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Bioconstrução

Apresentação

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abordados. Atualizações poderão ser baixadas e manteremos nossa lista informada com os
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O material contido nesse ebook não pode ser comercializado e é exclusivo dos voluntários e
contribuidores do www.ecoviladamontanha.org.

Medidas legais cabíveis serão tomadas caso haja qualquer tentativa de comercialização
deste ebook. Entendemos que o conhecimento pode e deve ser compartilhado por isso
ofertamos esse ebook para nossos voluntários e contribuidores.

Outras publicações seguirão e todos serão comunicados oportunamente.

Desejamos bons projetos a todos!

Equipe do Instituto Ecovila da Montanha.

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Bambu

Natural e renovável

No atual momento, quando muito se fala em sustentabilidade, volta à natureza e práticas saudáveis, o
bambu renasce como um material construtivo muito apropriado. Natural e renovável, uma moita de bambu
produz colmos anualmente e seu corte não elimina a produção, como no corte de uma árvore. Seu cultivo e
uso reduz a pressão sobre as matas nativas. Quando devidamente tratado, pode ter a mesma durabilidade
da madeira normalmente usada para construção.
O bambu possui em sua composição, uma boa porcentagem de sílica, o que lhe confere rigidez, flexibilidade
e resistência ao mesmo tempo. Quando adequadamente montado, suporta cargas iguais às suportadas por

No Brasil, não temos tradição na construção de nossas casas usando esse material renovável. Países como
China e Indonésia usam o bambu há séculos, em construções internas e externas. A Colômbia também
possui tradição na construção com bambu, especialmente o Guadua Angustifolia, espécie nativa do cone
sul, com amplas matas. Essas matas nativas de Guadua são administradas pelo estado e a população pode
fazer cortes, com a devida autorização. Uma dessas matas nativas cobre grande área do estado do Acre.
Seguindo orientações básicas, como elevar um pouco o apoio da viga de bambu do solo, normalmente feita
de pequena estaca de concreto e beirais largos, cidades colombianas inteiras foram construídas com o
bambu. Os colombianos chamam esse procedimento de boas botas e chapéus largos. Isso evita que a
umidade e o sol intenso reduza a vida útil do bambu usado na estrutura da casa.

Encaixes

Os encaixes básicos usados para a construção com bambu, são o boca de pescado, que é um corte
perpendicular feito com a serra copos da mesma espessura da vara. Publicamos uma lista de ferramentas
para construção com bambu aqui no site, confira. Com o corte boca de pescado, o vara de bambu abraça a
outra perpendicularmente, quando então é feito um travamento usando a barra roscada, arruelas e porcas.

Para encaixes em ângulos diferentes de 45º, é usado a chamada boca de cayman, que é a mesma boca de
pescado um pouco mais inclinada, dependendo do ângulo do encaixe pretendido. Com esses dois
encaixes, pode ser feita toda a estrutura da casa de bambu, apoiada em pequenas estacas de concreto com
um ferro sobressalente. Não detalharemos essas técnicas aqui, sugerimos a busca no Youtube por vídeos
que ensinam essas técnicas específicas através de imagens, que clareiam mais que as palavras.
Os colombianos possuem amplo material didático construtivo para bambu, citaremos em especial o manual
de Oscar Hidalgo-Lopez – Bamboo, The Gift of The Gods (foto). Oscar fez uma pesquisa muito abrangente e
mostra os usos do material, do ponto de vista prático. Um livro que vale a pena ser adquirido.

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Bambu

Paredes

Para as paredes, os colombianos usam as chamadas esterillas, que é o bambu aberto com a machadinha,
fendido nos nós de forma irregular. O colmo aberto vira uma esteira, que pode ser pregada em grupos nos
vãos das paredes (foto acima). Um dos lados, o lado de dentro do bambu, é recoberto com uma camada de
barro ou então argamassa para reboco e o outro lado mostra o lado externo do bambu, que pode ser limpo e
encerado posteriormente.

Telhados

Genial, ainda, é a descoberta do engenheiro Luis Carlos Rios Gallego, a calfitice. Essa massa, à base de
barro, é usada para fazer telhados com grande economia, beleza e durabilidade. Na foto abaixo, alguns
telhados feitos com essa massa. A calfitice deve ser feita em dias nublados, devendo secar lenta e
naturalmente, para não rachar. Pode ser pigmentada com pó xadrez ou outro pigmento para a construção
de um telhado colorido.

Receita de Calfitice

1 parte de cimento (pode ser usado cimento branco), 2 partes de cal hidratada, 1 parte de areia média, 9
partes de terra de subsolo peneirada (sem matéria orgânica), 5 ou mais partes de água (a mistura deve ser
pastosa), 5% ou mais de fibras cortadas (capim, sisal, palha). A fibra deve ser cortada com cerca de 5cm de
comprimento e incorporada à massa.
As casas de bambu possuem um apelo natural, sustentável, ecologicamente correto e beleza rara. A cultura
do bambu começa seu ciclo no Brasil, mesmo em pequena escala, muitos plantadores estão estabelecendo
suas pequenas matas país afora. Fácil de plantar e de cuidar, é só escolher a espécie correta, adquirir
algumas mudas, preparar uma cova rica em matéria orgânica, plantar e manter a cova úmida e coberta de
palha durante os dois primeiros anos. Depois o bambu vai sozinho, produzindo ele mesmo sua comida, com
as folhas que caem e viram húmus ao seu redor.
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Bambu

Telhados de calfitice
O bambu Guadua (Guadua angustifólia) nativo do cone sul é usado como material construtivo em países
como a Colômbia, Equador e Costa Rica. A Colômbia possui matas nativas administradas pelo estado que a
população se serve para colher varas para construir suas casas. O Guadua, bambu de grande resistência,
durabilidade e fácil manejo é também chamado de aço vegetal. É um recurso sustentável, renovável que se
auto multiplica vegetativamente, não necessitando de sementes para a produção de mudas.

Guadua tratado é vendido em lojas de material de construção na Colômbia, que possui cidades e bairros
inteiros construídos com bambu. Desenvolveram uma tecnologia construtiva para esse material, com
excelentes resultados.
As varas de Guadua podem ser usadas para vigamentos estruturais, com os encaixes adequados.
Normalmente é usado o encaixe chamado boca de pescado, que é travado com barra roscada e porca. Para
os apoios em ângulos, é usado o encaixe boca de cayman, que permite um encaixe em ângulos mais
fechados ou mais abertos.

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Bambu
As paredes são feitas com as chamadas esterillas, que são varas abertas com machadinha. O nó é fendido
em diferentes posições, para manter as peças juntas e ao mesmo tempo permitir a abertura do colmo. A
esteira é aberta e pregada na estrutura, rebocada com barro de um dos lados, ficando o bambu aparente do
outro.

O Guadua é o bambu mais fácil de replicar de todas as espécies. Plantado no chão ou no saquinho, uma
pequena haste com algumas raízes gera várias outras, que podem ser separadas e replantadas. Isso pode
ser feito com a planta bem nova, com cerca de 3 a 4 meses de idade. Uma partida de mudas pode ser
multiplicada em um período de varia de 3 a 5 meses, dependendo do solo, clima e disponibilidade de
umidade e nutrientes.

Esterillas de Bambu

A região da Colômbia onde as matas de Guadua são mais exuberantes, é o chamado Triângulo do Café, nos
Andes Colombianos possui um solo vulcânico rico em nutrientes. Essa região é conhecida como produtora
de café de qualidade, exportado para vários países do mundo.

Grandes estruturas como pontes suspensas, aquedutos e embarcações também foram construídas na
Colômbia e em outros países do cone sul, usando o Guadua. O bambu é um material com características
muito específicas, como flexibilidade, resistência e leveza.

Arquitetos colombianos do bambu ganharam projeção internacional por seus trabalhos com esse material
construtivo, é o caso de Simon Velez que projetou e construiu o Pavilhão Zeri em Manizales. Impressinou os
alemães com estrutura para a exposição de Hannover 2000 por sua originalidade, beleza e funcionalidade,
usando o Guadua como material construtivo.

O alemão Jorg Stamm se transferiu para o cone sul para aproveitar mais as possibilidades desse material. É
dele o projeto e construção da ponte Liceo Frances em Pereira, na Colômbia, com extensão de 52 metros.
Stamm desenvolve projetos para estruturas pré-fabricadas usando o Guadua, a leveza do material facilita o
transporte das peças, para montagem no local da obra.

O bambu é uma ótima alternativa para poupar árvores tropicais em florestas nativas e felizmente muitos
profissionais da área da sustentabilidade já desenvolvem projetos e aplicam esses conhecimentos. No
Brasil temos uma cultura emergente do bambu e alguns arquitetos já utilizam esse material renovável como
matéria prima para seus projetos.

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Bambu

Quando colher

Muitos autores indicam o inverno como a melhor época para a colheita do bambu. No Brasil, são os meses
sem r (maio, junho, julho e agosto). Nessa época, os colmos apresentam menor teor de umidade e estão
mais leves, o que facilita tanto o corte quanto o transporte. Além do mais, com menos seiva circulando pelos
colmos, eles estarão menos apetitosos para os insetos e fungos.

Um dos maiores problemas que temos com relação ao bambu após o seu corte, é o ataque do Dinoderus
Minutus, a broca que se alimenta do amido existente no bambu. Essa broca destrói o colmo completamente,
produzindo uma infinidade de galerias e deixando um pozinho branco nas varas infestadas.

A indicação do corte na estação seca também se deve ao fato de que nessa época a temperatura está mais
baixa e os insetos xilófagos estão hibernando ou com atividade reduzida. O corte na época da seca também
é feito levando em conta a inexistência de brotações na moita nessa época do ano, evitando assim a quebra
dos brotos novos que produzirão os colmos do próximo ano.

Como colher

O corte deve ser feito rente ao chão, imediatamente em cima do primeiro entrenó do colmo, evitando deixar
reservatório que possa acumular água na próxima estação das chuvas. O acúmulo de água no copo
deixado quando do corte pode provocar o apodrecimento do rizoma e deve ser evitado. Faça um corte rente
e caso fique algum rebaixo que possa acumular água, corte em cruz com o arco de serra para que a água
possa escoar.
Os cuidados quando do corte dos colmos do bambu é fundamental para otimização do manejo. Corte as
varas maduras, aquelas que são menos atraentes visualmente, cheias de manchas, com aspecto
envelhecido. Retire esses colmos da moita, limpe-os fora e elimine ou separe todo o resíduo para que a
moita continue acessível. Um fato muito comum em moitas de bambu é a inacessibilidade por conta do corte
inadequado. Muitas varas e resíduos se entrelaçam em volta da moita, dificultando o corte e retirada dos
colmos.

Esse manejo é mais fácil em se tratando dos bambus alastrantes do gênero Phyllostachys. As varas dessas
espécies asiáticas se espalham ao redor, facilitando o acesso e o corte. Mas da mesma maneira, é
necessário um manejo adequado, deixando sempre o acesso livre para facilitar novos cortes e retirada dos
colmos do bambuzal.

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Bambu
Colheita para produção de mudas

Se pretende colher bambu e aproveitar as brotações para fazer novas mudas, então a época da seca não é
adequada. Já fizemos essa experiência mais de uma vez e o aproveitamento das mudas durante a época da
seca é muito baixa, girando em torno de 20% no caso do bambu gigante (Dendrocalamus Giganteous).

Já o corte para mudas na época das chuvas, mesmo com o inconveniente da quebra de novos brotos, tem
um aproveitamento em torno de 80%. Ou seja, o enraizamento das brotações do terceiro terço das varas é
grande quando os colmos estão com muita seiva, na época das chuvas.

Mudas de Guadua Angustifolia

Colhendo espécies diferentes

Cortar uma vara de Phyllostachys Aurea, a cana da índia, é bem fácil pois é um bambu fino e acessível. Um
arco de serra é suficiente. Já cortar uma vara de bambu gigante ou mesmo de Bambusa vulgaris requer mão
de obra e ferramentas mais adequadas como a moto serra, cordas, pessoal especializado em rapel e corte.

Uma moita de bambu gigante mal localizada requer uma equipe especializada, tanto para cortar, como para
direcionar a caída das varas que chegam a pesar 160 quilos. Após o corte as varas devem ser arrastadas
para um local apropriado para limpeza e tratamentos iniciais.

A vara a ser cortada deve estar desembaraçada na parte de cima, com caída adequada para ser retirada. Se
uma vara pesada embaraça na copa ou cai para dentro da moita, é necessário muita força para retirá-la.
Alguns bambuseiros usam motores e cabos de aço para puxar as varas em locais inacessíveis.

Relatamos nossas experiências práticas com o bambu. Existem muitos manuais de pesquisadores do
assunto à disposição na literatura especializada que podem divergir de nossa prática. Com todo o respeito,
seguimos as orientações desses manuais e tiramos nossas conclusões, com as mãos na massa.

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