You are on page 1of 44

ANO 12 / NÚMERO 135 R$ 14,90

20 28 34
UMA SENTENÇA PARA INTIMIDAR ALTERNATIVA À PROIBIÇÃO ENTREVISTA ESPECIAL
A CONDENAÇÃO DE 23 SUÍÇA OFERECE FERNANDA
MANIFESTANTES DE JUNHO HEROÍNA A USUÁRIOS MONTENEGRO
POR GUILHERME GONÇALVES E MARTA MACHADO POR CÉDRIC GOUVERNEUR POR GUILHERME HENRIQUE

LE MONDE
00135

9 771981 752004

diplomatique
BRASIL
2 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

VOTAÇÃO DECIDE DESTINO DE TRUMP

Sobre a democracia
nos Estados Unidos
POR SERGE HALIMI*

O
mundo não acabou com a polí- Como resultado, as duas partes deixa-
tica norte-americana... Até ago- ram de lado as regras não escritas de
ra, as eleições de meio de man- seu enfrentamento – a “democracia
dato raramente eram decisivas, norte-americana”, da qual eles eram
mesmo quando provocavam uma re- tão orgulhosos que a apresentaram co-
versão da maioria. Em 1994, o tsunami mo modelo para todo o planeta.
republicano acabara sobretudo com a Quando não o chamam taxativa-
resistência dos democratas à política mente de fascista, muitos democratas
penal repressiva e à estratégia de livre- veem em Trump um “cachorrinho de
-comércio de seu presidente; em 2010, Putin”, que deve sua vitória a um siste-
o avanço conservador do Tea Party pa- ma de votação deturpado em detri-
ralisou Barack Obama, mas em um mento deles (o que não é mentira) e às
momento em que seu slogan de cam- fake news elaboradas por Moscou (um
panha, “Esperança e mudança”, já era exagero associado a uma obsessão).
apenas a lembrança amarga de uma Se o partido deles se tornar majoritá-
oportunidade perdida.1 rio no Congresso, será tentado a mul-
Em contrapartida, a eleição legisla- tiplicar as comissões de inquérito e
tiva de 6 de novembro próximo marca- iniciar um procedimento de destitui-
rá uma nova etapa da polarização polí- ção do presidente.2
tica dos Estados Unidos, esse turbilhão Tal perspectiva reforça a ira dos de-
que precipitou nos últimos dois anos a fensores de Trump, ainda numerosos,
desestabilização da ordem internacio- fervorosos e dispostos a acreditar que
nal. A votação determinará o destino estão sendo perseguidos. Segundo
do ocupante da Casa Branca. Decidido eles, mesmo que o balanço econômico

© Cau Gomez
a marcar presença em 2020, Donald de seu herói seja lisonjeiro, a mídia, as
Trump obceca tanto cada um dos dois elites intelectuais e o “Estado profun-
campos que se poderia acreditar que do” estão empenhados em impedi-lo
ele lhes devorou o cérebro. Seus oposi- de governar. Longe de derrubá-los,
tores o acusam de ser um traidor que uma derrota em novembro próximo os
procura minar a Otan e os valores de- encorajaria a acreditar que essa cabala,
1 Ler Eric Alterman, “Le procès de M. Barack Oba-
mocráticos do Ocidente. Ele retruca a fraude eleitoral e o voto de imigrantes em acreditar nisso, já que a oligarquia é ma” [O julgamento de Barack Obama], Le Monde
que seus acusadores são os auxiliares ilegais são a causa de seus reveses. seu regime comum. Mas o conteúdo Diplomatique, out. 2011.
das gangues da América Central, os Dois em cada três eleitores estão real de seu confronto, personalizado ao 2 O que só teria sucesso se dois terços dos senado-
res votassem a favor.
MS-13, que espalham o terror nos Esta- convencidos disso a partir de agora: “O extremo, sugere que a salvação desse 3 Setenta e cinco por cento dos democratas e
dos Unidos. Ampliados pelas redes so- sistema é manipulado em detrimento norte-americano médio não é para já. quase 60% dos republicanos acham isso. Ge-
ciais, esses arroubos de paranoia tor- do norte-americano médio”; republica- rald Seib, “The dangers of losing faith in demo-
cracy” [Os perigos de perder a fé na democra-
naram-se uma música de fundo sem nos e democratas concordam, pelo me- *Serge Halimi é diretor do Le Monde cia], The Wall Street Journal, Nova York, 4 jul.
nenhuma interrupção pós-eleitoral. nos, sobre esse ponto.3 Eles estão certos Diplomatique. 2018.

MINISTÉRIO DA CULTURA, PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, SECRETARIA MUNICIPAL


DE CULTURA, LEI MUNICIPAL DE INCENTIVO À CULTURA – LEI DO ISS,
PROJEÇÕES AO AR LIVRE
EDENRED E TICKET, SOFITEL HOTELS & RESORTS EAV PARQUE LAGE
APRESENTAM
27 OUT - 8 NOV
NOS CINEMAS EM TODO O BRASIL
2018/2019
A emoção da ópera ao ar livre,
uma experiência mágica!
Confira a programação:
www.operanatela.com
Patrocínio Master Patrocínio Copatrocínio Realização
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 3

EDITORIAL

Os limites da barbárie
POR SILVIO CACCIA BAVA

© Claudius
E
stá chegando o momento das dápio ultraliberal proposto por seu leiras. Esses investimentos no social que se acelerou desde a crise de 2008,
eleições e é preciso apresentar as Posto Ipiranga, propõe liberar a polí- são também para aquecer a economia os organismos internacionais e os go-
opções de voto como elas de fato cia para matar, defende a tortura, o fu- para sairmos da crise. Entendem que a vernos nacionais foram capturados e
são, não apenas como aparecem. zilamento da oposição, defende elimi- reforma da Previdência é necessária, submetidos aos seus interesses. E co-
Não se trata de discutir apenas nar cada conquista civilizatória de mas tem de ter outro perfil, garantindo mo ainda não há quem possa com
qual é a pessoa mais capaz, com mais direitos humanos incluída na Consti- os recursos constitucionais a ela desti- eles, buscam transformar em oportu-
experiência, mais honesta, mais nego- tuição, adotando o “modo filipino de nados. Poderíamos denominá-los co- nidade de lucro a satisfação de toda
ciadora, mais tolerante, ou mais qual- governar”. Esses candidatos não que- mo o campo da defesa da democracia e necessidade humana. Pois a Coca-Co-
quer outra coisa. Uma pessoa não go- rem ver sua imagem associada ao go- dos direitos humanos. la e a Nestlé não estão disputando
verna sozinha o Brasil. Trata-se de verno Temer, buscam omitir sua iden- A viabilidade dessas propostas se quem compra o Aquífero Guarani do
desvendar quem e que interesses essas tidade com o MDB e PSDB, os artífices baseia na construção de uma demo- governo Temer?
pessoas representam, e o que farão do golpe que jogou o país na recessão e cracia participativa, de novo tipo, uma Os sistemas financeiros são hoje
com o governo do Brasil, se eleitas. na crise política que vivemos hoje. Es- verdadeira socialização do poder que instituições poderosas, comandam os
Os candidatos da direita – que cos- ses partidos, hoje, contam, cada qual, fortaleça o governo e torne possível as governos, submeteram a democracia a
tumam chamar-se de “centro-direita” com 4% de preferência do eleitorado. mudanças necessárias. Propõem a co- seus interesses, e não têm a mínima
ou de “centro“ – são os ultraliberais e E aqui já se demarca uma narrati- brança de tributos sobre os mais ricos, consideração ou respeito pelos direitos
estão presentes em vários partidos. va. Não foi o governo Dilma que jogou sobre o lucro das empresas, além de ta- humanos, pela democracia e pelo terri-
Para eles o que importa não é discutir o país na recessão, como dizem os jor- par também os ralos da sonegação fis- tório. Para garantir o lucro aos seus
os seus programas de governo, pois nais de grande circulação e as TVs. cal. Nesse campo se alinham Fernan- acionistas promovem uma verdadeira
seriam rechaçados pela grande maio- Apesar dos erros da presidenta, foi a do Haddad, Ciro Gomes e Guilherme devastação nos direitos sociais e no
ria do eleitorado. O que eles querem é sabotagem deliberada da maioria con- Boulos, como os mais significativos. meio ambiente. É por meio de suas
que tudo que é indispensável para a servadora do Congresso que provocou Marina Silva transita entre esses ações que podemos entender o sentido
vida vire mercadoria, privatizando a recessão, como agora reconhece um dois blocos, ora identificando-se com atual do que é a barbárie: desemprego,
saúde, educação, serviços públicos, dos principais líderes do PSDB, o sena- um, ora com outro. precarização das relações de trabalho,
estatais de infraestrutura, recursos dor Tasso Jereissati. O que nos falta agora é o projeto da cortes nas pensões dos aposentados,
naturais, e o que mais for do interesse O que propõe o lado de cá, que se social-democracia, que no século XX redução do orçamento público na saú-
do mercado. Querem também rebai- opõe à direita ultraliberal? A proposta é estabeleceu um pacto distributivo en- de, na educação e nas políticas de as-
xar os salários, gerando desemprego, a melhoria das condições de vida das tre as classes dominantes e as classes sistência social, paralisação das políti-
precarizando as relações de trabalho, maiorias e uma agenda de ações contra populares, em que a concentração cas de habitação popular, fim das
reduzindo as aposentadorias, crimi- a desigualdade, pela redução da pobre- crescente das riquezas pelas elites não políticas de transferência de renda, fim
nalizando os movimentos sociais e za, pela preservação das riquezas natu- impedia que algo fosse direcionado do aumento real do salário mínimo.
quebrando as pernas dos sindicatos rais, pela soberania nacional, para que aos mais pobres, atendendo suas ne- Colocar limites à barbárie depende
para que não protestem. o Brasil possa retomar a trilha do de- cessidades básicas. Foi o que deu ori- da resistência da cidadania organizada
Como essas políticas concentram a senvolvimento com justiça social. Isso gem ao New Deal, ao Welfare State. É o e dos partidos e movimentos que se ar-
riqueza e disseminam a pobreza e a fo- é exatamente o contrário da privatiza- que dá suporte a uma democracia libe- ticulam na defesa dos direitos. Essa é a
me, esses candidatos querem estar li- ção e mercantilização geral de tudo e ral, ao reconhecimento dos direitos essência do bloco democrático popu-
vres de qualquer controle democrático todos, proposta pela direita. É a rein- humanos. Em alguns países esse mo- lar, que mobiliza na sociedade muitas
que possa limitar seus ganhos. Não venção do sentido de público e dos delo avançou tanto que melhorou esperanças, muitas aspirações, e tem o
enxergam limites para a espoliação bens comuns. Seus programas buscam muito a qualidade de vida de todos. desafio de oferecer aos cidadãos e cida-
das maiorias e é isso que configura ho- garantir emprego para todos, melhora O dilema atual é justamente o fim dãs brasileiros uma alternativa de en-
je a barbárie. Representam esse cam- do salário mínimo, oferta por parte do desse pacto. Não há mais espaço para gajamento político e de governo, uma
po Geraldo Alckmin, Henrique Meirel- Estado de educação, saúde, assistência a social-democracia e a democracia li- nova democracia participativa que en-
les, João Amoedo, Álvaro Dias, entre os social, como políticas públicas univer- beral dá sinais de esgotamento em to- volva a todos e garanta a governabili-
mais significativos, liderados por Jair sais e gratuitas, direitos a serem asse- do o mundo. Com a concentração do dade, sem perder sua identidade com o
Bolsonaro. Esse último, além do car- gurados a todos os brasileiros e brasi- poder nas mãos do capital financeiro, programa aprovado nas urnas.
4 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

CAPA

Justiça fiscal é possível


É tecnicamente possível que o Brasil tenha sistema tributário mais justo e alinhado com a experiência
dos países mais igualitários, preservando o equilíbrio federativo e o Estado social de 1988
POR EDUARDO FAGNANI*

A
tributação brasileira está na a tributação da renda pode subir de
contramão dos países capitalis- 5,97% para 10,27% do PIB, patamar
tas relativamente menos desi- próximo da média da OCDE (11,5% do
guais: é extremamente regressi- PIB); a tributação do patrimônio pode
va, porque incide sobre o consumo, passar de 0,84% para 2,06% do PIB, fi-
não sobre a renda e a propriedade das cando ligeiramente acima da média da
classes abastadas. Não é verdade que OCDE (1,90% do PIB), mas distante de
nossa carga tributária seja elevada na diversos países, como os Estados Uni-
comparação internacional, mas é fato dos (10,3%) e o Reino Unido (12,6%),
que temos a maior carga tributária do por exemplo; a tributação do consumo
mundo que incide sobre o consumo e é pode declinar de 16,23% para 12,93%
repassada aos preços das mercadorias, do PIB, um pouco acima da média da
capturando parcela maior da renda OCDE (10,9% do PIB) (Gráfico 1).
dos pobres e parcela menor da renda Além disso, é tecnicamente exequí-
dos ricos. vel preservar as bases de financiamen-
Esse caráter regressivo fica eviden- to da Seguridade Social, ampliando sua
te pela baixa participação da tributa- progressividade mediante a elevação
ção sobre a renda na carga tributária dos tributos que incidem sobre a renda
no Brasil (18,3%), na comparação com (de 0,75% para 1,92% do PIB) e sobre as
a média dos 34 países que compõem a transações financeiras (de zero para
Organização para a Cooperação e o 0,59% do PIB), e a redução das que gra-
Desenvolvimento Econômico (OCDE) vam o consumo (de 4,55% para 2,71%
© Daniel Kondo

(média de 34,1%); e pela menor parti- do PIB) e a folha de pagamentos (de


cipação da tributação do patrimônio 5,65% para 4,94% do PIB) (Gráfico 2).
na carga tributária no Brasil (4,4%), na
comparação com a OCDE (5,5%). Em REDUZIR A DESIGUALDADE DE RENDA É POSSÍVEL
contrapartida, o caráter regressivo da Consideradas as simulações, pou-
tributação também fica evidente pela rem concluído um amplo diagnóstico brasileira da média dos 34 países que co se alteraria a participação dos entes
elevada participação dos tributos so- sobre a quase totalidade dos proble- compõem a OCDE e preservar e fortale- federados na arrecadação total: a
bre o consumo (49,7%), muito acima mas crônicos da tributação brasileira.1 cer o Estado social de 1988. Para isso, o União teria leve redução de receitas, e
da OCDE (32,4%). Segundo o novo estudo que será apre- diagnóstico foi aprofundado e estimou- os estados, o Distrito Federal e os mu-
No caso do Imposto de Renda da sentado ao debate público em outubro -se o impacto financeiro de cada uma nicípios teriam ligeira elevação.
Pessoa Física (IRPF), além da baixa ou de 2018, pode-se afirmar que: “É tecni- das ações propostas. Esse esforço de es- Com as mudanças propostas, o sis-
nula tributação das rendas do capital, a camente possível que o Brasil tenha timativa parece ser o primeiro na litera- tema tributário brasileiro deixaria de
alíquota máxima praticada no Brasil sistema tributário mais justo e alinha- tura disponível sobre o tema. ser regressivo e passaria a ser progres-
(27,5%) é bem inferior à média da OCDE do com a experiência dos países mais As simulações mostram que é possí- sivo, pois a desigualdade de renda cai
(43,5%), e sua participação na arrecada- igualitários, preservando o equilíbrio vel ampliar a progressividade, dado que após a tributação indireta, quando,
ção total é quase quatro vezes menor. federativo e o Estado social inaugura- se pode quase duplicar o atual patamar atualmente, ela aumenta: o coeficien-
do pela Constituição de 1988”. de receitas da tributação da renda, pa- te de Gini entre a renda disponível e a
UTOPIA, FABULAÇÃO E FANTASIA? O novo documento não se propõe a trimônio e transações financeiras, de renda após a tributação indireta3 se
Seria utópico imaginar que a tribu- apresentar uma proposta acabada de R$ 473 bilhões para R$ 830 bilhões (in- eleva na situação atual (de 0,591 para
tação sobre a renda total no Brasil pos- reforma tributária. O que ali se fez foi cremento de R$ 357 bilhões), e, em con- 0,612) e declina na situação proposta
sa ser próxima do patamar da Itália e um exercício de redistribuição das ba- trapartida, reduzir a tributação sobre (de 0,591 para 0,571).
do Japão (em torno de 31% da carga tri- ses de incidência da tributação brasi- bens e serviços e sobre a folha de paga- Ao contrário do que pretende o
butária)? Seria fabulação acreditar que leira, pela redução das bases regressi- mentos em R$ 310 bilhões (Tabela 1). senso comum, a carga tributária brasi-
a tributação sobre o patrimônio possa vas que incidem sobre o consumo e O documento detalha como esses leira (32,4% do PIB, em 2015) é inferior
estar em linha com a praticada na Es- elevação das bases progressivas que resultados foram apurados para os à observada na média dos países que
panha e na Bélgica (em torno de 8% do incidem sobre a renda, o patrimônio e seguintes componentes: Tributação integram a OCDE (34,1% do PIB), e es-
total)? Seria fantasia irrealizável proje- as transações financeiras. O objetivo é da Renda da Pessoa Física e da Pessoa se estudo não teve o propósito de apro-
tar a tributação sobre o consumo em propor, para o debate plural e demo- Jurídica; Retenções do imposto sobre ximar esses números. Entretanto, caso
padrões semelhantes aos que se verifi- crático com a sociedade, um desenho a renda não alocáveis nas pessoas fí- a sociedade brasileira esteja disposta a
cam em Portugal (38,4% do total)? fiscal mais justo que o atual. Registre- sicas e jurídicas; Tributação sobre o ampliar ligeiramente a carga tributá-
Do ponto de vista técnico, não há -se que a configuração que resultou patrimônio; Tributação das transa- ria, a reforma tributária, por seu po-
nenhuma limitação para que se alcan- das simulações realizadas é apenas ções financeiras; Tributação sobre tencial arrecadatório, pode ser um po-
cem essas equivalências. Essa é a con- uma entre diversas outras possibilida- bens e serviços; e Tributação sobre a deroso instrumento econômico para
clusão a que chegaram mais de qua- des de alcançar o mesmo propósito. folha de pagamentos. promover o ajuste fiscal, abrindo espa-
renta especialistas que trabalharam A análise foi orientada por três dire- Conclui-se que é possível aproxi- ços para revogar o teto dos gastos e
por mais de um ano com o intuito de trizes: ampliar a progressividade, apro- mar a tributação brasileira da média promover reforma não excludente da
responder a essas indagações, após te- ximar os componentes da tributação dos 34 países que compõem a OCDE:2 Previdência Social.
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 5

MUITO ALÉM DAS PROPOSTAS DE “SIMPLIFICAÇÃO” dos declarantes, cerca de 750 mil con-
TABELA 1. AUMENTO DA PROGRESSIVIDADE PELA MUDANÇA DA BASE DE INCIDÊNCIA:
No debate atual, a reforma tributá- tribuintes, que recebem mais de 40 sa-
SITUAÇÃO ATUAL E SITUAÇÃO PROPOSTA
ria tem sido tratada como sinônimo de lários mínimos mensais); para a maio-
Em R$ bilhões
“simplificação” do sistema de impos- ria das empresas do Simples (isenção ou
Valores de 2015 e estimativas
tos. Esse é o núcleo da agenda das cor- não incidência de tributos sobre a ren-
porações empresariais para as quais da); para as médias empresas (redução
Base de indidência Situação atual Situação proposta Diferença
uma suposta “simplificação” seria do Imposto de Renda e dos tributos
único requisito ainda faltante para cumulativos que incidem sobre o con-
elevar a eficiência econômica. sumo); para as médias e as grandes em- R$ R$ R$
Num país desigual como o Brasil, é presas (redução dos tributos que inci-
insuficiente essa suposta “simplifica- dem sobre a folha de pagamentos); e Renda (1) 352,305 606,084 253,779
ção”, que destrói o Estado social (prin- para todos os brasileiros e empresários
cipal instrumento de redução da desi- (redução da tributação sobre o consu- Patrimônio 85,697 158,700 73,003
gualdade de renda no país) e não mo, o que mitiga a complexidade e a
enfrenta o problema essencial da in- cumulatividade dos tributos, melhora Transações financeiras 34,686 65,381 30,695
justiça fiscal. a situação financeira das empresas,
Entende-se que a eficiência econô- grava menos as classes de média e bai- Total 472,689 830,165 357,476
mica é limitada, sobretudo, pela desi- xa renda, reduz a desigualdade e eleva
gualdade social extrema, visão respal- a eficiência econômica).
Bens e serviços 957,924 726,126 –231,798
dada por atores globais como FMI, Além disso, o estudo alerta para a
Comissão Econômica para América La- necessidade de recuperar parte dos
tina e Caribe (Cepal) e Oxfam Interna- 12,8% do PIB que são transferidos para Folha de salários 482,003 403,263 –78,740
cional. Enfrentar a desigualdade é in- as classes mais abastadas pela via por
dispensável e inadiável (o Brasil ocupa a meio das isenções fiscais e da sonega- Total 1.439,927 1.129,390 –310,537
nona pior posição em termos de con- ção, o que possibilitaria reduzir ainda
centração de renda, entre 189 países).4 mais a tributação sobre o consumo ou Outros 15,567 15,567 0
O estudo “simplifica” a tributação evitar a criação de novas fontes de finan-
e, ao mesmo tempo, preserva o Estado ciamento da Seguridade Social, manten- Total 1.912,616 1.959,554 46,939
social e amplia a progressividade. O do-se inalterada a carga tributária.
Imposto sobre o Valor Adicionado Conclui-se que não há limitação (1) Inclui o acréscimo de arrecadação na rubrica de Imposto de Renda Retido na Fonte – Não Residentes
de, pelo menos, 0,12% do PIB, ou aproximadamente R$ 6,9 bilhões.
(IVA), de competência estadual, a ser técnica para ampliar a progressivida-
implantado por legislação nacional, de do sistema tributário. O desafio a
simplifica sobremaneira o atual qua- ser superado é de natureza política. GRÁFICO 1. INCIDÊNCIA DA TRIBUTAÇÃO EM % DO PIB
dro “caótico, ultrapassado e oneroso”, A questão inescapável, que tem de Comparativo da situação atual, situação proposta e média da OCDE
caracterizado por uma parafernália de orientar esse debate, é: qual modelo Valores de 2015
normas: 27 leis estaduais (ICMS) e de Estado a sociedade brasileira está
20,00 16,84
5.570 leis municipais (ISS). disposta a seguir: o modelo dos países
Percentual do PIB

É fácil “simplificar” tendo-se o Es- mais igualitários, que combinaram a 15,00 12,93
11,5 10,9
tado social como variável de ajuste, tributação progressiva com o Estado 10,27
8,16 9,4
mas é falsa simplificação, e simplifica- de bem-estar social, ou o modelo dos 10,00
6,83
5,97
ção insuficiente, porque o Estado so- países que fizeram as reformas libera-
5,00
cial tem papel central na redução das lizantes impostas pelo “mercado”, nos 2,06 1,9
0,84
desigualdades de renda no Brasil. quais o Estado perdeu até mesmo as 0,00
Para financiar o Estado social de condições para cumprir suas funções Renda Patrimônio Bens e serviços Folha de salários
1988 é necessário criar tributos de ou- mais elementares?
tro tipo (progressivos), em substitui- bases da incidência
ção aos que se pretende extinguir (re- *Eduardo Fagnani é professor do Instituto
gressivos). Entretanto, caso não se de Economia da Unicamp, pesquisador do SITUAÇÃO ATUAL SITUAÇÃO PROPOSTA MÉDIA OCDE
queira criar novos tributos, há alterna- Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho
tivas para financiar a Seguridade So- (Cesit-IE-Unicamp) e coordenador da rede
GRÁFICO 2. FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL: SITUAÇÃO ATUAL E SITUAÇÃO PROPOSTA
cial (11,3% do PIB): por exemplo, revi- Plataforma Política Social (www.plataforma-
Em % do PIB
sar as renúncias fiscais e combater a politicasocial.com). Blog pessoal: Economia
Valores de 2015 e estimados
sonegação, que transferem para as do Bem-Estar Social (http://fagnani.net).
classes de mais alta renda aproxima- 6,0
damente 12,8% do PIB. 5,651
O estudo é um convite para que se 4,948
5,0
abram novas frentes para o debate de- 4,551
mocrático sobre o tema. Esse objetivo já 4,0
Percentual do PIB

foi parcialmente alcançado, dado que,


após a divulgação das primeiras dire- 1 Eduardo Fagnani (org.), A reforma tributária neces- 3,0
trizes desse projeto, em abril de 2018, sária: diagnóstico e premissas, Anfip/Fenafisco/
Plataforma Política Social, Brasília/São Paulo, 1,922 2,170
diversos temas que eram ausentes do 2018. Disponível em: <http://plataformapoliticaso- 2,0
debate passaram a fazer parte da cial.com.br/a-reforma-tributaria-necessaria/>.
2 Para efeitos de comparação, adotou-se o mesmo 1,0 0,756
agenda econômica de diversos candi-
critério da OCDE, que considera o imposto inci- 0,520
datos à Presidência da República. dente sobre veículos automotores como tributo que 0,0
incide sobre o consumo (ao contrário do Brasil, que 0,0
NOTAS FINAIS considera o IPVA como tributo sobre o patrimônio). Tributos sobre Tributos sobre Tributos sobre Tributos sobre
3 Consultar Fernando Gaiger Silveira, Equidade fis- a renda o consumo folha de pagamentos transações financeiras
O novo desenho da tributação bra- cal: impactos distributivos da tributação e do gasto
sileira apresenta vantagens para a social, Esaf/Tesouro Nacional, Brasília, 2012 (XVII
Prêmio Tesouro Nacional – 2012).
Bases de incidência
maioria da população (a nova tabela
4 ONU/Pnud, “Brasil mantém tendência de avanço
progressiva do Imposto de Renda só no desenvolvimento humano, mas desigualdades SITUAÇÃO ATUAL SITUAÇÃO PROPOSTA
aumentaria a tributação para 2,73% persistem”, 14 set. 2018.
6 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

CAPA

A classe média no espelho


Ao tornar a reprodução de privilégios invisível, a pseudociência liberal passa a ser manipuladora,
pois inverte causa e efeito, e legitima privilégios injustos como se fossem “mérito individual”, podendo,
inclusive, culpar as vítimas do abandono por sua própria exclusão
POR JESSÉ SOUZA*

© André Vallias

M
eu interesse, neste texto, é tanto, implicar nenhuma concessão à légio da classe média “real” entre gera- podendo, inclusive, culpar as vítimas
discutir alguns dos aspectos superficialidade. O pressuposto é o de ções que recebem de “presente”, pela do abandono por sua própria exclusão.
centrais desenvolvidos no que qualquer assunto, por mais com- socialização familiar específica da O foco unilateral na renda distorce
meu livro mais recente, A plexo que seja, pode se tornar com- classe, o sucesso escolar e posterior- toda a percepção das classes sociais e
classe média no espelho: sua história, preensível e atraente ao leitor médio mente o sucesso no mercado de traba- torna, por exemplo, literalmente invisí-
seus sonhos e ilusões, sua realidade, de- de boa vontade. lho. A renda diferencial da classe mé- vel a ação dos valores morais no com-
pois da publicação de A elite do atraso, Em um país que se acostumou a per- dia em relação às classes populares portamento prático das pessoas. As-
em 2017. O livro será lançado ainda em ceber as classes sociais por seu nível de também ajuda a aprofundar a desi- sim, além de dinheiro e poder, como
outubro de 2018, pela Editora Sextan- renda, é necessário que se diga que clas- gualdade, na medida em que as famí- estímulos pragmáticos ao comporta-
te. Ele é o resultado de uma pesquisa se social é, antes de tudo, um mecanis- lias de classe média podem comprar o mento prático de cada um de nós, é ne-
empírica e teórica realizada por mim mo de reprodução de privilégios no tem- “tempo livre” dos filhos apenas para o cessário reconstruir a hierarquia moral
entre 2015 e 2018. Seu objetivo é com- po, sejam eles positivos ou negativos. O estudo. Nas classes populares, os fi- “invisível”, composta por “ideias valo-
preender essa classe social funda- problema é que muitos privilégios posi- lhos começam a trabalhar e a estudar rativas” fundamentais, que também
mental e desvelar sua história, sua di- tivos, como a posse de conhecimento aos 12 ou 13 anos. Mas a injustiça já co- nos comandam no dia a dia tanto ou
ferenciação e hierarquia interna e seu valorizado – precisamente o tipo de ca- meça no berço e se mostra aos 5 anos, mais que dinheiro ou poder. Essa di-
papel tanto econômico quanto social pital monopolizado pela classe média quando uns chegam como vencedores mensão é universal e está presente em
e político nos últimos cem anos de real –, são literalmente invisíveis para a e outros como perdedores à escola. todas as sociedades modernas, ao con-
história brasileira. maioria. Para poder aprender de verda- Ou seja, a “renda” que a classe mé- trário do que pensa nosso mito “vira-la-
O livro combina a análise histórica de na escola é necessário ter tido em ca- dia adulta aufere só existe por conta ta”, que imagina o Brasil como um pla-
e teórica das transformações dessa sa, desde tenra idade, todos os estímu- dessa reprodução invisível de privilé- neta verde e amarelo cuja singularidade
classe social fundamental com o re- los emocionais e morais (também gios positivos na infância e na adoles- é comandada pela corrupção apenas
sultado de centenas de entrevistas tornados invisíveis), sem os quais não cência. É isso que explica a renda dife- do Estado em tese “patrimonial”.
empíricas realizadas com pessoas de existe real aprendizado. Ninguém nas- rencial dos indivíduos da classe média O indivíduo supostamente livre
todas as frações da classe média. As ce com capacidade de concentração, em relação aos das classes populares. que se classifica socialmente pela ren-
entrevistas foram depois amalgama- disciplina e autocontrole, amor à leitu- Ao tornar a reprodução de privilégios da enigmaticamente produzida es-
das para formar os tipos sociais mais ra, pensamento prospectivo ou capaci- invisível, a pseudociência liberal passa conde, na verdade, o racismo como
característicos dessa classe. Tudo isso dade de pensamento abstrato. a ser manipuladora, pois inverte causa um dado universal das relações so-
combinado em linguagem acessível e Em seu conjunto, essa “herança e efeito, e legitima privilégios injustos ciais no mundo inteiro. Racismo, por-
compreensível ao leitor, sem, no en- imaterial” permite reproduzir o privi- como se fossem “mérito individual”, tanto, não pode ser reduzido ao “racis-
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 7

mo racial”, por mais importante que te” para funcionar melhor. Assim, te- mas também aos gestores e superviso- aconteça. Nós a oferecemos, agora de
ele seja. Não perceber esse fato funda- mos um racismo de classe que torna res do trabalho, de níveis superiores e graça, para quem lucra com ela.
mental é se condenar a não compreen- invisível todos os fatores que cons- intermediários, que perfazem boa A nova opressão do capitalismo fi-
der nada de importante no mundo so- troem todos os privilégios e que nem parte da classe média, seja a alta, seja a nanceiro é eficaz, posto que se vende
cial. O racismo que se aplica à “raça” é sequer é percebido como racismo. massa da classe média. como liberdade. Ela não censura, não
apenas a forma mais visível de um ra- Essa moralidade invisível está por A grande novidade da estratégia de silencia, não impede, não proíbe. Ela
cismo muito mais amplo e universal. trás de todo o nosso comportamento poder do capitalismo financeiro é que não ativa nenhum dos dispositivos de
Afinal, a operação do “dispositivo de prático. Diz-nos, por exemplo, de ela se vende como “liberdade” e como dominação que normalmente asso-
poder racista” se aplica a qualquer se- quem devemos ser amigos, com quem “autorrealização”. A colonização de ciamos ao exercício do poder. Ao con-
paração entre “gente” e “subgente”. devemos nos casar, com quem deve- todo vocabulário “expressivista” e da trário, ela nos estimula a contar nossa
No Ocidente, a noção de “gente” é mos fazer negócios e quem são nossos ética da autenticidade individual, vida, a nos comunicarmos, a mostrar
sempre associada ao “espírito”, como parceiros na manutenção da vida co- transformados de sua dimensão ética nossos desejos e preferências; somos
lugar da inteligência, da disciplina e da mo ela é. Por oposição, diz-nos quem e finalista em pragmática e instru- nós mesmos que nos entregamos a
moralidade, e a noção de “subgente” é devemos evitar e com quem devemos mental, serve precisamente a esse quem nos explora sem custo. Isso tudo
sempre associada ao “corpo”, como ter apenas relações passageiras de ser- fim. O mecanismo de poder mais efi- como se estivéssemos curtindo, gos-
emoção irracional e trabalho animali- viços. O livro desvela de modo claro e ciente é o que se vende como “liberda- tando, fruindo nossa liberdade indivi-
zado. O racismo “racial” é, portanto, compreensível, sempre utilizando de individual”. O trabalhador redefi- dual. Esse é o novo ambiente de um
apenas uma das formas possíveis de ra- exemplos concretos retirados da vida nido como “colaborador” ou como poder que é tanto mais eficaz precisa-
cismo. A mesma separação operada en- cotidiana, como somos comandados “empresário de si mesmo” serve para mente porque não se mostra como
tre o branco percebido como “espírito” por essa “hierarquia moral” que sepa- mostrar que o antigo capataz e o vigi- “poder”. As trajetórias de vida discuti-
e do negro percebido como “corpo” se ra as classes do privilégio, como a clas- lante do trabalho, juntamente com a das no livro permitem adentrar de mo-
aplica às classes superiores em relação se média, das classes populares. subordinação explícita que ele enseja- do concreto e cotidiano na nova forma
às classes populares, aos homens em A ideia subjacente é a de que nosso va, finalmente morreram. Hoje, no ca- de dominação econômica, social e po-
relação às mulheres, e às culturas ditas comportamento concreto é muito mais pitalismo financeiro triunfante, so- lítica que se tornou hegemônica.
superiores, do Norte global, em relação importante, para definir quem somos e mos todos, finalmente, empresários. Por que não percebemos o poten-
às ditas atrasadas, do Sul global. como agimos do que as ideias conscien- Como muitos são “autônomos” – ob- cial patológico desse novo capitalis-
Por conta desse racismo generali- tes que temos na cabeça. Se essas hie- serve o nome que evoca liberdade e mo? Para esclarecer essa questão é ne-
zado e tornado invisível, toda a dimen- rarquias morais são universais, a forma autonomia, como tudo na semântica cessário partir de uma reflexão
são “simbólica” da desigualdade que como esses princípios funcionam em da nova época hoje em dia, inclusive fundamental de um dos maiores filó-
permite e justifica a renda diferencial é uma sociedade de passado escravocra- na classe média – e devem ao banco o sofos do capitalismo: o pensador ale-
tornada secundária. Além disso, a ren- ta como a nossa ajuda a explicar – mais início de sua atividade ou negócio, o mão Georg Simmel. Em um de seus
da nunca é o único privilégio que vive do que qualquer culturalismo “vira-la- patrão se torna crescentemente abs- textos seminais,2 Simmel percebe que
do racismo não percebido. Tão impor- ta” – nossa distância em termos de trato e imaterial. a “sensação de liberdade” só é possível
tante quanto ele é o prestígio social, aprendizado moral em relação às socie- quando estamos transitando de uma
que condiciona tanto o reconhecimen- dades mais igualitárias. situação social para outra. Afinal, não
to social dos outros em relação a nós A segunda parte do livro se refere à existe “liberdade” enquanto tal, ou se-
quanto nossa própria autoestima e au- gênese histórica da classe média no É necessário que ja, enquanto ausência de qualquer tipo
toconfiança. Na verdade, as noções de Brasil. O livro mostra como a oposição se diga que classe de constrangimento. Estamos sempre
“personalidade sensível” e “produtivi- entre “alta classe média” e “massa da inseridos em um contexto que nos li-
dade útil” comandam nossa vida e classe média” se constrói no começo
social é, antes de tudo, mita, nos constrange e nos obriga.
nossas escolhas tanto ou mais que di- do século XX e opõe essas frações tan- um mecanismo A “sensação de liberdade”, portan-
nheiro e poder. Toda legitimação da to na dimensão econômica quanto na de reprodução to, é peculiar a épocas de transição, co-
desigualdade social assume a forma dimensão política. Nesse sentido, as de privilégios mo a nossa, quando as antigas limita-
compósita da “sensibilidade diferen- clivagens verticais na classe média são ções percebidas como aprisionamento
cial”, exibida nos hábitos de consumo, mais importantes que as clivagens ho-
no tempo são substituídas por outros tipos de
na forma de andar, falar e se expressar, rizontais, como a reconstrução histó- constrangimento. Nesse meio-tempo,
e do “desempenho diferencial”, expli- rica de longa duração dessa classe, le- entretanto, enquanto os novos cons-
citando a maior importância relativa vada a cabo no livro, demonstra. O Por conta disso, se temos metade trangimentos não são ainda percebi-
do conhecimento em relação ao esfor- mais interessante é que essas cliva- das empresas brasileiras e a maior dos enquanto tais, eles podem ser tan-
ço muscular. gens entre as frações de classe da clas- parte da população endividada até o to percebidos por suas vítimas quanto
Admira-se o “bom gosto” de quem se média explicam em boa medida a pescoço, hoje em dia1 isso não provoca “vendidos” por seus algozes como se
entende de vinhos, de quem anda de conjuntura atual que atravessamos. reação nem rebelião organizada nas fossem liberdade real e efetiva. Esse li-
modo elegante, de quem fala de modo Esses elementos combinados pre- pessoas. O novo dispositivo e as novas vro, talvez o melhor e o mais claro que
articulado, de quem se expressa sem cisam ainda ser acrescidos de um as- estratégias de poder do capitalismo fi- tenha escrito na minha vida intelec-
dificuldades. Isso cria uma “solidarie- pecto fundamental: o “espírito da épo- nanceiro são invisíveis para suas víti- tual, procura compreender o que há de
dade” imediata e invisível entre todos ca”, representado pela revolução mas, daí sua extraordinária eficácia. É mais universal e abstrato para ilumi-
que compartilham desse “estilo de vi- simbólica neoliberal posta em prática um poder que se exerce de modo sutil nar, com exemplos concretos, a vida
da”. Cria também uma animosidade e pelo capitalismo financeiro, hoje do- e “sedutor”, que se vende como liber- que a classe média brasileira vive coti-
um preconceito contra todos os “ani- minante. O livro analisa a combinação dade e autonomia individual. O Face- dianamente, sem ter tempo de refletir
malizados” que não compartilham do complexa desses elementos em lin- book é a metáfora perfeita para esses sobre ela.
mesmo mundo. Assim, o “racismo de guagem acessível e clara para qual- novos tempos e suas novas estratégias.
classe” funciona de modo invisível e, quer leitor. O instante histórico atual é Todo o aparato de vendas comerciais *Jessé Souza é sociólogo e autor, entre ou-
precisamente por conta disso, de mo- simbolizado pelo auge da dominação construído com precisão de alfaiate tros, de A elite do atraso: da escravidão à La-
do muito eficiente. simbólica, social e econômica do capi- para as necessidades de cada um de va Jato (Leya, 2017) e A classe média no es-
A “ética do desempenho”, por sua tal financeiro. O capitalismo financei- nós é produzido por “curtidas” que pelho: sua história, seus sonhos e ilusões,
vez, repete, no mundo do trabalho, a ro cria não só uma forma específica de nós próprios fazemos sem nenhum sua realidade (Sextante, 2018), a ser lançado
mesma oposição que enseja solidarie- acumulação de capital, com um ritmo custo para a plataforma comercial. Is- em outubro.
dade entre os de cima e o preconceito e uma lógica peculiar, mas também so tudo sob a aparência ingênua e con-
contra os de baixo. As classes do traba- uma semântica, uma concepção de fe- fiável da troca de informações entre 1 Vitor Abdala, “Percentual de famílias endivida-
lho intelectual se veem como “supe- licidade pessoal e uma “narrativa” de amigos e familiares. Ninguém precisa das sobe de 59% para 62,2%”, Agência Brasil,
5 jan. 2018.
riores” às classes do trabalho manual. vida social inteiramente nova. Essa invadir mais de modo ilegal nossa pri- 2 Georg Simmel, Das Individuum und die Freiheit [O
Tudo de modo invisível e “inconscien- narrativa se aplica aos trabalhadores, vacidade, ainda que isso também indivíduo e a liberdade], Essais, Wagenbach, 1992.
8 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

GUERRA COMERCIAL, TENSÕES ESTRATÉGICAS

China e Estados
Unidos, até onde
vai a escalada
de sanções?
Em cruzada contra as importações, Donald Trump
ameaça sobretaxar todos os produtos chineses que
entram nos Estados Unidos. O presidente espera formar
uma frente com a Europa contra Pequim. A China, por
sua vez, procura se livrar da influência ocidental em sua
economia acelerando sua modernização e encontrando
novos mercados, especialmente com as “rotas da seda”
POR MARTINE BULARD*

E
stados Unidos e China resolve- surpreendida pela blitz protecionista mo Global Times: “A curto prazo, os Es- mercial, mas temos condições de en-
ram declarar guerra (comercial), de Trump, além de ter subestimado a tados Unidos não vão desistir de conter frentá-la se acontecer”, garante Yifan.
e nada parece impedi-los. Do- ascensão do sentimento antichinês na a China. [O conflito] pode, portanto, ser
nald Trump começou por amea- elite norte-americana”.2 E vale citar resolvido por meio de nossos esforços EUA BRINCAM DE ESTAR ASSUSTADOS
çar aqueles que “estão nos roubando” um antigo conselheiro político dos Es- para sermos discretos e ajustar nossa Como outrora Tóquio, Pequim
(18 abr. 2017), recebendo uma adver- tados Unidos: “Para compreender a atitude diplomática e pública”.5 O jornal também apostou nas exportações, que
tência de Xi Jinping: “Não se pode es- política de Washington, Pequim con- faz referência direta à doutrina do pai por muito tempo foram o motor de seu
perar que a China engula sapos em fia demais em Wall Street e na elite po- das reformas, Deng Xiaoping, que de- crescimento. Para sair da estagnação e
função de seus interesses” (18 out. lítica (incluindo Henry Kissinger, que fendia “esconder seus talentos e esperar do declínio do período maoista, no fi-
2017).1 Da escalada verbal, logo pas- ajudou a abrir as relações entre os dois sua hora”. Já o atual presidente, ao con- nal da década de 1970, os dirigentes co-
samos para o mecanismo das san- países) – pessoas que não têm nenhu- trário, optou por afirmar-se no cenário munistas usaram as ferramentas que
ções aduaneiras. Washington elevou ma influência sobre Trump”. internacional como o número um de tinham à disposição: mão de obra nu-
as tarifas (de 10% para 25%) sobre De fato, os negociadores chineses, um “grande país” – para usar suas pala- merosa, educada, disciplinada e mal
uma série de importações chinesas; liderados pelo homem de confiança do vras –, falando com os Estados Unidos paga; capital estrangeiro em busca de
Pequim reagiu. presidente, Liu He, pensavam ter che- de igual para igual. novos mercados; instituições interna-
Iniciada no primeiro semestre, a gado a um acordo em maio, prometen- As discussões não foram totalmen- cionais interessadas em derrubar as
novela continuou durante o meio do do elevar as compras de energia e de te suspensas. No final de agosto, uma travas de proteção das economias do
ano e ameaça ir muito além da virada produtos agrícolas, além de oferecer às delegação liderada pelo vice-ministro Velho Mundo. “A China hesitou em re-
para 2019. No final de agosto, o equiva- empresas estrangeiras – particular- do Comércio, Wang Shouwen, viajou unir-se, em 2001, à Organização Mun-
lente a US$ 100 bilhões de produtos mente dos Estados Unidos, claro – a para Washington. Ninguém esperava dial do Comércio [OMC]”, reconheceu
chineses (aço, alumínio, químicos, possibilidade de compor maioria em resultados, e não houve nenhum. o presidente Xi no Fórum de Davos de
têxteis, eletrônicos) foi sobretaxado ao companhias chinesas. Muito pouco, e Wang foi chamado de “valentão co- janeiro de 2017. “Mas concluímos que
entrar nos Estados Unidos, medida lo- tarde demais. De acordo com a agên- mercial” (trade bully) por autoridades era necessário ter a coragem de nadar
go seguida por um aumento das tari- cia financeira norte-americana dos Estados Unidos. Veja quem desen- no grande oceano dos mercados mun-
fas chinesas sobre US$ 50 bilhões de Bloomberg, “Trump parou o acordo”. coraja o diálogo... diais, e aprendemos a nadar”6 – tão
produtos norte-americanos (soja, car- Foi o suficiente para convencer a Chi- Para Yifan Ding, um dos assessores bem e tão rápido que o país alcançou o
ne suína, automóveis). Mais represá- na de que o presidente dos Estados econômicos do presidente chinês, a dobro do tamanho das economias
lias estão sendo preparadas. Da parte Unidos “não desistirá até bloquear a agressividade dos Estados Unidos lem- francesa, britânica, alemã e japonesa.
dos Estados Unidos, foi elaborada uma ascensão chinesa”.3 bra a ofensiva lançada na década de Seu PIB chegou a US$ 11,2 trilhões em
lista com 1.300 produtos, para um va- O sentimento é amplamente com- 1980 pela administração Reagan “con- 2016, contra US$ 18,569 trilhões nos
lor possível de US$ 200 bilhões (de um partilhado entre as elites chinesas. O tra o Japão, então segunda maior eco- Estados Unidos. Há quem pense, so-
total de US$ 505,6 bilhões em importa- debate (muito abafado) gira basica- nomia do mundo”. Com tarifas alfan- bretudo em Washington, que a China
ções em 2017). Da parte da China, fo- mente em torno de como operar com o degárias exorbitantes (até 100% sobre está em posição de ultrapassar os Esta-
ram indicados 150 produtos, que po- amigo da América do Norte. Alguns, co- televisores e aparelhos de videocasse- dos Unidos. No linguajar florido pelo
dem representar US$ 60 bilhões (de mo o diretor do Centro de Estudos Ame- te) e forçando uma elevação das taxas qual é conhecido, o presidente Trump
US$ 128 bilhões de produtos norte-a- ricanos da Universidade Renmin, em de juros japonesas, os Estados Unidos lançou: “Todos os imbecis obcecados
mericanos em 2017). Pequim, Shi Yinhong, acreditam que conseguiram “dobrar” o país, a ponto pela Rússia deveriam estar se preocu-
A julgar pelo que dizem os mem- esse confronto “se deve em grande par- de levá-lo a uma depressão da qual ele pando é com a China”.7 Ele marcou um
bros de alguns círculos de Pequim e te à China, que durante anos não fez na- ainda não se recuperou completamen- ponto, em agosto, com a lei de defesa
© Alves

Hong Kong, que preferem não falar pu- da a respeito”,4 e recomenda cautela. te... Um cenário inconcebível para os nacional aprovada pelo Congresso (in-
blicamente: “A China parece ter sido Um falso problema, explica o oficialíssi- chineses: “Não queremos guerra co- clusive pela maioria dos democratas),
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 9

que faz da China e da luta para “frear de sua produção. É lamentável que as confirma tais fanfarronices. As impor- cina, novos materiais e energia). Os
sua influência” a “grande prioridade autoridades não tenham tido tanto ze- tações chinesas continuam subindo, gastos com pesquisa e desenvolvi-
dos Estados Unidos, [que] requer a in- lo para proteger sua população contra 27,3% entre julho de 2017 e julho de mento, públicos e privados, acompa-
tegração de múltiplos elementos, espe- o aumento da desigualdade e da polui- 2018 – o que implica uma atividade nharam: eles são mais de 2,3% do PIB.
cialmente diplomáticos, econômicos, ção; mas não é isso que aparece no ro- sustentada. Quanto às exportações, Naturalmente, o governo queria en-
militares e de inteligência”.8 Não esta- sário de queixas apresentadas por elas se mantêm em ascensão – menos curtar o tempo de aquisição das tec-
mos falando só de comércio... Trump e seus amigos. rápida, mas ao respeitável ritmo de nologias do futuro, comprando em-
No entanto, não há dúvida sobre a O que os incomoda é que “o Parti- 12,2% ao ano. presas no exterior; mas os Estados
superioridade dos Estados Unidos em do Comunista Chinês não foi domado Unidos vetaram, e alguns governos
todos esses campos (tecnológico, eco- pelo comércio. O Partido-Estado exer- O SONHO DE UMA COALIZÃO ASIÁTICA europeus, como o da Alemanha, im-
nômico, diplomático e militar) e, em- ce firme controle sobre a economia Claro que esse confronto não será puseram restrições. No entanto, há re-
bora o Império do Meio cresça em alta chinesa”, afirma o economista Brad indolor. As vendas para os Estados servas financeiras suficientes para
velocidade, seu PIB per capita não che- W. Setser.10 Em outras palavras, ali os Unidos representam 20% do total des- prolongar a aposta na própria China.
ga a 15% do apresentado pelos Estados gigantes do capitalismo não podem sas exportações. Sua redução drástica Não houve anúncios fanfarrões, mas,
Unidos. No momento, a América brin- fazer negócio como bem entenderem. inevitavelmente resultará em cortes como explica Yifan, “o embargo dos
ca de estar assustada. Em compensa- Isso se aplica a setores tradicionais, de produção, em setores como o de Estados Unidos sobre os produtos ele-
ção, o superávit comercial chinês bate como a siderúrgica, mas também aos eletrônicos e têxteis, mas também na- trônicos colocou uma pulga atrás da
recordes: chega a US$ 276 bilhões, o gigantes da web, como Google, Ama- queles com sobrecapacidade, como o orelha das autoridades, porque a Chi-
equivalente a algo entre 35% e 40% da zon e Facebook, sendo a Apple a única setor de aço e o de produtos químicos. na é o maior mercado do mundo para
fatura comercial norte-americana. do Gafa [acrônimo dessas quatro em- Isso deve acelerar as reestruturações os chips norte-americanos. Em pouco
“Nossa indústria tem sido alvo, há presas] que conseguiu escapar. Com em curso, com o fantasma de movi- tempo, as empresas chinesas estarão
anos, até mesmo décadas, de ataques Alibaba, Tencent, Weibo e WeChat, a mentos sociais com consequências in- produzindo esses componentes... e a
comerciais injustos”, brada Trump. “E China desenvolveu de fato suas pró- calculáveis. Além disso, no final de um preço melhor”.
isso nos levou a fechar fábricas, altos- prias tecnologias. É verdade que as au- agosto, o primeiro-ministro Li Ke- Além de recuperar sua própria eco-
-fornos, demitir milhões de trabalha- toridades comunistas as usam para qiang prometeu US$ 100 bilhões em nomia, as autoridades chinesas têm
dores, dizimar comunidades.”9 censurar os oponentes, mas os 802 ajudas a empresas afetadas pelas res- dois objetivos: manter sua liberdade e
A desindustrialização, iniciada milhões de internautas (57,7% da po- trições comerciais. Mais que o impac- ganhar audiência no mundo, especial-
bem antes da chegada da China ao ce- pulação) e seus metadados conti- to direto sobre o crescimento – entre mente junto aos países em desenvolvi-
nário mundial, não entra na discus- nuam distantes do alcance do Gafa, o 0,1% e 0,2%, segundo os estudos feitos mento. A utilização por Trump de tec-
são. Nem a desesperança e a raiva do que faz da China um dos poucos re- pelos Estados Unidos –, é a sincroniza- nologias sob patente norte-americana
povo, que se volta cada vez mais para cantos no mundo a escapar de seu ção entre essas reestruturações e a e do “privilégio exorbitante do dólar” –
políticos autoritários e representantes controle. Eis por que o moderníssimo mudança para uma economia mais nas palavras de Valéry Giscard d’Es-
de extrema direita, tanto nos Estados Vale do Silício – bastião democrata – qualificada, planejada pelo governo, taing, em 1964 – para sancionar as em-
Unidos como na Europa e na Ásia. Isso está do lado do bom e velho rust belt que pode se revelar temível. presas que trabalham com o Irã e
não deve confundir o diagnóstico. Não – o “cinturão da ferrugem”, feudo do Por enquanto, a China exibe uma forçá-las à ruptura deve ter acabado de
são as “práticas injustas” que fizeram presidente dos Estados Unidos – e dos taxa de crescimento de 6,7% para o se- convencê-las a sair da armadilha da
o sucesso chinês – mesmo que elas gigantes da siderurgia. Eles “têm la- gundo trimestre de 2018, mais que a dependência. Elas inclusive disseram
existam, como mostram os inúmeros ços muito estreitos com diversos al- previsão oficial (6,5%). Esse número que a China continuará fazendo negó-
recursos à OMC. A China, que adora se tos funcionários” da administração destaca acima de tudo o nível necessá- cios com o Irã usando o yuan, em con-
gabar de seus resultados (800 milhões Trump, incluindo o representante do rio para absorver a mão de obra que formidade com acordos financeiros bi-
de chineses saíram da extrema pobre- comércio, Robert Lightizer, já presen- chega ao mercado de trabalho e evitar laterais. “Isso teria sido impossível sem
za), usou em seu favor regras criadas te na equipe de Reagan da década de um conflito social de grande enverga- a política de internacionalização de
pelos países mais poderosos, a come- 1980, como lembra uma reportagem dura. No entanto, faz muito tempo que nossa moeda”, enfatiza um economis-
çar pelos Estados Unidos. Nada, po- do jornal The New York Times.11 É mais as exportações não servem mais como ta de Pequim especializado em rela-
rém, obrigou os líderes ocidentais a uma questão de defender os acionis- locomotiva da economia chinesa. O ções internacionais, que prefere per-
abrir seu país a todos os ventos comer- tas do que os trabalhadores enraiveci- consumo interno e os investimentos manecer anônimo.13 Mas os principais
ciais, incentivar as deslocalizações e dos, mesmo que alguns destes pos- (respectivamente 43,4% e 40% do PIB) bancos chineses ainda operam majori-
suprimir, um por um, seus instrumen- sam se beneficiar com a luta contra as assumiram o controle. Se as coisas fi- tariamente em dólares. Já os produtos
tos de intervenção econômica sob a importações baratas. cam ruins demais, o presidente tem exportados para países odiados pelos
pressão das multinacionais – que se Se o livre-comércio louvado um instrumentos para reiniciar a máqui- Estados Unidos não podem conter ne-
atiraram para o território chinês. Ain- pouco em toda parte – inclusive por Xi na. Claro que ele não pode repetir o nhum componente norte-americano,
da hoje, mais de quatro em cada dez – abandonou à própria sorte milhões golpe de 2007-2008, quando, no mo- para não cair nas sanções de Trump. O
exportações “chinesas” (42,6%) são de trabalhadores em todo o mundo e mento da crise, seu antecessor abriu grupo telefônico Zhongxing Tele-
feitas por empresas estrangeiras que causou impactos ambientais sem pre- amplamente as torneiras fiscais, à cus- communication Equipment (ZTE), que
controlam toda a cadeia do produto cedentes, o protecionismo inteiramen- ta de uma confusão assustadora e um esteve banido do além-Pacífico por fa-
(da concepção à venda), obtendo o te voltado ao livre lucro, como pratica- endividamento preocupante – que o zer negócios com a Coreia do Norte e o
máximo lucro. O exemplo mais conhe- do por Trump, também não mudará atual governo busca reverter. Mas ele Irã, teve de recuar; ele agora é observa-
cido é o do iPhone da Apple, montado quase nada para a imensa maioria dos tem margem para ação. Diferente- do de perto por Washington.14 Essa for-
na China, mas cuja participação chi- cidadãos norte-americanos. A queda mente do Japão na década de 1980, ma de soberania limitada é difícil de
nesa não passa de 3,8% do valor adi- de braço comercial pode, portanto, ter “nós temos um mercado de 1,3 bilhão engolir para os nacionalistas de Zhong-
cionado, enquanto 28,5% voltam para poucos vencedores... ou nenhum. de habitantes, que Trump e seus asses- nanhai, sede do poder, à sombra da Ci-
os Estados Unidos. Para o principal assessor econômi- sores não conseguem destruir”, desta- dade Proibida.
Claro que os dirigentes chineses co da Casa Branca, Lawrence Kudlow, ca um economista chinês. Com toda a probabilidade, o plano
pressionaram as empresas estrangei- não há dúvida: a China vai acabar ce- Xi e sua equipe têm uma segunda “Made in China 2025” será acelerado,
ras para transferir parte de sua tecno- dendo às injunções do presidente dos arma para enfrentar uma desacelera- embora esteja justamente no catálogo
logia e know-how, principalmente nos Estados Unidos. Segundo ele, a econo- ção: o plano “Made in China 2025”, de queixas apresentadas pelos Estados
setores de aeronáutica, eletrônica, au- mia chinesa está à beira da explosão. lançado há três anos para desenvolver Unidos. Para este país, o plano é visto
tomóveis, trens de alta velocidade, “As vendas no varejo e os investimen- uma indústria mais inovadora e ga- como um perigoso “desejo de autossu-
energia nuclear etc. Mas as multina- tos estão afundando”, disse em uma nhar autonomia em dez setores (como ficiência”, garante Elizabeth C. Eco-
cionais não reclamaram, felizes em discussão de gabinete filmada por jor- tecnologia da informação, robótica, nomy, diretora de Assuntos Asiáticos
poder explorar a mão de obra barata e nalistas norte-americanos com a apro- aeronáutica e espacial, engenharia no Conselho de Relações Exteriores,
ignorar as consequências ambientais vação de Trump.12 Mas nenhum dado oceânica, veículos elétricos, biomedi- em Nova York, e até como uma “nova
10 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

revolução [que] pretende desafiar os riam continuar sua expansão abolin- afetado.19 Ainda mais quando, oportu- foi esboçado, nem entre os adeptos do
valores e as normas internacionais do as tarifas entre si”. Nada garante namente, a China aboliu todas as tari- “comunismo” à chinesa nem entre os
promovidos pelos Estados Unidos”.15 que todos estejam prontos para isso. A fas sobre a soja importada de Bangla- apologistas do capitalismo ao estilo de
Aqui, novamente, estamos longe de Austrália, por exemplo, acabou de ba- desh, da Índia e da Coreia do Sul, e Washington, mesmo com um toque de
uma simples briga comercial. O dire- nir o grupo ZTE, que iria implantar a estabeleceu seu mercado no Brasil protecionismo, o que deixa aberta a
tor do Centro de Política Econômica rede 5G. Mas discussões estão em cur- (para cereais e carne) e na Austrália. E porta para escaladas de todo tipo.
Internacional da Universidade de Pe- so. China e Japão voltaram a conver- sabemos que um cliente perdido não é
quim, Wang Yong, contesta essa visão: sar. A Coreia do Sul procura pontos de fácil de reconquistar. *Martine Bulard é jornalista do Le Monde
“O argumento de que o modelo de de- apoio em suas negociações com a vizi- A cruzada da Casa Branca contra o Diplomatique.
senvolvimento chinês e sua filosofia nha do norte. A Índia tenta um equilí- invasor chinês é muito bem-vista nos
1 “Texte intégral du rapport de Xi Jinping au 19e Con-
têm o objetivo de enfrentar os Estados brio entre China e Estados Unidos... Estados Unidos. No governo, muita grès national du PCC” [Texto integral do relatório
Unidos não faz muito sentido. A China Quanto às empresas chinesas, gente acha que a China vai se dobrar, de Xi Jinping no 19º Congresso Nacional do PCC],
não defende a disseminação de sua elas começaram a se deslocalizar em como fez o México, o qual aceitou cer- 3 nov. 2017. Disponível em: <http://french.xinhua-
net.com>.
ideologia para o exterior e insiste no busca de salários ainda mais baixos, tas restrições, em especial o estabele- 2 Wendy Wu e Kristin Huang, “Did China think Do-
direito de cada um seguir seu próprio como os de Bangladesh, Vietnã e cimento de um salário mínimo de nald Trump was bluffing on trade? How Beijing got
desenvolvimento”. África do Sul, e também para contor- US$ 16 a hora em algumas empresas it wrong” [A China pensou que Donald Trump esti-
vesse blefando sobre o comércio? O tamanho do
É verdade que o país não tem am- nar o embargo e as altas tarifas adua- exportadoras de automóveis.20 Nunca erro de Pequim], South China Morning Post, Hong
bições messiânicas e que seu modelo neiras: com esse movimento, a pro- antes um acordo de livre-comércio Kong, 27 jul. 2018.
político não é muito atrativo, mas ele dução realizada por grupos chineses havia incluído uma cláusula social, 3 “China, unsure how to handle Trump, braces for
‘New Cold War’” [China, sem saber como lidar
tem intenções de mexer nas regras leva o carimbo “Made in Banglade- mesmo que sua aplicação seja restrita. com Trump, embarca em “Nova Guerra Fria”],
elaboradas após a Segunda Guerra sh”, “Made in Vietnam” ou “Made in A situação é diferente para os gigantes Bloomberg News, Nova York, 17 ago. 2018.
Mundial sob a égide dos Estados Uni- South Africa”, escapando das taxas do varejo, como o Walmart, que faz 4 Ibidem.
5 Editorial do Global Times, Pequim, 15 jul. 2018.
dos, do Banco Mundial e do FMI. O norte-americanas. 80% de seu abastecimento no além- 6 Discurso de Xi Jinping no Fórum Econômico de
presidente Xi não esconde essa vonta- -Pacífico, e para outros ramos. Reuni- Davos, CGTN, 17 jan. 2017.
de: “Queremos participar ativamente dos em Washington em meados de 7 Twitter, 18 ago. 2018.
8 “John S. McCain national defense authorization act
da reforma do sistema de governança agosto, seus representantes avaliaram for fiscal year 2019” [Lei de Autorização de Defesa
global”, declarou aos quadros do Par- A China usou que “esses direitos causarão desastres Nacional John S. McCain para o ano fiscal de
tido Comunista Chinês durante a em seu favor regras financeiros nos [seus] setores e trarão 2019], Congresso, Washington, 13 ago. 2018.
Disponível em: <www.congress.gov>.
Conferência Central sobre trabalho criadas pelos prejuízo aos consumidores norte-a- 9 Twitter, 1º mar. 2018.
diplomático,16 em junho. E, para isso, mericanos”.21 O argumento é clássico 10 Citado por Gordon Watts, “China caught off guard
a China tece sua teia.
países mais quando se trata de opor-se a qualquer as US trade war highlights Beijing’s dilemma” [Chi-
Aliás, esta é sua terceira arma para poderosos, proteção, mas não menos verdadeiro.
na é surpreendida por guerra comercial dos Esta-
dos Unidos e evidencia o dilema de Pequim], Asia
combater o embargo dos Estados Uni- a começar pelos Para serem efetivas, essas decisões te- Times, Hong Kong, 31 jul. 2018.
11 Jim Tankersley, “Steel giants with ties to Trump offi-
dos: contar com outros parceiros, a co- Estados Unidos riam de ser acompanhadas por um
cials block tariff relief for hundreds of firms” [Gigan-
meçar por seus vizinhos. A maioria de- aumento substancial do poder de tes do aço ligados a Trump bloqueiam redução de
les teme seu poder e seu apetite compra dos norte-americanos – o que tarifa para centenas de empresas], The New York
econômico, mas precisa de mercados não parece estar na agenda – e, acima Times, 5 ago. 2018.
12 “Transcript of 8/16 Trump cabinet meeting: econo-
consumidores, e o comércio intra-asiá- Além disso, as famosas “rotas da de tudo – e ainda mais improvável –, mic policies matter” [Transcrição da reunião de
tico, sozinho, responde por 43% do co- seda”, que permitem chegar à Europa de um retorno das indústrias para o gabinete de 16/8 de Trump: política econômica
mércio dos países da região,17 especial- por terra, cruzando as repúblicas da solo dos Estados Unidos. Segundo a importa], RealClear Politics, 16 ago. 2018. Dispo-
nível em: <www.realclearpolitics.com>.
mente desde que, em sua febre punitiva, Ásia central e a Rússia, ou por via ma- Bloomberg, os empresários do setor 13 Ler Yifan Ding, “Bientôt des yuans dans toutes les
o presidente dos Estados Unidos resol- rítima, passando pela África, também têxtil e de vestuário, por exemplo, já poches?” [Logo haverá yuans no bolso de todo
veu sacudir seus aliados históricos, Ja- devem servir como mercado, em par- estão se voltando para outros territó- mundo?], Le Monde Diplomatique, jul. 2015.
14 Ridha Loukil, “L’équipementier chinois ZTE placé
pão e Coreia do Sul, taxando-os tam- ticular no que diz respeito à constru- rios: Vietnã, Camboja etc.22 Certos se- sous tutelle américaine” [Chinesa ZTE sob tutela
bém (aço, automóveis etc.). A China ção de infraestrutura. Com grande tores, como os que utilizam aços espe- norte-americana], L’Usine Nouvelle, Antony, 17
poderia aproveitar a oportunidade para habilidade, o presidente chinês con- ciais, já obtiveram isenções e podem jul. 2018.
15 Elizabeth C. Economia, “China’s new revolution” [A
relançar a Parceria Econômica Regional seguiu transformar essas rotas míti- importar mais livremente. nova revolução chinesa], Foreign Affairs, Nova
Abrangente (RCEP, do inglês Regional cas em um projeto multilateral, crian- Tanto nos Estados Unidos como York, maio-jun. 2018.
Comprehensive Economic Partner- do o Asian Infrastructure Investment na China, os grandes perdedores des- 16 “Xi urges breaking new ground in major country
diplomacy with Chinese characteristics” [Xi quer
ship), um acordo de livre-comércio Bank (AIIB). Com 57 fundadores, en- se conflito certamente serão os cida- abrir novos caminhos na diplomacia do país, com
concebido pela China para enfrentar o tre os quais a Alemanha, o Reino Uni- dãos comuns. Enquanto o círculo de características chinesas], Xinhua, 24 jun. 2018.
Acordo de Parceria Transpacífica (TPP), do, a França, a Índia e a Coreia do Sul, Trump espera amolecer Pequim, o de Disponível em: <www.xinhuanet.com>.
17 “Examen statistique du commerce mondial 2018”
lançado por Barack Obama com a ideia evita-se qualquer isolamento finan- Xi acredita que, uma vez passadas as [Revisão Estatística do Comércio Mundial 2018],
– já então – de conter a China, depois ceiro e diplomático. A China teme, eleições norte-americanas de meio Organização Mundial do Comércio, Genebra. Dis-
desprezada por Trump. Além dos dez acima de tudo, fechar-se em um cara a de mandato, em novembro, Washin- ponível em: <www.wto.org>.
18 Birmânia, Brunei, Camboja, Cingapura, Filipinas,
países da Associação das Nações do Su- cara com os Estados Unidos, como ou- gton voltará à mesa de negociações. Indonésia, Laos, Malásia, Tailândia e Vietnã.
deste Asiático (Asean, do inglês Asso- trora a União Soviética. No entanto, observa An Gang, pes- 19 Jesse Newman e Heather Haddon, “US to pay far-
ciation of Southeast Asian Nations),18 o Por enquanto, ela aposta nas re- quisador da Pangoal Institution, um mers $4,7 billion to offset trade-conflict losses”
[Estados Unidos prometem US$ 4,7 bilhões a
acordo inclui Japão, Austrália, Nova Ze- presálias comerciais contra produtos think tank chinês, a queda de braço agricultores para compensar perdas decorrentes
lândia, Índia e Coreia do Sul. norte-americanos, para mostrar que vai muito além da questão comercial: de conflitos comerciais], The Wall Street Journal,
O diretor do Centro de Pesquisa não se curva. Nos Estados Unidos, tais “A disputa agora tem implicações mi- Nova York, 28 ago. 2018.
20 Quarenta por cento da produção de um automóvel
Austrália-Japão, da Universidade Na- medidas têm algum efeito sobre os litares e estratégicas”.23 Os círculos deverá ser realizada em empresas cujo salário seja
cional da Austrália, Shiro Armstrong, agricultores, que, com o aumento dos dirigentes temem que os problemas de pelo menos US$ 16 a hora.
vê na parceria “a oportunidade natu- direitos alfandegários, veem suas ven- tenham repercussões no Mar da Chi- 21 Owen Churchill, “US trade panel hears harsh criti-
cism of proposed new tariffs – and praise for Chi-
ral de construir uma coalizão asiática das despencarem, especialmente as na e em Taiwan, onde as tensões nun- nese craftsmanship” [Painel de comércio dos Es-
[...]. O grupo inclui algumas das maio- de cereais, carne suína e bovina. ca foram tão fortes. tados Unidos recebe duras críticas às novas tarifas
res e mais dinâmicas economias do Trump prometeu-lhes uma ajuda Uma coisa é certa: o modelo de in- propostas – e elogios à habilidade chinesa], South
China Morning Post, 21 ago. 2018.
mundo”. E cita um estudo australiano substancial (US$ 12 bilhões), mas ela ternacionalização e especialização da 22 “Fashion retailers turn to Cambodia and Vietnam as
segundo o qual, “mesmo que as tarifas chega a conta-gotas e, de acordo com produção colocado em prática nas úl- tariffs hit China” [Comerciantes de moda voltam-se
aduaneiras aumentassem 15 pontos The Wall Street Journal, começam a timas décadas, tanto no Ocidente co- para o Camboja e o Vietnã enquanto tarifas atin-
gem a China], Bloomberg News, 20 ago. 2018.
no mundo (como durante a Grande aparecer preocupações: “Patriotismo mo na China, está fazendo água. No 23 “China, unsure how to handle Trump, braces for
Depressão), os países da RCEP pode- não paga as contas”, diz um agricultor entanto, nenhum modelo alternativo ‘New Cold War’”, op. cit.
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 11

UMA AVENTURA PELA AUTOSSUFICIÊNCIA AO CUSTO DE BILHÕES

Mesmo sob embargo comercial,


a Península do Catar ganha o mundo
Mais de um ano após ser banido do Conselho de Cooperação do Golfo, o Catar não cedeu às exigências de seus vizinhos
e segue sua batalha de influência no plano internacional. Em Doha, os políticos reafirmam que o embargo reforça a coesão
da população e encoraja a diversificação econômica do país. Os desequilíbrios estruturais, contudo, permanecem
POR ANGÉLIQUE MOUNIER-KUHN*, ENVIADA ESPECIAL

C
uidado com as águas calmas. Abderrahmane al-Thani, para um
Neste verão de 2018, as da Baía grupo de jornalistas francófonos no fi-
de Doha, com seu turquesa cin- nal de maio.4
tilante, parecem um espelho,
de tão calmas. O calor e a luz flamejan- RELAÇÕES CORDIAIS COM O IRÃ
te cercam a capital do Catar, circuns- O Catar está em guerra. Uma guer-
crevendo a vida social aos ambientes ra sem confrontos letais, mas na qual o
climatizados. No cais, com suas velas emirado luta em todas as frentes: eco-
caídas, os barcos não veem nenhum nômica, diplomática, militar, midiáti-
turista há semanas. Outrora dedica- ca e até jurídica, já que o país decidiu
dos à pesca e ao transporte de merca- acionar as instâncias internacionais
dorias, os tradicionais veleiros de ma- (Organização Mundial do Comércio,
deira são uma das poucas concessões Corte Internacional de Justiça) a res-
nostálgicas ao frenesi de modernidade peito do embargo. Essa guerra fria já
que tomou conta da cidade em meados fez vítimas: milhares de famílias que
da década de 1990. Desde então, com a vivem ao longo das fronteiras, assim
maciça ajuda do concreto e da vertica- como cidadãos binacionais, têm seu
lização, tal frenesi redesenha sem ces- Barcos navegam na orla de Doha deslocamento impedido. E, embora
sar a paisagem da cidade, que é o orgu- ninguém saiba como o Golfo sairá
lho de seus habitantes. apenas algumas semanas, US$ 30 bi- [sua] recente política”. Ele tinha dez dessa, já há vencedores: as indústrias
No entanto, o balanço preguiçoso lhões foram retirados dos bancos lo- dias para cumprir todas as exigências. de armas dos países exportadores –
das embarcações nas quais tremula a cais por expatriados preocupados ou Mais de um ano se passou, e os an- Estados Unidos, Reino Unido e França
bandeira púrpura e branca – as cores cidadãos dos países do embargo. Su- tagonismos continuam no mesmo lu- em primeiro lugar.
nacionais – engana. As águas do Golfo permercados foram saqueados, antes gar. A mediação tentada pelo Kuwait “A questão toda é saber se o embar-
Pérsico estão turbulentas,1 e seus va- de se estabelecer uma ponte aérea pa- no CCG estagnou: mais um fracasso go representa uma oportunidade ou
pores elevam-se saturados de insegu- ra a Europa, o Irã e os países do sub- na conta da organização regional fun- um empecilho para o Catar”, comenta
rança. Uma agitação sem precedentes continente indiano. Até então, grande dada em 1981 para contrabalançar a um embaixador em Doha. A julgar pelo
tomou conta da região desde que o parte das importações, inclusive de República Islâmica do Irã. A concilia- que dizem os próprios habitantes do
Catar, emirado bordado a ouro com produtos frescos e materiais de cons- ção, que deveria ocorrer em Washing- país, em termos de coesão nacional, a
uma vez e meia o tamanho da Grande trução, vinha dos Emirados Árabes ton há meses, tropeça em discordân- causa vai além: “Por mais estranho que
São Paulo (11.586 quilômetros qua- Unidos e da Arábia Saudita ou passava cias internas com a administração pareça, o embargo nos fortaleceu”,
drados), foi banido por três de seus vi- por esses países. norte-americana e, dizem em Doha, afirma a ex-ministra da Informação,
zinhos do Conselho de Cooperação do Em 22 de junho de 2017, a Associa- na má vontade de Abu Dhabi, o princi- Tecnologia e Comunicação Hessa al-
Golfo (CCG) – Arábia Saudita, Emira- ted Press observou que a suspensão do pal emirado da federação dos Emira- -Jaber, membro do Majlis al-Shura
dos Árabes Unidos e Bahrein –, além embargo está sujeita a treze condições. dos Árabes Unidos. O “quarteto anti- (Conselho Consultivo) e do Conselho
do Egito. No dia 5 de junho de 2017, o Algumas repetem a lista habitual: o terror”, como foi batizado, não abre Supervisor da Volkswagen, cujo tercei-
quarteto e alguns aliados de ocasião emirado deve parar de interferir nos mão de suas exigências. “Eles não são ro maior acionista é o Catar. “No Ku-
decretaram a ruptura das relações di- assuntos internos de outros membros realistas”, retruca o Catar, para o qual wait não houve sobressalto após a in-
plomáticas e econômicas com o Catar, do CCG; retirar seu apoio a organiza- tais exigências não têm outro propósi- vasão do Iraque [em 1990]. Aqui, o emir
e a Arábia Saudita fechou imediata- ções “terroristas”, entre elas a Irman- to além de controlá-lo, como foi feito conseguiu unir cataris e não cataris
mente sua fronteira, única ligação do dade Muçulmana; fechar a rede de TV com o Bahrein, apelidado de retweet (ler boxe). É como se Sua Alteza tivesse
país por terra com o restante da Pe- Al Jazeera; e, principalmente, virar as country por alguns cínicos de Doha sido eleito por todos”, continua.
nínsula Arábica. costas para o Irã. “O Irã? É um vizinho por causa de sua ânsia em repercutir Disposto a incentivar as revoltas
Os desentendimentos anunciado- ameaçador para um país pequeno co- no Twitter as mensagens anti-Catar árabes, especialmente na Tunísia e no
res da crise vinham se acumulando mo o nosso. Não queremos ser melho- vindas da Arábia Saudita. “Essas exi- Egito, o país nunca realizou eleições,
havia anos, alimentados por um cres- res amigos, e temos nossas diferenças. gências ignoram o fato de que um Es- exceto para os conselhos municipais,
cente ressentimento em relação ao vi- Mas não temos escolha a não ser nos tado soberano não pode ser mantido cujos membros devem se apresentar
zinho emancipado e imensamente ri- entender com ele”, responde uma auto- como refém. Além disso, elas foram re- sem rótulo político (formações parti-
co em gás.2 A repentina quarentena, ridade de segurança em Doha.3 Outras digidas de forma a não deixar nenhu- dárias são proibidas no emirado). Uma
© Dirk Hofmann/cc

decretada em pleno Ramadã, pegou o exigências são mais insólitas: o emira- ma margem de negociação. [...] Nós votação legislativa estava prevista pa-
Catar de surpresa. Seus vizinhos ára- do deve passar por uma supervisão pretendemos conduzir nossa política ra 2013, mas foi adiada indefinidamen-
bes instauraram um embargo parcial, anual dos vizinhos ou “pagar repara- com base em nossas próprias avalia- te. Após muitos adiamentos, o emir
fechando seus espaços marítimos e ções [...] pela perda de vidas e pelos ções”, insistiu o ministro das Relações Tamim bin Hamad al-Thani prome-
aéreos aos navios e aviões do país. Em prejuízos financeiros causados pela Exteriores do Catar, Mohammed ben teu, até o final do ano, criar uma lei pa-
12 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

ra organizar as primeiras consultas reserva de gás do mundo e você cons- plataforma rotatória de ordenha, vinda virão”, adverte um diplomata ocidental.
nacionais destinadas a eleger trinta trói um dos maiores portos de expor- da Irlanda; um diretor holandês; e um O Catar, que se especializou em sediar
membros do Majlis al-Shura, sendo tação e o equipa com navios metanei- contramestre irlandês removido da conferências e competições esportivas,
outros quinze diretamente nomeados ros, você garante a independência do concorrência saudita. Em uma região já sofre com a ausência desses eventos,
por ele. É difícil encontrar no emirado país”, explica, maravilhado, Khalid al- onde as temperaturas podem chegar acrescenta. Outra vítima: a Catar Air-
qualquer traço de oposição política, -Abdulqader, economista da Universi- aos 50 graus centígrados, a climatiza- ways, porta-estandarte das ambições
salvo por parte de algumas pessoas dade do Catar. ção intensiva em energia e o aprovisio- de expansão do país. Pregados ao chão
normalmente estabelecidas em Lon- No nível atual da produção e consi- namento de forragem de qualidade durante os primeiros dias do embargo,
dres. Por ter denunciado o silencia- derando a reserva de gás confirmada – a custam caro. A Baladna não poupou seus aviões estão de volta ao ar e novos
mento dos cidadãos de seu país e elo- terceira maior do mundo, atrás apenas despesas, praticando um preço de va- destinos foram abertos para compen-
giar a Primavera Tunisiana, em 2011, o da Rússia e do Irã –, o emirado tem rejo de 1,6 euro o litro, o que sugere sar as dezoito rotas canceladas. Mas,
poeta Mohamed al-Ajami, conhecido diante de si mais de um século de ope- grandes subsídios. “Econômico ou desviando o tráfego para o céu irania-
como Ibn al-Dhib, passou quatro anos ração garantida. Um pouco menos se não, precisamos ser autossuficientes. É no, o fechamento do espaço aéreo dos
na prisão, antes de ser perdoado. aumentar a produção de 77 milhões pa- vital”, afirma Al-Abdulqader. “Antes, países do embargo provoca perdas
O emir tinha 33 anos quando suce- ra 100 milhões de toneladas por ano até apostávamos na integração econômi- “substanciais”, conforme confessa, re-
deu a seu pai, Hamad bin Khalifa al- 2023, como pretende. “Era impossível o ca com o CCG, importando dos vizi- lutante, o diretor da empresa.
-Thani, em 2013. Os cataris o veem co- embargo prejudicar o Catar. Sozinhas, nhos. Agora, vamos produzir no Catar
mo o arquiteto da modernização do as receitas do gás cobrem boa parte de tudo o que quisermos produzir.” GUERRA DE INFLUÊNCIA E CORRIDA POR APOIO
emirado, que é wahabita, assim como nossas necessidades orçamentárias”, “Tudo muito bonito”, retruca um “A batalha entre as companhias aé-
seu vizinho saudita, embora o Catar prossegue Al-Abdulqader. Apesar do imigrante paquistanês. “Mas os cata- reas do Golfo é um conflito dentro do
defenda uma prática menos rigorosa. embargo, “nenhum de nossos carrega- ris não estão na atividade econômica: conflito”, avalia Adel Abdel Ghafar,
O emir Hamad também é creditado mentos de gás ou de petróleo atrasou ou somos nós que fazemos a economia pesquisador do Brookings Doha Cen-
pela afirmação do país no cenário in- foi cancelado. Honramos 100% de nos- girar. Como eles poderiam medir a de- ter. “Além das exigências políticas, o
ternacional, resultado de uma diplo- sos contratos – inclusive para os Emira- saceleração? Desde que não vem mais embargo provavelmente tem um obje-
macia de “cobertura”, que consiste em dos Árabes, cuja eletricidade depende gente do Golfo, os táxis rodam vazios, tivo econômico: atrapalhar a lideran-
maximizar o número de aliados, em 40% de nosso gás. Cuidamos de os hotéis estão desertos e as lojas dos ça conquistada pela Catar Airways não
aborrecendo a Arábia Saudita e os nossa reputação de confiabilidade”, in- shoppings estão fechando. Veja este apenas sobre as rivais dos Emirados
Emirados Árabes Unidos. Com o em- siste Aziz Aluthman, subsecretário ad- edifício: o guindaste está parado por Árabes, a Etihad Airways e a Emirates,
bargo, seu retrato em estêncil espa- junto do Ministério das Finanças. Mui- falta de material de construção.” mas também sobre as horríveis com-
lhou-se espontaneamente em incon- tas autoridades cataris insistem nessa Embora os atores locais passem por panhias da Arábia Saudita e do Bah-
táveis imóveis e carros, antes de os informação, que destaca a natureza pa- dificuldades, no nível macroeconômico rein, a Saudia e a Gulf Air”.8
municípios começarem a colocar or- radoxal do embargo, ainda mais consi- o Catar “absorveu com sucesso” o em- Essa competição furtiva parece
dem nessa nova moda. derando que os Emirados Árabes pa- bargo, conforme concluiu uma missão quase uma piada diante da veemência
No plano material, pelo menos, o gam pelo gás em dinheiro. do FMI em maio, falando em “amorte- dos confrontos no campo da comunica-
Catar tem poucos motivos para recla- Após um déficit de US$ 7 bilhões em cedores consideráveis e políticas ma- ção e da propaganda. Na guerra de in-
mar: segundo o Banco Mundial, em 2017, o Ministério das Finanças anun- croeconômicas saudáveis”. Em abril, fluência e na corrida por apoio disputa-
2017, o PIB per capita (em paridade de ciou um orçamento superavitário para para atrair nova liquidez, o Estado ha- das pelos rivais do Golfo, vale qualquer
poder de compra) continuava ocupan- este ano. O embargo teria custado pou- via emitido US$ 13 bilhões em títulos jogada. Propagadas por programas de
do o primeiro lugar do mundo, com co mais de US$ 1 bilhão ao orçamento, no exterior. Eles foram sobrevendidos computador, notícias falsas e invectivas
US$ 128.379/ano, o dobro da Suíça. “Na garante Aluthman. A agência de classi- várias vezes, mesmo com a Arábia Sau- inundam as redes sociais. Contas de
minha juventude”, lembra Al-Jaber, que ficação Moody’s, por sua vez, estimou o dita tentando secar o mercado com sua e-mail de autoridades foram pirateadas
não tem nem 60 anos, “não tínhamos apoio público para a economia nos dois própria emissão dois dias antes. “O in- e seu conteúdo foi exposto na mídia, a
eletricidade, a comida era limitada e só primeiros meses da crise em cerca de teresse de investidores externos é nos- fim de comprometer um ou outro dos
havia uma instituição de ensino supe- US$ 40 bilhões, considerando o pacote so certificado de resiliência econômi- protagonistas da crise, tudo isso sem fa-
rior. De repente, nossa vida mudou.” de resgate do sistema financeiro. ca”, comemora Aziz Aluthman. lar da criação de sites falsos e da posta-
A descoberta do petróleo data de A diversificação das fontes de im- Estaria tudo indo às mil maravilhas gem de pseudodocumentários.
antes da Segunda Guerra Mundial, portações, provenientes da Turquia, para o Catar, graças a seus recursos “O Catar preferiu não avançar pa-
mas foi a descoberta de um gigantesco do Irã, da Ásia e da Europa, bem como inesgotáveis? Um país tão rico que gas- ra as zonas cinza, como as campa-
bolsão de gás natural no mar que, em a transferência de parte do tráfego do tará dezenas de bilhões de dólares – os nhas de fake news”, afirma Saif bin
1971, ano de sua independência em re- porto de Jebel Ali, em Dubai, para os números apresentados variam – para Ahmed al-Thani, diretor de Comuni-
lação à coroa britânica, lançou na opu- portos de Omã rapidamente aliviaram organizar a Copa do Mundo em 2022. cação do Governo. “Não temos nada a
lência esse território desértico. Em vir- o emirado. Melhor ainda, os líderes ca- Somente a reforma e construção dos esconder e preferimos nos concen-
tude da divisão das águas territoriais taris repetem à vontade que o embar- oito estádios para a competição custa- trar nos esforços de mídia.” Embaixa-
no Golfo Pérsico, a exploração do cam- go teria dado um impulso inesperado riam US$ 14 bilhões, mais que todo o dores, ministros e altos funcionários
po de gás North Dome pertence 70% à diversificação da economia.5 montante recorde gasto para a Copa do receberam sessões de media training
ao Catar e 30% ao Irã, forçando ambos Mundo de 2018 na Rússia (US$ 10 bi- antes de concederem mais de qui-
a cultivar relações corretas. 20 MIL VACAS IMPORTADAS DOS EUA lhões). E o Catar precisa enfrentar dois nhentas entrevistas, afirma o porta-
Foi necessário, porém, aguardar Construído em uma década, por processos recorrentes: as suspeitas de -voz. Mas ele não disse tudo: segundo
que o emir Hamad derrubasse seu pai, US$ 7,4 bilhões, o porto Hamad, ao sul corrupção na definição da sede do tor- a agência Reuters, os gastos de lobby
em 1995, e apostasse nos investimen- de Doha, com dez terminais, já se vê neio6 e as condições de trabalho de de- do Catar somente junto ao governo
tos maciços, em parceria com a Exxon- como gigante regional, apesar do limi- zenas de milhares de trabalhadores dos Estados Unidos triplicaram em
Mobil e a Total, para que a operação de tado mercado doméstico. Com US$ asiáticos nos canteiros de obras.7 relação aos anos 2015-2016, ficando
larga escala fosse lançada e instalasse 700 milhões, o país garantiu sua autos- Discutida nos últimos anos, sobre- em quase US$ 25 milhões, orçamento
o Catar, em 2006, entre os principais suficiência em leite fresco, que deseja tudo na imprensa anglo-saxônica, a agora comparável ao da Arábia Sau-
exportadores de gás natural – a maior estender a todo seu consumo de pro- realocação da competição para outro dita e dos Emirados Árabes. “Os paí-
parte de suas exportações e um terço dutos lácteos. Em menos de um ano, país é muito improvável, com a Federa- ses do Golfo literalmente rastejam
do mercado global. “Entre o início da em pleno deserto, ergueu-se o conglo- ção Internacional de Futebol (Fifa) afir- uns sobre os outros para se tornarem
década de 2000 e 2013, um ano recorde merado nacional Baladna (“Nossa ter- mando repetidamente sua confiança o melhor amigo dos Estados Unidos”,
para os preços do gás, nosso PIB pas- ra”), uma fazenda gigante, o que refor- no Catar. Mas, se o embargo continuar, lançou um observador.
sou de US$ 20 bilhões para US$ 200 bi- çou as importações: 20 mil vacas até do 1,5 milhão de torcedores aguarda- Não só dos Estados Unidos. Desde
lhões. O Catar deve tudo à visão do dezembro, enviadas em sua maioria dos, “um terço poderia faltar, entre sau- o início da crise, o Catar implanta sua
emir Hamad. Se seu país tem a maior dos Estados Unidos; uma gigantesca ditas, emiradenses e egípcios que não atividade diplomática em todas as di-
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 13

reções, com seus funcionários, a co-


meçar pelo emir, trocando a tradicio- O NÚMERO DE CATARIS, UMA INFORMAÇÃO DELICADA
nal túnica imaculada, o thawb, pelo

Q
terno e gravata, em inúmeras visitas a uando o emir do Catar, Tamim bin Hamad al-Thani, discur- ção não pode assumir as ambições de um país como o Catar”,
Paris, Londres, Bruxelas, Berlim, Mos- sou na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova destaca Majed Mohammed al-Ansari, professor de Sociologia
cou e Washington, onde são sempre York, em setembro de 2017, seu país estava havia três meses Política da Universidade do Catar. Para o Estado, o crescimen-
recebidos por punhados de manifes- sob embargo de seus vizinhos. Sua fala tocou a alma de todos to da população é um objetivo estratégico. Mas os cataris con-
tantes, cuja mobilização o governo no emirado, não graças à sua veia de orador – seu tom é na tinuam ferozmente contrários à ideia de flexibilizar o sistema
atribui aos rivais do Catar.9 “Toda essa verdade um tanto monótono –, mas por causa de uma peque- de concessão de cidadania, que ocorre apenas em casos ex-
crise se resume a um problema de ciú- na frase: “Permitam-me a oportunidade [...] de expressar o or- cepcionais. Eles não poderão evitar por muito tempo uma re-
gulho que tenho de meu povo catari, bem como dos residentes flexão profunda sobre seu futuro demográfico, acredita o pro-
mes. Não hesite em escrever isso”, su-
multinacionais e multiculturais do Catar”, disse ele, comemo- fessor: “Alguns grupos poderiam ser naturalizados, cidadãos
gere o procurador-geral Ali bin Fetais
rando a resiliência coletiva ao bloqueio. Só mesmo circunstân- do Conselho de Cooperação do Golfo ou de outros países
al-Marri. “O que nossos vizinhos po- cias excepcionais poderiam fazer que cataris e estrangeiros árabes presentes desde a década de 1960 e muito inseridos
dem responder a seus próprios povos aparecessem lado a lado em um discurso oficial. Mas, embora no tecido social, como os palestinos [cujo número no país é
diante de nosso sucesso? O Mundial destacado, esse esboço de unidade nacional continua sendo estimado em 20 mil por fontes informais]”.
2022 revelou sua verdadeira face. Eles retórico, tão abissais são as disparidades de padrão de vida e No entanto, há uma armadilha. Naturalizar os mais integra-
são simplesmente incapazes de fazer o consideração social dessas duas categorias populacionais. dos, nada além disso; agraciá-los com a prodigalidade do Es-
que nós fazemos pelos cataris.” O Catar e os Emirados Árabes Unidos têm a maior propor- tado, de jeito nenhum. Um catari em idade de se casar recebe
“Quanto mais a crise continua, ção de trabalhadores estrangeiros e residentes no Golfo. Dos um terreno de 900 metros quadrados e um empréstimo sem
mais caro ela custa aos países do em- 2.561.643 habitantes recenseados em agosto de 2018,1 os juros de 1,2 milhão de riais (R$ 1,3 milhões) para construir sua
bargo, em termos de imagem, e ao Ca- cataris seriam ultraminoritários, da ordem de 10%. E temos de casa. Ele tem emprego garantido no serviço público e ganha
nos contentar com essa aproximação: o Estado atualiza sua pelo menos dois terços mais que seus colegas não nacionais,
tar, no plano econômico”, avalia
população total quase mensalmente, mas o número exato de desde que os funcionários públicos receberam aumento sala-
Mehran Kamrava, diretor do Centro
seus próprios cidadãos é impossível de encontrar, como se rial de 60% (120% para oficiais do Exército) em 2011, na es-
de Estudos Internacionais da Antena fosse um dado sob absoluto sigilo. “Esses dados não estão teira das revoltas árabes. A isso se soma uma série de benefí-
Catari da Universidade de Georgeto- disponíveis”, diz o Ministério do Planejamento e Estatística, la- cios (moradia, alimentação, transporte, telefone...) e assistência
wn, nos Estados Unidos. “Todo mundo mentando a dificuldade. médica gratuita, à qual os residentes estrangeiros têm acesso
tem interesse em que ela acabe.” A re- Dos 369 mil habitantes em 1986, a população cresceu ex- mediante uma coparticipação nos custos.
gião parece longe disso. “Há muita tes- ponencialmente à medida que forças vivas foram sendo im- Reduzir esses privilégios para que mais pessoas se benefi-
tosterona em jogo, entre um líder de 32 portadas para acompanhar seu desenvolvimento: 744 mil ha- ciem não parece ser algo que passe pela cabeça de ninguém.
anos na Arábia Saudita [o príncipe bitantes em 2004, 1,699 milhão em 2010. Desde então, ela “Existem duas possibilidades”, conclui o sociólogo, “ou não ha-
herdeiro Mohammed bin Salman], aumentou mais 50%, e o desequilíbrio entre nacionais e es- verá naturalizações, ou os naturalizados serão excluídos de
outro de 38 anos no Catar e a criança trangeiros é óbvio: segundo o censo de 2015, os cataris ocu- certos direitos, o que é injusto.” Mas é esse o caso dos alguns
pam apenas 1,75% de todos os empregos (21.592, de milhares de beduínos naturalizados desde o início dos anos
de 72 anos da Casa Branca. Tudo é pes-
1.233.110). Soma-se a isso um desequilíbrio entre homens e 2000, às vezes tribos inteiras: eles jamais serão donos de um
soal nesse melodrama, que poderia ser
mulheres (3,12 homens para cada mulher), já que poucos tra- pedaço de terra no Catar. (A.M.-K.)
resolvido tão facilmente quanto come- balhadores imigrantes são acompanhados pela família.
çou. O problema é que estamos lidan- “Isso não é sustentável a longo prazo, especialmente porque 1 “Monthly figures on total population” [Estatística mensal sobre a popula-
do com atores imprevisíveis”, declara a queda da taxa de natalidade nos lares cataris é um proble- ção total], Ministério do Planejamento e Estatística do Catar, 2018. Dispo-
um de nossos interlocutores, sob o selo ma: a proporção de nacionais continuará a cair. Essa popula- nível em: <www.mdps.gov.qa>.
do anonimato.
Imprevisíveis e imersos no “dilema
securitário”, segundo Kamrava, o cír-
culo vicioso que se inicia quando um em 2014, ainda seja simbólico, a crise o paquistaneses, iemenitas ou somalis, que, em Doha, ninguém se sente imune
Estado toma medidas para reforçar acelerou e os efetivos devem chegar a 2 com exceção dos oficiais de alta paten- a um furacão que venha inesperada-
sua segurança: isso desperta os senti- mil homens até 2020. te. Se ficarmos apenas no aspecto da mente revolver as águas do Golfo.
mentos de insegurança dos outros, aviação militar, em 2017 Doha com-
que se esforçam para remediá-lo. A MUITOS FORNECEDORES DE ARMAS prou 24 Eurofighter Typhoon, 36 F-15 e *Angélique Mounier-Kuhn é jornalista.
crise entre os irmãos inimigos do CCG, Na falta de dados mais recentes, o 12 Rafale, além dos 24 adquiridos em
assim como os tumultos no Oriente Instituto Internacional de Pesquisa 2016. “As compras de armas estão rela- 1 Mehran Kamrava, Troubled Waters: Insecurity in
Médio e os cálculos perigosos da ad- para a Paz de Estocolmo estima que as cionadas a certas decisões políticas, the Persian Gulf [Águas turbulentas: inseguran-
ça no Golfo Pérsico], Cornell University Press,
ministração Trump levaram ao auge a importações de armas no Catar au- mas também são necessárias para a Ithaca, 2018.
tensão entre xiitas e sunitas, exacer- mentaram 166% entre 2013 e 2017, em dissuasão”, insiste Majed Mohammed 2 Ler Fatiha Dazi-Héni, “Drôle de guerre dans le Gol-
bando a corrida armamentista para comparação com o período 2008-2012 al-Ansari, professor de Sociologia Polí- fe” [Uma estranha guerra no Golfo], Le Monde Di-
plomatique, jul. 2017.
além de todas as proporções. – quando aumentaram 225% na Ará- tica da Universidade do Catar, referin- 3 A maioria das pessoas com quem conversamos
Além do medo de ficar para trás, bia Saudita, que se tornou o maior país do-se à “estratégia do camarão enve- pediram expressamente para manter o anonimato.
essas despesas compulsivas refletem o importador do mundo. “Nossa segu- nenado” de Cingapura: “A ilha poderia 4 A autora destas linhas participou da viagem de im-
prensa organizada pelo Escritório de Comunica-
desejo de comprar o patrocínio das rança é uma prioridade. Em minha ser invadida em um dia, mas ao custo ção do Governo, antes de retornar a Doha de forma
potências exportadoras. “Ao fornecer opinião, metade de cada dólar de ren- de uma década de envenenamento de independente algumas semanas depois.
armas cada vez mais sofisticadas para da do Catar deve ser investido na defe- seus invasores. Nosso armamento de- 5 Zainab Fattah e Matthew Miller, “Qatar minister
says neighbors’embargo is boon for economy”
grupos sob tensão, esses países agra- sa”, diz Al-Abdulqader. Desde o início ve tornar qualquer tentativa de ocupa- [Ministro do Catar diz que embargo dos vizinhos é
vam a insegurança já onipresente na da crise, não passa um mês ou quase ção tão danosa quanto possível”. um favor à economia], Bloomberg News, Nova
região. Quanto aos países do Golfo, ao sem que haja conversas sobre negocia- Segundo ele, o risco de uma incur- York, 6 set. 2018.
6 Heidi Blake e Jonathan Calvert, L’Homme qui
aumentarem seu número de fornece- ções ou fechamentos de contratos de são da Arábia Saudita ou dos Emirados acheta une coupe du monde. Le complot qatari [O
dores, eles diversificam os grupos en- compra pelo país. França, Reino Uni- Árabes no Catar, receada no último ano, homem que comprou uma Copa do Mundo. O
volvidos na crise”, destaca Kamrava. do, Estados Unidos, Alemanha, Rús- teria recuado. A influência dos Estados complô do Catar], Hugo Sport, Paris, 2016.
7 Ler David Garcia, “Esclaves du XXIe siècle au Qa-
Para o Catar, essa estratégia visa supe- sia, Itália, China, Noruega: a lista de Unidos sobre o Golfo e os interesses li- tar” [Escravos do século XXI no Catar], Le Monde
rar uma dependência muito estreita fornecedores potenciais ou confirma- gados à exploração de recursos tão vi- Diplomatique, jun. 2016.
em relação aos Estados Unidos, cuja dos é impressionante. tais como petróleo e gás continuam 8 Adel Abdel Ghafar e Andrew Leber, “The Gulf’s air-
lines are winning on product but losing at politics”
base de Al-Oudeid, a sudoeste de Os equipamentos do Catar já supe- sendo fortes salvaguardas para preve- [Companhias aéreas do Golfo ganham em produ-
Doha, que abriga mais de 10 mil ho- rariam largamente a capacidade de nir que brigas de vizinhos, as quais fa- to, mas perdem em política], Brookings, Washing-
mens, é a maior do Oriente Médio. Em- suas tropas, estimadas pela Al Jazeera zem a fortuna dos traficantes de armas, ton, DC, 26 jul. 2017.
9 Ler Alain Gresh, “Le Qatar en quête d’amis” [Catar
bora o envio de tropas turcas, como em 12 mil soldados. Elas são compos- se transformem em uma guerra real. quer fazer amigos], Le Monde Diplomatique, set.
parte de um acordo de defesa assinado tas principalmente por estrangeiros, Mas as tensões permanecem tão vivas 2018.
14 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

RECURSO ABUNDANTE, PORÉM AMEAÇADO

Paraguai, o país do ouro azul


Encravado entre os gigantes Argentina e Brasil, o Paraguai não ocupa uma posição estratégica no tabuleiro de xadrez
sul-americano. Ainda assim, possui um recurso precioso: a água. Durante muito tempo cobiçado por seus vizinhos, de olho em
suas vias navegáveis, o país encerra um potencial hídrico subterrâneo colossal, mas ameaçado de superexploração e poluição
POR GUILLAUME BEAULANDE*, ENVIADO ESPECIAL

N
o jardim, a torneira jorra. Com veta do ministério”, resume a pesqui-
mão febril, Odina Moreo fecha- sadora Ana Portillo.1
-a, mas algumas gotas hesitan- Se a água do Rio Paraguai, utilizada
tes continuam a pingar. “Nunca pela Essap no abastecimento de Assun-
consigo fechá-la completamente, é um ção, se beneficia de um tratamento
desperdício. Independentemente dis- confiável e de controles regulares, “to-
so, só usamos a água para lavar a louça dos os outros distribuidores perfuram
ou a roupa, além de limpar o chão”, sus- tranquilamente seus poços para ven-
pira a jovem, com a fronte suada. Esta- der um produto que não compraram.
mos em um dos quatrocentos asenta- São inspecionados apenas de três em
mientos (bairros populares) da capital três meses, no melhor dos casos. E sem-
paraguaia, Assunção. No departamen- pre quanto à qualidade, nunca quanto
to Central, a explosão demográfica, o às quantidades extraídas”, completa
êxodo rural e uma rede pública precá- Portillo. A lei de 2007 abre a possibilida-
ria abriram caminho para o mercado de de estabelecer uma tarifa e de colo-
florescente da água. Na mesma situa- car um limite às quantidades extraídas,
ção que os dos centros urbanos vizi- mas jamais se traduziu num número
nhos, os habitantes dessa favela – cons- concreto: continua sendo letra morta.
tituída de casas informais, mas No departamento Central, mais de
construídas para uns poucos há mais mil poços mergulham nas entranhas
de trinta anos – são abastecidos por da terra, como outras tantas chaminés
uma aguatera, uma empresa privada industriais invisíveis. Sobre essa reser-
especializada na distribuição de água. va de água subterrânea do Aquífero Pa-
A tarifa é relativamente baixa – 22 Poluição às margens do rio Chaco: Paraguai, a maior disponibilidade hídrica do continente tiño, que cobre um território de 1.773
mil guaranis (R$ 15) por 8 mil litros km2, concentram-se 2,5 milhões de ha-
mensais –, mas mesmo assim equivale da província. Surgidas no início dos consumo. Além disso, metade não está bitantes, um terço da população. Se-
ao dobro das praticadas na capital pela anos 1980, por causa do crescimento ligada a nenhuma rede de saneamento. tenta por cento das indústrias do país
empresa pública, a Empresa de Serviço demográfico e do êxodo rural, as estão ali. De pouca profundidade, o
Sanitário do Paraguai (Essap). Em con- aguateras possuem hoje um terço das MAIS DE MIL POÇOS aquífero é qualificado como “renová-
trapartida, “vem sempre misturada instalações de distribuição do país. “Há tantos atores nesse setor que a vel”, pois dispõe de capacidade de re-
com barro vermelho. Tenho dois filhos Fiscalização frouxa, mas sobretudo cadeia de responsabilidades foi rompi- carga graças às chuvas, que são regula-
que não a bebem, pois não é confiável”, uma matéria-prima gratuita aguça- da. Em caso de problema ou reclama- res no Paraguai. Mas, na verdade, o
explica Moreo. E a conta aumenta. A ram o apetite de mais de quinhentas ção, um passa a bola para o outro”, la- ciclo de água não se fecha e a reserva
despeito de seu magro salário de cos- empresas. Elas distribuem uma água menta Guillermo Ortega, membro do entra numa situação crítica. Um estu-
tureira (mais ou menos R$ 715 por raramente (ou nunca) analisada aos centro de pesquisa Baseis. Uma miría- do realizado em 2007 pelo consórcio
mês), ela prefere, como muitos para- lugares aonde a rede pública não che- de de organismos públicos assegura a japonês Chou Kaihatsu Corporation
guaios, comprar para beber água mi- ga, isto é, ao departamento Central, gestão da água. Enquanto a Essap, so- (CKC) mostra que sua capacidade de
neral em recipientes de 20 litros. Cento fora de Assunção, que abriga 70% da ciedade anônima com capital majori- recarga chega a 175 bilhões de litros
e oitenta vezes mais cara, a água mine- população. Essa situação diz muito tariamente público, a distribui em ci- por ano, ao passo que 249 bilhões são
ral é considerada segura, isto é, isenta sobre o paradoxo paraguaio. dades com mais de 500 mil habitantes, retirados no mesmo período. Isso sig-
de agentes patogênicos, contrariamen- “Ninguém deveria ficar sem água o Serviço Nacional de Saneamento nifica um balanço hídrico anual nega-
te à água “potável” (que pode exigir tra- potável e segura no Paraguai”, denuncia Ambiental (Senasa) se responsabiliza tivo de cerca de 74 bilhões de litros.2 Se-
tamento prévio a fim de que se torne o hidrólogo Roger Monte Domecq. Com pelas que têm menos de 10 mil, com gundo a Senasa, o nível do aquífero
própria para o consumo). uma disponibilidade hídrica de 67 mil suas “brigadas da água”, cidadãos en- baixa 50 centímetros por ano. Nesse
Considerados mais bem protegi- metros cúbicos por habitante e por ano carregados de velar pelo bom funcio- ritmo, Assunção poderia entrar na lista
dos que as águas de superfície, os re- (para falar só das águas de superfície), namento das redes de saneamento e das megalópoles ameaçadas da Améri-
cursos subterrâneos são objeto de bem acima da média regional (22 mil distribuição. Essa é uma especificida- ca Latina, à semelhança da Cidade do
controles esporádicos. “Os fiscais vie- metros cúbicos), o Paraguai ocupa o de do Paraguai, frequentemente apre- México, onde o bombeamento excessi-
ram ontem... Aparecem uma vez por primeiro lugar no continente, antes da sentada como modelo de gestão num vo da água subterrânea ameaça provo-
ano”, revela um empregado da peque- Venezuela e do Brasil. No entanto, “o contexto de debilidade dos poderes car um rebaixamento do solo.
na empresa familiar Santa Clara, que acesso à água continua limitado e mui- públicos. A rede, porém, não cobre o “São tirados 7 mil litros de água por
fornece água para Moreo. “O resto do to desigualmente repartido entre a re- território inteiro e “as brigadas, quase hora”, revela Blas Chamorro enfatica-
tempo, pagamos laboratórios particu- gião árida do Chaco, no norte, e a parte sempre submetidas às lógicas das polí- mente, como para exaltar uma proeza.
lares para avaliarem a qualidade”, oriental, onde a água é abundante: as ticas municipais, encontram dificul- Nada que deixe boquiaberto o visitante
acrescenta sua colega. O distribuidor zonas rurais e urbanas, os bairros privi-
© Mariano Mantel

dades materiais e financeiras que desse país em que o ouro azul é abun-
privado, com sede a alguma distância legiados e desfavorecidos”, explica abrem espaço para as empresas priva- dante, não fossem os eflúvios nausean-
da casa de Moreo, tira sua água de po- Monte Domecq. Em razão da má gestão das. Enquanto isso, a lei sobre gestão tes de diesel que escapam das bombas
ços artesianos perfurados no Aquífero de recursos, cerca de um quarto da po- hídrica de 2007, segundo a qual a água situadas atrás dele. Em mangas de ca-
Patiño, um imenso lençol subterrâneo pulação não recebe água própria para o pertence ao Estado, dorme numa ga- misa, o dono dessa distribuidora de Lu-
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 15

que, a uma hora de Assunção, vem di- havia açambarcado US$ 61,9 milhões
versificando suas atividades há alguns em 2016. E há mais: um número des- A ÁGUA EM NÚMEROS
anos. Ele vende água em garrafões de conhecido de poços recentemente
perfurados opera sem nenhum con- • Água doce no mundo: 2,8% do volume
20 litros. Generoso, chega a oferecer a
total de água na Terra.
seus clientes uma “ducha grátis” para trole sobre os métodos de tratamento
• Repartição da água doce: 69,7%
seus veículos quando eles fazem uma empregados... Em novembro de 2017, nas geleiras, 30% nos aquíferos e 0,3%
compra de 50 mil guaranis (R$ 34). “Te- o Instituto Nacional de Alimentação nas águas superficiais (lagos, rios,
O olhar da cidadania
mos água. Por que não iríamos aprovei- e Nutrição (Inan) denunciou 26 mar- riachos).
tá-la? Nós a vendemos”, diz apontando cas que “não apareciam no registro • Oito dos 37 aquíferos mais importantes
o poço perfurado a 50 metros dali. Si- sanitário obrigatório”. já estão superexplorados e sem
tuações desse tipo não são raras no Pa- No Paraguai, porém, como em to- possibilidade de recuperação.
raguai. A água, gratuita e de fácil aces- da a América do Sul, a atividade agrí- • Um bilhão e setecentas mil pessoas
so, complementa o salário. No entanto,
existem nessa zona inúmeras distribui-
cola é que exerce a pressão mais forte
sobre as reservas de água. Enquanto o
vivem em bacias em que a utilização da
água é superior à quantidade disponível
ou à capacidade de recuperação. As
Na luta
doras e a corrosão dos reservatórios uso doméstico não representa mais
Nações Unidas calculam que, nesse
afeta o recurso aquífero. Em fevereiro que 10% do consumo e a indústria,

pela
ritmo, em 2025 metade da humanidade
de 2017, um estudo da Universidade 20%, a alimentação e a agricultura in- residirá em zonas de estresse hídrico
Nacional de Assunção mostrou que, de tensiva absorvem 70%, segundo o (menos de 1.700 metros cúbicos por
noventa poços analisados num perí- Aquastat, o serviço de estatística da habitante e por ano).
metro de mil metros em torno das dis- Organização das Nações Unidas para • A Europa dispõe de 8% da água doce e
tribuidoras, 44% continham MTBE,
um aditivo de gasolina.
a Alimentação e a Agricultura (FAO). A
quantidade de “água virtual” utiliza-
da no Paraguai, isto é, a necessária à
representa 13% da população mundial.
• A América do Sul, uma das regiões
mais privilegiadas, dispõe de 28% dos
construção
RESERVAS DEVORADAS PELO AGRONEGÓCIO produção de gêneros alimentícios, é recursos hídricos e abriga 6% da

de uma
“O boom da água engarrafada de dar vertigem. Matemática subter- população mundial.
ocorreu nos anos 1990. Era considera- rânea: se a produção de 1 quilo de soja • Lima (Peru) e Rio de Janeiro (Brasil)
estão na lista das vinte megalópoles que
da mais segura num momento em que – da qual o país é o quarto exportador
sofrem de “estresse hídrico” ou correm o
uma epidemia de cólera assolava o mundial – absorve 1.800 litros de risco de sofrer.

sociedade
país”, explica Ana Portillo. Na época, água, que volume foi necessário para
as fábricas de engarrafamento instala- a colheita recorde, em 2016-2017, de
das nas margens do Rio Paraguai tive- 10,6 milhões de toneladas? Cerca de por dia. “O tempo todo nossos filhos fi-
ram de se deslocar para o interior, pois 20 bilhões de metros cúbicos, ou seja, cam doentes depois de beber a água dos
o tratamento das águas do rio se tor- quase dois terços do consumo médio poços, mas não temos escolha.” Milho
nara muito caro. “Hoje, a poluição do
aquífero é que assusta as pessoas”,
dos franceses em um ano (33 bilhões
de metros cúbicos por ano). Ora, a
seco num pano branco. Com o cuidado
de um equilibrista, ela traz para a mesa
mais justa,
acrescenta a pesquisadora. Nível de FAO prevê que, para alimentar uma uma jarra cheia. “Querem nos expulsar
nitratos mais de 2,5 vezes superior à população mundial avaliada em 8,6 de nossas terras e nos privar de água”, de-
média, resíduos de produtos indus-
triais tóxicos, presença de coliformes
bilhões de pessoas em 2050, a produ-
ção agrícola deverá aumentar 60%...
nuncia Jimenez. Nem caubóis com o ci-
garro entre os dentes nem diligências solidária e
por causa da precariedade das redes Pelas estradas esburacadas que cheias de garimpeiros; nessas plagas fér-
de coleta e tratamento dos esgotos... conduzem à comunidade Guarany, teis está em curso uma conquista nova
Nos últimos dez anos, não faltaram es-
tudos sobre a contaminação grave do
nosso veículo atravessa centenas de
hectares de plantações de soja ba-
em que a terra e a água são o prêmio.
Uma superposição de títulos de proprie- sustentável.
Aquífero Patiño. E a indústria da água nhadas por um sol a pino. Estamos dade alimenta o conflito entre os grandes
engarrafada sabe tirar proveito desse no departamento de Caaguazú, a plantadores de soja e os pequenos cam-
clima de desconfiança generalizada. uma centena de quilômetros da fron- poneses locais.3 A jovem, contemplando
Nos supermercados, as gôndolas de teira brasileira. Uma terra sem som- a terra roxa, descreve um clima de Velho
água mineral são enormes, e bilhões bra. É preciso dar asas à imaginação Oeste: “Toda vez que nos expulsam, não
de litros extraídos do aquífero, trata- para visualizar a floresta tropical que se limitam a destruir nossas plantações e
dos e envasados em plástico, são ven- cobria, até meados do século XX, a sementes, mas envenenam os poços com Quartas, às 17h,
didos a preço de ouro. Se o argumento parte oriental do Paraguai. Aqui é dejetos tóxicos para nos dissuadir de vol- Rádio USP (São Paulo: 93,7 FM
comercial, há dez anos, insistia na reti- uma das poucas “zonas de recarga” tar. Nós, porém, voltamos. Aqui é o nosso
Ribeirão Preto: 107,9 FM)
rada direta da “água pura do aquífero”, do Aquífero Guarani, um dos maio- lar!”. Tanto para os guaranis como para
agora o que se enfatiza é a “qualidade res lençóis de água doce do planeta, outras comunidades de camponeses,
do tratamento”. A população julga situado no subsolo do Paraguai, Bra- terra e água são um casus belli perma- Quartas, à meia-noite
pouco confiável a rede pública, e as sil, Uruguai e Argentina. A água da nente. Muitos deles, agora despojados de
TV Aberta SP, canais 9 da NET, 8 da
constantes advertências das autorida- chuva se infiltra na terra e o reali- terra e água, já foram lotar os cinturões
Vivo Fibra e 186 da Vivo.
des sanitárias sobre o estado toxicoló- menta. Cenário idílico? Não, de mo- de miséria das grandes aglomerações.
gico do aquífero ajudam em muito as do algum. O desmatamento galopan- Outros resistem.
grandes marcas de água mineral. te (370 mil hectares por ano) provoca
Esse filão não escapou ao grupo a erosão do solo e a chuva carrega *Guillaume Beaulande é jornalista.
Coca-Cola, por intermédio de sua mar- consigo pesticidas e outros produtos
ca Dasani (mais de 40% do mercado), agrícolas tóxicos. Uma espuma aver-
nem ao grupo Cartes – que pertence à melhada mancha agora as margens 1 Cf. Ana Portillo e Guillermo Ortega, El agua:¿bien
común o mercancia? [A água: bem comum ou mer- observatorio3setor
família de Horacio Cartes, presidente do majestoso Lago Yguazú, a reserva cadoria?], Base Investigaciones Sociales, Assunção,
de 2012 a 2018 –, por intermédio de sua criada para a construção da barra- 2015.
marca La Fuente. Além dessas, há mais gem do mesmo nome. 2 Aristides Ortiz Duarte, “189 mil millones de litros de
de 150 registradas. Um negócio lucrati- “Os peixes morrem nos rios locais
agua anual sera el balance negativo del acuífero Pa- observatorio3setor
tiño para el 2020” [189 bilhões de litros de água
vo: de 2016 a 2017, a Câmara de Comér- e logo vão desaparecer”, lamenta Lé- anuais serão o saldo negativo do Aquífero Patiño para
cio Paraguaia das Águas Minerais (Ca- rida Jimenez, membro da comunida- 2020], E’a, Assunção, 17 jan. 2017.
pam) registrou um aumento médio de de. Nesse fim de verão, colheitas e se-
3 Ver Maurice Lemoine, “Le Paraguay dévoré par le www. observatorio3setor.org.br
soja” [O Paraguai devorado pela soja], Le Monde Di-
20% nos negócios de um setor que já meaduras exigem duas pulverizações plomatique, jan. 2014.
16 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

DESVIO REPRESSIVO

O que acontece na Nicarágua?


Desde abril, a Nicarágua convive com confrontos de rua. De um lado, manifestantes de origens sociais diversas
e ambições frequentemente incompatíveis. De outro, o chefe de Estado, Daniel Ortega, que não se abala com a repressão.
Nos anos 1980, o presidente socialista pôde contar com o apoio da esquerda internacionalista. E agora?
POR BERNARD DUTERME*

ficativa: consolidar o poder, a qual-


quer custo, para não se deixar vencer
como em 1990. O conselheiro do presi-
dente, Orlando Nuñez, nos confirmou
voluntariamente em uma entrevista
em fevereiro de 2017: “Como podería-
mos recuperar e depois assentar nosso
poder sem esses pactos e sem compra
de votos? Não há hegemonia possível
sem aliança. Como os partidos de di-
reita podem ganhar se a maioria de
seus dirigentes está sentada no Parla-
mento enquanto deputados sandinis-
tas ou similares? Não queremos mais
perder o poder pelas urnas”. Em suma,
a experiência de 1990 legitimou um
oportunismo descomplexado matiza-
do com uma dose de cinismo.
No plano econômico, aproveitando
© Daniel Kondo

o contexto internacional favorável até


2014 (preços elevados das matérias-pri-
mas exportadas, entrada em vigor do
acordo de livre-comércio entre Estados
Unidos e América Central, generosida-
de venezuelana), a administração Orte-
ga instaurou seu “modelo de aliança e
consenso” com grandes empresas pri-
vadas,2 a tal ponto de José Adán Aguerri,
presidente da principal federação pa-
tronal, endossar o papel de porta-voz de
decisões governamentais.
Um tapete vermelho foi estendido

H
á duas leituras sobre as violên- próximos à maioria dos comandantes, ABANDONO DAS ANTIGAS BANDEIRAS aos investidores estrangeiros, por
cias políticas que assolam a Ni- responsáveis políticos e intelectuais Depois da derrota eleitoral dos san- meio de isenções e exonerações fiscais
carágua desde abril deste ano. sandinistas que deixaram a FSLN de- dinistas em 1990, as escolhas do inamo- que representam, segundo as estima-
De um lado, o presidente Da- cepcionados com o orteguismo, de- vível secretário-geral do FSLN deixam tivas, entre US$ 800 milhões e US$ 1
niel Ortega, ex-dirigente revolucioná- nunciam o caráter neoliberal, conser- pouco lugar a dúvidas. Reconquistar o bilhão, ou 40% do orçamento nacio-
rio sandinista que chegou à presidên- vador e autocrático de um poder que poder, edificar e concretar sua hegemo- nal. As leis ambientais foram desman-
cia pelas urnas em 2006, apresenta-se enganou a opinião internacional ao se nia, dobrar o PIB em uma década (2007- teladas; um decreto de 2017, por exem-
como vítima de uma tentativa de gol- declarar socialista; entre eles, o Exérci- 2017) e receber os parabéns de institui- plo, flexibiliza a obrigatoriedade de
pe, ou de uma “conspiração” arquite- to Zapatista de Libertação Nacional no ções financeiras internacionais teve um estudos de impacto para projetos de
tada por “terroristas”, “delinquentes” e México, o Movimento dos Trabalhado- custo: a renúncia dos ideais de outros exploração de recursos naturais. O re-
“narcotraficantes”. De outro, os mani- res Rurais Sem Terra (MST) no Brasil tempos relativos à partilha do poder, gime de zonas francas foi estendido
festantes – estudantes, camponeses, ou ainda José “Pepe” Mujica, ex-presi- justiça social e soberania nacional.1 notadamente aos cultivos de tabaco e
aposentados, indígenas etc. –, unidos dente do Uruguai. Outros, como o Foro O clã presidencial construiu minu- maracujá. Hoje, o setor privado con-
em mobilizações maciças e heterogê- de São Paulo, que reúne quadros dos ciosamente seu controle sobre o con- trola 90% da produção anual3 de ri-
neas que se dizem “autoconvocadas” e partidos progressistas latino-america- junto dos poderes. Fez “pactos” com os quezas, enquanto a agência oficial de
proclamam querer derrubar pacifica- nos, veem nas violências a mão de inimigos de ontem: mecenas da con- promoção do país junto a investidores,
mente a “ditadura orteguista”, “nepo- Washington e os tentáculos de uma di- trarrevolução, ideólogos do liberalis- a ProNicaragua, gaba-se, em seu site,
tista e corrupta”. reita local desejosa de se livrar de um mo, dirigentes políticos de direita mais de o país ter o salário mínimo “mais
Tanto na Europa como na América governo de esquerda. A prova, argu- ou menos corruptos, cardeais “fazedo- competitivo em escala regional, o que
do Norte e do Sul, a esquerda interna- mentam: Ortega sucumbe aos ataques res de presidentes”, dirigentes evangé- torna a Nicarágua um país ideal para
cionalista, que apoiava a revolução da do grande patronato e da hierarquia licos. Reformou e contornou a Consti- estabelecer operações que necessitem
Frente Sandinista de Libertação Nacio- colonial! – embora omitam que o setor tuição, multiplicou as cooptações e os de mão de obra intensiva”. Ortega fez
nal (FSLN), dirigida pelo mesmo Orte- privado e a Igreja estavam entre as li- monopólios, organizou eleições duvi- da Nicarágua um “modelo coroado de
ga nos anos 1980, está dividida. Alguns, nhas de frente de apoio do governo. dosas. Cada manobra tinha uma justi- sucesso”, considerava o FMI em maio
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 17

de 2017,4 antes de aconselhar o presi- ção ativa vivia do setor informal em OPOSIÇÃO NA OPOSIÇÃO aprovação no Senado, condiciona o
dente sandinista a impor uma política 2017, contra 60% em 2009. E, apesar da Entre trezentos e quatrocentos aval dos Estados Unidos para emprés-
de redistribuição de riquezas para as duplicação das riquezas produzidas no mortos, milhares de feridos, diversos timos de instituições multilaterais mi-
empresas beneficiadas! 5 interior de suas fronteiras em dez anos, detidos e uma tentativa de “diálogo rando o “restabelecimento da demo-
O orteguismo jubila: o crescimento a Nicarágua permanece o país mais pela paz” abortada, o país ficou livre cracia e a luta contra a corrupção”. Os
econômico é um dos mais elevados do pobre do continente depois do Haiti. das barricadas. Alguns dirigentes, es- segundos constituíram uma Articula-
continente (4% a 5% por ano), os in- A partir de 2015-2016, o auxílio ve- tudantes ou camponeses, assim como ção de Movimentos Sociais que pro-
vestimentos estrangeiros decolam nezuelano caiu, assim como o preço dissidentes sandinistas, calaram-se, põe, na ausência de bases políticas
(16% por ano em média desde 2006), das matérias-primas. Além disso, o cli- se não fugiram do país. De seu lado, o confiáveis, um “caminho para a de-
assim como as exportações (8%), e o ma dos negócios com os Estados Uni- chefe de Estado celebrou o retorno à mocratização”: a destituição do regi-
comércio com os Estados Unidos, de dos se deteriorou. Essa reviravolta da “normalidade”. Enquanto isso, Ortega me Ortega, a formação de um governo
longe o parceiro principal, está cres- conjuntura complicou o cenário para perdeu o apoio da Igreja Católica – me- de transição e a eleição de uma assem-
cendo. O governo investe, constrói, o governo, que se vê privado de recur- diadora antiorteguista nesse conflito bleia constituinte.
moderniza e garante a estabilidade e a sos que permitiram tornar sua gestão – e do grande patronato. Depois de seis Agora, enquanto no interior do país
paz social. Graças ao auxílio petroleiro do poder tolerável sob os olhos da po- semanas de repressão, os três princi- a situação socioeconômica se deterio-
da Venezuela chavista – o equivalente pulação. E mais: a crise ameaça a pais grupos financeiros (Pellas, Lafise ra, o governo nicaraguense sofre a pres-
a um quarto do orçamento nacional a aliança articulada por Ortega – e sua e Banpro) retiraram o apoio ao gover- são dos “golpistas”. No exterior, tenta
cada ano, mas gerado fora –, financia esposa, vice-presidente, figura-chave no, até então incondicional. O Conse- conciliar as recomendações e as amea-
vários programas sociais. Mas as gran- do poder – com dois aliados funda- lho Superior das Empresas Privadas ças de sanção de uma “comunidade in-
des ambições de transformação de on- mentais, os grandes grupos privados (Cosep), a Câmara de Comércio e da ternacional” que apoiou, aplaudiu e até
tem foram substituídas por projetos de (inquietos com a desaceleração da Indústria (AmCham) em Manágua e a financiou Manágua nos últimos anos
“luta contra a pobreza”, similares aos economia e os protestos sociais) e os Fundação para o Desenvolvimento pela ortodoxia de sua política...
que acompanharam os ajustes estru- Estados Unidos. A hostilidade latente Econômico e Social (Funides) figuram
turais dez anos antes. desses dois últimos tem sido modera- na linha de frente da Aliança Cívica *Bernard Duterme é diretor do Centro Tricon-
Não sem registrar certo sucesso, da pela capacidade de Manágua de ga- pela Democracia e pela Justiça, convi- tinental (Cetri) em Louvain-la-Neuve (Bélgica)
em geral exagerado nos anúncios ofi- rantir a estabilidade política, o livre- dada pela Conferência Episcopal para e autor de Toujours sandiniste, le Nicaragua?
ciais. De acordo com o governo, a par- -comércio e a mais fiel colaboração em negociar com o governo. “Eles reivin- [A Nicarágua ainda é sandinista?] (Cetri, 2017).
cela da população que vive sob a linha relação à imigração. dicam o fim da violência e a convoca-
da pobreza teria reduzido drastica- Em abril último, a negligência do ção de eleições antecipadas em 2019,
mas não a greve geral nem a partida 1 Ler “Au Nicaragua, que reste-t-il du sandinisme ?”
mente, passando de 42,5% para 29,6% poder diante dos incêndios de florestas
[O que resta do sandinismo na Nicarágua?], Le
em 2014. Se essa conta for feita sob a na reserva natural Indio Maíz e, na se- imediata do casal presidencial, como Monde Diplomatique, set. 2016.
metodologia utilizada pelo Banco quência, o projeto de reforma da previ- querem outros setores – mais popula- 2 Pedro Ortega Ramírez, “Políticas económicas han
res ou mais à esquerda – da oposição”, sido acertadas para reducir la pobreza” [As políti-
Mundial, a redução se revela menos dência levaram às ruas algumas cente-
cas econômicas têm sido acertadas para reduzir a
impactante: de 44,7% de pobres em nas de militantes ecologistas, a quem lamenta a líder estudantil Claudia H. pobreza], El 19, 10 abr. 2018. Disponível em: <el-
2009 a 40,5% em 2014, enquanto a po- logo em seguida se uniram milhares de “A revolta é composta, de um lado, 19digital.com>.
pelos ‘Miami Boys’, que voltaram para 3 Óscar-René Vargas, Nicaragua cambia, todo cam-
breza extrema permaneceria estagna- estudantes e aposentados. Atiçada pela
bia [A Nicarágua muda, tudo muda], Asdi, Maná-
da (de 9,7% a 9,5%, no mesmo perío- violência e desproporção da repressão, o país após a derrota da revolução san- gua, 2014.
do). Contudo, ao mesmo tempo, as a opinião pública se mobilizou maci- dinista em 1990, com um programa de 4 Pedro Ortega Ramírez, “FMI reconoce exitoso mo-
empreendedorismo próximo aos inte- delo de Nicaragua” [FMI reconhece o modelo exi-
desigualdades aumentam, o que se çamente contra o casal presidencial e
toso da Nicarágua], El 19, 4 maio 2017. Disponível
confirma com as estimativas oficiais.6 seus símbolos. Dezenas de barricadas resses norte-americanos. E, de outro, em: <el19digital.com>.
“O número de multimilionários (com se espalharam pelo país, em particular por sandinistas históricos e uma série 5 Ler “Recherche percepteurs désespérément”
de organizações sociais, estudantis, [Busca-se cobrador de impostos desesperada-
pelo menos US$ 30 milhões cada um) por estudantes, jovens de comunida-
mente], Le Monde Diplomatique, abr. 2018.
cresceu de forma contínua nos últi- des e camponeses. Várias manifesta- feministas, indígenas e camponesas 6 Os números deste parágrafo foram tirados de Artu-
mos quatro anos, e hoje são 210”, es- ções, que reuniram centenas de milha- que se opõem ao extrativismo e à con- ro Grigsby, “La Ley Nica nos coloca en una situa-
centração de terras”, explica René Ro- ción de alto riesgo. ¿Nos tocará repetir el mito de
creve o economista Enrique Sáenz.7 res de nicaraguenses, sitiaram as
Sísifo?” [A Lei Nica nos coloca em uma situação
Mais da metade dos nicaraguenses, cidades e enfrentaram tiros da polícia dríguez, militante universitária do de alto risco. Repetiremos o mito de Sísifo?], En-
por outro lado, não pode pagar a cesta e dos esquadrões de “policiais voluntá- grupo SOS Nicarágua. Os primeiros vío, Manágua, n.415, out. 2016.
esperam que Washington eleve o tom 7 Edmundo Jarquín (org.), El régimen de Ortega.
básica, e o salário real médio cobre rios” (termo usado pelo presidente na
¿Una nueva dictadura familiar en el continente? [O
apenas 70% de seu custo. De acordo CNN, no dia 28 de julho) munidos de das condenações e ative o Nica Act. Es- regime de Ortega. Uma nova ditadura familiar no
com o Banco Central, 80% da popula- equipamentos do Exército. se texto, tramitando há um ano para continente?], Pavsa, Manágua, 2016.
1 SUPLEMENTO O ESTADO DA SEGURANÇA ALIMENTAR E DA NUTRIÇÃO NO MUNDO (2018), REALIZADO PELA FAO

A fome no mundo segue aumentando


Pelo terceiro ano consecutivo, a realidade é desoladora: o número de famintos no mundo segue crescendo.
De acordo com o relatório O estado da segurança alimentar e nutricional no mundo, em 2017 havia 821 milhões de pessoas –
uma em cada nove – passando fome. A situação está piorando na América do Sul, África e Ásia
Por Enrique Yeves*

O relatório O estado da segurança


alimentar e nutricional no mundo,
apresentado pela Organização das Nações
PREVALÊNCIA DA SUBALIMENTAÇÃO NO MUNDO, 2005-2017

Unidas para a Alimentação e a Agricultura


Prevalência da subalimentação (%)
(FAO), pelo Fundo Internacional de Desen-
2005 2010 2012 2014 2016 2017 1
volvimento Agrícola (Fida), pelo Programa
MUNDIAL 14,5 11,8 11,3 10,7 10,8 10,9
Mundial de Alimentos (PMA), pela Organi-
ÁFRICA 21,2 19,1 18,6 18,3 19,7 20,4
zação Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fun-
África setentrional 6,2 5,0 8,3 8,1 8,5 8,5
do das Nações Unidas para a Infância (Uni-
África setentrional (exceto Sudão) 6,2 5,0 4,8 4,6 5,0 5,0
cef), indica avanços limitados no combate
às várias formas de má nutrição – que vão África subsahariana 24,3 21,7 21,0 20,7 22,3 23,2

desde o atraso do crescimento infantil até África oriental 34,3 31,3 30,9 30,2 31,6 31,4

a obesidade adulta, e ameaçam a saúde África central 32,4 27,8 26,0 24,2 25,7 26,1

de milhões de pessoas em todo o planeta. África austral 6,5 7,1 6,9 7,4 8,2 8,4

O cenário está piorando na América do África ocidental 12,3 10,4 10,4 10,7 12,8 15,1
Sul – agravado pela situação da Venezuela ÁSIA 17,3 13,6 12,9 12,0 11,5 11,4
–, na maior parte da África e também na Ásia central 11,1 7,3 6,2 5,9 6,0 6,2
Ásia. Neste último continente, o mais po- Ásia sudoriental 18,1 12,3 10,6 9,7 9,9 9,8
puloso do mundo, a tendência decrescente Ásia meridional 21,5 17,2 17,1 16,1 15,1 14,8
que o caracterizava está regredindo de for- Ásia ocidental 9,4 8,6 9,5 10,4 11,1 11,3
ma significativa e a dimensão em números Ásia central e Ásia meridional 21,1 16,8 16,7 15,7 14,7 14,5
desse retrocesso afeta qualquer possibilida- Ásia oriental e Ásia sudoriental 15,2 11,5 10,1 9,0 8,9 8,9
de de mudança global. Ásia ocidental e África setentrional 8,0 7,1 8,9 9,3 9,9 10,0
A desaceleração econômica, as mudan- AMÉRICA LATINA E CARIBE 9,1 6,8 6,4 6,2 6,1 6,1
ças políticas em alguns países – em parti- Caribe 23,3 19,8 19,3 18,5 17,1 16,5
cular na América Latina –, a cada vez mais América Latina 8,1 5,9 5,4 5,3 5,3 5,4
evidente variação climática (que afeta os América Central 8,4 7,2 7,2 6,8 6,3 6,2
padrões de chuva e as temporadas agríco- América do Sul 7,9 5,3 4,7 4,7 4,9 5,0
las, além de agudizar fenômenos meteoro- OCEANIA 5,5 5,2 5,4 5,9 6,6 7,0
lógicos extremos como seca e inundações) AMÉRICA SETENTRIONAL E EUROPA < 2,5 < 2,5 < 2,5 < 2,5 < 2,5 < 2,5
e os conflitos parecem ser os principais fa- 1
Valores projetados.
tores por trás desse aumento. FONTE: FAO
Esse retrocesso – os níveis de fome
voltaram aos de uma década atrás – é um
sinal muito claro: é preciso fazer mais e NÚMERO DE PERSONAS SUBALIMENTADAS, 1970-2017
com mais urgência para alcançar o obje-
tivo de fome zero da Agenda 2030 para o 1000 MILHÕES DE PESSOAS Número de perssoas
Desenvolvimento Sustentável, com a qual subalimentadas
a comunidade internacional está compro- 950
metida. Essa meta parece cada vez mais
distante (ver quadro). Objetivo
900 FOME
ZERO
É PRECISO AVANÇAR MAIS RÁPIDO
CONTRA A MÁ NUTRIÇÃO 850
2017
Apesar de certos avanços em relação ao 821
comprometimento do crescimento infantil, 800
os dados continuam inaceitáveis: em 2017,
eram quase 151 milhões de crianças meno- 750
res de 5 anos com estatura muito inferior à
idade por causa da má nutrição – a maioria
700
na África e na Ásia. Em 2012, esse número 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000 2005 2010 2015 2020 2025 2030
era de 165 milhões – o que representa uma
FONTE : FAO, 2018. O ESTADO DA SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRIÇÃO NO MUNDO.
queda tímida em cinco anos.
SUPLEMENTO O ESTADO DA SEGURANÇA ALIMENTAR E DA NUTRIÇÃO NO MUNDO (2018), REALIZADO PELA FAO 2

A persistência da anemia (desnutrição A mudança climática oferece novos extremos, que comprometem a produção a fenômenos climáticos extremos; e, se a
aguda infantil) continua extremamente desafios, para os quais a agricultura deve de algumas culturas importantes, como resiliência climática não se fortalecer, a
alta na Ásia, onde quase uma entre cada se adaptar, por meio de medidas que for- trigo, arroz e milho em regiões tropicais e situação vai piorar.
dez crianças menores de 5 anos tem peso taleçam a resiliência e a capacidade de temperadas. A evidência não deixa lugar
abaixo do indicado para sua estatura, em adaptação dos sistemas alimentares e para dúvidas: a persistência e o número *Enrique Yeves é jornalista especializa-
comparação a um índice de um em cada meios de subsistência diante da variação de pessoas subalimentadas tendem a ser do em temas de desenvolvimento interna-
cem na América Latina e Caribe. do clima e de fenômenos meteorológicos mais elevados em países muito expostos cional e diretor de Comunicação da FAO.
Também é vergonhoso que, em pleno
século XXI, uma em cada três mulheres
em idade reprodutiva seja afetada pela EVOLUÇÃO DA SUBNUTRIÇÃO NA AMÉRICA LATINA E CARIBE, 2000-2017 (EM MILHÕES)
anemia, com terríveis consequências para
a saúde e o desenvolvimento tanto delas 70
mesmas como de seus filhos. Em nenhuma 62 ,6
60 ,6
região do mundo houve diminuição desse 60 58 ,5
56 ,7
problema, e em lugares como África e Ásia 54 ,4
51 ,1
o assunto é três vezes mais grave que na 50 47 ,5
44 ,3
América do Norte. 42 ,4 41 ,9 40 ,7 39 ,5 38 ,9 38 ,8 38 ,5 38 ,7 38 ,9 39 ,3
40
MILHÕES DE PESSOAS

A OUTRA CARA DA FOME:


O AUMENTO DA OBESIDADE 30
A fome não deve ser a única preocu-
pação, já que, paralela e paradoxalmente, 20
assistimos a uma preocupante epidemia
de obesidade e sobrepeso: um em cada 10
oito adultos – 672 milhões de pessoas – é
obeso. Trata-se de um problema especial- 0
20 00 20 01 20 02 20 03 20 04 20 05 20 06 20 07 20 08 20 09 20 10 20 11 20 12 20 13 20 14 20 15 20 16 20 17
mente grave na América do Norte, embo-
FONTE: FAO, OPS, PMA e UNICEF. Panorama da segurança alimentar e da nutrição na América Latina e Caribe 2018.
ra, infelizmente, na África e na Ásia essa
tendência também esteja aumentando.
A fome e a obesidade coexistem em SOBREPESO E OBESIDADE EM ADULTOS NA AMÉRICA LATINA E CARIBE (PORCENTAGEM)
muitos países, inclusive dentro de um
mesmo domicílio. A falta de acesso a 70
alimentos nutritivos – por causa de seu
maior custo –, o estresse de viver com 60 57 ,7

51 ,2
insegurança alimentar e as adaptações 50
fisiológicas à privação de alimentos aju- 44 ,3

dam a explicar por que as famílias em 40 37 ,1


PORCENTAGEM

33 ,3
situação de insegurança alimentar podem
30
ter maior risco de sobrepeso e obesidade. 23 ,6

20 18 ,5
13 ,9
ERRADICAR A FOME: UM DESAFIO 9, 9
10 7, 8
CADA VEZ MAIS DIFÍCIL DE
ALCANÇAR 0
1975 1985 1995 2005 2015
Todos esses dados colocam cada vez
Sobrepeso Obesidade
mais em questão nossa capacidade de
FONTE: FAO, OPS, PMA e UNICEF. Panorama da segurança alimentar e da nutrição na América Latina e Caribe 2018.
alcançar a meta de erradicação da fome
antes de 2030. Difícil, mas não impossível,
diz relatório da FAO, se as políticas apro- DESNUTRIÇÃO CRÔNICA EM MENORES DE 5 ANOS NA AMÉRICA LATINA E CARIBE (MILHÕES)
priadas em cada país se acelerarem, em
um esforço coletivo internacional.
14
Para isso, é preciso aplicar as medidas 12 ,9

já conhecidamente eficazes, o que inclui 12 11 ,3


pôr em prática políticas de garantia do
10 9, 6
acesso a alimentos nutritivos por grupos
mais vulneráveis e romper com o ciclo in- 8
tergeracional da má nutrição, com espe- 6, 5
MILHÕES DE CRIANÇAS

cial atenção aos mais sensíveis: lactantes, 6 5, 5


5, 1
crianças abaixo de 5 anos e em idade es- 4, 5

4 3, 7
colar, meninas adolescentes e mulheres.
Ao mesmo tempo, é preciso uma mudan- 2
ça sustentável na produção agrícola e nos
sistemas alimentares para que possam 0
1995 2000 2005 2010 2015 2017 2020 2025
proporcionar alimentos saudáveis e de FONTE: FAO, OPS, PMA e UNICEF. Panorama da segurança alimentar e da nutrição na América Latina e Caribe 2018.
qualidade para todos.
3 SUPLEMENTO O ESTADO DA SEGURANÇA ALIMENTAR E DA NUTRIÇÃO NO MUNDO (2018), REALIZADO PELA FAO

Mudança climática e segurança alimentar


A variação do clima e a exposição a condições climáticas extremas, frequentes e intensas ameaçam
enfraquecer e reverter os avanços conquistados na direção da erradicação da fome e da má nutrição

© Daniel Kondo
E m 2017, quase 124 milhões de pessoas
em 51 países e territórios padeciam de
insegurança alimentar aguda em grau de cri-
(trigo, arroz e milho) em regiões tropicais e
temperadas, e, se não forem tomadas medi-
das para adaptar a agricultura a essa situa-
e tempestades tropicais são os fenômenos
que mais afetam a produção de alimentos. A
seca, em particular, causa mais de 80% dos
Recentemente, foram registradas gran-
des variações nos dados de precipitações,
com fortes anomalias tanto positivas como
se ou situações piores; alguns chegaram a ção, é possível que o cenário se agrave com danos e perdas totais na agricultura. negativas em comparação à média histórica.
precisar de ajuda humanitária urgente para o aumento de temperatura. A quantidade Em muitas zonas, os fenômenos extre- É notável o nível de chuva inferior ao nor-
salvar vidas e preservar suas formas de vida. de eventos extremos – como calor forte, se- mos cresceram em número e em intensi- mal registrado em grande parte do mundo
Esses números representam um aumento cas, inundações e tempestades – duplicou dade, especialmente onde as temperaturas em 2015-2016, também evidente no perío-
em comparação a 2015 e 2016, quando fo- desde a década de 1990, com uma média médias estão aumentando, ou seja, os dias do maior de 2011-2016 – particularmente
ram notificadas, respectivamente, 80 milhões anual de 213 episódios entre 1990 e 2016. de muito calor passaram a ser mais fre- na África, América Central, América do Sul
e 108 milhões de pessoas em níveis críticos. Os desastres climáticos dominaram o pa- quentes e ainda mais quentes. As anomalias e Sudeste Asiático. Os meios de vida de mi-
A variação climática e os eventos ex- norama dos riscos a ponto de, atualmente, de temperatura nas superfícies cultivadas lhões de famílias de agricultores de pequena
tremos são algumas das principais causas representarem mais de 80% dos principais se mostraram mais elevadas que a média escala, pastores e produtores agropastoris
da crise alimentar. Em 2017, por exemplo, desastres notificados internacionalmente. De entre 2011 e 2016 e deram lugar a tem- dependem das chuvas, que, por outro lado,
os choques climáticos foram a causa fun- todos os perigos naturais, inundações, secas peraturas extremas nos últimos cinco anos. acima dos níveis normais, podem provocar
damental desse problema em 34 dos 51
países que enfrentavam situação de inse-
gurança alimentar. Onde os conflitos e cho-
ques climáticos atuam de forma conjunta, a Aumento do número de desastres extremos relacionados ao clima, 1990-2016
incidência de insegurança alimentar aguda
é ainda maior. 300

OS EFEITOS DA MUDANÇA
CLIMÁTICA NA AGRICULTURA
A mudança climática e os eventos ex- 200
NÚMERO TOTAL DE EVENTOS

tremos são dois dos principais fatores res-


ponsáveis pelo recente aumento da fome
no mundo e algumas das principais causas Seca
das graves crises alimentares. A situação da 100
Inundação
fome é significantemente pior em países Temperatura
cujos sistemas agrícolas são extremamente extrema

sensíveis à variação de precipitações, tem- Tormenta


0 Total de
peraturas e secas graves, e onde os meios fenômenos
90

92

94

96

98

00

02

04

06

08

10

12

14

16
19

19

19

19

19

20

20

20

20

20

20

20

20

20

de vida de uma elevada proporção da po-


ANO
pulação dependem da agricultura. A seguir,
analisam-se os efeitos concretos da mudan- Nota: número total de desastres naturais ocorridos em países de baixa e média renda por região e durante o período 1990-2016. Os desastres se definem como eventos de média e grande escala que superam
ça climática na agricultura. os níveis estabelecidos para o registro na Base de Dados Internacional sobre Desastres (EM-DAT). Ver anexo 2 para consultar a definição completa de desastres incluídos na EM-DAT.

As mudanças no clima estão enfraque- Fonte: Elaborado pela FAO a partir dos dados procedentes da Base de Dados Internacional sobre Desastres (EM-DAT). 2009. EM-DAT [on line].Bruxelas. Disponível em www.emdat.be
EM-DAT
cendo a produção dos principais cultivos
SUPLEMENTO O ESTADO DA SEGURANÇA ALIMENTAR E DA NUTRIÇÃO NO MUNDO (2018), REALIZADO PELA FAO 4

danos nas plantações, além de erosão do


solo e inundações. Durante o fenômeno El
Niño de 2015-2016, grande parte da Ásia ex-
perimentou níveis de precipitação mais altos
que o normal. As inundações, que aumenta- Os choques climáticos foram uma das principais causas de situações
ram 65% nos últimos 25 anos, configuram o
evento climático extremo que mais provoca de crise alimentar em 2017.
desastres no mundo.
A natureza das estações chuvosas tam-
bém está mudando, em particular o mo-
Países afetados por choques climáticos
mento em que se produzem os fenômenos Regiões Os choques climáticos (também afetados por conflitos )
climatológicos estacionais, e isso faz que
muitos países e regiões (especialmente na Secas
Burundi, Djibuti, Swazilândia, Quênia, Lesoto, Namíbia,
e Somália
África e na Ásia) estejam mais expostos
Períodos
a mudanças de estação. Em 52 países de secos/chuvas Angola, Chade, Sudão do Sul e Uganda
baixa e média renda, as estações se adian- escassas

taram ou atrasaram; 29 experimentaram Variação da


estação (início
menor duração; e 28 apresentaram ambas tardio da Sudão e Zâmbia
estação
as circunstâncias. úmida)

Início tardio e
OS EFEITOS DO CLIMA NA períodos Camarões, Gâmbia, Mauritânia (término cedo da estação úmida), Níger e Tanzânia
secos/chuvas +
SEGURANÇA ALIMENTAR E NA irregulares
NUTRIÇÃO
África
Há uma nova informação procedente Início tardio e
Guiné-Bissau
inundações +
do balanço da produção de alimentos no
mundo que aponta para a redução da dis- Malawi
+
ponibilidade de alimentos e o aumento dos
preços em regiões afetadas pelo El Niño Etiópia
em 2015-2016. Esse fenômeno deu lugar +
Secas
a grandes desvios e anomalias climáticas e outros
+ Zimbábue
choques
em comparação com as pautas históricas, climáticos
que afetaram de diferentes formas e níveis + República Democrática do Congo
de intensidade diversas partes do mundo.
Os indicadores da segurança alimen- + + Madagascar e Moçambique
tar e nutrição podem estar associados a
um evento climático extremo, por exem- + o Afeganistão, Nepal, e Paquistão
plo, uma seca grave, o que dificulta de Inundações
e outros
Ásia + Bangladesh
forma crítica a agricultura e a produção choques
climáticos
de alimentos. Em quase 36% dos países
o Sri Lanka e Iêmen
que experimentaram aumento da subnu-
trição desde 2005, houve secas graves.
+ Guatemala e Haiti
Dezenove dos 27 países que sofreram es- América Secas e
Latina e outros choques
tresse por secas graves estão na África, e Caribe climáticos
Honduras
+
o restante, na Ásia (quatro países), Amé-
rica Latina e Caribe (três países) e Europa
oriental (um país). Países afetados por conflitos Países afetados por períodos secos Países afetados pela variação estacional
Os dados indicam que o número de
países de baixa e média renda expostos Países afetados por secas Países afetados por inundações repentinas Países afetados por tempestades
a eventos climáticos extremos aumentou
de 83% em 1996-2000 para 96% em 2011- Países afetados por inundações

2016. O mais chamativo é que a frequên- Notas: Esta tabela foi elaborada a partir da publicação Global Food Crisis Report 2018 (Relatório Mundial sobre as Crises Alimentares, 2018). A tabela
cia e a intensidade da exposição a eventos apresenta o número de pessoas que sofrem de insegurança alimentar segundo a Classificação Integrada de Segurança Alimentar e a Fase Humanitária
climáticos extremos também aumentaram. [CIF], ou o Cadré Harmonisé (CH), e oferece informação sobre a presença de choques climáticos específicos (seca, inundações, ciclones), que são fatores
Esta edição do relatório O estado da se- que contribuem para a insegurança alimentar. Essa informação se complementa com dados sobre outros tipos de choques climáticos relacionados à
gurança alimentar e da nutrição no mundo insegurança alimentar (períodos secos, inundações repentinas e variação estacional). A informação sobre estas procede do relatório Global Food Crisis
Report 2018 e dos resumos informativos de países do Sistema Mundial de Informação e Alerta sobre a Alimentação e a Agricultura (SMIA) da FAO. A
(2018), publicado pela FAO, está centrada
população da fase 4 da CIF correspondente ao Sudão do Sul também inclui a população da Fase 5 da CIF. Alguns países não foram incluídos no relatório
na questão dos efeitos da mudança climá- devido à falta de dados validados recentemente ou porque as variações na cobertura geográfica da análise da CIF ou do CH constituem uma limitação
tica na segurança alimentar e na nutrição. técnica no momento de mostrar as tendências de determinados países.
Como conclusão, pode-se dizer que, nos
países onde a produção agrícola, os siste-
Fonte: Elaborado pela FAO sobre a base da Rede de Informação sobre Segurança Alimentar. 2018. Global Report on Food Crisis 2017.
mas alimentares e os meios de vida são
mais vulneráveis à variação climática e
eventos extremos, há maior risco de inse-
gurança alimentar e má nutrição.
5 SUPLEMENTO O ESTADO DA SEGURANÇA ALIMENTAR E DA NUTRIÇÃO NO MUNDO (2018), REALIZADO PELA FAO

O jardim do Éden tem famintos e malnutridos


A mudança climática, o retrocesso econômico e os conflitos contribuem para um novo aumento da fome na
América Latina e Caribe, alcançando 39 milhões de pessoas
Por Julio Berdegué e Pablo Aguirre*

A América Latina e o Caribe produzem


comida suficiente para alimentar seus
646 milhões de habitantes e ainda sobra
Em relação à obesidade, o que temos é uma
epidemia fora de controle: em quatro anos, o
número de obesos aumentou 19%, e nesta
nos uma parte de seus territórios.
Os fatores antes mencionados, porém,
não explicam a obesidade e outras formas
segurança alimentar e na nutrição. Os mais
pobres, indígenas e afrodescendentes, as
mulheres e as populações rurais estão su-
para outros 169 milhões de pessoas. A velocidade chegará a 200 milhões em 2030, de má nutrição. Aqui o problema é um per-representados entre os famintos e mal-
região é a principal exportadora em valo- ano meta dos objetivos para o desenvolvi- sistema alimentar que perdeu a bússola nutridos. Muitos não têm o que comer todos
res absolutos de alimento do planeta. Os mento sustentável. e cada vez mais deixa de estar orientado os dias. Outros gastam metade ou mais de
cereais, oleaginosas, carnes, café, cacau, Como chegamos a esta situação lamen- para assegurar uma alimentação nutritiva seus salários em alimentos de má qualida-
verduras, frutas, vinho e açúcar chegam a tável de fome e má nutrição em uma região e saudável para todos. de, porque neste jardim do Éden comer de
todos os cantos do planeta. onde todos poderíamos comer todos os dias O sistema alimentar falha em seu com- forma saudável é mais caro que entupir-se
Neste jardim do Éden, 39 milhões de e estar saudáveis, bem alimentados? ponente de produção e abastecimento, de gorduras, açúcar, sal e calorias.
pessoas passam fome, pouco mais de 60 Há fatores específicos que explicam o porque nem todos os países têm dispo- Sabemos o que é preciso fazer. Para
milhões estão severamente subalimenta- aumento da fome. A mudança climática nibilidade suficiente de certos grupos de reverter o avanço da fome devemos recu-
dos, 5 milhões de crianças estão cronica- golpeia cada vez mais forte. As pequenas alimentos que fazem parte de uma boa ali- perar o crescimento econômico, revigorar
mente desnutridas, 104 milhões são obesos ilhas do Caribe viram suas agriculturas de- mentação: frutas, verduras, laticínios e pei- as políticas que nos fizeram avançar em
e 38 milhões de mulheres em idade repro- vastadas algumas vezes. A seca que hoje xe. As empresas de alimentos e as cadeias anos anteriores e desenhar programas
dutiva são anêmicas. Assim demonstra a assola o Corredor Seco Centro-Americano de comida rápida aumentam a oferta de para aqueles territórios rurais que, até em
última edição do relatório O estado da se- já deixou quase 4 milhões de pessoas na produtos de baixa qualidade e ultraproces- bons anos, ficaram para trás.
gurança alimentar e da nutrição no mundo. dependência de ajuda humanitária. sados, nos quais “alimento” figura só no Enfrentar a epidemia de sobrepeso
Na década de 2000, a região foi cam- Além disso, a economia desacelerou, nome, não na prática. A abundância desses e obesidade será mais difícil que vencer a
peã mundial na luta para alcançar a meta da o que reduz o poder aquisitivo das famí- produtos pouco nutritivos – alguns malé- fome. Aqui se trata de voltar a governar os
fome zero. As políticas públicas aqui criadas lias e compromete as finanças públicas, ficos para a saúde –, vendidos a preços sistemas alimentares e deixar que os mer-
foram estudadas e replicadas em outras par- que com frequência se ajustam pelo lado baixos, disponíveis em qualquer esquina, cados façam aquilo que fazem bem, porém
tes do mundo. A partir de 2012, esse avan- dos programas sociais que deveriam pro- divulgados com milhares de propagandas incorporando uma dimensão pública que im-
çou estagnou. Doze de nossos países deixa- teger os pobres. e fáceis de consumir, desestabilizou nossas peça que nossa alimentação nos mate.
ram de avançar, e três regrediram, como a Finalmente, o conflito e a violência se dietas. Para milhões, o significado cultural
Venezuela – o caso mais preocupante pela somam às causas do aumento da fome na de comer bem, ou seja, aquele a que se *Julio Berdegué e Pablo Aguirre
magnitude e velocidade do retrocesso. Ape- região. Oito dos 33 países confrontam si- aspira, tornou-se sentar em um local com são, respectivamente, representante re-
nas a Colômbia, aproveitando a questão da tuações em que a governabilidade se vê comida rápida e deglutir 2 mil calorias. gional e assistente técnico da FAO para
paz, avança rápido na erradicação da fome. ameaçada ou está em crise em pelo me- A desigualdade também se expressa na América Latina e Caribe.

Construir resiliência climática é crucial


para deter o aumento da fome
Por José Graziano da Silva*

P elo terceiro ano consecutivo houve um


crescimento da fome no mundo. O nú-
mero absoluto de pessoas subnutridas au-
crianças menores de 5 anos de idade.
A principal causa da fome no mundo ainda
são os conflitos. De fato, o fracasso em reduzir
temperaturas estão aumentando e se tor-
nando mais variáveis. Ondas de calor ele-
vadas estão cada vez mais frequentes e os
pastores, pescadores e dependentes das flo-
restas do mundo, que obtêm seus alimentos
e renda de recursos naturais renováveis, são
mentou para cerca de 821 milhões em 2017. a fome mundial está intimamente associado dias mais quentes do ano registram tem- os mais afetados pelas extremas variações
Em 2016, foram 804 milhões. São os mes- ao aumento da violência, particularmente na peraturas cada vez maiores. Estamos ex- climáticas. Os impactos mais fortes são sen-
mos níveis de quase uma década atrás. Es- África subsaariana. Por isso, os esforços para perimentando grande variação espacial na tidos na disponibilidade de alimentos, dada
tamos, portanto, testemunhando uma preo- combater a fome devem andar de mãos dadas precipitação e a natureza das estações chu- a sensibilidade da agricultura ao clima e o
cupante erosão e reversão dos progressos com aqueles que sustentam a paz. vosas também está mudando, em termos de papel principal do setor como fonte de ali-
para erradicar a fome. Essas descobertas O relatório também mostra que os im- início, duração e intensidade das chuvas. mento e subsistência para as populações
exigem ações mais ousadas. pactos das mudanças climáticas, especial- O número de desastres climáticos, in- pobres das áreas rurais.
Os níveis de nanismo infantil permane- mente as secas prolongadas, constituem cluindo calor extremo, secas, inundações O acesso aos alimentos também é signifi-
cem inaceitavelmente altos. Em 2017, quase uma força fundamental por trás do recente e tempestades, dobrou desde o início dos cativamente prejudicado. As evidências mos-
151 milhões de crianças com menos de 5 aumento contínuo da fome no mundo. anos 1990, o que significa que agora teste- tram que o aumento nos preços dos alimentos
anos – ou 22% – foram afetadas pelo atraso Em 2017, os choques climáticos estive- munhamos, em média, 213 eventos catas- e na volatilidade dos preços seguem a varia-
no crescimento. Além disso, o desperdício ram por trás da crise alimentar em 34 dos tróficos médios e grandes a cada ano. bilidade e os extremos climáticos. Os compra-
continua a atingir mais de 51 milhões de 51 países que enfrentaram tais desafios. As Os 2,5 bilhões de pequenos agricultores, dores líquidos de alimentos, especialmente os
SUPLEMENTO O ESTADO DA SEGURANÇA ALIMENTAR E DA NUTRIÇÃO NO MUNDO (2018), REALIZADO PELA FAO 6

Cresce o número de obesos no mundo


A desnutrição infantil continua diminuindo, enquanto os níveis de obesidade em adultos aumentam

S egundo os últimos dados do relató-


rio O estado da segurança alimentar
e da nutrição no mundo, publicado pela
Ainda há um longo caminho a se percorrer para alcançar as metas para 2025 e 2030
em relação ao atraso do crescimento, anemia, sobrepeso, lactância materna exclusiva,
FAO, a obesidade em adultos aumenta anemia em mulheres em idade reprodutiva e obesidade em adultos Fonte: Os dados correspondentes ao
atraso de crescimento, anemia e
a cada ano. De acordo com os dados de sobrepeso se baseiam nos dados da
Unicef, OMS, Banco Internacional de
2016, 13,2% da população mundial (672,3 70,0
70 Reconstrução e Fomento/Banco
milhões de pessoas) é obesa, em relação Mundial. 2018. UNICEF, WHO, World
Bank Group Regional and Global Joint
a 11,7% em 2012. O relatório mostra que
60 Malnutrition Estimates, May 2018
o escasso aceso a alimentos, em particu- Edition [on line]. https://data.unicef.
50,0 org/topic/nutrition, www.who.int/
lar os saudáveis, contribui para a desnu- 50 nutgrowthdb/estimates, https://data.
trição, assim como para o sobrepeso e a worldbank.org; os dados sobre

40,7
lactância materna exclusiva se
obesidade.

32,8
PORCENTAGEM

40

36,9

32,0
31,3
baseiam em dados da Unicef. 2018.

30,7
30,3
O custo mais alto dos alimentos nu- Alimentação de lactantes e crianças
30 pequenas: lactância materna
tritivos, o estresse que significa viver
24,9
24,3
23,8
23,2
22,7
22,2

exclusiva, lactância materna


em situação de insegurança alimentar predominante. Em: Dados da Unicef:
20 15,2 15,2 Monitoring the Situation of Children
e as adaptações fisiológicas à restrição 14,7

13,2
12,8
12,1 11,7

12,4
and Women [on line]. https://data.

12,1
11,7
de alimentos ajudam a explicar por que unicef.org/topic/nutrition/infant-and-
7,5

10 5,0 5,4
5,6
5,6
5,6
5,5
5,4
5,4

-youngchild-feeding; os dados sobre


famílias que enfrentam insegurança ali- 3,0 3,0
anemia se baseiam em dados da OMS.
mentar podem também ter maior risco 0 2017. Observatório mundial da saúde
2012
2013
2014
2015
2016
2017
2025
2030

2012
2013
2014
2015
2016
2017
2025
2030

2012
2013
2014
2015
2016
2017
2025
2030

2012
2013
2014
2015
2016
2017
2025
2030

2012
2013
2014
2015
2016
2017
2025
2030

2012
2013
2014
2015
2016
2017
2025
2030
[on line] http://apps.who.int/gho/
de sobrepeso e obesidade. Por outro
data/node.imr.PREVANEMIA?lan-
lado, o acesso deficiente a alimentos au- g=en; os dados sobre obesidade em
Atraso do Emaciação Sobrepeso Lactância materna Anemia Obesidade adultos se baseiam em dados da OMS.
menta o risco de baixo peso ao nascer crescimento (menores de (menores de exclusiva (mulheres em idade (adultos) 2017. Observatório Mundial da Saúde
(menores de 5 anos) 5 anos) 5 anos) (< 6 meses) reprodutiva)
e o atraso do crescimento em crianças, [on line] http://apps.who.int/gho/
data/node.main.A900A?lang=en.
o que também traz um risco mais eleva-
Fonte: Os dados correspondentes ao atraso de crescimento, anemia e sobrepeso se baseiam nos dados da Unicef, OMS, Banco Internacional de Reconstrução e Fomento/Banco Mundial. 2018. UNICEF,
do de sobrepeso e obesidade em etapas WHO, World Bank Group Regional and Global Joint Malnutrition Estimates, May 2018 Edition [on line]. https://data.unicef.org/topic/nutrition, www.who.int/nutgrowthdb/estimates, https://data.world-
bank.org; os dados sobre lactância materna exclusiva se baseiam em dados da Unicef. 2018. Alimentação de lactantes e crianças pequenas: lactância materna exclusiva, lactância materna
posteriores da vida. No quadro
predominante. aoda Unicef:
Em: Dados lado,Monitoring
é possível
the Situation compro-
of Children and Womende anemia.
[on line]. Duas regiões, Ásia e Oceania, ti-
https://data.unicef.org/topic/nutrition/infant-and-youngchild-feeding; Nesse
os dados sobre anemia mesmo
se baseiam ano, o sobrepeso infantil afe-
em dados da OMS. 2017. Observatório mundial da saúde [on line] http://apps.who.int/gho/data/node.imr.PREVANEMIA?lang=en; os dados sobre obesidade em adultos se baseiam em dados da OMS.
Os múltiplos efeitos da má nutrição são var 2017.
como, emMundial
Observatório nívelda mundial, a proporção de veram quase uma criança afetada em cada tou 38,3 milhões de crianças; África e Ásia
Saúde [on line] http://apps.who.int/gho/data/node.main.A900A?lang=en.
mais frequentes em países de baixa, mé- crianças menores de 5 anos que padecem de dez, em comparação com apenas uma em representaram 25% e 46% do total mundial,
dia-baixa e média renda, e estão concen- atraso do crescimento continua diminuindo, cem na América Latina e Caribe. respectivamente. A obesidade em adultos,
trados em pessoas pobres. Nos países de com 22,2% de crianças afetadas em 2017. Desde 2012, a proporção mundial de ao contrário, continua crescendo e está no
rendas mais altas, a obesidade igualmente Nesse mesmo ano, quase 7,5% das crianças crianças com sobrepeso parece ter estag- caminho de converter-se em um dos graves
está concentrada em pessoas pobres. menores de 5 anos (50,5 milhões) padeciam nado, com 5,4% em 2012 e 5,6% em 2017. problemas do futuro.

pobres urbanos e rurais, são os mais atingidos Os impactos das mudanças climáticas de riscos climáticos para a subsistência, se- podem aumentar a resiliência climática de
pela elevação de preços. O fraco acesso à ali- também estão tornando os alimentos me- gurança alimentar e nutrição. Também ve- suas plantações.
mentação aumenta o risco de baixo peso ao nos saudáveis. Estudos indicam que níveis mos investimentos em medidas de redução O desafio é ampliar e acelerar essas
nascimento e de baixa estatura em crianças, mais altos de CO2 no ar estão diminuindo de vulnerabilidade, incluindo boas práticas ações, a fim de fortalecer a resiliência dos
que estão associadas a maior risco de sobre- os níveis de nutrientes vitais, como zinco, resistentes às mudanças do clima nos cam- meios de subsistência e dos sistemas ali-
peso e obesidade na vida adulta. ferro, cálcio e potássio. Isso inclui produtos pos agrícolas, bem como infraestrutura à mentares à variabilidade e aos extremos cli-
De fato, a segurança alimentar que tes- básicos como trigo, cevada, batata e arroz. prova do clima (incluindo instalações de pre- máticos. Precisamos de políticas, programas
temunhamos hoje explica em parte a coe- Construir resiliência climática é uma servação e armazenamento de alimentos) e práticas integradas de redução e gestão
xistência de desnutrição e obesidade em prioridade no combate ao aumento da fome e gestão mais eficiente da água (incluindo do risco de desastres e adaptação ao clima
muitos países. Em 2017, o excesso de peso e a outras formas de desnutrição. Devemos novas fontes de água, irrigação, drenagem, a médio e longo prazo.
na infância afetou 38 milhões de crianças deter os efeitos prejudiciais que as mudan- captação de água e tecnologias de poupan- A despeito de tantos contratempos, um
menores de 5 anos, com a África e a Ásia ças do clima estão colocando diante de nós. ça, dessalinização e tempestade, e gestão mundo livre de fome ainda está ao nosso
representando 25% e 46%, respectivamen- A boa notícia é que temos o conhecimento e de águas residuais). alcance. Precisamos agir rapidamente para
te, do total global. A obesidade em adultos as ferramentas necessárias para começar a Os agricultores também estão atuando. evitar o retrocesso nos ganhos duramen-
também está aumentando: cerca de 672 mi- resolver esse problema. Também possuímos Por exemplo, a agricultura familiar na África te conquistados a favor da erradicação da
lhões eram obesos em 2017, ou seja, mais experiência e evidências que apontam para subsaariana, por meio da diversificação de fome. Enfrentar os impactos da mudança cli-
de um em cada oito adultos. O crescente os fatores transversais que levam a políticas culturas, está espalhando a produção e os mática, ao mesmo tempo que sustentamos
consumo de alimentos industrializados e e práticas bem-sucedidas para lidar com os riscos sobre uma maior gama de culturas. a paz, nos coloca de volta no caminho certo
processados é a principal causa da epide- riscos climáticos. Evidências mostram que, quando se cultiva da meta global de fome zero.
mia de sobrepeso e obesidade no mundo de O monitoramento de risco climático e os uma mistura de variedades de culturas, as
hoje. Se os governos não adotarem medidas sistemas de alerta antecipado se mostram melhores sementes das parcelas experi-
urgentes para deter o aumento da obesida- essenciais para alguns governos e agências mentais de campo são combinadas com as *José Graziano da Silva é diretor-geral
de, em breve poderemos ter mais pessoas internacionais no monitoramento de múlti- variedades tradicionais para a próxima esta- da Organização das Nações Unidas para
obesas do que subnutridas no mundo. plos riscos e na previsão da probabilidade ção de plantio. Desse modo, os agricultores Agricultura e Alimentação (FAO).
18 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

CAVALEIROS BRANCOS DE MÃOS SUJAS

Mídia, Justiça e empresários


do Brasil, uma fábrica de demagogos
A situação geral demonstra o que as elites norte-americanas, britânicas e europeias, traumatizadas com a eleição de Trump
e com o Brexit, sempre se negam a admitir: o autoritarismo não nasce do nada. A aposta da elite brasileira está condenada
ao fracasso e poderá acelerar a chegada ao poder de um personagem que encarna uma verdadeira ameaça
POR GLENN GREENWALD E VICTOR POUGY*

© Flavia Bomfim

C
om a mão no peito, a mídia, a B de qualidade ruim alavancaram ver- corrupção é uma segunda pele. Muito menor resistência, os envelopes que
Justiça e os empresários brasi- dadeiros criminosos, pessoas cujas ig- rapidamente, a população descobriu Temer lhes entrega para abafar as acu-
leiros lamentam o tamanho da nomínias e comportamento mafioso que havia uma gravação que revelava sações de malversações – frequente-
corrupção. Há três anos, eles a relegam as acrobacias orçamentárias que ele havia ordenado o pagamento mente sustentadas por registros reve-
transformaram no principal problema da ex-presidenta ao plano da falta sem de propinas a Eduardo Cunha para ladores1 – que pesam sobre ele.
do país. Sua preocupação é tamanha gravidade. No festival de proezas cri- comprar o silêncio deste. Cunha, que Durante a campanha, que termina
que, em 2016, reuniram suas forças – minosas que caracterizam o Brasil no só pode ser descrito como um gângster, em 28 de outubro (em caso de segun-
sem se preocupar com vozes disso- “pós-Dilma”, as inumeráveis manipu- tinha coordenado a campanha contra do turno), para a eleição do novo pre-
nantes – para sustentar a medida mais lações que justificaram sua destitui- Dilma quando presidia a Câmara dos sidente, as estrelas televisivas e as fa-
drástica que se poderia tomar em uma ção parecem tão ingênuas que nos Deputados. Ele cumpre agora uma pe- mílias oligárquicas que detêm os
democracia: destituir a presidenta Dil- perguntamos como seus inimigos po- na de quinze anos e quatro meses de grandes meios de comunicação per-
ma Rousseff, reeleita em 2014. No en- líticos e os jornalistas estrelas da Rede prisão por corrupção, lavagem de di- deram os últimos vestígios de credibi-
tanto, essa indignação com a corrup- Globo ficam sérios quando simulam nheiro e evasão ilegal de divisas. Há lidade que tentavam preservar. A ope-
ção e a criminalidade não passou de sua indignação. dois anos, os deputados que fizeram a ração comandada pela imprensa
um pretexto para desencadear o pro- No lugar da dirigente do Partido presidenta cair disputando lirismo em atingiu tal nível de corrupção e de for-
cesso de destituição. Ao se desembara- dos Trabalhadores (PT, de esquerda), suas denúncias de malversações pelas ma tão aberta que choca até as mentes
çarem de Dilma, os atores dessa série instalaram Michel Temer, de quem a quais ela seria culpada aceitam, sem a menos desconfiadas.
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 19

A imprensa oligárquica se uniu ao um esforço que visa permitir que ele vor da junta e era casada com um no – a não ser que a facada de que foi
candidato Geraldo Alckmin, ex-gover- desfrute da popularidade de Lula. senador designado pelos oficiais. Suas vítima em 6 de setembro, durante uma
nador de São Paulo, membro do Parti- Nessas condições, restam três can- convicções atuais a colocariam deci- manifestação de apoio, suscite uma
do da Social Democracia Brasileira didatos vistos, com toda a razão, como didamente na extrema direita no ter- onda de simpatia, cenário que não está
(PSDB, de direita) e encarnação da eli- personalidades estranhas ao sistema: reno da disputa política nos Estados totalmente excluído.
te do país. Ele é tão sem carisma que o deputado de extrema direita Jair Bol- Unidos ou na Europa. No verão de Essa situação geral demonstra o
muitas vezes é comparado a um chu- sonaro,2 que não esconde desejar a vol- 2018, quando o presidente do PT deu que as elites norte-americanas, britâ-
chu, legume que lhe deu um apelido. ta dos militares ao poder, como na di- uma entrevista à rede Al Jazeera, ela nicas e europeias, traumatizadas com
Alckmin faz manobras no meio políti- tadura de 1964 a 1985, e que nas tomou a palavra no Senado para criti- a eleição de Donald Trump e com o vo-
co há décadas, recebe favores do mun- pesquisas lidera as intenções de voto car o PT – em uma mistura sutil de xe- to a favor da saída do Reino Unido da
do dos negócios, que ele trata com cui- após a saída de Lula; Marina Silva, uma nofobia e ignorância – por estar ligado União Europeia, sempre se negam a
dado, ocupando de maneira inofensiva ecologista negra, evangélica e conser- aos terroristas: ela confundiu Al Jazee- admitir: o autoritarismo não nasce do
todos os cargos possíveis, confortavel- vadora;3 e Ciro Gomes, um dirigente ra com Al-Qaeda. nada. Os demagogos não podem flo-
mente acomodado e se beneficiando político de esquerda, hábil e com expe- A coalizão de Alckmin foi concebi- rescer no meio de instituições funcio-
das boas relações que tem com o siste- riência, mas sem aliados ou coalizão da de modo a garantir-lhe a maior nais, justas e imparciais. Ameaçar a
ma neoliberal que alimenta a corrup- (dada a amplitude das divisões entre parte do financiamento público e do democracia e as liberdades políticas só
ção e lubrifica o sistema político. Para os progressistas) e vítima de sua ima- tempo de TV durante a campanha, é possível quando a população perde a
os poderosos, é impossível imaginar gem de independente imprevisível. com a esperança de que uma avalan- confiança que tinha nas instituições.
um melhor guardião do status quo. che de propaganda eleitoral acabaria É porque a aposta da elite brasileira
Não é por acaso que a estratégia de com as reticências da população. E – juntar-se em torno de uma enorme
Alckmin consiste em se esconder. Ele pouco importa, para a mídia, se o par- coalizão de corruptos para proteger o
não organiza encontros, pois nin- Ameaçar a tido de Lemos se revela um dos mais “velho mundo” – está condenada ao
guém, a não ser os que sofrem de insô- democracia e as envolvidos nos escândalos que saco- fracasso e poderá acelerar a chegada ao
nia, participaria deles. Sua busca pelo dem o país.4 Dos 56 deputados filiados poder de um personagem que encarna
poder se baseia apenas em acordos
liberdades políticas ao PP, 31 são acusados de corrupção. uma verdadeira ameaça. Compreen-
por trás dos bastidores, impulsiona- só é possível quando Até mesmo Bolsonaro, para se candi- der por que a democracia brasileira po-
dos pela fortuna dos oligarcas cujos a população perde datar à Presidência, achou melhor se derá balançar implica menos denun-
interesses são por ele atendidos; em a confiança que tinha distanciar desse partido que, cada vez ciar Bolsonaro do que se perguntar
suma, o tipo de corrupção legalizada mais, lembra uma cloaca política. Em- sobre as disfunções profundas da so-
que causa gangrena no mundo políti-
nas instituições bora não seja incomodada pela justi- ciedade e das instituições do país.
co e parece só ter começado a ator- ça, Lemos também não se distingue
mentar os jornalistas recentemente. por seu senso de ética: sua carreira *Glenn Greenwald e Victor Pougy são jor-
No entanto, as bajulações da impren- Em um contexto de pânico da elite, política teve início com uma nomea- nalistas do site norte-americano Intercept,
sa ainda não chegaram a fazê-lo atin- o “chuchu” anunciou ter formado ção, graças a seu marido, para um que publicou uma primeira versão deste arti-
gir 10% das intenções de votos. Como uma grande coalizão em torno do que posto em tempo integral que não re- go. Greenwald é autor de Sem lugar para se
em outros lugares do mundo, a rejei- as mídias chamam de “bloco centris- queria dela nenhum trabalho. esconder. Edward Snowden, a NSA e a es-
ção das elites políticas atingiu um ní- ta” – em outras palavras, “todo mun- É esse o clã que quer tomar as ré- pionagem do governo americano, Sextante,
vel tal que a população se distancia do, exceto Lula e Bolsonaro”. Ele tam- deas do país. Graças ao apoio de meios Rio de Janeiro, 2014.
cada vez mais dele. bém tem uma correligionária na de comunicação privados que não pa-
Preso após uma acelerada conde- chapa, candidata à Vice-Presidência: ram de condenar a corrupção, dois dos
nação por corrupção, o ex-presidente Ana Amélia Lemos, do Partido Pro- partidos políticos mais corruptos da 1 Marina Lopes, “Brazilian President Temer survives
Luiz Inácio Lula da Silva, favorito de gressista (PP), de extrema direita. América Latina pretendem chegar ao a vote to suspend him on corruption charges” [O
presidente brasileiro Temer sobrevive a uma vota-
acordo com as pesquisas, não foi auto- A natureza “centrista” da cami- poder no maior país da região, que ção para afastá-lo por acusações de corrupção],
rizado a se candidatar. Até o último nhada não impressiona imediatamen- conta com mais de 200 milhões de ha- The Washington Post, 2 ago. 2017.
minuto, a estratégia do PT consistiu te. O PP acolheu Bolsonaro até 2015 e bitantes. A poucas semanas de uma 2 Ler Anne Vigna, “Crise brasileira reanima as direitas
radicais”, Le Monde Diplomatique Brasil, dez. 2017.
em contar com uma mudança a seu fa- tem suas raízes no apoio à ditadura eleição imprevisível, Bolsonaro crista- 3 Ler Lamia Oualalou, “As igrejas evangélicas a ca-
vor, sob a pressão popular. A candida- militar, que tomou o poder em 1964 liza a atenção: favorito, ele registra minho de Brasília”, Le Monde Diplomatique Brasil,
tura de seu suplente e antigo correli- por meio de um golpe de Estado sus- também o maior índice de rejeição, de out. 2014.
Le Monde_outubro copiar.pdf 1 14/09/2018 16:33:05 4 Ler Anne Vigna, “As ramificações do escândalo
gionário Fernando Haddad, anunciada tentado pelos Estados Unidos. Na épo- tal maneira que nenhuma pesquisa o Odebrecht”, Le Monde Diplomatique Brasil, set.
em 11 de setembro, é acompanhada de ca, Lemos era jornalista, escrevia a fa- anuncia vencedor de um segundo tur- 2017.

Figuras da história Um mundo sem guerras Figuras de autor,


Como a arte contribuiu para eventos que O filósofo e historiador italiano Domenico figuras de editor
atravessaram uma era? Que lugar atribui aos atores Losurdo traça a história da ideia de paz, desde
que participaram desses a Revolução Francesa Este livro investiga a atividade
eventos - ou que deles até os dias atuais, editorial de Monteiro Lobato entre
foram vítimas? Para o refletir sobre 1918 e 1925 a partir do levantamento
historiador francês promessas, decepções, e a análise de documentos até agora
Jacques Rancière, não voltas e reviravoltas inéditos entre os pesquisadores que
há imagem que não da história da ideia de se debruçaram sobre o projeto
traga em si inúmeras paz perpétua como intelectual lobatiano. Cilza Carla
possibilidades de essencial para Bignotto revisa a prática editorial de
reflexão sobre o compreender nosso Lobato e define com mais precisão
contexto em que foram passado e dar novo quando ela foi e não foi
produzidas, seja pelo impulso à luta contra revolucionária.
que mostram, seja pelo o crescente perigo de
que ocultam. novas guerras.
Produzir conteúdo
Compartilhar conhecimento.
Desde 1987.
www.editoraunesp.com.br
20 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

VINTE E TRÊS MANIFESTANTES CONDENADOS

Uma sentença contra Junho

© Alpino
Em julho de 2018, o juiz Flavio Itabaiana confirmou que Junho de 2013,
de fato, ainda não havia terminado. Ele condenou 23 ativistas que participaram
daquelas manifestações e seus prolongamentos a penas de até sete anos
de reclusão porassociação criminosa e corrupção de menores
POR GUILHERME LEITE GONÇALVES E MARTA RODRIGUEZ DE ASSIS MACHADO*

A
afirmação de que Junho de 2013 Para sugerir a respectiva associa- Essa falta de detalhamento e con- abertos capazes de ser manipulados
ainda não terminou tornou-se ção, Itabaiana buscou identificar uma sistência argumentativa determina a para a criminalização da atividade po-
uma constante entre diversos divisão coordenada de tarefas entre os qualificação das funções dos manifes- lítica. A sentença que ora se apresenta
diagnósticos da crise brasileira. manifestantes. Ainda que se suponha tantes na engrenagem considerada parece ter concretizado esses receios.
Sua continuidade é compartilhada diferentes, as funções apresentadas (às criminosa. Salvo alguma indicação a Quando o discurso jurídico se en-
por uma avaliação comum que consi- vezes compartilhadas por mais de um respeito da fabricação e do arremesso contra impregnado de abstrações retó-
dera os protestos como o início do fim ativista) são justificadas com os mes- de material explosivo, as qualificações ricas, torna-se mais permeável a práti-
do modelo político, social e econômi- mos trechos repetidos ao longo das são abertas e indefinidas: “deliberar cas ideológicas. Nesse sentido, salta aos
co forjado pela redemocratização. sessenta páginas da sentença. Embora sobre ações diretas”, “organizar mani- olhos que, para criminalizar os ditos
Quando essa avaliação enfatiza o em conformidade com um sistema de festações”, “participar na comissão de líderes dos 23, Itabaiana tenha destaca-
olhar sobre as contradições das rei- justiça que aplica sentenças-modelos, organização”, “promover incitação às do que seus atos (“de violência e vanda-
vindicações, as incertezas se espa- com recorte e cola de argumentos, e ações diretas” etc. Nada disso é capaz lismo”) se dirigiram contra “símbolos
lham sobre a análise de seus desdo- desconsidera a análise detalhada de de configurar a participação real dos do poder e do capitalismo”. Em uma
bramentos. Há leituras para todos os condutas, essa estratégia argumentati- ativistas em atos danosos. sentença contra manifestantes de Ju-
gostos: antessala do golpe de 2016, in- va chama atenção pela falta de diligên- O enquadramento no crime de as- nho, essa preocupação em proteger a
citação da extrema direita, maior le- cia em seus fundamentos. sociacão criminosa serve como um ordem, até de ameaças aos seus sinais
vante popular do Brasil etc. Boa parte das tarefas mencionadas atalho à falta de provas, pois basta com- representativos, expõe o potencial ex-
Se, no entanto, redirecionarmos o – como arrecadar fundos, pertencer à provar o pertencimento da pessoa ao plosivo dos próprios protestos.
olhar para o papel dos aparelhos re- comissão de organização, estar pre- grupo político. Ou seja, a frágil caracte-
pressivos e ideológicos, isto é, o gover- sente em reuniões, ser responsável por rização do grupo como voltado à práti- BREVE HISTÓRIA DA REPRESSÃO A JUNHO DE 2013
no, o Judiciário e os grandes meios de trajeto, objetivo, segurança dos mani- ca criminosa torna-se suficiente para A eclosão dos protestos em junho
comunicação, fica claro que as Jorna- festantes e ativistas – são atividades lí- embasar condenações bastante seve- de 2013 gerou, já na primeira hora, um
das de Junho foram um momento de citas de qualquer grupo de militância ras, ainda que não haja prova do envol- temor das autoridades em garantir a
inflexão da violência estatal em diver- política. Na disputa entre direito de vimento direto de seus integrantes em ordem durante os megaeventos, em es-
sas frentes. Isso se deu em termos es- manifestação e repressão, é possível ações qualificadas como crimes. pecial a Copa do Mundo. Não por aca-
truturais – por exemplo, o treinamen- pensar que o direito penal possa im- A criminalização da associação so a repressão aos protestos se deu de
to especializado da polícia e a compra por limites às formas de protesto e significa um alargamento e uma ante- forma tão violenta na cidade que mais
de armamentos (lembre-se do blinda- que, em determinadas situações, ma- cipação da intervenção penal a mo- sofreu expropriações com esse proces-
do antiprotesto) –; em termos de mu- nifestantes possam ser responsabili- mentos anteriores ao ato e ao dano. O so, o Rio de Janeiro.
dança do arcabouço jurídico, que, zados por condutas apontadas como fato de o mero pertencimento a orga- Também não podemos deixar de
com a aprovação da Lei das Organiza- ilícitas. A sentença, contudo, nem se- nizações ser caracterizado como cri- notar que a articulação da repressão se
ções Criminosas e da Lei Antiterroris- quer se dá ao trabalho de provar o en- me dá ao Estado ferramentas capazes dá simultaneamente ao surgimento de
mo, foi aperfeiçoado para a criminali- volvimento direto dos 23 ativistas em de criminalizar as mais diversas for- condições sociais que, se não as únicas,
zação de mobilizações sociais; e em ações lesivas e se limita a apontar indí- mas de vida. Tem-se, na Europa, uma são significativas na explicação do le-
termos de sedimentação de interpre- cios de atos preparatórios. longa discussão sobre a pouca adequa- vante. O que se desenha daqui em dian-
tações ideológicas que distinguem en- As mesmas frases que se repetem ção dessa estratégia de criminalização te é um cenário de afinidade eletiva en-
tre protestos de “cidadãos de bem” ver- exaustivamente reafirmam o entendi- ao chamado direito penal democráti- tre perda de direitos, aprofundamento
sus “baderna” e “vandalismo”, como se mento de uma testemunha que, ao co, em que se criminaliza o ato, e não a das desigualdades e represamento do
não fosse da natureza mesma da ideia participar de uma reunião (não se sabe pessoa. Ali, legislações de combate ao protesto. Esse cenário está associado à
de protestar atrapalhar a ordem e o se a “primeira ou segunda”) da frente terrorismo fizeram o mesmo movi- imposição do neoliberalismo no Brasil.
funcionamento da vida cotidiana. política julgada (a FIP – Frente Inde- mento de expansão do direito penal, O programa neoliberal se impôs ao
A condenação de 23 manifestantes pendente Popular), se afastou da res- que, ao mirar pessoas e não fatos, ren- longo dos últimos trinta anos. Com ele,
pela 27ª Vara Criminal do Rio de Ja- pectiva organização ao “perceber” a deu diversas comparações com o di- foram introduzidas medidas de flexibi-
neiro joga luz novamente sobre a cri- proposta de “confronto com polícias”. reito penal nazista. Aqui, o “direito pe- lização do trabalho, austeridade fiscal,
minalização do protesto e a permea- Repete-se igualmente o juízo da dele- nal do autor” parece ter entrado em desregulamentações, privatizações etc.
bilidade dos discursos jurídicos a gada de polícia sobre a distribuição de nosso sistema para combater o “inimi- Essas condições favoreceram a finan-
condenações ideológicas. papéis dos ativistas, uma menção a go interno”, o black bloc, o baderneiro. ceirização. Com ela, a realidade socioe-
duas folhas de “caderno kajoma” da su- Não é por acaso que o tipo penal de conômica brasileira se modificou. Da
ABSTRAÇÕES RETÓRICAS COMO posta liderança em que se lê sobre associação criminosa, já previsto no desindustrialização ao declínio da par-
MEIO DE CRIMINALIZAÇÃO “ações diretas”, uma “ata” da FIP e um Código Penal, foi reforçado com a Lei ticipação do trabalho na renda nacio-
Em julho de 2018, o juiz Flavio Ita- “informe sobre o Ocupa Câmara Rio”. n. 13.124, aprovada logo depois das nal, tudo foi acompanhado de reprima-
baiana confirmou que Junho de 2013, Essas repetições são complementadas Jornadas de Junho, em agosto de 2013, rização da pauta de exportações,
de fato, ainda não havia terminado. por referências ocasionais a uma inter- e foi seguido pela promulgação da Lei diminuindo o progresso tecnológico.
Ele condenou 23 ativistas que partici- ceptação telefônica (interpretada pela Antiterrorismo, com expressões tão ou A classe trabalhadora, por óbvio,
param daquelas manifestações e seus delegada mencionada) e aos depoi- mais abertas. Quando da aprovação se enfraqueceu; a classe média tam-
prolongamentos a penas de até sete mentos do agente de inteligência, da dessas legislações, movimentos so- bém, espremida pelo recuo das ocu-
anos de reclusão por associação crimi- ex-companheira de um militante e da ciais e ativistas políticos apontaram os pações técnicas. Por outro lado, ações
nosa e corrupção de menores. ex-namorada da testemunha citada. problemas de introduzir termos legais financeiras complexas e altas taxas de
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 21

juros viabilizaram o enriquecimento baiana há desdobramentos: blindar o de questionamentos e reafirma um ca da classe média que se produziu
acelerado de frações capitalistas, bem sistema político para que ele conserve aparato disciplinar destinado à obe- mais especificamente em Junho de
como sua (inusitada) aliança com as condições desiguais existentes. Que diência, que consente com a violência 2013 e está atrelada a um projeto de
grupos como a burocracia sindical, “más ações” os 23 ativistas estão pre- estatal contra protestos (cuja natureza conversão dos descontentes.
em torno do acesso aos fundos públi- dispostos a realizar? “Desrespeito aos é a insatisfação com a ordem). Conforme Saad Filho, a tensão fun-
cos e de pensão para convertê-los em poderes constituídos”, responde o juiz. Quanto à permissividade com a damental que experimenta a classe
títulos ativos negociáveis. Segundo Itabaiana, esse desrespei- violência estatal, não há na sentença média – entre atração econômica por
Há, portanto, bons motivos para to pode ser constatado, “no tocante ao nenhuma menção a arbitrariedades privilégios e adesão política à justiça
pensar o quadro descrito como um bar- Judiciário, por ter descumprido uma praticadas pela polícia em diferentes social – a coloca em uma situação con-
ril de pólvora. O neoliberalismo tem ge- das medidas cautelares impostas pela manifestações desde 2013. Bombas de traditória e volátil diante das platafor-
rado cada vez mais acesso desigual a 7ª Câmara Criminal do Tribunal de gás lacrimogêneo, de fumaça, balas de mas políticas.2 Foi visto, de um lado,
bens e serviços. Por mais heterogêneas Justiça do Estado do Rio de Janeiro borracha, cerco policial e caveirão pa- que a classe média brasileira foi espre-
que sejam, as classes trabalhadoras e (proibição de frequentar manifesta- recem, entre outros abusos, ter reen- mida com o neoliberalismo; de outro,
médias, base social dos protestos de Ju- ções e protestos), o que acarretou a de- trado no cotidiano da relação entre o por comparação à classe trabalhado-
nho, experimentaram algum tipo de cretação de sua prisão preventiva [...]. poder estatal e mobilizações popula- ra, ela ocupa uma posição vantajosa
frustração desde 1990. Dos altos custos Já o desrespeito ao Poder Executivo res. Evidentemente que esse aumento no mercado. O único meio para esti-
com a Copa à corrupção, as platafor- pode ser evidenciado, por exemplo, significativo do aparelho repressivo do mular sua adesão à justiça social seria
mas, levantadas em 2013, manifesta- pelo enfrentamento aos policiais mili- Estado incute temores entre os mani- mostrar os limites dos bens e serviços
vam rejeição a esse “sistema” que, apre- tares nas passeatas [...] e ao ‘Ocupa Ca- festantes e desestimula a participação privados para a realização de suas ne-
sentado como ideal, não realizou o fim a bral’ (é inacreditável o então governa- em atos e passeatas. Em um contexto cessidades. No caso brasileiro, toda-
que se propôs: bem-estar. dor deste Estado e sua família terem de profunda crise como o atual, em via, diante da suspensão de políticas
O tamanho da reação dos aparelhos ficado com o direito de ir e vir restrin- que o governo reafirma reformas neo- universais igualitárias, a classe média
repressivos e ideológicos aos protestos gido). O desrespeito ao Poder Legisla- liberais que intensificam desigualda- foi abandonada a alternativas de mer-
revela a intenção de represamento de tivo, por sua vez, pode ser verificado, des, a sentença dos 23 tem um papel cado. Tal classe foi, assim, alçada pelos
qualquer força de transformação dessa por exemplo, pelo ‘Ocupa Câmara’”. comunicativo importante na intimi- aparelhos ideológicos como a parte lí-
ordem. Nesse sentido, chama atenção o O Tribunal de Justiça do Rio conce- dação de todos os manifestantes. cita e legítima de Junho de 2013.
editorial da Folha de S.Paulo de 13 de dera liberdade provisória aos 23 ativis- Nesse sentido, por exemplo, os mes-
junho de 2013, que cobrou posição fir- tas com proibição, entre outras, de SENTENCIANDO A DESIGUALDADE mos editoriais de O Globo citados enfa-
me da Polícia Militar contra os mani- participar de protestos. Trata-se de Além disso, Itabaiana estabelece tizavam a importância da “família bra-
festantes e qualificou seus atos como medida altamente questionável diante uma curiosa distinção entre o conceito sileira”, não identificada com os “grupos
crime que, se impune, seriam “incenti- da Constituição e que revela o poten- jurídico de “conduta social reprovável” politizados que tinham atuado na ori-
vo à reincidência”. No mesmo dia, go- cial de intimidação da justiça aos ma- e a categoria social de “classe média”. gem de tudo”, que se dirigia às ruas para
vernantes repudiaram as mobiliza- nifestantes. Em outubro de 2014, três Conforme suas palavras, o réu (repete- protestar contra “diversas formas de
ções, houve oferta da Força Nacional dos ativistas compareceram à ativida- -se o mesmo argumento para todos os abusos ao povo”, como “no desprezo de
pelo Ministro da Justiça e grande vio- de cultural em memória da repressão à 23) tem “uma conduta social reprová- políticos e governantes pela ética”.
lência policial em São Paulo, atingindo, greve dos professores e ao Ocupa Câ- vel, pois, apesar de se tratar de uma Evidentemente, a “família brasilei-
inclusive, os profissionais da imprensa mara do ano anterior e tiveram sua pessoa da classe média, [...] não trilha o ra” é uma referência à classe média,
que cobriam o ato. prisão preventiva decretada. A ilegali- caminho da ética e da honestidade, cujo potencial (latente) de conversão
Com o transcorrer das mobiliza- dade de tal decisão foi mais tarde reco- não se podendo perder de vista, ainda, da potência transformadora dos pro-
ções, a criminalização de grupos que se nhecida pelo Ministério Público Fede- que, em razão de se tratar de uma pes- testos à ideologia neoliberal passara a
dirigiam contra o establishment au- ral, que, em parecer ao habeas corpus a soa da classe média, o réu teve oportu- ser estimulado pelos aparelhos ideoló-
mentava. Um estudo de Iasmin Goes e favor dos ativistas, reconheceu viola- nidades sociais que a esmagadora gicos. Em Itabaiana, a classe média co-
Joanna Moszczynska que sistematiza ção ao direito de livre manifestação. O maioria dos réus nas ações penais não mo família ética e honesta brasileira
editorias da grande imprensa de 6 de ju- próprio STJ concedeu tal habeas cor- teve, não podendo sua pena, por con- adquiriu sua definição jurídica.
nho a 16 de outubro de 2013, mostrou pus, atestando a restrição ilegal aos di- seguinte, ser a mesma que aquela de Sem dúvida, sua sentença é parte
que, nesse período, O Globo se dedicava reitos políticos e à liberdade. uma pessoa em situação idêntica, mas da disputa entre repressão e direito ao
a criticar “rebeldes sem causa da classe Entretanto, segundo o juiz, mesmo com poucas oportunidades sociais”. protesto no Brasil após Junho de 2013.
média”, “organizações ideológicas deli- que o STJ tenha “deferido a medida li- Segundo o juiz, os ativistas são trai- Ela mostra que o Judiciário também
rantes” e “falanges anarquistas”, em- minar pleiteada [no habeas corpus] e dores da classe média. Aos seus olhos, os integra os esforços conservadores para
pregando frequentemente expressões revogado sua custódia cautelar, [isso] membros dessa classe se distinguem dos blindar o questionamento da reprodu-
como “destruição”, “agressão”, “contra não tem o condão de apagar o descum- pobres por se comportarem socialmente ção das desigualdades pelos insatisfei-
o sistema”, “extremismo”, “vandalis- primento da medida cautelar impos- de maneira distinta e irreprimível, ética tos. Do contrário, para parafrasear Igor
mo”, “desmobilização” ou “radicalismo ta”. Dito de outro modo: ainda que a e honesta. Não fica claro se, para Itabaia- Mendes, um dos 23 ativistas, por que o
sectário”.1 Esse mesmo discurso foi ado- ordem judicial seja injusta, ilegal ou na, essas virtudes lhes conferem o privi- fantasma de Bangu passou a pairar so-
tado por governantes e se converteu em equivocada, não deve ser questionada. légio de oportunidades sociais ou se fo- bre aqueles que ousam lutar?3
ação violenta da polícia. Essa caracteri- Essa imposição de servilidade se es- ram tais oportunidades que produzem
zação moral do protesto migrou tam- tende à necessidade de obediência ao retidão. Não importa. Ao frustrarem as *Guilherme Leite Gonçalves é professor
bém para o Judiciário. A condenação Executivo e ao Legislativo. Ocupa Ca- expectativas de classe em torno deles, de Sociologia do Direito da Uerj; Marta Ro-
dos 23 ativistas é parte desse quadro. bral e Ocupa Câmara foram movimen- merecem punição exemplar. driguez de Assis Machado é pesquisadora
tos que denunciaram a captura do pú- Evidentemente que o preconceito do Cebrap e do Centre for Law and Social
SENTENCIANDO A SUBORDINAÇÃO blico por interesses privados na forma de Itabaiana expressa as condições Transformation (Noruega).
Cinco anos depois, o juiz Itabaiana de críticas a irregularidades no trans- ideológicas da reprodução da estratifi-
ressignificou os jargões da grande im- porte coletivo, corrupção, descaso com cação social brasileira. Tem-se uma 1 Iasmin Goes e Joanna Moszczynska, “La Ley de
prensa à luz do conceito de personali- saúde e educação etc. Para Itabaiana, falsa representação de comportamen- Organización Criminal y las protestas de 2013 en
Brasil: Reacciones de la prensa y la justicia”, Wor-
dade distorcida. Trata-se de fórmula tudo isso é irrelevante. Também não tos que, ao distribuir valor positivo à king Paper Series, n.81, 2015, p.139-159. Disponí-
moralizante do direito penal usada pa- importa se o governador do estado hoje classe média (honestidade e ética) e vel em: <desiguALdades.net>.
ra supor a inclinação de certos indiví- esteja condenado a quase cem anos de negativo às classes pobres (desonesti- 2 Alfredo Saad Filho, “Brazil: Development Strate-
gies and Social Change from Import-Substitution
duos a praticar más condutas. Essa fór- prisão por corrupção; deve ser respeita- dade e indecência), justifica a desigual- to the ‘Events of June’” [Brasil: estratégias de de-
mula serve historicamente à criação do por sua posição institucional. dade e legitima a seletividade do siste- senvolvimento e mudança social da substituição
artificial de suposta superioridade mo- O juiz adota, assim, fórmula con- ma de justiça criminal. de importações aos “Eventos de Junho”], Studies
in Political Economy, v.94, 2014, p.18.
ral de grupos dominantes para fins de servadora de reverência à hierarquia e Por outro lado, a sentença está vin- 3 Igor Mendes, A pequena prisão, Nº 1 Edições,
subjugação e controle. No caso de Ita- autoridade. Exclui o poder de mando culada a uma caracterização ideológi- 2017, p.51.
22 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

RELIGIÃO E POLÍTICA

O avanço do

© Allan Sieber
fundamentalismo
nas igrejas
protestantes
históricas
do Brasil
Enquanto a teologia da prosperidade tem sido o grande
motor narrativo do neopentecostalismo, encontrando
ainda resistência nas igrejas históricas, o fundamentalismo
é, em maior ou menor grau, arraigado na quase totalidade
das igrejas evangélicas brasileiras
POR ROBSON SANTOS DIAS*

A
comunidade evangélica brasi- A relação entre esses grupos é ao A INFLUÊNCIA DO FUNDAMENTALISMO E DO contraponto ao liberalismo teológico
leira passou por acelerado cres- mesmo tempo conflituosa e aproxima- CONSERVADORISMO NORTE-AMERICANO2 desenvolvido na Europa a partir dos
cimento numérico nas últimas tiva. Entre os históricos, a influência da Há muitas décadas, as matrizes escritos de Friedrich Schleiermacher,
três décadas, causando enorme teologia da prosperidade vem sendo eclesiásticas e teológicas dos evangé- que iniciou o movimento intelectual
impacto na sociedade brasileira. O combatida intensamente pelas cúpu- licos brasileiros de maneira geral vêm de rejeição aos dogmas. Apesar de
sentimento de pertencer a uma mino- las pastorais, o que não tem impedido sendo importadas diretamente dos Schleiermacher valorizar as experiên-
ria há muito foi deixado para trás. En- a ocorrência de viradas de algumas co- Estados Unidos. Tanto o fundamenta- cias interiores da religião, influência
tretanto, começou também a se esvae- munidades históricas ao pentecosta- lismo quanto a teologia da prosperi- do Romantismo alemão, o liberalismo
cer aquela identidade do “crente”, lismo e ao neopentecostalismo. Já en- dade foram trazidos daquele país, re- teológico posterior adotou uma postu-
aquele religioso ascético e reservado. tre os pentecostais e neopentecostais, conhecido como um dos mais ra mais racionalista, mas ainda crítica
Definir-se como evangélico hoje tem a aproximação tem sido maior. religiosos do mundo. Enquanto a teo- ao dogmatismo. O fundamentalismo,
exigido explicações adicionais. A despeito de sua avassaladora po- logia da prosperidade tem sido o gran- oriundo do puritanismo, do pietismo
Uma das características mais pa- pularidade, a teologia da prosperida- de motor narrativo do neopentecosta- wesleyano e do avivalismo, procurou
tentes dos evangélicos é justamente de tem sido alvo de dissensão. Há, en- lismo, encontrando ainda resistência reafirmar a ortodoxia dogmática por
sua heterogeneidade. As diversas igre- tretanto, outra influência teológica nas igrejas históricas, o fundamenta- meio dos cinco “fundamentos da fé”:
jas existentes se alinham a três grupos com maior capacidade de unificação lismo é, em maior ou menor grau, ar- (1) a inerrância bíblica (portanto, sua
principais: os históricos (formados de todo o campo evangélico: o funda- raigado na quase totalidade das igre- literalidade), (2) o nascimento virginal
principalmente por batistas, presbite- mentalismo. E, nesse caso, a influên- jas evangélicas brasileiras. Nisso, a de Jesus, (3) a remissão de pecados pe-
rianos, metodistas e congregacionais),1 cia é praticamente ubíqua, não só en- distância entre os históricos e os neo- lo sacrifício de Cristo, (4) a ressurrei-
os pentecostais (Assembleia de Deus, tre os neopentecostais e pentecostais, pentecostais se reduz sensivelmente. ção corpórea de Cristo e (5) a realidade
Congregação Cristã no Brasil...) e os mas também entre os históricos, tam- Nestes, entretanto, o fundamentalis- objetiva dos milagres de Cristo.
neopentecostais (Universal do Reino bém adeptos do fundamentalismo. mo assume caráter grotesco, como se Dado o dogmatismo dos funda-
de Deus, Igreja da Graça, Renascer, Po- Nos anos recentes, ninguém manifes- observa a cada manifestação pública mentalistas, esse movimento com o
der Mundial, Sara Nossa Terra etc.). tou melhor isso do que o procurador dos políticos neopentecostais. Entre tempo foi estigmatizado, surgindo dis-
Tais grupos são muito distintos. Os his- Deltan Dallagnol, que em seu perfil os históricos, sua manifestação é mais sidências e contrapontos. No entanto,
tóricos se consideram herdeiros da Re- nas redes sociais faz questão de colo- sutil, mas ainda assim firme, fato que os princípios do fundamentalismo se
forma Protestante; os pentecostais são car ao lado de sua função pública o fa- pode ser observado na centralidade alojaram profundamente na forma de
os herdeiros dos movimentos avivalis- to de ser “servo de Jesus”. Dallagnol do moralismo na visão de mundo des- pensar do protestantismo norte-ameri-
tas baseados na experiência do “Espíri- tornou-se garoto propaganda do fun- se segmento religioso. cano. Tanto que uma das práticas mais
to Santo” surgidos nos Estados Unidos; damentalismo cool praticado pelas O fundamentalismo teve sua ori- importantes oriundas do fundamenta-
e os neopentecostais surgiram da cha- principais igrejas batistas paranaen- gem nos Estados Unidos, no início do lismo, a “salvação das almas”, foi apro-
mada teologia da prosperidade, tam- ses e é o principal inspirador para a século XX, em reação ao processo de priada por quase todos os movimentos
bém oriunda dos Estados Unidos. análise que se segue. secularização da sociedade e como evangelicais por meio das missões para
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 23

a pregação da fé. Dadas as característi- fundamento dessa base conservadora exemplo, temos a igreja emergente Ca- ele mantém uma relação bastante am-
cas da pregação missionária, cujo obje- alicerçada no fundamentalismo. Da- minhos da Graça, fundada pelo ex-pres- bígua com o fundamentalismo, ora cri-
tivo não era a reflexão teológica acadê- remos o exemplo que nos parece mais biteriano Caio Fábio D’Araújo, que teve ticando-o, ora apropriando-se de al-
mica, uma grande dose de pragmatismo claro, que é o da Convenção Batista importante presença entre os protes- guns de seus pressupostos, dependendo
era necessária. Para isso, o fundamen- Brasileira, que desde 2011 teve como tantes na década de 1990 à frente da As- da pessoa a quem destina seu discurso
talismo era a narrativa ideal, pois con- presidentes dois pastores de Curitiba, sociação Evangélica Brasileira (AEVB). beligerante. No âmbito ideológico, tem
frontava qualquer dúvida do novo con- o pastor Paschoal Piragine Júnior, da O pastor caiu em desgraça no final da- misturado um discurso liberal nos cos-
vertido ao “Está escrito”, oriundo do Primeira Igreja Batista de Curitiba, e o quela década com o escândalo do Dos- tumes (menos em relação aos gays, a
dogma da inerrância da Bíblia. pastor Luiz Roberto Silvado, da Igreja siê Cayman e com a revelação de um quem ele diz aceitar, desde que cala-
Batista Bacacheri, que é a igreja do caso extraconjugal com a então secretá- dos) e conservador na política, analisa-
procurador Dallagnol e da psicóloga ria, considerado um pecado capital en- da por meio de seu prisma moralista
Marisa Lobo, notória militante da tre os evangélicos. Depois de um tempo particular. Carregado por uma lingua-
Os pentecostais “cura gay”. Esses pastores vêm se des- no ostracismo, Caio Fábio vem pouco a gem que exagera pelo pedantismo, ele
são os herdeiros dos tacando como porta-vozes religiosos pouco reconquistando espaço por meio tem marcado sua trajetória recente por
do conservadorismo que fez de Curiti- das mídias sociais, atraindo inúmeros um enorme personalismo, anulando a
movimentos avivalistas ba sua capital nos últimos anos. Pas- evangélicos deslocados dos meios pro- emergência de outras lideranças em
baseados na experiência choal Piragine gerou polêmica em testantes históricos e neopentecostais. seu meio religioso – característica,
do“Espírito Santo” 2010 quando, de púlpito, afirmou Tem se esforçado para reconstruir sua aliás, já presente nos tempos de AEVB,
surgidos nos diante de seus fiéis e das câmeras que imagem como profeta injustiçado por conforme analisou o sociólogo protes-
votar no PT seria optar pela iniquida- um meio religioso corrupto e impeni- tante Paul Freston anos atrás.5
Estados Unidos de, num claro constrangimento políti- tente, adotando um discurso ácido con-
co a milhares de batistas. Piragine fa- tra as lideranças neopentecostais, sem HÁ ESPERANÇA?
zia alusão ao III Plano Nacional de poupar, entretanto, as lideranças pro- Diante de tal quadro, pode-se afir-
Entretanto, mais importante do Direitos Humanos, que naquele ano gressistas que antes militaram ao seu mar que a expansão dos evangélicos
que os aspectos teológicos em si é o eleitoral fora um ponto de polêmica lado na AEVB. no Brasil representou um grande retro-
conservadorismo ideológico que o junto ao eleitorado evangélico. Já a cesso ideológico, pela enorme influên-
fundamentalismo protestante alimen- Igreja Batista Bacacheri, que é “filha” cia do fundamentalismo e do neopente-
tou. Nos Estados Unidos, as igrejas da Primeira Igreja Batista de Curitiba, costalismo nesse processo. Evangélicos e
fundamentalistas formaram a base so- ganhou notoriedade por meio de Dal- No campo político, protestantes ideologicamente mais
cial de resistência às pautas dos direi- lagnol, que tem se destacado por mis- Caio Fábio vinha progressistas e à esquerda têm tido,
tos civis e sociais. A visão dogmática da turar sua atividade judicial com o dis- portanto, pouco espaço nesses meios
religião se sincretizou com o chauvi- curso religioso, utilizando, inclusive, o
mantendo uma crítica religiosos. Muitos ficam divididos en-
nismo anglo-saxão, que foi muito útil meio evangélico para impulsionar ao PT em tons moderados tre o que ouvem todos os domingos na
para a geopolítica de Washington ao suas controversas “Dez medidas con- até 2013, quando passou igreja e o que sentem no tocante à sua
apropriar o mito da “nação escolhida” tra a corrupção”, indo de igreja em a surfar na onda de realidade social.
dos judeus para seu próprio contexto. igreja, sem abrir mão de seu status de Entretanto, vêm ressurgindo novos
Mais recentemente, essa mistura entre procurador federal, para atuar como
antipetismo movimentos que buscam retomar prá-
política e religião se condensou com o missionário de sua versão pessoal de ticas religiosas mais libertárias e so-
movimento neoconservador que moralização do país.3 Recentemente, o cialmente comprometidas. Em desta-
apoiou Ronald Reagan. A fé protestan- pastor Luiz Roberto Silvado gravou, No campo político, Caio Fábio vi- que, surgiu recentemente a Frente
te tornou-se, então, forte aliada da pro- por própria conta, uma mensagem pe- nha mantendo uma crítica ao PT em Evangélica pelo Estado de Direito, que
pagação do individualismo neoliberal, dindo aos batistas que orassem contra tons moderados até 2013, quando pas- conta com a contribuição de expoen-
por meio tanto da teologia da prosperi- a corrupção no Brasil dias antes da sou a surfar na onda de antipetismo (e tes como Ariovaldo Ramos, antigo co-
dade quanto do moralismo ascético prisão do ex-presidente Lula no con- antiesquerdismo) que varreu o país laborador da AEVB, e grupos aqui e ali
meritocrático. troverso processo do triplex. após as jornadas de junho de 2013. An- que têm tentado contrapor o discurso
Importadas dos Estados Unidos, Repercutindo tais movimentos, Fá- tes da campanha de 2014, passou a conservador dominante, realizando
essas duas facetas são as que domi- bio Py,4 ex-professor do Seminário Teo- adotar um discurso que se associou interpretações dos Evangelhos à luz da
nam ideologicamente a maior parte lógico Batista do Sul do Brasil, localiza- com as fake news difundidas pela ex- luta pelos direitos humanos. Num Bra-
das igrejas evangélicas no Brasil. do no Rio de Janeiro, comenta que está trema direita nas redes sociais. Chegou sil cada vez mais evangélico, não se
em curso uma reaproximação dos ba- a afirmar que vivíamos numa ditadura pode deixar de saudar a emergência
FUNDAMENTALISMO E CONSERVADORISMO NO tistas brasileiros com organizações petista, que tinha por objetivo trans- desses novos movimentos, visto que,
PROTESTANTISMO HISTÓRICO BRASILEIRO missionárias dos batistas do sul dos Es- formar o Brasil numa nova Venezuela. num país profundamente religioso, o
Menos (re)conhecida que sua con- tados Unidos, meio religioso no qual o Não satisfeito, articulou um hangout combate à injustiça social precisa ter
traparte neopentecostal, há uma forte racismo é particularmente forte. A li- com Olavo de Carvalho e Danilo Gen- sua tradução religiosa.
influência neoconservadora no seio das derança dos paranaenses na Conven- tilli, em que teses delirantes sobre uma
respeitáveis igrejas históricas brasilei- ção Batista Brasileira teria forte in- conspiração petista foram afirmadas, *Robson Santos Dias é professor do Insti-
ras, cujas referências intelectuais são fluência nesse encaminhamento, visto com o testemunho probatório do pas- tuto Federal Fluminense.
ditadas diretamente pelas congêneres que a Faculdade Batista do Paraná, on- tor de que o caso do Dossiê Cayman
1 Os luteranos e anglicanos também estão presen-
norte-americanas. A maior parte das de Piragine e Silvado exercem influên- era, no final de tudo, uma armação de tes no Brasil, mas sua influência é muito pequena.
grandes questões que preocupam os cia como professores e presidentes de Lula. Desde então, Caio Fábio passou a 2 Essa parte do texto se baseia no livro de Ricardo
debates teológicos brasileiros não ad- duas das igrejas mais importantes do fazer coro ao linchamento público do Gondim, Missão Integral: em busca de uma identi-
dade evangélica, Fonte Editorial, São Paulo, 2010.
vém da experiência histórico-geográfi- estado, mantém forte vínculo com os petismo, apoiando as medidas de ex- 3 Tal moralização faz parte de uma crença que o pro-
ca brasileira e latino-americana, mas batistas do sul dos Estados Unidos, ceção contra suas principais lideran- curador compartilha com outros históricos: a de
das que surgem no norte do continente. tendo inclusive dois professores norte- ças e o próprio golpe de Estado, e vez ou que somente pela ação da igreja o Brasil poderá
chegar ao desiderato máximo da bem-aventuran-
Isso é consequência tanto das opções -americanos em seus quadros. outra repercutindo fake news oriundas ça, os Estados Unidos da América. Em diversas
do mercado editorial evangélico quanto de fontes de extrema direita, entre as ocasiões, Dallagnol já expressou sua tese de que
da influência acadêmica das escolas de DISSIDÊNCIAS LIBERAL-CONSERVADORAS: O quais o site O Antagonista. os Estados Unidos são uma nação virtuosa por sua
herança colonial protestante. A ideologia funda-
teologia dos Estados Unidos. CASO DA IGREJA CAMINHOS DA GRAÇA Apesar disso, Caio Fábio não pode mentalista da “nação escolhida” dá o ar da graça
Apesar de essa influência difusa já Muitas dissidências têm surgido no ser classificado como um fundamenta- na visão de mundo do procurador.
ser antiga, fatos recentes vêm trazen- meio protestante. Nem todas, porém, lista no plano teórico, visto que possui 4 Fábio Py, “Curitiba: capital do ultraconservadoris-
mo religioso”, Caros Amigos, ano XIX, n.235, 2016.
do perturbadoras evidências da exis- rompem com o caráter conservador de- interpretações bastante heterodoxas 5 Ver: <www.ultimato.com.br/revista/artigos/263/a-
tência de um projeto político de apro- rivado do fundamentalismo. Como de alguns dogmas cristãos. Entretanto, -volta-de-caio-fabio>.
24 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

UM PORTA-AVIÕES DE CORAL

Chagos, arquipélago confiscado


pelo Exército dos Estados Unidos
Longe de qualquer outra terra emersa, as ilhas de coral de Chagos não escaparam aos conflitos do século XX.
A instalação da base militar norte-americana de Diego Garcia provocou a deportação de todos os habitantes dessas ilhotas.
Eles esperam agora que a Corte Internacional de Justiça reconheça seu direito de voltar e a soberania das Ilhas Maurício
POR ABDELWAHAB BIAD E ELSA EDYNAK*

© Mass Communication Specialist 2nd Class Elizabeth Fray / Released

Marinheira norte-americana observa a base de Diego Garcia (Chagos)

A
mais de 1.500 quilômetros ao sul tas napoleônicas, e controla-o até hoje, No quadro da “relação especial” Guerra do Golfo em 1991, operações
da Índia e mais longe ainda de como Território Britânico do Oceano com o Reino Unido, negociações se- contra os talibãs afegãos a partir de
Seychelles ou das Ilhas Maurí- Índico. O drama originado na descolo- cretas terminaram em 1966 com uma 2001, invasão e ocupação do Iraque de
cio, as 55 ilhotas de Chagos se nização incompleta se desenrola em “troca de cartas”2 com valor de trata- 2003 a 2011, luta contra a pirataria ou a
espalham por mais de 250 km de com- três atos: um acordo secreto com os Es- do, mas sem exigir a aprovação do Par- Organização do Estado Islâmico nos
primento, no meio do Oceano Índico. tados Unidos, uma divisão territorial e lamento britânico. Londres colocou à últimos anos. Longe dos olhares do
O conjunto dessas terras emersas for- a deportação dos habitantes. disposição dos Estados Unidos a ilha mundo exterior, Diego Garcia se tor-
ma uma superfície (64 km²) inferior à Para entender a origem desse con- de Diego Garcia por um prazo de cin- nou, de resto, um bom lugar para aco-
da cidade de Paris e não abriga ne- tencioso, convém voltar ao contexto da quenta anos. Em resposta à invasão do lher um centro de detenção secreto da
nhum autóctone. Seu destino, porém, Guerra Fria, que atribuía importância Afeganistão pelos soviéticos, em 1979, CIA após o 11 de Setembro, com a con-
interessou à Assembleia Geral das Na- estratégica ao Oceano Índico.1 o presidente norte-americano Jimmy cordância de Londres.3
ções Unidas, que decidiu em junho de Washington colocou então em prática Carter proclamou que toda tentativa
2017 recorrer à Corte Internacional de a política do “rosário de ilhas” para de intervenção armada na região do UMA ÁREA MUITO OPORTUNA
Justiça para o julgamento da validade controlar os mares e conter as potên- Golfo seria considerada um ataque aos A concessão de Diego Garcia preci-
do desligamento desses territórios das cias continentais do heartland (na interesses vitais de seu país. A “doutri- sava ser “garantida” por um acordo com
Ilhas Maurício, quando a república época, a URSS), segundo a teoria do na Carter” reforçou a presença norte- o novo Estado das Ilhas Maurício. Em
obteve sua independência, em 1968. pai da geopolítica, Halford John Mac- -americana na região e conferiu papel virtude dos compromissos de Lancaster
Descoberto pelos portugueses em kinder. Durante a Guerra do Vietnã, os de destaque a essa base aeronaval, que House, em setembro de 1965, os repre-
1511, o arquipélago, então desabitado, Estados Unidos lançaram os olhos pa- entrou em operação em 1977. Finda a sentantes mauricianos, cujo primeiro
tornou-se depois holandês (1598-1710). ra a ilha de Diego Garcia (28 km²), cuja Guerra Fria, novos objetivos militares chefe de governo foi o trabalhista See-
Sob o domínio francês (1715-1814), os posição geográfica, ao sul do arquipé- e estratégicos fizeram de Diego Garcia woosagur Ramgoolam, tiveram de acei-
primeiros escravos africanos foram lá lago, permitia intervir em grande par- um elo essencial do dispositivo norte- tar a perda de Chagos em troca de uma
instalados, para trabalhar nas planta- te do globo e policiar as grandes vias -americano e justificaram, aos olhos compensação financeira, dos direitos
ções de coco. O Reino Unido tomou marítimas pelas quais passavam com- dos militares, a tácita prorrogação do de pesca e exploração de recursos mari-
posse do local em 1814, após as derro- bustíveis e matérias-primas. arrendamento por vinte anos em 2016: nhos do arquipélago, além da promessa
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 25

de devolução do território quando as do Reino Unido, em junho de 2016. Os


instalações de defesa ali existentes não processos movidos perante as jurisdi- CRONOLOGIA
mais fossem necessárias. ções norte-americanas (a Corte do DA ESCRAVIDÃO À DEPORTAÇÃO
As Ilhas Maurício obtiveram a in- Distrito de Colúmbia e, como última
dependência em 12 de março de 1968, instância, a Suprema Corte) para con-
1511. Os portugueses descobrem 1968-1973. Deportação
com um território que compreendia a testar a decisão de estabelecer a base o arquipélago. e expropriação dos autóctones.
ilha principal, as Ilhas Rodrigues, militar em suas terras também foram 1715-1814. Dominação francesa e 2010. Criação de uma “área marítima
Saint-Brandon e Agaléga... mas não rejeitados, sob a alegação de que se primeiras importações de escravos. protegida” pelo Reino Unido.
Chagos, cujo estatuto jurídico se tor- tratava de um ato de governo não su- 1814. O Reino Unido assume o controle. 18 de março de 2015. Sentença
nou complexo: o arquipélago conti- jeito à justiça em virtude da separação 1965. Em Lancaster House, os britânicos arbitral que anulou a área marítima
nuou sob a soberania do Reino Unido, de poderes. estudam conceder a independência às protegida.
que concedeu direitos marítimos às O arrependimento oficial tardio, ex- Ilhas Maurício em troca de seu Junho de 2016. Rejeição do último
Ilhas Maurício e em terra aos Estados presso em 16 de novembro de 2016 por desligamento do arquipélago. recurso dos naturais de Chagos perante
Unidos. Desde 1980, as Ilhas Maurício Alan Duncan, ministro britânico de Es- 1966. Os britânicos concedem aos a Corte Suprema do Reino Unido.
Estados Unidos, por cinquenta anos, Junho de 2017. A Assembleia Geral
contestam o acordo de Lancaster Hou- tado para a Europa e as Américas, que
o uso do local para a instalação da das Nações Unidas aciona a Corte
se, considerado injusto, para não dizer qualificou de “falha” a deportação dos
base de Diego Garcia. Internacional de Justiça sobre o
ilegal, segundo o princípio da intangi- habitantes de Chagos, nem de longe 12 de março de 1968. Independência processo de descolonização das Ilhas
bilidade das fronteiras herdadas da co- apaziguou estes últimos. Eles deposi- das Ilhas Maurício. Maurício.
lonização. Elas receberam o apoio da tam agora suas esperanças no reconhe-
Organização da Unidade Africana cimento da soberania das Ilhas Maurí-
(OUA) e do Movimento dos Não Ali- cio sobre o arquipélago. Tal como
nhados – notadamente Índia e Sri ocorreu com o Saara Ocidental, a ques- dos três países envolvidos, o tribunal Levando-se em conta as implica-
Lanka –, com o objetivo de fazer do tão de Chagos se deve a conflitos oriun- evitou entrar a fundo na questão da so- ções geopolíticas e econômicas, a
Oceano Índico uma “zona de paz” dos de um processo de descolonização berania e reconhecer às Ilhas Maurício questão de Chagos ultrapassa o qua-
(tendo em mira, implicitamente, a ba- inacabado e de uma disputa territorial o estatuto de Estado costeiro.7 dro bilateral anglo-mauriciano e seu
se de Diego Garcia). com o Reino Unido que se exprime na desfecho é incerto. Na visão de Lon-
Após dois séculos de imigração esfera judiciária e diplomática. APOIO DOS PAÍSES DO SUL NA ONU dres e Washington, Diego Garcia con-
proveniente da França, África, Índia e A primeira oportunidade de resol- Diante dessa situação de bloqueio, tribui para a segurança do planeta e
Madagascar, os habitantes do arqui- ver na justiça essa disputa se apresen- as Ilhas Maurício decidiram interna- permite lutar contra as “ameaças hí-
pélago formavam uma população sin- tou em 2010, após a decisão unilateral cionalizar a questão. Em 1965, a As- bridas” (terrorismo, pirataria, crimi-
gular de perto de 2 mil pessoas insta- do Reino Unido de criar uma “área sembleia Geral havia condenado a se- nalidade transnacional) que poderiam
ladas em três grupos de ilhas: Diego marítima protegida” em volta do ar- paração do arquipélago de Chagos e afetar, sobretudo, o acesso ao Mar Ver-
Garcia, Salomão e Peros Banhos. En- quipélago de Chagos. Londres justifi- pedido a Londres que não tomasse melho e ao Golfo. Assim, esse caso pa-
tretanto, no curso de suas negociações cou a proibição de toda exploração de “nenhuma medida destinada a des- rece sintomático da vontade dos Esta-
com os britânicos, as autoridades nor- recursos vivos e minerais do arquipé- membrar o território das Ilhas Maurí- dos poderosos de fazer prevalecer seus
te-americanas teriam insistido em ob- lago pelo cuidado em preservar o am- cio, violando sua integridade territo- interesses militares e financeiros sobre
ter o “controle exclusivo [sem os habi- biente marinho. Mas, à luz de um tele- rial”. Em junho de 2017, ela decidiu por os direitos humanos e dos povos.
tantes]”.4 Estes, em seu falar crioulo grama diplomático enviado pela 94 votos a 15 e 65 abstenções exigir um
baseado no francês, denominaram-se embaixada dos Estados Unidos em pedido de consulta à Corte Internacio- *Abdelwahab Biad e Elsa Edynak são, res-
ilois e foram aos poucos sendo expul- Londres e revelado pelo WikiLeaks,6 nal de Justiça:8 um “precedente terrí- pectivamente, professor de Relações Inter-
sos do arquipélago. Todos os meios pa- essa decisão não parece ter sido moti- vel”, no dizer do representante do Rei- nacionais e Direito Internacional da Universi-
reciam adequados para mandá-los vada unicamente por considerações no Unido. A Corte deverá resolver se “o dade de Rouen, França, e doutoranda em
embora: proibição de volta após uma ecológicas. O documento cita pala- processo de descolonização foi levado Direito Marítimo.
viagem, restrição da aquisição de ali- vras do diretor da Agência de Assuntos a bom termo quando as Ilhas Maurício
mentos e remédios, envenenamento e Estrangeiros e da Commonwealth se- obtiveram sua independência, em 1 Ver Jean-Louis Peninou, “Un redéploiement straté-
sufocamento com gás de todos os gundo as quais será difícil, se não im- 1968”, e esclarecer as consequências, gique dans la Corne de l’Afrique” [Um novo posi-
cionamento estratégico no Chifre da África], Le
cães...5 Em 1973, os últimos autóctones possível, aos antigos habitantes reali- em direito internacional, da perma- Monde Diplomatique, dez. 2001.
partiram exilados, em cargueiros, pa- zar sua volta às ilhas caso o conjunto nência do arquipélago sob a adminis- 2 “Exchange of notes concerning the availability for
ra Seychelles e Ilhas Maurício. Come- do arquipélago de Chagos se torne tração do Reino Unido, “notadamente defence purposes of the British Indian Ocean terri-
tory” [Troca de notas sobre a disponibilidade para
çavam assim os tempos de lamizer uma reserva marítima. Outra autori- no que diz respeito à impossibilidade propósitos de defesa do Território Britânico do
(“miséria”) e sagren (“sofrimento”) pa- dade assegura aos norte-americanos na qual se encontra Maurício de con- Oceano Índico], Londres, 30 dez. 1966.
ra esses deportados, que permanecem que esse estatuto não colocará, em cretizar um programa de reinstalação 3 Ian Cobain e Richard Norton-Taylor, “Claims of se-
cret CIA jail for terror suspects on British island to
párias nas terras de acolhida. contrapartida, nenhum entrave às para seus nacionais”. A análise desse be investigated” [Exigência para que seja investiga-
Desde os anos 1990, trava-se um operações militares... voto revela o apoio significativo de da uma prisão secreta da CIA para suspeitos de
demorado combate para contestar a A decisão tinha por objetivo, na grandes países do “Sul” (África do Sul, terrorismo em ilha britânica], The Guardian, Lon-
dres, 19 out. 2007.
legalidade da deportação e obter o di- realidade, comprometer todo e qual- Arábia Saudita, Argélia, Argentina, 4 David Vine, “The truth about Diego Garcia” [A ver-
reito de regresso. Federados no seio do quer projeto de reinstalação dos habi- Brasil, Cuba, Egito, Filipinas, Índia, dade sobre Diego Garcia], Le Monde Diplomati-
Grupo de Refugiados de Chagos, os tantes privando-os de seu único meio Malásia, Nigéria, Paquistão e Vietnã). que, edição inglesa, Londres, 15 jun. 2015.
5 David Vine, Island of Shame: The Secret History of
antigos habitantes exploraram todos de subsistência: a pesca. Sem surpresa, Era de esperar a oposição à sentença the US Military Base on Diego Garcia [Ilha da ver-
os recursos junto às jurisdições britâ- as Ilhas Maurício contestaram a cria- por parte dos aliados dos Estados Uni- gonha: a história secreta da base militar norte-ame-
nicas e norte-americanas. Londres ção dessa área marítima protegida pe- dos e do Reino Unido (Afeganistão, ricana em Diego Garcia], Princeton University
Press, 2009.
lhes propôs uma indenização finan- rante o Tribunal Internacional do Di- Austrália, Coreia do Sul, Iraque, Israel 6 “Cable n. 001156 from US Embassy, London, to
ceira e a cidadania britânica em troca reito Marítimo, ponderando que a e Japão) e também da França, que US State Department” [Telegrama n. 001156 da
da renúncia a todos os recursos contra iniciativa britânica lhes nega os direi- “destacou” a ilha de Maiote da repúbli- Embaixada Norte-Americana, Londres, ao Departa-
mento de Estado Norte-Americano], 15 maio 2009.
a Coroa; mil deles foram morar no tos concedidos para a exploração dos ca de Comores. As abstenções da Chi- 7 Abdelwahab Biad e Elsa Edynak, “L’arbitrage relatif
Reino Unido. Mas, aceitando essa recursos de Chagos. A sentença arbi- na e da Rússia talvez se expliquem pe- à l’aire marine protégée des Chagos (Maurice C.
compensação, os habitantes de Cha- tral de 18 de março de 2015 concluiu las reservas desses países em relação Royaume-Uni) du 18 mars 2015: une décision pru-
dente pour un litige complexe” [A arbitragem relati-
gos comprometeram quaisquer ações que o Reino Unido violou os acordos de aos apelos à justiça internacional para va à área marítima protegida de Chagos (Ilhas
judiciais futuras, como se viu pela re- Lancaster House com respeito às Ilhas dirimir conflitos territoriais, pois es- Maurício contra Reino Unido) de 18 de março de
jeição de suas últimas demandas pe- Maurício e anulou a criação da área sas medidas poderiam lhes custar ca- 2015: uma decisão prudente para um litígio com-
plexo], Revue Québécoise de Droit International,
rante a Corte Europeia dos Direitos marítima protegida. Contudo, se reco- ro nos casos da Crimeia e das ilhas do n.29.1, Montreal, 2016.
Humanos, em 2012, e a Corte Suprema nheceu uma assimetria nas relações Mar da China. 8 Resolução n. 71/292, de 22 de junho de 2017.
26 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

A ECOLOGIA E A JUSTIÇA SOCIAL AVALIADAS POR PERDAS E GANHOS

Uma política agrícola pouco comum


Os projetos da Comissão Europeia em matéria agrícola para os próximos sete anos refletem o fracasso político da
Europa comunitária. A repartição das subvenções entre agricultores e as normas ambientais seriam deixadas à boa vontade
dos Estados-membros, desenhando uma política no papel longe dos imperativos sociais e ecológicos contemporâneos
POR FRÉDÉRIC COURLEUX E AURÉLIE TROUVÉ*

conhecem uma concentração cada vez


mais aguda das empresas do pós
(transformação, distribuição), mas
também do pré (sementes, produtos
químicos, maquinaria),3 o que não pa-
rece perturbar as autoridades de con-
trole da concorrência.
O que propõe então a Comissão
Europeia em 2018? Incitar a criação de
organizações de produtores, locais ou
nacionais, a fim de controlar a comer-
cialização e os preços de venda de seus
produtos, como já é o caso em certos
setores desde 1960 na França (carne
bovina, frutas e legumes frescos etc.).
É evidente que esses reagrupamentos
© Daniel Kondo

se impõem. No entanto, seriam o sufi-


ciente na ausência de uma interven-
ção pública? Ou ainda, se, diante dos
problemas engendrados pela desregu-
lamentação dos mercados, consegue-
-se encontrar as soluções na constitui-

C
om a partida do Reino Unido, as adesão da União Europeia à Organiza- peia se apega, por sua vez, ao progra- ção de oligopólios de produtores,
finanças europeias serão am- ção Mundial do Comércio (OMC), em ma de livre-comércio dos anos 1990. talvez fosse hora de parar de cogitar!4
putadas em cerca de 10 bilhões 1994. Em junho de 2018, a Comissão No entanto, confrontados à crise Outro caminho que a Comissão
de euros por ano. Enquanto es- confirmou essa orientação: a ajuda aos do mundo agrícola, os economistas da Europeia deseja tomar: a “reserva de
peram que os governos entrem em agricultores deve ter “nenhuma ou Comissão Europeia cogitam tão frené- crise”. Nunca utilizado desde sua cria-
acordo sobre a criação de novos recur- pouca incidência nas trocas comer- tica quanto inutilmente encontrar so- ção, em 2015, esse caixa de 400 mi-
sos, são os orçamentos das duas gran- ciais”, para que “a União possa respei- luções que se enquadrem na proibição lhões de euros debitados do orçamen-
des políticas históricas da Comunida- tar suas obrigações [...] no acordo com da intervenção pública. É assim que to da PAC tem por objetivo “a gestão de
de Europeia que devem sofrer os cortes a OMC”. Os preços europeus devem se eles propõem a consolidação, na futu- mercado ou a estabilização em caso de
mais claros: a política de coesão (ou alinhar aos mercados internacionais. ra PAC, dos “instrumentos de gestão crises afetando a produção ou a distri-
política regional) e a política agrícola No entanto, como uma pedrinha dos riscos”: seguros privados e fundos buição”. Ele pode servir, por exemplo,
comum (PAC), cujos créditos diminui- dentro do sapato, um “detalhe” inco- comuns. Mas esse tipo de instrumento para transferir ajudas para reequili-
riam em 16% ao longo dos sete anos moda esse mercado neoliberal forçado: só é eficaz quando os preços caem por brar os mercados, incitando a dimi-
por vir, para atingir em média um pou- os mercados agrícolas são estrutural- um longo período. Da mesma forma nuição da produção. A Comissão con-
co mais de 46 bilhões de euros por ano.1 mente instáveis; e as cotações interna- que quando os preços caem para a sidera a partir de agora que se possam
Desde 1992, a PAC já foi amputada cionais estão em sua maioria ligadas ao maioria dos produtores ao mesmo transferir de um ano para o outro os
em seus principais instrumentos de dumping, pois correspondem aos exce- tempo, tornam-se impossíveis os fun- valores não utilizados. Mas, sem pro-
regulação dos mercados, distancian- dentes dos países mais competitivos. Os dos de risco comuns, ou seja, exata- posta de uma nova abordagem na ges-
do-se nesse ponto de certos objetivos agricultores europeus sofrem com os mente o que se produz com mais fre- tão das crises, temos dificuldade em
que tinham sido designados a ela pelo preços geralmente baixos que não co- quência no setor agrícola. acreditar que essa reserva de crise seja
Tratado de Roma em 1957: “aumentar brem seus custos de produção. um dia mobilizada.
a produtividade da agricultura”, “ga- Na contramão das escolhas feitas AUXÍLIOS DESVINCULADOS, UMA ABERRAÇÃO A União Europeia dispõe ainda de
rantir um nível de vida equilibrado pa- por Bruxelas, as políticas agrícolas fo- Em um contexto de desregulamen- um instrumento: os direitos de alfân-
ra a população agrícola”, “garantir a ram reforçadas no resto do mundo tação dos mercados, as grandes em- dega nas fronteiras europeias, que
segurança dos abastecimentos”, “ga- desde a crise alimentar de 2008. Na Ín- presas de transformação e distribuição continuam sendo, para muitos produ-
rantir preços razoáveis [...] aos consu- dia e na China, os preços internos de continuam ficando com a maior parte tos agrícolas, superiores ao que são
midores”; ou ainda “estabilizar os diversos produtos ultrapassam assim no valor acrescido, em detrimento dos em outros setores econômicos (11,1%
mercados”. Os preços mínimos garan- os valores internacionais, graças a ta- agricultores. Assim, os preços pagos em média, contra 4,2% para o conjun-
tidos, os direitos de alfândega variá- xas de alfândega, preços mínimos ga- aos produtores caíram pela metade em to do comércio europeu). Mas isso não
veis instaurados no quadro da prefe- rantidos e estoques públicos conse- quarenta anos, enquanto os dos pro- leva em conta os acordos de livre-co-
rência comunitária, os auxílios à quentes. Nos Estados Unidos, os dutos agroalimentares comprados pe- mércio que se multiplicam com diver-
exportação e as cotas de produção, es- produtores recebem auxílios variáveis los consumidores pouco mudaram sos países e regiões do mundo, e ratifi-
tabelecidos nos anos 1960, desmante- segundo a evolução do mercado. Qua- (queda de 7% em euros constantes des- cam a cada vez cotas de importação
laram-se progressivamente após a se sozinha contra todos, a União Euro- de 1975).2 As cadeias agroalimentares livres de taxas ou diminuições de ta-
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 27

xas alfandegárias. Assim é com o partir de 60 mil euros, assim como um que a negociação comum seja fluida. os países emergentes e, agora também
Acordo Econômico e Comercial Glo- teto além de 100 mil euros. Mas seria O resultado já é conhecido: no espaço os Estados Unidos, contestam a neu-
bal (Ceta) fechado com o Canadá e possível aumentar esse teto ao nível de livre-comércio europeu, as dispari- tralidade dos auxílios desvinculados,
aplicado parcialmente desde 2017, e dos encargos de trabalho (salários e dades de apoio e de normas só pode- que são a quase totalidade dos auxílios
com o acordo negociado atualmente equivalentes para o emprego fami- rão reforçar as distorções de concor- europeus.8 Segurança alimentar, luta
com o Mercosul (Argentina, Brasil, liar), o que priva essa proposta de rência, já bem claras tratando-se das contra as mudanças climáticas, prote-
Paraguai, Uruguai e Venezuela). qualquer efeito realmente restritivo. cotizações salariais. ção dos recursos naturais, emprego,
Enfim, para apoiar os agricultores Mesma constatação para o “ecodis- migrações: a agricultura se encontra
que sofrem com os preços internacio- positivo”, apresentado como a princi- BOA ALUNA DA OMC no centro dos maiores desafios do sé-
nais de dumping, a União Europeia, pal novidade da futura PAC: os Esta- A União Europeia abandona cons- culo XXI. Apesar disso, a Comissão
encorajada pelos economistas ortodo- dos-membros poderiam transferir cientemente o papel de vigia do meio Europeia parece querer reduzir ainda
xos, pensava ter o controle da situação. auxílios diretos para os agricultores ambiente, que ela tinha, no entanto, um pouco mais suas ambições. E
Desde 1992, as reformas consistiram que se comprometem com práticas be- começado a fazer com a diretiva que fi- abandona em suplício diversos cam-
em fazer evoluir os auxílios para que néficas para o meio ambiente. Mas, xa os objetivos de redução da poluição poneses europeus.
fossem transferidos sem relação com a também nesse ponto, por falta de uma das águas pelos nitratos e da eutrofiza-
produção: esses auxílios desvincula- obrigação em consagrar para isso um ção oriunda das atividades agrícolas. *Frédéric Courleux e Aurélie Trouvé são,
dos não deveriam afetar as escolhas de orçamento mínimo, esse dispositivo Em um espaço europeu diretamente respectivamente, diretor de estudos do gabi-
produção, mas respeitar os sinais do permanecerá anedótico. Além disso, conectado com os preços internacio- nete Agriculture Stratégies e professora de
mercado. Foi assim que 340 mil dos os países mais entusiastas deverão li- nais, os mais conservadores terão uma Economia da AgroParisTech.
440 mil produtores agrícolas franceses mitar suas ambições: o auxílio, trans- situação favorável, em cada país, para
receberam auxílios da PAC, represen- ferido por hectare, deverá permanecer exigir regras mínimas para não atra-
tando 85% da renda agrícola francesa desvinculado da produção. Seu valor palharem sua competitividade. 1 Cf. Jacques Carles, “Baisse du budget de la PAC
UE27 de près de 30% en vingt ans, l’abandon pro-
em 2016.5 Esses auxílios desvincula- também será estritamente limitado O aumento das preocupações am- gressif de la seule politique européenne intégrée”
dos são atribuídos qualquer que seja o aos aumentos de gastos sofridos pelo bientais desde os anos 1980 tinha favo- [Diminuição do orçamento da PAC UE 27 de cerca
nível dos preços e das rendas. Conclu- agricultor em nome da ecologia, como recido uma “ecologização” da PAC, por de 30% em vinte anos, o abandono progressivo da
única política europeia integrada], Agriculture Stra-
são: são desperdiçados nos anos de va- uma queda de rendimento ligada à via do reforço aos auxílios à agricultu- tégies, 31 maio 2018. Disponível em: <www.agri-
cas gordas, em vez de serem conserva- conversão para a produção de orgâni- ra orgânica ou às zonas desfavoreci- culture-strategies.eu>.
dos para os anos de vacas magras. cos. Os serviços ambientais fornecidos das. Esse “segundo pilar” da PAC be- 2 Instituto Nacional da Estatística e dos Estudos
Econômicos (Insee), Paris, Contas Nacionais da
Transferidos por hectare e não por tra- pelos agricultores – para evitar o fecha- neficiava fundos crescentes a cada Agricultura.
balhador, eles não apoiam o emprego, mento da paisagem pela manutenção reforma; eles serão a partir de agora 3 Cf. a iniciativa “Too big to feed us” [Grande demais
mas incitam ao aumento das superfí- dos terrenos, por exemplo – correm o reduzidos em 25%. Quanto às condi- para nos alimentar], International Panel of Experts
on Sustainable Food Systems (IPES-Food), out.
cies cultivadas. Esses auxílios desvin- risco de não serem remunerados corre- ções ecológicas suplementares impos- 2017. Disponível em: <www.ipes-food.org>.
culados deveriam continuar devoran- tamente. Por fim, as pistas entreaber- tas a todos os beneficiários dos auxí- 4 Aurélie Trouvé et al., “Étude sur les mesures contre
do o orçamento da próxima PAC, com tas para tentar legitimar as subvenções lios desvinculados desde as últimas les déséquilibres de marché: quelles perspectives
pour l’après-quotas dans le secteur laitier euro-
o que é agora chamado de “auxílio de desvinculadas ligando-as seja ao em- reformas, a Corte de Contas Europeia péen?” [Estudo sobre as medidas contra os dese-
baixa renda”. prego, seja ao meio ambiente termi- estimou que eles não trariam “ne- quilíbrios de mercado: quais são as perspectivas
Outro perigo da reforma cogitada: nam num beco sem saída. Nos pergun- nhum benefício para o meio ambien- para o pós-cotas no setor leiteiro europeu?], relató-
rio financiado pelo Ministério da Agricultura, do
o enfraquecimento do “pagamento re- tamos se o objetivo real não seria te”.7 A Comissão Europeia tirou disso Agroalimentar e da Floresta, Paris, 10 jun. 2016.
distributivo” destinado a apoiar as pe- suprimi-las em um dado momento. conclusões muito singulares: ela não 5 Contas nacionais da agricultura. Trata-se da renda
quenas e médias propriedades rurais Uma “subsidiaridade acrescida”, propõe mais nenhuma condição pre- líquida dos fatores (valor acrescido líquido + sub-
venções + impostos).
em nome do emprego. Se esse meca- deixando aos países uma maior latitu- cisa em escala comunitária. 6 “The future of food and farming” [O futuro da ali-
nismo, hoje facultativo, se tornar obri- de, preside oficialmente a reforma. A Ao querer se mostrar uma boa alu- mentação e da agricultura], Comissão Europeia,
gatório, nenhuma regra será imposta Comissão Europeia propõe, desse mo- na da OMC, a Europa conduz sua polí- Bruxelas, 29 nov. 2017. Disponível em: <https://
ec.europa.eu>.
aos Estados-membros quanto ao total do, devolver aos Estados-membros a tica agrícola para um impasse. No en- 7 “Le verdissement: complexité accrue du régime
alocado. Inclusive, como a cada refor- responsabilidade de definir as regras tanto, a PAC é uma das bases de sua d’aide au revenu et encore aucun bénéfice pour
ma a Comissão Europeia propõe dimi- principais nos “planos estratégicos construção. Ineficaz diante das crises l’environnement” [O esverdeamento: crescimento
da complexidade do regime de auxílio à renda e
nuir o valor dos auxílios para as gran- nacionais”. Assim se encontram as das rendas agrícolas e incapaz de ainda nenhum benefício para o meio ambiente],
des fazendas a fim de garantir um importantes normas ambientais. Nes- acompanhar a transição ecológica e relatório da Corte de Contas Europeia n.21/2017,
apoio “mais justo e mais específico”,6 se enquadramento muito flexível, tu- social da agricultura, a política atual Luxemburgo, 12 dez. 2017.
8 Ler Jacques Berthelot, “Le baiser de la mort de
ela considera a possibilidade de um do é feito para que cada governo en- contribui além de tudo para o bloqueio l’Europe à l’Afrique” [O beijo da morte da Europa
débito dos auxílios de uma fazenda a contre um bom termo para si e para do multilateralismo comercial, já que na África], Le Monde Diplomatique, set. 2014.
28 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

CONSUMO CONTROLADO, ALTERNATIVA À PROIBIÇÃO

Heroína com receita médica


O fracasso da proibição levou um número crescente de países – como o Canadá, a partir de outubro – a legalizar
o uso e até o comércio da maconha. Desde os anos 1990, a Suíça prefere o controle do consumo à interdição, inclusive
de heroína. Essa abordagem é defendida por dependentes, por médicos, pela população e... pelas forças da ordem
POR CÉDRIC GOUVERNEUR*, ENVIADO ESPECIAL

“U
sei heroína para enfrentar meus lugares, que logo passaram a ser co-
problemas psicológicos”, expli- nhecidos como “parques de seringas”.
ca David, um quinquagenário Em Berna, uma cracolândia era vi-
viciado há 25 anos. “Isso aca- zinha do Palácio Federal, a sede do po-
bou comigo. Perdi meu emprego de re- der. “Os parlamentares viam pessoas
lojoeiro, pedi dinheiro ‘emprestado’ à se picando sob suas janelas”, conta
namorada, aos amigos... Acabei na Daniele Zullino. “Aquilo parecia um
rua. Para comprar as doses, tornei-me dos círculos do inferno”, lembra-se
usuário-revendedor.” Há um ano e Ruth Dreifuss, então consultora fede-
meio, ele comparece diariamente ao ral responsável pela Saúde. Ex-presi-
centro do Programa Experimental de dente socialista da Confederação (em
Prescrição de Entorpecentes (Peps, na 1999), Dreifuss chefia desde 2016 a Co-
sigla em francês) de Genebra, ligado missão Global de Política de Drogas,
ao Hospital Universitário. “Graças a que reúne antigos líderes políticos do
esse programa, reencontrei uma vida mundo inteiro, defensores da regula-
social e paguei meus amigos.” O ex-re- mentação do mercado de drogas pelos
lojoeiro consulta o relógio: “Tenho de Estados. “Criou-se uma economia da
ir. Hora do tratamento”. Uma enfer- miséria, com prostituição e inúmeros
meira lhe aplicará uma dose de diace- tráficos de pequeno porte. Era lamen-
tilmorfina, heroína produzida legal- tável; os profissionais da saúde prati-
mente em um laboratório suíço. cavam uma medicina de guerra.” As
Os cerca de 1.500 pacientes dos 22 repetidas picadas, com material con-
centros do Peps da Suíça recorreram taminado, provocavam abscessos que
todos, em vão, a tratamentos substitu- exigiam tratamento de urgência. “To-
tivos: “A metadona não funcionou para da semana morria alguém de overdo-
mim”, revela Marco, de 44 anos. “Os se”, lembra, em Berna, o psiquiatra Ro-
efeitos colaterais são violentos e não há bert Hämmig. “A aids se espalhava e a
efeito ansiolítico. Então, eu consumia terapêutica tripla ainda não existia.” A
© Tulipa Ruiz

outras drogas ao mesmo tempo... Ins- fim de conter a propagação do HIV, “a


crevi-me aqui há seis meses; ganhei associação Contact abriu em Berna a
peso e reduzi a um quinto meu consu- primeira sala de injeções do mundo, já
mo de heroína. Um dia, vou parar por em 1986”, explica Jakob Huber, que era
completo.” “O tratamento me dá rit- então seu diretor.
mo”, comenta Chantai, 54 anos, com
trinta de dependência. “Chega de cor- NÚMERO DE MORTES DESPENCOU
rer atrás dos traficantes.” Com as pupi- Entretanto, a existência dessas sa-
las retraídas e a voz forte, Jeff, 54 anos, las não tinha efeito algum sobre a de-
acaba de tomar sua dose: “Sem dúvida, drogas, álcool, medicamentos psico- família e os amigos. Têm, enfim, aces- linquência ligada à compra de entor-
minha qualidade de vida melhorou trópicos como as benzodiazepinas... so a um psiquiatra...” pecentes. Quanto aos tratamentos
muito. O tratamento estabiliza meu Nossa posologia, adaptada a cada ca- Adotada em praticamente todos os substitutivos, “alguns não os suporta-
dia. Antes... bem, antes eu era trafican- so, permite viver da maneira mais nor- cantões (o Vaud fez isso no último ve- vam”, esclarece Thilo Beck, psiquiatra
te. Maldoso, fazia de tudo para ganhar mal possível. Valorizamos também a rão) e testada timidamente no Canadá da Arbeitsgemeinschaft für risikoar-
dinheiro. Recorri a falcatruas...” cidadania dos pacientes, que precisam e em alguns países da Europa (Alema- men Umgang mit Drogen (Comunida-
“O vício se instala quando o consu- respeitar a equipe e a vizinhança. É nha, Reino Unido, Holanda...), a pres- de de Trabalho para Gestão de Drogas
mo de um produto se torna a única es- neste centro que eles são tratados; de- crição médica de heroína nasceu de com Baixo Risco), uma clínica para
tratégia para enfrentar situações difí- vem, portanto, protegê-lo.” Cada um é uma crise grave: a das “cracolândias”. dependentes de Zurique. Expulsos do
ceis”, explica Yves Saget, enfermeiro assistido por um enfermeiro, um resi- Durante os anos 1980, na Suíça, o con- Platzpitz, um parque de Zurique, os vi-
responsável por uma unidade especia- dente e um psiquiatra. “A prescrição sumo de heroína aumentou. “A maior ciados em heroína correram, às cente-
lizada em toxicologia. “Aqui, não fala- feita por médicos os tira da espiral do parte dos usuários era formada por jo- nas, para a estação desativada do Let-
mos em ‘dose’, mas em ‘tratamento’: o ‘comportamento de rua’”, afirma Pe- vens com ruptura familiar”, lembra-se ten. Em Berna, eles trocaram o Parque
cérebro está dependente e precisa de dro Ferreira, residente em psiquiatria. o psiquiatra de Zurique Ambros Uchte- Schänzli pelo Parque Kocher... “Está-
heroína para encontrar equilíbrio. Re- “Não têm necessidade de procurar, nhagen. O país havia se tornado um vamos num impasse”, resume Huber.
cebemos neste centro 63 pacientes que eles mesmos, o produto e, portanto, de polo de atração europeu: vinham toxi- Os suíços não aguentavam mais. “A
tratamos com diacetilmorfina. É uma arranjar dinheiro por quaisquer cômanos da Itália, Alemanha, França... mudança ocorre quando o sofrimento
heroína medicinal pura, ao contrário meios, inclusive roubo e prostituição. A polícia, sobrecarregada, tentava aumenta, tornando-se visível. Foi en-
da que se compra nas ruas, misturada Essa mudança lhes oferece disponibi- combater os problemas que se multi- tão que nós, profissionais da área, pro-
com cafeína, paracetamol etc. A heroí- lidades psíquicas para se concentra- plicavam no espaço público – roubos, pusemos uma solução.” E uma solução
na das ruas não satisfaz e o toxicôma- rem novamente em sua vida, fixarem violências, depósitos de seringas usa- radical: prescrever heroína àqueles
no recorre frequentemente a outras objetivos, retomarem contato com a das... – limitando-os a determinados que os tratamentos substitutivos não
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 29

beneficiavam. Em 1995, 65% dos en- clínicas particulares com o apoio do vidade dos impactos da toxicomania e droga...”, observa Savary. Ocorreu o
trevistados consideravam a droga um Estado. Malgrado a oposição da União melhorar a situação dos viciados.” mesmo nos bairros operários britâni-
problema grave na Suíça (a porcenta- Democrática do Centro (extrema di- Medo maior dos proibicionistas, o cos, sufocados pelo thatcherismo.
gem é hoje de 15%).1 reita) e de alguns políticos tanto do consumo de heroína não aumentou. “A proibição não resolve os proble-
“Criamos uma plataforma que jun- Partido Radical Liberal quanto do Par- Essa droga não atrai os jovens: a idade mas: é a causa deles”, sustenta Beck.
tava o Estado federal, os cantões e as tido Democrata Cristão (direita), os ci- média dos pacientes do Peps é 45 “Aqui, tratamos as consequências des-
cidades afetadas”, conta Dreifuss, “pa- dadãos suíços apoiaram essas medi- anos.3 “A prescrição médica compro- sa proibição.” Doenças, overdoses,
ra que os diversos participantes se en- das em três votações: em 1997 (rejeição meteu a imagem da heroína”, informa prostituição, delinquência, exclusão:
tendessem melhor. As cracolândias de 70% a uma proposta repressiva), em Uchtenhagen. “Ela se tornou uma dro- “É a ilegalidade do produto que destrói
não podiam continuar existindo, mas 1999 (aprovação de 54% do decreto de ga de ‘perturbados’, e seus usuários o viciado, muito mais que o produto
fechá-las pressupunha encontrar ou- ratificação do Peps) e, principalmente, são vistos como doentes crônicos. Não em si. Nossas sociedades proíbem uma
tras soluções. Ora, nada parecia fun- em 2008 (68% de “sim” ao chamado há nada de ‘heroico’ em consumi-la.” droga e depois estigmatizam as víti-
cionar. Os médicos que prescreviam sistema dos “quatro pilares”). “O Peps tirou dos traficantes alguns de mas dessa proibição. Evidentemente,
metadona solicitaram então licença Os efeitos positivos dessa política seus melhores clientes”, explica em os toxicômanos não deviam ter come-
para receitar heroína.” O conceito de são notórios. Desmanteladas, as cra- Lausanne Frank Zobel, diretor adjun- çado a usar heroína; mas precisam ser
tratamento substitutivo não era novo: colândias não reapareceram. A crimi- to da associação Addiction Suisse (De- ajudados, não criminalizados. Hoje, os
“A metadona vem sendo prescrita aqui nalidade associada aos entorpecentes pendência Suíça). “A clientela envelhe- revendedores ‘batizam’ a cocaína com
desde os anos 1960”, relata Dreifuss. teve uma “redução excepcional”, se- ce e não aumenta. O preço de venda é levamisol, um medicamento veteriná-
“As mentalidades já estavam, pois, gundo um estudo do Instituto de Polí- baixo: o mercado já não interessa aos rio para cavalos! Uma regulamentação
bem preparadas.” cia Científica e Criminologia da Uni- traficantes.” Também a expectativa de desse mercado seria, pois, menos pre-
Os cantões se encarregam da saú- versidade de Lausanne.2 Mesmo vida dos consumidores aumentou: “As judicial”. “Não existe mercado mais li-
de, mas, no caso de epidemias e dro- formando uma “população extrema- taxas de soropositivos é hoje menor beral, mais agressivo, mais nocivo para
gas, a responsabilidade cabe ao Con- mente ancorada na delinquência”, o que 10%”, esclarece Zullino. “E era de a saúde humana do que o mercado ne-
selho Federal. Em 13 de maio de 1992, número de toxicômanos que tiveram 50% nos anos 1990! Nossos pacientes gro dos entorpecentes”, garante Huber.
este deu sinal verde para uma expe- problemas com a polícia foi reduzido têm acesso a uma heroína pura. Não “A melhor prevenção de todas as dro-
riência de cinco anos: “Adotamos uma em dois terços. “Já não há praticamen- morrem mais por causa dela, morrem gas é a regulamentação legal do merca-
‘norma de urgência’, temporária, que te criminalidade associada à heroína, por causa do fumo...” Entre os meno- do, como ocorre para o fumo e o ál-
não pode ser revogada por votação. É que agora é gratuita”, resume Regula res de 35 anos, o número de óbitos por cool.” Com a regulamentação, conclui
o pragmatismo suíço: testar uma polí- Müller, encarregada da área social da causa da droga caiu de 305 em 1995 Zullino, “os problemas não desapare-
tica antes que a lei seja modificada. cidade de Berna. “A polícia passou a para 25 em 2015.4 cem, mas ficam sob controle”.
Somos um país pequeno, onde a polí- nos apoiar depois de perceber que a
tica depende amplamente do consen- delinquência e as perturbações no es- “É A ILEGALIDADE QUE DESTRÓI” *Cédric Gouverneur é jornalista e roteirista
so”. “Há também uma diferença de paço público diminuíram”, acrescenta Com base nesses dados, os autores da história em quadrinhos Légal. La Fin de la
cultura médica e filosófica com rela- Huber, da associação Contact. da nova política sugerem o fim da proi- prohibition [Legal. O fim da proibição] (com
ção à França”, analisa Jean-Félix Sa- A Polícia de Entorpecentes de Ber- bição e o recurso à regulamentação. A Amazing Améziane), Casterman, Paris, 2014.
vary, secretário-geral do Grupamento na concordou em nos receber. Seu che- legalidade ou ilegalidade de um psico-
Franco-Suíço de Estudos das Depen- fe, Reto Schumacher, nos mostra um trópico responde a considerações cul- 1 “Baromètre des préoccupations” [Barômetro das
dências (GFSED). “A Suíça é de cultura recorte do Bern Zeitung de 20 de maio turais e políticas: na década de 1920, “a preocupações], Crédit Suisse. Disponível em:
calvinista. Os países católicos têm, vi- de 2014: “Agora, três seringas encontra- proibição do álcool nos Estados Uni- <www.credit-suisse.com>.
2 Marcelo F. Aebi, Denis Ribeaud e Martin Killias,
sivelmente, mais dificuldades para das sob um pórtico já dão motivo para dos visava ao aumento da produtivida- “Prescription médicale de stupéfiants et délinquan-
compreender assuntos como as dro- um artigo. No tempo das cracolândias, de dos trabalhadores”, lembra Uchte- ce: résultats des essais suisses” [Prescrição médi-
gas ou a morte.” recolhíamos semanalmente centenas, nhagen. “Mas o Estado pôs fim a ela ca de entorpecentes e delinquência: resultados
dos experimentos suíços], Criminologie, v.32, n.2,
Assim nasceu a chamada política milhares! Olhe”. A fim de secundar porque o fisco perdia receitas para Al Presses Universitaires de Montréal, 1999.
dos “quatro pilares”: prevenção, re- suas palavras, o policial exibe no com- Capone.” Já a “guerra às drogas”, tão 3 “Traitement avec prescription d’héroïne en Suisse,
pressão, redução de riscos e terapia. putador fotografias do Parque Kocher cara a Ronald Reagan, “forneceu uma résultats de l’enquête 2016” [Tratamento com
prescrição de heroína na Suíça, resultados da pes-
Em 1994 surgiram os primeiros cen- em 1991. “Só a repressão não resolve. explicação cômoda para o esgarça- quisa de 2016], Institut Suisse de Recherche sur la
tros de injeções com receita médica, a Tenho bons contatos com os assisten- mento do tecido social nos bairros ne- Santé Publique et les Addictions (ISGF), Zurich,
maioria na Suíça alemã. Existem hoje tes sociais; não partilhamos o mesmo gros: eles não eram mais as vítimas ago. 2017.
4 “Nombre de décès liés à la drogue” [Número de óbi-
22 – um deles no ambiente carcerário ponto de vista, mas perseguimos o das políticas liberais, dos cortes no or- tos ligados à droga], Monitorage Suisse des Addic-
–, gerenciados por hospitais públicos e mesmo objetivo, que é aliviar a coleti- çamento social, mas simplesmente da tions. Disponível em: <www.suchtmonitoring.ch>.
30 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

O EXEMPLO DE UM PAÍS NÃO ALINHADO

Quando a Iugoslávia
apoiava as lutas anticoloniais
A explosão da Iugoslávia nos anos 1990 oculta a relevância que o país já teve nas relações internacionais. Belgrado
manifestava abertamente apoio às grandes lutas de libertação nacional, em particular na África, enquanto a URSS, preocupada
em não piorar o relacionamento com os Estados Unidos e com as antigas potências coloniais, mostrava-se mais prudente
POR JEAN-ARNAULT DÉRENS*

A
lgumas imagens despertam a dos, seja pelo Império Otomano, seja

© Mello
nostalgia de uma época passa- pela Áustria-Hungria. Isso nos tornou
da: a dos líderes do movimento particularmente sensíveis às situações
não alinhado tentando estabe- coloniais”, afirma.
lecer as bases de uma nova ordem Sem ter formado um corpo de dou-
mundial, ou então as do marechal Jo- trina, o titismo é acima de tudo uma
sip Broz Tito (1892-1980), presidente prática política, forjada na experiência
da República Socialista Federativa da de luta dos resistentes partisans du-
Iugoslávia (RSFI), em imponente uni- rante a Segunda Guerra Mundial. Josip
forme branco de desfile, recebendo Broz2 era um apparatchik treinado na
em sua casa de campo na ilha de Brio- rude escola da GPU – polícia política
ni, no norte do Adriático, os líderes soviética, que empregava muitos agen-
dos países recém-descolonizados ou tes estrangeiros – e um sobrevivente
dos movimentos de libertação da Áfri- dos expurgos da Comintern (a Inter-
ca e da Ásia. nacional Comunista), que rapidamen-
Para a Iugoslávia, banida do bloco te pretendeu jogar seu próprio jogo no
socialista estreitamente controlado quadro da guerra de libertação, sem
por Moscou após o rompimento de levar em conta as instruções de Mos-
1948, o apoio às lutas anticoloniais foi cou. Deslocando para segundo plano a
um meio de impor sua presença no ce- revolução socialista, a URSS apelava
nário internacional e jogar no terreno então para uma união de todos os mo-
dos grandes. Enquanto a União Sovié- vimentos de resistência, sobretudo
tica e o Partido Comunista Francês en- com os tchetniks, a força de resistência
caravam com desconfiança os atenta- quase exclusivamente sérvia fiel ao go-
dos de La Toussaint de 1954, que verno real iugoslavo exilado em Lon-
lançaram a Guerra de Independência dres. Para Tito, ao contrário, a luta
da Argélia, a delegação iugoslava foi a contra os ocupantes fascistas e nazis-
primeira a difundir a voz da Frente de tas era inseparável daquela para a
Libertação Nacional (FLN) no âmbito criação de um novo Estado socialista e
das Nações Unidas. federal.3
“Tito e o núcleo duro da Liga dos Co-
munistas Iugoslavos realmente viam APOIO À INSURREIÇÃO ARGELINA
nas lutas de libertação do Terceiro Mun- O peso do movimento dos partisans
do uma réplica de seu próprio combate o autorizou a impor sua linha. Em 1943,
contra os ocupantes fascistas da Segun- ele chegou a obter o precioso apoio dos
da Guerra Mundial. Eles vibravam no britânicos, que libertaram os tchetniks.
ritmo dos avanços ou dos recuos da A Iugoslávia foi, com a Albânia, o único
FLN ou do Vietcong”, recorda Danilo país europeu libertado por sua resis-
Milic. Esse ex-diplomata começou sua tência interna, com os avanços do
carreira no início dos anos 1960 para fi- Exército Vermelho no nordeste da Sér-
nalizá-la em 2011, depois de ter servido via, no outono de 1944, desempenhan-
na Guiné, em Serra Leoa, no Gabão, na do apenas um papel marginal. Tito ti-
Guiné-Bissau, em Angola e na Repúbli- rou disso a legitimidade que lhe
ca Democrática do Congo, represen- permitiu enfrentar Josef Stalin depois
tando os avatares sucessivos de seu de 1948. Mesmo tendo ocorrido uma
país: a RSFI, depois a “pequena Iugoslá- repressão impiedosa sobre os “stalinis-
via” recriada em 19921 e, finalmente, a tas” iugoslavos, o regime dispunha de
Sérvia. “Nós também fomos coloniza- uma base popular de que estavam des-
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 31

providos os partidos comunistas do tenegrino Stevan Labudovic (falecido ríamos apoiar todos os movimentos de Os Estados sucessores da Iugoslá-
Leste Europeu chegados ao poder nos em novembro de 2017) se uniu às uni- libertação sul-africanos, mas os mili- via não desistiram imediatamente do
furgões do Exército Vermelho. Aliás, dades da FLN em 1959. De câmera na tantes comunistas dentro do ANC ti- legado dessa influência internacional.
era essa independência que Stalin não mão, filmou todas as lutas, até o final nham uma cultura muito stalinista... Em 2006, quando o presidente croata
podia aceitar e que levou os soviéticos do conflito. Em sua visão, quem não estava com- Stjepan Mesic visitou Havana, ele cui-
a acusar o Partido Comunista Iugosla- Os anos que se seguiram à Revolu- pletamente com eles era contra eles, e dou de estar acompanhado de um ve-
vo de “desvio nacionalista”. ção Argelina trouxeram sua parcela de eles desconfiavam da Iugoslávia, por- terano da diplomacia iugoslava, Budi-
Originalmente, no entanto, o novo desilusões. Muito forte sob a presidên- que queríamos manter relações com o mir Loncar, que foi, de 1987 a 1991, o
regime de Belgrado se via como uma cia de Ahmed ben Bella, a influência PAC”, Milic se justifica. último ministro de Relações Exterio-
cópia fiel do modelo soviético. Inova- iugoslava em Argel foi reduzida após o Por outro lado, na década de 1980 a res da RSFI e muitas vezes serviu de in-
ções, como a introdução da autogestão golpe de Houari Boumédiène, em 1965. Iugoslávia formou em suas escolas mi- termediário entre Tito e Castro, cujas
socialista teorizada pelo esloveno Ed- Mas outras frentes de luta não demora- litares centenas de oficiais da Organi- relações eram, por vezes, tempestuo-
vard Kardelj (1910-1979), só foram sur- ram a emergir. A Iugoslávia enviou mi- zação do Povo do Sudoeste Africano sas. A Croácia permaneceu como
gindo gradualmente. Em um mundo lhares de colaboradores para a Guiné (Swapo), o movimento de libertação membro do Movimento dos Países
bipolar paralisado pela Guerra Fria, após a partida dos franceses em 1958 e da Namíbia. Ela manteve relações es- Não Alinhados até ingressar na Orga-
um compromisso resoluto com a des- deu forte apoio aos movimentos de li- treitas com Angola e Moçambique nização do Tratado do Atlântico Norte
colonização seria fundamental para a bertação das colônias portuguesas. após a independência desses países, (Otan), em 2009. Em 2008, quando o
difusão internacional da Iugoslávia. O assassinato, em 1961, do primei- em 1975. Esses mesmos países forne- Kosovo proclamou unilateralmente
Em parte por oportunismo: não ape- ro-ministro congolês Patrick Lumum- ceram um apoio importante ao ANC, sua independência, o então ministro
nas Tito, isolado no movimento comu- ba, qualificado por Tito de “o maior cri- enquanto Angola enfrentava a guerri- das Relações Exteriores da Sérvia, Vuk
nista, precisava de aliados e parceiros, me da história contemporânea”, depois lha de Jonas Savimbi, acompanhada e Jeremic, iniciou uma viagem mundial
como devia também e sobretudo pro- a rivalidade cada vez mais forte entre financiada por Pretória. para dissuadir o maior número possí-
var a validade do socialismo “diferen- chineses e soviéticos na África, nas dé- Em 1980, os serviços secretos sul- vel de países a reconhecer o novo Esta-
te” que seu país estava experimentan- cadas de 1960 e 1970, impediram a for- -africanos, em parceria com seus ho- do. Para isso, usou sobretudo os fóruns
do. Por fim, ele teve a inteligência de mação de um eixo socialista do Tercei- mólogos argentinos (país que viveu de organizações em que a Sérvia ainda
sentir as possibilidades oferecidas por ro Mundo, do qual Belgrado poderia sob o regime da Junta Militar entre tinha status de observador, como a
um mundo em plena turbulência. “A ter assumido a liderança. Mas as lutas 1976 e 1983), iniciaram uma vasta ope- União Africana e a Organização da
União Soviética e os partidos comu- anticoloniais permitiram que a Iugos- ração que resultaria no desembarque Conferência Islâmica. Belgrado esta-
nistas que estavam subordinados a ela lávia, que sofria ela própria com o sub- de 1.500 guerrilheiros croatas antico- va, assim, tentando – não sem sucesso
levaram muito tempo para entender a desenvolvimento, multiplicasse sua munistas na Iugoslávia, país conside- – ressuscitar as redes moribundas do
dinâmica das lutas anticoloniais de li- influência. “Muitas vezes, arbitragens rado um dos principais focos da “sub- não alinhamento para seu próprio be-
bertação”, Milic continua. “Na visão difíceis foram processadas. Não hesitá- versão comunista”, como revelado por nefício.8 Essa abordagem utilitarista,
deles, teria sido necessário que os par- vamos quando se tratava de fornecer documentos que recentemente deixa- para não dizer recuperação, do prestí-
tidos comunistas tomassem o poder armas para as revoluções africanas, ram de ser classificados como secretos gio internacional da antiga Federação
nas metrópoles para então conceder mesmo que em certas regiões de nosso pelo Exército sul-africano.6 A opera- não devia, no entanto, alimentar ilu-
liberdade aos povos colonizados! Além próprio país faltasse tudo”, diz Milic. ção, que visava derrubar o regime iu- sões. Como destaca Ana Sladojevic,
disso, a União Soviética era obcecada Tito viajou para a África várias ve- goslavo, estava prevista para o verão, curadora, em 2017, de uma exposição
por suas relações com o campo oci- zes, sempre a bordo de seu iate, o Ga- durante os Jogos Olímpicos de Mos- sobre Tito e a África no Museu de His-
dental. A distensão era uma necessida- leb, dando pretexto para a formação cou, com Pretória supondo que a tória da Iugoslávia, em Belgrado, “o
de vital para ela, o que a levou a sem- de coleção de esplendor faraônico. Na União Soviética estaria muito ocupa- anticolonialismo e o antifascismo fa-
pre escolher o partido do status quo. primavera de 1961, durante uma via- da para reagir. Mas os espiões sul-afri- zem parte desse legado iugoslavo que
Ela não queria tomar nenhuma inicia- gem de 72 dias, ele visitou Gana, Togo, canos não avaliaram corretamente o todos os países sucessores buscam ho-
tiva que pudesse desagradar ao Reino Libéria, Guiné, Mali e Tunísia. Ele em- estado real das relações entre a Iugos- je esquecer”.
Unido ou à França...” Por seu lado, a barcou com presentes luxuosos e um lávia e Moscou. Após a intervenção so-
Iugoslávia soube tirar proveito de seu conjunto de 1.400 pessoas, incluindo viética no Afeganistão, em dezembro *Jean-Arnault Dérens é jornalista no site
posicionamento singular. Ela se desta- cinquenta cantores e músicos, ao lado de 1979, Belgrado realmente aumen- Courrier des Balkans. Coautor, com Laurent
cou muito rapidamente na arte sutil de de muitas costureiras de sua esposa, tou o nível de alerta de suas forças ar- Geslin, de Là où se mêlent les eaux. Des
jogar com as tensões entre os dois blo- Jovanka Broz, que gostava de exibir madas, temendo um gesto hostil do Balkans au Caucase, dans l’Europe des con-
cos, derrubando alternadamente as uma roupa diferente em cada escala. Pacto de Varsóvia7 – a obsessão de Tito fins [Onde as águas se misturam. Dos Bálcãs
cartas de aproximação com o Ociden- O presidente guineense Kwame Nkru- até seu último dia. ao Cáucaso, na Europa dos confins], La Dé-
te e com a União Soviética. mah via nele “o estadista contempo- couverte, Paris, 2018.
Belgrado não participou da Confe- râneo mais realista [...], aquele que UMA HERANÇA DILAPIDADA
rência Afro-Asiática de Bandung em melhor entendeu a África”.5 Apesar Em setembro de 1979, o marechal
1955,4 mas Tito foi, no ano anterior, o dos excessos da “corte” de Tito, os di- fez sua última grande viagem a bordo
primeiro chefe de Estado europeu a vi- plomatas iugoslavos tinham a capaci- do Galeb para ir a Havana. Na platafor- 1 Em 1992 foi criada uma nova República Federativa
da Iugoslávia (RFI), reunindo apenas a Sérvia e
sitar a Índia após a independência da- dade de falar com seus colegas africa- ma da Sexta Conferência do Movi- Montenegro. Ela tornou-se a União da Sérvia e
quele país. Ele então encontrou Jawah- nos sem paternalismo, porque seu mento dos Não Alinhados, ele se opôs Montenegro em 2003, antes dessas duas repúbli-
arlal Nehru e o presidente egípcio próprio país nunca tinha sido uma com sucesso à orientação pró-soviéti- cas se separarem em 2006.
2 “Tito” era seu nome de guerra, que ele depois
Gamal Abdel Nasser na casa de campo potência colonial. ca que Fidel Castro queria imprimir ao acrescentou ao nome de nascimento.
de Brioni, em 19 de julho de 1956, esta- O visitante do Memorial de Belgra- movimento. De qualquer forma, a de- 3 Jože Pirjevec, Tito. Une vie [Tito. Uma vida], CNRS
belecendo as bases do não alinhamen- do – a Casa das Flores, que abriga o cisão dos Estados Unidos de boicotar Éditions, Paris, 2017.
4 Ler Françoise Feugas, “De la conférence de Ban-
to. Ao lado dessa efervescência diplo- mausoléu do ex-presidente, o Museu os Jogos Olímpicos e a morte de Tito, dung au mouvement des non-alignés” [Da confe-
mática, a Iugoslávia se envolveu de da História da Iugoslávia e o Museu de em 4 de maio de 1980, levaram os sul- rência de Bandung ao movimento dos não alinha-
forma muito intensa no apoio à Revo- Arte Africana – não pode, no entanto, -africanos a cancelar a operação, en- dos], Manuel d’histoire critique, número especial
de Le Monde Diplomatique, 2014.
lução Argelina. Em 19 de janeiro de deixar de se surpreender com a escas- quanto o enterro do fundador da Iu- 5 Citado por Jože Pirjevec, op. cit.
1958, a Marinha Francesa inspecio- sez de referências à África do Sul e à lu- goslávia socialista foi a ocasião de um 6 Hennie van Vuuren, Apartheid, Guns and Money:
nou, ao largo de Orã, o navio de carga ta contra o apartheid. O regime iugos- dos maiores encontros de chefes de Es- A Tale of Profit [Apartheid, armas e dinheiro: uma
história de lucro], Jacana Media, Joanesburgo,
Slovenija, cujos porões estavam cheios lavo considerou que o Congresso tado e de governos de toda a Guerra 2017.
de armas destinadas aos insurretos. Nacional Africano (ANC) estava muito Fria – com as notáveis exceções do pre- 7 Aliança militar entre a União Soviética e os países
Os meios de comunicação iugoslavos ligado à União Soviética e mantinha sidente francês Valéry Giscard d’Es- do Leste Europeu (1955-1991).
8 Ler “Prodiges et vertiges de la diplomatie serbe”
também ficaram famosos por seu tra- relações privilegiadas com seu rival, o taing, seu colega norte-americano [Prodígios e vertigens da diplomacia sérvia], Le
tamento da guerra: o jornalista mon- Congresso Pan-Africano (PAC). “Que- Jimmy Carter e Fidel Castro. Monde Diplomatique, set. 2010.
32 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

SÍMBOLO FEMINISTA RETOMA POPULARIDADE

Tremam, as bruxas estão de volta!


A Europa do Renascimento executou como “bruxas” dezenas de milhares de mulheres. Pelo desafio, as feministas dos anos
1970 reivindicaram essa identidade, por vezes somando a essa decisão política uma prática espiritual ligada ao mundo natural.
Hoje, enquanto a relação da humanidade com seu meio é caótica, as bruxas assombram novamente o Ocidente
POR MONA CHOLLET*

representavam 80% dos acusados e


85% dos condenados, tendo sido os ho-
mens muitas vezes incriminados por
associação. A campanha conduzida
entre 1587 e 1593 em 22 povoados das
redondezas de Tréveris, na Alemanha,
por exemplo, foi tão feroz que dois de-
les não deixaram mais que uma mu-
lher viva; foram queimadas 368.3 A his-
toriadora Anne L. Barstow associa
essas caças a uma “explosão de miso-
ginia”.4 O martelo das feiticeiras (Mal-
leus maleficarum), publicado pelos do-
minicanos Heinrich Kramer e James
Sprenger em 1487, instila o ódio às mu-
lheres: “As bruxas são insignificantes”,
garante o texto que serviu de breviário
para os juízes em todos os processos
dos séculos seguintes; se não houvesse
a “malícia” das mulheres, “mesmo sem
falar das bruxas, o mundo seria livre de
inúmeros perigos”.
As vítimas, em sua imensa maioria
© Fibonatti Blue/cc

originárias das classes populares, po-


diam ser curandeiras ou simplesmen-
te mulheres consideradas muito dinâ-
micas, que falavam com audácia. As
solteiras e as viúvas, assim como as
idosas, eram a maioria delas. Algumas
Bruxas protestam contra supremacistas brancos e contra a proposta de Trump de construir um muro na fronteira com o México
eram acusadas de bruxaria quando
tentavam denunciar um crime. Assim,
em 1679, em Marchiennes (norte da

T
odo mês, desde a posse de Do- norte-americanas crucificam os direi- [Bruxa, por favor]. Como nos Estados França), Péronne Goguillon escapou
nald Trump, em janeiro de 2017, tos das mulheres desde o século XVII”, Unidos, a estética ligada à feitiçaria in- por pouco de uma tentativa de estupro
milhares de bruxas reúnem suas exibe uma de suas faixas em Portland, vadiu o Instagram (#WitchesOfInsta- por quatro soldados bêbados. Ao de-
forças, na lua minguante, para Oregon (Instagram, 7 set. 2017). gram, “Bruxas do Instagram”); lojas nunciá-los, seu marido chamou a
amarrar um feitiço (binding spell) para Na França também as feiticeiras se on-line vendem velas, livros de magia, atenção para a má reputação de sua
o presidente com a esperança de limi- manifestam. Vimos em Paris e em ervas e cristais. Com livros como Âme esposa: ela foi queimada como bruxa.5
tar seu poder maligno. Algumas se en- Toulouse, nas manifestações de setem- de sorcière [Alma de feiticeira], de Odile Do mesmo modo, a biógrafa de Anna
contram ao pé da Trump Tower, em bro de 2017 contra a degradação das Chabrillac (Solar, 2017), e La Puissance Göldi – provavelmente a última “bru-
Nova York; outras fazem uma cerimô- leis trabalhistas, um bloco de bruxas du féminin [A força do feminino], de xa” da Europa, decapitada em Glaris
nia em casa, diante de um altar, da feministas e anarquistas desfilando Camille Sfez (Leduc.s, 2018), o desen- (Suíça) em 1782 – encontrou vestígio
qual divulgam fotos nas redes sociais com uma faixa “Macron au chaudron” volvimento pessoal também ganha de uma queixa por assédio sexual que
com as palavras-chave #BindTrump (“Macron no caldeirão”). Isabelle ares decididamente místicos. ela havia registrado contra o médico
(“Amarre o Trump”) e #MagicResis- Cambourakis lançou, em 2015, pela que a empregava como empregada do-
tance (“Resistência Mágica”). O mate- editora de sua família, uma coleção fe- ESPIRITUALIDADE PROGRESSISTA méstica.6 Avalia-se até que ponto é ci-
rial usado inclui, além dos símbolos minista denominada Bruxas; nela se A referência à bruxaria pode se ins- nismo aplicar, atualmente, a expres-
dos quatro elementos e das cartas de encontram especialmente o Guide du crever em um comportamento políti- são “caça às bruxas” ao movimento
tarô, uma foto “pouco lisonjeira” de féminisme divinatoire [Guia do femi- co, espiritual... ou nos dois ao mesmo #MeToo (“Eu também”), que denuncia
Trump e um pedaço de vela laranja.1 nismo divinatório] (2018), de Camille tempo. No âmbito político, as feminis- os agressores sexuais...
Paralelamente, surgiram em alguns Ducellier, cineasta responsável pelo tas ocidentais fazem da feiticeira um A primeira a revisitar essa história
estados norte-americanos grupos ba- documentário Sorcières, mes sœurs símbolo há muito tempo: “Somos ne- foi a norte-americana Matilda Joslyn
tizados Witch (“Bruxa”), que se vestem [Bruxas, minhas irmãs] (Larsens Pro- tas das bruxas que vocês não conse- Gage (1826-1898), que militava ao mes-
de preto, usam chapéus pontudos e duction, 2010). A jovem autora Jack Pa- guiram queimar”, diz um célebre slo- mo tempo pelo sufrágio feminino, pe-
máscaras. Elas militam pela justiça rker – Taous Merakchi pelo estado civil gan. Elas salientam o fato de cerca de los direitos dos ameríndios e pela abo-
social, contra as mortes por policiais, – assume tranquilamente sua prática 50 mil a 100 mil pessoas executadas lição da escravatura. Ela foi condenada
contra a política migratória do gover- da magia, à qual dedicou durante uns por bruxaria na Europa, principalmen- por ter ajudado escravos a fugir. Em
no, pelos direitos de trans e pelo direi- meses, em 2017-2018, um boletim in- te nos séculos XVI e XVII,2 serem em Woman, Church and State [Mulher,
to ao aborto. “As fanáticas religiosas formativo intitulado “Witch, Please” sua maioria mulheres. Na verdade, elas Igreja e Estado], em 1893, ela fez uma
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 33

leitura feminista da caça às bruxas: nino odiado e martirizado pelos caça- feminismo, que reúne as mesmas pre- nos acostumamos a incluir nas catego-
“Quando, em vez de ‘bruxas’, escolhe- dores de bruxas, representam um meio ocupações que a feitiçaria feminista. A rias do racional e do irracional.
mos ler ‘mulheres’, ganhamos uma de restabelecer os vínculos que foram experiência incompreendida da “volta Cada vez mais, assistimos, como na
melhor compreensão das crueldades desfeitos. à terra” das comunidades separatistas época da caça às bruxas, a um
infligidas pela Igreja a essa parte da A bruxaria combate, de alguma lésbicas nos anos 1970 em Oregon13 fortalecimento de todas as formas de
humanidade”. Gage inspirou em seu maneira, os domínios culturais pro- comprova isso. “Por que deixar aos he- dominação, simbolizado pela presença
genro, o escritor Lyman Frank Baum, a fundos sobre os quais se apoia o capi- terossexuais o monopólio de uma se- na direção do país mais poderoso do
personagem de Glinda, a Bruxa Boa do talismo. De fato, ele se impôs pela for- xualidade ‘natural’ e pensar que os mundo de um biliardário que professa
Sul, em O Mágico de Oz. Ao adaptar o ça, certamente, mas também pela movimentos de homossexuais só con- misoginia e racismo sem o menor
romance para o cinema, em 1939, Vic- sedução, por suas afinidades com seguiram se desenvolver nas cidades, pudor. Assim, a magia aparece de novo
tor Fleming deu origem à primeira uma forma de razão dominante que longe da natureza e contra ela?”, per- como a arma dos oprimidos. A bruxa
“bruxa boa” da cultura popular.7 permitiu ver o mundo como um con- gunta Catherine Larrère. A filósofa não surge no crepúsculo, no momento das
A segunda onda do feminismo junto de recursos inertes que deveria vê “o menor motivo para construir o angústias vesperais, quando tudo
também redescobriu essa figura. Em ser explorado e valorizado.11 A magia feminismo negando a natureza”.14 parece perdido. É ela que consegue
1968, no dia de Halloween, em Nova satisfaz, desde então, uma necessida- achar reservas de esperança no âmago
York, surgiu o movimento Witch – de de encontrar uma nova forma de se do desespero.
Women’s International Terrorist inscrever em seu meio vital. Se, por
Conspiracy from Hell (Conspiração um lado, todas elas buscam a conexão “Uma mulher disse: *Mona Chollet é jornalista do Le Monde Di-
Terrorista Internacional de Mulheres com os elementos e se mostram aten- ‘Tiremos a roupa e plomatique. Ela acaba de publicar Sorcières.
do Inferno), cujos membros desfila- tas aos ciclos das estações, às fases da saltemos na água! Vamos, La puissance invaincue des femmes [Bruxas.
ram na Wall Street e dançaram a sara- Lua e à circulação da energia no Uni- A força invencível das mulheres], Éditions
banda, vestidas com capas pretas, em verso, por outro, as bruxas modernas
ousemos!’. Eu me Zones, Paris.
frente à Bolsa de Valores. “Com os se distinguem por uma prática muito lembro de ter-lhe
olhos fechados, a cabeça baixa, as livre, sem dogmas, e demandam a in- respondido: ‘Você está
mulheres entoaram um canto berbere venção de ritos de acordo com suas louca!’ , mas tiramos”
(sagrado aos olhos das bruxas da Ar- necessidades. Starhawk conta, por 1 Tara Isabella Burton, “Each month, thousands of
gélia) e proclamaram a queda iminen- exemplo, como surgiu o rito que ela e witches cast a spell against Donald Trump” [Todos
te de diversas ações. Poucas horas de- suas amigas seguem para festejar o os meses, milhares de bruxas lançam um feitiço
contra Donald Trump], Vox, 30 out. 2017.
pois, o mercado fechou em baixa de solstício de inverno: “Durante um dos A primeira tradução francesa do li- 2 As colônias britânicas da Nova Inglaterra também
um ponto e meio e, no dia seguinte, primeiros solstícios que celebramos, vro Rêver l’obscur [Sonhar com o obs- tiveram processos por bruxaria, entre os quais o
caiu cinco pontos”, contou alguns fomos à praia aguardar o pôr do sol curo], de Starhawk, com o título Fem- mais célebre continua sendo o de Salem, em Mas-
sachusetts, em 1692. Bem menos numerosos que
anos depois uma delas, Robin Mor- antes do nosso ritual da noite. Uma mes, magie et politique [Mulheres, na Europa, esses casos, contudo, marcaram pro-
gan.8 Na França, a revista Sorcières mulher disse: ‘Tiremos a roupa e sal- magia e política], (publicada pela edi- fundamente o imaginário norte-americano.
[Bruxas] foi publicada em Paris entre temos na água! Vamos, ousemos!’. Eu tora Les Empêcheurs de Penser en 3 Guy Bechtel, La Sorcière et l’Occident. La des-
truction de la sorcellerie en Europe, des origines
1976 e 1981 sob a direção de Xavière me lembro de ter-lhe respondido: ‘Vo- Rond, 2003), teve um eco muito limita- aux grands bûchers [A bruxa e o Ocidente. A des-
Gauthier; cabe também mencionar a cê está louca!’ , mas tiramos. Depois do. Por outro lado, em sua apresenta- truição da bruxaria na Europa, origens das grandes
canção de Anne Sylvestre, “Une sor- de alguns anos, tivemos a ideia de ção, a filósofa Isabelle Stengers e o edi- fogueiras], Plon, Paris, 1997.
4 Anne L. Barstow, Witchcraze. A New History of
cière comme les autres” [Uma bruxa acender uma fogueira, uma forma de tor Philippe Pignarre escreveram com the European Witch Hunts [Mania de bruxas. Um
como as outras], de 1975. Na Itália, na acabar com a hipotermia, e assim nas- lucidez: “Na França, os que fazem polí- nova história das caças às bruxas europeias], Har-
mesma época, as feministas brada- ceu uma tradição. (Quando você faz tica têm o hábito de desconfiar de tudo perCollins, Nova York, 1994.
5 Robert Muchembled, Les Derniers Bûchers. Un
ram destacando as sílabas: “Tremam, uma coisa uma vez, é uma experiên- o que diz respeito à espiritualidade, village de France et ses sorcières sous Louis XIV
tremam, as bruxas estão de volta!”. cia. Quando a faz duas vezes, é uma que rapidamente taxam como algo de [As últimas fogueiras. Uma aldeia na França e suas
Foi a californiana Starhawk – nasci- tradição!)”.12 extrema direita”. Isso já não é mais ver- feiticeiras durante o reinado de Luís XIV], Ramsay,
Paris, 1981.
da Miriam Simos, em 1951 – que fez a Por onde passa, a bruxaria atual in- dade, quinze anos depois. Na França, 6 Agathe Duparc, “Anna Göldi, sorcière enfin bien-ai-
articulação entre a reivindicação femi- venta uma forma de espiritualidade assim como nos Estados Unidos, jo- mée” [Anna Göldi, bruxa finalmente bem-amada”,
nista e a prática espiritual. Starhawk progressista e reivindica uma ligação vens feministas, mas também homens Le Monde, 4 set. 2008.
7 Kristen J. Sollee, Witches, Sluts, Feminists: Conju-
faz parte do quadro amplo da Wicca, a com a natureza sem, no entanto, acei- gays e trans, praticam a magia e têm ring the Sex Positive [Bruxas, putas, feministas:
religião neopagã, na qual ela encarna tar as “naturalidades” de tipo reacio- uma conduta política. Como explicar praticando a magia do sexo positivo], ThreeL Me-
uma corrente feminista e progressista. nário. Não se trata de celebrar um fe- essa evolução? dia, Los Angeles, 2017.
8 Robin Morgan, Going Too Far: The Personal Chro-
Ela participou com seu coven (clã de minino forçosamente maternal, doce e Aquelas e aqueles que se ocupam nicle of a Feminist [Indo muito mais longe: crônica
bruxas) de todos os encontros alter- alimentador e de proibir o aborto – o da bruxaria atualmente cresceram pessoal de uma feminista], Random House e Vinta-
mundialistas: manifestações contra a que, aliás, seria um contrassenso his- com Harry Potter ou com as séries ge Paperbacks, Nova York, 1977.
9 Cf. Starhawk, Chroniques altermondialistes. Tis-
Organização Mundial do Comércio tórico, uma vez que as curandeiras, ou- Charmed – cujas heroínas são três ir- ser la toile du soulèvement global [Crônicas alter-
(OMC) em Seattle, em 1999; contra o trora perseguidas por bruxaria, tam- mãs feiticeiras – e Buffy, a Caça-Vampi- mundialistas. Tecer o tecido da insurreição global],
G8 em Gênova; e contra a Cúpula das bém eram aborteiras e desencadearam ros – na qual Willow, uma colegial ini- Cambourakis, 2016.
10 Silvia Federici, Caliban et la sorcière. Femmes,
Américas em Quebec, em 2001; e do o furor de um poder político e religioso cialmente tímida e apagada, torna-se corps et accumulation primitive [Calibã e a bruxa.
Fórum Social de Porto Alegre.9 Como a cada vez mais obcecado pela natalida- uma poderosa feiticeira. Além disso, a Mulheres, corpo e acumulação primitiva], Entre-
filósofa Silvia Federici,10 ela vê nas ca- de após a grande peste do século XIV. magia aparece paradoxalmente como monde-Senonevero, Genebra-Marselha, 2014 (1.
ed.: 2004).
ças às bruxas um dos acontecimentos Não se trata, tampouco, de reproduzir um recurso muito pragmático, uma 11 Starhawk, Rêver l’obscur. Femmes, magie et politi-
que preparou o terreno para o desen- uma norma heterossexual: “Todos os maneira de se ancorar no mundo e na que [Sonhar o obscuro. Mulheres, magia e políti-
volvimento do capitalismo no século dias agradeço à Deusa por ser gay”, existência em uma época em que tudo ca], Cambourakis, 2015 (1. ed.: 1982).
12 Starhawk, The Spiral Dance: A Rebirth of the An-
XVIII. Em Rêver l’obscur [Sonhar com o proclamava uma faixa do grupo Witch parece querer nos precarizar e enfra- cient Religion of the Goddess: 20th Anniversary
obscuro], ela descreve os grandes dis- na Parada Gay de Portland, em junho quecer. Talvez também a catástrofe Edition [A dança espiral: um renascimento da anti-
túrbios que as acompanharam: a pri- de 2018. Após a publicação de seu pri- ecológica, cada vez mais evidente, ten- ga religião da deusa: 20ª edição de aniversário],
HarperCollins, San Francisco, 1999.
vatização das terras outrora cultivadas meiro livro, A dança cósmica das feiti- do diminuído o prestígio e o poder de 13 Catriona Sandilands, “Womyn’s Land: communau-
coletivamente, que acabou com as co- ceiras, em 1979, Starhawk recebeu inú- intimidação da sociedade técnica, su- tés séparatistes lesbiennes rurales en Oregon”
munidades e privou as mais frágeis de meras críticas por ter apresentado uma prima as inibições de se declarar bru- [Terra de mulheres: comunidades rurais separatis-
tas lésbicas em Oregon]. In: Reclaim, reunião de
seus meios de subsistência; e o nasci- visão cristalizada e meio estereotipada xa. Quando um sistema de percepção textos ecofeministas escolhidos e apresentados
mento de uma relação com a natureza das categorias do masculino e do femi- do mundo que se apresenta como su- por Émilie Hache, Cambourakis, 2016.
conquistadora e agressiva. Desde en- nino; ela levou em conta e fez retifica- premamente racional consegue des- 14 Catherine Larrère, “L’écoféminisme ou comment
faire de la politique autrement” [O ecofeminismo,
tão, a prática da feitiçaria e o culto à ções nas edições seguintes. Achamos truir o meio vital da humanidade, po- ou como fazer política de outra maneira]. In: Re-
Deusa, além de reabilitar o corpo femi- essa atitude aberta na corrente do eco- demos ser levados a questionar o que claim, op. cit.
34 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

FERNANDA MONTENEGRO

“Sem cultura você tem a fronteira,


o país, mas não tem uma nação”
Ícone artístico do Brasil, atriz afirma que falta sensibilidade a governantes:
“Se está abandonado neste setor, por que os outros não estariam?”
POR GUILHERME HENRIQUE*

© Henrique Gandolfo
F
ernanda Montenegro é lacônica estão catalogados no livro Fernanda nho, não existe essa possibilidade. tudo muito complicado, éramos con-
sobre o ofício que escolheu: Montenegro: itinerário fotobiográfico, Ainda mais em teatro, onde você não tratados e tínhamos contatos com a rá-
“uma profissão arretada”. O tea- lançado este ano pela editora Sesc. vive sem o outro. Tem uma infinidade dio do Ministério da Educação e Cultu-
tro, que no Brasil vive em perma- Na obra, a atriz expõe o que fez, de gente, a minha própria família, ra. Poderíamos tentar algo na BBC, em
nente estado de emergência, só admite mas também aquilo que não quis fa- com documentos, cartas, memórias Londres, na Rádio Difusão Francesa.
aqueles que, como ela, são devotos do zer, como aceitar uma das ofertas que especiais de vida ou morte. E tem o in- Conversamos com duas pessoas: mi-
palco, sem moderação ou desconfian- recebeu para exercer um cargo públi- teresse e generosidade do professor nha mãe, que disse para não sairmos
ça. “Desista. Se morrer, volta. Se não co. A explicação é modesta e tem a ver Danilo Miranda, que, se não tivesse se do teatro de maneira nenhuma, e com
morrer, não volta”, disse a uma amiga com os termos que iniciam este texto: interessado, o livro estaria em um bu- Madame Morineau, extraordinária
relembrando o conselho que havia da- é no teatro – na arte – que ela diz o que raco qualquer. atriz francesa, que também nos acon-
do a jovens atores minutos antes da precisa. Isso não a impede, no entanto, selhou a permanecer onde estávamos,
entrevista ao Le Monde Diplomatique de criticar o pouco apreço de nossos Esse livro te fez sentir saudade do quê? fazendo teatro dentro das nossas pos-
Brasil começar. governantes pela cultura. “Sem cultu- Você começa um livro como esse sibilidades. Fernando e eu não resisti-
Completando 89 anos neste mês ra você tem a fronteira, o país, mas não achando que logo vai terminar, mas mos muito, porque era o que quería-
(16/10), Fernanda Montenegro viveu tem uma nação. A grossura de Brasília depois vai descobrindo pedacinhos, mos ouvir. De repente, fomos
os últimos oito anos em um diálogo é como uma muralha difícil de ser sen- épocas que puxam outras épocas. convidados para a companhia Maria
entre passado e presente, buscando sibilizada”, pondera. Quis o destino que eu dobrasse uma Della Costa e ficamos cinco anos em
em fotos e cartas resquícios do que fo- Confira os principais trechos da esquina e fosse bater em outro lugar, São Paulo. A gente não sabe do futuro.
ram os 75 anos de vida pública dedica- entrevista concedida por Fernanda onde a coisa se abre de outra maneira. Nós sonhamos chegar a algum lugar.
da às artes, especialmente ao teatro, Montenegro ao Le Monde Diplomati- Quando reflito nos acasos, nas esqui-
ao cinema e à televisão. São registros que Brasil analisando aspectos de vida nas pelas quais eu dobrei, penso que Tem uma fala no livro que diz que “cul-
físicos que se complementam nas lem- e morte, culturais e políticos, em um deu certo, em função de um trabalho tura no Brasil é sobremesa”. Seríamos
branças de uma memória intacta, ca- hotel no centro de São Paulo. prazeroso no campo da realização e diferentes se ela fosse o prato principal?
paz de recordar fatos e afetos: “Eu sou da busca artística. Uma profissão co- O problema de quem acha que é so-
a minha memória”, confessaria no de- LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – mo essa não tem ponto final. Um livro, bremesa é que quem faz esse tipo de
correr da conversa. Como foi o processo de concepção do um quadro, uma sinfonia, você pon- atividade o tem como prato principal.
Fernanda é a sua memória, mas é livro? tua. No teatro, não é possível. Há um embate pelos anos afora. Lem-
também um punhado de gente que es- FERNANDA MONTENEGRO – Esse li- bro que quando estava grávida da Fer-
creveu com ela capítulos fundamen- vro foi pensado há cerca de oito anos, Nessa de dobrar esquinas, em algum nanda [Torres, atriz], o governo do Rio
tais da nossa cultura. “A arte é um con- e há quatro ele está sendo feito de fato. momento na feitura do livro você se ques- ia mudar, e o candidato que ia substi-
graçamento. No caso do teatro, você Começamos a buscar coisas nas gave- tionou sobre outro caminho possível? tuir o governador chamou a classe ar-
tem de estar diante do outro. É uma tas, nos álbuns, nos amigos, e de re- Teve uma hora, por exemplo, que tística. Fomos lá, e ele começou o en-
comunhão humana na zona da pele”, pente eram 75 anos de vida pública. Fernando [Torres] e eu, já casados, contro dizendo que tinha prioridades:
reflexiona. Alguns desses fragmentos Ninguém faz uma vida pública sozi- pensamos em sair dessa vida. Estava “Saúde, educação, saneamento...”. Eu
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 35

pedi licença: “Vou embora. O senhor tiver ali com outra pessoa, o fenômeno de João Caetano há quase duzentos zer direito, mas há uma distorção. Se
nos chamou para ter uma conversa so- não se faz. A cultura necessita do ou- anos, acabou. As plateias têm outros você está onde quer estar, há um ga-
bre cultura. Se cultura não é nem a tro. É impressionante como não levam interesses. Somos pequenas comuni- nho, uma assinatura.
quinta prioridade, quando for a minha isso em consideração na administra- dades que se frequentam por indica-
hora o senhor me chama”. É impres- ção dos governos brasileiros. Há outra ções. Estamos parecendo Paulo de Em Central do Brasil, que está comple-
sionante como os ministérios são es- zona de sensibilização irmanada, exis- Tarso quando saiu do Oriente Médio tando vinte anos, uma das últimas ce-
tanques. É como se cada um deles ti- tencial, que você pode racionalizar se para fundar o Cristianismo: apenas nas mostra Dora dizendo a Josué [Viní-
vesse uma realidade e fosse de outro quiser, mas que não vem pela lógica catacumbas. cius de Oliveira] para olhar uma foto e
país, que não têm coisas em comum, habitual. Falamos muito do teatro não esquecê-la. Qual é o peso da memó-
quando na verdade eles formam um porque talvez ele seja o menos presti- Ainda sobre o teatro e sua atuação, co- ria na sua vida?
conjunto na administração. Não tem giado das artes no nosso país, mas isso mo os personagens estão na sua vida? Quando se tem uma doença dege-
ministério melhor ou pior, mais nobre é como a música popular, a literatura, Alguma marca da história fica ou encer- nerativa, não há presente e você não
ou menos nobre. Eu sempre digo que, a dança, a pintura. É uma comunhão rado o espetáculo acaba-se o vínculo? conecta a vida com a realidade. Não
no momento de necessidade de dis- humana na zona da pele. É uma pena Não. Há certos textos que marcam, reconhece os filhos nem a si mesmo.
cussão dentro do país, os ministérios que o Brasil não viva isso. Se está aban- você aprende. A dramaturgia de bom Eu sou a minha memória. O grande
que se reúnem não têm nada a ver com donado neste setor, por que os outros calibre faz levantar um contexto de drama de quem vive muito, embora
os ministérios que estão lá pelas bor- não estariam? Porque, por incrível que discussão. Por que Iago trai Otelo? Por seja uma alegria viver, é que não há
das, a não ser pela necessidade de uma pareça, essa sensibilização de pele que que Otelo se deixa convencer por Iago mais com quem memorizar. Por isso
contrapartida, um voto no Congresso determina em você a honestidade de e mata seu amor? [Otelo, o mouro de acho que velho conta tanto a mesma
ou qualquer coisa do tipo. atender o todo te dá uma nação. Sem Veneza, de William Shakespeare]. Na história para todo mundo. Aquela pes-
essa cultura você tem a fronteira, o vida real, Ricardo III matou a família soa com quem ele poderia conversar
No livro História do teatro brasileiro, país, mas não tem uma nação. A gros- inteira para chegar ao poder. Por quê? sobre aquela memória já não está mais
João Roberto Faria diz que um dos pro- sura de Brasília é como uma muralha Em [Anton] Tchekhov, que já está nu- ali. Falei com a Nathalia Timberg re-
blemas do teatro brasileiro é que, além difícil de ser sensibilizada. Eles estão ma conceituação burguesa, você se vê centemente, uma das maiores atrizes
do pouco investimento, atores e com- fechados em si mesmos. ali, gente da sua família. Para o ator é deste país, e disse: “Nathalia, estou
panhias estão preocupados apenas mais do que ler um grande romance, chegando à conclusão de que você é
com seu espetáculo. Você concorda? porque ele precisa entender o texto. minha única memória, porque todos
Nós estamos, há alguns anos, so- Você precisa deglutir as palavras e to- já se foram”. Trabalhamos sessenta
brevivendo com produções. A partir
“Eu sou a minha da noite enfrentar a obra. É impossível anos juntas. Também acho que, se a
do momento em que a capital saiu do memória. O grande simplesmente chutar isso quando a gente vai para outro mundo, seja qual
Rio de Janeiro e foi para Brasília, co- drama de quem vive brincadeira acaba. Sou contaminada buraco for, se não levarmos a memó-
meçamos a ver o início disso. O pro- muito, embora seja uma pela dramaturgia que fiz na minha vi- ria, será uma bolha! Não se lembrar de
cesso era o seguinte: você contratava da. Não estaria aqui conversando com nada? Tem que levar tudo para o além!
um grupo de teatro, com tempo esti-
alegria viver, é que não você, conceituando primariamente
pulado, geralmente de quatro ou cinco há mais com quem sobre questões culturais, se não fos- O que você quer do futuro? Quanto tem-
meses. Existe uma resistência históri- memorizar” sem os 75 anos de carreira fazendo ou- po mais?
ca, que é o Teatro Oficina, com o Zé tras pessoas, com outros andamentos, Há um ano e pouco passei a fazer a
Celso, mas dificilmente você consegue origens, classes sociais. É meio louco, oração de João XXIII: “Se você dorme e
manter esses grupos atualmente. Es- mas é um privilégio. acorda, agradeça que você acordou. Se
pecificamente o teatro no Brasil não No livro há uma passagem em que você você vai dormir à noite, agradeça por
está tendo plateia suficiente que possa cita Glauber Rocha e Oswald de An- Machado de Assis tem um conto cha- ter atravessado o dia”. Achei ótimo.
sustentar minimamente as pessoas drade como influências pessoais. Eles mado “Espelho”, em que o personagem Sem morbidez, mas não sei como será.
que fazem parte do espetáculo. dois, com seus trabalhos, balizaram só se reconhece quando está vestido A previsão... 91, 92 anos. Os 90 estão aí.
nossa cultura na década de 1960, ao com a roupa do trabalho. O ator sofre
Essa realidade tem a ver com o que você lado da Tropicália, da poesia concreta, desse mal? Como você tem visto as lutas feministas
diz sobre o teatro brasileiro ser uma tei- das artes plásticas de Hélio Oiticica e Laurence Olivier, grande ator in- na atualidade?
mosia realizada em estado de emergên- outros. Estivemos próximos de cons- glês, dizia que o hábito faz o monge. Às Desde que me entendo por gente, o
cia? O que é esse estado de emergência? truir uma nação culturalmente nesse vezes você precisa colocar a roupa do feminismo está lutando por propostas
É de emergência porque é por onde período e fomos sabotados pela dita- personagem na vida também. Todos e em batalhas novas. Isso tudo que es-
se pode sair do buraco e esperar tem- dura militar? nós estamos aqui vestidos de certa tá acontecendo hoje é mais uma face
pos melhores. Talvez seja por aqui, O Brasil tem etapas. Venho dos maneira como manda a moda de hoje. de uma luta que vem de muito tempo.
mesmo que não seja para ficar aqui, só anos 1930, que não tinha absoluta- Se fosse há um século, estaríamos di- São ganhos em etapas. Logo de início
conseguir chegar adiante. Houve um mente nada. Getúlio criou o Ministé- ferentes. Sempre há uma indumentá- parece tudo um absurdo, mas daqui a
tempo em que podíamos fazer planos rio da Educação e Cultura. Era um di- ria. A indumentária revela e disfarça. pouco se consegue uma parte, depois
de dois, três anos. Éramos contratados tador, em um período radicalizado outra, e vamos devagar. Só não acho
por um ano, havia planejamento em pelo nazismo e pelo fascismo, mas Há uma passagem no livro que fala so- que precisamos misturar virilidade
cidades, por exemplo. Isso não existe aquilo foi um despertar de consciên- bre o ator ser um viajante das almas... com machismo. Machismo é crime. A
mais. Não é tanto a emergência da op- cia. Esse período que deu na Tropicália Isso quem fala é Albert Camus, em virilidade é fundamental.
ção artística sobre uma estética teatral também foi um momento difícil e de um texto extraordinário sobre o exis-
ou um texto. É sobre respirar um pou- reação aos militares. Talvez porque ti- tencialismo. O ator é um viajante das Você concorda com Caetano Veloso
co até chegar a um lugar melhor. véssemos um inimigo claro, fardado e almas porque em duas horas ele vive a quando ele te define como “civilizada e
com face, a contestação tinha um trajetória de uma vida. Você faz as coi- civilizadora”?
Você sempre recusou cargos públicos monstro único. O problema de hoje é sas em casa, mas, às 21 horas de todos Acho que ele foi generoso, amoro-
dizendo que é no teatro onde se deve di- que está tudo pulverizado. Talvez seja os dias, não importa o que aconteça, so, mas não sou civilizadora. Sou uma
zer as coisas. Como é o processo de in- uma etapa mais difícil para vencer- larga tudo e vai para o teatro. É uma mulher que trabalha, que ama o Brasil,
corporar um personagem nesse estágio mos. Outro fator é que entramos em autoconvocação, uma devoção estra- com uma profissão que considero
da vida? outra era da ciência e da tecnologia, nha, e que não é para santo nenhum. muito bonita. Amo Caetano, não há
A arte é um congraçamento. No ca- com todos os seus botões. Eu não pres- É a potência do fazer, sem missão ce- outro como ele. Deveriam existir mui-
so do teatro, você tem de estar diante to muita atenção, mas há uma lingua- lestial. Aliás, o indivíduo só pode se tos Caetanos. Agradeço a gentileza,
do outro. Se grava o teatro, não é mais gem, uma contestação violenta es- realizar naquilo que corresponde à mas é demais.
teatro. Televisão é televisão, cinema é praiada, que não tem face. Eu sei que a sua vocação. Se ele está em um traba-
cinema. No palco, não. Se você não es- modalidade de fazer teatro, que veio lho que não lhe é essencial, ele vai fa- *Guilherme Henrique é jornalista.
36 Le Monde Diplomatique Brasil OUTUBRO 2018

MISCELÂNEA

livros internet
A GUERRA: ATRAVESSANDO NOVAS NARRATIVAS DA WEB
A ASCENSÃO DO PCC FRONTEIRAS: Sites e projetos que merecem o seu tempo
E O MUNDO DO CRIME DA GUERRILHA URBANA
NO BRASIL NA ALEMANHA AO
Bruno Paes Manso e TRABALHO COMUNITÁRIO CARCERÓPOLIS
Camila Nunes Dias NAS FAVELAS Penitenciárias, delegacias e centros de de-
Editora Todavia BRASILEIRAS tenção provisória estão entre os maiores
Lutz Taufer focos de violação dos direitos humanos no
Autonomia Literária Brasil. Superlotação, tortura e maus-tratos
são problemas persistentes e conhecidos,
agravados pela política deliberada de en-

Q uem nasceu primeiro, o crime organizado ou


a ofensiva virulenta de um Estado em nome
do combate à violência? A história da maior facção
A s memórias de Lutz Taufer compõem um livro
para duas gerações e dois países. Ex-membro
da guerrilha urbana Fração do Exército Vermelho
carceramento em massa levada a cabo pelo
Judiciário, Legislativo e Executivo. O objetivo
do site é mostrar números oficiais e análises
criminosa do país é marcada, em diversas camadas, (RAF), ele passou vinte anos nas cadeias alemãs. aprofundadas sobre esse sistema. Carceró-
por esses ciclos destrutivos que se retroalimentam. A RAF foi um dos grupos herdeiros do movimen- polis é uma iniciativa da Conectas Direitos
Alguns cresceram à medida que cresce a facção, to estudantil alemão. A violência com que foram Humanos, uma ONG internacional fundada e
como a tentativa desastrosa do governo de freá-la. combatidos os estudantes fez parte desses jovens sediada em São Paulo.
Outros diminuíram justamente com sua expansão, acreditar que a Alemanha estava regressando ao <www.carceropolis.org.br>
já que esta se deu sob uma ideologia de união e nazismo e que era a hora de partir para a ação
fortalecimento do crime, desestimulando confron- direta. Influenciado pelas leituras de Marx, Mao e
tos entre diferentes grupos criminosos – ou melhor, Marighela e pelos exemplos da luta guerrilheira dos SENHOR DEPUTADO
ao menos que estes se coloquem contra seus pro- Tupamaros, dos vietcongues e dos movimentos de No Brasil, 54% da população é negra, 51%
jetos expansionistas. independência das colônias africanas, um grupo são mulheres e 25% são jovens entre 16 e
É desse ponto de partida, a eclosão de uma guer- de jovens fundou a RAF e realizou ataques contra 29 anos, mas a representação no Congres-
ra em meados de 2016 entre o Primeiro Comando instalações norte-americanas no país, inicialmen- so não é bem assim. A MTV Brasil fez uma
da Capital (PCC) e, inicialmente, o Comando Ver- te sem vítimas humanas. A reação do Estado foi pesquisa e criou um perfil – uma inteligên-
melho, que Bruno Paes Manso e Camila Nunes violenta. Descobertos e presos, foram sujeitos às cia artificial on-line – que reflete a média dos
Dias reconstroem a história da facção que trans- condições carcerárias mais monstruosas. Foi nes- deputados eleitos. Misturou o rosto dos 513
formou o negócio do tráfico no Brasil. De dentro se quadro que Lutz e outros companheiros imagi- congressistas, a voz deles e as respostas que
das penitenciárias, o grupo surge em 1993 com um naram tomar a embaixada alemã em Estocolmo e deram nos últimos quatro anos sobre quase
discurso ideológico de união do crime contra o Es- exigir a libertação dos membros da RAF presos. A tudo, inserindo no sistema milhares de notí-
tado, visto como injusto e opressor. Alguns aconte- ação fracassou, os ocupantes mataram dois funcio- cias e falas de cada um. Ele se diz nascido
cimentos foram ainda centrais para o fortalecimen- nários, dois companheiros morreram e os demais no Sudeste, 47 anos. A partir daí criaram um
to desse mote, como apontam os autores. O mais foram presos, entre os quais Lutz. Submetido ao robô que responde, com as respostas mais
conhecido deles, a revolta contra o Massacre do “tratamento mortal”, em celas especialmente cons- comuns, sobre Lula, Temer, Aécio, sobre le-
Carandiru, está registrado no estatuto da facção. truídas para os membros da luta armada, Lutz des- galização das drogas, porte de armas, e por
Embora o viés politizado acompanhe toda a trajetó- creve como é fácil levar à loucura e à tentativa de que acha que não foi golpe.
ria do grupo – com a tentativa, inclusive, da criação suicídio seres humanos. O sistema foi criado para <www.srdeputado.com.br>
de um partido político –, a equação entre política e isso. Lutz foi um dos que resistiram, embora em
economia no PCC não é simples. Um exemplo é a muitos momentos tenha caído no desespero.
postura conciliatória, prontamente substituída pela Finalmente solto, Lutz acabou no Rio de Janeiro. RACE CARD PROJECT
violência perante qualquer empecilho em atingir Aí começa a outra parte de suas memórias em seu “Raça traz orgulho, mas também vergonha”.
seus objetivos econômicos. Ao longo do livro, essa trabalho comunitário nas favelas. Para nós, brasilei- “Desculpe estar te encarando”. “Privilégio
complexidade e aparente contradição são mais do ros, menos interessante, pois conhecemos nossas branco me dá nojo”. Em até seis palavras, faça
que justificadas por meio da análise e do diagnósti- misérias e nossas poucas grandezas. Essa parte de o exercício de pensar em sua experiência so-
co da história do combate ao crime no país. suas memórias, contudo, mostra-nos um Lutz feliz bre identidade e raça. Essa é a ideia que deu
Sem dúvida, o PCC esteve inserido em diver- e realizado em poder utilizar suas energias e sua origem ao projeto Race Card, que já circulou,
sos momentos-chave da história recente do Brasil, inteligência a favor de pessoas que necessitavam pelo correio mesmo, mas também via e-mail
e compreender sua trajetória e modo de atuação desesperadamente de ajuda. Ele não só atraves- e Twitter, pela Austrália, Londres, Chile, Abu
auxilia na interpretação de diversos fenômenos a sou fronteiras geográficas, históricas, políticas e Dhabi e tantos outros países. A intenção era
que assistimos hoje, como a desmoralização das morais, mas também existenciais, sendo capaz de dar início a conversas mais profundas, por
entidades de direitos humanos (recorrentemente criar para si uma segunda vida. meio de sentenças curtas. Ótimo exercício
associadas, no imaginário popular, à defesa de cri- para uma sala de aula, por exemplo. O site fica
minosos) e o discurso cada vez mais veemente de no ar para acessar algumas das milhares de
políticos que se valem do tráfico e de um cenário respostas e um pouco sobre quem as enviou.
de violência para instigar o medo e, acima de tudo, <https://theracecardproject.com>
justificar os excessos de um Estado que lida inabil-
mente hoje com o efeito colateral de sua ausência
e omissão no passado: o fortalecimento do PCC. [Marijane Vieira Lisboa] Professora de Socio- [Andre Deak] Diretor do Liquid Media Lab,
logia da Pontifícia Universidade Católica de São professor de Jornalismo na ESPM, mestre em
[Taís Ilhéu] É estudante de Jornalismo na USP e Paulo (PUC-SP). Confira versão estendida desta Teoria da Comunicação pela ECA-USP e dou-
estagiária do Le Monde Diplomatique Brasil. resenha em diplomatique.org.br. torando em Design na FAU-USP.
OUTUBRO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 37

CANAL DIRETO SUMÁRIO


LE MONDE

diplomatique
BRASIL

Na linguagem do povo
A leitura do texto é um contraponto ao que esta- Ano 12 – Número 135 – Outubro 2018
mos acostumados a ver no jornalismo de massa. www.diplomatique.org.br

Precisamos mesmo é de jornais que falem para o


DIRETORIA
povo e junto com o povo. É isso aí! Que as massas Diretor da edição brasileira e editor-chefe
se reconheçam na sua condição de oprimidas e se Silvio Caccia Bava

insurjam contra esse sistema de dominação mani- 2 VOTAÇÃO DECIDE DESTINO DE TRUMP
Sobre a democracia nos Estados Unidos
Diretores
Anna Luiza Salles Souto, Maria Elizabeth Grimberg e
pulador e golpista! Por Serge Halimi
Rubens Naves

Vagner Xavier Editor

3 EDITORIAL Luís Brasilino

Capa Os limites da barbárie Editor-web


A capa ficou hilária! O Duas Caras como o Picolé Por Silvio Caccia Bava Cristiano Navarro

de Chuchu e o Bozo! O Coringa como Álvaro Dias Editores de Arte


e o Pinguim como o Meirelles! Faltou aparecer o 4 CAPA
Justiça fiscal é possível
Adriana Fernandes e Daniel Kondo

Charada como o Amoêdo e a Marina como a Hera Estagiária


Por Eduardo Fagnani
Venenosa! A classe média no espelho
Taís Ilhéu

Pedro Accioli Por Jessé Souza Revisão


Lara Milani e Maitê Ribeiro

Não representaram a Marina... Fora isso, a ilustra-


ção está maravilhosa.
8 GUERRA COMERCIAL, TENSÕES ESTRATÉGICAS
China e Estados Unidos, até onde vai a escalada de sanções?
Gestão Administrativa e Financeira
Arlete Martins

Alessandra Lima Por Martine Bulard


Assinaturas
Viviane Alves

O Amoêdo é tão insignificante que não serviu nem 11 UMA AVENTURA PELA AUTOSSUFICIÊNCIA
AO CUSTO DE BILHÕES Tradutores desta edição
pra aparecer aí, gente? Mesmo sob embargo comercial,
Carolina M. de Paula, Frank de Oliveira,
Lívia Chede Almendary, Rita Grillo e Wanda Brant
Geraldo Vinicius a Península do Catar ganha o mundo
Por Angélique Mounier-Kuhn, enviada especial Conselho Editorial
Adauto Novaes, Amâncio Friaça, Anna Luiza Salles
Uma das poucas revistas que leio com gosto! Con- Souto, Ariovaldo Ramos, Betty Mindlin, Claudius
teúdo, seriedade e credibilidade da Diplomatique, 14 RECURSO ABUNDANTE, PORÉM AMEAÇADO
Paraguai, o país do ouro azul
Ceccon, Eduardo Fagnani, Heródoto Barbeiro, Igor
Fuser, Ivan Giannini, Jacques Pena, Jorge Eduardo S.
é simplesmente fantástico! Parabéns a todos e a to- Durão, Jorge Romano, José Luis Goldfarb, Ladislau
Por Guillaume Beaulande, enviado especial
das da equipe! Dowbor, Maria Elizabeth Grimberg, Nabil Bonduki,
Raquel Rolnik, Ricardo Musse, Rubens Naves, Sebastião
Vinicius Caverna
16 DESVIO REPRESSIVO
O que acontece na Nicarágua?
Salgado, Tania Bacelar de Araújo e Vera da Silva Telles.

Apoiadores da campanha de financiamento coletivo


Entre histéricos, demagogos e financistas Por Bernard Duterme Henrique Botelho Frota, Pedro Luiz Gonçalves Fuschino,
Magnífica análise de como se estratifica uma so- Rita Claudia Jacintho e Vinícius D. Cantarelli Fogliarini

ciedade, tornando uma parte desta membros ope-


rantes, membros subalternos e membros cuja fi-
18 CAVALEIROS BRANCOS DE MÃOS SUJAS
Mídia, Justiça e empresários do Brasil,
Assessoria Jurídica
Rubens Naves, Santos Jr. Advogados
uma fábrica de demagogos
liação social seja de comando e ascensão social! Escritório Comercial Brasília
Por Glenn Greenwald e Victor Pougy
Magnífica análise! A revista está de parabéns! Marketing 10:José Hevaldo Rabello Mendes Junior
Tel.: 61. 3326-0110 / 3964-2110 – jh@marketing10.com.br
Cristiano Santos
20 VINTE E TRÊS MANIFESTANTES CONDENADOS
Uma sentença contra Junho Le Monde Diplomatique Brasil é uma publicação
da associação Palavra Livre, em parceria com o
Escolas federais custam menos que as militares e Por Guilherme Gonçalves e Marta Machado Instituto Pólis.
obtêm resultados melhores, sem milico tonto que-
Rua Araújo, 124 2º andar – Vila Buarque
rendo dar uma de machão. Ambas, contudo, sele- 22 RELIGIÃO E POLÍTICA
O avanço do fundamentalismo nas
São Paulo/SP – 01220-020 – Brasil
cionam os alunos – as militares expulsam os pro- Tel.: 55 11 2174-2005
igrejas protestantes históricas do Brasil diplomatique@diplomatique.org.br
blemáticos, sendo que a educação pública deve ser www.diplomatique.org.br
Por Robson Santos Dias
universal e inclusiva, segundo a Constituição Fe-
Assinaturas
deral, não seletiva e excludente.
Ernesto Giusti 24 UM PORTA-AVIÕES DE CORAL
Chagos, arquipélago confiscado pelo
assinaturas@diplomatique.org.br
Tel.: 55 11 2174-2015

Exército dos Estados Unidos Impressão


O que interessa ao povo brasileiro? Por Abdelwahab Biad e Elsa Edynak Plural Indústria Gráfica Ltda.
Av. Marcos Penteado de Ulhôa
E ainda tem rede de televisão dizendo que o brasi- Rodrigues, 700 – Santana de Parnaíba/SP – 06543-001
leiro paga muito imposto. Sim, é verdade, mas nin- 26 A ECOLOGIA E A JUSTIÇA SOCIAL
AVALIADAS POR PERDAS E GANHOS Distribuição nacional
guém quer fazer a reforma tributária e obrigar DINAP – Distribuidora Nacional de Publicações Ltda.
Uma política agrícola pouco comum
quem tem mais a pagar mais. Por Frédéric Courleux e Aurélie Trouvé
Av. Dr. Kenkiti Shimomoto, 1678 – Jd. Belmonte –
Osasco/SP – 06045-390 – Tel .: 11. 3789-1624
Geraldo Campos
28 CONSUMO CONTROLADO, ALTERNATIVA À PROIBIÇÃO LE MONDE DIPLOMATIQUE (FRANÇA)

Nunca esquecendo que parte do gasto público, Heroína com receita médica Fundador
que também deve ser cortado, refere-se a salários Por Cédric Gouverneur, enviado especial Hubert BEUVE-MÉRY

nababescos de funcionários de alto coturno, polí- Presidente, Diretor da Publicação


ticos e juízes. Talvez apenas alíquotas mais eleva- 30 O EXEMPLO DE UM PAÍS NÃO ALINHADO
Quando a Iugoslávia apoiava as lutas anticoloniais
Serge HALIMI

das do Imposto de Renda possam corrigir essa es- Por Jean-Arnault Dérens Redator-Chefe
candalosa distorção. Philippe DESCAMPS

Duilio de Avila Berni


32 SÍMBOLO FEMINISTA RETOMA POPULARIDADE
Tremam, as bruxas estão de volta!
Diretora de Relações e das
Edições Internacionais
Anne-Cécile ROBERT
Participe de Le Monde Diplomatique Brasil: envie suas Por Mona Chollet
críticas e sugestões para diplomatique@diplomatique.org.br Le Monde diplomatique
As cartas são publicadas por ordem de recebimento e,
se necessário, resumidas para a publicação. 34 FERNANDA MONTENEGRO
“Sem cultura você tem a fronteira,
1 avenue Stephen-Pichon, 75013 Paris, France
secretariat@monde-diplomatique.fr
www.monde-diplomatique.fr
Os artigos assinados refletem o ponto de vista de seus o país, mas não tem uma nação”
autores. E não, necessariamente, a opinião da coordenação Por Guilherme Henrique Em julho de 2015, o Le Monde diplomatique contava com 37
do periódico. edições internacionais em 20 línguas: 32 edições impressas e 5
eletrônicas.

Capa: © Victor Flynn


36 MISCELÂNEA
ISSN: 1981-7525
NÃO VAI SER
Que dizem uma coisa antes da eleição e fazem outra completamente
diferente depois de assumirem seus mandatos. Mas até em seus

NA PORRADA.
defeitos a democracia revela sua inigualável qualidade. Somente
sob o regime democrático podemos acompanhar e verificar
o comportamento daqueles que elegemos. Saber se o discurso

NÃO VAI SER


vendido na campanha eleitoral virou verdade e descobrir quem
honrou nosso voto ou quem nunca mais o merece de novo.

NA GRITARIA.
A democracia, e só ela, nos permite corrigir civilizadamente
e pacificamente os equívocos que porventura nossas escolhas
tenham nos trazido.

NÃO VAI SER


Este ano teremos eleição. No dia 7 de outubro, será possível
mostrar, de fato, sua indignação e renovar mais de 95% do

NA IGNORÂNCIA.
Congresso Nacional. Seu voto pode mudar praticamente
tudo. Se é importante eleger para a Presidência da República
alguém comprometido com a justiça social e a democracia,

VAI SER PELO VOTO


é fundamental eleger para o Congresso pessoas que representem
também esses valores. Somente com um Congresso digno e capaz

QUE VAI NASCER


o futuro Presidente, seja quem for, poderá realizar suas promessas
eleitorais, sem ficar à mercê das mesmas barganhas e chantagens

UM NOVO
a que assistimos nos dias de hoje. Isso não pode mais acontecer.
Um novo Congresso é necessário. E, mais importante, um novo

CONGRESSO.
Congresso é possível.
A internet permite que, em segundos, se tenha acesso à história
e ao passado de todos os candidatos à Câmara dos Deputados
Como você já deve ter notado, o texto deste anúncio é longo. e ao Senado. É fácil pesquisar as entrevistas, os discursos, as
Por isso, se você é daquelas raríssimas pessoas que têm orgulho posições de cada um deles.
da atuação do deputado ou deputada federal que elegeram ou Em breve, novas ferramentas estarão disponíveis ajudando você
que só têm aplausos para a postura do senador ou senadora a alinhar suas expectativas e desejos com os programas dos
que escolheram, nem precisa se dar ao trabalho de ir até o fim. candidatos, garantindo uma maior assertividade na escolha
Pode parar por aqui. de seus deputados e deputadas, senadores e senadoras.
Por outro lado, se você faz parte da gigantesca maioria Esta é uma campanha apartidária e foi criada para que
da população brasileira que se envergonha do atual Congresso o Congresso Nacional que nascerá a partir das eleições
Nacional, não deixe de ler este texto até o fim. Ele é longo de 2018 possa ser formado por homens e mulheres que
porque tem o tamanho da indignação de milhões de brasileiros. exerçam verdadeiramente sua real e insubstituível função:
Indignação com a produção quase que diária de escândalos a partir do povo, fiscalizar e legislar para o povo e pelo povo.
e negociatas de congressistas que, por definição, deveriam estar
produzindo outra coisa: leis que tornem o Brasil socialmente A campanha “Um Novo Congresso” tem como horizonte
mais justo, progressivamente mais inclusivo, economicamente a Constituição de 1988: um Brasil justo, igualitário,
mais próspero e ambientalmente sustentável. democrático e respeitoso dos Direitos Humanos; uma
O Congresso Nacional é um dos pilares básicos da democracia. sociedade pacífica e solidária; uma economia voltada
Qualquer país só pode ser chamado de democrático se tem um para a redução das desigualdades e para o atendimento
Congresso Nacional livre, isto é, formado por representantes das necessidades humanas, em harmonia com a natureza
não impostos por governantes autoritários ou ditadores, e sim e a sustentabilidade.
eleitos diretamente pelo voto popular.
Nenhum dos atuais 513 deputados e 81 senadores foi enfiado
goela abaixo de nenhum de nós. Ninguém foi obrigado
a escolher esse ou aquele candidato, essa ou aquela candidata.
Gostemos ou não, o atual Congresso Nacional é resultado
exclusivo das nossas próprias escolhas.
Essa é uma das consequências da democracia: às vezes,
elegemos representantes que, infelizmente, não nos representam.

umnovocongresso.org.br
APOIO
Ação Educativa | Agenda Pública| Associação Poços Sustentável | Atletas pelo Brasil | Casa Fluminense | Centro Santo Dias de Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo |
Delibera Brasil | Escola de Fé e Política Waldemar Rossi | Escola de Governo | Frente Nacional pela Qualidade na Educação | Fundação Tide Setubal | Fundación Avina |
Instituto Campinas Sustentável | Instituto Ethos | Instituto Nossa Ilhéus | Instituto Soma Brasil | Instituto Terroá | Movimento Nossa BH |Nossa Curitiba | Observatório Campinas que Queremos |
Observatório do Recife | Oxfam Brasil | Pastoral da Educação da Arquidiocese de São Paulo | Pastoral Fé e Política da Arquidiocese de São Paulo | Pastoral Fé e Política da Região Episcopal Belém |
Programa Cidades Sustentáveis | Rede Nossa Mogi das Cruzes | Rede Nossa São Paulo | Rede Cidades por Territórios Justos, Democráticos e Sustentáveis | Tribunal Tiradentes