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Juliana R. S.

Duarte
Juliana r. s. duarte
C aminhava em câmera lenta pelo
corredor. Mais adiante, esta-
va na porta de seu escritório; a po-
lícia tentando, em vão, afastar as

K erata, nome dado pela imprensa a um dos
serial killers mais procurados do mundo, é
um neurocientista, vítima de um desejo peculiar:
pessoas. O coração dela se deses-
perou, esperando o pior. A maldi-
ta porta se distanciava e diminuía
matar pessoas com talentos específicos e colecio- a cada passo; seus pés pareciam

kerata DE CÉREBROS
nar seus cérebros. andar para trás enquanto o rosto
Contudo, nesta incomum e intrincada trama, das pessoas se desfigurava feito
confetes jogados contra o vento.
mergulhamos no desenvolvimento dessa mente
Reconheceu Sophia entre eles, os
Juliana R. S. Duarte nasceu em doentia, na história da família de Kerata e na vida

k e r a t a
dentes trincados não deixavam seu
setembro de 1987. Tornou-se re- de diversos personagens que rodeiam e influen-
coração escapar. Alcançou a porta
datora publicitária, atuando em ciam, direta e indiretamente, no desdobramento e viu um homem com o uniforme
grupos internacionais de pro- de sua personalidade cruel.
Presente e passado se entrecruzam de modo
O cOleciOnadOr de cérebrOs do IML jogar um lençol por cima.
paganda. É poeta, compositora, Seus olhos acompanharam o movi-

O COLECIONADOR
violinista (para o terror dos seus surpreendente; segredos perturbadores vêm à mento. O pano era fino, de um ne-
vizinhos), viciada em pintura, li- tona. Somos, então, condicionados a nos questio- gro fúnebre quase poético. Ele des-
teratura e café. Muito café. Seu nar e a, quem sabe, compreender: como nasce um cia, hesitante, recusando-se a cair,
primeiro livro foi escrito aos sete serial killer? resistindo ao seu inevitável destino
anos de idade. até, finalmente, abraçar o corpo
cor de leite deitado ao chão. A ca-
beça ficou para fora. Havia peque-
nos furos em alguns pontos, e um
ISBN 978-85-428-1001-1
corte perfeito entre as têmporas e
as pálpebras criava uma espécie de
tampa. O cérebro não estava lá.
9 788542 81 0011

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k e r a t a
O COLECIONADOR DE CÉREBROS

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Juliana R. S. Duarte

k e r a t a
O COLECIONADOR DE CÉREBROS

TALENTOS DA LITERATURA BRASILEIRA

São Paulo, 2 017

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: (11) 3699­‑7107 | Fax: (11) 3699­‑7323 www. SP: Novo Século Editora. ­‑ Barueri. S. Ficção policial I. Kerata: o colecionador de cérebros / Juliana R. coordenação editorial aquisições Vitor Donofrio Cleber Vasconcelos editorial João Paulo Putini Nair Ferraz Rebeca Lacerda Talita Wakasugui capa revisão Dimitry Uziel Luiz Alberto Galdini Equipe Novo Século diagramação Nair Ferraz foto de orelha preparação Mel Audi Edilene Possibom Maquiagem: Giovana Escalante Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990).3 novo século editora ltda. Alameda Araguaia.3 Índice para catálogo sistemático: 1. 2190 – Bloco A – 11o andar – Conjunto 1111 cep 06455­‑000 – Alphaville Industrial. Ficção: Literatura brasileira 869. Título. Juliana R.com.indd 4 02/06/2017 18:57:37 .com. S.br | atendimento@novoseculo. Kerata: o colecionador de cérebros Copyright © 2017 by Juliana Rodrigues da Silva Duarte Copyright © 2017 by Novo Século Editora Ltda. 2017.br Kerata MIOLO 14X21. Barueri – sp – Brasil Tel. 17-0675 cdd­‑869. (coleção Talentos da literatura brasileira) 1. em vigor desde 1o de janeiro de 2009.gruponovoseculo. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) Angélica Ilacqua CRB­‑8/7057 Duarte. Ficção brasileira 2. Duarte.

aos injustiçados e. tiveram sua infância interrompida por um abuso sexual. à comunidade LGBT. aos deficientes. Kerata MIOLO 14X21. principalmente. incluindo as crianças que. assim como eu. às mulheres vítimas de todo tipo de violência doméstica.indd 5 02/06/2017 18:57:37 . às mulheres. aos pobres. Dedico este livro às minorias da nossa sociedade. Dedico-o aos negros.

e a 7 Kerata MIOLO 14X21. prefácio Eu conheço a Ju há pouco mais de dois anos. Este livro é assim: começa com alguns personagens que você não conhece bem a essência deles nem mesmo em qual época vivem. Até que. só que quando é a sua melhor amiga que fala isso. deixa eu te contar a história desses aqui. não dá para usar uma desculpinha dessas. um dia. Ela é in‑ crível. E li mais algumas. É uma das minhas melho- res amigas. Quer dizer. e aí tudo muda. E foi por isso que aceitei ler o livro dela. E mais outras. É uma ótima redatora. porque levei quase um mês para realmente ler algumas linhas. que agora não consegue. fica para a próxima e torce para que a pessoa esqueça? Pois é. Esqueça‑os. porque tem mais gente nesse balaio… E as histórias vão evoluindo.indd 7 02/06/2017 18:57:38 . Sabe quando algum conhecido chega em você e diz: – Tenho um negócio aqui que você vai gostar… – e você só diz que está meio ocupada. comecei entre aspas. Gostou? Lembra‑se do que você fez com os outros? Esqueça esses também. Mas li. Então comecei a ler. percebi que já estava lendo o livro há duas horas seguidas sem notar o tempo passar.

Você tem que tentar descobrir. E mais. após ler este li- vro. Só espero que. e tudo começa a ficar pesado. profundidade aumenta. E mais. Marília Gil Pimentel – diretora de Arte na Agência Isobar Brasil 8 Kerata MIOLO 14X21. fre- nético e urgente. lembrei­‑me porque. ainda. desde a primeira vez que vi Juliana. você a admire tanto quanto eu. Você tem é de ler mais. Você tem que saber o que acontece com todos. ela me chamou a aten- ção: pela sua inteligência.indd 8 02/06/2017 18:57:38 . o mistério que se apresenta. Depois de ler um livro como este.

de in‑ justiça. de bondade. de amizade.indd 9 02/06/2017 18:57:39 . das pulsões que nos tornam selvagens domesticados pela sociedade. mas principalmente. ele fala de desejo. uau! Serei a mulher mais realizada deste mundo. Estudei psicanálise durante alguns anos e meu estudo serviu para criar personagens consistentes. Kerata também se apresenta como uma forma de de- núncia social. em uma 9 Kerata MIOLO 14X21. As portas que bateram em minha cara e o constante preconceito foram primordiais para que ele evoluísse e se tornasse essa história que explora as patologias sociais com realismo tão artístico quanto uma pintura abstrata. de doença. se eu conseguir te fazer refletir e provocar mudanças em sua maneira de enxergar a vida. Ele pretende envolver suas emoções. te prender no enredo e fazer com que você se identifique com ele. de amor. com persona- lidades bem construídas e enredos bem elaborados. de generosidade. Ao final da leitura. Kerata fala de liberdade. introdução O presente livro está longe de ser a primeira versão a qual eu havia pensado quando tive a ideia de escrevê‑ ‑lo.

O enredo também não se prende a uma narrativa cronoló- gica. Boa Leitura! Inclusive. negociação infinita sobre “quem sou”. Usei alguns fatos históricos para situar a narrativa dentro de um espaço de tempo. ela fica melhor ao som de AC/DC. No entanto. “quem é o outro” e “como vivo em sociedade”. 10 Kerata MIOLO 14X21. não me pren- do a estes acontecimentos históricos para narrar Kerata. fatos podem ocorrer simultaneamente em capítulos diferentes.indd 10 02/06/2017 18:57:39 .

Olhou para o relógio: 6h45 da manhã. olhou para o lado e ela não estava lá. Não lembra‑ va exatamente o que tinha acontecido. com certeza. Por mais que ela apreciasse a ideia de dormir até mais tarde. Levantou-se graciosamente e. Aquele raio de luz a convidava todos os dias para sair da cama. Ele acordou com a cabeça latejando. vestida com a camisa xadrez dele. já estava na cozinha. nunca conse- guira fazê‑lo. segurando uma caneca de café. Olhou para o lado e ele ainda estava lá. 11 Kerata MIOLO 14X21. Era impossível resistir. salientando suas pernas torneadas. quando finalmente conseguiu. 1 vazio Um suave raio de luz esgueirou‑se pela fresta das ve‑ nezianas. iluminando seu corpo e despertando‑a para a realidade daquela manhã de outono. que descia acima dos joelhos. apenas que tinha sido muito bom. Sentiu o coração arder e percebeu que a amava com todas as suas forças. apesar da ressaca. Estava feliz. num salto. Aquela foi. sua epifania do dia. viu‑a encostada junto à porta. Tentou se levantar e.indd 11 02/06/2017 18:57:39 .

– Eu adorei a… – O telefone tocou novamente. mas o celular dela tocou e sem per- ceber a intenção dele. sério mesmo. – Bom dia – ele disse sorrindo de lado e se inclinando para roubar um beijo. mas quando se tratava de Cla- rice. Ele se aproximou para dar um beijo de despedida. Ele estava em pé. 12 Kerata MIOLO 14X21. – Quem me perturba? – Clarice. apenas o lençol branco cobria a sua nudez. – Eu estou a caminho! – ela disse em um tom irritado. – Mas já?! – Problemas no ateliê. Vai entender quando chegar. Ele não entendeu nada. – Mas ainda são sete horas da madrugada! – É urgente. estamos encrencadas. mas ela não parava de teclar em seu smartphone de última geração. enquanto saía pela porta e simulava um adeus atrapalha- do com as mãos. Conferiu algumas vezes no espelho os músculos definidos e ensaiou um olhar sedutor que prometia arre- batar o coração dela. – Bom dia. ela correu para atendê­‑lo. O importante é que tinha vivido a melhor noite de sua vida. – O que aconteceu? – Vem. – Estou indo – ela disse. dorminhoco.indd 12 02/06/2017 18:57:39 . Preciso de você agora no ateliê. não entender era normal. – Ok! Estou a caminho. que eu te explico.

Clarice dobrou na rua do ateliê e logo viu as viaturas e a van do IML. em vão. Mais adiante. hesitante. a polícia ten- tando. seus pés pareciam andar para trás enquanto os rostos das pessoas se desfiguravam feito confetes jogados contra o vento. A maldita porta se distancia- va e diminuía a cada passo. os dentes trincados não deixavam seu coração esca- par. O coração dela se de- sesperou. mais furiosos. Caminhava em câmera lenta pelo corredor. Reconheceu Sophia entre eles. Alcançou a porta e viu um homem com o uniforme do IML jogar um lençol por cima. Puta que pariu. estava na porta de seu escritório. resistindo ao seu inevitável destino até. aposto! Estacionou de qualquer jeito e correu para encontrar a amiga. – Um filho da puta desses deveria ser cortado aos pedaços! – Como alguém faz uma coisa dessas?! – Que terrível! Meu Deus! Meu Deus! Clarice ficou assustada. Havia pequenos furos em alguns pontos. abraçar o corpo cor de leite deitado ao chão. A mulher dele desco‑ briu. finalmente. e 13 Kerata MIOLO 14X21. Apesar do horário. Seus olhos acompanha- ram o movimento. Acho que isso não tem nada a ver com o padeiro. O pano era fino. arriscavam ameaças. afinal. outros de des- crença e alguns.indd 13 02/06/2017 18:57:39 . Ele descia. A cabeça fi- cou para fora. Uns murmuravam palavras de horror. a casa estava cheia de curio- sos. afastar as pessoas. como se recusasse a cair. Sophia! Que diabos você fez? Eu sabia que esse seu caso com o padeiro ia dar merda. esperando o pior. de um negro fúnebre quase poético.

Sentiu seu corpo amolecer antes de ver a si mesma caindo ao chão gelado e os dois policiais corre- rem ao seu encontro. O cérebro não estava lá. mas ela não conseguia ouvir. 14 Kerata MIOLO 14X21. Não havia sangue. um corte perfeito entre as têmporas e as pálpebras criava uma espécie de tampa. nada. o vazio. Sophia lhe falava algo. apenas o oco. Os olhos de Clarice começaram a rodar.indd 14 02/06/2017 18:57:39 .

pintura ou qualquer outra coisa relacionada ao mundo das belas artes. ele tinha que vir com aquelas histórias carregadas de desprezo e pouca lição de moral: “Um ho‑ mem faz o seu próprio caminho. Será que seu pai não percebia isso? Pedro chutou uma garrafa com força e em seguida ouviu um ai que lhe resgatou de seus pensamentos hostis. Agora estava no céu. Ou em algum lugar onde era 15 Kerata MIOLO 14X21. 2 raízes O sol brilhava com vigor naquela manhã. Pedro. alheio à felicidade que parecia encarnar em qualquer rosto ao re‑ dor. com certeza. se ao menos o pai pudesse reconhecer seu esforço ao longo des‑ ses anos. não levava o menor jeito para música. arrancando-lhe gentilmente doces melodias que enchiam a casa de uma perigosa satisfação competi‑ tiva. Eu escolhi ser um pianista famoso e isso trouxe bons frutos para nossa famí- lia. menos ao seu. diferente‑ mente da sua alma inconformada com a vida.indd 15 02/06/2017 18:57:40 . Jamais seria como ele. veja bem” − e começava a escorregar seus dedos pelo velho piano. A raiva era sua companheira fiel. alguém para pertencer e ser feliz? Sentia‑se extremamente desligado do mundo. Mas não. Haveria lu- gar para se encaixar.

Vai. aproveite e a convide para sair. Ela estava vermelha de raiva. entendeu? Do zero. é que eu… eu. diga alguma coisa.indd 16 02/06/2017 18:57:40 . Nunca tinha vis- to alguém olhar para o seu trabalho com tanta admiração. Peça desculpas. – Des… descul… pe. é só abrir a boca e falar. furiosa. com a mão na cintu- ra esperando uma resposta. Estava ridiculamente paralisado. Van Gogh. Eram tão bonitos quanto à dona. permitida a livre circulação de anjos porque aquela garo- ta era a coisa mais linda que seus olhos jamais tiveram a chance de ver. diga que ela é lin‑ da. Ela falava algo sobre dese- nhos. pensava. mas ele não conseguia pensar em mais nada. 16 Kerata MIOLO 14X21. mas Pedro só conseguia se concentrar na perfeição que eram os seus lábios se mexendo. pela primeira vez. você quem os pintou? – ele perguntou. não vi… Nossa! Esses desenhos são seus? Pedro de repente recuperou a habilidade de falar ao perceber. – São seus esses desenhos? Digo. os desenhos da bela jovem que estava prestes a esganá­‑lo com as próprias mãos. empinando o nariz. agora vou ter que refazer tudo. garoto? – ela deu­‑lhe um for- te empurrão. seu idiota! Por que não olha por onde anda? Olha isso. – Sim. – Estou falando com você! Vamos. pensou. Aquilo sim era arte! E das melhores. A jovem tagarelava enquanto andava de um lado para o outro. são meus – ela respondeu. – Olha só o que você fez. hum. Seu olhar era tão meticuloso e sincero que a moça até esqueceu a raiva. – Você é surdo ou o quê. tintas. tudo.

– São incríveis… olha só esses traços. Não a vi. mas 17 Kerata MIOLO 14X21. e às ve- zes. – Ah. – Ajudar? Por acaso você é artista plástico? – ela perguntou. isso é óbvio. Estava pensando em começar do zero. aprendi algumas técnicas que podem ser úteis.indd 17 02/06/2017 18:57:40 . envaide- cida e entregue. deixa. principalmente por estragar tudo! – Perdão. Ganhei a garota. – Agnes. comemorou consigo. posso tentar recuperar o quadro e os seus desenhos. O que posso fazer é ajudar. apesar de que não queria admitir. Sou Pedro. acho que você me ajudou – ela assentiu. Reto- mou com prontidão a fúria de outrora. Aquela ideia brotou viva e oportuna. de verdade. na grama e mais ainda sobre a tela onde ela desenhava uma paisagem com belas flores e uma jovem solitária sob uma macieira. A jovem ficou encantada. – Então. as cores ao redor… são incríveis! Havia verdade em sua voz. apesar de não ter o menor talento para a coisa. Ele olhou ao redor e viu que os desenhos voavam pelo campus. Ela deu um risinho tímido que soou como um sinal verde para ele. – Obrigada. A fonte de onde esses saíram deve estar cheia. – Não. tinha derramado tinta na roupa dela. a forma como você pincela. mas meu pai é. que era profunda. diga sim. até meio sombria. Diga sim. Eu não estava gostando mesmo. de nada. Você é talentosa. diga sim – torceu. E. – Tipo o quê? – Bem.

Pedro adorava ver Agnes de- senhar. Meu pai que é complicado. adorava a forma como ela se sujava de tinta e a forma como se irritava quando a inspiração não lhe alcan- çava. mas havia uma tensão entre eles que era quase magnetismo. com certa altivez no falar. para ele. não seria difícil imaginar Agnes caindo de amores pelo pai. o que pode ter de complicado nisso? Podemos nos entender muito bem. que. dizia a si mesmo. Ele era talento- so. Quando pensava nisso. mas. Se ao menos eu pudesse… 18 Kerata MIOLO 14X21. Lá no fundo ele sentia medo. Às vezes acho que está me escondendo ou que tem vergonha de mim. Em pouco tempo eles ficaram íntimos e em menos ain- da descobriram que se amavam. como nunca antes. – Sou inteligente. as mulheres o cortejavam. Adotou uma postura ao mesmo tempo distante e interessada. sem demonstrar muito. apesar de guardarem o sentimento para si sem revelar um ao outro. – Quando vou conhecer seu pai? – ela indagou. você é a pessoa mais incrível que já conheci. Eram com- pletamente diferentes. Meu pai vai adorá­‑la também. era o paraíso. Por que falar do pai? – Você fala dele com tanto mistério. E seu pai é artista. A gente está junto há quase seis meses. – Nunca conheci alguém com esse nome. você já conheceu meus pais. – Vergonha de você? Que é isso. Sentia­‑se feliz. – Em breve − falou obstinadamente.indd 18 02/06/2017 18:57:40 . poxa. uma ira tomava conta do seu ser. Medo de que o pai se apaixonasse por Agnes e a roubasse dele. eu sei que não é lá todo o tempo do mundo. Tá. posso entender o nível da compli- cação. Aquela pergunta havia mutilado seus pensamentos da realidade.

se ao menos eu fosse tão espetacular quanto o meu pai. Mas não
tenho chance, pensava, frustrado. Um ar sombrio envol-
veu seu rosto. Parecia outra pessoa. Desconfortável, sen-
tiu uma pressão no peito e uma dificuldade de respirar.
Não queria compartilhar essa parte de sua vida, apesar de
que apresentá­‑la ao pai também poderia ser a chance de
mostrar­‑lhe o quanto era capaz de conquistar uma mu-
lher tão talentosa, que inclusive o admirava. Sentou na
grama, misteriosamente silencioso e com uma elegância
extraordinária.
– Desculpa, não quis invadir seu espaço.
– Meu pai é Miguel Baptiste Debret.

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desencontros
Era quase meia‑noite quando Clarice finalmente acor‑
dou. Sua cabeça estava prestes a explodir. Era difícil man‑
ter os olhos abertos, mas se esforçou para reconhecer o
lugar onde estava, porém só conseguiu ver um salpicado
infinito de luzes por todo canto.
– Eu preciso ir para casa – balbuciou algumas palavras,
que logo trouxeram Sophia.
– Ah, minha amiga! Que bom que acordou! Como você
está? Trouxe você para o hospital, te examinaram, mas fa‑
laram que estava tudo bem, que seus sinais vitais estão
ótimos, só que estava em choque e que acordaria a qual‑
quer momento. Não liguei pra sua família porque não quis
preocupá‑los, mas provavelmente eles já devem ter visto
a notícia nos jornais. Que terrível! Que…
– Quer calar essa boca! Caraca, minha cabeça tá
explodindo!
Sua espontaneidade continuava intacta. Levantou‑se
da cama, o mundo rodou e ela tornou-se a deitar. Fechou
os olhos e viu o oco da cabeça de sua colega de trabalho.
Que ser imundo faria uma coisa dessas? Maldito! O ódio a

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empurrou da cama, de repente percebeu que estava num
apartamento de hospital, com roupas de hospital. Tirou a
bata na hora que o enfermeiro entrou no quarto.
– Perdão, senhoras. – Fechou a porta.
– Não tem problema, pode entrar − disse Clarice.
– Clarice! Cê é louca? Não pode entrar não!
O enfermeiro tornou a sair.
– Até parece que ele nunca viu uma mulher pelada.
Ele tornou a entrar, apreciando os seios de Clarice.
– Ah, que bom saber que suas doidices estão normais
também! Você quer sair daqui, seu tarado! Veste isso, Clarice!
– Preciso ir pra casa. Cadê minhas roupas, Soph?
– Você não vai a lugar nenhum!
– Não vai me dar ou quer que eu saia assim?
– Você não teria coragem.
Clarice saiu pelada pelo hospital, quer dizer, estava de
calcinha, se é que podemos chamar “aquilo” de calcinha.
Estava mais para um miúdo pano transparente na frente
e um fio atrás.
– Adoro o que faço − suspirou o enfermeiro.
Sophia correu atrás de Clarice com um cobertor e a
cobriu.
– Clarice, por favor, não é hora de ser você. Pare e me
ouça, que a situação é grave.
– Eu sei muito bem disso, Sophia. E sei também que a
minha família deve estar surtando uma hora dessas e você
sequer ligou para eles para dar uma satisfação!
– Desculpe, mas eu não sabia o que dizer e teve tanta
coisa pra resolver: policiais me fazendo perguntas o tem-
po todo, e ainda tive que ligar para os pais da Rafa para

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amiga. – Claro que não. por favor. o que era um problema. Agora vai. 32 anos e nada de conteúdo. Agora. nem si- nais de luta. Sra. ela amava o velho marido. – O que aconteceu. que tinha 89 anos quando se casaram. simplesmente nada. Ele morreu aos 92 no ano passado. não há digitais. Diferente do que saía nas revistas. Era desprovida de qualquer tipo de conhecimento mais profundo. mas não entendia nada sobre arte. – É. dar a notícia. Soph? Quem fez aquilo com a Rafa? – Ainda não sabem. – Que bizarro. volta para aquele quarto. e ela ainda sofria com sua morte. mas era intensa- mente sincera e amiga. – Ok.75m. me desculpe. Não havia sangue. 22 Kerata MIOLO 14X21. – Desculpe. As câmeras da rua não pegaram nada. Zuleide. Investia em artistas e ga- lerias de arte porque era algo que o ex­‑marido gostava e porque lhe caía tão bem quanto as joias caras que usava. Uma perua chique de quase 1. O que tá olhando. seu tarado? Aff. apesar de que não podia ver uma barbicha que logo se engraçava. – Só se me der minhas roupas e meu celular. Era a dona do ateliê. Deixava Clarice comandar. mas sua filha apareceu aqui no trabalho sem o cérebro”. você acha que o mundo gira em torno de você. na hora que bem entendesse. Você tem noção do que é isso? Ligar pra uma mãe e dizer: “Ah. por- que Clarice era indomável e fazia o que queria. nada. não pensei nisso. ain- da mais essa! Sophia era uma daquelas mulheres viúvas ricas que herdou tudo do marido.indd 22 02/06/2017 18:57:41 .

– Bom. elegante. pensava Sophia. parece estar tudo bem. Ele é gostoso mesmo. Posso ir embora? – Claro. pegou o estetoscópio e auscultou o coração. não conseguiu controlar seu sexo. vou pedir os exames. – Que bom que acordou. mas por precaução. – Pelo menos ela tá vestida − o enfermeiro comentou. Sophia! O cara já estava envergonhado com você secando ele. Sua funcionária foi assassinada e você consegue pensar em sexo? – Ai. quase esbarrou no enfermeiro que estava entrando. apesar do momento fúnebre. Ai. o que posso fazer? Clarice pegou a bolsa e saiu do quarto. eu não tenho culpa. dotô. branquinho de cabelo preto. Estou substituindo a dou- tora Isabella. Sophia correu atrás.indd 23 02/06/2017 18:57:41 . o enfermeiro vem aqui colher o sangue. apontando para os olhos dela. O médico do plantão entrou no quarto. vem colocar esse estetoscóptero em mim. perdão. doutor… – Ah. só preciso fazer uns exames e te dou alta. A senhorita passou muito tempo desa- cordada. Como se sente? – Presa. Charmoso. que só faltou pular das cal- ças e agarrar o médico. Sou Marcello. Licença − disse. Licença. – Meu Deus. deveria ter quase 1. pode ser? – Não. de novo.70m. era forte. Sophia. aproximando-se de Clari- ce. 23 Kerata MIOLO 14X21. Pegou o iPhone e ligou a lanterna. – Psiu! Clarice! Pode sim. Clarice. Em seguida.

Clarice! Clarice! Aonde você vai? – Você tem noção que minha avó pode estar morren- do agora de tão preocupada? Olha aqui quantas chamadas dela – falou. No carro. apontando o celular na cara de Sophia.indd 24 02/06/2017 18:57:41 . – Hummm. eu prometo que volto pra fa- zer esses exames e o que mais você quiser. Conti- nuou andando até chegar à calçada do hospital. acionou o alar- me. me leva pra casa. Clarice disparou com Sophia para casa. Tá vendo porque você precisa ficar e fazer os exames? – Amiga linda. o celular começou a tocar. preciso ver minha avó. – Tá bom. – Eu te trouxe. mas please. que logo o trouxe. Sophia! – E o Davi ligou umas 60… – Cala a boca! – Com a chave na mão. Davi ligando pra você? 24 Kerata MIOLO 14X21. por favor. não. vai. droga! Minha avó me ligou 30 vezes! Trinta vezes. seu tarado. – Está procurando por isso? – Eu vivo esquecendo a chave desse carro. Soph. não – tagarelou aflita enquanto rodopiava elegantemente na calçada. grunhiu com raiva. o celular vibrava. – Não sei o que seria de mim sem você. Hoje é o dia. – Ah não. Procurou a chave do carro na bolsa. Era ele. Que baru- lho é esse? – É meu celular que não para de vibrar. não. Foi quando percebeu que estava sem carro. Aliviada. – Cala a boca. Sophia pediu o carro ao manobrista. Clarice. não. saco! – Um dia você vai acabar perdendo de vez.

eles devem estar muito preocupados. Toda derretidinha pelo médico. – Nem me fale. né? Sou boba não. Ficaria ali para sempre. Gosto de fazer o que quero na hora que tenho vontade. cara. olha só quem tá falando. – Quem disse que eu dormi com ele? – Óbvio. entende bem isso. não a deixaria fugir. – Tava sonhando acordado. Davi estava em um bar próximo à universidade. – Quando você vai aprender. Clarice? Esse rapaz é louco por você. – E parece que ligou o dia inteiro. viu. Seu corpo era tomado por um êxtase estonteante só de lembrar que há poucas ho- ras estava dentro de Clarice. né? O cara te ligando assim sem parar? Você com essa camisa de homem? Juntei os pontos. Quero ver minha avó.indd 25 02/06/2017 18:57:41 . Naquele momento eu estava afim. to- mando doses de lembranças. – Ih. e daí? Foi só uma transa. saboreando seu gozo e arrancando­‑lhe gemidos que soavam como melodia ao seu ouvido. tsi. acorda! – Opa! Fala. – Sei não. E dormir com ele? Tsi. tsi. acho que nem vou conseguir dormir hoje. Depois falo com o Davi. – Não vai atender? – Depois eu retorno. meu amor. meu vô. Realmente não foi uma boa ideia. puxando a cadeira para seu amigo. Cauê. mano? 25 Kerata MIOLO 14X21. Só você não enxerga isso. E você me conhece. – Só consigo pensar nos meus avós agora e naquela cena terrível de hoje de manhã. senta aí – disse. não tô com saco pra drama ado- lescente. Ele é homem. – Davi! Davi! Ei. hein. sou vira­‑lata.

Cauê. 26 Kerata MIOLO 14X21. Aí eu… – E aí. Davi. Cauê? Eu es- tava pensando na noite maravilhosa que eu tive com… Adivinha? – Eu sei lá. meu velho. ela estava desenhando. Tenho uma prova importante amanhã. mano. mano? − Cauê levantou­‑se da cadeira e puxou o namorado secreto de canto. – Então fala quem foi. – Aha! A Wanessa não foi. Com a Rebeca? – Não. – E como foi isso? – Bom. tentando desenhar. – Larissa? – Não. seu louco. Serjão. Vamos rachar uma cervejinha.indd 26 02/06/2017 18:57:41 . – A Clarice. – Prova de quê. Senta aí com a gente. – Não acredito! A Clarice deu bola pra você? Conta outra. Os olhos brilhavam de felicidade. – Eu lá sou homem de sonhar acordado. A realização estava estampada em seu rosto. – Não dá. a gente se encontrou por acaso num restau- rante. gente boa? Tudo tranquilo? – Fala. safadinho? – Não! – Essas são as únicas mulheres que você conhec… não me diga que você agora tá jogando no meu time! – Claro que não. rapaziada. – Pois pode acreditar. aliás. A Clarice.

não me retornou. – Meu celular! Tomara que seja… − O semblante caiu ao ver que não era a Clarice. – Oi. mas sim a namorada. – Por onde foi que você andou. – Então… – A gente se vê hoje? Eu preparei uma surpresa pra você. – Hum. Também não respondeu às minhas mensagens e e­‑mails. Falou. você ia dizendo… – retomou Cauê. − Cauê respondeu propositalmente aos gritos para deixar claro que ele gostava da fruta. verdade. A sua mãe… – Você ligou pra minha mãe?! – Claro! Você sumiu o dia inteiro. 27 Kerata MIOLO 14X21. Serjão. não. – A prova do concurso que te falei. − Aparece lá na praia pra gente curtir umas ondas. Davi? Eu te liguei o dia inteiro e você não me atendeu. Sérgio baixou o tom de voz e sussurrou para o “ami- go” ao reparar no jeito estranho de Davi. – Sim. sei. só tive um dia cansativo de trabalho. Vai que aconteceu um acidente. Eu estou preocupada. E você sabe que sempre ponho o celular no silencioso quando estou corrigindo provas pra não ser incomodado. você foi sequestrado. Pri. – Ah. mal de mulher. muitas provas pra corrigir.indd 27 02/06/2017 18:57:41 . Eu estou bem. – Hoje não dá. sei lá. Priscila. Priscila. Priscila − disse em tom sacal. acabei perdendo a hora. – O que tá rolando? – Não liga pra essa alma. – Não exagera. falou? – Tô precisando. Sabe como é.

amor. – Queria que fosse Clarice do outro lado. e quando ele se dava conta. cara. Tá o maior mistério. não para de passar isso na TV. Davi havia tentado inúmeras vezes. mas não era a Clarice. estava fodendo a ga- rota com muita vontade. cara. você não lê jornal? – Por quê? – Então. 28 Kerata MIOLO 14X21. Bizarro.indd 28 02/06/2017 18:57:41 . A gente se vê amanhã. nós tivemos uma noite incrível ontem. – Então. – Se conheço! – Liguei pra Clarice o dia inteiro e ela nem pra me atender. pensei que soubesse. Te amo. – Pri? – O que houve com “amor”. – Beijos. – Não sei mais o que fazer com a Pri. – Tudo bem. Disso ele não podia reclamar. Sempre que eu tento ela inventa uma desculpa. Cauê. você conhece a peça. – Ih. ela era gostosa e chupava seu pau como nenhuma outra mu- lher. Tiraram o cérebro da mina. fala do começo. Ela chorava. cara? Pera. mas foi um desperdício de discurso. – Oi? Assassinato?! Conta isso direito. mudava de assunto. cara. mano. parece que o seu corpo deixa de ser seu? – Ih. – Não é tão fácil assim terminar com ela. houve um assassinato no ateliê onde a Clarice trabalha. Poxa. “minha linda”. Sabe quando você sente algo diferente. E outra. Priscila não era uma mulher fácil de se terminar um relacionamento. “minha flor”? – Só estou cansado − hesitou −. sei disso não. vocês ainda estão nessa? Seja homem: termina. ora. – O quê? Como assim.

Sophia vez por outra intervinha. nada. revivia aque- la cena. a mina foi morta e você pensando se a Clarice te ligou ou não. So- phia se despediu depois do jantar. Sem o cérebro. a cabeça aberta de sua amiga. Percebeu o quanto amava aqueles velhi- nhos lindos. De- pois você fala com ela. bizarro. gentis e 29 Kerata MIOLO 14X21. O pior é que não tem pista nenhuma. nem pra me avi- sar? Ouviu toda a minha dor de cotovelo. Clarice estava com seus avós. uma funcionária do ateliê. a Rafaela. mas não con- seguiu dormir. sabe? Aquela ilustradora. totalmente vazia. Sempre foram pais para ela: espertos. – Sei. mano. Ficou observando eles dormirem. mesmo com o horror estampado na face dos avós. aos prantos. – Por isso a Clarice não me ligou. Foi melhor ter ido para casa porque recebeu o apoio da família. – Se liga. – Então.indd 29 02/06/2017 18:57:41 . ela apareceu morta. – Verdade. hein. Levantou­‑se e foi ao quarto dos avós. – Tá doido? Ela deve tá super mal com tudo isso. – Os dois riram. – Tinha esquecido. que animal faz isso? – Pois é. – Tem razão. Sentiu­‑se acolhi- da. sei. – Puta merda. sequer lembrava­‑se da existência de Davi. Não tinha sangue. – Tem que parar com a maconha. Sempre que fechava os olhos. – Vou lá ver a Clarice. Contou toda a história. digitais. Mas você também. Clarice pediu a bênção dos avós e foi se aninhar em sua velha cama. – Então.

de surpresa. Pegou um quadro de sua mãe e ficou admirando. mãezinha? Tão talentosa… Será que um dia chego aos seus pés? No quadro. Imaginava se seus pais bio- lógicos eram assim também. vem cá. Com certeza você já teria milhares de ideias e soluções. será que ele era tão sábio e bondoso quanto o avô? Gostaria de tê­‑lo conhecido. Clarice se despediu da avó. vou fazer um chá.indd 30 02/06/2017 18:57:41 . imaginando o que ela faria em seu lugar. perdão − sussurrou. os avós preservaram todos os detalhes. uma assina- tura se destacava. – Vovó. – Esse aí não perde o sono por nada nesse mundo. Vamos. Sua avó acordou. O assunto era quase proibido. 30 Kerata MIOLO 14X21. Clarice acompanhou sua avó até o quarto. deixa eu lhe dar um cheiro. Tomaram o chá e conversaram até serem pegas. Tomou um banho quente e voltou ao quar- to onde havia passado boa parte de sua infância e ado- lescência. mas seus avós mudavam de assunto toda vez que perguntava algo a respeito. minha gostosura. – Uau. pelo sono. agora que tinha uma cena tenebrosa em sua mente e uma ideia brilhante para pensar. mas tinha esperança de um dia encontrá­‑lo. não antes de garantir que ficaria bem. apesar de borrada: Debret. com bons conselhos na manga. – Riram baixinho. Principalmente seu pai. da porta dava para ouvir o ronco do avô. – Magina. Tudo estava do jeito que tinha deixado. pequena. não é. Também não estou conseguindo dormir.

indd 31 02/06/2017 18:57:41 . tintas e um coração impenetrável. discipli‑ na e horas de treino e estudo vão consertar este sujeitinho. que historicamente expressava a essên‑ cia artística francesa. O que está pensando. é isso? Debret rasgou o desenho do filho e o ergueu friamente pelo pescoço e o suspendeu no ar. Um acompanhamento regrado. Em seguida. Na idade dele eu já fazia prodígios. Miguel Baptiste Debret encarava os rabiscos de um sol mal feito que o filho desenhara desajeitadamente. forem semelhantes às pinturas das cavernas. sem conseguir imaginar como um ser desprovido de talento carregava seu sobrenome. 31 Kerata MIOLO 14X21. mas aí está. Ah. papéis. se é que chama isso de desenhos. hum? Em me envergonhar? Em sujar o nome da nossa família. o largou lá de cima. o nome da família. uma criaturinha sem a menor habilidade. 4 frieza Lápis. tanto que pedi. implorei a Deus para me dar um herdeiro que levasse nosso nome de geração em geração. – O que você acha. roguei. Olha‑ va para o filho com repúdio. papai? – Não ouse me chamar de pai enquanto seus desenhos.

tam nam nam ram. insolente. que se achegava para entoar notas de uma melodia profunda. com seus 2. de algum modo. sem qualquer ritmo ou sentido aos corações mais alheios. Suas cortinas bran- cas voavam ao vento. tam nam. você não lembra? Você é mesmo uma decepção! – disse friamente. Sua mãe correu ao seu encontro e o envolveu com braços de amor. Como algo tão belo. faziam parte daquele sublime instrumento fabricado no início do sécu- lo XX e cuidadosamente herdado por ele de seu avô. vamos! O que está esperando? Eu ensinei ontem para você! Tam nam. tão amável poderia ser tão tempestuoso e cruel? O salão possuía grandes janelas arqueadas que se espalhavam aos pares aos quatro cantos daquele lugar. 32 Kerata MIOLO 14X21. reinava imponente. – Debret! Debret! Ele é só um menino! – Correu a mãe ao encontro do filho. tam tam. O piano engolia o menino numa de- licadeza brusca.indd 32 02/06/2017 18:57:41 . vamos. quase cuspindo. tam nam nam ram. – Nocturne. sua cauda distante era a representação perfeita da relação entre ele e o pai. O piano agora era palco de lágrimas que escorriam copiosamente dos olhos melancólicos de um menino de apenas seis anos de idade. – Eu não me lembro… – Ah.90m de puro glamour. – Eu era um menino quando compus minha primeira sinfonia! Arrastou o filho pelo braço até o grande salão onde o Bösendorfer Imperial. mas um tapa a fez rodopiar e cair ao chão. e se retirou. Colunas ornamentadas se er- guiam paralelas às janelas e. você sabe.

A mulher viu o menino e se assustou.indd 33 02/06/2017 18:57:41 . – Esse. A passos largos. você é incrível e fará coisas incríveis. Olhou pela fresta da porta e viu a bunda branca do seu pai mover­‑se numa velocidade feroz enquanto duas pernas tremiam no ar. Puxou­‑o para dentro às gargalhadas. fotógrafos e artistas que vinham apreciar a boe- mia ao lado de amigos. um som opaco acompanhado de gemidos até então estranhos aos seus ouvidos. Foi ao quarto da mãe. O ruído transformava­‑se em pancadas violentas. Não importa o que o seu pai diga. Subiu vagarosamente as escadas. – Você é meu príncipe. de 33 Kerata MIOLO 14X21. que chorava de joelhos sobre um tapete carmesim. é meu talentoso filho. entendeu? A casa era constantemente frequentada por músicos. alcançou­‑o no limiar da porta. perfeito e talentoso à sua ma- neira. Ele agarrou­‑lhe pela nuca e a trouxe para junto de sua boca. Pedro ouviu ruídos estranhos vindo do grande salão. O menino. Outra mulher pairava seu sexo sobre a boca daquela que recebia o órgão fervente do pai. Debret era outro homem na frente deles. O pai imediatamente virou­‑se e viu os olhos do filho sumi- rem. onde enfiou sua língua pegajosa. Mostrem para ele como um artista deve ser tratado. meninas. Elas deram risadas agudas e sem qualquer censura chuparam o longo e duro órgão de seu pai. imó- vel. Certa vez. herdeiro do meu nome. Era tarde da noite e mesmo assim não era possível ouvir o costumeiro ronco do pai. pintores. dava gargalhadas contagiantes e sempre tinha algu- ma piada sobre americanos ou algum elogio para tecer às atrizes que o cortejavam deliberadamente.

fechou os olhos. sabia que aquilo era errado. Correu e saltou aos tropeços pela escada. por reflexo. ouvindo as risadas daquelas mulheres se dissiparem aos poucos. nem mesmo se aquilo lhe custasse a vida. 34 Kerata MIOLO 14X21. O pai gritou para que ele abrisse os olhos e visse o que faz um homem de verdade. Juntou­‑se à mãe e desejou nunca mais ver o pai. Espero que ele morra! E acreditava que ele realmente mor- reria só de desejar sua morte. algum modo. e como que. O me- nino não conseguia obedecer.indd 34 02/06/2017 18:57:41 .

Clarice os detestava. diferente das roupas que es‑ tavam lá. Se ao menos pudesse ver alguma coisa! Tateou cegamente até tocar em algo pegajoso. estava de pé. mas aconchegante. Havia um guarda‑roupa de acácia levemente desbotado. a única coisa palpável era a própria negritude. principalmente quando 35 Kerata MIOLO 14X21. se esticasse as mãos. seu vô acabou de fazer café. o mundo se encheu com um forte aroma de café. de repente. fazendo um barulho chato quando alguém pisava. Estava ferida e só percebeu quando tentou se levantar. Um ruído inesperado quase a fez saltar de sua pele e. Por mais que se esforçasse para enxergar. 5 perguntas A escuridão tomava conta de tudo ao seu redor. O piso também era de madeira. – Acorde. O quarto era simples. poderia tocá‑la. mas ex‑ tremamente conservado. todas fedendo a mofo. mas foi empurrada ao chão por uma fisgada profunda e aguda em suas costas. Não era exatamente o melhor lugar para se segurar.indd 35 02/06/2017 18:57:42 . tão densa que. pequenos blocos retangulares falseavam em seus lugares. depois de muito esforço. mas deu um jeito. Logo. minha pequena.

– Não lembrava de como essa cama é gostosa. era pequena e aconchegante. também feita de acácia. Certo dia. pagava a escola de Victória. Neide não queria perder o emprego. que há muitos anos recebiam pôsteres de bandas famosas. chegava tarde de suas festas. – Café. também os odiava. Sabe que horas são? – Quase 10h30. As paredes. agora revelavam uma cor salmão suave que precisava de retoque.indd 36 02/06/2017 18:57:42 . mas mesmo assim eles faziam questão de dedurá­ ‑la. O colchão era macio e abra- çava Clarice de um jeito que era difícil sair de lá. tinha um carinho enorme pela empregada e a filha. Dna. sua filha. 36 Kerata MIOLO 14X21. com ele. Por isso Clarice assumiu a culpa e ficou dois meses sem ver televisão. demorou para entender que estava na casa da avó e não na sua. – Jura?! Só aqui mesmo para eu dormir tão bem. Dna. – Que cheirinho bom. Clarice abriu os olhos com dificuldade. do jeitinho que você gosta. Era uma tortura acordar todos os dias tão cedo para ir à escola. Caminhava na ponta dos pés. A cama. Voavam facilmente ao mais leve toque da vassoura. avó de Clarice. A faxineira. Nunca se arrependeu disso. mas ter o mimo da avó era me- lhor que tudo. Neide. Foi um chororô. vó. – Então por que você não volta? Pelo menos economi- za com aluguel. Por um momento sentiu falta daquele raio de luz que sempre a despertava pela manhã. que era qua- se uma irmã. um deles voou e acertou em cheio um dos vasos preferidos de Estela.

esqueceu? Será às dezes- seis horas. sempre independente. mas continuo achando que lugar de bicho que tem asa é no céu. ajudando­‑a a ficar de pé e deu­‑lhe um abraço. Sophia vem almoçar com a gente e vamos todos juntos para lá. a polícia está lá investigando tudo. é bom ter a minha independência. mas também não pe- dia ajuda quando precisava. – Tinha esperança de tudo isso ser apenas um pesadelo! – E tem o velório da Rafaela. – O café vai esfriar.indd 37 02/06/2017 18:57:42 . senão vou me atrasar mais ainda. puxou sua avó pelas mãos. As duas caminharam para lá. suco de laranja. mocinhas – falou o avô. Havia café fresquinho. minha filha. pode esquecer. fazia os deveres só. Se lembra do dia que invadiu o quintal do vizinho e libertou todos aqueles periquitos? – Lembro. – Tinha esquecido. sim – disse gargalhando –. 37 Kerata MIOLO 14X21. – Você sabe por que. manteiga e um bolo de fubá. Ia sozi- nha para escola. – A senhora é a coisinha mais linda desse mundo! Va- mos tomar café. presunto. vó. leite. convidando­ ‑as à mesa. Sophia ligou e pa- rece que o ateliê agora é cena de crime. meu cantinho… – Você. Está fechado. queijo. né. Para quê mais teriam asas senão para voar? Clarice saltou da cama. Não estou normal. desde criança. – E lá em casa tem só bolacha de água e sal. vó? Aqui fica muito longe do ateliê e o trânsito é daquele jeito. – Atrasar pra quê? – Trabalho. né. mas não só por isso. pães franceses ainda quentinhos. vó! – Ah.

Desculpa vir sem avisar. Teria um dia duro. genial. Clarice. é da Sophia que estamos falando. Podem entrar. Abriu a porta e deu de cara com dois policiais. lembrava que era questão de vida ou morte criar algo diferente. que derreteu com o calor do pão. vó. – Mas ela disse que só viria para o almoço. Quem teria feito aquilo? O café foi interrompido pela campainha. mas como a senhora… – Senhora não. Íamos fazer isso on- tem. acabei de trazer da padaria. Tá vendo por que deveria voltar? – Dessa vez quem falou foi o avô enquanto beijava­‑lhe a testa para. Sua chefe. Como passou mal. não. mas sentia que estava ali. – Até parece. Clarice. em seguida. Clarice encheu sua caneca de café. Tem que comer. – Ah. pegou um pãozinho e passou manteiga. – Tem pão quentinho. como a morte de sua amiga. Sophia – era esquisito ouvir que Sophia era sua chefe − nos deu o endereço. – Ah. Precisamos fazer algumas perguntas. Clarice. não pode fazer isso. – Perdão. tudo bem. latente em sua mente. Sra. Ao mesmo tempo. Certa de que era Sophia. Não precisava de mais nada. aquela cena era insistente em sua cabeça. mas não sabia o quê. esperamos a senh… você se recuperar. nem como. E é sobre isso que queremos falar. mas a senhora não atende ao celular. pequena. roubar uma bitoquinha de sua velha companheira. – Bom dia. por favor.indd 38 02/06/2017 18:57:42 . Já pegaram o maldito? – Na verdade. 38 Kerata MIOLO 14X21. – Deve ser a Sophia. Clarice sequer olhou pelo olho mágico.

vieram ver a Clarice. Estela ficou surpresa − Olha. sim. por enquanto: sangue. – Sabe se ela tinha algum inimigo? 39 Kerata MIOLO 14X21. – Aceitamos. sinais de luta ou qualquer digital. vó. não temos suspeitos efetivos porque não há pistas. Os policiais… – Ah. veinha? – São policiais. – Como era o relacionamento entre vocês? – Éramos muito amigas. Rodolfo. claro. O que quero dizer é que. E esse é meu parceiro. uma amizade gostosa. sempre saíamos juntas. pera. Roberto. – Então. podem começar. Estamos aqui para fazer algumas perguntas. – Quem taí. O nome dela era Rafaela. Clarice. Rafaela estava em sua sala e… – Não. todos que têm acesso ao ateliê. Cadê a Sophia? – Não era ela. – Tudo bem. Prossiga. se não se importa… – Claro. Também não encontramos hematomas pelo corpo. – Claro. são policiais. Estela. foi junto para ajudar. – Ah. Vocês querem café? Acabei de fazer. – Pegaram o assassino? – Ainda não. neste caso. todos são suspeitos. Jorge. – Sophia. – Como sabe. – Jorge foi buscar e sua esposa. – Perdão. sim. até a mu- lher da limpeza. Está sugerindo que eu sou suspeita? – Todos são.indd 39 02/06/2017 18:57:42 . Es- távamos lá quando desmaiou. eu ainda não fiz o almo… − Dna. – Rafaela.

indd 40 02/06/2017 18:57:42 . – Pode provar isso? – Claro. e muitos amigos. sabe? Podem ver isso no celular dela. queremos ajudar. – Entendo. Rodolfo? – Entendo. como qualquer mulher bonita. – Se importa se ficarmos com o seu celular? – Se tiverem um mandado. Ele fode bem. tinha fila de pretendentes que a flertavam. Por isso acredito que tudo isso seja um grande equívoco por- que não faz o menor sentido. Por um momento ficou aliviada de ter transado com ele. não. – Trouxemos açúcar e adoçante. – Estamos analisando as mensagens do WhatsApp. Rafa era uma mulher apaixonante. – Podemos pegar o número dele com você? – Claro. E onde estava na noite do crime? – Em casa. – Pãezinhos também. – Clarice pegou o celular e ditou o núme- ro. Então ela era muito cortejada? – Sim. – Quando foi a última vez que chegou ao trabalho e encontrou sua amiga sem o cérebro no tapete da sala. – Está aqui o café. também se lembrou de como tinha sido gostoso. – Só queremos resolver esse caso o mais rápido possível. Mas não somos inimigos aqui. ela não tinha bem um namorado. – Impossível. Tinha uns casinhos. 40 Kerata MIOLO 14X21. senhores. – Sabe de algum namorado? – Hum. estava com o Davi.

aqui mesmo em sua presença para confirmar a história antes que tenha a oportunidade de falar com ele. – Sabe onde estava Clarice na noite do crime? – Quê? Que pergunta é essa. Clarice.indd 41 02/06/2017 18:57:42 . Clarice na linha. fiquei sabendo dessa história bizarra. – Se não se importa. Atendeu imediatamente. – Hum. onde está Clarice? – Calma. senhor. – Mas que absurdo! – Vô. não é a Srta. Estela e Jorge se sentaram ao lado de Clarice e acom- panharam o restante da entrevista. mas queremos só o café. O telefone de Davi chamava. então todos são suspeitos. vô! Calma! – Clarice explicou rapidamente a si- tuação antes que Jorge se exaltasse demais. pequena? – questionou o avô. tudo bem? – Tudo bem. muito obrigado. – Clarice. senhor. cara? Você está louco? Perdeu o juízo? É da Clarice que você está falando! – Se acalme. vamos ligar para o seu amigo. Sou Rodolfo. Como você está? – Olá. policial. Não há evidências no caso. Pode apenas me responder sem levar para o lado pessoal? 41 Kerata MIOLO 14X21. Ele mal pôde acreditar que era Clarice. Só quero fazer uma pergunta. – Eles acham que sou suspeita – respondeu Clarice com certa frieza. – Policial? Ué. – Obrigado. – O que está acontecendo. minha linda.

sua mãe se agarrava ao caixão e gritava. Muito obrigado e me desculpem o incômodo. Queria tanta coisa: ser reconhecida. ligou imedia- tamente para Davi. Partiram para o velório. – E onde estavam? – Na casa dela. Clarice não parava de chorar. Depois que isso passar eu vou encher a cara e dançar até me acabar. por exemplo. as câmeras do elevador ou do estacionamento. estávamos no bar antes de ir para casa. almoçaram todos juntos. Alguém pode confirmar que estavam juntos? – Claro. – Obrigado. As horas se arrastaram. mas não sabia por onde começar. assim como os avós e Sophia. Queria mudar. Foi 42 Kerata MIOLO 14X21. Sophia chegou. que foi realizado em uma capela simples dentro do cemité- rio. Em seguida.indd 42 02/06/2017 18:57:42 . Clarice arriscou cochilar depois de comer. Davi estava ao seu lado. Sentiu uma incrível necessidade de mudança. – Ela estava comigo. Clarice? – Ela balançou a cabeça negativamente. – Então nós já vamos. Parecia que nunca chegaria o mo- mento de ir ao enterro. Vamos nos encontrar em breve. É só entrar com ação judicial e pedir essas informações. Mas que pergunta é essa? Que desaforo! – Senhor. mas não conseguiu. por favor. Desculpou­‑se brevemente e falou que logo mais o encontraria e conversaria melhor com ele. – Depois ligo. Deseja falar com ele. peço que se acalme. – Magina. A família de Rafaela esta- va acabada. Clarice os levou até a porta. Tem o porteiro. Davi ficou aliviado e pegou o endereço do velório com ela. uma referência no mundo artístico.

Por sempre estar diante de espaços vazios e pessoas que deveriam estar lá. me leve primeiro. Clarice permitia­ ‑se viver e sentir tudo o que a vida lhe apresentasse. foi sumindo e a terra negra tomava seu lugar até desaparecer por completo. nunca mais a ve- ria dançar até o dia amanhecer ou ouviria suas lições de moral sobre o amor. nunca mais poderia ligar para ela quando quisesse desabafar. uma artista! Quem faria isso? Uma lágrima fugiu de sua alma. Uma lágrima que a fez pensar sobre si mesma. quase impossível o padre terminar a ministração. Deus. talvez a última. de repente deixar de existir? Nunca mais ou- viria Rafaela. sobre os próprios pais e avós. sobre tudo. Prefiro ir primeiro. O caixão. Por fa‑ vor. céu e perdão de pecados. clamou em silêncio. gentil. Acreditava que a experiência cotidiana um dia lhe traria aquele estalo criativo que tanto sonhava. talentosa pra caramba. Clarice não aceitou aquilo. que até ontem estava ali. aos poucos. Perdão? Clarice queria justiça. nunca mais sua risada gostosa encheria seu escritório com a alegria contagiante. Como poderia alguém. chata muitas vezes. a vida. mas não estavam. em sua homenagem. que era algo sobre a vida. 43 Kerata MIOLO 14X21. criativa. Mas ainda era sexta­‑feira e de uma coisa ela estava certa: Rafa cairia na pista e ela faria isso também. Será que Deus perdoaria o animal que fez isso? A ministração acabou e todos caminharam até a se- pultura. E quando chegar a hora deles? Não vou aguentar ver meus velhinhos partirem.indd 43 02/06/2017 18:57:42 . Talvez vingança. Era linda.

e o riso forçava arrebentar seus lábios avermelhados. fã do Sr. estou assim. – Você está perfeita. Olha. Debret. É só uma noite. 6 indigestão Uma rua estranhamente silenciosa unia-se ao tédio de uma vizinhança tão fria quanto o vento que chicoteava o rosto dos corajosos que ousavam colocar os pés lá fora. por fa‑ vor. – Você não está me levando a sério. – Ele chegou! – animada. por favor. caindo na gargalhada. – Por que está tão nervoso? Nem eu.indd 44 02/06/2017 18:57:43 . – Por favor. prometa que não irá exaltá‑lo tanto. Meu Deus! Você está tremendo – disse Agnes. Vai dar tudo certo. insegura. – Perfeita demais para mim. O estômago de Pedro transformou‑se em água. como se fosse o padeiro da esquina. Vai passar rápido. olhou‑se mais uma vez. suando frio. Haja normalmente. Agnes correu para o espelho. 44 Kerata MIOLO 14X21. disse a si mesmo. meu pai não é bem quem você… Ouviram alguém bater na porta. – Palavra de honra – ela disse pairando uma mão no ar. enquanto a outra pressionava o peito esquerdo. por favor – implorou Pedro.

toc. Pedro respi- rou fundo. As batidas pareciam urgentes e. juntos. – Ah. cubismo e surrealismo. invadindo a casa an- tes mesmo da porta se abrir por completo. Em poucos se- gundos pôde perceber que não estava em qualquer lugar. Cortês. Seus olhos percorreram o vão da sala. não poderia culpá­‑las. – Agnes. parecia outra pessoa enquanto beijava a mão de Agnes. me chame de Miguel. pai. finalmente – soltou Miguel. querida. – Ah. apesar de um leve aspecto abatido. Toc. Isso o interessou. minha mãe! A senhora está simplesmente deslumbrante. já falei. – Mademoiselle. Pedro? Miguel fez um arco com seu braço e pôs gentilmente a mão de Agnes dentro dele. você está sendo gentil.indd 45 02/06/2017 18:57:43 . – Perdão. das grosserias de seu pai. Pedro pendurou o casaco do pai e cumprimentou a mãe. Pedro. mas na casa de pessoas ricas e apreciadoras das belas ar- tes. tendo em vista os inúmeros quadros de artistas do barroco. toc. foram abrir a porta. Debret. que es- tava magnífica. – Uau. Sr. – Ah. – Quem não está? 45 Kerata MIOLO 14X21. – Sr. com o frio que estava lá fora. Debret. – A palavra escorregou de seus lábios como uma de suas notas musicais. deu a mão para sua namorada e. Pode pegar meu casaco. – Pensei que fosse congelar. princi- palmente a bela moça à sua frente. Estou cansada. ignorando todo o resto. na verdade.

vivem viajando. O vinho também estava impecável. O jantar estava surpreendentemente agradável. Principalmente o fato de Agnes ter sido a co- zinheira. Por que não estão aqui com você? – Ah. sabia que o Pê é um excelente… – Preciso ir ao banheiro – Debret interrompeu. é logo ali. Ele realmente consegue ser uma boa pessoa quando quer. Espero nunca tomar seu precioso tempo contando­‑a. – Bom. meus pais são envolvidos com política. Nossa vida poderia ter sido sempre como este jantar. minha querida. – O que deu nele? – Ah. – Entendo. Debret. faz bem. ele que tem me ensinado muitas coisas. Vejo que terá muito o que ensinar ao meu fi… ao Pedro. a conversa fluía naturalmente. pelo menos ele gostou da moça. tudo parecia impressionar o Sr. – Olharam e viram Agnes e Miguel rindo enquanto apontavam para um quadro de Dalí. Da entrada ao prato principal.indd 46 02/06/2017 18:57:43 . pensa- va Pedro. Praticamente cresci sozinha e aprendi a me vi- rar desde muito cedo. – Licença. – Conte­‑me mais sobre os seus pais. – Na verdade. é uma longa história. – A noite promete – falaram juntos. – Onde fica? – Ah. A única coisa que precisa saber é que por debaixo desse homem 46 Kerata MIOLO 14X21. Inclusive. levantando­‑se abruptamente da mesa.

pai. É a mesma receita que usei para temperar a minha berinjela. Ainda bem que deu certo com o salmão. Não sei como não tem medo de ficar sozinha aqui – disse Miguel. – Receita da sua mãe? – Ah. calorosas. – Eu adorei o salmão. sim. – Tem uma bela casa. – Quanto talento! – admirou­‑se Miguel. não. que bom que gostou. 47 Kerata MIOLO 14X21. Fui misturando tem- peros até chegar nesse sabor. corando o rosto. retornando ao seu assento. – Ah. não. Precisa ver os quadros dela. – Ela é vegana – interviu Pedro. Está divino! – Ah. – Ah. – Ela também é pintora. – Quantos talentos você tem. – Riu ironicamente. esconde­‑se um ser um tanto quanto neandertal. temos seguranças. eu que inventei. não. uma governanta e Pedro sempre está aqui comigo. querido – interrompeu Clarice. uma artista deslumbrante – disse Pedro. senhorita? Creio que su- portar esse rapaz aí – apontou para Pedro – é o maior de- les. – Então devo ser muito talentosa por suportar você. senhorita. senhor. charmoso e inteligente. – É o que tentei dizer a ela. mas a melhor maneira é descobrir por si mesma. – Suas mãos encontra- ram as de Pedro. também não é assim – falou Agnes constrangida. Agnes. sua mu- lher percebeu e logo interrompeu aquele silêncio. mãe de Pedro.indd 47 02/06/2017 18:57:43 . Miguel sentiu­‑se desconfortável com aquilo.

mas logo os aban- donava pedindo perdão a Deus por tais ideias. Clarice se levantou e correu para a cozinha. – Vamos à sobremesa. – Vá ajudá­‑la. Crescera vendo a mãe apanhar e nunca fizera nada até então. Agnes ergueu­‑se. Sentiu a face queimar. Envolvia­‑se nesses pensamentos com certo prazer. não acre- ditava naquilo que tinha visto. trêmula. não se preocupe. en- quanto sua mão rapidamente empurrava Pedro da cadei- ra.indd 48 02/06/2017 18:57:43 . Pedro estava decidido a espancar o pai até a morte. o rosto bran- co de Clarice avermelhou­‑se. 48 Kerata MIOLO 14X21. Sons de louças caindo tomaram a casa. Para Miguel. – Ah. – Ela enxugou as lágrimas e a olhou nos olhos. Não se preocupe. chorando. claro. – Você fica exatamente onde está. senhor. Rápido. Vou buscá­‑la. Imaginação. apenas. já quase desistin- do. revidou com um golpe fatal. sen. enquanto o ódio tomava conta de suas emoções. Encon- trou Agnes sentada no chão. Um dia ainda vou dar as tripas desse idiota aos cães! Ele imaginara inúmeras maneiras de matá­‑lo. nada havia acontecido. mas ao final da luta. Pedro. Agnes estava perplexa em sua cadeira. Ouviu­‑se um forte estalido e em seguida. Pedro tentou acompa- nhá­‑la. Ele obedeceu. querida. mulher. Come- çou apanhando feio. Seu pai morria afogado no próprio sangue. Agnes estava assustada com a cena que tinha presenciado. Uma vez imaginou que era um samurai e lutava contra o pai. senhorita? – Cla.

suas apresentações musicais em outras cidades. – Pedro é um bom garoto. pai. que não parava de falar de seus feitos.indd 49 02/06/2017 18:57:43 . lembre­‑se disso. os artistas que conhecia etc. Pedro. interfe- rir no amor de vocês. é melhor não continuar com o discurso se não quiser virar um sem­‑teto. filha. Cuide do meu filho e me prometa uma coisa: sejam felizes e não deixem ninguém. Tudo feito por Agnes. Debret. ninguém mesmo. me ajude. Pedro questionava o pai sobre sua atitude. Onde está a sobremesa? – Na ge­‑na­‑ge­‑ladeira. me chame de Sr. va- mos viver o agora. como pode ver. Duvido muito que isso aconteça com o meu Pedro. Sra. – Clarice. já disse isso milhares de vezes. A noite seguiu sem clima para todos. mas ninguém pode saber o que está no coração das pessoas. Aliás. – Xi. E se um dia ele não for gentil. me chame de Clarice. Venha. não pense duas vezes. que se limitou a comer sua saladinha de frutas por evitar alimentos derivados de animais. Debret. Então. Agnes agora entendia perfeitamente o moti- vo pelo qual Pedro ficava tão transtornado quando falava do pai. mas infelizmente eu não fiz uma boa escolha. mas será que nem isso você aprende? Santo Deus! Onde eu errei? Agnes e Clarice apareceram trazendo pudim de leite. exceto para Miguel. À mesa. salada de frutas. Falar mais alto já anuncia uma violência maior no futuro. sorvete caseiro de chocolate e torta de morango. Nem uma noite o senhor pôde agir como o cavalheiro que costuma ser para os amigos. largue­‑o. Merecia um pai melhor. Ela simplesmente estava decepcionada com aquele 49 Kerata MIOLO 14X21. – Uma noite. minha menina.

não che- gue tarde em casa. Miguel? A noite está bem fria. – Pode deixar. toda a comida estava divina.indd 50 02/06/2017 18:57:43 . despedi­‑los e ficar a sós com o seu amor. E. mas se chegar. nesse momento que nós dois es- tamos a sós. Ao fechar a porta. – Estou chocada! Nunca mais quero vê­‑lo! Como sua mãe aguenta? Oh. quem sabe você ensina uns truques culinários para mi- nha mulher – concluiu com uma gargalhada exagerada e solitária. Agora ele não passava de um esnobe e estúpido. querida. – Sim. homem que tanto admirou. finalmente. envolvendo­‑a com paixão. Seu pênis pulsou ansioso por penetrá­‑la. Quem sabe aquela noite pudesse ter um final feliz. Queria pular toda aquela conversa fia- da. Preciso levá­‑la para minha casa. – Por que não me falou que seu pai é um ogro? – Mas eu falei. Vamos. você quem não quis acreditar. Você sabe que meu sono é leve. Pressionava 50 Kerata MIOLO 14X21. tente não fa- zer barulho. Vocês formam um lindo casal. – Eu sei. Pedro. meu Deus! Como você o aguenta? Esse homem é um monstro. tá bom? Foca no aqui e no agora. Pedro a pegou gentilmente pela cintura e colou seu corpo no dela. Despediram­‑se. por favor. Você é uma excelente cozinheira. eu sei. Agnes encarou Pedro com absurda incredulidade. Queria que tudo fosse perfeito. sim. – Obrigada. mas es- tava firmemente decidido a fazê­‑lo somente depois do casamento. mas tente esquecer tudo isso. Tenham uma boa noite. – Senhorita. Beijou­‑a lentamente.

Pedro se lembrava do vestido levemente decotado de Agnes. ouviu o que o velho disse. relevando um corpo definido. pintura. seja ela qual fosse: música. – Preciso ir.indd 51 02/06/2017 18:57:43 . – Ah. – Agnes estava bêbada de tesão. Que beijo delicioso. claro. Preciso pedi­‑la em casamento. trêmula. – Durma bem. Só de 51 Kerata MIOLO 14X21. na avenida bronzeada que havia entre os seios. não sabia. princesa. Havia crescido nesse mundo da arte. Será que ele me teria por uma dessas prostitutas se eu fizesse isso? Os tempos estão mudando. mas o que ela queria de verdade é que ele ras- gasse sua roupa e a comesse a noite toda. nos fios de cabelo em sua nuca e no modo como deixava a boca entreaberta. você tem que ir mesmo – concordou sem graça. Pois é. Mas como poderia casar se nem mesmo tinha um emprego e se quer fazia o que gostava? E o que gostava de fazer? Sinceramente. – Sim. A gente se vê amanhã cedo na faculdade – sussurrou. enquanto beijava­‑a na testa. Seus desejos encontraram­‑se nos sonhos. ambos masturbaram­‑se freneticamen- te pensado um no outro. Ela pensava na forma como a blusa de Pedro grudava em seu abdômen. teatro. Este foi o pensamento que tirou Pedro de seus sonhos eróticos. sim. Naquela noite. Isso a deixou molhada. Deixaria que ele tirasse minha roupa. o corpo de Agnes ao seu e ela podia perceber seu órgão duro. mas realmente não tinha talento nem vontade para seguir uma carreira artística. Dormiria com ele agora. nos olhos incrivelmente azuis hipnotizantes e no pênis duro se esfregando nela. que duraram até o amanhecer. que mal teria? – É melhor pararmos. que me to‑ casse.

realçavam sua beleza melancólica. precoces. que também era artista. Fazia isso com tal vocação e energia. pelo contrário. está atrasado. 52 Kerata MIOLO 14X21. eu sei. O que será que faz de alguém um artista? O que existe de diferente entre um ser humano e outro para que um deles tenha dons artísticos e outro não? Será que é algo que se aprende? Será que posso aprender a ser artista? Duvido. Debret jamais teria olhado para ela. Sua vida se resumia a este conflito. – Seu pai já está lá. e envolver uma mulher era o me- lhor de todos os seus talentos. O café está na mesa. sedutor. sabe como fica quando não se junta à mesa. mas de alguma maneira não a envelheciam. – Eu sei. – Não sei por que ele faz tanta questão de unir a “famí- lia” para comer – disse em tom de ironia. por que não fazê­‑lo? Seu tom era meigo. e Clarice teve a infelicidade de descobrir isso na noite de núpcias. – Ah. Não era um apreciador da monogamia. Vou tomar um banho e já desço. mãe. sim. Depois. afinal. as rugas. Clarice tam- bém não tinha lugar no mundo da arte e. Parte dele queria ser reconhecido pelo pai. mas era só conseguir a presa que logo perdia o interesse. – Filho. não fosse sua beleza. tornou­‑se esse homem estúpido dia a dia. outra parte não estava nem aí para o que Miguel Debret pensava. E tinha Agnes. Era um ho- mem gentil. mas se pudermos evitar um surto da- queles. pensar sentia náuseas. como se houvesse encenado todo aquele romantismo.indd 52 02/06/2017 18:57:43 . enfeitavam sua face.

Mas não foi o mar de rosas que Clarice imaginava. a sorrir publicamente e encenar um casamento feliz quando o que mais queria era gritar e desaparecer. Caso ela se separas- se. Nunca no rosto. porque deixavam marcas explícitas e não queria levantar suspei- tas entre vizinhos. muitas vezes. Por isso será Pedro. O ensinarei a ser um homem de verdade. sofrendo. Tantas mu- lheres magníficas e fui escolher logo você – Debret falava numa violência letal e suas palavras doíam mais que os socos que dava no estômago dela. Ele será gentil. para enfrentar o pai.indd 53 02/06/2017 18:57:43 . – Ele puxou a você. E será forte. Sem falar no orgulho e no papel da mulher no sucesso de um casamento. Clarice dirigiu todas as suas energias ao filho. Debret era violento com o filho. pensava. – Culpa sua! Eu jamais deveria ter plantando minha semente numa enfermeirazinha de quinta. sendo obrigada. ninguém entenderia o seu lado. E o fez: calada. poderia ter puxado a mim. móveis imprestáveis e 53 Kerata MIOLO 14X21. Quando Pedro nas- ceu. Como viveria? Com certeza seus pais não a receberiam de bra- ços abertos. como uma rocha. como Debret nunca foi. mas escolheu você e por isso não é digno de meu nome! – Arrastava o pequeno Pedro pelos cabelos até o velho quarto de quinquilharias. a alternativa era se calar e fazer o que uma boa esposa deve fazer: zelar pelo marido e filhos. livros velhos. seus pais amavam Debret. ja- mais acreditariam em nada do que ele fazia em casa. seria malvista e até exilada da sociedade. prin- cipalmente porque ele não demonstrava nenhum talento para arte. se- ria vã a sua denúncia. onde guardava instru- mentos quebrados. Clarice era orgulhosa. ela seria a causadora dos males.

meu Deus? – Mãe? O que houve? – Nada. – Não. – Por favor. Mamãe. ele é apenas uma criança. achei que não estivessem com fome e tomei a liberdade de jogar fora. por favor. Não está. e sequer poderia ir ao banheiro. Desculpe. moleque. pai. onde mais? Vocês demoraram. – Não.indd 54 02/06/2017 18:57:43 . só uma lembrança ruim. – Onde estão as coisas do café. vamos antes que o café esfrie. sem direito à água. deixa ele aí para aprender. nada. Estou enganado? – Seu filho da puta de uma merda! Como pôde fazer uma coi‑ sa dessas? – enfurecido. Uma lágrima fugiu dos olhos de Clarice com essas lem- branças. Queria dizer umas verdades para o pai. 54 Kerata MIOLO 14X21. comida. Ainda falta muito para que eu descanse para sempre. – Chutou a porta para intimidá­‑lo. Por um momento o passado a agarrou traiçoei- ramente e uma profunda tristeza mudou seu semblante. insetos asquerosos. Pedro segurou o pai pelo pescoço. Largava o menino ali e o trancava o dia inteiro. enfrentá­‑lo. mas era covarde demais para isso. enforcando­‑o. – Seu maldito! – Estou enganado? – A ênfase venenosa resgatou Pe- dro de seu delírio matinal. me tira daqui. Desceram e o café não estava mais na mesa. amanhã estaremos no horário para o café. Debret? – No lixo. Vamos. – Faz seu xixi aí. Debret. – Mamãe. eu preciso fazer xixi – berrava aos prantos. Debret estava em sua poltrona terminando de ler o jornal.

Mas nesse dia havia dois sujeitos di- ferentes. Posso encontrá­‑los às 14h? – Aula. pensaram. – Muito bem.indd 55 02/06/2017 18:57:43 . mas não pude deixar de ouvir a conversa. cirurgias e trauma pós­‑guerra. 55 Kerata MIOLO 14X21. Todo Poderoso da casa em seu devido lugar. Qual o seu nome? – Pedro. Poderia ser fir‑ me e colocar o Sr. Precisam de um assistente. Clarice se despediu do filho com um olhar e logo o viu sair para a faculdade. Já conhecia os passageiros. Não se atrase. às 7h10. quan- do mencionaram a necessidade de um assistente para o consultório. senhor. hum? E o que estuda? – Chego às 14h e conto a vocês. O médico mais alto puxou um cartão do bolso da frente de sua camisa e o entregou a Pedro. – Perdão. Pedro ouvia tudo atentamente até interrompê­‑los. Os médicos o olharam dos pés à cabeça. Ele ficou gentil demais. Pedro pegou o trem no mesmo horário de sempre. é isso? – Isso. – Claro. senhor. Vestiam branco dos pés à cabeça e falavam algo sobre ondas cerebrais. – Às 11h não posso. Pedro Debret. Era um rapaz bem aparentado. – Gostei. Minha última aula vai até às 12h20. senhores. – É melhor não atrasar o almoço. E estou procurando um emprego. que sempre se sentavam nos mesmos lugares. Espero que engasgue enquanto come e morra len- tamente. – Apareça neste endereço às 11h.

Pedro esteve ansioso durante todo o dia. sabe como é a professora de História da Arte. Agnes estava aguardando Pedro na frente da estação de trem. Opa. Pedro saiu feliz. Olhava para o relógio de segundo a segundo. Medicina. – Claro. estava diferente. nem parecia que tinham tido um péssimo jantar. Será? Hum. Pedro soltou a mochila e a agarrou pela cintura. erguendo­‑a para o alto e girando­‑a. – Nossa! Quanta animação. já é um passo para pedir Agnes em casamento. sei. É um bom sinal. talvez seja isso o que eu nasci para fazer. Se conseguir. senhor. enquanto pressionava o joelho de Pedro. mas o ponteiro parecia não colaborar. Parecia uma das doces melo- dias que seu velho pai arrancava do piano. O insuportável sinal que anunciou o final da aula nun- ca tinha sido tão bem­‑vindo. – Aonde você vai? 56 Kerata MIOLO 14X21. Notou a alegria no rosto dele assim que o viu.indd 56 02/06/2017 18:57:43 . senão chegaremos atrasados. mas não conseguia ouvir nada. Licença e obrigado. – Perdão. acho que levo jeito para cuidar das pessoas e não pareço enjoar quando vejo sangue. – Uh. O que houve? – Você. Já deu certo! – Ei. como sempre. Pedro saltou da cadeira e correu alucinado para a estação. quem sabe. Vamos. esta é minha estação. você é motivo de felicidade eterna! Dá aqui um beijo! – Vamos. Tem que dar certo. para de balançar as pernas – sussurrou Agnes. meu amor. Preciso desse emprego. Via os lábios da professora se mexerem.

– O que deu nele? – Sei lá. – Uma droga. Extraordinariamente.indd 57 02/06/2017 18:57:43 . – Te explico depois – gritou enquanto sua voz se dispersava. – Explica – Gisele falou com certa incredulidade. Porém a moça era de uma simpatia apaixonante. Era difícil encontrá­‑la sozinha. Outro dia. boca levemente torta com dentes terrivelmente tortos e amarelados. Gisele era uma jovem de aparência hedionda. E o mais impressionante era que Gisele parecia não se im- portar com sua falta de beleza. estava sempre cercada de amigos. gostavam de estar com ela. Homens… vai entender! – E aí. as pessoas gostavam dela. – Diria até abominável. espe- rando ouvir uma história sem qualquer fundamento. Se Deus realmente existia. Inclusive. Seu rosto não tinha qualquer simetria: olhos gran- des demais para a cabeça pequena demais. um professor entregou­‑lhe um bilhete: Encontre­‑me no banheiro feminino da quadra de es‑ portes às 13h. Bata três vezes. dava vontade de ir ao inferno encontrar o capeta. me conta tudo o que aconteceu no esperado jan- tar com o excelentíssimo Debret. Quando sorria era pior. Ele não tinha sido bom com Gisele. – Como assim? Impossível a presença do mestre das artes ser uma droga. rosto cheio de espinhas. vivia confiden- ciando namoricos para Agnes. 57 Kerata MIOLO 14X21.

Sei que o Pe- dro quer muito. Caiu de joelhos até sentir o líquido quente descer por sua garganta. Ela ia. sabe? E te- nho vergonha de me oferecer demais e ele achar que sou alguma vadia desesperada. O Pedro já tinha me alertado que o Debret não era nada do que as pessoas imaginam que ele seja. Gi. nunca tinha ninguém lá às 13h. Acho que ele me ama. Pode ser… – Ele é um grosso. você realmente percebe que ele é grosseiro. sinto ele daquele jeito. acha que vou pedir pra largar a mulher. fazia o serviço e ele par- tia sem nada dizer. A cena inesperada só levou Gisele a uma atitude: obe- decer. xingou. Maltratou a mulher na minha frente. sei lá. Era o horário mais vazio. Já estou ficando maluca. estúpido. Chegou à porta e fez como o professor pedira. Isso voltou a acontecer milhares de vezes. A porta abriu e ela não acreditou no que estava vendo. É um bruto desumano. O professor subiu as calças e saiu do ba- nheiro sem falar nada. As calças do professor já estavam no chão e ele massageava seu ór- gão ereto com certa violência. – Entendi. – Como assim nada? – Nada de nada. pensava. – Vem chupar. – Que horror! – Ficou um clima terrível em casa.indd 58 02/06/2017 18:57:43 . mas ele sempre para quando parece que vamos mais adiante. mas e depois…? – E depois… nada. Acredito que não fala comigo por medo. Assim de perto. Sempre o mesmo bilhete pedindo que Gisele o en- contrasse em algum lugar. o jantar foi uma merda. 58 Kerata MIOLO 14X21.

Interessava­‑se pelo conteúdo. sabe? – Você acha? – Todo mundo acha! Mudando de assunto. Olhou na mochila. Passou a fre- quentar a biblioteca mais vezes. nem para sua mãe e muito menos para Agnes. Não ti- nha nada. – Será que ele ama mesmo? – Mas é claro! Todo mundo percebe a cara de idiota dele quando olha para você. – Claro. percebeu que ele estava vazio. Nos dias seguintes. Quem sabe até algum dinheiro. Como médico. posso casar com Agnes e ter o respeito de meu pai. para. – Não. a anatomia. as gravuras dos corpos. Pedro correu até a estação. claro que não vai pensar isso. entrou na fila para pegar o ticket e quando colocou a mão no bolso para pegar o en- dereço dos médicos. Colocou o forro do bolso para fora e nada. na secção de Medicina. sim. o cartão não estava lá. Não queria cor- rer o risco de compartilhar uma decepção futura. me ajuda a separar os alimentos que arrecadamos semana passa- da? Quero começar a deixar para as famílias depois de amanhã. mas eles também não estavam no mesmo va- gão. nada. Vocês dois juntos são como um daqueles casais que dão até nojo de ver de tão perfei- tinhos que são. Mesmo assim. Ele te ama. se viu realmente interessado por algo. Pela primeira vez.indd 59 02/06/2017 18:57:43 . Ele começou a estudar loucamente para ingressar no curso de Medicina e não contou nada para ninguém. Pedro esperou ver os médicos no- vamente. não perdeu a esperança. Folheou os livros. apesar 59 Kerata MIOLO 14X21. ajudo.

surgiram na janela. Estudava dia e noite. Ainda de pijama. acordando toda a vizinhança. – Precisamos conversar. De longe. única coisa em evidência em seu rosto naquele mo- mento. Mal tinha tempo para Agnes e ela já estava atormentada com esse comportamento estranho. Imbecil. ela rolava de um lado a outro da cama quando decidiu conversar seriamente com ele. as olheiras de Pedro. Es- tacionou de qualquer jeito e gritou por Pedro. Vou entrar na melhor faculdade desse país. de estar seguro sobre seu ingresso. viu a luz do quarto acesa.indd 60 02/06/2017 18:57:43 . E agora. aliás. 60 Kerata MIOLO 14X21. numa bela madrugada de insônia. pegou o carro dos pais e foi até a casa dele. Assustado com os gritos. dizia a si mesmo. Num belo dia. curiosas.

– Caraca. Cauê estava só de cueca. a cerveja havia molhado parte dela. quer me matar do coração?! – É. Por que você me tratou da‑ quela maneira na frente do seu amigo? – Não estou te entendendo. – Não me chama assim. Cauê acabou derramando a cerveja ao chão com o susto. pode ser. 7 segredos – Não precisava falar comigo daquele jeito! – a voz de Sérgio soou como um trovão dentro da casa. Ele se 61 Kerata MIOLO 14X21. agi‑ ríamos como amiguinhos e tal pra não levantar suspeitas. – Hum. – Não tem problema. acompanha‑ da de um encontro brutal entre a porta e a parede. Acho que estamos num mal‑entendido aqui. É assim que trato meus amigos. deixando-a levemente transparente. Serjão. então? – Idiota – sussurrou. mano. – Tá. Primeiro: combinamos de não dar pinta por aí. não sou teus brothers. Segundo: só estava tentado fazer o primeiro item dar cer‑ to. – E é o quê. Só não gostei da sua frieza.indd 61 02/06/2017 18:57:44 . vamos lá. eu bem que deveria. a gente pode esquentar agora.

Imaginou as bolas dele dentro da boca. Imaginou­‑se de quatro e o pau do Cauê dentro dele. Ele conseguia sentir a pulsação ali. Es- tava gemendo por dentro. saber como era e que gosto teria. alternando com suaves chupadinhas. aposto que sente prazer com a minha dor. Queria chupá­‑lo. Queria ver até onde ele iria resistir aos seus desejos. louco de tesão. até en- contrar a parede e não ter mais para onde ir. Sérgio parou. ora devagar e lento. mas Cauê insistiu. entrando e saindo. e de alguma maneira inexplicável. se imaginou passando a língua na cabeça do pênis de Cauê. Queria beijar Cauê. seu órgão parecia que ia explo- dir em suas calças quando sua mente foi traída por uma imagem de uma criança. sentiu um formigamento em sua boca. – Não posso – bateu a porta e correu para o carro. Ah! Deve ser uma delícia. hein? Num piscar de olhos o Senhor me consertaria. que sorria com os olhos para ele. parecendo se divertir com a ocasião. Di- rigiu sem rumo com a cabeça a mil. Cauê pegou a mão de Sérgio e colocou sobre a sua cueca. Por um instante. – Não posso. latente. Cauê. Sérgio deu alguns passos para trás. Até quando o Senhor vai me deixar assim.indd 62 02/06/2017 18:57:44 . 62 Kerata MIOLO 14X21. o pau duro em sua boca. naturalmente. meio que para se vingar. mas essa ideia o fez pular para o lado. nervoso. desculpa. por favor. Queria sentir o corpo nu dele junto ao seu. Estava duro e seu órgão pulsava mais forte cada vez que Sérgio se afastava. – Espera. Sérgio saiu porta à fora e Cauê foi atrás. Ora com força. Encurralado. mas não. Sérgio. aproximou de Sérgio da mesma forma abrupta que ele havia entrado na casa. duro e pulsante.

Misericórdia. deveria ter uns cinquen- ta metros. – Não sei mais o que fazer! Estacionou. e ele se chegará a vós. paredes recém­‑pintadas com tinta cal da cor branca. Senhor. A nave da igreja era retangular e comprida. não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto. vamos ler? Diz assim: “Sujeitai­‑vos. Chegai­‑vos a Deus. enquanto sua voz grave compassiva enchia aquele lugar e os cora- ções das pessoas que ali estavam.” Mas a parte linda está nos versos sete e oito. Era alto. Ao final da nave estava o altar. mas de feições graciosas. preenchidos com cadeiras de plástico. acharam? Tiago 4:4 diz: “Adúlteros e adúlteras. Era bem velha. a Deus. feito de tijolos e coberto com papel adesivo que simulava madeira.indd 63 02/06/2017 18:57:44 . mas eu já não sei mais o que fazer. perdão por pensar isso. ainda dava para sentir o cheiro. Sérgio entrou e sentou no único assento disponível lá no fundo. Alguns ventiladores espantavam o calor ou pelo menos tentavam. estatura forte. junto à grande porta de entrada. pois. apesar de entregar a idade. desceu do carro e caminhou até uma igreja. No verão. qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui­‑se inimigo de Deus. muitas em desespero. Me perdoe. principalmente quando sorria. também expressavam certo aconche- go. – Acharam. era como se não existissem. e ele fugirá de vós. brancas também. meus amados. O homem que a lia também: um senhor imponente. 63 Kerata MIOLO 14X21. e caminhava de um lado para o outro do altar. Suas rugas. a capa bem desgastada denunciava seu uso contínuo. Era simples. Nele havia duas poltronas confortáveis encostadas à parede e um púlpito de vidro translúcido com uma enorme Bíblia marrom em cima. resisti ao Diabo.

mas ainda tem aquele espinho na carne. sou homossexual desde criança e não quero ser. dê nome ao seu pecado e saia daqui livre de uma vez por todas! Sérgio levantou­‑se prontamente e num segundo já es- tava lá na frente do altar. Deve ser por isso que nunca fui curado. não posso ser. o Senhor morreu naquela cruz por mim e levou sobre si todo o meu pecado. o Senhor ama você do jeito que você é”. nós vamos fazer uma oração por você. 64 Kerata MIOLO 14X21. a fim de falar com ele. Senhor. e. Por último. As pessoas passavam e o cumprimenta- vam. vinha o pastor e Sérgio pôs­‑se em pé. Ou se você que já é da igreja. Preciso encarar.indd 64 02/06/2017 18:57:44 . pois enquanto você fugir. vós de duplo ânimo. Sér- gio permaneceu em sua cadeira. – Alguém mais deseja aceitar Jesus? Venha aqui para frente. não há segredos. algo que insiste em não sair. você não poderá viver esse segundo momento que lemos nos versos sete e oito: o Diabo fugirá de você. deixe de fugir. O culto acabou e as pessoas logo se dispersaram. ele orava: “Não quero ser gay. meu Pai. por favor”. Adúlteros e adúlte- ras! Ele deu nome ao pecado daquele povo. venha aqui. filho. aos prantos. os olhos inchados por causa do choro. talvez só precise externalizar para alguém…. me cure. Baixinho. diante Dele ninguém se esconde. Ah. purifi- cai os corações”. Então é isso. Sentiu uma mão forte sobre sua cabeça e a mesma voz grave compassiva lhe disse: “Seja livre. Vemos aqui dois momentos: no primeiro há uma denúncia. me assumir. Por fa- vor. Alimpai as mãos. Qual o nome do seu pecado? Encare­‑o. o Senhor nos desmascara. por favor. pecadores. Sou… eu sou gay. Pai.

– E as meninas. penso no que as pessoas podem pensar. vamos para o cantinho. Conheço você e a pregação de hoje… Bem. mas que seja feita a vontade de Deus. precisa deixar esse hábito. Há tempos não vinha à igreja.indd 65 02/06/2017 18:57:44 . 65 Kerata MIOLO 14X21. é sobre mim. E desapontado porque você é meu filho. – Então. Confesso que fiquei orgulhoso e desapontado ao mesmo tempo. Sou hu- mano. não é nada disso. E você não pode continuar traindo sua mulher. – Até imagino o que seja. – Hã? Traição? Não. Sérgio. meu filho. Podemos falar? – Sim. – Claro. se sujeitar a Deus e ser santo. o fato de ter ido lá na frente. não sou nenhum tolo. o que aconteceu? Está tudo bem com a Silvia? – Está sim. é um pecado comum. Já estava esperando você vir falar comigo. pai. Mas adultério. eu sei. – Mas não é sobre elas. fiel a Deus. filho. pai. Mas agora estou aqui. Orgulho porque é preciso ter muita coragem para assumir e ir lá para frente. quer dizer. afinal. eu não estou traindo a Silvia… eu jamais a traí ou trairia. – Pai. Ela está ótima. as pessoas julgam. estou feliz que tenha vindo. Fiquei até surpreso. – Já? Como assim? – Ora. tão bem? – Lindas e saudáveis. infelizmente. você sabe. – Foram para longe dos poucos curiosos que ainda restavam no templo. preciso conversar com o senhor e precisa ser agora. – É. – Glória a Deus.

Por fa- vor. O que tem de tão grave para me falar? Sérgio respirou fundo. sempre. – Desde criança?! Ah. amor. E só estou contando para o senhor porque é minha última esperança de ser curado. não. ficou de pé. repreenda! Que história de gay é essa?! Você está louco? É casado! Bem casado! Tem duas filhas lindas. em sua garganta. imagina. então? – É algo bem pior que isso e pode ser que depois dessa conversa o senhor não queira mais ser meu pai. pai? Eu nunca quis ser isso! Sempre busquei a cura.indd 66 02/06/2017 18:57:44 . – Sou gay. pai. Não entende. tinham medo de sair. Não posso 66 Kerata MIOLO 14X21. já basta ter crescido me repugnando. Foram arrastadas para fora. – Pai. andando de um lado para o outro. num é isso. pai. me ouve. – Não é. Eu continuo a mesma pessoa e foi por causa dessa educação que me deu que eu nunca aceitei ser isso. mas é a única esperança que tenho de ser livre. me ouve. como ousa falar uma barbari- dade dessas! Eu te criei com tudo do bom e do melhor! Dei tudo: educação. de- sesperadas. Eu sou assim desde criança. expulsas de sua boca numa violência que nocauteou a alma de seu pai. – O que é. não fiquei ou tive qualquer contato com outras pessoas. – Nunca vou deixar de ser seu pai. eu sei. le- vando sua consciência ao chão. não! Isso é mentira do Diabo. Não queriam sair. disciplina! Ensinei você a ser o homem que é hoje! – Eu sei. como pode?! – o pas- tor estava transtornado. as palavras se agarravam.

Vou compartilhar apenas com a liga dos libertadores. Jogou o celular na poltrona ao lado e dirigiu até em casa. 67 Kerata MIOLO 14X21. um mundo havia saído dos seus ombros. O que Jesus faria? – perguntou­ ‑se. suas filhas provavelmente estavam brincando. Vamos começar a curar você e logo. meu filho. pai. esposa. pensando se ligaria ou não. Se o Senhor é por nós. vou almoçar com vocês. e vamos superar isso juntos. – Vá para casa. viver se o senhor também me rejeitar. A luz da sala estava acesa. Acionou o alarme e contou até três para ouvir as crianças gritarem “Papai”. Cauê havia mandado mensagem no WhatsApp. – Obrigado. Elas pularam em cima dele ainda quando a porta estava entreaberta. Sua mãe.indd 67 02/06/2017 18:57:44 . Caminhou em sua direção e o abraçou forte. – Amém. pai. Entrou no carro e pegou o celular. Procurou o Cauê nas últimas chamadas. Ficou olhan- do para o smartphone. olhou para o filho e se compadeceu. olhe para mim: ninguém precisa saber disso. os mais íntimos e confiáveis. quem será contra nós? Agora. Amanhã. Estava aliviado. – Eu amo você. logo esse demônio vai bater em retirada e você será o homem que o Senhor quer que você seja. ninguém. tome um banho e faça amor com sua esposa. Preciso da sua aju- da. Sérgio saiu da igreja. Tá bem. pai? O pastor tomou as rédeas de suas emoções. mano? Me liga. Me ajuda.

não me lembraria. – Ah. meu anjo. depois de um beijo desse você quer. Soltou sua mulher e pulou para agarrá­‑las. animadas. mamãe – elas gritaram. Sérgio olhou para as filhas. Depois de banhá­‑las e colocá­‑las na cama. Mas deixa eu dar conta dessas pirralhinhas primeiro. – Ué? Quem são vocês? Quem são vocês? Eu não conheço essas miniaturas de gente. – Somos suas filhas. – Bem­‑vindo. estavam paradas enca- rando a cena de romance. como de costume. simples- mente. Silvia esquentou o jantar e comeram juntos. mô.indd 68 02/06/2017 18:57:44 . – Sério? Como foi? 68 Kerata MIOLO 14X21. ir pra cozinha esquentar meu jantar? – Ficou interessado. calorosa. Silvia? – Eu também me lembraria. entrando na brincadeira: – Nun- ca na minha vida! – Ah. – Elas gargalharam. Sérgio a prendeu em seus braços e não a deixou es- capar. – Fui pro culto na igreja do pai. só conto lá. conhece sim. foi? – Se fiquei! Por que não vamos lá para o quarto e es- quentamos outra coisa? – Tipo o quê? – Segredo. – Silvia! Silvia! Você conhece essas pessoas? Silvia veio da cozinha. – Demorou hoje. – Filhas? Eu me lembraria se tivesse filhas. – Foi até Sérgio e o bei- jou. – Eu me lembro de vocês! Eu me lembro! Sérgio brincou com as crianças até elas ficarem cansa- das. Vou esquentar seu jantar.

– E como foi no trabalho? – Chato! Mal vejo a hora de passar nesse concurso e ter um emprego decente. acho que tem outro clima pra gente aproveitar. – Bom. mas foi atrás da coragem. Parece que os ventos vão vir com tudo e a turma tá combinando de aproveitar o clima. levantou­‑se e foi preparar o almoço enquanto a babá cuidava das crianças. quase não acordaram. Uma. capricha.indd 69 02/06/2017 18:57:44 . – Uma benção. Silvia também. em nome de Jesus. Inclusive. deve tá querendo programar o surf. nada mais. Em outros momentos. três. – Esse maluco. Sérgio odiou o fato de seu pai ir almoçar em sua casa. Depois 69 Kerata MIOLO 14X21. – Em nome de Jesus! – Ah. finalmente. cinco vezes até desmaiarem. mas logo a recuperou com receio de dar pinta. – Isso é verdade. – Vai dar tudo certo. Transaram. seu amigo Cauê ligou. A mesa já estava posta quando o pai dele entrou abençoando a casa e dando a paz do Senhor às crianças. Não aguento mais aqueles playboys tocando terror na minha sala. meu bem. – Esticou­‑se para dar um selinho nela. então. amanhã ele vem almoçar com a gente. duas. – Sempre capricho. Sempre tinha umas histórias legais para contar. mas só porque estava cansado. A campainha tocou pontualmente ao meio­‑dia. O tempo todo Sérgio combatia seus pen- samentos e expulsava o Cauê de lá. cedia e imaginava foder Cauê em vez de Silvia. Mandou ver a noite toda e o que mais queria era dormir. No dia seguinte. – Foi? – falou perdendo um pouco a compostura. que o adoravam.

Laris- sa. Nada. deixar de sentir essas coisas por homens. na esperança de ser curado na lua de mel. nasceu. Mas não foi bem assim. Foi quando veio o Diabo e lhe ofereceu o prato de lentilhas: Cauê. às 14h. Deveria fazer um jejum de doze horas todos os dias da semana até lá. Alimen- tou a mesma esperança quando sua primogênita. mas sem coragem de abraçar o capeta. com todas as forças do seu coração. já estava no inferno. esta- va desiludido e sem esperanças. do almoço. Sérgio se dei- xou envolver pelo sentimento. Fez tudo como o pai o orientou. 70 Kerata MIOLO 14X21. quando escorre- gasse para dentro dela. o pastor Saulo puxou o filho de canto para fa- lar que sua primeira sessão de libertação estava marcada: próximo sábado.indd 70 02/06/2017 18:57:44 . Queria amar sua mulher. ele pediu um sinal: se for outra menina é porque o Senhor vai me curar. mas a cura não veio. Quando Silvia engravidou pela segunda vez. para enfraquecer a carne e deixar o espírito mais forte. Revoltou­‑se e deixou de pisar na igreja desde então. Casou­‑se virgem. queria. sentia­‑se mal por nunca a ter desejado de verdade. Era menina.

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