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Hermenêutica 1

HERMENÊUTICA

REGRAS DE INTERPRETACÃO
DAS SAGRADAS ESCRITURAS

E. LUND

Traduzido por Etuvino Adiers da 7ª edição
do original castelhano:
HERMENÊUTICA - Regras de Interpretação das Sagradas Escrituras
© EDITORA VIDA, 1968
Miami, Florida 33167 – E.U.A.

[Contracapa]

E. LUND / P. C. NELSON

Dr. E. Lund, fecundo e prestigioso professor da Bíblia na língua espanhola, é
conhecido no mundo evangélico e no mundo das letras por sua erudição e sua publicações.
Além das línguas em que a Bíblia foi originalmente escrita, o professor Lund dominava
vários idiomas modernos e vários dialetos falados no arquipélago das Filipinas. A Editora
Vida tem a grata satisfação de apresentar aos seus leitores esta edição de
HERMENÊUTICA, de grande necessidade entre o povo de língua portuguesa.
HERMENÊUTICA por E. Lund é uma obra de grande utilidade, não somente para
pastores e evangelistas, mas também para todo crente que seja um zeloso estudante da
Bíblia.

ÍNDICE

Apresentação ........................................................................ 3
1. Importância de seu estudo ................................................. 4
2. Disposições necessárias para o estudo proveitoso das
Escrituras .......................................................................... 9
3. Observações gerais em relação à linguagem bíblica ...... 14
4. Regra fundamental ......................................................... 17
5. Primeira regra ................................................................. 21
6. Segunda regra ................................................................. 25
7. Terceira regra ................................................................. 29
8. Quarta regra .................................................................... 34
Hermenêutica 2
9. Quinta regra – 1ª parte ................................................... 40
10. Quinta regra – 2ª parte ................................................... 46
11. Quinta regra – 3ª parte ................................................... 49
12. Repetição e observações ................................................ 53
13. Figuras de retórica – 1ª parte .......................................... 56
14. Figuras de retórica – 2ª parte .......................................... 61
15. Figuras de retórica – 3ª parte .......................................... 67
16. Figuras de retórica – 4ª parte .......................................... 77
17. Hebraísmos ..................................................................... 85
18. Palavras simbólicas ........................................................ 92

APRESENTAÇÃO

Um livro como o presente é de grande necessidade nos países onde se fala a
língua portuguesa. Cremos, pois, que ele vem preencher uma lacuna.

Seu autor, o Dr. Lund, pode ser considerado como o mais fecundo e
prestigioso mestre de estudos bíblicos em língua portuguesa, e seu nome de há
muito é conhecido pela erudição e valor de suas produções. Além das línguas em
que foi escrita a Bíblia, o Dr. Lund dominava seis ou sete idiomas europeus; mais
tarde, porém, havendo empreendido obra missionária nas Filipinas, cultivou
vários dos idiomas e dialetos daquele arquipélago. Traduziu a Bíblia inteira para o
panaiano e o Novo Testamento para os dialetos cebu e samar.

Esperamos que este livro seja uma verdadeira bênção para quantos venham a
estudá-la, quer sejam pregadores e evangelistas, ou simplesmente cristãos
amantes dos estudos bíblicos.
A Editora

IMPORTÂNCIA DE SEU ESTUDO
Hermenêutica 3
1. Uma das primeiras ciências que o pregador deve conhecer é certamente a hermenêutica.
Porém, quantos pregadores há que nem de nome a conhecem! Que é, pois, a hermenêutica? "A
arte de interpretar textos", responde o dicionário. Porém a hermenêutica (do grego
hermenevein, interpretar), da qual nos ocuparemos, forma parte da Teologia exegética, ou seja,
a que trata da reta inteligência e interpretação das Escrituras bíblicas.
2. O apóstolo Pedro admite, falando das Escrituras, que entre as do Novo Testamento "há
certas cousas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também
deturpam as demais Escrituras [as do Antigo], para a própria destruição deles". E para maior
desgraça e calamidade, quando estes ignorantes nos conhecimentos hermenêuticos se
apresentam coma doutos, torcendo as Escrituras para provar seus erros, arrastam consigo
multidões à perdição.
3. Tais ignorantes, pretensos doutos, sempre se têm constituído em falsos, desde as falsos
profetas da antiguidade até as papistas da era cristã, e os russelitas de hoje. E qualquer pregador
que ignora esta importante ciência se encontrará muitas vezes perplexo, e cairá facilmente no
erro de Balaão e na contradição de Coré. A arma principal do soldado de Cristo é a Escritura, e
se desconhece seu valor e ignora seu use legítimo, que soldado será?
4. Não há livro mais perseguido pelos inimigos, nem livro mais torturado pelos amigos,
que a Bíblia, devido à ignorância da sadia regra de interpretação. Isto, irmãos, não deve ser
assim. Esta dádiva do céu não nos veio para que cada qual a use a seu próprio gosto, mutilando-
a, tergiversando ou torcendo-a para nossa perdição.
5. Lembremo-nos de que as variadíssimas circunstâncias que concorreram para a produção
do maravilhoso livro requerem do expositor que seu estudo seja demorado e sempre "conforme
a ciência", conforme as princípios hermenêuticos.
a) Entre seus escritores, "os santos homens de Deus, por exemplo, que filaram sempre
inspirados pelo Espírito Santo", achamos pessoas de tão variada categoria de educação, como
sejam, sacerdotes, como Esdras; poetas, como Salomão; profetas, qual Isaías; guerreiros, como
Davi; pastores, qual Amós; estadistas, como Daniel; sábios, como Moisés e Paulo, e
"pescadores, homens sem letras", como Pedro e João. Destes, uns formulam leis, como Moisés;
outros escrevem história, como Josué; este escreve salmos, como Davi; aquele provérbios,
como Salomão; uns profecias, como Jeremias; outros biografias, como os evangelistas; outros
cartas, coma as apóstolos.
b) Quanto ao tempo viveu Moisés 400 anos antes do cerco de Tróia e 300 anos antes de
aparecerem as mais antigos sábios da Grécia e Ásia, coma Tales, Pitágoras e Confúcio, vivendo
João, o último escritor bíblico, uns 1500 anos depois de Moisés.
c) Com respeito ao lugar foram escritos em pontos tão diferentes como o são o centro da
Ásia, as areias da Arábia, as desertos da Judéia, os pórticos do Templo, as escolas dos profetas
em Betel e Jericó, nos palácios da Babilônia, nas margens do Quebar e em meio h civilização
ocidental, tomando-se as figuras, símbolos e expressões, dos usos, costumes e cenas que
ofereciam tão variados tempos e lugares. Os escritores bíblicos foram plenamente inspirados,
porém não de tal modo que resultasse supérfluo o mandamento de esquadrinhar as Escrituras e
que se deixasse sem consideração tanta variedade de pessoas, assuntos, épocas e lugares. Estas
circunstâncias, como é natural, influíram ainda que não, certamente, na verdade divina expressa
na linguagem bíblica, porém na própria linguagem, de que se ocupa a hermenêutica e que tão
necessário é que a compreenda o pregador, intérprete e expositor bíblico.
Hermenêutica 4
6. Uma breve observação geral a respeito de dita linguagem nos fará mais patente ainda a
grande necessidade do conhecimento de sadia interpretação para o estudo proveitoso das
Escrituras. Certos doutos, por exemplo, que têm vivido sempre "incomunicados" com respeito
à linguagem bíblica, acham tal linguagem chocante ao incompatível com seu ideal imaginário
de revelação divina, tudo isso pela superabundância de todo gênero de palavras e expressões
figuradas e simb61icas que ocorrem nas Escrituras. Algum conhecimento de hermenêutica não
só as livraria de tal dificuldade, como as persuadiria de que tal linguagem é a divina par
excelência, como é a mais científica e literária.
7. Um cientista de fama costumava insistir em que seus colaboradores, na cátedra,
encarnassem o invisível, porque, dizia, "tão-somente deste modo podemos conceber a
existência do invisível operando sobre o visível". Porém esta idéia da ciência moderna é mais
antiga que a própria Bíblia, posta que, em verdade, foi Deus o primeiro que encarnou seus
pensamentos invisíveis nos objetos visíveis do Universo, revelando-se a si mesmo. "Porquanto
o que de Deus se pode conhecer . . . Deus lhes manifestou; porque os atributos invisíveis de
Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se
reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidas por meio das coisas que foram
criadas" (Rom. 1:20).
Eis aqui, pois, o Universo visível, tomado como gigantesco dicionário divino, repleto de
inumeráveis palavras que são os objetos visíveis, vivos e mortos, ativos e passives, expressões
simbólicas de suas idéias invisíveis, Nada mais natural, pois, que ao inspirar as Escrituras, se
valha de seu próprio dicionário, levando-nos por meio do visível ao invisível, pela encarnação
do pensamento, ao próprio pensamento; pelo objetivo ao subjetivo, pelo conhecido e familiar ao
desconhecido e espiritual.
8. Porém isto não só foi natural, mas absolutamente necessário em vista de nossa condição
atual, porquanto as palavras exclusivamente espirituais ou abstratas, pouco ou quase nada
dizem ao homem natural. Apenas há um fato relacionado com a mente e a verdade espiritual
que se possa comunicar com proveito sem lançar mão da linguagem nascida de objetos visíveis.
Deus tem levado em conta esta nossa condição. Não estranhemos, pois, que para elevar-nos à
concepção possível do céu se valha de figuras ou semelhanças tomadas das cenas gloriosas da
terra; nem de que para elevar-nos à concepção possível de sua própria pessoa, se sirva do que
foi a "coroa" da criação, apresentando-se a nós como ser corporal, semelhante a nós. Folga
dizer que para a correta compreensão da verdade, tanto em símbolo e figura pela necessidade
humana, se requer meditação e estudo profundo.
9. Porém é preciso observar a esta altura que ditas expressões figurativas ou simbólicas
não se devem meramente à natureza da verdade espiritual, à maravilhosa relação entre o
invisível e o visível, mas também ao fato de que tal linguagem vem mais a propósito, par ser
mais formosa e expressiva. Conduz idéias à mente com muito mais vivacidade que a descrição
prosaica. Encanta e recria a imaginação, ao mesmo tempo que instrui a alma e fixa a verdade na
memória, deleitando o coração. Que conceito errôneo do que é próprio abrigam os que
imaginam que a Bíblia, para ser revelação divina, deveria estar escrita no estilo da aritmética ou
geometria! Não tem Deus, por sua sabedoria, enlouquecido a sabedoria do mundo?
Lembremo-nos, pois, em resume, que as Escrituras, tratando de temas que abrangem o céu
e a terra, o tempo e a eternidade, o visível e o invisível, o material e o espiritual, foram escritas
por pessoas de tão variada natureza, e em épocas tão remotas, em países tão distantes entre si, e
em meio a pessoas e costumes tão diferentes e em linguagem tão simbólica, que facilmente se
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compreenderá que para a reta inteligência e compreensão de tudo, nos é de suma necessidade
todo o conselho e auxílio que nos possa oferecer a hermenêutica.

PERGUNTAS

1. Que é a hermenêutica?
2. Para onde conduz o ignorá-la?
3. Par que existem os falsários e heréticos?
4. Para que nos foi dada a Escritura?
5. Que circunstâncias, na produção das Escrituras, fazem necessário o estudo da
hermenêutica? Por quem, sabre que, em que épocas e lugares foram escritas? De que maneira
estas circunstâncias requerem conhecimentos hermenêuticos?
6. Por que razão certos doutos negam a inspiração divina da Bíblia?
7. De que maneira científica se revela o invisível? Qual é o plano e o procedimento
divinos deste caso?
8. Por que foi necessário o use de linguagem figurada na Revelação, do ponto de vista
humano?
9. Por que outra razão a linguagem bíblica vem mais a propósito para a humanidade?
10. Em resumo: Por que é de suma importância o conhecimento hermenêutico para a boa
compreensão da Bíblia?

Estude-se a lição e aprenda-se até ao ponto de poder responder segundo as perguntas
indicadas, sem auxílio do texto, escrevendo-se a resposta num caderno destinado a esse fim.

DISPOSIÇÕES NECESSÁRIAS PARA O ESTUDO PROVEITOSO DAS
ESCRITURAS

Assim como para apreciar devidamente a poesia se necessita possuir um sentido especial
para o belo e poético, e para o estudo da filosofia é necessário um espírito filosófico, assim é da
maior importância uma disposição especial para o estudo proveitoso da Sagrada Escritura.
Como poderá uma pessoa irreverente, inconstante, impaciente e imprudente, estudar e
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interpretar devidamente um livro tão profundo e altamente espiritual como a Bíblia?
Necessariamente, tal pessoa julgará o seu conteúdo como o cego as cores. Para o estudo e boa
compreensão da Bíblia necessita-se, pois, pelo menos, de um espírito respeitoso e d6cil, amante
da verdade, paciente no estudo e dotado de prudência.
1. Necessita-se de um espírito respeitoso porque, par exemplo, um filho desrespeitoso,
instável e frívolo, que caso fará dos conselhos, avisos e palavras de seu pai? A Bíblia é a
revelação do Onipotente, é o milagre permanente da soberana graça de Deus, d o código divino
pelo qual seremos julgados no dia divino, é o Testamento selado com o sangue de Cristo.
Porém, com tudo isso e ante tal maravilha, o homem irreverente se encontrará como o cego ante
as sublimes Alpes da Suíça, ou pior ainda; talvez seja como o insensato que joga lama sabre um
monumento artístico que é admirado par todo o mundo. Eis com que espírito, ao mesmo tempo
reverente e humilde, contemplam a Palavra de Deus os primitivos cristãos. "Outra razão ainda
temos nós – diz Paulo – para incessantemente dar graças a Deus: é que, tendo vós recebido a
palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes não como palavras de homens, e, sim,
como, em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós,
as que credes." Receba-se assim a Escritura, com todo o respeito. E como diz o Senhor: "O
homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito, e que treme da minha palavra".
Estude-se em tal sentimento de humildade e reverência, e se descobrirão, como disse o
Salmista, "as maravilhas da tua lei". (I Tes. 2:13; Isa. 66:2; Salmo 119:18.)
2. Necessita-se um espírito dócil para um estudo proveitoso e uma compreensão reta da
Escritura, pois, que se aprenderá em qualquer estudo se falta a docilidade? A pessoa obstinada e
teimosa que intenta estudar a Bíblia, lhe acontecerá o que disse Paulo do "homem natural".
"Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus porque lhe são loucura; e não
pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente" (I Car. 2:14). Sacrifiquem-se, pois,
as preocupações, as opiniões preconcebidas e idéias favoritas e empreenda-se o estudo no
espírito de dócil discípulo e tome-se por Mestre a Cristo. Sempre deve ter-se presente que a
obscuridade e aparente contradição que se passam encontrar não residem no Mestre, nem em
seu infalível livro de texto, mas no pouco alcance do discípulo. "Mas, se o nosso evangelho –
diz o apóstolo ainda está encoberta, é para as que se perdem que está encoberto, nos quais a
deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos" (2 Cor. 4:3-4). Porém o discípulo
humilde e dócil que abandona a este mestre que cega os entendimentos, adota a Cristo por
Mestre, verá e entenderá a verdade, parque Deus promete "guiar as humildes na justiça, e
ensinar aos mansos a seu caminha" (Salmo 25:9).
3. É preciso ser amante da verdade, porque, quem cuidará de buscar com afã e recolher o
que não se aprecia e estima? De imperiosa necessidade, para a estuda da Escritura Sagrada, é
um coração desejosa de conhecer a verdade. E tenha-se presente que a homem por natureza não
possui tal coração, antes, pela contrário, um coração que foge da verdade espiritual e abraça
com freqüência o erro. "A luz veio ao mundo, – disse Jesus de si mesmo – e os homens amaram
mais as trevas do que a luz." Ainda mais, disse ele mesma que a "aborreceram" (João 3:19,20),
e eis aqui por que em sua crescente cegueira passam do aborrecimento é perseguição e da
perseguição à crucificação do Mestre. "Despojando-vos, portanto, de toda maldade..." – disse
Pedro – "desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para
que por ele vos seja dada crescimento para salvação" (I Ped. 2:1,2). O que com este desejo a
busca, esquadrinhando as Escrituras, também a achará. Parque ao tal "a Pai da glória, vos
concede espírito de sabedoria e de revelação no plena conhecimento dele" (Ef. 1:17). Sim: "A
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intimidade da Senhor é para os que a temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança" (Sal.
25:14).
4. Também se deve ser paciente no estudo, pois, que vantagem leva qualquer pessoa
impaciente, inconstante e mutável em qualquer trabalho que empreenda? Para tudo é necessário
esta virtude. Ao dizer Jesus: "Examinai as Escrituras", se serve duma palavra que mostra a
mineira que cava e revolve a terra, buscando com diligência o metal precioso, ocupado numa
obra que requer paciência. As Escrituras, necessariamente, devem ser ricas em conteúdo e
inesgotáveis, como as entranhas da terra. Da mesma maneira, sem dúvida, Deus propôs que em
algumas partes fossem profundas e de difícil penetração. Por outra lado, o fruto da paciência é
deleitoso e quanto mais paciência se tiver empregada para encontrar um tesouro, tanta mais se
aprecia e tanta mais delícia produz. Leve-se, pois, ao estudo das Escrituras tanta paciência
como as coisas comuns da vida. Manifeste-se, além disso, essa "nobreza" que caracterizava aos
de Beréia, dos quais diz a Escritura que "eram mais nobres que as de Tessalônica; pois
receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias" (Atos
17:11), e se verá como este trabalho leva a prêmio em si mesmo. "Quão doces são as tuas
palavras ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca... Admiráveis são os teus testemunhos .
. . Alegra-me nas tuas promessas, como quem acha grandes despojos . . . Ama as teus
mandamentos mais que o oura, mais da que a prata refinada" (Sal. 119:103, 129, 162, 127).
5. Para o estudo proveitoso das Escrituras necessita-se, ao menos, da prudência de saber
iniciar a leitura pela mais simples e prosseguir para a mais difícil. É fácil descobrir que o Nova
Testamento é mais simples que o Antigo, e que os evangelhos são mais simples que as cartas
apostólicas. Ainda entre os evangelhos, os três primeiros são mais simples que o quarto.
Principie-se, pais, o estudo pelas três primeiros. Em continuação ao terceiro pode-se ler, por
exemplo, o livro de Atos, que é de mais fácil compreensão que o evangelho segundo João, cujo
conteúdo é mais profundo. Numa palavra, tenha-se a prudência de saber passar do simples para
o difícil a fim de tirar proveito e não deixar o livro a um lado por incompreensível, como têm
feita alguns imprudentes. Podem-se resumir todas estas disposições naquele traço característico
manifestado pelas discípulos de Jesus nas momentos em que não compreenderam suas palavras:
Perguntaram-lhe pelo significado, pediram explicação. E lemos: "Tudo, porém, explicava
em particular aos seus próprias discípulos" (Marcos 4:34). "Então lhes abriu a entendimento
para compreenderem as Escrituras" (Lc. 24:45). Seu exemplo, neste caso, além de indicar as
condições necessárias para o estudo proveitoso das Escrituras, oferece-nos a regra fundamental
que se deve observar neste trabalho: a oração, a súplica. Nunca se deve empreender o estudo
sem haver pedido ao Mestre que abra o entendimento e aclare sua Palavra.
A fonte de toda luz e sabedoria é Deus, e diz a promessa: "Se, porém, algum de vós
necessita de sabedoria, peça-a a Deus... e ser-lhe-á concedida" (Tiago 1:5). Assim fazia Davi:
"Desvenda as meus olhos, ensina-me as teus decretos, dá-me entendimento, porque medito nas
teus testemunhos" (Sal. 119:18, 26, 34, 37, 99). E pôde cantar a resultado de seu proceder,
dizendo: "Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar!" "Compreendo mais que todos os
meus mestres." (v. 103 e 99).
Siga-se seu exemplo e será idêntico o resultado.

PERGUNTAS
1. Por que o estudo proveitoso das Escrituras requer um espírito especial? E, por que é
necessário que seja respeitoso?
Hermenêutica 8
2. Por que se necessita de um espírito dócil para o estudo e boa compreensão da Bíblia?
3. Por que é preciso que ame a verdade o pesquisador das Escrituras e por que ficará sem
fruto aquele que ama o erro?
4. Por que requer paciência o estudo proveitoso da Bíblia?
5. Por que se necessita de prudência e bom senso no estudo das Escrituras? Em que casos
especiais se deve usar tal prudência ou bom senso?

Nota: Recapitule cuidadosamente esta importante lição, não só com o objetivo de
responder às perguntas, mas com o mais alto fim de adquirir as disposições indicadas e
necessárias para o estudo proveitoso da Palavra divina.

OBSERVAÇÕES GERAIS EM RELAÇÃO À LINGUAGEM BÍBLICA

1. Segundo o testemunho da própria Escritura Sagrada, ela foi divinamente inspirada, "útil
para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o
homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente habilitado para toda boa obra". Em uma palavra,
a Escritura tem por objetivo fazer o homem "sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus" (2
Tim. 3:15, 16).
2. Por isso esperamos, e esperamos com razão, que a Bíblia fale com simplicidade e
clareza.
3. Efetivamente, lendo, por exemplo, o Novo Testamento, encontramos a cada passo em
suas páginas os grandes princípios e deveres cristãos expressos em linguagem simples e clara,
evidente e palpável. Em cada página ressalta a espiritualidade e santidade de Deus, ao mesmo
tempo que a espiritualidade e o fervor demandam sua adoração. Em todas as partes nos é
pintada a queda e corrupção do homem e a conseqüente necessidade de arrependimento e
Hermenêutica 9
conversão. Em todas as partes é proclamada a remissão do pecado em nome de Cristo e a
salvação por seus méritos a vida eterna pela fé em Jesus, e, ao mesmo tempo, a morte eterna
pela falta de fé no Salvador. A cada passo aparecem os deveres cristãos em todas as
circunstâncias da vida e as promessas de ajuda do Espírito de Deus no combate contra a
corrupção e o pecado. Estas verdades brilham como a luz do dia, de sorte que nem o leitor mais
superficial e indiferente deixará de vê-las.
4. Porém, que sucede? O mesmo que em outros livros. No mais simples livro de escola
primária, que se ocupa tão-somente de coisas terrenas, encontram-se, por exemplo, palavras e
passagens que o homem não compreende sem estudos. Seria, pois, estranho encontrar palavras
e passagens de difícil compreensão nas Escrituras Sagradas, que em linguagem humana tratam
de coisas divinas, espirituais e eternas? Se numa província da Espanha se usam figuras ou
modos de expressar-se que em outra não se compreendem sem interpretação, seria estranho
encontrar tais figuras e expressões nas Escrituras, que foram escritas em países distantes e todos
diferentes ao nosso? Se todo o escrito antigo oferece pontos obscuros, acaso seria estranho que
os tivesse um livro inspirado por Deus a seus servos em diferentes épocas, faz já centenas e
milhares de anos? Nada mais natural que contenham as Escrituras pontos obscuros, palavras e
passagens que requerem estudo e cuidadosa interpretação.
5. Recordemos aqui que unicamente em tais casos de dificuldade, e não quanto ao simples
e claro, precisamos dos conselhos da hermenêutica para que resulte frutífero nosso estudo e
correta nossa interpretação.
6. Pois bem; suponhamos que nos vem um documento, testamento ou legado que nos
interessa vivamente e que representa uma grande fortuna, porém em cujos detalhes ocorrem
algumas palavras e expressões de difícil compreensão. Como e de que maneira faríamos para
conseguir o verdadeiro significado de tal documento? Seguramente pediríamos, em primeiro
lugar, explicação a seu autor, se isso fosse possível.
7. Porém se prometesse esclarecer-nos contanto que trabalhássemos, esquadrinhando-o nós
mesmos, o mais natural e acertado seria, sem dúvida, ler e reler o documento, tomando suas
palavras e frases no sentido usual e comum. Quanto às palavras obscuras buscaríamos,
naturalmente, seu significado e aclaração, em primeiro lugar, pelas palavras próximas ou
contíguas às obscuras, isto é, pelo conjunto da frase em que ocorrem.
8. Porém, se ainda ficássemos sem luz, procuraríamos a clareza pelo contexto, quer dizer,
pelas frases anteriores e seguintes ao ponto obscuro, ou seja pelo fio ou tecido imediato a
narração em que se encontra,
9. Se não bastasse o contexto, consultaríamos todo o parágrafo ou passagem, fixando-nos
no objetivo, intento ou fim a que se dirige a passagem.
10. E se ainda não obtivéssemos a clareza desejada, buscaríamos luz em outras partes do
documento, para ver se haveria parágrafos ou frases semelhantes, porém mais explícitas, que se
ocupassem do mesmo assunto que a expressão obscura que nos causa perplexidade.
11. Em resumo, e de qualquer forma, procederíamos de maneira que o próprio documento
fosse seu intérprete, já que, levando-o a este ou àquele advogado, contrariaríamos a vontade do
generoso autor e, afinal, correríamos o risco de interessada e pouco escrupulosa interpretação.
Tratando-se da interpretação da Sagrada Escritura, do duplo Testamento de Nosso Senhor, o
procedimento indicado, além de ser o mais natural e simples, é o mais acertado o seguro, como a
seguir veremos.
Hermenêutica 10
PERGUNTAS
1. Qual foi o objetivo da inspiração das Escrituras?
2. Que devemos esperar com respeito à linguagem bíblica, sendo tal seu objetivo?
3. Em relação a que pontos específicos a linguagem bíblica é muito compreensível?
4. Como é que nas Escrituras há pontos obscuros que requerem cuidadoso estudo e correta
interpretação?
5. Em que caso necessitamos dos conselhos da hermenêutica?
6. Como procederíamos, em primeiro lugar, para aclarar um ponto obscuro em qualquer
legado que se estendesse a nosso favor?
7. Se mediante a condição de trabalho se nos oferecesse luz, como procederíamos?
8. Se pelo conjunto da frase em que ocorre a expressão obscura não encontramos a clareza
desejada, que devemos fazer?
9. Se pelo contexto não conseguimos luz, que convém fazer?
10. Se não bastar a passagem inteira, que fazer?
11. Por que será necessário proceder de modo que o documento se torne seu próprio
intérprete?

REGRA FUNDAMENTAL

Pelo dito anteriormente, foi-nos possível ver como é apropriado e mais conveniente, que
em qualquer documento de importância em que se encontrem pontos obscuros se procure que
ele seja seu próprio intérprete. Quanto à Bíblia, o procedimento sugerido não só é conveniente e
muito factível, mas absolutamente necessário e indispensável.
1. O quanto sabemos, o primeiro intérprete da Palavra de Deus foi o diabo, dando à
palavra divina um sentido que ela não tinha, falseando astutamente a verdade. Mais tarde, o
mesmo inimigo, falseia o sentido da Palavra escrita, truncando-a, isto é, citando a parte que lhe
convinha e omitindo a outra.
2. Os imitadores, conscientes e inconscientes, têm perpetuado este procedimento
enganando à humanidade com falsas interpretações das Escrituras. Vítimas, pois, de tais
enganos e de tão estupendos erros, que têm resultado em hecatombes e cataclismos, devemos já
conhecer o suficiente dessa interpretação particular. E a ninguém deve parecer estranho que
insistamos em que a primeira e fundamental regra da correta interpretação bíblica deve ser a já
indicada, a saber: A Escritura explicada pela Escritura, ou seja: a Bíblia, sua própria
intérprete.
3. Ignorando ou violando este princípio simples e racional, temos encontrado, como
dissemos, aparente apoio nas Escrituras a muitos e funestos erros. Fixando-se em palavras e
versículos arrancados de seu conjunto e não permitindo à Escritura explicar-se a si mesma,
encontraram os judeus aparente apoio nela para rejeitar a Cristo. Procedendo do mesmo modo,
encontram os papistas aparente apoio na Bíblia para o erro do papado e das matanças com ele
relacionadas, para não falar da Santa Inquisição e outros erros do mesmo estilo. Atuando assim,
acham aparente apoio os espíritas para sua errônea encarnação; os comunistas, para sua
repartição dos bens; os incrédulos zombadores, para as contradições; os russelitas para seus
erros blasfemos. e, finalmente, os Wilson e Roosevelt, ara seu militarismo. Se tivessem a
sensatez de permitir h Bíblia que se explicasse a si mesma, evitariam erros funestos.
Hermenêutica 11
4. Graças ao abuso apontado ouvimos dizer que com a Bíblia se prova o que se quer. A má
vontade, a incredulidade, a preguiça em seu estudo; o apego a idéias falsas e mundanas, e a
ignorância de toda regra de interpretação, provará o que se queira com a Bíblia; porém jamais
provará a Bíblia o que os homens tão mal dispostos querem. Tampouco provará nenhum douto
de verdade, nem crentes humildes, qualquer coisa com a Escritura.
5. Ao contrário, porque o discípulo humilde e douto na Palavra sabe que "a lei do Senhor é
perfeita" e que não há erro na Palavra, mas no homem, ele sabe que não se tira e se põe, ou se
acrescenta e se suprime impunemente à Palavra, segundo o estilo satânico, porquanto Deus,
mediante seu servo, fez constar: "Se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhe
acrescentará os flagelos escritos neste livro; e se alguém tirar qualquer coisa das palavras do
livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida." Não, certamente a revelação
divina, qual Lei perfeita, "é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a
correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e
perfeitamente habilitado para toda boa obra"; tal revelação, dissemos, não se presta
impunemente a tal abuso.
6. Em vista de tais afirmativas e destas e outras restrições, é evidente que carece
absolutamente de sanção divina a interpretação particular do papismo que concede autoridade
superior à Palavra mesma, à interpretação dos "pais" da Igreja docente ou da infalibilidade
papal, como carece também de dita sanção a idéia da interpretação individual do
protestantismo. "Nenhuma profecia da Escritura provam de particular elucidação", disse Pedro;
e Jesus nos exorta a examinar as Escrituras para achar a verdade, e não a interpretar as
Escrituras para estabelecer a verdade a nosso arbítrio.
7. Nada de estranho tem, pois, que nos eminentes escritores da antiguidade encontremos
afirmações como estas: As Escrituras são seu melhor intérprete. Compreenderás a Palavra de
Deus melhor que de outro modo, comparando uma parte com outra, comparando o espiritual
com o espiritual (1 Cor. 2:13). O que equivale a usar a Escritura de tal modo que venha a ser ela
seu próprio intérprete.
8. Se por uma parte, arrancando versículos de seu conjunto e citando frases soltas em
apoio de idéias preconcebidas, é possível construir doutrinas chamadas bíblicas, que não são
ensinos das Escrituras, mas antes "doutrinas de demônios"; por outra parte, explicando a
Escritura pela Escritura, usando a Bíblia como intérprete de si mesma, não só se adquire o
verdadeiro sentido das palavras e textos determinados, mas também a certeza de todas as
doutrinas cristãs, quanto à fé e à moral. Tenha-se sempre presente que não se pode considerar
de todo bíblica uma doutrina antes de resumir e encerrar tudo quanto a Escritura diz da mesma.
Um dever tampouco é de todo bíblico se não abarca e resume todos os ensinos, prescrições e
reservas que contam a Palavra de Deus em relação ao mesmo. Aqui cabe bem a lei: "Não se
pronuncia sentença antes de haver ouvido as partes." Porém cometem o delito de falhar antes de
haver examinado as partes todos aqueles que estabelecem doutrinas sobre palavras ou
versículos extraídos do conjunto, sem permitir à Escritura explicar-se a si mesma. Igual falta
cometem os que do mesmo modo procedem e falam de contradições e ensinos imorais.
Por conseguinte, é de suma necessidade observar a referida regra das regras, a saber: A
Bíblia é seu próprio intérprete, se não quisermos incorrer em erros e atrair sobre nós a
maldição que a própria Escritura pronuncia contra os falsificadores da Palavra. Dissemos "regra
das regras", porque desta, que é fundamental, se desprendem outras várias que, como veremos,
dela nascem naturalmente.
Hermenêutica 12

PERGUNTAS
1. Quem foi o primeiro intérprete da Palavra de Deus e quais as suas astúcias?
2. Qual deve ser a regra fundamental na interpretação da Bíblia e por quê?
3. Quais os males que resultaram de não interpretar as Escrituras por si mesmas?
4. Quem prova o que quer com a Bíblia?
5. Por que não se pode provar o que se quer com a Bíblia?
6. Como se deve considerar a interpretação particular ou individual papista ou protestante?
7. Que princípio de interpretação recomendavam eminentes escritores da antiguidade?
8. O que se requer para que seja positivamente bíblica esta ou aquela doutrina ou
declaração?
9. Que princípio fundamental deve servir-nos de base em todo o estudo bíblico?

PRIMEIRA REGRA

1. Como já dissemos, os escritores das Sagradas Escrituras escreveram, naturalmente, com
o objetivo de se fazerem compreender. E, por conseguinte, deveriam valer-se de palavras
conhecidas e deveriam usá-las no sentido que geralmente tinham. Averiguar e determinar qual
seja este sentido usual e ordinário deve constituir, portanto, o primeiro cuidado na interpretação
ou correta compreensão das Escrituras.
2. Será preciso repetir aqui, para maior aproveitamento, além do auxílio divino, que em tal
averiguação há modos de proceder que nenhum leitor da Bíblia deve ignorar, sendo sempre
necessário ter em conta o princípio fundamental que o Livro há de ser seu próprio intérprete, de
cujo princípio se deduzem outros, que chamamos regras ou pautas de interpretação.
3. Destas diz assim a primeira: É preciso, o quanto seja possível, tomar as palavras em
seu sentido usual e comum.
4. Regra sumamente natural e simples, porém da maior importância. Pois, ignorando ou
violando-a, em muitas partes da Escritura não terá outro sentido que aquele que queira
Hermenêutica 13
conceder-lhe o capricho humano. Por exemplo, houve quem imaginasse que as ovelhas e os
bois que menciona o Salmo 8 eram os crentes, enquanto as aves e os peixes eram os incrédulos,
donde se concluía, em conseqüência, que todos os homens, queiram ou não, estão submetidos
ao poder de Cristo. Se tivesse sido levado em conta o sentido usual e comum das palavras, não
teria caído em semelhante erro.
5. Porém, tenha-se sempre presente que o sentido usual e comum não equivale sempre ao
sentido literal. Em outras palavras, o dever de tomar as palavras e frases em seu sentido comum
e natural não significa que sempre devem tornar-se ao "pé da letra". Como se sabe, cada idioma
tem seus modos próprios e peculiares de expressão, e tão singulares, que se for traduzido ao pé
da letra, perde-se ou é destruído completamente o sentido real e verdadeiro. Esta circunstância
se deve, talvez, ter mais presente ao tratar-se da linguagem das Escrituras, do que de outro livro
qualquer, por estar sumamente cheio de tais modos e expressões próprias e peculiares.
Os escritores sagrados não se dirigem a certa classe de pessoas privilegiadas, mas ao povo
em geral; e, por conseguinte, não se servem de uma linguagem científica ou seca, mas figurada
e popular. A estas circunstâncias se devem a liberdade, variedade e vigor que observamos em
sua linguagem. A elas se deve seu abundante uso de toda ordem de figuras retóricas, símiles,
parábolas o expressões simbólicas. Além do citado, ocorrem muitas expressões peculiares do
idioma hebreu, chamadas hebraísmos. Precisamos ter isso tudo presente para podermos
determinar qual seja o verdadeiro sentido usual e comum das palavras e frases.
Exemplos: 1. Em Gênesis 6:12, lemos: "Porque toda carne havia corrompido o seu
caminho sobre a terra" (versão revista e corrigida). Tomando aqui as palavras carne e caminho
em sentido literal, o texto perde o significado por completo. Porém tomando em seu sentido
comum, usando-se como figuras, isto é, carne em sentido de pessoa e caminho no sentido de
costumes, modo de proceder ou religião, já não só tem significado, mas um significado
terminante, dizendo-nos que toda pessoa havia corrompido seus costumes; a mesma verdade
que nos declara Paulo, sem figura, dizendo; "Não há quem faça o bem" (Rom. 3:12).
2. Pergunta Jesus: "Qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma, não acende a
candeia, varre a casa e a procura diligentemente até encontrá-la?" Neste versículo, tomado ao
pé da letra, embora nos apresente uma pergunta interessante, estamos longe de compreender a
verdade que encerra. Porém, sabendo que contam uma parábola, cujas partes principais e
figuradas requerem interpretação e designam realidades correspondentes às figuras, não vemos
aqui já agora uma pergunta interessante, mas uma mulher que representa a Cristo; um trabalho
diligente que representa um trabalho semelhante que Cristo está levando a cabo; e uma moeda
perdida representa o homem perdido no pecado; tudo isto expondo e ilustrando
admiravelmente a mesma verdade que expressa Cristo sem parábola, dizendo: "Porque o Filho
do homem veio buscar e salvar o perdido" (Luc. 19:10).
3. Profetizando a respeito de Jesus, disse Zacarias (Luc. 1:69) "e nos suscitou plena e
poderosa salvação na casa de Davi". Dificilmente extrairemos daqui alguma coisa clara se
tomarmos a palavra casa em sentido literal. Porém, sabendo que, como símbolo e figura, casa
ordinariamente significa família ou descendência, já não estamos às escuras: aí se nos diz que
Deus levantou uma poderosa salvação entre os descendentes de Davi, como também disse
Pedro: "Deus, porém . . . o exaltou (a Cristo) a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o
arrependimento e a remissão dos pecados" (Atos 5:31).
4. Disse Jesus (Luc. 14:26): "Se alguém vem a mim, e não aborrece a seu pai, e mãe . . .
não pode ser meu discípulo"; ora, tomado ao pé da letra, isso constitui uma contradição ao
Hermenêutica 14
preceito de amar até aos inimigos. Porém, lembrando-nos do hebraísmo, pelo qual se
expressam às vezes as comparações e preferências entre duas pessoas ou coisas, com
palavras tão enérgicas como amar e aborrecer, já não só desaparece a contradição, mas
compreendemos o verdadeiro sentido do texto, sentido que sem hebraísmo Jesus mesmo o
expressa, dizendo: "Quem ama seu pai e sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim"
(Mat. 10:37).
Pelos exemplos citados pode-se compreender a grande necessidade de nos familiarizarmos
com as figuras e modos próprios e peculiares da linguagem bíblica. Esta familiaridade se
adquire, desde logo, por um estudo da própria Escritura. Porém, para consegui-la com maior
brevidade, conviria ter um breve tratado especial.

PERGUNTAS
1. Qual deve ser o primeiro cuidado na correta interpretação das Escrituras?
2. Qual o princípio fundamental que se deve ter sempre presente na interpretação?
3. Qual é a primeira regra que se deduz da "regra das regras"?
4. Por que é tão importante esta regra?
5. Que diferença há entre o sentido usual ou comum e o sentido literal, e por que não se
devem tomar sempre as palavras em seu sentido literal?
6. Por que foi escrita a Bíblia em linguagem popular e figurada e não em linguagem
científica?
Exemplos: De que trata o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto? – Que são
hebraísmos? – Como se adquire a familiaridade necessária para distinguir entre linguagem
literal e figurada?

SEGUNDA REGRA
Hermenêutica 15
1. Na linguagem bíblica, como em outra qualquer, existem palavras que variam muito em
seu significado, segundo o sentido da frase ou argumento em que ocorrem. Importa, pois,
averiguar e determinar sempre qual seja o pensamento especial que o escritor se propõe
expressar, e assim, tomando por guia este pensamento, poder-se-á determinar o sentido positivo
da palavra que apresenta dificuldade.
2. É, pois tão natural quanto importante o que chamamos a segunda regra, e diz: É de todo
necessário tomar as palavras no sentido que indica o conjunto da frase.
3. Dos exemplos que oferecemos a seguir, ver-se-á como varia, segundo a frase, texto ou
versículo, o significado de algumas palavras muito importantes, acentuando assim a
importância desta regra.
Exemplos: 1. Fé: A palavra fé, ordinariamente significa confiança; mas também tem
outras acepções. Lemos de Paulo, por exemplo: "Agora prega a fé que outrora procurava
destruir" (Gál. 1:23). Do conjunto desta frase vimos claramente que a fé, aqui, significa crença,
ou seja, a doutrina do Evangelho.
"Mas aquele que tem dúvidas, é condenado, se comer, porque o que faz não provem de fé;
e tudo o que não provam de fé é pecado" (Rom. 14:23). Pelo conjunto do versículo, e tudo
considerado, verificamos que a palavra aqui ocorre no sentido de convicção; convicção do
dever cristão para com os irmãos.
2. Salvação, Salvar: Estas palavras são usadas freqüentemente no sentido de salvação do
pecado com suas conseqüências; têm, porém, outros significados. Lemos, por exemplo, que
"Moisés cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus os queria salvar, por intermédio dele"
(Atos 7:25). Guiados pelo conjunto do versículo, compreendemos que aqui ocorre a palavra
salvar no sentido de liberdade temporal.
"A nossa salvação está agora mais perto do que quando no princípio cremos" (Rom.
13:11). Salvação aqui equivale à vinda de Cristo.
"Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?" (Heb. 2:3).
Considerando o conjunto, salvação aqui quer dizer toda a revelação do Evangelho.
3. Graça: O significado comum da palavra graça é favor; porém se usa também em outros
sentidos. Lemos, por exemplo: "Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é
dom de Deus", etc. (Ef. 2:8). Pelo conjunto deste versículo se vê claramente que graça significa
a pura misericórdia e bondade de Deus manifestadas aos crentes sem mérito nenhum da parte
deles.
"Falando ousadamente no Senhor, o qual confirmava a palavra da sua graça" (Atos 14:3)
significando, a pregação do Evangelho.
"Esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo" (1
Ped. 1:13). O conjunto nos diz aqui que a graça equivale à bem-aventurança que trará em
sua vinda.
"A graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens" (Tito 2:11). A graça aqui
se usa no sentido do ensino do Evangelho.
"O que vale é estar o coração confirmado com graça, e não com alimentos" (Heb. 13:9).
Considerando todo o conjunto, graça, neste texto, equivale às doutrinas do Evangelho, em
oposição às que tratam de alimentos relacionados com as práticas judaicas.
4. Carne: "E vos darei coração de carne" (Ez. 36:26), isto é, uma disposição terna e
dócil.
Hermenêutica 16
"Andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne" (Ef. 2:3), significa, nossos
desejos sensuais.
"Aquele que foi manifestado na carne" (1 Tim. 3:16), a saber em forma humana.
"Tendo começado no Espírito, estejais agora vos aperfeiçoando na carne?" (Gil. 3:3), quer
dizer, por observar cerimônias judaicas, como a circuncisão, que se faz na carne.
5. Sangue: Falando de crucificar a Cristo, disseram os judeus: "Caia sobre nós o seu
sangue, e sobre nossos filhos!" (Mat. 27:25). Guiados por nossa regra vimos que sangue, aqui,
ocorre no sentido de culpa e suas conseqüências, por matar um inocente.
"Temos a redenção, pelo seu sangue" (Ef. 1:7); "Sendo justificados pelo seu sangue,
seremos por ele salvos da ira" (Rom. 5:9). O conjunto das frases torna evidente que a palavra
sangue equivale à morte expiatória de Cristo na cruz.
6. Como facilmente se compreende, esta regra tem importância especial quando se trata de
determinar se as palavras devem ser tomadas no sentido literal ou figurado. Para não incorrer
em erros, é de grande importância, neste caso também, deixar-se guiar pelo pensamento do
escritor e tomar as palavras no sentido que o conjunto do versículo indica.
Exemplos: 1. "Tomou Jesus um pão, e abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos,
dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo" (Mat. 26:26). Guiados pelo conjunto deste
versículo, torna-se evidente que a palavra corpo aqui não se usa no sentido literal, mas figurado;
porquanto Jesus partiu pão e não seu próprio corpo, e porquanto ele mesmo, santo e inteiro, lhes
deu o pão, e não parte de sua carne. Usa, pois, Jesus, a palavra em sentido simbólico, dando-
lhes a compreender que o pão representa seu corpo.
2. Diz Cristo a Pedro: "Dar-te-ei as chaves do reino dos céus" (Mat. 16:19). Pelo conjunto
desta frase vemos claramente que chaves não se usa no sentido literal ou material, posto que o
reino dos céus não é um lugar terreno onde se penetra mediante chaves materiais. Deve-se,
pois, tomar em sentido figurado, simbolizando as chaves, autoridade; a autoridade de ligar e
desligar ou perdoar e reter pecados, que em outra ocasião também deu aos demais discípulos
(Jo. 20:23; veja Mat. 18:18).
Poder-se-iam multiplicar exemplos como estes, porém bastam os já mencionados, para
termos uma idéia do uso desta regra e da grande necessidade de ler com atenção as Escrituras.

PERGUNTAS
1. Se não se usam as palavras no mesmo sentido, como sabemos em cada caso qual seja o
verdadeiro significado?
2. Como diz a regra que deve ser observada no caso em que as palavras variam de sentido?
3. Como, por exemplo, varia o sentido de palavra "fé"?
a) Como varia o significado da palavra "salvação"?
b) Em que sentido se usa a palavra "graça"?
c) Quais são os diferentes significados da palavra "carne?
d) Como varia o significado da palavra "sangue"?
4. Quando é que esta regra tem importância especial?
a) Por que não se pode tomar no sentido literal a palavra "corpo" em Mat. 26:26?
b) Por que se deve compreender em sentido figurado a palavra "chaves" em Mat. 16:19?
Hermenêutica 17

TERCEIRA REGRA

1. A terceira diz: É necessário tomar as palavras no sentido indicado no contexto, a
saber, os versículos que precedem e seguem ao texto que se estuda.
2. Às vezes sucede que não basta o conjunto de uma frase para determinar qual é o
verdadeiro significado de certas palavras. Portanto, e em tal caso, devemos começar mais acima
a leitura e continuá-la até mais abaixo, para levar em conta o que precede a segue à expressão
obscura e, procedendo assim, encontrar-se-á clareza no contexto por diferentes circunstâncias.
Exemplos: 1. No contexto achamos expressões, versículos ou exemplos que nos
esclarecem e definem o significado da palavra obscura. Ao dizer Paulo: "quando lerdes,
podeis compreender o meu discernimento no mistério de Cristo" (Ef. 3:4), ficamos um tanto
indecisos com respeito ao verdadeiro significado da palavra mistério. Porém, pelos versículos
anteriores e posteriores, verificamos que a palavra mistério se aplica aqui à participação dos
gentios nos benefícios do Evangelho. Encontra-se a mesma palavra em sentido diferente em
outras passagens, sendo necessário, em cada caso, o contexto para determinar o significado
exato.
"Quando éramos menores, estávamos servilmente sujeitos aos rudimentos do mundo"
(Gál. 4:3, 9-11). Que são os rudimentos do mundo? O que vem depois da palavra nos explica
que são práticas de costumes judaicos.
Este vocábulo também é usado noutro sentido, determinando o contexto sua correta
interpretação.
2. Às vezes encontra-se uma palavra obscura aclarada no contexto por sinônimo ou
ainda por palavra oposta e contrária à obscura. Assim que, por exemplo, a palavra "aliança"
(Gál. 3:17), se explica pelo vocábulo promessa que aparece no final do mesmo versículo.
Assim também acham sua explicação as palavras difíceis, "radicados e edificados" pela
expressão "confirmados na fé" que vem logo em seguida às mesmas (Col. 2:7).
"O salário do pecado é a morte", diz o apóstolo Paulo. O sentido profundo desta
expressão faz ressaltar de uma maneira viva a expressão oposta que a segue: "mas o dom
gratuito de Deus é a vida eterna" (Rom. 6:23). Outro tanto sucede em relação à fé, quando
João diz: "quem crê no Filho tem a vida eterna", pintando ao vivo a palavra crer pela
Hermenêutica 18
expressão oposta: "o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas
sobre ele permanece a ira de Deus" (Jo. 3:36).
3. Às vezes, uma palavra que expressa uma idéia geral e absoluta, deve ser tomada
num sentido restritivo, segundo determine alguma circunstância especial do contexto, ou
melhor, o conjunto das declarações das Escrituras em assuntos de doutrina. Quando Davi
por exemplo, exclama: "Julga-me, Senhor, segundo a minha retidão, e segundo a integridade
que há em mim", o contexto nos faz compreender que Davi só proclama sua retidão e
integridade em oposição às calúnias que Cuxe, o benjamita, levantara contra ele (Sal. 7:8).
Tratando-se do administrador infiel temos indicada sua conduta como digna de imitação;
porém, pelo contexto vemos limitado o exemplo à prudência do administrador, com exclusão
total de seu procedimento desonesto (Luc. 16:1-133).
Falando Jesus do cego de nascimento, disse: "Nem ele pecou, nem seus pais", com o que
de nenhum modo afirma Jesus que não houvessem pecado; pois existe no contexto uma
circunstância que limita o sentido da frase a que não haviam pecado para que sofresse de
cegueira como conseqüência, segundo erroneamente pensavam os discípulos. (Jo. 9:3).
Ao ordenar Tiago no cap. 5:14, que o enfermo "chame os presbíteros da igreja, e estes
farão oração sobre ele, ungindo-o com óleo", entendemos pelo contexto que se trata da cura do
corpo e não da saúde da alma, como pretendem os romanistas que, deixando de lado o contexto,
como de costume, imaginam encontrar aqui apoio para a extrema-unção.
Advertências. Tratando-se do contexto, é preciso advertir que às vezes se rompe o fio do
argumento ou narração por um parênteses mais ou menos longo, depois do qual volta ao
assunto. Se o parênteses é curto, não há dificuldade; porém se é longo, como sucede
seguidamente nas epístolas de Paulo, requer particular atenção.
Em Efésios 3, por exemplo, encontramos um parênteses que vai desde o verso 2 até o
último, reatando o fio do assunto no primeiro versículo do cap. 4. Vejam-se outros exemplos
em Filip. 1:27 até 2:16; Rom. 2:13 até 16; Efés. 2:14 até 18, etc., e note-se que a palavra
porque aqui, em lugar de introduzir, como de costume, uma razão determinada do por quê de
alguma cousa, serve para introduzir um parênteses.
Por outra parte, devemos recordar que os originais das Escrituras não têm a divisão em
capítulos e versículos; assim é que o contexto não se encontra sempre dentro dos limites do
capítulo que meditamos, nem tampouco acaba sempre o fio de um argumento ou de uma
narração com o fim do capítulo. É preciso ter isso em conta.
4. Por último, não se esqueça que, às vezes, tão-somente pelo contexto se pode
determinar se uma expressão deve ser tomada ao pé da letra ou em sentido figurado.
Chamando Jesus ao vinho sangue da aliança, compreendemos pelo contexto que a
palavra sangue deve ser tomada em sentido figurado, desde o momento que Jesus, no dito
contexto, volta a chamar ao vinho de fruto da videira, embora o tivesse abençoado. Daí vemos,
além disso, que não vem de Jesus o ensino da transformação do vinho em sangue verdadeiro de
Cristo, como pretendem os que fazem caso omisso do contexto, torcendo as Escrituras para sua
perdição. (Mat. 26:27, 29.) Havendo dito Jesus: "Quem comer a minha carne e beber o meu
sangue tem a vida eterna" e "minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira
bebida", etc., os discípulos ficaram assombrados e começaram a murmurar; dessa circunstância
devemos esperar no contexto alguma explicação, se devemos tomar em sentido material ou
espiritual estas declarações. Efetivamente lemos: "O espírito (o sentido espiritual das palavras
ditas) é o que vivifica; a carne (o sentido carnal) para nada aproveita." Comer a carne e beber o
Hermenêutica 19
sangue equivale, pois, a apropriar-se pela fé do sacrifício de Cristo na cruz, do que, como se
sabe, resulta a vida eterna do crente. (Jo. 6:48-63.)
Falando Paulo de edificar, "se o que alguém edifica sobre o fundamento é ouro, prata,
pedras preciosas, madeira, feno, palha", vemos pelo contexto que fala do próprio Cristo como o
fundamento do edifício, devendo-se tomar estas palavras no sentido espiritual, representando,
sem dúvida, doutrinas legítimas e falsas com suas conseqüências. (1 Cor. 3:12.)
A expressão: "Será salvo, todavia, como que através do fogo", explica-se a si mesma pelo
contexto, o qual nos ensina que não se trata de salvar uma alma qualquer, mas a servos de Deus,
e que não é fogo que se atiça em suas pessoas, mas em sua infortunada construção de material,
qual feno e palha; além disso, que não é um fogo purificador, mas destruidor, a saber, o fogo do
escrutínio rigoroso no dia da manifestação de Cristo; estes "cooperadores de Deus" salvar-se-
ão, pois, no sentido de um construtor que, na catástrofe do incêndio do edifício que está
levantando, pode escapar, sim, porém perdendo tudo, exceto a vida. O que significa a mesma
expressão, dizendo: "será salvo", não mediante a permanência no fogo, mas "como que através
do fogo". Só os cegos ao contexto podem sonhar com o purgatório nesta passagem. (1 Cor. 3:5-
15.)
Dizendo Paulo que a união entre Cristo e a Igreja é tão intima, que somos membros de seu
corpo, de sua carne e de seus ossos, e que deve reinar união tão estreita como entre marido e
esposa, continua: "Grande é este mistério." Que mistério? O contexto o explica em
continuação: "mas eu me refiro a Cristo e à igreja" (Efés. 5:32). A união íntima entre Cristo e
sua Igreja é, pois, o mistério, e não a união entre marido e mulher, que, por certo, não é nenhum
mistério. Porém, os romanistas não só fazem um arranjo com o contexto, mas ainda traduzem a
expressão assim: "Grande é este sacramento", acrescentando em nota explicativa que "a união
do marido com a mulher é um grande sacramento"! Deste modo, traduzindo mal e interpretando
pior, encontram aqui o fundamento para o que chamam "o sacramento do matrimônio".
O que acima foi dito basta para compreender a necessidade de ter em conta o contexto a
fim de decidir se determinadas expressões devem ser tomadas ao pé da letra ou em sentido
figurado.

PERGUNTAS
1. Qual é a terceira regra?
2. Que se entende por contexto?
3. Para que e de quantas maneiras é útil o contexto? Que há no contexto que aclara
expressões obscuras? Cite exemplos.
4. Que exemplos temos da aclaração de palavras obscuras por palavras semelhantes ou
opostas às obscuras?
5. Como é que o contexto nos ajuda em certas expressões de idéias absolutas? Cite
exemplos.
6. Que devemos ter presente em relação ao contexto e aos parênteses?
7. De que serve o contexto em relação às expressões literais ou figuradas? Apresente
exemplos.

Advertimos novamente que para proveito positivo é preciso estudar as lições até ao ponto
de poder escrever as respostas às perguntas sem fazer uso do texto.
Hermenêutica 20

QUARTA REGRA

A quarta regra de interpretação diz:
1. É preciso tomar em consideração o objetivo ou desígnio do livro ou passagem em que
ocorrem as palavras ou expressões obscuras. Esta regra, como se vê, não é mais do que a
ampliação das anteriores em caso de não oferecer suficiente luz, nem o conjunto da frase, nem
o contexto, para remover a dificuldade e dissipar toda dúvida.
2. O objetivo ou desígnio de um livro ou passagem se adquire, sobretudo, lendo-o e
estudando-o com atenção e repetidas vezes, tendo em conta em que ocasião e a que pessoas
originalmente foi escrito. Em outros casos consta o desígnio no livro ou passagem mesmo,
como por exemplo, o de toda a Bíblia, em Rom. 15:4; 2 Tim. 3:16, 17; o dos Evangelhos, em
João 20:31; o de 2 Pedro no cap. 3:2, e o de Provérbios no capitulo 1:1, 4.
3. O desígnio alcançado pelo estudo diligente nos oferece auxílio admirável para a
explicação de pontos obscuros, para a aclaração de textos que parecem contradit6rios e para
conseguir um conhecimento mais profundo de passagens em si claras.
4. Exemplos: 1° – É evidente que as cartas aos Gálatas e aos Colossenses foram escritas
na ocasião dos erros que, com grande dano, os judaizantes ou "falsos mestres" procuravam
implantar nas igrejas apostólicas. Por conseguinte, estas cartas têm por desígnio expor com toda
clareza a salvação pela morte expiat6ria de Cristo, contrariamente aos ensinos dos judaizantes,
que pregavam as obras, a observância de dias e cerimônias judaicas, a disciplina do corpo e a
falsa filosofia. A cada passo encontraremos luz no estudo destas cartas para a melhor
compreensão de passagens, embora claras, em si mesmas, se temos esse desígnio sempre
presente. Leremos ao mesmo tempo com mais entendimento, por exemplo, os Salmos 3, 18, 34
e 51, levando-se em conta em que ocasião foram escritos, coisa que consta em seu respectivo
encabeçamento. Outro tanto dizemos dos Salmos 120 até 134, intitulados "Cântico dos
degraus", se tivermos presente que foram escritos para serem cantados pelos judeus em suas
viagens anuais a Jerusalém.
5. 2° – Eis aqui a luz que oferece o desígnio para a aplicação de um ponto obscuro,
desígnio adquirido tendo em conta a condição de uma pessoa à qual se dirige Jesus. Ao
perguntar-lhe um Príncipe, cegado por justiça própria, que bem deveria fazer para obter a vida
eterna (Mat. 19:16; Luc. 18:18) e Jesus lhe responde: "Guarda os mandamentos", quererá
ensinar-lhe com esta resposta que o meio de salvação é a observância do Decálogo? Certamente
que não, desde o momento que Jesus mesmo e as Escrituras em todas as partes ensinam que a
vida eterna se adquire unicamente pela fé no Salvador. Como explicar, pois, que Jesus lhe desse
tal resposta? Tudo fica claro e desaparece toda a dúvida, se tivermos em conta com que
desígnio Jesus lhe fala. Pois, evidentemente, seu objetivo foi valer-se da mesma lei e do
mandamento novo de "vender tudo" o que possuía para tirar o pobre cego de sua ilusão e levá-
lo ao conhecimento de suas faltas para com a lei divina e à conseqüente humilhação, o que
também conseguiu, fazendo-o compreender que não passava de um pobre idólatra de suas
riquezas, que nem mesmo o primeiro mandamento da lei havia cumprido. O desígnio de Jesus,
Hermenêutica 21
neste caso, foi o de usar a lei qual "aio", como disse o Apóstolo, para conduzir o pecador à
verdadeira fonte de salvação, porém não como meio de salvação, e eis aqui por que lhe indica
os mandamentos.
6. 3° – Vejamos como, tendo em consideração o desígnio, desaparecem as aparentes
contradições. Quando Paulo disse que o homem é justificado (declarado sem culpa) pela fé sem
as obras, enquanto Tiago afirma que o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé,
desaparece a aparente contração desde o momento que tomemos em conta o desígnio diferente
que levam as cartas de um e de outro. (Rom. 3:28 e Tiago 2:24). Paulo combate e refuta o erro
dos que confiavam nas obras da lei mosaica como meio da justificação, rechaçando a fé em
Cristo; Tiago combate o erro de alguns desordenados que se contentavam com uma fé
imaginária, descuidando e rechaçando as boas obras. Daí que Paulo trata da justificação pessoal
diante de Deus, enquanto Tiago se ocupa da justificação pelas obras diante dos homens. O ser
justificado (declarado sem culpa) o homem criminoso à vista de Deus, realiza-se tão-somente
pela fé no sacrifício de Cristo pelo pecado e sem as obras da lei; porém o ser justificado
(declarado sem culpa) à vista do mundo, ou da igreja, realiza-se mediante obras palpáveis e
"não somente pela fé" que é invisível. "Mostra-me a tua fé pelas tuas obras", tal d o tom e a
exigência da carta de Tiago; tal a exigência, também, das cartas de Paulo. Vemos, pois, que as
pessoas são justificadas diante de Deus mediante a fé, porém, nossa fé é justificada diante dos
homens mediante as obras. Daí compreendermos que concordam perfeitamente as doutrinas
dos apóstolos.
7. Lemos em 1 João 3:9: "Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do
pecado... esse não pode viver pecando." Quererá o apóstolo aqui dizer que o cristão é
absolutamente incapaz de cometer uma falta? Não, porque o próprio objetivo de sua carta é o de
prevenir para que não pequem, com o que está admitida a possibilidade de poder cair em falta.
Como, pois, compreender que os nascidos de Deus não podem pecar? Neste caso também nos
apresenta luz a consideração detida do desígnio da carta. Pelas Escrituras vemos que nos fins do
século apostólico existiam certos pretensos cristãos enganados que criam poder praticar toda
sorte de excessos carnais, sem respeitar lei alguma. Um dos desígnios da carta é,
evidentemente, prevenir os filhos de Deus contra esse mau tipo de crenças. Diz João que,
contrariamente a esses "filhos do diabo" que por natureza cometem pecado, os "filhos de Deus"
não podem viver pecando. Cada um se ocupa nas obras do pai: os filhos de Deus se ocupam em
manifestar seu amor a Deus, guardando seus mandamentos (5:2); os filhos do diabo se ocupam
em imitar a seu pai, que está pecando desde o princípio.
Uns praticam o pecado, os outros não o praticam desde o momento em que nasceram de
Deus. Opondo-se a esses dissolutos filhos do diabo, que acreditavam poder pecar e
naturalmente com gosto pecavam, afirma João que os nascidos de Deus, pelo contrário, tendo
repugnância e ódio ao pecado, não podem pecar; significa, não podem praticar o pecado, ou
continuar pecando, como indica o texto original. Pela razão de haverem nascido de Deus, e
aspirando, como aspiram, à perfeição moral completa, é contra sua nova natureza praticar o
pecado: não podem continuar pecando; o que supostamente não impede que sejam exortados a
guardar-se do mal, desde o momento que não estão fora da possibilidade de pecar.
8. Outro caso de aparente contradição, que também aclara o desígnio dos escritos
correspondentes, encontramos nas cartas de Paulo. Na que dirige aos Gálatas (4:10, 11), ele se
opõe à observância dos dias de festas judaicas, e na dirigida aos Romanos (14:5, 6) não faz uma
oposição definitiva a tal observância. Como explicar esta diferença? Simplesmente porque o
Hermenêutica 22
objetivo geral da Carta aos Gálatas era de resistir às doutrinas dos falsos mestres que haviam
desviado aos Gálatas. Esses mestres lhes haviam ensinado que para a salvação, além de certa fé
no Cristianismo, era preciso guardar as práticas judaicas do Antigo Testamento, com o que em
realidade atacam o fundamento da justificação pela fé, tornando nulo o sacrifício de Jesus
Cristo na cruz. Do grave perigo em que haviam ido parar, queixa-se amargamente o apóstolo, e
nada há de estranho em que se opusesse com firmeza a essas observâncias judaicas que
obscureciam o glorioso Salvador e ameaçavam arruinar o trabalho apostólico entre eles. Muito
diferente é o caso que o apóstolo trata em sua carta aos Romanos (Rom. 15:1-13). A passagem
em que isso ocorre tem por objetivo estabelecer a paz perturbada entre um grupo de irmãos
fracos convertidos do Judaísmo que criticavam os crentes mais firmes, os quais, por sua vez,
desprezavam os fracos. Estes irmãos débeis, que se haviam imposto não comer carne nem beber
vinho e que guardavam as festas judaicas, não se encontravam no grave perigo dos gálatas.
Assim é que o apóstolo menciona que uns consideram todos os dias iguais, enquanto outros
observam certo dia com preferência a outro, afirmando que estes o fazem assim para o Senhor,
sem opor-se direta e definitivamente a isso. Porém, considerando o repetido encargo, que ato
contínuo lhe dirige, de estarem "seguros em seu ânimo", isto é, de submeter a sério exame a
coisa até não haver lugar para dúvida com respeito ao correto proceder que ambas as partes nos
assuntos divergentes deviam observar, e considerando além disso que seu desejo e desígnio
eram que os antagonistas chegassem a um mesmo parecer (15:5, 6), para que cessassem as
discórdias e se restabelecesse a paz. É evidente que o apóstolo induz os fracos a avançar em seu
critério, até ao ponto de abandonar a observância das festas judaicas. Ainda aqui, pois se bem
que indiretamente, o apóstolo se pronuncia contra o costume antigo destinado a desaparecer,
como toda coisa velha que haja cumprido sua missão. Assim é que, em vista dos diferentes
desígnios dos referidos escritos, encontramos completa harmonia onde à primeira vista parece
haver divergência.
Poder-se-iam citar outros exemplos da mesma natureza, porém cremos suficientes os já
referidos para evidenciar a importância de consultar, em caso de necessidade, o desígnio dos
livros ou passagens para conseguir a correta compreensão das expressões obscuras e ainda das
que em si são claras.

PERGUNTAS
1. Qual é a 4ª regra que convém ter presente na interpretação das passagens obscuras?
2. Como se consegue o desígnio ou objetivo de um livro ou Passagem? Qual é o desígnio
da Bíblia, dos Evangelhos e dos Provérbios?
3. Que auxílio nos oferece o desígnio de um livro ou uma passagem na interpretação?
4. Com que motivo e conseqüente desígnio se escreveram as cartas aos Gálatas e aos
Colossenses?
5. Como explicar, pelo desígnio, as palavras: "Guarda os mandamentos", que parecem
contradizer a doutrina da salvação pela fé?
6. Como se harmonizam os textos de Paulo e Tiago, dizendo um: "Concluímos, pois, que o
homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei" e o outro: "Verificais que
uma pessoa é justificada por obras, e não por fé somente"?
7. Como se explica satisfatoriamente a afirmação de João de que o cristão "não pode
pecar"?
Hermenêutica 23
8. Como se harmonizam as passagens a respeito de guardar as festas em Gálatas 4:10, 11 e
Romanos 14:5, 6?

QUINTA REGRA – 1ª PARTE

É necessário consultar as passagens paralelas, "explicando cousas espirituais pelas
espirituais" (1 Cor. 2:13, original).
l. Com passagens paralelas entendemos aqui as que fazem referência uma à outra, que
tenham entre si alguma relação, ou tratem de um modo ou outro de um mesmo assunto.
2. Não só é preciso apelar para tais paralelos a fim de aclarar determinadas passagens
obscuras, mas ao tratar-se de adquirir conhecimentos bíblicos exatos quanto a doutrinas e
práticas cristãs. Porque, como já dissemos, uma doutrina que pretende ser bíblica, não pode ser
considerada no todo como tal, sem resumir e expressar com fidelidade tudo o que estabelece e
excetua a Bíblia em suas diferentes partes em relação ao particular. Se sempre se houvesse tido
isto presente, não se propagariam hoje tantos erros com a pretensão de serem doutrinas bíblicas.
3. Neste estudo importante convém observar que há paralelos de palavras paralelos de
idéias e paralelos de ensinos gerais.

1. Paralelos de palavras

Quanto a estes paralelos, quando o conjunto da frase ou o contexto não bastam para
explicar uma palavra duvidosa, procura-se às vezes adquirir seu verdadeiro significado
consultando outros textos em que ela ocorre; e outras vezes, tratando-se de nomes próprios,
Hermenêutica 24
apela-se para o mesmo procedimento a fim de fazer ressaltar fatos e verdades que de outro
modo perderiam sua importância e significado.
Exemplos: 1° - Em Gálatas 6:17, diz Paulo: "Trago no corpo as marcas de Jesus." Que
eram essas marcas? Nem o conjunto da frase, nem o contexto no-lo explica. Iremos, pois, às
passagens paralelas. Em 2 Cor. 4:10, encontramos em primeiro lugar, que Paulo usa a
expressão "levando sempre no corpo o morrer de Jesus", falando da cruel perseguição que
continuamente Cristo padecia, o que nos indica que essas marcas se relacionam com a
perseguição que sofria. Porém ainda mais luz alcançamos mediante 2 Cor. 11:23, 25, onde o
apóstolo afirma que foi açoitado cinco vezes (com golpes de couro) e três vezes com varas;
suplícios tão cruéis que, se não deixavam o paciente morto, causavam marcas no corpo que
duravam por toda a vida. Consultando, assim, os paralelos, aprendemos que as marcas que
Paulo trazia no corpo não eram chagas ou sinais da cruz milagrosa ou artificialmente
produzidas, como alguns pretendem, porém marcas ou sinais dos suplícios sofridos pelo
Evangelho de Cristo.
2° - Na carta aos Gálatas 3:27, diz o apóstolo dos batizados: "de Cristo vos revestistes".
Em que consiste estar revestido de Cristo? Pelas passagens paralelas em Rom. 13:13,14 e Col.
3:12,14, tudo se esclarece. O estar revestido de Cristo, por um lado consiste em ter deixado as
práticas carnais, como a luxúria, dissoluções, contendas e ciúmes; e por outro em haver adotado
como vestido decoroso, a prática de uma vida nova, como a misericórdia, benignidade,
humildade, mansidão, tolerância e sobretudo o amor cujos atos os cristãos primitivos
simbolizavam no seu batismo, deixando-se sepultar e levantar em sinal de haverem morrido
para essas práticas mundanas e de haverem ressuscitado em novidade de vida, com suas
correspondentes práticas novas. Assim é que, consultando os paralelos, aprendemos que o estar
revestido de Cristo não consiste em haver adotado tal ou qual túnica ou vestido "sagrado", mas
em adornos espirituais ou morais próprios do Cristianismo simples, santo e puro (1 Pedro 3:3-
6).
3° - Segundo Atos 13:22, Davi foi um "homem segundo o coração de Deus". Quererá a
Escritura com esta expressão apresentar-nos a Davi como modelo de perfeição? Não, porque
não cala suas muitas e graves faltas, nem seus correspondentes castigos. Como e em que
sentido, pois, foi homem conforme o coração de Deus? Busquemos os paralelos. Em 1 Samuel
2:35, disse Deus: "Suscitarei para mim um sacerdote fiel, que procederá segundo o que tenha
no coração" do que resulta, tomando toda a passagem em consideração, que Davi,
especialmente em sua qualidade de sacerdote-rei, procederia segundo o coração ou a vontade de
Deus, Esta idéia se encontra plenamente confirmada na passagem paralela do cap. 13, verso 14,
onde também verificamos que era em vista do rebelde Saul, e contrário à sua má conduta como
rei, que Davi seria homem segundo o coração de Deus.
Se bem que Davi, como vemos pela história e pelos seus Salmos, de modo geral foi
homem piedoso, em muitos casos digno de imitação, não nos autorizam de nenhum modo os
paralelos de nossa passagem a considerá-lo como modelo de perfeição, sendo seu significado
primitivo, como temos visto, que Davi, em sua qualidade oficial, o contrário do rebelde rei
Saul, seria homem que procederia segundo o coração ou a vontade de Deus.
4° - Um exemplo da utilidade de consultar os paralelos em relação aos nomes próprios,
temo-lo no relato de Balaão, em Números, capítulos 22 e 24, deixando-nos em duvida quanto
ao verdadeiro caráter e de sua pessoa. Foi ele realmente profeta? E, em tal caso, qual foi a causa
de sua queda? Consultando os paralelos do Novo Testamento, verificamos por 2 Pedro 2:15,16
Hermenêutica 25
e Judas 11, que ele foi um pretenso profeta que atuava levado pela paixão da cobiça, e por
Apocalipse 2:14, que por suas instigações Balaque fez os israelitas caírem em pecado tão
grande que lhes custou a destruição de 23.000 pessoas.
5° - Convém observar também que por este estudo de paralelos se aclaram aparentes
contradições. Segundo 1 Crônicas 21:11, por exemplo, Gade oferece a Davi, da parte de Deus,
o castigo de três anos de fome, e segundo 2 Samuel 24:13, lhe pergunta Gade se quer sete anos
de fome. Como pôde perguntar-lhe se queria sete e ao mesmo tempo lhe oferece três?
Simplesmente porque pelo paralelo de 2 Samuel 21:1, na pergunta de Gade compreendemos
que toma em conta os três anos de fome passados já, com o que estão passando, enquanto no
oferecimento dos três anos só se refere ao porvir.
6° - Atenção. Ao consultar-se este tipo de paralelos convém proceder como segue:
primeiramente buscar o paralelo, ou seja, a aclaração da palavra obscura no mesmo livro ou
autor em que se encontra, depois nos demais da mesma época e, finalmente em qualquer
livro da Escritura. Isto d necessário porque, às vezes, varia o sentido de uma palavra, conforme
o autor que a usa, segundo a época em que se emprega, e ainda, como já temos dito, segundo o
texto em que ocorre no mesmo livro.
Exemplos: 1° - Um exemplo de como diferentes autores empregam uma mesma palavra
em sentido diferente, encontramo-lo nas cartas de Paulo e Tiago. A palavra obras, quando
ocorre só, nas cartas aos Romanos e aos Gálatas, significa o oposto à fé, a saber: as práticas da
lei antiga como fundamento para a salvação. Na carta de Tiago se usa a mesma palavra, sempre
no sentido da obediência e santidade que a verdadeira fé em Cristo produz. Neste caso, e em
casos parecidos, não se aclara, pois, uma pela outra palavra; daí compreendemos a necessidade
de buscar paralelos com preferência no mesmo livro ou nos livros do autor que se estuda.
Notemos, todavia, que um mesmo autor emprega, às vezes, uma palavra em sentido diferente,
em cujo caso também uma expressão explica a outra. Lemos em Atos 9:7, que os companheiros
de Saulo, no caminho de Damasco ouviram a voz do Senhor, e no capítulo 22:9 do mesmo
livro, que "não perceberam o sentido da voz" ou, como diz outra versão, "não ouviram a voz".
É porque entre os gregos, como entre nós, a palavra ouvir se usava no sentido de entender.
Ouviram, pois, a voz e não a ouviram, significando: ouviram o ruído, porém não entenderam as
palavras. Do mesmo modo distinguimos entre ver e ver, como o faziam os hebreus, usando a
palavra em sentido diferente. Assim lemos em Gênesis 48:8, 10, que Israel "viu" os filhos de
José, e em seguida, "os olhos de Israel já se tinham escurecido por causa da velhice, de modo
que não podia ver bem". Significa que os viu confusamente, porém não os podia ver com
clareza, sendo necessário colocá-los perto, como também diz o contexto. Busquem-se, pois, os
paralelos, com preferência e em primeiro lugar num mesmo autor, porém não se espere, mesmo
assim, que sirvam de paralelos sempre todas as expressões iguais.
2° - Prova de como pode mudar o significado de uma palavra segundo a época em que se
emprega, temo-la na palavra arrepender-se. Novo Testamento é usada constantemente no
sentido de mudar de mente o pecador, isto é, no sentido de mudar de opinião, de convicção
íntima, de sentimento, enquanto no Antigo Testamento tem significados tão diferentes que
unicamente o contexto, em cada caso, os pode aclarar. Tanto é assim, que no Antigo se diz do
próprio Deus que se arrependeu, expressão que nunca é empregada pelos escritores do Novo ao
falarem de Deus, exceto no caso de citarem o Antigo Testamento. Daí ser evidente que ao dizer
que Deus se arrepende, não devemos de nenhum modo tomar no mesmo sentido do que nós
compreendemos por arrependimento de um homem. Devem-se, pois, buscar os paralelos, em
Hermenêutica 26
segundo lugar, nos escritos que datam de uma mesma época de preferência aos que se puder
encontrar em outras partes das Escrituras.

PERGUNTAS
1. Qual é a quinta regra, e que se entende por paralelos?
2. Por que se devem consultar os paralelos?
3. Que tipos de paralelos existem?
4. Que se entende por paralelos de palavras?
5. Como se explica a palavra marcas em Gál. 6:17?
6. Por que não significa revestidos em Gál. 3:27, estar coberto com a túnica batismal?
7. Como se obtém o sentido verdadeiro da expressão de que Davi foi "um homem segundo
o coração de Deus"?
8. Para que servem os paralelos no caso de nomes próprios?
9. Como se aclaram as aparentes contradições pelos paralelos?
10. Como se deve proceder ao consultar os paralelos de palavras?
11. Que exemplos se podem apresentar que demonstrem a necessidade de buscar paralelos
num mesmo autor e uma mesma época?
Hermenêutica 27

QUINTA REGRA – 2ª PARTE

2. Paralelos de idéias

1. Para conseguir idéia completa e exata do que ensina a Escritura neste ou naquele texto
determinado, talvez obscuro ou discutível, consultam-se não só as palavras paralelas, mas os
ensinos, as narrativas e fatos contidos em textos ou passagens esclarecedoras que se relacionem
com o dito texto obscuro ou discutível. Tais textos ou passagens chamam-se paralelos de idéias.
Exemplos: 1° - Ao instituir Jesus a ceia, deu o cálice aos discípulos, dizendo: "Bebei dele
todos." Significa isto que só os ministros da religião devem participar do vinho na ceia com
exclusão da congregação? Que idéia nos proporcionam os paralelos?
Em 1 Coríntios 11:22-29, nada menos que seis versículos consecutivos nos apresentam o
"comer do pão e beber do vinho" como fatos inseparáveis na ceia, destinando os elementos a
todos os membros da igreja sem distinção. Invenção humana, destituída de fundamento bíblico
é, pois, o participarem uns do pão e outros do vinho na comunhão.
2° - Ao dizer Jesus: "Sobre esta pedra edificarei a minha igreja", constitui ele a Pedro
como fundamento da igreja, estabelecendo o primado de Pedro e dos papas, como pretendem os
papistas? Note-se primeiro que Cristo não disse: "Sobre ti, Pedro". Nada melhor que os
paralelos que oferecem as palavras de Cristo e Pedro, respectivamente, para determinar este
assunto, ou seja, o significado deste texto. Pois bem, em Mateus 21:42,44, vemos Jesus mesmo
como a pedra fundamental ou "pedra angular", profetizada e tipificada no Antigo Testamento. E
em conformidade com esta idéia, Pedro mesmo declara que Cristo é a pedra que vive, a
principal pedra angular, rejeitada pelos judeus, em Silo, esta pedra foi feita a principal pedra
angular, etc. (1 Pedro 2:4, 8). Paulo confirma e aclara a mesma idéia, dizendo aos membros da
igreja de Éfeso (2:20) que são "edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo
ele mesmo Cristo Jesus, a pedra angular, no qual todo edifício, bem ajustado cresce para
santuário dedicado ao Senhor". Deste fundamento da igreja, posto pela pregação de Paulo,
"como prudente construtor" entre os coríntios, disse o apóstolo "porque ninguém pode lançar
outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo" (1 Cor. 3:10, 11).
Cotejando estes e outros paralelos, chegamos à conclusão de que Cristo, neste texto, não
constitui a Pedro como o fundamento de sua igreja.
2. O modo de proceder, tratando-se deste tipo de paralelos, é pois o de aclarar as passagens
obscuras mediante paralelos mais claros: as expressões figurativas, mediante os textos paralelos
próprios e sem figura, e as idéias sumariamente expressas, mediante os paralelos mais extensos
e explícitos. Vejamos a seguir novos exemplos:
Exemplos: 1° - Acentua-se muito o amor aos crentes em 1 Pedro 4:8, porque o amor
cobre multidão de pecados. Como explicar este texto obscuro? Pelo contexto e cotejando-o
com 1 Cor. 13 e Col. 1:4, compreendemos que a palavra amor é usada aqui no sentido de amor
fraternal. Porém, em que sentido cobre o amor fraternal muitos pecados? Em Rom. 4:8 e
Salmo 32:1, vemos o pecado perdoado sob a figura de "pecado coberto", "sepultado no
esquecimento", como nós diríamos. Consultando o conteúdo de Prov. 10:12, citado por Pedro
neste lugar, compreendemos que o amor fraternal cobre muitos pecados no sentido de perdoar
as ofensas recebidas dos irmãos, sepultando-os no esquecimento, contrário ao ódio que desperta
Hermenêutica 28
rixas e aviva o pecado. Não se trata, pois, aqui de merecer o perdão dos próprios pecados
mediante obras de caridade, nem de encobrir pecados próprios e alheios mediante
dissimulações e escusas, como erroneamente pretendem os que não cuidam de consultar os
paralelos, explicando a Escritura pela Escritura.
2° - Segundo Gálatas 6:15, o que é de valor para Cristo é a nova criatura. Que significa
esta expressão figurada? Consultando o paralelo de 2 Cor. 5:17, verificamos que a nova criatura
é a pessoa que "está em Cristo", para a qual "as cousas antigas passaram" e "se fizeram novas";
enquanto em Gál. 5:6 e 1 Cor. 7:19 temos a nova criatura como a pessoa que tem fé e observa
os mandamentos de Deus.
3° - Paulo expõe sumariamente a idéia da justificação pela fé em Filipenses 3:9, dizendo
que deseja ser achado em Cristo, "não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é
mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus baseada na fé". Para conseguir clareza
desta idéia é preciso recorrer a numerosas passagens das cartas aos Romanos e aos Gálatas, nas
quais se explica extensamente como pela lei todo homem é réu convicto diante de Deus e como
pela fé na morte de Cristo, em lugar do pecador, o homem, sem mérito próprio algum, é
declarado justo e absolvido pelo próprio Deus. Rom. 3, 4, 5; Gál. 3, 4.

PERGUNTAS
1. Que se entende por paralelos de idéias?
2. Como se explica a palavra todos no mandamento que diz: "bebei dele todos" na ordem
da comunhão?
3. Como se prova que a pedra que Jesus menciona em Mat. 16:18, não é Pedro?
4. Como se procede no estudo dos paralelos de idéias?
5. Como é que o amor cobre o pecado, segundo as Escrituras?
6. Como se demonstra o verdadeiro sentido da expressão nova criatura de Gál. 6:15?
7. De que maneira se deixa tudo claro em relação à idéia "da justificação pela fé"?

QUINTA REGRA – 3ª PARTE

3. Paralelos de ensinos gerais

1. Para a aclaração e correta interpretação de determinadas passagens não são suficientes
os paralelos de palavras e idéias; é preciso recorrer ao teor geral, ou seja, aos ensinos gerais
das Escrituras. Temos indicações deste tipo de paralelos na própria Bíblia, sob as expressões de
ensinar conforme as Escrituras, de ser anunciada tal ou qual coisa por boca de todos os
profetas, e de usarem os profetas (ou pregadores) seu dom conforme a medida da fé, isto é,
segundo a analogia ou regra da doutrina revelada. (1 Cor. 15:3, 14; Atos 3:18; Rom. 12:6.)
Exemplos: 1° - Diz a Escritura: "O homem é justificado pela fé sem as obras de lei." Ora,
se desta circunstância alguém tira em conseqüência o ensino de que o homem de fé fica livre
das obrigações de viver uma vida santa e de conformidade com os preceitos divinos, comete um
erro, ainda quando consulte um texto paralelo. É preciso consultar o teor ou doutrina geral da
Escritura que trata do assunto; feito isso, observa-se que essa interpretação é falsa por contrariar
Hermenêutica 29
por inteiro o espírito ou desígnio do Evangelho, que em todas as partes previnem os crentes
contra o pecado, exortando-os à pureza e à santidade.
2° - Segundo o teor ou ensino geral das Escrituras, Deus é um espírito onipotente,
puríssimo, santíssimo, conhecedor de todas as cousas e em todas as partes presente, coisa que
positivamente consta numa multidão de passagens. Pois bem, há textos que, aparentemente, nos
apresentam a Deus como ser humano, limitando-o a tempo ou lugar, diminuindo em algum
sentido sua pureza ou santidade, seu poder ou sabedoria; tais textos devem ser interpretados à
luz de ditos ensinos gerais.
O fato de haver textos que à primeira vista não parecem harmonizar com esse teor das
Escrituras, deve-se à linguagem figurada da Bíblia e à incapacidade da mente humana de
abraçar a verdade divina em sua totalidade.
3° - Ao dizerem as Escrituras: "O Senhor fez todas as coisas para determinados fins, e até
o perverso para o dia da calamidade" (Prov. 16:4), quererão aqui ensinar que Deus criou o
ímpio para condená-lo, como alguns interpretam o texto? Certamente que não; porque, segundo
o teor das Escrituras, em numerosas passagens, Deus não quer a morte do ímpio, não quer que
ninguém pereça, mas que todos se arrependam. E, portanto, o significado da última parte do
texto deve ser que o Criador de todas as coisas, no dia mau, saberá valer-se inclusive do ímpio
para levar a cabo seus adoráveis desígnios. Quantas vezes, pela divina providência, não tiveram
de servir os perversos qual açoite e praga a outros, castigando-se a si mesmos ao mesmo tempo!

4. Paralelos aplicados à linguagem figurada

Às vezes é preciso consultar os paralelos para determinar se uma passagem deve ser
tomada ao pé da letra ou em sentido figurado. Várias vezes os profetas nos apresentam a Deus,
por exemplo, com um cálice na não, dando de beber aos que quer castigar, caindo estes por
terra, embriagados e aturdidos. (Naum 3:11; Hab. 2:16; Salmo 75:8, etc.) Esta representação,
breve e sem explicação em certos textos, encontra-se aclarada no paralelo de Isaías 51:17,22,23,
onde aprendemos que o cálice é o furor da ira ou justa indignação de Deus, e o aturdimento ou
embriaguez, assolações e quebrantamentos insuportáveis.
A propósito da linguagem figurada, é preciso recordar aqui que alguma semelhança ou
igualdade entre duas cousas, pessoas e fatos, justifica a comparação e uso da figura. Assim,
pois, se houver certa correspondência entre o sentido figurado de uma palavra e seu sentido
literal, não é necessário, como tampouco é possível, que tudo quanto encerra a figura se
encontre no sentido literal. Pela mesma razão, por exemplo, quando Cristo chama de ovelhas a
seus discípulos, é natural que não apliquemos a eles todas as qualidades que encerra a palavra
ovelha, a qual aqui é usada em sentido figurado. Em casos como este sói bastar o sentido
comum para determinar os pontos de comparação. Assim compreendemos que, ao chamar-se
Cristo de o Cordeiro, somente se refere a seu caráter manso e a seu destino de ser sacrificado,
como o cordeiro sem mácula o era entre os israelitas. Do mesmo modo compreendemos em que
sentido se chama ao pecado de dívida; à redenção de pagamento da dívida, e ao perdão,
remissão da divida ou da culpa.
É evidente que o sentido de tais expressões não deve ser levado a extremos exagerados: se
bem que Cristo morreu pelos pecadores, não se admite em conseqüência, por exemplo, que
todos os pecadores são ou serão salvos; e se bem que Cristo cumpriu toda a lei por nós, não
resulta daí que tenhamos o direito de viver no pecado; ou se consta que o homem está morto no
Hermenêutica 30
pecado, não quer dizer que está de tal modo morto que não se possa arrepender e que fique sem
culpa se deixar de ouvir o chamamento do Evangelho. Tratando-se de figuras de objetos
materiais, não será difícil determinar o justo número de realidades ou pontos de comparação
que designa cada figura, nem a conseqüência lícita ou ensino positivo que encerra cada ponto.
Maiores dificuldades oferecem as figuras tomadas da natureza humana ou da vida
ordinária. Muitos têm-se recreado em formar castelos de doutrinas sem fundamento,
rebuscando e comparando tais figuras e símiles, tirando conseqüências ilícitas, e até contrárias
às Escrituras. O espírito humano parece encontrar gosto especial em semelhantes fabricações
caprichosas e jogos de palavras. Devem-se, pois, estudar as figuras com sobriedade especial e
sempre com toda a seriedade.

PERGUNTAS
1. Que são "paralelos de ensinos gerais"?
2. Como se evita a falsa interpretação da expressão "Justificação sem as obras da lei"?
3. Como se aclaram as expressões que nos apresentam a Deus como um ser limitado?
4. Por que ocorrem tais expressões? Como se consegue o correto sentido do texto que diz
que Deus tem feito o perverso para o dia mau?
5. Por que razão se deve recorrer aos paralelos tratando-se de linguagem figurada?
6. Em que condição se permite o uso de uma figura de retórica?
7. Por que não se deve buscar o equivalente de todas as circunstâncias das figuras?
8. Em que espírito se devem estudar e compreender as figuras ou símbolos das Escrituras?

REPETIÇÃO E OBSERVAÇÕES
Hermenêutica 31
Repetindo e resumindo algo do que foi dito nas lições anteriores, convém que nos
recordemos e sempre tenhamos presente:
1° – Que o primeiro requisito para o bom entendimento das Escrituras é um espírito de
discípulo humilde. Tanto é assim, que uma pessoa comparativamente ignorante, que
humildemente invoca a luz do Espírito de Deus no estudo da Bíblia, conseguirá conhecimentos
bíblicos exatos com mais facilidade do que um homem de talento e sabedoria humana que,
preocupado e carecendo do espírito de discípulo, empreende seu estudo. Numerosos exemplos
apóiam esta verdade.
2° – Que as grandes doutrinas e princípios do Cristianismo estão expostos com clareza nas
Escrituras.
3° – Que, por conseguinte e em realidade, só se invocam as regras de interpretação para
conseguir o significado verdadeiro dos pontos obscuros e de difícil compreensão.
4° – Que, apesar disso, d de grande importância que até o cristão mais humilde tenha
alguma idéia de tais regras e de sua aplicação, porquanto é seu dever aprofundar-se nas
Escrituras, confirmar-se em suas verdades e familiarizar-se com elas para seu próprio proveito e
para poder iluminar aos que as contradizem.
5° – Para conhecer o sentido inato da Bíblia, ela mesma deve ser sua própria intérprete.
6° – Que o verdadeiro sentido de seus textos é conseguido pelo significado de suas
palavras, e que assim, pela aquisição do verdadeiro sentido das palavras, se consegue o
verdadeiro sentido de seus textos.
7° – Que não se deve esquecer por um momento que o significado das palavras está
determinado pela peculiaridade e uso da linguagem bíblica, devendo-se, portanto, buscar o
conhecimento do sentido em que se usam as palavras antes de tudo na própria Bíblia.
8° – Que as palavras devem ser tomadas no sentido que comumente possuem, se este
sentido não estiver manifestamente contrário a outras palavras da frase em que ocorrem, com o
contexto e com outras partes das Escrituras.
9° – Que, no caso de haver uma palavra com significado diferente, oferecendo-se assim ou
de outro modo um ponto obscuro, recorra-se às regras acima citadas para se conseguir o sentido
exato que intentava o escritor inspirado, ou melhor, o próprio Espírito de Deus.
10° – Que, à parte da correta interpretação de passagens e textos separados quanto às doutrinas,
estas só são bíblicas e exatas quando expressam tudo quanto dizem as Escrituras em relação a
elas.
Ao averiguar, pois, qual seja o verdadeiro significado de uma passagem da Escritura, é
preciso que perguntemos:
1º – Qual d o significado de suas palavras?
Se não têm mais significado, estamos de imediato esclarecidos: possuímos já o verdadeiro
sentido. Porém se há alguma que tem mais de um sentido, perguntemos:
2º – Que sentido requer o restante da frase?
Só em resposta encontramos dois ou três sentidos, perguntemos:
3º – Qual é o sentido que requer o contexto para que tenha um sentido harmônico toda a
passagem?
Se ainda couber dar-lhe mais de um sentido, perguntemos:
4º – Qual é o sentido que requer o desígnio ou objetivo geral da passagem ou livro em que
se encontra?
E se a todas estas perguntas se oferece ainda mais de uma resposta, perguntemos:
Hermenêutica 32
5º – Qual é o sentido que requerem outras passagens das Escrituras?
Se, por acaso, em resposta a tantas averiguaç6es, ainda fosse possível encontrar mais de
um significado nalguma palavra da passagem, podem considerar-se verdadeiros ambos os
significados ou ambas as interpretações, devendo-se, por certo, preferir a que mais condições
reúna para ser aceita como verdadeira.
Repetimos que o procedimento acima indicado e as regras aqui estampadas são tão justas
quanto necessárias, não somente para a interpretação de todo tipo de linguagem da Escritura,
como para o reto entendimento e interpretação de toda linguagem ou documento de uso na vida
ordinária.

PERGUNTAS
1. Qual é o principal requisito para compreender a Sagrada Escritura?
2. Como estão expressos os grandes princípios do Cristianismo nas Escrituras?
3. Quando é que são úteis as regras de interpretação?
4. Por que convém que todo cristão tenha idéias da correta interpretação das Escrituras?
5. Quem é o intérprete fundamental da Bíblia?
6. Como se consegue o verdadeiro sentido de seus textos?
7. Em que livro se busca o sentido das palavras bíblicas?
8. Em que sentido se devem tomar geralmente as palavras?
9. Como se procede quando uma palavra tem vários sentidos?
10. Quando é que uma determinada doutrina é de todo bíblica?
11. Para averiguar qual seja o verdadeiro sentido de uma passagem, que perguntas devemos
formular-nos? Expliquem-se todas.

FIGURAS DE RETÓRICA – 1ª PARTE

Vimos na "primeira regra" que para a correta compreensão das Escrituras é necessário, na
medida do possível, tomar as palavras em seu sentido usual e comum, o que, devido à
linguagem usual e figurada da Bíblia e seus hebraísmos, não significa que sempre devem ser
tomadas ao pé da letra. Também já observamos que é preciso familiarizar-se com esta
linguagem para chegar a compreender, sem dificuldade, qual seja o sentido usual e comum das
palavras. Para que o leitor consiga em parte esta familiaridade, exporemos em seguida uma
série de figuras e hebraísmos, com seus correspondentes exemplos, que precisam ser estudados
detidamente e repetidas vezes. Como veremos, as figuras retóricas da linguagem bíblica são as
Hermenêutica 33
mesmas que em outros idiomas; e não é tanto para seus nomes, um tanto estranhos, quanto para
os exemplos que lhes seguem, que chamamos a atenção.

Metáfora

1. Esta figura tem por base alguma semelhança entre dois objetos ou fatos, caracterizando-
se um com o que é próprio do outro.
Exemplos: Ao dizer Jesus: "Eu sou a videira verdadeira", Jesus se caracteriza com o que é
próprio e essencial da videira; e ao dizer aos discípulos: "Vós sois as varas", caracteriza-os com
o que é próprio das varas. Para a boa interpretação desta figura, perguntamos, pois: que
caracteriza a videira? ou, para que serve principalmente? Na resposta a tais perguntas está a
explicação da figura. Para que serve uma videira? Para transmitir seiva e vida às varas, a fim de
produzirem uvas. Pois isto é o que, em sentido espiritual, caracteriza a Cristo: qual uma videira
ou tronco verdadeiro, comunica vida e força aos crentes, para que, como as varas produzem
uvas, eles produzam os frutos do Cristianismo. Proceda-se do mesmo modo na interpretação de
outras figuras do mesmo tipo, como por exemplo: "Eu sou a porta, eu sou o caminho, eu sou o
pão vivo; vós sois a luz, o sal; edifício de Deus; ide, dizei àquela raposa; são os olhos a
lâmpada do corpo; Judá é leãozinho; tu és minha rocha e minha fortaleza; sol e escudo é o
Senhor Deus; a casa de Jacó será fogo, e a casa de José chama e a casa de Esaú restolho", etc.
(João 15:1; 10:9; 14:6; 6:51; Mat. 5:13,14; 1 Cor. 3:9; Luc. 13:32; Mat. 6:22; Gên. 49:9; Sal.
71:3; 84:11; Obadias 18.)

Sinédoque

2. Faz-se uso desta figura quando se toma a parte pelo todo ou o todo pela parte, o plural
pelo singular, o gênero pela espécie, ou vice-versa.
Exemplos: Toma a parte pelo todo o Salmista ao dizer: "Minha carne repousará segura"
(versão revista e corrigida), em lugar de dizer: meu corpo ou meu ser, que seria o todo, sendo a
carne só parte de seu ser (Sal. 16:9).
Toma o todo pela parte o Apóstolo quando diz da ceia do Senhor: "todas as vezes que . . .
beberdes o cálice", em lugar de dizer beberdes do cálice, isto é, parte do que há no cálice. (1
Cor. 11:26).
Tomam também o todo pela parte os acusadores de Paulo ao dizerem: "Este homem é uma
peste e promove sedições entre os judeus esparsos por todo o mundo"; significando, por
aquela parte do mundo ou do Império romano que o Apóstolo havia alcançado com sua
pregação. (Atos 24:5.)

Metonímia

3. Emprega-se esta figura quando se emprega a causa pelo efeito, ou o sinal ou símbolo
pela realidade que indica o símbolo.
Exemplos: Vale-se Jesus desta figura empregando a causa pelo efeito ao dizer: "Eles têm
Moisés e os profetas; ouçam-nos", em lugar de dizer que têm os escritos de Moisés e dos
profetas, ou seja o Antigo Testamento. (Luc. 16:29.)
Hermenêutica 34
Emprega também o sinal ou símbolo pela realidade que indica o sinal quando disse a
Pedro: "Se eu não te lavar, não tens parte comigo". Aqui Jesus emprega o sinal de lavar os pés
pela realidade de purificar a alma, porque faz saber ele mesmo que o ter parte com ele não
depende da lavagem dos pés, mas da purificação da alma. (João 13:8).
Do mesmo modo João faz uso desta figura pondo o sinal pela realidade que indica o sinal,
ao dizer: "O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado", pois é evidente que aqui
a palavra sangue indica toda a paixão e morte expiatória de Jesus, única coisa eficaz para
satisfazer pelo pecado e dele purificar o homem. (1 João 1:7.)

Prosopopéia

4. Usa-se esta figura quando se personificam as coisas inanimadas, atribuindo-lhes os
feitos e ações das pessoas.
Exemplos: O apóstolo fala da morte como de pessoa que pode ganhar vitória ou sofrer
derrota, ao perguntar: "Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" (1 Cor. 15:55). Emprega o apóstolo
Pedro a mesma figura, falando do amor, e referindo-se à pessoa que ama, quando diz: "o amor
cobre multidão de pecados" (1 Ped. 4:8). Como é natural, ocorrem com freqüência estas figuras
na linguagem poética do Antigo Testamento, dando-lhe assim uma formosura, vivacidade e
animação extraordinárias, como por exemplo ao prorromper o profeta: "Os montes e os outeiros
romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores do campo baterão palmas."
Convirá observar que em casos como estes não se trata somente de uma mera
personificação das coisas inanimadas, mas de uma simbolização pelas mesmas, representando
nesta passagem os montes e outeiros pessoas eminentes, e árvores pessoas humildes; uns e
outros de regozijo louvando ao Redentor ante seus mensageiros. (Isaías 55:12.)
Outro caso de personificação grandiosa ocorre no Salmo 85:10,11, onde se faz referência à
abundância de bênçãos próprias do reinado do Messias nestes termos: "Encontraram-se a graça
e a verdade, a justiça e a paz se beijaram. Da terra brota a verdade, dos céus a justiça baixa o
seu olhar."

Ironia

5. Faz-se uso desta figura quando se expressa o contrário do que se quer dizer, porém
sempre de tal modo que se faz ressaltar o sentido verdadeiro.
Exemplos: Paulo emprega esta figura quando chama aos falsos mestres de os tais
apóstolos, dando a entender ao mesmo tempo que de nenhum modo são apóstolos. (2 Cor.
11:5; 12:11; veja-se 11:13.)
Vale-se da mesma figura o profeta Elias quando no Carmelo disse aos sacerdotes do falso
deus Baal: "Clamai em altas vozes . . . e despertará", dando-lhes a compreender, por sua vez,
que era de todo inútil gritarem. (1 Reis 18:27.)
Também Jó faz uso desta figura ao dizer a seus amigos: "Vós sois o povo, e convosco
morrerá a sabedoria", fazendo-os saber que estavam muito longe de serem tais sábios. (Jó 12:2.)

Hipérbole
Hermenêutica 35
6. É a figura pela qual se representa uma coisa como muito maior ou menor do que em
realidade é, para apresentá-la viva à imaginação. Tanto a ironia como a hipérbole são pouco
usadas nas Escrituras, porém, alguma ou outra vez ocorrem.
Exemplos: Fazem uso da hipérbole os exploradores da terra de Canal quando voltam para
contar o que ali haviam visto, dizendo: "Vimos ali gigantes . . . e éramos aos nossos próprios
olhos como gafanhotos... as cidades são grandes e fortificadas até aos céus." (Núm. 13:33;
Deut. 1:28). Daí se vê que os exploradores falavam como se costuma entre nós ao dizer uma
pessoa a outra, por exemplo: "Já lhe avisei mil vezes", querendo dizer tio somente: "Já lhe
avisei muitas vezes."
Também João faz uso desta figura ao dizer: "Há, porém, ainda muitas outras coisas que
Jesus fez. Se todas elas fossem relatadas uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro
caberiam os livros que seriam escritos."

PERGUNTAS

1. Que se entende por metáfora?
2. Que é sinédoque?
3. Que é metonímia
4. Que é prosopopéia?
5. Que é ironia?
6. Que é hipérbole?
Esclareça-se cada figura com algum exemplo.

FIGURAS DE RETÓRICA – 2ª PARTE

Não só se empregam determinadas palavras em sentido figurado nas Escrituras, mas às
vezes, textos e passagens inteiros; assim é que achamos o uso da alegoria, da fábula, do enigma,
do símbolo e da parábola, figuras que ocorrem também em outra classe de literatura.

Alegoria
Hermenêutica 36

1. A alegoria é uma figura retórica que geralmente consta de várias metáforas unidas,
representando cada uma delas realidades correspondentes. Costuma ser tão palpável a natureza
figurativa da alegoria, que uma interpretação ao pé da letra quase que se faz impossível. Às
vezes a alegoria está acompanhada, como a parábola, da interpretação que exige.
Exemplos: Tal exposição alegórica nos faz Jesus ao dizer: "Eu sou o pão vivo que desceu
do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo, é a
minha carne... Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna", etc. Esta
alegoria tem sua interpretação na mesma passagem da Escritura. (João 6:51-65.)
Outra alegoria apresenta o Salmista (Salmo 80:8-13) representando os israelitas, sua
trasladação do Egito a Canaã e sua sucessiva história sob as figuras metafóricas de uma videira
com suas raízes, ramos, etc., a qual, depois de trasladada, lança raízes e se estende, ficando
porém mais tarde estropiada pelo javali da selva e comida pelas bestas do campo
(representando o javali e as bestas poderes gentílicos).
Ainda outra alegoria nos apresenta o povo israelita sob as figuras de uma vinha em lugar
fértil, a qual, apesar dos melhores cuidados, não dá mais que uvas silvestres, etc. Também esta
alegoria está acompanhada de sua explicação correspondente – "Porque, a vinha do Senhor dos
Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta dileta do Senhor", etc. (Isa. 5:1-
7).

Fábula

2. A fábula é uma alegoria histórica, pouco usada na Escritura, na qual um fato ou alguma
circunstância se expõe em forma de narração mediante a personificação de coisas ou de
animais.
Exemplos: Lemos em 2 Reis 14:9: "O cardo que está no Líbano, mandou dizer ao cedro
que lê está: Dá tua filha por mulher a meu filho; mas os animais do campo, que estavam no
Líbano, passaram e pisaram o cardo." Com esta fábula Jeoás, rei de Israel, responde ao repto de
guerra que lhe havia feito Amazias, rei de Judá. Jeoás compara-se a si mesmo ao robusto cedro
do Líbano e humilha a seu orgulhoso contendor, igualando-o a um débil cardo, desfazendo toda
aliança entre os dois e predizendo a ruína de Amazias com a expressão de que "os animais do
campo pisaram o cardo".

Enigma

3. O enigma também é um tipo de alegoria, porém sua solução é difícil e abstrusa.
Exemplos: Sansão propôs aos filisteus o seguinte: "Do comedor saiu comida e do forte
saiu doçura" (Juízes 14:14). A solução se encontra no sobredito trecho bíblico.
Entre outros ditos de Agur, encontramos em Prov. 30:24 o enigma seguinte: "Há quatro
coisas mui pequenas na terra, que, porém, são mais sábias que os sábios." Este enigma tem
também sua solução na mesma passagem em que se encontra.

Tipo
Hermenêutica 37

4. O tipo é uma classe de metáfora que não consiste meramente em palavras, mas em
fatos, pessoas ou objetos que designam fatos semelhantes, pessoas ou objetos no porvir. Estas
figuras são numerosas e chamam-se na Escritura sombra dos bens vindouros, e se encontram,
portanto, no Antigo Testamento.
Exemplos: Jesus mesmo faz referência à serpente de metal levantada no deserto, como
tipo, prefigurando a crucificação do Filho do homem. (João 3:14.)
Noutra ocasião Cristo se refere ao conhecido acontecimento com Jonas como tipo,
prefigurando sua sepultura e ressurreição. (Mat. 12:40.)
Paulo nos apresenta o primeiro Adão como tipo, prefigurando o segundo Adão, Cristo
Jesus; e também o cordeiro pascoal como o tipo do Redentor. (Rom. 5:14; 1 Cor. 5:7.)
Sobretudo, a carta aos Hebreus faz referência aos tipos do Antigo Testamento, como, por
exemplo, ao sumo sacerdote que prefigurava a Jesus; aos sacrifícios que prefiguravam o
sacrifício de Cristo; ao santuário do templo que prefigurava o céu, etc. (Heb. 9:11-28; 10:6-10).
Muitos abusos têm sido cometidos na interpretação de muitas coisas que parecem típicas
no Antigo Testamento. Assim é que folgamos em aconselhar: 1° – Aceite-se como tipo o que
como tal é aceito no Novo Testamento; 2° – recorde-se que o tipo é inferior ao seu
correspondente real e que, por conseguinte, todos os detalhes do tipo não têm aplicação à dita
realidade; 3° – tenha-se presente que às vezes um tipo pode prefigurar coisas diferentes, e 4° –
que os tipos, como as demais figuras, não nos foram dados para servir de base e fundamento
das doutrinas cristãs, mas para confirmar-nos na fé e para ilustrar e apresentar as doutrinas
vivas à mente.

Símbolo

5. O símbolo é uma espécie de tipo pelo qual se representa alguma coisa ou algum fato por
meio de outra coisa ou fato familiar que se considera a propósito para servir de semelhança ou
representação.
Exemplos: O leão é considerado o rei dos animais do bosque; assim é que achamos nas
Escrituras a majestade real simbolizada pelo leão. Do mesmo modo se representa a força pelo
cavalo e a astúcia pela serpente. (Apoc. 5:5; 6:2; Mat. 10:16.)
Considerando a grande importância que sempre tiveram as chaves e seu uso, nada há de
estranho que viessem a simbolizar autoridade (Mat. 16:19).
Recordando que as portas dos povoados antigamente serviam como uma espécie de
fortaleza, compreendemos por que, em linguagem simbólica, venha a representar força e
domínio. (Mat. 16:18).
Tão numeroso é este tipo de símbolos que cremos conveniente colocar os mais comuns em
seção à parte.
Quanto a fatos simbólicos, para representar a morte do pecador para o mundo e sua
entrada numa vida nova pela ressurreição espiritual, temos a imersão e saída da água, no
batismo. Representa-se também, como sabemos, a comunhão espiritual com Jesus e a
participação de seu sacrifício na celebração da Ceia do Senhor. (Rom. 6:3,4; 1 Cor. 11:23-26.)
Hermenêutica 38
Parábola

6. A parábola é uma espécie de alegoria apresentada sob forma de uma narração, relatando
fatos naturais ou acontecimentos possíveis, sempre com o objetivo de declarar ou ilustrar uma
ou várias verdades importantes.
Exemplos: Em Lucas 18:1-7 expõe Jesus a verdade de que é preciso orar sempre e sem
desfalecer, ainda que tardemos em receber a resposta para aclarar e imprimir nos corações esta
verdade, serve-se do exemplo ou parábola de uma viúva e um mau juiz, que nem teme a Deus
nem tem respeito aos homens. Comparece a viúva perante o juiz pedindo justiça contra seu
adversário. Porém o juiz não faz caso; mas em razão de voltar e molestá-lo, a viúva consegue
que o juiz injusto lhe faça justiça. E assim Deus ouvirá aos seus "que a ele clamam dia e noite,
embora pareça demorado em defendê-los".
Uma parábola que tem por objetivo ilustrar várias verdades, temo-la no Semeador (Mat.
13:3-8), cuja semente cai na terra em quatro pontos diferentes; necessitando cada um sua
interpretação. (Vejam-se versos 18-25.) Outra parábola que ilustra várias verdades é a do João,
no mesmo cap. vers. 24-30 e 36-43. Várias verdades são aclaradas também pelas parábolas da
ovelha perdida, da dracma perdida e do filho pródigo (Luc. 15). Outro tanto sucede com a do
fariseu e o publicano e outras (Luc. 18:10-14).
Quanto à correta compreensão e interpretação das parábolas, é preciso observar o seguinte:
1° – Deve-se buscar seu objetivo; em outras palavras, qual é a verdade ou quais as
verdades que ilustra. Encontrado isso, tem-se a explicação da parábola, e note-se que às vezes
consta o objetivo na sua introdução ou no seu término. Outras vezes se descobre seu objetivo
tendo presente o motivo com que foi empregada.
2° – Devemos ter em conta os traços principais das parábolas, deixando-se de lado o que
lhes serve de adorno ou para completar a narrativa. Jesus mesmo nos ensina a proceder assim
na interpretação de suas próprias parábolas. Como existe perigo de equivocar-se neste ponto,
vamos aclará-lo chamando a atenção para a de Lucas 11:5-8. Nesta parábola Cristo ilustra a
verdade de que é necessário orar com insistência, valendo-se do exemplo de uma pessoa que
necessita de três pães. É noite e vai pedi-los emprestados a um amigo seu que já tem a porta
fechada e está deitado, bem como os seus filhos. Este amigo preguiçoso não quer levantar-se
para dá-los, mas, por força da insistência e importunação no pedido, o homem consegue o que
deseja.
É fácil ver que aqui é o homem necessitado e suplicante quem nos oferece o bom exemplo
e representa o cristão na parábola. Igualmente fácil é entender que seu amigo representa Deus.
Porém, que absurdo seria interpretar tudo o que se disse do amigo, aplicando-o a Deus, a saber,
que tem a porta fechada, estão ele e seus filhos deitados e, sendo preguiçoso, não quer levantar-
se! É evidente que esta parte constitui o que chamamos adorno da parábola e que se deve deixar
de lado, por não corresponder e se aplicar à realidade. Observemos, pois, sempre a totalidade da
parábola e suas partes principais, fazendo caso omisso de seus detalhes menores.
3° – Não se esqueça de que as parábolas, como as demais figuras, servem para ilustrar as
doutrinas e não para produzi-las.

PERGUNTAS

1. Que se entende por alegoria?
Hermenêutica 39
2. Que é fábula?
3. Que é enigma?
4. Que é tipo?
5. Que é símbolo?
6. Que é parábola e que circunstâncias especiais devem ser observadas em sua
interpretação?
Esclareça-se cada resposta com algum exemplo.

FIGURAS DE RETÓRICA – 3ª PARTE

Por P. C. Nelson

Desejamos acrescentar a este capítulo algumas figuras de retórica que o Dr. Lund omitiu a
fim de fazer mais concisa sua obra. Consideramos útil acrescentar esta lição a fim de facilitar o
emprego desta obra como livro de texto e também para o estudo e leitura particulares.

Símile

1. A figura de retórica denominada símile procede da palavra latina "similis" que significa
semelhante ou parecido a outro. A palavra é definida da seguinte maneira pela Enciclopédia
Brasileira Mérito: "Semelhante. Analogia; qualidade do que é semelhante; comparação de
coisas semelhantes." A Bíblia contém numerosos e belíssimos símiles, que, quais janelas de um
edifício, deixam penetrar a luz e permitem que os que estão em seu interior possam olhar para
fora e contemplar o maravilhoso mundo de Deus. A metáfora consiste em denominar uma coisa
empregando o nome de outra, na esperança de que o leitor ou o ouvinte reconhecerá a
semelhança entre o sentido real e o figurado da comparação. O Senhor Jesus empregou com
respeito a Herodes o qualificativo de aquela raposa, o que constitui uma metáfora. Se
houvesse dito que Herodes era como uma raposa, teria empregado a figura retórica
denominada símile, mas neste caso, teria faltado força à sua declaração. A palavra raposa
ajustava-se tão bem ao astuto rei, que o Senhor não necessitou dizer que Herodes era como
uma raposa. No símile se emprega para a comparação a palavra como ou outra similar,
enquanto na metáfora se prescinde dela.
Exemplos: "Pois quanto o céu se alteia acima da terra, assim é grande a sua misericórdia
para com os que o temem." (Símile.)
"Como o pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o
temem." (Símile.)
"Pois ele conhece a nossa estrutura, e sabe que somos p6." (Metáfora).
Hermenêutica 40
"Quanto ao homem, os seus dias são como a relva; como a flor do campo, assim ele
floresce; pois, soprando nela o vento, desaparece; e não conhecerá daí em diante o seu lugar."
(Símile.) (Salmo 103:11-16.)
Outra série de símiles se encontra em Isaías, capítulo 55. Nos versículos 8-11 temos
símiles de rara beleza, como por exemplo: "Como os céus são mais altos do que a terra, assim
são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos; e os meus pensamentos mais altos
do que os vossos pensamentos."
"Porque, assim como descem a chuva e a neve dos céus, e para lá não tornam, sem que
primeiro reguem a terra e a fecundem e a façam brotar para dar semente ao semeador e pão ao
que come, assim será a palavra que sair da minha boca; não voltará para mim vazia, mas fará o
que me apraz, e prosperará naquilo para que a designei."
"Os símbolos escolhidos", diz-nos o Dr. Delitch em seu Comentário Bíblico de Isaías,
"têm profundo significado alusivo. Assim como a neve e a chuva são causas imediatas de
crescimento, e também da satisfação que proporcionam os produtos colhidos, assim também a
Palavra de Deus abranda e refresca o coração humano, transformando-o em terreno fértil e
vegetativo. A Palavra de Deus proporciona também ao profeta – o semeador – a semente para
semear, a qual traz consigo o pão que alimenta a alma. O homem vive de toda palavra que sai
da boca de Deus". (Deut. 8:3.)
Outros dois símiles eficazes relativos ao poder da Palavra de Deus se encontram em
Jeremias 23:29 que diz assim: "Não é a minha palavra fogo, diz o Senhor, e martelo que
esmiúça a penha?" Compare a poderosa metáfora de Hebreus 4:12.
O profeta Isaías em 1:18, mediante dois símiles familiares, dá a conhecer as promessas de
Deus relativas ao perdão e à limpeza. "Ainda que os vossos pecados são como a escarlate, eles
se tornarão brancos como a neve; ainda que são vermelhos como o carmesim, se tornarão como
a lã."
O profeta Isaías nos diz também que "Os perversos são como o mar agitado, que não se
pode aquietar, cujas águas lançam de si lama e lodo." O mesmo profeta compara os justos a um
jardim regado e um manancial inesgotável. (57:20 e 58:11).
Nada é mais inconstante que as ondas marinhas impulsionadas pelo vento. A elas compara
o apóstolo Tiago (1:6) o crente variável e vacilante, que oscila entre a fé e a dúvida. "Peça com
fé, em nada duvidando; pois o que duvida d semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo
vento." A tradução deste versículo para o inglês, feita por Moffatt, e vertida livremente para o
português, diz assim: "Somente peça com fé, sem duvidar jamais, porque o homem que duvida
é como a onda do mar, que gira em redemoinho e flutua, impulsionada pelo vento."
Os símiles da Bíblia são quais gravações formosas e de grande valor artístico, que
acompanham as verdades, que sem este auxílio seriam captadas fracamente e esquecidas com
facilidade.

Interrogação

2. A palavra interrogação procede de um vocábulo latino que significa pergunta. Mas nem
todas as perguntas são figuras de retórica. Somente quando a pergunta encerra uma conclusão
evidente é que é uma figura literária. A Enciclopédia Brasileira Mérito define a interrogação da
seguinte maneira: "Figura pela qual o orador se dirige ao seu interlocutor, ou adversário, ou ao
público, em tom de pergunta, sabendo de antemão que ninguém vai responder."
Hermenêutica 41
Exemplos: "Não fará justiça o Juiz de toda a terra?" (Gên. 18:25). Isso equivale a dizer
que o Juiz de toda a terra fará o que é justo. "Não são todos eles espíritos ministradores
enviados para serviço, a favor dos que hão de herdar a salvação?" (Hebreus 1:14). Neste
versículo o ministério nobre dos anjos se considera um fato incontrovertível. As interrogações
que se encontram em Rom. 8: 33-35 constituem formosos exemplos do poder e do uso desta
figura literária. A mente, em forma instintiva, vai da pergunta à resposta em atitude triunfal.
"Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os
condenará? É Cristo Jesus quem morreu, ou antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de
Deus, e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou
fome, ou nudez, ou perigo ou espada?"
"Jesus, porém, lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do homem?" Estas palavras
equivaliam a dizer: "Judas, tu entregas o Filho do homem com um beijo." (Lucas 22:48).
No livro de Jó há muitas interrogações. Aqui temos alguns exemplos: "Porventura não
sabes tu que desde todos os tempos, desde que o homem foi posto sobre a terra, o júbilo dos
perversos é breve, e a alegria dos ímpios momentânea?" (Jó 20:4, 5). "Porventura desvendarás
os arcanos de Deus, ou penetrarás até a perfeição do Todo-poderoso?" (Jó 11:7). A resposta de
Deus do meio de um redemoinho (caps. 38-40) está expressa em sua maior parte por meio de
interrogações.

Apóstrofe

3. A apóstrofe se assemelha muito à personificação ou prosopopéia. A palavra apóstrofe
procede do latim apostrophe e esta do grego apo, que significa de, e strepho, que quer dizer
volver-se. O vocábulo indica que o orador se volve de seus ouvintes imediatos para dirigir-se a
uma pessoa ou coisa ausente ou imaginária. A Enciclopédia Brasileira Mérito nos proporciona a
seguinte definição: "Figura usada por orador, no discurso; consiste em interrompê-lo
subitamente, para dirigir a palavra, ou invocar alguma pessoa ou coisa, presente, ausente, real
ou imaginária. O emprego desta figura, na eloqüência, produz grandes efeitos sobre as paixões
que o orador procura transmitir aos ouvintes." Quando as palavras são dirigidas a um objeto
impessoal, a personificação e a apóstrofe se combinam, como por exemplo, em 1 Cor. 15:55, e
em algumas outras passagens que seguem:
Exemplos: "Que tens, ó mar, que assim foges? e tu, Jordão, para tornares atrás? Montes,
por que saltais como carneiros? e vós colinas, como cordeiros do rebanho? Estremece, ó terra,
na presença do Deus de Jacó, o qual converteu a rocha em lençol de água e o seixo em
manancial" (Salmo 114:5-8). A seguir temos outro exemplo que combina a personificação com
a apóstrofe: "Ah, Espada do Senhor, até quando deixarás de repousar? Volta para a tua bainha,
descansa, e aquieta-te" (Jeremias 47:6). Uma das apóstrofes mais extraordinárias e conhecidas é
o grito do angustiado Davi, por motivo da morte de seu filho rebelde: "Meu filho Absalão, meu
filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!"
(2 Sam. 18:33). As palavras dirigidas ao caído monarca da Babilônia (Isaías 14:9-32)
constituem uma das apóstrofes mais vigorosas da literatura.
A apóstrofe, empregada por oradores hábeis, é na maioria dos casos a forma mais eficiente
e persuasiva da retórica.
"Inclinai os ouvidos, ó céus, e falarei; e ouça a terra as palavras da minha boca" (Deut.
32:1). Estas palavras nos fazem lembrar de Jeremias que disse: "Ó terra, terra, terral ouve a
Hermenêutica 42
palavra do Senhor" (Jeremias 22:29). Constitui uma forma mui enfática de reclamar atenção e
realçar a importância do que se fala.
Em Números 21:29 é onde encontramos uma das primeiras menções na Bíblia desta figura
retórica: "Ai de ti, Moabe! Perdido estás, povo de Camos!" Aqui a palavra é dirigida à
devastadora terra de Moabe como se estivesse presente. No famoso cântico de Débora e
Baraque, é dirigida a palavra aos reis e príncipes ausentes e dominados, como se estivessem
presentes: "Ouvi, reis, dai ouvidos, Príncipes. Eu, eu mesma cantarei ao Senhor; salmodiarei ao
Senhor Deus de Israel" (Juízes 5:3).
Por motivos de espaço, só apresentaremos duas apóstrofes mais. Ambas procedem dos
lábios do Mestre. A incredulidade, a indiferença e a resistência das cidades que haviam sido
testemunhas da maior parte de sua maravilhosas obras o fizeram exclamar: "Ai de ti, Corazim!
ai de ti, Betsaida! porque se em Tiro e Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se
fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza . . . Tu, Cafarnaum,
elevar-te-ás, porventura, até o céu? Descerás até o inferno!" (Mateus 11:21,23). Quem não
compartilha a angústia do Salvador, quando exclama: "Jerusalém, Jerusalém! que matas os
profetas e apedrejas os que te foram enviados! quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como
a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!" (Mateus 23:37).
Nestes últimos exemplos se combinam a apóstrofe e a prosopopéia.

Antítese

4. Este vocábulo procede da palavra latina antithesis e esta de palavras gregas que
significam colocar uma coisa contra a outra. A Enciclopédia Brasileira Mérito nos dá a seguinte
definição: "Inclusão, na mesma frase, de duas palavras, ou dois pensamentos, que fazem
contraste um com o outro." Trata-se de uma figura de retórica muito eficaz que se encontra em
muitas partes das Escrituras. O mau e o falso servem de contraste ou fundo que di realce ao
bom e o verdadeiro.
Exemplos: O discurso de despedida de Moisés (Deut. 27 a 33) consiste numa notável série
de contrastes ou antíteses. Note-se a que se encontra em Deut. 30:15 que diz: "Vê que proponho
hoje a vida e o bem, a morte e o mal." Temos aqui um contraste ou antítese dupla. Também no
versículo 19: "Os céus e a terra tomo hoje como testemunhas contra ti que te propus a vida e a
morte, a bênção e a maldição (duas antíteses); escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua
descendência."
O Senhor Jesus apresenta em seu Sermão da Montanha numerosas antíteses. Note-se a que
aparece em Mateus 7:13,14: "Entrai pela porta estreita (larga é a porta e espaçoso o caminho
que conduz para a perdição e são muitos os que entram por ela) porque estreita é a porta e
apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela." O Senhor
Jesus estabelece contraste ou antítese entre a porta estreita e a larga; entre o caminho estreito e
o largo; entre os dois destinos, a vida e a destruição e entre os poucos e os muitos. Temos aqui
uma quádrupla antítese. Entre os versículos 17 e 18 se contrasta a árvore má e seus maus frutos
com a árvore boa e seus bons frutos. Nos versículos 21 a 23 o Senhor efetua um contraste entre
duas pessoas: uma professa obediência à vontade divina, sem praticá-la, enquanto a outra
realmente pratica a obediência. A seguir ilustra a diferença mediante uma extraordinária e
múltipla antítese. (Versículos 24-27.)
Hermenêutica 43
Nosso Senhor Jesus dá por concluído seu maravilhoso discurso escatológico (referente às
coisas finais, como a morte, o juízo e o estado futuro) nos capítulos 24 e 25 de Mateus,
empregando gradação ou clímax de caráter antitético.
Em 2 Cor. 3:6-18, Paulo estabelece um contraste entre o Antigo Pacto e o Novo, entre a
Lei e o Evangelho, empregando para isso uma série notável de antíteses que podem ser
convenientemente preparadas em colunas paralelas. Em Rom. 6:23 o apóstolo Paulo contrasta
"morte" com "vida eterna" e o "salário do pecado" com o "dom gratuito de Deus". "Porque o
salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso
Senhor."
Em 2 Cor. 6:8-10 ele nos proporciona uma série de antíteses relacionadas com sua própria
experiência e nos versículos 14-16, mediante antíteses cuidadosamente selecionadas, demonstra
a loucura do cristão que se agrilhoa ao mundo. Em 1 Cor. 15:35-38 dá por terminado seu
poderoso argumento relativo à ressurreição mediante um abundante número de antíteses,
semelhante à descarga de uma metralhadora.

Clímax ou Gradação

5. A palavra clímax ou gradação procede do latim climax e esta do grego klimax que
significa escala, no sentido figurado da palavra. A Enciclopédia Brasileira Mérito nos
proporciona a seguinte definição da palavra gradação: "Concatenação dos elementos de um
período de modo a fazer com que cada um comece com a última palavra do anterior;
amplificação, apresentação de uma série de idéias em progressão ascendente ou descendente.
Também se diz clímax." O essencial é que exista avanço ou progresso na oração, parágrafo,
tema, livro ou discurso. A maioria dos sermões bem preparados têm mais de uma gradação, e
terminam mediante uma gradação final de caráter extraordinário.
A gradação pode consistir em umas poucas palavras ou pode estender-se por todo o
discurso ou livro. Pode consistir em palavras soltas, preparadas de tal maneira que levem a
mente em progressão gradual ascendente, ou pode consistir em uma série de argumentos que
explodem em triunfal culminação, como o argumento incontrovertível da ressurreição em 1
Cor., capítulo 15. O grande capitulo dá fé, Hebreus 11, d um exemplo de um longo e poderoso
clímax ou gradação.
Exemplos: O capítulo oitavo de Romanos é um maravilhoso clímax ou gradação. Começa
com os vocábulos "nenhuma condenação", e termina dizendo que "nenhuma criatura nos poderá
separar". Para criar este poderoso clímax ou gradação, o apóstolo emprega uma série de
gradações. Temos aqui uma delas: "Porque não recebestes o espírito de servidão para viverdes
outra vez atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba,
Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos
filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele
sofrermos, para que também com ele sejamos glorificados" (Versículos15-17).
Temos aqui os degraus da escala: (1) Estamos expostos ao espírito de servidão e temor; (2)
temos sido adotados; (3) ao compreender os lagos que nos unem a Deus, qual crianças
sussurramos a palavra Aba, que significa Pai, em aramaico; (4) até o Espírito dá testemunho da
verdade e realidade desta nova relação; (5) porém os filhos são herdeiros, e também o somos
nós; (6) somos herdeiros de Deus, o mais rico de todos; e (7) estamos no mesmo pé de
Hermenêutica 44
igualdade com Jesus, seu Filho, que é herdeiro de todas as coisas (Heb. 1:2); e se sofremos com
ele, (8) também seremos glorificados com ele.
Temos em seguimento outra figura de gradação. Nos versículos 29-30 notamos como o
Apóstolo ascende cúspide após cúspide: conheceu, predestinou, chamou, justificou, glorificou.
Depois de haver alcançado esta altura, poderá o Apóstolo continuar subindo? Sim, leia os
versículos 31-39. Note-se a base de nossa completa e absoluta confiança e segurança: (1) "Se
Deus é por nós, quem será contra nós?" (2) Se nos deu livremente seu Filho para que morresse
por nós, como nos poderá negar a graça ou bênção de que necessitamos? (3) Quem nos acusará,
posto que é Deus quem nos justifica? (4) Quem se atreverá a condenar-nos, quando Cristo
morreu para nos salvar? (5) Está agora à destra de Deus como nosso Advogado para interceder
por nós. (6) Quem nos separará do amor que Cristo tem para conosco? Separar-nos-á por acaso
(a) a tribulação, (b) angústia, (c) perseguição, (d) fome, (e) nudez, (f) perigo, (g) ou espada?
Depois de haver alcançado este plano, o apóstolo se detém o suficiente para poder citar o Salmo
44:22, para demonstrar que em época remota o povo escolhido sofreu o martírio por amor de
Deus, insinuando assim que estamos preparados para a mesma prova. Sim, nestes conflitos
fazemos mais que vencer. Logo, nos versículos 38 e 39 se eleva a alturas que produzem
vertigens, chegando logo a uma das gradações mais grandiosas de toda a literatura.
Recordemos também que no caso de Paulo não se tratava de um desdobramento oratório.
Tratava-se da plena confiança e profunda convicção de seu coração, e ficou demonstrada em
sua própria vida vitoriosa (2 Cor. 11:23-27) e morte (2 Tim. 4:6-8).
Notem-se também os admiráveis e eloqüentes clímax ou gradações em Isaías, capítulos 40
e 55; também em Efésios 3:14-21. Leia-se também Filipenses 2:5-21.
Temos aqui um exemplo da arenga de Cícero dirigida contra Verres: "É um ultraje
encarcerar um cidadão romano; açoitá-lo é um crime atroz; dar-lhe morte é quase um
parricídio; mas CRUCIFICÁ-LO, de que o qualificarei? Estas palavras lançam luz no que
respeita aos Atos 22:25-28.
O anticlímax é o contrário do clímax ou gradação e é a miúdo empregado por escritores
inexperientes. Consiste em descer do sublime ao ridículo ou colocar ao final do escrito ou
discurso as frases de menor importância.

PERGUNTAS
1. Que é símile? Como se distingue da metáfora?
2. Que exemplos de símiles pode dar?
3. Que é interrogação? É toda pergunta uma figura de retórica? Apresente exemplos.
4. Que é apóstrofe? De que forma se diferencia esta figura de retórica da personificação?
Dê exemplos da Bíblia.
5. Que é antítese? Dê exemplos.
6. Que é clímax ou gradação?
Efetue uma diferenciação entre clímax e antítese. Proporcione exemplos.
Hermenêutica 45

FIGURAS DE RETÓRICA – 4ª PARTE

Por P. C. Nelson

Em virtude do fato de que se encontram numerosas e diversas figuras de retórica nas
Sagradas Escrituras, e no entendimento de que as figuras empregadas aclaram a miúdo as
passagens mais obscuras e difíceis, acrescenta-se esta parte para estudar algumas figuras de
retórica que não foram consideradas nas lições precedentes.

Provérbio

1. Este vocábulo procede das palavras latinas pro que significa antes e verbum que quer
dizer palavra. Trata-se de um dito comum ou adágio. O provérbio tem sido definido como uma
afirmação extraordinária e paradoxal. Os Provérbios do Antigo Testamento estão redigidos em
sua maior parte em forma poética, consistentes em dois paralelismos, que geralmente são
sinônimos, antitéticos ou sintéticos. O livro dos Provérbios contam grande variedade de
Provérbios, adivinhações, enigmas e ditos obscuros. Neste último sentido da palavra usa-se o
provérbio por duas vezes consecutivas em João 16 (25,29). Em João 10:6 temos a mesma
palavra grega, mas ali foi traduzida como parábola. Alguns provérbios são parábolas abreviadas
ou condensadas; outros, metáforas; outros, símiles; e outros se têm estendido até formar
alegorias.
Em sua Introdução ao livro dos Provérbios, escrito em hebreu, o Dr. T. J. Conant faz o
seguinte comentário: "A sabedoria ética e prática mais remota da maioria dos povos da
antiguidade se expressava em ditos agudos, breves, expressivos e enérgicos. Enfeixavam, em
poucas palavras, o resultado da experiência comum, ou das considerações e observações
individuais. Pensadores e observadores agudos, acostumados a generalizar os acontecimentos
experimentais e arrazoar com base em princípios básicos, expressavam o resultado de suas
investigações mediante apotegmas ou seja ditos breves e sentenciosos, os quais comunicavam
alguma instrução ou pensamento engenhoso, alguma verdade de caráter moral ou religioso,
alguma máxima relativa à prudência ou conduta, ou às regras práticas da vida. Tudo isto era
manifestado mediante termos destinados a despertar atenção, ou estimular o espírito de
investigação ou as faculdades do pensamento, e em forma que se fixava com caracteres
indeléveis na memória. Converteram-se, assim, em elementos integrantes da forma popular de
pensar, tão inseparáveis dos hábitos mentais do povo como o próprio poder de percepção."
O propósito dos Provérbios é afirmado assim na introdução ao Livro dos Provérbios (1:2-
6): "Para aprender a sabedoria, e o ensino; para entender as palavras de inteligência; para obter
o ensino do bom proceder, a justiça, o juízo, e a eqüidade; para dar aos simples prudência, e aos
jovens conhecimento e bom siso: ouça o sábio e crespa em prudência; e o entendido adquira
habilidade para entender provérbios e parábolas, as palavras e enigmas dos sábios."
Hermenêutica 46
Exemplos: "Médico cura-te a ti mesmo" (Lucas 4:23). Este deve ter sido um dito comum
em Nazaré. Aplicava-se a princípio, a médicos atacados de enfermidades físicas, os quais
tratavam de curar delas a outros. Jesus compreendeu que seus antigos conhecidos da cidade de
Nazaré, motivados pela incredulidade, empregariam essas palavras contra ele, se não realizasse
em Nazaré milagres tão maravilhosos como os que havia efetuado em Cafarnaum. O Senhor
respondeu aos seus pensamentos que ainda não se haviam transformado em palavras, com outro
provérbio, que constitui uma defesa própria: "Nenhum profeta é bem recebido em sua própria
terra." Esta parece ser a interpretação condensada do provérbio que diz: "Não há profeta sem
honra senão na sua terra, entre os seus parentes, e na sua casa." (Marcos 6:4; Mateus 13:57.)
Jesus demonstra a verdade de sua declaração ao referir-se à história de Elias (1 Reis capítulos
17 e 18) e de Eliseu (2 Reis, 5:1-14).
Contra os mestres apóstatas e reincidentes que semeavam a ruína naquela época, o
apóstolo Pedro emprega com grandes resultados dois fatos, que todos deviam ter observado,
condensados num provérbio, a saber: "O cão voltou ao seu próprio vômito; e: a porca lavada
voltou a revolver-se no lamaçal" (2 Pedro 2:22). A interpretação é evidente, e não é difícil
encontrar exemplos para ilustrar a verdade, mesmo em nossos dias. (Compare Provérbios
26:11, onde a primeira parte deste duplo provérbio se aplica com respeito a um néscio e sua
necessidade.)
Advertências: (1) Deve-se ter muito cuidado no que respeita à interpretação de provérbios, e
em particular, no referente àqueles que não são fáceis de entender e interpretar. Quiçá estejam
baseados em fatos e costumes que se perderam para nós. (2) Dado que os Provérbios podem ser
símiles, metáforas, parábolas ou alegorias, é bom determinar a que classe pertence o provérbio a
ser interpretado. Figuras diferentes podem combinar-se para formar um provérbio. Por exemplo,
em Prov. 1:20-33, a sabedoria é personificada e se apresenta o provérbio na forma de uma parábola
com sua aplicação. Leia também Eclesiastes 9:13-18. (3) Estude o contexto, isto é, os versículos
que precedem e seguem ao texto, os quais são amiúdo a chave da interpretação, como sucede nos
casos acima mencionados. (4) Quando houverem fracassado todas as tentativas destinadas a aclarar
o significado, é melhor ficar na expectativa até que se receba mais luz sobre o assunto. (5) Não
empregue como prova textos, provérbios ou outras Escrituras, cujo significado não possa
determinar, embora favoreçam a doutrina que você mantém. (6) Aproveite a ajuda que
proporcionam os comentaristas eruditos no estudo das Sagradas Escrituras; eles conhecem os
idiomas originais e podem proporcionar as conclusões a que chegaram os eruditos sagrados mais
famosos. (7) Acima de tudo, ore pedindo a iluminação divina.

Acróstico

2. A palavra acróstico procede dos vocábulos gregos que significam extremidade ou verso.
Temos vários exemplos de acrósticos no Antigo Testamento. O mais notável é o Salmo 119,
com seus 176 versos. Contam 22 estrofes, e cada uma delas corresponde a uma letra do alfabeto
hebraico. Há oito linhas duplas em cada estrofe.
Cada uma das oito linhas na primeira estrofe começa com uma palavra cuja primeira letra
é Aleph, a primeira do alfabeto hebreu. A primeira palavra de cada uma das oito linhas duplas
na segunda estrofe começa com Beth, a segunda letra do alfabeto, e assim sucessivamente, até
o fim. Canta-se em louvor da Palavra de Deus e de seu Autor. É impossível trasladar esta
característica singular do original à versão portuguesa, mas a tradução de João Ferreira de
Almeida (revista e corrigida) indica o acróstico, colocando em ordem as letras hebraicas e seus
Hermenêutica 47
nomes respectivos no começo das estrofes ou seções. No idioma hebraico esta forma constitui
uma verdadeira ajuda para a memória. Dado que os salmos eram escritos para serem cantados
sem livros, e posto que se aprendiam e recitavam de memória na escola, esta disposição
alfabética constituía uma grande ajuda para aprender este capitulo, o mais longo da Bíblia.
Os Salmos 25 e 34 têm vinte e dois versículos em português, e o mesmo número de
estrofes em hebraico: uma para cada letra do alfabeto, tomadas em ordem. Nos Salmos 111 e
112, cada um dos versículos o estrofes está dividido em duas partes, seguindo a ordem do
alfabeto. Os últimos vinte e dois versículos do capítulo final dos Provérbios começam com uma
letra do abecedário hebraico, em ordem alfabética.
A maior parte das Lamentações de Jeremias estão escritas em acrósticos, e alguns dos
capítulos repetem cada uma das letras, uma ou mais vezes.
Temos aqui um modelo posterior de acróstico, em tradução livre:
Jesus, que na cruz seu sangue deu.
E a dor e o desdém por mim sofreu.
Sentenciado foi pela turba cruel
Ultrajado bebeu o amargo fel
Socorre-me e faz-me sempre fiel.
Os cristãos da primeira Igreja, como o evidenciam as catacumbas na cidade de Roma,
empregavam comumente acr6sticos nos epitáfios. Um dos símbolos favoritos e secretos de sua
fé imutável sob o fogo da perseguição era o desenho de um peixe. A palavra grega equivalente
a peixe era ichthus. O alfabeto grego consta de caracteres que nós representamos mediante
duas letras. Desta maneira th e ch são letras simples no alfabeto grego. Ao recordar este fato, o
peixe simbólico era lido da seguinte maneira:
I Iesous Jesus
Ch Christos Cristo
Th Theou de Deus
U Uios Filho
S Soter Salvador

Paradoxo

3. Denomina-se paradoxo a uma proposição ou declaração oposta à opinião comum; a uma
afirmação contrária a todas as aparências e à primeira vista absurda, impossível, ou em
contraposição ao sentido comum, porém que, se estudada detidamente, ou meditando nela,
torna-se correta e bem fundamentada. A palavra procede do grego e chega a nós por intermédio
do latim. Está formada de dois vocábulos, para, que significa contra e doxa, opinião ou crença.
Soa ao ouvido como algo incrível, ou impossível, se não absurdo. Nosso Salvador empregou
com freqüência esta figura entre seus ouvintes, com o objetivo de sacudi-los de sua letargia e
despertar seu interesse.
Exemplos: (a) "Vede, e acautelai-vos do fermento dos fariseus e saduceus." (Mat. 16:6;
Mar. 8:14-21 e Luc. 12:1.) Os discípulos pensaram que o Senhor falava do fermento do pão,
porque se haviam esquecido de levar pão consigo. Jesus lhes censurou a falta de compreensão
até que finalmente entenderam que o Senhor se referia às más doutrinas e à hipocrisia dos
fariseus e saduceus. (Mat. 16:12.)
(b) "Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos." (Mat. 8:22; Luc. 9:60.) Esta
foi a extraordinária resposta que nosso Senhor deu a um dos candidatos ao discipulado, que não
Hermenêutica 48
compreendia o que significava seguir ao Senhor, e se propunha primeiro sepultar seu pai.
Aqueles que estão mortos no sentido espiritual da palavra, podem assistir aos funerais dos que
têm falecido no aspecto físico. Outro desejava seguir ao Senhor Jesus, mas queria primeiro
despedir-se dos de sua casa. Nosso Senhor compreendeu que a consagração tinha algum
defeito, igual ao primeiro caso citado, e portanto replicou por meio da parábola: "Ninguém que,
tendo posto a mão no arado, olha para trás, é apto para o reino de Deus" (Lucas 9:61,62). Desta
maneira o Senhor Jesus fez que as pessoas compreendessem a importância que tinha o ser seu
discípulo e o pregar o evangelho.
(c) "Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?" E estendendo sua mão para seus
discípulos, disse: "Eis minha mãe e meus irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade de meu
Pai, esse é meu irmão, irmã e mãe." (Mateus 12:4650; Marcos 3:31-35; Lucas 8:19-21.)
Mediante este procedimento notável nosso Senhor inculcou a doutrina da relação espiritual
mais elevada.
(d) "Se alguém vem a mim, e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e
irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo" (Mateus 14:26).
Este paradoxo constitui um hebraísmo, tal como foi explicado na página 29. Se esta declaração
fosse tomada em forma literal, constituiria uma completa contradição com outras Escrituras que
nos ensinam que devemos amar a nossos familiares. (Efésios 5:28, 29 e outras.)
(e) "Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdoará; e quem perder a sua vida por
causa de mim e do evangelho, salvará." (Marcos 8:35; Mateus 16:25j Lucas 9:24.) Mediante
este paradoxo extraordinário, o Senhor faz que seus seguidores compreendam o valor da alma,
e a perda terrível que experimentam aqueles que morrem sem esperança. Ao mesmo tempo o
Mestre ensina que a melhor maneira de empregar a vida é servindo a Deus. As páginas da
história missionária estão cheias de exemplos que ilustram o grande princípio que o Senhor
Jesus enunciou neste paradoxo. Em outro paradoxo (Marcos 9:43-48), o Senhor demonstra que
é melhor sofrer a perda de um dos membros de nosso corpo do que nos rendermos à tentação e
ficarmos perdidos para sempre.
(f) "Coais o mosquito e engolis o camelo!" (Mateus 23:24). A peça mais notável de
invectiva da literatura é a lançada pelo Senhor contra os escribas e fariseus hipócritas de seu
tempo. Consiste em uma série de oito amargos presságios pronunciados contra eles, pouco
antes de sua morte (Mateus 23:13-33). O Senhor Jesus os denomina "guias cegos" que
cuidadosamente coam o mosquito, mas engolem o camelo. O versículo precedente nos mostra
as diferenças sutis que faziam no que respeita à interpretação da lei, e quão escrupulosos eram
para dar dízimos da hortelã, do endro e do cominho que cresciam em suas hortas e logo
omitiam os assuntos mais importantes "da lei: a justiça, a misericórdia e a fé".
(g) "E ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha,
do que entrar um rico no reino dos céus." (Mateus 19:24; Marcos10:25; Lucas 18:25.) Este
paradoxo maravilhou os discípulos, fazendo-os perguntar: "Quem pode ser salvo?" O contexto
nos proporcionará ajuda. O Senhor Jesus acabava de finalizar sua entrevista com o jovem rico,
que depois se havia afastado triste. Nessas circunstâncias, o Senhor Jesus fez o seguinte
comentário a seus discípulos: "Um rico dificilmente entrará no reino dos céus." Esta
conversação se realizava em idioma aramaico, a língua que o povo comum da Palestina
empregava séculos antes e depois do nascimento de Cristo. Muitos comentaristas eminentes
afirmam que os evangelhos foram no princípio escritos em dito idioma e daí traduzidos para o
grego.
Hermenêutica 49
O Dr. Jorge M. Lamsa explica que a palavra aramaica gamla pode significar uma corda
grossa, um camelo ou uma viga, e afirma que a palavra camelo é uma tradução errada, primeiro
do aramaico para o grego e posteriormente para outras línguas, entre elas o português.
Acrescenta o Dr. Lamsa que o que o Senhor Jesus quis dizer foi o seguinte: "Mas eu vos digo,
que trabalho mais leve é passar uma corda grossa pelo fundo de uma agulha, que entrar um rico
no reino dos céus." Estas palavras soam mais razoáveis que a costumeira explicação, segundo a
qual, depois que as portas da cidade se fechavam, o camelo poderia passar por uma abertura
muito menor na muralha, porém tinha que deixar sua carga, e depois ajoelhar-se. Trata-se de
uma formosa ilustração do que deve fazer o jovem rico; mas surge a pergunta se isso realmente
é o que o Senhor queria dizer ou não? O versículo 26 indica que Jesus quis dizer que se tratava
de uma impossibilidade. Pouco antes o Senhor havia dito: "Em verdade vos digo que, se não
vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino de céus"
(Mateus 18:3). Trata-se aqui de outro paradoxo, similar ao anterior. Ambos os ditos são
contrários à opinião comum, e por esta razão se denominam paradoxos. A crença geral era que
os ricos e os que ocupavam posig6es elevadas estavam mais seguros do céu. Com respeito às
riquezas, o Dr. H. A. W. Meyer faz o seguinte comentário: "O perigo de não alcançar a
salvação por causa das riquezas não reside nestas, consideradas em si mesmas, mas na
dificuldade que tem o homem pecador de colocar essas riquezas à disposição de Deus." (1 Cor.
1:26-26.)
(h) Os exemplos acima mencionados foram tomados das palavras de Jesus. Podem-se
obter outros numerosos exemplos nas Sagradas Escrituras. Temos aqui um do apóstolo Paulo
que diz: "Porque quando sou fraco, então é que sou forte." Isto é, débil ou fraco em mim
mesmo, mas poderoso ou forte no Senhor e em sua fortaleza, tal como o estabelece com clareza
o contexto. (2 Cor. 12:10; Efésios 6110).

PERGUNTAS
1. Que é provérbio? 2. Que é acróstico? 3. Que é paradoxo?
Dê exemplos de cada um deles.

HEBRAÍSMOS

Por hebraísmos entendemos certas expressões e maneiras peculiares do idioma hebreu que
ocorrem em nossas traduções da Bíblia, que originalmente foi escrita em hebraico e em grego.
Como já dissemos, alguns conhecimentos destes hebraísmos são necessários para poder fazer
uso devido de nossa primeira regra de interpretação.
Exemplos: 1° - Era costume entre os hebreus chamar a uma pessoa filho da coisa que de
um modo especial a caracterizava, de modo que ao pacífico e bem disposto se chamava filho da
paz; ao iluminado e entendido, filho da luz; aos desobedientes, filhos da desobediência, etc.
(Veja-se Luc. 10:6; Efés. 2:2; 5:6 e 5:8.)
2° - As comparações eram expressas às vezes, mediante negações, como, por exemplo, ao
dizer Jesus: "Qualquer que a mim me receber, não recebe a mim, mas ao que me enviou", o que
equivale à nossa maneira de dizer: O que me recebe, não recebe tanto a mim, quanto ao que me
enviou; ou não somente a mim, mas também ao que me enviou." Devemos interpretar da
mesma maneira quando lemos: "Não procuro (somente) a minha própria vontade, e, sim, a
daquele que me enviou; trabalhai, não (só) pela comida que perece mas pela que subiste para a
Hermenêutica 50
vida eterna; não mentiste (somente) aos homens, mas a Deus; não me enviou Cristo (tanto) para
batizar, mas (quanto) para pregar o evangelho; nossa luta não é contra o sangue e a carne
(somente), e, sim, contra os principados . . . contra as forças espirituais do mal", etc. (Mar. 9:37;
João 5:30; 6:27; Atos 5:4; 1 Cor. 1:17; Efésios 6:12.)
Como já dissemos em outra parte, o amar e aborrecer eram usados para expressar a
preferência de uma coisa a outra; assim é que ao ler, por exemplo: "Amei a Jacó, porém me
aborreci de Esaú", devemos compreender: preferi Jacó a Esaú. (Rom. 9:13; Deut. 21:15; João
12:25; Luc. 14:26; Mat. 10:37).
3° - Às vezes os hebreus, apesar de se referirem tão-somente a uma pessoa ou coisa,
mencionavam várias para indicar sua existência e relação com a pessoa ou coisa a que se
referiam, como, por exemplo, ao dizer: "A arca repousou sobre as montanhas de Ararat", o que
equivale a dizer que repousou sobre um dos montes Ararat. Do mesmo modo que, ao lermos
em Mateus 24:1 que "se aproximaram dele os seus discípulos para lhe mostrar as construções
do templo", sabemos que um deles (como intérprete do sentimento dos outros) lhe mostrou os
edifícios do templo; e ao dizer (Mateus 26:8) que "indignaram-se os discípulos (pela perda do
ungüento), dizendo: para que este desperdício?", sabemos por João que foi um deles, a saber:
Judas, que sem dúvida, expressando o pensamento dos demais, disse; "Para que este
desperdício?" Ao dizer também. Lucas que os soldados chegaram-se a Jesus, apresentado-lhe
vinagre na cruz, vimos por Mateus que foi um deles que realizou o ato. (Gên. 8:4; Juízes 12:7;
Mateus 24:1; Marcos 13:1; Lucas 23:36; Mateus 27:48.)
4° - Com freqüência usavam os hebreus o nome dos pais para denotar seus descendentes,
como, por exemplo, ao dizer-se (Gên. 9:25): "Maldito seja Canaã", em lugar dos descendentes
de Canaã (excetuando-se, é claro, os justos de seus descendentes). Muitas vezes usa-se também
o nome de Jacó ou Israel para designar os israelitas, isto é, os descendentes de Israel. (Gên.
49:7; Salmo 14:7; 1 Reis 18,17,18.)
5° - A palavra "filho" usa-se, às vezes, como em quase todos os idiomas, para designar um
descendente mais ou menos remoto. Assim é que o sacerdotes, por exemplo, se chamam filhos
de Levi; Mefibosete se chama filho de Saul, embora, em realidade fosse seu neto; do mesmo
modo Zacarias se chama filho de Ido, sendo seu pai Berequias, filho de Ido. E assim como
"filho" se usa para designar um descendente qualquer, do mesmo modo a palavra "pai" se usa
às vezes para designar um ascendente qualquer. Às vezes "irmão" se usa também quando
somente se trata de um parentesco mais ou menos próximo; assim, por exemplo, chama-se Ló
irmão de Abraão, embora em realidade fosse seu sobrinho. (Gên 14:12-16.) Tendo presentes
tais hebraísmos, desaparecem contradições aparentes. Em 2 Reis 8:26, por exemplo, se chama a
Atalia, filha de Onri, e no verso 18, filha de Acabe, sendo em realidade filha de Acabe e neta de
Onri.
Além dos hebraísmos referidos, ocorrem outras singularidades na linguagem bíblica,
certos quase-hebraísmos, que precisamos conhecer para a correta compreensão de muitos
textos. Referimo-nos ao uso peculiar de certos números, de algumas palavras que expressam
fatos realizados ou supostos e de vários nomes próprios.
Exemplos: 1° Certos números determinados usam-se às vezes em hebraico para expressar
quantidades indeterminadas.
"Dez", por exemplo, significa "vários", como também este número exato. (Gên. 31:7;
Daniel 1:20.)
Hermenêutica 51
"Quarenta" significa "muitos". Persépolis era chamada "a cidade das quarenta torres",
embora o numero delas fosse muito maior. Tal é, provavelmente, também o significado em 2
Reis 8:9, onde lemos que Hazael fez um presente de 40 cargas de camelos de bens de Damasco
a Eliseu. Talvez seja este também o significado em Ezequiel 29:11-13.
"Sete" e "setenta" se usam para expressar um número grande e completo, ainda que
indeterminado. (Prov. 26:16,25; Salmo 119:164; Lev. 26:24). É-nos ordenado perdoar até
setenta vezes sete para dar-nos a compreender que, se o irmão se arrepende, devemos sempre
perdoar-lhe. Os sete demônios expulsos de Maria denotam, talvez, seu extremado sofrimento e
ao mesmo tempo sua grande maldade.
2° - Às vezes usam-se números redondos nas Escrituras para expressar quantidades
inexatas. Em Juízes 11:26 vemos, por exemplo, que se coloca o número redondo de 300 por
293. Compare-se também cap. 20:46, 35.
3° - Às vezes faz-se uso peculiar das palavras que expressam ação, dizendo-se de vez em
quando que uma pessoa faz uma coisa, quando só a declara feita; quando profetiza que se fará,
se supõe que se fará ou considera feita. Às vezes manda-se também fazer uma coisa quando só
se permite que se faça.
Em Lev. 13:13 (no original), por exemplo, diz-se que o sacerdote limpa o leproso, quando
apenas o declara limpo. Em 2 Cor. 3:6 lemos que "a letra (significando, a lei) mata", quando na
realidade só declara que o transgressor deve morrer.
Em João 4:1,2, diz-se que "Jesus" batizava mais discípulos que João, quando só ordenava
que fossem batizados, pois em seguida lemos: "(se bem que Jesus mesmo não batizava, e, sim,
os seus discípulos.)" Lemos também que Judas "adquiriu um campo com o preço da
iniqüidade", embora só fosse proveniente dele, entregando aos sacerdotes o dinheiro com que
compraram dito campo. (Atos 1:16-19; Mateus 27:4-10). Assim compreendemos também em
que sentido consta que "o Senhor endureceu o coração de Faraó", ao mesmo tempo que lemos
que Faraó mesmo endureceu seu coração; isto é, que Deus foi causa de seu endurecimento
oferecendo-lhe misericórdia com a condição de ser obediente, porém se endureceu ele mesmo,
resistindo à bondade oferecida. (Êxodo 8:15; 9:12; compare-se Rom. 9:17.)
Ao dizer o Senhor ao profeta Jeremias (1:10): "Hoje te constituo. . . para arrancares . . .
para destruíres e arruinares", etc., não o colocou Deus para executar estas coisas, mas para
profetizá-las ou proclamá-las. Neste sentido também Isaías teve de tornar "insensível o coração
deste endurece-lhes os ouvidos e fecha-lhes os olhos" (Isaías 6:10).
Como prova de que o idioma hebraico expressa em forma de mandamento positivo o que
não implica mais que uma simples permissão, e nem sequer consentimento, de fazer uma coisa,
temos em Ezequiel 20:39, onde diz o Senhor: "Ide; cada um sirva os seus ídolos agora e mais
tarde", dando-se a compreender linhas adiante que o Senhor não aprovava tal conduta. O
mesmo acontece no caso de Balaão o dizer-lhe Deus: "Se aqueles homens (os príncipes do
malvado Balaque) vierem chamar-te, levanta-te, vai com eles; todavia, farás somente o que eu
te disser"; dizendo-nos o contexto que aquilo não era mais que uma simples permissão de ir e
fazer um mal que Deus absolutamente não queria que o profeta o fizesse. (Núm. 22:20.) Caso
semelhante temos provavelmente nas palavras de Jesus a Judas, quando lhe disse: "O que
retendes fazer, faze-o depressa" (João 13:27).
4° - Na interpretação das palavras das Escrituras, é preciso ter presente também que se faz
uso mui singular dos nomes próprios, designando-se às vezes diferentes pessoas com um
Hermenêutica 52
mesmo nome, diferentes lugares com um mesmo nome e uma mesma pessoa com nomes
diferentes.
Pessoas diferentes designadas com um mesmo nome. Faraó, que significa regente, era
o nome comum de todos os reis do Egito desde o tempo de Abraão até à invasão dos persas,
mudando-se depois o nome de Faraó pelo de Ptolomeu. Abimeleque, que significa meu pai e
rei, parece haver sido o nome comum dos reis dos filisteus, como Agague, o dos reis dos
amalequitas e Ben-Hadade dos sírios e o de César dos imperadores romanos. César Augusto
(Lucas 2:1) que reinava ao nascer Jesus, era o segundo que levava este nome. O César que
reinava ao ser crucificado Jesus, era Tibério. O imperador para o qual apelou Paulo e a quem
tanto se chamava Augusto como César, era Nero. (Atos 25:21). Os reis egípcios e filisteus
parecem ter tido um nome próprio além do comum, como os romanos. Assim é que lemos, por
exemplo, de um Faraó Neco, do Faraó Ofra e de Abimeleque Aquis. (Veja-se o prefácio ao
Salmo 34; 1 Samuel 21:11.)
No Novo Testamento se conhecem diferentes pessoas sob o nome de Herodes. Herodes o
Grande, assim chamado na história profana, foi quem, sendo já velho, matou as crianças em
Belém. Morto este, a metade de seu reino, Judéia e Samaria inclusive, foi dada a seu filho
Arquelau; a maior parte da Galiléia, a seu filho Herodes o Tetrarca, o rei (Lucas 3:1; Mateus
2:22); e outras partes da Síria e Galiléia a seu terceiro filho Filipe Herodes. Foi Herodes o
Tetrarca quem decapitou a João Batista e zombara de Jesus em sua paixão. Ainda outro rei
Herodes, a saber, o neto do cruel Herodes o Grande, matou ao apóstolo Tiago, morrendo depois
abandonado em Cesaréia. Foi diante do filho deste assassino de Tiago, chamado Herodes
Agripa, que Festo fez Paulo comparecer. O caráter deste rei era muito diferente do de seu pai, e
não confundi-los é de importância para a correta compreensão da História. Levi em Marcos
2:14 é o mesmo que Mateus. Tomé e Dídimo são uma mesma pessoa. Tadeu, Lebeu e Judas são
os diferentes nomes do apóstolo Judas. Natanael e Bartolomeu são também os nomes de uma
mesma pessoa.
Lugares diferentes designados com um mesmo nome. Duas cidades chamam-se
Cesaréia, a saber Cesaréia de Filipe, na Galiléia, e Cesaréia situada na costa do Mediterrâneo. A
esta última, porto de mar e ponto de partida para os viajantes, que saíam da Judéia para Roma,
refere-se constantemente o livro dos Atos.
Também se mencionam duas Antioquias: a da Síria, onde Paulo e Barnabé iniciaram seus
trabalhos e onde os discípulos pela primeira vez foram chamados de cristãos; e a da Pisídia, à
qual se faz referência em Atos 13:14 e em 2 Tim. 3:11.
Também há vários lugares chamados Mispa no Antigo Testamento como o de Galeede, de
Moabe, o de Gibeá e o de Judá. (Gên. 31:47-49; 1 Sam. 22:3; 7:11; Josué 15:38).
Um mesmo nome que designa a uma pessoa e a um lugar. Magogue, por exemplo, é o
nome de um filho de Jafé, sendo também o nome do país ocupado pela gente chamada Gogue,
provavelmente os antigos citas, hoje chamados tártaros (Ezeq. 38; Apoc. 20:8), dos quais
descendem os turcos.
Uma mesma pessoa e um mesmo lugar, com nomes diferentes. Horebe e Sinai são
nomes de diferentes picos de uma mesma montanha, Porém às vezes um ou outro destes nomes
designa a montanha inteira.
O lago de Genesaré chamava-se antigamente Mar de Cinerete, depois Mar da Galiléia ou
Mar de Tiberíades. (Mateus 4:18; João 21:1.) A Abissínia moderna se chama Etiópia e às vezes
Cuxe, designando este último nome, sem dúvida, a maioria das vezes, Arábia ou Índia, Grécia
Hermenêutica 53
chama-se tanto Javã como Grécia. (Isaías 66:19; Zac. 9:13; Dan. 8:21.) Egito chama-se às
vezes, Cão, outras Raabe. (Salmo 78:51; Isaías 51:9.)
O Mar Morto se chama às vezes Mar da Planície, por ocupar a planície onde estavam as
cidades de Sodoma e Gomorra; Mar do Este, em função de sua posição para o Leste, contando
desde Jerusalém, e ainda Mar Salgado. (2 Reis 14:25; Gên. 14:3; Josué 12:3).
O Nilo chama-se Sibor, porém com mais freqüência o Rio, cujos nomes também às vezes
designam outros rios.
O Mediterrâneo se chama às vezes o Mar dos Filisteus, que viviam em suas costas; outras,
Mar Ocidental; outras, e com mais freqüência, Mar Grande. (Êxodo 23:31; Deut. 11:24; Num.
34:6,7).
A Terra Santa chama-se Canaã, Terra de Israel, Terra de Judéia, Palestina, Terra dos
Pastores e Terra Prometida. (Êxodo15:15; 1 Sam. 13:19; Hebr. 11:9.)
Um cuidadoso conhecimento do referido uso peculiar dos nomes próprios não só favorece
a correta compreensão das Escrituras em geral, como faz desaparecer virias contradições que a
ignorância encontra em diferentes passagens bíblicas.

PERGUNTAS

1. Que se entende por hebraísmos?
2. Que hebraísmos se explicam nos exemplos 1 a 5?
3. Que são os "quase-hebraísmos"?
4. Como se usam às vezes os números, as palavras que expressam ação, os nomes de
pessoas e lugares?
Dedique-se bastante tempo a esta lição, até familiarizar-se com todos os seus detalhes.

PALAVRAS SIMBÓLICAS

A linguagem simbólica oferece muita dificuldade no estudo das Escrituras. Porém, ainda
quando nos tenhamos de limitar à explicação defeituosa de algumas palavras, cremos que se
ganhará algo recapitulando e familiarizando-se com as seguintes:
Abelha, símbolo dos reis da Assíria (Isaías 7:18), os quais em seus escritos profanos
(hieróglifos) também são representados por esta figura; às vezes simboliza também, de um
modo geral, um poder invasor e cruel. (Deut. 1:44; Salmo 118:12.)
Adultério, infidelidade, infração do pacto estabelecido e conseqüente símbolo da idolatria,
especialmente entre o povo que tem conhecido a verdade. (Jer. 3:8,9; Ezeq. 23:37; Apoc. 2:22.)
Águia, poder, vista penetrante, movimento no sentido mais elevado. (Deut. 32:11,12.)
Alfarroba, palha, nulidade, juízo do mal.
Âncora, esperança (Heb. 6:19.)
Arca, Cristo. (1 Ped. 3:20, 21; Heb. 11:7.)
Hermenêutica 54
Arco, símbolo de batalha e de vitória (Apoc. 6:2); às vezes também de engano, porquanto
se pode quebrar ou atirar o falso. (Os. 7:16; Jer. 9:3.)
Árvores, as altas, símbolo de governantes. (Ezeq. 31:5-9); as baixas, símbolo do povo
comum. (Apoc. 7:1; 8:7.)
Azeite, fortaleza pela unção, dai a vida e força que infunde o Espírito de Deus (Tiago
5:14.) Azul, o celeste, o céu. (Ester 8:15.) Babilônia, símbolo de um poder idólatra que
persegue as igrejas de Cristo, referindo-se de um modo particular ao poder romano, pagão e
papal. (Isaías 47:12; Apoc. 17:13; 18:24.)
Balança, símbolo de trato integro e justo. (Jó 31:6.) Tratando-se da compra de viveres,
simboliza a escassez. (Lev. 26:26; Ezeq. 4:16; Apoc. 6:5.)
Berilo, prosperidade, magnificência. (Ezeq. 1:16; 28:13.)
Besta, símbolo de um poder tirano e usurpador, porém às vezes só de um poder temporal
qualquer. (Dan. 7:3,17; Ezeq. 34:28.)
Bode, veja Macho caprino.
Boi, submissão.
Bosque, símbolo de cidade ou reino, representando suas árvores altas os regentes ou
governadores. (Isaías10:17-34; 32:19; Jer. 21:14; Ezeq. 20:46).
Braço, símbolo de força e poder; braço nu e estendido significa o poder em exercício.
(Salmo 10:15; Isa. 52:10; Salmo 98:1; Êxodo 6:6.) Cabras, símbolos dos maus em geral. (Mat.
25:32, 33.)
Cadeia, escravidão. (Mar. 5:4.)
Calcedônia, pureza.
Cálice, símbolo de luxúria provocante. (Apoc. 17:1), também de ritos idólatras. (1 Cor.
10:21) e também da porção que cabe a alguém. (Apoc. 14:10; 19:6.)
Cana, fragilidade humana. (Mat. 12:20.)
Cão, símbolo de impureza e apostasia. (Prov, 26:11; Fil. 3:2; Apoc. 22:15); também de
vigilância. (Isa. 56:10.)
Carneiro, símbolo dos reis em geral e especialmente do rei persa. (Dan. 8:3-7, 20.)
Carro, símbolo do governo ou proteção. (2 Reis 2:12.) Crê-se que Isaías 21:7 se refere a
Ciro e Dario, e Zac. 6:1 a quatro grandes monarquias, enquanto os carros de Deus no Salmo
68:17 e Isaías 66:15 designam as hostes do céu.
Casamento, símbolo de união e fidelidade no pacto ou aliança com Deus e por
conseguinte da perfeição. (Isaías 54:1-6; Apoc.19:7; Efés. 5:23-32.)
Cavalo, símbolo de equipamento de guerra e de conquista (Zac. 10:3); símbolo também da
rapidez (Joel 2:4); ir a cavalo ou "subir sobre as alturas", designa domínio (Deut. 32:13; Isa.
58:14.)
Cedro, força perpetuidade. (Salmo 104:16.)
Cegueira, incredulidade. (Rom. 11:25.)
Céu e terra, usa-se esta expressão num triplo sentido: 1° - invisível e moral; 2° - visível e
literal; 3° - político. Usando-se em sentido político, céu simboliza os regentes, terra o povo, os
dois juntos formando um reino ou um estado. (Isa. 51:15, 16; 65:17; Jer. 4:23, 24; Mat. 24:29.)
Cair do céu é perder a dignidade ou autoridade; céu aberto indica uma nova ordem no
mundo político; uma porta aberta no céu indica o princípio de um novo governo. (Hab. 2:6-22.)
O sol, a lua e as estrelas simbolizam as autoridades superiores e secundárias. (Isa. 24:21,23;
Joel 2:10; Apoc. 12:1.)
Hermenêutica 55
Chave, símbolo de autoridade, do direito de abrir e fechar. (Isa. 22:22; Apoc.1.18; 3:7;
20:1.)
Chuva, influência divina (Tiago 5:7.)
Cinturão, apertado, pronto para o serviço; frouxo, repouso.
Cinzas, tristeza, arrependimento. (Jó 42:6; Dan. 9:3.)
Cobre, (metal, bronze), símbolo de endurecimento. (Isa. 48:4; Jer. 6:28); também de força
e firmeza. (Salmo 107:16.)
Comer, símbolo da meditação e participação da verdade. (Isa. 55:1, 21); símbolo também
dos resultados de conduta observada no passado. (Ezeq. 18:2); símbolo ainda da destruição da
felicidade ou propriedade de alguma pessoa. (Apoc. 17:16; Salmo 27:2.)
Cores, preto, símbolo de angústia e aflição (Jó 30:30; Apoc. 6:5-12); amarelado, símbolo
de enfermidade mortal (Apoc. 6:8); vermelho, de derramamento de sangue ou de vitória (Zac.
6:2; Apoc. 12:3), ou do que não se pode apagar (Isa. 1:18); branco, de formosura e santidade
(Ecl. 9:8; Apoc. 3:4); branco e resplandecente era a cor real e sacerdotal entre os judeus, como
a púrpura entre os ramons.
Corno, símbolo de poder. (Deut. 33:17; 1 Reis 22:11; Miq. 4:13); símbolo também de
dignidade real (Dan 8:9; Apoc. 13.1.) Os cornos do altar constituíam um refúgio seguro.
(Êxodo 21:14.)
Coroa (diadema), símbolo de autoridade conferida (Lev. 8:9) também de autoridade
imperial e de vitória. (Apoc. 19:12.)
Crisólito, glória manifesta.
Crisópraso, paz que sobrepuja todo entendimento. (Apoc. 21:20.)
Crocodilo ou dragão, símbolo do Egito, e em geral de todo poder anticristão. (Isa. 27:1;
51:9; Ezeq. 29:3; Apoc. 12:3; 13:1.)
Cruz, sacrifício. (Col. 2:14.)
Dez, simboliza a plenitude, ou completo. (Mateus 18:24.)
Egito, símbolo de um poder orgulhoso e perseguidor, como Roma. (Apoc. 11:8.)
Embriaguez, símbolo da loucura do pecado (Jer. 51:7); e da estupidez produzida pelos
juízos divinos. (Isa. 29:9.)
Enxofre, símbolo de tormentos. (Jó 18:15; Salmo 9:6; Apoc.14.10; 20:10).
Escarlata, sendo cor de sangue, a vida. (Isa. 1:18.)
Esmeralda, esperança.
Espinhos, abrolhos e roseiras bravas, más influências.
Ferro, severidade. (Apoc. 2:27.)
Filha, povoação, como se esta fora mãe.
Fogo, símbolo da Palavra de Deus (Jer. 23:29; Hab. 3:5); símbolo também de destruição
(Isa. 42:25; Zac. 13:9); de purificação (Mal. 3:2); de perseguição (1 Pedro 1:7); de castigo e
sofrimento (Mar. 9:44.)
Fronte, denota, segundo a inscrição ou sinal que leva, um sacerdote (Lev. 8:9); um servo
ou um soldado (Apoc. 22:4). Os servidores dos ídolos levavam igualmente, como hoje, um
sinal, um nome ou um numero em sua testa. (Apoc. 13:16).
Fruto, manifestações das atividades da vida. (Mateus 7:16.)
Harpa, símbolo de gozo e de louvor (Salmo 49:4; 33:2; II Crôn. 20:28; Isaías 30:32;
Apoc.14:1,2).
Hissopo, purificação. (Salmo 51:7.)
Hermenêutica 56
Incenso, símbolo de oração (queimava-se. com fogo tomado do altar dos perfumes).
(Salmo 141:2; Apoc. 8:4; Mal. 1:11.)
Jacinto e Ametista, promessas de glórias futuras.
Jaspe, paixão, sofrimento.
Lâmpada (candelabro, símbolo de luz, gozo, verdade e governo) (Apoc. 2:5). Em 1
Reis11:36, indica-se com a existência da "lâmpada sempre", que a Davi nunca faltará sucessor.
(Salmo 132:17.)
Leão, símbolo de um poder enérgico e dominador. (2 Reis 23:33; Am6s 3:8; Dan. 7:.4;
Apoc. 5:5.)
Leopardo (tigre), símbolo de um inimigo cruel e enganoso. (Apoc. 13:2; Daniel 7:6; Isa.
11:6; Jer. 5:6; Hab, 1:8.)
Lepra, pecado asqueroso. (Isa, 1:6.) Lírio, formosura, pureza.
Livro, o livro do testemunho entregue ao rei simbolizava a inauguração do reino (2 Reis,
11:2); um livro escrito por dentro e por fora, símbolo de uma longa série de acontecimentos;
um livro selado, símbolo de segredos; comer um livro, símbolo de um estudo sério e profundo
(Jer. 15:16; Apoc. 10:9); o livro de vida, memória em que estão os redimidos (Esd. 2:62; Apoc.
3:5); um livro aberto, símbolo do princípio de um juízo. (Apoc. 20:12.)
Luz, conhecimento, gozo. (João 12:35.)
Macho caprino (bode), símbolo dos reis macedônios, especialmente de Alexandre (Dan.
8:5-7).
Mãe, símbolo do produtor de alguma coisa (Apoc. 17:5, como por exemplo, de uma
cidade cujos habitantes se chamam seus filhos (2 Sam. 20:19; Isa. 49:23); de uma cidade
central, cujos povoados satélites se consideram suas filhas (Isa. 50:1; Os. 2:2,5); símbolo
também da Igreja do Novo Testamento. (Gil. 4:26.)
Maná, símbolo de alimento espiritual e imortal. (Apoc. 2:17; veja-se Êxodo 16:33,34.)
Mãos, símbolo de atividade. Dai mãos limpas, mãos cheias de sangue indicam feitos
correspondentes, puros ou sangrentos. (1 Tim. 2:8; Isa. 1:15.) Lavar as mãos, significa
expiação de culpa ou protesto de inocência de culpa. (1 Cor. 6:11; 1 Tim. 2:8.) Mão direita,
símbolo de posto de honra. (Mar. 16:19.) Dar as destras, símbolo de participação de direitos e
bênçãos. (Gál. 2:9.) Dar a mão, equivale a render-se. (Salmo 68:31; 2 Crôn. 30:8.) Levantar a
destra, era sinal de juramento. (Gên. 14:22; Dan. 12:17.) Marcas nas mãos, símbolo de
servidão e idolatria. (Zac. 13:6.) As mãos postas sobre a cabeça de alguém, símbolo de
submissão de bênção, de autoridade ou de culpa. (Gên 48:14-20; Dan. 10:10.) Mãos de Deus,
postas sobre um profeta, indica influência espiritual (1 Reis 18:46; Ezeq. 1:3; 3:22); o dedo
indica influência menor; o braço, influência maior.
Medir (partir, dividir), símbolo de conquista e possessão. (Isa. 53.12; Zac. 2:2; Am6s
7:17.)
Montanha, símbolo de grandeza e estabilidade. (Isa. 2:2; Dan. 2:35.)
Morte, separação, separação de Deus, insensibilidade espiritual. (Gál. 3:3; Rom. 5:6; Mat.
8:22; Apoc. 3:1.)
Olhos, símbolo de conhecimento, também de glória, de fidelidade (Zac. 4:10), e de
governo. (Núm. 10:31.) Olho maligno significa inveja. Olho bom, liberalidade e misericórdia.
Ouro, realeza e poder. (Gên. 41:42.)
Palmeira, palmas, realeza, vitória, prosperidade.
Pão, pão da vida, Cristo; alimento; meio de subsistência espiritual. (João 6:35.)
Hermenêutica 57
Pedras preciosas, símbolo de magnificência e formosura. (Apoc. 4:3, 21; Êxodo 28:17;
Ezeq. 28:13.)
Peixes, símbolo de governadores das gentes. (Ezeq. 29:4, 5; Hab. 1:14.)
Pó, fragilidade do homem. (Ecles. 3:20; Jó 30:19.)
Pomba, influência suave e benigna do Espírito de Deus. (Mat. 3:16.)
Porco, impureza e gula. (Mat. 7:6.)
Porta, sede do poder; poder (João 10:9.)
Primogênitos, estes tinham autoridade sobre seus irmãos menores; eram os sacerdotes da
família, e consagrando-se a Deus, santificavam sua família por esta consagração; cabia-lhes
porção dobrada na herança. Simbolizam de certo modo a Cristo. (Gên. 20:37; Êxodo 24:5; 13:1,
13; Deut. 21:17; Heb. 2:10, 11; 3:1; Col. 1:12.)
Púrpura, o real, o romano. (Dan. 5:7; Apoc. 17:4.)
Querubins, símbolo, crêem alguns, da glória soberana de Deus; no Apocalipse, dos
redimidos; segundo outros, das perfeições de Deus, manifestas sob suas diversas formas. (Veja-
se Gên. 3:24; Êxodo 25:18, 22; 37:7, 9; Lev.16:2; Núm. 7:8, 9; 1 Reis 6:23; 8:7; 2 Crôn. 3:10,
13; Ezeq. 1:10.)
Ramos, ou rebentos, símbolo de filho ou descendentes.
Raposa, engano, astúcia. (Lucas 13:32.)
Rãs, símbolo de inimigos imundos e impudicos. (Apoc, 16:13.) Rocha, fortaleza, abrigo,
refúgio.
Safira, verdade.
Sal, conservação, incorrupção, permanência.
Sangue, vida. (G%n. 9:4.) Sardônica, amor, ternura, pena, purificação.
Sega, época da destruição. (Jer. 5:33; Isa, 17:5; Apoc. 14:14-18). A sega (messe) é
também símbolo do campo para os trabalhos da Igreja. (Mat. 9:37.)
Sete, número, por assim dizer, divino; a soma de três que simboliza a Trindade e quatro
que simboliza o Reino de Deus na terra, e portanto, a união do finito e o infinito. O Deus-
Homem, por exemplo, se representa pelos sete candelabros de ouro. Este número ocorre com
muita freqüência na Escritura. (Apoc. 4:5.)
Terremoto, símbolo de agitação violenta no mundo político e social. (Joel 2:10; Ageu
2:21; Apoc. 6:12.)
Topázio, alegria do Senhor.
Touro, (novilho), símbolo de um inimigo forte e furioso. (Salmo 22:12; Ezeq. 39:18.)
Novilhos indicam o povo comum, e os estábulos, casas e povoações. (Jer. 50:27.)
Trombeta, sinal precursor de acontecimentos importantes. (Apoc. 6:6.)
Urso, símbolo de um inimigo cegado, feroz e temerário. (Prov.17:12; Isa. 11:7; Apoc.
13:2.)
Uvas, as maduras, símbolo de gente madura para o castigo (Apoc. 14:18); as recolhidas,
símbolo de gente levada em cativeiro. (Jer. 52:28-32.)
Vento, impetuoso, símbolo de conturbação; detido, símbolo de tranqüilidade. (Apoc. 7:1;
Jer. 25:31, 33.)
Vestiduras, denotam qualidades interiores e morais; vestiduras brancas, símbolo de
pureza, de santidade e de felicidade. (Isa. 52:1; Apoc. 3:4; Zac. 3:3.) Dar as vestiduras a alguém
era sinal de favor e amizade. (l Sam. 17:38.)
Véu, do templo, corpo de Cristo. (Heb. 10:20.)
Hermenêutica 58
Vinha, símbolo de grande fecundidade; vindima, símbolo de destruição. (Jer. 2:21; Os.
14:7; Apoc. 14:18, 19.)
Virgens, símbolo de servos fiéis que não se mancharam com a idolatria. (Apoc. 14:4.)
Lembramos que só se deve fazer uso destas interpretações no caso de usar-se as palavras
aclaradas em sentido simbólico, coisa que sempre se descobre mediante as regras explicadas
nas páginas anteriores deste livro.