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RolandOrganizador

Chemama

DICIONARIO DE

Larousse
MTES
M:DICAS

t
DICIONÁRIO DE
PSICANÁLISE
C517d Chemama, Roland
Dicionário de psicanálise / Roland Chemama; trad. Francisco FrankeSettineri. — Porto Alegre:
Artes Médicas Sul, 1995.
1. Psicanálise— Dicionário I. Título

CDU 159.964.2(03)

Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto — CRB 10/1023


Roland Chemama
Organizador

DICIONÁRIO DE
PSICANÁLISE
Larousse
AlflÊS
IVEDICAS

Tradução:
FR A N C ISC O FR A N K E SETTINER1
M em bro da A ssociação P sicanalítica de Porto A legre (A PPO A )

A lflÊ S
IVEDICAS
PORTO ALEGRE / 1995
Obra origina Lmente publicada em francês sob o título
Dictionmire de la psychanalyse: dictiomire actuel des signifiants, concepts et mathèmes de Ia psychanalyse
© Larousse, 1993

Capa:
Joaquim da Fonseca

Preparação do Original:
Maria Rita Quintella, Jane Faleck

Supervisão Editorial:
Letícia Bispo de Lima

Composição:
GRAFLINE — Assessoria Gráfica e Editorial Ltda.

Reservados todos os direitos para publicação em língua portuguesa à


EDITORA ARTES MÉDICAS SUL LTDA.
Av. Jerônimo de Omelas, 670 — Fones 330-3444 e 330-2183
FAX (051) 330-2378 — 90040-340 Porto Alegre, RS, Brasil

LOJA-CENTRO
Rua General Vitorino, 277 — Fone 225-8143
90020-171 Porto Alegre, RS, Brasil

IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZ1L
AUTORES

Nicole Anquetil, psychiatre, psychanalyste N icolle K ress-R osen, agrégée de 1'université,


G abriel Balbo, psychanalyste, membre de I'Asso- psychanalyste.
ciatio n freu d ien n e in tern atio n ale, de la C hristiane Lacôte, ancienne élève de PE.N.S.,
SFPPPG et de I'IPP, Turin; titulaire d'une agrégée de philosophie, psychanalyste, mem­
maítrise de psychologie clinique, de psycho- bre de 1'Association freudienne internationa­
pathologie, d'un diplome d'études supérieu- le.
res de droit privé. Fabio Landa, médecin, psychanalyste.
B rig itte B alb u re, psychanalyste, membre de Claude Landman, psychanalyste, ancien chef de
1'Association freudienne internationale. dinique-assistant des hôpitaux de Paris.
Jean Bergès, psychiatre, psychanalyste, chargé de M arie-Christine Laznik-Penot, psychanalyste.
la section de biopsychopathologie de 1'enfant, Rozenn Le Duault, psychanalyste, membre de
centre Henri-Rousselle, hôpital Sainte-Anne. 1'Association freudienne internationale.
M arie-Charlotte Cadeau, psychanalyste. Jacqueline Légault, psychiatre, psychanalyste.
Pierre-Christophe Cathelineau, psychanalyste. C h arle s M elm an , ex-m éd ecin des h ôp itau x
Roland Chemama, agrégé de philosophie, psycha­ psychia triques, membre fondateur de 1'Asso­
nalyste. ciation freudienne internationale.
Marc Darmon, psychanalyste, membre de 1'Asso- Valentin Nusinovici, psychiatre et psychanalys­
ciation freudienne internationale. te, membre de 1'Association freudienne inter­
Patrick De Neuter, docteur en psychologie, char­ nationale, ancien chef de clinique médicale.
gé d'enseignement à 1'université catholique de Jean Périn, professeur à Paris-VIII, psychanalys­
Louvain, Belgique; psychanalyste, membre de te.
l'Association freudienne internationale. Annick Pétraud-Périn, psychologue dinicienne,
Catherine Desprats-Péquignot, maítre de confé- psychanalyste.
rence à 1'université de Paris-VII. Jacques Postei, médecin-chef du centre hospitali-
Claude Dorgeuille, médecin des hôpitaux psychi- er Sainte-Anne, ancien professeur associé de
atriques. psychopathologie clinique à 1'université de
Perla Dupuis-Elbaz, psychanalyste. Paris-VII.
C h o u la E m rich , p sy ch an aly ste, m em bre de D en ise Sain te Fare G arnot, m édecin, psycha­
1'Association freudienne internationale. nalyste.
Catherine Ferron, psychologue, psychanalyste. Edmonde Salducci, psychanalyste, membre de
Jean -P au l H iltenbrand , docteur en médecine, 1'Association freudienne internationale.
psychanalyste. Bemard Vandermersch, psychanalyste.
Angela Jesuino-Ferreto, titulaire d'un D.E.S.S. de
psychologie clinique, d'un D.E.A de psycha-
nalyse.
LISTA DE ABREVIATURAS

adj. Adjetivo

alem. Alemão

ing. Inglês

fr. Francês

Ed. ou ed. Edição

Ed(s) Editor(es) [diretor(es) da publicação]

s S i f i substantivo, substantivo masculino, substantivo feminino

trad. tradução

* (após uma palavra) remessa simples a uma outra entrada do dicionário

* (diante de uma palavra) correlato: informação

-» (no fim do verbete) complementar, fornecida em outra entrada.


PREFÁCIO

Freud, ao falar da psicanálise, podia dizer: Este campo, palmilhado de longa data, é —
"nossa jovem ciência". Nós, entretanto, não pode­ particularmente na França — de uma fecundida-
mos mais dizê-lo, pois a psicanálise já é centená­ de excepcional. Que esta obra tenha sido produzi­
ria, sendo desnecessário justificar a autonomia de da em nossas latitudes, não se deve ao acaso, mas
seus conceitos. Eles já foram comprovados, no pró­ muito a todos aqueles que — embora ausentes da
prio movimento que encontraram, ao se deslocar, redação direta deste dicionário— contribuíram in­
ao se modificar, ao se restringir ou ao se ampliar. diretamente para ele, inclusive nas necessárias po­
Paralelamente, surgiram novos conceitos, algumas lêmicas e debates contraditórios que opuseram os
vezes tomados de outras disciplinas e logo trans­ psicanalistas. Seria ainda preciso uma equipe re-
formados. dacional grande e homogênea, dirigida pela ori­
Sua história conheceu diversos projetos de di­ entação esclarecida de Roland Chemama, equipe
cionários, mas foi realizada, até o momento, ape­ de praticantes que já havia, anteriormente, traba­
nas uma obra de importância: trata-se do Vocabu- lhado de longa data na área, produzindo textos,
laire de la psychanalyse, de J. Laplanche e J. B. Pon- ensinando e realizando seminários. Mas também,
talis (P.U.F., 1967,526pp.), cuja receptividade per­ e ainda mais, era preciso uma equipe que a psica­
manece considerável. nálise tivesse levado a esse ponto, ou seja, onde o
Desde então, vários projetos, mais ou menos trabalho pode prevalecer sobre o ônus ordinário
avançados, jamais viram a luz. Na França, foi as­ da vida dos grupos.
sim com o dicionário que Jacques Lacan encora­
* » *
jou, cuja direção foi confiada a Charles Melman,
da Escola Freudiana de Paris. A seguir, Roland
Chemama e Claude Dorgeuille mantiveram seu Dicionário: de dictio, ato de dizer, segundo os
projeto, sob a forma de grandes reuniões, ditas "de próprios dicionários. Mas seria preciso não esque­
dicionário". Assim, poder-se-ia considerar que este cer a dimensão mais fundamental nele implicada:
dicionário, por uma dessas voltas das quais a his­ o ato de dizer. No " Étourdit"(’), J. Lacan pôde es­
tória tem o segredo, seja a sua realização. crever: “qu'on dise reste oublié derrière ce qui se dit
Apesar do desconhecimento das razões espe­ dans ce qui s'entend." (Que se diga fica esquecido
cíficas que impediram esses diferentes trabalhos, atrás daquilo que se diz, naquilo que se ouve).
pelo menos podemos saber o que permitiu a con­
clusão da presente obra.
A psicanálise nunca foi uma empresa solitária
— a transferência obriga. É preciso a experiência
1. “Étourdit", em francês, significa "atordoado, aturdido", ne­
da parceria, da troca, da crítica, tanto interna como nhuma das duas mantendo, na tradução, a intenção lacani-
externa. É preciso, igualmente, a longa experiên­ ana, manifestada pela terminação em "dit" (dito). Sugeri­
cia das disciplinas ditas "afins". mos "Oaturdito”. (N. do T.)
Qu'on dise: o que faz, aliás, com que se lute, logicamente, "antipático a eles": "o Inconsciente é
não só com os significantes, mas a favor e contra o discurso do O utro", formulou Lacan, em um di­
significantes. cionário do qual participou.
Os psicanalistas experimentam regularmente Ele surge precisamente num momento em que
a sensação de não saber nada, sentimento devido está agindo uma empresa geral, em nossas socie­
à própria natureza do inconsciente e de sua práti­ dades, de recalcamento em relação à psicanálise,
ca. Aliás, Freud insistia na necessária "nesciência", principalmente quanto às suas contribuições mais
a ser posta em ação, diante de cada novo caso. Isso recentes. Recalcamento no qual os psicanalistas tal­
é tanto mais exigível dos freudianos, quando se vez tenham sua parte de responsabilidade.
manifestam sobre seu savoirfaire, com freqüência O "progresso" certamente não é um dado evi­
enigmático a eles mesmos. E, novamente qu 'on dise, dente da humanidade. Paralelamente ao retorno
por um dicionário, que leva consigo esse ato que triunfalista do humanismo mais tradicional (que
— apesar e com a remessa de um termo a outro — sempre coexistiu com o pior), com os suspiros de
produz uma seqüência retroativa, na qual a cadeia alívio deixados escapar por aqueles que clamam
significante encontra sua significação: o que Lacan pelo fim do estruturalismo, assistimos à marcha
chamava de um "ponto de capitonê". Um dicio­ irresistível de um discurso da ciência que valeria
nário é um ponto de capitonê, afortiori nas faltas para todos, que constituiría a única resposta ao
que faz aparecer. mal-estar da civilização, ainda que excluindo o
Scilicet: "tu podes saber". Foi este o nome da sujeito. A universalização das trocas é paralelamen­
revista da Escola Freudiana de Paris. Este dicioná­ te acompanhada das segregações mais ferozes.
rio retoma sua aposta. Com boa vontade, sem qual­ Assim, é esta "forclusão" do sujeito que, na escala
quer esoterismo. A empresa é racionalista, e não das nações, prepara o totalitarismo. E também ela
deve nada ao inefável. Foram essas as posições de que dá, às formas coletivas da existência social, seu
um Freud, assim como as de um Lacan, cuja im­ caráter psicótico. Lacan já sustentava que não ha­
portância decisiva será apreciada nesta obra: este via ninguém melhor do que um psicótico para nos
dicionário é o primeiro a integrar realmente sua ensinar algo sobre os fenômenos segregativos.
contribuição e apresentá-la de modo explícito. Um dicionário desses tem, pois, igualmente,
por finalidade, chamar aos seus deveres os prati­
* • * cantes que somos, pois se trata de incidências sub­
jetivas da ciência e da economia. E todos os ansei­
A empresa é decididamente atual. À medida os de invenção e de imaginação sociais não serão
que um discurso — no sentido como o entende J. mais do que fumaça, enquanto forem negligencia­
Lacan — só se dá em relação com outros discur­ dos os instrumentos que os permitem, pois é mais
sos, o da psicanálise se dá em relação aos discur­ fácil sonhar do que se curvar às dificuldades re­
sos contemporâneos, mesmo que possa ser, etimo- queridas por sua aquisição e execução.

Marcei Czernmk
Psiquiatra hospitalar e psicanalista
ADVERTÊNCIA

O Dicionário da psicanálise (') reúne os verbetes descritiva de eventos, seja quando se tenha desta­
de psicanálise já publicados no Grand dictionnaire cado uma perspectiva mais estrutural, em uma
de la psychologie (12), algumas vezes ligeiramente re- perspectiva que ressitua o aspecto descritivo, na
manejados, e um certo número de verbetes novos, dimensão estrutural em que surge, e que ligue o
que permitem balizar mais completamente o cam­ sujeito ao universo de linguagem e de discurso que
po específico. o produz. Essa segunda perspectiva, que foi a de
A psicanálise exclui qualquer atitude objeti- Jacques Lacan, constitui o referencial comum dos
vante, que separaria radicalmente um discurso ten­ autores deste Dicionário. Não se quis aqui consti­
dente à cientificidade da experiência na qual ele tuir um corpo dogmático de doutrina; mas, onde
se constitui. Deste modo, o ecletismo seria parti­ a compreensão das teses freudianas não for evi­
cularmente nefasto, porque faria crer em uma pos­ dente, a escolha de uma orientação clara, que, ali­
sível equivalência entre categorias procedentes de ás, marcou, de uma ou de outra forma, todo o mo­
orientações muito diferentes da conceitualização, vimento psicanalítico francês, assegura uma ver­
assim como também da prática clínica. Não poden­ dadeira coerência. Também se poderá avaliar, ao
do, portanto, reunir tudo em um dicionário, pre­ ler-se esta obra, de que forma Lacan conseguiu re­
feriu-se privilegiar os conceitos freudianos funda­ tomar diversas questões essenciais — e delicadas
mentais, do inconsciente ao supereu, com o risco — no ponto em que Freud as tinha deixado: po-
de apresentar certos desenvolvimentos conceituais der-se-á pensar, em especial, nas conseqüências da
pós-freudianos, entre os verbetes referentes à obra idéia de uma pulsão de morte sobre a representa­
dos autores que os introduziram (Melanie Klein, ção da satisfação visada pelo sujeito humano, ou,
Donald Woods Winnicott, etc.). ainda, naquilo que diferencia os dois sexos, se é
Ocorre que, no que concerne à própria psica­ verdade que um mesmo símbolo organiza a sexu­
nálise freudiana, seria ilusório acreditar que ela alidade, tanto para os homens como para as mu­
constitui uma doutrina fechada, na qual o sentido lheres; poder-se-á, enfim, evocar a questão do que
seria definido de uma vez por todas. Ela deu lu­ aproxima tão estreitamente a determinação indi­
gar a diversas leituras bastante diferentes, seja vidual do sujeito e a produção da ordem social.
quando se privilegiou, por exemplo, sua atenção à Daí decorre o lugar dado aos conceitos que ainda
história individual do sujeito, em sua dimensão não estavam formulados em Freud: o conceito de
gozo, o de sexuaçõo, que reinterroga a problemática
d o falo, ou, finalmente, o d e discurso.
1. Cerca de 240 verbetes, dos quais 40 nomes próprios, glos­
sário alemão-francês e glossário inglês-francês. (A edição
brasileira apresenta três glossários: alemão-português. in- OS SIGNIFICANTES DA PSICANÁLISE
glês-portuguêse francês-português.) (N. doT.).
2. O Crmid dictionnaire de la psychologie, Paris, Larousse, 1991; Entretanto, se algo surge no decorrer destas
880 pp., segunda edição, 1992. páginas, sem dúvida é que o próprio estatuto dos
termos forjados ou retomados pela psicanálise não para outro termo, que este Dicionário situa que es­
são evidentes. Certamente a psicanálise emprega truturas subjetivas a psicanálise precisa dar conta.
conceitos, cuja definição mais ou menos complexa Para essas estruturas, Lacan propôs escritas lógi­
permite precisar o uso. Mas não se pode permane­ cas, esquemas, maternas, isto é, um conjunto de
cer nisso. Tais "conceitos", que, às vezes, conser­ símbolos, organizado por uma sintaxe rigorosa,
vam uma forte carga metafórica, devem por isso que pode, assim, ser transmitido integralmente,
ser concebidos como "significantes"; e, se é verda­ para evitar o risco de ser retomado e utilizado por
de que, ao mesmo tempo, eles se inserem em aná­ meio de interpretações semânticas diversificadas.
lises estruturais rigorosas, dir-se-á que tendem a Chegou assim, finalmente, à topologia dos "nós
assumir o valor de "maternas". borromeus", na qual via não uma representação da
Para a psicanálise, o sujeito é determinado por estrutura, equivalente a qualquer uma outra, mas
um discurso no qual ele há de se situar, ainda mais uma apresentação do real subjetivo, do enlace do
que ele não é mestre do sentido das palavras que real, do simbólico e do imaginário e, eventualmen­
emprega à sua conveniência. Isso não quer dizer te, do sintoma.
que ele não possa, por meio da linguagem, formu­
lar a questão de seu ser. Porém, nenhum termo irá
lhe assegurar uma resposta sem equívoco. O que
O DICIONÁRIO, OBRA COLETIVA DE
surge claramente, em um tratamento, é que a lin­ PRATICANTES
guagem tem, na melhor das hipóteses, efeito de O Dicionário atual dos significantes, conceitos
sentido: como no caso da metáfora, que faz levan­ e maternas da psicanálise não é uma obra indivi­
tar ressonâncias e conotações poéticas, sem, toda­ dual, elaborada com uma preocupação de unifor­
via, permitir que o sujeito se detenha em uma sig­ mização, de padronização dos verbetes apresenta­
nificação unívoca. A linguagem da psicanálise não dos. Ele não visa, essencialmente, por outro lado,
foge a essa regra. Os termos forjados pela psicaná­ dar conta de forma exaustiva de um conjunto de
lise não são apenas conceitos. Têm valor de signi­ textos, sejam eles de Freud, de Lacan ou de quais­
ficantes, isto é, funcionam em diversos registros, quer outros. Essas obras certamente nos esclarecem
assumem valores diferentes, em função de sua his­ e são largamente utilizadas, apresentadas e cita­
tória, de seu contexto, dos campos semânticos nos das. Porém, sem dúvida, perceber-se-á que seus
quais se originam, e também em função das ana­ autores são, antes de mais nada, praticantes, para
logias e derivações relacionadas com aquilo que quem a redação dos verbetes não é primeiramente
constitui sua vertente fonética. Lacan procurava a ocasião de um comentário de texto, mas o meio
fazer entender, em seus escritos e seminários, que de precisar noções essenciais no próprio tratamen­
a própria elaboração teórica podia tomar caminhos to. Muitos verbetes, centrados em estruturas clíni­
balizados pelo significante, como os diversos cor­ cas, também são testemunhos dessa orientação.
tes, as diversas leituras que se pode fazer neles (3). Portanto, esta obra não se dirige apenas aos
especialistas, e deveria poder ser consultada pelo
vasto público culto que hoje em dia se interessa
O RIGOR DOS MATEMAS
pela psicanálise. Isso funda uma exigência de le­
Portanto, no uso dos termos psicanalíticos, gibilidade, às vezes negligenciada pelos analistas,
nem tudo é possível. Se a psicanálise possui algum devido ao próprio objeto de seu questionamento.
rigor, ela o deve particularmente a uma articula­ Parece que aqui, pelo menos, essa exigência pro­
ção definida dos conceitos, uns com os outros, às duziu efeitos favoráveis, ao determinar uma abor­
oposições e às combinações reguladas dos elemen­ dagem o mais direta possível das noções apresen­
tos que coloca. Quase se poderia dizer, neste senti­ tadas, uma abordagem que resgata, a cada vez, o
do, que é essa atitude que assegura que se perma­ que há de mais vivo em cada questão.
neça em um mesmo domínio conceituai. O leitor
poderá perceber, no sistema de remessas de um R.C.

3. Ver, particularmente, os verbetes de-senlido, inde-sentido, dis-


que-ursocorrcnte, dil-mansão e m'être.
a
a p o s t e r i o r i , adj. e s. (alem.: Nachtriiglichkeit do a qual seria sempre o historicamente anterior
[subst.]; nachtriiglich [adj. e adv.]; fr.: après-coup [adj. que iria determinar o que é posterior. Fenômenos
e s.m.]; ing.: deferred actiott, deferred). Diz-se da di­ como as lembranças encobridoras, lembranças pre­
mensão da temporalidade e da causalidade espe­ coces, sempre reinterpretadas a partir de uma fan­
cífica da vida psíquica, que consiste no fato de que tasia, mostram muito bem que isso não é assim.
as impressões ou os traços amnésicos só podem
adquirir todo o sentido e toda a eficácia em um A b rah a m (K arl). Médico e psicanalista alemão
tempo posterior ao de sua primeira inscrição. (Bremen, 1877 — Berlim, 1925).
Desde suas primeiras obras, S. Freud destaca Trabalha com E. Bleuler, no Burghôlzli, o hos­
que as experiências vividas, sem um efeito imedi­ pital psiquiátrico de Zurique. Encontra-se com C.
ato notável, podem adquirir um novo sentido, Jung, que o inicia nas idéias de S. Freud. Em 1910,
quando são posteriormente organizadas e reinscri- funda a Associação Psicanalítica de Berlim, primei­
tas no psiquismo. É a partir de um esquema desse ro ramo da Associação Psicanalítica Internacional,
tipo que se deve conceber o trauma*. Com mais da qual se toma presidente, em 1925. É um dos
freqüência, uma cena vivida precocemente, de for­ maiores contribuintes para a difusão da psicanáli­
ma bastante neutra, poderá ter o valor de trauma, se, fora de Viena. Sua contribuição pessoal é mui­
quando, por exemplo, um segundo evento, vivido to rica: introdução da noção de objeto parcial, de­
depois da puberdade, der a esta cena primeira um finição dos processos de introjeção e de incorpora­
novo sentido, desencadeando um afeto sexual des- ção, estudo das fases pré-genitais.
prazeroso. Além de sua correspondência com Freud, sua
Deve-se notar que o abandono da teoria do obra abrange vários trabalhos: Sonho e mito (1909),
trauma, como causa essencial da neurose, não re­ Exame da etapa mais precoce da libido (1916).
tira a importância da noção de a posteriori; muito
pelo contrário. Mesmo que de fato exista uma se­ a b -re a ç ã o , s.f. (alem.: Abreagieren; fr.: abrêaction;
xualidade infantil, a criança não dispõe ainda da ing.: abrêaction). Aparecimento, no campo da cons­
percepção definitiva do registro sexual. Assim, ciência, de um afeto até então recalcado.
Freud estabelece, a respeito do caso do "Homem* Certos afetos, que não são normálmente senti­
dos Lobos", que esse, tendo sido testemunha, com dos, no momento de sua atualidade, são encontra­
1 ano e meio, de um coito entre seus pais, não o dos, mantidos no inconsciente, devido à sua liga­
compreendeu senão aos 4 anos, "graças a seu de­ ção com a lembrança de um trauma psíquico. Afe­
senvolvimento, sua excitação sexual e sua busca tos e lembranças, assim ligados, foram então re­
sexual". Foi nessa idade que esta "cena primitiva" calcados, em virtude de seu caráter penoso. Quan­
adquiriu para ele toda a sua eficácia psíquica de­ do o afeto e a verbalização da lembrança irrom­
terminante, em seu fantasma e em seu sintoma. pem simultaneamente na consciência, produz-se a
O termo a posteriori pode valer como substan­ ab-reação, que se manifesta por gestos e palavras
tivo, adjetivo e até mesmo advérbio. E convenien­ que explicitam tais afetos. Com mais freqüência, a
te considerá-lo como um conceito, e um conceito ab-reação ocorre quando do levantamento da re­
não-negligenciável. De fato, ele muda o curso de sistência a essa irrupção, durante um tratamento
uma representação ingênua da psicanálise, segun­ analítico, e graças à transferência sobre o analista.
abstinência (regra de) 8

a b s t in ê n c ia (re g ra d e) (alem.: Abstinenzregel; chegar até o assassinato ou o suicídio. No entanto,


fr.: règle de abstinence; ing.: rule o f abstinence). Prin­ tanto a justiça como a psiquiatria clássica se con­
cípio segundo o qual o trabalho do tratamento só frontavam regularmente com questões referentes
poderá ser bem conduzido se excluir aquilo que a atos completamente fora de qualquer relação
podería aliviar, de imediato, as dificuldades neu­ transferenciai para determinar uma eventual res­
róticas do sujeito, em particular as satisfações que ponsabilidade civil.
poderia encontrar como resposta ao amor de trans­ A partir disso, a psicanálise formulou a per­
ferência. gunta: o que é um ato para um sujeito?
S. Freud estima que a energia psíquica não J. Lacan, em seu Seminário X, 1962-63, "A An­
pode ficar verdadeiramente disponível para o tra­ gústia", propôs uma conceitualização diferencia­
tamento, a não ser que ela não seja imediatamente da entre ato, passagem ao ato e acting out, apoian­
reinvestida em objetos exteriores ao próprio tra­ do-se em duas observações clínicas de Freud: Frag­
balho. Também aconselha os pacientes a não to­ mento da análise de um caso de histeria (Dora) [1905] e
marem, durante seu tratamento, decisões muito A psicogênese de um caso de homossexualismo numa
importantes em sua vida. Igualmente recomenda mulher [1920]. Nos dois casos, os Agieren estavam
que o analista evite gratificar o sujeito com satisfa­ situados na vida dessas duas moças, antes mesmo
ções afetivas que possam lhe bastar, tornando, des­ que uma ou outra tivessem considerado a possibi­
te modo, muito menos necessário o trabalho que lidade de um trabalho analítico.
irá levar à mudança. Assim, o que é, pois, um ato?
A avaliação atual do princípio de abstinência Para Lacan, um ato é sempre significante. O
é delicada. Os psicanalistas geralmente renuncia­ ato sempre inaugura um corte estruturante, que
ram a proibir qualquer decisão importante duran­ permite a um sujeito se encontrar, no a posteriori,
te o tratamento. Porém, historicamente, o princí­ radicalmente transformado, diferente do que tinha
pio de abstinência teve o valor de questionar a re­ sido antes desse ato. A diferença introduzida por
presentação de uma total neutralidade do analis­ Lacan, para distinguir acting out de passagem ao
ta: é isso que surge claramente na "técnica ativa", ato, pode ser ilustrada clinicam entc. Todas as
de S. Ferenczi, que proscreve, particularmente, cer­ manobras de Dora com o senhor K. eram uma
tas práticas repetitivas, as quais paralisam o tra­ (de)mo(n)stração de que ela não ignorava as rela­
balho analítico. ções que seu pai mantinha com a senhora K., e é
isso que sua conduta tentava mascarar.
a c t in g o u t, s.m. Comportamento impulsivo, que No que se refere à jovem homossexual, todo o
se exprime sob a forma de uma ação (Sinônimo: tempo em que ela fica a passear com sua dama,
passagem ao ato). sob as janelas do escritório de seu pai, ou ao redor
Para S. Freud, o Agieren tentaria encobrir os de sua casa, é um momento de acting out, dirigido
atos de um sujeito, dentro ou fora da análise. O ao casal parental: ela está lhes mostrando a semi-
termo Agieren deixa naturalmente pairar uma am­ mundana pela qual está apaixonada e que é causa
biguidade, pois pode ter dois significados: o de de seu desejo.
bulir, agir, praticar uma ação, e o de reatualizar, O acting out é, pois, uma conduta assumida por
na transferência, uma ação anterior. Exatamente um sujeito, e dada para ser decifrada por aquele a
neste caso, para Freud, o Agieren viria em lugar de quem é dirigida. E uma transferência, embora o
uma "rememoração": portanto, agir ao invés de se sujeito nada mostre. Algo é mostrado, fora de qual­
lembrar, de colocar em palavras. O verbo to acl out, quer possível rememoração e fora de qualquer le­
em inglês, respeita essa ambigüidade. De fato, sig­ vantamento de um recalque.
nifica representar uma peça, um papel, deixar ver, O acting out dá a ouvir a outro tomado surdo.
mostrar, e também agir, tomar medidas. É uma demanda de simbolização, exigida em uma
Os psicanalistas franceses adotaram o termo transferência selvagem.
“acting out", dando-lhe como tradução e sinônimo Para a jovem homossexual, o que sua (de)-
"passagem ao ato", mas conservando do ato ape­ mo(n)stração revela é que ela teria desejado, como
nas a dimensão da interpretação a ser dada na falo, um filho do pai, no momento em que, quan­
transferência. do tinha 13 anos, veio somar-se à família um ir-
Até então, o acting out era definido habitual­ mãozinho, que lhe tira o lugar privilegiado que
mente como um ato inconsciente, realizado por um ocupava junto ao seu pai. Para Dora, ter sido a cor­
sujeito fora de si, efetuado em lugar de um "lem- reia de transmissão para facilitar a relação entre
brar-se de". Esse ato, sempre impulsivo, poderia seu pai e a senhora K. não lhe permite saber que o
9 acting out

objeto que causa seu desejo é a senhora K. O acting A passagem ao ato, na mulher homossexual,
out, em uma busca da verdade, imita aquilo que é o instante em que, cruzando o olhar enfurecido
não se pode dizer, por falta de simbolização. de seu pai, quando ela mostra cuidados assíduos
O que age, no acting out, não fala em seu nome. à sua dama, ela se desvencilha de seu braço e se
Não sabe o que está mostrando, nem, tampouco, precipita de cima de um parapeito sobre uma es­
pode reconhecer o sentido do que desvela. E ao trada de ferro desativada. Ela se deixa cair (alem.
outro que é confiado o trabalho de decifrar, de in­ Niederkominett), diz Freud. Sua tentativa de suicí­
terpretar os argumentos, é o outro que deve saber dio consiste tanto nesta queda, nesse "deixar cair",
que calar-se é, metonimicamente, um equivalente como em "meter-se debaixo, deitar-se", os dois sig­
de morrer. nificados de Niederkoinmen.
Porém, como esse outro poderia decifrar o ac­ Esse "deixar-se cair" é o correlato essencial de
ting out, ele, que ainda não sabe que não ocupa toda passagem ao ato, precisa Lacan. Assim, com­
mais o lugar onde o sujeito o havia instalado. Como pleta a análise feita por Freud, destacando que, a
o pai de Dora teria podido compreender facilmente partir dessa passagém ao ato, quando um sujeito é
que a complacência de sua filha era devido ao fato confrontado radicalmente com aquilo que ele é,
de que ambos tinham o mesmo objeto, causa de como objeto, para o Outro, reage a isso de um modo
seu desejo? E, embora ele tivesse podido adivinhar, impulsivo, por uma angústia incontrolada e incon-
como poderia dizê-lo a Dora? Como teria ela po­ trolável, identificando-se com esse objeto que ele
dido responder a isso, a não ser por uma denega- é para o Outro, e deixando-se cair. Na passagem
ção ou uma passagem ao ato? Porque o acting out ao ato, é sempre do lado do sujeito que se observa
é, precisamente, um acesso de loucura, destinado esse "deixar-se cair", esta evasão para fora da cena
a evitar uma angústia demasiado violenta. Ele é a de sua fantasia, sem que ele possa dar-se conta dis­
encenação tanto da rejeição daquilo que poderia so. Produz-se, para um sujeito, quando esse é con­
ser o dizer angustiante do outro, como do desve- frontado com o desvendamento intempestivo do
lamento daquilo que o outro não ouve. Ele é o si­ objeto a que ele é para o Outro, ocorrendo sempre
nal feito a alguém, de que um falso real está no no momento de um grande embaraço e de uma
lugar de um impossível de dizer. extrema emoção, quando, para ele, tornou-se im­
Durante uma análise, o acting out é sempre o possível qualquer simbolização. Ele se ejeta, ofe­
sinal de que a condução do tratamento está, por recendo-se ao Outro, lugar vazio do significante,
causa do analista, em um impasse, revelando o fra­ como se esse Outro se tivesse tornado, para ele,
casso do analista, mas não forçosamente sua incom­ imaginariamente encarnado, e pudesse gozar com
petência. Ele se impõe quando, por exemplo, o ana­ sua morte. A passagem ao ato é, portanto, um agir
lista, em lugar de conservar seu lugar, comporta- impulsivo inconsciente, e não um ato.
se como mestre, ou faz uma interpretação inade­ Ao contrário do acting out, não se dirige a nin­
quada, ou mesmo demasiado justa ou apressada. guém, e não espera nenhuma interpretação, mes­
Não mais do que qualquer outro, o analista mo quando ocorre em um tratamento analítico.
não pode interpretar o acting out, mas pode, por A passagem ao ato é demanda de amor, de re­
uma modificação de sua posição transferenciai, conhecimento simbólico, sobre um fundo de de­
portanto de sua escuta, permitir a seu paciente lo­ sespero, demanda feita por um sujeito que só con­
calizar-se de outra forma e superar essa conduta segue se vivenciar como um dejeto a evacuar. Para
de (de)mo(n)stração, para novamente se inserir em a jovem homossexual, sua demanda era ser reco­
um discurso, pois ser apenas um falso real impli­ nhecida, vista de outra forma pelo pai, que não a
ca, para o acting out, que o sujeito possa se recupe­ homossexual, em uma família onde sua posição
rar. É uma passagem de ida e volta, exceto se pro­ desejante era excluída. Repulsa, portanto, a um
vocar, a seguir, uma passagem ao ato, que, na mai­ certo estatuto, em sua vida familiar. Por outro lado,
oria das vezes, é apenas de ida. deve-se observar que foi devido a esta jovem ho­
mossexual que Freud fez sua única passagem ao
ato, diante de seus pacientes. Foi por isso que ele
A PASSAGEM AO ATO interrompe a análise da jovem, encaminhando-a a
Para Dora, a passagem ao ato está situada no uma analista mulher.
exato momento em que o senhor K., ao lhe fazer a A passagem ao ato está situada do lado do ir­
corte, declara a ela: "M inha mulher não significa recuperável, do irreversível. É sempre a ultrapas-
nada para mim". E, embora nada o deixasse pre­ sagem da cena, além do real, ação impulsiva da
ver, ela o esbofeteia e foge. qual a mais típica consiste na defenestração. É jogo
Adler (Alfred) 10

cego e negação de si mesmo; constitui a única pos­ al, constata-se que, para Freud, a pulsão sexual se
sibilidade, pontual, para que um sujeito se inscre­ manifesta por um afeto, a angústia, a qual se trans­
va simbolicamente no real desumanizante. É, com forma, no entanto, de três maneiras: como um sin­
freqüência, a repulsa a uma escolha consciente e toma histérico (paralisia, vertigens), vivenciado
aceita, entre a castração e a morte. E uma revolta sem angústia, mas como uma afecção orgânica;
apaixonada contra a incontomável divisão do su­ deslocando-se sobre um outro objeto (temor obses­
jeito. É a vitória da pulsão de morte, o triunfo do sivo da morte de uma pessoa amada), ou conver­
ódio e do sadismo. Também é o preço muito caro, tendo-se em uma reação corporal imediata e ca­
sempre pago para sustentar inconscientemente tastrófica (crise de angústia, pesadelos). Essa pri­
uma posição de domínio, na alienação mais radi­ meira descrição clínica é contemporânea da histe­
cal, pois o sujeito está até mesmo prestes a pagá-la ria e da direção de seu tratamento. Desde 1894, em
com sua vida. Estudos sobre a histeria, o tratamento é realizado seja
pela hipnose, seja pela palavra (a "talking cure",
A d ler (A lfred). Médico e psicólogo austríaco (Vi­ assim chamada por sua paciente Anna O), e pela
ena, 1870 — Aberdeen, 1937). via da ab-reação ou do retomo do recalcado, que
Aluno de S. Freud desde 1902, participa do consiste em trazer novamente, para o consciente,
primeiro congresso de psicanálise de Salzburgo os traços mnésicos, as lembranças e os afetos de­
(1908). Logo se separa (1910) do movimento psi- masiado violentos ou condenáveis, objetivando
canalítico, pois não partilha a opinião de Freud a obter o levantamento do sintoma histérico.
respeito do papel da pulsão sexual, e pensa que se Todos esses conceitos são retom ados por
pode explicar a vida psíquica do indivíduo, a par­ Freud, em 1915, em Metapsicologia. Assim, em seu
tir do sentimento de inferioridade, resultante do artigo sobre "O inconsciente" (1915), ele define o
estado de dependência, do qual todos fazem a ex­ afeto da seguinte forma: "O s afetos e os sentimen­
periência, em sua infância. Em sua opinião, o sen­ tos correspondem a processos de descarga, cujas
timento de inferioridade é compensado por uma manifestações finais são percebidas como sensa­
vontade de poder, que leva a criança a querer se ções". Além disso, ele toma o recalcamento respon­
mostrar superior aos outros. (Freud admite que o sável pela "inibição da transformação de uma mo­
sentimento de inferioridade é um sintoma frequen­ ção pulsional em afeto", deixando, assim, o sujei­
te, mas pensa que é uma construção que serve para to prisioneiro desses elementos patogênicos incons­
mascarar os móveis inconscientes, que devem ser cientes. Porém, se a abordagem intuitiva do afeto
aprofundados.) Adler funda seu grupo, e intitula descreve o estado atual de nossos sentimentos, é
sua teoria de psicologia individual. O temperamen­ também por meio dele que Freud expõe seu con­
to nervoso (1912), Teoria e prática da psicologia indivi­ ceito da pulsão, pois, como diz, "se a pulsão não
dual (1918), Psicologia da criança difícil (1928) e O sen­ aparecesse sob forma de afeto, nada poderiamos
tido da vida (1933), são suas principais obras. saber sobre ela".
Em termos quantitativos, esse é o segundo as­
a fe to , s.m. (alem.: Affekt; fr.: affect; ing.: affect). Um pecto do afeto. De fato, por meio do fator quanti­
dos estados emocionais, cujo conjunto constitui a tativo desse afeto recalcado, Freud explica o desti­
gama de todos os sentimentos humanos, do mais no de nossas pulsões, que ele afirma serem de três
agradável ao mais insuportável, que se manifesta tipos: o afeto pode subsistir como tal, pode sofrer
por uma descarga emocional violenta, física ou uma transformação em um quantum de afeto qua­
psíquica, imediata ou adiada. litativamente diferente, principalmente em angús­
Este aspecto descritivo mostra a intricação tia, ou o afeto é reprimido, isto é, seu desenvolvi­
obrigatória dos conceitos de afeto, pulsão e angús­ mento é francamente impedido. Freud reconhece
tia. A noção de afeto é contemporânea do próprio que uma pulsão não pode se tomar objeto da cons­
nascimento da psicanálise, pois S. Freud opera a ciência. O que nos dá uma idéia dela é a represen­
sua primeira classificação das neuroses segundo a tação, bem consciente, dos avatares da dita pulsão.
forma pela qual um sujeito se comporta em rela­ Da mesma forma, o destino de nossos investimen­
ção a seus afetos. Ele escreve a W. Fliess, em 1894 tos pulsionais não podería nos ser totalmente in­
(Nascimento da psicanálise): "Tenho agora uma vi­ consciente, pois a pulsão ou é parcialmente satis­
são de conjunto e uma concepção geral das neuro­ feita, ou é satisfeita, com as manifestações afetivas
ses. Conheço três mecanismos: a conversão dos afe­ que isso traz consigo.
tos (histeria de conversão), o deslocamento do afeto No que se refere ao afeto, a contribuição de J.
(obsessões) e a transformação do afeto (neurose de Lacan consiste, sobretudo, em haver explicado, de
angústia, melancolia)". Nesse primeiro referenci­ forma mais precisa, a constituição do desejo de um
11 Aichhom (August)

sujeito. Para ele, "o afeto que nos solicita consiste A le x a n d e r (F ra n z ). Psicanalista americano de
sempre em fazer surgir o que o desejo de um su­ origem alemã (Budapeste, 1891 — Nova Iorque,
jeito comporta, como conseqüência universal, isto 1964).
é, a angústia" ("Lição de 14 de novembro de 1962"). Depois de graduar-se em Medicina, foi dos
Para Lacan, que o afeto seja uma manifestação pul- primeiros alunos do Instituto de Psicanálise de
sional não implica que ele seja o ser dado em sua Berlim (1919). Um dos precursores da psicanálise
imediatez, nem que, tampouco, seja o sujeito, sob nos Estados Unidos, foi nomeado, em 1930, pro­
uma forma bruta. fessor de psicanálise na Universidade de Chicago,
Encontramos sempre o afeto convertido, des­ fundando, em 1931, o Instituto de Psicanálise de
locado, invertido, metabolizado, ou até mesmo Chicago, onde instaurou os princípios da "psico-
enlouquecido. Ele está sempre à deriva. Não mais terapia analítica breve", que surge como uma mo­
que a pulsão, ele não é recalcado; porém, como na dificação do "tratamento-padrão". Essa técnica ati­
pulsão, o que do afeto é recalcado são, diz Lacan, va será cada vez mais acolhida pelo contexto ana­
"os significantes que o amarram" (ibid.). Para ele, lítico americano, desejoso, antes de mais nada, de
o afeto está sempre ligado àquilo que nos consti­ favorecer a adaptação e a integração sociais do pa­
tui como sujeito desejante, em nossa relação: com ciente. Alexander também se interessa pela Medi­
o outro nosso semelhante; com o Outro, como lu­ cina psicossomática, presidindo a Sociedade Ame­
gar do significante, e, portanto, da representação; ricana de Pesquisa em Medicina Psicossomática.
com o objeto causa de nosso desejo, o objeto a. É autor de várias publicações, entre elas The Scope
A neurose traumática pode nos ajudar a ilus­ of Psydmnalysis: Selected Papers o/F. Alexander (1921-
trar isso. Nessa neurose, o que é recalcado é aqui­ 1961), Psicoterapia analítica: princípios e aplicação
lo que é transformado em angústia, é um afeto que (1946), Princípios de psicanálise (1948) e Psyclioanalytic
foi produzido por um sujeito, quando este foi con­ Pioneers (1966).
frontado, na realidade, com a iminência de sua
morte. A gravidade dessa neurose é tanto mais a m b iv a lê n c ia , s.f. (alem.: Ambivalenz; fr.: anibi-
patente quanto maior tiver sido o quantum de afe­ valence; ing.: ambivalcncé). Disposição psíquica do
to recalcado. O que foi atualizado nessa neurose sujeito, que sente ou manifesta, simultaneamente,
foi um trauma, cujo protótipo arcaico é o do nasci­ dois sentimentos, duas atitudes opostas em rela­
mento. Esse trauma põe em questão a própria exis­ ção a um mesmo objeto, a uma mesma situação.
tência do sujeito, e isso como nos primeiros tem­ (Por exemplo, amor e ódio, desejo e temor, afir­
pos de dependência radical da mãe. A mãe é esse mação e negação.)
objeto primordial, cuja presença e ausência fazem A noção de ambivalência foi introduzida por
nascer no filho todos os afetos, da satisfação à an­ E. Bleuler, em 1910, em seus trabalhos sobre a es­
gústia. A mãe é dispensadora, sem o saber, da ins­ quizofrenia, na qual essa tendência paradoxal lhe
crição próxima e de sua relação com a necessida­ surgia em suas formas mais características. Depois,
de, com a demanda e com o desejo. Somos, no que S. Freud recorreu à mesma noção, da qual não dei­
nos afeta, enquanto sujeito, sempre totalmente de­ xava de destacar a importância, nos diferentes re­
pendentes desse desejo que nos liga ao Outro, e gistros do funcionamento psíquico, tanto para ex­
que nos obriga a não-ser senão esse objeto sempre plicar conflitos intrapsíquicos como para rerarte-
desconhecido e faltante. rizar determinadas etapas da evolução lib ,
até mesmo, o aspecto fundamentalmente duansta
A ic h h o r n (A u g u st). Educador e psicanalista da dinâmica das pulsões.
austríaco (Viena, 1878 — id., 1949). A coexistência, em um sujeito, de tendências
A partir de sua prática profissional de educa­ afetivas opostas em relação a um mesmo objeto
dor, na área da delinquência, foi admitido, em induziria a organização de certos conflitos psíqui­
1922, na Sociedade Psicanalítica de Viena e anali­ cos, que impõem ao sujeito atitudes completamente
sado por P. Federn. Foi um dos poucos a fazer da contraditórias. No mesmo sentido, M. Klein evoca
delinqüência um campo possível de aplicação da a atitude fundamentalmente ambivalente do sujei­
psicanálise. Na origem da inadaptação à vida so­ to em sua relação com o objeto, que lhe surge qua­
cial, que estuda com os mesmos métodos de in­ litativamente clivado em "objeto bom " e "objeto
vestigação das neuroses, observa uma perturbação mau".
das relações objetais precoces, recomendando que No advento de tais conflitos, o amor e o ódio
o analista se situe no lugar do eu ideal do delin- constituem, no caso, uma das oposições mais de­
qüente. Sua obra principal, escrita em 1925, é cisivas.
Venoahrloste Jugend (juventude abandonada).
amor 12

A ambivalência também surgiría como um fa­ O sujeito pode, com bastante freqüência, pas­
tor ligado constitutivamente a certos estágios da sar a odiar o ser que amava; também pode ter sen­
evolução libidinal do sujeito, onde coexistem, ao timentos mesclados, sentimentos que unem um
mesmo tempo, moções pulsionais contraditórias. profundo amor e um ódio não menos poderoso
Sejam, por exemplo, a oposição amor-destruição, pela mesma pessoa: esse é o sentido mais estrito
da fase sádico-oral, e a da atividade-passividade, que é possível dar à noção de ambivalência. Essa
na fase sádico-anal. Nesse sentido, a ambivalência ambivalência é explicada pela alienação que pode
está, então, articulada diretamente à dinâmica pul- existir no amor: para quem abdicou de toda a von­
sional. tade própria na dependência amorosa, é possível
A idéia de uma ambivalência ligada intrinse- se conceber que o ódio possa acompanhar o apego
camente ao dinamismo das pulsões estaria, aliás, passional, o "enamoramento". Contudo, resta ex­
de acordo com o caráter opositivo das próprias plicar precisamente tal alienação.
pulsões: pulsões de autoconservação-pulsões sexu­
ais, e ainda mais claramente no dualismo pulsões
A m o r e n a r c is is m o
de vida-pulsões de morte.
Para fazê-lo, é agora necessário abordar o que
am or, s.m. (alem.: Licbe; fr.: amour; ing.: love). Sen­ a psicanálise pôde observar, quanto ao papel do
timento de apego de uma pessoa por outra, com narcisismo para o sujeito humano. Em um artigo
freqüência profundo, até mesmo violento, mas cuja de 1914, "Sobre o Narcisismo: uma Introdução",
análise demonstra que pode ser marcado pela am­ Freud lembra que certos homens, como os perver­
bivalência e, sobretudo, que não exclui o narcisis- sos e os homossexuais, "não escolhem seu objeto
mo. de amor ulterior sobre o modelo da mãe, mas so­
A partir do momento em que introduz a hipó­ bre o de sua própria pessoa". "Evidentemente,
tese das pulsões de morte, Freud passa a utilizar o buscam a si mesmos como objetos de amor, apre­
termo grego eros, para designar o conjunto de pul­ sentando o tipo de escolha objetai que se pode cha­
sões de vida (que compreendem as pulsões sexu­ mar de narcisista". Com mais freqüência ainda,
ais e as de autoconservação) que a elas se opõem. segundo Freud, as mulheres amam "segundo o tipo
Esse uso poderia ser enganador. De fato, eros nada narcisista" e não segundo o "tipo por apoio", no
mais é do que o deus grego do Amor. Seria no amor qual o amor se apóia na satisfação das pulsões de
que se deveria encontrar a força que move o mun­ autoconservação, visando "à mulher que alimen­
do, a única capaz de se opor a Tanatos, a morte? ta" ou "ao homem que protege". "Esse tipo de
Essa concepção seria, na ótica freudiana, bas­ mulheres — diz Freud — só amam, falando estri­
tante criticável. De fato, ela viria a apagar o papel tamente, a si mesmas, quase tão intensamente como
determinante daquilo que é mais especificamente o homem as ama. Sua necessidade não faz com que
sexual da existência humana. É por isso que se deve amem, mas que sejam amadas, agradando-lhe o
prestar mais atenção àquilo que distingue amor de homem que preenche essa condição".
desejo. Freud afirma, por exemplo, o fato bem co­ Certamente, poder-se-á discutir a importância
nhecido de que muitos homens não podem dese­ que Freud atribui ao narcisismo, e, eventualmen­
jar a mulher que amam, nem amar aquela que de­ te, a diferença que estabelece, sobre esse ponto,
sejam. Sem dúvida, é porque a mulher amada — e entre as mulheres e os homens. Todavia, o impor­
respeitada —, de alguma forma muito próxima da tante está alhures; é que não se pode negar que,
mãe, está por isso proibida. amiúde, o amor aparente por outrem dissimula um
Desde logo, concebe-se que as questões do amor muito mais real por sua própria pessoa.
amor e da sexualidade sejam tratadas paralelamen­ Como não ver que o sujeito ama com mais freqüên­
te, senão em separado. Este é o caso, sobretudo em cia o outro, enquanto é feito à sua imagem, ou, ain­
um artigo como "O s Instintos e suas Vicissitudes" da, enquanto reflete uma imagem favorável de si
(1915) [i;i Metapsicologia, 1915]. Nele, Freud estu­ mesmo.
da, pormenorizadamente, a sorte das pulsões se­ Esse tipo de análise foi longamente desenvol­
xuais (transformação da atividade em passivida­ vido por Lacan, para quem, de fato, o eu não é a
de, retorno sobre a própria pessoa, recalcamento, instância reguladora, que estabelecería um equilí­
sublimação), sendo apenas durante esse trajeto que brio entre as exigências do supereu e as do isso,
faz valer a singularidade do amor: somente ele em função da realidade. Por sua própria constitui­
pode ser revertido quanto ao conteúdo, pois não é ção (espelho [fase do]), ele é feito desta imagem
raro se transformar em ódio*. onde o sujeito pôde se constituir como totalidade
13 anaclítica

acabada, onde pôde se reconhecer, onde pôde se a n a c lític a (depressão) [alem.: anaklitische Depres-
amar. Esta é a dimensão onde se enraiza o que há sion; fr.: dépression anaclitique; ing.: anaclitic depres-
de fundamentalmente narcisista no amor humano, sion). Síndrome depressiva da primeira infância.
se for verdade que está sempre no sujeito aquilo Em 1945, R. Spitz descreveu, com o nome de
que ele pode amar no outro. Observamos que é depressão anaclítica, uma síndrome que surge no pri­
nesse nível que se pode situar o que constitui o meiro ano de vida, consecutiva ao afastamento sú­
principal obstáculo da transferência, o que desvia bito e mais ou menos prolongado da mãe, depois
o sujeito do trabalho associativo, o que o leva a de a criança haver estabelecido uma relação nor­
buscar uma satisfação mais rápida no amor que mal com ela. Seu quadro clínico é o seguinte: per­
exige de seu analista, experimentando depois um da da expressão mímica e do sorriso, mutismo,
sentimento de frustração, eventualmente de agres­ anorexia, insônia, perda de peso e atraso psicomo-
sividade, quando fica decepcionado. tor global. A depressão anaclítica, resultado de uma
carência afetiva parcial, é reversível. Com freqüên-
cia, logo desaparece, com a restituição do contato
A FALTA E O PAI
da mãe (ou do substituto materno) com a criança.
No entanto, não se poderia reduzir o amor a Essa síndrome se opõe ao hospitalismo, igualmente
esta dimensão. Ainda mais claramente do que para descrito por Spitz, no qual a separação mãe-filho,
o desejo, cujo objeto faltante sempre se pode pro­ total e duradoura, pode gerar distúrbios irreversí­
jetar em uma tela (como, por exemplo, no fetichis- veis. Todavia, a depressão anaclítica, em seu pro­
mo ou na perversão), o amor, isto está bem claro, cesso dinâmico, é fundamentalmente diferente da
não visa a nenhum objeto concreto, a nenhum ob­ depressão do adulto.
jeto material. É bastante evidente, por exemplo, na
criança, cujas constantes demandas não têm por a n a l (fase) (alem.: anal Stufe; fr.: stade anal; ing.:
finalidade obter os objetos que está reclamando, anal stage). Fase pré-genital de organização libidi-
exceto como um simples signo, o signo do amor nal, que S. Freud situa entre as fases oral e fálica
que a doação pode lembrar. Neste sentido, como (entre os 2 e os 4 anos).
diz Lacan, "amar é dar o que não se tem". E é visí­ A fase anal é caracterizada pela predominân­
vel também que o amante, que exalta sua bem- cia das pulsões sádica e erótico-anal e pela oposi­
amada, queixando-se apenas de alguma insatisfa­ ção atividade-passividade, sendo a atividade a
ção, ame-a sobretudo por aquilo que falta a ele, manifestação da pulsão de dominação, e a passi­
única forma de se assegurar de que ela não vai pre­ vidade, a do erotismo anal propriamente dito, cuja
encher, por meio de uma resposta ajustada demais, fonte está na mucosa anal erógena. Segundo S.
o desejo que pode ter dela. Freud, na fase anal, assim como na genital, a orga­
Assim, é na demanda* que se enlaçam o dese­ nização das pulsões sexuais permitiría uma rela­
jo e o amor. Não sendo o-homem redutível a um ção com um objeto externo. Entretanto, depois da
ser de necessidade, sua demanda abre a porta para instauração definitiva da organização genital, as
a insatisfação: a demanda, porque passa pela lin­ moções pulsionais do erotismo anal continuam a
guagem, "anula a particularidade de tudo aquilo se manifestar, nas produções do inconsciente (idéi­
que possa ser atribuído a ela, transmutando-a em as, fantasias e sintomas). No inconsciente, escreve
prova de amor". Logo, "há, pois, a necessidade de Freud (1917), "os conceitos de excremento (dinhei­
que a particularidade assim abolida reapareça além ro, presente), de filho e de pênis, estão muito pou­
da demanda". E o desejo, enquanto depende de co separados, sendo facilmente trocados entre si".
algum traço com valor de "condição absoluta" (J. Também afirma que, nos sujeitos que sofrem de
Lacan, "A Significação do Falo", 1958, in Escritos, neurose obsessiva, as fantasias, concebidas primi­
1965). tivamente de modo genital, "transformam-se em
Por outro lado, não se deve esquecer que é a fantasias de natureza anal". Falando (1917) sobre
castração, o interdito, que vai inscrever a falta no o primeiro presente (o excremento) do lactente à
ser humano. Portanto, se o sujeito ama o outro, em pessoa amada, Freud refere que a criança se en­
função da falta, seu amor é determinado, em pri­ contra, pela primeira vez, diante da seguinte esco­
meiro lugar, por aquele a quem atribui essa opera­ lha: ou cede o excremento e o "sacrifica ao amor",
ção da castração. E por isso que o amor do sujeito ou então o retém, "para a satisfação auto-erótica e,
é, primeiramente, um amor pelo pai, sobre o qual mais tarde, para a afirmação de sua própria von­
irá repousar também a identificação* primordial, tade". Essa última escolha prefigura um dos as­
constitutiva do próprio sujeito. pectos do caráter anal: a obstinação. As demais par­
analisando 14

ticularidades são, segundo Freud, a ordem e a eco­ contribuição de O. Rank, que considera o trauma
nomia, ou, em uma outra formulação, a avareza e do nascimento como inaugural da angústia, que
o pedantismo. Esses traços são encontrados no ca­ Freud reconsidera suas posições. Remonta a rea­
ráter obsessivo, no qual assumem a forma de de­ ção de angústia à situação de perigo, da qual o nas­
fesas reativas. cimento é o protótipo. Freud dá, então, duas ori­
—» fase. gens diferentes à angústia: uma delas, involuntá­
ria, automática, inconsciente, explicável quando é
a n a lis a n d o , s. (fr.: analysant, e). Sujeito que está instaurada uma situação de perigo análoga à do
em análise. nascimento, que põe em risco a própria vida do
O termo analisando, empregado a partir de sujeito; a outra, voluntária, consciente, que seria
Lacan, em lugar de analisado ou paciente, marca produzida pelo eu, quando ameaçado por uma si­
com bastante nitidez que o sujeito não se dirige ao tuação de perigo real. Nesse caso, a angústia teria
analista para "ser analisado". Quem tem a tarefa por função tentar evitar o perigo.
de falar, de associar, de obedecer à regra funda­ Freud chega, então, a uma nova definição da
mental é ele. Isso, entretanto, não retira, na condu­ angústia, na qual distingue dois níveis. No primei­
ção do tratamento, a responsabilidade particular ro, "é um afeto entre sensação e sentimento, uma
do analista. reação à perda, à separação" (ibid). A essa parte da
angústia, Freud qualifica de "originária", e seria
a n g ú s tia , s.f. (alem.: Angst; fr.: angoisse; ing.: an- produzida pelo estado de aflição psíquica do lac-
xiety). Afeto de desprazer maior ou menor, que se tente separado da mãe, "que satisfaz todas as suas
manifesta, em um sujeito, em lugar de um senti­ necessidades, sem demora" (ibid). Na outra, a an­
mento inconsciente, na espera de alguma coisa que gústia é um afeto, sinal de reação ao perigo da cas­
não pode nomear. tração, em um momento "no qual o eu do sujeito
A angústia se traduz por sensações físicas, que tenta subtrair-se à hostilidade de seu supereu"
vão da simples constrição epigástrica à paralisia (ibid). Trata-se, para Freud, da angústia que se ma­
total, sendo acompanhada, com freqüência, de in­ nifesta no sujeito, "n o momento da fase fálica"
tensa dor psíquica. (ibid). Assim, para Freud, a ocorrência da angús­
A angústia foi referida por Freud, em seus pri­ tia, em um sujeito, está sempre articulada com a
meiros escritos teóricos, como a causa dos distúr­ perda de um objeto fortemente investido, seja ele
bios neuróticos. Assim, em uma carta a W. Fliess, a mãe ou o falo.
de junho de 1894 (Extratos dos documentos escritos a J. Lacan dedicou um ano de seu ensino a ela­
Fliess, vol. I, E.S.B), Freud atribui a angústia de seus borar, de acordo com Freud, a articulação mais pre­
neuróticos, em grande parte, à sexualidade: "No cisa possível desse conceito de angústia (Seminá­
começo, engajava-me em falsas vias. Parecia que a rio X, 1962-63, "A Angústia"). Para Lacan, não se
angústia de que sofriam os doentes nada mais era trata tanto de compreendê-la ou de descrevê-la,
do que a continuação da angústia sentida durante mas de referi-la, em sua posição estrutural e em
o ato sexual, sendo, pois, um sintoma histérico". seus elementos significantes. Eis como retoma a
Na mesma carta, dedicada inteiramente a "Como definição de Freud: a angústia é um afeto, cuja po­
Nasce a Angústia", Freud avança que "a angústia sição no mínimo é de ser um sinal. Porém, para
decorre de uma transformação da tensão acumu­ Lacan, a angústia não é a manifestação de um pe­
lada", tensão cuja natureza pode ser física ou psí­ rigo interno ou externo. É o afeto sentido pelo su­
quica. Para ele, o que produz a histeria e a neuro­ jeito, em uma vacilação, quando é confrontado com
se de angústia é uma conversão da angústia. Po­ o desejo do Outro.
rém, diz ele, "na histeria, é uma excitação psíqui­ Se, para Freud, a angústia é causada por uma
ca que toma uma via errada, levando a reações so­ falta do objeto, por uma separação da mãe ou do
máticas", enquanto na neurose de angústia o que falo, para Lacan a angústia não está ligada a uma
está agindo, "é uma tensão física que só pode ser falta objetai. Ela sempre surge em uma certa rela­
descarregada psiquicamente". Mais tarde, em 1926, ção entre o sujeito e o objeto perdido, antes mes­
escreveu, em Inibições, sintomas e ansiedade: "Antes, mo de ter existido, aquilo de que fala Freud em
eu considerava a angústia como uma reação geral Projeto para uma Psicologia Científica, e que ele
do eu, submetido às condições de desprazer". Re­ chama de "das Ding", a coisa. Para Lacan, esse ob­
torna a essa concepção, destacando nela dois limi­ jeto também não é perdido, como somos levados a
tes: estabelecer entre a angústia e a libido sexual crer, pois encontramos seus traços visíveis e paten­
uma relação particularmente íntima; considerar o tes, sob as formas do sintoma, ou nas formações
eu como o único lugar da angústia. Foi graças à do inconsciente. Reconhecemos, no fato de dizer
15 angústia

que a angústia "não é sem objeto", a estreita rela­ perda do objeto, mas da presença daquilo que, aos
ção que a liga ao falo ou aos seus equivalentes. Tra­ objetos, não falta" ("Lição de 5 dezembro de 1962"
ta-se da castração simbólica, como Freud também (ibid.). Lacan explica a angústia, utilizando-se de
afirmava. A angústia, para Lacan, é a única tradu­ três pontos de referência (o gozo, a demanda e o
ção subjetiva daquilo que é a busca desse objeto desejo), com predominância da dimensão da rela­
perdido. Ela sobrevêm no sujeito, quando esse ob­ ção com o Outro. Conforme Lacan, a angústia, por­
jeto, equivalente metonímico do falo, estrutural­ tanto, caracteriza-se por aquilo que não engana, é
mente faltante, torna-se um objeto de partilha ou o pressentimento, o que está fora de dúvida. Não
de troca. Pois, para Lacan, não existe imagem pos­ é a dúvida, mas a causa da dúvida. A angústia é a
sível da falta. assustadora certeza, é aquilo que nos olha, como o
Esse objeto faltante e especificamente relacio­ Homem dos Lobos, através da lucarna, no cúmu­
nado com a angústia, Lacan qualifica de "supor­ lo da angústia, vendo-se olhado pelos cinco pares
te" e depois de "causa do desejo", chamando-o de de olhos de seu fantasma. A angústia sempre é
"objeto a". Esse objeto a, diz Lacan, é o objeto sem aquilo que nos deixa dependente do Outro, sem
o qual não há angústia. É o rochedo da castração, nenhuma palavra, fora da simbolização.
de que fala Freud, derradeira e irredutível reserva
da libido. "E disso que se trata, sempre que Freud a n g ú s tia (neurose de) (alem.: Angstneurose; fr.:
fala do objeto, quando se trata da angústia" ("Li­ névrose d' angoisse; ing.: anxiety neurosis). Neurose
ção de 28 de novembro de 1962", Seminário X, caracterizada clinicamente por um estado geral de
1962-63). Para Lacan, o que constitui a angústia "é excitabilidade e de expectativa ansiosa, por aces­
o momento em que alguma coisa, não importa o sos de angústia, com manifestações somáticas e
que, vem a surgir no lugar ocupado pelo objeto neurovegetativas, bem como por fobias.
causa do desejo" (ibid.) A angústia é suscitada sem­ S. Freud propôs, em 1895, separar esta forma
pre por esse objeto, que é o que diz "eu" {"je"), no de neurose da neurastenia, definida por G. Beard.
inconsciente, e que tenta se exprimir por meio de Para Freud, tal afecção devia-se a uma "derivação
uma necessidade, de uma demanda ou de um de­ da excitação sexual somática, à distância do psi-
sejo. quismo" e a uma "utilização anormal desta exci­
Segundo Lacan, para que o sujeito possa ser tação", no sentido das manifestações corporais. Em
desejante, é preciso que um objeto causa de seu sua opinião, a causa desencadeante do distúrbio
desejo possa lhe faltar. Surgirá a angústia, se esse não seria uma patologia psíquica, como na histe­
objeto não vier a faltar e formos precipitados, como ria ou na neurose obsessiva, mas permanecia per­
sujeito, na situação da inquietante estranheza to do somático; não dependería do recalcamento
(Unheimlich). Para Lacan, há uma estrutura, um de uma representação e do deslocamento de seu
campo da angústia: ela se manifesta sempre enqua­ afeto. Tratar-se-ia, na maioria das vezes, de jovens
drada, é uma cena, uma janela onde, como no fan­ adultos que haviam sofrido uma súbita interrup­
tasma, vai se inscrever o horrível, o obscuro, o in­ ção de sua vida sexual. E, portanto, essa neurose
quietante, o inominável. Quando o lugar da falta não justificaria um tratamento psicanalítico. Atu­
não é preservado por um sujeito, sua imagem es­ almente, a patologia não é mais considerada uma
pecular, habitualmente vista no espelho, destaca- entidade nosológica.
se dele e, como em A horla, transforma-se na ima­
gem de um duplo autônomo e desarrimado, fonte A n n a O (Bertha Pappenheim, dita). Mulher vie-
de terror e de angústia. Assim, para Lacan, a an­ nense (1859-1936) celebrizada, sob seu pseudôni­
gústia não é o sinal de uma falta, mas a manifesta­ mo, por S. Freud e J. Breuer, e considerada a pri­
ção, para o sujeito, de uma falha nesse apoio in­ meira "paciente" da história da psicanálise.
dispensável que é, para ele, a falta. De fato, o que Sofrendo, desde a morte do pai, de distúrbios
engendra a angústia da perda do seio, para o lac- histéricos espetaculares, encontra Breuer em 1880,
tente, não é que esse seio possa vir a lhe faltar, mas adquirindo o hábito de relatar-lhe seus sintomas,
que ele o invada, por sua onipresença. É a possibi­ contar-lhe suas fantasias e alucinações. Essas en­
lidade de sua ausência que preserva, para a crian­ trevistas regulares, conduzidas, na maioria das
ça, um além de sua demanda, constituindo, assim, vezes, sob hipnose, são logo investidas de uma
um campo da necessidade radicalmente afastado inesperada função terapêutica, quando um dos sin­
do campo do desejo. tomas de Anna O desaparece por completo, depois
Qualquer resposta que possa preenchê-la, para de sua evocação fortuita. Anna O assume então a
Lacan, só poderá trazer em si o aparecimento da iniciativa de aplicar, sistematicamente, tal proce­
angústia. A angústia é, pois, "a tentação não da dimento, durante as sessões seguintes com Breu-
(inorexia nervosa 16

er. Esse protocolo de consulta, por ela designado der-se-ia objetar que uma tal concepção repousa
oportunamente de "cura pela palavra", é promo­ na idéia de que a realidade, para o sujeito não-psi-
vido, por sua ação terapêutica original, à catego­ cótico, em geral é reconhecida de forma objetiva.
ria de uma autêntica estratégia clínica, cuja aplica­ De fato, para cada um, a realidade é organizada
ção será generalizada por Freud e Breuer, sob o pela fantasia, encontrando-se, em numerosos su­
nome de "método catártico", prefigurando a ela­ jeitos não-psicóticos, distorções consideráveis, em
boração da terapia psicanalítica. As lutas que Ber- relação ao que, para um observador, entretanto,
tha Pappenheim irá travar durante toda sua vida aparecería como real. Em suma, as referências à
contra a exploração da mulher farão dela uma das psicose não são mais convincentes do que o seri­
mais ilustres figuras do movimento feminista eu­ am, por outro lado, as referências à neurose obses­
ropeu. siva: certamente, a anoréxica pensa constantemente
no alimento, pesa-se e calcula, controla continua­
a n o r e z ia n e r v o s a (alem.: Anorexia nervosa; fr.: mente seu peso ou a circunferência de sua coxa,
anorexie mentale; ing.: anorexia nervosa). Distúrbio etc. Porém, uma tal determinação permanece de­
sintomático da conduta alimentar que se traduz masiado formalista, exclusivamente descritiva de­
principalmente por uma restrição muito grande da mais.
alimentação, cuja determinação, paradoxal, pare­
ce estar ligada a uma afirmação muito intensa de
A n o r e x ia e h is t e r ia
um desejo ameaçado por uma negação da identi­
ficação sexual, que poderia dar saída a esse dese­ Classicamente, aliás, a anorexia é, antes, com­
jo. parada com a histeria. Essa era geralmente a posi­
Diferentemente da bulimia*, a anorexia nervo­ ção de Freud, embora se perguntasse, no caso,
sa foi isolada como tal, desde o fim do século XIX quais os vínculos que poderíam existir entre ano­
(Gull, Lassège, Huchard). Surge principalmente em rexia e melancolia. Isso ainda precisa ser evidenci­
adolescentes ou adultos jovens, antes dos 25 anos, ado. Tal referência estrutural quase não teria inte­
sendo muito rara nos homens. Traduz-se por res­ resse, se isso levasse a aplicar mecanicamente in­
trições alimentares, cujo pretexto é, frequentemen­ terpretações estereotipadas da fantasmática da ano­
te, pelo menos no início, um regime baseado em réxica. Assim, depois de K. Abraham, que punha
motivos estéticos. Tais restrições podem ser acom­ à luz o vínculo entre a ingestão de alimentos e a
panhadas de vômitos provocados e ingestão de la­ fantasia de "fecundação oral", certos autores rela­
xantes e diuréticos, o que irá provocar o desapare­ cionaram a anorexia com o recalcamento dessa fan­
cimento das formas femininas, a fusão muscular, tasia. Facilmente se pode observar o quanto uma
diversos distúrbios somáticos, amenorréia, colocan­ tal concepção poderia ser redutora.
do a paciente, muitas vezes, em risco de vida. Se a anorexia pode, no entanto, ser abordada
Para os psicanalistas, além da responsabilida­ a partir da histeria, sem dúvida, é em uma pers­
de que possam ter enquanto terapeutas, se forem pectiva completamente diferente. Sabe-se que o
consultados, a anorexia apresenta diversos proble­ desejo está sempre ligado a uma falta. Assim, como
mas clínicos, e, em primeiro lugar, o de sua defini­ afirma J. Lacan, a criança mimada pela mãe pode
ção. Tratar-se-ia de um sintoma que pode estar as­ recusar o alimento, para recriar uma falta que essa
sociado a certas estruturas neuróticas, ou mesmo preencheu, ao tentar apenas satisfazer suas neces­
psicóticas ou perversas e, nesse caso, a qual estru­ sidades. "É o filho que foi nutrido com o plus de
tura em particular? Ou seria um distúrbio especí­ amor que recusa o alimento e que utiliza sua recu­
fico, dispondo à sua maneira a questão do desejo? sa como se fosse um desejo".
Os psiquiatras e psicanalistas que se interes­ Essa abordagem situa a anorexia nervosa em
saram pela anorexia viram nela, às vezes, uma pa­ um extremo da posição histérica em relação ao de­
tologia parapsicótica. Este é o caso, por exemplo, sejo. Já o histérico (histeria), por sua forma de li­
de M. Selvini-Palazzoli (UAnoressia mentale, 1963), gar o desejo à insatisfação, tende a demonstrar que
que vê nela uma psicose monossintomática. Em o desejo não se refere a determinado objeto ao qual
uma perspectiva parecida, H. Bruch (Les yeiix et le parece visar, que em última análise ele visa a uma
ventre, 1984), destaca as distorções quase deliran­ falta, a um "nada". Por isto, a anorexia não surge
tes da imagem do corpo (percebido, por exemplo, mais como uma afecção completamente particular.
comò um corpo obeso, embora esteja extremamente Lacan pega o caso relatado por E. Kris, de um au­
magro), distorções na interpretação cognitiva dos tor convencido de ter plagiado, embora seus em­
estímulos vindos de dentro do corpo, bem como a préstimos não tenham ido além daquilo que é co-
recusa em reconhecer a fadiga. Não obstante, po­ mumente admitido, em sua área de atividade. A
17 anulação retroativa

intervenção de seu analista, que tenta convencê-lo importância do mecanismo de "denegação" na


disso, desencadeia um acting-out*: ele se encontra anoréxica. Porém, não só nessa perspectiva, recor-
comendo "miolos frescos", em um restaurante per­ rer-se-ia, antes, à "recusa" do que à "denegação",
to da sua casa. De fato, diz Lacan, esse homem rou­ e a demonstração não parece completamente pro­
bava, mas roubava "nada", da mesma forma como batória. Com certeza há na anoréxica uma nega­
a anoréxica come "nada". Ele desejava, inconsci­ ção da diferença sexual, negação concretizada, na
entemente, apropriar-se do objeto, mas sob sua for­ realidade, pelo fato de que seu sintoma impede o
ma mais despojada. Anorexia, no caso, propria­ desabrochar dos atributos corporais da feminilida­
mente mental, diz Lacan, anorexia quanto ao men­ de. Tal negação poderia ser comparada à recusa*
tal. perversa? Em todo caso, o domínio que tenta exer­
cer a anoréxica (particularmente ao se mostrar mais
forte do que aqueles que lhe pedem que coma) ja­
O GOZO DO OUTRO
mais é, como no perverso, um domínio do gozo
Se o problema não for o de negar o alcance de sexual, do gozo "fálico".
uma tal abordagem, é preciso destacar que, hoje
em dia, ela parece precisar ser completada, nem a n u la çã o re tro a tiv a (alem.: Ungcschchemmchcn;
que seja, aliás, a partir de algumas outras articula­ fr.: anmilntion rétroactivc; ing.: undoing [what Uns been
ções de Lacan, como, por exemplo, sobre o gozo cionel). Mecanismo de defesa, característico da neu­
do corpo. rose obsessiva, pelo qual o sujeito tenta fazer como
É preciso, principalmente, sublinhar o seguin­ se um ato ou um pensamento não tivesse ocorri­
te: a anoréxica despende uma energia intelectual e do.
mesmo física muito grande (vigílias prolongadas, Sabe-se o quanto a neurose obsessiva é capaz
exercícios desportivos, hiperatividade, etc.), mas de multiplicar as barreiras, as proteções contra a
essa energia é colocada completamente a serviço expressão de um desejo considerado como inacei­
de um sintoma, cuja finalidade é impedir a identi­ tável. À medida que a idéia sacrílega o assedia per­
ficação sexual (a anoréxica não é nem homem, nem manentemente, à medida que o objeto repugnante
mulher), dessecando qualquer possibilidade de não consegue ser afastado do sujeito, nem realmen­
relação afetiva ou sexual. te devolvido a um lugar psíquico Outro, por uma
Poder-se-ia tentar, então, destacar, como o fa­ operação de recalcamento, o obsessivo só conse­
zem E. e J. Kestemberg e S. Decobert (Lafaim et le gue retomar, indefinidamente, a alternância da in-
corps, 1972), aquilo que constituiría uma forma de junção e da interdição, da ordem e da contra-or-
"masoquismo erógeno primário", no qual o pra­ dem. O sintoma definido como "anulação retroa­
zer estaria ligado diretamente à sensação de fome. tiva" inscreve-se em tal dimensão. Manifesta-se em
Essa perspectiva, que parece pressupor a prima­ dois tempos, de maneira que "o segundo ato su­
zia de alguma coisa que dependería do auto-ero- prime o primeiro, de forma que tudo se passa como
tismo, não nos parece contraditória, apesar da di­ se nada tivesse acontecido, embora tenham ocor­
ferença de abordagem, com os desenvolvimentos rido, na realidade, os dois atos". O "Homem dos
que podemos fazer, por outro lado, a partir da opo­ Ratos", por exemplo, um dia machuca o pé em uma
sição lacaniana entre gozo fálico e gozo do Outro. pedra da rua. Acha-se então obrigado a retirar a
Para Lacan, o gozo fálico pressupõe a identifi­ pedra da estrada, por pensar que o carro de sua
cação sexual, ela própria relacionada com o com­ "dam a" iria passar naquele ponto em algumas ho­
plexo de castração. Se, para a anorexia, essa via es­ ras e poderia ocorrer um acidente por causa dessa
tiver fechada, parece que ela privilegia o gozo do pedra. Porém, algum tempo depois, ele considera
corpo como gozo Outro (gozo). Neste caso, o ter­ isso absurdo, precisando voltar para repor a pe­
mo não deve ser compreendido como sinônimo de dra no meio do caminho.
prazer, isto é, do que procede da diminuição da A partir desse exemplo, pode-se observar que
tensão. Porém, para pegar um exemplo particular, não é possível simplificar a questão da anulação
não é raro que os anoréxicos, que multiplicam os retroativa, considerando-se que o primeiro ato cor­
vômitos provocados, descrevam a sensação de peso responde sempre a uma impulsão e o segundo, a
do alimento como sendo insuportável, um insupor­ uma interdição. Neste caso, é a pulsão hostil, agres­
tável sentido como idêntico a um gozo muito gran­ siva, que se exprime no segundo ato. No entanto,
de. ela é dissimulada sob a forma de um simples res­
Temos nisso os elementos que permitem uma tabelecimento do estado anterior, certamente em
outra distinção de estrutura. E. e J. Kestemberg e si mesmo absurdo, mas que, dentro de uma certa
S. Decobert, para falar de perversão invocam a lógica, pode, ao mesmo tempo, ocorrer (o homem
ato falho 18

dos ratos coloca a pedra no caminho) embora não rompe, como uma espécie de tendência perturba­
tendo ocorrido (não é realizado no intuito de pro­ dora que contraria a intenção consciente do sujei­
vocar um acidente). to. O recalcamento de um desejo constitui, portan­
A anulação retroativa é geralmente concebida to, a condição indispensável para a produção de
como uma defesa do eu, sobretudo segundo a obra um ato falho, como esclarece Freud: "Uma das in­
de Anna Freud, O eu e os mecanismos de defesa (1937), tenções deve ter sofrido um certo recalcamento,
que sistematiza essa noção de defesa do eu. Toda­ para poder se manifestar pela perturbação do ou­
via, é preciso observar que, se a defesa protege o tro. Ela própria deve estar perturbada, antes de se
eu contra a representação inaceitável (obscena, tomar perturbadora" (Conferências introdutórias so­
agressiva, etc.), permite, não obstante, a subsistên­ bre psicanálise, 1916). O ato falho então resulta da
cia do desejo, ao abrigo do complexo mecanismo interferência de duas intenções diferentes. O de­
que ela realiza. sejo inconsciente (recalcado) do sujeito tentará ex-
Freud destaca, a respeito da anulação retroa­ pressar-se, apesar de sua intenção consciente, in­
tiva, a dimensão de "magia", característica da neu­ duzindo nele uma perturbação cuja natureza pa­
rose obsessiva. Tenta-se "apagar, assoprando em rece depender, de fato, somente do grau de recal­
cima" não apenas as seqüências de um evento, mas camento, conforme, por exemplo, o desejo recal­
o próprio evento. cado conseguir apenas modificar a intenção con­
fessada; conforme, também, ele se confundir com
a to fa lh o (alem.: Fehlleistung; fr.: acte manqué; ing.: ela e conforme, finalmente, ele tomar diretamente
bungled adiou, parapraxis). Ato pelo qual um sujei­ seu lugar. Esses três tipos de mecanismos pertur­
to substitui, sem querer, um projeto ou uma inten­ badores acham-se particularmente bem ilustrados
ção a que visa deliberadamente, por uma ação ou pelos lapsos, dos quais Freud fornece vários exem­
conduta totalmente imprevistas. plos, em 1901, em A psicopatologia da vida cotidiana.
Embora a psicologia tradicional nunca tenha Pode-se, pois, identificar os atos falhos com for­
dado uma atenção especial aos atos falhos, S. Freud mações de sintomas, enquanto os próprios sinto­
os integra, de pleno direito, ao funcionamento da mas resultam de um conflito: o ato falho surge
vida psíquica. Reuniu todos esses fenômenos apa­ como uma formação de compromisso entre a in­
rentemente díspares e sem vínculo entre si em um tenção consciente do sujeito e seu desejo inconsci­
mesmo corpo de formações psíquicas, o qual ex­ ente, compromisso esse que se exprime por per­
plica, do ponto de vista teórico, por dois princípi­ turbações que assumem a forma de "acidentes" ou
os fundamentais. Em primeiro lugar, os atos falhos de "falhas" da vida cotidiana.
possuem um sentido; em segundo, são "atos psí­ Com a teoria psicanalítica do ato falho, são ra­
quicos". Postular que os atos falhos são fenôme­ dicalmente repelidas as tentativas de explicação,
nos psíquicos significativos permite supor que re­ sejam puramente orgânicas, sejam psicofisiológi-
sultam de uma intenção. É por isso que, em senti­ cas, amiúde alegadas, por ocasião desses "aciden­
do restrito, devem ser considerados como atos psí­ tes" da vida psíquica. O método das associações
quicos. livres, judiciosamente aplicado à análise de tais
A nova intuição de Freud será não apenas "acidentes", não deixa de ratificar a assimilação
identificar a origem do ato falho, mas também pro­ que é feita do ato falho a um verdadeiro sintoma,
curar explicitar seu sentido, no nível do inconsci­ tanto pelo que possui de sua estrutura de compro­
ente do sujeito. Se o ato falho surge, para o sujeito, misso, como de sua função de realização de dese­
como um fenômeno que ele atribui espontanea­ jo. Ademais, em relação à natureza dos mecanis­
mente a um efeito do acaso ou da falta de atenção, mos inconscientes que governam a produção des­
é porque o desejo que se manifesta nele é incons­ se tipo de "acidentes", a teoria psicanalítica dos
ciente, e significa-lhe, precisamente, aquilo que ele atos falhos constitui uma introdução fundamental
não quer nem saber. E quando realiza esse desejo ao estudo e à compreensão do funcionamento do
que o ato falho é um autêntico ato psíquico; ato inconsciente, pelo menos pelo que este possui de
que o sujeito executa, entretanto, sem o saber. Se é processo primário.
preciso ver, no ato falho, a expressão de um desejo
inconsciente do sujeito, que se realiza apesar dele, a to (p a ssa g e m ao) - » acting out.
a hipótese freudiana então pressupõe necessaria­
mente a prévia intervenção do recalcamento. No a to p s ic a n a lít ic o (fr.: acte psychanalytique; ing.:
ato falho, é o retorno do desejo recalcado que ir­ psycho-analytical act). Intervenção do analista no tra­
19 aparelho psíquico

tamento, enquanto ela constitui o enquadramento É sobre a dimensão de uma palavra, que volta
do trabalho psíquico e possui um efeito de traves­ sobre seus próprios passos, que Lacan irá insistir,
sia. e ele abre caminho sobre esta báscula particular,
Como avaliar os efeitos, as conseqüências de que constitui a passagem do analisando a psica­
uma psicanálise? Talvez não baste, no caso, o le­ nalista. No tratamento, o psicanalisando sentiu que
vantamento do sintoma, visto que, sem remaneja- o analista, situado inicialmente como suporte da
mento da estrutura psíquica, ele pode perfeitamen- transferência, como sujeito-suposto-saber, reduz-
te reaparecer em um outro ponto. Seria mais deci­ se, no fim do processo, a ser o "tenant-lieu"** do
sivo que um sujeito nela encontrasse a ocasião de objeto a*, isto é, um objeto destinado a ser rejeita­
romper com aquilo que o fazia sempre circular nos do. Ele logo percebe que não poderá estar no ato
mesmos trilhos: se o tratamento permitir uma tra­ analítico, que ele não poderá garantir a tarefa do
vessia, reconhecer-se-á que ele foi realmente um analisando, a não ser que consinta em expor a si
ato psicanalítico. mesmo a esse tipo de destituição. Eis, pelo menos,
Evidentemente, a definição desse ato pode o que Lacan supunha, e foi para assegurar-se dis­
parecer problemática. Quando se estima, de fato, so que ele propôs o dispositivo do passe*.
com Freud, que o analista deve se manter em uma
certa neutralidade*, não dirigir seu paciente no a p a re lh o p s íq u ic o (alem.: psijchischer ou seelis-
caminho que julgaria bom, não se pode ver bem, cher Apparat; fr.: appareil psychique; ing.: psychic appa-
de início, em que se pode dizer que ele operou. ralus). Figuração da estrutura elementar e funda­
No entanto, se não dirige seu paciente, o ana­ mental que formaliza um lugar, o do desenvolvi­
lista dirige o tratamento. Deve, por exemplo, evi­ mento dos processos inconscientes.
tar que o sujeito mergulhe na repetição, que a re­ O próprio termo aparelho corre o risco de ge­
sistência* neutralize o trabalho que o tratamento rar um equívoco, pois a representação inicial de S.
está realizando. Certos autores insistiram neste Freud toma por modelo uma figuração neurofisi-
ponto. S. Ferenczi, em particular, chegou à idéia ológica. Longe de ser uma visão mecanicista, ela
de uma "técnica ativa". Para evitar que a energia é, ao contrário, uma ruptura completa com tal con-
psíquica seja desviada do trabalho psicanalítico, ele ceitualização, pois põe em ação o caráter funda­
proibia satisfações substitutivas, sistematizando, mentalmente inadequado do organismo, para ad­
assim, o princípio de abstinência freudiano. Ou, mitir desejo e prazer sexuais, sem sofrer, por isso,
ainda, prescrevia a um sujeito — por exemplo, a um distúrbio em seu próprio funcionamento.
um fóbico — enfrentar aquilo que o assustava, a Assim, o caráter aparentemente cientificista
fim de reativar um conflito psíquico e retomar o desse modelo deve ser afastado, uma vez que
trabalho. Freud definiu essa construção como um lugar psí­
Se a técnica ativa, enquanto tal, apresentou quico, chamando-o de campo psicanalítico propri­
diversos problemas e foi abandonada, a idéia de amente dito.
explicar aquilo que constitui o ato do psicanalista
permanece atual. J. Lacan considerou especialmen­
S it u a ç ã o h i s t ó r ic a
te esta questão, e dedicou-se, por exemplo, a res­
gatar a dimensão de corte que há na interpretação. Foi em A interpretação de sonhos (1900) que
Por outro lado, ele considera mais explicitamente Freud apresentou um aparelho psíquico capaz de
o ato do psicanalista, em dois seminários sucessi­ explicar a inscrição, entre percepção e consciência,
vos, "A Lógica do Fantasma" (1966-67) e "O Ato de traços mnésicos inconscientes, cujo efeito sim­
Psicanalítico" (1967-68). bólico posterior participa da constituição do sin­
Do ponto de vista da psicanálise, o que é um toma. A interpretação de sonhos está completamente
ato? O ato falho podería dar disso uma primeira voltada para a descoberta das regras que regem o
idéia. Quando o sujeito, "involuntariamente", que­ inconsciente. Como o mostra a correspondência de
bra um objeto que detesta, o ato "falho" é, de fato, Freud com W. Fliess, a formalização desse lugar é
particularmente bem sucedido, tanto mais que, no muito anterior. Em setembro de 1895, Freud pro­
caso, o desejo inconsciente vai manifestamente duziu uma elaboração teórica, em "Projeto para uma
mais longe do que as intenções do indivíduo. Po­
rém, sem dúvida, é sobretudo em uma retomada
** Jogo de palavras utilizado por Lacan, envolvendo "lieute-
significante que o ato falho tem valor de ato. To­ nant", lugar-tenente ou tenente, e sua forma invertida, "te-v
dos podem tropeçar. Porém só haverá o ato se o nant-lieu", que pode ser traduzida literalmente por ocupan-
sujeito reconhecer que deu "um passo em falso". do-lugar. (N. do T.)
aparelho psíquico 20

Psicologia Científica", que permaneceu, na época, possibilidade de se inscrever como traço mnésico,
inédita, onde esclarece a posição resumida de A e, portanto, de poder ser recalcada, enquanto que
interpretação de sonhos, e que mostra as condições o afeto não pode sê-lo, em nenhum caso; porém,
teóricas e clínicas dessa construção. Na mesma li­ livre, esse último irá se apegar a outras represen­
nha, deve ser levada em consideração a carta 52 a tações ou traços mnésicos, produzindo os efeitos
Fliess (carta 112 da nova edição), a qual já traça a erráticos do sintoma.
função do significante em sua relação com o recal- Não obstante, tal descrição deixa de esclare­
camento. cer a causalidade desse processo. Em "Projeto para
Freud volta ao aparelho psíquico, em sua "Nota uma Psicologia Científica", Freud observa que o
sobre o 'Bloco Mágico'" (1927). Porém, é verdadeira­ aparelho psíquico está sob o domínio do princípio
mente em Além do princípio de prazer (1920) que, jun­ de prazer, definido por uma diminuição da exci­
to com o automatismo de repetição, sãò desenvol­ tação. Ao contrário, o desejo engendra um aumen­
vidos, em sua função simbólica, os processos in­ to da excitação. Essa antinomia estrutural do de­
conscientes, pois a construção do aparelho psíqui­ sejo e do prazer revela a função da defesa: assegu­
co responde, primeiramente, à necessária instala­ rar a perenidade de menos excitação e, portanto,
ção dessa função. Em 1923, foi produzido um ou­ do prazer. Os sistemas evocados em Projeto para
tro aparelho, em O ego e o id, que reinsere o siste­ uma psicologia científica e A interpretação de sonhos
ma percepção-consciência, em sua correlação com asseguram a inscrição dos traços mnésicos, sob a
o eu, isso e supereu, sem nada de novo quanto ao forma de facilitações, em sua simultânea diversi­
próprio processo inconsciente. J. Lacan produziu dade, embora obedecendo à instância prazer-des-
outros aparelhos. Embora tendo-os designado pelo prazer. Tais sistemas em rede estariam ameaçados,
termo de esquemas (óptico, L e R), esses últimos se em sua função, por uma excessiva elevação da ex­
inscrevem na mesma perspectiva. Esses esquemas, citação, suscitada pelo desejo (engendrando des-
elaborados durante os três primeiros seminários de prazer), se não existisse um sistema de regulação
Lacan, explicitam dois fatos fundamentais. O pri­ (por filtros, barreiras, desvios das excitações), que
meiro, pelo esquema óptico, situa a função libidi- permite moderar ou até mesmo recalcar os dese­
nal do eu em sua forma original, imaginária, e cen­ jos. Não sendo capaz de assumir plenamente as
tra a pulsão libidinal, em grande parte, sobre essa excitações recebidas, em grande parte o sistema se
função imaginária. O segundo fato, desenvolvido volta contra o desejo, definindo deste modo a fun­
pelos esquemas L e R, demonstra a junção do sim­ ção da defesa, à qual se prende o controle pelo eu,
bólico e do imaginário, em sua relação com o real, que inibe a excitação e permanece atento, para que
como articulados pelo discurso do inconsciente seja inibido o investimento de uma imagem de
(discurso do Outro), ligando, assim, o recalcamento lembrança hostil ou desagradável, ou agradável
à função do significante. demais, ou não conforme (alucinatória). Ora, essa
imagem de lembrança é precisamente um traço
mnésico deixado por uma experiência primordial
S ig n if ic a ç ã o estru tural do
de prazer ou desprazer. É neste ponto que Freud
APARELHO PSÍQUICO introduziu o conceito de neurônio perdido, ou seja,
Esses aparelhos, do Projeto e de A interpretação de significante originalmente recalcado, preso à
de sonhos, foram elaborados a partir de dois fatos coisa (alem. das Ding), chamado de "o complexo do
de observação essenciais na histeria, e mais am­ próximo", designando-o como "o primeiro objeto
plamente nas neuroses, que implicam um primei­ de satisfação, além disso, o primeiro objeto hostil,
ro esboço das noções de defesa e de recalcamento, do mesmo modo, a única potência asseguradora",
tais como estão agindo no sintoma. ou seja, o Outro primordial.
1. Se o histérico sofre de reminiscências, es­ A lembrança da principal articulação do Pro­
sas são constituídas de vivências sexuais de natu­ jeto para uma psicologia científica demonstra a impor­
reza traumática, ligadas ao caráter prematuro. Tal tância da função simbólica, ligada simultaneamen­
constatação explica o aspecto inassimilável de toda te ao que é perdido (significante da falta), indutor
experiência sexual prematura, em sua correlação do automatismo de repetição, e ao Outro primor­
com o desejo, sendo esse inassimilável estrutural. dial. Assim, a função do aparelho não é vislum­
2. Na operação de defesa daí resultante, a re­ brada no modelo do arco reflexo percepção-motri-
presentação é separada do afeto. Essa desligação cidade, mas indica a instalação de traços mnési­
(alem. Entbindung) provoca um destino diferente cos, segundo uma ordem determinada, relaciona­
para esses dois elementos: para a representação, a da com o recalcamento originário.
21 apoio

Esta questão permanece latente, no aparelho podem ser reconhecidos os rudimentos dos pro­
apresentado em A interpretação de sonhos, que con­ cessos inconscientes, estruturados como lingua­
sidera a noção do tempo, a durabilidade e a simul- gem, já elaborados por Freud como tais.
taneidade das inscrições, sem esclarecer a forma
como são operadas a escolha e a acumulação dos a p o io , s.m. (alem.: Anlehnung; fr.: étayage; ing.:
traços, nem sua função ulterior. O fato de Freud anaclisis). Modalidade de intricação das pulsões
propor que "memória e consciência se excluem" sexuais com as pulsões de autoconservação.
assinala que a figuração contém dois sistemas bem A noção de apoio é indissociável da teoria pul-
separados: essa falta de continuidade entre os dois sional da sexualidade. Nos Três ensaios sobre a teo­
é o lugar do recalcamento e do inconsciente. De ria da sexualidade (1905), S. Freud explica como as
fato, a noção de percepção pode ser qualificada pulsões parciais se ligam a determinadas funções
como hipótese inicial, porque a constituição de tra­ vitais que lhe servem de suporte, tanto mais que
ços mnésicos a pressupõe na origem. Quanto ao possuem em comum, originalmente, as mesmas
consciente, sua integração é muito mais problemá­ fontes e os mesmos objetos: a satisfação da pulsão
tica, pois vai contra o desejo, o inconsciente e até oral "apóia-se na" satisfação alimentar, ligada às
mesmo certas percepções, que oculta deliberada- necessidades de nutrição. E apenas quando da ati­
mente; "instância crítica", "ele representa o eu ofi­ vidade auto-erótica que as pulsões sexuais tendem
cial". a se desintricar das pulsões de autoconservação.
Como esclarecer o paradoxo contido neste apa­ A noção de apoio também intervém na escolha
relho, que se deve ao fato de haver uma certa au­ objetai. O sujeito elegerá certos objetos de amor,
tonomia da função simbólica, no nível dos traços em referência metonímica às pessoas que origina-
mnésicos, enquanto significantes? riamente forneceram os primeiros objetos de sa­
Na carta 52 a Fliess, Freud parte da "hipótese tisfação das funções de autoconservação, as quais
de que nosso mecanismo psíquico nasce de uma também seriam os primeiros objetos sexuais: é a
superposição de camadas, na qual, de tempos em escolha objetai por apoio. Enfim, o apoio permite
tempos, o material composto de traços mnésicos perceber o modo de organização de certos sinto­
sofreu uma alteração em sua ordem, com novas mas. O órgão que suporta simultaneamente o pro­
relações, uma perturbação na inscrição". Essa hi­ cesso de satisfação das pulsões sexuais e das pul­
pótese admite a possibilidade de remanejamentos sões de autoconservação irá se constituir em lugar
na estrutura, no nível dos sintomas, assim como privilegiado para a eclosão de um sintoma, quan­
no processo de tratamento. Freud propõe um es­ do esses dois tipos de pulsões se opuserem, em fa­
quema de inscrições que respeita a seqüência tem­ vor de um conflito psíquico.
poral do aparelho psíquico, no qual já está explici­
tada uma formalização da inscrição de uma bate­ a s s o c ia ç ã o , s.f. (alem.: Assoziation; fr.: associati-
ría de significantes, comportando o significante on; ing.: association). Ligação entre dois ou vários
originalmente caído, enquanto recalcado. elementos psíquicos.
Porém, como se realiza essa perturbação, en­ O termo associação foi retirado por Freud da
tre um e outro termo, na seqüência das inscrições doutrina associarionista, que imperava na Alema­
desses traços mnésicos? Por uma tradução que é nha no século XIX, tendo-lhe emprestado um uso
temporalmente dupla: ela se refere à passagem de totalmente novo. Assim, onde o associacionismo
um ponto para outro do aparelho, além de ser uma buscava as leis gerais que regem o espírito (leis
transcrição das inscrições de uma época da vida fundadas principalmente na similitude, ainda que
sexual sobre uma outra. Assim, o aparelho é um essa noção nada tenha de simples, nem de primá­
lugar onde se opera um determinado número de ria), ele vê, na associação, a forma pela qual um
traduções. As psiconeuroses se devem ao fato de sujeito se situa, em uma memória concebida como
que "a tradução de determinados materiais não foi um sistema de arquivos. Nela não são possíveis
efetuada". "A recusa de tradução" (alem. die Versa- tqdas as "facilitações", havendo "grupos psíquicos
gung der Übersetzung) é aquilo que se chama, na separados" (foi mesmo a partir disso que se pôde
clínica, de recalcamento". Ora, uma tradução, den­ formar o conceito tópico de inconsciente). Porém,
tro de uma mesma língua, consiste em substituir ao mesmo tempo, é deixando livre o curso das as­
um significante por outro, ou seja, o processo da sociações que o sujeito poderá estabelecer novas
metáfora, que é precisamente uma das duas figu­ conexões, as únicas que permitirão ganhar terreno
ras de estilo que o sonho toma emprestado. sobre o recalcamento. Nesse sentido, o método de
Portanto, o aparelho psíquico instala esse lu­ "livre associação" confunde-se com a regra funda­
gar — essa outra cena, a da linguagem — na qual mental* da psicanálise.
associação (método de livre) 22

a s s o c ia ç ã o (m éto d o d e liv re ) (alem.: Methode que pode ser concebida como o efeito de um fra­
derfreien Assoziation; fr.: méthode de libre association; casso radical na instalação da imagem do corpo.
ing.: free association method). Método constitutivo da
técnica psicanalítica, segundo o qual o paciente
D e s c r iç ã o c l ín ic a d a s ín d r o m e
deve exprimir, durante o tratamento, tudo o que
lhe vem à mente, sem nenhuma discriminação. L. Kanner foi o primeiro a descrever, em 1943,
O método de livre associação foi sugerido a S. o quadro clínico, ao estudar um grupo de 11 crian­
Freud, em 1892, durante um tratamento, no qual ças (“Autistic Disturbances ofaffective Contact”). Sua
uma de suas pacientes (Emmy von N) lhe pediu descrição ainda permanece válida, apresentando
expressamente que deixasse de intervir no curso a vantagem de não estar prejudicada por tentati­
de seus pensamentos, deixando-a falar livremen­ vas de explicação, como nos autores que o sucede­
te. De forma progressiva e até 1898, quando foi ram. Kanner descreveu um quadro cujo traço pa-
adotado defini ti va mente, o método substituiu o tognomônico é "a inaptidão em estabelecer rela­
antigo método catártico, tendo-se tornado, desde ções normais com as pessoas, desde o começo da
então, a regra fundamental do tratamento psica- vida". Afasta qualquer confusão com a esquizofre­
nalítico: o meio privilegiado de investigação do nia, adulta ou infantil, afirmando que nunca exis­
inconsciente. O paciente deve exprimir todos os tiu, nessas crianças, uma relação inicial, depois da
seus pensamentos, idéias, imagens e emoções, tais qual teria ocorrido a retração. "H á, desde o início,
como se apresentam a ele, sem seleção e restrição, uma extrema solidão autística que, sempre que
mesmo que tais materiais lhe pareçam incoeren­ possível, desdenha, ignora e exclui tudo aquilo que
tes, impudicos, impertinentes ou desprovidos de chega à criança vindo do exterior". Qualquer con­
interesse. Tais associações podem ser induzidas por tato físico direto, qualquer movimento ou ruído é
uma palavra, um elemento de sonho, ou qualquer vivido como se ameaçasse romper essa solidão. Isso
outro objeto de pensamento espontâneo. O respei­ seria tratado "como se não estivesse ali" ou então
to a essa regra permite o aparecimento das repre­ sentido dolorosamente, como uma interferência
sentações inconscientes e atualiza os mecanismos devastadora. Cada contribuição externa represen­
de resistência. ta "uma intrusão aterrorizante". Decorre disso um
limite fixo na variedade de atividades espontâne­
a te n ç ã o flu tu a n te (alem.: gleichschwebende Au- as, como se o comportamento da criança fosse go­
fmerksamkeit; fr.: attention flottante; ing.: suspended vernado por uma busca de imutabilidade, o que
attention). Regra técnica à qual tenta se conformar explicaria as repetições monótonas. Nas entrevis­
o psicanalista, ao não privilegiar, em sua escuta, tas, essas crianças não prestam a menor atenção à
nenhum dos elementos particulares do discurso do pessoa presente; por mais tempo que sejam deixa­
analisando. das quietas, tratam-na como se fosse uma escriva­
A atenção flutuante é a contrapartida da asso­ ninha... Se o adulto se introduz à força, pegando
ciação livre, proposta ao paciente. S. Freud formu­ um cubo ou segurando um objeto que a criança
la essa técnica explicitamente em "Recomendações tenha atirado, esta se debate, fica enfurecida com
aos Médicos que Exercem a Psicanálise" (1912), da se­ o pé ou a mão, tratando-os como se não fizessem
guinte maneira: "Não devemos atribuir uma im­ parte de uma pessoa.
portância particular a nada daquilo que escutamos, No que se refere aos sinais precursores, Kan­
sendo conveniente que prestemos a tudo a mesma ner observa que, se a criança comum aprende, des­
atenção flutuante". Igualmente, determina que o de os primeiros meses, a ajustar seu corpo à posi­
inconsciente do analista se comporte, em relação ção da pessoa que a carrega, as crianças autistas
ao inconsciente do paciente, "como o ouvinte tele­ não são capazes de fazê-lo.
fônico em relação ao microfone". A atenção flutu­ Quanto à etiologia em causa, Kanner supõe
ante pressupõe, portanto, de parte do praticante, a que "essas crianças vieram ao mundo com uma
supressão momentânea de seus pré-julgamentos incapacidade inata, biológica, de estabelecer um
conscientes e de suas defesas inconscientes. contato afetivo com as pessoas".
Quanto à linguagem, oito das 11 crianças es­
a u tis m o , s.m. (alem.: Autismus; fr.: autisme; ing.: tudadas falavam, mas para enunciar nomes de ob­
autism). Retração, sobre o mundo interior, do su­ jetos identificados, adjetivos sobre cores ou indi­
jeito, que recusa o contato com o mundo exterior, cações sem especificidade. Quando tais crianças
23 autismo

finalmente conseguem formar frases— estado que O PONTO DE VISTA DA PSICANÁLISE


os autores atuais denominam de "pós-autismo" —
trata-se de repetições imediatas ou ecolalias adia­
das, como os papagaios, ou até mesmo combina­ A ABORDAGEM DOS AUTORES
ções das palavras ouvidas. O sentido de uma pa­
PÓS-KLEINIANOS
lavra é inflexível, só podendo ser utilizada com a
conotação adquirida originalmente. Os pronomes Para F. Tustin (Les états autistiques chez 1'enfant,
pessoais são repetidos como são ouvidas, sem le­ 1986), as crianças autistas são prematuros psicoló­
var-se em conta quem enuncia a frase. "A lingua­ gicos. A tomada de consciência da separação do
gem, diz ele, era desviada no sentido de uma auto- objeto ocorreu antes de que suas capacidades de
suficiência sem valor semântico, nem de conver­ integração fossem suficientes, no plano neurofisi-
sação, ou então para exercícios de memória gros­ ológico. A criança achar-se-ia então em situação de
seiramente deformados". depressão psicótica, termo tirado de D. W. VVinni-
Conclui, quanto à função de comunicação da cott, que remete a uma fantasia de arrancamento
palavra, que não havia diferença fundamental en­ do objeto, com perda da parte correspondente do
tre as oito crianças que falavam e as três mudas. E, próprio corpo— por exemplo, o seio com uma par­
como certos pais haviam se aproveitado da extra­ te da boca. Isso produziría um vazio, que Tustin
ordinária memória dessas crianças, para fazê-las chama de "buraco negro da psique"; e o autista,
aprender salmos ou textos de cor, Kanner se tinha para se defender disso, desenvolvería defesas ma­
indagado se essa aprendizagem não seria uma cau­ ciças, com a finalidade de negar qualquer separa­
sa de suas dificuldades de comunicação. ção, qualquer alteridade. Formaria uma carapaça
Se muitas de suas observações continuam sen­ na qual, investindo suas próprias sensações inter­
do pertinentes, algumas de suas conclusões p a re nas, produziría as "formas autísticas", na raiz dos
cem ter sido contrariadas pelo estudo feito por ele "objetos autísticos", constituídos de partes do cor­
mesmo, 30 anos mais tarde ("Folloiu up Study ofele- po da criança ou de objetos do mundo exterior,
ven Children originaly reported 1943", 1971), sobre o percebidos como sendo do próprio corpo.
futuro das 11 crianças pesquisadas. Ele reitera, ali, Donald Meltzer (Exploration, Apprehension of
com maior convicção ainda, sua concepção de uma Beauty, 1988) descreveu dois mecanismos específi­
etiologia biológica inata, recusando qualquer psi- cos do autista, cuja finalidade é "aniquilar toda a
cogênese pós-natal: para ele, tudo já estaria deci­ distância entre o selfe o objeto" e, portanto, toda a
dido antes do nascimento e lhe parecia impossível possibilidade de separação do objeto: o "desman­
considerar um quadro desse tipo como um efeito telamento" e a "identificação adesiva". Esse últi­
da relação pais-filho. mo conceito remete à noção de "pele psíquica: uma
Quase todas as antigas crianças de sua pesqui­ zona que limita e mantém o corpo, como um con­
sa tinham passado a vida em instituições para do­ junto coerente". O autista se cola ao objeto, que
entes crônicos e incapazes, tendo Kanner consta­ percebe como bidimensional e, portanto, despro­
tado que se haviam instalado em um modo de vida vido de interior; o eu e o objeto estão completa­
"nirvana". Todavia, duas delas tinham atingido mente achatados, fragmentados, sem nada para lhe
uma autonomia profissional e econômica, demons­ dar coerência ou volume.
trando capacidades criativas culturais ou artísticas; René Diatkine, afastado de uma visão estru-
esses dois destinos diferentes são considerados por turalista do aparelho psíquico, faz observações
Kanner como resultantes de encontros com pesso­ muito agudas sobre os inconvenientes dessa abor­
as capazes de entrar verdadeiramente em contato dagem fenomenológica do autismo. Destaca, em
com elas. O que o autor não diz é que eram justa­ particular, a dificuldade de considerar o autismo
mente duas das crianças que desenvolveram par­ como sistema defensivo e o quanto lhe parece ar­
ticularmente a linguagem ecolálica, com os pais riscado imputar ao bebê fantasias de arrancamen­
tendo-lhes fornecido grande quantidade de mate­ to da boca ou do seio.
rial cultural para alim entar sua capacidade de
aprender de cor. Teria podido, portanto, esse tipo
A b o r d a g e m l a c a n ia n a d a q u e s t ã o
de trabalho de linguagem, embora aparentemente
d o a u t is m o
fora do discurso e não comunicante — ao contrá­
rio da opinião de Kanner — engajar o aparelho — Pode-se diferenciar autismo de psicose? Para
psíquico da criança em um caminho estruturante? responder a essa pergunta, C. Soler apresenta a ali­
autismo 24

enação e a separação como constituintes das duas 1966), vemos que o objeto real — o real do bebê,
operações de causaçâo do sujeito. Ela lembra a digamos sua presença orgânica — parece muito
idéia segundo a qual (Lacan, Seminário XI) o psi­ bem fazer um, com alguma coisa que é uma ima­
cótico não estaria fora da linguagem, mas fora do gem: essa imagem real (o ramalhete de flores), os
discurso. "Se a inscrição em um discurso for con­ "pequenos aa", que constituem a reserva de libi-
dicionada, diz ela, por essa operação de separa­ do. Sabemos que, em um tal dispositivo, o sujeito
ção, ela própria condicionada pelo Nome-do-Pai, do olhar, metaforizado pelo olho, aquele que é ca­
é preciso dizer que o fora-de-discurso da psicose é paz de perceber os dois como formando um todo,
sua instalação no campo da alienação. A questão é, uma unidade, não pode ser a própria criança (o
então, a do autismo [...]; pode-se situar o autismo vaso com as flores), mas necessariamente um Ou­
em um aquém da alienação, uma recusa a entrar tro. Para que o infans possa ver a si mesmo, Lacan
nela, um deter-se na borda". propõe algumas modificações do esquema inicial,
— 0 fracasso da instalação da imagem do corpo nele introduzindo particularmente um espelho pla­
na criança autista. Sabemos, pelas pesquisas inter­ no, ilustrando pela primeira vez a fase do espe­
nacionais publicadas e pela clínica (Cf. M. C., Laz- lho. Porém, irá empregá-lo também de outra for­
nik-Penot, "Não haverá ausência, se ainda não ti­ ma: como espelho sem reflexo, representação do
ver havido presença [...]", in La psychanalyse de olhar do grande Outro (Seminário VIII, 1960-61, "A
Venfant, nu 10), que existem bebês que, embora te­ Transferência").
nham sido criados por sua mãe e não apresentem É do lado em que se acha o conjunto constitu­
nenhum distúrbio orgânico, não olham para ela, ído pelo objeto real, fazendo um com a imagem
não sorriem, nem vocalizam para ela, e nunca a real, que se irá presentificar a constituição do Ur-
chamam, em caso de aflição. Nossos trabalhos le­ Ich, naquilo que será o próprio corpo, o Ur-Bild da
vam-nos a pensar que o não-olhar entre uma mãe imagem especular. Lacan atribui uma grande im­
e seu filho, e o fato da mãe não poder se dar conta portância a esse momento de reconhecimento pelo
disso, constitui um dos principais sinais, no come­ Outro da imagem especular, momento em que a
ço da vida, que permitem formular a hipótese de criança se volta para o adulto que a pega no colo,
um autismo — só ocorrem as estereotipias e as au- que a carrega, que lhe demanda que confirme, pelo
tomutilações a partir do segundo ano de vida. olhar, aquilo que percebe no espelho como a as­
Mesmo que o não-olhar não desemboque mais tar­ sunção de uma imagem, de uma maestria ainda
de em uma síndrome autística característica, ele não advinda.
aponta para uma grande dificuldade no nível da Para explicar o fracasso da instalação da fase
relação especular com o outro. Se não se houver do espelho, é preciso considerar a necessidade de
intervenção, a fase do espelho, nessas crianças, não um primeiro reconhecimento, não-solicitado, mas
será constituída convenientemente. que fundará a possibilidade da imagem do corpo,
Esses casos clínicos, nos quais se é confronta­ isto é, o Ur-Bild da imagem especular, e que só po­
do com uma não-instalação da relação especular, dería se formar no olhar do Outro.
permitem evidenciar patologias que certamente Essa falta de reconhecimento primordial po­
traduzem uma não-instalação da relação simbóli­ dería explicar a evitação, que parece ser uma su­
ca fundamental, a presença-ausência materna, mas pressão dos sinais perceptivos do que podería cons­
não por falta do tempo ausência (como freqüente- tituir o olhar da mãe, no sentido de sua presença,
mente é o caso, na clínica dos outros estados psi­ de seu investimento libidinal.
cóticos), mas antes por uma falha fundamental da Chegados a este ponto, precisaríamos progre­
própria presença original do Outro. dir, por meio de uma outra pergunta: onde se ori­
A conseqüência é o fracasso da constituição da gina a imagem real? Para respondê-la, precisamos
imagem do corpo — através da relação especular referir-nos à retomada modificada que Lacan faz
com o outro — e da constituição do eu. Isso cor­ do esquema óptico, no Seminário X, 1962-63, "A
respondería ao fracasso do tempo "alienação", na Angústia": a imagem real, que surge acima do vaso
constituição do sujeito. (objeto real), não é mais a cópia fiel de um objeto
.. J?ara trabalhar a clínica de uma não-instalação escondido, como seria o caso do ramalhete de flo­
da relação especular, seria preciso retomar o esque­ res, mas o efeito de uma falta que Lacan irá escre­
ma* óptico. Sabemos que Lacan o introduziu (Se­ ver "menos phi" (-<p). A partir da clínica do autis­
minário 1,1953-54) para tentar metaforizar a insta­ mo, eis a leitura que se podería propor dessa nova
lação do narcisismo primordial. Na experiência de versão do esquema óptico.
Bouasse, citada por Lacan, em "Observação sobre Aquele que ocupa o lugar do Outro primordi­
o Relatório de Daniel Lagache" (1960; Escritos, al dá sua falta (-cp). Dizer que esse Outro dá sua
25 auto-análise

falta permite escrevê-lo A (A barrado). Essa ope­ mesmo, utilizando as técnicas psicanalíticas de as­
ração permite ver surgir a criança aureolada de sociação livre e de interpretação dos sonhos.
objetos "pequenos aa", o que poderia ser dito como S. Freud, que necessariamente precisou fazer
sendo a "falicização" da criança, o que parece cor­ sua própria análise, insistiu cada vez mais no ca­
responder, em Freud, à própria noção de investi­ ráter limitado de uma auto-análise e sobre o fato
mento libidinal. de que esta seria, em todo caso, insuficiente para a
Atrás do espelho plano, no campo imaginário, formação de um analista. Em compensação, é ine­
não vemos mais surgir a imagem virtual do con­ gável que, no analista, o trabalho de auto-análise
junto daquilo que teria podido se constituir (na continue de uma forma mais ou menos regular,
esquerda). Os pequenos aa não são especulariza- após o término de seu próprio tratamento.
dos; o que Lacan chama de "não-especularização
do falo" volta, na imagem virtual, como uma falta a u to -e r o tis m o , s.m. (alem.: Autoerotismus; fr.:
(-<p). Portanto, observamos que essa falicização da autoérotisme; ing.: auto-erotism). Forma de manifes­
criança só ocorre no olhar do Outro, e ali o A mai­ tação da pulsão sexual, enquanto ela não está diri­
usculo se impõe clinicamente, pois, em sua rela­ gida para outras pessoas, ou mais geralmente para
ção com sua imagem, com o outro seu semelhante, objetos externos, satisfazendo-se com o próprio
o sujeito só pode se ver como marcado pela falta. corpo do sujeito.
A imagem real, formada pelo conjunto desses pe­ O conceito de auto-erotismo foi retirado por
quenos aa, que correspondem à falicização da cri­ Freud de Havelock Ellis, que o tinha introduzido
ança, seria então comparável ao que Freud propõe, no vocabulário científico em 1898. Porém, enquanto
em sua obra Sobre o narcisismo: uma introdução, Havelock Ellis chamava assim uma excitação que
quando fala da necessidade da criança ocupar o surgia dentro do corpo, não sendo provocada de
lugar de "his Majesty the baby". fora, Freud considera que o problema se refere
No Seminário X, "A Angústia", Lacan falou de menos à gênese do que ao objeto da pulsão sexu­
uma clínica do fracasso na instalação da relação al. Que lugar seria dado a uma pulsão que não es­
especular. Trata-se de mães para as quais a criança colhesse um objeto fora do corpo, mas tomasse uma
em seu ventre é apenas um corpo acomodado ou parte do próprio corpo como objeto suscetível de
mal-acomodado; aquilo que chama de "a subjeti- produzir uma satisfação?
vação do pequeno a como puro real" (Seminário Essa pergunta é importante para a psicanáli­
XI, 1963-64, "O s Quatro Conceitos Fundamentais se. A experiência do tratamento obriga a reconhe­
da Psicanálise"). cer a existência de uma sexualidade infantil (é tal­
Tudo se passa como se determinados pais não vez a tese mais conhecida e mais criticada da psi­
fossem enganados por nenhuma imagem real, e canálise, pelo menos originalmente). No entanto,
portanto, por nenhuma ilusão antecipatória: como as crianças não podem viver uma sexualidade com­
se vissem o bebê real, tal e qual, em seu desnuda­ parável dos adultos, não podem se realizar, em
mento. Essa impossibilidade não teria nenhum vín­ uma relação de amor e desejo. Haveria contradi­
culo com qualquer falta de boa vontade nos pais, ção, aparentemente no começo, se a sexualidade
mas correspondería às dificuldades de ordem sim­ da criança não fosse chamada de auto-erotismo.
bólica de que eles próprios seriam vítimas. Freud, em Três ensaios sobre a teoria da sexuali­
A ausência de dimensão simbólica e imaginá­ dade (1905), mostra como as satisfações erógenas
ria dessa imagem real deixa o filho sem imagem se apoiam nas funções corporais; o prazer bucal,
do corpo, tornando problemática sua vivência de por exemplo, na nutrição, na mamada do seio ma­
unidade do corpo. Essa ausência de imagem do terno. Quando ocorre o desmame, e mesmo antes,
corpo teria, pelo menos, uma outra conseqüência o sugamento se instala como atividade auto-eróti-
daninha: bloquearia a possível reversibilidade da ca, voltada para o próprio corpo. No limite, o que
libido do próprio corpo para a do objeto. Isso sig­ daria aqui a idéia do que é o auto-erotismo, é a
nifica que os objetos aa não se acharão na borda satisfação dos lábios que beijam a si mesmos, ain­
do vaso que simboliza o continente narcisista da da mais do que a sucção do polegar ou da chupe­
libido. Isso toma, ao mesmo tempo, impossível a ta.
passagem entre i(a) e i'(a), não deixando, como Freud iria diversificar esse ponto de vistà, in­
futuro, à libido da criança, a não ser o encerramento clusive nas sucessivas edições dos Três ensaios. As­
no próprio corpo das automutilações. sim, a análise do pequeno Hans* dá-lhe a oportu­
nidade de destacar que "as crianças de 3 a 5 anos
a u to -a n á lis e , s.f. (alem.: Selbstanalyse; fr.: autoa- são capazes de uma escolha objetai totalmente per­
nalyse; ing.: self-analysis). Análise do sujeito por ele ceptível e acompanhada de afetos violentos". Essa
auto-erotismo 26

observação é uma das que podem fundar as pes­ nos ensinar que a sexualidade não é definida es­
quisas ulteriores, como as de M. Balint, por exem­ sencialmente como atividade finalizada, adaptada
plo, sobre a relação objetai (relação objetai), pes­ a uma relação satisfatória com um parceiro. Ela
quisas interessantes, por mais críticas que se pos­ também pode ser constituída sem relação com um
sa, por outro lado, fazer a elas. J. Lacan também outro, com o qual, aliás, o sujeito não possui ne­
deveria sublinhar que existem objetos, "desde o nhuma harmonia preestabelecida.
momento mais precoce da fase neonatal". Entre­ Na seqüência de sua obra (por exemplo, nas
tanto, se se pode falar de auto-erotismo, é referin- Conferências introdutórias sobre psicanálise, 1916-17),
do-o à teoria freudiana de um "eu-prazer" (Lust- Freud tendeu a confundir auto-erotismo com nar-
Ich), que começa por distinguir o que é bom para cisismo primário (narcisismo). Atualmente vemos
ele, antes mesmo de saber se o que é assim defini­ melhor, desde a tese lacaniana da fase do espelho,
do como bom existe na realidade (denegação). O como separá-los. Enquanto que o narcisismo inves­
auto-erotismo consiste então em "que não havería te o corpo, em sua totalidade, e toma como objeto
aparecimento de objetos, se não existissem objetos a imagem unificadora do corpo, o auto-erotismo
bons para mim"). refere-se às partes do corpo, ou melhor, às "bor­
Parece indubitável que a criança não espera a das" dos orifícios corporais, investidas pela libi-
puberdade para formar as "escolhas objetais". No do*.
entanto, a teoria do auto-erotismo tem o mérito de
b
B a lin t (M ich ae l). Psiquiatra e psicanalista bri­ foi libertado, graças à intervenção da comunidade
tânico de origem húngara (Budapeste 1896 — Lon­ internacional. Dessa experiência, faz um relato in­
dres 1970). titulado Individual and Mass Behavior in Extreme Si-
Praticou a psicanálise, de 1926 a 1939, no Ins­ tuation (1943), que o general Eisenhower fez com
tituto de Psicanálise de Budapeste, que dirigiu a que todos os oficiais do exército americanos les­
partir de 1935. Foi para a Inglaterra, onde exerceu sem. Também colhe, dessa experiência, O coração
a psiquiatria, em particular na Tavistock Clinic de informado (1960) e " Sobrevivência" (1979), nos quais
Londres, da qual foi o fundador. Suas observações analisa as atitudes humanas em situações extremas
clínicas e a influência de seu analista, S. Ferenczi, e hierarquiza os comportamentos que parecem ser
levam-no a propor a noção de amor primário, que mais eficazes para salvaguardar a integridade fun­
postula a existência de uma fase pós-natal, anteri­ cional do eu. Após sua libertação, vai para os Es­
or ao narcisismo primário, na qual já existe uma tados Unidos, onde se toma professor de Educa­
relação objetai primária, cuja base biológica é a in­ ção (1944) e, mais tarde, de psiquiatria (1963), na
terdependência entre mãe e filho, no plano instin­ Universidade de Chicago. Também assume a di­
tivo. Balint tentou, por outro lado, isolar a noção reção, em 1944, de um instituto destinado às cri­
de "falha básica", como importante fator da pato- anças em dificuldades, que, em 1947, reforma, ado­
genia mental. Está também na origem de um mo­ tando o nome de Instituto ortogênico de Chicago. Or­
vimento que se propõe a reconsiderar profunda­ ganizou esse instituto, que descreveu em Um lu­
mente o problema das relações médico-paciente- gar para renascer (1974), como um local isolado das
doença (Balint [grupo]). As principais obras de pressões externas, em particular dos pais, no qual
Balint são Amor primário e técnica psicanalítica (1952), cuida de crianças autistas. Questiona, por meio de
O médico, seu paciente e a doença (1957) e As vias da sua prática e de suas observações, as concepções
regressão (1959), além de Técnicas psicoterápicas em do autismo, avançando que a causa primordial
medicina (1961), em colaboração com E. Balint. dessa doença é um incidente ocorrido na primeira
infância, particularmente em uma relação mal-es-
B a l i n t (g ru p o ) (fr.: groupe Balint; ing.: Balint tabelecida entre a criança e a mãe. Tenta demons­
group). Grupo de discussão reunindo uma dezena trar essa tese, a partir de vários casos, em A fortale­
de médicos, em sua maior parte praticantes de za vazia (1967). Em seu instituto ortogênico, não
Medicina geral, conduzido por um psicanalista, deixa nenhum pormenor ao acaso: ambiente sem­
para que cada participante tome consciência, gra­ pre favorável à criança, distribuição dos pensio­
ças ao trabalho do grupo, dos processos psíquicos nistas em seis grupos de oito, respeito absoluto ao
que intervém, em sua relação com seus pacientes. que a criança deseja, sem intervenção de nenhu­
ma hierarquia, pois, segundo diz, "o poder corrom­
B e t te lh e im (B ru n o ). Psicanalista americano de pe". Seus métodos referem-se a S. Freud, a A. Ai-
origem austríaca (Viena, 1903 — Silver Spring, chorn e, sobretudo, a E. Erikson, promotor do
Maryland, 1990). "princípio da segurança fundamental". Bettelheim
Depois dos estudos de Psicologia, adquire uma também se ligou à corrente da psicologia do ego.
formação psicanalítica. Foi deportado, por ser de Depois de ter escrito Diálogo com as mães (1962) e
origem judia, para Dachau e Buchenwald, de onde se interessado pelos mitos e contos de fadas (Psi­
Binswanger (Ludwig) 28

canálise dos contos de fadas, 1976), publica As feridas Grundformen und Erkenntnis menschlichen Daseins
simbólicas (1976). A importância de Bettelheim, (1942), e Schizophrenie (1957). É nessa última obra
embora às vezes contestada, é marcada especial­ que está O caso Susan Urban.
mente pela vontade de dar à criança toda a facul­
dade de autonomia possível, inclusive em suas ten­ Bion (Wilfred Ruprecht). Psiquiatra e psica­
dências à retração, para que aceda por si mesma nalista britânico (Mutra, hoje Mathura, índia, 1897
ao outro e ao mundo, de forma pessoal e autênti­ — Oxford, 1979).
ca. Aluno de M. Klein, presidiu a Sociedade Bri­
tânica de Psicanálise (1962-1965). Orientou uma
Binswanger (Ludwig). Psiquiatra suíço (Kreu- parte de seu trabalho para os pequenos grupos,
zlingen, 1881 — id. 1966). sobretudo para a análise dos psicóticos. Sua con­
Tentou uma síntese entre a psicanálise e a fe- tribuição estende-se ao estudo do "aparelho pro-
nomenologia, com predominância clara dessa so­ tomental", que definiu como um sistema que cons­
bre a primeira. titui um meio de abordagem dos fenômenos psi-
Originário de uma família de psiquiatras, que cossomáticos, ao estudo do movimento "desinte-
possuía a clínica de Kreuzlingen, junto ao lago de gração-integração", que opera em toda a aprendi­
Constance, continua os estudos, tanto médicos zagem por experiência, ao estudo do psiquismo,
como filosóficos, em Lausanne e Heidelberg. Em visto como sistemas gastrointestinal/intelectual-
Zurique, para onde vai em seguida, foi aluno e emocional. Também se interessou pelo desenvol­
depois assistente de E. Bleuler, no hospital psiqui­ vimento do pensamento da criança — e de seus
átrico de Burghõlzli, onde conheceu C. Jung, que distúrbios — em estreita relação com a capacida­
acompanha a Viena, em 1907, para se encontrar de materna de "contê-la", de receber suas proje­
com S. Freud, e iniciar uma formação psicanalíti- ções e de alimentá-la psiquicamente. Suas princi­
ca. Esta formação irá levá-lo ao comitê-diretor da pais obras são Pesquisas sobre os pequenos grupos
Sociedade Suíça de Psicanálise, em 1919. (1961), Nas fontes da experiência (1962), Elementos da
Embora dirigindo a clínica familiar, passa a psicanálise (1963), Transformação (1965), A atenção e
interessar-se, cada vez mais, pela fenomenologia a interpretação (1970) e Uma memória do futuro (1975-
de E. Husserl, e depois de M. Heidegger, aplican­ 1979).
do-a à observação clínica e ao estudo psicopatoló-
gico de seus doentes, publicando alguns casos, que Bonaparte (Mane Léon). Psicanalista france­
se tomaram célebres, em particular os de Susan Ur- sa (Saint-Cloud, 1882— Saint-Tropez, 1962).
ban e de Ellen West. Em Existência apresentou lon­ Filha do príncipe Roland Bonaparte e casada
gamente essa última observação, como um mode­ com o príncipe Georges da Grécia e da Dinamar­
lo da análise existencial, preconizada por Binswan­ ca, foi analisada por S. Freud, a partir de 1920, ten­
ger. Para ele, o psiquiatra deve reconstituir e com­ do sido sua delegada oficial, em Paris, tendo par­
preender, fenomenologicamente, o mundo da ex­ ticipado da fundação da Sociedade Psicanalítica de
periência interior de seu doente, se desejar tentar Paris (1926) e da Revue Française de Psychanalyse
curá-lo. Esse é o "estar-no-m undo", o "Dasein" (1927). Auxiliou Freud e sua família a fugir do na­
(Heidegger), que deve permanecer no centro des­ zismo e a instalarem-se em Londres. Além das pri­
ta análise, que Binswanger desenvolveu longamen­ meiras traduções dos textos de Freud, deve-se a
te, em seus seis artigos dos Archives suisses de neu- ela E. Poc, sa vie, son oeuvre, éthude analytique (1931),
rologie et de psychialrie, a respeito da consciência, Introduction à la théorie des instinds (1934) e Psycha­
ou mais precisamente do "mundo maníaco", so­ nalyse et anthropologie (1952), além de vários textos
bre a fuga das idéias (Über Ideenflucht, série de ar­ sobre a sexualidade feminina, entre os quais La $e-
tigos de 1930 a 1932, publicados, com esse título, xualité de lafemme (1951).
em 1933).
Mesmo afastando-se, cada vez mais, da orto­ Breuer (Josef). Médico austríaco (Viena, 1842 —
doxia psicanalítica, Binswanger permanece, até o id., 1925).
fim, fiel a Freud, dedicando-lhe seu último livro Deve-se a Breuer a descoberta do mecanismo
de lembranças ( Erinnerungen an Sigmund Freud). Os da auto-regulação da respiração e do controle das
artigos importantes foram reunidos e publicados posturas corporais pelo labirinto. Clínico notável,
(1947), sendo traduzidos para o francês, sob o tí­ tomou-se principalmente conhecido por seu encon­
tulo Introduction à Vanahjse exislentielle (1971; reed. tro com S. Freud (1880), com quem colaborou, a
1989). Suas obras mais marcantes são Einfiihrung partir de 1882, inaugurando pelo célebre estudo do
in die Probleme der allgemeinen Psychologie (1922), caso Anna O*, fundamental para a compreensão
29 bulimia

psicopatológica da histeria, assim como, também, uma origem completamente diferente. No entan­
como ponto de partida da teoria do inconsciente e to, encontra-se muitas dificuldades, quando se pro­
do método analítico, antecipado por ele, sob o cura situar a estrutura psíquica da qual depende a
nome de método catártico*. bulimia.
No entanto, Breuer não levou muito longe sua O. Fenichel, muito antes de que a bulimia fos­
cooperação com Freud. Assim como se tinha as­ se considerada uma entidade clínica, já falava, a
sustado com a transferência amorosa muito violen­ seu respeito, da toxicomania sem droga. No entan­
ta, de Anna O a seu respeito, também nunca acei­ to, se a dependência da bulímica, em relação ao
tará completamente a teoria freudiana da etiolo- seu sintoma, pode evocar um fenômeno de toxico­
gia sexual das neuroses. Por isto, a colaboração mania, isso não exclui uma forma de resistência
entre esses dois praticantes terminou em 1895, no ao sobrevir da crise, o que impede que se assimile
mesmo ano em que era publicado o resultado de uma estrutura à outra.
seu trabalho teórico, sob o título "Estudos Sobre a O conflito interior (não tocar na alimentação/
Histeria", obra que, aliás, apresenta, de maneira por que parar no ponto em que se está) poderia,
muito diferente, as teses teóricas dos dois autores, então, evocar a neurose obsessiva? Não é inconce­
em especial a idéia que Breuer tinha sobre os "es­ bível a comparação, porém, permanece muito des­
tados hipnóides", enquanto determinantes dos sin­ critiva. Por outro lado, a dimensão de autodepre-
tomas histéricos. ciação, de degradação, que existe na absorção ma­
ciça de não-importa-o-que, sugeriu a idéia de uma
b u lim ia , s.f. (alem.: Bulimie; fr.: boulimie; ing.: bu­ dimensão melancólica da bulimia, tanto mais que
limia). Perturbação das condutas alimentares, con­ seu desencadeamento seguido acompanha os es­
sistindo no consumo solitário, em determinados tados depressivos.
momentos de crise, de grandes quantidades de ali­ O problema verdadeiro sem dúvida não está
mentos, de forma rápida e aparentemente compul­ aí. Talvez as bulimias não apresentem unidade es­
siva. trutural. Em compensação, a freqüência de formas
Em 1979, apenas, a bulimia foi isolada como "m istas", nas quais se alternam comportamentos
entidade clínica. Aliás, poder-se-ia indagar se as anoréxicos (anorexia) e comportamentos bulímicos,
preocupações em relação à obesidade, nas civili­ assim como, também, a freqüência de um passado
zações ocidentais, e em especial nos Estados Uni­ anoréxico, nos bulímicos, obrigam a questionar a
dos, não estariam, para muitos, nessa elaboração. própria extensão da bulimia. Não seria impossí­
No entanto, nem todos os bulímicos são obesos, vel que muitos dos "bulímicos" que vomitam se­
alguns alternam crises de bulimia e tentativas de jam, de fato, anoréxicos. O diagnóstico de bulimia,
regimes, sendo a crise, durante a qual é absorvida que pode ser, aliás, um autodiagnóstico, faz por si
uma grande quantidade de alimentos, seguida, mesmo parte da patologia, ao vir confirmar, aos
amiúde, por vômitos. olhos da paciente, que seu problema principal é
Não se pode negar que os indivíduos (no caso, devido à necessidade de evitar um aumento pon­
principalmente as mulheres) possam exprimir, no derai.
plano alimentar, conflitos que em geral possuem
c
castigo (necessidade de) (alem.: Strafbedürfiiis; ao membro, e que são recalcados, devido à sua in­
fr.: besoin de punition ; ing.: need for punishment). tensidade. Freud apóia-se em sua experiência ana­
Comportamento de determinados sujeitos que pro­ lítica (em particular, na observação do pequeno
curam situações penosas e humilhantes, compra- Hans) e na existência de numerosos mitos e len­
zendo-se com elas. das, articulados em tomo do tema da castração.
A psicanálise foi levada a pôr em evidência, O mecanismo daquilo que constitui "o maior
no sujeito, consideráveis tendências a proibir-se a trauma da vida da criança" será esclarecido poste­
satisfação, ou a castigar-se com represálias, por riormente. De fato, Freud observa que, com muita
uma satisfação alcançada. Trata-se, pois, mais de freqüência, o menino não leva a sério a ameaça, e
uma autopunição do que uma punição propria­ que esta, por si só, não pode obrigá-lo a admitir a
mente dita, sendo a autopunição uma expressão possibilidade da castração. Por outro lado, "o juí­
da pulsão de morte. zo prévio do menino predomina sobre sua percep­
ção": ao ver os órgãos genitais de uma menina,
c a s tra çã o (com plexo de), (alem.: Kastrati- geralmente diz que o órgão é pequeno, mas que
onskomplex; fr.: complexe de cnstratioii; ing.: castrati- vai crescer. É preciso, pois, a intervenção de dois
on complex). 1. Para S. Freud, conjunto das conse- fatores para que surja o complexo: a visão dos ór­
qüências subjetivas, principalmente inconscientes, gãos genitais femininos e a ameaça de castração
determinadas pela ameaça de castração, no ho­ (possuem o mesmo alcance, simples alusões). Um
mem, e pela ausência de pênis, na mulher. 2. Para único fator é insuficiente, porém o segundo— sua
J. Lacan, conjunto dessas mesmas conseqüências, ordem de ocorrência pouco im porta— traz a lem­
enquanto determinadas pela submissão do sujeito brança do primeiro, em um efeito a posteriori*, de­
ao significante. sencadeando o aparecimento do complexo de cas­
tração. Quando admite a possibilidade da castra­
ção, o menino se vê obrigado, para salvaguardar o
P ara F reud órgão, a renunciar à sua sexualidade (a masturba-
Freud descreve o complexo de castração quan­ ção é a via de descarga genital dos desejos edípi-
do relata a teoria sexual infantil, que atribui a to­ cos, desejos incestuosos). Ele salva o órgão, ao pre­
dos os seres humanos um pênis ("As Teorias Se­ ço de sua "paralisia" e da renúncia à posse da mãe
xuais Infantis", 1908). Sendo o pênis, para o meni­ (a paralisia é momentânea e constitui o "período
no — é considerado apenas o caso do menino —, de latência"). Desta forma, o complexo de castra­
"o órgão sexual auto-erótico primordial", ele não ção põe fim ao de Édipo, exercendo, assim, uma
pode conceber um semelhante seu desprovido de função de normalização ("A Dissolução do Com­
pênis. O complexo de castração só existe devido a plexo de Édipo", 1924). Porém, a normalização não
esse valor atribuído ao pênis, assim como à teoria é nem constante e nem sempre completa. Com fre­
de sua posse universal. O complexo se instala qüência, o menino não renuncia à sua sexualida­
quando a criança é ameaçada, devido à masturba- de, seja porque não querer admitir a realidade da
ção, de ter seu sexo cortado. Ele comporta terror castração, continuando a masturbação ("A Cliva-
(Freud, mais tarde, falará da "angústia de castra­ gem do Ego no Processo de Defesa", 1940), seja
ção") e revolta, proporcionais ao valor conferido porque, apesar da interrupção da masturbação,
31 castração (complexo de)

persiste ou mesmo se acentua a atividade fantas- Entretanto, Freud também enfatiza as conse­
mática edípica, o que irá comprometer a posterior qüências patológicas do complexo de castração e
sexualidade adulta (Esboço de psicanálise, 1938). sua resistência à análise: o complexo de castração
Quando estabelece a existência de uma prima­ é o "rochedo" sobre o qual a análise vai se chocar
zia do falo, para ambos os sexos (tanto a menina (Análise terminável e interminável, 1937). Na mulher,
como o menino conhecem apenas um único órgão a inveja do pênis pode persistir indefinidamente,
genital, o masculino, e qualquer indivíduo despro­ no inconsciente, sendo fator de ciúme e depressão.
vido dele parece-lhes como castrado), Freud insis­ No homem, a angústia de castração é o que consti­
te no fato de que "só se pode apreciar, em seu jus­ tui, amiúde, o limite do trabalho analítico: toda ati­
to valor, o significado do complexo de castração, tude passiva, em relação ao pai, e em geral ao ho­
quando se leva em consideração sua ocorrência na mem, conserva a significação da castração e desen­
fase de primazia do falo" ("A Organização Geni­ cadeia uma revolta, porém a revolta, ao compor­
tal Infantil", 1923). Duas conseqüências decorrem tar imaginariamente a mesma sanção, não conse­
dessa afirmativa. gue ser levada a cabo, e o homem permanece de­
A primeira delas é que as experiências prévi­ pendente, tanto na vida social como em relação
as de perda (a do seio e das fezes, nas quais os psi­ à mulher.
canalistas gostariam de ver outras castrações) não
são da ordem da castração, porque "só se deveria
falar de complexo de castração, a partir do momen­ P ara L acan
to em que esta representação de uma perda esti­ Lacan, que fala mais sobre a castração do que
ver relacionada ao órgão genital masculino". Po- sobre o complexo de castração, define-a como uma
der-se-ia pensar que as experiências anteriores de operação simbólica, que determina uma estrutura
perda não possuem o mesmo significado da cas­ subjetiva: aquele que já passou pela castração não
tração, pois ocorreram em uma relação dual mãe- é mais complexado, ao contrário, é normalizado
filho, enquanto a castração é exatamente aquilo que em relação ao ato sexual. Porém, destaca que exis­
põe fim, em ambos os sexos, a essa relação (como te, nisso, uma aporia: por que o ser humano deve­
o prova o fato de a criança atribuir a castração sem­ rá ser primeiramente castrado para poder chegar
pre ao pai). à maturidade genital? ("A Significação do Falo",
A segunda é que o complexo de castração se 1958; Escritos, 1966). Lacan tenta esclarecê-lo com
refere tanto à mulher como ao homem. "O clitóris a ajuda das três categorias do real, do imaginário
da menina comporta-se, de início, completamente e do simbólico.
como um pênis". Porém, nela, a visão do órgão de Evidentemente, a castração não se refere ao
outro sexo desencadeia, de imediato, o complexo. órgão real, sendo precisamente quando não ocorre
Quando ela vê o órgão masculino, considera-se ví­ a castração simbólica, isto é, nas psicoses, que se
tima de uma castração. Inicialmente, considera-se pode observar mutilações do órgão peniano (ma­
como uma vítima isolada, estendendo depois, de nifestando que "o que é forcluído do simbólico re­
forma progressiva, esse infortúnio às outras crian­ toma no real").
ças e, finalmente, aos adultos de seu sexo, o qual A castração refere-se ao falo, enquanto um ob­
lhe parece, assim, desvalorizado ("A Dissolução do jeto não real, mas imaginário. Por esse motivo La­
Complexo de Édipo"). A forma de expressão que can não considera as relações do complexo de cas­
o complexo assume, nela, é a de inveja do pênis: tração e do complexo de Édipo de forma oposta,
"D e início, ela julgou e decidiu, ela viu isso, sabe de acordo com o sexo. A criança, menina ou meni­
que não o tem e quer tê-lo" ("Algumas Conse­ no, quer ser o falo para captar o desejo de sua mãe
qüências Psíquicas da Diferença Anatômica entre (este é o primeiro momento do Édipo). A proibi­
os Sexos", 1925). ção do incesto (segundo momento) deve desalojá-
A inveja do pênis pode subsistir como inveja lo da posição ideal do falo materno. Essa proibi­
de ser dotada de um pênis, porém a evolução nor­ ção é feita pelo pai simbólico, isto é, por uma lei
mal é aquela em que a menina encontra seu equi­ cuja mediação deve ser assegurada pelo discurso
valente simbólico no desejo de ter um filho, o que da mãe. Porém, ela não visa apenas à criança, visa
a leva a escolher o pai como objeto de amor ("So­ igualmente à mãe, e, por esse motivo, é compre­
bre a Sexualidade Feminina", 1931). Portanto, o endida pela criança como castrando a mãe. No ter­
complexo de castração exerce uma função norma- ceiro momento, intervém o pai real, aquele que tem
lizante, ao fazer a menina entrar no Édipo, orien­ o falo (mais exatamente aquele que, para a crian­
tando-a, assim, para a heterossexualidade. ça, é suposto tê-lo), aquele que, em todo caso, usa-
catártico (método) 32

o e faz-se preferir pela mãe. O menino, que renun­ conhecer que não existe no Outro garantia à qual
ciou a ser o falo, poderá se identificar com o pai, ele próprio possa se prender. Fobia, neurose e per­
tendo, então, "consigo todos os títulos de que vai versão são outras tantas formas de se defender
se servir no futuro". Quanto à menina, esse tercei­ dessa falta. Lacan não considera o complexo de
ro momento ensinou-lhe para que lado ela precisa castração como um limite que a análise não possa
se voltar para achar o falo (Seminário V, 1957-58, ultrapassar. Distingue o temor da castração de sua
"A s Formações do Inconsciente"). assunção ("Sobre o 'Trieb' de Freud e sobre o De­
Portanto, a castração implica, primeiramente, sejo do Psicanalista", 1964; Escritos). Certamente,
a renúncia a ser o falo, mas ainda implica renunci­ o temor da castração é normalizante, pois proíbe o
ar a tê-lo, isto é, a pretender ser o mestre. É de se incesto, mas fixa o sujeito em uma posição de obe­
notar que o falo, que surge sob inúmeros aspectos, diência ao pai, testemunhando que o Edipo não
nos sonhos e nos fantasmas, seja neles regularmen­ foi ultrapassado. Ao contrário, a assunção da cas­
te separado do corpo. Essa separação é explicada tração é a da "falta que cria o desejo", um desejo
por Lacan como um efeito da "elevação" do falo à que deixa de ser submetido ao ideal paterno.
função de significante. A partir do momento em
que o sujeito é submetido às leis da linguagem (a c a t á r t ic o (m éto d o ) (alem.: kathartische Metlto-
metáfora e a metonímia), isto é, desde que entrou de; fr.: méthode catlmrtique; ing.: cathartic method).
em jogo o significante fálico, o objeto fálico é sec- Qualquer método terapêutico que vise obter uma
tal situação de crise emocional, de forma que essa
cionado imaginariamente.
manifestação crítica provoque uma solução do pro­
Correlativamente, é "negativado", na imagem
blema que a crise pôs em cena.
do corpo, o que significa que o investimento libi-
Aristóteles fez da catharsis o eixo de sua con­
dinal constituído pelo falo não é representado nessa
cepção da tragédia: a função trágica consistiría em
imagem. Lacan cita o exemplo da menina coloca­
"purificar" as paixões más (temor, piedade), por
da diante do espelho, que passa rapidamente sua
sua colocação em jogo, à ocasião de representações
mão diante de seu sexo, como para apagá-lo. Quan­
de atos "virtuosos e consumados". J. Breuer e S.
to ao menino, se logo se dá conta de sua insufici­
Freud retomam, a seguir, esse termo, para desig­
ência, em relação ao adulto, irá constatar, ao se tor­
nar seu primeiro método psicanalítico: a revives-
nar adulto, que não é mestre do falo e que deverá
cência de uma situação traumática liberaria o afe­
"aprender a riscá-lo do mapa de seu narcisismo
to "esquecido" e este restituiria o sujeito à mobili­
para que isso possa lhe servir para alguma coisa".
dade de suas paixões. A catarse está ligada à prá­
A castração, ao mesmo tempo que separa o falo
tica da hipnose por Freud; a melhor prova disso é
do corpo, transforma-o em objeto do desejo. Mas que, quando ele elabora as noções de transferên­
isso não se deve, simplesmente, a essa perda ima­ cia e de associação livre, abandonando por isso a
ginária; deve-se, primeiramente, à perda real que hipnose, também abandona a catarse. Freud irá
ela determina. De fato, a castração faz do objeto dizer, muito tempo depois (1920), que esse aban­
parcial, cuja perda, no quadro da relação mãe-fi- dono foi efetuado por ele, quando observou o pa­
lho, jamais é definitiva, um objeto definitivamen­ radoxo provocado pela noção de catarse: de fato,
te perdido, o objeto a (Lacan fala, a esse respeito, se toda revivescência da cena traz consigo uma
do pagamento da libra de carne). Esse "efeito da purificação, não se vê o porquê de sua repetição
castração", que é o objeto a, instala o fantasma, e, renovada não ser seguida de um alívio ainda mai­
por isso, sustenta o desejo. Ele é a "causa do dese­ or. Aliás, tampouco se vê por que o fazer viver uma
jo ", sendo seu objeto o falo. Desta forma, a castra­ cena traumática deveria abolir sua nocividade. A
ção é, como diz ironicamente Lacan, o milagre que transferência não se reduz a uma revivescência de
faz do parceiro um objeto fálico. uma cena antiga. O abandono da noção de catarse
Por isso, ela regula as modalidades do gozo: iria marcar o verdadeiro nascimento do método
autoriza e até mesmo comanda o gozo de um ou­ psicanalítico.
tro corpo ("gozo fálico"), embora obstaculizando
que o encontro sexual possa jamais ser uma unifi­ c e n a p rim itiv a ou c e n a o r ig in á r ia (alem.:
cação. Urszene; fr.: scène primitive ou scene originaire; ing.:
Porém, a castração não se refere apenas ao su­ primai scene). Cena fantasmática ou real, na qual o
jeito, refere-se também, e primeiramente, ao Ou­ sujeito é testemunha do coito de seus pais.
tro, e é nisso que ela instaura uma falta simbólica. Essa cena deve toda a sua importância à sua
Como já foi dito antes, ela é primeiro apreendida parte traumática, tomando-se, deste modo, um
imaginariamente como sendo a da mãe. Contudo, ponto de fixação das representações inconscientes
o sujeito deve simbolizar a falta na mãe, isto é, re­ do sujeito.
33 censura

censura, s.f. (alem.: Zensur; fr.: censure; ing.: cen- mise-formation). Meio pelo qual o recalcado irrom­
sorship). Função psíquica que impede a emergên­ pe na consciência, à qual só pode retomar se não
cia dos desejos inconscientes na consciência, a não for reconhecido (sonho, sintoma neurótico, etc.).
ser de forma disfarçada. Através da formação de compromisso, para­
A finalidade da censura é travestir os conteú­ doxalmente a ação da defesa permanece compatí­
dos dos desejos inconscientes, para que não sejam vel com a satisfação, como um modo desviado do
reconhecíveis pela consciência. Na primeira tópi­ desejo inconsciente. Se, nos primeiros trabalhos de
ca, ela se exerce nos limites dos sistemas, de um S. Freud, a noção de formação de compromisso era
lado o inconsciente, e do outro o pré-consciente- reservada a uma formação de sintoma específica
consciente. Todavia, deve-se notar que Freud tam­ da neurose obsessiva, a idéia de compromisso pa­
bém fala de censura entre pré-consciente e consci­ rece ser indissociável da concepção freudiana da
ente. formação de sintoma (quer seja de formação reati­
Os procedimentos de deformação, utilizados va ou substitutiva). Entretanto, o compromisso, ao
pela censura, são o deslocamento e a condensação, qual geralmente chega toda a produção do incons­
a omissão e a transformação de uma representa­ ciente (sonho, lapso ou ato falho), pode ser fugaz
ção em seu contrário. Tais procedimentos são os ou frágil, e às vezes parecer ausente, à primeira
do trabalho do sonho. análise de certos sintomas, nos quais prevalecem
os mecanismos defensivos.
divagem do eu (alem.: Ichspaltung; fr.: clivagc
du moi; ing.: ego splitting). Coexistência, dentro do compulsão, s.f. (alem.: Zwang; fr.: compulsion;
eu, de dois juízos contraditórios em relação à rea­ ing.: compulsion). Tendência imperativa interior que
lidade exterior. leva o sujeito a realizar determinada ação ou a pen­
A divagem do eu é inseparável da recusa da sar em uma certa idéia, embora a reprove e a in­
realidade. É por isso que, no fetichismo, persistem, terdite, no plano consciente.
lado a lado, sem se influenciar mutuamente, duas Apesar de seu caráter irresistível, o sujeito
posições antagônicas (sem formação de compro­ pode lutar contra essa tendência, cuja não-execu-
misso neurótico), relativas à falta de pênis na mu­ ção é, para ele, geradora de angústia. Às vezes,
lher (recusa e reconhecimento dessa falta). Esse pode não passar ao ato ou transformá-lo em ritu­
mecanismo de defesa é encontrado, além do feti­ ais repetitivos e inofensivos. Isso não acontece com
chismo, na psicose. a impulsão, na qual o ato predomina quase de ime­
diato sobre a luta ansiosa.
divagem do objeto (alem.: Objektspaltung; fr.:
divage de 1'objet; ing.: splitting oftlie object). Meca­ condensação, s.f. (alem.: Verdichtung; fr.: condett-
nismo de defesa arcaico que se manifesta desde a sation; ing.: condensation). Mecanismo pelo qual
posição esquizoparanóide, cindindo, para se sub­ uma representação inconsciente concentra os ele­
trair à angústia, o objeto pulsional em objeto bom mentos de uma série de outras representações.
e mau. De uma maneira geral, é observada em todas
as formações do inconsciente (sonhos, lapsos e sin­
complexo, s.m. (alem.: Komplex; fr.: complexe; ing.: tomas). Esse mecanismo de condensação foi isola­
complex). Conjunto de sentimentos e representa­ do primeiramente por S. Freud, no trabalho do so­
ções, parcial ou totalmente inconscientes, dotado nho. Segundo ele, a condensação visa não apenas
de uma potência afetiva que organiza a personali­ concentrar os pensamentos esparsos do sonho, for­
dade de cada um, marca seus afetos e orienta suas mando unidades novas, mas também criar com­
ações. promissos e meios-termos entre diversas séries de
O termo, introduzido por E. Bleuler e C. G. representações e pensamentos. Por seu trabalho
Jung, foi muito pouco utilizado por S. Freud, ex­ criativo, a condensação parece mais adequada do
ceto em um número restrito de casos: complexo de que outros mecanismos, para fazer emergir o de­
castração, complexo de Edipo e complexo pater­ sejo inconsciente, frustrando a censura, mesmo
no. que, por outro lado, torne mais difícil a leitura da
narrativa manifesta do sonho. No nível econômi­
castração (com plexo de), Édipo (com plexo co, permite o investimento em uma representação
de). particular de energias ligadas, primitivamente, a
uma série de outras representações. Na teoria la-
compromisso (formação de), (alem.: Kompro- caniana sobre as formações do inconsciente, a con­
miflbildung; ír.:formation de compromis; ing.: compro- densação é assimilada a uma "superimposição de
conflito psíquico 34

significantes", cujo mecanismo se compara ao da sen, significando consciência moral. Esse segundo
metáfora*. Nessa perspectiva, a primazia é confe­ termo está ligado, mais especialmente, às coloca­
rida à condensação dos elementos de linguagem, ções de Totem e tabu (1912), e à segunda tópica. O
e as imagens do sonho são retidas, principalmen­ primeiro flutua entre os dois sentidos: consciência,
te, por seu valor de significantes. consciente, freqüentemente tomados um pelo ou­
tro.
c o n flito p s íq u ic o (alem.: psychischer Konflikt; fr.: Todavia, pode-se considerar que Freud foi le­
conflil psychique; ing.: psychical conflict). Expressão vado a utilizar dois sistemas: 1. o sistema incons-
de exigências internas inconciliáveis, tais como ciente-pré-consciente-consciente, no qual o consci­
desejos e representações opostas, e, mais especifi­ ente é um lugar particular do aparelho psíquico,
camente, de forças pulsionais antagônicas (o con­ lugar separado do inconsciente pelo pré-conscien-
flito psíquico pode ser manifesto ou latente). te, que constitui a passagem obrigatória para um
S. Freud propôs, sucessivamente, duas descri­ eventual acesso ao consciente (de imediato, pode-
ções do conflito psíquico. se ver a proximidade consciente-consciência, e a
Dentro da primeira teoria do aparelho psíqui­ possível confusão das duas palavras, confusão que
co, o conflito é concebido como a expressão da opo­ não deixa de ocorrer); 2. o sistema percepção-cons-
sição dos sistemas inconsciente, por um lado, e pré- ciência, que aparece mais tardiamente, no qual a
consciente-consciente, por outro: as pulsões sexu­ consciência desempenha o papel de um órgão dos
ais, mantidas afastadas da consciência por uma sentidos.
instância recalcadora, são representadas nas diver­ Nos textos que se sucedem de 1895 ("Projeto
sas formações do inconsciente (sonhos, lapsos), para uma Psicologia Científica") a 1938 ("Esboço
embora sofrendo uma deformação pela censura. de Psicanálise"), Freud fala da consciência como
A partir de 1920, com a última teoria do apa­ de uma qualidade do psíquico.
relho psíquico, o conflito psíquico é descrito de Na realidade, parece que a noção de consciên­
maneira mais complexa e diversificada: diferentes cia deixa-o em um embaraço muito grande.
forças pulsionais animam as instâncias psíquicas,
e as oposições conflitivas das pulsões (pulsão de
autoconservação e pulsão de conservação da espé­
D esenvolvimento
cie ou amor do eu e amor objetai) "situam-se no O lugar dado por Freud ao inconsciente con­
quadro de Eros" ("Esboço de Psicanálise", 1938). tradiz necessariamente o que é fornecido basica­
Quanto à pulsão de morte, ela só se toma um mente pelos filósofos de seu tempo, para os quais
pólo conflitivo à medida que tende a se desunir a consciência é a essência do psiquismo, isto é, a
da pulsão de vida, como na melancolia. faculdade que permite ao homem tomar consciên­
Em cada tipo de oposição considerada por cia, tanto do mundo exterior quanto daquilo que
Freud, para explicar o conflito psíquico, o papel se passa dentro de si mesmo, e que rege seus com­
conferido à sexualidade surge como primordial. portamentos. Sua experiência clínica leva-o, ao con­
Ora, a evolução dessa última, no sujeito, passa pela trário, a afirmar que a consciência nada mais é do
resolução do conflito decisivo, que é o complexo que uma parte do psíquico, e que ela não toma co­
de Edipo. nhecimento de determinados fenômenos, precisa­
mente aqueles que o obrigam a postular o incons­
c o n s c iê n c ia , s.f. (alem.: Beioufltsein; fr.: conscien- ciente.
ce; ing.: consciousness, awareness). Na primeira tópi­ Tal posição, de alguma forma negativa, não é
ca de Freud, lugar do psiquismo, que pode ser con­ uma definição. Freud não sente necessidade de dar-
siderado como equivalente a um órgão dos senti­ lhe uma, serve-se do termo, em um contexto im­
dos.O
S preciso, porém lhe atribui as características ao sa­
bor de seu trabalho.

O S PROBLEMAS DA DEFINIÇÃO PSICANALÍTICA

Diversas acepções referem-se ao termo consci­


C aracterísticas t

ência, que o inglês (consciousness, estado de consci­ Poder-se-ia esperar encontrá-las reunidas, no
ência; aioareness, consciência, conhecimento; cons- artigo que Freud escreveu sobre isso, em 1915, po­
cience, consciência moral) e o alemão permitem dis­ rém não-publicado. Por isto, foi-se levado a reunir
tinguir, ao contrário do francês. Em alemão, dis- os dados dispersos. Em Freud, n'A interpretação de
tinguem-se: 1. Beivufitsein, que, em Freud, designa sonhos, as distinções inconsciente-pré-consciente-
tanto a consciência como o consciente e 2. Geivis- consciente "pressupõem uma concepção particu­
35 consciência

lar da essência da consciência. Para mim, o fato de e a consciência moral, à qual estão ligadas a culpa
se tornar consciente é um ato psíquico particular, e a angústia, assume uma dimensão analítica.
distinto e independente do aparecimento de um
pensamento ou de uma representação. A consci­
ência me surge como um órgão dos sentidos, que
L acan
percebe o conteúdo de um outro domínio". O ato Cinqüenta anos depois d 'A interpretação de so­
psíquico, que permite esse tornar-se consciente, é nhos (1900), Lacan constata que, em seu auditório,
sustentado pela atenção, função psíquica sobre a "existe mais de um cuja formação é de Filosofia
qual tantas vezes Freud insiste, destacando sua tradicional, e para quem a percepção da consciên­
necessidade, em razão da fugacidade espontânea cia por si mesma é um dos pilares da concepção
da consciência. A orientação da atenção favorece a do mundo", isto é, o essencial da mensagem de
passagem para o consciente das representações pré- Freud parece esquecido, ou até mesmo rejeitado.
conscientes, assim como a energia investida em tais Muitos dos discípulos desse último centram o tra­
representações, energia que força — são esses os balho do tratamento no eu e suas resistências. La­
termos freudianos — essa passagem. Quanto ao can insiste na "inversão de perspectiva que a aná­
inconsciente, "em nenhum caso pode se tornar lise impõe". Ele avança que o sujeito que fala é o
consciente", fora do trabalho do tratamento, que sujeito do inconsciente e opera uma verdadeira fra­
deve permitir a tomada de consciência do recalca­ tura na teoria analítica, ao separar esse sujeito do
do (o que se chama de retorno do recalcado). inconsciente do eu consciente, assim como ao rea­
A função psíquica da atenção permite que se firmar a dimensão imaginária desse, como o fize­
constitua um sistema de referências que são con­ ra em 1936, em sua comunicação sobre "A Fase do
signadas na memória, cuja sede é o pré-conscien- Espelho". Certamente parece ser necessária a fas­
te, pois memória e consciência se excluem. De fato, cinação, para a constituição do eu, mas ela não
ele é tanto o pólo consciente do aparelho psíquico pode prosseguir no tratamento.
imaginado por Freud, como seu pólo perceptivo: Aqui, a consciência, suporte do eu, não ocupa
são filtros que não retêm nenhuma informação. mais um lugar central; o eu nada mais é, segundo
Entre as percepções que chegam à consciência, é a Lacan, do que a soma das sucessivas identificações,
"prova de realidade" que, no nível do pré-consci- o que lhe dá o estatuto de ser um outro para si
ente, fez a triagem, e decidiu por sua rejeição ou mesmo, e é o sujeito do inconsciente que nos inter­
aceitação. Como a memória e a consciência se ex­ roga. Entre os dois, "há não apenas dissimetria
cluem, esta não pode ser a sede do conhecimento, absoluta, mas diferença radical", diz ainda Lacan,
e esse ponto vai, pois, de encontro ao pensamento que ilustra seu propósito por meio do esquema L
contemporâneo de Freud. Pelo contrário, a identi­ (materna, Fig. 1), no qual são representados em S
dade da consciência e da razão é mais bem com­ o sujeito e em a, o eu, introduzindo o Outro A a
preendida à medida que o seu exercício é descon­ ordem simbólica. Lacan não negligencia a consci­
tínuo. A este respeito, a relação com o tempo está, ência, mas denuncia suas ilusões. Para ele, a cons­
segundo Freud, "ligada ao trabalho do sistema ciência não é conhecimento, mas “mé-connaissan-
consciente". ce" (des-conhecimento), no qual joga com o duplo
Pertencem também à consciência "a pronún­ sentido do “mé"\ conhecimento (até que ponto?) do
cia de julgamento imparcial" e a transformação "da eu e o inverso do conhecimento. Acrescentamos
descarga motora em ação", de acordo com sua ex­ que ele não deixa a percepção em seu estatuto freu­
pressão nas "Formulações sobre os dois Princípios diano de puro filtro, ele a estrutura, ligando-a ao
do Suceder Psíquico" (1911). É ela, finalmente, que simbólico, pois a quem serviría o percebido se não
rege a afetividade. fosse nomeado? "E pela nominação que o homem
Totem e tabu vê a introdução da consciência faz subsistir os objetos, em uma certa consistên­
moral como "a percepção interna da rejeição de cia". Quanto ao desejo, por ser em grande parte
certos desejos que experimentamos". Os textos ul- inconsciente, em certa medida escapa à consciên­
teriores, em particular a segunda tópica (o eu, o cia. Apesar da retomada, por Lacan, dos textos de
supereu e o isso), distinguem a consciência moral Freud, fica estabelecida, entre suas duas concep­
da consciência. "Nós a contaremos [a consciência ções da consciência, uma distância que não pode
moral], com a censura da consciência e a prova de se refletir na condução do tratamento. No entanto,
realidade, no número das grandes instituições do Lacan escreveu: "Sua experiência impôs a Freud
eu". Desde logo, o eu ocupa uma posição central, refazer a estrutura do sujeito humano, descentran-
consciente 36

do-o em relação ao eu, e transportando a consci­ encontra na pulsão de vida a inflexão dessa ten­
ência para uma posição sem dúvida essencial, mas dência, sob o efeito organizador de Eros.
problemática. Eu diria que o caráter inapreensível,
irredutível em relação ao funcionamento do viven- c o n tr a tr a n s fe r ê n c ia , s.f. (alem.: Gegenübertra-
te, da consciência, é, na obra de Freud, alguma coi­ gung; fr.: contre-transfert; ing.: counter-transference).
sa tão importante de ser apreendida, como a que Conjunto das reações afetivas conscientes ou in­
ele nos forneceu sobre o inconsciente". conscientes do analista para com seu paciente, ao
qual historicamente se reconheceu um lugar im­
c o n s c ie n te , s. m. (alem.: [das] Bewufite; fr.: cons- portante no tratamento, lugar que atualmente é
cient; ing.: conscicnce). 1. Conteúdo psíquico que em contestado.
determinado momento, pertence à consciência. 2. Freud, que analisou demoradamente, em suas
Lugar do aparelho psíquico relacionado com o fun­ obras, a noção de transferência*, dá igualmente um
cionamento do sistema percepção-consciência. lugar, de forma aliás bastante mais pontual, a um
consciência. outro fenômeno, aparentemente simétrico, a "con­
tratransferência". Entretanto, parece que, nele, esse
c o n s tâ n c ia (p rin cíp io de) (alem.: Konstanzprin- lugar seria definido essencialmente em termos ne­
cip; fr.: príncipe de constance; ing.: principie of cons- gativos. A contratransferência constituiria aquilo
tance). Princípio proposto por S. Freud como fun­ que, do lado do analista, poderia perturbar o tra­
damento econômico do princípio de prazer, segun­ tamento. Em um tratamento— escreve ele — "ne­
do o qual o aparelho psíquico visaria manter cons­ nhum analista poderá ir além do que seus própri­
tante seu nível de excitação, por diversos mecanis­ os complexos e resistências internas lhe permiti­
mos de auto-regulação. rem" ("Recomendações aos Médicos que Exercem
Em 1873, G. Fechner já havia formulado a hi­ a Psicanálise" [1912]). É por isso que é convenien­
pótese de um princípio de estabilidade, que esten­ te que o analista reconheça tais complexos e resis­
dia à área da psicofisiologia o princípio geral da tências aprioristicamente inconscientes. A partir
conservação da energia. Em suas primeiras formu­ disso foi que se impôs o que se chamaria de se­
lações teóricas (1895), Freud não se limita (ao con­ gunda regra fundamental da psicanálise, a saber:
trário de J. Breuer) a descrever um sistema de auto- a necessidade de que o futuro analista seja ele pró­
regulação do organismo, no qual domina o princí­ prio analisado o mais completamente possível.
pio de constância. De seu ponto de vista, o funcio­ Um autor, S. Ferenczi, insistiu particularmen­
namento do sistema nervoso é submetido ao "prin­ te nesse ponto. Ferenczi estava muito atento ao fato
cípio de inércia", significando, para Freud, que ele de que os pacientes poderíam sentir como pertur­
obedece à tendência dos neurônios a se desfaze­ badores não apenas determinados comportamen­
rem de uma certa quantidade de excitação. A lei tos manifestos, mas também certas disposições in­
da constância nada mais seria do que a inflexão conscientes do analista, a respeito deles. Porém,
provisória do princípio de inércia, imposto pelas Ferenczi não se contentou em recomendar uma
urgências da vida. Essa hipótese seria retomada e análise o mais profunda possível do analista. Veio
esclarecida em A interpretação de sonhos (1900), onde a praticar uma "análise mútua", na qual o próprio
se vê que o escoamento livre das quantidades de analista verbalizava, em presença de seu paciente,
excitação, que caracteriza o sistema inconsciente, as associações que pudessem lhe vir, relacionadas
é inibido, no sistema pré-consciente-consciente. com suas próprias reações. Esse aspecto de sua téc­
Essa hipótese prefigura a oposição entre princípio nica evidentemente apresentou consideráveis di­
de realidade e princípio de prazer, marcada pela ficuldades, tendo sido abandonado.
tendência a manter constante o nível de excitação. Sem chegar até essa prática, muitos analistas
É apenas em 1920, em Além do princípio de pra­ elaboraram, em especial nos anos 1950 e 1960, uma
zer, que se encontrará a formulação definitiva do teoria articulada da contratransferência. Pode-se
princípio de constância. Esse último é assimilado citar, em particular, os nomes de P. Heimann, M.
ao princípio de nirvana, entendido como a "ten­ Little, A. Reich e L. Tower (todas analistas mulhe­
dência à redução, à supressão da excitação inter­ res). Sem nos demorarmos demasiado sobre o que
na". Tal observação, que parece indicar o abando­ distingue sua abordagem, pode-se observar que
no da distinção entre princípio de inércia e princí­ essas analistas não reduzem a contratransferência
pio de constância talvez seja apenas aparente, à a um fenômeno que iria contrariar o trabalho ana­
medida que Freud caracteriza a pulsão de morte lítico. A sua maneira, constituiria também um ins­
pela tendência à redução absoluta das tensões e trumento que iria favorecê-lo, desde que, pelo me­
37 culpa (sentimento de)

nos, o analista esteja atento a ele. Assim, para Pau­ objeto, objeto fundamentalmente perdido, objeto
la Heimann, "a resposta emocional imediata do que Lacan chama de objeto a. Portanto, a questão
analista é um sinal de sua abordagem dos proces­ não é saber o que, como sujeito, ele sente, mas si­
sos inconscientes do paciente Tomada como tuar aquilo que, como analista, pode — ou deve
tal, "ela ajuda o analista a focalizar sua atenção — desejar: questão ética, pode-se ver, antes do que
sobre os elementos mais urgentes das associações psicológica. Sobre esse ponto, Lacan indica, espe­
do paciente no limite, permite-lhe prever o cialmente, que o desejo do analista, enquanto tal,
desenvolvimento do tratamento. Assim, poderia vai no sentido contrário ao da idealização e que
ser que determinado sonho do analista ajudasse a revela que o estofo do sujeito é constituído pelo
trazer à luz elementos ainda não visíveis no dis­ objeto a, e não pela imagem idealizada de si mes­
curso do paciente. mo, com a qual se poderia comprazer. Vê-se o
O que se está pensando atualmente sobre o quanto essa problemática, que representa a análi­
problema da contratransferência? Se ainda não se a partir de seu fim, afasta-se da problemática
desapareceu, pode-se afirmar que ela foi questio­ da contratransferência, que freqüentemente apri­
nada por Lacan e por seus discípulos. siona o tratamento em esquemas repetitivos, dos
Lacan não nega que o próprio analista possa quais, às vezes, é muito difícil de se escapar.
ter algum sentimento em relação ao seu paciente e
que ele possa, ao se interrogar sobre o que provo­ cu lp a (s e n tim e n to de) (alem.: Schuldgefiihl; fr.:
ca isso, referenciar-se um pouco melhor no trata­ scniimcnt de culpabilité; ing.: sense ofguilt). Sentimen­
mento. Porém, o problema apresentado pela teo­ to consciente ou inconsciente de indignidade que
ria da contratransferência é o da simetria que es­ seria, segundo S. Freud, a forma sob a qual o eu
tabelece entre analista e paciente, como se ambos percebe a crítica do supereu.
estivessem igualmente engajados como pessoas, Freud evidenciou, pela primeira vez, o senti­
como ego, no desenvolvimento da psicanálise. mento de culpa, na neurose obsessiva, na qual de­
É preciso, a esse respeito, voltar à própria monstra a revolta do eu contra a crítica que lhe faz
transferência. Certamente, ela se estabelece em di­ o eu ideal. Esse sentimento pode ser qualificado
versos planos e não se pode negar que o analisan­ de "inconsciente", à medida que o sujeito, que per­
do percebe, na ocasião, a relação com seu analista cebe suas manifestações sob a forma de idéias ob-
como simétrica, supondo nele, por exemplo, um sedantes, nada sabe sobre a natureza dos desejos
amor semelhante ao seu, ou ainda vivendo a situ­ inconscientes que subjazem a elas. Na melancolia,
ação na dimensão da competição, da rivalidade. o sentimento de culpa também ocupa um lugar
Porém, a transferência é fundamentalmente diri­ essencial; mas aqui, a instância crítica (ou "consci­
gida a um Outro, além do analista, e é nesse lugar ência moral"), que é separada do eu pela divagem,
que pode surgir uma verdade. Às vezes, no entan­ permite que o sujeito "reverta" sobre o próprio eu
to, o sujeito, aproximando-se mais daquilo que as censuras contra o objeto de amor. O caráter neu­
para ele tem valor de conflito patogênico, mani­ rótico do sentimento de culpa está ligado à impos­
festa uma resistência e faltam-lhe as associações, sibilidade do sujeito de ultrapassar a problemáti­
porque ele transpõe para a pessoa do analista as ca edípica. Entretanto, no caso de uma resolução
moções ternas ou agressivas que não pode verba­ normal do complexo de Edipo, o sentimento de
lizar. E nesse nível, em particular, que a transfe­ culpa permanece, em grande parte, inconsciente,
rência assume uma dimensão imaginária. Entre­ pois o aparecimento da consciência moral está in­
tanto, o analista não deve reforçá-la, o que faria se timamente ligado ao complexo de Édipo, perten­
se representasse a relação analítica como sendo cente ao inconsciente. O sentimento de culpa in­
uma relação interpessoal, relação na qual a trans­ consciente é um dos principais obstáculos encon­
ferência e a contratransferência responderíam, em trados no tratamento analítico. Não existe, escreve
eco, uma à outra. Freud, um meio "direto" de combatê-lo. O único
Se, afinal, o termo contratransferência não é per­ meio propriamente analítico consiste em transfor­
tinente é porque o analista, no dispositivo do tra­ má-lo progressivamente em sentimento de culpa
tamento, não é um sujeito. Tem, antes, a função de consciente.
d
d e fe s a , s.f. (alem.: Abwehr; fr.: défense; ing.: defen- d e lírio , s.m. (alem.: Delir, Wahn; fr.: délire; ing.:
ce). Operação pela qual um sujeito, confrontado delusion). Segundo S. Freud, tentativa de cura, de
com uma representação insuportável, recalca-a, por reconstrução do mundo exterior, pela restituição
falta de meios de ligá-la, através de um trabalho da libido aos objetos, privilegiada na paranóia e
de pensamento, a outros pensamentos. tomada possível graças ao mecanismo da projeção,
r Para cada afecção psicogênica, S. Freud iden­ que permite que aquilo que foi abolido dentro re­
tificou mecanismos de defesa típicos: a conversão torne ao sujeito de fora.
' somática, na histeria; o isolamento, a anulação re­ Em 1911, Freud concluiu "Notas Psicanalíticas
troativa e as formações reativas, na neurose obses­ sobre um Relato Autobiográfico de um Caso de
siva; a transposição do afeto, na fobia; a projeção, Paranóia" (Dementia paranoides), da seguinte ma­
na paranóia. Na obra de Freud, o recalcamento neira: "O s raios de Deus schreberianos, compostos
possui um estatuto particular, pois, por um lado, de raios de sol, de fibras nervosas e de espermato­
ele institui o inconsciente e, por outro, é o meca­ zóides condensados, no fundo, nada mais são do
nismo de defesa por excelência, _sobre o qual são que a representação concretizada e projetada para
moldados os demais. Aos destinos pulsionais, con­ fora de investimentos libidinais, fazendo com que
siderados como processos defensivos, acrescentam- o delírio de Schreber apresente uma notável con­
se o retomo sobre si mesmo, a inversão da pulsão cordância com nossa teoria". E acrescenta: "O fu­
em seu contrário e a sublimação. Em seu conjunto, turo dirá se a teoria contém mais loucura do que
os mecanismos de defesa são postos em ação para gostaria, ou a loucura mais verdade do que os ou­
evitar as agressões internas das pulsões sexuais, tros estão dispostos, atualmente, a lhe creditar".
cuja satisfação parece conflitiva para o sujeito, e Assim, o valor que Freud atribui ao texto do delí­
para neutralizar a angústia que disso deriva. En­ rio de Schreber, a liberdade que toma, é, diz La-
tretanto, observar-se-á que, em Inibições, sintomas e can, "simplesmente aquela, decisiva na matéria, de
ansiedade (1926), Freud, a partir, em especial, de nela introduzir o sujeito como tal, o que significa
uma reinterpretação da fobia, foi levado a privile­ não julgar o louco em termos de déficit e de disso­
giar "a angústia diante de um perigo real" e a con­ ciação das funções". É desta posição freudiana ini­
siderar como derivada a angústia diante da pul­ cial, o apoio feito sobre o texto de Schreber (Mé-
são. moires d'un névropathe, 1903), que J. Lacan irá par­
Freud atribui ao eu a origem da defes_a. Por­ tir, para colocar à prova, na tese do inconsciente
tanto, o conceito necessariamente remete a todas estruturado como uma linguagem, a questão da
as dificuldades ligadas à definição de eu, confor­ psicose e do delírio. É testemunho disso o Semi­
me ele seja o representante do princípio de reali­ nário III, 1955-56, "As Psicoses", retomado em sua
dade, que teria uma função de síntese, ou, antes, o essência em 1959, no texto "Sobre uma Questão
produto de uma identificação imaginária, objeto Preliminar a qualquer Tratamento Possível da Psi­
do amor narcisista. cose" (Escritos, 1966). O conjunto desses textos, in-
39 delírio

dusive o de Schreber, constitui a referência indis­ procedimento de transformação gramatical de uma


pensável à abordagem psicanalítica da questão do proposição inicial, procedimento que constitui o
delírio. verdadeiro mecanismo da formação do delírio.
Assim, ele observa que as diferentes formas de
delírio da paranóia correspondem às diversas pos­
S ig n if ic a ç ã o e m e c a n i s m o d o d e l ír i o
sibilidades gramaticais de declinar a contradição
Freud desliga-se radicalmente das concepções de uma proposição inicial, cujo conteúdo é um fan­
de sua época, no que diz respeito ao significado tasma de desejo homossexual: "eu o am o". Con­
do delírio: "O que tomamos por uma produção forme essa contradição, tomemos aqui o caso de
mórbida, a formação do delírio, na realidade é uma um homem, refere-se ao verbo (eu o odeio), ao ob­
tentativa de cura, uma reconstrução". Como enten­ jeto (eu a amo, e não a ele) ou o sujeito (ela o ama),
der essa definição? Na concepção freudiana do temos o primeiro tempo da formação do delírio de
aparelho psíquico, tal como é articulada na primei­ perseguição, erotomaníaco ou de ciúme. O segun­
ra tópica, essa definição dá ao delírio o significa­ do tempo, o da projeção, corresponde a uma inter­
do de sintoma, isto é, de uma formação de substi­ venção do sujeito da proposição intermediária, e
tuto, cujas condições de aparecimento dependem completa a fórmula delirante, tomando-a aceitá­
de um mecanismo geral, comum à neurose e à psi­ vel para a consciência: ele me odeia (perseguição),
cose. Assim, as propriedades atribuídas ao delírio, ela é que me ama (erotomania). Esse tempo da pro­
a tentativa de cura e a reconstrução, também se re­ jeção não é necessário para instalar a fórmula do
ferem a outras formações substitutivas (conversão, delírio de ciúme. É a partir do conjunto dessa de­
obsessão, etc.). Elas são as manifestações dessa eta­ dução gramatical que Freud deu uma definição do
pa da evolução de todo processo psicopatológico, mecanismo do delírio: "O que foi abolido dentro
que intervém após a etapa do recalcamento e que retoma de fora".
Freud chama de "o retorno do recalcado". Se o re­
calcamento consiste em desligar a libido dos obje­
A METÁFORA DELIRANTE
tos do mundo exterior, na realidade, o retomo do
recalcado é, ao contrário, uma tentativa de resti­ Lacan partirá dessa dedução gramatical e da
tuição da libido ao mundo exterior, mas de um definição freudiana do delírio, relacionando-as,
modo regressivo em relação ao anterior. Se o sig­ respectivamente, com a dimensão da mensagem (a
nificado do retomo do recalcado, como tentativa significação) e com a do código (o tesouro do sig-
de cura, possui um alcance geral, em compensa­ nificante), que lhe permitirão distinguir, no delí­
ção o sintoma pelo qual se manifesta, irá depen­ rio psicótico, a relação do sujeito com o outro, no
der de condições particulares. No que se refere ao registro imaginário (pequeno outro) e no registro
delírio, que Freud relaciona de uma maneira pa­ simbólico (grande Outro). Na vertente da mensa­
radigmática com a paranóia, é conveniente conce­ gem, a proposição inicial — "eu o am o" — retoma
bê-lo como um meio do sujeito de se defender con­ enquanto significação ao sujeito, segundo as três
tra um afluxo da libido homossexual. Na paranóia, modalidades de formação do delírio, isto é, segun­
com efeito, a libido, antes desligada do mundo ex­ do as três formas de alienação primitiva da rela­
terior pelo recalcamento, permanece algum tempo ção com o outro, que diferenciam três tipos de pre­
flutuante, vindo depois reforçar, pela regressão, os sença, de estruturação do pequeno outro; no delí­
diversos pontos de fixação produzidos durante seu rio. Lacan, assim, distingue:
desenvolvimento e, sobretudo, o fantasma do de­ — A alienação invertida da mensagem, no de­
sejo homossexual, primordialmente recalcado na lírio de ciúme, onde o sujeito faz sua mensagem
infância. Esse afluxo da libido homossexual— cuja ser levada por um outro, um alter ego, cujo sexo
tendência, para poder se escoar, é de sexualizar os foi modificado: "É ela que o am a"; a característica
investimentos sociais do sujeito e, em particular, principal do pequeno outro é aqui ser indefinido,
as relações com pessoas do mesmo sexo — repre­ assim como é demonstrado na clínica: não é um
senta, assim, uma dupla ameaça: a de aniquilar as homem em particular que está implicado no delí­
aquisições da sublimação e a de originar represen­ rio de ciúme, mas não importa qual homem.
tações inaceitáveis, como tais, pela consciência. — A alienação desviada da mensagem, no de­
Portanto, no que consiste o mecanismo do de­ lírio erotomaníaco: "N ão é ele que eu amo, é ela";
lírio, que permite que o sujeito se defenda, em tal as principais características do outro ao qual se di­
situação? Freud evoca esse mecanismo como sen­ rige o erotômano são o afastamento, a desperso-
do uma projeção. Porém, também se deve observar nalização e a neutralização, que permitem que ele
que ele o articula como o segundo tempo de um cresça até as próprias dimensões do mundo.
demanda 40

— A alienação convertida da mensagem, no tido que o uso cotidiano que se faz dele em geral
delírio persecutório, no sentido de que, por um dá a entender, mas que também dissimula.
mecanismo semelhante à denegação, o amor se J. Lacan introduziu a noção d e demanda, opon-
transformou em ódio; a principal propriedade do do-a à de necessidade. O que especifica o homem é
pequeno outro, do perseguidor, reside em sua ex­ que ele depende, para suas necessidades mais es­
tensão em rede, que acompanha a extensão do de­ senciais, de outros homens, aos quais o liga o uso
lírio. Na vertente do código ou, mais exatamente, em comum da palavra e da linguagem. Em oposi­
do tesouro do significante, que constitui o grande ção a um mundo animal, no qual cada ser se apro­
Outro, da relação do sujeito com o simbólico, La- priaria, no que lhe é possível, do que é visado pelo
can irá insistir em um mecanismo de delírio que instinto, o mundo humano impõe ao sujeito de­
não chamou a atenção de Freud: a interpretação. mandar, encontrar as palavras que serão audíveis
De fato, Lacan caracteriza a psicose pela forclusão pelo outro. É no mesmo endereço que se constitui
de um significante primordial no Outro, o Nome- esse Outro*, escrito com O maiusculo, porque essa
do-Pai, significante metafórico por excelência, que demanda que o sujeito lhe dirige constitui seu po­
permite que o sujeito aceda à significação fálica. A der, sua influência sobre o sujeito.
falta desse significante no simbólico, o buraco que Ora, quando o sujeito se coloca na dependên­
nele se constitui, provocam uma falta e um buraco cia do outro, a particularidade a que visa a sua ne­
correspondentes no imaginário fálico. A interpre­ cessidade fica, de certa forma, anulada. O que lhe
tação delirante seria a tentativa de aliviar essa fal­ importa é a resposta do outro como tal, indepen­
ta no simbólico e suas conseqüências no imaginá­ dentemente da apropriação efetiva do objeto que
rio, porém ao preço, para o sujeito, dele mesmo ele reivindica. Isso significa que a demanda se
ter de sustentar, no lugar do falo que faz falta, a transforma, no caso, em demanda de amor, deman­
significação em seu conjunto. Assim, a interpreta­ da de reconhecimento. A particularidade da neces­
ção é uma metáfora delirante, que Lacan resume, sidade irá ressurgir além da demanda, no desejo,
no caso Schreber, nos seguintes termos: "Sem po­ sob a forma da "condição absoluta". De fato, o de­
der ser o falo que falta à mãe, resta-lhe a solução sejo encontra sua causa em um objeto específico,
de ser a mulher que falta aos homens", metáfora mantendo-se apenas na proporção da relação que
feminilizante inaugural, a partir da qual se pode­ o liga a esse objeto.
rão acompanhar as sucessivas transformações do Pode-se acrescentar, em uma perspectiva clí­
delírio, até sua redenção final. nica, que a intricação da demanda e do desejo é
especialmente visível na neurose. Assim, por exem­
d e m a n d a , s.f. (alem.: Verlangen, Anspruch; fr.: de­ plo, o neurótico obsessivo não tem por objeto de
mande; ing.: request). Forma comum de expressão desejo outra coisa a não ser a demanda do outro.
de um desejo, quando se quer obter alguma coisa Onde se poderia supor que ele pudesse desejar, ele
de alguém, a partir da qual o desejo se distingue se dedica, de fato, a obter o reconhecimento do
da necessidade. Outro, dando-lhe, continuamente, por seu compor­
O termo demanda tomou-se de uso corrente não tamento de bom aluno ou de bom filho, os penho­
apenas no campo da psicanálise, mas também das res de sua boa vontade.
diversas psicoterapias mais ou menos inspiradas
nela. Não é raro, sobretudo para avaliar a possibi­ d e n e g a ç ã o , s.f. (alem.: Verneinung; fr.: dénégati-
lidade de iniciar um tratamento, referir-se à força on; ing.: negation). Atitude psicológica que consis­
ou à qualidade da demanda: trata-se, por exem­ te, para um sujeito, em rejeitar um pensamento por
plo, de um simples desejo de compreender que não ele enunciado, negando-o.
irá resistir às dificuldades do trabalho psicanalíti- Na psicanálise (S. Freud, die Verneinung, antes
co? Ou se trata de uma verdadeira aspiração a uma traduzido como "A Negação", 1934), a negação está
mudança, pois o sujeito não consegue mais supor­ ligada ao recalcamento, pois, se nego alguma coi­
tar aquilo que constitui seu sintoma*? sa em um juízo, isso significa que essa alguma coi­
Sem negar esse uso, que possui sua pertinên­ sa eu preferiría recalcar, sendo o juízo o substituto
cia, deve-se observar que a noção de demanda não intelectual do recalcamento. O paciente que, a res­
pode ser entendida apenas no nível das represen­ peito de uma pessoa aparecida no sonho, diz que
tações triviais que o termo, aparentemente muito ela não é sua mãe, leva Freud a concluir: então é
banal, poderia sugerir. Este assumiu, em particu­ sua mãe. Fazendo dessa forma a abstração da ne­
lar, um sentido específico na teoria de Lacan, sen­ gação, obtém-se o conteúdo do pensamento recai-
41 denegação

cado. Ele pode se tornar consciente, desde que seja senta-se, então, de uma outra forma. De fato, se
negado. Observamos que a aceitação intelectual do pensá-lo pode reatualizar o que foi uma vez per­
recalcado nem por isso abole o recalcamento. cebido, então o objeto não tem mais razão de estar
É fácil perceber a importância que pode apre­ presente fora. Do ponto de vista do princípio de
sentar, na prática do tratamento, e em particular prazer, a satisfação também poderia vir de uma
na interpretação, o reconhecimento do mecanismo "alucinação" do objeto. É para evitar essa tendên­
da denegação. Porém, o artigo de Freud vai muito cia a alucinar que se torna necessária a interven­
além. A partir do fato clínico, ele irá demonstrar o ção do princípio de realidade. Observamos que a
papel da negação na função de juízo. Pelo símbolo reprodução da percepção na representação nem
da negação, o pensamento liberta-se das limitações sempre é fiel. Há omissões e fusões de elementos,
do recalcamento. Freud primeiro considera as duas devendo a prova de realidade controlar a exten­
decisões da função de juízo: há o juízo que atribui são de tais deformações.
ou rejeita uma propriedade de uma coisa e há o Nessa terceira fase, surge o critério da ação
juízo que reconhece ou que contesta, em uma re­ motora, pondo fim à postergação do pensamento.
presentação, a existência na realidade. Ela faz passara ação. O ato de julgar deve ser con­
No primeiro, o juízo de atribuição, o critério siderado, então, como um tateamento motor, com
mais antigo para atribuir ou rejeitar é o critério de pouca descarga. Essa postergação (alem.: Denkaufs-
bom e de mau. O que se traduz assim, na lingua­ cliub) deve ser considerada um "rnotorisches Tasten",
gem das mais antigas pulsões: "Isto eu quero in­ precisando de poucos esforços de descarga: "mil ge­
troduzir em mim, enquanto aquilo, quero excluir ringeu Abfiihraufivãnden". Porém, “abfiihren" é levar,
de mim". O eu-prazer original introjeta o bom e transportar... evacuar, expulsar. O eu vai saborear
expulsa de si o mau. Porém o mau, o que é estra­ as excitações exteriores, para novamente se retirar,
nho ao eu, que está fora, era antes idêntico a ele. depois de cada um de seus avanços tateantes. Essa
Um estado de indiferenciação caracteriza a primei­ atividade motora, como se pode ver, é diferente da
ra fase da história do juízo. Nessa fase, não se tra­ que se pode imaginar na primeira fase. O movi­
ta ainda de sujeito. A partir de um eu indiferen- mento do eu, por avanços e recuos, lembra o pri­
ciado, é constituído o eu-prazer, estando o dentro meiro esboço do fora e do dentro. Esse eco da fase
ligado ao bom, e o fora, ao mau. primitiva é observado nos diferentes sentidos dos
A outra decisão da função de juízo, referente termos utilizados por Freud.
à existência real de uma coisa representada, diz Essa gênese do interior e do exterior dá uma
respeito ao eu-realidade definitivo, desenvolvido visão sobre o nascimento do juízo, a partir das pul­
a partir do eu-prazer. E a prova de realidade. Tra­ sões primárias. A afirmação (alem.: Bejahung), como
ta-se agora, nessa nova fase, de saber se alguma equivalente da unificação, depende de Eros. No
coisa de presente no eu, como representação, pode juízo de atribuição, ela depende do fato de introje-
também ser encontrada na percepção (realidade). tar, de nos apropriarmos em lugar de expulsar. A
O não-real ou o unicamente representado é somen­ afirmação é o equivalente (alem.: Ersatz) da unifica­
te o dentro; o outro, o real, também está fora. Nes­ ção (alem.: Vereinigung), e a negação, o sucessor
sa fase, distingue-se, pois, dentro, uma realidade (alem.: Nachfolger) da expulsão ou do instinto de
psíquica, e fora, a realidade material. É então im­ destruição (alem.: Destruktionstrieb). O realização da
portante saber que a coisa boa, admitida e simbo­ função de juízo só se torna possível pela criação
lizada no eu, também existe no mundo de fora e do símbolo da negação. Donde sua independên­
que se pode apoderar-se dela, segundo a necessi­ cia em relação ao recalcamento e ao princípio de
dade. Vê-se que a prova de realidade é feita a par­ prazer. Nenhum "não", diz Freud, provém do in­
tir da simbolização da segunda fase (introjeção). consciente.
Porém, o problema dessa fase não é confrontar uma O reconhecimento do inconsciente pelo eu se
representação com a percepção que a teria prece­ exprime por uma fórmula negativa. Em Estudos
dido. Trata-se, na ordem perceptiva, da verifica­ sobre a histeria (1895), Freud constataria essa forma
ção de uma percepção. A prova de realidade "não particular de resistência. Nos sonhos, observa que
é encontrar na percepção real um objeto correspon­ um pensamento, dirigido em um sentido, traz con­
dente à representação, mas reencontrá-lo". Sabe- sigo um pensamento em sentido oposto, estando
se que, para Freud, o objeto é, desde o começo, esses dois pensamentos ligados em virtude de uma
objeto perdido. Na realidade, reencontrá-lo é re­ associação por contraste. Depois acrescenta: "Não
conhecê-lo. A questão do fora e do dentro apre­ conseguir fazer alguma coisa é a expressão do não".
depressão 42

É essa dimensão do impossível que J. Lacan irá forma de sintomas ou de uma formação do incons­
chamar de real. Assim, a negação, como símbolo, ciente, daquilo que foi recalcado.
articula-se ao real. Para S. Freud, o que foi recalcado sempre ten­
de a retornar, a irromper, sendo então submetido
d e p re ssã o , s.f. (alem.: Depression, Gedrücktheit; fr.: a um novo recalcamento (recalcamento a posierio-
dépression; ing.: depression). Modificação profunda ri). O termo francês "rejeton"** é uma metáfora ex­
do humor, no sentido da tristeza e do sofrimento traída da botânica, que destaca o aspecto dinâmi­
moral, correlativa de um desinvestimento de qual­ co desse processo.
quer atividade. —> retom o do recalcado.
O termo depressão é utilizado, hoje, de forma
mais frouxa, indicando, em seu uso corrente, pa­ d e s e jo , s.f. (alem.: Begierde, Begehren, Wunsch; fr.:
tologias muito diferentes. Sem dúvida, porque o désir; ing.: luish). Falta inscrita na palavra e efeito
termo evita a necessidade de um diagnóstico es­ da marca do significante sobre o ser falante.
trutural, remetendo a questão do "que não está fun­ Em um sujeito, o lugar de onde vem sua men­
cionando" a uma perturbação momentânea do hu­ sagem lingüística é chamado de Outro, parental ou
mor. social. Ora, o desejo do sujeito falante é o desejo
Em compensação, para o psicanalista, essa do Outro. Se se constitui a partir dele, é uma falta
ampliação não tem valor. O conceito de depressão articulada na palavra e é a linguagem que o sujei­
não é definido fundamentalmente de maneira ri­ to não poderia ignorar, sem prejuízos. Como tal, é
gorosa, a não ser na melancolia, ou ainda naquilo a margem que separa, devido à linguagem, o su­
que se chama de "psicose maníaco-depressiva", jeito de um objeto supostamente perdido. Esse ob­
onde ela indica uma hemorragia da libido, deslo­ jeto a é a causa do desejo e o suporte do fantasma
cada primeiramente do objeto para o eu, e final­ do sujeito.
mente levando o próprio eu a uma depreciação e
desinvestimento radicais. Entretanto, é verdade
O VÍNCULO DO DESEJO COM A LINGUAGEM
que são encontrados episódios depressivos, às ve­
zes graves, nas neuroses. Portanto, não se pode fa­ Para Freud, desde 1895 o desconhecimento de
zer da depressão uma entidade clínica específica. seu desejo, pelo sujeito, apresentar-se-ia, como uma
Ela parece traduzir uma rejeição dos valores fáli- causa do sintoma. Aluno de J. M. Charcot, já sus­
cos, isto é, do cumprimento das tarefas propostas peitava de sua presença insistente, além da osten­
pela existência, com as limitações que as definem. tação espetacular das lesões nas pacientes histéri­
Talvez, além disso, ela remetesse ao momento em cas. Seu trabalho com Emmy von N colocá-lo-ia
que o sujeito percebeu tudo o que era levado a re­ no caminho desse desejo. Essa paciente sentia de­
nunciar, pois pertencia ao mundo dos homens, um terminadas representações como sendo incompa­
mundo regulado pela lei da linguagem e da cultu­ tíveis consigo mesma: sapos, morcegos, lagartos,
ra. Ela se traduz, em todo o caso, por uma relação homem agachado na sombra. Essas figuras besti­
muito particular com o tempo, esse nunca parecen­ ais surgiam ao seu redor como eventos suposta­
do como uma ordem orientada, onde as tarefas do mente traumáticos. Freud os relaciona a uma cau­
presente são determinadas pelas necessidades do sa: um desejo sexual. É o mesmo fantasma de ar-
futuro, onde qualquer projeto poderia se inscrever. rombamento que mais tarde irá encontrar em Dora:
O sujeito deprimido vive em um tempo uniforme arrombamento por um animal ou por um homem,
e monótono. Mesmo que apresente modificações "contra" a vontade do sujeito.
do humor, essas, por serem cíclicas, não constitu­ Contudo, trata-se de um desejo socialmente
em verdadeiras mudanças. É isso, aliás, que cons­ inconfessável, dissimulado por trás da convenção
titui todo o problema da relação do sujeito depri­ amorosa de uma inocência maltratada. Faz irrup­
mido com a análise. Como fazer, para que ele pos­ ção na realidade, projetado sobre animais, ou mes­
sa se engajar nela, se não pode espontaneamente mo sobre pessoas, todos seres aos quais a histérica
interrogar o que constitui sua história, em função atribui sua própria sensualidade. Uma projeção
da possibilidade de uma mudança real? A respos­ desse tipo levará Lacan à assertiva de que o desejo
ta deve ser reinventada a cada vez. do sujeito é o desejo do Outro. A histérica imagina
esse Outro encarnado em um semelhante. Com o
d eriv a d o d o in c o n s c ie n te (alem.: Abkõmmling
des Unbezuuflten; fr.: rejeton de 1'inconscient; ing.: de-
rivative o f the unconscious). Reaparecimento, sob a •* Broto. (N. do T.)
43 desejo

tratamento, termina reconhecendo que esse lugar por associação livre, a paciente passa do salmão
Outro está nela e que ela o ignorou, e somente a para o caviar. A esse deslocamento de um signifi­
provocando é que Freud consegue fazer com que cante para outro, que se fixa momentaneamente em
a paciente evoque, para ele, aquilo que a atormen­ uma palavra, admitida como representando o ob­
ta. Freud irá fazer o mesmo com as outras, obten­ jeto desejável, Lacan chama de metonímia. A paci­
do com freqüência a sedação parcial dos sintomas. ente não quer ser satisfeita, como é habitual cons­
O vínculo do desejo com a sexualidade é, pois, tatar na neurose. Ela prefere a falta à satisfação,
de imediato suspeitado por Freud, bem como seu que mantém, sob a forma da privação evocada pelo
reconhecimento pela palavra. Pouco a pouco, os significante "caviar". Para Lacan, se o desejo é "a
modelos físicos, econômicos e tópicos irão ajudá- metonímia da falta a ser, na qual ele se prende", é
lo a centrar os efeitos, mas é o vínculo do desejo porque o lugar onde se prende o desejo de um su­
com a palavra de um sujeito que logo se toma o jeito é uma margem imposta pelos próprios signi-
fio condutor de toda a sua obra clínica, como o ficantes, as palavras que nomeiam o que ele tem a
comprova, em seguida, A interpretação de sonhos desejar. Essa margem abre-se, entre um sujeito e
(1900). um objeto, que o sujeito supõe inacessível ou per­
Se o sonho é a realização disfarçada de um dido. O deslizamento do desejo, ao longo da ca­
desejo recalcado, Freud sabia entender, sob os dis­ deia significante, interdita o acesso a esse objeto
farces impostos pela censura, a expressão de um supostamente perdido, aqui simbolizado pelo sig­
desejo que subverte, diz ele, "as soluções simples nificante "caviar".
da moral ultrapassada". Ao fazer isso, esclarece a O que tais observações de Lacan comprovam
articulação do desejo com a linguagem, descobrin­ é que o termo que nomeia o objeto faltante deixa
do sua regra de interpretação: a associação livre, aparecer essa falta, o próprio lugar do desejo. A
que dá acesso ao saber inconsciente, pelo qual é falta é um efeito da linguagem: ao nomear o obje­
legível o desejo de um sujeito. Ao seguir o traço to, o sujeito necessariamente o perde. A especifici­
dos significados que vêm espontaneamente à men­ dade de desejo da histérica é, no caso, que ela faz
te, o sujeito pode trazer à luz o desejo que o traba­ dessa falta estrutural, determinada pela linguagem,
lho dissimulador do sonho mascarou, sob imagens uma privação, fonte de insatisfação. Resta que, se
enigmáticas, inofensivas ou angustiantes. A inter­ o desejo é indestrutível, é porque os significantes
pretação que disso resulta irá valer como o reco­ particulares, nos quais um sujeito vai articular seu
nhecimento do desejo que, desde a infância, não desejo, isto é, nomear os objetos que o determinam,
deixa de insistir, determinando, sem que ele sai­ permanecem indestrutíveis no inconsciente, como
ba, o destino do sujeito. É por isso que Freud con­ "traços mnésicos" deixados pela vida infantil. Mas
cluiu A interpretação de sonhos, dizendo que o futu­ isso significa que os psicanalistas se atêm a essa
ro que se apresenta, para o sonhador, é modelado, verdade, de que os neuróticos vivem de ficções e
pelo desejo indestrutível, à imagem do passado. sustentam sua insatisfação?
Qual a natureza desse desejo?
Todo o trabalho clínico de Freud responde a
O D ESEJO E A LEI SIM BÓ LIC A
essa pergunta. Ele o levou a enunciar um dos pa­
radoxos do desejo na neurose: o desejo de ter um Lacan fornece uma resposta a esse problema,
desejo insatisfeito. O sonho chamado de "a mulher no Seminário VI, 1958-1959, "O Desejo e sua Inter­
do açougueiro" (A interpretação de sonhos) revelou pretação". Se o neurótico, enquanto homem, man­
lhe alguns arcanos. Ao evocar um sonho no qual tém sua insatisfação, é porque, criança, não conse­
figura o salmão, prato predileto de sua amiga, a guiu articular seu desejo com a lei simbólica, que
paciente em questão diz que ela encoraja seu ma­ lhe autorizaria uma certa realização. A questão é
rido, que está, no entanto, preocupado em agra­ saber qual é essa lei simbólica, e que impasses po­
dá-la, a não satisfazer um desejo de caviar, que, derão decorrer disso, para o desejo de um sujeito.
não obstante, ela havia-lhe expressado. Freud in­
terpreta tais palavras como desejo de ter um dese­
jo insatisfeito. Entende o significante "caviar" como
H amlet
a metáfora do desejo. Em A direção do tratamento, Lacan ilustra seu propósito, a respeito dos im­
Lacan mostra, a respeito desse sonho, como o de­ passes do desejo na neurose, com o destino de
sejo se articula à linguagem. Não apenas o desejo Hamlet. O drama de Hamlet é saber, com antece­
desliza, em um significante que o representa — o dência, que a traição, denunciada pelo espectro do
caviar — como também se desloca, ao longo da pai morto, afeta de inanidade qualquer realização
cadeia significante, que o sujeito enuncia quando, de seu desejo. Porém, o que está em causa é me­
desejo 44

nos a traição do rei Claudius do que a revelação para o homem, a relação do desejo sexual com a
dessa traição, feita pelo espectro a Hamlet. Essa re­ linguagem. Por pouco que tenha tido lugar esse
velação é mortífera, porque lança a dúvida sobre recalcamento originário, é o desejo do sujeito que
o que garantiría o desejo de Hamlet. De fato, a de­ nele sofreu as conseqüências, na culpa ou no sin­
núncia da mentira, que o casal real representaria, toma.
torna insuportável, para Hamlet, o vínculo do rei Para uma mulher, o acesso ao desejo parece
e da rainha, e leva-o a recusar aquilo que funda, ser diferente. De saída, a castração pode lhe pare­
simbolicamente, esse vínculo sexual: o falo. Ele cer como a privação real de um órgão de que é
contesta que Claudius possa ser, para sua mãe, o dotado o menino, ou como uma frustração injusta.
detentor exclusivo do falo. No mesmo movimen­ Depois, ela vai ocupar o lugar imaginário desse
to, interdita, para si, o acesso de um desejo que objeto do desejo, que representa para seu pai, en­
estaria de acordo com o interdito fundamental, o quanto mulher. A esse respeito, amiúde vive com
do incesto. Ele recusa a castração simbólica, pois, dificuldade a rivalidade que desde então a opõe à
tanto para Freud como para Lacan, essa lei simbó­ sua mãe. Seja como for, pela linguagem não lhe é
lica é trazida pela linguagem: não natural, ela obri­ imposto recalcar a significação fálica, que, para o
ga o sujeito a renunciar à mãe. Ela o despossui — homem, sexualiza todas as suas pulsões, pois ela
simbolicamente — desse objeto imaginário, que é, não está completamente envolvida por um recal­
segundo Lacan, o falo, para atribuir seu gozo a um camento, do qual, não obstante, ela suporta os efei­
Outro, no caso Claudius. O complexo de Edipo, tos, em sua relação com o homem. Isso faz com que
descoberto por Freud, assume todo o seu sentido Lacan diga que uma mulher vive da castração de
na rivalidade que opõe o filho ao pai, na aborda­ seu parceiro, e nela encontra a referência para seu
gem desse gozo. Também é notável constatar que desejo. Finalmente, não basta essa referência à cas­
o judaísmo, e depois o cristianismo, pelo interdito tração, para que possa ser realizado o desejo. Se­
que opuseram à cobiça incestuosa e sexual, instau­ ria ainda preciso que essa castração, para não in­
raram as condições de um desejo subjetivo orien­ terditar qualquer realização do desejo, vá encon­
tado estritamente pelo falo e pela transgressão da trar apoio no que Lacan chama de Nome-do-Pai.
lei. A tradição moral não deixa de suscitar os im­
passes do desejo. Ela favorece, por meio das res­
postas que fornece, a rejeição neurótica ou perver­ A ntígona
sa da castração. É nessa referência ao Nome-do-Pai*, também
Neste caso, Hamlet termina por substituir o puramente simbólica, que o desejo assumido ocu­
ato simbólico da castração, tomado impossível pela pa seu lugar. O sujeito desejante autoriza-se a go­
palavra envenenada do espectro, por um assassi­ zar precisamente porque imputa ao pai real essa
nato real, que o leva e aos seus à morte. O destino autorização simbólica de desejar, o Nome-do-Pai,
de Hamlet é emblemático dos impasses do desejo sem a qual a castração, própria da linguagem, dei­
na neurose que, se raramente assumem essa for­ xaria o sujeito insatisfeito e sofredor. Ele teria de
ma radical, têm como origem a mesma causa: uma renunciar a todo desejo, como mostra a patologia
evitação da castração. Se o sujeito quer ter lugar do sujeito "normal": seu estado depressivo. Para
de forma diferente, que não a dessa infinita dor fazer compreender essa relação do desejo com o
de existir, testemunhada por Hamlet, ou da morte Nome-do-Pai, Lacan escolheu fazer da conduta de
real, seu desejo, por uma necessidade de lingua­ Antígona a atitude mais ilustrativa de A ética da
gem, não pode senão passar pela castração. Por­ psicanálise.
que o gozo é, diz Lacan, interdito àquele que fala Ao contrário de Hamlet, o desejo de Antígona
como ser falante. O que a psicopatologia da vida não é afetado de inanidade, pelo envenenamento
cotidiana também mostra é que o recalcamento de de uma palavra sem saída; ela sabe o que funda a
todas as significações sexuais é inscrito na pala­ existência de seu desejo: sua fidelidade ao nome
vra: as referências demasiadamente diretas ao gozo legado por seu pai a seu irmão Polinice, no caso,
são evacuadas dos enunciados mais comuns. Elas Nome-do-Pai. O limite que o nome definiu para
só são admitidas, eventualmente, neles, como dito as decisões e os atos é aquele ao qual se atém Antí­
espirituoso. Tal é, pois, o efeito dessa lei de lin­ gona, e é esse nome que Creonte quer ridiculari­
guagem que, ao mesmo tempo que interdita o gozo, zar, quando decide deixar exposto o cadáver do
simboliza-o pelo falo, e recalca da palavra, no in­ guerreiro morto. Contra o Bem reivindicado por
consciente, os significantes do gozo. Assim, pare­ Creonte, no caso, a ordem da cidade e a razão de
cería obsceno o retorno demasiado cru dos termos Estado, ela opõe seu desejo, fundado nesse víncu­
que evocam o sexo na palavra. Assim é, também, lo simbólico. A tragédia mostra que, no horizonte
45 desejo

desse Bem, invocado pelos mestres e filósofos, pro­ a representação imaginária do objeto supostamen­
vedores de uma moral ultrapassada, desenha-se o te perdido. Pois é um corte simbólico, que desde
pior, pois a saída atroz da tragédia deriva direta­ logo separa o sujeito de um objeto supostamente
mente da própria vontade de Creonte, de fazer o perdido. Esse corte é, simultaneamente, constitu­
Bem contra o desejo de Antígona. Assim, para La- tivo do desejo, como falta, e do fantasma, que irá
can, o Bem é, com o conjunto de bens — honorabi- suceder ao isolamento do objeto perdido. A exci­
lidade, propriedade, altruísmo, bens de todas as tação real do sujeito, na perseguição daquilo que
ordens —, portador deste gozo mortal, porque o satisfaz, irá ter, então, como ponto de apoio, uma
rompe as amarras com o desejo. falta e um fantasma, que de alguma forma faz tela
A conduta de Antígona pareceu excessiva a um para essa falta, e que irá ressurgir na vida sexual
grande número de comentaristas clássicos. A au­ do sujeito. Portanto, a excitação não é destinada a
dácia de Lacan é, sem dúvida, a de ter demonstra­ atingir a finalidade biológica, que seria, por exem­
do, contra as morais tradicionais fundadas no Bem, plo, a satisfação instintiva da necessidade natural,
que o desejo só poderia se manter em seu próprio pela apreensão real de alguma coisa, como no ani­
excesso em relação ao gozo, que recobre todo bem, mal. A excitação real do sujeito cerca um objeto que
toda ordem moral ou toda instância ordenadora, parece inatingível e constitui a pulsão. A existên­
seja ela qual for. Esse excesso do desejo é caracte­ cia do sujeito desejante, em relação ao objeto de
rístico da prova que o tratamento analítico consti­ seu fantasma, é uma ascensão, que procede da ins­
tui, para um sujeito, e a única falta que ele poderia crição da falta no desejo da mãe, pois cabe primei­
cometer seria ir ao contrário de seu desejo: ceder ro à mãe, e depois ao pai, inscrever, para o filho,
em seu desejo só poderia deixar esse sujeito deso­ essa falta, uma falta não natural, mas própria da
rientado. Portanto, no tratamento, o sujeito despo- linguagem. A linguagem e o corte, dos quais ele é
jar-se-á do "escrutínio de sua própria lei" e corre­ o portador, são recebidos, pelo sujeito, como Ou­
rá o risco do excesso. tros. Eles carregam consigo a falta. É por isso que
Lacan disse que o desejo do sujeito é o desejo do
Outro. O mesmo acontece com todos os outros ob­
O OBJETO, CAUSA DO DESEJO
jetos do fantasma — anal, escópico, vocal, fálico, e
Em último lugar, o que o sujeito é levado a até literal —, cuja perda escava também essa mar­
descobrir? De início, como diz Lacan, que "não gem do desejo, essa falta, e que serão também, de
existe outro bem a não ser o que pode servir para várias maneiras, os suportes do fantasma. A esse
pagar o preço pelo acesso ao desejo", mas, sobre­ objeto, suporte do fantasma e causa do desejo, La­
tudo, que esse desejo não é nenhuma necessidade can chama de objeto a. Em "Subversão do Sujeito
natural, nem uma demanda. e Dialética do Desejo" (Escritos, 1965), grafa, com
Ele se distingue radicalmente da necessidade um algoritmo, a relação do sujeito com o objeto a:
natural, como o prova, por exemplo, a instalação $ 0 a.
da pulsão oral. Ao choro do filho, a mãe responde Este é, pois, o sujeito do inconsciente, que per­
interpretando-o como uma demanda, isto é, um segue, pelos meandros de seu saber inconsciente,
apelo significante à satisfação. A criança, pois, pas­ a causa evanescente de seu desejo, este objeto su­
sa a depender, desde os primeiros dias, de um postamente perdido, com tanta freqüência evoca­
Outro, cuja conduta procede da linguagem. Se cabe do nos sonhos. Em última análise, é próprio da cas­
à mãe responder a essa demanda, ela só tenta sa­ tração recalcar as pulsões que presidiram a insta­
tisfazê-la porque supõe, além do grito, a demanda lação dessa ascensão e dessexualizar todos os ob­
de um filho, a qual apenas tem significação na lin­ jetos causas do desejo, sob a égide do falo. Ao tér­
guagem. Ao supô-la, ela envolve, pois, a criança, mino de uma análise, esses objetos supostamente
no campo da palavra e da linguagem. Todavia, a perdidos, suportes do fantasma, surgem sob a luz
criança só acede ao desejo propriamente dito ao se que lhes é própria, a saber, aquilo que não se dei­
isolar a causa de sua satisfação, que é o objeto, cau­ xa apreender: o nada. Porque se o objeto é evanes­
sa do desejo: o mamilo. Ora, ele não o isola, a não cente, é ao nada que, em última análise, o desejo
ser que seja frustrado, isto é, se a mãe der lugar à se refere, como sua causa única.
falta, na satisfação da demanda. Então, o desejo Essa relação do desejo com o nada que o sus­
advém, além da demanda, como falta de um obje­ tenta permite ao sujeito moderno viver, pelo dis­
to. E pela cessão deste objeto que o filho irá se cons­ curso psicanalítico, um desejo diferente daquele ao
tituir como sujeito desejante. qual os neuróticos estão por tradição presos. Ch.
O sujeito homologa a perda de tal objeto pela Melman o demonstra, em seu último seminário
formação de um fantasma, que nada mais é do que sobre O recalcamento: esse desejo outro não encon­
desejo do psicanalista 46

traria mais apoio na cobiça interdita e, ao mesmo de síncope da função lhe faz limite, e constitui aqui­
tempo, encorajada pela religião, recusando-se a lo que se chama de "função paterna".
privilegiar o falo como objeto de desejo. Trata-se Portanto, a função fálica inscreve a maneira
de um desejo que, sem ignorar sua existência e os pela qual tem lugar o gozo fálico (gozo) da relação
mandamentos da Lei, não se colocaria mais a ser­ sexual: cada falasser fará semblante de homem ou
viço da moral. de mulher, e os discursos que sustentará então ad­
quirirão sentido; terão a "decência" (" decense") de
d e s e jo d o p s ic a n a lis ta (fr.: désirdu psychanalys- velar a ausência da relação sexual.
te; ing.: psycho-analyst's loish). Em S. Freud, a ques­ Em compensação, o discurso analítico, ao evi­
tão do desejo do psicanalista não é explicitamente denciar o ponto onde desaparece todo valor de
isolada como tal. No entanto, o psicanalista não verdade para a função, indica que, além desse li­
pode considerá-la evidente. A finalidade de seu ato mite, no qual ela se sustenta, o sentido é abolido.
não se explica por si mesma, se não puder consis­ E o de-sentido.
tir na intenção teórica do retomo ao estado anteri­ Clinicamente, isso significa que o gozo fálico,
or. Ainda mais problemática parece ser a questão o gozo do semblante, constitui uma barreira a ser
do que poderia sustentar o psicanalista, em sua respeitada, para que seja mantido o sentido dos
operação, a questão de um eventual suporte pul- discursos. Além dessa barreira, está situado o cam­
sional ou fantasmático de seu ato. po dos gozos outros, que expõem ao de-sentido
Com certeza se pode dizer que o analista não (gozo).
age em função de um ideal, seja ele qual for, por Ao mesmo tempo, o sentido sexual, que a in­
exemplo, a partir de uma representação de uma terpretação analítica pode fazer valer, nada mais é
natureza do homem que a neurose, a psicose ou a do que uma primeira abordagem (interpretação).
perversão viriam corromper e que ele procuraria Bem antes, indicaria o inde-sentido, isto é, o fato
encontrar. Tampouco se age a partir daquilo que de que todo sentido tropeça e sustenta-se da hiân-
seria uma hipotética pulsão de curar, aspiração sa- cia da função que o significante fálico vai marcar,
maritana, cujo efeito só poderia ser deplorável. com seu símbolo. Nem por isso é autorizada a her­
Enfim, se levou mais adiante seu próprio tratamen­ menêutica, que remetería, indefinidamente, de um
to, poder-se-á supor que ele já está um pouco res­ para outro sentido, mas isso mostra que o signifi­
gatado da influência do fantasma, enquanto regu­ cante fálico, que vetoriza o simbólico e dá signifi­
la a realidade de cada um, e que ele é, em particu­ cação ao deslizamento dos significantes, é ele pró­
lar, menos dependente desse Outro, do qual, no prio um significante assemântico, que, pelo senti­
fantasma, cada um se torna objeto. do, simboliza o fracasso. Esta propriedade faz dele
Várias vezes, J. Lacan abordou a questão do o ápice da ordem simbólica.
desejo do psicanalista. Por exemplo, faz dele um
desejo de obter a "diferença absoluta", aquela que d e s lo c a m e n to , s.m. (alem.: Verschiebung; fr.: dé-
separa o objeto a, que constitui o estofo do sujeito, placement; ing.: displacement). Operação caracterís­
da imagem idealizada, que de inicio lhe surgia. tica dos processos primários, por meio da qual uma
Todavia, o desejo do psicanalista continua a ser um quantidade de afetos se desprende da representa­
x, que seria correto supor como operando nos tra­ ção inconsciente, a qual está ligada, indo ligar-se a
tamentos, mas cuja elaboração continua a ser, hoje uma outra, cujos vínculos com a anterior são vín­
em dia, uma tarefa para os psicanalistas. culos associativos pouco intensos ou, mesmo, con­
tingentes.
d e -s e n tid o , in d e -se n tid o (fr.: dé-sens, indé-sens). Esta última representação recebe, então, uma
Neologismos de Lacan que sugerem o vínculo en­ intensidade de interesse psíquico desproporcional,
tre o sentido e o sexo. Esses neologismos pressu­ em relação àquela, que normalmente deveria com­
põem a instalação do falo como função fálica (falo, portar, enquanto que a primeira, desinvestida, fica
materna), isto é, de uma escrita algébrica na qual como que recalcada. Encontra-se um processo des­
está situado o falo. A função fálica é aquilo que se tipo em todas as formações do inconsciente. J.
substitui a relação sexual: "Todo sujeito, enquanto Lacan, de acordo com as indicações de R. Jakob-
tal, inscreve-se na função fálica (como sendo ou son, comparou o deslocamento com a metonímia.
tendo o falo) para evitar a ausência, a 'ab-sens'**
de relação sexual", escreveu Lacan, em 'TÉtourdit"
(Scilicet, ne 4,1972). Entretanto, essa função só pode
** Palavra-valise de Lacan, homófona a “absence", que signifi­
ser apresentada, se não for satisfeita em um pon­ ca ausência, mas que, após o hífen, fraz "sens", sentido. (N.
to, onde um x, uma existência, a nega. Esse ponto doT.)
47 destino (neurose de)

d e s tin o (n e u ro s e de) (alem.: Schicksalsneurose; sis). Psicanálise pessoal, exigida de todo candida­
fr.: névrose de destinée; ing.: fate neurosis). Organiza­ to a psicanalista.
ção patológica da própria existência, que a psica­ A regra que consiste em que todo futuro ana­
nálise concebe como neurótica, apesar da falta de lista faça uma psicanálise não foi imposta de ime­
sintoma aparente, e que traduz, de maneira muito diato. Os primeiros alunos de S. Freud geralmente
dara, a força da compulsão à repetição. se contentavam com algumas entrevistas com ele,
Em uma primeira abordagem, a noção de neu­ durante as quais exercitavam-se no método psica­
rose de destino poderá parecer descrever uma re­ nalítico, analisando, por exemplo, seus próprios
alidade menos exata do que as noções, por exem­ sonhos. Em compensação, hoje está estabelecido
plo, de histeria ou de neurose obsessiva. Nela, não que somente uma psicanálise, levada o mais longe
se podem isolar sintomas específicos, comparáveis possível, irá permitir que as resistências inconsci­
aos sintomas de "conversão" ou as obsessões. entes do analista não impeçam o avanço do traba­
No entanto, ela ocupa um lugar não-negligen- lho de seus pacientes.
ciável na psicanálise. A partir de 1920, S. Freud Na França, por influência principalmente de
evoca os sujeitos que "dão a impressão de um des­ J. Lacan, insiste-se no fato de que a análise didáti­
tino que os persegue, de uma orientação demoní­ ca não é um tipo particular de análise, na qual o
aca de sua existência". Mais exatamente, a psica­ analisando seria um discípulo de seu analista, mas
nálise descobre, em sua existência, séries de even­ que ela deve ser particularmente representativa
tos que se repetem, apesar ou por causa de seu ca­ daquilo que é, em geral, considerada a análise, e
ráter desprazeroso. Essas séries poderíam dar a na qual vai estar colocada, talvez mais do que em
impressão de depender de uma fatalidade externa qualquer lugar, a questão do término da análise.
("demoníaca"), mas sua regularidade permite que
se pense que o sujeito não se importa com o que d in â m ic o , adj. (alem.: dynamisch; fr.: dynamique;
lhe acontece, que é seu desejo — inconsciente — ing.: dynamic). Relativo, no psiquismo, ao que se
que isso se realize, seu desejo enquanto preso à apresenta como constituído de forças e, mais es­
ordem da repetição, que também o remete à pul- pecialmente, ao conflito de forças antagônicas.
são de morte. Aliás, pode-se observar que, amiú- A idéia de que tudo, no psiquismo, não é ob­
de, a tomada de consciência de tais fenômenos jeto de uma percepção atual, não é exclusividade
constitui um importante momento do trabalho pre­ da psicanálise. Em compensação, Freud atribui
liminar ao tratamento psicanalítico. uma grande importância ao ponto de vista dinâ­
mico, em sua concepção do inconsciente. Do pon­
D e v e re u x (G eo rg es). Antropólogo e psiquiatra to de vista descritivo, inconsciente e pré-conscien-
americano de origem húngara (Lugos, 1908 — Pa­ te (memória, etc.) podem parecer estar em conti­
ris, 1985). nuidade. Mas o que faz a definição freudiana do
Depois de estudar Física, em particular com inconsciente é o recalcamento, isto é, o ponto de
Marie Curie e Jean Perrin, volta-se, em 1926, para vista segundo o qual certas representações, incom­
as Ciências Humanas, no Instituto de Etnologia, patíveis com outras, são rejeitadas da consciência.
tendo sido aluno de M. Mauss, L. Lévy-Bruhl e P. Isso pressupõe uma teoria de forças em jogo e um
Rivet. Em seguida, estabeleceu-se nos Estados Uni­ conflito de tais forças.
dos (na Universidade da Califórnia, em Berkeley, O ponto de vista dinâmico comprova a impor­
em Topeka, onde se inicia na psicanálise, na Fila­ tância dada, desde o início, ao que se passa efeti­
délfia e em Nova Iorque). A partir de 1963, passou vamente no tratamento, e, em especial, à resistên­
a lecionar na Escola de Altos Estudos em Ciências cia, sinal e efeito do recalcamento. Ele constitui,
Sociais. Fundador da etnopsiquiatria, situou-se no com os pontos de vista tópico* e econômico*, os
cruzamento de três disciplinas: a cultura grega (Tra- modos de teorização que Freud chama de "metap-
gédie et poésie grecques, 1975; Dreams in Greek Trage- sicologia".
dy, 1976), a psicanálise e a Antropologia (Essai
d'ethnopsychiatrie générale, 1970; Ethnopsychanalyse d is c u rs o , s.m. (alem.: Rede, Diskurs; fr.: discours;
complêmentariste, 1972). Realizou inúmeras viagens ing.: discourse). Organização da comunicação, so­
etnográficas, em particular entre os Moí (Vietna- bretudo da linguagem, específica das relações do
me), os Hopi e os Mohave (Califórnia). Deve-se a sujeito com os significantes e com o objeto, que são
ele, igualmente, De 1'angoisseàla méthode (1967). determinantes, para o indivíduo, e que regulam as
formas do vínculo social.
d id á tic a (a n á lise ) (alem.: Lehranalyse, didaktis- Na psicanálise, o sujeito não é o homem, cuja
che Analyse; fr.: analyse didactique; ing.: training analy- natureza seria imutável; mas tampouco é o indiví­
destino (neurose de) 48

duo, que muda em função das peripécias da his­ vai representar junto a todos os outros significan-
tória. Além das singularidades individuais, a psi­ tes, e, por isso mesmo, determiná-lo. Porém, a par­
canálise distingue funcionamentos, em número res­ tir disto, há um resto. De fato, desde que se inscre­
trito, que dependem de estruturas nas quais cada ve na linguagem o sujeito não tem mais acesso di­
um se acha preso. A "teoria dos quatro discursos", reto ao objeto. Ele entra na dependência da deman­
de J. Lacan, constitui uma das mais recentes e efi­ da, e, quanto ao seu desejo, esse só pode ser dito
cazes elaborações, concernentes a tais estruturas. entre as linhas. Desde então, o conceito de objeto
A idéia de descrever entidades clínicas, de não a, que Lacan elabora e que designa não o objeto
permanecer em uma abordagem centrada unica­ supostamente disponível da necessidade, da con­
mente em histórias individuais, é apresentada des­ sumação ou da troca, mas um objeto radicalmente
de o início da psicanálise. Isso é explicado pelos perdido.
objetivos científicos de S. Freud, mas também pela Lacan apresenta essa elaboração por meio de
perenidade das sintomatologias neuróticas: a exis­ um algoritmo (Figura 1).
tência da histeria, ou ainda da fobia, é comprova­
da desde a Antigüidade.
discurso do mestre
As categorias clínicas, certamente importantes,
entretanto seriam essenciais, no que diz respeito
às distinções que a psicanálise permite fazer, entre
os diversos tipos de estruturas nas quais o sujeito
pode se achar preso? Isso não é certo, se é verdade
que tais categorias foram primeiramente forjadas
para explicar estados considerados patológicos, Figura 1. Formalização ilo discurso do mestre
eles próprios opostos aos estados normais, ainda
que não se possa definir claramente o que é nor­ Neste algoritmo, SI designa um significante
malidade ou patologia. que representaria o sujeito junto ao conjunto dos
Impõe-se, desde logo, na psicanálise, a idéia significantes S2, designado como saber. O S é bar­
de outras estruturas, que explicariam as diversas rado, para indicar que não é sujeito autônomo, mas
formas que poderá assumir a relação do sujeito determinado pelo significante, que têm "barra"
com seu desejo, ou com seu fantasma, com o obje­ sobre ele; observar-se-á também que, no algorit­
to que tenta reencontrar ou com os ideais que o mo em questão, inexiste relação direta entre $ e a,
orientam. É nesse sentido que Freud, por exem­ porque inexiste, também, acesso direto do sujeito
plo, distingue diversos "tipos libidinais" (erótico, ao objeto de seu desejo.
narcisista, obsessivo e tipos mistos). E também nes­ Lacan deu um nome a esse "discurso", aqui
se sentido que W. Reich elabora uma teoria bas­ representado de maneira formalizada. E o discur­
tante desenvolvida dos "caracteres". so do mestre. A denominação assinala bem que
No entanto, por mais interessantes que pos­ aqui se trata, ao mesmo tempo, da constituição do
sam ser, essas elaborações conservam uma ambi- sujeito como tal, e de dar conta das formas ordiná­
güidade. É que o caráter não pode ser pensado, a rias do assujeitamento político, o que implica que
não ser como interno a uma subjetividade. Ora, a os dois casos consistem em uma mesma operação.
psicanálise leva a pôr em destaque não uma sub­ Assim, a forma pela qual o sujeito se submete ao
jetividade, mas um assujeitamento, o qual enten­ enunciado de um mandamento, seu apego a tal
demos como aquilo que pode determinar um sujei­ palavra de ordem política se escrevem facilmente:
to, produzi-lo, causá-lo: sua história e, mais preci­
samente, a história de um dizer, aquilo que já es­ SI significante-mestre
tava lá, antes mesmo de seu nascimento, no dis­ --------- ou ainda ---------------------------------
curso de seus pais, aquilo que, depois de seu nas­ $ sujeito
cimento, não cessa de acompanhá-lo e de orientar
sua vida, em um "tu és isso" sem escapatória. Da mesma forma, existe um possível paralelo
entre o estatuto fundamentalmente perdido do
objeto, para o sujeito, e a plus-v alia designada por
O DISCURSO DO MESTRE K. Marx, como aquilo a que o trabalhador deve re­
Pode-se, portanto, apresentar as coisas deste nunciar, mas também o capitalista, a maior parte,
modo: o que produz um sujeito, isto é, não um ho­ se for necessário reinvesti-la na produção. Daí o
mem ou um indivíduo em geral, mas um ser de­ nome de "p/us-de-gozar", que Lacan dá, então, ao
pendente da linguagem, é que um significante o objeto a, em função dessa analogia.
49 destino (neurose de)

U ma elaboração formalizada Sl S2 S2 a
O discurso do mestre é, pois, o estabelecimen­
$ a Sl $
to da relação das letras abaixo:
$ Sl a $
SI S2
a S2 S2 Sl
$ a
O valor dado a cada uma dessas escritas pode
Ou ainda destes termos:
ser estabelecido a partir daquilo que nelas repre­
senta o papel do agente. Nesse lugar, a presença
significante-mestre saber
de S l, qualificando, pois, o discurso do mestre, a
de S2, o saber, permite definir um "discurso da
sujeito plus-de-gozar
universidade"; a de $, o sujeito, o "discurso do his­
térico"; finalmente, a de o, o "discurso do psicana­
Ora, o que se constitui nesse estabelecimento
lista". De fato, é concebível que, na histeria, seja o
de relação é um sistema formal, onde é possível
sujeito quem vai para a frente da cena, o sujeito
distinguir, por um lado, os lugares, a forma pela
marcado pelo significante, até em seu corpo, ali
qual se articulam os elementos, e, por outro, os pró­
onde os sintomas fazem ouvir um discurso recal­
prios elementos.
cado; quanto ao discurso do psicanalista, aquilo
Se se abstrair a natureza dos elementos em
que organiza é o próprio objeto que o discurso do
jogo, o que torna necessários os quatro lugares
mestre fez sucumbir, o objeto ao qual o sujeito não
onde se inscrevem os termos S l, S2, $, a? É que todo
tem acesso, no discurso do mestre.
discurso dirige-se a um outro, mesmo que esse não
seja reduzido a uma pessoa em particular; e se di­
rige a esse outro a partir de um certo lugar, em um D iscurso do psicanalista e
certo nome, seja em seu próprio ou em nome de DISCURSO DO CAPITALISTA
um terceiro. A dois lugares:
Um parêntese irá permitir introduzir aqui um
o agente — o outro quinto discurso, também proposto por Lacan— o
discurso do capitalista.
é necessário acrescentar que a verdade pode De fato, se o discurso do psicanalista inscreve
interferir, latente, sob o propósito oficialmente a no lugar dominante, se ele não separa mais $ e a
mantido, e que, nos dispositivos do discurso, al­
(a $), pode-se dizer que o psicanalista assegura a
guma coisa é produzida, a cada vez, advindo, as­ cada um o reencontro efetivo com o objeto de seu
desejo? A questão não é desprovida de alcance. De
sim, o sistema completo dos lugares:
fato, é um dos principais traços do discurso cor­
o agente o outro rente dos nossos dias, prometer a todos a satisfa­
ção de todos os desejos, desde que se coloque ne­
a verdade a produção les o preço, apagar a diferença entre o objeto do
desejo e o objeto da consumação. Seria a psicanáli­
se solidária de tais representações?
A partir daí, a questão que se apresenta, na
teoria psicanalítica, é a de saber se uma elabora­ Ora, se no discurso do psicanalista o sujeito é
confrontado com o objeto de seu desejo, o impor­
ção formalizada poderá levar a desenvolvimentos
tante é o lugar em que ele mesmo se situa: o lugar
que se verifiquem na experiência. Ora, parece que
do outro, isto é, em particular, o lugar onde isso
sim. Assim, é sobremaneira possível, em um pri­
trabalha. Ele não reencontra o objeto, a não ser no
m eiro momento, fazer circular, por sucessivos
"quartos de volta", os quatro termos, $, S l, S2 e a, trabalho do tratamento. Em compensação, Lacan
escreveu:
pelos quatro lugares: verdade, agente, outro e pro­
dução, sem romper a ordem que relaciona S l e S2,
termos constitutivos da ordem do significante, o
que faz com que o sujeito $ seja separado do obje­ Isso lhe permitiu explicar um discurso no qual
to a. Ter-se-á, pois: o sujeito se acha, ao mesmo tempo, fixado ao seu ob­
disque-ursocorrente 50

jeto e em posição de semblante, isto é, em posição signos e não de significantes, pois remete aos ob­
de acreditar-se assujeitado a nada, mestre das pa­ jetos; assim, Lacan entende sublinhar que nenhu­
lavras e das coisas. Aqui, a alienação se duplica, ma regressão, ao nível do ego ou do pré-conscien­
com um desconhecimento radical. É esse discur­ te, nos faz aceder aos fenômenos inconscientes.
so, obtido formalmente por torção, a partir do dis­ — Ele possui uma grande significação afeti­
curso do mestre, que Lacan chama de "discurso va, que logo atinge as fontes da fabulação infantil,
do capitalista". estendendo-se, também, a elaborações complexas,
Para encerrar, deve-se destacar que a teoria dos como o discurso da reivindicação ou o da liberda­
discursos, da qual só se apresentam aqui os traços de.
essenciais, continua a ser, atualmente, um dos ins­ — Ele reúne o íntimo da ruminação interior
trumentos mais ativos para a psicanálise, pois ela com a homogeneidade do discurso efetivo, que cir­
se interessa pelo que produz o sujeito e produz, cula fora do sujeito, esse fora compreendendo o
com ele, a ordem social na qual se inscreve. mundo real das coisas, à medida que essas coisas
só são acessíveis pelos discursos que as constitu­
d is q u e -u rs o c o rre n te s.m. (fr. disque-ourcourant). em.
Neologismo de J. Lacan para designar o discurso — O sujeito nele fala com seu "ego ", a exem­
comum, no qual o inconsciente não se faz ouvir plo do paranóico, que é capaz de excluir de sua
ou, pelo menos, não é reconhecido. palavra o Outro como lugar da linguagem, de onde
A partir de 1972, Lacan passa a designar, pelo um sujeito pode se fazer reconhecer e fazer valer
termo "disque-ourcourant", todo discurso que ignore uma verdade; desse discurso, o sujeito se acredita
sua própria causa, isto é, o impossível (ou o Real), o mestre.
a partir do qual ele se construiu. Esse impossível é — Opõe-se à ordem simbólica, podendo ser
o da relação sexual. Isto quer dizer que esta noção encontrado, no estado mais simples, sob a forma
pressupõe a de "discurso analítico" (discurso), à de uma mensagem cibernética, isto é, de uma se-
qual ela se opõe. qüência de sinais de notação 0 e 1, os quais, quan­
O neologismo lacaniano, em compensação, é do da introdução de uma escansão, irão constituir
construído segundo os procedimentos do incons­ uma rede de símbolos, na qual um elemento re­
ciente, pois faz valer, em um único significante, o mete a outro. Lacan então destaca a heterogenei-
girar em torno, o ritornelo dos discursos que, por dade da ordem simbólica, na qual o homem não é
um lado, circulam nas famílias e nas gerações que mestre, mas deve se integrar e se fazer reconhecer
as compõem, e, por outro, percorrem as institui­ — a ordem da linguagem e da cultura obedece às
ções, os meios de comunicação e as ruas. Pode-se mesmas combinações matemáticas.
também entender, nesse neologismo, o arrulho nar­
cisista e ignorante daquele que o profere.
Um d i s c u r s o q u e i g n o r a o i m p o s s ív e l

Em seus trabalhos ulteriores, Lacan irá elabo­


O DISCURSO DO IMAGINÁRIO
rar a noção de discurso (discurso) e aprofundar a
Nos primeiros artigos e seminários de Lacan relação da ordem simbólica com a categoria do real.
(1954-1960), com referência à preocupação de se­ A noção de discurso corrente será precisada, até
parar a dimensão simbólica da imaginária e afas­ se transformar em disque-ursocorrente.
tar a psicanálise dos trilhos da análise do ego, a Para Freud„o inconsciente era o lugar das re­
noção de discurso corrente é assimilável ao que presentações, isto é, de traços mnésicos investidos
Lacan chama, então, seja de linguagem do ego, seja de energia: é isso que Lacan irá chamar de "rede
de linguagem do pré-consciente, ou, ainda, de de­ de cadeias significantes", regida pelo princípio de
lírio (não necessariamente psicótico). Trata-se, es­ prazer. Os elementos dessa rede são percebidos nas
sencialmente, de evidenciar a dimensão imaginá­ voltas e recortes do discurso do paciente, durante
ria desse discurso, originado de um certo número a rememoração. Essa rede, ou “automaton", deve,
de signos, imagens ou formas prevalentes, no cen­ no entanto, ser distinguida do real, assinalado por
tro das quais se acha a imagem do próprio corpo. Freud pelas noções de trauma e da repetição. O
Tal discurso do pré-consciente, suscetível de real* é a hiância causai da rede que aquela coman­
exprimir, em abundância, uma soma de impressões da, e que a dissimula.
e de informações que o sujeito recebe do mundo Nos discursos efetivamente falados, mesmo
onde vive, é assim caracterizado. que sua sintaxe pré-consciente esteja ligada ao re­
— Ele não possui a estrutura de uma lingua­ tomo da reserva inconsciente que neles se imiscui,
gem, ao contrário do inconsciente; é constituído de as frases do sujeito serão comandadas pela evita-
51 dit-mansão

ção desse núcleo de real. É preciso, então, consta­ Portanto, a interpretação dos ditos do incons­
tar uma resistência do próprio discurso, e não mais ciente só pode consistir em "dizer o que há" (La­
apenas uma resistência do eu. As frases do sujeito can, VÉtourdit), isto é, ter por objeto a causa do de­
darão voltas indefinidamente, a menos que ele faça sejo, de onde se origina o dizer.
a experiência analítica.
Assim, todo discurso, exceto o analítico, de­ d ito e s p iritu o s o o u c h is te (alem.: Witz; fr.: mot
pende do disque-ursocorrente, à medida que esse d'esprit; ing.: joke). Jogo espirituoso que, na maio­
real causai dissimulado é, para cada ser falante, a ria das vezes, utiliza os próprios recursos da lin­
impossibilidade de escrever a relação sexual, pois guagem, cuja técnica Freud desmontou para expli­
os significantes "hom em " e "m ulher" não reme­ car a satisfação particular que ele provoca e, mais
tem aos conceitos de homem e de mulher, mas à geralmente, seu papel na vida psíquica.
diferença dos lugares assinalados para um e para Desde que começou seu trabalho clínico, nos
outro, pelo símbolo fálico único. primeiros tratamentos das histéricas, Freud foi con­
frontado com o problema do chiste. De fato, se uma
d it -m a n s ã o , s.f. (fr. dit-mension). Neologismo representação inconsciente é recalcada, ela pode
para o termo dimensão. Este neologismo destaca a retornar de uma forma irreconhecível, para esca­
noção de "d ito", com o termo inglês mension, que par da censura. Ora, curiosamente, o "duplo sen­
significa "casa", "residência". Pressupõe, ademais, tido" de uma palavra, a polissemia da linguagem
a distinção, no campo da palavra, entre o dito e o pode constituir a forma mais adequada de tais
dizer. transformações. Foi assim, por exemplo, para aque­
Todo enunciado, sendo feito de significantes, la jovem que sofria de uma dor terebrante na fron­
coloca-se no lugar do Outro como lugar da lingua­ te, dor que a remetia, inconscientemente, a uma
gem. A morada do dito é, pois, o Outro. O psica­ longínqua lembrança de sua avó desconfiada, que
nalista só pode tratar do inconsciente, a partir do a olhava com um olhar "penetrante". Neste caso,
dito do analisando, e a experiência freudiana nos o inconsciente joga com as palavras, e a interpre­
mostra "que não há inconsciente senão o do dito" tação funciona, naturalmente, como dito espiritu­
(Lacan, Mais, ainda). Um sonho é lido a partir do oso.
que se diz dele, e não leva a nenhuma experiência Também, quando Freud recua um pouco, em
mística. O inconsciente é um saber que se escreve relação ao trabalho estritamente clínico, será leva­
com significantes. do a dedicar a esta questão toda uma obra, Os chis­
Entretanto, não se pode separar o dito do di­ tes e sua relação com o inconsciente (1905). Esse livro
zer: "Q ue se diga fica esquecido atrás daquilo que constitui, com A interpretação de sonhos (1900) e a
se diz, naquilo que se ouve", escreveu Lacan em Psicopatologia da vida cotidiana (1901), uma das três
"UÉtourdit" (Scilicet, n® 4,1972). O dito se une ao grandes obras consagradas aos mecanismos de lin­
dizer do sujeito que o diz, seja porque o sujeito faz guagem do inconsciente.
valer, claramente, em seu discurso, a subjetivida­ O que faz com que uma interjeição, uma fór­
de que atribui a si mesmo, o que acontece no dis­ mula, uma réplica possam ser consideradas um
curso histérico, seja porque o sujeito se reduz ao dito espirituoso? Freud dedica, primeiramente,
corte do traço unário, por exemplo, no discurso uma grande parte de sua obra ao estudo dos me­
analítico (sujeito, discurso). canismos formais do espírito, os quais, aliás, são
Todavia, é preciso observar que o sujeito não os mesmos do trabalho do sonho, isto é, da elabo­
é o autor do dizer, embora nele faça ouvir sua pre­ ração que produz o sonho manifesto, a partir do
sença. Uma concepção desse tipo faria retomar a sonho latente. Entre esses mecanismos, sem dúvi­
uma psicologia do ego, e a uma psicanálise para a da o mais assíduo é o da condensação. E ela que
qual o inconsciente é um duplo do ego, exprimin­ está em jogo, no primeiro exemplo dado por Freud.
do-se nas profundezas da pessoa. Em uma peça dos Quadros de viagem, de Heine,
O sujeito nada mais é do que o efeito do dito, Hirsch-Hyacinthe, vendedor de bilhetes de loteria
isto é, o corte do significante, pelo qual se repre­ e cirurgião pedicuro, vangloria-se de suas relações
senta, junto a um outro significante (sujeito). O di­ com o rico barão de Rothschild, e termina com es­
zer de um sujeito, em compensação, origina-se de sas palavras: "Doutor, como é verdade que Deus
um lugar que é a hiância do simbólico: o real, que me favorece, eu estava sentado ao lado de Salo-
vai preencher o objeto do desejo. O sujeito ignora mon Rothschild, e ele me tratava completamente
esta origem, esta causa de seu dizer, o qual, em de igual para igual, de uma forma muito familio-
seguida, se extravia em demandas infinitas. nária (formações do inconsciente). Vejamos o sen­
Dolto (Françoise) 52

tido que um tal dito espirituoso poderá ter: Roths- pinadamente a verdade — diz Freud — na reali­
child o tratava de forma familiar, mas dentro do dade está feliz em tirar a máscara".
que é possível a um milionário, sem dúvida o tra­ Se finalmente no chiste o sujeito pode tomar a
tava com aquela condescendência comum às pes­ palavra, é fazendo-o rir que ele desarma o Outro,
soas muito ricas. Porém, também ao mesmo tem­ que podería criticá-lo, e Freud destaca, no dito es­
po se pode ver o quanto o tom espirituoso está li­ pirituoso, o estatuto de terceiro; uma zombaria
gado à própria forma lingüística, a condensação pode visar a uma determinada pessoa, porém ela
de familiar e milionário, em um neologismo. Ex­ só vale como chiste quando enunciada por um ter­
pressa de outra forma, a idéia perdería qualquer ceiro, um terceiro que, ao rir, irá confirmar que ela
caráter espirituoso. é admissível. Esse terceiro poderá ser considerado
Evidentemente, há uma grande variedade de como uma das fontes, a partir das quais Lacan
ditos espirituosos, que podem envolver a conden­ constitui seu conceito do Outro, instância junto à
sação, mas também, por exemplo, o "deslocamen­ qual tentamos fazer reconhecer nossa verdade.
to", ou mesmo vários registros ao mesmo tempo, e Assim tomado, o dito espirituoso fornece uma das
Freud descreve longamente seu funcionamento, representações mais exatas do levantamento do
tirando muitos de seus exemplos das histórias de recalque.
judeus. Assim, dois judeus se encontram, perto de
uma casa de banhos: "Tomaste um banho?", pergunta Dolto (Françoise). Psiquiatra e psicanalista fran­
um deles — "Como?", diz o outro, "Está faltando cesa (Paris 1908 — id. 1988).
algum deles?". Neste caso, a condensação reside no Em sua tese, F. Dolto resume, sob o título
duplo sentido do verbo tomar; mas, ao mesmo tem­ Psychanahjse et pédiatrie, tanto a teoria de S. Freud
po, há um deslocamento do destaque das palavras, como as aplicações que concebe para si. Ao mes­
tendo o segundo fingido ouvir "tu tomaste um ba­ mo tempo, faz sua análise com R. Laforgue. Ela
nho?", quando o primeiro lhe tinha perguntado "tu sentia, desde a infância, uma vocação: a de ser
tomaste umbanho?". "médica de educação", e tinha por isso estudado
A que se deve a satisfação sentida ao se fazer Medicina, contra a vontade da família, tornando-
ou ouvir um chiste? O mero e simples jogo de pa­ se em julho de 1939. Desde 1938, a pedido de Heu-
lavras, por exemplo, em suas sonoridades, não yer, prepara-se para o internato dos asilos. Encon­
pode ser negligenciado, enquanto remete a um tra Lacan em Sainte-Anne, onde ele já lecionava.
grande prazer da infância. Porém, Freud insiste Esse encontro irá se revelar importante, criando
sobretudo no fato de que aquilo que se diz com vínculos de amizade entre eles.
espírito é aceito com mais facilidade pela censura, Na área da infância, escolhe e desbrava então
mesmo quando se trata de idéias em geral rejeita­ um território que fecunda com sua personalidade.
das pela consciência. O sujeito, quando faz ou ouve Atribuindo, da mesma forma que Laforge, a quem
um chiste, não precisa manter o recalcamento, ao se refere, mais importância ao "m étodo", pouco a
qual habitualmente recorre. Assim, ele libera a pouco irá forjar o seu, a partir de uma generosida­
energia costumeiramente utilizada para isso, e é de e de uma confiança inabalável nas crianças. Alia
nessa poupança de energia que encontra seu pra­ a isso uma intuição magistral, junto, como dirão
zer, sendo este definido classicamente como dimi­ seus pares, com um conhecimento instintivo da
nuição da tensão. infância. Toda a sua obra foi dedicada ao que ela
Além disso, Freud faz um recenseamento das chamou de La cause des enfants, título de uma de
principais tendências do espírito: o espírito obsce­ suas últimas publicações. Inicialmente, seu objeti­
no, o espírito agressivo, o espírito cínico e o espíri­ vo era ajudar a tarefa dos pais e educadores. Pen­
to cético. Pode-se ver bem, nem que seja pelo exem­ sava então que, com a compreensão e uma ajuda
plo de Hirsch-Hyacinthe, o quanto pode ser im­ esclarecida aos adultos, iria surgir naturalmente o
portante, para um sujeito que precisou conter uma bem-estar da criança. Com energia e coragem, ali­
queixa ou zombaria, poder mostrar seu sentimen­ adas a um grande sentido de comunicação, ela se
to, por meio de um chiste; O chiste e sua relação com torna uma personalidade dos meios de comunica­
o inconsciente é rico em exemplos semelhantes a ção, consagrada pelas transmissões radiofônicas.
este, em particular exemplos de casamenteiros, que Fazendo escola, prodigaliza, em seus seminários,
precisam constantemente dissimular, para louvar um ensino que às vezes desperta entusiasmo.
a excelência das uniões que estão favorecendo, ca­ Decide entrar na "Escola Freudiana", que La­
samenteiros que, no caso, deixam transparecer uma can acaba de fundar, mas não se sente ligada à sua
realidade bastante diferente, quando o negócio lhes doutrina. Utiliza os conceitos freudianos e lacani-
foge. "Aquele que deixa, dessa forma, escapar ino- anos, forjando, ela própria, alguns novos concei­
53 Dolto (Françoise)

tos. Poder-se-ia resumir a obra e a pesquisa de lugar deixado livre pela mãe. A castração edípica,
Françoise Dolto como uma tentativa, por meio de que se seguiría às duas anteriores, refere-se, muito
uma boa maternagem, de fazer com que a criança especificamente, ao interdito do incesto e também
se situe bem em seu esquema e imagem corporais, ao conjunto de seduções ou relações sexuais com
isso pelo efeito daquilo que chama de "as castra- os adultos. Também deve cortar curto todos os ar­
ções simbolígenas". Essas são entendidas como as dis dirigidos ao genitor do outro sexo ou ao adul­
marcas que iriam sancionar, no fim de um estágio to rival homossexual.
do desenvolvimento, as sublimações que dele de­ Françoise Dolto, com essa óptica, parte da pri­
correm, e a passagem ao estágio seguinte. Segun­ meira castração, a castração umbilical, aquela que
do ela, a amância é aquilo que especifica o fato de indica o nascimento de um ser e que é o protótipo
que uma mãe é completamente, em sua pessoa, em de todas as outras. Parece importante referir que
sua presença, pelos cuidados que fornece, um "ob­ sua teoria repousa, portanto, não em uma castra­
jeto de amância". No primeiro estágio da vida, a ção simbólica originada da lei, da qual o pai é o
fase oral, que chamará de bucal, o ter e o ser são representante, mas na idéia de fases do desenvol­
confundidos, devido ao lugar de encruzilhada des­ vimento, que precisam, a cada vez, ser superadas
se período, pois nele se encontram e se cruzam as por uma doação; doação de um corte da mãe, tor-
faculdades "aerodigestivas", englobando a preen- nando-se assim simbolígena.
são tanto labial, dentária, gustativa e de degluti­ Do mesmo modo, sua concepção do narcisis-
ção, como a de emissão dos sons, aspiração e expi­ mo repousa sobretudo no que ela definiu como a
ração do ar. euforia de uma boa saúde, junto com a relação su­
Este é o momento do desenvolvimento de um til com a linguagem originada pela mãe e por ela
sujeito no qual é instalado, julga ela, para toda a mantida; o que ela simboliza como "eu-mamãe-o
vida, o modelo de sua futura relação com os ou­ mundo". A criança toma consciência de seu cor­
tros. Essa tem assim sua fonte na conjunção do pra­ po, de seu ser, e criaria sua imagem a partir do dis­
zer e da ação do ato de levar à boca alguma coisa curso que dele faz sua mãe, no momento em que
agradável e de sentir prazer nisso; isso na atmos­ ela satisfazia suas necessidades, criando, assim,
fera de amância, caracterizada por uma boa rela­ zonas chamadas de "eróticas", porque entram em
ção com a mãe. Dessa conjuntura irá nascer o fu­ comunicação com a linguagem da mãe; todavia,
turo comportamento relacionai. desde que não tenha nenhum contato com o pró­
Da mesma forma, na fase anal, a libido não é prio objeto. As palavras que mediatizam ou inter­
investida apenas nos orifícios do corpo, mas tam­ ditam o gozo do seio, por exemplo, permitem, diz
bém em todo o interior do corpo, onde ela se di­ ela, que a boca ou a língua recuperem seu valor de
funde, indo encontrar-se com a libido oral. Essa desejo, pois a mudança, no nível do desejo, é feita
fase assegura um erotismo narcisismante, em nome pela palavra. É preciso compreender que a formu­
do prazer auto-erótico de domínio que é aferente lação teórica de Françoise Dolto, ela própria o re­
dele; todavia, pode desembocar no masoquismo, pete constantemente, é construída sobre a idéia de
se se ocupar demais com a retenção. uma maternagem bem sucedida e se origina de
A necessidade das castrações simbolígenas uma observação, considerada concisa e minuciosa
decorre por completo dessa abordagem. A mãe da vivência tanto sensitiva como simbólica do lac-
deve dar, então, castrações ao filho, castrações por tente, nos primeiros momentos de sua vida. Ela
ela chamadas de "castrações humanizantes", por­ deduziu disso o conceito de "paiern", conduta ori­
que têm por finalidade, na fase oral, separar o fi­ ginada do desejo confundido com "a satisfação de
lho do corpo a corpo com a mãe e, na fase anal, viver e de amar". Finalmente, os lugares que li­
impedir o corpo a corpo tutelar, aquele que manti­ gam o lactente à mãe, associados ao seu cheiro, fa­
nha, até então, tutelado o filho, no nível de sua zem com que ele sinta esses próprios lugares como
autonomia corporal. No primeiro caso, a castração zona erógena. Esse conjunto de momentos vividos
oral irá permitir o acesso à linguagem; no segun­ é comparado a um nirvana, constituído pela pre­
do, irá permitir atingir a autonomia corporal, por sença matema e pela segurança aninhada em seu
uma renúncia, a de manipular, junto com a mãe, regaço. Esse nirvana seria, pois, sempre buscado,
as fezes, seu corpo, etc. Para que a castração seja a cada vez que se produzem tensões ligadas ao
bem sucedida nessa segunda fase, é preciso, acre­ desejo ou à necessidade.
dita, que o corte com a oralidade tenha sido bem Segurança, narcisismo e auto-imagem fundam-
superado. Essa segunda castração, além da auto­ se em uma "boa maternagem", na qual a criança
nomia corporal, concede ao sujeito a possibilida­ toda, em sua "pré-pessoa" em vias de estrutura­
de do advento de uma boa relação com o pai, no ção, torna-se ela própria lugar relacionai, lugar
Dora 54

desse vínculo interrompido e depois reencontra­ pela mediação materna. Em 1988, em sua autobio­
do. grafia, Françoise Dolto esclarecerá seu pensamen­
Assim compreendidas, as castrações irão per­ to, ao falar da relação que mantém com a fé e com
mitir a simbolização e contribuir para modelar a Deus: "Eu não poderia pensar em ser psicanalista
imagem do corpo, durante o que ela chama de "his­ se não fosse crente".
tória de suas reelaborações sucessivas". Assim, ela Dever-se-á integrar essa afirmativa com seu
é edificada na relação do corpo com a linguagem corpo teórico? Freud lhe teria dado seu aval?
e na relação da linguagem com os outros. Ela se Françoise Dolto escreveu Psychanalyse et pédi-
toma a ponte, o meio da comunicação inter-huma- atrie (1938), Le cas Dominique (1971), no qual apre­
na. Se — diz ela — não tivesse havido palavras, a senta sua técnica a respeito de um adolescente
imagem do corpo não teria estruturado o simbo­ apragmático, Uevangile au risque de la psychanalyse
lismo de um sujeito, tomá-lo-ia um "débil ideati- (19 77)eA u jeu du désir (1981).
vo relacionai". O esquema corporal deve ser con­
cebido como um instrumento, o corpo, o media­ D ora. Pseudônimo de uma jovem histérica que fez
dor organizado entre o sujeito e o mundo. Em prin­ análise com S. Freud.
cípio, ele é o mesmo para todos os indivíduos, es­ A análise é apresentada por ele em "Fragmen­
pecifica o indivíduo enquanto representante da to da Análise de um Caso de Histeria" (1905).
espécie; é o intérprete da imagem do corpo. Seu O texto, que descreve a análise de uma jovem
conjunto, outorgado à vivência da linguagem, for­ de 18 anos, realizada por Freud em 1900, organi­
ma a unidade narcisista do ser. za-se em tomo do problema da função traumática
O lugar do pai é pouco evocado nessa formu­ da sexualidade, na histeria, bem como do papel
lação, centrada em especial na imagem básica de­ determinante da homossexualidade feminina na
corrente da relação mãe-filho. A noção de desejo, transferência histérica.
no entanto, não está ausente, mas é recoberta pela —» acting-out, histeria.
noção de prazer enquanto prazer parcial, negado
e
e c o n ô m ic o , adj. (alem.: õkonomisch; fr.: économi- ses investimentos e sua substituição por identifi­
que; ing.: economic). DiZ-se de um ponto de vista cações.
que leva em conta a energia psíquica, a energia di­ S. Freud rapidamente observou as manifesta­
retamente quantificável, da qual se poderia avali­ ções do complexo de Édipo e avaliou sua impor­
ar, por exemplo, seu aumento ou diminuição. tância, tanto na vida da criança como no inconsci­
O ponto de vista econômico consiste em su­ ente do adulto. "Encontrei em mim e em todo lu­
por, a partir da experiência clínica, que uma ener­ gar — escreveu ele a W. Fliess, em 1897 — senti­
gia diretamente mensurável está circulando no mentos de amor por minha mãe e de ciúme de meu
aparelho psíquico, que ela se liga a tais ou quais pai, sentimentos que são, acredito, comuns a to­
representações (investimentos*), que eventualmen­ das as crianças pequenas". Mais tarde, irá escre­
te exerce uma ação, para vencer a barreira do re­ v e r "Isso é tão fácil de estabelecer que seria ne­
calque, que ela produz distúrbios, quando está blo­ cessário um esforço para não reconhecê-lo. De fato,
queada, que, inversamente, o sujeito fica liberado, todo indivíduo conheceu essa fase, mas a recalcou".
pela catarse, dos afetos retidos em si, etc. Em suma, ("Resistências à Psicanálise", 1925)
trata-se "d e acompanhar o destino das quantida­
des de excitação e de chegar, pelo menos, a algu­
C o m plexo de É d ip o d o m e n in o
ma estimativa relativa de sua grandeza".
Sem dúvida, o ponto de vista econômico cons­ É sobre o caso do menino, considerado o mais
titui um dos aspectos mais hipotéticos da doutri­ simples, e comportando menos zonas de sombra
na freudiana. Neste sentido, é comparável a deter­ que o da menina, que Freud apóia sua descrição.
minadas definições iniciais das próprias ciências A "pré-história" do complexo de Édipo parece-lhe
físicas, que, por exemplo, podem definir uma for­ difícil de estabelecer com certeza, Jjorém Freud jul­
ça por seus efeitos, comparando, eventualmente, ga que ela comporta, por um lado, uma identifica­
seus efeitos aos de uma outra força. ção primária com o pai, tomado como o ideal, iden­
No entanto, possui uma utilidade aparente­ tificação desde logo ambivalente, e, por outro, um
mente indispensável em Freud, tanto na metapsi- investimento libidinal primeiro, envolvendo a pes­
cologia* como na concepção do tratamento. A "re­ soa que cuida da criança: a mãe. Essas duas rela­
gra de abstinência", por exemplo (abstinência), é, ções, de início independentes, confluem para rea­
de fato, fundada em considerações econômicas: tra­ lizar o complexo de Édipo.
ta-se de evitar que a energia necessária ao traba­ A descrição que fornece, em Esboço de psicaná­
lho do tratamento seja desviada para a busca de lise (1940), permite apreciar como o complexo de
satisfações substitutivas. Édipo está ligado à fase fálica da sexualidade in­
fantil. "Quando o menino (por volta dos 2 ou 3
É d ip o (co m p le x o d e), (alem.: Õdipuskomplex; fr.: anos) entra na fase fálica de sua evolução libidi­
complexe d'OEdipe; ing.: OEdipus complex). 1. Con­ nal, tem sensações voluptuosas, provenientes de
junto de investimentos amorosos e hostis que a cri­ seu órgão sexual, e aprende a buscá-las por si mes­
ança faz sobre os pais, durante a fase fálica. 2. Pro­ mo, pela excitação manual, apaixonando-se então
cesso que deve conduzir ao desaparecimento des­ pela mãe e desejando possuí-la fisicamente, da
Édipo (complexo de) 56

maneira como suas observações de ordem sexual concluir "uma das realizações mais importantes,
e sua intuição lhe permitiram adivinhar. Procura porém mais dolorosas do período pubertário: a li­
seduzi-la, exibindo-lhe seu pênis, cuja posse o en­ bertação da autoridade parental" (Três ensaios so­
che de orgulho; em uma palavra, sua virilidade, bre a teoria da sexualidade, 1905).
cedo despertada, incita-o a querer substituir seu O complexo de Édipo é, pois, um processo que
pai junto a ela, o qual, até aquele momento, tinha deve levar à posição sexual e à atitude social adul­
sido um modelo, devido à sua força física eviden­ tas. Quando não superado, irá continuar a exercer,
te e à autoridade da qual era investido; agora, o a partir do inconsciente, uma ação importante e
filho considera seu pai como um rival". duradoura, e constituir, com seus derivados, o
Foi para simplificar que se reduziu o comple­ "complexo central de cada neurose".
xo de Édipo do menino à atitude ambivalente em
relação ao pai, e a tendência unicamente carinho­
sa para com a mãe: não se trata, neste caso, a não
C omplexo de É dipo da menina

ser da parte positiva do complexo. Uma investi­ Depois de tej, por muito tempo, considerado
gação mais aprofundada o descobre, na maior parte o complexo de Édipo da menina como simples­
do tempo, sob sua forma completa, positiva e ne­ mente análogo ao do menino, Freud destacou que
gativa, com o menino adotando, ao mesmo tem­ sua pré-história era diferente. De fato, a menina
po, a posição feminina carinhosa para com o pai, e tem, assim como o menino, a mãe como primeiro
a correspondente posição de hostilidade ciumen­ objeto de amor, e, para poder orientar seu desejo
ta, em relação à mãe. Essa dupla polaridade deve- para o pai, é preciso primeiro que ela se desape­
se à bissexualidade originária de todo ser huma­ gue desta. O processo que leva ao complexo de
no (O ego e o id, 1923). Edipo é, portanto, necessariamente mais longo e
Produto da fase fálica, o complexo de Édipo é mais complicado na menina ("Algum as Conse­
"destruído" pelo complexo de castração. De fato, quências Psíquicas da Diferença Anatômica entre
depois que o menino admitiu a possibilidade de os Sexos", 1925).
castração, não é mais sustentável nenhuma das Esse processo se inicia quando a menina cons­
duas posições edípicas: nem a posição masculina, tata sua inferioridade em relação ao menino, con-
que implica a castração como punição do incesto, siderando-se castrada. Pode, então, ou desviar-se
nem a posição feminina, que a implica, a título de da sexualidade ou não desistir de sua masculini­
pressuposto ("A Dissolução do Complexo de Édi­ dade, ou, enfim, escolher uma terceira via, "muito
po", 1924). O menino, então, precisa abandonar o sinuosa, que desemboca na atitude feminina nor­
investimento objetai da mãe, que irá se transfor­ mal final, que escolhe o pai como objeto" ("Sobre
mar em uma identificação. Na maioria das vezes, a Sexualidade Feminina", 1931). A assimetria en­
trata-se de um reforço da identificação primária tre o complexo de Édipo do menino e o da menina
com o pai (esta é a evolução mais normal, pois se deve, pois, às suas respectivas relações com o
acentua a virilidade do menino), mas também pode complexo de castração. No menino, este põe fim
ser uma identificação com a mãe, ou ainda a coe­ ao complexo de Édipo, enquanto que, ao contrá­
xistência das duas identificações. rio, na menina, abre-lhe o caminho.
Essas identificações secundárias, e mais espe­ As principais etapas dessa via muito sinuosa
cialmente a paterna, constituem o núcleo do supe- são as seguintes: sob a influência da inveja do pê­
reu. Tendo reconhecido o pai como obstáculo à re­ nis, a menina se desapega da mãe, à qual censura
alização dos desejos edípicos, a criança "introjeta por tê-la posto tão malprovida no mundo; depois,
sua autoridade", "toma emprestada do pai a força a inveja do pênis encontra, segundo uma equação
necessária" para ele mesmo erigir este obstáculo. simbólica, um substituto, no desejo de ter um fi­
Isso deverá levar não a um simples recalcamento lho, e a menina toma, com esta finalidade, o pai
(pois havería sempre, então, um retorno do recal­ como objeto de amor. A partir de então, identifica-
cado), mas, "se as coisas se realizarem de uma for­ se com a mãe, coloca-se em seu lugar, e, querendo
ma ideal, a uma destruição e supressão do com­ substituí-la junto ao pai, passa a odiá-la (ao ran­
plexo". Todavia, Freud acrescenta que jamais é bem cor, ligado à inveja do pênis, é acrescentado o ciú­
nítida a fronteira entre o normal e o patológico ("A me edípico).
Dissolução do Complexo de Édipo"). Quanto ao motivo do desaparecimento do
Aliás, em outros textos Freud observa que a complexo de Édipo, na menina, Éreud não o con­
escolha de objeto edípica reaparece na puberdade, sidera claro, acrescentando que os efeitos do com­
e que o adolescente se acha diante da tarefa muito plexo continuam a se fazer sentir muitas vezes, na
pesada de rejeitar suas fantasias incestuosas, e de vida mental normal da mulher, cujo "supereu nun­
57 ego

ca será tão inexorável, tão impessoal, tão indepen­ mais seja do que uma conseqüência da submissão
dente de suas origens afetivas, como o que exigi­ do ser humano ao significante.
mos do homem". Um juízo que todavia tempera,
observando que este é o resultado de "construções ego, s.m. inv. (alem.: Ich; fr.: ego; ing.: ego). Tradu­
teóricas da masculinidade pura e da feminilidade ção usual na língua inglesa do termo freudiano Ich,
pura", que deve ser relativizado, considerando-se que em francês significa tanto “moi" como "je".
a constituição bissexual de cada indivíduo. —> psicologia do ego

empatia, s.f. (alem.: Einfühlmg; fr.: empathie; ing.:


A SIGNIFICAÇÃO DO É d IPO empathy). Forma de conhecimento intuitivo do ou­
A significação do Édipo não deve ser reduzi­ tro, que repousa na capacidade de partilhar e mes­
da ao conflito edípico imaginário, ao qual J. Lacan mo de ter sentimentos pelo outro.
chama de "a farsa da rivalidade sexual". A passa­ Para certos psicanalistas, como T. Reik (1937),
gem pelo Édipo leva à posição heterossexual e à que se interessaram pela empatia, a observação do
formação do supereu, na qual Freud vê a fonte da paciente passa pela auto-observação da parte do
moral e da religião. eu do analista, transformada pela admissão do
A representação triangular, muitas vezes pro­ objeto nele.
posta, não explica a função do Édipo, porque não
mostra que se trata de um processo, e, afortiori, energia livre-energia ligada (alem.: freie Ener-
nada indica do que esse envolve. Isso se deve a gie-gebundene Energie; fr.: énergie libre-énergie liée;
que ela atribui ao pai e à mãe posições simétricas, ing.: free eitergy-bound energy). Formas assumidas
que não são as suas. De fato, Freud fala de "um pela energia psíquica, respectivamente no proces­
único ponto concreto": a atitude para com o pai, so primário e no processo secundário.
que determina a evolução do complexo, tanto no Quando Freud considera o funcionamento psí­
menino como na menina. É por isso que Lacan nun­ quico do ponto de vista econômico, distingue a
ca utiliza essa representação triangular, falando da energia "livre", que tende a se descarregar imedi­
"metáfora paterna”. Ele chama de "Nome-do-Pai" ata e completamente (característica do processo
a função simbólica paterna, ou seja, aquilo que primário e do sistema inconsciente), da energia "li­
constitui o princípio eficaz do Édipo, e mostra que gada", isto é, acumulada em certos neurônios (pro­
o "Desejo da M ãe" é mandado para as profunde­ cesso secundário, sistema pré-consciente-conscien-
zas pelo Nome-do-Pai, levando a operação a um te).
significado — o falo —, e isso para os dois sexos
(Escritos). Essa forma de escrever o Édipo leva a Erikson (Erik Homberger). Psicanalista ame­
crer que sua função é a de promover a castração ricano de origem alemã (Frankfurt-sobre-o-Meno,
simbólica. 1902).
Lacan afirma que se o Nome-do-Pai assegura É considerado um dos representantes da ten­
essa função, em nossa civilização, isso é decorren­ dência culturalista da psicanálise. Seus trabalhos
te da influência do monoteísmo, nada tendo de se referem principalmente à adolescência: Childhood
obrigatório nem de universal. O mito edípico é ati­ and Society (1950), Young Man Luther (1958), Insight
vo no inconsciente do indivíduo ocidental, mas­ and Responsability (1964), Identity: Youth and Crisis
culino ou feminino, porém, em outras civilizações, (1968). Escreveu também Vital Involvement in Old
as africanas, por exemplo, o Édipo poderá ser nada Age (1986).
mais do que "um pormenor, em um mito imen­
so", outras estruturas simbólicas encontrando-se erógeno, adj. (alem.: erogen; fr.: érogène; ing.: ero-
nele, em posição de promover a castração. togenic). Diz-se de qualquer parte do corpo susce­
O problema são as conseqüências da normali­ tível de manifestar uma excitação de tipo sexual.
zação edípica. Freud constata que ela está na ori­ Para a psicanálise, a noção de zona erógena
gem de um "fervor nostálgico", em relação ao Pai traduz o fato de que as pulsões parciais podem in­
(O ego e o id). Lacan o repete, ao dizer que o mito vestir qualquer lugar do corpo.
edípico "não termina com a Teologia" (Escritos),
mas vai além: ele adianta que o mito edípico atri­ Eros, s.m. (alem.: Eros; fr.: Éros; ing.: Eros). Na te­
bui ao Pai a exigência da castração (com a princi­ oria freudiana, é o conjunto das pulsões de vida.
pal conseqüência, que adquire a significação de um O termo Eros, que designa as pulsões* de vida,
dom demandado pelo Outro), embora ela nada em S. Freud, conota-as com a dimensão sexual,
espelho (fase do) 58

embora evitando reduzir a sexualidade à genitali- milar, desde que ela seja animada de movimentos
dade. A referência ao deus grego do Amor permi­ de um estilo suficientemente parecido com os pró­
te balizar um campo bastante vasto, da perversão* prios de sua espécie. Estes fatos se inscrevem em
à sublimação*. uma ordem de identificação homeomórfica. Pode-
se observar, ao mesmo tempo, a capacidade de en­
e s p e lh o (fa s e do) (alem.: Spiegelstadium; fr.: sta- godo da imagem, que já indica a função de desco­
de du mirroir; ing.: mirror phase). Conceito elabo­ nhecimento do eu.
rado por J. Lacan para explicar o narcisismo pri­ Portanto, pode-se dizer que é a imagem espe­
mário, o primeiro esboço do eu e as identificações cular que dá à criança a forma intuitiva de seu cor­
secundárias. po, bem como a relação de seu corpo com a reali­
Lacan fala, pela primeira vez, da "fase do es­ dade que o cerca (do Innemvelt ao Umivelt). A cri­
pelho", em 1936, em seu artigo "A Família", da ança irá então participar, imaginariamente, da for­
Encyclopédie française. Irá retomar o tema, que de­ ma total de seu corpo: "o sujeito se vê duplicado
senvolverá durante seu ensino, pois a fase do es­ — vê-se como constituído pela imagem refletida,
pelho é uma tentativa de elaboração de uma teo­ momentânea e precária da mestria, imaginando-
ria que explique a instalação do primeiro esboço se homem somente a partir daquilo com que for­
do eu, que logo se constitui como eu ideal, origi­ ma sua imagem" (Lacan, no Seminário XI, 1964,
nando identificações secundárias. "O s Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanáli­
A fase do espelho é o aparecimento do narci­ se", 1973).
sismo primário, narcisismo no sentido pleno do Porém, o que é essencial, no triunfo da assun­
mito, pois indica a morte, morte ligada à insufici­ ção da imagem do corpo no espelho, é que a crian­
ência vital do período no qual surge esse momen­ ça, carregada pela mãe, cujo olhar a olha, vira-se
to. De fato, esta é uma fase da constituição do ser para ela como para lhe pedir que autentifique sua
humano, situada entre o sexto e o décimo oitavo descoberta. E o reconhecimento de sua mãe: "Sim,
mês, período caracterizado pela imaturidade do és tu, Pedro, meu filho", que, com um "és tu", dará
sistema nervoso. Esta prematuridade específica do um "sou eu".
nascimento, no homem, é comprovada pelas fan­ A criança poderá assumir uma determinada
tasias de corpo fragmentado, encontradas nos tra­ imagem de si mesma ao percorrer processos de
tamentos psicanalíticos. É o período que Melanie identificação, porém é impossível reduzir, a um
Klein chamou de "esquizóide", e que precede a fase plano puramente econômico, ou a um campo pu­
do espelho. ramente especular (seja qual for a prevalência do
A criança, pois, no momento pré-especular, vê- modelo visual), aquilo que é a identificação no es­
se como fragmentada; não faz nenhuma diferença pelho, pois nunca é com seus próprios olhos que a
entre, por exemplo, o seu corpo e o de sua mãe, criança se vê, mas sempre com os olhos da pessoa
entre ela e o mundo exterior; ora, a criança carre­ que a ama ou a detesta. Abordamos então o cam­
gada pela mãe irá reconhecer sua imagem. De fato, po do narcisismo, como fundando a imagem do
pode-se vê-la observar-se no espelho, voltando-se corpo da criança, a partir do que é amor da mãe, e
para olhar o ambiente refletido (este é o primeiro ordem do olhar dirigido a ela. Para que a criança
momento da inteligência): sua mímica e seu júbilo possa se apropriar dessa imagem, para que possa
demonstram uma espécie de reconhecimento de interiorizá-la, necessita que tenha um lugar no
sua imagem no espelho. Então ela irá sentir, de grande Outro (no caso, encarnado pela mãe). Esse
maneira lúdica, a relação de seus movimentos com signo de reconhecimento da mãe, com direito (ou,
sua imagem e com o ambiente refletido. aliás, sem ele) de se chamar Pedro, irá funcionar
Deve-se compreender a fase do espelho como como traço unário*, a partir do qual irá se consti­
uma identificação, isto é, a transformação produ­ tuir o ideal do eu. E nisso que "mesmo o cego é
zida em um sujeito, quando ele assume uma ima­ nele sujeito de se saber objeto do olhar".
gem. Que esta imagem seja capaz de um efeito for­ Porém, se a fase do espelho é a aventura ori­
mador, isso é comprovado pela observação etoló- ginal, por onde o homem faz, pela primeira vez, a
gica. De fato, a maturação da gônada na pomba experiência de que é homem, é também na ima­
possui, como condição necessária, a visão de um gem do outro (o outro espelho) que se reconhece.
congênere; aliás, basta seu reflexo, em um espe­ E enquanto outro que se vê pela primeira vez, e
lho. Da mesma forma, a passagem do grilo pere­ que se sente.
grino, da forma solitária para a gregária, é obtida Aliás, paralelamente ao reconhecimento de si
expondo-se o indivíduo, em uma determinada fase, no espelho, observa-se, na criança, um comporta­
à ação exclusivamente visual de uma imagem si­ mento particular, em relação a seu homólogo em
59 esquema óptico

idade. A criança, colocada em presença de uma é novamente utilizado, mais tarde, durante o Se­
outra, observa-a curiosamente, imita-a em todos os minário X, 1962-63, "A Angústia", no qual, graças
gestos, tenta seduzi-la ou impor-se a ela, em um à contribuição anterior sobre a identificação, per­
verdadeiro espetáculo. É mais do que um simples mite que se trate do objeto a.
jogo. A criança, em tal comportamento, antecipa a O esquema óptico remete a uma divertida ex­
coordenação motora ainda imperfeita nessa idade, periência de Física, na qual são utilizadas deter­
e tenta situar-se socialmente, comparando-se com minadas propriedades da óptica. Trata-se de ver
a outra. Interessa reconhecer aquele que está capa­ surgir, em determinadas condições, um ramalhete
citado a reconhecê-lo, e interessa muito mais im- de flores, em um vaso real que de fato não o con­
por-se a ele e dominá-lo. tém, como se pode perceber, quando se sai do cam­
Tais comportamentos de crianças pequenas, po em que é produzida a ilusão. Esse dispositivo
postas frente à frente, são marcados pelo transiti- (Figura 1) refere-se à óptica geométrica, na qual o
vismo mais impressionante, verdadeira captação espaço real é duplicado por um espaço imaginá­
pela imagem do outro: a criança que bate diz ter rio. Próximo do centro geométrico de um espelho
sido batida, a que vê cair, chora. Reconhece-se aqui esférico, os pontos reais possuem imagens reais,
a instância do imaginário, da relação dual, da con­ situadas em pontos diametralmente opostos. Po­
fusão entre si e o outro, a ambivalência e a agressi­ rém, para que seja visível a imagem real, é preciso
vidade estrutural do ser humano. O eu é a ima­ colocar o olho dentro de um cone (beta, B', gama),
gem do espelho, em sua estrutura invertida. O su­ definido por uma reta geratriz, que tem como pon­
jeito se confunde com sua imagem e, em suas rela­ to fixo essa imagem real, e como curva diretriz o
ções com seus semelhantes, manifesta-se a mesma bordo circular do espelho. Explica-se, assim, a ex­
captação imaginária do duplo. Ele também se ali­ periência do "ramalhete invertido", que Lacan re­
ena na imagem que quer dar de si; ademais, o su­ colheu com Bouasse. A imagem real B' das flores
jeito ignora a sua alienação, e assim modo toma B, colocadas dentro da caixa S, surge acima do vaso
forma o desconhecimento crônico do eu; o mesmo real V, para um olho colocado no cone acima defi­
irá ocorrer com seu desejo: ele só poderá observá- nido, e que se acomode em V.
lo no objeto do desejo do outro. Com a intenção de servir-se disso para formar
A fase do espelho é uma encruzilhada estru­ a imagem das relações intra-subjetivas, Lacan co­
tural que comanda: 1. o formalismo do eu, isto é, a loca o vaso real, o corpo, virado dentro da caixa, e
identificação da criança com uma imagem que a as flores reais, os objetos, os desejos, os instintos,
forma, mas que a aliena primordialmente, a faz um em cima. A partir desse estágio, o dispositivo é ca­
"outro" que ela não é, em um transitivismo identi- paz de metaforizar o eu primitivo, constituído pela
ficatório dirigido a outrem; 2. a agressividade do divagem, por distinção entre mundo exterior e in­
ser humano, que precisa ganhar seu lugar sobre o terior, sendo esse primeiro eu apresentado de for­
outro, e se impor a ele, sob pena de ele próprio ser ma mítica, em Die Veriieinung.
aniquilado; 3. a instalação dos objetos de prazer,
cuja escolha sempre se refere ao objeto do desejo
do outro.

e s q u e m a ó p tic o (fr.: scltéma optique). Modelo fí­


sico, utilizado por Lacan para apresentar a estru­
tura do sujeito e o processo do tratamento analíti­
co.
Encontramos uma primeira representação do
esquema óptico no Seminário 1, 1953-54, "O s Es­
critos Técnicos de Freud". Trata-se, então, de mos­
trar claramente a distinção entre o eu ideal e o ide­
al do eu, e também de explicar como a psicanálise, Figura 1. A experiência do ramalliete invertido de Bouasse (Lacan,
embora agindo somente pela linguagem, é capaz Escritos, Éd. du Senil). 8 : 0 ramalhete real escondido na caixa S.
de modificar o eu, em um movimento em espiral. B': A imagem real do ramalhete, fi B' gama: cone onde o olho vê a
imagem real do ramalhete.
No texto "Observações sobre o Relatório de Dani­
el Lagache" (1960), tal como aparece nos Escritos
(1966), esse esquema óptico é beneficiado por um Encontramo-nos, neste caso, no nível de pu­
comentário enriquecido em sucessivos seminários, ros juízos de existência: ou se é ou não se é. Imagi­
em particular sobre "A Coisa". O esquema óptico nário e real altemam-se e intricam-se, presença em
esquema óptico 60

----«N \

Figura 2. Dispositivo óptico, munido de um espelho plano, este i o espelho A, comandado pelo grande Outro (Lacan, Escritos, Éd. du Seuil). I'
(A): imagem virtual do vaso escondido e do ramalhete, no espelho plano. A imagem real do vaso escondido não é visível, neste esquema, porque
o olho não pode vê-la diretamente.

um fundo de ausência, e, inversamente, ausência Assim, o modelo visualiza a relação especu­


em relação a uma possível presença. Porém, para lar, e seu enlace com a relação simbólica. Dentro
que se produza a ilusão do vaso invertido, isto é, da caixa, encontraremos a realidade do corpo, ao
para que o sujeito tenha acesso ao imaginário, é qual o sujeito quase não tem acesso, imaginando-
preciso que o olho que o simboliza esteja situado o, diz-nos Lacan, como uma luva, que pode ser vi­
no cone, e isso só depende de uma coisa, de sua rada do avesso, através dos "anéis orificiais". O
situação no mundo simbólico que de fato já está espelho esférico pode representar o córtex, suas
ali. As relações de parentesco, o nome, etc., defi­ reflexões, as "vias de autocondução". Evocamos
nem o lugar do sujeito no mundo da palavra, de­ aqui o boneco cortical de que Freud fala, em O ego
terminam se ele está ou não dentro do cone. Se ele e o id (1923), a propósito do eu concebido como
estiver fora, tem de lidar com o real nu, ele está "projeção de uma superfície"; como observa Freud,
"alhures". essa projeção é invertida, de cabeça para baixo.
Em "O caso Dick", de M. Klein, que Lacan co­ Comparamos esta imagem do corpo projetada,
menta, no Seminário I — "Os Escritos Técnicos de obtida pela inversão devido às vias nervosas, com
Freud" — vemos uma criança de 4 anos que, em­ a imagem em posição correta do vaso invertido,
bora possuindo certos elementos do mundo sim­ obtida pelo reflexo no espelho esférico. O sujeito
bólico, não se situa no nível da palavra; ela é inca­ só pode aceder a essa imagem real i(a), aliás au­
paz de formular um apelo. Esta criança, como mos­ sente na Figura 2, por meio de i'(a), sua imagem
tra a observação, está lidando com o real nu, ela se especular, portanto por uma alienação fundamen­
situa fora do cone, e a ação de M. Klein consiste tal do pequeno outro; é neste ponto que se situa a
em fazê-la entrar nele, por meio de suas interpre­ captura narcisista do eu ideal ( Ideal-lch). Porém,
tações maciças, onde ela lhe injeta, propriamente, esta relação especular está na dependência do gran­
um inconsciente. de Outro, que dirige o espelho plano (Encontra­
Sigamos, agora, o texto dos Escritos. O dispo­ mos, no esquema óptico, os quatro pólos do esque­
sitivo é completado por um espelho plano A (Fi­ ma L, com a materialização do espelho plano en­
gura 2), o que introduz atrás do espelho um espa­ tre a e a' ["Seminário sobre a Carta Roubada", Es­
ço imaginário, lugar das imagens virtuais. O su­ critos]). Superpõe-se ao espaço imaginário, atrás do
jeito só tem acesso à ilusão i(a), passando pela ima­ espelho, o lugar simbólico do Outro, atrás do muro
gem virtual i'(a) do espelho A, desde que acomo­ da linguagem, que corresponde, no modelo, ao es­
de sobre a', imagem virtual, reflexo de a, o objeto paço real, no qual encontramos o cone x’\f. Este
real. Mas é necessário que corresponda, atrás do Outro, do qual vemos o papel de testemunha, na
espelho, uma imagem virtual S, do sujeito $, den­ fase do espelho, é primitivamente esta "primeira
tro do cone real x'y' (observemos que, se a linha potência", o suporte da "coisa"; de suas "insígni­
ortogonal $ S passar fora do bordo do espelho pla­ as", marcas ou traços significantes, constitui-se,
no, o sujeito não verá sua imagem S). dentro do cone, o ideal do eu (Ich-Ideal) em I, so-
61 esquema óptico

Figura 3. Basatla tio espelho A, na processo do tratamento (Lacan, Escritos, Éd. du Senil).

bre o qual o sujeito se observa, para obter, "entre No entanto, no Seminário X, 1962-63, "A An­
outros efeitos, aquela miragem do eu ideal". O co­ gústia", Lacan reutiliza seu modelo óptico, a pro­
locá-lo ligeiramente para fora do campo imaginá­ pósito do objeto a. Essa nova representação do es­
rio ortogonal do espelho plano dá ao I todo seu quema óptico apresenta os eixos imaginário e sim­
valor simbólico, pois é ao se observar, nesse ponto bólico, o que lhe dá um aspecto comparável a um
de fato invisível no espelho, que o sujeito pode dos primeiros esquemas encontrados em Freud (em
obter o efeito da ilusão. particular o do manuscrito G). Porém, o espaço
A Figura 3 fornece uma representação (parci­ euclidiano, sugerido por essa abcissa e essa orde­
al) do trabalho analítico. O sujeito coloca o analis­ nada, é então transformado, pela presença dos es­
ta em A, fazendo dele "o lugar de sua palavra". O pelhos (Figura 4).
apagamento progressivo deste Outro, como espe­ Esse esquema exprime que "todo investimen­
lho de 90°, leva o sujeito de $1 para S2, no espaço to libidinal não passa pela imagem especular", "há
de seus significantes "atrás do espelho", até che­ um resto, é esse resto que o falo caracteriza, e o
gar a I. Lacan afirma, assim, que a relação em es­ falo não pode ser representado a não ser sob a for­
pelho com o outro, e a captura do eu ideal, servem ma de uma falta (- <p).
* de ponto de apoio, nessa passagem, durante a qual Esta falta é determinada por um corte no ní­
a ilusão "deve desfalecer, junto com a busca que vel da imagem especular, exatamente em relação
ela orienta". Em I, o sujeito $ percebe diretamente ao objeto a. Foi necessário o desvio, por meio do
a, e a ilusão do vaso invertido, ao mesmo tempo Seminário IX, 1961-62, "A Identificação", para se
que seu reflexo i'(a), no espelho A horizontal. Mas conceber a topologia de um objeto a não especu­
Lacan nos indica que o modelo encontra seu limi­ lar, de um objeto que não pode ser encontrado no
te na impossibilidade de nos esclarecer a respeito espelho. Esta é a topologia do plano projetivo, ou
da função simbólica do objeto a. cross-cap. De fato, ess ecross-cap recorta-se em uma

Imaginário

)< } \ / \
í ,(a)) í
X /
Sim bólico
(-»)

V
Figura 4. Modificação do dispositivo óptico, no Seminário "A Angústia". O cross-cap substitui a imagem do vaso e das flores.
esquizofrenia 62

parte especular, a fita de Mõbius, e em uma parte De fato, foi por motivos de estrutura que Freud
não especular, a rodela característica do objeto a. foi levado a conservar a unidade clínica da esqui­
zofrenia, no campo das psicoses, e também para
e s q u iz o fre n ia , s.f. (alem.: Schizophrenie; fr. schi- distingui-la da paranóia. O mecanismo de recalca­
zophrénie; ing.: schizophrenia). Segundo S. Freud, mento é idêntico nos dois casos, diferenciando o
entidade clínica que se distingue, dentro do grupo campo das psicoses do das neuroses, sendo sua
de neuroses narcísicas (psicoses) por uma locali­ característica essencial o desapego da libido do
zação da fixação predisponente a uma fase muito mundo exterior e sua regressão para o eu (e não
precoce do desenvolvimento da libido e por um para um objeto de substituição fantasmática, como
mecanismo particular de formação dos sintomas: na neurose). Quanto às características que distin­
o sobre-investimento das representações de pala­ guem a esquizofrenia da paranóia, Freud as rela­
vra (distúrbios da linguagem) e das representações ciona, por um lado, a uma localização diferente da
objetais (alucinações). fixação predisponente e, por outro, a um mecanis­
De todas as grandes entidades clínicas cuja mo diferente do retorno do recalcado (formação
unidade Freud identificou, a partir de sua concep­ dos sintomas). O que se entende por isso? Inicial­
ção do aparelho psíquico, de sua referência à teo­ mente, sempre há investimento, pelo sujeito, de um
ria da libido e aos mecanismos do recalcamento, é objeto sexual, apego da libido ao objeto. É, pois,
com certeza à esquizofrenia que dedicou menos em uma perspectiva fálica imaginária que o sujei­
trabalhos teóricos. Não obstante, os principais e to aborda a realidade, o mundo exterior; a satisfa­
mais desenvolvidos foram produzidos durante ção que obtém dela, mesmo que sempre limitada,
duas importantes etapas da elaboração da teoria em compensação, dependerá de determinações
psicanalítica: o reconhecimento da função essen­ simbólicas inconscientes. Quando essas correspon­
cial do narcisismo (investimento erótico da forma dem a uma situação de inacabamento do comple­
do próprio corpo) na construção da teoria e a reto­ xo de Édipo, de não-assunção da castração pelo
mada, em 1915, de suas concepções anteriores, nos sujeito, desencadeia-se um conflito. O sujeito co­
diversos artigos, reunidos sob o título de Metapsi- loca em oposição o investimento do objeto sexual
cologia. A falta de uma retomada conseqüente das a uma terceira instância, edípica, uma referência
teses sobre a esquizofrenia, a partir da criação por paterna, isto é, à própria realidade, pois são essa
Freud da segunda tópica, acentua o caráter lacu- instância e essa referência que a sustentam, que são
nar assumido por essa questão clínica em sua obra. seus elementos organizadores. Esse conflito pro­
No que se refere a J. Lacan, deve-se notar que, voca um fracasso, uma frustração (alem. Versagung)
mesmo tendo conservando o termo tal e qual, re­ na realidade, obrigando o sujeito a desligar sua li­
conhecendo com isso a mesma entidade clínica, bido do objeto no mundo exterior. Um mecanismo
dedicou à esquizofrenia apenas algumas curtas essencialmente ativo, o recalcamento permite esse
observações, cuja importância e utilidade, no en­ desligamento. É nesta etapa que Freud faz inter­
tanto, iremos ver, a partir de suas referências es­ vir aquilo que chama d e fixação predisponente, que
truturais das psicoses. constitui uma dimensão passiva do recalcamento,
que reside no fato de que um componente da libi­
Um t e r m o b l e u l e r ia n o ,
do não se realiza com o conjunto da evolução nor­
mal prevista, permanecendo, em virtude dessa in­
UMA ENTIDADE CLÍNICA FREUDIANA
terrupção do desenvolvimento, imobilizado em
Em seu trabalho sobre "o presidente Schreber", uma fase infantil. É dessa localização da fixação
Freud foi levado a discutir a pertinência do termo predisponente, variável, que irá depender a impor­
esquizofrenia, introduzido por Bleuler na nosogra- tância da regressão da libido: essa, desligada do
fia psiquiátrica, no mesmo ano (1911). Julga-o tão objeto pelo processo de recalcamento ativo, de al­
mal escolhido como o de demência precoce, para de­ guma forma acha-se livre, flutuante, sendo levada
signar a unidade clínica à qual se referem. Che­ a ir reforçar o componente da libido que ficou para
gou até mesmo a propor outro termo, o de parafre- trás e a "romper os diques no ponto mais fraco do
nia. Porém, o que interessava a Freud era menos o edifício". Nesta ruptura, nesta irrupção, que cha­
nome deste ou daquele quadro clínico do que ob­ ma de retomo do recalcado, Freud viu, a manifes­
servar como podiam se combinar os mecanismos tação do fracasso do recalcamento e a possibilida­
pertencentes à vida psíquica normal para dar sua de de restituir a libido aos objetos, dos quais tinha
estrutura a uma entidade clínica. sido desligada pelo recalcamento; porém, sob a
63 estado-limite

forma de manifestações sintomáticas, que irão as­ Ou seja, a palavra deve ser entendida em seu sen­
sumir propriedades correspondentes à fase na qual tido próprio; ela perdeu seu poder metafórico ou
estava fixada a libido na infância. São estas as ma­ origina a uma metáfora imprópria, até mesmo uma
nifestações sintomáticas, habitualmente considera­ metáfora delirante. Se se acrescentar que, no arti­
das como doença, que constituem, para Freud, go sobre o inconsciente, a esquizofrenia e seus me­
"tentativas de cura". Na esquizofrenia, levando em canismos são colocados na frente para "aproximar
conta a evolução menos favorável do que na para­ o mais possível o enigmático do inconsciente, tor­
nóia, Freud deduziu: "A regressão não se conten­ nando-o, para nós, por assim dizer, perceptível",
ta em atingir a fase do narcisismo (que se manifes­ poderiamos dizer que seria difícil ir além de Freud,
ta no delírio de grandeza), chega ao completo aban­ sem ter os elementos fornecidos pela lingüística
dono do amor objetai e ao retorno ao auto-erotis- moderna.
mo infantil. A fixação predisponente deve, por isto, O progresso feito por Lacan, que a considera
encontrar-se muito mais atrás do que na paranóia, em referência à cadeia significante e à tese do in­
situando-se em alguma parte do início da evolu­ consciente estruturado como uma linguagem, pa­
ção primitiva, que vai do auto-erotismo ao amor rece dessa forma quase natural, da mesma forma
objetai". como as organizações teóricas às quais ele leva.
Assim, por exemplo, a perda do poder metafórico
O MECANISMO ALUCINATÓRlO E OS
das palavras poderia estar relacionada com uma
carência primordial, que constitui a definição es­
DISTÚRBIOS DE LINGUAGEM,
trutural da psicose: a falta da metáfora paterna, do
O AVANÇO LACANIANO Nome-do-Pai. De fato, somente essa metáfora per­
Segundo Freud, o segundo critério que distin­ mite apagar com precisão a coisa, dando, desse
gue a esquizofrenia da paranóia refere-se à natu­ modo, seu poder ao símbolo, sua capacidade de
reza do mecanismo posto em ação no retorno do "irrealizar", isto é, de transpor as coisas da ordem
recalcado, isto é, a formação dos sintomas. Na es­ real para a ordem simbólica, tomando-nos capa­
quizofrenia, a tentativa de cura não utiliza o me­ zes de lidar com sua ausência, ou seja, com sua
canismo da projeção e do delírio, como na para­ presença simbólica. É este poder de "irrealização"
nóia, para tentar reinvestir os objetos, mas o da alu­ que, embora não esteja todo no símbolo no estado
cinação, comparada no caso ao mecanismo posto normal, falta na psicose. A esquizofrenia é ilustra­
em jogo na histeria (condensação, sobre-investi- da, de maneira exemplar, pela importância da ir­
mento). Em 1915, no artigo dedicado ao inconsci­ rupção do símbolo no real, sob a forma de cadeia
ente, propõe algumas contribuições e esclarecimen­ rompida, alucinatória ou neológica. É isso, pare-
tos referentes aos mecanismos postos em jogo na ce-nos, que permitiu que Lacan dissesse, em 1954,
formação dos sintomas durante a esquizofrenia. Ao em Resposta ao comentário de Jean Hyppolite, que, para
mecanismo da alucinação, que parece a ele corres­ o esquizofrênico, "todo o simbólico é real", defini­
ponder a uma fase relativamente tardia, acrescen­ ção cujas conseqüências continuam, no entanto,
ta um outro mecanismo, que entraria em ação mais sem ter sido ainda determinadas.
cedo, o sobre-investimento não mais das represen­
tações objetais, como na alucinação, mas das re­ e sta d o -lim ite (fr. état limite; ing.: borderline). Caso
presentações de palavra, às quais corresponderí­ limítrofe que se definiría, no plano nosológico e
am, clinicamente, os distúrbios de linguagem, ob­ estrutural, como intermediário ou "na fronteira"
servados na esquizofrenia; o caráter rebuscado e entre uma estrutura neurótica e uma estrutura psi­
afetado da expressão verbal, a desorganização sin­ cótica.
tática, os neologismos e as extravagâncias. Freud Trata-se, portanto, de distúrbios mentais, cuja
refere o exemplo clínico, tirado de Tausk, da paci­ posição nosográfica ainda é bastante ambígua: os
ente que se queixava de "que os olhos não estão termos, por um lado, de psiconeuroses graves e,
como devem ser, estão de esguelha", acrescentan­ por outro, de esquizofrenias pseudoneuróticas si­
do que seu bem amado "parece a cada vez dife­ tuaram-nos, em certa época, no plano diagnóstico.
rente, é um hipócrita, um virador de olhos, ele lhe Porém, é mais no nível da estrutura da personali­
virou os olhos, agora ela tem os olhos virados, não dade, com os trabalhos de O. Kernberg e de H.
são mais seus olhos, ela agora vê o mundo com Kohut, nos Estados Unidos, e de J. Bergeret, na
outros olhos". Concluiu disso que "o que confere, França, que foi precisada essa noção. Tais autores
na esquizofrenia, à formação de substituto e ao sin­ demonstraram dificuldades para realizar um tra­
toma seu caráter surpreendente é a predominân­ tamento analítico em determinados pacientes que
cia da relação de palavra sobre a relação de coisa". apresentavam uma grande insegurança interior,
estranheza (sentimento de) 64

uma intolerância à frustração e uma hipersensibi- íntimo, o mais recalcado. Podemos ainda observar
lidade às observações, sentidas com freqüência que o sentimento de estranheza parece sobrema­
como um juízo. Na transferência, o aparecimento neira forte, em todas as condições nas quais o me­
de uma regressão pouco habitual havia obrigado canismo de duplicação imaginária parece preva-
a modificações do procedimento psicoterápico. lente (tema literário do duplo).
Clinicamente, os pacientes que apresentavam esse
tipo de personalidade são, amiúde, bem adapta­ e u o u e g o , s.m. (alem.: lch; fr.: moi; ing.: Ego). Se­
dos socialmente, mas suas relações afetivas são ins­ gundo S. Freud, sede da consciência e também lu­
táveis, marcadas pela dependência dita "anaclíti- gar de manifestações inconscientes; o eu, elabora­
ca" e pela manipulação agressiva. Defendem-se do por Freud em sua segunda tópica (eu, isso e
contra a depressão, constituída sobretudo por um supereu), é uma diferenciação do isso; é a instân­
sentimento de solidão, de vacuidade e de tédio, cia do registro imaginário por excelência; portan­
sem a culpa nem o retardamento psicomotor habi­ to, das identificações e do narcisismo.
tuais. A regulação das tensões conflitivas utiliza, Falar do eu, na teoria freudiana, equivale a re­
preferencialmente, passagens ao ato, provocando fazer a história da técnica psicanalítica, com suas
uma instabilidade socioprofissional e afetiva, mas hesitações, seus impasses e suas descobertas. An­
também condutas de autodestruição, por impul­ tes de 1920, parecería que a interpretação, tal como
sos suicidas, acidentes ou abuso de tóxicos. a pratica Freud com os histéricos, parece dar re­
Depois de Kernberg, vários psicanalistas ten­ sultados satisfatórios.
taram descrever os mecanismos que seriam espe­ Tentando explicar os fenômenos psíquicos,
cíficos de tais casos (divagem de um setor adapta- Freud então elabora aquilo que chamou de primei­
tivo e de um setor idealizado, protegendo o sujei­ ra tópica: o inconsciente, o pré-consciente, o cons­
to contra um conflito interno inaceitável; projeção ciente, com os dois princípios que regem a vida
que provoca momentos de confusão entre o que é psíquica, o princípio de prazer e o princípio de re­
interno e o que é externo, no entanto, sem perda alidade, porém esta separação irá parecer inope­
total da diferenciação entre o si-próprio e o outro; rante para explicar o fenômeno descoberto por
recusa das emoções e desvalorização do objeto). No Freud, a respeito das neuroses traumáticas: a com­
entanto, é preciso destacar que a própria idéia de pulsão à repetição, que ele aborda em Além do prin­
estruturas intermediárias entre neurose e psicose cípio de prazer (1920). Este é um texto fundamental,
já é um problema, pois elas podem se opor, do pon­ depois do qual irá elaborar sua segunda tópica: o
to de vista estrutural, a partir daquilo que concer­ isso, o eu e o supereu, que também chamará de
ne ao Nome-do-Pai, simbolizado, por um lado, for- ideal do eu.
cluído, por outro. Esta nova divisão não inclui a primeira: o eu
engloba o consciente e o pré-consciente, e Freud
e s tr a n h e z a (s e n tim e n to de) (alem.: Unheimli- irá descrever o eu como em parte inconsciente.
chkeit Gefiilil; fr.: sentiment d'étrangeté; ing.\ feeling Freud está então muito longe da teoria clássica do
of strangeness). Sentimento de mal-estar e de sin­ eu dos filósofos, pois se o homem sempre desejou
gularidade diante de um ser ou objeto familiar e ser sujeito do conhecimento e lugar da totalização
perfeitamente conhecido. de um saber, a descoberta freudiana irá contrariar
Sustentado por uma angústia muito intensa e todas as certezas, descobrindo, com o inconscien­
por uma afecção da relação com o real, esta altera­ te, o paradoxo de um sujeito constituído daquilo
ção da ressonância afetiva habitual com o meio (ou que ele não pode saber, e em uma literal excentra-
consigo mesmo, acompanhada, então, de um sen­ ção em relação a seu eu.
timento de despersonalização) pode ser encontra­
da na esquizofrenia, em determinados estados cre-
G ê n e s e d o eu
pusculares epilépticos e na psicastenia (P. Janet).
A psicanálise identifica o papel especial desse Freud descreveu o eu como uma parte do isso
sentimento de estranheza na vivência psicótica, em que, por influência do mundo exterior, ter-se-ia di­
particular naquilo que se chama de "fenômenos ferenciado. Quais são os mecanismos em jogo?
elementares", que precedem o desencadeamento No isso reina o princípio de prazer. Ora, o ser
de uma crise. Porém, depois de S. Freud, os psica­ humano é um animal social e, se quiser viver com
nalistas estendem muito além desse campo o que seus congêneres, não pode se instalar nessa espé­
chamam de "inquietante estranheza", que seria cie de nirvana, que é o princípio de prazer, ponto
provocada pelo aparecimento no real de alguma de menor tensão, assim como lhe é impossível dei­
coisa que lembraria demasiado diretamente o mais xar que as pulsões se exprimam em estado puro.
65 eu ou ego

De fato, o mundo exterior impõe à criança peque­ Q uais são as funções do eu?
nas proibições que provocam o recalcamento e a
Freud descreve o eu como uma instância em
transformação das pulsões, na busca de uma sa­
movimento, em constante teelaboração, mas tam­
tisfação substitutiva que irá provocar no eu, por
bém passivo e atuado por forças impossíveis de
sua vez, um sentimento de desprazer. O princípio
dominar, fazendo com que seja enganado pelo isso.
de realidade substitui o princípio de prazer. O eu
São muitas as funções do eu:
se apresenta como uma espécie de tampão entre
— É capaz de operar um recalcamento.
os conflitos e clivagens do aparelho psíquico, ao
— É sede das resistências.
mesmo tempo que tenta desempenhar o papel de
— Tenta gerir a relação "princípio de prazer"
uma espécie de pára-excitação, em face das agres­
— "princípio de realidade".
sões do mundo exterior.
— Participa da censura, ajudado nisso pelo
Segundo Lacan, pode-se acrescentar que a cri­
supereu, que é apenas uma diferenciação do isso.
ança se banha em um mundo de linguagem, que
Freud igualmente escreveu, em O ego e o id : "A per­
veicula as proibições e que é somente porque o ser
cepção representa para o eu o papel que, no isso,
humano é um ser falante que se instaura o recalca­
cabe à pulsão. O eu representa aquilo que se po­
mento e, por meio dele, a divisão do sujeito. Abar-
deria chamar de razão e de bom-senso, em oposi­
ra que dessa forma vai tocá-lo proíbe-lhe o acesso
à verdade de seu. desejo. ção ao isso, que tem por conteúdo as paixões".
Neste ponto, Lacan e Freud divergem, sendo que
Lacan faz do eu a instância imaginária por exce­
D e s c r i ç ã o d o a p a r e l h o p s íq u ic o lência (imaginário).
OU TOPOLOGIA FREUDIANA — É capaz de construir meios de proteção.
— Verdadeiro lugar de passagem da libido,
Freud escreveu, em seu artigo "O Ego e o Id"
parece gerir os investimentos objetais até a ideali­
(1923): "Um indivíduo, portanto, é, em nossa opi­
zação, e os desinvestimentos objetais, com o retor­
nião, um isso psíquico desconhecido e inconscien­
no da libido ao eu, chamada então de "libido nar­
te, na superfície do qual está colocado o eu, que se
cisista".
desenvolve tanto a partir do sistema pré-conscien- — Toda sublimação é produzida por intermé­
te como de seu núcleo [...]; o eu não envolve com­
dio do eu, que transforma a libido do objeto sexu­
pletamente o isso, mas apenas nos limites em que al em libido narcisista.
o pré-consciente constitui sua superfície, portanto, — É sede das identificações.
quase como o disco germinativo é aposto ao ovo.
O eu não está nitidamente separado do isso, fun-
de-se com ele em sua parte inferior", acrescentan­ A identificação e o eu
do que o eu apresenta uma "calota acústica"; por
conseguinte a importância das palavras reside não A identificação é um mecanismo que tende a
apenas no nível de uma significação, mas no nível tornar o próprio eu semelhante ao outro tomado
dos "restos mnésicos da palavra ouvida". Encon- como modelo. "O eu copia" — escreveu Freud —
tra-se então, em germe, aquilo que a lingüística irá em seu artigo "A Identificação". Lacan, com a fase
mais tarde desenvolver, com a relação significado- do espelho ( Escritos, 1966), mostra que é por uma
significante, que Lacan vai aplicar à psicanálise. identificação que a criança pequena antecipa ima-
Freud insiste em um outro aspecto essencial ginariamente a forma total de seu corpo, instalan­
do eu: o eu é, antes de tudo um eu-corpo. "Ele pode do, assim, o primeiro esboço do eu, tronco das
ser considerado como uma projeção mental da su­ identificações secundárias. Porém, nesse momen­
perfície corporal, representando a superfície do to essencial, é preciso destacar que a criança é car­
aparelho mental". regada por uma mãe, cujo olhar a olha. E este o
E interessante observar que o único acesso que campo da narcisização, fundadora da imagem do
o homem tem ao seu corpo passa pelo eu. Tal as­ corpo da criança e de seu estatuto narcisista, a par­
sertiva parecerá sobremaneira pertinente, quando tir daquilo que é, primeiramente, amor da mãe e
forem desenvolvidos, com Lacan, os aspectos de ordem do olhar sobre a criança. Mas, ao mesmo
miragem e de burla do eu. Isso poderia explicar o tempo, se a criança reconhece sua imagem no es­
pouco acesso à realidade de seu corpo, que o ser pelho, é primeiramente como um outro que ela se
humano manifesta. É sempre espantoso ouvir al­ vê e se apreende. "O eu é o outro". O fenômeno
guém falar da maneira como "ele vê a si próprio". do transitivismo é sua ilustração.
eu ou ego 66

Paralelamente ao reconhecimento de si-própria introjeção do objeto perdido. As amargas censuras


no espelho, observa-se, na criança muito pequena, que o melancólico dirige a si mesmo referem-se,
em presença de uma outra criança de idade próxi­ na realidade, ao objeto que ocupou uma parte do
ma, um comportamento particular: ela a observa eu. Desse modo, o eu é dividido, cortado em dois,
curiosamente, imita-a, tenta seduzi-la ou a agride. uma de suas partes enfurecendo-se com a outra.
É a criança que chora, quando vê a outra cair, a Porém, esse sentimento de duplicidade do eu
que bate e diz ter sido batida, e, ao invés de uma nem sempre é patológico; pode-se reconhecer em
mentira da criança, reconhece-se ali o eu, instân­ ação, então, a instância diferenciada do eu: o su-
cia do imaginário no sentido da imagem, o eu na pereu. No dia-a-dia, manifesta-se pela auto-obser-
relação dual, de confusão entre o si-próprio e o vação, a consciência moral, a censura onírica e par­
outro; porque é no outro que o sujeito se vê pela ticipa no recalcamento. Desta forma, dá a sensa­
primeira vez e se toma como referência. ção de ser vigiado por uma parte de si mesmo, o
Portanto, pode-se dizer que o eu é a imagem que dá ao eu o caráter paranóide. Na identifica­
do espelho em sua estrutura invertida. O sujeito ção, quando o eu assume os traços do objeto, ele
se confunde com essa imagem, que o "form a" e o se impõe, por assim dizer, ao isso, como objeto de
aliena primordialmente. amor. Portanto, pode-se dizer que o eu se enrique­
O eu irá conservar dessa origem o gosto pelo ce com as qualidades do objeto, enquanto que, no
espetáculo, a sedução, a parada, mas também pe­ estado amoroso, o eu fica empobrecido. Tudo se
las pulsões sadomasoquistas e escoptofílicas (ou passa como se a libido narcisista se tivesse esvazi­
voyeuristas), destruidoras do outro em sua essên­ ado no objeto.
cia: "É eu ou o outro". É a agressividade constitu­ A escolha de objeto é sempre uma escolha de
tiva do ser humano que deve ocupar seu lugar so­ objeto narcisista, ama-se aquele que se gostaria de
bre o outro e impor-se a ele, sob pena de ele pró­ ser, mas Lacan, relendo Freud, apresenta um ele­
prio ser aniquilado. mento suplementar: no plano imaginário, o objeto
Lacan, assim como Freud, enfatizará a multi­ nunca se apresenta ao homem a não ser como uma
plicidade das identificações e, portanto, dos eus. miragem inatingível. Toda relação objetai só pode
O eu é constituído pela série de identificações que ser tocada por uma incerteza fundamental.
representaram, para o sujeito, uma referência es­
sencial a cada momento histórico de sua vida. Po­
rém, Lacan irá insistir mais no aspecto de engodo, O EU E O SONHO
de semblante, de ilusão assumida pelo eu, em uma Uma das emergências do eu, no sonho, é com
"ex-centricidade" radical em relação ao sujeito, certeza a necessidade manifesta de dormir, ou, an­
comparando o eu a uma superposição dos diferen­ tes, de não acordar! Porém, poder-se-ia dizer que,
tes capotes tomados do que chama de "o bric-a- também na vida diurna, não se precisa despertar
brac de sua loja de acessórios". e trata-se muito bem disso no "eu não quero saber
Nesta perspectiva, o que é, então, a consciên­ de nada", que todos proclamam, contentando-se
cia? O homem pode dizer: "Eu sou aquele que sei em acreditar que sua verdade está ali, na instância
que eu sou", mas ele não sabe que é "je"**. No ho­ vigil que é o eu.
mem, a consciência é uma espécie de tensão, entre Aliás, no sonho, toda tentativa de expressão
o eu alienado do sujeito e uma percepção que lhe do inconsciente do sujeito é sabiamente travesti-
escapa fundamentalmente. Toda percepção é feita da. É talvez neste nível que o jogo de esconde-es­
pelo filtro da fantasia, é impossível qualquer per­ conde com o eu é mais intenso.
cepção objetiva. Também é no nível do eu que surge a função
do devaneio. Ele é a satisfação imaginária, ilusó­
ria do desejo, sendo aliás por essa via que se pode
O EU E O OBJETO
observar a existência de uma atividade fantasmá-
A instalação do objeto depende do eu, ele é tica inconsciente.
seu correlato. A libido narcisista, que se detém no
eu, estende-se para o objeto, assim como o eu pode
O EU E O INSTINTO DE MORTE
se tomar a si mesmo como objeto. O caráter do eu
resulta da sedimentação dos investimentos obje­ Foi com a compulsão à repetição que Freud
tais abandonados, que se inscrevem na história de percebeu que, além do "princípio de prazer", existe
suas escolhas objetais. No caso da melancolia, há aquilo que chamou de instinto de morte. Em um pri­
meiro momento, estabeleceu uma nítida distinção
** Eu, em francês, no sentido dc sujeito. (N. do T.) entre pulsões do eu-pulsões de morte e pulsões
67 eu ideal

sexuais-pulsões de vida, para, em seguida, chegar afastar vocês de sua atração, a fim de permitir que
à oposição pulsões de vida-pulsões de morte. O eu apreendam finalmente onde, para Freud, está a re­
está ligado à hiância primitiva do sujeito, como o alidade do sujeito. No inconsciente, excluído do
demonstra a fase do espelho, e nisso está mais perto sistema do eu, o sujeito fala". (J. Lacan, Seminário
da morte, como aliás o evoca o mito de Narciso. II). Portanto, o analista não possui outro instrumen­
No exemplo da neurose obsessiva, pode-se obser­ to de trabalho a não ser a linguagem, e sua meta
var a incidência mortal do eu, levada a seu ponto só pode ser o discurso inconsciente do sujeito, que
extremo; pode-se dizer, como Lacan, que "o eu é corre sob o discurso corrente consciente.
um outro"; o obcecado é, justamente, sempre um
outro. Diga o que disser, sempre se exprime fazen­ e u id e a l (alem.: Ideal-Ich; fr.: moi idéal; ing.: ideal
do falar algum outro. Lacan, no Seminário II, "O ego). Formação psíquica pertencente ao registro do
Eu na Teoria de Freud e na Técnica da Psicanáli­ imaginário, representativa do primeiro esboço do
se" (1954-55), escreveu: "É à medida que ele evita eu investido libidinalmente.
seu próprio desejo que todo desejo, no qual apa­ O termo, introduzido por S. Freud, em 1914
rentemente ele se engaja, ele o apresentaria como (Sobre o narcisismo: uma introdução), designa o eu
o desejo desse outro si-próprio, que é seu eu [...]. real, que teria sido o objeto das primeiras satisfa­
E preciso fazê-lo compreender qual é a função des­ ções narcisistas. Posteriormente, o sujeito tende a
sa relação mortal que cultiva consigo mesmo e que reencontrar o eu ideal, característico do estado dito
faz com que, desde que um sentimento seja o seu, "de onipotência" do narcisismo infantil, do mo­
ele comece por anulá-lo". mento em que a criança "era ela mesma seu pró­
O estudo do eu ocupou um lugar central no prio ideal". Em O ego e o id (1923), Freud compara
trabalho de pesquisa que os sucessores de Freud o eu ideal ao ideal do eu, atribuindo-lhes as mes­
realizaram. A psicologia do ego chegará a confun­ mas funções de censura e de idealização. Para J.
dir o sujeito com o eu, com o trabalho analítico se Lacan [A fase do espelho como formadora da função do
dedicando essencialmente à análise do eu e visan­ "je", 1949), o eu ideal é elaborado a partir da ima­
do a uma identificação com o "ego forte" do ana­ gem do próprio corpo no espelho. Essa imagem é
lista, duplicando, assim, o engodo, o desconheci­ o suporte da identificação primária da criança com
mento do desejo e objetivando apenas à adapta­ seu semelhante, constituindo o ponto inaugural da
ção. Ora, Lacan responde a isso com uma única fra­ alienação do sujeito, na captura imaginária, sendo
se: "A intuição do eu conserva, enquanto estiver no tronco das identificações secundárias o local
centrada em uma experiência de consciência, um onde o "je" se objetiva, em sua relação com a cul­
caráter cativante, do qual é preciso se desprender tura e com a linguagem, por intermédio do outro.
para aceder à nossa concepção de sujeito. Procuro
f
facilitação, s.f. (alem.: Bahnung; fr.: frayage; ing.: — que um de seus pontos culminantes teria sido o
facilitation). Diminuição da resistência à passagem desvelamento de um simulacro do sexo masculi­
da excitação de um neurônio para outro. no, penhor de potência, de saber e de fecundida-
Quando Freud descreveu o aparelho psíquico de para a terra e para os homens. Portanto, pode-
como aparelho neuronal ("Projeto para uma Psi­ se perceber a ambigüidade do termo, que, repre­
cologia Científica", 1895) supôs que a excitação, sentando a turgescência do pênis, é de fato ou um
quando se desloca de neurônio para neurônio, es­ símbolo a ser venerado, ou então um símbolo to­
colhe, preferencialmente, as vias já utilizadas em mado na lógica do inconsciente. Também é possí­
experiências anteriores. Neste caso, diz-se que hou­ vel perceber como o termo permite uma confusão
ve facilitação. Tal conceito, sem dúvida, perdeu a entre a sexualidade e a procriação, bem como uma
importância, embora Freud o retome, em 1920, des­ aderência do enigma da relação entre homem e
de que o modelo neuronal fosse concebido com ten­ mulher na descrição antropológica da relação fa­
do um valor sobretudo metafórico. miliar entre o pai e a mãe.
Pela noção freudiana de complexo de Edipo e
fálica (fase) (alem.: phallische Stufe (ou Phase); fr: por seu correlato, o complexo de castração, a proi­
stade phallique; ing.: phallic stage (ou phase). Fase da bição do incesto surge da descrição antropológica
sexualidade infantil, entre os 3 e os 6 anos, na qual, e do mito trágico, enquanto que o falo se torna o
em ambos os sexos, as pulsões se organizam ao re­ objeto do desejo da mãe, proibida ao filho. S. Freud
dor do falo. então situa a castração, isto é, a forma como é re­
Todavia, é verdade que o falo possui, como sig- gulado o gozo do exercício sexual, como aquilo que
nificante, um papel determinante para o sujeito, liga o sexo à palavra, palavra ameaçadora, é ver­
desde o início da vida, o que pode fazer com que dade, mas cuja proibição estrutura o desejo, tanto
se hesite em isolar uma fase fálica, enquanto tal. no menino como na menina, na qual podería pa­
-> fase recer que a ausência de pênis a teria dispensado
de pagar o tributo simbólico à sexualidade para
fa lo , s.m. (alem.: Phallus; fr.: phallus; ing.: phallus). que se tomasse humana.
Símbolo do sexo masculino.
A noção de falo, central na teoria psicanalíti-
A CONCEPÇÃO FREUDIANA DO FALO
ca, indica que o ponto de impacto eficaz da inter­
pretação, em um tratamento, é o sexual; ao mes­ Para Freud, o termo falo, que irá surgir diver­
mo tempo, tal noção nos apresenta problemas de sas vezes, a respeito dos símbolos fálicos no sonho,
ordem ética a respeito da sexualidade humana. a respeito da organização da fase fálica, serve para
afirmar o caráter intrinsecamente sexual da libi-
do. Neste ponto, ele se opõe, por exemplo, à teoria
H i s t ó r ia d o c o n c e it o
de C. Jung, na qual o desejo está ligado a forças
O termo, familiar aos etnólogos e historiado­ vitais metafísicas, onde os mitos conservam seu
res da Antigüidade grega, remete ao ritual religio­ aspecto iniciático religioso.
so dos mistérios, onde lembraria — pois inexistem A ênfase dada ao adjetivo fálico corresponde a
documentos diretos, em particular sobre o Eleusis uma posição teórica essencial, por parte de Freud:
69 falo

a libido é essencialmente masculina, mesmo na pois o "o inconsciente é estruturado como uma lin­
menina pequena, a despeito das afirmativas dos guagem".
alunos de Freud, como E. Jones ou K. Horney. Não Essa escolha teórica esclarece a posteriori a di­
se pode dizer "a cada um sua libido ou a cada um versidade das concepções de falo entre Freud e
sua essência"; o falo é uma espécie de operador seus alunos: "Na doutrina freudiana, o falo não é
da dissimetria necessária ao desejo e ao gozo se­ nem uma fantasia (no sentido de um efeito imagi­
xuais. Essa dissimetria teria gerado em Freud um nário), nem um objeto parcial (interno, bom, mau),
discurso? É verdade que, se o falo está ligado a nem tampouco o órgão real, pênis ou clitóris" (La­
Eros, essa mesma força tende à união, enquanto can, "A Significação do Falo"). A distinção e a ar­
que Tanatos desune, desorganiza. No entanto, em ticulação entre as três dimensões do real, do sim­
Além do princípio de prazer (1920) Freud mostra como bólico e do imaginário resolvem as contradições
a reprodução sexuada implica a morte do indiví­ dessa noção. Lacan ainda escreveu: "O falo é o sig­
duo; portanto, o que é fálico não pode ser um puro nificante privilegiado desta marca, na qual a parte
símbolo da vida. A complexidade dessa noção, em do logos se reúne ao advento do desejo. Pode-se
Freud, parece residir menos na irredutível diferen­ dizer que esse significante é escolhido como o mais
ça entre os sexos do que na oposição entre a vida e destacado daquilo que se pode tomar no real da
a morte. copulação sexual, como também o mais simbólico,
no sentido literal (tipográfico) do termo, pois equi­
vale à cópula (lógica). Também se pode dizer que
A PRIMEIRA ABORDAGEM LACANIANA
é, por sua turgescência, a imagem do fluxo vital,
DO FALO enquanto passa na geração".
Foi somente com J. Lacan que o falo se tomou
verdadeiramente um conceito fundamental da te­
S eg u n d a abo rd ag em :
oria psicanalítica. Do que se trata, a propósito do
COMBINATÓRIA E TOPOLOGIA
falo? Da assunção, pelo homem, de seu sexo. No
artigo "A Significação do Falo" (1958), publicado Em 1972-1973, o conceito de falo, com Lacan,
em Escritos (1966), Lacan de imediato aponta o pa­ faz uma importante volta, na qual são conjugadas
pel simbólico do falo no inconsciente e seu lugar duas problemáticas: por um lado, uma combina-
na ordem da linguagem: "Somente com base em tória lógica, onde o falo se torna função fálica, por
fatos clínicos é que a discussão poderá ser fecun­ outro, uma topologia, a do nó borromeu, onde o
da. Esses demonstram uma relação com o falo, es­ termo falo surge, a respeito do gozo fálico, como
tabelecida sem considerar a diferença anatômica aquilo que, em relação à consistência do nó, ex-sis-
dos sexos [...]. O falo é um significante, um signi- te, isto é, aquilo que se mantém em uma distinção
ficante cuja função, na economia intra-subjetiva da radical.
análise, talvez levante o véu daquela que ele ocu­
pava nos mistérios, uma vez que ele é o signifi­
cante destinado a designar, em seu conjunto, os A FUNÇÃO FÁLICA
efeitos de significado, e, enquanto significante, os No Seminário "Mais, ainda", o falo está situa­
condiciona por sua presença de significante". Isso do em uma algebrização que radicaliza a assime­
significa que Lacan coloca o falo no centro da teo­ tria da diferença sexual: "Não há relação sexual que
ria psicanalítica, ao tomá-lo o objeto do recalcamen- possa ser inscrita como tal". Não se pode escrever
to originário freudiano. É assim que se deve en­ x R \j, para dar conta da relação entre os sexos. Pen­
tender a seguinte afirmativa lacaniana: "O falo não sar o falo em termos de "função" fálica permite
pode representar seu papel a não ser velado". Isso então inscrever precisamente esse hiato entre ho­
possui consequências técnicas e clínicas. O desve- mem e mulher, (materna, Figura 4)
lamento do falo é, portanto, o oposto da interpre­ O anotado no alto do quadro fornecido na fi­
tação psicanalítica, porém remete a uma iniciação gura 4 do verbete materna é uma combinatória que
no sentido de um signo derradeiro e siderante. No mostra as diferentes maneiras de relacionar (<í) de
entanto, se é verdade que, como último recurso, x com a função fálica; a letra x indica a maneira
toda significação remete ao falo, ele não é como pela qual Lacan se afasta radicalmente da idéia de
uma chave mágica dos sonhos e dos discursos, mas uma essência, ou natureza, masculina ou femini­
na consideração da barra que separa significante e na, pois, "qualquer que seja o ser falante, inscre-
significado e também divide o sujeito desejante ($), ve-se de um lado ou de outro", o que permite pen­
fantasma ou fantasia 70

sar de outra forma certos problemas clínicos, como ou o não ter. Observa-se que esse vínculo entre falo
o da histeria masculina. e função paterna, fundadora da lei que rege o gozo,
Lacan comenta assim este quadro: "À esquer­ em lugar de confundir sexualidade e geração, dis-
da, a linha inferior Vx Qx indica que é pela função tingue-as e as separa uma da outra.
fálica que o homem como um todo faz sua inscri­ Finalmente, esta combinatória permite que não
ção nisso, próximo ao ponto em que tal função acha mais se tome o objeto fálico em uma confusão en­
seu limite na existência de um x, pelo qual a fun­ tre simbólico e imaginário. A afirmativa de M.
ção Ox é negada, 3x Ox. É isso que se chama a fun­ Klein, segundo a qual a mãe "contém " o falo, La­
ção do pai, donde procede, pela negação, a propo­ can responde, radicalizando a questão: "Que o falo
sição <t>x, o que funda o exercício daquilo que subs­ seja um significante impõe que seja no lugar do
titui a relação sexual pela castração, enquanto aque­ Outro que o sujeito tenha acesso a ele. Lacan subs­
la de nenhuma forma é inscritível. O todo repou­ titui o imaginário do continente, do possuidor que
sa, portanto, aqui, na exceção, proposta como ter­ poderia pensar em dá-lo ou transmiti-lo como um
mo sobre aquele que, esse <l>x, o nega integralmen­ objeto, pela idéia topológica do lugar do Outro.
te". Do lado direito, lado do ser falante, que pode
se inscrever do lado mulher, pode-se dizer o se­
guinte: "Ao estar, na relação sexual, em relação com
O FALO NO NÓ BORROMEU
aquilo que se pode dizer do inconsciente, radical­ O segundo aspecto da virada iniciada em 1972-
mente o Outro, a mulher é que tem relação com 73, na posição teórica do falo, refere-se à topologia
esse Outro". A mulher, portanto, está não-toda no do nó borromeu. Esse nó possui a particularidade
gozo fálico. O que faz com que aquilo que se ins­ de unir três círculos de barbante, sem atá-los dois
creve do lado masculino não afete "seu parceiro a dois: se um dos círculos for rompido, o nó se des­
sexual, que é o Outro, a não ser através do fantas­ faz. Cada círculo é equivalente aos outros, e, se eles
ma $ 0 a, isto é, pelo vínculo que o sujeito dividi­ representarem, respectivamente, o Real, o Imagi­
do mantém com o objeto causa do desejo. nário e o Simbólico, isso significa que essas três
Esta combinatória de quatro fórmulas propo- dimensões possuem igual importância para a abor­
sicionais marca o hiato entre os sexos e tenta orde­ dagem das questões teóricas e clínicas. Isso tam­
nar o texto do gozo entre o universal e a exceção, bém significa que, se o nó for representado no pla­
quando se trata de um campo finito, por um lado, no, tudo aquilo que é então distribuído nas dife­
e, por outro, quando se trata de um campo infini­ rentes superfícies possui bordos que pertencem aos
to (à direita). E uma divisão de duas proposições, três diferentes círculos, o que obriga a pensar o
cuja relação não pode ser resolvida em termos de Real, o Imaginário e o Simbólico em termos de bu­
contradição. racos, e não de substâncias, impedindo, também,
Essa impossibilidade radical de escrever a re­ que seja restaurada, no caso, qualquer hierarquia
lação sexual, como tal, e portanto a necessidade de ou gênese.
passar pela função fálica, faz com que se ouça a O falo está situado como "ex-sistência", na úl­
palavra falo no jogo de palavras entre "faillir" e tima parte da obra de Lacan; trata-se então de si­
"falloir"**: entre o que é preciso e aquilo que faz tuá-lo no espaço entre o círculo do Real e o do sim­
falta. Portanto, em Lacan não há como ele próprio bólico, no limite do gozo fálico que, no bordo do
denuncia em Freud, no seminário R.S.I., "proster- objeto a, se articula com o gozo do Outro, e com o
nação, diante do gozo fálico". E, se "há-Um ", esse sentido. O falo é, pois, uma noção central na psi­
não é o falo, enquanto signo de Eros, que marcaria canálise, desde que articulado e entendido em suas
a possibilidade de uma comunhão; se há um, esse três dimensões, em uma abordagem tanto lógica
um entra no cálculo lógico, onde opera a função como topológica que, de maneira diferente, mas
fálica; e isso marca como o falo, o significante do não-contrária, permita que não se faça dele uma
gozo sexual, não nos remete a alguma maestria, substância mágica, religiosa ou metafísica. Signi­
apesar de seu estrépito imaginário, mas ao buraco ficante do gozo sexual, é o ponto onde se articu­
que representa a impossibilidade de marcar, com lam as diferenças na relação com o corpo, com o
um "u m ", a relação sexual. objeto e com a linguagem.
A função fálica também permite situar o Nome- —> (materna).
do-Pai* como a exceção fundadora daquilo que re­
gula, em relação ao falo, o ser ou o não ser, o ter f a n ta s m a ou f a n ta s ia (alem.: Phantasie; fr.-./nn-
tasme; ing.: fantasy ou phantasy). Para S. Freud, re­
presentação, argumento imaginário, consciente (de­
* Fazer falta e ser necessário. (N. doT.) vaneio), pré-consciente ou inconsciente, implican­
71 fantasma oufantasia

do um ou vários personagens, que coloca em cena farçada, por meio das escolhas profissionais, rela­
um desejo, de forma mais ou menos disfarçada. cionais, sexuais e afetivas do sujeito.
O fantasma é, ao mesmo tempo, efeito do de­ Observa-se, portanto, o caráter circular das
sejo arcaico inconsciente e matriz dos desejos atu­ relações que unem fantasma e desejo. Porém, tam­
ais, conscientes e inconscientes. bém se pode ver que existem fantasias conscien­
Continuando Freud, J. Lacan destacou a natu­ tes, pré-conscientes e inconscientes. Apenas essas
reza essencialmente de linguagem do fantasma. últimas estão implicadas em uma definição estrita
Também demonstrou que seus personagens vali­ do conceito psicanalítico. Alguns desses fantasmas
am nele muito mais por certos elementos isolados inconscientes não se tornam acessíveis ao sujeito,
(palavras, fonemas e objetos associados, partes do senão no tratamento. Outros permanecem para
corpo, traços de comportamento, etc.) do que por sempre sob o domínio do recalcamento originário;
sua totalidade. Irá propor o seguinte materna: $ não podem ser reconstruídos pela interpretação.
punção a, que se lê "S barrado punção de a". Este Freud desenvolve isso, em seu artigo intitulado
materna designa a relação particular de um sujeito "'U m a criança é espancada': uma contribuição ao
do inconsciente, barrado e irredutivelmente divi­ estudo da origem das perversões sexuais", fórmu­
dido por sua entrada no universo dos significan- la que utiliza para designar um fantasma maso­
tes, com o objeto pequeno a, que constitui a causa quista muitas vezes encontrado em sua prática (Ein
inconsciente de seu desejo. Kind wird geschlagen, 1919).
Freud também indica, nesse artigo, que, se o
fantasma representa o desejo inconsciente do su­
C om F reud jeito, o próprio sujeito pode ser representado, no
Em suas primeiras publicações, Freud utiliza fantasma, por diversos personagens nele incluídos.
o conceito de fantasma em um sentido relativamen­ Em função do narcisismo e do transitivismo origi­
te amplo, designando, assim, uma série de produ­ nários, são constantes as inversões de papéis nes­
ções imaginárias mais ou menos conscientes. Um se argumento fantasmático.
momento determinante em sua elaboração teórica Freud, finalmente, distingue certos fantasmas
do fantasma foi sua descoberta do caráter imagi­ que chama de "originários", nome que dá àqueles
nário (no sentido de "produzido pela imaginação") relativos à origem do sujeito, a saber: sua concep­
dos traumas relatados por suas pacientes, como ção (por exemplo, os fantasmas da cena primitiva
causa de suas dificuldades atuais. O que lhe era ou ainda as novelas familiares), a origem de sua
apresentado como recordações parecia ter pouca sexualidade (por exemplo, os fantasmas de sedu­
relação com a realidade chamada de "histórica" e, ção) e, enfim, a origem da diferença dos sexos (por
mesmo, algumas vezes, só ter uma realidade psí­ exemplo, os fantasmas de castração). Uma nova
quica. Freud deduziu disso que uma força incons­ prova da importância do desejo na constituição do
ciente levava o homem a remodelar sua experiên­ fantasma é que não há relação imediata entre ele e
cia e suas lembranças: vê nisso o efeito de um dese­ os acontecimentos concretos vividos pela criança.
jo primeiro (alem. Witnsch). Para ele, esse Wimscli
era uma tentativa de reproduzir, de modo aluci-
natório, as primeiras experiências de prazer vivi­
C om L acan
das na satisfação das necessidades orgânicas arcai­ Quando de sua elaboração do esquema dito
cas. A seguir, Freud constatou que também podia "da pessoa" ( Escritos, 1966), Lacan representa o fan­
ser buscada a repetição de certas experiências que tasma por uma superfície que inclui as diversas
suscitavam desprazer, devido ao prazer que pro­ representações do eu, do outro imaginário, da mãe
porcionavam, mesmo dentro do desprazer e dos originária, do ideal do eu e do objeto. Essa super­
sofrimentos que elas envolvem. fície do fantasma é margeada pelo campo do ima­
O fantasma não é apenas o efeito desse desejo ginário e pelo do simbólico, enquanto que o fan­
arcaico, também é a matriz dos desejos atuais. Os tasma recobre o do real. Tais notações indicam o
fantasmas arcaicos inconscientes de um sujeito pro­ caráter transindividual do fantasma, sua partici­
curam , de fato, uma realização pelo m enos pação, nem que seja marginal, nos campos do sim­
parcial, em sua vida concreta. Dessa forma, trans­ bólico e do imaginário e, sobretudo, sua função de
formam as percepções e as recordações, originam obturação do real. (O real designa, no caso, o indi-
os sonhos, lapsos e atos falhos, induzem as ativi­ zível do sujeito, o que lhe é insuportável encon­
dades masturbatórias, exprimem-se nos devanei­ trar e que nada mais é, para ele, do que aquilo con­
os diurnos, procuram se atualizar, de forma dis­ tra o qual não cessa de se chocar; assim, por exem-
fantasma oufantasia 72

pio, o real da castração da mãe, ou ainda determi­ perdidas. Quanto ao seio, ele não é apenas perdi­
nado trauma de sua infância que, rebelde à imagi- do porque a criança foi um dia ou outro privada
narização e à simbolização, é esquecido atrás da do seio materno, mas mais essencialmente porque
tela desse fantasma). esse seio foi primeiro vivenciado pela criança como
Nessa perspectiva, o olhar do pai, presente no parte integrante de seu próprio corpo. O número
fantasma, seria muito mais importante do que o de objetos a reais é limitado. O dos objetos a obtu­
próprio pai. O mesmo ocorre com o seio da mãe radores imaginários é infinito: aquele olhar que
que amamenta o filho, o chicote manejado pelo atrai, aquele chicote que se teme, aquela forma de
professor que pune a criança ou o rato com o qual seio que fascina, aquele rato execrado, aqueles ob­
se tortura a vítima. Como destaca, no tratamento jetos de coleção acumulados, aquela cabeleira se­
do Homem dos Ratos**, esses objetos do fantasma dutora, aquele olho alucinado, aquela voz adora­
funcionam não apenas como objetos, mas também da, etc.
enquanto significantes. O próprio Freud, aliás, ti­ Que o objeto do fantasma se distingue do ob­
nha destacado a grande sensibilidade de seu paci­ jeto da necessidade e do objeto da pulsão é facil­
ente a toda uma série de palavras, inclusive o fo- mente indicado quando se considera, a título de
nema "rato". paradigma, o seio (objeto imaginário ou real do
Que o fantasma se componha de elementos fantasma), o leite materno (objeto da necessidade),
que dependem dos universos simbólico e imagi­ o prazer da boca (objeto da pulsão). Por outro lado,
nário do sujeito, e que ele esteja em relação de ob- que o objeto do fantasma não coincida com o obje­
turação com seu real, também está expresso no to de amor é o que revela mais de uma dificulda­
materna proposto por Lacan: $ punção de a. Esse de de casal e, em particular, a constante divagem
materna escreve a estrutura básica do fantasma. que separa a mulher objeto de amor e aquela que
Nele se encontra o universo simbólico sob a forma suscita o desejo. Ao contrário do objeto do fantas­
dessa barra que representa o nascimento e a divi­ ma, o objeto de amor é com freqüência marcado
são do sujeito, consecutivos à sua entrada na lin­ pela idealização, ou ainda pelo narcisismo, o que
guagem. Nele também se encontra o objeto a, en­ leva mais de um apaixonado a constatar que aqui­
quanto perdido, lugar vazio, hiância que o sujeito lo que ele ama no outro é o reflexo de sua própria
tentará obturar, durante sua vida, com diversos imagem, mais ou menos idealizada. A complexi­
objetos a imaginários (e particularmente seu en­ dade e a dificuldade da vida dos casais residem,
contro com os significantes marcantes e os objetos em boa parte, na necessidade de fazer coincidir,
do fantasma dos Outros concretos parentais) que em um único objeto, de uma forma que satisfaça o
será levado a privilegiar. Finalmente, nele pode ser sujeito, o objeto e o fantasma, o da pulsão e o do
lida tanto a função de enlace (0) do simbólico ($), amor.
do imaginário (a) e do real (a), operada pelo fan­ Lacan propôs diferenciar a fórmula do fantas­
tasma, bem como a dupla função de proteção. De ma do histérico e a do fantasma do obsessivo. O
fato, ele protege o sujeito não só contra o horror materna produzido para a histeria acentua que o
do real, mas também dos efeitos da divisão, con- histérico não busca no outro o objeto de seu fan­
seqüência da castração simbólica; ou, dito de ou­ tasma, mas o Outro absoluto, enquanto que se iden­
tra forma, protege-o contra sua dependência radi­ tifica com o objeto do fantasma do outro, e, de uma
cal em relação aos significantes. forma escondida, com a falta do falo. O do obses­
O objeto a do fantasma possui, portanto, um sivo escreve a multiplicidade e a intercambiabili-
duplo valor. Enquanto objeto real, está irremedia­ dade dos objetos a que ele visa, todos colocados
velmente perdido. Não obstante, enquanto resul­ sob o índex do significante do falo, isto é, muito
tado de uma operação lógica (Seminário XIV, 1966- erotizados (Lacan, Seminário sobre a Transferên­
67, "A Lógica do Fantasma"), certas partes do pró­ cia, abril de 1961). Quanto ao fantasma do perver­
prio corpo prestam-se sobremaneira à operação so, esse destaca a busca no outro de sua divisão e
lógica de desapego, que transpõe seu objeto para sua vontade de acentuá-la ao extremo (Lacan, Es­
o imaginário: o olhar, a voz, o seio e as fezes. De critos, 1966).
fato, nunca temos acesso ao nosso olhar, enquanto Em relação ao fantasma, na perspectiva laca-
olhando o outro, nem tampouco à nossa voz, como niana, a finalidade do tratamento consiste em fa­
é percebida pelo outro. As fezes são evidentemen­ zer girar o fantasma inconsciente arcaico, marcan­
te partes destacáveis do corpo, perdidas e a serem do nele a parte ocupada pelo desejo do Outro con­
creto da infância na constituição desse fantasma, a
dependência radical do significante que esse fan­
** Em alemão, é um fonema. (N. doT.) tasma tenta obliterar e a hiância nodal subjetiva
73 fase ou estágio

que os objetos a imaginários tentam fazer esque­ obter prazer, torna-se auto-erótico — a zona buco-
cer. labial é então designada zona erógena. Freud atri­
bui uma importância capital a essa primeira parte
fa s e ou e s tá g io , s.f. (alem.: Stufe, Phase; fr.: sta- da fase oral, para a determinação da futura vida
de; ing.: stage). Cada um dos graus de organização sexual. Em particular, na escolha objetai ulterior:
libidinal do desenvolvimento do ser humano, que o seio surge, assim, como essencialmente perdido,
possui um caráter topográfico (zonas erógenas) e e "encontrar o objeto sexual nada mais é, em suma,
um caráter objetai (escolha objetai). do que reencontrá-lo".
Foi em 1915, na 3a edição de Três ensaios sobre a Um outro estágio da fase oral é caracterizado
teoria da sexualidade, que S. Freud apresenta de for­ pela passagem da sucção à mordida, onde surge,
ma sistemática, em psicanálise, a noção de fases. combinada à libido, uma pulsão agressiva e des-
Ao contrário das perspectivas da psicologia da cri­ truidora. Isso foi evidenciado especialmente por K.
ança, que irão ser as de Wallon e de Piaget, após Abraham e retomado por M. Klein, que situa, nes­
os primeiros trabalhos de W. T. Preyer, E. Claparè- sa fase, o aparecimento do supereu precoce. R. Spitz
de e W. Stern, as fases freudianas são observadas, divide essa fase em três subfases: fase pré-objetal
a posteriori, nos tratamentos de adultos. de indiferenciação (0-3 meses), fase do objeto pre­
Não se trata de etapas genéticas, que marcam cursor (3-8 meses) e fase do objeto propriamente
um desenvolvimento observado na criança. Trata- dito.
se de graus de organização que adquirem sentido
em uma metapsicologia.
De uma forma geral, a noção de fase, sempre A FASE SÁDICO-ANAL

é empregada na psicologia contemporânea. E ob­ A segunda fase, que se segue à oral, é a sádi-
jeto de discussões muito intensas, para alguns, con­ co-anal, regida pela erogeneidade da zona anal;
ceito essencial, para outros, simples artifício de pes­ essa organização libidinal está ligada às funções
quisa. Costuma-se opor as fases do desenvolvimen­ de expulsão-retenção, constituindo-se em tomo da
to da personalidade e do domínio da inteligência simbolização das matérias fecais, objeto que se se­
às do domínio da "afetividade". Não foi sobre esse para do corpo, da mesma forma que o seio. Nessa
ponto que Freud fez valer as fases que distinguiu. etapa pré-genital da sexualidade infantil, predo­
Antes, destaca que as diversas fases da sexualida­ minam as pulsões erótico-anal e sádica. As noções
de da criança e do adolescente são regidas por uma de passividade e de atividade traduzem a bipola-
migração topológica propriamente dita das funções ridade da função anal, que se apóia em duas pul­
representadas pelas zonas erógenas, promovidas sões parciais: de domínio, ligada à musculatura, e
sucessivamente a um lugar eminente pelo prazer de passividade, ligada à mucosa anal.
que desperta seu funcionamento, e que podem ser Abraham descreveu uma subdivisão dessa
observadas nas diversas dialéticas da relação ob­ fase, relacionada com o comportamento frente ao
jetai. objeto: a primeira parte associa a expulsão à des­
Freud distingue duas modalidades de organi­ truição; a segunda, relaciona a retenção com a pos­
zação da libido, — pré-genital e genital. A fase pré- se. Assim, instaura-se, na própria função esficteri-
genital comporta a fase oral e a anal. ana, uma dialética entre o sadismo e o erotismo
anal: contenção-domínio; relaxamento-evacuação.
Por essa atividade, que termina na defecação, as
A FASE ORAL
fezes irão simbolizar a função de um presente dado
A fase oral se caracteriza por uma organiza­ à mãe, sendo, ao contrário, sua retenção uma posi­
ção sexual "canibal", durante a qual a atividade ção agressiva em relação a ela.
sexual não se separa da função de devoração: as
duas atividades visam à incorporação do objeto
(protótipo da identificação ulterior), de forma que, A FASE FÁLICA
nessa fase, a pulsão oral é apoiada pela função di­ A fase fálica é a fase característica do ápice e
gestiva. A sucção logo surge como "um vestígio" declínio do complexo de Édipo, marcada essenci­
desse grau inicial da fase, pois consagra a separa­ almente pela angústia de castração. Tanto na me­
ção das atividades sexual e alimentar, substituin­ nina como no menino, essa fase sucede as fases oral
do o objeto externo por uma parte do corpo do su­ e anal, em uma unificação das pulsões parciais so­
jeito; portanto, esse ato repetitivo, encarregado de bre a região genital, representada pelo falo; em
Ferenczi (Sándor) 74

ambos os sexos, o que caracteriza essa fase é tê-lo surgir divergências entre Freud e Ferenczi, alimen­
ou não tê-lo: "D e fato, essa fase só conhece um úni­ tadas pela complexidade dos vínculos afetivos exis­
co tipo de órgão genital, o órgão masculino". tentes entre eles.
Essa instalação um tanto tardia da fase fálica, Foi no plano técnico que Ferenczi desenvol­
representa, para Freud, uma transição de sua des­ veu suas contribuições mais originais. A fim de
crição inicial: inorganização das pulsões sexuais evitar que uma parte demasiado grande da ener­
pré-genitais, em oposição à organização genital do gia psíquica encontrasse satisfações substitutivas,
adulto. Essa fase fálica é regida pelo signo da cas­ o que iria entravar o tratamento, ele propôs uma
tração, o que impõe a questão, em sua relação ao "técnica ativa", que proibiría tais satisfações, mas
Edipo, da própria existência dessa fase: a desco­ que também podería incitar a enfrentar as situa­
berta, pela menina, da falta do pênis (a inveja do ções patológicas. Diante das dificuldades ligadas
pênis determinando a assimetria, tendo em vista a essa técnica, que, amiúde, reforçava as resistên­
as relações parentais, entre menino e menina) po­ cias, ele modificou por completo sua técnica, que
dendo também ser classificada mais em uma pers­ irá se assemelhar a uma forma de relaxação. Fi­
pectiva de intersubjetividade do que de acesso a nalmente, chega a conceber uma espécie de análi­
uma fase. se mútua, destinada a impedir que os desejos in­
conscientes do analista interfiram no tratamento.
Hoje, suas soluções quase não são retomadas, mas
A FASE GENITAL
suas perguntas constituem a prova de uma consci­
A fase fálica é sucedida pelo período de latên- ência aguda de sua responsabilidade de terapeu­
cia. Dessa forma, ela separa o "primeiro ímpeto", ta.
que começa entre os 2 e os 5 anos, "caracterizado No plano teórico, as pesquisas de Ferenczi ob­
pela natureza infantil das intenções sexuais", en­ jetivam à constituição de uma nova ciência, a bio-
quanto o "segundo ímpeto", que começa na pu­ análise, que é uma extensão da teoria psicanalítica
berdade e determina a forma definitiva que irá as­ à área da biologia, ou à psicanálise das origens.
sumir a vida sexual". Esse ímpeto em dois tempos Em Thalnssa. Psicanálise das origens da vida sexual
é de uma importância decisiva, nos distúrbios do (1924), ele elabora a hipótese, apoiada nas teorias
adulto. "A escolha da criança sobrevive em seus evolucionistas de Lamarck e E. Haeckel, segundo
afetos, seja porque permanecem com sua primeira a qual a existência intra-uterina seria a repetição
intensidade, seja porque, durante a puberdade, de formas anteriores de vida, cuja origem é mari­
sofrem uma renovação": com efeito, é neste perío­ nha. O nascimento seria a perda do estado origi­
do que se instala o recalcamento secundário. nário, ao qual todos os seres vivos aspiram retor­
A pulsão sexual auto-erótica, que caracteriza nar.
essas fases, deriva de diversas pulsões parciais e Mas Ferenczi também contribuiu de forma in­
zonas erógenas, tendendo todas à satisfação. Na teressante à teoria do simbolismo. Por outro lado,
puberdade, essas pulsões agem juntas, surgindo abriu o caminho para uma abordagem mais aten­
um novo alvo sexual; as zonas erógenas subordi­ ta das relações primárias da mãe com o filho, que
nam-se ao "primado da zona genital". Portanto, iria ser desenvolvida por Alice e Michaél Balint.
parece que poderão se confundir, na vida sexual,
a corrente da ternura e a da sexualidade. Todavia, fe tic h is m o , s.m. (alem.: Fetischismus; fr.: fétichis-
observamos que tal descrição do "amor genital"* nte; ing.: fetishisin). Organização particular do de­
apresenta também problemas que não podem ser sejo sexual, ou libido, na qual a satisfação comple­
negligenciados. ta só pode ser alcançada em presença e uso de de­
terminado objeto, o fetiche, que a psicanálise iden­
F e r e n c z i (S án d o r). Médico e psicanalista hún­ tifica como substituto do pênis que falta à mãe, ou,
garo (Miskolc, 1873- Budapeste, 1933). ainda, como significante fálico.
Ligado a S. Freud, desde 1906, do qual de res­ Descrito em pormenores, no século XIX, por
to foi o discípulo favorito e um dos raros amigos, autores como Havelock Ellis ou Krafft-Ebing, o fe­
é, com E. Jones e K. Abraham, um dos maiores co­ tichismo em geral é considerado como pertencen­
laboradores para o desenvolvimento da psicanáli­ do à esfera da perversão. De fato, o comportamento
se fora da Áustria. O sucesso das idéias freudia­ do fetichista evoca com facilidade essa dimensão;
nas na Hungria permitiu que Ferenczi abrisse uma o fetichista elege um objeto, um par de sapatos,
clínica e até mesmo, durante a curta duração do por exemplo, que se toma seu único objeto sexual.
governo Béla Kun, que ensinasse psicanálise na Dá a ele um valor muito excepcional e — confor­
universidade. Porém, a partir de 1923, começam a me Freud — "não é sem razão que se compara esse
75 fetichismo

substituto com o fetiche, no qual o selvagem vê a representa "o pênis da mulher, cuja ausência é tão
encarnação de seu deus". Aquilo que, no nível des­ intensamente sentida".
critivo, parece particularmente representativo do De fato, nesse caso, é preciso partir do proble­
registro perverso, é a dimensão da condição abso­ ma da castração, ou, mais precisamente, do "ter­
luta que caracteriza, em muitos casos, o objeto fe­ ror da castração", ativado pela percepção da au­
tiche. Mesmo que possa manter relações sexuais sência do pênis na mulher, na mãe. Se a mulher é
"normais", o fetichista não pode se entregar a elas, castrada, pesa uma ameaça sobre o menino, refe­
por exemplo, ou não pode tirar delas um gozo, a rente à posse do seu próprio pênis. Portanto, é para
não ser que sua parceira consinta em vestir um coi­ se prevenir contra essa ameaça que ele recusa a falta
sa particular. A finalidade sexual não é, neste caso, do pênis na mãe (recusa), e o fetiche nada mais é
a cópula; o desejo que, em geral, acredita-se diri­ do que o substituto do pênis faltante.
gido a um ser em sua totalidade, acha-se claramen­ Esse mecanismo de formação do fetiche foi
te dependente de uma parte do corpo "superesti­ posto em evidência por Freud (O fetichismo, 1927),
mada" (fetichismo do pé, da cabeleira, etc.) ou de a partir da escolha objetai eleita como tal. Se se
um objeto material relacionado mais ou menos es­ imaginar o olhar da criança indo ao encontro da­
treitamente com uma parte do corpo (roupas ínti­ quilo que para ela vai ser traumatizante, por exem­
mas, etc.). Acrescentamos que traços fetichistas são plo, elevando-se do solo, o fetiche seria constituí­
encontrados amiúde nas práticas em geral chama­ do pelo objeto da última percepção, antes da pró­
das de perversas (fetichização do chicote, no sa­ pria visão traumática: um par de sapatos, a barra
dismo, etc.). de uma saia. "A escolha tão freqüente de peças ín­
Todavia, para a psicanálise, o fetichismo tem timas como fetiche se deve ao que é retido no últi­
uma importância muito mais geral, muito além da mo momento do ato de despir-se, durante o qual
consideração de uma determinada entidade pato­ ainda se podia pensar que a mulher é fálica". Quan­
lógica. Assim, deve-se observar que se encontra, to às peles, elas simbolizam a pilosidade femini­
"na vida sexual normal", "um certo grau de feti­ na, último véu atrás do qual ainda se poderia su­
chismo" (Freud, Três ensaios sobre a teoria tia sexuali­ por, na mulher, a existência de um pênis. Assim,
dade, 1905). E Freud cita Goethe: Traga-me um há no fetichismo uma espécie de parada da ima­
écharpe que cobriu seu seio, Uma jarreteira de mi­ gem, um resto paralisado, separado daquilo que
nha bem-amada (Goethe, Fausto, I, 7). poderia tê-lo produzido, na história do sujeito. E
Evidentemente, concorda-se que o fetichismo neste sentido que o fetichismo é esclarecedor, no
caracteriza especialmente a libido masculina, pois que se refere à escolha objetai perversa. Lacan mos­
os homens estão, com mais assiduidade, mais ou tra que ela não possui valor de metáfora, como o
menos conscientemente em busca de um traço dis­ sintoma histérico, por exemplo, mas é constituída
tintivo, que, por si só, torne desejável sua parcei­ de forma metonímica; elemento desligado de uma
ra. Porém, seria pouco pertinente opor o fetichis­ história, constituído na maioria das vezes por des­
mo às outras manifestações do desejo. Se o fetichis­ locamento*, não existe sem dessubjetivação; no lu­
ta elege uma determinada categoria de objetos, gar onde era feita uma pergunta subjetiva, ele res­
nem por isso está "fixado" a um deles. Sempre sus­ ponde pela "superestimação" de uma coisa inani­
cetível de se deslocar para um outro, equivalente, mada. E curioso ver, nesse ponto, a teorização psi-
mas diferente, o fetichismo envolve essa parte de canalítica convergir para as análises de Marx a res­
insatisfação, constitutiva de todo desejo. peito da fetichização da mercadoria.
Observamos que a teoria freudiana da recusa
é acompanhada por uma teoria da divagem psí­
A RECUSA DA CASTRAÇÃO
quica. O fetichista, de fato, não "escotomiza" to­
Como explicar o fetichismo e sua importância talmente uma parte da realidade, no caso a ausên­
na sexualidade humana? Em Três ensaios sobre a te­ cia do pênis na mulher. Ele tenta conservar no in­
oria da sexualidade, Freud retira de A. Binet a idéia consciente duas idéias ao mesmo tempo, a da au­
da "influência persistente de uma impressão sexual sência do falo e a de sua presença. Nesse sentido,
percebida, na maioria das vezes, durante a primei­ Freud evoca um homem que havia escolhido como
ra infância". Porém, reconhece que, "em outros fetiche uma cinta pubiana, cuja forma era a folha
casos, ela é uma associação de pensamentos sim­ de parreira de uma estátua vista na infância. Essa
bólicos, da qual o interessado não está, na maior cinta, que dissimulava completamente os órgãos
parte das vezes, consciente, que levou à substitui­ genitais, poderia significar tanto que a mulher era
ção do objeto pelo fetiche". E, em uma nota de 1910, castrada como que não o era. E assim, vestida por
escreveu, a respeito do fetichismo do pé, que esse ele à guisa de um calção de banho, "permitia, ade-
fixação 76

mais, supor a castração do homem". Essa idéia de sença sobre um fundo de ausência: ela nos desliga
uma divagem psíquica, Freud a conservou até o da concepção empírica da coisa; no limite, ela se
fim ("A Divisão do Ego no Processo de Defesa", anula, e, ao mesmo tempo, faz a coisa subsistir sob
1938) e a psicanálise irá lhe atribuir uma impor­ uma outra forma. Ausente, a coisa não é menos
tância crescente. evocada.
Que a consideração da linguagem , e, por
exemplo, os mecanismos de homofonia, ou mes­
O FETICHE COMO SIGNIFICANTE
mo seu funcionamento translingüístico, seja essen­
O que há de essencial na teoria freudiana do cial para apreender o que é da ordem do fetiche, é
fetichismo? Sem dúvida, a observação da proble­ o que já aparece em Freud (op. cit.): um jovem ti­
mática fálica, da problemática da castração, como nha adotado como fetiche um certo "brilho no na­
aquela onde se inscreve o fetiche. E, por outro lado, riz". Ora, esse jovem, criado na Inglaterra, só ti­
o estatuto do próprio fetiche, que se pode consi­ nha vindo depois para a Alemanha: entendido em
derar, como Lacan, um significante. inglês, o "brilho no nariz" ("brilho", em alemão,
No que se refere ao primeiro ponto, é verdade se diz "Glanz") de fato era um "olhar sobre o na­
que o próprio Freud faz alusão, sobretudo em Três riz" (em inglês glance significa "olhar").
ensaios sobre a teoria da sexualidade, a outros compo­ Todavia, talvez seja em outro ponto que é pre­
nentes do fetichismo que não os fálicos: o fetichis­ ciso insistir. O fetichismo retira da realidade um
mo do pé muitas vezes comporta uma dimensão véu que a dissimula, é esse véu que o sujeito final­
olfativa (pé malcheiroso), que por si mesma pode mente superestima. Existe nele uma ilusão, mas
provir de uma pulsão parcial (registro anal). K. uma ilusão que sem dúvida se acha em todo dese­
Abraham prosseguiu esse tipo de análise, que foi jo. "Por que o véu é mais precioso para o homem
retomado principalmente por autores ingleses, via do que a realidade?" Lacan formulava, em 1958,
de regra kleinianos, como S. Payne ("Some Obser- essa pergunta. Ela ainda permanece atual.
vations on lhe Ego Development ofthe Fetishist"), in
International Journal o f Psychoanalysis, tomo XX). fix a ç ã o , s.f. (alem.: Fixierung; fr.: fixation; ing.://-
Sabe-se que, para M. Klein, a criança muito peque­ xation). Ligação privilegiada da libido a objetos,
na sente uma necessidade muito grande de des­ imagens ou tipos de satisfação libidinal relativos
truir os objetos que considera maus, perseguido­ às fases pré-genitais.
res, e dos quais teme correlativamente uma retor- A noção de fixação, em geral ligada à de re­
são. Para Payne, o fetichismo constitui uma defe­ gressão, em uma concepção genética e dinâmica
sa, defesa contra aquilo que poderia constituir, no da evolução da libido, permite identificar em quais
prolongamento dessa relação destmidora com o condições um adulto pode persistir na busca de
objeto, uma verdadeira perversão, uma perversão satisfações ligadas a um objeto desaparecido (por
de tipo sádico. Esse esclarecimento nos parece ig­ exemplo, fixação à fase anal, na neurose obsessi­
norar o primado do falo no sujeito humano, pri- va). Mais geralmente, falar-se-á de uma fixação de
‘ mado que faz com que o fetichismo, como aliás to­ determinadas representações (representantes-re-
das as perversões, não seja definido como a sobre­ presentação ou ainda significantes) ligadas ao di­
vivência de "fases pré-genitais", mas antes, segun­ namismo pulsional para designar seu modo de ins­
do Freud, da problemática fálica. crição no inconsciente.
No que se refere ao segundo ponto, a identifi­
cação do fetiche com um significante, podemos ser F l i e s s (W ilh e lm ). Médico e biólogo alemão
levados a isso se observarmos, como Lacan {Semi­ (Arnswalde, atualmente Choszczno, Polônia, 1858
nário IV, 1956-57, "A Relação Objetai e as Estrutu­ — Berlim, 1928).
ras Freudianas"), que o fetiche representa não o Otorrinolaringologista berlinense, Fliess é au­
pênis real, mas o pênis enquanto podendo faltar, tor de teorias sobre a correspondência entre a mu-
enquanto podendo ser atribuído à mãe, mas, ao cosa nasal e os órgãos genitais, e a bissexualidade
mesmo tempo, enquanto reconhecida sua ausên­ fundamental de todo ser humano. Desempenhou
cia: é esta a dimensão da divagem evidenciada por um considerável papel na evolução de S. Freud,
Freud. Ora, essa alternância da presença e ausên­ seu amigo íntimo. Trocaram uma correspondência
cia — sistema fundado na oposição do mais e do apaixonada, de 1887 a 1904, de importância capi­
menos — caracteriza os sistemas simbólicos como tal para uma boa compreensão da obra freudiana,
tais. Observamos que a palavra já constitui a pre­ e em particular da auto-análise de Freud.
77 fobia

fo b ia , s.f. (alem.: Phobie; fr.: phobie; ing.: phobia). espaços, e no qual surge o sinal daquilo que Freud
Ataque de pânico diante de um objeto, animal ou teoriza como angústia de castração. Na maioria das
determinada organização do espaço, que funcio­ vezes essa fobia é resolvida quando a criança per­
nam como sinais de angústia. cebe a ordem que rege não apenas sua sexualida­
Esse sintoma, que pode surgir durante a pri­ de, mas também sua transmissão e filiação.
meira infância e em determinados estados de neu­ O pequeno Hans não ousava sair para a rua;
rose e de psicose, não impede que se fale de estru­ tinha medo que um cavalo preso a uma caleça o
tura fóbica, que poderia ser definida, como o fez mordesse. Parece que temia, sobretudo, que o ca­
Ch. Melman, como uma doença do imaginário. valo caísse e fizesse então um "cliarivari". Freud não
inicia diretamente o tratamento, mas o faz de for­
ma indireta, por intermédio de seus pais, que eram
S it u a ç ã o fr e u d ia n a d o p r o b l e m a d a
seus alunos. Isso não é indiferente em relação à
f o b ia : a a n g ú s t ia d e c a s t r a ç ã o pergunta fundamental do fóbico sobre a transmis­
A fobia é principalmente uma noção psicana- são do saber, referente ao desejo e ao gozo. O p ^
lítica. S. Freud a chama de histeria de angústia. queno Hans, como todo fóbico, tão "enferm o" por
Apesar dessa noção ser utilizada em diversos sin­ sua clausura, é vivo, inteligente, lúcido e desmis-
tomas surgidos na histeria, na neurose obsessiva e tificador. E geralmente irônico, diante das teoriza-
mesmo na psicose, é atribuída à fobia uma especi­ ções parentais que caricaturizam intensamente as
ficidade estrutural. Sua característica, que pode ser teorias freudianas sobre o complexo de Édipo e a
estudada na fobia infantil, muito frequente, mas angústia de castração, embora reconhecendo sua
passageira, está na própria simbolização, com seu justeza. De fato, todo o trabalho que Hans fez so­
difícil vínculo com o imaginário. bre a diferença sexual, sobre o nascimento* das cri­
A histeria de angústia, de Freud, opõe-se à his­ anças e, em particular, o de sua irmã Anna, tão in­
teria de conversão, na qual grandes quantidades vejada, sobre sua recusa (alem. Verleugnung) quan­
de excitação, ligadas ao investimento libidinal de to ao sexo de sua irmã, nada mais foi do que pou­
uma representação recalcada, levam a uma sinto­ co a pouco elaborar o pânico diante do substituto
ma somático. Na histeria de angústia, a angústia fálico, que é o cavalo; admitiu paulatinamente o
devida a uma representação angustiante, ligada à que a angústia de castração prescreve simbolizar,
sexualidade, aparece como tal, produzindo uma sendo, assim, levado a uma cura.
fuga que orienta o investimento para uma repre­ Todavia, a mola de seu tratamento — e essa
sentação substitutiva que desempenha o papel tan­ seria uma indicação para os tratamentos das fobi­
to de sinal de angústia como de tela, diante do ver­ as — surge no momento em que Freud disse a
dadeiro motivo dessa angústia, que é preciso en­ Hans: "Muito antes que ele tivesse vindo ao mun­
contrar e definir. do, eu já previra que um dia iria nascer um pe­
O interesse do problema deve-se a que nem queno Hans, que gostaria tanto de sua mãe que
Freud nem J. Lacan, em suas diversas elaborações seria forçado, por isso, a ter medo de seu pai, e eu
sobre o assunto, jamais assumiram uma posição havia dito isso a seu pai". Ao que Freud chama,
teórica imutável. Pode-se dizer que, em Freud, ape­ com humor, de "sua representação de gabarolice",
sar da cura do caso do "pequeno Hans" ("Análise corresponde uma intervenção que não é uma pré-
de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos", em dica religiosa, embora o pequeno Hans tivesse per­
Cinco conferências sobre psicanálise, 1909), a situação guntado subitamente ao seu pai: "O professor fala
da fobia foi modificada em Inibição, sintoma e an­ com o Bom Deus para que possa saber tudo isso
gústia sem, todavia, haver sido concluída. Portan­ com antecedência?" Evidentemente, Freud mostra
to, qual é o problema específico da fobia? Poder- o lugar exato do medo de Hans: o cavalo seria um
se-ia concluir, daquilo que foi apresentado sobre a substituto do pai no triângulo edípico; porém, ain­
elaboração necessária dessa questão, alguma coi­ da era preciso que essa historização do conflito
sa que nos orientasse para aquilo que a fobia tem pudesse situar um saber inconsciente como um
de original? Freud, na análise do pequeno Hans, conjunto (Lacan o chamará de S(A), como o lugar
expõe um caso que vincula a questão da fobia, no de linguagem ocupado por Hans na transmissão
caso do cavalo, ao que se chama de fobia infantil, significante; se o cavalo (alem. Pferd) está em asso-
isto é, a certo momento da infância, talvez entre os nância com Freud, é porque ele não é mais somen­
3 e os 5 anos, no qual o sujeito sente medo de for­ te um pedaço de espaço que surge do horizonte e
ma irracional diante de determinados animais e que cai violentamente, em sua crueza não simboli-
fobia 78

zável, é porque o pequeno Hans foi incluído no nó fóbico à idéia operatória do significante fóbico. Esse
que liga filiação, nominação e transmissão pelas significante fóbico, por exemplo, o "Pferd" para
redes simbólicas da linguagem. Hans, é nele definido como um significante para
A partir disso, ele vai poder encontrar o lugar todos os usos, verdadeira metáfora do pai, que
ficcional das teorias sexuais infantis, onde se po­ permite que a criança simbolize o Real do gozo fá-
dem historizar, como um jogo sério, os diferentes lico que ela descobre e que faz surgir o jogo edípi-
lugares que um sujeito pode ocupar e onde a cas­ co.

tração pode adquirir um sentido diferente do que Lacan situa o objeto fobígeno como aquele que
um perigo de castração. Cura imperfeita, dirá La- serve, no espaço, para mascarar a angústia funda­
can, à medida que foi do lado de uma avó que ele mental do sujeito. "Para preencher alguma coisa
encontrará, entre sua mãe e ele, o terceiro que não que não pode ser resolvida no nível do sujeito, no
encontrou em seu pai e onde a paternidade que nível da angústia intolerável, o sujeito não tem
iria situar seria sobretudo uma paternidade ima­ outro recurso a não ser fomentar seu medo de um
ginária. Resta que a questão do falo e de suas leis tigre de papel" (ibid.). Então, a questão é saber o
pôde ser formulada, e que a resposta dada ocorre que liga o objeto fobígeno ao significante fóbico;
em um lugar dialetizado e não-projetado na reali­ mas isso não parece ter sido abordado diretamen­
dade exterior do espaço como a iminência de um te em Lacan, ainda que a partir da teoria lacania-
perigo que, não obedecendo a nenhuma lei, pode na do objeto a, e em particular do que ele disse
surgir em qualquer momento, em qualquer lugar. sobre o olhar, possa se resolver o problema dessa
Em Inibições, sintomas e ansiedade (1920), Freud articulação.
remete a fobia a uma angústia doeii, assim situan­ No Seminário XVI, "De um Outro ao Outro"
do a angústia da fobia em relação direta com a (1968-69), Lacan toma posição sobre a questão de
ameaça de castração, enquanto que a angústia his­ saber se se pode falar de uma "estrutura fóbica":
térica se manifesta pela perda do amor do lado do "Não se pode ver nisso uma entidade clínica" —
objeto e a angústia da neurose obsessiva se desen­ diz ele — "mas, antes, uma plataforma giratória, al­
volve em relação ao supereu. No entanto, não pa­ guma coisa que deve ser elucidada em suas rela­
rece que tais esclarecimentos invalidem a idéia de ções com aquilo que ela gira mais comumente, a
uma moção pulsional recalcada, que voltaria de saber, as duas grandes ordens da neurose, a histe­
fora como uma percepção. Portanto, mesmo que o ria e a obsessão, mas também a junção que ela rea­
conceito freudiano de projeção, inventado e ope- liza com a perversão".
ratório a respeito da paranóia, não convenha ver­ De fato, surge uma questão: como se distin­
dadeiramente à fobia, na qual a oposição entre in­ gue o objeto fóbico do objeto fetiche? Ambos man­
terior e exterior remete a uma pregnância imagi­ têm uma relação direta com a angústia de castra­
nária, que só pode organizar em impasse os vín­ ção, ambos possuem valor de significantes, são
culos entre a linguagem e a forma como o sujeito ambos imaginarizados; representam uma certa
se situa nela, pode-se dizer que a fobia apresenta positivação do falo e organizam um acesso ao gozo
a própria questão do recalcamento. Todavia, se o fálico.
recalcamento originário nela tem lugar, parece que Todavia, pode-se encontrar em Lacan, 1963, em
o vínculo entre as palavras e o imaginário, que se um único seminário, "O Seminário dos Nomes-do-
refere ao espaço e ao olhar, constitui uma solução Pai" (Nome-do-Pai*), uma indicação que talvez
original. Acrescenta-se a seguinte questão: o trata­ possa especificar o objeto fóbico: "Não é verdade
mento de um fóbico deve levar a uma neurotiza- que o animal apareça como metáfora do pai no ní­
ção? Se é verdade que o fóbico inventou toda uma vel da fobia, a fobia nada mais é do que um retor­
montagem para evitar a castração e a neurotiza- no". Retorno a um totem? Não é certo e, se Lacan
ção, que marca a simbolização que ela engendra, volta a essa questão, é para aperfeiçoar a questão
seria preciso, para tanto, eludir a razão e talvez o do vínculo entre Nome-do-Pai e falo, no objeto fó­
benefício, e não tentar repensar a questão e as vi- bico. Parece — como indica Melman — que o ani­
cissitudes da castração? mal fóbico representa o falo e não o pai. Poderia­
mos dizer que o objeto fóbico é uma espécie de
"crase" entre o valor significante do falo e um Ape­
A IDÉIA LACANIANA DO SIGNIFICANTE FÓBICO
lo ao Nome-do-Pai simbólico, que com freqüência
Lacan, no seminário sobre a Relação de objeto se resolve de acordo com uma paternidade imagi­
(1956-57), estuda, quase que palavra por palavra, nária? Essas perguntas irão sofrer uma grande vi­
a análise do pequeno Hans, relatada por Freud. rada no Seminário "R .S.I.Í (1974-75), no qual é exa­
Faz-nos passar da consideração estéril do objeto tamente o imaginário que é situado por completo,
79 forclusão

assim como os dois outros registros, Real e Simbó­ um perigo ameaçador, o próprio real do olhar e não
lico, como sendo um dos elementos indispensáveis mais seu lugar. Por que motivos? Pode ser esclare­
do nó. Em 17 de dezembro de 1974, Lacan redefi­ cedor inferir de uma relação com o imaginário a
ne a angústia como "aquilo que, do interior do cor­ acuidade inteligente das fobias, tão notável e tão
po, ex-siste... quando se acha que se toma sensível impotente para curá-las. Melman escreveu, ao opor
a associação com um corpo... um gozo fálico". Diz ao fóbico o neurótico, que paga pela castração um
ainda: "Se o pequeno Hans se arremessa na fobia, tributo simbólico ao grande Outro, para o gozo:
evidentemente é para dar corpo ao obstáculo que "É [...] como se o sujeito pagasse ao Outro [...] um
encontra no falo e para o qual inventa toda uma tributo da ordem do imaginário, com a invenção
série de diferentes equivalentes pinoteantes, sob a do animal fobígeno [...] a fobia, portanto, apresen­
forma da fobia dita dos cavalos; [...] é para tornar- tando-se como se a amputação do espaço viesse
lhe esta angústia, se se pode dizer, pura, que se constituir, de forma inesperada, o tributo que o fó­
chega a fazê-la se conformar com esse falo". Apon- bico era levado a pagar". Todo neurótico, eviden­
ta-se, então, uma direção do tratamento: passar de temente, conhece lugares inacessíveis, marcados
uma positivação do falo àquilo que é exatamente por uma interdição: "mas o problema é que, para
sua função, o operador simbólico Or, que, ao mes­ o fóbico, esse tributo nunca tem limite: ele pode
mo tempo, marca e faz funcionar o hiato radical estender-se até a beira de seu domicílio; dito de
entre os sexos, pois se trata do sujeito falante. outra forma, ele pode de alguma forma dar tudo"
(ibid.). O que permite a Melman dizer, retomando
a problemática borromeana de Lacan, que existe
A s CONSEQÜÊNCIAS CLÍNICAS E TEÓRICAS DA uma relação singular, na fobia, entre Imaginário e
o bra de L acan a r e s p e it o d a c o n c e p ç ã o Real. Enquanto que de hábito é o círculo do Sim­
DA FOBIA bólico que faz buraco, que o do Imaginário dá con­
sistência, que o do Real funda a "ek-sistência", na
A obra de Lacan permite progredir nas dife­ fobia, tudo se passa como se fosse o Imaginário o
rentes perguntas levantadas pela fobia — e, sem marcado pela dimensão do buraco. Isso não deixa
dúvida, na formulação da hipótese de uma estru­ de ter conseqüências: isso explica o jogo, o equí­
tura própria da fobia; hipótese importante, pois voco, no fóbico, entre caráter finito ou infinito do
amiúde os grandes fóbicos são situados e tratados gozo com o qual está lidando, gozo fálico ou gozo
como psicóticos. do Outro. Isso demonstra a pregnância da relação
Há fobias de animais e fobias de espaço (ago- egóica com o semelhante, em particular com o ne­
rafobia, claustrofobia). cessário acompanhante, desde que haja esta sus­
Ora, parece que Lacan poderá nos auxiliar a pensão, esta economia da castração, na relação com
resolver essa diferença. Essa é uma das propostas o falo, que não constitui verdadeiramente a dife­
do estudo de Melman (op. cil.), que considera a fo­ rença dos sexos. Esta relação com a infinitude— é
bia como "uma doença do imaginário". Retoman­ verdade que paga pela angústia — dá ao fóbico
do as antigas descrições de M. Legrand du Saulle essa acuidade sobre si mesmo e sobre o mundo que
(1878), destaca, de fato, quais são os espaços orga­ constitui seu encanto, embora essa acuidade não
nizados pela perspectiva que são fobígenos: luga­ baste para curá-lo. É nisso que está a dificuldade
res desertos, onde nada perturba o olhar, belvede- dos tratamentos de fóbicos, e onde encontram seus
res, pontos com vistas vertiginosas. Notamos en­ argumentos os sucessos verdadeiros, mas tempo­
tão que o animal, este "aulomaton", surge com fre- rários, das reeducações comportamentalistas. To­
qüência daquilo que tem a função de ponto de davia, elas deixam todo o problema ético constitu­
fuga, como se esse ponto — induzido por uma re­ ído por uma cura: ela passa por uma neurotiza-
lação espacial regulada pela imagem especular, ção? Como disse Melman: "Será que o Nome-do-
vista e articulada por uma palavra no espelho — Pai é a cavilha necessária para obter a castração,
não mais fosse aplicável a uma geometrização, mas ou ela é a cavilha do sintoma?"
surgindo como um fragmento de espaço, dotado
de sua própria autonomia. A psicanálise lacania- fo r c lu s ã o , s.f. (alem.: Veriverfung; fr.: forclusion;
na, depois do Seminário XI, 1963-64, "O s Quatro ing.: repudiation ou foreclosure). Segundo J. Lacan,
Conceitos Fundamentais da Psicanálise" (1973), "falta que dá à psicose sua condição essencial, com
permite reconhecer, no ponto de fuga de um qua­ a estrutura que a separa da neurose" (Sobre uma
dro, o lugar do olhar. Ora, é disso que se trata ex­ questão preliminar a todo tratamento possível da psico­
pressamente na fobia: o espaço produzido como se, 1957).
forclusão 80

O funcionamento da linguagem e as categori­ do de efeitos, cujos traços principais, constatados


as topológicas do real, do simbólico e do imaginá­ por Lacan, foram os seguintes: o funil temporal no
rio permitem especificar assim essa falta: o signi- qual o sujeito está mergulhado, seu mutismo apa­
ficante que foi rejeitado da ordem simbólica rea­ vorado e sua sensação de irrealidade. O sujeito se
parece no real, de modo alucinatório, por exem­ choca com o símbolo suprimido, que por isso não
plo. As perturbações disso derivadas, nos três re­ entra no imaginário — onde sua posição feminina
gistros, do real, do simbólico e do imaginário retira todo o sentido de sua mutilação alucinatória
(R.S.I.), dão às psicoses suas diferentes configura­ — mas constitui aquilo que não inexiste para ele.
ções. O efeito radical da forclusão sobre a estrutu­ É um tipo de interferência entre o simbólico e
ra deve-se não apenas à mudança de lugar do sig- o real.
nificante, mas igualmente ao estatuto primordial Lacan serviu-se do artigo de Freud sobre a
daquele que é excluído: o pai como símbolo ou sig- denegação, para isolar o processo da forclusão, em
nificante do Nome-do-Pai, cujo significado corre- uma das duas fases da dialética própria da dene­
lativo é o da castração. E por isso que, em deter­ gação: não ocorre a primeira, a de simbolização ou
minadas condições, o sujeito psicótico é confron­ Bejahung — admissão que consiste em uma "intro­
tado com uma castração não mais simbólica, mas dução no sujeito". A segunda, "de expulsão do
real. sujeito", constitui o real, enquanto subsiste fora da
simbolização. A forclusão "é exatamente aquilo que
se opõe à Bejahung primária, constituindo, como
O HOMEM DOS LOBOS
tal, aquilo que é expulso. Donde, nesse mesmo tex­
A alucinação do dedo cortado, relatada pelo to dos Escritos, a formulação de Lacan: "Aquilo que
Homem* dos Lobos, em sua psicanálise, permitiu não veio à tona do simbólico surge no real".
que S. Freud evidenciasse um mecanismo diferen­
te do recalcamento neurótico e da não admissão
A RELAÇÃO DO SUJEITO COM O SIGNIFICANTE
perversa, a Venuerfung, que está na base da psico­
se. O termo freudiano significa "rejeição". Lacan Se a castração se produz no real, em que re­
traduziu-o finalmente por "forclusão". Essa opção gistro irá se situar seu agente? Enquanto Freud afir­
tem o mérito de destacar tal característica: aquilo mava a relação do sujeito com o pai, Lacan, com o
que foi rejeitado não pode mais voltar ao lugar de caso Schreber, aborda a questão da relação do su­
onde foi excluído. Esse processo se distingue, por­ jeito com o significante: "A atribuição da procria-
tanto, do recalcamento, pois o recalcado retorna a ção ao pai só pode ser o efeito de um puro signifi­
seu lugar de origem, o simbólico, no qual havia cante, de um reconhecimento não do pai real, mas
sido primitivamente admitido. daquele que a religião nos ensina a invocar como
A forclusão se refere, portanto, ao significan- o nome do pai". E esse o pai, em sua função sim­
te. bólica de castração. Ou seja, ele instaura, na ordem
No texto de Freud, a Venverfuiig indica a cada da linguagem, o limite, o corte e, ao mesmo tem­
vez a relação do sujeito com a castração: "Ele a re­ po, a vetorização ou sentido (fálico) da cadeia. Que
jeitou e limitou-se ao statu quo da relação pelo ânus. um sujeito, em condições escolhidas, encontre "um
Quando digo: ele a rejeitou, o sentido imediato pai real", que ocupe esse lugar onde [ele] não pôde
dessa expressão é que ele não quis saber nada no chamá-lo antes", desencadeia a psicose, porquan­
sentido do recalcamento. Por isso se poderia dizer to, em lugar de encontrar correlativamente o apoio
que não foi feito nenhum juízo sobre sua existên­ do símbolo, não encontra neste lugar senão o bu­
cia, mas seria também como se ela jamais tivesse raco aberto no simbólico, devido à forclusão. "No
existido". ponto onde [...] é chamado o nome do pai, poderá
Por ocasião de sua análise do mecanismo da pois responder no Outro um puro e simples bura­
paranóia, no caso Schreber, Freud já afirmara que co, o qual pela carência do efeito metafórico irá
a alucinação não era um mecanismo projetivo: provocar um buraco correspondente no lugar da
"Desde logo reconhecemos que o que fora abolido significação fálica".
no interior voltara do exterior". Nessa conjuntura, pois, o pai não é um signi­
ficante, só poderá ser uma figura imaginária à qual
o símbolo carente não pode fazer limite. É por isso
A INTERPRETAÇÃO DE LACAN
que a relação sem medida do sujeito com ele está
O episódio alucinatório do Homem dos Lobos situada "na ordem da potência e não na do pac­
permite várias observações. Como esse fenômeno to".
foge às possibilidades da palavra, é acompanha­
81 formação de compromisso

A MARCA DA FORCLUSÃO do discurso concreto enquanto transindividual, que


falta à disposição do sujeito para restabelecer a con­
A forclusão desse significante primordial é
tinuidade de seu discurso consciente" (J- Lacan,
observada por seus efeitos nos dizeres de um pa­
Escritos, 1965). Trata-se do "O utro, lugar dessa
ciente psicótico. Em nenhum parte — disse Lacan
memória, que Freud descobriu sob o nome de in­
— o sintoma é mais claramente articulado na pró­ consciente". Não se trata de reencontrar o incons­
pria estrutura. A cadeia falada apresenta-se sem ciente em alguma profundidade, mas de balizá-lo
limites e sem vetorização. A perturbação da rela­ em sua pluralidade formal, no ponto onde, sem o
ção com o significante manifesta-se nos distúrbios ter desejado, alguma coisa escapa ao sujeito, um
da linguagem, tais como os neologismos, as frases
fonema, uma palavra, um gesto, um sofrimento
de caráter estereotipado, a ausência de metáforas.
incompreensível, que o deixa no inter-dito.
Tendo se afrouxado os pontos de "capitonê" do dis­ Com Os chistes e sua relação com o inconsciente
curso — os pontos de fixação fundamentais entre (1905), S. Freud, com a ajuda de muitos exemplos,
o significante e o significado — ou nunca tendo
descobre e explicita tais manifestações que fazem
sido estabelecidos, ele prossegue seu desenvolvi­
ruptura, conforme os processos formais. "Esses
mento separado, sem a preeminência do signifi­
casos são explicados pelo encontro, a interferência
cante como tal, esvaziado de significação. Produz-
das expressões verbais com duas intenções [...]. Em
se a emergência de fenômenos automáticos, no qual
alguns deles, uma intenção é totalmente substituí­
a linguagem passa a falar sozinha, de um modo
da por outra (substituição), enquanto que, em ou­
alucinatório.
tros, ocorre uma deformação ou modificação de
Portanto, é o próprio real que está falando. uma intenção por outra, com a produção de pala­
A regressão, "não genética, mas tópica à fase
vras mistas, que possuem mais ou menos sentido".
do espelho", coloca o sujeito na alienação de uma
Substituição e deformação, condensação e des­
captura imaginária radical, reduzindo-o à sua po­
locamento, esses dois mecanismos já haviam sido
sição intimidada. Mas também é esse mesmo re­
delimitados por Freud, em A interpretação de sonhos,
gistro que oferece ao sujeito sua muleta, porque —
em 1900. A partir de 1953, no Discurso de Roma,
disse Lacan, no Seminário III, 1955-56, "As Psico­ Lacan apresenta a metáfora e a metonímia como
ses" (1981), sobre o aniquilamento do significante os dois pólos fundamentais da linguagem; faz uma
— "será preciso que ele carregue a carga, assuma releitura do chiste, no Seminário V, 1957-58, "As
a compensação, por meio de uma série de identifi­ Formações do Inconsciente".
cações puramente conformistas". A proposição principal é que o inconsciente é
É assim que a forclusão declina seus efeitos de
estruturado como uma linguagem: dois exemplos
estrutura nos três registros — real/imaginário/ de reestruturação da cadeia significante, conside­
simbólico.
rada primeiramente do ponto de vista formal, per­
mitem que Freud acompanhe a pista do desejo.
fo rm a ç ã o d e c o m p ro m isso (alem.: Kompromifi-
O primeiro exemplo é o da anedota extraída
bildung; fr.: formation de compromis; ing.: compromi-
de uma história de H. Heine: Hirsch-Hyacinthe,
se-formation)
vendedor de loterias, em um momento de dificul­
—> compromisso (formação de).
dades é recebido por S. Rothschild; esse o teria tra­
tado "completamente de igual para igual, de uma
fo r m a ç ã o r e a tiv a (alem.: Reaktionsbildung; fr.:
forma totalmente familionária".
formation réactionnelle; ing.: reaction-formation) Freud assim apresenta seu exemplo:
-¥ reativa (formação). FAMI LI ONÁ RIO
FAMI LI AR
fo r m a ç õ e s d o in c o n s c ie n te (alem.: Bildungen
MI LI ONÁRIO.
des Unbewufiten; fr.: formations deVinconscient; ing.: A favor de uma homonímia parcial entre "m i­
unconsciousfórmations). Irrupções involuntárias no lionário" e "fam iliar", o mecanismo da condensa­
discurso, de acordo com processos lógicos e inter­
ção faz surgir a técnica do significante nesse chis­
nos da linguagem, que permitem demarcar o de­
te. Pode-se considerar a condensação como um caso
sejo.
particular da substituição e, portanto, da metáfo­
O sonho, o chiste, a piada, o lapso, o esqueci­
ra, vendo-se surgir, a partir do posicionamento das
mento de nome, o ato falho, o sintoma, enquanto
letras, a elisão, o resto e o aparecimento de senti­
depender do significante como metáfora significan­
do.
te, todas essas formações têm em comum provi­
O outro exemplo de Freud é o do esquecimen­
rem do mesmo lugar tópico, a saber, "dessa parte
to de nomes, que se poderia considerar como a
fort-da 82

outra face do primeiro exemplo: aquilo que é es­ qual a criança está lidando com o recalcamento
quecido, de alguma forma um resto, irá fazer com originário, primeira metaforização, pois deve re­
que surja toda uma outra cadeia de nomes substi­ nunciar a ser o objeto do desejo da mãe, para ad­
tutivos. Em lugar do nome esquecido, Signorelli, vir como sujeito. "Desse modo, o símbolo se ma­
autor de afrescos que ilustram o "Julgamento Fi­ nifesta primeiramente como assassinato da coisa,
nal", vieram Botticelli, Boltraffio e Trafoi; Freud, e essa morte constitui, no sujeito, a eternização de
por associação livre, reencontra locais de viagens, seu desejo" (ibid.).
de encontros; no final da cadeia significante, Bós- Lacan ainda escreveu, a propósito do sintoma:
nia, depois Herzegovina, fazem-no entender que, "Se, para admitir um sintoma na psicopatologia
sob Signor, o Herr alemão, tinha permanecido in­ psicanalítica [...], Freud exige o mínimo de sobre-
terdita, rejeitada, a recordação de conversações em determinação, que constitui um duplo sentido, sím­
estreita relação com a morte e a sexualidade ("So­ bolo de um conflito-defunto para além de sua fun­
bre o Mecanismo do Esquecimento", 1898). A difi­ ção em um conflito presente, não menos simbóli­
culdade das definições retóricas da metáfora e da co, se ele nos ensinou a acompanhar, no texto das
metonímia são aqui destacadas: na condensação, associações livres, a ramificação ascendente dessa
a parte que cai no esquecimento permite produzir linhagem simbólica, para nela encontrar o ponto
uma metáfora metonímica; na substituição de no­ onde as formas verbais se entrecruzam nos nós de
mes, metafórica, uma cadeia de nomes fará surgir sua estrutura, logo ficará esclarecido que o sinto­
a metonímia, significante do desejo impossível de ma se resolve completamente em uma análise de
ser dito. Foram necessários dois eixos para as liga­ linguagem, porque ele próprio é estruturado como
ções de significante a significante: o do paradig­ uma linguagem, porque ele é linguagem, cuja pa­
ma, da substituição, da metáfora, e o do sintagma, lavra deve ser liberada" (ibid.).
da concatenação, da contigüidade e da metonímia.
Com efeito, essa é uma estrutura única e homogê­ fo rt-d a . Par simbólico de exclamações elementa­
nea, que encontramos nos sintomas, nos sonhos, res, observado por S. Freud no brinquedo de uma
nos atos falhos e nos ditos espirituosos, com as criança de 18 meses, tomado, desde então, para
mesmas leis estruturais de condensação e de des­ explicar não apenas o além do princípio de pra­
locamento: um processo "atraído" para o incons­ zer, mas também o acesso à linguagem, com a di­
ciente e estruturado de acordo com suas leis. Ora, mensão de perda que essa conota.
essas são as mesmas leis que a análise linguística Os psicanalistas chamaram de "fort-da" um
nos permite reconhecer como os modos de engen- momento constitutivo da história do sujeito, pela
dramento do sentido, pelo ordenamento do signi­ substantivação das manifestações centrais de lin­
ficante" (Lacan, Seminário V, 1957-58, "As Forma­ guagem, em uma observação de Freud (Além do
ções do Inconsciente"). princípio de prazer, 1920).
Alguma coisa é produzida no ordenamento A própria observação freudiana é sucinta: uma
dos significantes que formulam a questão de um criança de 18 meses, um de seus netos, de caráter
sujeito que funcionaria fora do par eu-outro. Para excelente, tinha o hábito de atirar para longe de si
que o desejo atinja seu objetivo, deverão existir três: os pequenos objetos que estivessem ao alcance das
aquele que fala, aquele a quem se fala e o Outro, o mãos, pronunciando o som prolongado o-o-o-o,
inconsciente, que, para se fazer ouvir, transforma que constituía um esboço da palavra/orf ("longe",
o pouco sentido em "sem-sentido"; o Outro é, por­ em alemão). Ademais, um dia Freud observou,
tanto, o lugar homologatório e complicador da nessa mesma criança, um jogo aparentemente mais
mensagem. "E preciso que algo me tenha sido es­ completo. Tendo na mão um barbante atado a um
tranho em meu achado, para que nele encontre meu carretei, a criança atirava o carretei para fora do
prazer, mas [...] é preciso que continue sendo as­ berço, pronunciando o mesmo som o-o-o-o, e de­
sim para que tenha efeito" (Lacan, Escritos, 1966). pois puxava-o habilmente para si, exclamando:
O desejo se exprime por um resto metonímico "Da!" ("aqui", em alemão). Freud com facilidade
alienado em uma demanda, ela própria materiali­ compara esse jogo com a situação em que se en­
zada pela cadeia significante, que estrutura nos­ contrava, na época, a criança. Sua mãe ausentava-
sas necessidades. Uma nova composição significan­ se por muitas horas, mas a criança nunca se quei­
te faz mensagem no lugar do código: o aparecimen­ xava disso, mas na verdade sofria bastante, pois
to de um novo sentido é a própria dinâmica da lín­ era muito apegada à mãe, que a tinha criado sozi­
gua. nha. O jogo reproduzia o desaparecimento e o rea­
Essa dificuldade do desejo, de se fazer ouvir, parecimento da mãe.
nasce do fenômeno intersubjetivo, momento no
83 Freud (Anna)

Mais interessantes são as perguntas e as hipó­ Londres, em 1938, onde fundou, em 1951, a Clíni­
teses que se seguem a esse primeiro nível de ela­ ca Flampstead, centro de tratamento, formação e
boração. Freud deu um importante lugar à idéia pesquisas em psicoterapia infantil. Foi uma das
de que a criança, que se apresenta de uma manei­ primeiras pessoas a realizar psicanálise infantil. A
ra passiva diante de um acontecimento, assume um suas concepções irão se opor às de M. Klein, em
papel ativo em seu jogo. Toma-se seu amo. Me­ particular do lado da exploração do complexo de
lhor dizendo, vinga-se com ele de sua mãe. Seria Édipo. A. Freud temia a deterioração das relações
como se dissesse a ela "sim, sim, vai embora, não da criança com seus pais, se fossem analisados seus
preciso de ti, eu mesmo te mando embora". sentimentos negativos a respeito deles. Ela publi­
Todavia, o ponto essencial é outro. Estaria esse cou Einführung in die Teclmik der Kinderanalyse
jogo de ocultamento de acordo com a tese segun­ (1927), O ego e os mecanismos de defesa (1937), O nor­
do a qual "a teoria psicanalítica admite sem reser­ mal e o patológico na criança (1965).
vas que a evolução dos processos psíquicos é regi­
da pelo princípio de prazer", ou, dito de outra for­ F re u d (Sig m u n d ). Médico austríaco (Freiberg,
ma, que toda a atividade psíquica tende a substi­ atualm ente Pribor, M orávia, 1856 — Londres,
tuir um estado penoso por um estado agradável? 1939).
Neste caso não é assim. Mesmo que a criança fi­ Com a descoberta da psicanálise, Freud inau­
que contente com o retorno do carretei, a existên­ gura um novo discurso, cujo objetivo é emprestar
cia de uma outra forma de jogo, em que os objetos um estatuto científico à psicologia. Na realidade,
não são atraídos para ela, comprova que a ênfase longe de acrescentar um novo capítulo à área das
deve ser colocada na repetição de uma separação, ciências chamadas positivas, ele introduziu uma
de uma perda. É por esse motivo que o jogo da ruptura radical, tanto com aquilo que mais tarde
criança constitui uma das introduções à teoria da seria chamado de ciências humanas como com o
pulsão de morte. que, até então, constituía o centro da reflexão filo­
É igualmente da perda que Lacan parte (Semi­ sófica, isto é, a relação do homem com o mundo.
nário /, 1953-54, "Os Escritos Técnicos de Freud"),
porém essa perda é estruturalmente mais uma per­
A l g u n s e l e m e n t o s b io g r á f ic o s
da da relação direta com a coisa, contemporânea
do acesso à linguagem ("a palavra é o assassinato Acredita-se geralmente que a psicanálise re­
da coisa"). A partir do momento em que fala (e a novou o interesse tradicionalmente atribuído aos
criança de 18 meses dispõe do essencial, de um par eventos da existência para compreender ou inter­
de fonemas que se opõem), o sujeito renuncia à pretar o comportamento e as obras dos homens
coisa, em particular, mas não exclusivamente à excepcionais. Isso não é verdade, e Freud, sobre
mãe, como primeiro objeto de desejo. Sua satisfa­ isso, é categórico: "Quem quiser se tornar biógra­
ção passa pela linguagem, podendo-se dizer que fo deve se comprometer com a mentira, a dissimu­
seu desejo se eleva a uma potência secundária, pois, lação, a hipocrisia e até mesmo com a dissimula­
desde então, será sua própria ação (fazer aparecer ção de sua incompreensão, pois a verdade biográ­
e desaparecer) que irá constituir o objeto. Está ali fica não é acessível e, se o fosse, não serviría de
a raiz do simbólico*, onde "a ausência é evocada nada" (carta a A. Zweig, de 31 de maio de 1936).
na presença e a presença na ausência". Freud nasceu em uma família de abastados
Na apresentação lacaniana do fort-da, deve-se comerciantes judeus. Sempre se destaca a comple­
dar, por outro lado, um lugar especial ao carretei. xidade das relações intrafamiliares. Seu pai, Jakob
"Esse carretei [...] é uma coisinha do sujeito que se Freud, casou-se, pela primeira vez, aos 17 anos e
desapega, embora ainda seja dele, esteja ainda re­ teve dois filhos — Emmanuel e Philippe. Viúvo,
tida [...]. Ulteriormente, daremos a este objeto o casa-se novamente com Amália Nathanson, de 20
nome algébrico lacaniano de pequeno "a" ( Semi­ anos, idade do segundo filho de Jakob. Freud será
nário XI, 1963-64, "Os Quatro Conceitos Fundamen­ o mais velho dos oito filhos do segundo casamen­
tais da Psicanálise"; 1973) to de seu pai, e seu companheiro preferido de brin­
(—> gozo, objeto a). quedos foi seu sobrinho, que tinha um ano a mais
do que ele. Quando tinha 3 anos, a conjuntura eco­
F re u d (A nna). Psicanalista britânica de origem nômica provocou uma queda dos rendimentos fa­
austríaca (Viena 1895 — Londres 1982). miliares e a família precisou deixar Freiberg, indo
Foi a caçula dos seis filhos de S. Freud. Presi­ se instalar em Viena, onde jamais iria encontrar as
dente do Instituto de Formação Psicanalítica de condições anteriores. Para Freud, essa partida per­
Viena, de 1925 a 1938, refugiou-se com o pai em manecerá sempre dolorosa. Merece ser lembrado
Freuã (Sigmund) 84

um ponto que ele próprio menciona: o amor sem dos elementos que originaram a elaboração de um
desfalecimentos que sua mãe sempre lhe votou, ao sonho de Freud, a "monografia botânica".
qual atribui a confiança e a segurança que demons­
trou em todas as circunstâncias.
A S CIRCUNSTÂNCIAS IMEDIATAS DA
Foi um aluno muito bom em seus estudos se­
cundários, e foi sem uma vocação especial que co­ DESCOBERTA DA PSICANÁLISE
meçou a estudar Medicina. Devem se destacar duas Freud se encontrava, no início da década de
coisas, uma ambição precocemente formulada e 1880, na posição de pesquisador em neurofisiolo-
reconhecida e "o desejo de contribuir com alguma gia e de autor de trabalhos de valor, mas que não
coisa, durante sua vida, para o conhecimento da lhe permitia, por falta de, assegurar a subsistência
humanidade" ("Psicologia dos Estudantes", 1914). de uma família. Apesar de suas reticências, a úni­
Sua curiosidade, "que visava mais às questões hu­ ca oferecida era abrir um consultório de neurolo­
manas do que às coisas da natureza" ("Um Estu­ gista na cidade, o que fez, de forma surpreenden­
do Autobiográfico" [Selbstdarstellung], 1925) leva- te, no domingo de Páscoa, 25 de abril de 1886.
o a acompanhar, ao mesmo tempo, durante três Uns meses antes, havia obtido uma bolsa, gra­
anos, as conferências de F. Brentano, várias delas ças à qual pudera realizar um de seus sonhos, ir a
dedicadas a Aristóteles. Em 1880, publicou a tra­ Paris. Foi assim que teve um encontro determinan­
dução de vários textos de J. S. Mill: Sobre a emanci­ te, na Salpêtrière, com J. M. Charcot. Deve-se ob­
pação da mulher, Platão, A questão operária, O socialis­ servar que Charcot não se mostrou interessado nem
mo. pelos cortes histológicos que Freud lhe levou, como
Em setembro de 1886, depois de um noivado prova de seus trabalhos, nem pelo relato do trata­
de vários anos, desposa M artha Bernays, com mento de Anna O., cujos elementos clínicos prin­
quem terá cinco filhos. Em 1883, é nomeado do- cipais seu amigo J. Breuer lhe tinha comunicado, a
cente-privado (que equivale, na França, ao título partir de 1882. Charcot quase não se interessava
de mestre conferencista) e professor honorário em pela terapêutica, preocupando-se em descrever e
1902. Apesar de todos os tipos de hostilidade e di­ classificar os fenômenos para tentar explicá-los de
ficuldades, Freud sempre se recusará a abandonar forma racional.
Viena. Foi somente pela pressão de seus alunos e Freud começa a utilizar os meios de que dis­
amigos e depois do Anschluss de março de 1938 punha, a eletroterapia de W. H. Erb, a hipnose e a
que irá finalmênte se decidir, dois meses mais tar­ sugestão. As dificuldades encontradas levam-no a
de, a partir para Londres. se ligar a A. A. Liébault e H. M. Bernheim, em
Nancy, durante o verão de 1889. Traduz, aliás, as
obras deste último para o alemão. Encontra nelas
O NEUROLOGISTA
a confirmação das reservas e decepções que ele
Freud entrou no Instituto de Fisiologia, diri­ próprio sentia por tais métodos.
gido por E. Brücke, após três anos de estudos mé­ Em 1890, consegue convencer seu amigo Breu­
dicos, em 1876. Sua primeira publicação data de er a escrever com ele uma obra sobre a histeria.
1877: "Sobre a Origem das Raízes Nervosas Poste­ Seu trabalho em comum dará lugar à publicação,
riores da Medula Espinhal dos Amocela" (Pe- em 1893, de Sobre o mecanismo psíquico dos fenôme­
tromyzon planeli), enquanto a última, referente às nos histéricos: comunicação preliminar, que irá abrir
Paralisias cerebrais infantis, de 1897. Durante esses caminho para Estudos sobre a histeria; já se encontra
20 anos, podem-se reunir 40 artigos (fisiologia e nele a idéia freudiana de defesa, para proteger o
anátomo-histologia do sistema nervoso). sujeito de uma representação "insuportável" ou
O trabalho de Freud sobre a afasia (Uma con­ "incompatível". No mesmo ano, em um texto inti­
cepção da afasia, estudo crítico [Zur Auffassung der tulado "Algumas Considerações para um Estudo
Aphasien], 1891) permanecerá na sombra, embora Comparativo das Paralisias Motoras Orgânicas e
ofereça a mais aprofundada e notável elaboração Histéricas", publicado em francês em Archives neu-
da afasiologia da época. Suas esperanças de noto­ rologiques, Freud afirma que "a histeria se compor­
riedade tampouco foram satisfeitas por seus tra­ ta, nessas paralisias e outras manifestações, como
balhos sobre a cocaína, publicados de 1884 a 1887. se a anatomia não existisse, ou como se ela não to­
Havia descoberto as propriedades analgésicas des­ masse disso nenhum conhecimento".
sa substância, negligenciando as propriedades Os Estudos sobre a histeria, obra comum de Breu­
anestésicas, que seriam utilizadas com sucesso por er e Freud, são publicados em julho de 1895. A obra
K. Koller. A lembrança desse fracasso vai ser um comporta, além da Comunicação Preliminar, cin­
85 Freuá (Sigmund)

co observações de doentes: a primeira — de Anna sempre em projeto, agora compreendí o motivo. É


O (Bertha Pappenheim) — é redigida por Breuer e porque não posso analisar a mim mesmo a não ser
é nela que se encontra a expressão tão feliz "Talking me servindo de conhecimentos adquiridos objeti­
Cure", proposta por Anna O; as quatro seguintes vamente (como para um estranho). Uma verdadei­
devem-se a Freud. A obra conclui com um texto ra auto-análise é realmente impossível, de outro
teórico de Breuer e um outro sobre a psicoterapia modo não haveria mais doença".
da histeria, de Freud, onde se pode ver o início do O encontro com Fliess remonta a 1887. Freud
que irá separar os dois autores no ano seguinte. começa a analisar sistematicamente seus sonhos, a
Em "L/Hérédité et TÉtiologie des Névroses", partir de julho de 1895. Tudo se passa como se
publicado em francês, em 1896, na Revue neurolo- Freud, sem antes se dar conta disso, tivesse utili­
gique, Freud de fato afirma: "Experiência de passi­ zado Fliess como intérprete, para efetuar sua pró­
vidade sexual antes da puberdade; é essa, pois, a pria análise. Seu pai morreu em 23 de outubro de
etiologia específica da histeria". No artigo, é em­ 1896. Poder-se-ia pensar que tal acontecimento não
pregado pela primeira vez o termo "psicanálise". foi estranho à descoberta do complexo de Édipo,
Foi também durante esses anos que a reflexão de do qual se encontra, um ano mais tarde, na carta a
Freud sobre a súbita interrupção feita por Breuer Fliess de 15 de outubro de 1897, a seguinte primeira
no tratamento de Anna O levou-o a conceber a formulação esquemática: "Acorreu-me ao espírito
transferência. uma única idéia, de valor geral. Encontrei em mim,
Finalmente, deve-se assinalar a redação, em como em todo lugar, sentimentos de amor para
poucas semanas, no final de 1895, de "Projeto para com minha mãe e de ciúme para com meu pai, sen­
uma Psicologia Científica" ( Entwurfeiner Psycholo- timentos que são, acho eu, comuns a todas as cri­
gié), que Freud nunca irá publicar e que constitui, anças pequenas, mesmo quando seu aparecimen­
no começo, sua última tentativa de apoiar a psico­ to não é tão precoce como nas crianças que se tor­
logia sobre os dados mais recentes da neurofisio- naram histéricas (de uma forma análoga à da "ro-
logia. mantização" original nos paranóicos, heróis e fun­
Naquela época, portanto, Freud abandonou a dadores de religiões). Se isso for assim, pode-se
hipnose e a sugestão, pois inaugurou a técnica das compreender, apesar de todas as objeções racionais
associações livres. Sua posição doutrinária está cen­ que se opõem à hipótese de uma fatalidade inexo­
trada na teoria do núcleo patogênico, constituído rável, o efeito percebido em Édipo rei. Também se
na infância, por ocasião de um trauma sexual real, pode compreender por que todos os dramas mais
decorrente da sedução por um adulto. O sintoma recentes do destino deveríam acabar miseravel­
é a consequência do recalcamento das representa­ mente... mas a lenda grega percebeu uma compul­
ções insuportáveis que constituem esse núcleo, e o são que todos reconhecem, pois todos a sentiram.
tratamento consiste em trazer à consciência os ele­ Cada ouvinte foi, um dia, em germe, em imagina­
mentos, como se extrai um "corpo estranho", sen­ ção, um Édipo, e espanta-se diante da realização
do a conseqüêncij do levantamento do recalque o de seu sonho, transportado para a realidade, es­
desaparecimento do sintoma.O S tremecendo conforme o tamanho do recalcamento
que separa seu estado infantil de seu estado atu­
al". A ruptura definitiva com Fliess ocorrerá em
O S TRÊS LIVROS FUNDAMENTAIS SOBRE 1901
O INCONSCIENTE Em 1900, foi publicada A interpretação de sonhos
(Die Traumdeutung). O postulado inicial introduz
Durante alguns dos anos que antecederam a uma ruptura radical com todos os discursos ante­
publicação de A interpretação de sonhos, Freud in­ riores. O absurdo, a incongruência dos sonhos não
troduz na nosografia, à qual não é indiferente, al­ é um acidente de ordem mecânica; o sonho tem
gumas entidades novas. Descreve a neurose de an­ um sentido, esse sentido está escondido e não de­
gústia, separando-a da categoria bastante heteró- corre das figuras utilizadas pelo sonho, mas de um
clita da neurastenia. Isola, pela primeira vez, a neu­ conjunto de elementos pertencentes ao próprio so­
rose obsessiva (alem. Ziuangsneurose) e propõe o con­ nhador, fazendo com que a descoberta do sentido
ceito de psiconeurose de defesa, no qual é integrada a oculto dependa das "associações" produzidas pelo
paranóia. sujeito. Exclui-se, portanto, que esse sentido possa
Porém, sua principal tarefa é a auto-análise, ser determinado sem a colaboração do sonhador.
termo que irá empregar por pouco tempo. Eis o Aquilo com que estamos lidando é um texto;
que diz sobre isto, na carta a W. Fliess, de 14 de sem dúvida, o sonho é constituído principalmente
novembro de 1897: "Minha auto-análise continua de imagens, mas o acesso a elas só pode ser obtido
Freud (Sigmund) 86

pela narrativa do sonhador, que constitui seu "con­ Esses fatos podem ser considerados como mani­
teúdo m anifesto", que é preciso decifrar, como festações do inconsciente, nas seguintes três con­
Champollion fez com os hieróglifos egípcios, para dições: 1. não devem ultrapassar um certo limite
descobrir seu "conteúdo latente". O sonho é cons­ fixado por nosso juízo, isto é, aquilo que chama­
tituído com os "restos diurnos", aos quais são trans­ mos de "os limites do ato normal"; 2. devem ter o
feridos os investimentos afetados pelas represen­ caráter de um distúrbio momentâneo; 3. não po­
tações de desejo. O sonho, ao mesmo tempo que dem ser caracterizados assim a não ser que os mo­
protege o sono, assegura, de uma forma camufla­ tivos nos escapem e que fiquemos reduzidos a in­
da, uma certa "realização de desejo". A elabora­ vocar o "acaso" ou a "falta de atenção".
ção do sonho é feita por técnicas especiais, estra­ "A o colocar os atos falhos na mesma catego­
nhas ao pensamento consciente, a condensação (um ria das manifestações das psiconeuroses, damos
mesmo elemento representa vários pensamentos do um sentido e uma base a duas afirmativas que se
sonho) e o deslocamento (um elemento do sonho é ouve repetir com freqüência, a saber, que entre o
colocado no lugar de um pensamento latente). estado nervoso normal e o funcionamento nervo­
Resulta dessa concepção do sonho uma estru­ so anormal, não existe um limite claro e marcado
tura particular do aparelho psíquico, que foi obje­ (...). Todos os fenômenos em questão, sem nenhu­
to do sétimo e último capítulo. Mais do que a divi­ ma exceção, permitem que se chegue aos materi­
são em três instâncias, consciente, pré-consciente ais psíquicos reprimidos incompletamente e que,
e inconsciente, que especifica o que se chama de embora recalcados pela consciência, não perderam
primeira tópica, convém conservar a idéia de uma toda a possibilidade de se manifestar e se expri­
divisão do psiquismo em dois tipos de instâncias, mir".
obedecendo a leis diferentes e separadas por uma O terceiro texto — Os chistes e sua relação com o
fronteira que só pode ser ultrapassada em deter­ inconsciente (Der Witz und seine Beziehung zum Un-
minadas condições, consciente-pré-consciente, por beivufllen) — é publicado em 1905. Diante desse
um lado, inconsciente, por outro. Esse corte é ra­ material longo e difícil, alguns se perguntaram por
dical e irredutível, nunca poderá haver "síntese", que Freud tinha julgado necessário acumular uma
mas apenas "tendência à síntese". O sentimento quantidade tão grande de exemplos, com uma clas­
próprio ao eu da unidade que constitui nosso men­ sificação complicada. Sem dúvida, porque suas te­
tal não é mais do que uma ilusão. Um aparelho ses eram difíceis de pôr em evidência. Eis as prin­
desse tipo torna problemática a apreensão da rea­ cipais. "O espírito reside apenas na expressão ver­
lidade, que deve ser constituída pelo sujeito. A bal". Os mecanismos são os mesmos do sonho, a
posição de Freud, aqui, é a mesma expressa no condensação e o deslocamento. O prazer que o es­
"Projeto": "O inconsciente é o próprio psíquico e pírito engendra está ligado à técnica e à tendência
sua realidade essencial. Sua natureza íntima nos é satisfeita, hostil ou obscena. Porém, um terceiro
tão desconhecida como a realidade do mundo ex­ ocupa sobretudo nele um papel principal, e é isso
terior, e a consciência nos ensina sobre ela de uma o que o distingue do cômico. "O espírito em geral
maneira tão incompleta como nossos órgãos dos precisa da intervenção de três personagens: aque­
sentidos sobre o mundo exterior". le que faz a palavra, aquele que se diverte com a
Para Freud, o sonho se encontra em uma es­ verve hostil ou sexual e, enfim, aquele no qual é
pécie de encruzilhada entre o normal e o patológi­ realizada a intenção do espírito, que é a de produ­
co, e as conclusões concernentes ao sonho serão zir prazer". Finalmente: "Só é espirituoso aquilo
consideradas por ele como válidas para explicar que é aceito como tal". Compreende-se então a di­
os estados neuróticos. ficuldade para traduzir a palavra alemã Witz, que
A psicopatologia da vida cotidiana (Zur Psycho- não teçi equivalente em francês, mas também a
pathologie des Alltagslebens) é publicado no ano se­ dificuldade de seu manejo em alemão, por aquilo
guinte, em 1901. Ela começa, por exemplo, com um que acaba de ser lembrado e pela diversidade dos
esquecimento de nome, o de Signorelli, análise já exemplos utilizados, histórias engraçadas, chistes,
publicada por Freud em 1898; o esquecimento as­ trocadilhos, etc. A especificidade do Witz explica
socia, em sua determinação, tanto motivos sexuais a atenção que Freud tem em distingui-lo do cômi­
como a idéia de morte. A obra reúne toda uma sé­ co, distinção assim resumida: "O espírito é, por
rie de pequenos acidentes, aos quais quase não se assim dizer, para o cômico, a contribuição que lhe
dá, via de regra, nenhuma atenção, como os esque­ vem do domínio do inconsciente".
cimentos de palavras, as "lembranças encobrido- No mesmo ano, surgem os Três ensaios sobre a
ras", os lapsos da palavra ou escrita, os erros de teoria da sexualidade (Drei Abhandlungen zur Sexual-
leitura e escrita, os equívocos, os atos falhos, etc. theorie), onde é afirmada e ilustrada a importância
87 Freud (Sigmund)

da sexualidade infantil e proposto um esquema da O S COMPLEMENTOS NECESSÁRIOS


evolução da libido, por suas fases caracterizadas
Com este título, pode-se tentar reunir um cer­
pela sucessiva dominância das zonas erógenas bu-
to número de temas que, mesmo bastante assídu­
cal, anal e genital. Nesse texto a criança, em rela­
os nos primeiros textos, só foram elaborados por
ção à sexualidade, é definida como um "perverso
Freud bem mais tarde. Inicialmente, está a ques­
polimorfo" e a neurose é situada como "o negati­
tão do pai, tratada com uma excepcional amplidão,
vo da perversão".
em Totem e tabu, em 1912-13, e retomada a partir
Mais ou menos entre 1905 e 1918, irão se suce­
de um exemplo particular, em Moisés e o monoteís-
der um grande número de textos referentes à téc­
mo (1932-1938). Ela constitui um dos pontos mais
nica e, para ilustrá-la, apresentações de casos clí­
difíceis da doutrina de Freud, devido ao polimor-
nicos. Entre estes últimos estão as Cinco psicanáli­
fismo da função paterna em sua obra. Mais tarde,
ses:
foi o conceito de narcisismo que foi objeto do gran­
— Em 1905, Fragmento da análise de um caso de
de artigo de 1914, Sobre o narcisismo: uma introdu­
histeria: observação de uma paciente chamada
Dora, centrada em dois sonhos principais, cujo tra­
ção, necessário para levantar as dificuldades encon­
tradas na análise de Schreber e tentar explicar as
balho de interpretação ocupa sua maior parte.
psicoses, mas também para esboçar uma teoria do
— Em 1909, Análise de uma fobia em um menino
eu. O estranho (Das Unheimliche), publicado em
de cinco anos (o pequeno Hans): Freud verifica a
1919, refere-se especialmente à problemática da
exatidão das "reconstituições" efetuadas no adul­
castração. Porém, a maior alteração decorreu da
to.
conceitualização do automatismo de repetição e do
— Também em 1909, Notas sobre um caso de
instinto de morte, que são o assunto de Além do
neurose obsessiva (O Homem dos Ratos): a análise é
princípio de prazer (Jenseits des Lustprinzips, 1920). A
dominada por um voto inconsciente de morte, e
teoria do eu e da identificação serão os temas cen­
Freud se espanta ao verificar, "ainda mais" em um
trais de Psicologia de grupo e análise do ego (Massenp-
obsessivo, as descobertas feitas no estudo da his­
sychologie und Ich-Analyse, 1921).
teria.
Finalmente, "A Negativa" (Die Verneinung,
— Em 1911, Notas psicanalíticas sobre um relato
1925) irá sublinhar a primazia da palavra, na ex­
autobiográfico de um caso de paranóia (Dementia para-
periência psicanalítica, ao mesmo tempo que defi­
noides) (o presidente Schreber): a particularidade
ne um modo particular de presentificação do in­
dessa análise se prende ao fato de que Freud nun­
consciente.
ca encontrou o paciente, contentando-se em traba­
lhar com as "M emórias" nas quais este descrevera
sua doença, dando a elas um interesse científico. O S REMANEJAMENTOS DOUTRINÁRIOS
— Finalmente, em 1918, História de uma neu­
rose infantil (O Homem dos Lobos): a observação Freud nunca deixou de tentar reunir, em uma
foi para Freud de particular importância. Ela for­ visão que chama de metapsicologia, as descober­
necia a prova da existência, na criança, de uma tas que sua técnica permitiu e as elaborações que
neurose perfeitamente constituída, seja ela aparente nunca deixaram de acompanhar sua prática, mes­
ou não, nada mais sendo a do adulto do que uma mo afirmando que esse esforço não deveria ser in­
exteriorização e repetição da neurose infantil; ela terpretado como uma tentativa de constituição de
demonstrou a importância dos motivos libidinais uma nova "visão do mundo" ( Weltanschauung).
e a ausência de aspirações culturais, ao contrário Certos remanejamentos valem como correções
de C. Jung; ela forneceu uma exata ilustração da de posições anteriores. Este é o caso da teoria do
constituição do fantasma e do lugar da cena pri­ fantasma que, por volta de 1910, irá substituir a
mitiva. primeira teoria traumática da sedução precoce (Leo­
Convém assinalar que a solidão de Freud, que nardo da Vinci e uma lembrança de sua infância, 1907;
durou vários anos, terminou por volta de 1906, com Formulações sobre os dois princípios do funcionamento
a constituição da Sociedade das Quartas-Feiras, dia mental, 1911; "O Homem dos Lobos", 1918).
de reunião dos primeiros adeptos, logo transfor­ Esse também foi o caso do masoquismo, con­
mada em Sociedade Psicanalítica de Viena. siderado, num primeiro momento, como uma in­
Em 1910, Freud funda a Sociedade Internaci­ versão do sadismo. As teses d e Além do princípio de
onal de Psicanálise, cujo primeiro presidente foi prazer permitirão a concepção de um masoquismo
Jung. primário, que Freud será levado a tom ar equiva­
Fromm (Erich) 88

lente, em O problema econômico do masoquismo (1925), dos. Logo será considerado, com K. Homey e H.
ao instinto de morte e ao sentimento de culpa irre­ S. Sullivan, um representante da tendência cultu-
dutível e inexplicado, revelados por certas análi­ ralista da psicanálise. Em 1962, é nomeado profes­
ses. sor de psiquiatria da Universidade de Nova Ior­
De forma sem dúvida arbitrária, pode-se clas­ que. A obra de Fromm é um vigoroso protesto con­
sificar, nos remanejamentos tomados necessários tra as mais diversas formas de totalitarismo e de
devido ao desgaste dos termos (embora muitos alienação social. Ela opõe a moral de um "planeja­
outros motivos o justifiquem), a introdução da se­ mento humanista" à ideologia do rendimento eco­
gunda tópica, constituída pelas três instâncias, isso, nômico e do consumo. Entre suas publicações, es­
eu e supereu (O ego e o id lDas Ich und das Es], 1923), tão: O medo da liberdade (1941); Psicanálise e religião
as novas considerações sobre a angústia, como si­ (1950); Sociedade alienada, sociedade sadia (1955); A
nal de perigo ( Inibições, sintomas e ansiedade IHem- arte de amar (1956); Ensaios sobre Freud, Marx e a psi­
mung, Symptom und Angst], 1926) e, finalmente, o cologia (1971) e Paixão de destruir (1975).
último texto, inacabado, A divisão do ego no processo
de defesa (Die íchspaltung im Abwehvorgang, 1938), fr u s tr a ç ã o , s.f. (alem.: Versagung; fr.: frustration;
no qual Freud anuncia que, apesar das aparênci­ ing.: frustration). Estado de um sujeito que se acha
as, o que irá dizer, referindo-se à observação do incapaz de obter o objeto de satisfação que almeja.
artigo de 1927, sobre o fetichismo, também era en­ O termo frustração é com freqüência entendi­
tão totalmente novo. E, de fato, as formulações nele do, em um sentido mais amplo, como denominan­
propostas apresentam-se como um esboço de uma do qualquer impossibilidade do sujeito de se apro­
remodelagem de toda a economia de sua doutri­ priar daquilo que deseja. Assim, as vulgarizações
na. da psicologia ou da psicanálise facilmente fazem
Na obra de Freud, dois textos possuem, apa­ pensar que todas as dificuldades provocam algu­
rentemente, um estatuto um tanto especial. São eles ma frustração. Um sujeito seria neurótico porque
O futuro de uma ilusão (Die Zukunft einer Illusion), teria sido frustrado na infância.
publicado em 1927, que examina a questão da re­ Deve-se reconhecer que, nos próprios textos
ligião, e O mal-estar na civilização (Das Unbehagen in psicanalíticos, algumas vezes se encontram formu­
der Kultur, 1929), dedicado ao problema da felici­ lações desse tipo. Isso ocorre, por exemplo, quan­
dade, considerada por Freud inatingível, e às exi­ do a prática analítica é concebida como frustração.
gências exorbitantes da organização social ao su­ Recusando-se a atender à demanda do paciente, o
jeito humano. analista faria retornar as demandas mais antigas,
De fato, trata-se da consideração de fenôme­ levando a ser revelados desejos mais verdadeiros.
nos sociais, à luz da experiência psicanalítica. Na Essa concepção tem como inconveniente con­
realidade, como sempre acontece com Freud, o ân­ fundir várias modalidades de falta. J. Lacan, por
gulo escolhido para tratar de qualquer questão ser- seu turno, distingue três: a privação, a frustração
ve-lhe, antes de mais nada, para dar esclarecimen­ e a castração. Esses três termos são especificados a
tos ou indicações sobre aspectos importantes da partir de uma distinção do agente da falta, do ob­
experiência. Isso ocorre, em "O Futuro", com a jeto da falta e da própria falta, como "operação".
questão do pai e a de Deus, como seu corolário; Assim, Lacan mostra que, para a criança pequena,
em O mal-estar, a maldade fundamental do ser hu­ mesmo em um tempo anterior ao Édipo, para si­
mano e a constatação paradoxal de que quanto tuar a frustração, não basta pensar nos objetos re­
mais o sujeito satisfaz os imperativos m orais— os ais que poderíam lhe faltar. A própria falta, na frus­
do supereu — , mais este se mostra exigente. tração, é imaginária: a frustração é o domínio das
exigências ilim itadas, sem dúvida, porque ela
F ro m m (E ric h ). Psicanalista americano de ori­ acompanha a tentativa sempre vã de restaurar uma
gem alemã (Frankfurt-sobre-o-Meno, 1900 — Mu- plenitude do eu, sobre o modelo da plenitude da
ralto, Tessin, 1980). imagem do corpo. Porém, não se podería perma­
Ensinando, a partir dos anos 1930, no Institu­ necer ali; no mundo humano, onde a criança cons­
to de Psicanálise de Frankfurt, associa-se às pes­ titui seu desejo, a resposta é escandida por um
quisas da Escola de Frankfurt, onde encontra, em Outro, Outro paterno ou materno, que dá ou recu­
particular, H. Marcuse e T. Adorno. Desde aquela sa, e primeiramente dá ou recusa sua presença. Essa
época, dedica-se a conciliar K. Marx e S. Freud, ten­ alternância da presença e da ausência é formalizá-
tando integrar os fatores sócio-econômicos com a vel como alternância de mais e de menos, de 1 e
explicação da neurose. Em 1934, após a ascensão de 0, que dá ao agente da frustração sua dimensão
de Hitler ao poder, emigrou para os Estados Uni­ simbólica.
g
g a n h o s e c u n d á rio (alem.: Krankheitsgeioinn; fr.: jeito chegaria no término de seu desenvolvimento
bénéfice; ing.: gain frotn illness). Idéia geral, segun­ psicossexual.
do a qual a formação de sintomas permite ao su­ Uma das causas freqüentes de recurso à análi­
jeito uma redução das tensões engendradas por se reside na dificuldade, para o sujeito, de viver
uma situação conflitiva, de acordo com o princí­ como desejaria sua existência afetiva e sexual. As
pio de prazer. inibições, insatisfações e contradições experimen­
Em uma nota de 1923, dedicada ao caso Dora, tadas neste plano são ainda menos suportadas,
que tinha sido publicado em 1905 ("Fragmento de porque se considera o mundo moderno como as­
uma Análise de um Caso de Histeria"), S. Freud segurando a todos um direito igual ao gozo.
escreveu que "o motivo da doença não era outro Todavia, S. Freud fez ver que esse tipo de di­
senão o desígnio de obter um certo ganho secun­ ficuldades não se refere somente às vicissitudes da
dário", definindo o ganho secundário como "a so­ história individual, mas repousa em divagens in­
lução mais cômoda, no caso de um conflito psíqui­ duzidas pela própria estrutura subjetiva. Em seu
co", à medida que "ela poupa de saída um esfor­ artigo "Sobre a Tendência Universal à Deprecia­
ço". Esclarece ainda quais fatores externos, como ção na Esfera do Amor" ("Contribuições à Psico­
a modificação em favor do paciente das relações logia do Amor II"; 1912), ele destaca o fato bem
com seu entorno, entram no ganho primário da conhecido que certos homens só podem desejar
doença. mulheres a quem não amam. Amam sua mulher
O ganho secundário da doença foi descrito em legítima — ou, mais geralmente, uma mulher ide­
1926, em Inibições, sintomas e ansiedade, como sen­ alizada — e desejam mulheres consideradas degra­
do o esforço do eu para transigir com uma doença dadas, por exemplo, as prostitutas. Freud explica
já instalada. Esforço que mobiliza as capacidades essa divagem pelo fato de que a mulher amada,
integradoras do eu: "O eu tenta suprimir o caráter demasiado parecida com a mãe, está proibida.
estranho e isolado do sintoma, tirando partido de Quanto às mulheres — acrescenta Freud — se se
todas as possibilidades que possam se oferecer de destaca menos nelas a necessidade de ter um obje­
se ligar a ele de alguma forma e de incorporá-lo, to sexual rebaixado, a sensualidade muitas vezes
por tais vínculos, à sua organização". Portanto, o permanece ligada por elas à condição do proibi­
eu se adapta ao sintoma, assim como o faz habitu­ do, ou pelo menos do secreto. Todavia, Freud tam­
almente com o mundo exterior. Esse esforço se cho­ bém evoca, sempre no mesmo artigo, aquilo que
ca, todavia, com um dos aspectos irredutíveis do seria uma "atitude completam ente normal no
sintoma, que é o de ser um substituto da moção amor", atitude onde iriam se unir as correntes da
pulsional recalcada, renovando permanentemente sensualidade e da ternura. A psicanálise poderia,
sua exigência de satisfação, colocando o eu em uma portanto, prometer, tanto ao homem como à mu­
nova luta defensiva. Portanto, o ganho secundário lher, uma harmonia entre o desejo e o amor? Foi
se manifesta como um ganho frágil. isso que se acreditou poder teorizar sob o nome
d e amor genital.
g e n ita l (am or) (alem.: genital Liebe; fr.: amourgé- M. Balint é, sem dúvida, o autor que propôs
nital; ing.: genital love). Forma de amor a que o su­ sobre este assunto a análise mais elaborada (Amor
genital (fase) 90

primário e técnica psicanalítica). O amor genital, para ser ela própria referida, em último caso, às dife­
ele, define-se primeiramente em termos negativos. renças de posição dos homens e das mulheres na
Seria expurgado de qualquer traço pré-genital, se­ sexuação*.
jam traços orais (avidez, insaciabilidade, etc.), sá­
dicos (necessidade de humilhar, de comandar, de g e n ita l (fase) (alem.: genital Stufe; fr.: stadegéni-
dominar o parceiro), anais (necessidade de sujar, tal; ing.: genital stage).
de desprezar por seus desejos e prazeres sexuais) -» fase
ou ainda particularidades nas quais se fazem sen­
tir os efeitos da fase fálica ou do complexo de cas­ g ozo, s.m. (alem. Geniefien; Befriedigung [Lusí de­
tração. Todavia, é preciso observar que parece a ele signa o prazer], fr. jouissance; ing.: use ou enjoyment).
difícil de conceber um tal despojamento. Diferentes relações com a satisfação que um sujei­
Poder-se-ia então arriscar uma definição posi­ to desejante e falante pode esperar e experimen­
tiva? O amor genital, enquanto fase concluída de tar, no uso de um objeto desejado.
uma evolução, pressuporia uma relação harmoni­ Que o sujeito desejante fale, que ele seja, como
osa entre os parceiros, e esta, para Balint, precisa­ o disse J. Lacan, um ser que fala, um "falasser",
ria de um trabalho de conquista, seguido de um implica que a relação com o objeto não seja imedi­
trabalho de adaptação que considerasse os dese­ ata. Essa não-imediatez não é redutível ao acesso
jos do outro. Porém, Balint reconhece que a aco­ possível ou impossível ao objeto desejado, e o que
modação à realidade do outro não pode ser a últi­ distingue o gozo do prazer não se decide pelo fato
ma palavra do amor genital. "Evidentemente, o de se misturarem, à satisfação, a espera, a frustra­
coito — escreveu ele — é um ato altruísta, inicial­ ção, a perda, o luto, a tensão, a dor, enfim. De fato,
mente; mas, à medida que cresce a excitação, a a psicanálise freudiana e lacaniana propõem a ori­
atenção atribuída ao parceiro diminui, de forma ginalidade do conceito de gozo, pelo próprio fato
que, no fim, durante o orgasmo e nos momentos de que nosso desejo está constituído pela nossa re­
que o antecedem, são esquecidos totalmente os in­ lação com as palavras.
teresses do parceiro". Esse termo se distingue, pois, de seu emprego
Existe ainda um último paradoxo. Para Balint, comum, que confunde o gozo com as diversas vi-
no momento em que o sujeito é levado por uma cissitudes do prazer. O gozo refere-se ao desejo, e
satisfação, no que se refere a si mesmo, poderá ex­ precisamente ao desejo inconsciente; isso mostra o
perimentar o sentimento de uma harmonia perfei­ quanto essa noção ultrapassa qualquer considera­
ta, a de gozar o prazer supremo, junto com seu ção sobre os afetos, emoções e sentimentos, e colo­
parceiro. ca a questão de uma relação com o objeto que pas­
A teoria do amor genital tem tido um papel sa pelos significantes inconscientes.
que não pode ser negligenciado na psicanálise: le­ No campo da psicanálise, esse termo foi intro­
var até ele poderia parecer um dos objetivos con­ duzido por Lacan; tal conceito continua a elabora­
cebíveis do tratamento. Porém, é preciso destacar ção freudiana sobre a Befriedigung, apesar de dife­
que Balint não explica verdadeiramente essa "con­ rir dela. O termo "gozo" poderia ser esclarecido
vicção de estar unido ao parceiro em uma comple­ por um recurso à sua possível etimologia (o joy
ta harmonia". Portanto, ela parece estar ligada mais medieval designa, nos poemas corteses, a satisfa­
a uma representação imaginária do amor, como ção sexual cumprida), e por seu uso jurídico (o
reciprocidade, do que ao que de fato ocorre no ato gozo de um bem, distinguindo-se de sua proprie­
sexual. Freud, de certo modo, refutou previamen­ dade).
te a teoria de Balint, quando considerava "a possi­ Do ponto de vista da psicanálise, a ênfase é
bilidade de que alguma coisa na própria natureza colocada na questão complexa da satisfação e, em
da pulsão sexual não seja favorável à realização da especial, em seu vínculo com a sexualidade. O gozo
satisfação plena". Fundava-se na diferença entre se opõe, então, ao prazer, que abaixaria as tensões
objeto originário e objeto final da pulsão, devido à do aparelho psíquico, ao mais baixo nível possí­
barreira do incesto, e também devido ao fato de vel. Entretanto, pode-se indagar se a idéia de um
que a pulsão sexual se constitui a partir de um prazer puro desse tipo conviría, para falar do que
grande número de componentes, que não podem experimenta o sujeito humano, sendo dado que seu
ser todos integrados na configuração ulterior. La- desejo, seus prazeres e desprazeres estão presos na
can, da mesma forma, destacou que, "no homem rede de sistemas simbólicos que dependem da lin­
[...], as manifestações da pulsão sexual se caracte­ guagem e que a simples idéia de uma descarga é
rizam por uma desordem eminente. Não há nada uma caricatura, pois o que é reivindicado radical­
que se adapte". Sem dúvida, tal inadaptação deve mente, por essa satisfação, é o sentido.
91 gozo

Mesmo a masturbação, que podería ser toma­ se o apresenta: não apenas segundo um ideal de
da como modelo desse gozo singular, esse gozo do plenitude absoluta, nem segundo a inclinação per­
"idiota", no sentido etimológico grego idiôtês ("ig­ versa, que procura capturar o gozo imaginado de
norante"), é tomada, através do fantasma e da cul­ um Outro subjetivado, mas segundo uma incom-
pabilidade, por redes de linguagem. Desde então, pleteza ligada ao fato de que a linguagem é uma
pode-se perguntar se esta tensão particular, indi­ textura, e não um ser.
cada pelo conceito de gozo, não deve ser pensada
de outra forma, que não pelo princípio mais ima­
O PRINCÍPIO DE PRAZER E O ALÉM DO
ginário da termodinâmica, mas pelos jogos de con-
catenação da cadeia significante, onde o homem PRINCÍPIO DE PRAZER
se encontra engajado pelo fato de falar. O gozo se­ A questão da satisfação não é suficiente para
ria, então, o único termo adaptado a essa situação, colocar a do gozo. A filosofia antiga, em Platão e
e a satisfação ou a insatisfação não dependeríam Aristóteles em particular, traz à luz a variabilida­
mais unicamente de um equilíbrio das energias, de do que parece agradável ou desagradável, e os
mas de relações diferentes, com o que não é mais vínculos complexos entre prazer e dor. Assim, um
concebível como uma tensão privada, mas como o prazer postergado, que causa uma dor, pode per­
campo da linguagem, com as leis que o regulam: mitir o acesso a um prazer maior e mais duradou­
"j'ouissens"** é um jogo de palavras de Lacan, que ro; a única questão é, pois, saber orientar-se em
rompe a idéia mítica de um animal monádico, go­ direção ao verdadeiro Bem, o que pode ser defini­
zando sozinho sem palavras, sem a dimensão ra­ do diferentemente, segundo os filósofos. Ou seja,
dicalmente intersubjetiva da linguagem. Pelo fato a questão da satisfação está no fundamento daquilo
de que ele fala, porque "o inconsciente é estrutu­ que poderiamos chamar de sabedoria. Mas a psi­
rado como uma linguagem", como o demonstra canálise promete uma sabedoria?
Lacan, o gozo não pode ser concebido como satis­ Para S. Freud, a complexidade desta questão
fação de uma necessidade, trazida por um objeto é ditada pela própria clínica: embora ele tenha fun­
que a preenchería. Apenas o termo “gozo" convém, dado, desde 1900, sua teoria da "interpretação dos
e ele é interdito, não no sentido fácil, onde seria sonhos", sobre a satisfação de um desejo inconsci­
barrado por censores, ele é inler-dito, ou seja, é fei­ ente, porque então certos sonhos, sobretudo nos
to do próprio tecido da linguagem, onde o desejo casos de neuroses traumáticas de guerra, repetem
encontra seu impacto e suas regras. Esse lugar da com insistência o evento traumatizante? A qual
linguagem é chamado, por Lacan, de grande Ou­ princípio obedece essa repetição da dor, se o prin­
tro*, e toda a dificuldade do termo "gozo" vem de cípio de prazer explicava bastante bem um meca­
sua relação com esse grande Outro não-represen- nismo de descarga de tensão, sendo a satisfação a
tável, lugar da cadeia significante. cessação dessa tensão "dolorosa"? Ou, então, como
Porém, amiúde, esse lugar é tomado por Deus explicar os numerosos fracassos nos tratamentos
ou alguma figura real subjetivada, e a intricaçâo de histéricos, empreendidos segundo a idéia do
do desejo e sua satisfação é então pensada em uma princípio de prazer, mesmo quando ele é retoma­
tal relação com esse grande Outro, que não se pode do pelo princípio de realidade, que exige adiar a
pensar o gozo, sem pensá-lo como gozo do Outro: satisfação?
como o que, ao mesmo tempo, faz gozar o Outro, O importante, em Além do princípio de prazer
que assume então consistência subjetiva, e aquilo (1920), é que ele começa pelo “fort-da"; essas duas
de que eu gozo. sílabas acompanham o brinquedo de uma criança,
Pode-se dizer que a transferência, em um tra­ que faz aparecer e desaparecer um carretei; e esse
tamento analítico, se dá entre esses dois limites, até brinquedo, que ele inventa assim, no ritmo dessa
o ponto onde esse Outro possa ser pensado como oposição de fonemas, simboliza o desaparecimen­
lugar, e não como sujeito. E, se se demanda ao psi­ to e o retorno de sua mãe; é o vínculo de oposição
canalista fazer-nos aceder a um saber sobre o gozo, de duas sílabas da linguagem, com a repetição da
a maneira de conceber esse Outro, como lugar dos perda e do aparecimento do objeto desejado, pra­
significantes, e nisso marcado por uma falta estru­ zer e dor, que pode definir o gozo (fort-da). Pois a
tural, permite pensar o gozo, tal como a psicanáli- linguagem, nessa repetição, não importa como ins­
trumento de descrição da perda ou do reencontro;
" Combinação das palavras “jouissance", gozo, e "sens", sen­ não o é também a mímica; mas sua própria textu­
tido, homófona da palavra “jouisstmce", e que também pode ra engendra o tecido desse gozo, na repetição des­
ser lida como "eu ouvi sentido", “je ouís sens". (N. do T.) sa perda e desse retomo do objeto desejado.
gozo 92

Esse jogo é de um alcance simbólico maior do ção, à maneira da reivindicação histérica; ela assi­
que envolver a idéia de dominar a tristeza e a emo­ nala o fato de que o tecido do gozo não é outra
ção da perda. Entretanto, em lugar de diminuir a coisa senão a textura da linguagem e que, se o gozo
tensão, ele a faz incessantemente ressurgir, e liga- faz "enlanguescer" o Ser, é porque ele não lhe dá a
a à linguagem, à repetição e à oposição de fone- substância esperada, e ele não faz do Ser senão um
mas. Para Freud, o tecido do gozo já era o mesmo efeito de "língua", de dito. A noção de ser é deslo­
que o da linguagem. O que também faz com que cada. A partir do momento em que fala, o homem
não possamos hierarquizar um eu-prazer (alem. não é mais, para Lacan, nem essência, nem exis­
Lusl-lch) e um eu-realidade (alem. Real-Ich): toda tência, mas "falasser", ser que fala. Se o gozo fosse
idéia de gênese e de hierarquização deriva de um relação, ou relação possível com o Ser, o Outro se­
ideal de maestria que se opõe à ética da psicanáli­ ria consistente: seria confundido com Deus, e a re­
se, à medida que um tal saber sobre o gozo permi­ lação com o semelhante estaria garantida por ele.
tiría gozar do sintoma do outro e utilizá-lo. Para o "falasser", em contrapartida, todo enuncia­
Entretanto, Freud nos coloca diversos outros do não possui outra garantia senão a de sua enun-
problemas importantes: como conceber, por exem­ ciação: não há Outro do Outro. O gozo é precisa­
plo, o que se chama de satisfação alucinatória? Isso mente o que radicalmente tem relação com esse sig-
não se refere apenas à alucinação patológica, mas nificante da falta no Outro, S(A).
a essa maneira muito comum de recusar, de refu­ Que não haja Outro do Outro, que a função
tar a perda do objeto desejado, ou, mais precisa­ do Outro barrado seja a de ser o tesouro dos signi-
mente, de refutar que nossa relação com o objeto ficantes, produz, todavia, aquilo que os analistas
seja uma relação de outro tipo que não o da rela­ escutam, na neurose; à ignorância do lugar de onde
ção com um objeto consumível, ou seja, incessan­ deseja, que marca o homem, Lacan responde, afir­
temente renovável. Pode-se pensar no problema mando que o inconsciente é o discurso do Outro,
contemporâneo da toxicomania, tal como o propõe que o desejo é o desejo do Outro; o que faz com
Ch. Meiman, em relação com o que a economia de que o homem faça ao Outro a pergunta "o que que­
mercado pressupõe. res?", como se o Outro adquirisse consistência sub­
Mesmo sem falar de substâncias tóxicas, o que jetiva, ao reclamar seu tributo.
dizer da maneira pela qual o sonho suscita o obje­ Ora, esse tributo parece ser a castração. O neu­
to desejado, ou o evento feliz ou doloroso? rótico "se representa que o Outro demanda sua
O texto freudiano Além do princípio de prazer castração" — escreve Lacan— e ele se devota para
liga as oposições entre princípio de prazer e repe­ assegurar o gozo do Outro em quem ele quer acre­
tição e entre pulsão* de vida e pulsão de morte. ditar, fazendo-o "consistir", assim, em uma figura
Nosso gozo é contraditório, dividido entre aquilo de supereu, que lhe ordenaria gozar, ao lhe fazer
que "satisfaria" aos dois princípios. gozar.
Ora, a teoria lacaniana, seguindo Freud, des­
loca a noção de castração para uma função simbó­
O GOZO DEFINIDO POR SUA RELAÇÃO COM O
lica que não é a de um sacrifício, de uma mutila­
SIGNIFICANTE DA FALTA NO OUTRO: S(A ) ção, de uma redução à impotência, como se afigu­
O artigo de Lacan, "Subversão do Sujeito e ra para o neurótico. Trata-se todavia de um tribu­
Dialética do Desejo no Inconsciente Freudiano" to a pagar para o gozo sexual, à medida que ele é
(1960), publicado nos Escritos (1966), inverte a pers­ submetido às leis da troca, que dependem de sis­
pectiva habitual, onde, amiúde, situam-se as rela­ temas simbólicos, que a retiram de um auto-ero-
ções entre o sujeito e o objeto. tismo mítico. A própria escolha do falo*, como sím­
Lacan desloca a perspectiva filosófica, que pro­ bolo do gozo sexual, faz este entrar em uma rede
põe, para o sujeito, um ideal a atingir, o do gozo de sentido, onde a relação com o objeto do desejo
da perfeição da totalidade do Ser. A relação tradi­ está marcada por uma falta estrutural, que é o tri­
cional do sujeito com o gozo é, pois, transtornada: buto a pagar para que o gozo seja humano, regra­
o sujeito não é nem uma essência, nem uma subs­ do pelo pacto da linguagem.
tância, ele é um lugar. O fantasma, em particular, esse argumento do
A própria linguagem não é marcada por uma gozo $ 0 a, não é apenas fantasia imaginária, na
positividade substancial; ela é um defeito na pu­ relação do desejo com o objeto, ele obedece a uma
reza muda do Não-Ser. Desde o começo, o gozo lógica que limita o investimento objetai pulsional
intricado à linguagem é marcado pela falta e não ao objeto, por aquilo que Lacan chamará mais tar­
pela plenitude do Ser. E essa falta não é insatisfa­ de de função fálica.
93 gozo

G OZO FÁLICO E GOZO DO OUTRO ao objeto a — e, por outro, eu diria louco, enigmá­
tico. Não é senão na confrontação com esse impas­
No Seminário "M ais, ainda" (1972-1973), La-
se, com essa impossibilidade, de onde se definiu
can vai especificar a diferença entre gozo masculi­
um real, que é posto à prova o amor." (ibid.)
no e gozo feminino. Isso não é regulado necessari­
No Seminário "Mais, ainda", Lacan aprofun­
amente pela anatomia: se todo "falasser" possui
dou de uma outra maneira o termo grande Outro*.
uma relação com o falo e com a castração, essa re­
Antes, designava o tesouro dos significantes; ele
lação é propriamente diferente; a tabela de fórmu­
designa aqui o Outro sexo. Isso não é contraditó­
las da sexuação propõe uma combinatória ordena­
rio, porquanto o Outro sexo é, em Lacan, o que
da por aquilo que Lacan chama de função fálica.
pode se inscrever à direita na tabela da sexuação
( - > Materna, Figura 4; segundo as fórmulas da se­
(materna), e que marca uma relação direta com
xuação do Seminário "M ais, ainda".)
S(A), ou seja, uma relação direta com a cadeia sig­
A tabela citada no verbete sobre o materna foi
nificante, enquanto não é marcada pela castração,
igualmente comentada no verbete sobre o falo, o
em sua infinitude.
significante do gozo. O significante é, aliás, aque­
O que significa o gozo Outro, ou gozo do Ou­
le que, nesse texto, é designado como "causa do
tro, nessa nova formulação de Lacan?
gozo", sendo, ao mesmo tempo, seu termo. Se o
Se não há relação sexual, que possa ser inscri­
objeto a é causa do desejo, o significante é causa
ta como tal, se não se pode escrever, entre homem
de gozo.
e mulher, x R y, se, portanto, não há gozo adequa­
Estando o gozo situado, no texto dos Escritos,
do, se o gozo é marcado por essa separação entre
"Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo no
gozo fálico, do lado masculino, e gozo do Outro,
Inconsciente Freudiano", na relação com o signifi­
do lado da mulher, qual é o estatuto deste gozo do
cante do Outro barrado S(A), na segunda parte de
Outro, dado que a função fálica é o único opera­
sua obra, é o gozo feminino que Lacan põe mais
dor através do qual nós poderiamos pensar a rela­
particularmente em relação com S(A): "O Outro
ção do gozo com a linguagem? O gozo do Outro,
não é simplesmente esse lugar onde a verdade bal­
do Outro sexo e daquele que o simboliza, o corpo
bucia. Ele merece representar aquele com quem a
do Outro, estará fora de linguagem, fora da inscri­
mulher tem forçosamente relação [...]. Ao ser, na
ção fálica, que vincula o gozo com as leis do signi­
relação sexual, em relação ao que se pode dizer do
ficante? Lacan escreve isto: "Eu vou um pouco mais
inconsciente, radicalmente o Outro, a mulher é longe — o gozo fálico é o obstáculo pelo qual o
quem possui relação com esse Outro" (Seminário
homem não chega, eu diria, a gozar do corpo da
"Mais, ainda", 1972-1973).
mulher, precisamente porque isso de que ele goza
E por isso que ela é iião-toda no gozo fálico, na
é o gozo do órgão. E por isso que o supereu, tal
própria medida em que possui relação com esse
como o indiquei, há pouco, como Coza!, é correla-
Outro; o que não significa que ela possa dizer dele tivo da castração, que é o signo com que se orna a
alguma coisa; enquanto que seu parceiro masculi­
confissão de que o gozo do Outro, do corpo do
no não pode atingi-lo, senão pelo que põe em cena,
Outro, não avança senão ao infinito." (ibid.).
por meio do fantasma, a relação do sujeito com o
Sobre esse assunto, Lacan retoma o paradoxo
objeto a.
de Zenon, no qual Aquiles não pode ultrapassar a
Há, pois, um hiato radical entre os sexos, e a
tartaruga, não podendo alcançá-la senão no infini­
separação entre o que está inscrito à esquerda, to.
como campo finito, onde o universal se situa em
Como se articulam os dois gozos, gozo fálico
relação a uma exceção, e o que se inscreve à direi­ e gozo do Outro? Lacan escreveu: "O gozo, enquan­
ta, como campo infinito, onde o não-todo adquire
to sexual, é fálico, isto é, não se relaciona com o
um outro sentido, é o que faz com que o gozo hu­
Outro como tal". O gozo feminino, se está relacio­
mano, sob todas as suas formas, inclusive o gozo
nado com o Outro, com S(A), nem por isso deixa
sublimado na criação e no gozo místico, seja mar­
de estar também relacionado com o gozo fálico. Eis
cado por uma falta que não é pensável em termos
o sentido da formulação segundo a qual a mulher
de insatisfação, em relação a um "bom " gozo: não
é não-toda no gozo fálico, que seu gozo é essenci­
existe "bom " gozo, pois não há um gozo que con­
almente dividido. E preciso que, mesmo que ele
viría a uma relação sexual verdadeira, a uma rela­
seja impossível, mesmo que a esse respeito as mu­
ção que resolvería o hiato entre os sexos.
lheres sejam mudas, o gozo do Outro seja estabe­
"Não há relação sexual, porque o gozo do Ou­
lecido, tenha um sentido, para que o gozo fálico,
tro, tomado como corpo, é sempre inadequado, por
ao redor do qual ele gira, possa ser apresentado
um lado perverso — enquanto o Outro se reduz
Groddeck (Walter Georg, dito Georg) 94

de outra forma que não a da positividade absolu­ isso que o gozo humano está irredutivelmente
ta, possa se situar no sem-fundo da falta que o liga marcado pela falta, e não pela plenitude, sem que
à linguagem. isso dependa unicamente da problemática— é esta
a simplificação proposta pela histeria — da satis­
fação ou da insatisfação. De fato, do lado do gozo
CONSEQÜÊNCIAS CLÍNICAS DA ARTICULAÇÃO
masculino, o significante desse hiato é o falo; do
ENTRE O GOZO FÁLICO E O GOZO DO OUTRO lado do gozo feminino, há uma divisão, entre o
A relação com um gozo Outro, que não o fáli- referencial fálico e um gozo do Outro, isto é, da
co, mesmo que apenas o gozo fálico faça limite para cadeia significante, em sua infinitude, que, no en­
o "falasser", é de grande importância teórica e clí­ tanto, só pode "ex-sistir", porque a linguagem e o
nica. Esse gozo enigmático pode esclarecer o dos significante fálico permitem situar-lhe o sentido e
místicos, homens ou mulheres. E isso é essencial o alcance, mesmo que ele seja impossível; essa hi­
para situar corretamente o próprio gozo fálico. Não ância do gozo humano está no próprio cem e da­
como positividade essencial — essa é justamente a quilo que Freud e Lacan situam como recalcamen-
tentativa perversa —, mas como a marca do signi- to originário, no centro daquilo que se poderia cha­
ficante sobre uma hiância, com o que a possibili­ mar de simbolização primordial.
dade de um Outro gozo, que Lacan continuaria a
chamar também de gozo do Outro, faz "ex-sistir" Groddeck (Walter Georg, dito Georg). Mé­
o lugar central, em sua função de referência. dico alemão (Bad Kõsen, 1866 — Zurique, 1934).
Poder-se-ia dizer que a toxicomania talvez ten­ Foi aluno e depois assistente de E. Schwenin-
te, por meio de um objeto oral que não passa por ger, médico pessoal de Bismarck. No sanatório que
aquilo que a função fálica estabelece, em termos abriu, em 1900, em Baden-Baden, Groddeck apli­
de semblante e não de essência, dar consistência cou os métodos de seu mestre Schweninger, que,
ao gozo do Outro, preencher a hiância que ele in­ desprezando as terapias tradicionais, preferia a
dica, em um infinito que não pode mais ser limita­ dieta, a hidroterapia e as massagens.
do pela função fálica, senão pela morte? Depende a importância dos fatores psíquicos
O aspecto da hiância será elaborado direta­ nas doenças orgânicas, cujos sintomas possuem um
mente, com o nó borromeu, porque os círculos de valor simbólico. A partir de 1913, toma contato com
cordão, ligados a três, marcam, mesmo em sua pro­ a obra de S. Freud, por quem é encorajado em sua
jeção em um desenho, a função primordial do furo, abordagem dos fenômenos inconscientes, a partir
na articulação dessas noções. Um dos últimos se­ das doenças somáticas. Publicou Determinação psí­
minários de Lacan, o "Sinthonie" (1976), particu­ quica e tratamento psicanalítico das afecções orgânicas
larmente, ligará com um quarto nó, o do sintoma, (1917) e Das Bucli vom Es (O livro d'Isso), em 1923,
os três círculos do Real, do Imaginário e do Sim­ como prova de seu desejo de que a psicanálise fosse
bólico, e, sobre a escrita de Joyce, proporá a ques­ entendida por todos.
tão do vínculo entre a escrita e o gozo (sintoma). A partir de 1926, Groddeck se afasta de Freud,
O gozo, para a psicanálise, é, pois, uma noção de quem critica as especulações psicológicas, pois,
complexa, que só encontra seu rigor quando situ­ para ele, o inconsciente é somático, o corpo está
ada na intricação da linguagem com o desejo, no nas palavras e vice-versa. Sua última obra, Der
"falasser". Este vínculo funda um hiato radical Mensch ais Symbol (O ser humano como símbolo, 1933)
entre o homem e a mulher. Este hiato não é redutí- é, de resto, um estudo sobre o simbolismo do cor­
vel a um conflito; ele é a impossibilidade até mes­ po e do homem.
mo de escrever a relação sexual como tal. É por
h
h a n d lin g , s.m. (ing.: handling). De cordo com a fluência deste último e a uma redução da recepti­
terminologia de D. W. Winnicott, forma adequada vidade às demais influências.
de manipular e cuidar corporalmente de um bebê, Esta modificação da consciência e da memó­
que favorece, em particular, em seu desenvolvi­ ria é acompanhada de idéias e reações com as quais
mento espontâneo, o processo de personalização. o sujeito não está habituado, em parte sugeridas
Esta função nasce, como o holding, da identifi­ pelo hipnotizador. Podem ser provocados, manti­
cação da mãe com o recém-nascido, que a toma dos ou suprimidos, neste estado, fenômenos como
capaz de se adaptar às suas primeiras necessida­ a letargia, a anestesia, a paralisia, a rigidez mus­
des, de forma quase perfeita. cular e as modificações vasomotoras de localiza­
-» holding. ção às vezes bastante precisa, independentemente
da livre vontade do sujeito. É a um discípulo de F.
H an s (o p e q u e n o ). Pseudônimo de um meni­ A. Mesmer, A. M. J. de Chastenet, marquês de Puy-
no, a respeito do qual S. Freud expõe seus pontos ségur, que cabe o mérito de ter descrito pela pri­
de vista sobre a sexualidade infantil e o lugar que meira vez, em 1784, este estado de "sonambulis-
ela ocupa na história individual. mo provocado" pelo magnetismo animal. Foi um
Foi em um artigo de 1909, "Análise de uma dentista de Manchester, J. Braid, quem utilizou esse
Fobia em um Menino de Cinco Anos", que Freud "sono artificial", como método de anestesia de seus
expôs suas concepções. O aparecimento de uma pacientes, tendo-o chamado de "hipnose", em 1843,
fobia na história desse menino permite que Freud quando elaborou a primeira teoria do hipnotismo.
coloque em evidência o papel do complexo de Édi- Esta seria aprofundada por A. Liébault e H. Ber-
po e a função subjetiva da castração e, por meio nheim, que colocaram em primeiro plano o papel
disso, o papel da função paterna no desejo incons­ da sugestão, e por J. M. Charcot, que, em Paris, na
ciente. mesma época, assimilou-a, de uma forma sem dú­
-> fobia. vida abusiva, aos fenômenos da histeria. S. Freud
iria mostrar, primeiramente, que a hipnose permi­
H a rtm a n n (H einz). Médico e psicanalista ame­ tia manifestações da atividade do inconsciente e,
ricano de origem austríaca (Viena, 1894 — Stony a partir de sua prática, descobrir a psicanálise.
Point, Nova Iorque, 1970).
Com E. Kris e R. Loewenstein, foi represen­ h is te r ia , s.f. (alem.: Hysterie; fr.: hystérie; ing.: Itys-
tante da psicologia do ego, que considera como teria). Neurose caracterizada pelo polimorfismo de
objetivo da terapia analítica a adaptação do eu à suas manifestações clínicas.
realidade. A fobia, chamada algumas vezes d e histeria de
angústia, deve ser diferenciada da histeria de con­
h ip n o s e , s.f. (alem.: hipnose; fr.: hipnose; ing.: hip- versão. Essa última se distingue, dassicamente, pela
nosis). Estado de consciência modificado, transitó­ intensidade das crises emocionais e pela diversi­
rio e artificial, provocado pela sugestão de uma dade dos efeitos somáticos, que colocam em che­
outra pessoa, chamada de "hipnotizador", carac­ que a Medicina. A psicanálise contemporânea des­
terizado por um aumento da sensibilidade à in­ taca a estrutura histérica do aparelho psíquico, en­
histeria 96

gendrada por um discurso, dando lugar a uma eco­ valor metafórico e inscrita em hieróglifos em um
nomia e também a uma ética propriamente histé­ corpo enfermo, uma vez que parasitado.
ricas.

A SEGUNDA TÓPICA DE FREUD


A HISTERIA NA PRIMEIRA TÓPICA FREUDIANA
No entanto, foram essas dificuldades encon­
Freud primeiramente se desfaz de uma con­ tradas nos tratamentos que levaram Freud a criar
cepção inata, adotando a idéia de uma neurose a segunda tópica do aparelho psíquico. Todavia,
adquirida. Formula o problema etiológico em ter­ nunca vieram à luz os novos estudos prometidos
mos de quantidade de energia: a histeria é devida sobre a histeria. A pertinência da clínica freudiana
a um "excesso de excitação". Em Estudos sobre a his­ surge em diversos textos, valorizada pela nova lei­
teria (1895), é afirmado o parentesco do mecanis­ tura de J. Lacan e pelos instrumentos conceituais
mo psíquico dos fenômenos histéricos com a neu­ que este irá propor.
rose traumática: "A causa da maioria dos sintomas Assim, a análise do sonho chamado "a bela
histéricos deve ser classificada de trauma psíqui­ açougueira", publicada em A interpretação de sonhos
co". A lembrança do choque, tomada autônoma, (1900), permite que Freud afirme que a sonhadora
age então no psiquismo à maneira de um "corpo histérica é obrigada a criar em si um "desejo insa­
estranho": "A histérica sofre de reminiscências". tisfeito": por que ela não quer o caviar que no en­
De fato, o afeto ligado ao incidente causai não foi tanto deseja? E porque, desta forma, reserva o lu­
ab-reagido, isto é, não ocorreu descarga de ener­ gar do desejo, enquanto esse não se confunde nem
gia por via verbal ou somática, porque a represen­ com a demanda de amor, nem com a satisfação da
tação psíquica do trauma estava ausente, proibida necessidade. No entanto, falta constitutiva do de­
ou insuportável. A cisão do grupo de representa­ sejo articula-se, através de uma demanda, ao lu­
ções incriminadas constitui, então, o núcleo de um gar do Outro, definido como lugar simbólico da
"segundo consciente", infiltrando o psiquismo linguagem. A falta está no Outro, articulação sig-
quando das crises ou inervando uma zona corpo­ nificante da falta do objeto como tal, cujo signifi-
ral, por um sintoma permanente: nevralgia, anes­ cante é o falo. Assim, o desejo da histérica revela a
tesia, contratura, etc. O mecanismo de defesa que natureza geral do desejo de ser desejo do Outro.
preside à formação do sintoma histérico é então Ademais, esse sonho é propriamente o de uma his­
qualificado como "recalcamento de uma represen­ térica, que é o de só aceder ao desejo através do
tação incompatível com o eu". Freud afirma, para­ desvio da identificação imaginária com uma ami­
lelamente, que o trauma em questão está sempre ga, identificação que leva a uma apropriação do
ligado a uma experiência sexual precoce, vivida no sintoma de um semelhante, por um raciocínio in­
desprazer, inclusive nos meninos, o que libera a consciente que se atribui motivos análogos para
histeria de sua ligação exclusivamente feminina. estar doente.
Mais tarde, Freud irá pensar que superestimara a O texto desse sonho, relacionado com o caso
realidade traumática, às custas do fantasma de vi­ Dora, permite dar mais um passo. Dora apresen­
olência perpetrada por um personagem patemo. tava muitos sintomas relacionados com a comple­
A concepção freudiana exige algumas obser­ xa relação que ela e o pai mantinham com o casal
vações: ela pressupõe que a relação psique-soma é K.: ligação amorosa platônica dissimulada entre
de dois lugares, ocupando a psique a posição mais seu pai e a Sra. K, corte algumas vezes intensa, mas
elevada, separados por uma barra ultrapassável secreta do Sr. K. a ela. Freud dirigiu a análise de
por uma representação psíquica. Assim, Freud des­ Dora no sentido do reconhecimento de seu desejo
taca, no histérico, uma "antecipação somática", es­ recalcado pelo Sr. K., o que lhe permitiu mostrar a
pécie de apelo do corpo para que uma representa­ importância, na instalação da histeria, do amor
ção recalcada vá se alojar nele. Dessa forma, Freud pelo pai impotente, seqüela edípica, interpretada
sugeria o abandono do debate clássico entre psi- aqui como defesa atual contra o desejo. Porém,
cogênese e organicismo da histeria, sendo o pro­ Freud irá reconhecer ter falhado na dimensão ho­
blema apresentado por esta neurose o do encontro mossexual do desejo histérico, por isso o fracasso
entre o corpo biológico e o "representante pulsio- do tratamento. Para Lacan, tratar-se-ia antes de
nal", da ordem da linguagem, isto é, um signifi- uma "homossexualidade" entendida no caso como
cante. O sintoma seria então uma mensagem igno­ identificação com o homem, ou seja, com o Sr. K,
rada pelo autor, que deve ser entendida em seu por meio da qual a histérica se questiona sobre o
97 holding

enigma da feminilidade". É assim que a histérica to vive como estranho ao mundo e recusa toda as­
se experimenta nas homenagens dirigidas a uma sertiva e todo engajamento, a outra é uma forma
outra, e oferece a mulher, em quem ela adora seu estênica, na qual o sujeito faz de seu sacrifício o
próprio mistério, ao homem, cujo papel ela assu­ sinal de uma eleição". A histérica pode, então, pou­
me sem poder gozar dele. Em constante busca da­ co a pouco se devotar, rivalizar com os homens,
quilo que é ser uma mulher..." (Escritos, 1966). substituí-los quando forem julgados demasiado
medíocres, "fazer o papel de homem" não castra­
do, à imagem do Pai. Ela então se torna capaz de
manter todos os discursos constitutivos do víncu­
A HISTERIA SEGUNDO FREUD
lo social, porém "marcados pela paixão histérica",
A ulterior instalação da estrutura dos discur­ que tenta fazer valer por todos. A contradição está
sos, fundada em quatro elementos, o sujeito, o sig- em que ao interpelar os mestres e trabalhar para a
nificante-mestre, o do saber inconsciente e o obje­ abolição dos privilégios, ela exige aquele que se­
to causa do desejo, permitiu que Ch. Melman pro­ ria bastante poderoso para abolir a alteridade.
pusesse os Novos estudos sobre a histeria (1984), nos Observa-se que a histeria masculina depende
quais demonstra que o recalcamento característico dos mesmos discursos, economia e ética. Ela se ca­
da histérica seria, na verdade, um pseudo-recalca- racteriza pela preferência do menino em se colo­
mento. De fato, se, como já afirmava Freud, a me­ car do lado das mulheres, satisfazendo sua virili­
nina passa por uma fase na qual deve renunciar à dade pelas vias da sedução, como criatura excep­
mãe, não deixando de conhecer, assim como o me­ cional e enigmática.
nino, a castração, a instalação da feminilidade pres­ Masculina ou feminina, "a paixão histérica
supõe um segundo momento, no qual ela recalca sustenta-se na culpabilidade, com a qual o sujeito
parcialmente a atividade fálica, à qual a castração se oprime quando se acusa de ser culpado da cas­
parecia autorizá-la. "Neste caso, formulamos a hi­ tração" e, portanto, maculando o universo. Torna-
pótese de que o recalcamento se refere eletivamente se responsável pela impossível coaptação natural
ao significante-mestre, aquele ao qual o sujeito às dos homens e das mulheres, porque são "homens"
vezes recorre para interpelar o objeto". Esse recal­ e "mulheres" em nome da linguagem. Como a his­
camento seria a primeira mentira do sintoma his­ teria deu origem à psicanálise, o discurso histéri­
térico, pois se faz passar por uma castração (real e co continua sendo o necessário desfiladeiro de todo
não simbólica) exigida pelo Outro e que é a ori­ tratamento.
gem da idéia de que possa existir um fantasma
próprio da mulher. Assim, o recalcamento do sig­ h o ld in g , s.m. (ing.: holding). Forma como a mãe
nificante-mestre reorganiza a castração primeira e carrega e mantém, física e psicologicamente, seu
faz com que seja interpretada como privação do bebê em estado de absoluta dependência.
meio de expressão do desejo. A sintomatologia his­ Assim, a mãe assegura uma coesão a seus di­
térica "é, pois, ligada ao ressurgimento do signifi­ ferentes estados sensório-motores e uma proteção
cante-mestre no discurso social, que sugere a idéia suficiente contra as angústias de aniquilamento do
de violação" e o corpo imita a posse por um dese­ self. Ela lhe proporciona, desse modo, um sentimen­
jo totalizante, cujos significantes se inscrevem nele to de segurança fundamental, base, para D. W.
como em uma página. Winnicott, da força do eu. O holding, termo intra-
E, então, por que as mulheres são todas histé­ duzível, utilizado por Winnicott em toda a sua
ricas? Porque a histérica interpreta a aceitação da obra, sustenta a integração, isto é, o estabelecimento
feminilidade como um sacrifício, uma doação à de um self unitário, vi vendado como continuida­
vontade do Outro, a quem, dessa forma, ela se con­ de da existência,
sagraria. Portanto, ela se inscreve em uma ordem handling
que prescreve queixar-se e não desejar. Opõe aos
que atribuem ao desejo uma "nova ordem moral", H om em d o s lo b o s (O). Pseudônimo de um jo­
ordenada pelo amor de um pai enfermo e impo­ vem de origem russa tratado por S. Freud.
tente, cujos valores são o trabalho, a devoção e o Aquele que a tradição chamou de Homem dos
culto à beleza. Nascería, assim, uma nova huma­ Lobos fez uma análise com Freud, da qual este
nidade "igualitária, porque igual no sublime e de­ publicou um resumo, em 1918, com o título Aus
sembaraçada da castração". Deduz-se disso uma der Geschichte einer infantilen Neurose, traduzido
economia geral da histeria, que coloca em evidên­ como História de uma neurose infantil. Freud hesi­
cia duas formas clínicas aparentemente paradoxais: tou em classificar esse paciente na categoria de
"Uma delas é a forma depressiva, na qual o sujei­ "neurose infantil não-resolvida", depois de ter
Homem dos ratos (O) 98

identificado a existência de uma neurose obsessi­ de filhos. Após a morte do pai, os filhos teriam co­
va. Para Freud, esse caso foi objeto de um debate, mido seu corpo. Essa refeição canibalesca se teria,
único em sua obra, a respeito da realidade dos a seguir, perpetuado na refeição totêmica, na qual
eventos da vida sexual infantil, cuja existência pro­ a vítima consumida é um animal. O tecido dessa
cura fundamentar, contra C. G. Jung. ficção, além de permitir atribuir a origem das reli­
O caso do homem dos lobos, comentado por giões e, em geral, da cultura ao recalcamento ini­
Lacan e seus alunos, permitiu avaliar o mecanis­ cial da morte do pai, constitui uma construção te­
mo da forclusão*, bem como o estatuto da letra* órica sobre a qual se fundaria o complexo de Édi-
no inconsciente (no caso, a letra V, ou cinco roma­ po, que parece reativar, em cada sujeito, a questão
no, que se repete, em determinados momentos de­ da morte do pai e de seu recalcamento e, na pers­
cisivos da história do sujeito). pectiva lacaniana, a problemática do falo e da me­
táfora patema. A Antropologia não confirma a con­
H o m em d o s r a t o s (O). Pseudônimo de um jo­ cepção freudiana da horda primitiva e esse mito
vem com neurose obsessiva, tratado por S. Freud. parece ser mais um conceito operatório do que uma
Aquele a quem a tradição atribui o cognome descrição positiva de uma realidade empírica, mas
de homem dos ratos (talvez um certo Ernst Lanzer) permite, todavia, explicar a constante referência a
fez uma análise com Freud, da qual este publicou um ancestral comum, do qual os membros do gru­
o resumo em 1909, sob o título Bemerkungen iiber po descenderíam.
einen Fali von Zwangsneurose ("Notas Sobre um Çaso
de Neurose Obsessiva"). O texto constitui a pri­ H o rn e y (K aren ). Psiquiatra e psicanalista ame­
meira exposição sistemática da relação dos sinto­ ricana de origem alemã (Hamburgo, 1885 — Nova
mas obsessivos com o complexo patemo e resume Iorque, 1952).
a maneira como Freud concebia a neurose obsessi­ Secretária do Instituto Psicanalítico de Berlim,
va nos limites de sua primeira tópica. foi, depois, diretora-associada do Instituto de Psi­
-> neurose obsessiva. canálise de Chicago (1932-1934), fundando poste­
riormente (1941) o Instituto Americano de Psica­
h o rd a p r im itiv a (alem.: Briiderhorde; fr.: horde nálise. Ao se separar da ortodoxia freudiana, pas­
primitive; ing.: horde ofbrothers). Mito apresentado sa a integrar um certo número de concepções de
por S. Freud para explicar a persistência de deter­ A. Adler. A questão da sexualidade feminina ori­
minadas realidades psíquicas. ginou o seu desacordo com S. Freud, pois Horney
Em Totem e Tabu (1912-13), Freud descreve as­ esta questionava a noção freudiana de inveja do
sim o mito da horda primitiva: originalmente, ha­ pênis. Rejeitando a teoria do desenvolvimento li-
via uma horda, cujo chefe macho tinha reinado so­ bidinal e das neuroses de Freud, ela enfatiza os fa­
bre seus filhos, tendo o monopólio de todas as fê­ tores culturais e ambientais na gênese destas. En­
meas. Os machos jovens se teriam revoltado e ma­ tre seus trabalhos, citamos O complexo do virilidade
tado o velho. Foi só depois que o remorso e o te­ das mulheres (1927), A personalidade neurótica de nos­
mor teriam investido esse velho chefe com o nome so tempo (1937) e Neurose e crescimento humano: a luta
de pai e, correlativamente, os jovens com o nome pela auto-realização (1950).
1
id e a l do e u ou id e a l do eg o (alem.: Ichideal; S exo e identidade sexual
fr.: idéal du moi; ing.: ego ideal). Instância psíquica
que escolhe, entre os valores morais e éticos exigi­ O conceito de "identidade sexual", introduzi­
dos pelo supereu, aqueles que constituem um ide­ do por R. Stoller, em 1968, visa estabelecer uma
al ao qual o sujeito aspira. distinção entre os dados biológicos, que fazem,
O ideal do eu surge primeiramente para S. objetivamente, de um indivíduo um homem ou
Freud ( Sobre o narcisismo: uma introdução, 1914) uma mulher, assim como os psicológicos e sociais,
como um substituto do eu ideal. Influenciado pe­ que o instalam na convicção de ser um homem ou
las críticas parentais e do meio exterior, as primei­ uma mulher.
ras satisfações narcisistas buscadas pelo eu ideal Por isso, a tradução por identidade sexual, da
são progressivamente abandonadas, sendo sob a expressão inglesa gender identity, não foi muito fe­
forma desse novo ideal do eu que o sujeito tenta liz, pois elimina em parte a oposição, desejada por
reconquistá-las. Ulteriormente, depois da elabora­ Stoller, entre Sexo e Gênero, sendo Sexo reservado
ção da segunda tópica, o ideal do eu toma-se uma ao sexo biológico. A determinação deste depende
instância confundida, por momentos, com o supe­ de um certo número de fatores físicos, mensurá­
reu, devido à sua função de auto-observação, jul­ veis objetivamente: o genótipo (XX, mulher, e XY,
gamento e censura, que aumenta as exigências do homem), as dosagens hormonais, a constituição
eu e favorece o recalcamento. Todavia, ela não se dos órgãos genitais externos e internos e os carac­
diferencia dele, porquanto tenta conciliar as exi­ teres sexuais secundários. A soma de tais elemen­
gências libidinais e culturais, quando intervém no tos leva, na maior parte dos casos, a uma determi­
processo de sublimação. Para Freud, o fanatismo, nação global "masculina" ou "feminina" inequívo­
a hipnose ou o estado amoroso representam três ca, mesmo que exista, em todos os seres humanos,
casos nos quais um objeto exterior: o chefe, o hip­ mesmo neste nível, uma certa bissexualidade, de­
notizador, o amado, vão ocupar o lugar do ideal vido à indiferenciação original do embrião. Assim,
do eu, no próprio ponto onde o sujeito projeta seu encontram-se hormônios masculinos e femininos,
eu ideal. Para J. Lacan, o ideal do eu designa a ins­ em diferentes proporções, em indivíduos de am­
tância da personalidade, cuja função, no plano sim­ bos os sexos, bem como se pode identificar, nos
bólico, é de regular a estrutura imaginária do eu, órgãos masculinos e femininos, o resultado da evo­
as identificações e os conflitos que regem suas re­ lução ou da involução dos mesmos órgãos origi­
lações com seus semelhantes. nais.
Em certos casos, encontram-se anomalias fisio­
id e n tid a d e se x u a l (alem.: sexuelle Identilãt; fr.: lógicas, que vão da aberração cromossômica à am-
identité sexuelle; ing.: gender identity). Fato de se re­ bigüidade dos atributos anatômicos. Elas produ­
conhecer e ser reconhecido como pertencente a um zem situações de intersexualidade, observadas há
sexo. muito tempo sob o termo vago de hermafroditismo,
identidade sexual 100

e que levantaram as primeiras perguntas de ordem exigindo a "retificação" cirúrgica de sua anatomia,
psicológica sobre a identidade sexual, devido aos no sentido daquilo que consideram sua identida­
problemas evidentes que essas anomalias apresen­ de profunda.
tam quanto à atribuição do sexo. Para localizar o problema que apresentam, é
conveniente distingui-los dos demais casos, com
os quais poderíam se confundir. Primeiramente,
AS ANOMALIAS BIOLÓGICAS
eles não se identificam com o outro sexo de ma­
No entanto, os dados biológicos intervém ape­ neira inconsciente, em seus sonhos ou em alguns
nas em parte naquilo que constitui o núcleo da de seus comportamentos, isto é, sua reivindicação
identidade sexual. De fato, foi possível constatar não se apresenta sob a forma característica da neu­
que, no caso das anomalias fisiológicas, se está em rose. Por outro lado, não se deve confundi-los com
presença dos mais diversos desenvolvimentos da os travestis fetichistas, que gozam justamente com
identidade sexual, de acordo com a forma pela qual a presença de seu pênis, sob roupas femininas, e
o entorno da criança reage a ela. Um dos exem­ portanto nunca questionam sua identidade mas­
plos mais evidentes, entre os apresentados por Sto- culina.
ller, é o do desenvolvimento de uma identidade Finalmente, tampouco são os homossexuais
sexual feminina normal, em uma pessoa XO, isto efeminados, que, embora algumas vezes desempe­
é, neutra no plano cromossômico, desprovida, por­ nhem o papel de uma mulher, chegando até mes­
tanto, de útero e de atividade hormonal feminina, mo a se travestir, fazem-no como um arremedo, e
porque, desde seu nascimento, seus pais a reconhe­ conservam em seu pênis uma função essencial em
ceram sem hesitação como mulher. Ao contrário, sua vida sexual. Somente os transexuais exigem a
nos casos em que o caráter anormal dos órgãos ge- ablação de seu órgão viril, para tornar seu corpo
nitais externos provoca perplexidade e preocupa­ conforme ao sexo cuja identidade reivindicam.
ção nos pais, a questão do sexo se apresentará à Portanto, eles constituem uma entidade singu­
criança como problemática, dependendo sua evo­ lar, que apresenta problemas bastante específicos.
lução da história singular do sujeito. De fato, se as observações dos transexuais, nume­
Esse tipo de observações por si só justifica a rosos hoje em dia, esclarecem a gênese dessa pro­
concepção segundo a qual o principal elemento da blemática, a interpretação a que elas em geral nos
constituição da identidade sexual é de ordem psi­ conduzem nem por isso deixa de levantar pergun­
cológica. Porém, os casos mais interessantes são tas, que se refletem sobre toda a teoria da identi­
aqueles nos quais há nenhuma anomalia biológi­ dade sexual.
ca, mas que apresentam problemas de identidade
sexual.
F orm ação d a id e n t id a d e t r a n s e x u a l
Foi a partir de um caso desse tipo que S. Freud,
a partir dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade A primeira constatação é de que os transexu­
(1905), passou a afirmar que grande parte daquilo ais, embora desejados como meninos, reconheci­
que é chamado de sexualidade é determinado, em dos sem equívoco e bem aceitos como tais, apre­
cada um, por experiências da vida infantil, não sentam, desde a primeira infância, um comporta­
dependendo, portanto, apenas da hereditariedade mento feminino, que se reflete na escolha de suas
e dos fatores orgânicos, o que lhe permitiu distin­ roupas, brinquedos, gestos, entonações de voz e
guir, em particular quanto à homossexualidade fe­ vocabulário.
minina (1920), as características sexuais físicas e as Por outro lado, suas mães são descritas como
psíquicas. apresentando determinadas características comuns,
que são a de terem se casado tarde, e sem entusi­
asmo, com homens com quem quase não contam,
O TRANSEXUALISMO
— que seguido se ausentam —, de terem mantido
A ilustração mais demonstrativa dessa disso­ com seus filhos uma relação de proximidade física
ciação entre o biológico e o psíquico é oferecida muito íntima, por muito mais tempo do que é ha­
pelos transexuais. De fato, são indivíduos que não bitual, e, finalmente, de não verem nenhuma obje­
apresentam nenhuma anomalia biológica ou mes­ ção, até mesmo ao contrário, pelas condutas femi­
mo simplesmente anatômica e que, embora saben­ ninas de seus filhos.
do da realidade de sua anatomia sexual, têm a con­ Stoller qualifica essa relação de "simbiótica",
vicção de pertencer a outro sexo. Apresentam-se mas distingue-a da que une a mãe do esquizofrê­
como "uma mulher em um corpo de homem" ou, nico ao seu filho, porque nela não haveria qual­
mais raramente, o inverso, com muita frequência quer fonte de sofrimento, qualquer double bind, mas
101 identidade sexual

simplesmente a instalação sem conflito de uma I d e n t id a d e s e x u a l e in c o n s c ie n t e


identidade feminina, em um período pré-edípico,
Sem dúvida, a definição da psicose, à qual Sto­
por um processo de identificação induzido pela
ller se refere, é insuficiente para responder à per­
mãe, e do qual estaria excluída toda problemática
gunta apresentada pelo transexualismo. Ela coin­
fálica.
cide com a maneira simplista pela qual concebe a
problemática fálica. De fato, embora reconheça que
U ma teoria antifreudiana as mães dos transexuais se comportem com seu fi­
lho como se este fizesse parte delas próprias, mais
Portanto, pode-se observar que a teoria de Sto- exatamente, uma parte de seu corpo— ele chega a
ller é, neste ponto, nitidamente antifreudiana. A dizer seu falo —, por não haver estabelecido a ne­
origem da identidade sexual está de fato situada, cessária distinção entre castração imaginária, real
para ele, ao redor da idade de 1 ano e meio ou 2 e simbólica, ele não consegue constatar a conse­
anos, independentemente dos complexos de Edi- qüência que se impõe, a saber, que, dessa forma,
po e de castração. De acordo com as posições de elas instalam, pelo próprio fato de não existir ne­
K. Horney e E. Jones, ele considera obsoleta a con­ las o desejo por um homem, que iria separá-las de
cepção de uma libido única e, portanto, de um ca­ seu filho, uma situação propícia à eclosão da psi­
ráter fundador e central do falo para ambos os se­ cose. Esse filho, privado assim de castração sim­
xos. bólica, só poderia ser o falo imaginário de sua mãe,
Ademais, o uso que ele faz do termo "falo" o que excluiría que ele pudesse tê-lo, problemáti­
não indica com clareza que tenha apreendido o al­ ca que, desde então, ele irá formular, sempre nes­
cance que o termo possui em Freud, e essa tomada tes termos: ser, ao preço de uma castração real, não
de posição tem como conseqüência, no que con­ uma mulher entre outras, mas a Mulher, aquela
cerne ao transexualismo, impossibilitar sua defi­ que, como provará dolorosa e interminavelmente,
nição, enquanto estrutura patológica. Não pode ser não existe. Também para o presidente Schreber não
nem neurose, nem perversão, pois essa estrutura é havia "uma coisa mais singularmente bela do que
anterior à problemática edípica, e, no entanto, tam­ ser uma mulher", porém — é isso que assinala a
pouco é uma psicose, pois o transexualismo se ins­ psicose— tinha de ser a mulher de Deus.
tala sem conflito e sem duplo vínculo, ponto de Essa dificuldade, que subleva exemplarmen­
vista confirmado, a seus olhos, pela constatação de te a compreensão do transexualismo, evidentemen­
que permanecem intactas as capacidades de inte­ te se reflete no conceito de identidade sexual, em
gração social desses pacientes. seu conjunto, devido essencialmente à insuficiên­
Esse último ponto constitui um sério proble­ cia de suas referências analíticas. Foi assim que Sto­
ma, pois não deixa de ter conseqüências na con­ ller, apesar de suas própria reticências, diante de
duta a assumir em relação à demanda de interven­ um termo tão impreciso, viu-se obrigado a apelar
ção cirúrgica, feita pelos transexuais. Logicamen­ a uma "força biológica", além dos dados fisiológi­
te, quando se acompanha o raciocínio de Stoller, cos e psicológicos, para justificar certas aberrações
de fato não se encontram motivos para recusar essa comportamentais que estes últimos não conseguem
demanda, pois ela não é nem neurótica, nem per­ explicar. Por exemplo, no caso de uma menina que,
versa, nem tampouco psicótica, e por que uma desde a mais tenra infância, apesar de ter uma mãe,
identidade transexual bem ancorada não encontra­ segundo ele perfeitamente feminina, se comporta­
ria uma solução benéfica na cirurgia? va como um menino, isto é, com impetuosidade,
Ora, o próprio Stoller não tira de todo tais con­ brutalidade e violência, poder-se-ia, em sua opi­
clusões de sua teoria. Ao contrário, sempre se opôs nião, acusar uma "força biológica" masculina.
firmemente a essas intervenções, forçado que foi, Sem entrar nos pormenores, pode-se ver a que
pela experiência, a reconhecer que o que se segue ponto essa abordagem, fundada essencialmente na
a essas operações está longe de apresentar o cará­ observação dos comportamentos e na referência a
ter idílico com que sonham os transexuais e seus modelos sociológicos, não basta para explicar os
cirurgiões. Chega até a observar que os transexu­ problemas de identidade sexual. O que lhe está
ais operados inevitavelmente continuam sua bus­ faltando, evidentemente, é a dimensão propria­
ca no sentido de outros objetivos cada vez mais mente psicanalítica do inconsciente, que parece ter
inacessíveis. sido perdida, depois de Freud, nos desenvolvimen­
Que conclusões se poderão tirar dessas con­ tos anglo-saxões de seus ensinamentos, a favor de
tradições?
identificação 102

uma psicologia do ego, à qual o termo identidade amplo. À terceira — dita histérica — Freud chama
sexual faz claramente referência. de "identificação pelo sintoma", motivando-a pelo
encontro fortuito de um elemento análogo e recal­
id e n tific a ç ã o , s.f. (alem.: ldentifizierung; fr.: iden- cado nos dois egos em causa.
tification; ing.: identificalion). Assimilação de um eu Podem ser feitas duas observações. A identi­
estranho, resultando que o primeiro se comporta ficação é aqui descrita como a impressão de um
como o outro em determinados pontos de vista, elemento pontual em uma outra pessoa, detesta­
que ele limita, de alguma forma, e que acolhe em da, amada ou indiferente, justificando uma forma­
si mesmo, sem se dar conta disso. ção sintomática. Nada impede que essa impressão
seja tal que não comporte nenhum dissabor para o
sujeito. Freud nos disse, aliás, em outros textos, que
A IDENTIFICAÇÃO EM FREUD
o eu é constituído, em grande parte, por essas im­
"A quem está copiando agora?”, pergunta S. pressões, o que equivalería a dar-lhe o valor de
Freud a Dora, por ocasião das dores intensas no uma formação sintomática.
estômago. Fica então sabendo que na véspera Dora Desapareceram os dois fatores constituintes do
fora visitar suas primas, das quais a mais nova ti­ sintoma lembrados no começo, a complacência so­
nha acabado de noivar e a mais velha havia come­ mática e a representação de uma fantasma incons­
çado a sofrer do estômago, o que Dora logo atri­ ciente. De certa maneira, pelo contrário, foi manti­
bui ao ciúme. Freud então informa-nos que Dora do o caráter de compromisso, permitindo a satis­
se identificou com a prima. Nisso está ilustrada fação pulsional de uma forma disfarçada.
toda a distância que separa a noção de imitação A forma de identificação descrita em primei­
da de identificação, no sentido particular que Freud ro lugar por Freud é a mais enigmática. Que senti­
lhe atribui. A pergunta de Freud a Dora destaca, do atribuir de fato à fórmula: o mais antigo apego
por trás do sentido familiar e intuitivo que habitu­ afetivo a uma pessoa, porque, justamente ainda não
almente parasita o uso do termo "identificação", existe objeto constituído, no sentido da doutrina?
aquilo que torna seu emprego ou derrisório ou ex­ De qual ordem é esse pai que o menino constitui
tremamente difícil. Nesse texto, Freud emprega o como seu ideal, enquanto, em uma nota da obra O
termo "identificação" apenas em um sentido des­ ego e o id (1923), Freud disse que seria melhor falar
critivo e, nas páginas seguintes, quando expõe sua dos pais, no momento em que a diferença dos se­
concepção da formação do sintoma, apela para os xos ainda não tivesse sido levada em considera­
dois elementos já conhecidos: a complacência so­ ção? Aqui nada intervém de sexual, pois nada há
mática e a representação de um fantasma de con­ de "passivo, nem de feminino". Incontestavelmen-
teúdo sexual. te, trata-se de alguma coisa que é primeira e que
Foi apenas mais tarde, quando da revolução nos é dada como a condição da instalação do Édi-
em sua doutrina, por volta de 1920, que Freud iria po, sem o qual o sujeito não poderia aceder a essa
pôr em primeiro plano a identificação, sem, no en­ problemática. Seu devir, no sujeito, pode nos es­
tanto, conseguir dar-lhe seu verdadeiro estatuto. clarecer. O supereu é inicialmente a primeira iden­
Em todo caso, ela é o ponto ao redor do qual se tificação e ele "conservará durante toda a vida o
ordena a totalidade do texto "Psicologia de Grupo caráter que lhe foi conferido por sua origem no
e a Análise do Ego" (1921), a quem dedica especi­ complexo paterno". Será modificado simplesmen­
almente o capítulo VII, onde Freud descreve suas te pelo complexo de Edipo, não podendo "rene­
três formas. gar sua origem acústica".
A segunda e a terceira são colocadas por Freud A questão que então se apresenta é: existe ou
a partir de exemplos clínicos de sintomas neuróti­ não uma relação entre essa identificação e as ou­
cos. A segunda identificação explica o sintoma tras duas, não se as distinguindo a não ser pela
como uma substituição do sujeito, seja pela pes­ natureza libidinal ou não da relação com o objeto
soa que suscita sua hostilidade, seja por aquela que indutor? Na aplicação que faz disso na constitui­
é objeto de uma tendência erótica. O exemplo, no ção de uma multidão, Freud mantém uma separa­
segundo caso, é o da tosse, justamente a de Dora. ção, pois tendo o mesmo objeto substituído o ide­
Foi a respeito desse segundo tipo de identificação al do eu de cada um dos membros da multidão, a
que Freud insiste em seu caráter parcial (hõchst bes- identificação do terceiro tipo irá então poder se
chrãnkt, extremamente limitado), empregando a manifestar entre cada um deles. Portanto, existe,
expressão einziger Zug (traço unário), que vai ser­ neste caso, sob a mesma denominação, duas mo­
vir de partida, a J. Lacan, para um uso muito mais dalidades que seria conveniente conservar diferen­
103 identificação

tes. Tal posição é confirmada em O ego e o id, quan­ ficar com os objetos escolhidos pelo isso, realizan­
do Freud faz com que as identificações constituti­ do assim um compromisso entre as exigências pul-
vas do eu dependam do ideal do eu. sionais do ideal do eu e confessando dessa forma
No uso que Freud fez das sucessivas identifi­ sua natureza de sintoma. Ao mesmo tempo, isto
cações durante as diversas situações clínicas, essa afirma o caráter fundamentalmente narcisista da
diferença se acentua. O ideal do eu conserva de identificação e a necessidade de encontrar, para o
forma imutável seu caráter originário, mas as ou­ ideal do eu, um estatuto que o distinga de manei­
tras formas de identificação mantêm com o inves­ ra radical.
timento objetai relações problemáticas. A identifi­
cação sucede a um investimento objetai ao qual o
A IDENTIFICAÇÃO EM LACAN
sujeito deve renunciar, sendo, na realidade, essa
renúncia, uma forma de manutenção no inconsci­ É possível notar que o termo "identificação"
ente, que assegura a identificação. É isso que ocor­ foi retomado por Lacan, já no início de sua refle­
re, segundo Freud, no caso da homossexualidade xão teórica, pois a tese concernente à fase do espe­
masculina. lho (1936) leva a concluir pela assunção da ima­
Porém alhures, em "Luto e Melancolia", Freud gem especular, concebida como fundadora da ins­
apresenta a identificação como o estágio prelimi­ tância do eu, a qual, portanto, considera assegura­
nar da escolha objetai. Seria assim na melancolia, do seu estatuto definitivo na ordem imaginária. Tal
onde Freud atribui, ao que chama de "conflito identificação narcisista será o ponto de partida das
ambivalencial", um papel mais essencial do que séries identificatórias com as quais o eu irá ser cons­
ao fenômeno identificatório, como mais tarde, tam­ tituído, sendo sua função a de uma "normalização
bém na paranóia de perseguição, na qual a trans­ libidinal". A imagem especular, enfim, irá formar,
formação paranóica do amor em ódio é justificada no sujeito, o limiar do mundo visível.
pelo "deslocamento reativo do investimento", a Foi só muito mais tarde que Lacan iria intro­
partir de uma ambivalência de fundo. Porém, tra­ duzir a distinção essencial entre eu ideal e ideal
ta-se aqui, para Freud, de excluir a passagem di­ do eu, necessária para uma leitura coerente de
reta do amor ao ódio, isto é, de manter a validade Freud, pois a proximidade das duas expressões
da hipótese que havia recém-acabado de formu­ mascara, com demasiada facilidade, sua natureza
lar, ao opor aos instintos sexuais o instinto de mor­ fundamentalmente diferente, imaginária na pri­
te. Entretanto, o ponto que interessa aqui é a espé­ meira, simbólica na segunda.
cie de reversibilidade, de concomitância no caso, Porém, foi com o seminário consagrado intei­
que parece se destacar da leitura de Freud entre a ramente a ela (1961-62) que Lacan tentou avaliar
identificação e o investimento de objeto. as consequências mais radicais das posições de
Com certeza Freud repete, de forma insisten­ Freud.
te, com insistência, que é preciso manter a diferen­ A identificação é nele considerada como "iden­
ça: a identificação é aquilo que se desejaria ser, o tificação de significante", o que, com sua oposição
objeto, aquilo que se gostaria de ter. Evidentemen­ à identificação narcisista, permite situá-la de for­
te, o fato de instituir duas noções distintas não ex­ ma provisória. A verdadeira questão, logo apresen­
clui, a priori, que se possa fazer valer relações en­ tada, é dizer como se deveria entender cada um
tre elas, passagens de uma para a outra. Resta ape­ dos dois termos, identificação e significante, e, à
nas uma dificuldade, quanto à noção de identifi­ medida que iremos lidar com algo de fundamen­
cação. O próprio Freud renunciou, de modo explí­ tal quanto ao ordenamento correto da experiência,
cito, a "elaborá-la metapsicologicamente", embo­ não haverá ocasião para se admirar que o traba­
ra conservando nela uma função importante. O que lho, neste caso, seja de aspecto "logicizante". Na
parecia bem assegurada era a diferença radical língua, o significante é um cruzamento entre a pa­
entre a primeira identificação, originada do com­ lavra e a linguagem, cruzamento que Lacan cha­
plexo paterno, e as demais, cuja função principal mou de "alíngua" ("lalangue"). O significante co-
parece ser de resolvê-la, fixando-a a uma tensão nota a diferença em estado puro; a letra, que o
relacionai com um objeto. E exatamente isso que manifesta na escrita, distingue-o radicalmente do
se destaca de todo esse arcabouço identificatório, signo.
pelo qual o eu se constitui e vai definir seu caráter. Antes de mais nada, convém lembrar — sem
Pode-se admitir que nisso está esboçado aquilo que o que seria impossível ou insustentável a elabora­
vai servir de ponto de partida para Lacan. Uma ção de Lacan — que o sujeito se acha "profunda­
das teses de O ego e o id é a de que o eu se constrói mente remanejado pelos efeitos de retroação do sig­
tirando do isso a energia necessária para se identi­ nificante, implicados na palavra".
imaginário 104

É preciso, conforme o propõe Lacan, partir do A FASE DO ESPELHO


ideal do eu, considerado como ponto concreto de
Para compreender o imaginário, é preciso par­
identificação do sujeito ao significante radical. O
tir da fase do espelho*. Ela é uma das fases da cons­
sujeito, porque fala, progride na cadeia dos enun­
tituição do ser humano, situada entre os 6 e os 18
ciados que definem a margem de liberdade que
meses, período caracterizado pela imaturidade do
será deixada para sua enunciação, a qual elide al­
sistema nervoso. A criança antes disso se vê como
guma coisa que ele não pode saber, o nome daqui­
fragmentada, não fazendo nenhuma diferença en­
lo que ele é, como sujeito da enunciação. O signifi­
tre o que é ela e o que é o corpo de sua mãe, entre
cante assim elidido é mais bem exemplificado pelo
ela e o mundo exterior. Carregada por sua mãe,
"traço unário", e essa elisão é constituinte para o
irá reconhecer sua imagem no espelho, antecipan­
sujeito. "Ou seja, se o sujeito jamais conseguir che­
do imaginariamente a forma total de seu corpo.
gar ao que é seu alvo, desde o tempo de Parmêni-
Mas é como um outro, o outro do espelho, em sua
dcs, ele chega à identificação, à afirmação de que
estrutura invertida, que a criança se vê e se obser­
é o mesmo pensar e ser, e, neste momento, ele se
va pela primeira vez; assim, instaura-se o. desco­
encontrará irremediavelmente dividido entre seu
nhecimento de todo ser humano quanto à verda­
desejo e seu ideal".
de de seu ser e sua profunda alienação da imagem
Assim, está constituída uma primeira morfo-
que irá fazer de si mesmo. Este é o advento do nar-
logia subjetiva, que Lacan simboliza com o auxílio
cisismo primário. Narcisismo no sentido pleno do
da imagem do toro, o sujeito, representado por um
mito, pois indica a morte, morte ligada à incapaci­
significante, encontrando-se, então, em posição de
dade vital do momento em que surgiu.
exterioridade em relação ao seu Outro, onde estão
Pode-se observar esse momento de reconheci­
reunidos todos os outros significantes. Irá então
mento da imagem de seu corpo pela expressão de
poder inaugurar, sob o efeito do automatismo de
júbilo da criança, que se volta para sua mãe, pe­
repetição, a dialética das demandas do sujeito e do
dindo-lhe que autentifique sua descoberta. E por­
Outro, incluindo a entrada em jogo do objeto do
que a criança é carregada por uma mãe, cujo olhar
desejo.
a olha, uma mãe que a nomeia — "sim, és tu, Pe­
dro, Pierre, Paul ou Jacques, meu filho" — , que a
im a g in á rio , s.m. (alem.: [das] Imagimre; fr.: ima-
criança é incluída na família, na sociedade, no re­
ginaire; ing.: imaginary). Categoria do conjunto ter­
gistro simbólico. A mãe a instaura em sua identi­
minológico elaborado por J. Lacan, real, simbólico
dade particular, ela lhe dá um lugar, a partir do
e imaginário, constituindo o registro do engodo e
qual o mundo poderá ser organizado, um mundo
da identificação.
onde o imaginário pode incluir o real e, ao mesmo
O conjunto terminológico e conceituai "real,
tempo, formá-lo. Assim, pode-se compreender a
simbólico e imaginário" foi objeto de um seminá­
fase do espelho como a regra de partilha entre o
rio de Lacan, em 1974-75, intitulado R. S. I. O ima­
imaginário, a partir da imagem formadora, mas
ginário só pode ser pensado em suas relações com
alienante, e o simbólico, a partir da nominação da
o real e o simbólico. Lacan os representa por três
criança, pois o sujeito não poderia ser identificado
círculos de barbante ligados por um nó borromeu,
por nada mais do que um significante, que reme­
isto é, de maneira tal que, quando um dos círculos
te, na cadeia significante, sempre a um outro sig­
é desfeito, os outros dois também se desfazem,
nificante.
(materna).
Lacan fala do "registro imaginário", do "re­
gistro simbólico" e do real. Esses dois registros são A S IDENTIFICAÇÕES NO TRATAMENTO
instrumentos de trabalho indispensáveis a um ana­
No tratamento, há todo um trabalho, que é fei­
lista para se orientar na direção do tratamento, sen­
to em tomo das identificações. Apesar de suas de­
do o real considerado como da ordem do impossí­
fesas e restrições narcisistas, o paciente terá de re­
vel. O imaginário deve ser entendido a partir da
conhecer que fala de um ser que jamais foi senão
imagem. Esse é o registro do engodo, da identifi­
obra sua no imaginário: discurso imaginário do
cação. Na relação intersubjetiva, é sempre introdu­
paciente, que parece falar em vão de alguém que
zida alguma coisa fictícia, que é a projeção imagi­
se assemelha tanto a ele a ponto de se confundi­
nária de um sobre a tela simples em que o outro se
rem, mas que não se unirá jamais à assunção de
transforma. E esse o registro do eu, com aquilo que
seu desejo.
comporta de desconhecimento, de alienação, de
É porque o psicanalista não responde a esse
amor e de agressividade, na relação dual.
discurso e, ao não destacar com suas intervenções
105 tmago

aquilo que é do registro imaginário, ao não se en­ Há, nisto, um encontro, uma coincidência en­
gajar com o paciente em seu equívoco, que lhe per­ tre o objeto e a imagem exata de seu desejo.
mite observar a hiância, a discordância primordi­
al entre o eu e o ser, sua ex-centração, enquanto im ag o , s.f. (alem.: Imago; fr.: imago; ing.: imagó).
sujeito, em relação ao eu; e, para tentar dizê-lo sim­ Termo introduzido por C. G. Jung (1911) para de­
plesmente, passando do registro imaginário ao re­ signar uma representação tal como o pai (imago
gistro simbólico, isto é, com um trabalho sobre o paterna) ou a mãe (imago materna), que se fixa no
significante, permite que advenha o sujeito, en­ inconsciente do sujeito e ulteriormente orienta sua
quanto sujeito desejante. conduta e seu modo de apreensão do outro.
O registro imaginário também é uma referên­ A imago é elaborada em uma relação intersub-
cia do ponto de vista teórico. Por exemplo, a pro­ jetiva, podendo ser deformada em relação à reali­
pósito da palavra pai, importa esclarecer se está-se dade. Assim, a imago de um pai forte pode ser
falando do pai real, do pai imaginário ou do pai substituída por um pai na realidade inconsistente.
simbólico.
O pai imaginário é a imagem paterna, nasci­ in c e s to , s.m. (alem.: Inzcst; fr.: inceste; ing.: incest).
da do discurso da mãe, da imagem que lhe é dada Relações sexuais entre parentes próximos ou afins,
dele e da maneira completamente subjetiva, cujo cujo casamento é proibido pela lei; por exemplo
conjunto de elementos é percebido, (pai real, pai pai e filha, mãe e filho, irmão e irmã, tio e sobri­
imaginário, pai simbólico). nha, tia e sobrinho.
Em muitas sociedades, são consideradas inces­
tuosas relações entre grupos maiores de parentes
A DENEGAÇÃO
do que os membros da família nuclear (pai, mãe,
Uma das manifestações do que implica de des­ filho e filha). Porém, isto apenas confirma a uni­
conhecimento o registro imaginário é bem aquilo versalidade e a força da própria proibição. A proi­
que S. Freud chamou de Verneiuung, isto é, a de- bição do incesto, lei universal que regula em to­
negação: "Não irás acreditar que se trata de mi­ das as sociedades as trocas matrimoniais, é o prin­
nha mãe", disse o paciente explicando seu sonho cípio fundador do complexo de Edipo.
a Freud, que, de ponto, concluiu: "Esta é sua mãe". Segundo S. Freud, o incesto é sempre deseja­
O paciente não pode deixar falar o sujeito, su­ do inconscientemente. Sua proibição impede ao ser
jeito do inconsciente, a não ser sob a forma de ne­ humano duas tendências fundamentais: matar o
gação, (denegação). pai e desposar a mãe. Nas sociedades modernas e
Encontra-se a mesma dificuldade no que se de tipo ocidental, seu campo de aplicação se res­
refere ao desejo. O homem não tem acesso direto tringe psicanaliticamente ao triângulo pai-mãe-fi-
ao seu próprio desejo. E sempre "mediatizado" lho, e sua função é interiorizada. Freud introdu­
pelo registro imaginário que ele pode ter do dese­ ziu, em Totem e tabu (1912-13), o mito original do
jo alguma intuição; de fato, o desejo do homem é assassinato do pai da horda primitiva, seguido pela
o desejo do outro. Santo Agostinho descreveu o ci­ expiação dos filhos, para explicar a interiorização
úme violento (invidia) que uma criança sente ao de tal proibição, que assinala os primórdios da cul­
olhar seu irmão-de-leite mamando: é na plenitude tura e da humanidade como tal.
do outro, que ele imagina, a criança ao seio, que Esta concepção é contestada por C. Lévi-
lhe é possível observar seu desejo, mas não pode Strauss (Le totémisme aujourd'hui, 1961), cujos tra­
dizer nada sobre ele. balhos permitem resgatar, de um ponto de vista
O registro imaginário é o registro dos senti­ estrutural, a divagem do par natureza-cultura, com
mentos, que se poderia escrever "senti-mente", sen­ a qual se articula a proibição do incesto. Essa não
do sua característica a ambivalência. depende sempre dos graus reais de parentesco, mas
Ama-se com seu eu, palácio das miragens. O da relação social que atribui a certos indivíduos a
objeto está irremediavelmente perdido, o objeto categoria de pai, mãe, irmão, irmã, etc. A proibi­
substitutivo, portanto, só poderá ser intercambiá- ção do incesto também é uma regra que tem sua
vel, mas também se pode, ao contrário, evocar a origem na natureza, por seu caráter de universali­
história trágica de Werther: Werther que, ao ver dade, mas que se funda na cultura, na qual é es­
uma moça dando de mamar aos seus filhos, apai- truturada pela linguagem. J. Lacan retoma essa úl­
xona-se perdidamente, apaixonado até a morte. tima tese, esclarecendo que a criança só pode ser
inconsciente 106

acesso ao simbólico com o concurso da lei editada tora. É entre esses dois pólos que se constitui a fun­
pelo pai, aquela que significa o interdito do inces­ ção de memória do aparelho, sob a forma de tra­
to. ços mnésicos deixados pela percepção. Não é ape­
nas o conteúdo das percepções que é conservado,
in c o n s c ie n te , s.m. (alem.: [das] Unbeivuflte; fr.: mas sua associação, por exemplo, conforme a si-
inconscient; ing.: unconscious). Conteúdo ausente, multaneidade, a semelhança, etc. A mesma excita­
em um dado momento, da consciência, que está ção encontra-se, portanto, fixada de forma diferente
no centro da teoria psicanalítica. nas diversas camadas da memória. Como uma re­
De acordo com a primeira tópica do aparelho lação de exclusão liga as funções da memória e da
psíquico, S. Freud chama de inconsciente a instân­ percepção, é preciso admitir que nossas lembran­
cia constituída de elementos recalcados, que se re­ ças tornam-se logo inconscientes.
cusam a chegar à instância pré-consciente-consci- O estudo dos sintomas histéricos, bem como
ente. Tais elementos são representantes pulsionais o da formação dos sonhos, exige que se suponham
que obedecem aos mecanismos do processo primá­ duas instâncias psíquicas, das quais uma submete
rio. à critica a atividade da outra e eventualmente pro-
Na segunda tópica, o termo inconsciente quali­ íbe-lhe o acesso à consciência. O sistema encarre­
fica a instância do isso e aplica-se em parte às do gado da crítica, tela entre a instância criticada e a
eu e do supereu. consciência, está situado na extremidade motora e
Para a psicanálise contemporânea, o inconsci­ se chama pré-consciente, enquanto que o nome in­
ente é o lugar de um saber constituído por um consciente se refere ao sistema colocado mais atrás
material literal, desprovido em si mesmo de signi­ e que só podería aceder à- consciência passando
ficação, que organiza o gozo e regula o fantasma, pelo pré-consciente. Assim, um ato psíquico passa
a percepção, bem como uma grande parte da eco­ por duas fases, a primeira delas inconsciente, e, se
nomia orgânica. Esse saber tem por causa o fato for afastado pela censura, será recalcado, devendo
de que a relação sexual não pode ser compreendi­ permanecer inconsciente.
da como uma relação natural, pois só existe ho­ Deve-se observar que só podem ser chamadas
mem e mulher por meio da linguagem. de "inconscientes" as representações. Uma pulsão,
que nunca é objeto de consciência, só poderá ser
"representada", nos sistemas inconsciente e pré-
O INCONSCIENTE NA PRIMEIRA TÓPICA
consciente, por uma representação, isto é, por um
O problema do inconsciente é "menos um pro­ investimento fundado em traços mnésicos. Os pró­
blema psicológico do que o problema da própria prios afetos são deslocados, ligados a outras repre­
psicologia", disse Freud, em A interpretação de so­ sentações, mas não recalcados.
nhos (1900), pois a experiência demonstra que "os Uma representação do sistema inconsciente
processos de pensamento mais complicados e mais não é inerte, mas investida de energia. Ela pode
perfeitos podem se desenvolver sem excitar a cons­ então ser chamada de "desinvestida" pelo sistema
ciência. A partir deste ponto de vista, são os fenô­ pré-consciente, implicando que a passagem de uma
menos psíquicos conscientes que constituem a me­ representação de um para outro sistema se faz se­
nor parte da vida psíquica, sem, no entanto, serem gundo uma mudança de estado da energia de in­
independentes do inconsciente". vestimento pulsional: livre ou móvel, ou seja, com
O termo "inconsciente" havia sido utilizado tendência à descarga pela via mais rápida no in­
antes de Freud para designar de forma global o consciente, ligada, controlada em seu movimento
não-consciente. Freud afasta-se da psicologia an­ de descarga no pré-consciente. Tal distinção do es­
terior, por uma apresentação metapsicológica, isto tado de energia corresponde à dos processos pri­
é, por uma descrição dos processos psíquicos em mários e secundários. Além disso, é preciso admi­
suas relações dinâmicas, tópicas e econômicas. Este tir a existência de um contra-investimento, pelo
é o ponto de vista tópico, que permite localizar o qual o pré-consciente se protege do impulso das
inconsciente. Uma tópica psíquica não tem nada a representações inconscientes e instala o recalcamen-
ver com a anatomia, refere-se a locais do aparelho to originário, recalcamento durante o qual o repre­
psíquico. Este é "como um instrumento" compos­ sentante psíquico da pulsão é visto, de início, re­
to de sistemas, ou instâncias, interdependentes. O cusando o encargo pelo pré-consciente, ao qual a
aparelho psíquico é concebido sobre o modelo de pulsão permanece presa de forma inalterada. O
um aparelho reflexo, do qual uma extremidade recalcamento originário é então uma força atrati­
percebe os estímulos internos ou externos, encon­ va das representações pré-conscientes.
trando sua resolução na outra extremidade, a mo­
107 inconsciente

Somente pelo estudo dos derivados do siste­ clarecida pela distinção entre o semelhante, o ou­
ma inconsciente é que temos acesso a suas pro­ tro, com o qual o sujeito se identifica no diálogo, e
priedades. De fato, não há recalcamento sem o re­ o Outro, lugar de onde se apresenta a questão de
tomo do recalcado: formações do inconsciente, sin­ sua existência, com referência a seu sexo e sua con­
toma. O núcleo do inconsciente é constituído por tingência no ser, enlaçada aos símbolos da procri-
representantes da pulsão que querem descarregar ação e da morte.
seu investimento, portanto, por "moções de dese­ Essa questão evidencia a determinação da lei
jo". Os desejos inconscientes são independentes e simbólica que funda a aliança e a parentela, lei que
subsistem lado a lado, sem vínculo sintático: os Freud reconhecera como motivação central no in­
pensamentos do sonho não podem figurar as arti­ consciente, sob o nome de complexo de Édipo. Esta
culações lógicas. O sonho, por outro lado, "é su­ lei é idêntica à ordem da linguagem, pois é pelas
perior em reunir os contrários e em representá-los das nominações da parentela e das proibições que
em um único objeto. Dessa forma, é difícil saber o fio das linhagens é ligado. O sujeito também se
se um elemento do sonho [...] apresenta um con­ constitui no lugar do Outro, na dependência da­
teúdo positivo ou negativo, no pensamento do so­ quilo que se articula como discurso, tomado em
nho". uma cadeia simbólica na qual é representado como
De origem infantil, os desejos inconscientes um peão: o inconsciente é o discurso do Outro.
estão sempre ativos, por assim dizer imortais. Os
processos inconscientes são atemporais, "nem mo­
dificados, nem ordenados de acordo com o tem­ O INCONSCIENTE Ê ESTRUTURADO COMO
po". São "primários", isto é, obedecem ao princí­ UMA LINGUAGEM
pio de prazer; portanto, as representações incons­ O discurso do Outro é uma cadeia de elemen­
cientes são submetidas às leis do deslocamento e tos discretos, que subsistem em uma alteridade, em
da condensação, particularmente sensíveis, no tra­ relação ao sujeito, tão radical como a "dos hieró­
balho do sonho: a condensação permite acumular
glifos ainda indecifráveis, na solidão do deserto"
em um único elemento representativo uma seqüên-
( Escritos, 1966). Essa cadeia insiste em interferir nos
cia de pensamentos, processo que também atinge
cortes oferecidos pelo discurso efetivo e faz sinto­
as palavras, tratadas seguidamente como coisas,
ma. A insistência da cadeia, figura da repetição
por homofonia e assonância, enquanto que o des­
freudiana, mostra que a natureza da memória sim­
locamento indica uma centração dos pensamentos
bólica é comparável à de uma máquina de pensar;
do sonho em um elemento aparentemente de me­
porém, o que insiste aqui demanda ser reconheci­
nor importância.
do. Há uma dimensão na própria raiz da lingua­
A questão do automatismo de repetição, que
gem, que aponta para um além do princípio de
governa o aparelho psíquico, além do princípio do
prazer.
prazer, bem como as dificuldades que surgem ao
Foi se apoiando nos progressos da lingüística
redor da noção de "Ich" (eu e/ou sujeito), parte
de F. de Saussure e de R. Jakobson que Lacan mos­
consciente, parte inconsciente, levaram Freud a
tra que se podem encontrar, nas leis que regem o
abandonar essa primeira tópica. O termo "incons­
ciente" toma-se um atributo eventual das novas inconsciente, os efeitos essenciais descobertos no
instâncias do isso, do eu e do supereu. O inconsci­ nível da cadeia do discurso efetivo: o Inconsciente
ente foi reinterrogado por J. Lacan, a título de con­ é estruturado como uma linguagem, o que não sig­
ceito fundamental da psicanálise, que a psicanáli­ nifica que o seja como uma língua.
se pós-freudiana tentava apagar. Sabe-se que as contribuições essenciais da lin­
güística estrutural se devem à distinção entre sig-
nificante e significado, com o significante consti­
O INCONSCIENTE E O DISCURSO DO OUTRO tuindo uma rede para a estrutura sincrônica do
Para Lacan, a rotina da análise pós-freudiana material da linguagem, enquanto cada elemento
deve-se ao esquecimento de que experiência ana­ assume nela sua função (Lacan disse "seu empre­
lítica é aquela na qual o sujeito é confrontado com go"), por ser diferente dos outros.
a verdade de seu destino, ligado à onipresença dos A psicanálise todavia permite afirmar a posi­
discursos, através dos quais ele é constituído e si­ ção primordial do significante em relação ao sig­
tuado. Pelo fato de que não há verdade e signifi­ nificado, sendo as duas ordens separadas por uma
cação fora do campo da palavra e da linguagem, é barra, que resiste à significação; é preciso abando­
preciso reconhecer, além da relação inter-humana, nar a ilusão de que o significante representa o sig­
a heteronímia da ordem simbólica. Se toda pala­ nificado; assim, os significantes "hom em " e "m u­
vra tem um endereço, a descoberta freudiana é es­ lher" não remetem aos conceitos de homem e de
incorporação 108

mulher, mas à diferença dos lugares atribuídos a símbolo. Todavia, sua materialidade incita o sujei­
um e a outro, pela lei simbólica, isto é, fálica: e por­ to a considerá-la como signo do objeto perdido, ou
que "os motivos do inconsciente se limitam ao de­ até mesmo como o próprio objeto.
sejo sexual". Desse modo, as palavras são tratadas como
Contudo, a estrutura da linguagem não se li­ coisas, isto é, valendo por sua textura e suas cone­
mita à da horizontalidade sintática e da articula­ xões literais, à maneira da poesia. Elas se prestam
ção sintagmática: a espessura vertical da dimen­ à disjunção e à cesura, conforme o jogo da "alín-
são dos tropos — as figuras essenciais da metáfo­ gua", onde o sujeito do inconsciente consegue se
ra, uma palavra pela outra, e da metonímia, cone­ fazer escutar e o sintoma, se escrever.
xão de uma palavra com a outra — permite, por Assim, os elementos da cadeia inconsciente,
permutação e elisão dos significantes, criar efeitos letra ou seqüência significante, sem significação
de significação. Ora, metáfora e metonímia são as­ nem cesura em si mesmos, assumem o valor da­
similáveis ao deslocamento e à condensação: o sin­ quilo que eles podem fazer irrupção na língua fa­
toma é uma metáfora e o desejo, uma metonímia. lada, enquanto signos de um desejo interdito, pela
via preferencial da letra.

O SUJEITO DO INCONSCIENTE
T o p o l o g ia
As produções do inconsciente são testemunhas
de que o "isso pensa", no nível do inconsciente. É É preciso desprender-se da representação do
preciso distinguir o sujeito do enunciado, o sujei­ inconsciente como sendo um dentro oposto a um
to gramatical ligado à prestância, que raciocina, fora. O inconsciente é caracterizado por uma es­
mas não pensa, e o sujeito da enunciação. Se as pro­ trutura topológica de borda: a hiância do incons­
duções do inconsciente se caracterizam pelo modo ciente, em seu movimento de abertura e fechamen­
de obstáculo, assim como de achado, sob o qual to, é de uma estrutura isomorfa à das pulsões, que
surgem, é preciso admitir que o inconsciente pos­ se apoiam eletivamente nas zonas do corpo que
sui uma estrutura de descontinuidade, de fenda comportam uma borda. Essa topologia pode ser
que é fechada logo que aparece, estrutura de pul­ relacionada com a da fita de Mõbius: o surgimen­
sação temporal na qual o sujeito da enunciação se to das formações do inconsciente, no discurso efe­
entrevê, no espaço de um instante: o do fracasso tivo, não precisa de nenhuma ultrapassagem da
do objeto de prazer, que sempre foge. borda, mas está em continuidade, como o avesso e
O sujeito do inconsciente, todavia, é funda­ o direito de uma fita de Mõbius: o corte, operado
mentalmente sem voz. A estrutura diferencial do pela interpretação, faz surgir o inconsciente, como
significante implica que o sujeito seja representa­ o avesso da fita.
do por um significante mestre para um outro sig­
nificante, o qual tem como efeito o desaparecimen­ in c o rp o ra ç ã o , s.f. (alem.: Einvcrleibung; fr.: incor-
to do sujeito. Assim, o sujeito é petrificado, redu­ poration; ing.: incorporation). Modo de relação com
zido a não ser nada mais do que um significante, o objeto que tende a fazê-lo penetrar, permanecer
pelo mesmo movimento em que é chamado a fa­ em si, pelo menos fantasmaticamente.
lar. Só poderá dar a entender alguma coisa no re­ É preciso primeiramente relacionar a incorpo­
tom o do recalcado: dessa forma, se explica que o ração com aquilo que Freud descreveu como satis­
•sonho seja um rébus, isto é, uma expressão picto- fação oral. Todavia, ela não se limita ao prazer da
gráfica, sem alfabeto constituído, cujos elementos sucção, tendendo antes à absorção total do objeto.
são equívocos e variáveis, excetuando-se a simbo- Como ela não poderia ocorrer sem destruição, a
logia sexual; os pensamentos do sonho, não arbi­ incorporação está ligada a fantasias sádicas de ani­
trários, não podem ser concluídos em um sentido quilamento. Em todo caso, é isso que desenvolvem
definitivo, porque escapa sua causa, o ponto um­ K. Abraham e M. Klein.
bilical: aquilo que Lacan chama de real. A incorporação não é uma atividade puramen­
te oral; a respiração, a visão e a audição podem
funcionar sobre este modelo. Por outro lado, sem
A LETRA
dúvida a incorporação é um modelo corporal da
A unidade funcional na organização do in­ introjeção, um processo completamente essencial
consciente não é o fonema — inexiste voz no in­ para a própria constituição do eu, enquanto este
consciente — mas a letra, que, por sua natureza se forma, ao se distinguir do exterior e ao fazer
localizável e diferencial, oferece-se como puro sím­ penetrar em si aquilo que é bom.
bolo. Isto é, ela comemora a morte do objeto pelo - ) introjeção.
109 inibição

in ib iç ã o , s.f. (alem.: Hemmung; fr.: inhibition; ing.: O isso, o eu, o supereu, a censura, etc. são ins­
inhibition). Limitação funcional do eu, que pode ter tâncias diferentes.
origens muito diversas. Se os primeiros textos de S. Freud propõem,
A psicanálise não trata apenas dos sintomas sobretudo, uma tentativa de descrição de diversos
"positivos", no sentido de processos patológicos sistemas psíquicos separados (inconsciente, percep-
que se enxertam em um funcionamento normal ção-consciência), e uma tentativa de marcar sua si­
(obsessões, por exemplo). Ela traz à luz perturba­ tuação "tópica", o termo "instância" enfatiza não
ções funcionais que se definem, de forma negati­ mais o ponto de vista tópico, mas o dinâmico. Es­
va, pelo fato de não poder ocorrer uma atividade. sas instâncias, por exemplo o supereu, exercem
Essas perturbações funcionais, expressão de uma uma ação efetiva, sendo determinante, para o su­
limitação do eu, constituem aquilo que se chama jeito, o conflito entre as instâncias psíquicas.
de "inibições".
O termo inibição algumas vezes adquire um in s t in t o , s.m. (alem.: Instinkt; fr.: instinct; ing.:
sentido mais amplo. Assim, S. Freud lembra que instinct). No mundo animal, esquema de compor­
se pode dar o nome de inibição à limitação normal tamento característico de uma espécie, que varia
de uma função. Por outro lado, o próprio sintoma muito pouco de um indivíduo para outro, trans­
pode ter o valor de inibição, como no caso da pa­ mitido geneticamente e parecendo atender a uma
ralisia motora, que, em certos casos de histeria, finalidade.
impede a locomoção. Porém, sem dúvida é prefe­ Se, algumas vezes, S. Freud utiliza o termo ale­
rível reservar o uso desse termo aos fenômenos que mão Instinkt para designar "esquemas filogenéti-
implicam uma verdadeira renúncia a uma função, cos hereditários", utiliza o termo Trieb, para aqui­
renúncia da qual seria sede o eu, da qual seria um lo que se refere aos processos que tendem à con­
bom exemplo a inibição do trabalho. É nesta pers­ servação do indivíduo ou da espécie. Ora, esse úl­
pectiva que se pode tentar um descrição mais pre­ timo termo, também traduzido algumas vezes por
cisa: a função que um órgão realiza, a serviço do "instinto", é mais bem traduzido por "pulsão". O
eu, fica inibida quando aumenta sua significação termo "instinto", de fato, poderia fazer com que
sexual. "Quando a escrita, que consiste em fazer se ignorasse o caráter variável da finalidade ou da
correr da pena um líquido sobre uma folha de pa­ contingência do objeto, na sexualidade humana.
pel em branco, adquiriu a significação simbólica Todavia, J. Lacan, que destaca a afinidade de
do coito, ou quando a marcha se tornou um subs­ toda pulsão com a morte, retoma o termo instinto,
tituto do calcorrear sobre o corpo da mãe terra, a no que diz respeito ao "instinto de vida", forma
escrita e a marcha são ambas abandonadas, por­ imortal da libido, que é retirada do ser vivo — e
que elas voltariam a executar o ato sexual proibi­ mortal — quando este é submetido ao ciclo de re­
do". (Freud, Inibições, sintomas e ansiedade, 1926). produção sexuada.
Neste caso, diz Freud, o eu renuncia a determina­
das funções, para não ter de empreender um novo in te r p r e ta ç ã o , s.f. (alem.: Deutung; fr.: interpré-
recalcamento, para não entrar em conflito com o tation; ing.: interpretation). Intervenção do analista,
isso. Outras inibições estão a serviço da autopuni- que procura fazer surgir um novo sentido além do
ção, como no caso em que o eu renuncia a um su­ manifesto, apresentado por um sonho, um ato fa­
cesso profissional, sucesso que um supereu feroz lho, ou até mesmo alguma parte do discurso do
poderá lhe proibir. sujeito.
Não é raro que, em lugar de enfrentar certas A idéia de que os sonhos, os lapsos e os atos
situações ansiogênicas (sair de casa, no caso da falhos, o conjunto das formações do inconsciente
agorafobia, etc.), o sujeito procura evitar aquilo que ou ainda os sintomas possam ser interpretados, de
podería confrontá-lo com sua angústia. Quando as que eles escondem um sentido diferente do mani­
evitações se multiplicam, de forma demasiado evi­ festo, um sentido latente, constitui uma das prin­
dente, quando as inibições tendem a limitar a ati­ cipais contribuições de S. Freud ao conhecimento
vidade de uma forma muito maciça, freqüentemen- do sujeito humano e um dos modos de ação deci­
te, o tratamento psicanalítico parece ser um recur­ sivos do analista, no tratamento.
so indispensável. Nas obras de Freud, encontra-se a interpreta­
ção, desde o início. Todavia, nos primeiros momen­
in s t â n c ia , s.f. (alem.: Instam; fr.: instance; ing.: tos, o trabalho do tratamento consiste principal­
agency). Toda estrutura do aparelho psíquico, em mente em fazer voltar lembranças patogênicas re­
suas diferentes tópicas. calcadas. À medida que se foi fazendo sentir a di­
interpretação 110

ficuldade dessa reconstituição mnésica, e particu­ se, em dar aos seus pacientes interpretações pre­
larmente depois do abandono da hipnose, que maturas, e por isso mesmo malfundamentadas,
Freud passou a se servir e a interpretar o material intervindo em seus pacientes em um momento em
que seus pacientes lhe levavam espontaneamente. que estes ainda não podiam aceitá-las.
Deve-se nele, evidentemente, reconhecer o va­ Os psicanalistas, por seu turno, ao contrário,
lor particular do sonho. Se esse realiza um desejo, tendem cada vez mais a ser prudentes em suas in­
mas, se, ao mesmo tempo, o compromisso com a terpretações. Quando um elemento de um sonho,
censura faz com que o desejo permaneça dissimu­ por exemplo, pode ser sobredeterminado, isto é,
lado, é necessário interpretar o sonho manifesto, remetido a várias cadeias associativas diferentes,
para revelar o sonho latente. Aliás, é preciso ob­ uma interpretação que privilegiasse um sentido e
servar que, se o sujeito tende, ao contar seu sonho, apenas um, já seria bastante problemática. Eviden­
a apagar nele os aspectos absurdos ou incoeren­ temente, este é o modelo mais espontâneo de in­
tes, a dar a ele de imediato um sentido, é ao arre­ terpretação: associar uma significação a tudo aquilo
pio dessa primeira interpretação que deverá ir com que possa vir a se apresentar como formação do
mais frequência a interpretação psicanalítica. inconsciente ou como sintoma. Porém, esse mode­
A interpretação do sonho, todavia, apela para lo espontâneo não leva muito longe. Ele obstaculi-
o sonhador. De fato, na psicanálise, o problema não za, em lugar de facilitar a continuação do discur­
está em constituir uma chave dos sonhos, um di­ so.
cionário universal de símbolos, que permitiría tra­
duzir toda produção onírica. Mesmo que Freud não
C it a ç ã o e e n ig m a
tenha excluído a idéia de que a cultura ou a língua
veiculem símbolos que valham por todos (notada- Mas então, ainda é possível a interpretação?
mente o simbolismo sexual), a prática da interpre­ O recentramento, operado por J. Lacan, da psi­
tação pressupõe que se leve em conta as associa­ canálise no campo da linguagem ("o inconsciente
ções do sujeito. Somente ele é capaz de indicar o é estruturado como uma linguagem"), permite res­
evento ou o pensamento que um elemento do so­ ponder a essa pergunta.
nho lhe poderia lembrar, e será quase impossível A polissemia é o que caracteriza a linguagem
a interpretação, quando não forem produzidas as humana. Uma mesma palavra possui, na maioria
associações necessárias. Estas poderão ser muito das vezes, vários sentidos diferentes. A poesia deve
tênues (às vezes, basta, por exemplo, que o qua­ muito a essa propriedade, fazendo ouvir, em uma
dro onde se passa a ação do sonho manifesto re­ forma muitas vezes condensada, as mais diversas
meta a uma situação anterior, para que esta se ache ressonâncias. A psicanálise vai apenas um pouco
no centro da questão do sonho latente): elas são além. O que é dito por um paciente não vale ape­
sempre indispensáveis. nas por seu sentido, que se articula a partir de pa­
Forjada principalmente em relação com a aná­ lavras organizadas em frases. Ao que o analista
lise dos sonhos, a interpretação é evidentemente presta atenção é à própria sequência acústica, à ca­
aplicada a um material muito maior, inclusive lap­ deia significante (significante), que pode ser divi­
sos, atos falhos, esquecimentos e, via de regra, tudo dida, no inconsciente, de uma forma completamen­
aquilo que traga a marca do inconsciente. Neste te diferente. Para apresentar um exemplo bastante
sentido, mesmo uma frase aparentemente anódi- conhecido, tirado de S. Leclaire, um analisando
na poderá se revelar portadora de um sentido la­ pode sonhar com um "palan"**, isto é, um apare­
tente, se o contexto permitir que seja entendida de lho para levantar. Porém, não seria impossível que,
outra forma. em um nível inconsciente, o significante "palan"
Na psicanálise, algumas vezes censurou-se um evocasse o encanto de um passeio feito a passos
uso sistemático da interpretação, dando ao discur­ lentos***, ou mesmo o horror de um suplício "pal
so e à ação uma significação sexual estereotipada. en"****. Melhor ainda: é frequente que um mesmo
A verdade é que pessoas externas à psicanálise, significante veicule ao mesmo tempo as significa­
referindo-se a um saber superficial, passaram a ções mais contraditórias.
usar interpretações simplistas, do estilo daquela A interpretação, portanto, deve fazer valer, ou
que faz crer que a cada vez que um homem esque­ pelo menos deixar abertos os efeitos de sentido do
ce o guarda-chuva na casa de uma mulher, isso sig­
nifica que está lhe fazendo uma proposta sexual.
** "Palanca", em português. (N. do T.)
Freud já havia criticado, sob o nome de "psicaná­
'•* Pus Icnts, em francês, significando "passos lentos". (N. do
lise selvagem" (wilde Psychoanalyse), a tendência de T.)
certos médicos, pouco conhecedores da psicanáli­ *•** Empalamento, emportuguês. (N. doT.)
111 introjeção

significante. Ela consegue isso, ao ser principal­ ção, portanto, representa um papel essencial na
mente enigma ou citação. identificação.
Citação: o analista lembra, em determinado -» incorporação.
ponto do que o analisando pode dizer, uma outra
palavra que ele pronunciou um pouco antes, um in t r o v e r s io , s.f. (alem.: Introversion; fr.: introver­
fragmento do discurso que tinha desenvolvido, sion; ing.: introversion). Em um sujeito, retirada dos
uma lembrança que faz eco com aquela a que está investimentos libidinais dos objetos do mundo ex­
se referindo. A ênfase é posta, neste caso, não na terior para os de seu mundo interior.
significação de um termo isolado, mas nas corre­ O termo, introduzido por C. Jung, foi retoma­
lações obrigatórias, que fazem com que, em uma do por S. Freud, mas a introversão, neste último,
vida, sejam repetidos os mesmos termos, as mes­ designa mais a retirada da libido para as forma­
mas escolhas, o mesmo destino. ções fantasmáticas.
Enigma: o analista evita que suas intervenções
sejam entendidas como unívocas. Se quiser intro­ in v e ja do p ê n is (alem.: Penisneid; fr.: envie du
duzir o analisando na linguagem do inconsciente, pênis; ing.: penis envy). Elemento constitutivo da
deve fazer valer o caráter polissêmico daquilo que sexualidade feminina, que pode se apresentar de
se diz no tratamento e, em particular, das palavras diversas formas, indo do desejo freqüentemente
mestras que orientam a história do paciente. As­ inconsciente dela própria possuir um pênis, à von­
sim, a interpretação possui efeitos de sentido. Po­ tade de gozar do pênis no coito ou, ainda, por subs­
rém, esse sentido, para o analisando, permanece tituição, ao desejo de ter um filho.
aberto ao questionamento; não se fecha na instala­ A teoria psicanalítica da "inveja do pênis" é
ção de uma imagem de si definitiva e alienante. uma das teorias que mais suscitou críticas. Sem
Aliás, a interpretação nada mais faz do que dúvida, desejou-se ver nela uma apresentação ide­
apresentar ao sujeito novas significações. Sobre as ológica da relação entre os sexos, como se os psi­
significações que o analisando desenvolve, as ane­ canalistas objetivassem demonstrar alguma infe­
dotas que conta, os afetos que exprime, o analista rioridade das mulheres, que estaria manifesta em
pode apor, de alguma forma, o selo do significan­ sua insatisfação, em seu desejo de se apropriar do
te. Assim, tal sujeito pode se perder um pouco na órgão masculino. Todavia, é evidente que, quan­
expressão de sentimentos ambivalentes frente a tal do se relaciona essa questão com aquela, sem dú­
outro: se, ao mesmo tempo, tiver sonhado que vida, mais decisiva, da castração, seria muito re-
aquele de quem está falando o morde, basta que o dutor opor, de um lado, os possuidores do órgão
analista diga "você foi mordido", para validar a viril, e, do outro, os seres desprovidos dele. Se as
expressão de uma paixão que o analisando não mulheres são situadas do lado da reivindicação,
conseguia exprimir completamente, sem por isso os homens deixam muitas vezes perceber, pela os­
negar seu caráter doloroso. tentação de virilidade a grandeza de sua preocu­
pação, que o risco da perda está do lado deles. Ali­
in t r o je ç ã o , s.f. (alem.: Introjektioii; fr.: introjecti- ás, se podem se considerar possuidores daquilo
on; ing.: introjection). Processo que consiste em que tem valor de símbolo, o falo, mais ainda do
transpor para um modo fantasmático os objetos que o pênis, têm-no antes por procuração: por
exteriores e suas qualidades inerentes, nas diver­ exemplo, enquanto recorrem a um pai, um herói,
sas instâncias do aparelho psíquico. ao qual é reconhecida a virilidade e com o qual
O termo introjeção, introduzido por S. Ferenc- podem se identificar. Para tanto, porém, precisa­
zi, é utilizado freqüentemente, em oposição ao ter­ ram renunciar a ser, eles próprios, objetos do de­
mo projeção. sejo materno, a ser falo.
Em M. Klein, introjeção e projeção estão liga­ O que é então a inveja do pênis? Para S. Freud,
das respectivamente aos objetos bons e maus, que ela pode se apresentar sob diversas formas, apa­
podem ser introduzidos ou expulsos. Neste senti­ rentemente estranhas umas das outras e das quais
do, a introjeção parece funcionar de acordo com o apenas a experiência, a prática do tratamento irá
modelo da incorporação, que seria sua matriz cor­ mostrar que estão ligadas, que podem substituir
poral. umas às outras. Freud demonstra, a partir de 1908,
Em uma perspectiva lacaniana, insistir-se-á no a insatisfação da menina, que se julga menos bem
fato de que a introjeção é sempre simbólica ("im ­ dotada do que seu companheiro; mais tarde, em
pressão" de um traço significante, por exemplo), 1917, em "As Transformações do Instinto Exempli­
enquanto que a projeção é imaginária. A introje­ ficadas no Erotismo Anal", indica quais desejos
investimento 112

podem substituir a inveja do pênis: o de ter um in v e s tim e n to , s.m. (alem.: Besetzung; fr.: inves-
filho ou um homem, "enquanto apêndice do pê­ tissement; ing.: cathexis). Mobilização e transforma­
nis". Porém, também relata que, mais de uma vez, ção, pelo aparelho psíquico, da energia pulsional,
as mulheres lhe haviam referido sonhos que tinham tendo por consequência fixar esta última a uma ou
se seguido às suas primeiras relações e que "reve­ várias representações inconscientes.
lavam indiscutivelmente o desejo de guardar para Em seus primeiros trabalhos (em particular
si o pênis que tinham sentido". "Projeto para uma Psicologia Científica", 1895), S.
A teoria da inveja do pênis é, portanto, impor­ Freud concebia o investimento como o deslocamen­
tante para a apreensão, em seu conjunto, da posi­ to (no sentido mecânico do termo) de uma certa
ção feminina, as particularidades que o complexo quantidade de energia, dentro do sistema nervo­
de Édipo apresenta notadamente na mulher. É a so.
partir disso que se poderá resgatar o ressentimen­ Porém, em A interpretação de sonhos (1900), a
to que ela poderá ter de sua mãe, que não a pro­ noção de aparelho psíquico questiona essa descri­
veu de pênis; a depreciação dessa mãe, que tam­ ção: nesta, de fato, a quantidade de energia é dis­
bém é privada dele; e, a seguir, apenas a renúncia tribuída e se transforma dentro das instâncias. A
à atividade masturbatória clitoriana, a assunção de natureza dessa energia de investimento será defi­
uma posição sexual "passiva", na qual o pênis é nida dentro da segunda teoria do aparelho psíqui­
fornecido pelo homem, além do desejo substituti­ co (1920) como sendo uma energia pulsional que
vo de ter um filho. Observamos que a inveja do tem sua origem no isso. O atual emprego do ter­
pênis constitui, para Freud, um empecilho no tra­ mo "investim ento" ultrapassa amplamente sua
tamento, tendo uma mulher a maior dificuldade acepção original: fala-se do investimento de um
para superá-lo, no término de seu percurso analí­ objeto (fantasmático ou real), do próprio corpo, de
tico; mas Freud também mostra o que obstaculiza, uma parte do corpo, etc.
no caso do homem, a saber, sua dificuldade em
aceitar reconhecer e superar em si aquilo que po­ is o la m e n to , s.m. (alem.: Isolierung; fr.: isolation;
dería ser uma atitude de passividade em relação a ing.: isolation). Mecanismo de defesa característico
um outro homem. da neurose obsessiva, que consiste em isolar um
Podería parecer que a abordagem lacaniana da pensamento ou um comportamento, de tal sorte
questão da sexuação* relativiza essa noção de in­ que a experiência vivenciada é despojada de seu
veja do pênis. Com efeito, Lacan destaca a dimen­ afeto ou de suas associações.
são de símbolo do falo*. Demonstra que, se um Ao apresentar, em Inibições, sintomas e ansieda­
homem "não é, sem o ter" (entenda-se que a falha de (1926), as diversas "defesas", com as quais o su­
é para ele do lado do ser), uma mulher "é, sem o jeito se protege contra as representações que não
ter" (o que indica que, não tendo, ela pode, sem pode aceitar, S. Freud fornece uma descrição de um
dúvida, por isso mesmo, ter função de significan- mecanismo típico da neurose obsessiva, que cha­
te do desejo, "ser o falo" para um homem). Em uma ma de "isolamento". Esse procedimento consiste
etapa ulterior, ele destaca que o horizonte de uma em intercalar, após um evento desagradável, ou
mulher é "nem todo" fálico, que as mulheres pos­ ainda após uma "atividade do sujeito dotada de
suem menos necessidade do que os homens de se uma significação para a neurose", uma pausa, "du­
reunir ao redor de um universal fálico, que tam­ rante a qual mais nada podería acontecer, não te-
bém é uma submissão comum à castração. Porém, ria lugar nenhuma percepção, não seria realizada
talvez tudo isso não suprima seu desejo de se apro­ nenhuma ação". Esse procedimento, que possui um
priar do falo; talvez essa elaboração nos leve a si­ efeito comparável ao do recalcamento, é favoreci­
tuá-lo melhor. Lacan não temia, ao falar do erotis­ do pelo processo da concentração, processo "nor­
mo feminino, referir-se a um filme de Oshima, "O mal", pelo menos aparentemente, mas que tende
Império dos Sentidos" (1976), no qual a heroína, a manter afastado tudo aquilo que parece incon­
depois de ter se servido de seu amante para seu gruente ou contraditório.
gozo sexual, depois de ter se rejubilado por ter O isolamento, que Freud compara, assim como
sentido o pênis desse homem se mexer "sozinho" a anulação retroativa, ao pensamento mágico, sem
dentro dela, enquanto ela parcialmente o estran­ dúvida remete a uma fobia do toque. Ele consti­
gulava, acaba por matá-lo e cortar esse pênis com tui, por outro lado, um obstáculo ao tratamento,
o qual erra durante quatro dias pelas ruas. Essa é tanto mais sensível porque entrava o funcionamen­
uma forma extrema do fantasma feminino, mas que to do trabalho associativo: um sujeito pode perfei-
pode se constituir no horizonte inconsciente. tamente negar toda a articulação entre duas idéias
113 isso ou iã

que ele isola uma da outra, porque esta articula­ segunda teoria do aparelho psíquico o levou a re­
ção teria, para ele, uma conseqüência insuportá­ considerar. Em conjunto, os caracteres atribuídos
vel. ao inconsciente, na primeira teoria, são utilizados
por Freud para qualificar o isso. No entanto, pare­
is s o o u id , s.m. (alem.: Es; fr.: ça; ing.: id). Instân­ ce que o inconsciente não é mais abordado então
cia psíquica, na segunda teoria do aparelho psíqui­ como um sistema, mas como uma propriedade do
co enunciada por S. Freud, que é a mais antiga, a isso: "O inconsciente é a única qualidade dominan­
mais importante e a mais inacessível das três. te, dentro do isso", escreveu Freud no Esboço de psi­
O isso está em relação estreita e conflitiva com canálise (1938). Esta qualidade, nessa segunda teo­
as duas outras instâncias, o eu e o supereu, que ria, também é uma propriedade de uma parte do
são suas modificações e diferenciações. eu* ou do supereu*. Assim, o isso não é o inconsci­
Para Freud, o isso é desconhecido e inconsci­ ente, mas tem a propriedade de ser completamen­
ente. Reservatório primeiro da energia psíquica, te inconsciente, enquanto que o eu e o supereu não
representa a arena onde se defrontam pulsões de são na totalidade, mas em grande parte são incons­
vida e de morte. A necessidade imperiosa da sa­ cientes. Porém, mesmo inconscientes como o isso,
tisfação pulsional rege a evolução de seus proces­ o eu e o supereu não possuem, disse Freud, em
sos. Expressão psíquica das pulsões, seus conteú­ Novas conferências, "os mesmos caracteres primiti­
dos inconscientes são de origens diferentes; em vos e irracionais".
parte, trata-se de tendências hereditárias, de de­ Aquilo que provém do recalcamento*, o recal­
terminações inatas, de exigências somáticas e, em cado, que Freud, em sua primeira teoria assimila
parte, de fatos adquiridos, daquilo que provém do ao inconsciente, se este se confundir com o isso, é,
recalcamento. no entanto, apenas uma parte do isso. Esse tam­
A psicanálise facilita a conquista do isso, para bém representa o lugar onde as exigências de or­
Freud núcleo de nosso ser, e, para J. Lacan, o lugar dem somática encontram um primeiro modo de
do ser. expressão psíquica, assim como as tendências he­
reditárias, as determinações constitucionais, o pas­
sado orgânico e filogenético, o que levará Freud a
F r eud e G ro d d eck
falar de um "isso hereditário". E coberta, em par­
Foi em 1923, enquanto trabalhava em sua se­ te, por esta expressão, aquilo que Freud pensava
gunda teoria do aparelho* psíquico, que Freud ser, na primeira teoria, o "núcleo do inconscien­
apresentou, em O ego e o id, o pronome demons­ te", no qual colocava os conteúdos não adquiridos,
trativo (impessoal) isso, que toma de G. Groddeck. filogenéticos.
Concordando com sua maneira de ver nele "o lu­ O isso e o inconsciente estão intimamente re­
gar que lhe cabe na ciência", e interessado pela lacionados e possuem vínculos quase exclusivos
idéia que ele defende, segundo a qual somos ha­ um com o outro. Suas propriedades são similares
bitados por forças desconhecidas e não dominá- e apresentam os mesmos processos. Porém, se "na
veis, que chama de isso, Freud utiliza esse termo, origem de tudo estava o isso", como disse Freud,
embora não concorde com Groddeck, quanto ao em Esboço de psicanálise, um primeiro recalcamen­
que define e representa. Esse empréstimo e essas to também marca um momento primordial da ori­
divergências são destacadas pelo próprio Grodde­ gem das primeiras formações inconscientes, inau­
ck, em especial no livro A doença, a arte e o símbolo, gurais do inconsciente. Sem recalcamento, não há
no qual lembra que Freud reconhece sua invenção inconsciente, como teoriza a primeira teoria do
do termo, mas insiste na diferença fundamental do aparelho psíquico, mas, sem o isso, inconsciente,
emprego do termo pelos dois. Freud, como irá di­ não há psiquismo que constitua seu primeiro fun­
zer na trigésima primeira das Novas conferências do originário".
introdutórias sobre psicanálise (1932), passa a utilizar
esse termo, pois lhe parece o mais apropriado para
O APARELHO PSÍQUICO E AS PULSÕES
expressar o caráter radicalmente diferente, estra­
nho e impessoal da "parte obscura, inacessível de Com o isso, "província psíquica", como disse
nossa personalidade". Freud, sem organização, sem vontade geral, o sis­
tema inconsciente, organizado, "estruturado como
uma linguagem", segundo Lacan, apresenta por­
ISSO E INCONSCIENTE
tanto notáveis diferenças, embora o lugar que ele
Em sua primeira teoria do aparelho psíquico, ocupa na primeira teoria seja quase o mesmo do
Freud propunha fronteiras ao inconsciente*, que a isso na segunda, e que, para um e outro, os pro­
isso ou i i 114

cessos e os conteúdos recobrem-se. Ademais, com U m trabalho de civilização


o isso, é deixada na sombra, pela teorização do in­
consciente, na primeira teoria, toda uma dimen­ O pouco que se sabe sobre o isso, "aprende­
mos pelo estudo do trabalho do sonho e da forma­
são do pulsional, que foi reconhecida por Freud.
ção do sintoma neurótico, e a maior parte daquilo
O levar em conta de um conjunto de conside­
rações clínicas, o incessante choque em obstáculos que conhecemos possui um caráter negativo, não
obscuros, que levam ao fracasso o trabalho no tra­ pode ser descrito senão em oposição ao eu", escre­
veu Freud em Novas conferências introdutórias sobre
tamento, levam Freud àquilo que se apresenta
como uma necessidade especulativa, fazendo-o psicanálise (1933).
retomar, em especial, à teoria do aparelho psíqui­ O eu, que leva ao recalcamento, é um pedaço
do isso "modificado de maneira adequada, pela
co e a refazer a teoria das pulsões*. Com o isso,
Freud delimita e identifica, no psiquismo, um pa­ proximidade do mundo exterior", diz ele ainda.
O eu nada mais faz do que tomar emprestado do
pel até então negligenciado: o das pulsões de des­
isso, reservatório primordial da energia pulsional,
truição e de morte. No isso, que ele representa aber­
sua energia. Em sua parte inconsciente, mistura-
to em seu fundo sobre o orgânico, reinam selvage-
se com o isso, assim como o recalcado. Assim como
mente, de forma obscura, sustenta ele, tais pulsões
que se defrontam com as pulsões de vida. Caos, o eu, o supereu também não está completamente
caldeirão borbulhante, cheio de excitações, são es­ separado do isso. Ele próprio é, em grande parte,
inconsciente, "mergulha no isso", com o qual man­
tas as comparações, as imagens que chegam a
Freud, ao tentar exprimir esse isso habitado por tém relações estreitas e complexas.
potências cegas, não controláveis, que representa Portanto, originalmente, "tudo era isso", sen­
do constituídos por diferenciação progressiva o eu
"a arena" na qual estão em luta as pulsões. Com o
e o supereu.
termo isso, é feita portanto uma referência deter­
E por um verdadeiro artifício que Freud sepa­
minante e incontomável ao pulsional e ao além do
biológico, que Freud colocava na frente. Aliás, não ra essas instâncias em três "províncias". Poder-se-
ia, diz ele, em Novas conferências introdutórias sobre
chega ele a afirmar, em Esboço de psicanálise, que a
energia, a potência do isso, traduzem no psiquis­
psicanálise, em vez disso, "representar por campos
coloridos que se esfumam, como nas pinturas mo­
mo "a verdadeira finalidade da vida orgânica"?
Esse é um ponto de vista "biologizante", um mo­ dernas".
delo vitalista, evolucionista, naturalista, às vezes Retomando essa imagem de Freud, o campo
de cor do isso, para ele, é de longe o mais impor­
próximo de certas formulações de Groddeck, sus­
tante. A partir desse campo, que constitui para
tentado por Freud nessa segunda teoria do apare­
lho psíquico. Nela, acentua e rediscute aquilo que Freud "o núcleo de nosso ser", a psicanálise pode
descobriu, durante a experiência do tratamento, e facilitar e permitir sua conquista progressiva. Esse
que não deixa de se rebelar contra toda tentativa é, para Freud, um trabalho de civilização e de cons­
de apreensão: em nós uma outra coisa que não nós, trução comparável à realização dos pôldercs, a dre­
neutra e impessoal, vinda de nós sem que o saiba­ nagem de zonas de terra, que surgem no lugar do
mar, onde antes disso ele estava. “Wo es war soll ich
mos, que age em nós, que pensa em nós.
Expressões comuns, como "isso me pegou de
zuerden", escreveu Freud, que a última tradução
francesa das Novas conferências traduziu por "Là oii
surpresa", "isso me fez sofrer", ou, ainda, "isso
était du ça doit advenir du moi" (onde isso estava,
m exe", "isso cai", ou o famoso "isso fala" de La-
can, confirmam essa abordagem de Freud. Refle­ deve advir eu). Lacan afirma que o que surge não
é o eu "constituído em seu núcleo por uma série
tindo sobre o que foi enunciado como o isso, La-
de identificações alienantes", mas o je, do "sujeito
can irá afirmar, em seu seminário sobre A Lógica
verdadeiro do inconsciente", que deve vir à luz no
do fantasma, que "o isso é aquilo que, no discurso,
lugar do ser que é isso.
enquanto estrutura lógica [estrutura aqui grama­
tical] é tudo o que não é "je", isto é, todo o resto da
estrutura".
Jones (Ernest). Médico e psicanalista britânico meiras divergências com as teses freudianas, refe­
(Gowerton, Glamorgan, 1879 — Londres, 1958). rentes em particular à natureza da libido, que se
Neurologista, interessou-se muito cedo pelos toma, em Jung, a expressão psíquica de uma "ener­
trabalhos de S. Freud, com o qual se encontrou pela gia vital", não tendo unicamente origem sexual.
primeira vez no congresso de Salzburgo, em 1908. A ruptura com Freud consuma-se em 1913 e
Professor de psiquiatria na Universidade de Toron­ Jung dá ao seu método o nome de "psicologia ana­
to (1910-1913), contribuiu para que a psicanálise lítica". Além do inconsciente individual, Jung in­
se tomasse conhecida na América do Norte. Vol­ troduziu o inconsciente coletivo, noção que apro­
tando à Europa, começou uma psicanálise com S. fundou, em Tipos psicológicos (1920). O inconscien­
Ferenczi, em Budapeste. Depois, instalou-se em te coletivo, que representa o acúmulo das experi­
Londres, onde fundou a Sociedade Psicanalítica de ências milenares da humanidade, exprime-se atra­
Londres. Foi autor de uma importante biografia de vés dos arquétipos: temas privilegiados que são en­
Freud (A vida e a obra de Signumd Freud [1953-1958]). contrados imutáveis, tantos nos sonhos como nos
Permaneceu na ortodoxia freudiana, o que é de­ mitos, contos e cosmogonias. Entre os arquétipos,
monstrado por seus trabalhos em diversas áreas Jung atribui uma importância particular à anima
(arqueologia, arte, lingüística). Sua teoria sobre o (princípio feminino encontrado em todo homem),
desenvolvimento sexual da mulher é discutida. ao animus (princípio masculino encontrado em toda
mulher) e à sombra, imagem onírica, caracteriza­
Jung (Carl Gustav). Psiquiatra suíço (Kesswil, da por um atributo negro, que exprime o inconsci­
Turgovia, 1875 — Küsnacht, perto de Zurique, ente individual. O objetivo da terapia junguiana,
1961). muito menos codificada do que o método freudia­
Ao completar seus estudos de Medicina (1900), no e onde o terapeuta é diretivo, é o de permitir
foi assistente de E. Bleuler em Burghõlzli, clínica que a pessoa reate com suas raízes, que aceda ao
psiquiátrica da Universidade de Zurique. Bleuler si-próprio, isto é, que tome consciência das exigên­
fê-lo conhecer os trabalhos de S. Freud, com o qual cias dos arquétipos, exigências reveladas pelos so­
C. G. Jung estabeleceu estreitas relações, após seu nhos. Ao contrário de Freud, Jung não reconhece
encontro em 1907, em Viena. Participou do primei­ na infância um papel determinante na eclosão dos
ro congresso de psicanálise de Salzburgo (1908) e distúrbios psíquicos da idade adulta, que definiu
acompanhou Freud em sua viagem aos Estados de acordo com uma dialética da pessoa com o mun­
Unidos (1909). Foi o primeiro presidente da Asso­ do exterior. A publicação, em 1944, de Psicologia e
ciação Psicanalítica Internacional, criada logo de­ alquimia, marca o segundo período da vida de Jung,
pois do segundo congresso de psicanálise, em Nu- no qual, abandonando a clínica, interessa-se pela
remberg (1910). Jung foi considerado, na época, etnologia, filosofia das religiões e alquimia. Foi
como o delfim de Freud. A publicação de Meta­ fundada, em 1958, a Sociedade Internacional de
morfoses e símbolos da libido (1912) fez surgir as pri­ Psicologia Analítica, que reúne os praticantes do
método de Jung.
k
K le in (M elanie). Psicanalista britânica de origem S. Freud tinha formulado os princípios, em seu ar­
austríaca (Viena, 1882 — Londres, 1960). tigo "A Negativa" (Die Verneinung, 1925), a teoria
Nasceu, sem ser desejada, em uma família ju­ kleiniana estrutura-se sobre dois conceitos: o dapo-
dia, os Reizes. Sua mãe, brilhante, dedica-se, por sição esquizoparanóide, que combate de forma ilusó­
necessidades familiares, ao comércio de plantas e ria, mas violenta, toda perda, e o da posição depres­
répteis, e seu pai é médico odontólogo. Esse mor­ siva, na qual a perda é realmente comprovada. Es­
reu quando Melanie era adolescente. Em 1903, casa sas duas posições referem-se à perda, ao trabalho
com A. Klein. Utiliza esse sobrenome em toda a de luto e à reparação, consecutivos, de dois obje­
sua obra, embora tenham se divorciado em 1926. tos psíquicos parciais e primordiais, dos quais to­
Antes disso, nasceram-lhes uma filha e dois filhos. dos os demais nada mais são do que substitutos
Um deles, quando pequeno, foi analisado por sua metonímicos: o seio e o pênis. Ambos os objetos par­
mãe, que retirou dessa análise, entre 1919 e 1926, ciais entram em jogo em uma cena imaginária in­
várias conferências e artigos que fizeram seu re­ consciente, chamada por M. Klein de "cena mater­
nome. na".
Desde 1910, morou em Budapeste, onde ini­ Nesse teatro do "eu-nascente", sobre essa ou­
ciou, em 1914, ano do nascimento de um de seus tra cena onde são representadas sua existência e
filhos e da morte de sua mãe, uma análise com S. sua atribuição, tais objetos irão surgir ou voltar às
Ferenczi. Essa análise foi interrompida devido à coxias e a seu depósito de acessórios. Nele, suas
guerra. Ela a recomeça, em 1924, mas em Berlim, representações psíquicas encontram os índices de
com K. Abraham, que morrería no ano seguinte. A realidade, os traços reais e as representações que
análise é concluída em Londres, com S. Payne. Em servem para lhes dar uma identidade familiar e
1927, M. Klein instala-se em Londres, por instân­ perceptível, pois correspondem a outros objetos
cias de E. Jones, criador e organizador da Socieda­ reais, que são os sujeitos parentais. M. Klein for­
de Britânica de Psicanálise. Ali ensina sua teoria e nece, desses travestimentos identifica tórios, elabo­
funda uma escola, o que lhe vale, a partir de 1938, rados pela psique do infans — esse imaginário irá,
conflitos muito violentos com A. Freud. Teorica­ de fato, conhecer sua quintessência entre os três e
mente, esta lhe censura as concepções de objeto, os dez meses — graças aos quais o infans irá se en­
supereu, Edipo e fantasmas originários; para ela, contrar no estranho dos outros, um belo exemplo
a inveja, a gratidão e as posições depressiva e es- literário, em uma obra de M. Ravel, a respeito de
quizoparanóide não são psicanalítidas. Clinicamen­ um texto de Colette (1925): L'enfant et les sortilèges.
te, censura-a por afirmar que é possível uma trans­ Assim, a realidade exterior não é, em sua teoria,
ferência no tratamento da criança, tomando des­ nada mais do que uma Weltanschauung da própria
necessário todo o trabalho com os pais. M. Klein realidade psíquica. Porém, ela permite que uma
recusa tais críticas, acusando sua rival de não ser criança muito pequena se assegure uma certa iden­
freudiana. Em 1946, são criados dois diferentes tidade de percepção e de pensamento entre seus
grupos de formação de psicanalistas e, em 1955, é objetos imaginários e outros mais reais; a seguir,
fundado o Melanie Klein Trust. adquire, progressivamente, juízos de atribuição e
Com notável aprofundamento da formação de existência a seu respeito, a fim de constituir um
dos juízos de atribuição e de existência, dos quais domínio das angústias com as quais é confrontada
117 Klein (Melanie)

pelas pulsões de vida e de morte, pois essas pul- imaginários, somados aos da realidade, para fun­
sões exigem dela, para sua satisfação, objetos reais dar sua identidade, colocam em cena precocemen­
ou substitutos imaginários. A esse respeito, a teo­ te. E, com ele, apresenta-se um supereu feroz e ater­
ria kleiniana desenvolve uma elaboração interes­ rador, que atormenta o sujeito, introduzindo nele
sante. Esses objetos, que são para a criança o seio e seu sentimento inconsciente de culpa. Todavia,
o pênis, bem como seus desdobramentos reais, par­ embora M. Klein não teorize exatamente nesses
ciais ou totais (pais, irmão, irmã, meia-irmã, etc.), termos, sua concepção de eu pressupõe um sujeito
poderia o infans entregá-los, sem discernimento, à diferente dele, com o qual não pode se confundir.
exigência pulsional, mesmo que representem para De fato, à medida que as relações objetais substi­
ele uma fundamental aposta atributiva, existenci­ tuem por objetos imaginários os da realidade ex­
al e identificatória, e mesmo que, pela identifica­ terior, o eu, que comanda as sublimações por ele
ção com eles, poderia ele próprio se entregar às produzidas, poderia ele se tomar uma coisa dife­
pulsões? Não o poderá fazer sem discernimento, rente desses objetos, como eles trabalhado por pro­
mas em que consiste esse discernimento? Adquire cessos de tipo sublimatório, como eles dividido por
a consistência de dois operadores defensivos, aos quais idênticas clivagens, como eles reduzido às mesmas
sucede, quando operam, uma série de processos de classificações e, finalmente, como eles levado à
tipo sublimatório. Os dois operadores são, um de­ destinos similares, pela relação com o isso? A par­
les, de ordem quantitativa e, outro, de ordem qua­ tir de suas elaborações sobre a identificação, M.
litativa. Quantitativamente, o objeto é fradonado, Klein o trata como tal. Mas, desde logo, qual po­
dividido, fragmentado e multiplicado, por uma deria ser a sublimação, senão a de se tomar um
espécie de clivagem (divagem do objeto); qualitati­ sujeito que lhe seja outro, que se divida, para me­
vamente, é uma espécie de mínimo divisor comum lhor poder subverter e não ter de sustentar unica­
que divide tudo o que está clivado em duas úni­ mente o desejo?
cas categorias: a do bom e a do mau. Esses dois ope­ De que modo, na teoria kleiniana, o eu só ad­
radores defensivos, que, portanto, são a multipli­ quire valor com sua perda real, com seu recalca­
cação por clivagem e a divisão pela classificação, a mento radical, para que advenha o sujeito? Atra­
seguir, dão acesso a processos de tipo sublimató­ vés do supereu.
rio: a introjeção para si, a projeção paia fora e a Para M. Klein, esse conceito está longe de ser
identificação com aquilo que é intiojetado ou pro­ apenas a instância coercitiva e moral, incluída nas
jetado, podendo esses processos se combinar, para três instâncias criadas por Freud, em sua segunda
produzir, particularmente, identificações projetivas tópica. Em 1941, para mostrar a Jones as malver­
e introjetivas. Esses processos são sublimatórias, sações teóricas de A. Freud, ela lhe escreve que o
pois mediatizam as relações do sujeito com a pul- supereu é “o ponto máximo" da teoria freudiana:
são, cuja satisfação precisa operar desvios suspen- "Em minha opinião, a psicanálise percorreu um
sivos, desvios esses justamente impostos por estes caminho mais ou menos retilíneo, até essa desco­
processos. Portanto, quando são instalados esses berta decisiva, que nunca mais foi igualada". Esse
circuitos pulsionais complexos, é que são produ­ ponto máximo é, literalmente, o falo da teoria klei­
zidas as sublimações, objetos, pulsões, angústias e niana. A partir de J. Lacan, o falo é o significante
outros afetos, que podem ser conservados, rejeita­ do desejo; toda teoria tem o seu, para adquirir con­
dos, retomados, destruídos, idealizados, reparados, sistência; na teoria freudiana, por exemplo, é a cas­
em suma elaborados, assim mediatizados pela cri­ tração. Resgatá-lo permite saber, a partir do signi­
ança; o que lhe permite abrir-se para juízos de atri­ ficante do desejo que ele conceptualiza, que lei sim­
buição e de existência, bem como para possibili­ boliza sua lógica. Portanto, em M. Klein, a lógica
dades identificatórias, pelas quais, para ela, o ob­ do desejo e sua lei adquirem sentido no supereu.
jeto só adquire valor por sua perda real. Essa per­ A angústia primária não está relacionada com
da também é a que deixa definitivamente cair al­ a castração, mas com um desejo de destruição pri­
guma coisa no inconsciente, o que exprime o con­ mordial, que é o desejo de morte do outro real. Esse
ceito de recalcamento primário. desejo põe em cena um fantasma, onde o sujeito
Sublimações, defesas, apostas atributivas, exis­ destrói o corpo materno, para apropriar-se de seus
tenciais ou identificatórias, controle das pulsões e órgãos e, em particular, do pênis paterno, protótipo
das angústias, recalcamento; são estas as funções de todos os objetos contidos nesse corpo. Não é, pois,
tradicionalmente atribuídas, em psicanálise, ao eu. apenas o órgão que a criança deseja introjetar em
Pois a instância do eu, em ação imediatamente para si, mas também um objeto totêmico, ou objeto an­
essas funções vitais, é, na teoria kleiniana, de saí­ cestral e protetor; mas, como todo o totem, é proi­
da confrontada com um Édipo, que seus objetos bido obter gozo dele ou daquilo que é ordenado
Klein (Melanie) 118

por lei. Sua introjeção traz também consigo o mau: a mãe, que leva embora as fezes do filho, também
o interdito do incesto, a angústia correlativa, cor­ é a mãe que o desmembra e o castra (...). Em ter­
respondente ao desejo de transgredi-lo, a culpa que mos de realidade psíquica, ela já é, também ela, o
o inscreve em uma dimensão moral (ou cultural) e castrador.
a necessidade de punição, que irá constituir o pro­ "Também ela": portanto, o supereu deve ser
cesso reparador. Na teoria kleiniana, o totem de castrador, conforme as imagos materna e paterna.
duas faces, o falo, tem um nome simbólico: o su- Para M. Klein, aliás, o filho unifica primeiramente
pereu, instância arcaica, no sentido etimológico seus dois genitores; só os dissocia para garantir
daquilo que é originário e fundador, daquilo que suas alianças imaginárias, quando se envolve em
comanda e dirige, conduz e sanciona, atribui e re­ conflitos com eles. Conflitos relacionados ao com­
toma: "Coisa que morde, que devora e que corta". plexo edípico precoce. Só será possível uma saída
Por isso, o Edipo é pré-genital; sua vivência pacífica pela identificação somente com o pai. "Por
traumática não pode ser simbolizada pelo infans, mais forte que seja a influência do aspecto mater­
a não ser pelo discurso de um outro; o recalcamento no na formação do supereu, é, entretanto, o supe­
é secundário a ele, só se sustentando pela parte reu patemo que, desde o começo, possui um po­
persecutória do supereu; a relação do pequeno su­ der decisório". Esse retorno ao pai está situado no
jeito com essa instância pode prefigurar as futuras momento em que o visível entra em cena, quando
identificações com um agressor: portanto, é dela o pênis real torna-se objeto do olhar. Essa fase mais
que irão depender os mecanismos identificatóri- narcisista é reparadora, pois nela o pênis passa do
os. interior da cena materna para fora do corpo do
Para despojar a mãe do pênis patemo que ela outro. Assim, esse real estabelece limites ao imagi­
detém em seu seio, a criança precisa atravessar a nário. Que, com freqüência, a mãe seja a fornece­
primeira fase de desenvolvimento, que é uma fase dora, isso faz com que seu filho seja capaz de se
de feminilidade, "de uma importância vital e pouco encontrar; ele então percebe que só pode receber
reconhecida até agora", pois, nela, a criança des­ dela aquilo que lhe faz falta. A partir dessa falta, o
cobre o desejo de possuir um determinado órgão: supereu, aliviado de seu peso, readquire signifi-
o pênis do pai. Privar dele a mãe significa, para o cância totêmica e volta a ser lei do desejo, em lu­
sujeito muito pequeno, impedi-la de produzir seus gar de ser um identificante persecutório. Entre as
dois principais equivalentes simbólicos: o filho e principais obras de M. Klein estão A psicanálise de
as fezes; equivalentes que são, em sua a origem, crianças (1932), Ensaio de psicanálise (1947), Desen­
ao desejo de ter, a inveja, e ao desejo de perder, o volvimentos em psicanálise (1952) e Inveja e gratidão
ódio. "Nesse período precoce do desenvolvimento, (1957).
L a c a n (Ja c q u e s -M a rie ). Médico e psicanalista ilustração clínica das potencialidades do amor,
francês (Paris, 1901 — id., 1981). quando esse é levado ao extremo: a facada dada
Jacques-Marie Lacan nasceu de uma mãe per­ por Aimée na vedete que, a título de ideal, absor­
tencente a uma família muito rica de fabricantes via seu investimento libidinal. Porém, este estudo
de vinagres orleaneses e de um pai que trabalha­ também representa uma ruptura com os trabalhos
va como representante comercial da empresa. Em dos psiquiatras franceses da época, que viam na
1918, o jovem não encontrou entre os que volta­ psicose paranóica um agravamento dos traços que
ram da guerra o pai carinhoso, moderno e cúm­ definiam o caráter paranóico. G. G. de Cléram-
plice, que tanto amava na infância. No entanto, ti­ bault, o único mestre que conseguiu apoiá-lo e em
nha sido uma tia materna quem percebera a pre- relação ao qual Lacan confessará sua dívida por
cocidade do menino, permitindo que estudasse no toda a vida, irá condená-lo, acusando-o de plágio.
colégio Stanislas, em Paris; seu condiscípulo Louis O cenário está montado, e nunca irá mudar: a in­
Leprince-Ringuet relatou seus dotes de então para dependência de um pensamento solidamente ar­
a Matemática. O provinciano foi introduzido na gumentado, em choque com os mestres, a quem
vida mundana da capital, sendo seduzido por ela; ele contraria e dessa forma põe a nu; e também a
essa dissipação não o impediu de associar aos só­ negativa em ceder ao orgulho do solitário. Seus
lidos estudos médicos um interesse eclético, mas estudos sobre a paranóia, de fato, mostram a ele
despido de amadorismo, pelas Letras e pela Filo­ que os traços manifestados ao mundo pelo doen­
sofia (mais os pré-socráticos e Platão, Aristóteles, te, são os seus, por ele próprio ignorados (dir-se-
Descartes, Kant, Hegel [com Kojève] e Marx, do ia projetados); e um texto precoce. De Vassertion de
que Bergson ou Blondel), pela Idade Média (com certitude antiápée (Sobre a asserção de certeza an­
Gilson), pela Antropologia (Mauss), pela História tecipada) ilustra, a respeito de um sofisma, que a
(Marc Bloch e les Annales), pela lingüística (F. de salvação individual não é um negócio privado, mas
Saussure, em seus primórdios) e pelas ciêndas exa­ da inteligência coletiva, ainda que concorrente.
tas (em particular, a Lógica, com B. Russel e Cou- Não há, pois, belas almas, o que seus alunos a se­
turat). Como primeira publicação, tem-se dele um guir não deixarão de lhe censurar, pois não tinha
poema publicado em Le Phare de Neuilly dos anos nada mais a lhes propor do que a honestidade in­
20; obra de fatura clássica, em alexandrinos bem telectual: cada um deve dela deduzir sua moral.
ritmados e de leitura sempre agradável, sem dú­ A descrição fenomenológica exaustiva de um
vida devido à submissão da forma ao fundo. Os caso, sua tese, dirá Lacan, levou-o à psicanálise; o
estudos de psiquiatria misturaram-se com a fre- único meio de determinar as condições subjetivas
qüência aos surrealistas, o que o colocou entre os da prevalência do duplo na constituição do eu. A
dois meios. Mais tarde, irá dizer que a apologia passagem por Paris, em 1933, dos psicanalistas
do amor pareceu a ele um impasse irredutível do berlinenses a caminho dos Estados Unidos, deu-
movimento de A. Breton. lhe a ocasião de dirigir-se mais a R. Loewenstein
Publicada em 1932, a tese de doutoramento em do que a A. Hesnard, R. Laforgue, E. Pichon e até
Medicina, De la psychose paranóiaque dans ses rapports mesmo à princesa Bonaparte. Uma carta que diri­
avec la personnalité (Sobre a psicose paranóica em giu a Loewenstein, em 1953, quando de seus atri­
suas relações com a personalidade), é assim uma tos com o Instituto de Psicanálise, publicada mui­
Lacan (Jacques-Marie) 120

to mais tarde, testemunha uma relação de confi­ esconde de mim, pelo próprio movimento pelo
ança com seu psicanalista, baseada em uma comu­ qual ele me esconde de mim mesmo. É como ou­
nhão de rigor intelectual; essa não irá impedir, ali­ tro que sou levado a conhecer o mundo: sendo,
ás, seu correspondente, então nos Estados Unidos, desta forma, normalmente constituinte da organi­
de condená-lo, diante de seus pares. zação do "je ", uma dimensão paranóica. O artigo
A paisagem psicanalítica francesa no pré-guer- "A Fase do Espelho como formadora da Função
ra era, à maneira de nossas vilas, organizada ao do 'je '" foi apresentado, em 1936, ao Congresso in­
redor do campanário. Não seria ofender aos seus ternacional de psicanálise, sem encontrar outro eco
protagonistas dizer que todos pareciam ter sido senão o toque de campainha de E. Jones, interrom­
delegados por sua capela para controlar um pro­ pendo uma comunicação demasiado longa. Sua
duto importado da Viena cosmopolita: Hesnard era reapresentação em Paris, em 1947, não suscitou
médico da Royale, Laforgue se envolveu na vida maior entusiasmo. É verdade que essa tese infrin­
da colaboração, Pichon era maurassiano. ge a tradição especulativa, platônica em sua ori­
Somente Marie Bonaparte tinha por Freud um gem e que conjuga a busca da verdade à de uma
apego transferenciai que não podia ser negado; ela identidade assumível pelo resgate do ideal, ou do
foi, aliás, a única visita de Freud, a caminho de ser. A afirmação do caráter paranóico do idêntico-
Londres, quando de sua passagem por Paris, em a-si não podia deixar de feri-la. Ela não é, no en­
1939. Seja qual for, o meio parecia aguardar que tanto, um simples acréscimo; seu suporte é expe­
um homem jovem, bem dotado e de boa família, rimental, inspirado em trabalhos realizados nos
contribuísse na invenção de uma psicanálise entre campos da psicologia animal e humana, sobre os
nós. efeitos orgânicos induzidos pela percepção do se­
Mais uma vez, a decepção foi recíproca. Na melhante. Porém, ela ilustra sobretudo (embora
última edição da Revue Françaisede Psyclianalyse, a isso permaneça sem ser dito) a inclusão precoce da
única publicada em 1939, uma crítica de Pichon criança na linguagem. Se a notável descoberta da
comenta o artigo de Lacan sobre "A Família", pu­ "fase do espelho" não pode ser deduzida da prá­
blicado em L'Encyclopédie française, a pedido de tica analítica, ela deve seu suporte, seu enquadra­
Anatole de Monzie, deplorando nele um estilo mento a uma análise da linguagem que, apesar de
marcado mais pelos idiomatismos alemães do que vir do linguista, é experimentada no tratamento;
pela bem conhecida clareza francesa. Depois da mas isso como dedução retroativa, se é verdade que
guerra, novamente irá se encontrar, em 1945, o tra­ a palavra articulada começa com a iluminação des­
ço de Lacan, com um artigo publicado louvando sa identificação, sem poder dizer mais sobre as con­
"a psiquiatria inglesa durante a guerra". dições, nem sobre a ordem de sua gênese. O ima­
Decididamente, parece difícil para Lacan en­ ginário próprio dessa fase, dirá Lacan, só será in­
contrar a casa que reconhecería como sua. Depois vestido de uma tal carga libidinal porque funda
de 1920, Freud introduziu o que irá chamar de se­ — por este é eu original — o protesto contra a falta
gunda tópica: uma tese que toma o eu (alem. das radical, pela qual a linguagem submete o "falas-
Ich), uma instância reguladora entre o isso (alem. ser", isto é, aquele que formula a pergunta do ser
das Es) [fonte das pulsões], o supereu (alem. das porque ele fala.
Über-Ich) [agente das exigências morais] e a reali­ Se a linguagem é um sistema de elementos dis­
dade (lugar onde se exerce a atividade). Pode sur­ cretos, que devem sua pertinência não à sua posi-
gir, no neurótico, um reforço do eu, para "harmo­ tividade, mas à sua diferença, segundo a análise
nizar" essas correntes, como uma finalidade de tra­ de F. de Saussure, ela desnaturaliza o organismo
tamento. biológico submetido a suas leis, ao privá-lo, por
Ora, Lacan faz sua entrada no meio psicanalí- exemplo, de um acesso à positividade; a não ser
tico com uma tese completamente diferente: o eu, que esse oiganismo estenda, sobre o interstício dos
escreveu ele, constrói-se à imagem do semelhante elementos, a tela iluminada do imaginário — pri­
e primeiramente da imagem que me é devolvida meira imagem fixa: o eu.
pelo espelho— este sou eu. O investimento libidi- A prática analítica é a colocação à prova dos
nal desta forma primordial, "boa", porque supre a efeitos dessa desnaturalização de um organismo
carência de meu ser, será a matriz das futuras iden­ pela linguagem, corpo cujas demandas são perver­
tificações. Assim, instala-se o desconhecimento em tidas pela exigência de um objeto sem fundamen­
minha intimidade e, ao querer forçá-la, o que irei to, sendo, por isso, impossíveis de satisfazer; cujas
encontrar será um outro; bem como uma tensão necessidades são transformadas por não se achar
ciumenta com esse intruso que, por seu desejo, apaziguamento a não ser sobre um fundo de insa­
constitui meus objetos, ao mesmo tempo que os tisfação; cujas próprias pulsões parecem organiza­
121 Lacan (facques-Marie)

das por uma montagem gramatical; cujo desejo


apresenta-se articulado por um fantasma que de­
safia o eu e o ideal, violando seu pudor pela busca
de um objeto, cujo resgate provocaria o desgosto.
O lugar onde o desejo adquire voz é chamado de
inconsciente, e é por poder reconhecê-la como sua
própria voz que o sujeito escapa da psicose. A lin­
guagem se torna, assim, símbolo do pacto daquilo
ao qual o sujeito renuncia: a maestria de seu sexo,
por exemplo, em troca de um gozo do qual se tor­
na servo. Sim, mais qual?
Figura 2. N ó com quatro círculos. Nesta fig u ra (não-borromeana), o
De fato, não há relação sexual, dirá Lacan, para Real, o Simbólico e o Imaginário estão superpostos. Sua consistência
escândalo tanto de seus seguidores como de seus é assegurada por um quarto círculo, o do sin toim ou então do Nome-
detratores. Ele lembrava, com essa fórmula (que do-Pai.
choca, porque contraria dois séculos de fé religio­
sa) que, se o desejo visa ao intervalo velado pela Entre as formulações originais de Lacan, é es­
tela onde se projeta a forma excitante, a relação não sencial a categoria do Outro, pois ela designa pri­
se faz senão com uma imagem; imagem do que? A mordialmente, no interstício, o lugar vazio, mas
do instrumento que faz a significância da lingua­ também potencialmente prenhe, elementos de lin­
gem, isto é, o Falo (causa do pan-erotismo censu­ guagem de todo tipo, capazes de se inserir em mi­
rado em Freud). E por isso que uma mulher se con­ nha enunciação, dando nela a entender um sujeito
sagra a representá-lo, ao fazer semblante do ser (é que não posso deixar de reconhecer como meu, sem
a hipocrisia feminina), enquanto que o homem, nem por isso fazê-lo falar da minha maneira, nem
esse faz semblante de tê-lo (é o cômico viril). Se saber o que ele quer: esse é o sujeito do inconsci­
deveria haver relação nisso, essa seria feita imagi- ente.
nariamente com o Falo (verdade experimental, Desta forma, um significante (S,), dirá Lacan,
para o homossexual), e não com a mulher, que não é o que representa um sujeito ($) para um outro sig­
existe. O espaço intermediário designa, assim, o nificante (Sj). Mas o fato deste último (S2) vir do
lugar Outro (Outro porque não pode ter nenhuma lugar Outro o designa também como sintoma, se
relação com ele), e, ao se colocar neste lugar, uma for verdade que infalivelmente falhará em atender
mulher (artigo indefinido) não pode nele encon­ a meu apelo, fazendo assim fracassar a relação.
trar aquilo que a fundaria, em sua existência, e fa­ O signo designa alguma coisa (como a fumaça
ria dela a mulher. Aliás, é conhecida a inquietude é sinal de fogo; a cicatriz, da ferida; a subida do
comum das mulheres sobre o bem-fundado dê sua leite, de um parto, dizem os estóicos), porém, para
existência e a inveja que têm do rapaz que, sem um qualquer; de fato, em presença da coisa, o je se
nenhuma necessidade de comprová-lo, já se julga desvanece. A fórmula lacaniana do fantasma $ 0 a
legitimado. (leia-se "S barrado punção de pequeno a) liga a
existência do sujeito ($) à perda da coisa (a), o que
a teoria também refere como castração. A eventual
emergência em meu universo perceptivo do obje­
to perdido singular, que me funda como sujeito —
de um desejo inconsciente — o oblitera, não me
deixando senão a angústia própria do indivíduo
(um-divíduo).
Sem dúvida, foi-se sensível ao deslocamento
radical operado, desse modo, na tradição especu­
lativa. O enunciado de que o significante não pos­
sui função denotativa, mas representativa, repre­
Figura 1. N ó borromeu com Ires círculos. A propriedade borrom eam sentativa não de um objeto, mas do sujeito, que não
eslá ligada ao fa to de que o corte de um dos círculos libera todos os
outros. O bserva-se, nesta fig u ra , com o o R eal, o Sim bólico e o
existe em si mesmo, a não ser pela perda do obje­
Imaginário devem sua consistência a este tipo de enlace e à textura to, não é, no entanto, uma assertiva que se acres­
da corda dos círculos. cente às demais, que a antecederam na tradição.
Símbolos: I: imaginário; R: real; S: sim bólico; jA : gozo do Outro; a: Com efeito, não se autoriza um dizer, mas o exer­
objeto causa do desejo e jip: gozo fálico.
cício de uma prática verificável e repetível pelos
outros.
Lacan (Jacques-Marie) 122

Quanto à mudança do significante em signo raria ela o caráter ambíguo e espontaneamente fa­
que denota a coisa, é divertido verificar que os lacioso de nossa relação com o saber, quando ele é
exemplos tomados aos estóicos indicam todos o imposto? Mas a realidade sem dúvida, era mais
qualquer um ao qual se dirigem, em suas repre­ banal: o seminário de Lacan, os cursos na Sorbon-
sentações urinária, castradora ou fecundante: o ne de Lagache e de Favez-Boutonier, o carisma de
Falo, em relação ao qual são também apelos. Se este Dolto, atraíam a maioria dos estudantes, que, ali­
é um motivo da impossibilidade da relação sexu­ ás, acompanharam-nos nesse êxodo. Este conhe­
al, deve-se considerar uma outra categoria, que não ceu a atmosfera estimulante e fraterna das comu­
a do imaginário e do simbólico: a do real, precisa­ nidades de liberados por sua partida. O Relatório
mente como impossível. Não se trata do impossí­ apresentado por Lacan em Roma — "Função e
vel de conhecer, próprio do númeno kantiano, nem Campo da Palavra e da Linguagem em Psicanáli­
mesmo do impossível de concluir, próprio dos ló­ se" — servia de bússola. Muito bem, sem dúvida;
gicos (quando se preocupam com Gõbel); mas da seu sucesso fez rapidamente sombra aos seus ami­
incapacidade própria do simbólico de reduzir o gos e, depois, também aos alunos que haviam cres­
buraco, do qual é autor, pois o abre à medida que cido e agora se mostravam preocupados com sua
tenta reduzi-lo, sendo nada a resposta própria do personalidade. Bastava um decênio de nomadis-
real às tentativas feitas para obrigá-lo a responder. mo; parecia que ele devia se reintegrar à Associa­
Esse tratamento do real rompe com as alternativas ção Psicanalítica Internacional. Negociações leva­
demasiado clássicas: o racionalismo positivista, o das a efeito, por três de seus alunos (W. Granoff,
ceticismo ou o misticismo. S. Leclaire e F. Perrier), resultaram em uma troca:
Scilicet — "Tu podes saber" —, foi este o título reconhecimento pela IPA, em troca da renúncia de
dado por Lacan à sua revista. Saber o que, senão o Lacan de formar psicanalistas...
objeto a, pelo qual tapas o buraco no Outro, e trans­ Em 1963, Lacan fundava sozinho a Escola
formas o impossível em gozo? Gozo este que por Freudiana de Paris. Seguiram-no a esse novo de­
isso ficou marcado. Não obstante, irás suficiente­ serto um punhado de amigos deprimidos e de alu­
mente longe no conhecimento disso, para saber que nos isolados. Graças a seu trabalho, iria se revelar
objeto tu és? Seja como for, a empresa psicanalítica de uma fecundidade excepcional. Aos primeiros
poderá inscrever-se na tradição do racionalismo, sinais da doença do fundador, aqueles seriam to­
mas dando-lhe, com as categorias do imaginário e mados pela agitação que o levou a dissolver sua
do real, alcance e conseqüências que esse trabalho Escola (1980).
não poderia suspeitar, nem esgotar. A intenção de Lacan foi assegurar à psicanáli­
Sem dúvida, era previsível que esse rebuliço se um estatuto científico que teria protegido suas
(Lacan teria dito "remue-méninges" [remove-menin- conclusões da malversação dos taumaturgos e tam­
ges]*, embora tirada de Freud e de sua prática, pro­ bém o teria imposto ao pensamento ocidental: re­
vocasse reações. De saída, isso não seria incompre­ encontrar o Verbo, que existia no começo e que se
ensível, pois estaria em ruptura com os hábitos encontra hoje bem esquecido. Mas também mos­
mentais — o conforto — que vão muito além da­ trar que não se tratava, com ela, de uma teoria, mas
quilo em que se acredita? Na realidade, ele o era das condições objetivas que determinam nossa vida
sobretudo por seu suporte lógico — uma topolo­ mental. E, depois, por um termo a esse recomeço
gia não euclidiana —, a fase do espelho marcando pelo qual cada geração parece querer reescrevê-la,
aquilo que a familiaridade do pensamento e nossa como se, precisamente, suas conclusões permane­
intuição devem à miragem plana do narcisismo. cessem inaceitáveis.
Em 1953, enquanto a presidia, Lacan se demi­ Porém, seria o campo psicanalítico apropria­
tiu da Sociedade Psicanalítica de Paris (aquela que do a um tratamento científico, isto é, à certeza de
sempre teve uma atitude reservada em relação a uma resposta sempre idêntica do real à formaliza­
Freud), em companhia de D. Lagache, J. Favez- ção que o solicita? Ou, mesmo, ele seria capaz de
Boutonier e F. Dolto, fundando com eles a Socie­ calcular as respostas suscetíveis de serem dadas por
dade Francesa de Psicanálise. um sujeito, as quais a teoria dos jogos construiu,
O motivo do rompimento foi a decisão toma­ dentro das ciências conjecturais? Sim, admitindo-
da pela Sociedade Parisiense de fundar um Insti­ se que existe uma clínica das histerias, isto é, um
tuto de Psicanálise, encarregado de ministrar um inventário dos modos da contestação feita pelo su­
ensino regulado e diplomável, tendo como mode­ jeito da ordem formal, que o condena à insatisfa­
lo o da faculdade de Medicina. No entanto, igno- ção.
Existe então em projeto uma revisão do esta­
Remueménage, em francês. (N. do T.) tuto do sujeito tal que valoriza seu humanismo cris-
123 Lagache (Daniel)

tão. Seria isso em prol de uma mortificação, a exem­ lo, guardava sempre um investimento que não era
plo do budismo? Certamente não, se a finalidade jamais preconceituoso, nem desconfiado.
do tratamento é dar novamente ao sujeito o acesso Nem porfisso era um santo. Se o desejo é a es­
à fluidez própria da linguagem, sem que ele iden­ sência do homem, como escreveu Spinoza, Lacan
tifique nela outro ponto fixo senão uma arruma­ não temia levar a termo seus impasses, neles con­
ção por meio de um desejo acéfalo, o seu. frontando, ao mesmo tempo, aquelas e aqueles que
No entanto, Lacan irá voltar, mais tarde, a essa tinham sido convidados. Parece que poucos encon­
esperança de cientificidade (o que, por exemplo, traram o fio do labirinto: pois esse não existe. Po­
justificaria o anonimato dos artigos do Scilicet, a rém, queixar-se de ter sido seduzido continua sen­
exemplo dos livros de Bourbaki), sem explicá-la do uma leviandade que é uma das licenças de nos­
de outra forma senão pelos enunciados que antes sa época; são sempre atuais os processos por dia-
tinha repudiado, tais como: "Foi com minha parte bolismo.
inconsciente que tentei avançar..." Seria preciso dizer ainda pelo menos uma pa­
Entretanto, é possível uma interpretação: se a lavra a respeito de seu estilo, considerado obscu­
ciência, limitada entre o dogmatismo e o ceticis­ ro. Algum dia se irá perceber que se tratava de um
mo, não tem outra alternativa a não ser a de tentar estilo clássico de grande beleza, isto é, sem orna­
dominar o real (e a forcluir a castração) e a afirma­ mentos, regido pelo rigor, este último difícil de
ção de um incognoscível, que demonstra a plura­ perceber. Quanto aos jogos de palavras, que per­
lidade dos modelos (renuncia-se à verdade em fa­ passam suas propostas, esses continuam uma tra­
vor daquilo que é operatório), é justificável uma dição retórica, que remonta pelo menos aos Padres
outra abordagem do real, precisamente a psicana- da Igreja, quando se conhecia e se utilizava o po­
lítica. der do Verbo.
É pelo fato de não mais ser buscada a consis­ Depois de passar sozinho um final de agosto,
tência do real, do simbólico e do imaginário, em morre Lacan, em 9 de setembro de 1981, tendo sido
sua associação com o sintoma (que é defesa contra enterrado com uma discrição que não permitiu que
o real), que a ciência continua a sua tradição, mas muitos de seus alunos mais próximos rendessem
em outro campo: o físico-matemático do nó borro- a ele a homenagem que lhe deviam.
meu (três círculos de cordão atados de forma que
o corte de qualquer um deles desfaz os outros dois), Lagache (Daniel). Médico, psicanalista e psicó­
no qual as três categorias (R.S.I.) devem ser man­ logo francês (Paris, 1903 — id., 1972).
tidas juntas, não mais por seu enlace por meio de Foi o fundador da psicologia clínica na Fran­
um quarto nó (o do sintoma), mas pela proprieda­ ça. Antigo aluno da Escola Normal Superior (1924),
de borromeana do nó e por sua consistência de cor­ adjunto de Filosofia (1928) e doutor em Medicina
da. (Figuras 1 e 2). (1934), foi aluno de G. Dumas, em psicologia pa­
A castração, ou seja, aquilo que provoca a in­ tológica, e de H. Claude, em psiquiatria. Faz en­
satisfação sexual e o mal-estar da civilização, é es­ tão um tratamento psicanalítico com R. Loewens-
trutural ou cultural? O Édipo, isto é, o culto do Pai, tein, tomando-se psicanalista em 1938. Nomeado
será necessário ou contingente? Isso é o que está professor de Psicologia da Universidade de Estras­
em jogo nessas últimas reflexões, a respeito da pos­ burgo, em 1937, sucedeu, nesta instituição, a Cler-
sibilidade de escrever o nó com três ou com qua­ mont-Ferrand, durante a Segunda Guerra mundi­
tro círculos, com o último, o edípico, devendo sua al. Tomou-se professor da Sorbonne, em 1947, na
consistência ao enlace, pelo círculo do sintoma. A cadeira de psicologia geral, onde sucedeu a P. Gui-
afasia motora, contra a qual Lacan lutou, silenciou llaume, depois de defender sua tese de doutorado
essa tentativa. em letras, sobre La ]alousie amoureuse (O ciúme
Fosse qual fosse o visitante, Lacan sempre lhe amoroso) (publicada em 1947). Depois disso, iria
oferecia, antes de mais nada, seu interesse e sim­ ocupar a cadeira de psicologia patológica, deixa­
patia: não estaria partilhando com ele a sorte do da por G. Poyer, em 1955. Tanto em suas pesqui­
"falasser", isto é, daquele que formula a pergunta sas clínicas como no ensino, esforçou-se para in­
do ser porque ele fala? Ele esperava, em troca, que troduzir, em criminologia, tanto a psicanálise como
fosse privilegiada a honestidade intelectual: reco­ a psicologia social e individual. Fundou uma "psi­
nhecer e dizer o que há. Apesar das repetidas de­ cologia clínica", como o "estudo das condutas in­
cepções vindas de seus mestres, que o desaprova­ dividuais, consideradas em uma determinada con­
ram, de seus amigos, discretos demais a seu res­ juntura sócio-afetiva e cultural", utilizando tanto
peito (em que lugar Lévi-Strauss ou Jakobson o ti­ as técnicas psicométricas, como uma compreensão
nham citado?), dos alunos que desejariam vendê- fenomenológica e uma interpretação de inspiração
lapso 124

analítica. Foi em U U n iié d e la p sy ch olog ie, publica­ ereta no funcionamento psíquico, tal como Freud
da em 1949, que mostrou que uma verdadeira psi­ o ilustra. Em primeiro lugar, nos mecanismos do
cologia só poderá ser clínica e que ela deve utili­ sonho, que ele compara ao rébus ou à escrita egíp­
zar diversas abordagens, em um trabalho sistemá­ cia, a imagem possui valor de significante, e não
tico centrado na subjetividade e na intersubjetivi- de significação. Apesar do hieróglifo ser um dese­
dade do homem. No final de sua vida, animou o nho simplificado, ele não está ali para forçosamente
projeto do V ocabulaire d e la P sy ch an aly se (Vocabulá­ representar um abutre ou um instrumento agríco­
rio da Psicanálise), realizado, sob sua direção, por la. De fato, o desenho é utilizado por seu valor li­
seus alunos J. B. Pontalis e J. Laplanche. teral, porque o nome do objeto representado par­
ticipa foneticamente da composição de um signi­
lapso, s.m. (alem. Lapsus, Versprecher; fr. lapsus; ing. ficante, que não tem nada a ver com um pássaro.
fr eu d ia n slip). Falha cometida por inadvertência, ao Da mesma forma, em um sonho, un corbeau (um
se falar (lap su s lin gu ae) ou escrever (lapsu s calam i), corvo) poderá ser lido un beau corps (um belo cor­
que consiste em substituir por uma outra a pala­ po). Se não se trata da escrita alfabética usual, com
vra que se queria dizer. certeza é uma escrita fonemática, privada e alta­
A psicanálise considera o lapso como um tipo mente dependente da língua do sonhador. O so­
de ato falho, que consiste na interferência do in­ nho possivelmente não deixa de utilizar a escrita
consciente na expressão falada ou escrita. comum, como no sonho do "Homem dos ratos",
onde as letras "p e c" (para condolências) se trans­
latência (período de) (alem. L aten zperiode, A u - formam, enquanto as escreve, em "p e f" (para fe­
fs c h u b s p e r io d e ; fr. p ério d e d e laten ce; ing. laten ce peri- licitar). No que se refere ao lapsus calam i, Freud não
od ). Período da vida sexual infantil, dos 5 anos de o distingue, na interpretação, do la p su s lin g u ae.
idade até a pré-adolescência, durante o qual, nor­ Entretanto, há exemplos relativos especificamente
malmente, as aquisições da sexualidade infantil à escrita, e não ao fonema. Deve-se, pois, concluir
mergulhariam normalmente no recalcamento. que o inconsciente sabe ler. Diversos exemplos clí­
nicos o demonstram. No "Homem dos lobos", a
lembrança encobridora, s.f. (alem.: D eckerin- letra V ou W desempenha um papel central: Freud
neru ng; fr.: sou ven ir-écran ; ing.: screen-m em ory). Para a encontra novamente no V do relógio que, supos­
S. Freud, lembrança reconstruída de forma fictícia tamente, estaria marcando a hora da cena primiti­
pelo sujeito, a partir de eventos reais ou fantasmá- va, na abertura das pernas das moças, no bater de
ticos. asas da borboleta ou nas asas arrancadas da vespa
Essas lembranças não possuem menos valor (W esp e), que o "H omem dos lobos" pronuncia
do que as lembranças do real, pois a psicanálise é "espe" , castrando-a de seu W, para então encontrar
uma doutrina da reconstrução fictícia da vida libi- nisso as iniciais de seu nome, S. P., com o risco de
dinal. vê-lo ressurgir nos lobos ( W olf ), aos quais deve sua
alcunha. Em "O Homem dos ratos", Freud, assim
letra, s.f. No sentido de caractere, ou no de mis­ como o Saussure dos anagramas, decompõe a fór­
siva,* a letra é, ao mesmo tempo, o suporte mate­ mula conjuratória G lejisam en , que deveria proteger
rial do significante e o que se distingue dele, as­ sua bem-amada, em G isela e Sam en (esperma), com
sim como o real se distingue do simbólico. a fusão das letras realizando o que tinha sido evi­
Apesar de, até Lacan, a letra e a escrita não se tado.
terem tomado termos psicanalíticos, existem, em Melanie Klein, a partir das análises de crian­
Freud, muitas referências à escrita, desde "Projeto ças, descobre, por trás dos erros de ortografia, inú­
de uma Psicologia Científica" (1895) e as cartas a meros fantasmas sobre as letras, como, por exem­
Fliess, até o texto intitulado "Nota sobre o 'bloco plo, a imagem fálica ligada à letra i ou ao algaris­
m ágico"' (1924). O bloco mágico ilustra a oposição mo ]. Ela formula a hipótese segundo a qual a es­
entre o sistema percepção-consciência e o incons­ crita pictográfica antiga, fundamento de nossa es­
ciente; por um lado, existe a folha de celulóide, crita, seria reencontrada nos fantasmas inconscien­
sempre pronta a receber novas inscrições ou per­ tes de cada um. Isso ilustra a vertente imaginária
cepções, e o bloco de cera, que conserva indefini­ da letra.
damente todos os traços escritos, isto é, todos os
traços mnésicos. Essa utilização metafórica da es­
crita nada presume sobre o papel da escrita con-
A CARTA ROUBADA

Para Lacan, o significante é suportado essen­


* Lettre em francês significa tanto letra como carta. (N. do T.) cialmente pela voz e modulado pela palavra. Se
125 letra

na "Instância da Letra no Inconsciente" (1957; Es­ gado, recalcado, e até mesmo rejeitado". O traço
critos, 1966), ele se apóia na letra e na escrita do retém alguma coisa do objeto, ele faz um, sua uni­
algoritmo saussuriano S/s, é para mostrar que há, dade. Esse resto, portanto, é da ordem do traço
no significante, uma estrutura localizada, a do fo- unário, podendo desempenhar o papel de marca,
nema, entendido como unidade diferencial. Tal ao se relacionar com a emissão vocal. Por exem­
estrutura localizada da palavra era predestinada a plo, o caractere que, em sumeriano, é pronuncia­
se escoar, nos caracteres da escrita, e, por seu tur­ do "an", designando céu ou deus, é uma represen­
no, a escrita, como iremos ver, aguardava ser fo- tação deformada de um astro, tirada dos Acadia-
netizada. Quando Lacan, por exemplo, relendo nos, que dizem céu ou deus de outro modo; esse
Freud, diz que o sonho é abordado literalmente, caractere irá funcionar mais como valor fonético
esclarece que o que entende por estrutura literal, é "an". A retirada de um material de escrita de um
a estrutura fonemática. No "Seminário sobre 'a povo estrangeiro favorece o processo de fonetiza-
Carta Roubada'" (1955; Escritos), Lacan apóia-se no ção. O nome próprio então desempenha um papel
conto de Edgar Poe, para demonstrar o poder do essencial. Devido a sua afinidade com a marca, o
significante. A carta (lettre) é o verdadeiro sujeito nome próprio é conservado de uma língua para
do conto e, sem que jamais seja revelado o seu con­ outra, permitindo decifrar uma escrita desconhe­
teúdo, ela rege o baile de todos os personagens; a cida. Há um vínculo privilegiado entre o nome pró­
expressão "estar de posse de uma carta" revela-se prio, o sujeito e o traço unário. O sujeito é nomea­
então admiravelmente ambígua. A carta escapa à do, e essa nominação equivale à leitura do traço
investigação minuciosa da polícia, cujo erro con­ um, mas logo se fixa nesse significante um e se
siste em tomá-la por um objeto da realidade, um eclipsa, embora o sujeito seja designado pelo apa-
lixo, segundo o jogo de palavras joyciano: a letter/ gamento desse traço, por um risco. O corte simul­
a litter. De fato, no real nada está escondido; o que taneamente simples e duplo da faixa de Mõbius
se esconde é da ordem do simbólico, como o de­ dá a isso seu suporte topológico.
monstra o exemplo do livro perdido, embora es­
tando na biblioteca, simplesmente porque não está
O REAL DA LETRA
em seu lugar na ordem alfabética, ou seja, na or­
dem simbólica. Essa carta questiona a ordem sim­ Em "Lituraterre" (1971), Lacan, sem dúvida
bólica, a lei encarnada pelo rei; mas, de fato, ela, tendo como interlocutor Derrida, insiste em dizer
ao mesmo tempo, constitui essa ordem, porque se que a escrita de nenhum modo é uma forma pri­
funda na exclusão de uma carta. Isso é suficiente mária. A letra estabelecería o "litoral entre gozo e
para considerar a carta como objeto a, e, mais pre­ saber". Ele situa o significante do lado do simbóli­
cisamente, como o próprio falo. Em sua "Introdu­ co e a escrita do lado do real; "é a erosão do signi­
ção ao Seminário sobre 'a Carta Roubada’" (Escri­ ficado...", ou seja, do imaginário; a letra é uma pre­
tos), ele apresenta a construção formal de uma ca­ cipitação do significante. Há, nessa precipitação da
deia significante elementar. Essa cadeia de letras escrita, uma oposição entre a não identidade con­
explica o automatismo de repetição freudiano, a sigo mesmo do significante, e a identidade consi­
sobredeterminação simbólica, enquanto ela se dis­ go mesma da letra, um movimento do sentido para
tingue do real, e a existência de um recalcamento o contra-senso. Existe um buraco no saber do in­
primordial, que funda a lei. consciente, que toma o gozo incompleto, e Lacan
utiliza a letra a para marcar a fronteira desse bura­
co. O contra-senso radical da letra se refere ao real.
L etra, t r a ç o u n á r i o e n o m e p r ó p r io
A letra, diferente do significante, é capaz de mar­
Há, em Lacan, uma teoria da gênese da escri­ car seu limite, ou seja, a intrusão do objeto a como
ta, exposta no seminário sobre "A Identificação" radicalmente outro.
(1961-62). A escrita não é primária, ela é produto
da linguagem, mas a escrita aguardava ser foneti-
A LETRA E O INCONSCIENTE
zada. Assim, as marcas distintivas das cerâmicas
egípcias tomaram-se signos de escrita. Lacan esta­ A escrita não é primária; o que vem primeiro
belece o vínculo entre o einziger Zug, o "traço uná­ é o significante, condicionando o inconsciente e,
rio" freudiano, ou seja, uma das três formas de portanto, a função da letra. É preciso distinguir,
identificação, a identificação com um dos traços do por um lado, o rio da linguagem, o significante e a
objeto, e a gênese da escrita. No pretenso ideogra­ estrutura gramatical que participa do sentido, e,
ma, o traço é "o que resta do figurativo, que é apa­ por outro, os aluviões que se depositam, o incons­
libido 126

ciente, lugar das representações de coisa, puro en- Platão, Freud vai chamar de lib id o a energia do
cadeamento literal, afinal de contas, contra-senso Eros. Retomando a questão, Lacan propõe conce­
radical, que funciona graças à exclusão da letra. ber a libido não tanto como um campo de energia,
A análise é uma leitura, as produções do in­ mas como um "órgão irreal", que tem relação com
consciente prestam-se a essa leitura, e o psicana­ a parte de si próprio que o ser vivo sexuado per­
lista lê de outra forma, com determinada intenção, de, na sexualidade.
aquilo que o analisando está dizendo. E evidente É relativamente penoso extrair uma definição
que essa é uma leitura equívoca a respeito da or­ da libido em Freud, sobretudo porque ela recebe
tografia. Mas isso, no entanto, pressupõe uma es­ esclarecimentos diferentes, segundo os momentos
crita no inconsciente. Quanto ao sintoma, "se ele de conceitualização da teoria das pulsões, os avan­
pode ser lido, é porque já está inscrito em um pro­ ços relativos à vida sexual, normal ou patológica,
cesso de escrita", escreve Lacan, em "A Psicanáli­ o questionamento reiterado do problema das neu­
se e seu Ensino"(1957); E scritos). Em um sintoma, roses, das perversões e das psicoses. O termo lati­
o que é importante não é a significação, "mas sua no lib id o, que significa "desejo", "inveja", "aspira­
relação com uma estrutura significante que o de­ ção", tal como Freud faz uso dele, designa "a ma­
termina". Mais tarde, Lacan irá definir o sintoma nifestação dinâmica, na vida psíquica, da pulsão
como sendo aquilo que não cessa de se escrever. O sexual"; é a energia "das pulsões que tem a ver
sintoma é uma verdadeira função matemática, com tudo o que se pode compreender sob o nome
onde a letra inconsciente representa o argumento. de amor". Afirmando a referência ao sexual da li­
A análise é uma leitura desse inconsciente textual bido, referência que faz valer, nas diversas defini­
e insensato, uma leitura, pois, que se equivoca a ções que dela dá, ele contesta os pontos de vista
respeito da ortografia e que, pelas cesuras que in­ de Jung, que estende, generaliza e retira a especi­
troduz, faz sentido a ponto de descobrir seu con­ ficidade da libido, vendo-a operar em todas as for­
tra-senso radical. Essa dialética da escrita e da lei­ mas de tendências. Nas C on ferên cias in trodu tórias
tura foi explorado por Lacan, inclusive nos títulos sobre p sica n á lise (1916-17), sobretudo, ele assume
de seus seminários: Les n oii-du pes erren t ou L'insu claramente posição: "Não ganhamos nada, eviden­
q u e sa il d c Y une-bévue s'aile à m ourre, que podem ser temente, em insistir com Jung sobre a unidade pri­
lidos de diversas maneiras. Da mesma forma, a mordial de todas as pulsões, e em dar o nome de
escrita dos maternas tenta tocar um real de estru­ libido' à energia que se manifesta em cada uma
tura, oferecendo-se a diversas leituras. delas. (...) E impossível, mesmo que se recorra a
algum artifício, eliminar da vida psíquica a fun­
ção sexual (...); o nome de libido fica reservado às
A ESCRITA NODAL
tendências da vida sexual, e é unicamente nesse
Nos últimos seminários, Lacan, com o nó bor- sentido que nós o temos sempre empregado."
romeu, introduz uma nova escrita, precisamente a
dos nós, o que inverte o sentido da escrita. De fato,
L ib id o e s e x u a l id a d e
o nó borromeu é uma verdadeira escrita primária,
não uma precipitação do significante, mas um su­ A economia e a dinâmica libidinais, sobre a
porte do significante, porque o simbólico vem se compreensão e a conceitualização das quais Freud
prender a ele. Assim, Lacan analisa a obra de Joyce, não cessa de voltar, supõem uma concepção de se­
sua escrita, como sendo a reparação de um erro na xualidade bem mais ampla do que a que estava
escrita de seu nó borromeu. em vigor em sua época, e que, aliás, o é também
em relação à nossa. Como expõe, ou Três en saios so ­
libido, s.f. (alem. L ibido; fr. libido; ing.: libido). Ener­ bre a teoria da sex u alid ad e (1905) ou em C on ferên cias
gia psíquica das pulsões sexuais, que encontram in trodu tórias sobre p sican álise, é pelo estudo da se­
seu regime em termos de desejo, de aspirações xualidade infantil e das perversões que ele encon­
amorosas, e que, para S. Freud, explica a presença tra seus argumentos para separar a sexualidade de
e a manifestação do sexual na vida psíquica. uma finalidade de procriação, para refutar a iden­
Quanto a C. Jung, ele concebe a libido como tidade entre sexual e genital, para conceber, pois,
uma energia psíquica não especificada, manifes­ a existência de um sexual que não é genital e que
tando-se sob todas as tendências, sexuais ou não, nada tem a ver com a procriação, mas com a ob­
o que é refutado por Freud, que mantém a refe­ tenção de uma satisfação. Ele veio, deste modo, o
rência ao sexual. Aproximando suas concepções que então causará escândalo, a qualificar de sexu­
sobre a libido, como energia de tudo aquilo que se ais um conjunto de atividades ou de tendências que
pode englobar sob o nome de amor, do Eros de ele percebe não apenas no adulto, mas também na
127 libido

criança, mesmo lactente. Assim, por exemplo, ele cepção do amor, a psicanálise nada criou de novo.
caracteriza como sexual e reconhece como ativida­ O Eros de Platão apresenta, quanto a suas origens,
de sexual o succionar da criança e a satisfação que manifestações e relações com o amor sexual, uma
ela retira disto. Por essa concepção estendida da analogia completa com a energia amorosa, com a
sexualidade, ele resgata a compreensão de um de­ libido da psicanálise..." Com a teoria do amor de
senvolvimento sexual, ou, expressão para ele equi­ Platão e sua concepção do desejo, Freud está, pois,
valente, de um desenvolvimento da libido, em suas de pleno acordo, porém, ao mesmo tempo, recu­
diferentes fases*. De fato, ele tem como certo que sa-se a abandonar o termo psicanalítico de libid o,
a vida sexual, ou vida libidinal, que a função da pelo filosófico e poético E ros, pois, embora indi­
sexualidade (expressões para ele sinônimas), lon­ que sua grande proximidade, recusa-se a correr o
ge de já estarem instaladas de saída, são submeti­ risco de perder, assim, o que ele deseja que seja
das a um desenvolvimento, e atravessam uma sé­ reconhecido: sua concepção da sexualidade. Assim,
rie de fases ou estágios. A "virada deste desenvol­ ainda escreve: "Aqueles que consideram a sexua­
vimento", escreveu ele nas C on ferên cias in trodu tó­ lidade como alguma coisa que envergonha a na­
rias sobre p sican álise, é "constituída pela subordina­ tureza humana, e que a rebaixam, estão livres para
ção de todas as tendências sexuais parciais ao pri­ utilizar os termos mais distintos de Eros e erótico
mado dos órgãos sexuais, pela submissão, portan­ (...). Não se pode saber até onde isso poderá levar:
to, da sexualidade à função de pnx iaçáo". começa-se por ceder nas palavras, e depois termi­
Um outro aspecto do desenvolvimento sexu­ na-se por ceder nas coisas" ( ib id em ). Inicialmente,
al, que põe em jogo a economia libidinal e sua di­ em A lém do princípio d e prazer (1920), e também mais
nâmica energética, envolve toda a questão da rela­ adiante, Freud utiliza o termo "Eros", para cono-
ção com o objeto, podendo a libido investir e to­ tar as pulsões de vida, que ele opõe às pulsões de
mar por objeto tanto a própria pessoa (chama-se morte, alterando, portanto, por especulação, como
então de libido do eu ), como um objeto exterior (cha­ ele mesmo diz, a oposição entre pulsões libidinais
ma-se então de libid o do o bjeto). Freud utiliza o ter­ e pulsões de destruição. Eros, que Freud conside­
mo "narcisismo"*, para designar o deslocamento ra como equivalente de pulsões de vida (que reú­
da libido sobre o eu. Também está envolvida a nem as pulsões sexuais e as de autoconservação),
questão do alvo da pulsão, a saber, da satisfação, é a própria energia das pulsões, que tendem à li­
que Freud interroga, sobretudo com o problema gação, à união, à reunião e à manutenção neste es­
do devir libidinal na sublimação*. Uma mesma tado. Em "Esboço de Psicanálise" (1938), escreveu
energia psíquica, que conserva o caráter sexual ini­ que iria chamar, dali por diante, de libido, "toda a
cial, uma mesma energia libidinal, da qual o eu* é, energia do Eros".
diz ele, "o grande reservatório", está, portanto,
para Freud, em operação nas pulsões sexuais e suas
P erd a e s e x u a l id a d e
modificações, seja qual for o objeto ao qual são di­
rigidas, seja qual for o alvo que atingem, direta­ Lacan substitui o mito de Aristófanes, evoca­
mente sexual ou sublimado. do por Freud, por aquilo que chama de "m ito da
lamela", criado para "encarnar a parte faltante",
por meio do qual procura resgatar a questão da
L i b id o e p u l s ã o d e v id a
libido e de sua função, remetendo a questão do
A concepção ampliada da sexualidade, que amor a um fundamento narcisista e imaginário.
Freud promove, leva-o a se referir várias vezes ao Substitui o mito da busca da metade sexual no
Eros platônico. Vê nele uma concepção muito pró­ amor, pela "busca, pelo sujeito, não do complemen­
xima daquilo que ele compreende por pulsão se­ to sexual, mas da parte de si mesmo perdida para
xual, da forma como o escreve em Três en saios sobre sempre, constituída pelo fato de que ele nada mais
a teoria d a sex u alid ad e, onde evoca a fábula poética é do que um ser vivo sexuado, e não é mais imor­
que Platão conta a Aristófanes, em O banquete-, a tal". Isso está explicado, principalmente, em Os
divisão em duas partes do ser humano, que está qu atro con ceitos fu n d a m en ta is d a p sica n á lise (1973): a
sempre aspirando a reencontrar sua metade per­ lamela "é alguma coisa relacionada com aquilo que
dida, para unir-se a ela. Eros, o amor, é, como Pla­ o ser sexuado perde, na sexualidade; é como a
tão nos mostra, o desejo, sempre desprovido e sem­ ameba, em relação aos seres sexuados, imortal". E
pre em busca daquilo que poderia apaziguá-lo, esta lamela imortal sobrevive a toda divisão; este
satisfazê-lo, sempre buscando aquilo que falta, para órgão, que "tem como característica não existir",
completá-lo. Freud também diz que, em P sicologia isso é, diz Lacan, a libido, enquanto vida imortal,
d e g ru p o e a a n á lise d o eg o (1921), "ao ampliar a con­ irreprimível, é aquilo que é retirado do ser vivo,
livre associação (método de) 128

pelo fato de estar sujeito ao sexo. Portanto, a libi- M. Klein, auxiliada pelos trabalhos de K.
do é designada pela imagem, e o mito da lamela Abraham, irá enriquecer a concepção freudiana (O
não mais visto "como um campo de forças, mas luto e su as relações com os estados m aníaco-depressivos,
como um órgão", um "órgão parte do organismo", 1940), com sua descoberta dos espaços psíquicos
e um órgão "instrumento da pulsão". Órgão "irre­ internos, teatro da existência de objetos internos,
al", diz ainda Lacan, definindo-se o irreal "por se cujas qualidades de bondade e solidez são postas
articular ao real de uma forma que nos escapa, e é à prova, quando da perda de um objeto externo.
justamente isso que exige que sua representação Já foi realizado um trabalho de luto doloroso
seja mítica, como a fizemos. Porém, por ser irreal, e normal por toda criança pequena que consegue
isso não impede que um órgão se encarne". abordar e elaborar as posições depressivas, durante
as quais ela toma consciência de que a pessoa que
livre associação (método de) (alem.: M eth od e ama, e aquela que atacou, em suas fantasias des-
d e r fr e ie n A sso z ia tio n ; fr.: m éth od e d e libre association ; truidoras, são a mesma pessoa. Passa, então, por
ing.:fr e e association m ethod). Associação (método de uma fase de luto, na qual tanto o objeto externo
livre). como o interno são vivenciados como que mergu­
lhados, perdidos, com a criança abandonando-se
luto, s.m. (alem.: Trauer; fr.: d eu il; ing.: bereavem ent, à sua depressão. É só lentamente, de forma dolo­
m ou rn in g ). Estado de perda de um ente querido, rosa, que a criança, trabalhando essa ambivalên­
acompanhado de aflição e dor moral, que pode cia, e empurrada pela culpa depressiva, irá conse­
provocar uma verdadeira reação depressiva, neces­ guir restabelecer em si um objeto interno bom e
sitando um trabalho intrapsíquico, dito "trabalho reconfortante.
de luto" (S. Freud) para ser superado. Uma pessoa de luto procura, em um processo
Em 1915, S. Freud empreendeu um estudo semelhante, reinstalar em si mesma seus bons su­
comparativo do luto e do processo melancólico jeitos, seus pais amados. Reencontra, então, sua
("Luto e Melancolia", publicado em 1917). Diante confiança no ser amado dentro de si, e pode su­
do reconhecimento do desaparecimento do objeto portar, graças a essa presença intema, a idéia de
externo, o sujeito precisa realizar um certo traba­ que o ser externo e desaparecido não era perfeito.
lho, o trabalh o d e luto. A libido precisa se desligar Ó fracasso desse trabalho de luto, ligado aos esta­
das lembranças e esperanças que a relacionam com dos melancólicos ou maníaco-depressivos, trans­
o objeto desaparecido, depois do que o eu volta a forma, segundo M. Klein, "o morto em um perse­
ser livre. guidor, abalando também a fé do sujeito em seus
bons objetos internos".
m
Mahler (Margaret). Psicanalista americana de lado, que originariamente o sadismo visa antes à
origem austríaca (Sopron, 1897 — Nova Iorque, humilhação ou à dominação do outro. É na inver­
1985). são masoquista que a sensação de dor pode se li­
Criou um centro de orientação infantil em Vi­ gar à excitação sexual. Somente então o fim sádico
ena, em 1930, e trabalhou com Anna Freud. Em de infligir dores a outrem pode também aparecer,
1938, foi para os Estados Unidos, onde criou um o que quer dizer que, nesse momento, "goza-se de
centro para crianças psicóticas, em Nova Iorque, modo masoquista na identificação com o objeto
em 1957. Foi uma das primeiras a impor a noção sofredor".
de distúrbios psicóticos na criança com menos de O masoquismo infantil cede geralmente ao re-
3 anos. Escreveu, em particular, O nascimento psi­ calcamento. Subsiste desde então no inconsciente,
cológico do ser humano (1975). sob a forma de fantasmas, os quais podem retor­
-> m aníaco-d ep ressiva (psicose) psicose nar à consciência, geralmente com uma formula­
maníaco-depressiva. ção transformada. E o caso sobretudo do fantasma
"uma criança é espancada", celebrizado célebre
masoquismo, s.m. (alem. Masochismus; fr. maso- porque Freud lhe consagrou um dos artigos mais
chisme; ing. masochism). Procura da dor física ou, importantes, no que se refere à teoria psicanalítica
mais geralmente, do sofrimento e da desgraça, pro­ do fantasma*.
cura que pode ser consciente, mas também incons­ Essa representação fantasmática, ele o indica,
ciente, sobretudo no caso do masoquismo moral. é confessada com uma frequência espantosa, em
O termo "masoquismo" vem do nome de Le- sujeitos histéricos ou obsessivos que solicitaram
opold von Sacher-Masoch, escritor austríaco (1836- uma análise. Ligam-se a isso sentimentos de pra­
1895), que descreveu, em seus romances, uma ati­ zer e amiúde uma satisfação onanística, eventual­
tude de submissão masculina à mulher amada, mente rejeitada e que volta, então, de forma com­
com busca de sofrimento e de humilhação. pulsiva. Freud desmonta, a partir de quatro casos,
Para a psicanálise, o masoquismo constitui todos femininos, os diferentes tempos desse fan­
uma das formas nas quais pode se engajar a libi- tasma. Em um primeiro tempo, o fantasma se apre­
do, e isso com muito mais freqüência do que dei­ senta sob a forma de "o pai bate numa criança odi­
xa pensar o número bastante reduzido de maso­ ada por mim", forma que testemunha uma rivali­
quistas no sentido trivial do termo, ou seja, adul­ dade infantil primitiva. O segundo, reconstruído
tos que não podem encontrar uma satisfação se­ pela análise, é onde o próprio sujeito é batido: "eu
xual, a não ser que se lhes inflija uma dor deter­ sou batido(a) pelo pai". Nessa etapa, masoquista,
minada. o fato de ser batido satisfaz a culpa edípica e per­
A tomada em consideração da sexualidade mite, ao mesmo tempo, a obtenção de um prazer,
infantil mostra que a pulsão sexual assume corren­ de modo regressivo. Não é senão em uma terceira
temente, na infância, uma dimensão sádica ou etapa que o fustigador e a criança que apanha per­
masoquista. O masoquismo aí aparece mais preci­ dem toda identidade definida, o que permite ao
samente como uma inversão do sadismo (ativida­ fantasma se manter consciente, sob essa nova for­
de transformada em passividade), e um retomo ma, tolerada, desta vez, pela censura.
sobre a própria pessoa. Freud destaca, por outro
materna 130

Se esse artigo limita o lugar do masoquismo, m a te rn a , s.m. (fr. mathème). Segundo J. Lacan,
tomado nele um dos tempos do fantasma, e um conjunto de escritas de aspecto algébrico, explican­
tempo que não é senão a inversão de uma fantas­ do conceitos-chave da teoria psicanalítica.
ma sádico, um artigo ulterior, "O Problema Eco­ O materna não é uma simples abreviatura, ou
nômico do Masoquismo", datado de 1924, ou seja, uma inscrição estenográfica, mas possui a ambi­
posterior à hipótese da pulsão de morte, dá-lhe ção de denotar uma estrutura realmente em causa
uma dimensão bem maior, distinguindo um ma­ no discurso psicanalítico, e, a partir disso, nos de­
soquismo erógeno, um masoquismo feminino e um mais discursos. Pela escrita, o materna assemelha-
masoquismo moral. se às fórmulas algébricas e formais existentes na
No que se refere ao masoquismo erógeno, matemática, na lógica e nas ciências matematiza-
Freud retoma as teses anteriores, segundo as quais das, e, para Lacan, tratar-se-ia do ponto de engate
há masoquismo erógeno desde o momento em que da psicanálise com a ciência. Uma das funções do
o prazer é ligado à dor. Ele continua igualmente a materna é a de permitir uma transmissão do saber
distinguir o fantasma masoquista de sua realiza­ psicanalítico, transmissão referente à estrutura,
ção perversa. A idéia de um masoquismo especifi­ deixando de fora as variações próprias ao imagi­
camente feminino tem sido historicamente contro­ nário e escapando da necessidade do suporte da
vertida. Se psicanalistas como H. Deutsch a reto­ palavra do autor.
mam, e fazem dela uma condição indispensável As construções formais que datam dos primei­
para assumir a "função de reprodução", numero­ ros seminários de Lacan podem retrospectivamente
sos autores, entre eles vários psicanalistas, a rejei­ ser qualificadas de maternas.
taram. É aliás interessante notar que
Freud descreveu sobretudo esse masoquismo
A FÓRMULA DO SIGNIFICANTE
"fem inino" em homens, cujo fantasma masoquis­
ta seria o de ser castrado, de sofrer o coito ou dar à O primeiro materna lacaniano é de fato toma­
luz. do emprestado da lingüística, depois de uma li­
O masoquismo moral é o daqueles sujeitos que geira transformação: trata-se do algoritmo S/s, de
não esperam seu sofrimento a partir de um par­ F. de Saussure, que dispõe significante e significado,
ceiro, mas arranjam-se para obtê-lo de diversas cir­ de um lado e de outro de uma barra.
cunstâncias da vida, testemunhando assim uma Esse instrumento permite a Lacan demonstrar
espécie de "sentimento inconsciente de culpa", ou, que as leis do inconsciente, descobertas por Freud,
se esta expressão parece paradoxal demais, de uma são as leis da linguagem, em especial a metáfora e
"necessidade inconsciente de castigo". Essa forma a m eton ím ia. Desde os primeiros seminários de La­
de masoquismo pode parecer totalmente dessexu- can, já há os principais elementos de sua álgebra,
alizada, e por isso trazer consigo uma necessidade em particular: o termo grande Outro, que se escre­
de autodestruição, ele mesma imputável à pulsão ve A, encarnado em primeiro lugar pela mãe, mas
de morte. Mas Freud indica que a necessidade de que constitui sobretudo o lugar onde os significan-
castigo, enquanto se revela como desejo de ser sur­ tes já estão, antes de todo sujeito; o próprio sujei­
rado pelo pai, pode remeter àquele de ter com ele to, que Lacan escreverá mais tarde $, para subli­
relações sexuais passivas. Assim, mesmo essa for­ nhar-lhe a divisão; a instância imaginária do eu
ma de masoquismo depende da intricação das pul- ideal, que se notará i(a); o falo imaginário (-q>), e o
sões. falo simbólico®.
Lacan interessou-se pela questão do masoquis­
mo. Ele, sobretudo, tentou demonstrar que, fazen­
O ESQUEMA L
do-se objeto, fazendo-se dejeto, o masoquista visa
a provocar angústia no Outro, um Outro que é pre­ Por ocasião do Seminário sobre "A Carta Rou­
ciso situar além do parceiro do perverso, um Ou­ bada" (1955), Lacan apresentou uma sequência
tro que, no limite, se confundiría com Deus. De simbólica formal mínima, construída a partir de
fato, o que sobretudo se pode extrair disso, é que quatro letras: a , (3, y e S, cujo encadeamento de­
há um pendor de todo sujeito na direção do maso­ pende de uma lei muito simples, que repousa so­
quismo, precisamente pelo fato de que o Outro, bre a exclusão de um certo número de combina­
onde cada um busca o sentido da existência, o ções. Uma memória simbólica aparece então na
Outro ao qual propomos a questão de nosso ser, seqüência de letras. Essa cadeia elementar ilustra
não responde. Desde então, curiosamente, o sujei­ a determinação simbólica que Freud descobre no
to supõe o pior, e não se assegura jamais de existir automatismo de repetição, onde o encadeamento
aos olhos do Outro, a não ser quando sofre. de significantes repete o fracasso da apreensão de
131 materna

um objeto perdido. O percurso subjetivo, que des­ te, enriquecendo-a, ao articular identificação sim­
creve tal seqüência, contorna um recalcado primor­ bólica e identificação imaginária. De $ a I(A), en­
dial constituído justamente pelas combinações ex­ contramos o trajeto dessa identificação simbólica
cluídas, impossíveis, que fundam a lei. Podemos do sujeito $ ao ideal do eu I(A). Em A, o grande
constatar, com essa seqüência formal, como o in­ Outro é o "tesouro dos significantes", e em s(A)
consciente depende da lógica pura, o que justifica situa-se a pontuação da cadeia significante. Esse
a tentativa de Lacan, em sua escrita dos maternas. circuito se duplica por um curto-circuito imaginá­
O discurso do Outro constitui, assim, o incons­ rio i(a)m, articulado sobre $I(A^ e sobre s(A)A,
ciente, ou seja, que nesse discurso o sujeito recebe onde se fixa a imagem do eu ideal i(a) e onde se
sua própria mensagem, sob uma forma invertida. determina em espelho o eu, em sua função de ri­
Por exemplo, em uma formação do inconsciente validade, de maestria, de distinção. (Figura 2).
como o lapso, o sujeito recebe do Outro sua pró­
pria mensagem que foi recalcada, justamente como
um recalcado que retoma. Aquilo que o sujeito não
aceitou em seu próprio discurso foi depositado no
Outro e retorna assim, sem que o saiba. Porém,
mais geralmente, toda palavra tem origem funda­
mentalmente no Outro.
O esquema L dispõe o circuito da palavra, se­
gundo uma certa ordem, a partir do grande Ou­
tro; o sujeito S não está na origem mas sobre o per­
curso dessa cadeia significante, que atravessa um
eixo simbólico A S, e um eixo imaginário, do qual
Lacan falou, em "A Fase do Espelho" entre o eu e
a imagem do outro, o semelhante. Assim, o incons­
ciente, como discurso do Outro, atravessa o filtro
imaginário aa\ antes de chegar ao sujeito (Figura Figura 2. O grafo do desejo. O grafo é construído a partir da
cadeia significante s(A)A, que traz a voz em sua ponta terminal.
1 ).
S I(A) inscreve o trajeto da identificação simbólica. O andar
superior do grafo é constituído pela cadeia significante no
(Es) S ® ' utre inconsciente. Os termos gozo e castração vêm aqui lembrar que,
para o sujeito falante, a Lei se funda sobre a interdição do gozo
(J. Lacan, Escritos, 1966).
Símbolos: $, o sujeito dividido; I(A) o ideal do eu; m, o eu; i(a),
o eu ideal; s(A), a pontuação da cadeia significante; A, o grande
Outro, lugar dos significantes; 0, punção simbolizando o corte
(ou quad); S 0 a, fórmula do fantasma; d, desejo; ($ 0 D), fórmula
da pulsão; (S de A), significante da falta do Outro (o grande
Outro não tem grande Outro). (Lacan, Escritos, Éd. du Seuil).

Articulando em direção ao Outro sua deman­


Figurn 1. 0 esquema L da, a criança encontra nesse Outro maternal um
0 esqu em a L d isp õe os qu atro lu gares no circuito J a cadeia
desejo. Ela irá, como sujeito, num primeiro momen­
significante. O inconsciente fo i definido como "discurso J o Outro",
sobre o eixo sim bólico AS, o S do sujeito sendo hom ófono ao Es to, se identificar com o objeto desse desejo. Na res­
freudiano, que é traduzido pelo Isso. O eixo inmginário aa inscreve a posta do Outro, em sua mensagem que retorna
relação em espelho entre o e u e o pequeno outro, o semelhante. para o sujeito, é o desejo que lhe é significado. E
Símbolos: S, sujeito; a, o eu; a', o pequeno outro em fiosição de objeto;
A, o grande Outro, lugar dos significantes. (Lacan, Escritos, Éd. du
com esse desejo do Outro que o sujeito vai identi­
Seuil.) ficar seu desejo. Porém, fazer-se objeto do Outro,
é também ser engolido por ele em um gozo mor­
tal, de onde o inevitável sinal de angústia, quando
O GRAFO o objeto se desvela em sua crueza. O sujeito não
O grafo, construído no decorrer do Seminário pode sair desse primeiro impasse perigoso, senão
sobre "A Formação do Inconsciente" (1957) e re­ porque o Outro é também tomado na lei do signi­
produzido no texto dos Escritos — "Subversão do ficante, é a função do Nome-do-Pai e do falo sim­
Sujeito e Dialética do Desejo no Inconsciente Freu­ bólico que, para retomar uma imagem de Lacan,
diano" — retoma a topologia da cadeia significan­ mantém como um bastão os maxilares do crocodi­
materna 132

lo maternal bem abertos. O pai vem apoiar a fun­ fundamental sela o destino clínico do sujeito. O
ção simbólica do ideal do eu I(A) (que se opõe ao materna S(A) possui a particularidade de ser um
eu ideal). significante que não existe e que falta ao conjunto
O andar superior do grafo é constituído pela dos significantes.
cadeia significante no inconsciente. O tesouro dos De fato, se cada significante representa o su­
significantes é constituído, neste, por uma bateria jeito para um outro significante, haveria no incons­
antecipada no corpo, precisamente nos lugares ciente um significante último, ao qual se reporta­
marcados por um corte: são as pulsões ($ 0 D). Essa riam todos os outros significantes, um significante
cadeia é pontuada, em sua enunciação inconscien­ que seria assim o Outro do grande Outro? Esse sig­
te, por S(A), o significante da falta do Outro do nificante que falta é precisamente o buraco evoca­
Outro. E a ausência desse significante S(A) no pro­ do acima, e o significante fálico O irá demarcar esse
cesso da castração, que o significante fálico <t>será buraco, servindo-lhe de fronteira.
chamado a simbolizar.
O desejo d, que parece ser regulado sobre o
Os QUATRO DISCURSOS
fantasma ($ 0 a), constitui uma linha imaginária do
grafo, homóloga à linha i(a)m, em curto-circuito Os quatro discursos, apresentados por Lacan
na cadeia significante. Esses maternas merecem um em seu Seminário "O Reverso da Psicanálise", pro­
comentário: o significante da demanda D, endere­ põem, de uma forma extremamente reduzida e
çada ao Outro, faz fracassar a busca do objeto, por concentrada, um sistema de relações entre mani­
razões ligadas à relação entre o simbólico e o real. festações muito complexas e maciças. Trata-se, com
Esse fracasso induz à repetição da demanda, e o efeito, de inscrever, sob uma forma algébrica, a es­
desejo nada mais é do que o deslizamento metoní- trutura dos discursos denominados por Lacan: dis­
mico de um significante da demanda para um ou­ curso do mestre, discurso da universidade, discur­
tro significante. O sujeito é verdadeiramente en­ so histérico e discurso psicanalítico.
gendrado, produzido, pela passagem de um sig­ Esses diferentes discursos encadeiam-se e sus­
nificante a outro, não é como o supúnhamos antes tentam-se, uns aos outros, dentro de uma lógica
da primeira demanda. Como os significantes vêm determinada inteiramente pelo jogo da letra, e um
do Outro, a demanda necessita, em sentido inver­ dos interesses não-negligenciáveis dessas fórmu­
so, uma demanda do Outro, endereçada ao sujei­ las é o de vencer a oposição errônea entre uma psi­
to. canálise do sujeito individual e uma psicanálise do
E a repetição da demanda abre no Outro um coletivo. De fato, é o significante que determina a
buraco, de onde também se originam uma deman­ fieira do sujeito ou dos sujeitos tomados nesses
da e um desejo enigmático, endereçados ao sujei­ discursos.
to. O conceito de pulsão explica esse dispositivo, A definição do significante como representan­
que evoca a goela devoradora da ogra ou da esfin­ do um sujeito para um outro significante serve de
ge. Isso nos indica a razão pela qual, no materna matriz para o estabelecimento dos quatro discur­
da pulsão ($ 0 D), o sujeito é articulado à deman­ sos. Essa matriz ordena os quatro termos, em uma
da D pelo corte 0. estrita ordem circular: S,, S,, a, $, na qual não é per­
No materna do fantasma ($ 0 a), o sujeito $ é mitida nenhuma permutação, ou seja, nenhuma
articulado ao objeto a (ler "objeto pequeno a") por troca entre dois termos no interior do círculo. Os
esse corte 0. Pode-se ler essa fórmula da seguinte quatro termos são: S,, o significante mestre; Sy o
maneira: um sujeito é o efeito de um corte no Ou­ saber; $, o sujeito; a, o plus-de-gozar. Os quatro
tro, que produziu a queda do objeto a. Ou seja, a discursos são obtidos simplesmente por uma ope­
repetição do significante da demanda que abre no ração bastante conhecida em matemática e teoria
Outro esse buraco, faz girar esse objeto a. dos grupos, pelo nome de permutação circular, por­
E isso constitui esse resto, ou esse produto pri­ que os quatro termos irão ocupar, cada um por sua
mordialmente perdido, verdadeira causa do dese­ vez, os quatro lugares eles próprios definidos pela
jo. Lacan prepara a lista desses objetos a: o seio, os matriz do discurso do mestre:
excrementos, o pênis, mas também o olhar, a voz,
o agente o outro
o nada. Tudo o que pode ser imaginariamente re­
cortado sobre o corpo é suscetível de se tomar a.
[a verdade] a produção
O fantasma fundamental é construído na pri­
meira infância, em função portanto desses gran­
Cada discurso se transforma, por meio de um
des Outros reais, que são os pais. Esse fantasma
quarto de volta, em um outro discurso. Mais pre-
133 materna

Figura 3. Os quatro discursos.


Sím bolos: $ = sujeito dividido; a = o objeto a causa do deicfO: S, = o significante mestre; S, - 0 outro significante.

cisamente, esses quatro lugares são os vértices de


um tetraedro orientado: uma figura geométrica de
quatro faces e seis arestas. Como as arestas são ori­
entadas, só existe uma possibilidade de orientá-las,
para que se possa circular sobre todo o tetraedro;
neste caso, Lacan barra uma das arestas entre os
dois vértices da base, o que bloqueia a circulação,
é o que ele chama de impotência própria a cada
discurso (Figura 3).OS
Figura 4. Fórmula da sexuação. Símbolos: S = o sujeito dividido; S(A0

O S MATEMAS DA SEXUAÇÃO
= =
o significante da falta do Outro; a o objeto causa do desejo; <P= o
falo simbólico. J - a = "A mulher não existe", segundo Lacan, isto é,
As fórmulas da sexuação do Seminário "Mais, as mulheres não constituem um conjunto que possa ser tomado como
um todo, donde a barra sobre o artigo definido X^a (que corresponde
Ainda" (1972) propõem uma lógica que explica as
ao nosso " A d o T), e, por outro lado, uma mulher não é toda no
bizarrices da identificação sexual no ser falante gozo fálico, ela tem acesso ao gozo Outro (J. Lacan, Seminário XX,
(Figura 4). 1972-73, "Mais, ainda”; 2975).
O quadro a seguir apresenta, à esquerda, a si­
tuação masculina, e à direita, a feminina, ou, an­ No caso, constata-se que a exceção paterna con­
tes, mostra como o sujeito a irá se determinar em firma a regra universal (o que, evidentemente, não
relação ao falo e à castração, tornando contingen­ ocorre em lógica matemática).
tes os efeitos de seu sexo anatômico em relação a Em um lado, encontramos o falo simbólico
essa estrutura simbólica. Essas fórmulas utilizam e o sujeito $, que se autoriza dele. Porém, o sujeito
os sinais matemáticos V e 5, ou seja quantificado- encontra o objeto a, que determina seu desejo, no
res, e o termo <t>como função. outro lado, no lado feminino. Portanto, à direita,
À esquerda, portanto do lado imaginariamente no lado feminino, a castração é abordada de for­
homem, a castração atua como lei universal V.v0.v, ma singular, pois teria sido sofrida, de saída, pela
todo sujeito x é submetido à castração. Isso signi­ menina, como uma privação, privação atribuída a
fica que o acesso ao falo simbólico O precisa da uma mãe fálica, antes ser transferida para o pai.
operação da castração. Só o pai escapa a essa cas- Portanto, a mulher se situa fora da lei universal
tração, que tem como função exatamente aplicá- fálica VxOx, por não-todas x, í> de x. Deste lado
la, Bx <t>x, existindo pelo menos um que não é cas­ não existe o universal, porque "A mulher não exis­
trado. te" e L a é o materna da falta desse significante. Do
melancolia 134

lado mulher, isto é, do lado Outro, o gozo pode se ologia não intervinha nenhum processo psíquico,
referir ao falo que se acha à esquerda, lado homem, e p sicon eu roses de d efesa (histeria, obsessão), cuja
mas também existe um outro gozo que interessa origem, ao contrário, era claramente psíquica. Nes­
ao buraco no Outro S(A), é o gozo propriamente sa ocasião, construiu uma teoria energética, basea­
feminino. da na oposição entre energia sexual somática e
Do lado Outro, a castração não determina lei energia sexual psíquica e na necessidade de trans­
universal, uma mulher não está implicada comple­ formação de uma em outra. Formulou então a hi­
tamente no gozo fálico, mas essa negação do uni­ pótese de que a melancolia era o resultado de uma
versal não implica a existência de uma exceção à descarga inadequada da energia sexual psíquica,
castração 3.r <t>x. assim como a angústia se devia a uma falta de des­
carga de energia somática. Naquele momento, para
melancolia, s.f. (alem.: M elan ch olie; fr.: m élan co- ele, a melancolia constituía uma "vertente da neu­
lie{ ing.: m elan cholia). Afecção profunda do desejo, rose de angústia". Para dizer a verdade, ao tentar
que S. Freud considera a psiconeurose por exce­ desenvolver essa tese, ele destruiu seu fundamen­
lência, caracterizada por uma perda subjetiva es­ to, ou seja, a distinção entre os dois tipos de ener­
pecífica, a do próprio eu. gia, que foram reagrupados sob o nome comum
de "libido", mas disse então — portanto, a partir
de 1895 — ter a intuição de que a melancolia seria
E n t id a d e c l í n ic a e e s t a d o p s íq u ic o
uma espécie de "luto provocado por uma perda
Se a melancolia não é encontrada verdadeira­ dessa libido" ou, de forma mais concisa, que a
mente entre os conceitos da psicanálise, seu uso no melancolia corresponde a uma "hemorragia libi-
campo analítico é tão particular e tão diferente do dinal".
da psiquiatria que deve ser explicitado. De fato, o Vinte anos depois, tendo "introduzido o [con­
termo evoca duas noções distintas: a de uma en ti­ ceito de] narcisismo" na teoria analítica, Freud pro­
d a d e clín ica completa e a de um esta d o p síq u ico bas­ pôs um novo tipo de divisão entre psicon eu roses d e
tante particular para esclarecer, por caminhos in­ tran sferên cia (as neuroses modernas), concebidas
versos, certas características da própria subjetivi­ como "negativo da perversão", resultantes dos ava-
dade. tares (recalcamento, introversão) das pulsões sexu­
Enquanto entidade clínica, a melancolia par­ ais, e psicon eu roses n arcisistas, devidas a uma "má
ticipa da reflexão nosológica freudiana em seu con­ sorte" das pulsões (libidinalizadas) do eu. O que é
junto, e, em particular, da distinção operada entre posto em jogo é importante, pois se trata de um
as neuroses atuais, as psiconeuroses de defesa ou remanejamento geral da teoria das pulsões (pul-
de transferência e as psiconeuroses narcisistas. De são), levando em conta, graças ao narcisismo*, o
fato, ela constitui o paradigma dessas últimas, sen­ eu como objeto princeps de amor, e de um possí­
do definida como uma depressão profunda e es­ vel entendimento das psicoses. De fato, essas pas­
trutural, marcada pela extinção do desejo e um sam a ser compreendidas como sendo o produto
extremo desinvestimento narcisista. Em uma pa­ da retirada da libido para o eu, o que provocaria
lavra, é uma doença do desejo, constituída ao re­ ou sua difração (parafrenias), ou seu inchamento
dor de uma grave perda narcisista. exagerado (paranóia), ou ainda, exatamente no
Enquanto estado psíquico, a melancolia reme­ caso da melancolia, uma "absorção" e, depois, um
te à instalação dos conceitos de libido, de narcisis- esgotamento da libido com, finalmente, uma per­
mo, de eu, de objeto, de perda, etc. Distingue-se da do eu.
do estado de luto (do qual, ao mesmo tempo ofe­ Ainda seria preciso compreender o motivo
rece um modelo), revela muito claramente as es­ dessa retirada e desse esgotamento libidinais. Foi
treitas relações existentes entre o eu e o objeto, en­ isso que Freud tentou realizar, em 1916, em seu
tre o amor e a morte, mostrando, finalmente, nos importante artigo "Luto e Melancolia". Nesse, ele
pontos em que afeta o sujeito, como este se estru­ definiu o luto tanto como um estado (normal) de­
tura, de uma maneira geral, em virtude da falta e vido à "perda de um objeto amado" como um tra­
o quanto esse ser subjetivo se constitui sobre um balho psíquico, cujo objetivo seria permitir que o
fundo de "desser". sujeito renunciasse a esse objeto perdido. Se, em
um primeiro momento, parece que o luto corres­
ponde estreitamente à melancolia, logo se torna
C o n c e p ç õ e s f r e u d ia n a s
evidente que sua diferença não é apenas de ordem
Sabe-se que, no início de suas reflexões, Freud quantitativa — que a melancolia não é apenas um
dividiu as neuroses em n eu roses a tu ais, em cuja eti- luto patológico, no qual não ocorreu um trabalho
135 melancolia

— mas também qualitativa. De fato, ele se refere à O segundo conceito é fornecido pelo desenvol­
n atu reza d o o bjeto p erdido. E Freud aponta o próprio vimento que Lacan dá ao amor, em sua vertènte
eu como sendo o objeto perdido do melancólico. oposta ao desejo, e colocado em perspectiva com a
Por quê? Devido a uma regressão libidinal (que, morte, o que é expressado pela antiga grafia da
em particular, Abraham irá estudar) à fase do nar- palavra: a "m ou rre". Neste sentido, a melancolia
cisismo primário, onde o eu e o objeto de amor são nada mais é do que um dos extremos do enamora-
verdadeiramente um só. Assim, a "hemorragia li­ mento, do estado no qual o sujeito não é nada, com­
bidinal", cuja hipótese tinha sido antes formula­ parado ao tudo do objeto amado (e idealizado), um
da, é explicada pela perda do eu, o que, de algu­ extremo que perdura (enquanto se sabe que o amor
ma forma, abre a brecha para esse escoamento, con­ quase não dura), impulsionando definitivamente
firmando a qualificação da melancolia como "psi- o sujeito para a órbita da pulsão de morte.
coneurose narcisista", pois, de fato, trata-se de uma O terceiro conceito, ou antes o terceiro cami­
ruptura da função do narcisismo. nho, é o do a to do "deixar cair" (alem. N ied erkom -
Afinal, resta ainda compreender exatamente m en ), no qual Lacan vê a marca do fracasso do dis­
a p o siçã o su b jetiv a trazida por essa perda e essa he­ curso e cuja principal ilustração é o suicídio do
morragia. Seria este o último avanço de Freud so­ melancólico. O ato indica então o ponto onde não
bre o assunto, feito em 1923, depois de construir a há mais palavra possível, não há mais dirigir-se
teoria da pulsão de morte (O eg o e o id, 1923). Essa ao Outro, não há mais do que o instante em que o
posição subjetiva prende-se a uma palavra: ren ú n ­ sujeito, tendo chegado ao extremo de seu "desser",
cia. Finalmente, a melancolia produz o mesmo tra­ cai e encontra-se, enfim, na própria queda, nas núp­
balho do luto. Mas, enquanto que o luto iria per­ cias melancólicas consigo mesmo, na morte.
mitir que o sujeito renunciasse ao objeto perdido,
dessa forma reencontrando seu próprio investi­ m e tá fo ra , s.f. (alem.: M etapher; fr.: m étaphore; ing.:
mento narcisista e sua capacidade de desejar no­ m etaphor). Substituição de um significante por ou­
vamente, a melancolia, ao levar o sujeito a renun­ tro, ou transferência de denominação.
ciar... a seu eu, coloca-o em uma posição de renún­ "Uma palavra por uma outra, esta é a fórmu­
cia geral, de abandono, de demissão desejante, que, la da metáfora", escreveu J. Lacan, ao dar como
finalmente, explicaria o termo melancolia, ou seja, exemplo um verso de V. Hugo em B ooz adorm ecido:
a passagem ao ato suicida, em geral radical. "Seu feixe não era avaro, nem odioso..." Porém,
não se trata simplesmente da substituição de uma
palavra por outra: "Uma delas substitui a outra,
R eferenciais lacanianos
ao ocupar seu lugar na cadeia significante, man­
Não se pode dizer que Lacan desenvolveu tendo presente o significante escondido em sua
uma concepção particular da melancolia, sobre a conexão (metonímica) com o resto da cadeia". Se,
qual, de fato, sempre será muito discreto, a não ser em uma cadeia significante, é colocado "feixe" no
situando-a claramente do lado das psicoses e refe­ lugar de Booz, em uma outra cadeia é à economia
rindo a posição que o sujeito nela ocupa: o da "dor agrária deste que o termo faz referência.
em estado puro", da dor de existir — o que faz da Existe, portanto, na metáfora um elemento
melancolia uma paixão do ser. Mas, ao contrário, "dinâmico dessa espécie de operação de feiticeiro,
alguns dos conceitos lacanianos permitem que sim­ cujo instrumento é o significante e cujo objetivo é
plesmente sejam retomadas e radicalizadas as teo­ uma reconstituição segundo uma crise do signifi­
rias freudianas. cado", acrescentando Lacan, a respeito de Hans,
O primeiro conceito é o de p erd a , que deve ser "do significante cavalo... que irá servir de suporte
distinguido do d e fa lta . Se a falta é fundadora do a toda uma série de transferências", a todos os re-
desejo subjetivo (só se pode desejar porque algo manejamentos do significado.
falta), em compensação, a perda faz vacilar o de­ A substituição significante "é a primeira coisa
sejo, pois dá ao sujeito o sentimento de que o obje­ que a criança encontra*, por exemplo, o jogo do
to perdido é desde logo aquele que ele verdadei­ “fo r t-d a " , descrito por Freud em A lém d o p rin cíp io
ramente desejava, isto é, ela presentifica o objeto d e p ra z er (1920); seu netinho simboliza (metafori-
faltante, o objeto a, ela assim preenche a falta e ob- za) sua mãe por um carretei que faz, quando o de­
tura sua função. Também se pode dizer que o ob­ seja, desaparecer a o lo n g e (alem. F ort) e reaparecer
jeto perdido do melancólico é aquele que, ao con­
trário do do neurótico, nunca lhe faltou: é aquele
que ele possui em nome de sua própria perda e * Em francês, Irouver possui a mesma etimologia de "tropo",
cuja posse sufoca todo desejo. lugar. (N.do T.)
metáfora e metonímia 136

a q u i (alem. D a) (metaforização da alternância au- dade. É conservado o significante, mas sua inten­
sência/presença). ção é frustrada, enquanto que, na afasia motora, o
Em seguida, a criança submete suas próprias que se decompõe é o vínculo interno com o signi­
metáforas à linguagem, desligando "a coisa de seu ficante.
grito" e elevando-a à função de significante: o cão Ora, isso seria impossível, se não fosse a pró­
faz miau, diz ela, utilizando o poder da linguagem pria estrutura do significante. Foi afetado o víncu­
para enganar o outro; ataca o significante: o que é lo posicionai, não apenas na ordem da sintaxe e
correr? Por que a montanha é alta? Freud fomece do léxico, mas também na do fonema, elemento
ainda o exemplo da metáfora radical, nas injúrias radical de discriminação dos sons de uma língua.
da criança a seu pai, em "O Homem dos Ratos" É essencial à função da linguagem a distinção em
(1909): "Tu lâmpada, tu guardanapo, tu assento." posicionai e oposicional. A outra dimensão da lin­
Lacan fomece a fórmula matemática e lingüís- guagem é a da possibilidade infinita do jogo das
tica da estrutura metafórica: substituições criado pelas significações,
metáfora, metonímia.
(S')
f -------- S = S(+) s. metapsicologia, s.f. (alem.: M eta p sy ch o lo g ie; fr.:
s m étapsychologie; ing.: m etapsychology). Parte da dou­
trina freudiana considerada como a que deve es­
Em uma função proposicional, um significan­ clarecer a experiência, a partir de princípios gerais,
te é substituído por um outro, S por S', criando uma muitas vezes constituídos como hipóteses neces­
nova significação; a barra resistente à significação sárias, em vez de sistematizações a partir de ob­
foi vencida (+), "indo para baixo" um significante servações empíricas.
e surgindo um novo significado (s). O sinal de con­ Se a obra de Freud atribui sua maior parte à
gruência = indica a equivalência entre as duas par­ abordagem clínica, se partiu do tratamento, e em
tes da fórmula. particular do tratamento dos histéricos, não obs­
tante logo teve a idéia de que seria absolutamente
indispensável elaborar um certo número de hipó­
M et á fo r a pa tern a
teses, de conceitos fundamentais, de "princípios",
O imaginário é constituído na relação intersub- sem os quais a realidade clínica seria incompreen­
jetiva entre à jn ã e e o filho; o filho constata que a sível. Essas hipóteses se referem, em especial, à
mãe deseja outra coisa (o falo) e não o objeto par­ existência do inconsciente e, mais geralmente, de
cial (o filho), representado por ele; constata sua um aparelho psíquico dividido em instâncias, a
presença-ausêncià e, finalmente, constata quem é teoria do recalcamento, a das pulsões, etc.
que faz a lei; mas é bela palavra da mãe que é feita Aliás, Freud tinha o projeto, que não conse­
a atribuição do responsável pela procriação, pala­ guiu realizar por completo, de dedicar à metapsi­
vra que só pode ser o efeito de um puro signifi­ cologia uma grande obra. Seria nesse livro que se
cante, o nome-do-pai, de um nome, no lugar do poderia falar de metapsicologia, sempre que se
significante fálico. conseguisse descrever um processo em seus três
registros, dinâmico*, tópico* e econômico*.
metáfora e metonímia (fr.: m éta p h o reet m éton y-
m ie). Foi quando estudava o delírio do presidente metonímia, s.f. (alem.: M eton y m ie; fr.: m éton ym ie;
Schreber e descobria suas articulações, que ]. La­ ing.: m eton ym y). Termo colocado no lugar de um
can, em seu Seminário "A s Estruturas Freudianas outro, designando uma parte do que ele significa.
das Psicoses" (1956-57), recorreu ao estudo de R. É pela metonímia que J. Lacan introduz a pos­
Jakobson a respeito das afasias motoras e sensori- sibilidade do sujeito, de indicar seu lugar em seu
ais (E ssais d e lin g u istiq u e g én érale, l), no qual a de­ desejo. Como a metáfora, a metonímia pertence à
gradação da linguagem se dá nas duas vertentes linguagem da retórica. Conservando um "exem­
do significante: no primeiro caso, são afetadas a plo barco", para nos fazer melhor apreender a du­
articulação e a sintaxe, ocorre o agramatismo, dis­ plicidade dos significantes da linguagem, é o exem­
túrbio da contigüidade; no segundo caso (afasia plo de "trinta velas", postas no lugar de navios,
sensorial), o doente não pode pronunciar a pala­ que nos faz entender uma outra coisa: uma rela­
vra, dá voltas em torno dela; permanece na pará­ ção direta, mas há muitos barcos, poucos, não o
frase, sendo-lhe impossível qualquer resposta a bastante? Neste caso, sentimos que as condições
uma demanda de sinonímia; sua intenção está pre­ de ligação do significante são as da contigüidade,
sente, mas desviada: são os distúrbios da similari­ uma parte sendo posta por um todo não mensurá­
137 m'être

vel. É da estrutura metonímica que provém a se­ No entanto, de ser, ele não tem nada, pois de saí­
guinte fórmula lacaniana: da ele é um outro.

f(S...S')S = S(-) s.
O FALASSER

A função (f) desse termo a termo do signifi- A colocação em jogo da dimensão simbólica
cante (S...S') já conserva ali a significação. Os dois da linguagem leva à mesma conclusão, mas per­
significantes em contigüidade, vela e navio, sobre mite subverter a problemática filosófica. Se o su­
o mesmo eixo sintagmático (barco à vela) não au­ jeito formula a si mesmo a questão de seu ser, o
torizam uma significação remetida a uma outra "quem sou eu?, referente a seu sexo e sua contin­
(donde o sinal menos entre parênteses); o que é gência no ser, a saber, por um lado, se é homem ou
chamado não é tanto o sentido, mas o termo a ter­ mulher, e, por outro, se podería não ser" ("Sobre
mo. uma Questão Preliminar a Qualquer Tratamento
Metonímia do desejo. Obrigado a se tomar de­ Possível da Psicose", 1959, Escritos) — esta ques­
manda para se fazer ouvir, o desejo se perde nos tão, no âmago dos sintomas, é formulada do lugar
desfiladeiros do significante, aliena-se neles. De do Outro, articulada em significantes no inconsci­
objeto em objeto, o todo desejado pela criança se ente e dirigida ao Outro, isto é, àquele que o sujei­
fragmenta em partes ou metonímias que emergem to supõe estar ocupando esse lugar e do qual irá
na linguagem. exigir resposta e reconhecimento. É portanto por­
-» metáfora, metáfora e metonímia. que fala que o sujeito se engaja na busca e no amor
do ser. Desse modo, Lacan irá forjar o neologismo
m ‘ê t r e , s.m. Neologismo de J. Lacan, forjado a "falasser”, para designar o ser humano. Nele, está
partir dos significantes "m oi" (eu) e "être" (ser), deslocada a questão filosófica do ser: o ser é um
evocando a questão dn maestria. efeito da língua.
Esse neologismo reúne o complexo uso, em
Lacan, da noção de ser, com o desenvolvimento da
O SER E O MESTRE
questão da maestria, centrada, a partir de 1968, na
noção de "discurso do mestre" (-> discurso). Des­ A experiência analítica das psicoses e das neu­
de logo, o termo indica uma colusâo entre o dis­ roses obsessivas permite constatar claramente que
curso filosófico e o discurso do mestre. Entretan­ todo significante é capaz de exercer um manda­
to, faz com que ressoe, além do imperativo do sig­ mento feroz sobre o sujeito, sob a forma de pala­
nificante mestre — notado S,, na álgebra lacania­ vras impostas (neurose obsessiva). É desse poder
na —, a dimensão de mandamento, que todo sig­ que o discurso do mestre tira sua capacidade de
nificante exerce. Além disso, evoca a ilusão, a to­ estabelecer o vínculo social.
mada em um imaginário substantivado do eu de A ontologia filosófica isolou o uso de cópula
um sujeito, engajado no discurso do mestre, ou em do verbo "ser", para fazer dele um significante, o
um discurso que apela ao mestre, como o discurso ser, que é julgado particularmente capaz de indi­
histérico, ou ainda na ignorância paranóica, que car o valor imperativo do significante. Desse modo,
constitui o paradigma de toda a busca do ser. pode-se ler, em Aristóteles, ao se dirigir a um fu­
turo mestre, como é prescrito ao sujeito que ele.re­
m
alize por si mesmo uma ordem ética orientada pelo
O SER E O EU
soberano bem, ordem conforme com a do ser. As
Em "Propostas sobre a Causalidade Psíquica", filosofias de inspiração religiosa monoteísta irão
ministradas em 1946 e publicadas nos Escritos, em facilmente assimilar Deus ao ser. Porém, é de ad­
1966, Lacan mostra que o ser humano é primeira­ mirar que a psicologia, ou mesmo a psicanálise,
mente aquele que se aliena na imagem do outro em alguns de seus avatares, trate do desenvolvi­
(fase do espelho), em uma série de identificações mento da criança em uma perspectiva exclusiva da
ideais. É graças a essas identificações que a crian­ aquisição da maestria de si: "Je progresse dans la
ça entra na "paixão de ser um homem", de se acre­ nTêtrise, je suis m'être de moi comme de 1'univers"
ditar um ser humano. O paranóico revela aberta­ (Eu avanço na maestria, eu sou dono de mim e do
mente, às vezes pelo assassinato ou pelo suicídio, universo), ironizaria Lacan no Seminário XX, 1972-
que a coincidência do ser e do eu é ignorância: 73, "Mais, ainda" (1975). Essa psicanálise coloca o
como Luís II da Baviera, que se tomava por um eu, como função da maestria, no centro do apare­
rei, ele confunde uma identificação com seu ser. lho psíquico.
m'être 138

Portanto, existe uma afinidade da dimensão entrever o lugar, o real de onde isso fala (inconsci­
imaginária com o discurso do mestre. Assim como ente).
o imaginário é organizado por uma dialética dual,
o discurso do mestre acredita fazer corte com aqui- Mitscherlich (Alexander). Médico e psicana­
lo que tenta dominar ("maítriser"), ignorando sua lista alemão (Munique, 1908 — Frankfurt-sobre-o-
alteridade. A exemplo do par paradigmático ho- Meno, 1982).
mem/mulher, os pares de elementos opostos sur­ Foi fundador, em 1949, da primeira clínica ale­
gem como complementares e parecem constituir mã de Medicina psicossomática, em Heidelberg, e
um todo, em sua associação, ainda que a falta de do Instituto S. Freud de Frankfurt (1960). Seu inte­
um dos elementos sempre seja nele denunciada. resse voltou-se, antes de mais nada, para a corre­
Isso seria ignorar que um elemento é primeiramen­ lação que liga o desenvolvimento psíquico do in­
te o outro e não seu complemento, ocupando um divíduo ao sistema político e social; foi nessa pers­
outro lugar, o real, e não o simbólico. pectiva que estudou o nazismo e o urbanismo. Pu­
Portanto, a psicanálise lacaniana irá opor, à blicou Freiheit und Unfreiheit in der Krankheit; das Bild
ontologia e ao discurso do mestre, o estatuto pré- des Menschen in der Psychoterapie (1946), Vers la soci-
ontológico, evasivo e elusivo do inconsciente, cuja eté sans pères, Essai de psychologie sociale (1963) e Le
estrutura de fenda e de pulsação temporal deixa deuil impossible (1967).
n
narcisismo, s.m. (alem.: Narcifimus; fr.: narcissis- nos ao sujeito. De fato, sucede que os investimen­
me; ing.: narcissism). Amor que o sujeito atribui a tos objetais ocorrem ao mesmo tempo que os in­
um objeto muito particular: a si mesmo. vestimentos egóicos; é quando advém um cérto
desinvestimento dos objetos e uma retirada da li­
bido sobre o sujeito, que se pode observar essa se­
O CONCEITO EM FREUD
gunda forma de narcisismo, que intervém, de al­
A noção de narcisismo é esparsa e muito pou­ guma forma, como uma segunda fase.
co definida na obra de S. Freud, até 1914, momen­ Desse modo, o narcisismo também representa
to em que escreve "Sobre o Narcisismo: uma In­ uma espécie de estado subjetivo, relativamente frá­
trodução", artigo no qual se preocupa em atribuir gil e de equilíbrio facilmente ameaçado. São cons­
ao narcisismo, entre os demais conceitos analíticos, truídas sobre essa base as noções dejdeais, em par­
um lugar digno dele. Até então, o narcisismo re­ ticular a do eu ideal e dõ ideal do eu. E podem
metia antes a uma idéia de perversão: em lugar de ocorrer alterações do funcionamento narcisista. Por
tomar um objeto de amor ou de desejo fora de si exemplo, as psicoses e mais exatamente a mania e,
mesmo, e sobretudo diferente de si mesmo, o su­ sobretudo melancolia, são, para Freud, doenças
jeito tomaria por objeto seu próprio corpo. Porém, narcisistas, caracterizadas tanto por uma inflação
a partir de 1914, Freud faz do narcisismo uma for­ desmedida do narcisismo como por sua depressão
ma de investimento pulsional necessária à vida irredutível; por isso, são também chamadas de psi-
subjetiva, isto é, em vez de alguma coisa de pato­ coneuroses narcisistas.
lógico, toma-se, pelo contrário, um dado estrutu­ A partir da década de 20 e do advento da se­
ral do sujeito. gunda tópica, Freud passou a preferir distinguir
Portanto, é preciso distinguir diversos níveis claramente as duas formas de narcisismo acima
de apreensão do conceito. Em primeiro lugar, o evocadas, qualificando-as de "primária" e "secun­
narcisismo representa tanto uma etapa do desen­ dária". Porém, ao fazer isso, o narcisismo primá­
volvimento subjetivo como seu resultado. A evo­ rio quase é assimilado ao auto-erotismo.
lução do filho do homem irá levá-lo não só a des­
cobrir seu corpo, mas também e principalmente a
C o n cepçõ es l a c a n ia n a s
se apropriar dele, a descobri-lo como lhe perten­
cendo. Isso significa que suas pulsões, e em parti­ As concepções lacanianas do narcisismo sim­
cular suas pulsões sexuais, tomam seu corpo por plificam consideravelmente esses problemas. É
objeto. A partir desse momento há um investimento através do processo de estruturação do sujeito que
perihanente do sujeito sobre si mesmo, o que con­ se pode melhor apresentá-las. Para J. Lacan, o in-
tribui, de forma notável, para sua dinâmica e par­ fan s — o bebê que não fala, que ainda não tem aces­
ticipação nas pulsões do eu e nas pulsões de vida. so à linguagem — não possui uma imagem unifi­
Esse narcisismo constitutivo e necessário, que de­ cada de seu corpo, ainda não estabelece bem a di­
riva daquilo que Freud chamou, desde o início, de ferença entre si mesmo e o exterior, não tem a no­
auto-erotismo, em geral se desdobra em uma ou­ ção nem do eu, nem do objeto — isto é, ainda não
tra forma de narcisismo, a partir do momento em possui uma identidade constituída, ainda não é um
que a libido também é investida nos objetos exter­ verdadeiro sujeito. Os primeiros investimentos
nascimento (fantasma do) 140

pulsionais que então ocorrem, durante essa espé­ nascimento (fantasma do) (alem.: G eb u rts-
cie de tempo zero, são pois os do auto-erotismo, p h an tasie; fr.:fa n ta s m e d e la n aissan ce; ing.: b ir th fa n -
porque essa terminologia dá a entender exatamente tasy). Concepção que as crianças fazem a respeito
a falta de sujeito verdadeiro. do nascimento dos bebês.
O começo da estruturação subjetiva faz com S. Freud julga que as primeiras teorias da cri­
que esse in fan s passe do registro da necessidade ança sobre o nascimento dão origem a todas as ul-
para o do desejo; o grito, de uma simples expres­ teriores pesquisas intelectuais, que são uma forma
são de insatisfação, toma-se apelo, demanda; as de responder à pergunta "de onde vêm os bebês?".
noções de interior/exterior e, depois, de eu/outro, A teoria mais frequente é a cloacal. Em O trau m a
de sujeito/objeto, passam a substituir a primeira e d o n ascim en to (1924), O. Rank formula a hipótese,
única discrim inação, a de prazer/desprazer. A segundo a qual o ato de nascer seria o trauma ini­
identidade do sujeito é constituída em função do cial que origina os distúrbios neuróticos: a passa­
olhar de reconhecimento do Outro. Nesse momen­ gem por uma via estreita seria repetida pela cons-
to, como o descreve Lacan, naquilo que chama de trição da crise de angústia, e a relação sexual seria
"fase do espelho", o sujeito pode se identificar com uma via de retomo ao ventre materno. No mesmo
a imagem global e recém-unificada de si próprio sentido, S. Ferenczi resolveu realizar tratamentos
("A Fase do Espelho como Formadora da Função analíticos de nove meses. Essas teorias e práticas
do 'J e '" , 1949); em E scritos, 1966). ( - » espelho (fase foram violentamente criticadas por S. Freud, por­
do)). Disso deriva o narcisismo primário, isto é, o que fundadas em uma concepção demasiado es­
investimento pulsional desejante, amoroso, que o treita de regressão.
sujeito realiza sobre si mesmo, ou, mais exatamen­
te, sobre sua imagem, sustentada pelo princípio do necessidade de castigo (alem.: S trafb ed ü rfn is;
significante, com o qual se identifica. fr.: besoin d e p u n itio n ; ing.: n e e d fo r p u n ish m en t ).
O problema seguinte é que, com base nessa -» castigo (necessidade de).
identificação primordial, vão se suceder as identi­
ficações imaginárias, constitutivas do "eu". Porém, neurose, s.f. (alem.: n eu rose; fr.: n ev rose; ing.: n eu -
fundamentalmente, esse eu ou essa imagem, que rosis). Modo de defesa contra a castração, pela fi­
é o eu, é "exterior" ao sujeito, não podendo, por­ xação em um argumento edípico.
tanto, ter a pretensão de representá-lo completa­
mente para si próprio. "O eu é um ou tro", resume
M e c a n is m o s e c l a s s if ic a ç ã o d a s
Lacan, parafraseando Rimbaud. De alguma forma,
o narcisismo (secundário) seria o resultado dessa NEUROSES SEGUNDO FREUD
operação, onde o sujeito investe um objeto exteri­ Depois de estabelecer a etiologia sexual das
or a ele — um objeto que não pode ser confundido neuroses, S. Freud tentou distingui-Ias, de acordo
com a identidade subjetiva — mas, apesar de tudo, com seus aspectos clínicos e mecanismos. De um
um objeto que parece ser ele próprio, pois é seu lado, situa a neurastenia e a neurose de angústia,
próprio eu, um objeto que é a imagem por meio cujos sintomas se originam diretamente da excita­
"da qual se prende", com tudo o que esse proces­ ção sexual, sem a intervenção de um mecanismo
so comporta de engodo, de cegueira e de aliena­ psíquico (estando a primeira ligada a um modo de
ção (S em in ário l, 1953-54, "Os Escritos Técnicos de satisfação sexual inadequado, a masturbação, e a
Freud", 1975). segunda, à ausência de satisfação). ("É justificável
Portanto, pode-se compreender que o ideal (do separar da neurastenia, sob o nome de n eu rose d e
eu) é construído a partir desse desejo e desse en­ a n g ú stia, um certo complexo sintomático", 1895).
godo. Porque não se deve esquecer que o termo Essas neuroses, às quais iria ulteriormente acres­
"narcisismo", tanto para Freud como para Lacan, centar a hipocondria, serão chamadas de "neuro­
também remete ao mito de Narciso, isto é, a uma ses atuais".
história de amor, na qual o sujeito acaba, ao se en­ Do outro lado, situa as neuroses nas quais ocor­
contrar consigo mesmo, por encontrar a morte. E é re um mecanismo psíquico de defesa (o recalca-
exatamente este o destino narcisista do sujeito, quer mento), denominando-as "psiconeuroses de defe­
o saiba, quer seja enganado: ao se enamorar por sa". Nessas, o recalcamento é exercido em relação
um outro que acredita ser ele próprio, ou ao se às representações de ordem sexual consideradas
apaixonar por alguém sem se dar conta que se tra­ "inconciliáveis" com o eu, o que determina os sin­
ta dele próprio, ele sempre perde, e sobretudo, se tomas neuróticos. Na histeria, a excitação, desli-
perde. gada da representação pelo recalcamento, é con­
141 neurose

vertida ao domínio corporal; nas obsessões e na Quanto às n eu roses a tu a is, essas também se
maioria das fobias, a excitação permanece no do­ opõem às neuroses de transferência, porque não
mínio psíquico, sendo deslocada por outras repre­ se originam em um conflito infantil e não possu­
sentações ("As Psiconeuroses de Defesa", 1894). em significação passível de elucidação. Freud as
A seguir, Freud observa que uma representa­ considera "estéreis", do ponto de vista analítico;
ção sexual só é recalcada se tiver despertado o tra­ porém, iria, no entanto, reconhecer que o tratamen­
ço mnésico de uma cena sexual infantil que tenha to pode exercer sobre elas uma ação terapêutica.
sido traumatizante; e, portanto, postula que essa Por diversas vezes, Freud tentou esclarecer os
cena agiu a posteriori, de uma maneira inconscien­ mecanismos em ação nas neuroses de transferên-
te, provocando o recalcamento ("Novas Observa­ cia ("O Recalcamento", 1915; C on ferên cias in trodu ­
ções sobre as Psiconeuroses de Defesa", 1896). Por­ tórias sobre p sica n á lise, 1916; In ibições, sin to m a s e a n ­
tanto, a "disposição à neurose" parece depender sied a d e, 1926). Trabalhou as seguintes indagações:
de eventos sexuais traumatizantes realmente ocor­ existem modalidades diferentes de recalcamento
ridos na infância (em particular a sedução). Mais nas diversas neuroses de transferência? Sobre quais
tarde, Freud iria reconhecer o caráter bastante in­ tendências libidinais ele atua? De que maneira ele
constante da sedução real, mas manteria a idéia de malogra, ou seja, como se formam os sintomas?
que a neurose tem sua origemVia j>rimeira infân- Existem outros mecanismos de defesa em jogo?
çia. De fato, por si só, a emergência das pulsões Que lugar ocupa a regressão? Não sendo possível
sexuais constitui um trauma, e o recalcamento que resumir o encaminhamento de seu pensamento,
se segue a isso dá origem a uma neurose infantil. pode-se simplesmente dizer que ele estabeleceu
Com freqüência, essa passa despercebida, com os que, na histeria, o recalcamento desempenha o pa­
sintomas, quando existem, atenuando-se no perí­ pel principal, enquanto que, na neurose obsessi­
odo de latência, mas reaparecendo posteriormen­ va, intervém outros mecanismos de defesa, que são
te. Portanto, a neurose do adulto ou do adolescen­ a anulação retroativa e o isolamento.
te é uma revivescência da neurose infantil.
Assim, a fixação (aos traumas, às primeiras
O É d ip o , c o m plexo n u c lea r d as n eu ro ses
satisfações sexuais), surge como um fator impor­
tante das neuroses; todavia, não é um fator sufici­ Freud situou o Édipo como o núcleo de toda
ente, pois também é encontrado nas perversõesjD neurose de transferência: "A tarefa do filho con-
fator decisivo é o conflito psíquico: Freud constan­ siste em desprender de sua mãe seus desejos libi­
temente explicava as neuroses pela existência de dinais, para ligá-los a um objeto real estranho, em
um conflito entre o eu e as pulsões sexuais. Confli­ reconciliar-se com o pai, se tiver conservado algu­
to inevitável, pois as pulsões sexuais são refratá- ma hostilidade quanto a ele, ou em emancipar-se
rias a qualquer educação, visando apenas obter o de sua tirania, quando, como reação contra sua re­
prazer, enquanto que o eu, dominado pela preo­ volta infantil, toma-se seu escravo submisso. Es­
cupação com a segurança, acha-se submetido às sas tarefas são impostas a todos e a cada um, de-
necessidades do mundo real e também à pressão vendo-se observar que raramente sua realização é
dos pais e às exigências da civilização, que lhe im­ feita de uma maneira ideal [...]. Os neuróticos fra­
põem um ideal. O que determina a neurose é a cassam totalmente nessas tarefas, permanecendo
"parcialidade do jovem eu em favor do mundo ò filho submisso à autoridade paterna durante toda
exterior, em vez do mundo interior". Freud tam­ sua vida, sendo incapaz de transferir sua libido
bém aborda o caráter inacabado, "fraco" do eu, que para um objeto sexual estranho. Isso também po­
o desvia das pulsões sexuais e, portanto, as recal­ derá acontecer, mutatis mutantis, com a menina. É
ca, em lugar de controlá-las. nèste sentido que o complexo de Édipo pode ser
Em 1914, Freud divide as psiconeuroses em considerado como o núcleo das neuroses" ( Confe­
dois grupos opostos: as neuroses narcisistas (termo rências introdutórias sobre psicanálise).
em desuso, que corresponde às psicoses) e as neu­ Por que persiste esse apego aos pais, em boa
roses de transferência (histeria, neurose obsessiva e parte inconsciente? Por que não foi superado, ul­
histeria de angústia) ("Sobre o Narcisismo: uma trapassado, o Édipo? Porque as reivindicações li­
Introdução", 1914). Nas neuroses narcisistas, a li- bidinais edípicas são recalcadas e por isso pereni-
bido é investida sobre o eu, não sendo mobilizá- zadas. Quanto ao móvel do recalcamento, Freud
vel pelo tratamento analítico. Ao contrário, nas irá precisar que se trata da angústia de castração,
neuroses de transferência, a libido, investida so­ permanecendo, para ele, em aberto a questão so­
bre objetos fantasmáticos, é facilmente transferida bre o que perpetuaria essa angústia (In ib ições, sin ­
sobre o psicanalista. tom as e an siedade).
neurose 142

Para Lacan, a angústia de castração indicaria um momento anterior à neurose, existe a repeti­
que a operação normativa, que é a simbolização ção de um idêntico, que é o elemento fobígeno, mas
da castração, não teria sido completamente reali­ ele não se inscreve em um argumento. Quanto à
zada. A simbolização se realiza através do Édipo. perversão, ela se caracteriza por uma montagem
A castração, isto é, a perda do objeto perfeitamen- imutável, que tem por finalidade dar acesso ao
te satisfatório e adaptado, é simplesmente deter­ objeto, e que não atribui lugar nem a uma histó­
minada pela linguagem, e o que permite simboli- ria, nem a personagens específicos.
zá-la é o Édipo, ao atribuí-la a uma exigência do Assim, "o real instalado na infância irá servir
Pai (a função paterna simbólica, tal como nós a de modelo para todas as situações futuras, apre­
imaginamos) em relação a todos. Sendo simboli­ sentando-se a vida como um sonho submetido à
zada a castração, habitualmente persiste uma fi­ lei do coração e ao desprezo pela realidade forço­
xação ao Pai, que é nosso modo comum de nor­ samente diferente, sendo o conflito sempre o de
malidade (é o que o termo "sintoma" designa, em antigamente" (Ch. Melman, Seminário 1986-87,
sua acepção lacaniana). inédito). O ponto fundamental, devido às suas con-
Porém, não sendo a neurose o sintoma, quais seqüências clínicas, é que o argumento termina em
são os fatores que tomam o Édipo neurotizante? fracasso: "a maneira pela qual o neurótico aborda
Não se pode deixar de evocar a influência dos pais o real mostra que ele reproduz, sem modificá-la, a
reais, mas com que critério avaliá-la? Lacan afir­ situação do fracasso originário". Que significação
ma que o que é patogênico é a discordância entre atribuir a essa repetição do fracasso? Seria a de fi­
aquilo que o sujeito percebe do pai real e a função nalmente obter uma perfeita apreensão do objeto
paterna simbólica (O mito individual do neurótico, ou, ao contrário, a de fazer com que sua perda seja
1953). O problema é que esse tipo de discordância verdadeiramente definitiva? Ir-se-á ver que a po­
é inevitável, sendo pois perigoso atribuir a neuro­ sição neurótica oscila entre essas duas intenções
se ao que os pais fizeram ou não fizeram sofrer a opostas.
criança. É nesse ponto que reside a questão que
-reud já tinha apresentado, desde os primórdios,
a respeito da qual tinha acabado por concluir que, A RELAÇÃO DO NEURÓTICO COM O OUTRO

1 a neurose, o què importa é a "realidade psíqui- Para o neurótico, como para qualquer falasser,
1 1 ". a relação fundamental é feita com o Outro. A rela­
Ao retomar o termo "mito individual", Ch. ção narcisista é de uma grande pregnância na neu­
\ elman insiste na importância da historização na rose (e, por isso, não são excepcionais nela as rea­
ci nstituição da neurose. Sugere a existência de uma ções paranóicas), mas é na relação com o Outro que
re eição da situação comum: rejeição em aceitar a a neurose adquire sua estrutura.
pc rda do objeto, que, portanto, se vê atribuída não Retomando, com outros termos, o que foi dito
a uma exigência do pai, mas a uma história consi­ acima, o Édipo, pelo Nome-do-Pai assegurado por
derada original e exclusiva (e, forçosamente, não ele, propõe um pacto simbólico. Por meio da re­
u é: falta de amor materno, impotência do pai real, núncia a um certo gozo (o do objeto a), o sujeito
tra uma sexual, nascimento de um irmão ou de uma pode ter um acesso lícito ao gozo fálico. As condi­
irmã, etc.). No lugar em que o mito edípico, mito ções do pacto são bem estabelecidas para o futuro
coletivo, abre uma promessa, o mito individual do neurótico (o que não acontece com o psicótico), mas
neurótico pereniza um dano. E, se existir também ele não irá renunciar completamente ao gozo do
a fixação ao pai, ela se deve à queixa que lhe é di­ objeto a (como muito bem se pode observar na neu­
rigida, para que repare esse dano. rose obsessiva, e, algumas vezes, também na his­
Assim, não é apenas ao pai e à mãe que o neu­ teria); ele tampouco irá renunciar a se pretender
rótico permanece apegado; é, mais amplamente, a não castrado.
uma situação original organizada por seu mito in­ De que forma ele se defende? Imaginarizan-
dividual. Ch. Melman observa que essa situação é do o Nome-do-Pai, que é um significante, e tor-
estruturada como um argumento e que esse argu­ nando-o o Pai ideal, aquele que — como diz La­
mento irá se repetir durante toda a vida, impondo can — "fecharia os olhos aos desejos", não exigin­
a ele suas estereotipias e seu fracasso, nas diversas do a aplicação estrita do pacto simbólico. Assim, o
circunstâncias que irão se apresentar. neurótico dá existência ao Outro que, por defini­
Esse estar preso a um argumento é caracterís­ ção, é apenas um lugar. O dispositivo do tratamen­
tica da neurose. Na psicose não existe drama edí­ to, associado à posição deitada e à invisibilidade
pico que possa ser reapresentado. Na fobia, que é do psicanalista, torna mais sensível essa existên­
143 neurose

cia do Outro; é ao Outro, e não à pessoa do psica­ ensinamentos, atribuiu um outro lugar à fobia, ao
nalista, que são dirigidos os apelos e as perguntas qualificá-la de "plataforma giratória" para as ou­
do analisando. tras estruturas, a neurótica ou a perversa. Ch. Mel-
A transferência neurótica é essa crença, com man, como se pôde observar, separa radicalmente
muita freqüência inconsciente, no Pai ideal que a estrutura fóbica da neurose.
supostamente irá acolher a queixa, comover-se com A histeria e a neurose obsessiva podem ser
ela, dar-lhe remédio, e que "supostamente sabe" opostas esquematicamente em um certo número de
em que caminho o sujeito deveria engajar seu de­ pontos:
sejo. A transferência é o motor do tratamento, pois — O sexo: predominância feminina na histe­
a interrogação do "sujeito suposto saber" permite ria e predominância masculina ainda mais acen­
que o analisando adquira elementos desse saber, tuada na neurose obsessiva. Quando se situa a neu­
mas também impede seu término, pois isso impli­ rose, não em relação ao sexo anatômico, mas em
ca a destituição desse Pai ideal. relação à posição sexuada ("sexuação"), a oposi­
O neurótico desejar-se-ia à imagem desse Pai: ção se torna ainda mais nítida; a histeria é caracte­
sem falha, não castrado; é por isso que Lacan diz rística da posição feminina e a neurose obsessiva,
que ele possui um eu "forte", um eu que, com toda da posição masculina. No primeiro caso, a ques­
sua força, nega a castração que sofreu. Afirma que tão do sexo é central (questão inconsciente, formu­
toda tentativa para reforçar o eu aumenta suas de­ lada por Lacan como: "sou eu homem ou mulher?"
fesas, levando-o no sentido da neurose. Apesar da ou ainda: "o que é uma mulher?"); no segundo, é'
contradição com o termo eu "fraco", empregado a da dívida simbólica impagável, que é formulada
por Freud, Lacan concorda com o que Freud for­ nos temas da existência e da morte.
mula, no final de sua obra, a respeito do "rochedo — A sintomatologia: facilmente somática na
da castração", que nada mais é do que a não ad­ histeria, puramente mental, na neurose obsessiva.
missão da castração ("Análise Terminável e Inter­ — O mecanismo psíquico em causa: recalca-
minável", 1937). mento, na histeria, isolamento e anulação retroati­
Ao defender-se da castração, o neurótico con­ va, na neurose obsessiva.
tinua temendo-a, enquanto ameaça imaginária, e, — O objeto predominante e a dialética posta
nunca sabendo muito bem ao que pode ser autori­ em ação em relação ao Outro: na histeria, o seio
zado — quer se trate de sua palavra ou de seu gozo que simboliza a demanda feita ao Outro, na neu­
—, mantém suas limitações. Quando estas forem rose obsessiva, as fezes, que simbolizam a deman­
demasiado intoleráveis, o apelo à indulgência do da feita pelo Outro.
Outro poderá se transformar, momentaneamente, — A condição determinante da angústia: per­
em um apelo para que realize sua castração, mas da de amor, na histeria, angústia diante do supe-
isso de nenhuma forma constitui um progresso, reu, na neurose obsessiva.
porque, logo depois, ele passa a imaginar que — A subjetividade: a histeria é a manifesta­
quem demanda sua castração é o Outro, o que, no ção da subjetividade, a neurose obsessiva, a tenta­
entanto, nega. "O que o neurótico não quer, e que tiva de aboli-la. Concebe-se que a sintomatologia
rejeita encarniçadamente, até o término da análi­ possa, no primeiro caso, ser ruidosa ou mesmo "te­
se, é sacrificar sua castração ao gozo do Outro, nisso atral", sendo, no segundo, dissimulada por muito
deixando de servi-lo ("Subversão do Sujeito e Di­ tempo.
alética do Desejo no Inconsciente Freudiano", 1960, — Tipo de obstáculo oposto à realização do
Escritos, 1966). desejo: Lacan enfatiza o caráter "insatisfeito" do
A psicanálise, que não está a serviço da moral desejo do histérico ("o desejo só se mantém, nele,
ordinária (de inspiração edípica e preconizando a pela insatisfação que lhe é trazida, no esquivar-se
lei patema), deve permitir que o sujeito se interro­ do objeto) e o caráter "impossível" assumido pelo
gue tanto sobre a escolha do gozo que fez como a desejo no obsessivo.
respeito da existência do Outro. Essa série de oposições enfatiza a "antipatia
profunda" (Melman) entre as duas neuroses. To­
davia, é preciso esclarecer que histeria e neurose
H is t e r i a e n e u r o s e o b s e s s iv a
obsessiva não se situam no mesmo plano, à medi­
As duas principais neuroses de transferência da que o termo histeria não conota apenas uma
são a histeria e a neurose obsessiva. Freud incluiu neurose, mas muito mais amplamente um discur­
entre as neuroses de transferência certas fobias, sob so (discurso), aquele no qual a subjetividade está
a denominação de histeria de angústia, portanto, em posição principal e que pode ser tomado em­
aproximando-as da histeria. Lacan, no final de seus prestado por qualquer um. Isso explica de outra
neurose de angústia 144

maneira, que não por argumentos genéticos, a pos­ ao sucessor, e isso de uma forma que oblitera todo
sibilidade de se encontrarem traços histéricos em plano de divagem. Assim, o pesquisador corre o
uma neurose obsessiva. risco de partilhar a dúvida do obcecado sobre aqui­
lo que estaria no começo e podería ter sido o de­
neurose de angústia (alem.: Angstneurose; fr.: terminante.
neurose d'angoisse; ing.: anxiety neurosis)
-> angústia (neurose de).
C l ín ic a

neurose de destino (alem.: Schicksalsneurose; fr.: De imediato, a clínica da neurose obsessiva


névrose de destinée; ing.:/ofe neurosis). distingue-se da clínica da histeria pelo menos por
-» destino (neurose de). dois elementos: a afinidade eletiva, mas não ex­
clusiva, pelo sexo masculino; a reticência do paci­
neurose obsessiva (alem.: Z wangsneurose; fr.: ente em reconhecer e dar a conhecer sua doença;
névrose obsessionnelle; ing.: obsessional neurosis). En­ com freqüência, o que o leva a consultar é a inter­
tidade clínica isolada por S. Freud, graças à sua venção de um terceiro.
concepção do aparelho psíquico: a interpretação, A predileção dessa neurose pelo sexo mascu­
que fazia das idéias obsedantes a expressão dos lino é instrutiva, pois aponta o papel determinan­
desejos recalcados, permitiu que Freud identificas­ te do complexo edípico — eis a causa que havia
se como neurose o que até então era considerado sido dissimulada — porque é ele que instala o sexo
como "loucura da dúvida", "fobia do tato", "ob­ psíquico. Quanto à repulsa em "confessar" a do­
sessão", "compulsão", etc. ença, deve-se manifestamente ao fato de que esta
O caso prínceps, publicado por Freud em 1909, é vivenciada como "falta moral" e não como uma
é o do chamado "Homem dos ratos" (em Cinco li­ patologia. (Porém, há um outro motivo essencial
ções de psicanálise). Esse caso é rico de ensinamen­ de dissimulação.)
tos inesgotáveis. O autor observa que a neurose Portanto, a principal sintomatologia são as
obsessiva deveria ser mais fácil de perceber do que idéias obsessivas com ações compulsivas e a defe­
a histeria, pois não envolve "o salto para o somáti­ sa desenvolvida contra elas.
co". Os sintomas obsessivos são puramente men­ As obsessões se destacam por seu caráter de­
tais, contudo, continuam sendo, para nós, os mais finitivamente sacrílego: as circunstâncias que exi­
obscuros. É preciso confessar que os epígonos pou­ gem uma expressão de respeito, de homenagem,
co contribuíram para esclarecê-los. Quanto a J. La- de devoção ou de submissão desencadeiam regu­
can — não se levando em conta sua tese de Medi­ larmente "pensamentos" injuriosos, obscenos, es-
cina —, nada escreveu sobre a clínica propriamen­ catológicos ou até mesmo criminosos. Embora ar­
te dita, por achar que isso não contribuiría para a ticulados amiúde sob a forma de um dirigir-se a
objetivação dos casos, isto é, nada acrescentou aos alguém no imperativo (por exemplo, o "pensamen­
avatares da subjetividade. Entretanto, nesta análi­ to" visando à mulher amada: "Agora, vá lhe c...
se far-se-ão referências às suas teses. na boca..."), são reconhecidos pelo sujeito como a
expressão de sua própria vontade, assustado e ater­
rorizado por ele ser tão monstruoso. No entanto, é
P or q u e e s s a d if ic u l d a d e e s p e c íf ic a d a
preciso enfatizar que esses incidentes (alem. Einfal-
ABORDAGEM?
len) nunca são tomados como sendo de inspiração
Sem dúvida, a dificuldade está ligada ao fato estranha, mesmo que sua audição possa ser, em
da neurose obsessiva estar muito próxima de nos­ certos casos, quase alucinatória. Portanto, trava-se
sa atividade psíquica comum e, por exemplo, do uma luta, constituída de idéias contrárias expiató­
próprio procedimento lógico por meio do qual se rias ou propiciatórias, que podem ocupar toda a
é, habitualmente, tentado a explicá-la. Por outro sua atividade mental diurna, até que o sujeito se
lado, essa disposição mental convoca uma das nos­ aperceba, com temor redobrado, que essas contra-
sas relações mais conflitivas, a que nos liga ao pai, medidas estão elas próprias infiltradas. Assim,
enquanto que o complexo de Edipo nos incitaria impõe-se a imagem de uma fortaleza assediada,
— como Tirésias oportunamente teria aconselha­ cujas muralhas, febril e continuamente erguidas,
do — antes a moderar nosso desejo de saber. A esse são derrubadas e postas a serviço do agressor, ou
respeito, ela opera uma dissolução da função, ca­ então da falha, cujo preenchimento, recém-assegu-
racterística da causa em prol de uma relação que rado, anuncia que em um outro lugar outra está
liga firmemente, na cadeia falada, o antecedente sendo aberta. Nessas representações familiares de
145 neurose obsessiva

nosso imaginário mental, é possível reconhecer a carregado da função tinha sido o tenente B e havia
expressão do pesadelo, mas também do cômico. As sido a funcionária dos correios quem dera o crédi­
ações compulsivas, com finalidades verificadoras to. Todavia, essa injunção age como um in cid en te
ou expiatórias, também apresentam uma ambigüi- (alem. E in falJ), sendo ele tomado pelo constrangi­
dade semelhante, podendo-se achar que elas são, mento de realizá-la, para evitar que horríveis in­
também, involuntariamente obscenas ou sacrílegas. fortúnios afetassem os entes que lhe eram caros.
Esse debate permanente opera-se em um cli­ Foi então um tormento apavorante para tentar fa­
ma de dúvida bem mais sistemática do que o acon­ zer com que sua dívida circulasse entre essas três
selhado pelo filósofo, não levando a nenhuma cer­ pessoas, até que fosse indenizada a funcionária dos
teza de ser. Surge, nessa dúvida, com freqüência, correios. É verdade que o objeto da entrega não
uma interrogação lancinante e geradora de diver­ era indiferente: tinha sido um par de lo r g n o n s
sas verificações, sempre insatisfatórias, a respeito (alem. Zwicker), encomendado a um óptico vie-
de um assassinato, que o sujeito poderia ter come­ nense, para substituir os que perdera em uma es­
tido ou iria cometer, sem que o soubesse. Assim, tada, e que não tinha querido procurar, para não
um automobilista sentir-se-ia obrigado a voltar so­ retardar a partida. Durante esse descanso, o capi­
bre seu caminho para verificar se, em determina­ tão "cruel", partidário dos castigos corporais, re­
do cruzamento, não havia atropelado alguém, sem latara o suplício oriental (descrito por O. Mirbeau
ter-se dado conta disso; mesmo assim, essa verifi­ em L e ja rd in d es s u p p lic e s ), segundo o qual se pren­
cação não iria convencê-lo, pois poderia já ter pas­ de um homem desnudo, sentado sobre um balde
sado uma ambulância e as testemunhas se disper­ cheio de ratos: estes, famintos, lentamente pene­
sado. tram em seu reto... Freud observa "o gozo por ele
Um sintoma desse tipo só é mantido porque próprio ignorado" com que o paciente lhe relata a
conjuga ato e dúvida; o obsessivo não tem medo história.
apenas de cometer algum ato grave (assassinato, O pai de Ernst tinha morrido há pouco tem­
suicídio, infanticídio, violação, etc.), imposto a ele po: um bravo homem, um vienense "bon v iv a n t”,
por suas idéias, mas também de tê-lo feito de modo do tipo preguiçoso, o melhor amigo de seu filho e
inadvertido. Forçando o traço, ir-se-á pouco a pou­ seu confidente, "exceto em um único domínio".
co resgatando a figura de um tipo humano, que Antigo suboficial, havia abandonado o exército
não é raro: homem mais velho, que continua mo­ devido a uma dívida de honra que não conseguira
rando com sua mãe, funcionário ou contador, cheio pagar, vindo sua riqueza de seu casamento com
de hábitos e de pequenas manias, escrupuloso e uma rica filha adotiva.
preocupado com uma justiça igualitária, privilegi­ Aliás, quem segura os cordões da bolsa é a mãe
ando as satisfações intelectuais e encobrindo, com de Ernst, que seria consultada, depois da visita a
sua civilidade ou religiosidade, uma agressivida­ Freud, sobre a oportunidade de empreender um
de mortífera. tratamento. No horizonte amoroso, a dama a quem
ele "venera" e corteja, sem esperanças, é pobre, mas
muito bela, enfermiça e provavelmente estéril, e
O HOMEM DOS RATOS
pouco o considera. Seu pai desejara que fizesse, a
Uma caricatura desse tipo em nada se asseme­ exemplo dele, um casamento mais pragmático. Por
lha ao jovem jurista — parece que seu nome ver­ outro lado, existem algumas poucas ligações com
dadeiro era Ernst Lanzer — que, em 1905, consul­ serviçais. Tem um amigo que considera "como um
tou Freud: inteligente, corajoso, simpático, muito irmão", a quem apela em caso de desespero. Ti­
doente, o Homem dos ratos tinha tudo para sedu- nha sido ele quem lhe aconselhara a consultar. A
zi-lo. leitura que fizera de A psicop atolog ia da vid a cotid ia­
Então, seu sintoma estava relacionado com um na tinha-o levado a Freud. Ainda não concluira seus
período militar: a impossibilidade de reembolsar, estudos de Direito, e essa procrastinação tinha se
da forma como lhe haviam indicado, a modesta agravado com a morte do pai.
soma devida a uma funcionária dos correios. Quan­ Freud esforçou-se em fazê-lo compreender seu
do um certo capitão, "conhecido por sua cruelda­ ódio recalcado pelo pai; como uma renúncia em
de", ordênou-lhe que pagasse ao tenente A, que relação à genitalidade tinha-o levado a uma regres­
trabalhava como encarregado do serviço postal, as são da libido até a fase anal, e como esta tinha se
três coroas e oitenta, que este lhe tinha adiantado transformado em desejo de destruição. Em st pa­
para uma remessa contra reembolso, Ernst deve­ rece ter melhorado muito com o tratamento. A
ria saber que o capitão tinha se enganado. O en­ guerra de 1914 pôs termo ao elã reencontrado.
neurose obsessiva 146

O bsessã o filiação àquele que se sustenta no real (essa cate­


goria, cuja abordagem suscita angústia e temor),
Pode-se ver que o que ainda não fora compre­
tende a domesticá-lo. Não seria demais dizer que
endido — em particular— era o caráter específico
a religião — lugar sagrado — é uma operação de
da doença: a obsessão. Por que o recalcado logo
simbolização do real. Uma vez anulada a idéia se­
retoma, com uma virulência proporcional à força gundo a qual o real sempre está alhures, o único
do recalcamento, a ponto deste poder apresentar,
meio de fazer valer a dimensão do respeito em re­
em uma de suas faces, o próprio recalcado? Por
lação ao hóspede divino é a distância euclidiana.
que esses atos impulsivos, que constrangem o ob­ Podemos ver, nessa mudança essencial, a causa da
sessivo? estase característica do estilo obsessivo, ou seja, a
Essas perguntas precisam ser respondidas, se negativa de se desligar e de crescer, de vencer as
se quiser que suas particularidades contribuam
etapas, de concluir os estudos, ou mesmo o trata­
para nos ensinar as leis do funcionamento psíqui­
mento analítico. Um tal acesso iria de fato compor­
co. tar o risco de se igualar ao ideal, assim o destruin­
Por nosso turno, tentaremos continuar, a par­ do e comprometendo a conservação da vida.
tir da comparação feita por Freud entre exercício Porém, há uma outra conseqüência ainda mais
religioso e ritual obsessivo, assimilando este últi­ destrutiva: a anulação da categoria do real, por in­
mo a "uma religião privada".
termédio da simbolização, suprime, no mesmo
Para tanto, é preciso lembrar o caráter patro- movimento, a do referencial sobre o qual se apóia
cêntrico da religião judaico-cristã, fundada no amor a cadeia falada. Portanto, o que iria se instalar não
ao Pai e no recalcamento dos pensamentos ou sen­ seria apenas a dúvida. A função da causa — pri­
timentos hostis a ele. Poder-se-á notar que, se a his­
vada de seu suporte — é transferida a qualquer
teria é descrita perfeitamente, apesar de seu poli- par da cadeia, ligando o antecedente ao sucessor,
morfismo clínico, tendo sido identificada a sua eti- transformado assim no conseqúente. Dessa forma,
ologia há mais de 2000 anos a.C., pelos médicos
o poder da geração passará a depender agora do
egípcios, em compensação, não são encontrados
rigor da cadeia, concebendo-se a preocupação ob­
traços significativos sobre a neurose obsessiva —
sessiva em constantemente verificar, e em expul­
nos textos médicos, literários, religiosos ou em ins­
sar o erro, tomado criminal.
crições — antes da constituição da religião judai­
A infelicidade— tipicamente obsessiva— des­
co-cristã. Estabelecida essa, observa-se o acúmulo
se esforço considerável é que, se o real for forcluí-
dos comentários de textos sacros destinados a pu­
do, ele retoma como falha entre dois elementos
rificar os atos e pensamentos de tudo aquilo que
quaisquer que se tinha tentado soldar perfeitamen­
não esteja de acordo com a vontade superior, de
te (é a cesura entre duas pedras do calçamento com
tal forma que cada instante termina sendo a ela
a qual brincaria a criança). Mas cada falha é consi­
consagrado, com uma minúcia cada vez mais aper­
derada como um motivo de objeções, fontes de co­
feiçoada. Aliás, nessa perspectiva, o Evangelho
mentários que chamarão outros comentários, veri­
pode ser entendido como um protesto da subjeti­ ficação retroativa do caminho seguido, questiona­
vidade, supostamente livre do fardo das obras e
mento das premissas, etc., em suma, um raciocí­
de um ritual que não impede a "incircuncisão do nio que não consegue ser acalmado. Sem um refe­
coração". rencial que o alivie, cada elemento da cadeia ad­
Entretanto, uma grande objeção faz obstáculo
quire uma tal positividade ("é bem isso") que só
a essa via. De fato, a perspectiva racionalista tam­ se toma suportável quando anulado ("isso não é
bém não deixa de ser — como se sabe — uma cau­ nada"). Assim, estaria preparado o terreno propí­
sa da neurose obsessiva. Facilmente andam juntas
cio para uma formalização, cujo exemplo de apli­
com a morbidade obsessiva, a recusação das refe­
cação é fornecido por essa neurose.
rências a um Criador e a preocupação com um pen­
De fato, pode-se dizer que o dispositivo evo­
samento rigoroso e lógico, companhia inesperada
cado é suportado por uma relação R, que classifi­
de quem esperava uma isenção do pensamento.
ca todos os elementos da cadeia de um modo re­
Como nos reconciliar com esse tipo de paradoxo,
flexivo (xRx), o que significa que cada elemento
a menos que se tente fazê-lo funcionar para que
pode ser considerado seu próprio gerador, anti-si­
esclareça o mecanismo em jogo?
métrico (xRy e não yRx), devido ao par anteceden-
O que essas duas opções aparentemente con­
te-sucessor, e transitivo (xRy, yRu, e portanto xRu),
trárias (mas não, como se sabe, para Santo Tomás) o que permite ordenar todos os elementos da ca­
possuem em comum é, na verdade, um tratamen­
deia. Sendo essa relação R idêntica à dos números
to idêntico do real. A religião, ao postular nossa
naturais, pode-se compreender melhor a afinida­
147 neutralidadi

de espontânea do pensamento obsessivo com a arit­ o obsessivo preferiu se subtrair, o que só lhe deixa
mética e a lógica (e também inversamente, porque a morte, como ato absoluto, temido e ao mesmo
nem sempre uma formação científica é a melhor tempo desejável.
para se tomar psicanalista).
Em todo caso, estamos na junção, na qual se n e u tra lid a d e , s.f. (alem.: NeutralitSt; fr.: neutra-
adivinha por que religião e racionalidade, propon­ lité; ing.: neutrality). Traço apresentado historica­
do um mesmo tratamento do real, correm o risco mente como característico da posição do analista
das mesmas conseqüências mórbidas. no tratamento, ou ainda de seu modo de interven­
ção.
Historicamente, a psicanálise foi constituída,
O PREÇO DA DÍVIDA
quando se desligou das outras formas de interven­
A forclusão do real, essa categoria que se opõe ção terapêutica, em particular daquelas que, ori­
a "toda" totalização (tanto mais que é o pensamen­ ginadas na hipnose, atribuíam importância a uma
to que funda o totalitarismo), equivale a uma for­ ação direta sobre o paciente, a uma "sugestão". É
clusão da castração. Eis o impagável, cuja dívida nessa perspectiva que é preciso situar um certo
assombra a memória do obsessivo, sempre preo­ número de indicações de Freud, relacionadas com
cupado com o equilíbrio das entradas e saídas; no a neutralidade que convém ao analista.
caso do Homem dos ratos, foi, primeiramente, o Todavia, essa noção não é tão evidente como
impagável de seu pai, que, sem dúvida, iria deter­ parece, tendo dado lugar a muitos mal-entendidos.
minar o preço de sua vida. Porém, por seu turno, O que é certo é que o analista deve evitar orientar
a rejeição do imperativo fálico seria paga, no lu­ a vida de seu paciente, em função de seus própri­
gar de onde são proferidas, para o sujeito, as men­ os valores. "Não tentamos formar para ele seu des­
sagens que teria de assumir por sua conta (o lugar tino, nem inculcar-lhe nossos ideais, nem modelá-
Outro na teoria lacaniana), do imperativo puro, lo à nossa imagem, com o orgulho de um Criador"
desencadeado, sem mais limite (pois a castração é (S. Freud, "Linhas de Progresso na Terapia Psica-
forcluída) e, portanto, prenhe de todos os riscos. nalítica", em A técn ica p sicaitalílica, 1918).
Concebe-se a repugnância do obsessivo pelas ex­ É mais no plano técnico que essa noção de neu­
pressões da autoridade, mesmo que seja partidá­ tralidade apresenta mais problemas. Ela tem um
rio da ordem. Em compensação, sem a referência alcance quanto à relação imaginária* do analisan­
fálica, doravante irá surgir esse imperativo do Ou­ do com o analista. Ser neutro, a esse respeito, se­
tro, excitando as zonas ditas "pré-genitais" (oral, ria, para o analista, evitar entrar no tipo de rela­
escópica, anal), como outros lugares propícios para ções que em geral todos mantêm de forma volun­
um gozo, neste caso, perverso e culpado porque tária, relações nas quais a identificação sustenta
puramente egoísta. tanto o amor como a rivalidade. Todavia, o analis­
A luneta perdida de Ernst Lanzer lembra-nos ta não pode evitar por completo que o analisando
o v oy eu rism o de sua infância, e a história dos ratos, o instale nesse lugar, e precisa avaliar suas conse­
sua analidade. Mas a homossexualidade atribuída qüências, em vez de se contentar em preconizar a
ao obsessivo é de um tipo especial, pois inclui não neutralidade.
apenas o desejo de se fazer perdoar a agressivida­ Sem dúvida, são mais importantes as obser­
de contra o pai e de ser amado por ele, mas tam­ vações que podem ser feitas a partir das teorias do
bém o retorno no real, e de um modo traumático, desejo e do significante. Se o desejo, por exemplo
do instrumento que se tinha tentado abolir. Essa no sonho, aparece ligado a significantes privilegi­
abolição já tinha provocado, como se viu, o retor­ ados, via de regra nada indica quanto a cada um
no no Outro (de onde se articulam os pensamen­ dos termos ser tomado em um sentido positivo ou
tos do sujeito) de uma obscenidade realmente vio­ negativo, ou se o sujeito persegue ou evita os obje­
lenta e sacrílega, se for verdade que ela se refere tos e situações organizadas pelos significantes de
ao instrumento que também exige o mais alto res­ seus sonhos. A tarefa do analista é então permane­
peito. cer mais no nível da questão, deixando que a per-
Mas ela também justifica a retenção do objeto, laboração progressivamente habitue o sujeito não
chamado por Lacan de "pequeno a", suporte do apenas com a linguagem de seu desejo, mas com
p lu s - de-gozar, que o obsessivo se reserva de ma­ os pontos de bifurcação que este comporta.
neira irregular, mas ao preço de infinitas precau­ No entanto, apesar de tudo isso, o termo "neu­
ções e de uma constipação mental. Quanto aos atos tralidade" talvez não tenha sido muito bem esco­
impulsivos, enfim, eles sem dúvida lembram, por lhido. De fato, ele pode evocar uma atitude de apa­
sua impotência, o principal ato (a castração) ao qual rente desapego ou, pior ainda, de passividade, uma
Nome-do-Pai 148

forma de acreditar que basta deixar que surjam os F o r m a l iz a ç ã o e m d o is t e m p o s


sonhos e as associações, sem de nenhuma forma
O primeiro realiza a elisão do desejo da mãe,
imiscuir-se neles. E por isso que se oporá à idéia
colocando em seu lugar a função do pai a que ela
de uma neutralidade do analista (ou mesmo de
conduz, através do apelo ao seu nome, pela iden­
uma "neutralidade benfazeja", segundo uma for­
tificação com o pai (segundo a primeira descrição
ma que se impôs, mas que não está em Freud), a
de Freud) e pela retirada do sujeito para fora do
de um ato* psicanalítico, que explicaria melhor a res­
campo do desejo da mãe. Esse primeiro tempo,
ponsabilidade da análise na direção do tratamen­
decisivo, regula, com todas as dificuldades decor­
to.
rentes de cada história, o devir da dialética edípi-
ca. Ele condiciona o que se convencionou chamar
Nome-do-Pai, s.m. (fr.: Nom-du-Père). Produto da
de "normalidade fálica", ou seja, a estrutura neu­
metáfora paterna que, designando primeiramente
rótica resultante da inscrição de um sujeito, por
o que a religião nos ensinou a evocar, atribui a fun­
meio do recalcamento originário. No segundo tem­
ção paterna ao efeito simbólico de um puro signi-
po, o Nome-do-Pai, enquanto significante, vai du­
ficante e que, em um segundo momento, designa
plicar o lugar do Outro inconsciente. Ele dramati­
aquilo que rege toda a dinâmica subjetiva, ao ins­
za, em seu justo lugar, a relação com o significante
crever o desejo no registro da dívida simbólica.
fálico originariamente recalcado e institui a pala­
O pai é uma verdade sagrada, da qual, no en­
vra, sob os efeitos do recalcamento e da castração
tanto, nada, na realidade vivida, indica a função,
simbólica, condição sem a qual um sujeito não con­
nem a dominância, pois continua sendo, em pri­
seguiría assumir validamente seu desejo na ordem
meiro lugar, uma verdade inconsciente. E neces­
de seu sexo.
sariamente por meio de uma elaboração mítica que
sua função emerge na psicanálise, e que atravessa
toda a obra de S. Freud, até seu derradeiro traba­ C o r r e l a ç ã o e n t r e o n o m e - d o - pa i e
lho, Moisés e o monoteísmo, no qual é desenvolvida
o DESEJO
sua eficácia inconsciente, como sendo a do pai
morto, enquanto termo recalcado. Bastante cedo Da correlação entre o Nome-do-Pai e o desejo
Freud já tinha referido, nas noções de destino e de decorrem diversas conseqüências: sendo a metá­
providência, as figuras parentais. E, por outro lado, fora a criação de um novo sentido, o Nome-do-Pai
também se sabe, em relação ao grande número de logo assume uma significação diferente. Se o nome
tratados da Antiguidade sobre o tema, o quanto o inscreve, em primeiro lugar, o sujeito como elo in­
destino constituiu uma das principais preocupa­ termediário na seqüência das gerações, esse nome,
ções dos filósofos e moralistas. Porém, se o Nome- enquanto significante intraduzível, suporta e trans­
do-Pai é um conceito fundamental na psicanálise, mite o recalcamento e a castração simbólica. De
isso se deve ao fato de que o que o paciente vai fato, o Nome-do-Pai, ao simbolizar o falo (origi­
buscar no tratamento é o tropo de seu destino, isto nalmente recalcado) no lugar do Outro, duplica,
é, aquilo que, a partir da ordem da figura de retó­ em conseqüência, a marca da falta no Outro (que
rica, irá comandar seu devir. A esse título, Édipo e também é a do sujeito: seu traço* unário) e, por
Hamlet são exemplares. Poder-se-ia dizer que a efeitos metonímicos ligados à linguagem, institui
psicanálise convida a uma maestria desse destino? um objeto causa do desejo. Assim, se estabelece,
Tudo vai contra essa idéia, à medida que o Nome- entre Nome-do-Pai e objeto causa do desejo, uma
do-Pai consiste, principalmente, na regulação do correlação que se traduz pela obrigação, para o
sujeito com seu desejo, em relação ao jogo dos sig- sujeito, de inscrever seu desejo de acordo com a
nificantes que o animam e constituem sua lei. ordem de seu sexo, reunindo, ao mesmo tempo,
Para explicitar melhor, seria conveniente vol­ sob esse Nome, o Nome-do-Pai, a instância do de­
tar à formalização de J. Lacan, a da metáfora pa­ sejo e a Lei que a ordena, à maneira de um dever a
terna, formalização da qual se observa que consis­ ser cumprido. Um dispositivo desse tipo se distin­
te unicamente em um jogo de substituição na ca­ gue radicalmente da simples nominação, pois o
deia significante, organizando dois tempos distin­ Nome-do-Pai significa aqui que o sujeito assume
tos, que também podem determinar o trajeto de seu desejo como de acordo com a lei do pai (a cas­
um tratamento em seu conjunto. tração simbólica) e as leis da linguagem (sob o gol­
pe do recalcamento originário). A falta eventual
149 novela familiar

dessa última operação traduz-se, clinicamente, pela sujeito leva em consideração o desejo, em todas as
inibição ou por uma impossibilidade de dar se- suas conseqüências, também é isso o que funda
qüência ao desejo, em suas conseqüências afetivas, essencialmente a religião e o que humaniza o de­
intelectuais, profissionais ou sociais. sejo. A questão, no tratamento, é, assim, a possibi­
Quando J. Lacan lembra que o desejo do ho­ lidade de levantar parte da hipoteca do "necessá­
mem é o desejo do Outro (genitivo objetivo e sub­ rio" à estrutura, pois, na palavra do sujeito, a in­
jetivo), é preciso entender que esse desejo é pres­ terrogação sempre se refere a "quem fala além do
crito pelo Outro, forma reconhecida da dívida sim­ Outro?" A resposta tradicional coloca ali o Nome-
bólica e da alienação, e que, de uma certa forma, do-Pai; também Lacan tinha acreditado que devia
esse objeto é igualmente arrancado ao Outro. As­ sugerir que, se o tratamento permitisse a instala­
sim, o Nome-do-Pai resume a obrigação de um ção do Nome-do-Pai, sua função seria a de fazer o
objeto de desejo até mesmo no automatismo de re­ sujeito passar sem ele.
petição. O leitor pode se reportar a Lacan: "A s Estru­
turas Freudianas das Psicoses" (Seminário, 1955-
56); publicado sob o título "A s Psicoses", 1981), "A
O NASCIMENTO DA RELIGIÃO COMO SINTOMA
Relação de Objeto" (Seminário, 1956-57); não-pu-
Além disso, M oisés e o m on oteism o demonstra blicado), "As Formações do Inconsciente" (Semi­
que o recalcamento do assassinato do pai engen­ nário, 1957-58; não publicado). "Sobre uma Ques­
dra uma dupla prescrição simbólica: em primeiro tão Preliminar a Todo Tratamento Possível da Psi­
lugar, a de venerar o pai morto, e, em segundo lu­ cose" (Seminário, 1955-56; publicado em E scritos,
gar, a de ter suscitado um objeto de desejo que per­ 1966).
mite que se seja reconhecido entre os eleitos. Por­
tanto, um processo desse tipo situa o Nome-do-Pai novela familiar (alem.: F am ilien rom an ; fr.: rom an
no registro do sintoma. De sorte que o "necessário fa m ilia l; in g .: fa m ily rom an ce). Fantasma particular,
do Nome-do-Pai", enquanto necessário ao funda­ no qual o sujeito imagina ter nascido de pais de
mento da normalidade fálica, retoma, na estrutu­ categoria social elevada, enquanto desdenha os
ra, sob a forma de questão do "necessário do sin­ seus, pensando ser um filho adotado por eles.
toma" na estrutura. Isso não é simples petição de Em outras variantes dessa fantasia, o sujeito
princípios, pois, se a metáfora cria um novo senti­ pode imputar a sua mãe ligações amorosas escon­
do, sua tradução seria um sintoma original do su­ didas ou se considerar como o único filho legíti­
jeito. Sem dúvida, é essa a razão pela q u a l' aca.i mo de sua mãe. Tais elaborações ocorrem, quando
pôde afirmar que existem "N o m es-d o -P :.', i que a criança se confronta com a necessidade de desa­
o tratamento irá confirmar. Não obstante, subsi.- .• pegar-se dos pais.
um paradoxo: se o Nome-do-Pai significa que c
o
objeto, s.m. (alem.: O bjekt, G eg en stan d , D in g; fr.: um objeto estranho (pulsão v oy eu rista). Depois, o
o b jet; ing.: o b ject ). Aquilo que orienta a existência objeto é abandonado e a pulsão se volta para uma
do ser humano, enquanto sujeito desejante. parte do próprio corpo. Finalmente, é introduzido
O objeto como tal não surge no mundo sensí­ "um novo sujeito ao qual se irá exibir, para ser olha­
vel. Nos escritos de S. Freud, a palavra O bjekt deve do". Em sua leitura de Freud, J. Lacan (Seminário
ser sempre entendida com um determinante explí­ de 13 de maio de 1964) mostra que esse movimen­
cito ou implícito: objeto da pulsão, objeto de amor, to de retorno é que permite o aparecimento do su­
objeto com o qual se identifica. Em oposição a Ob­ jeito, em um terceiro tempo. Para Lacan, neste caso
jekt, a coisa (al.: das D in g) surge mais como o objeto o objeto da pulsão é o próprio olhar como presen­
absoluto, objeto perdido de uma satisfação mítica. ça desse novo sujeito. A pessoa exibicionista faz o
Outro "gozar", fazendo surgir nele o olhar, mas não
sabe que ela própria é, como sujeito, uma denega-
O OBJETO DA PULSÃO
ção do olhar procurado. Ela se faz ver. Mais geral­
O objeto da pulsão é "aquilo em que ou por mente, toda pulsão pode se subjetivar e inscrever-
quem ela pode alcançar seu objetivo" (Freud, Os se sob a forma de um "se fazer...", ao qual se pode
in stin tos e su a s v icissitu d es, 1915). Originalmente, o acrescentar a lista dos objetos pulsionais: "Se fa­
objeto não está ligado à pulsão. É seu elemento zer... sugar (seio), defecar (fezes), ver (olhar), ou­
mais variável: a pulsão se desloca de um objeto vir (voz).
para outro, durante seu destino. O objeto pode ser­
vir para satisfazer diversas pulsões. Todavia, pode-
O OBJETO DE AMOR
se fixar precocemente. Portanto, o objeto da pul­
são não deve ser confundido com o objeto de uma O objeto de amor é uma vestimenta do objeto
necessidade: trata-se de um fato de linguagem, da pulsão. Freud reconheceu que dificilmente o
como o mostra a fixação. A fixação da pulsão a seu caso do amor está de acordo com sua descrição das
objeto pode ser ilustrada por um caso relatado em pulsões:
um artigo de 1927 (Freud, O fetic h ism o ). Em um 1. Se não puder ser assimilado a uma simples
sujeito germanófono, criado desde sua primeira pulsão parcial, como o sadismo, o v oy eu rism o, etc.,
infância na Inglaterra, a condição necessária de seu tampouco poderá representar a "expressão de uma
desejo sexual era a presença de um "G lanz" (em tendência sexual total" (que não existe).
alemão, "brilho") no nariz da pessoa desejada. A 2. Seu destino é mais complexo; pode, eviden­
análise mostrou que, de fato, devia-se entender temente, voltar-se para a própria pessoa, mas, além
"glan ce" ("olhar", em inglês) sobre o nariz fetichi- disso, pode se transformar em ódio, ambos se
zado. Graças ao particular destino desse sujeito, opondo, tanto o ódio como o amor, à indiferença.
demonstra-se que a fixação se inscreve não em ter­ A oposição amor-ódio é referida por Freud à pola­
mos de imagem, mas de escrita. ridade "prazer-desprazer".
Um dos destinos da pulsão, isolado por Freud, 3. Finalmente, o amor é uma paixão do eu to­
consiste no retorno da pulsão sobre a própria pes­ tal (al.: G esam tes Ich), enquanto que as pulsões po­
soa. Assim é explicada a gênese do exibicionismo. dem funcionar de forma independente, auto-eró-
Haveria, em primeiro lugar, um olhar dirigido a tica, antes de qualquer constituição de um eu.
151 objeto

Freud sempre sustentou que "não existe um nhecimento, pelo lactente, ainda sem coordenação
primado genital, mas um primado do falo" (para motora, da forma unificada de seu corpo, em s u :
ambos os sexos). Ora, esse falo não entra em ação própria imagem no espelho, desde que ela fosst
no amor a não ser pelo complexo de castração. A reconhecida pelo Outro. Que a unidade do eu de­
ameaça de castração, contingente, não assume seu pende de uma imagem (eu ideal), reconhecida pela
efeito estrutural senão depois da descoberta da palavra do Outro, explica, em primeiro lugar, a ten­
privação real da mãe, sendo, até então, a falta da são agressiva para com essa imagem rival e tam­
mãe observável apenas nos intervalos, no "entre- bém seu poder de fascinação, características pró­
dito" de suas propostas, comprazendo-se a crian­ prias a qualquer relação dual, e, em segundo lu­
ça em se identificar com esse órgão imaginário, o gar, que o eu só se considera amável quando regu­
falo materno, verdadeiro objeto de amor. A sim- lado pelo signo de reconhecimento (ideal do eu).
bolização de uma falta neste ponto e a assunção Todavia, o investimento do eu ideal é incompleto.
de sua deficiência real a ser preenchida, são deci­ Uma parte da libido permanece ligada ao próprio
sivas para o aparecimento, no menino, do comple­ corpo. Falta à imagem amada um núcleo auto-eró-
xo de Édipo, obrigando-o a abandonar suas pre­ tico, sendo o objeto amado precisamente por essa
tensões sexuais sobre a mãe. Entretanto, uma das falta. É por não ter um falo que uma mulher pode
seqüências desse amor edípico, o fenômeno de re­ se transformar, para um homem, em um falo.
baixamento do objeto sexual, que consiste em se­
parar o objeto idealizado (da corrente tema do
O OBJETO DE IDENTIFICAÇÃO
amor) do objeto rebaixado (da corrente sensual),
comprova a freqüente persistência da fixação in­ Viu-se como Lacan situava o ideal do eu, fun­
cestuosa na mãe. Esses homens irão se dividir, na ção simbólica, no traço formal de assentimento do
puberdade: "Onde amam, não desejam, e onde Outro. Esse traço adquire sua potência do estado
desejam, não amam". de abandono do lactente diante da onipotência do
Esta divisão entre amor e desejo reproduz a Outro. Assim, Lacan censura o ideal do eu por esse
diferença freudiana entre pulsões de autoconser- traço único (al.: Einziger Zug), que o eu, segundo
vação (necessidades) e pulsões sexuais (pulsões Freud, tira do objeto de amor, para se identificar
verdadeiras). O amor tem uma parte ligada à ne­ com ele por um sintoma. De acordo com esse pro­
cessidade. Tudo aquilo que perturba a homeosta- cesso, "a identificação ocupa o lugar da escolha de
sia do eu provoca desprazer e é odiado. Porém, objeto e a escolha de objeto regride até a identifi­
todo objeto que traz prazer, enquanto estranho, cação" (Freud, Psicologia de grupo e a análise do ego,
também ameaça a perfeita tranqüilidade do eu, 1921). De fato, para Freud, a identificação é a for­
desencadeando uma parte de ódio. (A divisão ope­ ma mais precoce e mais originária do vínculo afe­
rada por M. Klein, entre objetos bons e maus, é re­ tivo com uma outra pessoa. De início, seria feita
ferida por Lacan ao próprio sujeito, sendo causa­ uma primeira identificação com o pai, a qual ins­
da pelo objeto (—> verbete seguinte). tala o ideal do eu, tomando, assim, possível o ena-
Ligado ao prazer, isto é, à menor tensão com­ moramento: no estado amoroso, "o objeto se colo­
patível com a vida, o amor quase não é armado ca no lugar do ideal do eu". O mesmo mecanismo
para investir os objetos. Mesmo assim, precisa ser explica a hipnose, assim como o fenômeno do gru­
sustentado por pulsões verdadeiras, as pulsões se­ po e de sua submissão a um líder: "Uma multidão
xuais parciais. Assim, o objeto de amor toma-se a primária (não organizada) é uma soma de indiví­
vestimenta do objeto da pulsão. Para que entre em duos que colocaram um único e mesmo objeto no
ação e para a escolha de objeto, o amor é tributá­ lugar de seu ideal do eu e, conseqüentemente,
rio do discurso social: as formas do amor variam identificaram-se em seus eus, uns com os outros".
conforme os tempos e os locais.
O amor também possui uma vertente passio­
O OBJETO PERDIDO
nal, por meio da qual compromete o "eu total", a
unidade do eu. Freud havia observado que não "No caso da identificação, o objeto se perdeu
existia "desde o começo, no indivíduo, uma uni­ ou renunciou-se a ele..." (Freud, op. cit.). A identi­
dade comparável ao eu"... "Uma nova ação psíqui­ ficação reduz o objeto a um traço único, o que é
ca deve ser então acrescentada ao auto-erotismo, feito ao preço de uma perda. Segundo o princípio
para dar forma ao narcisismo" ("Sobre o Narcisis- de prazer, o aparelho psíquico satisfaz-se com re­
mo: uma Introdução", 1914). Uma das primeiras presentações agradáveis, mas o princípio de reali­
contribuições de Lacan à psicanálise foi ter de­ dade obriga-o a formular um juízo não somente
monstrado que essa nova ação psíquica era o reco­ sobre a qualidade do objeto, mas sobre sua pre­
objeto a 152

sença real. "A finalidade primeira e imediata da I n c id ê n c i a s d o o b je t o a


prova de realidade não é, pois, encontrar, na per­
Assim, o objeto a responde nesse lugar da ver­
cepção real, um objeto correspondente ao represen­
dade ao sujeito, em todos os momentos de sua exis­
tado, mas reencontrá-lo, convencer-se de que ele
tência; ao nascer, à medida que a criança se apre­
ainda está presente" (Freud, "A Negativa", 1925).
senta, por um lado, como o resto de uma copula-
Ora, devido ao acesso à linguagem, o objeto foi
ção, maravilha parida "interfaeces et urinas"; antes
perdido de forma definitiva, enquanto estava sen­
de tudo desejo, sob o objeto precursor em torno
do constituído. O que se procura reencontrar é este
do qual a pulsão retorna e se satisfaz, sem esperá-
objeto, das Ding, enquanto outro absoluto do sujei­
lo; na constituição do fantasma, ou seja, no verda­
to. Ele é achado, pelo menos como saudade. Não é
deiro ato de nascimento do sujeito do desejo, como
a ele que se acha, mas suas coordenadas de pra­
o objeto cedido pelo preço da existência (estaria,
zer" (Lacan, Seminário de 8 dezembro de 1959).
portanto, ligado ao sujeito por um vínculo de reci­
Portanto, Lacan já distinguiu, nos textos freudia­
procidade total, embora dissimétrica); na experi­
nos, um objeto mais fundamental, das Ding, a coi­
ência amorosa, como a falta maravilhosa que o ob­
sa, como oposta aos objetos substitutivos, aquilo
jeto amado veste ou esconde; no ato sexual, como
que é perdido logo no início do jogo (verbete a se­
o objeto que adorna a irredutível alteridade do
guir). Ele é o soberano bem, a "m ãe" proibida pe­
Outro, substituindo, como parceira do gozo, a im­
las mesmas leis que tomam possível a palavra.
possibilidade de fazer um com o corpo do Outro;
Assim, pode-se, por exemplo, compreender o me­
no afeto (luto, vergonha, angústia, etc.), que é a
canismo da melancolia e seu potencial suicida:
prova de seu desvelamento ou apenas sua amea­
identificação não mais com um traço único do ob­
ça, segundo o lugar e o modo de sua presença: no
jeto (ao preço da perda desse objeto), mas identifi­
luto, enquanto perdemos aquele para quem éra­
cação "real", sem mediação, com a própria coisa,
mos esse objeto; na vergonha, enquanto suporta­
rejeitada do mundo da linguagem.
mos presentificá-lo ao olhar do outro; na angústia,
naquilo que ela é de percepção do desejo inconsci­
objeto a (fr.: objet a). Segundo J. Lacan, objeto cau­
ente; eventualmente, na passagem ao ato suicida,
sa do desejo.
onde o sujeito sai do enquadramento da cena do
O objeto a (pequeno a) não é um objeto do
fantasma, ao forçar os limites da "elasticidade" de
mundo. Não representável como tal, só pode ser
seu vínculo com o sujeito.
identificado sob a forma de "fragmentos" parciais
do corpo, redutíveis a quatro: o objeto da sucção
(seio), o objeto da excreção (fezes), a voz e o olhar. O OBJETO A NO ENSINO DE LACAN

Poderá ser útil um breve percurso sobre a ela­


C o n s t it u iç ã o d o o b je t o a boração do objeto a, feita por Lacan, para subli­
nhar a necessidade, a impossibilidade de sua apre­
Este objeto é criado no espaço, na margem que
ensão, e o constante remanejamento de sua escri­
a demanda (isto é, a linguagem) abre além da ne­
ta. No início de seu ensino, Lacan designa pela le­
cessidade que a motiva: nenhum alimento pode
tra a o objeto do eu, o "pequeno outro". Trata-se
"satisfazer", por exemplo, a demanda do seio. Ele
então de distinguir a dimensão imaginária da ali­
se toma mais precioso para o sujeito do que a pró­
enação, pela qual o eu se constitui à sua própria
pria satisfação de sua necessidade (desde que esta
imagem, protótipo do objeto, da dimensão simbó­
não esteja realmente ameaçada), pois é condição
lica na qual o sujeito falante está na dependência
absoluta de sua existência, enquanto sujeito dese-
do "grande O utro", lugar dos significantes. No
jante. Parte destacada do corpo representável, o
Seminário "A Ética da Psicanálise" (1960), Lacan
objeto a se constitui e opera como falta a ser. Essa
retira de Freud, essencialmente do "Projeto para
falta é substituída, como causa inconsciente do de­
uma Psicologia Científica" (1895) e de "A Negati­
sejo, por uma outra falta: a de uma causa para a
va" (1925), o termo alemão das Ding que é a coisa,
castração. A castração, isto é, a simbolização da
além de todos os seus atributos. É o Outro primor­
ausência do pênis da mãe, como falta, não tem cau­
dial (a mãe), como esse real estranho no coração
sa, a não ser a mítica. Ela depende de uma estru­
do mundo das representações do sujeito, ao mes­
tura puramente lógica: é uma representação, de
mo tempo, portanto, interior e exterior. Também
forma imaginária, da falta, no Outro (lugar dos sig-
real enquanto inacessível, "perdido", pelo simples
nificantes), de um significante que responde pelo
fato do acesso à linguagem. A descoberta e a teo­
valor desse Outro, desse "tesouro dos significan-
ria de D. W. Winnicott sobre o objeto transicional*
tes", que assegura a verdade.
153 objeto transicional

(aparentemente um objeto qualquer: lenço, peda­ o isso (aspecto pulsional) da segunda tópica e o
ço de lã, etc., pelo qual a criança pequena mani­ inconsciente (aspecto ideativo) da primeira.
festa um apego incondicional) foram acolhidas por No Seminário XVII, 1969-70, "O avesso da psi­
Lacan, muito acima do interesse clínico desse ver­ canálise", o objeto a se transforma, com o nome de
dadeiro emblema do objeto a, porque o autor re­ "plu s de gozar", por analogia com a função d e p l u s
conheceu a estrutura paradoxal do espaço criado valia de Karl Marx, em um dos quatro termos com
por esse objeto, esse “campo da ilusão", nem inte­ os quais Lacan formaliza os quatro discursos que
rior nem exterior ao sujeito. estruturam os diferentes modos de vínculo social
Portanto, o objeto a não é redutível à coisa. É entre os homens ( - » discurso).
uma construção que faz ruir a representação, no Finalmente, no Seminário "Real, Simbólico,
exato momento de sua constituição, perdida antes Imaginário", ou R.S.I. (1974), o objeto a, até então
mesmo de existir. Assim como a placenta, é uma apresentado como o efeito de um corte, adquiriría
coisa em comum tanto ao sujeito como ao Outro, uma forma totalmente nova. É o ponto de junção
valendo para ambos como "semblante", em uma por meio do qual os três registros da subjetivida­
linhagem (metonímia) da qual o falo é o ponto de de: real, simbólico e imaginário realmente indepen­
perspectiva (aquilo que Freud tinha revelado nas dentes um do outro, todavia se revelam como po­
equivalências, "nas produções do inconsciente, dendo "se manter juntos", na apresentação do nó
entre os conceitos de excrementos [dinheiro, pre­ borromeu. Sempre se trata de uma escrita. O obje­
sente], de filho e de pênis"). Ele se transforma, as­ to a é a letra, enquanto se desprende do signifi-
sim, no objeto fálico do fantasma, tornando habi­ cante. Enquanto que o significante está no simbó­
tável o real. lico, a letra, enquanto letra (e não imagem ou su­
Em "Observações sobre o Relatório de Daniel porte de uma combinatória) está no real. É por isso '
Lagache" (Páscoa de 1960), Lacan introduziu a ex­ que ela permite o recalcamento. Ela corresponde
pressão "objeto a". Ela designa, então, o objeto do ao "representante da representação" da pulsão em
desejo. No mesmo ano, em "Subversão do Sujeito Freud. Parte do simbólico "caída" no real, pelo efei­
e Dialética do Desejo no Inconsciente Freudiano" to da articulação significante, a letra faz a facilita-
(setembro de 1960), seria determinado seu caráter ção do significado. O V romano, a quinta hora, que
de incompatibilidade com a representação. De fato, marca a cena primitiva na análise do Homem dos
"o objeto do desejo no sentido corrente é ou um Lobos, fornece uma ilustração de sua função de via
fantasma, que na realidade é o apoio do desejo, ou de retorno do recalcado. O objeto a é, pois, o obje­
um engodo". Rapidamente, o objeto a passará a to da psicanálise, e, por um lado, os psicanalistas
ser chamado de "objeto causa do desejo". Como são encarregados do tratamento da letra. A ciên­
causa do desejo, é causa da divisão do sujeito, da cia, que só opera por uma formalização escrita,
forma como é indicada na escrita do fantasma ($ 0 adquiriu impulso quando preferiu nada querer
a) "em exclusão interna a seu objeto". Os seminá­ saber do objeto a, da verdade como causa (nela. a
rios "A Identificação" (1961-62) e "A Angústia" subjetividade é reduzida ao erro). Porém, a verda­
(1962-63) são, por um lado, consagrados à apre­ de retoma no real, com a profusão de objetas das
sentação topológica desse objeto a, recorrendo