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UMBANDISTA SIM, PORQUE NÃO?

Sei que estamos todos em processo de evolução, mas às vezes as pessoas têm uma
mentalidade tão arcaica, tacanha e preconceituosa que me assusta.

A mim me parece absolutamente natural que, sendo a Umbanda uma religião


genuinamente brasileira, a maioria dos médiuns de Umbanda nasçam aqui, no Brasil.

E realmente é difícil uma família que não tenha, ainda que de longe, um parente que
não receba um preto-velho, um caboclo ou outro guia, ainda que não se desenvolva ou trabalhe.

Apesar disso, as pessoas ainda torcem o nariz quando alguém se apresenta como
umbandista...até tudo bem se você for espírita, mas macumbeiro??? E esse fato leva muitos
irmãos umbandistas a se definirem como espíritas, para fugirem do preconceito...

Acho que um dos maiores desafios dos umbandistas é mostrar ao mundo que nossa
religião é tão sagrada, bela e digna de respeito como qualquer outra...mas quantos de nós
pensam realmente isso sobre a Umbanda?

Tem terreiro que “esconde” Exu, como se ele fosse um “Diabo” ou coisa do tipo;
inclusive tem terreiro que pensa que Exu é mesmo Diabo...

Para a maioria das pessoas a Umbanda é um pronto-socorro, onde os guias têm o dever
de resolver os problemas que os consulentes mesmos criaram, e só.

Mas nossa religião é muito mais. Temos que elevar a Umbanda a um patamar onde as
pessoas entendam que o terreiro é um templo de louvação a nosso Pai Criador, não apenas de
consultas espirituais.

Temos que fazer giras e rituais de louvação aos Sagrados Orixás e explicar para as
pessoas quem eles são e o que representam na Umbanda.

Abaixar a cabeça e se esconder atrás na denominação espírita com medo de ser


chamado de “macumbeiro” não contribui em nada para tirar a Umbanda da visão equivocada
dos preconceituosos.

Temos sim elementos da religião espírita, a qual respeitamos, mas somos Umbandistas.

Não temos nada do que nos envergonhar nem nada a esconder...

Denúncias anônimas e infundadas fecham casas de caridade; pura maldade.

A maioria dos terreiros não têm alvará não porque não querem, mas porque os próprios
gestores públicos não têm o mínimo interesse em facilitar a legalidade, e porquê?

Porquê vemos templos de médio e grande porte serem inaugurados todos os dias, por
mercadores da fé, que condicionam a felicidade, o sucesso e até mesmo um lugar no paraíso a
doações muitas vezes maiores do que as condições dessas pessoas permitem, enquanto fecham
terreiros simples, que na maioria das vezes começam dentro de casa, como eu comecei,
arrastando móveis e improvisando congá, para levar ao próximo um pouco de alento e
aproximá-lo de Deus através da palavra de um guia espiritual?

Porquê alguns umbandistas têm dinheiro pra tudo, mas se ofendem quando têm que
ajudar nas despesas do terreiro invocando a tão aclamada “caridade”?

Já ouvi casos em que um umbandista foi coagido a fazer “um trabalhinho” pra favorecer
um chefe no trabalho, sob pena de ser perseguido e até mandado embora, pois afinal: “vocês
mexem com essas coisas”.

Não, nós não mexemos com “essas coisas”...nós fazemos magia, magia divina, a mesma
da qual a humanidade um dia se separou e hoje paga o preço.

Parece que a perseguição religiosa está na moda afinal...de que adianta andar com a
bíblia debaixo do braço e não entender uma palavra do que ela diz?

Chamar os rituais candomblecistas equivocadamente de “matança”, mas não abrir mão


de se empanturrar de carne numa churrascaria?

Tudo isso não é apenas intolerância religiosa...é burrice mesmo, maldade, é mesquinho.
É julgar o que não se conhece e prejudicar os umbandistas sérios que dão a cara a tapa de pés
descalços nos terreiros, enquanto os que se julgam seguidores de Jesus se especializam no que
ele mais repudiava: a hipocrisia.

Tal qual lobos em peles de cordeiros, fazem da fé um comércio, enganam e exploram os


crédulos que se deixam coagir por promessas que jamais serão cumpridas...

Diz o Pai Rubens Saraceni em um de seus livros que havia um tempo onde podíamos ver
as divindades em seus pontos de força, dá pra imaginar?

Por algum motivo perdemos essa ligação, e hoje precisamos de religião (religar) não é?

Desde tempos remotos as oferendas são citadas na bíblia como uma forma de nos
relacionarmos com Deus e suas divindades, mas somos atacados por fazer isso hoje em dia...

Pelas atrocidades que o homem tem cometido contra seus semelhantes e contra seu
próprio planeta, sua casa, não me admira que tenhamos que voltar a época que era preciso
chamar a atenção de Deus de alguma forma; pra chover, por exemplo.

Quando estivermos no auge da tecnologia e ainda assim persistir na maioria dos


corações o vazio que só o amor de Deus preenche, os “macumbeiros” que cultuam Deus na
natureza estarão pedindo pela mãe terra e seus filhos.

Quando os homens se cansarem de seguir a líderes religiosos que nada mais são do que
mercenários tais quais os vendilhões do templo que Jesus escorraçou, e com toda a razão, os
iniciados na magia divina continuarão a ativar forças e poderes em prol de todos, encarnados e
desencarnados, em nome de Deus.
Só quem conhece realmente a Umbanda pode defendê-la, amá-la, erguer a cabeça e
combater com argumentos inteligentes e embasados o preconceito que existe contra nossa
religião.

Só quem conhece realmente a Umbanda pode lutar por ela.

Fazemos oferendas sim, acendemos velas, temos orgulho em vestir um Orixá, cantamos,
dançamos, tocamos atabaques.

Vemos na natureza a grande mãe que nos alimenta, nos ampara e nos dá tudo o que
precisamos.

Sentimos o corpo vibrar ao som dos atabaques e nos entregamos à energia de Deus
manifestada através dos Sagrados Orixás.

Temos por verdadeiros amigos nossos guardiões, guias e mentores espirituais, esses sim
leais a ponto de cair por nós se preciso for, desde que seja por uma causa justa.

Somos mistério e revelação, silêncio e barulho. Somos paz e luta, somos sacerdotes e
aprendizes.

Somos filhos do mesmo Pai, viemos da mesma fonte...somos umbandistas sim, porquê
não??? Axé!