You are on page 1of 4

AS ORDENS DO AMOR

Bert Hellinger acredita que a vida de uma família é permeada por quatro
princípios básicos, que ele chama de Ordens do Amor. Ele escolheu esse nome
porque concluiu que as dinâmicas familiares são, no fundo, sempre regidas
pelo amor, por mais complexas, intrincadas ou trágicas que possam parecer.
O amor está na raiz de praticamente todos os nossos comportamentos –
mesmo que não tenhamos consciência disso. “Para Hellinger, o amor é o único
sentimento básico”, afirma Régis Coelho. “Outros sentimentos, como raiva e
medo, são secundários, porque derivam da falta de amor.”
A primeira dessas ordem a da pertinência. Todo ser humano tem o
direito de pertencer ao sistema que o colocou no mundo. Parece óbvio, mas é
um princípio fundamental nessa terapia. O ato de excluir um parente traz
sempre conseqüências graves, seja qual for o motivo da exclusão: uma avó
que enlouqueceu e foi trancada num quarto pelo resto da vida; um tio suicida
que nunca mais foi mencionado por ninguém; uma moça que engravidou e foi
expulsa de casa; um parente que faliu e deixou de ser aceito no convívio
familiar.
Segundo a ordem da pertinência, quando um indivíduo é excluído, uma
criança que nasce na mesma família, uma ou duas gerações depois, acaba
assumindo inconscientemente várias características dele. “Essa é uma forma
que o universo encontra para reequilibrar o sistema familiar”, explica Régis.
Por isso, um pai que expulsou de casa uma filha grávida, por exemplo, pode
ter que encarar, anos depois, uma neta adolescente que escandaliza a família
com seu comportamento sexual.
A segunda ordem é a da inocência e culpa. Por um amor inocente aos
pais, as crianças assumem para si culpas e responsabilidades deles, com o
objetivo de manter o sistema unido. Trata-se de decisões inconscientes
tomadas na primeira infância, mas que repercutem ao longo de toda a vida.
Um menino de quatro anos de idade cujo pai faliu, deixando a família na
miséria, pode se sentir culpado por essa situação; então, aos trinta anos ele
também vai falir, por uma identificação inconsciente com o pai.
A terceira ordem fala sobre dar e receber. Os pais têm a obrigação de
dar; os filhos têm o direito de receber e de tomar para si aquilo de que
precisam para sobreviver. Quando esse princípio se inverte, as conseqüências
podem ser graves. Uma mãe que, por algum motivo, não se sente segura o
bastante para enfrentar a vida sozinha pode, por exemplo, usar sua filha mais
velha como uma espécie de “muleta”, solicitanto que assuma
responsabilidades para as quais a criança não está preparada. Situações desse
tipo podem levar a uma série de sintomas, como, por exemplo, crises de
depressão, que podem se manifestar inclusive na idade adulta.
A quarta ordem é a do tempo. O tempo é o fator que estabelece ordem
no sistema familiar. Em primeiro lugar vêm o pai e a mãe; em segundo lugar,
o relacionamento entre o pai e a mãe; em terceiro, o filho mais velho; depois
o segundo filho, e assim por diante. Quando essa ordem é rompida, cria-se um
conflito sério na família. É o caso de um filho caçula que luta para tomar o
lugar do mais velho, de uma filha quer ter a mesma autoridade que a mãe ou
de uma mãe que “usa” um dos filhos como companheiro, para protegê-la de
um marido agressivo ou substituir um pai que ela não teve.

DESATANDO OS NÓS

De modo geral, a terapia da Constelação Familiar termina depois de
reconhecidos, analisados e reorganizados os desvios (ou “emaranhados
sistêmicos”, no dizer de Régis Coelho) que a família fez em relação às quatro
Ordens do Amor. Essa reorganização é feita por meio de “devoluções”,
durante os diálogos entre os vários membros do sistema.
Retomando os exemplos usados para explicar as quatro leis, a neta
adolescente que escandaliza a família é colocada frente a frente com a tia
excluída – aquela que foi expulsa de cada por ter engravidado solteira.
Repetindo as palavras escolhidas pelo terapeuta, ela devolve à tia a sua
identificação com ela: “Titia, eu quero te devolver a necessidade de ter um
comportamento sexual inadequado. Eu fiz isso por um amor inocente a você,
e também por uma necessidade de te trazer de volta à família. Eu quero te
devolver isso. Isso não me pertence. Te devolvendo isso, eu posso ser eu
mesma.”
O menino de quatro anos que viu o pai falir e agora não consegue
administrar sua vida financeira é colocado na frente do pai, e devolve a ele a
sua identificação: “Papai, quando eu era criança o senhor faliu e nos deixou
na miséria. Eu era muito pequeno, mas me senti culpado por isso. Eu me senti
falido também, e agora sou um adulto malsucedido financeiramente. Eu quero
te devolver isso. Isso não me pertence. Eu fiz isso por um amor inocente a
você.”
Sempre repetindo as palavras do terapeuta, o filho que foi usado pela
mãe como uma espécie de companheiro diz, por exemplo: “Mamãe, durante
muitos anos você me tratou como se eu fosse o seu protetor e o seu
companheiro. Mas eu era só uma criança. Eu me senti roubado do meu papel
de filho. Eu me senti sobrecarregado. Eu quero te devolver esse peso, porque
ele não me pertence.”
Muitas vezes é necessário “desembaraçar” situações em várias gerações
da família. Nesse último exemplo, o avô materno do menino pode ser
chamado, para que a filha, por sua vez, faça as devoluções necessárias:
“Papai, o senhor foi um pai muito ausente. O senhor deixou de me proteger
nos momentos em que eu precisei. Por um amor inocente ao senhor, eu me
casei com um homem muito parecido, que me abandonava e nunca estava ao
meu lado. Eu acabei usando o meu filho para diminuir essa sensação de
desamparo. Eu quero te devolver isso.”
A terapia, que dura em média de uma a duas horas, termina quando,
após todas as devoluções, os familiares são colocados em seus devidos lugares
– não os lugares escolhidos intuitivamente pelo cliente, mas aqueles
estabelecidos pela ordem do tempo. Por exemplo, pai e mãe lado a lado, avós
paternos atrás do pai, avós maternos atrás da mãe, irmãos ao lado dos pais,
do mais velho ao mais novo. Com isso, o indivíduo pode observar um retrato
mais organizado da sua família e experimentar como se sente no seu
verdadeiro lugar, desempenhando o seu verdadeiro papel.

CADA COISA EM SEU LUGAR

A funcionária pública Flávia, 28 anos, fez a sua Constelação Familiar em
maio. Ela conta como foi sua experiência e diz que os primeiros resultados já
apareceram.
“Sempre tive depressão, desde que me entendo por gente. Há cerca de
sete anos meu quadro piorou; passei a tomar antidepressivos e remédios para
dormir. Quando tentava parar de usar a medicação (gradativamente, com
acompanhamento psiquiátrico), a depressão voltava mais forte ainda. Fiquei
dependente dos medicamentos, mas há um ano e meio desenvolvi intolerância
a eles; tinha dores de cabeça constantes, enjôos e tontura. Consultei um
médico homeopata que disse que eu estava com problemas no fígado, por
consumir tantos remédios. Ele me indicou a Constelação, porque achava que a
depressão podia ter raízes na minha história familiar.
Eu sou a mais velha de cinco irmãs. Meus pais se separaram quando nós
ainda éramos crianças. Quando ‘constelei’ minha família, coloquei meu pai
afastado da minha mãe e eu ao lado dela, bem pertinho. Dois amigos que
assistiram o trabalho me contaram que, assim que eu coloquei a minha
protagonista ao lado da mãe, ela (eu) começou a chorar e não parou mais, até
o final. A mãe segurou a sua mão, mas isso não serviu de consolo, porque ela
se apoiou na filha, como se a menina fosse uma escora. A minha protagonista
afirmou que não gostava daquilo, era pesado; ela queria se afastar da mãe,
mas não tinha coragem.
Quando meus pais foram colocados frente a frente, para dizer o que
sentiam um pelo outro, minha mãe fez um escândalo. Disse que se sentia
muito mal, que sentia muito medo. Esse medo foi se transformando num
pavor enorme, e o terapeuta chamou uma mulher na platéia para representar
a mãe dela. O diálogo entre as duas revelou algo que eu não havia contado,
mas que realmente aconteceu: a irmã caçula da minha mãe, que nasceu
quando ela ainda era bebê, morreu antes de completar um mês de vida. Foi
um acontecimento muito traumático para a família. Por ser muito nova,
minha mãe “respirou” inconscientemente esse sentimento de perda através
da mãe dela. Isso a deixou extremamente insegura, e, entre outras coisas, fez
com que ela tivesse necessidade de se apoiar em mim.
Outro dado que surgiu no diálogo entre meus pais foi a imensa frieza do
marido em relação à esposa e à vida em geral. Frieza e indiferença eram a
resposta-padrão dele para tudo. Para pesquisar o motivo disso, o terapeuta
chamou uma outra mulher para representar a mãe dele. Ela teve quatro filhos
e morreu de parto; meu pai era seu segundo filho. Quando essa minha avó se
manifestou, disse que não sentia absolutamente nada pelo meu pai; só frieza
e indiferença. Ela tinha noção de que ‘deveria’ amar seus filhos, mas não
amava. O homem que representava meu pai disse que sentia o ar em volta
dela gelado, como se ele tivesse aberto a porta da geladeira. Eu também senti
isso, quando me aproximei dela.
O melhor momento do trabalho foi o das devoluções. Minha mãe
devolveu para a mãe dela a insegurança e o medo de viver. Meu pai devolveu
para a mãe dele a falta de amor e a necessidade de ser frio e indiferente. Eu
devolvi para minha mãe a obrigação de ser a “bengala” dela; para meu pai,
devolvi o modelo de indiferença e frieza; para minha avó paterna, um certo
ar de “fantasma” que me acompanhava desde criança. Eu também me sentia
um pouco morta, porque inconscientemente me identificava com essa avó que
morreu de parto, e que a família considerava quase uma santa.
Depois dessas devoluções, meu alívio foi enorme. Senti muita vontade de
abraçar meu pai, minha mãe e até a avó “gelada”. Todos me acolheram.
Quando o trabalho terminou eu já estava me sentindo diferente. Não me
sentia tão feliz assim desde o nascimento do meu filho. Foi como se, dentro
de mim, uma grande bagunça tivesse sido oganizada, cada coisa colocada no
seu lugar.
Comecei a sentir os primeiros resultados já no dia seguinte. Minha
postura mudou, fiquei mais ereta. Uma dor nas costas crônica desapareceu,
literalmente da noite para o dia, e não deu mais sinais de voltar. É como se
uma força que sempre me puxava para baixo tivesse deixado de atuar. Hoje,
dois meses depois, já tenho vontade de sair de casa, ir ao cinema, ver os
amigos. Parece banal, mas para mim significa muito; há anos isso não
acontecia. Parei de tomar antidepressivos e estou muito bem, medicada só
com produtos homeopáticos. Sei que ainda é cedo para dizer que a melhora
foi definitiva – mas tenho certeza de que vai ser.”
Obs.Os casos aqui citados foram permitidos pelos clientes e seu
nomes são fictícios