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Mauss, Marcel.

1998 (1925) Ensaio sobre a Dádiva, Lisboa : ed


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As trocas e os contratos fazem-se sob a forma de presentes, em


teoria voluntários, na realidade obrigatoriamente dados e retribuídos

«Estas dádivas revestem quase sempre a forma de presente, de


prenda oferecida generosamente mesmo quando nesse gesto que
acompanha a transação não há senão, formalismo e mentira social, e
quando não há no fundo, obrigação e interesse económico.» 53

Qual é a regra de direito e interesse que… faz com que o presente


recebido seja obrigatoriamente retribuído?

Que força existe na coisa que se dá que faz com que o donatário a
retribua?

As dádivas trocadas e a obrigação de as retribuir

1. Sistema de comércio baseado no Kula

1)Ilhas Trobriandesas ( Pacífico)

O Kula é um comércio que se estabelece entre diversas ilhas e cria


relações intertribais.

Está reservado aos chefes – de ordem nobre – e exerce-se aparentemente


de forma desinteressada e modesta; não se confunde com a simples troca
económica de mercadorias.

O Kula consiste em dar e receber. O quê? Para quê? E Como?

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O que é?

O Kula estabelece uma relação entre iguais de uma coisa dada e


recebida (quando se recebe, não se dá)

«A coisa recebida é desdenhada, desconfia-se dela e não se fica com


ela senão um instante, depois de ser lançada aos pés; o doador mostra
uma modéstia exagerada» Procura-se mostrar autonomia, liberdade, etc.

Trocam-se uma espécie de moedas vaygu’a:

Pulseiras taladas e pulidas em conchas e usadas só em ocasiões especiais


Colares trabalhados em madrepérola

Para quê?
Estes bens trocam-se nas viagens marítimas, em sentidos diversos,
opostos, e interligam um conjunto de ilhas disperso e visitadas em
círculos. Diferenciam os sujeitos da troca e permitem a elaboração de
diversos rituais.

E Como?

Os presentes do Kula são retribuídos; ninguém é o seu verdadeiro


proprietário, de ano para ano é obrigatório fazer circular este bens.

O seu carácter dá-lhe porém as seguintes características:

« é uma propriedade e uma possessão, um penhor e uma coisa


alugada, uma coisa vendida e comprada e, ao mesmo tempo, registada,
mandatada e fideicomisso: só é dada na condição de dela fazermos uso
para um outro, um de a transmitirmos a um terceiro.
É portanto um complexo económico, jurídico e moral.
Tem carácter sagrado/ mágico:

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Cada peça tem um nome e cada uma delas transmite virtudes a
quem a possui «encantamento de concha»
As peças preservam a ordem social: através de rituais de Kula é
proscrito todas as coisas de paz e guerra par que se preserve e amizade.

2. Nordeste Americano

A troca material funciona como uma forma desinteressada e ao


mesmo tempo obrigatória. As coisas trocadas preservam o espírito do
doador, tornam-se símbolos da vida social – a comunhão a aliança.

Trocam ao quê?

Mais importante - Peças de cobre, como escudos brasonados que


são dadas e recebidas em diversos rituais a que se chama potlatch.

Por um lado o potlatch represente uma noção de crédito e por outro de


honra.

Usar os artigos de troca do potlatch é gastá-los: disso depende o prestígio


do chefe e do seu clâ. O potlatch obriga a receber e a dar bem como a
destruir.

Faz-se uma “luta de riqueza”, uma “guerra de propriedade” e em alguns é


obrigatória “gastar tudo”.

O potlatch é um fenómeno total .

- religioso pois os chefes envolvidos passam a ter poderes


chamanistas, encarnam os antepassados e os deuses.
- é económico pois o seu valor é tomado como referência para o
estatuto e honra do seu protagonista

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-- é um fenómeno de morfologia social – reúne famílias, clãs e tribos
– embora não se confundam ( estão presentes para se distinguir…)
- jurídico não apenas porque estabelecem contratos entre diferentes
grupos, mas também porque as próprias coisas trocadas têm uma virtude
especial que faz com que a coisa tenha que ser dada.
Há 3 formas de potlatch:, sob o tema da dádiva: a obrigação de dar;
a obrigação de receber; a obrigação de retribuir;

1.Obrigação de dar

Essência do potlatch- o chefe deve dar por si, filhos, mortos. Assim
conserva a autoridade sobre a família e mantem a posição que tem entre
os chefes.
Tem que ter fortuna para justificar a sua autoridade, mas só prova
que tem fortuna se a destruir, pondo-a à «sombra do seu nome». Se
perder o prestígio, perde a alma.
O prestígio dá-lhe o direito de usar máscara, encarnar um espírito, é
a máscara da dança, usar brasão, ter um totem, ser uma “persona”.

2.Obrigação de receber

Recusar uma dádiva é recusar o potlatch.


A aceitação pressupõe a dádiva e «ter de retribuir, é ter medo de ser
rebaixado»
Quando não se distribui; é estar já “humulhado”; é “perder o peso do seu
nome”; é confessar-se vencido.

3. A obrigação de retribuir

É inerente a todo o potlatch porque a destruição lhe é inerente.

A força das Coisas

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Nas coisas permutadas pelo potlatch existe uma virtude que obriga aas
dádivas a circular, a serem dadas e a serem retribuídas. São as coisas
precisos da família ( res romano).

Estas coisas guardam o espírito do grupo a que pertence.

O conjunto destas coisas constitui um dote mágico, não só os objetos, mas


também a casa as paredes pintadas, etc…

A circulação das coisas, nestas sociedades é também a circulação dos


direitos das pessoas e de onde está excluída a noção de valor de mercado.

O seu princípio é da troca e da dádiva.

Estrutura da obra Ensaio sobre a dádiva

Introdução. Epígrafe. Programa. Método seguido


Prestação, dádiva e potlatch
1.- As dádivas trocadas e obrigação de retribuí-las (Polinésia)
1.1. Prestação total, bens uterinos contra bens masculinos (Samoa)
1.2. O espírito da coisa dada (Maori)
1.3. Outros temas: a obrigação de dar, a obrigação de receber
1.4. Observação. O presente dado aos homens e o presente dado aos
deuses
Outra observação sobre a esmola

2.- Extensão desse sistema. Liberalidade, honra, moeda


2.1. Regras da generosidade. Ilhas Andaman
2.2. Princípios, razões e intensidade das trocas de dádivas (Melanésia)
Nova Caledônia
Trobriand
Outras sociedades melanésias
2.3. Noroeste da América do Norte
A honra e o crédito
As três obrigações: dar, receber, retribuir
A força das coisas

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A "moeda de renome"
Primeira conclusão

3.- Sobrevivência desses princípios nos direitos antigos e nas economias


antigas
3.1. Direito pessoal e direito real (direito romano muito antigo)
Escólio
Outros direitos Indo-europeus:
3.2. Direito hindu clássico
Teoría da dádiva
3.3. Direito germânico (a caução e a dádiva)
Direito celtas
Direito chinês

4.- Conclusão
4.1. Conclusões de moral
4.2. Conclusões de sociologia econômica e de economia política
4.3. Conclusões de sociologia geral e de moral
Bibliografía