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Colégio de Aplicação – UFPE

Aluno: Lucas Gondim 3B

A questão do desejo e finitude em “Avalovara”

O romance “Avalovara”, escrito em 1973 pelo escritor pernambucano Osman


Lins se constituiu ao longo de sua trajetória como uma das maiores obras da literatura
brasileira e mundial. Seja por sua brilhante arquitetura narrativa, seja por seu lirismo,
Avalovara é uma obra que permanece bastante atual, mesmo passados 40 anos de seu
lançamento.

O livro inicia com um palíndromo - ​SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS,


que o narrador traduz por “O lavrador sustém cuidadosamente a charrua nos sulcos” ou
ainda “O Lavrador sustém cuidadosamente o mundo em sua órbita”, indicando dois dos
possíveis sentidos simbólicos das figuras. Osman busca identificar os três amores
(Annelise Ross, Cecília e uma terceira, representada apenas por um símbolo.) de Abel, o
personagem principal, com cidades (São Paulo, Amsterdã, Recife e Roma). No decorrer
da narrativa os personagens atravessam uma labiríntica rede de questionamentos sobre
amor, erotismo, tempo, liberdade e muitos outros temas que compõem as 8 pequenas
narrativas que constituem o romance, tais narrativas forma uma órbita de reflexões
sobre o mundo, onde se discute os limites entre o divino e humano, físico e metafísico,
tendo o herói (ou anti-herói) Abel no centro história.

“Como narrar a viagem e descrever o rio ao longo do qual — outro rio —


existe a viagem, de tal modo que ressalte, no texto, a face mais recôndita e duradoura
do evento, aquela onde o evento, sem começo e sem fim, nos desafia, imóvel e móvel?
Vejo no mundo, na superficie do mundo, nas suas águas, um convexo e um côncavo.”

Talvez o principal motivo que nos prende à leitura de Avalovara ​poderosa


coexistência da deliberação e da fantasia, do calculado e do imprevisto. Em “O Relógio
de Julius Heckerton”, uma das linhas da narrativa, o autor diz que obedecia a um
esquema rigoroso e “sobre este rigor assenta a ideia de uma ordem do mundo”, contudo
o imprevisto e o aleatório e meio a esse rigor é mostrado na execução do livro, algo que
torna o livro ainda mais fascinante, pois na medida em que se experimenta a precisão
geométrica, a poesia livre surge como fator que rompe a cada instante. Avalorava é um
livro praticamente impossível de se resumir diante de inúmeras facetas que ele assume.
O “quadrado Sator”, feito de cinco palavras, cada um com cinco letras, que se podem ler
igualmente nos dois sentidos, e em cuja composição entra apenas oito letras, que,
distribuídas pelos quadrados menores, constituem as linhas narrativas. Nos vinte e cinco
quadrados formam o quadrado grande, onde se contém a espiral, as palavras se
sobrepõem horizontalmente, mas também se estendem em colunas verticais, pois a frase
pode ser lida indiferentemente da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, de
cima para baixo, de baixo para cima, em diversos rumos; o que gera uma reversibilidade
frenética, onde o amor é visto do homem para mulher, da mulher para o homem, do
presente para o passado, do passado para o presente. Sua reversibilidade prossegue no
plano em que o narrador em alguns momentos se transforma em autor e também
acontece a passagem do real para a fantasia.

A estrutura do palíndromo é apenas o início: o quadrado é o mundo. A narrativa


se deslocará de Ubatuba para São Paulo, do Recife para Paris, de Paris para Amsterdam;
tendo o tempo como sua espiral, e assim iremos da Roma Antiga para a Europa da
Segunda Guerra Mundial, do Recife dos anos 50 para São Paulo na década de 60. Em
meio a esse deslocamento temporal, Osman Lins executa com primazia um rigor
absoluto sobre o modo de contar cada história. Avalovara começa com Abel e a
inominável dentro de um quarto, amando-se na penumbra de um final de tarde em São
Paulo. Neste quarto é descrita trajetória dos personagens, sempre em busca de uma
eternidade que foge a cada instante no efêmero que nos persegue. Ela é casada com
Olavo Hayano (homem misterioso que possui duas faces). ​ʘ ​nasceu e morreu duas
vezes: a primeira ao cair de um elevador (suicídio?) e a segunda ao dar um tiro no peito
logo depois da primeira noite de núpcias com Olavo Hayano. Ela é composta de
palavras e tudo o que toca se transforma em ser vivo, como no quarto em que se deita
com Abel, de onde saem leões serpentes, melodias de "Carmina Burana", de Carl Orff;
toda essa parafernália se mostra de uma maneira muito planejada, como se tudo o que
acontece dependesse das carícias dos amantes. Osman parafraseia trechos inteiros do
"Cântico dos Cânticos" nos momentos de orgasmo, buscando relacionar os aspectos
divino e profano do ato sexual. Abel é homem atormentando por visões, tendo seu início
no Recife, quando Abel, olhando para a água numa cisterna perto de sua casa, vê a
imagem de uma Cidade. Essa revelação o marca profundamente e, durante os anos
seguintes, ele procurará o lugar desta Cidade. Três mulheres serão os símbolos máximos
de cada etapa da busca: Cecília, Anielise Roos e ​ ʘ​.

A primeira representa a fase de inocência e passagem que Abel enfrenta no Recife. O


período é de grandes transformações na vida de Abel: sua mãe (a gorda, prostituta
aposentada) está entrevada, seu pai se suicida seus irmãos e suas irmãs se espalham pelo
mundo, e ele descobre a sua vocação como escritor ao terminar seu primeiro conto. O
relacionamento com Cecília é complicado: os irmãos não gostam de Abel porque ele
seria um homem casado (sua esposa se suicida com um tiro no ouvido). Uma noite, os
irmãos batem em Abel e em Cecília; ao se limparem do sangue e da sujeira numa praia,
Abel descobre que Cecília é hermafrodita. O fato de Cecília ser uma hermafrodita talvez
seja uma maneira de dizer que os aspectos feminino e masculino da personalidade de
Abel ainda estão fundidos. É imprescindível que Abel passe pela experiência da perda e
da morte de sua parte feminina (Cecília cai de um cabriole numa praia e quebra o
pescoço), para ele procurar a cidade de sua visão na Europa, na companhia de Anielise
Roos.
Anielise Roos é a mulher que simbolizará a concretização carnal da Cidade que
Abel busca, todavia ele não a encontrará nela. Ela se esquiva o tempo todo, viaja para
inúmeras cidades europeias e Abel a segue até que possa consumir o seu amor. Na
catedral de Chartres, onde Abel se depara com a visão do cordeiro que também estará
com ele no quarto de ​ʘ em São Paulo. Roos diz que tem de ir embora porque é obrigada
a cuidar do amante moribundo; Abel vê-a ir embora, embarcando em uma dolorosa
solidão.

"Segura-me os dois braços e, pela primeira vez, pela primeira vez, beija-me no
rosto. Oferece o rosto para que eu retribua. Beijo-a na boca. Parte o trem.
Ela acena com o bicho cercado de borboletas."

Na sua volta ao Brasil, ao presenciar um dia de eclipse solar, Abel conhece ​ʘ​.
Rapidamente tornam-se amantes. Sua vida é repleta de fatos enigmático como seu
nascimento e renascimento, seu pai composto por próteses, e, em especial, seu
relacionamento com Inácio Gabriel, moço puro e fraco que, ao ser diagnosticado com
tuberculose, espera calmamente a morte, dando a ela um pássaro feito de vários
pássaros que se chama "Avalovara". O presente de Inácio Gabriel fica encravado na
alma de ​ʘ se petrifica quando Olavo Hayano deflora sua esposa e só renasce ao
encontrar-se com Abel. ʘ é uma fantástica criação de Osman Lins para mostrar a
totalidade da personalidade. É ela quem guiará Abel na escuridão do mundo para que
ele possa, finalmente, encontrar a Cidade que tanto procura. Abel percebe, durante os
sucessivos atos de amor que acontecem no apartamento em São Paulo, que seus amores
passados eram antecipações de ​ʘ​, que tudo convergia para aquele momento em que os
amantes fazem um amor adúltero e ao mesmo tempo puro e capaz de suplantar as
prisões do Tempo. Entretanto, ​ʘ é a prova de que o Tempo pode ser alterado. Sua
natureza é dúplice: seu rosto, olhos e boca mostram outra mulher por trás do seu atual
corpo e somente Abel compreende aquilo. Assim, os dois se amam como se fosse a
última noite de suas vidas, prestes a entrar na cidade que Abel tanto deseja, cidade que
se revela como sendo o paraíso, este só será alcançado com a morte.

O que mais fascina na leitura da obra prima de Osman é a multiplicidade que a


sua leitura permite: ​Poema? Romance? Ensaio ficcional? Fábula metalinguística? ​Diria
que “Avalovara” é tudo isso e muito mais. Livro que desafia os gêneros, é, antes de
mais nada, um magistral mergulho no cerne da linguagem. Na maneira precisa com que
o autor escreve cada palavra, cada som, Osman Lins intercala oito temas narrativos que
atravessam tempos e espaços distintos formando um esplêndido conjunto.

Referências bibliográficas:

KILANOWSKI, Piotr.. ​Avalovara de Osman Lins ​o escritor em busca do


romance interativo e total

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