You are on page 1of 286

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP

)
Angélica Ilacqua CRB-8/7057

Keller, Timothy
Pregação: comunicando a fé na era do ceticismo / Timothy Keller; tradução de A. G. Mendes. -
São Paulo: Vida Nova, 2017.
288 p.
ISBN 978-85-275-0775-2 (recurso eletrônico)
Título original: Preaching : communicating faith in an age of skepticism
1. Pregação 2. Bíblia – Uso homilético 3. Palavra de Deus (Teologia cristã) I. Título II. Mendes, A.
G.

16-1032 CDD 251

Índices para catálogo sistemático:
1. Pregação
©2015, de Redeemer City to City e Timothy Keller
Título do original: Preaching: communicating faith in an age of skepticism, edição publicada pela VIKING,
um selo da Penguin Random House LCC
(New York, New York, EUA).

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por
SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA
Rua Antônio Carlos Tacconi, 75, São Paulo, SP, 04810-020
vidanova.com.br | vidanova@vidanova.com.br

1.ª edição: 2017

Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em citações breves, com indicação da fonte.

Todas as citações bíblicas sem indicação da versão foram extraídas da Almeida Século 21. As citações
bíblicas com indicação da versão in loco foram traduzidas da New International Version (NIV), da King
James Version (KJV) e da New King James Version (NKJV). Citações bíblicas com a sigla TA se referem a
traduções feitas pelo autor a partir do original grego/hebraico.

DIREÇÃO EXECUTIVA
Kenneth Lee Davis

GERÊNCIA EDITORIAL
Fabiano Silveira Medeiros

EDIÇÃO DE TEXTO
Fernando Mauro S. Pires

REVISÃO DA TRADUÇÃO E
PREPARAÇÃO DE TEXTO
Marcia B. Medeiros

REVISÃO DE PROVAS
Mauro Nogueira

GERÊNCIA DE PRODUÇÃO
Sérgio Siqueira Moura

DIAGRAMAÇÃO
Bruno Menezes

CAPA
Souto Crescimento de Marca
Aos membros da igreja
West Hopewell Presbyterian Church (1975-1984),
que me chamavam de “pregador” numa época
em que eu ainda tropeçava nesse aprendizado.
SUMÁRIO

Agradecimentos
Prólogo: O que é uma boa pregação?
Introdução: Os três níveis do ministério da Palavra

PRIMEIRA PARTE: SERVINDO À PALAVRA
1. Pregando a Palavra
2. Pregando o evangelho sempre
3. Pregando Cristo em toda a Escritura

SEGUNDA PARTE: ALCANÇANDO AS PESSOAS
4. Pregando Cristo à cultura
5. A pregação e a mente moderna (tardia)
6. Pregando Cristo ao coração

TERCEIRA PARTE: EM DEMONSTRAÇÃO DO ESPÍRITO E DE PODER
7. A pregação e o Espírito

Apêndice: Redigindo uma mensagem expositiva
AGRADECIMENTOS

uero agradecer primeiramente aos membros da igreja West Hopewell

Q Presbyterian Church, em Hopewell, Virgínia, a quem servi de 1975 a
1984, no início do meu ministério. Cheguei àquela cidade quando
tinha 24 anos, recém-saído do seminário, onde eu recebera um merecido C em
pregação. Na West Hopewell, era esperado que eu fizesse três exposições
bíblicas semanais — no domingo pela manhã, no domingo à noite e nas quartas-
feiras à noite. Além disso, eu pregava, em média, duas outras mensagens por
mês em casamentos e funerais, em clínicas de repouso, em capelas de escolas
locais e em retiros. Foi um desafio e tanto. Durante nove anos, escrevi e preguei
cerca de 1.500 mensagens expositivas. Estava então com 33 anos. No decorrer
dessa programação desafiadora, porém, as pessoas da igreja foram amorosas
comigo e me deram apoio, acolhendo, agradecidas, esses meus primeiros
esforços. O ministério em igrejas pequenas, em cidades pequenas, tem um
acentuado teor relacional. Tive ampla oportunidade de conversar com quase todo
o mundo sobre como estavam recebendo meus sermões. Vi em que aspectos eu
estava deixando as pessoas confusas, ou deixando de atender às suas
necessidades reais, ou falhando em lidar com suas objeções ou dúvidas. No
escritório de aconselhamento pastoral, pude ver onde as coisas sobre as quais eu
pregava estavam dando fruto, resultando em vidas transformadas, e onde não
estavam. Essa combinação de prática com feedback e apoio amoroso fez de mim
um pregador muito melhor do que eu jamais poderia ser se tivesse ido para outro
lugar onde não exigissem tanto de mim e não me amassem tanto.
Também agradeço tanto aos alunos quanto aos professores do Seminário
Westminster, na Filadélfia, onde dei aulas sobre pregação de 1984 a 1989.
Como pregador atuante, há muito tempo queria escrever um livro sobre o
assunto, mas percebi que não seria fácil. A exemplo de muitos outros praticantes,
dou muita atenção aos detalhes. Graças aos esforços do meu colega da Redeemer
City to City Scott Kauffmann, e do meu editor há tantos anos da Penguin
Random House Brian Tart, fui capaz de discernir os contornos mais amplos e
mais importantes das implicações atuais do ato de pregar.
Como de costume, quero agradecer às pessoas que me possibilitaram
escrever durante várias semanas ao longo do ano em ambientes agradáveis e
isolados — Lynn Land, Mary Courtney Brooks, Janice Worth, John e Carolyn
Twiname. Por fim, agradeço à minha esposa, Kathy, minha melhor crítica e mais
ardente defensora tanto do meu trabalho quanto da minha vida como pregador da
Palavra.
PRÓLOGO

O QUE É UMA BOA PREGAÇÃO?

Uma das mulheres que nos ouviam, chamada Lídia, vendedora de tecidos
de púrpura, da cidade de Tiatira, era temente a Deus. O Senhor lhe abriu
o coração para acolher as coisas que Paulo dizia (At 16.14).
O SEGREDO DE UMA PREGAÇÃO EXCELENTE
Não muito tempo depois que comecei meu ministério de pregação, observei uma
intrigante falta de regularidade na reação dos meus ouvintes. Às vezes, o retorno
vinha sob a forma de agradecimentos no decorrer da semana depois de
determinado sermão. “Aquele sermão mudou minha vida.” “Parecia que você
estava falando diretamente comigo. Fiquei pensando: Como ele sabe disso?”
“Nunca vou me esquecer — era como se a mensagem tivesse vindo diretamente
de Deus!” Quando eu ouvia comentários desse tipo, achava que tinha pregado
um excelente sermão — o sonho de todo jovem ministro.
Não demorou muito para me dar conta de que outros estavam fazendo
comentários do tipo “nada demais” sobre a mesma mensagem. Kathy, minha
esposa, muitas vezes dizia: “Foi bom, mas não foi um dos seus melhores”,
enquanto outra pessoa me dizia em lágrimas no dia seguinte que jamais seria a
mesma depois de ouvir aquele sermão. Como eu deveria interpretar isso? No
início, comecei a imaginar se a beleza do sermão não estaria na percepção do
ouvinte apenas, mas certamente essa era uma explicação subjetiva demais. Eu
confiava no discernimento de Kathy, e no meu próprio, de que alguns dos meus
sermões eram simplesmente mais bem elaborados e transmitidos do que outros.
Contudo, alguns dos que eu considerava medíocres mudavam vidas, enquanto
outros que eu achava muito bons pareciam ter pouco impacto.
Um dia, eu estava lendo Atos 16, que narra a plantação da igreja de Filipos
por Paulo. Nessa ocasião, o apóstolo apresentou o evangelho a um grupo de
mulheres e uma delas, Lídia, começou a crer em Cristo porque “o Senhor lhe
abriu o coração para acolher as coisas que Paulo dizia” (At 16.14). Embora todas
tivessem ouvido a mesma mensagem, só Lídia parece ter sido permanentemente
transformada por ela. Não devemos forçar a interpretação aqui para dar a
entender que Deus só opera por uma mensagem no momento em que ela é
comunicada e que ele não ajudou Paulo enquanto preparava o sermão com
antecedência. Contudo, estava claro para mim, com base no texto, que o impacto
diferenciado do sermão sobre as pessoas se devia à obra do Espírito de Deus.
Talvez Paulo tivesse Lídia em mente ao mostrar que pregar é o evangelho chegar
até o ouvinte “não somente com palavras, mas também com poder, com o
Espírito Santo e com absoluta convicção” (1Ts 1.5).
Concluí que a diferença entre um sermão ruim e um bom sermão depende
em grande medida do pregador — dos seus dons e habilidades e da preparação
da mensagem. Entender o texto bíblico, extrair dele um esboço e um tema claros,
elaborar um argumento convincente, enriquecê-lo com ilustrações tocantes,
metáforas e exemplos práticos, analisando de forma incisiva as motivações do
coração e seus pressupostos culturais e fazendo aplicações específicas à vida
real, todas essas coisas exigem um trabalho demorado. Preparar um sermão
como esse exige horas de dedicação, e conseguir elaborá-lo e apresentá-lo de
forma hábil exige anos de prática.
Contudo, embora a diferença entre um mau sermão e um bom sermão seja
sobretudo responsabilidade do pregador, a diferença entre uma boa pregação e
uma pregação excelente depende principalmente da ação do Espírito Santo no
coração do ouvinte bem como no do pregador. A mensagem em Filipos veio de
Paulo, mas o efeito do sermão sobre os corações veio do Espírito.
Isso significa que Deus pode usar tanto uma mensagem elaborada com
indiferença quanto uma excelente pregação, o que explica a resposta dada por
um velho ministro cristão quando lhe pediram para fazer uma comparação entre
dois pregadores do século 18: Daniel Rowland e George Whitefield. Ele disse
que o sermão de ambos sempre era de grande impacto, mas que os sermões de
Rowland eram sempre muito bons, o que já não acontecia sempre com os de
Whitefield.1 Não importando como o sermão era preparado, havia a sensação de
que a presença e o poder de Deus sempre acompanhavam a pregação de
Whitefield.
Talvez você esteja ansioso para aprender “o segredo da pregação excelente”
como um conjunto de instruções que estabelecem uma prática disciplinada.
Desse modo, você poderia quase sempre pregar maravilhosamente bem,
bastando para isso seguir essas orientações ao pé da letra. No entanto, não posso
lhe dar essa fórmula — ninguém pode —, porque esse segredo repousa nas
profundezas dos sábios planos divinos e do poder do Espírito de Deus. Estou
falando daquilo a que muitos se referiram como “unção”. Discutirei o papel do
pregador nessa dinâmica no capítulo final deste livro, mas não há manuais que
garantam isso. Haverá quem aponte com justiça para a vida de oração do
ministro, indagando: “Não é esse o segredo da pregação excelente?”. A resposta
é sim e não. Embora uma vida de oração profunda e rica seja um requisito para
uma pregação excelente e mesmo para uma boa pregação, ela não é por si só a
garantia de que tal excelência será alcançada. É preciso que façamos toda a
nossa parte para que a comunicação da verdade de Deus seja boa e então
deixemos a cargo de Deus como e com que frequência ele a tornará impactante
para o ouvinte. “… procuras coisas magníficas para ti mesmo? Não as
busques…” (Jr 45.5).
O PREGADOR “ABSOLUTAMENTE PERFEITO”
Essa distinção poderá levá-lo a supor que os comunicadores cristãos nada
precisam fazer a não ser explicar o texto bíblico e que “cabe a Deus fazer o
resto”. Esse é um equívoco e um reducionismo perigoso da tarefa da pregação.
Teodoro de Beza foi o companheiro mais jovem e sucessor de João Calvino,
o fundador do segmento reformado do protestantismo durante a Reforma. Em
sua biografia de Calvino, Beza recorda quais eram os três grandes pregadores de
Genebra naqueles anos — o próprio Calvino, Guilherme Farel e Pedro Viret.
Farel, disse Beza, era o mais inflamado, o mais apaixonado e contundente em
seus sermões. Viret era o mais eloquente, e o público ouvia atentamente suas
palavras vibrantes e belas. O tempo voava quando ele pregava. Calvino era o
mais profundo; seus sermões eram recheados com as “perspectivas mais
profundas”. Ele tinha mais substância, Viret mais eloquência e Farel mais
veemência. Beza concluiu que “um pregador que fosse uma combinação desses
três homens teria sido absolutamente perfeito”.2 Ele reconhece aqui que seu
grande mentor, João Calvino, não era o pregador perfeito. Ele dominava um
grande conteúdo, mas não era tão habilidoso quanto os outros em prender a
atenção do público, persuadi-lo e tocar seu coração. Viret e Farel tinham maior
capacidade de envolvimento e comoção do público.
No primeiro manual de pregação cristã, Agostinho escreveu que fazia parte
dos deveres dos pregadores não apenas probare (instruir e provar), mas também
delectare (prender a atenção e encantar) e flectere (comover as pessoas e levá-las
à ação).3 Embora Agostinho condenasse as filosofias pagãs por sua falência, ele
acreditava que os pregadores cristãos pudessem aprender com suas obras sobre
retórica. O termo grego para retórica apareceu primeiramente no Górgia,
diálogo de Platão, com o significado de “trabalho de persuasão”.4 George
Kennedy, especialista nos clássicos, diz que, em certo sentido, a retórica “é um
fenômeno de todas as culturas humanas”, porque a maior parte dos atos de
comunicação tem como objetivo não apenas transmitir informações, mas
também influenciar as crenças, as ações ou as emoções dos que as recebem.5
Todo o mundo, de certa forma, recorre à retórica em algum grau, mesmo que
isso signifique alterar o volume, o grau ou o ritmo da ênfase. Todos devem
escolher o vocabulário e as metáforas que iluminam e compelem, além de
encontrar outras formas, verbais e não verbais, de atrair, manter a atenção e
enfatizar certos pontos em detrimento de outros.
João Calvino também pensava assim. Ao comentar 1Coríntios 1.17, em que
Paulo evita usar “sabedoria e eloquência” (NIV), Calvino indaga “se ele quer
dizer […] que a pregação do evangelho se corrompe caso a mais ínfima partícula
de eloquência e retórica seja usada para adorná-la”. “O que Paulo diz aqui,
portanto”, responde Calvino, “não deve ser entendido como se as artes
[retóricas] devessem ser objeto de desdém, como se não favorecessem a
piedade”.6 Paulo adverte que não deve haver abuso. A retórica pode se tornar um
fim em si mesma, e assim suas formas interessantes e agradáveis obscurecem a
simplicidade da mensagem bíblica com “um apego tolo por um estilo altamente
impactante”.7 Histórias longas, linguagem florida e gestos dramáticos podem
captar a atenção enquanto a mensagem de fato do texto é ignorada.
Calvino diz ainda que não devemos desprezar nem as expressões simples da
verdade, nem a oratória habilidosa, contanto que estejam a serviço do texto. “A
eloquência não destoa de forma alguma da simplicidade do evangelho, quando
não recorre ao desdém para transmiti-lo, quando se submete a ele, e também o
serve, como a criada à sua patroa.”8 A pregação não deve ser uma performance
humana que meramente entretém, tampouco deve ser uma seca recitação de
princípios. A eloquência espiritual deve decorrer do amor quase desesperado do
pregador pela verdade do evangelho e pelas pessoas para quem a aceitação da
verdade é uma questão de vida ou morte.
No fim das contas, a pregação tem dois objetos básicos em vista: a Palavra
e o ouvinte humano. Não basta ceifar o trigo; ele deve ser preparado de forma
que seja comestível, caso contrário não alimentará nem dará prazer. A pregação
sadia brota de dois amores — amor à Palavra de Deus e amor às pessoas —, e de
ambos brota o desejo de mostrar às pessoas a graça gloriosa de Deus. Portanto,
embora somente Deus possa abrir os corações, o comunicador deve proporcionar
bons momentos e matéria para reflexão ao apresentar a verdade de forma
precisa, explicitando-a para o coração e para a vida dos ouvintes.
PREGANDO CRISTO
Talvez não haja passagem mais importante na Bíblia sobre pregação do que
1Coríntios 1.18—2.5.9
Irmãos, quando fui até vós, anunciando-vos o mistério de Deus, não fui com linguagem pomposa nem
de sabedoria. Pois resolvi nada saber entre vós, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado. Estive
convosco em fraqueza, em temor e em grande tremor. Minha linguagem e pregação não consistiram
em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé
não se apoiasse em sabedoria humana, mas no poder de Deus (1Co 2.1-5).

Paulo diz: “… quando fui até vós, anunciando-vos o mistério de Deus […]
resolvi nada saber entre vós, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” (1Co
2.1,2). Na época em que Paulo escreveu isso, a única Escritura disponível para
pregação é a que chamamos hoje de Antigo Testamento. Contudo, mesmo
quando pregava tomando por base esses textos, Paulo “nada sab[ia]” senão Jesus
que não aparecia com esse nome em nenhum daqueles textos. Como isso era
possível? Para Paulo, toda a Escritura, em última análise, apontava para Jesus e
sua salvação; todos os profetas, sacerdotes e reis lançavam luz sobre o Profeta,
Sacerdote e Rei por excelência. Apresentar a Bíblia “em sua plenitude” era
pregar Cristo como tema e substância principais da mensagem da Bíblia.
A retórica clássica possibilitava ao orador a inventio — a escolha de um
tópico e a divisão deste em suas partes constituintes, juntamente com
argumentos esmerados e recursos que davam sustentação à tese do orador. Para
Paulo, porém, existe apenas um tópico: Jesus. Para onde quer que nos voltemos
na Bíblia, Jesus é o assunto principal. Até mesmo a divisão do nosso tópico não
fica totalmente por nossa conta — cabe-nos expor os tópicos e pontos sobre
Jesus que o texto bíblico nos dá. Devemos “nos restringir” a Jesus. No entanto,
posso falar com base em quarenta anos de experiência como pregador que a
história desse indivíduo único não precisa jamais se tornar repetitiva. Ela contém
a história toda do universo, e da humanidade também, e é a única resolução da
trama da vida de cada um de nós.10
Portanto, não houve texto que Paulo pregasse que não fosse sobre Jesus,
não meramente como um exemplo a seguir, mas como um salvador: “… Cristo
Jesus, o qual […] se tornou para nós sabedoria, justiça, santificação e
redenção…” (1Co 1.30).
Para Paulo, Cristo é a chave que permite entender cada texto bíblico
(primeiro aspecto da boa pregação) e é também a chave que, de forma
persuasiva, possibilita a clara exposição da Palavra ao coração e à vida do
ouvinte (segundo aspecto). Diz ele: “… quando fui até vós, anunciando-vos o
mistério de Deus, não fui com linguagem pomposa nem de sabedoria” (1Co 2.1).
À primeira vista, isso parece contrariar o uso de qualquer técnica na pregação,
mas o restante do Novo Testamento (conforme Calvino aponta) torna impossível
afirmar que Paulo jamais tenha usado de lógica, argumentação, retórica ou de
conhecimento quando pregava. No livro de Atos, conforme veremos, Paulo
habilmente usa diferentes argumentos para diferentes públicos e, em 2Coríntios
5.11 (NVI), ele procura “persuadir” os ouvintes; portanto, não é possível que ele
não tenha estratégia alguma para mudar a mente das pessoas.11 Anthony
Thiselton, estudioso do Novo Testamento, recorre a estudos recentes da retórica
clássica para nos ajudar a compreender o que Paulo quer dizer em 1Coríntios por
“linguagem pomposa” e “de sabedoria”. Paulo está rejeitando o assédio verbal
(que usa a força da própria personalidade, a sagacidade ou o desdém mordaz), as
declarações recebidas com aplausos e que encontram eco nos preconceitos, no
orgulho e nos temores da multidão; está rejeitando histórias manipuladoras ou
técnicas que subjugam o público com espetáculos de destreza verbal, sagacidade
ou erudição.12
Contra todos esses abusos retóricos, Paulo apresenta a mensagem de
“Cristo, e este, crucificado” (1Co 2.2), mas vale a pena atentar para o significado
desse contraste. Paulo quer, na verdade, reformular os fundamentos do coração
dos ouvintes. Ele quer mudar aquilo que eles mais amam, esperam e em que
depositam sua fé. No entanto, ele insiste que essa mudança não deve acontecer
por meio da inventividade humana, mas somente através da “demonstração do
poder do Espírito” (1Co 2.4) — afirmação que pode ser traduzida por “na prova
transparente esclarecida com poder pelo Espírito Santo”.13 O que isso significa?
Thiselton prossegue na análise do texto e diz: “… conforme se vê claramente em
1Coríntios 2.16—3.4, o ‘Espírito’ é definido cristologicamente”. Nessa
passagem, Paulo se refere à “discrição do Espírito que aponta para além de si
mesmo em direção à obra de Deus em Cristo”.14 Paulo está se comparando ao
Espírito Santo, cuja obra consiste, tal como um holofote, não em apontar para si
mesmo, mas em nos mostrar a glória e a beleza de Cristo (cf. Jo 16.12-15).
Portanto, esse é o poder do pregador cristão. É assim que se transmite não
apenas uma palestra informativa, mas um sermão que transforma vidas. Não se
trata meramente de falar de Cristo, mas de mostrá-lo, de “demonstrar” sua
grandeza e revelá-lo como alguém que é digno de louvor e de adoração. Se o
fizermos, o Espírito nos ajudará, porque essa é sua grande missão no mundo.
PREGANDO AO CORAÇÃO CULTURAL
Não esgotamos a rica teologia da pregação dessa passagem. Quando Paulo fala
da pregação que transforma vidas, ele não está se limitando ao mundo interior
dos ouvintes. Ele está observando também a cultura em que vivem.
Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo por sua própria sabedoria não o conheceu, foi do agrado de
Deus salvar os que creem por meio do absurdo da pregação. Pois, enquanto os judeus pedem sinais, e
os gregos buscam sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, que é motivo de escândalo para os
judeus e absurdo para os gentios. Mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é
poder de Deus e sabedoria de Deus (1Co 1.21-24).

O teólogo Don Carson chama essa descrição de “idolatrias fundamentais do
período [de Paulo]”.15 Aqui, o apóstolo resume habilmente as diferenças entre as
narrativas culturais gregas e as judaicas. Toda sociedade tem uma visão de
mundo, “história do mundo” ou “narrativa cultural” que dá forma às identidades
e aos pressupostos daqueles que vivem nessa sociedade. De modo geral, os
gregos valorizavam a filosofia, as artes, as realizações intelectuais, ao passo que
os judeus valorizavam o poder e as habilidades práticas em detrimento do
pensamento discursivo. Paulo desafia ambas as narrativas culturais com a cruz
de Jesus. Para os gregos, uma salvação que não viesse através de uma filosofia e
de um pensamento elevados, mas por meio de um Salvador crucificado, era o
oposto da sabedoria — era tolice. Para os judeus, uma salvação que não viesse
através do poder, de um libertador que derrubasse os romanos, mas por meio de
um Salvador crucificado, era o oposto da força — era fraqueza. Paulo usa o
evangelho para confrontar ambas as culturas com a natureza idólatra de suas
lealdades e valores.
Contudo, depois de desafiar essas duas culturas, ele também discerne e
confirma a maior aspiração de cada uma delas. Vocês querem sabedoria, diz
Paulo a seus ouvintes gregos, então olhem para a cruz. Ela não permitiu a Deus
que fosse a um só tempo justo e justificador daqueles que creem? Essa não é a
sabedoria suprema? Vocês querem poder, diz Paulo a seus ouvintes judeus, então
olhem para a cruz. Ela não permitiu que Deus derrotasse nossos inimigos mais
poderosos — o pecado, a culpa e a própria morte — sem nos destruir? Essa não
é a força suprema?
Portanto, Paulo explica cada narrativa cultural e, em seguida, confronta
cada uma de suas idolatrias — a arrogância intelectual dos gregos e a justiça das
obras dos judeus —, mostrando-lhes que o caminho no qual eles vêm buscando
seus mais importantes e característicos bens é pecaminoso e traz consigo sua
própria derrota. No entanto, esse não é um mero exercício intelectual ou uma
estratégia retórica inteligente — é um ato de amor e de cuidado. Somos seres
socioculturais e nossas motivações mais centrais são profundamente marcadas
pelas comunidades humanas nas quais estamos inseridos. No decurso da
exposição do texto bíblico, cabe ao pregador comparar e contrastar a mensagem
da Escritura com as crenças fundamentais da cultura, que são, em geral,
invisíveis às pessoas imersas nela; e assim, ele poderá ajudá-las a
compreenderem a si mesmas mais plenamente. Se feita corretamente, a
exposição pode levar as pessoas a dizer: “Ah, é por isso então que tendo a pensar
e a sentir dessa forma”. Esse pode ser um dos passos mais libertadores e
catárticos da jornada de fé de uma pessoa até Cristo.
Para alcançar as pessoas, os pregadores do evangelho devem desafiar a
narrativa da cultura em pontos de confrontação e, por fim, recontar essa
narrativa, por assim dizer, revelando como suas aspirações mais profundas pelo
bem só podem ser realizadas em Cristo. Assim como Paulo, cabe-nos convidar
as pessoas e atraí-las por meio das aspirações de sua cultura, chamando-as para
que venham a Cristo, a verdadeira sabedoria e a verdadeira justiça, o verdadeiro
poder e a verdadeira beleza.
AS TAREFAS DA PREGAÇÃO
Em que consiste, portanto, a boa pregação? Vamos juntar todas essas ideias em
uma única descrição.
É “anunciar […] o mistério de Deus” (1Co 2.1). É pregar biblicamente e
estabelecer uma conexão por meio do texto cheio de autoridade. Em outras
palavras, devemos pregar a Palavra e não nossa opinião. Quando pregamos as
Escrituras, falamos “as palavras de Deus” (1Pe 4.11). É preciso deixar claro o
sentido do texto no seu contexto — tanto em seu tempo histórico como no
âmbito de toda a Escritura. Servir à Palavra é fazer sua exposição, isto é, extrair
a mensagem do texto com fidelidade e discernimento, tendo em vista todo o
restante do ensino bíblico, para que não “se explique um ponto da Escritura de
tal modo que seja irreconciliável com outro”.16
É também anunciar “tanto [a] judeus como [a] gregos” (1Co 1.24),
pregando de forma persuasiva, envolvendo a cultura e tocando os corações. Isso
significa não apenas informar a mente, mas também capturar o interesse e a
imaginação do ouvinte persuadindo-o ao arrependimento e à ação. O bom
sermão não é como um porrete com que se bate na vontade, e sim como uma
espada que penetra o coração (At 2.37). Em seu melhor, ele penetra nossos
alicerces, analisando-nos e revelando-nos a nós mesmos (Hb 4.12). Ele deve ser
alicerçado na exposição da Bíblia, porque as pessoas não compreendem um texto
até que vejam como ele se relaciona à sua vida. Ajudar as pessoas a enxergar
isso é a tarefa da aplicação, que é algo muito mais complicado do que
geralmente admitimos. Conforme dissemos, pregar ao coração e à cultura
caminham juntos, porque as narrativas culturais afetam profundamente o
sentimento de identidade, a consciência e a compreensão da realidade de cada
pessoa. A interação cultural na pregação jamais deve ter como objetivo ser
“relevante”; antes, deve ter como propósito pôr a nu os fundamentos da vida do
ouvinte.
Alec Motyer, pregador expositivo da Bíblia, resume isso afirmando que
temos duas responsabilidades ao pregar, e não apenas uma: “Em primeiro lugar
com a verdade; em segundo lugar, com um grupo específico de pessoas. De que
maneira poderão ouvir melhor a verdade? Que forma devemos dar a ela e como
expressá-la com palavras, para que seja compreendida pela audiência de maneira
palatável, seja ouvida com grande receptividade e […] evite ofensas
desnecessárias?”.17
São essas as duas tarefas da pregação, e há uma chave para ambas — pregar
Cristo. Essa não é uma tarefa distinta a ser acrescentada às outras duas; antes, é a
essência de como cada uma deve ser executada. Lembre-se de que a precisão
bíblica e a cristocentricidade são a mesma coisa para Paulo. Não se pode pregar
adequadamente um texto — situando-o em seu lugar correto na Bíblia — a
menos que se demonstre de que maneira seus temas se cumprem na pessoa de
Cristo. De igual modo, não se pode alcançar e reestruturar as afeições do coração
a menos que se aponte, por meio dos princípios bíblicos, para a beleza de Jesus,
mostrando claramente de que modo a verdade específica do texto em questão
pode ser praticada unicamente pela fé na obra de Cristo.
Certa vez Kathy chamou minha atenção para o fato de que as partes iniciais
do meu discurso dariam uma boa aula de escola dominical, contudo, no
momento em que eu “chegava a Cristo”, a aula se transformava em sermão. Você
talvez queira que seus ouvintes tomem nota de boa parte do que é dito em seu
sermão, mas, quando chega a Cristo, você quer que eles experimentem as notas
que vinham tomando até então.
Charles Spurgeon, o célebre pregador britânico do século 19, era ousado em
sua insistência de que todo sermão deveria pôr Cristo em destaque, para que
todos os ouvintes o contemplassem. Ele se queixava de que frequentemente
ouvia sermões “muito eruditos […] magníficos e sofisticados”; no entanto, tudo
girava em torno da verdade moral e da prática ética, bem como em torno de
conceitos inspiradores, e não havia “nenhuma palavra sobre Cristo”. Eis o que
ele disse sobre esse tipo de pregação, evocando as palavras de Maria Madalena:
“Levaram embora o meu Senhor e não sei onde o puseram. Não ouvi nada de
Cristo!”.18 Ele está certo. A menos que preguemos Jesus, e não um conjunto de
“morais da história”, princípios atemporais ou bons conselhos, as pessoas jamais
compreenderão ou amarão a Palavra de Deus, obedecendo-lhe de verdade. O que
Spurgeon pede é mais difícil do que parece e mais raro do que você possa
imaginar.
Portanto, há duas coisas que devemos fazer. À medida que pregamos,
devemos servir e amar a verdade da Palavra de Deus, e também servir e amar as
pessoas diante de nós. Servimos a Palavra ao pregar o texto claramente e
pregando o evangelho o tempo todo. Alcançamos as pessoas pregando para a
cultura e para o coração.
Em seguida, vem a parte que Deus deve fazer. Ele ilumina a Palavra para
nossos ouvintes pela “demonstração do poder do Espírito” (1Co 2.4). De acordo
com Paulo, podemos pregar com genuíno poder espiritual somente se
oferecermos Cristo como uma realidade viva a ser encontrada e acolhida por
aqueles que ouvem. Isso significa pregar com reverência e assombro diante da
grandeza do que temos em Cristo. Significa transmitir uma transparência não
forçada, dando provas de um coração que está sendo recomposto precisamente
pela verdade que você está apresentando. É algo que traz consigo uma espécie de
equilíbrio e de autoridade, em vez de um desejo inseguro de agradar ou de ter
um bom desempenho. Portanto, seu amor, alegria, paz e sabedoria devem ser
evidentes quando você fala. Você deve ser semelhante a um vidro transparente
através do qual as pessoas possam ver uma alma transformada pelo evangelho,
de maneira tal que queiram isso também e assim tenham igualmente a sensação
da presença de Deus.
Como todas essas coisas acontecem? Quando pregamos Cristo. Pregando
fielmente o texto e sempre o evangelho, estabelecendo uma conexão com a
cultura e alcançando o coração, cooperando com a missão do Espírito no mundo
— assim pregamos Cristo em toda a Escritura.
NOTAS
1D. M. Lloyd-Jones, Preaching and preachers, edição de 40 anos (Grand Rapids: Zondervan, 2011),
p. 67-8 [edição em português: Pregação e pregadores, tradução de João Bentes Marques, 2. ed, 3. reimp.
(São José dos Campos: Fiel, 2011)]. O testemunho veio de David Jones de Llangan (1736-1810). Como
tinha ouvido Rowland e Whitefield pessoalmente pregarem, pediram que fizesse uma comparação entre os
dois. Sua resposta foi: “Com relação […] ao ato da pregação, no tocante ao enlevo às alturas e ao transporte
da congregação aos céus, detectei muito pouca diferença entre eles; um era tão bom quanto o outro. A
grande diferença entre os dois”, prosseguiu, “era a seguinte: de Rowland podia-se sempre ter a certeza de
que se ouviria um bom sermão, mas nem sempre o mesmo acontecia em relação a Whitefield” (p.67-8).
2Citado em Scott Manetsch, Calvin’s company of pastors (New York: Oxford University Press, 2013),
p. 156.
3O manual está em Augustine, On Christian doctrine, livro IV [edição em português: Agostinho, A
doutrina cristã (São Paulo: Paulus, 2002), vol. 17] e encontra-se na íntegra, com proveitosas anotações e
análise, em Patricia Bizzel; Bruce Herzberg, orgs., The rhetorical tradition: readings from classical times to
the present (New York: St. Martin’s Press, 1990), p. 386-422. Os livros I até III apresentam, basicamente,
uma “hermenêutica”, como entender a Bíblia. O livro IV explica então como comunicar o que foi aprendido
na Bíblia.
4George A. Kennedy, Classical rhetoric and its Christian and secular tradition from ancient to
modern times, 2. ed. (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1999), p. 1.
5Ibidem, p. 2.
6John Calvin, 1 Corinthians, in: Calvin’s Commentaries, edição eletrônica (Albany: Ages Software,
1998).
7Ibidem.
8Ibidem.
9Veja Anthony C. Thiselton, The First Epistle to the Corinthians: a commentary on the Greek text,
The New International Greek Testament Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 2000); Roy E. Ciampa;
Brian S. Rosner, The First Letter to the Corinthians, Pillar New Testament Commentary (Grand Rapids:
Eerdmans, 2010); Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians, The New International Commentary
on the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1987). Veja tb. D. A. Carson, “The cross and preaching”,
in: The cross and Christian ministry: leadership lessons from 1 Corinthians (Grand Rapids: Baker, 1993), p.
11-41.
10“Sim. Em nosso mundo também um Estábulo certa vez conteve algo em seu interior que era maior
do que o mundo inteiro”. C. S. Lewis, The last battle (London: Geoffrey Bles, 1956), p.143 [edição em
português: A última batalha (São Paulo: Martins Fontes, 2003).
11Veja Paul Barnett, The Second Epistle to the Corinthians (Grand Rapids: Eerdmans, 1997), p. 277-
83. Veja esp. a nota 8 da p. 280. Para Barnett, a declaração de Paulo de que “procuramos persuadir os
homens” (2Co 5.11, NVI) é uma descrição do seu ministério evangelístico.
12Veja Thiselton, p. 216-23.
13Ibidem, p. 218.
14Ibidem, p. 222.
15Carson, Cross and Christian ministry, p. 20.
16Artigo XX, “Da autoridade da igreja”, in: Trinta e Nove Artigos da Religião da Igreja Anglicana.
17Alec Motyer, Preaching? simple teaching on simply preaching (Ross-shire: Christian Focus, 2013),
p. 65.
18Charles Spurgeon, “Christ precious to believers” (sermon n. 242, March 13, 1859), in: The New
Park Street Pulpit, reimpr. (Pasadena: Pilgrim, 1975), vol. 5, p. 140.
INTRODUÇÃO

OS TRÊS NÍVEIS DO MINISTÉRIO DA PALAVRA

teólogo australiano Peter Adam defende que aquilo a que chamamos

O de pregação, o discurso público formal que dirigimos à igreja reunida
no domingo, é apenas uma forma do que a Bíblia descreve como
“ministério da Palavra” (At 6.2,4).1
No dia de Pentecostes, Pedro citou as palavras do profeta Joel quando disse
que Deus derramaria seu Espírito sobre todo o seu povo e, em consequência
disso, “vossos filhos e as vossas filhas profetizarão” (At 2.17). Gerhard
Friedrich, no Theological dictionary of the New Testament,2 diz que há pelo
menos 33 termos gregos no Novo Testamento normalmente traduzidos por
“pregação/pregar” ou “anúncio/anunciar”. Adam observa que esses termos
descrevem atividades que nem sempre poderiam ser caracterizadas como
discurso público.3 Em Atos 8.4, por exemplo, lemos que todos os cristãos,
exceto os apóstolos, foram de um lugar a outro “anunciando a palavra”. Isso não
pode querer dizer que todo crente estava se levantando e pregando sermões
publicamente. Priscila e Áquila, por exemplo, explicaram a Palavra de Cristo a
Apolo na casa deles (At 18.26).
Podemos distinguir pelo menos três níveis de “ministério da Palavra” na
Bíblia. Paulo conclama todos os crentes para que a “palavra de Cristo habite
ricamente em vós” e para que “em toda a sabedoria; ensinai e aconselhai uns aos
outros” (Cl 3.16). Todo cristão deve ser capaz de ministrar tanto o ensino
(didaskalia, a palavra comumente usada para instrução) quanto a admoestação
(noutheo, uma palavra comumente usada para conselho veemente, que muda a
vida), por meio dos quais são transmitidos a outros os ensinamentos da Bíblia.
Isso deve ser feito com cautela, ainda que de modo informal, em conversas
geralmente individuais. Essa é a forma mais fundamental de ministério da
Palavra. Vamos chamá-la de nível 1.
Na extremidade mais formal do espectro estão os sermões: a pregação
pública e a exposição da Bíblia perante um grupo de pessoas reunidas, que
chamaremos de nível 3. O livro de Atos nos dá muitos exemplos extraídos,
principalmente, do ministério de Pedro e de Paulo, embora inclua também um
discurso de Estevão que, provavelmente, sintetiza seu ensino inovador. Em Atos
são apresentados tantos desses discursos públicos que poderíamos quase dizer,
do ponto de vista de Lucas (o autor), que o desenvolvimento da igreja cristã
primitiva e o desenvolvimento de sua pregação foram uma coisa só.
Há, entretanto, um “nível 2” de ministério da Palavra, que pode ser situado
entre as conversas informais de todo cristão e os sermões formais. Em uma
passagem negligenciada, Pedro descreve o dom espiritual da “fala”:

Servi uns aos outros conforme o dom que cada um recebeu, como bons administradores da multiforme
graça de Deus. Se alguém fala, fale como quem comunica as palavras de Deus; se alguém serve, sirva
segundo a força que Deus concede, para que em tudo Deus seja glorificado por meio de Jesus Cristo…
(1Pe 4.10,11).

Quando Pedro fala de dons espirituais, ele usa dois termos muito
genéricos.4 O primeiro deles é o termo para “falar”: lalein. No restante do Novo
Testamento, essa palavra denota simplesmente uma conversa cotidiana entre
quaisquer pessoas (Mt 12.36; Ef 4.25; Tg 1.19). Ela pode se referir também ao
ministério da pregação, como podemos constatar com Jesus (Mt 12.46 e 13.10)
ou Paulo (2Co 12.19). Mas do que Pedro está falando nessa passagem?
Quando comparamos a passagem com a lista de dons que Paulo apresenta
em Romanos 12, Efésios 4 e 1Coríntios 12 e 14, observamos que há uma
categoria inteira de dons de ministério da Palavra que operam de maneiras que
vão além da pregação pública à igreja reunida no domingo. Ela inclui exortação
ou aconselhamento pessoal, evangelismo e o ensino de indivíduos e de grupos. O
estudioso da Bíblia Peter Davids conclui que, quando Pedro escreve a respeito
do dom espiritual da “fala”, ele “não está se referindo às conversas informais
entre cristãos, tampouco […] está se referindo apenas às ações de pastores ou de
outros oficiais da igreja”, e sim a cristãos com “um desses dons verbais” de
aconselhamento, instrução, ensino ou evangelização. Nessa categoria de
ministério, o cristão não prega per se. Ele prepara e apresenta lições e estudos;
conduz discussões em que a Palavra de Cristo é apresentada.5
Embora Pedro não esteja apenas se dirigindo a quem fala em público, ele
adverte àqueles que apresentam a Palavra a outros, seja de qual forma for, que
levem a sério sua tarefa. Ele acrescenta que, quando os cristãos ensinam a Bíblia,
seu discurso deve ser “como [o de] quem comunica as palavras de Deus” (1Pe
4.11). Davids observa que essa palavrinha “‘como’ permite um ligeiro
distanciamento entre sua fala e as palavras de Deus”. Nenhum cristão deve
jamais reivindicar que seu ensino seja tratado com a mesma autoridade que a
revelação bíblica; no entanto, Pedro declara de forma contundente e
esclarecedora que os cristãos que estão apresentando o ensino bíblico não devem
simplesmente expressar sua opinião pessoal; antes, devem ministrar aos outros
“as palavras de Deus”. Assim como na pregação pública, os cristãos devem
transmitir a verdade conforme a compreendem na revelação das Escrituras.6 E se
explicarem o significado da Bíblia fielmente, as pessoas conseguirão ouvir Deus
falando a elas na exposição feita. Elas ouvirão não apenas uma peça da
engenhosidade humana, por assim dizer, mas as próprias palavras de Deus. Todo
cristão precisa compreender a mensagem da Bíblia bem o suficiente para
explicá-la e aplicá-la a outros cristãos e a seu próximo em situações informais e
pessoais (nível 1). Contudo, no nível 2, há muitas outras maneiras de pôr em
prática o ministério da Palavra que exigem mais preparo e técnicas de
apresentação, mas que não consistem na pregação de sermões (nível 3).
Atualmente, o nível 2 poderá incluir a escrita, postagens em blogs, aulas e
pequenos grupos, mentoria, moderação de fóruns de discussões abertas sobre
questões de fé etc.
Este livro tem como objetivo ser um recurso para todos aqueles que
comunicam sua fé cristã de algum modo, especialmente nos níveis 2 e 3.
NÃO HÁ SUBSTITUTO PARA A PREGAÇÃO
É perigoso, portanto, incidir na crença antibíblica de que o ministério da Palavra
consiste simplesmente na pregação de sermões. Como diz Adam, isso “fará com
que a pregação tome sobre si um peso que não pode carregar; isto é, o peso de
fazer tudo o que a Bíblia espera de cada forma de ministério da Palavra”.7
Nenhuma igreja deve esperar que toda transformação de vida decorrente da
Palavra de Deus (Jo 17.17; cf. Cl 3.16,17 e Ef 5.18-20) venha estritamente por
meio da pregação. Não devo esperar nem mesmo que os melhores sermões que
ouço me moldem à semelhança de Cristo. Preciso também de outros cristãos à
minha volta que saibam “maneja[r] bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15) para
me encorajar, me instruir e me aconselhar. Preciso também de livros de autores
cristãos cujo conteúdo me edifique. Também não é certo esperar que aqueles que
estão fora da igreja, e que precisam ouvir e compreender o evangelho, sejam
alcançados somente através da pregação. Eu mesmo cheguei à fé não porque
ouvi alguma pregação ou porque alguém disse alguma coisa, mas através dos
livros que li. (Alguma surpresa nisso?) É preciso cuidado para não imaginar que
o sermão de domingo possa suportar toda a carga do ministério da Palavra da
igreja.
Contudo, apesar da correta advertência de Adam de que não se deve
enfatizar demais a pregação no ministério da igreja, talvez esse não seja o maior
perigo com que se defronta a igreja atualmente. Vivemos numa época em que
muitos resistem a qualquer indício de autoridade nos pronunciamentos feitos.
Portanto, a alergia da cultura à verdade e a grande habilidade exigida resultam
em que a igreja perde seu entendimento da natureza crucial da pregação para a
ministração do evangelho.
Edmund Clowney, em seu comentário a 1Pedro 4.10, diz:

É verdade que todo cristão deve manejar com reverência a palavra de Deus, buscando a ajuda do
Espírito para torná-la conhecida a outros. Contudo, há também aqueles com dons especiais do Espírito
para a pregação […] da palavra de Deus […] e cujo encargo especial consiste em cuidar do rebanho de
Deus e alimentá-lo ([1Pe] 5.2). Existe o perigo de que, ao reagir ao clericalismo, a igreja se esqueça da
importância do ministério da palavra de Deus por aqueles chamados a ser pastores do rebanho sob o
Supremo Pastor.8

Clowney nos adverte quanto ao fato de não vermos nenhuma diferença
qualitativa entre proclamar a Palavra de Deus perante a assembleia reunida e
liderar um grupo pequeno de estudo bíblico. A diferença entre os dois vai além
das questões rituais e de logística. Não se trata apenas do número de pessoas
presentes, do espaço a ser preenchido ou da projeção e do ritmo da voz. Quem já
pregou em uma igreja sabe que há uma diferença qualitativa também entre o
sermão e um estudo, ou mesmo entre um sermão e uma palestra. Um rápido
levantamento dos discursos de Pedro, de Estêvão e de Paulo no livro de Atos
mostra o poder extraordinário da pregação quando afirmada “como […] palavras
de Deus” (1Pe 4.11) proferidas por meio da autoridade ímpar que o Espírito de
Deus pode proporcionar para uma assembleia pública de adoração.
Embora necessitemos sempre de uma série de formas variadas de ministério
da Palavra, o ministério público específico da pregação é insubstituível. Adam
consegue equilibrar bem as coisas quando diz que o ministério do evangelho da
igreja deve ser “centrado no púlpito, mas não restrito a ele”.9
Portanto, há três níveis de ministério da Palavra; todos eles são cruciais e
dão sustentação um ao outro. A pregação pública de Cristo na assembleia cristã
(nível 3) é uma forma especial pela qual Deus fala a seu povo e o edifica,
estabelecendo-se assim as formas mais orgânicas do ministério da Palavra nos
níveis 1 e 2. De igual modo, a comunicação hábil e fiel nos níveis 1 e 2 prepara
as pessoas para serem receptivas à pregação. Este livro é direcionado a todos os
que têm dificuldade de, em qualquer nível, comunicar às pessoas a verdade
bíblica que transforma a vida, em uma era cada vez mais cética. Servirá também
como introdução e fundamento, em especial, para as atividades de pregação e de
ensino.10
NOTAS
1Peter Adam, Speaking God’s words: a practical theology of preaching (Vancouver: Regent College
Publishing, 1996), p. 59.
2Grand Rapids: Eerdmans, 1976 [edição em português: Gerhard Kittel, Gerhard Friedrich, orgs.,
Dicionário teológico do Novo Testamento (São Paulo: Cultura Cristã, 2013), 2 vol].
3Ibidem, p. 75.
4Sigo aqui a maior parte dos comentaristas para os quais “falar” e “servir” não são dois dons
espirituais específicos, e sim duas categorias amplas que contêm os dons mais específicos listados em
Romanos 12 e 1Coríntios 12 e 14: dons de palavra (profecia, ensino, exortação, sabedoria, conhecimento) e
dons de ação (dar, misericórdia, cura, administração, governo). Veja, p. ex., J. Ramsey Michaels, 1 Peter
(Nashville: Word, 1988), p. 250-1.
5P. H. Davids, The First Epistle of Peter (Grand Rapids: Eerdmans, 1990), p. 161.
6Ibidem.
7Ibidem, p. 59
8E. P. Clowney, The message of 1 Peter: the way of the cross (Downers Grove: InterVarsity, 1988), p.
184-5.
9Ibidem, p. 84.
10Esta obra não funcionará como um “manual completo do pregador” . Ela servirá de fundamento para
que se pense na comunicação cristã da Bíblia em uma era de ceticismo apresentando as tarefas básicas:
pregar a Palavra, pregar o evangelho, pregar para a cultura, pregar ao coração, tudo isso pregando Cristo.
Neste livro, haverá um pouco mais de espaço dedicado à pregação para a cultura do que a algumas das
outras tarefas. Não porque isso seja mais importante, mas porque outros livros atuais sobre pregação se
detêm pouco sobre o assunto. Portanto, este volume é mais uma diretriz para a pregação na atualidade do
que um guia de como fazê-la. Ele deve ser complementado por outros recursos de preparação para
pregadores. Muitos desses estão sendo elaborados para uso e preparo dos pregadores em City to City. Veja
redeemercitytocity.com.
PRIMEIRA PARTE

SERVINDO À PALAVRA
1

PREGANDO A PALAVRA

Se alguém fala, fale como quem comunica as palavras de Deus… [1Pe
4.11].

A exposição das tuas palavras concede luz… [Sl 119.130].
A PALAVRA DE DEUS E A HABILIDADE HUMANA
No primeiro manual de pregação protestante, The art of prophesying [A arte de
profetizar] (1592), William Perkins escreveu: “Somente a Palavra de Deus, em
sua perfeição e coerência interna” deve ser pregada.1 Isso pode parecer uma
obviedade para muitos hoje. É claro, dizem, que um pregador ou professor
cristão deve comunicar a Bíblia. No contexto cultural de Perkins, porém, isso
não era óbvio. Para muitos pregadores de seu tempo, “a graça [de Deus] não era
irresistível. Ela tinha de ser amparada pela eloquência […] Os fiéis precisavam
do poder miraculoso da pregação para dar sustentação à Escritura”.2
Pregar na Inglaterra daquela época havia se tornado um exercício de
pirotecnia verbal, acrescido de linguagem ornamentada, com alusões aos
clássicos, citações, imagens poéticas e retórica imponente. É claro que os
pregadores ainda iniciavam as mensagens com passagens bíblicas — mas muito
pouco tempo era dedicado à explicação dos textos. Eles pareciam pensar que a
Bíblia precisava de muita ajuda. A confiança básica no poder e na autoridade da
Escritura tinha sido perdida.
William Perkins e seus contemporâneos reagiram contra a “oratória
refinada” de seu tempo. Eles acreditavam que o objetivo primordial da pregação
havia se perdido: deixar que a Bíblia falasse por si própria, de modo que pudesse
derramar seu próprio poder. A parte inicial do breve volume de Perkins dedica
um tempo significativo demonstrando que a Bíblia é a sabedoria perfeita, pura e
eterna de Deus e que ela tem poder para convencer a consciência e penetrar o
coração.3 Perkins sabia que as crenças do comunicador em relação ao caráter da
Bíblia tinham um efeito substancial na forma como ele efetivamente a manejava.
Será que nós, como comunicadores da Bíblia, sabemos verdadeiramente que ela
traz consigo a autoridade e o poder do próprio Deus? Se sabemos disso, nos
focaremos mais em expor sua visão do que em usá-la meramente como apoio
para nossa visão. “A pregação da Palavra é o testemunho de Deus e a profissão
do conhecimento de Cristo, não da habilidade humana”, diz Perkins. Ele
acrescenta rapidamente, porém: “… isso não significa que os púlpitos devam ser
marcados pela falta de conhecimento e de instrução […] O ministro pode e, na
verdade, deve, em particular, fazer uso livre das artes em geral e da filosofia,
bem como recorrer a uma ampla variedade de leituras ao preparar seu sermão”.
Contudo, essas coisas “não devem ser exibidas como objeto de ostentação”
perante a igreja.4
Perkins quer dizer que o objetivo da pregação não é apresentar os resultados
de sua investigação empírica, reflexão filosófica ou de sua pesquisa acadêmica.
Tampouco consiste em ter um insight ou imbuir-se de algum encargo — os quais
você acredita terem sido postos por Deus em seu coração — e, em seguida,
buscar um texto bíblico que lhe dê ocasião de dizer às pessoas o que você já
queria dizer a elas. O propósito do sermão é pregar a Escritura com a visão, as
diretrizes e os ensinamentos dela mesma. Nessa jornada, conforme diz Perkins,
podemos e devemos usar todas as “artes” para ajudar nossos ouvintes a
compreender o sentido comunicado pelo autor bíblico. Tudo isso é feito em
subserviência à primeira grande tarefa da pregação: pregar a Palavra de Deus e
deixar que os ouvintes sintam a autoridade que vem dela.
PREGAÇÃO EXPOSITIVA E TÓPICA
Qual é a melhor maneira de pregar?
Hughes Oliphant Old escreveu uma série magistral em sete volumes sobre a
história da pregação.5 Old analisa a pregação cristã em todos os séculos e em
todas as ramificações da igreja — ortodoxa oriental, católica, protestante
histórica, protestante evangélica e pentecostal — e, no final da pesquisa, nas
igrejas de praticamente todos os continentes. O escopo e a variedade de sua
pesquisa são de tirar o fôlego. Em sua introdução à série, ele oferece cinco tipos
básicos de sermões que distingue ao longo dos séculos, aos quais chama de
expositivos, evangelísticos, catequéticos, festivos e proféticos.
Ele define a pregação expositiva como “explanação sistemática da Escritura
feita semanalmente […] durante as reuniões regulares da igreja”.6 Os outros
quatro tipos de pregação talvez pareçam, à primeira vista, muito diferentes uns
dos outros; contudo, em um aspecto, eles são o mesmo tipo. Diferentemente da
exposição, essas outras quatro formas de pregação não são necessariamente
organizadas em torno de uma única passagem da Escritura. Isso porque o
principal objetivo de cada uma não é revelar ideias no âmbito de um único texto
bíblico, e sim comunicar uma ideia bíblica a partir de vários textos. Old chama
essa estratégiamais ampla de pregação “temática” ou “tópica”. O sermão tópico
pode ter vários propósitos. Pode querer comunicar a verdade aos não crentes
(pregação evangelística) ou instruir os crentes em um aspecto específico da
confissão e teologia de sua igreja (pregação catequética). A pregação festiva
ajuda o ouvinte a celebrar as festividades do calendário da igreja, como Natal,
Páscoa ou Pentecostes, ao passo que a pregação profética se refere a um
momento histórico ou cultural específico.
Há, portanto, no fim das contas, duas formas básicas de pregação:
expositiva e tópica. Ao longo dos séculos, ambas foram amplamente usadas e,
conforme Old mostra, ambas devem ser usadas. No livro de Atos, por exemplo,
Paulo fez uma exposição bíblica na sinagoga, mas empregou uma oratória
tópica, em que não usou em momento algum a Escritura, na praça pública do
Areópago. Suas teses foram todas verdades extraídas da Bíblia, mas o método de
apresentação foi mais parecido com a oratória clássica, em que as teses são
seguidas de argumentos a seu favor. No julgamento de Paulo, não era adequado
oferecer uma cuidadosa exposição bíblica para um público que não apenas não
cria na Bíblia, mas também era profundamente ignorante de seus pressupostos
mais básicos. As ocasiões evangelísticas são, portanto, situações em que
apresentar mensagens cristãs mais tópicas pode ser apropriado.
Há outras ocasiões em que a mensagem básica que você quer compartilhar
é bíblica, mas talvez não seja possível dizer o suficiente do que a Bíblia tem a
dizer sobre o assunto em questão com base em uma passagem apenas. Imagine
que você queira ensinar a universitários o que a Bíblia diz sobre a Trindade —
que Deus é um e três. Não há praticamente nenhum texto bíblico que, sozinho,
lhe permitiria expor essa doutrina profundamente bíblica. Em vez disso, você
terá de mencionar e citar diversos textos em apoio ao seu ensino. Na pregação
expositiva, diferentemente disso, seu trabalho consiste em ir aonde aquele texto
específico o levar. Os pontos da mensagem emergirão à medida que o texto for
explicado, que seu significado for extraído.
Também vale a pena notar que os dois tipos de pregação não são
mutuamente excludentes, e as formas absolutamente puras de um e de outro são
raras. Na verdade, trata-se de categorias que se sobrepõem ou de dois polos de
um espectro. Até mesmo a mais cuidadosa exposição versículo por versículo
geralmente se refere a outras partes da Bíblia que tratam do mesmo tópico. Se o
Espírito Santo, por exemplo, aparece em seu texto, talvez você tenha de explicar
que o Espírito Santo é uma pessoa divina tal como o Pai e o Filho. O Espírito
Santo é um ser pessoal, não uma coisa. É provável que seu texto não diga nada
objetivamente sobre a personalidade do Espírito Santo, mas, a menos que você
ofereça uma breve visão geral tópica da doutrina bíblica do Espírito, a
mensagem do seu texto será malcompreendida. Portanto, a pregação expositiva é
parcialmente tópica. E, novamente, todo sermão tópico fiel à Escritura terá de
consistir em várias “miniexposições” de textos diversos. Isto é, as passagens da
Escritura usadas para preencher o tópico devem ser explicadas dentro de seu
próprio contexto.
A pregação expositiva fundamenta a mensagem no texto, de modo que
todos os pontos do sermão sejam extraídos do texto e assim a pregação se
detenha nas principais ideias nele contidas. Ela alinha a interpretação do texto
com as verdades doutrinárias do restante da Bíblia (mostrando-se sensível em
relação à teologia sistemática). E ela sempre situa a passagem dentro da narrativa
bíblica, mostrando de que modo Cristo é o cumprimento final do tema do texto
(mostrando-se sensível em relação à teologia bíblica).
ARGUMENTOS A FAVOR DA PREGAÇÃO EXPOSITIVA
FREQUENTE
Assim como ao longo da história da igreja ambos os tipos de pregação foram
necessários, assim também professores e pregadores cristãos de hoje precisam
ver os dois como formas legítimas que eles podem usar habilmente. Contudo, eu
diria que a pregação expositiva deve constituir a dieta principal da pregação para
a comunidade cristã. Por quê? Penso em pelo menos seis razões para isso,
embora me detenha mais demoradamente na primeira.
A pregação expositiva é o melhor método para expor e comunicar sua
convicção de que a Bíblia toda é verdadeira. Essa abordagem testifica que você
crê que todas as partes da Bíblia são Palavra de Deus, e não apenas temas
específicos, não apenas aquelas partes que você se sente à vontade em
subscrever. Uma confiança plena e uma boa compreensão da autoridade e da
inspiração da Bíblia são absolutamente cruciais para um ministério duradouro e
transformador pelo ensino e pregação da Bíblia. Sua confiança na Escritura será
comunicada da melhor forma a seu público quando que você tiver consolidado,
ao longo do tempo, uma abordagem expositiva constante que se caracterize pela
preocupação de extrair o significado de cada texto, de fundamentar suas
asserções no texto e de se deslocar através de grandes porções da Bíblia
sistematicamente.
Não basta você ter um respeito geral pela Bíblia que talvez tenha sido
herdado de sua criação. Como pregador ou professor, você vai deparar com
muitas dificuldades na Bíblia. Inevitavelmente, os autores bíblicos dizem coisas
que não apenas contradizem o espírito da época, mas também as convicções e
intuições que você mesmo nutre. A menos que seu entendimento da Bíblia e sua
confiança em sua inspiração e autoridade sejam profundos e abrangentes, você
não será capaz de realizar o trabalho árduo necessário para compreendê-la e
apresentá-la de forma convincente. Sua falta de convicção transparecerá também
em seu ensino público, reduzindo seu impacto. Em vez de proclamar, advertir e
convidar, você estará compartilhando, ponderando e conjecturando.
É claro que existe também o perigo de que um pregador do evangelho da
graça se torne avassalador e desnecessariamente dogmático em pontos nos quais
crentes fiéis não estão de acordo. Trataremos dessa questão posteriormente.
Aqui, porém, quero enfatizar o perigo de se cometer o erro oposto. Não é mais
eficaz ser defensivo e reticente do que ser confrontador e áspero em demasia. O
equilíbrio é essencial. Conforme diz Timothy Ward: “[Se] o pregador exerce
poder exagerado, ele pode ser combatido; se for fraco demais, pode ser
ignorado”.7
Uma maneira de desenvolver confiança adequada na Escritura consiste em
ver o que a Bíblia diz sobre si mesma. Comece com um estudo e uma análise
minuciosos do salmo 119, e extraia dele tudo o que diz a respeito do caráter da
Escritura, de sua aplicação e de seu papel em nossa vida. Em seguida, há vários
volumes e ensaios sobre a autoridade da Escritura para você ler cuidadosamente
e conhecer bem, a fim de que sua comunicação produza frutos.8 É importante
saber, não apenas de modo geral, que a Bíblia é verdadeira, mas também que,
nela, as palavras de Deus são idênticas às suas ações. Quando ele diz “Haja luz”
(Gn 1.3), há luz. Quando Deus muda o nome de alguém, isso automaticamente
recria a pessoa (Gn 17.5). A Bíblia não diz que Deus fala e, em seguida, age; que
ele nomeia e depois dá forma, mas, sim, que o falar e o agir de Deus são a
mesma coisa. Sua palavra é sua ação, seu poder divino.9
Portanto, como podemos ouvir a Palavra ativa de Deus hoje se não somos
profetas ou apóstolos que nos sentamos de fato aos pés de Jesus? As palavras de
Deus na boca dos profetas (Jr 1.9,10), quando escritas, ainda são palavras de
Deus para nós no momento em que as lemos hoje (Jr 36.1-32). Ward diz que é
imprescindível que o pregador reconheça isso. “A ação dinâmica contínua de
Deus por meio do Espírito” está “relacionada no mais alto grau à linguagem e
aos sentidos da Escritura”.10 Em outras palavras, à medida que desvelamos o
significado da linguagem da Escritura, Deus se torna poderosamente ativo em
nossa vida. A Bíblia não é mera informação; também não é apenas informação
totalmente verdadeira. Ela é “viva e eficaz” (Hb 4.12) — é o poder Deus em
forma verbal — mas somente quando compreendemos o significado das palavras
com que Deus nos nomeia, nos molda e nos recria.
Se você, comunicador cristão, conhece essa doutrina da Bíblia e crê nela,
ela terá um impacto profundo na sua maneira de pregar. Se você acredita que o
Espírito só pode, de algum modo geral, tomar parte na pregação da Bíblia sob
certas circunstâncias, então você está suscetível a minar seu poder e autoridade
quando, em sua pregação, enfatiza exageradamente suas próprias experiências
ou coloca a autoridade na tradição e nas crenças de sua igreja, não na Bíblia. Ou
talvez você use a Bíblia como um sábio conjunto de remédios variados para os
problemas sociais e pessoais contemporâneos. Se, porém, você acredita que a
pregação da Palavra é um dos principais canais para a ação de Deus no mundo,
então com grande cuidado e confiança você revelará o significado do texto, na
esperança plena de que o Espírito de Deus agirá na vida dos ouvintes.11
Portanto, os célebres versículos em que a Palavra de Deus é descrita como
“fogo […] e como martelo que esmaga a rocha” (Jr 23.29) não são mera retórica.
Tenho visto centenas de casos específicos em que a Bíblia deu provas de um
poder para penetrar a indiferença e a defesa espiritual das pessoas de um modo
que ultrapassava em muito minha capacidade de falar em público. Muitas vezes
tive até mesmo conversas com pessoas enraivecidas, certas de que um de seus
amigos havia me contado a seu respeito e que eu havia me dirigido a elas
especificamente no sermão. Pude garantir com toda honestidade que não tinha a
mínima ideia de seus problemas — que era a Bíblia exercendo seu poder de pôr
a nu os “segredos do seu coração” (1Co 14.25). Não gosto de ouvintes com
raiva, mas devo dizer que gosto desse tipo de conversa.
Portanto, a razão primordial pela qual deveríamos recorrer habitualmente à
pregação expositiva se deve ao fato de que ela expressa e põe em ação nossa
crença na Bíblia toda como Palavra de Deus, viva e eficaz e revestida de
autoridade.
As outras razões a favor da pregação expositiva como dieta principal da
igreja são mais práticas, porém não menos importantes. Uma delas é que um
sermão expositivo bem elaborado permite que os ouvintes reconheçam mais
facilmente que a autoridade não está nas opiniões de quem fala ou em seu
raciocínio, mas em Deus, em sua revelação dada por meio do próprio texto. Isso
não fica claro em sermões que tocam de leve na Escritura e gastam mais tempo
com histórias, longos argumentos ou reflexões intelectuais. O ouvinte poderá
facilmente escapar da mensagem incômoda pensando: “Bem, essa é sua
interpretação”. Uma exposição clara e sólida, porém, se empenha em mostrar o
que a passagem significa e atesta com mais rigor que aquilo que está sendo dito
não é produto da visão do orador ou de seus preconceitos, mas provém do texto
revestido de autoridade.
A pregação expositiva permite que Deus paute a agenda de sua comunidade
cristã. A exposição é uma espécie de aventura para o pregador, que se lança em
um livro ou em uma passagem com o propósito de se submeter à sua autoridade
e segui-los para onde quer que o possam levar. É claro que cabe a você escolher
sobre que livros e passagens da Bíblia pregar, e qualquer estudante experiente da
Bíblia saberá basicamente o que há em partes específicas da Bíblia. Contudo,
pregar de forma expositiva significa que você não poderá predeterminar
completamente o que as pessoas ouvirão no decorrer das semanas ou dos meses
que se seguirão. À medida que os textos forem abertos, emergirão perguntas e
respostas que ninguém esperava. Temos a tendência de pensar na Bíblia como
um livro de respostas às nossas perguntas, e ela é isso mesmo. Contudo, se
realmente permitirmos que o texto fale, veremos que Deus nos mostrará que não
estamos sequer fazendo as perguntas certas.
O homem moderno, por exemplo, talvez se aproxime da Bíblia em busca de
respostas para a seguinte pergunta: “Como posso trabalhar minha autoestima e
me sentir melhor em relação a mim mesmo?”. Contudo, nas passagens bíblicas
sobre o pecado e o arrependimento, ele descobrirá que o problema mais básico
do ser humano é que temos uma visão muito elevada de nós mesmos. Estamos
cegos para as profundezas do nosso egocentrismo e confiamos exageradamente
em nós mesmos, certos de que temos a sabedoria para conduzir nossa vida.
Então, em passagens sobre a adoção e a justificação, aprenderemos que ao pedir
para que “nos sintamos melhor em relação nós mesmos” estaremos pedindo
pouco demais — muito pouco em comparação com o que nossa nova identidade
em Cristo pode ser. No fim, a revelação cuidadosa da Palavra de Deus
transformará de tal maneira nosso pensamento que veremos como era
inadequada a linha de questionamento com que começamos a abordar a Bíblia.
Outra razão semelhante é que a pregação expositiva permite que o texto
estabeleça também a agenda do pregador. Ela ajuda o pregador a resistir à
pressão de adaptar demais a mensagem às preferências da cultura. Ela nos
remete a assuntos dos quais preferiríamos não tratar e que talvez não tenhamos
escolhido, uma vez que as algumas perspectivas da Bíblia — por exemplo, em
assuntos como sexualidade — são extremamente impopulares hoje em dia. A
pregação expositiva nos encoraja a declarar a vontade de Deus em tais assuntos e
também nos compele a encontrar formas de abordar e de lidar publicamente com
questões difíceis.
Desse modo, a exposição pode evitar que lidemos apenas com nossos temas
favoritos e com as questões que mais nos atraem. Alguém já disse que até os
melhores pregadores têm apenas mais ou menos uma dúzia de sermões que
sempre pregam simplesmente usando passagens bíblicas como pontos de partida.
Já os piores pregadores têm apenas um, o qual repetem até deixar todos malucos.
Essa crítica está mais perto da verdade do que nós pregadores gostaríamos de
admitir, mas somente a disciplina da pregação expositiva nos dará a
oportunidade de lutar para escapar dessa armadilha.
Uma dieta constante de sermões expositivos também ensinará seu público a
ler a Bíblia, a pensar em uma passagem e compreendê-la. A exposição o ajudará
a prestar mais atenção aos elementos específicos do texto e a entender por que
expressões diferentes têm o sentido que lhes é atribuído na narrativa bíblica. Seu
público se tornará mais sábio e fará uma leitura mais sensível em seus próprios
estudos.
Gostaria de apresentar mais uma razão pela qual vale a pena recorrer à
pregação expositiva e, à luz do que acabamos de observar, talvez possa até
parecer contraintuitiva. Como vimos, a pregação expositiva sistemática evita que
nos ocupemos de nossos temas preferidos e nos conduz a uma série mais ampla
de passagens e assuntos. Contudo, ela também deve nos levar a ver ainda mais
claramente o principal tema da Bíblia. Duas vezes na minha vida conversei com
homens que me disseram ter chegado a uma fé vital em Cristo só depois de
terem se tornado pregadores e, de fato, se convertido por meio dos sermões
pregados por eles mesmos. Conheço também um ministro que chegou a uma fé
vital depois de ouvir as exposições de seu pastor assistente. Como isso
aconteceu?
Na pregação expositiva, o sentido é descoberto analisando-se o contexto, o
contexto, o contexto. Para compreender o sentido de uma frase, temos de
indagar: “De que maneira esse versículo se encaixa no restante da passagem?”.
Para compreender o sentido da passagem, temos de perguntar: “De que maneira
ela se encaixa no restante do livro?”. Para compreender a mensagem do livro,
temos de indagar: “Como ele se encaixa no restante da Bíblia?”. Se procedermos
dessa maneira semana após semana, descobriremos qual é a trama principal da
Bíblia — o evangelho de Jesus. Como o evangelho é a resolução de todo enredo
e toda narrativa, e o cumprimento de todo conceito e imagem na Bíblia, então
semana após semana os ouvintes — e o pregador — terão um entendimento cada
vez mais claro do caráter da salvação graciosa de Cristo. E, ainda assim,
ninguém ficará entediado porque verá o evangelho em toda a sua glória
infinitamente variada e multidimensional. A pregação expositiva imprimirá
melhor essa realidade nas pessoas do que as alternativas disponíveis.
PERIGOS A EVITAR
A exposição deve ser a dieta principal da pregação em toda igreja. Contudo, há
perigos também ao recorrermos a essa abordagem.
Um deles é que alguns entusiastas da pregação expositiva não estão
dispostos a levar em conta a mobilidade da nossa sociedade. Hughes Old nos
mostra que a pregação original da igreja nos primeiros cinco séculos usava o
método da lectio continua — exposição consecutiva, versículo por versículo, de
livros inteiros da Bíblia, levando anos para que a igreja passasse por grandes
porções de material bíblico. Com o passar do tempo, o número de dias santos e
festivos se multiplicaram no calendário da igreja até que, na igreja medieval, o
método da lectio selecta passou a predominar. Segundo esse método, eram
oferecidos às pessoas devocionais curtos sobre vários assuntos em vez do ensino
sistemático robusto da Bíblia toda.12 No século 20, pregadores proeminentes
como D. M. Lloyd-Jones, James A. Boice e John MacArthur se destacaram em
seu ministério por gastarem meses, e até anos, no estudo de livros inteiros da
Bíblia, sem deixar de tratar de nenhum detalhe. Isso levou a um reavivamento
bem-vindo da velha escola da pregação expositiva.
Muitos hoje acreditam que essa é a melhor forma, e a mais pura, de
pregação expositiva. Contudo, em sua maioria, as pessoas dos séculos passados,
e até mesmo de um período mais recente, passavam a vida inteira próximas de
onde cresceram. O pregador sabia que pregaria para o mesmo grupo básico de
pessoas durante anos, com poucas mudanças de membros. Hoje a população tem
uma mobilidade muito maior, e as pessoas que frequentam as igrejas o fazem de
forma muito mais transitória. No método da lectio continua, é fácil gastar um
ano ou mais num mesmo livro da Bíblia. No entanto, se uma família ficar em sua
igreja por dois anos, você vai mesmo querer que elas estudem apenas 1Samuel?
Ou mesmo somente o Evangelho de João, sem tempo algum para o Antigo
Testamento? Um dos pontos fortes da exposição, como vimos, é que ela
disponibiliza à igreja uma série completa de ensinamentos e temas bíblicos.
Contudo, uma abordagem que siga estritamente um só livro da Bíblia, pregando-
o na sua totalidade com os capítulos sendo expostos de forma consecutiva, vai
impedir que a maior parte do seu público seja efetivamente exposta a uma
variedade maior do texto bíblico.
Nem mesmo D. M. Lloyd-Jones usou essa estratégia em seus cultos
dominicais vespertinos. O público de suas pregações era composto por muitos
não cristãos e outras pessoas com questionamentos, levados à igreja por amigos
cristãos da cidade toda. Lloyd-Jones fez sua exposição dos livros da Bíblia
durante anos, e de forma deliberada, nas noites de sexta-feira para um público
cristão que queria um ensino mais abrangente e mais avançado.
Aqueles que falam a igrejas com pessoas em diferentes estágios de fé e com
grau elevado de mobilidade fariam bem em seguir o exemplo de evangélicos
anglicanos britânicos como John Stott e Dick Lucas. Estes são excelentes
modelos de pregadores que seguem o método expositivo. O esboço de seus
sermões segue as ideias principais da passagem, e eles ensinam o texto com
cuidado, concisão e clareza. No entanto, como pastores de igrejas localizadas em
ambientes urbanos de grande mobilidade, eles sabiam que muitos de seus
ouvintes estariam ali durante, no máximo, alguns anos. Sua resposta foi
modificar a lectio continua. Em vez de trabalhar com longos livros da Bíblia
integralmente, eles ministravam séries expositivas de passagens sequenciais de
livros mais breves da Bíblia, ou trabalhavam em livros mais longos, sem tratar
de todos os capítulos, ou então analisavam versículo por versículo de alguns
capítulos mais importantes de um livro específico.13
Se formos cobrir todas as partes e gêneros da Bíblia — o Antigo
Testamento e o Novo, a literatura narrativa e a didática, os profetas e os poetas
— num espaço de tempo razoável, teremos de percorrer a Bíblia através de
minisséries expositivas.14
Esse não é o único perigo que o comprometimento com a exposição
oferece. Enquanto a maior parte da pregação tópica enfatiza mais os recursos
retóricos, como a imagem e as ilustrações, a linguagem eloquente e habilidosa,
além de usar a história, os pregadores expositivos investem, com acerto, uma
energia maior na exegese da passagem. Contudo, a pregação não consiste apenas
em explicar o texto, mas também em usá-lo como forma de despertar o coração.
Vejo com frequência os pregadores investindo muito tempo na primeira tarefa,
enquanto a segunda fica relegada a uma reflexão escassa e pouco criativa. Na
verdade, algumas escolas de pregação expositiva desencorajam ativamente os
pregadores a ir muito além da apresentação dos dados de sua pesquisa bíblica.
Qualquer coisa que ultrapasse isso passa a ser entendido como entretenimento e
exibicionismo. Conforme vimos no prólogo, essa atitude decorre, ironicamente,
da leitura imprecisa das advertências de Paulo em 1Coríntios 1 e 2 contra o uso
da “sabedoria humana” na pregação. Desprezar a persuasão, a ilustração e outros
modos de tocar o coração mina a eficácia da pregação — em primeiro lugar,
porque a pregação se torna tediosa e, em segundo lugar, porque não faz justiça
ao seu propósito.
Relacionado a isso, há o perigo de que a pregação expositiva seja definida
de modo rígido demais. Seus entusiastas (e eu sou um deles!) são desejosos de
preservar sua qualidade, e por um bom motivo, já que boa parte dela é de
péssimo nível. Esse desejo, porém, pode fazer com que alguns definam a
pregação expositiva de forma estreita demais.
Alguns dizem que a exposição deve consistir em um comentário de
versículo por versículo em que o sermão não tem esboço e título. Embora tenha
sido essa a principal estratégia de pregação nos primeiros séculos, de alguns
séculos para cá a maioria dos pregadores passou a usar esboços de sermões para
maior eficácia. Em contrapartida, se somos tentados a insistir (como fazem hoje
muitos professores de pregação) que o comentário versículo por versículo está
totalmente equivocado, é preciso que nos lembremos de que tanto João Calvino
quanto João Crisóstomo, dois dos maiores pregadores da história, pregaram
dessa maneira. Não devemos tentar definir a pregação expositiva de forma
restrita demais em qualquer direção que seja. Alguns pregadores percorrem o
texto de forma consecutiva, cobrindo praticamente todos os versículos, ao passo
que outros recorrem a esboços que extraem as ideias principais da passagem e a
tratam de forma mais seletiva.
Também é costume atualmente definir o sermão expositivo como aquele em
que “o ponto principal do texto é o ponto principal do sermão”. Isso pressupõe
que todo texto bíblico tem apenas uma grande ideia ou um ponto principal.15 Em
seguida, costuma-se dizer, o pregador deve estruturar o esboço e os pontos do
sermão em torno do tema principal, passando a outras questões apresentadas
pelo texto. Certamente, na maior parte dos casos, a mensagem será mais clara se
o pregador for implacável em podar as digressões da apresentação, porém essa
regra corre o risco de ser aplicada de forma rígida demais.
Em algumas passagens da Bíblia, não é fácil discernir uma ideia central
clara.16 Isso ocorre sobretudo nas narrativas. Qual é o ponto principal da luta de
Jacó com o Senhor em Gênesis 32? Por que motivo as genealogias de Jesus
foram incluídas no começo da sua vida em Mateus 1? O que pretende a narrativa
do homem morto que voltou à vida depois que seu corpo entrou em contato com
os ossos do profeta Elias, em 2Reis 13? Há também o estranho relato a respeito
dos sete filhos de Ceva (At 19.11-20), que na ocasião tentam expulsar o demônio
de um homem “por Jesus a quem Paulo prega” (v. 13). O resultado é cômico,
porque o demônio responde através do homem a seus pretensos exorcistas:
“Conheço Jesus, e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois?”, antes de saltar sobre
eles e bater em todos os sete. O que Lucas estava tentando nos comunicar ao
incluir esse episódio em seu livro de Atos? Já ouvi algumas excelentes
exposições acerca dessa passagem, todas bem fundamentadas no texto e sem
nenhuma contradição entre si. Contudo, não foram iguais. É possível tirar várias
inferências válidas de tais narrativas, das quais o pregador sábio pode selecionar
uma ou duas de tal modo que se encaixem nas capacidades e necessidades dos
ouvintes.17
A Bíblia é particularmente rica, e é por esse motivo que, quase sempre,
quando voltamos a um texto vários anos depois de tê-lo estudado ou de ter
pregado a seu respeito deparamos com novas ideias e significados que não
havíamos notado anteriormente. Isso não significa que devemos jogar fora as
anotações ou a gravação do sermão anterior! O novo estudo e tratamento dado a
ele complementará e aprofundará o que havíamos entendido sobre a passagem
antes. A riqueza da Escritura significa que há sempre coisas novas para ver e
descobrir.
É por isso que Alan M. Stibbs, em seu clássico esquecido, Expounding
God’s Word [Expondo a Palavra de Deus], define a pregação expositiva como a
apresentação de ideias (plural) e até mesmo as implicações do texto, o que a
Confissão de Fé de Westminster chama de “boa e necessária inferência”.18
Stibbs diz que a pregação expositiva consiste em

apegar-se à passagem escolhida e apresentar exclusivamente o que ela tem a dizer ou a sugerir, de
modo que as ideias e os princípios enunciados no decorrer do sermão venham explicitamente à tona de
dentro da Palavra escrita de Deus, de tal modo que seja ela a autoridade a sustentá-las, e não apenas a
opinião […] do seu expositor humano.19

Tendo dito isso, com frequência o autor bíblico tem, de fato, um tema
principal que fica evidente por meio do estudo criterioso.20 O pregador
expositivo deve concentrar-se nas ideias principais do texto, em vez de se perder
em detalhes e digressões que não representem fielmente o autor bíblico.21
DEFENDENDO O LEÃO
Seria natural a essa altura indagar até que ponto seria eficaz a cuidadosa
exposição da Bíblia em uma cultura que está se tornando cada vez mais avessa à
autoridade, principalmente a autoridade religiosa. Recentemente, faleceu Fred
Craddock, um grande pregador da Igreja Metodista Unida. Seu livro As one
without authority [Como se não tivesse autoridade] levou o protestantismo
tradicional a elaborar sermões cada vez mais distantes do método expositivo. Ele
achava que as pessoas não aceitavam a au-toridade da Bíblia tampouco a do
pregador quando lhes diziam como viver. Foi então que ele insistiu para que a
pregação tivesse “histórias com final aberto”, que permitissem ao ouvinte “tirar
suas próprias conclusões”.22
Outra postura radicalmente diferente foi a de Charles Spurgeon, pregador
batista do século 19, cujas palavras a esse respeito se tornaram célebres:

Parece-me que houve eras em que a defesa da Bíblia e sua exposição foram ambas objeto de redobrado
esforço, mas, se de hoje em diante devotarmos todo o nosso empenho à sua exposição e disseminação,
ela dará conta perfeitamente de se defender a si mesma. Há um leão, não sei se você o vê — vejo-o
nitidamente diante dos meus olhos: um grupo de pessoas avança sobre ele para atacá-lo, enquanto
muitos de nós nos colocamos em sua defesa […] Perdoe-me se faço uma sugestão discreta. Abra a
porta e deixe que saia o leão; ele cuidará de si mesmo. Veja, já se foram! Antes mesmo de usar sua
força, fugiram os que o atacavam. A infidelidade se combate com a difusão da Bíblia. A resposta a toda
objeção contra a Bíblia é a Bíblia.23

A Bíblia é como um leão, diz Spurgeon, por isso não desperdice demais seu
fôlego descrevendo-a, defendendo-a ou explicando por que devemos crer nela.
Em vez disso, Spurgeon conclama-o a colocar sua energia em pregá-la de modo
simples — expondo, de fato, as pessoas a ela em sua forma mais clara e vívida.
Aí então a autoridade e o poder extraordinários da Palavra se tornarão evidentes
por si mesmos — até mesmo nos cenários mais resistentes à autoridade, entre as
pessoas mais céticas. Sei que isso é verdade.
NOTAS
1William Perkins, The art of prophesying with the calling of the ministry (primeira edição em inglês,
1606; reimpr., Edinburgh: Banner of Truth, 1996), p. 9.
2Hughes Oliphant Old, The age of Reformation (Grand Rapids: Eerdmans, 2002), p. 359.
3Perkins, Art of prophesying, capítulos 1 e 2, p. 3-11.
4Ibidem.
5Hughes Oliphant Old, The reading and preaching of the Scriptures in the worship of the Christian
church (Grand Rapids: Eerdmans, 1998-2010), vol. 1: The biblical period; vol. 2: The patristic age; vol. 3:
The medieval church; vol. 4: The age of Reformation; vol. 5: Moderation, pietism, and awakening; vol. 6:
The modern age; vol. 7: Our own time.
6Old, Reading and preaching of the Scriptures, vol. 1: Biblical period, p. 9.
7Timothy Ward, Words of life: Scripture as the living and active Word of God (Downers Grove:
InterVarsity, 2009), p. 157 [edição em português: Teologia da revelação (São Paulo: Vida Nova, 2017)].
8Em relação à doutrina da Escritura, os três livros que considero leitura imprescindível de todo
pregador são: J. I. Packer, “Fundamentalism” and the Word of God (Grand Rapids: Eerdmans, 1958),
Timothy Ward, Words of life [edição em português: Teologia da revelação. São Paulo: Vida Nova, 2017)] e
Kevin DeYoung, Taking God at his Word (Wheaton: Crossway, 2014). E os livros a seguir sintetizam e
apresentam habilmente o conteúdo das quatro melhores exposições históricas da doutrina da Escritura: John
Calvin, Institutes of the Christian religions, livro 1 [edição em português: João Calvino, A instituição da
religião cristã, tradução de Carlos Eduardo Oliveira; José Carlos Estêvão (São Paulo: Ed. Unesp, 2008), 2
vols.]; B. B. Warfield, The inspiration and authority of the Bible (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed,
1980) [edição em português: A inspiração e a autoridade da Bíblia, tradução de Maria Judith Prado Menga
(São Paulo: Cultura Cristã, 2010)]; Francis Turretin, “Second topic: ‘The Holy Scriptures’”, in: Institutes of
elenctic theology, edição de J. T. Dennison, tradução de G. M. Giger (Phillipsburg: Presbyterian and
Reformed, 1992), vol. 1; e Herman Bavinck, “Revelation”, in: Reformed dogmatics, edição de John Bolt,
tradução de John Vriend (Grand Rapids: Baker Academic, 2003), vol. 1, parte 4 [edição em português:
Dogmática reformada (São Paulo: Cultura Cristã, 20100, 4 vols.)] (Os primeiros dois títulos estão
disponíveis em várias edições.) Além disso, as seguintes obras serão úteis à medida que associam a
autoridade da Bíblia diretamente ao método de pregação: Peter Adam, “Three biblical foundations for
preaching” e “The preacher’s Bible”, in: Speaking God’s words: a practical theology of preaching, parte 1,
cap. 5, p. 13-56; 87-124; John R. W. Stott, “Theological foundations for preaching”, in: Between two
worlds: the art of preaching in the twentieth century (Grand Rapids: Eerdmans, 1982), p. 92-134; J. I.
Packer, “Why preach?”, in: Honoring the written Word of God: collected shorter writings on the authority
and interpretation of Scripture (Vancouver: Regent College, 2008), p. 247-67. Veja tb. D. A. Carson,
“Recent developments in the doctrine of Scripture”, in: Collected writings on Scripture (Wheaton:
Crossway, 2010), p. 55-110. Devo acrescentar que ter um bom entendimento da doutrina evangélica da
Escritura não só dá ao pregador confiança de que essas são palavras de Deus, mas também evita os erros
decorrentes de uma crença ingênua na divindade da Bíblia que exclui o fato de que ela é também obra
humana, escrita por seres humanos de verdade em contextos históricos e socioculturais. Packer mostra
particularmente bem a distinção entre doutrina histórica e “ditado divino”, além de outras perspectivas
semelhantes.
9A Palavra de Deus é a presença ativa de “Deus” no mundo. Timothy Ward, Words of life, p. 25.
“Quando a Palavra de Deus age, isso significa que o próprio Deus está agindo. Portanto (podemos dizer),
Deus se investiu de suas palavras ou podemos dizer que Deus de tal maneira se identificou com suas
palavras que o que fizerem às palavras de Deus […] o fazem ao próprio Deus […] As ações verbais de
Deus são uma espécie de extensão dele mesmo”. (Ibidem, p. 27; os itálicos são de Ward).
10Ibidem, p. 156.
11Ibidem, p. 158.
12Veja Hughes Oliphant Old, “The ministry of the Word”, in: Worship that is Reformed according to
Scripture (Louisville: John Knox, 1984), cap. 5, p. 171-2.
13Uma amostra da série de sermões de Dick Lucas de fins dos anos 1980 e 1990 inclui onze semanas
de mensagens em 1Pedro 1 e 2, cinco semanas em Tito 3, seis semanas em 1João 1, sete semanas em Lucas
12. Entre os temas tratados estão os atributos de Deus, o novo nascimento, generosidade e mordomia
financeira e o caráter da igreja cristã.
14Segue abaixo o que fiz na igreja Redeemer Presbyterian Church ao longo dos anos. Por um lado,
procurei garantir que a cada doze meses não nos esquecêssemos de nada: da natureza de Deus (geralmente
no outono, uma época especialmente apropriada para os textos do Antigo Testamento) à encarnação e à
pessoa de Cristo (dezembro), à natureza e realidade do pecado (no inverno cinzento) até a solução
propiciada pela morte e pela obra de Cristo (fim do inverno, início da primavera com clímax na Páscoa) e,
finalmente, o poder do Espírito Santo para nos ajudar a viver como devemos (depois da Páscoa e pelo verão
adentro). Queria ter certeza de que cobriria esse “currículo principal” do cristianismo evangélico todos os
anos, tratando de todos os temas principais. Havia inúmeras pessoas que se aproximavam e ficavam ali
apenas durante um ou dois desses ciclos anuais de pregação. Se a pessoa fosse ficar na igreja durante um
ano apenas, caso viesse no outono seria exposto ao “enredo” completo da Bíblia — o evangelho. Essa
pessoa aprenderia no outono quem Deus é, colocaria a fé em Cristo, em tese, durante o inverno e depois
teríamos a primavera e o verão para pregar a essa pessoa ajudando-a a viver a vida cristã.
De modo geral, fiz séries curtas (de quatro a doze semanas, embora algumas tenham se estendido por
um semestre), geralmente de um livro inteiro da Bíblia ou de uma parte dele, ou de um autor. Nesse tipo de
abordagem é importante que as mensagens sejam integralmente expositivas, escavando realmente em
profundidade o texto e extraindo dele o significado atribuído pelo autor, em vez de lidar com um texto que
se assemelhe vagamente com algo que, de qualquer maneira, você queria dizer. Desse modo, ainda que você
esteja pregando o mesmo “currículo evangélico” básico todos os anos, você o fará com base em textos
diferentes e aprenderá coisas novas na Bíblia todos os anos. Assim, os membros mais antigos de sua igreja
— que estão ali ano após ano — crescerão. Se você não fizer pregações expositivas, não aprenderá
efetivamente coisas novas na Bíblia. Tive também um objetivo geral de pregar através das várias partes da
Bíblia em um período de dez anos.
Assim, por exemplo, uma série expositiva de dois anos poderá apresentar a seguinte disposição:
Outono: Atributos de Deus (todos textos extraídos dos profetas); Credo dos Apóstolos (todos textos
extraídos do Evangelho de João).
Dezembro: Cânticos de Natal (cânticos de Lucas: de Zacarias, de Maria e dos anjos).
Inverno: O novo nascimento (textos de Pedro e Paulo sobre regeneração e novo nascimento); Por que
Jesus morreu? (Paixão segundo Mateus 26—28).
Primavera: Viver uma vida de fé em um mundo pluralista (Daniel e Ester).
Verão: O Senhor ora (João 17 e o Pai-Nosso).
Outono: Nossas lutas e a graça de Deus (Jacó: Gênesis 25-32, 48).
Inverno: O que Jesus veio fazer? (as declarações de “amém” de Jesus nos Evangelhos).
Primavera: Vida de fé (Abraão: Gênesis 12—22).
Verão: debatendo com Jesus (Marcos 11 e 12).
Outono/inverno/primavera: Conhecendo a Deus (Provérbios); Paixão segundo João; Vivendo em
sabedoria (Provérbios).
15. O movimento da “grande ideia” na pregação não é novo. Em uma das obras sobre pregação mais
influentes do século 19, On the preparation and delivery of sermons (1870), John A. Broadus disse que todo
sermão deve ter um tema bastante específico. “Não importa se o sermão tem dois ou dez pontos, ele deverá
ter um ponto principal: ser sobre algo. Esse tema definido […] guia [o pregador] em sua preparação. Ele é
fundamental para a organização de quem prega. Ajuda-o também a escolher e organizar o material […] [e]
dirá ao público o que ele ouvirá.” (On the preparation and delivery of sermons, 4. ed. [1870; reimpr., New
York: Harper & Row, 1979], p. 38). O livro de Robert Dabney, Sacred rhetoric or, a course of lectures on
preaching, também recorre à retórica clássica quando insiste que o pregador “deve, em primeiro lugar, ter
um objeto principal de discurso, ao qual aderirá como referência suprema o tempo todo” (Anson Randolph,
1870; reimpr. como R. L. Dabney on preaching, Edinburgh: Banner of Truth, 1979), p. 109. No início do
século 20, o destacado pregador John Henry Jowett ratificou esse conceito ainda mais enfaticamente:
“Nenhum sermão está pronto para ser pregado, tampouco para ser redigido, até que possamos expressar seu
tema em uma sentença curta e significativa, clara como um cristal […] Não creio que nenhum sermão deva
ser pregado ou mesmo escrito até que essa frase tenha emergido, de forma clara e lúcida como uma lua num
céu sem nuvens” (The preacher: his life and work [Philadelphia: Doran, 1912], p. 133). O livro por
excelência sobre pregação de meados do século 20, Design for preaching, de H. Grady Davis (Minneapolis:
Fortress, 1958), postulou um “pensamento central”: “É aquele pensamento que pega todos os outros e os faz
convergir para si mesmo” (p. 20). Em tempos mais recentes, foi Haddon Robinson que fez da “grande
ideia” o âmago da pregação expositiva evangélica (Biblical preaching: the development and delivery of
expository messages, 2. ed. [Grand Rapids, MI: Baker, 2001], p. 33-50) [edição em português: Pregação
bíblica: o desenvolvimento e a entrega de sermões expositivos, 2. ed. (São Paulo: Shedd, 2008)]. O
princípio é que “uma ideia central e unificadora deve estar no centro do sermão eficaz” (p. 35). Robinson
cita Jowett e outros para deixar clara sua tese: “Todo sermão deve ter um tema, e esse tema deve ser o tema
da parte da Escritura em que se baseia” (p. 34, citando Donald G. Miller). Em outras palavras, qualquer
texto da Escritura tem um tema central — e o sermão baseado nesse texto deve ter o mesmo tema central. A
“grande ideia” do sermão deve ser a “grande ideia” do texto.
16No livro The big ideia of biblical preaching, Duane Litfin lista uma série de “desafios” a essa
perspectiva baseados em textos do Novo Testamento. Veja Duane Litfin, “New Testament challenges to big
idea preaching”, in: Keith Wilhite; Scott M. Gibson, org., The big idea of biblical preaching: connecting the
Bible to people (Grand Rapids: Baker,1998). Um desses desafios é que a ideia principal de um texto
depende do que cremos ser a ideia ou propósito principal do livro todo. Às vezes, isso parece muito claro,
como, por exemplo, quando João nos conta que escreveu para que o leitor creia em Jesus e receba a vida
eterna (Jo 20.31). Mas qual é a mensagem central e o propósito do livro de Atos? Ou (especificamente) a
mensagem central de cada um dos capítulos finais de Atos — todas as audiências e julgamentos de Paulo?
Os comentaristas nem sequer estão de acordo se esses capítulos foram escritos para não cristãos por
motivos apologéticos ou para cristãos para encorajá-los a ser fortes na perseguição. As conclusões a
respeito dos motivos específicos e da intenção do autor muitas vezes são hesitantes. Isso significa que é
difícil saber com certeza qual é o ponto central, principal e pretendido de um capítulo específico.
Um segundo desafio consiste no fato de que poucos livros e capítulos da Bíblia foram escritos no estilo
da retórica clássica, com uma proposição central. Poucas passagens apresentam declarações de tema ou tese
claramente demarcadas, por isso identificar qual é o tema pode ser algo bastante subjetivo. Litfin cita o livro
de Tiago como exemplo clássico disso. O livro trata da tentação, da língua e do mundanismo, mas o texto
vai e volta com frequência ao tratar desses assuntos. Como diz Litfin, muitos de nós, quando escrevemos
cartas, não nos preocupamos em organizar tudo o que dizemos em torno de uma ideia central. Nós
divagamos. Por que Tiago não poderia fazer o mesmo? E ele faz! E há muitos outros entre os gêneros
bíblicos — poesia, narrativa e documentos legais — igualmente difíceis de resumir em uma única
declaração central, uma vez que não se trata de formas literárias que requeiram esse tratamento. De fato,
pode acontecer que o objetivo geral da narrativa, da história e da parábola consista em transmitir um sentido
muito rico, que supera qualquer um que possa ser condensado em uma proposição simples ou até mesmo
numa sequência delas. Além disso, há por vezes listas de exortações no final das cartas. Quase todas as
sentenças introduzem um assunto principal distinto. (Veja Hb 13.1-7, por exemplo.) Por fim, há partes da
Bíblia, como o livro de Provérbios, em que é notoriamente difícil identificar temas unificadores nos
capítulos e em que, com frequência, cada versículo proporciona uma “nova e grande ideia”.
O conceito de uma “grande ideia” no texto é, portanto, um pouco artificial. É uma verdade que se
aplica mais para algumas passagens do que para outras. A riqueza da Bíblia costuma desafiar tal redução.
Qualquer pregador que tenha pregado o mesmo texto duas ou três vezes no decorrer de algumas décadas
sabe que, quando volta ao texto e o ouve, é praticamente inevitável ver coisas novas e ouvir novas
mensagens. Mesmo quando achamos que discernimos um tema ou assunto fundamental (e, geralmente, o
assunto principal é claro), porque essa é a Palavra inspirada de Deus, até as afirmações mais tangenciais e
os pressupostos não inteiramente desenvolvidos pelo autor inspirado são ricas fontes de instrução. Não
apenas os pontos principais do autor, mas também os de menos relevância devem ser trabalhados, uma vez
que também procedem de Deus. Em suma, devemos estar atentos a um tipo de “legalismo expositivo”, em
que se parte do pressuposto de que só pode haver apenas um sermão exegeticamente preciso e um único
tema para esse sermão seja qual for a passagem.
17Dizer que os textos bíblicos falam sobre mais de um assunto e nem sempre têm um tema central não
significa dizer — e isso deve ficar claro — que ele tem vários significados ou significados indeterminados.
Nem eu nem Alan Stibbs estamos propondo a ideia pós-moderna de que texto algum tem um sentido
inerente, que o significado da linguagem é sempre indeterminado. Muitas pessoas influenciadas pela
filosofia contemporânea, com seu ceticismo a respeito da linguagem humana, aplicam tais ideias à Bíblia e
defendem a “polissemia” — a coexistência de muitos significados possíveis em qualquer texto, alguns
contraditórios entre si, ficando a critério do intérprete explicitá-lo. Isso, é claro, implica que não se poderia
de modo algum dizer: “É isso o que a Bíblia ensina”, pois estaríamos todos livres para interpretar a nosso
modo, com muitas interpretações contradizendo outras, sem termos condições de afirmar qual é a
verdadeira e, portanto, o que Deus tem a dizer na Escritura. Esse ponto de vista transformaria a pregação em
uma narração meramente sugestiva, reflexiva e aberta (o que, em muitos lugares, foi no que ela se
transformou). Para uma defesa convincente da clareza da Escritura, veja de Mark D. Thompson, A clear and
present Word: the clarity of Scripture (Downers Grove: IVP Academic, 2006), e de Benjamin Sargent, As it
is written: interpreting the Bible with boldness (London: Latimer Trust, 2011). Ambos os autores dizem que
todo texto da Escritura tem um sentido — o sentido pretendido do autor bíblico — e que é possível discerni-
lo com frequência na Bíblia, o que nos permite falar a esse respeito com confiança. Apesar dessa afirmação
vibrante e importante, não devemos cair na crença equivocada de que todo texto bíblico é sempre claro,
tampouco que é fácil discernir o sentido da Bíblia. Também não devemos crer que sempre nos aproximamos
de um texto com clareza completa e definitiva, devido aos limites da nossa visão. Uma apresentação boa e
sóbria da complexidade da interpretação bíblica ainda é a boa e relativamente antiga história da
interpretação bíblica de Moises Silva, Has the church misread the Bible? The history of interpretation in the
light of current issues (Grand Rapids: Zondervan, 1987). Silva mostra acertadamente que, como intérpretes,
jamais nos aproximamos do texto sem uma série de suposições “prévias” (inconscientes) que influenciam
nossa interpretação. Jamais somos tão objetivos e neutros como achamos que somos. Portanto, a clareza da
Escritura significa que podemos confiar em nossa pregação, mas a pecaminosidade do intérprete significa
que devemos ser humildemente abertos à crítica. Além disso, Silva e outros salientam a tensão entre o
princípio protestante segundo o qual o sentido pretendido pelo autor bíblico (o sensus literalis) é o sentido
do texto e a forma pela qual os autores do Novo Testamento interpretam com frequência as declarações dos
autores do Antigo Testamento em referência a Cristo, quando os autores originais não pareciam estar cientes
desse significado. Essas são boas maneiras de compreender como fazer justiça tanto ao sensus literalis
quanto à interpretação cristocêntrica da Bíblia; contudo, não podemos nos aprofundar neste ponto aqui, nem
mesmo nas notas de rodapé! Veja a lista de leitura nas notas do capítulo 3 sobre pregar Cristo.
18A Westminster confession of faith [edição em português: A confissão de fé de Westminster (São
Paulo: Cultura Cristã, 2001)] diz no capítulo 1, parte 6: “A totalidade do conselho de Deus no tocante a
todas as coisas necessárias para sua glória, para a salvação do homem, para a fé e para a vida, sejam elas
expressamente registradas na Escritura, seja por meio da boa e necessária inferência, podem ser deduzidas
da Escritura”.
19Alan M. Stibbs, Expounding God’s Word: some principles and methods (Chicago: InterVarsity,
1960), p. 17. O grifo na citação é do autor.
20 Em outra parte, Stibbs aconselha que “se confira […] unidade” ao sermão por meio do
desenvolvimento da exposição do texto “em relação a um tema único dominante” (ibidem, p. 40). Ele não
recomenda o “comentário discursivo da chamada ‘leitura bíblica’”, que vagueia por diversos tópicos e
assuntos. Com isso, Stibbs quer dizer que não recomenda o comentário versículo por versículo e aconselha
que se isole a ideia principal, servindo-lhe de apoio os pontos da mensagem e permitindo seu
desenvolvimento.
21Pregadores como Calvino e Crisóstomo foram mestres em lidar rapidamente com alguns detalhes do
texto que contribuiam com ricos insights, sem perder a linha principal de pensamento. Não raro, há pérolas
muito preciosas em um texto que não fazem parte de modo algum da ideia principal da passagem. Seus
ouvintes perderão se você deixar de apontá-las. Por exemplo, veja 1Timóteo 6.12-16:
Trava o bom combate da fé. Apodera-te da vida eterna, para a qual foste chamado, tendo já feito boa
confissão diante de muitas testemunhas. Diante de Deus, que dá vida a todas as coisas, e de Cristo
Jesus, que perante Pôncio Pilatos deu o testemunho da boa confissão, eu te exorto: Sem mácula e
irrepreensível, guarda este mandamento até a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Ela, no tempo
próprio, manifestará o bemaventurado e único soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores, o que
possui, ele somente, a imortalidade e habita em luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem
pode ver; a ele sejam honra e poder eterno. Amém.
O ponto principal dessa passagem é, obviamente, “Trava o bom combate da fé” (v. 12). É a “esse
mandamento” que Paulo se refere no versículo 14. Portanto, Timóteo não só é incumbido de fazê-lo, mas
também é cobrado solenemente perante Deus para que o faça. A fim de expandir o significado de “trava o
bom combate da fé”, o pregador tem de voltar ao restante do livro, uma vez que essa é uma
responsabilidade final, uma conclusão e um resumo do que foi dito anteriormente. Contudo, observe que há
alguns dizeres notáveis nesse decurso a respeito dos atributos divinos. Ele dá vida a tudo (v. 13) e habita em
luz inacessível que ninguém pode ver (v. 16). Será que não deveríamos dizer coisa alguma no sermão sobre
essas declarações admiráveis feitas com autoridade divina? É claro que sim. Na verdade, o pregador
habilidoso deve fazer disso parte da razão pela qual devemos travar o bom combate. Afinal de contas, Paulo
introduziu esses atributos divinos para fazer essa exortação a Timóteo. Certamente seria um erro dizer
pouco sobre travar o bom combate da fé e transformar o sermão em uma reflexão sobre os atributos de
Deus. Mas também seria uma definição rígida demais de pregação expositiva insistir que não é possível
ampliar de modo algum esses pontos secundários.
22Fred Craddock, As one without authority (Nashville: Abingdon, 1971); John Blake, “A preaching
‘genius’ faces his toughest convert”, CNN.com, December 14, 2011, disponível em:
http://edition.cnn.com/2011/11/27/us/craddock-profile/, acesso em: dez. 2016.
23“The Bible: speech at annual meeting of the British and foreign Bible society, May 5, 1875”, in: G.
H. Pike, org., Speeches by C. H. Spurgeon at home and abroad (London: s. n., 1878). Essa citação ganhou
popularidade, creio eu, graças à referência feita a ela em D. M. Lloyd-Jones, Authority (Chicago:
InterVarsity, 1958), p. 41: “A autoridade das Escrituras não é uma questão a ser defendida, mas muito mais
a ser afirmada. Dirijo essa observação especialmente aos evangélicos conservadores. Lembro-me do que
disse certa vez nesse sentido o grande Charles Haddon Spurgeon: ‘Não há necessidade de defender um leão
sob ataque. Tudo o que é preciso fazer é abrir a porta e deixar que ele saia’. Temos de nos lembrar
frequentemente que é a pregação e a exposição da Bíblia que realmente consolida sua verdade e
autoridade”. Seria errado interpretar o contraste que faço entre Fred Craddock e Charles Spurgeon como se
para Craddock a Bíblia não tivesse autoridade alguma ou que não creio que possamos aprender com a
contribuição de Craddock, que ele chamou de pregação “indutiva” ou “narrativa”. Estou certo de que
Craddock tem muito a nos ensinar, e há muitas formas de pregação expositiva que são (como apontei no
restante deste capítulo) excessivamente cognitivas, racionalistas, árduas e autoritárias.
2

PREGANDO O EVANGELHO SEMPRE1

Quando um homem é levado a atos de obediência pelo temor da ira
divina revelada na Lei e não pela fé em seu amor revelado no evangelho,
quando ele teme a Deus por causa de seu poder e justiça e não por causa
de sua bondade, quando Deus é para ele mais um Juiz vingador do que
um Amigo e Pai compassivo e quando para ele Deus se apresenta terrível
em sua majestade e não infinito em graça e misericórdia, ele mostra com
isso que está sob o domínio ou, no mínimo, sob a prevalência de um
espírito de legalismo.
— John Colquhoun2
A MENSAGEM DA BÍBLIA
Para compreender e explicar qualquer texto da Bíblia, é preciso situá-lo em seu
contexto, o que significa também inseri-lo no contexto canônico: a mensagem da
Bíblia como um todo. Que mensagem é essa? Da perspectiva do Antigo
Testamento, é a de que a “salvação vem do SENHOR” e somente do Senhor (Jn
2.9, NIV). Somos demasiadamente caídos para nos salvar a nós mesmos, falhos
demais para manter nossa aliança com Deus. É preciso que haja uma intervenção
radical da graça, que só pode provir do próprio Deus. No Novo Testamento,
vemos como a salvação vem do Senhor. Ela vem unicamente por meio de Jesus.
“… São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco: Era necessário
que se cumprisse tudo o que estava escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos
Profetas e nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as
Escrituras…” (Lc 24.44,45). Jesus disse a seus discípulos que, se não
compreendessem quem ele é e o que veio fazer, não poderiam entender a
salvação de Deus, tampouco a Bíblia.3
Mostrar de que maneira um texto se insere na totalidade do contexto
canônico, portanto, é mostrar de que maneira ele aponta para Cristo e para a
salvação do evangelho, para a grande ideia de toda a Bíblia. Toda vez que você
expõe um texto bíblico, sua exposição não estará completa a menos que você
demonstre de que maneira ele nos mostra que não podemos salvar a nós mesmos
e que só Jesus pode fazê-lo. Isso significa que temos de pregar Cristo em todos
os textos, o que equivale dizer que temos de pregar o evangelho o tempo todo,
em vez de nos contentarmos com pregações moralistas ou de caráter inspirador
genérico.
É muito mais difícil do que se possa imaginar evitar essas coisas no ensino
e na pregação da Bíblia.
OS DOIS INIMIGOS DO EVANGELHO
Uma formulação clássica do evangelho e de sua relação com a vida apresenta-se
da seguinte forma: somos salvos unicamente por Cristo, pela fé exclusivamente,
mas não por uma fé que permanece isolada. A verdadeira salvação sempre
resulta em boas obras e em uma vida transformada.
Essa formulação do evangelho focaliza o papel de nossas “boas obras”
éticas e em nosso caráter moral. Ela deixa claro, em primeiro lugar, que essas
coisas não desempenham papel algum em nossa aceitação perante Deus. Lemos
em Romanos 4.5 que somos “ímpio[s]” quando Deus nos justifica e nos aceita
pela fé. A base para a aceitação não é nosso comportamento moral nem a
qualidade de nossa fé. Nenhuma dessas coisas é levada em conta. Deus não olha
para isso. Antes, a fé nos une a Cristo, de modo que sua justiça e o que ele fez
nos pertencem legalmente agora. Deus nos vê “em Cristo” (Fp 3.9). Como
consequência dessa fé salvadora, o Espírito Santo efetua uma transformação
constante no interior do coração, de modo que passamos a querer obedecer a
Deus e de fato começamos a obedecê-lo por gratidão e amor (Tg 2.14-19).
Desde a Reforma protestante, entende-se que há dois erros ou enganos
aparentemente opostos em que podemos cair e assim deixar de compreender esse
evangelho bíblico e seu poder. São eles o “legalismo”, a perspectiva segundo a
qual podemos pôr Deus na posição de devedor, ao buscarmos alcançar sua
bênção com nossa bondade, e o “antinomianismo”, a perspectiva segundo a qual
podemos nos relacionar com Deus sem obedecer a sua Palavra e seus
mandamentos. Falta a essas duas palavras, derivadas dos termos latino e grego
para “lei”, um aspecto crucial de como o evangelho funciona.
O legalismo é muito mais do que a crença consciente de que “posso ser
salvo pelas minhas boas obras”. Trata-se de uma teia de atitudes de coração e de
caráter. É o pensamento de que o amor de Deus por nós depende de alguma coisa
que podemos ser ou fazer. É a atitude pela qual ofereço certas coisas — minha
bondade ética, minha relativa fuga do pecado deliberado, minha fidelidade à
Bíblia e à igreja — que dão respaldo à obra de Cristo e contribuem para a boa
vontade de Deus para comigo. Um espírito legalista nos leva a sermos egoístas,
severos, extremamente sensíveis à crítica, profundamente inseguros e com inveja
dos outros porque nossa “sensação de identidade e de valor pessoal se entrelaçou
com nosso desempenho e com seu reconhecimento, em vez de estar enraizado e
alicerçado em Cristo e em sua graça [i]merecida”.4
O antinomianismo também é mais do que apenas a crença formal de que
“não tenho de obedecer à lei de Deus”. É o pensamento de que, como Deus me
ama independentemente do que eu tenha feito, ele não se importará com o fato
de eu viver uma vida imoral ou não. É a atitude que diz “Deus me aceita como
sou; ele quer apenas que eu seja eu mesmo”. Muitas vezes, esse pensamento
pode servir de ocasião negativa para a crença de que a única maneira de ser uma
pessoa livre consiste em se livrar completamente da crença em Deus.
É na Carta aos Romanos que essas duas mentalidades são apresentadas de
forma mais destacada. Em Romanos 1.18-32, Paulo mostra que os gentios
pagãos, uma vez que desconsideram a lei de Deus — e, portanto, são contrários
à Lei —, perderam toda e qualquer ligação com ele. Em seguida, em Romanos
2.1-3.20, Paulo dá sequência a seu argumento dizendo que os judeus
cumpridores da Lei e que acreditam na Bíblia também estão longe de Deus. Por
quê? Porque confiam em sua observância à Lei, e não na graça divina, para se
relacionar com Deus e, portanto, são legalistas. Eles buscam “justiça [deles
próprios] que procede da lei” (Fp 3.9; cf. 3.3-6). Externamente são justos, mas
internamente justificam-se a si mesmos e, portanto, não dependem de Deus para
a salvação como deveriam. Assim, ambos os tipos de mentalidade rejeitam a
graça de Deus e a salvação de diferentes maneiras, disso resultando a avaliação
contundente de Paulo de que “Não há justo, nem um sequer. […] não há quem
busque a Deus” (Rm 3.10,11).
Há grandes diferenças externas entre pessoas não religiosas, que podem
denunciar em alto e bom som as normas morais tradicionais e subvertê-las, e
pessoas de moral acentuada, muito religiosas, que creem na Bíblia e confiam em
sua própria bondade ética ao se colocar diante de Deus. Contudo, Paulo diz que
ambas se comportam como salvadores de si mesmas, mostrando que as
diferenças internas são poucas.
Os comunicadores da Bíblia devem ter sempre em mente esses dois pontos
de vista sobre a vida quando pregam e ensinam. Textos individuais geralmente
apresentam exortações sobre como o crente deve viver que, quando expostas
isoladamente do restante da Bíblia, podem servir de respaldo à perspectiva
legalista. Outras passagens descreverão a provisão graciosa de Deus de salvação
e amor incondicional, as quais, isoladamente, podem dar a impressão de que a
graça gratuita não leva à mudança de vida. Em The art of prophesying [A arte de
profetizar], William Perkins diz que “os pregadores precisam compreender a
verdadeira relação entre lei e evangelho”.5 A lei pode nos mostrar nossa
necessidade do evangelho e, então, uma vez que tenhamos abraçado a salvação
de Deus pela fé, a lei se torna o caminho para que conheçamos, sirvamos e
cresçamos na semelhança daquele que nos salvou. É crucial em nossa pregação
que não digamos simplesmente às pessoas todas as maneiras pelas quais elas
devem ser morais e boas sem relacionar tal exortação ao evangelho. Tampouco
devemos dizer-lhes simplesmente, vezes sem conta, que elas somente podem se
salvar pela graça gratuita sem lhes mostrar de que maneira a salvação muda
nossa vida.
Perkins não quer dizer com isso que podemos simplesmente atribuir cada
um dos versículos da Bíblia a uma ou outra categoria: a categoria dos que nos
dizem o que devemos fazer e a dos que nos dizem que somos salvos a despeito
do que tenhamos feito. Ele dá o exemplo de dois textos que, poderíamos dizer,
“juntam as duas coisas”: João 14.21 e 14.23.6 No primeiro versículo, Jesus diz a
seus discípulos: “Aquele que tem os meus mandamentos e a eles obedece, esse é
o que me ama. E aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e
me manifestarei a ele”. Esses textos deixam claro que o evangelho transforma a
obediência aos mandamentos de Deus de meio legalístico de aquisição da
salvação em uma resposta amorosa à salvação recebida. A obediência à lei de
Deus, que emana da graça do evangelho, torna-se uma maneira de conhecer e
amar aquele que nos salvou a um custo infinito para si mesmo, e também uma
maneira de se assemelhar a ele e se deleitar nele. João 14, portanto, não é nem
uma passagem simples da “lei” nem uma passagem do “evangelho em vez da
lei”.
Dificilmente uma única passagem mostra com tanta perfeição a relação da
lei com o evangelho como João 14. Geralmente, o texto sobre o qual pregamos
se detém ou na lei, ou na graça do evangelho; portanto, devemos sempre, sempre
pôr o texto no contexto da Bíblia toda, a saber, a mensagem do evangelho.
“GÊMEOS NÃO IDÊNTICOS DO MESMO VENTRE”
Uma das chaves para pôr o texto no contexto do evangelho é compreender a raiz
subjacente tanto da mentalidade legalista quanto da mentalidade antinomianista.
Em razão das enormes diferenças externas entre elas, somos inclinados a pensar
nas duas como coisas opostas. Se o fizermos, tentaremos instintivamente e de
forma inconsciente curar uma com uma dose da outra, o que pode ser letal.
O teólogo Sinclair Ferguson analisa o diálogo entre a serpente e os
primeiros seres humanos no relato da Queda em Gênesis 3. Ele ressalta que no
mandamento divino original, “Não comereis do fruto desta árvore”, Deus não
lhes explicou o motivo da proibição. Ele não os proibiu de comer da árvore
porque isso seria ruim para eles de um modo específico. Sua falta de explicação
foi um chamado à obediência em amor e confiança em Deus por quem ele era
em si. Portanto, o mandamento não buscava simplesmente a anuência
comportamental, mas também uma atitude e um relacionamento particulares
com Deus. Essa relação foi o que a serpente atacou imediatamente.
Em Gênesis 3.1, a serpente disse que Deus os havia proibido de comer o
fruto de qualquer árvore do jardim, o que não era verdade. Depois, em Gênesis
3.5, a serpente disse que a desobediência a Deus seria uma libertação, mas não
foi. Contudo, a humanidade acreditou na serpente e em seu veneno espiritual.
Essa “mentira da serpente” calou fundo dentro de nós com sua afirmação de que
Deus “era realmente castrador, preocupado consigo mesmo e egoísta”7, e de que
não se poderia confiar nele para que tivesse nossos melhores interesses em seu
coração. Se lhe obedecêssemos totalmente, insinuou a serpente, seríamos
infelizes. Diz Ferguson: “A mentira foi um ataque à generosidade de Deus e à
sua integridade. Não se podia confiar em seu caráter nem em suas palavras. Esta,
na verdade, é a mentira na qual os pecadores têm crido desde então — a mentira
segundo a qual não creio em Deus porque ele é um falso Pai que não me ama”.8
Essa mentira “entrou na corrente sanguínea da raça humana” e se tornou a
condição natural de seu coração, “profundamente arraigada na psique humana”.9
Agora, no íntimo de nossa alma, sigamos ou não as leis de Deus, não confiamos
na boa vontade dele para conosco.
Com base nesse entendimento, Ferguson faz então uma declaração notável.
A mentira da serpente — segundo a qual não podemos confiar na bondade de
Deus ou em seu compromisso com nossa felicidade — é a raiz única tanto do
legalismo quanto do antinomianismo. Na verdade, trata-se de “gêmeos não
idênticos que emergem do mesmo ventre”.10 O legalismo provém da crença de
que temos de arrancar a bênção das mãos relutantes e resistentes de Deus com
todo tipo de observância e de rituais. “A essência do legalismo está enraizada
[…] em uma visão distorcida de Deus […] Deus se torna um policial
amplificado que dá sua lei porque deseja nos privar da alegria e destruí-la.”11 O
antinomianismo também enxerga Deus como mesquinho, sem generosidade e
severo, um Deus cujos mandamentos não podem ser dispensados em nosso
benefício. Em ambos os casos, a lei de Deus não é entendida como expressão de
seu amor gracioso por nós, mas como fardo, uma ferramenta necessária para
aplacar uma divindade que não conhece o amor. Ambas as mentalidades
partilham da mesma incompreensão da alegria que vem da obediência, a qual é
vista como algo que nos foi imposto por um Deus cujo amor é condicional e que
não está disposto a abençoar. A única diferença entre os dois é que o legalista
toma o fardo sobre si de modo extenuante, enquanto o antinomista o recusa e o
lança fora. Contudo, ambos veem Deus sob a mesma ótica. Podemos, portanto,
concluir que

o legalismo é, em sua essência, a manifestação de uma disposição restringida do coração em relação a
Deus que o vê por uma lente […] que obscurece […] [seu] santo amor. É uma doença fatal […] Essa
mesma visão de Deus […] está na essência do antinomianismo.12

É nesse ponto que a questão afeta sua pregação. Se você acha que o
legalismo é simplesmente uma ênfase exagerada na lei, pensará que o antídoto
consiste em falar menos sobre obediência e mais sobre aceitação e perdão. Se
você acha que o antinomianismo é simplesmente uma atitude frouxa demais em
relação à moralidade e à lei, então presumirá que o remédio consiste em falar
menos de misericórdia e de aceitação e mais da justiça de Deus e de seus santos
mandamentos. Em suma, você tentará curar um com uma dose do outro. O
resultado será um desastre, porque ambos têm a mesma causa básica. Os dois
decorrem da crença de que Deus não nos ama verdadeiramente ou não deseja
nossa alegria, e da nossa incapacidade de ver que “tanto a lei quanto o evangelho
são expressões da graça de Deus”.13 Tanto para o legalista quanto para o
antinomianista, a obediência à lei é simplesmente uma forma de obter as coisas
de Deus, e não uma forma de ter acesso e assemelhar-se a ele, de conhecê-lo, de
se deleitar nele e de amá-lo pelo que ele é.
Como não compreende a graça de Deus, o legalismo distorce a lei
desviando-a de sua função apropriada de guia de nossa vida, um meio de nos
tornarmos quem somos de fato e de agradar a Deus. Em vez disso, ele a
transforma em um sistema penoso de salvação pelo qual obrigamos Deus a nos
abençoar. A única coisa que porá fim ao legalismo não será apenas o princípio
abstrato de que “somos aceitos e perdoados”, mas um novo entendimento da
bondade de Deus e do alto preço de seu amor em Jesus Cristo.
Como o antinomianismo também não compreende a graça amorosa de
Deus, ele vê a lei como obstáculo à liberdade e ao crescimento pessoal, e não
como meio magnífico pelo qual Deus nos faz crescer em ambas as coisas. É um
erro, portanto, simplesmente bater no antinomianismo com declarações a
respeito da justiça e da santidade inflexíveis de Deus. Nosso coração usará isso
apenas para alimentar a mentira da serpente acerca da severidade do caráter
divino. Em vez disso, o amor dispendioso de Deus em Jesus Cristo — que
cumpriu a justa lei de Deus em sua vida e morte — deve ser elevado e
compreendido para que possa combater as inverdades tóxicas em nossa alma.
Ferguson conclui que tanto o legalismo quanto o antinomianismo exigem,
basicamente, o mesmo tratamento: uma nova visão da beleza de Deus e de sua
graça gloriosa, livre e dispendiosa. Tanto o legalismo quanto o antinomianismo
são curados unicamente pelo evangelho.
O evangelho opera para nos livrar dessa mentira [da serpente], porque ele revela que por trás e
manifesto na vinda de Cristo, e em sua morte por nós, há o amor de um Pai que nos concede tudo o
que ele tem: primeiramente, seu Filho para morrer por nós, e depois seu Espírito para viver em nós
[…] Existe apenas uma cura genuína para o legalismo. É o mesmo remédio que o evangelho prescreve
para o antinomianismo: entender e provar a união com Jesus Cristo. Isso conduz a um novo amor e
obediência à lei de Deus.14

Compreender o parentesco desses “gêmeos” não poderia ter maiores
implicações práticas para a pregação. Se você acha que o verdadeiro problema
do mundo é o legalismo, provavelmente tem um pé no antinomianismo; e se
você acha que o verdadeiro problema das pessoas é o antinomianismo,
provavelmente tem um pé no legalismo.
DUAS RAZÕES PELAS QUAIS DEVEMOS PREGAR CRISTO
SEMPRE
Para pregar o evangelho de modo penetrante, portanto, não se deve falar apenas
de um conceito abstrato de perdão e de aceitação. É preciso mostrar Jesus aos
ouvintes e tudo o que ele veio fazer por nós. Pregar sempre o evangelho é pregar
Cristo sempre, em todas as passagens.
Somente se pregarmos sempre Cristo poderemos mostrar de que maneira a
Bíblia toda faz sentido.
Quando Jesus se encontrou com os dois discípulos no caminho de Emaús,
ele descobriu que eles estavam desesperados porque seu Messias havia sido
crucificado. Ele disse: “Ó tolos, que demorais a crer no coração em tudo que os
profetas disseram! […] E, começando por Moisés e todos os profetas, explicou-
lhes o que constava a seu respeito em todas as Escrituras” (Lc 24.25-27). Mais
tarde, ele apareceu aos apóstolos e aos demais discípulos no cenáculo e explicou
a mesma coisa a eles, isto é, que ele era a chave para que se compreendesse a
“Lei de Moisés”, os “Profetas” e os “Salmos” (Lc 24.44). Jesus atribuiu a
confusão dos discípulos à sua incapacidade de ver que o Antigo Testamento é
todo sobre ele e sobre sua salvação.
Os autores apostólicos sobressaem por serem “cristocêntricos” ao
interpretarem as Escrituras hebraicas. Eles citam com frequência salmos como
palavras de Cristo — e não apenas salmos “messiânicos” ou “régios”, em que a
pessoa que fala é claramente uma figura messiânica. Por exemplo, Hebreus
10.5,6 cita Salmos 40.6-8 como algo dito por Cristo quando “[entrou] no
mundo”.

Tu não quiseste sacrifício nem oferta; abriste-me os ouvidos; não exigiste holocausto nem oferta de
expiação pelo pecado. Então eu disse: Aqui estou, no rolo do livro está escrito a meu respeito. Gosto
de fazer a tua vontade, ó meu Deus…

Contudo, ao olharmos para o salmo 40, nada do que vemos indica de forma
alguma que a pessoa que fala é Jesus ou alguma figura messiânica. Por que então
o autor de Hebreus considera que esse salmo fala sobre Jesus? Ele o faz porque
sabe que Jesus disse a seus discípulos em Lucas 24 que toda a Escritura é
realmente a seu respeito. A Bíblia é, no fim das contas, uma única e grande
história que chega ao clímax em Jesus Cristo.
Deus criou o mundo e nos criou para servi-lo e para desfrutar dele e do
mundo por ele criado. Contudo, os seres humanos não quiseram servi-lo;
pecaram e arruinaram a si mesmos e a criação. Todavia, Deus prometeu não
abandoná-los (embora tivesse todo o direito de fazê-lo), mas resgatá-los, apesar
da culpa e da condenação sob as quais se achavam e apesar do seu coração e do
seu caráter inveteradamente corrompidos. Para isso, primeiramente Deus
separou uma família do mundo para que o conhecesse e o servisse. Então, trouxe
crescimento a essa família, tornando-a uma nação; celebrou com ela um
relacionamento de aliança pessoal e de fidelidade; deu-lhe sua lei para guiá-la na
vida, prometeu abençoá-la se obedecesse a essa lei, e lhe deu ainda um sistema
de ofertas e de sacrifícios para lidar com seus pecados e falhas. Contudo, a
natureza humana é de tal modo desordenada e pecaminosa que, apesar de todos
os privilégios e séculos de paciência divina, até mesmo seu povo da aliança —
que havia recebido a Lei, as promessas e os sacrifícios — se desviou dele.
Parecia não haver esperança para a raça humana. No entanto, Deus se tornou
carne e entrou no mundo do tempo, do espaço e da história. Ele viveu uma vida
perfeita, mas então foi para cruz morrer. Quando foi ressuscitado dos mortos, foi
revelado que ele havia vindo para cumprir a Lei com sua vida perfeita, para
oferecer o sacrifício final, tomando sobre si a maldição que merecíamos e
assegurando desse modo as bênçãos prometidas a nós por sua graça gratuita.
Agora, os que creem nele estão unidos a Deus apesar do pecado, e isso muda o
povo de Deus de um simples estado-nação para uma nova comunhão multiétnica
internacional de crentes de todas as nações e culturas. Agora servimos a ele e a
nosso próximo enquanto aguardamos, em esperança, que Jesus retorne e renove
toda a criação, abolindo a morte e todo sofrimento.
O que é tudo isso? Uma história, um enredo narrativo unificado cujo
desfecho e clímax se dá em Jesus. Os discípulos conheciam a história de cada
profeta, cada sacerdote, cada rei, cada libertador de Gideão a Davi. Eles sabiam
do Templo e dos sacrifícios. Contudo, ao mesmo tempo que conheciam todas as
histórias secundárias, não conseguiam — até que Jesus lhes mostrasse — ver a
história acerca do profeta, do sacerdote, do rei e do libertador por excelência, do
Templo e do sacrifício finais. Não conseguiam ver em torno do que girava a
Bíblia.
Tente ler um capítulo apenas de um romance de Charles Dickens ou de
Victor Hugo sem ter lido nada antes e nada depois desse capítulo. Será que você
conseguiria entender e apreciar o que leu? Certamente você tomaria
conhecimento dos personagens, e é possível que alguma ação narrativa
relativamente completa ou uma subtrama ocorressem na parte do livro que você
leu. Contudo, muita coisa ficaria sem explicação porque você não saberia o que
veio antes, e muitas coisas que o autor estava desenvolvendo no capítulo
ficariam invisíveis se você não soubesse de que maneira a história se desenrolou.
É assim que acontece quando se lê e se prega um texto da Bíblia e não se mostra
de que modo ele aponta para Cristo. Se você não percebe de que maneira os
capítulos se encaixam na história toda, não entende o capítulo.
Portanto, pregar Cristo sempre é uma maneira de mostrar às pessoas de que
maneira a Bíblia toda faz sentido. Conforme já vimos, porém, o pregador tem
duas responsabilidades. Ele está compromissado não apenas com a verdade da
Bíblia, mas também com as necessidades espirituais dos ouvintes. E, de fato,
pregar Cristo sempre é também a única maneira de ajudar verdadeiramente as
pessoas a mudar de dentro para fora.
Qualquer sermão que diz a seus ouvintes somente como devem viver, sem
colocar esse padrão no contexto do evangelho, dá a eles a impressão de que
podem ser completos o suficiente para viver uma vida equilibrada se realmente
se esforçarem para isso. Ed Clowney ressalta que, se sempre contamos uma
história específica da Bíblia sem colocá-la na história da Bíblia (sobre Cristo),
na verdade, mudamos seu significado para nós. Ela se transforma numa
orientação moralista para que “nos esforcemos mais”, em vez de ser um
chamado a viver pela fé na obra de Cristo. Há, no fim das contas, duas maneiras
de ler a Bíblia: “Ela trata basicamente de mim ou basicamente de Jesus?”. Em
outras palavras, ela se refere basicamente ao que eu devo fazer ou ao que ele
fez?
Se em algum nível eu creio que através do esforço moral — vivendo uma
vida de castidade, submetendo minha vontade à dele, ajudando o pobre, levando
outros à fé — poderei assegurar o favor divino para minhas orações ou alcançar
sua bênção, disso segue que minha motivação para fazer todas essas coisas é
uma espécie de mistura de temor com orgulho. O temor é o desejo de evitar o
castigo e obter algum tipo de defesa ou posição vantajosa em relação a Deus e
aos outros. O orgulho é a sensação de que, sendo eu tão decente e completo,
“não sou como os outros homens” (Lc 18.11), sou melhor do que eles. Em
última análise, todo o bem que faço, faço para mim mesmo. O serviço que presto
a Deus e a meu próximo é uma forma de usar Deus e meu próximo para
construir minha autoimagem, garantir o respeito e a admiração de outros e obter
uma situação vantajosa em relação a Deus, de modo que ele me deva alguma
coisa. Irônica e tragicamente, toda a minha bondade é para mim mesmo,
portanto nutro um egocentrismo pecaminoso, a idolatria máxima, precisamente
em meio aos meus esforços para viver uma vida moral e boa.
Essa forma moralista de viver é como estar na ponta de um ioiô. Se percebo
que estou atingindo meus objetivos e satisfazendo meus padrões, eu me
transformo em alguém que se autojustifica, merecedor de privilégios, menos
paciente e gracioso com os outros. Se estiver falhando de algum modo, mergulho
na autodepreciação, porque minha identidade baseia-se na imagem que tenho de
mim como uma pessoa melhor do que as outras. A propósito, a existência desse
ioiô moralista é transcultural. As pessoas nas culturas tradicionais obtêm sua
identidade e valor próprio ao atender, na vida, às expectativas de seus familiares
e ao fazer com que sua família se orgulhe delas. As pessoas nas sociedades
individualistas do Ocidente obtêm sua identidade e valor próprio através da
autoexpressão, da identificação e da realização de seus sonhos e desejos. Por
mais radicalmente distintas que pareçam ser essas duas mentalidades culturais,
ambas são estratégias de salvação pessoal. O evangelho põe ambas em xeque.
E se você estiver pregando o texto em que José resiste à tentação da esposa
de Potifar, ou aquele em que Josias está lendo perante a nação reunida a Lei
esquecida de Deus, ou o texto em que Davi bravamente enfrenta Golias; e aí
você extrai a lição para a vida — fugir da tentação, amar a Escritura e confiar em
Deus no perigo —, mas encerra o sermão aí? Nesse caso, você estará
simplesmente reforçando o modelo pessoal de salvação do coração humano. Seu
sermão será compreendido como um encorajamento aos ouvintes para que
obtenham a bênção de Deus através do viver correto. Se todas as vezes você não
associar o texto, de modo enfático e claro, com a salvação em Cristo e se não
mostrar como ele nos salvou resistindo à tentação, cumprindo perfeitamente a
Lei, tomando sobre si os gigantes finais do pecado e da morte — tudo por nós,
como nosso substituto —, você estará apenas confirmando moralistas em seu
moralismo.
Somente quando enfatizarmos o evangelho, que somos pecadores amados
em Cristo — tão amados que não temos de nos desesperar quando erramos, tão
pecadores que não temos direito algum de nos sentirmos orgulhosos quando
fazemos algo certo —, poderemos ajudar nossos ouvintes a escapar de um
mundo moralista espiritualmente bipolar. Indivíduos seculares, mesmo que se
inclinem contrariamente ao moralismo, precisarão ouvir, por dois motivos, nossa
crítica a ele quando pregarmos. Um deles é que nem sequer considerarão
verdadeiro o cristianismo, a menos que vejam que ele não é idêntico ao
moralismo. Em segundo lugar, qualquer um que esteja começando a se sentir
atraído por Deus se moverá automaticamente na direção dele esperando ter uma
relação moralista. George Whitefield, evangelista do século 18, pregou essa
advertência em um de seus sermões. Talvez ficássemos mais à vontade com um
linguajar menos teológico e arcaico, mas não podemos deixar de transmitir esse
entendimento básico das coisas.
Quando uma pobre alma de algum modo desperta […] a pobre criatura, então, tendo nascido sob uma
aliança de obras, se lança diretamente a uma aliança de obras novamente. E assim como Adão e Eva se
esconderam entre as árvores do jardim e teceram folhas de figueira para cobrir sua nudez, assim
também o pobre pecador, quando desperto, se lança em direção às suas obrigações e proezas para se
esconder de Deus e, com remendos, tecer uma justiça pessoal. Diz ele: “Serei extremamente bom
agora — vou me reformar —; farei tudo o que puder, e certamente Jesus Cristo terá misericórdia de
mim”. Contudo […] as obrigações nas quais mais nos distinguimos são como os pecados mais
esplêndidos […] É preciso que haja uma convicção profunda antes que sejamos arrancados da nossa
justiça pessoal. É o último ídolo a ser arrancado do coração […] Você pode dizer “Senhor, és justo
quando me condenas pelas obrigações que cumpri da melhor maneira possível?” […] Se você não for
assim arrancado do seu ego, poderá falar de paz consigo mesmo, mas não haverá paz alguma […] Você
precisa lançar mão, pela fé, da justiça todo-suficiente de Jesus Cristo, e, então, terá paz.15

A única maneira de evitar o que Whitefield está descrevendo — uma pessoa
que está buscando um relacionamento espiritual com Deus, mas que acaba
caindo na armadilha universal da religião moralista — é pregar Cristo em todos
os textos da Bíblia, pregar o evangelho sempre.
DOIS PERIGOS A EVITAR
1. Pregar um texto, ainda que seja sobre Jesus, sem realmente pregar o
evangelho
Se você deparar com um ensaio sobre “pregar Jesus em todas as partes da
Bíblia”, você esperará que ele explique como ver Cristo no Antigo Testamento.
Mas é possível pregar o Novo Testamento — até mesmo passagens dos
Evangelhos sobre Jesus — sem pregar o evangelho.
Faz alguns anos, li dois sermões sobre Marcos 5, de dois pregadores
diferentes, que falavam do possesso que havia sido curado por Jesus. É claro que
os dois sermões eram sobre Jesus, porque o texto se refere a um episódio da vida
dele. O primeiro sermão era brilhante sob muitos aspectos. Falava de Jesus como
Cristo, o libertador. O homem torturado está nu. Ele está amarrado a correntes,
isolado de qualquer comunidade humana, gritando de agonia. Cristo pega esse
homem acorrentado e o liberta. Pega aquele homem isolado e o torna apto
novamente ao convívio humano. Jesus cessa seus gritos de desespero e o enche
de tranquilidade. O homem fica são. A mensagem do sermão era, basicamente, a
de que, quando você se aproxima de Jesus, ele pode entrar em sua vida e
endireitá-la, qualquer que seja seu problema. Jesus pode curá-lo seja qual for a
sua enfermidade. Se você tem baixa autoestima, ele lhe mostrará o quanto o ama.
Se tem vícios, ele o libertará da escravidão. Tudo isso está absolutamente certo
(contanto que você não crie falsas expectativas de santificação instantânea e
fácil). E eu jamais iria querer pregar sobre esse texto sem falar de Cristo como
libertador.
Pouco tempo depois, porém, li o segundo sermão. O pregador, perto do
final, faz uma pergunta importante. Antes, ele havia dito: a nudez, as cadeias, o
isolamento, a fúria e os gritos desse homem são um retrato de todos nós. Somos
todos pecadores, e a Bíblia diz que estamos todos espiritualmente escravizados
ao pecado, aos ídolos e ao “príncipe do poderio do ar” (Ef 2.2). Temos de ser
transferidos do reino das trevas para o reino da luz. Estamos todos nessa
situação. O caso daquele homem é apenas mais pungente e óbvio. Essa é a
condição dele e a nossa: somos pecadores. Jesus então o liberta. Ele então faz a
pergunta: “Por que Jesus o perdoa e o restaura?”.
O pregador disse que a razão por que ele podia perdoar a esse homem e
perdoar-nos fica clara no fim da vida de Jesus. Ali vemos Jesus desnudado,
prisioneiro, isolado e crucificado fora do portão, gritando: “Deus meu, Deus
meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46). Essa é a resposta. Jesus foi capaz
de curar o possesso, embora este fosse pecador, porque, no final, trocou de lugar
com ele. Jesus é nosso substituto. Ele podia entrar na vida desse homem e curá-
lo porque morreu em seu lugar e pagou a penalidade devida suportando ele
mesmo todas aquelas coisas. Ele foi desnudado para que pudéssemos nos vestir.
Foi lançado ao desespero e à agonia mais profunda, de modo que pudéssemos
conhecer o amor e o perdão de Deus e ter paz interior.
O contraste entre os dois sermões era notável. Ambos eram sobre Jesus,
mas só um deles expunha o evangelho com clareza. O primeiro sermão poderia
dar a impressão de que a salvação consistia em curar as feridas e que a forma de
obter essa cura consistia simplesmente em pedir a Jesus que viesse e suprisse
nossas necessidades. As questões referentes ao pecado e à graça não foram
explicitadas claramente. Não houve necessidade da cruz. O evangelho não ficou
muito claro. No segundo sermão, sim. A miséria do endemoninhado foi usada
para descrever de modo vívido o sofrimento e a agonia que recaíram sobre Jesus
na cruz. Um ensinamento central do evangelho de Marcos é que Jesus é nosso
substituto. Ele deu sua vida como resgate em nosso lugar (Mc 10.45).16 O
sermão interpretou aquele episódio específico à luz do grande tema do
evangelho no livro todo.
Depois disso, não fica difícil fazer a aplicação prática para os ouvintes.
Somente o reconhecimento de sua morte sacrificial pode romper o poder do
pecado em nossa vida. É isso o que revela para nós o erro dos nossos esforços de
salvação pessoal, e é o que os torna desnecessários. Quando paramos de tentar
salvar a nós mesmos, as coisas que nos impulsionam e nos escravizam já não
têm mais efeito. Satanás perde seu poder sobre nós.
É possível pregar o Novo Testamento e não pregar realmente Cristo e sua
obra salvífica. Achamos que nosso problema consiste em saber como tirar Jesus
de um salmo em especial ou de 2Reis. Não, o problema é maior do que esse.
Pregar Cristo significa pregar o evangelho. Pregar o evangelho significa pregar
Cristo, sua obra de salvação e sua graça, e podemos ser malsucedidos nisso em
qualquer parte da Bíblia.

2. Pregar Cristo sem realmente pregar o texto
Há outro erro que costumamos cometer. É possível “chegar a Cristo” tão
rapidamente ao pregar um texto que ficamos insensíveis às particularidades da
mensagem do texto. Saltamos as realidades históricas e chegamos a Jesus como
se as Escrituras do Antigo Testamento tivessem pouca importância para seus
leitores originais. Ferguson diz que esse erro “poderá resultar em uma pregação
insípida e insensível aos ricos contornos da teologia bíblica”.17
O resultado será o seguinte: como não gastamos tempo no texto, o modo
como Jesus é descrito parecerá o mesmo toda semana. Ele não será
verdadeiramente a resolução ou o clímax do tema teológico específico e a
resposta ao problema prático em questão. Contudo, se mergulharmos
profundamente no contexto histórico original, veremos que há tantas maneiras
diferentes de pregar Cristo quanto há temas e gêneros e mensagens na Bíblia.
Há muitas passagens nos profetas, por exemplo, em que Deus fala sobre
como enviará um rei que fará justiça completa e imparcial. Em Isaías 11.3, lemos
que esse rei “não julgará pela aparência, nem decidirá pelo que ouvir dizer”. Ele
reparará os erros e fará justiça ao oprimido e ao fraco. Em Isaías 11.1-16, lemos
sobre o “renovo” justo (Jr 23.5) que fará tudo isso, e essa pessoa costuma ser
identificada como o Messias. Os leitores originais de Isaías provavelmente
compreenderam que ele se referia a um futuro rei grandioso. Aqueles que
pregam sobre esse capítulo têm a tendência de começar rapidamente a mostrar
todas as formas pelas quais as descrições de Isaías 11 se aplicam a Jesus e à
salvação. Contudo, os ouvintes originais teriam ouvido primeiramente a sonora
afirmação da importância da justiça social, de não oprimir o pobre e de viver de
forma generosa. Ao apressar o futuro, ficando pouco no tempo do autor (e de
seus ouvintes), o pregador poderá perder boa parte do significado da passagem.
Portanto, há um equilíbrio a ser preservado: não pregar Cristo sem pregar o
texto e não pregar o texto sem pregar Cristo. Charles Spurgeon conta a história
de um ministro galês que conversava com um ministro mais jovem a respeito do
sermão que este acabara de pregar.
— Foi um sermão muito pobre — disse ele ao jovem.
— Por que o senhor acha isso?
Ele respondeu:
— Porque — disse o ministro galês — não havia nada de Cristo nele.
— Bem — disse o jovem —, Cristo não estava no texto; não devemos
pregar Cristo o tempo todo; devemos pregar o que está no texto.
A conversa prosseguiu:
— Você não sabe, jovem, que em cada cidade, aldeia e pequena vila da
Inglaterra, seja onde for, há uma estrada que leva a Londres?
— Sim — disse o jovem.
— Ah! — disse o velho pregador. — Do mesmo modo, de cada texto da
Escritura, sai uma estrada para a metrópole da Escritura, que é Cristo. Portanto,
meu querido irmão, o que lhe cabe dizer ao tratar de um texto é o seguinte:
“Qual é a estrada que leva a Cristo?”. E aí pregue seu sermão percorrendo a
estrada em direção à grande metrópole: Cristo. E — disse ele — até hoje nunca
encontrei um texto que não tivesse uma estrada até Cristo e, se algum dia
encontrar uma em que Cristo não esteja presente, farei eu mesmo a estrada. Por
mais acidentada que ela seja, ainda assim farei com chegue ao meu Mestre, pois
um sermão não produzirá bem algum a não ser que haja nele um sabor de
Cristo.18
Essa ilustração é muito útil. Vamos trabalhá-la um pouco mais e aplicá-la à
nossa pregação:

Saiba qual é o ponto principal do autor e se demore um pouco nele.
Em primeiro lugar (para ampliar nossa metáfora), temos de identificar onde fica
a “rua do comércio” ou a “rua principal” da cidade. Isso significa que
devemos identificar a ideia principal e a mensagem do texto para os ouvintes
originais, os “residentes da cidade”. Alguns textos têm um ponto simples, único,
ao passo que outros são um pouco mais complexos, assim como algumas cidades
têm uma rua principal ampla, enquanto outras apresentam algumas poucas
artérias principais que se entrelaçam à medida que avançam pela cidade.
Conheça-as; percorra-as; não saia logo da cidade. Mergulhe profundamente no
texto e certifique-se de que compreendeu o significado que o autor quis
transmitir a seus ouvintes. Dessa forma você pode certificar-se de ser fiel ao que
Deus está dizendo. Se houver tempo, dê uma espiada também nas ruas laterais.
Muitas vezes, há lojas interessantes ali. Contudo, jamais se afaste muito da rua
principal, porque pode não dar tempo de você voltar à estrada principal.
Em segundo lugar, como Spurgeon propõe, há um modo pelo qual toda rua
principal se conecta a uma estrada que sai da cidade em direção a Londres.
Descubra de que modo a estrada principal se conecta à estrada para Londres.
Nem todas as estradas que levam para fora da cidade conduzem realmente a
Londres, é claro. Se você pegar a estrada errada, poderá ter de cortar caminho
pelas terras ou pelos campos de alguém até chegar a Londres. Isso dá trabalho e
talvez seja até ilegal! Da mesma maneira, não pense que qualquer coisa no texto
que lembre vagamente Jesus seja um meio de chegar a ele. Se o texto do Antigo
Testamento for sobre o Templo, você poderá pregar Cristo como o Último
Templo (João 2). É dessa maneira que a rua principal desse texto se liga a Jesus.
Contudo, você não pode simplesmente jogar ali qualquer coisa que pensar.
Talvez a corda escarlate que Raabe pendurou do lado de fora de sua janela (Jz
2.18) o leve a lembrar o sangue de Cristo, mas isso não significa que seja isso o
que ela representa. Partindo do ponto principal de cada texto, há algum caminho
para pregar Cristo com integridade. Siga na direção dessa estrada e caminhe por
ela antes de concluir seu sermão.
NOTAS
1Este capítulo deve ser lido juntamente com “The essence of gospel renewal” e “The work of gospel
renewal”, in: Timothy Keller, Center church: doing balanced, gospel-centered ministry in your city (Grand
Rapids: Zondervan, 2012), p. 63-84 [edição em português: Igreja centrada: desenvolvendo em sua cidade
um ministério equilibrado e centrado no evangelho (São Paulo: Vida Nova, 2014)].
2John Colquhoun, A treatise on the law and gospel, edição de D. Kistler (Edinburgh, 1859; Soli Deo
Gloria, 1999), p. 143-4.
3Obras importantes sobre esse tema: Peter Adam, “Part 1: Three biblical foundations of preaching”, in:
Speaking God’s Words: a practical theology of preaching (Vancouver: Regent College Publishing, 2004); E.
Clowney, Preaching and biblical theology (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed, 1973); E. Clowney,
“Preaching Christ from all the Scripture”, in: S. Logan, org., The preacher and preaching: reviving the art
in the twentieth century (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed, 1986); Graeme Goldsworthy, Preaching
the whole Bible as Christian Scripture (Grand Rapids: Eerdmans, 2000) [edição em português: Pregando
toda a Bíblia como escritura cristã (São José dos Campos: Fiel, 2013)]; David Murray, Jesus on every
page: 10 simple ways to seek and find Christ in the Old Testament (Nashville: Thomas Nelson, 2013);
Sidney Greidanus, Preaching Christ from the Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1999) [edição em
português: Pregando Cristo a partir do Antigo Testamento (São Paulo: Cultura Cristã, 2006)]; Gary Millar;
Phil Campbell, “Why preaching the gospel is so hard (especially from the Old Testament)”, in: Saving
Eutychus: how to preach God’s Word and keep people awake (Sydney: Matthias Media, 2013); Bryan
Chapell, Christ-centered preaching: redeeming the expository sermon (Grand Rapids: Baker Academic,
1994) [edição em português: Pregação cristocêntrica: restaurando o sermão expositivo (São Paulo: Cultura
Cristã, 2002)]; Sinclair Ferguson, Preaching Christ from the Old Testament: developing a Christ-centered
instinct (London: Proclamation Trust Media, 2000), disponível em:
http://www.proctrust.org.uk/proclaimer/author/sinclair-ferguson/; acesso em: dez. 2016; e Iain M. Duguid,
Is Jesus in the Old Testament? (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed, 2013). Eu proporia que iniciantes
lessem primeiramente o artigo de Duguid; Ferguson; Clowney em The preacher and preaching.
4Sinclair Ferguson, The whole Christ: legalism, antinomianism, and gospel assurance (Wheaton:
Crossway, 2016), p. 81 do manuscrito.
5William Perkins, The art of prophesying with the calling of the ministry (primeira edição em inglês,
1606; reimpr., Edinburgh: Banner of Truth, 1996), p. 54: “O princípio básico da aplicação consiste em saber
se a passagem é uma afirmação da lei ou do evangelho […] A lei expõe a doença do pecado […] mas não
provê o remédio para ela. Contudo, o evangelho não apenas nos ensina o que se deve fazer; ele também tem
o poder do Espírito Santo que lhe é acrescentado”. Para uma perspectiva luterana, veja C. F. W. Walther,
Law and gospel: how to read and apply the Bible (St. Louis: Concordia Publishing, 2010).
6Ibidem, p. 55.
7Ferguson, Whole Christ, p. 42.
8Ibidem, p. 47.
9Ibidem, p. 51-2.
10Ibidem, p. 52.
11Ibidem, p. 51.
12Ibidem, p. 52.
13Ibidem, p. 55.
14Ibidem, p. 43 e 101.
15George Whitefeld, “The method of grace”, disponível em:
www.biblebb.com/files/whitefeld/gw058.htm, acesso em: jan. 2017.
16A palavra-chave em grego é anti. Jesus morreu como resgate anti (“em vez de”) muitos.
17Ferguson, “Preaching Christ from the Old Testament”.
18Ibidem.
3

PREGANDO CRISTO EM TODA A ESCRITURA

Quando ergueram os olhos, não viram nenhum homem, exceto Jesus [Mt
17.8, KJ].

chave para pregar o evangelho sempre é pregar Cristo sempre. E a

A chave para isso consiste em descobrir de que maneira seu texto
específico se encaixa no contexto canônico completo e participa como
capítulo do grande arco narrativo da Bíblia, que é a forma pela qual Deus nos
salva e renova o mundo pela salvação por meio da livre graça em seu Filho,
Jesus Cristo.
Para nos ajudar a discernir formas de sempre pregar Cristo, temos muitos
bons autores e livros.1 Todos eles têm sua própria lista de categorias para
discernir e pregar Jesus a partir dos textos bíblicos.2 Há também mais dimensões
e maneiras de fazê-lo do que podemos tratar neste capítulo.3 Considerando mais
os aspectos práticos do que os teóricos, seguem seis maneiras básicas de pregar
Cristo em toda a Escritura.
PREGUE CRISTO A PARTIR DE CADA GÊNERO OU SEÇÃO
DA BÍBLIA
Se você ler Look to the Rock [Olhe com confiança para a Rocha], de Alec
Motyer, ou An introduction to the Old Testament,4 de Ray Dillard e Tremper
Longman, ou ainda The unfolding mistery [O mistério que se revela], de Ed
Clowney, você terá uma boa ideia de como cada parte da Bíblia aponta para
Cristo de um modo particular. Ele é a esperança dos patriarcas. É o anjo do
Senhor.5 Em seguida, vá do livro de Êxodo até Deuteronômio. Ele é a rocha de
Moisés. É o cumpridor da Lei — tanto da lei cerimonial, porque nos torna puros
nele, quanto da lei moral, porque recebe a bênção por meio de sua vida
perfeitamente justa. Ele é o Último Templo. Vá agora para a história de Israel
depois de Moisés. Ele é o comandante dos exércitos do Senhor (Js 5). É o
verdadeiro rei de Israel. Na verdade, ele é o verdadeiro Israel. Ele cumpre tudo o
que Israel deveria fazer e ser. Olhe agora para os Salmos, os cânticos de Davi,
em que Jesus é o doce cantor de Israel (Hb 2.12). Vá então aos profetas e ali
encontrará o Rei prometido (Is 1—39), o servo sofredor (Is 40—55) e aquele que
cura o mundo (Is 56—66). Procure no livro de Provérbios e verá que ele é a
verdadeira sabedoria de Deus. Aos que estão sendo salvos, a cruz é a sabedoria
de Deus (1Co 1.22-25).
Cada gênero e parte do Antigo Testamento olha para Cristo e nos informa a
respeito de quem ele é sob algum aspecto que os outros não fazem. Ray Dillard,
por exemplo, um dos autores de An introduction in the Old Testament, disse-me
certa vez que uma das principais dúvidas constantemente suscitadas pelos livros
históricos, de Juízes a 2Crônicas, diz respeito à natureza da aliança. A aliança é:
“Eu vos tomarei por meu povo e serei vosso Deus…” (Êx 6.7). A questão que se
coloca é a seguinte: à luz do fracasso constante das pessoas de se conservarem à
altura das promessas da aliança para servir a Deus, a aliança é condicional ou
incondicional? Deus diz que será condicional? (“Porque vocês quebraram a
aliança, vou podá-los, amaldiçoá-los e abandoná-los para sempre.”). Ou diz que
será incondicional? (“Embora vocês tenham me rejeitado, nunca os abandonarei
completamente; permanecerei com vocês.”) Qual das duas? Ray disse que
qualquer leitor atento do Antigo Testamento descobrirá que, às vezes, Deus
parece estar dizendo que se trata de uma aliança condicional; ao passo que outras
vezes ele parece assegurar as pessoas de que se trata de uma aliança
incondicional. Esse mistério é uma das principais tensões que levam à ação
dramática. Uma vez que seu povo o abandonou, será que ele os abandonará?
Parece não haver uma resposta simples que não comprometa algo que
sabemos de Deus. Sua santidade dará lugar a seu amor, de tal maneira que ele
negligencie o pecado? Ou será seu amor sobrepujado por sua santidade e justiça,
de tal forma que o martelo divino anuncie a sentença? Seja como for, parece que
ele não é verdadeiramente tão amoroso ou tão santo como se revela. Percebe a
tensão da trama na história?
E aí vem Jesus e o ouvimos dizer “Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste?” (Mt 27.46); e então percebemos qual é a resposta. A aliança
entre Deus e seu povo é condicional ou incondicional? Sim e sim. Jesus veio e
cumpriu as condições para que Deus pudesse nos amar incondicionalmente.
Observamos uma tensão semelhante no livro de Isaías. A primeira parte do
livro descreve a figura de um rei que virá e endireitará todas as coisas. A última
parte, porém, fala de um servo perfeito, santo e ainda assim sofredor, que toma
sobre si o pecado do povo. De que maneira essas duas figuras podem ser o
Messias? Quando Jesus vem, compreendemos. Todas as pontas aparentemente
soltas e as declarações contraditórias do restante da Bíblia convergem para Jesus.
PREGUE CRISTO EM CADA TEMA DA BÍBLIA
A Bíblia está repleta de temas que percorrem todas ou quase todas as suas partes
e os seus gêneros. Se você encontrar alguns dos seguintes temas que perpassam
todo o cânon, e que passam também pelo seu texto específico, poderá
simplesmente “puxar o fio”, olhando para trás, a fim de ver onde ele começou, e
para a frente, de modo a ver seu cumprimento em Cristo agora e no dia final.
Reino. Fomos feitos para obedecer e servir ao nosso verdadeiro Rei. O
pecado é rebelião contra ele, porém Romanos 1 nos diz que todos vamos adorar
e servir a alguma coisa; portanto, seremos escravizados pelas coisas criadas até
que quebremos seu poder sobre nós. Que rei é poderoso o suficiente para nos
libertar do cativeiro e da escravidão? Somente aquele que é Deus e que voltará à
terra. Jesus é o verdadeiro Rei, e sua morte e ressurreição quebraram o poder do
pecado e da morte sobre nós. Portanto, servi-lo é perfeita liberdade.
Aliança. Fomos feitos para nos relacionarmos com Deus. Fomos criados
para relacionamentos de aliança, que são os mais íntimos relacionamentos
porque são os mais vinculativos. Fomos criados para ser seu povo e para tê-lo
como nosso Deus. Se mantivermos a aliança, haverá a bênção do amor, da
unidade e da paz. Se quebrarmos a aliança, haverá a maldição da separação, da
solidão. Como Deus pode ser santo e ainda permanecer fiel ao seu povo?
Somente por meio da morte de Jesus na cruz — onde tanto o amor quanto a lei
se cumprem, onde o Senhor se tornou o servo perfeito e cumpriu de forma
perfeita e plena a aliança em nosso favor.
Lar e exílio. O mundo foi feito para ser nosso lar, o Éden, lugar de shalom e
de realização. Mas por causa do nosso pecado estamos exilados. O mundo em
que vivemos não nos satisfaz mais. Quem pode nos levar para casa, nos dar paz
e realização? Somente Cristo, que foi exilado por nós, enviado à terra vindo do
céu, enviado para fora do portão, abandonado por todos, para morrer na cruz.
Contudo, em consequência de tudo o que fez, o mundo se tornará nossa casa
novamente, novos céus e nova terra onde habita a justiça (Ap 21 e 22).
Presença de Deus e adoração. Como podem os pecadores separados de
Deus se colocarem em sua presença vivificadora e experimentar alegria? Fomos
feitos para ter comunhão com ele, para viver em sua presença; todavia, ele é
santo. Como podem pecadores falhos se aproximarem de Deus? A espada
flamejante que guarda o caminho para a presença de Deus desceu sobre Jesus, e
agora o caminho está aberto (Gn 3.24; Hb 10.19-22).
Descanso e Sabbath. Estamos inquietos e exaustos porque estamos fazendo
a “obra sob nossa obra”, a obra estafante de tentar obter uma identidade por
meio de nosso desempenho e nossa realização. Mas em Jesus descansamos dessa
obra e conhecemos a aceitação incondicional de Deus, porque Jesus
experimentou o vazio cósmico do abandono de Deus.
Justiça e juízo. Precisamos de justiça no mundo, mas isso nos coloca diante
de um problema significativo. Se não há juiz, que esperança haverá para o
mundo? Contudo, se há um juiz, que esperança há para nós? “SENHOR, se
atentares para o pecado, quem resistirá, Senhor?” (Sl 130.3). Contudo, eis aqui a
maravilha: Jesus Cristo é o juiz de todos na terra, que veio pela primeira vez não
com uma espada em suas mãos, mas com pregos que as atravessaram, não para
trazer juízo, mas para suportar o julgamento em nosso lugar. Jesus Cristo é o juiz
que foi julgado, de modo que todos aqueles que creem nele podem enfrentar o
juízo futuro com confiança. Naquele dia, porque fomos perdoados, ele poderá
pôr fim a todo mal sem pôr fim a nós.
Justiça e nudez. Houve época em que nada tínhamos a esconder dos olhos
de Deus ou de quem quer que fosse. Quando perdemos nossa justiça original,
tivemos de nos cobrir e de nos esconder dos olhos dos outros (Gn 2.24—3.24).
Agora, nossa vergonha e culpa precisam ser cobertas com a graça de Deus.
Porque Jesus foi pendurado nu na cruz, podemos nos vestir com um manto de
justiça (Is 61.10).
PREGUE CRISTO EM CADA GRANDE PERSONAGEM
BÍBLICO
Todos os principais personagens e líderes das Escrituras nos apontam para
Cristo, o líder máximo que chama e forma um povo para Deus. Todos os líderes
ungidos da Bíblia — todo profeta, sacerdote, rei e juiz que traz “salvação”,
libertação ou redenção de qualquer tipo ou nível — apontam para Cristo, na
força que têm e mesmo em suas falhas. Até suas fraquezas mostram que Deus
opera pela graça e usa o que para o mundo é secundário e fraco. Os
“marginalizados” sociais e morais a quem Deus usa — tais como Raabe, Rute,
Tamar e Bate-Seba (Mt 1.1-11), especialmente os que se encontram na linha da
“semente” prometida — apontam para ele. Ele é o cumprimento da história dos
juízes, os quais mostram que Deus pode salvar não apenas por muitos (Otoniel)
ou por poucos (Gideão), mas também por um só (Sansão). Jesus é o juiz para o
qual apontam todos os juízes (pois ele realmente administra a justiça), o profeta
para o qual apontam todos os profetas (uma vez que ele nos mostra de fato a
verdade), o sacerdote para o qual apontam todos os sacerdotes (porque ele
verdadeiramente nos leva a Deus) e o Rei dos reis. João Calvino diz: “Portanto,
quando você ouvir o evangelho lhe apresentando Jesus Cristo, em quem todas as
promessas e dons de Deus foram realizados”, lembre-se disso:
Ele [Cristo] é Isaque, o amado Filho do Pai que foi oferecido em sacrifício; contudo, não sucumbiu ao
poder da morte. Ele é Jacó, o pastor atento, que tanto zelo tem pelas ovelhas que guarda. Ele é José, o
irmão bondoso e compassivo que, em sua glória, não se envergonhou em acolher os irmãos, a despeito
da condição humilhante e abjeta em que se encontravam. Ele é o grande sacrificador e bispo
Melquisedeque, que ofereceu um sacrifício eterno uma vez por todas. Ele é o soberano legislador
Moisés, que escreveu sua lei sobre as tábuas do nosso coração por seu Espírito. Ele é o capitão e guia
fiel Josué, que nos leva à Terra Prometida. Ele é o vitorioso e nobre rei Davi, que toma pela mão todo
poder rebelde e o submete a si. Ele é o magnífico e triunfante rei Salomão, que governa seu reino com
paz e prosperidade. Ele é o forte e poderoso Sansão, o qual, por sua morte, subjugou todos os seus
inimigos.6

Um levantamento mais moderno é o seguinte:

Jesus é o verdadeiro e superior Adão, que passou no teste no jardim e cuja obediência nos é imputada
(1Co 15).

Jesus é o verdadeiro e superior Abel, que, embora tenha sido morto inocentemente, tem o sangue que
agora clama por nossa absolvição, e não por nossa condenação (Hb 12.24).

Jesus é o verdadeiro e superior Abraão, que respondeu ao chamado de Deus para deixar o que lhe era
confortável e familiar e partir rumo ao desconhecido, “sem saber para onde ia” (Hb 11.8), no intuito de
criar um novo povo para Deus.

Jesus é o verdadeiro e superior Isaque, que não apenas foi oferecido por seu pai no monte, mas foi
verdadeiramente sacrificado por nós. Deus disse a Abraão: “Agora sei que me amas, porque por mim
não poupaste teu filho, teu único filho, a quem tu amas” (Gn 22.12, TA). Agora podemos dizer em
relação a Deus: “Agora sabemos que tu nos amas, porque não poupaste a nós teu filho, teu único filho,
a quem tu amas”.

Jesus é o verdadeiro e superior Jacó, que lutou com Deus e levou o golpe da justiça que merecíamos,
de tal forma que nós, assim como Jacó, recebêssemos apenas os ferimentos da graça para que nos
despertasse e disciplinasse.

Jesus é o verdadeiro e superior José, que, à mão direita do Rei, perdoa aos que o traíram e o venderam
e usa seu novo poder para salvá-los.

Jesus é o verdadeiro e superior Moisés, que ocpupa a brecha entre o povo e o Senhor e que media uma
nova aliança (Hb 3).

Jesus é a verdadeira e superiora rocha de Moisés, a qual, golpeada pelo cajado da justiça divina, agora
nos dá água no deserto.

Jesus é o verdadeiro e superior Jó — o verdadeiro e inocente sofredor — que intercede por seus
amigos insensatos e os salva (Jó 42).

Jesus é o verdadeiro e superior Davi, cuja vitória se torna a vitória

de seu povo, embora este jamais tenha erguido uma pedra para conquistá-la.

Jesus é a verdadeira e superiora Ester, que não apenas se arriscou a perder um palácio terreno, mas
abriu mão do palácio por excelência, o celestial, e não apenas arriscou a vida, mas entregou-a para
salvar seu povo.

Jesus é o verdadeiro e superior Jonas, que foi lançado na tempestade para que pudéssemos ser salvos e
trazidos a bordo.

Vamos pegar um desses exemplos e fazer um exercício: Jesus como o
“verdadeiro Jonas”. No final do capítulo 4 do Evangelho de Marcos, Jesus
acalma a tempestade e repreende os discípulos: “Ainda não tendes fé?” (Mc
4.40). Seria fácil pregar essa mensagem num tom involuntariamente moralista.
Bastaria tirar dali a lição de que precisamos desenvolver a fé e confiar em Deus
quando as coisas não estiverem bem. Isso seria simplesmente, no fim das contas,
um sermão do tipo didático: como ter fé e manter-se firme nas tempestades. O
evangelho não ficaria muito claro.
Marcos, porém, nesse capítulo, faz uma releitura do episódio de Jonas.7 Ele
usa praticamente as mesmas palavras e frases. Tanto Jesus como Jonas estão em
um barco. Os dois atravessam uma tempestade descrita em termos semelhantes.
Os dois barcos estão cheios de outras pessoas apavoradas com a morte. Ambos
os grupos, irados, despertam os profetas adormecidos e os repreendem. As duas
tempestades são milagrosamente pacificadas, e os que estavam nos barcos se
salvam. As duas histórias concluem com os homens nas embarcações mais
aterrorizados depois que a tempestade é pacificada do que antes. Cada aspecto é
o mesmo, exceto por uma aparente exceção muito significativa. Jonas é
sacrificado no bojo da tempestade, lançado nas profundezas, satisfazendo assim
a ira de Deus, de modo que outros pudessem ser salvos dela — mas Jesus não é.
Mas será que os relatos são mesmo diferentes nesse ponto? Não, não são.
Como diz Jesus em Mateus 12.41, ele é o último Jonas, que foi lançado nas
profundezas abissais — da justiça eterna — por nós. É bastante irônico o fato de
que em Marcos 4 os discípulos indagam: “Mestre, não te importas que
pereçamos?” (Mc 4.38). Eles creem que Jesus vai ignorá-los na hora de sua
maior necessidade. Na verdade, é o contrário. No jardim do Getsêmani, serão
eles que vão ignorá-lo. Eles o abandonarão de verdade. E mesmo assim ele os
ama até o fim. Entendeu? Jonas foi lançado para fora do barco por causa de seu
pecado; Jesus, porém, é lançado na tempestade suprema por causa do nosso
pecado. Jesus pôde salvar seus discípulos da tempestade porque foi lançado na
maior delas.
Observe: ao deixarmos de meramente recorrer à exortação a uma confiança
maior em Deus e nos aprofundarmos no entendimento de como o texto nos
remete à obra salvadora de Jesus, não apenas obtemos uma grande visão do
evangelho da salvação, mas também, no fim, temos uma motivação mais
poderosa para confiar em Deus que transforma nosso coração. Temos agora
também uma aplicação prática para os ouvintes, fundamentada na obra salvadora
de Jesus, e não em nossos esforços. Seria mais ou menos a seguinte: Você está
atravessando uma espécie de tempestade em sua vida? Você já orou e sentiu
como se Deus estivesse dormindo? Ele não está. Como você sabe? Porque ele
enfrentou a pior das tempestades e a suportou por você. Por essa razão você
pode saber que ele não o abandonará em suas tempestades infinitamente
menores. Por que não confiar naquele que fez isso por você?
Se você não vê a tempestade em Marcos 4 apontando para a obra concluída
de Jesus Cristo, terminará a mensagem praticamente com uma repreensão:
“Tenha fé em meio às suas tempestades! Tenha fé em Jesus! Ele não o
abandonará!”. No entanto, é preciso que você vá fundo o suficiente no evangelho
para despertar no coração a fé na obra de Cristo, para mostrar às pessoas o que
ele fez por nós. Isso instilará de fato a confiança no sermão. Caso contrário,
você estará apenas esmurrando a vontade dizendo a ela: “Seja fiel”.
PREGUE CRISTO EM CADA GRANDE IMAGEM DA BÍBLIA
Há muitas imagens ou “tipos” que apontam para Cristo e que não são figuras ou
pessoas, mas objetos e padrões impessoais. Muitos desses símbolos descrevem
vividamente a salvação pela graça que encontra realização em Cristo. A serpente
de bronze no deserto e a água da vida oriunda da rocha golpeada nos indicam
Cristo, é claro (uma vez que João e Paulo nos dizem que sim!). Além disso, todo
o sistema sacrifical e do templo aponta, na verdade, para ele. Sabemos disso
porque o livro de Hebreus nos diz que é assim. Praticamente tudo o que diz
respeito ao sistema cerimonial — das leis de purificação ao altar, os sacrifícios e
o próprio templo — revelam quem ele é e o que fez. Tanto as leis do Sabbath
quanto do Jubileu apontam para ele. Ele torna todas elas obsoletas. Jesus é o
sacrifício para o qual apontam todos os demais (Hb 10). Jesus é o pão sobre o
altar do templo (Jo 6), o velador do lugar santo (Jo 8) e o próprio templo (Jo 2),
porque ele media a presença de Deus junto de nós. Jesus cumpre todas as leis de
purificação cerimonial em relação a alimentos e de purificação ritual (At 10 e
11). Jesus cumpre a circuncisão. Ela representa o modo pelo qual ele foi cortado
de Deus. Agora estamos purificados nele (Cl 2.10,11). Jesus é o cordeiro pascal
(1Co 5.7).
Muitas outras imagens não podem, de fato, ser chamadas de símbolos,
tampouco são elas temas rigorosamente teológicos, mas ideias ou assuntos
concretos que recorrem a Jesus e têm ligações com ele. Observe o seguinte
exemplo: trabalho ou labor. No princípio, Deus criou o mundo por meio do
trabalho. Vemos em Gênesis 3 que a maldição sobre o trabalho o transforma num
esforço árduo. Quando Jesus vem, ele diz: “Meu Pai trabalha até agora, e eu
trabalho também” (cf. Jo 5.17). Somos salvos por meio do trabalho de Jesus, não
pelo nosso. Geralmente, isso não costuma ser classificado como tema
intercanônico, como reino, aliança ou exílio. Trata-se apenas de uma imagem
recorrente de labor e trabalho; no entanto, mesmo aí Cristo é o clímax da
imagem. Ele é o trabalhador por excelência, por assim dizer.
Um outro exemplo: a Árvore da Vida. A Bíblia começa e termina com a
Árvore da Vida — em Gênesis e no Apocalipse. No princípio, nós perdemos a
Árvore da Vida; perdemos o paraíso. No fim, através da obra de Jesus,
recuperamos a Árvore da Vida, que agora figura de forma destacada no meio da
cidade de Deus. Portanto, essa árvore representa a vida eterna e a vida plena, em
oposição à propensão à degradação e à morte que operam em nós. Essa árvore
aparece apenas em outro lugar na Bíblia: no livro de Provérbios. Ali, a sabedoria
em si mesma é a Árvore da Vida. O crescimento em sabedoria é entendido como
crescimento no conhecimento de Deus, no conhecimento de nós mesmos, no
caráter santificado e nas relações piedosas, o que chamaríamos de crescimento
espiritual ou “fruto” do Espírito. Portanto, Provérbios está dizendo que é
possível, num certo sentido, comer dessa árvore agora em uma experiência de
crescimento espiritual. O Novo Testamento nos mostra como. O Espírito nos une
a Cristo pela fé, e agora a “vida opera dentro de nós”, embora a morte ainda
opere em nossos corpos. Mas como tudo isso é possível? Em Gálatas 3.13 somos
lembrados de que, quando Jesus foi crucificado, ele foi amaldiçoado porque foi
“pendurado em um madeiro”. George Herbert situa isso de forma muito vívida
no poema “The sacrifice” [O sacrifício], quando descreve Jesus falando na cruz.
Diz ele: “Todos vocês que passam, observem e vejam; o homem roubou o fruto,
agora é preciso que eu suba na árvore; uma árvore de vida para todos, exceto
para mim. Houve alguma vez um sofrimento como o meu?”. O que Jesus está
dizendo? Porque Jesus tomou a Árvore da Morte, podemos ter a Árvore da Vida.
Herbert está dizendo de forma ainda mais pungente que Jesus transformou a cruz
em Árvore da Vida para nós, a um custo infinito para si.
PREGUE CRISTO EM CADA ENREDO DE LIBERTAÇÃO
Devemos atentar ao padrão da narrativa de vida-através-da-morte ou do triunfo-
através-da-fraqueza, que é, com frequência, o modo pelo qual Deus opera na
história e em nossa vida. Observe, por exemplo, como todos que têm poder e
status na história de Naamã não têm a mínima ideia a respeito da salvação, ao
passo que todos os servos e subalternos demonstram sabedoria. Esse é um
padrão importante na Bíblia, um padrão do evangelho, um evento ou um enredo
da graça. Ao pregar, você pode passar do evento de graça para a obra de Cristo.
Poucos consideraram, por exemplo, que Ester ou Rute pudessem ser um “tipo”
de Cristo. Para redimir as pessoas a quem amavam, elas tiveram de arriscar
possíveis perdas e fazer muitas coisas que espelham o modo pelo qual Cristo nos
trouxe salvação. Outro padrão importante do evento de graça é a “ordem” do
Êxodo e a concessão da lei. Deus não dá primeiramente a lei e depois liberta as
pessoas. Ele primeiramente libertou o povo e depois lhe deu a lei. Portanto, não
somos salvos pela lei, mas salvos para a lei. Ela é o modo pelo qual regulamos
nossa relação de amor com Deus, não a maneira pela qual nos tornamos
merecedores do relacionamento. Tudo isso aponta para o caminho supremo, pelo
qual não somos salvos pela lei, mas pela fé em Cristo.
Outro exemplo: a história de Davi e Golias. Qual é o significado dessa
narrativa para nós? Sem referência a Cristo, a história pode ser pregada do
seguinte modo: “Quanto maiores eles forem, tanto mais cairão, basta você
batalhar com fé no Senhor. Talvez você não seja grande e poderoso em si
mesmo, mas com Deus ao seu lado poderá derrotar gigantes”.
Se eu ler a história de Davi e Golias como algo que me possa servir de
exemplo, ela estará, na verdade, falando de mim. Cabe a mim invocar a fé e a
coragem para lutar com os gigantes da minha vida. No entanto, se penso que a
Bíblia me remete ao Senhor e à sua salvação, e se leio o texto de Davi e Golias
sob essa ótica, muitas coisas saltam à vista. O ponto principal da passagem era
que os israelitas não conseguiam enfrentar os gigantes por si mesmos. Eles
precisavam de um substituto, alguém que acabou por não ser uma pessoa forte,
mas frágil. E Deus usa a fragilidade do libertador como meio que leva à
destruição de Golias. Davi triunfa na fraqueza e sua vitória é imputada ao seu
povo. Em seu triunfo, eles triunfaram.
Como não ver Jesus nessa história? Ele enfrentou os mais colossais
gigantes (o pecado e a morte) e, mais do que um risco à sua vida, isso lhe custou
a própria vida. Mas triunfou em sua fraqueza e agora seu triunfo é nosso. Sua
vitória nos é imputada. Somente quando eu vir que Jesus combateu os
verdadeiros gigantes por mim terei coragem de combater os gigantes comuns da
vida (o sofrimento, o desapontamento, o fracasso, a crítica, as dificuldades).
Como posso combater o “gigante” do fracasso se eu não tiver profunda
segurança de que Deus não me abandonará? Se vejo em Davi apenas um
exemplo para mim, a história jamais me ajudará a combater o fracasso/gigante.
Contudo, se eu vir Davi como alguém que aponta para Jesus como meu
substituto, cuja vitória é imputada a mim, então posso me colocar diante do
fracasso/gigante. Em Jesus, já sou amado e aclamado por Deus. Nenhum sucesso
do mundo se aproxima disso. Não me sinto mais petrificado pelo fracasso,
porque triunfo em Jesus, nosso verdadeiro Davi. Se eu não crer primeiramente
naquele para quem Davi aponta, jamais me tornarei como Davi.
Não se trata simplesmente de histórias de pessoas que nos apontam Cristo.
O propósito redentor de Deus consiste em redimir um povo e renovar a criação.
Portanto, todos os principais eventos na história da formação do povo de Deus
também nos apontam para Cristo.
Jesus é aquele através de quem todas as pessoas são criadas (Jo 1).
Portanto, o relato da criação aponta para frente, para a nova criação em Cristo.
Jesus é aquele que passou pela tentação e pela provação no deserto. Portanto, o
relato da Queda aponta para frente, para a provação bem-sucedida e para a
obediência ativa de Cristo. A história do Êxodo aponta para o verdadeiro êxodo
em que Jesus conduziu seu povo através de sua morte (Lc 9.31).8 Ele o conduziu
libertando-o não apenas da escravidão econômica e política, mas também da
escravidão do pecado e da morte através de sua morte e ressurreição. A
peregrinação no deserto e o exílio na Babilônia apontam para adiante, para Jesus,
“aquele que não tem lar”, e para a tentação em sua peregrinação no deserto,
culminando com seu sofrimento como bode expiatório fora dos portões. Ele
passou pelo exílio maior e cumpriu plenamente a justiça divina.
Jesus é, literalmente, o verdadeiro Israel, a semente (Gl 3.16, 17). Ele é o
único fiel à aliança. É o único remanescente. Ele cumpre todas as obrigações da
aliança e ganha as bênçãos da aliança para todos os que creem. Quando Oseias
fala do êxodo de Israel do Egito, ele diz: “… do Egito chamei o meu filho” (Os
11.1). Oseias chama a todo o Israel de “meu filho”. Mateus, porém, cita esse
versículo em referência a Jesus (Mt 2.15), porque Jesus é o verdadeiro Israel.
PREGUE CRISTO PELO INSTINTO
Embora devamos utilizar muitas dessas maneiras de pregar Cristo em toda a
Escritura, uma fórmula rígida demais (ou um conjunto de fórmulas) torna tal
estratégia previsível. Com frequência, o caminho do texto para Cristo é mais
bem percebido pela intuição, e não pela composição de um método definido.
Sinclair Ferguson diz:
[Talvez a maior parte] dos mais destacados pregadores da Bíblia (e de Cristo em toda a Escritura) ajam
por instinto. Pergunte a eles qual é a sua fórmula e receberá em troca uma expressão de quem não
entendeu a pergunta. Os princípios que eles usam foram desenvolvidos inconscientemente, através de
uma combinação de habilidade natural, de dom e da experiência como ouvintes e pregadores. Alguns
homens talvez tenham dificuldade em preparar uma série de palestras sobre como pregam. Por quê?
Porque o que desenvolveram é um instinto; pregar biblicamente se tornou sua língua natural. Eles são
capazes de usar a gramática da teologia bíblica sem refletir sobre qual parte do discurso estão usando.9

Meu amigo e professor de Antigo Testamento Tremper Longman me disse
certa vez que ler a Bíblia é mais ou menos parecido com a experiência de assistir
ao filme O sexto sentido. Esse filme tem um final surpreendente que obriga você
a voltar e a interpretar novamente tudo o que viu antes. Da segunda vez que o
vemos, não dá para não pensar no final enquanto assistimos ao começo e ao
meio do filme. O final lança uma luz que não se pode ignorar sobre tudo o que se
passou anteriormente. Do mesmo modo, a partir do momento em que você sabe
de que modo todos os enredos de todas as histórias e todos os pontos
culminantes de todos os temas convergem para Cristo, você simplesmente não
pode deixar de ver que todo texto, em última análise, trata de Jesus.
Há vezes em que não há outro jeito senão pensar em Cristo, mesmo que o
texto que você esteja consultando não pareça ser especificamente uma profecia
messiânica ou conter uma personagem importante que prefigure Cristo, ou um
tema intercanônico, ou parte de uma imagem ou metáfora bíblica fundamental.
No entanto, é impossível deixar de vê-lo.
Eis aqui uma passagem obscura da Bíblia em que vemos isso acontecer. No
final de Juízes, nos capítulos 19 a 21, lemos uma história terrível sobre um
israelita covarde e uma concubina, uma esposa de segunda classe, por assim
dizer. Ele chega a uma cidade onde alguns malfeitores da tribo de Benjamim o
ameaçam, e então, para salvar a si mesmo, ele oferece a mulher a eles para que
façam com ela o que bem entenderem. Ele vai dormir e a noite inteira os homens
a violam e abusam dela. De manhã, o marido abre a porta da casa e a encontra na
soleira, morta. Ele fica furioso, leva seu corpo para dentro, corta-o em vários
pedaços e envia-os a cada uma das outras tribos de Israel, inflamando assim o
povo para que faça guerra contra a tribo de Benjamim devido ao ultraje
perpetrado. O marido, numa atitude conveniente, não conta aos outros sobre sua
covardia. A guerra civil daí resultante é sangrenta e devastadora.
Que passagem terrível e sinistra! Como pregar Cristo aqui?
Na verdade, há mais de uma maneira de fazê-lo. Situe a passagem no
contexto do tema do livro todo. Qual é o tema do livro de Juízes? A resposta a
essa pergunta é mais fácil de encontrar do que em muitos outros livros, uma vez
que o narrador conclui o relato desse evento, e de todo o livro de Juízes, com
esta frase: “Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que lhe
parecia certo” (Jz 21.25). A desordem social e a degradação moral revelaram a
necessidade desesperadora de um bom governo. Conforme assinala a maior parte
dos estudiosos da Bíblia, o autor de Juízes faz a defesa do governo de um rei e,
juntamente com o livro de Rute, ele aponta para o rei Davi. Contudo,
conhecemos a história de Israel, e da humanidade além de Davi, e sabemos que,
por maior que tenha sido Davi, ele não podia curar as pessoas de seu pecado e de
sua rebelião. Seria preciso que o Rei supremo mudasse efetivamente os
corações. Portanto, situar esse texto em seu contexto canônico geral —
particularmente o tema intercanônico do reino — nos revela Jesus. É assim que
você prega Cristo a partir de um texto terrível como esse? Sim, mas essa não é a
única maneira.
Como é que não vemos, mesmo num lago escuro assim, o reflexo de algo
que vai além dele? Quando vemos um homem que sacrifica sua mulher para
salvar sua própria pele — um marido mau —, como haveremos de não pensar
em um homem — o verdadeiro marido — que sacrificou a si mesmo para salvar
sua esposa? Jesus entregou a si mesmo por nós, a igreja, sua esposa (Ef 5.22,23).
Eis um cônjuge verdadeiro que jamais abusará de nós. Na verdade, ele se
sujeitou ao abuso para nos tornar perfeitos.10 Todos os casamentos humanos na
Bíblia apontam para o casamento de Deus e seu povo, de Cristo e sua igreja, e
isso significa que todo casamento ruim nos fará pensar no amor conjugal por
excelência de Jesus e ansiar por ele.
Veja agora outro exemplo de como pregar Cristo com base em um texto
mesmo quando este não se encaixa em uma categoria tipológica tradicional de
Cristo. Observe as bem-aventuranças (as declarações “Bem-aventurados…”) no
Sermão da Montanha (Mt 5.1-10). A maior parte dos estudiosos afirma
corretamente que elas não fazem referência a diferentes grupos de pessoas — os
pobres de espírito, os que pranteam, os mansos, os que têm fome de justiça, os
misericordiosos —, mas que elas listam as características de um grupo de
pessoas — os discípulos de Jesus. Se nos humilharmos em espírito, se nos
pranteamos por nossos pecados — se formos assim e fizermos tais coisas —,
então seremos verdadeiramente seus discípulos. Portanto, se pregamos apenas
sobre as bem-aventuranças, seria fácil cair em mera exortação moral: “Seja
assim — esforce-se ao máximo — e você será discípulo de Jesus”.
Contudo, se você tem o instinto ao qual temos nos referido, você talvez
olhe para as bem-aventuranças, para aquelas descrições e recompensas, e
perceba que elas também falam de Jesus. Quando pensamos nisso, vemos como
o que ele fez nos dá o que cada bem-aventurança promete.
Por que você e eu podemos ser tão ricos quanto reis? Porque ele se tornou
espiritual e totalmente pobre. Por que você e eu podemos ser consolados?
Apenas porque ele sofreu; porque ele chorou inconsolavelmente e morreu nas
trevas. Por que você e eu herdaremos a terra? Porque ele foi manso; porque ele
foi como um cordeiro perante seus tosquiadores. Porque ele foi destituído de
tudo. Chegaram, inclusive, a lançar sortes sobre suas vestes. Por que você eu
podemos ser plenos e satisfeitos? Porque, na cruz, ele disse: “Estou com sede”
(Jo 19.28). Por que você e eu alcançamos misericórdia? Porque ele não obteve
misericórdia alguma: nem de Pilatos, nem da multidão, nem mesmo do seu Pai.
Por que você e eu um dia veremos a Deus? Porque ele era puro. Você sabe o que
significa a palavra “puro”? Significa ter inteireza de mente, sem divisão alguma,
com um foco preciso como o do laser. Então, por que um dia veremos a Deus?
Porque Jesus Cristo estava determinado a ir para Jerusalém e morrer por nós (Lc
9.51).11 Você e eu podemos ver a Deus porque, na cruz, Jesus não pôde vê-lo.
Quando você vê Jesus Cristo sendo pobre em espírito por você, isso o ajuda
a se tornar pobre em espírito perante Deus e dizer: “Preciso de tua graça”. E, no
momento em que você a obtém e é preenchido por ela, torna-se misericordioso,
pacificador, encontra a Deus em oração e espera um dia pela visão bem-
aventurada, para ver a Deus como ele é (1Jo 3.1-3). As bem-aventuranças, assim
como quase tudo o mais na Escritura, nos apontam para Jesus muito mais do que
imaginamos.
NOTAS
1Para ajuda com formas específicas de pregar Cristo a partir de diferentes partes da Bíblia, veja D. A.
Carson; G. K. Beale, Commentary on the New Testament use of the Old Testament (Grand Rapids: Baker,
2007) [edição em português: Comentário sobre o uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (São
Paulo: Vida Nova, 2014)]; Leland Ryken, org., Dictionary of biblical imagery (Downers Grove: IVP-US,
1998); Tremper Longman; Raymond B. Dillard, An introduction to the Old Testament, 2. ed. (Grand
Rapids: Zondervan, 2006) [edição em português: Introdução ao Antigo Testamento (São Paulo: Vida Nova,
2005]; Edmund P. Clowney, The unfolding mystery: discovering Christ in the Old Testament, 2. ed.
(Phillipsburg: Presbyterian and Reformed, 2013); Edmund P. Clowney, How Jesus transforms the Ten
Commandments (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed, 2007); Alec Motyer, Look to the Rock
(Nottingham: InterVarsity, 1996); Christopher J. H. Wright, Knowing Jesus through the Old Testament
(Downers Grove: InterVarsity, 1995); Simon DeGraaf, Promise and deliverance (Grand Rapids: Paideia,
1977, 1978, 1979, 1981). Veja tb., especificamente, comentaristas de livros do Antigo Testamento cujos
trabalhos se destacam pela interpretação cristocêntrica, como Alec Motyer, Iain Duguid, Tremper Longman
e Ray Dillard. Além desses, veja o conjunto completo de volumes em D. A. Carson, org., New studies in
biblical theology (IVP Academic). Veja tb. os muitos volumes de Sidney Greidanus, especialmente
Preaching Christ from the Old Testament: a contemporary hermeneutical method (Grand Rapids:
Eerdmans, 1999), e, de Graeme Goldsworthy, especialmente Preaching the whole Bible as Christian
Scripture: the application of biblical theology to expository preaching (Grand Rapids: Eerdmans, 2000).
2Ferguson lista quatro maneiras de pregar Cristo no Antigo Testamento através dos gêneros (lei,
profetas, poetas) e estágios na história da redenção (Criação, Queda, família abraâmica, Israel sob Moisés,
Israel com um rei, ministério de Jesus, ministério dos apóstolos): (1) relacionar promessa e cumprimento,
(2) relacionar tipo e antítipo, (3) relacionar a aliança e Cristo, e (4) relacionar a participação proléptica na
salvação e sua subsequente concretização. Greidanus faz o mesmo de forma mais abrangente. Ele lista (1) a
forma da progressão histórico-redentora, (2) a forma da promessa e da realização, (3) a forma da tipologia,
(4) a forma da analogia, (5) a forma dos temas longitudinais, (6) a forma das referências neotestamentárias e
(7) a forma de contraste.
Contrariamente a Ferguson e Greidanus, Goldsworthy se concentra em como pregar Cristo de dentro
de cada gênero e estágio da história da redenção, discutindo como (1) as narrativas históricas, (2) a Lei, (3)
os profetas, (4) a literatura de sabedoria, (5) os Salmos e (6) os textos apocalípticos apontam para Cristo.
Em seguida, ele mostra como ter certeza de que a obra salvadora de Cristo é evidenciada quando se prega
(7) a partir dos Evangelhos e (8) de Atos e das Cartas. Por fim, Goldsworthy discorre sobre a identificação
do tema intercanônico através dos gêneros e estágios em um capítulo intitulado “Preaching Christ from
biblical theology” [Pregando Cristo a partir da teologia bíblica].
David Murray mistura o gênero e as categorias de temas longitudinais. Ele lista dez maneiras de pregar
Cristo: (1) na Criação, (2) nas personagens do Antigo Testamento, (3) nas aparições de Deus, (4) na Lei e
nos mandamentos divinos, (5) na história de Israel, (6) nos profetas, (7) nos tipos, (8) nas alianças, (9) nos
provérbios, (10) nos poetas bíblicos.
Gary Millar talvez seja o mais imaginativo, extraindo as categorias, mas aproximando-se delas de uma
maneira mais prática do que abstrata. Ele aconselha a que nos aproximemos de Jesus (1) acompanhando um
tema através de todos os estágios até Jesus, (2) saltando imediatamente para o cumprimento em Cristo, (3)
expondo um problema humano e mostrando Jesus como a solução, (4) destacando um atributo divino e
mostrando Jesus como sua encarnação máxima, (5) concentrando na ação salvadora divina no texto e
mostrando como isso chega à sua forma por excelência na salvação de Cristo, (6) explicando uma categoria
teológica associando-a a Cristo, (7) apontando as consequências do pecado e encontrando a única solução
em Cristo, (8) descrevendo um aspecto da piedade e da bondade humanas e mostrando Cristo como sua
epítome, ou (9) observando um desejo humano e apontando para Cristo como sua satisfação.
A lista de Bryan Chapell é prática e a mais sucinta, e todas as suas categorias são completadas pelos
outros autores. Ele diz que, se não houver uma referência clara a Cristo ou um tipo claro de Cristo no texto,
deve-se buscar então um indicador de Cristo que seja (1) preditivo (como na profecia), (2) preparatório
(como na lei e no mandamento), (3) que dê margem à reflexão (como nos aspectos principais da salvação),
ou (4) “resultante”, mostrando como a vida requerida pelo texto só poderia vir por meio da fé em Cristo.
Algumas formas de pregar Cristo se enquadram em mais de uma categoria. Por exemplo, o tema do
“guerreiro divino” explorado por Tremper Longman é uma profecia (Gn 3.15), mas é também um atributo
de Deus (Êx 15) e inclui uma série de personagens humanos que são “tipos” de Cristo (p. ex., Davi perante
Golias). Portanto, as categorias são artificiais no fim das contas; são apenas meios que nos obrigam a
observar a Escritura cuidadosamente.
3A partir do momento que você decide o que conectar a Cristo — um tema intercanônico, uma
personagem ou uma imagem importante, um enredo de graça etc. — é preciso determinar também como
essa conexão será introduzida. Seguem-se várias maneiras de fazê-lo. (Algumas das categorias mencionadas
a seguir são chamadas pelos autores de “formas de pregar Cristo”, mas, depois de refletir, acredito que não
sejam realmente paralelas às outras, e sim métodos de “como conectar a Cristo” que funcionam em várias
das categorias do “que conectar a Cristo”.)
1. Seguir o plano? Gary Millar acredita que, às vezes, um texto aponta para adiante no tempo,
acompanhando um tema bíblico, mas não se refere explicitamente a Cristo. Nesse caso, seria bastante
apropriado “seguir o plano todo”, reservando um tempo para rastrear as várias formas que o tema assume
através dos diferentes estágios da história da redenção. Por exemplo, quando Jacó se encontra com Deus em
Betel, na “escada [que] chegava ao céu” (Gn 28.12), ele se refere ao lugar como a “casa de Deus” (v. 17) —
Beth-el. Faz sentido rastrear a história dos “santuários”, lugares da presença de Deus, através da história da
redenção. Durante a época dos patriarcas, a presença de Deus desceu temporariamente; depois disso,
habitou em um tabernáculo, em um templo e, por fim, no próprio Jesus, e através dele no corpo de Cristo.
Isso leva um tempo a mais, mas ensina o ouvinte a ver a unidade da Bíblia. “Seguir o plano” com
frequência funciona bem dentro das categorias dos temas, imagens e símbolos intercanônicos, e dos
atributos de Deus.
2. Saltar para o cumprimento? Para Millar, porém, se Jesus for mencionado diretamente pelo texto,
não será necessário rastrear as coisas através de estágios, podendo-se, de forma mais brusca, “saltar para o
cumprimento”. Em 2Samuel 7, por exemplo, Deus diz a Davi que ele não lhe construirá um templo, mas
que o trono de Davi será estabelecido por Deus para sempre. Isso nos convida a olhar para Salomão, filho
de Davi, que constrói o templo e estabelece o trono de Davi, e saltar diretamente para Jesus Cristo, o templo
incomparável que estabelece verdadeiramente a linha de Davi para sempre. Não precisamos rastrear a
história da realeza em Israel. Passagens como Daniel 7 e Isaías 53 são semelhantes, uma vez que se referem
claramente a uma figura, ou predizem sua existência, cuja descrição se encaixa apenas em Jesus.
A conclusão a que se chega ao distinguirem-se essas duas estratégias é que, às vezes, a parte de “vir a
Cristo” do sermão toma mais tempo e desenvolvimento e, outras vezes, o foco em Cristo pode ser mais
súbito e levar menos tempo. Essa é uma exigência subjetiva, mas é bom entender que pode haver variedade
aqui. Com frequência, “saltar para o cumprimento” funciona bem no âmbito das categorias das profecias,
promessas, tramas de libertação e teofanias. A maior parte dessas características não consiste em temas
longitudinais que reaparecem a cada etapa da história.
3. Desenvolver a “tensão da narrativa”? O âmago de uma história constitui a tensão da trama. Surge
certo tipo de problema que cria suspense e interesse à medida que os ouvintes querem descobrir se e como a
tensão é resolvida. É “coerente do ponto de vista da narrativa” estabelecer um conflito na parte inicial do
plano do sermão e, posteriormente, resolvê-lo com Cristo. Isso torna Cristo, em certo sentido, o herói de
todo sermão. Contudo, essa “tensão” pode ser de tipos variados, dependendo do que está sendo conectado a
Cristo.
• Uma tensão é Deus agindo de forma complexa e inexplicável, o que só faz sentido, em última análise,
com a vinda de Jesus. Por exemplo, como Deus pode ser a um só tempo santo e amoroso — tanto justo
quanto fiel — para conosco? (Atributos de Deus.) As promessas da aliança de Deus são condicionais
ou incondicionais? (Tema intercanônico.) Em ambos os casos, a tensão só pode ser resolvida mediante
Cristo e a cruz.
• Outra tensão diz respeito a profecia, promessa, bênção ou anelo humano que parece impossível de se
realizar. Em Ezequiel 34, por exemplo, como Deus pode vir pessoalmente para pastorear seu povo e
ainda assim mandar “Davi”? Como pode alguém ser descendente de Davi e o próprio Deus ao mesmo
tempo? (Profecia.) Como pode Deus verdadeiramente realizar coisas boas através do mal?
(Promessas.) Novamente, apenas a encarnação de Jesus e seu sofrimento injusto podem resolver o
problema. Veja as profecias de Isaías nos capítulos de 54 a 56 e em outras partes em que ele diz que
eunucos e estrangeiros serão admitidos no templo, na presença de Deus, e serão parte do seu povo.
Como isso é possível? Somente a obra de Cristo, como exposta no livro de Hebreus, nos permite
compreender o vasto alcance dessa promessa. Todos tememos a morte, e Isaías diz que o “véu” da
morte será retirado (Is 25.7). Como? Somente por meio da morte e da ressurreição de Jesus Cristo a
morte será destruída.
• Uma terceira tensão decorre da apresentação de uma ordem de tirar o fôlego ou de caráter virtuoso,
em que destacamos algum grande exemplo ou ordem de como viver e mostramos a obra interior do
coração humano, que parece tornar isso impossível. Vemos então como a fé na obra de Jesus muda o
coração e é a única maneira de se tornar como o exemplo proposto. (Isso funciona no âmbito das
categorias de ordem ou de exemplo piedoso e de figuras importantes.)
• Uma quarta tensão vem de uma maldição divina ou consequência do pecado. Muitas passagens
desenvolvem as consequências particularmente destruidoras do pecado. Inúmeros textos mostram
como o egoísmo leva, com frequência, à destruição de relacionamentos. Como escaparemos? Jesus
toma judicialmente a consequência disso sobre si (ele é rejeitado por todos os seus amados). Muitos
textos mostram como é sem sentido a vida sem Deus (p. ex., Eclesiastes: “inutilidade!” (Ec 1.2, NIV)).
Contudo, Jesus experimenta na cruz o que é estar perdido numa “vida sem Deus”. Ele recebe a
maldição que nós merecemos.
• Uma quinta tensão pode vir de uma simples pergunta: Onde obtemos poder ou adquirimos o direito
de fazer ou de ser isso? A resposta é que as motivações ou outras condições do coração (temor, ira,
orgulho) que normalmente tornam impossível fazer o que se requer são transformadas pela fé na obra
concluída de Cristo. A liberdade e a alegria que vêm de um novo relacionamento com Deus pela graça
e pela fé removem do coração as motivações que levam a um pecado específico. Ou por meio da obra
completa de Cristo temos o direito a isso, embora em nós mesmos não mereçamos.
Não creio, porém, que “tensões” imediatas da trama sejam a única maneira de pregar Cristo. A
realização do símbolo (n. 4), por exemplo, é frequentemente uma simples apresentação da maravilha e
da beleza de Cristo e tem seu próprio apelo. “Facetar” as linhas gerais do sermão — não baseadas em
solução de problemas — é outra maneira de pregar e se mover em direção ao clímax sem recorrer a
tensões da trama. Tomemos, por exemplo, o sermão de Jonathan Edwards “Christian happiness” [A
alegria cristã]. Seu esquema geral diz (não suas próprias palavras) que o cristão deve ser feliz porque
(1) as coisas ruins que temos se transformarão em coisas boas, (2) as coisas boas que temos não podem
ser tiradas de nós, e (3) o melhor ainda está por vir. Isso é o mesmo que pegar uma verdade simples e
explicá-la de tal maneira que ela ainda remeta a um clímax. Contudo, não se emprega “tensão” alguma.
4. Uso do Antigo Testamento pelo Novo? Outra forma de pregar Cristo consiste em recorrer ao
proveitoso conselho de Greidanus segundo o qual devemos sempre observar se um texto do Antigo
Testamento está sendo citado, referido ou se há uma alusão a ele no Novo Testamento. (Isso pode funcionar
quer você esteja pregando um texto do Novo Testamento e queira verificar se o pano de fundo do Antigo
Testamento lhe dá um tema intercanônico, quer você esteja pregando sobre um texto do Antigo Testamento
e perceba de que maneira os autores do Novo Testamento entendem a passagem do Antigo Testamento à luz
de Cristo.) Em seguida, você poderá seguir o “fio condutor” da ideia através dos estágios da história da
redenção e ver de que maneira ela se relaciona com a obra salvadora de Cristo. Um manual extremamente
útil para isso é a obra de Carson e Beale, Commentary on the New Testament use of the Old Testament. Não
se trata, porém, de uma categoria paralela que identifique tipos ou descubra promessas e cumprimentos.
Funciona para todas essas categorias. O Novo Testamento usa o Antigo Testamento pela citação direta,
através de uma referência bastante óbvia, ou — ainda que seja algo mais especulativo — por meio de
alusões indiretas. Portanto, por exemplo, os comentaristas acreditam que, quando Jesus disse que o novo
nascimento se dá através “da água e do Espírito” (Jo 3.5), ele estava se referindo à discussão de Ezequiel
sobre a regeneração usando os mesmos termos (Ez 36).
4Edição em português: Introdução ao Antigo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2005).
5Há pelo menos uma dúzia de lugares no Antigo Testamento em que, para levar sua presença para
perto de alguém, Deus envia o “anjo do Senhor”. Há outros anjos, por exemplo, no Novo Testamento:
Gabriel faz a anunciação a Maria. Quando Gabriel e outros anjos falam, eles dizem: “Assim diz o Senhor”.
Gabriel fala pelo Senhor. Contudo, quando o anjo do Senhor fala, é o Senhor. Esse é um mistério incrível,
porque o anjo do Senhor parece ser uma figura diferente do Senhor e, no entanto, é, ao mesmo tempo, o
Senhor. Alec Motyer, em seu comentário ao livro de Êxodo, ressalta que:

O anjo é revelado como a acomodação misericordiosa de Deus, por meio do qual o Senhor pode estar
presente entre um povo pecador, porque se fosse ter com ele em pessoa sua presença o consumiria.
Podemos entender dessa maneira. O anjo não sofre nenhuma redução ou ajuste em sua divindade
plena; contudo, ele é aquele tipo de divindade através da qual Deus, que é santo, pode fazer companhia
aos pecadores. Alec Motyer, The message of Exodus: the days of our pilgrimage (Downers Grove:
InterVarsity, 2005), p. 51.

Deparamos com isso inúmeras vezes no Antigo Testamento: quando Deus torna sua presença mais
próxima em misericórdia e bênçãos, não para consumir e destruir, ele o faz por meio do anjo do Senhor. Um
dos momentos mais tocantes encontra-se no livro de Gênesis, na história de Abraão, Sara e Agar. Abraão e
Sara são marido e mulher, mas Sara é estéril e está ficando velha. Ela não crê mais que possa ter filhos, por
isso entrega sua escrava egípcia Agar, jovem e fértil, a Abraão. Este se deita com a escrava, que engravida.
Quando, porém, ela dá à luz, tudo se desmorona. Agar é fútil e arrogante e ridiculariza Sara: “Você é uma
velha. Eu sou jovem. Sou fértil. Tenho um filho”. Sara fica de tal maneira furiosa que vai até Abraão e lhe
diz: “Mande Agar e a criança para o deserto”, o que, naturalmente, significa enviá-los para a morte. E
Abraão (embora contrariado e aflito) o faz.
São todos vítimas, mas também vilões. Não há mocinhos nessa história. Agar — fútil e arrogante —
faz provocações. Sara — cruel — a expulsa. Abraão é um covarde. Agar vai para o deserto com seu filho e
eles ficam sem água. A mãe vê seu menino, que havia sido rejeitado pelo pai, agora morrendo de sede. Ela o
coloca sob a sombra de um arbusto e em seguida se afasta porque, como ela mesma diz: “É insuportável ver
meu próprio filho morrer”. O anjo do Senhor aparece. Se você ler o texto, verá que quando o anjo fala o
Senhor fala; e quando o Senhor fala o anjo fala. O anjo do Senhor diz: “… Não temas, porque Deus ouviu a
voz do menino desde o lugar onde ele está. Levanta-te, pega o menino e toma-o pela mão, porque farei dele
uma grande nação” (Gn 21.17,18).
Como Deus pode fazer isso? Agar, Sara, Abraão — eles não merecem a bênção de Deus. Não
merecem a presença de Deus. Como pode a presença de Deus entrar na vida deles com bênçãos? Através do
anjo. Geralmente, quando chego a esse ponto do sermão, digo: “Ah, o anjo aponta para alguém”. Diz
Motyer:

Há somente outro na Bíblia que é idêntico ao Senhor, embora diferente dele; um que, sem abandonar a
essência plena e as prerrogativas da divindade, ou sem diminuir a santidade divina, é capaz de se
adaptar à companhia de pecadores e, embora afirmando a ira de Deus, continua a ser a manifestação
suprema de sua imensa misericórdia. O anjo do Senhor só pode ser apreciado quando entendido como
uma aparição pré-encarnada de Jesus Cristo (Motyer, Message of Exodus, p. 51).
Agora você sabe por que Deus pode se aproximar de pecadores que não merecem sua presença: porque
anos mais tarde houve outro menino, nascido de uma mulher pobre, que viveu uma vida de rejeição e, no
final da vida, foi abandonado por seu pai. Ele também teve sede, clamou a Deus, e Deus não respondeu.
Sabe por que Deus não respondeu? Embora Agar, Abraão e Sara mereçam ser abandonados e ficar sem a
bênção, Jesus Cristo, na cruz, padeceu o abandono que era nosso, de modo que pudéssemos alcançar a
bênção que ele merecia. Ele gritou, mas ninguém lhe respondeu, por isso, quando clamamos, embora não
mereçamos resposta alguma, somos atendidos.
Jesus é o anjo e, portanto, Deus pode se aproximar. Deus pode entrar em sua vida, assim como entrou
na vida de Moisés. Ele pode entrar em sua vida e aquecê-la com seu poder, sua beleza e sua glória que
agora moram dentro de você. Agora há segurança. Por quê? Porque Jesus Cristo morreu na cruz.
6John Calvin [João Calvino], Calvin: commentaries, tradução e organização de Joseph Haroutunian
(London: S.C.M., 1958), p. 68-9.
7Para evidências dessa afirmação, veja Joel Marcus, Mark 1–8: New Translation with Introduction and
Comments, Anchor Bible (New York: Doubleday, 2000), v. 27, p. 332-40.
8A palavra grega nesse versículo geralmente traduzida por “partida” é exodus.
9Sinclair Ferguson, Preaching Christ from the Old Testament: developing a Christ-centered instinct
(London: Proclamation Trust Media, 2000), p. 4.
10Na verdade, o casamento é um tema intercanônico, portanto ver Cristo em Juízes 19—21 se ajusta à
forma como podemos ler a Bíblia cristocentricamente.
11A expressão grega literal é “firmou sua face” (Lc 9.51). A Vulgata Latina e algumas outras versões
antigas acrescentam “como uma pederneira” para transmitir a ideia de firmeza e resolução. A maioria das
versões modernas traduz por “decidiu resolutamente”.
SEGUNDA PARTE

ALCANÇANDO AS PESSOAS
4

PREGANDO CRISTO À CULTURA

Enquanto ele falava desse modo, Festo disse em alta voz: “Paulo, você
está louco. Seu vasto conhecimento o está levando à loucura”. Mas ele
disse: “Não estou louco, excelentíssimo Festo; as palavras que estou
dizendo são verdadeiras e racionais” [At 26.24,25, TA].1
A LOUCURA DO CRISTIANISMO
Terry Eagleton, teórico e crítico da literatura britânica, diz que as “sociedades
não se tornam seculares quando prescindem totalmente da religião, e sim quando
não são mais particularmente tocadas por ela”.2 Eagleton acredita que as
sociedades ocidentais caminham todas nessa direção em diferentes velocidades.
Pela sua definição, uma sociedade onde ainda existem ateus raivosos e hostis à
religião ainda não andou muito pelo caminho do securalismo. Vemos atualmente
uma quantidade cada vez maior de pessoas que não são hostis à religião, mas
indiferentes. O crescimento se dá entre os que costumam se identificar com a
opção “n.d.a.” (nenhuma das anteriores) — isto é, indivíduos que talvez não
sejam necessariamente ateus, mas não se sentem parte de uma instituição
religiosa específica ou mesmo de uma tradição. Essas pessoas não veem
necessidade alguma de investigar soluções religiosas possíveis para nenhum de
seus problemas. Elas não creem que as pessoas precisem de Deus como fonte de
sentido e propósito, para que tenham uma estrutura moral sólida, para que
aspirem ao que é elevado e o alcancem ou simplesmente para que desfrutem uma
vida plena e feliz.3
Essa é uma situação nova. Durante mais de mil anos, nas sociedades
ocidentais, as crenças cristãs sempre constituíram o “repertório profundo” de
praticamente todos os ouvintes de qualquer orador cristão. A pregação e a
apresentação do evangelho poderiam tomar por base esses conceitos
compartilhados e, desse modo, ser recebidas num clima de respeito. A partir de
meados do século 20, isso começou a mudar. Grandes contingentes da população
— inclusive nos Estados Unidos — passaram, pela primeira vez, a abraçar uma
visão secular de vida que, durante décadas, havia sido território, sobretudo, da
intelligentsia europeia.
Quando Paulo pregou o evangelho às elites imperiais, ele classificou sua
mensagem de verdadeira e racional. Contudo, os ouvintes acharam que ele
estava fora de si. Hoje também, o que os cristãos consideram verdadeiro e
racional agora parece ser loucura pura e simples a um número cada vez maior de
pessoas.
MUDANÇA OU DESAFIO?
A maior parte do discurso e da pregação cristã, em razão de um hábito de muitos
séculos, ainda parte do princípio de que o ouvinte tem os entendimentos
fundamentais da realidade conforme tinha no passado. Até mesmo as igrejas
evangelísticas e mais focadas no público externo, continuam a alcançar
principalmente as pessoas de mentalidade tradicional, porque sua comunicação
supõe que os ouvintes carregam dentro de si a marca histórica da cristandade.
Contudo, para uma quantidade crescente de pessoas, a mensagem é muito pouco
compreensível e menos ainda persuasiva. Como comunicar a fé cristã hoje, em
uma era cada vez mais secular, honrando ao mesmo tempo tudo o que já
tratamos na primeira parte deste livro?
Muitos dizem que é preciso uma mudança em nosso modo de comunicação.
Deveríamos abandonar o sermão do tipo “monólogo” e fazer discussões
interativas em que todos os participantes possam descobrir mutuamente seus
respectivos caminhos. O problema dessa perspectiva é que o monólogo ainda é
um meio de comunicação tão bem aceito hoje quanto no passado. As TED talks4
e seus muitos imitadores prosperam. Em 2008, um em cada quatro adultos nos
Estados Unidos ouvia pelo menos um sermão por semana em formato de
podcast.5 A forma do sermão não está morta, e muitas previsões da morte
iminente da pregação agora parecem datadas.6
Outros que ainda defendem o modelo clássico de discurso público,
entretanto, dizem que nossas correntes culturais exigem uma mudança no
domínio do conteúdo. Andy Stanley diz que a pregação expositiva da Bíblia
funcionou numa época em que nossa sociedade estava de acordo em relação à
importância e à verdade da Escritura. Ele acredita que agora ela não funciona
mais. Em vez de começar com a Bíblia e terminar com a aplicação prática —
como no sermão tradicional —, deveríamos começar com uma necessidade
humana atual ou com uma questão contemporânea e então introduzir a Bíblia
como resposta e solução. Stanley pergunta: “A que extremo você está disposto a
chegar para criar um sistema de comunicação que fale ao coração de seu
público? […] Você está disposto a abandonar um estilo, uma estratégia, um
sistema que foi criado em outra era para uma cultura que não mais existe?”.7
Para um ponto de vista contrário, podemos recorrer a P. T. Forsyth, ministro
e teólogo congregacionalista escocês da virada do século 19 para o século 20.
Ele diz que quando, na história, a igreja estava no auge, “ela não guiava o
mundo, tampouco o repercutia; ela o confrontava”.8 “O pregador cristão não é o
sucessor do orador grego, e sim do profeta hebreu”, escreve Forsyth. “Uma coisa
é ter de despertar as pessoas ou persuadi-las a fazer algo […] Outra é ter de levá-
las a confiar em alguém e a renunciar a si mesmas por causa dessa pessoa […] O
orador incita o homem à [ação], o pregador o convida à redenção.”9
Essa antiga polêmica estará sempre conosco: o pregador ou mestre cristão
deve mudar por causa da cultura ou deve desafiá-la?
ADAPTANDO-SE PARA CONFRONTAR
Não é verdade que a exposição bíblica se desenvolveu apenas em uma era em
que todos eram cristãos. Hughes Old mostra que a pregação expositiva era a
regra durante os primeiros cinco séculos da vida da igreja, numa época em que a
sociedade não era meramente não cristã, mas, com frequência, visceralmente
contrária ao cristianismo. O pregador não começava com um problema de então
e depois introduzia a Bíblia para examiná-lo, embora isso talvez estivesse de
acordo com a sabedoria retórica da época. Portanto, é errado concluir que a
pregação expositiva tem seu lugar apenas em uma sociedade que endosse o
cristianismo.10
Também é errado achar que a exposição bíblica não pode dar destaque à
necessidade humana. Praticamente todos os textos da Bíblia tratam efetivamente
de tais questões existenciais direta ou indiretamente. Contudo, se começarmos
pelas nossas indagações e só depois procurarmos as repostas na Bíblia, supomos
que estamos fazendo todas as perguntas certas — que entendemos perfeitamente
nossa necessidade. Contudo, não precisamos apenas das prescrições da Bíblia
para nossos problemas, mas também do seu diagnóstico para eles. Podemos até
mesmo ter doenças das quais nem sequer temos consciência. Se não começarmos
pela Bíblia, é bem provável que cheguemos a conclusões superficiais, tendo
lançado uma combinação de cartas que apenas favorece nossas inclinações e
suposições.
Não há necessidade, portanto, de contrapor os objetivos da exposição
bíblica aos de mudança de vida. De igual modo, as duas posições, “adaptação à
cultura” e “confrontação cultural”, não são mutuamente excludentes como
parecem ser. P. T. Forsyth diz que a pregação não deve “repercutir” o mundo, e
sim “[confrontá]-lo”.11 Contudo, para que não caiamos no estereótipo mental da
pregação como enfadonha, observe que em sua preleção “The preacher and the
age” [O pregador e sua época], Forsyth imediatamente estabelece algumas
nuanças. Ele nota como João, autor do Evangelho, se apropriou do termo pagão
logos — uma palavra filosófica e culturalmente carregada naquela sociedade. Os
filósofos gregos acreditavam que o termo se referia à ordem cósmica por trás do
mundo material. João a usou para dizer que Jesus Cristo é o poder e o sentido
por trás do cosmo. Foi uma estratégia retórica arrojada que preencheu um
conceito cultural existente com um significado novo, ainda que preservando suas
antigas associações para direcionar as pessoas ao evangelho.12
Não teria sido melhor para João manter-se afastado das categorias culturais
gregas já comprometidas e dizer simplesmente, em vez disso, “Jesus é o Filho de
Deus?”. A resposta é que, ao se apropriar dos termos usados pelos gregos, o
autor do Evangelho tocava dessa maneira em suas aspirações mais profundas.
João estava dizendo a respeito das aspirações culturais deles: “Sim, sim, mas
não, mas sim”. Sim, os cristãos concordam que a história não é aleatória e que o
mundo não é sem sentido; há um logos, um propósito e uma ordem por trás de
tudo. E, sim, se você se alinhar a essa ordem, viverá bem. Mas não. Não é algo
que você pode encontrar através do raciocínio filosófico, porque não é uma
“coisa” de modo algum; é um ele. Jesus Cristo é o Deus criador que veio em
carne. Por fim, mas sim. É possível ter um sentido supremo na vida. Aquilo que
você busca apaixonadamente está nele, e seus desejos podem ser plenamente
satisfeitos se você entrar num relacionamento de reconciliação com aquele que o
criou e que governa o universo.
João não disse simplesmente aos filósofos pagãos que estavam
completamente errados e precisavam acreditar na Bíblia em vez de acreditar
naquilo em que já criam. Em lugar disso, primeiro lhes mostrou que algumas de
suas intuições sobre o universo estavam corretas — que ele não era aleatório
nem governava a si mesmo, mas era guiado por um propósito sobrenatural que
precisava ser descoberto. Em segundo lugar, e essa é a parte “mas não, mas sim”
de seu discurso, ele lhes mostrou que a realidade por trás dessa aspiração residia
unicamente em Cristo.
Trata-se de uma confrontação no mais alto grau — um chamado para que se
arrependessem e cressem. Os comunicadores da igreja primitiva não buscavam
simplesmente responder às indagações da cultura, porque, quando isso é tudo o
que se faz, essas questões dão o tom e definem as fronteiras do que é importante
e do que não é. Contudo, embora não tenham permitido que sua pauta fosse
cooptada, não ignoraram e não condenaram o vocabulário e os conceitos da
cultura. Eles compreenderam e afirmaram as esperanças, temores e aspirações de
seu povo. Os primeiros comunicadores cristãos conheciam intimamente a cultura
e se expressavam em termos que nunca eram incompreensíveis, por mais
surpreendentes que fossem. Eles reformularam os questionamentos da cultura,
remodelaram suas preocupações e redirecionaram suas esperanças. Conforme
diz Forsyth, “converteram” sua cultura. Fizeram com que o evangelho a
influenciasse de modo que ela foi radicalmente modificada. João não apenas
confrontou a cultura, tampouco apenas adaptou-se a ela. Ele adaptou-se a ela
para confrontá-la da maneira mais envolvente e amorosa possível. Como diz
Forsyth ao se referir à igreja primitiva: “Contudo […] se tomou emprestado o
pensamento, a organização e os métodos do mundo, ela […] nada mais fez do
que requisitar a escada que lhe permitiu escapar do mundo e, do alto, assumiu
seu comando. Ela usou a liga […] para torná-la viável, para fazer dela sua moeda
corrente”.13
COMUNICAÇÃO CONTEXTUAL
Esse entendimento da pregação é um aspecto do que os missiólogos chamam de
“contextualização”.14 Significa identificar-se com a cultura à sua volta, sem,
porém, deixar de confrontá-la. Significa antagonizar os ídolos da sociedade e, ao
mesmo tempo, demonstrar respeito pelas pessoas e por muitas de suas
esperanças e aspirações. Significa comunicar o evangelho de um modo que não
seja apenas compreensível mas também convincente.
Eckhard Schnabel, estudioso do Novo Testamento, mostra que Paulo adapta
deliberadamente sua pregação do evangelho às diferentes culturas de seus
ouvintes para confrontá-los.15 Dependendo do ambiente, o apóstolo varia não
apenas o vocabulário e o estilo que usa, mas também a maneira como expressa
emoção e usa a razão, como emprega as ilustrações e figuras de linguagem e, o
mais interessante, como argumenta. Ele raciocina e busca convencer seus
ouvintes, em vez de meramente contradizê-los.16
É possível discernir várias coisas que Paulo faz em seu esforço de
persuasão. Ele usa vocabulário e temas conhecidos, e não obscuros. Em seu
discurso em Atenas, por exemplo, descreve Deus em termos que muitos pagãos
podiam aceitar (At 17.22,23,24-28).17 Paulo cita autoridades respeitadas pelos
seus ouvintes. É claro que ele cita a Bíblia quando se dirige aos judeus, aos
gentios “tementes a Deus” ou aos convertidos ao judaísmo. Quando, porém, se
dirige aos filósofos no Areópago, cita Aratus, um autor pagão (At 17.28). Paulo
sempre escolhe “elementos de contato” — pontos reais de concordância e de
afirmação nas preocupações, esperanças e necessidades de seu público.18 Em
Atenas, ele escolhe cinco concepções a respeito do Deus da Bíblia com as quais
os filósofos estoicos presentes estavam de acordo e prossegue a partir delas.19
Por fim, Paulo também escolhe o que Schnabel chama de “elementos de
contradição”,20 os quais nunca são incidentais em relação aos elementos de
contato. Na verdade, ele usa normalmente como ponto de contradição um ponto
em que há acordo. Quando Paulo cita Aratus, que escreve a respeito de Deus
“somos descendência dele”, Schnabel diz que isso “pode ser compreendido
como uma acomodação às convicções filosóficas do público de Paulo”.21
Contudo, já na próxima sentença, o apóstolo argumenta: “Assim, visto que
somos descendência de Deus, não devemos pensar que a Divindade é como o
ouro, a prata ou a pedra, uma imagem feita pela arte e imaginação do homem”
(At 17.29, NIV, grifo do autor).22 Em suma, Paulo pega algumas das crenças
corretas de seus ouvintes e as usa para criticar suas crenças erradas à luz da
Escritura. Ele mostra que as crenças deles não suportam o teste de suas próprias
premissas.23 A acomodação feita pelo apóstolo tem como objetivo amar e
confrontar ao mesmo tempo.24 Ao confirmar os melhores impulsos das pessoas,
ao endossar percepções por meio das quais podia chegar a elas, ao adotar
conceitos e modos de raciocínio que elas pudessem compreender, Paulo não está
simplesmente querendo refutá-las, mas também respeitá-las.25
Paulo contextualiza deliberada e constantemente.26 Ele não expõe
imediatamente as boas-novas e só dá as más em algum momento futuro. Ele
entremeia confirmação com confrontação, a fim de evitar que os ouvintes se
desviem e resistam ao poder do apelo da Palavra em suas mentes e corações.
Portanto, vemos a resposta que Paulo dá à questão de nos acomodarmos à
cultura ou de a confrontarmos. A resposta não é “um pouco das duas coisas”, ou
alguma outra resposta intermediária. Adaptamos e contextualizamos para
falarmos a verdade em amor, tanto cuidando quanto confrontando.
Há muitos exemplos excelentes de contextualização na história da pregação
cristã. Um exemplo instrutivo é o do teólogo americano Jonathan Edwards. Em
1751, ele se mudou de Nothampton para Stockbridge, que ainda ficava em
Massachusetts, porém numa região mais distante, próximo ao limite do país e ali
ele pregou aos índios americanos da tribo dos moicanos e dos mohawks.27
Restaram apenas alguns sermões dos anos de Stockbridge, porém todos os
estudiosos que os analisaram observaram o óbvio: Edwards mudou
substancialmente sua abordagem de pregação em relação aos anos anteriores.28
Ele recorreu a um novo conjunto de imagens e de metáforas que se adaptavam
melhor ao seu público. Edwards mudou seu esboço tradicional de pregação,
pondo de lado um modelo que dependia mais da retórica clássica, em uma
abordagem mais dedutiva — iniciada com uma tese que, em seguida, era
analisada e defendida —, e adotando uma abordagem mais indutiva, que
começava com questionamentos e reunia as ideias em uma conclusão. Edwards
levou claramente em conta que seus ouvintes haviam sofrido uma opressão
enorme e haviam sido maltratados. Suas mensagens desse período adquiriam um
tom de conforto e consolo mais frequente do que em seus sermões anteriores. O
mais notável é como ele usou a narrativa mais abundantemente do que antes.
Edwards foi um contextualizador intencional do evangelho, e o fez com
maestria.29
Observe que eu disse que ele agiu de forma intencional e hábil ao fazer a
contextualização, e não simplesmente que ele a fez, porque entendo que a
contextualização é inevitável. No momento em que você abre a boca, muitas
coisas — a cadência de sua fala, a pronúncia, o vocabulário, as ilustrações e as
formas de raciocínio que você emprega, além da maneira como expressa suas
emoções — tornam você culturalmente mais acessível a algumas pessoas e faz
com que outras tenham de se esforçar e trabalhar mais para entender ou mesmo
prestar atenção ao que você fala. Ninguém pode apresentar uma formulação da
verdade bíblica que esteja livre de influência cultural.30
Contudo, embora inevitável, a contextualização está repleta de perigos, e
por ambas as direções. Se, por um lado, você contextualiza demais e
compromete o conteúdo real do evangelho, atrairá uma multidão, mas ninguém
será transformado. Isso é simplesmente negligenciar o dever de pregador. Você
estará, sobretudo, confirmando as pessoas em seu curso atual de vida. Por outro
lado, se faltar contextualização, de tal maneira que sua comunicação do
evangelho soe desnecessariamente estranha e distante, em termos culturais, de
seu público, você verá que ninguém estará disposto a ouvi-lo. Com certeza isso
significa que, de novo, ninguém será transformado pelo evangelho, por mais que
você se esforce para colocar-se ao lado da verdade.
Não há como evitar esse aspecto importante da comunicação do evangelho.
Paulo e Edwards nos mostram como eles contextualizaram em sua época e lugar.
Para nós, a questão consiste em saber como comunicar a fé cristã em uma era
secular cada vez mais hostil à fé em Deus e ao cristianismo especificamente.
Vamos analisar seis boas práticas para pregar a uma cultura e alcançá-la:
• Use um vocabulário acessível ou bem explicado.
• Recorra a autoridades respeitadas para reforçar suas teses.
• Demonstre compreensão a respeito das dúvidas e objeções.
• Confirme, a fim de desafiar as narrativas culturais básicas.
• Faça proposições baseadas no evangelho que atinjam os pontos de
pressão da cultura.
• Chame para uma motivação no evangelho.
USE UM VOCABULÁRIO ACESSÍVEL OU BEM EXPLICADO
Como vimos, Paulo e João tomavam o cuidado de usar conceitos e temas que
fossem acessíveis a seus ouvintes. Nossas igrejas evangélicas antes funcionavam
em sociedades em que o vocabulário cristão não era totalmente estranho a seus
ouvintes. Isso está mudando rapidamente, portanto você não deve usar termos
teológicos sem explicação, como “hermenêutica”, “escatológico”, “aliança”,
“reino” ou até mesmo “teológico” reiteradas vezes. Se o fizer, não apenas os que
são estranhos à fé se sentirão confusos, mas também os cristãos, intuitivamente,
saberão que não devem levar seus amigos menos iniciados para ouvi-lo. Se o
termo em questão for muito importante, explique-o de forma metódica até
chegar a uma definição acessível que você possa citar com frequência.
No caso de “aliança”, por exemplo, você pode dizer que se trata de uma
combinação surpreendente entre lei e amor. Trata-se de um relacionamento
muito mais íntimo e amoroso do que um mero contrato legal poderia criar e, ao
mesmo tempo, mais duradouro e vinculativo do que a afeição pessoal poderia
produzir. É um elo de amor mais íntimo e sólido porque é legal. É exatamente o
oposto da relação entre consumidor e fornecedor, em que a conexão é preservada
somente se servir ao interesse individual de ambas as partes. Uma aliança, pelo
contrário, é a doação integral, solene e permanente das duas partes entre si. Essa
definição atrai as pessoas da modernidade tardia31 que valorizam o amor, mas
também as desafia ao rejeitar opor a lei, a autoridade e o comprometimento ao
amor, à alegria e à liberdade. Assim que você tiver explicado esse conceito
bíblico de aliança em alguma medida em termos culturalmente acessíveis, não
será necessário repeti-lo por completo todas as vezes à igreja. Expressões
abreviadas como “mais íntimo e amoroso do que um mero contrato; mais
vinculativo e responsável do que um mero relacionamento” podem ser usadas
para despertar a lembrança dos ouvintes que já tenham ouvido a explicação mais
extensa, além de provocar o interesse dos novatos.
Deve-se dar aos ouvintes definições teológicas na própria linguagem deles.
Robert Murray M’Cheyne, pregador escocês do século 19, falou sobre a
complexa doutrina da dupla imputação — segundo a qual nossos pecados são
colocados sobre Jesus e sua justiça é transferida para nós — ao dizer: “Ele foi
um Salvador que realizou tanto quanto morreu. Ele não apenas sofreu tudo o que
deveríamos ter sofrido, mas também obedeceu a tudo o que deveríamos ter
obedecido”.32 É possível pegar o dictum de Lutero sobre a justificação, isto é,
que somos simul justus et peccator, simultaneamente aceitos como justos
embora pecadores, e formulá-lo da seguinte maneira: “Um cristão é mais
imperfeito e pecador do que você jamais ousaria imaginar e, ao mesmo tempo,
mais amado e aceito do que você jamais ousaria esperar”.
Evite o jargão subcultural evangélico e termos desnecessariamente arcaicos,
sentimentais ou não prontamente compreensíveis para quem vem de fora.
Alguns termos como “morno”, “guerra espiritual”, “apostasia”, “ver frutos”,
“abrir portas”, “andar com o Senhor” e o desgastado “bênção” têm um pano de
fundo bíblico, mas podem se tornar batidos. Também nos habituamos a um tipo
de linguagem enfastiante e estilizada durante a oração, com a repetição de frases
batidas do tipo “Porque o Senhor me libertou disso ou daquilo”; “É verdade,
Senhor”; “Ó Deus Pai”, as quais podem migrar para a fala e a oração públicas.
Há também uma versão do discurso evangélico entre os mais jovens, como, por
exemplo, “O pregador entregou com unção a Palavra” e “Foi de Deus”, e um uso
abusivo de termos como “paixão” e “apaixonado”, da mesma maneira que os
mais antigos usavam a palavra “bênção”.
Entenda, por favor, que não estou tentando exibir aqui minhas irritações
linguísticas preferidas. A questão é muito mais importante do que as preferências
geracionais ou regionais, ou de algum tipo de consideração baseada em
marketing segundo a qual esse tipo de vocabulário não cai bem entre não
cristãos. Uma linguagem desse tipo é usada como marcação de limites. É uma
forma de dizer aos outros que você pertence à tribo, ao passo que eles não. Os
recém-chegados certamente captam a mensagem, mesmo que você não a tenha
enviado de forma consciente. A linguagem de quem está dentro também é, com
frequência, um potenciador da hipocrisia, já que oferece um atalho para que o
indivíduo pareça espiritual sem realmente ter um coração cheio de amor e de
prazer.
Há mais uma classe de terminologia a evitar: a linguagem do “nós-eles” que
se refere com desdém aos não crentes ou a outras religiões ou denominações, ou
que simplesmente faz uma caricatura ou marginaliza as posições das pessoas que
não compartilham suas crenças e pontos de vista. Reitero que não se trata de
controlar a mensagem para agradar a uma quantidade maior de pessoas. É uma
questão de integridade e de testemunho do evangelho. Mostre-se como membro
de todo o corpo de Cristo falando com benevolência a respeito daqueles em
outros segmentos da igreja. E mostre-se como membro da comunidade mais
ampla de pessoas na qual você está inserido. Mencione em suas orações e em
seus discursos as necessidades e as preocupações da sua vizinhança, cidade e
região, e não apenas as da comunidade cristã. Fale com frequência do serviço ao
pobre, ao marginalizado e aos que vêm de fora para a sua comunidade, bem
como a seus líderes. Demonstre que os cristãos partilham de uma mesma
cidadania na cidade terrena, e não apenas na cidade celestial.33
RECORRA A AUTORIDADES RESPEITADASPARA
REFORÇAR SUAS TESES
Se você estiver pregando ou falando a pessoas que têm fortes dúvidas sobre a
Bíblia, você deve reforçar os conceitos bíblicos que está defendendo usando
material de apoio de fontes nas quais seus ouvintes confiam. É bem conhecido o
episódio em que Paulo faz isso, em Atos 17.28, quando ele cita o autor pagão
Aratus diante de um público de filósofos pagãos que, de outra forma, não
concederiam à Bíblia autoridade alguma.
Muitos se negarão terminantemente a aceitar a ideia de complementar a
Bíblia. Não bastaria simplesmente pregar o texto e permitir que a autoridade da
Bíblia transparecesse e convencesse as pessoas? A Bíblia tem, de fato, um poder
divino, vivo e sem igual, uma capacidade de persuasão penetrante que vem do
próprio Deus (Hb 4.12). Contudo, citar outro pensador não é fundamentalmente
diferentemente de usar ilustrações extraídas da vida cotidiana para reforçar o
ensino da Bíblia. Nenhum pregador lê simplesmente as afirmativas bíblicas para
as pessoas. Todos os mestres e comunicadores recorrem a casos interessantes ou
cômicos, a exemplos, a histórias e a outros relatos que convençam o ouvinte e
tragam compreensão acerca das verdades bíblicas.
Se você estiver pregando sobre o primeiro mandamento (“Não terás outros
deuses além de mim” [Êx 20.3]) ou sobre Efésios 5.5 (em que a ganância é
chamada de idolatria) ou sobre qualquer uma das centenas de passagens em que
a Bíblia fala de ídolos, você poderia citar David Foster Wallace, o falecido
romancista pós-moderno. Em seu discurso de formatura no Kenyon College, ele
defende com eloquência e de forma contundente que “todos adoram. Nossa
única escolha é o que adoramos”.34 Ele diz em seguida que todos devem “extrair
o verdadeiro sentido da vida” e qualquer coisa que você use para fazê-lo, seja
dinheiro, beleza, poder, intelecto ou outra coisa qualquer, tal coisa assumirá o
comando de sua vida porque é, basicamente, uma forma de adoração. Ele
enumera as razões pelas quais cada forma de adoração não apenas torna você
frágil e o exaure, mas “pode comê-lo vivo”. Se você expuser o argumento de
Wallace e usá-lo a favor do ensino bíblico fundamental, até mesmo o público
mais secular se calará e ouvirá o que você tem a dizer a seguir.
Se você estiver ensinando sobre os absolutos morais — com base em
quaisquer das centenas de textos bíblicos segundo os quais a Palavra de Deus
tem autoridade sobre a opinião e a legislação humana —, poderia citar Martin
Luther King Jr. e produzir um grande efeito.35 Em sua “Letter from Birmingham
jail” [Carta da prisão de Birmingham], ele menciona Agostinho e Tomás de
Aquino para dizer que as leis humanas só são justas quando estão em sintonia
com a “a lei moral […] a lei de Deus […] a lei eterna”.36 O exemplo pessoal e o
argumento de King desarmam de forma contundente os ouvintes seculares e
praticamente garantem atenção para a sua proposição.37
Ao pregar sobre o salmo 19 ou Romanos 1, ou sobre tantos outros salmos,
ao falar da criação que fala a respeito da existência e da glória de Deus, você
poderia citar Leonard Bernstein, que, segundo ele mesmo, quando estava diante
de uma grande música e de grande beleza, sentia o “céu”, uma ordem por trás
das coisas, “algo em que podemos confiar, que jamais nos desamparará”.38 Se
você estiver ensinando sobre praticamente qualquer passagem que fala do
pecado humano e da rebelião — mas especialmente sobre textos como Romanos
8.7, que fala da hostilidade natural do nosso coração em relação a Deus —, faria
bem em citar uma passagem notável do filósofo ateu Thomas Nagel, que
confessou com sinceridade: “Não é apenas que eu não creio em Deus e,
naturalmente, espero estar certo em minha crença. É que eu espero que não haja
Deus nenhum! Não quero que haja um Deus: não quero que o universo seja
assim […] Esse problema da autoridade cósmica não é uma doença rara”.39
Se você estiver pregando sobre Satanás, esteja certo de que seus ouvintes
começarão a dar sinais de tédio. Você pode citar Andrew Delbanco, estudioso
secular da Universidade de Colúmbia, cujo livro The death of Satan [A morte de
Satanás] defende que “se abriu um abismo em nossa cultura entre a visibilidade
do mal e os recursos intelectuais disponíveis para lidar com ele”.40 Delbanco diz
que muita gente secularizada atribui compreensivelmente toda crueldade humana
à privação psicológica ou ao condicionamento social e, ao fazê-lo, torna triviais
os erros terríveis de que são capazes as pessoas. O autor conta a história de
Franklin D. Roosevelt, que juntamente com boa parte da elite americana, durante
o Holocausto, “não deu prioridade ao socorro” das vítimas. Mais para o fim da
guerra, depois que as evidências das atrocidades se tornaram fortes demais para
serem desacreditadas, disseram a Roosevelt que lesse Kierkegaard, e o
presidente disse que, pela primeira vez, o filósofo cristão lhe dera “um
entendimento do que há no homem que lhe torna possível […] ser tão mau”.41
Delbanco assevera que os liberais seculares (de cujo grupo se considera
membro) haviam perdido qualquer conceito de “mal radical”. Se você falar do
Diabo perante um público secular, deverá usar fontes como essa para
desmantelar a postura de incredulidade irônica que eles, do contrário, assumirão
ao ouvir esse ensino bíblico.
Se você estiver pregando sobre o pecado original, poderá citar C. E. M.
Joad, intelectual britânico que deixou de ser ateu depois da Segunda Guerra
Mundial. “Foi porque rejeitamos a doutrina do pecado original que nós, da
Esquerda, estávamos sempre tão desapontados; desapontados com a recusa das
pessoas a serem racionais […] com o comportamento das nações e dos políticos
[…] sobretudo com o fato recorrente da guerra.”42
Essa é uma parte crucial da pregação ao coração da cultura. Não há garantia
alguma de que você conseguirá persuadir os céticos de sua audiência, mas essas
coisas farão com que eles não se desliguem imediatamente daquilo que você diz,
ouvindo-o por muito mais tempo. Com frequência, o resultado disso é que
respeitarão mais a sabedoria — e, por fim, a autoridade — da Bíblia.43
DEMONSTRE COMPREENSÃO A RESPEITO DAS DÚVIDAS
E OBJEÇÕES
O pregador cristão deve ser um crítico da descrença. Contudo, não há virtude
alguma em ser insensível. Será que os que estão em dúvida parecem sentir que
você é indiferente, autoritário ou que não leva a sério o que eles pensam, ou eles
ficam surpresos, até mesmo chocados, com a forma precisa e imparcial com que
você descreve as dificuldades deles em relação ao cristianismo? Eles acham que
você consegue expressar o ceticismo deles tão bem quanto, ou até melhor, do
que eles mesmos? O comunicador cristão deve mostrar que se lembra (ou pelo
menos compreende) muito bem como é não crer, mas ao mesmo tempo
asseverando que é possível chegar a uma segurança de fato da realidade e do
amor de Deus. Ele deve fazê-lo expressando essas dúvidas e objeções com
apreciação e respeito, de forma coerente, mostrando que ouve seu público com
seriedade. Isso é algo que não pode ser falseado. Só é possível depois de passar
muito tempo face a face com aqueles que não creem, além de ler as melhores
críticas ao cristianismo.44
Temos de estar dispostos a ouvir por muito tempo, atentamente, as dúvidas,
preocupações e esperanças dos descrentes para que, quando falarmos, estejamos
de tal forma em sintonia com o ponto de vista deles que eles sentirão a força de
nossos apelos e de nossa argumentação. Quando 1Pedro 3.15 diz que devemos
dar “a razão da esperança que há em [nós]” (grifo meu), a estudiosa do Novo
Testamento Karen Jobes diz que Pedro está dizendo que o “crente deve ser capaz
de comunicar a fé cristã ao descrente tratando de suas dúvidas de forma que lhe
seja compreensível”.45
Como demonstrar essa postura em seu ensino ou pregação? A primeira
tarefa consiste em estar sempre ciente de seus próprios pressupostos e de ser
transparente em relação a eles. Não faça uma exortação do ponto D, sabendo que
ele se baseia na aceitação de A, B e C, sem aludir também a esses pontos. Isso
pode significar o seguinte: “Agora, alguns de vocês talvez achem isso
improvável, porque não creem nisto… — mas eu lhes pediria que tivessem em
mente…”. Mostre a seus ouvintes que você sabe de seus problemas e de suas
indagações a respeito do que você acabou de dizer e que refletiu sobre as
resoluções e respostas.
Outra forma de envolver diretamente aqueles em dúvida entre os ouvintes é
dirigir-lhes a atenção no final de sua mensagem. No fim, na hora de fazer a
aplicação do sermão — ao incentivar algumas maneiras de pensar e de viver à
luz do texto —, você poderia entrar num rápido diálogo com eles. Diga: “Se
você não é crente ou não tem certeza no que crê, gostaria que fosse embora com
algo em que pensar…”.
Dirigir-se a qualquer grupo de pessoas diretamente ou por meio de um
convite mostra a elas que você sabe que estão ali. Você pode até dedicar um
ponto ou pontos secundários de sua mensagem às dúvidas e dificuldades do
indivíduo secular. Ao escrever o sermão, tenha em mente as objeções que os
céticos fariam ao ensino de um texto específico e, em seguida, reserve um
momento para interagir com eles recorrendo ao raciocínio de concordância e
discordância. Você poderia dizer: “Sei que há pouco disse coisas que você pode
achar ultrajantes, mas peço respeitosamente que pense no seguinte…”. A menos
que você esteja falando num ambiente em que a maior parte das pessoas seja
cética ou secularizada, não permita que esses temas dominem suas mensagens.
Você não deve incorporar esses “adendos apologéticos” mais do que uma vez
por sermão, e não os acrescente em todos os sermões.
Esses adendos devem lidar com o que alguns chamam de “invalidadores da
fé”. São ideias que, se aceitas, levam as pessoas a pensar: “Se isso é verdade,
então o cristianismo não pode ser verdade”. Eis alguns invalidadores (entre
outros): “Não pode haver um único caminho para Deus”; “É impossível acreditar
em um Deus que manda as pessoas para o inferno”; “A ciência desmascarou o
sobrenatural” e “A Bíblia tem muitas partes que são ofensivas, ultrapassadas,
que não podem mais ser aceitas”. Se ignorarmos a realidade desses
invalidadores, pregando como se as pessoas não os cultivassem, muita gente
simplesmente achará impossível acreditar nas coisas que dizemos.46
Insisto que a melhor maneira de lidar com as objeções é concordar
sinceramente com a crença dos seus ouvintes em algum ponto, mas em seguida
colocar em dúvida uma segunda crença equivocada que está na base da primeira.
É dizer: “Já que você acredita nisso, por que não acreditar naquilo?”. Cria-se,
assim, uma conexão entre a Bíblia e alguma das próprias crenças dos ouvintes, o
que pode fazer com que se sintam fortemente levados a aceitar outras coisas que
a Bíblia diz.
Se você estiver tentando convencer ouvintes seculares de que há algo mais
além deste mundo material, pode citar a observação de Annie Dillard em Pilgrim
at Tinker Creek [Peregrino em Tinker Creek]. Diz ela que embora sejamos parte
da natureza, em que é perfeitamente natural que o forte domine o fraco, nos
recusamos intuitivamente a aceitar tal conceito como padrão do comportamento
humano. “Ou este mundo, minha mãe, é um monstro, ou eu sou uma
aberração.”47 Contudo, como podemos considerar o mundo natural anormal e
não natural a menos que haja algum padrão acima da natureza — um padrão
sobrenatural? Se você não crê que sua crença em direitos humanos seja uma
ilusão, se você acha que o genocídio de pessoas fracas por pessoas mais fortes é
algo verdadeira e universalmente errado (ponto de contato), então por que não
acreditar que há absolutos morais em algum reino além deste mundo (ponto de
confrontação)?
Se você estiver discorrendo sobre a autoridade da Bíblia, pode mencionar a
importância de ter um relacionamento de amor pessoal com Deus. Sabemos que
nas relações em que o amor é mútuo as duas partes devem ser agentes ativos,
capazes de contradizer e corroborar uma à outra. Se a pessoa A nunca pode
expressar uma opinião contrária à da pessoa B, isto significa que a pessoa B tem
uma relação de poder com a pessoa A, e não uma relação pessoal. Agora, se
você prefere acreditar só naquelas coisas da Bíblia com as quais você concorda,
de que maneira o seu Deus pode contradizê-lo? Somente se seu Deus puder lhe
dizer coisas que o contradigam, você saberá que tem um Deus real, e não apenas
uma criação da sua imaginação. Portanto, uma Bíblia que tenha autoridade
(ponto de contradição) não se opõe a uma relação de amor pessoal com Deus
(ponto de contato). É precondição.
Eis outra maneira de falar a respeito de uma Bíblia revestida de autoridade
com pessoas que consideram ofensiva parte do seu conteúdo: “Toda cultura tem
elementos bons e ruins, não é mesmo? Não há uma cultura que seja perfeita ou
que contenha toda a verdade, certo?”. Este é o ponto de contato — a crença da
modernidade tardia de que nenhuma cultura é dona de toda a verdade. É aqui,
portanto, que se poderá erguer o ponto de contradição, isto é, sobre o ponto de
contato. “Agora, pensando no argumento, imagine que a Bíblia não seja produto
de nenhuma cultura humana e de nenhum grupo de autores, e sim uma revelação
do próprio Deus. Se assim fosse, ela teria de ofender, em algum ponto, as
sensibilidades culturais de todos. Não importa quem você seja, você habita uma
cultura imperfeita que dá forma às suas crenças, e a Bíblia — se fosse revelação
fidedigna de Deus — teria de afrontá-lo em algum momento. Já que é assim, de
nada adianta dizer em relação à Bíblia: ‘Ela me ofende neste ponto’. Isso é
precisamente o que você deveria esperar.”
O filósofo cristão Miroslav Volf, em Exclusion & embrace [Exclusão e
abraço], diz que a fé em um Deus que julga (ponto de contradição) é um recurso
crucial para a não violência (ponto de contato). Falando como croata que é, cujo
povo sofreu limpezas étnicas nos anos 1990, Volf diz que “a prática da não
violência requer que se acredite na vingança divina”. Se as vítimas da violência
não acreditam que há um Deus, ou que Deus nenhum trará uma justiça final
sobre a Terra, elas se sentirão justificadas, ou ao menos se sentirão incentivadas,
a pegar em armas para se vingar. Portanto, diz Volf, a única maneira de “impedir
o recurso à violência por conta própria” consiste em crer plenamente que
somente Deus tem esse direito e que ele, um dia, fará o acerto final de todas as
contas.48
Se você permear sua pregação com esses adendos chamativos e concisos,
mas ainda assim penetrantes, não apenas animará o ouvinte secular a voltar, mas
também motivará o cristão a trazer seus amigos mais secularizados para ouvi-lo.
Fazendo isso, você também estará oferecendo aos crentes um conjunto de
minicursos de como lidar com suas próprias dúvidas e responder às questões de
seus amigos a respeito da fé.
CONFIRME, A FIM DE DESAFIAR AS
NARRATIVASCULTURAIS BÁSICAS
Sua pregação deve estar direcionada para as objeções específicas que
comumente são levantadas contra o cristianismo. Contudo, ainda mais decisivo
do que lidar com essas coisas é interagir com as narrativas culturais
fundamentais do seu tempo. Diferentemente das objeções declaradas, as pessoas
de determinada cultura mal têm consciência desses temas básicos. Trata-se de
coisas que “todo mundo sabe”, premissas que parecem tão evidentes por si
mesmas que são quase invisíveis e inquestionáveis para os que as sustentam. São
geralmente expressas em slogans ou “truísmos” epigramáticos proferidos para
encerrar discussões — acredita-se que estejam além de qualquer argumentação.
“Todos têm o direito à opinião própria” ou “Seja você mesmo” são dois dos
muitos exemplos disso.
Essas narrativas, na verdade, são uma oportunidade para o comunicador
cristão, uma vez que a maior parte das pessoas, inclusive indivíduos
secularizados, nunca refletiram muito sobre suas crenças, tampouco procuraram
fundamentá-las. Quando você articula e define as crenças profundas por trás dos
slogans, elas imediatamente parecem menos inquestionáveis. A não ser que
invoquemos essas coisas e as contrastemos com os grandes temas e propostas da
Bíblia, tanto os crentes quanto os descrentes de uma cultura serão influenciados
inconscientemente por elas. Temos de aprender a apresentar os temas bíblicos, as
doutrinas e as verdades correspondentes de tal maneira que as narrativas da
cultura secular sejam apreciadas e desafiadas.
Poderíamos chamar este enfoque de “acusação compreensiva” porque,
sobretudo no Ocidente, muitos temas culturais têm origem no ensino bíblico. É
este o caso, mesmo que todos esses temas tenham sido distorcidos bastante
devido à união com crenças anticristãs que podem afastar seus adeptos da
verdade, mandando-os, às vezes, para muito longe. Como diz o filósofo
canadense Charles Taylor, temos de “criticar essas práticas do ponto de vista de
seu próprio ideal motivador”. Cada uma das narrativas aspira, em parte, a algo
bom, e devemos genuinamente apreciá-las por isso. As pessoas querem, com
razão, ser livres; elas querem justiça; querem uma sociedade verdadeiramente
aberta e pluralista. Contudo, temos de mostrar a elas que somente em Cristo
essas aspirações poderão ser alcançadas adequadamente. “Em vez de descartar
totalmente essa cultura, ou de apenas endossá-la tal como ela é”, Taylor conclui
que devemos mostrar a seus membros o que “realmente envolve aquilo que
subscrevem. Isto sugere […] o trabalho de persuasão”.49
Como é possível fazê-lo? Darei alguns exemplos de como fazê-lo na cultura
ocidental moderna no próximo capítulo. Como um breve aperitivo disso, temos
primeiramente de descrever bem as narrativas, tornando-as “visíveis” aos
ouvintes. Em seguida, usamos a Bíblia para identificar aquilo que queremos
confirmar e apreciar em relação à narrativa. Depois, usando vozes respeitadas da
cultura, temos de desafiar a narrativa de diversas perspectivas. Temos de mostrar
como a maior parte do restante do mundo e de outras culturas não considera essa
crença como algo autoevidente. Agir como se “todo o mundo cresse nisso” é,
portanto, uma atitude etnocêntrica. Temos de mostrar também que a narrativa é
simplista demais; que ela não leva em conta as complexidades da vida real e que
requer saltos de fé tão grandes ou ainda maiores do que aqueles solicitados pela
religião.
FAÇA PROPOSIÇÕES BASEADAS NO EVANGELHO QUE
ATINJAM OS PONTOS DE PRESSÃO DA CULTURA
Não basta confirmar e depois desafiar uma narrativa ou crença cultural. “Sim…
mas não” são apenas os primeiros dois atos, de um arco de três, da
contextualização ativa. Para completar o processo da nossa pregação, temos de
demonstrar de forma bem específica nessa narrativa de que modo o cristianismo
oferece recursos muito mais poderosos — não apenas para explicar, mas também
para tornar realidade determinada aspiração ou para lidar com certa questão.
Somente em Cristo um enredo cultural poderá ter um final feliz. Só ele pode
proporcionar o “mas sim” final que consuma o texto bíblico e atinge as pessoas
no fundo do coração. Para os que buscam a sabedoria, Cristo é a verdadeira
sabedoria de Deus. Para os que buscam poder, ele é o verdadeiro poder de Deus.
O evangelho oferece muitas coisas — perdão, comunhão, sentido,
contentamento, identidade, liberdade, esperança, vocação. O comunicador
cristão precisa refletir sobre como organizar e articular essas ofertas magníficas
para aplicar frontalmente sua força nos “pontos de pressão” da cultura. Há
pontos sensíveis, por assim dizer, nos quais as pessoas que não creem no
cristianismo ou em Deus se sentem comprimidas, como pés dentro de sapatos
pequenos demais, por sua visão de mundo. São esses os pontos em que aquilo
que elas professam e dizem acreditar em relação ao mundo não se ajustam com
suas intuições ou experiências.50 O pregador precisa saber quais são esses pontos
sensíveis e pressioná-los com perguntas, proposições, ilustrações e exemplos que
tornam a tensão que sentem ainda mais aguda e as incongruências ainda mais
incômodas.
Por exemplo, ao pregar sobre o perdão, chame a atenção para o trabalho de
sociólogos segundo os quais nossa cultura moderna, que promove a
autoafirmação e a autoestima, torna o perdão especialmente difícil. Em seguida,
mostre que o evangelho nos confere a gratidão e a humildade de que precisamos
para perdoar e ser perdoados.51 Ao pregar sobre comunhão, busque pesquisas
que mostrem de que modo o compromisso da sociedade contemporânea com o
individualismo desgasta os laços de comunhão e a vida social. Em seguida,
mostre como o evangelho nos concede recursos fantásticos para a comunhão.52
Você pode buscar padrões similares em vários outros temas bíblicos, como
satisfação, liberdade, esperança e vocação.
CHAME PARA UMA MOTIVAÇÃO NO EVANGELHO
Há uma pergunta que nos espreita depois disso tudo: Como é possível nos
esforçarmos tanto para interagir com narrativas culturais e com o pensamento
secular e ainda assim pregarmos o texto e edificarmos os fiéis? Não estaríamos
dando atenção excessiva aos não crentes?
A resposta é dupla. É um erro pensar que crentes fiéis do nosso tempo não
sejam profundamente moldados pelas narrativas da modernidade. Não há dúvida
de que somos. Portanto, quando você revela essas narrativas e interage com elas
no curso normal de pregação da Palavra, você ajuda seu público cristão a ver em
que ponto ele talvez esteja sendo mais influenciado pela sociedade do que pela
Escritura. E isso também lhe proporciona meios importantes de comunicar sua fé
aos outros. Essa é uma importante maneira de edificar os crentes.
O ponto fundamental, porém, para lidar ao mesmo tempo com os que creem
e com os que não creem — e mesmo com os subgrupos dentro das culturas —
consiste em tocar os corações e suscitar a motivação do evangelho em sua
pregação. É impossível lidar com cristãos e não cristãos de uma só vez se não
compreendemos a versatilidade e a centralidade do evangelho para a vida. O
evangelho não é apenas o meio pelo qual as pessoas se convertem, mas também
o meio pelo qual os cristãos resolvem seus problemas e crescem. A estratégia
típica em relação ao evangelho é vê-lo apenas como o á-bê-cê da doutrina cristã,
a verdade mínima necessária à salvação, o teste de admissão, o ponto de entrada.
Entende-se então que progredimos na vida cristã através da aplicação de outros
princípios bíblicos (mais avançados). Se fosse o caso, então é óbvio que não
poderíamos fazer as duas coisas, isto é, evangelização e formação espiritual ao
mesmo tempo. Contudo, o evangelho não é apenas o modo pelo qual somos
salvos, mas é também a solução constante de todo problema e o caminho para
que avancemos em todas as etapas da vida cristã.
Tenho um exemplo do meu ministério. Muitos cristãos da minha igreja são
asiáticos e se sentem excessivamente pressionados pelas expectativas dos
parentes de que alcancem suas metas e sejam bem-sucedidos. Eles sentem
frequentemente que não correspondem ao que os pais esperavam deles. Contudo,
muitos jovens profissionais tipicamente americanos da nossa igreja foram
criados em uma cultura muito mais individualista e, sob vários aspectos, lutam
contra a ira e a amargura em relação a seus pais porque acreditam que estes os
decepcionaram e falharam com eles. Como posso lidar com essa variedade de
motivações em um único sermão? Fazendo com que se lembrem de que o único
amor paterno e materno que não podem perder, e o único que necessitam ter,
encontra-se no Pai celestial, o Pai por excelência, que nos dá segurança por meio
da obra salvadora de Jesus Cristo. Embora fosse Filho de Deus, foi banido e se
perdeu, para que você pudesse ser recebido na família de Deus. Quando você se
dá conta de que ele fez isso por você, o amor do Pai se torna a coisa mais
preciosa e real em sua vida.
Quando isso acontece, se você se sentir amargurado porque não recebeu o
amor dos pais, poderá perdoá-los, porque eles não o empobreceram. Você é rico
em amor paterno e materno. E todo aquele que se sente fracassado perante as
expectativas dos seus pais pode se sentir aliviado, porque tem a aprovação do
único Pai cuja opinião conta.
Quando o pregador resolve os problemas dos cristãos com o evangelho —
não conclamando a que se esforcem mais, mas conduzindo-os a uma fé mais
profunda na salvação de Cristo —, os crentes estarão sendo edificados e, ao
mesmo tempo, os não crentes ouvirão o evangelho. Isso se aplica a qualquer
assunto. Se você estiver chamando os cristãos a serem generosos com seu
dinheiro, deverá lidar com seus temores e com seu coração endurecido
mostrando-lhes Jesus, que, embora sendo rico, se fez pobre, para que através da
sua pobreza nos tornássemos ricos (2Co 8.9). Se você estiver ajudando os
cristãos a lidar com a oração não respondida, não diga simplesmente a eles
“confiem no Senhor” — uma expressão que, por si só, é de uso limitado ao
cristão e estranha ao não cristão. Fale também daquele que teve sua oração
sincera rejeitada no Jardim do Getsêmani; mas como ele confiou no seu Pai,
mesmo assim, fomos salvos.
Se você resolver os problemas dos cristãos com o evangelho toda semana,
indivíduos secularizados não apenas o ouvirão de forma um pouco diferente a
cada vez, e assim terão uma visão sempre mais abrangente dele, mas também
compreenderão de que maneira a fé em Cristo realmente atua provocando
mudança de vida. É fundamental que vejam isso. Eles estarão sendo
evangelizados de modo bastante eficaz, e não superficialmente, ao mesmo tempo
que os cristãos serão edificados.
NOTAS
1Veja tb. as traduções da English Standard Version e da New American Standard Version.
2Terry Eagleton, Culture and the death of God (New Haven: Yale University Press, 2014), p. 1 [edição
em português: A morte de Deus na cultura (Rio de Janeiro: Record, 2016)].
3Veja Peter Watson, The age of atheists: how we have sought to live since the death of God (New
York: Simon & Schuster, 2014); Sam Harris, Waking up: a guide to spirituality without religion (New York:
Simon & Schuster, 2014) [edição em português: Despertar: um guia para a espiritualidade sem religião
(São Paulo: Companhia das Letras, 2015)]; Ronald Dworkin, Religion without God (Cambridge: Harvard
University Press, 2013); e Alain de Botton, Religion for atheists: a nonbeliever’s guide to the uses of
religion (New York: Vintage, 2013) [edição em português: Religião para ateus, tradução de Vitor Paolozzi
(Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011). Todos esses volumes constituem esforços para encontrar a paz interior,
isto é, comunhão completa e uma sensação de “plenitude” e de magnitude que as pessoas tradicionalmente
buscam na religião e na fé em Deus.
4Originalmente, as TED talks eram palestras protagonizadas por experts nas áreas de tecnologia,
entretenimento e design, mas hoje são realizados por palestrantes ilustres, ou reconhecidos por sua grande
capacidade comunicativa, que tratam de qualquer assunto considerado interessante ou inovador. Com
duranção média de 18 minutos, buscam inspirar e influenciar um grande público por meio de ampla
divulgação em vídeos na internet. (N. do E.)
5Barna Group, “Barna Technology Study: Social Networking, Online Entertainment and Church
Podcasts”, May 26, 2008, disponível em: www.barna.org/barna-update/media-watch/36-barna-technology-
study-social-networking-online-entertainment-and-church-podcasts#.VELXX_l4o3g, acesso em: jan. 2017.
6Um exemplo disso é Douglas Pagitt, Preaching reimagined: the role of the sermon in communities of
faith (Grand Rapids: Zondervan, 2005), obra escrita perto do fim do debate. Pagitt critica não apenas a
pregação, mas também a oratória pública de modo geral, que ele chama de “speaching”. Sua tese,
basicamente, é que a comunidade, e não o pregador, deve determinar a verdade; a oratória eleva o indivíduo
a um lugar ilegítimo de autoridade. Embora isso tenha sido expresso de modo emocional como uma coisa
radical, especialistas em homilética como Lucy Rose, em Sharing the Word: preaching in the roundtable
church (Louisville: John Knox, 1997), e John McClure, em The roundtable pulpit (Nashville: Abingdon,
1995), já vinham dizendo a mesma coisa. Veja tb. Leander E. Keck, que diz: “Se vale a pena comunicar
alguma coisa, não estrague transformando em pregação! Deixe que a coisa venha à tona no
compartilhamento do grupo; celebre com música, dança ou teatro. Na pregação, as pessoas ficam tão
passivas quanto galinhas num poleiro — e talvez tão despertas quanto elas” (The Bible in the pulpit: the
renewal of biblical preaching [Nashville: Abingdon, 1978], p. 40). Portanto, nos círculos mais tradicionais,
o sermão-monólogo tem sido questionado há uma geração. Contudo, Thomas G. Long, destacado professor
tradicionalista de pregação, diz que o sermão baseado no diálogo e na mesa-redonda constitui uma das
várias “experiências” temporárias que a igreja tenta pôr em prática durante tempos de ansiedade, em
detrimento da eficácia da pregação. (Ele tem uma lista dessas experiências: “sermões multimídia, sermões
na primeira pessoa, sermões musicados, sermões dialogados, sermões pregados num banquinho de bar…”.)
Long diz que essas experiências não resultam no alijamento por completo da forma do sermão, mas
atendem ao propósito de ajudar as pessoas a pensar de forma inovadora a respeito da pregação durante as
temporadas de “derretimento periódico do púlpito” (Preaching from memory to hope [Louisville, KY: John
Knox Press, 2009], p. xiv–xv).
Nos círculos mais conservadores, To preach or not to preach, de David C. Norrington, conclui que “o
sermão tradicional não tem base bíblica, recorre a métodos pagãos hostis à prática no Novo Testamento e
parece não ter feito parte do crescimento da igreja primitiva” (Milton Keynes/Exeter: Paternoster Press,
1996; reimpr., Ekklesia Press, 2013, p. 95). O sermão, diz Norrington, é por definição abstrato e
generalizante, pois o pregador não tem como saber o que se passa na vida dos ouvintes presentes. Os
sermões criam crentes passivos, que não sabem como aprender e internalizar a verdade bíblica por si
mesmos. A comunicação por via única também significa que o pregador não aprende, mantendo-se em
grande medida preso a seus preconceitos. Norrington acredita que o sermão tradicional — o discurso de
mão única semanal sobre a Bíblia feito pelo pastor — é uma prática não bíblica que só ganhou forma no
terceiro ou quarto séculos depois de Cristo. Ele defende o fim do sermão e a adoção de uma leitura
interativa da Bíblia, em comunidade, combinada com o encorajamento, o aconselhamento e a correção do
grupo todo (Norrington, To preach or not to preach, p. 83). Há uma opinião generalizada de que Norrington
não foi capaz de defender seu argumento de que aquilo que ele denomina “pregação tradicional” — uma
apresentação oral em forma de monólogo da verdade cristã — é “antibíblica” e até mesmo “pagã”.
Sobretudo se tivermos em vista a pesquisa histórica de Hughes Old sobre a história do sermão. Old dá
destaque ao Didaquê, um documento da igreja primitiva que pressupõe a existência de “um grupo de
pregadores profissionais que dedicam a vida ao seu ministério, em vez de serem pregadores leigos” (The
reading and preaching of the Scriptures in the worship of the Christian church [Grand Rapids: Eerdmans,
1998], v. 1: The biblical period, p. 256).
7Andy Stanley; Lane Jones, Communicating for a change (Eugene: Multnomah, 2006), p. 89.
8P. T. Forsyth, Positive preaching and the modern mind (Milton Keynes/Exeter: Paternoster Press
Reprint, 1998), p. 73. Como exemplo, ele diz que Atanásio “tacou o mundo, como verdadeiro pregador que
era, em vez de aflorar dele […] Ele forçou o mundo a se acomodar a ele” (ibidem, p. 74).
9Ibidem, p. 2. É interessante notar que na mesma época geral em que Forsyth lecionava e escrevia
sobre pregação, Harry Emerson Fosdick e outros, em Nova York, caminhavam na direção oposta. Fosdick
foi um pioneiro do liberalismo protestante que aconselhava os pregadores a se fixarem na psicologia, e não
na exposição da doutrina. Disse ele: “Todo sermão deve ter como objetivo principal a resolução de algum
problema — um problema vital, importante, que confunde as mentes, oprime as consciências, distrai vidas
— e todo sermão que lida de fato com um problema real, que lança pelo menos alguma luz sobre ele e ajuda
alguns indivíduos de modo prático a encontrarem um caminho por meio dele não pode ser totalmente
desinteressante” (citado em Thomas G. Long, The witness of preaching, 2. ed. [Louisville: John Knox,
2005], p. 30. A crítica de Long ao “sermão como sessão de aconselhamento” usado por Fosdick e, mais
tarde, por Norman Vincent Peale e muitos outros dessa mesma linha — e seu relato de como saiu de moda
— encontram-se nas páginas 30 a 37. Veja tb. Matthew Bowman, “Harry Emerson Fosdick and baptism at
Riverside”, in: The urban pulpit: New York City and the fate of liberal evangelicalism (New York: Oxford
University Press, 2014), p. 253.
10Old mostra que o método expositivo se opôs diretamente às correntes culturais da época. A oratória
clássica era dialética. Ela começava com uma tese sobre alguma questão importante, depois dividia o
tópico, propunha e avaliava todos os argumentos de ambos os lados e elaborava uma hipótese para
solucionar a questão. A pregação expositiva permitia que o texto desse forma ao sermão. Ele começava com
o texto e seguia adiante entrando na vida prática, não o contrário. Old cita um sermão de Clemente de
Alexandria (c. 150 — c. 215). Depois da introdução, Clemente analisa uma passagem da Escritura versículo
por versículo, explicando ao mesmo tempo o significado das palavras e as afirmações feitas. Diz ele: “Este,
na verdade, não era um procedimento que havia aprendido com os clássicos da oratória grega. Os gregos
não tinham nada parecido com o sermão expositivo que servisse de modelo literário” (Reading and
preaching of the Scriptures, v. 1: The biblical period, p. 299).
11Forsyth, Positive preaching and the modern mind, p. 73.
12Luc Ferry, A brief history of thought: a philosophical guide to living (New York: Harper, 2011), p.
60-4.
13Ibidem.
14Escrevi muita coisa sobre contextualização em Center church: doing balanced, gospel centered
ministry in your city (Grand Rapids: Zondervan, 2012), p. 89-134 [edição em português: Igreja centrada:
desenvolvendo em sua cidade um ministério equilibrado e centrado no evangelho (São Paulo: Vida Nova,
2014)]. A breve seção deste capítulo que aparece a seguir deve ser lida juntamente com aquela análise mais
extensa.
15Eckhard J. Schnabel, Paul the missionary: realities, strategies, and methods (Downers Grove: IVP
Academic, 2008). Em Atos 13.13-43, Paulo fala aos judeus e gentios tementes a Deus — aqueles que
aceitam a autoridade da Bíblia. Contudo, em Atos 14.6-16, ele se dirige a camponeses politeístas, em 17.16-
34, às elites gregas sofisticadas de Atenas e, em Atos 26, às elites culturais multiétnicas das colônias
romanas da Palestina. Para a análise que Schnabel faz das adaptações culturais e dos discursos de Paulo em
Atos, veja p. 155-208 e p. 334-53. “Os exegetas e missiólogos usam com frequência o termo
contextualização para essa dimensão do discurso de […] Paulo” (p. 74).
16Portanto, quando Paulo diz a Festo que suas palavras não são “insanas”, mas “racionais”, ele usa o
termo sophrosynes. “O termo tem nuances como […] intelectualmente sadias […] não ilusórias […]
prudentes” (Gerhard Kittel; Gerhard Friedrich; Geoffrey W. Bromiley, Theological dictionary of the New
Testament [Grand Rapids: Eerdmans, 1985], p. 1150).
17“Paulo recolhe do Antigo Testamento e das tradições judaicas temas que poderiam ser
imediatamente compreendidos pelos filósofos atenienses, inclusive alusões terminológicas e citações”
(ibidem, p. 171). Há quem diga que os que argumentam a favor da contextualização enfatizam demais Atos
17; contudo, o trabalho de contextualização de Paulo pode ser visto em todo o livro de Atos. Há outros
exemplos bíblicos também. Já mencionamos o uso contundente que João faz do termo logos em João 1.
Além disso, pode-se demonstrar que o livro de Deuteronômio foi escrito deliberadamente sob a forma de
um tratado de suserania hitita do segundo milênio, uma forma literária que teria sido reconhecida
instantaneamente nas culturas do Oriente Médio da época, que a usavam para estabelecer relações de
aliança entre reis triunfantes e estados vassalos. Veja Meredith G. Kline, The treaty of the great king
(Eugene: Wipf and Stock, 2012).
18Schnabel, Paul the Missionary, p. 171.
19Ele concorda, por exemplo, com a crítica muito comum feita pelos filósofos aos templos feitos por
mãos humanas e aos sacrifícios (At 17.24-25) e faz referência também à busca da humanidade por Deus (At
17.27-28) (ibidem, p. 171-4).
20Ibidem, p. 171.
21Ibidem, p. 177.
22Diz Schnabel: “Paulo usa a citação de Aratus como argumento contra a conciliação dos filósofos
com a pluralidade e a diversidade de cultos religiosos. Se os seres humanos foram criados pelo Deus
Criador, é absurdo que eles criem imagens de um deus e [as] adorem” (ibidem, p. 179-80).
23Keller, Center church, p. 124-6.
24Paulo “recorre a convicções, argumentos e formulações com as quais esses intelectuais atenienses
estavam familiarizados e as quais teriam reconhecido como válidas” (Schnabel, Paul the missionary, p.
174). Contudo, no final, a “resposta de Paulo às crenças e às práticas religiosas dos atenienses foi
basicamente não de acomodação, mas de confrontação” (ibidem, p. 82).
25Ao aprender e “usar as tradições intelectuais, filosóficas e linguísticas do seu público”, Paulo
mostrava a seus ouvintes que “os levava a sério como parceiros de discussão” (ibidem, p. 183). O filósofo
Charles Taylor concorda: “A pregação do evangelho, se for outra coisa que não uma expressão do
sentimento de superioridade do pregador, exige […] atenção firme e respeitosa à vida das pessoas a que se
dirige […] antes da graça que o evangelho trará” (A secular age [Cambridge: Harvard University Press,
2007], p. 95) [edição em português: Uma era secular (São Leopoldo: Unisinos, 2010)].
26Para mais conteúdo sobre contextualização, veja David F. Wells, “The nature and function of
theology”, in: Robert K. Johnston, ed., The use of the Bible in theology: evangelical options (Louisville:
John Knox, 1985); Richard Lints, The fabric of theology: a prolegomenon to evangelical theology (Grand
Rapids: Eerdmans, 1993), p. 102-5; David K. Clark, “Evangelical contextualization”, in: To know and love
God: method for theology (Wheaton: Crossway, 2010), p. 78-90; Bruce Riley Ashford, “The gospel and
culture”, in: Bruce Ashford, org., Theology and practice of mission: God, the church, and the nations
(Nashville: B and H Academic, 2011), p. 109-27.
Todos esses quatro autores — Wells, Clark, Lints e Ashford — fazem referência a três estratégias de
contextualização: (1) a visão histórica/liberal, que vê as pessoas imersas na cultura de tal maneira que a
“práxis” e o contexto têm prioridade sobre a Escritura (veja Clark, “Evangelical contextualization”, p. 78);
(2) a visão fundamentalista, na qual o cristão vê a si mesmo como alguém tão livre de seus preconceitos
culturais que é capaz de ler a verdade diretamente da Escritura e, portanto, não tem necessidade de nenhum
processo de contextualização; e (3) a abordagem evangélica, que reconhece o viés cultural em todas as
pessoas e a necessidade de tradução e adaptação cultural, mas que deseja que a Bíblia continue a ser
normativa em relação à cultura, em vez de ser seu parceiro de “diálogo” equivalente. Embora os
evangélicos, em geral, procurem trabalhar dentro da estrutura (3), há diferenças de enfoque.
David K. Clark critica os escritos de Wells e David Hesselgrave por ser um modelo que emprega a
fórmula de “codificação/decodificação” e vê a contextualização somente como um método de transmissão
de comunicação. (Outros bastante alinhados com Hesselgrave e Wells preferem falar de tradução e
transmissão em vez de contextualização). Para Clark, esse modelo acredita demais que o pregador cristão
seja capaz de discernir princípios transculturais fundamentais que precisam simplesmente “mudar de
roupa”, isto é, ser colocados em novas formas e códigos culturais. Clark propõe, em vez disso, um “modelo
dialógico”, em que o pregador cristão não apenas permite que a Bíblia critique a nova cultura, mas também
que a nova cultura critique nossa leitura anterior da Escritura. Por exemplo, tentar alcançar uma cultura
mais comunitária talvez ajude os cristãos americanos a ver que a compreensão que têm do cristianismo é
individualista demais e influenciada por sua cultura, e não pela Bíblia. Clark acrescenta que, por esse
motivo, a contextualização deve ser um processo de busca muito maior. Não se trata apenas de uma coisa
que fazemos a partir de um lugar seguro, traduzindo e reformulando sem que sejamos examinados e sem
que façamos parte do processo (ibidem, p. 81-90). Concordo com muito do que Clark diz, embora não
esteja certo de que ele difere tanto assim de Hesselgrave e de Wells como acredita diferir. No fim das
contas, os evangélicos diferem em suas práticas, mas há um acordo geral de que há necessidade de algum
tipo de processo de contextualização.
27Estou em dívida nesta seção com meu filho, Michael Keller, aluno do doutorado do Centro Jonathan
Edwards da Universidade Yale, que me forneceu a dissertação não publicada de Rachel M. Wheeler (veja a
seguir), bem como as transcrições de todos os sermões de Edwards nos anos em que o autor viveu em
Stockbridge.
28Para ler alguns desses sermões, veja “To the Mohawks at the treaty, August 16, 1751” e “He that
believeth shall be saved”, in: Wilson Kimnach; Kenneth Minkema; Douglas Sweeney, orgs., The sermons of
Jonathan Edwards: a reader (New Haven: Yale University Press, 1999), p. 105-20. Veja tb. “The things that
belong to true religion”, “Heaven’s Dragnet”, “Death and judgment”, “Christ is to the heart like a river to a
tree planted by it”, “God is infinitely strong”, “Warring with the Devil” e “Farewell sermon to the indians”,
in: Wilson Kimnach, org., The works of Jonathan Edwards: sermons and discourses 1743–1758 (New
Haven: Yale University Press, 2006), vol. 25, p. 566-716.
29Os sermões de Edwards aos índios são mais curtos e condensados. Contudo, a simplicidade deles
não é de modo algum simplista. O estudioso de Edwards, Wilson Kimmach, diz: “Embora breves, os
sermões aos índios são notavelmente equilibrados em sua abordagem das nuances da teologia calvinista”
(Kimnach, Works of Jonathan Edwards, v. 25, p. 42). Contudo, a maneira pela qual essa teologia foi
comunicada mudou significativamente. Isto fica muito claro em seu primeiro sermão aos índios: “The
things that belong to true religion” (Ibidem, p. 566-74). Depois de ler seu texto, Atos 11.12,13, ele não
começa com sua exegese textual de sempre, uma detalhada divisão e análise dos versículos. Em vez disso,
faz algo que nunca havia feito antes: começa com uma narrativa longa, a história de Cornélio, primeiro não
judeu convertido, e mostra como sua conversão se encaixa na história da redenção. A narrativa é sobre um
sujeito que vem de fora, não pertencente à raça judaica, um “guerreiro pagão” que encontra a fé em Cristo.
Os judeus conheceram o Deus de Israel, mas os gentios eram politeístas e não dispunham desse
conhecimento prévio. Em tudo isso, Cornélio se parece com os índios.
Em seguida, Edwards apresenta a totalidade da história humana como a disseminação do evangelho —
primeiramente, de uma família para toda uma nação; depois, dos hebreus para gentios europeus como
Cornélio, que foram paulatinamente convertidos. Ele conta até mesmo como seu povo, os ingleses, haviam
em certa época adorado ídolos, eram supersticiosos, mas se desfizeram deles e se tornaram cristãos. Agora,
diz Edwards, o evangelho está sendo espalhado pelos europeus e chegou aos índios, do Velho Mundo para o
Novo Mundo. Nessa narrativa, Edwards se identifica com os índios. Ele também é parte de uma nação que,
num tempo passado, também achou “estranho” o cristianismo. Contudo, boa parte desse relato coloca o
ouvinte exatamente no meio da grande história do mundo e do que Deus está fazendo nele. Edwards não
está simplesmente denunciando os índios como pagãos supersticiosos — ele está mostrando como, na
condição de povo, eles são parte do plano divino. Aqui Edwards faz algo notável: ele usa o evangelho para
se desfazer da divisão racial “nós” e “eles”.
Ao verificarmos o restante dos sermões de Edwards aos índios, percebemos diversas mudanças
drásticas feitas por ele em sua pregação com o objetivo de alcançar seus novos ouvintes. Seus sermões
dedicam muito menos tempo à exegese bíblica detalhada, e ele também apresenta menos provas
escriturísticas em sua doutrina e nas aplicações que faz (ibidem, p. 641). Em vez disso, para enfatizar a
verdade da doutrina bíblica, Edwards confia mais em “testemunho pessoal da veracidade da mensagem […]
e em um apelo para a experiência compartilhada” (ibidem, p. 641). A exemplo de Paulo, ele não recorre
exageradamente a várias provas da Bíblia perante ouvintes que não a conhecem, embora extraia sempre
seus ensinos da Escritura.
Além disso, o esboço dos sermões tradicionais de Edwards mudou. Anteriormente, todo sermão incluía
invariavelmente texto (a exegese de uma passagem bíblica), doutrina (destilação da implicação doutrinária
do texto em uma única sentença e, em seguida, análise dos aspectos dessa proposição) e aplicação (uso
prático da doutrina na vida dos ouvintes). Contudo, “uma marca dos sermões dos índios de Stockbridge é
que […] eles não contêm nada identificado como ‘Doutrina’, mas apenas […] ‘Observações’” (Wilson
Kimnach, “Introduction: Edwards the Preacher”, in: Kenneth P. Minkema; Adriaan C. Neele; Bryan Mc-
Carthy, orgs., Sermons by Jonathan Edwards on the Matthean Parables [Eugene: Cascade Books, 2012],
vol. 1, p. 10n15). Em vez de discorrer exaustivamente através da análise e da divisão de assuntos em partes,
Edwards passou da ênfase na análise para a síntese (Kimnach, Works of Jonathan Edwards, v. 24, p. 42).
Seus sermões agora consistiam em grupos concisos de ideias (ibidem, p. 566).
Nesses sermões, vemos Edwards usando não apenas mais decididamente a narrativa, mas também a
metáfora. “Embora esse método homilético não requeira a simplificação demasiada de conceitos essenciais,
ou que se trate os índios com um paternalismo que os subestime, ainda que gentilmente, ele com frequência
ajustava sua dicção e, de maneira impressionante, seu imaginário” (ibidem, p. 676). Rebecca Wheeler diz
que “em Stockbridge, ele passou a confiar mais acentuadamente na metáfora e no imaginário. Valendo-se
das parábolas do Novo Testamento, Edwards pregou sobre semeadores, pescadores, sobre a terra ressequida
demais para que uma semente brote, sobre árvores alimentadas por rios que nunca secam e sobre
espinheiros e espinhos que obstruem o caminho do viajante” (Rebecca M. Wheeler, Living upon Hope:
Mahicans and missionaries, 1730–1760 [Ph.D. diss., Yale University, 1999], p. 163). Contudo, não se
tratava apenas de usar mais imagens e metáforas. Ele também escolhia aquelas que ele cria que os índios
acolheriam.
Seu sermão “Lutando contra o Diabo” foi baseado em Lucas 11.21,22: “Quando um homem forte e
armado guarda a sua casa…” Edwards descreve a “casa” como o eu ou a alma, que pode estar sob o poder
de Satanás, descrito como guerreiro poderoso. Armado dos desejos desordenados do coração humano, ele
pode fazer de nós prisioneiros. Ele imagina, portanto, que o pecado seja um estado do ser aprisionado pelo
inimigo armado. A graça e a salvação, porém, vêm por intermédio de Cristo na forma de um homem
armado ainda maior, que pode nos libertar. O Novo Testamento usa várias metáforas para expiação, uma
delas é a metáfora do “campo de batalha” (Hebreus 2.14,15; Cl 1.13), a vitória de Jesus sobre Satanás e o
mal. Wilson Kimnach, o maior especialista nos sermões de Edwards, diz que ele raramente recorria ao
imaginário da guerra em seus sermões anteriormente, nem mesmo em tempos de guerra. O uso desse
imaginário aqui, porém, se deveu ao fato de que “a cultura guerreira do índio lhe proporcionou uma
oportunidade retórica” (Kimnach, Works of Jonathan Edwards, v. 25, p. 676).
Vale a pena notar outra adaptação feita por Jonathan Edwards. Rebecca M. Wheeler, a estudiosa mais
bem-informada a respeito dos sermões de Edwards aos índios, escreve: “A ênfase no amor sem fim de
Cristo [nesses sermões] é sinal do reconhecimento de que o pastor estava diante de uma igreja necessitada
de amor, conforto e consolo” (Wheeler, Living upon a hope, p. 135). Kimnach também observa essa
mudança. O sermão de Edwards “Deus é infinitamente forte” foi um sermão de “despertamento” para os
índios, cujo objetivo era conclamar todos ao arrependimento e à conversão. Contudo, embora entre nessa
categoria, trata-se de um sermão de despertamento “do tipo ameno” (Kimnach, Works of Jonathan Edwards,
v. 25, p. 642). Edwards era simplesmente mais gentil com os índios. Por quê? Há dois motivos. Ele via as
injustiças que os índios sofriam nas mãos dos donos de terras ingleses. “Edwards provou ser um defensor
incansável dos índios […] retificando abusos de longa data” (Kimnach, Minkema e Sweeney, Sermons of
Jonathan Edwards, p. XXXV). O ministro europeu esteve in loco para verificar quanto do sofrimento dos
índios — alcoolismo, pobreza, doenças — havia sido em grande medida imposto a eles.
Kimnach e Wheeler ressaltam também que a reflexão teológica de Edwards sobre a situação dos índios
chegou à conclusão de que os índios não cristãos eram menos culpados do que os não cristãos ingleses,
porque estes últimos haviam sido expostos à verdade e ao evangelho cristão no decorrer da vida. Os índios
não crentes simplesmente não eram culpados em mesmo grau. Embora ainda perdidos a menos que cressem
em Cristo, eles não haviam tido a mesma oportunidade que os europeus tiveram de ouvir a narrativa do
evangelho. Wheeler escreve: “Os índios não cristãos eram diferentes dos não cristãos ingleses porque eram
pagãos, isto é, não tinham conhecimento de Cristo […] Apesar das conotações do termo atualmente, para
Edwards o paganismo era o menor de dois males, uma vez que os pagãos não podiam ser culpados por sua
ignorância, mas os pecadores [ingleses] que haviam crescido com o evangelho deveriam saber melhor das
coisas” (Wheeler, Living upon hope, p. 178-9).
Por causa de todos esses fatores, a pregação de Edwards não tinha o mesmo tom de severidade que se
observava em outras partes da Nova Inglaterra. Ele se compadeceu da situação dos índios e por isso lhes
ministrou notas mais vigorosas de consolo e conforto. Em outras palavras, ele não achou que a força de um
sermão como “Pecadores nas mãos de um Deus irado” fosse adequada aos índios.
Jonathan Edwards não conhecia o termo “contextualização”, mas é evidente que ele estava fazendo
exatamente o que fez Paulo. Se alguém lhe perguntasse por que estava se adaptando a uma nova cultura, ele
provavelmente teria insistido que estava apenas tentando fazer com que o evangelho estabelecesse vínculos
com o coração das pessoas. Ele não queria apenas censurá-las e condená-las. Ele queria pregar de tal forma
que tocasse seus corações para que compreendessem a verdade do evangelho.
30D. A. Carson escreveu: “Embora a articulação de uma verdade pelo ser humano jamais ocorra de um
modo que transcenda a cultura […] não significa que a verdade assim articulada não possa transcendê-la”
(D. A. Carson, “Maintaining scientific and Christian truths in a postmodern world”, Science & Christian
Belief 14, n. 2 [October 2002]: 107-22, disponível em:
www.scienceandchristianbelief.org/articles/carson.php; acesso em: jan. 2017). Veja tb. D. A. Carson, “The
role of exegesis in systematic theology”, in: John D. Woodbridge; Thomas Edward McComiskey, orgs.,
Doing theology in today’s world: essays in honor of Kenneth S. Kantzer (Grand Rapids: Zondervan, 1991),
p. 48-56; e D. A. Carson, “A sketch of the factors determining current hermeneutical debates in cross-
cultural contexts”, in: D. A. Carson, org., Biblical interpretation and the church: the problem of
contextualization (Eugene: Wipf and Stock, 2002), p. 11-29.
31Como defende em Igreja centrada: desenvolvendo em sua cidade um ministério equilibrado e
centrado no evangelho (São Paulo: Vida Nova, 2014), Timothy Keller prefere empregar, para se referir ao
ambiente atual da cultura predominante no Ocidente, o termo modernidade tardia ao termo pós-
modernidade, visto que este último pode sugerir uma ideia de total oposição ou superação do ambiente
cultural instaurado com a modernidade. Também nesse sentido, alguns autores no Brasil têm adotado o
termo hipermodernidade em vez de pós-modernidade. (N. do E.)
32Robert Murray M’Cheyne, Sermons of Robert Murray M’Cheyne (Edinburgh: Banner of Truth
Trust, 1961), p. 43.
33Para mais informações sobre como pregar sobre justiça e misericórdia, veja Timothy Keller,
Generous justice: how grace makes us just (New York: Dutton, 2010) [edição em português: Justiça
generosa: a graça de Deus e a justiça social (São Paulo: Vida Nova, 2013)].
34David Foster Wallace, discurso de formatura no Kenyon College, 21 de maio de 2005, disponível
em: http://moreintelligentlife.com/story/david-foster-wallace-in-his-own-words. Acesso em: jan. 2017. Veja
tb. a versão impressa em Dave Eggars, The best american nonrequired Reading, 2006, 1. ed. (New Yorker:
Mariner Books, 2006), p. 355-64.
35Um texto da Escritura que ratifica quase que exatamente o argumento de Martin Luther King
encontra-se em Daniel 6.22, em que Daniel diz que não fez nada errado, embora tivesse violado a lei da
terra (dos medos e persas), porque não havia violado a lei de Deus.
36Martin Luther King Jr., “Letter from Birmingham Jail”, August 1963, disponível em:
http://www.thekingcenter.org/archive/document/letter-birmingham-city-jail-0#, acesso em: jan. 2017.
37Outra referência cultural que reforça o ponto em questão diz respeito a W. H. Auden, que havia se
desviado da fé, porém, no início da Segunda Guerra Mundial, compreendeu exatamente o que Martin
Luther King Jr. disse posteriormente sobre a lei de Deus como um fundamento para julgar a ação do
homem. Auden havia abandonado a fé em Deus e se voltado para a ideia da autocriação de identidade e
valor, em detrimento de qualquer crença na ordem moral do universo. Isso o deixou sem qualquer base para
condenar o fascismo em ascensão na Itália, Espanha e também o nazismo, já que todos eles defendiam suas
ações baseando-se nas mesmas fontes de autoexpressão que ele. Conto a história de Auden em Encounters
with Jesus: unexpected answers to life’s biggest questions (New York: Dutton, 2013), p. 13-6. [edição em
português: Encontros com Jesus: respostas inusitadas aos maiores questionamentos da vida (São Paulo:
Vida Nova, 2015)]. Veja tb. Charles Taylor, “The slide to subjectivism”, in: The malaise of modernity
(Ontario: Anansi Books, 1991), p. 55-69. Taylor não menciona Auden, mas ele traça as raízes do fascismo e
o fascínio pela violência como decorrentes da autoexpressão do movimento romântico.
38“Beethoven […] produziu peças de tirar o fôlego com acerto. Acerto — este é o termo! Quando
você sente que, seja qual for a nota que se segue à última, é a única possível precisamente naquele instante,
naquele contexto, é bem provável então que você esteja ouvindo Beethoven. Melodias, fugas, ritmos —
deixe essas coisas para os Tchaikovskys e Hindemiths e Ravels. Nosso garoto tem aquilo que é bom de fato,
o poder de fazê-lo se sentir na linha de chegada: existe algo de certo no mundo, existe alguma coisa que
‘bate’ perfeitamente, que segue sua própria lei de forma consistente: algo em que podemos confiar, que
jamais nos desamparará” (Leonard Bernstein, The joy of music [New York: Simon & Schuster, 2004], p.
105).
39Thomas Nagel, The last word (New York: Oxford University Press: 1997), p. 130 [edição em
português: A última palavra (São Paulo: Unesp, 2001).
40Andrew Delbanco, The death of Satan: how Americans have lost the sense of evil (New York:
Farrar, Straus, and Giroux, 1995), p. 3.
41Ibidem, p. 190-2.
42Citado em Stuart Babbage, The mark of Cain: studies in literature and theology (Grand Rapids:
Eerdmans,1966), p. 17.
43Ao mesmo tempo, considere-se o grande perigo da motivação mal orientada nessa área. As
chamadas referências culturais — o uso de citações de filmes, música popular, jornais, sites de internet,
empresas de mídias sociais, periódicos e livros — podem acabar servindo sobretudo para dar credibilidade
pessoal ao orador. Talvez você recorra a elas para parecer sofisticado, erudito ou antenado. Talvez espere
que as pessoas o aceitem como “uma delas” porque você está bem-informado ou é simplesmente acessível e
normal. Se essa é a resposta que você obtém das pessoas (ou pior, se é isso que você efetivamente quer ou
precisa receber delas), deverá admiti-lo e mudar sua motivação. Se for essa sua motivação, terá escolhido as
referências culturais para chamar a atenção para si, em vez de tornar visíveis e desafiar as crenças da cultura
secular, além de pôr a nu o coração dos seus ouvintes. Esse deveria ser seu único objetivo.
44Um bom exemplo disso é a escritora católica Flannery O’Connor: “Não creio que ninguém deva
escrever algo tão extenso quanto um romance a não ser que seja em torno de alguma coisa que seja muito
importante para ela e para as demais pessoas. E, para mim, essa coisa é sempre o conflito entre a atração
pelo que é Santo e pela falta de fé nele que respiramos no ar do nosso tempo. É sempre difícil acreditar,
sobretudo no mundo em que vivemos atualmente. Alguns de nós têm de pagar por sua fé a cada passo,
esforçando-se para imaginar como seria se ela não existisse e se, sem ela, no fim das contas, seria possível
existir ou não” (citado em James K. A. Smith, How [not] to be secular [Grand Rapids: Eerdmans, 2014], p.
10-1).
45Karen H. Jobes, 1 Peter, Baker exegetical commentary on the New Testament (Grand Rapids:
Baker, 2005), p. 231.
46Veja mais exposições e exemplos de desafio e confrontação cultural em Timothy Keller, Center
church, p. 124-8. Alguns dos exemplos aqui apresentados foram extraídos dessa parte do livro Center
church, bem como de Timothy Keller, The reason for God: belief in a age of skepticism (New York: Dutton,
2008) [edição em português: A fé na era do ceticismo (São Paulo: Vida Nova, 2015)].
47Mais dessa passagem: “Este mundo [natural] que gira impulsionado pelo acaso e pela morte,
deslocando-se cegamente de lugar nenhum para nenhum lugar, de algum modo produziu esta maravilha que
somos nós. Eu vim do mundo, saí com dificuldade de um mar de aminoácidos e agora é hora de me virar
para esse mar, sacudir-lhe meu punho fechado e gritar: “Que vergonha!” […] Ou este mundo, minha mãe, é
um monstro, ou eu sou uma aberração […] Não há nenhuma pessoa no mundo que se comporte tão mal
quanto o louva-a-deus. Mas, espere, você diz, não há certo ou errado na natureza; o certo e o errado são um
conceito humano! Precisamente! Somos criaturas morais num mundo amoral […] Pense na alternativa […]
É o sentimento humano que está bizarramente fora de ordem […] Muito bem — são nossas emoções que
estão fora de ordem. Somos aberrações, o mundo está bem, então vamos todos fazer uma lobotomia para
voltarmos ao nosso estado natural. Sairemos então […] de lobotomia feita, voltaremos ao riozinho e
viveremos às suas margens tranquilos como um rato-almiscareiro ou um junco. Você primeiro” (Annie
Dillard, Pilgrim at Tinker Creek [New York: Harper Perennial Modern Classics, 2007], p. 178-9).
48O ponto de contato de Volf é nosso desejo desesperado de homens modernos de que os inimigos
façam as pazes de forma não violenta. Seu ponto de contradição trabalha sobre isso contrariamente à
intuição. Ele conclui: “É preciso a tranquilidade de uma casa de classe média para o surgimento da tese de
que a não violência humana é resultado de um Deus que se recusa a julgar”. A fé em um Deus que julga e se
vinga é, na verdade, um recurso fundamental contra a não violência! Essas citações foram extraídas de
Miroslav Volf, Exclusion & embrace: a theological exploration of identity, otherness, and reconciliation
(Nashville: Abingdon, 1996), p. 303-4. C. S. Lewis apresenta um argumento muito diferente para os que
veem com ceticismo a ideia de um Deus de ira e de juízo. Em uma passagem de O problema do sofrimento,
Lewis diz que, quando amamos alguém, ficamos irados quando surge alguma coisa que fere ou arruína essa
pessoa. Se um pai ama uma filha, e ele a vê arruinando sua vida, ele se ira não a despeito do seu grande
amor por ela, mas por causa desse mesmo amor. O ponto de contato com o homem secular consiste no
conforto com o conceito de um Deus de amor. Lewis, porém, passa do contato para a contradição ao dizer:
“Se você crê num Deus de amor, terá de crer em um Deus que se ira contra o pecado”. (Cito este último
exemplo em Center church, p. 126.)
49Taylor, Malaise of modernity, p. 72 (grifo do autor).
50Taylor, Secular age, p. 103-9, p. 594-617.
51Veja Donald B. Kraybill et al., Amish grace: how forgiveness transcended tragedy (San Francisco:
Jossey-Bass, 2007).
52Robert Bellah et al., Habits of the heart: individualism and commitment in American life, with New
Preface (Berkeley: University of California Press, 2007).
5

A PREGAÇÃO E A MENTE MODERNA (TARDIA)

A única pregação atual para todas as épocas é a pregação da eternidade,
que nos é disponibilizada apenas pela Bíblia — a eternidade do amor
santo, da graça e da redenção, a moralidade eterna e imutável da graça
salvadora para nosso pecado indelével […] Que [o pregador] exponha o
problema […] com poder […] mas que o responda com a resposta final
que Cristo deixou […] Porque ele é a resposta que todos desejam.
— P. T. Forsyth1

omo podemos comunicar o evangelho de Jesus Cristo em nossa cultura

C moderna? Um dos primeiros autores a fazer essa pergunta foi P. T.
Forsyth, cujo clássico Positive preaching and the modern mind
[Pregação positiva e a mente moderna], escrito em 1907, ainda é notavelmente
atual. Forsyth identificou um tema fundamental da modernidade; as pessoas
modernas acreditam que “somos nossa própria autoridade”. Essa é a “versão
popular [da mente moderna] com a qual o pregador tem de contender”.2 Ao
identificar uma das principais narrativas da modernidade e expor o caminho para
desconstruí-la a partir de dentro, Forsyth foi um pioneiro e um desbravador.
Por mais visionário que Forsyth tenha sido, as coisas mudaram no decorrer
do século em que ele escreveu.3 Muita gente chamou essas mudanças de “virada
pós-moderna”. A era moderna, segundo dizem, pôs sua confiança na razão e na
ciência, ao passo que a era pós-moderna se distingue pela perda da crença de que
se pode alcançar a ordem racional ou controlável ou chegar a qualquer tipo de
certeza. Houve uma guinada em direção à experiência e à abertura. Todas essas
formulações são verdadeiras, mas desconsideram o fato de que, implícitas às
descontinuidades em relação ao passado moderno, há continuidades ainda mais
fortes.
Talvez a ideia básica de modernidade, como percebida por Forsyth, consista
na subversão de toda autoridade externa ao eu. No princípio da era moderna —
do século 17 ao 19 — dizia-se que tínhamos de abandonar toda tradição e toda
crença religiosa e chegar à verdade somente pela razão. Foi um deslocamento
inédito em direção ao individualismo, a ideia de que toda pessoa tinha dentro de
si a capacidade de descobrir a verdade sem o auxílio da sabedoria antiga ou da
revelação divina. Em tempos mais antigos, ainda vigorava o pensamento de que
haviam absolutos morais e leis naturais a serem seguidas. Mas então, com o
pensamento moderno, passou-se a dizer que podíamos descobri-los por conta
própria, por meio dos nossos próprios poderes de vigilância exaustiva.
Desde a Segunda Guerra Mundial, porém, passamos para uma época em
que a cultura de modo geral atribui ao eu do indivíduo uma importância e um
poder muito maiores do que em qualquer época anterior. Já não pensamos que
temos poder meramente para descobrir a realidade e a verdade morais —
achamos que temos, isso sim, o poder de criá-las. Uma frase famosa de um
parecer da Suprema Corte sobre o caso Planned parenthood vs. Casey
[Paternidade planejada versus Casey], capta bem esse princípio: “No âmago da
liberdade está o direito do indivíduo de definir seu próprio conceito de
existência, de significado, do universo e do mistério da vida humana”.4
Acreditamos agora que não há nenhuma “ordem cósmica externa […] à qual
tenhamos de nos conformar” e que a verdade pode ser “construída de acordo
com a vontade do indivíduo”.5 Passamos da antiga compreensão de que devemos
“conformar a alma à realidade” para uma era em que “submetemos a realidade
aos desejos [da alma]”.6 O que temos agora é menos uma reversão da
modernidade do que a intensificação dos seus padrões mais profundos.7
Portanto, seria melhor nos referirmos ao período atual como modernidade tardia,
em vez de pós-modernidade.8
No início dos tempos modernos, a religião ainda era vista como uma coisa
boa — ou, pelo menos, benigna. Havia ainda um entendimento geral de que a
sociedade deveria ser erigida sobre normas morais compartilhadas a que as
pessoas deveriam se submeter. A religião era um dos elementos que ajudavam as
pessoas a viver de acordo com essas normas. Isso mudou. Mark Lilla, professor
de Humanidades da Universidade de Colúmbia, disse que, em João 3, quando
Jesus diz a Nicodemos que ele tinha de “nascer de novo”, o que ele “parece estar
dizendo é que Nicodemos precisava se dar conta de sua insuficiência — era
necessário que ele desse as costas à sua vida autônoma, aparentemente feliz, para
nascer de novo como um ser humano que compreende sua dependência de algo
maior […] Esse parece um desafio radical à nossa liberdade, e é”.9 Lilla está
pressupondo aquela autonomia sobre a qual a modernidade tardia deposita suas
esperanças. Nesse sentido, a religião passa a ser quase que a inimiga suprema. É
por isso que hoje, para muitos, a fé religiosa parece algo que, de tão
inconcebível, beira à loucura.
Como pregar então à mente moderna tardia? O segredo de pregar a uma
cultura, conforme dissemos, consiste em identificar as narrativas culturais que
lhe servem de referência. É disso que trataremos agora.
A REDE DE CRENÇA OCULTA DA SECULARIDADE
A mente moderna tardia se apresenta como algo que descreverei a seguir.
Percebemos que não precisamos de Deus para explicar o mundo que vemos, pois
a ciência se encarrega disso para nós. Não precisamos de Deus nem da religião
para sermos morais, para amar e para trabalhar por um mundo melhor ou para ter
sentido e realização na vida. O que precisamos é ser livres para viver uma vida
que consideramos adequada, trabalhando juntos para fazer do mundo um lugar
melhor e mais justo. A religião tolhe tudo isso. Ela restringe nossa liberdade de
viver como queremos e nos divide, de modo que não podemos trabalhar juntos.
O filósofo Charles Taylor chama isso de a “história de subtração” causada
pela secularidade. A ciência e a razão objetiva, segundo o que ele descreve,
simplesmente subtraíram Deus da imaginação das pessoas modernas e o que
sobrou foi apenas a secularidade. Ela opera de maneira objetiva, sem a
necessidade da fé e da crença; liberta-nos de juízos de valor, da mentalidade
estreita e do preconceito; oferece apoio moral à igualdade, aos direitos humanos
e ao aperfeiçoamento da humanidade. Promete uma vida de sentido pessoal,
liberdade e paz de espírito. Tudo com base exclusivamente em recursos
humanos. Taylor não acredita nisso de modo algum. Em sua obra A secular age
[Uma era secular], ele diz que o indivíduo secular não é alguém mais objetivo.
Em vez disso, trata-se de alguém que abraçou a tecedura de uma nova rede de
crenças alternativas sobre a natureza das coisas que não são evidentes por si
mesmas para todos, não são mais empiricamente prováveis do que quaisquer
outras crenças religiosas, exigem enormes saltos de fé e estão sujeitas a um
conjunto próprio de sérios problemas e objeções.10
Não é natural não crer em Deus. Mark Lilla diz que, para a maior parte dos
seres humanos, o profundo interesse pelo sobrenatural, pela vida depois da
morte, pela transcendência e por Deus “lhes sobrevém naturalmente — é a
indiferença a essas coisas que tem de ser aprendida”.11 Pensemos em como a
modernidade tardia compreende nossa humanidade. Para muitos indivíduos
secularizados, as pessoas consistem em um complexo de substâncias químicas
sem alma; o amor seria apenas uma reação química que ajuda as pessoas a
transmitirem seus genes; quando um ente querido morre, ele simplesmente deixa
de existir; não existe certo nem errado fora daquilo que nós, em nossa mente,
optamos por sentir. O universo não passa de um mecanismo imenso e impessoal,
e a ciência é meramente uma forma de compreender de que modo o relógio
gigante funciona. “A razão [portanto] não pode nos proporcionar uma realização
de êxtase, um sentido de comunidade ou enxugar as lágrimas dos que choram.”12
Essa visão do cosmo contradiz várias das nossas intuições mais profundas sobre
o amor, o propósito e a natureza dos seres humanos. Devemos acreditar que
somos produtos de um universo impessoal, e ainda assim não abrir mão do nosso
compromisso com os direitos humanos. Taylor e outros explicam que foram
necessárias muitas gerações para que se arquitetasse um modo que permitisse
aos seres humanos se aclimatarem a um estilo de vida tão contrário à intuição.13
É isso o que há de tão singular na modernidade tardia no mercado de
cosmovisões da história. As culturas não seculares são explícitas em relação à
sua fé, e seus membros reconhecem a natureza da fé de suas convicções.
Contudo, muitos indivíduos secularizados da modernidade tardia não veem, ou
não admitem, os saltos de fé imensos que dão. Eles estão comprometidos, na
terminologia empregada por Michel Foucault, com os “impensados” — crenças
que não parecem ser crenças, mas senso comum autoevidente e indubitável.14
Esses impensados ganham aceitação sob a forma de dizeres e de slogans
afirmados como truísmos inabaláveis que põem fim a qualquer discussão, mas
que não apresentam nenhuma justificativa especial.15 Taylor, por exemplo, cita o
estudo de Alan Ehrenhalt sobre Chicago dos anos de 1950, em que diz:

A maioria de nós, nos Estados Unidos, acreditamos em algumas poucas proposições que parecem tão
claras e autoevidentes que praticamente não precisam ser ditas. A possibilidade de escolha é uma das
coisas boas da vida. Toda autoridade é, por sua própria natureza, suspeita; ninguém deve ter o direito
de dizer a outros o que pensar ou como se comportar. O pecado não é pessoal […] Os seres humanos
são criaturas da sociedade em que vivem […] Eles são ideias poderosas. Todos têm algo de
verdadeiro.16

Essas ideias de fato repercutem profundamente em nossa cultura, mas
Taylor mostra por que, se pensarmos um pouco mais detidamente sobre elas,
seremos obrigados a concluir que “é absurdo adotar qualquer uma dessas […]
proposições como verdades universais […] Para que haja algum tipo de
sociedade em que se possa viver, algumas escolhas devem ser restritas, algumas
autoridades devem ser respeitadas e é preciso que se tenha certa
responsabilidade individual”.17
Para pregar a um indivíduo secularizado, temos de resistir à interpretação
que a secularidade tem de si mesma. Secularidade não é simplesmente a
ausência de crença. Os cristãos muitas vezes aceitam essa definição e respondem
apresentando provas e outras credenciais. Calma lá, diz Taylor e muitos outros.
O secularismo é uma teia própria de crenças que deve ser exposta e examinada.
É o que faremos agora.
À medida que o fizermos, devemos ter em mente algo a que nos referimos
superficialmente no final do último capítulo. Falo como se a mente cristã
diferisse da mente da modernidade tardia. De fato, isso é verdade, no entanto, é
preciso que reconheçamos a realidade de que todo cristão que vive na
modernidade tardia é, de algum modo, moldado por suas narrativas. Isso não é
necessariamente de todo mau porque, como veremos, essas narrativas estão
fundamentadas até certo ponto em ideias cristãs e, portanto, estão parcialmente
corretas. Contudo, o cristão nas sociedades ocidentais costuma ser influenciado
demais por essas narrativas, e sabemos por quê: elas estão disseminadas de
maneira tal e parecem tão autoevidentes, que não se apresentam de forma visível
como crenças para os que as cultivam. Portanto, vamos aqui “torná-las visíveis”,
não apenas para interagir com elas e desafiá-las em não crentes, mas também
para nos ajudar, como crentes que somos, a não sermos excessivamente
moldados por elas.
AS NARRATIVAS DA MODERNIDADE TARDIA
Quais são, portanto, as narrativas culturais básicas ou os “impensados” da mente
pautada pela modernidade tardia? Descreverei cinco narrativas distintas, ou seja,
crenças específicas ou enredos sobre a racionalidade, a história, a sociedade, a
moralidade e a identidade humanas. Em primeiro lugar, porém, resumirei de
onde vieram.
No capítulo “The impersonal order” [A ordem impessoal], Taylor mostra
que essas cinco narrativas culturais da modernidade tardia surgiram
originalmente no cristianismo e em sua interação com o paganismo clássico da
antiguidade.18 Em resposta à visão que os filósofos gregos tinham do mundo
material, da história e da natureza humana, os mestres cristãos deram novas
respostas com base na Bíblia e na doutrina cristã. As diferenças entre o
cristianismo e o paganismo giram em torno do que Taylor chamou de cinco
“eixos”.

Antes do surgimento do Depois do advento do cristianismo no
cristianismo Ocidente
O corpo e o mundo material são O corpo e a o mundo material são bons. É
menos importantes e reais do que o importante melhorá-los. A ciaência é
reino das ideias. possível.
A história é cíclica e não tem A história progride.
direção.
O indivíduo não é importante. Só o Todos os indivíduos são importantes, têm
clã e a tribo têm valor. dignidade e merecem nossa ajuda e
respeito.
As escolhas humanas não têm As escolhas humanas são importantes e
importância; nosso destino está somos responsáveis por nossas atitudes.
traçado.
As emoções e os sentimentos não As emoções e os sentimentos são bons e
devem ser explorados, apenas importantes. Eles devem ser entendidos e
superados. direcionados.

O motivo básico da mudança, de acordo com vários estudiosos, se deve ao
fato de que antes do cristianismo praticamente todas as culturas tinham uma
visão essencialmente impessoal do universo. Os gregos acreditavam que o logos
por detrás do universo consistia em um princípio racional e impessoal. As
culturas orientais acreditavam que toda personalidade individual era uma ilusão
temporária. O cristianismo, em forte contraste com isso, via o universo como um
ato amoroso e criativo de um Deus tripessoal, que criou as pessoas para se
relacionarem pessoalmente com ele, como seres individuais que duram para
sempre. Todas as ideias cristãs que aqui foram apresentadas fluíam naturalmente
da ideia de que o propósito de todas as coisas era a “comunhão” com o Deus
pessoal.19
Nenhuma dessas ideias — a bondade do mundo material, o progresso da
história, a dignidade do indivíduo, a importância das escolhas e o valor das
emoções — tinham sentido em um universo impessoal e, portanto, jamais
haviam sido suscitadas. A feroz crítica de Nietzsche ao humanismo secular
moderno acerta em cheio na ironia deste ponto: embora nenhum desses ideais
morais (basicamente cristãos) decorram racionalmente de um universo
impessoal, a modernidade tardia os herdou, acentuou e absolutizou, libertando-
os completamente de qualquer fundamento transcendente. Ela criou uma matriz
de valor moral a partir do fruto das ideias cristãs, mas cortou a raiz. Agora todos
esses ideais precisam ser sustentados diante do que se acredita ser um universo
totalmente impessoal, ainda mais impessoal do que aqueles em que acreditavam
as sociedades antigas, porque não há nele nenhum aspecto sobrenatural ou
espiritual.20
As posições modernas tardias relativas a essas cinco questões constituem as
narrativas culturais básicas da modernidade tardia ou os “impensados”.

1. A narrativa da racionalidade. Os filósofos gregos viam o mundo
material (inclusive o corpo) como algo subordinado, sem importância e irreal,
mas o cristianismo o via como a boa criação de Deus, com uma realidade
confiável e objetiva própria. Muitos admitem que essa visão cristã de um mundo
criado por um ser racional e pessoal foi um fundamento importante para o
desenvolvimento da ciência moderna.21 A modernidade tardia, porém, retomou a
visão cristã e a amplificou para dizer que o mundo natural é a única realidade.
Para ela, tudo tem uma causa e uma explicação física — até mesmo o amor e os
sentimentos morais são funções da química cerebral —, e a prosperidade
material é a única prosperidade que há. Essa visão constitui a base para a
poderosa cultura atual do consumo e da tecnologia, segundo a qual nossos
problemas serão submetidos a soluções tecnológicas se dedicarmos tempo,
dinheiro e esforços suficientes para descobri-las. Essa narrativa utópica ainda é
muito profunda em nossa cultura. A razão humana, de forma objetiva e
imparcial, pode resolver o que nos aflige. A psicologia e a medicina nos ajudarão
a ajustar e a vencer os problemas físicos e emocionais — não precisaremos de
recursos espirituais para isso. A sociologia nos ajudará a criar uma sociedade
justa — não precisaremos da virtude dada por Deus para isso. A tecnologia
descobrirá soluções para a fome, o envelhecimento, a pobreza e os desastres
ambientais. Sem a religião, homens e mulheres terão vidas tão sadias e justas (se
não melhores) quanto terão com ela; portanto, a religião deve se restringir à
esfera do privado.
2. A narrativa da história. Para os antigos, a história era cíclica e não tinha
fim, ao passo que, para os cristãos, ela estava sob o controle de Deus, que a
conduzia com um propósito pelas trevas e pela luz em direção a um clímax
grandioso e irreversível. A modernidade tardia aproveitou a ideia de progresso
histórico (daí o termo “progressivo”), mas afastou-a de qualquer ideia de
controle divino. Agora, acredita-se que a história esteja automaticamente
progredindo a cada nova etapa. Hoje, portanto, julgamos por meio daquilo que
C. S. Lewis chamou de “esnobismo cronológico”, isto é, “o pressuposto de que
qualquer coisa que não tenha se atualizado é por isso mesmo [e só por isso]
objeto de descrédito”.22 Muitas de nossas autoridades oficiais denunciam agora
ações ou posições “que em nada se relacionam com o século 21”, como se todo
capítulo da história fosse, por definição, melhor do que o anterior. Basta que algo
seja novo para que seja automaticamente melhor.
3. A narrativa da sociedade. Para os antigos, o indivíduo era menos
importante do que a tribo ou o clã e jamais lhes passou pela cabeça que um
indivíduo de qualquer raça, classe ou status merecesse ajuda e respeito
simplesmente pelo fato ser visto como um ser humano. O cristianismo, porém,
via as pessoas como seres criados à imagem de Deus e, portanto, possuidoras de
uma dignidade inviolável. O secularismo ocidental foi bem mais longe, já que é
radical e crescentemente individualista. O propósito mais elevado de uma ordem
social, sob a ótica dessa narrativa, não consiste em levar adiante os interesses de
um grupo qualquer, tampouco promover quaisquer valores ou virtudes
particulares, e sim libertar todos os indivíduos para que vivam como queiram,
sem impedimentos, independentemente de qualquer relação com a comunidade,
contanto que não prejudiquem a liberdade do outro de viver como queira. A
escolha se torna o valor sagrado, e a discriminação o único mal moral.
4. A narrativa da moralidade ou da justiça. Os antigos acreditavam que
nosso destino estava essencialmente traçado. A ordem por trás do universo era
inexorável. Cabia-nos aprender a nos submetermos a ela de maneira estoica e
corajosa, ou ser esmagados em suas pedras. Édipo estava fadado a matar o pai e
a se casar com a mãe, e foi isso que lhe aconteceu, apesar de todos os seus
esforços em contrário. O cristianismo, diferentemente disso, via o universo não
como algo cuja ordem era impessoal, mas como algo criado por um Deus
pessoal que criou os seres humanos como agentes morais responsáveis e que se
importava com a forma como nos comportávamos. O secularismo da
modernidade tardia é fortemente moral sob muitos aspectos. Ele é mais
comprometido com a justiça social, com a benevolência universal e com os
direitos humanos do que qualquer civilização jamais o foi. Contudo, insiste que,
ao buscarmos esses objetivos, não significa que estejamos nos alinhando às
normas morais de Deus, pois somos nós que ditamos as normas. Nossos ideais
morais não se baseiam em quaisquer absolutos do universo. Eles são
determinados por nossas próprias escolhas. No filme Tiros na Broadway, de
Woody Allen, Rob Reiner faz o papel de um artista que diz a certa altura: “A
culpa é uma bobagem pequeno-burguesa. O artista cria seu próprio universo
moral”. Isso sintetiza bem o que Taylor chama de narrativa sobre nós mesmos
cuja “moral se legitima a si mesma”.23
5. A narrativa da identidade. As culturas antigas (e algumas culturas
tradicionais da atualidade) acreditavam que os fortes sentimentos individuais e o
interesse próprio deveriam ser suprimidos em favor do cumprimento do dever
para com a família e para com a tribo. Nessas culturas, o valor próprio do
indivíduo decorria da honra que lhe era concedida pela comunidade quando
sublimava seus desejos pelo bem-estar da comunidade. O cristianismo atribuiu
valor muito maior às emoções e às intuições, e não concedeu à família e à
sociedade esse controle absoluto sobre os indivíduos. Ele ensinou que nossos
sentimentos deveriam ser avaliados, e nosso amor e devoção mais elevados,
dirigidos a Deus. O secularismo ocidental, porém, inverteu essa abordagem.
Nossa identidade agora não se revela exteriormente (em nossos deveres ou
papéis na sociedade), mas interiormente apenas, em nossos desejos e sonhos.
Sob essa perspectiva, nosso valor próprio brota da dignidade que conferimos a
nós mesmos quando expressamos e realizamos nossos desejos, a despeito do que
a comunidade possa dizer de nós. Temos de “ser nós mesmos”, sejam quais
forem as expectativas sociais. A principal narrativa heroica de nossa sociedade é
a do indivíduo que se ergue e é verdadeiro consigo mesmo à revelia da
sociedade.

Essas cinco narrativas funcionam como verdades autoevidentes, geralmente
expressas por meio de slogans simples que parecem não ter necessidade de
justificação depois de declarados: “Guarde suas opiniões religiosas para você”;
“Sou livre para fazer o que quiser, contanto que não prejudique ninguém”; “Que
direito você tem de dizer a alguém o que é certo ou errado?”; “Seja você mesmo
e não se importe com o que os outros dizem”; “Você não vai querer ficar do lado
errado da história”.
Como, então, o pregador e o mestre cristão deverão interagir com as
narrativas culturais de base? A integridade, a humildade e o amor requerem que
nós, com sinceridade e apreço, confirmemos boa parte do que elas contêm, uma
vez que suas origens no cristianismo são evidentes. Contudo, cabe-nos expor
seus perigos e erros, como elas absolutizam e, no fundo, divinizam muitas coisas
boas na ausência de fé no Autor de todas as coisas. E temos de apresentar os
benefícios do evangelho nos pontos em que essas narrativas fracassam.
INTERAGINDO COM A NARRATIVA DA IDENTIDADE: O
EU SOBERANO
Muitos dizem que a mais fundamental das narrativas da modernidade tardia é a
narrativa da identidade. Cabe a nós descobrir nossos mais profundos desejos e
aspirações e em seguida fazer tudo para realizá-los, a despeito de todas as
dificuldades ou oposição. O sociólogo Robert Bellah chamou essa narrativa de
“individualismo expressivo”;24 eu a chamarei de “eu soberano”.
Comecemos por reconhecer o grande bem inaugurado pela ênfase moderna
no indivíduo. No passado, contingentes imensos de pessoas ficavam presas a
uma condição social específica em sociedades rigidamente hierárquicas em que
as pessoas tinham de permanecer para sempre nos escalões mais inferiores da
hierarquia social simplesmente porque se entendia que essa era sua obrigação e
seu lugar.25 Meu avô nasceu na Itália, em 1880. Disseram-lhe que suas opções
eram tornar-se padre, entrar para o exército ou dar prosseguimento ao comércio
da família. Ele não queria dedicar sua vida a nenhuma dessas coisas. Em
resposta, emigrou para os Estados Unidos, onde encontrou, em Ellis Island, uma
sociedade mais individualista em que poderia dar forma a uma vida que se
adequasse às suas aspirações pessoais.
O cristianismo sempre entendeu a importância do coração e suas afeições.
A obra Confissões, de Agostinho, representou uma inovação na história do
pensamento humano: uma análise aprofundada das motivações e dos desejos
interiores. Diferentemente dos pensadores da antiguidade clássica, para o cristão
a emoção era uma coisa que não devia ser ignorada ou simplesmente suprimida.
Pelo contrário, devia ser examinada e redirecionada para Deus. Boa parte da
compreensão moderna dos sentimentos e do eu deriva dessas raízes cristãs.26
A nova narrativa da modernidade tardia, porém, vai além da mera
compreensão e do redirecionamento de nossas paixões: ela as entroniza. A
essência dessa narrativa se deixa captar pelas palavras da música “Let it go”
[Deixa rolar] do filme Frozen, da Disney. A música é cantada por uma
personagem decidida a não ser mais “a garota boazinha” que sua família e a
sociedade queriam que ela fosse. Em vez disso, ela “deixava rolar” e expressava
o que vinha segurando dentro de si.27 “Não há certo ou errado, não há regras”
para ela. Esse é um bom exemplo do individualismo expressivo descrito por
Bellah. Não se entende a identidade, como nas sociedades tradicionais, pela
sublimação de nossos desejos individuais pelo bem da família e do povo. Em vez
disso, só nos tornamos nós mesmos afirmando nossos desejos particulares contra
a sociedade, exprimindo nossos sentimentos e realizando nossos sonhos a
despeito do que os outros dizem.
Fazer do eu soberano uma filosofia de vida acarreta inúmeros problemas
muito sérios. Em primeiro lugar, parte-se do princípio de que sabemos o que
queremos — que nossos desejos interiores são coerentes e harmoniosos. A
modernidade nos diz que devemos descobrir nossos desejos mais profundos e
realizá-los; no entanto, nossos desejos mais profundos muitas vezes se
contradizem. O desejo por uma carreira de sucesso muitas vezes entra em
conflito com o desejo por certo relacionamento. Além disso, nossos sentimentos
mudam com frequência. Portanto, uma identidade que se baseie em nossos
sentimentos será instável e incoerente.28
Um problema ainda mais sério é que uma identidade baseada na expressão
de nós mesmos — sem ouvir os ditames externos — é, na verdade, ilusória. Um
expoente muito conhecido da soberania do eu foi Gail Sheehy em livros como o
precursor Passages [Passagens], de 1976. Ela insistia que você se torna quem é
somente quando puder olhar para dentro e se expressar à parte de quaisquer
“avaliações e reconhecimentos externos”.29 Isso é evidentemente impossível.
Imagine um guerreiro anglo-saxão na Grã-Bretanha de 800 d.C. Ele tem
dois impulsos e sentimentos interiores muito fortes. Um deles é de agressão. Ele
adora esmagar e matar pessoas quando elas lhe faltam com o respeito. Vivendo
em uma cultura de vergonha e honra e de ética bélica, ele se identificará com
esse sentimento. Dirá a si mesmo: “Este sou eu! É assim que eu sou! Vou
expressar isso”. O outro sentimento que ele tem é de atração pelo mesmo sexo.
Nesse sentido, ele dirá: “Esse não sou eu. Vou controlar e suprimir esse
impulso”. Imagine agora um jovem que esteja caminhando por Manhattan
atualmente. Ele tem os mesmos dois impulsos, ambos igualmente fortes,
igualmente difíceis de controlar. O que ele dirá? No tocante à agressão, ele
pensará: “Não quero ser assim” e buscará libertação na terapia e em programas
de gestão da ira. Ele refletirá, porém, sobre seu desejo sexual e chegará à
seguinte conclusão: “Este é quem eu sou”.
O que essa experiência mental nos revela? Basicamente, que nossa
identidade não é um produto simplesmente interno. Pelo contrário, recebemos
certa matriz moral de interpretação; em seguida, nós a impomos sobre vários
sentimentos e impulsos e fazemos uma filtragem. Essa matriz nos ajuda a decidir
quais sentimentos correspondem ao meu “eu” e devem ser expressos e quais não
correspondem e não devem ser expressos. Portanto, essa matriz de crenças de
interpretação — não uma expressão inata e sem adulteração de nossos
sentimentos — é o que modela nossa identidade. Apesar dos protestos em
contrário, sabemos instintivamente que nossas profundezas interiores são
insuficientes para nos orientar. Precisamos de um padrão ou regra fora de nós
mesmos que nos ajude a classificar os impulsos antagônicos de nossa vida
interior.
E onde foi que nosso guerreiro anglo-saxão e nosso homem moderno de
Manhattan foram buscar suas matrizes? Em suas culturas, comunidades e
histórias de heróis. Na verdade, eles não estão simplesmente “escolhendo ser
eles mesmos”. Estão filtrando seus sentimentos, descartando alguns e abraçando
outros. Eles estão escolhendo ser o eu que sua cultura lhes diz que podem ser.
No fim das contas, é impossível que haja uma identidade baseada de maneira
independente em nossos sentimentos interiores.
A realidade é que não podemos conferir mais dignidade a nós mesmos do
que nossa identidade. Na verdade, as duas coisas andam juntas. Em “The need
for recognition” [A necessidade de reconhecimento], Charles Taylor cita o livro
de Gail Sheehy e seu conselho de que não devemos nos preocupar com o que os
outros pensam — e que devemos conferir o veredito da importância a nós
mesmos.30 Taylor diz que isso também é uma impossibilidade.31 A importância
não vem por meio do autorreconhecimento; ela deve vir sobretudo de outros. No
fim das contas, não podemos reputar ou bendizer a nós mesmos. Não podemos,
em última análise, dizer a nós mesmos: “Não me importa que todos a quem
conheço me julguem um monstro. Amo a mim mesmo e é isso o que importa”.
Isso não nos convenceria do nosso valor, a menos que fôssemos mentalmente
desequilibrados. É preciso que alguém de fora nos diga que somos pessoas de
grande valor, e quanto maior o valor da pessoa que nos diz isso tanto mais
contundente esse reconhecimento será para a formação da nossa identidade.
Portanto, se tentarmos abonar e validar a nós mesmos, nos colocaremos em um
ciclo ilusório infinito que desembocará em narcisismo ou autodepreciação.
A necessidade inabalável de afirmação e de reconhecimento externos — em
paralelo com a negação atual desse fato da natureza humana — coloca uma
pressão enorme sobre o eu da modernidade tardia. Nas sociedades tradicionais,
se você fosse simplesmente bom filho ou boa filha, bom marido ou boa esposa,
bom pai ou boa mãe, estaria fazendo tudo o que a sociedade requeria de você.
Isso poderia ser repressor e limitante, mas a exigência para o reconhecimento
não seria terrivelmente alta. O processo moderno de formação de identidade, no
entanto, diz a você para criar o eu a partir do nada. Cabe a você identificar seus
sonhos, especialmente aqueles mais vívidos, e realizá-los — ou então se sentirá
um fracassado. Essa perspectiva esmaga aqueles para quem, em muitos
segmentos da nossa sociedade, o dinheiro, as aparências, o poder, sucesso, a
sofisticação e o amor romântico se tornam todos não apenas coisas boas, mas
fatores de identidade imprescindíveis.32
É aí que se vê como a proposta do cristianismo é libertadora. Em termos
bíblicos, somos seres socialmente interdependentes e temos valor porque fomos
feitos à imagem do Deus triúno — a imago dei. Isso significa que nosso valor é a
um só tempo inerente (decorre simplesmente de sermos humanos) e contingente
(nos faz lembrar do quanto somos dependentes de Deus). É uma identidade que
não é conquistada, mas recebida. Da mesma forma, no evangelho, na obra de
Cristo, essa identidade é batizada em algo ainda maior. Não se pode alcançá-la
através da realização de papéis sociais ou pelo cumprimento de padrões
religiosos e morais, ou pelo sucesso e conquista de status. Trata-se do
reconhecimento supremo — a aprovação de Deus conforme ele nos vê em Jesus
Cristo. É “ser encontrado nele, não tendo um registro próprio que venha da
realização e do esforço pessoais, mas por meio da fé em Cristo — a justiça que
vem de Deus pela fé” (Fp 3.9, paráfrase minha).
Podemos pregar sobre a abordagem cristã da identidade com base em
muitos textos e temas bíblicos.
A maneira mais fundamental consiste em extrair implicações de três dos
benefícios cruciais da salvação em Cristo: justificação, que nos torna legalmente
justos; adoção, que nos integra na família de Deus; e união com Cristo, pela qual
estamos “nele”. Cada um desses grandes tópicos teológicos tem implicações
extraordinárias para nossa identidade recebida, não conquistada, e cada um
desafia e, ao mesmo tempo, atende às aspirações da modernidade tardia por
identidade. Um cristão, por exemplo, chega, por assim dizer, a um nível de
autoestima muito mais elevado ao lhe ser conferida uma autoestima muito
menor. Somente se nos arrependermos e admitirmos que somos muito piores do
que jamais havíamos imaginado podemos ser justificados, adotados por Cristo e
unidos a ele; e seremos, portanto, muito mais amados e aceitos do que jamais
poderíamos esperar. A identidade cristã cria então uma humildade profunda, ao
mesmo tempo que confere um amor infinito e um sentido de valor a nós. Desse
modo, a identidade cristã tanto critica quanto realiza o desejo moderno por
identidade.
Há outros temas bíblicos que também estão relacionados com essa
narrativa. Deus nos atribui seu nome (Is 43.7; 2Cr 7.14; Mt 28.19). A questão da
identidade não é “quem sou eu?”, e sim “de quem sou eu?”. Uma vez que a
identidade sempre decorre da aclamação e do reconhecimento de alguém fora de
nós, quem quer que seja essa fonte, ou qualquer que seja ela, torna-se dona do
nosso coração. Pertencemos a ela. Teremos sua aprovação somente se fizermos
bem o que temos de fazer. Por isso o valor que atribuímos a nós mesmos vacilará
drasticamente dependendo de como nos saímos. Seremos escravos. Somente se
Deus nos chamar pelo seu nome, e se o servirmos, seremos livres da escravidão,
porque ele nos ama por causa do que Jesus fez, e não pelo que nós fizemos. Se
ele nos chamar pelo seu nome — e se formos dele — poderemos finalmente
descansar em nossa identidade de filhos de Deus.
O interesse moderno por uma identidade única não foi esquecido pelo
ensinamento bíblico. A Bíblia ensina que Deus nos dá um nome particular (Is
62.2; Ap 2.17) e que esse nome se revela em nossa vida conforme ele nos mostra
as coisas específicas que nos pediu que fizéssemos por ele no mundo (Ef 2.10).
Existem coisas que só nós podemos fazer. Há mãos que só nós podemos segurar,
feridas que só nós podemos curar, porque ele está nos transformando em uma
pessoa única. Além disso, todo o ensino bíblico sobre se “despir do velho eu” e
“se revestir do novo” (Ef 4.22-24, NVI) ressoa junto aos indivíduos modernos de
um modo que talvez não seja tão real em outras culturas. A narrativa cultural
simplista diz que devemos simplesmente expressar nossos mais profundos
desejos. Na verdade, sabemos que há coisas no íntimo do nosso coração que nos
impedem de ser o eu verdadeiro que deveríamos ser. O processo de santificação,
de crescimento à semelhança de Cristo, também é, portanto, o processo de nos
tornarmos o eu verdadeiro que Deus pretendeu que fôssemos quando nos criou.
INTERAGINDO COM A NARRATIVA DA SOCIEDADE:
LIBERDADE NEGATIVA ABSOLUTA
O que há na narrativa da sociedade moderna tardia que pode ser ratificado pela
Bíblia? Muita coisa. Conforme diz Taylor, a doutrina fundamental do
protestantismo de que somos salvos pela fé apenas — e não pela filiação a uma
igreja; não pela expressão da ordem cósmica através da participação submissa
em uma classe social ou casta — significava que todos tinham de fazer uma
escolha consciente e deliberada de crer. Portanto, a importância no Ocidente da
liberdade individual e da escolha pessoal (em oposição ao comprometimento
definido pela cultura ou pela tribo) brotou, sobretudo, da teologia protestante.33
Contudo, a intensificação dessa narrativa na modernidade tardia vai além da
concepção de liberdade então revolucionária da Bíblia. A liberdade de escolha
sem limites se tornou praticamente sagrada. (Os filósofos se referem a isso como
“liberdade negativa” — a liberdade de restrições —, a qual eles contrastam com
a “liberdade positiva”, a liberdade para buscar uma meta que seja boa.) A
liberdade negativa absoluta se torna o bem moral supremo, de modo que “o
[único] pecado que não é tolerado é a intolerância”.34 Isso suscita inúmeros
problemas tanto filosóficos quanto práticos.
Um desses problemas é o de que a sacralização da narrativa da escolha
pessoal desgasta a comunidade e fragmenta a sociedade. Lembremos aqui a
citação de Taylor segundo a qual “para que haja algum tipo de sociedade em que
se possa viver, algumas escolhas devem ser restritas, algumas autoridades devem
ser respeitadas e é preciso que se tenha certa responsabilidade individual”.35 Os
sociólogos documentaram o crescimento do desinteresse cívico e político de
jovens adultos.36 Quanto mais as pessoas se deixam influenciar pela
compreensão moderna tardia do eu soberano e de sua irmã mais jovem, a
liberdade negativa absoluta, tanto menos elas se sentem uma parte leal de um
corpo político maior.
Outro problema dessa narrativa da liberdade é que aquilo que foi chamado
de “princípio do dano” não funciona. Taylor sintetiza a questão da seguinte
forma: “Ninguém tem o direito de interferir na minha vida tendo em vista o meu
bem, a não ser que seja para evitar o dano a outras pessoas”.37 O princípio do
dano parece estabelecer a liberdade de escolha dentro de um absoluto de
autocorreção. Segundo essa perspectiva, não há necessidade de que a sociedade
apresente qualquer princípio moral, pois ela pode ser “isenta de valor”. Todos
são livres para viver do jeito que quiserem, contanto que não interfiram na
liberdade do outro. Contudo, o calcanhar de Aquiles dessa teoria é a suposição
de que todos sabemos o que é “dano” ou de que se pode defini-lo sem recorrer a
crenças arraigadas sobre o certo e o errado.
Há quem diga que não faz mal algum consumir pornografia na esfera
privativa do lar. Outros, porém, contestam e dizem que a pornografia
influenciará a maneira como o indivíduo conversa e age com outros,
especialmente com as mulheres. Por trás dessas diferentes conclusões sobre dano
há diferentes compreensões do certo e do errado para que os indivíduos se
relacionem com a comunidade. Em outras palavras, qualquer decisão sobre o
que prejudica o próximo se acha enraizada em visões específicas da natureza
humana, da felicidade e do certo e do errado — cada uma das quais é questão de
fé. Portanto, mesmo que todos concordemos que a liberdade deva ser restringida
se prejudicar alguém, uma vez que não há consenso sobre o que seja dano, o
princípio se torna inútil na prática.
A narrativa da liberdade também dilui a busca do sentido da vida.
Perguntaram certa vez a Stephen Jay Gould, cientista de Harvard, “qual é o
sentido da vida?”. Ele respondeu: “Estamos aqui porque um grupo estranho de
peixes tinha uma barbatana de anatomia peculiar que podia se transformar em
pernas para criaturas terrestres […] Talvez desejemos uma resposta “mais
elevada” — mas não há nenhuma. Essa explicação, embora superficialmente
incômoda é, em última análise, libertadora […] Cabe a nós criarmos essas
respostas”.38 Se não há Deus nenhum, e se não fomos postos aqui com algum
propósito, então não há nenhum sentido da vida a ser “descoberto”. Não há aí
nenhum propósito que tenha existido antes de nós, para o qual fomos feitos e
com o qual somos obrigados a nos alinhar. Essa ausência nos liberta, diz Gould,
e nos permite decidir que coisas são significativas para nós. Talvez achemos que
construir casas, pintar quadros ou constituir família nos dê um propósito.
Portanto, são esses os sentidos que escolhemos para nós.
O filósofo Thomas Nagel, porém, diz que os sentidos criados são menos
racionais em princípio do que os sentidos descobertos. A maioria de nós
concordaria, argumenta Nagel, que só há sentido quando sentimos que fazemos
diferença e que aquilo que fazemos é importante. Contudo, diz ele, se não há
Deus e você escrever uma “grande obra literária que continuará a ser lida
milhares de anos depois de hoje” e se, mesmo assim, “o sistema solar esfriar no
futuro ou o universo desacelerar e entrar em colapso, e qualquer vestígio de seu
esforço vier a desaparecer […] Se você pensar em tudo isso […] nenhuma
importância terá se você jamais tiver existido”.39 Em outras palavras, se não há
Deus ou qualquer coisa além deste mundo material, então não importa se você
foi bom ou cruel ou criminoso, nada disso fará diferença alguma no final.
Ninguém estará por perto para se lembrar do que quer que seja. Isso significa
que você só pode viver uma vida significativa se tiver o cuidado de não refletir
sobre as implicações de sua perspectiva do universo. Não é uma maneira muito
racional de viver. Os que creem em uma religião, porém, extraem um sentido
maior da vida quanto mais refletem sobre as implicações da visão que têm do
universo. Para eles, as ações corretas de agora contam literalmente para sempre.
Luc Ferry, outro ateu, propõe um argumento parecido. Para ele, esses
sentidos criados não são apenas menos racionais, mas também mais egoístas.
Podemos decidir dar a vida para atender às necessidades médicas dos pobres;
mas por que, numa estrutura secular, isso seria significativo? A resposta
adequada, de acordo com a narrativa da liberdade, é que nós o estamos fazendo
não porque sejamos obrigados a fazê-lo, mas porque escolhemos livremente que
tal atividade seria significativa para nós. Contudo, diz Ferry, isso significa que,
na verdade, estamos ajudando os doentes por causa de nós mesmos, e não por
causa deles. Nós o fazemos porque isso faz com que sintamos que temos valor e
somos importantes.40 Os sentidos criados pelo eu se aproximam terrivelmente da
vida vivida para si mesmo.
O motivo decisivo pelo qual essa narrativa não funciona, em última análise,
se deve ao fato de que a ideia moderna de liberdade é, em si mesma, uma ilusão.
Lembre-se de que o conceito moderno de liberdade é a liberdade negativa
absoluta, a ausência de qualquer constrangimento. Quanto menos limites e
fronteiras tiverem meus desejos, minhas escolhas e ações, tanto mais livre eu
deveria ser. Contudo, isso não faz justiça à complexidade das dimensões de
liberdade e às realidades da vida encarnada e em comunidade.
Um homem de sessenta anos talvez queira muito comer alimentos
gordurosos, mas, se ele exercitar diariamente sua liberdade de ceder a esses
desejos, sua vida será reduzida de algum modo. É preciso que ele escolha ter
menos liberdade (de comer os alimentos de que gosta) para que tenha mais
liberdade (saúde e vida longa). Se você quiser a liberdade que advém de ser um
grande músico — a capacidade de tocar as pessoas com sua música e desse
modo proporcionar uma boa vida à sua família —, terá de abrir mão de sua
liberdade de fazer outras coisas para praticar oito horas ao dia durante anos. A
liberdade não é, portanto, simplesmente a ausência de restrições. Ela consiste,
pelo contrário, em encontrar as restrições corretas e libertadoras. Em outras
palavras, temos de nos submeter a perdas táticas de liberdade para obter ganhos
estratégicos de liberdade. Só crescemos quando perdemos tipos inferiores de
liberdade em troca de ganhos do tipo mais elevado. Portanto, não há liberdade
negativa absoluta.
A prova por excelência de que a narrativa da liberdade não funciona é o
amor. Nenhuma relação amorosa poderá crescer a menos que um indivíduo
sacrifique um pouco de sua liberdade para servir ao outro. Contudo, tais
restrições, se aceitas mutuamente, conduzirão a liberações variadas da mente e
do coração que somente o amor pode proporcionar. As pessoas em sua maioria
dizem que se sentem mais “elas mesmas” quando amam realmente alguém e são
amadas; contudo, isso exige a submissão total da liberdade autodeterminante.
Como vimos, a narrativa da liberdade da modernidade tardia corrói a
comunidade humana em geral. No entanto, ela corrói especialmente o
casamento. Um indivíduo moderno tardio, controlado tanto pela narrativa da
liberdade quanto da identidade, quer um cônjuge que “me aceite como sou e não
exija que eu mude nem que eu sacrifique nenhum dos meus desejos, interesses e
sonhos principais”. Esse tipo de casamento é ficção. Não existe.41
Essa é a principal maneira de interagir com a narrativa de liberdade em sua
pregação. Mostre que no plano humano o amor não cresce, e nem mesmo
sobrevive, na companhia da autoabsorção do entendimento moderno tardio de
liberdade e escolha. Isso ficará claro quando você pregar sobre o relacionamento
amoroso em textos como 1Coríntios 13 e Colossenses 3. Se podemos ter essa
experiência no plano humano, tanto mais a teremos em nosso relacionamento
com Deus. No casamento, pode-se dizer, perdemos nossa independência para
ganhar uma nova liberdade. Portanto, se nos entregarmos a Deus, nosso
Verdadeiro Amor, seremos mais livres do que podemos imaginar. Seremos livres
de temores, insegurança e vergonha. Seremos livres para perdoar, amar os
outros, enfrentar o sofrimento de um modo que não poderíamos antes.
Até mesmo o tema do reino de Deus, quando pregado de modo adequado e
pleno, propõe desafios objetivos ao desejo de liberdade da modernidade tardia,
bem como o realiza. Vemos na vida cotidiana como certas disciplinas —
“perdas” de liberdade como as decorrentes de exercícios e dietas — levam a
outros tipos de ganho de liberdade. Vemos também como funcionários ou os
membros de uma equipe, quando se submetem à liderança de um grande diretor
executivo ou a um técnico extraordinário, realizam seu potencial e prosperam.
Submeter-se às regras certas e ao líder certo pode redundar em todo tipo de
liberdade fantástica. Se entendermos que esse é o caso, quanto mais libertador
será nos submetermos ao verdadeiro rei da nossa alma? A Bíblia diz que, quando
Deus voltar para julgar a terra, até mesmo a ordem criada será libertada da
decadência (Sl 96.11-13; Rm 8.20-23).
Tudo isso ratifica a célebre declaração de Jesus de que conhecê-lo nos
liberta (Jo 8.31-36). Em outras palavras, “a escravidão máxima é […] rebelião
contra o Deus que nos fez. O mestre despótico não é César, e sim o vergonhoso
egocentrismo, a devoção maligna e escravizadora às coisas criadas à custa da
adoração ao Criador”.42 Passagens sobre libertação do pecado em Romanos 6 a 8
e Gálatas 4 e 5 tratam desses mesmos temas, assim como os ensinamentos de
Tiago 1 e 2 sobre a liberdade que vem da obediência à lei. Exponha também a
afirmação do Antigo Testamento de que a obediência à lei é libertadora, que
devemos escolhê-la livremente (Sl 119.32) e que ela, por sua vez, nos torna
livres (Sl 119.45).43
INTERAGINDO COM A NARRATIVA DA
MORALIDADE/JUSTIÇA: A MORALIDADE QUE AUTORIZA
A SI MESMA
O indivíduo secular se irrita ao ser chamado de “relativista” pelos cristãos, e está
muito certo em reagir assim. Em comparação com o passado, “vivemos hoje
uma cultura moral extraordinária” em que “o sofrimento e a morte pela fome,
enchentes, terremotos, pestes ou guerras são capazes de despertar […] amplos
movimentos de simpatia e de solidariedade prática” de maneiras inéditas em
comparação com o passado ou com outras partes do mundo.44 No passado, e em
muitas partes do mundo de hoje, a vida humana era vista como algo barato, e o
indivíduo tinha pouco valor. O Ocidente secular, ainda bem, é diferente. E os
cristãos deveriam se sentir gratos por isso.
Contudo, é preciso indagar ao indivíduo da modernidade tardia: Por que
deveríamos reformar o mundo e honrar os direitos de todos? De acordo com a
compreensão moderna das coisas, não podemos fundamentar a moralidade em
uma fonte externa a nós — na vontade de Deus, ou no carma, ou em algum reino
cósmico de ideais morais. Nisso, a mentalidade moderna tardia difere de todas as
religiões ou de outras culturas da história. Na verdade, para se distanciar de
perspectivas anteriores, muitos indivíduos secularizados prefeririam dizer que
estão comprometidos com a justiça, e não com a moralidade. Temos de ser
nossos próprios “legisladores do sentido”,45 de maneira tal que os ideais
seculares de justiça e de moralidade tenham autoridade por si mesmos.46 Essa
talvez seja a narrativa básica mais problemática da modernidade tardia. Ela não
dispõe das fontes ou dos fundamentos morais nos quais alicerçar seus ideais.
Isso resulta em três grandes dificuldades.
A primeira delas é o problema da motivação moral. Por que deveríamos nos
importar com o pobre e fazer justiça? A motivação do cristão para o alívio da
pobreza, da desigualdade e do sofrimento é o ágape, a extensão do amor radical
que recebemos de Deus e oferecemos a outros. Aí está a fonte moral da
benevolência cristã. Contudo, qual é a motivação da benevolência secular?
Uma motivação comum, diz Luc Ferry, é “um sentimento de satisfação e de
superioridade quando contemplamos […] as sociedades não liberais”.47 Em
outras palavras, baseamos nossa autovalorização moral na maior liberalidade dos
nossos valores em relação aos valores dos demais. Essa motivação não apenas é
egoísta e frágil, mas também torna nossa filantropia “vulnerável às mudanças
rotineiras de atenção dada pela mídia às várias maneiras de se sentir bem que
estão na moda”.48 Como estamos fazendo o bem ao próximo com o propósito de
incrementar nosso sentido de valor e de superioridade, nossa benevolência
facilmente se transforma em desprezo quando confrontada com as decepções do
serviço e da ajuda ao ser humano na vida real.49 O ágape cristão, pelo contrário,
motiva a benevolência ao nos tornar humildes, mostrando-nos que somos
pecadores amados, de maneira tal que gastar nossa vida em benefício do outro
não deve ser algo baseado em um sentimento de superioridade, e sim em termos
sido conscientizados de nossa própria falta.
Outra motivação secular possível para a benevolência não segue a linha da
caridade paternalista, mas a ira pura e simples contra a injustiça. “Combatemos
as injustiças que clamam […] por vingança. Somos movidos por uma indignação
ardente contra o racismo, a opressão, o sexismo…”.50 Isso requer, obviamente, a
demonização de certas pessoas para ajudar outras. Qualquer filósofo na tradição
de Nietzsche separaria um dia para denunciar esse motor motivacional.
Nietzsche insistia que a benevolência e o ativismo da justiça social na sociedade
moderna decorrem, em grande medida, do ódio e do desprezo pelo outro.51
O segundo problema é o da obrigação moral. Um slogan que expressa essa
narrativa cultural diz que “Deus não é necessário para que você tenha uma vida
moral que inclua o trabalho pelo bem comum”. Dois livros recentes a favor
dessa hipótese são Good without God: what a billion nonreligious people do
believe [O bem sem Deus: em que acreditam de fato um bilhão de pessoas não
religiosas] e Atheist mind, humanista heart [Mente ateísta, coração humanista].52
Os dois afirmam categoricamente que ateus e pessoas secularizadas podem ser, e
são, altamente morais, pois são pessoas que vivem com integridade, ajudam
outros sacrificando-se por eles, e vivem uma vida de amor e de justiça.
Quando o indivíduo secularizado diz que o comportamento moral é possível
sem Deus, não há dúvida de que ele tem razão. Do ponto de vista cristão, quem
não acredita em Deus é capaz de amar o próximo e de fazer muitas coisas
exigidas pela lei de Deus. Isso é verdade não apenas na teoria, mas também na
experiência diária, pois todos conhecemos pessoas sem religião que são
generosas, morais e amorosas. Do ponto de vista do secularismo, os sentimentos
morais podem vir de muitas fontes. Eles podem ser produto da minha evolução
biológica ou uma função do meu histórico cultural, ou podem simplesmente ser
produto do meu temperamento e das minhas escolhas particulares.
Contudo, embora certamente haja sentimentos e comportamentos morais
sem Deus, como é possível haver obrigação moral? Com base em que se diz:
“Não faça X, mesmo que você sinta vontade de fazê-lo”? Na moralidade cuja
autoridade provém dela mesma, você talvez ache que X está errado, e evita fazê-
lo. No entanto, com base em que, por exemplo, você diz aos governos em outro
ponto do globo que devem conceder direitos iguais às mulheres? Por que seus
sentimentos e suas intuições morais interiores a respeito de determinada questão
devem sobrepujar os de outras pessoas? Todos temos avaliadores morais
internos. O que acontece quando os seus se diferenciam dos avaliadores das
demais pessoas em outras culturas ou mesmo dos avaliadores dos seus vizinhos
ou irmãos? A única maneira de passar de sentimentos morais para obrigações
morais consiste em apelar para alguma fonte moral ou norma do que é certo ou
errado externa a ambas as culturas ou aos indivíduos. Essa fonte ou norma
validará, revisará ou invalidará os sentimentos morais internos que competem
entre si. Toda cultura até a nossa teve um mecanismo assim, uma forma de
apelar às pessoas para que vivessem do jeito que deveriam viver, porque toda
cultura até a nossa teve algum consenso a respeito de uma fonte moral externa ao
eu. Mas esse não é o caso do sistema moderno tardio.
Nesse ponto, o secularismo não tem defesa contra a mensagem principal de
Friedrich Nietzsche. Ele dizia que o mundo estava cheio de destruição, caos,
sofrimento exploração e brutalidade. Agora, se esse mundo natural é tudo o que
existe, então não pode haver nada que esteja “acima” desta vida, nenhum padrão
pelo qual possamos julgar algumas partes da vida boas e corretas e outras partes
ruins e errôneas. Não pode haver nada mais elevado do que esta vida, isto é, não
há ideais morais que possam submeter a juízo e correção o que quer que seja
nesta vida. Nietzsche argumentou infatigavelmente que o humanismo secular era
simplesmente covarde demais para reconhecer as implicações de sua visão
secular do universo. Se todas as nossas crenças morais forem realmente apenas o
produto da biologia evolucionária, então, embora algumas coisas possam
parecer erradas, elas não o são de fato. Podemos sentir que é errado deixar o
pobre morrer de fome a fim de acumularmos riqueza e poder para nós mesmos,
mas não há como dizer que é de fato errado fazê-lo — inclusive no caso de
pessoas que não sentem que seja errado. Talvez você diga que não é razoável
fazer isso (embora muita gente conteste essa afirmação), mas não inerentemente
errado em e por si mesmo. Sem uma fonte moral que nos seja externa, a única
maneira de resolver esses conflitos inevitáveis entre ideais morais, de acordo
com Nietzsche, é pelo exercício do poder. Isso significa dizer a outros: isto é
correto simplesmente porque eu lhe digo que é e tenho o poder para obrigá-lo a
se sujeitar ao que lhe digo.
Isso nos leva ao último grave problema da narrativa moral moderna. Mari
Ruti, professora da Universidade de Toronto, expressa de forma concisa a
profunda tensão que há no pensamento moral secular: “Embora eu creia que os
valores sejam construídos socialmente, e não dados por Deus […], não creio que
a desigualdade de gênero seja mais defensável do que a desigualdade racial,
apesar dos reiterados esforços de fazer com que passe como ‘costume’ cultural
específico, e não como um episódio de injustiça”.53 Observe que, segundo a
professora, todos os valores morais são construídos socialmente pelos seres
humanos, portanto não se acham fundamentados em Deus. Contudo, ela está
dizendo que a compreensão que sua cultura (ocidental) tem da igualdade deve
ser seguida por todos. Ela não oferece nenhuma razão para isso, simplesmente
faz uma afirmação.
Há um exemplo notável do que Taylor chama de “falta extraordinária de
articulação da […] cultura moderna”, que vem da visão segundo a qual “as
posições morais não se encontram de modo algum fundamentadas na razão ou na
natureza das coisas, mas são, em última análise, simplesmente adotadas por cada
um de nós porque nos vemos atraídos por elas”.54 Se você estiver propondo que
alguns comportamentos são errados e devem ser impedidos, não há como
justificar ou mesmo manter um diálogo a respeito disso com alguém que
discorde. Tudo o que você pode fazer é reduzir a outra pessoa ao silêncio.
Em seu artigo “Conditions of an unforce consensus on humam rights”
[Condições para um consenso não forçado sobre direitos humanos], Taylor
mostra esse dilema ocidental. Uma vez que a modernidade secular acredita que
seus valores não vieram do cristianismo, mas são apenas produtos da razão
objetiva, ela não pode apelar a qualquer outra sociedade para que adote os
direitos humanos sem, primeiramente, dizer-lhe que é atrasada e precisa
abandonar o hinduísmo, o islamismo, o budismo ou sua religião tribal e se
secularizar. Diz Taylor: “Um obstáculo no caminho da […] compreensão mútua
advém da incapacidade de muitos ocidentais de ver sua cultura como uma entre
muitas”.55 Os secularistas ocidentais insistem que sua visão de direitos iguais é
simplesmente evidente por si mesma para qualquer pessoa racional, mas as
culturas não ocidentais não concordam com isso. Os ideais seculares da
benevolência e dos direitos universais estão “longe de serem evidentes por si
mesmos”.56 Como os indivíduos realmente secularizados não admitem que a
fonte de seus principais valores morais encontra-se em sua história cristã, isso os
torna imperialistas.
Uma das principais maneiras pelas quais um pregador cristão pode interagir
com essa narrativa consiste em identificar as interpretações morais cristãs das
quais provêm tantos ideais morais seculares. Por exemplo, a ênfase bíblica no
cuidado para com o pobre e com o marginalizado está por toda parte. A literatura
de sabedoria de Jó, de Salmos e de Provérbios faz referências constantes sobre a
vida justa, a privação pessoal em benefício do outro e sobre o cuidado aos
direitos e às necessidades do pobre.57 Profetas como Amós mostram que Deus
responsabiliza todas as nações em relação a padrões de justiça social (Am 1.1—
2.3). Os capítulos 1 e 9 de Gênesis mostram que todo ser humano foi criado à
imagem de Deus. É sempre bom mostrar como a retórica e a ação do movimento
dos direitos civis se basearam fortemente no conceito de todas as pessoas foram
criadas à imago dei.58 A cada etapa, porém, é crucial mostrar como essa ideia
moral cristã está em plena sintonia com a natureza de Deus e do mundo que ele
criou. Desse modo, você estará fazendo o trabalho de Nietzsche (!) ao lembrar as
pessoas de onde vieram essas ideias e como elas só podem fazem sentido em um
universo pessoal criado por Deus.
Também é importante que o pregador cristão mostre a seus ouvintes que a
experiência do ágape — a graça não merecida de Deus em Cristo — conduz,
inevitavelmente, a uma vida justa e de compaixão. Lemos em Tiago 2.14-17 que
não podemos ser verdadeiramente salvos pela graça por meio da fé e ainda assim
não ter compaixão pelo pobre. Vemos em Tiago 1.9-11 que os mais ricos serão
humilhados e destituídos de sua arrogância pelo evangelho, enquanto os crentes
mais pobres serão libertos da autoaversão pelo evangelho. O evangelho produz
uma transformação social e motivacional.59 Ouvintes secularizados se
surpreenderão ao ouvir — e muitas vezes terão de admitir ao fazerem a
comparação — que suas motivações pessoais para a prática da justiça são
relativamente mais tênues e mais negativas.
Outro tema bíblico importante que interage com essa narrativa é o
ensinamento sobre a ressurreição. O cristão tem não só uma motivação mais
profunda para fazer justiça, mas também uma esperança maior. No fim dos
tempos, de acordo com a Bíblia, não viveremos para sempre em um mundo não
material. Este mundo será renovado. Teremos corpos ressuscitados e toda
injustiça, sofrimento, doença e morte serão banidos. Como observei
anteriormente, quando fiz referência aos escritos de Miroslav Volf, crer no dia do
juízo, quando tudo o que é errado será endireitado, pode ser um incentivo
poderoso para evitar a violência e a vingança, e para viver uma vida de paz
agora, certos de que, futuramente, haverá justiça na terra.
Por fim, haverá vezes em que, como observamos no capítulo anterior, pode
haver lugar para o uso de complementos apologéticos. Quando isso acontecer,
você pode ressaltar de forma breve, porém clara, que os relatos seculares de
justiça não têm fontes morais fora do eu; que, se não há Deus, Nietzsche está
certo e não há uma boa razão para dizer a alguém que viva sem egoísmo.
INTERAGINDO COM AS NARRATIVAS DA HISTÓRIA E DA
RACIONALIDADE: A CIÊNCIA COMO A ESPERANÇA
SECULAR
As narrativas da história e da racionalidade estão interligadas em alguns
aspectos. Existe ainda uma narrativa poderosa em nossa cultura segundo a qual a
ciência e a tecnologia nos proporcionarão um futuro melhor. O Vale do Silício é
o epicentro desse tipo de pensamento, em que muitas “vozes proféticas” falam
de um futuro em que os problemas do envelhecimento, das doenças, da pobreza
e da desigualdade serão todos resolvidos ou transformados.
Contudo, há uma forte reação em nossa cultura contra esse tipo de
esperança. Vários filmes recentes mostram um futuro distópico em que a
civilização é amplamente dizimada. Há um pessimismo generalizado de que a
tecnologia está destruindo nossa privacidade, está nos desumanizando e nos
tornando vulneráveis ao terrorismo futuro e a uma exploração em escala sem
precedentes.
A resposta cristã a isso é que a ideia moderna de progresso histórico tem
sido otimista demais tanto em relação à história quanto à natureza humana. Ela
supõe que o novo é sempre melhor, mas o senso comum nos diz que não é bem
assim. A história é completamente inadequada como guia moral. Os nazistas
tinham certeza de que estavam “do lado certo da história”, assim como os
comunistas. Na verdade, na primeira metade do século 20 é possível que a maior
parte da intelligentsia ocidental achasse que o socialismo ou o comunismo fosse
“o caminho que a história estava trilhando”. Em contrapartida, muitos em nosso
tempo presente são extremamente pessimistas. Eles rejeitaram a ideia do
progresso inexorável e a substituíram pela ideia contrária de que a história, nas
palavras de Macbeth, é “um conto narrado por um idiota, cheio de som e de
fúria, mas que não significa nada”.
A resposta cristã à visão da história extremamente otimista ou
extremamente pessimista da modernidade tardia consiste em apontar para a
ressurreição. O cristianismo é ao mesmo tempo muito mais pessimista em
relação à história e à raça humana do que qualquer outra visão de mundo e muito
mais otimista em relação ao futuro material do mundo do que qualquer outra
cosmovisão. Nosso futuro consiste em um mundo material renovado com corpos
ressuscitados, mas é claro que a ressurreição sempre vem depois da morte e da
destruição. Não há razão para os cristãos acreditarem que cada década e cada
estágio da história serão melhores do que os anteriores, mas cremos que tudo
está sendo conduzido de modo infalível para um final glorioso.
Portanto, a visão cristã da história evita a utopia e o excesso de otimismo da
modernidade, mas evita também o pessimismo e o enfado da distopia.
De igual modo, o pregador cristão deve interagir também com a narrativa
da racionalidade. A crença de que tudo tem uma explicação científica e de que
todo problema tem uma solução tecnológica é irremediavelmente ingênua. No
passado, os sonhos utópicos sempre resultaram em decepção. Praticamente em
todos os lugares em que o pregador ou o mestre cristão depara com uma
passagem sobre a profundidade e a complexidade do mal — o mal coletivo e
sistêmico (“o mundo”), o mal interior (“a carne”) ou o mal sobrenatural (“o
Diabo”) —, ele deve aproveitar a oportunidade para interagir com a narrativa
cultural, mostrando que a psicologia, a sociologia e a tecnologia sozinhas jamais
serão capazes de lidar com tudo o que está errado em nós, tampouco a razão
pode discernir sozinha o sentido das coisas.60
A sabedoria é outro tema bíblico que pode ser introduzido nesse momento
pelo pregador. O capítulo 28 de Jó é um poema magnífico que interage
objetivamente com a narrativa tecnológica moderna. Ele celebra a tecnologia
humana da mineração e da arte metálica e então indaga: “Mas onde se achará a
sabedoria? […] ela não se encontra na terra dos viventes” (Jó 28.12,13).
O conhecimento não é a mesma coisa que a sabedoria. Conhecimento são
dados e fatos, mas a sabedoria consiste em conhecer qual é a maneira boa e
correta de viver. A sabedoria é um tipo de compreensão sobre a natureza da
realidade que a ciência não pode nos dar de modo algum. A literatura sapiencial
na Bíblia fornece ao pregador cristão inúmeras passagens e temas ricos para que
ele interaja ponderadamente com a fé da modernidade tardia na ciência.
NÃO SE INTIMIDE
A ideia de “partir das” narrativas culturais básicas do secularismo tardio pode
parecer uma coisa intimidadora. Os que promovem a sabedoria desta era, que
desdenham dos cristãos e dizem que eles estão “do lado errado da história”,
parecem extremamente confiantes. Contudo, o pregador e o mestre cristão não
deve se deixar abater ou se sentir ameaçado. Procure se lembrar de que você está
em desacordo muito mais com um sistema de crenças do que com um grupo de
pessoas. O indivíduo hoje é muito mais vítima da mentalidade da modernidade
tardia do que perpetrador dela. Visto por essa ótica, o evangelho cristão é mais
uma fuga da prisão do que uma batalha.
Paulo clama: “Onde está o sábio? Onde está o instruído? Onde está o
questionador desta era? Por acaso Deus não tornou absurda a lógica deste
mundo?” (1Co 1.20). No seu tempo, a cruz e a expiação não faziam sentido
nenhum no âmbito das cosmovisões reinantes. Os filósofos trataram Paulo com
desdém no Areópago, em Atos 17, e ali quase ninguém creu em sua mensagem.
Contudo, me responda agora: Onde está hoje a sabedoria daquele mundo? Ela se
foi, acabou. Ninguém acredita mais naquelas cosmovisões, e assim será sempre.
As filosofias do mundo vão e vêm, erguem-se e caem, mas a sabedoria que
pregamos — a Palavra de Deus — continuará sempre atual.
NOTAS
1P. T. Forsyth, Positive preaching and the modern mind (Exeter: Paternoster Press, reimpr. 1998), p.
20-1.
2Ibidem, p. 30. Forsyth dá conselhos muito úteis sobre como pregar à mente moderna. Ele diz que as
pessoas modernas não concordarão em conceder a Deus a autoridade sobre sua vida pela aplicação de mera
culpa, pressão ou força. Elas abaixarão os braços e se renderão somente se seu coração estiver convicto e
tocado. Como fazer isso? Temos de mostrar às pessoas que “[Deus] não é um outro, e sim o meu outro”.
Isso porque fomos criados para conhecê-lo e servi-lo. Portanto, seu poder é um “poder compatível”, capaz
de acomodar nossa natureza e nossa necessidade. É preciso que elas vejam a “homonomia da sua autoridade
[…] sua afinidade com a alma [delas]”. Além disso, temos de provar a elas que, se Deus não for nossa
autoridade, outra coisa será. “Se dentro de nós não acharmos nada que esteja acima de nós, sucumbiremos
ao que está à nossa volta.” Forsyth emite aqui uma inequívoca nota agostiniana: se não reconhecermos que
Deus é o sentido da nossa vida, isso fará com que “as coisas que nos são externas estendam sobre nós seu
poder escravizador”. Elas se tornam nossas “soberanas”. Se vivermos para a carreira, para a família ou para
a política, essas coisas nos dominarão. Não seremos capazes de viver sem elas. Trabalharemos além da
conta para conquistá-las e sofreremos de um medo ou de uma amargura incontroláveis se algo nos impedir
de tê-las (ibidem, p. 29-30).
3Embora valha a pena ler tudo de P. T. Forsyth, creio que sua doutrina da Escritura e da revelação
divina o deixam menos apto do que ele acreditava para confrontar a “mente moderna”. Por um lado, ele diz:
“O ministério ideal deve ser uma bibliocracia” (ibidem, p. 46). Ele diz que em nosso serviço ministerial à
mente moderna devemos “não apenas aderir aos textos”, mas também oferecer a “pregação expositiva de
um texto longo e a elucidação de uma passagem. O público logo se cansará da pregação exclusivamente
tópica, ou feita a partir do jornal, em que os eventos da semana fornecem o texto” (ibidem, p. 5). Ele critica
aqueles que deixam os problemas contemporâneos pautarem sua agenda, e aí então introduzem a Bíblia
como se fosse uma coisa significativa apenas à medida que nos ajuda a pensar sobre nossos temas
prediletos. Contrariamente a isso, Forsyth diz que quem prega para a mente moderna deve ensinar a Bíblia
de modo tão pleno e habilidoso que veja nela “o único manual da vida eterna, a única página que brilha
enquanto tudo o mais na vida jaz em trevas e o único livro cuja riqueza nos repreende quanto mais velhos
nos tornamos porque o conhecemos e o amamos tão tardiamente” (ibidem, p. 24). Apesar de apelos assim
contundentes, por outro lado, ele diz também: “Não creio na inspiração verbal. A princípio, estou com os
críticos”. Contudo, acrescenta surpreendentemente: “Mas o verdadeiro ministro deve considerar as palavras
e as frases da Bíblia tão cheias do bem espiritual e de felicidade que sinta dificuldade em não crer na
inspiração verbal” (ibidem, p. 24). Ele parece estar dizendo que, embora a crítica histórica moderna torne
impossível a ele crer que a Bíblia seja a revelação plena e infalível de Deus, o pregador deve pregar como
se ela assim fosse. Essa contradição, creio eu, acabaria cobrando seu preço do pregador. Para uma síntese,
uma avaliação e uma crítica equilibradas do pensamento de Forsyth, veja Samuel J. Mikolaski, “P. T.
Forsyth”, in: Philip E. Hughes, org., Creative minds in contemporary theology, 2. ed. (Grand Rapids:
Eerdmans, 1969), p. 307-40.
4Planned parenthood v. Casey, 505 U.S. 833, 851 (1992).
5Charles Mathewes; Joshua Yates, “The ‘drive to Reform’ and its discontents”, in: Carlos D. Colorado;
Justin D. Klassen, Aspiring to fullness in a secular age: essays on religion and theology in the work of
Charles Taylor (Notre Dame: University of Notre Dame Press, 2014), p. 156, 159.
6C. S. Lewis, The abolition of man (London: Fount Paperbacks, 1978), p. 46 [edição em português: A
abolição do homem, tradução de Remo Mannarino Filho (São Paulo: Martins fontes, 2012)].
7Apenas um exemplo é Charles Taylor, cuja obra é a base de boa parte do restante deste capítulo. Ele
coloca a palavra “pós-moderno” entre aspas, diz que é um termo “da moda” e o considera um exagero,
portanto, uma intensificação temporária e indefensável do individualismo moderno. Veja Charles Taylor, A
secular age, p. 716-7. Os três livros de Taylor que estão por trás do restante deste capítulo são Sources of
the self: the making of the modern identity (Cambridge: Cambridge University Press, 1989); A secular age
(Cambridge: Harvard University Press, 2007) [edição em português: Uma era secular (São Leopoldo:
Unisinos, 2010)] e The malaise of modernity (Ontario: Anansi Books, 1991).
8Veja nota 31 do capítulo 4.
9Mark Lilla, “Getting religion”, New York Times Magazine, September 18, 2005.
10Os argumentos de Taylor contra os relatos da “história de subtração” do secularismo permeiam todo
o seu livro. Ele introduz o conceito da história de “subtração” na página 22 de A secular age. Taylor o
resume assim: “condição em que os seres humanos perderam ou lançaram fora, ou ainda, se libertaram de
certos horizontes ou ilusões, ou restrições do conhecimento, todos antigos e limitadores”. A ascensão da
ciência pareceu tornar indefensáveis as explicações que invocavam Deus (p. ex. a teoria da evolução) ou
desnecessárias e obsoletas (e.g., a ciência médica, em vez da oração, para a cura de doenças). Uma vez que
a ciência simplesmente subtraiu a superstição da crença em Deus e no sobrenatural, então (acredita-se) que
tenhamos visto o que lá estava o tempo todo: o valor e a igualdade dos seres humanos e da vida humana, o
poder do eu de pensar e de ordenar a sociedade, e assim por diante. Terry Eagleton, de uma perspectiva
marxista, concorda com Taylor ao rejeitar a ideia de que o secularismo nos sobreveio unicamente porque as
pessoas acordaram para os fatos científicos.
11Mark Lilla, “The hidden lesson of Montaigne”, New York Review of Books 58, n. 5 (March 24,
2011), citado em James K. A. Smith, How (not) to be secular, p. 1.
12Terry Eagleton, Culture and the death of God (New Haven: Yale University Press, 2014), p. 33-4
[edição em português: A morte de Deus na cultura (Rio de Janeiro: Record, 2016)].
13Veja tb. Alasdair MacIntyre, After virtue: a study in moral theory, 3. ed. (Notre Dame: Notre Dame,
2007) [edição em português: Depois da virtude, tradução de Jussara Simões (Bauru: Edusc, 2001); Alasdair
MacIntyre, Whose justice? Which rationality? (Notre Dame: Notre Dame, 1989); [edição em português:
Justiça de quem? Qual racionalidade, tradução de Marcelo Pimenta (São Paulo: Loyla, 1991)] e o mais
recente Thomas Pfau, Minding the modern: human agency, intellectual traditions, and responsible
knowledge (Notre Dame: Notre Dame, 2013). Terry Eagleton também rejeita a ideia de que o secularismo
não tenha uma história de construção que seja simplesmente “os fatos”. Veja “The limits of Enlightenment”,
in: Eagleton, Culture and the death of God, cap. 1, p. 1-44.
14Com relação a esse termo, veja Taylor, Secular age, p. 427.
15Um exemplo disso são os “Dez Não Mandamentos” reunidos por dois autores ateus que quiseram
expor os ideais sobre os quais o indivíduo secularizado pode construir sua vida. Eles foram propostos Lex
Bayer; John Figdor, Atheist mind, humanist heart (New York: Rowman and Littlefeld Publishers, 2014) e
estão listados em Daniel Burke, “Behold atheists’ new Ten Commandments”, CNN.com, December 20,
2014, disponível em: http://edition.cnn.com/2014/12/19/living/atheist-10-commandments/; acesso em: jan.
2017. Mais da metade de todos eles são, ironicamente, princípios éticos originados nas grandes religiões
mundiais, inclusive no cristianismo: “Esteja atento às consequências de suas ações e reconheça que deve
assumir responsabilidade por elas […] Trate os outros como você gostaria de ser tratado e também como
imagina, pelo bom senso, que eles desejam ser tratados. Tenha em mente a perspectiva deles […] Temos a
responsabilidade de levar os outros em conta, inclusive as gerações futuras […] Faça do mundo um lugar
melhor do que o encontrou” (veja “Appendix: Illustrations of the Tao”, in: C. S. Lewis, Abolition of man, p.
49-59). O filósofo ateu John Gray disse recentemente que essas prescrições somente fazem sentido se
houver um Deus: “A fonte desses valores não é a ciência. Na verdade, como disse o pensador ateu mais lido
de todos os tempos, esses valores liberais extremamente refinados têm suas origens no monoteísmo” (John
Gray, “What scares the new atheists”, Guardian, March 3, 2015); disponível em:
www.theguardian.com/world/2015/mar/03/what-scares-the-new-atheists,acesso em: jan. 2017. Os outros
“não mandamentos” decorrem mais diretamente das narrativas culturais básicas da modernidade tardia e são
tratados mais à frente neste capítulo, por exemplo: “Toda pessoa tem o direito de controlar seu corpo”, “Não
há necessidade de Deus para que alguém seja uma boa pessoa ou viva uma vida plena de significado” e
“Não há apenas uma maneira certa de viver”.
16Alan Ehrenhalt, The lost city: the forgotten virtues of community in America (New York: Basic
Books, 1995), p. 2, citado em Taylor, Secular age, p. 475.
17Taylor, A secular age, p. 475.
18Ibidem, p. 275-80.
19Ibidem, p. 278.
20Veja os capítulos “The immanent frame” e “Cross pressures”, in: Taylor, Secular age, p. 539-617.
Para um resumo da crítica de Nietzsche, veja Gray, “What scares the new atheists”.
21Veja Alvin Plantinga, “Deep concord: Christian theism and the deep roots of science”, in: Where the
conflict really lies (New York: Oxford University Press, 2011), p. 265-306; e C. JohnSommerville, “Science
gets strange”, in: The decline of the secular university (New York: Oxford University Press, 2006), p. 75-
84. Veja tb. Diogenes Allen, Christian belief in a postmodern world (Louisville: John Knox, 1989).
22C. S. Lewis, Surprised by joy: the shape of my early life (New York: Harcourt and Brace, 1955), p.
207-8 [edição em português: Surpreendido pela alegria, tradução de Eduardo Pereira e Ferreira (Viçosa:
Ultimato, 2015)].
23Taylor, Secular age, p. 582-98.
24Robert N. Bellah, et al., Habits of the heart: individualism and commitment in American life, 2. ed.
(Oakland: University of California Press, 2007).
25Essas hierarquias foram originalmente justificadas como reflexo da ordem cósmica. Diz Taylor: “A
liberdade moderna surgiu com o descrédito dessas ordens” (Taylor, Malaise of modernity, p. 3).
26Veja, p. ex., Krister Stendhal, “The apostle Paul and the introspective conscience of the West”,
Harvard Theological Review 56, n. 3 (July 1963): 205.
27Let it go, de Robert Lopez e Kristen Anderson, foi tema de Frozen, filme da Disney que ganhou o
Oscar de melhor canção original de 2013. É interessante e também irônico comparar a letra da música da
personagem Elza com o pronunciamento de Martinho Lutero perante o santo imperador romano. Os dois
dizem “Aqui estou”. Lutero, porém, queria dizer que estava livre do medo e de outras autoridades porque
estava vinculado à Palavra de Deus e às suas normas. Elsa fala à cultura contemporânea ao dizer que seria
livre somente se não houvesse nenhuma amarra.
28“Uma característica fundamental [do secularismo] é a percepção de que todas essas respostas são
frágeis ou incertas; que poderá chegar o momento em que não acharemos mais nosso caminho irresistível,
ou não seremos capazes de justificá-lo a nós mesmos ou aos demais” (Taylor, Secular age, p. 308).
29Gail Sheehy, Passages: predictable crises of adult life (New York: Bantam Books, 1976), p. 364,
513 [edição em português: Passagens: crises previsíveis da vida adulta (Rio de Janeiro: Francisco Alves,
1991)], citado em Taylor, Malaise of modernity, p. 44.
30Taylor, Malaise of modernity, p. 44.
31Ibidem, p. 47.
32Veja Alain de Botton, Status anxiety [edição em português: Status ansiedade (Lisboa: Dom Quixote,
2005). Esse é o argumento de Botton. Como filósofo ateu, ele diz que a identidade moderna, com sua ênfase
sobre a realização através da competição, cria muito mais ansiedade do que as identidades tradicionais.
33Taylor, Secular age, p. 67-73. Em primeiro lugar, a doutrina da justificação exclusivamente pela fé
mudou a antiga distinção sagrado/profano — a concepção de que a vida cotidiana no mundo era profana e
corrupta e somente o trabalho dentro da igreja era sagrado, mais elevado e enobrecedor. Os reformadores
protestantes acreditavam que a estrutura em dois níveis da igreja medieval não apenas conduzia à
superstição, à idolatria e ao elitismo espiritual, mas também denegria a vida humana cotidiana — o
trabalho, a agricultura, a alimentação e a formação de uma família. Na perspectiva medieval, essas coisas
eram “inferiores” e desviavam a pessoa de buscas espirituais “mais elevadas”. Taylor observa que esse
elitismo e desprezo pela vida e pelo trabalho cotidianos eram em grande medida fruto do dualismo mente-
corpo dos gregos, e não do entendimento bíblico acerca do pecado e da graça. Os reformadores protestantes
libertaram as pessoas da crença de que a privação dos prazeres materiais inerentemente cooperava para que
se alcançasse a salvação. Lutero e Calvino acabaram com a distinção entre sagrado e profano ou, como diz
Taylor, “o sagrado subitamente se ampliou: para o salvo, Deus nos santifica em tudo, portanto também na
vida, no trabalho, no casamento e em tudo o mais do nosso dia a dia” (ibidem, p. 79). Em segundo lugar, a
justificação pela fé significava uma nova ênfase na ação individual. Agora já não bastava mais
simplesmente ser parte da igreja onde se havia nascido ou meramente realizar mínimas tarefas. Era preciso
se arrepender e crer, e só se pode fazê-lo pessoalmente, na condição de ator individual. Segundo a
perspectiva católica, a salvação era decorrência de estar a pessoa unida à igreja visível. Nesse sentido, o
indivíduo era literalmente salvo por pertencer a uma comunidade, pelo batismo infantil e por sua integração
à igreja, e não pela ação individual direta. A salvação unicamente pela fé significava que a salvação era
anterior à filiação à igreja visível. Tratava-se de uma profunda “individuação”. Desse modo enfraquecia-se
também a concepção de que nos relacionamos com Deus através de nosso grupo, classe, família ou
comunidade — ao sermos um bom membro de uma classe. Taylor acrescenta corretamente que fazer da
Bíblia a única autoridade — e não a igreja — também corroeu a antiga sociabilidade. O resultado disso foi a
crença de que o indivíduo pode se aproximar diretamente da Bíblia e de Deus sem a mediação da igreja.
34Taylor, Secular age, p. 484.
35Ibidem.
36Christian Smith et al., Lost in transition: the dark side of emerging adulthood (New York: Oxford
University Press, 2011), cap. 5, p. 195-225.
37Taylor, Secular age, p. 484.
38David Friend e os organizadores de The meaning of life: reflections in words and pictures on why we
are here (New York: Little, Brown, 1991) p. 33.
39Thomas Nagel, What does it all mean? A very short introduction to philosophy (New York: Oxford
University Press, 1987), p. 95-6 [edição em português: Uma breve introdução à filosofia (São Paulo: WMF
Martins Fontes, 2007)].
40Ferry é citado em Taylor, Secular age, p. 308.
41Veja Timothy Keller; Kathy Keller, The meaning of marriage: facing the complexities of
commitment with the wisdom of God (New York: Riverhead, 2013), p.1-46 [edição em português: O
significado do casamento (São Paulo: Vida Nova, 2012)]. Nessas páginas, analisamos com alguma
profundidade por que as narrativas culturais de liberdade e de identidade não se encaixam nas realidades
dos relacionamentos e por que também não satisfazem as aspirações que temos em relação ao casamento.
42D. A. Carson, The Gospel according to John, Pillar New Testament Commentary (Grand Rapids:
Eerdmans, 1991), p. 350.
43Para mais detalhes a respeito de como pregar sobre esse tema, veja “Christianity is a straitjacket”,
in: Timothy Keller, Reason for God: belief in an age of skepticism (New York: Dutton, 2008), p. 35-50
[edição em português: A fé na era do ceticismo (São Paulo: Vida Nova, 2015).
44Taylor, A secular age, p. 371.
45Ibidem, p. 581. “Houve um momento em que os seres humanos tomaram suas normas, seus bens e
padrões de valor máximo de alguma autoridade fora de si mesmos: de Deus ou deuses, da natureza do Ser
ou do cosmo. Eles compreenderam, porém, que essas autoridades mais elevadas eram obra de ficção deles
mesmos, e aí se deram conta de que precisavam fixar normas e valores para si mesmos com base na sua
própria autoridade […] Eles estabelecem os valores máximos pelos quais vivem” (ibidem, p. 580).
46Ibidem, p. 588.
47Charles Taylor, “A catholic modernity?”, in: Dilemmas and connections: selected essays
(Cambridge: Belknap Press, 2014), p. 182.
48Ibidem.
49“Diante da realidade das deficiências humanas, a filantropia […] pode paulatinamente se revestir de
desprezo, ódio, agressão. A ação é interrompida, ou pior, prossegue, porém revestida de novos sentimentos,
tornando-se cada vez mais coercitiva e desumana. A história do socialismo despótico está repleta dessa
guinada trágica […] [assim como] uma série de instituições de ‘auxílio’, de orfanatos […] escolas para
aborígenes” (ibidem, p. 183).
50Ibidem, p. 184.
51Ibidem, p. 185.
52Greg Epstein, Good without God: what a billion nonreligious people do believe (New York: William
Morrow, 2010); e Lex Bayer; John Figdor, Atheist mind, humanist heart: rewriting the Ten Commandments
for the twenty first century (New York: Rowman & Littlefeld, 2014).
53Mari Ruti, The call of character: living a life worth living (New York: Columbia University Press,
2014), p. 36.
54Taylor, Malaise of modernity, p. 18.
55Taylor, “Conditions of an unforced consensus on human rights”, in: Dilemmas and connections, p.
123.
56Ibidem.
57Veja Timothy Keller, Generous justice: how God’s grace makes us just (New York: Riverhead,
2012) [edição em português: Justiça generosa: a graça de Deus e a justiça social (São Paulo: Vida Nova,
2013)]. Veja esp. o cap. 7, “Doing justice in the public square”, para ideias sobre como conversar com
amigos seculares que concordam com a importância da justiça social, mas que não podem enraizar suas
convicções em nenhuma fonte moral fora de si mesmos.
58Veja Richard W. Wills, Martin Luther King, Jr., and the image of God (New York: Oxford
University Press, 2011).
59Analiso extensamente essa tese em Generous justice.
60Alasdair MacIntyre, After virtue, também pode nos ajudar aqui. É conhecida a posição de MacIntyre
de que a ciência não pode de modo algum determinar de que modo devemos viver porque não temos como
saber se determinado comportamento de um ser humano é bom ou ruim a menos que conheçamos nosso
propósito — para que estamos aqui. A ciência não pode discernir isso e, portanto, a razão empírica em nada
nos ajuda a saber de que maneira a sociedade funciona melhor ou como se deve fazer justiça.
6

PREGANDO CRISTO AO CORAÇÃO

Porque onde estiver teu tesouro, aí estará também teu coração [Mt 6.21].
A IMPORTÂNCIA DO CORAÇÃO
É fundamental pregar biblicamente e pregar levando-se em conta as narrativas
culturais, mas nada disso basta. Se a verdade, além de clara, não for real para os
ouvintes, eles ainda não lhe obedecerão. Não basta simplesmente que a pregação
seja precisa e consistente. Ela deve captar o interesse e a imaginação do ouvinte;
deve ser convincente e penetrar em seu coração. É possível meramente
asseverar, confrontar e sentir que fomos muito “valentes pela verdade”, porém,
se a pregação for árida ou tediosa, as pessoas não se arrependerão e não crerão
na doutrina correta por você apresentada. Temos de pregar de tal maneira que,
assim como no primeiro sermão do Pentecostes, os ouvintes fiquem com o
“coração pesaroso” (At 2.37).
O leitor moderno da Bíblia quase sempre entenderá errado o termo
“coração”. Ele submeterá o termo à sua matriz contemporânea e concluirá que se
trata de emoções. No entanto, a Bíblia com frequência fala de pensar com o
coração ou de agir com o coração, o que não se encaixa de modo algum com
nosso conceito moderno. Tampouco os gregos antigos tinham uma compreensão
bíblica do coração. A virtude era para eles uma questão do espírito sobre o
corpo, o que significava que a razão e a vontade triunfariam sobre as paixões
desregradas do corpo. Hoje, continuamos a contrapor a mente aos sentimentos,
mas invertemos radicalmente a ordem antiga. As emoções são o “verdadeiro” eu,
e não os pensamentos racionais.
A visão bíblica do coração é “nenhuma das alternativas anteriores”. Na
Bíblia, o coração é a sede da mente, da vontade e das emoções — tudo isso
junto. Lemos em Gênesis 6.5 a respeito da raça humana que “toda a imaginação
dos pensamentos de seu coração era continuamente má”. Diz um comentarista:
“Leb, ‘coração’, é o centro da personalidade humana na antropologia bíblica, a
fonte da qual se originam a vontade e o pensamento. Não é simplesmente a fonte
das emoções…”.1
É claro que o coração produz emoções, como alegria (Dt 28.47); tristeza
(1Sm 1.8); ira (2Rs 6.11); ansiedade (Jo 14.1) e amor (1Pe 1.22). Contudo, o
coração também pensa (Pv 23.7; Dn 2.30; At 8.22) e tem vontade, faz planos e
toma decisões (Pv 16.1; 16.9). Ele é a fonte de todas as nossas palavras (Mt
12.33,34; Rm 10.9). Fundamentalmente, o coração coloca sua confiança nas
coisas (Pv 3.5). Biblicamente, portanto, “amores” do coração quer dizer muito
mais do que afeição emocional. O que o coração mais ama é aquilo em que ele
mais confia e ao que mais se dedica (Pv 23.26).
A Bíblia não reconhece nenhum dualismo entre “cabeça” e “coração”. Em
Gênesis 6.5 lemos que os pensamentos, os atos e os sentimentos do coração se
devem à sua “inclinação”. O versículo 21 de Mateus 6 é fundamental aqui:
“Porque onde estiver teu tesouro, aí estará também teu coração”. Um
comentarista ao discorrer sobre esse versículo diz que o coração é, portanto, o
“centro da atenção e do compromisso de uma pessoa”.2 Aquilo que é valorizado
e acalentado no coração “sutilmente, mas de modo infalível, controla por
completo a direção e os valores da pessoa”.3
Não é de espantar que a Bíblia diga que Deus ignora a aparência externa e
olha sobretudo para o coração (1Sm 16.7; 1Co 4.5; Jr 17.10). Também não é de
espantar que os profetas tenham dito que a obediência à lei e o louvor a Deus
com a boca nada significam se não tivermos um coração voltado para Deus (Is
29.13; Jr 12.2). É por isso que eles disseram que o objetivo não é mero
cumprimento da lei, mas a mudança de coração, tendo a lei escrita no coração
por meio do renascimento espiritual (Jr 31.33).
Seja o que for que capture a confiança e o amor do coração, isso controlará
também os sentimentos e o comportamento. O que o coração mais quer a mente
acha lógico, as emoções acham precioso e a vontade acha factível. É muito
importante, portanto, que a pregação toque o coração para que ele pare de
confiar e de amar outras coisas mais do que a Deus. O que torna as pessoas o que
elas são é a ordem de seus amores — o que elas mais amam, até chegar ao que
está acima de tudo, e o que elas menos amam, até chegar àquilo que está em
último lugar. Isso é mais fundamental para quem somos do que até mesmo as
crenças às quais mentalmente subscrevemos. Nossos amores mostram aquilo em
que de fato cremos, não aquilo em que dizemos crer. As pessoas, portanto,
mudam não quando mudam simplesmente seu pensamento, mas quando mudam
o objeto de seu maior amor. Essa mudança requer nada menos do que mudar de
pensamento, mas também acarreta uma porção de outras coisas.
Portanto, o objetivo do sermão não pode ser apenas tornar a verdade clara e
compreensível à mente. Ela deve também torná-la cativante e real para o
coração. A mudança ocorre não apenas quando se dá novos argumentos à mente,
mas também quando se alimenta a imaginação com novas belezas.4
A PREGAÇÃO E AS “AFEIÇÕES”
Uma das contribuições mais duradouras de Jonathan Edwards é a psicologia
religiosa encontrada em The religious affections [As afeições religiosas]. Em vez
de aceitar a divisão ocidental típica de “vontade” em oposição às “emoções” (e,
portanto, a divisão da alma em três partes: pensamento, sentimento e vontade),
Edwards postula duas faculdades apenas. A primeira é a “compreensão”, que é
nossa capacidade de perceber e de julgar a natureza das coisas. A segunda ele
chama de “inclinação”, isto é, gostar ou não gostar, amar ou rejeitar o que
percebemos. Edwards chama essa inclinação de “vontade” quando está
envolvida em ação e de “coração” quando detecta a beleza do que está sendo
percebido pela compreensão. As “afeições” são o que Edwards chama de os
“exercícios mais vigorosos e sensíveis” dessa faculdade. Na Bíblia, elas são
chamadas de “fruto do Espírito” — amor, alegria, zelo, gratidão, humildade.
Essas afeições, é claro, estão cheias de emoções, mas não são iguais a elas.
As afeições são a inclinação da pessoa toda ao perceber a beleza e a excelência
de algum objeto. Quando nosso coração se inclina para o objeto de amor, ele nos
impele a adquiri-lo e a protegê-lo. As emoções podem ser causadas por uma
série de estímulos físicos e psicológicos que, não raro, são fugazes, resultando
em pouca ou nenhuma mudança de comportamento. As afeições, porém, são
mais duradouras e envolvem tanto convicções da mente quanto mudanças na
ação e na vida. Edwards recusou-se a pressupor uma oposição entre
compreensão e afeições. Em outras palavras, se uma pessoa dissesse “Sei que
Deus se importa comigo, mas mesmo assim continuo paralisado de medo”,
Edwards diria: “Isso significa então que você não sabe de fato que Deus se
importa com você. Se soubesse, as afeições da confiança e da esperança
brotariam em seu interior”.5
Estamos agora em posição de analisar a importância dos conceitos do
coração e das afeições para o pregador. Se Edwards estiver certo, não há então
nenhuma oposição fundamental entre “cabeça” e “coração”. Não devemos, por
exemplo, partir do pressuposto de que, se as pessoas à nossa volta são
materialistas, basta apenas que sejam exortadas a dar mais. Isso seria agir com
base unicamente na vontade. O resultado será uma culpa temporária — que
poderá ajudar na oferta do dia —, mas não produzirá uma mudança de longo
prazo no estilo de vida das pessoas, pois o coração delas não foi alcançado.
Também não devemos simplesmente contar histórias de mudança de vida de
outras pessoas por meio de atos de generosidade. Um apelo assim atingirá
diretamente as emoções, gerando pena ou inspiração e (talvez) culminando em
um impulso passageiro de doar algum dinheiro para uma causa; contudo, insisto
que a emoção se apagará e não haverá mudança a longo prazo.6
Se as pessoas são materialistas e não são generosas, isto indica que não
compreenderam de fato como Jesus, embora rico, se tornou pobre por causa
delas. Indica que não entenderam o que significa o fato de que em Cristo temos
todas as riquezas e tesouros. Talvez creiam nessas verdades como doutrina,
porém as afeições de seu coração se apegam às coisas materiais, as quais, para
elas, são mais excelentes e belas do que o próprio Jesus. É possível que tenham
uma compreensão superficial da riqueza espiritual de Jesus, mas não a
compreendem de fato. Portanto, na pregação temos de apresentar Cristo
novamente de tal maneira que ele substitua as coisas materiais nas afeições
delas. Para tanto, não bastam o argumento racional e o ensino doutrinário —
embora, sem dúvida, devam ser incluídos —; é necessária também a
apresentação da beleza de Cristo como aquele que abriu mão de suas riquezas
por nós.
Edwards acreditava que na origem de todas as afeições do coração está a
“excelência”, isto é, aquilo que é apreciado e em que se pode descansar pelo que
é.7 Ele definiu um cristão nominal como alguém que vê utilidade em Cristo (para
que, por meio dele, possa obter aquelas coisas que o coração achou “excelentes”
ou belas), ao passo que um cristão verdadeiro é alguém para quem Cristo é belo
pelo que é em si mesmo. Talvez em sua melhor discussão sobre essa dinâmica,
Edwards diz:

Deus capacitou a mente do homem para que ele tivesse um duplo conhecimento do bem. O primeiro,
de caráter meramente conceitual […] e o outro, que diz respeito à sensibilidade do coração quando, por
exemplo, ele se deixa tocar pelo prazer e pelo deleite na presença do conceito. No primeiro, dá-se
apenas […] a compreensão, em contraste com a […] disposição da alma. Portanto, há uma diferença
entre ter uma opinião de que Deus é santo e gracioso, e ter uma percepção do amor e da beleza dessa
santidade e graça. Há uma diferença entre ter uma opinião racional de que o mel é doce e ter a
percepção da sua doçura. Um homem pode ter a primeira, e portanto não sabe que gosto tem o mel; no
entanto, um homem não pode ter a segunda a menos que tenha uma ideia do gosto do mel na mente.8

Há muitos anos, quando comecei a pastorear, conheci uma adolescente de
nossa igreja. Ela tinha cerca de dezesseis anos na época; estava desanimada e à
beira da depressão. Tentei animá-la, mas houve um momento em que as coisas
ficaram claras quando ela disse: “Sim, sei que Jesus me ama, ele me salvou e
voltará para me levar ao céu, mas de que me serve saber disso se nenhum garoto
da escola nem sequer olha para mim?”.
Ela disse que “sabia” de todas essas verdades da vida do cristão, mas elas
não lhe serviam de conforto. A atenção (ou a falta de atenção) de um jovem
bonito na escola era muito mais consoladora, vivificante e fundamental para sua
alegria e autoestima do que o amor de Cristo. É claro que se tratava de uma
reação perfeitamente normal para uma adolescente. Contudo, mostra bem como
funciona nosso coração. Edwards diria que a jovem tinha uma opinião de que
Jesus a amava, mas ela não sabia verdadeiramente disso. O amor de Cristo era
um conceito abstrato, enquanto o amor àquelas coisas era real para seu coração.
Essa foi a realidade que se apoderou de sua imaginação.
Em Efésios 3, Paulo ora por seus leitores e pede “que Cristo habite pela fé
em vosso coração […] e […] vos seja possível compreender […] esse amor de
Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais preenchidos até a
plenitude de Deus” (Ef 3.17-19). Ele está se dirigindo a cristãos. Em outra parte,
ele diz que, se você é cristão, Cristo já habita em seu coração, você já conhece o
amor de Deus e atingiu a plenitude da vida. Por que isso não é uma contradição?
Porque aquilo que é objetivamente verdadeiro no cristão não é verdadeiro de
maneira automática e subjetiva. É por isso que ele ora para que eles sejam
fortalecidos pelo Espírito “interiormente” (v. 16) — em seu coração — para que
compreendam o amor de Deus (v. 18). Paulo ora exatamente pelo que você
deveria estar buscando todas as vezes que prega. Há muitas coisas que o cristão
sabe, mas não sabe de verdade. O cristão sabe em parte, mas não compreendeu
com o coração. Ainda assim, sua imaginação ficou cativa de maneira tal que foi
transformado completamente de dentro para fora.
Esse entendimento das afeições influenciou profundamente a pregação de
Edwards. Em um de seus sermões (sobre Gênesis 19.14), ele diz: “A razão pela
qual o homem não dá mais importância às advertências do castigo futuro se deve
ao fato de que este não lhe parece real”.9 É esse, basicamente, o principal
problema espiritual e o principal propósito da pregação. Embora as pessoas
possam ter um entendimento superficial de certa verdade, a verdade de Deus não
é espiritualmente real para elas. Se fosse, essa verdade mobilizaria suas afeições
e, de acordo com isso, suas ações mudariam. No caso do materialismo, a
segurança do dinheiro é mais real espiritualmente para as pessoas do que a
segurança da providência amorosa e sábia de Deus. Não vivemos como
deveríamos — não só porque sabemos o que fazer, e não fazemos, mas também
porque aquilo que pensamos saber não é verdadeiramente real em nosso coração.
TRANSFORMANDO PESSOAS NO LUGAR EM QUE ESTÃO
De que maneira podemos tornar real a verdade aos corações quando pregamos?
De acordo com Edwards, há duas maneiras pelas quais se podem vencer “os
preconceitos da natureza [humana]” a fim de que a verdade divina se torne real.
“São necessárias duas coisas para tornar algo real ou para que pareça real para
nós: (1) crer em sua verdade e, (2) ter uma ideia sensível ou percepção a seu
respeito.”10 O primeiro aspecto requer que sejamos convincentes e persuasivos.
O conceito bíblico de coração inclui a mente e o pensamento. A pregação não
deve simplesmente se limitar a contar histórias ou a tentar trabalhar com as
emoções. Deve ser aquilo que D. M. Lloyd-Jones costumava chamar de “lógica
inflamada”. Temos de raciocinar e argumentar incansavelmente, mas esse seria
apenas o primeiro passo. Depois, em segundo lugar, temos de ajudar os ouvintes
a formar “ideias sensíveis” à medida que pregamos, algo com que Edwards se
preocupava intensamente. Como veremos mais adiante, para isso é necessário
que conceitos abstratos se conectem à experiência sensível concreta do ouvinte
para que sua imaginação seja mobilizada, e não apenas seu intelecto.
As implicações desse recurso para a pregação são imensas. Se é verdade
que somos produto dos nossos amores, de tal forma que aquilo que mais amamos
é o que nos molda, segue-se que pregar ao coração pode mudar as pessoas ali
mesmo no banco em que estão sentadas. Um sermão que apenas informe a mente
talvez dê ao ouvinte algo para fazer quando chegar em casa, mas um sermão que
lhe toque o coração, fazendo com que ele desista de amar a carreira, o aplauso
ou a independência pessoal para amar a Deus e a seu Filho, muda esse ouvinte
bem ali onde está.
Diz-se que D. M. Lloyd-Jones nem sempre ficava empolgado quando via as
pessoas tomando notas de seus sermões. Ele achava que isso ficava melhor em
uma aula. O trabalho do pregador, para ele, consistia em tornar vivo o
conhecimento. Lloyd-Jones e Edwards acreditavam que a pregação deveria ter o
objetivo de imprimir algo que marcasse a vida do ouvinte, e essa marca era mais
importante do que “as informações anotadas”. Eu diria que é bom que os
ouvintes tomem notas na primeira parte do sermão; contudo, se ainda estiverem
ocupados com elas no final, você provavelmente não está mexendo com suas
afeições.
COMO PREGAR AO CORAÇÃO
Pregar ao coração significa, em parte, conectar-se às pessoas em seu ambiente
cultural real. Isto é o que chamamos de “contextualização” da pregação. Já
tratamos desse assunto com certa profundidade. Em nossa cultura ocidental
individualista, as pessoas vivem na ilusão de que seu coração é produto de suas
decisões conscientes. Na verdade, porém, seus desejos e dúvidas interiores
foram modelados profundamente pelo tempo e espaço em que vivem. Elas são
muito mais o que a cultura lhes disse que são do que aquilo que decidiram ser. A
boa pregação contextual aprecia as narrativas e as normas culturais sem deixar
de desafiá-las; desse modo, ajuda as pessoas a ver coisas que são invisíveis para
elas, mas que as controlam. Portanto, a contextualização pode ser muito
libertadora.
Contudo, pregar ao coração requer mais do que lidar com essas narrativas
culturais. Há também outros aspectos mais pessoais e pastorais, como, por
exemplo, pregar com afeições verdadeiras, de forma imaginativa, maravilhada,
memorável, cristocêntrica e prática.
Pregue com afeições verdadeiras
Se você quiser pregar ao coração terá de pregar de coração. É preciso que fique
claro que o seu próprio coração foi alcançado pela verdade do texto. Para tanto,
requer-se uma transparência genuína. Os pregadores que tocam corações (ao
contrário dos que os manipulam) revelam suas afeições pessoais sem a intenção
deliberada de fazê-lo. É necessário que, quando você fala, fique evidente de
todas as formas que você foi humilhado, ferido, curado, consolado e exaltado
pelas verdades que está apresentando, e que elas têm poder genuíno em sua vida.
As alternativas à pregação afetuosa são três: você pode pregar com um
afeto apático. É óbvio que seu coração não se envolveu. Você está simplesmente
percorrendo seu material — quem sabe nervosamente, talvez de forma
superficial, mas, seja como for, não há nenhuma nota de alegria, de admiração
ou de amor. Uma segunda possibilidade refere-se a mera empolgação. Você se
prepara psicologicamente, “veste seu semblante de jogador” como um atleta
antes de um jogo importante. Poderíamos dizer a essa altura que suas emoções
estão mais engajadas, porém sua motivação é a empolgação de subir “ao palco”
e o desejo de ter uma boa performance, de ser dinâmico, concentrado e seguro de
si, para que as pessoas pensem bem de você. A terceira alternativa, e a pior
delas, consiste em fingir conscientemente, adotar um tom e um estilo eloquentes
que pareçam espirituais. Qualquer esforço intencional de parecer alegre, humilde
ou cheio de amor ficará óbvio para todos e terá o efeito oposto do que você
deseja sobre seus ouvintes.
As pessoas sabem a diferença. Professores e pregadores da Bíblia ficam
tantas vezes tão concentrados na preparação e apresentação de seu conteúdo que
não se dão conta de que as pessoas não estão apenas ouvindo o que está sendo
dito, mas também estão analisando quem está pregando. Elas examinam as
intenções do pregador mesmo que não percebam que estão fazendo isso. São
capazes de “farejar” se o indivíduo está mais preocupado em passar uma boa
imagem, ou em parecer alguém que tem autoridade, do que em honrar a Deus e
amar o público a que se dirige.11 Até mesmo as pessoas que se sentirem tocadas
em certo nível pelo seu desempenho resistirão no seu subconsciente em outro
nível, da mesma forma que muitos veem com cinismo uma peça publicitária
sentimental mesmo que estejam tentando controlar as lágrimas.
Portanto, se você tentar demonstrar afeições quando prega, estará apenas
atuando. É preciso que você simplesmente seja uma pessoa com afeições quando
prega. Seu coração precisa estar enternecido diante de Deus e diante das pessoas.
Como é que se prega naturalmente com afeição? Creio que para isso são
necessárias duas coisas.
Em primeiro lugar, é necessário conhecer muito bem seu material, a tal
ponto que você não fique preocupado demais tentando se lembrar do ponto
seguinte. Se você não tiver esse material na ponta da língua, vai se desgastar
tentando apenas se lembrar dele, ou então terá simplesmente de ler suas
anotações. Dessa forma você não estará provando e desfrutando pessoalmente do
alimento espiritual que está apresentando às pessoas — estará distraído demais
pela mecânica do ato. É preciso que você tenha confiança em seu material e o
conheça de verdade, ou então não conseguirá pregar com o coração. Para mim,
esse tipo de confiança e de domínio não decorre apenas de tempo suficiente de
preparação, mas também das vezes em que repasso a mensagem toda em minha
mente três ou quatro vezes, ou mais, antes de me levantar para pregar. Seja qual
for a estratégia de preparação que você usa, as pessoas saberão muito bem se
você está tentando se lembrar do que deveria dizer ou se está simplesmente
dizendo o que queria dizer.
O segundo elemento necessário para que sua pregação tenha afeições
verdadeiras consiste em uma vida de oração profunda, rica e particular. Se seu
coração não estiver regularmente engajado no louvor e no arrependimento, se
você não se sentir constantemente maravilhado diante da graça divina quando
está só, não há como fazê-lo em público. Você não tocará os corações porque seu
coração não foi tocado.12 O que acontece quando você prega deve ser algo
semelhante ao que se passa quando você ora. Ao orar, você não diz
simplesmente “Confesso meus pecados”, mas você sente tristeza. Você não diz
simplesmente “Tu és grandioso, Senhor”, mas você sente alegria e reverência.
Você não diz simplesmente “Obrigado”, mas você sente amor e gratidão. Você
consegue sentir um pouco do âmago da santidade, da glória e do amor de Deus.
Se você tiver essa experiência na oração, o mesmo poderá acontecer na
pregação. É claro que, se nada disso lhe ocorrer na oração, não ocorrerá também
em sua pregação.
Pregue de forma imaginativa
Engajar o coração é também engajar a imaginação, e a imaginação é mais
afetada por imagens do que por proposições. Estamos falando aqui do que se
costuma chamar de “ilustrações do sermão”. No decorrer das gerações passadas,
os pregadores resgataram a importância das histórias. O senso comum nos diz
que as histórias captam o interesse das pessoas e ficam impressas na mente. Por
isso sempre se aconselha aos pregadores a entremear seus sermões com fartas
ilustrações. Contudo, vale a pensa pensar um pouco mais profundamente na
razão pela qual as ilustrações são tão eficazes. Uma ilustração é qualquer coisa
que estabeleça contato entre uma proposição abstrata e a memória de uma
experiência do mundo sensorial. Aqui também podemos aprender muito com
Jonathan Edwards. Ele compreendia bem qual era o grande desafio do pregador:
as pessoas podiam concordar intelectualmente com várias proposições da
doutrina cristã que não influenciavam de modo algum a forma como viviam. Por
quê?
Edwards disse que o ser humano é uma criatura limitada pelo seu corpo, e,
por causa da Queda, as realidades espirituais simplesmente não são tão reais para
nós quanto as experiências sensoriais — coisas que de fato vemos, ouvimos,
cheiramos, saboreamos e nas quais tocamos. Os objetos que podemos
experimentar por meio dos sentidos são reais para nós. Eles ficam na memória e
causam impressões que perduram. Embora as pessoas estejam de acordo e digam
que “as abstrações são verdadeiras […] Somente imagens [coisas que elas
experimentaram por meio dos sentidos] parecem reais”.13
A maior parte das pessoas sabe que vai morrer, mas apenas quando têm
algum contato físico com a morte é que sua mortalidade se torna real para elas e
influencia a forma como vivem sua vida cotidiana. Para Edwards, pregar é a
“tentativa de estabelecer um correlativo verbal com tal contato”.14 O sermão é o
lugar para despertar as pessoas para as realidades às quais elas assentiram
intelectualmente, mas não compreenderam com o coração. Para isso, deve-se
conectar uma verdade espiritual à lembrança de uma vívida experiência sensorial
do ouvinte, “representando o espiritual em linguagem concreta numa quase
tangibilidade física”.15
Quando Edwards diz em Sinners in the hands of an angry God16 que “toda
a nossa justiça não teria […] influência alguma para nos sustentar e nos manter
fora do inferno”, ele faz uma proposição abstrata. Uma das doutrinas
fundamentais do cristianismo protestante é a de que ninguém será salvo pelas
boas obras. No entanto, ele não para por aí. Depois de feita a proposição, ele
acrescenta: “[assim] como a teia da aranha não pode deter uma pedra que cai”.17
O que Edwards acabou de fazer? Todos já vimos e sentimos nas mãos como é
frágil a teia da aranha. Sabemos que, se uma pedra cair sobre ela, não será
rebatida pela teia; pelo contrário, vai perfurá-la praticamente como se a teia nem
sequer existisse. Essa é uma experiência que passou pelos nossos sentidos ou
que podemos facilmente imaginar.
Ao juntar a proposição à experiência, Edwards dá a seus ouvintes a
lembrança de uma impressão sensorial, e não meramente um pensamento
racional. Diante da declaração da proposição feita, talvez concordemos com um
movimento afirmativo, porém a imagem da pedra e da teia de aranha é mais
impactante. Edwards une dois campos do discurso: o campo lógico e o da
experiência. Nossas boas obras são como a teia de aranha, e nossos pecados,
como a pedra. A imagem prende a imaginação e ilumina a mente ao mesmo
tempo. Ela nos ajuda a compreender a doutrina de uma nova maneira. Mostra
como é impossível conquistarmos por conta própria o caminho para o céu. A
futilidade desse empenho toma conta de nós e imprime mais profundamente a
verdade em nosso coração.
Uma ilustração também pode criar uma experiência sensorial que não
tivemos em nossas experiências anteriores. Em 2Samuel 11, Davi tem um caso
com Bate-Seba e planeja em seguida uma maneira para que Urias, marido dela,
seja morto em uma batalha. Depois, casa-se com ela. Embora, sem dúvida
alguma, ele tenha sofrido algum peso na consciência, de algum modo justifica
seu comportamento para si mesmo. É provável que ele o tenha feito movido por
autocomiseração, dizendo a si mesmo que o fardo de seu ofício e os sacrifícios
requeridos o tornavam merecedor dessa indulgência. No capítulo seguinte, Natã,
o profeta, desafia o rei por causa do pecado por ele cometido. Contudo, ele não o
faz imediatamente. O profeta começa com uma ilustração e acrescenta a ela uma
proposição ética apenas no final.
Natã conta ao rei a história de um homem rico que tinha muitas posses e de
um homem pobre que tinha apenas uma pequena ovelha, a qual “… crescera
com ele e com seus filhos; comia da sua porção, bebia do seu copo e dormia em
seus braços; e ele a considerava como filha” (2Sm 12.3). Natã explicou a seguir
que o homem rico deu uma festa, mas se recusou a oferecer a seus convidados o
alimento que poderia ser proporcionado por seus rebanhos numerosos. Em vez
disso, ele roubou a ovelha do homem pobre e a preparou para que fosse servida
como prato principal da ceia. Natã então indagou ao rei o que deveria ser feito
do homem rico. Davi “se enfureceu” com a história e disse que o homem que fez
tal coisa deveria morrer, “porque agiu sem compaixão”. Natã imediatamente diz
ao rei: “Esse homem és tu!” (2Sm 12.5-7).
Davi estava tomado de racionalizações que o haviam cegado para a
injustiça da história de sua própria vida. Natã, então, o conduz (por meio da
imaginação) para a experiência de vida de outra pessoa, em que ele consegue ver
a injustiça em todas as suas cores e se enfurecer diante do ocorrido. Por fim,
Natã associa a proposição acerca da injustiça com a experiência sensorial que
Davi acabara de ter. Ele diz basicamente o seguinte: “Compreende a terrível
injustiça dessa história? Bem, o que você fez foi exatamente isso”. O sentimento
de horror que Davi teve na experiência sensorial da imaginação agora é
vinculado a seu comportamento. Ele é golpeado em seu coração e se arrepende.
Vou dar outro exemplo da Bíblia de como funciona a ilustração: Deus diz a
Caim: “… o pecado está agachado à sua porta, ele deseja conquistá-lo, mas tu
deves dominá-lo” (Gn 4.7, TA). O termo hebraico usado aqui aponta para um
animal que se encolhe, talvez nas sombras, pronto para o bote, para dilacerar e
matar. Deus não diz simplesmente: “O pecado vai te causar problemas, Caim”.
Isso teria sido uma abstração. Ao comparar o pecado a um predador perigoso,
Deus não está apenas atraindo a atenção do coração, mas também transmitindo
uma grande quantidade de informação sobre o pecado — muito mais do que a
mera proposição seria capaz de fazer. Deus está dizendo, por exemplo, que se
Caim pecar seu pecado acabará por consumi-lo. O pecado é a ação suicida da
alma humana contra si mesma. A imagem indica também que o pecado não é
simplesmente uma ação passageira. As ações pecaminosas criam uma realidade
sombria em sua vida que permanece com você. O pecado cria maus hábitos; ele
cria afeições distorcidas. Essas coisas exercem controle sobre você, que começa
a perder controle de si mesmo. Você está se rendendo a uma coisa que deseja
matá-lo.
Aqui, portanto, Deus usa uma ilustração unindo dois campos do discurso,
conectando uma proposição abstrata a uma experiência sensorial a fim de tornar
a verdade uma realidade para o coração e uma influência para a vida toda. Deus
diz que o pecado é como uma pantera ou leopardo pronto para saltar sobre você.
E então você pensa “Incrível!”, pois a ilustração ilumina sua mente ao mesmo
tempo que envolve suas emoções.
A essência da boa ilustração, portanto, consiste em evocar a lembrança de
uma experiência sensorial e fazê-la conectar-se a um princípio. Assim a verdade
será real porque ajudará o ouvinte a compreendê-la melhor e inclinará seu
coração cada vez mais no sentido de amá-la.
É fundamental ter em mente que esse é o objetivo e o propósito de uma
ilustração. Muitas vezes os pregadores contam histórias que não atendem a esse
objetivo. Às vezes, as histórias mexem com as emoções, mas não iluminam a
mente. Certifique-se de que suas histórias sejam ilustrações de fato, no sentido
de que realizem as duas coisas.
A analogia é um tipo de ilustração. Ela se preocupa sobretudo com a
elucidação da verdade à mente, mas também causa um impacto sensorial.18
Talvez você diga: “A justificação operada por Cristo é como alguém presente a
um tribunal onde deverá ser sentenciado a pagar uma multa que não tem como
pagar. Mas então o juiz diz que ele se encarregará pessoalmente de pagar o total
devido”. Isso ajuda na compreensão do conceito de justiça que é satisfeita por
outra pessoa que toma sobre si o fardo da dívida. Desse modo, mostra-se
também que aquele que o condena é o mesmo que o salva. Tudo isso ilumina a
mente, mas envolve o coração, porque é fácil imaginar como você se sentiria
nessa situação tomando por base a lembrança de experiências parecidas. O
ouvinte não apenas recebe informações sobre a doutrina da justificação, mas
também sente o alívio e a alegria de um réu que está sendo inocentado de todas
as acusações. As analogias também podem ser usadas para convencer. Você pode
dizer algo como: “Se alguém roubasse seu carro e o destruísse completamente,
você não gostaria que o juiz dissesse: ‘Vamos perdoar e esquecer’. Você quer
justiça. Portanto, por que Deus deveria ignorar tudo o que fizemos de errado?”.
Em outras palavras, você está dizendo: “Se você concorda com A, por que não
concorda com B, uma vez que B procede de A?”.
Já o exemplo é um tipo diferente de história. Ao contrário da analogia, que
liga duas coisas entre si, o exemplo dá ao ouvinte uma “fatia” mais digerível
daquilo sobre o que você está falando. Os exemplos podem ser usados para
esclarecer as implicações práticas daquilo que você está dizendo. Se você estiver
incentivando a honestidade, poderia listar exemplos comuns de situações em que
não se diz a verdade. Se estiver incentivando a generosidade, os exemplos
poderiam ser de atos e ações generosos específicos.
O perigo das histórias com grandes exemplos é que elas podem ser formas
de trabalhar apenas as emoções deixando de iluminar o entendimento. Você
poderia, por exemplo, contar a história tocante de uma “família pobre, encolhida
em torno do fogo e cuja última porção de comida acaba de ser consumida; mas
então surge…”. As histórias podem agir diretamente sobre nossos medos,
sentimentos de culpa ou sobre nossos preconceitos.
A forma mais simples e negligenciada de ilustração é a de uma imagem
verbal breve — uma expressão simples ou até mesmo uma palavra que ligue
uma abstração à experiência sensorial concreta. Em vez de dizer simplesmente:
“Isso significa liberdade”, você pode dizer: “Esta é a trombeta divina que
proclama a liberdade”. Em vez de dizer simplesmente: “A ressurreição prova que
seus pecados estão perdoados”, diga: “A ressurreição estampou na história o
carimbo de ‘dívida liquidada’”. Isso dá à sua fala um apelo sensorial, evocando
imagens, sons e até cheiros e sabores para seus ouvintes. O próprio Edwards não
contou muitas histórias. Ele trabalhou muito mais com imagens verbais e
metáforas extendidas, nas quais Deus era comparado ao sol, ou, seu amor, a uma
fonte ou ao fogo.
Pregue de forma maravilhada
Se quisermos falar ao coração das pessoas na pregação, temos também de evocar
o maravilhamento. O célebre ensaio de Tolkien “On fairy stories”[Sobre os
contos de fadas] diz que há aspirações indeléveis e profundas no coração
humano que a ficção realista não pode satisfazer. A ficção de fantasia — contos
de fadas, a ficção científica e literaturas similares — retratam personagens que:

• saem do tempo totalmente;
• escapam da morte;
• têm comunhão com seres não humanos;
• encontram um amor perfeito do qual jamais se separam;
• triunfam finalmente sobre o mal.

É claro que leitores e espectadores sabem que as histórias de fadas são
ficção, mas quando a história é bem contada e essas coisas são descritas de
maneira vívida há um tipo específico de consolo e de satisfação. O que
chamamos de “ficção de fantasia” é algo muito popular e continua a ser
consumido por um público de bilhões de pessoas. O apelo duradouro das
histórias que representam essas situações é inquestionável. Mas por quê? Como
cristão, Tolkien acreditava que essas histórias calavam tão fundo porque davam
testemunho de uma realidade subjacente. Mesmo que não creiamos
intelectualmente que há um Deus ou que há vida após a morte, nossos corações
(na perspectiva cristã) percebem de algum modo que essas coisas caracterizam a
vida como ela era, como deveria ser e como será novamente no final. Essas
histórias nos interessam tanto porque temos intuições do enredo bíblico da
Criação/Queda/Redenção/Restauração. Ainda que possamos reprimir o
conhecimento desse enredo intelectualmente, não podemos deixar de
compreendê-lo pela via da imaginação. Nosso coração é tocado por qualquer
história que evoque essa realidade.
A palavra em inglês para evangelho, gospel, vem de Godspell, termo
empregado na Idade Média que deriva de duas palavras também do inglês: good
(bom) e spell (história). Em inglês antigo, “contar uma história” era “lançar um
encantamento”. As histórias se apropriam do coração e da imaginação e nos dão
uma alegria profunda. O evangelho de Jesus Cristo é o GoodSpell, a boa história.
É a história por excelência para a qual apenas apontam todas as demais histórias
que suscitam alegria, encantamento e mudança de coração. O que há de especial
nessa história? Só ela satisfaz a todas essas aspirações — contudo, é uma história
verdadeira.
Se Jesus Cristo foi realmente ressuscitado dos mortos — se ele for de fato o
Filho de Deus e se você crer nele —, todas aquelas coisas que você deseja tão
desesperadamente são reais e se realizarão. Escaparemos do tempo e da morte.
Conheceremos o amor e jamais nos separaremos dele; teremos contato inclusive
com seres não humanos e veremos o mal ser derrotado para sempre. Nos contos
de fadas, principalmente nos melhores e mais bem narrados, experimentamos a
suspensão temporária de uma vida em que nossos desejos mais profundos são
todos violentamente recusados. Contudo, se o evangelho for verdade — e é —
todas essas aspirações serão satisfeitas completamente.
Pregadores e mestres cristãos devem pregar de modo que mostrem às
pessoas a profundidade das boas-novas dessa verdade. Eles devem realçar essas
coisas a todo momento, bem como ter a percepção de maravilhamento adequada
a declarações assim tão fantásticas. Até mesmo aqueles de nós que cremos no
evangelho não podemos assimilá-lo por completo. Não pregamos com as
lágrimas de alegria que tantas vezes deveríamos apresentar. Quando pregamos,
devemos sempre nos abrir para que o maravilhamento nos invada. Desse modo,
como Moisés, pregaremos com o semblante radiante (Êx 34.29-35; 2Co 3.13).
Pregue de forma memorável
Alguns pregadores expositivos modernos passam tanto tempo entendendo e
explicando o texto que lhes resta pouco tempo para pensar sobre duas outras
coisas: a aplicação prática e o uso impactante, memorável e fluente da
linguagem. Se há algo que torna um sermão memorável é sua perspicácia. Em
vez de dizer aos ouvintes coisas que eles já sabem usando termos conhecidos,
um discurso memorável é cheio de formas novas e perspicazes de transmissão de
conceitos — conceitos que os ouvintes talvez já saibam em determinado plano,
mas que agora são percebidos como novos e interessantes. “Nunca ninguém
explicou assim” é o que dizem ou pensam depois. Como você fará isso? Receio
que a resposta seja repertório. Se você ler poucos livros sobre um assunto ou
texto, terá apenas uma ou duas perspectivas notáveis e surpreendentes. Se você
ler uma dúzia de livros, verá que há muito mais. Não vejo nenhum atalho aqui. A
pregação penetrante vem das profundezas da pesquisa, da leitura e da
experiência.
Uma segunda coisa que torna a pregação memorável é a oralidade. Muitos
pregadores tendem a falar (pelo menos durante os sermões e palestras) conforme
escrevem. Contudo, a comunicação oral é diferente da escrita. As apresentações
orais não comportam muitas ideias — e devem ser mais repetitivas porque os
ouvintes não podem parar para refletir sobre as palavras como faz quem lê.
Geralmente, eles não precisam de muitos passos em um argumento para que o
considerem convincente. A comunicação oral requer um vocabulário mais
simples. Pode-se começar muito bem uma frase com “mas” ou “e”. As
contrações das palavras podem ser usadas sem que a linguagem soe muito
coloquial.
A retórica culturalmente apropriada também torna o sermão memorável. É
fácil o pregador cair num estilo de falar tenso, como na escrita, ou num estilo
coloquial dispersivo. Nenhum dos dois será tão memorável quanto uma
comunicação marcada por recursos retóricos adequados à sua cultura. Há muitos
recursos, e é melhor captá-los ou “pegá-los” (de outros oradores) do que
“aprendê-los” teoricamente e tentar usá-los.19 São eles, entre outros, a
assonância, aliteração e outros tipos de paralelismos. Há, porém, várias outras
maneiras menos óbvias mas impactantes de usar a linguagem de forma tocante e
memorável. Contudo, diferentes culturas e diferentes gerações reagirão a
recursos variados de maneiras distintas. Alguns parecerão floridos demais ou
muito intelectuais, ou muito enfadonhos, ou muito manipuladores.
Pregue de forma cristocêntrica
Não detalharei demais esse ponto, uma vez que nos capítulos anteriores tratei
exaustivamente da importância de ir além da exortação moralista para ocorrer a
mudança motivada pelo evangelho, de não pregar somente princípios bíblicos,
mas Cristo, aquele para quem todos os princípios e narrativas apontam. Aqui
devo dizer que pregar Cristo não é apenas a maneira mais excelente de
compreender o texto em sua totalidade, não é apenas a melhor maneira de
alcançar simultaneamente aqueles que não creem e os que creem, mas também a
maneira de garantir que seu discurso vá além da preleção árida e se torne a
proclamação genuína da verdade que alcança o coração.
Dissemos anteriormente que os sermões talvez não passem de boas
preleções até que “cheguemos a Jesus”. Nesse ponto, eles com frequência
deixam de ser lição de escola dominical e passam a ser sermão. Isso acontece
porque, muitas vezes, um tema bíblico como reino, aliança ou expiação pelo
pecado é essencialmente uma proposição abstrata até a hora em que mostramos
de que modo o tema tem seu clímax em Cristo. Quando exaltamos Jesus e
mostramos que ele é Rei, Senhor, servo da aliança e nosso sacrifício expiatório,
de repente, as abstrações se tornam realidades que tocam o coração. Jesus,
portanto, é o caminho por excelência para que passemos de informar à mente
para alcançar o coração, de meramente informar para mostrar a todos a Beleza.
Ao terminar seu sermão evite dizer coisas do tipo “é assim que você deve
viver”. Em vez disso, diga: “Não há como viver desse modo. Ah, mas alguém
que foi capaz de fazê-lo! Pela fé nele você pode começar a viver da mesma
maneira também”. A mudança no ambiente será palpável conforme o sermão
deixar de concentrar-se primordialmente nas pessoas para concentrar-se em
Jesus. De aprendizes, as pessoas passarão a adoradoras.
Pregue de forma prática
Por fim, pregar ao coração é pregar de modo prático. No prólogo deste livro,
dissemos que o pregador tem duas grandes responsabilidades: com a verdade do
texto e com a vida do ouvinte. A primeira exige exposição num sentido amplo
(tratamos disso na primeira parte); a segunda exige aplicação num sentido
amplo (tratamos disso no início da segunda parte). Gostaria de concluir esta
segunda parte do livro propondo sugestões de aplicação em sentido estrito. Esse
é o momento em que você procura ajudar seus ouvintes a aplicar a dinâmica do
evangelho alinhada ao texto do sermão, para produzir mudanças práticas na vida.

1. Converse com pessoas diferentes
Quando estudamos a Bíblia, tendemos a respostas que implícita ou
explicitamente temos no coração durante a leitura. Isto se dá porque somos seres
humanos limitados a um tempo e a um espaço específicos. Não existe para nós
uma “perspectiva de lugar nenhum”. Temos dúvidas, problemas e dificuldades
na mente, e quando lemos a Bíblia basicamente “ouvimos” o que ela nos ensina
sobre essas dúvidas, problemas e dificuldades.
Portanto, uma das dinâmicas naturais da pregação é a tendência de
pregarmos a pessoas às quais ouvimos a maior parte do tempo durante a semana.
Por quê? As pessoas com as quais você mais interage enchem sua mente com
questões que vão se unindo à sua matriz de referência conforme você lê a Bíblia.
Com isso, você aprende a identificar as verdades bíblicas que são caras a elas.
Seus sermões tenderão a privilegiar aqueles que ocupam um lugar especial em
seu coração. Com o tempo, essas pessoas se tornarão as mais interessadas em
sua pregação e as mais satisfeitas com ela; irão à igreja e levarão junto pessoas
parecidas com elas mesmas. Por elas estarem vindo, você vai conhecer mais
pessoas assim, vai falar mais com elas e, então (quase inconscientemente) vai
moldar suas mensagens em função de suas necessidades. Quanto mais você as
ouvir, tanto mais elas vão direcionar o sermão para si; quanto mais você lhes
endereçar o sermão, tanto mais irão à igreja, e assim por diante.
Esse padrão pode se transformar num ciclo vicioso ou virtuoso. Na pior das
hipóteses, o pregador evangélico lê e interage somente com outros pregadores e
escritores evangélicos. Eles leem, falam e se comunicam quase que
exclusivamente com aqueles pensadores que apoiam seu ponto de vista.
Portanto, os sermões que pregam são úteis apenas para aqueles outros
estudantes, praticantes e os que compartilham de suas preferências teológicas ou
políticas específicas. Não é, como se imagina com frequência, que alguns
sermões oriundos desse padrão sejam acadêmicos demais, e por isso falta a eles
aplicação. Pelo contrário, o pregador está aplicando o texto às dificuldades das
pessoas a quem ele mais compreende: outros acadêmicos.
A maior parte dos pregadores, porém, lê outros cristãos e interage com eles.
É uma postura melhor, mas, ainda assim, seus sermões só ajudam realmente
outros cristãos, que provavelmente apreciam as mensagens e se sentem
“alimentados”. Contudo, sabem instintivamente que não podem levar os amigos
não cristãos à igreja. Eles jamais raciocinam assim: “Queria que meu vizinho
não cristão estivesse aqui para ouvir isso”.
Não há um modo abstrato e acadêmico de pregar sermões que os torne
relevantes e aplicáveis. A aplicação surgirá naturalmente dos seus parceiros de
diálogo. Se você passar a maior parte do tempo lendo, em vez de conviver com
as pessoas, aplicará o texto bíblico aos autores dos livros que lê (o que,
convenhamos, ajuda muito pouco). Se você passar boa parte do seu tempo em
reuniões cristãs ou na subcultura evangélica, seus sermões aplicarão o texto
bíblico às necessidades dos evangélicos (o que será muito mais proveitoso,
porém a aplicação continuará incompleta). A única maneira de ir além dessas
limitações consiste em diversificar deliberadamente o tipo de pessoa com quem
você convive.
Como? Em primeiro lugar, quando ler sobre política, não se restrinja a um
espectro apenas do segmento. Leia liberais, conservadores e progressistas. Leia
as análises de conjutura política dos principais colunistas e blogueiros.
Mantenha-se a par do noticiário diário, seja através da televisão, jornais
impressos ou dos portais de notícias da internet, e assim você tomará
conhecimento da reflexão política vinda dos mais variados espectros
ideológicos. A leitura de periódicos do universo acadêmico o deixará bem
informado a respeito das tendências do pensamento.
Procure também conversar com outras pessoas. Os pastores têm dificuldade
para fazê-lo porque são muito ocupados e também porque as pessoas em sua
maioria não se comportam como realmente são quando estão conosco. No
entanto, se você planejar com atenção seus compromissos, se for criativo com a
comunidade e souber se envolver com ela, terá tempo para gastar com pessoas
de condições e tradições espirituais as mais variadas.

2. Diversifique a imagem das pessoas que você tem em mente na hora de
preparar o sermão
Quando você lê o texto e escreve o sermão, pense especificamente nas pessoas
que conhece e em suas diversas condições espirituais (não cristãos, cristãos
fracos/novos, cristãos fortes), nos pecados que as afligem (orgulho, lascívia,
preocupação, ganância, preconceito, ressentimento, timidez, depressão, medo,
culpa) e em circunstâncias diversas (solidão, perseguição, cansaço, tristeza,
doença, fracasso, indecisão, confusão, deficiência física, velhice, desilusão,
tédio). Agora, lembrando-se de rostos específicos, examine a verdade bíblica que
você está aplicando e pergunte: “De que maneira esse texto se aplica a essa ou
àquela pessoa?”. Imagine-se aconselhando pessoalmente a pessoa com o texto.
Esse exercício parece uma coisa árida, mas pode se tornar um hábito comum.
Seu efeito consiste em garantir que a aplicação que você faz de um texto seja
específica, prática e pessoal. Além disso, ele fará de você um conselheiro
pastoral mais bem preparado.
Uma versão mais simples desse exercício é se perguntar: “O que esse texto
diz aos grupos representados pelos “quatro solos” da parábola de Marcos 4?”. Os
quatro grupos são constituídos por pessoas céticas e as que rejeitam a fé; por
cristãos nominais cujo comprometimento é raso; por cristãos divididos em suas
lealdades e cujas prioridades estão invertidas; e por cristãos maduros e
comprometidos.20 Você pode ainda fazer listas mais extensas que o motivem a
pensar.21
3. Entremeie a aplicação ao longo do sermão
O sermão puritano tradicional consistia em “doutrina”. O texto era estudado e se
expunham as proposições doutrinárias; em seguida vinha a “aplicação”, da qual
se extraíam as implicações doutrinárias para a vida prática. De modo geral, essa
continua sendo a melhor ordem. Você expõe o que texto quer dizer e depois o
explicita ao coração conclamando a uma mudança de vida.
Contudo, não é aconselhável que o pregador siga esse modelo de forma
muito rígida. Não é preciso esperar até o final do sermão para fazer a aplicação.
Você pode, e normalmente deve administrá-la ao longo da pregação, porque é
preciso afirmar todos os preceitos bíblicos em termos que sejam de algum modo
práticos. Além disso, você pode abordar rapidamente alguns assuntos aos quais
não retornará posteriormente na mensagem; portanto, cabe nesse momento uma
breve aplicação.
Ainda assim, à medida que o sermão avança, é preciso caminhar para uma
aplicação mais direta e específica. Com o sermão já próximo da conclusão, é
apropriado retomar e recapitular as aplicações e, em seguida, enfatizá-las
analisando mais profundamente pelo menos um passo de forma específica.
Esforce-se para ser tão vívido e específico quanto possível sem se referir às
pessoas individualmente. Aqui está um exemplo extraído de um sermão meu
sobre integridade e honestidade.

Há mentiras políticas. “Gostaria muito de ir, mas não estarei na cidade nessa data”, quando, na
verdade, você estará. “Acho que seu jeito de escrever é um pouco sofisticado demais para seus
leitores”, quando, na verdade, o estilo da pessoa é simplesmente terrível. Há também as mentiras do
tipo Watergate: “As pessoas simples não compreenderão”. Há mentiras empresariais. Não diga
publicamente: “Somos a favor da igualdade”, quando, em particular, você faz demandas irracionais a
seus empregados, de modo que todos sabem que você não se importa realmente com a igualdade. Não
leve os amigos para os lugares reservados no camarote da empresa, quando todos sabem que só os
clientes deveriam ser convidados a ocupá-los. Não diga publicamente que está tudo bem, quando seus
empregados sabem que não está. Não faça um pedido grande demais antes do final do bimestre, só
porque, embora você saiba que todos serão cancelados, eles ficam bem nos números naquele momento.

Lembre-se, porém, de uma coisa. Embora você possa e deva passar um
tempo razoável fazendo aplicações nos estágios finais do sermão, geralmente é
melhor, no fim, enfatizar não o “isso é o que você deve fazer”, e sim “aqui está
aquele que fez tudo por você, para que você pudesse conhecer a Deus”, isto é, o
próprio Jesus.22

4. Recorra à variedade
Faça perguntas objetivas. Os melhores pregadores falam a cada tipo de ouvinte
de maneira muito pessoal. Pode-se fazê-lo questionando diretamente a plateia
com perguntas que exigem uma resposta do coração. Pergunte: “Quantos de
vocês sabem que torceram a verdade ou omitiram parte dela na semana passada
para ficar bem?”. Em seguida, faça uma pausa. Essa é uma estratégia muito mais
pessoal e capaz de prender a atenção do que uma mera afirmação do tipo: “Muita
gente torce a verdade ou diz meias-verdades para alcançar seus objetivos”.
Converse com as pessoas; faça perguntas objetivas. Esteja pronto para aquela
pessoa aleatória que realmente vai responder à sua pergunta! O objetivo,
entretanto, é dar às pessoas espaço para que respondam em sua mente/coração
— estabelecendo, efetivamente, um diálogo com você.
Forneça testes para um autoexame. Não subestime a capacidade humana de
evitar a convicção do pecado. Todo coração tem inúmeros subterfúgios e
desculpas consagrados por meio dos quais pode, de algum modo, racionalizar a
confrontação direta com sua própria iniquidade. Se você estiver se preparando
bem, terá se convencido de muitos desses artifícios na semana anterior ao
sermão. Quando você pregar, serão estes os pensamentos que ocuparão a mente
dos seus ouvintes:

“Bom, isso é fácil dizer, você não vive com meu marido!”
“Isso deve ser verdade para outros, mas não para mim.”
“Queria que Fulana estivesse aqui hoje para ouvir isso. Serviu direitinho para ela.”

Portanto, é importante fornecer testes rápidos para seus ouvintes. Por
exemplo:

Talvez você concorde comigo que o orgulho é uma coisa ruim e a humildade uma coisa boa, mas aí
você pensa: “Mas eu não tenho grandes dificuldades com orgulho”. Bem, faça um exame pessoal. Você
é tímido demais para contar aos outros sobre sua fé? É introvertido demais para contar às pessoas a
verdade? O que é isso se não um tipo de orgulho, receio de dar má impressão?
Faça uma combinação das muitas formas de aplicação. Toda aplicação
compreende, no mínimo: (a) advertência e admoestação, (b) encorajamento e
renovação, (c) consolo e reconforto, e (d) encorajamento, apelo e “comoção”. A
maior parte dos pregadores tem uma tendência perigosa de se especializar em só
um desses aspectos como decorrência da manifestação de seu temperamento ou
personalidade. Alguns têm o temperamento gentil e reservado, outros são mais
alegres e otimistas, outros ainda são sérios e enérgicos. Esses temperamentos
podem distorcer a aplicação da verdade bíblica, de modo que estamos sempre
nos especializando em um tipo de aplicação e de exortação. Contudo, com o
passar do tempo, esse tipo de aplicação acaba tolhendo nossa capacidade de
persuasão. As pessoas se acostumam ao mesmo tom ou modulação da voz. É
muito mais eficaz quando o pregador passa da docilidade e do raio de sol para as
nuvens e o trovão! Deixe que o texto bíblico o controle, e não o seu
temperamento. Aprenda a comunicar a verdade “intensa” como intensa; a
verdade “dura” como dura; a verdade “doce” como doce.

5. Esteja emocionalmente ciente
Não ignore o momento de maior influência. De vez em quando, há um momento
durante o sermão em que fica evidente que a atenção do público está no nível
máximo. Ele está num momento elevado de experiência comunitária da verdade.
Com frequência você percebe nessa ocasião que as pessoas estão se deixando
convencer. Um sinal disso é que não há inquietação alguma no ambiente, não há
barulho de pés inquietos, de gente limpando a garganta. O silêncio na plateia é
mais evidente e tranquilo. Esse é o momento próprio para o ensino. Não o deixe
passar! Não fique tão preso a seu esboço ou às suas notas a ponto de não
aproveitar a oportunidade para enfatizar a verdade diretamente e de modo
específico. Talvez você devesse fazer uma pausa e olhar para as pessoas nos
olhos enquanto elas processam o que você acabou de lhes apresentar.
Seja afetuoso e firme ao mesmo tempo. Certifique-se, ao lidar de modo bem
específico com o comportamento e os pensamentos das pessoas, de combinar o
amor evidente por elas com a franqueza sobre o pecado. Seja, ao mesmo tempo,
afetuoso e firme ao lidar com questões pessoais — sem repreender nem se sentir
desapontado. Se menosprezar um ouvinte por alguma pergunta que ele talvez
tenha feito interiormente, você causará a impressão de ser arrogante e inacessível
(e talvez você seja!).
NOTAS
1Gordon Wenham, Genesis 1–15, Word Biblical Commentary (Waco: Word Books, 1987), v. 1, p. 144.
2Donald Hagner, Matthew 1–13, Word Biblical Commentary (Nashville: Thomas Nelson, 1993), vol.
33A, p. 158.
3D. A. Carson, The expositor’s Bible commentary: Matthew, chapters 1–12 (Grand Rapids: Zondervan,
1995), p. 177.
4Dois livros recentes que defendem essa ideia são James K. A. Smith, Desiring the kingdom: worship,
worldview, and cultural formation (Grand Rapids: Baker Academic, 2009) e Imagining the kingdom: how
worship works (Grand Rapids: Baker Academic, 2013). Smith parte da ideia de Agostinho segundo a qual o
que nos torna o que somos é a ordem dos nossos amores; portanto, o que nos transforma não é mudar
nossos pensamentos, mas o que amamos. Smith critica acertadamente uma abordagem ao ministério que é
muito racionalista e centrada na transferência de informações e na transmissão da doutrina e das crenças
corretas. Ele reafirma que mudamos não com a mudança do que pensamos, mas sobretudo com a mudança
do que adoramos — o que amamos e com o que enchemos nossa imaginação. Ele dá muito mais atenção,
porém, à liturgia e à forma dos cultos de adoração e pouca atenção à pregação. Creio que a pregação pode
carregar boa parte do peso da tarefa ministerial de mudar o coração. Contudo, Smith tem razão em sua
crítica de que há uma relativa escassez de livros evangélicos a respeito da pregação ao coração em
comparação com livros que tratam da exegese e da explicação do texto bíblico. Algumas exceções são
Sinclair Ferguson, “Preaching to the heart”, in: Feed my sheep: a passionate plea for preaching (Grand
Rapids: Soli Deo Gloria, 2002), p. 190-217 [edição em português: Apascenta o meu rebanho: um
apaixonado apelo em favor da pregação (São Paulo: Cultura Cristã, 2009)]; Samuel T. Logan, org., “The
phenomenology of preaching”, in: The preacher and preaching: reviving the art in the twentieth century
(Phillipsburg: Presbyterian and Reformed, 1986), p. 129-60; e Josh Moody; Robin Weekes, Burning hearts:
preaching to the affections (Ross-shire: Christian Focus, 2014). Eu acrescentaria que “pregar ao coração”
não é algo apenas bíblico, mas também é uma maneira importante de adaptação à nossa era secular, em que
a religião herdada está em declínio. As pessoas irão à igreja não porque devem fazê-lo, pelo fato de ser esta
uma das implicações de fazer parte de um corpo ou comunidade social; elas irão unicamente porque
decidiram fazê-lo de coração.
5Para uma explicação breve e compreensível do que Edwards escreveu sobre as afeições, duas fontes
excelentes podem ser consultadas: “Editor’s introduction”, in: John E. Smith; Harry S. Stout; Kenneth P.
Minkema, A Jonathan Edwards reader (New Haven: Yale, 1995); e o artigo de Sam Logan sobre pregação e
as afeições, “The phenomenology of preaching”, in: Samuel T. Logan, org., The preacher and preaching. O
resumo nesta seção segue de perto Edwards reader, p. xix-xx.
6Não é de admirar que Edwards, em uma de suas poucas reflexões teológicas sobre pregação, diga: “O
principal benefício que se obtém com a pregação se dá pela impressão suscitada na mente naquele
momento, e não por um efeito que surge posteriormente devido a uma lembrança do que foi transmitido.
Embora a recordação posterior do que foi ouvido em um sermão seja, não raro, muito útil, de modo geral,
essa lembrança decorre da impressão provocada pelas palavras naquele momento. Com isso, a memória se
beneficia conforme renova e aumenta aquela impressão”. (Jonathan Edwards, “Some thoughts concerning
the present revival of religion in New England”, in: C. C. Goen, org., The Great Awakening, Works of
Jonathan Edwards [New Haven: Yale, 1972], vol. 1, p. 397).
7Veja Jonathan Edwards, “A divine and supernatural light”, in: Jonathan Edwards reader, p. 111-14; e
Jonathan Edwards, “The Mind”, in: Jonathan Edwards reader, p. 22-8.
8Edwards, “Divine and supernatural light”, p. 112.
9Wilson H. Kimnach, “Jonathan Edwards’s pursuit of reality”, in: Nathan O. Hatch, Harry S. Stout,
orgs., Jonathan Edwards and the American experience (New York: Oxford University Press, 1988), p. 105.
10Ibidem.
11Para mais subtextos e outras questões referentes à “pregação com afeições verdadeiras”, veja o cap.
7.
12Veja Timothy Keller, Prayer: experiencing awe and intimacy with God (New York: Dutton, 2014)
[edição em português: Oração: experimentando intimidade com Deus (São Paulo: Vida Nova, 2016)].
13Wilson H. Kimnach; Kenneth P. Minkema; Douglas A. Sweeney, orgs., “Editors’ introduction”, in:
The sermons of Jonathan Edwards: a reader (New Haven, CT: Yale University Press, 1999), p. xxi.
14Ibidem, p. xviii.
15Ibidem, p. xix.
16Edição em português: Pecadores nas mãos de um Deus irado: e outros sermões de Jonathan
Edwards (São Paulo: CPAD, s.d.).
17Kimnach; Minkema; Sweeney, The sermons of Jonathan Edwards, p. 56.
18Thomas G. Long, The witness of preaching, 2. ed. (Louisville: John Knox, 2005), p. 295.
19Veja Robert A. Harris, “A handbook of rhetorical devices”, VirtualSalt.com, January 19, 2013,
disponível em: www.virtualsalt.com/rhetoric.htm, acesso em: fev. 2017.
20Um conselho importante para sua segurança: se a pessoa ou pessoas que você tem em mente estarão
de fato ouvindo o sermão que está sendo preparado, certifique-se de não recorrer a detalhes que deem a
entender que você está usando o púlpito para censurar publicamente alguém. Esse não é um comportamento
bíblico! (Mateus 18.15 nos diz que devemos conversar com a pessoa em particular se tivermos alguma coisa
contra ela.) A ideia é que seu sermão se aplique a várias pessoas, e não a uma só. Use o recurso de pensar
nelas para estimular aplicações específicas, mas não as descreva de tal modo que leve o público a imaginar
a quem você está se referindo.
21São os seguintes os tipos de pessoas a quem você talvez se dirija. Seu texto fala a alguma delas?

■ Descrente consciente: o indivíduo tem consciência de que não é cristão.

• Pagão imoral: tem um estilo de vida descaradamente imoral/ilegal.
• Pagão intelectual: diz que a fé é indefensável ou irracional.
• Falso pagão: é cético porque está na moda, mas não profundamente.
• Pensador genuíno: tem objeções sérias e bem concebidas.
• Religioso não cristão: pertence a uma religião, uma seita ou denominação organizada cujas
doutrinas são seriamente equivocadas.

■ Cristão nominal sem igreja: crê nas doutrinas cristãs básicas, mas tem uma ligação remota ou
nenhuma ligação com a igreja.

■ Cristão nominal que frequenta a igreja: participa da igreja, mas não é regenerado.

• Moralista semiativo: é moralmente respeitável, mas sua religião não lhe traz segurança, e tudo é
apenas um dever.
• Autojustificador ativo: muito comprometido e envolvido com a igreja; sua certeza de salvação
baseia-se em boas obras.

■ Desperto: seu pecado o incomoda e tem convicção deste, mas não tem ainda a paz do evangelho.

• Curioso: sente-se tocado sobretudo intelectualmente; tem muitas dúvidas e é estudioso aplicado.
• Convicto de uma falsa paz: sem entendimento do evangelho, disseram-lhe que se participasse de
determinada cerimônia, se fizesse certa oração ou outra coisa qualquer, isso bastaria para ser aceito
diante Deus.
• Desconsolado: tem plena consciência de seus pecados, mas não aceita ou compreende o evangelho
da graça.

■ Apóstata: já foi ativo na igreja, mas repudiou a fé sem arrependimento.

■ Novo crente: converteu-se recentemente.

• O que duvida: tem muitos temores e hesitações a respeito de sua nova fé.
• Ávido: começa com alegria, confiança e zelo seu aprendizado e serviço.
• Excessivamente zeloso: tornou-se um pouco orgulhoso e crítico dos outros; confia demais em suas
capacidades.

■ Maduro/em crescimento: passa por quase todas as condições básicas listadas a seguir, mas avança em
meio a elas porque responde rapidamente ao tratamento pastoral ou sabe como se tratar.

■ Aflito: vive debaixo de um fardo ou problema que mina sua força espiritual. (Geralmente dizemos
que uma pessoa aflita é alguém que não pôs sobre si mesma o fardo que leva.)

• Aflito fisicamente: alguém que está passando pela decadência do corpo.
• Doente
• Idoso
• Deficiente
• À beira da morte
• Enlutado: perdeu um ente querido ou passou por alguma outra perda significativa (p. ex., sua casa
pegou fogo).
• Solitário
• Perseguido/abusado
• Pobre/com problemas econômicos
• Pessoa que se sente abandonada: espiritualmente ressequida pela ação de Deus, que remove o
sentimento de sua proximidade apesar do uso dos meios de graça.

■ Tentado: luta com um pecado ou pecados que continuam atraentes e fortes.

• Subjugado: é tentado em grande medida na esfera dos pensamentos e dos desejos.
• Dominado: seu pecado se tornou um comportamento viciante.

■ Imaturo: é um bebê espiritual que deveria estar crescendo, mas não está.

• Indisciplinado: tem preguiça de usar os meios de graça e os dons para ministrar.
• Satisfeito consigo mesmo: o orgulho sufocou seu crescimento; é complacente; talvez tenha se
tornado cínico e zomba de muitos outros cristãos.
• Desequilibrado: enfatiza em excesso algum dos seguintes aspectos de sua fé: o intelectual, o
emocional ou o volitivo.
• Apegado a doutrinas excêntricas: deixou-se tomar por ensino distorcido que impede o crescimento
espiritual.

■ Deprimido: não apenas experimenta sentimentos negativos, mas também se esquiva de deveres
cristãos e é desobediente. Se a pessoa for um crente novo, ou tentado, ou aflito, ou imaturo, e não
recebe o tratamento adequado, se tornará espiritualmente deprimida. Além disso, as pessoas com os
seguintes problemas podem cair em depressão:

• Ansiedade: a depressão vem por meio da preocupação ou do medo tratado de maneira inadequada.
• Fatiga: o indivíduo se torna apático e seco pelo excesso de trabalho.
• Ira: a depressão ocorre por meio da amargura ou ira descontrolada tratada de forma indevida.
• Introspecção: o indivíduo se aprofunda em seus fracassos e sentimentos e é inseguro.
• Culpa: a pessoa tem a consciência ferida e não chegou ao arrependimento.

■ Desviado: o indivíduo foi além da depressão e se afastou da comunhão com Deus e com a igreja.

• Sensível: ainda é convencido de seus pecados sem muita dificuldade e suscetível ao chamado de
arrependimento.
• Endurecido: tornou-se cínico, zombador e difícil de ser convencido.
22Veja o apêndice para mais detalhes sobre as ações lógicas do evangelho. Primeiro: “Eis o que você
deve fazer”. Depois: “Aqui está por que você não pode fazê-lo”. E depois ainda: “Aqui está quem o fez por
você”. Por fim: “Eis aqui como a fé nele o capacita também a fazê-lo”. Seguir essa lógica no sermão
significa que, com frequência, a aplicação prática será feita em mais de um momento.
TERCEIRA PARTE

EM DEMONSTRAÇÃO DO ESPÍRITO E DE PODER
7

A PREGAÇÃO E O ESPÍRITO

Minha linguagem e pregação não consistiram em palavras persuasivas de
sabedoria, mas em demonstração do poder do Espírito, para que a vossa
fé não se apoiasse em sabedoria humana, mas no poder de Deus [1Co
2.4,5].

o capítulo anterior, dissemos que seus ouvintes serão convencidos por

N sua mensagem somente se forem convencidos por você como pessoa.
Não há escapatória. As pessoas não experimentam simplesmente suas
palavras, seus argumentos e apelos como se fossem mensagens sem corpo. Elas
estão o tempo todo sentindo e avaliando a fonte. Se não o conhecem, elas (em
geral, de forma inconsciente) reúnem evidências para determinar se gostam de
você, se podem se relacionar com você e respeitá-lo. Elas estão observando se
você é uma pessoa feliz ou melancólica, se é equilibrada ou nervosa, se parece
gentil ou rude ou presunçosa. Elas estão procurando ver amor, humildade,
convicção, alegria e poder — alguma integridade e coerência entre o que você
diz e o que você é. O público é capaz de sentir que tipo de energia — ou falta de
energia — está por trás do que você diz. Talvez percebam insegurança, falta de
convicção, desejo de impressionar ou um sentimento de superioridade moral —
qualquer uma dessas coisas fechará a mente e o coração da plateia às suas
palavras.
É certo que seus ouvintes estão respondendo às suas habilidades, ao seu
preparo, caráter e convicção de modo geral. Esses são elementos críticos de
qualquer boa comunicação, inclusive de qualquer boa pregação ou ensino.
Contudo, especificamente em relação ao ato de pregar, existe uma coisa ainda
mais importante para a persuasão: a sensação que os ouvintes têm de que o
Espírito Santo está operando em você e através de você. Como podemos
convidar o Espírito Santo para que opere em nossa pregação?
O ESPÍRITO E O PREGADOR
Alguém relatou que, quando sugeriram pela primeira vez a George Whitefield
que publicasse seus sermões, ele concordou, mas disse: “Vocês nunca
conseguirão pôr os trovões e os raios no papel”.1
Lembre-se do que dissemos no prólogo: um ministro cristão de mais idade
disse certa vez que Whitefield sempre pregava sermões incríveis, mas nem
sempre eram bons sermões (no sentido de sua técnica e estrutura). Esse homem
não estava se referindo à maestria oratória de Whitefield, mas ao modo pelo qual
o
Espírito estava presente em sua pregação. Em Colossenses 1.24-29, lemos a
esse respeito.2

… [Esta é] a comissão que Deus me deu de apresentar-lhes a palavra de Deus em sua plenitude […] A
ele anunciamos, admoestando e ensinando todo homem com toda a sabedoria, para que possamos
apresentar cada um plenamente maduro em Cristo. Para esse fim luto vigorosamente com toda a
energia que tão poderosamente atua em mim (Cl 1.25,28,29, NIV).

A comissão de Paulo envolve as duas grandes tarefas da pregação que
temos examinado neste livro: pregar toda a Palavra de Deus e pregar ao coração.
Contudo, a descrição que Paulo faz de sua pregação não termina aqui. Ele fala de
um poder espiritual intenso e bastante agitado dentro dele, que lhe gera um
anseio interno veemente quando prega: “Para esse fim luto vigorosamente com a
energia que tão poderosamente atua em mim”. Para Paulo, pregar não é um
exercício distante e clínico, e é mais ainda do que um clímax satisfatório para
um esforço criativo. Ele diz que literalmente agoniza quando fala. O mesmo
termo grego que Paulo usa aqui, energia, será usado em alguns versículos mais
adiante para descrever o poder de Deus ao ressuscitar Jesus dos mortos.3 Os que
ouviram Paulo devem ter ficado impressionados com o fato de que a verdade do
evangelho que ele estava proclamando já estivesse em operação como um
profundo poder na vida do próprio apóstolo. Ele não apenas argumentou e se
envolveu com um público, mas levou indivíduos a uma mudança de vida —
“cada um plenamente maduro em Cristo”4 — através de quem ele era quando
falava, não apenas através do que ele dizia.
O que havia em Whitefield e Paulo que convidava o Espírito Santo a operar
através deles desse modo?
Em primeiro lugar, era o que eles faziam. Eles não falavam de Cristo
apenas; eles o elevavam, mostravam que ele era glorioso e expressavam sua
admiração e alegria ao fazê-lo. Vimos anteriormente, em 1Coríntios 2.4, que o
texto falava da “demonstração do poder do Espírito”. Anthony Thiselton diz que,
como fica claro na passagem imediatamente seguinte (1Co 2.16—3.4), o papel
do Espírito é de “discrição”, apontando o caminho não para si, mas para a beleza
de Cristo (cf. Jo 16.12-15).5 Quando os pregadores fazem isso também —
quando, em vez de simplesmente dar informações ou mostrar o que sabem, eles
elevam Cristo e mostram às pessoas o seu amor — aí então se alinham ao
Espírito e podem esperar que ele acompanhe a mensagem proclamada.
Em segundo lugar, era quem eles eram — sua graça espiritual e seu caráter.
Muitas vezes, diz-se que grandes pregadores são aqueles que têm dons
poderosos de falar em público e pregar. Isso é verdade, mas, para “demonstração
do Espírito e de poder”, nosso fruto espiritual — amor, alegria, paciência,
humildade e bondade — é mais importante do que talentos e habilidades. Dons
são coisas que fazemos, mas o fruto espiritual ou graças são aquilo que somos.
Dons e talentos podem operar quando o comunicador é espiritualmente
imaturo ou mesmo quando o coração do pregador está distante de Deus. Se você
tem o dom do ensino, por exemplo, a situação da sala de aula explicita seu dom,
e você pode ser muito eficaz. Isso, porém, pode ocorrer na ausência de um
caminhar próximo de Deus. Jonathan Edwards, em um sermão sobre 1Coríntios
13, diz:

Muitos homens maus têm apresentado esses dons [de pregação e de ministração]. Muitos dirão naquele
dia: “Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios? Em
teu nome não fizemos muitos milagres?” (Mt 7.21). Tal como esses, que tiveram […] dons do Espírito,
mas nenhuma obra especial e salvadora do Espírito […] Essas coisas são excelentes, mas […] não são
propriamente nenhuma qualidade do coração e da natureza do homem, como são a graça e a santidade
verdadeiras […] Dons extraordinários do Espírito, por assim dizer, são joias preciosas, que o homem
carrega consigo. Contudo, a graça verdadeira no coração é, por assim dizer, a preciosidade do coração
pela qual […] a alma se torna uma joia preciosa […] O Espírito de Deus pode produzir efeitos em
muitas coisas com as quais ele não se comunica. Portanto, o Espírito de Deus se moveu sobre a face
das águas, mas não para que ele se comunicasse com elas. Quando, porém, o Espírito por meio de suas
influências usuais concede a graça salvadora, ele se comunica com a alma […] Sim, a graça é, por
assim dizer, a natureza santa do Espírito de Deus comunicada à alma.6

Essa distinção entre “operações dos dons” e “operações da graça” ou fruto é
vital. Os dons costumam ser confundidos com maturidade espiritual não apenas
pelo público, mas também pelo orador. Se você encontrar pessoas que estejam
assistindo avidamente aos seus sermões, tomará isso como evidência de que
Deus está satisfeito com seu coração e com seu nível de intimidade com ele —
quando, na verdade, ele talvez não esteja satisfeito de modo algum. O fato é que
nós, cristãos, corremos atualmente maior perigo de erro de percepção do que em
qualquer outra época da história, uma vez que nossa era tem sido chamada de
“era da técnica”. Nenhuma sociedade civilizada colocou mais ênfase sobre
resultados, habilidades e carisma — ou menos ênfase sobre caráter, reflexão e
profundidade. Essa é a principal razão pela qual tantos dos nossos ministros mais
bem-sucedidos têm uma falha ou lapso moral. Seus dons prodigiosos ocultaram
a ausência de operações da graça em sua vida.
A dinâmica também funciona em sentido reverso. Um forte caráter
espiritual, produzido pelas operações da graça, pode compensar dons modestos.
Um ministro cristão tem três papéis ou funções básicas: pregar,
pastorear/aconselhar e liderar. Embora ninguém seja igualmente agraciado em
todas as três áreas, temos de desempenhar cada uma dessas funções. O fator
mais importante para a eficácia a longo prazo de um ministro cristão é como (ou
se) as áreas em que há deficiência de habilidade podem ser atenuadas por
operações contundentes da graça em seu caráter. A literatura sobre liderança nos
aconselha a conhecermos nossas fraquezas, as áreas em que temos deficiência de
dons. Ela nos diz, geralmente, que devemos nos rodear de uma equipe de
pessoas com dons complementares, e esse certamente é um conselho sábio se
você puder pô-lo em prática. No entanto, mesmo que possa, não é o bastante,
uma vez que as áreas nas quais você é deficiente o minarão, a menos que haja
uma piedade que compense. O que quero dizer?
Talvez você não tenha fortes dons de falar em público, mas, se for uma
pessoa piedosa, sua sabedoria, amor e coragem farão de você um pregador
interessante. Talvez você não tenha fortes dons pastorais ou de aconselhamento
(p. ex., talvez você seja uma pessoa muito tímida ou introvertida); no entanto, se
for piedoso, sua sabedoria, seu amor e sua coragem o capacitarão a consolar e a
orientar as pessoas. Talvez seus dons de liderança não sejam muito fortes (p. ex.,
talvez você seja desorganizado ou demais cauteloso por natureza), mas, se for
uma pessoa piedosa, sua sabedoria, amor e coragem farão com que as pessoas o
respeitem e o sigam.
As operações da graça que produzem um caráter santo são fundamentais
porque podem compensar certas deficiências de dons e também porque há uma
pressão enorme no ministério cristão que favorece a hipocrisia. Ser líder na
igreja ou no ministério significa dizer às pessoas todos os dias “Deus é tão
maravilhoso!”. Não é esse o tipo de coisa que fazemos na maior parte das outras
áreas da vida. Contudo, no ministério estamos constantemente direcionando as
pessoas para um lado ou para outro, sempre tendo Deus em vista, no intuito de
mostrar seu valor e sua beleza.
Muitas vezes seu coração não estará em condição de dizer isso com total
integridade e comprometimento. Você tem então duas escolhas. Ou você
examina seu coração muito mais de perto, aquecendo-o continuamente de modo
que possa pregar às pessoas o que você está praticando, ou terá de aprender a
vestir seu ar ministerial e se tornar uma coisa por fora que você não é por dentro.
O estadista Abraham Kuyper disse em determinada ocasião que o farisaísmo
(hipocrisia espiritual) é como a sombra — mais longa e mais nítida quanto mais
perto estiver da luz. Observo continuamente que o ministério amplifica o caráter
espiritual das pessoas. Ele faz delas cristãos muito melhores ou muito piores do
que teriam sido se não o tivessem abraçado, mas não deixará que ninguém
permaneça onde estava!
COMBINANDO CORDIALIDADE E FORÇA
Um caráter profundamente piedoso, ou a maturidade espiritual, combina
qualidades que não podem ser unidas no homem natural à parte do poder
transformador do Espírito Santo. Esse é o tema do poderoso sermão de Jonathan
Edwards, “The excellency of Jesus Christ” [A excelência de Jesus Cristo].7 Nele,
Edwards diz que há uma surpreendente e “admirável conjunção de excelências
diversas em Jesus Cristo”. Ele mostra como Jesus combina majestade e glória
infinitas com profunda humildade e docilidade; justiça infinita com graça sem
limites; soberania absoluta e domínio com submissão e obediência perfeitas;
autossuficiência transcendente com total confiança e dependência do Pai. Ele é o
Cordeiro e o Leão de Deus, proclama Edwards. Aproxime-se dele como o
Cordeiro de Deus e ele se tornará um Leão por você, defendendo-o. Rejeite-o,
porém, como o Cordeiro de Deus, e ele se tornará um Leão contra você. “Beijai
o filho, para que ele não se ire, e pereçais no caminho” (Sl 2.12, KJV).
Não é coincidência que na literatura e no pensamento ocidentais o herói
ideal tenha sempre sido descrito como gracioso e gentil, embora arrojado e forte.
Na antiga história de Sir Thomas Mallory a respeito do rei Artur, Sir Ector diz a
respeito de Lancelot: “Tu foste o mais manso dos homens que jamais ceou no
salão entre as senhoras; e foste o mais bravo dos cavaleiros, para teu mortal
inimigo, que guardou a lança no sepulcro”.8 C. S. Lewis, especialista em
literatura medieval, explica que essa era uma expressão do ideal cristão de
heroísmo aplicado à nobreza.

O importante em relação ao ideal, é claro, é a dupla demanda que ele faz à natureza humana. O
cavaleiro é um homem de sangue e ferro, um homem acostumado à visão de rostos esmagados e de
pedaços deformados de membros cortados; ele é também um convidado discreto no salão, quase como
uma donzela, um homem gentil, modesto e reservado. Ele não é uma conciliação ou um meio-termo
entre ferocidade e mansidão; ele é feroz ao máximo e manso ao máximo […] Qual é a importância
desse ideal para o mundo moderno? Ele é de importância extrema […] A Idade Média fixou-se em
uma esperança do mundo. Talvez seja possível, ou não, produzir aos milhares homens que combinem
os dois lados da personagem de Lancelot. Contudo, se isso não for possível, então toda essa conversa
de felicidade ou dignidade duradoura na sociedade humana não passa de uma fantasia.9

Lewis mostra nesse ensaio que, normalmente, não é possível para a
natureza humana combinar esses dois lados. Ele sabia que, somente quando o
Espírito Santo reproduzisse a excelência de Cristo, esse ideal humano poderia
tornar-se real — um homem em que há humildade e poder, justiça e graça,
autoridade e compaixão.
Em que isso se relaciona com a pregação? Tudo. É o segredo do poder de
todos os grandes pregadores. As pessoas podem sentir neles a união
surpreendente e impactante do amor, da humildade e da gentileza com poder,
autoridade e coragem. Os sermões e as biografias de Spurgeon, Whitefield e
M’Cheyne revelam esse caráter. Havia uma compaixão, até mesmo uma
fraqueza e uma vulnerabilidade nesses pregadores. Eles eram transparentes,
desejosos de falar sobre sua fragilidade, capazes de mostrar preocupação, amor e
até mesmo ansiedade por seu povo. Contudo, no púlpito também trovejavam do
alto de sua autoridade.
Não há melhor exemplo disso do que o apóstolo Paulo. Seu impacto sobre
os tessalonicenses, por exemplo, fluía do seu caráter. Em 1Tessalonicenses 2.1-3
(NIV), Paulo repassa seu ministério entre eles. Em primeiro lugar havia
intensidade e coragem nascidas da urgência. Paulo apela (v. 3) para os
tessalonicenses depois de ter ousadamente lhes transmitido o evangelho em face
de forte oposição (v. 2). Percebemos uma espécie de solenidade e de nobreza que
exigem respeito, ainda que sejam humildes, sem pompa e não sejam frias. “Deus
é testemunha de que nunca […] buscamos honrarias humanas da parte de vós ou
de outros […] trabalhamos dia e noite para não ser um peso a nenhum de vós,
enquanto vos pregamos o evangelho de Deus” (v. 5,6,9). Vemos em Paulo
honestidade e uma linguagem franca (“… nunca usamos de bajulação, como
sabeis, nem agimos com intenção gananciosa”) (v. 5) e afeição (“… pelo
contrário, fomos bondosos entre vós, como a mãe que acaricia os próprios filhos.
Assim, devido ao grande afeto por vós, estávamos preparados a dar-vos de boa
vontade não somente o evangelho de Deus, mas também a própria vida…”) (v.
7,8).
Quando o pregador tem essa mesma ousadia amorosa, sua pregação será
acompanhada de poder. Esse belo casamento cristão de traços de caráter não
pode ser dissimulado nem fingido. Em síntese, um bom pregador combina
cordialidade e força. Sem a ajuda do Espírito Santo, creio que todos nós
tendemos naturalmente ou a sermos mais cordiais e gentis, ou a sermos mais
contundentes e autoritários no púlpito. Temos de reconhecer nosso desequilíbrio
e buscar o Senhor para o crescimento na plenitude do seu santo caráter.
O TESTE DO TERCEIRO TEXTO
Pode-se pensar a pregação através de uma estrutura de três “textos” — o texto
bíblico, o contexto dos ouvintes e o subtexto do seu próprio coração. A maior
parte deste livro lida com o texto (pregação da Palavra) e com o contexto
(pregação ao coração e à cultura). Como vimos neste capítulo, seus dons apenas
podem fazê-lo avançar no longo caminho da criação de sermões que lidam de
maneira adequada com a Palavra e compreendem o coração do ouvinte. No
entanto, um teste excelente de maturidade espiritual — da presença do Espírito
Santo em sua pregação — consiste em examinar o subtexto de sua pregação.
O subtexto é a mensagem por trás da mensagem. É o sentido real e
pretendido (consciente ou inconsciente) de uma mensagem, que é mais profundo
do que os sentidos superficiais das palavras. Por exemplo, a afirmação “Não, eu
estou bem” pode ter como subtexto “Não estou preocupado; por favor, continue
a fazer o que você estava fazendo”. Ou pode significar ainda: “Tenho uma
preocupação, mas não quero dizer isso diretamente”. Seu tom de voz, sua
expressão facial, postura e gestos contribuirão muito para indicar seu objetivo
verdadeiro perante o público, e esse objetivo pode sequestrar a comunicação,
não importa o que você tenha dito em sua mensagem.10 Os seguintes subtextos
não são os únicos que aparecem na pregação, mas são os mais comuns.
Subtexto de reforço
Um tipo de subtexto é o que diz: “Não somos ótimos?”. Trata-se de uma
comunicação ritualizada e estilizada usada para reforçar os limites e contribuir
com um sentimento de segurança e pertencimento. É um ritual no sentido de que
seu principal objetivo é proporcionar um autorreforço a um grupo. Quando o
reforço é o subtexto da pregação, a mensagem real é: “Estamos reunidos aqui
com pessoas que pensam do mesmo modo para compartilhar esta apresentação
uns com os outros como símbolo do nosso compromisso comum uns com os
outros, com Deus e com esta organização. Somos o tipo de pessoa que acredita
em coisas desse tipo e que vive dessa maneira”.11 É claro que é um bom objetivo
dar a uma comunidade uma percepção de identidade e de pertencimento. Mas se
isso se torna o objetivo principal, o verdadeiro subtexto, a capacidade do sermão
de mudar vidas será destruída. Não seremos semelhantes a Cristo; seremos
pessoas presunçosas.
Essa comunicação é estilizada no sentido de que não se pede ou não se
oferece essa transferência de informação real. O exemplo mais comum de
comunicação estilizada em nossa cultura é o intercâmbio “Como vai você?” e
“Bem, obrigado”. Em geral, essa interação não tem como propósito ser uma
troca real de informação. Em vez disso, o subtexto nesse caso é o seguinte:
“Estou sendo amigável com você e você comigo”. Quando o médico faz a
mesma pergunta em um hospital, porém, ela não é estilizada. Ele pede e recebe
informações pontuais. Se, numa situação em que cumprimentamos alguém, a
pessoa a quem cumprimentamos nos dá um longo histórico de sua condição
física, ela provavelmente compreendeu mal o emissor!
Muitas igrejas estão comprometidas com esse reforço do subtexto, que
funciona como uma espécie de guardião. Essas igrejas não querem ser
desafiadas, convencidas ou ampliadas. Elas talvez achem que estão “defendendo
a verdade”; mas como estão se dirigindo a membros que já acreditam, há poucos
sendo engajados, e menos ainda sendo confrontados, com essa verdade. O
motivo e o foco dessa comunicação consiste em fortalecer e proteger quem está
dentro dos que estão fora de suas portas. A principal habilidade necessária à
operação nesse subtexto é o domínio do dialeto tribal.
Subtexto de desempenho
Um segundo tipo de subtexto é do tipo: “Eu não sou o máximo?”. O orador
procura exibir suas habilidades e promover os produtos da igreja. A mensagem
é: “Você não acha que sou um grande pregador? Você não acha que esta é uma
excelente igreja? Você não quer voltar, trazer amigos e contribuir
financeiramente?”. O objetivo do desempenho é: “Olhe para mim; ouça o que
tenho a dizer. Veja como mereço seu respeito”. O problema aqui é que todo
comunicador precisa de fato passar credibilidade para o público, mas se isso se
tornar o objetivo principal destruirá a capacidade do sermão de mudar vidas.
Pregadores autocentrados chamam atenção para si, não para Cristo. Em algum
momento, o público se dá conta de que o pregador não está realmente
preocupado com as pessoas. Ele está preocupado em passar bem a mensagem e
causar uma boa impressão.
Esse subtexto depende de um ensino real e da transmissão de informação,
uma vez que o objetivo é transmitir um corpo de informações que os ouvintes
não têm. Contudo, o objetivo principal do ensino é ganhar pessoas para a
organização ou para a igreja como uma instituição.
Esse subtexto de desempenho é essencialmente uma forma de venda. Trata-
se de uma forma de comunicação mais dirigida aos novatos e aos de fora — mas
o motivo ainda é, indiretamente, beneficiar os que estão dentro (fazer sua igreja
crescer). O comunicador precisa de um volume muito maior de habilidade
retórica do que no primeiro tipo de subtexto para despertar e manter o interesse.
Subtexto de treinamento
Um terceiro tipo de subtexto é este: “Esta verdade não é o máximo?”. O objetivo
é ampliar o conhecimento dos receptores, de modo que possam viver de um
modo desejado. O subtexto é: “Notícias que podem ser úteis a você”. Como no
subtexto do desempenho, o subtexto em questão depende substancialmente da
transferência real de informações — embora seu objetivo seja menos egoísta.
Muitas igrejas estão comprometidas com esse subtexto de treinamento ou
de ensino. As pessoas nessas igrejas querem ser apresentadas a coisas novas que
não viram antes. Elas gostariam de ser inspiradas, mas consideram isso menos
importante. O desejo delas é ser alimentadas com “comida sólida”. A finalidade
dessa comunicação continua sendo o público interno (porque o não cristão não
pode ser mudado até que creia). As habilidades necessárias aqui são as de
pesquisa e de comunicação.
Subtexto de adoração
Um último tipo de subtexto é o seguinte: “Cristo não é o máximo?”. Esse é o
mais complexo e completo de todos, e é o que requer maiores habilidades. Seu
objetivo vai além da informação, além da conquista da imaginação e além até
mesmo da mudança de comportamento. Ele quer mudar aquelas afeições que
mais seduzem nosso coração. A mensagem: “Vejam como Cristo é muito maior e
mais belo do que vocês imaginavam! Vocês não percebem que todos os seus
problemas decorrem de não ver isso?”.
Creio que todas as igrejas deveriam estar comprometidas com esse subtexto
de adoração, que é para mim o âmago da verdadeira pregação. O foco está
direcionado tanto para quem está dentro quanto para quem está fora (uma vez
que você está chamando ambos a adorar a Deus, e não àquelas coisas que hoje
eles adoram), e o motivo para isso é a edificação de todos. Esse tipo de subtexto
requer pesquisa, retórica e habilidades de contextualização.
Não há como comunicar este subtexto correto e verdadeiro através da
técnica; ele se manifesta na sua vida espiritual de pregador. Você “sente Cristo
em seu coração” quando prega? Você, de certa forma, medita nele e o contempla
no ato da pregação? Você o está louvando de fato quando diz que ele merece ser
louvado? Você está realmente se humilhando quando fala do seu pecado? As
respostas serão bastante evidentes para qualquer ouvinte atento. Essas coisas se
tornarão realidade na sua pregação somente se você cultivá-las regularmente
durante sua oração e meditação rotineiras, que vão além da tarefa de preparar o
sermão.
Em suma, a tentação será a de deixar o púlpito direcioná-lo para a Palavra.
Em vez disso, porém, você deve deixar que a Palavra o direcione para o púlpito.
Prepare o pregador mais do que você prepara o sermão.
PREGANDO DE CORAÇÃO
Metade deste livro é dedicada à pregação ao coração. Você certamente
compreende a esta altura que não pode ter esperança de fazê-lo a menos que
pregue coerentemente de coração. O que você está chamando as pessoas a
experimentar, você mesmo deve experimentar. O que o Espírito Santo fará no
coração de seus ouvintes ele o fará primeiramente no seu e por meio de sua vida.
Você deve ser como um vidro transparente através do qual as pessoas possam ver
uma alma arruinada porém transformada pelo evangelho, de tal modo que elas
queiram isso para si também.
Alguns pensamentos finais sobre as coisas que acontecem quando você
prega de coração:

• Sua pregação tem poder. Você terá equilíbrio e confiança, falando com
autoridade e sem arrogância, sem qualquer indicação de que você aprecia
a autoridade pela autoridade. Você não se sentirá inseguro nem nervoso.
Confiará em seu material e não tentará agradar ou representar.
• Sua pregação é maravilhada. Haverá uma admiração inconfundível e um
assombro diante da grandeza daquele para quem você direciona as
pessoas. Será evidente para os ouvintes que você está “saboreando” sua
salvação no momento em que a oferece a outros.
• Sua pregação apresenta afeições verdadeiras. Você demonstra uma
transparência natural, livre de qualquer artifício. Não se consegue isso
contando histórias pessoais. Isso vem somente de ter curado pela verdade
do evangelho um coração arruinado. Não é algo que se possa fingir.
• Sua pregação é autêntica. Um paradoxo da pregação feita de coração é
que ela se desvia de todos os falsos maneirismos e afetações emocionais
que os pregadores aprenderam a adotar e que os ouvintes passaram a
esperar. Sua linguagem e tom de voz será simples e natural.
• Você prega Cristo com adoração. Quando descreve Jesus, você não
recita fatos ou abstrações, mas faz uma apresentação vívida dele. Muitos
ouvintes sentirão que é quase possível vê-lo. Por isso não terão outra
saída senão admirá-lo e adorá-lo.

Você está se sentindo sobrecarregado? Eu também. Contudo, o segredo para
desenvolver esses traços não consiste em tentar tê-los diretamente. Em vez disso,
glorie-se em suas fragilidades, de modo que o poder dele se aperfeiçoe na
fraqueza (2Co 12.9). Essa é uma disciplina que lhe permite lembrar o que você é
sob o seu próprio poder. Ela leva à dependência desesperada do Espírito — mas
com o desespero vem a alegre liberdade de saber que, no fim, nada na pregação
depende da sua eloquência, da sua sabedoria ou da sua habilidade. Nunca
dependeu! Todo sucesso, bênção e fruto que você teve um dia vieram dele.
Há uma liberdade tremenda quando podemos rir para nós mesmos e
sussurrar a ele: “Então era você o tempo todo!”. De algum modo, esse dia
marcará o verdadeiro começo de sua carreira de pregador e mestre da Palavra de
Deus.
TORNANDO-SE UMA VOZ
João Batista era um pregador popular. Muita gente acorria para ouvi-lo, e ele
dizia às pessoas que o Messias estava chegando. Isso incomodava as autoridades
religiosas da época. Eles receavam que João pudesse se declarar o Messias — ou
a figura de Elias de Malaquias 4, ou o “profeta” de Deuteronômio 18, os quais os
estudiosos achavam que poderiam ser os precursores do Messias. Os líderes
judeus enviaram uma equipe de investigadores para verificar quem João achava
que era. Eles lhe fizeram uma série de perguntas em João 1.19-26:
Este foi o testemunho de João, quando, de Jerusalém, os judeus enviaram-lhe sacerdotes e levitas para
lhe perguntar: Quem és tu? Ele declarou e não negou, mas anunciou: Eu não sou o Cristo.
E perguntaram-lhe: Então, quem és tu? És Elias?
Ele respondeu: Não sou.
Tu és o profeta?
Ele respondeu: Não.
E perguntaram-lhe de novo: Quem és tu? Precisamos responder aos que nos enviaram. O que dizes a
respeito de ti mesmo?
Ele respondeu, citando o profeta Isaías: Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do
Senhor.
Então, os emissários da parte dos fariseus perguntaram-lhe: Neste caso, por que batizas, se não és o
Cristo, nem Elias, nem o profeta?
João lhes respondeu: Eu batizo com água; no meio de vós está alguém a quem não conheceis; aquele
que vem depois de mim, de quem não sou digno de desamarrar as correias das sandálias.

O que vemos em João é uma mistura notável de humildade e ousadia, que
se manifestavam ao mesmo tempo. Ele se recusou a acreditar que poderia ser
Elias, o grande precursor do Messias, embora Jesus tenha dito posteriormente
que João foi de fato
“o Elias que havia de vir” (Mt 11.14). João não conseguia se ver como essa
pessoa formidável. Não, ele “não era digno” nem sequer de desamarrar as
correias das sandálias do Messias.
João era humilde demais para ver em si a grandeza que Jesus e nós
conseguimos ver. Contudo, ao mesmo tempo, ele apresentou uma ousadia e uma
coragem surpreendentes. Mostrou-se destemido perante os investigadores.
Perguntaram-lhe por que batizava. O batismo que João praticava era um ato
radical. Quando um gentio queria se converter ao judaísmo, ele era batizado com
água para simbolizar que um pagão espiritualmente impuro estava se unindo ao
verdadeiro povo de Deus. João, porém, exigia que todos, judeus e gentios,
fossem batizados para estar prontos para o Messias. Ele estava dizendo que
todos eram impuros e indignos. Foi um posicionamento público ousado.
Como é que alguém tão humilde e sem consciência de sua própria grandeza
podia ser tão confiante e destemido? Ele nos dá a resposta ao invocar Isaías 40.
Diz ele: “Eu sou uma voz. Sou apenas uma voz que aponta para aquele que há de
vir”. Isso explica como pôde ser tão humilde e ousado ao mesmo tempo. Ele está
dizendo: “Em mim mesmo, não sou nada, mas aquele a quem eu sirvo é o maior
do mundo”. Ele está confiante porque não está olhando para si mesmo, mas para
o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). A grandeza de
Jesus, em certo sentido, fluía por meio de João porque ele era como Paulo, que
escreveu: “Pois não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor, e a
nós mesmos como vossos servos por causa de Jesus” (2Co 4.5).
Ainda hoje ouvimos a voz de João. Gosto daquela parte do filme, A maior
história de todos os tempos, quando João Batista é levado à presença de Herodes
para ser executado. Pode-se ouvi-lo gritando à distância: “Arrependam-se!
Arrependam-se!”. Em seguida, ouve-se o som do machado que o decapita.
Então, quando a câmera se aproxima de Herodes sentado em silêncio em
seu trono, ouve-se de repente uma voz que sussurra em seu ouvido: “Arrependa-
se!”. O filme mostra que, embora João tivesse morrido, não puderam calar sua
voz, sua influência, sua mensagem.
Se você proclamar Cristo, e não a si mesmo, e deixar que Palavra de Deus
chegue às pessoas por seu intermédio, também poderá se tornar uma voz, como
João. Não importa se você se sente fraco. Se assim for, melhor ainda.
NOTAS
1D. M. Lloyd-Jones, Preaching and preachers, edição de aniversário de 40 anos (Grand Rapids:
Zondervan, 2011), p. 68 [edição em português: Pregação e pregadores, 2. ed., 3 reimp., tradução de João
Bentes Marques (São José dos Campos: Fiel, 2011)].
2Sobre Colossenses, veja Peter T. O’Brien, Colossians-Philemon, Word Biblical Commentary (Waco:
Word Books, 1982), vol. 44; Douglas J. Moo, The Letters to the Colossians and to Philemon, Pillar New
Testament Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 2008); e Andrew T. Lincoln, “The Letter to the
Colossians: introduction, commentary, and reflections”, in: The New Interpreter’s Bible (Nashville:
Abingdon Press, 2000), vol. 11, p. 553-669. Para o paralelo com 1Coríntios 1.20—2.5, veja Anthony C.
Thiselton, The First Epistle to the Corinthians: a commentary on the Greek text, The New International
Greek Testament Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 2000); Roy E. Ciampa; Brian S. Rosner, The
First Letter to the Corinthians, Pillar New Testament Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 2010); e
Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians, The New International Commentary on the New
Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1987).
3Lincoln, “Letter to the Colossians”, p. 616.
4Moo, Letters to the Colossians, p. 161.
5Thiselton, First Epistle to the Corinthians, p. 222.
6Jonathan Edwards, “Sermon 2: love more excellent than extraordinary gifts of the Spirit”, in: Kyle
Strobel, org., Charity and its fruits (Wheaton: Crossway, 2012), p. 62, 66-7.
7Jonathan Edwards, “The excellency of Jesus Christ”, in: Kimnach; Minkema; Sweeney, orgs., The
sermons of Jonathan Edwards: a reader (New Haven: Yale University Press, 1999), p. 161-96.
8Sir Thomas Malory, Le morte d’Arthur (1485), Livro XXI, cap. xiii [edição em português: A morte de
Artur (Lisboa: Assírio & Alvin, 1993), 3 vol.].
9C. S. Lewis, “The necessity of chivalry”, in: Present concerns (London: Fount, 1986), p. 13.
10Veja a lista de subtextos de Derek Thomas (embora ele não se refira a eles desse modo) em seu
ensaio “Expository preaching”, in: Feed my sheep: a passionate plea for preaching (Grand Rapids: Soli
Deo Publications, 2002), p. 80-3 [edição em português: Apascenta o meu rebanho: um apaixonado apelo
em favor da pregação (São Paulo: Cultura Cristã, 2009)]. A descrição é cômica e há muita sobreposição
com o que digo aqui nesta seção.
11Charles Kraft, Communication theory for Christian witness (Nashville: Abingdon, 1983), p. 78.
APÊNDICE

REDIGINDO UMA MENSAGEM EXPOSITIVA

ste livro está longe de ser um manual completo sobre pregação. Você

E deve ter notado que passei a maior parte do tempo explicando com
princípios e exemplos por que certo tipo de pregação é necessário e
como é essa pregação. Contudo, dediquei relativamente pouco tempo a como
preparar um bom sermão. Trata-se de um manifesto, e não de um manual, como
disse a mim mesmo várias vezes enquanto escrevia este livro.
Não pude, porém, resistir completamente ao desejo de dar uma
fundamentação mais prática a ele. Neste apêndice, ofereço um minimanual
dedicado à primeira grande tarefa da pregação: pregar fielmente a Palavra. Há
inúmeros livros bons que descrevem em detalhes como escrever e comunicar
uma mensagem expositiva sobre um texto da Bíblia.1 Um levantamento de
vários deles — alguns muito antigos, outros recém-publicados — revela um
consenso surpreendente de metodologia. Ao organizarmos esses pontos
principais de forma harmônica, teremos um conjunto muito útil de elementos
essenciais irredutíveis de como pregar um sermão expositivo sadio. Embora as
fontes citem passos e etapas variados, todas elas, de uma ou de outra forma,
incluem as seguintes quatro diretrizes.2

1. Entenda o objetivo do texto fazendo uma lista de itens de tudo o que ele
diz e procure a ideia principal da qual dependem todas as demais.
2. Escolha um tema principal para o sermão que apresente a ideia central do
texto e ministre a seus ouvintes específicos.
3. Crie um esboço em torno do tema do sermão que se encaixe na
passagem, em que cada ponto suscite insights do próprio texto, em um
movimento em direção ao clímax.
4. Materialize os pontos com argumentos, ilustrações, exemplos, imagens e
outros textos bíblicos que lhe sirvam de apoio e, principalmente, com aplicação
prática.
ENTENDA O OBJETIVO DO TEXTO3
Em primeiro lugar, é preciso discernir os objetivos do autor bíblico. O que o
autor do texto quer que seus ouvintes originais aprendam, pensem, sintam e
façam? Isso requer um aprofundamento no texto e várias leituras e análises
acompanhadas de comentários e de uma lista de itens do que o texto diz ou
implica. Deve-se indagar com base nesses itens que pensamentos são mais e
menos importantes — quais são os principais conceitos que outras ideias
explicam ou respaldam. Abaixo segue uma abordagem simplificada extraída das
melhores ferramentas sobre pregação expositiva e temperada com minha
experiência pessoal.4
Etapa n.º 1: Leia o texto5 em português algumas vezes, comece a anotar
seus comentários observando tudo aquilo que o impressiona ou que lhe suscite
uma questão.6
Etapa n.º 2: Agora, leia novamente o texto duas ou três vezes. Desta vez,
procure nele três categorias básicas de elementos: repetição de palavras, de
ideias ou de formas gramaticais; conectivos como “portanto”, “porque”, “para”,
“uma vez que”, “se” e “então”; por fim, identifique as metáforas e as imagens.
Depois de anotá-los, adicione-os aos seus comentários fazendo perguntas sobre
cada repetição, conector ou imagem. Por que o autor usou isso? O que ele deseja
comunicar? De que maneira o significado da passagem seria modificado se isso
não estivesse aqui?
Nessa etapa, os conectores não apenas tornarão visíveis as partes
constituintes do texto (as partes são as orações, frases e parágrafos que vêm
antes e depois dos conectores), mas também mostrarão a maneira pela qual as
partes se relacionam umas com as outras. A relação pode ser de causa e efeito,
mostrando os resultados ou consequências de algo. Ou pode ser ainda uma
relação do geral para o particular, em que uma parte do texto serve de elaboração
ou elucidação de algo dito anteriormente. Essa relação pode também estar
invertida, de modo que uma parte posterior do texto seja um resumo ou uma
generalização baseada em partes anteriores.
Etapa n.º 3: Leia a passagem toda novamente, desta vez recorrendo a
comentários e a outras ferramentas que o ajudem a analisar o texto na língua
original. Graças aos vários softwares disponíveis para o estudo da Bíblia, isso
agora é possível, mesmo que de modo limitado, para pessoas sem preparo
acadêmico nas línguas originais.7 Nessa etapa, procuro fazer cinco tarefas que
considero essenciais.
1. Identifique o significado de cada palavra importante, aprendendo o que
termo significa no texto em questão e em outros lugares da Bíblia.
2. Veja se há repetições no texto que tenham sido ocultadas pelas traduções
em português. Muitas vezes, um termo em grego ou hebraico repetido na
passagem recebe diferentes traduções por questões de estilo e para evitar
repetições.
3. Use comentários para buscar respostas para coisas no texto que o
deixaram intrigado. Os melhores não economizam espaço para explicar
passagens obscuras e difíceis.
4. Use ferramentas de referência para analisar mais de perto as imagens do
seu texto e para observar seu uso e significado no restante da Bíblia.8
5. Procure qualquer coisa em seu texto que faça alusão a outras passagens
da Bíblia, ou que as reproduzam, sobretudo no testamento oposto ao que você
está trabalhando.9
Essas duas últimas tarefas de estudo revelarão de que modo seu texto
aponta para Cristo. Acrescente todas essas descobertas aos seus comentários à
passagem.
Etapa n.º 4: Faça agora perguntas sobre o contexto sobre seu texto. Para
começar, analise o contexto do livro em questão. Pergunte: Como a passagem se
encaixa no restante do livro? Qual é a mensagem do livro todo e de que maneira
essa passagem específica contribui com ela? Por que essa passagem está aqui?
De que maneira a mensagem do livro seria diminuída ou modificada se ela não
estivesse onde está?
Contudo, pergunte também de que maneira esse texto (e o livro no qual ele
se encontra) se encaixa no restante da Bíblia e em sua mensagem. Quais
doutrinas tratadas por ele se acham expostas no restante da Bíblia? Que temas no
texto perpassam o cânon todo? Especialmente, de que modo os temas bíblicos
que permeiam seu texto apontam para Cristo ou encontram seu cumprimento
nele? A utilização de ferramentas de referência na terceira etapa já lhe dará
muitas das respostas às questões relativas ao contexto. Acrescente aos seus
comentários todas as novas ideias.
Por fim, é importante que você tenha uma questão conclusiva sobre o
“objetivo do texto” que o ajude a reunir todas as suas descobertas. J. Alec
Motyer indaga: “Qual é a coisa a que todas as demais se referem?”.10 Haddon
Robinson faz a pergunta e a divide em duas partes: “Assunto: a que se refere?
Complemento: o que isso está dizendo sobre aquilo de que trata?”.11 Alguns
formulam a questão da seguinte maneira: “Qual é a principal coisa que o autor
quis que seus ouvintes originais aprendessem, sentissem e/ou fizessem? Qual é o
objetivo ou propósito da passagem?”. Escolha uma dessas heurísticas para
começar, embora, com o tempo, você possa formular uma versão própria.
Qualquer que seja a maneira pela qual você decidirá apre-sentar a “questão
do objetivo” do texto, a resposta poderá ser en-contrada geralmente em um de
dois padrões. Um deles consiste nas repetições e em sua relação umas com as
outras. Quando a palavra “coragem” ou “medo” é mencionada quatro ou cinco
vezes em uma passagem, ela é provavelmente o assunto principal. O outro
padrão consiste nas respostas às indagações do contexto sobre o modo pelo qual
a passagem se relaciona com o capítulo, com o livro e com a Bíblia. O “capítulo
do amor”, 1Coríntios 13, é lido e é tema de pregação em casamentos, mas se
examinarmos seu contexto, entre 1Coríntios 12 e 14, veremos que não se trata do
amor romântico, mas de como promover a paz em uma comunidade destruída
por divisões. A declaração de Jesus “Eu sou a luz do mundo”, em João 8.12,
pode ser mais bem compreendida quando vemos, em João 7, que ele fez essa
afirmação durante a Festa dos Tabernáculos, comemorando a nuvem da glória de
Deus que conduziu Israel pelo deserto. Jesus, portanto, não está falando de um
poder de iluminação de modo geral. Ele está se identificando como a glória de
Israel, o Deus de Moisés, que se tornou um ser humano.
Escreva a resposta à questão do objetivo em uma ou duas sentenças. Essa
deverá ser a “essência recém-espremida da passagem”.12 Para forçá-lo a destilar
todo o seu material, dê um título à sua passagem e, caso ela seja mais longa, com
parágrafos e partes, dê a cada uma delas um título também.
ESCOLHA O TEMA DO SEU SERMÃO
Em seguida, escolha um tema principal para o sermão que apresente as ideias
centrais do texto dirigindo-se, ao mesmo tempo, a seus ouvintes em particular.
Talvez você queira destacar diferentes aspectos do ensino bíblico dependendo se
você tem um grupo homogêneo de crentes ou uma mistura de crentes e não
crentes. A ocasião poderá ser um culto, um retiro ou um casamento.
Mesmo que a ideia central do texto seja clara (mas nem sempre é assim),
não significa que haja apenas um tema para o sermão. A ideia textual central
pode, em geral, ser apresentada fielmente através de uma variedade de temas de
sermão. Sinclair Ferguson escreve: “Juntamente com esse exercício objetivo [o
discernimento da ideia central do texto], há um exercício de sensibilidade
espiritual […] O pregador não é um teólogo sistemático […] Ele é um pastor
[…] Nossa pregação não deve ser determinada pela necessidade, mas ela deve
ser voltada para as pessoas”.13 Ferguson está dizendo que devemos prestar
atenção tanto à ideia principal do texto (nossa primeira responsabilidade) quanto
às necessidades e capacidades dos ouvintes (segunda responsabilidade) para
determinar o tema do sermão. Alan Stibbs diz a mesma coisa: “Algumas
passagens são muito férteis. Elas são suscetíveis a vários tratamentos seletivos
de acordo com os pontos que nelas serão enfatizados e com o objetivo específico
e a correspondente aplicação que o pregador pode ter em vista”.14 Em outro
volume, David Jackman diz que o pregador deve ter não apenas o enunciado da
ideia principal do texto, mas também a “frase do objetivo”. Com isso ele quer
dizer: “Aquilo pelo que você está orando, o Espírito Santo terá prazer em fazer
na vida dos ouvintes como consequência do sermão”.15 A ideia central do texto e
o objetivo pastoral produzem juntos o tema do sermão.16
Para ilustrar o desenvolvimento do tema, Stibbs seleciona o texto de João
2.1-11, em que Jesus transforma água em vinho em uma festa de casamento em
Caná. A ideia principal do texto é encontrada no versículo 11. O milagre mostrou
a glória de Jesus ao apontar para sua morte, que nos purifica e nos assegura uma
alegria festiva. A tensão da trama na pequena narrativa gira em torno da resposta
bruta e enigmática de Jesus a Maria quando ela lhe diz que o vinho havia
acabado, seguindo-se então seu milagre que salva a alegria da festa. Jesus realiza
o milagre por meio de talhas de água normalmente usadas para a purificação dos
pecados, apontando para o propósito do seu próprio sangue derramado. Jesus
está indicando que ele terá de perder toda a alegria para que possamos recebê-la.
O milagre revela a glória de quem Jesus é e o que ele veio fazer. Contudo,
observamos vários aspectos dessa glória na passagem, e Stibbs mostra de que
modo podemos destacar essa ideia principal através de diferentes temas nos
sermões, dependendo do contexto em que estamos e das pessoas a quem estamos
nos dirigindo. Stibbs diz que, em um casamento, a atenção principal recairia
sobre o versículo 2 (“Jesus […] também [foi convidado] para o casamento…”), e
o tema do sermão poderia ser: “Jesus deve ser convidado para o seu casamento”.
Em uma reunião de oração, a atenção estaria voltada para o versículo 3 (“… a
mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho”), e o tema do sermão poderia
ser: “Por que e como orar”. Em uma mensagem dirigida à liderança e aos
obreiros cristãos, o destaque poderia estar no versículo 5 (“… Fazei tudo o que
ele vos disser”), e o tema seria: “Como ser útil na obra de Cristo”. Em um
sermão de domingo pela manhã para um público maior, que inclua pessoas de
todo o espectro da fé, a atenção principal poderia recair sobre o versículo 10
(“… mas tu guardaste até agora o melhor vinho”). Um possível tema seria: “A
alegria que Jesus traz”.
Em cada caso, a mesma ideia central da glória de sua morte salvadora em
particular é ressaltada de uma maneira diferente. Os sermões começam com
Jesus se oferecendo para participar de nosso casamento, respondendo à oração,
abençoando a obra dos colaboradores obedientes e trazendo a você a alegria que
vem buscando a vida toda. Como? Através de sua morte, que é gloriosa.17
Alec Motyer, estudioso da Bíblia, usa 1João 2.1,2 para demonstrar o mesmo
processo de deslocamento da ideia central do texto para o tema:

Meus filhinhos, eu vos escrevo estas coisas para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos um
Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente
pelos nossos, mas também pelos pecados de todo mundo.

Motyer diz que há pelo menos seis ideias ou verdades a respeito de Jesus
afirmadas nesses dois versículos: (1a) o objetivo de Jesus é que o pecado
diminua e desapareça da nossa vida; (1b) Jesus, porém, não nos abandonará se
pecarmos; (1c) Jesus é nosso advogado que ascendeu aos ceús e está perante o
Pai; (1d) Jesus é justo; (2a) Jesus faz propiciação pelos nossos pecados através
da expiação (do grego hilasmos); (2b) Jesus garante perdão dos pecados e o
torna disponível para nós e para o mundo todo.
Segundo Motyer, a ideia central da qual as demais dependem é a segunda
— que Jesus jamais nos abandonará ou desistirá de nós. O propósito da
passagem é que não pequemos, porém “se alguém pecar”, Jesus continuará a ser
nosso Advogado, o Pai ainda nos amará, nós ainda seremos perdoados. “Cada
uma dessas seis verdades transpira segurança celestial […] Ainda que
combatamos o pecado e constantemente percamos a batalha, [podemos],
plausivelmente, afirmar ser herdeiros e donos dessa grande salvação.”18
Motyer ecoa Ferguson e Stibbs quando diz que a ideia central do texto deve
ser posta no tema de um sermão “sob medida para a igreja à qual ministramos”.
Ele nos lembra que não temos apenas uma, mas duas responsabilidades quando
pregamos: “Primeiro, com a verdade e, em segundo lugar, com esse grupo
específico de pessoas. De que maneira elas ouvirão da melhor forma a verdade?
Como devemos moldá-la e expressá-la de modo que a compreendam de forma
palatável, que a ouçam com grande receptividade […] evitando ofensas
desnecessárias?”.19 Motyer diz, portanto, que nunca há apenas uma forma de
sermão possível. Embora a ideia principal do texto possa ser formulada como “A
garantia da nossa salvação”, este não precisa ser necessariamente o tema do
sermão. Se a igreja precisar de mais instrução em teologia cristã, o pregador
poderá se concentrar mais no fato de que Jesus é nosso advogado e intercessor
celestial porque subiu aos céus. O tema poderia ser “A realidade e o significado
da ascensão do Senhor”, em que a ênfase é nesse ensino bíblico e no que ele
significa para o crente. Poderia haver também uma série de razões pastorais
pelas quais o pregador talvez quisesse se concentrar na importante palavra
“propiciação” no texto, que se refere ao afastamento da ira divina. Assim
destaca-se o entendimento de como é completo e profundo o perdão que nos é
dado como consequência da cruz. O tema poderia ser: “Como Jesus nos salva
(significado da propiciação)”. Uma terceira abordagem poderia ser mais pessoal,
com o tema: “Como lidar com o pecado recorrente”. Em cada caso, o pregador
extrairia e apresentaria a ideia principal a respeito da nossa segurança e garantia
infalíveis. O tema do sermão variaria dependendo da familiaridade das pessoas
com a doutrina ou com o tipo de coisas que estejam enfrentando na vida.
Como vimos, muitos autores sugerem que o sermão seja elaborado
combinando a ideia principal do texto e o objetivo pastoral. No entanto, uma vez
que não se pode pregar um texto corretamente a menos que ele seja situado no
contexto da Bíblia toda e fique demonstrado de que maneira ele aponta para
Cristo, talvez queiramos escolher o tema do nosso sermão depois de responder
às seguintes perguntas:

Pergunta sobre a ideia principal do texto: “Sobre o que o texto está falando
e o que ele diz a respeito do que está falando?”.

Pergunta sobre o objetivo pastoral: “Que diferença prática esse ensino teve
para os leitores do autor e que diferença deve ter para nós?”.

Pergunta sobre Cristo: “De que modo o texto aponta para Cristo, e como
essa salvação nos ajuda a mudar em conformidade com o objetivo pastoral?”.

Depois de responder a essas perguntas, formule um tema principal para o
seu sermão. A ideia principal do texto deverá estar voltada para as pessoas. Será
proveitoso se o tema do sermão for uma frase vigorosa, declaratória. Por
exemplo, imagine que você tenha estudado João 16.16-23 e tenha chegado à
conclusão de que a “grande ideia” do texto é que “Jesus consola seus discípulos
com o ensino de sua segunda vinda”. O tema do seu sermão poderia ser: “O
cristão, por meio da esperança que Cristo dá, pode enfrentar qualquer coisa”.
DESENVOLVA UM ESBOÇO EM TORNO DO TEMA
Uma vez escolhido o tema, desenvolva um esboço em torno dele que revele o
significado da passagem — em que os pontos sejam consequência de suas
descobertas do texto — e crie uma tensão narrativa que caminhe em direção a
um clímax. Certo tipo de enredo se parece muito com um caso de tribunal: uma
declaração de fatos, uma tese e um argumento para a tese. Outro tipo de enredo é
mais semelhante à narração de uma história, com uma declaração de algo que
tenha desequilibrado a vida, uma história da luta para endireitar as coisas e a
descrição da resolução da trama.
Muitos pregadores expositivos dos primeiros séculos não elaboravam
esboços propriamente ditos. Em vez disso, teciam comentários sobre versículos
consecutivos. Havia, é claro, um esboço implícito nesse método. O pregador
dividia o texto em unidades lógicas de ideias, tratando três ou quatro versículos
como uma unidade seguida de outra unidade, e quando chegava ao final da
passagem ele resumia os temas e os ensinamentos principais. Em outras
palavras, o esboço de um sermão era simplesmente a estrutura consecutiva da
passagem, e o pregador pouco fazia para sugerir outra organização qualquer das
ideias. Não foi senão na Idade Média que o esboço de sermão se tornou usual
para os pregadores.20 Embora João Calvino procurasse reviver o método
consecutivo de comentários em série de Crisóstomo e outros pregadores cristãos
da Antiguidade, a maior parte de seus contemporâneos protestantes estavam
mais interessados em recuperar os métodos retóricos dos gregos e romanos,
adaptando-os para a igreja. Os puritanos e seus herdeiros desenvolveram um
esboço bastante escolástico e clássico para cada sermão, com uma única
proposição, com uma rigorosa análise dela e com sua defesa e aplicação
exaustiva.21
Nos últimos 200 anos, criou-se um consenso em torno das qualidades do
esboço do sermão. Ele deve ter unidade, isto é, todos os pontos devem convergir
para o tema principal. Deve ter proporção, isto é, todos os pontos devem receber
tempo e importância praticamente iguais, de modo que o ritmo e o progresso do
pensamento não pareçam lentos demais ou rápido demais. Ele deve ter ordem,
isto é, os pontos não devem estar apenas relacionados ao tema; eles devem ser
estabelecidos uns sobre os outros, fazendo avançar o pensamento, e não
repetindo simplesmente o que foi dito antes. Por fim, ele deve ter movimento, ou
seja, o esboço do sermão não deve apenas apresentar dados de maneira
ordenada, tampouco deve apenas oferecer a “defesa” de uma proposição. Ele
deve dar às pessoas a percepção de que estão sendo conduzidas para algum
lugar, cooperando para chegar a algum tipo de clímax até que, finalmente,
estejam face a face com Deus. (E, sim, isso inclui sermões expositivos sobre
textos não narrativos também. Tratarei do movimento na próxima seção.)22
Todos os pontos do seu esboço devem esclarecer ou justificar
progressivamente seu tema, de modo que ele se torne mais claro, rico e
convincente conforme o sermão se desenrola. Desse modo, o esboço imprime
não apenas ordem, mas também disciplina. Ele obriga o pregador a praticar a
arte crucial de saber o que deixar de fora. Talvez você tenha deparado
recentemente com citações e exemplos que dariam excelentes ilustrações para os
seus sermões, mas se eles não se encaixarem no esboço, cujas partes convergem
para o tema, é melhor guardá-los para outra ocasião.
O esboço também o ajuda a garantir que os pontos principais do seu sermão
expositivo brotem do texto. Em seu estudo, você reuniu uma série de ideias
interessantes tiradas do texto. Em seguida, você fez a pergunta sobre o objetivo
do texto e determinou quais das ideias eram, por assim dizer, o tronco (a ideia
central) e as que eram apenas ramos. Depois disso, podem-se organizar as ideias
secundárias para formar os pontos do sermão, sendo que cada uma delas
esclarece ou trabalha a ideia principal.
Não é muito difícil ver que Marcos 2.1-12, a cura do paralítico, relaciona-se
com perdão de pecados. O termo “perdoados” ou “perdoar” ocorre quatro vezes,
e toda a tensão da narrativa na passagem gira em torno de Jesus e de seu direito
de perdoar pecados, bem como do desafio dos escribas que contestam esse
direito. Há, porém, muitos outros elementos a observar no texto. Jesus não dá
primeiramente ao homem a coisa mais básica que os amigos queriam que ele
recebesse, isto é, a cura física. Outra observação importante é que Jesus parece
intuir o estado interior do homem, uma vez que o perdão requer arrependimento
e o homem jamais o verbaliza. Outra questão fundamental no texto é a pergunta
de Jesus: “O que é mais fácil dizer ao paralítico: Os teus pecados estão
perdoados, ou: Levanta-te, toma a tua maca e anda?” (v. 9). É uma pergunta
ardilosa porque, embora possa parecer mais difícil realizar a cura física do que
perdoar, no fim das contas, será preciso que Jesus morra para garantir a remissão
de pecados.
Todos esses itens e ideias podem se tornar pontos do esboço. O tema do
sermão poderia ser “a verdadeira cura do perdão”. O esboço seria assim
estruturado: (1) a necessidade do perdão; (2) a graça do perdão; e (3) o custo do
perdão. Os versículos de 1 a 4 mostram a necessidade disso. Quando Jesus
perdoa antes de curar, ele mostra que nossa necessidade espiritual para um
relacionamento justo com Deus é mais básica do que a necessidade de cura física
ou qualquer outra coisa. O versículo 5 mostra a graça desse relacionamento.
Jesus responde até mesmo aos anseios não articulados do homem, mostrando
que não é preciso ter tudo ao mesmo tempo para poder receber o perdão de
Deus. Basta querer. Tudo de que você precisa é a necessidade; você não precisa
de mais nada. O versículo 9, a questão enigmática, nos coloca à sombra da cruz.
É preciso um grande poder para curar um homem fisicamente, mas será
necessário um sofrimento infinito, morte e um amor surpreendente para que
Jesus possa nos perdoar. Contudo, ao recebermos isso, seremos curados de fato
da única doença que pode realmente, por fim, nos matar.
Alec Motyer deu mais um exemplo disso com o salmo 51.23 Ele aponta
para nove palavras importantes no texto (na versão New King James, NKJV):
“misericórdia”, “bondade amorosa”, “ternas misericórdias”, “apagamento”,
“transgressões”, “lavagem total”, “iniquidade”, “purificação” e “pecado”. A
ideia central da passagem é mostrar como Deus lida com nosso pecado. Motyer
examina cada palavra para ver o que ela significa no restante da Bíblia. Ele
conclui que três das palavras definem o que é o pecado, três palavras descrevem
o que precisamos de Deus para lidar com ele e três palavras descrevem o que
devemos dizer a Deus para receber o que necessitamos. Motyer observa em
seguida que todas essas observações podem ser apresentadas como pontos
básicos do sermão, porém o tema do sermão determinará como fixar esses
pontos. Trata-se de um sermão para cristãos sobre um aspecto importante da
oração? Então o tema do sermão seria como confessar nossos pecados. O esboço
poderia ser: (1) por que devemos confessar; (2) o que devemos confessar; e (3)
como devemos confessar. Nesse caso, cada tríade de palavras poderia ser usada
para preencher cada um dos pontos.
Ou será que se trata de um sermão dirigido a um público formado por muita
gente que não acredita ou que não sabe no que crê? Se assim for, um possível
título para o sermão seria: “Quando a vida entra em caos”. O esboço poderia ser:
(1) não somos o que deveríamos ser; (2) por que não somos o que deveríamos
ser; e (3) o que podemos fazer a esse respeito. Esse sermão apresentaria um pano
de fundo mais amplo sobre o ambiente do salmo 51, recontando de que maneira
Davi — o melhor rei que Israel já teve —, ainda assim de coração tão
imperfeito, trouxe “caos à sua vida” quando teve um caso extraconjugal. O
primeiro ponto poderia estabelecer que somos mais frágeis e mais inclinados ao
desastre do que gostaríamos de admitir. A palavra hebraica traduzida por
“pecado” significa errar o alvo. É algo que vai além da mera violação das regras.
Significa deixar de ser tudo o que sabemos que deveríamos ter sido. O segundo
ponto de por que erramos o alvo poderia ser elaborado com base em dois
subpontos: a absorção por nós mesmos, o fato de sermos inclinados para nós
mesmos (“iniquidade” significa estar curvado ou torto); e nossa vontade própria
(“transgressão” refere-se a obstinação e a teimosia). Essas duas coisas fazem do
mundo um lugar infeliz. O terceiro ponto não precisa usar as seis palavras-
chaves restantes, mas deve concentrar-se no termo hebraico traduzido como
“apagamento”, isto é, existe uma espécie de detergente cósmico-espiritual, por
assim dizer, capaz de remover pecados até a última fibra (Hb 9.14), o qual
poderia nos levar até Hebreus 9 e à obra de Cristo.
O MOVIMENTO DO SERMÃO
Seu esboço precisa ter movimento, progressão, tensão.24 Ouço muitos sermões
que são simplesmente uma série de bons pensamentos que poderiam muito bem
ser dispostos em qualquer ordem — ainda que sejam fielmente baseados no texto
e, em geral, estejam de acordo com o tema do sermão. Trata-se, na verdade, de
uma série de minissermões, geralmente tediosos, ainda que transmitidos com
convicção. Todos os pontos de um sermão persuasivo devem contribuir com algo
novo para o tema, com base nos anteriores, recorrendo, às vezes, a pistas e
pensamentos não desenvolvidos e mencionados anteriormente, mas expostos no
momento certo, posteriormente. Nos seus sermões, você deve injetar certo
suspense que crie uma avidez para ouvir o que virá a seguir e uma sensação de
viajar em direção a um destino. Pregadores habilidosos são capazes de propor
pontos logo no início de tal maneira que criam com isso interrogações na mente
dos ouvintes: “Se isso for verdade, não estaria em contradição com aquela outra
parte?”, ou: “Não haveria um problema aí? Se é isso o que a Bíblia diz, como
responder àqueles que objetam a isso dessa ou daquela maneira? Se é isso o que
devemos fazer, onde acharemos os recursos para tanto?”. Desse modo, o
pregador pode responder às perguntas que estão no coração dos ouvintes à
medida que avança com o sermão.
Eugene Lowry diz que mesmo que o pregador não esteja pregando uma
história bíblica, os pontos do sermão devem, ainda assim, soar como se fizessem
parte da narrativa.25 Uma narrativa se inicia quando algo tira a vida do
equilíbrio. A vida agora não é mais como deveria ser. Por exemplo,
“Chapeuzinho Vermelho levou para a vovó algumas guloseimas” é apenas um
fato. Contudo, “Chapeuzinho Vermelho ia para a casa da vovó, mas um grande
lobo mau estava esperando por ela para comê-la” é uma narrativa. Conforme a
história se desenrola, a trama se complica: as personagens principais lutam para
recobrar o equilíbrio inicial. Há sempre protagonistas e forças lutando em busca
da restauração do equilíbrio, bem como antagonistas e forças contrárias à
restauração e aos protagonistas. Por fim, a história termina quando o embate
resulta ou na restauração do equilíbrio — em que os desejos dos protagonistas (e
dos ouvintes) se reconciliam com a realidade objetiva —, ou na impossibilidade
de recuperá-lo. Portanto, toda história se baseia em uma suposição acerca de
como a vida deveria ser, um problema ou uma força que a impedem de ser dessa
maneira, e um caminho por meio do qual é possível restaurá-la.26
Lowry acredita que o fluxo e o movimento do sermão (embora não
necessariamente incorporados em tópicos ou pontos explícitos) normalmente
deveriam seguir esse padrão geral. Em primeiro lugar, apresentar o problema,
mostrando a maneira particular indicada no texto pela qual o pecado interfere no
bom andamento da vida, o que Bryan Chapell chama de “o eixo da condição
decaída”.27
Em seguida, crie tensão buscando debaixo da superfície as razões pelas
quais o problema é tão difícil e tão persistente. É crucial nesse ponto incursionar
por debaixo do comportamento pessoal e social até chegar às motivações do
coração.28 Talvez sejamos egoístas com nosso dinheiro, mas a simples exortação
não funcionará, porque o dinheiro é mais do que simplesmente dinheiro para
nós; ele é identidade e segurança. Esse segundo movimento deve sempre
recapitular a mensagem do evangelho segundo a qual não dispomos dos recursos
para salvar a nós mesmos. Parece não haver chance alguma (e é isso mesmo).
Em seguida, mostre como Jesus, sua salvação e a fé nele resolvem nosso
problema de maneira objetiva e subjetiva. Jesus é o modelo, alguém que viveu a
vida humana que nós deveríamos estar vivendo. Ele morreu para nos salvar da
culpa e das consequências do nosso fracasso. Contudo, além de tudo isso, a fé
em Cristo sempre resolve com perfeição o problema fundamental que está na
raiz da dificuldade. Não nos desapegaremos do dinheiro até que tenhamos obtido
nova segurança e identidade em Jesus. Não amaremos corretamente nosso
cônjuge até que tenhamos preenchido nossa necessidade interior com o amor
conjugal de Cristo. O segundo e o terceiro movimentos do sermão estão mais
intimamente entrelaçados. Se, ao analisar o eixo da condição decaída, você
interpretar o problema como uma questão de comportamento, disso segue que a
única solução será uma exortação que o incite a tentar com uma dose redobrada
de esforço. A menos que você chegue até o nível da dinâmica e da motivação do
coração, o poder transformador do evangelho de Cristo não parecerá ser a única
solução direta do problema.
É por isso que o sermão, quando se desenrola como uma narrativa, numa
trama que gradativamente se complica e com pouca esperança, pode, nesse
momento, produzir o que Tolkien chama de “guinada”, o que é presente em
todas as boas histórias. Há uma reversão, uma inversão das expectativas normais
e uma súbita resolução da trama que é contrária à intuição e é satisfatória.29 É aí
que o evangelho, a pessoa e a obra de Cristo são aplicados ao problema, e ele é
proclamado como única solução para esse problema, diferentemente de qualquer
coisa que o mundo tenha para oferecer. É assim que Jesus será infalivelmente o
“herói” de todo sermão bem arquitetado.30
Segue-se outra maneira de analisar o movimento subjacente do sermão para
colocá-lo sob a perspectiva do evangelho, uma trama de Queda-Redenção-
Restauração. Lembre-se de que estes são tópicos raramente ou nunca
anunciados, ou mesmo os pontos do seu esboço. Penso neles como um
metaesboço, o padrão profundo do evangelho, de todo sermão que prego:

Introdução Qual é o problema; nosso contexto
cultural contemporâneo: É isto o que
temos diante de nós.
O que a Bíblia diz; o contexto cultural
Pontos iniciais original do leitor: É isso o que devemos
fazer.
O que nos impede; contexto interior do
Pontos intermediários coração dos ouvintes atuais: Por que
não conseguimos fazê-lo.
Como Jesus cumpre o tema bíblico e
Pontos finais resolve o problema principal: Como
Jesus o fez.
Como você deve viver agora pela fé em
Aplicação
Jesus.
Apresento os pressupostos por trás desse padrão profundo. Um deles é que
a Bíblia lida com questões interiores que se aplicam a todo ser humano de
qualquer lugar e século. Portanto, as questões interiores dos leitores originais se
sobreporão às dos ouvintes do pregador. Além disso, em todo texto da Escritura,
há imperativos, normas morais sobre como devemos viver. Essa norma pode ser
vista no que aprendemos sobre o caráter de Deus ou de Cristo, ou no bom ou
mau exemplo das personagens do texto, ou em ordens, advertências e
convocações explícitas. O pressuposto seguinte é que esse imperativo moral
sempre dá lugar a uma crise, uma vez que, quando adequadamente
compreendida, a obrigação prática e moral da Escritura não está ao alcance de
nenhum ser humano. Se o pregador não deixar isso claro, o sermão partirá para o
moralismo, para a afirmação implícita ou explícita de que nossos esforços
morais seriam suficientes para agradar a Deus. Se, em vez disso, o pregador
deixar clara a crise, então o ouvinte que vinha acompanhando o fio da meada do
sermão até este ponto é conduzido a um beco aparentemente sem saída. Então,
quando apontamos para o evangelho, uma porta oculta se abre e a luz entra.
Jesus cumpriu a exigência da lei em nosso lugar e por isso ele nos protege da
condenação. Mais do que isso, porém, quando colocamos nossa fé nessa
realização salvadora, ela muda a estrutura do nosso coração, derretendo o que é
gelado e fortalecendo-o em seus pontos fracos. A fé em Jesus é nossa única
esperança — mas é uma esperança garantida.
O sermão afasta-se definitivamente agora da argumentação e do ensino em
direção à adoração e ao assombro ao mostrar de que maneira só Jesus Cristo foi
capaz de cumprir o que se exigia. Se o texto for uma narrativa, pode-se mostrar
como seus personagens apontam para Cristo como o supremo libertador,
sofredor, profeta, sacerdote, rei e servo. Se for um texto didático, pode-se
mostrar de que maneira Cristo é a encarnação definitiva da norma moral e a
única maneira de nos tornarmos pessoas capazes de segui-lo. Por fim, o sermão
pode se estender um pouco explicitando maneiras práticas pelas quais a fé em
Cristo dever moldar nossa vida nessa área.
ESTUDO DE CASO N.O 1: MENSAGEM EXPOSITIVA
Segue um exemplo de aplicação desse padrão profundo à história de Abraão e
Isaque em Gênesis 22.

1. O que você deve fazer: Devemos colocar Deus em primeiro lugar em
todas as áreas da vida, como fez Abraão. (Aqui termina o sermão tradicional!)
2. Mas você não consegue: Não conseguimos! Não o faremos! Portanto
merecemos ser condenados.
3. Houve, porém, alguém que o fez: Jesus pôs Deus em primeiro lugar, na
cruz. Ele foi o ato de submissão a Deus definitivo e perfeito. Jesus é o único a
quem Deus disse: “Obedeça-me, e, em consequência, eu o julgarei e o
condenarei”. Mesmo assim Jesus obedeceu — simplesmente por causa da
verdade, por causa de Deus. O único ato perfeito de submissão.
4. Só agora podemos mudar: Só quando virmos que Jesus obedeceu a
Deus, como o fez Abraão — por nós! — começaremos a viver como Abraão.
Deixe seu coração ser moldado por isso.
Só quando eu vir que Deus já me aceitou é que poderei começar a tentar a
viver como Abraão. Eu jamais entraria por esse caminho de obediência como a
de Abraão. Ficaria tão desanimado com meus fracassos. Contudo, Deus já me
dispensou seu amor antes da minha obediência. Sem saber disso, eu jamais teria
coragem de começar ou de prosseguir.
Somente quando eu vir que Deus já me aceitou é que poderei lidar com as
verdadeiras razões que me impedem de viver como Abraão. Coloquei meus
“Isaques” antes de Cristo porque achava que me dariam mais segurança e mais
valor do que ele. Somente ao me regozijar em minha aceitação é que esses
“Isaques” perderão seu poder sobre mim. Do contrário, não teria condições de
fazer progresso algum.
Somente quando eu vir que Deus me aceitou poderei viver como Abraão
pela razão certa e não destrutível. Quando ouço esse sermão sobre Abraão,
percebo que posso tentar obedecer a Deus, de modo que ele me dará uma vida e
uma família feliz. Contudo, se eu obedecer desse modo, não o estarei
obedecendo por amor a ele. Estou usando a lei de Deus para controlá-lo, e não
para louvá-lo. Se não me alegrar, se não vir e se não descansar na obediência de
Cristo por mim, jamais estarei obedecendo pela razão certa.
ESTUDO DE CASO N.O 2: MENSAGEM BASEADA EM UM
TÓPICO
Segue um exemplo de esboço de sermão sobre o poder da beleza e da atração
sexual em nossa cultura.

1. O que você deve fazer: É preciso romper com o poder que a beleza
física tem sobre nós. Observe a destruição que ela provocou em nossa sociedade
e em nossa vida: (1) ela distorce a ideia que as mulheres têm de si mesmas
(resultando em autodepreciação e transtornos alimentares); (2) ela humilha os
idosos; (3) distorce a vida dos homens fazendo com que rejeitem uma
maravilhosa perspectiva conjugal, por razões superficiais, levando-os à
pornografia. O que devemos fazer? Não julgue um livro pela capa. Não seja
controlado por uma coisa superficial.
2. Mas não consegue: Você sabe muito bem que não conseguimos escapar
do seu poder. Por quê? (1) Desejamos a beleza física para cobrir nossa percepção
pessoal de vergonha e de insuficiência (Gênesis 3). “Quando seu visual é bonito,
você se sente bem consigo mesmo” significa, na verdade, “quando seu visual é
bonito, você se acha bom”. (2) Temos receio de nossa mortalidade e da morte.
Os biólogos evolucionistas e os cristãos concordam que o anseio pela beleza
física é o desejo pela juventude. Jamais venceremos nosso problema apenas
tentando vencê-lo.
3. Houve, porém, alguém que o fez: Houve alguém que foi incrivelmente
belo, mas abriu voluntariamente mão disso (Fp 2). Ele se tornou feio para que
nos tornássemos belos (Is 53).
4. Só que agora podemos mudar: Só quando virmos o que ele fez por nós
nosso coração derreterá e se libertará da crença de que podemos julgar um livro
pela capa. Somente quando estivermos nele estaremos livres do sentimento de
vergonha e do receio da mortalidade.
DESENVOLVA OS PONTOS
Por fim, você deve dar substância aos pontos do seu esboço por meio de uma
grande variedade de argumentos, ilustrações, exemplos,
imagens e textos bíblicos de apoio, bem como outras formas de aplicação
prática e recursos de retórica. O número e a natureza dessas coisas dependem das
escolhas que você fizer previamente no tocante ao objetivo da passagem, seu
tema e a estrutura do seu esboço.
Vou direcionar minhas sugestões aqui para um aspecto do desenvolvimento
da estrutura do esboço. No capítulo 6, vimos como preparar uma aplicação
eficaz. Aqui darei alguns exemplos de aplicações em sintonia com o evangelho, e
não com uma linha moralista (como é tão comum). Como chamar as pessoas
para que obedeçam com base no texto sem ser moralista? Como mudar o
coração delas, de modo que queiram obedecer, em vez de subjugar sua vontade
simplesmente para que obedeçam?

Fidelidade
Em Gênesis 12 (chamado de Abraão), Abraão sai de sua zona de conforto e
segue o chamado de Deus, embora tivesse de partir sozinho, sem a família,
deixando para trás sua cultura natal. Ele poderá se tornar uma bênção para outros
somente se estiver disposto a abandoar as fontes normais de segurança humana.
Jesus, porém, foi o exemplo perfeito de alguém que ouviu o chamado para que
se afastasse de seu perímetro de segurança. Ele deixou o céu e sua glória (Fp 2)
para morrer por nós. Jesus perdeu sua segurança, de modo que pudéssemos ter a
segurança definitiva — seu amor e salvação. Se tivermos isso, seremos capazes
de correr o risco de nos aproximarmos de outras pessoas e culturas. Só então nos
tornaremos pessoas, ou discípulos, “em missão”.

Cuidando do pobre
É notável o quanto Deus se identifica com o pobre. Provérbios 19.17 diz que, se
formos generosos com o pobre, seremos generosos com o Senhor; Provérbios
14.31 diz que, se insultarmos o pobre ou formos rudes com ele, insultamos o
Senhor. Um exemplo extraordinário disso aparece em Mateus 25, em que Jesus
diz que, quando alimentamos o faminto, vestimos o que está nu, abrigamos o
desabrigado, estamos alimentando e dando abrigo a “mim” [isto é, ao Senhor]. É
tentador pregar sobre essas passagens dando a elas uma conotação moral,
dizendo às pessoas que devemos nos identificar com o pobre e cuidar dele.
Contudo, com frequência descobrimos que, quando tentamos fazê-lo, as coisas
não dão certo. Nós nos vemos cheios de um orgulho insensível e ofendemos o
pobre. Ou ficamos com o sentimento ferido quando ele não responde à nossa
gratidão. Ou ficamos impacientes se ele parece não estar respondendo bem. Há
muito orgulho e muito pouco amor de nossa parte. Isto se deve ao fato de que
tentamos aplicar diretamente o ensino bíblico sem permitir que a fé em Jesus
reestruture nosso coração.
Sim, vemos que o Deus do Antigo Testamento se identifica com o pobre;
mas só quando Jesus veio é que vimos o quão longe ele foi para fazer isso. Em
Jesus, Deus, a um só tempo de maneira figurada e literal, esteve entre os pobres!
Nasceu em uma manjedoura reservada a pais pobres. Viveu praticamente sem ter
onde morar e dizia: “As raposas têm tocas, […] mas o Filho do homem não tem
onde descansar a cabeça” (Lc 9.58). Quando ele morreu, jogaram sortes sobre
suas vestes, seus únicos bens, e ele foi enterrado em uma sepultura emprestada.
E não foi só isso. Ele também foi vítima da falta de justiça. Ele sabia como era
ser pobre, marginalizado e oprimido. Por fim, ele foi desnudado e morreu de
sede e de exaustão pendurado na cruz. Portanto, no último dia, quando as
pessoas disserem a Jesus: “Quando foi que te vimos com sede, nu e na prisão?”,
Jesus dirá: “Na cruz! Ali, eu, que deveria estar isento, fui condenado para que
você, que merece a condenação, fosse liberto. Essa é a base verdadeira para uma
vida de justiça e de cuidado para com o pobre”. Ver Jesus nos abraçando, nós
que somos espiritualmente pobres, nos ajuda a entender que não somos melhores
do que o pobre de maneira alguma. Isso deveria tirar de nós qualquer atitude
arrogante e de impaciência.

Adultério e amor conjugal
Ao pregar a casais sobre fidelidade a seus respectivos cônjuges, em algum
momento você deve mostrar a eles que o egoísmo do coração os impedirá de
serem fiéis, a menos que tenham o amor do seu verdadeiro cônjuge, Jesus. Ele
foi fiel a nós e pagou por isso um preço infinito. Este ato de fidelidade nos leva a
ser fiéis ao nosso cônjuge. Ele nos ama tanto que não necessitamos do amor do
nosso cônjuge como afirmação suprema em nossa vida. Se assim for, ficaremos
emocionalmente muito dependentes do nosso cônjuge e não conseguiremos lidar
com seus altos e baixos ou com suas falhas. Em Cristo, temos a afirmação de
que precisamos — portanto, não temos de olhar para nenhum outro lugar,
mesmo que nosso cônjuge seja imperfeito. Em Efésios 5, Paulo está se dirigindo
aos cônjuges, mas, especialmente, ao que tudo indica, aos maridos. Muitos deles
trouxeram de culturas pagãs (assim como nós trazemos da nossa cultura) atitudes
desumanizadoras em relação ao casamento. Na época de Paulo, o casamento era
visto sobretudo como uma relação comercial (a pessoa deveria se casar tão bem
quanto pudesse). Paulo queria encorajar os maridos a serem não apenas
sexualmente fiéis às suas esposas, mas também a tratá-las com carinho e a
honrá-las. Em Efésios 5, ele não apresenta aos maridos indiferentes para com
suas mulheres um simples exemplo moral, mas (novamente) lhes mostra a
salvação de Jesus, que foi para nós o cônjuge verdadeiro no evangelho. Ele
demonstrou amor sacrifical para conosco, que somos esposa dele. Ele não nos
amou porque éramos belos, mas para que nos tornássemos belos.

Dízimo e generosidade
Se você pregar sobre o dízimo, em algum momento terá de chegar ao doador
supremo, que a um preço infinito nos deu não apenas o dízimo de sua riqueza,
mas toda ela. Isso nos dá a segurança e a alegria de doar nossa riqueza, uma vez
que a única segurança real a longo prazo é a de sermos ricos nele. Em 2Coríntios
8 e 9, Paulo quer que as pessoas façam uma oferta aos pobres. No entanto, diz o
apóstolo: “Não quero obrigá-los. Não quero que essa oferta seja simplesmente
uma resposta à minha demanda”. Ele não pressiona diretamente a vontade
(dizendo, por exemplo, “Sou apóstolo e esta é sua obrigação para comigo!”) ou
as emoções (contando-lhes histórias para que saibam o quanto os pobres estão
sofrendo e o quanto eles têm a mais do que aqueles que sofrem). Em vez disso,
Paulo diz de forma vívida e inesquecível: “Pois conheceis a graça de nosso
Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, tornou-se pobre por vossa causa, para que
fôsseis enriquecidos por sua pobreza” (2Co 8.9). Quando ele diz “… conheceis a
graça”, ele está, é claro, lembrando-os espiritualmente dessa graça recorrendo a
uma imagem poderosa, levando a salvação de Jesus para o campo do dinheiro,
da riqueza e da pobreza. Ele os motiva através da lembrança espiritual do
evangelho.
Ao aplicar textos como esse sobre ética e mandamentos, há uma razão
teológica, retórica e prática para que você baseie sua aplicação em torno da obra
de Jesus, em vez de baseá-la em mérito ou esforço. Em temos teológicos, a
santificação começa só quando crescemos na fé — conforme a realidade do que
Cristo fez por nós pessoalmente liberta nosso coração da necessidade dos ídolos.
O pecado por trás de todo pecado é o fracasso de crer no evangelho no momento
em que nos voltamos para um ídolo. Portanto, o coração dos ouvintes pode ser
amolecido e reprogramado somente se for levado a Jesus. Caso contrário,
acreditaremos que podemos ser santificados graças ao nosso próprio esforço.
Portanto, a razão teológica é que não será cristianismo se for de outra forma.
A razão retórica é que a pregação moralista é tediosa. Toda família, toda
cultura, toda época tem suas formas prediletas de discurso motivacional. Em
determinado nível, elas mexem com nossas emoções e nos impulsionam à ação a
curto prazo. Contudo, são tão comuns que acaba sendo fácil demais ignorá-las.
No momento em que as pessoas começam a perceber o surgimento de um
padrão, elas se fecham, pois querem evitar a culpa (“Pronto, mais uma coisa que
estou fazendo errado”) e o desalento (“Nunca fui capaz de fazer isso e jamais
serei”) que invariavelmente se seguem. Depois que tiverem se desligado, é muito
difícil capturar novamente sua imaginação.
Por fim, a razão prática é que a aplicação moralista não funciona a longo
prazo. Receio que um sermão que diz simplesmente às pessoas que elas devem
ser generosas porque assim é que devem ser não está lidando com seus temores,
falsas esperanças e anseios de aprovação e de controle que as indispõem a dar
mais. Portanto, é possível que elas deem mais uma vez e outra mais, porém não
se tornarão por causa disso realmente generosas. Um sermão que apenas diga às
pessoas que amem seus pais ou seus filhos e não lide com as razões subjacentes
pelas quais isso é difícil não mudará realmente as coisas na casa das pessoas. A
menos que você lhes apresente Jesus, estará apenas golpeando a vontade delas,
tentando levá-las à virtude comum, remexendo seu temor e orgulho, e pondo
panos quentes sobre eles. O efeito não vai durar muito.
NOTAS
1Segue uma lista de bons livros sobre pregação expositiva. Selecionei alguns deles em ordem
cronológica. William Perkins, The art of prophesying with the calling of the ministry (primeira edição em
inglês, 1606; reimpr., Edinburgh: Banner of Truth, 1996); Alan M. Stibbs, Understanding God’s Word
(Chicago: InterVarsity, 1950), Obeying God’s Word (Chicago: InterVarsity, 1955) e Expounding God’s Word
(Chicago: InterVarsity, 1960) (esses três breves volumes juntos constituem um curso sobre pregação
expositiva); D. M. Lloyd-Jones, Preaching and preachers (1971; edição de 40 anos de aniversário, Grand
Rapids: Zondervan, 2011) [edição em português: Pregação e pregadores, 2. ed., 3. reimp.,tradução de João
Bentes Marques (São José dos Campos: Fiel, 2011)]; Haddon Robinson, Biblical preaching: the
development and delivery of expository messages (Grand Rapids: Baker, 1980) [edição em português:
Pregação bíblica: o desenvolvimento e a entrega de sermões expositivos, 2. ed. (São Paulo: Shedd, 2008)];
John R. W. Stott, Between two worlds: the challenge of preaching today (Grand Rapids: Eerdmans, 1982);
J. I. Packer, “Why preach?”; Samuel T. Logan, “The phenomenology of preaching”; Edmund P. Clowney,
“Preaching Christ from all of Scripture”; Sinclair Ferguson, “Exegesis”; Glen C. Knecht, “Sermons
structure and flow”; e John F. Bettler, “Application”; in: Samuel T. Logan, org., The preacher and
preaching: reviving the art in the twentieth century (Phillipsburg: P+R Publishing, 2011); Bryan Chapell,
Christ-centered preaching: redeeming the expository sermon (Grand Rapids: Baker Academic, 1994)
[edição em português: Pregação cristocêntrica: restaurando o sermão expositivo (São Paulo: Cultura
Cristã, 2002)]; Peter Adam, Speaking God’s Words: a practical theology of preaching; William Philip; Dick
Lucas, The unashamed workman: instructions on biblical preaching, Preaching Workshops on Video Series
1 (London: Proclamation Trust, 2001); William Philip, ed., The practical preacher: practical wisdom for
the pastor teacher (Ross-shire: Christian Focus, 2002); David Murray, How sermons work (Welwyn Garden
City: Evangelical Press, 2011); Mark Dever; Greg Gilbert, Preach: theology meets practice (Nashville:
Broadman and Holman, 2012) [edição em português: Pregue: quando a teologia se encontra com a prática
(São José dos Campos: Fiel, 2016)]; Gary Millar; Phil Campbell, Saving Eutychus: how to preach God’s
Word and keep people awake (Sydney: Matthias Media, 2013); Alec Motyer, Preaching? Simple teaching
on simply preaching (Fearn/Tain/Rossshire: Christian Focus, 2013); David Helm, Expositional preaching:
how we speak God’s Word today (Wheaton: Crossway, 2014) [edição em português: Pregação expositiva:
proclamando a palavra de Deus hoje (São Paulo: Vida Nova, 2016).
2Esses quatro passos foram resumidos com base em Motyer, Preaching?; Helm, Expositional
preaching; Robinson, Biblical preaching; Chapell, Christ-centered preaching; Millar; Campbell, Saving
Eutychus; Stott, Between two worlds; Logan, Preacher and preaching; Stibbs, Expounding God’s Word;
Dever; Gilbert, Preach; e Thomas G. Long, The witness of preaching, 2. ed. (Louisville: John Knox, 2005).
Há diferenças consideráveis entre esses livros. Alguns propõem que se escreva uma “declaração de tese”
para o sermão, ao passo que outros não. A maioria apresenta numerosos passos e todos trazem instruções
mais explícitas. Contudo, essas quatro instruções básicas, aproximadamente nessa ordem, são defendidas
por todos os autores de uma ou outra maneira.
3Não estou aqui aconselhando sobre a seleção de textos para pregação (exceto pelo que se encontra
nesta nota). Um “texto de pregação” ou “porção de pregação” é uma seção da Escritura selecionada para ser
lida e para servir como fonte da pregação. Um texto de pregação será curto demais se não puder ser
explicado sem referências constantes aos versículos próximos. Se isso acontecer, então esses versículos
deverão ser lidos e considerados parte da porção de pregação. Um texto de pregação será longo demais se
(a) houver simplesmente muita coisa a dizer a seu respeito e (b) se houver inúmeras “grandes ideias” na
porção de pregação. Aqui a seleção de uma ideia central ajuda a determinar quantos versículos deverão ser
lidos e cobertos. Se você estiver pregando sobre o perdão, selecione os versículos que sustentam a discussão
sobre perdão e não vá além disso, incursionando por tópicos importantes que obscureçam o tema do perdão.
Para uma boa visão panorâmica sobre como escolher um texto, veja David Murray, “Selection: what is a
text” e “Variation: varying the sermons”, in: How sermons work, p. 21-33 e 59-69. Murray aconselha que se
busquem textos de pregação com ideias completas e verdades fundamentais (que permeiam a Bíblia toda) e
que sejam breves (o suficiente para que sejam examinados em uma pregação), claros (o suficiente para que
não obrigue o pregador a percorrer a Bíblia toda para elucidá-los), variados (para que a igreja não fique
presa a um livro, gênero ou tópico durante meses) e espiritualmente adequados (para a ocasião e para as
necessidades e capacidades das pessoas) (p. 31-2).
4Para esse passo de preparação do sermão, recomendo especialmente Sinclair Ferguson, “Exegesis”,
in: Logan, Preacher and preaching.
5Se tiver preparo, traduza você mesmo o texto do grego ou do hebraico e analise o texto traduzido.
Isso é muito útil porque o leva a ver rapidamente os termos gregos ou hebraicos que, com frequência, são
deixados de fora ou têm nuances que a tradução em português não comporta. Contudo, mesmo que você
faça isso, terá de estudar também a tradução em português que usará em sua leitura e pregação.
6Há quem digite os comentários em um computador copiando e colando todo o texto bíblico e
digitando a seguir seu comentário pessoal em outra cor como, por exemplo, vermelho, embaixo de cada
versículo. Outros escrevem o texto todo à mão em meia página de caderno acrescentando os comentários na
outra metade da página (Está comprovado que escrever à mão ajuda a aprender e a reter informações de um
modo que a digitação não permite.)
7Talvez a melhor ferramenta de referência online seja o site www.BibleStudyTools.com. As melhores
ferramentas pagas são a Logos Bible Software e a BibleWorks.
8O recurso sem paralelo aqui é Leland Ryken, et al., Dictionary of biblical imagery (Downers Grove:
InterVarsity, 1998). Quem consultar essa obra verá que é notável quantas dessas imagens apontam para
Cristo.
9O melhor recurso para isso é G. K. Beale; D. A. Carson, orgs., Commentary on the New Testament
use of the Old Testament (Grand Rapids: Baker Academic, 2007) [edição em português: Comentário do uso
do Antigo Testamento no Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2014)]. Esse livro é inigualável. Todos
os livros do Novo Testamento têm um artigo da autoria de um estudioso que não apenas trata
exaustivamente de cada citação que os autores do Novo Testamento fazem do Antigo Testamento, mas
também aponta todas as alusões ao Antigo Testamento, mesmo que não sejam citações diretas. O livro pode
ser usado em ambas as direções. Se você estiver pregando sobre um texto do Novo Testamento, o pano de
fundo do Antigo Testamento servirá de auxílio, mas, se estiver pregando sobre o Antigo Testamento, poderá
localizar seu texto no índice de textos da Escritura na parte final do volume, do original, e localizar o autor
do Novo Testamento que se refere a ele. Essa é uma maneira excelente de discernir os temas
verdadeiramente intercanônicos que permeiam a Bíblia toda e encontram inevitavelmente sua realização e
clímax em Cristo e em sua salvação.
10Motyer, Preaching?, p. 61-2.
11Robinson, Biblical preaching, p. 31-50.
12Millar; Campbell, Saving Eutychus, p. 64.
13Ferguson, “Exegesis”, in: S. Logan, Preacher and preaching, p. 197.
14Stibbs, Expounding God’s Word. Ele escreve: “O aspirante a pregador expositivo […] deve […]
procurar discernir qual é — para a ocasião da ministração que ele tem em mente — o enfoque principal ou a
mensagem de Deus que está em evidência na passagem em que ele está trabalhando. Há passagens bastante
férteis. Elas são suscetíveis a vários tratamentos específicos de acordo com os pontos que nelas serão
enfatizados e com o objetivo específico correspondente e a aplicação que o pregador pode ter em vista. O
importante é que o pregador defina qual será o tema ou a ênfase que dará a cada ocasião em particular de
ministração. Ele deve então buscar no material e nas ideias obtidas com seu trabalho no texto somente
aquilo que esteja objetivamente associado ao seu tema. No sermão, diferentemente de um comentário, as
referências a pontos irrelevantes para o tema escolhido devem ser impiedosamente omitidas [para que haja]
brevidade e coerência, mas também um desenvolvimento significativo e um impulso [na] direção do
objetivo pretendido e da aplicação de fechamento proposta” (p. 40-1).
15David Jackman, “From text to sermon”, in: William Philip, org., The practical preacher: practical
wisdom for the pastor-teacher, p. 66.
16Há outros que dão o mesmo conselho que Jackman — isto é, todo sermão deveria consistir naquilo
que o texto diz e nas necessidades e capacidades dos ouvintes. Robert Dabney, teólogo do século 19, diz: “A
unidade retórica requer essas duas coisas. O orador deve, em primeiro lugar, ter um assunto principal de
discurso, ao qual ele se manterá fiel como referência suprema o tempo todo. Isso, porém, não basta. Ele
deve, em segundo lugar, propor a si mesmo uma impressão definitiva sobre a alma do ouvinte, de tal forma
que tudo no sermão concorra para esse fim […] A oratória […] será concluída dizendo-se ao ouvinte: ‘Faça
isto’, de modo que seu encerramento se dê por meio de um ato de volição, de tal forma que esse objetivo
passe da compreensão para as motivações da alma. A unidade do discurso requer, portanto, não apenas o
predomínio exclusivo de um tema dominante, mas também a exclusividade da impressão prática. Para
garantir o primeiro, assegure-se de que toda a discussão admite a redução a uma única proposição. Para
garantir o último, o pregador deverá ter à sua frente, ao longo de toda a preparação do sermão, aquele efeito
prático pretendido que se quer produzir na vontade do ouvinte” (Robert Dabney, “Cardinal requisites of the
sermon”, in: Sacred rhetoric; or, a course of lectures on preaching, p. 109). A reimpressão do fac-símile
tem como título Evangelical eloquence: a course of lectures on preaching. Bem mais recentemente, e do
outro lado do espectro teológico, Thomas G. Long diz que devemos nos preocupar tanto com o foco quanto
com a função do texto. São observações mais ou menos semelhantes às de Darbney quando ele trata de
“tema” e “impressão prática” (Long, Witness of preaching, p. 99-116).
17Adaptei e combinei o material de Stibbs da seguinte forma:

Em uma cerimônia de casamento: Stibbs se deteria especialmente no versículo 2: Jesus foi
convidado para o casamento. O ponto ou tópico principal: Jesus deve ser convidado para sua vida
matrimonial. O esboço: (1) A diferença que fez a presença de Jesus — ele não “acabou com a alegria”. (2)
O que fazer a respeito dos problemas em casa ou no casamento. Faça o que fez Maria: leve-os a Jesus. Faça
o que ele orienta a fazer em sua Palavra. (3) Contudo, ele apontou para uma alegria maior que a do vinho: o
próprio casamento com Jesus e seu amor conjugal por você. (4) Você deve confiar nele tal como Maria
confiou. (5) Assim como esse casamento se transformou em um sinal para o mundo todo acerca da glória de
Jesus, seu casamento também pode ser um testemunho de Jesus, apontando-o para outras pessoas.

Em uma reunião de oração: Stibbs se deteria no versículo 3: Maria vai a Jesus com uma necessidade
(“Eles não têm mais vinho”). Principal ponto ou tópico: características importantes da oração. O esboço: (1)
Vá a Jesus com suas necessidades; mas também vá a Jesus com as necessidades de seus amigos. (2)
Reconheça seu poder, espere que ele faça o que você não pode fazer; mas reconheça também sua sabedoria,
como Maria reconheceu (no versículo 5), confiando nele ainda que seu tempo de agir e suas ações sejam
difíceis de compreender. (3) Houve uma oração de Jesus que não obteve resposta: “Afasta de mim este
cálice…” (Mc 14.36). Jesus pode responder suas orações, apesar de seus pecados, porque ele morreu na
cruz. O vinho aponta para o seu sangue. (4) Esteja pronto agora para agir em obediência à sua Palavra.

Em uma preleção para obreiros cristãos: Stibbs se deteria no versículo 5: “Fazei tudo o que ele vos
disser”. Ponto ou tópico principal: mostrar o que é preciso para ser útil no serviço de Cristo. O esboço: (1)
Maria e os servos foram usados por Jesus para proporcionar uma ajuda miraculosa aos noivos. (2) Os
requisitos: preocupação com a necessidade de outros. Ir a Cristo em oração de fé. Estar pronto para fazer o
que ele pedir, mesmo que não se encaixe em nossa sabedoria. Estar pronto para o risco da fé, esperando em
Deus. (3) Resultados: manifestação do poder do Senhor. Nós nos tornamos cooperadores dele. Com
frequência ganhamos crédito pelo que Jesus fez (o “responsável pela festa” elogia o noivo). (4) Essa é uma
imagem da salvação de Jesus. Recebemos crédito pelo ele fez. Sua justiça nos é imputada. Essa é nossa
força suprema.

Pregando em uma igreja local (com não cristãos presentes): Stibbs se deteria no versículo 11.
Veremos nesse texto a pessoa extraordinária de Jesus. O incidente marca a “inauguração” de seu ministério
e, portanto, é uma breve porém completa imagem de quem ele é. Principal ponto ou tópico: as verdades das
quais o vinho dá testemunho. O esboço: (1) Vinho velho: em última análise, tudo em que confiamos para
nos dar alegria na vida acabará. Não importa o quanto tenhamos nos esforçado por construir uma vida
excelente, alguma coisa aparece e a arruína. Nossos esforços jamais são suficientes. (2) O vinho novo nos
fala da pessoa de Cristo. Ele tem poder sobre a ordem criada porque é o Criador que veio ao mundo. Ele
pode fazer novas todas as coisas. (3) O vinho novo nos fala da obra de Cristo: (a) Ele vem para nos
abençoar, não para nos julgar. Compare com o julgamento de Deus sobre o Egito (Êx 7.17-21). Ali Deus
transformou água em sangue, para que não pudessem bebê-la. Agora Jesus transforma água em vinho, para
que possam beber. (b) Ele proporciona uma coisa alegre — o vinho — por meio de sua morte. (No versículo
4, bem como nas demais ocorrências no Evangelho de João, “hora” se refere à hora de sua morte no
Evangelho de João. As talhas de água significavam purificação. Desse modo seu sangue nos purifica e
perdoa nosso pecado. (c) Antes que Jesus possa nos dar o cálice da bênção, ele terá de tomar o cálice da ira
divina. (4) A estranha declaração de Jesus mostra que, no meio da festa, da alegria, ele está antecipando seu
sofrimento futuro. Contudo, se crermos em Jesus, poderemos estar em meio a um mundo de sofrimentos,
antecipando nossa alegria futura. No porvir, sentaremos ao seu lado na grande festa das Bodas do Cordeiro.
18Motyer, Preaching?, p. 64-5.
19Ibidem.
20A pregação cristã mais antiga foi mais influenciada pela prática rabínica de comentar a leitura
semanal da Torá do que pela tradição greco-romana da retórica, em que uma proposição era anunciada,
dividida, defendida e desenvolvida.
Contudo, na era medieval, os pregadores começaram a dividir e a organizar seu material em esboços
que refletiam a clássica dispositio retórica, ou seja, a organização mais formal do material. Hoje em dia, as
pessoas talvez se surpreendam em saber que foi o monasticismo medieval — particularmente os
dominicanos e os franciscanos do século 12 — que introduziu algo que atualmente é visto com muita
naturalidade. “As ordens dos pregadores”, escreve Hughes Old, “começaram a descobrir a importância do
esboço do sermão” (Hughes Oliphant Old, The reading and preaching of the Scriptures in the worship of
the Christian church [Grand Rapids: Eerdmans, 1999], vol. 3: The medieval church, p. xvii).
As razões disso são complexas. Uma delas foi que muitos dos monges estavam pregando em espaços
públicos, e não apenas nos cultos de adoração. Eles buscavam meios de prender a atenção dos ouvintes.
Além disso, a teologia medieval havia criado uma estrutura extremamente sistemática que consistia em loci
ou tópicos que se estendiam em muitos subpontos, divisões e contrapontos. O esboço do sermão — em que
o tema escolhido era anunciado, dividido em partes e depois desenvolvido — resultava do método
escolástico de fazer teologia, que, em si mesmo, era devedor da aprendizagem e da retórica clássicas. Seja
como for, diz Old, “nada poderia ser mais medieval do que um esboço de sermão dividido em três pontos”
(ibidem).
21A oratória clássica greco-romana procurava descobrir a forma mais convincente de fazer
apresentações orais. Um aspecto crucial da oratória eficaz (chamada com frequência de um dos “cinco
cânones”) era a dispositio ou “arranjo”. Dizia respeito à estrutura e à organização de um discurso. O
consenso (estabelecido por Cícero e Quintiliano) era que o discurso deveria ter as seguintes divisões:

Exordium. Introdução. Seu objetivo era prender a atenção e despertar o interesse pelo seu tema para
que o ouvinte se sentisse motivado a ouvi-lo.

Narratio. Apresentação do ponto principal de seu assunto. Esta poderá ser uma única proposição ou
ainda uma apresentação mais longa de um conjunto de fatos (essencialmente, um “caso”) seguido de um
propositio resumido.

Partitio. A divisão de seu assunto em suas partes constituintes a serem retomadas no restante do
discurso.

Confirmatio. Parte do discurso em que você confirma sua proposição provando e dando respaldo a
cada item ou parte constituinte do caso.

Refutatio. Parte do discurso em que você enfraquece o ponto de vista oposto ao responder a cada
contra-argumento ou objeção à sua posição.

Peroratio. Por fim, a conclusão, em que você sintetiza seu ponto, reafirmando-o claramente e de forma
convincente com o objetivo de suscitar simpatia e conclamar à ação.

Filipe Melâncton, colega de Martinho Lutero, era um erudito respeitado na área de humanidades.
Juntamente com outros, como Agricola e Erasmo, trabalhou para recuperar e adaptar os métodos retóricos
clássicos de Aristóteles, Cícero, Sêneca e Quintiliano para a igreja da época. Os esforços de Melâncton
foram reunidos especialmente em suas Institutiones rhetoricae (“Elementos de retórica”, 1521), que propôs
uma nova síntese da oratória antiga para uso dos pregadores cristãos. (Essa obra importante foi traduzida
para o inglês como The art or craft of rhetorike, em 1532; um fac-símile [réplica] dessa edição foi
publicado pela EEBO Editions/ProQuest, em 13 de julho de 2010.)
Ele instava o pregador a que começasse com um único tema ou tópico doutrinário extraído do texto
bíblico. Tão logo o pregador mostrasse, pela exegese, de que modo a proposição estava fundamentada
biblicamente, ele deveria então prosseguir sistematicamente e, em segundo lugar, definir os temas
fundamentais, distinguindo-os das alternativas e, em terceiro lugar, identificar seus diferentes aspectos ou
causas. Melâncton aconselhou o uso das quatro causas de Aristóteles — o material “o quê”, o formal ou
“como”, o efetivo ou “quem” e o final ou “por quê”. Por fim, o pregador deveria aplicar o significado da
doutrina aos ouvintes (Scott Manetsch, Calvin’s company of pastors [New York: Oxford University Press,
2013], p. 157). A abordagem de Melâncton tinha mais ou menos o seguinte aspecto:

Introdução exegética. Essa seção usa a exegese para extrair uma única proposição doutrinária do
texto, por exemplo, de Romanos 3.10-20, “Nossas boas obras não podem nos salvar — precisamos de um
Salvador”.

Quem? Os agentes. Qual é a causa efetiva? Em outras palavras, a quem o texto está se referindo que
vive dessa forma? Todos. “Não há justo, nem um sequer” (v. 10). Aí estão incluídas todas as pessoas, sem
exceção. Judeus e gentios. Religiosos e não religiosos.

O quê? Descrição. Qual é a razão (material) pela qual nossas boas obras não podem nos salvar? Em
outras palavras, em que consistem nossas ações? Como são? Elas estão misturadas a ações más. Até mesmo
pessoas religiosas têm línguas enganosas, maliciosas etc. e não buscam a paz, mas o conflito (v. 13-17).

Como? Elementos subjacentes. Qual é a razão (formal) para que nossas boas obras não possam nos
salvar? Em outras palavras, o que faz com que nossas boas se tornem inadequadas? São nossas motivações
— “não há quem busque a Deus” (v. 11) e “Não possuem nenhum temor de Deus” (v. 18). Mesmo quando
aparentemente fazemos coisas boas, não buscamos a Deus nelas.

Por quê? Qual é a razão final ou fundamental pela qual nossas boas obras não podem nos salvar? Por
causa da santidade de Deus: “… ninguém será justificado diante dele” (v. 20).
Cada um desses tópicos exige uma defesa, geralmente através de versículos tirados de outras partes da
Bíblia. Contudo, podem-se usar outras ilustrações ou argumentos.

Aplicação. O que isso significa para nós? Significa que precisamos de um Salvador. Significa que
devemos parar de tentar criar uma justiça salvadora para nós. Significa que devemos nos arrepender tanto
de nossos pecados explícitos como de tentar nos salvar através de “boas ações” inadequadas.

A estratégia de Melâncton consistiu em modificar as convenções da dispositio clássica ou organização
do assunto. Havia um exordium ou introdução, cujo tema é extraído da Escritura. Ele criava então formas de
narratio, partitio e confirmatio dividindo o tópico em pontos por meio dos quais ele era explicado,
examinado em profundidade e defendido. Por fim, vinha a “peroração”, em que o tema era enfatizado por
meio de uma exortação e de um apelo. Essa abordagem foi imensamente popular entre a nova geração de
pregadores protestantes, especialmente entre os puritanos ingleses. Eles começavam com um texto bem
pequeno — com frequência, um único versículo — que era estudado brevemente com o objetivo de extrair
a “doutrina” — uma proposição. A proposição era então dividida em várias inferências e aspectos — com
pontos e subpontos — e cada uma delas era comprovada pela Bíblia. Por fim, eram atribuídas às inferências
um número prático de aplicações. Hughes Old diz que essa forma era “menos expositiva e mais escolástica
ou temática” (Reading and preaching of the Scriptures [Grand Rapids: Eerdmans, 2002], vol. 4: The age of
reformation, p. 284). Esse modelo seguia o escolasticismo medieval e a retórica clássica, embora os
argumentos usados fossem quase que estritamente citações de outras partes da Bíblia. Não se tratava do
modelo patrístico usado pelos reformadores, em que vários pontos doutrinários e práticos eram extraídos de
uma passagem da Escritura e tratados em séries. Em vez disso, os puritanos modificaram e mantiveram a
forma do sermão da escolástica medieval, extraindo um ponto e um tema, dividindo-o em muitas partes e
analisando cada uma delas exaustivamente (ibidem, p. 327). Portanto, como conclui Old, isso significava
que, de modo geral, apesar de se apresentarem como pregadores expositivos, os puritanos que gastavam
vários sermões com único versículo estavam, na verdade, pregando sermões tópico-temáticos, catequéticos
— quaisquer que fossem suas intenções. Historicamente, e por fim, isso levou ao “desenvolvimento gradual
da pregação temática”, e não da expositiva (ibidem).
22Para este passo da preparação do sermão, recomendo especialmente Glen C. Knecht, “Sermons
structure and flow”, in: Logan, Preacher and preaching.
23Motyer, Preaching?, p. 79-80.
24No decorrer dos últimos quarenta anos houve uma forte reação contra o esboço do sermão
consolidado no protestantismo histórico. Thomas G. Long, professor de Pregação na Universidade Emory
mapeou muito bem a ascensão e a queda atual do movimento de “pregação narrativa” no âmbito das igrejas
protestantes históricas, frequentadas por brancos, da geração passada. Esse movimento se rebelou
fortemente contra o esboço do sermão tradicional, que se baseava em uma proposição central que era
explicada e defendida. Long diz que uma das razões pelas quais pregadores e teólogos da linha princiapal
resistiam ao esboço do sermão se devia ao seu ceticismo em torno da ideia de revelação proposicional, a
qual chamavam zombeteiramente de uma visão da Bíblia que remetia a uma “caixa de ideias”. Eles
rejeitavam a compreensão tradicional de uma passagem bíblica como “repositório de ideias teológicas, ou
verdades” das quais o pregador podia “extrair a principal pepita teológica” (Thomas G. Long, The witness
of preaching, p. 101). Eles se opunham a um esboço racionalista, límpido e altamente estruturado.
Embora essa crítica se baseasse amplamente em uma compreensão não evangélica da revelação
bíblica, alguns argumentos estavam corretos. De acordo com um deles, o esboço extremamente estruturado
não se encaixava nas partes narrativas da Bíblia. “Ninguém que leia um romance empolgante ou veja uma
peça contundente, ou ainda um filme que mexe com as emoções, seria tentado a espremer essas ricas
experiências em uma única ideia principal apenas.” (ibidem, p. 101). Em outras palavras, alguém imagina
que uma única proposição “sucinta” possa substituir um filme? Por exemplo, em vez de ver de fato Nada de
novo no front, por que não resumi-lo em poucas palavras: “A guerra é uma coisa terrível e não leva a nada”.
Essa proposição transmitiria seu significado tão bem quanto um filme de 138 minutos? Principalmente
considerando a cena final, em que o protagonista se aproxima de uma borboleta e a toca gentilmente; com
isso, se expõe a um atirador, é ferido e morre. Uma proposição poderia sintetizá-la adequadamente? Claro
que não. A narrativa transmite muito mais significado do que se pode resumir em uma simples declaração
verbal.
Long cita o célebre livro de Fred Craddock, de 1971, As one without authority [Como alguém que não
tem autoridade], como um volume fundamental para os que argumentam contra o esboço tradicional do
sermão. O livro defendia uma “revolta geral contra a pregação proposicional” (ibidem, p. 103). Craddock
insistia que os sermões não fossem balizados pela “dedução” — em que a tese é anunciada e depois
explicada e respaldada. Ele defendia, pelo contrário, a “indução” — o desvelamento gradual da narrativa da
história ou de uma metáfora. Craddock queria uma pregação rica em imagens, não discursiva, qualquer
coisa menos “uma tese em três pontos” (ibidem). Long diz que essa tese se tornou um divisor de águas, e a
proposta de Craddock se disseminou pelas igrejas históricas. Ela foi influenciada pela “nova hermenêutica”
da época, que via a interpretação como um evento ou um encontro existencial. Um dos seguidores mais
influentes de Craddock foi Eugene Lowry, o qual defendia que a Bíblia era sobretudo “não proposicional” e
que tentar dividir uma passagem em princípios ou verdades “distorce ou até mesmo reconstrói o sentido
experiencial do evangelho” (Ibidem, p. 104). Embora Craddock esperasse que o pregador chegasse por fim
ao “ponto para o qual o autor [bíblico] pretendia chamar a atenção” [Fred Craddock, As one without
authority (Nashville: Abingdon, 1971), p. 100], muitos outros rejeitavam até mesmo esse nível de
“racionalidade”.
Especialistas em homilética das igrejas históricas (liberais) insistiam que cabia ao pregador
basicamente narrar os eventos, permitindo aos ouvintes tirar suas próprias conclusões em seu encontro
particular com o texto.
Long admite que, por mais empolgante e libertador que isso possa parecer num primeiro momento, boa
parte dessa ideia provocava “confusão entre pregadores e estudantes”. Ele concluiu que era errado insistir,
como faz Lowry, que o impacto de um texto não está relacionado com suas ideias reais e com seu conteúdo
proposicional (Long, Witness of preaching, p. 107). Long cita Lowry: “Talvez você tenha ido à igreja e se
sentido arrebatado quando cantaram ‘Amazing grace’ — e isso não se deveu de modo algum às
particularidades do conteúdo proposicional da terceira estrofe”. Lowry tem razão quando diz que o impacto
do hino no coração não pode ser reduzido simplesmente ao conteúdo da letra. Contudo, embora o poder de
um hino seja mais do que o conteúdo, não pode ser menos. Long diz que é ir longe demais dizer que a
experiência de cantar o hino em nada se relaciona com seu conteúdo proposicional. Ele pergunta com muita
perspicácia: Se cantássemos na igreja “Maria tinha um carneirinho”, o efeito seria o mesmo sobre quem
canta? “O que o texto diz sem dúvida alguma controla o que ele faz”, conclui Long (Ibidem, p. 107).
O que os pregadores liberais ofereciam no lugar da estrutura do sermão? Long discorre sobre vários
especialistas em homilética de igrejas históricas da geração passada e reconstitui de que maneira cada um
deles tentou substituir a estrutura do sermão tradicional. Fred Craddock e Eugene Lowry propuseram que o
sermão fosse pregado em resposta a uma pergunta ou a um problema. Craddock geralmente fazia do
problema o sentido real do texto, enquanto Lowry preferia alguma “necessidade percebida” pessoal da vida
do ouvinte. Em ambos os casos, a questão é respondida ou o problema é resolvido através de uma série de
“movimentos” perceptíveis, mas não anunciados como títulos, tópicos ou pontos. Outro pregador liberal
proeminente, David Buttrick, apresentou uma análise detalhada de como devem se parecer cada um desses
“movimentos”. Ele acreditava que nenhum movimento deveria levar mais de quatro minutos (porque,
segundo argumentava, o intervalo de atenção das pessoas não ia além disso) e que o sermão deveria durar
vinte minutos, contendo, no máximo, cinco ou seis “movimentos”. Ele também deu orientações para cada
movimento, insistindo para que fossem claramente demarcados por meio de uma abertura e frases que os
resumissem (Long, Witness of preaching, p. 131-4). Long descreve como o movimento de “pregação de
narrativa” está hoje em situação caótica ou em declínio. Veja Thomas G. Long, “A likely story: the perils
and power of narrative in preaching”, in: Preaching from memory to hope (Louisville: John Knox Press,
2009), p. 1-26.
O que podemos aprender com esse episódio na igreja? Os autores históricos não escapam, de fato, da
necessidade de uma estrutura. Os “movimentos” ainda são pontos em uma estrutura que devem ser
pensados e que dão estrutura ao discurso. Os pensadores históricos concordam, porém (e isso se nota no
termo “movimentos”) que o sermão não deveria ser uma recitação de fatos nem tampouco um lado apenas
do debate. Ele deve interagir não apenas com a mente do ouvinte, mas também com seu coração. Deve levá-
lo a algum lugar. Essa ideia — apesar de muitos passos equivocados e de erros do movimento de pregação
de narrativa — deve ser mantida.
25Eugene L. Lowry, The homiletical plot, expanded edition: the sermon as narrative art form
(Louisville: John Knox Press, 2000).
26Foram usadas várias fontes, mas veja esp. N. T. Wright, The New Testament and the people of God
(Minneapolis: Fortress Press, 1992), p. 47-81.
27Isso é semelhante ao “foco na condição decaída”, in: Christ-centered preaching, p. 40-4, de Brian
Chapell. Esse autor está muito mais preocupado em descobrir o que o texto considera ser o problema que
induz ao pecado, e em seguida pregar a solução em Cristo. Lowry está mais inclinado a escolher
primeiramente o problema e depois achar um texto que nos ajude a discuti-lo.
28Lowry, Homiletical plot, p. 44-7.
29Ibidem, p. 65-8 e 100-3. Refiro-me ao célebre ensaio de J. R. R. Tolkien, “On fairy-stories”, in: Tree
and leaf (New York: HarperCollins, 2001), p. 1-82 [edição em português: Árvore e folha (São Paulo: WMF
Martins Fontes, 2013)]. “A consolação […] a alegria do final feliz […] a súbita ‘guinada’ feliz […] essa
alegria que […] as histórias são capazes de produzir tão bem, não é basicamente ‘escapista’ nem é uma
‘fuga’ […] Trata-se de uma graça súbita e miraculosa: algo que jamais se repetirá. Ela não nega a existência
da dycatastrophe, da tristeza e do fracasso. De fato, a possibilidade dessas coisas é necessária à alegria da
libertação. De certa forma, ela nega (em face das muitas evidências, por assim dizer) a derrota universal
final, e por isso é evangelium, permitindo um vislumbre breve da Alegria, que vai além das muralhas do
mundo, tão pungente quanto a tristeza. É a marca de uma boa história, do tipo mais elevado ou mais
completo, de tal maneira que por mais extravagantes que sejam seus eventos, por mais fantásticas ou
terríveis suas aventuras, ela pode dar […], no momento da ‘guinada’, uma suspensão do fôlego, uma batida
e uma elevação do coração, chegando quase às lágrimas (ou chegando mesmo a elas), com tanto entusiasmo
quanto aquela comunicada por qualquer forma de arte literária, e de uma qualidade peculiar. Na […]
‘guinada’ […] temos um vislumbre arrebatador de alegria, de um desejo do coração que por um momento
transborda, rasga a teia da história e deixa que vaze um brilho” (Tolkien, “On Fairy-Stories”, p. 68-9).
Posteriormente, Tolkien diz que a história suprema — o evangelho — é a essência de todas as outras
histórias com um final feliz que produz alegria. “Essa ‘alegria’ […] merece maior consideração. A
qualidade peculiar da ‘alegria’ em uma Fantasia de sucesso pode […] ser explicada como um vislumbre
súbito de uma Realidade […] subjacente […] Os evangelhos apresentam […] uma história de um tipo mais
abrangente que abraça a essência por completo das histórias de fadas. Eles apresentam […] uma
eucatástrofe que é a maior de todas e a mais completa que se pode conceber. Contudo, essa história entrou
para a história e para o mundo primário […] O nascimento de Cristo é a eucatástrofe da história da
humanidade. A ressurreição é a eucatástrofe da história da encarnação. A história termina com alegria […]
Não há nenhuma história um dia contada que os homens quisessem tanto que fosse verdade, e nenhuma que
tantos céticos acolheram como verdadeira por seus próprios méritos. Isto porque a Arte dessa história tem o
tom supremamente convincente da Arte Original, isto é, da Criação. Rejeitá-la leva à tristeza ou à ira […]
Esta é uma história suprema; e é verdadeira. A Arte se confirmou. Deus é Senhor dos anjos e dos homens
— e dos elfos. Lenda e História se encontraram e se fundiram” (Tolkien, “On Fairy-Stories”, p. 71-3).
30Em 2000, Lowry ampliou a edição de seu livro. Ele diz que a trama da
narrativa do sermão deve ter quatro fases: Conflito, Complicação (em que se
analisam as razões primordiais da natureza intratável do problema), Boas-Novas
e Desenrolar. Em sua interpretação, deve haver um quarto movimento no
sermão, depois de revelar Cristo como “herói” ou solução para o problema. A
quarta fase propõe o modo pelo qual o ouvinte deve viver no futuro com base na
exibição em particular da natureza e do poder do evangelho. Em outras palavras,
essa é a fase da “aplicação”.
Seis sermões contra a preguiça
Cavaco, Tiago
9788527507394
112 páginas

Compre agora e leia

Nos dias de hoje, talvez não seja exagero dizer que boa parte de nossa cultura
seja tolerante com a preguiça. Antes ela era condenada por ser tida como
comportamento condenável. Hoje é muitas vezes considerada um traço de
caráter. Deixou de ser algo mau que se fazia para ser algo neutro, que não se
pode controlar.

Em Seis sermões contra a preguiça, o autor expõe habilmente seis passagens
bíblicas que confrontam a nossa cultura nessa área tão primordial e revelam a
preguiça disfarçada em disposições e ações do dia a dia que normalmente não
vemos como preguiça. A obra é um poderoso antídoto à letargia e ao ativismo do
nosso tempo, é uma análise profunda que nos leva a repensar, diante de Deus, o
trabalho, o ócio, o lazer, o uso do tempo, o tipo de vida que glorifica a Deus.

Compre agora e leia
Ministérios de misericórdia
Keller, Timothy
9788527506854
272 páginas

Compre agora e leia

Por que alguém arriscaria a própria segurança, cancelaria a agenda, gastaria suas
economias e ficaria todo sujo de terra e sangue para ajudar uma pessoa de outra
raça e classe social?

E por que Jesus nos diz: "Vai e faze o mesmo" (Lc 10.37)?

O Bom Samaritano não ignorou o homem espancado na estrada de Jericó. Assim
como ele, tomamos ciência de pessoas necessitadas à nossa volta: a viúva que
mora ao lado, a família afundada em dívidas médicas, o sem-teto que fica do
lado de fora da igreja. Deus nos chama a ajudá-los, precisem eles de abrigo,
assistência, cuidados médicos ou simplesmente amizade.

Tim Keller mostra que cuidar dessas pessoas é tarefa de todo cristão, tarefa tão
fundamental ao cristão quanto o evangelismo, o discipulado e a adoração. Mas
Keller não para por aí. Ele ensina de que maneira podemos realizar esse
ministério vital como indivíduos, famílias e igrejas.

Ao final, cada capítulo oferece perguntas para debate e aplicação.

Compre agora e leia
Grandes teólogos
McDermott, Gerald
9788527507059
232 páginas

Compre agora e leia

Quem são os grandes teólogos da igreja? O que havia de especial em seus
ensinos? O que podemos aprender com eles hoje?

Neste livro o autor não apenas nos instrui sobre onze teólogos de grande
importância, mas também nos ajuda a identificar aquilo que continua válido para
os nossos dias. Com perguntas para reflexão e debate no final de cada capítulo,
Grandes teólogos é perfeito para o estudo individual ou em grupos pequenos. À
medida que se der o estudo, os membros do grupo podem explorar a história
teológica que um partilha com o outro e também descobrir as razões por que
cada um crê no que crê. Aqui está a oportunidade de pensar sobre Deus
juntamente com "os grandes".

Compre agora e leia
Membresia na igreja
Leeman, Jonathan
9788527506885
144 páginas

Compre agora e leia

POR QUE DEVO SER MEMBRO DE UMA IGREJA?

Tornar-se membro de uma igreja é quesito essencial da vida cristã, sendo, porém,
negligenciado com frequência. Aliás, a tendência atual é abandonar a prática da
religião organizada, o que demonstra aversão ou medo de compromisso,
especialmente em relação às instituições. Jonathan Leeman aborda essas
questões de maneira objetiva, ao definir membresia na igreja e explicar por que
ela é importante. Conferindo à igreja local o papel que lhe é devido, Leeman
constrói uma argumentação convincente a favor do comprometimento com o
corpo da igreja local.

Compre agora e leia
Revitalização de igrejas
Lidório, Ronaldo
9788527507318
78 páginas

Compre agora e leia

Atuar na revitalização de igrejas locais sem um diagnóstico de vitalidade
espiritual é temerário, podendo levar ao exaustivo investimento em áreas de
menor carência e à omissão em áreas vitais. Este livro apresenta uma ferramenta
para a avaliação da vitalidade da igreja local, provendo indicadores nas áreas de
maior necessidade de investimento e sugerindo ações para o amadurecimento e
crescimento.

Revitalização de igrejas é uma ferramenta desenhada de forma simples e prática,
podendo ser aplicada em contextos nacionais ou transculturais, rurais ou
urbanos, mono ou multiétnicos. Colabora para que pastores, missionários e
líderes invistam tempo, oração e trabalho nas áreas de maior carência da igreja,
com planejamento, continuidade e expectativa. Tem como alvo ver igrejas mais
fortalecidas no conhecimento da Palavra, no amor a Jesus e nas marcas de uma
vivência bíblica.

Compre agora e leia