You are on page 1of 25

1

SENTENÇA PENAL

JOÃO GUALBERTO GARCEZ RAMOS


Professor de Direito Processual Penal da UFPR

Ementa: 1. Noções introdutórias. 2. Providências prévias. 3. Estrutura. 4.


Publicação e intimação. 5. Efeitos. 6. Natureza jurídica da sentença penal
absolutória. 7. Hipóteses de absolvição. 8. Efeitos da sentença penal
absolutória. 9. Sentença penal condenatória: noções introdutórias. 10.
Conceito. 11. Requisitos e formalidades. 12. Efeitos principais da sentença
penal condenatória. 13. Efeitos secundários da sentença penal condenatória.
14. Referências bibliográficas.

1. Noções introdutórias

A sentença penal é um ato decisório simples, que põe fim ao processo penal
condenatório com o julgamento de uma determinada causa penal. Todavia, o
próprio vocábulo – sentença – indica que se trata de uma afirmação solene a
respeito de algo.
A sentença consubstancia a busca da conciliação de duas situações: uma
abstrata, hipotética, descrita pela lei em termos genéricos e futuros, e uma
situação particular, ocorrida no passado e protagonizada por seres humanos, e
levada ao conhecimento do juiz através da ação penal.
É o momento culminante – più eminente – do processo penal condenatório,
em que o juiz, tendo em mãos a acusação e a defesa, que delimitam seu campo
de conhecimento, o material probatório trazido pelas partes, aquele produzido
diante dele e aquele produzido por ele, as razões finais das partes (verdadeiros
projetos de sentença) profere decisão acerca do mérito da causa penal levada a
julgamento, fazendo-o através de um ato que é, a um só tempo, intelectivo e
volitivo. Inútil tentar responder se a sentença é mais uma coisa ou outra, isto é, se
o juiz, quando sentencia, mais quer do que raciocina ou mais raciocina do que
quer. Ainda hoje não se chegou a uma resposta minimamente precisa a esse
2

respeito. Resumidamente, a sentença é o ato que realiza a própria finalidade da


jurisdição.1

2. Providências prévias

A sentença é um ato de tal maneira crucial para o processo penal


condenatório que são bastante relevantes também as providências que o juiz deve
tomar antes de sentenciar.
A principal providência a ser tomada pelo juiz é estar perfeitamente certo da
simetria entre a acusação e a instrução criminal. Deve verificar se, durante a
instrução, não surgiram elementos novos que modificaram a feição dos fatos. Só
poderá sentenciar se houver simetria.
A regra é que deve existir uma correspondência absoluta entre a denúncia
ou queixa e a sentença. São proibidos, no processo penal condenatório, os
julgamentos citra, ultra ou extra petita (isto é, aquém, além ou diversamente do
pedido).
O julgamento citra petita seria aquele no qual o juiz julgaria o acusado por
uma quantidade menor de fatos do que lhe haviam sido atribuídos na denúncia
ou na queixa. Dois fatos atribuídos, um fato julgado. Ainda há julgamento citra
petita no caso em que o juiz julga o acusado por um crime menos grave do que o
que lhe fora atribuído na denúncia ou na queixa. Não se confunda essa operação
com a desclassificação, na qual o juiz examina e nega a ocorrência de uma
circunstância qualificadora; com isso, desclassifica o crime para uma modalidade
menos grave. No julgamento citra petita o juiz simplesmente ignora essa
circunstância que torna mais grave o crime.
O julgamento ultra petita seria aquele no qual o juiz julgaria o acusado por
uma quantidade maior de fatos do que os que lhe foram atribuídos na denúncia
ou na queixa. Um fato atribuído, dois fatos julgados. Ainda há julgamento ultra
petita quando o juiz julga o acusado por um fato mais grave do que o que lhe fora
atribuído na denúncia ou na queixa.

1
Cf. SILVA, Adhemar Raymundo da. “Sentença de pronúncia”, em Estudos de Direito Processual Penal,
Salvador: Ed. Livraria Progresso, 1957, p. 9.
3

Por fim, o julgamento extra petita seria aquele em que o juiz julgaria o
acusado por um fato diverso do que o que lhe fora atribuído na denúncia ou na
queixa. Um fato atribuído, outro fato julgado.
Não há julgamento extra petita quando o juiz condena o acusado por um
tipo penal diverso daquele que fora mencionado pelo acusador na denúncia ou
na queixa. Não há, nessa hipótese, alteração do material fático da denúncia ou da
queixa. O juiz simplesmente define a conduta do acusado de maneira diversa da
utilizada pelo acusador. Essa hipótese é legalmente prevista (CPP, art. 383) e é
denominada de emendatio libeli.
Funda-se no fato de que, no limiar do processo penal condenatório, o juiz
desconhece os fatos, mas conhece o Direito, que não precisa lhe ser ministrado;
narra mihi factum, dabo tibi jus. Se a denúncia ou queixa contém todos os
elementos fáticos necessários ao exercício da ampla defesa, o juiz pode dar-lhe a
definição jurídica que mais lhe parecer consentânea com o ordenamento
jurídico.2 Essa operação é permitida mesmo que, em consequência, o juiz aplique
pena mais grave ao acusado.3
Eis um exemplo dessa operação: a acusação é de perigo para a vida ou saúde
de outrem (CP, art. 132) sendo que na denúncia ou na queixa consta que, em
consequência da conduta, o ofendido perdeu uma função de seu corpo. Nessa
hipótese, o juiz pode condenar o acusado pelo crime de lesão corporal gravíssima
(CP, art. 129, § 2º, III).
Considere-se um outro exemplo, no qual consta da denúncia a narração de
uma corrupção passiva (CP, art. 317). Durante a instrução, comprova-se que o
agente público, imputado da prática de corrupção passiva, não solicitou vantagem,
mas exigiu vantagem. Nesse caso, como a exigência não consta da denúncia, mas
emergiu no processo penal condenatório durante a fase instrutória, o juiz não
pode simplesmente condenar o acusado. Em percebendo a discrepância, deverá
dar vista ao Ministério Público para que adite a denúncia ou a queixa subsidiária,
no prazo de cinco dias. Esse aditamento poderá ser feito oralmente, ao final da

2
Habeas corpus n. 75.972-MS – STF – 2ª Turma – Rel. Min. Marco Aurélio – ordem indeferida – votação
unânime – DJU, 20.mar.1998, p. 6.
3
Habeas corpus n. 74.836-AP – STF – 1ª Turma – Rel. Min. Ilmar Galvão – ordem indeferida – DJU,
13.jun.1997, p. 26.695.
4

audiência de instrução e julgamento, reduzindo-se-o a termo (CPP, art. 384,


caput). A decisão sobre o aditamento é do Ministério Público, controlada pelo
magistrado (CPP, art. 28).
A respeito, já decidiu o Supremo Tribunal Federal que “a emendatio libelli
— a peça acusatória, não obstante descrever com precisão o fato concreto,
empresta-lhe qualificação legal diversa (CPP, art. 383) — pode ser praticada pelo
Tribunal de 2º grau, por isso que ela não se confunde com a mutatio libelli (CPP,
art. 384), objeto da Súmula 453-STF”.4

3. Estrutura

Embora seja um ato de vontade, uma “norma jurídica individual”, no dizer


de HANS KELSEN,5 a sentença penal tem uma estrutura lógica predeterminada
pelo ordenamento jurídico. Essa estrutura é formada por três partes.
Em primeiro lugar, a sentença penal deve ter um relatório, que é a descrição
objetiva e detalhada das partes, do que fora deduzido pela acusação e pela defesa
e de tudo quanto ocorreu de relevante durante o processo (CPP, art. 381, I e II).
Segue-se ao relatório uma fundamentação ou motivação, na qual hão de
constar os fatos, os argumentos jurídicos e os fundamentos legais da decisão a ser
tomada (CPP, art. 381, III e IV). Na fundamentação o juiz demonstra que seu
juízo sobre os fatos atribuídos ao acusado se baseia em critérios técnicos jurídicos
objetivos, legais e jurisprudenciais.
A sentença é encerrada por um dispositivo, que contém a decisão
propriamente dita, isto é, o veredicto de culpado ou inocente. Em se tratando de
uma sentença condenatória, a sentença também conterá uma sanção, na forma de
uma pena aplicada ao condenado.
Na literatura processual penal clássica, essa estrutura tripartite da sentença
era vista como a corporificação de um silogismo lógico, no qual a premissa maior
seria a lei, a premissa menor, a causa penal e a conclusão, o dispositivo. Todavia,

4
Habeas corpus n. 74.009-0-MS – STF – 2ª Turma – Rel. Min. Carlos Velloso – julgado em 10.dez.1996 – ordem
indeferida – votação unânime – DJU, 14.mar.1997, p. 6.903.
5
KELSEN, Hans. Teoria geral das normas, trad. de José Florentino Duarte, Porto Alegre: Ed. Sergio Antonio
Fabris, 1986, p. 10-12.
5

como já foi dito acima, não há nem como demonstrar que o raciocínio judicial
obedece a essa ordem lógica, nem que não o faz.
Há quem diga, por outro lado, que a ordem da sentença está perfeitamente
invertida; que o juiz primeiro decide e depois vai buscar os fundamentos de sua
decisão, o que também é um exagero jamais comprovado empiricamente. O
melhor é dizer que a relação entre a motivação e o dispositivo, na sentença, é
dialética: ora o juiz decide e busca fundamentos jurídicos, ora os fundamentos
jurídicos balizam sua decisão.
A sentença ainda precisa ser autenticada pelo seu prolator, isto é, precisa
conter elementos que permitam atribuí-la a uma determinada autoridade
judiciária penal. No processo penal físico, tradicional, isto é, deitado sobre papel,
a autenticação se dá através da assinatura. No processo penal virtual, fundado nos
meios informáticos, a autenticação se dá através de procedimentos de segurança
digital adotados pelo tribunal respectivo.
Cada espécie de sentença penal obedece a uma norma processual penal
específica. Assim ocorre com a sentença absolutória (CPP, art. 386), com a
sentença condenatória (CPP, art. 387), com a decisão de pronúncia (CPP, art.
413), com a decisão de impronúncia (CPP, art. 414), com a absolvição sumária
(CPP, arts. 397 e 415) e com a decisão de desclassificação (CPP, art. 419).
O relatório, que sempre estampa a parte inicial da sentença, serve para
demonstrar que o juiz conhece toda a tramitação do processo. O relatório não
precisa ser minudente, nem descer aos detalhes mínimos, mas não é aconselhável
que seja padronizado. Em uma palavra, pode ser sucinto.6 Se demonstrar o
conhecimento do juiz sobre aquele processo penal, é perfeitamente válido.
A lei dos juizados especiais autoriza que, nas sentenças dos processos
condenatórios por infrações penais de menor potencial ofensivo, o juiz deixe de
elaborar relatório (Lei 9.099, art. 81, § 3º). É uma exceção à regra geral, motivada
pela necessidade de dar agilidade aos feitos respectivos (CPP, art. 381, I e II).
A fundamentação é a parte mais extensa da sentença e, por conseguinte, a
que mais dá espaço para análise e reflexão, embora para a sorte do imputado seja

6
Habeas corpus n. 70.814-SP – STF – 1ª Turma – Rel. Min. Celso de Mello – julgado em 1º.mar.1994 – ordem
indeferida – votação unânime – RTJ n. 176, p. 1.136.
6

o seu dispositivo a parte mais crucial.


Por expressa disposição de lei, a fundamentação deverá conter a indicação
dos motivos de fato e de direito em que se fundar a decisão (CPP, art. 381, III),
bem como a indicação dos artigos de lei aplicados (CPP, art. 381, IV).
Esse dispositivo a respeito dos artigos de lei remete-nos a um princípio do
Processo Penal – o da “legalidade da decisão judicial”. Significa que o juiz há de
utilizar, como seu principal parâmetro decisional, a lei. Entre todos os
fundamentos possíveis – a lei, os princípios, os costumes, a jurisprudência, a
sociologia, a história, a filosofia e a cultura – a lei deve ser o principal fundamento
utilizável pelo juiz.
Decidiu o Supremo Tribunal Federal que “não é omissa a sentença que
explicita as premissas de fato e de direito da decisão e, ao fazê-lo, afirma tese
jurídica contrária à aventada pela parte, ainda que não o mencione”.7
O dispositivo é o momento culminante, a alma da sentença. É a decisão
propriamente dita, o que é dito, determinado pelo juiz; o veredicto. Sem um
dispositivo, a rigor, não se pode sequer falar em sentença, porque nada foi
decidido.
É no dispositivo que está contida a resposta sobre a pergunta crucial: quem
venceu? Dessa resposta depende a definição do chamado interesse de recorrer.
É ele também que estabelece a correlação entre acusação e sentença. Se o
juiz não cobrir, em seu dispositivo, todas as imputações, julgando-as afirmativa ou
negativamente, a sentença é omissa e deve ser declarada pelo próprio prolator.
(CPP, art. 382).
Se, por outro lado, o dispositivo brigar com a fundamentação, trata-se de
contradição, o que muitas vezes se chama jocosamente de sentença suicida.

4. Publicação e intimação

A sentença é proferida pelo juiz, mas não é por conta exclusivamente desse
evento que gerará efeitos. Uma vez apenas proferida, não entrou ainda no mundo

7
Habeas corpus n. 70.179-SP – STF – 1ª Turma – Rel. Min. Sepúlveda Pertence – julgado em 1º.mar.1994 –
ordem indeferida – votação unânime – DJU, 24.jun1994, p. 16.635 – Informativo STF n. 61.
7

jurídico. Para entrar, precisa ser publicada, isto é, dada ao conhecimento das
partes e de terceiros.
A sentença escrita é publicada “em mãos do escrivão” (CPP, art. 389). A
sentença proferida oralmente em audiência, é publicada nesse mesmo instante
(CPP, art. 403, caput, e 534, caput). O mesmo ocorre com a sentença dada no
plenário do Tribunal do Júri, que ocorre naquele mesmo instante, na presença
das partes.8
O efeito imediato principal da publicação da sentença é que, depois dessa
publicação, não pode ela mais ser alterada, salvo casos de erros materiais
menores, porém evidentes. Outros erros – maiores e menos evidentes – somente
poderão ser reparados através dos “embarguinhos” (CPP, art. 382). É uma
hipótese de preclusão pro judicato.
Embora publicada quando o escrivão a recebe, a sentença ainda não pode
ser tida como inteiramente comunicada às partes. Isso se dá através da intimação.
Apenas através da intimação é a sentença para a ser de conhecimento das partes.
O Código de Processo Penal é bastante casuístico a respeito.
A tarefa de intimar o membro do Ministério Público é do escrivão, no prazo
de três dias contados do momento em que recebeu a sentença das mãos do juiz
(CPP, art. 390). A intimação do Ministério Público é sempre pessoal (LC 75, art.
18, II, h; Lei 8.625, art. 41, IV). A forma tradicional de se fazer tal intimação é
através de vista dos autos. Contudo, jurisprudência do Supremo Tribunal Federal
tem compreendido essa regra de maneira um tanto diversa. Segundo essa
orientação, a entrega dos autos no setor administrativo do Ministério Público
equivale à intimação direta e pessoal, sendo irrelevante a aposição do “ciente” por
parte do membro do Ministério Público a posteriori.9
Também cabe ao escrivão intimar pessoalmente o querelante e o assistente
da acusação. Se nenhum deles for encontrado para completar tal diligência, a
intimação será feita mediante edital, com prazo de dez dias, afixado no lugar de

8
Habeas corpus n. 26.889-SP – STJ – 5ª Turma – Rel. Min. Felix Fischer – julgado em 27.mai.2003 – ordem
indeferida – votação unânime – DJU, 30.jun.2003, p. 278.
9
Habeas corpus n. 83.255-SP – STF – Pleno – Rel. Min. Marco Aurélio – julgado em 5.nov.2003 – ordem
deferida para assentar a intempestividade do recurso especial – votação majoritária, vencidos os ministros Joaquim
Barbosa e Celso de Mello – RTJ n. 195, p. 966.
8

costume (CPP, art. 391).


O escrivão providenciará a intimação do defensor constituído por meio de
publicação, no jornal diário em comumente se fazem tais intimações. Se não
houver tal diário, o escrivão providenciará a intimação do defensor constituído
por mandado, por via postal com aviso de recebimento ou por qualquer outro
meio idôneo (CPP, art. 370, § 1º).
O réu preso será intimado pessoalmente (CPP, art. 392, I). O réu solto, diz a
lei, será intimado pessoalmente ou através de seu defensor (CPP, art. 392, II).
Ainda conforme a lei, se o defensor for constituído, essa intimação se dará através
de publicação no jornal diário de costume. Todavia, conforme jurisprudência
antiga e iterativa do Supremo Tribunal Federal, a intimação da sentença
condenatória deve ser feita pessoalmente ao réu solto e ao seu defensor, mesmo
que seja constituído, fluindo da última intimação o prazo recursal.10
O Código de Processo Penal é omisso quanto à situação do defensor dativo.
Trata-se de uma situação que se deve resolver através do bom senso. O defensor
dativo está prestando um serviço no interesse da Justiça, com o sacrifício dos seus
próprios interesses. Daí que o bom senso recomenda que sua intimação seja
sempre pessoal.
O defensor público da União tem a prerrogativa de ser intimado
pessoalmente, mediante entrega dos autos com vista (LC 80, art. 44, I).
O fenômeno irreversível do processo eletrônico tende a tornar essas regras
processuais letras mortas, na medida em que proporciona ciência mais certa e
eficaz às partes através da simples disponibilização do ato processual penal na
internet. No momento, as regras processuais antigas convivem com as práticas do
processo eletrônico.

5. Efeitos

Não custa repetir que a sentença penal é o ato culminante do processo penal
condenatório; corresponde a um dos objetivos do Processo Penal mesmo, que é

10
Habeas corpus n. 71.228-RJ – STF – 2ª Turma – Rel. Min. Néri da Silveira – julgado em 7.jun.1994 – ordem
deferida – votação unânime – DJU, 28.abr.1995, p. 11.135.
9

tornar indiscutível certa situação jurídica que, até então, apresentava contornos
indefinidos. Assim, a sentença é um ato de suma importância, que para servir
plenamente aos seus objetivos, deve ser também ela indiscutível. Daí que
inúmeros são os efeitos dela decorrentes. Esses efeitos são estabelecidos e
regulados por lei.
São quatro os efeitos principais possíveis de uma sentença penal.
O primeiro efeito, presente em toda e qualquer sentença penal, é o efeito
declaratório. Consiste ele na afirmação de uma situação jurídica pré-existente.
Como dito, está presente em toda e qualquer sentença penal. Há casos em que o
objetivo do autor do processo é unicamente obter uma declaração. Nesse caso, a
sentença terá unicamente o efeito declaratório, cuja função será tornar indiscutível
um direito já existente, mas que era negado ou não tinha sido ainda pacificamente
estabelecido. Um exemplo de sentença penal declaratória é a que declara extinta
a punibilidade do agente, impropriamente tratada pelo Código de Processo Penal
como absolutória (CPP, art. 397, IV).
Outro exemplo de sentença penal declaratória – negativa, no caso – é a
própria sentença absolutória, em que o juiz declara indiscutível uma situação pré-
existente, a saber, a inocência do acusado (CPP, art. 386).
A sentença penal possui também um outro efeito, o constitutivo. Nesse caso,
a sentença penal inova o ordenamento jurídico. Constitui, desconstitui ou mesmo
modifica um direito. A sentença penal condenatória, além do efeito declaratório,
já mencionado, contém um efeito constitutivo, ao modificar o status de inocente
do acusado.
O terceiro efeito possível da sentença penal é o condenatório, próprio das
sentenças que reconhecem que alguém, acusado da prática de um crime,
realmente o cometeu de forma ilícita e culpável. Esse efeito constitui-se na
determinação de que o acusado seja submetido a determinada sanção, que
cumpra certa pena que virá fixada na própria sentença.
O quarto efeito possível da sentença penal é o mandamental, caracterizado
pela ordem dada pelo juiz e dirigida a uma autoridade, que a deve cumprir
incontinenti. A sentença de habeas corpus, embora não o seja exclusivamente, é
tipicamente mandamental. Da mesma maneira a sentença proferida no mandado
de segurança criminal. A sentença absolutória no processo penal condenatório, se
10

o réu estiver preso, tem efeito mandamental, na medida em que o juiz determina
à autoridade que mantém aquele sob custódia que o solte imediatamente.
Também há indisfarçável efeito mandamental nas sentenças condenatórias,
mormente quando o juiz determina a expedição de mandado de prisão.

6. Natureza jurídica da sentença penal absolutória

A sentença penal absolutória é sempre de natureza declaratória negativa.


Declara inexistente uma competência penal estatal de condenar e punir um
criminoso. Declara inexistente esse direito e julga improcedente uma pretensão
condenatória.
Diferentemente da sentença penal condenatória, produz a maioria de seus
efeitos antes mesmo do trânsito em julgado.
Produz, ademais, aquilo que PIMENTA BUENO chamou de coisa
soberanamente julgada.11
Além disso, impede o surgimento de efeitos secundários da sentença, como
a certeza do dever de indenizar (CP, art. 91, I), como o confisco dos bens (CP,
art. 91, II), impõe o levantamento do sequestro (CPP, art. 131, III) e,
dependendo da hipótese da absolvição, impede a ação civil de indenização (CP,
arts. 65-67).

7. Hipóteses de absolvição

São as seguintes as hipóteses de absolvição:

a) estar provada a inexistência do fato (CPP, art. 386, I);


Nessa hipótese, está provado que o fato narrado na denúncia não ocorreu. A
materialidade, que se considerara demonstrada no limiar do processo, demonstra-
se não ter passado de uma miragem. É uma hipótese de causa objetiva de
absolvição.

11
BUENO, José Antonio Pimenta. Apontamentos sobre o processo criminal brasileiro, 3ª ed., Rio de Janeiro:
Henrique Garnier, 1900, p. 325.
11

Essa é a hipótese da pseudovítima de homicídio reaparecer viva (caso dos


Irmãos Naves); do reaparecimento da coisa que se dizia subtraída, no mesmo
lugar em que a deixara o falso ofendido; da comprovação de que nunca existiu
um marco, num determinado local, marco esse cuja supressão estava sendo
atribuída ao acusado, em crime de “alteração de limites” (CP, art. 161).
Está claro que se exige, para a absolvição fundada nesse inciso, que haja
prova da inexistência do fato. Esse detalhe é fundamental, pois essa hipótese é
prejudicial de eventual ação civil de reparação do dano causado pelo crime (CC,
art. 935).

b) não haver prova da existência do fato (CPP, art. 386, II);

Nessa hipótese, não existe prova alguma da existência do fato. Também não
existe prova da inexistência do fato. Simplesmente, não há prova a esse respeito.
É também uma causa objetiva de absolvição.
Essa hipótese comporta três sub-hipóteses distintas: não há prova da
materialidade do fato; não há prova suficiente da materialidade do fato; não há
prova legalmente exigida da existência do fato.
A primeira sub-hipótese seria a efetiva ausência de qualquer prova da
ocorrência do fato, embora também não exista prova cabal de sua inocorrência.
As coisas ficam num terreno sombrio, em que não se pode afirmar nada sobre o
fato em seu aspecto material. Um exemplo seria o do furto, em que a autoridade
policial reportou um furto sem apreender a coisa furtada e, durante a fase
investigatória, nem a vítima foi ouvida, nem testemunhas e nem mesmo o
imputado teve a oportunidade de se pronunciar. Actoris non probante reus
absolvitur.
A segunda sub-hipótese é a da existência de prova do fato, em sua
materialidade, mas prova fraca, parca, vacilante. As testemunhas, no caso anterior,
afirmam ter ocorrido a subtração, mas mostram-se confusas, vacilantes, quanto a
detalhes relevantes de seus relatos, chegando a admitir que as condições de
visibilidade no local dos fatos eram precárias. Ao final admitem não podem
afirmar que alguém estava de fato subtraindo coisas de um determinado local.
Outro exemplo seria o do laudo pericial inconclusivo a respeito da ocorrência de
12

um crime. Essa sub-hipótese assemelha-se, mas não se confunde com a


absolvição pela aplicação do princípio in dubio pro reo. Neste caso, é insuficiente
a prova insuficiente sobre a ocorrência do crime no mundo dos fatos. Logo, não
há como se ter como provada a sua materialidade.
A terceira sub-hipótese é a não produção de uma prova legal, isto é, exigida
pela lei processual penal como única forma de provar um determinado fato. Um
exemplo de prova legal é o exame de corpo de delito nas infrações que deixam
vestígio (CPP, art. 158). Essa sub-hipótese seria aquela em que há outras provas
da materialidade do delito, porém não há a prova exigida pela lei processual
penal. A solução é a absolvição do acusado. Ex.: falta de exame de corpo de
delito nos crimes de falsidade material (CP, art. 298).
Nenhuma das três sub-hipóteses tem influência qualquer na ação civil de
reparação de dano (CC, art. 935; CPP, art. 66).

c) não constituir o fato infração penal (CPP, art. 386, III);

É a hipótese de atipicidade da conduta. Concluída a instrução probatória,


tem-se que a conduta efetivamente praticada pelo acusado ou querelado não é
típica. Essa hipótese comporta tanto a objetividade quanto a subjetividade da
absolvição.
Trata-se de uma atipicidade não evidente, na medida em que a atipicidade
evidente deveria ter sido percebida no limiar do processo penal condenatório e
gerar a absolvição sumária do denunciado ou querelado (CPP, art. 397, III).
Essa atipicidade se verifica tanto no caso de ausência de elementos objetivos,
quanto no caso de ausência de elementos subjetivos. A hipótese comporta a
absolvição pelo reconhecimento de que o acusado agiu em erro sobre os
elementos do tipo (CP, art. 20).
Essa circunstância – a atipicidade do fato – deve ter sido provada. A falta de
prova da tipicidade é causa de falta de prova suficiente para condenação (CPP,
art. 386, VII).
Essa hipótese não influencia a eventual ação civil de reparação de dano (CC,
art. 935; CPP, art. 67, III).
13

d) estar provado que o réu não concorreu para a infração penal (CPP, art.
386, IV);

É o caso de prova da não-autoria por parte do acusado. A instrução


probatória demonstra que o acusado não teve participação, material ou
intelectual, na prática do crime, seja como autor único, principal, como cúmplice
ou como partícipe. É uma causa subjetiva de absolvição.
A hipótese comporta, por exemplo, a existência de um álibi, isto é a prova
de que o acusado, no momento do crime, estava em local diverso, o que
demonstra ser impossível sua participação nele.
Essa hipótese tem influência na esfera civil (CC, art. 935).

e) não existir prova de ter o réu concorrido para a infração penal (CPP, art.
386, V);

É o caso da inexistência ou insuficiência de prova da autoria do crime. É


uma causa subjetiva de absolvição.
Sabe-se que a justa causa exige prova da materialidade e indícios suficientes
de autoria. Essa hipótese evidencia aquela situação em que, iniciado o processo
com indícios suficientes de autoria, durante a instrução esses indícios
permaneceram simplesmente como indícios, isto é, não se provou a autoria além
de uma dúvida razoável.
Essa hipótese não tem influência no juízo civil (CC, art. 935).

f) existirem circunstâncias que excluam o crime ou isentem o réu de pena


(CPP, art. 386, VI, primeira parte);

Nessa hipótese, ficou demonstrada a ocorrência de circunstâncias


excludentes da ilicitude do fato ou excludentes da culpabilidade do acusado.
Incluem-se nessa hipótese a demonstração da ocorrência de estado de
necessidade (CP, arts. 23, I e 24); de legítima defesa (CP, arts. 23, II e 25); de
estrito cumprimento de dever legal ou exercício regular de direito (CP, art. 23,
14

III); de erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável (CP, art. 21, caput); de
descriminante putativa (CP, art. 20, § 1º); de coação irresistível e de obediência
hierárquica (CP, art. 22); de inimputabilidade por menoridade (CP, art. 27); de
inimputabilidade por embriaguez completa decorrente de caso fortuito ou força
maior (CP, art. 28, § 1º).
Para que a absolvição se dê por essa primeira parte do inciso é necessário
que a existência dessas circunstâncias tenha sido demonstrada. Essa demonstração
é ônus do acusado.
Se a absolvição se der pelo reconhecimento de que o acusado agiu em
estado de necessidade, em legítima defesa, em exercício regular de direito ou em
estrito cumprimento de dever legal, a sentença terá influência no juízo civil (CPP,
art. 65).

g) houver fundada dúvida sobre a ocorrência de circunstâncias que excluam


o crime ou isentem o réu de pena (CPP, art. 386, VI, segunda parte);

Nessa hipótese, impropriamente colocada sob o mesmo inciso do art. 386


do CPP, o acusado não conseguiu demonstrar que agiu acobertado por qualquer
das causas de exclusão de ilicitude ou por qualquer das causas de exclusão da
culpabilidade. Porém, levantou uma dúvida razoável a respeito. Criou, na mente
do julgador, a dúvida a respeito da ilicitude do fato ou da culpabilidade do
acusado. Essa hipótese é decorrente direta da ideia, herdada do processo norte-
americano, de que a condenação somente pode se dar além de uma dúvida
razoável (beyond a reasonable doubt). Se o acusado não logra desincumbir-se
inteiramente de seu ônus, mas cria uma dúvida a respeito da narrativa efetuada
pelo acusador, a hipótese é de absolvição.
Não deveria ter sido colocada no mesmo inciso da hipótese anterior, até
porque a absolvição nesse caso não terá influência no juízo civil (CPP, art. 65, a
contrario sensu).

h) não existir prova suficiente para condenação (CPP, art. 386, VII).

É, por excelência, a hipótese do in dubio pro reo, ou presunção de


15

inocência (na formulação dos países do common law). Se ainda houver dúvida
relevante após a instrução, a solução para o processo penal está prevista na lei; o
réu deve ser absolvido. Ou por outra: na dúvida, isto é, não provado o fato nem
provado o não-fato, cumpre absolver o acusado.
É a cláusula de abertura, que permite a interpretação extensiva do
dispositivo. É o reconhecimento, pela lei, que o Processo Penal não é uma
ciência exata nem é infalível.
O rol de hipóteses de absolvição é numerus clausus, isto é, se não se
verificar qualquer uma das hipóteses acima, a solução é a condenação do
acusado. A sentença absolutória deve se fundar em uma das hipóteses legais.
Ainda que assim o seja, é preciso esclarecer que a hipótese sob inciso VII é a
cláusula de abertura da norma legal, o que permite uma relativa extensão e
liberdade ao juiz criminal.

8. Efeitos da sentença penal absolutória

A lei estabelece, como efeito não automático da sentença penal absolutória


(“se for o caso”, diz a lei), a soltura do acusado preso até então (CPP, art. 386, I).
Por tradição, essa soltura só se efetivará se o réu não estiver preso por outro
motivo. Os alvarás de soltura geralmente contêm a fórmula: “se por al não estiver
preso”.
Também é efeito da sentença penal absolutória a cessação das medidas
cautelares e provisoriamente aplicadas (CPP, art. 386, II).
Por fim, no caso das absolvições impróprias (CP, art. 26), é efeito da
sentença a aplicação da medida de segurança cabível ao réu (CPP, art. 386, III).

9. Sentença penal condenatória: noções introdutórias

O Direito Penal é um ramo do ordenamento jurídico cuja coação é mediata.


Há um simbolismo permanente no discurso penal, consubstanciado na chamada
prevenção geral, mas o fato é que o Direito Penal somente se aplica através de
um outro ramo do ordenamento. Esse ramo, como se sabe, é o Processo Penal.
Dentro do Processo Penal, a aplicação do Direito Penal se dá
16

principalmente através do processo penal condenatório, cuja culminância é


precisamente a sentença penal. É indiscutível que essa aplicação se dá também,
dependendo do fundamento, quando o juiz prolata uma sentença absolutória. É o
caso da absolvição por atipicidade da conduta (CPP, art. 386, III) ou por
ocorrência de causas de exclusão da ilicitude ou da culpabilidade (CPP, art. 386,
VI). Nesses casos, como a atipicidade penal é sempre intencional, pode-se dizer
que se o juiz absolve o acusado com esses fundamentos, aplicou o Direito Penal
que, nesses casos, permite aquela determinada conduta. Permittitur quod non
prohibetur.
Mas essa não é a regra quanto à sentença absolutória. A maior parte dos
fundamentos da absolvição é de natureza processual, de maneira que, ao absolver
com base nesses fundamentos (CPP, art. 386, I, II, IV, V e VII) não se pode dizer
que o juiz aplicou o Direito Penal.
Também não é a regra quanto a processos penais de outras naturezas que
não a condenatória, como o processo mandamental e o constitutivo, por
exemplo. Veja-se o caso do habeas corpus. Quando o juiz prolata uma sentença
de procedência em um habeas corpus, nem sempre aplica o Direito Penal. Pode-
se dizer até que é o contrário o que ocorre. Na maioria dos casos, ao julgar
procedente uma ação de habeas corpus, o juiz permanece no terreno processual
penal, mormente quando afirma que as provas foram colhidas de forma ilícita,
que uma determinada prisão foi determinada sem o atendimento dos requisitos
legais etc.
Sempre que prolata uma sentença condenatória, porém, pode-se dizer que o
juiz declara aplicável o Direito Penal. É na sentença penal condenatória que o
princípio nulla pœna sine juditio se realiza em sua plenitude. Nela, a coação
penal tem a infeliz porém necessária oportunidade de se realizar.

10. Conceito

A sentença penal condenatória é o ato mediante o qual o juiz declara a


procedência de uma pretensão condenatória deduzida em juízo, e que deu início
a um processo penal condenatório, constitui quem até então figurava como
acusado nesse mesmo processo em condenado e condena, isto é, aplica-lhe uma
17

ou mais sanções de natureza penal. Essa ideia de uma tríplice natureza da


sentença penal condenatória não é nova. JOSÉ FREDERICO MARQUES fala em um
duplo conteúdo da sentença penal condenatória.12 ADHEMAR RAYMUNDO DA
SILVA, por sua vez, refere-se a uma natureza necessariamente constitutiva da
sentença penal condenatória, porquanto “exsurge do ato jurisdicional uma nova
situação jurídica, cujos efeitos não existem sem a decisão do juiz”.13
Além das eficácias declaratória, constitutiva e condenatória, pode-se dizer
que, no plano intra-processual, a sentença possui eficácia preclusiva, isto é, depois
de prolatada o juiz fica impedido de alterá-la, salvo os casos de erros materiais de
pequena monta e os embargos de declaração.
Nos crimes de ação penal pública, dispõe a lei processual penal que o juiz
poderá proferir sentença condenatória mesmo que o Ministério Público tenha
opinado [SIC] pela absolvição, bem como reconhecer agravantes, ainda que
nenhuma tenha sido alegada (CPP, art. 385).
Essa regra merece algumas críticas. A primeira delas é óbvia. Se o processo
penal condenatório brasileiro se pretende acusatório parece claro que um
dispositivo como esses não tem cabimento. Não se trata de arguir sua
inconstitucionalidade, pois ele está em linha com a estrutura da lei processual
penal. Trata-se de uma crítica da própria filosofia do Processo Penal. Vistas as
coisas de uma perspectiva dos princípios, a atividade persecutória por parte de
um órgão público que não o próprio juiz é da essência do princípio acusatório.
Há inúmeros riscos em se permitir esse tipo de atuação seja exercida pelo juiz,
entre eles o de minar sua imparcialidade. Daí que o pedido condenatório por
parte do Ministério Público não poderia ser considerado, como faz a regra, uma
mera “opinião”. Trata-se da própria atividade persecutória criminal.
Por último, uma interpretação apressada desse artigo poderia fazer crer que
o juiz tem liberdade total de reconhecer agravantes, mesmo que nenhuma tenha
sido jamais referida pelo órgão acusatório. Na verdade, o reconhecimento de
agravantes tem como pressuposto sua narração na peça acusatória inicial. Se não

12
MARQUES, José Frederico. Elementos de Direito Processual Penal, 2ª ed., Rio de Janeiro-São Paulo: Ed.
Forense, 1970, § 110, n. 599, p. 42.
13
SILVA, Adhemar Raymundo da. “Sentença de pronúncia”, em Estudos de Direito Processual Penal, Salvador:
Ed. Livraria Progresso, 1957, p. 8.
18

houver referência à agravante na peça acusatória inicial e o juiz considerar


indispensável considerá-la por ocasião da sentença condenatória a única solução é
dar vista dos autos ao Ministério Público para que este adite a denúncia. O que a
lei inconvenientemente dispensa é que o Ministério Público, quando do exercício
de sua atividade crítica, faça expressa menção a agravantes que já haviam sido
descritas na denúncia.
Uma regra semelhante não se repete quanto às ações penais privadas, em
que o juiz depende de uma nova postulação condenatória por parte do
querelante. Se essa postulação faltar ou se o querelante pedir a absolvição opera-
se a perempção, que é causa de extinção da punibilidade (CP, art. 107, IV; CPP,
art. 60, III). Nesses casos o juiz não pode sequer julgar a pretensão condenatória,
dês que operada a extinção da punibilidade do acusado.

11. Requisitos e formalidades

São inúmeros os requisitos e as formalidades da sentença penal


condenatória. Sendo, como é, o ato de mais suma importância do processo penal
condenatório, está claro que a sentença deveria mesmo ser, como é, cercada de
inúmeros requisitos e formalidades.
O primeiro é que o juiz formará sua convicção da apreciação livre da prova
produzida nos autos (CPP, art. 155, caput, primeira parte).
Daí que toda sentença, notadamente a sentença condenatória, deve ser
fundada em provas, entendidas como tais aquelas produzidas durante o processo
penal condenatório, sob o crivo do contraditório. A única exceção admitida pela
lei processual penal diz respeito às provas técnicas, produzidas durante a fase
investigatória (CPP, art. 155, caput). Estão excluídas, como fundamento principal
da condenação, os elementos de convicção, isto é, as informações colhidas
durante o inquérito policial sem contraditório. Não é que esses elementos não
podem fazer parte dos fundamentos da sentença, mas não podem sustentar,
sozinhos, o decreto condenatório.14
Outro requisito é que a decisão condenatória seja clara e completa, isto é, o

14
Habeas corpus n. 70.515-4-DF – STF – 2ª Turma – Rel. Min. Carlos Velloso – julgado em 24.ago.1993 – ordem
indeferida – votação unânime – DJU, 1º.out.1993, p. 20.214.
19

intérprete deve ter certeza de quem foi condenado e qual pena foi aplicada.
Ao condenar, o juiz deve fazer menção expressa das circunstâncias
agravantes ou atenuantes da lei, cuja ocorrência o juiz reconhecer (CPP, art. 387,
I).
Em outras palavras, qualquer circunstância agravante ou atenuante, de matriz
legal, levada em consideração pelo juiz, deve ser mencionada expressamente.
Aqui cabe fazer uma menção breve à expressão – que já se tornou
corriqueira na imprensa – de que um determinado crime de homicídio foi
“triplamente” qualificado. Assim o caso do crime de homicídio cometido por
motivo fútil, com o uso de meio cruel e de emboscada. A verdade é que não há
algo chamado “homicídio triplamente qualificado”. Nem duplamente, nem
quadruplamente. Há, simplesmente, homicídio qualificado. Se o conselho de
sentença emitir um veredicto de culpado e reconhecer essas três circunstâncias,
isto é, que o motivo foi fútil, que o réu usou de meio foi cruel e que cometeu seu
crime de emboscada, o juiz há de condenar o réu por homicídio qualificado por
motivo fútil (CP, art. 121, § 2º, II), por exemplo, e forçosamente usar as demais
circunstâncias como agravantes (CP, art. 61, II, d e c, respectivamente). Essa
menção há de ser expressa na sentença.
O Supremo Tribunal Federal decidiu que, “tratando-se de pena de reclusão
inferior a oito anos, a fixação do regime fechado como forma inicial do seu
cumprimento deve ser fundamentada de acordo com os critérios do art. 59 do
Código Penal, sendo inidôneo para esse fim o argumento da gravidade em
abstrato do crime praticado”,15 salvo se se tratar de crime hediondo.16
O Supremo Tribunal Federal decidiu que “ainda que as condenações
anteriores do réu não sejam consideradas para efeito de reincidência, nos termos

15
Habeas corpus n. 68.592-DF – STF – 2ª Turma – Rel. Min. Néri da Silveira – julgado em 16.abr.1991 – ordem
parcialmente deferida – votação unânime – DJU, 7.jun.1991, p. 7.710; Habeas corpus n. 74.840-SP – STF – 1ª
Turma – Rel. Min. Octavio Gallotti – julgado em 18.fev.1997 – ordem deferida – votação unânime – Informativo
STF n. 61; Habeas corpus n. 72.937-SP – STF – 1ª Turma – Rel. Min. Ilmar Galvão – julgado em 31.out.1995 –
ordem parcialmente deferida – votação unânime – DJU, 1º.dez.1995, p. 41.685.
16
Habeas corpus n. 70.784-RJ – STF – 1ª Turma – Rel. Min. Sepúlveda Pertence – julgado em 14.jun.1994 –
ordem parcialmente deferida – votação unânime – DJU, 16.set.1994, p. 24.267; Habeas corpus n. 73.532-SP –
STF – 1ª Turma – Rel. Min. Moreira Alves – julgado em 23.abr.1996 – ordem parcialmente deferida – votação
unânime – DJU, 9.ago.1996, p. 27.101.
20

do art. 64, I, do Código Penal, podem ser utilizadas como maus antecedentes na
fixação da pena-base pelo juiz”.17 E decidiu também que, “ainda que outras
sentenças condenatórias tenham sido alcançadas pela prescrição retroativa,
podem ser levadas em consideração no momento da avaliação da conduta social e
da personalidade do agente para a individualização da pena”.18
O Supremo Tribunal Federal já decidiu que quando o magistrado se vale da
reincidência para agravar a pena, não pode considerar o réu de maus
antecedentes se for apenas essa a ocorrência criminal em sua história.19
O juiz deve fazer menção expressa de todas as circunstâncias relevantes na
fixação da pena (CPP, art. 387, II; CP, arts. 59 e 60).
O princípio da fundamentação racional das decisões impõe que o juiz
mencione e justifique sumariamente todas as circunstâncias que considerou
relevantes na fixação da pena. Como dito, não é necessário que o juiz argumente
e sustente todas as circunstâncias. É preciso, porém, que mencione cada uma
dessas circunstâncias que tiveram peso, para mais ou para menos, na fixação da
pena.
Segundo o Supremo Tribunal Federal, “as condenações do réu por fatos
posteriores ao crime podem ser consideradas para a fixação de regime inicial de
cumprimento da pena mais gravoso”.20
O juiz deve, outrossim, aplicar as penas de acordo com o reconhecimento
de todas as circunstâncias relevantes do crime (CPP, art. 387, III).
Segundo o Superior Tribunal de Justiça “a condenação em custas, nos
termos do art. 804 do Código de Processo Penal, deve constar da decisão,
ficando, no entanto, sobrestada até, e se, dentro de cinco anos, ficar comprovada
não mais subsistir, por parte do réu, a condição de beneficiário da justiça

17
Habeas corpus n. 76.665-SP – STF – 2ª Turma – Rel. Min. Marco Aurélio – julgado em 23.jun.1998 – ordem
indeferida – votação unânime – Informativo STF n. 116.
18
Habeas corpus n. 76.939-MG – STF – 2ª Turma – Rel. Min. Maurício Corrêa – ordem indeferida – votação
unânime – DJU, 14.ago.1998.
19
Habeas corpus n. 76.285-SP – STF – 2ª Turma – Rel. Min. Néri da Silveira – julgado em 5.mai.1998 – ordem
deferida – votação unânime – Informativo STF n. 109.
20
Habeas corpus n. 77.483-SP – STF – 1ª Turma – Rel. Min. Sepúlveda Pertence – julgado em 18.ago.1998 –
ordem indeferida – votação unânime – Informativo STF n. 119.
21

gratuita”.21
O Supremo Tribunal Federal já decidiu que a existência, nos antecedentes
do réu, de processo criminal em que tenha sido ele absolvido, não pode
transformá-los em maus, para fins de fixação da pena ou de indeferimento de
suspensão condicional da pena.22
O juiz também deve fixar o valor mínimo da reparação dos danos causados
pela infração penal, considerando os prejuízos sofridos pelo ofendido (CPP, art.
387, IV).
Essa é uma novidade, não de todo conveniente.
Trata-se do dever, para o juiz criminal, de fixar um valor mínimo para a
reparação dos danos causados ao ofendido pela infração penal.
Há inúmeros problemas aqui.
O foco do processo penal condenatório nunca foi o levantamento desse
dado numérico. Sempre foi a determinação da autoria e da materialidade de um
crime, além de outros dados de natureza penal. Além disso, se já não fosse
pesado o fardo carregado pelo juiz criminal, a lei lhe deu esse dever. Há um
detalhe. A lei fala em reparação. Reparar significa consertar. Logicamente, não há
reparação parcial. Reparação é sempre total, nesse contexto. Logo, não há valor
mínimo. Há o valor certo, capaz de reparar os danos. Senão, seria o valor para a
minimização dos danos causados pelo crime.
A lei processual penal, desde sua nova redação de 2008, comete ao juiz
criminal uma tarefa perigosa para o ofendido, quase impossível de ser realizada a
contento e inútil.
É perigosa para o ofendido. Sim, porque essa fixação está sujeita a recurso,
que vai atrasar a própria reparação. Esse recurso pode ter como resultado a
redução desse montante. É quase impossível porque o foco de toda a instrução
não foi o levantamento de valores, mas a fixação da autoria e da materialidade,

21
Recurso especial n. 90.913-DF – STJ – 5ª Turma – Rel. Min. Felix Fischer – julgado em 18.fev.1997 –
conhecido e provido – votação unânime – DJU, 17.mar.1997, p. 7.530.
22
Habeas corpus n. 74.977-MS – STF – 1ª Turma – Rel. Min. Ilmar Galvão – julgado em 8.abr.1997 – ordem
parcialmente deferida para que o TJMS se pronuncie novamente sobre a concessão, ou não, do sursis – votação
unânime – Informativo STF n. 66.
22

além de outras circunstâncias penais relevantes.


É inútil porque o valor mínimo pode ser ampliado pelo ofendido na
execução da sentença e o acusado que se defendeu no processo penal
condenatório pode afirmar cerceamento de defesa em relação a esse tema, já que
o foco de sua defesa, afinal fracassada com a prolatação da sentença condenatória,
nunca foi o de fixar o valor da condenação.
O juiz deve determinar a publicação da sentença, no todo ou
resumidamente, e definir em qual jornal será feita (CPP, art. 387, VI).
Outrora, a publicação da sentença era uma pena acessória. Daí que o
Código de Processo Penal previa a escolha desse veículo. Hoje, é apenas um
efeito republicano da própria prolatação da sentença.
Uma interpretação desse dispositivo conforme o princípio da dignidade da
pessoa humana impõe que se publique tanto a sentença condenatória quanto, a
pedido do acusado, da sentença absolutória.
O juiz deve decidir fundamentadamente sobre a manutenção ou imposição
de medida cautelar constritiva (CPP, art. 387, parágrafo único).
Segundo a sistemática da lei processual penal, nem a manutenção nem a
decretação de prisão apresentam-se como efeitos necessários da sentença
condenatória, mesmo que a condenação tenha sido a uma pena de prisão. O juiz
deve decidir fundamentadamente sobre a manutenção ou sobre a decretação,
utilizando argumentos que não estão necessariamente conectados à própria
condenação, como, por exemplo, argumentos ligados à tutela de urgência de
natureza cautelar.
Isso leva à ocorrência de situações nimiamente esdrúxulas, como a
decretação da libertação do réu simplesmente porque ele foi condenado e não
havia, naquele momento, motivos cautelares para mantê-lo preso.

12. Efeitos principais da sentença penal condenatória

A sentença penal condenatória possui eficácia preclusiva, isto é, quando


23

prolatada, substitui a denúncia como fator de constrangimento do réu.23


Outro efeito principal da sentença é tornar certo, através de uma declaração,
que ocorreu um crime e que o réu indicado na sentença é o seu autor. Esses dois
fatos passam a ser considerados verdadeiros, ao menos até que a sentença seja
reformada ou desconstituída.
Outro efeito, de resto óbvio, é o de passar a chamar-se aquele que até então
era acusado de condenado. No instante da condenação não se trata, ainda, de
algo definitivo, mas decerto não se trata de alguém meramente acusado da prática
de uma infração penal. O condenado, que até então era presumido inocente, foi
considerado culpado e, com isso, passa a estar vinculado a inúmeros dispositivos
da sentença como, por exemplo, limitações cautelares decididas naquela ocasião.
É claro que não se trata apenas de uma diferença de nomenclatura, mas de status
do condenado.

13. Efeitos secundários da sentença penal condenatória

A sentença penal condenatória é um ato estatal dos mais relevantes.


Peremptoriamente, afirma que alguém praticou um ato definido como criminoso.
Daí que, sendo um ato estatal dos mais relevantes, inúmeros são os efeitos
secundários automáticos de sua prolatação.
Um dos efeitos secundários da condenação é “tornar certa a obrigação de
indenizar o dano causado pelo crime” (CP, art. 91, I).
Outro efeito secundário da condenação criminal é a perda, em favor da
União Federal, dos instrumentos do crime, “desde que consistam em coisas cujo
fabrico, alienação, uso, porte ou detenção constitua fato ilícito” (CP, art. 91, II, a).
A lei ressalva o direito de quem tenha sido prejudicado pelo crime e do assim
chamado “terceiro de boa-fé”.

23
Habeas corpus n. 72.408-6-SP – STF – 1ª Turma – Rel. Min. Sydney Sanches – julgado em 23.fev.1996 – ordem
indeferida – votação unânime – DJU, 12.abr.1996, p. 11.073: “É pacífica a jurisprudência, no sentido de que,
havendo condenação, esta é que deve ser impugnada no ‘habeas corpus’, não mais a denúncia, que foi julgada
procedente”; Habeas corpus n. 135.906-MG – STJ – 5ª Turma – Rel. Min. Jorge Mussi – julgado em 17.ago.2010
– ordem denegada – votação unânime – DJe 30.ago.2010: “Não tendo sido arguida a alegada inépcia da denúncia
no momento oportuno, insurgindo-se a defesa contra a vestibular somente depois de prolatada a sentença
condenatória, operada está sua preclusão (Precedentes)”.
24

Outro efeito da condenação é a perda, em favor da União Federal, do


produto do crime ou de qualquer bem ou valor que constitua proveito auferido
pelo criminoso com a prática do crime (CP, art. 91, II, b).
Também são efeitos secundários da condenação criminal, ainda que não
transitada em julgado, a interrupção do prazo prescricional (CP, art. 117, IV), a
reincidência (CP, art. 63), a revogação do sursis eventualmente concedido em
outro processo (CP, art. 81, I e § 1º), a revogação do livramento condicional em
curso em outro processo em fase de execução penal (CP, art. 86), o
estabelecimento da hipoteca legal sobre os bens do criminoso para satisfação do
dano causado pelo delito e pagamento das despesas judiciais (CC, art. 1.489, III).
Desses, apenas a interrupção do prazo prescricional não exige o trânsito em
julgado da sentença penal condenatória.
Esses são efeitos ditos automáticos da sentença, pois o juiz não precisa
mencioná-los na sentença condenatória para que ocorram.
Há outra classe de efeitos, nesse caso não automáticos, mas que devem ser
motivadamente declarados na sentença (CP, art. 91, parágrafo único). Estão
geralmente associados a um tipo de crime que revele incompatibilidade moral do
criminoso com a função ou atividade que desempenhava anteriormente.
São eles a perda do cargo público, da função pública ou do mandato eletivo.
Ocorrem, no caso de crimes praticados com abuso de poder ou violação de dever
para com a Administração Pública, quando a pena privativa de liberdade aplicada
igualar ou superar um ano (CP, art. 92, I, a). Esse mesmo efeito se dá quando a
pena privativa de liberdade aplicada superar quatro anos. Esse último efeito se
aplica para condenação por qualquer crime (CP, art. 92, I, b).
No caso de condenação por crimes dolosos, sujeitos à pena de reclusão,
praticados contra o próprio filho, tutelado ou curatelado, são efeitos não-
automáticos da sentença penal condenatória a incapacitação para o exercício do
pátrio poder, tutela ou curatela (CP, art. 92, II).
Por fim, no caso de crimes de trânsito praticados com dolo, direto ou
eventual, em que o meio utilizado foi o veículo automotor, um dos efeitos da
condenação é a inabilitação para dirigir (CP, art. 92, III).
25

14. Referências bibliográficas


BUENO, José Antonio Pimenta. Apontamentos sobre o processo criminal
brasileiro, 3ª ed., Rio de Janeiro: Henrique Garnier, 1900
KELSEN, Hans. Teoria geral das normas, trad. de José Florentino Duarte, Porto
Alegre: Ed. Sergio Antonio Fabris, 1986
MARQUES, José Frederico. Elementos de Direito Processual Penal, 2ª ed., Rio
de Janeiro-São Paulo: Ed. Forense, 1970
SILVA, Adhemar Raymundo da. “Sentença de pronúncia”, em Estudos de
Direito Processual Penal, Salvador: Ed. Livraria Progresso, 1957