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SOCIEDADE EM REDE: conexões e desconexões*

Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira

- Publicado no Jornal "A Razão" em 01.07.2004

- Este artigo foi publicado em 17.12.2004 como "Tema do Mês" pela RITS (Rede de
Informações para o Terceiro Setor), conforme solicitação de seu Coordenador, Carlos
Antonio Silva

- Reproduzido da RITS pelo OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA (e-notícias), em


21.12.2004

"A revolução da tecnologia da informação e a reestruturação do capitalismo introduziram


uma nova forma de sociedade, a sociedade em rede" (M. Castells).

A existência social e suas segmentações no mundo pós-moderno, dependem de nossa


conexão em uma determinada rede. Existem inúmeras redes e estas por sua vez, resultam
de uma rede intrincada de relações. Sejam estas relações de natureza biológica, social,
política, econômica, ou tecnológica, as mesmas apresentam algumas características
comuns e seu estudo faz parte da chamada "ciência da rede".

Esta ciência está associada a idéia de ciência pós-moderna, pois seu objetivo é o estudo
das relações e não o aprofundamento de partes isoladas. Um mundo em rede é complexo,
por isso gera vidas e relações complexas. Na verdade a máxima que acompanha a noção
de rede é: "complexidade gera mais complexidade".

Os novos sistemas empresariais estão organizando-se a partir de diferentes formas de rede,


e como exemplos marcantes M. Castells cita as empresas do Japão, da China e da Coréia.
Assim, os trabalhadores hoje se classificam em "ativos na rede", "passivos na rede" e os
"desconectados", e o tripé do sistema econômico global (produtividade, competitividade e
lucratividade) depende de como as unidades econômicas estão conectadas nas redes da
economia pós-moderna e de como elas administram a relação com os fluxos de informação.

A política pós-moderna tem suas estratégias organizadas em rede. De um lado,


positivamente desterritorializados, temos a ação em rede dos novos movimentos sociais,
políticos e culturais, os quais cada vez mais estão se constituindo como poder de oposição
ao instituído, e possibilitam que as vozes anteriormente caladas, sejam ouvidas e suas
concepções compreendidas. Destaco aqui R. Cardoso ao afirmar que "a criatividade, a
negociação e a capacidade de mobilização serão os mais importantes instrumentos para
conquistar um lugar na sociedade em rede". De outro lado, também com uma estrutura em
rede, porém negativamente desterritorializados, temos, "os traficantes de armas, os
sonegadores de impostos, os terroristas" (H. Enzensberger), e acho impossível esquecer os
traficantes de seres humanos (depois do tráfico de drogas e de armas, o tráfico de pessoas
movimenta bilhões de dólares por ano, e em aproximadamente 80% dos casos no mundo,
envolve mulheres).

Redes interativas de comunicação estruturam uma nova geografia de conexões e sistemas.


Delas resulta o mundo "virtual" e o que hoje chamamos de cibercultura. Por elas correm os
fluxos, sendo que a rede de fluxos financeiros é uma das bases do capitalismo global e,
interagindo com as outras redes de fluxos fazem das cidades pós-modernas extensas teias
de telecomunicações avançadas, ou seja, além de centros da vida política, econômica, e
socioculturais, tornaram-se verdadeiros sistemas eletrônicos.

A predominância das redes no mundo pós-moderno, coloca em xeque categorias e


conceitos tradicionais (dentre os quais destaco o de individualismo, e o de relações de
poder). Dimensões básicas da vida (como tempo e espaço) são desconstruídas, e a
interação local-regional-global expressa um mundo globalizado no qual, seguindo M.
Castells, "todos os processos se somam num só processo, em tempo real no planeta
inteiro".

Penso que se estar-em-rede associa-se à existência social, política e econômica assim


como à riqueza, o não-estar-em-rede associa-se à antigas e novas formas de exclusão, de
miséria e de violência.

No mundo em rede, somos forçados a enfrentar o desafio de re-construir nosso "ser" e


"estar-no-mundo", e digo isto lembrando-me e concordando com Heiddeger que não somos
seres finalizados, mas sim um leque de possibilidades inesgotáveis. Afinal, nossa identidade
sofre as influências de novos códigos cotidianamente, e a vida como resultado de uma rede
de interações de naturezas diversas, é um fluxo que corre numa velocidade sem
precedentes num tempoespaço altamente tecnológico, e "quem seremos no futuro
dependerá de nós mesmos" (M. Castells).