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A missão da Família Dominicana

“Louvar, bendizer, pregar” 
 
Causou-me grande entusiasmo o fato de me pedirem para me dirigir a esta Assembléia da
Família Dominicana. Estou convencido de que, se conseguirmos participar de uma prega-
ção em comum do Evangelho, renovaremos toda a Ordem. Porém não me vejo como pessoa
adequada para isto. Quem sou eu para articular uma visão desta missão comum? Como po-
dem um frade, uma irmã, uma monja ou um leigo dominicanos fazer isto individualmente?
É preciso que seja juntos, ouvindo-nos mutuamente, como vamos descobrir esta nova visão.
Para isto estamos aqui em Manila. Penso, portanto, que o que devo fazer é ouvir com vocês a
Palavra de Deus. Toda pregação começa ouvindo juntos o Evangelho. Somos pregadores da
ressurreição. Daí o texto que escolhi, de S. João, que relata a aparição de Cristo ressuscitado
aos Apóstolos. 
 
“Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde
se achavam os discípulos por medo dos judeus, Jesus entrou, ficou no meio deles e disse:
“A paz esteja com vocês”. Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos
ficaram contentes por ver o Senhor. 
 
Jesus disse de novo: “A paz esteja com vocês”. Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles,
dizendo: “Recebam o Espírito Santo. Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão per-
doados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados” ( Jo. 20,19-
23). 
A cena dos discípulos parece estar muito distante deste encontro da Família Dominicana.
Lá estavam uns poucos discípulos, fechados em uma sala por causa do medo que tinham de
sair para fora. Aqui estamos a nove mil quilômetros de distância e dois mil anos mais tarde,
em um grande recinto de reuniões. Era um pequeno grupo de judeus e nós somos cento e
sessenta, de cinqüenta e oito nacionalidades, com irmãos e irmãs da Família Dominicana
das Filipinas. Eles não se atreviam a abandonar a sala e nós viemos de todos os rincões do
planeta. 
 
Mas de algum modo somos como eles. A sua história é a nossa história. Nós estamos tam-
bém fechados em nossos pequenos recintos. Somos também prisioneiros dos nossos medos.
Cristo ressuscitado vem também a nós, para abrir-nos as portas e enviar-nos pelos caminhos
do mundo. Descobriremos também a nossa condição de Família Dominicana e realizaremos
a nossa missão, não olhando para nós mesmos, mas encontrando-nos com Cristo ressusci-

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tado. Ele diz a nós também: “A paz esteja com vocês” e nos envia para pregar o perdão e a
reconciliação. Por isto quero refletir sobre este texto e descobrir o que nos diz sobre a nos-
sa missão comum. Poderia parecer absurdo comparar a renovação da Família Dominicana
com a ressurreição dos mortos. Porém, para os cristãos, toda vida nova sempre é participar
desta vitória. Paulo nos chama para uma diária morte e ressurreição com Cristo. As meno-
res derrotas e vitórias estão conformadas por estes três dias que vão da sexta-feira santa ao
domingo da Ressurreição. 
 
“Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde
se achavam os discípulos, por medo dos judeus...” 
 
Os discípulos estão fechados na sala superior do edifício. É tempo de esperar, entre duas
vidas. As mulheres dizem que encontraram o Senhor ressuscitado, mas os homens não o
viram. Como de costume, os homens são mais lentos. Só viram um túmulo vazio, mas o que
significa isto? Sua vida anterior com Jesus, quando andavam com ele por Jerusalém, escu-
tavam as suas palavras e participavam da sua vida, terminou. E ainda não começou a nova
vida da ressurreição. Ouviram dizer que Jesus ressuscitou, mas não viram o seu rosto. As-
sim, esperam ou voltam ao que faziam antes: “pescar peixes”. É um momento de transição. 
 
Em menor escala a Família Dominicana está vivendo um momento semelhante. Desde o pri-
meiro momento Domingos se fez rodear de uma família de pregadores, homens e mulheres,
religiosos e leigos, contemplativos e pregadores, e com prazer se lançou pelos caminhos. Em
Santa Sabina existem inscrições antigas que falam da Família Dominicana. Ela sempre foi
parte do que somos. Mas agora proclamamos que algo de novo está acontecendo. Em todo
o mundo irmãs e leigos estão clamando por sua identidade de pregadores. Quando lemos
as Atas dos Capítulos Gerais dos frades, estas nos dizem que este é um momento novo na
história. Proclamamos que todos os membros da Família Dominicana somos iguais e par-
ticipamos de uma missão comum. São muitos e belos os documentos que o dizem. Porém
alguns de nós somos como os discípulos. Não temos ainda clara evidência da mudança. A
maioria das coisas parece continuar em grande parte como antes. Ouvimos relatórios mag-
níficos de novas colaborações. Mas isto acontece em algum lugar diferente de onde nós esta-
mos. Assim, como os discípulos, nós nos fechamos na sala superior: à espera, esperançosos,
porém na incerteza. 
 
É parte da experiência que se vive em toda a Igreja neste momento. Temos magníficos
documentos do Vaticano II que proclamam a dignidade da vocação do leigo. Temos
declarações sobre o lugar da mulher na vida e missão da Igreja. Temos uma nova visão da
Igreja como Povo peregrino de Deus. Mas às vezes temos o sentimento de que não é muito o
que realmente mudou. De fato, às vezes a Igreja parece agora mais clerical do que antes. Este
tempo é, assim, para muitos católicos: tempo de sentimentos desencontrados, de esperança
e desânimo, de renovação e frustração, de alegria e desgosto. 
E ainda existe o medo. Por medo estão os discípulos fechados na sala de cima. De que temos
medo? Que medo nos retém fechados neste pequeno espaço, resistentes a enfrentarmos algo
novo? Temos que nos atrever a descobrir os medos que nos prendem e nos impedem de
lançar-nos sem reservas, em levar a cabo a nossa missão de Família Dominicana. Pode ser

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que seja o medo de perder as características próprias de cada congregação, herdadas de seu
fundador, sua história e suas pequenas histórias. Pode ser que tenhamos medo de fracassar
se tentarmos algo novo. Às vezes os irmãos têm medo de trabalhar com mulheres, ainda
que sejam irmãs! Às vezes as irmãs têm medo de trabalhar com homens, ainda que sejam
irmãos! É mais seguro continuar fazendo o que sempre temos feito. Ir “pescar peixes”. 
 
“Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja com vocês”. Dizendo isto, mos-
trou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos ficaram contentes por ver o Senhor.” 
 
Ver Cristo chagado livrou os discípulos do medo e os encheu de alegria. É o Cristo ferido
que os transforma em pregadores. Não se pode ser pregador sem se sentir ferido. A Palavra
se fez carne e foi ferida e assassinada. Estava sem poder frente aos poderes deste mundo.
Atreveu-se a ser vulnerável a tudo o que com Ela podiam fazer. Se somos pregadores desta
Palavra também seremos feridos. No coração da pregação de Santa Catarina de Sena esta-
va a sua visão de Cristo chagado e lhe foi concedido participar das suas chagas. Podemos
sofrer só pequenas feridas, sendo objetos de zombarias, ou não sendo levados a sério. Po-
demos ser torturados como nosso irmão Tito de Alencar no Brasil, ou assassinados como
Pierre Claverie na Argélia e Joaquim Bernardo na Albânia e, como o foram, nos anos setenta,
quatro irmãs nossas em Zimbabue. É a visão de Cristo chagado, mas vivo, que pode livrar-
nos do medo de ser também nós feridos. Podemos correr este risco, porque a vitória não é
nem das feridas nem da morte. 
 
Quando estamos diante do Cristo chagado podemos enfrentar o fato de estarmos já feridos
também nós. Feridos, quem sabe, já na nossa infância, ao crescer em família desestruturada,
ou por nossa experiência de vida religiosa, ou por tentativas de amor deixadas perder, ou
por conflitos ideológicos na Igreja, pelo pecado. Todos somos pregadores feridos. A boa
notícia é que somos pregadores, porque fomos feridos. Gerald Vann, dominicano inglês, é
um dos mais famosos escritores da língua inglesa sobre a espiritualidade desde a segunda
guerra mundial. Em toda a sua vida lutou contra o alcoolismo e a depressão. Por isto teve
algo a dizer. Temos palavras de esperança e de misericórdia porque nós mesmos precisamos
delas. Em minhas estantes tenho um livro escrito por um velho dominicano francês que tem
como título “Les cicatrices”, “As cicatrizes”. Conta que chegou a Cristo através das feridas
recebidas em sua vida. Quando me deu de presente escreveu esta dedicatória: “A Timothy,
que sabe que as cicatrizes podem chegar a ser a porta do sol”. Cada uma das nossas feridas
podem converter-se em portas do surgir do sol. Sugeria-me um irmão que lhe mostrasse as
minhas feridas. Temo que tenha que esperar pelas minhas memórias! 
 
O mais doloroso para os discípulos é ver um Jesus a quem eles mesmos feriram. Negaram-
no, desertaram, fugiram dele. Jesus não os acusa, apenas lhes mostra as chagas. Temos de
enfrentar o fato de também nós termos ferido uns aos outros. Tenho visto como irmãos têm
ferido sem querer a outros membros da Família Dominicana, com palavras paternalistas,
por não os tratar como iguais as mulheres ou os leigos. Porém não só os frades fazem isto.
Todos nós temos o poder de ferir, o poder de pronunciar palavras que ferem, o poder dos
sacerdotes sobre os leigos, dos homens sobre as mulheres e das mulheres sobre os homens,
dos religiosos sobre os leigos, dos superiores sobre os membros da sua comunidade, dos
ricos sobre os pobres, dos seguros de si mesmos sobre os temerosos. Podemos arriscar-nos

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ver as feridas que temos recebido e infligido, e ainda assim estar alegres, porque Jesus res-
suscitou dos mortos. Podemos claudicar ao andar, mas o Senhor nos faz felizes. Esta era a
alegria de Domingos. Não há pregação da boa nova sem ela. Nos primeiros dias do ano uma
equipe da televisão francesa esteve em Santa Sabina gravando um programa. Ao terminar
o diretor me disse: “Isto aqui é muito raro. Nesta comunidade se fala de coisas sérias e os
fraldes estão sempre rindo”. Somos alegres pregadores feridos. 
 
“Jesus disse de novo para eles:” A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu
também envio vocês”. 
Jesus envia seus discípulos para fora da segurança da sala fechada. Este envio é o começo
da pregação. Ser pregador é ser enviado por Deus, porém nem todos somos enviados da
mesma maneira. Para as religiosas e os frades significará com freqüência ser enviados lite-
ralmente para outro lugar. Os meus irmãos me enviaram para Roma. A minha esperança é
que, com o desenvolvimento do movimento do Voluntariado, vejamos os leigos enviados
para outras partes do mundo para participar da nossa pregação: bolivianos para as Filipinas
ou filipinos para a França. Para muitos de nós ser enviados significa estar preparados para
fazer as nossas malas e partir. Lembro-me de um velho frade que me dizia que nenhum
frade deveria possuir mais do que podia levar com as suas duas mãos. Como muitos de nós
pode conseguir isto? 
 
Para muitos membros da Família Dominicana ser enviados não significa viajar. As monjas
são membros de um mosteiro e é aí o lugar onde normalmente passarão toda a sua vida.
Muitos leigos são casados ou têm empregos que não podem abandonar e partir. Ser enviado
significa mais do que uma mobilidade física. Significa estar junto de Deus. É o nosso ser.
Jesus é “o enviado”(Heb. 3,1). É o enviado de junto do Pai, o que não significa que deixou os
céus, vindo para outro lugar chamado terra. Sua verdadeira existência é estar junto do Pai.
Um enviado, é o que Ele é, agora e sempre. 
Ser pregador significa que cada um e nós é alguém enviado de junto de Deus para aqueles
com quem nos encontramos. A esposa é enviada para o marido e o esposo para a esposa.
Cada um é Palavra de Deus para o outro. À monja não lhe é possível abandonar o mosteiro,
porém é tanto enviada como um frade. É enviada para as suas irmãs da comunidade, e todo
o mosteiro é palavra de Deus enviada para nós. A nossa missão às vezes consiste em perma-
necer onde estamos e ser aí uma palavra de vida. 
Na prisão de Norfolk em Massachussetts (USA), está uma de minhas fraternidades leigas
favoritas. Os membros desta fraternidade não podem abandonar a prisão. Se o pretenderem
serão obrigados pela força a não se moverem. Mas são pregadores dentro da prisão. São
enviados para ser palavra de esperança em um lugar de sofrimento. São pregadores em um
lugar em que a maioria de nós não poderíamos ir. 
 
Mas Jesus não só envia seus discípulos para fora da sala fechada: Ele também os reúne em
comunidade. Envia-os para os confins da terra e lhes manda ser um, como ele e o Pai são
um. São congregados em comunidade e enviados em missão. Para mim é central à vida
dominicana este paradoxo. Quando Domingos recebeu a bula de confirmação da Ordem
voltou para a sua pequena comunidade de Tolosa e dispersou os frades. Tão logo ficou
constituída a comunidade ele a dissolveu. Os frades não tinham nenhum entusiasmo em

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partir, mas Domingos desta vez foi intransigente. 
 
Para Domingos a Ordem dispersa os frades e os congrega na unidade. Somos dispersos
como pregadores, para pregar; mas nos mantemos na unidade, porque pregamos o único
Reino ao qual toda a humanidade é convocada. Como Paulo escreve, nós pregamos “um
corpo e um espírito, como uma é a esperança para a qual fostes chamados. Um só Senhor,
uma só fé, um só batismo, um só Deus e pai de todos...” (Ef., 4,4). Não podemos pregar o
Reino e estar divididos. Por isto sempre temos lutado contra as divergências que ameaça-
vam dividir a Ordem. Em certos casos a unidade se manteve por muito pouco. 
 
Para os frades, desde o princípio este tem sido o ritmo de nossas vidas: ser enviados para
fora e congregados de volta na unidade. É o respirar da Ordem. O gênio de Domingos con-
sistiu em dotá-la de fortes pulmões para este respirar, eles são a nossa forma democrática
de governo. O governo não é apenas uma forma de administração. Ele encarna uma espiri-
tualidade própria em vista da missão. São os pulmões que nos espiram para a missão e nos
aspiram juntos de novo em comunidade. Nos primeiros séculos da Ordem o Capítulo Geral
se celebrava todos os anos. Cada ano os frades se reuniam em Bolonha ou em Paris e envia-
vam frades para novas missões. Durante o ano havia frades pelos caminhos, desde Bolonha
ou Paris, para se encontrar em Capítulo; em seguida iam para novos e exóticos lugares de
missão, como a Inglaterra. 
 
A Família Dominicana tem diferentes modos de ser enviada. Como conseguir a unidade?
Que forma adquirirá a nossa comunhão? Quais são os nossos pulmões, que nos espiram e
nos aspiram juntos de novo? Estamos justamente no início desta reflexão. Os mosteiros de
monjas se sentem profundamente parte da Ordem, por mais que cada um tenha sua pre-
ciosa autonomia. Para muitos ramos da Família Dominicana a unidade nunca tem sido tão
importante. Muitas congregações de religiosas são produtos de um processo de divergên-
cia, através de divisões, como as células. A unidade jurídica não tem sido importante para
nossas religiosas. Com as Irmãs Dominicanas Internacionais, as religiosas estão começando
a ver como cento e sessenta congregações podem colaborar juntas e encontrar a unidade.
Ainda não existe uma estrutura mundial que abarque o laicato dominicano. 
 
Creio que devemos começar procurando a unidade na missão. Nós nos sentimos enviados
juntos para pregar um Reino no qual toda a humanidade está reconciliada. Descobriremos a
unidade entre nós quando chegarmos a missões conjuntas. Precisamos de novas estruturas
para construir a missão comum. Estas estruturas começaram a emergir. O Capítulo Geral
de Bolonha, há dois anos, animava a Família Dominicana que vivia num mesmo lugar a
encontrar um plano de missão comum. Na cidade do México ou em Paris, por exemplo, a
Família Dominicana pode se reunir para decidir qual é a nossa missão comum lá. No âmbi-
to internacional, o Conselho Generalício dos frades se encontra regularmente com a equipe
coordenadora das Dominicanas Internacionais para compartilhar assuntos que nos interes-
sam por igual. Quando fundamos a Ordem num lugar novo deveríamos tratar deste o início
de planejar esta nova presença como uma iniciativa de toda a Família Dominicana. 
 
Nesta Assembléia o nosso objetivo não é criar novas estruturas jurídicas. Não temos auto-

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ridade para fazê-lo. No futuro, juntos, podemos descobrir que estruturas servem melhor a
unidade. Hoje temos como tarefa muito mais importante descobrir uma idéia comum da
nossa missão. Este é o primeiro passo para a unidade. Voltemos à manifestação de Cristo
ressuscitado e vejamos que visão da missão descobrimos nela. 
 
“Jesus disse aos discípulos: “Eu vos envio”. 
 
Ele dá aos discípulos autoridade para falar. O pregador não comunica simplesmente infor-
mação. Devemos falar com autoridade. Se queremos proclamar nossa identidade de prega-
dores, devemos reconhecer que cada um de nós tem autoridade para pregar o Evangelho. 
Em primeiro lugar, todos nós temos autoridade para pregar porque somos batizados. Este
é um ensinamento claro da Igreja na Evangelii Nuntiandi, Redemptoris Missio e Christifi-
deles Laici. Fomos batizados na morte e ressurreição de Cristo, e por isto devemos procla-
má-lo. Cada um de nós tem uma autoridade única, pelo que é e pelos dons recebidos. Cada
um de nós tem uma palavra para proclamar que não foi dada a nenhum outro. Deus está
em nossas vidas, como casados ou solteiros, como pais e como filhos. A partir destas expe-
riências de amor, dos nossos triunfos e fracassos, temos uma palavra para dizer sobre Deus
que é amor. Também temos autoridade por nossos dons e conhecimentos. Somos políticos e
físicos, cozinheiros, carpinteiros; somos professores, taxistas, advogados e economistas. Eu
assisti em Goiás (Brasil) a um encontro de membros da Família Dominicana que eram advo-
gados. Eles tinham sua autoridade específica como advogados para enfrentar os problemas
de justiça e paz no continente. 
 
Por último, a autoridade da nossa pregação é a da verdade, “Veritas”. Esta é a verdade para
a qual os seres humanos foram criados e a reconhecem instintivamente. Quando fr. Luis
Munio de Zamora OP compôs a primeira regra para as Fraternidades dominicanas do sécu-
lo XIII, não os convidou para ser penitentes, segundo a tradição de então. Quis que fossem
homens e mulheres da verdade, “Verdadeiros filhos de Domingos no Senhor, trasbordantes
de um céu forte e ardente pela verdade católica, mantendo o seu próprio estilo de vida”. É
uma verdade que devemos buscar juntos, assim acontece em lugares como o Instituto Aqui-
nas de S. Luis (USA) onde leigos, religiosas e frades dominicanos estudam e ensinam juntos.
A busca pode ser dolorosa. Pode nos levar à incompreensão e à condenação, como aconte-
ceu com o nosso irmão Marie Joseph Lagrange. Porém dá autoridade às nossas palavras e
responde ao desejo mais profundo da humanidade. 
 
Sor Christin Mwale, de Zaambabue, falou aqui da panela, em volta da qual se reúne a fa-
mília africana. Esta panela repousa sobre três pedras, que ela comparou a três formas de
autoridade na Família Dominicana: a autoridade que temos como indivíduos, a autoridade
delegada pelos superiores e a autoridade do grupo. Para ser realmente uma família de pre-
gadores devemos reconhecer a autoridade de uns sobre os outros. Eu devo admitir a autori-
dade de uma irmã, porque ela fala a partir da verdade da sua experiência como mulher, ou
quem sabe também como professora ou teóloga. Devo dar autoridade ao leigo dominicano
que sabe mais do que eu de muitas coisas: do casamento, ou de alguma ciência ou arte. Se
reconhecermos a autoridade de uns e de outros, seremos verdadeiramente uma família de
pregadores. Juntos podemos atingir uma autoridade que ninguém de nós tem individual-

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mente. Devemos encontrar juntos a nossa voz. 
 
Para muitos dominicanos, a descoberta de que todos temos a autoridade para pregar foi
emocionante e libertadora. E a exclusão dos não ordenados de pregar depois do Evangelho,
na Eucaristia, é extremamente dolorosa para muitos. Sente-se como uma negação da vossa
plena identidade de pregadores. 
 
Tudo o que posso lhes dizer é que não vos desanimeis. Aceitai qualquer oportunidade para
pregar. Criemos juntos novas oportunidades. Estejamos de acordo ou em desacordo com
esta norma, para nós não é o ponto essencial do problema. Pregar em público sempre foi só
uma pequena parte da nossa pregação. De fato se pode argüir que Domingos desejava levar
a pregação do Evangelho para fora dos limites da igreja, para a rua. Queria levar a pregação
de Deus para onde está o povo, vivendo e estudando, discutindo ou divertindo-se. Para
nós o certo é pregar em novos lugares, na internet, através da arte, de mil maneiras. Seria
paradoxal que pensássemos que a pregação do púlpito seja o único modo real de proclamar
o Evangelho. Seria uma forma de fundamentalismo que iria contra a criatividade de Domin-
gos, um retorno para dentro da igreja. 
 
Sei que isto pode parecer uma evasiva, uma desculpa, para privar os leigos e as religiosas
da pregação ativa em sentido normal da palavra. Poderia parecer que estivéssemos dizendo
que os não ordenados têm que se contentar com uma forma menor de pregação. Mas não é
isto. A Ordem dos Pregadores existe para sair, para anunciar a boa nova, sobretudo para os
que não vêm a nós. Nós praticamos isto com uma incrível variedade de modos, escrevendo
livros, aparecendo na televisão, visitando os enfermos. Por mais que a exclusão do púlpito
possa ser dolorosa e não se aceite, não creio que seja este o grande problema. 
 
Todos nós somos “bons administradores da múltipla graça de Deus” (l Pedro 4,10) de for-
mas diversas. Os mártires dominicanos do Vietnam, China e Japão, no século XVII, foram
homens e mulheres, leigos e religiosos, com uma diversidade extraordinária de maneiras de
ser pregadores. São Domingos Uy foi um dominicano leigo vietnamita conhecido como “ o
mestre pregador”: não há dúvida que tenha proclamado a palavra. Peter Ching foi um leigo
chinês que participou de debates públicos em Gogan para defender a verdade do cristianis-
mo, o mesmo que fez Domingos com os Albigenses. De outro lado, outros leigos dominica-
nos mártires foram catequistas, hospedeiros, comerciantes, intelectuais. 
 
Pregamos a Palavra que se fez carne, esta Palavra de Deus pode fazer-se carne em tudo o
que somos, não só no que dizemos. S. Francisco de Assis dizia ”Pregai o Evangelho em todo
o momento. Se for necessário, usai as palavras”. Temos de ser palavras vivas da verdade
e da esperança. São Paulo escreveu aos Coríntios: “Vocês são uma carta de Cristo, da qual
nós fomos o instrumento, carta escrita não com tinta, mas nas tábuas de carne do coração
de vocês” (2 Cor. 3,3). Em algumas situações a palavra mais efetiva pode ser até o silêncio.
No Japão fiquei impressionado como os nossos mosteiros são testemunhos poderosos do
Evangelho. É possível que os budistas encontrem Cristo com mais profundidade no silên-
cio das monjas do que em todas as palavras que nós podemos dizer. Penso nas colônias de
leprosos aqui nas Filipinas, dirigidas pelos irmãos de S. Martinho, que são uma encarnação

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da compaixão de Domingos. A Palavra também se faz visível na poesia e na pintura, na
música e na dança. Qualquer habilidade nos proporciona um modo de propagar a palavra.
Por exemplo, Hilary Pepler, famoso leigo dominicano e impressor, escreveu que “O traba-
lho do impressor, como todo trabalho, deveria ser feito para a glória de Deus. O trabalho do
impressor é multiplicar a palavra escrita, daí que o impressor esteja a serviço do criador das
palavras, e o criador das palavras sirva, ou deveria servir, a Palavra feita Carne “. 
 
Não pregamos esta palavra como indivíduos isolados, mas como comunidade. Christifide-
les Laici diz que a comunhão com Jesus “aumenta a comunhão dos cristãos entre si... A co-
munhão aumenta a missão e a missão se consome na comunhão”(nº 32). Como todos sabem,
no início da Ordem a comunidade de irmãos era chamada “sacra praedicatio”, a sagrada
pregação. Quando Antônio Montesinos pregou sua famosa homilia em defesa do Índios, em
1511, os conquistadores foram queixar-se ao prior, Pedro de Cordoba. E o prior lhes disse
que quando Antônio pregava era a comunidade que pregava. Deveríamos ser parteiros uns
dos outros, ajudando nossas irmãs e nossos irmãos dizer a palavra que se lhes foi dada. Te-
mos que ajudar-nos mutuamente a encontrar a autoridade dada a cada um. Juntos somos
uma palavra viva que não podemos ser em separado. 
 
Há pouco conheci nos Estados Unidos um frade que tinha sofrido uma cirurgia de câncer
e perdido parte da língua. Teve que aprender falar de novo. Descobriu quanto é complexo
dizer uma só palavra. Precisamos de partes do corpo sobre as quais nunca pensamos: nos-
sa mente, pulmões, garganta, cordas vocais, língua, dentes e boca. Tudo é necessário para
dizer simplesmente: “A paz esteja convosco” .Se temos que proclamar isto ao mundo, nós
precisarmos uns dos outros para formarmos juntos estas palavras de vida. Juntos somos
a mente, os pulmões, a língua, a boca, os dentes, as cordas vocais que podem formar uma
palavra de paz. 
Nos primeiros dias do ano assisti em Bolonha a um encontro da Família Dominicana. Lá
está enterrado Domingos, porém lá está viva a sua Família. Há um grupo de leigos que tra-
balham com as irmãs e irmãos em missões de pregação nas paróquias. Há outro grupo de
leigos e frades, cujo amor é a filosofia, e que vêem a sua missão como um confronto com o
vazio intelectual existente no coração e na vida das pessoas. Pregam ensinando. E há outro
grupo de irmãs que dirigem uma universidade para pessoas isoladas e sem emprego. E há
uma fraternidade de leigos que dizem que querem apoiar a missão dos outros com a oração.
Não havia competição alguma entre estes dominicanos. 
 
Nenhum grupo pretendia ser “verdadeiros dominicanos” ou que os demais fossem “cida-
dãos de segunda categoria”. Não pode haver competição entre as monjas e as irmãs sobre
quem é mais dominicano. As fraternidades leigas foram uma parte vital da Ordem Domini-
cana desde o início e continuam sendo. É verdade que existem muitos novos grupos leigos.
Como crianças recém nascidas, pode ser que precisem de mais cuidado e devam ser objeto
de mais atenção, mas de nenhum modo ameaçam o lugar das fraternidades no coração da
vida da Ordem. Não pode haver competição entre nós. Se fosse assim não encarnaríamos o
Evangelho. 
 
“Tendo dito isto Jesus soprou sobre eles dizendo: “Recebam o Espírito Santo”. 

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Jesus sopra sobre os discípulos. É o eco da criação da humanidade, quando Deus espirou
o seu álito sobre Adão e o fez vivente. Jesus infunde o seu espírito sobre os discípulos para
que se encham de vida. É a culminância da criação. Pedro disse a Jesus: ”Tu tens palavras de
vida eterna”(Jo. 6,28). O fim da pregação não é comunicar informação, mas vida. O Senhor
diz a Ezequiel: “Assim diz o Senhor a estes ossos: Eu mesmo trarei sobre vós o espírito e
vivereis” (37,4). Nós pregadores deveríamos dizer palavras que façam ressuscitar os ossos
secos! 
 
Devemos ser honestos e admitir que a maioria das nossas pregações tornam-se cansativas,
e mais propensas a nos fazer dormir do que despertar. Pelo menos nos levam à oração: pas-
sados dez minutos, olhamos discretamente para o relógio e rezamos para que o pregador
acabe logo! Os dominicanos colombianos dizem: “Cinco minutos para o público, cinco para
as paredes, e o resto para o diabo”. Até Paulo, o maior de todos os pregadores, conseguiu
que Eutiquio se adormentasse, caísse da janela e quase estivesse para morrer! Mas Deus, às
vezes, nos dá a graça de dizer palavras que dão vida. 
 
Conheci uma mulher nas Filipinas chamada Clarência. Havia pegado lepra aos quatorze
anos, e passou toda a sua vida em um leprosário, vivendo com nossos irmãos de S. Marti-
nho. Apenas se atrevia a sair deste lugar onde era aceita e acolhida com carinho. Agora que
está com sessenta anos, descobriu a sua vocação de pregadora. Encontrou a coragem para
deixar fechada a “sala de cima” e ir visitar os leprosários para animar as pessoas de lá a en-
contrar também a liberdade: dirige associações e departamentos de governo. Ela encontrou
a sua voz e autoridade. Isto é o que significa pregar uma palavra de vida. 
 
Para nós pregadores todas as palavras têm importância. Todas as nossas palavras podem
oferecer aos outros vida ou morte. A vocação de todos os membros da Família Dominicana
é oferecer palavras que dão vida. Durante todo o dia estamos oferecendo palavras uns aos
outros: gracejamos, trocamos informações, murmuramos, repetimos as notícias, e falamos
das pessoas que não estão presentes. Estas palavras oferecem vida ou morte, curam ou fe-
rem? Nesta cidade de Manila foi lançado neste ano um virus cibernético. Disfarçava-se sob
uma mensagem chamada “I love you”. Se esta mensagem fosse aberta se destruiriam todos
os arquivos do computador. Às vezes as nossas palavras podem ter um efeito semelhante.
Podemos dar a impressão que somos sinceros, justos, honestos, “eu digo só para você, meu
amigo”, ao mesmo tempo que parecemos um veneno! 
 
Um lema da Ordem é “Laudare, benedicere, praedicare”, “Louvar, bendizer, pregar”. Ser
um pregador é mais do que aprender a falar sobre Deus. É descobrir a arte de falar e bendi-
zer tudo o que é bom. Não há pregação sem celebração. Não podemos pregar a não ser que
celebremos e exaltemos a bondade do que Deus criou. Às vezes o pregador deve, como Las
Casas, enfrentar e denunciar a injustiça, mas somente para que a vida possa ser vitoriosa
sobre a morte, a ressurreição sobre túmulo, e o louvor sobre a denúncia. 
Portanto, floresceremos como família de pregadores só se nos fortalecermos uns aos outros
e nos dermos vida mutuamente. Temos que infundir uns nos outros o hálito de Deus, como
Jesus fez com seus discípulos. Santa Catarina de Sena foi pregadora não só pelo que disse e
escreveu, mas pela força que deu aos outros. Quando o Papa estava desanimado ela lhe fez

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recobrar o ânimo. Quando seu querido Raimundo de Cápua, Mestre da Ordem, teve medo,
ela o fez seguir adiante. Algo que de vez em quando precisamos nós, Mestres da Ordem!
Quando um criminoso foi condenado à morte, ela o ajudou a enfrentar a execução. Dizia-
lhe: “Coragem, querido irmão, logo estaremos na festa das bodas... Nunca esqueças disto.
Estarei te esperando no lugar da execução”. 
A Família Dominicana no Brasil instituiu o que chamam de “Mutirão Dominicano”. Mu-
tirão significa “trabalhar juntos”. Todos os anos um pequeno grupo de frades, religiosas e
leigos vai para o meio do povo que luta em favor da vida e da justiça, sobretudo junto dos
mais pobres e excluídos. Vão estar com eles precisamente para lhes demostrar seu apoio,
para ouvir como é sua vida, para lhes fazer ver que existe quem se lembra deles. Precisamos
disto se queremos ser fortes. 
A maioria de nós aprendemos ser fortes, ativos e humanos em nossas famílias. Nossos pais
e irmãos, tias e tios, primos, parentes, nos ensinaram como falar e ouvir, como brincar e rir,
como andar e como nos levantar quando caímos. 
Sozinhos não podemos aprender a ser pessoas. Quem sabe por isto sempre imaginamos a
Ordem como uma família, com monjas, leigos e frades. Domingos era eminentemente hu-
mano e pregava um Deus que abraçava a nossa humanidade. Precisamos da nossa Família
Dominicana para nos formar como pregadores humanos, que possam se alegrar em Deus
que compartilha da nossa humanidade. Precisamos da sabedoria das mulheres, da expe-
riência dos casados e pais de família e da profundidade das contemplativas, se quisermos
nos formar como pregadores humanos. 
Deste modo toda a formação dominicana seria formação mútua. Em muitas partes do mun-
do noviços de frades e noviças de religiosas passam parte da sua formação juntos. Podemos
nos ensinar uns aos outros a dizer palavras de vida. 
Com freqüência subestimamos drasticamente o muito que os nossos leigos dominicanos
podem ensinar aos outros ramos da nossa Família Dominicana. Vós tendes uma sabedo-
ria à qual nós nem sempre temos prestado atenção. E, de outro lado, em muitas partes do
mundo, os leigos dominicanos estão sedentos de uma formação completa na teologia e na
espiritualidade da Ordem, que nem sempre lhes oferecemos. Esta é seguramente uma das
prioridades mais urgentes neste momento. Como podemos abordá-la? 
E as últimas palavras de Jesus que comentarei mostram o que está no coração da palavra de
vida. 
 
“Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que
vocês não perdoarem, hão serão perdoados”. 
 
Por duas vezes Jesus disse “a paz esteja com vocês”, e depois Ele lhes da o poder para per-
doar ou reter os pecados. Este é o coração da nossa pregação. Durante esta Assembléia, deu-
se ênfase especial ao compromisso com a Justiça e Paz como um centro especial de atenção
para a nossa missão de Família Dominicana. Penso, por exemplo, na “Ação Dominicana pela
Paz”, na Gran Bretanha. É um grupo de monjas, religiosas, leigos e frades, que se compro-
metem em trabalhar juntos em favor da paz e, em concreto, a favor da abolição das armas
nucleares, através de escritos e pregação, mesmo infringindo a lei. 
Porém a pregação da paz e do perdão é uma vocação que pode ser vivida de muitas manei-

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ras. Houve uma leiga dominicana francesa, chamada Maïti Gistanner, que foi uma brilhante
pianista. No ano de 1940, durante a ocupação nazista, fundou um grupo de resistência.
Acabou sendo capturada pela Gestapo e torturada por um jovem médico. Este lhe destruiu
o sistema nervoso. O resto da sua vida foi um contínuo sofrimento. Destruiu a sua carreira
de pianista. Quarenta anos mais tarde este médico entendeu que antes de morrer devia lhe
pedir perdão. Localizou a Maïti e lhe implorou a reconciliação. Foi perdoado e voltou para
a sua casa com forças para enfrentar-se a si mesmo, a sua família e a sua morte. Maïti lhe
havia dito: “Vous voyes: le mal n’est pas le plus fort” “você vê: o mal não é o mais forte”. Isto
encarna também a pregação de Jesus. 
 
Há uma comunidade de frades em Roma, à qual foi confiado ouvir as confissões, na Basílica
de Santa Maria Maior. Durante horas, todos os dias, especialmente neste ano jubilar, em
inúmeras línguas, é oferecido o perdão de Deus. Todos estes são modos de pregar as pala-
vras “a paz esteja convosco”. 
Convençamo-nos porém: não podemos pregar a paz se não a vivemos entre nós. Quando
os irmãos e as irmãs fazem sua profissão, pedem a misericórdia de Deus e da Ordem. Nada
teremos a dizer sobre a paz e o perdão se não os oferecemos uns aos outros. 
 
Quando se instalou a guerra entre a Argentina e a Gran Bretanha, pelo conflito nas ilhas de
Malvinas, em 1982, os frades da comunidade de Oxford saíram às ruas com seus hábitos,
com velas nas mãos. Fomos em procissão até o monumento aos caídos na guerra rezar pela
paz. No ano passado estive na Argentina e coincidiu com o “dia das Malvinas” , o dia em
que a nação renova seu compromisso com as ilhas. Estava em Tucuman, no norte do país. As
ruas estava adornadas com bandeiras e estandartes argentinos. Devo confessar que me per-
guntei se havia acertado o dia de estar lá. À tarde fui a um encontro de um milhar de mem-
bros da Família Dominicana, lá estava também uma pequena bandeira inglesa. Celebramos
juntos a Eucaristia por todos os mortos, argentinos e britânicos. A paz que pregamos é a paz
que nós devemos viver. 
No norte de Burundi há um mosteiro de monjas dominicanas. Todo o país foi destruído por
uma violenta guerra civil entre hutus e tutsis. Por todos os lugares se encontram cidades va-
zias e campos queimados. Mas quando se aproxima da colina sobre a qual está o mosteiro,
pode-se observar que tudo está verde. As pessoas vêm aqui para olhar os campos. É um oá-
sis de paz em um deserto de guerra. Isto porque as monjas vivem juntas em paz, ainda que
umas sejam hutus e outras tutsis. Todas perderam familiares na guerra. A paz e o perdão se
fizeram carne na comunidade. 
A paz que compartilhamos é muito mais do que a ausência de conflitos. É mais do que per-
doar-nos quando agimos mal. É a amizade, coração da espiritualidade dominicana. Antes
de morrer, Jesus disse aos seus discípulos: ”Chamo-vos de amigos”. Três dias mais tarde,
depois a traição, da negação, sofrimento e morte, aparece entre eles e lhes oferece de novo
sua amizade: “A paz esteja convosco”. É esta amizade que pode superar a traição, a covardia,
o pecado. Amizade que é a própria vida de Deus, o amor que existe no coração da Trindade. 
A amizade é o fundamento da igualdade entre nós. O que quer dizer que todos somos mem-
bros, por igual, da Família Dominicana. 
 
A Família Dominicana é a nossa casa comum. Somos chamados a estar ‘chez nous’, na nossa

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casa. Às vezes as religiosas e os leigos têm a sensação de que em nossa casa dominicana os
frades ocupam as dependências de cima e estão tentando deixar fora os demais. Um dos
maiores desafios é construir uma consciência compartilhada da Ordem, como lugar que
pertence a todos nós. Estar em casa significa que não há porque justificar que se está nela,
é sentir-se à vontade. Cada um á aceito como é. Isto transparece nos nossos rostos, gestos e
palavras, na acolhida que nós nos dispensamos. Certamente cada comunidade precisa do
seu próprio tempo e do seu espaço. Não podemos irromper todos nos mosteiros e exigir
participação na vida das monjas. As comunidades de frades e religiosas, e as famílias dos
leigos precisam da sua privacidade. 
Muitas pequenas tensões dentro da Família Dominicana, como: quem e que siglas se pode
colocar atrás do nome, quem e quando se pode usar o hábito, são sintomas do desejo mais
importante e profundo de amizade, de sentir-se em casa, de pertinência, de ter assegurado
um lugar na mesa e ao redor da panela. No passado se falava de pertencer à primeira, se-
gunda ou terceira Ordem. Esta terminologia foi abolida pelo capítulo de Rivest Forest em
1958 para estabelecer um plano de igualdade. Não existe primeira, segunda, terceira cate-
goria. porém com isto perdemos um modo de estabelecer nossa unidade em uma Ordem
comum. Juntos temos de encontrar vias para chegar a construir esta casa comum. 
Deve ser uma casa aberta, que dê boas vindas aos amigos dos nossos amigos, que acolhe
novos grupos cuja identidade dominicana não está bem clara, mas que desejam ser parte
da família. A amizade que Jesus oferece é ampla e aberta. Acolhe a todos. Mostra-se impa-
ciente quando os discípulos resolvem impedir a alguns que preguem, porque não são do
seu grupo. Não fecha as portas, até as atravessa. Encarnemos esta grande e cordial amizade,
a magnanimidade de Domingos. Sejamos sinal desta acolhida de modo que nos sintamos
à vontade na Família de Domingos. Que Domingos nos livre do medo que fecha as portas.

Palestra de Frei Timothy Radcliffe OP
Mestre da Ordem
 
 
Tradução de fr. Humberto Pereira

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