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SOUDAPIEDAOEÀ

nESISTENCIA
CURDA
coma leÃO PÁLIO

Biblioteca lura Lide


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São Paulo/SP bibliotccatcmBlitm. noblogs.OTg
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Comitê de Solidariedade à Resistência Populn Cada de São Paulo


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@grmilcom
solidaricciadtcKrdap.mibaraLotg
P.col soíibtketa&mrEiasp

PrometoGráfico c Diagramação: Adriano Skoda


Tradução c Revisão: Análise Priva Csapo l Clayton Peron F. de Godoy l Eduardo Souza
Cunha l Guilhcmie Erdê l,Racha Pachecol R(xirigo Rosada Silvo

Xilogravurw originalmente publicadas na REVJSTX ROJAVA(nCVTSZHCOUAmOO)

©
capyleft
É livre a rcprodt+ção
paralins Rãocomerciais,
dcs(k T1:1212f\ l.l\rl?l
quees nolas4a inic {daeaüiiloriasdadtada.
O H. J' -m, m.-t;-h; t- m-!;=--«-':
uma introdução à revolução cle K.orava
STRANGEm INA TANGIED WILDERNESS

É uma tarefa praticamente impossível traçar as curvas e os


afluentes dc um dos movimentos de resistência contemporâneo
mais longo do mundo -- a luta dc 150 anos que se estende desde
o domínio do Império Otomano até assangrentasguerrascivis
dc hoje na Síria e no Iraque. Livros poderiam e são escritos
sobrea história, resistênciae esperançapela liberdade dc mais
dc 25 milhões dc curdos dispersos por quatro Estados Ferozese
opressivos.Este pequeno volume. não abrange toda complexi-
dade da história deste povo e sua longa luta, também não é um
ensaio acercada geopolítica maquiavélica que oprimiu dezenas
de milhões de pessoaspor gerações.Este livro é uma ponte '
entre nós, radicais do Ocidente, que nos tornamos cínicos à
ideia dc que qualquer coisa realmente pode mudar, e aqueles
que ousaram uma experiência de liberdade em uma das partes
mais perigosas do mundo, contra inimigos tão absurdamente
ressivos e selvagens que parecem ter vindo dc um roteiro de
Hollywood'. Precisamosde algum contexto para de fato com-
preender as palavras e as ideia dos rebeldes de Rojava, senão po'
demos facilmente ser seduzidos por um excessode simplificações
e distorções -- como as alegações dc que a luta em Rojava é uma
repetição da Rwolução Espanhola, ou que é .uma atualização
mais refinada da luta de libertação nacional de inspiração mao-
ísta. Essesequívocosnão são cometidos apenaspelos radicais -
até o governo dos EUA parececonfiiso, pois o departamento de
defaa ao mesmo tempo que coloca vários grupos de Rojava na

l Referênciaao livro ..{ Sm #J6g Can Opm .4 ZarXfZ)aar(N.T.)

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14 jOREJA KOJAVAYÊ:REVOLUÇÃO. UNIA PALAVRAFEMININA
0 R10 DE UMA MONTANHATEM MUITAS CURVAS 15

lista de vigilância ao terrorismo, apoia e Eazalianças com com- tinham garantido uma certa autonomia através de uma série
batentes curdos.
dc principados independentes quc se estendiam desde a Síria
Com tanta desinformação e confusão sobre estaluta pouco até o Iraque. Os otomanos não fizeram intervenções por boa
compreendida, é muito- ,fácil para os radicais simplesmente a parte do tempo até o século XIX, quando ocorreram várias
ignorarem, afirmando que não há muito o que podemos saber batalhassangrentaspara assegurara manutenção da indepen-
e entender. No mundo de hoje, dc controle sufocante por par- dênciadestasárea cm relaçãoa Constantinopla.A primeira
te do Estado e domínio das grandesempresas,seria um erro e granderevolta curda, a Badr Khan Beg, ocorreu em 1847. Os
uma Efta de solidariedadeignorar as lutas nessaobscura região otomanos a reprimiram, assim como fizeram com as revoltas
do norte da Síria agora chamada Rojava:. Para inspirar nos- subsequentes,
mas a demanda pela independência curda se
so trabalho, precisamosescutar aquelesque constroem frágeis manteve pelo resto do século.
e imperfeitos oásisde liberdade.As pessoasque arriscamsuas Com o fim da Primeira Guerra Mundial, o partido da
vidas nos escombros de Kobaní precisam do nosso apoio não monarquia constitucional da Turquia, os "JovensTurcos", co-
somente por resistirem aos assassinos reacionários e Fanáticos meçou uma sistemáticalimpeza étnica contra os curdos, e de
que querem matar cada um deles, mas também na tentativa de forma mais acentuada, contra os armênios. [)e 191 6 a 1918 os
criar uma sociedadeiem Estado baseadanos ideaisde liberdade "JovensTurcos" deportaram 700.000 curdos e mais da metade
e igualdade.: deles morreram durante este processo brutal. Em 10 de agosto
Os curdos são um grupo etnicamente não-árabeno Orien- de 1920, após o fim da Primeira Guerra Mundial, os derrotados
te Mlédio: Deste grupo, há 28 milhões moram na região co- otomanostiveramque assinaro Tratadode Sêvres.
O tratado
nhecida como Curdistão, que abrange áreasda Síria, Turquia, dividiu o Império Otomano, que na época ganhou o apelido de
Irã e Iraquc. Pela etnicidade e pela língua, o povo curdo está "o homem doente do Bósforo', em diversos estados indepen-
mais próximo dos persasdo que"de outros povosda região. dentes não-turcos, incluindo um Curdistão independente. Mas
Nos tempos antigos, as cidadcg-es'ladocurdas foram conquis- em 1922 o movimento nacional turco, liderado por MlustaEaKe-
ma] Ataturk, um oficial militar e nacionalista convicto, venceu
tadas e subjugadas por invasores persas, romanos e árabes.
a Guerra dc Independênciae aboliu o sultanato. Esta mudança
Todos essesconquistadores lutaram para subjugar os curdos,
muitas vezescomentando sobre sua "demanda obstinada de drástica de regimes forçou a Inglaterra e outras potências aliadas
a renegociaros termos do tratado com o incipiente; Estado na-
autonomia" (nas palavrasde Xeiiofonte). Até o momento da
cionalista daTurquia. O Tratado de Sàvresfoi abolido e um novo
ascensão
do Império Otomano por volta de 1500, os curdos
tratado, o de Lausannc, foi assinado por Ataturk e seu congresso
2 'Rojava' é uma palavraque significa tanto "Oeste' quanto "Pâr do nacionalistaem 24 dc julho de 1923. O Tratado de Lausanne
Sol" em curdo. Está sitiada no nonorte da Síria e ao oeste do Cur- devolveu o Curdistão à Turquia, sem reconhecer a existência dos
dislão. A'região seprolonga por 2.3 12 km: (um pouco maior que a curdos. No mesmo ano, Ataturk decretou 65 leis com o objeti-
Ilha de Rodei) com mais de 380 cidades e vilas. No início da Guerra vo de destruir a identidade dos curdos: os renomeou de "turcos
Civil Síria. Rojava abrigava mais ou menos 3,5 milhões dc pessoas- da montanha"; proibiu o uso público da língua curda; transfor-
Agora, residem.um pouco mais de 2.5 milhões(aproximadamente
o dobro da populaçãoda Ilha de Rodei). Cerca de um milhão de mou as celebraçõescurdas em ilegais; mudou os nomes curdos
pessoasfugiram, muitas para campos de refugiados na Turquia c no dadosa ruas,vilas, negócios,etc. para nomes turcos; confiscou
Iraque. A cidade mais populosa de Rojava é Qami$1o,(loalizada no grandesextensões.deterras comunais curdas; apreendeu fundos
Cantão de Cizirê), com mais de400 mil pessoas comunitários curdos; eliminou todos os partidos políticos e
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organizaçõesde origem curda ou simpáticos a causa curda; e intervenções mortais da polícia síria ou, em alguns casos,ido
assim por diante. Os breves anos de esperança que se seguiram exército. Apesar da negligência e abuso sistemático dos curdos
ao Tratado de Sàvres se transformaram em muitas décadas de dentro de suaspróprias fronteiras, a Síria tornou-se uma im-
brutal repressão estatal.
portante basede treinamento e refiígio para o PKKturco - uma
fraque, Irã e Síria, três paísesem que há uma considerável organizaçãomarxista-leninista dedicada a garantir os direitos
população curda, também buscaram manter os curdos subju- para os curdos na Turquia ' até a década de 1990. A Síria estava
gados. O fim da Primeira Guerra Mundial simplesmente repre- praticando um jogo de "o inimigo do meu inimigo é meu ami-
sentou a mudança da opressãodo Império Otomano para uma go" contra a Turquia, uma política que preparou o palco para
opressãomais sistemáticade quatro Estados-naçãoautoritários, os eventos atuais de Rojava.
todos eles criados ou militarmente apoiados pelos vencedores da No 1raque, a situação dos curdos foi igualmente cruel, em-
Primeira Guerra Mundial como seusprotetorados. bora nessecasoos britânicos tenham sido' os principais arquite-
Na atua] região da Síria foi criada uma Ocupação Colonial tos de seu sofrimento, pois o Estado moderno do Iraque Goicria-
Francesa após a desintegração do Império Otomano. No mo- do como um resultado do Acordo dc Sykes-Picota da Primeira
mento da assinatura do Tratado de Lausanne, 1 8% das pessoas Guerra Mundial. O Tratado de Lausanhe efetivamente alimen-
que viviam no Mandato Francêsse identificavam como curdas, tou as esperançasdos curdos pela independência no norte do Ira-
sendo a maior das minorias na colónia. Após uma série de re-
que c, por isso, os curdos iniciaram uma prolongada campanha
beliões fracassadas dos sírios árabes, os franceses adoraram uma
dc luta armada contra os novos superintendentcs britânicos. Na
estratégia de "dividir para conquistar". Eles encheram seus exér-
fcpressão, os britânicos fizeram boúbardeios aéreos c'inc:endia-
citos coloniais de curdos, cristãos,.drusose outras minorias ét-
ram vilas para esmagaras revoltas no nordeste do Iraquc. Após
nicas e deram poderes significativos para as lideranças das tribos
suprimirem três revolta fraéãssadas, embota muito sangrentas,
regionais curdas. Quando a Síria obteve sua independência da os britânicosformalmente transferiram o controle do Curdistão
Françaem 1946, rapidamente atacou seus"inimigos internos'.
Iraquiano parao recém formado Reino do Iraquc, que funcio-
Aproximadamente 200.000 curdos tiveram seus documentos nou como tuna marionete nas mãos doi britânicos até a série dc
de identidade retirados e foram declarados apátridas, permitin-
golpes m.ilitares que levaram o partido Ba'ath ao poder em 1968.
do que a nova República Síria se apropria-se das suas terras e
Os curdos seguiram lutando, militarmente epoliticamentc, con-
das suas propriedades e os recrutasse para o trabalho forçado.
tra os vários regimes militares iraquianos. Em 1946, eles primei-
A nova república de governo árabe mudou todos os nomes das
ro formaram o Partido Democrático Curdo e depois, em 1975,
cidades curdas e reassentou os beduínos árabes nas cidades e
a União Patriótica do Curdistão. Finalmente, encontrando-se
vilas curdaspara sewirem como policiais. Nas primeiras dé-
em uma desconfortáveltrégua com o partido Ba'ath no início
cadas após a independência, organizações c costumes curdos
dos anos 70, os curdos iraquianos experimentaram uma relativa
eramproibidos e milhares de líderespolíticos e tribais foram calma nos breves anos antes da ascensãode Saddam Hussein ao
presos. Em 1973, oficiais sírios decidiram criar um cinturão
árabeao longo da fronteira com a Turquia e desalojaramcerca
3 Referência ao acordo, Evito.de maneira secreta, entre o diplomata
de 150.000 curdos sem dar nenhum tipo de compensação.As
britânico Mark Sykcs e o diplomata francês Françojs Georgcs-Picos
décadas de 1980 e de 1990 viram desencadear frequentes de- 6citoem 1916. No acordo, Françac Inglaterra fizeram uma partilha
mandas dos curdos para o reconhecimento da suacultura e dos dos territórios árabessomente entre si, já prwendo a derrocada do
seusdireitos civis, as quais muitas vezesforam respondidas com Império Otomano (N.T.).-
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poder em 1979. Quase imediatamente, Saddam iniciou uma militar em regiõescurdas.A Rwolução Iraniana de 1979,.na
guerrade quaseuma décadacontra o Irã, período em que ele qual a oposição liderada por Khomeini derrubou o regime dcs-
dedicou uma particular brutalidade contra os curdos iraquianos, poaco (io Xá, não resultou.em uma melhoria de vida para os
pois acreditavaque eles não eram suficientementeiraquianos e curdos. O novo regime fundamentalista acelerou o processo de
apoiavam secretamente o Irã. Somente durante a campanha de nacionalizaçãocom leis e açõescontra os curdos e sua cultura.
al-Anel, de 1986 a 1989, entre 100.000 e 200.000 civis curdos Uma dasprimeiras açõesdo novo regime foi lançar uma série de
foram massacradoscom armasquímicas e em campos de con- oÉcnsivasmilitares contra as regiões ocupadas pelos curdos no
centração.A guerra entre Irã e Iraque terminou em um empate, norte do país. Após seislongos anos sangrentos, o Irã conseguiu
porém o Iraque não se mantwe longe.de um conflito por muito acabar com a autonomia e a resistência curda na região. No iní-
tempo; elc foi invadido pelos EUA e pela OTIAN, primeiro em cio dosanos2000 um novo grupo de resistência,o PJAK que
1990 e depois novamenteem 2003..Os curdosaproveitaram es- mantém.relações estreitas com o PKK, iniciou uma campanha
tes dois conflitos para tirar o máximo proveito possível,lwando militar contra o Estado iraniano, resultando em uma nova onda
à criação do Governo Regional do Curdistão(KRG) em 1991 e de ataquesàs vilas curdas. Nesta época, o Irã acrescentou o u-
na sua independência.züjwrr4 em 2005. snsinato de curdos no exílio como um novo mecanismo em seu
No 1rã, os sonhos curdos de autonomia, que já passaram por repertóriodc repressão.Os EUA c a Europa se mantiveram pra-
geraçõesde opressõespersas e otomanas, começou antes da Pri- ticamente em silêncio durante a repressãoaos curdos, focando
meira Guerra Mundial, durante a RevoluçãoConstitucional do seusapoios aos reformistas iranianos ao invés dos independen-
Irã de 1906. Esta constituição garantia diversos direitos mas não tistascurdos,sobretudo em respeito.à aliadaTurquia. -Enquanto
mencionava explicitamente os curdos como uma etnia, portanto isso,a Turquia compartilha sua agênciade inteligência (c, possi-
náo havia direitos específicos para proteger os curdos e sua cultu- velmente, se.une em operações militares) com o Irã, que age de
ra. Entre 1906 e 1925, os curdos criaram uma série de organiza- modo recíproco, para minar a resistência curda.
ções civis e .políticas poderosas para assegurarseus direitos c seu A repressãocontra o povo curdo nos quatro Estados-nação
desenvolvimento no Irã. Em 1924, havia diversosjornais curdos, da Turquia, Síria, Iraque e Irã lwou a um padrão quaseidêntico
três estaçõesde rádio e cerca de meia dúzia de partidos políticos. que envolveu .deportações em massa, manter prática e expres-
Em 1925, após o petróleo serdescobertona região,o Xá tomou sõesculturais na clandestinidade, proibição da língua curda, ata-
o poder com apoio do Ocidente (leia-seEUA e Reino Unido). ques a organizações políticas e civis e, finalmente, a .crescentes
Apesar do Xá adorar retoricamente a constituição de 1906, ele açõesmilitares que usassinaram dezenasde milhares de curdos
iniciou uma campanha de 'persianificação", reprimindo diversas e ao bombardeia ou ao incêndio de vilas que caíram no esqueci-
minorias do Irã, como os curdos. Paraessepovo, isto resultou mento. A respostado Ocidente a estasatrocidadestambém se-
em deslocamento forçado, desaparecimento de lideranças civis guiu o padrãofamiliar de silêncio diplomático e indiferença ge-
e po[íticas, proibição. da língua e da cu]tura curda e ocupação ral, complementado com aliançasperiódicas com grupos curdos,
sem qualquer prosseguimento e terminando com a identi6cação
4 A opressão "iül#n' é utilizada pela linguagem juddica para desig- de qualquer resistência armada dos curdos como terrorismo. O
nar aquilo que está na lei, contrastando com a. expressão"d:Juro' Ocidente tem interesse em permitir que esse mesmo processo
que significa aquilo que estána prática. Parao direito internacional,
continue, usando os curdos vez ou outra como bode expiatório
uma independênciaíü j#zr é quando uma região tem autonomia
política em relaçãoa determinado Estado, porém ainda Emparte de cm alianças e manipulações regionais em uma rede com uma
seusterritórios (N.T.). complexidade cada vez maior.
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Em- 1978, em um casadc chá em lstambul, um novo capí- de lstambul. Eles empregavam uma vmiedade de táticas incluin-
tulo da resistência
curdacomeçoucom a fundaçãodo Partido do sequestros, sabotagem industrial, assMsinatos de policiais
dosTrabalhadoresdo Curdistão(PKK). O PKK foi o primeiro e de oficiais militares, e atentadosa bombas, além de fornecer
grupo militante da resistência curda a defender explicitamente a serviçossociais c eventos culturais para as comunidades repri-
ideologia marxista. Propunham um Clurdistãocomunista e sua midasdos curdos no sul. O novo governocivil turco respon-
criação Eoium reflexo da onda de revoltas operárias e de estudan- deu com punições coletivas a vilas inteira, ocupação militar nas
tes da esquerdaradical que se iniciou naquele ano na Turquia. regiões curdas e uma série .dc leis draconianas contra o PKK e
Imediatamente após sua fiindação,,o PKI( conduziu- uma série seussupostosapoiadorescurdos. Dezena de milhares de pessoas
de assassinatos
de pessoasdo alto escalãoe de atentadosno Sul na Turquia, incluindo um grande número de civis (90% deles
da Turquia, além de uma unidade de recrutamento muito bem curdos) perderam suasvidas nestesconflitos, que duraram até o
sucedida.Partedo segredodo sucesso
do PKK em recrutarmi- cessar-fogo declarado cm 2013s.
litantes foi ter um líder carismático,:.Abdullah Ócalan - também A Turquia sempreconsiderouo PKK como uma organiza-
conhecido como Apo - e a ênEue do-partido em recrutar não so- çãoterrorista, tornando issooficial em 1979. A OT.AN, na qual
mente homens, mas também mulheres. Em .1980, houve outro aTurquia é membro fiindamental desde1952, colocou o PKK e
golpe militar na Turquia, com o objetivo de restaurar a ordem suasorganizações-irmãsna lista de grupos terroristas em 2003,
no Estado.Nesteano,muitas liderançasdo PKK foram presase após uma forte pressão da Turquia nos anos 90. Um ano antes,
a maioria do comitê central 6oi obrigada a se exilar na Síria ou na a União Europeiae os EUA também acrescentaramo PKK nas
Europa Ocidental. O exército turco foi capazde frustrar muitas suasrespectivas listas, nas quais está mantido até os dias de hoje.
açóes do PKK e pressiona-lo em seus redutos e em suas bases Uma sériedc paísesdo Ocidente com estreita ligaçõeseconómi-
de treinamento no sudeste.O PKK encontrou-seem di6culda- cas e política com a Turquia utilizam a designação "terrorista'
despara agir na Turquia e começou a organizar seusprimeiros para perseguir o PKK, apreendendo seus bens, deportando seus
atentadosna Europa. O PKK também estabeleceuparceriascom apoiadores, fechando estações;de transmissão de rádio e satélite
outros grupos radicais manistas como a Organização de Liber- simpática ao PKK e fBIDççç!!1lg.b!!tlêç12111Ll!.!!!!q!!!a=m sua
taçãoda Palestina(OLP),a Liga Comunistado Irã e o ASALA, guerraContra.n:terrorismid:JTurquia.tainbeln4aplovataeste
o grupo manista guerrilheiro da Armênia. Estesgrupos tinham íã;ulo de "terrorista" para comb11çl31 críticas aue têm recebido
mais ligações e um acessomelhor a recursosdo que o relativa- por abWg1.4S4ilçiii;; iiiihanosJ.Urna.sêlig.dÇ.çi!!!!!!g11igesde
mente novo PKK no exílio.
tribunais intcrnacionailçontraQ.tratamento quem.dado.41)!.çyr
l Com o comitê central do PKK dispersoe suasbasesde trei- d(i;:l Hoje ;qu;quia tem mais de uma centena de organizações
l namento fechadasna Turquia, uma estrutura mais descentrah- curdasem sualista de terroristas,ma se recusaa coloca o ISISÓ
lzada começou a surgir. Basesde treinamento foram criadas e
operações coram realizadas em vários países, da Europa.(Bélgica 5 Embora fosseuma realidade no momento de elaboraçãodessetexto
e .Alemanha) e do Oriente Médio(sobretudo Iraque e Síria). Em por seus autores, anualmente o cessar-fogo não sc encontra mais em
1984, depois do governo civil ser restaurado naTurquia e alguns vigência (N.T.).
prisioneiros políticos serem soltos, o PKK conseguiu novamente 6 Até 2014. o grupo [oi cónhccido intcrnaciona]mcnte como ]s]amic
reconstruirsuapresença
militantenaTurquia.O PKK iniciou Statc of Iraq and Lwant (ISIL) ou lslamic Skateof Iraq and Séria
uma .guerra de guerrilha, principalmente no sul da Turquia e (ISIS). Ao adorarem o projeto político de um califado global; muda-
ocasiunuinenrc[amoem em regiõesdo norte, como na cidade ram o nome pua apenas lslamic Skate (IS), mas organizações ociden-
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nessamesmalista. É claro que a Turquia estámenos interessada OGRANDEJOG0:


em travar uma guerra contra o terrorismo do que uma guerra AS palÊNCIAS MUNDIAIS E OS CURDOS
contra o povo curdo.
O Estado Islâmico do Iraque e da Síria(ISIS) declarou-se A questão curda nunca Foi utn caso estritamente regional.
como o único CaldeadoIslâmico legítimo no meio de 2014, nome- Desdeantes da Primeira Guerra Mlundial até os dias de hoje,
ando-sea partir de então somente como Estado Islâmico(IS). O
as potências que se estendem por todo ó globo - da Austrália
ISIS tomou grandes Faixasde território no lesteda Síria e no oeste à América - estiveram envolvidas no assunto.Do Iraque até o
do Iraquc, e é agora o grupo jihãdista mais bem financiado e ar- Egito, os curdos têm sido usadoscomo peõespara alavancasa
mado do mundo. O ISIS fiinciona com uma come diária por atro- posição das potências na região. Assim como em um jogo de
cidades que não era vista até então na região, rwivendo práticas xadrez, o peão curdo é frequentemente sacrificado para se ter
de estupros coledvos, escravidão smual e cruci6cação, e anunciam uma posição melhor no tabuleiro. Por várias vezes,as potên-
alegremente políticas de limpeza étnica e genocídios. A Turquia \clãsestrangeirasintervieram por um brwe período, incentivan-
e outras grandes potências regionais têm sido cautelosas em con- Ido revolta curdassomentepara ter apoio estratégicoc, usim
Rontar diretamenteo ISIS, preferindo transformar a ameaçade jque não precisarammais desseapoio, abandonaram os curdos
tal grupo em capitalpolítico e concessões
daspotênciasmundiais. à sua própria sorte.,Em algumassituações,as potência mun-
Apesar da sua.êlyal ascensãometeórica, o ISIS não estourou diais apoiaram uma revolta curda enquanto simultaneamente
em uma simpliq' blitzkriêÊ:)daideologiasunita puritana e linha- apoiavam a repressãode um outro regime contra vilas curdas
dura - ele )lçilJLJ;QBiiuiildg.$WH.hrça&lde$dgjl®vasão americana a poucos quilómetros de distância do outro lado da honteira.\
do ImqtE, em 2003. Anteriormente um ramo da.Al-Qaedano Ira- tA autonomia curda tem sido usadacomo uma ferramenta uti-
que, o ISIS ganhou uma grande experiência militar lutando contra litária e dispensável para atender as demandas de outros países,
as forças da OTIAN em FaHujah durante os primeiros anos da co- desde a reorganização da região após a Primeira Guerra h4undia]
alizão de ocupação do Iraquc, atéque se separou da .N-Qaeda e se atéa Nova Ordem Mundial de George H. WI Bush7,pulando
rebatizou como Estado Islâmico do Iraque. Deixando essarecarac- também por outros interessesexternos,como a ascensãodo po-
terizaçãoproféticade lado, o Estado Islâmico do Iraque construiu der soviético durante a Guerra Fria e a difiisão do Nasserismo'
suaEotçaformidável no ]raque do meio parao final da décadade A autonomia curda tem sido sempre um meio, nunca um fim
2000, antes dc deslocarseu cocopara a crescenteagitaçãoe caos em si mesma: para os diversos estados que se envolveram nessa
da Guerra Civil Síria. O ISIS considera que aquelesque tenham questãoao longo dos anos. Devido à sua posição precária, os
qualquer outra crença que não sqa icu modelo de islamismo suni- curdos têm acreditado ingenuamente, década após década, que
ta são infiéis que merecem a morte,'c tem um prazer especial em as potências mundiais realmente se preocupam com a sua causa,
executar muçulmanos xiitas e outras minorias, como os Yãzidis e
7 Georgc H. W Bush, também conhecido como.'Georgc Bush Pai'
os curdos - ambos os quais estariam efnre os poucos grupos que se
foi presidentedos EstadosUnidos dc 1989 a 1993. Scu filho, Georgc
lwantaram contra sua orgia de violência e carnificina. WI Bush, também 6oi pKsidente do país, de 2001 a 2009 (N.T.).

8 Ideologia política formulada pelo presidente cgípciQ Gamas Abder


tais como a ONIJ;se recusam a chamar o grupo por este novo nome.
Grupos rivais também chamam o grupo dc Daesh. No Brnil o mais Nasser.Twe grande importância no desenvolvimento dos movimen-
tos nacionalistas árabes das décadas de 1950 e de 1960(N.T.).
comum é enconuarmos Estado Islâmico(EI) (N.T.).

l
24 $ORE$A ROJAVAVÊ: REVOLUÇÃO, UMA p.Ài.Ava.A FEMININA 25
0 R10 DE UMA MONTANHA TEM MUITAS CURVAS

enquanto eles são manipulados por quem no momento está em com temor da reação das minorias étnica que vivem na Rússia,
vantagem geopolítica. como os próprios curdos russos. Em vários momentos o PKK
A diplomacia da União Soviética se caracterizoupor sobre- tevesuporte para basesde treinamento, armas, recursos e abrigo
pujar tanto os 450.000 curdos que residiam dentro de suasfron- para exílio em outros regimes comunistas, como Cuba, Argola,
teiras quanto os curdos do Curdistão. Nos primeiros anos de Victnã, masnenhum dessespaísesquis apoiar diretamentc, sem
União Soviéticaos curdos, assimcomo muitos outros grupos o apoio da URSS, seus companheiros comunistas em uma área
minoritários, foram desalojadosde seu território e uma acção muito complicada geopol.iticamente. .Alguns países socialistas
governamental especialfoi criada na região para monitoras este apresentaram resoluções na ONU e a maioria dos países da ór-
processo. Esta seção foi reestruturada diversas vezes e finalmente bita s(wiéticavotarammedidasem apoio à autonomiacurda
Foi extinta em 1930, quando o governo stalinista passou a recear no .Curdistão. A Rússia, junto com a China - país-membro do
que estavatornando-se simpático demais aos curdos. Sob Stalin, Conselho dc Segurança da ONU -, também refiitou designar o
dezenasde milhares de curdos coram deportados para o Azer- PKK ou quaisqueroutros grupospolíticos curdos como orga-
baijão, Armênia e Cazaquistão, enquanto os curdos na Geórgia nizações terrorista.
eram vítimas de expurgosapós o fim da SegundaGuerra Mun- As potência ocidentais.c organizaçõescomo a OTIAN esti-
dial. Durante a décadade 1960, váriasmedidasforam tomadas veramenvolvidas,dc um modo ou de outro, na questãocurda
desdeo início do séculoXIX, nos princípios do movimento pela
pelo regime soviético para marginalizar e oprimir a população
autonomia curda. As diplomacias inglesa e francesa se utilizuam
curda. Nos anos de 1980, o PKK - único partido político curdo
de vários curdos e dos seussonhos de autonomia para assegu-
com membros na URSS - começou a colaborar com os curdos
rar seusgovernoscoloniais no Oriente Médio. Durante algumas
que viviam na.região da Transcaucásia e efetuou sérias investidas
crises,como pot exemplo as que sesucederam após a Primeira e
na população local. Em.1986, o desarmado PKK deu suporte
para organizaçõesformadas na URSS, embora fosse tecnicamen-
a SegundaGuerra Mundial, diplomatasficaramem um vaivém
entre Pauisou Londres e asvilas curdas, oferecendo uma pequena
te ilegal. .De acordo com a imprensa turca, havia grupos do PKK
ajuda e vaga promessasde apoio no casodos curdos participarem
no Cazaquistão até 2004.
du suasmaquinações políticas. Fls potências europeias não se li-
Durante a maior parte do tempo a União .Soviética,e depois fnitaram a agir no território curdo, mastambém seutilizaram do
a FederaçãoRussa,.não se envolveu diretamente na indepen- seu próprio país para envolver-se na questão curda. Paísescomo
dência dos .curdos desde a década dc 1.940, quando apoiaram IAJemanha,Bélgicae Holanda por certo tempo permitiram que
a criação de um estado autónomo curdos.no Irã. Apesar do lbasesde treinamento de militantes curdos operassemem seus
PKI( tcr tido as raízes comunistas nos seus primeiros anos, a territórios, mas as invadiram e as fecharam ao sabor dos ventos
União Soviética nunca Ihe deu apoio por causadas relações.da Igcopolíticos da ocasião.IA Grécia apoiou os curdos na Turquia e
URSS com a Síria e a Turquia. Hoje em dia a Federação Rus- concedeu asilo político a oficiais do PKK em retaliação à invasão
sa é relutante em apoiar a independência curda no Curdistão, daTurquia no Chipre em 1974, mu apósentra em acordo com
os turcos, a Grécia expulsou os militantes do PKK e interrompeu
9
hdençáo à República de Mahabad: que âoi proclamada em 1946. qualquer tipo de ajuda. A Fiança também tentou usar os curdos
apoiada pelos soviéticos durante a invasão dos Aliados no Irã ainda
em decorrência da SegundaGuerra Mundial. Foi utinta no mesmo para retarda a independência da Aigélia; apesar dó Fato de não
ano quando os soviéticos coram pressionados a sair do Irã pelos ou- haver curdos ho país, tentou convencer:lhes oEercceúdo parte do
[rosAliados, os líderes da República foram executados(N.T.). território argelino, que até então era possessãocolonial francesa.
26 $0RE$A ROJAVAVÊ: REVOLUÇÃO. UMA PALAVRA FEMININA 0 R10 DE UMA MONTANHA TEM MUITAS CURVAS 27

Os EUA atrasaram-se para o espetáculo de manipulação do os utilizaram para preparar sua própria deGaa. O KRG também
desejode liberdade dos curdos. Durante a maior parte da Guerra traçouc seguiusuaprópria estratégiadiplomática com o inci-
Fria, os EUA apoiaram o regime do Xá do Irã e seus agentes da piente e EacciosoCongressoNacional Imquiano''
CIA estiveramenvolvidos ao mesmo tempo no apoio à repres- ' Adultos outros países, de China a Austrália, interferiram na
sãoaoscurdos Editapelo Irã e às revoltascurdascontra o Estado questãocurda, contribuindo. para crus.tru o sonho curdo dc
iraquiano.]Durante a primeira Guerra do Godo, quando o Ira- liberdade através de um Curdistão unido. IHoje, quase todos os \
que invadiu o emirado do Kuwait, rico em petróleo, em agosto paísesocidentais designam as organizaçõescurdas de terroristas, l
de 1990, Saddam Husseinse tornou o inimigo número um dos ao mesmo tempo que buscam seu apoio na guerra contra o Esta- l
EUA. De 1987 até a invasão, os estadunidensesnão disseram do Islâmico e outros grupos jihadistas. Pareceque os curdos per- \
uma palavra sobre o regime dc Hussein. Nestes anos, os EUA deram parte da ingenuidade e aprenderam que ser meros peõesa
seremsacrificados nos jogos do Ocidente não vai ajudar sua causa
apoiaram o Iraque na ONU, quando Saddam Hussein matou
dezenasde milharesde curdos com gásmostardae bombarde- l em longo prazo A lição da.SegundaGuerra do Golfo e da recente l
l guerracivil na Síria é dc que .oscurdos devem confiar nas suas l
ando cidades e vilas inteiras. Porém quando começou a primeira
Guerra do Godo, George H. WI Bush declarou que os curdos Í próprias forças para garantir .autonomia e justiça para o seu povo' l
eram "aliados naturais dos EUA" e sugeriu que se revoltasseml
k:ostra o regime de Bagdá.:Obviamente, Bush Pai sabia que os DA ESTRELAVERMELHA À ESTRELAISHT:AR
curdos já haviam enfrentado o regime Baath em uma sangrenta e
jintermitente guerra civil de quinze anos'o. Embora o PKK não tenha sido fiindado por comunistas or'
Após a guerra, os EUA implantaram uma ineficaz zona de todoxos,elelogo se tornou um clássicopartido de libertação
restrição aérea - o que .aparentemente não incluía helicópteros - nacional dc inspiração maoísta,com um inquestionável "pai do
para "proteger os curdos". Milhares dc curdos e outros civis no povo" carismático, Abdullah Õcalan, também conhecido como
norte do Iraque foram assassinados pelo exército dc Hussein en- Apo. Pouca coisa difcrenciava o PKK dos demais. partidos mao-
quanto as forças aéreasdos EUA sobrevoavam, sem interferir em ístasde libertação nacional que surgiram no final da décadade
nada. Durante a segunda Guerra do Golfo, os EUA novamen- 1970 e nosanos1980.
te pediram aos.pes&mmXm
apoio contra o regime Baath. Nesta O PKK não era a única organizaçãomarxista no Curdistão
época, os curdos decidiram cuidar eles mesmos da segurança - existiam outras organizaçõesmenores, algumas se intitulavam
do norte do Iraquc, criando um exércitocapazde assegurara leninistas, trotskistas e até titoístas. Mas a filosofia revolucionária
autodeEua - eles aprenderam esta lição na primeira Guerra do do maoísmo, bueada no campesinato, defendida pelo comitê
Golfo. Hoje em dia, o GovernoRegionaldo Curdistão(KRG) central e pela liderança do PKK,.representou de longe a força
mais popular e militarmente mais e6ctivade resistir à opressão.
existe não por causa da proteção dada pelos EUA, mas porque
eles receberam os auxílios e os recursos do EUA e da coalizão e A de6aa do comunismo empregada.pelo PKK angariou
apoio dos velhos partidos tradicionais de esquerda no Ocidente,
10 Referência ao Partido Baath, que defendia a união dos árabes sob
um único Estado.Os alicercesda suaideologiasão o nacionalismo, 1 1 Partidocriado paraunificar a oposiçãoao regimedc SaddamHus-
o socialismo,o pan-arabismoe o anui-imperialismo.O Partido Ba- sein, tomou o controle do paíse estáaté hoje no poder com o apoio
ath tornou-se mais conhecido internacionalmente com o regime de dos EUA. É conhecidopelo seualinhamento incondicional com os
Saddam Husseis, no Iraque(N.T). interessesestadounidenses(N.T.).

B
28 $0RE$A RO'JAVAVÊ: REVOLU'ÇÁ0, UMA PALAVRA FEMININA 29
R10DE UMA MONTANHA TEM MUITAS CURVAS

mas falhou em conseguir constituir uma: real solidariedade. En- estrelavermelha e suas máscara preta, irrompeu no cenário
quanto as ideias maoístasincitaram os curdosa se libertarem da
repressãoestatal, estas mesmas ideias fizeram com que potenciais
adesões, mais liberais, se distanciassem. Assim, as lutas do PKK
foram ignoradase algumasvezescondenadaspor possíveissim- dcclnaram autónomos. Estesrevolucionários criaram um novd
patizantes, dentro e cora da região. A ênÉue na centralização do modelo político dentro da esquerda insurrecional, chamado de
comunismo maoísta também aEutou muitas liderançaspopula- Zapnismo' O. Zapatismo.se afirma como um prqeto dc liber-
res no Curdistão. Os curdos tradicionalmente se organizam no 1;;o e de luta de esquerda,que rejeita a hierarquia, o controlei
âmbito social e político em tribos que estabelecemlivremente dc um partido e a aspiraçãode se criar um aparato estatal.Os
relações entre si, c o apoio dado aos líderes das tribos segue crité- criadoresdessenovo modelo inicialmente passaramanos cons-l
riosque não sebaseiam na hereditariedade: Esporadicamente, os truindo uma guerrilha. mamista ortodoxa no À4éxico, até que
curdos formam grandese temporáriasconEcderaçóesde tribos rejeitaram este modelo e saíram.à busca dc novas peT?:covas.
para organizar lwantes e açõesmilitares. Partidos políticos nun- ' Õcalan e outrasliderança do comitê central do PKK acom-
ca conseguiram ter o monopólio político que é visto em muitas panharam a rápida ncensão adtosa dos zapatistas. Um ano antes
partes do mundo - não eraestranho para umcurdo Emerparte de dc ser preso, Õalan Edou sobre o Zapatismo com os líderes do
algunspartidos e alternar seuapoio de acordo com qual partido PKK em uma conferência de dois dias. E. nos primeiros meses
é bem-sucedido no momento. Apesar destesobstáculoscultu- de.cárcere,
Apo teve.uma"crisede fé" com a doutrina mamista
rais, o PKK dc6endeuo comunismo linha-dura até depois da c a possibilidade dela auxiliar na libertação dos curdos. Ocalan,
queda daIJnião Soviética. que passou grande parte da sua vida deEcndendo a doutrina sta-
Para o PKK, a crise de fé no t:omunismo não ocorreu até linista linha-dura, começou a rejeitar o marxismo-leninismo em
1999, quando seu líder Õcalan 6oipreso em Nairóbi pelassetor favor da democracia direta. Ele .concluiu que o manismo .era
de inteligência do exércitoturco, levado à Turquia e encarcerado autoritário, dogmático e incapaz de refletir criativamente sobre
em uma prisão insular, onde é o único prisioneiro. A imprensa os reais problemas da resistência curda. Na prisão, Apo pulou a
turca exibiu o humilhado Ócalan, "o terrorista daTurquia", alge- lcr autores anarquistas e pós-marxistas como llglp!.Çljdman,
mado e inofensivo. Com seu líder preso e sem nenhum sucessor Foucault, W:ülerstein, Braudçl e Mqrraj=.ê!!g+SÉ!!!B:
Ocalan se
à vista, o comitê central do PKK entrou em crise.As cadavez impressionou particu amlente com a filoso6.a anarquista do mu-
mais frequentes rácicasmilitantes de bombardeios, emboscadase nicipalismo ecológicode Bookchin, indo tão longe ao ponto
homens-bombas não estavamfiincionando, e o crescimento dos de exigir que toda H liderançasdo PKK lessemBookchin.. De
ataquesjihadistas no Oriente Médio e no Ocidente fizeram com dentro da prisão, Õalan absorveu as ideia de Bookchin (prin-
que o PKK parecessecom outra organização terrorista islâmica, cipalmente as ideias contidas. na obra Clu/#zafio .Mzzzn/íuel e
apesarda sua ideologia comunista.:Isto, combinado com o co- escreveu seu próprio livro baseadas nestas ideias, ,7ZpePool! afCf-
lapso do socialismo na Europa Oriental e na Rússia, lwou a um t,l&mfían. Porém,foi o livro de Bookchin EraZaK7
ofF»edom, dc
período de autocrítica ideológicado PKK e de seu líder. 1985, que Õcalan requereucomo leitura obrigatória para todos
A milhares de quilâmetrosde distância, no dia l de Janeiro os militantesdo PKK. Foi estelivro que pesou a influenciar as
de 1994 (cinco anos antes da captura de Ócalan) um novo ideias hoje encontradas em Rojava.
tipo de luta de libertação saiu das esquecida montanhas dc Em 2004, Õcalan tentou marcar um encontro com Bopk-
Chiapas, no México. Os zapatistas,com sua bandeira com a chin por meio dosseusadvogados,descrevendo-se como um
30 SORE$A ROJAVAYÊ: REvoLUÇÃo, uuA p.Ai.Avia PEMiNiN.A 31
0 R10DE UMA MONTANHA TEM MUITAS CURVAS

'estudante"de Bookchin e ansioso'para adaptarsuasideias à . alinhado ao PKK -, criaram estruturas de coalizão para admi-
questão curda. Ocalan queria, sobretudo, discutir seu novo ma- nistrara região..Houve tensãoentre o PYD e partidos alinhados
nuscrito: /n DI/;me ofP?ap&, de 2004, que ele esperavaque coM o Governo Regional do Curdistão (KRG) do Iraque, .c, por
iria mudar o discursoda luta curda. Infelizmentepara Õcalan, certo tempo, houve duas coalizões concorrentes: o Comitê de
Bookchin, com seus 83 anos de vida, estava muito doente para CoordenaçãoNacional para a Mudança Democrática(NCC),
aceitar o convite e enviou uma mensagemde apoio no lugar da alinhadoao PYD e o Conselho Nacional Curdo(KNC), alinha-
sua presença. Murray Bookchin morreu de ataque cardíaco dois do ao KRG. No início dc 2012, quando a tensão entre os dois
anosdepois,em 2006. Um congresso
do PKK realizadono final grupos parecia que iria gerar um conflito armado, o presidente
daquele ano saudou o pensador estadunidense como "um dos do KRG, Massoud Barzani, e líderes do PKK apresentaram uma
maiores cientistas sociais do século XX" e prometeu que "as teses proposta dos dois grupos em conjunto dc se 6ormm uma nova
de Bookchin sobre o Estado, o poder e a hierarquia serão imple- coalizão chamada Conselho Supremo Curdo (SKC), formada
mentadas e realizadas através-da nossa-luta. (...) Vamos colocar por mas dc quinze partidos políticos e centena de conselhos
essapromessaem prática como a primeira sociedadeque esta- comunitários. Poucos mesesapós a formação, o SKC mudou
belecerá um confederalismo democrático tangível.' Cinco anos seu nome para Movimento da:$gçlç4gljg.Pgnocrática .(TEV-
depois, em 20 1 1, a guerra civil síria deu aos curdos a chance para DEM)J!.ç..bçl!!b grupos.nã(kçl1ldQ$..ÇQmg.pa94dglJ2olÍçkos
tornar esta promessa uma realidade. e organizações
p!!oalizáo. O TEV-DEM criou uma estrutura
A guerra civil síria começou como um desdobramento dos gwêrnaniêntal interina para a regiãode Rojava.
levantes que ocorreram em 20 1 1 no Norte daÁfrica e no Orien- O programa do TEV:!2EM.{plohndamçB c inHuenciado
te.Médio que:o Ocidente nomeou de "PrimaveraÁrabe'. Cur- pelas ideias do PYD de (cónfedcralismo dem.(?ycráliçgZu quais
dos de diversasmatizespolíticas se juntaram a estudantes,isla- o PKK tinha aditado na sua plataforma oficial no Congresso
mistas, trabalhadores,dissidentespolíticos e outros exigindo o Popular de 17 de Maio de 2005. De acordo com este programa,
fim da repressãoda ditadura dc Assad.O presidente sírio Banhar .c nos documentos subsequentese comunicados de Rojava, "o
al.Asad, entretanto,aprendeuasliçõesda Tunísia, Líbia e Egi, confederalismodemocrático de Rojava não é um sistema esta-
to e rapidamentemandousuastropasreprimirem duramente tal, mu sim um sistema democrático do povo sem o Estado...
o crescentemovimento democrático.A maioria dos protestos Ele baseiaseu poder no povo para que ele tenha autonomia em
pacíficosda primavera se transformaramno outono em uma in- qualquer esfera, incluindo a economia." Em Rojava, as ideias
surreição armada generalizada contra o regime de Assad. do confederalismodemocrático tem três principais eixos;H.u-
Quando os primeiros protestos começaram,o governo de nicioa[ismo libertário. o]ura]ism!.!!dicas !.llEglggl3:.!gçia]. O
Assad finalmente concedeu cidadania a um número estimado dc
TEV-DEM tem implementado esta nova visão social em larga
200..000 curdos, apátridas,em um esforçodc neutralizar uma
escalaem Rojava desdeinícios de 201 2. O PKK tem tentado (c
potencial oposição curda. No início de 2012, .quando mais da conseguido cm grande medida) implementar o confederalismo
metade do país estava sob controle de grupos rebeldes e mUícias
democrático nas vila espalhadas na fronteira da.Turquia com.o
jihadistas, e as corças militares de Assad estavam dispersas, o go-
verno decidiu retirar todos os funcionários estatais e militares das
12 Segundo outras Eontcsas duas esuuturas permanecem. ainda em
regiõesocupadaspelos curdos no norte, passandoo controle dc 2016 existeuma disputa pelo controle político de Rojava,de uma
Fato para os curdos e os.7mizáf que vivem ali. Grupos dc oposição lado o SKC dividido entre lideranças dos partidos na Síria e no fra-
ao regime, sobretudo o Partido da União Democrática(PYD) que e dc outro o TEV-DEM com os conselhos populares.(N.'l:).
32 $0RE$A ROjAVAYÊ: REVOLUÇÃO,UMA PALAVRA FEMININA
0 R10 DE UMA MONTANHA TEM MUITAS CURVAS 33

Iraque desde 2009, experiências que serviram comoinspiração à social dos curdos por centenasde anos, então não é nenhuma
rwolução de Rojava. Estavisão, tanto na Turquia como em Ro- surpresa que as assembleias cara-a-cara tornaram-ic o esqueleto
java, inspira-se fortemente no pensamento anarquista, feminista date novo governo. Em Rojava, n assembleiasde bairro consti-
e ecológico contemporâneo. tuem o maior número dos conselhos. Qualquer pessoa (incluin-
do os adolescentes)pode participar de uma assembleiana região
GOVERNO SEM ESPIADO: em que vive. Em conjunto com estasassembleias
dc bairro há
DEMOCRACIA RADICAL E DESCEN assembleiasligadas aos lugares de trabalho, organizações civis,
[ZAÇÁO
organizações religiosas, paridos políticos e outros conselhos
com base em aGnidadcs (por exemplo, juventude). As pessoa
Como ter o anarquismocomo baseparaum governo?Rojava muitas vezes compõem uma série de conselhos locais, depen-
' .
não Eoia primeira, c esperamosque não sejaa última open- dendo dascircunstância da sua vida. Estesconselhospodem
ência em criar uma nova forma de governo descentralizado sem ser.pequenos,sendo composto por uma dúzia de .pessoas,ou
o .Estado e sem hierarquias. Desde 2012, dois milhões e meio podem reunir centenas de participantes. Mas independente-
dc pessoasem Rojava .têm participado nesta forma de governo; mente do tamanho, eles filncionam de forma semelhante. Os
que se relaciona com a Rwolução Espanhola(1 936), os Zapatis- conselhostrabalham com o modelo dc democracia direta, ou
tas(1994), o movimento de assembleiasde bairro na Argentina seja, todos os participantes no conselho podem falar, dar sua
(2001:-2003)e com o municipalismo libertário de Bookchin. opinião sobre n pautas a serem debatidas e votar nn propostas
Apesar destas icmelhanças com as alperiências e as ideias do pas- (emboramuitos conselhosutilizem o consensocomo método de
sado, o quc está sendo implementado no território dwastado pela tomada de decisão). É incerto para nós como é determinada a
guerra de Rojava é único - c é mtremamente ambicioso. Não é adesão nestes conselhos, mu sabemos que os conselhos do mo-
nenhum exageroafirmar que a rwolução que estáocorrendo no vimento de oposição anterioresa 20 12.não tinham adesãofixa
nora dá Síria é histórica, especialmentepara os anarquista. e que qualquer um que aparecessena usembleia poderia parti-
No centro desta experiência então os diversos "conselhos lo- cipar plenamente.Também não sabemoscom que frequência
esteconselhose reúne e çomo é determinada esta 6'equência.
cal quc incentivam a fnáxima participaçãopossíveldó povo de
Rojamis. O povo curdo tem uma longa história de assembleias Temos conhecimento que u assembleia dc bairro do Cantão dc
locais baseadasnas alianças Familiares e tribais. Estas assembleias Afrin se encontram semanalmente,como é a prática de um dos
conselhos dos trabalhadores do hospital. Estes conselhos locais
semi:formais tcm tido uma importância prática na organização
constituem uma unidade inseparável da democracia de Rojava.
13 Estruturas maiores (como o Conselho Supremo dos Cantões de
Rojava é constituída por 'uês cantóes autónomos, porém con6bdem-
dos: Cizirê, Kobani c Aftin. Estes cantõcs não são geograficamente Rojava). são compostos dc representantes destes conselhos locais.
condguos e cada um deles possui seu hino e sua bandeira. A estrutura Todas as decisões dos "conselhos superiores" devem passar pela
dc tomada dc decisões é composta por vários conselhos. O tamanho aprovação dos conselhos locais, por meio da participação dos
médio dos conselhosde bairro é dc 30-150 fàmíliu. O conselho dc
seusmembros. Esta forma de governo difere muito da tradição
uma .cidade disuito/vilarqo é Eeiro com 5-i7 conselhos de bairro
do federalismo liberal, na qual a federação sesobrepõe àsesferas
(mnlcmplando conselhos de trabalhadores e conselhos religiosos).
O conselhodc umh cidadedistrital clcgc dois rq)rescntantespua a locais. Em agosto de 20 14, por exemplo, um conselho regional
conselhoda cidade(um homem c uma mulher). Eles também ele- decidiu quc..as força de segurança locais . dweriam portar ar-
gem as corçasde segurança e as milícias VPG/YPJ mas para patrulhar H cidades, mas três usembleiu locais não
34 $0REJA ROJAVAYÊ: REVOLUÇÃO,UMA PALAVRA FEMININA 0 R10 DE UMA MONTANHA TEM MUITAS CURVAS 35

aprovaram a decisãoc, dessemodo, na região destastrês assem- adesãoà confederação. Esta descentralização vindo de baixo pua
bleia foi decidido que a segurança deveria'ser deita sem armas. cima visa preservaro maior grau de autonomia para a-população
O papel destes"conselhos superiores" atualmente é limitado pela local e incentivar a máxima participação política possível.
articulação entre esta miríade de conselhoslocais, para que todo Tanto a segurançainterna quanto a segurançaexterna dos
o poder permaneçana esfera-]oca]..Há uma grande rotativida- cantóes é administrada pelas Assembleias Populares de cada can-
de na escolha dos representantespara compor estes"conselhos tão. A segurança local o que seria equivalente à polícia, é cha-
superiores",com a definição de um prazo máximo para cada madade Asayish(segurançaem curdo). As pessoasque formam
representante, definido nestes'"conselhos superiores"; porém, a Asayish e seusmandatos são escolhidas pelos conselhos locais e
os conselhos locais geralmente criam: seus próprios mecanismos pelaAssembleiaPopular do cantão. AAsayish tem sua própria as-
para aumentar estarotatividade. O objetivo do sistema de con- sembleia (mas não pode enviar representantes para a Assembleia
selhos de Rojava é maximizar o poder leal c a descentralização Popular), na qual são eleitos os oficiais e são tomadas outras de-
e alcançar um certo grau necessário de coordenação regional c cisões.Em conjunto com a Asayish,existem as milícias de auto-
troca de informações. deEaa populares para prover a segurança contra ameaçasexternas
O governo que permaneceacima dos conselhossuperiores (por exemplo, atualmente o Estado Islâmico, mas isso também
se assemelha a um sistema de conselho parlamentar com repre- incluiria forças regionais e estatais)..Estas milícias elegem seus
sentantes rotativos, um poder executivo composto pelos co-pre- próprios oficiais, mas estão sob a responsabilidade direta da As-
sidentes dos cançõese um poder judiciário independente. Todos sembleia Popular do cantão. Tanto a Asayish quanto u milícia
os poderes governamentais emanam dos conselhos, c os conse- de autodefesapopularestêm duas organizações:um grupo es-'
lhos detêm a autonomia local, assimformando a confederação. pacificamente feminino c outro: misto cm termos .de género. As
A confederação é formada por três cantões autónomos que têm milícia que estão.fornecendoapoio mútuo em outro cantão (a
seuspróprios ministérios e milícias. Não existegoverno federal Asayish geralmente é proibida de trabalhar em outros cantõcs)
no sistema de cantóes-de Rojava. Associação voluntária e apoio devem seguir a Assembleia Popular do cantão, mas podem man-
mútuo são conceitos-chave para a confederação, com a função ter seuspróprios comandantes e unidades. Em tempos de paz, os
de garantir a autonomia local. A associação voluntária leva à des- canções não mantém os serviços de milícia.
centralização radical, ao impedir que quaisquer estruturas orga- A relação entre Rojava e o Estado sírio ainda está sendo tes-
nizacionais que estqam acima se sobreponham às tomadas de tada. A Confederaçãodos Cantóes:de Rojava náo está confi-
decisões dos conselhos locais. Todos os organismos para além gurada como um Estado. Ao invés disso, inspira-se na ideia dc
dos conselhos locais devem ser compostos por uma representa- dualidade do poder, ideia pensadaoriginalmente pelo anarquista
ção proporcional às comunidades étnicas dos cantões e dêem francês Proudhon. O KCK descrevea dualidade do poder como
ter pelo menos 40% de cada gênero (incluindo todos os minis- -uma estratégia para ajcançu uma economia socialista libertária
térios). Grande parte dos ministérios têm co-ministros, sendo e uma autonomia política e social por meio do estabelecimento
um ministro homemc outra mulher excito o Ministério das gradativo e então de uma rede de instituições de democracia de
Mulheres. A maioria das decisões do Conselho Supremo preci- participação darem' para se opor à autoridade do Estado e do
sam de um apoio de 2h dos delegados dos conselhos superiores. capitalismo. Rojava atualmente tem mantido um pacto de coe-
Qualquer cantão detém autonomia em relação às decisõesdo xistência, a partir da Guerra Civil Síria, com os Estados vizinhos
Conselho Supremo e pode anula-las e sobrepâ-las na sua Assem- (Turquia, fraque c Irã) que englobam o Curdistão. As pessoas
bleia Popular (o maior conselho de cada região), sem afctar sua em Rojava manteriam sua cidadania síria e sua participação no

l
36 $0REÕA ROJAVAYÊ: REVOLUÇÃO,UMA PALAVRA FEhlININA
0 R10 DE UMA MONTANHA TEM MUITAS CURVAS 37

Estado sírio até o ponto em que isso não contradiga diretamente Os princípios de Rojava.não apenasEram sobre pluralismo e
os princípios de Rojava. Esta coexistência nada fácil é a razão para diversidadeem relaçãoa etnicidade e fé, mas também criaram
que os canções proibissem expressamente bandeiras nacionais, estruturas organizacionais para possibilitar. ao máximo colocar
não criassem uma moeda, um ministério das Relações Exteriores, estes princípios em prática.
passaportes ou documentos de identidade e o porquê deles não A região de Rojava é dominada pelos curdos, com aproxi-
terem um exército permanente. Não estáclaro se o povo de Roja- madamente 65% da população identificando-se como curda.
va tem um plano de manter estarelaçãocom o Estado sírio ou o Os 35% restantes são formados por árabes, armênios c assírios.
que aconteceria em caso de situações de conflito. Houve imigração tanto de curdos quanto de não-curdos para a
Rojava não é nem um Estado nem uma sociedadeanarquista região, vindos de zonas dc conflito na Síria. Estima-se (embora
pura. E uma experiênciasocial ambiciosaque ajeita a sedução os números sejam pouco confiáveis) que mais de 200.000 pesso-
do poder estatal e o nacionalismo e, ao invés disso, adoçou a au- asse deslocaram para Rojava desdeo início da guerra, partindo
tonomia, a democraciadireta e a descentralização
paracriar uma de outras partes da Síria. Um número substancial destes novos
sociedade livre para o povo de Rojava. Os princípios de Rojava imigrantes pertence a minorias étnica e religiosas da Síria e do
se baseiam no anarquismo, na ecologia social e no feminismo, leste do Iraque.
em uma tentativa de traçar uma visão de sociedadeque enfatiza a No que diz respeito à religião, os curdos são a etnia mais
responsabilidade e a independência para uma comunidade radi- diversificadada região.A maioria dos curdos (55-65%) é de
calmente plural. Não está claro se estaexperiência vai caminhar muçulmanos sunitas, que pertencem à tradição Shafi. Existem
para uma maior descentralizaçãocomo sugereBookchin e que também curdos muçulmanos que seguem u tradições ajevita,
os zapatistas têm implementado ou se irá se tornar mais centra- xiita e sua. Há um número razoávelde curdos cristãos,muitos
lizada e federalista, como ocorreu na Rwolução Russae Espa- deles imigraram para Rojava após o início da guerra. O mesmo
nhola. O que está acontecendo agora é um momento histórico ocorreu com os Yazidis, uma religião sincrética que tem cone-
das tradicionais lutas de libertação nacional e deve ser de grande xões com o zoroastrismo, judaísmo c islamismo. Um pequena
interesse para os anui autoritários de todo o mundo. minoria em Rojavasegueuma nova forma do zoroastrismoe
também há um pequeno grupo de curdos judeus. A maioria
PLURALISMO RADICAL destesgrupos religiosos tradicionalmente vive em comunidades
próximas umu du outras, em parte devido a reassentamentos
forçados e auto-exílios, e muitos dos edifícios religiosos são com-
Embora enxerguemosa revoluçãodc Rojava como um mo- partilhados. Há também uma elevadaporcentagem de casamen-
vimento curdo, não devemosignorar a dinâmicapluralista da tos inter-religiosos.
região e as aspirações dos povos dos três cantões que formam Rojava abraçou sua diversidade e mantém um compromisso
a Confederaçãode Rojava. Dwemos também levar em conta explícito com o pluralismo. Eles utilizam o termo pluralismo
o fato de que os próprios curdos não são um povo homogé- radical para.descrever como sua abordagem difere do sectarismo
neo, sendo constituído por numerosos grupos tribais distintos extremo encontrado na maioria da região. Há conselhos locais
e quatro religiões. A diáspora curda encontrou muitos curdos, específicospara cada grupo étnico c.organizaçãoreligiosa. Nos
incluindo alguns líderes ideológicos, vivendo em cidades e fre- conselhos superiores (por exemplo, os conselhos das cidades e
quentando universidades na Europa. Esta orientação cultural das regiões) há cotas étnicas para assegurarque todos os grupos
ajudou a inspirar uma visão tolerante e pluralista no Curdistão. étnicos estarão representados. Um sistema similar de cotas existe
38 $0RE$A KOJAVAYÊ: REVOLUÇÃO, UMA PALAVRA FElüININA
0 R10 DE UMA MONTANHA TEM MUITAS CURVAS 39

em todos os ministérios, excito nos ministérios das etnias e das dos membros do PKK tem sido composta por mulheres. O que é
religiões específicas.Os princípios de Rojava também reservam novo entre a combatentes de Rojava é seu feminismo explícito,
uma série de proteçõespara minorias étnicase religiosas(in- um Feminismoque se tornou um dos princípios fundamentais
cluindo também as pessoasque não seguem nenhuma religião) . da .apcriência dc Rojava. ê:g!!!!!!t.çy!!b-gÊlalmcntc ó forte-
As milícias e as -organizações de segurança tem características mente patriarcal: a.dqglpaçqg.mascub.na prwalcce qçasamentos
pluralistas explícitas, ao serem compostas por diferentes grupos ananjãdos.g1ll!!@dWs:!jg.comuns. A YPI não lu!!apenas CQDçra
étnicos e religiosostrabalhando em conjunto. o ISIS, dc luta pelo feminismo e pcjllgu4ldade de género : ç elas
Rojava criou um novo caminho de pluralismo que não existe estãofãnndo isso tmQéom ildclêiXuantQ;.çolxlhd.u:
anualmente em qualquer outro lugar da região. Rojava rejeitou o A VPJ existe coco um contraponto à YPG. As mulheres:
apelo ao secularismo, como aquele daTurquia, que oprime orga- de Rojavatem a esperançadc que um dia.a YPJ não será.mais
nizações religiosas e seus praticantes em troca de uma sociedade necessária,mas até essedia chegar ele ftlncionará como uma for-
pluralista, mas ao invés disso fixou-se como um refúgio seguro ça inteiramente feminina para lutar tanto externamente quan-
de respeito e empodcramento político para as minorias étnicas to internamente, contra os inimigos, de Rojava, e para resolver
da região. questõessociaisJA YPJ pretende eventualmente tornar-se parte
daYPG, mas em uma demonstração de pragmatismo idealista, o

FEMINISMO NAS REPÚBLICAS DE ROJASK KCK designouque, pelo menosem um filturo próximo, a YPJ é
necessáriacomo uma corçade combate exclusivamente feminina
paraequilibrar a tradicional orientação masculina do militaris-
As militantes : curdas Geram "descobertas" e espetaculari- mo das milícia armadas,como a YPG (ou sua organização-mãc,
zadas.recentemente pela média .ocidental - inclusive as faíscas o PYD). Além disso, enquanto a liderança de todos os conselhos
de moda. Mas a mídia. apenaslouvou .asmilitantes, não dando de governo dos cançõesdc Rojava é composta por pelo menos
atenção às suas práticas poéticas. É muito fácil cair na armadi- 40qo de cada sexo, a liderança do YPG é frequentemente mais
lha da mídia e Eetichizaras militantes curdasque compõem as parecidacom 50-60% dc mulheres,já que recruta maciçamente
brigadas de autodefaa feminin!(a YPJ), organização especifi- da liderança do YPJ. Além da milícia YPJl3 orça de segurança
camentefeminina, i as brigadasde autodefua.gç[4L(ê...!!g) especificamentefeminina Asayish-J( 4sa7ú&siznficã';êÊüiãiiêã,
organização mista em termos de gênero sem considerar as im- ;ã'cãrdõy'ê'i iíiiiçg rê:jjõii;ãiir j;ir tratarcrimesqiii êii;olvcü
plicações da escolha delas serem guerrilheiras em uma sociedade Mulheres. crianças, abusos doméstico;ini:iiües aiódi(!:.gpSra!-
extremamente patriarcal'4. As mulheres que lutam em Rojava 'a;dt;'foliiià'ndé13eiiileiitiêljjj;Haçal1.311Jleayisli.ladrão"
estão lutando por suas vidas. Elas lutam pelos seus direitos de É claro quc ;VPJ't;az à lembrança outras forças de com-
ser mulher contra um inimigo que estupra e vende mulheres bate só de mulheres - talvez a mais famosa, a .A4#gfreiZiZ'res
como escravassexuais. Mas isso não é novidade - as mulheres na
na Revolução Espanhola. Essacomparação é ao mesmo tem-
região lutam há décadas. Na verdade, tradicionalmente, metade
po precisae perigosa,pois as.Ã4uÜereí
Z,ióresde fato formaram
uma grande força de combate na luta por uma noção radical
14 AYPG/YPj tem uma corçacombinada de 40 mil combatentesama-
de igualdade sexual e dc gênero, mas, infelizmente, elas tam-
dos. A maior pote do armamento é de armas de fogo simples com-
bém se tornaram uma ideia que é colocadapor muitos em um
binadas com lançadores de foguetes russos. Elas também reaprovei-
tàram cêrca de 40'caminhões de lixo e outros camiiihões blindados pedestal, desconsiderando que se tratavam . de seres humanos
para transporte pessoal. Não possuem âeroõaves.
reais.Não devemoscair no mesmoerro com o orientalismo
40 jOREJA ROJAVAYÊ:'REVOI.UÇÁO, UMA PALAVRA FEMININA 0 R10 DE UMA MONTANHA TEM MUITAS CURVAS 41

quando se trata do feminismo cln Rojava: estas são pessoas Há três conceitos-chlyetpa.!conomia !bpl4al:.bçn!.comUnS
reais que arriscam suas vidas por ideias políticas. Elas não são propriédadcrçlgl..ad111i!!ig114#
mulheressaídasde um livro de história; como a mídiavem pelos trabãllíãaõfei:7[aj;êliê;iãã cconâmica dc Rojava é menos
caricaturando, mostrando-as como "mulheres duronas", "ama- iimal impleüelitação de um conceito único do que um sistema
zonas sexys'; por terem pego em armas. improvisado que dwe responder às necessidadesdc uma guerra
Um dos vários meios pelos quais as militantes curdas lutam e um :embargoeconómico.
pelos direitos das mulheres no Curdistãotcm sido a criação, pela
Em 2010, um ano antes da PrimaveraÁrab.eexplodir na
Asayish-J, de casasdedicadas uclusivamente para as mulheres. Síria, a.região dc. Rojava previa mais dc 40% da produção na-
Nestascasas,qualquer mulher com mais de 15 anos pode ir e fi- cional de gás e petróleo e 70%oda sua exportação, apesardc
car por tanto tempo quanto elasquiserem.Lá elasrecebemedu- apcnu 17% da populaçãoda Síria viver na região.E, no en-
tanto,.a população dc Rojava vive com .uma renda bem abaixo
cação gratuita e depois voltam para suas casas(se desejarem), no
momento em que elasquiserem.Não é permitida a entrada de da média do país. A região.dc Rojava fica na famosa.2bnlge
mesopotâmica, entre o rio El+$iiê;'imiglSS, c é um dos ceq-
nenhum homem nestascasas,com o intuito de proteger a inte-
lã;'irai;i'tigos no mando. Até 201 1, o norte da
gridade do espaço e para garanrirque asmulheres se sintam con-
Síria exportou grãos, algodão e carne para seus vizinhos e para
fortáveis e seguras. Anualmente trinta destes espaços fiincionam
a Europa e foi a regiãoque mais produziu petróleo do país's. A
em toda a região de Rojava. E, como uma resposta aos suicídios
abundância dc água dos rios da região propiciou a construção
causadospelo êásahento forçado, a Asayish-J criou uma linha de fábrica de cimento e outras indústrias nas décadasde 1970
direta para as mu]heres, oferecendoapoio emocional e físico a
e de 1980. No entanto,desdeo início da guerracivil síria, a
qualquer momento.
infraestrutura necessáriapara manter essasatividades económi-
O feminismo em Rojava transcende à YPJ e à Asayish-J e é
casfoi desmoronando. Sistema de comunicação, dc.transporte
um dos três princípios fiindamentais da Rwolução de Rojava.A e as estudas foram seriamente comprometidos. Infraestrutura
sociedade, tal como prwecm os princípios de Rojava, dwe ser
debilitada, guerra constante c um embargo muito estrito .(so-
definida como um novo caminho para o feminismo; somente
bretudo da Turquia, que é a única fronteira estável com Roja-
declarar apoio ao feminismo não é suficiente. Com issoem men-
va) fizeram com que.a .tradicional economia da região ruísse.
te, o feminismo é uma prática essencialem todas as interações
sociais nos três cantões, e as mulheres são consideradas como
Em 2012, o PYD lançouo originalmentechamadoPlanode
Economia Social, depois rcnomeado para Plano de Eêbnomia
autênticas atrozespolíticas com genuína agência - elemento que
Popular (PEP). O PEP se baseianos escritos dc Ocalan 'e'nas
é revolucionário por si mesmo.
experiências
vividas peloscurdosno Norte do Curdistão(sul
da Turquia) .
UMA ECONOMIA POPULAR
15 Em resumo, o maior recurso económico dc Rojava é o petróleo, em-
bora a região seja simultaneamenteconsiderada o celeiro da Síria. A
O planejamento.económico da Revolução de Rojava é cha-
região produz por volta de 40 mil birras de petrólcd bruto por dia.
mado de "Economia Popular", para se diferenciar do tradicio- Tk)dasaÉrefinarias da Síria estavam localizadas no sul do país, de
nal. mercado e das economias socialistas ,de Estado. .Mas embora modo que Rojava twe dc construir suaspróprias refinarias. E a única
elc se coloque como uma alternativa ao dualismo capitalismo e região na Síria quc possui um processo dc aportação próspero antes
da guerra.começa c do embargo quc sc seguiu a ela.
comunismo, ainda não é üm modelo completamente formado.
42 $0RE$A KOJAVAYÊ: KEVOLUÇÁO. UMA PALAVRA FEMININA o KIQ DE UMA MONTANHA TEM MUITAS CURVAS 43

A tradicional "propriedade privada" foi abolida em 2012, e da Economia, os conselhos .dc trabalhadores só foram formados
l todos os prédiosi terrase infraestrutura passarampara o controle para cerca de um terço.das empresa de Rojava até agora. Este
l dos vários conselhosde cidade. Entretanto, isso não quer dizer conselhossão coordenadospelos vários ministérios económicos e
l que aspessoasnão eram mais donas de suaspróprias casasou de conselhoslocais para asseguraruma boa circulação de produtos,
l seus negócios. Os conselhos implementaram o princípio sobc- suprimentos e outros itens essenciais.
l uno da "propriedadepor uso", um princípio qué não pode ser O PEP também conclama que toda atividade económica dos
l anulado. Propriedadepor uso significa que quando um prédio, cantõestenha preocupaçãoecológica.Está incerto quem é res-
l coMO uma casaou um negócio, está:sendo utilizado por uma ponsável por isso, se são os conselhos de trabalhadores, os conse-
jpessoa ou por um grupo de pessoas,os usuários possuem de Fato lhos locais, os conselhos de cidade ou as assembleiaspopulares-
la terra e as estruturas, mas não podem +endê-lasno mercado.Í Ao longo dasváriasdeclaraçõesdos ministérios da economia,
Õcalan escrweu que a posse prwine a especulaçãoe a acumu- é possívelnotar uma sensibilidade à questão ecológica - porém
lação de capital, que por sua vez conduz à exploração.Fora as Edtam informações detalhadas.
propriedadesbaseadas
pelo uso, em princípio, qualquer outra O PEP também é vago sobre suas relações co'm outras eco-
propriedade torna-se bem comum. Esta abolição da propriedade nomia dentro e cora da Síria. Uma quantidade substancial da
privada não se estendetambém às comodidadescomo automó- atua] atividade económica vem da venda de petróleo para fora
veis, máquinas, eletrânicos , móveis, etc. mas limita-se à terra, à no mercado negro. No final de 2014, representantesde Rojava
infraestrutura e às estruturas.
viajaram pela Europa procurando estabelecer"parceiros,comer-
Os.bens .comuns abrangem terras, infraestrutura e os edúícios ciais" e pueciam estar sugerindo uma política padrão de mer-
quc não são de propriedade'dc ip4yíduQ!..gjãlt,4çlglipistrados cado, enquanto ao mesmo tempo eliminavam bancos e outra
pelos'êõiiiêlhi;i' Oi conselhos podem transformar os bens co- instituições financeiras dentro de Rojava. Os princípios do can-
muns em individuais, para serem utilizados dessamaneira. Os tão de Rojavatambém afirmam claramente que a região'não irá
bens comuns são concebidos tanto como uma rede de segurança
produzir seuspróprios títulos ou moedaspor isso não estáclaro
para quem não tem recurso quanto como um meio de maximizar como tais relaçõescomerciaisse estabeleceriamcom os outros
o uso dos recursosmateriais da comunidade. Os bens comuns
governos, 'mesmo que o embargo fosse suspenso.
abragem. também aspectos ecológicos da região, incluindo agua,
A loiça do PEP pareceestarem como ele humaniza a eco-
parques,fauna selvagem,.deserto e até a maioria dos rebanhos.
nomia para a população local. Ele atinge isto tanto com a cria-
De acordo com o Dr. .AhmadYouscf; um co-ministro de econo-
ção dos bens comuns, disponíveis para a comunidade que ne-
mia, três quartos da propriedade privada tradicional tornaram-se
cessitadc recursos,como com a propriedadelimitada a uma
benscomuns e um quarto continua na posseindividual. O pla- pequena escala, atendendo às necessidades locais. A gestão dos
no económico.(PEP) afirma que os bens comuns sãoeconomi-
trabalhadores incrementa e expande a participação na economia
camente consistentes o suficiente, porisso não há necessidade de
local e torna a economia mais responsávelperante aquelesdire-
impostos; e desde o início da Revolução de Rojava os.impostos
de qualquer natureza coram abolidos. tamente agitados por ela. O PEP visa criar un!!aulgs111$ç+.ÇQçia
que esteja aliada ao manejo cãolóÉiêjÍI..blpcançb.31pplQP ç.o
A gestão dos trabalhadores é a terceira basal:.4oplano econó-
planeta acíina di3slü:l;;il;.'Ê;ií';iimal o PEP.gt:4..!çntan4ç!.ç113r.
mico Os trabalhadores controlam os meios de produz.Zi ã&'iêus
a economia local e participativa cqml!!nada com.uiq.governo
lo«i. dc'ilãl;;Hia'Bõi'nãi'a;'ig;©ilj8]e.iã$ghado;&'ijüe
sã! respçln!!!F!.Elg.!!.gnsc]hi;i ]ocais. Segundoo ]Mini;iãio localeparticipatilg:
44 $0RE$A KOJAVAYÊ: REVOLUÇÃO.UMA PALAVRA FEMININA 0 R10 DE UMA MONTANHA TEM MUITAS CURVAS 45

ROJAVANÁOPODEESPERARE fitos são autoritários ou sectários. Qualquer análise sincera do


NEM PODEMOS FI(:AR ESPERANDO que está acontecendo nos últimos ano? em Rojava demo.nstra
um compromisso honesto com a pluralidade e a descentraliza-
Os radicais do Ocidente em sua maioria têm ficado em si- ção nn ideias, nas palavras e na prática. O passado esboçado do
PKK mostra a necessidade dos revolucionários e anarquistas do
lêncio em relaçãoà Revoluçãodc Rojava,c nós nos encontramos
Ocidente de apoiarem a Revolução de Rojava agora. Pois se o
em uma estranhasituação,.em que a grande mídia estámais in- PKK náo mudou, então nós temos que apoiar e reforçar no que
teressada nestes ventos do quc nós mesmos. Há, sem dúvida,
pudermos a ideologia do antiautoritarismo e da descentralização
uma .série de razões e pretextos para. essa Efta de interesse ná
radical para citar que a revolução seja desviada pelo PKK ou
experiência revolucionária que estáocorrendo no norte da Síria.
por qualquer grupo autoritário de esquerda. E se o PKK mu-
A principal objeção n.aesquerda para apoiar a Rwolução dc dou, então mais um motivo para apoiar um prometopolítico que
Rojava é que ela é incerta. Anarquistas há muito tempo tem visto é autenticamente radical e libertário.
rwoluções populares em outros lugares serem neutralizadas por Muitos de nós estamosconfiisos,e com razão,com a com-
elementos liberais ou serem sequestradas por grupos autoritários
plexidadeda luta curda e com a política da região. Isso é com-
de esquerda. Muitos na esquerda estão preocupados com o papel preensível, mas a complexidade não deve ser uma desculpa para
que o PKK c seusrepresentantes desempenhamnessarevolu- nós ignorarmos apoio e solidariedade.A cada dia que pesa,
ção.O..PKK tem um histórico,detrinta anosdc apoio firme à temos acessoa mais recursos,que nos ajudam a compreender
prática e à ideologia maoísta/stalinista,o que o distanciou,.legi- um pouco mais sobre a complexa história não apenasda luta
timamente, da esquerdalibertária do. Ocidente. Em particulu curda, mas de toda a região. Nós podemos aprender sobre isso.
o autoritarismo linha-dura do PKK e sua tendênciasectáriaem E issojá foi feito antes. Por exemplo, a luta palestina é extrema-
silenciar qualquer discordância entre os radicais no Curdistão mente complexa e cheia de nuances, mas a esquerda radical se
fez com que o apoio ao PKI( na Europa e na América do Norte solidarizou,a tomou como uma luta sua também e trabalhou
diminuísse sensivelmente. Porém, há mais dc uma década, desde para que a causa palestina se tornmse compreensívelpara os
a prisão.de Õcalan, o PKK vem reivindicando um modelo de ocidentais. Devemos nos educar e Fazerpropaganda pna outra
organizaçãomais próxima do anarquismo e tem trabalhado com pessoa sobre a luta curda e, sobretudo, sobre Rojava, ao invés
diversosoutros grupos radicais.Mais importante é que Rojava, de nos abstermos dessa conjuntura histórica e ficarmos à espera
onde o PKK tem forte influência através do PYD, não apenas de que outra pessoas,que não compartilharam nossavisão sobre
rejeitou o autoritarismo em seudiscursoe nos seusescritos,mas política c nem o projeto político de Rojava, nos expliquem o que
sobretudo rqeitou em suaspráticas. Mesmo sealguém permane- estáacontecendo lá.
cer cénico em relação ao PKK e ao PYD, o fato é que anualmente Há muitos radicais com receio dos curdos, e por extensão de
não há nada de autoritário ou sectário nas estruturas políticas de Rojava, por causado apoio militar dos EUA para abmilícia YPG
Rojava que possam dar margem para que os ocidentais mante- e WIJ. Os EUA têm estabelecido alianças táticas com os guerri-
nham seu ceticismo ou reticência: lheiros curdos em vários conflitos .no Oriente Médio nos últimos
Se isto é porque o PKK mudou por vontade própria, ou vinte anos. Há uma preocupação de Rojava ser ou se transfor-
porque ele foi forçado a mudar pelo povo, realmente não im- mar em um Estado fantoche dos interesses estadounidenses na
porta. A única questão a este respeito é como a revolução está região,algo que os radicais dos EUA não têm a mínima vontade
se desenvolvendo em suas palavras e aros, é se estas palavras c de apoiar. Mas o apoio dos anticapitalistu a Rojava di6cilmente
46 $0REÕA ROjAVAYÊ: REVOLUÇÃO.UMA PALAVRA FEMININA
0 R10 DE UMA MONTANHA TEM MUITAS CURVAS 47

pode servisto como um apoio implícito aosinteresses dosEsta-


próprio trabalho aqui no Ocidente. A política revolucionária do
dos Unidos no exterior.Parececlaro que o atual apoio dos EUA a Ocidente têm esperado por muito tempo para uma renovação
Rojava é uma simples questão pragmática visando barrar a ofen- de novas ideias e práticas, e a revolução de Rojava em todos seus
siva:do ISIS. A rwolução de Rojava não é especi6camentean- âmbitos é algo que devemosapoiar, se levarmos nossa própria
d-EUA, mas é explicitamente anticapitalista e antiestatal, o que prática política a sério. O povo dc Rojava não pode esperar mais
é algo que podemos e devemos apoiar plenamente. Para ignorar por nossoapoio e nós também não podemos esperarpara fazer
esseFatosé preciso manter-se em uma posição essencialista uma análise segura dos fatos quando eles já passaram, a partir de
tantas vezes fa com que os radicais do Ocidente se restringissem uma visão retrospectiva. O povo de Rojava decidiu lutar e nós
ao campo da teoria e da academia. devemosEmero mesmo.
A distântlia geográfica c o Fatode haver poucos imigrantes
curdos nos EUA dificultaram o contado direto Emendo com que
a maioria das pessoasse informassem a partir de inEormaçõcs
da mídia. Embora sejaverdadeque é mais fácil para os radicais
viajar para Chiapas, Grécia, Palestinaou Fergusondo que para
o norte da Síria, não dwemos deixar que isso impeça o nosso
apoio e solidariedade.Outros meios de comunicaçãotambém
foram comprometidospor causada guerracivil c de açóesdo
governo sírio. Durante a Primavera Árabe, o governo sírio limi-
tou drasticamentea internet, indo tão longe a ponto de cortar
aslinhas de caboe, desdeo início da guerracivil, o acessoà
internet ficou extremamente precário. O embargo económico e
o fechamento da fronteira entre Turquia e Síria pelos militares
turcos também restringiu sweramente as viagens e o fluxo de
informações.. O isolamento geográfico e de comunicação sem
dúvida retardou o apoio de grupos radicais do Ocidente. Porém
o México, os EUA e lsracl já adoraramestastáticas reprováveis
antes, na tentativa de suprimir o apoio para outras lutas, e isso
não nos impediu de apoia-las. E se Rojava passapor um gran-
de perigo, então nosso apoio é mais do que necessário.A cada
semana, ativistas em Rojava e em outras partes do mundo estão
abrindo canais de comunicação e nós deveríamos estar ativa-
mente engajados nesta tarefa.
Existem inúmeras desculpaspara por que os radicais nos
EUA preferem esperarpara apoiar a revolução de Rojava, mas
não podemos nos dar ao luxo de esperar.Embora seja óbvio
que os rwolucionários dc Rojava necessitam do nosso apoio,
nós também precisamosda revolução de Rojava para o nosso
f;ala«ras de Mulhere. K.e«olucíonáHas
À4UI,DERESOO COMnÊ DE Sono.:\NEOÀOEÀ

RESISTÊNCU POPUI.AR CURO,4 0E SÁO PAULO

'Estou suQnsa peh fato ü nos tere7n Disto tão tarde,


dc até agora nunca terem sabido clc nós. Pergunto-me
como ctemorara }i tanto a escutar ds l»zes (!a muita
mulheres cor4osa que aüaucssaram a.sfonteirm da
ualmtia, dali, da paciência,da csPevança
c da bckm.
Não quero queixar-me demais. TaLucznossa era.ssim-
pksmentc náo coincidam. Tenhoalma alguma pou-
ca palavra l)ard dizer aos que sóagora começama nos
notar: issoé tuzio.Hoje, uma parte dc nós náo estámais
aqui. Sempesado ncmIPtuvo cm scuátomo, iiocê
sentiria um som, um emergir que seperca nos buracos
negrosdo unitpcrso.A emoção c a pele de hoje sópodc
str medi(h por aquebs qucforam capaus de trama este
dia c suascapacidadeclcir maisadiante para olMuro.
No gato de Zibn(Zqnep Kinaci), que dinami-
zou a si mesma em 1996, no alento ck Besê, qw se
atirou ao precipício no lwantc cic Dcnim, na ükcada
dc 1930, dizmclo "Não me pnnderão com vida', e no
& Bcritan, quc não semtvtgou, nem sm copo e neta
sua alma, ao inimigo quando se atirou cla montanha
em 1992.E a razãopch qual d combatente
cloW)J
[Unidadcs de Proteção Popubr, miLÍcia voluntária c]o
CuMistáoJArin Mirkan jez soprar um unto ü mon-
tanha a aués& uma cicbde eiodcscHoao &totlar a si
mesma ao invés de rmcln-se ao ISIS. para cobrir sua
camarctcias em atira(h em Koban'x no último mês k
outubro.
Nossocalmddrio não coram parabLo ao calencU-
rio do mando.O olhar destasmulbewsseentrou lm
pmlHnditütics tia distância. Seus rasos eram tápicbs,
'
com o objetivo clc tomar o IHturo mais próximo, que

103
104 $0REÕA KOJAVAvÊ: REVOLUÇÃO.' UMA PALAVRA FEMiNil.A PALAVRASDE MULHERES REVOLUCIONÁRIAS 105

:statiam impacientes e náo (fixaram Hma só ponte mais profilndos são ordinários, encontram-se nos terrenos da
[.
para trás. .Esta razões nos mantiveram a margem da vida cotidiana. O verdadeiro processo revolucionário de Roja-
rraZiíZzüi zü m#nzü. É por isso que agora o mundo
va acontece no interior dos espaços comuns da vida social: nas
sabe das mulheres nas montanhas. Dezenas, depois
cooperativas
de trabalho,nu assembleias
de bairro, na própria
=entetlas c, depois, milhares. durante todo essetempo.
salade casa,espaçosonde as mulheres têm conquistado direitos
Agora é o movúmlo de coordenar os calendários, de siR:
ironizar os relógios. E a hora de contar a.shistória & e ampla participação política.
ui(b desta mulheres guiese dividiam entre o sonho e a Antes de seguirmos adiante no texto, uma breve declaração
realidade. seusmomentosjzLizes qKe soam como contos dc intenções: este capítulo do livro -- escrito pelas mulheres do
defkldas, asforma.scom que a perda demonstrouscr a comitê de SãoPaulo em intenso intercâmbio de ideia com com-
professoramais notória na buscada verdade.Agora é o panheirasde militância na América Latina, na Europa e no Cur-
nomcnto pcdeito pata contar-Lheso queeu era caem: distão-- tem a importância de tratar do papel da mulher como
trazer o ontem para o laje. Para unir o calmüldrio do
o nao fundamental entre os princípios teóricos da revolução
mando, uou unir nossopasazlo m presente. Que mn
passadosda sm presente'. de Rojava e a própria prática da resistência popular curda. Bus-
camostrazer um panorama do modo como o desenvolvimento
O mundo inteiro Eda de nós, as mulheres curdas'. da ./Ifzea/a@a, uma ciência (ou forma de autoconsciência) que
carta da guerrilheira curda Zilan Diyar. ' as mulheres curdas têm construído sobre sua própria história,
tem organizado a formação do confederalismo democrático no
Há hoje na internet uma profissãoabsurdade imagensde processo revolucionário de Rojava c do Bakur. Nosso esforço,
inulhefcs curdas em Combate contra os Estados Turco e Islâmico seguindo os princípios da solidariedade internacional, é o dc
da Síria e do Iraque: uh sem-fim de fotografias de garotas mu- abordar esta realidade invocando a voz dn mulheres que vivem
dadas com lindos lenços e tranças, empunhando k:heiasde graça estahistória em primeira pessoa,pois não somos nós assujeitas
&a& ÓHIÁouicontra extremistas do Estado Islâmico. O que essas do processo e nem poderíamos avaliar esta experiência de ma-
imagens não revelam(senão ocultam) é que na r&olução de Ro= neira remota. Estamos aqui apenastecendo o texto, com muito
lava as mulheres nâo ocupam apenasa linha de frente: elasse respeito, a partir de intensa pesquisa e tanta conversas -- entre
nós e com elu.
encontram nos fundamentose em toda estrutura da luta pot
Ainda assim (e considerando sempre u diferenças de con-
uma sociedade mais justa e democrática.
Essa força Gemininà (iue pulsa no coração daresistência (cur- texto), precisamosconfusar que ao conhecermelhor os laços
que enredem as organizações das mulheres no Curdistão, fomos
da segue os mesmos princípios libertários das lutas de povos ori-
ginários contra a repressão do Estado, ou da classec:xplorada que
arrcbatadmpor um sentimentode identificaçãomuito potente.
se insurge contra o sistemaque a escraviza:trata-sede um con- Entendemos que há mesmo algo de universa] nu lutas de liber-
tação das mulheres em todo o mundo: a necessidade radical de
tra-ataque legítimo a estruturas históricas de dominação e con-
autodeGua e a pulsão viva do contra-ataque às violências que
trole..Os campos desta batalha, porém, não se reduzem às cenas
vivemos. Issoporque a construção do género feminino, nas mais
de.guerra (como quer fazer parecer o espctáculo): seus cenários
diversasmaneiras como se deu no mundo todo, carrega a marca
l Tradução em português deito pelo Partido Comunista Bruileiro, dis- comum da opressão,e a identidade das muheres de modo geral
ponível em: https://rcsistenciacurda.wordpress.com/20
15/10/30/o- também se cria por estacondição negativa. Assim, ao ouvirmos
mundo-inteiro-fHa-de-nos-as-mulheres-iludas-zilan-ditar/ os relatos de resistência de cada uma, somos capazesde nos ver
106 jOREJA ROJAVAYÊ REVOLUÇÃO UMA PALAVRA FEMININA PALAVRASDE MULHERES REVOLUCIONÁRIAS 107

uma nas outras. Disso nasce uma relação de profiindo reconhe- aliás, sewiu muito bem aos fins fetichistu de espetacularização
cimento entre a gente, e realidadestão distantesse aproximam. mediáticada luta curda, neutralizandonos meiosma/marúm o
Então a luta de libertação das mulheres curdas é a luta de liber. conteúdo radicalmente revolucionário da resistência em Kobani.
caçãodasmulheres em todo o mundo. Pelaforça com que temos
cultivado nossa sobrwivência até aqui, aprendemosque somos 'Muito mais preocupada cm sensacionlalimr o modo como es-
capazesde derrubar todas as fronteiras que nos aprisionam: nos- sa mulheresconesponclem
às noçõespreconcebida ({m muLbnes
sa condição subsumida na sociedadese transforma em sororj- rimtais mqulanto vítima.s oprimidas, a caricaturas ülo maiw-
dade, e essapassaa ser nossamaior arma de combate contra o Redm apresr7ttama combatentescurda como um jmâmrno
sistemapatriarcal que nos escraviza.E por issoque em Rojava, nodo..Assim,ao prolctar sobreelm sua fantaia orimMlistas
'Bnxzuezúza 77Wan f'("Resistência é vida") e '7zm JZ7am MZ" tniaisbimna.s, estasimagem rcdumm toda uma luu legítima a
("Mulher, Vida e Liberdade") são palavrasrevolucionárias. algo banal-- c supersimpLifcam osmotim;ospelos quais m mulhe-
rescurtias scjBntam à luta. Nos dia (te bajeparece batente ape-
O que impoKapara nósé queo combateda mKber sepro- htiuo retratar esta mulbaes comosimpática inimiga cloISIS
pagite pelo mKncb. Enqlianto a mulheresse organimrem e sc semImantar questões sobresita iiüologia c aspirações
políticas".:
solicbt'imrem, o movimento tias mulherescrescná. A libntação
cla.smulheres, a organimção da muheres irá libertar toda a E importante que a imensa pmticipação feminina na
HKmaniclaü. A alma de cada m«Lbn queperda sua uicb ao resistência de Kobaní não seja entendida como um Genâmeno
longo (êste combate encontrará uitü em nossoscopos. A rcsis- l insólito de uma guerra específicano norte da Síria, mu sim
;ência de Kobani é a resistênciajemini71a. É por isso que sig- l como parte de uma ampla luta dc autodeEua das mulheres.con-
ai$ca Hma ameaçaao Estallo-Nação.Porq e eh destmirá ao tra as violências do patriarcado. nrpreie/zia .paria-mim
mesmo tempo o Estado-Nação e a mcntalicbü dc ciomimção uma grande resistência: d resistência da mulheres contra o sistema
na.sculina. O queimporta éjmer crescerestecombate.Sda na patriarcal. Daesb tepresmta a clominiaçáo maculina. A resistência
qmno partesdo Curdistão,na Estopa, na Índia... todaforça .ü mw#'eras, rprz .«ía a rzsüfênclz Zo .poz,o"3 Se elu 'stão.hoje l
às mulheres que resistemno mu7tdo inteiros nos frontes da guerra contra o Estado Islâmico na Síria e no l
Iraque, bem como contra as corçasde repressãodo Estado turco l
ou dos regimes dc Ba'ath, esta luta não é apenas contra inimigos L
nijiYPJ!
]in, Jiyan, Azado ! 2 DIRIK, Dólar. %slzM #md dan w/f# 'ózlz&zli' .Kiín/hó mama
Assinado,Neslil)an"
'lhe media frcnzy ovcr the women fighting ISIL is bizarra, myopic,
orientalist and cheapensan import. Publicadoem: Opinion, AI
Jauera, 29 de outubro de 2014. Disponível cm: http://www.alja-
;'ERKEé1 6\DÜBÀABK". Ü"BUIKOBANÍ!"
zcera.com/indcpth/opinion/2014/10/western-Eascination-with-bo-
das-20141 02 ll 241 0527736.html
A história do movimento dm mulherescurdas não nasceu
3 DÕKH. Academia das Mulheres dc Amed. .4#lESIS)AGES
l)E FE71/-
da guerra da Síria, tampouco se reduz às lutas em Rojava, mo- À{EsÀ LA rxoNTiÊKEOUROIÁVX: RESISTENCEETSOLil)A-
mento esteem que se torna mundialmenteconhecidadevido Rr7É. PanHctopublicado pelo Go/brâg'Sa#é&zrir/
Erma Irff Xoó nâ
à repercussão midiática da deEaa de Kobani. TH repercussão, Paras,
março 2015
108 SORE$.AKOJAVAVÊ: REVOLUÇÃO, UMA PAI.AVIA PEMiNiN.A PALAVRASDE MULHERES REVOLUCIONÁRIAS 109

externos ao povo curdo, mas de uma guerra pela destruição do Diante da guerra, essa mulheres estão encarando de Frente
sistemapatriarcal que domina a ordem mundial capitalista como a face milita de dois programa de Estado que hoje encarnam,
um todo, e que, particularmente no assim chamado -Oriente em corpo humano e maquinaria bélica, exemplos máximos desse
Médio,.Eazda submissãoda mulher ao homem uma condição macho explorador e tirânico. O que o Estado Islâmico pretende
estrutural para a formação da sociedade.Ou, como disseNesrín ao seterritoria]izar no Oriente Médio não é outra coisa,afinal,
Abdullah, comandante e porta-voz das YPJ: senãotentar institucionalizar, dc modo bntante específicoe par-
ticular, o avanço das formas masculinas de dominação:
Não me importa saber que ea matei um soldado ülo Dmsb: o
qm mc importa é maEarslia ideologia" 4
"0 poda cü moümicb& capitalista, auaués do Daesbl sm
pião no Oriente Médio, estáfalando clestmir a esperança,
l Ou seja: quando vão pra linha de frente, estasmulhcru se
atacar a.s cultura locais, uiobr os direitos comunitários eliizn
vêem em guerra contra todas as formas de opressãoe Violência
cla.smulbnes sew noféw de güena'.'
que sofrem na vida -- vindas do poder hegemâniéodo a/zz.ü..
Naf.ão, que impõe suas instituições e fronteiras de cima abaixo,
esmagando a multiplicidade de Culturas, modos de vida, línguas Também a guerra que o Estado turco, sob comando do
e grupos étnicos; do /ala#larümo caP/ia#íia, que submete ao AKlt empreendesobreo Bakur não é diferente de uma arran-
deus dinheiro a todas e todos sem piedade, para produzir um cada violenta de um programa de modernização conservadora,
resíduo dc lucro para poucos e miséria generalizada em larga movido com base numa Garçanacionalista sobre as massas.Bão
escala;e da dominação do .pa#larrMo, que submete a mulher a precisa,porém, ser um i!!jlnigo abs!!g3penlgÀárbarq.c.omo o
uma posição inferior na sociedade, reificada como propriedade ISlü, ou insãlíãifiêiíiiíãutoritáãã ç!!po o governo dg..!n$ogan,
privada do homem. Essedomínio masculino sobre a política, 'j;;lníiê'iõiii='hi;;;igi'aas mulheres curdasi ãe n(wo a liguEI:.do
a economia e as relaçõessociaisque rege o mundo moderno é 'alga; da«-fnalzr? sinteuãii;dQ..üPodu: l PádaAP.atrão ep
resultado de uma construção histórica de pelo menos 5 mil anos: .Patri!!ç!!!!g -- que estrutura o mundo moderno. Por isso a luta
de um processo civilizatório violento que Eazpesar sobre as mu- dasmulheres curdasé também uma luta- diária contra o lmróa
lheres uma sobreacumulação de formas de servidão. dPmín pzlrinteriorizado em toda ordem da vida social: contra
a violência doméstica, a participação política subalterna, a de-
'0 capitalismo e o Estado-Nação repvcsentamo macho domi- pendênciaeconómica, o controle do corpo feminino, a produção
ntanteem SBa.arma mais institwionalizada. A sociedaiüca- de conhecimento eminentemente masculina -- para não falar das
pitalista é a contimiação.c a mlmi7iação de folias as antiga manifataçóes machistasmais atrozesda cultura local, como os
locicdaüs ücploratória.- Êa guerracantante confia a sociedade crimesde honra, os cuamentos forçados na infância, a poligamia
e a mulher. Em resumo, .o capitalismo e o est(do-nação são mo- masculina, etc. O que está no horizonte du mulheres curdas em
nopólio clo macho explorador c tir Rico" .s luta, portanto, este)amelasno fronte da guerra ou no interior du
comunas, é a emancipação total dn mulheres, no Curdistão e no
4 GUPTIA. Rahila. Rgapa npa/ fiíon; rcxóaPlngmam&pzí#.9 de maio mundo, em relação a todos os domínios da servidão moderna.
de 2016. Disponível em: hnps://www.opendcmocracy.net/5050/
rahila-gupta/mjava-rwolution-reshaping-masculinity
6 Pua lcr a dcdnação completa:Xurdlsün Gama irffi afwomm n
5 ÓCALAN lza#nred Rojwomen (Firat Ncws), 3 setembro de 2014.
110 $0REÕA KOJAVAVÊ:REVOLUÇÃO,UMA PALAVRA FEMININA PALAVRASDE MULHERESREVOLUCIONÁRIAS 111

Xo lutar coRRaa mentalidatlepatriarcalpor nossaemancipa- de Ócalan), na prática é algo muito duro e complexo, pois passa
ção e liberdade, nos cotlfontamos com uma autoridade, anu por destruir uma forma de consciênciaque estáarraigadanas
hegemonia c Hma binarquia ük relações. O sistema patriar- práticas de sociabilidade.
cal está realmenteimtituci07ializlüo, e sim mais imponantc
instituição é, widentemcnte, o capitalismoe o sistemaestatal '0 sistema patriarcal encdmú no homem, e é lwzüo por cle. É
to qt4al vivemos(...). Vlós mulheres nos cremosconta & que sc \~
cortássemost(ma única forma específicadc relação de domina- ''l
Ção, não teríamos. comeguiclo alcançar nossoobjetivo. Sc ?ião
'} por isso que seprecisa resolva' o problema peb raiz. As mulheres
curam têm como preocupação c como pvoieto a uans$mmção
ü homem. Em ouça palavra, ela começaram um trabalho
lutannos contra esta difnentesjomnas, náo poíieremosSuperar\ qKe visa afagar o homem àscu pensamento aludi que éclomi-
\ o patriarcado. Apmm ao colocar em questãotoólasajonnas bo- \ naclor epatriarcal. Este uabalbo se ülá para que o homem adore
\gemõnicm -- o Estallo, o capitalismo, o colonialismo, e também \ wma perspectiva.Pminina e mate sua masculinidade. Deixar os
lo$ regimesisbmistas autorüários -- que podnemos cowegtir' \ bomms por eles mesmos não basta para que mudem, épreciso
((Hltan.Kiianak).' que as mulhaes iate enbam')."0 homem converteu-se cm um
Estado e, dQois, na cultura clominantc. As opressõesdc clmse
Neste ponto já está suficientemente claro que, se em Rojava c soctlais desenuoluaam-sc. junta. À masculinicEóüc gerou um
são as mulheres que estão à frente do processo revolucionário, génerogoumiantc, uma cla.ssc
gouemantec um Estimo goun-
não se deve apenas à maestria Ecminina nas táticas de guerra(as nantc. Quando sc analisa ao homem nestecontexto,liça curo
curdasestão em guerrilhas nas montanhas há pelo menos qua- que sed c aniquilar a ma.sculiniclaü. Assim, dmc-se matar ao
tro décadas,e têm uma escolaforte de combate'),mas sobre- macho dominante como principio IMnclamental do socialismo.
tudo por uma razãoestratégicaque mira o estabelecimento
do Isto signiFca que devemosmatar o poder: matar a cLominação
confederalismo democrático: são só elas que podem conduzir a unilateral, a &sigualzi(ülee a intolaânci4. Ademais, matar o
constrtlção dc uma sociedadeque \rá realmentecontra a mascu- racismo, a ditadura e o despotismo.DwnÍamos ampliar este
[inidade hegemónica. ]j$ão éà toa que "Eréegí g4Zy!:??!1:4:.C7pyiar conceitopara incluir tactosestesafectos. E impossívelliberar a
a macáq]..sçl!.ulB do:llemas aiiaõii4jãã Sc ç$tç.proçcssowpor uich semumú rmoluçáorcüical (b mulbn que sda capaz de
mttcbr a mentalichü clo homem e a sala vicia".io
suâ''vü, parecemuito bem iiiõlvido na concepçãoteórica do
movimento curdo(a libertação da mulher é hoje a principal ban-
deira ideológica do PKK, tal como formulada pelo pensamento l)ada a dimensão universal da dominação patriarcal, que em
cada lugar do mundo assume suas particularidades, a luta das
7 DÕKH. AcademiadasÀ]u]heresdeAmed.]14ESS,AGES
Z)E.Fm/-
mulheres curdas é uma luta internacional e pela emancipação de
MESA LA FRONTIÊREDUKOJAVX:RESISTENCE
ETSOLIDA-
toda a humanidade. Ao combater a nível local a violência do pa-
R/7É. PanHeto publicado pelo (bazc/#'Sa#füdrí Xrm/níítr Kaóazzâ
Paria, março 2015. triarcado, combate-se ali toda uma lógica perversa que organiza

8 Há o fato bizarro de que no combate anual contra jihadistas, elas 9 Idem a nota 7
Eamm de seu próprio gênero uma armadilha: como eles temem serem
mortos por mulheres, pois acreditam qui: desonradosnão ganhariam 10 ÕCALAN, Abdullah. ZiócraflnE /f$z- wamf rma/u#a#. Interna.
o céu, sesãoelasque avançamsobreo terreno eles,com medo. batem tional Initiative "Freedom6or Õcalan.- Peace6or:Kurdistan" Edi
em retirada tion, 2013.
112 $0RE$A KOJAVAYÊ:REVOLUÇÃO,UMA PALAVRA FEMININA PALAVRASDE MULHERES REVOLUCIONÁRIAS 113

a sociedade.modernadc modo geral. Ao entender que em cada À- nação de que "um povo não pode ser livre se a muheres não
realidade particular as opressões assumem características csped- irem & " tem sido recorrentemente reelaborada nos escritos
ficas, o movimento das mulheres curdas defende que é preciso de prisão de Abdullah Õcalan, que mesmo antes de ser preso em
respeitar a autodeterminação da luta das mulheres em cada lugar 1999 já tematizava discussõesde gênero em seus discursos, como
do mundo, se .solidarizando . internacionalmente e cultivando
aparecenos três volumes de "JUmi/.7qãma/l?" ("Como pfz,nP") e
a solidariedadecomo arma de fortalecimento.#Nesse
sentido.
em um livro de entrevista que se chama justamente "Erê«í ó/-
porém, se Eaznecessárioapontar um discernimento crítico a dilrmek" Ç'Mamado o macho ülominantc' ). B.m "Liberdade a uicb
respeito do movimento das mulheres curdas em relação àquilo
- .Rma/af.ío zúu mzlZ%frei'':, um compilado dc escritos de Õca-
comumentc entendido como#zm//z/íma no ocidente. Ainda que
lan, aparecem diversas formulações teóricas sobre o modo como
o movimento das mulheres curdas tenha sido muito enriqueci-
a dominação. sobre as mulheres é a mais fundamental forma de
do por escritose pelaslutas feministasda Europa o moz//maio
Jzm/nhía, majoritário e institucionalizado, vem da centralidade dominação que determina a desigualdade,servidão,.despotismo,
l do capitalismo, e coloca problemas como o liberalismo e o Es- racismo e militarismo. Assim, paraelaborar um significado pua
\ tadó nacional Na luta dasmulheres em Rojava,estesdiferentes ostermos «m&úüe(respeitando a diversidade), #óenúzzü,Zrmo-
aspectosda dominação patriarcal não vem cindidos: muclze íocfz#rmodentro do programarwolucionário do PKK,
Õcalan vai estudar a formação da trama de relaçõesque tece o
O sistema de Rojava é um sistema de democracia horizontal, [ugarsocial da mulher desdea Antiguidade atéo séculoXX], que
no qt4ala mulher éa lícla, cuja baseéo podo.Aqui, o argumen- ele defende como a Era da Revolução das Mulheres:
to principal é o fato de que estesistemarécita complaamentc
o Estado-Nação. O Estado-Nação tem desdeo início atacado '0 século XXI dme ser a era do despatar, da !ibertaçáo e eman-
as mulhnes, por exemplo, pela proibição cla nossa língm, a ne- cipação clm mulheres. Isso é mais importante do que a luta de
gação da nossacultura, a violência a qBe nos submetiam, clave ou dc libenaçáo nacional. iAs mullJcrcsem gerc1l,c mais
essa.s
tocamsáo causa de ama luta étnica e naciona!.(...) Ma.s
especificamente as do Oriente Médio, sáo a força mais enérgica
quando movimmtolteminista colüiózem um coml41epela ic- '
e atiça para o estabelecimentode uma socitclíüe democrática,
mocracillL&uezçl.!i4ose-.:].iiüii;útil.qii.g]Ltiüo-Na4ãi";ãia
pois sua posição -- em oposição ao Estado-Nação, ao sistema de
i4m túmKjlpara os+ouoseparg.41.plylbeES .l(liiawa da !!mi-
classese à dominação masculina -- é a antítese necessáriapara
úkmocratizaçãi;do Estaãi:a mulheres engoliram o }qmboU.
a suPaaçãodestasociech&.(...)Ao selibertarem ela irão náo
êliMcb41i14gJo .Fil@b.8'Êi;$iiãmftú;3;iih.ia ..;H. '
alma vingar a história, ma.s$mmr a nova síntese rwolucio-
muLbn, à opnssão senil, a negação da iclentidadejcminina e
os obstáculos ao direito à expressãoda mulheres não dcsapare- nária.(...) O que precisamosé cb teoria, do programa, .h or-
céram nó seio desta socieülade".!! ganização e dos mecanismosnecessáriospata a implementação
destalibertação
11 DÓKFI, Academia du Mulheres de Amed. MESA.AGESZ)E.f;EÀ/-
MESA LA FRONTliRE DU ROJAVA
: RESISTENCEETSOUDA- 12 ÕCALAN, Abdullah. Ziórxa/fn! &/i.' womm rma/u#aH. Interna.
XTZE. Panfleto publicado pelo GaZbrdfSa# ÜHf/ Xrminiííz Kaóanâ tional Initiativc "Freedom Eor Oalan - Peace Eor.Kurdistan" Edi
Paria, março 2015. tion, 2013.
114 SORE$A KOJAVAVÊ REVOLuçÃo, UMA PALAVRA rEuiNiNA PALAVRASDE MULHERESREVOLUCIONÁRIAS 115

AS FORÇAS DAS MULHERES CURDAS A mobilização massiva de mulheres na deGaade Kobaní,


assimcomo em toda revolução de Rojava, é herdeira de qua-
A essasnecessidades
que Ócalan drama a;unção- de Uma se quatro décadas dc resistência de mulheres curda enquanto
cidadãs, ativistas políticas, combatentes, prisioneiras, dirigentes
teoria, um programa e uma organizaçãopara a luta dc libertação
dc levantes populares.c manifutantes incansáveis de seus direi-
das mulheres - pode-se identificar as diEcrcdtesforças que mo-
bilizam as mulheres curdas. Trataremos de cada uma delas coH A construçãoda história de luta du mulherescurda re-
monta a figuras de séculos passados, como às ".R:zza Euü77zm",
maior acuidade daqui em diante, mas não sem antes apresentar
um esquemageral. Primeiro há uma força de base,que é AlstÓ. que ao contrário do que sc pensanão foi uma, mas foram três
combatentes líderes militares em períodos diferentes; e a outras
dca: o movimento dc mulherescurdastem no mínimo quatro
mulheres combativa que antecederam às organizações políticas
décadasde engajamehto na luta popular do Curdistão, na cons-
exclusivamentefemininas, como é o casode Leyla Quem, jovem
trução cotidiana da igualdadede gêneroe participação atiça das
curda militante do movimento estudantil curdo de Bagdá (%r&lrf
mulheres na política c nas guerrilhas. Outra corça é alga/liga/fz'a:
Qoíaóf.7ezz
.Kúzdu/andana luta pela independência do Curdistão
partindo do ptincípi(i de auto-pioteção, as mulheres de Rojava e
sob o regime dc Ba'ath iraquiano. Em .1974 Leyla foi presa sob
dõ Bakuf organizam-Éecom autonomia em diversosespaçosso-
acusaçãode um .suposto plano de sequestro de avião, torturada, e
ciais, culturais, políticos e econâmiéos próprios; existem esfera
condenada à morte cm um julgamento claramente ensesco -- seu
de decisão exclusivamente femininas para cada aspecto da vida
enforcamento foi transmitido ao vivo pela televisão pua todo o
em comünidadc, e participam com paridade em todos os níveis
do confederalismo democrático -- estruturado de tal modo para país,como claramensagemdo Estadopara que mulheresnão
garantirque elasconduzam a construçãoda sociedade.Por fim, seorganizassempoliticamente, além de campanha oficial contra
o crescimento dc movimentos populares curdos. No dia de sua
há ainda outra força, muito potente, que podemos chamar dc
execução,em 13 de maio dc 1974 disse: "matem-me, mu tam-
ideológica:\:ax~-sedü gtbele'imcntg3&.lilcqbda \Jineobi).Jin
em kurmanji quer dizer mwZBer,:e.#lzeaZa@aseria então clhfla 'ü bém devem saberque depois de minha morte milhares de curdos
despertarão. Mle sinto orgulhosa por sacrificar minha vida pela
liberdade do Curdistão". No dia seguinte a sua morte houveram
«ilélábyp«-á:99iiliiÉ;li'mó. Zo@wêl(='ü;MÜãa
do saber, coinãiodas asEormas ãi;dêrhas de poder são masculi- grandesrwoltas em Bagdáe em várias partesdo Curdistão.
Há ainda quem diga, com bue em certasleituras antropoló-
nas), e propõe a produção do conhecimento pela bcrspectiva da
mulher, afim de destruir toda forma de pensamentopatriaral. gicas(como é o cuo de alguns relatos de viagens do século XIX
ou início do XX) que nas sociedades curdas as mulheres sempre
mantiveram uma posição de relativa independência em relação
;'N'oSSo DE'lZRMINAÇAO VEMDOFOGO l)A REVOLUÇÃOl)ASMULHERES. aos homens, considerando a condição geral da exploração de
ESTA REAIII)ADE NÃO NASCEU I)A NOrIT PRO DIn É FRUTO DE UMA
mulheres noOricnte Médio. É certo que estas leitura estão car-
lílS71)RH l)F lt/ZI':J3
regadaspela perspectivamuculina, imperialista, branca e mo-
dcrnizadoradu ciênciashumana, e julga a condição da mulher
13 DÓKH, Academia das Mulheres de Amed. .ÀdESS4GES DE JÇE?W.
MESA LA FRONTIÊREDU R01.AVA:
RESISTENCEETSolIDA. curda a partir de análisesexternas e preconcei.tos.
oricntalistas,
RTZZ. PanHeto publicado pelo GaZbrirSo#lüHlí .1%minírir Kaóan mas ainda assim é possível levar.cm consideração este quadro
Paria, março 20i5. quando são elas próprias quem reconhecem esta condição:
116 jOREÕA KOJAVAVÊ
KEVOLUÇAO UMA PALAVRAFEMININA PALAVRASDE MULHERES REVOLUCIONÁRIAS

É vidente que seessediscurso [de libertação i:]a mu]bnes] ?tão Hanover na Alemanha, cm um contexto dc enorme persegui-
orrespondesse
a realidade socioló$ca, teria permanecido coU. cão aos movimentos sociais curdos na Turquia. Assim como os
)elm pabliras. As mulheres carclajá eram muito inclimd« a braçosfemininos dc diversosoutros partidos marxistas-leninis-
:síe discurso e a estechamado. ./lpems se entreabriu uma porta tas à época, a YJWK(WÉfl©a .#nâz WêÜ@ rêz/ XwpzÚstazzê
--
Is mubnes curtia, masforam ela que a abriram c saíram União dc Mulheres Patrióticas do Curdistão) era uma estratégia
cbatanü".i'
de mobilização de mulheres para o partido: criava um espaço
específicopara suu pauta, introduzindo o pensamento femi-
É possívelmarcar uma passagemhistórica no Curdistão eM nista europeu-Como em qualqueroutra discussãodentro do
direção a um programa revolucionário estruturado pela luta PKK, quem serviu de guia ideológico para.aformulação do pro-
de libertação da mulher(ou o momento em que "as mulheres grama dc mulheres dentro do partido foi Õcalan. Na década de
chutaram a porta", como diria SelmaIrmak), mas estanão sela.. 1.980, as análises deApo criticavam cada vez mais as estrutura
caliza na fundação do PKK em 1978, como muito se leva a crer. Familiarestradicionais, o papel secundário das mulheres dentro
É preciso considerar que dos 22 membros fundadores do partido, da família e os papéis de gênero que associavam u mulheres ao
apenas duas eram mulheres -- Sakine Canstz(figura reverenciada mmm (ou &onnu, uirrzlz#, conceito da cultura islâmica para os
no Curdistão, assim como ..Abdullah Ócalan: engajadana luta valores morais de cada gêneio, que recai sobre as mulheres pelos
curda.desdea adolescênciae co-fundadora do PKK, quando ti- códigos de controle dc seuscorpos) e designavaaos homens o
nha apenas 20 anos. Presa em 1982 sob pena de 12 anos. Foi bru-
dever de protcgê-lu. É da passagem deste tipo de discurso, que
talmente assassinadano Centro de Informação do Curdistão em
ihstrumentaliza a participação das mulheres na rcvolüção, para
Paria em 9 de janeiro de 2013 junto a outras duas companheiras
outro tipo de discursos que coloca as mulheres como protagonis-
curdas: Rojbin Fidan DoÉan e Leyla Sõylemez, as investigações tas de sua própria libertação, onde se encontra o salto qualitati-
para saber a causa das mortes ainda não foram concluídas, 'po- vo do movimento de müheres que ;cdefinirá todo o pmadigfna
rém não havia nada em seu programa inaugural que prescrevesse
ideológico da revolução no Curdistão.
o lugar da participação política feminina ou pautasse questões Não Hoiexatamente no campo civil que as mulheres abriram
específicasde mulheres(ainda que reivindicasse 'llgmZ:úz'Ú'mür
caminho e avançaram em direção às conquista radicais na luta
Óomf e m#üezu", o que não passavade um lugar comum para
popular curda. Pode-se dizer que esta campanha sc deu mesmo
uma carta de princípios de um partido socialista). A presençadc
no terreno milita e daí seestendeu pma outros espaços-A partir
mulheres só ganhou mesmo alguma relevância nas campanhas do
dos anos 1990, u guerrilhas curdas se intensificaram e houve
partido a partir de 1984, quando o PKK tornou-se dc Fato um
um aumentosubstancialda presençafeminina. Em 1992, por
grupo paramilitar declarando guerra ao Estado turco e muitas
mulheres ingressaramaos quadros da guerrilha. exemplo, as mulheres ocuparam lugar importante nos contes
da "Guerra do Sul", conflito em que forças armadas da Turquia,
A primeira organização de mulheres curdas foi fundada
em 1987, com o apoio do PKK, por mulheresexiladasem apoiadas por .pes&mng#S, atacaram as guerrilhas do PKK nas
montanhas do Clurdistão iraquiano. A impressionante resistên-
14 DOKH, Academia das Mulheres de Amed. .Adl&SS4GES
l)E .ftEA/ cia das mulheres nesta ocmião as tornou mais respeitadasentre
MESA LA FRONTIÊRE l)U ROJAVX:RESISTENCEETSOLll)A os militares, e mudou a ideia da maioria daquelesque achavam
.erZZ PanHetopublicado pelo GaürrdÉSo#Z H// .l+mjmü&Mapa Í
Pais, março 2015. 15 Braço milita das lideranças curdas no fraque
1.18 $0REJA KOJAVAVÊ REVOLUÇÃO.UMA PALAVRA FEMININA
PALAVRASDE MULHERESREVOLUCIONÁRIAS 119

que mulheres não deveriam ter.lugar no exércitoiõ. .Os primeiros Que a campanha para o engajamento de mulheres sob con-
anos desta década também coram marcados por grandes levan. diçõesde vida revoltantestenha tido êxito na luta armadacur-
tes das populações Curdasnas cidades(íaá/Zün, ou "intimada da, isso fica claro no livro Ba&zurm .Zr m ZBnfí cz nZ ??z/a&a-
curda"), e a deÉuapopular Éoi feita pelasunidades guerrilheiras IZW(2005),em que Evin Çiçck, que viveu nu guerrilhaspor
que até então só estavambaseadasnas montanhas. Neste conta. dcz anos entre 1984 e 1994, relata a realidade das glerli211 que
to foram especialmente as mulheres que enfrentaram as forças decidiram ir à guerra: muitas.!inham histéli4$..4t1lg!.gigçlb.
de segurança turcas nas ruas, c ganharam o reconhecimento da crescido.Emiamíjias conseryl4Qras c tirânicas cm meio acima
população .curda :em geral pelos confrontos durante as celebra. sociedade..guç. não as aulgri3aya a nada-nãp tinham ido à escola
çõesde Newroz'' de 1990, 1991 e 1992. Mesmo tendo sido e haviam se casadãí'força. Para elas1.3 guerrilha.QBriç!!.plgtal:
reprimidos, estesprotestos foram importantes para popularizar çá;';d..,çilljlgl;'iã;;r=;liáncómu'5.p'b qu,}Jl!!", 'P"'L
a luta armada em meio às massa, sobretudo entre as mulheres.
dos pciigos clg..$ontc Btas'aêtêfMihãçõcs cruéis.qu: pesavam
e o :PKK pareceu instrumentalizar as rwoltas como estratégia dc sobre as iRglhcra'»areciam.ier'tãõlomuns . no .Curdistãa'que
mobilização do partido:
os quadros femiriingg..aumentaram.?.plclnlg.dç corresponder a
um terço da;iiilídas na época, nurg.2rgce$sQque.6couÉonhc:
=àundo as mulheres, . que são metade da sociedade, tomam cêdo ÇQgc o põv'o'curda coíiiõll$zlgáiláqm "(ou: "militarização
a nla, é impossívc] contro]á-]a[...].(2ianto a isso, e esPe- 'dali'mulhl;;l=:?Jn. É em deEãiiência deste cenário que em 1993
:ialmetlte em rebção ao aumento do moiiimettto urbano, foram criadas as primeira unidades femininas independentes
precisamos .agir no próximo nÍue]. f...] Obuiammte, tocamm de guerrilha, com o intuito de livrar estas mulheres das práticas
nulbacs estao$riosas. Toda estãojamintas c empobrecidas.Ê machistasde seus companheiros homens, além dc propor rom'
possível toTná-las rebclüs mando todos os tipos & métodos'.'B per com o valor tradicional de obediência atribuído ao gênero
feminino para que elas mesma assumissemo papel de serem
16
Uma combatente conhecida como Bêritan tornou-se especialmente suaspróprias dirigentes.
inHuentç nesta ocuião, quando preEuiu cometer suicídio alirando-
Eis aí, enfim, o r#mlnX.pof/z/; em que a participação das mu-
se de um precipício ao invés de enue©r-se aosinimigos do exército
turco. Anos depois,cm 1996, uma militante curda chamadaZilan lheres na luta ganha real importância política no movimento de
explodiu-sê em meio a soldadosturcos que pudcipavam de uma deGaae libertaçãodo Curdistão.Esteé o momentoem que a
cerimónia milita em uma praça em Dersim(Bakur). Esta, aliás, plataforma ideológica do partido passaa entender a participação
acabou se tornando uma caliça de guerra das Wll, que sempre carre-
igualitária das mulheres e seu direito à autodeterminação como
gam consigo uma granada para uplodirem-se caso sejam pegas pelo
princípios de um programa revolucionário. Nessaépoca, entre
Daesh. Além de ser um. último golpe possível confia o oponente.
estaseria também uma maneira honrada de morrer em combate. 1993 e 1996, ocorreram diversas con6erênciu do partido sobre
Adn Mirkan é uma dasmártires do YPJ que se dinamizou em 2014 o tema, e dessesintensos debates nasceram conceitos fiindamen-
quando ficou sem munição e curada pelos mercenários extremistas tais para a condução do movimento revolucionário, tais como
enquanto suascompanheirasprecisaramrecuar no ftont. Contrato social cla mulhete? e " luta de libeHaçáo das muLbna'
17
Paragem dc ano persaque é comemorada por alguma etnias e gru-
pos sociais no Oriente Médio. 19 ÇAéLAYAN, Handan(2012) From Kawa thc Blacksmith to lshtar
the Goddess: Gender Constructions in Tdeological-Politicas Dis-
18 courscsof the Kurdish Movement in post-1980 Turkey, European
Õalan, AbduUah (1992a), Kadin ve file Sorunu (cd. S. Erdem).
lstanbul: Melga Yayinlan. Apud: ÇaÉlayan, Handan(2012) Journal ofTurkish Studics, 14.
120 121
$0RE$A RC)]AVAYl: REVOLUÇÃO.UMA PALAVRAFEMININA l PALAVRASDE MULHERES REVOLUCIONÁRIAS

Este impacto do poder feminino sobre a resistênciacurda não


âcou, porém, limitado ao discursodo programapolítico, deu 'erte-se

corpo a uma nova estrutura organizativasocial, em que as mu-


lheres passaram a formar unidades políticas independentes.
Em 1995 ocorreu então o /' Conprsio 2r /lióaíafúa zúzí.A4#-
A AUTO-ORGANIZAÇÃODASMULHERES
Z%ezzsdo Cuzzüí/üo, assim como a fiindação da [/nláo zúu .A4#-
LberesLivres do Curdistão, a'Y}K3KÇYekitiyaAzadiya Jinên Kur-
Znzane0,que naquele mesmo ano participou da IV ConEcrência As palavras "Komalên" e "Koma" vêm do termo "Kom:', quc
Mundial das Mulheres, organizada pelas Nações Unidas em Pe- em kurmanji quer dizer grupo, ou comuna, união. O KJK in-
quim, posicionando o movimento regional das mulheres curdas dica que essa.escolhasemântica remonta à organização comunal
na construçãode uma agendapolítica internacional para o em- da era Neolítica, momento em que a vida social na Mesopotâmia
poderamento:' feminino em todo o mundo. No dia 8 de março estavaorganizadaem torno da figura feminina. Isso significa di-
de 1999, dia internacional da mulher, a YAJK funda o Barflda zer que o paradigma da auto-organização das mulheres curdas se
.Zn .À4aZBexes
7hóa/%a2o zü Carl21üMa,
PJKK, tomando as es- bacia no mito fiindador neolítico tanto no que diz respeitoao
truturas partidárias em mãos para que elaspróprias passassem
a papel central do gênero feminino em determinada formação so-
dar forma aos conteúdos políticos do modelo de sociedadeque cial, quanto nos princípios organizativos de comunas. Esta razão
se pretendia estabelecerno Curdistão. ontológica é a chave para entender a forma de consciência dessas
No ano seguinte, em seu terceiro Congresso, seguindo mais mulheres em luta e o modo como se vêem posicionadas em todas
uma vez os princípios internacionalistas da luta curda, o PJKK asfrentes da revolução curda: para elas,o(rc)estabelecimento dc
muda de nome.para 2urf]Za de Ziónía@a .Z©.]Uaüexzi(PJA), um sistema social comunal no Curdistão deve necessariamente
abrindo-se para maior participação de mulheres dc outras nacio- corresponder ao empoderamento político das mulheres como
nalidades; em 2002, o PJA amplia sua articulação internacional negaçãoaos modelos institucionais modernos, patriarcais por
e une ao debatede uma Constituição Mundial das Mulheres, acclência. Em outra palavras,issosignifica que a própria ideia
onde:declara--seuCoDtrato Social das Mulheres; e em 2004 é
de col:#?reza/hmoZrmacMffco está estruturada sobre a existência
fiindado, finalmente, o ieãiíiZlr '21i&2:fZã}2;'an .A4uZZexzi.ü necessáriade esferaspolítica exclusivaspara mulheres.
C#r2zíüa(PAJK), que correspondeatéhoje à maior organização Paraalém dos conceitos, os efeitos da auto-organização das
partidária das mulheres curdas.Ainda assim,o movimento de mulheres curdas têm tido impacto gigantesco nos terrenos da
libertação das mulheres vem sendo continuamente reestrutura- vida cotidiana, campo onde a rn'o/ufúa deve realmente Fazer
do para responder às necessidadesdas organizaçõesde mulheres sentido.
em uma estrutura confederalistademocrática.Deste modo foi
Gültan Ki$anak:' explica que a força do movimento du mu-
hnda4o.cm-200i..o GaníeZ%a SapeHor .úu ]M#a«dKolü'Z: lheresno Curdistãovemde sualuta história no seiodo movi-
\.
n/n .B/#n4.KIBLçonsellü;iipçljãEã:fõiiiiibarddária do PAJK, mento curdo:
como nível de
.eDEg de 21 Primeira mulher curda na co-presidênda dc Diyabakir, cidade de
maioria curda no Sudesteda Tuquia; entrwista completa disponível
em: https://wwwopcndemocraqnct/nadje-al-ali-ladFuis-g-ltan-ki-a-
20 Este é o termo usadona Declaração final do congresso. nak/kurdish-women-s-balde-condnues-against-skate-and-patriarchy-
122 123
$ORE$A KOJ.AVAVÊ: REVOLUÇÃO. UMA P.Ai..AURA FEMININA PALAVRASDE MULHERES REVOLUCIONÁRIAS

completnmtares mútuos den»o dos mouimmtos .jlminbta,


""'r' '' t Ttnouação cb descrição dc todas a.s
ecológicos e democráticos, . - ....,. .....
imtMtakÕ"
'"i'ü(com' ajamüi':p" '*'"Pb) d' '"'d" "m
aspnn {Pi's 'h lib«taçáa " "Mt«ra bÜica Ü liw' %n«-',.
a comtmçáodc um entendimentoalterTutiuo ób ciência.social
com bae M ]ibmação da mu]haes. O cama)oü uma nova
""':'"ig?' q«..Ü .lg««. &'irão jo. n««h "m co«.iÜ..
l pal.t«a da müü.m, o.' s'"l s"a p'ü'ipação, scnós«.ubm, cih«Ü socül Pa,a ;odorq«.ks cÍ«ub' qK' «áojm'" Pjt't:
do DoM e do E,tMo .l"'em sa co«-H«ü&u. Bta é a tarda dc
-áo.P«".scb,Mbadü, miÜ aU b.M0 7Ü P.'l"Ü s" aph&
todos os anui-cotonianistas, anui-capitalistas, mouimmtos an-
Ü. 'É Bpm mcdiiüz'rizdicaZ pam lzós, lpm é iuo o qw -ilizams. c
lgwa éúcdto pcb quüsc-totalidade & nossasor8anizaçõa'.

G.. Ki$anak insiste sobre o poder que lhes deu a existência =C.iinü, .Abm«Ü- &' i'm.ii"a ' 'Q«;.«t«t' ü M':
de .uma esfera exclusiva femininaem cada nível da vida social .inato da MKba« Cura', Gõnül IhJa, qw tem colocam
essenabaLbo em discwsão &sde 2011.n
-lá uma outra caiu que nos dm poda: nós dissetnos qwdncría.
nos estabekcn OTganizaçõcs aclmivammte dc mulhnes em toda As ciênciassociais, assim como outros campos da sociolo-
pane: à cada nível ü mganização social. Temosassemblâasdc l piâ atão imprqnadas dc conteúdos quc seguem a reboque do
',': nos baia«t: as«tuba ü mubaes no seio do pa,tid.. l sistemapatriarcal na formulação do pensamento contemporâ'
tssembkia de mubncs,nas municipalidades. Pov toda pürtc neo. Os resultadosde suasinterpretaçõesvão da normatização
mcorqamosas mulbnes à mPtura. (bndiza, nos encoTalamos dc conceitos ao aprofundamento do sexismo e do nacionalismo
)or uma organização própria e autónoma. Dwemos cstatPresm- nos dispositivos dc controle social. Uma alternativa de superação
;eseln todapartc masao mesmo tempoprecisamosternossaspró" éaconstrução daJincalogianaáracicntí6ca. . .. . ;- " .
pna. organizações. Nos sitüicatos, luas ONGs, na imtimições de O significado dc jincalogia é "ciência da mulher . Jin c
lir'itos humanos, em todo Ingar do mu7tdo, nós .Metíamos nos curdo c signi6ca "mulher". Logo deriva da palavra gregalogos re-
)rganimr em grupos exclusivos. Porque nos si7üicatos ou mesmo lacionada ao conhecimento. "Jin" deriva da palavra curda."Jiyan"
las ONGs, as mulhnes estãoseTnpnem segundo pURo. Então quc signi6ca "vida". No grupo linguístico indo-europeu' c no
dissemos:mesmo se vocêsjwem duas, reúnam-u e organizem-sc Oriente Médio de forma geral, aspalavrasJin, Zin ou Zcn, todas
para dize que vocêsestãoali. Isso lhes dará muito poda'. u quais signi6cam mulher, são frequentemente sinónimos de
vida e vitalidade. . .
A palavraJinealogífoi usadapclaprimeira vez?de fomla con-
JINEALOGIA
A CIÊNCIA DA MUL
"..l;: ;='Áá.u,h Õ'd''- .'m io03,..q"'-d. l"-ç: T.!:.::::
.pnA SUPER/IÇÃoDO noibíhio n escrhos denominado "Sociologia da Liberdade", onde expressava

22 Gõnü bp, Wb .PnnZOXy?


Rr..CaIr-lida! iáf Sdmcex
MU'drÜa
'Importantestan$m nosesperamno século21: o -quadro$tosó- omm#lld d f .l.!É. Disponível cm http://kurdishqucstion.
com/oldarticle.php?aid=why-jincology
lico-tcó,ico e .ient$co d« libntaçü -h mubn's,(...) diálogos
124 jORE$A KOJAVAVÊ REVÓLUÇÁ0 UUA PALAVRAFEMININA PALAVRAS DE MULHERES REVOLUCIONÁRIAS 125

sua ideia dc que asmulheres, por não se conâgurarem como por- FORMAÇÃO MILITAR DA MULHER CURDA
tadoras(ou agentes) do poder e do Estado, precisam desenvolve.
suaspróprias ciências que poderiam chamar-seSociologia da Li-
berdade. A jinealogia é feita a partir de valores e experiências dc
"0 soümo é um instmmmto dcpoda e wmaarma ao mesmo
mulheres em luta no Curdistão c pensadacomo uma ferramenta
tampo, utilimdo no curso ch história dc maneira permanen-
para reencontrar a .".identidadenatural" das mulheres "que vi- 1. «. todosossüt«.m Ü ciuili«Káo. Desato, nmbum ouRO
vem em terra livre": quer dizer, uma identidade autónoma dos
homens e do Estado. gmPOsocial$i tão cxplor(Üo Jisica c sociologicamente como a
. mulher. A uariecb& com quc a mulbn é eiQlorach é idente.
O reforço é focado. no conhecimento das próprias mulheres,
. A mulher gna &scen&ncia. Smic. como$tça dc trabalho gra-
então são reagrupadose difiindidos materiais sobre a história \ twita. Ê abeto pcnnanente ü avidez socu4al.
É utilizacEapara
do..feminismo, a história das mulheres e sobre o sexismo cm si.
JinspubLicitários. Constrói a bae sobre a quilo.homem produz
Nesta mesma lógica, elas fiindaram uma agência de imprensa c reproduz sm pocln como iwtrummto dc violência confiam.
feminina chamada JINHA em 2012:', uma vez que a impren- opor isso que oscittco milanos tie história dà ciuilimçáo podem
sa continua reforçando a dominação masculina na consciência sn ckscritos como cultura ch uiobçáo'.:s
pública. É possível Emer assinatura para receber as notícias via
internet em curdo, inglês ou turco.
A luta dasmulheres curdas tem o corte componente da busca
Em Bakur,no anç1.4ç199âÍclb4mrijmeiro. exl1ll;ilg.4g
por meios que garantam a não instrumentalizaçãoe submissão muihcl;iZujo nolgS.glJ!:L$!#.(o nome permanecesomente
ãié"2õii5):':1br;;'organização autónoma por parte. de suas guer-
contínua ao velho lugar social assim ocupado há tantos séculos.
rilheiras que levam essa formações.du montanhas de Zagros
Os Estadosnos quais vivem o povo curdo excluem totalmente
para organizaçõescivis como sindiciitos, partidos políticos, 'coo-
a mulher da vida política,. económica e de organização social.
berativi, c cri«n aYJAI.jlniã'-dÊ.J\4111kr!!!:jrç'.A 'UA 6êóu
Para quebrar csta dinâmica a luta contra a dominação histórica
conhecida por organizar sindicatos dc base, por ter um modelo
das mulheres precisa scr vencida no campo ideológico, como diz
Ocalan: organizativo horizontal e flodvel com assembleias,conselhose
comunas, por aderir à economia solidária e saúde coletiva, pela
luta contra o Eeminicídiono Oriente Médio, pelaluta pelacul-
Em púmeiro lugar, é precisosabe comouencn no campo tura, língua e tradiçõescurdascontra os processosdc usimilação
Ldeotó@co
e comognar uma natalidade libMária c mtuvdl de identidade.
;onlrQ a mentalidade dominante e ávida dc poda do homem. As Unidades de Defaa das Mulheres(YPJ -- Yekineyen Pa-
Não amenos csquecn- a submissão feminina n(üicional não rastinaJinê) formadasem 2012 no momento da declaraçãode
: fbica mas, sim, social. Dwc-se a uma escravidão amaigada. autonomia dc Rojava em paralelo às unidades de defesa do povo
\ Por co eguinte, a necessidademais urgente é 4 de s«piar os
pemammtos e a.semoções(b submissãono campo idcoló@co'24 Tradução disponível em Mulher, Vida, Liberdades do Comitê de
mulheres "Resistência é Vida"

23 Jin Hpber Ajansi -- Agênciade notíciasda mulher,disponívelem: Abdullah Ócalan em Z Rma/uríón zv#zmilzfn ', publicado em Gana
25
http://jinha.com.tr/cn
e "ll manifesto', disponível em http://www.freedom-6or-ocalan.
24 ÓCALAN, Abdulah. EiómallnKZ{Ê Wbmalz}
Rna/ üo(pg. 54). com/línguas/hintergrund/schrihen/F.ra.htm
126 SORE$A KOJAVAVÊ PALAVRASDE MULHERESREVOLUCIONÁRIAS 127
REVOLUÇÃO,UUA PALAVRAFEMININA

(YPG) - contam com 35%o dasEorÇas eEetivas militares de Rojava Jma pane de mim é uma mulbn no Ji$eganistão,
a outra
que vão de 7 a 10 mil voluntárias com idade de 18 a 40 anos. paquistanesa,aLe7nã, pnsG árabe, turca. Eu lbc dissequetoda
APardcipação da brigada iÀternacionalista é a menos exposta
a mulheres do mundo estão comigo quando luto conho esses
homensbmtais. Em resumo,m nunca senti qHCm, McOan
por questões políticas de proteção individual das combatentes
Kobani lutei sozinha nestagKerva.Náo imporia o quãodistante
de maneira a preservaro anonimato c a segurançadc cada UUa
nós mulheres estamos uma cEa Duma no mundo porque por-
nos países onde residem.
mossentir uma.sàs ouum. Como indiuMuo eu cbegtteia con-
A autodeEua, quando se trata do campo dc.atuação das mu.
clHsão que nós mubnes quc sofcmos na nãos da opressão ma-
Iherestem uma relaçãocom o fato da guerrilhaoferecerprotc- mlinA especialmenteem um sistema capitalista que também
ção, educaçãoe um ideal social comum pelo qual lutar. Nessa )prime mulbnes, a mubnes que lutaram próxima a mim
entrevistaconcedida à Ruken lsik, atualmente trabalhando em lutaram por essamulbnes e morriam por cla também'.:'
um PhD por Meruem Kobani e RozaHaseke,comandantesdo
YPJ(Unidades dç PrQteçãodas Mulheres) elas falam sobre a im.
Sem o processo rwolucionário e a democracia direta cm
portânciado apo.iointernacionalcom a luta empreendidapelas voga nos cantões de Rojava e na luta das mulheres curdas, o pro'
mulheres e suasdificuldades:
tagonismo da mulher não seria possível. O aprendizado com essa
experiência é que ela pode nos apresentar soluções mais interes-
A uistência dc mouimmtosde paz me dá força, é muito im- santes a partir dessas mulheres que seguem enfrentando simulta-
neamenteo patriarcado, o fiindamentajismo religioso,.o impe-
portante para nós. Eles lutam para parar a gttena. Porém, u
rialismo e o.çh411jllDi!!WO
das ideologias nacionais dominantes.
pejo que seusesforçosnão são SB$cieütes.Por exemplo, existem
Como diz a frasede companheirosdo movimento curdo na
guerra por aí, c comoelesTcspoltdem
a isso?Eu pomo queseus Jornada de Solidnitat amb el Poble Kurd, que aconteceu em 13
:sForços
não são o sufcientc. Mulheres que lutaram. no Afega- de fevereiro de 2016 em' Can Batlló, espaço autogestionado na
listão, Líbia, Evito náo são difnentes ülm mulheres dc Rojava, Ekpanha: 'IA melhor solidariedade é lutar pela revolução õndc
lassa dor é a mesma, nossa luta peb pm também é a mesma. ela sesegue".28
Por esta razão, os esforçosde paz amem sn igmis a todas as
pessoas. (}14anto estávamos Intendo em Kobane, milhões &pes-
;oasem todo o munólo saíram às mas por nós. issosign$ca que
:stáuamos certos, nós lutamos peh paz e essaspessoa pTotesta-
am por nós, nos apoiaram. Porém, os e#orçosdc paz não são
sl PcieliFes cotitr(i essabonetidzt gt4erra".2ti

E continua:
27 Ruken lsik, Kurdish Womcn StruggleFora Next Systemin Rojava
publicado em 'üe Nexo Sysrem,disponível em http://thenatsystem
26
Rukcn lsik, Kurdish Women Srruggle 6or a Nat System in Rojava org/kurdish-women-strugglc-for-a-nexo-system-in-rojava-kurdistan
publicado em 'lhc Nexo System,disponível em http://thenextsyltem northcrn-séria/
org/kurdish-women-strugglc-6or-a-next-system-in-rojava-kurdistan
northeni-syria/ 28 Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=cHOZQ150Uzk