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Anais Eletrônicos do 14º Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia – 14º SNHCT

Fabrica de Ferro do Morro do Pilar. As três campanhas experimentais e o colapso estrutural


do alto-forno na noite de 21 de agosto de 1814.

Paulo Eduardo Martins Araújo*

Manuel Ferreira Câmara Bethencourt e Sá, tomou posse do cargo de Intendente Geral
das Minas e dos Diamantes em 27 de outubro de 1807. Por Carta Régia de 10 de Outubro de
1808, Câmara foi autorizado a deduzir 10.000$000 dos 120.000$000 destinados anualmente
aos trabalhos da extração diamantina no ano de 1809, e 4.000$000 nos dois anos seguintes,
para serem aplicados na construção de uma fábrica de ferro. Em 5 de outubro de 1809,
Câmara deu início à construção de um alto-forno1 com aproximadamente nove metros de
altura e um metro de diâmetro na boca de alimentação, estimando uma produção de 450 kg
para cada corrida de gusa (SANTOS, 1978:.p.292).
Em 1812, Câmara havia concluído o açude e a construção do alto-forno, que foi
acionado em três campanhas, nas quais uma sucessão de acidentes durante a condução das
marchas do alto-forno terminou por arruiná-lo completamente.
A primeira campanha iniciou em novembro de 1812 com o aquecimento e secagem do
alto-forno e cessou com o acidente nas correntes de acionamento dos foles na madrugada de
28 de janeiro de 1813. A segunda, já com a presença do mestre fundidor alemão Shönenwolf,
iniciou e findou entre novembro e dezembro de 1813. A terceira, teve início em julho de
1814. Nessas campanhas, o ferro correu líquido duas vezes em 1813 e dez vezes em 1814,
Nas duas últimas, produziu-se gusa e utensílios de ferro fundido para a fábrica. A rigor, as três
campanhas do alto-forno do Pilar foram consideradas por Câmara como ensaios. O exame de
documentos referidos à Fábrica de Ferro do Morro do Pilar mostrou que Câmara nunca
referiu-se a essas campanhas nos termos de produção industrial, frisando sempre o caráter
experimental das corridas de gusa.
Nos ofícios e cartas enviadas aos seus superiores, Câmara registrou que o sucesso
industrial do seu projeto era dependente de profissionais qualificados, que deveriam ser
contratados com a maior brevidade possível na Alemanha, para as obras de construção civil e

*
Doutorando no PEHCT do Instituto de Geociências da UNICAMP. Bolsista CNPq. araujo.pem@gmail.com
1
Alto-forno é um reator metalúrgico de operação contínua utilizado na produção de ferro gusa por fusão
redutora de minério de ferro em presença de carvão vegetal ou coque e fundentes. Os materiais são carregados
pelo topo e na descida são transformados pelos gas ascendente (CO), originado na reação de combustão do
carvão com o oxigênio do ar soprado pelas ventaneiras, obtendo-se escória e gusa depositados e separados por
diferença densidade no cadinho.
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hidráulica, edificações e manejo de altos-fornos e forjas de refino, construção de foles e rodas


hidráulicas.
No entanto, a contratação no estrangeiro de operários especializados nas atividades
metalúrgicas não era tarefa de fácil e de pronta execução. Embora essa dificuldade não fosse
desconhecida por D. Rodrigo de Souza Coutinho, o ministro de D. João, em carta de 23 de
Março de 1806, encarregou Câmara de "informar a S.A.R. sobre o justo requerimento para o
estabelecimento duma fábrica de ferro”, mesmo temendo que “por ora não possa ainda
executar-se [a Fábrica] sem os fundidores, ou mineiros da Alemanha, que venham a trabalhar
debaixo de suas ordens”(MENDONÇA, 1958:191).
A primeira campanha: "dei por malograda a minha primeira tentativa"
Câmara comunicou sucintamente ao Conde Palma, governador da Capitania de Minas
Gerias, os eventos relativos à sua primeira tentativa de produção de gusa, “somente malograda
por se terem arrebentado as cadeias de ferro [correntes], que levantavam os pistões dos foles,
antes de um completo aquecimento do cadinho” (CARVALHO,1964:206). Mas em ofício de
13 de janeiro de 1813 para o Conde de Aguiar, Ministro dos Negócios do Reino, Câmara
escreveu um pormenorizado relatório, que principia com o relato da insuficiência de força
motriz hidráulica
Eu começo por pedir a V. Exa. queira ter a paciência, e resignação, que eu tenho
tido porque trata-se de grandes cousas, e sem aquelas nunca se obtêm [...].
Dispostas pois as cousas para principiar a fundir, fui inventariar as águas (e pelos
meus ofícios anteriores verá V. Exa., que nós ainda as não temos próprias) e achei,
com bastante pesar meu, que elas não eram suficientes, nem bastantes para
moverem as máquinas, que deviam ajudar-nos em semelhante trabalho.
(CARVALHO,1964:207-212)
Câmara dividia seu tempo entre os trabalhos da extração de diamantes e a construção
da Fábrica. As estadias na região diamantífera eram demoradas. Para que os trabalhos não
parassem durante suas viagens, Câmara deixava ordens de serviço que não raro eram
pessimamente cumpridas. A construção do açude, iniciada após a partida para uma de suas
estadas no Tijuco, é exemplar nesse sentindo.
No ofício de 13 de janeiro ao Conde de Aguiar, Câmara escreveu que o açude foi
construído em local acima da fábrica e num terreno formado "de piçarras, sorte de terra muito
frágil", e que para edificar obra "de semelhante natureza eram precisos conhecimentos
hidráulicos, que eles [os operários] não tinham, e para que mal chegaram depois os meus”.
(CARVALHO,1964: 207-212)

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Em maio de 1812, após retorno de uma de suas viagens, Câmara constatou que,
durante sua ausência, os trabalhadores encarregados da construção do açude começaram "a
obra não só sem alicerce, mas sem o competente talude". Câmara mandou refazer toda a obra
desde o alicerce e relatou um consumo de "oito ou nove mil camadas (sic) de pedra e 15 a 20
mil de terra". Ainda nesse tempo, foram construídos o paiol de carvão e a "complicada
máquina de foles". No final de novembro de 1812, Câmara deu início à primeira campanha do
alto-forno do Pilar:
Resolvi-me, bem a meu pesar, a deitar carvão no forno, que eu já tinha aquecido
lentamente com lenha por muitas vezes, por ser obra nova; e depender sobretudo do
seu aquecimento o bom sucesso da 1ª fundição. Para evitar maiores despesas na
complicada máquina de foles, tinham-se lhes posto cabo de couro de 9 polegadas
[24,75 cm] de circunferência, que suspendia as buchas, ou pistões dos ditos foles
[...]. Nos muitos ensaios, que se fizeram para experimentar essa máquina,
resistiram os cabos, e deram toda a esperança de se poder fazer com eles ferro, que
bastasse para os substituir por cadeias. Tendo assim as cousas dispostas, já
estávamos no fim de novembro [1812], tempo em que enchi o forno de carvão para
principiar o aquecimento, que começou a 29, e durou até 13 de dezembro;
ensaiando porém novamente os foles, quebraram aqueles cabos, como se fossem
cordas de viola, aquecendo-se, e moendo-se, por um mais aturado movimento de
maneira que me fizeram desesperar, e recorrer às cadeias [correntes de ferro], com
que julguei ficar servido. [...] Para as fazer faltava o ferro, o que me pôs em grande
tortura; porque para o mandar vir de longe perdia-se um tempo, que eu já não
podia despender, estando aqui pelos cabelos, e tendo mais o que fazer. Passou
então um tropeiro com algum ferro, mas que ferro? Pregos, e cavilhas de navios já
velhos, retalhos de barras [de ferro] de toda a qualidade, e a necessidade me forçou
a lançar mão dele para o fabrico das sobreditas cadeias, que era indispensável
fazer (CARVALHO,1964:207-212).
Devido ao acidente com os cabos de couro, Câmara prolongou o aquecimento do alto-
forno até 20 de dezembro de 18132, “tempo em que elas [as correntes dos foles] se acabaram e
colocaram no seu devido lugar". Nesse mesmo dia, o alto-forno foi carregado com minério de
ferro e fundentes e "foram precisos 7 dias para que ele chegasse ao algraviz [ventaneira],
tempo em que devia começar (como começou) o assopro". Os foles trabalharam em bom
ritmo e de modo satisfatório por 12 horas e insuflaram "tanto ar que a principio foi preciso
deixar escapar metade, por que tanto no principio fazia mal à fundição". O ferro começou a

2
Na transcrição do ofício de 13 de janeiro de 1813 ao Conde de Aguiar em CARVALHO (1964:207-212),
encontra-se que o carregamento do alto-forno iniciou em 20 de janeiro de 1813. No entanto, essa data é
inconsistente com a do ofício ao Conde de Aguiar, o que faz supor que o carregamento começou ainda em
dezembro de 1812, talvez no dia 20.
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fundir e "a estender-se por todo vasto cadinho". Mas as correntes dos foles pistão não
resistiram e arrebentaram "ambas a um tempo, e desde logo dei por malograda a minha
primeira tentativa” (CARVALHO,1964:207-212).
A quebra e a demora do conserto das correntes de ferro dos foles do alto-forno
ocorreram no pior momento, isto é, quando iniciava no alto-forno a fusão do ferro e a
temperatura deveria ser mantida próxima a 1535 °C, que é a temperatura de fusão do metal.
Consequentemente, a interrupção da insuflação de ar pelos foles afetou a combustão do
carvão3, provocando drástica queda de temperatura na zona de fusão e no cadinho do alto-
forno. Câmara sabia aferir as consequências do acidente, pois em seu ofício ao Marquês de
Aguiar registrou que
mediaram apenas 4 horas enquanto se reformaram as cadeias; e posto o fole
imediatamente em movimento continuou a fundição, mas já era tarde, por que não
só o ferro, mas também as cicorias [escórias] caindo em um cadinho, que não tinha
ainda o grau de calor, que havia de vir a ter, se congelaram, e resfriaram por tal
modo, que não houve forças humanas que o obstassem à mais completa obstrução
do forno, crescendo o mal à proporção que nos esforçávamos a diminuí-lo. [...]
Vinte e oito horas trabalhei sem cessar, até que para não por o forno em perigo, que
eu conhecia muito bem, devi parar. (CARVALHO,1964:207-212)
No dia seguinte, Câmara decidiu demolir a parede frontal externa ao cadinho do alto-
forno para examinar a dimensão do acidente. Para isso, foi preciso abrir o forno. Nas palavras
de Câmara, foi necessário "anatomizá-lo [...] e então me convenci de que a não ter sucedido o
desastre das cadeias, nós todos, ignorantes do ofício, e sem prática, teríamos feito a 1ª
fundição magistralmente”. (CARVALHO,1964:207-212)
Câmara enviou para a corte no Rio de Janeiro três amostras dessa primeira tentativa:
Um pedaço de ferro coado [fundido] (N. 1º), que se achava já na porta do cadinho,
sobre o qual não vieram as cicorias [escórias] resfriadas; assim como o [ferro] que
depois se fundiu, e assentou sobre ele [o cadinho] (N. 2º); as placas de ferro coado,
que depois saíram pelo algaraviz (N. 3º) (CARVALHO,1964:207-212).
No mesmo ofício, justificou-se ao Conde de Aguiar, lembrando as dificuldades e
contratempos na Fábrica de Ferro de Figueiró dos Vinhos, para a qual o governo português
contratou na Alemanha mestres fundidores e refinadores4.

3
O carvão vegetal atua como combustível para geração de gás redutor (CO) e de calor para aquecer e fundir a
carga. Transfere carbono para o ferro líquido, formando o ferro gusa com até 4,5% de C e com temperatura de
fusão mais baixa do que a do ferro puro. O carvão tem ainda as funções de elemento estruturante, sustentando o
peso da carga, e de permeabilizador, permitindo o necessário fluxo do gás redutor em direção ascendente no
interior do alto-forno.
4
A Ferraria da Foz do Alge operou de 1692 a 1759 e de 1802 a 1834. Foi Instalada junto à foz da Ribeira de
Alge. Encerrada por Pombal em 1759, a Fábrica foi restaurada em 1801. No verão de 1802, Eschwege e
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Frente a essa malograda tentativa, Câmara solicitou ao Conde de Aguiar o auxílio de


Shönenwolf, "um dos fundidores ordinários em altos fornos, que vieram para a Fábrica de
Figueiró dos Vinhos, o qual se acha em Vila Rica desocupado em companhia do Sr.
Eschwege” (CARVALHO,1964:207-212).

A segunda campanha: " principiou a correr o ferro com facilidade"


Calógeras (1905:71-73) e Mendonça (1958:160-170) mostraram que a ordem de
Aguiar para a transferência de Shönenwolf para o Morro do Pilar desagradou Eschwege, que
tentou durante meses reverter o que ordenara o Ministro dos Negócios do Reino a pedido de
Câmara.
Após receber o ofício de Câmara de 13 de janeiro de 1813, Conde de Aguiar enviou
um aviso ao Governador Palma para que Shönenwolf partisse "logo para a fábrica de ferro de
que se acha encarregado o Desembargador Intendente dos Diamantes [...], a cujas ordens
ficará o fundidor enquanto dele necessitar na mesma fábrica" (CONDE DE AGUIAR: 17 Fev.
1813)
Conde de Palma comunicou a Eschwege a ordem de Aguiar, que respondeu ao
governador que Shönenwolf não poderia partir de imediato, pois os serviços do mestre
fundidor eram imprescindíveis aos trabalhos na Fábrica de Patriótica5 e na fundição da prata
no Abaeté. Em ofício de 11 de março de 1813, o Governador de Minas Gerais expõe ao
Conde de Aguiar as razões de Eschwege para manter Shönenwolf em Vila Rica (CONDE DE
PALMA, 1921: 196-197).
Depois de alguns meses de trocas de ofícios a respeito da partida de Shönenwolf para
o Pilar, que expõem não só as querelas entre os personagens envolvidos, mas sobretudo
fornecem uma exata medida do quanto era estratégica a presença de um experiente mestre
fundidor para o sucesso dos empreendimentos de produção de ferro em Minas Gerais, o
Governador da Capitania finalmente comunica ao Conde de Aguiar em ofício de 9 de
setembro de 1813 “que o fundidor alemão Schönenwolf partiu para a Fábrica de Ferro de
Gaspar Soares [Morro do Pilar] no dia 6 do corrente” (CONDE DE PALMA, 1921: 263-264).
Não sabemos a data exata da chegada de Shönenwolf no Pilar. Porém, é bastante
possível que o mestre alemão já estivesse por lá a tempo de conduzir a segunda campanha do

Varnhagen já estavam em Portugal. Em Janeiro de 1806, chegaram oito alemães mestres de ofícios contratados
por Eschwege. (Guimarães, 1999-2000, p. 59-60).
5
Trata-se da fábrica de ferro em Congonhas do Campo em Minas Gerias (ESCHWEGE, 1979:247-256).
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alto-forno, que ocorreu após meados de outubro de 1813, e a respeito da qual nos deixou um
sucinto relato o Governador de Minas Gerais, em ofício enviado ao Conde Aguiar em 20 de
Dezembro de 18136:
Comunicarei a V. Excª em poucas palavras, o que naquela ocasião se passou.
Depois de aquecido competentemente o grande forno, e de se ter disposto tudo que
era necessário para a fundição, principiou a correr o ferro com facilidade: fez-se na
primeira coadura [corrida do ferro líquido] uma bigorna de mais de vinte arrobas
de peso [300 kg], e outros utensílios para o serviço da fábrica; fez-se a segunda
coadura com igual sucesso, mas na terceira o grande calor derreteu algumas
pedras do forno [refere-se à fusão do revestimento refratário da rampa e do
cadinho], que obstruíram inteiramente o canal por onde entrara o vento, que
assoprava o fogo. Tão inopinado transtorno suspendeu a fundição; e Câmara não
pode continuar os trabalhos, porque o Serviço Diamantino, mais importante, o
chamara a Tejuco e por que entretanto, [...] [se] faz indispensável ajuntar a
quantidade de carvão, e formar um tanque, que contenha maior e mais perene
abundancia de água”. (CONDE DE PALMA, 1924:384-385)
A terceira campanha: “No dia 6 de julho o forno foi carregado"
O ofício de 9 de setembro do governador Palma comunicando a partida de Shonenwolf
para o Pilar em setembro de 1813 é evidência de que o mestre fundidor alemão auxiliou
Câmara na segunda campanha, prejudicada não só pela quebra das correntes do foles, mas
também devido à fusão do material refratário utilizado no revestimento da rampa e do cadinho
do alto-forno.
Após a partida de Câmara para o Tijuco, Shönenwolf encarregou-se de refazer a rampa
e o cadinho do alto-forno7. Em junho de 1814 Câmara já estava no Pilar. No início de julho,
ele e o mestre fundidor alemão deram inicio àquela que seria a última campanha de redução
do minério de ferro em alto-forno no Morro do Pilar.
As principais fontes para os eventos relacionados à terceira campanha são os relatórios
do mestre fundidor alemão Shönenwolf escritos para Eschwege e publicados no Pluto
Brasilienses. No entanto, Eschwege o fez sob um subtítulo que contribuiu para a consolidação
6
Câmara escreveu ofício de 9 de dezembro de 1813 ao Conde de Aguiar a respeito dos resultados da segunda
campanha. Mendonça (1958:367) transcreveu a resposta de Aguiar a esse ofício em 9 de fevereiro de 1814, no
qual o ministro refere-se não à segunda campanha, mas à "terceira tentativa da fundição de ferro na Fábrica do
Morro" e às "providências dadas para tornar a principiar na próxima estação seca a fundição do ferro", a qual
iniciou em 6 de julho de 1814. Esta referência a uma terceira tentativa é contraditória com a informação de
Palma, em ofício ao Conde de Aguiar em 19 novembro de 1813. Neste ofício, Palma avisa que anexou carta que
Câmara acabara de lhe remeter, "onde faz menção dos motivos que embaraçam ainda os bons sucessos da sua
segunda tentativa para fundição do ferro na fábrica do Morro". (CONDE DE PALMA, 1924:374-375)
7
Devido ás altas temperaturas na zona da rampa e do cadinho, estas são as partes mais sensíveis à corrosão,
exigindo reformas periódicas, sobretudo a substituição do material refratário fortemente sujeito ao desgaste
durante a operação do alto-forno. Desse modo, a estrutura deveria ser autoportante para que a rampa e o cadinho
fossem totalmente removidos, se necessário.
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da falsa narrativa histórica da terceira campanha como sendo a primeira e única, e deixando
no esquecimento as anteriores: “Relatório do Mestre Fundidor Alemão Shönenwolf da
Primeira Tentativa de Fundição na Forja Real do Pilar no ano de 1814" (ESCHWEGE,
1979:208-212).
As cartas de Shönenwolf são particularmente interessantes por fornecerem uma rica
descrição do que era o trabalho da marcha do alto-forno. O relato Shönenwolf inicia a partir
de 6 de julho de 1814, descrevendo o trabalho de aquecimento do forno:
“No dia 6 de julho o forno foi carregado com 36 medidas de carvão, fechando-se a
boca do mesmo com duas pedras que possuíam duas pequenas aberturas. O espaço
entre o tympe e a dame foi igualmente fechado por uma pedra, dotada de um
orifício através do qual passava um tubo de ferro. Esse tubo era aberto duas a
quatro vezes diariamente, para atiçar o carvão. Diariamente lançavam-se no forno
duas medidas de carvão, e essa providência era tomada sob direção do Sr. Câmara,
sempre presente aos trabalhos. (ESCHWEGE, 1979:208)
A partir de 3 de agosto, o alto-forno foi continuamente carregado com carvão,
minérios e fundentes. Num total de trinta e duas, as cargas "desceram até o algaraviz, [...] e
assim se fez de 3 a 16 de agosto, dia em que se soprou o vento" (ESCHWEGE, 1979:208).
De 16 a 18 de agosto, Shönenwolf relatou que “precisou-se trabalhar ativamente e
com grandes dificuldades, como é hábito no começo da fusão". Após a 44ª carga, fez-se a
primeira corrida de gusa e "até então as correntes dos foles haviam arrebentado quatro vezes".
A cada 10 cargas de carvão minérios e fundentes, fazia-se uma corrida de ferro e escórias para
esvaziar o cadinho. Porém, "sucedendo-se rapidamente as corridas, o cadinho nunca se enchia
e esfriava rapidamente, razão com que o trabalho com alavancas custava muito esforço". Na
manhã do 21 de agosto de 1814, fez-se a 10ª e última corrida, "tendo já preciso malhar
durante muito tempo [...] afim de abrir o furo de corrida" (ESCHWEGE, 1979:209).
Nessas passagens, Shönenwolf explicou que devido aos acidentes com as correntes
dos foles e à inépcia de trabalhadores pouco afeitos com o trabalho em altos-fornos formou-
se, durante a última corrida, uma espessa camada de material quase solidificado no cadinho.
Por isso ele escreveu que nessa corrida “foi necessário malhar muito tempo” o espeto de ferro
que era utilizado para perfurar os orifícios pelos quais se fazia o escoamento das escórias e do
ferro líquidos acumulados no cadinho do alto-forno.
O mestre fundidor Shönenwolf previa o pior e alertou Câmara que na manhã do dia 22
de agosto “o forno [o cadinho] estaria entupido, e encravado”. De fato, o congelamento do
cadinho foi constatado antes do previsto por Shönewolf, já na noite do dia 21. Nessa noite,
escreveu Shönenwolf, “durante duas horas trabalhou-se com o malho e o espeto sem que se
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pudesse abrir o orifício”. Perante tal situação, tentaram a medida extrema de forçar os
arrombadores com o recurso de um aríete, mas “esse trabalho durou horas sem resultado”.
Câmara, então, ordenou que a parede de pedra frontal externa que recobria o cadinho fosse
demolida, “e nem assim queria o ferro correr.” A massa de escória e ferro estava muito densa,
mas ainda em temperatura tão elevada que somente após oito dias Shönenwolf pode “retirá-la
fria do forno com grande trabalho”. A causa principal desse infeliz desfecho foi atribuída ao
mau dimensionamento e construção dos foles. Ao todo, ocorreram nessa campanha trinta e
três acidentes, incluídos quebras das correntes e roldanas dos foles e da roda d'água que os
movia. Shönenwolf relatou que "a reparação de cada um dos quais [acidentes] exigiu de duas
a quatro horas, devendo a máquina [foles] ficar parada cada vez" (ESCHWEGE, 1979:209).
Como antes explicado por Shönenwolf, no início da fusão os foles devem ser
acionados ao máximo de potência, com objetivo de produzir um intenso e constante fluxo de
gás redutor e de manter elevada a temperatura. Assim, é crucial que se ocorrerem acidentes
nesse momento eles devem ser prontamente contornados pela habilidade dos trabalhadores
envolvidos na operação.
Como vimos, Câmara não dispunha de gente experimentada no ofício. Então, escreveu
Shönenwolf, "nessas circunstâncias, não era de admirar que o forno, com uma grande carga e
pessoal inexperiente, se resfriasse, encravando-se imediatamente". Ainda de acordo com
Shönenwolf, nessa campanha fabricaram-se cerca de 300 arrobas de ferro, inclusive as
fundições de "1 revestimento para malho, 2 bigornas, sendo uma pequena, para ferreiros, e 1
peça para moinho" (ESCHWEGE, 1979:210).
O material refratário utilizado não impediu o aquecimento excessivo das paredes
externas do alto-forno, o que ocasionou danos estruturais irreversíveis, ao ponto do alto-forno
precisar ser escorado. O forno sofreu tanto com o aquecimento que ao voltar o tempo das
chuvas, e se for preciso fundir de novo, as paredes externas "cairão em pedaços". Além de
estarem em péssimo estado, "mantêm-se graças a escoras". Shönewolf ainda observou em seu
relatório que "a instalação dos foles é tão ruim que, quando um pára, o outro leva um minuto
para soprar, de modo que muito minério cru cai no cadinho" (ESCHWEGE, 1979:210).
Não há evidências de uma quarta campanha. O provável é que a terceira campanha do
alto-forno do Pilar tenha sido a última: "Não se pensa mais em fundir no alto-forno, antes da
chegada do pessoal que o Sr Câmara pediu ao governo [...]. Com eles deverá vir também o
material refratário, proveniente da Inglaterra" (ESCHWEGE, 1979:211).
Câmara solicitou a Shönewolf que construísse pequenos-fornos de redução direta do
minério de ferro semelhantes aos fornos de lupa que Eschwege mandara edificar na Fábrica
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Patriótica de Congonhas do Campo. Entre 1815 e agosto de 1820 a produção dos fornos de
lupa do Pilar totalizaram 5.819 arrobas [87.285 kg] de ferro, com saídas de 3.052 arrobas
[47.780 kg] destinados para a real extração diamantina (MENDONÇA, 1958:369-370)8.
"Se desta vez não tivermos ferro para o Brasil e para a Ásia será grande a
desgraça"9
O objetivo de produzir ferro “em grande” fora do domínio peninsular português
remonta a D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho, governador de Angola nos anos de
1764 a 1772 e pai de D. Rodrigo. Em 1764, D Francisco deu início à construção de alto-forno
e forja de refino da Real Fábrica de Ferro de Nova Oeiras. De acordo com Santos (2005:541),
durante o governo de D. Francisco a metrópole visou fazer de Angola o mercado de ferro
fornecedor para o Brasil e Ásia. A ideia era substituir pelo ferro o ouro que todo ano saía de
Lisboa para a Índia como pagamento aos produtos orientais.10
O projeto de reavivar no final do século XVIII a fábrica de Nova Oeiras tem por base
as Memórias redigidas por D. Francisco Inocêncio. A pedido de D. Rodrigo Souza Coutinho,
José Álvares Maciel, degredado de Minas Gerais em Angola, desloca-se a Nova Oeiras e
conclui sua Memória sobre as minas e a fabricação de ferro em Angola.
Ferreira Câmara recebeu de D. Rodrigo a incumbência de analisar a Memória de
Maciel sobre a fábrica de Nova Oeiras. Em parecer de 20 de agosto de 1798, Câmara opinou
que a decisão pelo estabelecimento em Angola da produção “em grande” ou “em pequeno”
estava diretamente relacionada com a facilidade de transporte de mineral e carvão. Sendo
favoráveis tais condições, justificar-se-ia a opção pela produção de “ferro coado [gusa] de
grandes fornos, onde se reduza este a ferro maleável e converta ao mesmo tempo em aço”.
Em caso contrário, “será mister adotar o trabalho em pequeno” (MENDONÇA, 1858:303).
Câmara destacou em seu parecer a importância desses estabelecimentos fabris também
como escolas para formação de mão de obra africana especializada no trabalho "em grande"
com altos-fornos, ou "em pequeno" com as técnicas europeias de redução direta.
Demonstrou também clara consciência sobre os limites e dificuldades técnicas dos
portugueses, relativamente à redução indireta em altos-fornos. A preferência pelos os altos-
fornos implicaria em "mandar pelo menos a Angola dois mestres: um para ensinar a fundir o
ferro, sabendo ao mesmo tempo construir e reparar o forno, outro para ensinar a forjar e
8
Eschwege (1979:212;251) forneceu os seguintes números de produção dos fornos de lupa: Morro do Pilar
(1815-1821): 6.865 arrobas. Fábrica Patriótica (1813-1817): 5.323 arrobas.
9
Essa consideração de Souza Coutinho em carta de 30 de junho de 1810 a Ferreira Câmara (MENDONÇA,
1958:375) é evidência para a hipótese de que a exploração mineral e a produção de ferro em grande escala na
América portuguesa foi parte de um ambicioso empreendimento metalúrgico estatal preparado a partir de Lisboa.
10
Para a Fábrica de Ferro de Nova Oeiras, ver: SANTOS (2005); SOUZA (2007).
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refinar o ferro". Mas recaindo opção sobre a redução direta com fornos de lupa poder-se-ia
"tentar o melhoramento com as nossas próprias forças, e quando muito obter da Biscaia um
prático na arte de forjar ou afinar o ferro” (MENDONÇA, 1858:303-304).
Portanto, não é de surpreender que, após o colapso do alto-forno em agosto de 1814,
Câmara solicitasse ao governo, em ofício de 11 de setembro de 1814, a importação de
revestimento refratário para dois altos-fornos, literatura técnica e mão de obra qualificada para
os trabalhos da Fábrica do Pilar. Em ofício de 8 de outubro do mesmo ano, o ministro Aguiar
informou resposta favorável ao requerimento de Câmara (MENDONÇA,1958:333-335). Em
aviso de 3 de Março de 1815 a Cypriano Ribeiro Freire, Ministro Plenipotenciário em
Londres, Aguiar incluiu a relação do que pediu Câmara, ordenando que se "faça aprontar o
que na relação se pede"
Pedra de grés [tijolos refratários]
Que tenham de peso cada uma quando muito cinco arrobas [75 kg]; de figura
paralelepípeda, de seis polegadas em quadro na base, que sejam da natureza das
que costumam ir para os fornos de ferro da Suécia, tiradas de Newcastle; em
quantidade suficiente para dois grandes fornos altos. (CONDE DE AGUIAR: 03
Nov. 1815)
No mesmo aviso a Cypriano, encontra-se uma relação de livros solicitados por
Câmara, e na qual encontram-se citadas as obras dos renomados metalurgistas suecos Sven
Rinman e Johan Carl Garney11 e um manual de George Stünkel sobre a produção de ferro aço
nas montanhas do Harz, na Saxônia, para a instrução de mineiros e metalurgistas. Além dos
livros, foram pedidos desenhos de modelos de "carros com o seus competentes arreios, um de
duas rodas, e outro de quatro rodas, e que sejam dos mais próprios para país montanhoso" e o
"Jornal do Mineiro publicado em Freiberg".
Em outro aviso de Aguiar, ficamos sabendo que, relativamente à contratação de mão
de obra qualificada, o governo no Rio de Janeiro tomou providências não apenas para o
atendimento das solicitações de Câmara, mas também para o que pediram Eschwege e
Varnahgen. Os mineralogistas e lentes da Universidade Coimbra João Antônio Monteiro e
Paulino Nolla e Oliveira, que estavam "em Freiberg, ou em algum outro lugar da Alemanha,
observando e estudando os estabelecimentos metalúrgicos", foram encarregados de
ajustar e fazer passar logo ao Brasil alguns mestres e oficiais mineiros e
metalurgistas de melhor nota para poderem lavrar com proveito e regular método
11
Livros de Rinman e Garney também foram trazidos da Suécia por Carl Hedberg, empresário metalurgista
contratado em 1810 para dirigir os trabalhos da Fábrica de Ferro de Ipanema. Sobre essa importante literatura
técnica ver: A arquitetura do alto-forno e a biblioteca perdida de Ipanema: técnica e conhecimento no Brasil
Joanino. Esse trabalho, em coautoria com Fernando José Gomes Landgraf, será apresentado em simpósio
temático no 14º Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia. Ver também Rydén (2007).
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as muitas e diversas minas metálicas que se encontram no Brasil, principalmente as


de ouro, prata, ferro e cobre. (MARQUÊS DE AGUIAR: 11 Set. 1816)
A Cypriano Ribeiro Freire foi autorizado a abrir um crédito na embaixada de Londres
para suprir as despesas, e recomendado que aos lentes de Coimbra fosse prestado todo auxílio
necessário para se efetivar a vinda dos mestres e oficiais para o Brasil, principalmente pelos
cônsules portugueses e encarregados dos negócios "nos portos e lugares por onde passarem
essas pessoas assim contratadas em tudo o que disser respeito a esta importante comissão"
(MARQUÊS DE AGUIAR: 11 Set. 1816).
Anexo ao aviso de 11 de setembro encontra-se a inaudita relação de 56 profissionais
necessários à "exploração das minas e lavra de ouro, na Real Fabrica de Ferro do Morro do
Pilar, na da galena do Abaeté ambas na capitania de Minas Gerais, e na Real Fabrica de Ferro
de Ipanema da capitania de São Paulo" (GAMA: 11 Set.1816)12. Para a fábrica do Pilar:
Dois mestres fundidores em alto forno; dois oficiais do mesmo ofício. Querem-se
homens que tenham trabalhado em mais de uma fábrica que sejam hábeis mestres e
oficiais, podendo ainda os oficiais pedidos dirigir uma campanha na falta dos
mestres.
Dois mestres refinadores hábeis; dois oficiais do mesmo ofício hábeis; um mestre
bom de fornos catalães [um tipo de forno de lupa], e de fazer neles ferro; um oficial
hábil do mesmo ofício; um mestre bom fabricante de aço; um oficial hábil do mesmo
ofício; um mestre bom de fole de madeira que entenda bem o seu oficio, e que saiba
os diferentes modos de por em movimento toda a qualidade de foles; um oficial
hábil do mesmo ofício; um mestre hábil de puxar o ferro em folhas, ou debaixo do
martelo, ou do laminador para fazer folha trigueira e estanhada; um oficial hábil do
mesmo ofício; um mestre hábil de puxar o ferro à fieira desde o arame mais groso
até o mais fino; um oficial hábil do mesmo ofício; um mestre hábil moldador, capaz
de moldar tudo e principalmente peças de artilharia, e todos mais petrechos de
guerra; um oficial hábil do mesmo ofício.
Total desta primeira encomenda, vinte; a saber: dez mestres e dez oficiais. (Gama:
11 Set. 1816)
Num total de doze, as condições que serviram de orientação para as negociações dos
contratos foram redigidas numa forma de minuta de contrato. Os contratos seriam por dez
anos com salários cujos valores anuais foram estipulados para os mestres entre "trezentos e
cinquenta até quatrocentos mil reis, e metade [para] os seus respectivos oficiais". Cada um
dos mestres ficaria obrigado a ensinar o seu ofício a pelo menos dois aprendizes, recebendo

12
Para exploração e lavra das minas de ouro, prata e cobre, Eschwege solicitou "um diretor de minas, um
engenheiro subterrâneo [de minas] que trabalhe com exatidão e que seja bom desenhador, quatro mestres hábeis
mineiros acostumados ao trabalho da sua profissão e dois mestres hábeis carpinteiros de minas". Frederico
Varnhagen, diretor da Fábrica de Ferro de Ipanema, pediu 14 mestres e 14 oficiais.
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por isso uma gratificação na ocasião em que os discípulos "se apresentarem capazes de os
substituir como oficiais" (Gama: 11 Set. 1816).
Trazer ao Brasil esse expressivo contingente de profissionais especializados nas
atividades de exploração mineral e metalúrgica não seria tarefa simples e de rápida execução.
Na orientação escrita para os lentes de Coimbra João Antônio Monteiro e Paulino Nolla em
Freiberg, os operadores do Estado na corte do Rio de Janeiro demonstraram realismo:
Como se não poderão achar todas as pessoas que se desejam e em tal número logo,
e para partirem ao mesmo tempo, será conveniente que se faça todo o esforço para
se irem ajustando os que são indicados em cada uma das relações particulares,
vindo juntamente as que se indicam separadamente em cada relação [...]
Os ordenados indicados antecedentemente não se devem considerar inalteráveis,
mas somente para servirem de governo nos ajustes, que se fizerem, procurando-se,
que ainda sejam menores do os apontados, mas não se deixando de celebrar os
ajustes, e de acelerar a partida dos contratados, ainda que excedam as quantias
indicadas. (Gama: 11 set 1816).
Parte dos mestres e oficiais que deveriam ser contratados no estrangeiro somente
chegaram ao Rio de Janeiro em agosto de 1820. Em ofício de 4 de setembro do mesmo ano,
Thomás Antônio de Villanova Portugal, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do
Reino do Brasil, avisou Ferreira Câmara que para a Fábrica do Pilar foram enviados mestre e
oficial fundidores e "que outros, que são moldadores, carpinteiro, maquinista de forjas etc
seriam mandados para S. João de Ipanema, afim de que trabalhando ali reunidos possam
mostrar a extensão dos seus conhecimentos”. Villanova alertou Câmara para que tudo o que
tivesse sido ajustado em contrato com os operários alemães fosse cumprido porque essa
"exação [...] influirá grandemente para que outros artistas, e gente útil deseje e procure vir
trazer-nos a sua indústria, contribuindo com recíproco proveito para a prosperidade do país".
Ainda que esse ofício de Villanova refira-se exatamente à chegada ao Rio de Janeiro de onze
dos cinquenta e seis profissionais solicitados por Câmara, Varnhagen e Eschewege, ele
também sugere que as tratativas do governo para completar a lista ainda estavam em curso na
Alemanha: "chegando os outros que ainda faltam, como são refinadores, mestres fabricantes
de aço etc [...] Sua Majestade determinará os que mais se deverão para aí mandar em
benefício, e para o bem dessa fábrica". (CARVALHO,1964:213-215)13.

13
Para a relação dos mestres e oficiais chegados em agosto de 1820, ver Moraes (2010:157-158). Em Carvalho
(1964:216-217) encontra-se a transcrição do contrato assinado por Hermano Utsch ― mestre fundidor que
seguiu para a Fábrica do Pilar ― e a Legação do Reino Unido em Berlim, com data de 10 de maio de 1820. A
redação desse contrato com 12 cláusulas reproduz quase literalmente a minuta de 11 de setembro de 1816
enviada aos lentes de Coimbra na Alemanha.
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Solicitados por Câmara em novembro de 1815, o material refratário para revestimento


dos altos-fornos e os modelos de carros de mineração com duas e quatros rodas chegaram ao
porto do Rio de Janeiro em 1819, conforme indica o aviso de 10 de Fevereiro de 1819,
expedido pelo Ministro Thomás Antônio de Villanova Portugal:
Mande entregar oitocentas e setenta e duas pedras de grés com o peso de cento e
dez Toneladas Inglesas [111.760 kg] [..] e os modelos de carros, que de Newcastle
[...] foram embarcadas no navio inglês Aquatie, de que é capitão Mathew Clover,
destinadas para o uso da Real Fábrica de Ferro do Morro do Pilar na Capitania de
Minas Gerais. (PORTUGAL: 10 Fev. 1819)
Mas o transporte da encomenda do Rio de janeiro para a fábrica do Pilar mostrou-se
inviável pelo custo e pelo tempo estimado para entrega. Em aviso de em 12 de julho de 1820
o ministro Villanova expôs ao Intendente Câmara razões da impossibilidade, sugerindo ainda
que Câmara examinasse como alternativa o arenito descoberto por Varnahgenn nas
imediações da fábrica de Ipanema e utilizado com sucesso como elemento refratário14. Os
tijolos de Newcastle não poderiam ser remetidos para o Pilar "em razão do avultado preço de
doze contos de reis, que pediram pelo seu carreto, e tempo de quatro anos para ser ultimado".
Ainda neste aviso, solicitou-se a Câmara que analisasse as amostras enviadas da fábrica de
Ipanema e emitisse parecer15 sobre a viabilidade da substituição dos refratários importados
pelo similar descoberto por Varnhagen. Se aprovado, o similar nacional contribuiria para
remover a fábrica do Pilar do "estado precário, difícil, e dispendioso a que a reduziria a
dependência de pedras vindas de Newcastle, uma vez que se ache no próprio país, e com
pouco custo o modo de a substituir" (PORTUGAL: 12 Jul. 1820).
A exceção daquele que arruinou-se definitivamente após a terceira tentativa, os altos-
fornos projetados por Câmara nunca foram construídos. A Fábrica do Pilar operou somente
com os pequenos-fornos de redução direta até 26 de Fevereiro de 1831, quando foi
oficialmente extinta. De acordo com Câmara, "a sua despesa não excedia 70 contos de réis".
(MENDONÇA, 1958: 149).
14
A descoberta e aplicação do arenito de Ipanema por Varnhagen é, sem dúvida, um dos fatos técnicos mais
relevantes na história da Fábrica de Ipanema, e para o qual a historiografia não deu a devida importância. A
inexistência de material refratário no Brasil foi apontada pelo diretor sueco Hedberg para justificar sua recusa em
construir altos-fornos em Ipanema. Dadas as dificuldades de importação de tijolos refratários industriais desde a
Inglaterra, não é exagero supor que a ocorrência desse tipo arenito nas imediações da fábrica foi determinante
para a sobrevivência desse fantástico empreendimento metalúrgico durante o século XIX. Em sua Memória
sobre a Fábrica de Ipanema, Leandro Dupré (1885:52) atestou a excelência do arenito como elemento refratário:
"A reparação [dos altos-fornos] consiste na mudança da camisa refratária, do buxo [ventre] para baixo. Só de
cinco em cinco anos é que se torna necessário reformá-la toda. A camisa é feita do grés mole [...]. Essa pedra
substitui vantajosamente os tijolos refratários, chegando muitas vezes a resistir a um trabalho de 12 meses".
15
Até o momento, não foram encontrados manuscritos de autoria de Câmara a respeito do arenito refratário de
Ipanema.

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Referências bibliográficas
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CONDE DE PALMA. Correspondência do Conde da Palma. 1810-1814. Belo Horizonte:
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SOUZA, Ana M. Trigo de. Uma Tentativa de Fomento Industrial na Angola Setecentista: A
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Referências de fontes primárias manuscritas
CONDE DE AGUIAR. Aviso ao Conde de Palma a fim de fazer partir o fundidor João
Shönenwolf para a fábrica de ferro de que se acha encarregado o desembargador Manoel
Ferreira Câmara. Ministério da Fazenda. Códice 142, vol. 02. ARQUIVO NACIONAL DO
RIO DE JANEIRO, 17 Fev. 1813.
CONDE DE AGUIAR: Aviso a Cypriano Ribeiro Freire acompanhando a relação do que
pede para a Fabrica de Ferro o Desembargador Intendente Geral das Minas e Diamantes
Manoel Ferreira Câmara. Ministério da Fazenda. Códice 142, vol. 05. ARQUIVO
NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 03 Nov. 1815
GAMA, Manoel Jacintho Nogueira da. Relação das pessoas, que convém mandar vir para
serem empregadas por Sua Majestade como lhe parecer, nos diferentes trabalhos metalúrgicos
do Brasil e particularmente na exploração das minas e lavra de ouro, na Real Fabrica de Ferro
do Morro do Pilar, na da galena do Abaeté ambas na capitania de Minas Gerais, e na Real
Fabrica de Ferro de Ipanema da capitania de São Paulo. Códice 142, vol. 05. ARQUIVO
NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 11 Set.1816.
MARQUÊS DE AGUIAR: Aviso a Cypriano Ribeiro Freire mandando que se abra um
crédito aos doutores João Antônio Monteiro, e Paulino Nolla e Oliveira para ajustar alguns
mestres e oficiais mineiros e metalurgistas de melhor nota e fazê-los passar logo ao Brasil e
que participe isto mesmo aos ditos doutores. Códice 142, vol. 05. ARQUIVO NACIONAL
DO RIO DE JANEIRO, 11 Set.1816.
PORTUGAL, Antônio de Villanova Portugal. Aviso a José de Carvalho Mello ordenando
entregue 872 pedras de grés com peso de 110 toneladas inglesas. Correspondências das
províncias, 5B-227. ARQUIVO NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 10 Fev. 1819.
PORTUGAL, Antônio de Villanova Portugal. Aviso a Manoel Ferreira da Câmara Bittencourt
e Sá participando remetem-se amostra da pedra refratária q. fora descoberta em S. Paulo q. se
reputa superior a de Newcastle, q. também se remetem, com as exposições feitas sobre a dita
pedra refratária pelo Sargto mor Guilherme Frederico Varnhagen e q. feitas as experiências
participe a Mesa do Erário com a conta da total despesa até o presente e da que se tem feito
cada ano. 5B-227. ARQUIVO NACIONAL DO RIO DE JANEIRO, 12 Jul. 1820.

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