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ESCREVO ESTAS LINHAS em agosto de 1943.

depois da batalha
de Stalingrado e da queda de Mussolini. Meu livro vai para o
linotipista. Não quis que se compusesse sem acrescentar-lhe
algumas palavras, menos de explicação ou desculpa do que
de exame da conduta literária diante da vida.
É um livro de prosa, assinado por quem preferiu quase
sempre exprimir-se em poesia. Esse suposto poeta não desde-
nha a prosa, antes a respeita a ponto de furtar-se a cultivá-la.
Seria inútil repisar o confronto das duas formas de expressão,
para atribuir superioridade a uma delas. Mas a verdade é que
se a poesia é a linguagem de certos instantes, e sem dúvida os
mais densos e importantes da existência, a prosa é a lingua-
gem de todos os instantes, e há uma necessidade humana de
que não somente se faça boa prosa como também de que nela
se incorpore o tempo, e com isto se salve esse último.
Não há muitos prosadores, entre nós, que tenham cons-
ciência do tempo, e saibam transformá-lo em matéria literá-
ria. Frequentemente a literatura se faz à margem do tempo
ou contra ele - seja por incapacidade de apreensão, covardia

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ou cálculo. Daí o vazio e o desconforto do texto literário,
como a insatisfação que ele desperta em cada vez mais des-
crentes leitores. E pouco importa que haja muitos leitores,
uma vez que não amem o autor nem se confessem devedo-
res de alguma coisa tirada ao livro.
Este livro começa em i932, quando Hitler era candida-
to (derrotado) a presidente de República e termina em i943,
com o mundo submetido a um processo de transformação
pelo fogo. Os que tiveram a sorte de viver em tal período
serão bem mesquinhos se se embriagarem com a vaidade
do espectador de um drama exemplar ou com a do passa-
geiro do transatlântico de luxo. Eles próprios terão de con-
fessar-se transformados, mais sérios e esclarecidos, mais
determinados quanto aos problemas fundamentais do indi-
víduo e da coletividade. Não lhes bastará fazer uso contínuo
da palavra cultura ou da palavra justiça, mas antes devem
contribuir com tudo o que tenham de bom para que essas
palavras assumam o seu conteúdo verdadeiro ou, então, se-
jam varridas do dicionário.

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Declaro honestamente que falta a meu livro isso que para
mim, neste domingo de agosto, é o mais precioso de tudo: fal-
ta-lhe o tempo, com suas definições. As páginas foram-se es-
crevendo mais para contar ou consolar o indivíduo das Minas
Gerais, e dizem bem pouco das relações desse indivíduo com o
formidável período histórico em que lhe é dado viver. Mesmo
assim, não as desprezo. Dou-as como um depoimento negati-
vo, indicando aos mais novos que devem formular depoimen-
tos positivos, autênticos e até mesmo impiedosos, se for o caso.
Já não tenho medo de escravizar-me à vida, e acho que
uma sutileza que não resista à prova da convivência mais lar-
ga é apenas um vício. E digo aos rapazes: Rapazes, se querem
que a literatura tenha algum préstimo no mundo de amanhã
(o mundo melhor que, como todas as utopias, avança ine-
xoravelmente), reformem o conceito de literatura. Já não é
possível viver no clima das obras-primas fulgurantes e ... po-
dres, e legar ao futuro apenas esse saldo dos séculos. Refor-
mem a própria capacidade de admirar e de imitar, inventem
olhos novos ou novas maneiras de olhar, para merecerem o

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espetáculo novo de que estão participando. Se lhes disserem
que nada disso é novo e que já houve guerras, e depois armis-
tícios e depois outras guerras etc., etc., não levem a sério essa
falsa experiência histórica, que impede qualquer melhoria
da história. Se tudo foi dito, então o remédio é o suicídio sob
qualquer de suas formas, inclusive a do beato e precário con-
tentamento de existir na época do rádio e das roupas de vi-
dro. Prefiro acreditar que nada foi feito nem escrito nem des-
coberto. Que estamos começando a nascer, e que os gênios
nacionais e estrangeiros não foram ainda inventados. Porque
antes negá-los todos do que viver esmagado por eles, e como
pesam!, de todo o peso da aceitação e da facilidade.
Não estou pois dentro deste livro de retalhos, e sim fora
dele. Mas sinto que foi um caminho pelo qual cheguei a uma
excelente cidade, de ruas largas e populosas. Ele abriu minhas
gavetas secretas. Libertou-me de alguns fantasmas particula-
res. Agiu. Hoje não escreveria quase nada do que aí se contém,
mas por isso mesmo a sensação de desprendimento e liberda-
de é maior. Vamos andando.

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Suas cartas

Debruço-me à beira desse poço de dezenove anos de profun-


didade. Lá embaixo, no escuro, é i924. Alguns dos que hoje
me convidam a escrever estavam apenas nascendo. E eu era
um dos moços de então. Os nomes mudaram, porém os mo-
ços continuam existindo na literatura, amando-a e fazendo
dela um valor humano. Por que xingar os moços de literatos?
O que há de melhor neles é a literatura, ou seja, a vida fantás-
tica, que aperfeiçoa e cristaliza a vida cotidiana, a literatura
que ajuda a viver, e que tanto permite sair da vida como en-
trar nela. Chave de duas portas, porém não chave falsa. É qua-
se impossível ter vinte anos, um pouco de sensibilidade, um
pouco de insatisfação, e não entregar a alguns poetas e alguns
romancistas o cuidado de resolver os nossos problemas, de
nos salvar de nós mesmos. E para melhor nos comunicarmos
com eles, temos que ser nós mesmos poetas e romancistas.
Seus iguais. Somos Dante e Baudelaire, somos Balzac e Dos-
toiévski. Com o tempo, despregamo-nos desses personagens
monstruosos, caímos numa mediocridade vivida e suportá-
vel, reenquadramo-nos no plano estático, sem constelações,
sem agapantos indescritíveis, sem bicicletas de fogo ... Mas eu
sustento que o pior literato de vinte anos ainda é um homem
maravilhoso, e eu o invejo, o amo e o respeito, absolutamente
sem crítica.
Vejo moços no fundo do poço, tentando sair para a vida
impressa e realizada. Como falam! Como escrevem! Como
bebem cerveja! Estou entre eles, mas,não sei que sou moço.

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Julgo-me até velho, e alguns companheiros assim também se
consideram. É uma decrepitude de inteligência, desmentida
pelos nervos, mas confirmada pelas bibliotecas, pelo claro
gênio francês, pela poeira dos séculos, por todas as abusões
veneráveis ainda vigentes em 1924. A mocidade entretanto
parece absorver tóxicos somente para se revelar capaz de
neutralizá-los. Ninguém morria de velhice, e cada um, in-
conscientemente, preparava a sua mocidade verdadeira. Essa
tinha que vir de uma depuração violenta de preconceitos inte-
lectuais, tinha que superar fórmulas de bom comportamento
político, religioso, estético, prático, até prático! Havia excesso
de boa educação no ar das Minas Gerais, que é o mais puro ar
do Brasil, e os moços precisavam deseducar-se, a menos que
preferissem morrer exaustos antes de ter brigado.
Para essa deseducação salvadora contribuiu muito, senão
quase totalmente, um senhor maduro, de 31 anos (quando se
tem 20, os que têm 25 já são velhos imemoriais), que passou
por Belo Horizonte numa alegre caravana de burgueses artis-
tas e intelectuais, adicionada de um poeta francês que perdera
um braço na guerra e andava à procura de melancia e cachaça.
Foram apenas algumas horas de contato no Grande Hotel; os
burgueses agitados regressaram a São Paulo, o senhor madu-
ro com eles; e de lá começou a escrever-nos.
As cartas de Mário de Andrade ficaram constituindo o
acontecimento mais formidável de nossa vida intelectual be-
lo-horizontina. Eram torpedos de pontaria infalível. Depois
de recebê-las, ficávamos diferentes do que éramos antes. E di-
ferentes no sentido de mais ricos ou mais lúcidos. Quase sem-
pre ele nos matava ilusões, e a morte era tão completa, que só
podia deixar-nos ofendidos e infelizes. Então reagíamos com
injustiças, tolices, o que viesse de momento ao coração envi-
nagrado. Mário recebia sorrindo essas tolices, mostrava que
eram simplesmente tolices, e ficávamos mais amigos ...

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Porque a amizade se formou numa base de literatura, e
devia nutrir-se dela, até que fossem chegando outros moti-
vos de interesse e abandono, certas confidências difíceis, pe-
didos de conselho diante da complicação imediata da vida,
histórias de casamento, nascimento e morte de filhos. Isto
que nas relações comuns só o conhecimento pessoal e o tra-
to diário costumam permitir, o conhecimento postal e literá-
rio suscitara imprevistamente e era mesmo uma festa receber
carta de Mário alastrada em oito, dez folhas manuscritas, com
aquela letra que não subia nem descia morro, apertada no pa-
pel para que tanta ideia, comentário, crítica, descompostura e
carinho coubessem nas dez folhas. "Desculpe esta longuidão
de carta. Eu sofro de gigantismo epistolar."
Num país em que ninguém responde cartas, Mário de An-
drade respondia todas. "Em todo caso de mim não desespere
nunca. Eu respondo sempre aos amigos. Às vezes demoro um
pouco, mas nunca por desleixo ou esquecimento." E quando os
amigos não escrevem, hipótese tão brasileira e particularmen-
te mineira? "Na verdade eu não conto carta com você e escrevo
por precisão de me sentir junto com os amigos."
Essa necessidade de se sentir junto com os amigos era re-
flexo de outra, maior, de se sentir junto com os homens em
geral, declarada no poema de i922 em que explicava aos ami-
gos que, sorteado, se tornara "defensor interino do Brasil",
"apesar da simpatia por todos os homens da Terra". Sem ex-
ceção de um só, Mário de Andrade simpatizava com todos.
Os rapazes de Minas, ou pelo menos um dos rapazes com
quem ele se carteava padecia do mal contrário: antipatiza-
va com o gênero humano. A correspondência entre os dois
tinha que ser assim eriçada de discordâncias. O indivíduo
encaramujado em si mesmo lutava com o escritor sociali-
zante, antiartístico por deliberação, apesar de fundamentii}
mente artista, capaz de sacrificar o melhor de si mesmo paú

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chegar a uma comunicação maior com os outros homens.
E - circunstância ainda mais desconcertante - esse furor de
socialização não servia nenhum pensamento político, não
era partidarista, não queria salvar a humanidade. Mário de
Andrade, cem por cento professor, e o melhor professor que
já conheci, embora nunca lhe ouvisse uma aula, pregava
simplesmente a vida, a "gostosura" sempre encontrada no
ato natural de viver, com todas as suas consequências e res-
ponsabilidades:

Ai, vida vida


Vida comovida,
Vida apertada
Não se acaba mais!

De São Paulo, a carta explicava:

Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz


de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: não se
trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito
religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu
sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma mani-
festação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa ca-
minhada a pé até o alto da Lapa como uma tocata de Bach e po-
nho tanto entusiasmo e carinho no escrever um dístico que vai
figurar nas paredes dum bailarico e morrer no lixo depois como
um romance a que darei a impossível eternidade da impressão.

Esta afirmação de espontaneidade do espírito, que a saturação


de cultura não corrompia, não era feita para despertar pasmos
ingênuos. Tinha caráter educativo. E o professor examinava o
caso coletivo concreto:

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Eu acho, Drummond, pensando bem, que o que falta pra cer-
tos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem
de verdade da vida. Como não atinaram com o verdadeiro jei-
to de gostar da vida, cansam-se, ficam triste ou então fingem ale-
gria o que ainda é mais idiota do que ser sinceramente triste. Eu
não posso compreender um homem de gabinete e vocês todos,
do Rio, de Minas, do Norte me parecem um pouco de gabinete
demais. Meu Deus! se eu estivesse nessas terras admiráveis em
que vocês vivem, com que gosto, com que religião eu caminha-
ria sempre pelo mesmo caminho (não há mesmo caminho pros
amantes da Terra) em longas caminhadas! Que diabo! estudar é
bom e eu também estudo. Mas depois do estudo do livro e do
gozo de livro, ou antes vem o estudo e gozo da ação corporal.
Eu neste ponto não aconselho nada porque nisso a gente não
se muda por causa de conselhos alheios, mas um dos desastres
que impedem a felicidade, que é naturalidade, de vocês está aí:
em casa lendo, redação de jornal, café com amigos sobre tal li-
vro, tal escritor, escrever coisas depois, talvez cinema e depois
farra com mulheres. Isso não é vida que se leve! Isso é vício. Está
muito bem com todas as outras formas de vida juntas, mas as-
sim sozinhos e continuados é miséria, decadência e infelicidade
na certa. É horrível! Veja bem, eu não ataco nem nego a erudi-
ção e a civilização, como fez o Osvaldo * num momento de erro,
ao contrário respeito-as e cá tenho também (comedidamente,
muito comedidamente) as minhas fichinhas de leitura. Mas vivo
tudo. Que passeios admiráveis eu faço, só! Mas ninguém nunca
está só a não ser em especiais estados de alma, raros, em que o
cansaço, preocupações, dores demasiado fortes tomam a gente
e há essa desagregação dos sentidos e das partes da inteligência
e da sensibilidade. Então a gente fica só por milhões de amigos
que tenha ao lado. Senão, não. Um sentido conversa com outro,

Oswald de Andrade. [N. E]

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a razão discute com a imaginativa etc. e é uma camaradagem
sublime de pessoas tão íntimas como nenhuns Castor e Pólux
ideais. E então parar e puxar conversa com gente chamada baixa
e ignorante! Como é gostoso! Fique sabendo duma coisa, se não
sabe ainda: é com essa gente que se aprende a sentir e não com
a inteligência e a erudição livresca. Eles é que conservam o es-
pírito religioso da vida e fazem tudo sublimemente num ritual
esclarecido de religião. Eu conto no meu "Carnaval carioca" um
fato a que assisti em plena avenida Rio Branco. Uns negros dan-
çando o samba. Mas havia uma negra moça que dançava melhor
que os outros. Os jeitos eram os mesmos, mesma habilidade,
mesma sensualidade mas ela era melhor. Só porque os outros
faziam aquilo um pouco decorado, maquinizado, olhando o
povo em volta deles, um automóvel que passava. Ela, não. Dan-
çava com religião. Não olhava pra lado nenhum. Vivia a dança.
E era sublime. Este é um caso em que tenho pensado muitas ve-
zes. Aquela negra me ensinou o que milhões, milhões é exagero,
muitos livros não me ensinaram. Ela me ensinou a felicidade.
Bom! não é preciso ninar a vida para ser feliz dentro dela ...

Outra surpresa para o moço de 1924 é que essa revalorização


emotiva e moral da vida nada tinha que ver com uma certa eu-
foria pseudofilosófica então muito generalizada nos arraiais
modernistas e que trazia a marca de fábrica de Graça Aranha.
Não era uma atitude estética circunstancial, porém um modo
de ser, assimilado à personalidade, e que dava uma coerência
brutal a todos os gestos de Mário de Andrade, justificando os
seus próprios erros, fazendo-os do tamanho de suas virtudes,
igualmente honestos, necessários e andradinos.
Porque em Mário, nos seus versos, na sua prosa, muita
coisa não desagradava apenas ao público retardatário, mas
também a nós outros seus companheiros mais moços. Éra-
mos requintados demais, não perdoávamos a menor falta de
gosto, embora nem sequer o tivéssemos formado. Uma pro-
pensão exagerada a ver o lado ridículo e não o lado sublime
ou patético das coisas nos impedia de acompanhar integral-
mente Mário nas suas aventuras. E não tínhamos também sua
capacidade de sacrifício. Como fazer para segui-lo quando ele,
de braço fortíssimo, aconselhava:

Apesar de todo o ceticismo, apesar de todo o pessimismo e ape-


sar de todo o século XIX, seja ingênuo, seja bobo, mas acredite que
um sacrifício é lindo. O natural da mocidade é crer e muitos mo-
ços não creem. Que horror! Veja os moços modernos da Alema-
nha, da Inglaterra, da França, dos Estados Unidos, de toda a parte:
eles creem, Carlos, e talvez sem que o façam conscientemente, se
sacrificam. Nós temos que dar ao Brasil o que ele não tem e que
por isso até agora não viveu, nós temos que dar uma alma ao
Brasil e para isso todo sacrifício é grandioso, é sublime. E nos dá
felicidade. Eu me sacrifiquei inteiramente e quando eu penso em
mim nas horas de consciência, eu mal posso respirar, quase gemo
na pletora da minha felicidade. Toda a minha obra é transitória
e caduca, eu sei. E eu quero que ela seja transitória. Com a inte-
ligência não pequena que Deus me deu e com os meus estudos,
tenho a certeza de que eu poderia fazer uma obra mais ou menos
duradoura. Mas que me importa a eternidade entre os homens da
Terra e a celebridade? Mando-os à ... Eu não amo o Brasil espiri-
tualmente mais que a França ou a Cochinchina. Mas é no Brasil
que me acontece viver e agora só no Brasil eu penso e por ele tudo
sacrifiquei. A língua que escrevo, as ilusões que prezo, os mo-
dernismos que faço são pro Brasil. E isso nem sei se tem mérito
porque me dá felicidade, que é a minha razão de ser da vida. Foi
preciso coragem, confesso, porque as vaidades são muitas. Mas a
gente tem a propriedade de substituir uma vaidade por outra. Foi
o que fiz. A minha vaidade hoje é de ser transitório. Estraçalho 9
minha obra. Escrevo língua imbecil, penso ingênuo, só pra cha-

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mar a atenção dos mais fortes do que eu pra este monstro mole e
indeciso ainda que é o Brasil. Os gênios nacionais não são de ge-
ração espontânea. Eles nascem porque um amontoado de sacri-
fícios humanos anteriores lhes preparou a altitude necessária de
onde podem descortinar e revelar uma nação. Que me importa
que a minha obra não fique? É uma vaidade idiota pensar em ficar,
principalmente quando não se sente dentro do corpo aquela fata-
lidade inelutável que move a mão dos gênios. O importante não é
ficar, é viver. Eu vivo. E vocês não vivem porque são uns despaisa-
dos e não têm a coragem suficiente pra serem vocês.

Eu vivo, portanto, sou feliz, parecia dizer-nos Mário de An-


drade. O pensamento dele nunca destoou nesse particular (e
terá destoado em algum outro?). Está nos seus versos como
nas suas cartas que "A PRÓPRIA DOR É UMA FELICIDADE". E eis
aí o sinal que mais o distancia da retórica de Graça Aranha.
Falando das "Danças":

Revelam pra quem souber olhar um sofrimento muito doído.


Não há alegria nenhuma nelas. Só o Graça com a mania de pre-
gar a alegria, vê alegria ali. Elas são dolorosas, perversas, um
mau momento que passou, um tumor que esvaziei. Compare-
as com o "Noturno" e verá se o esvaziei inteiramente ou não. Se
você encontrar um laivo de amargura ou perversidade no "No-
turno" me diga porque hei de apagá-lo imediatamente. Ironia,
tem. Essa ironia brincalhona de amoroso, de camarada, mas
perversidade não. O cinismo continua. Mas cada vez se apu-
ra mais, é um que-bem-me importa! que me liberta de todas
as covardias, que me deixa sem-vergonha, com essa heroica
beleza de afirmar: Deus existe. A mulher existe. A esperança
existe. A Patriamada existe. Suponhamos que não existam. Mas
a felicidade não está na existência ou inexistência deles, está na
afirmativa, na crença, em nós.
Ou então:

Toda gente acha graça na minha alegria e como eu me divirto


quando estou na festa mais pau. Creio que essa riqueza me vem de
eu compreender a vida e vivê-la em toda a variedade dela. Quando
vou na festa sei que a festa é pra gente se divertir e qualquer coisa
me diverte extraordinariamente. Quando vou ... na dor sei que a
dor é pra gente sofrer e sofro pra burro, sofro sério, sofro sofrendo
e não espetacularmente, é lógico. Que sucede? a minha variedade
de viver é tão incomensurável que não me fatigo dela nunca.

E é assim que ele pôde lançar no "Reconhecimento de Nême-


sis", no mesmo ano de 1926, esse grito severo:

Eu reconheço que sofro!

Mas distinguindo:

Sofrer ... pois sim, mas lutando


Pela replanta brotando,
Sofrer sim, mas porém nunca
Sofrer puxando memória
Pelo café que secou.

Sua lucidez e sua força conquistaram assim esse "direito de


lágrima" de que devemos usar com dignidade e sobriedade
de homem.
As cartas de Mário têm sempre esse tom. O sentido de-
las é menos estético do que moral e pedagógico. O professor
Mário de Andrade tanto corrige a apreciação errada de um
episódio vivido como aponta fraquezas de linguagem, de
ritmo ou de concepção na poesia do principiante. E quanto,s
principiantes! No Sul, em Minas, no Norte. Todo o Brasil de

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vinte anos conversa com o escritor sem pose e recebe crítica,
advertência, carinho de companheiro mais velho.
Esta última função deve interessar mais de perto o lite-
ratozinho mineiro, de tendência pessimista, que procura re-
solver em verso moderno suas dúvidas e agitações íntimas.
Assim, ele abusa da paciência e da simpatia humana de Mário,
esmagando-o com sucessivas remessas de poesia. O profes-
sor lê tudo e devolve com anotações preciosas. Às vezes uma
simples preposição dá ensejo a lições em que todo o proble-
ma da língua nacional se coloca:

Foi uma ignomínia, a substituição do na estação por à estação


só porque em Portugal paisinho desimportante pra nós diz as-
sim. Repare que eu digo que Portugal diz assim e não escreve só.
Em Portugal tem uma gente corajosa que em vez de ir assuntar
como é que dizia na Roma latina e materna, fez uma gramática
pelo que se falava em Portugal mesmo. Mas no Brasil o Sr. Car-
los Drummond diz "cheguei em casa" "fui na farmácia" "vou no
cinema" e quando escreve veste um fraque debruado de galego,
telefona pra Lisboa e pergunta pro ilustre Figueiredo: - Como
é que se está dizendo agora no Chiado: é "chega na estação" ou
"chega à estação"? E escreve o que o Sr. Figueiredo manda. E assim
o Brasil progride com Constituição anglo-estadunidense, língua
franco-lusa e outras alavancas fecundas e legítimas. Veja bem,
Drummond, que eu não digo pra você que se meta na aventura
que me meti de estilizar o brasileiro vulgar. Mas refugir de cer-
tas modalidades nossas e perfeitamente humanas como o chegar na
estação (aller en ville, arrivare in casa mia, andare in città) é preconcei-
to muito pouco viril. Quem como você mostrou a coragem de
reconhecer a evolução das artes até a atualização delas põe-se
com isso em manifesta contradição consigo mesmo. E já que fa-
lei na minha aventura peço uma coisa e aviso outra. Não pensem
vocês, aí de Minas, que sou um qualquer leviano e estou dan-

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do por paus e por pedras sem saber bem o que estou fazendo.
A aventura em que me meti é uma coisa séria já muito pensada
e repensada. Não estou cultivando exotismos e curiosidades de
linguajar caipira. Não. É possível que por enquanto eu erre mui-
to e perca em firmeza e clareza e rapidez de expressão. Tudo isso
é natural. Estou num país novo e na escureza completa duma
noite. Não estou fazendo regionalismo. Trata-se duma estiliza-
ção culta da linguagem popular da roça como da cidade, do pas-
sado e do presente. É uma trabalheira danada que tenho diante
de mim. É possível que me perca mas que o fim é justo ou ao
menos justificável e que é sério, vocês podem estar certos disso.
Não estou pitorescando o meu estilo nem muito menos colecio-
nando exemplos de estupidez. O povo não é estúpido quando
diz "vou na escola", "me deixe", "carneirada", "mapear", "besta
ruana", "farra", "vagão", "futebol". Éantes inteligentíssimo nessa
aparente ignorância porque sofrendo as influências da terra, do
clima, das ligações e contatos com outras raças, das necessida-
des do momento e de adaptação, e da pronúncia, do caráter, da
psicologia racial modifica aos poucos uma língua que já não lhe
serve de expressão porque não expressa ou sofre essas influên-
cias e a transformará afinal numa outra língua que se adapta a
essas influências. Então os escrevedores estilizam esse novo vul-
gar, descobrem-lhe as leis embrionárias e a língua literária, úni-
ca que tem reconhecimento universal (aqui sinônimo de culto)
aparece. Nessa estrada me meti. Sei que tudo está por fazer. E o
que é pior sei que uma palavra brasileira empregada na escrita
soa pra todos como exotismo, regionalismo porque só como re-
gionalismo exótico foi empregada até agora. Mas isso não é cul-
pa do escritor que a não emprega mais assim mas a adota como
sua maneira regular de expressão. Nem é culpa da palavra, tam-
bém. A culpa vem do preconceito civil adquirido na leitura dos
livros cultos. Se munheca soa mal depois dos quinze anos de ida-
de é porque o sujeito da cidade, mocinho faceiro e enfeitado de
um despotismo de preconceitos inconscientemente hipócritas,
nunca leu munheca em Fialho ou Machado de Assis e por isso se
bota a policiar a língua que fala pras melindrosas do assustado e
mesmo pros colegas de Academia. Tudo preconceitos e a nossa
vida é feita de preconceitos eu sei. Por isso falo em criar uma
linguagem culta brasileira e falo em adquirir novos preconceitos
porque assim se move a vida do homem e se torna nova e se
torna bonita. O meu trabalho não é simples nem pequeno. Sei
que muito hei de errar. Sei que muitas vezes voltarei pra trás.
Sei que exagerarei. Sei que me iludirei talvez. Sei principalmente
que a minha língua de hoje cheira caipirismo exótico pra muita
gente. Mas aqui a ilusão não é minha porque tenho a experiên-
cia histórica que está do meu lado. Mas é certo que muito errarei.
Só o que eu quero é que não julguem-me mal, vocês que quero
bem. As aventuras podem falhar porém se o aventureiro teve
um fim justo e trabalhou sem leviandade pra atingi-lo, a nobre-
za continua com o aventureiro, não acha? Não me queiram mal
pelo que faço e esperem pra me condenar ao menos a apresenta-
ção dum livro em prosa. Só isso que eu peço pra vocês.

Observações práticas se sucedem para proveito do pequeno


versejador ignorante da disciplina poética (falou-se tanto em
quebra de padrões clássicos!) e dos próprios característicos
elementares da língua (é tão fácil escrever. .. ):

procure evitar o mais possível os artigos tanto definidos como


indefinidos. Não só porque evita galicismo e está mais dentro
das línguas hispânicas como porque dá mais rapidez e força in-
cisiva pra frase.

*
Mesma observação com possessivos e todos os berenguendens
que castram a frase.
*
"vianda tenra", horrorosibilíssimo, impossível de existência;

*
Também o "qualquer coisa mais forte" é um galicismo que me
desagrada.

*
Aconselho tirar o quarto verso que faz a frase engolir em seco
nomeio.

*
O processo de repetição da mesma palavra ou ideia que você
emprega que nem Ronald, Manu, Ribeiro Couto é perigoso e
decadente. Neste poema está irritante pela frequência.

*
O último verso quebra um pouco dolorosamente o indeciso ba-
lanço rítmico em que a gente está. Veja se faz ele ficar indecisa-
mente entre oito e nove sílabas e a acentuação deste, o baloiço
indeciso continuará.

*
Se você algum dia publicar isso rompemos relações! E me cris-
mo Xavier.

O "louco" é bastante frio para preocupar-se até com a minúcia


ortográfica.

Extranha é estranha, s.

Anotações assim enxameiam nas cartas. Havia sempre º~


que aprender na correspondência desse homem, a quem en-
tretanto a chamada elite conservadora negava tudo, inclusi-
ve o conhecimento de sua língua e de sua arte, mas que só
praticou o pecado de conhecê-las melhor do que os seus ne-
gadores. A história das reações suscitadas por sua atividade
intelectual constitui talvez o mais selvagem e doloroso exem-
plo de incompreensão ainda verificado na literatura brasilei-
ra. As injustiças do modernismo foram pagas em dobro, e
Mário especialmente, pagou mil por um, pagou por si e por
todos, de resto sem reclamar nem se queixar do pagamento.
Acostumado a receber incompreensão de académicos e erra-
dos, dispôs-se a recebê-la também de seus companheiros de
todas as gerações. Findo o período heroico das cartas, Mário
vai exercer essa mesma faculdade analisadora e minudente na
crítica literária do Diário de Notícias, e há autores que se irri-
tam com as suas observações absolutamente justas, fecundas
e sobretudo amorosas. Porque, como assinala na "Advertência"
dos Aspectos da literatura brasileira, em i943,

espero que se reconheça neles [nos ensaios críticos], não o pro-


pósito de distribuir justiça, que considero mesquinho na arte
da crítica, mas o esforço apaixonado de amar e compreender.
É mesmo certo que se por vezes sou um bocado áspero em mi-
nhas censuras aos artistas isto provém de uma desilusão. A de-
silusão de não terem eles me proporcionado, de arte, o quanto
eu sinto poderiam me dar.

Esta queixa final de Mário de Andrade, depois de vinte anos


do trabalho literário menos egoístico que já vi em minha vida,
pode servir para explicação não apenas de sua obra como de sua
maneira mesma de viver a vida. Porque afinal a vida-vida sim-
plesmente, com tudo que contenha, será bem mesquinha para
ocupar o pensamento e o coração todo de um homem e prin-
cipalmente de um artista. A total ocupação deste só se fará pelo
amor. A vida fica sendo assim uma ocasião de amar, e o amor se
estende à própria vida pelo seu conteúdo autenticamente amo-
rável. Falando de um ex-companheiro,* Mário confessa:

Há razões pra odiar, e talvez eu tenha odiado mesmo no prin-


cípio. Mas foi impossível, percebi isso muito cedo, perseverar
no ódio. É besteira isso de falar que o ódio é sempre uma es-
pécie de amor, não é não. Como tinha de recontinuar no amor,
tive de abandonar o ódio.

Pouco importa que nesse terrível exame de consciência que


foi a conferência sobre o movimento modernista, em 1942, ele
se interrogue: "Mas apesar das sinceras intenções boas que di-
rigiram a minha obra e a deformaram muito, na verdade, será
que não terei passeado apenas, me iludindo de existir? .. .''.

Eu não posso estar satisfeito de mim. O meu passado não é


mais meu companheiro. Eu desconfio do meu passado. Mudar?
Acrescentar? Mas como esquecer que estou na rampa dos cin-
quenta anos e que os meus gestos agora já são todos ... memó-
rias musculares ...

Cruel pessimismo da idade madura, que só pode ser explica-


do em quem fez tanto, pela insatisfação por não ter feito tudo
e até mais do que tudo. Não importa, repito, que Mário de
Andrade não esteja satisfeito consigo mesmo, nessa "fase in-
tegralmente política da humanidade" que o seu pensamento
mais recente denuncia. Nós estamos satisfeitos com ele pelo
que foi, pelo que é, pelo que não deixou de ser, na sua absolu-
ta dignidade de homem consciente, apaixonado, companhei-
ro e estímulo de outros homens desnorteados ou frágeis.

Oswald de Andrade. [N. E]

85
Morte de Federico García Lorca

A Revista Acadêmica deu-nos em seus últimos números dois poe-


mas de Federico García Lorca e a notícia de sua morte. Tanto
vale dizer: a notícia de sua vida, porque García Lorca, desconhe-
cido do nosso público, só chegou até nós por essa informação
rápida do assassinato do poeta pelos fascistas de Granada.

Se le vió caminando entre fasiles,


por una calle larga,
salir ai campo frio,
aún con estrellas, de la madrugada.

Mataron a Federico
quando la luz asomaba.
El pelotón de verdugos
no osó mirarle la cara.
Todos cerraron los ojos;
rezaron: ni Dias te salva!
Muerto cayó Federico
sangre en la frente y plomo en las entrafías
que fué en Granada el crimen
sabed-pobre Granada! en su Granada! ...

É como outro poeta, Antonio Machado, em versos que têm a


simplicidade de uma notícia de jornal - e o trágico jornalís-
tico, também - faz o registro dessa morte. García Lorca não
morreu em combate, como o impressor de seus livros, Satur-

97
nino Ruiz. Morreu assassinado ou, se preferem, fuzilado por
um pelotão urbano e provavelmente adversário da poesia.
Porque em García Lorca a Espanha de hoje tinha sua
expressão lírica mais veemente e ao mesmo tempo mais con-
centrada, mais sutil. Não era homem de partido. Era um poe-
ta, ou seja um indivíduo dotado do poder de recriar os objetos
e a atmosfera em que eles se realizam. E era também poeta no
sentido medieval e eterno em que a poesia é dom que se dis-
tribui, meio de comunicação entre os homens, efusão lírica
da massa concentrando-se num indivíduo e refluindo sobre
a massa através dos cânticos que o indivíduo produziu sob
a sua influência e o seu ditado. Sua experiência poética, rica
de ensinamentos fecundos, mostra a possibilidade de coexis-
tência de um grande poeta nacional com uma força poética
universal. Assim, pôde renovar a tradição gitana dos roman-
ces e canções, em versos que têm o colorido forte de Grana-
da, os cheiros e palpitações sensuais daquela terra amorosa,
e, ao mesmo tempo, integrar-se na corrente supranacional
daqueles que, em diferentes países do mundo, conseguiram
depurar a poesia de tudo quanto é acidental, insubstancial ou
meramente decorativo. A solução harmoniosa desse pseudo
mas comprometedor conflito entre o local e o universal é,
para mim, a primeira lição de García Lorca. (Entre nós, have-
rá quem a aproveite.) A segunda reside no seu conceito rigo-
rosamente popular do localismo. A vida e a alma espanholas,
como já se tem dito, são tão marcadas de contrastes que se-
ria possível ao poeta optar ou deixar-se conduzir por esta ou
aquela inclinação menos generosa (fidalgos, padres e generais
lhe disputariam o estro), ou mesmo tornar-se campo de ba-
talha de tendências antagônicas. García Lorca, porém, soube
distinguir entre as contradições de sua pátria e achar, através
delas, o seu justo caminho. Ficou com o povo, apropriando-
se assim do opulento cabedal lírico que o povo costuma ofe-
recer aos que realmente o penetram e assimilam. Daí essa
"poesia de veias abertas", que um crítico lhe assinalou, e que
nada tem da enfática receita nietzschiana, da literatura escrita
com o sangue. A paisagem, a figura humana, a vida social de
sua terra, os dramas peculiares ao caráter hispânico formam
a substância mesma de seu mundo poético, na fase que se po-
derá colocar sob o signo do Romancero gitano:

Las piquetas de los gallos


cavan buscando la aurora,
cuando por el monte oscuro
baja Soledad Montoya
Cobre amarillo, su carne,
huele a caballo y a sombra.
Yunques ahumados, sus pechos,
gimen canciones redondas.
Soledad, ~por quién preguntas
sin campana y a estas horas?
Pregunte por quién pregunte,
dime: ~a ti qué se te importa?
Vengo a buscar lo que busco,
mi alegria y mi persona.
[ ... ]
;Oh pena de los gitanos!
Pena limpia y siempre sola.
;Oh pena de cauce oculto
y madrugada remota!

Mas, tendo triturado suficientemente a complexa substância


ibérica, Federico vai agora debruçar-se sobre outros cami-
nhos e planos, já então vertiginosos.

;Oh Salvador Dalí, de voz aceitunada!

99
[ ... ]
Marineros que ignoran el vino y la penumbra,
decapitan sirenas en los mares de plomo.
[ ... ]
El Gobierno ha cerrado las tiendas de peifume.
La máquina eterniza sus compases binarios.

O ciclo lorquiano completa-se naturalmente, e a sua Grana-


da, antes policiada tanto pelo metro tradicional como pela
nitidez da visão imediata, aparece-nos agora sob um ângulo
feérico, uma quarta dimensão, da qual, entre outras verdades
interceptadas, é possível observar que

la gillette descansaba sobre los tocadores


con su afán impaciente de cuello seccionado.

Federico García Lorca está na posse absoluta do seu dom poé-


tico ("Oda a Salvador Dalí", "Oda ai Santísimo Sacramento dei
altar'', "Nifía ahogada en e! pozo"). Éo artista que domina todos
os materiais e recursos técnicos e é o homem que se nutriu
de experiências próprias. Volta-se então para o teatro, levado
ainda pelo seu amor ao povo e sua identificação com ele, pois
tudo indica que o teatro voltará a constituir entre os homens
uma expressão natural da vida e um meio de ação sobre as
consciências, recuperando o tempo roubado e perdido pelo
cinema. La zapatera prodigiosa, Amor de Don Perlimplín con Belisa
en su jardín, Bodas de sangre, Así que pasen cinco afíos, Dofía Rosita la
soltera o el lenguaje de las flores marcam essa fase em que o poeta
busca realizar um contato mais quente e fraternal com o povo.
E não somente escreve farsas e tragédias como organiza uma
companhia de amadores, La Barraca, indo com ela - conta-nos
o escritor cubano Raúl Roa- Espanha afora, recitando, tocando
piano, fazendo conferências, passes de prestidigitação e magia.

100
Uma de suas peças mais felizes, Yerma, é representada no
país quando estala o golpe fascista. Todos os escritores se en-
fileiram ao lado da República, e Federico García Lorca não
trai o profundo instinto popular que sempre o inspirou. É o
momento em que não adianta falar a linguagem dos anjos e
dos mistérios, em que a poesia tem de ser um protesto arden-
te e viril. E ele se dirige à Espanha:

No hagas caso de lamentos


ni de falsas emociones;
las mejores devociones
son los grandes pensamientos.
Y, puesto que por momentos
el mal que te hirió se agrava,
resurge, indómita e brava,
y antes que hundirte cobarde,
estalla en pedazos y arde,
primero muerta que esclava!

Uma voz assim, de um poeta assim (sua influência nos paí-


ses americanos de cerne espanhol é imensa; poetas amadu-
recidos ou gastos renovam-se ao seu contato; o Ministério
da Educação da Colômbia dedica-lhe um número especial
de sua revista), era realmente perigosa. Fuzilaram o poeta.
O compositor Manuel de Falla, segundo nos informa o sr.
Gilberto Freyre, enlouqueceu ao saber da morte de seu ínti-
mo amigo. Mas o poeta continua. A poesia não está morta,
meu prezado Augusto Frederico Schmidt. Um ano depois do
seu brado melancólico, a poesia está viva, e sua luz, de tão
fulgurante, algumas vezes torna-se incômoda.

101
se para a consumação do ato sugerido ou proposto literaria-
mente. Elas me responderão que literatura é uma coisa e vida
é outra. E que o poeta, o escritor não são obrigados a realizar
uma vida conforme os seus livros. Que o personagem "eu" de
um livro não é necessariamente o autor desse mesmo livro.
Que dois livros sucessivos se contradizem, e nesse caso em
qual deles deveria refletir-se a vida do autor? E sendo a con-
tradição possível nas letras, como não admiti-la na própria
vida? E que mal haverá em descrever o corpo sem oferecê-lo,
como em oferecê-lo sem contá-lo? E como limitar a um ar-
tista o rol dos seus temas, interditando-lhe o grande tema do
corpo? Etc., etc.
A todas essas interrogações, eu continuo abanando as
orelhas e repetindo para mim mesmo que não acho próprio
acenar com promessas que não temos intenção de cumprir.
Enquanto um instinto irreprimível, diante das manifestações
de erotismo mental de certas páginas, me segreda: isto não é
literatura. A literatura, mesmo descrevendo o corpo, não o
expõe, e narrando o amor, não o realiza.

O livro inútil

Escrever um livro inútil, que não conduzisse a nenhum cami-


nho e não encerrasse nenhuma experiência; livro sem direção
como sem motivação; livro disfarçado entre mil, e tão vazio e
tão cheio de coisas (as quais ninguém jamais classificaria, fal-
to de critério), que pudesse ser considerado, ao mesmo tempo,
escrito e não escrito, sempre foi um de meus secretos desejos.
Os dias passaram sobre esse projeto e não o fizeram mais
nítido; ambições mais diretas me agitaram; nunca soube
quando chegaria o tempo desse livro, e nunca senti em mim a,
plenitude insuportável da maturação; será hoje?
Se me disponho a escrevê-lo é porque já está feito ...
O mesmo seria dizer que minha vida está acabada. Quando
me sinto capaz de nascer neste escasso momento e olhar com
olhos ingênuos essa janela que se insere entre mim e a paisa-
gem; ou aquela porta, que esconde um gato; ou o céu, onde
passam aeroplanos postais. O homem acabado, o livro acaba-
do são fórmulas; o homem que continua, o livro que continua,
e, sobretudo, o leitor que continua, estão insinuando como é
audacioso esse projeto e como é difícil "pintar a passagem",
com o pincel que foge da minha mão, com a minha mão que
se desprega do braço e navega por conta própria, sobre a crista
móbil da onda, da onda que, por sua vez ...

Ternura diante do retrato

Percorrendo as oito páginas de notícias do país e do estran-


geiro, detenho-me na coluna (tão modesta) que estampa o
retrato do menino Edival. O retrato e a notícia de sua morte,
em dez linhas.
O menino Edival era soldado do Corpo de Bombeiros, ou
mais propriamente, aspirante a soldado. Tinha cinco anos e o
uniforme da corporação. Na fotografia, ele veste a farda de 3?
sargento e sorri previamente para os leitores do jornal. Edival
era mascote dos bombeiros e morreu de pneumonia.
Não posso explicar por que simpatizei tanto com Edival.
O fato de se tratar de uma criança estimadíssima entre os sol-
dados não é bastante. Eles conheciam o garoto, e eu não. O fato
de ter morrido também não me parece suficiente para justifi-
car a ternura que me veio bruscamente diante do jornal e quan-
do já não havia nada que remediar na vida do pequeno. Des-
confio do carinho que os mortos inspiram, e que os vivos não
souberam despertar. E daí, morrer é dos atos menos sinceros.

188
a solidão, a profundidade da noite estão latentes no leitor,
prestes a envolvê-lo, à simples provocação dessa palavra noite.

Poesia do tempo

O equívoco entre poesia e povo já é demasiadamente sabido


para que valha a pena insistir nele. Denunciemos antes o equí-
voco entre poesia e poetas. A poesia não se "dá'', é hermética
ou inumana, queixam-se por aí. Ora, eu creio que os poetas
poderiam demonstrar o contrário ao público. De que maneira?
Abandonando a ideia de que poesia é evasão. E aceitando ale-
gremente a ideia de que poesia é participação. Não basta dizer
que já não há torres de marfim; a torre desmoronou-se pelo
ridículo, porém muitos poetas continuam vendo na poesia um
instrumento de fuga da realidade ou de correção do que essa
realidade ofereça de monstruoso e de errado. Desenvolve-se
então entre eles a linguagem cifrada, que nenhum leigo enten-
de, e que suscita o equívoco já célebre entre poesia e povo.
Participação na vida, identificação com os ideais do tem-
po (e esses ideais existem sempre, mesmo sob as mais sór-
didas aparências de decomposição), curiosidade e interesse
pelos outros homens, apetite sempre renovado em face das
coisas, desconfiança da própria e excessiva riqueza interior,
eis aí algumas indicações que permitirão talvez ao poeta dei-
xar de ser um bicho esquisito para voltar a ser, simplesmente,
um homem.

Velha casa

André Maurois conta que na casa dos pais de Turguêniev, em


Spasskoie, se manipulava tudo o que era necessário à vida
ainda a bondade, porque esta não exige nenhum esforço, mas
será a trégua imposta aos instintos, a submissão momentâ-
nea da fera. O guarda-civil de São Paulo incute-nos esperança
de que a humanidade pode vir a melhorar. Não será em bre-
ve, responde a mulher do afogado. Mas esta resposta valoriza
ainda mais a abnegação do outro.

Neblina

Essa neblina que desde ontem envolve a cidade, e torna as mu-


lheres mais estranhas, os homens menos cotidianos - essa ne-
blina não te dá vontade de partir?
Partir para uma ponta de ilha brumosa, de onde vieram
os teus antepassados; partir para a Bretanha ou para a Escócia,
para a Finlândia ou para a Dinamarca?
Ou partir para lugares ainda mais irremediáveis, como o
Cabo Não, como a Terra do Príncipe Patrick?
Mas como é impossível partir - os caminhos são compri-
dos e os meios são curtos e a vida está completamente blo-
queada - tu te resignas a tomar o teu grogue no bar do hotel,
nessa hora mais que todas tristíssima - seis horas da tarde,
enquanto a neblina cai lá fora, e as mulheres passam mons-
truosas e vagas como desenhos indecisos, que a mão constrói
para apagar logo depois.

Georgina

De repente, sem que nada em nós ou fora de nós avisasse o des-


fecho, tudo que se transfigurara volta a desfigurar-se, e o mun-
do, que girava em volta de Georgina, não gira mais em volta de
Georgina. Ela era tudo o que existe sobre a Terra, a flor, a água, a

192
estrela, o fogo, o crime, a alegria, a dor, a batalha, o ouro e a pra-
ta do mundo. E de repente, puffl Estourou. Acabou-se. Nós mes-
mos não compreendemos, e Georgina acaso o compreenderia?
Ela continua a passar, esplêndida, pela nossa rua e seus vestidos
cada dia atraem novas cobiças, acendem novos desejos. Em nós,
porém, os vestidos de Georgina já não acordam nada, nem se-
quer um protesto. E sua beleza se volve em feiura ou, pior, em
indiferença e neutralidade. Agora Georgina não é feia nem bo-
nita, é apenas a décima milésima Georgina deste mundo onde
há tantas. Inútil você sorrir, Georgina, o seu sorriso é uma más-
cara fria. Todas as coisas aconteciam, por sua causa; agora você
acontece com as coisas, e tem a sua ficha no imenso arquivo de
nossa vida. Você abusou, Georgina ... Isto é, você não tem culpa,
a gente é que pôs em você um infinito de coisas doces, gostosas
e puras. Bem que você abria os olhinhos espantados, às vezes
pensando mesmo que era exagero, que "era deboche". Você,
miudinha neste mundo, se enxergava tão grande nos olhos da
gente! Olha a cara de espanto de Georgina. Não podia imaginar
que um homem sofresse. Pois se você não sofria, por que moti-
vo ele ... Um mundo de imaginações quer ondular na cabeça tão
penteada, e de tão admiráveis cabelos, da inocente Georgina. Ela
prefere dormir ou tocar piano. Ouvidos que passais e vos deten-
des, esta música que dava para entristecer a Noruega, esta músi-
ca não é triste, porque Georgina não é triste, é apenas um exer-
cício. Coitado do moço, tanto pensou em Georgina que fez um
poema, depois outro, depois mil. É claro que ela não se sentiu
orgulhosa por isso. Georgina não tem informações sobre essa
dor de joelho que é a poesia no homem. Em resumo, Georgina
era o objeto amado, único e intransferível, e o próprio do objeto
amado é não saber que o é. Por isso a gente sofria muito com
ela, e nas noites de chope concluía que a vida era irremediável,
a menos que algum anjo piedoso nos fornecesse alguns cristais
de metilarseniato de sódio, para liquidar.

193
Mas de repente, como ia dizendo, sem o menor aviso,
pressentimento, sirene, advertência ou campainha - sem um
grito, sem um ai - a gente passou por Georgina e nem se im-
portou com Georgina.
(Por acaso, Beatriz vinha passando naquela rua).

Pontuação e poesia

Quando leio em Mallarmé:

Si tu veux nous nous aimerons


Avec tes levres sans le dire
Cette rose ne l'interromps
Qu'à verser un silence pire

tenho a impressão de que esses versos, não somente pela flui-


dez das palavras, mas também pela supressão de qualquer
elemento de pontuação, se acham, como o quarto de Manuel
Bandeira, "intactos, suspensos no ar".
Em Apollinaire, já a ausência de pontuação não me suge-
re a flutuação do verso na atmosfera, mas antes uma sensação
de arrastamento na terra, de doloroso manquejar de quem
não sabe ou não quer libertar-se da sua prisão humana:

]'ai cueilli ce brin de bruyere


L'automne est morte souviens-t'en
Nous ne nous verrons plus sur terre
Odeur du temps brin de bruyere
Et souviens-toi que je t'attends

Um e outro efeito não são necessariamente produzidos pela


falta de sinais de pontuação, mas antes salientados por esse ar-

194
Mas de repente, como ia dizendo, sem o menor aviso,
pressentimento, sirene, advertência ou campainha - sem um
grito, sem um ai - a gente passou por Georgina e nem se im-
portou com Georgina.
(Por acaso, Beatriz vinha passando naquela rua).

Pontuação e poesia

Quando leio em Mallarmé:

Si tu veux nous nous aimerons


Avec tes levres sans le dire
Cette rose ne l'interromps
Qu'à verser un silence pire

tenho a impressão de que esses versos, não somente pela flui-


dez das palavras, mas também pela supressão de qualquer
elemento de pontuação, se acham, como o quarto de Manuel
Bandeira, "intactos, suspensos no ar".
Em Apollinaire, já a ausência de pontuação não me suge-
re a flutuação do verso na atmosfera, mas antes uma sensação
de arrastamento na terra, de doloroso manquejar de quem
não sabe ou não quer libertar-se da sua prisão humana:

]'ai cueilli ce brin de bruyere


L'automne est morte souviens-t'en
Nous ne nous verrons plus sur terre
Odeur du temps brin de bruyere
Et souviens-toi que je t'attends

Um e outro efeito não são necessariamente produzidos pela


falta de sinais de pontuação, mas antes salientados por esse ar-

194
tifício, que confirma em Mallarmé a misteriosa diafaneidade,
a libertação de todo compromisso terrestre, e em Apollinaire
a indeterminação entre o poeta e o mundo. E de um modo
geral, poder-se-á dizer que a pontuação regular, iluminando
igualmente todos os ângulos da superfície poética, impede
que se destaque algum de seus acidentes mais característicos.

Um sinal

II. Saíram os fariseus e começaram a discutir com Ele, procurando obter


d'Ele um sinal do céu, para O experimentarem. 12. E Ele, dando um pro-
fundo suspiro dentro do seu espírito, disse: Por que pede esta geração um
sinal? Em verdade vos digo, que a esta geração nenhum sinal será dado.
13. E deixando-os, tornou a embarcar para o outro lado.
(Marcos, 8)

A esse tempo, Jesus já havia realizado coisas portentosas. Me-


nino, confundira com a sua dialética os doutores no templo.
Moço, multiplicara os pães. Faltou vinho em um casamento, e
deu à água que corre a cor e o gosto do vinho. As ondas apla-
cavam-se a um gesto seu: os peixes, que se recusavam a Pedro,
enchiam a rede que Jesus mandara lançar. Uma noite, peran-
te os discípulos turbados, caminhou lisamente sobre o mar,
como nós outros pisamos o chão. Acalmou os possessos. Fez
andar os paralíticos. Aos leprosos secava as feridas. E os cegos,
os mudos, os gagos, os estropiados ganhavam ao seu contato
o uso de um sentido, a posse de um órgão. Finalmente, e sem
que quanto a isso pudesse restar sombra de dúvida, disse ao ca-
dáver de uma moça: "Anda", e o cadáver abriu os olhos, andou.
Pois depois de todos esses prodígios que com o toque
dos dedos ou o abrir dos lábios se operavam à sua ordem, os
homens ainda lhe exigiram um sinal. O sinal de que não era

195
Crítica literária
Laura Escorei

Dize-me os poetas que amas e dir-te-ei quem és ... O critério


não falha nunca. É assim que os homens podem ser dividi-
dos em duas categorias: a dos que gostam e a dos que detes-
tam a poesia de Carlos Drummond de Andrade. Poderíamos
dizer mesmo, mais rigorosamente: a dos que gostam e a dos
que detestam a Poesia, embora muitas vezes proclamem ou
julguem amá-la por convenção ou equívoco, pois é, de fato,
na medida em que permanece irredutivelmente fiel ao que
a Poesia tem de essencial, que Carlos Drummond de An-
drade provoca os mais estultos ataques contra a sua obra
poética e até mesmo uma hostilidade surda contra a sua es-
quiva pessoa.
"Le poete n'a pas le choix - escreveu Léon-Paul Fargue - c'est
un être qui provoque la stupeur effervescente ou l'amitié la plus sereine"
[O poeta não tem escolha. É um ser que provoca o estupor
efervescente ou a amizade mais serena]. Sempre foi assim,
mesmo nas épocas clássicas, como no tempo de La Fontai-
ne, a que se refere a citação de Fargue, e não seria hoje, numa
época como a nossa, tão dividida sob todos os aspectos, que
o poeta deveria alcançar a unanimidade na consagração da
sua obra. Lembremo-nos de Baudelaire, de Poe, de Rimbaud,
de Mallarmé, lembremo-nos de todos os grandes poetas que
colocaram o ideal da poesia acima de todas as convenções
e preconceitos a que a maioria se escraviza, lembremo-nos
das incompreensões, da estreiteza de vistas, da incompetêi:~
eia obstinada daqueles que pretenderam negar valor às suãs

235
obras, e reconheceremos então que, ontem como hoje, a hu-
manidade se divide entre os que, tocados pela poesia, são ca-
pazes de descobri-la desde logo no timbre inédito de um novo
poeta, e os que, desinteressados no fundo pela presença poé-
tica, só se dispõem a aplaudir convencionalmente, como uma
claque disciplinada, os poetas que já receberam o nihil obstat
da crítica bem-pensante. Não é de admirar, portanto, que se
veja negada e ridicularizada entre nós a poesia de um poeta da
importância e da significação de Carlos Drummond de An-
drade, cuja influência considerável na literatura brasileira só
o futuro poderá avaliar devidamente.
Desde o seu primeiro livro, Alguma poesia, publicado em
1930, passando por Brejo das almas [1934] e Sentimento do mundo
[1940], até os seus poemas mais recentes, muitos ainda inédi-
tos, que Carlos Drummond de Andrade vem dando o exem-
plo de um homem que faz da poesia um ato vital, ligando-a
substancialmente à sua experiência do mundo, sem jamais
olhar em torno para buscar a aprovação fácil dos filisteus.
Como participante do modernismo, o poeta mineiro encon-
trou-se à vontade dentro do movimento, sem necessidade de
assumir qualquer atitude menos autêntica, pois o seu tem-
peramento antirretórico, a sua reserva natural, o seu apura-
do senso crítico, o seu humour coincidiam, em grande parte,
com o sentido das reivindicações dos renovadores de 1922.
Foi-lhe possível, em consequência, viver a experiência mo-
dernista em conexão íntima com a sua própria experiência
humana, de tal modo que todos os poemas seus, daquela fase,
e os que lhe seguiram, ao lado do valor propriamente poéti-
co, têm um valor biográfico essencial. Essa biografia do ser
profundo, sem dúvida a única verdadeira, que a poesia tem o
privilégio de fixar, apresenta, no caso de Carlos Drummond
de Andrade, um caráter, a meu ver, verdadeiramente exem-
plar. Exemplar na medida em que ela nos põe em contato
com um introvertido, naturalmente inclinado ao isolamento,
que soube escapar aos terríveis perigos que a solidão oferece,
como o orgulho e o desprezo pela humanidade, sentimen-
tos que conduzem inevitavelmente ao fascismo. Pois o que
é o fascista intelectual senão um solitário que se defende do
desespero recorrendo à arrogância, à violência, à intolerân-
cia e à orgulhosa negação dos demais homens? Não há, sem
dúvida, homem sensível que não tenha experimentado, em
certo momento da vida, sobretudo na adolescência, esse sen-
timento de solidão absoluta, de vazio, de abandono, que faz
com que animal humano se sinta literalmente perdido num
mundo povoado apenas por seres indiferentes e hostis. Uma
tal experiência de solidão se me afigura mesmo necessária
ao amadurecimento do homem: um enclausuramento indis-
pensável para que se trave, no silêncio do indivíduo, o diálo-
go essencial entre a consciência e o ser, sem o qual nenhum
conhecimento é possível. Acontece, porém, que a introver-
são do solitário pode levá-lo ao endeusamento do próprio
"eu", à autocontemplação narcisista, impedindo-o de se sentir
participante de uma comunidade frente à qual tem deveres e
obrigações e através da qual há de se consumar o seu destino
temporal. A solidão é o fruto capaz de envenenar o homem
que o prove sem dispor do antídoto da humildade. O fascista
é um envenenado: o orgulho converte a sua solidão em algo
de inumano e monstruoso, fazendo dela a substância de seu
ódio e do seu ressentimento. O homem humilde, ao contrá-
rio, supera a solidão graças ao amor, que é essencialmente
correspondência e comunhão.
Aquele momento em que todas as ligações com os pró-
prios semelhantes parecem definitivamente rompidas; aquele
momento de incompreensões, de rupturas e de choques com
o próximo, com os próprios pais tantas vezes; aquele mome~­
to em que a vida interior surge como o único refúgio possível,

237
embora encerre muitas vezes o desespero, é decisivo para a
formação do indivíduo. Dele, poderá sair místico, que vença
a solidão pela participação no divino, um fascista, que nela
cultive a suficiência, a prepotência e o orgulho, ou um homem
íntegro, ao mesmo tempo consciente de si mesmo e comple-
tado pelo vínculo da solidariedade humana e pelo sentimento
do mundo.
Carlos Drummond de Andrade é um poeta que viveu in-
tensamente essa terrível experiência de solidão. E a sua gran-
deza humana está em ter vencido o próprio fantasma que o
isolava da humanidade e que o impedia de se encontrar total-
mente a si mesmo. Naturalmente arredio e reservado, tímido
e desconfiado, o isolamento egoístico cedo o cobiçou para a
sua cela fria e desabrigada, batida pelos ventos do desespero e
do tédio, e na qual ele viveu algum tempo, escrevendo versos
pelas paredes ... Mas a sua consciência trabalhava surdamen-
te na sombra, de tal modo que, um belo dia, as grades caíram
por terra e o poeta se viu livre, entre os homens seus irmãos,
devassando os amplos horizontes do humano.
Poucos poetas, realmente, conheceram como Carlos Drum-
mond de Andrade, tão intimamente, a solidão, sobretudo a so-
lidão da grande cidade moderna. Há tempos, buscando fixar o
itinerário do poeta, tive oportunidade de observar, num artigo
publicado em São Paulo, que a imagem que nos fica da leitura
das suas poesias completas é a de um homem lúcido e sensível,
perdido no vazio e no tumulto da cidade moderna. A nota tal-
vez mais característica do poeta mineiro - acrescentava - e que
dá ao seu modernismo um caráter substancial, fazendo dele,
sem dúvida, o mais moderno dos nossos poetas, é a sua capa-
cidade de exprimir o pathos da grande cidade, expressão por
excelência da vida moderna. Todos os temas poéticos de Car-
los Drummond de Andrade e todas as suas características ex-
pressionais - aquela secura, dir-se-ia de asfalto ardente, aquela
tocante nudez, como que de cimento armado, aquela precisão
inflexível da sua linguagem lírica - derivam necessariamente
da sua condição de poeta urbano. Não poderemos compreen-
der integralmente o sentido da sua evolução espiritual se não
partirmos da consideração preliminar de que ele é um prisio-
neiro da grande cidade, uma vez que, tanto as suas fugas para o
passado - lembrança dos antepassados e evocação de Itabira -
como seu descobrimento do mundo, dos outros homens, da
humanidade, são caminhos de libertação, através dos quais o
poeta procura escapar da solitude peuplée [solidão povoada], em
que é obrigado a viver, para alcançar o domínio amplo da co-
munhão e da solidariedade humanas.
Vejo agora confirmado o que dissera pelo próprio poeta
que, no seu último livro, Confissões de Minas, coletânea de crô-
nicas e artigos, publicados nos jornais e revistas de Minas e
desta capital, escreve o seguinte a propósito de Fagundes Va-
rela: "a solidão é niilista. Penso numa solidão total e secreta,
de que a vida moderna parece guardar a fórmula, pois para
senti-la não é preciso fugir para Goiás ou as cavernas. No for-
migamento das grandes cidades, entre os roncos dos motores
e o barulho dos pés e das vozes, o homem pode ser invadido
bruscamente por uma terrível solidão, que o paralisa e o pri-
va de qualquer sentimento de fraternidade ou temor." [p. 28]
Palavras que soam quase como uma confissão, palavras sem
dúvida carregadas de experiência ...
Foi de fato um conhecimento pessoal dessa solidão nii-
lista, assim tão admiravelmente definida, e a vitória que con-
seguiu obter sobre ela, de que são testemunhas os poemas de
Sentimento do mundo e as suas últimas produções, que permiti-
ram a Carlos Drummond de Andrade alcançar o alto nível hu-
mano em que atualmente se encontra, e de onde nos dirige a
advertência nítida e grave do magnífico prefácio que escreve~
para Confissões de Minas, seu livro de estreia como prosador:

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Rapazes, se querem que a literatura tenha algum préstimo no
mundo de amanhã (o mundo melhor que, como todas as uto-
pias, avança inexoravelmente), reformem o conceito de literatu-
ra. Já não é possível viver no clima das obras-primas fulgurantes
e ... podres, e legar ao futuro apenas esse saldo dos séculos. Re-
formem a própria capacidade de admirar e de imitar, inventem
olhos novos ou novas maneiras de olhar, para merecerem o es-
petáculo novo de que estão participando. Se lhes disserem que
nada disso é novo e que já houve guerras, e depois armistícios e
depois outras guerras etc., etc., não levem a sério essa falsa expe-
riência histórica, que impede qualquer melhoria da história. Se
tudo foi dito, então o remédio é o suicídio sob qualquer de suas
formas, inclusive a do beato e precário contentamento de existir
na época do rádio e das roupas de vidro. Prefiro acreditar que
nada foi feito nem escrito nem descoberto. Que estamos come-
çando a nascer, e que os gênios nacionais e estrangeiros não fo-
ram ainda inventados. Porque antes negá-los todos do que viver
esmagado por eles, e como pesam!, de todo o peso da aceitação
e da facilidade. [pp. 13-14]

Se é exato, como diz o autor, que falta a Confissões de Minas "o


tempo, com as suas definições", nem por isso diminuem
o valor e o interesse do livro, pois ele nos revela, o que me
parece tão importante como o outro, o tempo interior, a du-
ração do poeta Carlos Drummond de Andrade. Não penso
assim, como diz o prefácio, que o escritor esteja fora desse li-
vro, sob tantos aspectos admirável; creio antes que cada linha
sua ou revela que cada pensamento o confirma, sempre tão
sutil nas páginas em que evoca Itabira do Mato Dentro, pági-
nas que, como tantas outras, certamente ficarão das melhores
da nossa literatura. Como não senti-lo ainda na evocação dos
amigos mortos, em que a qualidade viril da sua sensibilidade
empresta a cada linha uma secreta e dolorosa tensão? Como,

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enfim, não reconhecer o poeta no sentimento do tempo per-
dido que tantas crónicas de Confissões de Minas revelam, na
acuidade dos seus juízos críticos e na surpreendente exatidão
das suas palavras? Impossível de esquecer "Vila de Utopia",
"Um escritor nasce e morre", "Esboço de uma casa", que mais
diretamente nos falam do escritor, embora encontremos sem-
pre, em qualquer página do livro, aberto ao acaso, o tom in-
confundivelmente drummondiano que nos fala, em surdina,
da alta humanidade de um homem secretamente romântico ...
A exatidão é a característica imediata de tudo o que Carlos
Drummond de Andrade escreve. E é o que faz com que a sua
poesia seja antes "dita" do que "cantada". Exatidão que pro-
vém de um sentimento profundo do valor de cada palavra, no
que ele se revela fundamentalmente poeta. Pois a poesia não
é irreconciliável com a exatidão, segundo pode parecer à pri-
meira vista; na verdade, o verso perfeito é o verso que traduz
"exatamente" a intenção do poeta, mesmo quando se trate de
exprimir um vago estado de sensibilidade. A expressão poéti-
ca, ao contrário, é inexata quando comporta zonas mortas de
palavras, zonas que o sopro de poesia não atravessa e vivifica.
O verdadeiro poeta, como é o caso de Carlos Drummond de
Andrade, conhece cada vocábulo na sua intimidade, conhece
a sua história viva, o seu "peso", a sua "cor", a sua música, o
seu conteúdo lógico e as suas virtualidades efetivas de tal ma-
neira que, frequentemente, pode resumir, numa única pala-
vra, toda uma completa experiência de vida. Não é por outra
razão que, em geral, o grande poeta é simultaneamente bom
prosador, como é o caso de Baudelaire, de Paul Valéry, ou, en-
tre nós, de Manuel Bandeira e do próprio autor de Confissões
de Minas. Fato que nos mostra que a prosa e a poesia não são
dois mundos incomunicáveis, embora divirjam radicalmen-
te no modo de tratar a linguagem. Na poesia, como diz Karl
Vossler, "a estrutura sintática é acessória, latente, imanente,

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submetida às ordenações rítmicas e métricas, enquanto que
na prosa a estrutura sintática se destaca tanto mais aguda-
mente, se faz tão mais importante e eficaz, quanto mais deci-
didamente o prosador se afasta do estilo poético e do estado
de ânimo lírico".
A prosa de Carlos Drummond de Andrade, fiel à sua na-
tureza, é admiravelmente estruturada, sob o ponto de vista
sintático. O seu estilo, ao mesmo tempo flexível e resistente,
acompanha todas as variações e matizes do pensamento, e
impede que ele extravase e se perca no vago. Não há na sua
linguagem qualquer excesso verbal. A mão de Carlos Drum-
mond de Andrade fere sempre, com destreza admirável, a
nota justa, a nota que por si mesma diz tudo. É com razão
que ele observa: "à medida que envelheço, vou me desfazendo
dos adjetivos. Chego a crer que tudo se pode dizer sem eles,
melhor talvez do que com eles. Por que 'noite gélida', 'noite
solitária', 'profunda noite'? Basta 'a noite'. O frio, a solidão, a
profundidade da noite estão latentes no leitor, prestes a envol-
vê-lo, à simples provocação dessa palavra noite." [pp. 182-83]
Não está ausente, porém, dessa prosa tão despojada e as-
cética, uma discreta e silenciosa beleza, beleza fria de cristal,
na qual, por vezes, a poesia põe uma repentina fulguração
lírica. Assim, por exemplo, na excelente crônica "Esboço de
uma casa", em que lemos: "Lá embaixo, a fita interminável
de asfalto, onde deslizam automóveis e bicicletas. E ao longo
da fita, uma coisa enorme e estranha, a que se convencionou
dar o apelido de mar, naturalmente à falta de expressão sin-
tética para tudo o que há nele de salgado, de revoltoso, de
boi triste, de cadáveres, de reflexos e de palpitação subma-
rina." [p. 175] Ou então: "Há um sono de pessoas e peque-
nos animais capturados, inofensivos, suspensos, protegidos
pelo cimento, espreitados pelo vento, um sono solidário, tão
puro!, que a casa perde seu caráter hostil e também ela boia

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na noite, grande flor muda que, ao primeiro grito, se despe-
tala." [p. 178]
Muito haveria ainda a dizer, não fosse a falta de espaço,
sobre outros aspectos desse livro tão exemplar como estilo,
tão rico de interesse humano, tão penetrante nos seus juízos
críticos, tão cheio de informações preciosas sobre certas figu-
ras da nossa literatura, tão carregado de verdade e de poesia,
livro sem dúvida imprescindível ao historiador literário, que
deseje amanhã compreender a complexa personalidade de
Carlos Drummond de Andrade.
Confissões de Minas preenche de fato, com a voz nostálgica
que nele ouvimos, os silêncios de uma poesia sóbria, e com-
pleta a imagem de um poeta que, pela sua probidade artística,
pela sua independência, pela sua coerência, pela força da sua
presença poética na nossa literatura, e pela consciência que
revelou dos problemas do nosso tempo, constitui hoje, para
todos os moços que se iniciam na vida literária, um estímulo
poderoso e um claro exemplo.

A Manhã, Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1944.

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