que viessem
com os seus escravos, algumas mercês e honras, como: hábitos, foros e
moradias, e, o resto, ir-se-ia buscar ao Brasil «quinhentos N a m alucos(i)
« culpados & om ifiados , por culpas graves, & livres , e outros de muito máo
« viver que as ju stiça s por seus R ois apontarão & não deixara de ser
« grande serviço de D s, desaprcsarem estas terras de tantos malfeitores, os
« quaes sofrerão bem os trabalhos da guerra, p o r serem curçados nella» e
não chegando, completar-se-ia o contingente indo buscá-los « a Lisboa
« ou entre douro e minho, ou pellas cadeas do Reino, & entre estes ha algüs
«soldados espanhóis., por quanto pella experiencia que tem da milicia,
«pella qual re\ão são m ui bem R .d0‘ em o Reino, & v*m a ser capitães
«como he hum João de Villoria (2) que tem fe ito muitos serviços».
Calculava a despesa, incluindo presentes para sobas, em cerca de
75.000 cruzados, despesa compensada com os escravos que se fariam
na guerra, além de outros rendimentos que depois da ocupação viriam,
como: os da prata das minas de Cambambe, « que em vantagem são
« mais que as do P eru . . . que V. M s.ie deve ter sabido pelas larguas amos-
atras que delia lhe trouxerão »; de outros metais de fundição *por quanto
«vi em santo Antomo que esta na villa de Loanda meo sino pequeno que
« 0 som e tenido delle se ju lg a ser mais de ouro e prata que m etal »; os do
sal que «as serras são grandes em cantidade a onde se corta & cava o
« sa l; 0 qual he em tanta cantidade que toda a thiopia & parte da Pérsia
« se sustenta & com e lle fa \ seus resgates necessários a sua sustentação . .. »; '
« as alagoas & serras de Breu que estão entre Conguo sogeitos ao Reyno
« D anguolla 0 qual se afirma ser de mais proveito que 0 que vem de partes
« estrangeiras, & deste Alvitre resultão dous effeitos acreçentar em os betis
« da coroa & evitar os tratos que os Reinos estrangeiros tem que só vedando-se
« este B reu que não vá ao Reino danguolla nem a nenhúa parte das capi-
« tanias do estado do Brasil mais que este Breu quesahir destas A la g u o a s ...»
e a vantagem de se facilitarem as ligações com o Monomotapa, onde

(1) Filhos de europeu e mulher indígena.


(a) João da Vilória, diz-nos Ravenstein, que foi o comandante da vanguarda na retirada de
Luís Serrao, de Anguoleme Aquitambo sôbre Massangano. Como se ve era espanhol e tinha
vindo das cadeias do reino para Angola, onde não só foi utn dos valentes capitães, mas mais
tarde um dos moradores mais importantes de Luanda.
%

17 Ó Angola
h a v ia as serras de ouro, e com Moçambique, de forma a «por esta via &
■ahordem poder V. M s dt ter todos os avisos da ín d ia que neçessario f o r }
«pera o que f a le y & tratey com as mais antiguas pessoas do Reino, & assi
««com algQs escravos soasos que são como salteadores de Portugal & pella
« cota de suas jorn a d a s di{em como se sabe çerto que da villa de Loanda,
« ao R io lucala que he aonde se perdeo esta derradeira batalha serem cento
« & çinco leg uoa s , & dahi as serras de ouro de manopota são somente cem
« leguoas, & de Manopota a Mosambique são du\entas que vem a ser tre-
« sentas as quães ha negros soasos que vivem de caminhar que sem carga
« andão a vinte leguoas cada dia que fica sendo na jornada quinze d i a s . ..
« & por esta via em todos os tres meses de cada hum anno com tão pouco
« custo poderá V. M s.de saber e pussuir 0 de q. trato que não parece ser tam
«p ouco proveitoso ». Não esquecendo de referir que « São as terras destes
« R eynos tão fo rtife ra s em cantidade que produ\em de si mesmo canas da-
« çucar que dão Aperanças que as darão com menos trabalho sendo culti-
« vadas & desta maneira poderá aver esperanças que seja outro segundo
« B ra sil porque na terra a aguaas e lenha em abastança, & quanto aos
« escravos sobejão pera as minas & pera os engenhos, & pera as fundições
& pera a g u e r r a . . . » conjunto de indicações que constituíam,um vasto
plano de colonização.
Term ina Abreu de Brito por lembrar que « devia de aver por bem
v que todos os serviços que neste Reino D anguolla fossem feito s gratifi-
« callos como se fossem feito s em Á frica (refere-se ao norte da África) per
« quanto os homês não andão menos arriscados por os que captivão em
« Á frica tem esperanças de em algum tempo serem resgatados com fa \ .da
« de V. M s.de ou com bens que os cavaleiros posuem, e çerto que com R e-
« \ão são estes conquistadores (os que batalhavam em Angola) nas guerras
v dignos de mais louvor que os mesmos malteses por que nelles ha espe-
« rança de resgates, e os tães conquistadores sabem çerto que quando lhes
« as victorias não ventão conforme a seus esforços pretendem acabar as
« vidas vendendoas cada hum per si como verdadeiros portugueses por que
« se os inim igos os captivão vivos não tem esperanças de Resguates & os
« com é comidos em panellas as quães tra\em a guerra e lhas amostrão di-
« fedo estas são as panellas em que vos avemos de comer co fid o s . . . » pelo
que eram dignos de toda a atenção e cuidado, visto em defesa dos
bens da Coroa, passarem fomes e misérias, por não lhes pagarem os
seus soldos, classificando-os de verdadeiros Romanos; e, comparando
a vida dos moradores de Luanda, que tratavam do negócio, com a dos
conquistadores, que andavam na guerra, lembra que, ao passo que
Parte I I — Angola l 77
aqueles enriqueciam, os conquistadores empobreciam, e ainda por cima
os moradores « como poderosos & moradores no porto & escalla de todas
« as naos e navios onde se desembarca os mantimentos & f a {.*“ da qual
« escolhem e tomão o melhor pera si, e do somenos e podre & mal tratado
a envião arriba a conquista e dobrão duas veies o dinheiro . . . » verdades
estas que parecem escritas para época que não vai muito longe.

«
• #

Mas nem só a ocupação do território mereceu o estudo do inqui­


ridor, e outras medidas sôbre a arrecadação dos rendimentos e sua
maior valia, foram por êle propostas.
Assim, lembrava o monopólio do zimbo, que o Rei do Congo pes­
cava na ilha de Luanda, e lhe rendia 6o contos, podendo passar a
render 400.000 cruzados para a Coroa.
Era talvez uma sugestão do velho ódio dos jesuítas ao Congo, mas
não deixava de ser para ponderar a proposta, porque, dizia, estando a
ilha de Luanda no reino de Angola e tendo nós tomado posse deste,
nada justificava que a consentíssemos na posse do Rei do Congo, fora
dos limites do seu reino, e, quando êle não só tinha faltado a todos os
tratados estabelecidos com os nossos, como auxiliava os nossos inimigos
nas guerras em que nos víamos envolvidos.
O Rei do Congo tinha na ilha de Luanda para a exploração do
zimbo, uma espécie de conselho administrativo composto por três dos
seus fidalgos, tendo por escrivão um preto, Fernão Duarte, homem de
entendimento e que fugira do Pôrto para o Congo, talvez tendo vindo
para Portugal como escravo e cá sido educado. A pesca do zimbo
fazia-se apenas em quatro léguas do norte da ilha em seis ou sete braças
de fundo, mas podería fazer-se em muito maior escala, constituindo um
monopólio da Coroa, como eram as drogas da índia, com o que não
só se obteria rendimento importante, mas ainda se conseguiria acabar
com a situação privilegiada adquirida por alguns moradores de Luanda,
que à custa de peitas e dádivas, e, por intermédio das escravas da ilha»
com quem sê amancebavam, tinham enriquecido, estabelecendo o ne­
gócio de venda de mantimentos e fazendas em troca de zimbos (1) e

(1) O sr. Forjaz de Serpa Pimentel, em um artigo Um anno no Congo, publicado no n.°6a
de Fevereiro de 1899 da revista Portugal em África, transcreve do tnss. existente na Biblioteca
178 A n gola

acabar, também, com a situação no Congo de uma centena de portu­


gueses que, desde que o Rei do Congo não tivesse mais zimbo, tinham
de procurar outro modo de vida, vindo para Angola. Uns e outros,
acudiriam às guerras «que he 0 pera que deste Reyno (Portugal) forão e
«tornarão a husar dos resgates dos escravos, por que ainda que seja com
« mais trabalho comerão 0 seu pão com suor do seu rosto ».
Sôbre a escravatura diz que é um dos maiores negócios «0 qual não
« cançaria até fim do mundo pella terra ser muito povoada. . . e como este
« reino de Anguolla fosse tão grande cousa, pertendeose de se não mostrar
« a vossa fa \ ? a a grandeza de seus rendimentos ».
Havia quatro anos que os direitos dos escravos estavam arrenda­
dos, e, durante êles, tinham sido registados nos livros os despachos de
20.1 3 1 peças, consideradas como tendo ido tôdas para o Brasil, pelo
que figuraram como pagando 3 #ooo réis cada uma, o que dava o ren­
dimento de 6 o.$g3 v>ooo réis durante os quatro anos. Descontando a
renda, que era de 11 contos por ano, ficavam para os contratadores de
lucros nos quatro anos i 6 . 3 g 3 $ooo (1).
Os contratadores não queriam que se conhecesse a verdade sôbre o
valor dos direitos dos escravos, para os poderem arrematar pelo menor
preço, e, assim, combinando-se com os oficiais de fazenda, com quem
mantinham as melhores relações, a ponto de estes lhes confiarem o ferro
de marcação dos escravos, marcavam quantos queriam e em cada navio
se escondia um têrço dos que iam.
Além disto, não iam todos para o Brasil, para onde pagavam 3 $ooo
réis, mas muitos para as índias de Castela-Antilhas, para onde deviam
pagar 6$ooo réis, o que nunca se declarava. Os contratos não se fa­

da Sociedade de Geografia de Lisboa — Historia de Angola por Elias Alexandre da Silva C or­
5 3
rêa— 1872 — N.o iç — Res. Prai.° A. N.o z — a informação de que: i bondo valia io lifucos,
5 5
100 fundas, 100.000 zimbos, #>ooo réis; i lifuco, 10 fundas, 10.000 zimbos, oo réis; i funda,
5 25 20 5
1.000 zimbos, o réis A funda subdividia-se ainda em equivalente a , , 12 e réis. Abreu
3
de Brito no mss. a que nos estamos referindo diz que dois lifucos valiam oo réis e que um
covo «he cantidade como quando se d ij 10.000 crujados». Pelo auxílio prestado pela expedição
de Francisco Gouveia ao Rei do Congo, obrigou-se êste a dar ao Rei de Portugal o quinto do
zimbo pescado na ilha de Luanda. Não consta que qualquer governador tivesse procedido à
arrecadação deste rendimento, quando se sabe que todos se queixavam das hostilidades do Rei
5
do Congo. Diz António Diniz numa memória coligida no cód. t-viit-aS da Biblioteca da Ajuda
e publicada por L. Cord. nas Memórias do Ultramar; «e se se começou a cobrar não achei re-
«ceita que se fizesse de tal recebimento». Talvez fôsse assim; o que sucedeu f o i . . . perder-se a
receita do recebimento. Era dos tempos.
(1) João Lúcio de Azevedo, ob. cit.} pág. 487. Valor aproximado da moeda de diferentes
épocas em escudos de 1928. Por essa tabela aquele lucro corresponde a esc. 3.885.141^00 de
hoje.
Parte I I — Angola 179
ziam na Casa dos Contos em Lisboa, mas no Brasil, onde o contratador
tinha os seus procuradores e onde havia alfândega, que Luanda ainda
não tinha. O procurador, ou feitor do contratador no Brasil, avença­
va-se para o pagamento dos direitos, de forma que quando o navio,
vindo de Angola, chegava ao Recife, como já o carregamento não rendia
mais dinheiro por direitos, visto a avença, não o vistoriavam, e o feitor
em Luanda, tendo carregado quanto podia, cobrando dos carregadores
os direitos devidos, só manifestava o que queria, não dando a conhecer
o valor do seu negócio. Assim, pode-se calcular o lucro dos contrata­
dores em mais 5 o %■
Era preciso remediar estes inconvenientes com uma fiscalização
mais eficaz, propondo nomear-se um procurador para fiscalizar os em­
barques na ilha, e outro para andar nas guerras e arrecadar o quinto
das presas, de que ninguém dava contas.
Lembrava Abreu de Brito arrendar-se em separado o trato dos es­
cravos de Angola, do de Benguela, bem como o do marfim, que era em
muita quantidade, e terminava aconselhando, quanto ao reino de Ben­
guela cujo resgate « era tão grandioso e havia dêle tão grandes esperanças,
« que se di{ia seria igual ao de Angola » conviria que se feitorizasse por
dois ou três anos, para se calcular por quanto se devia arrendar, e ainda
q u e: « vossa magestade pode mandar hum dos Eluslres de P ortug al por
« viso R ey, por que desta maneira provendo V. Ms.de outro sr. guovernador
«para o Reyno de Conguo & outro visorrey pera os Reynos D anguolla,
« com esta fa çellida de se posuira Conguo, Anguola , Bengella , as minas
«d e Manapota, abrir sse o caminho de Mosambique . .. ».

*
* *

Concretizando, as propostas de Abreu de Brito respeitantes a An­


gola, consistiam:
a) Na proibição do avanço das conquistas, sem os elementos ne­
cessários para manter as anteriores e assegurar as novas;
b) Na conquista do reino de Angola com um bem organizado con­
tingente de tropas, de mil soldados de infantaria e sessenta de cavalaria,
devidamente municiados e armados, e de forma a poder-se terminar a
guerra em três ou quatro meses;
c) Na construção de doze fortalezas, devidamente artilhadas e guar-
18 o Angola
necidas, para assegurarem a posse do território conquistado e a submis­
são dos indígenas;
d) Na determinação de se considerarem como prestados em África (i)
e como tais gratificados, os serviços prestados em Angola;
e) Na abertura de um crédito de 70:000 cruzados para as despesas
resultantes desta ocupação, o que correspondia a cêrca de 6 :6 3 6 .ooo$oo
escudos (2);
f ) No monopólio do breu de Angola, proibindo a entrada no Brasil
de outro de qualquer procedência, e no monopólio do sal da Adenda,
por ser a moeda preferida para os resgates;
g) Na remodelação do serviço de fiscalização e cobrança dos di­
reitos sôbre os escravos exportados e de arrecadação do quinto das
presas de guerra;
h) Na liberdade de exploração de minas, obrigando-se os explora­
dores ao pagamento do quinto para a Coroa;
0 Na expulsão da gente do Congo da ilha de Luanda e exploração
do negócio do zimbo por conta da Coroa;
j ) Na nomeação de um Governador para o Congo e no estabeleci­
mento da Inquisição, por haver nestas terras casos mui enormes de
desserviços de D eus;
k) No envio de padres da Companhia de Jesus às províncias do
Congo, para que nela façam 0 fru to que tem feito no reino de Angola,
pois que se afirma sei' devido a êles sustentar-se 0 dito reino nos dezassete
anos que esteve sem ser socorrido com o socorro que convinha e fora m os
ditos padres parte de se conquistarem com a doutrina o que faltava nas
armas, por onde fa rã o muitos fru to s por o gentio ter muita f é em suas vir­
tudes e doutrinas;
f) Na feitorização, durante dois ou três anos, dos impostos e rend
mentos de Benguela, em separado dos de Luanda, para se poder cal­
cular o justo valor por que deveriam ser postos em arrematação;
m) No envio de Portugal de três bergantins, a modo de galeotas,
acertados no reino para se armarem em Angola, destinados ao resgate
em Benguela;
n) Na nomeação de um Governador para Benguela;
o) No povoamento dos portos do Jalofo até ao Pinda, para evitar
o estabelecimento de corsários;

(1) Considerava-se como África apenas a região de Marrocos,


(a) Valor em 1928. J. Lúcio de Azevedo, ob. cit.
P a rte 11— Angola 18 1

p) No estabelecimento da ligação de Angola com Moçambique,


pelas minas de Monomotapa, com o que se facilitariam as comunica­
ções com a índia, e finalmente
q) Na nomeação de um Vice-Rei ou Governador para Angola, no~
meação que deveria recair em algum dos ilustres de Portugal.
O conjunto destas propostas constituía um plano completo de go­
verno, que até então se pode dizer não tinha havido em Angola, e era
necessário estabelecer.
A sua execução pedia uma despesa considerável a efectuar pela
Coroa, despesa que Abreu de Brito afirmava seria largamente coberta
com os rendimentos que deixara indicados.
Como se pode ver dos capítulos dos regimentos posteriormente
dados aos Governadores Gerais de Angola, não passou desapercebido
aos Governadores do Reino, que, de entre êsses rendimentos, esquecera
a Abreu de Brito mencionar o imposto a cobrar dos sqfcas avassalados.
Compreende-se que o não fizesse. Não quereria, talvez, referir-se ao
passado e muito menos atacar os jesuítas cuja acção claramente louva,
mas ainda assim, incontestàvelmente probo no desempenho da missão
que lhe confiaram, lembrou a necessidade da fiscalização no apuro dos
quintos dos presos de guerra e outras medidas respeitantes ao embarque
de negros, que, sem dúvida alguma, iam afectar os interesses da Com­
panhia de Jesus, a quem competia a parte na distribuição das presas e
exportava o maior número de negros, e que também não deixaria de
estar entendida com os arrematantes do contrato, que, com certeza,
não arrecadavam só para si a parte em que desfalcavam os rendimentos
da Coroa.
Ponderadas e estudadas as propostas de Abreu de Brito e comple­
tadas com as informações colhidas de diversos, a Côrte devia ter assen­
tado em um plano de exploração de Angola, estabelecendo, talvez, como
que uma sociedade com o Governador a nomear, com o fim de travar
a acção absorvente da Companhia de Jesus, principalmente na parte
dos seus direitos sôbre os povos avassalados.
Escolheu-se para Governador um dos mais ricos fidalgos de Portu­
gal, D. Francisco de Almeida (i), que, bem se compreende, não poderia
ir para Angola pela necessidade de ganhar os oitocentos mil réis do

(i) D. Francisco de Almeida foi nomeado por carta régia de 9 de Janeiro de 1392. Tôrre
do T om bo, Chancelaria dos Felipes, 1. 23.°, fis. i 38 v.°. Chegou a Luanda a 24 de Junho de
,592. ^Ravenstein).
1 82 Angola
ordenado de Governador e, outro m otivo o levaria a aceitar, e talvez
pedir, ésse cargo. Náo se conhecem as instruções que lhe deram. Ape­
nas se sabe, por referências dos cronistas, que Felipe II, de acôrdo com
as indicações de Domingos de Abreu de Brito, mandou equiparar os
serviços de Angola com os da África e índia (1) e «p reg oa r em i 5 q 3
um a provisão que a toda a pessoa que 0 fo s s e servir em A n g o la lhe fa r ia
honra e m e r c ê s », e que D. Francisco de Almeida, além de 400 infantes
e 5 o cavaleiros (2), levou um mineiro, um fundidor, um serralheiro, um
ferreiro e ura mestre de fazer carros e reparos de artilharia (3 ), o que
não deixa dúvidas sôbre a ordem que deve ter recebido, ou o contrato
que deve ter feito, para a conquista das minas.
ri Seria a despesa de sua conta ou de conta da Coroa ? O facto de
a nom eação recair em pessoa que dispunha de avultada fortuna e a
m aneira com o mais tarde se procedeu com a nomeação de outra para
idêntico cargo, autorizam a deduzir que a despesa seria de conta de
D. Francisco de Alm eida, muito embora Felipe II o auxiliasse no anga-
riamento da gente necessária para a conquista e lhe concedesse uma
parte, talvez a maior, para o compensar dos riscos da empresa.
A execução de um plano de administração, embora sob a forma de
sociedade para a exploração de Angola, entre o Governador e a Coroa,
com exclusão dos que lá estavam, depois da política de Paulo Dias e
dos interesses criados à sua sombra, que os cinco anos que se seguiram,
sem governo e sem lei, transformaram em direitos, não podia ser bem
recebida, e, forçosamente, encontraria a maior resistência da parte da­
queles que consideravam e de facto tinham Angola como sua fazenda.
P ara se chegar a Cambambe era necessário bater os indígenas, e
êsses, tinham donos ou amos, tinham sido sesm ados, com o vimos, e cons­
tituíam uma exploração rendosa. Os principais amos eram os jesuítas (4),

(1) E sta referência encontra-se no Catálogo dos Governadores e em uma carta de Baltazar
Rebelo de A ragão, de i 63i , publicada por Luciano Cordeiro, Terras e Minas Africanas, pelo
que parece ser verdadeira, mas só em 20 de Agôsto de 1600 é que aparece um alvará dando a
equiparação dos serviços. Possivelmente este alvará serviu para o Governador João Rodrigues
Coutinho arranjar gente para Angola. A equiparação dos serviços prestados não era uma dis­
posição permanente da lei, mas um favor que o Rei concedia em determinados casos.
(2) Catálogo dos Governadores de Angola.
3 5 25
( ) Biblioteca da A juda, Cód. i-vin- , fl. t i ; Luciano Cordeiro, Escravos e Minas de
Á frica, VII, 1619.
(4) O s padres da Com panhia de Jesus que estavam em Angola, não querendo receber re­
m uneração pelos seus serviços, tinham, por provisões de 1 583 e 1387, direito ao seu sustento,
mas pago em S. Tom é, por não haver em Angola rendimentos da Fazenda Real. P o r um alvará
de 1592, visto então já haver em A ngola rendimento do contrato, passaram os dezasseis padres
que lá estavam a receberem pela fôlha do contratador. Anexos, doc. n.° 23 .
P a rle I I — Angola 1 83
a quem D. Francisco de Almeida, pelas instruções recebidas, não podia
reconhecer êsse título, ou antes, posse, pelo que êles, vendo-se prejudi­
cados nos seus interesses e supostos direitos, que â primeira vista não
deixavam de parecer legítimos, por representarem a recompensa obtida
por serviços prestados, embora escondendo os manejos para a organi­
zação de uma teocracia em que se substituíam ao poder real, insurgi­
ram-se e iniciaram a luta contra D. Francisco de Almeida, que, dizem,
teve de ceder ou contemporizar, para poder dar comêço de execução
ao seu plano de conquista.
Só assim, depois de graves e irritantes contendas, conseguiu marchar
para o interior com o seu exército, cujo efectivo, como vimos, era menos
de metade do que Abreu de Brito julgava como indispensável para se
efectuar ràpidamente, mas com ordem, a conquista de Angola, base de
qualquer plano de administração que se quisesse executar.
A marcha iniciou-se estando já adiantada a estaçáo própria, e os
soldados, após as primeiras chuvas, começaram a ser dizimados pelas
febres e por tal forma, que obrigaram D. Francisco de Almeida a retirar
com urgência para Luanda, onde de novo se desencadearam, e com
mais violência, as questões com os jesuítas, vendo-se D. Francisco de
Almeida forçado a fugir para o Brasil, abandonando o govêrno.
Já vimos que D. Francisco de Almeida se tinha feito acompanhar
de mineiros, fundidores, etc., e êste facto, ligado ao de trazer um con­
tingente de tropas inferior ao necessário para uma ocupação regular,
claramente denuncia, à falta de documentos que o esclareçam, que o
plano concertado pelos Governadores em Madrid e em Lisboa, tinha
principalmente em vista arrancar de Angola o máximo de receitas e
proventos, relegando para segundo plano os problemas de administração
da colónia.
O contingente levado por D. Francisco, se tivesse iniciado a marcha
para o interior em Julho, poucos dias depois de ter desembarcado, po­
deria, começando por bater a Quissama, ocupar as minas de sal de
Adenda, e, reforçando-se com a guarnição de Massangano, atacar Cam-
bambe e apossar-se das supostas minas de prata.
Era isso o que interessava e para o que chegavam as tropas vindas.
Que mais havia em Angola? O rei de Angola? Estava lá muito para
o interior e as riquezas que possuía eram os escravos, que os nossos
pombeiros lá iam resgatar sem maiores dificuldades. Não interes­
sava sob qualquer outro aspecto que se encarasse. Visto que Abreu
de Brito tinha escrito que as minas de prata em vantagem são mais
184 Angola
qu e as do Peru, êsse é que era 0 ponto principal da exploração em An­
gola.
N ão se tratava de montar uma administração mas uma pilhagem,
em que Felipe II de Espanha admitia sócios, com a condição de acei­
tarem a distribuição feita por êle ou seus delegados, e não como a
Com panhia de Jesus estava fazendo, não só arrecadando para si tôdas
as receitas, mas ainda substituindo-se ao poder real e negando a êste
o direito de intervenção em Angola.

*
* *

D. Jerónimo de Almeida, sucedendo ao irmão no governo de An­


gola, compondo-se e condescendendo com os jesuítas, prossegue na con­
quista, e chamaffdo a conselho os capitães e conquistadores velhos, ex­
pôs-lhes a situação pedindo o seu parecer,-no que êles concordaram
visto E l- R e i desejar tanto a conquista das minas de prata de Cambambe,
essa fo s s e a empresa.
Obtido o acordo, seguiu para o Cuanza para castigar primeiro al­
guns sobas rebeldes e apoderar-se das minas de sal, onde construiu
uma fortaleza. Dispunha-se ainda, antes de ir sôbre Cambambe, a
atacar o Cafuxe Cambáre, célebre jaga que tanto trabalho nos deu,
quando adoeceu gravemente, sendo obrigado a retirar para Luanda,
deixando instruções para o prosseguimento da conquista, que Baltazar
de Almeida, assumindo o comando das tropas, conduziu de forma a
cair num ardil que lhe armou o soba Cafuxe, resultando a perda do seu
exército, deixando mortos 206 brancos, além de muitos indígenas.
Não nos indicam os cronistas as intenções de Furtado de Mendonça,
que se lhe seguiu no govêrno, mas vemos que, abandonando a Quissama
e Cafuxe, se dirige com as suas tropas para Icolo e Bengo, talvez na in­
tenção de ir atacar os fidalgos fronteiros do Congo, que também jagas
seriam. Acam pando na época das chuvas, uma epidemia levou-lhe
mais de duzentos dos seus soldados, e êle próprio, bastante doente,
teve de retirar para Luanda. Restabelecido, marchou de novo pelo
Bengo para o interior, cujos sobas castigou com severidade (1), mas

(1) Pela narração feita por Battell (Ravenstein, op. cii.), parece que esta segunda marc
sôbre o Bengo se deve ter realizado em 1597, sendo comandada por João da Vilória, que com­
bateu mais de dois anos na região de Engazi, actualmente Dembos.
Parte I I — Angola 1 85
entretanto os do sul atacaram Massangano, que, sempre heróica, soube
resistir, até que o valente Baltazar Rebêlo de Aragão, o Bangalambata,
como lhe chamava o gentio, foi mandado em seu auxílio e derrotou os
atacantes, perseguindo-os até à Quissama, onde foi fundar à sua custa
um outro presídio, em lugar do que D. Jerónimo de Almeida deixara na
Adenda, que melhor garantisse a posse das minas de sal.
Mais nos não dizem os cronistas da época sôbre a acção de João
Furtado de Mendonça, e, contudo, parece fora de dúvida que por i6oi
ou 1602, êle foi em viagem de negócio pela costa para o sul, chegando
a Benguela, onde fundeou as suas embarcações, e, desembarcando, fêz
construir um fortim de madeira para se defender, com cinqüenta homens
que levava, de qualquer possível ataque dos naturais. Entrando em
negociações com êles, ràpidamente adquiriu grande quantidade de vacas
e esplêndidos carneiros, milho e madeira de Cacongo, com que fêz car­
regar uma embarcação, e em poucos dias mais tinha qi#inhentas cabeças
de gado, muito cobre e marfim, com que carregou mais três embarca­
ções que levava, e regressou então a Luanda (1).

*
* *

Da política de suborno empregada para tornar possível o domínio


da Espanha, chegára-se à corrupção e desmoralização de todos e de
tudo, e os negócios do Estado, pelo que diziam respeito às nossas con­
quistas e à política externa, eram dirigidos conforme as necessidades e
conveniências de Espanha, sacrificando-se os interesses de Portugal.
Felipe II deixara o reino empenhado e o Duque de Lerma, primeiro
ministro de Felipe III, tentou melhorar as arruinadas finanças espanho­
las. Um dos rendimentos a explorar eram os assentos e as licenças para
o fornecimento de escravos, que a Espanha, sem colónia alguma a não
ser no norte da África, não tinha aonde os ir buscar na quantidade que
precisava e se via na necessidade de contratar, concedendo determina­
das vantagens a trôco de uma renda certa ou cobrando uma licença.
Por muitos anos e por motivos de diversa ordem andaram os as­
sentos e licenças nas mãos de alemães, flamengos e genoveses, fazen­
do-se o angariamento de escravos, brancos, mouros, judeus e sobretudo

(1) Ravenstein, op. cit. Por ser interessante, sobretudo sôbre alguns costumes do gentio
de Benguela, transcreve-se êste capítulo de Ravenstein. Anexos, doc. n.° 24.
*4

■ 4^.
t
1 86 Angola
negros, de princípio, nas ilhas do Mediterrâneo, principalmente na Sar­
denha e ao sul de Espanha, na Andalusia, onde eram numerosos. De­
pois, á medida que as colónias espanholas se desenvolveram, passaram
os possuidores de licenças a irem adquiri-los a Cabo Verde e por fim o
Duque de Lerma pensou e bem, que melhor seria fazer o contrato com
um português, visto as nossas conquistas da Baixa Etiópia serem ma­
nancial inexgotável.
João Rodrigues Coutinho, fidalgo português da melhor linhagem (i),
obteve em 1600 que o contrato dos assentos passasse para êle, obri­
gando-se a fornecer anualmente às colónias espanholas 4.250 escravos
e dando à Coroa de Espanha 162.000 ducados (2).
Das conquistas portuguesas, a que melhor podia satisfazer este im­
portante fornecimento era a de Angola, e, para essa, mandavam-se go­
vernadores e capitães aquele reino com intento de conquistar as minas de
prata de Cambajtibe — dando juntamente os resgates dos escravos muito
fructo, com o que aquelle governo fo i tido em mais estimação (3), e, assim ,
João Coutinho deve ter calculado, que tendo colocação garantida para
os escravos que comprasse, maiores lucros obteria se os pudesse res­
gatar directamente, dirigindo êle as guerras. De dedução em dedução,
deve ter terminado por concluir, que tendo de andar pelo interior em
guerras para fazer escravos, também podia chegar às minas de Cam-
bambe, e, terminando por propor o contrato da conquista das minas de
prata, regularizando ou encobrindo tudo com o cargo de Governador,
proposta que foi aceite, por parecer que a dita conquista das minas se
poderia fa\er com menos despesa por via de contrato (4).

(1) João Rodrigues Coutinho,,irmão de Frei Luís de Sousa (D. Manuel de Sousa Coutinho),
era filho de Lopo de Sousa Coutinho, fidalgo cultor das letras e das ciências físicas e matemá­
ticas e de tanta consideração que nA presença e gravidade da pessoa era talt que o rei se com-
punha quando falava com êle». Lopo Coutinho era bisneto do 2.0 Conde de Marialva, e, como
58
se sabe, em i r, entre os fidalgos que Felipe II mandou perseguir e prender por desafectos à
usurpação espanhola, figuram os filhos do Conde de Marialva. A concessão de mercês por Fe­
lipe 11 a João Coutinho, quando o seu ódio pelos inimigos foi a ponto de enclausurar senhoras
fidalgas da família Vimíoso, Meneses, Marialva, etc., dá lugar a poder admitir-se, dada a cor­
rupção de costumes da época, que a concessão do contrato tivesse em vista a paga ou compra
da sua adesão.
856
(2) C o le c ç ã o d e tratados de B o r g e s d e C astro , i , tômo II, págs. 44/45 e G. Scelle, L a
63
tr a iie n é g r iè r e a u x In d es d e C a s tille . Por morte de João Coutinho passou o contrato, em i o ,
para o irmão Gonçalo Vaz Coutinho, que em i 6 i 3 também chegou a ser nomeado Governador
de Angola, sendo ainda assentista, mas não tomou posse.
3
( ) Biblioteca da Ajuda, Cód. 5 i -vui- 25, fls. 119. Luciano Cordeiro, Memórias. Relação da
Costa da Guiné. Luciano Cordeiro indica para esta Relação a data de 1607, mas deve ser entre
1604-1606.
{4) A carta régia que nomeia Coutinho é igual à de todos os outros, sem menção de po-
Parie U — Angola 18 7

Mas não se contentou com isto e mais pediu, dando-lhe Felipe 111
de Espanha maiores prorogativas que nenhum dos seus antecessores teve,
pois levou a faculdade de distribuir mercês de hábitos de Cristo e no­
mear moços da Real Câmara, além de se ter renovado a provisão equi­
parando os serviços de Angola aos do norte da África e da índia tudo
para promover a conquista das minas de prata de Cambambe, para cujo
efeito levou um grande socorro de munições e de gente (1).
Para completa elucidação dêste negócio convém frisar que um dos
mais importantes lucros dos assentos e com que se fazia face à renda a
pagar à Coroa de Espanha, era o proveniente do contrabando feito
pelos navios do assentista, contrabando não só realizado nas Antilhas,
mas desde Espanha até lá, com escala pela Mina, Angola e Brasil e
ainda com ligações com as naus da índia arribadas a Luanda para su­
postas reparações, pagas, à falta de dinheiro moeda, vendendo a fazenda
que transportavam. Pode-se, assim, fazer uma idea n^is perfeita desta
complicada engrenagem administrativa comercial; do pessoal que metia;
dos creados que o Governador teria de levar; dos lugares que tinha de
arranjar para os empregar... e da moralidade da época.
Era um Governador nestas condições, tendo por assim dizer o mo­
nopólio de todos os negócios, e, por isso mesmo, dependendo de tôda
a gente, que convinha aos que exploravam Angola, e, de entre todos,
aos jesuítas, que o apreciavam, dizendo que era fidalgo tão bem acondi­
cionado & magnifico & de tanta prudência em saber levar aquela gente,
porque nao se podia opor à sua acçao sôbre os indígenas e desmedida
ambição do mando, antes pelo contrário as aproveitava porque lhe fa­
cilitavam o cumprimento do seu contrato. E hoje, que se conhecem
claramente as intenções de João Coutinho ao ir como Governador para
Angola, melhor se pode avaliar o fundamento das lamentações dos je­
suítas nas suas crónicas, sôbre as medidas tendentes a estorvar ou im­
pedir a sua acção sôbre os indígenas e o fim por que as contrariavam,
ao passo que louvavam João Coutinho, que sem ter feito mais do que
desembarcar e pôr-se em marcha para 0 interior, como todos os outros*1

deres extraordinários, nem referências ao contrato, que nSo foi possível encontrar mas que,
sem dúvida* existiu, porque G. Scelle o indica. André Battel, quando descreve as suas aventuras
no tempo do Governador João Coutinho (Ravenstein, op. c*/.), conta que êste se obrigara a cons­
truir três castelos, um em Demba, nas minas de sal; outro em Cambambe, e outro na Baía das
Vacas (Benguela).
(1) Fêo Cardoso, Memórias, De um requerimento de Luís Mendes de Vasconcelos sôbre o
socorro que precisava levar para Angola e a que adiante se fará referência, consta que JoSo
Rodrigues Coutinho levou mil homens, muitos cavalos, armas e munições.
iB 8 Angola

fa z ia m , e com o o fez D , F ra n cisco de A lm eida, eles afirm avam que


tô d a a situ a ç ã o m u d ava e os sobas fugidos passaram a apresentar-se e
a p re sta r o b ed iên cia (i).
À e v id ê n cia se conclu i que eram êles, os jesuítas, feitos no negócio,
e ten d o re a l e efectivam en te to d o o poder sôbre os indígenas, de quem
e ra m amos e protectores, que m anobravam agora de form a a facilitarem
a J o ã o C o u tin h o o poder dar cum prim ento aos seus contratos, como
a n o s a n tes tinham m anobrad o contra D . F rancisco de Alm eida, e talvez
p re p a ra d o a m onum ental derrota que o C afuxe infligiu às nossas tropas
c o m a n d a d a s p or B altazar de A lm eida.
Com João Rodrigues Coutinho, porém, as cousas passaram-se de
outro modo, e, depois de desembarcar o importante socorro que levou
e de tomar as medidas para a marcha, iniciou esta em direcção ao
Tom bo, onde embarcou as suas tropas em pequenas embarcações que
subiram o Cuanea até Songa, próximo da Muxima, onde residia aquele
soba amigo que Paulo Dias nomeou capitão mor da gente de guerra
da terra e fôra baptizado com o nome de D. Paulo. Demorou-se no
Songo alguns dias, emquanto esperava um refôrço que mandou buscar
a Massangano e seguiu depois para a Muxima e Malombe, onde parece
que se foram apresentar, prestando obediência, os tais numerosos sobas
que os jesuítas referem. Dali foi dar batida ao soba Agoacaiongo, que
venceu, aprisionando-lhe grande número de mulheres e crianças (2).
João Rodrigues Coutinho, que se tinha assenhoreado de todos os
monopólios e de tôdas as condições necessárias para o bom êxito dos
seus negócios, esqueceu-se contudo de uma, — a sua saúde, e uma febre
adquirida nesta ocasião por tal forma o atacou, que em seis dias fale­
ceu, morrendo tão grande christão como elle sempre foy !12

(1) Relação do Padre Guerreiro, cit.


(2) Esta narração é baseada em André Battell (Adventures, pág. 37). Na mesma obra, Ra-
56
venstein, a pág. 1 , apêndice IV, diz-nos que João Coutinho faleceu no Songo, emquanto es­
perava o refôrço que mandara vir de Massangano,.e portanto antes de entrar em contacto com
o inimigo, tendo sido Manuel Cerveira Pereira quem derrotou o Cafuxe em Agoacaiongo. O
Catálogo dos Governadores de Angola diz o mesmo, mudando apenas o local do falecimento
para Caculo Quiaquimone. Não sabemos qual o fundamento destas duas versões, e por isso
nos cingimos à de André Battell, que se não refere ao soba Cafuxe, mas ao Agoacaiongo. Pa­
rece que havia idea de atacar o Cafuxe, mas êsse ataque não se efectuou, como se depreende
da leitura de uma Snçã de livraml° de wie/ serva pa a fls. 294 do mss. 526 da Colecção Pomba­
25
lina da Biblioteca Nacional. Anexos, documento n.° , sentença baseada no processo de devasa
e residência a que se mandou proceder pelo Bacharel Manuel Nogueira, em vista de várias acu­
sações contra Manuel Cerveira, sendo uma delas exactamente a desistência de fazer guerra ao
Cafuxe, para o que estava combinado com o soba Langere, por aquele lhe ter dado 40 peças,
com o que o dito Langere se anojou dêste procedimento.
Parte I I — Angola 189

A sua morte deu lugar a que os seus capitães começassem em de­


savenças sôbre a sucessão, mas tinha ido com êle para o auxiliar na­
quela evangélica missão, 0padre Jorge Pereyra da nossa companhia que
com elle estava e êssc, com muyta prudência & autoridade se ouve de ma-
neyra, que nomeandolhe 0 sucessor, q u e fo y M anoel Serveyra Pereyra, os
aquietou, & pacificou a todos . . . (1).

• #

Depois do ataque ao soba Agoacaiongo, as nossas tropas permane-


ram ainda ali cêrca de dois meses, e talvez durante êsse tempo Manuel
Cerveira Pereira se preparasse para atacar o soba Cafuxe, combinan­
do-se para êsse efeito com 0 soba Langere, mas êsse ataque parece não
se ter realizado, por o Cafuxe ter preferido pagar det^minado número
de peças a arriscar-se à sorte da guerra.
Tendo deixado em Agoacaiongo um capitão-mor de gente de ca­
valo, para ter a província da Quissama debaixo da nossa obediência (2),
Manuel Cerveira dirigiu-se sôbre Cambambe, onde chegou com três
dias de marcha.
Manuel Cerveira Pereira era um soldado muito valente, mas não
menos ambicioso e desiquilibrado, pelo que se pode calcular a que
cenas de loucura se entregaria quando se encontrou pisando a cubiçada
serra de Cambambe, aquela serra que desde o tempo de Paulo Dias os
nossos namoravam de Massangano e viam tôda em fogo, pelos reflexos
do sol na prata reluzente amontoada nas suas encostas. Assolou-se a
região, e ao mesmo tempo que se construía a fortaleza que ficou guar­
necida com 25o homens, sob o comando de João de Araújo (3), por tôda
a parte se faziam cavas em busca da prata, mas a que aparecia, se
alguma apareceu, não era em quantidade que despertasse interêsse,
não obstante os padres jesuítas que tinham acompanhado a expedição
informarem de que se tiraram varias amostras de prata que nella ha que
diçem os mineiros ser muita e haver também muitos outros metaes (4),1

(1) Relação do Padre Guerreiro, cit.


5 25
(a) Biblioteca da Ajuda, Cód. i-vm- , cit., fl. 119. Luciano Cordeiro, Memórias. Relação
da Costa da Guiné. O autor desta Relação diz que Agoacaiongo era terra de um soba cristão,
por nome D. Francisco.
3
( ) Paio de Araújo de Azevedo.
(4) Relação do P.e Guerreiro, cit.
iç o Angola
mentira a que, surpresos da realidade, se queriam ainda agarrar para
a desilusão não ser tão brusca ao despertar de um sonho de quási um
século!
Estávamos em 1604 e desde i 520 buscávamos aquela riqueza, que,
emfim, tínhamos ali à nossa disposição, para nela saciarmos tôda a
ambição de fortunas e de repente tudo se evolava! Fôra primeiro
D. Manuel; depois Paulo Dias. Durante os anos de i 56o a 1 5 6 5 , em
que êste acompanhou a primeira missão dos padres da Companhia de
Jesus a Angola, não residiu sempre na embala do soba, e percorreu
grande parte do interior em serviços diversos, fazendo a política do
soba, e ao mesmo tempo por sua conta, pesquizando metais preciosos.
Quantas noites passaria na sua cubata, às escondidas, com a bacia de
arame e o fole de ferreiro, levando ao rubro as pedras com incrustações
de minério, que pelos caminhos encontrara, à espera de ver sair dos
interstícios a ambicionada prata, e quantas vezes se debruçaria sôbre o
brasido, esgravatando sôbre os carvões à busca de qualquer pedaço de
metal derretido!
Se nada encontrou, não se lhe desvaneceu, contudo, a convicção em
que estava e todos os nossos que por lá andavam, de que a prata existia
e era questão de a procurarem melhor num dia de mais sorte, e, assim,,
voltando a Angola como donatário, à busca daquela riqueza sacrificou
as vidas de centenas de portugueses e por fim a sua, morrendo a dois
passos das serras de Cambambe, talvez alumiado pelos seus reflexos,
quando a luz dos seus olhos se extinguia! Pobre visionário!
Mas, atrás da sua visão, outros foram, sacrificando mais vidas, mais
dinheiro e a saúde, numa luta tenaz e persistente, até que viam agora
desmoronar-se todo o castelo de ilusões e sonhos!
Manuel Cerveira, ambicioso e com tôdas as taras dos nossos, ao
dar as últimas enxadadas nas serras de Cambambe, e com elas ver des­
fazerem-se tôdas as esperanças, mordido pelo desapontamento, mas
sentindo, como bom português da época, a necessidade de um excitante
que lhe mantivesse a irrequietaçao, fazia agora realçar outras riquezas,
apregoando-as com mais exaltação do que a da prata tinha sido apre­
goada.
Talvez que durante a demora em Agoacaiongo, ou, já em Cam­
bambe, por qualquer investida que fizesse mais para o sul, tivesse co­
nhecimento da existência de riquíssimas minas de cobre para além do
rio da Longa, onde os nossos de há muitos anos iam ao resgate, como
atrás ficou referido, e essa notícia, vaga como seria, transformou-se
P arte I I — Angola í9r

para êle em certeza absoluta, passando a 'constituir uma obsecação,


emquanto a não visse realizada, fôsse como fôsse.
Cambambe já não o interessava e abandonou a guarnição que lá
deixara, parte dela de voluntários, sem lhe mandar alimentos, que não
tinham possibilidade de obter na região, por tudo ter sido saqueado,
fugindo os indígenas, pelo que êles também fugiram, internando-se no
Congo.
De Angola o que precisava era escravos e dinheiro, para poder
montar a sua nova empresa mineira. Podendo, em seguida ã ocupação
de Cambambe, ter marchado sóbre a embala do Ngola com probabili­
dades de êxito e de vez acabar com o seu poderio, preferiu compor-se
com êle a trôco de qualquer indemnização, e, para se justificar de o não
atacar, arranjou declarações dos comandantes dos presídios, obtidas à
fôrça e sob ameaças, manifestando-se contra o ataque. Com o seu
exército organizado e constituindo uma permanente atriêaça, fêz constar
que ia atacar um outro soba, o Angola Cabanga, que acudiu logo pres­
suroso a enviar-lhe cem peças, com o que o deixou em paz. Conti­
nuando na loucura, procede da mesma forma com o Axila Mbanga,
sogro do rei de Angola e seu sobeta, que por se julgar abrangido na
composição do genro, nada ofereceu para garantir o seu sossego, pelo
que foi atacado, resolvendo o Rei de Angola, por represália, atacar
também os sobas vassalos de Portugal.
Com os moradores e comerciantes procedia da mesma forma. Se
não lhe entregavam voluntàriamente o que queria, mandava-os prender,
e um seu apaniguado, Francisco Rocha, que nomeara Escrivão, enten-
dia-se com êles, forçando-os ao pagamento do que entendia podiam
pagar. A-par-disto roubava-lhes as mulheres, gabando-se de metade
das casadas serem suas amantes, o que conseguia com feiticeiras e al-
coviteiras, e às que não podia alcançar por estes meios, fazia-lhes sere­
natas, em companhia de malfeitores e facínoras, de noite, à porta das
habitações, para as infamar.
Sendo já então proibido o negócio com o Rio da Prata, mandou
para lá seis navios com mercadorias e escravos, tudo despachado como
se fôsse para o Brasil, para terem redução nos direitos.
Emfim, por loucura e por maldade, a vida e os haveres dos portu­
gueses e indígenas, estava nas suas mãos, que de tudo dispunha como
entendia. A Madrid chegaram queixas sôbre esta situação e foi man­
dado a Angola o Bacharel Manuel Nogueira para inquirir dêstes e de
muitos outros factos. Ao iniciar as suas averiguações, o sindicante
192 Angola

pediu-lhe a captu ra de um M anuel C oelho, ao que M anuel Cerveira


se negou. C o m o o sindicante insistisse, M anuel C erveira mandou-o
prender e en ca rcerar em M assangano, recom endando ao m estre da
em b arcação que fazia a navegação pelo C u an za, que 0 deitasse ao rio,
p ara os jacarés o com erem (1).
E n tretan to, chegou a Luanda D . M anuel Pereira F o rja z (2), cujo
p rim eiro acto de govêrno foi prender M anuel C erveira P ereira e man­
dá-lo p ara o reino, acusando-o, diz-se, de vários crimes.

*
* *

A s notícias de A ngola, recebidas em Lisboa e na côrte de M adrid,


devem ter dado lugar a um a m udança de processos de adm inistração
n aqu ela nossa ©onquista.
Desfeito o sonho da prata de Cam bam be só ficava para sujeitar ao
regim e dos contratos o resgate dos escravos, e êsse deveria estar en­
tregu e a qualquer pessoa que trabalhava por conta de D. G onçalo Cou-
tinho, com o herdeiro do irmão, João Rodrigues Coutinho, no negócio
3
dos assentos com E spanha ( ), negócio que só findava em 1 6 1 (4). 3
Não havia, pois, em Angola, outros contratos a estabelecer, e o
Governador a nomear deveria ser, verdadeiramente, a primeira autori­
dade delegada do Govêrno, se a imoralidade de costumes da época
permitisse que tal cargo se pudesse manter só com êsse fim.
Não se conhece o Regimento que levou D. Manuel Pereira Forjaz,
mas, por outros posteriores, verifica-se que ainda antes de êle ser no­
meado Governador, se expedira uma provisão, mandando revogar as
doações de sobas, feitas por Paulo Dias, Luís Serrão e outros, a portu­
gueses que com êles andaram nas guerras, para dos sobas cobrarem qs
tributos que os mesmos pagavam ao Rei de Angola, visto não terem
Òütrõ meio de lhes retribuírem os serviços prestados. Essa provisão,

(1} Sentença atrás referida.


(2) Carta de 2 de Agosto de 1606. Anexos, Doc. n.° 26. É o traslado da carta original e
encontra-se na Biblioteca Nacional, Secção Ultramarina, Angola, Caixa 145, com a rúbrica de
André Velho da Fonseca.
3
( ) Por morte de João Coutinho, o irmão Gonçalo tomou os assentos com uma redução
de 22.000 ducados na quota anual a pagar.
63 5
(4) O contrato deveria acabar] em i t , mas só em Setembro de 161 é que se fêz outro
assento com António Fernandes de Eivas, que também foi contratador de Angola, e se obrigava
5
a dar a Espanha n .ooo ducados.
P a rte I I — A n go la 19 3

pela oposição dos padres da Companhia de Jesus, a quem principal-


mente feria c por conveniência e interesse dos governadores, não tinha
sido publicada em Luanda, pelo que no Regimento se recomendava a
D. Manuel Pereira que a fizesse publicar e cumprir, passando os sobas
a ficar sòmente sujeitos à Coroa, arrecadando-se para esta os tribu­
tos que pagavam, a fim de com êsse rendimento se fazer face à despesa
com os soldados. Ao mesmo tempo davam-se instruções sôbre a
forma de se escriturar essa receita.
Também se tinha mandado cessar com o descobrimento e con­
quista das minas de prata de Cambane e quaisquer outras, devendo a
êsse respeito proceder-se de forma a não se fazerem guerras (1),
obtendo-se a exploração de acôrdo com os sobas da terra. Como
início da moralisação e boa ordem na administração, determinava-se-
-lhe no Regimento que começasse, no melhor ponto da praia, ou na
ilha de Luanda, uma casa de feitoria para se recolher g Real Fazenda,
que, naturalmente, até então, se confundia com a dos governadores, o
que era necessário evitar.
Não era isto o que interessava a D. Manuel Pereira Forjaz, que
não tendo coisa alguma a arrematar, nem contrato a propor ao go-
vêrno, se contratou a si próprio, fazendo com João de Argomedo,
comerciante, uma escritura de sociedade (2) para negócio em Angola,
que é uma edificante prova da corrupção e baixeza de sentimentos
dos homens daquela época. Por ela e por uma carta que se encon­
trou (3 ) se vê que o negócio çonstava_da trocarem Angola, por escra­
vos e marfim, dos vinhos das Canárias e fazendas dè~outros pontos,
que o João de Argomedo mandasse, e que a sociedade tinha agentes e
correspondentes ern Cartagena, Nova Espanha, Baía e Pernambuco.
D. Manuel Forjaz não entrava com dinheiro para a sociedade, mas
parece que lhe foi necessário arranjá-lo e lançou mão dos fundos em
poder do contratador de Angola, Duarte Dias Henriques, pois na pres­
tação de contas deste contratador, por alvará de 2 de Agôsto de 1612,
foi determinado ao Tesoureiro da Casa da índia, lhe levasse em conta
77 contos, 423» i 52 réis, que o Governador D. Manuel Pereira lhe
tomou em Angola (4).

(1) B ib lio teca da A ju da. C ap . 5 i-viu -a 5, fls. 119. — R e la ç ã o d a C o s ta d a G u in é , etc. A n ­


g o l a . L u c ia n o C o rd e iro , M e m ó r ia s . Ê ste docum ento deve ser de 1604 a 1606 e o seu autor
d iz que tod os os ofícios militares foram m andados extinguir, p o r n ã o h a v e r co n q u ista .
(2) B ib lio te c a N acion al. S e cção Ultram arina. A ngola. C aixa 145. V ide anexos. D oc. n.° 27.
3
( ) Idem , idem . A n e xo s. D o c. n.° 28.
(4) « É is to s e m e m b a r g o d o s r e q u e r im e n to s & p r o te sto s , q u e 0 f e i t o r d o d ito co n tr a ta d o r
194 Angola

E n tre tid o co m a d irecçã o dos seus n eg ó cio s, nunca D . M anuel For-


ja z p ôd e sa ir d e L u a n d a e ir a o sertã o , m as nem p or isso deixou de
c o n c o rre r p a ra se fom en tar um ou tro dos grandes sonhos, que deu
in ce n tivo às n o ssa s o cu p a çõ es com erciais e a cçã o p olítica, — 0 esta­
b e le c im e n to de rela çõ es com o M on om otap a, p ara trazer de lá para
A n g o la a p ra ta e o ouro. D essa aven tu ra en carregou o valen te Bal-
f t a z a r R e b e lo de A ra g ã o , que seguiu pelo C u a n za em direcção à Chi-
c o v a , m a s retroced eu , estando 80 léguas pela terra dentro e 140 do mar
por se levantar el-rei de Angola contra a fortaleza de Cambambe (1).
A o m esm o tem po que B altazar de A ra g ã o se dirigia p ara o O riente
em b u sc a das riquezas do M on om otap a, os em pregados (criados) de
D . M an uel P ereira percorriam o interior e a costa em d iversas direc­
ções, no intuito de desenvolverem os negócios da sociedade e, em Lis­
b o a e M ad rid , o govêrno, ignorando o que se p assava e julgando que
co m tal govern ad or poderiam rem ediar as faltas provenientes do aban­
d on o em que tinha estado a conquista, determ inava-lhe, em carta de
20 de M arço de 1609 (2), que fizesse na povoação de S. Paulo ( ): casa 3
da C â m a ra , cadeia e açougue, fintando-se para êsse fim os habitantes,
ou lan çan do um im posto de dois tostões em cad a peça que se em bar­
casse, fazendo-se hu tesoureiro, e escrivão para a carga e descarga do
tal dinheiro.
Em M adrid e em Lisboa, M anuel C erveira Pereira, justificando-se
d as acusações que lhe fizeram , deveria ter pôsto em relevo o valor das
suas m inas de cobre, ao mesmo tempo que se recebiam notícias de
D . M anuel F orjaz, confirm ando essas riquezas e referindo outras, como
os escravos em m aior quantidade do que em Luanda, o marfim, etc., e
in d ican d o que o reino de Benguela ficava a oitenta ou noventa léguas

f e .f a o d i t o D . M a n u e l P e r e i r a p a r a n ã o t o m a r o d i t o d i n h e i r o q u e o m a n d o u d i s p e n d e r d i z e n d o
que e r a p a r a p a g a m e n to de seu s ord en a d os, e tc .. . - com o n o s tr e s la d o s d o s d it o s m a n d a d o s
& c o n h e c im e n to s e m f o r m a s e d e c la r a ; e tc .» . B ib l. N a c i o n a l . Secção U lt r a m a r in a . A n g o la .
C a i x a 14 5 .
(1) B ib lio te c a d a A ju d a , C ó d . 5 i - v m - 2 5, fl . 4 2 ; L u c ia n o C o r d e ir o , M e m ó r i a s do U lt r a ­
m ar. T erras e M in a s a fr ic a n a s . « A s p r o v ín c ia s q u e e u e n tr e i n o d e s c o b r im e n t o q u e fa z ia
p a r a M a n o p o t t a , p o r m a n d a d o d e D . M a n u e l P e r e ir a , s ã o g r a n d e s e m u i r ic a s d e m a n tim e n to s ,
e m u ito s r io s ; t e r r a m u it o fr ia e s a d i a ; h a m u ita s a r v o r e s d e H e s p a n h a , c o m o : o l i v e i r a s , p a r ­
r a s , f i g o s , a l e c r i m e o u tr a s h e r v a s ; e g e n te p o u c o g u e r r e i r a ; s ã o g r a n d e s c r e a d o r e s e la v r a d o ­
r e s ; h a m u i t o c o b r e e fe r r o e d iz e m h a v e r m u ita p r a t a ; t e e m u m rei q u e c h a m a m c h i c o v a , e tc .» ,
(2 ) A r e fe r ê n c ia a e s t a c a r t a e n c o n t r a -s e e m r e g i m e n t o s d a d o s p o s te r io r m e n te .
3
( ) Com o s e v ê , a in d a n e s ta d a t a , 1 6 1 1 , se c h a m a v a a L u a n d a p o v o a ç ã o e n ã o c id a d e .
L o p e s d e L i m a d iz , c o n t u d o , q u e n o g o v ê r n o d e M a n u e l C e r v e ir a L u a n d a fo i fe ita c id a d e , o
q u e s e n ã o c o n h e c e p o r d o c u m e n t o a lg u m .
Parle I I — Angola rçS
a barlavento de Luanda, e tinha um ponto roais sadio que todos os outros
da costa, com muitas águas e boa baía, o que já de há muito se sabia.
Êste conjunto de informações, sendo muito interessante, não dava
com precisão o local das tais ricas minas de cobre. Manuel Cerveira,
em Madrid, segurava-se, não divulgando o seu segrêdo, com o que
esperava negociar a sua liberdade e algumas mercês; os ministros, por
seu lado, não estando ainda dispostos a esquecer, embora tivessem
perdoado os crimes de que era acusado, arrancavam-lhe o que podiam,
que transmitiam a D. Manuel Forjaz, recomendando-lhe que activasse
a descoberta, para o que êste fez sair duas embarcações a percorrerem
a costa.
Deve ter sido sua a informação de que o cobre se não achava num
ponto certo e determinado, mas começava a seis ou sete léguas da
costa e, por tôda ela para o sul, era tanto, que « os mesmos negros sem
terem aparelho o fundem em covas que faiem na terra fafbndo campainhas,
e argolas que resgatão para outras Provindas». Esta informação, em
que avolumava, propositadamente, a riqueza do cobre para desfazer
nos serviços de Manuel Cerveira e, ao mesmo tempo, referia outras
riquezas, dos escravos e do marfim, que o interessavam e bem sabia,
pelas notícias dos seus empregados, que eram certas e positivas, deu
lugar a que Madrid lhe determinasse «por carta de sete de março dous
de outubro de seiscentos e de\ enviasse ao dito Reino de Benguella hüa
pessoa de m.ta confiança, e pratica das cousas daquellas partes q. se infor­
masse muy ao certo destas cousas; e q. em particular levasse a carguo
fa \er resgate de todo o cobre que achasse... E por ter entendido que
seria de importância para êste negocio enviarense de qua alguas roupas
das com que se resgatão naquellas partes avendo comodidade para jsto se
lhe enviarião as que parecessem necessárias, etc...».
Esta determinação vinha mesmo a propósito para o desenvolvi­
mento dos seus negócios e, agora, já não precisava das fazendas do
sócio Argomedo, pois era o govêrno que lhas fornecia. As contas êle
as faria...
Pouco tempo se poderia ter gozado deste rico negócio, pois que
faleceu em 12 de Abril de 1611, mas foi, sem dúvida, êle quem talvez,
se não em mais larga escala, com mais regularidade, iniciou o negócio
pelo Bié, Bailundo e Benguela, trazendo de lá, além de escravos e mar­
fim, grande quantidade de gado, porquanto quando faleceu, constavam
do seu espólio, entre outros bens: « 180 vacas afóra 3 o que mais vieram
de Benguela e grande copia de carneiros e ovelhas, 600 negros escravos
196 Angola
marcados com a marca do governador , negros pombeiros d e muito preço
e outros soltos casados, i 3 o pipas de vinho das Canarias, fa rin h a s de
P o rtu g a l e do B ra sil, marfim, massa, aceite, tapessarias, fe r ro , estanho,
panno d e linho , tacula, espingardas, um colar d e ouro e prata, etc.», o
que tudo lhe foi roubado pelo capitão Manuel da Costa, que sua viúva
indicava com o seu empregado (1).
Se a sua acção como negociante, como vemos, foi na realidade be­
néfica pelo desenvolvimento que deu ao comércio com o interior, a sua
acção como governador não podia deixar de ser apreciada como a mais
imoral e, por tal forma, que estando ainda em Luanda, foi lá mandado
André Velho da Fonseca para proceder a averiguações, não só sôbre
os seus actos, mas também sôbre os dos seus antecessores.
Depois de João Rodrigues Coutinho e emquanto se não fazia novo
contrato, esteve encarregado da arrecadação das receitas um feitor,
Duarte Dias Lôlfo, que faleceu, dando a sua morte lugar a graves de­
sordens, por todos se quererem apoderar dos bens que encontravam.
Os padres da Companhia de Jesus, como sócios de João Rodrigues
Coutinho, tinham no seu colégio os livros das contas do seu con­
trato (2), só os entregando por intimação do sindicante André Velho,
que, por êles e por outras inquirições a que procedeu, foi apurando os
devedores aos cofres do Estado e obrigando-os a entrarem com os dé­
bitos. O Governador D. Manuel Pereira teve de entrar com 2 . 5 oo cruza­
dos, mas havia mais e maiores irregularidades por êle cometidas (3 ),
pelo que, supunha André Velho, teria de o prender e m andar preso
para o reino, e pedia para lhe confiscarem e arrestarem todos os seus

(1) B ib lio te c a N a c io n a l, S e c ç ã o U ltr a m a r in a . A n g o la . R e g im e n to s . M a ç o d e 1598 a 16 17,


n.o 9 1 -8 1 6 1 2 . M a r ia T a v o r a (D.), v iú v a de D . M a n u e l P e r e ir a ( L u a n d a ) . P e d in d o a c a p tu r a de
u m c r ia d o q u e a c o m p a n h a r a a A n g o la seu m a r id o e q u e d e p o is d a m o r te d e s te se a p o d e r o u
d e tu d o q u e p o s su ía , c h a m a n d o -lh e seu.
S ô b r e o n e g ó c io d e g a d o , v e r a n o tíc ia a re sp e ito d o g o v e r n o d e J o ã o F u r t a d o d e M en ­
don ça.
(2) H o u v e o c u id a d o d e fa zer d e sa p a re c e r g r a n d e p a r te d o s liv r o s o n d e s e e s c r itu r a v a a
r e c e ita e d e sp e s a d ê ste c o n tr a to . A n o s depois, em 16 25 , 0 C o n t a d o r - m o r f a z ia e x p e d ir u m a
p r e v is ã o p a r a F e r n ã o d e S o u s a m a n d a r p r o c u r a r e re m e te r p a r a a C a s a d o s C o n t o s to d o s os
p a p é is , c a d e r n o s , liv r o s q u e d isse ssem resp eito a o s c o n t r a t o s de J o ã o C o u t in h o e do irm ão
G o n ç a l o , a fim d e se a v e r ig u a r se e ra m d e v e d o r e s o u c r è d o r e s à F a z e n d a R e a l. B ib l. d a A ju d a ,
cód. 5 i - v m - 3 o, fl. 44/5. E s t e s d o c u m e n to s d e v e m ter id o p a r a a Junta ou p a r a a Contratacion
em S e v ilh a , p e lo q u e fic a r a m em E sp a n h a .
3
( ) Num a lembrança d e 29 d e F e v e r e ir o de 629 d e A n t ó n io B e z e r r a F a ja r d o , q u e tin h a ido
a A n g o l a fa z e r q u a lq u e r in q u é r ito , d iz -se q u e o s trib u to s p a g o s p e lo s s o b a s , n a im p o r tâ n c ia de
i 3 000 c r u z a d o s p o r a n o , tin h a m c o m e ç a d o p o r s e r a r r e c a d a d o s p a r a si p r ó p r io p e lo G o v e r n a ­
d o r D . M a n u e l P e r e ir a . ( L u c ia n o C o r d e ir o , Memórias do Ultramar. C ó d . d a B ib l. d a A ju d a
r e fe r id o ).
Parie I I — Angola 197
bens, o que se deve ter feito, pois que se chegou a executar um exame
à escrita do sócio João de Argomedo, a fim de se verificarem os crédi­
tos que lá tinha D. Manuel Pereira (i), intimando-lhe o juiz que de
futuro «as fa\endas dinheiro ou letras que tivesse tocantes ao dito dom
manuell pr.a não despusesse nem fisesse delias cousa allguma sem ordem
delle juis ou do conselho da fasenda por cujo mandado fasia esta adeli-
g en sia .,
*
• *

Falecendo D. Manuel Pereira Forjaz, repentinamente, em 1611,


nomearam as autoridades de Angola a Bento Banha Cardoso seu
sucessor (2), emquanto no reino se não resolvia sôbre a nomeação do
novo Governador.
Os angolas de há muito que vinham tomando uma atitude de per­
manente rebeldia. As suas constantes incursões e ataque aos nossos
presídios, cercando-os juntamente com outros indígenas seus aliados,
com o fim de obrigarem as guarnições a renderem-se, revelavam uma
ousadia que era necessário reprimir energicamente.
Ao avanço da nossa ocupação pelas sucessivas derrotas infligidas
aos indígenas da Quiçama e estabelecimento de fortaleza de Cam-
bambe, correspondeu a concentração do gentio do Dongo, e da Ma-
tamba, agora governados por N’gola Quiluangi ( 3), um dos mais valen­
tes guerreiros com que nos defrontámos e que tinha a pretenção de
nos expulsar dos seus territórios, estendendo-os até ao mar. Numa
das suas incursões, descendo o Quanza, chegara a pequena distância
da povoação que designámos por Tombo (4) e deixara assinalado o
seu avanço com a plantação de uma Insandeira (5).
Bento Banha Cardoso, logo que assumiu o governo, resolveu ir
atacá-lo, e, não obstante a resistência oposta pelo Quiluangi e seus
aliados e tôda a sua extraordinária bravura, os nossos excederam-no e
venceram-no, aprisionando alguns dos seus principais, os sobas Qui-
longa e Mbamba Tunge, que Bento Cardoso mandou degolar.

(1) B ib lio teca Nacional. Secção Ultramarina. Angola. C aixa 145. C artas de A n dré V e ­
lh o da Fonseca, que foi a deligencia do serviço de S. Mag." e A uto de perguntas feitas a João
de A rgo m ed o . V id e Anexos. Doc.°* n.0* * ^ 3o, 3 t.
(2) A n exos. D o c. n.° 3 s.
3
( ) N ’ go la Kiluangi K ia Ndambi. Ravenstein. Op. cit.
(4) V id e referência a pág. 140 sôbre esta povoação.
5
( ) Ravenstein, pág. 142, nota 1.
K4*K .,^

198 Angola
A-pesar-do castigo infligido, a rebelião continuava e agora lança­
vam -se em massa sôbre Cambambe, investindo-a de surpresa por
diversos pontos ao mesmo tempo, obrigando a sua reduzida guarnição
a actos do mais extraordinário heroísmo e bravura, até chegarem tro­
pas em seu socorro, que obrigaram os indígenas a levantar o cerco e
# retirarem.
Bento Cardoso foi em sua perseguição e fundou em 1614, junto ao
Lucala e nas terras de Ambaca, 0 primeiro presídio que tivemos com
êsse nome e mais tarde foi mudado para onde hoje ainda está.
Nestes combates Bento Banha Cardoso recebeu vários e graves
ferimentos, ficando cego de um ôlho e perdendo três dedos da mão, o
que não o impediu de continuar as campanhas, procurando manter os
indígenas em obediência. Assim, além dêstes combates com o N’gola
Quiloangi, teve de defender um soba nosso vassalo dos ataques de um
outro do Congo que com consentimento do Rei o foi atacar; bateu o
soba Nambu-a-ugongo, que, passando o Dande e o Bengo, vinha assal­
tar os nossos territórios e o gentio da Tunda pelos constantes roubos
que cometiam, além de ter tido de atacar um navio holandês, que se
colocara em determinado ponto à entrada da barra de Luanda, de
forma que, sem poder ser molestado pelos tiros de defesa de terra,
impedia tôda a comunicação com o pôrto. Da sua acção resultou o
avassalamento de oitenta sobas (1).
Entretanto voltou a Angola Manuel Cerveira Pereira, agora já
desafrontado das acusações que lhe moveram e contando com todo o
apoio de Filipe III (2). Não era, verdadeiramente, o govêrno de An­
gola que o fazia voltar, mas sim preparar-se «.etn Angola das cousas
necessários para melhor e mais facilm ente se poder commeter este negocio ,
(a conquista de Benguela), para o que « no ynterim q se detiver em
L oanda apercebendosse para a dita conquista tinha os poderes de gover­
nador (3 ).
Nesta ordem de ideias encarregou da quietação do Dongo a Paio
de Araújo de Azevedo, emquanto êle em Luanda tratava do que lhe
era preciso para os seus fins; mas, porque encontrou dificuldades em

( 1 ) B ib lio te c a N a c io n a l. S e c ç ã o U ltram arin a. D o c u m e n to s de A n g o la . Processo de justi­


ficação dos actos de Bento Banha Cardoso, por virtude do sequestro de todos os seus bens, por
ter feito despesas sem as justificar. A n e x o s. D o c .° n.° 33 .
(2) Sentença de livramento já referida.
( 3 ) A r q u iv o N a c io n a l da T ô r r e do T o m b o , Chancelaria de Felipe 11. L iv . 32 v . A lv a r á d e
5
14 d e F e v e r e ir o de 16 1 . A n e x o s. D o c .° n.° 34.
Parte U — Angola *99
arranjar escravos para levar para Benguela, por fugirem e se irem aco­
lher ao soba Caculo-Cahunde, contra o qual tinha recebido queixas,
no mesmo sentido, de muitos dos negociantes, resolveu ír atacá-lo, o
que fêz com a sua costumada energia, obrigando-o à restituição de
todos os escravos que tinha em seu poder, depois do que retirou para
a sua conquista de Benguela, deixando o governo a António Gonçalves
Pita.

* #

Vejamos o que se pensava no reino a respeito das conquistas da


África Ocidental.
Já atrás vimos que a desilusão de Cambambe conduzira a uma
orientação diferente da até então seguida. Nada havendo em Angola
que justificasse o conluio do Rei de Castela com os particulares para a
pilhagem, podia impor-se a moralidade na administração.
Confiada essa nova orientação a D. Manuel Pereira Forjaz, fomos
infelizes na escolha do executante, mas vimos que se procedeu com
energia e sem hesitações contra êle pelos seus actos, procedimento que,
no dizer dos historiadores, parece se não adoptava para a repressão
de faltas graves cometidas na administração do reino, mas vemos, em
face dos documentos que nos ficaram, ter sido empregado no ultramar
contra êste e outros governadores. Havia o propósito de se entrar
em uma vida nova, subordinando-a a princípios, que, se não eram os
de uma colonização como a que estávamos fazendo no Brasil, marca­
vam a firme intenção de se exigir uma administração honesta.
A situação no Brasil era diferente. O sonho do grande rei Preste
João e de todos os pequenos reis que a nossa imaginação inventou a
cercá-lo, e a êle mais ou menos subordinados, todos cheios de gran­
dezas e dominando territórios que êles próprios desconheciam, desfez-se
com a bruma do Atlântico e não chegou ao Brasil, onde só encontrá­
mos o que realmente existia, tríbus de índios. Assim, não podendo
criar feudatários, como os da Guiné, do Congo, de Angola e da índia,
que nos garantissem por títulos, cartas, tratados e tributos, contra as
outras nações, o exclusivo do comércio, tivemos de fazer uma extensa
ocupação, para defendermos a posse territorial. Não nos preocupava
verdadeiramente a conquista do território aos índios, porque, essa,
ir-se-ia fazendo á medida que a colonização avançasse pelo interior;
mas queríamos impedir pela nossa presença as nações estrangeiras de
200 Angola

se estabelecerem na parte para nós talhada da descoberta do Mundo.


Havia, assim, um sentido nacional diferente para o Brasil do que
houve para tôda a outra terra descoberta e conquistada, sentido criado
talvez pela extraordinária visão de D. João II, quando das discussões
e lutas para se chegar ao tratado de Tordesilhas e que, através dos
anos, se nos impôs como uma necessidade pela qual passámos a lutar,
e Tendo dividido o Brasil em donatarias, tôdas confinantes, reüni-
mo-las sob a acção de um governo geral e estabelecemos os fundamen­
tos da grande Nação de hoje. Em África, ao contrário, depois do
fracasso da donataria de Paulo Dias e da desilusão da prata de Cam-
bambe, fomos levados a criar, dentro dos antigos moldes das feitorias,
e para opor aos erros a que conduzira a administração de Paulo Dias,
um sistema de transição, consistindo em uma série de núcleos de cons­
tituição heterogénea.
Assim, o Co^go, que devia ser um reino feudatário, era, verdadeira­
mente, independente, embora lá mantivéssemos uma autoridade com
q título de capitão-mor, que o não era dá terra, porque não existia a
capitania, mas de «todos os portugueses e vassallos meus de qualquer
qualidade e condição que sejão que ao presente Residão e ao diante resi­
direm e estiuerem por qualquer via no Reyno e senhorios do Congo pera
que os governe em todas as cousas de pa\ e guerra (i).
Ignorava-se em Lisboa a situação a respeito do Congo e, não só
havia dúvidas quanto aos limites com Angola, que queríamos fôsse
pello rio de Adé (Dande), com o que se não conformava o rei do Congo
e dava m otivo a queixas e questões, 'como só se sabia por ouvir dizer,
que, no tempo de Paulo Dias, o preto rei D. Álvaro tinha feito deter­
minadas doações e, entre elas, a da ilha de Luanda com a sua pesca­
ria do zimbo, ou parte dela, para pagamento das despesas efectuadas
com a expulção dos jagas, e se recomendava ao Governador para pro­
curar, na feitoria ou na Câmara, os documentos a êsse respeito.
O Capitão-mor da gente portuguesa no Congo, que ao tempo era
António Gonçalves Pita, fidalgo da Casa Real, estava subordinado ao
Governador de Angola, mas êste « não o podia mandar chamar pessoal­
mente nem tirar-lhe a capitania, nem officio de guerra ou justiça que ele
provesse e não os podia prover. Acumulava o cargo de Capitão-mor
com o de Provedor de Defuntos e Ausentes e tinha o ordenado anual de
trezentos mil réis e o direito a uma guarda de seis homens, ao passo

(i) Paiva Manso, História do Congo, pág. 148, doc. u n .


Parte I I — A n g o la 201
que o governador de Angola tinha de vinte, sendo estas despesas satis­
feitas pelo feitor das rendas de Angola (1).
Tinham-se estabelecido os holandeses no Pinda, onde fizeram uma
feitoria para a exportação de escravos e não fomos lá expulsá-los,
como expulsámos franceses e ingleses de outros pontos que tentaram
ocupar, limitando-nos a procurar, por intermédio do nosso Bispo e do
vigário residente no Congo, que o rei do Congo os expulsasse, o que
êste também não fêz, embora o prometsese. Também levámos anos a
pedir-lhe e não a impor-lhe, que nos deixasse estabelecer uma forta­
leza no Pinda ou no Ilheu dos Cavalos, o que nunca nos consentiu e,
tudo isto prova que o reconhecíamos como estado independente,
quando tínhamos tido no Congo o máximo de acção e tudo abando­
námos.
Com o reino de Angola, também em Lisboa não havia a intenção
da conquista do território, e pensava-se seguir uma política de amizade
e atracção, procurando, primeiro que tudo, «q. conçeda pregar se nossa
santa fe e em seu Reyno, tanto êle como os outros sobas, «e dando elles
licença á pregação os não obrigareis a me serê tributários senão quando
elles per sy se offereçerem a o ser, por eu os mandar defender e amparar.
E ainda, para corroborar esta intenção e impedir que a sofismassem,
determinava-se que, no caso de haver necessidade urgente de defender
qualquer presídio atacado pelos indígenas, se deveria reünir um conse­
lho, formado pelo Governador, o Bispo, o Ouvidor Geral, o Provedor
da Fazenda e mais ministros que ouver delia, para apreciarem os moti­
vos e autorizar a despesa, «e nas prim.™ embarcações que depois disso
vierem para este Reyno me enviareis assy a Rellação das despesas pello
meudo, com a copia do assento que se tomar o qual será assinado por
todos e se declararão nelle as razoes em que se fundarão, advertindo-se
que esta autorização era somente para o caso de se ter de defender
qualquer presídio atacado «e não para se fa\er guerra pello certão».
A par deste regimen de vassalagem que se procurava estabelecer
por tôda a terra de Angola, mantendo as autoridades indígenas na
posse de todos os seus direitos e fazendo-as apenas contribuir com um
tributo para que as defendessemõs quando fôssem atacadas pelos ini- l
migos, tefitãvã-sé ã ocupação e colonização,' há parte entre o Dande ej
Quanza que então constituía a terra de ninguém, onde verdadeira-

5 53
(i) Paiva Manso, História do Congo, págs. 1 1—1 . Doe." ixixni, ixsxiv, uxsxv.
26
202 Angola
mente não governava nem o Congo nem o Ngola, fazendo-se conces­
sões de terrenos, regulando-as conforme as posses dos colonos e pre-
conisava-se o desenvolvimento das culturas de algodão e cana de
açúcar, concedendo-se aos agricultores maiores privilégios e favores dos
que se dão aos do BrasiL
Na intenção de acabar com todos os abusos de outros tempos, não
só se assentava em manter era absoluto a proibição de se darem soba-
dos em pagamento de serviços ou sob qualquer pretexto, para os indí­
genas não veremse cativos de taes pessoas contra justiça e Direito, mas
resolvia-se proibir também que o negócio da compra dos escravos se
fizesse fora das feiras e que aja nas ditas feiras homens trancos aynda
que seja com pretexto de guardar justiça e meter em ordem.
E, por fim, com respeito a Benguela, na intenção de nos certe-
ficarmos do seu valor, sobretudo em minério, consentia-se que Manuel
Cerveira se encarregasse da sua descoberta e exploração, mais como
mercê pessoal e particular do que encargo administrativo, muito em­
bora a Coroa o auxiliasse com material de guerra e disposições for­
çando os brancos condenados por determinados crimes e os pretos a
irem servir sob as suas ordens.
Vê-se, assim, que as directrizes estabelecidas para as Conquistas
da África Ocidental, tanto na parte respeitante às relações com os
povos indígenas, quer os submetidos, quer os inimigos ou independen­
tes, como na que dizia respeito à colonização, aproveitamento e explo­
ração do solo pelos europeus, indicavam existir um plano de adminis­
tração colonial, não discutimos se aquele que mais nos convinha, se
bom, se mau, mas que assentava em princípios diferentes do que
tínhamos adoptado para o Brasil.
Com o sempre, a dificuldade estava na escolha do homem ou ho­
mens a quem confiar a execução, para a qual não bastava energia e
rispidez, mas era necessário bom senso e, sobretudo, um carácter não
contaminado pela podridão da sociedade em que se vivia.
O governador escolhido para substituir D. Manuel Pereira Forjaz,
foi Francisco Correia da Silva, para quem se fêz um regimento com
data de 26 de Setembro de 1611 (1), mas não chegou a ser nomeado

(1) Êste regimento é o mais antigo que se encontra, Está na Biblioteca da Ajuda, Cod,
63
5i-vm-2t, fl. 186 a 195. Sofreu umas pequenas emendas, em 26 de Abril de i t , para servir a
D. G onçalo V az Com inho, que não obstante não ter chegado a ir a Angola, não deixou de
receber um adiantamento de mil cruzados e uma ajuda de custo de 6oo#ooo réis, que tudo lhe
foi perdoado em atenção aos seus serviços. (Bibl. Nacional. Secção Ultramarina. Papéis de
Parte I I — Angola 203
e, em seu lugar, por portaria de Abril de 1612, foi D. Gonçalo Couíi-
nho e que estava na posse do negócio dos asientos com a côrte de
Madrid, mas essa nomeação ficou também sem efeito. O m esmo
regimento com pequenes alterações foi dado em 3 de Setembro de
1616 a Luís Mendes de Vasconcelos, que efectivamente seguiu para
Angola como capitão e governador daquele reino.

#
• *

Luís Mendes de Vasconcelos tendo obtido ser nomeado Governa­


dor de Angola, tratou de pedir os meios necessários para o bom de­
sempenho da sua missão, dentro das directivas que lhe marcavam.
Além do regimento dos governadores de Angola, que de há muitos
anos vinha sendo 0 mesmo, com insignificantes alterações, dava-se a
cada governador uma instrução secreta com indicações adequadas ao
momento político e embora se não conheçam, por documento que nos
ficasse, as que se deram a Luís Mendes, vê-se por uma exposição que
êle fêz sôbre os meios necessários para as poder cumprir (1), que, entre
outras recomendações, havia a de deitar fóra os holandeses do pôrto
do Pinda e estabelecer alí uma fortaleza. Outras haveria com respeito
à organização da defesa dos portos e do território submetido e, sobre­
tudo, para a manutenção do respeito e bôa paz com os sobas vassalos
da Coroa, o que o obrigava a prevenir-se com um forte núcleo de tro­
pas. Para tudo isto mandava-se dar-lhe o mesmo socorro, como então
se dizia, anos antes levado por Manuel Cerveira Pereira para Benguela,
o que era manifestamente insuficiente, não chegando mesmo para a
defesa de Luanda, a organizar por completo, e mais difícil que a de
Benguela, quanto mais ainda para guarnecer os presídios do interior e
deitar fóra os holandeses do Pinda, ali estabelecidos com casas em terra
e fazer uma fortaleza.
Alegava Luís Mendes e com justo critério e razão, que se não devia

35
Angola. Anexos. Doc. n.° ). Na Biblioteca Nacional, Res. F. G., n.° 7627, está uma minuta
do regimento que serviu a Luís Mendes de Vasconcelos e foi emendada para depois servir a
5 3
João Correia de Sousa. Ainda na Biblioteca da Ajuda, Cod. i-vm- o se encontra o original
do regimento dado a Fernão de Sousa. Publica-se o primeiro, com a indicação das alterações
36
mais importantes que lhe foram feitas para os outros governadores. Anexos. Doc. n.“ .
(1) Biblioteca Nacional, Secção Ultramarina. Caixas de Angola. «Sabre a falia de gente,
armas e munições q. ha no Reyno de Angola e pouca quantidade q. destas cousas se lhe dá p.*
levar. Anexos. Doc. n.° 37.
204 Angola

fazer prova pelos exemplos passados, mas pelas necessidades presen­


tes, e estas eram de ordem a «estar com grande vigilância sobre todas
as conquistas e terras dos estados de V Mg.de e em Angola muito mais
por ser praça donde depende lodo o meneo do Brasil, e de índias (refe­
ria-se às de Castela), e ser terra muy rica; e pollo mesmo respeito mais
arriscada a ser acometida, pelo que pedia, além de artilharia, polvora,
murrão e peloeiros, parece que setecentos homens de infanteria devida­
mente armados e cem de cavalaria com as respectivas montadas, para
os quais «não será necess.0 que V. Mg.de faça aqui despessa de conside­
ração e he necess.0 que a milicia deste Reino se ordene e governe como a
que reside nos mais de V. Mg.de e deste modo os soldados, que o ouverem
de servir a cavallo ham de ter o cavallo e armas, com que mereçam a
paga que se lhes dá, como também os infantes as armas, com que servi­
rem, as quaes se costumão descontar nos seus soldos, etc. não esquecendo
lembrar no apofitamento das suas necessidades mais instantes «as ca-
deas para as peças q. se mandarem com todo o aparelho para ellas neces­
sário » material que receava, como se vê, pudesse haver falta em An­
gola, mas não certamente para o empregar nos holandeses que em
combates fizesse prisioneiros.
Seria com o fim da defesa e segurança da colónia, ou com o de se
preparar para as guerras pelo sertão à custa da Fazenda Real, a-pesar-
-das expressas proibições do regimento, que êle pedia o socorro tão
completo e tão detalhado ?
T a lv e z fôssem as melhores as suas intenções, mas o certo é que,
chegando a Angola « com os p és de lãa, santificandosse , assy fa la v a e
f a l a em todos os passados mal, e em poucos dias fa zen d o volta se pos em
todo o genero de desordês, etc. (i) como a respeito dêle escrevia o
Bispo Fr. Manuel Baptista, a propósito das guerras com o Rei de An­
gola com que iniciou o seu governo.

(i) Idem, idem. Carta do Bispo D. Manuel Baptista, de 7 de Setembro de 1619, informando
sôbre coisas de Angola. Anexos. Doc. n.° 38 e carta de Luís Mendes de Vasconcelos, de 28
Agosto de 1617, Anexos. Doc. n.® 39. Nesta carta, a primeira, talvez, que Luís Mendes escre­
veu de Angola para o Rei, e de que apenas existe uma cópia feita por Cristovam Soares, Luís
Mendes censura asperamente os seus antecessores, contra quem diz que vai proceder judicial­
mente pelos roubos que praticaram. A respeito dos jagas diz que é muito contra o serviço de
Deus e de S. Mag.i<1 terem-se inirodupdo em Angola, e que governadores e moradores se têm
servido deles como de cães de caça, que lhes tracem escravos e, talvez sangrando-se, diz que o
querem persuadir de que Angola, se não pode sustentar sem o concurso dos ja g a s, mas que isso
só dá lugar a não prosperar o reino.
Parte U — Angola 205

ft
ft *

Muito embora os governos de Madrid e de Lisboa, em mais de um


capítulo das instruções dadas aos governadores de Angola, se não can­
sassem de marcar bem claramente a política de paz e atracção que
queriam ver seguida com os sobados indígenas e em especial com o
Ngola, o certo é que dessa própria política nascia a necessidade de
bater os sobas para os avassalar. .j
Veiu primeiro a provisão proibindo as doações dos sobados, com
ordem terminante para ser publicada e executada em tôda a Con- I]
quista, a-fim-de acabarem taU extorsões e moléstias\ O governador' n
D. Manuel Pereira, que a recebeu e deveria pô-la em execução, arre­
cadou para si o imposto ou tributo que os jesuítas aíe aí guardavam,
ou dividiu-o com eles, o que será mais certo, sem o que eles não
deixariam de protestar, mas, em qualquer dos casos, não o manifestou
aos feitores da Real Fazenda (i). Os que se lhe seguiram, proibida
também, como estava, a conquista das minas de Cambambe, que a
tantas devastações dera lugar, lançaram-se na política dos avassala-
mentos, procurando convencer todos os sobas, por bem ou por mal, a
avassalarem-se a Sua Magestade, para que os defendessemos das guer­
ras que o Ngola e outros lhe moviam, por entendido que por este cami­
nho não ficará nenhum que o não venha a ser, e que negando-se-lhe este
favor e ajuda, com ra\ão de não se lhe poder dar por não serem vassalos,
só por isso o serão ... e este ha de ser o pretnio por que se lhes ha de dar
0favor e não o interesse que eles por isso oferecem... (2).
Esta poliítica ia, fatalmente, cercear os rendimentos e direitos do
Ngola, que a não podia ver indiferentemente. E, porque êle se opu­
nha e protestava, insurgindo-se e atacando os nossos novos vassalos,
passou a ser o obstáculo único à realização dêste plano de paz, acal-
mação e concórdia, muito embora se continuasse em todos os regi­
mentos a ser-lhe dedicado um capítulo, recomendando-se: com El Rey
de Angola trabalhareis todo 0 possível por ter pas e amisade e ver se 0
podeis trazer a minha obediência tratando em primeiro lugar que conceda12

(1) Luciano Cordeiro, Memória do Ultramar, 1620-16297. Impostos, abusos dos governa­
dores, etc. Relatório de António Bezerra Fajardo.
(2) Capítulo do Regimento.
I

206 Angola
pregar-se nossa santa fee etn seu Reyno... ao mesmo tempo que em
* outro, e a propósito dos sobas doados aos jesuítas e dos que se avas
salassem, se determinava ficassem somente sogeitos a minha fazenda ar­
recadando se para ella os tributos q. costumavâo pagar para do precedido
delles se fa\er pagamento aos soldados ordenando como 0 meu feitor os
recolhesse para ella e se carregasse sobre elle em receita, etc.
* 1 Criar uma receita para a Real Fazenda à custa dos rendimentos do
Ngola, poís que todos aqueles sobas lhe eram tributários, e viver com
êle em paz e amizade, tratando em primeiro lugar, ainda por cima, de
'i f o convencer a deixar prègar, entre os seus, a nossa Santa Fé, seria 0
* cúmulo de patetice do Ngola. É claro que passou a ser 0 mais terrí­
vel anti-clerical da sua época e nós, porque: e para conclusão e remate
deste Regimento não tendo mais que vos di{er senão lembrar vos que 0
primeiro lugar naquele Reino tenha a conversão que sempre deve proceder
I e antepor se a t&las as mais cousas, passámos a ter de 0 converter por
■i todos os meios, encobrindo com mais esta ficção e por defeito de uma
educação fradesca, a solução hábil e inteligente que dêmos ao pro­
blema da nossa ocupação em Angola, e que consistiu em, a pouco e
pouco, trazermos à nossa obediência os sobas tributários do Ngola,
isolando êste, quebrando-lhe o prestigio entre os seus, para por fim só
a êle termos de combater, mas então em condições muito mais favo­
ráveis para nós.
*
* »
rf.
Luís Mendes, com p és de lã, santificando-se e dizendo m al dos ante­
cessores, fe ^ -se na volta e lançou-s em toda a desordem, diz-nos indignado
o Bispo Fr. Manuel Baptista. Foi o caso que, chegando a Luanda e
orientando-se sôbre a marcha dos diversos assuntos do govêrno,
soube, quanto à conquista, ter-se revoltado o soba Caíta Callabalanga,
devido a sem ra\oens que lhe fêz Francisco Antunes da Silva, que, por
influência de sua prima casada com o célebre capitão mór Paio de
A raújo e pela deste, junto de Manuel Cerveira Pereira, fôra feito capi­
tão mór da fortaleza do Ango (1). Êste facto de mero vasculho de
senhoras vizinhas, tom ava, então, no govêrno de Angola, foros de

5 3 3
(1) Biblioteca da Ajuda, Cód. i-vm- o- i. Govêrno de Angola de Fernão de Sousa,
tom o i, fl. 414- Lembrança do estado em q. achy a E l R ey de Angolla e do principio de guerra
que lhe deo o g .®r luis m ej.
P a rie I I — Angola 207

coisa grave, por nêle aparecer envolvido o nome de Manuel Cerveira


Pereira, que pela protecção dispensada por Filipe 111 e pelo seu feitio
turbulento, grangeára os ciúmes e ódios de muitos, se não de todos, os
que estavam em Angola.
Luís Mendes julgou necessária a sua presença no sertão para me­
lhor resolver o assunto, e saboreando já o prazer de atirar mais algu­
mas achas para a fogueira em que todos pensavam arderia Manuel
Cerveira, quando a côrte de Madrid soubesse de mais êste escândalo,
para lá partiu acompanhado de tropas, que reforçou com o concurso
dos moradores de Luanda transformados em soldados, e depois com o
dos jagas.
Esta ligação com os jagas tinha-se iniciado alguns anos antes e
teve uma importância considerável no problema da conquista (i).
Os jagas não constituíam verdadeiramente uma família distinta,
pois não eram mais que o conjunto de indivíduos dt diversas tribus,
educados desde pequenos para a guerra e só para êsse fim. Não
obstante a fecundidade das suas mulheres, os jagas não criavam os
seus filhos e enterravam-nos logo que nasciam, quando não os comiam.
Em compensação, de entre os prisioneiros que efectuavam nos seus
assaltos e combates, adoptavam como filhos os rapazes e raparigas
dos i 3 e 14 anos, matando, comendo ou vendendo os restantes. Estes
rapazes eram educados na guerra, usando uma golilha, que não podiam
tirar sem que para isso fôssem autorizados, o que só tinha lugar quando
provassem ser guerreiros valentes, trazendo ao chefe a cabeça de um
inimigo. Aquele que praticasse defronte do inimigo, ou em ocasião
de guerra, qualquer acto que pudesse ser tomado como indicação de
pouca valentia, era imediatamente morto. Por esta forma, para se
verem livres de golilha e para não serem mortos pelos seus, afronta­
vam todos os perigos, tornando-se de desmedida valentia e feroci­
dade (2).
No tempo de Paulo Dias e,de Luís Serrão os jagas auxiliaram os
ngolas contra aqueles governadores, e se em alguns combates, pelo
diminuto efectivo dos nossos, conseguiram algumas vantagens, noutros
sentiram bem a dureza dos seus ataques e a valentia com que se con­
duziam, pelo que deveriam ter pensado que mais lhes valia terem-nos
por amigos.

(1) Vidé, pág. 91. — Sôbre origem dos jagas, Ravenstein (Adventures, pág. 149-153) tendo
estudado tôdas as opiniões emitidas, não conseguiu tirar uma conclusão segura.
(a) Ravenstein, A d ven tu res, pág. 28-35.
2o 8 Angola

Passaram-se alguns anos sem darem maior sinal de si, até que çj0
grupo com que Kinguri seguiu da Lunda para o sul, apareceram
alguns no Libolo, e vemos que se relacionaram com um governador
que conheciam por D. Manuel (i), que deve talvez ser D. Manuel Pe­
reira Forjaz, que comQ comerciante hábil os tivesse aproveitado para
encaminhar os seus negócios para o Bié, se não foi antes Manuel Cer-
veira Pereira que estabeleceu essas relações mais íntimas, pois o vemos
com entendimentos com o Cafuxe, que jaga era, entendimentos que,
possivelmente, se não limitaram à suspensão de hostilidades a troco de
algumas peças, mas iriam até ao auxílio de gente para atacar os ngolas
e os Ambuilas.
Fôsse como fôsse, os jagas passaram a ser dessa época em diante,
os auxiliares das guerras contra os outros indígenas e, por assim dizer,
uma espécie de matilha que se lhes assolava e de efeitos tais, que o
Bispo, D. Fr. í$anuel Baptista a propósito das campanhas de Luís
Mendes escrevia: «havendo jagas as guerras são sem nenhum perigo e
com descrédito dos portugueses, todos são de parecer que os haja, dando
por causa bastante qualquer mentira, pela muita gente que cativam, man­
timentos e gados que tomam, que é o que os lá leva, primeiro que o ser­
viço de V. M.de» (2).
*
* *

Como vimos, Luís Mendes de Vasconcelos, ao ter notícia da revolta


do Caita Callabalange partiu logo para o interior a-fim-de o atacar,
mas por parecer e conselho de todos não o fêz, e é então que fazen­
do-se na volta, como escrevia o Bispo, fe-ç pregações em seu louvor, afir­
mando que fora tiranisado de maneira que justamente se apartara de nós
e que por estar disso mui inteirado nunca sua tenção fôra dar-lhe guerra,
senão ir dar em Cabaça e Dongo e sujeitar E l Rei de Angola para assi
de uma vez acabar tudo (3).
E assim, efectivamente, foi atacar o Ngola Ndambi, que segundo
acrescenta o Bispo estava quieto em suas terras e retirando-se mais
adentro as deixou com muita gente lavradora e sem nenhuma resistência,
informação manifestamente parcial, porque quem conhece os costumes
indígenas, sabe que não deixariam de se preparar para o ataque e

( 1) Ravenstein, Advenures.
(2) Anexos. D oc. 38 cit.
3
( ) Idem, idem.
Parle II — Angola 209

que se retiraram para o interior, não teria sido com outro o


de concentrar fôrças pela junção de quaisquer reforços que esperavam.
O certo é que o Ngola Mbandi foi derrotado, fugindo para o mato
e abandonando a embala, que Luís Mendes mandou saquear e des­
truir, ordenando a transferência da fortaleza ou presídio estabelecido
por Bento Banha Cardoso no Ango, para perto de onde estava a em­
bala, a um dia de marcha (i), garantindo assim, no futuro, a segurança
da terra.
Como o Ngola Mbandi tivesse fugido, Luís Mendes de Vasconcelos
resolveu considerá-lo deposto, fazendo eleger em seu lugar um Samba
Antumba, que parece se tinha feito cristão com o nome de António Cor­
reia (2) e a quem impôs o tributo de cem escravos, ao mesmo tempo
que lhe reduzia' ó numero de súbditos ou vassalos, sujeitando directa-
mente à Coroa os quísicos, de maneira que a bem pouco se estendia a
autoridade do novo rei (3 ). •
0 Ngola Ndambi, refeito do susto, voltou a aparecer, assentando
arraiais numa das ilhas do Cuanza, sem se apresentar como rei, mas
continuando como tal a ser considerado pelos seus, que não podiam
reconhecer o Samba Antumba ou António Correia, por não ser filho
legítimo de reis e a sua eleição não poder ter lugar emquanto o Ndambi
fôsse vivo.
Luís Mendes de Vasconcelos adoeceu e foi obrigado a retirar para
Luanda, deixando em seu lugar seu filho João Mendes, de dezanove
anos de idade e havido por mal inclinado, e por seu aio, como escreve o
Bispo para realçar a menoridade daquele, a Luís Gomes Machado,
aborrecido de todos pela sua má vida, os quais foram continuando as

63
(1) Ravenstein, nota (4) a pág. i diz que 0 sítio escolhido foi o da Praça Velha, dos
mapas modernos, ao sul da actual Ambaca.
5
(2) Biblioteca da Ajuda. Cod. i-vm- o. 3
3 0
( ) Catálogo refere que nesta guerra com o Ngola, Luis Mendes, ao entrar em batalha,
formou a sua tropa ao uso da Europa e, advertido pelo seu capitão-mor Pedro de Sousa Coelho
dos inconvenientes que tal formação tinha em face do modo de pelejar dos indígenas, Luis Men­
des insistiu, mas reconhecendo em breve o erro, determinou ao capitão-mor que adoptasse a
disposição tactica que entendesse.
Se este facto fosse verdadeiro, o Bispo Fr. Manuel Baptista, que em tudo e por tudo cen­
sura Luís Mendes, não deixaria de 0 aproveitar. Deve talvez haver um fundamento para esta
versão no facto de Luis Mendes se opor a aceitar o concurso dos jagas nos combates e, possivel­
mente, correndo mal para as nossas tropas qualquer ataque efectuado, atribuíram o insucesso
à falta dos jagas e Luís Mendes deixou-se persuadir de que êles eram indispensáveis. Como foi
autor da Arte Militar, os cronistas julgaram mais verosímil que êle quisesse aplicar às guer­
ras da África os preceitos que desenvolvera na sua obra para as guerras na Europa, e dai a ver­
são que todos reproduziram.
27
210 Angola

guerras, assaltando e prendendo os indígenas, não escapando o pró­


prio Caita Calabalanga, e chegando ao Ambuíla Cabonda e a outros
estabelecidos entre o Bengo e o Dande, com mais ou menos justifica­
dos protestos do Rei do Gongo, que via assim invadida a sua fronteira
e prejuízo certo dos portugueses que ali viviam e por lá se achavam a
fazer negócio, e que perderam as suas fazendas, além de muitos terem
sido mortos.
*
* #

De tôda a acção desenvolvida por Luís Mendes de Vasconcelos,


resultou, para a Coroa Real, a vassalagem de 109 sobas, devendo,
uns por outros, pagar quatro peças , ou um total de 436, que vendidas
a 22»ooo réis, dariam 25.000 cruzados (1), e para êle, propriamente,
uma quantidadÇ tal de escravos, que teve de mandar fazer na liamba
um acampamento próprio, a fim de ali os concentrar, vigiados por pes­
soal seu, e que mais tarde se transformou em um cóio de salteadores,
com que os seus sucessores tiveram de acabar.
Para a economia da colónia resultou, diz-nos o Bispo D. Fr. João
Baptista, que «com estas extorções todas as fe ir a s cessaram, pararãm os
com ércios e resgates, até em muitas partes do reino do C on g o aonde tam­
bém chegaram as g u erra s e cerraram -se os caminhos, d e maneira que p o r
n ã o haver resgates perece a gente â fo m e , perdem-se os arm adores e
va e-se acabando tudo d e rem ate », o que em parte era verdade, porque
o facto de o N g o la M b a n d i não se querer considerar rei, dava lugar a
que não houvesse feiras, porque, sem êle as mandar abrir, os indígenas
não as freqüentavam (2).
A acção de Luís Mendes de Vasconcelos provocou reparos na côrte
em Madrid e em Lisboa, onde foram recebidas queixas contra o seu12

5 3 3
(1) Biblioteca da Ajuda, Cód. i-vm- o, ref.°, fl. i . Instrução secreta dada a Fernão
de Sousa. 2g-Março-624.
(2) O autor do Catálogo, Lopes de Lima nos Ensaios e Ravenstein, para só citar os mo­
dernos, copiaram de algures a informação de que Luís Mendes de Vasconcelos, com o medida
de m oralidade, proibira que os moradores brancos, mulatos e negros calçados fossem às feiras
no interior, e Ravenstein, em nota, indica que Livingstone, no Missionary Traveis 1857, pág. 371,
lhe chama lei ditada por motivos humanitários. Esta medida estava tomada pelo governo de
Portugal ou de Madrid, em regimento anterior ao de Luís Mendes, pelo menos no de 1611 para
Francisco C orrêa da Silva, e constituía o capítulo 21.°, sendo portanto absolutamente falsa a
inform ação. P o r acaso deu certo, pois no tempo dêle, estando fechadas as feiras, não iam lá
brancos, nem outros quaisquer, mas não seria Luís Mendes, depois dos escravos que arranjou
que proporia essa medida moralizadora.
Parte 11 — Angola 211

procedim ento, sendo mandado sindicar por Luís Bezerra e, depois de


preso com os filhos em Massangano (t), remetido para Lisboa, sem que
haja noticia de qualquer outra sanção.
Contudo, por muitas faltas e mesmo crimes que tivesse cometido
em m atéria de administração, a obra política de Luís Mendes impõe-se,
porque êle foi o primeiro Governador que teve a verdadeira intuição da
situação do reino ou sobado de Angola, orientando a sua solução no *
sentido do interesse do Estado, muito embora tirasse para si o possível
proveito. O facto de ter destruído a embala do Rei de Angola, e de
lhe ter imposto jim tributo anual, iniciou o declínio dêste potentado, e
as lutas que se seguiram e 'duraram ainda por largos anos, não foram
mais que o estrebuchar da agonia. Tinha de se fazer o que êle fêz,
para não nos vir a suceder em Angola o triste espetáculo do Congo.
A orientação dada pela Metrópole nos regimentos, da boa paz e harmo­
nia com o Ngola, era errada, e, se as circunstâncias flvessem encami­
nhado a sua realização, a nossa fronteira talvez não tivesse chegado
ao Cuando (2).

* * ^

Depois de Luís Mendes as relações com o Ngola entram numa fase


diferente.
Com o já ficou dito, as guerras tinham afastado os portugueses do
interior. Os indígenas não vinham atacar os nossos presídios, mas
não consentiam que os nossos se internassem isolados para fazerem o
seu negócio. As feiras fecharam; os caminhos, quer para o Congo,
quer para a Matamba e Cassange, estavam-nos vedados. Não havia12

(1) E sta informação consta do único documento que se encontra do governo de João
Correia de Sousa. Biblioteca Nacional. Secção Ultramarina. Angola. Caisa 145,— documento
que está bastante danificado e com dificuldade se pode ler. Vide Anexos. Doc. n.° 40.
(2) L uís Mendes de Vasconcelos escreveu uma obra muito interessante: Do Sitio de Lis­
boa, sua grandeza, Povoação e Commercio, Diálogos de Luís Mendes de Vasconcelos, em que
são tratados assuntos económicos coloniais. Oliveira Marreca, apreciando-a no Panorama,
1842, pág. 379, i.° vol., escreveu: O discernimento com que discursou em assumpto como era o
das colonias, é para notar, se rejlectirmos que, ao tempo em que se publicava a sua obra (1608),
não tinha ainda aparecido o primeiro escripto economico que viu a luj na Europa— 0 tratado
do italiano Antonio Serra, impresso em iõ i 3 . Mas sem este auxilio, o bom siso do escriptor
portugueq, e alguns capítulos da Política de Aristóteles, que cila, revelaram-lhe verdades que só
muitos anos depois foram apregoadas e desenvolvidas pela escola italiana, e pelos economis­
tas in g lejes e franceqes .. Contrahida a questão a estes termos, pode asseverar-se que Vascon­
celos a tinha olhado, como passados mais de dois séculos,*a olharam Ricardo e outros economistas.
212 Angola
comércio com o interior e a situação tornava-se grave, não só para
comerciante de Luanda, como para o próprio Estado, pela falta do
rendimento proveniente da exportação dos escravos e marfim.
João Correia de Sousa, que sucedeu a Luís Mendes, assumia o g0_
vêrno em circunstâncias difíceis e, não podendo tratar com o Samba
Antumba ou António Correia, que nenhum indígena reconhecia como
rei de Angola, teve de mandar o Padre Dionísio de Faria Barreto e um
Manuel Dias, intérprete, para convencerem o Ngola Mbandi a fazer-se
cristão e a sair das ilhas do Cuanza e vir íungarse à terra firme.
As negociações foram bem sucedidas e emquanto o padre Dionísio
ficava junto do Ngola, Manuel Dias veiu com as três irmãs dêste, a
Ginga Ambonde, a Cambo e a Quifunge , a Luanda para confirmar ao
governador as condições de paz, garantidas pela conversão ao cristia­
nismo das três pretas. Lê-se nas crónicas que foi revestida do maior
aparato a recepfão que João Correia de Sousa preparou à embaixada
do N gola Mbandi e conta-se que, tendo-se esquecido de mandar pôr
um tamborete ou alcatifa para se assentar a embaixadora Ginga Am ­
bonde,, esta chamou uma das escravas que a acompanhava e mandan­
do-a ajoelhar, se assentou no dorso emquanto durou a recepção e, ter­
minada esta, como a escrava se não movesse da posição em que estava,
chamaram-lhe a atenção para que a levasse, ao que respondeu que a
deixava por lhe não ser permitido tornar a usar de tal assento.
Estabelecidas e assentes as condições da paz, tratou-se seguida­
mente da conversão ao cristianismo da embaixadora Ginga e suas
irmãs, o que se realizou com grandes festas e pompa, recebendo a
Ginga o nome de D. Ana de Sousa, depois do que regressou aos seus
domínios, acompanhada então por Bento Rebêlo em vez de Manuel
Dias, a dar conta ao irmão do que se passara, levando para êle valio­
sos presentes e um auto que se elaborou com as condições tratadas,
auto de que se remeteu outro exemplar para a Côrte em Madrid, pe­
dindo a aprovação real.
Emquanto esperava a resposta de Lisboa ou de Madrid, João Cor­
reia de Sousa teve de liquidar a situação criada pelos atrevimentos de
um soba Cassange que vivia em uns matos próximos de Luanda, a que
chamavam a Ensaca do Cassangi, e que mandava a sua gente não só
assaltar as comitivas que saíam de Luanda, mas até as próprias casas
dos habitantes, roubando-lhes os escravos quando estes iam à agua na
lagoa dos Elefantes, de que os habitantes se abasteciam.
Êste gentio da Ensaca do Casangi devia ser jaga, pois tinha as mais
Parte II— Angola 2 l3

íntimas relações com a Quiçama, e tendo João Correia de Sousa en­


carregado a Pedro de Sousa, seu capitão-mor da gente de guerra, do
ataque à Ensaca, mal êste se iniciou, Pedro de Sousa, receando que o
gentio lhe fugisse para a Quiçama, mandou pedir que lhe fôsse impe­
dida a passagem do Quanza, o que João Correia de Sousa confiou a
João da Vilória, castelhano que por muitos anos viveu em Angola
e ali casou e enriqueceu, e a seu genro António Bruto, que legou o seu
nome à passagem do Cuanza que foi encarregado de defender, como
Roque de S. Miguel, também castelhano, o legou igualmente a uma
outra passagem que havia no local chamado Sambulo e que passou a
ser conhecido por Penedo do Roque, como o outro era o Penedo do Bruto.
Cortadas as comunicações do Casange com o sul pelo Cuanza, não
teve êle outro recurso senão fugir para o norte, internando-se no Congo,
com cuja gente, dizem os nossos cronistas, tinha entendimento, o que
e muito para pôr em dúvida. Continuando os nosso^na perseguição,
foram atacar o Nombo Angongo no Congo, que reüniu a sua gente
Para se defender, obrigando os portugueses que residiam nas suas
terras a fazer parte das tropas que mobilizara contra nós. De pouco
lhe valeu porque a certa altura os portugueses fugiram, com o arma­
mento que tinham, para o nosso acampamento e, assim reforçada a
nossa gente, foram os de Nambu-á-Ngongo e Mbumbi, que se lhe
tinham juntado, completamente derrotados nas margens do rio Loge,
em 1622, onde morreram grande número de fidalgos do Congo. Não
obstante, os portugueses eram apenas cento e trinta e a maioria ra-
pa\es com pouca barba, facto que 0 chefe conguês, que comandava a
tropa, não pôde deixar de exteriorizar com espanto perante o nosso
capitão-mor Pedro de Sousa, que lhe respondeu: 0 que vês è 0 que fize­
ram os filhos, porque se eu trouxesse os pais que deixei no arraial, não
ficava na corte do teu rei fidalgo com vida (1).
Desta espanholada se vingaram os do Congo, matando a seguir
quási todos os portugueses que residiam no Bembe.
Desta guerra da Ensaca do Cassangi, ou de outra que os cronistas
não mencionam (2), obteve João Correia de Sousa grande número de12

(1) Historia das Guerras Angolanas de Oliveira Cadornega. Capitulo i.° da 1.* pane do
i.° tômo, pág. 62. Exemplar da Academia das Sciências de Lisboa. Anexos. Doc.0 n.° 41.
5 3
No cód. i-viu- o da Biblioteca da Ajuda, a fl. 2, está um mapa do sítio da Ensaca onde
se deu esta guerra, que é interessante. Paiva Manso, Historia do Congo, publica a pág. 174 o
doc. ora que se refere a esta guerra.
(2) Paiva Manso, História do Congo, doc. c-m, refere uma guerra dada pelo capitão Sil-
214 Angola

escravos que mandou para o Brasil. Acusações graves lhe devem


sido feitas por esse motivo, pois que do Reino foi enviada ordem ^
Governador do Brasil para tornarem os escravos para Angola e man°
dou-se proceder a averiguações sôbre a legalidade do cativeiro (i).

« *
* *

Nem em Madrid nem em Lisboa tinham ainda resolvido a consulta


feita por João Correia de Sousa sôbre o caso do rei de Angola, de que
fôra mandado o auto e, entretanto, João Correia de Sousa, por qual­
quer motivo, indisposera-se com Gaspar Alvares, o mais importante e
o mais rico dos negociantes portugueses que viviam em Angola. A
questão agravoif-se a ponto de João Correia a querer resolver violenta­
mente, mandando prender Gaspar Álvares, que, segundo dizem, para
evitar a prisão, se refugiou no Colégio da Companhia de Jesus. Esta
resolução mais veio irritar João Correia, que, não podendo suportar o
desacato à sua autoridade de Governador, perante o previlégio da
igreja a respeito de supostos criminosos, pediu aos jesuítas lhe resti­
tuíssem Gaspar Álvares, e, como êles não anuíssem ao seu pedido, re­
solveu prendê-los, bem como ao Ouvidor, o que realmente fêz, embar­
cando-os em um navio que seguia para Cartagena, não conseguindo
contudo prender o Gaspar Álvares, que com outros jesuítas fugira para
o Congo.
Consum ada a violência veiu a reflexão, e João Correia de Sousa,
julgando conveniente vir também ao reino para se justificar, embarcou
em um outro navio que também se destinava a Cartagena, onde foi
visto pelo ouvidor, que começou em altos berros a perseguir João
Correia de Sousa e pedindo para que os prendessem a ambos, o que
lhe foi satisfeito. João Correia veiu depois para Portugal e terminou
os seus dias no Limoeiro, em Lisboa, depois de lhe terem sido confis-

vestre Soares, com auxílio dos jagas, a Engombè e Cabanda, e ainda a destruição do Bango com
consentimento do rei do Coango. Este rei do Coango é aquele de quem se conta que prendera
cinco mercadores portugueses que apareceram no seu reino e ficaram escravos dos makokos
m as tais calamidades sucederam no reino depois disso, que êle resolveu libertá-los e mandá-los
«o rei do Congo, compensando-os com presentes dos prejuízos que sofreram.
(i) Biblioteca da Ajuda. Cod. 5 i - yjji - 3 o , ref.°. Instrução secreta.
Parie I I — Angola 2r5
ca dos os bens (i), prisão e confiscação que os cronistas da época (2)
ligam e atribuem à questão com os jesuítas, mas que talvez antes tives­
sem como causa principal a remessa de escravos para o Brasil e a
guerra com o rei do Congo, de que êsfe se queixara (3) e que, como
represália, muito possivelmente induzido pelos Jesuítas que com Gas­
par Álvares se refugiaram no Congo, resolveu pedir aos holandeses,
por intermédio de algum dos capitães dos navios que freqíientavam o
Pinda, para efectuarem um ataque a Luanda, prometendo auxiliá-los
no desembarque com sua gente que tinha na ilha.
Serenada a agitação em Luanda, os jesuítas não perderam a opor­
tunidade de tratarem dos seus interêsses, e Gaspar Álvares foi fazendo
o seu testamento, com data de 23 de Fevereiro de 1623, declarando
que estou metido de dés dias nesta Companhia de Jesus donde sou noviço
e que não posso fa\er este testamento em publica forma, nem o posso
aprovar por embarasar me escondido por hum aleive f d ç o e fa lço teste­
munho que 0 Governador João Correia de Sousa me levantou, não
obstante o que 0 tabelião o aprovou em 27 de Outubro de 1623 e, no
dia imediato, o Bispo D. Fr. Simão Mascarenhas, sendo Governador
Geral, lhe lançava 0 Cumpra-se 0 que toca ao pio.
Era precisamente o que tocava ao pio que interessava à Compa­
nhia de Jesus, pois Gaspar Álvares, àparte uns pequenos legados a
pessoas de família, à Misericórdia de Lisboa e a um amigo ou empre­
gado, legava a sua fortuna, avaliada em 400.000 crusados, à Compa­
nhia, parte em legados com fins determinados, como para estabelecer
um seminário no Congo; outro em Luanda, onde tivessem ensino,
sustento e vestir, pelo menos 12 rapazes filhos de homens pobres, e
um hospital, e outra parte em escravos, terras, dinheiro, etc., proce­
dendo assim, segundo escrevia o Governador Fernão de Sousa (4),
porque sendo o maior mercador que ouve e avera nesta Ethiopia e não
podia por melhor meyo pagar ao gentio 0 que lhe devia que com aplicar
sua fazenda a obras pias e seminários, em que os filhos e descendentes
do gentio aprendão e alcancem verdadeira noticia da nossa santa fé .

(1) Figanière a pág. 247 do seu Catálogo dos Manuscritos Portugueses existentes no Mu­
seu Britânico, cita um documento que diz respeito à confiscação dos bens de João Correia de
Sousa, Governador de Angola.
(2) Cadornega. Na parte do cap cit.
3
( ) Paiva Manso, História do Congo. Doc. cu e cm.
(4) Carta do Governador Fernão de Sousa, de 25 5 36
de Dezembro de 162 , a fi. ç do-
5 3
Cod. i-vm- o da Biblioteca da Ajuda.
t
1

2 l6 Angola
A -p esa r-d o cumpra-se d o G o v e rn a d o r G e ra l, F e lip e 111, p eias recla
•mações rece b id a s, m an d o u qu e o s jesu ítas restituíssem to d o s os be '
I de que se tinham a p o d e ra d o , com o fu n d am en to de que o testament
não fôra feito em p ú b lica -fo rm a e servira m de testem unhas o Reitor €
o u tro s re lig io so s da C o m p a n h ia , além de que p a r a entrarem na posse
d o s b e n s tin h a m co rro m p id o os o ficiais de defu ntos, d an d o a ca d a um
» m il c ru s a d o s ( i).
* A o s o ficia is de defuntos e ausentes qu e in tervieram no caso foi
d a d a o rd em de p risão, m as a-p esar-d e to d o o segred o tiveram quem
o s a v isa sse e fugiram . D o seu la d o , o G o vern a d o r G eral F ern ão de
S o u s a p rom etia que o in ven tário da fazend a de G asp ar A lvares se
fa r ia e in form ava, não se tem perdido em estar esta fazenda em mãos
dos Padres da Companhia porque nelles está mais segura que em The-
'I
\oureiros e se o testamento se anullar, acha-la-hão os herdeiros sem que­
bra, nem demeiiSiyção, porque a arrecadão e beneficiaô como sua, e não
a despendem como fa\em os Thesoureiros, em que V. Mag.de manda se
tenha grande consideração porque os nomeiaõ os Bispos, seus provisores,
em homens pobres que a recebem para não dar conta dela (2).
O inventário foi tendo demoras até que esqueceu, e a Companhia
de Jesus ficou de posse da herança, não tendo nunca cumprido as dis­
posições de Gaspar Álvares quanto aos seminários e hospital.

(1) C on ta-se que tôda esta questão de G aspar A lvares foi originada na intervenção dos ,
jesuitas para o livrarem de um a situação ridícula após uma cena de amores, mas fôsse qual •]
fosse a origem , o certo é que já anteriorm ente G aspar Á lvares era um bemfeitor da Com panhia ;
de Jesus e tinha direito a ser considerado fundador, por ter fundado, ou à sua custa estabele­
cid o , em L u an d a, uma escola de português e latim dirigida pelos padres da Com panhia, ao que
êle se refere no seu testam ento.
, * U m a có p ia deste testam ento deveria encontrar-se, pelas indicações deixadas pelo V isconde
de P aiva M anso, no A rquivo do Ministério da Marinha e Ultram ar, provisòriam ente incorpo­
rad o na B iblioteca N acional, S ecçã o U ltram arina, no processo Ofícios dos Bispos de Angola,
i j 5 3 - i 8 2 5 , Março de 1773. P o r qualquer m otivo êsse processo foi organizado por m aços com
•* ! o u tro s títulos, e, isolado entre êles, encontrou-se uma relação dos bens apreendidos aos jesuí­
tas em A n g o la , quando se deu execução ao decreto pom balino que os expulsou de P ortugal e
seus dom ínios.
Nessa R elação dos rendimentos, certos, etc., datada de 27 de Julho de 1760 e assinada pelo
escrivã o da fa2enda A n tón io Ferreira C ard oso, Anexos. D oc. n.° 42 se transcreve o testamento
d e G asp ar Á lv ares, com tôdas as aprovações e cumpra-se e também se trancreve a provisão da
Mesa da C on sciência e Ordem de O utubro de 1624, em que se m andava que a Com panhia de -
Jesus restituísse os bens de que se apossou e se procedesse ao seu inventário o que nunca se 1
cum priu, a-pesar-das ordens dadas.
5
O origin al dêste últim o docum ento encontra-se a fls. 19 do C ód. t-v m - o da Biblio­3
I teca da A ju d a , já referido, e no mesm o cód ice se encontram ainda outros docum entos refe­
ren tes ao assunto.
(2) B ib lio te ca da A juda. C ód . 5t-vm -3o, cit., fl. 320. C arta para a Mesa da Consciência
I.
[ P a rle 11— A n g ola 2 l7

*
* #

João Correia de Sousa deixou no seu lugar o seu capitão-mor Pedro


de Sousa, a quem logo o rei de Angola mandou macun^es pedindo-lhe
desse cumprimento ao capitulado, de que se fizerão autos em aprova­ • / '
ção e também se remeteram para o Governo, sem nenhum resultado.
Chegou então o Bispo D. Fr. Simão Mascarenhas, a quem foi en­
tregue o govêrno, ficando Pedro de Sousa no seu antigo cargo de capi­
tão-mor. Novamente o Angola Kiluangi manda cumprimentar o novo
Governador, pedir a resolução do assunto pendente, e ao mesmo tempo
que lhe desoprimissem o reino do jaga Caçange, de quem Luís Mendes
se tinha socorrido para o atacar.
Atendeu o Bispo êste último ponto e mandou Ped» de Sousa cas­
tigar o jaga, mas por questões havidas na eleição do Bispo e ciúmes
de Pedro de Sousa, que se vira assim desalojado do cargo de Governa­
dor, as cousas continuaram na mesma, pelo que o Angola se conven­
ceu de que o estavam enganando, e, vendo-se desprestigiado perante os
seus, de paixão morreo e di\em q. de peçonha q. ele mesmo de desesperado
tomou (i), ao passo que outros afirmam que foi a Ginga que o mandou
envenenar.
Pertencia agora o reino à Ginga, D. Ana de Sousa, que se apres­
sou a comunicar ao Governador D. Fr. Simão Mascarenhas o faleci­
mento do irmão e a sua eleição, pedindo o cumprimento do tratado i i
de que ela tinha sido a negociadora, pedido que, da mesma forma que
os anteriores, ficou sem solução, por de Lisboa não vir resposta alguma. 1 r ,
<jMas, o que pedira o Rei de Angola e quais eram as condições de
paz estipuladas, que tanto tempo precisavam para serem apreciadas e
resolvidas ?
r

í r
Bem pouco, a final, e bem possível de resolver dentro das atribuições f -
e poderes do Governador Geral, se o assunto se não ligasse com os

J
cativos feitos por Luís Mendes de Vasconcelos, a que já se fêz refe­
i
rência, e eram em tal número que ocupavam, com o seu acampamento
uma parte importante da província da liamba.
As condições de paz estipuladas com a Ginga em nome do irmão,
consistiam: em lançarmos fora das suas terras o jaga Caçange que o
f-
5 3
(t) Biblioteca da Ajuda. Cód. i-vm- o, já citado fl. 414.
28
t-
r
A n g o la
2 r8
guerreava; em lhe restituirmos os sobas e os quisicos de sua obediência,
que Luís Mendes lhe tinha tomado, porque não podia ser rei sem vas­
salos e sem cativos que o servissem e, íinalmente, que retirássemos o
presídio de Ambaca para qualquer outro ponto, porque estando dentro
das suas terras e a um dia da sua povoação e côrte, se não podia con­
servar, porque para êle era um desprestígio e um impedimento para o
comércio, peia cubiça dos brancos, que assim devassavam as suas
terras.
Estas condições foram aceites em conselho da Câmara e ouvido o
Bispo e Padres, concordando todos com elas e também com o se re­
tirar o presídio de Ambaca para a Luínha, o que tudo poderia ser de­
terminado pelo Governador, se não houvesse, como já ficou dito, o
obstáculo da restituição de alguns sobas e dos quesicos, avassalados por
Luís Mendes, que representavam uma importante fonte de receita para
a Fazenda R eaf
*
# *

Estavam neste pé as relações com o Reino de Angola, quando Fer-


não de Sousa chegou a Luanda, em Junho de 1625, nomeado Governa­
dor Geral.
A Rainha Ginga, D. Ana de Sousa, preta inteligente e altiva, verda­
deiramente educada para dominar o seu povo, que a respeitava e temia
pelas suas crueldades, estava irrequieta, não podendo compreender as
demoras burocráticas na confirmação pela Metrópole das condições de
paz que ela negociara. Dizia-se que fôra ela que, descontente com a
passividade do irmão, não só o mandara envenenar, mas para lhe
suceder no reino, houvera âs mãos um filho único do irmão, que devia
ser o seu herdeiro e estava em poder do ;aga Caza Cangola, e o ma­
tara, arrancando-lhe o coração e arremeçando o corpo do rio Cuanza,
apregoando e fazendo constar aos indígenas êste requinte de crueldade
e maldade, para mais se fazer temer entre êles.
Pela nossa parte assistia junto dela apenas Bento Rebelo, pois que
o Padre Dionísio de Faria, quando se deu a morte do Ngola Nbandi,
com receio do que lhe pudesse suceder, pretestou ter de ir a Ambaca
para se confessar e não mais voltara à côrte do Ngola. A situação
era insustentável, tanto mais que a Ginga, não obstante aparentar o
desejo de manter as melhores relações com o Governador Fernão de
Sousa, que a presenteava e lhe prometia uma rápida solução ao assunto,
Parte 11— Angola 2I9
procurava por outro lado chamar a si os nossos escravos e quimbares
(gente de guerra preta) que passavam pelos seus domínios, oferecen­
do-lhes terras para se estabelecerem e fazerem os seus arimos, o que
muitos aceitavam, chegando a fugir para ela senzalas inteiras.
Afluíam as queixas ao Governador, não só pela perda que sofriam
com a fuga dos pretos, mas pelo perigo que representava o aumento
de poder da Ginga com a nossa gente de guerra. Fernão de Sousa
pôs o assunto em Conselho, assentando-se que se devia mandar pedir
à Ginga que restituísse os quimbares e, não o fazendo se rompesse com
ela, não lhe admitjndo mais recados.
Em cumprimento da resolução tomada, Fernão de Sousa mandou
Domingos Vaz ao Dongo, com recado à Ginga para a convencer a
mudar de procedimento, ao que ela respondeu com nova evasiva, pe­
dindo que em troca lhe mandasse padres da Companhia de Jesus, o
que Fernão de Sousa satisfez mandando os padres Jeaónimo Vogado e
Francisco Pacónio, mas com ordem de esperarem em Ambaca a notí­
cia da entrega dos quimbares e, só então, seguirem para o Dongo.
Forçada por esta forma a defenir a sua atitude, a Ginga recusou-se à
entrega dos quimbares e escravos e Bento Rebelo e Domingos Vaz reti­
raram do Dongo.
Tentou ainda Fernão de Sousa por meios brandos evitar o recurso
à guerra, mas tendo o sobeta Airequiloange, que pertencia ao reino do
Dongo e estava estabelecido nas Pedras de Mao Pimgo, mandado
comunicar que se queria avassalar e não reconhecer a Ginga como
rainha, esta, despeitada e pouco tempo depois, quando se fazia a aber­
tura de uma nova feira nas terras do Airequiloange, fingindo que man­
dava escravos a essa feira, preparou uma guerra para o atacar.
Prevenido o Aire veiu pedir socorro à fortaleza de Ambaca e foi
em seu auxílio o capitão Estevam de Seixas Tigre, que destroçou a
gente da Ginga que se opunha ao seu avanço para a embala do Aire.
Como a Ginga fizesse novo ataque, mandou o Tigre sair uma pequena
parte da sua força sob o comando de Pedro Leitão, e a Ginga, já conhe­
cedora dos nossos hábitos de guerra, fingindo que retirava e abando­
nando as bagagens, para se sevaré nella, caiu sôbre os nossos, matando
o Pedro Leitão e dois soldados, e levando prisioneiros os seis restantes,
retirando então para as ilhas do Cuanza, onde tinha feito a sua côrte.
Com êste sucesso a Ginga cobrou alento e forças, e iludindo sem­
pre, disfarçando habilmente os seus intentos, ao passo que mandava
embaixadores a Fernão de Sousa para justificar o seu procedimento,
A n g o la
220

fomentava a rebelião dos sobas que se nos tinham avassalado, e a ponto


tal que um soldado, Manuel Foz Landroal que se refugiara nas suas
terras e durante quatro anos vivera com a sua gente, auxiliando-os
contra os nossos, estando doente e sentindo a morte, quis arrepen­
der-se e confessou o trama urdido da revolta de todo o gentio do
Museque.
A situação era gravíssima. Consultas para o reino, já se sabia que
não tinham solução, pois que pela demora havida para resolver o que
propuzera João Correia de Sousa, é que se tinha chegado ao estado a
que se chegara.
Fernão de Sousa conhecendo o meio, manobrou com hábil política
e, partindo do princípio de que sendo o Aire Quiloange um soba vas­
salo da Coroa e não o sendo a Ginga, mandando o regimento que lhe
deram, no seu capítulo 8.°, que prestasse socorro aos sobas vassalos
quando atacadc^ pelos que o não fôssem, submeteu o assunto em con­
selho de Capitães, Câmara, Ouvidor e Provedor e todos foram de pare­
cer que se defendesse o Aire e, atendendo a que estava ameaçada a
segurança dos presídios e se preparava um levantamento geral, resol­
veram que . se fizesse a guerra à Ginga, a qual era não somente justa,
mas necessária pelos motivos e razões expostos. Não contente com
esta consulta favorável aos seus planos, quis mais, ou quis antes garan­
tir-se com a autorização de quem tudo mandava, e foi ao Colégio da
Companhia de Jesus expor o que se passava e aí, por todos os padres
da Companhia, letrados e religiosos, clérigos e vigário geral, retinidos
em Conselho, lhe foi confirmado, por auto assinado por todos, que a
guerra era justa e necessária e com tal convicção, que o padre reitor
Duarte Vaz, tendo de-certo sempre em mira a obra da evangelização,
autorizou que os padres António Machado e Francisco Pacónio, ambos
sacerdotes e prègadores, acompanhassem a guerra à custa do Colégio.
Foi dada ordem de mobilização. Mandou-se tocar as caixas lan­
çando os bandos para tal fim, intimando os moradores válidos a acom­
panhar a guerra; organizando uma companhia de infanteria e outras
de guerra preta; avisando todos os que estavam pelo interior para
recolher a Luanda; mandando reünir na ilha todos os mantimentos,
munições, armas e cavalos e apetrechando as embarcações para o
transporte da carga pelo Cuanza até Massangano, etc.
Bento Banha Cardoso, há pouco regressado do reino, era o capitão
mór da gente de guerra; António Bruto, o sargento mór e nomeara-se
também um Auditor de Campo, Bento Rebelo Vilas Boas e um escri-

mâ:
Parte II— Angola Hl
vão, para )u*gar das causas, e tudo organizado e a postos para a par-
tida, em um sábado, sete de Fevereiro de 1626, iniciou 0 quilombo a
fliarcha, ao som de guerra, com toque de caixas, trombetas e pífanos,
seguidos de infanteria, e da gente de cavalo, e à frente, a cavalo, o
capitão mór Bento Banha Cardoso, que 0 governador Fernão de Sousa
acompanhava, até à Lagoa dos Elefantes, precedendo o guião com a
sua escolta.
Não se esqueceu Fernão de Sousa de dar um regimento ao capitão
indr, e por êle vemos que um dos fins que se tinha em vista com a
guerra, era a investidura do Airequíioange, como rei do Dongo, cujo
trono se acharia vago, depois do ataque que se ia dar à Ginga, pela
prisão desta ou pela sua fuga (1).
Do auto de vassalagem a que deveria proceder, constaria que Aire-
quüoange, Rei do Dongo, por si e por todos os seus sucessores, se obri­
gava a pagar de feudo e baculamento cem peças da Ilidia; a abrir fei­
ras e tê-las sempre correntes nos locais que fôssem indicados; a dar
ajuda de guerra para castigo dos sobas rebelados, sempre que lhe fôsse
pedida, obrigando-os a pagar os baculamentos que devessem, e respon­
sabilizando-se pelos dos sobas em sua obediência. Pela nossa parte
tomavamos o compromisso de 0 defender dos seus inimigos e dos jagas
quando lhe infestassem 0 reino; de lhe largarmos os quiqicos e os sobas
que estavam na obediência do reino quando Luís Mendes lhe fêz a
guerra, e a mandarmos retirar 0 presídio de Ambaca para 0 local onde
anteriormente estava.
Assim resolvia Fernão de Sousa, com habilidade e inteligência, as
dificuldades que adivinhava pela demora da Metrópole na resolução de
um assunto de tal gravidade, se tivesse tido a infeliz ideia de fazer a
consulta.
Os restantes capitulos do regimento provam 0 conhecimento que
tinha do meio em que vivia e as atenções que lhe merecia a política
indígena, pois não só proibia que se fizessem exigências de qualquer
ordem aos sobas amigos, como levava 0 seu cuidado até a recomendar
que as marchas do quilombo se não fizessem, a não ser em casos espe­
ciais, pelo território ocupado por êsses sobas.

33v.
(1) Biblioteca da Ajuda. Cod. cit., 2.* vol., fl. t
222
A n g o la

• *

Bento Banha Cardoso seguiu para Massangano e dali na direcção


de Ambaca, para onde já antes tinha ido Sebastião Dias Tição, com
ordem para proceder às reparações de que necessitasse a fortaleza e
de fazer recolher o capitão Tigre, que ainda se achava na embala do
Aire, por ser insuficiente a gente de que dispunha para poder fazer,
sem receio de qualquer mau sucesso quando atacado por gente da
Ginga, a marcha para Ambaca.
Cumprida a missão de que fôra incumbido, saiu o capitão Tição de
Ambaca ao encontro de Bento Banha, e emquanto os padres da Com­
panhia de Jesus tomavam conta do Airequiloange, levando-o para a sua
embala nas Peé-as do Mau Pungo, onde o fizeram cristão, bem como
à mulher, filhos, uma irmã e muitos sobas, Bento Banha, feitos os ne­
cessários preparativos e lançados todos os bandos mandando recolher
os pretos forros e apresentarem-se para se avassalarem, os sobas que
não reconhecessem a Ginga, deu início à marcha do seu quilombo para
o ataque.
A Ginga estava tão confiada do seu poder, que sabendo os prepa­
rativos ordenados para a atacarem, os encarava sem receio e permi­
tia-se troçar e provocar o capitão Bento Banha, cuja bravura e mesmo
crueldade, ela devia conhecer por tradição. Assim, enviou-lhe uma
carta dizendo que não percebia a vantagem em a irem atacar por ter
lá os seis portugueses prisioneiros, pois só a êstes faziam mal e con­
vencia-se que a guerra era com o fim de alguns moradores de Luanda,
que estavam endividados, se desendividarem. E em post-scriptum, pe­
dia para lhe mandar diversas e variadas coisas, como uma rede, vinho
bom, cera, toalhas de mesa com rendas, um chapéu de sol grande de
veludo azul, etc., ao que Bento Banha respondeu, que o levava lá o re­
ceber os quimbares que para ela tinham fugido, não o preocupando os
portugueses, por não os querer tirar de bom agasalho em que ela os
tinha e, quanto às coisas que pedia, como os portadores as não podiam
levar, êle calculava que por pouco estaria junto dela e lhas entrega­
ria (i).

(i) Biblioteca da Ajuda, Cod. cit., t.° vol., fls. aio a 274. A meu filho Gonçalo de Sousa
e a seus irmãos.
Parte I I — Angola 2
Só a 7 de Junho chegou Bento Banha em frente das ilhas do Cuanza
ocUpadas pela Ginga e sua gente, procurando reconhecer o ponto por
0ndc devia fazer a entrada. Contra as ordens de Fernáo de Sousa,
j etflorara-se na marcha, justificando-se com a necessidade de arranjar
mantimentos e castigar uns sobetas que se não tinham avassalado,
eit)bora não fôssem rebeldes declarados. Fernão de Sousa compreen­
dido a verdadeira causa da demora, foi dando ordem ao juiz de
Ruanda para verificar se deveriam ser considerados boa presa os cati­
vos, que determinara lhe fôssem todos presentes e ao capitão de
jvlassangano que procedesse da mesma forma a respeito dos que ah
pâssâsscm»
Preparadas as lanchas para o ataque, iniciou-o Bento Banha pela
ilha do Mopoio, onde não estava a Ginga, o que sabia pelos avisos
que tivera dos seus capitães, especialmente Lopo Soares, que lhe fize­
ram ver os inconvenientes da demora de oito dias gdfctos em recados
com a Ginga. Não os atendeu e, atacada a ilha de Mopoio e desbara­
tados e aprisionados os que nela estavam, foi Bento Banha atacar por
último a da Ginga, que-já, entretanto, tinha fugido com tôda sua fazenda
e grande parte da gente, tendo queimado os mantimentos para que os
nossos os não aproveitassem. Contra todos os preceitos Bento Banha
não iniciou logo a perseguição, talvez, por ter que manter a ordem na
apanha dos cativos, e dêsse facto resultou não a aprisionar, o que
deveria ter sido fácil, pois tinha pouca gente a acompanhá-la e essa
mesmo tão desmoralizada, que ela própria, com receio, ou para ganhar
tempo, mandou ao capitão mór um Macm\e para prestar obediência,
o que não foi aceite. Depois de novas conversas, Bento Banha inti­
mou-lhe a entrega dos brancos, o que ela cumpriu, e a seguir a dos
quimbares a que se negou, e então, já refeita do susto e vendo a
indecisão dos nossos, fugiu, ficando Bento Banha Cardoso a colher
informações sôbre o ponto onde se poderia ter refugiado, tendo pedido
ao Aire e ao comandante de Ambaca lhe mandassem gente para poder
efectuar a perseguição.
Fernão de Sousa, informado do que se passava, reüniu o Conselho
e expondo-lhe a sua opinião, resolveu-se dizer a Bento Banha, que se
sabia onde a Ginga estava e via possibilidade de à ligeira a assaltar e
fazer prisioneira, o fizesse, mas de contrário, que tratasse de compor o
reino e proceder à eleição do novo rei.
Tentou ainda Bento Banha a perseguição e, assim que obteve tro­
pas frescas, partiu com oitenta soldados e os cavalos de que dispunha,
A n g o la
224
c em quatro dias, a bom andar, devia ter chegado muito próximo das
margens do Cuango, em Samboquizenzele (t), onde colheu informações
sôbre o destino da Ginga, averiguando que depois de expulsa de vários
sobados e severamente batida pelos Malembas, que lhe mataram muita
gente, se refugiara no Jaga Casa, seu antigo inimigo agora reconciliado.
Na impossibilidade de a aprisionar, retirou Bento Banha para Ambaca
a tratar da regularização do reino do Dongo.
Durante a guerra tinha falecido o soba Aire Quiloange, e Bento Ba­
nha Cardoso que precisava arranjar um rei, aproveitou o Soba Angola
Aire, um dos muitos descontentes da Ginga e, sem consultar o governo
geral, mas com o voto dos padres jesuítas e dos seus capitães, proce­
deu à sua eleição como Rei debaixo das condições estabelecidas e com
as formalidades que lhe tinham sido recomendadas para o outro, o que
tudo se realizou a 12 de Outubro de 1626, mas não desfazendo logo o
quilombo para r*elhor poder garantir a consolidação do novo rei.
Entretanto Sebastião Dias, um dos seus mais valentes capitães,
tinha partido em perseguição da Ginga, com um pequeno núcleo de
tropa, e chegando á Quina pequena, suspendeu a marcha pelo receio
de ser atacado pelo Angola Quizua, soba muito poderoso, retirando
para Ambaca a reünir-se ao quilombo de Bento Banha Cardoso.

*
* #

Angola Aire não provinha de família nobre, pois sua mãe era es­
crava da Quifungi, uma das irmãs da Ginga, e os indígenas não se con­
formavam com a sua eleição para rei. Grande parte deles tinha aban­
donado o Dongo, refugiando-se nas Malembas e Matambas, e outros
ficaram, mas não lhe prestavam obediência, antes, como o Ambuíla,
fomentavam a revolta, dando guarida a rebeldes.
Bento Banha com a preocupação de lhe reconstituir o reino, arran­
jando-lhe vassalos e cativos, mandara recado a Massangano para
recolherem ao Dongo todos os escravos, qui\icos e forros que tinham
fugido no tempo da guerra ao Quiloange e pedido a nossa protecção,
mas Fernão de Sousa avisado, não consentiu, e ordenou a Bento Banha
que se preparasse para obrigar o Ambuíla a entregar os rebeldes que
tinha recolhido, contentando-se com essa entrega se êle a fizesse, e

(1) Talvez Quízunguela na confluência do Cacique com o Luando, afluente do Cuanza.


Parte II— Angola 225

esquecendo outros agravos que tínhamos dele, porque qualquer ques­


tão poderia trazer complicações com o rei do Congo, e o momento não
era oportuno para nos aventurarmos em guerras pelo interior, sendo
necessário ter gente para acudir aos portos, por se recear um ataque
de surpresa dos navios holandeses. í
Chegou Bento Banha a reorganizar o quilombo e passar o Lucala
para ir dar guerra ao Ambuíla, mas entretanto recebeu Fernão de
Sousa notícias do Brasil, de uma esquadra holandesa de doze naus que
estava na Baía preparando-se para vir atacar Luanda, pelo que or­
denou a Bento Banha recolhesse á capital, ficando assim sem efeito a
guerra preparada.
Regressadas as tropas, tendo depois vindo notícias do Brasil mais >\
tranqüilizadoras, dispunha-se Fernão de Sousa a licencea-las, quando
teve aviso de novas maquinações da Ginga, que mandara emissários
a Ambaca, a título de pedir pazes, mas outro fim náb tinham senão
colher informações e fomentar revoltas.
Em resposta determinou Fernão de Sousa ao capitão-mór, que pren­
desse o embaixador e comitiva, e apregoasse contra a Ginga guerra a
fogo e sangue, ameaçando todos os sobas que a reconhessem como rainha,
de lhes mandar cortar a cabeça e, ao mesmo tempo, escreveu ao rei
de Angola, animando-o e exortando-o a que apertasse o arco e nada
receasse, porque o capitão-mór se ficava aprestando para ir em seu
socorro. Efectivamente Bento Banha Cardoso, depois de tomadas as
medidas indispensáveis para a reorganização do quilombo, seguiu para
Massangano e dali para Ambaca, afim de retinir as suas tropas, mas
sentindo-se doente, teve de retirar para se tratar em Luanda, sendo a
seu estado por tal forma grave, que faleceu pelo caminho, no dia 8 de
Agôsto de 1628, no Lembo, onde tinha um aritno 0 português Pedro
de Carvalhaes Dantas, sendo 0 seu cadaver transportado para Massan­
gano, procedendo-se ao enterramento com tôdas as honras que eram
devidas ao valente e bravo lutador de tantos anos em Angola.
Em sua substituição foi nomeado Payo de Araújo de Azevedo, que
se dirigiu a Massangano pelo Guanza, com parte da sua gente em duas
lanchas, construídas por forma a poderem ser divididas em quartéis,
transportados por pretos do rei do Dongo por terra até ao local do
Cuanza que mais conviesse para atacar a Ginga na ilha em que de
novo se tinha refugiado. De Massangano seguiu Payo de Araújo ao
encontro do quilombo que Bento Banha tinha deixado em cotnêço de
organização, e aí esperou que se lhe reünissem os brancos e auxiliares
a9
2 2 6
A n g o la

indispensáveis para iniciar a guerra, levando recomendações de Fer-


náo de Sousa para se não deter em pequenas escaramuças com quais­
quer sobas rebeldes, e seguir directamente a atacar as ilhas onde estava
a Ginga com a sua gente.
Não entendeu assim Payo de Araújo, e porque no quilombo havia
falta de mantimentos e precisava aprovisionar as suas tropas, com
êsse fim iniciou a marcha em Fevereiro de 1629 dirigindo-se aos soba-
dos que estavam revoltados, antes de ir à Ginga. Em dois dias chegou
às margens do rio Loando afluente do Lucola e, dada a impossibilidade de
o passar a vau, por levar muita água, fêz construir uma ponte de ma­
deira, por onde passou com cerca de metade da sua tropa, arcabuzei-
ros e gente de cavalo, para a outra margem, deixando a restante de
prevenção para qualquer ataque. Na vanguarda iam a companhia de
infantaria sob o comando de Paulo Couraça, a cavalaria comandada
por Gaspar Bof^es e a guerra preta dirigida pelo tendala António Dias
Mossungo, que se encaminharam para um alto onde viram umas libatas,
emquanto Payo de Araújo ficava ainda a acompanhar o desembarque
dos restantes, que se tornava difícil por a margem do rio estar alagada.
O soba Golagumba Quiambolo capitão-mór do Sonde (Songo ?), o mais
poderoso chefe da Matamba, e o soba Cassandre, atacaram a nossa van­
guarda, que socorrida por Payo de Araújo os obrigou a fugir, ficando
prisioneiros aqueles sobas, mas o Sonde, sabendo do desastre, veio com
tôda a sua gente atacar a nossa retaguarda, sendo já quási noite e
quando ainda não tinham acabado de passar o rio, o que tornava a
situação extremamente crítica. Tal foi, contudo, o valor e a coragem
dos nossos, que a-pezar-de cercados por milhares de indígenas, conse­
guiram destroçá-los.
Acampando com tôdas as precauções, dispunham-se na manhã
seguinte a ir à busca de mantimentos, quando se viram de novo
cercados pela gente do Sonde, que nos atacava com denodo, mas
perante a resistência que lhe opozemos foram obrigados a fugir, ficando
prisioneiro o próprio soba Sonde e sofrendo muitas baixas.
A vitoria alcançada por Payo de Araújo produziu a maior admira­
ção nos indígenas, pois que o soba Golagumba era tido por um valente
guerreiro, não só pelas lutas entre os seus, mas ainda e muito prin­
cipalmente, porque tempo antes destroçara uma nossa guerra preta
que o atacara, matando-nos cerca de oitocentos quimbares. Não
obstante, o Sonde foi o primeiro a mandar dizer aos seus macotas que
o viessem libertar, tornando-se nosso vassalo, o que era da maior
P a r te 11— Angola 227
importância politica por êle ser a chave do remo da Mataraba, que
assim nos ficava aberto à nossa penetração comercial. A seguir, o
jaga Cassange, receando um ataque dos nossos, que se encaminhavam
para o seu sobado, abandonou-o com oitenta mil arcos e seguiu em
direcção ao Congo.
«
# *

Obtidos os mantimentos para a sua tropa, voltou Payo de Araújo


para as terras do Dongo e, mandando chamar o Angola Aire, pergun­
tou-lhe se os sobetas que estavam nos Bondos lhe obedeciam. Como
as suas respostas fôssem dúbias e mostrando receio de tudo, a ponto
de nem lhe poder fornecer, não só gente de guerra preta, como nem ao
menos carregadores, para transportarem a bagagem do nosso quilombo,
Paio de Araújo reüniu Conselho de capitães, assistindo^o Rei do Dongo
com os seus macotas, que terminou por se declarar destituído do reino
e querer ir para a sua terra.
Expôs, Paio de Araújo a situação para Luanda, comunicando ao
mesmo tempo que fôra informado de que a Ginga, tendo pedido a vários
jagas que a protegessem, todos lhe negaram auxílio, pelo que se puzera
em fuga. Fernão de Sousa ouvido o Conselho da Câmara e mais
autoridades, resolveu determinar a perseguição da Ginga, pelas terras
do Quisuba ou por onde se soubesse que ela estava, mas recomen­
dando que se evitasse causar qualquer dano por onde passassem.
Em cumprimento das ordens recebidas, Payo de Araújo mandou
emissários ao Ndala Quissuba para lhe entregar a Ginga ou dizer onde
ela estava, e tendo êste respondido que a não tinha nem a consentia nas
suas terras, por querer viver na melhor paz e harmonia connosco,
pôs-se a caminho com cem arcabuzeiros e gente de cavalo, passando
pela raia do Quissuba, atravesssando os Malembas e tôda a Ngangela
sem resistência, porque também os nossos lhes não fizeram o menor
dano, até que encontrou 0 quilombo da Ginga, que acampára em uns
rochedos, acessíveis apenas por um ponto que só permitia a passagem
a uma pessoa, o que lhes deu tempo para se pôrem em fuga. Tendo
encarregado da perseguição o capitão da companhia de infanteria
Diogo Carvalho e 0 tendala da nossa guerra preta António Dias Mus-
sungo, conseguiram estes apanhar-lhes as duas irmas, Cambo e Qui-
funge, e todos os sobas e macotas que a acompanhavam, não podendo
continuar a perseguição por ser já noite.
228 Angola
No dia seguinte foi o capitão-mór Payo de Araújo só cora sessenta
nrcabuzeiros, e depois de ter atravessado uma região muito acidentada,
acampou, e no dia imediato, tendo avistado a gente da Ginga, largou-lhe
a nossa gente de guerra preta, que investiu impetuosamente, e a ponto
de não repararem em um precipício por onde alguns dos nossos se
despenharam. Estavam na Quina Grande dos Ganguelas(i) de onde
a Ginga para se livrar, teve dc fugir descendo por cordas e paus e de
uma tão grande altura, que debaixo ao cume dela se não ouvefalar nin~
gue se não he de noite estando calada.
Pelos mesmos caminhos os nossos se lançaram em perseguição,
vendo a Ginga com a sua gente a pequena distância, sem a puderem
alcançar mas ameaçando-a constantemente, e com tal destresa os
nossos pretos se portaram, que a Ginga resolveu entregar-se, o que
lhe não foi permitido pelos nossos quimbares fugidos que a acompa­
nhavam e que, ^um último esfôrço, com ela seguiram, deixando con­
tudo cerca de trezentos dos seus.
Durou ainda a perseguição dois dias, chegando a nossa gente às
terras dos Songos, onde a Ginga se internou, sem que pudéssemos con­
tinuar a marcha, pelo receio de sermos atacados por aquele gentio que
tinha fama de ser feroz, e sermos poucos e sem condições de maior re­
sistência.
Retirando com os prisioneiros, tomaram ainda tôda a bagagem da
Ginga, e o capitao-mór Paio de Araújo comunicou que pelas informa­
ções colhidas, a Ginga e os poucos que a acompanharam, seriam feitos
prisioneiros, se não fossem mortos e comidos pela gente do Songo,
podendo por isso considerar-se o assunto liquidado. Entendia o capi­
tão-mór que era oportuno o momento para o Angola Aire consolidar
o seu reino, pois com o castigo sofrido, os sobas fugidos se deveriam
apresentar, convindo desfazer o quilombo para que tudo socegasse.
Efectivamente Angola Aire agora mais animado, tratou de se fazer
reconhecer como Rei pelos diversos sobas e, tendo-o conseguido, deu-se
por satisfeito, pelo que Fernão de Sousa mandou passar o quilombo
para Tango Angonga (Tala Mungongo?) para se provêr de mantimen­
tos nos Bondos da Matamba, emquanto decorria o serviço de cobrança
dos baculamentos.
Entretanto chegavam a Luanda as irmãs da Ginga, D. Maria Cambo
e D. Gracia Quifunge, que tinham sido feitas prisioneiras, acompanha-

(i) P arte leste da serra do M u gon go.


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Par/e / / — Angola
das de uma tia e onze pessoas importantes da terra, a quern o Gover­
nador Fernão de Sousa recebeu com honras especiais, fazendo-as
acompanhar, desde a Lagôa onde tinham acampado, pela sua guarda
comandada por um capitão, c recebendo-as no palácio com cerimonial y .
próprio, que não deixa de ser interessante relatar, não só como estudo
da pragmática da época, mas para melhor apreciarmos a que ponto
levavamos o culto das ficções, pois que outra cousa não eram estas
Vf ' f r Æ
considerações e contumélias com os pretos do Dongo transformados
em Família Real.
Fernão de Sousa mandou preparar para a recepção no seu palácio
a sala do trono. Na sua antecâmara lançou-se uma grande alcatifa,
peça indispensável nestas cerimónias, e a que nem todos tinham direito.
Junto à parede, uma cadeira de espaldar forrada de veludo carmezim,
onde se assentou, vestido de pardo, com sintilho, bastão cadea de ouro e
espada dourada. Encostados à parede e ladeando-o? as pessoas da
sua côrte, os- capitães e principais da terra. Entraram as irmãs da
Ginga, acompanhadas da velha tia, que devia ser interessante, e das
pessoas do seu séquito, naturalménte vestidas apenas com o páku, a
cabeça ornamentada com o jinguindu, enfiadas de missangas ao pes­
coço, e manilhas de cobre nas pernas (t). Então, como hoje, não se
lavariam e contentavam-se em untar o corpo com óleo de palma e pó
de tacula, ou antes talvez com pó de carvão, como costumam fazer nas
ocasiões de luto e esta deveria ser uma delas. Estavamos a 20 de

\\ \
Junho de 1629, no comêço do cacimbo, em que o calor ainda se faz
sentir e pode calcular-se o arôma espalhado na ante-câmara, depois de
uma marcha a pé desde a Lagôa ao Palácio. Mas era tudo família
real !
As irmãs da Ginga avançaram até onde estava Fernão de Sousa e
«chegandosse a mj me levante] hü pouco da Cad.ra, e as recebi cô os bra­
ços abertos em sinal de amor e Cortesia» e mandando-as sentar na alca­
tifa, honra especial, pela lingoa que estava de joelhos, lhes disse que as
recebia com muito gôsto, e com mais se, elas e a irmã, tivessem vindo
quando lhes pediu que o fizessem, mas que se não desconsolassem,
porque eram casos da fortuna e prometia tratá-las bem. Em seguida, y
/ r
levantando-se, e estando todos de pé e descobertos, as despediu. .f „
Terminada a cerimónia retirou-se a Familia Real do Dongo, a quem
Fernão de Sousa mandou vestir, confiando as irmãs da Ginga aos
"v / r
(0 Populações indígenas de Angola, pelo dr. Ferreira Diniz.
23o A ”g ° la
cuidados de D. Ana da Silva, esposa do capitão-mór Paio de Araújo
de Azevedo.

* #

Não terminaram com esta cena apoteótica as lutas com a Ginga,


f Pouco depois, ainda no tempo de Fernão de Sousa voltou ela a inco­
modar com as suas pretensões ao sobado que repetiu no govêrno
de D. Manuel Pereira Coutinho, alcançando pases com Francisco de
Vasconcellos da Cunha, para, logo que os holandeses ocuparam Luanda,
aliada com eles, se revoltar e nos atacar em Massangano, reduto he­
róico, de paredes amassadas de dedicações e sacrifícios, que constitui a
nossa maior glória e devia merecer veneração especial daqueles que
hoje passam indiferentes pelas suas ruínas.
Reocupada 4 nS°la» com °s governadores que se seguiram, a Ginga
entra na fase da humildade, depois de convertida pelos capuchinhos
italianos, fixando-se, de comum acordo, os limites do seu reino, que
depois da sua morte, com a rainha Vitória, perdeu a feição guerreira e
quási se extingue. O sobado ou reino do Dongo é também definitiva­
mente liquidado com D. João Moquila ou Hari, terminando um filho,
príncipe do Dongo, por ser entregue aos cuidados dos frades de Alco-
baça (t).
De todas estas lutas de um período de mais de quarenta anos,
vemos que, devido ao acto de Luís Mendes de Vasconcelos, nunca mais
o Dongo foi um sobado independente como era até ali, e nós passámos
a exercer uma acção contínua na sua administração, e da mesma forma
na dos outros, dêle independentes, mas com íntimas relações, influindo
até nas eleições dos sobas e regulando estas conforme as conveniências
políticas da época (2). Outro não podia ser o resultado depois de Luís
Mendes de Vasconcelos ter imposto o primeiro tributo ao rei do Dongo,
e nunca outra deveria ter sido a nossa política inicial em Angola, pois
assim teríamos evitado um século de lutas, desde Paulo Dias a Fran­
cisco de Távora. Foi a inflüência da política das vassalagens de
D. João II e D. Manuel, foi a transição da exploração pelas feitorias
para a colonização, que nos levou, ao entrarmos em Angola, a esta12

(1) Biblioteca Nacional. Reservados. Pergaminho solto com a cota X 3/,. Anexos. Doc.
n.° 43. ^Reprodução).
(2) Idem, idem. Reservados. F. G. Mas. 254. Anexos. Doc. n.®44.
P a rte I I — Angola 2ÒX
acção hesitante para com o soba do Dongo, o da Matamba e outros
que foram aparecendo, acção que os Ministros, nos regimentos dados
aos governadores, deixavam sempre indefinida, e que perduraria, se
Luis Mendes, por ambição ou com o verdadeiro sentido político, não
discutimos porque a época tudo permetia, não tivesse compreendido
que era necessário conquistar e incluir no território de Portugal todos
êsses sobados, para não suceder o mesmo que estava sucedendo com
o Congo, e levou séculos a liquidar.
Ao golpe audacioso de Luís Mendes de Vasconcelos, que lhe acar­
retou as inimizades do clero e uma sindicância que durou anos, se­
guiu-se uma política de espectativa para com o Dongo e com a Ginga,
pelo receio das acusações dos partidários da bôa paz. Fernão de
Sousa encontrou, dependente da resolução real, um longo processo de
consultas. Lisboa ou Madrid nada decediam e foi com inteligência
que êle, conjugando e ligando os diversos capítulos tio seu regimento,
arranjou pretexto e bem justificado, para impôr um rei ao Dongo, e
fazer a guerra à Ginga, com tôdas as formalidades legais de consultas
à câmara e aos padres, e recebendo os agradecimentos e louvores de
Filipe III e seus ministros pela forma como procedera, louvores que se
estenderam ao capitão-mór Bento Banha Cardoso e se referiram prin­
cipalmente à acção militar, que teve na verdade, episódios interessan­
tes pelo valor e admirável esfôrço dos nossos, sobretudo na persegui­
ção da Ginga, deixando no esquecimento, senão mesmo absolutamente
incompreendida, a parte política da eleição do novo rei, e a criação
no reino de um lugar de Meirinho da côrte e campo, com o fim de pren­
der os demandados, tomar as fazendas desencaminhadas, e a pólvora,
armas e vinho, cujo negócio tinha sido proibido por instruções de Fer­
não de Sousa, e de resolver os mocanos com os quimbares e pombeiros,
ocasionados das transacções nas feiras.

#
* #

O problema político indígena de Angola não abrangia só as reso­


luções com o rei do Dongo e a sua rival Ginga. Existiam, quer na
Quiçama, ao sul, quer ao norte, entre o Bengo e o Dande, e ainda
sobretudo para leste, na Matamba, Cassange e Malembas, sobados
independentes que se tinham avassalado à Coroa e outros que, sem se
2.32 Angola
terem a v a s sa la d o se tinham connosco relacionado, exigindo uma polí­
tica hábil de contemporizações, que conduziriam à ocupação.
Na Quiçama, quási que exdusivamente ocupada por ja g a s , conti­
nuava a predominar o célebre Cafuxe, com quem Fernão de Sousa quis
evitar os transtornos e inconvenientes de uma guerra, para o que tinha
fundadas razões, pelos escravos, fugidos de Cambambe, que êle acolhia
negando-os aos reclamantes. Preferiu entender-se com os jagas Zenga
e Quinda e autorizá-los a fazerem guerra ao Cafuxe, com a condição
de restituirem os escravos dos portugueses que aprisionassem e de não
molestarem os sobas nossos vassalos que continuassem fieis, como o
antigo Songa, próximo da Muxima.
As minas de Sal da Ndem ba pertenciam ao soba C a cu lo -K ia -K i-
motie e havia tôda a vantagem em as ocupar com um presídio, o que
lhe era recomendado pelos ministros, mas Fernão de Sousa preferiu
encarregar o ca^itão-mór do presídio da Muxima de, por intermédio
dos sobas do Songe e da Muxima, chamar o Caculo às nossas boas
relações, o que se conseguiu, não deixando êsse facto de provocar
ciúmes e a inimizade de outros sobas que se socorriam dos ja g a s , e em
especial do C a fu xe, para fazerem as guerras aos que eram nossos ami­
gos ou se mostravam inclinados à política de paz.
Por esse motivo o C a culo-K ia -K im on e foi atacado, tendo sido mor-
.tos alguns dos seus principais, e foi então que resolveu vir entregar-se
completamente à nossa protecção, pedindo para se vir undar ( i) a
Luanda, e tomando nós conta da exploração da mina de sal.
Ainda no sul, mas para além do Ltbolo, no Haco, nós mantínhamos
as melhores relações com o soba Ngunza-à-Nbemba (Quizambembe?)
onde em 1627 Fernão de Sousa depois de mandar ao capitão-mór de
Massangano que o avassalasse e undasse, abriu uma feira da maior im­
portância, porque ali aflui a não só o negócio do Dongo, interdito pelas
questões da Ginga, mas ainda o do sul, da região do Bié, que já então
era conhecida dos nossos comerciantes.
Ao norte, não falando no Gongo, na região entre o Bengo e o Dande
e ainda ultrapassando êste rio, o que dava lugar a reclamações do rei
do Congo, tínhamos estabelecido a feira de Sambanzombe, que depois
mudámos para o Bango, e mantínhamos as melhores relações com os

(1) Undar era a confirmação ou reconhecimento do soba pelo governador geral, e era
feita com determinado cerimonial em Luanda. Biblioteca da Ajuda. Cód. 5 i - y iu -3 o referido.
Anexos. Doc. n.° 45.
I Parle I I — Angola 233

sobas Quiluange, Cancango, Campangola, Quitexe, Cauanga, etc., e


ainda com o Ambuila, todos Dembos, estando ocupadas por portu­
gueses e exploradas pela agricultura as margens dos dois rios, havendo
uma povoação com duas igrejas, e um capitão-mór em Motemo.
Para leste, não obstante todo o prestígio da Ginga Ambande
(Nzinga Nbande) e o auxílio que os jagas lhe prestavam, já vimos que
no ataque e perseguição que as nossas tropas efectuaram através de
regiões nunca percorridas em tom de guerra, passámos para além da
Quina grande, sem que fôssemos atacados pelos poderosos e temidos
sobas da região, como os Songos, Malembas, Minungos, e conseguimos
até que o Andala Quisuba, sentinela avançada da Matemba e do Cas-
sange, entrasse em negociações para se avassalar.
O primeiro Governador Geral, D. Francisco de Almeida, recebera o
governo depois da formidável derrota que os nossos sofreram em Ngo-
leme Aquitambo, no tempo de Luís Serrão em i 5go,«e com a nossa
penetração reduzida a Massangano, mantida através da navegação do
Cuanza. Para parte alguma se marchava sem guerra. Todos os
sobas estavam coligados contra nós e os que não entravam na coliga­
ção, não obedeciam à autoridade representativa da Coroa, mas, quando
muito à de particulares, jesuítas ou capitães. J

Pouco mais de trinta anos decorridos, em que os governadores


tiveram de lutar contra os próprios portugueses, moradores, clérigos e
jesuítas, para fazer prevalecer o princípio da autoridade Real, estavam y;
ocupados cêrca de 180.000 quilómetros quadrados, não incluindo a
região para o sul da Quiçama e Libolo, nem 0 Congo para 0 norte, /
tendo-se recenseado e avassalado 204 sobados, que pagavam à Fa- y
zenda Real, em cada ano, 698 peças de escravos; 277 capados; 1144
enseques (sacos) de milho de dois alqueires cada um; 33 de encaça
(feijão meúdo) da mesma medida; 58 o galinhas; 273 cabaças de azeite
de palma; 12 vacas; 2 almadias; 3 180 panos endebos; 3 panelas de
mel e duas pontas de marfim! (1).

*
* *
E o Congo ?
Era o contraste das duas políticas, a dos Descobrimentos e a da Co­
lonização. Ficaram ali agarradas uma à outra, paredes meias; de um*3

3
(1) Biblioteca da Ajuda. Cod. 5i-vm-3o, fl. aov.
3o

i
lerem as Ordenações ao rei do Gongo e ensinarem-lhe a comer à mesa e
a vestir-se à europeia, para lhe criarem uma côrte como a sua, etn-
quanto êle, pela sua parte, o apresentava na Santa Sé como autêntico
Princepe m eu muito amado irmão , mas dizendo-lhe para em paga carre­
gar de escravos, o mais avantajadamente que pudesse os navios que
para esse fim m andava; do outro D. João III e os seus ministros, ini­
ciando a colonização do Brasil, abandonando as conquistas da África
e não definindo orientações sôbre a administração dos territórios da
M ina e da Baixa-Etiópia, que deixaram à exploração dos negociantes
de escravos para as índias de Castela. De um lado D. Sebastião, sin­
ceridade e pureza, trabalhando para glória de Deus, não aceitando ao
rei do Congo as ofertas de território e de tributos, em paga de lhe ter­
mos expulsado Os ja g a s , porque o seu intento não era a conquista do
Congo, mas aumentar a cristandade, e como recompensa só aceitaria
e lhe pedia que mantivesse os caminhos sempre abertos para os padres
portugueses poderem percorrê-los, prègando a fé, convertendo e bapti-
zando indígenas, edificando igrejas (j); de outro Paulo Dias, auxiliado
pelos seus inteligentes capitães, os padres jesuítas, avançando pelo in­
terior de Angola com as suas aguerridas tropas, asssolando e devas­
tando tudo, matando tantos indígenas, que para o acreditarem, man­
dou cortar-lhes os narizes e enviou-os para Luanda para que os con­
tassem, fazendo milhares de presas e comprando milhares de escravos,
a troco de fazendas que as suas próprias tropas transportavam já com
êsse fim, como transportavam pelouros e zagalotes.
De um lado ficou a ideia velha — o reino do Congo, como nós o
tínhamos formado; como o nosso, cristão e catequizado por um clero
ignorante; administrando-se por algumas das nossas leis, velhas de um
século e à fôrça adaptadas ao m eio; com uma côrte em que à pragmá­
tica da Europa acrescentara a gentílica, com ostentações de luxo, com
intrigas e lutas políticas como as nossas, emfim, um reino independente
e livre, mas mulato, esforço da nossa raça em terra preta, odiando-nos
a nós e à terra. Do outro lado, ficou a ideia nova, uma Angola que
os jesuítas fizeram dependência do Brasil para fornecer escravos para

(i) O cónego Braz Correia, que exerceu uma grande acção política junto dos reis do
Congo, afirmava ter visto e lido uma carta de D. Sebastião para o rei do Congo D. Álvaro, no
5 3 3
sentido indicado. Biblioteca da Ajuda, Cód. t-vm- o- i. — Relatório de Fernão de Sousa
de fi. 18 v. a a8 do 2.0 vol.
P a r te I I — Angola 235

o trabalho da terra, emquanto lá, com os índios convertidos, acalenta­


vam a realização de uma teocracia, ao passo que os nossos fazendeiros,
lançavam os alicerces da grande nação de hoje.

*
« *

Pela organização administrativa estabelecida, o Govêrno geral de


Angola nada tinha com o Congo, que era um reino independente e
onde, só por assim ser uso desde a nossa chegada, mantínhamos um
pessoal privativo da vida dos portugueses entre si, e especialmente
para a arrecadação dos bens dos falecidos e dos ausentes (t). Quis-se,
assim, desde o início da nossa ocupação, evitar aos portugueses que
residiam ou viessem residir no Congo, a sujeição às leis e costumes
dos indígenas e criava-se como que um consulado d? Portugal, onde
se tratavam todos os assuntos que interessavam aos portugueses. Para
que os serviços a prestar pelo Consulado pudessem ser eficientes, era
necessário que todos estivessem de acôrdo em se sugeitarem à sua
acção, o que era difícil conseguir, pois que muitos dos portugueses
viviam ao Congo homisiados e nada queriam com as autoridades.
Por vezes, de Luanda, por queixa do comerciante reclamando o
crédito concedido a devedor que desaparecera fugindo para o CoDgo,
ou pela acusação de qualquer crime que exigia prisão imediata, as auto­
ridades pediam às nossas do Congo para fazerem penhoras ou prende­
rem indivíduos. Se estes conseguiam acolher-se à protecção do rei do
Congo, por intermédio dos padres seus confessores e conselheiros, o
que era freqüente, logo se levantavam conflitos, dando lugar a recla­
mações do govêrno geral contra a intervenção do rei do Congo em
assuntos que diziam exclusivamente respeito ávida dos portugueses.
O govêrno geral não intervinha na vida própria do Congo, isto é,.
nas relações entre o rei e os seus súbditos, mas quando eles se envol­
viam em revoluções e guerras, tinha, como é natural, todo o interesse
em encaminhar a solução do conflito a favor daquele preto que nos
fôsse mais afeiçoado, o que os levava a procurarem obter essa defe­
rência, ou, quando vencedores, a procurarem ser reconhecidos pelo
govêrno geral, sem o que se não sentiam bem confirmados. Mas, a
par destas relações de estados vizinhos, havia uma ligação íntima, a

(i) Paiva Manso, História do Congo. Doc.°* i.xxn e Lxxm.


2.36 Angola
religiosa, que obrigava â intervenção das autoridades, não só eclesiás­
ticas mas também administrativas de Angola na vida do Congo,
criando relaçóes por tal foram intensas e de tal importância, que o
Papa Clemente VIU, por bula de 20 de Maio de 1597 (1), julgou ne­
cessário erigir o Bispado do Congo e Angola, in tolo vastíssimo regno
Congo et Angolae in Ethiopia, separando-o de S. Tomé e sendo o seu
primeiro bispo D. Fr. António de Santo Estevam.
A assistência aos portugueses residentes no Congo, foi mais tarde,
em 1609 (123 )> e Por motivos especiais, entregue a um capitão-mór, que
acumulava com o cargo de provedor de defuntos e ausentes, sendo a
despesa paga por Angola, como igualmente era a dos cargos eclesiás­
ticos, parecendo ter havido, depois da criação do bispado, qualquer
entendimento para que o rei do Congo, a trôco de poder fazer as apre­
sentações para os diversos cargos, com excepção do Bispo, Deão e
Mestre Escola, <fue por deverem ser providos em pessoas de mais suficiên­
cia e letras, ficavam reservados para a Coroa de Portugal, pagasse os
seus ordenados á conta dos difinos, que pertencendo á Ordem de Cristo,
êle arrecadava para si (3).
Em tôda a vida do Congo predominava a acção do clero, mas não
por que influísse para desenvolvimento da educação cristã. Pelo
lado dos padres, preocupava-os acima de tudo, e somente, o papel polí—
tico, procurando obter um cargo junto do rei ou de qualquer dos fidal­
gos mais categorizados, para serem pessoas importantes; pelo lado da
população indígena, aceitavam da religião a parte que os deslumbrava,
tôda a liturgia romana, que no seu espírito deixava a mais funda im­
pressão, e que os padres faziam valer e render.
O rei e os fidalgos do Congo mantinham a poligamia, mas era cor­
rente realizarem na igreja a cerimónia do casamento com qualquer das
suas mulheres, estando vivas outras com quem tivessem casado, como
era corrente a repetição, duas e três vezes, dos baptismos dos filhos,
pois tudo para êies era pretexto para uma festa familiar, que o clero
aceitava, fingindo ignorar, em face da falta de registos regulares, se
tais sacramentos já teriam sido ministrados. Sucedia mesmo que à
falta de outros rendimentos, os curas corriam todos os anos os seus

(1) Paiva Manso, História do Congo. D oc. tsxvn.


{z) Idem, idem. Doc.°» lxxx e uocxra.
3
( ) Luciano Cordeiro, Memórias. Relação da Costa da Guiné e PaivaManso, Historia do
C ongo. D oc. xciv.
P a rte I I — Angola 2ÒJ

distritos, doutrinando e sacramentando, mas era mais para receber as


colheitas que para ensinar (i).
Nas cerimónias da igreja, os reis estabeleciam protocolo, determi­
nando lugares para êles e para a côrte. Em determinadas festas
tinham resolvido ir para a igreja levando na cabeça um carapuço a
que chamavam empua3 e que por forma alguma tiravam, nem ao San­
tíssimo. Em procissões, como na de Endoenças, o rei acompanhava
a procissão descalço e descarapuçado, obrigando os da côrte a proce­
derem da mesma forma, e distribuíam grandes quantidades de \imbo
em esmolas, não por sentimento nem tão pouco pela necessidade da
população, mas por espírito de imitação. Impunham a si próprios o
hábito de Cristo, procurando que a cerimónia se realizasse com o maior
espavento, e se havia algum padre que se não prestasse à mascarada,
outros aceitavam para se tornarem seus válidos. E até, não conten­
tes com os poderes descricionários que exerciam sôbrf pessoas e bens,
como o clero usava das excomunhões como castigo, e a que chamavam
do Céu ou de Deus, inventaram as excomunhões da terra, que era nem
mais nem menos do que privarem qualquer pessoa das coisas essen­
ciais à vida, como por exemplo, ninguém lhe poder dar água para be­
ber não a deixando utilizar-se da que era pública (2).
Emfim, decorrido um século, a religião no Congo era uma arma
política e não tendo sido assimilada, em nada concorria para melhorar
as condições sociais da população. Praticavam-se os mesmos barba­
rismos, as mesmas selvagerias, seguiam-se os usos e costumes gentíli­
cos, acrescentando-lhes, ou antes, revestindo-os de cerimónial religioso,
chegando mesmo o rei a vestir-se para determinados actos públicos da
vida civil, de capa de asperges e na cabeça uma espécie de mitra ou
barrete, bem guarnecido e enfeitado.
D. Manuel servira-se do preto D. Afonso como instrumento para a
sua política. Se êle fôsse branco, talvez lhe não servisse da mesma
forma. Um dia querendo mostrar tôda a sua importância e a extensão
do seu poderio, lembrou-se de fazer a scena do preto, armado em rei
vassalo do de Portugal, cristão convicto, a mandar prestar obediência
ao Papa. Mandou que escrevesse a carta e para não lhe faltar o tique
regional, enviou-a para o Congo para o preto a assinar com brasão de

(1) Biblioteca Nacional, Secção Ultramarina. Documentos de Angola. Relatório do Bispo


D. F. Fr. Manuel Baptista de 7 de Setembro de 1619, para Felipe II, sôbre costumes e Yida do
Congo. Anexos. Doc. n.° 46.
(a) Informações do Bispo D. Fr. Manuel Baptista. Referida.
238 A n g o la

armas e sinete, c depois de lá a remetessem com tôda a solenidade por


um em baixador a Roma. O preto fazia o que lhe mandavam e sem
poder perceber o alcance, mas os nossos que com êle viviam, que eram
os seus confessores, conselheiros e provedores, por terem necessidade
de também se engrandecerem, iam-lhe fazendo vêr que êle prestava um
grande serviço a D. Manuel, e que as suas relações tinham grande im­
portância para o papel político que estavamos desempenhando perante
a Europa.
D. Manuel pagava as despesas das embaixadas a Roma e as pas­
seatas seguiram-se e passaram a ser matéria corrente, ao mesmo tempo
que no espírito do preto se ia avolumando o poder de uma outra enti­
dade, maior que o rei de Portugal, que pelos seus embaixadores êle
sabia que tinha terras por todo o mundo, que tinha muitos navios,
muito dinheiro e muitos reis que lhe obedeciam e que, a-pesar-de tudo
isso, se considerêva filho do Papa e lhe mandava presentes, para o ca­
tivar, certamente, pensaria o preto, para obter coisas que êle, com
todo o seu poder, não podia conseguir.
Com D. João III parou-se um pouco no envio, por nossa conta, a
Roma, de embaixadas dò rei do Congo, mas mandava-as êste, para
tratarem de assuntos políticos que interessavam ao Congo e havia
activa .correspondência entre Roma e S. Salvador, sem ser por inter­
médio de Portugal (i), a-pesar-de por nossa indicação haver em Roma
um agente do rei do Congo.
Clemente VIII criou o Bispado do Congo por obediência aos fins
da Congregação da Propaganda Fide, que pouco antes tinha fundado,
para mandar para as terras de infiéis missionários educados no seu
colégio, e criar os cargos eclesiásticos necessários. Roma tinha levado
quási um século a assentar no partido que podia tirar das ostentações
de D. Manuel e agora, esvasiada a cornucópia dos presentes da Etió­
pia, era asado o momento, em vista dos pedidos do rei do Congo, de
se ver o que aquilo ainda poderia render, entregue à exploração da
Propaganda Fide. Embora esboçando o plano geral, sem entrar em
detalhes de organização, que só mais tarde Gregório VI completou,
não deixou a Propaganda de estabelecer os seus agentes entre o clero
do Congo, que se encarregaram de, a pouco e pouco, renovarem no
espírito dos reis do Congo a necessidade das boas relações com Roma,
mas agora manifestamente em detrimento da Coroa portuguesa, por-(i)

(i) Paiva Manso, História do Congo. Doc. LVni ja referido.


Parle U — Angola 2Ò9

que o ret do Congo já não era o vassalo humilde dos outros tempos e,
assim, se conseguiu que o preto D. Álvaro II resolvesse mandar a Roma
o seu embaixador D. António de Nigrita, Marquês de Funesta, para
prestar obediência ao Papa Paulo V, e êste facto, de tão repetido, já
corriqueiro e banal, merecia ao Papa tal relevo, que mandava cunhar
uma medalha para o comemorar (1).

*
* *

A política do encerramento dos portos das nossas colónias à nave­


gação estrangeira (2), de nada nos tinha servido, e com o declínio do
nosso poder marítimo não a pudemos impor. Com a ocupação caste­
lhana, se algumas naus nos ficaram depois do desastre da Invencível
Armada, faltava-íhes artilharia, e, assim, tudo abandonado, fortifica­
ções desmanteladas e desguarnecidas, navios velhos e desarmados, as
feitorias irregularmente abastecidas e com fazendas de custo excessivo,
o resgate da costa da Guiné e da Mina foi passando para os estrangei­
ros colonizadores da América, especialmente para os holandeses, não só
pela riqueza que representava pela abundância de mão de obra, mas
também pelas pedras preciosas e ouro que compravam a trôco de fa­
zendas que aos indígenas mais agradavam, ao passo que nós faziamos
consistir nos nossos linhos e lãs e no vinho e na água ardente, o forte
do nosso artigo de permuta.
O Congo, no fim de tantos anos de labuta e de sacrifícios, depois
de positivamente inventado e manipulado por nós em reino africano
para nosso uso, fêz-se na realidade um reino, um estado independente,
onde o nosso poder e acção terminaram por serem fictícios e limitados
a, em matéria religiosa, darmos o nosso acôrdo à nomeação dos curas,
e nomearmos nós próprios o Bispo, Deão e Mestre Escola, subordinando
êste direito, como não podia deixar de ser, às indicações da Santa Sé.
Os holandeses que vinham, desde a Guiné para o sul, percorrendo
a costa e estabelecendo. o.resgate nos diversos portos, sendo em tôda12

(1) Medalhário do Vaticano. Reprodução da medalha. Anexos. Doc. n.« 47. O Marquês
de Funesta faleceu em Roma e Paulo V mandou-o sepultar na igreja de Santa Maria Maior,
com um. epitáfio louvando-o, tal o apreço em que o tinha. Paiva Mansp, História do Congo.
DOC. L.XXIX. /
65
(2) Lei de 18 de Março de t o . Por alvará de 16 de Junho de 1606, foi esclarecido que a«1
proibição se não estendia aos naiuraes do reino de Castela e dos mais de Espanha.
vA
240 AnS0la
a parte bem recebidos (j), chegaram também ao Pinda onde não en­
contraram obstáculo ao seu negócio, sendo bem acolhidos e festejados
pelo Manisonho, o Duque do Sonho, com o se intitulava o preto que
governava a região e, possivelmente, pelos portugueses que lá esta­
vam.
O governador de Angola, então D. Manuel Pereira F o rja z, preve­
nira para Lisboa da freqüéncia dos navios holandeses na costa e esta­
dia nos portos do Congo e outros para o Norte, pelo que o Conselho
da índia resolveu impor a ocupação militar do Ilheu dos C a va lo s, em
frente do Pinda, construindo-se ali uma fortaleza. F ilip e II, recebida e
estudada a proposta, aprovou-a, e indicou com o entendia se devia pro­
ceder, não só na ocupação do Ilheu, mas tam bém p a ra os la n ça r d a lly e
reduzir aquelle comercio ao estado a n tig o (2).
Não se sabe se foram seguidas as indicações de Filipe II ou outras,
mas o certo é q»e mais de uma tentativa se fêz nesse sentido, pois que
além da nomeação de António G onçalves Pita para capitão-m ór do
Congo, e instruções especiais para se entender com o rei do Congo,
ainda o D. Á lvaro, sôbre a construção da fortaleza, se encontram refe­
rencias â ida de d u as caravelas com ca l e aviam entos , m as que com a tor­
menta de S . L u c a s deram â costa (3 ).

*
* *

Muitos anos se levou a planear e tratar esta questão da fortaleza


do Pinda e expulsão dos holandeses. O rei do C ongo prom etia auto­
rizar a construção e logo se m andava gente encarregada de tratar do
caso, m as quando lá chegavam já o rei do C ongo tinha m udado de re­
solução e negava a licença. Apelavam para os seus sentimentos reli­
giosos, faziam -lhe ver que estava favorecendo inim igos da religião
cristã que êle e os seus súbditos abraçaram , pediam -lhe para não con­
sentir no negócio aos holandeses, e a tudo êle dizia que sim, tudo pro­
metia, mas quando instado, a tudo se negava.
Pela nossa parte eram muitos e vários os planos e não menos os 12 3

(1) Luciano Cordeiro, Memórias do Ultramar. Escravos e Minas de Africa. VIU. Gaspar
da Rosa.
(2) Paiva Manso, História do Congo. D oc. u a x u
3
( ) Luciano Cordeiro, Memórias do Ultramar. Escravos e Minas de Africa. V IU . Cit.
Farte 11— Angola 241
conselhos, parecendo que não só ao Governador Geral de Angola, mas
a tôda a gente que de lá vinha, a côrte os pedia, no desejo de encontrar
uma solução.
A ida de António Gonçalves Pita em 1610 falhara por completo.
Parece que êle levara pedreiros e material para a construção da for­
taleza, mas teve a feliz ideia de deixar tudo em Luanda e ir só,
para tratar do caso com o rei do Congo que, depois de o ouvir, não só
negou a autorização, como o mandou pôr fora do reino, atribuindo-se
o facto a sugestões do seu confessor, o padre Diogo Rodrigues Pestana,
Deão da Sé.
Já de há muito que havia queixas contra êste padre (1) e parece que
antes de se darem estes factos com António Gonçalves Pita, quando
também em 1610 chegou ao Congo uma missão de quatro padres de
S. Domingos, o Deão Pestana os intrigou por tal forma com 0 Rei do
Congo, que êste, a-pesar-de os ter mandado pedir e*de os festejar à
chegada, por tal forma os tratou depois, que os padres tiveram de
retirar para não morrerem de forne, pois lhes negava os alimentos (2),
e assim, para arranjarem dinheiro para a viagem, tiveram de vender
uns livros religiosos que tinham levado para a catequização, tendo
sido o Deão Rodrigues Pestana quem carinhosamente lhos comprou.
Quando depois se deram factos semelhantes com António Gonçalves
Pita, foi necessário tomar uma resolução enérgica, e como o Deão
Pestana não viria a Luanda se o chamassem isoladamente, resolveu o
Bispo chamar todo o clero que estava no Congo, só assim conseguindo
prendê-lo e mandá-lo para Lisboa.
Tinha entretanto, António Gonçalves Pita, vindo para Luanda, de
onde escrevera para Lisboa a contar o que se passára, pedindo lhe
indicassem o que tinha a fazer, mas tendo acabado 0 Conselho da índia,
e distribuídos os seus trabalhos pela Mesa da Consciência, a do Desem­
bargo, e a da Fazenda, etc., nunca ninguém mais pensou no pobre
capilão-mór, nem no Congo. E é engraçado que a própria Mesa da

(1) Filipe II refere-se ao seu procedimento na carta já citada, Paiva Manso, História do
Congo, doc. Lxxxi e igualmente o Bispo Fr. Manuel Baptista no doc. xci.
(2) História de S , Domingos por Fr. Luís de Sousa, segunda parte, livro iv, caps, xu e xm.
Garcia Mendes Castelo Branco, um dos capitães de Angola do tempo de Paulo Dias e muito
afeiçoado aos Jesuítas, pelo menos na política dos aforamentos dos sábados, numa Relaçao da
3
Costa da África (Luciano Cordeiro, Memórias damina ao Cabo Negro, iv-pág. o), referindo-se
à saída do Congo dos Padres de S. Domingos, escreveu; nãopoderam lá caber, nem o rei fafia
caso deli es que deveram fa^er cousas>pelas quaes o rei não gostou d’ elles e aconselhava a que
se mandassem para o Congo treze padres jesuítas, sendo um deles o Bispo.
2 42 Angola
Consciência dirigia cartas ao Bispo, em Luanda, preguntando com que
autorização retirara o clero do Congo, e o Conselho da Fazenda pre-
guntava ao Governador Geral por que m otivo fechara o com ércio com
o Congo (t).
Era pois necessário apresentar de novo o problem a da expulsão dos
holandeses do Pinda e da vigilância a exercer na costa de Angola,
aparecendo então os variados projectos, não só p ara o Pinda, mas
também para as minas do Bembe, aconselhando-se o ataque simultâneo
por terra e por mar. Por terra, seguiria o exército form ado por todos
os portugueses e auxiliares indígenas, pelo Bengo em direcção a
Cabonda, e daí ao Bembe, onde se fortificaria ao mesmo tempo que
tratava da extracção do cobre; e pelo m ar seguiriam , além dos navios
com pelo menos duzentos hom ens p ara a guarnição da fortaleza,
dois outros com a alim entação indispensável para êsses homens durante
algum tempo, p^is seria m ais que certo os indígenas do Sonho não
virem fazer feira ao Pinda, por a isso se opôr o Rei, que recom endava
ao Manisonho que im pedisse a en trad a dos portugueses no Zaire (a).

#
# *

Pelas viagens que os seus navios faziam e dada a melhor qualidade


e a variedade de artigos que enviavam para o resgate, os holandeses
estavam senhores do negócio no Pinda e no Luango, mas isso não lhes
bastava, e precisavam assenhorear-se desses portos, como já o tinham
feito de outros para o norte. D o Luango não o conseguiram, mas não
pela resistência que nós opuséssem os e em que os vencêssemos, mas
porque o preto, S ob a ou Rei do Luango, sendo am igo do feitor portu­
guês, interveiu a seu favo r e só lhes concedeu licença para montarem a
feitoria, com a condição da nossa continuar da mesma forma. Mas no
Pinda não sucedera o mesmo e o Duque do Sonho e o Rei do Congo,
ao passo que tratavam m al os portugueses lá estabelecidos, tinham
acolhido por tai form a os holandeses, que em 16 18 tinham quatro
feitorias p u blica s, e m uitas fa zen d a s nellas, sem eando oras de nossa $/*
falcejicadas, biblias em lin g u a g em , e livros articulados fo rm a lm en te contra

(1) Luciano Cordeiro, Memórias, Produções, Comércio e Governo do Congo, etc. segundo
Manuel V ogado Sotom aior.
(2) Luciano Cordeiro. Idem, idem.
Parte I I — Angola 243

a IfP'el a Romana e doutrina evangélica, e recebendo negros e negras em


penhor das mercadorias que davão fiadas aos naturais e aos portugueses...
e tratavaô com grande familiaridade os vassalos de V . M. comendo e
bebendo có elles . . . (1), conforme escreveu o Bispo D, Fr. Manuel
Baptista, que nesta questão teve, como não podia deixar de ter, um
papel de preponderância, pois só pela acção religiosa se conseguiria a
expulsão dos holandeses.
Os projetos apresentados eram todos inexequíveis, além de que
tínhamos deixado que os Reis do Congo se compenetrassem, durante
mais de um século, da sua importância, de forma a poderem com­
preender o que representava a construção de uma fortaleza no seu
território, sendo agora impossível obtermos deles, a bem, que deixassem
edificar uma fortaleza no Pinda ou no Ilhéu dos Cavalos, pedido a
que o preto rei D. Álvaro III, respondia com habilidade, que depois de
ter ordenado a expulsão dos holandeses, entendia tqj cessado tôda a
razão para se fazer a fortaleza, além de que, para 0 muito que desejava
çompraser com Vossa Magestade fa\ia pouco em lhe oferecer lodos
os meus reinos, mas, sendo rei havia pouco mais de dois meses e
estando o reino em luta com inimigos seus, iria dar motivos para se
levantarem contra êle, se em tal consentisse (2).
Conseguiu o Bispo, como vemos, que o rei do Congo determinasse
a expulsão dos holandeses, e foi pessoalmente entender-se com o
Manisonho sôbre a execução da ordem, mas não havia maneira de a
conseguir, muito embora 0 Manisonho se não recusasse a cumpri-la,
arranjando sempre uma desculpa para a adiar. Já cansado, resolveu
lançar mão dos meios extremos, — as excomunhões e as interdições,
contra o Manisonho, e, retirando para Luanda e depois para Portugal,
recebeu a notícia de que os holandeses tinham, emfim, sido expulsos,
pelo que lembrava que se deveria escrever ao rei do Congo a agrade­
cer-lhe (3 ).

(1) Bibt. Nac., Secção UH., Papéis de Angola, 1619. Relatório datado de 7 de Setembrç
de 1619 do Bispo D. Manuel Baptista sobre os holandeses. Anexos doc. n.° 48.
(2) Paiva Manso, História do Congo. Doc. xcv.
3
( ) Rei. cit. Anexos. Doc. n.° 48. È este 0 único documento em que se encontra a notícia
da expulsão dos holandeses, porquanto o rei do Congo D. Álvaro III, em carta de 24 de Outu­
5
bro de 161 para Filipe II, História do Congo, doc. xcv, atrás citado, apenas diz que mandou
despedir e botar fora de suas terras e estados os holandeses esperando que o Conde do Sonho o
cumpra e quando ele asi o não faça, eu o castigarei como a desleal em meu serviço. Pouco
tempo deve ter durado esta expulsão dos holandeses, e devem ter regressado, porque no governo
de Fernão de Sousa foram novamente expulsos.
2 44 Angola

#
# *

A acção desenvolvida pelo B ispo p ara con segu ir a expulsão dos


holandeses, não só encontrava resistência da p a rte dos fidalgos pretos
do Congo, com o não -tinha o apoio franco e decidido dos funcionários e
dos m oradores de Angola.
Já vim os o Bispo a queixar-se de que os holandeses tratavam com
g ra n d e fa m ilia ried a d e os vasalos d e V. M . com en d o e beben d o com eles ,
quando narrava a situação no Pinda. M as não era só no C ongo que
assim sucedia, e em Benguela, e até em Luanda, davam -se factos
idênticos.
C’E porque se não dariam ? É ra m o s nós os inimigos dos ho­
landeses, ou e ra p os espanhóis, nossos inim igos tam bém , e a quem
estávamos sujeitos? <1Q ue im portava que fidalgos e alto funciona­
lismo, pagos e sustentados pelos Filipes, à custa de quem viviam ,
procurando obter melhores e m aiores m ercês, defendessem os inte­
resses de Castela, com batendo os holandeses, se a grande maioria
da população, quer no reino, quer nas colónias, não tinha essas
aspirações e se contentava com o que podia angariar no meio em que
vivia ?
Os Países Baixos, e nêles incluída a Flandres, faziam guerra à
Espanha, o que não era m otivo, só por êsse facto, para deverem ser
por nós considerados nossos inim igos. O s flamengos, na época das
Descobertas, assoldadavam -se para tripulantes das nossas caravelas,
onde aprenderam a arte de navegar e a resgatar e, dêsse convívio não
ficara no nosso povo um a recordação odiosa.
Para a H olanda tinha ido a quási totalidade dos judeus que expul­
sámos de Portugal, e era dêles o dinheiro que anim ava o comércio e a
indústria da nova nação que se form ava.
é H aviam de ser nossos inimigos porque guerreando Castela, que
nos dom inava, atacavam os portos das nossas colónias? 4 Se nós tínha­
mos perdido as colónias para a Espanha, que nos importava que os
Flamengos as disfrutassem?
Não. O Bispo não podia encontrar, nem na população portuguesa
do Congo e Angola, nem sequer no seu clero, quem sentisse como êle a
necessidade de se opor à acção dos holandeses, para poder escrever
a Felipe II que: ter V. M . satisfaçaõ do que eu na sua eleição por
J

*&**'-■ & '--'i

P a rle I I

serviço de Deus e de V. Magestade me alegra tanto que disso tirarei


animo para viver, etc.(i).
Não. O qvie sabiam os negociantes de Angola e os armadores por­
tugueses, era que, ao passo que aos navios castelhanos eram fran­
queados os portos das colónias portuguesas, sem restrição de espécie
alguma, aos portugueses se impedia a navegação para as índias de
Castela, e que pudessem tratar e contratar nas ditas partes, nem passar
a elas, sem que para isso tivessem a particular e expressa licença!
O que sabiam, era que nenhum natural da Coroa de Castela podia ne­
gociar em sua cabeça fazenda de estrangeiro, e como tal eram conside­
rados os portugueses, que, para se poderem naturalizar, precisavam ter
permanecido vinte anos contínuos nas colónias espanholas, ter lá bens
de raiz e ter casado com mulher ali nascida! E sabiam ainda que lhes
era proibido navegarem escravos directamente para as índias de Castela,
sendo obrigados a conduzi-los a Sevilha e aí os vendassem aos caste­
lhanos para que estes os navegassem na sua frota, sorteados como as mais
mercadorias !
c E depois disto que nos importava que os holandeses concorressem
connosco no resgate nos nossos portos?

ff
* ff

Quando Fernão de Sousa foi governar Angola, em 1624, já os


holandeses estavam de novo estabelecidos com feitoria no Pinda.
Havia ordens terminantes para os vigiar, evitando que atacassem os
navios que faziam viagens para Angola, e mais rigorosas ainda proibin­
do-lhes a entrada em qualquer dos portos.
Como já então as viagens se faziam indo as naus procurar a altura . ■ ir
de Benguela, ou mais para o sul, para depois se fazerem de rumo a
Luanda, foi dada ordem a Fernão de Sousa para ir primeiro a Benguela 1 '%

verificar o estado da conquista. Soube que ali tinham estado uma nau í«
a .í -
e dois patachos de guerra holandeses, que andavam às presas, tendo
resgatado com os do presídio, fazendo aguada e recebendo refrescos,
sem que nenhuma das autoridades tivesse esboçado a menor oposição,
t
antes pelo contrário, parece que com o seu consentimento, pelo que
*P
Fernão de Sousa, mandando levantar auto da ocorrência, trouxe presos

(1) P a iv a M an so, H is t ó r ia d o C o n g o . Doc. x c i cit.


\ *

:i
X'
246 Angola
para Luanda o capitão-mór, um capitão de infantaria e uni sargento,
principais responsáveis, ficando presos outros em Benguela.
Em viagem para Luanda, chegando à Ponta Mofina já um pouco
pela tarde, o piloto receando dobrar a ponta por causa de um baixo
que existia, fundeou o patacho.
Na manha seguinte navegavam para Luanda, quando se aproximou
um barco que o Bispo D. Fr. Simão M ascarenhas, que governava a
colónia, mandou ao encontro de Fernão de Sousa, com o aviso para
demandar a barra da Corimba, por na baía de Luanda se encontrar
uma esquadra holandesa, composta de uma nau de trezentas toneladas
com 22 peças de artilharia, dois patachos com 12 peças cada um, um
navio e uma lancha com roqueiros (1), que esperavam o patacho em
que êle ia.
Poucos dias antes, o Bispo, surpreendido pelo aparecimento dos
navios holandesas, organizara a defesa de Luanda com seis navios,
determinando fôssem atacar os holandeses, mas tão mal apetrechados
foram e em tão grande desordem, que, sem pelejarem, deram à costa
dentro da baía, fugindo as tripulações, queimando os holandeses três
deles que tinham aprisionado, e mandando o Bispo queimar os outros
para lhes não caírem nas mãos, perdendo-se tôda a carga que tinham a
bordo.
Conforme a indicação enviada a Fernão de Sousa, o patacho em
que viajava entrou pela barra de Corim ba, e, fundeando, foram os
padres da Com panhia de Jesus buscar o governador e conduziram-no
a Luanda, onde o Bispo lhe fêz entrega do govêrno. Tom adas as
medidas de defesa necessárias, souberam os holandeses por um flamengo
Trombeta (2), que viera da Baía degredado para Luanda e que fugira
para eles, da entrada de Fernão de Sousa pela Corimba e que se
preparava para lançar fogo à nau holandesa. Levantando ferro diri­
giram-se para a Corim ba, mas Fernão de Sousa prevendo o ata­
que, mandou com rapidez fazer duas fortificações e, quando os ho­
landeses, mandaram uma lancha sondar a barra, foram recebidos a
tiro, não tentando a entrada, e seguindo para o sul das Palmeirinhas
e depois para a barra do Cuanza, terminando por retirarem de
todo.

(1) Canhão de ferro em que os projécteis eram pedras. (C. de Figueiredo).


(4) Na região do Golungo há uma povoação Trombeta, sendo muito possível que tenha
tido a sua origem no arimo ou fazenda que um flamengo Trompette ali estabelecesse, como já
vimos que era costume fazerem os brancos que andavam pelo interior.
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1:

Parte 11 — Angola *47


E n tre ta n to tinha chegado ao P in d a uma nau holandesa, sendo por
to d o s m u ito festejad a, m as quando os portugueses com eçaram a ver
qu e a c a r g a d e sem b a rca d a eram b o tija s de azeite, canastras encouradas
e p e ro leira s d e v in h o , m an ifestam en te de Portugai, e portanto que a
n au tin h a sid o a p re sa d a a portu gu eses, cessou essa b o a harm onia e
festa n ça e , sem se sa b e r c o m o , a n a u desapareceu do P in d a, tendo a
b o rd o a p e n a s o ito h o la n d e se s e qu atro negros, ficand o em terra o ca - %
p itS o , m estre e p ilo to .
Se não fôsse o facto de se tratar de uma nau apresada a portu­
gueses, a festa teria continuado entre portugueses e holandeses no
Pinda, emquanto em Luanda Fernão de Sousa, como representante do
governo e usando de medidas enérgicas, opunha uma barreira à indi­
ferença da população, que dias antes tinha preferido retirar pacata­
mente para o interior com os seus haveres, a envolver-se em lutas que
a não interessavam, abandonando o pobre do BispS que, montado
numa mula, percorria a linha de defesa que queria organizar, sem o ter
conseguido, até que retirou também, quando um projéctil de artilharia
dos holandeses passou entre as mãos da sua montada, sem causar mais
dano.
M an dou F ern ão de Sousa ao Ouvidor Geral que devassasse de
todos estes factos, m as não ouve pessoa q. jurasse cousa q. merecesse cas­
tigo sendo o successo publico o que he muy hu\ado nesta terra e pela sua
parte tom ou outras providências porque estando os olande\es no porto
não convinha p u xa r pela matéria por seré os principaes da terra, e poder
acontecer outro herro mayor ( i).

*
* *

Pouco tempo decorrido, os holandeses tinham tomado a Baia, no


Brasil, do que o governador Martim de Sá avisara Femão de Sousa,
e êste prevendo o ataque a Angola, resolveu tomar as possíveis provi­
dências para a defesa da colónia, fortificando diversos pontos na praia
e na cidade, e mandando proceder à reparação do armamento e fazer
balas, de q. avia tanta falta que me aproveytey dos sellos dasfa\.at e das
chumbadas dos pescadores por não aver chumbo na terra e por Consícm-

(t) Bibl. da Ajuda. God, 5t-vm-3o. Carta de Fernão de Sousa para o Governo de aS de
Setembro de 1624, fl. o v. 33

t
248 A n g o la

tino Cadena ( i) mandcy façer diligencia na M ina de Cambambe que


fo i de grande cffeito porq. me mandou mais de tres quintaes de chumbo
que fundio, e huã pedra que envio a V. M ag. pera amostra, e estas
são as minas que antiguamente d e fã o q. herão de pratta, além de que
Hordeney mantimentos; listei as companhias ; mandey descer da Conquista
huã delias c todos os estravagantes, ficando providos os Presídios; mandey
aprestar embarcações de remo e retirar todos os da Ilha pera evitar comu­
nicação cõ os oiandeçes, q. f o i de grande dano 11a primeira A rm ada:
lancey bandos que nenhfta pessoa tirasse fa ^ .a da Cidade sob pena de
a perder, pelos obrigar a defende-la; ao fo r te de S . Fernando que em
barra de Corimba em q. estão quatro peças de artilharia, provy de armas,
moniçÕes e soldados; cõ estas prevenções e cõ outras p ed i a todos que es­
tivesse de bom animo porq. os avia de acompanhar ate m orrer . .. (2).
A 3 o de Outubro de 1624 apareceram defronte da barra da Co­
rimba oito embCrcações de guerra, holandesas, sendo a nau capitânea
de 35 o toneladas, com 26 peças de artilharia; a sota almirante de 5 oo
toneladas com 28 peças; uma urca flamenga de 160 toneladas e 14
peças; um patacho que tinha sido apresado na Baía, pertencente a
Miguel Luís e vinha armado com 12 peças; um navio que apresaram a
Manuel Neto e dois patachos pequenos com quatro falcões e quatro
roqueiros cada um. Cosido o mais possível com a terra e fugindo à
esquadra holandesa, vinha um navio de Sevilha, que, dobrada a ponta
da ilha e querendo entrar no porto, foi dar em um baixo. A esquadra
com a nau capitânea à frente, que o perseguia, entrou também o porto,
e como acompanhava os movimentos do navio de Sevilha, a capitânea
deu também em seco, mas fóra do alcance da nossa artilharia, pelo que
lhes foi possível tomarem o navio de Sevilha e mais três que estavam
do outro lado da ilha, e tudo por culpa dos seus donos, que não quize-
ram seguir as indicações que lhes foram dadas, talvez por não lhes de­
sagradar o papel de prisioneiros dos holandeses.
Até à noite se levou na troca de tiros de artilharia entre os fortes e
os navios, sem dano de parte a parte. Durante a noite Fernão de
Sousa mudou um pouco a posição das nossas defesas, calculando que

(1) Constantino Cadena veio para Angola com Fernão de Sousa, que o nomeou capitão-
-mór de Cambambe. A exploração da mina de chumbo em Cambambe durou ainda por muito
tempo e da situação da mina se fez um auto ou certidão, que Cadena mandou para Fernão de
5
Sousa. Anexos. Doe.« n.oi249 e o, e ainda sôbre o assunto há uma carta de Fernão de Sousa
5
de a de Dezembro de 1626 a fl.335 5 3
do cód. t-viu- o da Bibl. da Ajuda.
5 3 36
(2) Bibl. da Ajuda. Cód. t-vm- o, fl. o . Carta de to de Dezembro de 1624.
I

Parte II— Angola 249 r


f

'S.
y
os holandeses forçariam a entrada do canal, e completou a organização
da cidade, não esquecendo guardar a saída para o interior com receio
dos que fugissem. *. ■ i

O tiroteio continuou no dia seguinte sem dano para nós, a-pesar-de


que tendo rebentado uma peça no forte de Santa Cruz, uma cunha foi * *'

atingir, matando, o valente Baltasar Rebelo de Aragão, que então era pro­
vedor de fazenda e não obstante a sua idade, estava ali prestando serviço.
Ao outro dia, i de Novembro, os holandeses iniciaram uma tenta­
y.
tiva de desembarque, vindo grande número de lanchas em direcção
à terra, mas sem definirem bem o ponto onde o queriam fazer, na
â
esperança de que acudindo os nossos a determinado local, eles o
pudessem efectuar noutro. Fernão de Sousa deu, porém, ordens ter­
minantes para nada se alterar, e esperassem que os holandeses defe­
nissem os seus planos, ao mesmo tempo que recomendava rompessem
o fogo os fortes que estivessem mais perto das lanckas, pelo que os
holandeses, tendo sofrido algum dano nas embarcações em que se
transportavam, recolheram a bordo das naus.
Durante a tarde dêsse dia e ainda no seguinte continuou o tiroteio
de parte a parte, sem que da nossa houvesse qualquer ferido e havendo
da dos holandeses a morte de um português, Diogo Rodrigues Teixeira,
que aprisionaram quando ia em um batelão acudir à Sua armação, e
ferimentos graves em dois dos seus, além de alguns navios bastante
danificados.
Vendo que nada conseguiam, os holandeses retiraram com os seus
navios para a ilha, fora do alcance da artilharia dos fortes, onde pro­
cederam à reparação e limpeza dos mais necessitados e, logo que
efectuaram a do patacho e a da urca, mandaram-nos sair para irem ao
sul resgatar refrescos, e pouco depois saiu o patacho pequeno carregado .\ j

de zimbo para o Pinda, também para resgatar mantimentos e refrescos.


Emquanto estiveram na ilha mandava quási diàriamente Fernão de
Sousa dar-lhes repetidos assaltos, que os obrigavam a estarem continua-
damente de vigia e a consumirem munições, mas sem qualquer outro re­
sultado prático, pois que os holandeses só abandonaram o pôrto depois
de todo o seu serviço terminado.

*
« •

O patacho mais pequeno levou para o Pinda recado do almirante


holandês para o rei do Congo, dizendo-lhe que tinha vindo atacar
3a

í: {
Jk

» I
i5 o A n g o la

Luanda no cumprimento de ordens qne para isso recebera, contando


que êle cumpriria aquiJo a que se oferecera, que erà dar guerra por
terra, quando afinal nem ao menos lhe dera bom acolhimento e refrescos
na ilha de Luanda (i).
t É muito possível que os holandeses contassem com o auxílio do xei
do Congo, atacando-nos pelo interior, e com outros auxílios dos mora­
dores de Luanda, porquanto, referiam os portugueses que tinham
estado prisioneiros, que o almirante holandês contara -que um judeu
$
que vivia na Flandres e era sanchristão d e sua sinagoga o enganara e ao
i ; Conde Maurício , afirmando que tomaria esta terra sem nenhum custo
e, esclarecia Femão de Sousa « P o llo s sinaes q. d elle deu e do tempo em
que aquj esteve se entende q. he hü Sebastiaõ R ibeiro natural da Hhà dá
Madeira, irmaõ de Custodio L o b o que reside nessa cidade e d ly se
4I
avia partido pera Sevilha antes da minha vinda, p ollo que se p ode crer
\
i q. todas as arm&das que sa hé desse porto pera as conquistas, sahê malsi­
nadas.
Não parece que o Sebastião Ribeiro enganasse o almirante holandês,
o geral, como os nossos lhe cham avam , com as promessas feitas, pois
devia ter fortes motivos para as fazer, e a confirmá-lo está a necessidade
que Fernão de Sousa teve de tomar medidas especiais, como fazer
recolher todos os indígenas da ilha a Corimba, com o fim-de evitar a
comunicação com os holandeses, sem contudo o conseguir, pois o geral
com tôda a semcerimónia m andava recados aos jesuítas, preguntan-
do-lhes se seriam deles uns negros que aprisionara, e servia-se até
dos mestres dos navios portugueses para obter as informações que
desejava, chegando a mandar recado a Fernão de Sousa dizendo-lhe
que não levasse à conta de cobardia o não desembarcar, mas não
o podia fazer por falta de gente, e manifestando o seu pesar por sèr
outro compatriota e não êle, que tivesse a honra de o levar para a
Holanda.
Abandonado o pôrto de Luanda pelos navios holandeses, conti­
nuaram contudo com a sua feitoria no Luango, onde ainda mantínha­
mos a nossa, agora proibida pelo rei de resgatar cobre e marfim com
os indígenas, e apenas rabos de elefantes, penas de papagaios e panos

(i) O pedido para os holandeses nos virem atacar com a promessa de os auxiliarem, foi
feito pelo rei D. Álvaro II, como represália pela guerra cjue lhe deu o governador João Correia
de Sousa e foi também, quando governava o preto D. Álvaro II, que os jesuítas e Gaspar A l­
vares se relugiaram no Congo, fugidos de Luanda pelas questSes com Correia de Sousa.
Entretanto falecera D. Álvaro sucedendo D. Garcia, que não estava no segrêdo da combinação.
-4 \

•ï-

Parte 11— Angola i5t

lavrados que corriam como moeda, o que não impedia de resgatarmos


com os holandeses, fornecendo-lhes refrescos, saladas e ovos e de lá
irem os navios do contratador, com, fazendas, talvez de Cádix ou
Sevilha, vinho das Canárias e mantimentos do Brasil para o mesmo
fim. Da mesma, forma mantinham a feitoria no Pinda, onde êlcs e os
nossos continuavam vivendo na melhor harmonia, a ponto do ouvidor %
que lá tínhamos,. Baltasar de Carvalho, ir resgatar às naus e comer com
êles. Fernão de Sousa, empenhado em impedir o comércio aos holan­
deses, precisava opôr-se a estes e outros sintomas da mais completa
indiferença pela defesa da colónia, mas precisava faze-lo,sem violências
pessoais, porque êle já sabia não convinha puxar pela matéria por seré os
principaes da terra e. poder acontecer outro herro tnayor.
Com mira, sobretudo, no resgate do cobre, que era o que os holan­
deses mais levavam daLuango e do Pinda e nos fazia, falta, mandou
abrir o resgate com o Caeongo, prejudicando-o negócio com o Luango,
e ao mesmo tempo proibiu em, absoluto os navios portugueses de irem
ao Pinda, não podendo fazer o mesmo com respeito ao Luango, poir
estar o resgate contratado.
Estabelecidas estas medidas, começou instando com o rei do Congo
para que expulsasse os holandeses do Pinda. As suas instâncias,,
juntamente com a ausência já prolongada dos navios portugueses no
Pinda, que trazia descontentes os portugueses e os fidalgos pretos do
Congo, já envolvidos no negócio, obrigaram.o rei do Congo a dar
ordem ao Conde do Sonho, D. Paulo, que governava no Pinda, para
expulsar o holandês lá estabelecido. A expulsão efectuou-se na presença
de todos os portugueses, e o holandês seguiu com as suas fazendas
para o Ngoio (Cabinda), mas sabendo que nós já estávamos estabe­
lecidos em Caeongo, seguiu para o Luango, onde tendo adoecido,
foi expulso pelo soba, ou rei, como lhe chamavam, que tinha o precon­
ceito de que se lá morresse algum branco, morreriam todos da terra,
vindo por isso novamente parar ao Pinda.
O Conde do-Sonho apressou-se a comunicar a Fernão de Sousa o
que se passava, pedindo-lhe que desculpasse o procedimento do irmão
admitindo lá os holandeses, visto já ter falecido, e consentisse que os
navios de Luanda lá fôssem, mas Fernão de Sousa exigiu que lhe en­
tregasse o holandês. Ao. mesmo tempo o rei do Luango, tendo de lá
saído um navio de Castela carregado, e receando que os holandeses,
a-pesar-dài ordem dele.para lhe não fazerem mal, ,o tivessem atacado na
viagem, mandava^ um próprio com uma carta.a Fernão de Sousa, pe-

r ta-

t!
252 A n g o la
dindo-Jhc para informar se o navio lá tinha chegado, a-fim*de proceder
no caso contrário.
Como se vê, tudo corria o melhor possível para a realização do
plano de Fernão de Sousa de impedir aos holandeses o comércio com
o Congo e Luango, se entretanto, no Pinda, não se tivesse amontoado
6 marfim, por os portugueses o pagarem mal, em relação aos holan­
deses, visto ser artigo de negócio exclusivo da Coroa, com preço deter­
minado e sem margem para lucros !
Pretos e brancos, interessados no negócio, protestavam, e o Conde
do Sonho resolveu o caso mandando ao Luango pedir aos holandeses
que enviassem lá um navio. Fernão de Sousa soube-o e lá volta com
cartas de ameaças, para o Sonho e para o rei, pedindo ao Bispo para
o auxiliar com as excomunhões e censuras. A correspondência era
dirigida ao Ouvidor do Congo, para a fazer seguir ao seu destino e
com instruções sôbre a forma como deveria proceder, mas foi interce­
tada a meio caminho, no Ambris, e levada ao Chantre Vicente Dias
Milheiro, confessor do rei do Congo, que, com a cumplicidade de
Baltasar Lopes de Andrade, que na ausência do ouvidor, desempenhava
êsse cargo, dirigiam a manobra para o regresso dos holandeses ao
Pinda.
Nesta preocupação constante se passava a maior parte do tempo.
Ora eram os avisos do Brasil da saída para Angola das naus holan­
desas, ora eram estas percorrendo a costa à caça de presas, e, se por um
lado, no mar, com a fraca defesa de que dispúnhamos, se conseguia
impedir muitos dos ataques, em terra, como se vê, havia uma grande
corrente a favor dos holandeses, porque o caso era diferente pois não
iam aos portos do Luango e Pinda para roubarem e saquearem nem
fazerem presas, pois os próprios pretos o não consentiriam, mas levavam
mercadorias diferentes das nossas, animando o negócio, pagando
melhor que os mestres dos navios do contratador.
Mais tarde, enfraquecida um pouco a preocupação de lhes evitar o
negócio, foi possível, aos holandeses, dispondo de uma regular esquadra
e de bastante gente, desembarcarem em Luanda e apossarem-se da ci­
dade. Depois disso, consumado êsse facto, perdidos para a Coroa de
Castela o rendimento da exportação de escravos de Luanda, levou anos
para que a Restauração se decidisse a rehaver Angola, visto que nunca
tinha conhecido os rendimentos que dali lhe poderiam vir.
Organizada a esquadra, distribuídos os lugares de comando, não se
fêz mais nada, e o Conselho Ultramarino então creado, muito clara-
P a r te I I — A n g o la *53

sacode de si a responsabilidade, alegando que o assunto tinha


pre tratado directamente pelo rei T>. João IV. l i foi preciso
s'do jjia os portugueses fazendeiros do B rasil, perante a im inência
que utn de abandonar as suas plantações por falta de escravos, se
de ote
' lvrem
e sse,nl
m a entre si se cotizarem p ara a despesa da expedição, para
res' iv ad o r C o rre ia pudesse sair com a esquadra a retom ar os portos
qUe S a ^ ^ue es,tavam em poder dos holand eses, pois que o interior
de A‘ng° ,,„ «
tin u ara m opre
sem r e a ser nosso,
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IV

A C T IV ID A D E ECO N Ó M ICA E SITUAÇÃO FINANCEIRA

TÒda a vida económica Je financeira das nossas colónias da África


Ocidental, foi, de início, baseada, qúáisi que exclusivaínente, na escra­
vatura. E ra o negócio do escravo o principal coçiércio, eram os
direitos, licenças e mais impostos quê essa exploração produzia, o prin­
cipal rendimento da Coroa.
N ão se pensava, então, em classificar de crime a escravatura, que
era um acto corrente da vida social. Todo o sul da Europa e todas as
ilhas do Mediterrâneo, estavam cheias de escravos, brancos, mouros
judeus e negros. H avia de tudo e de ambos os sexos, prestando-se a
todos os negócios que hoje repugnam ao nosso modo de ser moral.
N ão foi preciso a conquista de Seuta e os descobrimentos que se
seguiram, para em Portugal e em todos os países do Mediterrâneo,
haver escravos e se saber o que era o resgate. João Afonso, o vèdor
de fazenda de D. João I, sugeriu a conquista de Seuta, porque já lá
tinha mandado resgatar e, naturalmente, como homem de finanças,
sabia bem avaliar os lucros e o interesse material que o negócio traria
ao país, ao passo que os filhos de D. João I, aceitando a sugestão,
como cavaleiros e homens de guerra, só os preocupava a propagação
da fé entre os infiéis do norte da África.
Com os descobrimentos veiu o desenvolvimento do resgate, e Por­
tugal foi-se enchendo de escravos, primeiro os mouros, depois os
negros, mais tarde os judeus. Com êles fizemos a colonização das
ilhas do Atlântico e dêles se utilizavam os fidalgos e proprietários, em­
pregando-os quer no serviço doméstico, e como carregadores, quer em
outros trabalhos mais árduos no campo.
Tínham os reservado pára nós o resgate na Guiné, sem que nenhuma
oposição activa tivesse sido feita por parte de Castela, ou de qualquer
outra nação da Europa, a esta reserva. Os nossos marinheiros tinham
256 A ngola
ordem de atacar os navios estrangeiros que encontrassem por aquelas
paragens sem licença, e lançar ao m ar as tripulações. A energia
com que procedemos na defesa do direito de reservarm os, exdusivam ente
para nós, as nossas descobertas, produziu o resultado que desejávam os,
pois Castela, o único concorrente de quem poderíam os recear algum a
resistência, aceitou os factos como D. João II os apresentava, talvez
porque escravos esperava ter em m aior núm ero e m aior valor, com a
liquidação do reino de Granada (i)-
Dos escravos que havia, uns, os m ouros, destinavam -se ao negócio,
eram presas que se esperava a fam ília viesse resgatar por bom
dinheiro, como êles faziam em M arrocos quando agarravam algum
branco. Os outros, os negros, eram em pregados, na Europa, ao serviço
dos ricos, em uma vida mais de ostentação que de necessidade, e nas
ilhas que estávamos colonizando e povoando, no trabalho violento da
cultura da cana e fabricação do açúcar. Em qualquer dos casos a
oferta e a procura do a rtig o , equilibravam -se, e as necessidades cres­
centes dos colonos agricultores eram fàcilm ente satisfeitas.

■*
# #

Cristóvam Colom bo regressava, entretanto, da sua viagem ao


Ocidente, anunciando ter encontrado as índias que Castela sabia
D. João II procurava pelo O riente, e cuja posse traria as mais fabulosas
riquezas à nação que a efectuasse.
A fortuna, julgavam êles, aparecia-lhes assim, inesperadamente, mas
era preciso lá ir e explorá-la, e, na verdade, nem a sua marinha, nem
a sua gente, estavam preparados para o trabalho que a descoberta
exigia. P ara lá partiram os mais aventureiros e, numa ansiedade
louca, procuram, ora aqui, ora além, o ouro, as pedras preciosas,
tôdas essas riquezas que a sua im aginação acastelara.
Passada a primeira fase da surpresa, entram na da organização, e
o território até então descoberto, é dividido em repartimentos. O solo
rico promete compensar a despesa e trabalho com a sua exploração,

(i) Tendo D. João II, em 1494, reclamado contra o facto de negociantes espanhóis terem
ido resgatar à Guiné, os reis de Espanha atenderam prontamente a reclamação e determinaram
por cédula de 4 de Fevereiro de 1496 a prisão de Alonso de Macedo negociante de Cádiz, que
maior responsabilidade tinha no caso. (Navarrete, Col. dipl. Supl. I, n.° 3o).
Parte I I — Angola ^7
mas era preferível encontrar o ouro e a prata, que os tornaria ricos
mais depressa. Em qualquer caso era preciso o trabalho, que por si
não podiam dar, e procuraram levar o índio a prestá-lo. Nas minas o
trabalho era em extremo violento e os índios desacostumados a exe­
cutá-lo, fugiam, internavam-se, evitavam o contacto e relações com os
ocupadores. Estes, perseguiam-nos e forçavam-nos, empregando os
meios violentos. As suas dificuldades constaram entre os outros ocu­
padores de regiões onde pela ausência de minas, e por a exploração
agrícola estar longe de atingir a intensidade que mais tarde teve,
os índios se conservavam em boas relações, que êles aproveitaram
para os conduzir e venderem como escravos àqueles que deles necessi­
tavam, e, assim, afinal, todos tinham encontrado minas para explo­
rarem.
Pouco tempo durou êste negócio de escravatura dos'índios. Era
breve êles lhes faltaram e, por extrema necessidade, ?ubstituiram-nos
por brancos, que não puderam suportar o trabalho. Lançaram depois
mão dos escravos que tinham na Andalusia (1). Eram, na maioria,
mouros, também não convinham, pois dificilmente se convertiam ao
cristianismo, e pensavam, poderia constituir um perigo a propagação
do seu credo religioso entre os índios.
Os reis de Castela chamaram o negócio a si e êles próprios man­
daram comprar a Lisboa 100 negros, que de sua conta fizeram trans­
portar à America para serem vendidos (2). Os resultados foram
esplêndidos tanto para os colonos que os compraram, como para os
reis que os venderam, tornando-se necessária a continuação de re­
messas.
Não convinha, contudo, aos reis terem êsse negócio sob a sua acção
directa e, feitos os cálculos aos lucros, resolveram vender licenças para a
importação de escravos negros na América, ficando assim a Coroa com
um rendimento certo e sem mais trabalho que arrecadá-lo.
Regulamentada a concessão de licenças, a população de Sevilha
passou a dedicar-se, em grande maioria, ao negócio de escravos, que
tomou um enorme desenvolvimento, mais pelo contrabando que se
passou a fazer, sobretudo com as colónias portuguesas de Cabo Verde,*3

(1) Ortiz de Zuniga nos Anais de Sevilha refere que o Arcebispado de Andalusia rinha
grande número de escravos e em Sevilha se tinha estabelecido um mercado importante, além
de que também havia negros livres, a quem era permitida uma organização especial, com um
maioral, capelas e confrarias.
(a) George Scelle, La traite négrière aux Indes de Castille. Paris 1906, t.* vol., pág. ta6.
33
i5 8 Angola
Guiné e Mina, do que pelo fornecimento dos existentes em Espanha,
em condições de serem utilizados na América, que em pouco tempo se
esgotaram.
Era já impossível deixar de atender às necessidades dos colonos da
América, tanto mais que se iniciava a campanha contra os maus
tratos infligidos aos índios, e a favor da sua libertação, de que
Fr. Bartolomeu de Las Casas foi o precursor, fortemente secundado
pelos frades dominicanos, a cuja ordem pertenceu.

*
* *

Em dois princípios assentou a política colonial da Espanha. O


exclusivo para a Metrópole e para os seus habitantes, de todo o
comércio com as colónias, que seriam abastecidas do que precisassem
pela marinha metropolitana, recebendo em pagamento os produtos da
terra; e a reserva para o Estado, ou para a Coroa, de tôda a produção
mineira, ouro, prata ou cobre.
Assim como nós procedêramos para a Guiné e Mina, procedeu
também a Espanha para a América, levando um pouco mais longe as
suas restrições, pois que de início só os castelhanos podiam freqüentar
as colónias, estendendo-se depois a concessão à Andalusia e posterior-
mente a Aragão e Navarra. Aos estrangeiros não só era proibido
irem ou residirem nas índias sem uma licença especial, como sem essa
condição, lhes não era permitido negociarem em Espanha, nem asso­
ciarem-se, ou fazerem-se representar em qualquer negócio por um es­
panhol.
Tão ríspidas eram estas determinações e tão difíceis de fazer exe­
cutar, que deram lugar a tôdas as fraudes, ora pelo contrabando,
ora com sofismas da lei, em ambos os casos com a cumplicidade das
autoridades.
Os portugueses eram especialmente visados nestas determinações,
mas não era por isso que eles deixavam de por sua conta fazerem o
possível contrabando nas colónias espanholas da América, ou de se
concertarem com os espanhóis, quer para êsse fim, quer para se esta­
belecerem em Sevilha.
A medida de fiscalização do comércio colonial que tinha sido posta
em execução e de que se esperavam os melhores resultados, era o re­
gisto das embarcações feito na casa da Contrataciont em Sevilha,
P arte I I — Angola 25ç
e sem o qual o capitão do navio não podia sair de Sevílha, e muito
menos entrar em qualquer pôrto das colónias da América.
O registo era, pouco mais ou menos, o que hoje são os diversos pa­ *t
péis de bordo, com a diferença de que naquele tempo, a parte que dizia
respeito à Alfandega e Capitania constava tôda de um só documento.
Para se obter o registo os capitães e carregadores entregavam i1
na Contratacion uma relação jurada da carga, dos passageiros, da *
equipagem e dos escravos, se os levavam. Nessa relação eram lançados
os necessários termos que provassem o conhecimento que a Contrata­
cion tomava do caso, e com ela o capitão se apresentava aos oficiais
no pôrto da colónia para onde se dirigia, os quais, por seu turno,
exaravam as declarações sôbre o desembarque da carga, passageiros e
pretos, e mais ainda as que diziam respeito à carga e passageiros de
retôrno, devendo estes manifestar o ouro e prata que traziam.
Regressando a Cádiz o capitão fazia a participação da chegada e
entregava o registo. Durante quatro ou cinco dias o presidente da
Contratacion procedia à conferência da carga e dos passageiros e tri­
pulação. Esse espaço de tempo era mais que o suficiente para os
oficiais de bordo se desobrigarem do encargo que tomavam nas coló­
nias com os passageiros que regressavam ou com os colonos que lá a
tinham ficado, de entregarem a bôrdo dos navios estrangeiros que I
estivessem no pôrto, ou em locais e a pessoas que lhes indicavam, me­
diante a pequena comissão de i % e 2 °/o> 0 ouro Prata que traziam
escondido. Fàcilmente se conclue que nada disto seria possível sem a
conivência do governador, do alcaide e dos guardas, pois todos eram
gratificados.
A-pesar-de tôdas as proibições, os comerciantes estrangeiros tinham
as suas casas de negócio em Sevilha e exploravam o negócio colonial,
quási tendo-o absorvido, para o que escolhiam um espanhol de probi­
dade reconhecida e alguns bens de fortuna, que emprestava o seu
nome para assinar todos os pedidos de licenças, os conhecimentos,
facturas e as declarações a entregar nas estações oficiais, mediante uma
comissão, não havendo exemplos, seja dito em abono da verdade, de
qualquer fraude ou patifaria praticada por estes testas-de-ferro (i).
O rigor da lei levava à brandura na execução e provocava a comi­
seração dos executantes para com os transgressores. A mais pequena
falta implicava a confiscação e, tratando-se de ouro ou prata, tinha *>
}

(i) George Scelle, op. cit. í


■*
*t

! i
t

)
26o Angola

ainda a muita que se elevava ao quádruplo dos valores descaminhados.


Era tfio rigorosa e por tal forma violenta a lei, que o próprio rei
era obrigado, por circunstâncias diversas, a conceder perdões ou
indultos e, para não perder tudo, passaram estes a ser também
negociados, transformando-se em um imposto regular e certo, entre
to a i2°/0, mas arbitrário, contra o que reclamavam aqueles que não
tinham prevaricado.
*
* •

Da simples venda de licenças para navegar escravos, feita pela


Coroa a particulares que precisavam adquiri-los para as explorações
que tinham nas colónias, passou-se ao negócio das licenças, e indiví­
duos havia que as obtinham e se encarregavam de fornecer os escravos,
ao passo que o$ reis por vezes as cediam aos seus afeiçoados, como
mercê ou galardão, e que estes aproveitavam para as vender aos que
tinham êsse negócio.
Carlos V, herdando a coroa de Espanha não esqueceu os seus
amigos e compatriotas, e informado do valor que tinham as licenças,
presenteou, em 1 5 18, o seu favorito Laurent de Montinay, a quem os
espanhóis chamavam Garrevod, com uma cédula para poder levar
4000 escravos às colónias espanholas. Neste documento autorizava-se
Garrevod a ir angariar negros às ilhas da Guiné ou a qualquer outro
ponto onde fôsse costume encontrá-los, trazendo-os a Espanha ou a
Portugal, não deixando de ser interessante esta autorização, desneces­
sária quanto à indicação do local, pois não havia outro ponto onde ir
resgatar negros.
Em 1466 tinha sido concedido aos habitantes de S. Tiago de Cabo
Verde o previlégio de poderem resgatar directamente na costa da Guiné,
sem necessidade de virem ou mandarem a Lisboa tirar a respectiva
licença, para o que se estabeleciam os almoxarifes nos diversos locais
do resgate, que cobrariam em género o quarto de tôdas as carregações
incluindo as de negros.
Os estrangeiros não podiam ir à Guiné, mas podiam residir em
S. Tiago, o que genoveses, flamengos e espanhóis aproveitaram para
fazerem ali entreposto para o seu comércio, e como então a Espanha é
que precisava de escravos, enviaram no período de i 5 i 4 i 5 i 6, de
2970 escravos da Guiné recebidos em Cabo Verde, 370 directamente
para Cádiz e Sevilha.
P a rte I I — Angola 261
Como de costume vieram os abusos e em 15 17, D. Manuel (1)
proibiu os habitantes de Cabo Verde irem resgatar à Guiné, levando
outros produtos que não fôssem os das próprias ilhas, e trazerem
escravos a mais das suas necessidades próprias, sob pena de perderem
o previlégio concedido. Em 15 18, como os abusos continuassem,
determinou D. Manuel punir os transgressores com a confiscação dos
bens e com a morte.
É nesta altura de repressão enérgica do resgate na Guiné, que
Carlos V outorga ao seu amigo Garrevod a licença para lá ir resgatar,
licença que êle vendeu a João Lopes de Ricalde, genovês e a Alonso
Gutierrez, castelhano, naturalmente estabelecidos com negócio em
Cabo Verde, e que contavam com as suas habilidades de contraban­
distas e um pouco com a conivência dos almoxarifes, para levarem a
efeito o negócio.
* O
• *

Para bem se compreender todo êste movimento do resgate, vejamos


como corria a concessão e exploração das licenças.
Havia diversos processos de obter licença para navegar escravos
para as colónias da América. Em geral, requeriam-se em Madrid,
pagando no Tesouro ou na Contratacion em Sevilha, a respectiva im­
portância. Podia, contudo, pedir-se a licença a prazo, oferecendo para
isso uma caução, ou, o que era também muito corrente, obter-se de
um dos numerosos proprietários de licenças, que as tinham precisamente
para êsse negócio, que cedessem uma parte para determinado número
de escravos, o que eles faziam passando um novo pertence para a
quantidade negociada.
Com êsse pertence, ou título, 0 negociante apresentava-se em Sevilha
aos oficiais da Contratacion e declarava se utilizava tôda ou parte da
sua licença, pedindo registo para 0 número de escravos que queria
mandar, indicando 0 navio e 0 destino. Se carregava em Sevilha,
as formalidades eram simples e, pagos os direitos ao Almoxarifado,
recebia um certificado em troca da cédula original, para mostrar aos
oficiais do pôrto nas colónias e podia seguir viagem.
Se ia carregar a um pôrto da África, 0 navio saía com o registo e o
capitão, encontrada ou contratada a carga, mostrava-o ao feitor por-

(0 Referência a pág. 49.


2Ó2 Angola
tuguês, que nêle lançava o número de escravos, e seguia depois viagem.
Chegando ao seu destino os oficiais faziam a visita, conferiam a
carga com o registo, e procedia-se então ao desembarque e venda
dos negros. Carregado novamente o navio, regressava a Cádíz com
as mesmas formalidades da ida.
Não havia pois negócio mais simples, mas para tudo correr com
esta simplicidade era apenas necessário que o navio e tripulação fôssem
espanhóis, o que era raro, porque não tinham navios próprios, nem
tinham marinheiros habilitados.
Havia relativamente poucos anos que tinham começado a navegar
para a América, ao passo que nós, ou mesmo os genoveses e os
flamengos, que connosco tinham andado e aprendido, tínhamos já mais
de um século de mar largo, que era diferente daquelas viagens costeiras
a Marrocos a piratear os mouros.
As tripulações deviam ser exclusivamente espanholas, mas como
raras vezes o conseguiam, eram levados a autorizar que fôssem con­
tratados como marinheiros e moços, portugueses ou genoveses, que
saído o pôrto, passavam a desempenhar os seus verdadeiros cargos de
capitães e pilotos. Por fim, não tendo outra solução, consentiam que
a viagem dos escravos se fizesse em navios portugueses, ou espanhóis,
com parte da tripulação portuguesa, mas sujeitando-os a fiscalizações
especiais para não desembarcarem senão três ou quatro portugueses e,
sobretudo, fazê-los regressar ao pôrto de Cádiz, para de modo algum
ficarem residindo nas colónias espanholas.
Era ridícula esta preocupação e de efémeros efeitos as restrições
adoptadas. Os escravos estavam nas nossas colónias, donde não
podiam ser resgatados sem uma licença; tínhamos navios e tripulações
adestradas para viagens com estes carregamentos; conhecíamos como
ninguém, como êles próprios não conheciam, as costas das suas colónias,
as suas ilhas, e sabíamos todos os portos e abras onde se podiam
fazer desembarques clandestinos de negros.
As suas preocupações, em matéria de administração colonial, de
evitarem o desvio dos rendimentos da Coroa, pela introdução de
escravos a mais do número das licenças, ou de mercadorias que não
viessem de Espanha, nunca cessavam, porque tôda a sua vida colonial
dependia de nós. Tinham o receio de que lhe cubiçassem as colónias,
queriam esconder de nós tôdas as riquezas que nelas encontravam,
mas, afinal, era de nós que tinham de se socorrer para as poderem
valorizar.
P arte I I — Angola 263
A proibição do desembarque do pessoal português que ia nos
navios, ou da demora era terra de qualquer português, era, além de ri­
dícula, inexequível, porquanto as vendas de negros não se podiam
cfectuar imediatamente à chegada do navio, nem mesmo emquanto se
procedia à descarga, e as licenças continham a cláusula permitindo que
um ou dois feitores se demorassem até à liquidação do carregamento,
concessão que não podia deixar de ser feita, por ser por todos os mo­
tivos necessária e justa. Sucedia porém que os portugueses, demorando
propositadamente a venda dos escravos, iam ficando nas colónias es­
panholas com o seu negócio estabelecido e contrariando assim um dos
princípios fundamentais da sua colonização, o do exclusivo do comércio
para os nacionais.
Se não podiam evitar que os portugueses se estabelecessem nego­
ciando nas suas colónias, menos o podiam com respeito à exportação
do ouro e da prata para Portugal, pois ficando os Açofes no caminho,
era fácil justificar a necessidade de uma arribada, e fazer-se o desem­
barque daquilo que poderia ser apreendido em Sevilha.


# *

Esta animadversão para com os portugueses tinha de ser disfarçada


por fôrça das circunstâncias, e por vezes se encontram autorizações
permitindo as navegações em navios e com tripulações portuguesas,
como em i 525
, na licença concedida ao licenciado Álvaro de Castro,
castelhano, que se tinha associado a um genovês, e expunha ao rei que
se fôsse obrigado a comprar os negros em Espanha, só o conseguiria
com dificuldade e despesa, e se fôsse obrigado a carregá-los em navio
espanhol, lhe saía muito mais caro, pois os barcos portugueses se fre­
tavam por menos preço. O rei achando justas as razões apresentadas,
concedeu-lhe a autorização para fretar um navio português e resgatar
os negros em África, mas com a condição de só quatro tripulantes
serem portugueses e os restantes castelhanos (i).
53
Pouco depois em i i , em uma licença para Diogo Martinez
arranjar mil escravos, já se muda de orientação e se impõe «y que los
navios en que los pasaredes e las personas que losfueren a contratar sean
castellanos y que los escravos que de otra manera se pesaren sean per-

(i) George Scelle, op. cit. Doc. n.° 5 a pág. 758 do 1.“ vol.
26 4 Angola
didos, etc. pois tudo dependia dos negociantes espanhóis residentes em
Sevilha, fazerem ou não algum negócio.
A seguir, em 1 5 3 8 , faz-se em Espanha um largo contrato para
fornecimentos de escravos com dois alemães conhecedores do negócio,
os quais por sua vez o transferiram para o português André Ferreira
que se estabeleceu como feitor em Nova Espanha. Por qualquer mo­
tivo zangaram-se, mas o Ferreira estava de posse da licença e continuou
negociando por sua conta. O contrato transformara-se assim, em um
negócio directo de Lisboa ou das possessões portuguesas, com as ilhas
espanholas, sem intervenção da Espanha, e 0 govêrno espanhol infor­
mado do facto, ordenou a expulsão do André Ferreira e de todos os
portugueses que residiam nas índias de Castela. A população protesta,
as autoridades, integradas no espírito da população, cumprem a ordem
só depois de ter exposto a injustiça da expulsão de um indivíduo útil,
que prestava refèvantes serviços aos colonos; e o município de S. Do­
mingos, dirigindo-se ao Rei, diz-lhe que viu com desgôsto a medida
tomada da expulsão do português que era tão util ao país, esperando
que fôsse permitido êle voltar, e que se não desse crédito a pessoas que
falavam com paixão (1), querendo referir-se ao comércio de Sevilha e
marcando bem claramente a animosidade que sempre existiu entre os
colónos ciosos da sua liberdade, e o comércio pugnando pelos seus
previlégios.
Os portugueses entretanto, conhecedores das boas disposições da
população das colónias espanholas, aproveitaram a ocasião para, por
meio do contrabando, se compensarem dos prejuízos sofridos pela
expulsão, e as próprias autoridades espanholas eram as primeiras a
fechar os olhos a êsse contrabando, como em 1541, em Porto Rico
perante dois navios portugueses carregados de escravos, que lá apare­
ceram.
Segue-se um longo período, até i 5 8 o, em que a Espanha está envol­
vida em guerras na Europa e não tem ocasião de fazer contratos para
o fornecimento de escravos, mas em compensação vende lotes formidá­
veis de licenças, que passaram a constituir uma forma de empréstimos
ao govêrno.
Os portugueses continuam como sempre, a desempenhar o principal
papel no fornecimento de mão de obra para as colónias espanholas. Não
só é a Lisboa que os compradores de licenças se dirigem para assegu-

(t) George Scelte, op. cit.


Parte I I — Angola 265
rarem os seus fornecimentos, mas quando a Contratacion, assustada
perante a avalanche de genoveses, flamengos e portugueses, que se
queriam matricular como tripulantes das embarcações, representava a
Felipe II para que o proibisse, êste, longe de concordar com o alvitre,
mandava que os admitissem todos, com a condição dos mestres pres­
tarem fiança, obrigando-se a fazer regressar a Espanha os tripulantes,
porque assim evitava que êles fôssem prestar os seus serviços e comu­
nicar os conhecimentos adquiridos em outras viagens, aos estrangeiros
inimigos da Espanha.
Aos próprios portugueses foi permitido adquirirem para si as licenças
para fornecerem escravos, e assim encontram-se os registos de Lourenço
Alvares, para ioo negros; Bento Vás, para 600 em i 563 e mais 65 o em
1565 e sobretudo Manuel Caldeira, contratador das rendas de S. Tomé
e da Mina, que em 1 568 se encarrega do fornecimento de 2000 negros,
além dos que se encarregava de resgatar e expedir pír conta de outros
portadores de licenças(i).
Felipe II convencido como estava então, de nada poder fazer contra
a acção desenvolvida pelos portugueses neste negócio do resgate, resolve
em 1566 , pouco mais ou menos, entender-se com 0 Rei de Portugal e
conseguir que as autoridades portuguesas fizessem a fiscalização nos
carregamentos de negros e, assim, nas licenças a partir de 1567 se
encontra escrito: con fe ascripta en las espaldas de los administradores
que el Sereníssimo Rey de Portugal tiene en los Puertos donde hoviere
rescatado y contratado los dichos esclavos; que no recibistes ni rescatastes
en los dichos puertos todos los esclavos en el tal registro contenidos y asi
salistes de los dichos puertos con tal numero de esclavos y no ntas... (2).
E interessante que em todo êste período até i 58o, é que aparece
maior número de espanhóis a pedir licenças, e, dadas as circuns­
tâncias expostas, tudo leva a crer que, se não 0 faziam por conta de
portugueses, eram pela certa associados com êles.
O que não pode passar desapercebido e convém fixar, é que o
princípio estabelecido pela Espanha, da reserva absoluta do comércio
das suas índias para os seus naturais, tinha sofrido fortes restrições,
não só no que dizia respeito à navegação e tráfico dos negros, mas
também à exploração das colónias. A Espanha envolvida em guerras
na Europa depressa entrou no período de depressão da sua actividade*3 4

(1) George Scelle, op. cit.


(2) Idem, Ibid., doc. 19, pág. 783 do i.* vol.

34

--- ’"""vH- " '


y
206 A ngola

colonial c não obstante, ao passo que com estrangeiros, especiaimente


portugueses e genoveses, se via obrigada a transigir, mantinha severa
para os seus colónos, a proibição de negociarem directamente com
o estrangeiro, centralizando no comércio de Sevilha todo o movimento
de exportação e importação das colónias.

#
* •

Quando em 1 58 o Felipe II de Espanha se apoderou da coroa de


Portugal, Angola constituía uma donataria de que era donatário Paulo
Dias de Novais.
Parece, pelo que escreveu o licenciado Domingos de Abreu de
Brito (i), que desde i 5 7 5 , data em que Paulo Dias chegou a Angola,
se fêz logo registo, em livros próprios, do movimento de escravos
despachados pelos oficiais de V. M g .d% mas que só nos últimos quatro
anos, em referência àquele em que escreve ( i 5 ç)i), estavam arrendados
os direitos sôbre esses escravos (2); e efectivamente, em 1587 fêz-se
um contrato com Pedro de Sevilha e António Mendes Lamego (3 ) sôbre
el asiento é comben\as dei rreino de A n gola, por seis anos a começar no
S. João dêsse ano, e pela renda anual de onze contos, exactamente
a mesma importância a que se refere Abreu de Brito.
A administração espanhola chamava asientos ao contrato ou con­
junto de contratos, pelos quais um particular se substituía ao Estado
para desempenhar em seu lugar um serviço' público, cobrando as re­
ceitas e efectuando as despesas, mediante determinada renda e condi­
ções. Os asientos revestiam diversas formas, umas vezes tratando
apenas da cobrança de impostos ou licenças, sem tolher a liberdade
dos particulares as usarem ou não, e eram os casos mais raros, outras,
e eram os mais correntes, transformando-se em verdadeiros monopólios

(1) Um inquérito à vida administrativa e económica de Angola e do Brasil, etc. Edição da


3
Imprensa da Universidade. Coimbra, 1931, pág. o e i. 3
(2) Há uma grande falta de documentos referentes a êste período de forma a se poder
produzir, com segurança, qualquer afirmação sôbre a administração de Angola. George Scelle
que pôde consultar os documentos existentes em Espanha, escreve que ao tempo dos Felipes
tomarem a coroa de Portugal, existia em Angola um contratador dos direitos e impostos, e que
esse contrato foi mantido e renovado por Felipe II. A*pesar disto pomos dúvida que antes de
1587 existisse qualquer contrato, porquanto no que se fez então, há referencia ao que se pagava
anteriormente pelas licenças, mas, por hordem de la ha^ienda de su Magestad e não ao contra­
tador.
3 3
( ) George Scelle, op. cit. doc. z a pág. 790 do vol. que se reproduz. Anexos
ir

Parte Il-~ Angola 267

em que o Estado recebia antecipadamente, de uma vez ou por anos,


determinada renda, de que lançava mão para acudir aos apuros do
tesouro. Na maioria dos casos eram como que a venda de títulos de
comércio que pela utilização ou revenda, poderiam dar qualquer rendi­
mento.
O contrato ou asiento cora Pedro de Sevilha e António Mendes
Lamego, não lhes dava o monopólio do comércio em Angola e em­
bora 0 denominassem asiento, não revestiu o carácter particular que
tinha esta espécie de contratos. O tráfico dos negros era livre para
todos, desde que pagassem aos asientistas ou contratadores, em vez de
pagarem aos funcionários do Estado, determinada licença, pois se lhes
estabelecia: «haran convenertcias con todas laspersonas que las quisieren
ha{er para traer esclavos dei rreino de Angola, las quales se haran por
los precios è condiciones, tiempos è modos con que haste aora se hifieron
por hordem de la hafienda de su magestad», importância ou precio êste
que o contratador arrecadava. O comércio de mercadorias, especial-
mente vinhos e aguardentes, também não constituía monopólio e qual­
quer o podia exercer, contanto-que pagasse ao contratador as respecti­
vas licenças, e, assim, os asientistas não eram mais que arrendatários
de impostos, de cuja cobrança se encarregavam com pessoal seu, obri­
gando-se o Rei a não dar licenças algumas para negócio nas costas de
Angola, e a recomendar às autoridades que lhes prestassem todo o au­
xílio è siendo caso que pablo dia% de nabais que esta por gobernador dei
dicho rreino de angola, pretenda tener algun derecko en los rrescates que
los dichos contratadores hicieren, no seran obligados a le pagar por ello
cosa alguna, porque solamentepagaran en cada un ano deste asiento, los di­
chos on\e quentos de rreis à la hafienda de su magestad, la qual quedara
obligada al derecho que el dicho pablo die\ tubiere en los dichos rrescates (1).
Não eram objecto do contrato os metais preciosos. O marfim tinha
uma cláusula especial è antes que se enbarque el dicho marfil lo llevaran
à la casa de la fatoria dei dicho rreino de angola, para lo alli ver y pesar.
E seran los dichos contratadores obligados à mandar traher con el certifica-
cion dei fator è officiales de la dicha fatoria, en que declaren la canlidad y
peso dei dicho marfil pera por ella ser obligados de los derechos dei. Es­
tabelecia ainda 0 contrato que se algum navio fôsse a Angola para

(ij Como se vê liquidaram-se com extrema simplicidade os direitos do donatário, assu­


mindo a Coroa a responsabilidade da liquidação. Se foi feita e como, è que se não sabe, fal­
tando-nos documentos que esclareçam êste ponto, sendo de presumir que se encontrarão em
Espanha.
268 Angola
negociar, sem licença dos contratadores, seria im ediatam ente aprisio­
nado, ficando navio, artelharia, armas, pólvora e m unições para a C oroa,
c da carga, dois terços para a C oroa e um terço para os contratadores.
Uma das cláusulas do contrato au torizava os contratadores a po­
derem exportar três mil negros por ano, sendo um têrço para Castela,
conformando-se com as condições correntes para êste negócio, referência
ç que certamente dizia respeito ao pagam ento de direitos.
Abreu de Brito, pelo exame que fêz aos livros de registo dos escra­
vos, verificou que nos quatro anos do contrato tinham sido exportadas
2o . i 3 i peças, o que é diferente de negros, pois que uma peça era em
regra dois negros. Querendo porém adm itir apenas m ais 5 o °/0, temos
que nos quatro anos exportaram 3 o.ooo negros, ou sejam 7.500 por ano,
mais do dôbro do que se lhes concedia, a não ser que se interprete a
licença para aquele número de negros com o respeitando exclusivamente
aos contratadorop. Sendo assim, os seus lucros que como já ficou refe­
rido eram importantes, passam a ser m uito m aiores e não se entra em
conta com os que obteriam do contrabando, que por todos os meios
continuava a ser feito.

Como bem se compreende, as necessidades das colónias espanholas


não se satisfaziam com aqueles mil pretos do contratador de Angola, e
todos os arrematantes das rendas das nossas colónias tinham obtido
nos seus contratos uma cláusula para fornecerem negros às índias de
Castela.
Assim, em i 5 8 3 , Á lvaro Mendes de Castro, que tinha tomado as
rendas de C abo Verde e rios da Guiné, obteve uma licença para 3 .ooo
escravos. N o mesmo ano, João Baptista Revalesca, contratador de
S. Tom é, obteve-a para 1.800 negros em seis anos, e o negócio desen­
volveu-se por tal forma que em 1 5 go, tendo finalizado o contrato de
Mendes de Castro para Cabo Verde, apareceu a tomá-lo um grupo de
contratadores, Vicente Pereira, Ambrósio de Ataide, Pedro Ferreira e
Diogo Henriques (1), que certamente não tinham em vista somente os
lucros do fornecimento lícito dos negros das licenças que comprassem,
mas principalmente os do comércio de contrabando que exerciam por
intermédio do Brasil, para onde eram despachados quási todos os na-

(1) George Scelle, op. cit.


P arte 11 Angola 269

vios negreiros, e donde depois saíam para os diversos portos das coló­
nias espanholas.
O negócio deveria ser por tal forma rendoso e estava tanto na am­
bição de todos, que o nosso Duarte Lopes, regressando do Congo e dc
Angola em 1589, procurar Felipe II para lhe apresentar um projecto
de fornecimento geral de mão-de-obra para tôda a América, portuguesa
e espanhola, consistindo na organização de um monopólio de que, na­
turalmente, êle seria o administrador geral. Havia dois contratadores,
um em Sevilha, outro em Lisboa, o primeiro para Cabo Verde e rios
da Guiné, o segundo para S. Tomé, Congo e Angola. As licenças no
primeiro grupo custavam a 20 ducados cada, porque os pretos eram de
melhor qualidade, as do segundo custariam só 15 ducados.
Felipe II, mostrando 0 maior interesse pelo projecto, mandou-o apre­
ciar pelos do seu Conselho, que estudando-o atentamente, parece terem
chegado à conclusão, aliás fácil, de que só favorecia dfc portugueses, a
quem entregava 0 monopólio de todo 0 comércio com as colónias espa­
nholas, pelo que foi pôsto de parte (1), não obstante Duarte Lopes se
esforçar por mostrar a vantagem que teriam os negreiros de Sevilha
com a reserva de Cabo Verde para os seus negócios, com 0 que não os
seduziu, pois 0 instinto, mais que a basófia, lhes fêz ver que êles não
eram marinheiros para estas viagens, e tudo redundaria em beneficio
dos portugueses.
Em oposição ao projecto de Duarte Lopes, apareceu o do Consulado
de Sevilha e o asiento com Reinai, 0 primeiro a que verdadeiramente
se pode dar êste nome, feito depois da usurpação, e que se tornava exe­
quível, porque os reis de Espanha tinham agora, não só a fiscalização,
mas tôda a acção sôbre 0 procedimento das autoridades portuguesas.
O asiento com Reinai obrigava-o a levar anualmente às colónias es­
panholas 4 .25 o escravos, dos quais devia desembarcar vivos pelo menos
3 .5oo, sob pena de uma grave multa, e obrigava-se ao pagamento de
100.000 ducados por ano. Os escravos, vindos dos locais onde era cos­
tume buscá-los, podiam ser embarcados em Sevilha, Cádis, Lisboa, ou
Canárias, em navios com tripulações portuguesas ou castelhanas, com
a condição de terem um piloto diplomado, e seriam visitados nos portos
espanhóis pelos juízes ordinários que então se criaram, e em Lisboa
pela entidade que 0 Rei designasse.

(1) Talvez depois disto Duarte Lopes se retirasse desiludido para Génova, onde, ao passo
que expunha aos negreiros genoveses os seus planos, contou a Pigafeta as suas aventuras e a
história do Congo, que êste publicou.
2 7o Angola
Aos holandeses, já então revoltados contra a Espanha, era proibida
qualquer participação neste negócio.
Era esta a situação do negócio dos negros para as colónias espa­
nholas no fim do século xvi e vemos que desde o início da sua ocupação
na América, se tiveram de servir dos navios e marinheiros portugueses
e dos negros das colónias portuguesas, muito embora debaixo do cons­
tante mêdo de que lhes cubiçássemos as suas riquezas, adoptando, para
o evitar, medidas de excepção que de nada lhes serviram.

#
* #

Estudada a situação com respeito à Espanha e á sua parte da Amé­


rica, e em que, como fica demonstrado, nós tivemos sempre tôda a acção,
vejamos agora o que se passava entre nós com referência ao Brasil.
Ao contrário do que sucedia em Angola, o índio do Brasil não co­
nhecia a escravatura. Os prisioneiros que faziam nas diversas lutas
que entre si tinham, ou eram comidos ou mortos, e não vendidos, por­
que não tinham quem lhos comprasse, e não os obrigavam a trabalhar,
porque também não tinham em que os ocupar.
Os nossos primeiros ocupadores, vendo que a terra poderia servir
para mais alguma cousa que dar o pau brasil e os papagaios, vendo a
sua fertilidade e não a podendo cultivar apenas pelos seus braços, pro­
curaram trazer os índios ao trabalho. Não o conseguindo, lançaram-se
na luta para os apanhar, sujeitando-os como escravos. Eram presos de
guerra, que em vez de serem comidos ou mortos, ficavam condenados
a trabalhar, e assim iniciámos as primeiras plantações.
Os espanhóis, passando pelas mesmas dificuldades, tinham resolvido
o problema da mão-de-obra pela importação do negro de África, e os
nossos donatários pediram também que lhes permitissem mandá-los
buscar, não deixando de insistir pelas vantagens da utilização da mão-
-de-obra do índio.
Os jesuítas, quando foram para o Brasil em 1549 e, portanto, depois
de irem ao Congo, encontraram estabelecida a luta com os naturais, e
verificaram as dificuldades que havia para os obrigar a trabalhar. Tra­
taram, dentro do seu papel de evangelizadores, de converter os índios,
procurando ter sôbre êles o necessário ascendente, para os trazer a
uma civilização nova, para os chamar a si, e, pelo seguro fazendo-os
seus escravos, como os colonos faziam. Tendo feito marcar alguns da
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Parte I I — Angola 27 1

terra, como entre êles havia fêmeas, juntaram-nas com machos, pondo-os
em roças apartados, todos em suas casas, formando, assim, os primeiros
casais das povoações e, com pequenos auxílios que o Governador lhe
dava, do\e vaquinhas para criação e para os meninos lerem leite, com o
serviço dos poucos escravos que tinham, os seus rendimentos e o valor
do seu trabalho, criaram o primeiro núcleo de crianças e foram cha­
mando ao seu convívio outros índios. Dos escravos que se importavam •»
da Mina e S. Tomé, também alguns lhes foram dados, e se lhes dessem
mais três ou quatro. . . antes de um ano se sustentariam cem meninos e
mais (i).
Quando em 1547 0 Provincial em Lisboa conseguiu que fôsse para
0 Congo a primeira missão, composta dos Padres Cristóvão Ribeiro,
Jácome Dias e Jorge Vaz, soube que este último, pouco depois, logo em
Maio de 548, na inquirição a que o Rei do Congo mandou proceder
por os de S. Tomé desviarem 0 negócio do Congo p£*a Angola, apa­
receu como uma das vítimas dêsse desvio do negócio, porque tinha
sessenta ou setenta peças para embarcar e ficaram deteudas por falta de
embarcação de que hos donos delas tem recebido muyta perda. E, ao
passo que a Companhia procedeu com todo 0 rigor, castigando seve­
ramente o Padre Cristóvão Ribeiro por umas negociatas que fizera, não
lhe aceitando a justificação de que precisava ganhar alguma cousa para
a família que tinha em Portugal, não houve igual procedimento contra
0 Padre Jorge Vaz, que continuou gozando 0 melhor conceito, donde
talvez se possa concluir que 0 embarque dos sessenta escravos, se não
a ida da missão, foi uma pequena experiência que a Companhia de
Jesus mandou fazer no Congo, para saber como 0 negócio corria, e com
o que podia contar para a colonização do Brasil.
A-par-das dificuldades que encontraram para o embarque de pretos,
não foram menores as que se lhes depararam para a catequização, a
ponto de os obrigarem a abandonar 0 Congo. No cumprimento da sua
missão evangelizadora lançaram os olhos para Angola, para onde os de
S. Tom é tinham desviado a corrente do tráfico dos negros.
No Brasil, pela sua acção nas povoações que formavam com os ín­
dios catequizados, opunham-se a que os colonos os utilizassem no seu
trabalho, e criando, assim, para êles, um ambiente de simpatia entre os
índios, dificultavam a obtenção da mão-de-obra, aumentando a neces­
sidade do resgate do negro da África. Ao contrário de Fr. Bartolomeu

3
(1) História da Colonização Portuguesa do Brasil, .“ vol., Introdução, pág. xx.
-o

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27 2 A n g o la

de Las Casas, em Espanha, pedindo a im portação dos negros para


salvar os índios dos rigores dos colonos seus patrões, êles apenas se
limitavam a lançar o catequista ao índio para o cham ar à fé de Deus e
a importação do negro viria como conseqüência natural. «í
Por outro lado os governos em Portugal, sem se pronunciarem sôbre
os protestos do Congo, foram facilitando as licenças para as armações
em diversos pontos da costa de Angola, pois previam poder ser uma
importante fonte de receita pelos direitos que estavam cobrando. Uns
anos por administração directa, outros entregando a cobrança aos con­
<
\
tratadores, a receita ia aumentando e a C oroa não podia já prescindi-la.
E
Além de se reconhecer e ter assentado que a mão-de-obra, não só para
o Brasil mas para tôda a Am érica, não podia ser dada pelo índio, mas
sim pelo negro da costa da África, desde C abo Verde a Benguela, eram
já tantos e tao complexos os interesses em jôgo, não só os dos particu­
lares, mas mai^principalmente os da Fazenda Real, que era impossível
sustar a corrente da exportação do negro para a América.
O soba de Angola é que ignorava a conjugação destes interesses, e
ao ter notícia das queixas do rei do Congo contra os de S. Tom é, re­
ceando que por motivos de se não ter feito ainda cristão, fôsse proibido
0 resgate nas suas terras, e ficasse privado de se vestir com trajes gar­
ridos e de se embriagar, mandou embaixadores a Lisboa pedindo para
enviarem padres, pois queria ser baptizado.
Obtiveram os jesuítas que lhes fôsse confiado êsse encargo, e em
1 5 5 g vai Paulo Dias acompanhar a Angola a sua primeira missão. Se
não conseguiram a conversão do soba ao cristianismo, prepararam in-
directamente, pelas relações que se estabeleceram entre os portugueses
e o soba grande e outros pequenos, que o resgate começasse a efec-
tuar-se por uma forma mais regular e certa, de maneira a garantir uma
exportação suficiente para as colónias portuguesas e espanholas na
América.
Mas o negro chegava ao Brasil mais caro do que o índio lá se po­
deria obter e muitos dos colonos teimavam em fazer dos índios cativos,
ao que os padres da Companhia se opunham, travando-se questões que
assumiram certa gravidade, a ponto de os colonos denunciarem os je- .
suítas à Inquisição, pelas doutrinas que pregavam entre os índios.
Vencendo tôdas as resistências, os jesuítas assinalam a sua primeira
vitória com a lei de 20 de Março de 1570 (1), pela qual D. Sebastião,1
(1) Está publicada no Boletim do Conselho Ultramarino, Legislação antiga, 1446-1754,
pág. 127.
Parte 11 — Angola 27Ò

para obstar aos inconvenientes que resultavam do modo coroo se faziam


cativos os gentios do Brasil, estabeleceu que só o poderiam ser os que
fôssem tomados em guerras justas, feitas com licença dêle Rei, ou dos
Governadores, ou os que assaltassem portugueses ou comessem gente,
devendo, em qualquer caso, aqueles que os cativassem, declararem no
prazo de dois meses nas Provedorias, as circunstâncias em que os
tinham feito, a-fim-de serem apreciadas, e, quando confirmada a ca- *
ptura, inscritos os cativos nos respectivos livros.
Entretanto, estava tratando, em Lisboa, Paulo Dias de Novais, de
obter a donataria de Angola. A carta de doação é de 1573, posterior
à lei acima referida, e nela não se faz qualquer referência a proibir-se
ou regular-se a forma de se fazerem cativos, como se regulara para o
Brasil e, contudo, sabia-se que o resgate do escravo estava já estabele­
cido em Luanda.
Pelo lado do Governo, justifica-se a omissão, entr<? outros motivos,
pela necessidade que tinha do rendimento, mas não se justifica que,
pelo da Companhia de Jesus, interessada certamente em que a sua *
obra de evangelização em tôda a parte fôsse coroada de êxito, se não
insistisse por uma medida, que a experiência e os trabalhos de mais de
vinte anos, lhe tinham indicado como necessária no Brasil.
Compreende-se que 0 Rei, que pelas cartas de doação transferia
todos os seus direitos e rendimentos ao donatário com 0 fim de o au­
xiliar, não proibisse um dos tráficos mais rendosos, mas não se com­
preende que a Companhia de Jesus, que ia evangelizar Angola, com
exclusão da interferência dos clérigos de qualquer outra ordem, não
procurasse regular por uma lei a acção contrária aos seus fins, que
fatalmente ia ser exercida pelos colonos que habitavam Angola. E,
tanto mais, que êsses colonos não eram, então, dos que mais garantias
davam das suas boas qualidades e virtudes, para auxiliarem a evange­
lização, antes pelo contrário, seriam daqueles a quem anos antes D. Se­
bastião se referia nas instruções que deu a Paulo Dias para a primeira
viagem «ws encommendo que tenhais grande cuidado de todos os que vaô
em vossa companhia terem as cousas da Igreja e cerimonias d’ella aquelle
respeito e veneraçaõ que se deve porque segundo 0 que sou informado isto
he 0 que ha de aproveitar muyto para 0 dito Rey e os seus fazerem outro
tanto e também danará muyto sendo pello contrario.
O relato feito do que se passou em Angola durante o período da
donataria, elucida-nos sôbre estas dúvidas e mostra-nos que a Compa­
nhia de Jesus tinha obtido não só todo 0 predomínio na administração,
35

t . *

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i

274 Angola

mas ficara para si, em paga dos serviços que prestara, com todos os
sobas, isto é, estava na posse da população indigena, de que podia pôr
e dispor. E, ligando agora a história de Angola com a do Brasil, e
com a das índias de Castela, vê-se que, dificultados na América os ca­
tiveiros e encaminhados os colonos no sentido de suprirem a falta de
mão-de-obra com a compra do escravo africano, só os padres da Com-
* panhia, que eram os amos dos sobas em Angola, os poderiam vender,
tendo nessa venda incalculáveis lucros.

#
* *

A lei de 1570 de D. Sebastião não satisfazia a Companhia de Jesus.


Precisavam arrancar à dominaçao espanhola alguma cousa mais clara,
mais terminam^ e que lhes entregasse os índios do Brasil.
Fêz-se então a lei de 9 de Dezembro de 1 5 9 5 (t), que seria a lei mais
, liberal de tôdas as que até hoje têm regulado a vida dos indígenas, se a
acção que nela se dá à Companhia de Jesus fôsse apenas a que deveria
ser, a acção religiosa, exclusivamente moral, e não a política e de do­
mínio real e material que exerciam. Estabelecia a lei a liberdade de
todo o índio do Brasil, só podendo ser cativos os que o fôssem feitos em
guerras autorizadas por Provisão assinada pelo Rei, e que os mora­
dores que precisassem de índios para o trabalho lhes deviam pagar sa­
lário. Logo a seguir, como regulamento a essa lei, vem a de 26 de
Julho de 1596(2), em que Felipe I encarrega os jesuítas de domesti­
carem, ensinarem e encaminharem no que convém ao gentio do B rasil
nas cousas da sua salvação e nas da vida comum e tratamento com os
povoadores e moradores, determinando que só êles jesuítas pudessem
ir ao sertão convencer os gentios a virem fazer povoações para o litoral,
em pontos que os Governadores estabelecessem, dando-lhes terrenos a
que os donatários tivessem perdido o direito por não os terem aprovei­
tado em devido tempo. Estas povoações seriam encarregadas a um
Procurador, de nomeação do Governador de acôrdo com os jesuítas, o
qual tinha atribuições para resolver as questões entre os índios, dentro
de determinada alçada, e ninguém poderia ir a essas povoações sem

(1) Arquivo da Tôrre do Tombo, livro 2.“ de Leis, fls. 26 v.» e 27, que nlo está publicada.
Anexos, doc. n.* S2.
3 3
(2) Idem, idem, fls. o a i. Anexos, doc. o.* . 53
Parte I I — Angola 2j5
licença do Governador e consentimento dos jesuítas. Os fornecimentos
de mão-de-obra seriam satisfeitos pelos padres, não podendo o gentio
trabalhar por mais de dois meses, findos os quais se lhes faria o paga­
mento pela própria autoridade, não se permitindo quaisquer deduções
nos salários, pelo dinheiro ou fazendas que os patrões dissessem ter-lhes
abonado, nem ainda mesmo que o provassem. O Ouvidor Geral, uma
vez por ano, faria devassa sôbre aqueles que cativassem gentios con-
tràriamente ao que ficava estabelecido.

*
* *

Compreende-se melhor o alcance económico e político destas leis,


se as ligarmos com o que se passava em Angola. Em 1592, D. Fran­
cisco de Almeida, tenta acabar com as doações de socados indígenas,
com que a Companhia de Jesus tinha sido favorecida. Nada consegue,
e foge para não ser excomungado. O irmão, D. Jerónimo, compõe-se
com os jesuítas para poder governar, e essa composição perdura com
João Furtado de Mendonça em todo 0 seu govêrno. O contrato para
o fornecimento de escravos para as índias de Castela, efectuado com
Pedro de Sevilha e António Mendes Lamego, que vigorara entretanto,
terminara em 593 e começara o do Reinei, em que tinha sido elevado
para 4 .25 o 0 número de escravos a entregar em cada ano.
A questão dos sobados doados desvanecera-se e só no regimento dos
governadores é que continuava a dedicar-se um capítulo especial ao
assunto. Talvez mesmo se chegasse à conclusão de não ter valor a
doação dos sobados, desde que 0 Govêrno não podia garantir as doa­
ções que fazia, e cada um podia, a seu belo prazer, relacionar-se com
qualquer soba, passando a exercer sôbre êle acção e influência. É
assim que, dentro desta harmonia de interêsses que se conseguira es­
tabelecer em Angola, aparecem para ter execução no Brasil as leis de
595 e 596, que tornam proibitivo o cativeiro dos índios, agora somente
dirigidos pela Companhia de Jesus, restando aos colonos para as suas
necessidades de trabalho a importação da mão-de-obra da África.
O asiento com o Reinei acaba entretanto, e a experiência leva o Rei
de Espanha e as autoridades espanholas a concluirem que a solução
radical do assunto da mão-de-obra para as índias de Castela, seria
fazerem o asiento com um português. Contra tôdas as suas prevenções,
reconheciam a necessidade dessa solução. Era escusado tentarem viver
276 Angola
sem o auxílio dos portugueses; tinham de se lhes entregar para evitar
a continuação de prejuízos nos rendimentos da Coroa. Dentro desta
ordem de ideias, assente que deveria ser um português o asientista, não
seria forçar muito a lógica, aceitar que quaisquer dificuldades que
ainda pudesse haver, desapareceriam se êsse asientista fôsse o Gover­
nador Geral de A n gola!
Assim se fêz em 1600 o asiento com João Rodrigues Coutinho (1).

*
• *

João Rodrigues Coutinho obrigava-se também a fornecer anual­


mente 4.25o escravos para as colónias espanholas da Am érica, aonde
deveriam chegar vivos 3 . 2 5 o, sob pena do pagam ento de uma muita de
dez ducados poí cada um que faltasse. Podia levá-los de qualquer
ponto e navegá-los para tôdas as colónias espanholas, incluindo o Rio
da Prata, mas excluindo a T erra Firme. Obrigava-se a vender licenças
em Lisboa e Sevilha a quarenta ducados cada uma e a conceder o prazo
de um ano para o pagamento, quando o comprador desse caução. Não
podia associar estrangeiros ao seu negócio e tinha seis meses para in­
dicar quem eram os seus associados. As tripulações dos seus navios
podiam ser portuguesas, bem como os seus agentes nos diversos portos,
onde não lhes era permitido demorarem-se mais de três anos. Não
tinha o monopólio do com ércio e obrigava-se ao pagamento anual de
170.000 ducados (2).
O contrato vigorava desde M aio de 1600, mas em Agôsto de 1601
ainda Coutinho não tinha pago nem a caução nem a renda do ano,
mas já tinha vendido por 16.000 ducados a Jorge Rodrigues Solis (3 )
400 licenças, utilizando assim a sua dupla qualidade de asientista e
Governador de Angola, e obtivera por uma cédula, chamada de «F ie l-
d a d », poder começar os seus negócios; em Julho de 1602, como ainda
nada tivesse liquidado, alcançou uma prorrogação de ano e meio. As
suas dificuldades eram principalmente provenientes das questões que
lhe levantaram os portadores de licenças anteriormente vendidas pelo
Reinei e êste próprio, e que êle não queria considerar como subsistentes

(\) Vidè referência a pág. t86 e seguintes.


(a) Borges de Castro na Colecção dos TraSãdos diz serem 162.000 ducados.
3
( ) George Scelle, op. cil., doc. n* 27 a pág. 811 do tomo I. Anexos, doc. n* 54.
1

Parte II— Angola 277 :(


depois do seu contrato. Contudo, e cora fins que fàcilraente se adivi­
nham, com alguns transigia, comprando-lhes o direito, como com a viúva
t;
do conselheiro da Hacienda, Hernandez de Espinoza, que se tinha en­
chido por tal forma de licenças, que não havia maneira de as utilizar;
mas com o Reinei não o podia fazer de forma alguma, tendo apresen­
tado queixa ao Conselho das índias, que o atendeu mandando seques­
trar todos os fundos vindos das índias para o Reinei ou para o seu
feitor em Cartagena, não porque reconhecesse a caducidade das licen­
ças vendidas anteriormente ao contrato de Coutinho, pois que com isso
só iria causar o descrédito das licenças, que convinha manter como
título de valor firme e negociável, mas porque verificou que o Reinei
usara de fraudes na sua exploração, pois só nos primeiros cinco anos
do seu asiento tinha passado de 21.200 o número de negros enviados
para as colónias, não podendo portanto aceitar-se como justificação do
facto de exceder no sexto ano o número de negros qifè devia fornecer,
com as quebras que dizia ter tido com os mortos nas viagens.
Em Julho de i 6 o3 , Gonçalo Vaz Coutinho, irmão de João Coutinho,
passou a dirigir o asiento, emquanto 0 irmão ia assumir o govêrno de
Angola, onde foi bem recebido e sem provocar questões irritantes, por­
que era um fidalgo bem acondicionado e magnifico, com muita prudência
i
para saber levar aquella gente e que ia com tanto poder qual nunca se
juntou em Angola, como referiram os jesuítas, a êle e à sua acção por
tal forma ligados, que, parece, era no Colégio da Companhia que o
João Coutinho asientista tinha a secretaria ou escritório dos seus negó­
cios com a Coroa de Espanha e onde estavam os seus empregados,
pois anos mais tarde era aos jesuítas que se preguntava pelos livros
respectivos, a-fim-de se acabar com a liquidação de contas com a Fa­
zenda Real. n
De todo 0 exposto, não se encontrando neste período, nem em qual­
quer outro, da. parte dos jesuítas em Angola, qualquer medida de defesa
do negro, como as que conseguiram para o índio do Brasil, com as leis
já referidas, somos forçados a aceitar que eles tinham encarado a es­
cravatura do negro, como única solução possível para facilitar a sua
acção sôbre 0 índio, perante 0 problema da colonização da América.
jru.

&Teriam então a noção exacta do valor económico que viria a ter a


escravatura na vida das diversas nações que a exploraram? Tiveram,
pelo menos, a intuição. Sem dúvida foram os dominicanos espanhóis
f
nas Antilhas e os jesuítas no Brasil, — aqueles, incontestàvelmente,
pela piedade e pelo desejo de protegerem 0 índio, estes porque quando
i
278
A ngola
sc organizaram cm sociedade já conheciam os efeitos económ icos do
tráfico do negro a que conduziram as lam en tações de F r. Bartolom eu
de las C a za s,— que deram lugar a que, — durante pelo m enos três sé­
culos e meio, primeiro nós e depois a E u rop a inteira, que em adm i­
nistração e exploração colonial nunca fêz m ais que im itar, embora
aperfeiçoando-os no sentido do m aior rendim ento, os nossos processos,
vivêssemos da escravatura do negro da Á frica O cid en tal, desde o C abo
Branco até ao C abo Negro.
*
* •

João Rodrigues Coutinho, faleceu, como já vimos, pouco depois de


chegar a Angola, e o irmão, procedendo ao inventário, explorou ainda
algum tempo em nome dos herdeiros, o asiento, mas talvez por quais­
quer divergência^ que se levantassem, as autoridades espanholas não
consentiram na continuação e o asiento passou, em 1 de Maio de 1604,
para o seu nome, em condições um pouco diferentes, pois a Coroa de
Espanha, farta de ser ludibriada no valor das cauções prestadas ou
prometidas pelos asientistas, passou a exigi-las com mais segurança,
fazendo depositar os rendimentos do asiento até à importância devida
e utilizando-se deles mediante um juro.
O contrato com Gonçalo Coutinho tinha poucas condições de se
poder manter dentro dos recursos do asientista, que estabeleceu com a
Coroa uma espécie de regie, passando êle quási a empregado, embora
por vezes fazendo manter os seus direitos e actuando como contrata­
dor, o que tudo provocava uma irritação geral contra a forma como
êste negócio corria.
Nem a situação do Brasil tinha melhorado com as leis de i 5 g 5 e
1 5 g 6 a favor dos índios, nem a das colónias espanholas com a explo­
ração do negócio de licenças para navegar escravos, como estava sendo-
feita.
Os colonos de um lado e de outro protestavam. Os do Brasil, por
não se poderem conformar com a proibição de escravizarem o índio
dentro das normas em que a escravatura se exercia por tôda a parte, e
os obrigarem a comprar o negro da África. Os das índias de Castela
contra a sujeição a que os obrigavam ao comércio de Sevilha, que
centralizava em si tôda a vida económica das colónias, fazendo dêles
verdadeiros escravos, e ainda contra as regras de administração colo­
nial da Coroa, que como se batesse moeda, para fazer dinheiro, vendia
Parte II— Angola 2/9
quantas licenças para navegar escravos lhe pediam, causando a maior
desorganização em todos os serviços, e, como conseqüência, nos negó­
cios dos colonos.
Por tôda a parte eram gerais os clamores contra a intervenção dos
portugueses na vida colonial espanhola. Rebentavam revoltas dos
negros em diversos pontos, devido aos maus tratos que êles lhes davam,
e logo se dizia que a culpa era dos portugueses, porque forneciam ne­
gros com aquele espírito de rebelião, pretos ladinos, que se não con­
formavam com a sujeição a que os obrigavam. Não aparecia nos
cofres da Coroa o ouro e a prata que se dizia tinha sido extraído das
minas em determinado prazo, e logo se gritava que eram os portugueses
que o tinham recebido em pagamento do que vendiam e desviado nos
seus navios para Portugal.
Dentro do princípio basilar da colonização, que nós como primeiros
colonizadores estabelecemos e que a Espanha e as outras nações segui­
ram, de que as descobertas e conquistas, como então se lhe chamava,
se faziam exclusivamente para utilização da metrópole, princípio que
ainda hoje é o mesmo, embora a ideia que o sintetiza tenha sido des­
dobrada sob os diversos aspectos da vida dos povos e acompanhando
as fases da civilização, dentro dêsse princípio, dizíamos, a Espanha
querendo segui-lo, lutava contra tôdas as dificuldades, sendo a principal
a falta de preparação para poder tomar sôbre si o papel de nação co-
lonizadora.
Queriam navios e não os tinham apropriados para as viagens; que­
riam marinheiros, pilotos e mestres, e não os tinham educados para as
navegações do mar do Ocidente; queriam negros e achavam-se sem
êles, sem terem, nem até então, nem em tempo algum, compreendido
que as resoluções dos Papas e por fim o Tratado de Tordesilhas, lhes
tinham tirado a possibilidade de alguma vez serem uma nação colonial;
queriam monopolizar o comércio das suas colónias, comércio que não
podia ser senão o da troca e faltava-lhe o principal elemento dessa
troca, — o negro, sem o qual nunca a terra lhes poderia dar produção.
O comércio de Sevilha barafustava, desesperava-se e pedia leis de
excepção contra os portugueses. O Rei, sentindo o desfalque nos seus
cofres, também entendia necessárias essas leis, mas encontrava hesita­
ções da parte dos seus Conselhos, da índia e da Fazenda.
f
í ■ t

i .u , s

280
Angola

Sucedera entretanto ter-se novacnente pôsto em arrematação o con­


trato dos escravos (1), sendo preferido António Fernandes Delvas, que
não só oferecia uma renda inferior à que outros ofereciam, como decla­
rava não se sujeitar a determinadas condiçoes. Era, contudo, casado
com uma senhora irmã de D. Hernandes Solis, homem de influência na
Contratacion.
O Conselho das índias estava pouco resolvido a confirmar a arre­
matação, quando Melchior Tôrres, que fazia parte do Conselho de Fa­
zenda de Portugal, apresentou em M adrid um protesto em nome de um
português concorrente, Nuno Dias Coelho, o que serviu de pretexto
para a suspensão do contrato (2).
A Universidade dos comerciantes da Andaluzia, que não cessava de
agir para modificar a situação, resolveu pedir ao Conselho das índias
que mostrasse ao Rei os prejuízos que sofria pela forma como corria o
tráfico dos negros, alegando que os navios livres dos portugueses, ser­
vindo-se da autorização que lhes tinha sido dada, carregavam-se de
mercadorias dizendo-as destinadas à compra dos negros e, chegados às
feitorias, metiam apenas um número insignificante de escravos, seguindo
para os portos das colónias espanholas, principalmente para venderem
as mercadorias que tinham carregado sem pagamento de direitos e com
o que auferiam lucros que êles não podiam ter.
Acrescentavam ainda os de Sevilha que os portugueses, a maior
parte das vezes, nem mesmo se davam ao incómodo de ir a Cabo Verde
ou à Guiné, e feito em Lisboa o carregamento de mercadorias, compra­
vam também alguns negros, por qualquer preço, e faziam a viagem di­
recta para os portos das colónias espanholas.
Outras vezes, o contrabando em vez de ser feito com mercadorias,

(1) George Scelle,op. eit., dá esta arrematação realizada em 1610, tendo sido concorrentes
Nuno Dias Coelho, Gaspar da Rosa, Duarte Pinto Delvas, Henrique Gomes da Costa e António
Fernandes Delvas, Borges de Castro, na Colecção de Tratados, tomo II, págs. 44-45, indica para
0 contrato com António Fernandes Delvas o ano de i 6i 5.
(a) Esta informação, que é igualmente colhida em George Scelle, nao parece certa, por­
quanto encontra-se na Biblioteca Nacional, Reservados, Pombalina, mss. 249 a fl. a3, um docu­
mento RelaçaS dos arrendam <«* que se aS feito na renda das «Licenças» e que se publica, Ane­
xos, doc. n.° 55, no qual o seu autor, o quinto contratador das licenças escreve que havia três
anos <jue o arrendamento estava em execução.
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jT'

% Parte 11 — Angola

era com negros, e chegando às feitorias onde os iam resgatar, carrega-


1 vam o dôbro de que tinham licença, a título de se garantirem para as
• possíveis faltas dos que morreriam na viagem. Chegados ao pôrlo de
p destino, desembarcavam o número que a licença permitia, e os res­
tantes, como os funcionários espanhóis, se cumprissem a lei negando-lhes
o desembarque, forçariam o capitão a ir metê-los por contrabando em
I qualquer pôrto, se não naquele mesmo, resolviam o caso recebendo-os
e cobrando-lhes os direitos.
Os portugueses defendiam-se dizendo que não precisavam do ne­
gócio com as colónias espanholas, onde apenas tinham lucros de 40 °/0,
f; ao passo que em Angola atingiam ioo°/„, e que a culpa era do comércio 1

I de Sevilha que não sabia negociar, mas 0 certo é que, não só os de


ip Sevilha se queixavam do contrabando de mercadorias de Portugal nas
colónias espanholas, como os próprios portugueses faziam igual queixa
contra os homem de negócio, cujos navios saindo dos ptfftos de Portugal
despachados para Angola e Brasil, faziam escala por Sevilha, onde car­
regavam sedas, meas, mantas m!os panos Raxatos e baetas. . . e 0 pior de
tudo he que destes portos, e prinçipalmte dos das Canarias tirão todos os
annos mais de vinte mil pipas de vinho que levaô ao estado do Brasil e
reinno de Amgola e a outros governos. . . e estaó os povos perdidos pelo
sobredito retirar a va\aò que seus vinhos custumavaó ter para as ditas
partes e a esta re\ao estarem taô abatidos que está valendo na comarqua
de Lamego a menos de quatro mil reis ... (1).
Mas não eram só os portugueses que pela sua actividade e valor
3 «
como marinheiros e como comerciantes, prejudicavam os espanhóis. A
í
Espanha, envolvida em guerras na Europa, tinha de sofrer nas suas
colónias sem defesa, as conseqüências dessas guerras. Flamengos e
ingleses continuamente forçavam os seus portos, não para os atacarem,
nem para dêles se apossarem, mas para lhes fazer guerra comercial,
carregando produtos necessários à Espanha e de que os privavam.
Nessa altura os portugueses, que também se sentiam prejudicados, 1
juntavam os seus clamores aos dos sevilhanos e diziam-lhes que não
era dêles que lhes vinha o mal, e olhassem antes para os estrangeiros,
I
mas era difícil desfazer aquela crença que tinham ganho contra nós e
que vinha de há muitos anos.
E ainda por cima, não bastando contra nós êste aleive de contra­
bandistas, com receio de que não produzisse por si só o efeito desejado,

(1) Biblioteca da Ajuda, Cod. 5 i-VIII-a5 , fl. 25 . Anexos, Doc. n.” 56 .


36

t.
282
Angola
atacavam o R ei pelo seu lado fraco e atormentavam-lhe a consciência,
fazendo-lhe ver que a maioria do comércio português era de cristãos
convertidos, cristãos novos, quando não judeus confessos, sendo de
recear as conseqüências desgraçadas que podia trazer para a propa­
gação das doutrinas cristãs, a presença dêstes ímpios nas colónias es­
panholas.
A fôrça do ataque, e as armas de que se serviam, não fazem mais
que provar o enorme ascendente que tínhamos tomado em matéria de
colonização e que fomos nós não só os mestres e os inspiradores, mas
os próprios obreiros de tôda a colonização da América espanhola e
portuguesa, porque nem isso os espanhóis sabiam ser.

O Brasil era, ao que parece, o grande centro de contrabando para


as colónias espanholas, não só fornecido de Angola, mas de tôdas as
outras nossas colónias da África Ocidental. Assim, o problema tor-
nava-se muito complexo, e o Rei de Espanha e os homens dos seus
Conselhos dificilmente lhe encontravam solução.
Havia que atender, sobretudo, a Buenos Aires, e se tôdas as coló­
nias espanholas eram ciosamente guardadas das vistas de estrangeiros,
esta era mais que nenhuma e mereceu sempre cuidados especiais por
causa das minas.
Por uma cédula de 26 de Agosto de 1602, o Rei fêz mercê à çiudad
de la Trinidad dei puerto de Buenos A y res de las P rovindas dei Ryo de
la Plata, da licença para os seus habitantes durante seis anos, e em cada
um dêles, poderem exportar determinada quantidade de produtos das
suas colheitas e levá-los al B ra sil y guineya y olras js la s circunveçnas
de vasallos mjos, podendo de retôrno trazer cousas de que tivessem ne­
cessidade para sus caças como es ropa lienço calçado y otras cosas setne-
jantes y fie r r o y asero e para lavrar as terras e trabalhar as minas, por­
que a segurança daquela costa estava em ser bastante povoada, e para
isso era necessário não os privar de poderem ter algumas comodidades.
Recomendada às autoridades a mais rigorosa fiscalização, tinham
decorrido seis anos e os habitantes pedido a prorrogação da licença , o
que lhe foi concedido por cédula de 19 de Outubro de 1608, também
debaixo das mais insistentes recomendações sôbre a fiscalização.
Quando em Espanha se pensava que tudo corria em Buenos Aires
P a rie I I — Angola 283
como se recomendara, aparecem as mais terríveis informações e ve­
rifica-se que, abusando daquela licença de importarem algumas cousas %
)
necessárias, se meten por aquel puerto gran cantidad de mcrcadurias y í
i
negros cada anoy se sube a Potosiy toda esa provinçia de los charcas y aun
se baja hasta lima... y en los dichos navios en que se navega la permision
y en oiros entram y salen muchas personas sin Uçen\ia y esto se vee clara­
mente por los muchos pasajeros y navios que cada dia llegan a los puertos
de Portugal cargados de oro y plata que la mayor parte ba a parar a
Reynos estranos, convertiendose este trato em venefiçio y utilidad de los
portugueses... (i).
O mal não estava só no branqueamento dos portos ao contrabando, t

i ■ '*?'**■ *•
mas sim na penetração feita pelo destemido pioneiro português, que se
não limitava a subir o Rio da Prata, mas da terra do Brasil, que lhes
ficara ao norte, se internara até Potosi, levando escravos para se poder
trabalhar com actividade indispensável as minas, e carregando a prata
e o ouro, sem o quintar, descia então o rio da Prata e embarcava nos
navios em Buenos Aires.

w
Era um escândalo o que se passava. Em 612 saíra de Luanda João
do Campo, natural de Vila do Conde, com um navio carregado de
peças de escravos e fingiu-se arribado a Buenos Aires, aonde com todo

*«líãiHpniai a.rrtoM«'"*' i,--f c aeêm*w


o rigor da lei se procedeu logo contra êle e se condenaron por perdidos
los negros y se vendieron en almueda, pero ... a el y por poco mas de lo
que ymportavan los derechos y se los bolvieron para que los vendiese como
lo hi{0.
João do Campo voltou para Luanda e como fôra bem sucedido,
carregou novamente outro navio com trezentas peças de escravos, agora
de sociedade com um patrício e companero suyo Paulo Martel e fizeram
a mesma cena da arribada E como estes muitos outros, pelo menos
mais três, introduzindo ao todo mil e duzentas peças de negros e sa­
cando quinientos mil ducados e ainda 0 próprio contratador de Angola
Duarte Dias Enriques omê de nasaô e ardiloso (2), combinado com os
oficiais da fazenda em Luanda, fazia a declaração de que os negros
iam para 0 Brasil pagando três mil reis, em vez de sete, que deveria
pagar por os destinar a Buenos Aires, de numera que de todo esto are-
nl r-^bMWHti rffP—

(1) Biblioteca Nacional, Mss. cit., fl. 11. Anexos, Doc. n.° 5 y.
(2) Na Biblioteca da Ajuda, cód. 5 i-VIII-a5, fl. 20, está um documento que deve ser cópia
de uma informação prestada sôbre o contrabando que se fazia. NSo tem data nem assinatura,
mas os factos apontados coincidem com os da cédula de Setembro de i 6 t3 . Anexos, Doc.
n.° 5 8 .
fc „

*
284 Angola
sulta entender-se la buem acojida que hallan en el rio de la plata estes
navios.
Tinham de proceder com tôda a energia, porque não podia haver
dúvida alguma de que nada disto se passaria, se as autoridades espa­
nholas nSo fôssem coniventes na fraude. Era preciso averiguar tudo
como se passara, mas sobretudo saber-se como desaparecera o ouro e
a prata, quem os levara, em que navio, para onde e com que licenças.
Queria-se tudo bem averiguado, os infractores presos e processos ins­
taurados para serem julgados.

*
# #

A descoberta do grande contrabando do rio da Prata fôra o fecho


de uma série de questões que há muito se vinham ventilando, a propó­
sito da intervenção dos portugueses na colonização espanhola.
Em 1609, os homens de negócio portugueses moradores em Lisboa,
em seu nome e dos mais habitantes do reino de Portugal, protestaram
contra uma cédula de 2 de Outubro de 1608 (1), em que o Rei de Es­
panha determinava que nenhum estrangeiro dos reinos de Castela, no­
meadamente os portugueses, ainda que habitantes sejão nas indias ilhas e
terra firme do mar oceano, possa tratar nem contratar nas ditas partes,
nem passar a elas, se não com licença especial, e que nenhum natural
da Coroa de Castela possa negociar em sua cabeçafazenda de estrangei­
ros, devendo um estrangeiro para se poder naturalizar, aver vivido nos
ditos Reinos ou índias vinte anos contínuos os des delles com casa e bens
de rais e casado com natural.
Com estas medidas procuravam, o Rei de Espanha e seus ministros,
impedir o facto, já conhecido e inevitável, do comércio colonial ser ex­
plorado por estrangeiros, diziam eles, de uma maneira geral, mas não
resistiam a assinalar bem a sua intenção, escrevendo a seguir, nomeada­
mente os portugueses, que, para fugirem às leis de excepção contra êles
publicadas, e pela necessidade de defenderem os seus capitais, encarre­
gavam dos seus negócios, um espanhol, quer como feitor, quer como
testa de ferro, papel que, como temos visto, à falta de melhor vocação,

(1) George Scelle dá a data de a de Novembro, mas nSo publica esta cédula, nem indica
onde a viu. No protesto a que se aludia, que se encontra na Biblioteca Nacional, mss. cit.,
5
fl. i ia, Anexos, Doc. n.» g, a referência a esta cédula tem a data que indicamos.
P a rte 11— Angola 2^5

se prestavam a desempenhar, merecendo as melhores referências pela


sua honestidade (i).
E ra injusta a proibição. Quando tomaram conta da Coroa de Por­
tugal, fizeram a lei proibindo aos estrangeiros irem resgatar às con­
quistas portuguesas. Pouco tempo depois vieram com a declaração de
que a proibição se não entendia com castelhanos, e passaram estes a
freqüentar as colónias portuguesas, ou melhor, os resgates, obtendo
colocações, por conta do Estado ou de particulares, ou o que era mais
raro, dedicando-se ao negócio de sua conta. ^Com que direito se proibia
agora aos portugueses, não só o resgate nas colónias espanholas, mas a
residência, sem se naturalizarem?
E ra ainda impolítica e inábil. Os comerciantes portugueses no seu
protesto, não se esquecendo de frizar a nota da desigualdade de trata­
mento, fazem-no de uma forma interessante, e a propósito de continuar
a ser perm itido aos espanhóis ir às colónias portuguesas, dão a entender
que o facto em si não tem maior importância, porque nunca tirarão a
terça p a r te d a s p eça s que se navegam , mas não podem deixar de chamar
a atenção para que se a lg u n s navios lá vaõ, d e Sevilha e mais portos de
A n d a lu z ia , ainda q u e poucos, saõ p o r homens de negocio portugueses ,
m ostrando ainda que a cédula, como proibe a êles, homens de negócio
portugueses estabelecidos na Andaluzia e em Sevilha, de negociarem
nas colónias espanholas, vai ferir afinal os próprios interesses de Cas­
tela, que consistiam nas receitas auferidas pelo seu trabalho e pela sua
activid ad e, pois que eram êles os detentores do comércio colonial.
Mas sôbre êste ponto dos rendimentos, o erro assumia proporções
de gravidade, e os portugueses lembravam-lhe que havia três contratos
nas colónias portuguesas, Cabo Verde, S. Tomé e Angola, que rendiam
mais de 120.000 cruzados, além de perto de 100.000 cruzados de direitos
de saída dos escravos, e em Castela havia o estanco das licenças de
escravos, que rendia iSo.ooo cruzados de direitos de entradas nas ín­
dias e outros 1 5o.000 de renda. Estes 520.000 cruzados iam sofrer uma
diminuição importante, porque não só os contratadores estavam re­
solvidos a emeampar os contratos, visto dar-se uma alteração das
condições que tinham sido estabelecidas, como, se era proibido aos
portugueses irem negociar às índias espanholas, jem que navios se
transportavam escravos, sabido que só os portugueses os navegavam ?
Havia ainda a considerar o prejuízo que sofreria a colonização es-

(1) G e o rg e S c e lle , op. cit.


Angola
286

panhola das Índias com a falta de escravos que trabalhassem as terras,


e cspecialmente as minas de ouro, prata e esmeraldas, e a pescaria de
pérolas, que de tudo a Coroa recebia o quinto.
De nada valiam estas considerações desde que o ciúme e o despeito
sc apossaram da população e das autoridades de Sevilha, que termina­
ram por exigir a expulsão dos portugueses que não satisfizessem às con-
r dições de naturalização que tinham sido decretadas, ao que o Rei
acedeu (1).
*
# *

É interessante estudarmos a mecânica das transacções comerciais


entre a Espanha e as suas índias, para melhor avaliarmos as razões que
os espanhóis tinham para adoptar medidas de defesa contra a invasão
portuguesa. r
O negócio consistia quási exclusivamente na permuta. A colónia
recebia os artigos necessários à sua alimentação e à dos negros, e às
outras necessidades da vida; recebia os negros para empregar nas suas
explorações, e tinha de pagar tudo com os produtos dessas explorações.
Os portugueses eram os detentores dos negros; os donos dos navios;
os homens próprios para navegarem êsses navios e para tratarem com
os negros; e ainda tinham, de indústria própria, quási tôdas as fazendas
empregadas para o resgate dos negros e parte das que se consumiam
nas colónias.
Os capitalistas portugueses, residentes em Portugal, tinham em
Sevilha os seus agentes ou correspondentes, portugueses ou castelhanos.
Nos locais dos resgates, ou êsses próprios capitalistas tinham também
os seus empregados, ou havia indivíduos estabelecidos de sua conta
própria para o negócio, a quem encomendavam os fornecimentos para
determinadas épocas. Nas colónias espanholas, estes e os capitalistas
de Lisboa, tinham os seus feitores. Por que o negócio demandava bas­
tante capital, os capitalistas, em geral, associavam-se para cada viagem.
O navio fazia o seu registo na casa da Contratacion em Sevilha,
apresentando a sua licença para poder navegar escravos, carregava
algumas fazendas de que necessitava e vinha para Lisboa, onde, carre­
gando as restantes fazendas, e deixando ainda um espaço para as pipas
de vinho que ia meter nas Canárias, seguia viagem para estas ilhas.

(I) B ib lio te ca N acion al, mss. cit., fl. 16. A n exo s, D o c . n.° 6o.
fS .

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Parte l i — Angola 287

Daí partia a abastecer-se de negros a um dos três resgates: rios da


Guiné, com sede em Gabo Verde; Mina; centralizado em S. Tomé, e An­
gola, em Luanda.
Ajustados e embarcados os negros, o representante dos capitalistas
que ia a bordo, e quási sempre era o capitão, pagava ao vendedor
uma parte em fazendas e a outra, a que excedia as necessidades dêste
e eram, por assim dizer, os seus lucros, êle exigia-lhe que os fôsse pagar
no pôrto de destino ao seu representante, efectuando-se assim a primeira
transferência do dinheiro.
No pôrto da América espanhola aonde os negros se destinavam,
apresentados os registos e mais documentos do navio e os respeitantes
à licença de navegar escravos, o capitão entendia-se coro os feitores dos
capitalistas e do vendedor de negros, que tratavam do despacho, pa­
gando à alfândega os respectivos direitos dos negros e das mercadorias,
e lhe entregavam em ouro, prata, mercadorias e letrasç o que tinham a
enviar para os capitalistas ou para outras pessoas, em Portugal ou em
Espanha, valores estes que vinham dirigidos aos seus agentes em Sevi-
lha, quer fôssem portugueses, quer testas de ferro espanhóis.
No regresso, o navio, se 0 contrabando que trazia era importante e
não via possibilidade de arribar a Lisboa, arribava antes nos Açores,
onde também havia os correspondentes dos negociantes que intervinham
nestas transacções.
Por esta f o r m a , q u a l era o lucro da Espanha com as suas colonias?
O resultante da venda de algumas mercadorias que embarcavam em
Sevilha, de algumas pipas de vinho nas Canárias, e os das licenças e
direitos de saída e entrada dos escravos e mercadorias. O resto, e êsse
resto era a parte maior, era todo para Portugal, que transformava o
valor do frete do navio, das mercadorias que vendia, e 0 dos negros
que embarcava, em ouro e prata, esmeraldas e pérolas.
Não há dúvida que como nação colonial que queria reservar exclu­
sivamente para si e para os seus a exploração das suas colónias, a Es­
panha estava longe de o conseguir. 1 Mas como deveria proceder, se
não tinha navios, não tinha colónias com negros e não tinha comer­
ciantes que se aventurassem ao negócio ?
E que não bastava, para ser uma nação colonial, ir ali defronte, às
costas de M arrocos, e assaltar alguns mouros, o que, quando muito,
poderia criar 0 espírito da rapinagem e não 0 da descoberta e conquista,
necessário para se fazer uma colonização.
A insistência do Infante D. Henrique para que os seus homens de
288 Angola
Sagres dobrassem ou passassem alem do Cabo Náo, sem os incitar com
tesouros que iam descobrir, sem lhes falar mesmo em lucros ou recom­
pensas, mas mandando-os sem violência seguir, e eles indo porque eram
os seus criados; essas viagens, executadas sem o espírito de aventura,
sem o desejo da glória, mas simplesmente para fazer o que o Infante
dizia que se fizesse; essa fôrça enorme de um Génio que venceu tôda a
r resistência das superstições da época, e atirou com homens e barcos
para além do limite onde êles estavam certos de que o mundo acabava
e iam despenhar-se no Inferno; esse esfôrço incompreensível que marcou,
através de séculos de vida, a orientação de uma raça, isso tudo, que se
fêz antes da feira de Lagos em que se dividiram os primeiros cativos,
foi o que nos fêz Portugal Colonial, e marcou a distinção eterna entre
portugueses e castelhanos.
O ludibrio de Colombo vindo dizer aos Reis Católicos por si ou
mandado de oirtro, que chegara às índias pelo ocidente, quando de
mais sabia êle aonde chegara, não conseguiu modificar o sentido na­
cional do povo espanhol quanto a descobertas e conquistas, e apenas
transferiu para mais longe as incursões que até ali se limitavam a Mar­
rocos, com a agravante de serem mais difíceis de realizar pela falta de
uma base que lhes desse a estabilidade e segurança indispensáveis, como
a que tinham nas próprias costas do seu país.
Para a obra que se propunham levar a efeito na América, a base
tinha de ser os nossos navios; o meio, os nossos pretos, e como uns e
outros não podiam ser postos a accionar sem portugueses, nós passámos
a ser, e fomos, os verdadeiros colonizadores de tôda a América, a nossa
e a dêles. E, assim, passámos também a ter a parte correspondente nos
lucros, o que justificava os ciúmes da Espanha, que se sentia ridiculari­
zada e ludibriada no papel de nação colonial, que supôs passaria a
desempenhar, à parte de nós, pelos efeitos das descobertas de Colombo,
e justificava ainda a necessidade de tomar medidas que evitassem e
modificassem êste estado de cousas.
*
* #

Gomo vimos, o asiento tinha sido feito com o António Fernandes de


Eivas e o Rei confirmara-o, a-pesar-das dúvidas do Conselho das índias
e das reclamações apresentadas por Melchior Tôrres, em nome dos
outros concorrentes, o que não impedia que no meio desta desorgani­
zação, o nosso Gonçalo Vaz Coutinho continuasse a vender licenças
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Parte I I — Angola

para se navegarem escravos, tendo de lhe ser notificado, bem como aos
oficiais da Real Fazenda nas Colónias, para cessar imediatamente com
essas vendas e vir prestar contas (t).
Se o Rei confirmara o arrendamento com o António de Eivas, a
Junta dos Escravos é que se não conformava com essa resolução e,
aproveitando o facto de não ter ainda sido publicada a cédula ou pro­
visão, propôs, em i6t i, ao Rei, a sua anulação, y que quando lo estu-
biera venceria la utilidá y neçeçidá publiqua dei bveno governo y estado
de las jndias, tão graves eram os motivos que encontrava, a-pesar-de
que se limitava a classificá-los de danos que an resultado y pueden re­
sultar a la conservacion y estado de las yndias y comercio, de algunas
condiciones cõ que asta aora ha andado esta renta ... y de dar se a por­
tugueses, sem outra indicação.
Propunha a Junta que se alterassem determinadas condições do
contrato e que se arrendasse de novo a persona que ncfsea português ny
estrangero si no natural desta corona e que entretanto se nomeasse per­
sona castellana que o administrasse. O Rei, porém, conhecendo já no
que dava a administração dos seus bens entregues aos funcionários da
Coroa, não se conformava com a proposta.
A Junta reforçou as suas objecções e agora, precisando a causa dos
danos, chama a atenção do Rei para a cláusula que permitia ao contra­
tador jmeda despachar y enbiar a las jndias quantos mbios qui{iere si
limitació•, en flotas e fuera delias, contra lo dispuesto por las ordenanças
de la casa de la contratacion y ansi mismo puede satír de Lisboa donde no
ay ministros ante quie se hajan los registros y tienga la ynteligencia que
se requiere ny que ajan de dar cuenta de los ciçesos que permitierê, pelo
que saíam navios sobre navios carregados de mercadorias que iam
vender aos portos da América, / siege el dafio grande de la gran cãtidá
de plata y oro que se saca y lleva a reinos estranhos y la perdido de los
mas caudalosos mercadores y tratantes deste comercio cõ que los de mas
estan tan desjlaqueçidos y desanimados que todos se van retirando. . . ao
que o Rei terminou por concordar, mas com a condição expressa de
que se não largasse de mão o assunto e se fizesse depressa o arrenda­
mento (2).

(1) Biblioteca Nacional, Reservados, Pombalina, mss. cit., fls. 21 e 22. Em 1625, gover­
nando em Angola Fernão de Sousa, ainda a Côrte em Madrid lhe mandava ordem para reünir
os papéis que houvesse sôbre os negócios de Gonçalo Coutinho e do irmão, pata se poderem
encerrar as contas e verificar-se se a Coroa ainda devia dinheiro ou tinha a receber.
(2) Biblioteca Nacional, Reservados, Pombalina, mss. cit., fls. 42.
37

s
290 Angola
Parece que o caso não era, conludo, tão fácil de resolver como a
Junta dizia, c a-pesar-dc se poder invocar a utilidade e necessidade p ú ­
blica do bom gouêrno, devem ter perdido muito tempo em combinações,
pois só no fim de três anos é que o mandaram suspender (1), e ainda
assim, procederam primeiro com tôdas as cautelas, sendo mandado a
Lisboa para tratar do assunto com as autoridades e os interessados,
Afonso de Molina (2).
■*
♦ *

A questão em Portugal tomou um aspecto grave pelos interêsses que


vinha prejudicar. Não só António Delvas, mas todos os outros con­
tratadores e todos os que viviam do negócio, ou do resgate das coló­
nias, que, directa ou indirectamente, quási todo o país seria, protesta­
ram, apresentando as suas razões (3 ).
O que os espanhóis queriam era centralizar em Sevilha todo o mo­
vimento de exportação e im portação para as suas colónias, e para isso
obrigar todos os navios que navegavam escravos a virem trazê-los a
Sevilha, para dali seguirem divididos pelas duas frotas de navios que
todos os anos saíam para a Am érica, uma em Fevereiro, com destino a
Terra Firme, outra em Junho para N ova Espanha.
Por esta forma aos portugueses ficava apenas reservado o poderem
navegar escravos das suas colónias para Sevilha, ainda assim em com­
petência com os espanhóis, o que pouca ou nenhuma importância teria
pela concorrência que pudessem fazer, mas que representava uma in­
justiça e uma prepotência, e sempre causava alguns prejuízos materiais,
pois que tôda a organização do negócio era portuguesa, dirigida por
portugueses e com capital, que embora ganho a êles espanhóis, era
português.
O principal argumento em que os espanhóis se baseavam para pe­
direm estas medidas de centralização do comércio e navegação em
Sevilha, era de que antigamente se procedia assim, o que era falso,
como já atrás ficou referido, pois a não ser para um ou outro embarque12 3

(1) Vidé Anexos, Doc. 55 , já citado, e nota (2) a pág. 280.


(2) Biblioteca Nacional, Reservados, mss. cit., fl. 14. Anexos, Doc. n.4 61.
3
( ) Na Biblioteca Nacional, Reservados, mss. cit., estão retinidas cópias e apontamentos
de diversos protestos e indicações, sem se mencionar o autor, mas que devem ser do António
Delvas, que se entregaram aos membros do Conselho de Portugal para apresentarem a recla­
mação na Corte em Madrid. De entre essas indicações se escolheu uma pela forma clara como
está redigida. Anexos, Doc. n.° 62.
Parte I / ~ Angola 291

de pequeno número de escravos, que se dividiam pela frota, os embar­


ques de maior importância, como os que Carlos V negociou e outros
que se seguiram, admitiam sempre a cláusula dos negros poderem ser
resgatados nos portos das colónias portuguesas e seguirem dali dirccta-
mente para o pôrto ou portos de destino.
Tudo isto estava causando os maiores prejuízos à Coroa de Portugal
e à de Castela, pela diminuição, senão quási desaparecimento, das suas
receitas, sendo interessante registar como eram calculadas nessa época.
O contrato de Angola rendia anualmentc 60.000 ducados; o de
Cabo Verde 54.000; o de S. Tomé 20.000, e calculava-se em 100.000
ducados o rendimento dos direitos pelas fazendas com que se iam res­
gatar os negros, pagos na Alfândega, Casa da índia, Portos Secos, etc.,
o que tudo perfazia para a Coroa de Portugal 234.000 ducados, ou,
segundo o câmbio de então, 257.400 cruzados.
Pela parte da Coroa de Espanha, a renda das lícenças produzia
120.000 ducados e calculava-se em 60.000 ducados, o que se cobrava
em Sevilha de averia, ou transferência em cada ano, do valor dos
4.25o escravos que se tinham vendido nas colónias espanholas, somando
tudo 180.000 ducados ou ig8.ooo cruzados. As duas verbas juntas re­
presentavam 455.400 cruzados, que pelas tabelas de valores da moeda
de então (1), em comparação com a actual, são Esc. 4 3 .i 4 i: 520 »oo,
dos quais pertenciam a Portugal Esc. 24.401:52o»>oo. Havia três anos
que pelas indecisões sôbre a resolução a tomar no asiento com o António
Delvas, pouco ou nada se recebia dêste rendimento e a ponto de, o que
se cobrava, não chegar para a despesa ordinária do Congo, Angola,
Cabo Verde e S. Tomé, que era a dos Governadores, Ministros e pre­
sídios, nem para a dos Bispos e cleresia, pelo que se lançara mão do
sempre inesgotável Cofre dos Defuntos e Ausentes, con 0 que no puede
dexar de estar cargada la Real conçiençia de V. Mg*, como lhe diziam
os seus conselheiros, Mendo da Mota e Conde de Vila Nova, chamados
a fazer parte de uma Junta que o Rei reüniu em Madrid para se escla­
recer sôbre assunto tão melindroso e de tal importância.
Apreciando a medida que se queria adoptar da centralização da na­
vegação em Sevilha, diziam-lhe êles (2) que não tinha outro efeito senão
desenvolver o contrabando, e os navios em vez de sairem com registo,

(1) Lúcio de Azevedo, op. cit. As indicações para estes rendimentos constam do docu­
mento a fl. 34 do mss. da Biblioteca Nacional a que se tem feito referência. Anexos, Doc.
63
n.° .
(2) Biblioteca Nacional, ms. cit., fls. 45. Anexos, Doc. n.° 64.
2Ç2 Angola
sflíam sem êle, c por mais rigorosas que fôssem as disposições tomadas
pura o evitar, lo cicrto es que los mercadores portugeses por sus ganancias
los an de llevar aventurandosse a todo rriesgo: y los castellanos p o r sus
ncçessidades los an de recoger: y los ministros infriores p o r sus provechos
lo an de desemular: y solo la Haçienda de V. M g * y su real servid o son
los que pierden y an de perder en quanto durar esta nueva ordem.
r Entrando em detalhes sôbre a execução da medida, faziam ver que
era impraticável, porquanto a viagem de 200 a 3 oo negros, que era o
número que constituía uma armação, desnudos en cueros, presos, y e n c a -
denados, con la comida y bebida por tanta tassa, causava a morte da
maior parte dêles pelas doenças que se desenvolviam. E se êsse facto
se dava, navegando os negros em temperaturas que um pouco se asse­
melhavam às das suas terras, muito maior mortandade seria de esperar
quando começassem sentindo as temperaturas da Europa e quando
desembarcassetrf em Sevilha no inverno, onde não poderia haver para
com êles os cuidados que se tinha a bordo.
Mas, ainda outros maiores inconvenientes havia e consistiam na
impossibilidade de regular a saída das armações dos portos da África,
de forma a chegarem a Sevilha a tempo de poderem partir com as
frotas, a de Fevereiro e a de Junho, pois além das incertezas das nave­
gações, havia a contar com as demoras inevitáveis nos despachos e
arranjos dos negros para a continuação da viagem, sendo impossível
haver tempo de restabelecer os doentes para se não perder no valor da
armação, pois que os que ficassem a ser tratados, quando curados,
transformavam-se em ladinos pelo convívio com os europeus e já os
espanhóis os não queriam nas colónias, nem as autoridades consentiam
que fôssem, com mêdo de que incitassem os outros escravos à revolta,
sendo portanto valores perdidos, causando o encarecimento dos outros,
crescendo el preçio en cantidad excesiva y intolerable para los moradores
. de las jn d ia s , con que vendrian a buscar antes los que les llevasen sin rre-
gistro, e era êsse, afinal, o resultado certo que se tirava de tôdas estas
medidas de repressão.
O encarecimento do escravo era inevitável e daí um prejuízo com­
pleto para tôda a economia das colónias espanholas, mas que à Uni­
versidade dos Comerciantes da Andaluzia era indiferente, porque lhe
parecia poder arranjar colocação para as mercadorias que depois da
paz afluíram a Sevilha, afora as receitas extraordinárias do tráfego.
Cada negro tinha cêrca de 35 #ooo réis de despesa de entrada em Se­
vilha e 6036000 réis de saída, fora o mantimento e roupa que muitas
Parte I I — Angola 29 ^
vezes h avia necessidade de com prar, o que, adicionado ao custo, cêrca
de 6oa>ooo réis postos a bordo no local do resgate, e aos prejuízos re­
sultantes das mortes, que calculavam em m ais de 5 o #/#, davam ao
negro, entregue na colónia espanhola, um valor não inleriOT a so o s o o o
réis, quando idos directam ente dos portos do resgate, se vendiam a lHo
e 200 pe^os de prata ensayada, que eram , quando m uito, to o s o o o réis,
que das ín d ia s p a ra E sp an h a tinham 20 °/0 de quebra.
E e ra prin cipalm en te o encarecim ento resultante das m ortes em
viagem , que m ais p re o c u p a v a o n egreiro, que, n o seu interèsse, tinha
p a ra com o n eg ro cu id ad o s esp ecia is p a ra que chegasse com v id a.

Os maus tratos aos negros eram mais dos fazendeíTos a quem eram
vendidos, e a quem tinham de prestar serviço, que dos negreiros que
os levavam , pois que estes tinham todo o empenho em que chegassem
ao seu destino, gordos, anafados e bem dispostos, e lhe morressem o
menos possível.
O negócio tinha as suas contrariedades e exigia muito cuidado e
mesmo uma certa arte, para ser bem sucedido.
O primeiro momento difícil, talvez mesmo dos mais difíceis, era a
saída do pôrto donde os escravos eram naturais. Vinham para bordo
algemados, desnudos en cuero, presos, y encadenados, e em geral eram
logo recolhidos em um dos porões. Mas, por vezes, não tinha havido
tempo de arrumar a outra carga, parte do porão estava ainda ocupada
e alguns dos negros ficavam na coberta, distinguindo-se da carga pelos
gritos de revolta que soltavam. Era preciso vigiá-los com bastante
cuidado, pois que recolhida a âncora e quando a brisa começava a en­
funar as velas, e o navio se movia lentamente para largar do pôrto,
um grupo de encadenados da mesma corrente, sem darem qualquer in­
dicio de combinação que os vigias pudessem perceber, à medida que o
navio se afastava e viam sumir-se as últimas árvores, como que atraídos,
puxados, levantavam-se num esfôrço arrastando a corrente, aproxima-
vam-se da amurada e, com a presteza e uniformidade de quem obedece
a uma voz que manda, debruçavam-se lançando-se em massa no mar,
sem um esbracejamento de salvação, antes resolvidos a chegarem com
o pêso das cadeias mais depressa ao fundo, para mais depressa acaba­
rem, por não poderem suportar a dor da saudade da sua terra.
294 Angola
A bordo eram recolhidos nos porões. Os navios negreiros tinham
para êsse fim duas cobertas de pequena altura e quási sem ventilação,
onde os negros eram arrumados, contando-se um negro por tonelada
de arqueação, mas chegando a levar-se mais, tudo dependendo da
afluência de carga. Aí comiam, dormiam e satisfaziam as suas neces­
sidades, sendo necessário conduzi-los ao convés para se proceder à
baldeação e limpeza das cobertas. Tinham que vir por turnos e mesmo
assim vigiados, para evitar os suicídios em massa, muito vulgares.
Procurava-se distraí-los e fazer-lhes esquecer a vida de cativeiro a ,
que estavam destinados, e em geral a tripulação tocava e cantava, para f
os dispor melhor e perderem aquela profunda tristeza. Alguns cobra- -
vam ânimo para afrontar as agruras da vida, mas outros, e eram tantos,
quando recolhidos na coberta, os que dormiam próximo do costado do
navio, combinavam-se para com as unhas escavarem na madeira, e, a
pouco e pouco, éhibora com os dedos já a sangrarem, iam ainda esca- ;
vando mais, até que um primeiro buraco aparecesse, e então, retinidos i
num ou em dois dêles as fôrças já exaustas dêles todos, mas naquele
momento revigoradas, a tábua era arrancada, o navio tinha um rombo,
o mar inundava tudo e êles morriam com a tripulação, seus algozes...
Outras vezes era a revolta, outras a greve da fome, e como evitar
tudo isto, indo os negros divididos pelos diversos navios da frota, a
cujas tripulações era indiferente que chegassem vivos aos portos de
destino ? <:Quem havia de prodigalizar à mercadoria aqueles cuidados
que ela requeria, quem havia de curar o doente, quem cuidaria da sua
alimentação, que chegava a ser apropriada para a engorda, uma tem­
porada antes da chegada aos portos onde deveriam ser vendidos?
A nueva orden era inexeqüível, mas não era fácil revogá-la.

*
* *

O Rei de Espanha, como vimos, tinha anuído à violência da anu­


lação do contrato com o António de Eivas, a-pesar-de por êle já apro­
vado, com a condição de se não abandonar o assunto dos arrendamentos
e de se lhe dar uma solução rápida. A Junta dos Escravos tinha, entre­
tanto, conseguido parte do que desejava, pois arrancara o arrendamento
das mãos de um português, nomeara persona castelana para gerir o
negócio. Faltava-lhe o resto e era o principal, visto que os tais na­
vios com escravos não vinham a Sevilha e o fornecimento de mão de
Parte I I — Angola 295

obra continuava a fazcr-se com a mesma intensidade, mas por contra­


bando.
Mendo da Mota e o Conde de Vilanova tinham-lhe dito a verdade,
quando escreveram que solo la haçienda de V. M g* y su real serviçio
son los que pierden , porque êle estava vendo, não só os rendimentos da
Coroa de Espanha sofrerem uma diminuição grande, como também os
das colónias portuguesas, montando tudo a cerca de 700.000 cruzados.
Era necessário mudar de orientação. O concurso dos portugueses era
indispensável, e a Espanha tinha de o obter por um contrato legal,
procurando dêsse contrato tirar o possível rendimento, para não perder
tudo.
Felipe III, cedendo à pressão exercida pelo Vice-Rei e pelo Conselho
de Fazenda de Portugal e ainda pelo seu confessor (1), deve ter orien­
tado as condições para um novo contrato da renda dos escravos, con­
dições em que se deveria atender, no que fôsse possível, as recla­
mações da Junta, e procurar a colaboração dos homens de negócio
portugueses.
Madrid e Sevilha reconheciam que tinham de ceder, mas não que­
bravam fàcilmente a sua resistência.
Felipe III foi, êle próprio, presidir a uma Junta extraordinária que
reüniu para apreciar o assunto e transigindo, consentiu ainda que se
consultassem os funcionários de mais categoria, enviando-se-lhes um
questionário sôbre as condições do contrato, e, por fim, recolhidas as
suas opiniões, e discutido o assunto, resolveu-se: dar 0 arrendamento a
um português; fazer o contrato por oito anos; permitir que os carrega­
mentos de Angola e S. Tomé pudessem seguir directamente para deter­
minados portos, únicos que ficavam abertos, obrigando-se os de Cabo
Verde a vir a Sevilha, do que depois se desistiu em vista da oposição
levantada; permitir que os navios portugueses se empregassem no trá­
fego para os portos das colónias espanholas, mas com a condição dos
pilotos e marinheiros serem cristãos velhos e só muito excepcionalmente
de raça hebraica, e finalmente, que todo o comércio se centralizaria em
Cartagena e Nova Vera Cruz, únicos portos das colónias que ficavam

63 65
(i) Biblioteca Nacional, Reservados, Pombalina, mss. cit, fl. . Anexos, Doc. n.0 . Este
documento, datado de 2t de Agosto de 1614, tem à margem umas anotações que parecem es­
critas ou inspiradas pelo António de plvas. Uma fôlha que lhe serve de capa tem a indicação
nJunta. 21 de Agosto de 1614, dei pM de hay-Âa y p d e confesssor de V. MgA sobre lo tocante a
la renta de esclavos negros».
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2 ÇÓ Angola
abertos, c nos quais se faria a repartição dos escravos, conforme as
ordens do Conselho das /ndias.
Com referôncia à navegação por Buenos Aires e Rio da Prata, man­
tinham-se as mesmas restrições, para lá só poder ir navio com carga
S ? * que tivesse tido despacho e registo na Casa da Contratacion em Sevilha
ou Cádis, e no de otra parte, dando las Jiansas nesesarias para el retorno.
O número de escravos a importar também era reduzido de 4250 a
3 ooo, pois tinham a preocupação de que havia negros em demasia e
que era necessário diminuir o seu número para evitar as revoltas. O
Conselho de Portugal objectou que não havia negros a mais, nem o seu
número influía para as revoluções, que tinham outra causa, e dava
como exemplo o que fazíamos no Brasil, cuja prosperidade tão cobiçada
pelos espanhóis, era devida à abundância de mão de obra, inteligente-
mente mantida pela liberdade de comércio (1), mas só conseguiu que
mudassem o limite para 3 5 oo.
O novo contrato foi finalmente apregoado em 1614, em Madrid (2),
tendo, além das condições atrás indicadas, sanções severas para os der-
rotariamentos e arribadas. Apresentaram-se muitos concorrentes portu­
gueses, mas António de Eivas fêz os seus protestos, conseguindo obter
.1 qne lhe reconhecessem o direito de preferência, pelo que em 27 de Se­
tembro de 16 1 5 assinou o novo asiento, em que a renda era de u 5.ooo
ducados, mas exigiu e conseguiu que se consignasse no seu contrato a
cláusula de que era definitivo , firm e e irrevogável, e o Govêrno se obri­
gava a não aceitar qualquer outra proposta, ainda mesmo mais vanta­
josa que a sua.
Para melhor fiscalização do contrabando, o Govêrno espanhol tinha
estabelecido um conjunto de medidas com o fim de o evitar, fixando o
número de licenças que o contratador poderia vender para se compensar
dos negros que falecessem, e obrigando-o a dar à Contratacion uma nota
das que utilizava para seu negócio pessoal e das que vendia, o que tudo
não podia exceder 5 ooo. Os adquirentes destas apresentavam-nas nos
locais onde carregavam os negros, e pediam um certificado do número
dêles que embarcavam, para o entregarem aos funcionários dos portos
das colónias espanholas. Estes, por seu turno, passavam, em duplicado,
uma declaração dos que tinham desembarcado, declaração que entre­
gavam ao feitor do asientista, que era obrigado a apresentá-la ao Con-12

(1) George Scelle, op. cit.


3
(2) Idem, Doc. i a pág. 828.

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P a rte I I — Angola 19 7

selho das Índias e à Contadoria da Fazenda. Sabia-se, assim, quantas


licenças tinham sido utilizadas, quantas restavam, e os direitos devidos
pelo asientista.
Estas medidas, juntamente com a da concentração nos dois portos,
Cartagena e Vera Cruz, de tôda a carga, negros e mercadorias, que
ali era depois despachada para os outros ou seguia para o interior,
mediante uma licença que passou a denominar-se de internacion, con­
tinuaram a provocar o mais desenfreado contrabando, e não evitaram,
antes apressaram, a ruína completa do comércio marítimo da Espanha,
na ocasião em benefício dos portugueses, mas mais tarde das outras
nações, que se apresentaram com uma organização industrial e econó­
mica mais poderosa e assente em bases modernas.
Os navios chegavam aos portos referidos, desembarcavam a carga
e pagavam os direitos, tudo dentro da máxima legalidade, e obtida a
licença de internacion para a carga que se destinava Co interior, orga­
nizavam-se as caravanas que a devia conduzir. Diversos seriam os
trilhos seguidos, mas, de-certo, próximos das costas, onde havia muitos
pontos de fácil desembarque, e era então, no momento da caravana
passar em um deles, que se avistava ao longe um navio fundeado. A
caravana acampava, o navio descarregava a carga de negros e merca­
dorias para as embarcações de bordo, que se dirigiam à praia, e tudo
se incorporava na caravana, seguindo o seu destino.
Conhecidas as vantagens desta nova modalidade do negócio, pas­
saram os negociantes a dificultar, quanto possível, aos fazendeiros que
do interior vinham para se abastecerem do que necessitavam, as tran-
sacções naqueles dois portos. A pouco e pouco o movimento nêles foi
diminuindo, e a Espanha, quando percebeu que estava sendo desfal­
cada nas suas receitas, teve, como sempre, um primeiro arranco contra
os portugueses, pelo que Felipe IV, numa cédula de 8 de Agôsto de
IÓ2I (i), determina ao Governador de Cartagena proíba terminante­
mente aos portugueses internarem-se no país.
Mas, pobre Espanha 1 Como os touros parados pelos diestros, não
via senão o trapo encarnado, que éramos nós, e contra quem marrava
inutilmente! Os asientistas futuros, recusaram-se a fazer contratos sem
a faculdade da internacion, e a Espanha teve de lha conceder, julgando
que conseguia, a-pesar-de tudo, manter fechado o comércio daqueles

(i) George Scelle, op. eit.


38
298 Angola
dois portos, quando era inevitável o contrabando, a ruína da sua in­
dústria, a paraiização da sua navegação, e mais do que isso, pelas me­
didas tomadas para a repressão do contrabando, medidas ineficazes
perante a extensão do território e a carência de meios de acção, a cor­
rupção do funcionalismo, e, como conseqüência, a desorganização de
todos os serviços.
*
* *

O asientista era um dos mais sacrificados. As licenças não se ven­


diam, pois que os escravos se podiam introduzir clandestinamente, e
êle próprio teve de tomar também medidas para defesa dos seus inte-
rêsses.
Por tôda a parte espalhou os seus feitores, que faziam, de sua conta,
a polícia dos désembarques clandestinos e dos consentidos pelas auto­
ridades (i). Eram constantes as denúncias que apresentavam e inú­
meros os processos que o asientista se via obrigado a intentar. As
apreensões e multas eram por tal forma e em tal quantidade, que foi
necessário um indulto geral, permitindo-se por cédula, que os donos
dos escravos adquiridos sem registo, regularizassem a sua situação pa­
gando os respectivos direitos; e o asientista, como bom português e mais
prático nos negócios, perante êste escândalo, passou a negociar, êle
próprio, licenças para o contrabando, mandando polícia sua para bordo
de determinados navios negreiros.
As disposições com respeito à repatriação de marinheiros e empre­
gados dos negociantes, não se cumpriam, e as autoridades espanholas
deixavam ficar nas colónias os portugueses que para lá tinham ido sob
aquele pretexto e eram já em número de certa importância, dedican­
do-se ao negócio, quer da escravatura, quèr da exploração da terra,
ou mesmo o de mercadorias, fazendo convergir para as colónias portu­
guesas, ou para Portugal, os lucros obtidos nas suas transacções.
Por outro lado, o próprio Rei em Espanha entrava também no re­
gímen da fraude com prejuízo do asientista, pois, para pagar os serviços
dos ministros que formavam a Junta, vendia por 25 .ooo ducados a um
Diogo Pereira, português, mil licenças para navegar escravos, o que(i)

(i) Para Cartagena mandou como feitor Jerónimo Requeixo com dois guardas, e como
guarda-mor um G. Pinto e mais tarde tomou conta da feitoria seu filho José Fernandes de
Eivas. Para Vera-Cruz mandou Vaz de Gusmão e tinha agentes até no México. George Scelle,
op. c i f .
I

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.( , ,
*

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)
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*

Parte I I — A n g ola 299


obrigou o Eivas a intentar mais um processo. Seguindo o exemplo do
í
Rei, as restantes autoridades faziam exigências, e era o Conselho de
Fazenda a apoderar-se do dinheiro que lhe pagavam dos processos que
1
vencia; era o Almirante das frotas a exigir dinheiro para despesas; era
o desfalque do cofre dos escravos, era emfim uma vida de imoralidade
tal, que para calarem o asientista, chegaram a entregar-lhe o que tinham
de mais reservado, a abertura a estrangeiros do comércio do pôrto de
Buenos Aires e das províncias de la Plala, onde não queriam pensar
que pudesse aparecer sombra ou mesmo cheiro de português.
t
Os prejuízos que lhe causaram foram contudo tantos e tão impor­
tantes, que não obstante êste enorme benefício do Rio da Prata, Eivas
não pôde agüentar-se, sendo-lhe aberta falência, ao que pouco tempo
sobreviveu, pois faleceu meses depois.
Tenta-se, então, voltar à administração de Estado, agora impossível
de manter, por haver necessidade de existir alguém ff quem o próprio
Estado pudesse roubar. As rendas das licenças foram novamente postas
em arrematação e adjudicadas em 1623 a Manuel Rodrigues Lamego,
português, tendo como competidores a viúva do Eivas, Helena Rodri­
gues Solis (1); Duarte Dias Henriques, contratador em Angola; Luís da
Fonseca, contratador de Cabo Verde, e Rodrigues Dias Angel.
As condições do arrendamento não diferiam muito das anteriores. ?
A renda passara para 120.000 ducados. Rio da Prata, Buenos Aires,
Paraguai e Perú, voltaram a estar, como antigamente, absolutamente i
fechados a qualquer introdução de escravos, nem mesmo para serviços
domésticos, e criava-se um tribunal especial para resolver as questões
provenientes da execução do contrato.
As fraudes continuaram, e com a mesma imoralidade e falta de
pudor, quer da parte de quem as cometia, quer de quem as devia re­ 4 t
i
primir, a ponto do Governador de Cartagena ser simplesmente avisado ■»
para enviar o valor de mais de trezentos negros que tinha deixado I
entrar sem registo, mandados pelo Governador de Angola, João Correia
de Sousa (2), sem que outro procedimento se tomasse contra êle.

(1) Esta D. Helena Solis era uma importante negociante, exportando para Angola parece
que de sociedade com o Argomedo, como adiante se verá, o que indica que foi também sócia
do D. Manuel Pereira. Um dos seus navios estava no pôrto de Luanda quando os holandeses
nos atacaram, e ela perdeu tôda a carga.
(a) Foi talvez por esta e outras do mesmo género, que João Correia de Sousa foi metido
no Limoeiro, onde faleceu, sendo-lhe confiscados todos os bens, o que contudo não impediu
que se filiasse a causa da sua prisão na questão que teve com os jesuítas por motivo do testa­
mento de Gaspar Álvares*

I
r | % 'V
3 oo A n gola
Em 1624, com os sucessos dos holandeses no Brasil, 0 asientista
Lamego pediu a prorrogação do contrato para se compensar dos pre­
juízos sofridos (1), o que lhe foi concedido até i 63 i , ano em que, pôsto
de novo em arrematação, foi adjudicado ainda a dois portugueses, mas
daí em diante, a orientação, já por vezes esboçada e levada a efeito, de
0 próprio Rei de Espanha defraudar o asientista, assume proporções
escandalosas e sem respeito por contratos, nem por leis, fêz-se doação
a D. Fernando, irmão do Rei e Arcebispo de Toledo, de i. 5oo licenças
de escravos para Buenos Aires, dando lugar à anulação do asiento por
parte dos portugueses.
Deu-se depois a Restauração, e termina assim, para nós, a parte
que nos interessava, das medidas tomadas pela Espanha para a regu­
lamentação do mais importante dos negócios que absorveram grande
parte das actividades, não só dos homens de comércio, mas dos pró­
prios governos <fas nações da Europa, até princípios do século xix.

» -

# #

Era, pois, em redor do negócio da escravatura, que se fazia tõda a


vida do Congo e de Angola. Primeiramente, quando Tomé de Sousa
soube que os castelhanos mandavam vir os escravos da Guiné, pediu-os
também para o Brasil e enviaram-lhos da Mina, por intermédio de
S. Tomé. Depois, à medida que o negócio da Mina passou a ter con­
correntes estrangeiros, S. Tomé foi alargando os resgates para o sul do
Zaire, e Angola passou a ser a grande fornecedora, não só para o Brasil,
mas para tôda a América Espanhola.
Eram constantes os navios a entrarem e saírem do pôrto de Luanda,
trazendo mercadorias para o resgate, o fato, como lhe chamavam, e
outras para a vida dos europeus, que se não dispensavam de fazer des­
pesas.
O principal negociante era o Governador, raramente pelo capital
próprio que empregava nos negócios, e mais pelas facilidades que, pela
sua acção como primeiro funcionário, poderia dispensar em determina-

(i) Em carta de ao de Setembro de i6a6, cód. Si-vm*3o da Biblioteca da Ajuda, cit., infor­
mava Femão de Sousa que o contratador n5o tinha rido prejufzo algum com a ocupação dos
holandeses no Brasil, pois que em vez de mandar os navios para lá e arriscar-se a perdê-los
com as fazendas que levassem, os mandou todos para as índias de Castela, com maiores lucros.
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imnnttnc n Governador seguia-se o asienlista ou contratador dos
p , que em geral era o representante de um grupo de capitalistas. ' f
Havia ainda os concorrentes ao asiento ou à arrematação dos impostos
que nao tinha obtido a adjudicação, e se estabeleciam com negócio de "//■
sua conta, para prejudicarem o arrematante, e os particulares, pequenos y -■
negociantes, uns com armazéns para a venda dos produtos e que tinham '/ / '
os seus pumbos que mandavam às feiras no interior, e outros que faziam f .s
0 negócio volante, mais ou menos clandestino e sempre sujeito a grandes ;
riscos, que se contratavam como soldados para as guerras, tendo para s .:/ * y ■
êsse efeito os seus serviços devidamente montados. / ' ' . ..
Os primeiros a que nos referimos, os grandes negociantes, incluindo />■
f s*
o Governador, eram representados pelos seus feitores, a quem vinham - Y s
consignados os navios com as mercadorias para o negócio e, descarre­
gadas as que eram para Angola, recebiam escravos para o Brasil, ou
para as colónias espanholas.
A maior parte do fato, fazendas de vara e côvado como diziam,
embora vindo de Portugal, não era de indústria nacional, que se limi­
tava aos buréis, baetas, belartes e algumas saragoças da Covilhã e
Portalegre, ou aos setins, tafetás e veludos de Lamego, além dos linhos
de Guimarães, tudo fazendas de pouco consumo para indígenas, que
preferiam os panos vistosos que recebíamos de Anvers (i), ou os algo­
dões da índia, como os beirames que eram extraordinàriamente apre­
ciados.
Além do fato para os resgates, importava-se também fazendas para
presentes aos reis e sobas indígenas, e para vestimenta dos europeus,
sendo também a maior parte estrangeira e já importada em Portugal (2),
e os géneros alimentícios, farinhas, conserva de carnes, queijos, vi­
nhos, azeites, etc.
As mercadorias eram despachadas em Lisboa e recebidas a bordo
dos navios por meio de conhecimentos, nos quais, já então, se mencio­
navam as irregularidades que se encontrassem na embalagem, não

(1) Anvers tinha-se tomado o mais importante pôrto comercial da Europa e com que
mantínhamos as mais estreitas relações desde D. João I. Diz Rebflo da Silva que exportávamos
5
anualmente i. ao.ooo ducados ou 608.000^000 réis e importávamos, incluindo o que depois se­
guia para a índia e Brasil, t,800.000 ducados ou 740.000^000 réis, constituídos principalmente
por estofos de lá e seda, flanelas, tapetes e alcatifas.
3
(a) Scherrer, Histoire du Commerce, t II, Les Espagnols, pág. ao , diz que em Portugal
os direitos de importação eram menores do que em Espanha, de maneira que os portugueses,
além do fornecimento para as suas colónias, faziam a maior parte do das espanholas, por po­
derem vender mais barato que os negociantes de Sevilha.
3 o2 Angola
tomando o capitão a responsabilidade pela deterioração que sofressem
com os acidentes de viagem. Para o fa t o , e, em geral, para as fazendas
melhores, usava-se a embalagem em pipas iguais às do vinho, em vez
dos caixotes que hoje se empregam. Encom endavam -se as pipas, sem
se dizer ao tanoeiro que eram destinadas a transportar fa t o , para que
êle se esmerasse no calafetamento como se fôssem para conduzirem lí­
quido, e assim se conseguia que, embora os porões metessem água, esta
não danificasse as fazendas que vinham dentro das pipas.
O negócio era bastante rendoso. Ruim seria a transacção que, a
pronto, desse menos de ioo% > e a prazo de um ano, menos de 3 oo% »
com a faculdade de dobrar, se o pagam ento não fôsse efectuado no dia
marcado.
Havia larga facilidade de crédito e era corrente, os negociantes de
Luanda, entregarem milhares de cruzados de fazendas, a indivíduos
que, quer em guerras, quer em viagem de negócio, iam para o interior
colocar a mercadoria, sem outra garantia além de um assinado, ou a
simples promessa de liquidação a pra/.o certo, avalizada pela sua maior
ou menor habilidade para tratarem com os indígenas e poderem levar
a cabo uma transacção rendosa.
Mas marchas para as guerras, a condução do f a t o requeria cuidados
especiais, como os requeria nos acantonamentos, por ser o ponto de pre­
ferência visado pelos indígenas nos seus ataques de surpreza. Deci­
dido o combate e efectuados os prisioneiros, logo ali se negociavam,
com aqueles a quem, tinham sido distribuídos, a trôco do fa to , e eram
mandados com a devida segurança para Luanda.
O comerciante, se não era exportador, vendia-os a quem o fôsse,
em geral aos feitores dos grandes negociantes, depois do que passavam
à ilha de Luanda, para quintais ou acampamentos, sendo marcados e
devidamente tratados, ou, por melhor dizer, beneficiados , para bem
parecerem e irem gordos e com resistência para bordò dos navios,
onde com as demoras das viagens e as faltas dos mais elementares
preceitos higiénicos, muitos sucumbiam. Em geral, um escravo bom,
era pôsto a bordo entre 25 a 3 o mil réis, deixando um lucro de mais
de too °/0.
Além dêste negócio do escravo em larga escala, havia as pequenas
encomendas de Lisboa, e era corrente as casas fidalgas e os comerciantes
abastados, escreverem para Luanda, ao Governador, se era das suas
relações, ou a qualquer comerciante que conhecessem, para lhes man­
darem alguns negros, em geral para o serviço das cadeirinhas e dos
Parte I I — Angola 3o 3
coches, enviando antecipadamente para o pagamento, vinho, farinha*
azeite, ou carnes ensacadas (i).
O despacho dos escravos era objecto de favores especiais do Go­
vernador, pois muito embora os direitos estivessem arrematados e de­
vessem ser recebidos pelo arrematante, que se obrigara a pagar o valor
da renda na metrópole, na moeda corrente no reino, o Governador
exigia, por vezes, ao arrematante, que lhe entregasse determinada im- •
portância em letra sôbre o Brasil, que se não precisava utilizá-la para
si próprio, negociava entre os da sua feição.
O frete era, em geral, pago ao armador no pôrto do destino, e pelo
número de peças embarcadas e não pelas que chegavam vivas (2).

*
* *


As necessidades de mão-de-obra para o Brasil e colónias espanholas,
pelo desenvolvimento dado à exploração agrícola, aumentavam de ano
para ano. Muito embora o govêrno de Madrid, com receio das suble­
vações, procurasse restringir a importação de escravos nas suas coló­
nias, o certo é que além do número que fixava aos asientistas, entravam
muitos mais clandestinamente.
Em Angola, no tempo de Paulo Dias e ainda, em parte, no de
D. Francisco de Almeida, para satisfazer os pedidos de escravos, era
com sério risco de vidas que se faziam as guerras, porque os nossos
eram poucos, os auxiliares indígenas ou a guerra preta eram diminutos,
e muitas vezes sucedeu aos nossos, a-pesar-de todo 0 seu valor, não
poderem desembaraçar-se do cêrco feito por muitos milhares de indí­
genas, que, por assim dizer, os atabafavam e os venciam.
Começamos, depois, a ter como auxiliares os jagas, que, como já
vimos, podiam ser comparados a uma matilha de cães de caça, que não
só descobriam onde estavam os indígenas, mas ainda os vinham trazer
aos nossos acampamentos. Do serviço por êles prestado, resultou ver­
dadeiramente a ocupação da Conquista, pela submissão do Rei de An-

5 3 3
(1) Biblioteca da Ajuda, cod. i-VIII- o/ i cit. Lembranças do q. se me encarregou no
reino q. hei de dar reqSo nelle. Fls. 394/401 do tômo I.
(2) Poucos documentos existem que nos possam dar utn idea das transacções comerciais
da época. Nos papéis de Angola, maço de 1609, da antiga Secção Ultramarina da Biblioteca
Nacional, hoje Arquivo Colonial da Junqueira, está uma carta de Francisco Demax, feitor de
João de Argotnedo, sócio do Governador D. Manuel Pereira, que é interessante e se publica.
Anexos, doc. n.° 66.
Angola
gola e dos outros sobados importantes, mais ou menos independentes,
pois todos receavam, dada a extraordinária mobilidade d os ja g a s , que
de um momento para outro, ao nosso mandado, êies aparecessem, ar-
razando plantações, queimando palhotas e prendendo os moradores.
A situação criada ao Rei de Angola e à Ginga foi lição proveitosa
para todos os outros, e, muito embora ainda no futuro se continuasse
r a registar manifestações de rebeldia, o certo é que eram pontos isolados
e nunca gerais, como nos primeiros tempos da ocupação.
Foi assim que, a pouco e pouco, se foram abrindo as feiras aonde
os chefes indígenas mandavam vender os seus escravos e mantimentos,
a trôco das mercadorias que os pum beiros lhes levavam, e, tomadas as
medidas de repressão dos abusos dos brancos (i), o negócio desenvol­
veu-se, informando o Governador Fernão de Sousa resgatarem-se nas
feiras, em cada semana, duzentas a trezentas peças, o que dava cêrca
de doze mil porr ano, considerando de tais vantagens as feiras, que en­
tendia dever-se perdoar, quando houvesse algum motivo que o justifi­
casse, o pagamento de imposto — baculam ento, ao chefe indígena, e não
se lhe fazer guerra, desde que se comprometesse a manter aberta a
feira, pois que o seu rendim ento montava mais para a Fazenda R e a l . . .
porque se fa lta s s e a escravaria deste R ein o , acabava-se o comércio de que
V. M agestade é senhor (2). F oi nesta orientação que êle criou o cargo
de mamquitanda das feiras, dando-lhes regimento e mandando fixar os
preços conforme os costumes da terra (3).
Como conseqüência do estabelecimento das feiras, veiu a facilidade
da vida comercial pelo interior, espalhando-se os aviados pelos pontos
que julgavam melhores e mais próprios para o comércio, montando
pequenas casas, a princípio simples palhotas, depois à medida que os
negócios o permitiam, modificando-as de forma a terem um melhor
conforto e, por fim, desviando, por meio de levadas, a água do rio pró-
ximo e fazendo o arimo.
Chegaram a ser muitos os brancos espalhados pelo interior, o que,
se por um lado representava o desenvolvimento da colonização, por
outro trazia inconvenientes, e graves, à boa ordem que era necessário
manter, sobretudo na defesa dos indígenas, o que levou Fernão de
Sousa a tomar medidas extraordinárias, mandando recolher os brancos 1*3

(1) Capítulo ai do Regimento dos Governadores.


65 36
(a) Biblioteca da Ajuda, cód. cit., carta de 6 de Setembro de i a , a fl. a do tômo I.
3
( ) Idem, idem, cód. cit., fls. 143 v., 145 e 145 v. do tômo II. Anexos, does. n.« 67, 68 e 69.
P a r le I I — A n g o la ->o5

a Luanda ou aos presídios de Ambaca, Massangano, Cambarnbe e Mu-


xima; a nomear um auditor general para devassar sôbre o inteiro cum­
primento da ordem que dera; e a mandar aos capitães dos presídios
não entendão em mais q. na guarda e na vigia dcllcs e no governo dos
soldados e q. não entendão com os sovas, nem os vexem pedindo lhe pessas
em ocasião de mocanos nem por outras vias nem pessão Loandas nem in~
fu ta s nem p a sy nem p° os Grn ainda que elles lhe pessão e mandem. . . (1).
Só depois disso executado e verificada a vida que levavam os colonos,
é que, em virtude das queixas que tinha recebido de muitos moradores,
da falta de chão para as edificações ou de terreno para culturas, mandou
fazer a revisão das concessões, especialmente pelas margens do Quanza
e do Bengo, e em especial no Saqueie, sítio muito fértil, tirando-as
àqueles que as não tinham aproveitado nos prazos marcados pelo
regimento, e distribuindo-as por novos e por aqueles que o mereces­
sem, com o que se escusavão farinhas do Bra{il e os %{imos renderião
muito à Real Fazenda (2).
Alguns moradores de Luanda e dos arredores dedicavam-se também
ao fornecimento de mantimentos e frescos para a restante população e
para bordo, e outros à construção de edificações que alugavam para
habitações, no que se tornavam mais notáveis os padres da Companhia
de Jesus, não só pelo número de casas que possuíam, como também
por fazerem quintas de recreação e de rendição, tendo comsigo quatro
donatos que não servem de mais que de plantar árvores, façendo hortas e
casas (3 ), de tudo auferindo um bom rendimento.

*
# *

Já então existia em Angola o problema das transferências, com uma


feição diferente do actual, mas com a mesma gravidade. A Real Fa­
zenda era, sôbre todos, a mais prejudicada, pois cada um tratava pri­
meiro de si e poucos se lembravam dos interêsses do Estado.

(1) Biblioteca da Ajuda, cód. cit., Bandos a fis. 120 a 129 do tômo II. Anexos, does. n.°* 70,
71, 72, 73 e 74.
(2) Extraído do tômo II do cód. da Biblioteca da Ajuda, cit., damos a nota de tôdas as
concessões de que se encontra a minuta do título. Anexos, doc. n." 75.
3
( ) Luciano Cordeiro, Memórias do Ultramar. Produções, comércio e govêmo do Congo e
de Angola, segundo António Diniz, II, 1622.
39
3o6 A ngola
A origem do mal estava, principalmente, no valor arbitrado ao que
se convencionou chamar moeda, o \imbo e os panos (i). O \imbo no
decorrer dos tempos e sobretudo em Luanda, pela descoberta de outras
minas além da existente na Ilha, caiu em desuso e em descrédito, ficando
como moeda corrente os panos, que se obtinham no Luango e no Congo,
aonde se ia exclusivamente para o resgate do que se chamava a panaria,
pois tendo-se de há muito desviado para Luanda e para as feiras esta­
belecidas em diversos pontos pelo interior, a corrente de escravos que
noutros tempos ia ao Pinda, não valia a pena resgatar os que ficavam,
os Angicos, que pela sua negação para o trabalho e difícil adaptação a
meios diferentes, pouco ou nenhum valor tinham.
Ficou, pois, o pano como moeda, estabelecendo-se-lhe, em relação
ao real, dois valores, um, o corrente, outro o do bom dinheiro ou peças
da índia. Assim, um pano valia duzentos réis em moeda corrente, ou
apenas cem em Som dinheiro e, por esta forma, a um operário, que além
da alimentação, recebia uma jorna de dois mil réis, pagava-se-lhe com
dez panos, mas, querendo comprar um escravo, que valia 12$ooo réis,
de bom dinheiro, tinha de se entregar 120 panos. Esta mesma relação
existia também para a pataca espanhola, que passou a ser moeda cir­
culante em vista das relações de Angola com as índias de Castela, e
uma pataca valia mil e quatro centos réis, ou sete panos em moeda cor­
rente, ou três panos e meio, ou sete tostões, em bom dinheiro ou peças
da índia (2).
Este câmbio, que não estava oficialmente reconhecido e confirmado,
acarretava prejuízos importantes, em especial para a Fazenda Real,
pelos diferentes valores que podiam ser dados à moeda, quando se tra­
tava de recebimentos, ou de pagamentos.
Os impostos que não estavam arrematados, originados na vida
própria da terra, como os baculamentos, os dízimos, as multas por
transgressões e condenações, eram cobrados directamente pelo Estado,
por intermédio do seu feitor, e pagos em panos, em escravos, ou ainda
em mantimentos e fazendas, tudo correspondendo a réis. Nestes últi­
mos casos, como o feitor não tinha verbas para dispender na alimen­
tação e tratamento dos escravos, nem na guarda e beneficiação dos
mantimentos e fazendas, reduzia por sua conta tudo a panos, para 0

(1) História do Reino do Congo, cap. IV, cit. Anexos, doc. n.° i.
5 3 3
(a) Biblioteca da Ajuda, cód. i-VHt- o/ i dt. Carta de Femão de Sousa para a Mesa de
5 3 1
Desembargo do Paço, de t de Agôsto de 1624, a fls. oo, tômo .
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Parte I I — Angola

que negociava os escravos e fazendas, ficando para si com a diferença


entre o valor das vendas e o corrente em panos (i). .
Lom respeito aos ordenados (2) passava-se o mesmo, e como havia
alguns que deviam ser pagos com letra sôbre o Brasil, fazia-sc propo­
sitadamente a confusão, e para as contas do Estado a moeda era a
mais cara.
Alas não era só o feitor a proceder por esta forma e parece que *
havia peor.
Os órfãos, defuntos e ausentes, sempre constituíram matéria vasta
para exploração, e naquela época, em que os protestos e reclamações
eram um pouco mais difíceis de apresentar, os lugares de provedor e
tesoureiros de defuntos e ausentes eram cubiçados, pelos rendimentos
que produziam.
Como se calcula, era vulgar em Angola o falecimento dos comer­
ciantes, ou dos moradores residentes, abintestados. Â s leis, de então,
permitiam que, em tais casos, aos credores com documentos justifica­
tivos e em forma legal, os provedores lhes pudessem pagar até á quantia
de dez mil réis, o que era, manifestamente, uma ridicularia (3 ), para
dívidas que, na maioria dos casos, eram de alguns milhares de cruza­
dos, mas compreende-se bem que uma disposição autorizando maiores
importâncias poderia acarretar prejuízos para terceiros.
A êsse propósito escrevia 0 Governador Fernão de Sousa: «B e
matéria de grande consideração , porque a tenção de V. Magestade he que
a fa zen d a dos defuntos abintestados e aumentes se não perca, e que os her­
deiros a ajão p or este modo, sem perda nem dano, e para esse effeito hor-
dena V. M agestade hum Provedor dos defuntos e hum The\oureiro que
administrem como sua, 0 que elles assim 0 fa\em , porque a fa\em toda
sua, 0 que não he d e espantar , porque quem se contenta de vir a estas j

(1) Luciano Cordeiro, Memórias, op. cit.


(2) Biblioteca da Ajuda, cód. cit. Anexos, doc. n.* 76.
É interessante comparar estes ordenados com os do documento publicado por Luciano
Cordeiro nas Memórias — Estabelecimentos e resgates, etc., na parte respeitante a Angola.
3
j( ) Luís Mendes de Vasc