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"Memórias, sonhos e outros incômodos"

J.C. Valladão de Mattos

Trecho do texto "O homem de Vênus"

(...)

O verão carioca é realmente muito quente e já era assim naquela


ocasião. Notou que, a despeito do calor, havia um colega que se sentava
sempre nas últimas fileiras e usava todos os dias uma jaqueta de couro, do
tipo daquelas que os motoqueiros adoram. Era bem alto e forte, de pele
branca e de olhos castanhos muito intensos. Aparentava ser bem mais
maduro que todos os demais.
Notou, também, que, durante as aulas, ele ficava lá no fundo da sala,
observando todo mundo, e sentia, com frequência, seu olhar dirigido para si,
apesar de não poder enxergá-lo. Quando se sentia muito perturbado, virava-
se para trás e o surpreendia olhando em sua direção. Sempre que se
cruzavam no corredor, durante os intervalos das aulas, esse colega o
cumprimentava com um aceno de cabeça. O comportamento desse seu
colega começou a incomodá-lo, a interferir muito em sua concentração nas
aulas. Começou a temer que esse estranho fosse um efeminado. Entretanto,
ele não fazia o tipo, não tinha os conhecidos trejeitos, parecia um cara muito
sério.
Um dia, João pisou no pé e, literalmente, colidiu de frente com a moça
que viria ser a sua primeira mulher e mãe de suas filhas. Trocaram um
intenso olhar, daqueles em que se vê a alma um do outro. João, muito sem
graça, balbuciou algumas palavras de desculpas. Havia um monte de
estudantes atrás dele verificando suas notas no quadro de avisos. Sua futura
mulher era um deles.
Após constatar seu grande sucesso no primeiro exame simulado do
cursinho, quando retornava para a sala de aula, feliz e todo sorridente pelos
dois fatos que tinham acabado de acontecer, aquele colega — que
continuava usando jaqueta em pleno verão carioca — parou-o no corredor e,

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sorridente, perguntou-lhe:

— Você realmente está surpreso com o seu sucesso neste exame? Se


estiver, não deveria, pois você sempre soube tudo isso e muito mais. É que,
quando você decidiu vir para cá, foi obrigado a esquecer tudo o que sabia, foi
necessário recomeçar do início. É sempre assim.

Aquilo o deixou perplexo. Não sabia o que dizer ou pensar. Ficou todo
encabulado. Foi salvo pela campainha que tocou no corredor, dando fim ao
pequeno intervalo que havia naquele horário, e entraram na sala de aula,
sem dizer mais nada. Tomou o seu lugar lá na frente, e o seu colega
esquisito, lá atrás. As carteiras eram dispostas em degraus, as posteriores
em patamares mais elevados.
Naquele dia, a insistência e o peso do olhar de seu colega o
incomodaram muito, apesar de não poder vê-lo. Sentia que ele tentava se
comunicar, talvez por telepatia. Mas João não tinha familiaridade com essas
coisas naquela ocasião.
Na saída das aulas, ele o estava esperando na entrada do prédio.

— Gostaria de me apresentar. Precisamos conversar, pois a minha


missão está terminando, não me resta mais muito tempo.

Seu nome era Mário.


Entregou em seguida a João várias folhas cheias de figuras geométricas,
dizendo que representavam antigos desenhos e cálculos arquitetônicos feitos
para construir grandes monumentos da antiguidade, em particular, as
pirâmides do Egito.
Mário disse-lhe que não era daqui, que tinha vindo de muito longe e que
sua missão era muito importante. Pediu-lhe que, naquele dia mesmo,
tentasse resolver os problemas que ele havia formulado durante as aulas e
que, se possível, os trouxesse no dia seguinte. Depois disso, gostaria de
conversar mais longamente.
João, ao chegar em casa, resolveu, rapidamente, todos os interessantes

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problemas que seu colega havia lhe proposto. A maioria era de geometria e
envolvia cálculos trigonométricos.
No dia seguinte, lá estava ele, na entrada do edifício, esperando por
João, que lhe entregou a solução dos problemas e, respondendo à pergunta,
disse-lhe que não tinha tido grandes dificuldades para resolvê-los.
Mário leu com muita atenção e, volta e meia, esboçava um quase
imperceptível sorriso. Após algum tempo, disse-lhe:

— Ótimo, eu sabia que você era a pessoa certa.

Convidou João a matar as aulas naquele dia porque tinha coisas muito
importantes a lhe dizer. Buscar encontrar pessoas como João havia sido
uma das razões pelas quais se encontrava ali.
João perguntou-lhe se realmente ele era aluno do cursinho, que
vestibular pretendia prestar, essas coisas. Mário sorriu e disse-lhe que não
era nada disso, que não viera para prestar vestibular algum e que já havia
adquirido suficiente conhecimento.

— Escute — disse-lhe João —, tenho visto você, já faz algum tempo,


sempre observando nossos colegas e especialmente olhando para mim.
Diga-me, para encurtar conversa — as aulas daqui a pouco vão iniciar, eu
não posso perdê-las, por ser bolsista do cursinho — você me diz que não é
daqui, que é não sei de onde e, agora, me diz que não é aluno do cursinho,
não vai prestar nenhum vestibular, que seu tempo é curto e está se
esgotando. Afinal, do que se trata tudo isso?

Mário sorriu e disse-lhe:

— Não se assuste, não tenha receio, como você notou, desde que aqui
cheguei, tenho realmente observado e tentado entrar em contato com seus
colegas. O único que conseguiu sentir minha presença e minhas tentativas
de comunicação telepática foi exatamente você. Eu consigo ler um pouco
dos seus pensamentos. Só que você, quando percebe, levanta a maior

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barreira mental de bloqueio, causada por medo, por desconhecimento. Você
foi a pessoa que escolhi e, agora, tenho certeza que é com você mesmo que
me interessa conversar. Realmente não sou daqui, vim de muito longe, mas
depois eu explico tudo. Como você insiste em assistir às aulas,
conversaremos no final da manhã.
As aulas terminaram, desceram as escadas. As salas de aula do
cursinho eram no oitavo andar. Mário o convidou a caminhar em direção à
Central do Brasil. João disse-lhe que poderia ir somente até a Praça XV,
porque lá tinha bondes que lhe serviam. Iria para casa almoçar.
Caminharam.
A primeira pergunta que João lhe fez foi:

— Tá bom, você não é daqui, tudo bem. Diga-me, então, de onde você é.

Mário respondeu-lhe com a maior serenidade:

— Sou de Vênus.

João respondeu-lhe:

— Tá bom, eu sou o Presidente da República, estou aqui disfarçado de


estudante para levantar os reais problemas de nossa juventude.

Mário ignorou o que foi dito, dando um leve sorriso.


Era, disse-lhe João, muito difícil acreditar naquela grande bobagem, já
que em Vênus, como todo mundo sabe, a temperatura é muito elevada e sua
atmosfera não é adequada à vida do ser humano.

— Existem infinitas formas de vida no universo — respondeu-lhe Mário.


Aqui no seu planeta, para sustentar o tipo de vida que floresceu, há
necessidade de água, oxigênio, nitrogênio, etc., e um intervalo de
temperatura definido, nem extremamente frio, nem demasiado quente, é uma
faixa de temperatura realmente muito estreita. A razão disso é a distância

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deste planeta ao Sol. Se fosse apenas cinco por cento maior, não haveria
possibilidade de se encontrar água no estado líquido, seria tudo gelo. Se
fosse só cinco por cento menor, toda a água se tornaria vapor. Vocês aqui
têm, ainda, um intervalo de visão, também, muito estreito, só é possível se
enxergar entre o fim do infravermelho e o início do ultravioleta próximo. Seus
cientistas chamam a isso, com toda razão, o intervalo visível. Se ele fosse
ampliado para frequências maiores que a do ultravioleta próximo e menores
do que a do infravermelho você perceberia que o que chamam de universo é
muito mais amplo, muito mais complexo e glorioso do que pode perceber.
Eu, na minha presente situação, consigo ver um universo estranho para mim,
bem mais simples, muito diferente daquele que consigo enxergar quando
estou em Vênus. Nem todas as formas de vida no universo são, como a sua,
baseadas em complexos do carbono, isso é um mero acaso. No meu
planeta, a vida não tem essa base, é muito mais, como vocês diriam,
digamos assim, etérea e fluida. Bem diferente do que vocês conhecem aqui
na Terra. Em outras partes, a matéria, da forma como vocês entendem por
matéria, está absolutamente ausente.
Há, ainda, formas de vida que se manifestam como mais densas do que
a sua. Nessas outras formas de vida, consideradas por vocês etéreas, ou
não, existentes em outros planetas, a sensação, em relação às coisas lá
existentes, é que elas são sólidas, da mesma forma como vocês as sentem
aqui em seu mundo. Tudo isso é uma questão de simples ilusão.
Tudo se passa de forma muito semelhante em todas as manifestações
da Vida, em qualquer local do universo, inclusive a individualidade de cada
ser. Mas nada disso importa muito no momento, são meras sensações
ilusórias, suas e de todos os demais seres. Tudo no universo, inclusive ele
próprio, é a manifestação de uma energia infinitamente grande, com uma
característica muito importante: ela é autoconsciente. Sei que é muito difícil
para você, no momento, entender esses assuntos. Eles não fazem parte das
coisas que podem ser observadas. Mas isso não é importante. O que importa
é você tomar conhecimento delas.
Essa energia autoconsciente é indestrutível. Como você já aprendeu nas
aulas de Física, a energia pode se transformar e assumir aspectos muito

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diferentes: energia mecânica, térmica, elétrica, química, eletromagnética e
outras formas de energia que são desconhecidas de vocês. Sempre,
entretanto, é observada, em qualquer transformação de um tipo de energia
para outro, a sua conservação. Lembra-se de suas aulas de Física? — João
se lembrava. Da mesma maneira, as formas de vida existentes no universo
são, também, indestrutíveis, podem se transformar de uma em outra, já que
tudo o que existe é a manifestação da energia primordial. Isso explica porque
hoje tenho a forma humana de vocês, que, normalmente, não é a minha.
Tudo e todos são a mesma coisa, não passamos de meras manifestações e
peculiares configurações dessa infinita e autoconsciente energia. Para a
existência do universo e de nós próprios, é fundamental e indispensável a
presença da luz. Ela, como você acabará aprendendo mais tarde, manifesta-
se, também, de várias formas — as duas conhecidas de vocês são: a
chamada onda eletromagnética e a outra, o fóton, que, aparentemente, tem
forma de um pacote de energia e se comporta como se fosse uma partícula
sólida. Os físicos daqui inventaram, por não entenderem esses fenômenos,
um nome para isso: comportamento dual da luz. É somente um nome, nada
mais que isso. Mais tarde, descobriram que, o que chamam de matéria —
elétrons, prótons, nêutrons e todas as demais partículas — também podem
apresentar dualidade: às vezes se comportam normalmente como uma
partícula e, em outras situações especiais, como uma onda eletromagnética.
Elas, também, são conversíveis de uma forma para a outra. Você aprenderá
essas coisas ao longo de seus estudos futuros. Numa concepção mais
ampliada do que aquela como vocês a entendem, a luz, nas suas infinitas
manifestações, é o integrador do universo, é quem transporta informação de
um lado para outro. Tem a mesma velocidade, independentemente de quem
a observa e mede, é uma constante do universo. Quando você chegar a
ponto de estudar essas coisas, entenderá que existe uma interconexão de
tudo com tudo, e a luz é a responsável por essas interações e pela coerência
do universo.
A luz é a manifestação dessa energia infinita, de que falei antes, de
formas variadas: através da emissão por átomos em suas mudanças de
estado e por galáxias inteiras. Existem muitas outras manifestações da luz,

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desconhecidas de vocês. Ela é a única chave para se entender o universo e
todo o restante. Além da luz e das chamadas partículas materiais, existem no
universo outras entidades que vocês chamam de buracos negros. Eles
absorvem completamente tudo que se aproxima de seu campo de ação.
Inclusive a própria luz. As diferentes emissões de radiação e os buracos
negros, que tudo absorvem, promovem o necessário equilíbrio e
conservação da energia do universo. A energia primordial — infinita e
autoconsciente — manifesta-se no universo, também de forma dual. Além da
luz, manifesta-se na forma de prótons, elétrons, nêutrons, neutrinos, etc.,
uma miríade de manifestações. Algumas delas apresentam a propriedade de
inércia, o que vocês chamam de massa, outras, não.
Estude sempre a luz, se você quiser entender o universo e todas as suas
coisas. É esta a minha mais importante comunicação para você.
Você se encontra num ponto de encruzilhada, pode fazer o curso de
Engenharia, como eu sei que quer, ou pode dedicar-se à Física, com ênfase
no estudo da luz, que é o meu principal conselho para você.

Chegaram ao final de sua caminhada. João pegou seu bonde.

— Continuaremos a conversa outro dia — disse-lhe Mário, seguindo seu


caminho para a Central do Brasil, como fez algumas vezes depois.

No dia seguinte, em outra caminhada até a Praça XV, João disse a Mário
que havia pensado bastante sobre tudo o que ele havia lhe dito. Tinha
entendido as palavras, não o seu significado, o seu alcance. Não entendia
como a luz poderia fazer tudo aquilo.

— Neste instante — disse-lhe Mário — o importante é que você se


conscientize dessas coisas. O entendimento mais profundo poderia vir mais
tarde, se você realmente se dedicar e tiver o interesse em compreender.

Mário, então, o convidou a visitá-lo em sua casa, na estação de Marechal


Hermes, local onde estava morando. Havia alugado um quarto numa

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pequena pensão muito simples. Fazia parte de sua missão, também,
entender as condições de vida de nossos povos. Especialmente daquelas
pessoas sujeitas a sofrimentos e grandes dificuldades para sobreviver. Ele já
havia estado em locais mais prósperos, por isso, alcançara um entendimento
muito bom sobre como nossa sociedade humana se comporta.
Recomendou-lhe, adicionalmente, que ele se preocupasse sempre com elas,
as pessoas pobres e marginalizadas. Frisou, com muita ênfàse, que todos
teríamos de evoluir juntos. Não adiantaria muito uma pequena parcela da
população do planeta avançar no entendimento e tornar-se esclarecida.
Seria necessário ajudar todos a seguirem o mesmo caminho e alcançarem
igual iluminação.
Mário ensinou-lhe algo muito importante nesta ocasião:

— A condição humana, com seus valores humanos, não nasce com as


criaturas, é necessário fazer um grande esforço individual para aprendê-los e
vivenciá-los. A grande maioria das pessoas de seu planeta não se deu conta,
ainda, deste fato. Todo o esforço individual a ser feito visa, principalmente,
superar a condição animal, que é parte intrínseca da natureza humana. O
homem, também, possui natureza dual: parte dele é animal e parte é
espiritual. Se nenhum esforço for feito para o desenvolvimento de sua parte
espiritual, dominará sempre a sua parte animal. E é exatamente esse esforço
que você vem fazendo, já há alguns anos. Este é o verdadeiro caminho da
indispensável iluminação. Você iniciou sua jornada quando tomou a decisão
de largar toda a sua vida confortável e divertida e perceber que estudar pode
ser sublime. Mas acredite-me, esses foram seus passos iniciais. Há um
longo caminho a percorrer. Tenho certeza de que você tem consciência disso
e está se preparando para a sua jornada. Você já percebeu, intuitivamente,
que o esclarecimento e a consequente iluminação são muito importantes.
Estes são os verdadeiros sentidos da vida.
A razão do meu convite — disse-lhe Mário — era que gostaria de
demonstrar que, realmente, não estava com invencionices e lorotas. Queria
mostrar-lhe um equipamento que transporta matéria de um local para outro,
aparentemente sem contato com nada. Na realidade, utiliza-se de energia

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que gera intensos campos de força, desconhecida pela humanidade até o
momento.

Ele o esperaria na estação de Marechal Hermes, pois o local que


escolhera para morar era muito pobre e de difícil acesso. Ficava numa
favela. João sentiu-se muito indeciso. Pensaria sobre seu convite, disse. Se
resolvesse aceitá-lo, o encontraria na estação, lá pelas três horas da tarde.
João não foi a este encontro marcado. Ficou com medo de ser uma
armadilha, de ser assaltado, de ser abduzido, até mesmo temeu por sua
vida. No dia seguinte a este que João deveria ter ido a Marechal Hermes,
Mário apareceu novamente no cursinho. Perguntou-lhe se não havia
aceitado o seu convite. Havia ocorrido um imprevisto, mentiu-lhe João, ele
não tinha como se comunicar por telefone, pois desconhecia o número da
pensão onde morava, se é que poderia haver um telefone numa favela, coisa
de gente rica, já que a linha telefônica custava muito caro.

— Você não precisava de telefone algum — afirmou-lhe. Bastava me


enviar uma mensagem mental! Na realidade, você, quando teve medo de ir
me encontrar, havia enviado, sem perceber, essa mensagem. Por isso, não
fui à estação esperá-lo como combinado, fiquei sabendo que você não iria.
Não havia razão para ter medo.

Ele entendia que a violência, a guerra e outras atrocidades eram fatos


incontestáveis em nossa sociedade humana, resultados do domínio de nossa
condição animal. Mas, mesmo isso tudo seria totalmente erradicado de
nosso comportamento no futuro, quando todos alcançassem o grau de
iluminação necessário.
Continuaram suas caminhadas do cursinho para a Praça XV mais
algumas poucas vezes, não foram muitas mais. Mário monopolizando a
conversa e sempre falando, sempre indicando caminhos a serem seguidos,
insistindo que a luz era o conhecimento fundamental para se entender tudo
no universo.
Chegaram ao último e estranho dia.

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João perguntou-lhe, durante a caminhada, sobre a veracidade da
existência de discos voadores, que, naquela época, início dos anos 60 e na
década anterior, haviam virado uma verdadeira febre no planeta todo.
Haviam sido observados e até mesmo fotografados discos voadores em
muitas localidades, especialmente nas proximidades de unidades militares.
Mário respondeu-lhe que era verdade. A Terra vinha sendo visitada por
outras formas de vida, preocupadas com a iminente destruição do planeta.
Havíamos desenvolvido uma arma extremamente letal, a bomba atômica. O
mundo poderia lançar-se num conflito de grandes proporções. A guerra fria
estava em seu esplendor. Muitos experimentos haviam sido feitos com
bombas de urânio, hidrogênio, etc. A destruição da Terra poderia ser
causada por um grande número de bombas acumuladas e lançadas pelos
dois lados em conflito. Se isso viesse a ocorrer, haveria enormes distúrbios
em nosso sistema planetário, inclusive em Vênus, que seria severamente
atingido e, com certeza, a condição de abrigar vida lá, também, seria extinta,
assim como em Marte, os nossos dois vizinhos mais próximos. Haveria
intervenção planetária, se as coisas por aqui caminhassem para um
desfecho tão trágico, como parecia provável para eles naquele momento.
Esta tinha sido a mais importante razão de sua vinda à Terra, e ele não havia
vindo para cá sozinho.
A curiosidade de João era muito aguçada sobre este assunto. Queria
saber como os discos voadores se moviam e qual energia utilizavam. Ele lera
em revistas, especialmente na Manchete, que haviam sido observadas
acelerações inimagináveis no deslocamento dos discos voadores. Em
questão de segundos eles desapareciam da vista. Curiosamente, quem os
viu relatou de maneira coerente que havia um alternar de luzes vermelhas e
verdes que piscavam intermitente e intensamente.
A observação era correta, disse Mário. Mais uma vez, a luz estava
envolvida. Neste caso, no processo energético para a movimentação desses
objetos. Ele não teria tempo, nem autorização, para falar sobre isso. Mas, se
acreditasse, um dia a humanidade poderia chegar lá, se não causasse sua
autodestruição. Este conhecimento, e muito além dele, para ser alcançado
pela humanidade, dependeria não somente do desenvolvimento cientifico e

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tecnológico, mas, muito mais, do desenvolvimento mental e espiritual.

— A humanidade atual tem demonstrado um enorme desinteresse por


esses aspectos e até mesmo, insanamente, o ridiculariza. Sua mente está
dominada por um pequeno aspecto, o racional, pelo que vocês chamam de
Ego. Toda uma enorme gama de potencialidades mentais tem sido
desprezada. Somente um pequeno número de pessoas dá importância ao
que vocês chamam de intuição. A maioria ignora seus sonhos, sem perceber
o quanto estão sendo desperdiçados.

Ele tinha a esperança de que João se tornasse uma pequena semente.


Caso viesse a germinar, poderia contribuir para o início de transformações
importantes para o seu planeta. As mesmas ideias que ele lhe havia
transmitido foram dadas, por ele próprio e por seus companheiros de missão,
para muitas outras pessoas daqui, na esperança que viessem ajudar a
acelerar nosso desenvolvimento mental e espiritual.
O aspecto do desenvolvimento material é importante, as tecnologias e
ciências eram imprescindíveis. Entretanto, esses desenvolvimentos estavam
sendo encaminhados de formas indesejáveis, com o objetivo de capacitar o
homem para guerras, o que poderia levá-lo à autodestruição. Deveríamos
perceber, e tomar consciência, de que existem caminhos diversos para se
alcançar esses desenvolvimentos. A humanidade não poderia avançar muito
mais se continuasse desconsiderando, e mesmo ignorando, seu
desenvolvimento mental e espiritual.

— O homem usa somente uma pequena porcentagem dos neurônios que


possui. Seus cientistas já conseguiram medir esse porcentual. Houve,
entretanto, no passado, sociedades humanas que conseguiram desenvolver
enorme capacidade, mental. Naquela distante época, vocês tinham,
inclusive, suas capacidades telepáticas em uso corriqueiro; havia o domínio
da mente sobre a matéria e outras coisas importantes já desenvolvidas. Mas,
infelizmente, isso tudo se perdeu nas grandes catástrofes ocorridas no
planeta.

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Esses desenvolvimentos mentais eram corriqueiros na Lemúria e na
Atlântida, continentes que foram habitados por milhões de seres humanos.
Infelizmente, mais uma vez, não foi dada a devida atenção aos importantes
aspectos espirituais. Usavam essas fantásticas capacidades mentais para a
dominação e destruição de outros povos. Foram, por isso, destruídos, estão
submersos no oceano. Com certeza, você já deve ter ouvido falar neles.
Coisa semelhante ocorreu no antigo Egito, na Babilônia, na Suméria,
etc., antes da grande destruição do homem causada pelo dilúvio, há cerca de
onze mil anos. Hoje só restaram alguns de seus grandes monumentos.
Todavia, ainda existem algumas reminiscências desses conhecimentos.
Alguns de seus cientistas, ao estudarem povos indígenas antigos, já
observaram que um conhecimento adquirido por um de seus membros torna-
se, de imediato, conhecimento tribal. A mesma coisa foi observada em
bandos de pequenos macacos que habitam ilhas separadas por grandes
distâncias. Constaram que há forte interação mental entre eles. Um
aprendizado numa ilha isolada é compartilhado entre todos os habitantes das
demais ilhas. Algumas árvores, quando atacadas por nuvens de numerosos
insetos, emitem sinais, alertando as demais. Essas, tomando ciência do fato,
exalam uma substância que os espanta. É parte da estratégia de
sobrevivência desses seres vegetais.

— Mas como um vegetal que não tem, até onde é conhecido, nada
parecido a um cérebro pode interagir com outros? — Indagou João.

Mário sorriu de sua ingenuidade.

— Os vegetais — disse-lhe — têm grande sensibilidade, por exemplo, à


música. Já se realizaram, com sucesso, experimentos para sua
demonstração. Observou-se que, em ambientes onde há músicas suaves e
harmônicas, os vegetais são exuberantes, sua produção de flores e frutos é
muito maior. Naqueles ambientes sujeitos a músicas ruidosamente
dissonantes, as plantas murcham e morrem. Isso é a demonstração cabal de
que os vegetais interagem com o meio onde vivem. Com ou sem cérebro.

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Nem todos os seres vivos são iguais ou semelhantes. Existem mecanismos
variados para promover essas interações, não somente o cérebro.
Esses fatos observados poderão ser todos compreendidos, uma vez que
se perceba que existimos numa rede que nos une mentalmente, ou de outra
forma, a todos os seres do universo. O homem não necessita desenvolver
sofisticadas tecnologias para participar dessa rede. Ela está aí, basta
aprender a utilizá-la. Basta que aprenda a operar seu cérebro em
frequências adequadas. Essa capacidade precisa ser desenvolvida. Ela se
manifesta, naturalmente, durante o sono de vocês, quando as barreiras
racionais criadas pelo cérebro são relaxadas. Essas barreiras são os
resultados da educação atual, que exacerba o racionalismo e,
consequentemente, o individualismo, resultando em alta dose de egoísmo
pessoal. O homem foi transformado num ser extremamente individualizado,
centrado em si, resultando no bloqueio da conexão com os demais. Tornou-
se desgarrado de todo o restante dos seres viventes, por considerar-se uma
criação divina destinada a dominar totalmente este planeta. Esta postura, se
não interrompida, resultará na destruição total da possibilidade de
continuidade da Vida na Terra. É necessário ser percebido que todos nós
fazemos parte integrante da energia infinita e autoconsciente. Todos e tudo
são manifestações e partes dessa energia, como uma pequena onda é parte
do mar.
Mário recomendou que João pensasse muito sobre todas as coisas que
lhe havia dito, dizendo que eram muito importantes, fundamentais mesmo.
Que ele não se esquecesse nunca de que o desenvolvimento mental e
espiritual deveria ser de todos os humanos deste planeta. Somente desta
forma poderíamos nos integrar na vida do universo. Se isto não for
alcançado pelo homem, ele fatalmente promoverá sua destruição.
Esperava que João fosse capaz de contribuir, também, para esse
importante aspecto. A divulgação dessas ideias era fundamental para a
humanidade. Ela tem um longo caminho pela frente. Mas, qualquer
caminhada, por mais longa que seja, sempre se inicia com o primeiro passo.
O objetivo de nossas vidas é alcançar a iluminação, sonhar e realizar. É
desta forma que o mundo é constantemente recriado e modificado. Nada

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permanece para sempre. Nossas vidas são como caudalosos rios que
buscam sempre novas paisagens, nunca permanecem estáticas.
Recomendou que João não negligenciasse os seus sonhos, que os
anotasse, pois são mensagens e inspirações importantes. O que é pensado
sempre pode tornar-se uma realidade no mundo material. É assim que ele foi
e é continuamente criado.

— No fundo, tudo o que existe no mundo, o que vocês chamam de


matéria, é o resultado da realização de um pensamento. Até um livro
sagrado de vocês diz isso: No Princípio era o Verbo (expressão de um
pensamento) e o Verbo se fez Carne (matéria). Isto ocorre com vocês
rotineiramente, mas não é percebido por ninguém. Por exemplo, um susto ou
sensação de medo, que não deixa de ser uma forma de pensamento, cria
instantaneamente em todas as partes do seu corpo moléculas enormes, que
vocês chamam de adrenalina. Um outro exemplo de criação de matéria pelo
pensamento é a inundação total de seu corpo com moléculas, também
enormes, que vocês conhecem como feromônios, criadas por um desejo
intenso, ou pensamento libidinoso, em relação ao sexo oposto. Como você
pode perceber, alguns de seus pensamentos também se realizam no mundo
que vocês chamam de material. Assim, você pode concluir que a matéria é o
resultado da realização de um pensamento, uma especial configuração da
energia que tudo constitui e permeia.
O desenvolvimento mental e espiritual poderá capacitá-los a fazer essas
coisas conscientemente. E mais, poderá capacitá-los com o controle da sua
mente sobre o mundo material. O homem pode alcançar o poder de plasmar
matéria em seu mundo, coisa que é corriqueira em outras partes e em outras
vidas existentes no universo.
Há locais no universo onde seus habitantes conseguem transformar,
naturalmente, seus pensamentos no que, para eles, é considerado como
matéria — tão sólida como parece ser para vocês a matéria aqui. Esses
seres existem em formas vivas de elevadas frequências. Por isso, não
podem ser observados por vocês. É essa a razão da aparente inexistência
de vida nos demais planetas e no universo.

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Um pensamento, qualquer que seja ele, que se torne desejo de uma
coletividade tem uma enorme probabilidade de se realizar no mundo que
vocês consideram como material. Existem exemplos conhecidos disso: a
viagem submarina e a viagem à lua, sonhadas e descritas por um famoso
romancista, tornaram-se desejos coletivos, por isso, adquiriram energia
suficiente para serem realizadas. O homem sonhou voar, desde sempre.
Hoje isso é corriqueiro para vocês.
Esses conhecimentos são de grande interesse para a humanidade —
frisou Mário.

Por isso mesmo, era da maior importância que João tentasse dar a mais
ampla divulgação a tudo o que havia aprendido.
Chegaram à Rua 12 de Março, que fica um pouco além da Praça XV.
Mário o havia convidado a acompanhá-lo até lá.
Estava se despedindo, disse, teria de partir dentro de alguns minutos de
nosso tempo. Sua visita havia terminado. Acreditava que sua missão tinha
sido bem-sucedida. Esperava que João pensasse muito sobre todas as
coisas que lhe foram ensinadas. Sabia, perfeitamente, que quase tudo o que
lhe dissera não poderia ser completamente entendido, mas queria que ele se
lembrasse sempre delas.
Pediu a João que divulgasse o quanto pudesse essas ideias. Que não
negligenciasse jamais os seus sonhos, pois eles são importantes fontes de
inspiração, colocam-nos em conexão com o conhecimento existente no
universo. Que se lembrasse sempre da rede mental que nos envolve a todos.
Abraçou afetuosamente João e dirigiu-se para uma passagem estreita
que há entre dois prédios antigos naquele local. João permaneceu na
calçada, parado, olhando-o caminhar e entrar entre os dois prédios.
Lembrou-se, imediatamente, de lhe perguntar como poderia entrar em
contato e pedir-lhe ajuda no futuro, caso viesse a precisar. Correu
rapidamente na direção que Mário havia tomado. O terreno atrás desses
prédios é asfaltado e fechado dos dois lados, usado, normalmente, para
estacionar carros, sem saída. Estava deserto. Mário havia desaparecido,
evaporara. Percebeu que Mário não teria tido tempo para usar uma das

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portas dos fundos do prédio, pois ficavam distantes da esquina. Ficou
perplexo e, instintivamente, olhou para cima. Para sua enorme surpresa, viu
intensas luzes vermelhas e verdes piscando muito ao longe, que, também,
imediatamente desapareceram...
Todo esse ensinamento deixou João profundamente perturbado, sem
saber o que pensar e fazer. Profundamente arrependido por ter tido medo,
por ter sido covarde e não ter ido a Marechal Hermes conhecer o tal do
equipamento que, supostamente, fazia teletransporte de matéria, por não
haver perguntado a Mário um milhão de coisas. Suas conversas tinham sido
quase monólogos. Mário falava a maior parte do tempo e ele ouvia. Mas já
era tarde demais, teria que conviver com esses ensinamentos todos e buscar
entendê-los sozinho, dali para frente.
Talvez tenha sido essa a intenção de Mário. Fazer com que ele tivesse
elementos para evoluir na direção correta.
Curiosamente, muitos conturbados anos mais tarde, já havendo se
esquecido de tudo isso, João ficava fascinado com a série televisiva
"Jornada nas Estrelas", na qual um equipamento similar ao que Mário havia
mencionado teletransportava o capitão Kirk, Mr. Spock e a tripulação de sua
nave espacial, a Enterprise, para o solo do planeta que visitavam e vive-
versa. Em outros episódios desta série, a tripulação da Enterprise descobria
que, por estarem em outro planeta, eram capazes de materializar seus
pensamentos. Mas, mesmo assim, a ficha não caiu, João havia se esquecido
totalmente de seu amigo de Vênus.
Logo após a partida de Mário, João havia tentado falar sobre essas
coisas com muitas de pessoas. Todas riam e diziam que sua imaginação era
muito fértil, que ele estava muito impressionado com essa bobagem toda de
disco voador, etc.
Ele começou a ficar muito chateado com aquele tipo de reação e com as
inevitáveis gozações. Cansou-se de ser ridicularizado. Tentou selecionar as
pessoas que poderiam ouvi-lo e nele acreditar. Não encontrou nenhuma.
Optou pelo mutismo sobre esses fatos e decidiu esquecer toda essa sua
experiência.

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