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Portugués Instrumental | A flor do Lécio, as estrelas e 0 didlogo Ao construir um texto, apés dialogar com o autor, é importante observar que vocé deverd dar atengao especial ao contetido e & forma No que se refere ao contetido, apresentamos-lhe o texto a seguir, escrito especialmente para esta aula, haja vista que também acreditamos que “ouvir é fundamental para as relagdes interpessoais” Acexpressdo “haja vista", segundo conceituados graméticos,¢ invarivel, (ou seja, ndo so admitidas na norma culta as expresses “haja visto” ou ““halam vistas”. Esta expresséo, segundo 0 dicionério Aurélio, € usada “para indicar aquilo que deve ser levado em consideracao”. Veja, a seguit, um poema de Olavo Bilac Olavo Bilac Em 16 de dezembro de 1865, nasceu Olavo Brés Martins dos Guimaraes Bilac, na cidade do Rio de Janeiro. Poeta parnasiano, Bilac primou pelo rigor formal. considerado o maior talento desse movimento literario, cujas principais caracteristicas sao: a. a impessoalidade; b. a preferéncia Por sonetos; . o descritivismo; d. 0 preciosismo vocabular; e. a literatura como oficio; entre outras. Em face dos dados histéricos e da obra do poeta, podemos afirmar que Bilac teve dois grandes amores: Amélia Mariano de Oliveira e a Lingua Portuguesa. ‘Apés quatro anos de relacionamento, escreveu, num bilhete para Am que era poetisa: “"Foste a nica mulher que me soube fazer conhecer toda a divina delicia, toda a suave tortura do verdadeiro amor. Amei-te no primeiro dia em que te vi; amel-te em siléncio, em segredo, sem esperanca de te possuir e sem refletit Quanto a Lingua Portuguesa, declarou o seu amor com o soneto a segui Lingua Portuguesa Ultima flor do Lacio, inculta e bela, és, a um tempo, espiendor e sepultura: Ouro nativo, que na ganga impura A bruta mina entre os cascalhos vela... ‘Amo-te assim, desconhecida e obscura. Tuba de alto clangor, lira singela, Que tens 0 trom eo silvo da procela, Eo arrolo da saudade e da ternura. Amo 0 teu vigo agreste e 0 teu aroma De virgens selvas e de oceano largo! ‘Amo-te, 6 rude e doloroso idioma, Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”, E.em que Camées chorou, no exilio amargo, © génio sem ventura e o amor sem brilho! 180 CEDERJ ‘Obras principais: “Pandplias”, “Via Léctea” e “Sarcas de Fogo” (no volume Poesias, 1" edicdo, 1888). Poesias (2 edicéo), arescida das seguintes obras: “alma Inquieta”, “As Viagens", "O Cacador de Esmeraldas”. Foi o autor da letra do Hino & Bandeira ("Salve, lindo pendao da esperanca”.... Faleceu em 18 de dezembro de 1918. Sugerimos que vocé entre na rede (na pagina do Google) procure saber mais sobre esse importante poeta, pois, para o saber, hd sempre espaco. “ORA (DIREIS) OUVIR ESTRELAS!” Para se constituir, o sujeito precisa estabelecer relagdes que 0 insiram em contextos socioculturais. Essas relagdes se estabelecem no Ambito sociocultural por meio do didlogo, cujo instrumento é a linguagem. O didlogo ao qual nos referimos deverd ser tecido por uma palavra dial6gica, que “comporta a idéia de que os antagonismos podem. ser estimuladores ou reguladores” (MORIN, 1998). Nesse sentido, deve prevalecer a intengao de um “voltar-se para 0 outro” (BUBER, 2003). £ quando se realiza esse “voltar-se para o outro” que o sujeito se introduz na existéncia. Na viso buberiana, a tinica forma de o homem se tomar “EU” ocorre quando ele estabelece uma relagao com 0 “TU”. “EU-TU” traduz uma experiéncia relacional responsével pela existéncia humana, posto que é nela que 0 “EU” se realiza, Afirma Buber (2003): “o EU se realiza na relagao com 0 TU; é tornando EU que digo TU. ‘Toda vida atual é encontro”. Para que ocorra esse encontro, é necessario desenvolver a habilidade de ouvir. Ouvir é um ato voluntario ¢ ativo, Nao pode ser ordenado, por ser um proceso mental, e é fundamental para o estabelecimento de relagdes interpessoais. Relagdes que se realizam quando emissor e receptor assumem posturas positivas, ou seja, quando adotam comportamentos que os tornam ouvintes ativos. Em outras palavras, quando adotam comportamentos que permitam 0 contato psicol6gico, ou seja, o encontro do EU com o TU. CEDERJ 181 Portugués Instrumental | A flor do Lécio, as estrelas e 0 didlogo Cépico Morse De acordo com 0 Moderno Dicionério dda Lingua Portuguesa Michaelis, 0 c6digo ‘Morse, um sistema de codificagao de ‘mensagens a distancia, foi inventado por Samuel Finley Breese ‘Morse (1791-1872) ‘em 1835, Trata-se de tum sistema que utiliza trasos expasor ou sons curtos ¢ longos ccorrespondentes, uusado em telegrafia ‘1 sinalizaga0, no intuito de representar ‘as leteas do alfabeto, nimeros ¢ outrot simboloe. Tal sistema cencontra-se em desuso atualmente, exceto em fardis. Vale lembrar que S.0.S, — iniciais dda frase inglesa Save Our Ship Salven 0 nosso navio) — um cone da mensagem Moree 182 CEDERJ Fundamental, entao, para o estabelecimento de relagGes interpessoais, © ouvir se destaca das outras atividades de comunicagao (ler, escrever, falar) por trazer consigo conseqiiéncias. Para Rogers (1977), quando se ouve alguém, verdadeiramente, ¢ se apreende o que mais importa a essa pessoa, ouvindo nao apenas as palavras, mas a ela mesma, ¢ fazendo-a saber que foram ouvidos os seus significados pessoais privados, surge um sentimento de gratidao, €-a pessoa se sente libertada. E, imersa nesse sentimento de liberdade, sente um forte desejo de transmitir mais coisas sobre o seu “pequeno grande mundo”, que habita poética e prosaicamente. De acordo com esse autor, nesse momento, vivenciando esse novo senso de liberdade, em que prevalece o viver em estado de poesia, “a pessoa pode se tornar mais acessivel ao processo de mudanga”. No entanto, acrescenta, hoje em dia, ha pessoas que vivem “em cérceres privados, gente que nada exterioriza do que tem no seu intimo, cujas ténues mensagens s6 com muito esforgo se podem captar” (ROGERS, 1977, p. 223). Na visio rogeriana, ha pessoas que, em devaneios ¢ aprisionadas em seu mundo prosaico, clamam por alguém que as ouga, como se fossem. prisioneiras de uma masmorra e passassem a dedilhar, em c6vico Morse, dia apés dia, as seguintes mensagens: “Alguém me ouve?”, “Hé alguém ai”, “Pode alguém me ouvir?”. Aré que um dia, finalmente, escuta uma “sim!” ténue batidinha que ele soletr: “Sim!” Tal resposta “mimica o liberta da solidao, ei-lo a se tomas, outra vez, um ser humano” (op. cit., p. 223). £. Ouvir, realmente, carrega consigo conseqiiéncia gratidio, liberdade e o fato de promover um possivel e rapido acesso ao processo de ‘mudanga. Mudanga que pode conduzir 0 sujeito a uma vida harménica. E estar em harmonia é transitar pelo postico e pelo prosaico. ‘Mas o que vem a ser esse “poético e prosaico”? ‘Morin (1998A) afirma que é preciso reconhecer que o sujeito, inserto em qualquer cultura, produz duas linguagens a partir de sua lingua. Uma racional, empirica, pritica, técnica, tendendo a precisa, denotar, definis, apoiada sobre a Logica. Outra simbélica, magica, mitica, utilizando-se da conotacao, da analogia, da metdfora, ensaiando “traduzir a verdade da subjetividade”. A cada uma dessas linguagens, que podem